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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
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+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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-The Project Gutenberg eBook of Reliquias de Casa Velha, by Machado de
-Assis
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: Reliquias de Casa Velha
-
-Author: Machado de Assis
-
-Release Date: April 26, 2022 [eBook #67935]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the
- Online Distributed Proofreading Team at
- https://www.pgdp.net (This file was produced from images
- generously made available by Brasiliana Digital.)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK RELIQUIAS DE CASA VELHA ***
-
-
-
-
-
- ACABA DE SER PUBLICADO
-
- O
-
- Plano Pangermanista
-
- desmascarado
-
- A temivel cilada Berlineza da "=Partida Nulla="
-
- POR
-
- _André Chéradame_
-
-
- Um vol. in-16 com 31 mappas no texto,
- brochado, 4$000
-
- Á venda na LIVRARIA GARNIER
-
- _109, Rua do Ouvidor--Rio de Janeiro_
-
-
- _Todos os direitos reservados_
-
-
-
-
- MACHADO DE ASSIS
-
- DA ACADEMIA BRASILEIRA
-
-
- Reliquias
- de
- Casa Velha
-
-
- H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
-
- 71, RUA DO OUVIDOR, 71
- RIO DE JANEIRO
-
- 6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6
- PARIS
-
- 1906
-
-
-
-
- INDICE
-
-
- ADVERTENCIA. I
-
- A CAROLINA. III
-
- Pae contra mãe. 1
-
- Maria Cora. 19
-
- Marcha funebre. 47
-
- Um capitão de voluntarios. 59
-
- Suje-se gordo! 79
-
- Umas ferias. 87
-
- Evolução. 99
-
- Pylades e Orestes. 109
-
- Anecdota do cabriolet. 125
-
- Paginas criticas e commemorativas. 137
-
- Não consultes medico. 167
-
- Licção de botanica. 211
-
-
-
-
-ADVERTENCIA
-
-
-_Uma casa tem muita vez as suas reliquias, lembranças de um dia ou de
-outro, da tristeza que passou, da felicidade que se perdeu. Suppõe que
-o dono pense em as arejar e expôr para teu e meu desenfado. Nem todas
-serão interessantes, não raras serão aborrecidas, mas, se o dono tiver
-cuidado, póde extrair uma duzia dellas que mereçam sair cá fóra._
-
-_Chama-lhe á minha vida uma casa, dá o nome de reliquias aos ineditos e
-impressos que aqui vão, idéas, historias, críticas, dialogos, e verás
-explicados o livro e o titulo. Possivelmente não terão a mesma supposta
-fortuna daquella duzia de outras, nem todas valerão a pena de sair cá
-fóra. Depende da tua impressão, leitor amigo, como dependerá de ti a
-absolvição da má escolha._
-
- MACHADO DE ASSIS.
-
-
-
-
-A Carolina
-
-
- Querida, ao pé do leito derradeiro
- Em que descanças dessa longa vida,
- Aqui venho e virei, pobre querida,
- Trazer-te o coração do companheiro.
-
- Pulsa-lhe aquelle affecto verdadeiro
- Que, a despeito de toda a humana lida,
- Fez a nossa existencia appetecida
- E n'um recanto poz um mundo inteiro.
-
- Trago-te flores,--restos arrancados
- Da terra que nos viu passar unidos
- E ora mortos nos deixa e separados.
-
- Que eu, se tenho nos olhos mal feridos
- Pensamentos de vida formulados,
- São pensamentos idos e vividos.
-
-
-
-
-Pae contra Mãe
-
-
-A escravidão levou comsigo officios e apparelhos, como terá succedido
-a outras instituições sociaes. Não cito alguns apparelhos senão por
-se ligarem a certo officio. Um delles era o ferro ao pescoço, outro o
-ferro ao pé; havia tambem a mascara de folha de Flandres. A mascara
-fazia perder o vicio da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a
-bocca. Tinha só tres buracos, dous para ver, um para respirar, e era
-fechada atraz da cabeça por um cadeado. Com o vicio de beber, perdiam
-a tentação de furtar, porque geralmente era dos vintens do senhor
-que elles tiravam com que matar a sêde, e ahi ficavam dous peccados
-extinctos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal
-mascara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o
-grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, á
-venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de mascaras.
-
-O ferro ao pescoço era applicado aos escravos fujões. Imaginae uma
-colleira grossa, com a haste grossa tambem, á direita ou á esquerda,
-até ao alto da cabeça e fechada atraz com chave. Pesava, naturalmente,
-mas era menos castigo que signal. Escravo que fugia assim, onde quer
-que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
-
-Ha meio seculo, os escravos fugiam com frequencia. Eram muitos, e
-nem todos gostavam da escravidão. Succedia occasionalmente apanharem
-pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era
-apenas reprehendida; havia alguem de casa que servia de padrinho, e
-o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade
-moderava a acção, porque dinheiro tambem dóe. A fuga repetia-se,
-entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de
-contrabando, apenas comprado no Vallongo, deitava a correr, sem
-conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raros,
-apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam
-ganhal-o fóra, quitandando.
-
-Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lh'o
-levasse. Punha annuncios nas folhas publicas, com os signaes do
-fugido, o nome, a roupa, o defeito physico, se o tinha, o bairro por
-onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia,
-vinha promessa: «gratificar-se-ha generosamente,»--ou «receberá uma
-boa gratificação.» Muita vez o annuncio trazia em cima ou ao lado uma
-vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao hombro, e na
-ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o
-acoutasse.
-
-Ora, pegar escravos fugidos era um officio do tempo. Não seria
-nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei
-e a propriedade, trazia esta outra nobreza implicita das acções
-reivindicadoras. Ninguem se mettia em tal officio por desfastio ou
-estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros
-trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir tambem, ainda que
-por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo
-para pôr ordem á desordem.
-
-Candido Neves,--em familia, Candinho,--é a pessoa a quem se liga a
-historia de uma fuga, cedeu á pobreza, quando adquiriu o officio
-de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não
-aguentava emprego nem officio, carecia de estabilidade; é o que elle
-chamava caiporismo. Começou por querer aprender typographia, mas viu
-cedo que era preciso algum tempo para compôr bem, e ainda assim talvez
-não ganhasse o bastante; foi o que elle disse a si mesmo. O commercio
-chamou-lhe a attenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de
-caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de attender e servir a
-todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas
-estava na rua por sua vontade. Fiel de cartorio, continuo de uma
-repartição annexa ao ministerio do imperio, carteiro e outros empregos
-foram deixados pouco depois de obtidos.
-
-Quando veiu a paixão da moça Clara, não tinha elle mais que dividas,
-ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de officio.
-Depois de varias tentativas para obter emprego, resolveu adoptar o
-officio do primo, de que aliás já tomára algumas licções. Não lhe
-custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu
-mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás
-e relevos communs para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando
-casasse, e o casamento não se demorou muito.
-
-Contava trinta annos, Clara vinte e dous. Ella era orphã, morava com
-uma tia, Monica, e cosia com ella. Não cosia tanto que não namorasse
-o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não
-tinham outro empenho. Passavam ás tardes, olhavam muito para ella,
-ella para elles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O
-que ella notava é que nenhum d'elles lhe deixava saudades nem lhe
-accendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar,
-naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se
-o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só
-para andar á roda da isca, miral-a, cheiral-a, deixal-a e ir a outras.
-
-O amor traz sobrescriptos. Quando a moça viu Candido Neves, sentiu que
-era este o possivel marido, o marido verdadeiro e unico. O encontro
-deu-se em um baile; tal foi--para lembrar o primeiro officio do
-namorado,--tal foi a pagina inicial daquelle livro, que tinha de sair
-mal composto e peior brochado. O casamento fez-se onze mezes depois, e
-foi a mais bella festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos
-por amizade que por inveja, tentaram arredal-a do passo que ia dar.
-Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda
-algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.
-
---Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto.
-
---Não, defunto não; mas é que...
-
-Não diziam o que era. Tia Monica, depois do casamento, na casa pobre
-onde elles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possiveis.
-Elles queriam um, um só, embora viesse aggravar a necessidade.
-
---Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia á sobrinha.
-
---Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara.
-
-Tia Monica devia ter-lhes feito a advertencia, ou ameaça, quando elle
-lhe foi pedir a mão da moça; mas tambem ella era amiga de patuscadas, e
-o casamento seria uma festa, como foi.
-
-A alegria era commum aos tres. O casal ria a proposito de tudo. Os
-mesmos nomes eram objecto de trocados, Clara, Neves, Candido; não davam
-que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ella
-cosia agora mais, elle saía a empreitadas de uma cousa e outra; não
-tinha emprego certo.
-
-Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquelle
-desejo especifico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia,
-porém, deu signal de si a creança; varão ou femea, era o fructo
-abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Monica
-ficou desorientada, Candido e Clara riram dos seus sustos.
-
---Deus nos ha de ajudar, titia, insistia a futura mãe.
-
-A noticia correu de visinha a visinha. Não houve mais que espreitar a
-aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e
-assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir
-fazendo com retalhos o enxoval da creança. Á força de pensar nella,
-vivia já com ella, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era
-escassa, os intervallos longos. Tia Monica ajudava, é certo, ainda que
-de má vontade.
-
---Vocês verão a triste vida, suspirava ella.
-
---Mas as outras creanças não nascem tambem? perguntou Clara.
-
---Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que
-pouco...
-
---Certa como?
-
---Certa, um emprego, um officio, uma occupação, mas em que é que o pae
-dessa infeliz creatura que ahi vem, gasta o tempo?
-
-Candido Neves, logo que soube daquella advertencia, foi ter com a tia,
-não aspero, mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já
-algum dia deixára de comer.
-
---A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo
-quando não quer jantar commigo. Nunca deixámos de ter o nosso
-bacalhau...
-
---Bem sei, mas somos tres.
-
---Seremos quatro.
-
---Não é a mesma cousa.
-
---Que quer então que eu faça, além do que faço?
-
---Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem
-do armarinho, o typographo que casou sabbado, todos têm um emprego
-certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a
-occupação que escolheu, é vaga. Você passa semanas sem vintem.
-
---Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não
-me abandona, e preto fugido sabe que commigo não brinca; quasi nenhum
-resiste, muitos entregam-se logo.
-
-Tinha gloria nisto, falava da esperança como de capital seguro. Dahi a
-pouco ria, e fazia rir á tia, que era naturalmente alegre, e previa uma
-patuscada no baptisado.
-
-Candido Neves perdera já o officio de entalhador, como abrira mão de
-outros muitos, melhores ou peiores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe
-um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia
-força, olho vivo, paciencia, coragem e um pedaço de corda. Candido
-Neves lia os annuncios, copiava-os, mettia-os no bolso e saía ás
-pesquizas. Tinha boa memoria. Fixados os signaes e os costumes de um
-escravo fugido, gastava pouco tempo em achal-o, segural-o, amarral-o
-e leval-o. A força era muita, a agilidade tambem. Mais de uma vez, a
-uma esquina, conversando de cousas remotas, via passar um escravo como
-os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono,
-a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atraz do
-vicioso. Não o apanhava logo, espreitava logar azado, e de um salto
-tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e
-os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente elle os vencia sem o
-menor arranhão.
-
-Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham
-já, como d'antes, metter-se nas mãos de Candido Neves. Havia mãos novas
-e habeis. Como o negocio crescesse, mais de um desempregado pegou em
-si e n'uma corda, foi aos jornaes, copiou annuncios e deitou-se á
-caçada. No proprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que
-as dividas de Candido Neves começaram de subir, sem aquelles pagamentos
-promptos ou quasi promptos dos primeiros tempos. A vida fez-se difficil
-e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelos
-alugueis.
-
-Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta
-era a necessidade de coser para fóra. Tia Monica ajudava a sobrinha,
-naturalmente. Quando elle chegava á tarde, via-se-lhe pela cara que não
-trazia vintem. Jantava e saía outra vez, á cata de algum fugido. Já
-lhe succedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo
-fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade.
-Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu
-grande somma de murros que lhe deram os parentes do homem.
-
---É o que lhe faltava! exclamou tia Monica, ao vel-o entrar, e depois
-de ouvir narrar o equivoco e suas consequencias. Deixe-se disso,
-Candinho; procure outra vida, outro emprego.
-
-Candido quizera effectivamente fazer outra cousa, não pela razão do
-conselho, mas por simples gosto de trocar de officio; seria um modo de
-mudar de pelle ou de pessoa. O peior é que não achava á mão negocio que
-aprendesse depressa.
-
-A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado á mãe, antes
-de nascer. Chegou o oitavo mez, mez de angustias e necessidades, menos
-ainda que o nono, cuja narração dispenso tambem. Melhor é dizer somente
-os seus effeitos. Não podiam ser mais amargos.
-
---Não, tia Monica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa
-escrever, quanto mais ao pae ouvil-o. Isso nunca!
-
-Foi na ultima semana do derradeiro mez que a tia Monica deu ao casal
-o conselho de levar a creança que nascesse á Roda dos engeitados. Em
-verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens
-paes que espreitavam a creança, para beijal-a, guardal-a, vel-a rir,
-crescer, engordar, pular... Engeitar quê? engeitar como? Candinho
-arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de
-jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quasi a se
-desfazer inteiramente. Clara interveiu:
-
---Titia não fala por mal, Candinho.
-
---Por mal? replicou tia Monica. Por mal ou por bem, seja o que fôr,
-digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne
-e o feijão vão faltando. Se não apparecer algum dinheiro, como é que
-a familia ha de augmentar? E depois, ha tempo; mais tarde, quando o
-senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos
-com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe
-faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se
-mata ninguem, ninguem morre á tôa, emquanto que aqui é certo morrer, se
-viver á mingua. Enfim...
-
-Tia Monica terminou a phrase com um gesto de hombros, deu as costas e
-foi metter-se na alcova. Tinha já insinuado aquella solução, mas era
-a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor,--crueldade, se
-preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o animo;
-Candido Neves fez uma careta, e chamou maluca á tia, em voz baixa. A
-ternura dos dous foi interrompida por alguem que batia á porta da rua.
-
---Quem é? perguntou o marido.
-
---Sou eu.
-
-Era o dono da casa, credor de tres mezes de aluguel, que vinha em
-pessoa ameaçar o inquilino. Este quiz que elle entrasse.
-
---Não é preciso...
-
---Faça favor.
-
-O credor entrou e recusou sentar-se; deitou os olhos á mobilia para ver
-se daria algo á penhora; achou que pouco. Vinha receber os alugueis
-vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse
-pago, pol-o-hia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros.
-Ao vel-o, ninguem diria que era proprietario; mas a palavra suppria
-o que faltava ao gesto, e o pobre Candido Neves preferiu calar a
-retorquir. Fez uma inclinação de promessa e supplica ao mesmo tempo. O
-dono da casa não cedeu mais.
-
---Cinco dias ou rua! repetiu, mettendo a mão no ferrolho da porta e
-saindo.
-
-Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao
-desespero, contava com algum emprestimo, não sabia como nem onde,
-mas contava. Demais, recorreu aos annuncios. Achou varios, alguns
-já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas
-sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou
-recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietario,
-não alcançando mais que a ordem de mudança.
-
-A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que
-lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia.
-Tia Monica teve arte de alcançar aposento para os tres em casa de uma
-senhora velha e rica, que lhe prometteu emprestar os quartos baixos
-da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pateo. Teve ainda
-a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Candido Neves,
-no desespero da crise, começasse por engeitar o filho e acabasse
-alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a
-vida, em summa. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo,
-mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa,
-fal-os-hia espantar com a noticia do obsequio e iriam dormir melhor do
-que cuidassem.
-
-Assim succedeu. Postos fóra da casa, passaram ao aposento de favor,
-e dous dias depois nasceu a creança. A alegria do pae foi enorme, e
-a tristeza tambem. Tia Monica insistiu em dar a creança á Roda. «Se
-você não a quer levar, deixe isso commigo; eu vou á rua dos Barbonos.»
-Candido Neves pediu que não, que esperasse, que elle mesmo a levaria.
-Notae que era um menino, e que ambos os paes desejavam justamente este
-sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse á noite, assentou o
-pae leval-o á Roda na noite seguinte.
-
-Naquella reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As
-gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a somma
-escripta e escassa. Uma, porém, subia a cem mil réis. Tratava-se de uma
-mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Candido Neves andára a
-pesquizal-a sem melhor fortuna, e abrira mão do negocio; imaginou que
-algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista
-nova da quantia e a necessidade della animaram Candido Neves a fazer
-um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela rua
-e largo da Carioca, rua do Parto e da Ajuda, onde ella parecia andar,
-segundo o annuncio. Não a achou; apenas um pharmaceutico da rua da
-Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, tres dias
-antes, á pessoa que tinha os signaes indicados. Candido Neves parecia
-falar como dono da escrava, e agradeceu cortezmente a noticia. Não foi
-mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.
-
-Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Monica
-arranjára de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino
-para ser levado á Roda. O pae, não obstante o accordo feito, mal poude
-esconder a dôr do espectaculo. Não quiz comer o que Tia Monica lhe
-guardára; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos
-de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o proprio
-albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada.
-Tia Monica pintára-lhe a criação do menino; seria maior miseria,
-podendo succeder que o filho achasse a morte sem recurso. Candido Neves
-foi obrigado a cumprir a promessa; pediu á mulher que désse ao filho
-o resto do leite que elle beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno
-adormeceu, o pae pegou delle, e saiu na direcção da rua dos Barbonos.
-
-Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com elle, é certo; não
-menos certo é que o agazalhava muito, que o beijava, que lhe cobria o
-rosto para preserval-o do sereno. Ao entrar na rua da Guarda Velha,
-Candido Neves começou a afrouxar o passo.
-
---Hei de entregal-o o mais tarde que puder, murmurou elle.
-
-Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabal-a; foi
-então que lhe occorreu entrar por um dos beccos que ligavam aquella á
-rua da Ajuda. Chegou ao fim do becco e, indo a dobrar á direita, na
-direcção do largo da Ajuda, viu do lado opposto, um vulto de mulher;
-era a mulata fugida. Não dou aqui a commoção de Candido Neves por não
-podel-o fazer com a intensidade real. Um adjectivo basta; digamos
-enorme. Descendo a mulher, desceu elle tambem; a poucos passos estava a
-pharmacia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o
-pharmaceutico, pediu-lhe a fineza de guardar a creança por um instante;
-viria buscal-a sem falta.
-
---Mas...
-
-Candido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rapido, atravessou
-a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarme. No
-extremo da rua, quando ella ia a descer a de S. José, Candido Neves
-approximou-se della. Era a mesma, era a mulata fujona.
-
---Arminda! bradou, conforme a nomeava o annuncio.
-
-Arminda voltou-se sem cuidar malicia. Foi só quando elle, tendo tirado
-o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ella
-comprehendeu e quiz fugir. Era já impossivel. Candido Neves, com as
-mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quiz
-gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume,
-mas entendeu logo que ninguem viria libertal-a, ao contrario. Pediu
-então que a soltasse pelo amor de Deus.
-
---Estou gravida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum
-filho, peço-lhe por amor delle que me solte; eu serei sua escrava, vou
-servil-o pelo tempo que quizer. Me solte, meu senhor moço!
-
---Siga! repetiu Candido Neves.
-
---Me solte!
-
---Não quero demoras; siga!
-
-Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao
-filho. Quem passava ou estava á porta de uma loja, comprehendia o que
-era e naturalmente não acudia. Arminda ia allegando que o senhor era
-muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes,-- cousa que, no
-estado em que ella estava, seria peior de sentir. Com certeza, elle lhe
-mandaria dar açoutes.
-
---Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois?
-perguntou Candido Neves.
-
-Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficára na
-pharmacia, á espera delle. Tambem é certo que não costumava dizer
-grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela rua dos Ourives, em
-direcção á da Alfandega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta
-cresceu; a escrava poz os pés á parede, recuou com grande esforço,
-inutilmente. O que alcançou foi, apezar de ser a casa proxima, gastar
-mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, emfim, arrastada,
-desesperada, arquejando. Ainda alli ajoelhou-se, mas em vão. O senhor
-estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
-
---Aqui está a fujona, disse Candido Neves.
-
---É ella mesma.
-
---Meu senhor!
-
---Anda, entra...
-
-Arminda caiu no corredor. Alli mesmo o senhor da escrava abriu a
-carteira e tirou os cem mil reis de gratificação. Candido Neves guardou
-as duas notas de cincoenta mil reis, emquanto o senhor novamente dizia
-á escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dôr, e
-após algum tempo de luta a escrava abortou.
-
-O fructo de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos
-da mãe e os gestos de desespero do dono. Candido Neves viu todo esse
-espectaculo. Não sabia que horas eram. Quaesquer que fossem, urgia
-correr á rua da Ajuda, e foi o que elle fez sem querer conhecer as
-consequencias do desastre.
-
-Quando lá chegou, viu o pharmaceutico sósinho, sem o filho que lhe
-entregára. Quiz esganal-o. Felizmente, o pharmaceutico explicou tudo a
-tempo; o menino estava lá dentro com a familia, e ambos entraram. O
-pae recebeu o filho com a mesma furia com que pegára a escrava fujona
-de ha pouco, furia diversa, naturalmente, furia de amor. Agradeceu
-depressa e mal, e saiu ás carreiras, não para a Roda dos engeitados,
-mas para a casa de emprestimo, com o filho e os cem mil reis de
-gratificação. Tia Monica, ouvida a explicação, perdoou a volta do
-pequeno, uma vez que trazia os cem mil reis. Disse, é verdade, algumas
-palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga.
-Candido Neves, beijando o filho, entre lagrimas verdadeiras, abençoava
-a fuga e não se lhe dava do aborto.
-
---Nem todas as creanças vingam, bateu-lhe o coração.
-
-
-
-
-Maria Cora
-
-
-I
-
-Uma noite, voltando para casa, trazia tanto somno que não dei corda
-ao relogio. Póde ser tambem que a vista de uma senhora que encontrei
-em casa do commendador T. contribuisse para aquelle esquecimento;
-mas estas duas razões destróem-se. Cogitação tira o somno e o somno
-impede a cogitação; só uma das causas devia ser verdadeira. Ponhamos
-que nenhuma, e fiquemos no principal, que é o relogio parado, de manhã,
-quando me levantei, ouvindo dez horas no relogio da casa.
-
-Morava então (1893) em uma casa de pensão no Cattete. Já por esse
-tempo este genero de residencia florescia no Rio de Janeiro. Aquella
-era pequena e tranquilla. Os quatrocentos contos de réis permittiam-me
-casa exclusiva e propria; mas, em primeiro logar, já eu alli residia
-quando os adquri, por jogo de praça; em segundo logar, era um solteirão
-de quarenta annos, tão affeito á vida de hospedaria que me seria
-impossivel morar só. Casar não era menos impossivel. Não é que me
-faltassem noivas. Desde os fins de 1891 mais de uma dama,--e não das
-menos bellas,--olhou para mim com olhos brandos e amigos. Uma das
-filhas do commendador tratava-me com particular attenção. A nenhuma dei
-corda; o celibato era a minha alma, a minha vocação, o meu costume, a
-minha unica ventura. Amaria de empreitada e por desfastio. Uma ou duas
-aventuras por anno bastavam a um coração meio inclinado ao occaso e á
-noite.
-
-Talvez por isso dei alguma attenção á senhora que vi em casa do
-commendador, na vespera. Era uma creatura morena, robusta, vinte e oito
-a trinta annos, vestida de escuro; entrou ás dez horas, acompanhada de
-uma tia velha. A recepção que lhe fizeram, foi mais cerimoniosa que as
-outras; era a primeira vez que alli ia. Eu era a terceira. Perguntei se
-era viuva.
-
---Não; é casada.
-
---Com quem?
-
---Com um estancieiro do Rio Grande.
-
---Chama-se?
-
---Elle? Fonseca, ella Maria Cora.
-
---O marido não veiu com ella?
-
---Está no Rio Grande.
-
-Não soube mais nada; mas a figura da dama interessou-me pelas graças
-physicas, que eram o opposto do que poderiam sonhar poetas romanticos
-e artistas seraphicos. Conversei com ella alguns minutos, sobre cousas
-indifferentes,--mas sufficientes para escutar-lhe a voz, que era
-musical, e saber que tinha opiniões republicanas. Vexou-me confessar
-que não as professava de especie alguma; declarei-me vagamente pelo
-futuro do paiz. Quando ella falava, tinha um modo de humedecer os
-beiços, não sei se casual, mas gracioso e picante. Creio que, vistas
-assim ao pé, as feições não eram tão correctas como pareciam a
-distancia, mas eram mais suas, mais originaes.
-
-
-II
-
-De manhã tinha o relogio parado. Chegando á cidade, desci a rua do
-Ouvidor, até á da Quitanda, e indo a voltar á direita, para ir ao
-escriptorio do meu advogado, lembrou-me ver que horas eram. Não me
-acudiu que o relogio estava parado.
-
---Que massada! exclamei.
-
-Felizmente, naquella mesma rua da Quitanda, á esquerda, entre as do
-Ouvidor e Rosario, era a officina onde eu comprára o relogio, e a
-cuja pendula usava acertal-o. Em vez de ir para um lado, fui para
-outro. Era apenas meia hora; dei corda ao relogio, acertei-o, troquei
-duas palavras com o official que estava ao balcão, e indo a sair, vi
-á porta de uma loja de novidades que ficava defronte, nem mais nem
-menos que a senhora de escuro que encontrára em casa do commendador.
-Comprimentei-a, ella correspondeu depois de alguma hesitação, como se
-me não houvesse reconhecido logo, e depois seguiu pela rua da Quitanda
-fóra, ainda para o lado esquerdo.
-
-Como tivesse algum tempo ante mim (pouco menos de trinta minutos),
-dei-me a andar atraz de Maria Cora. Não digo que uma força violenta
-me levasse já, mas não posso esconder que cedia a qualquer impulso de
-curiosidade e desejo; era tambem um resto da juventude passada. Na rua,
-andando, vestida de escuro, como na vespera, Maria Cora pareceu-me
-ainda melhor. Pisava forte, não apressada nem lenta, o bastante
-para deixar ver e admirar as bellas fórmas, mui mais correctas que
-as linhas do rosto. Subiu a rua do Hospicio, até uma officina de
-ocularista, onde entrou e ficou dez minutos ou mais. Deixei-me estar
-a distancia, fitando a porta disfarçadamente. Depois saiu, arrepiou
-caminho, e dobrou a rua dos Ourives, até á do Rosario, por onde subiu
-até ao largo da Sé; dahi passou ao de S. Francisco de Paula. Todas
-essas reminiscencias parecerão escusadas, senão aborreciveis; a mim
-dão-me uma sensação intensa e particular, são os primeiros passos de
-uma carreira penosa e longa. Demais, vereis por aqui que ella evitava
-subir a rua do Ouvidor, que todos e todas buscariam áquella ou a outra
-hora para ir ao largo de S. Francisco de Paula. Foi atravessando o
-largo, na direcção da Escola Polytechnica, mas a meio caminho veiu
-ter com ella um carro que estava parado defronte da Escola; metteu-se
-nelle, e o carro partiu.
-
-A vida tem suas encruzilhadas, como outros caminhos da terra. Naquelle
-momento achei-me deante de uma assaz complicada, mas não tive tempo de
-escolher direcção,--nem tempo nem liberdade. Ainda agora não sei como
-é que me vi dentro de um tilbury; é certo que me vi nelle, dizendo ao
-cocheiro que fosse atraz do carro.
-
-Maria Cora morava no Engenho Velho; era uma boa casa, solida, posto
-que antiga, dentro de uma chacara. Vi que morava alli, porque a tia
-estava a uma das janellas. Demais, saindo do carro, Maria Cora disse ao
-cocheiro (o meu tilbury ia passando adeante) que naquella semana não
-sairia mais, e que apparecesse segunda-feira ao meio-dia. Em seguida,
-entrou pela chacara, como dona della, e parou a falar ao feitor, que
-lhe explicava alguma cousa com o gesto.
-
-Voltei depois que ella entrou em casa, e só muito abaixo é que me
-lembrou de ver as horas; era quasi uma e meia. Vim a trote largo até á
-rua da Quitanda, onde me apeei á porta do advogado.
-
---Pensei que não vinha, disse-me elle.
-
---Desculpe, doutor, encontrei um amigo que me deu uma massada.
-
-Não era a primeira vez que mentia na minha vida, nem seria a ultima.
-
-
-III
-
-Fiz-me encontradiço com Maria Cora, na casa do commendador, primeiro,
-e depois em outras. Maria Cora não vivia absolutamente reclusa, dava
-alguns passeios e fazia visitas. Tambem recebia, mas sem dia certo,
-uma ou outra vez, e apenas cinco a seis pessoas da intimidade. O
-sentimento geral é que era pessoa de fortes sentimentos e austeros
-costumes. Accrescentae a isto o espirito, um espirito agudo, brilhante
-e viril. Capaz de resistencias e fadigas, não menos que de violencias e
-combates, era feita, como dizia um poeta que lá ia á casa della, «de um
-pedaço de pampa e outro de pampeiro.» A imagem era um verso e rima, mas
-a mim só me ficou a idéa e o principal das palavras. Maria Cora gostava
-de ouvir definir-se assim, posto não andasse mostrando aquellas forças
-a cada passo, nem contando as suas memorias da adolescencia. A tia é
-que contava algumas, com amor, para concluir que lhe saia a ella, que
-tambem fôra assim na mocidade. A justiça pede que se diga que, ainda
-agora, apezar de doente, a tia era pessoa de muita vida e robustez.
-
-Com pouco, apaixonei-me pela sobrinha. Não me pesa confessal-o, pois
-foi a occasião da unica pagina da minha vida que merece attenção
-particular. Vou narral-a brevemente; não conto novella nem direi
-mentiras.
-
-Gostei de Maria Cora. Não lhe confiei logo o que sentia, mas é provavel
-que ella o percebesse ou adivinhasse, como todas as mulheres. Se a
-descoberta ou adivinhação foi anterior á minha ida á casa do Engenho
-Velho, nem assim deveis censural-a por me haver convidado a ir alli uma
-noite. Podia ser-lhe então indifferente a minha disposição moral; podia
-tambem gostar de se sentir querida, sem a menor idéa de retribuição. A
-verdade é que fui essa noite e tornei outras; a tia gostava de mim e
-dos meus modos. O poeta que lá ia, tagarella e tonto, disse uma vez que
-estava afinando a lyra para o casamento da tia commigo. A tia riu-se;
-eu, que queria as boas graças della, não podia deixar de rir tambem, e
-o caso foi materia de conversação por uma semana; mas já então o meu
-amor á outra tinha attingido ao cume.
-
-Soube, pouco depois, que Maria Cora vivia separada do marido. Tinham
-casado oito annos antes, por verdadeira paixão. Viveram felizes cinco.
-Um dia, sobreveiu uma aventura do marido que destruiu a paz do casal.
-João da Fonseca apaixonou-se por uma figura de circo, uma chilena que
-voava em cima do cavallo, Dolores, e deixou a estancia para ir atraz
-della. Voltou seis mezes depois, curado do amor, mas curado á força,
-porque a aventureira se namorou do redactor de um jornal, que não tinha
-vintem, e por elle abandonou Fonseca e a sua prataria. A esposa tinha
-jurado não acceitar mais o esposo, e tal foi a declaração que lhe fez
-quando elle appareceu na estancia.
-
---Tudo está acabado entre nós; vamos desquitar-nos.
-
-João da Fonseca teve um primeiro gesto de accordo; era um quadragenario
-orgulhoso, para quem tal proposta era de si mesma uma offensa. Durante
-uma noite tratou dos preparativos para o desquite; mas, na seguinte
-manhã, a vista das graças da esposa novamente o commoveram. Então, sem
-tom implorativo, antes como quem lhe perdoava, entendeu dizer-lhe que
-deixasse passar uns seis mezes. Se ao fim de seis mezes, persistisse o
-sentimento actual que inspirava a proposta do desquite, este se faria.
-Maria Cora não queria aceitar a emenda, mas a tia, que residia em Porto
-Alegre e fôra passar algumas semanas na estancia, interveiu com boas
-palavras. Antes de tres mezes estavam reconciliados.
-
---João, disse-lhe a mulher no dia seguinte ao da reconciliação, você
-deve ver que o meu amor é maior que o meu ciume, mais fica entendido
-que este caso da nossa vida é unico. Nem você me fará outra, nem eu lhe
-perdoarei nada mais.
-
-João da Fonseca achava-se então em um renascimento do delirio conjugal;
-respondeu á mulher jurando tudo e mais alguma cousa. Aos quarenta
-annos, concluiu elle, não se fazem duas aventuras daquellas, e a minha
-foi de doer. Você verá, agora é para sempre.
-
-A vida recomeçou tão feliz, como d'antes,--elle dizia que mais. Com
-effeito, a paixão da esposa era violenta, e o marido tornou a amal-a
-como outr'ora. Viveram assim dous annos. Ao fim desse tempo, os ardores
-do marido haviam diminuido, alguns amores passageiros vieram metter-se
-entre ambos. Maria Cora, ao contrario do que lhe dissera, perdoou
-essas faltas, que aliás não tiveram a extensão nem o vulto da aventura
-Dolores. Os desgostos, entretanto, appareceram e grandes. Houve scenas
-violentas. Ella parece que chegou mais de uma vez a ameaçar que se
-mataria; mas, posto não lhe faltasse o preciso animo, não fez tentativa
-nenhuma, a tal ponto lhe doia deixar a propria causa do mal, que era
-o marido. João da Fonseca percebeu isto mesmo, e acaso explorou a
-fascinação que exercia na mulher.
-
-Uma circumstancia politica veiu complicar esta situação moral. João da
-Fonseca era pelo lado da revolução, dava-se com varios dos seus chefes,
-e pessoalmente detestava alguns dos contrarios. Maria Cora, por laços
-de familia, era adversa aos federalistas. Esta opposição de sentimentos
-não seria bastante para separal-os, nem se póde dizer que, por si
-mesma, azedasse a vida dos dous. Embora a mulher, ardente em tudo,
-não o fosse menos em condemnar a revolução, chamando nomes crús aos
-seus chefes e officiaes; embora o marido, tambem excessivo, replicasse
-com egual odio, os seus arrufos politicos apenas augmentariam os
-domesticos, e provavelmente não passariam dessa troca de conceitos, se
-uma nova Dolores, desta vez Prazeres, e não chilena nem saltimbanca,
-não revivesse os dias amargos de outro tempo. Prazeres era ligada ao
-partido da revolução, não só pelos sentimentos, como pelas relações da
-vida com um federalista. Eu a conheci pouco depois, era bella e airosa;
-João da Fonseca era tambem um homem gentil e seductor. Podiam amar-se
-fortemente, e assim foi. Vieram incidentes, mais ou menos graves, até
-que um decisivo determinou a separação do casal.
-
-Já cuidavam disto desde algum tempo, mas a reconciliação não seria
-impossivel, apesar da palavra de Maria Cora, graças á intervenção da
-tia; esta havia insinuado á sobrinha que residisse tres ou quatro mezes
-no Rio de Janeiro ou em S. Paulo. Succedeu, porém, uma cousa triste
-de dizer. O marido, em um momento de desvario, ameaçou a mulher com o
-rebenque. Outra versão diz que elle tentára esganal-a. Quero crer que
-a veridica é a primeira, e que a segunda foi inventada para tirar á
-violencia de João da Fonseca o que pudesse haver deprimente e vulgar.
-Maria Cora não disse mais uma só palavra ao marido. A separação foi
-immediata; a mulher veiu com a tia para o Rio de Janeiro, depois de
-arranjados amigavelmente os interesses pecuniarios. Demais, a tia era
-rica.
-
-João da Fonseca e Prazeres ficaram vivendo juntos uma vida de aventuras
-que não importa escrever aqui. Só uma cousa interessa directamente á
-minha narração. Tempos depois da separação do casal, João da Fonseca
-estava alistado entre os revolucionarios. A paixão politica, posto
-que forte, não o levaria a pegar em armas, se não fosse uma especie
-de desafio da parte de Prazeres; assim correu entre os amigos delle,
-mas ainda este ponto é obscuro. A versão é que ella, exasperada com o
-resultado de alguns combates, disse ao estancieiro que iria, disfarçada
-em homem, vestir farda de soldado e bater-se pela revolução. Era capaz
-disto; o amante disse-lhe que era uma loucura, ella acabou propondo-lhe
-que, nesse caso, fosse elle bater-se em vez della; era uma grande prova
-de amor que lhe daria.
-
---Não te tenho dado tantas?
-
---Tem, sim; mas esta é a maior de todas, esta me fará captiva até á
-morte.
-
---Então agora ainda não é até á morte? perguntou elle rindo.
-
---Não.
-
-Póde ser que as cousas se passassem assim. Prazeres era, com effeito,
-uma mulher caprichosa e imperiosa, e sabia prender um homem por laços
-de ferro. O federalista, de quem se separou para acompanhar João
-da Fonseca, depois de fazer tudo para rehavel-a, passou á campanha
-oriental, onde dizem que vive pobremente, encanecido e envelhecido
-vinte annos, sem querer saber de mulheres nem de politica. João da
-Fonseca acabou cedendo; ella pediu para acompanhal-o, e até bater-se,
-se fosse preciso; elle negou-lh'o. A revolução triumpharia em breve,
-disse; vencidas as forças do governo, tornaria á estancia, onde ella o
-esperaria.
-
---Na estancia, não, respondeu Prazeres; espero-te em Porto Alegre.
-
-
-IV
-
-Não importa dizer o tempo que despendi nos inicios da minha paixão,
-mas não foi grande. A paixão cresceu rapida e forte. Afinal senti-me
-tão tomado della que não pude mais guardal-a commigo, e resolvi
-declarar-lh'a uma noite; mas a tia, que usava cochilar desde as nove
-horas (accordava ás quatro) d'aquella vez não pregou olho, e, ainda que
-o fizesse, é provavel que eu não alcançasse falar; tinha a voz presa e
-na rua senti uma vertigem egual á que me deu a primeira paixão da minha
-vida.
-
---Sr. Corrêa, não vá cair, disse a tia quando eu passei á varanda,
-despedindo-me.
-
---Deixe estar, não caio.
-
-Passei mal a noite; não pude dormir mais de duas horas, aos pedaços, e
-antes das cinco estava em pé.
-
---É preciso acabar com isto! exclamei.
-
-De facto, não parecia achar em Maria Cora mais que benevolencia e
-perdão, mas era isso mesmo que a tornava appetecivel. Todos os amores
-da minha vida tinham sido faceis; em nenhuma encontrei resistencia,
-a nenhuma deixei com dôr; alguma pena, é possivel, e um pouco de
-recordação. Desta vez sentia-me tomado por ganchos de ferro. Maria Cora
-era toda vida; parece que, ao pé della, as proprias cadeiras andavam
-e as figuras do tapete moviam os olhos. Põe nisso uma forte dose de
-meiguice e graça; finalmente, a ternura da tia fazia d'aquella creatura
-um anjo. É banal a comparação, mas não tenho outra.
-
-Resolvi cortar o mal pela raiz, não tornando ao Engenho Velho, e assim
-fiz por alguns dias largos, duas ou tres semanas. Busquei distrair-me
-e esquecel-a, mas foi em vão. Comecei a sentir a ausencia como de um
-bem querido; apesar d'isso, resisti e não tornei logo. Mas, crescendo
-a ausencia, cresceu o mal, e emfim resolvi tornar lá uma noite. Ainda
-assim póde ser que não fosse, a não achar Maria Cora na mesma officina
-da rua da Quitanda, aonde eu fôra acertar o relogio parado.
-
---É freguez tambem? perguntou-me ao entrar.
-
---Sou.
-
---Vim acertar o meu. Mas, porque não tem apparecido?
-
---É verdade, porque não voltou lá á casa? completou a tia.
-
---Uns negocios, murmurei; mas, hoje mesmo contava ir lá.
-
---Hoje não; vá amanhã, disse a sobrinha. Hoje vamos passar a noite
-fóra.
-
-Pareceu-me ler naquella palavra um convite a amal-a de vez, assim como
-a primeira trouxera um tom que presumi ser de saudade. Realmente,
-no dia seguinte, fui ao Engenho Velho. Maria Cora acolheu-me com a
-mesma boa vontade de antes. O poeta lá estava e contou-me em verso os
-suspiros que a tia dera por mim. Entrei a frequental-as novamente e
-resolvi declarar tudo.
-
-Já acima disse que ella provavelmente percebera ou adivinhára o que eu
-sentia, como todas as mulheres; referi-me aos primeiros dias. D'esta
-vez com certeza percebeu, nem por isso me repelliu. Ao contrario,
-parecia gostar de se ver querida, muito e bem.
-
-Pouco depois d'aquella noite escrevi-lhe uma carta e fui ao Engenho
-Velho. Achei-a um pouco retrahida; a tia explicou-me que recebera
-noticias do Rio Grande que a affligiram. Não liguei isto ao casamento,
-e busquei alegral-a; apenas consegui vel-a cortez. Antes de sair,
-perto da varanda, entreguei-lhe a carta; ia a dizer-lhe: «Peço-lhe que
-leia», mas a voz não saiu. Vi-a um pouco atrapalhada, e para evitar
-dizer o que melhor ia escripto, comprimentei-a e enfiei pelo jardim.
-Póde imaginar-se a noite que passei, e o dia seguinte foi naturalmente
-egual, á medida que a outra noite vinha. Pois, ainda assim, não tornei
-á casa d'ella; resolvi esperar tres ou quatro dias, não que ella me
-escrevesse logo, mas que pensasse nos termos da resposta. Que estes
-haviam de ser sympathicos, era certeza minha; as maneiras della, nos
-ultimos tempos, eram mais que affaveis, pareciam-me convidativas.
-
-Não cheguei, porém, aos quatro dias; mal pude esperar tres. Na noite
-do terceiro fui ao Engenho Velho. Se disser que entrei tremulo da
-primeira commoção, não minto. Achei-a ao piano, tocando para o poeta
-ouvir; a tia, na poltrona, pensava em não sei qué, mas eu quasi não a
-vi, tal a minha primeira allucinação.
-
---Entre, Sr. Correia, disse esta; não caia em cima de mim.
-
---Perdão...
-
-Maria Cora não interrompeu a musica; ao ver-me chegar, disse:
-
---Desculpe, se lhe não dou a mão, estou aqui servindo de musa a este
-senhor.
-
-Minutos depois, veiu a mim, e estendeu-me a mão com tanta galhardia,
-que li nella a resposta, e estive quasi a dar-lhe um agradecimento.
-Passaram-se alguns minutos, quinze ou vinte. Ao fim desse tempo, ella
-pretextou um livro, que estava em cima das musicas, e pediu-me para
-dizer se o conhecia; fomos alli ambos, e ella abriu-m'o; entre as duas
-folhas estava um papel.
-
---Na outra noite, quando aqui esteve, deu-me esta carta; não podia
-dizer-me o que tem dentro?
-
---Não adivinha?
-
---Posso errar na adivinhação.
-
---É isso mesmo.
-
---Bem, mas eu sou uma senhora casada, e nem por estar separada do meu
-marido deixo de estar casada. O senhor ama-me, não é? Supponha, pelo
-melhor, que eu tambem o amo; nem por isso deixo de estar casada.
-
-Dizendo isto, entregou-me a carta; não fôra aberta. Se estivessemos
-sós, é possivel que eu lh'a lesse, mas a presença de extranhos
-impedia-me este recurso. Demais, era desnecessario; a resposta de Maria
-Cora era definitiva ou me pareceu tal. Peguei na carta, e antes de a
-guardar commigo:
-
---Não quer então ler?
-
---Não.
-
---Nem para ver os termos?
-
---Não.
-
---Imagine que lhe proponho ir combater contra seu marido, matal-o e
-voltar, disse eu cada vez mais tonto.
-
---Propõe isto?
-
---Imagine.
-
---Não creio que ninguem me ame com tal força, concluiu sorrindo. Olhe,
-que estão reparando em nós.
-
-Dizendo isto, separou-se de mim, e foi ter com a tia e o poeta. Eu
-fiquei ainda alguns segundos com o livro na mão, como se devéras o
-examinasse, e afinal deixei-o. Vim sentar-me defronte della. Os tres
-conversavam de cousas do Rio Grande, de combates entre federalistas
-e legalistas, e da varia sorte delles. O que eu então senti não se
-escreve; pelo menos, não o escrevo eu, que não sou romancista. Foi
-uma especie de vertigem, um delirio, uma scena pavorosa e lucida,
-um combate e uma gloria. Imaginei-me no campo, entre uns e outros,
-combatendo os federalistas, e afinal matando João da Fonseca, voltando
-e casando-me com a viuva. Maria Cora contribuia para esta visão
-seductora; agora, que me recusára a carta, parecia-me mais bella que
-nunca, e a isto accrescia que se não mostrava zangada nem offendida,
-tratava-me com egual carinho que antes, creio até que maior. Disto
-podia sair uma impressão dupla e contraria,--uma de acquiescencia
-tacita, outra de indifferença, mas eu só via a primeira, e sai de lá
-completamente louco.
-
-O que então resolvi foi realmente de louco. As palavras de Maria Cora:
-«Não creio que ninguem me ame com tal força»--soavam-me aos ouvidos,
-como um desafio. Pensei nellas toda a noite, e no dia seguinte fui ao
-Engenho Velho; logo que tive occasião de jurar-lhe a prova, fil-o.
-
---Deixo tudo o que me interessa, a começar pela paz, com o unico fim de
-lhe mostrar que a amo, e a quero só e santamente para mim. Vou combater
-a revolta.
-
-Maria Cora fez um gesto de deslumbramento. Daquella vez percebi que
-realmente gostava de mim, verdadeira paixão, e se fosse viuva, não
-casava com outro. Jurei novamente que ia para o Sul. Ella commovida,
-estendeu-me a mão. Estavamos em pleno romantismo. Quando eu nasci, os
-meus não acreditavam em outras provas de amor, e minha mãe contava-me
-os romances em versos de cavalleiros andantes que iam á Terra-Santa
-libertar o sepulcro de Christo por amor da fé e da sua dama. Estavamos
-em pleno romantismo.
-
-
-V
-
-Fui para o Sul. Os combates entre legalistas e revolucionarios eram
-continuos e sangrentos, e a noticia d'elles contribuiu a animar-me.
-Entretanto, como nenhuma paixão politica me levava a entrar na luta,
-força é confessar que por um instante me senti abatido e hesitei. Não
-era medo da morte, podia ser amor da vida, que é um synonymo; mas, uma
-ou outra cousa, não foi tal nem tamanha que fizesse durar por muito
-tempo a hesitação. Na cidade do Rio Grande encontrei um amigo, a quem
-eu por carta do Rio de Janeiro dissera muito reservadamente que ia lá
-por motivos politicos. Quiz saber quaes.
-
---Naturalmente são reservados, respondi tentando sorrir.
-
---Bem; mas uma cousa creio que posso saber, uma só, porque não sei
-absolutamente o que pense a tal respeito, nada havendo antes que me
-instrua. De que lado estás, legalistas ou revoltosos?
-
---É boa! Se não fosse dos legalistas, não te mandaria dizer nada; viria
-ás escondidas.
-
---Vens com alguma commissão secreta do marechal?
-
---Não.
-
-Não me arrancou então mais nada, mas eu não pude deixar de lhe
-confiar os meus projectos, ainda que sem os seus motivos. Quando
-elle soube que aquelles eram alistar-me entre os voluntarios que
-combatiam a revolução, não poude crer em mim, e talvez desconfiasse
-que effectivamente eu levava algum plano secreto do presidente. Nunca
-da minha parte ouviu nada que pudesse explicar semelhante passo.
-Entretanto, não perdeu tempo em despersuadir-me; pessoalmente era
-legalista e falava dos adversarios com odio e furor. Passado o espanto,
-acceitou o meu acto, tanto mais nobre quanto não era inspirado por
-sentimento de partido. Sobre isto disse-me muita palavra bella e
-heroica, propria a levantar o animo de quem já tivesse tendencia para a
-luta. Eu não tinha nenhuma, fóra das razões particulares; estas, porém,
-eram agora maiores. Justamente acabava de receber uma carta da tia de
-Maria Cora, dando-me noticias dellas, e recommendações da sobrinha,
-tudo com alguma generalidade e certa sympathia verdadeira.
-
-Fui a Porto Alegre, alistei-me e marchei para a campanha. Não disse
-a meu respeito nada que pudesse despertar a curiosidade de ninguem,
-mas era difficil encobrir a minha condição, a minha origem, a minha
-viagem com o plano de ir combater a revolução. Fez-se logo uma lenda a
-meu respeito. Eu era um republicano antigo, riquissimo, enthusiasta,
-disposto a dar pela Republica mil vidas, se as tivesse, e resoluto
-a não poupar a unica. Deixei dizer isto e o mais, e fui. Como eu
-indagasse das forças revolucionarias com que estaria João da Fonseca,
-alguem quiz ver nisto uma razão de odio pessoal; tambem não faltou
-quem me suppozesse espião dos rebeldes, que ia pôr-me em communicação
-secreta com aquelle. Pessoas que sabiam das relações delle com a
-Prazeres, imaginavam que era um antigo amante desta que se queria
-vingar dos amores delle. Todas aquellas supposições morreram, para
-só ficar a do meu enthusiasmo politico; a da minha espionagem ia-me
-prejudicando; felizmente, não passou de duas cabeças e de uma noite.
-
-Levava commigo um retrato de Maria Cora; alcançára-o della mesma,
-uma noite, pouco antes do meu embarque, com uma pequena dedicatoria
-cerimoniosa. Já disse que estava em pleno romantismo; dado o primeiro
-passo, os outros vieram de si mesmos. E agora juntae a isto o amor
-proprio, e comprehendereis que de simples cidadão indifferente da
-capital saisse um guerreiro aspero da campanha rio-grandense.
-
-Nem por isso conto combates, nem escrevo para falar da revolução, que
-não teve nada commigo, por si mesma, senão pela occasião que me dava,
-e por algum golpe que lhe desfechei na estreita área da minha acção.
-João da Fonseca era o meu rebelde. Depois de haver tomado parte no
-combate de Sarandy e Coxilla Negra, ouvi que o marido de Maria Cora
-fôra morto, não sei em que recontro; mais tarde deram-me a noticia de
-estar com as forças de Gumercindo, e tambem que fôra feito prisioneiro
-e seguira, para Porto Alegre; mas ainda isto não era verdade. Disperso,
-com dois camaradas, encontrei um dia um regimento legal que ia em
-defeza da Encruzilhada, investida ultimamente por uma força dos
-federalistas; apresentei-me ao commandante e segui. Ahi soube que João
-da Fonseca estava entre essa força; deram-me todos os signaes delle,
-contaram-me a historia dos amores e a separação da mulher.
-
-A idéa de matal-o no turbilhão de um combate tinha algo phantastico;
-nem eu sabia se taes duellos eram possiveis em semelhantes occasiões,
-quando a força de cada homem tem de sommar com a de toda uma força
-unica e obediente a uma só direcção. Tambem me pareceu, mais de uma
-vez, que ia commetter um crime pessoal, e a sensação que isto me
-dava, podeis crer que não era leve nem doce; mas a figura de Maria
-Cora abraçava-me e absolvia com uma benção de felicidades. Atirei-me
-de vez. Não conhecia João da Fonseca; além dos signaes que me haviam
-dado, tinha de memoria um retrato delle que vira no Engenho Velho; se
-as feições não estivessem mudadas, era provavel que eu o reconhecesse
-entre muitos. Mas, ainda uma vez, seria este encontro possivel? Os
-combates em que eu entrára, já me faziam desconfiar que não era facil,
-ao menos.
-
-Não foi facil nem breve. No combate da Encruzilhada creio que me houve
-com a necessaria intrepidez e disciplina, e devo aqui notar que eu me
-ia acostumando á vida da guerra civil. Os odios que ouvia, eram forças
-reaes. De um lado e outro batiam-se com ardor, e a paixão que eu
-sentia nos meus ia-se pegando em mim. Já lêra o meu nome em uma ordem
-do dia, e de viva voz recebêra louvores, que commigo não pude deixar de
-achar justos, e ainda agora taes os declaro. Mas vamos ao principal,
-que é acabar com isto.
-
-Naquelle combate achei-me um tanto como o heróe de Stendhal na batalha
-de Waterloo; a differença é que o espaço foi menor. Por isso, e tambem
-porque não me quero deter em cousas de recordação facil, direi sómente
-que tive occasião de matar em pessoa a João da Fonseca. Verdade é que
-escapei de ser morto por elle. Ainda agora trago na testa a cicatriz
-que elle me deixou. O combate entre nós foi curto. Se não parecesse
-romanesco de mais, eu diria que João da Fonseca adivinhára o motivo e
-previra o resultado da acção.
-
-Poucos minutos depois da luta pessoal, a um canto da villa, João da
-Fonseca caiu prostrado. Quiz ainda lutar, e certamente lutou um pouco;
-eu é que não consenti na desforra, que podia ser a minha derrota, se
-é que raciocinei; creio que não. Tudo o que fiz foi cego pelo sangue
-em que o deixára banhado, e surdo pelo clamor e tumulto de combate.
-Matava-se, gritava-se, vencia-se; em pouco ficámos senhores do campo.
-
-Quando vi que João da Fonseca morrêra devéras, voltei ao combate por
-instantes; a minha ebriedade cessára um pouco, e os motivos primarios
-tornaram a dominar-me, como se fossem unicos. A figura de Maria Cora
-appareceu-me como um sorriso de approvação e perdão; tudo foi rapido.
-
-Haveis de ter lido que alli se apprehenderam tres ou quatro mulheres.
-Uma destas era a Prazeres. Quando, acabado tudo, a Prazeres viu o
-cadaver do amante, fez uma scena que me encheu de odio e de inveja.
-Pegou em si e deitou-se a abraçal-o; as lagrimas que verteu, as
-palavras que disse, fizeram rir a uns; a outros, se não enterneceram,
-deram algum sentimento de admiração. Eu, como digo, achei-me tomado de
-inveja e odio, mas tambem esse duplo sentimento desappareceu para não
-ficar nem admiração; acabei rindo. Prazeres, depois de honrar com dôr
-a morte do amante, ficou sendo a federalista que já era; não vestia
-farda, como dissera ao desafiar João da Fonseca, quiz ser prisioneira
-com os rebeldes e seguir com elles.
-
-É claro que não deixei logo as forças, bati-me ainda algumas vezes, mas
-a razão principal dominou, e abri mão das armas. Durante o tempo em que
-estive alistado, só escrevi duas cartas a Maria Cora, uma pouco depois
-de encetar aquella vida nova,--outra depois do combate da Encruzilhada;
-nesta não lhe contei nada do marido, nem da morte, nem sequer que
-o vira. Unicamente annunciei que era provavel acabasse brevemente
-a guerra civil. Em nenhuma das duas fiz a menor allusão aos meus
-sentimentos nem ao motivo do meu acto; entretanto, para quem soubesse
-delles, a carta era significativa. Maria Cora só respondeu á primeira
-das cartas, com serenidade, mas não com isenção. Percebia-se,--ou
-percebia-o eu,--que, não promettendo nada, tudo agradecia, e, quando
-menos, admirava. Gratidão e admiração podiam encaminhal-a ao amor.
-
-Ainda não disse,--e não sei como diga este ponto,--que na Encruzilhada,
-depois da morte de João da Fonseca, tentei degolal-o; mas nem queria
-fazel-o nem realmente o fiz. O meu objecto era ainda outro e romanesco.
-Perdoa-me tu, realista sincero, ha nisto tambem um pouco de realidade,
-e foi o que pratiquei, de accôrdo com o estado da minha alma: o que
-fiz foi cortar-lhe um molho de cabellos. Era o recibo da morte que eu
-levaria á viuva.
-
-
-VI
-
-Quando voltei ao Rio de Janeiro, tinham já passado muitos mezes do
-combate da Encruzilhada. O meu nome figurou não só em partes officiaes
-como em telegrammas e correspondencias, por mais que eu buscasse
-esquivar-me ao ruido e desapparecer na sombra. Recebi cartas de
-felicitações e de indagações. Não vim logo para o Rio de Janeiro,
-note-se; podia ter aqui alguma festa; preferi ficar em S. Paulo. Um
-dia, sem ser esperado, metti-me na estrada de ferro e entrei na cidade.
-Fui para a casa de pensão do Cattete.
-
-Não procurei logo Maria Cora. Pareceu-me até mais acertado que a
-noticia da minha vinda lhe chegasse pelos jornaes. Não tinha pessoa
-que lhe falasse; vexava-me ir eu mesmo a alguma redacção contar o meu
-regresso do Rio Grande; não era passageiro de mar, cujo nome viesse em
-lista nas folhas publicas. Passaram dous dias; no terceiro, abrindo
-uma destas, dei com o meu nome. Dizia-se alli que viera de S. Paulo
-e estivera nas lutas do Rio Grande, citavam-se os combates, tudo com
-adjectivos de louvor; emfim, que voltava á mesma pensão do Cattete.
-Como eu só contára alguma cousa ao dono da casa, podia ser elle o autor
-das notas; disse-me que não. Entrei a receber visitas pessoaes. Todas
-queriam saber tudo; eu pouco mais disse que nada.
-
-Entre os cartões, recebi dous de Maria Cora e da tia, com palavras
-de boas vindas. Não era preciso mais; restava-me ir agradecer-lhes,
-e dispuz-me a isso; mas, no proprio dia em que resolvi ir ao Engenho
-Velho, tive uma sensação de... De quê? Expliquem, se podem, o
-acanhamento que me deu a lembrança do marido de Maria Cora, morto ás
-minhas mãos. A sensação que ia ter diante della tolheu-me inteiramente.
-Sabendo-se qual foi o movel principal da minha acção militar, mal se
-comprehende aquella hesitação; mas, se considerardes que, por mais que
-me defendesse do marido e o matasse para não morrer, elle era sempre o
-marido, terás entendido o mal-estar que me fez adiar a visita. Afinal,
-peguei em mim e fui á casa della.
-
-Maria Cora estava de luto. Recebeu-me com bondade, e repetiu-me, como a
-tia, as felicitações escriptas. Falámos da guerra civil, dos costumes
-do Rio Grande, um pouco de politica, e mais nada. Não se disse de João
-da Fonseca. Ao sair de lá, perguntei a mim mesmo se Maria Cora estaria
-disposta a casar conmigo.
-
---Não me parece que recuse, embora não lhe ache maneiras especiaes.
-Creio até que está menos affavel que d'antes... Terá mudado?
-
-Pensei assim, vagamente. Attribui a alteração ao estado moral da
-viuvez; era natural. E continuei a frequental-a, disposto a deixar
-passar a primeira phase do luto para lhe pedir formalmente a mão.
-Não tinha que fazer declarações novas; ella sabia tudo. Continuou
-a receber-me bem. Nenhuma pergunta me fez sobre o marido, a tia
-tambem não, e da propria revolução não se falou mais. Pela minha
-parte, tornando á situação anterior, busquei não perder tempo, fiz-me
-pretendente com todas as maneiras do officio. Um dia, perguntei-lhe se
-pensava em tornar ao Rio Grande.
-
---Por ora, não.
-
---Mas irá?
-
---É possivel; não tenho plano nem prazo marcado; é possivel.
-
-Eu, depois de algum silencio, durante o qual olhava interrogativamente
-para ella, acabei por inquirir se antes de ir, caso fosse, não
-alteraria nada em sua vida.
-
---A minha vida está tão alterada...
-
-Não me entendera; foi o que suppuz. Tratei de me explicar melhor, e
-escrevi uma carta em que lhe lembrava a entrega e a recusa da primeira
-e lhe pedia francamente a mão. Entreguei a carta, dous dias depois, com
-estas palavras:
-
---Desta vez não recusará ler-me.
-
-Não recusou, acceitou a carta. Foi á saida, á porta da sala. Creio até
-que lhe vi certa commoção de bom agouro. Não me respondeu por escripto,
-como esperei. Passados tres dias, estava tão ancioso que resolvi ir
-ao Engenho Velho. Em caminho imaginei tudo: que me recusasse, que me
-acceitasse, que me adiasse, e já me contentava com a ultima hypothese,
-se não houvesse de ser a segunda. Não a achei em casa; tinha ido passar
-alguns dias na Tijuca. Sai de lá aborrecido. Pareceu-me que não queria
-absolutamente casar; mas então era mais simples dizel-o ou escrevel-o.
-Esta consideração trouxe-me esperanças novas.
-
-Tinha ainda presentes as palavras que me dissera, quando me devolveu
-a primeira carta, e eu lhe falei da minha paixão: «Supponha que eu
-o amo; nem por isso deixo de ser uma senhora casada.» Era claro que
-então gostava de mim, e agora mesmo não havia razão decisiva para crer
-o contrario, embora a apparencia fosse um tanto fria. Ultimamente,
-entrei a crer que ainda gostava, um pouco por vaidade, um pouco por
-sympathia, e não sei se por gratidão tambem; tive alguns vestigios
-disso. Não obstante, não me deu resposta á segunda carta. Ao voltar da
-Tijuca, vinha menos expansiva, acaso mais triste. Tive eu mesmo de lhe
-falar na materia; a resposta foi que, por ora, estava disposta a não
-casar.
-
---Mas um dia...? perguntei depois de algum silencio.
-
---Estarei velha.
-
---Mas então... será muito tarde?
-
---Meu marido póde não estar morto.
-
-Espantou-me esta objecção.
-
---Mas a senhora está de luto.
-
---Tal foi a noticia que li e me deram; póde não ser exacta. Tenho visto
-desmentir outras que se reputavam certas.
-
---Quer certeza absoluta? perguntei. Eu posso dal-a.
-
-Maria Cora empallideceu. Certeza. Certeza de quê? Queria que lhe
-contasse tudo, mas tudo. A situação era tão penosa para mim que não
-hesitei mais, e, depois de lhe dizer que era intenção minha não lhe
-contar nada, como não contára a ninguem, ia fazel-o, unicamente para
-obedecer á intimação. E referi o combate, as suas phases todas, os
-riscos, as palavras, finalmente a morte de João da Fonseca. A ancia com
-que me ouviu foi grande, e não menor o abatimento final. Ainda assim,
-dominou-se, e perguntou-me:
-
---Jura que me não está enganando?
-
---Para que a enganar? O que tenho feito é bastante para provar que sou
-sincero. Amanhã, trago-lhe outra prova, se é preciso mais alguma.
-
-Levei-lhe os cabellos que cortára ao cadaver. Contei-lhe,--e confesso
-que o meu fim foi irrital-a contra a memoria do defunto,--contei-lhe
-o desespero da Prazeres. Descrevi essa mulher e as suas lagrimas.
-Maria Cora ouviu-me com os olhos grandes e perdidos; estava ainda com
-ciumes. Quando lhe mostrei os cabellos do marido, atirou-se a elles,
-recebeu-os, beijou-os, chorando, chorando, chorando... Entendi melhor
-sair e sair para sempre. Dias depois recebi a resposta á minha carta;
-recusava casar.
-
-Na resposta havia uma palavra que é a unica razão de escrever esta
-narrativa: «Comprehende que eu não podia aceitar a mão do homem que,
-embora lealmente, matou meu marido.» Comparei-a áquella outra que me
-dissera antes, quando eu me propunha sair a combate, matal-o e voltar:
-«Não creio que ninguem me ame com tal força.» E foi essa palavra que
-me levou á guerra. Maria Cora vive agora reclusa; de costume manda
-dizer uma missa por alma do marido, no anniversario do combate da
-Encruzilhada. Nunca mais a vi; e, cousa menos difficil, nunca mais
-esqueci dar corda ao relogio.
-
-
-
-
-Marcha funebre
-
-
-O deputado Cordovil não podia pregar olho uma noite de Agosto de 186...
-Viera cedo do Cassino Fluminense, depois da retirada do imperador, e
-durante o baile não tivera o minimo incommodo moral nem physico. Ao
-contrario, a noite foi excellente; tão excellente que um inimigo seu,
-que padecia do coração, falleceu antes das dez horas, e a noticia
-chegou ao Cassino pouco depois das onze.
-
-Naturalmente conclues que elle ficou alegre com a morte do homem,
-especie de vingança que os corações adversos e fracos tomam em falta
-de outra. Digo-te que conclues mal; não foi alegria, foi desabafo.
-A morte vinha de mezes, era daquellas que não acabam mais, e moem,
-mordem, comem, trituram a pobre creatura humana. Cordovil sabia dos
-padecimentos do adversario. Alguns amigos, para o consolar de antigas
-injurias, iam contar-lhe o que viam ou sabiam do enfermo, pregado a
-uma cadeira de braços, vivendo as noites horrivelmente, sem que as
-auroras lhe trouxessem esperanças, nem as tardes desenganos. Cordovil
-pagava-lhes com alguma palavra de compaixão, que o alviçareiro
-adoptava, e repetia, e era mais sincera naquelle que neste. Emfim
-acabára de padecer; dahi o desabafo.
-
-Este sentimento pegava com a piedade humana. Cordovil, salvo em
-politica, não gostava do mal alheio. Quando resava, ao levantar da
-cama: «Padre Nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome,
-venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como
-no céu; o pão nosso de cada dia nos dá hoje; perdoa as nossas dividas,
-como nós perdoamos aos nossos devedores...» não imitava um de seus
-amigos que resava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores,
-como dizia de lingua; esse chegava a cobrar além do que elles lhe
-deviam, isto é, se ouvia maldizer de alguem, decorava tudo e mais
-alguma cousa, e ia repetil-o a outra parte. No dia seguinte, porém, a
-bella oração de Jesus tornava a sair dos labios da vespera com a mesma
-caridade de officio.
-
-Cordovil não ia nas aguas d'esse amigo; perdoava devéras. Que entrasse
-no perdão um tantinho de preguiça, é possivel, sem aliás ser evidente.
-Preguiça amamenta muita virtude. Sempre é alguma cousa mingoar força
-á acção do mal. Não esqueça que o deputado só gostava do mal alheio
-em politica, e o inimigo morto era inimigo pessoal. Quanto á causa da
-inimizade, não a sei eu, e o nome do homem acabou com a vida.
-
---Coitado! descançou, disse Cordovil.
-
-Conversaram da longa doença do finado. Tambem falaram das varias mortes
-d'este mundo, dizendo Cordovil que a todas preferia a de Cesar, não por
-motivo do ferro, mas por inesperada e rapida.
-
---_Tu quoque?_ perguntou-lhe um collega rindo.
-
-Ao que elle, apanhando a allusão, replicou:
-
---Eu, se tivesse um filho, quizera morrer ás mãos delle. O parricidio,
-estando fóra do commum, faria a tragedia mais tragica.
-
-Tudo foi assim alegre. Cordovil saiu do baile com somno, e foi
-cochilando no carro, apesar do mal calçado das ruas. Perto de casa,
-sentiu parar o carro e ouviu rumor de vozes. Era o caso de um defunto,
-que duas praças de policia estavam levantando do chão.
-
---Assassinado? perguntou elle ao lacaio, que descêra da almofada para
-saber o que era.
-
---Não sei, não, senhor.
-
---Pergunta o que é.
-
---Este moço sabe como foi, disse o lacaio, indicando um desconhecido,
-que falava a outros.
-
-O moço approximou-se da portinhola, antes que o deputado recusasse
-ouvil-o. Referiu-lhe então em poucas palavras o accidente a que
-assistira.
-
---Vinhamos andando, elle adeante, eu atraz. Parece que assobiava uma
-polka. Indo a atravessar a rua para o lado do Mangue, vi que estacou o
-passo, a modo que torceu o corpo, não sei bem, e caiu sem sentidos. Um
-doutor, que chegou logo, descendo de um sobradinho, examinou o homem e
-disse que «morreu de repente». Foi-se juntando gente, a patrulha levou
-muito tempo a chegar. Agora pegou delle. Quer ver o defunto?
-
---Não, obrigado. Já se póde passar?
-
---Póde.
-
---Obrigado. Vamos, Domingos.
-
-Domingos trepou á almofada, o cocheiro tocou os animaes, e o carro
-seguiu até á rua de S. Christovão, onde morava Cordovil.
-
-Antes de chegar á casa, Cordovil foi pensando na morte do desconhecido.
-Em si mesma, era boa; comparada á do inimigo pessoal, excellente.
-Ia a assobiar, cuidando sabe Deus em que delicia passada ou em que
-esperança futura; revivia o que vivêra, ou antevia o que podia viver,
-senão quando, a morte pegou da delicia ou da esperança, e lá se foi o
-homem ao eterno repouso. Morreu sem dôr, ou, se alguma teve, foi acaso
-brevissima, como um relampago que deixa a escuridão mais escura.
-
-Então poz o caso em si. Se lhe tem acontecido no Cassino a morte do
-Aterrado? Não seria dançando; os seus quarenta annos não dançavam.
-Podia até dizer que elle só dançou até aos vinte. Não era dado a moças,
-tivera uma affeição unica na vida,--aos vinte e cinco annos, casou e
-enviuvou ao cabo de cinco semanas para não casar mais. Não é que lhe
-faltassem noivas,--mórmente depois de perder o avô, que lhe deixou duas
-fazendas. Vendeu-as ambas e passou a viver comsigo, fez duas viagens á
-Europa, continuou a politica e a sociedade. Ultimamente parecia enojado
-de uma e de outra, mas não tendo em que matar o tempo, não abriu mão
-dellas. Chegou a ser ministro uma vez, creio que da marinha, não passou
-de sete mezes. Nem a pasta lhe deu gloria, nem a demissão desgosto. Não
-era ambicioso, e mais puxava para a quietação que para o movimento.
-
-Mas se lhe tivesse succedido morrer de repente no Cassino, ante uma
-valsa ou quadrilha, entre duas portas? Podia ser muito bem. Cordovil
-compoz de imaginação a scena, elle caido de bruços ou de costas, o
-prazer turbado, a dança interrompida... e d'ahi podia ser que não; um
-pouco de espanto apenas, outro de susto, os homens animando as damas,
-a orchestra continuando por instantes a opposição do compasso e da
-confusão. Não faltariam braços que o levasse para um gabinete, já
-morto, totalmente morto.
-
---Tal qual a morte de Cesar, ia dizendo comsigo.
-
-E logo emendou:
-
---Não, melhor que ella; sem ameaça, nem armas, nem sangue, uma simples
-queda e o fim. Não sentiria nada.
-
-Cordovil deu comsigo a rir ou a sorrir, alguma cousa que afastava o
-terror e deixava a sensação da liberdade. Em verdade, antes a morte
-assim que após longos dias ou longos mezes e annos, como o adversario
-que perdêra algumas horas antes. Nem era morrer; era um gesto de
-chapéo, que se perdia no ar com a propria mão e a alma que lhe déra
-movimento. Um cochilo e o somno eterno. Achava-lhe um só defeito,--o
-apparato. Essa morte no meio de um baile, defronte do imperador, ao som
-de Strauss, contada, pintada, enfeitada nas folhas publicas, essa morte
-pareceria de encommenda. Paciencia, uma vez que fosse repentina.
-
-Tambem pensou que podia ser na Camara, no dia seguinte, ao começar o
-debate do orçamento. Tinha a palavra; já andava cheio de algarismos e
-citações. Não quiz imaginar o caso, não valia a pena; mas o caso teimou
-e appareceu de si mesmo. O salão da Camara, em vez do Cassino, sem
-damas ou com poucas, nas tribunas. Vasto silencio. Cordovil em pé
-começaria o discurso, depois de circular os olhos pela casa, fitar o
-ministro e fitar o presidente: «Releve-me a Camara que lhe tome algum
-tempo, serei breve, buscarei ser justo...» Aqui uma nuvem lhe taparia
-os olhos, a lingua pararia, o coração tambem, e elle cairia de golpe no
-chão. Camara, galerias, tribunas ficariam assombradas. Muitos deputados
-correriam a erguel-o; um, que era medico, verificaria a morte; não
-diria que fôra de repente, como o do sobradinho do Aterrado, mas por
-outro estylo mais technico. Os trabalhos seriam suspensos, depois de
-algumas palavras do presidente e escolha da commissão que acompanharia
-o finado ao cemiterio...
-
-Cordovil quiz rir da circumstancia de imaginar além da morte, o
-movimento e o sahimento, as proprias noticias dos jornaes, que elle leu
-de cór e depressa. Quiz rir, mas preferia cochilar; os olhos é que,
-estando já perto de casa e da cama, não quizeram desperdiçar o somno, e
-ficaram arregalados.
-
-Então a morte, que elle imaginára pudesse ter sido no baile, antes
-de sair, ou no dia seguinte em plena sessão da Camara, appareceu
-alli mesmo no carro. Suppoz elle que, ao abrirem-lhe a portinhola,
-déssem com o seu cadaver. Sairia assim de uma noite ruidosa para outra
-pacifica, sem conversas, nem danças, nem encontros, sem especie alguma
-de luta ou resistencia. O estremeção que teve fez-lhe ver que não era
-verdade. Effectivamente, o carro entrou na chacara, estacou, e Domingos
-saltou da almofada para vir abrir-lhe a portinhola. Cordovil desceu com
-as pernas e a alma vivas, e entrou pela porta lateral, onde o aguardava
-com um castiçal e vela accesa o escravo Florindo. Subiu a escada, e
-os pés sentiam que os degraus eram d'este mundo; se fossem do outro,
-desceriam naturalmente. Em cima, ao entrar no quarto, olhou para a
-cama; era a mesma dos somnos quietos e demorados.
-
---Veiu alguem?
-
---Não, senhor, respondeu o escravo distrahido, mas corrigiu logo: Veiu,
-sim, senhor; veiu aquelle doutor que almoçou com meu senhor domingo
-passado.
-
---Queria alguma cousa?
-
---Disse que vinha dar a meu senhor uma boa noticia, e deixou este
-bilhete--que eu botei ao pé da cama.
-
-O bilhete referia a morte do inimigo; era de um dos amigos que usavam
-contar-lhe a marcha da molestia. Quiz ser o primeiro a annunciar o
-desenlace, um alegrão, com um abraço apertado. Emfim, morrêra o patife.
-Não disse a cousa assim por esses termos claros, mas os que empregou
-vinham a dar nelles, accrescendo que não attribuiu esse unico objecto
-á visita. Vinha passar a noite; só alli soube que Cordovil fôra ao
-Cassino. Ia a sair, quando lhe lembrou a morte e pediu ao Florindo que
-lhe deixasse escrever duas linhas. Cordovil entendeu o significado, e
-ainda uma vez lhe doeu a agonia do outro. Fez um gesto de melancolia e
-exclamou a meia voz:
-
---Coitado! Vivam as mortes subitas!
-
-Florindo, se referisse o gesto e a phrase ao doutor do bilhete, talvez
-o fizesse arrepender da cançeira. Nem pensou nisso; ajudou o senhor
-a preparar-se para dormir, ouviu as ultimas ordens e despediu-se.
-Cordovil deitou-se.
-
---Ah! suspirou elle estirando o corpo cançado.
-
-Teve então uma idéa, a de amanhecer morto. Esta hypothese, a melhor de
-todas, porque o apanharia meio morto, trouxe comsigo mil phantasias
-que lhe arredaram o somno dos olhos. Em parte, era a repetição das
-outras, a participação á Camara, as palavras do presidente, commissão
-para o sahimento, e o resto. Ouviu lastimas de amigos e de famulos, viu
-noticias impressas, todas lisonjeiras ou justas. Chegou a desconfiar
-que era já sonho. Não era. Chamou-se ao quarto, á cama, a si mesmo:
-estava accordado.
-
-A lamparina deu melhor corpo á realidade. Cordovil espancou as idéas
-funebres e esperou que as alegres tomassem conta delle e dançassem
-até cançal-o. Tentou vencer uma visão com outra. Fez até uma cousa
-engenhosa, convocou os cinco sentidos, porque a memoria de todos elles
-era aguda e fresca; foi assim evocando lances e rasgos longamente
-extinctos. Gestos, scenas de sociedade e de familia, panoramas,
-repassou muita cousa vista, com o aspecto do tempo diverso e remoto.
-Deixára de comer acepipes que outra vez lhe sabiam, como se estivesse
-agora a mastigal-os. Os ouvidos escutavam passos leves e pesados,
-cantos joviaes e tristes, e palavras de todos os feitios. O tacto, o
-olfacto, todos fizeram o seu officio, durante um prazo que elle não
-calculou.
-
-Cuidou de dormir e cerrou bem os olhos. Não poude, nem do lado direito,
-nem do esquerdo, de costas nem de bruços. Ergueu-se e foi ao relogio;
-eram tres horas. Insensivelmente levou-o á orelha a ver se estava
-parado; estava andando, déra-lhe corda. Sim, tinha tempo de dormir um
-bom somno; deitou-se, cobriu a cabeça para não ver a luz.
-
-Ah! foi então que o somno tentou entrar, calado e surdo, todo
-cautellas, como seria a morte, se quizesse leval-o de repente, para
-nunca mais. Cordovil cerrou os olhos com força, e fez mal, porque a
-força accentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de os afrouxar, e
-fez bem. O somno, que ia a recuar, tornou atraz, e veiu estirar-se ao
-lado delle, passando-lhe aquelles braços leves e pesados, a um tempo,
-que tiram á pessoa todo movimento. Cordovil os sentia, e com os seus
-quiz conchegal-os ainda mais... A imagem não é boa, mas não tenho outra
-á mão nem tempo de ir buscal-a. Digo só o resultado do gesto, que foi
-arredar o somno de si, tão aborrecido ficou este reformador de cançados.
-
---Que terá elle hoje contra mim? perguntaria o somno, se falasse.
-
-Tu sabes que elle é mudo por essencia. Quando parece que fala é o sonho
-que abre a boca á pessoa; elle não, elle é a pedra, e ainda a pedra
-fala, se lhe batem, como estão fazendo agora os calceteiros da minha
-rua. Cada pancada accorda na pedra um som, e a regularidade do gesto
-torna aquelle som tão pontual que parece a alma de um relogio. Vozes
-de conversa ou de pregão, rodas de carro, passos de gente, uma janella
-batida pelo vento, nada dessas cousas que ora ouço, animava então a rua
-e a noite de Cordovil. Tudo era propicio ao somno.
-
-Cordovil ia finalmente dormir, quando a idéa de amanhecer morto
-appareceu outra vez. O somno recuou e fugiu. Esta alternativa durou
-muito tempo. Sempre que o somno ia a grudar-lhe os olhos, a lembrança
-da morte os abria, até que elle sacudiu o lençol e saiu da cama. Abriu
-uma janella e encostou-se ao peitoril. O céu queria clarear, alguns
-vultos iam passando na rua, trabalhadores e mercadores que desciam para
-o centro da cidade. Cordovil sentiu um arrepio; não sabendo se era
-frio ou medo, foi vestir um camisão de chita, e voltou para a janella.
-Parece que era frio, porque não sentia mais nada.
-
-A gente continuava a passar, o céu a clarear, e um assobio da estrada
-de ferro deu signal de trem que ia partir. Homens e cousas vinham do
-descanço; o céu fazia economia de estrellas, apagando-as, á medida
-que o sol ia chegando para o seu officio. Tudo dava idéa de vida.
-Naturalmente a idéa da morte foi recuando e desappareceu de todo,
-emquanto o nosso homem, que suspirou por ella no Cassino, que a
-desejou para o dia seguinte na Camara dos deputados, que a encarou no
-carro, voltou-lhe as costas quando a viu entrar com o somno, seu irmão
-mais velho,--ou mais moço, não sei.
-
-Quando veiu a fallecer, muitos annos depois, pediu e teve a morte, não
-subita, mas vagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sae impuro
-de uma garrafa para entrar purificado em outra; a borra iria para o
-cemiterio. Agora é que lhe via a philosophia; em ambas as garrafas era
-sempre o vinho que ia ficando, até passar inteiro e pingado para a
-segunda. Morte subita não acabava de entender o que era.
-
-
-
-
-Um capitão de voluntarios
-
-
-Indo a embarcar para a Europa, logo depois da proclamação da Republica,
-Simão de Castro fez inventario das cartas e apontamentos; rasgou tudo.
-Só lhe ficou a narração que ides ler; entregou-a a um amigo para
-imprimil-a quando elle estivesse barra fóra. O amigo não cumpriu a
-recommendação por achar na historia alguma cousa que podia ser penosa,
-e assim lh'o disse em carta. Simão respondeu que estava por tudo o que
-quizesse; não tendo vaidades literarias, pouco se lhe dava de vir ou
-não a publico. Agora que os dous falleceram, e não ha egual escrupulo,
-dá-se o manuscripto ao prelo.
-
- * * * * *
-
-Eramos dous, ellas duas. Os dous iamos alli por visita, costume,
-desfastio, e finalmente por amizade. Fiquei amigo do dono da casa, elle
-meu amigo. Às tardes, sobre o jantar,--jantava-se cedo em 1866,--ia
-alli fumar um charuto. O sol ainda entrava pela janella, donde se via
-um morro com casas em cima. A janella opposta dava para o mar. Não digo
-a rua nem o bairro; a cidade posso dizer que era o Rio de Janeiro.
-Occultarei o nome do meu amigo; ponhamos uma letra, X... Ella, uma
-dellas, chamava-se Maria.
-
-Quando eu entrava, já elle estava na cadeira de balanço. Os moveis da
-sala eram poucos, os ornatos raros, tudo simples. X... estendia-me a
-mão larga e forte; eu ia sentar-me ao pé da janella, olho na sala, olho
-na rua. Maria, ou já estava ou vinha de dentro. Eramos nada um para o
-outro; ligava-nos unicamente a affeição de X... Conversavamos; eu saía
-para casa ou ia passear, elles ficavam e iam dormir. Algumas vezes
-jogavamos cartas, ás noites, e, para o fim do tempo, era alli que eu
-passava a maior parte destas.
-
-Tudo em X... me dominava. A figura primeiro. Elle robusto, eu franzino;
-a minha graça feminina, debil, desapparecia ao pé do garbo varonil
-delle, dos seus hombros largos, cadeiras largas, jarrete forte e o pé
-solido que, andando, batia rijo no chão. Dae-me um bigode escasso e
-fino; vêde nelle as suissas longas, espessas e encaracoladas, e um dos
-seus gestos habituaes, pensando ou escutando, era passar os dedos por
-ellas, encaracolando-as sempre. Os olhos completavam a figura, não só
-por serem grandes e bellos, mas por que riam mais e melhor que a boca.
-Depois da figura, a edade; X... era homem de quarenta annos, eu não
-passava dos vinte e quatro. Depois da edade, a vida; elle vivêra muito,
-em outro meio, donde saíra a encafuar-se naquella casa, com aquella
-senhora; eu não vivêra nada nem com pessoa alguma. Emfim,--e este rasgo
-é capital,--havia nelle uma fibra castelhana, uma gotta do sangue que
-circula nas paginas de Calderon, uma attitude moral que posso comparar,
-sem depressão nem riso, á do heróe de Cervantes.
-
-Como se tinham amado? Datava de longe. Maria contava já vinte e sete
-annos, e parecia haver recebido alguma educação. Ouvi que o primeiro
-encontro fôra em um baile de mascaras, no antigo Theatro Provisorio.
-Ella trajava uma saia curta, e dançava ao som de um pandeiro. Tinha os
-pés admiraveis, e foram elles ou o seu destino a causa do amor de X...
-Nunca lhe perguntei a origem da alliança; sei só que ella tinha uma
-filha, que estava no collegio e não vinha á casa; a mãe é que ia vê-la.
-Verdadeiramente as nossas relações eram respeitosas, e o respeito ia ao
-ponto de acceitar a situação sem a examinar.
-
-Quando comecei a ir alli, não tinha ainda o emprego no banco. Só
-dous ou tres mezes depois é que entrei para este, e não interrompi
-as relações. Maria tocava piano; ás vezes, ella e a amiga Raymunda
-conseguiam arrastar X... ao theatro; eu ia com elles. No fim, tomavamos
-chá em sala particular, e, uma ou outra vez, se havia lua, acabavamos a
-noite indo de carro a Botafogo.
-
-A estas festas não ia Barreto, que só mais tarde começou a frequentar
-a casa. Entretanto, era bom companheiro, alegre e rumoroso. Uma noite,
-como saissemos de lá, encaminhou a conversa para as duas mulheres, e
-convidou-me a namoral-as.
-
---Tu escolhes uma, Simão, eu outra.
-
-Estremecei e parei.
-
---Ou antes, eu já escolhi, continuou elle; escolhi a Raymunda. Gosto
-muito da Raymunda. Tu, escolhe a outra.
-
---A Maria?
-
---Pois que outra ha de ser.
-
-O alvoroço que me deu este tentador foi tal que não achei palavra de
-recusa, nem palavra nem gesto. Tudo me pareceu natural e necessario.
-Sim, concordei em escolher Maria; era mais velha que eu tres annos, mas
-tinha a edade conveniente para ensinar-me a amar. Está dito, Maria.
-Deitámo-nos ás duas conquistas com ardor e tenacidade. Barreto não
-tinha que vencer muito; a eleita delle não trazia amores, mas até pouco
-antes padecêra de uns que rompêra contra a vontade, indo o amante casar
-com uma moça de Minas. Depressa se deixou consolar. Barreto um dia,
-estando eu a almoçar, veiu annunciar-me que recebêra uma carta della, e
-mostrou-m'a.
-
---Estão entendidos?
-
---Estamos. E vocês?
-
---Eu não.
-
---Então quando?
-
---Deixa ver; eu te digo.
-
-Naquelle dia fiquei meio vexado. Com effeito, apezar da melhor vontade
-deste mundo, não me atrevia a dizer a Maria os meus sentimentos. Não
-supponhas que era nenhuma paixão. Não tinha paixão, mas curiosidade.
-Quando a via esbelta e fresca, toda calor e vida, sentia-me tomado de
-uma força nova e mysteriosa; mas, por um lado, não amára nunca, e,
-por outro, Maria era a companheira de meu amigo. Digo isto, não para
-explicar escrupulos, mas unicamente para fazer comprehender o meu
-acanhamento. Viviam juntos desde alguns annos, um para o outro. X...
-tinha confiança em mim, confiança absoluta, communicava-me os seus
-negocios, contava-me cousas da vida passada. Apezar da desproporção da
-edade, eramos como estudantes do mesmo anno.
-
-Como entrasse a pensar mais constantemente em Maria, é provavel que por
-algum gesto lhe houvesse descoberto o meu recente estado; certo é que,
-um dia, ao apertar-lhe a mão, senti que os dedos della se demoravam
-mais entre os meus. Dous dias depois, indo ao correio, encontrei-a
-sellando uma carta para a Bahia. Ainda não disse que era bahiana? Era
-bahiana. Ella é que me viu primeiro e me falou. Ajudei-lhe a pôr o
-sello e despedimo-nos. Á porta ia a dizer alguma cousa, quando vi ante
-nós, parada, a figura de X...
-
---Vim trazer a carta para mamãe, apressou-se ella em dizer.
-
-Despediu-se de nós e foi para casa; elle e eu tomámos outro rumo. X...
-aproveitou a occasião para fazer muitos elogios de Maria. Sem entrar em
-minudencias ácerca da origem das relações, assegurou-me que fôra uma
-grande paixão egual em ambos, e concluiu que tinha a vida feita.
-
---Já agora não me caso; vivo maritalmente com ella, morrerei com ella.
-Tenho só uma pena; é ser obrigado a viver separado de minha mãe. Minha
-mãe sabe, disse-me elle parando. E continuou andando: sabe, e até já
-me fez uma allusão muito vaga e remota, mas que eu percebi. Consta-me
-que não desapprova; sabe que Maria é séria e boa, e uma vez que eu seja
-feliz, não exige mais nada. O casamento não me daria mais que isto....
-
-Disse muitas outras cousas, que eu fui ouvindo sem saber de mim; o
-coração batia-me rijo, e as pernas andavam frouxas. Não atinava com
-resposta idonea; alguma palavra que soltava, saia-me engasgada. Ao cabo
-de algum tempo, elle notou o meu estado e interpretou-o erradamente;
-suppoz que as suas confidencias me aborreciam, e disse-m'o rindo.
-Contestei serio;
-
---Ao contrario, ouço com interesse, e trata-se de pessoa de toda a
-consideração e respeito.
-
-Penso agora que cedia inconscientemente a uma necessidade de
-hypocrisia. A edade das paixões é confusa, e naquella situação não
-posso discernir bem os sentimentos e suas causas. Entretanto, não é
-fóra de proposito que buscasse dissipar no animo de X... qualquer
-possivel desconfiança. A verdade é que elle me ouviu agradecido.
-Os seus grandes olhos de creança envolveram-me todo, e quando nos
-despedimos, apertou-me a mão com energia. Creio até que lhe ouvi dizer:
-«Obrigado!»
-
-Não me separei delle atterrado, nem ferido de remorsos previos. A
-primeira impressão da confidencia esvaiu-se, ficou só a confidencia,
-e senti crescer-me o alvoroço da curiosidade. X... falára-me de Maria
-como de pessoa casta e conjugal; nenhuma allusão ás suas prendas
-physicas, mas a minha edade dispensava qualquer referencia directa.
-Agora, na rua, via de cór a figura da moça, os seus gestos egualmente
-languidos e robustos, e cada vez me sentia mais fóra de mim. Em casa
-escrevi-lhe uma carta longa e diffusa, que rasguei meia hora depois, e
-fui jantar. Sobre o jantar fui á casa de X...
-
-Eram ave-marias. Elle estava na cadeira de balanço, eu sentei-me no
-logar do costume, olho na sala, olho no morro. Maria appareceu tarde,
-depois das horas, e tão anojada que não tomou parte na conversação.
-Sentou-se e cochilou; depois tocou um pouco de piano e saiu da sala.
-
---Maria accordou hoje com a mania de colher donativos para a guerra,
-disse-me elle. Já lhe fiz notar que nem todos quererão parecer que...
-Você sabe... A posição della... Felizmente, a idéa ha de passar; tem
-dessas phantasias...
-
---E porque não?
-
---Ora, porque não! E depois, a guerra do Paraguay, não digo que
-não seja como todas as guerras, mas palavra, não me enthusiasma. A
-principio, sim, quando o Lopez tomou o _Marquez de Olinda_, fiquei
-indignado; logo depois perdi a impressão, e agora, francamente, acho
-que tinhamos feito muito melhor se nos alliassemos ao Lopez contra os
-argentinos.
-
---Eu não. Prefiro os argentinos.
-
---Tambem gosto delles, mas, no interesse da nossa gente, era melhor
-ficar com o Lopez.
-
---Não; olhe, eu estive quasi a alistar-me como voluntario da patria.
-
---Eu, nem que me fizessem coronel, não me alistava.
-
-Elle disse não sei que mais. Eu, como tinha a orelha afiada, á escuta
-dos pés de Maria, não respondi logo, nem claro, nem seguido; fui
-engrolando alguma palavra e sempre á escuta. Mas o diabo da moça não
-vinha; imaginei que estariam arrufados. Emfim, propuz cartas, podiamos
-jogar uma partida de voltarete.
-
---Podemos, disse elle.
-
-Passámos ao gabinete. X... poz as cartas na mesa e foi chamar a amiga.
-Dalli ouvi algumas phrases sussurradas, mas só estas me chegaram claras:
-
---Vem! é só meia hora.
-
---Que massada! Estou doente.
-
-Maria appareceu no gabinete, bocejando. Disse-me que era só meia
-hora; tinha dormido mal, doia-lhe a cabeça e contava deitar-se cedo.
-Sentou-se enfastiada, e começámos a partida. Eu arrependia-me de
-haver rasgado a carta; lembravam-me alguns trechos della, que diriam
-bem o meu estado, com o calor necessario a persuadil-a. Se a tenho
-conservado, entregava-lh'a agora; ella ia muita vez ao patamar da
-escada despedir-se de mim e fechar a cancella. Nessa occasião podia
-dar-lh'a; era uma solução da minha crise.
-
-Ao cabo de alguns minutos, X... levantou-se para ir buscar tabaco de
-uma caixa de folha de Flandres, posta sobre a secretaria. Maria fez
-então um gesto que não sei como diga nem pinte. Ergueu as cartas á
-altura dos olhos para os tapar, voltou-os para mim que lhe ficava á
-esquerda, e arregalou-os tanto e com tal fogo e attracção, que não sei
-como não entrei por elles. Tudo foi rapido. Quando elle voltou fazendo
-um cigarro, Maria tinha as cartas embaixo dos olhos, abertas em leque,
-fitando-as como se calculasse. Eu devia estar tremulo; não obstante,
-calculava tambem, com a differença de não poder falar. Ella disse então
-com placidez uma das palavras do jogo, _passo_ ou _licença_.
-
-Jogámos cerca de uma hora. Maria, para o fim, cochilava literalmente,
-e foi o proprio X... que lhe disse que era melhor ir descançar.
-Despedi-me e passei ao corredor, onde tinha o chapéo e a bengala.
-Maria, á porta da sala, esperava que eu saisse e acompanhou-me até á
-cancella, para fechal-a. Antes que eu descesse, lançou-me um dos braços
-ao pescoço, chegou-me a si, collou-me os labios nos labios, onde elles
-me depositaram um beijo grande, rapido e surdo. Na mão senti alguma
-cousa.
-
---Boa noite, disse Maria fechando a cancella.
-
-Não sei como não caí. Desci atordoado, com o beijo na boca, os olhos
-nos della, e a mão apertando instinctivamente um objecto. Cuidei de me
-pôr longe. Na primeira rua, corri a um lampião, para ver o que trazia.
-Era um cartão de loja de fazendas, um annuncio, com isto escripto nas
-costas, a lapis: «Espere-me amanhã, na ponte das barcas de Nietheroy, a
-uma hora da tarde.»
-
-O meu alvoroço foi tamanho que durante os primeiros minutos não
-soube absolutamente o que fiz. Em verdade, as emoções eram demasiado
-grandes e numerosas, e tão de perto seguidas que eu mal podia saber
-de mim. Andei até ao largo de S. Francisco de Paula. Tornei a ler o
-cartão; arrepiei caminho, novamente parei, e uma patrulha que estava
-perto, talvez desconfiou dos meus gestos. Felizmente, a despeito da
-commoção, tinha fome e fui cear ao Hotel dos Principes. Não dormi antes
-da madrugada; ás seis horas estava em pé. A manhã foi lenta como as
-agonias lentas. Dez minutos antes de uma hora cheguei á ponte; já lá
-achei Maria, envolvida n'uma capa, e com um veu azul no rosto. Ia sair
-uma barca, entrámos nella.
-
-O mar acolheu-nos bem. A hora era de poucos passageiros. Havia
-movimento de lanchas, de aves, e o ceu luminoso parecia cantar a nossa
-primeira entrevista. O que dissemos foi tão de atropello e confusão
-que não me ficou mais de meia duzia de palavras, e dellas nenhuma foi
-o nome de X... ou qualquer referencia a elle. Sentiamos ambos que
-trahiamos, eu o meu amigo, ella o seu amigo e protector. Mas, ainda
-que o não sentissemos, não é provavel que falassemos delle, tão pouco
-era o tempo para o nosso infinito. Maria appareceu-me então como nunca
-a vi nem suspeitára, falando de mim e de si, com a ternura possivel
-naquelle logar publico, mas toda a possivel, não menos. As nossas
-mãos collavam-se, os nossos olhos comiam-se, e os corações batiam
-provavelmente ao mesmo compasso rapido e rapido. Pelo menos foi a
-sensação com que me separei della, após a viagem redonda a Nictheroy e
-S. Domingos. Convidei-a a desembarcar em ambos os pontos, mas recusou;
-na volta, lembrei-lhe que nos mettessemos n'uma caleça fechada:
-«Que idéa faria de mim?» perguntou-me com um gesto de pudor que a
-transfigurou. E despedimo-nos com prazo dado, jurando-lhe que eu não
-deixaria de ir vel-os, á noite, como de costume.
-
-Como eu não tomei da penna para narrar a minha felicidade, deixo
-a parte deliciosa da aventura, com as suas entrevistas, cartas e
-palavras, e mais os sonhos e esperanças, as infinitas saudades e os
-renascentes desejos. Taes aventuras são como os almanaks, que, com
-todas as suas mudanças, hão de trazer os mesmos dias e mezes, com os
-seus eternos nomes e santos. O nosso almanak apenas durou um trimestre,
-sem quartos minguantes nem occasos de sol. Maria era um modelo de
-graças finas, toda vida, todo movimento. Era bahiana, como disse, fôra
-educada no Rio Grande do Sul, na campanha, perto da fronteira. Quando
-lhe falei do seu primeiro encontro com X... no Theatro Provisorio,
-dançando ao som de um pandeiro, disse-me que era verdade, fôra alli
-vestida á castelhana e de mascara; e, como eu lhe pedisse a mesma
-cousa, menos a mascara, ou um simples lundú nosso, respondeu-me como
-quem recusa um perigo:
-
---Você poderia ficar doudo.
-
---Mas X... não ficou doudo.
-
---Ainda hoje não está em seu juizo, replicou Maria rindo. Imagina que
-eu fazia isto só...
-
-E em pé, n'um meneio rapido, deu uma volta ao corpo, que me fez ferver
-o sangue.
-
-O trimestre acabou depressa, como os trimestres daquella casta. Maria
-faltou um dia á entrevista. Era tão pontual que fiquei tonto quando
-vi passar a hora. Cinco, dez, quinze minutos; depois vinte, depois
-trinta, depois quarenta... Não digo as vezes que andei de um lado
-para outro, na sala, no corredor, á espreita e á escuta, até que de
-todo passou a possibilidade de vir. Poupo a noticia do meu desespero,
-o tempo que rolei no chão, falando, gritando ou chorando. Quando
-cancei, escrevi-lhe uma longa carta; esperei que me escrevesse tambem,
-explicando a falta. Não mandei a carta, e á noite fui á casa delles.
-
-Maria poude explicar-me a falta pelo receio de ser vista e acompanhada
-por alguem que a perseguia desde algum tempo. Com effeito, havia-me
-já falado em não sei que vizinho que a cortejava com instancia; uma
-vez disse-me que elle a seguira até á porta da minha casa. Acreditei
-na razão, e propuz-lhe outro logar de encontro, mas não lhe pareceu
-conveniente. Desta vez achou melhor suspendermos as nossas entrevistas,
-até fazer calar as suspeitas. Não sairia de casa. Não comprehendi então
-que a principal verdade era ter cessado nella o ardor dos primeiros
-dias. Maria era outra, principalmente outra. E não pódes imaginar o que
-vinha a ser essa bella creatura, que tinha em si o fogo e o gelo, e era
-mais quente e mais fria que ninguem.
-
-Quando me entrou a convicção de que tudo estava acabado, resolvi não
-voltar lá, mas nem por isso perdia a esperança; era para mim questão de
-esforço. A imaginação, que torna presentes os dias passados, fazia-me
-crer facilmente na possibilidade de restaurar as primeiras semanas. Ao
-cabo de cinco dias, voltei: não podia viver sem ella.
-
-X... recebeu-me com o seu grande riso infante, os olhos puros, a mão
-forte e sincera; perguntou a razão da minha ausencia. Alleguei uma
-febresinha, e, para explicar o enfadamento que eu não podia vencer,
-disse que ainda me doia a cabeça. Maria comprehendeu tudo; nem por
-isso se mostrou meiga ou compassiva, e, á minha saida, não foi até ao
-corredor, como de costume.
-
-Tudo isto dobrou a minha angustia. A idéa de morrer entrou a passar-me
-pela cabeça; e, por uma symetria romantica, pensei em metter-me na
-barca de Nictheroy, que primeiro acolheu os nossos amores, e, no meio
-da bahia, atirar-me ao mar. Não iniciei tal plano nem outro. Tendo
-encontrado casualmente o meu amigo Barreto, não vacillei em lhe dizer
-tudo; precisava de alguem para falar commigo mesmo. No fim pedi-lhe
-segredo; devia pedir-lhe que especialmente não contasse nada a
-Raymunda. Nessa mesma noite ella soube tudo. Raymunda era um espirito
-aventureiro, amigo de entreprezas e novidades. Não se lhe dava, talvez,
-de mim nem da outra, mas viu naquillo um lance, uma occupação, e cuidou
-em reconciliar-nos; foi o que eu soube depois, e é o que dá logar a
-este papel.
-
-Falou-lhe uma e mais vezes. Maria quiz negar a principio, acabou
-confessando tudo, dizendo-se arrependida da cabeçada que déra. Usaria
-provavelmente de circumloquios e synonymos, phrases vagas e truncadas,
-alguma vez empregaria só gestos. O texto que ahi fica é o da propria
-Raymunda, que me mandou chamar á casa della e me referiu todos os seus
-esforços, contente de si mesma.
-
---Mas não perca as esperanças, concluiu; eu disse-lhe que o senhor era
-capaz de matar-se.
-
---E sou.
-
---Pois não se mate por ora; espere.
-
-No dia seguinte vi nos jornaes uma lista de cidadãos que, na vespera,
-tinham ido ao quartel-general apresentar-se como voluntarios da patria,
-e nella o nome de X..., com o posto de capitão. Não acreditei logo;
-mas eram os mesmos, na mesma ordem, e uma das folhas fazia referencias
-á familia de X..., ao pae, que fôra official de marinha, e á figura
-esbelta e varonil do novo capitão; era elle mesmo.
-
-A minha primeira impressão foi de prazer; iamos ficar sós. Ella não
-iria de vivandeira para o Sul. Depois, lembrou-me o que elle me disse
-ácerca da guerra, e achei extranho o seu alistamento de voluntario,
-ainda que o amor dos actos generosos e a nota cavalheiresca do espirito
-de X... pudessem explical-o. Nem de coronel iria, disse-me, e agora
-acceitava o posto de capitão. Emfim, Maria; como é que elle, que tanto
-lhe queria, ia separar-se della repentinamente, sem paixão forte que o
-levasse á guerra?
-
-Havia tres semanas que eu não ia á casa delles. A noticia do
-alistamento justificava a minha visita immediata e dispensava-me de
-explicações. Almocei e fui. Compuz um rosto ajustado á situação e
-entrei. X... veiu á sala, depois de alguns minutos de espera. A cara
-desdizia das palavras; estas queriam ser alegres e leves, aquella era
-fechada e torva, além de pallida. Estendeu-me a mão, dizendo:
-
---Então, vem ver o capitão de voluntarios?
-
---Venho ouvir o desmentido.
-
---Que desmentido? É pura verdade. Não sei como isto foi, creio que as
-ultimas noticias... Você porque não vem commigo?
-
---Mas então é verdade?
-
---É
-
-Após alguns instantes de silencio, meio sincero, por não saber
-realmente que dissesse, meio calculado, para persuadil-o da minha
-consternação, murmurei que era melhor não ir, e falei-lhe na mãe. X...
-respondeu-me que a mãe approvava; era viuva de militar. Fazia esforços
-para sorrir, mas a cara continuava a ser de pedra. Os olhos buscavam
-desviar-se, e geralmente não fitavam bem nem longo. Não conversámos
-muito; elle ergueu-se, allegando que ia liquidar um negocio, e pediu-me
-que voltasse a vel-o. Á porta, disse-me com algum esforço:
-
---Venha jantar um dia destes, antes da minha partida.
-
---Sim.
-
---Olhe, venha jantar amanhã.
-
---Amanhã?
-
---Ou hoje, se quizer.
-
---Amanhã.
-
-Quiz deixar lembranças a Maria; era natural e necessario, mas faltou-me
-o animo. Embaixo arrependi-me de o não ter feito. Recapitulei a
-conversação, achei-me atado e incerto; elle pareceu-me, além de frio,
-sobranceiro. Vagamente, senti alguma cousa mais. O seu aperto de mão
-tanto á entrada, como á saida, não me déra a sensação do costume.
-
-Na noite desse dia, Barreto veiu ter commigo, atordoado com a noticia
-da manhã, e perguntando-me o que sabia; disse-lhe que nada. Contei-lhe
-a minha visita da manhã, a nossa conversação, sem as minhas suspeitas.
-
---Póde ser engano, disse elle, depois de um instante.
-
---Engano?
-
---Raymunda contou-me hoje que falára a Maria, que esta negára tudo a
-principio, depois confessára, e recusára reatar as relações com você.
-
---Já sei.
-
---Sim, mas parece que da terceira vez foram presentidas e ouvidas por
-elle, que estava na saleta ao pé. Maria correu a contar a Raymunda que
-elle mudára inteiramente; esta dispoz-se a sondal-o, eu oppuz-me, até
-que li a noticia nos jornaes. Vi-o na rua, andando: não tinha aquelle
-gesto sereno de costume, mas o passo era forte.
-
-Fiquei aturdido com a noticia, que confirmava a minha impressão. Nem
-por isso deixei de ir lá jantar no dia seguinte. Barreto quiz ir
-tambem; percebi que era com o fim unico de estar commigo, e recusei.
-
-X... não dissera nada a Maria; achei-os na sala, e não me lembro de
-outra situação na vida em que me sentisse mais extranho a mim mesmo.
-Apertei-lhes a mão, sem olhar para ella. Creio que ella tambem desviou
-os olhos. Elle é que, com certeza, não nos observou; riscava um
-phosphoro e accendia um cigarro. Ao jantar falou o mais naturalmente
-que poude, ainda que frio. O rosto exprimia maior esforço que na
-vespera. Para explicar a possivel alteração, disse-me que embarcaria
-no fim da semana, e que, á proporção que a hora ia chegando, sentia
-difficuldade em sair.
-
---Mas é só até fóra da barra; lá fóra torno a ser o que sou, e, na
-campanha, serei o que devo ser.
-
-Usava dessas palavras rigidas, alguma vez emphaticas. Notei que Maria
-trazia os olhos pisados; soube depois que chorára muito e tivera grande
-luta com elle, na vespera, para que não embarcasse. Só conhecêra a
-resolução pelos jornaes, prova de alguma cousa mais particular que o
-patriotismo. Não falou á mesa, e a dôr podia explicar o silencio, sem
-nenhuma outra causa de constrangimento pessoal. Ao contrario, X...
-procurava falar muito, contava os batalhões, os officiaes novos, as
-probabilidades de victoria, e referia anecdotas e boatos, sem curar
-de ligação. Ás vezes, queria rir; para o fim, disse que naturalmente
-voltaria general, mas ficou tão carrancudo depois deste gracejo, que
-não tentou outro. O jantar acabou frio; fumámos, elle ainda quiz falar
-da guerra, mas o assumpto estava exhausto. Antes de sair, convidei-o a
-ir jantar commigo.
-
---Não posso; todos os meus dias estão tomados.
-
---Venha almoçar.
-
---Tambem não posso. Faço uma cousa; na volta do Paraguay, o terceiro
-dia é seu.
-
-Creio ainda hoje que o fim desta ultima phrase era indicar que os dous
-primeiros dias seriam da mãe e de Maria; assim, qualquer suspeita que
-eu tivesse dos motivos secretos da resolução, devia dissipar-se. Nem
-bastou isso; disse-me que escolhesse uma prenda em lembrança, um livro,
-por exemplo. Preferi o seu ultimo retrato, photographado a pedido da
-mãe, com a farda de capitão de voluntarios. Por dissimulação, quiz que
-assignasse; elle promptamente escreveu: «Ao seu leal amigo Simão de
-Castro offerece o capitão de voluntarios da patria X...» O marmore do
-rosto era mais duro, o olhar mais torvo; passou os dedos pelo bigode,
-com um gesto convulso, e despedimo-nos.
-
-No sabbado embarcou. Deixou a Maria os recursos necessarios para viver
-aqui, na Bahia, ou no Rio Grande do Sul; ella preferiu o Rio Grande,
-e partiu para lá, trez semanas depois, a esperar que elle voltasse
-da guerra. Não a pude ver antes; fechára-me a porta, como já me havia
-fechado o rosto e o coração.
-
-Antes de um anno, soube-se que elle morrêra em combate, no qual se
-houve com mais denodo que pericia. Ouvi contar que primeiro perdêra um
-braço, e que provavelmente a vergonha de ficar aleijado o fez atirar-se
-contra as armas inimigas, como quem queria acabar de vez. Esta versão
-podia ser exacta, porque elle tinha desvanecimento das bellas fórmas;
-mas a causa foi complexa. Tambem me contaram que Maria, voltando do Rio
-Grande, morreu em Curytiba; outros dizem que foi acabar em Montevidéo.
-A filha não passou dos quinze annos.
-
-Eu cá fiquei entre os meus remorsos e saudades; depois, só remorsos;
-agora admiração apenas, uma admiração particular, que não é grande
-senão por me fazer sentir pequeno. Sim, eu não era capaz de praticar o
-que elle praticou. Nem effectivamente conheci ninguem que se parecesse
-com X... E porque teimar nesta letra? Chamemol-o pelo nome que lhe
-deram na pia, Emilio, o meigo, o forte, o simples Emilio.
-
-
-
-
-Suje-se gordo!
-
-
-Uma noite, ha muitos annos, passeava eu com um amigo no terraço do
-theatro de S. Pedro de Alcantara. Era entre o segundo e o terceiro acto
-da peça _A sentença ou o tribunal do jury_. Só me ficou o titulo, e foi
-justamente o titulo que nos levou a falar da instituição e de um facto
-que nunca mais me esqueceu.
-
-Fui sempre contrario ao jury,--disse-me aquelle amigo,--não pela
-instituição em si, que é liberal, mas porque me repugna condemnar
-alguem, e por aquelle preceito do Evangelho: «Não queiraes julgar para
-que não sejais julgados.» Não obstante, servi duas vezes. O tribunal
-era então no antigo Aljube, fim da rua dos Ourives, principio da
-ladeira da Conceição.
-
-Tal era o meu escrupulo que, salvo dous, absolvi todos os réos. Com
-effeito, os crimes não me pareceram provados; um ou dous processos
-eram muito mal feitos. O primeiro réo que condemnei, era um moço
-limpo, accusado de haver furtado certa quantia, não grande, antes
-pequena, com falsificação de um papel. Não negou o facto, nem podia
-fazel-o, contestou que lhe coubesse a iniciativa ou inspiração do
-crime. Alguem, que não citava, foi que lhe lembrou esse modo de acudir
-a uma necessidade urgente; mas Deus, que via os corações, daria ao
-criminoso verdadeiro o merecido castigo. Disse isso sem emphase,
-triste, a palavra surda, os olhos mortos, com tal pallidez que mettia
-pena; o promotor publico achou nessa mesma côr do gesto a confissão do
-crime. Ao contrario, o defensor mostrou que o abatimento e a pallidez
-significavam a lastima da innocencia calumniada.
-
-Poucas vezes terei assistido a debate tão brilhante. O discurso do
-promotor foi curto, mas forte, indignado, com um tom que parecia odio,
-e não era. A defeza, além do talento do advogado, tinha a circumstancia
-de ser a estréa delle na tribuna. Parentes, collegas e amigos esperavam
-o primeiro discurso do rapaz, e não perderam na espera. O discurso foi
-admiravel, e teria salvo o réo, se elle pudesse ser salvo, mas o crime
-mettia-se pelos olhos dentro. O advogado morreu dous annos depois, em
-1865. Quem sabe o que se perdeu nelle! Eu, acredite, quando vejo morrer
-um moço de talento, sinto mais que quando morre um velho... Mas vamos
-ao que ia contando. Houve réplica do promotor e tréplica do defensor. O
-presidente do tribunal resumiu os debates, e, lidos os quesitos, foram
-entregues ao presidente do conselho, que era eu.
-
-Não digo o que se passou na sala secreta; além de ser secreto o que lá
-se passou, não interessa ao caso particular, que era melhor ficasse
-tambem calado, confesso. Contarei depressa; o terceiro acto não tarda.
-
-Um dos jurados do conselho, cheio de corpo e ruivo, parecia mais
-que ninguem convencido do delicto e do delinquente. O processo foi
-examinado, os quesitos lidos, e as respostas dadas (onze votos
-contra um); só o jurado ruivo estava inquieto. No fim, como os votos
-assegurassem a condemnação, ficou satisfeito, disse que seria um acto
-de fraqueza, ou cousa peior, a absolvição que lhe déssemos. Um dos
-jurados, certamente o que votára pela negativa,--proferiu algumas
-palavras de defeza do moço. O ruivo,--chamava-se Lopes,--replicou com
-aborrecimento:
-
---Como, senhor? Mas o crime do réo está mais que provado.
-
---Deixemos de debate, disse eu, e todos concordaram commigo.
-
---Não estou debatendo, estou defendendo o meu voto, continuou Lopes. O
-crime está mais que provado. O sujeito nega, porque todo o réo nega,
-mas o certo é que elle commetteu a falsidade, e que falsidade! Tudo por
-uma miseria, duzentos mil reis! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se
-gordo!
-
-«Suje-se gordo!» Confesso-lhe que fiquei de boca aberta, não que
-entendesse a phrase, ao contrario; nem a entendi nem a achei limpa, e
-foi por isso mesmo que fiquei de boca aberta. Afinal caminhei e bati á
-porta, abriram-nos, fui á mesa do juiz, dei as respostas do conselho
-e o réu saiu condemnado. O advogado appellou; se a sentença foi
-confirmada ou a appellação acceita, não sei; perdi o negocio de vista.
-
-Quando sai do tribunal, vim pensando na phrase do Lopes, e pareceu-me
-entendel-a. «Suje-se gordo!» era como se dissesse que o condemnado
-era mais que ladrão, era um ladrão reles, um ladrão de nada. Achei
-esta explicação na esquina da rua de S. Pedro; vinha ainda pela dos
-Ourives. Cheguei a desandar um pouco, a ver se descobria o Lopes para
-lhe apertar a mão; nem sombra de Lopes. No dia seguinte, lendo nos
-jornaes os nossos nomes, dei com o nome todo delle; não valia a pena
-procural-o, nem me ficou de cór. Assim são as paginas da vida, como
-dizia meu filho quando fazia versos, e accrescentava que as paginas vão
-passando umas sobre outras, esquecidas apenas lidas. Rimava assim, mas
-não me lembra a fórma dos versos.
-
-Em prosa disse-me elle, muito tempo depois, que eu não devia faltar
-ao jury, para o qual acabava de ser designado. Respondi-lhe que não
-compareceria, e citei o preceito evangelico; elle teimou, dizendo ser
-um dever de cidadão, um serviço gratuito, que ninguem que se prezasse
-podia negar ao seu paiz. Fui e julguei tres processos.
-
-Um destes era de um empregado do Banco do Trabalho Honrado, o caixa,
-accusado de um desvio de dinheiro. Ouvira falar no caso, que os jornaes
-deram sem grande minucia, e aliás eu lia pouco as noticias de crimes.
-O accusado appareceu e foi sentar-se no famoso banco dos réos. Era um
-homem magro e ruivo. Fitei-o bem, e estremeci; pareceu-me ver o meu
-collega daquelle julgamento de annos antes. Não poderia reconhecel-o
-logo por estar agora magro, mas era a mesma côr dos cabellos e das
-barbas, o mesmo ar, e por fim a mesma voz e o mesmo nome: Lopes.
-
---Como se chama? perguntou o presidente.
-
---Antonio do Carmo Ribeiro Lopes.
-
-Já me não lembravam os tres primeiros nomes, o quarto era o mesmo, e
-os outros signaes vieram confirmando as reminiscencias; não me tardou
-reconhecer a pessoa exacta daquelle dia remoto. Digo-lhe aqui com
-verdade que todas essas circumstancias me impediram de acompanhar
-attentamente o interrogatorio, e muitas cousas me escaparam. Quando me
-dispuz a ouvil-o bem, estava quasi no fim. Lopes negava com firmeza
-tudo o que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma
-complicação ao processo. Circulava os olhos sem medo nem anciedade; não
-sei até se com uma pontinha de riso nos cantos da boca.
-
-Seguiu-se a leitura do processo. Era uma falsidade e um desvio de cento
-e dez contos de reis. Não lhe digo como se descobriu o crime nem o
-criminoso, por já ser tarde; a orchestra está afinando os instrumentos.
-O que lhe digo com certeza é que a leitura dos autos me impressionou
-muito, o inquerito, os documentos, a tentativa de fuga do caixa e
-uma serie de circumstancias aggravantes; por fim o depoimento das
-testemunhas. Eu ouvia ler ou falar e olhava para o Lopes. Tambem elle
-ouvia, mas com o rosto alto, mirando o escrivão, o presidente, o tecto
-e as pessoas que o iam julgar; entre ellas eu. Quando olhou para mim,
-não me reconheceu; fitou-me algum tempo e sorriu, como fazia aos outros.
-
-Todos esses gestos do homem serviram á accusação e á defeza, tal como
-serviram, tempos antes, os gestos contrarios do outro accusado. O
-promotor achou nelles a revelação clara do cynismo, o advogado mostrou
-que só a innocencia e a certeza da absolvição podiam trazer aquella paz
-de espirito.
-
-Emquanto os dous oradores falavam, vim pensando na fatalidade de estar
-alli, no mesmo banco do outro, este homem que votára a condemnação
-delle, e naturalmente repeti commigo o texto evangelico: «Não queiraes
-julgar, para que não sejaes julgados.» Confesso-lhe que mais de uma
-vez me senti frio. Não é que eu mesmo viesse a commetter algum desvio
-de dinheiro, mas podia, em occasião de raiva, matar alguem ou ser
-calumniado de desfalque. Aquelle que julgava outr'ora, era agora
-julgado tambem.
-
-Ao pé da palavra biblica lembrou-me de repente a do mesmo Lopes:
-«Suje-se gordo!» Não imagina o sacudimento que me deu esta lembrança.
-Evoquei tudo o que contei agora, o discursinho que lhe ouvi na sala
-secreta, até áquellas palavras: «Suje-se gordo!» Vi que não era um
-ladrão réles, um ladrão de nada, sim de grande valor. O verbo é que
-definia duramente a acção: «Suje-se gordo!» Queria dizer que o homem
-não se devia levar a um acto daquella especie sem a grossura da somma.
-A ninguem cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se
-gordo!
-
-Idéas e palavras iam assim rolando na minha cabeça, sem eu dar pelo
-resumo dos debates que o presidente do tribunal fazia. Tinha acabado,
-leu os quesitos e recolhemo-nos á sala secreta. Posso dizer-lhe aqui em
-particular que votei affirmativamente, tão certo me pareceu o desvio
-dos cento e dez contos. Havia, entre outros documentos, uma carta de
-Lopes que fazia evidente o crime. Mas parece que nem todos leram com
-os mesmos olhos que eu. Votaram commigo dous jurados. Nove negaram a
-criminalidade do Lopes, a sentença de absolvição foi lavrada e lida,
-e o accusado saiu para a rua. A differença da votação era tamanha que
-cheguei a duvidar commigo se teria acertado. Podia ser que não. Agora
-mesmo sinto uns repellões de consciencia. Felizmente, se o Lopes não
-commetteu devéras o crime, não recebeu a pena do meu voto, e esta
-consideração acaba por me consolar do erro, mas os repellões voltam. O
-melhor de tudo é não julgar ninguem para não vir a ser julgado. Suje-se
-gordo! suje-se magro! suje-se como lhe parecer! o mais seguro é não
-julgar ninguem... Acabou a musica, vamos para as nossas cadeiras.
-
-
-
-
-Umas férias
-
-
-Vieram dizer ao mestre-escola que alguem lhe queria falar.
-
---Quem é?
-
---Diz que meu senhor não o conhece, respondeu o preto.
-
---Que entre.
-
-Houve um movimento geral de cabeças na direcção da porta do corredor,
-por onde devia entrar a pessoa desconhecida. Eramos não sei quantos
-meninos na escola. Não tardou que apparecesse uma figura rude, tez
-queimada, cabellos compridos, sem signal de pente, a roupa amarrotada,
-não me lembra bem a côr nem a fazenda, mas provavelmente era brim
-pardo. Todos ficaram esperando o que vinha dizer o homem, eu mais
-que ninguem, porque elle era meu tio, roceiro, morador em Guaratiba.
-Chamava-se tio Zéca.
-
-Tio Zéca foi ao mestre e falou-lhe baixo. O mestre fêl-o sentar, olhou
-para mim, e creio que lhe perguntou alguma cousa, porque tio Zéca
-entrou a falar demorado, muito explicativo. O mestre insistiu, elle
-respondeu, até que o mestre, voltando-se para mim, disse alto:
-
---Sr. José Martins, póde sair.
-
-A minha sensação de prazer foi tal que venceu a de espanto. Tinha dez
-annos apenas, gostava de folgar, não gostava de aprender. Um chamado
-de casa, o proprio tio, irmão de meu pae, que chegára na vespera de
-Guaratiba, era naturalmente alguma festa, passeio, qualquer cousa.
-Corri a buscar o chapéo, metti o livro de leitura no bolso e desci
-as escadas da escola, um sobradinho da rua do Senado. No corredor
-beijei a mão a tio Zéca. Na rua fui andando ao pé delle, amiudando os
-passos, e levantando a cara. Elle não me dizia nada, eu não me atrevia
-a nenhuma pergunta. Pouco depois chegavamos ao collegio de minha irmã
-Felicia; disse-me que esperasse, entrou, subiu, desceram, e fomos os
-tres caminho de casa. A minha alegria agora era maior. Certamente havia
-festa em casa, pois que iamos os dous, ella e eu; iamos na frente,
-trocando as nossas perguntas e conjecturas. Talvez annos de tio Zéca.
-Voltei a cara para elle; vinha com os olhos no chão, provavelmente para
-não cair.
-
-Fomos andando. Felicia era mais velha que eu um anno. Calçava sapato
-raso, atado ao peito do pé por duas fitas cruzadas, vindo acabar acima
-do tornozello com laço. Eu, botins de cordavão, já gastos. As calcinhas
-della pegavam com a fita dos sapatos, as minhas calças, largas, caíam
-sobre o peito do pé; eram de chita. Uma ou outra vez paravamos, ella
-para admirar as bonecas á porta dos armarinhos, eu para ver, á porta
-das vendas, algum papagaio que descia e subia pela corrente de ferro
-atada ao pé. Geralmente, era meu conhecido, mas papagaio não cança
-em tal edade. Tio Zéca é que nos tirava do espectaculo industrial ou
-natural. Andem, dizia elle em voz sumida. E nós andavamos, até que
-outra curiosidade nos fazia deter o passo. Entretanto, o principal era
-a festa que nos esperava em casa.
-
---Não creio que sejam annos de tio Zéca, disse-me Felicia.
-
---Porqué?
-
---Parece meio triste.
-
---Triste, não, parece carrancudo.
-
---Ou carrancudo. Quem faz annos tem a cara alegre.
-
---Então serão annos de meu padrinho...
-
---Ou de minha madrinha...
-
---Mas porque é que mamãe nos mandou para a escola?
-
---Talvez não soubesse.
-
---Ha de haver jantar grande...
-
---Com doce...
-
---Talvez dancemos.
-
-Fizemos um accordo: podia ser festa, sem anniversario de ninguem. A
-sorte grande, por exemplo. Occorreu-me tambem que podiam ser eleições.
-Meu padrinho era candidato a vereador; embora eu não soubesse bem o que
-era candidatura nem vereação, tanto ouvira falar em victoria proxima
-que a achei certa e ganha. Não sabia que a eleição era ao domingo, e o
-dia era sexta-feira. Imaginei bandas de musica, vivas e palmas, e nós,
-meninos, pulando, rindo, comendo cocadas. Talvez houvesse espectaculo
-á noite; fiquei meio tonto. Tinha ido uma vez ao theatro, e voltei
-dormindo, mas no dia seguinte estava tão contente que morria por lá
-tornar, posto não houvesse entendido nada do que ouvira. Vira muita
-cousa, isso sim, cadeiras ricas, thronos, lanças compridas, scenas que
-mudavam á vista, passando de uma sala a um bosque, e do bosque a uma
-rua. Depois, os personagens, todos principes. Era assim que chamavamos
-aos que vestiam calção de seda, sapato de fivella ou botas, espada,
-capa de velludo, gorra com pluma. Tambem houve bailado. As bailarinas
-e os bailarinos falavam com os pés e as mãos, trocando de posição e um
-sorriso constante na boca. Depois os gritos do publico e as palmas...
-
-Já duas vezes escrevi palmas; é que as conhecia bem. Felicia, a quem
-communiquei a possibilidade do espectaculo, não me pareceu gostar
-muito, mas tambem não recusou nada. Iria ao theatro. E quem sabe se não
-seria em casa, theatrinho de bonecos? Iamos nessas conjecturas, quando
-tio Zéca nos disse que esperassemos; tinha parado a conversar com um
-sujeito.
-
-Parámos, á espera. A idéa da festa, qualquer que fosse, continuou a
-agitar-nos, mais a mim que a ella. Imaginei trinta mil cousas, sem
-acabar nenhuma, tão precipitadas vinham, e tão confusas que não as
-distinguia; póde ser até que se repetissem. Felicia chamou a minha
-attenção para dous moleques de carapuça encarnada, que passavam
-carregando cannas,--o que nos lembrou as noites de Santo Antonio e
-S. João, já lá idas. Então falei-lhe das fogueiras do nosso quintal,
-das bichas que queimámos, das rodinhas, das pistolas e das danças com
-outros meninos. Se houvesse agora a mesma cousa... Ah! lembrou-me que
-era occasião de deitar á fogueira o livro da escola, e o della tambem,
-com os pontos de costura que estava aprendendo.
-
---Isso não, acudiu Felicia.
-
---Eu queimava o meu livro.
-
---Papae comprava outro.
-
---Emquanto comprasse, eu ficava brincando em casa; aprender é muito
-aborrecido.
-
-Nisto estavamos, quando vimos tio Zéca e o desconhecido ao pé de nós.
-O desconhecido pegou-nos nos queixos e levantou-nos a cara para elle,
-fitou-nos com seriedade, deixou-nos e despediu-se.
-
---Nove horas? Lá estarei, disse elle.
-
---Vamos, disse-nos tio Zéca.
-
-Quiz perguntar-lhe quem era aquelle homem, e até me pareceu conhecel-o
-vagamente. Felicia tambem. Nenhum de nós acertava com a pessoa; mas
-a promessa de lá estar ás nove horas dominou o resto. Era festa,
-algum baile, comquanto ás nove horas costumassemos ir para a cama.
-Naturalmente, por excepção, estariamos accordados. Como chegassemos
-a um rego de lama, peguei da mão de Felicia, e transpuzemol-o de um
-salto, tão violento que quasi me caiu o livro. Olhei para tio Zéca, a
-ver o effeito do gesto; viu-o abanar a cabeça com reprovação. Ri, ella
-sorriu, e fomos pela calçada adeante.
-
-Era o dia dos desconhecidos. Desta vez estavam em burros, e um dos dous
-era mulher. Vinham da roça. Tio Zéca foi ter com elles ao meio da rua,
-depois de dizer que esperassemos. Os animaes pararam, creio que de si
-mesmos, por tambem conhecerem a tio Zéca, idéa que Felicia reprovou
-com o gesto, e que eu defendi rindo. Teria apenas meia convicção;
-tudo era folgar. Fosse como fosse, esperámos os dous, examinando o
-casal de roceiros. Eram ambos magros, a mulher mais que o marido, e
-tambem mais moça; elle tinha os cabellos grisalhos. Não ouvimos o que
-disseram, elle e tio Zéca; vimol-o, sim, o marido olhar para nós com
-ar de curiosidade, e falar á mulher, que tambem nos deitou os olhos,
-agora com pena ou cousa parecida. Emfim apartaram-se, tio Zéca veiu ter
-comnosco e enfiámos para casa.
-
-A casa ficava na rua proxima, perto da esquina. Ao dobrarmos esta,
-vimos os portaes da casa forrados de preto,--o que nos encheu de
-espanto. Instinctivamente parámos e voltámos a cabeça para tio Zéca.
-Este veiu a nós, deu a mão a cada um e ia a dizer alguma palavra que
-lhe ficou na garganta; andou, levando-nos comsigo. Quando chegámos,
-as portas estavam meio cerradas. Não sei se lhes disse que era um
-armarinho. Na rua, curiosos. Nas janellas fronteiras e lateraes,
-cabeças agglomeradas. Houve certo reboliço quando chegámos. É natural
-que eu tivesse a boca aberta, como Felicia. Tio Zéca empurrou uma das
-meias portas, entrámos os tres, elle tornou a cerral-a, metteu-se pelo
-corredor e fomos á sala de jantar e á alcova.
-
-Dentro, ao pé da cama, estava minha mãe com a cabeça entre as mãos.
-Sabendo da nossa chegada, ergueu-se de salto, veiu abraçar-nos entre
-lagrimas, bradando:
-
---Meus filhos, vosso pae morreu!
-
-A commoção foi grande, por mais que o confuso e o vago entorpecessem
-a consciencia da noticia. Não tive forças para andar, e teria medo de
-o fazer. Morto como? morto porque? Estas duas perguntas, se as metto
-aqui, é para dar seguimento á acção; naquelle momento não perguntei
-nada a mim nem a ninguem. Ouvia as palavras de minha mãe, que se
-repetiam em mim, e os seus soluços que eram grandes. Ella pegou em nós
-e arrastou-nos para a cama, onde jazia o cadaver do marido; e fez-nos
-beijar-lhe a mão. Tão longe estava eu daquillo que, apezar de tudo,
-não entendêra nada a principio; a tristeza e o silencio das pessoas que
-rodeavam a cama, ajudaram a explicar que meu pae morrêra devéras. Não
-se tratava de um dia santo, com a sua folga e recreio, não era festa,
-não eram as horas breves ou longas, para a gente desfiar em casa,
-arredada dos castigos da escola. Que essa queda de um sonho tão bonito
-fizesse crescer a minha dôr de filho não é cousa que possa affirmar
-ou negar; melhor é calar. O pae alli estava defunto, sem pulos,
-nem danças, nem risadas, nem bandas de musica, cousas todas tambem
-defuntas. Se me houvessem dito á saida da escola porque é que me iam lá
-buscar, é claro que a alegria não houvera penetrado o coração, donde
-era agora expellida a punhadas.
-
-O enterro foi no dia seguinte ás nove horas da manhã, e provavelmente
-lá estava aquelle amigo de tio Zeca que se despediu na rua, com a
-promessa de ir ás nove horas. Não vi as cerimonias; alguns vultos,
-poucos, vestidos de preto, lembra-me que vi. Meu padrinho, dono de um
-trapiche, lá estava, e a mulher tambem, que me levou a uma alcova dos
-fundos para me mostrar gravuras. Na occasião da saida, ouvi os gritos
-de minha mãe, o rumor dos passos, algumas palavras abafadas de pessoas
-que pegavam nas alças do caixão, creio eu: «--vire de lado,--mais á
-esquerda,--assim,--segure bem...» Depois, ao longe, o coche andando e
-as seges atraz delle...
-
-Lá iam meu pae e as férias! Um dia de folga sem folguedo! Não, não
-foi um dia, mas oito, oito dias de nojo, durante os quaes alguma vez
-me lembrei do collegio. Minha mãe chorava, cosendo o luto, entre duas
-visitas de pesames. Eu tambem chorava; não via meu pae ás horas do
-costume, não lhe ouvia as palavras á mesa ou ao balcão, nem as caricias
-que dizia aos passaros. Que elle era muito amigo de passaros, e tinha
-tres ou quatro, em gaiolas. Minha mãe vivia calada. Quasi que só falava
-ás pessoas de fóra. Foi assim que eu soube que meu pae morrêra de
-apoplexia. Ouvi esta noticia muitas vezes; as visitas perguntavam pela
-causa da morte, e ella referia tudo, a hora, o gesto, a occasião: tinha
-ido beber agua, e enchia um copo, á janella da área. Tudo decorei, á
-força de ouvil-o contar.
-
-Nem por isso os meninos do collegio deixavam de vir espiar para dentro
-da minha memoria. Um delles chegou a perguntar-me quando é que eu
-voltaria.
-
---Sabbado, meu filho, disse minha mãe, quando lhe repeti a pergunta
-imaginada; a missa é sexta-feira. Talvez seja melhor voltar na segunda.
-
---Antes sabbado, emendei.
-
---Pois sim, concordou.
-
-Não sorria; se pudesse, sorriria de gosto ao ver que eu queria voltar
-mais cedo á escola. Mas, sabendo que eu não gostava de aprender, como
-entenderia a emenda? Provavelmente, deu-lhe algum sentido superior,
-conselho do ceu ou do marido. Em verdade, eu não folgava, se lerdes
-isto com o sentido de rir. Com o de descançar tambem não cabe, porque
-minha mãe fazia-me estudar, e, tanto como o estudo, aborrecia-me a
-attitude. Obrigado a estar sentado, com o livro nas mãos, a um canto ou
-á mesa, dava ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava um recurso que
-recommendo aos preguiçosos: deixava os olhos na pagina e abria a porta
-á imaginação. Corria a apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os
-realejos, a bailar com meninas, a cantar, a rir, a espancar de mentira
-ou de brincadeira, como fôr mais claro.
-
-Uma vez, como désse por mim a andar na sala sem ler, minha mãe
-reprehendeu-me, e eu respondi que estava pensando em meu pae. A
-explicação fel-a chorar, e, para dizer tudo, não era totalmente
-mentira; tinha-me lembrado o ultimo presentinho que elle me déra, e
-entrei a vel-o com o mimo na mão.
-
-Felicia vivia tão triste como eu, mas confesso a minha verdade, a
-causa principal não era a mesma. Gostava de brincar, mas não sentia
-a ausencia do brinco, não se lhe dava de acompanhar a mãe, coser com
-ella, e uma vez fui achal-a a enxugar-lhe os olhos. Meio vexado, pensei
-em imital-a, e metti a mão no bolso para tirar o lenço. A mão entrou
-sem ternura, e, não achando lenço, saiu sem pesar. Creio que ao gesto
-não faltava só originalidade, mas sinceridade tambem.
-
-Não me censurem. Sincero fui longos dias calados e reclusos. Quiz
-uma vez ir para o armarinho, que se abriu depois do enterro, onde o
-caixeiro continuou a servir. Conversaria com este, assistiria á venda
-de linhas e agulhas, á medição de fitas, iria á porta, á calçada, á
-esquina da rua... Minha mãe suffocou este sonho pouco depois delle
-nascer. Mal chegára ao balcão, mandou-me buscar pela escrava; lá fui
-para o interior da casa e para o estudo. Arrepelei-me, apertei os dedos
-á guiza de quem quer dar murro; não me lembra se chorei de raiva.
-
-O livro lembrou-me a escola, e a imagem da escola consolou-me. Já então
-lhe tinha grandes saudades. Via de longe as caras dos meninos, os
-nossos gestos de troça nos bancos, e os saltos á saida. Senti cair-me
-na cara uma daquellas bolinhas de papel com que nos espertavamos
-uns aos outros, e fiz a minha e atirei-a ao meu supposto espertador.
-A bolinha, como acontecia ás vezes, foi cair na cabeça de terceiro,
-que se desforrou depressa. Alguns, mais timidos, limitavam-se a fazer
-caretas. Não era folguedo franco, mas já me valia por elle. Aquelle
-degredo que eu deixei tão alegremente com tio Zeca, parecia-me agora
-um céo remoto, e tinha medo de o perder. Nenhuma festa em casa, poucas
-palavras, raro movimento. Foi por esse tempo que eu desenhei a lapis
-maior numero de gatos nas margens do livro de leitura; gatos e porcos.
-Não alegrava, mas distrahia.
-
-A missa do setimo dia restituiu-me á rua; no sabbado não fui á escola,
-fui á casa de meu padrinho, onde pude falar um pouco mais, e no domingo
-estive á porta da loja. Não era alegria completa. A total alegria
-foi segunda-feira, na escola. Entrei vestido de preto, fui mirado
-com curiosidade, mas tão outro ao pé dos meus condiscipulos, que me
-esqueceram as férias sem gosto, e achei uma grande alegria sem férias.
-
-
-
-
-Evolução
-
-
-Chamo-me Ignacio; elle, Benedicto. Não digo o resto dos nossos nomes
-por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará.
-Ignacio basta. Contentem-se com Benedicto. Não é muito, mas é alguma
-cousa, e está com a philosophia de Julieta: «Que valem nomes?
-perguntava ella ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, terá
-sempre o mesmo cheiro.» Vamos ao cheiro do Benedicto.
-
-E desde logo assentemos que elle era o menos Romeo d'este mundo. Tinha
-quarenta e cinco annos, quando o conheci; não declaro em que tempo,
-porque tudo n'este conto ha de ser mysterioso e truncado. Quarenta e
-cinco annos, e muitos cabellos pretos; para os que o não eram, usava
-um processo chimico, tão efficaz que não se lhe distinguiam os pretos
-dos outros--salvo ao levantar da cama; mas ao levantar da cama não
-apparecia a ninguem. Tudo mais era natural, pernas, braços, cabeça,
-olhos, roupa, sapatos, corrente do relogio e bengala. O proprio
-alfinete de diamante, que trazia na gravata, um dos mais lindos
-que tenho visto, era natural e legitimo; custou-lhe bom dinheiro;
-eu mesmo o vi comprar na casa do... lá me ia escapando o nome do
-joalheiro;--fiquemos na rua do Ouvidor.
-
-Moralmente, era elle mesmo. Ninguem muda de caracter, e o do Benedicto
-era bom,--ou para melhor dizer, pacato. Mas, intellectualmente, é
-que elle era menos original. Podemos comparal-o a uma hospedaria bem
-afreguezada, aonde iam ter idéas de toda parte e de toda sorte, que se
-sentavam á mesa com a familia da casa. Ás vezes, acontecia acharem-se
-alli duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipathicas; ninguem
-brigava, o dono da casa impunha aos hospedes a indulgencia reciproca.
-Era assim que elle conseguia ajustar uma especie de atheismo vago
-com duas irmandades que fundou, não sei se na Gavea, na Tijuca ou no
-Engenho-Velho. Usava assim, promiscuamente, a devoção, a irreligião e
-as meias de seda. Nunca lhe vi as meias, note-se; mas elle não tinha
-segredos para os amigos.
-
-Conhecemo-nos em viagem para Vassouras. Tinhamos deixado o trem e
-entrado na diligencia que nos ia levar da estação á cidade. Trocámos
-algumas palavras, e não tardou conversarmos francamente, ao sabor das
-circumstancias que nos impunham a convivencia, antes mesmo de saber
-quem eramos.
-
-Naturalmente, o primeiro objecto foi o progresso que nos traziam as
-estradas de ferro. Benedicto lembrava-se do tempo em que toda a jornada
-era feita ás costas de burro. Contámos então algumas anecdotas, falámos
-de alguns nomes, e ficámos de accordo em que as estradas de ferro eram
-uma condição de progresso do paiz. Quem nunca viajou não sabe o valor
-que tem uma d'essas banalidades graves e solidas para dissipar os
-tedios do caminho. O espirito areja-se, os proprios musculos recebem
-uma communicação agradavel, o sangue não salta, fica-se em paz com Deus
-e os homens.
-
---Não serão os nossos filhos que verão todo este paiz cortado de
-estradas, disse elle.
-
---Não, de certo. O senhor tem filhos?
-
---Nenhum.
-
---Nem eu. Não será ainda em cincoenta annos; e, entretanto, é a nossa
-primeira necessidade. Eu comparo o Brazil a uma creança que está
-engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro.
-
---Bonita idéa! exclamou Benedicto faiscando-lhe os olhos.
-
---Importa-me pouco que seja bonita, comtanto que seja justa.
-
---Bonita e justa, redarguiu elle com amabilidade. Sim, senhor, tem
-razão:--o Brazil está engatinhando; só começará a andar quando tiver
-muitas estradas de ferro.
-
-Chegámos a Vassouras; eu fui para a casa do juiz municipal, camarada
-antigo; elle demorou-se um dia e seguiu para o interior. Oito dias
-depois voltei ao Rio de Janeiro, mas sósinho. Uma semana mais tarde,
-voltou elle; encontrámo-nos no theatro, conversámos muito e trocámos
-noticias; Benedicto acabou convidando-me a ir almoçar com elle no dia
-seguinte. Fui; deu-me um almoço de principe, bons charutos e palestra
-animada. Notei que a conversa d'elle fazia mais effeito no meio da
-viagem--arejando o espirito e deixando a gente em paz com Deus e os
-homens; mas devo dizer que o almoço póde ter prejudicado o resto.
-Realmente era magnifico; e seria impertinencia historica pôr a mesa
-de Lucullo na casa de Platão. Entre o café e o cognac, disse-me elle,
-apoiando o cotovello na borda da mesa, e olhando para o charuto que
-ardia:
-
---Na minha viagem agora, achei occasião de ver como o senhor tem razão
-com aquella idéa do Brazil engatinhando.
-
---Ah?
-
---Sim, senhor; é justamente o que o senhor dizia na diligencia de
-Vassouras. Só começaremos a andar quando tivermos muitas estradas de
-ferro. Não imagina como isso é verdade.
-
-E referiu muita cousa, observações relativas aos costumes do interior,
-difficuldades da vida, atrazo, concordando, porém, nos bons sentimentos
-da população e nas aspirações de progresso. Infelizmente, o governo
-não correspondia ás necessidades da patria; parecia até interessado
-em mantel-a atraz das outras nações americanas. Mas era indispensavel
-que nos persuadissemos de que os principios são tudo e os homens nada.
-Não se fazem os povos para os governos, mas os governos para os povos;
-e _abyssus abyssum invocat_. Depois foi mostrar-me outras salas.
-Eram todas alfaiadas com apuro. Mostrou-me as collecções de quadros,
-de moedas, de livros antigos, de sellos, de armas; tinha espadas e
-floretes, mas confessou que não sabia esgrimir. Entre os quadros vi um
-lindo retrato de mulher; perguntei-lhe quem era. Benedicto sorriu.
-
---Não irei adeante, disse eu sorrindo tambem.
-
---Não, não ha que negar, acudiu elle; foi uma moça de quem gostei
-muito. Bonita, não? Não imagina a belleza que era. Os labios eram mesmo
-de carmim e as faces de rosa; tinha os olhos negros, côr da noite. E
-que dentes! verdadeiras perolas. Um mimo da natureza.
-
-Em seguida, passámos ao gabinete. Era vasto, elegante, um pouco
-trivial, mas não lhe faltava nada. Tinha duas estantes, cheias de
-livros muito bem encadernados, um mappa-mundi, dous mappas do Brazil.
-A secretaria era de ebano, obra fina; sobre ella, casualmente aberto,
-um almanak de Laemmert. O tinteiro era de crystal,--«crystal de rocha»,
-disse-me elle, explicando o tinteiro, como explicava as outras cousas.
-Na sala contigua havia um orgão. Tocava orgão, e gostava muito de
-musica, falou d'ella com enthusiasmo, citando as operas, os trechos
-melhores, e noticiou-me que, em pequeno, começára a aprender flauta;
-abandonou-a logo,--o que foi pena, concluiu, porque é, na verdade, um
-instrumento muito saudoso. Mostrou-me ainda outras salas, fomos ao
-jardim, que era esplendido, tanto ajudava a arte á natureza, e tanto a
-natureza coroava a arte. Em rosas, por exemplo, (não ha negar, disse-me
-elle, que é a rainha das flôres) em rosas, tinha-as de toda casta e de
-todas as regiões.
-
-Saí encantado. Encontrámo-nos algumas vezes, na rua, no theatro, em
-casa de amigos communs, tive occasião de aprecial-o. Quatro mezes
-depois fui á Europa, negocio que me obrigava á ausencia de um anno;
-elle ficou cuidando da eleição; queria ser deputado. Fui eu mesmo que
-o induzi a isso, sem a menor intenção politica, mas com o unico fim de
-lhe ser agradavel; mal comparando, era como se lhe elogiasse o córte do
-collete. Elle pegou da idéa, e apresentou-se. Um dia, atravessando uma
-rua de Pariz, dei subitamente com o Benedicto. --Que é isto? exclamei.
-
---Perdi a eleição, disse elle, e vim passear á Europa.
-
-Não me deixou mais; viajámos juntos o resto do tempo. Confessou-me que
-a perda da eleição não lhe tirára a idéa de entrar no parlamento. Ao
-contrario, incitára-o mais. Falou-me de um grande plano.
-
---Quero vel-o ministro, disse-lhe.
-
-Benedicto não contava com esta palavra, o rosto illuminou-se-lhe; mas
-disfarçou depressa.
-
---Não digo isso, respondeu. Quando, porém, seja ministro, creia que
-serei tão sómente ministro industrial. Estamos fartos de partidos;
-precisamos desenvolver as forças vivas do paiz, os seus grandes
-recursos. Lembra-se do que _nós diziamos_ na diligencia de Vassouras? O
-Brazil está engatinhando; só andará com estradas de ferro.
-
---Tem razão, concordei um pouco espantado. E porque é que eu mesmo
-vim á Europa? Vim cuidar de uma estrada de ferro. Deixo as cousas
-arranjadas em Londres.
-
---Sim?
-
---Perfeitamente.
-
-Mostrei-lhe os papeis; elle viu-os deslumbrado. Como eu tivesse
-então recolhido alguns apontamentos, dados estatisticos, folhetos,
-relatorios, copias de contractos, tudo referente a materias
-industriaes, e lh'os mostrasse, Benedicto declarou-me que ia tambem
-colligir algumas cousas d'aquellas. E, na verdade, vi-o andar por
-ministerios, bancos, associações, pedindo muitas notas e opusculos, que
-amontoava nas malas; mas o ardor com que o fez, se foi intenso, foi
-curto; era de emprestimo. Benedicto recolheu com muito mais gosto os
-anexins politicos e fórmulas parlamentares. Tinha na cabeça um vasto
-arsenal d'elles. Nas conversas commigo repetia-os muita vez, á laia
-de experiencia; achava n'elles grande prestigio e valor inestimavel.
-Muitos eram de tradição ingleza, e elle os preferia aos outros, como
-trazendo em si um pouco da Camara dos Communs. Saboreava-os tanto que
-eu não sei se elle acceitaria jámais a liberdade real sem aquelle
-apparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar,
-optaria por essas fórmas curtas, tão commodas, algumas lindas, outras
-sonoras, todas axiomaticas, que não forçam a reflexão, preenchem os
-vasios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens.
-
-Regressámos juntos; mas eu fiquei em Pernambuco, e tornei mais tarde
-a Londres, d'onde vim ao Rio de Janeiro, um anno depois. Já então
-Benedicto era deputado. Fui visital-o; achei-o preparando o discurso de
-estréa. Mostrou-me alguns apontamentos, trechos de relatorios, livros
-de economia politica, alguns com paginas marcadas, por meio de tiras
-de papel rubricadas assim:--_Cambio_, _Taxa das terras_, _Questão dos
-cereaes em Inglaterra_, _Opinião de Stuart Mill_, _Erro de Thiers sobre
-caminhos de ferro_, etc. Era sincero, minucioso e callido. Falava-me
-d'aquellas cousas, como se acabasse de as descobrir, expondo-me tudo,
-ab ovo; tinha a peito mostrar aos homens praticos da Camara que tambem
-elle era pratico. Em seguida, perguntou-me pela empreza; disse-lhe o
-que havia.
-
---Dentro de dous annos conto inaugurar o primeiro trecho da estrada.
-
---E os capitalistas inglezes?
-
---Que têm?
-
---Estão contentes, esperançados?
-
---Muito; não imagina.
-
-Contei-lhe algumas particularidades technicas, que elle ouviu
-distrahidamente,--ou porque a minha narração fosse em extremo
-complicada, ou por outro motivo. Quando acabei, disse-me que estimava
-ver-me entregue ao movimento industrial; era d'elle que precisavamos, e
-a este proposito fez-me o favor de ler o exordio do discurso que devia
-proferir d'alli a dias.
-
---Está ainda em borrão, explicou-me; mas as idéas capitaes ficam. E
-começou: «No meio da agitação crescente dos espiritos, do alarido
-partidario que encobre as vozes dos legitimos interesses, permitti que
-alguem faça ouvir uma supplica da nação. Senhores, é tempo de cuidar,
-exclusivamente,--notae que digo exclusivamente,--dos melhoramentos
-materiaes do paiz. Não desconheço o que se me póde replicar;
-dir-me-heis que uma nação não se compõe só de estomago para digerir,
-mas de cabeça para pensar e de coração para sentir. Respondo-vos que
-tudo isso não valerá nada ou pouco, se ella não tiver pernas para
-caminhar; e aqui repetirei o que, ha alguns annos, _dizia eu_ a um
-amigo, em viagem pelo interior: o Brazil é uma creança que engatinha;
-só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro...»
-
-Não pude ouvir mais nada e fiquei pensativo. Mais que pensativo, fiquei
-assombrado, desvairado deante do abysmo que a psychologia rasgava aos
-meus pés. Este homem é sincero, pensei commigo, está persuadido do
-que escreveu. E fui por ahi abaixo até ver se achava a explicação dos
-tramites por que passou aquella recordação da diligencia de Vassouras.
-Achei (perdôem-me se ha n'isto infatuação), achei alli mais um effeito
-da lei da evolução, tal como a definiu Spencer,--Spencer ou Benedicto,
-um d'elles.
-
-
-
-
-Pylades e Orestes
-
-
-Quintanilha engendrou Gonçalves. Tal era a impressão que davam os dous
-juntos, não que se parecessem. Ao contrario, Quintanilha tinha o rosto
-redondo, Gonçalves comprido, o primeiro era baixo e moreno, o segundo
-alto e claro, e a expressão total divergia inteiramente. Accresce que
-eram quasi da mesma edade. A idéa da paternidade nascia das maneiras
-com que o primeiro tratava o segundo; um pae não se desfaria mais em
-carinhos, cautellas e pensamentos.
-
-Tinham estudado juntos, morado juntos, e eram bachareis do mesmo
-anno. Quintanilha não seguiu advocacia nem magistratura, metteu-se na
-politica; mas, eleito deputado provincial em 187... cumpriu o prazo
-da legislatura e abandonou a carreira. Herdára os bens de um tio, que
-lhe davam de renda cerca de trinta contos de réis. Veiu para o seu
-Gonçalves, que advogava no Rio de Janeiro.
-
-Posto que abastado, moço, amigo do seu unico amigo, não se póde dizer
-que Quintanilha fosse inteiramente feliz, como vaes ver. Ponho de lado
-o desgosto que lhe trouxe a herança com o odio dos parentes; tal odio
-foi que elle esteve prestes a abrir mão d'ella, e não o fez porque o
-amigo Gonçalves, que lhe dava idéas e conselhos, o convenceu de que
-similhante acto seria rematada loucura.
-
---Que culpa tem você que merecesse mais a seu tio que os outros
-parentes? Não foi você que fez o testamento nem andou a bajular o
-defunto, como os outros. Se elle deixou tudo a você, é que o achou
-melhor que elles; fique-se com a fortuna, que é a vontade do morto, e
-não seja tolo.
-
-Quintanilha acabou concordando. Dos parentes alguns buscaram
-reconciliar-se com elle, mas o amigo mostrou-lhe a intenção recondita
-dos taes, e Quintanilha não lhes abriu a porta. Um d'esses, ao vê-lo
-ligado com o antigo companheiro de estudos, bradava por toda a parte:
-
--- Ahi está, deixa os parentes para se metter com extranhos; ha de ver
-o fim que leva.
-
-Ao saber d'isto, Quintanilha correu a contal-o a Gonçalves, indignado.
-Gonçalves sorriu, chamou-lhe tolo e aquietou-lhe o animo; não valia a
-pena irritar-se por ditinhos.
-
--- Uma só cousa desejo, continuou, é que nos separemos, para que se não
-diga...
-
---Que se não diga o quê? É boa! Tinha que vêr, se eu passava a escolher
-as minhas amizades conforme o capricho de alguns peraltas sem vergonha!
-
--- Não fale assim, Quintanilha. Você é grosseiro com seus parentes.
-
--- Parentes do diabo que os leve! Pois eu hei de viver com as pessoas
-que me fôrem designadas por meia duzia de velhacos que o que querem
-é comer-me o dinheiro? Não, Gonçalves; tudo o que você quizer, menos
-isso. Quem escolhe os meus amigos sou eu, é o meu coração. Ou você
-está... está aborrecido de mim?
-
--- Eu? Tinha graça.
-
--- Pois então?
-
--- Mas é...
-
--- Não é tal!
-
-A vida que viviam os dous, era a mais unida d'este mundo. Quintanilha
-accordava, pensava no outro, almoçava e ia ter com elle. Jantavam
-juntos, faziam alguma visita, passeavam ou acabavam a noite no theatro.
-Se Gonçalves tinha algum trabalho que fazer á noite, Quintanilha ia
-ajudal-o como obrigação; dava busca aos textos de lei, marcava-os,
-copiava-os, carregava os livros. Gonçalves esquecia com facilidade,
-ora um recado, ora uma carta, sapatos, charutos, papeis. Quintanilha
-suppria-lhe a memoria. Ás vezes, na rua do Ouvidor, vendo passar as
-moças, Gonçalves lembrava-se de uns autos que deixára no escriptorio.
-Quintanilha voava a buscal-os e tornava com elles, tão contente que
-não se podia saber se eram autos, se a sorte grande; procurava-o
-anciosamente com os olhos, corria, sorria, morria de fadiga.
-
--- São estes?
-
--- São; deixa ver, são estes mesmos. Dá cá.
-
--- Deixa, eu levo.
-
-A principio, Gonçalves suspirava:
-
---Que massada que dei a você!
-
-Quintanilha ria do suspiro com tão bom humor que o outro, para não
-o molestar, não se accusou de mais nada; concordou em receber os
-obsequios. Com o tempo, os obsequios ficaram sendo puro officio.
-Gonçalves dizia ao outro: «Você hoje ha de lembrar-me isto e aquillo.»
-E o outro decorava as recommendações, ou escrevia-as, se eram muitas.
-Algumas dependiam de horas; era de ver como o bom Quintanilha
-suspirava afflicto, á espera que chegasse tal ou tal hora para ter o
-gosto de lembrar os negocios ao amigo. E levava-lhe as cartas e papeis,
-ia buscar as respostas, procurar as pessoas, esperal-as na estrada
-de ferro, fazia viagens ao interior. De si mesmo descobria-lhe bons
-charutos, bons jantares, bons espectaculos. Gonçalves já não tinha
-liberdade de falar de um livro novo, ou sómente caro, que não achasse
-um exemplar em casa.
-
--- Você é um perdulario, dizia-lhe em tom reprehensivo.
-
--- Então gastar com letras e sciencias é botar fóra? É boa! concluia o
-outro.
-
-No fim do anno quiz obrigal-o a passar fóra as férias. Gonçalves
-acabou acceitando, e o prazer que lhe deu com isto foi enorme. Subiram
-a Petropolis. Na volta, serra abaixo, como falassem de pintura,
-Quintanilha advertiu que não tinham ainda uma tela com o retrato dos
-dous, e mandou fazel-a. Quando a levou ao amigo, este não poude deixar
-de lhe dizer que não prestava para nada. Quintanilha ficou sem voz.
-
--- É uma porcaria, insistiu Gonçalves.
-
--- Pois o pintor disse-me...
-
--- Você não entende de pintura, Quintanilha, e o pintor aproveitou a
-occasião para metter a espiga. Pois isto é cara decente? Eu tenho este
-braço torto?
-
--- Que ladrão!
-
--- Não, elle não tem culpa, fez o seu negocio; você é que não tem o
-sentimento da arte, nem pratica, e espichou-se redondamente. A intenção
-foi boa, creio...
-
--- Sim, a intenção foi boa.
-
--- E aposto que já pagou?
-
--- Já.
-
-Gonçalves abanou a cabeça, chamou-lhe ignorante e acabou rindo.
-Quintanilha, vexado e aborrecido, olhava para a tela, até que saccou
-de um canivete e rasgou-a de alto a baixo. Com se não bastasse esse
-gesto de vingança, devolveu a pintura ao artista com um bilhete em que
-lhe transmittiu alguns dos nomes recebidos e mais o de asno. A vida
-tem muitas de taes pagas. Demais, uma letra de Gonçalves que se venceu
-d'alli a dias e que este não poude pagar, veiu trazer ao espirito de
-Quintanilha uma diversão. Quasi brigaram; a idéa de Gonçalves era
-reformar a letra; Quintanilha, que era o endossante, entendia não valer
-a pena pedir o favor por tão escassa quantia (um conto e quinhentos),
-elle emprestaria o valor da letra, e o outro que lhe pagasse, quando
-pudesse. Gonçalves não consentiu e fez-se a reforma. Quando, ao fim
-d'ella, a situação se repetiu, o mais que este admittiu foi acceitar
-uma letra de Quintanilha, com o mesmo juro.
-
--- Você não vê que me envergonha, Gonçalves? Pois eu hei de receber
-juro de você...?
-
--- Ou recebe, ou não fazemos nada.
-
--- Mas, meu querido...
-
-Teve que concordar. A união dos dous era tal que uma senhora
-chamava-lhes os «casadinhos de fresco», e um letrado, Pylades e
-Orestes. Elles riam, naturalmente, mas o riso de Quintanilha trazia
-alguma cousa parecida com lagrimas: era, nos olhos, uma ternura
-humida. Outra differença é que o sentimento de Quintanilha tinha uma
-nota de enthusiasmo, que absolutamente faltava ao de Gonçalves; mas,
-enthusiasmo não se inventa. É claro que o segundo era mais capaz de
-inspiral-o ao primeiro do que este a elle. Em verdade, Quintanilha era
-mui sensivel a qualquer distincção; uma palavra, um olhar bastava a
-accender-lhe o cerebro. Uma pancadinha no hombro ou no ventre, com o
-fim de approval-o ou só accentuar a intimidade, era para derretel-o de
-prazer. Contava o gesto e as circumstancias durante dous e tres dias.
-
-Não era raro vel-o irritar-se, teimar, descompôr os outros. Tambem era
-commum vel-o rir-se; alguma vez o riso era universal, entornava-se-lhe
-da bocca, dos olhos, da testa, dos braços, das pernas, todo elle era um
-riso unico. Sem ter paixões, estava longe de ser apathico.
-
-A letra saccada contra Gonçalves tinha o prazo de seis mezes. No
-dia do vencimento, não só não pensou em cobral-a, mas resolveu ir
-jantar a algum arrabalde para não ver o amigo, se fosse convidado á
-reforma. Gonçalves destruiu todo esse plano; logo cedo, foi levar-lhe
-o dinheiro. O primeiro gesto de Quintanilha foi recusal-o, dizendo-lhe
-que o guardasse, podia precisar d'elle; o devedor teimou em pagar e
-pagou.
-
-Quintanilha acompanhava os actos de Gonçalves; via a constancia do seu
-trabalho, o zelo que elle punha na defesa das demandas, e vivia cheio
-de admiração. Realmente, não era grande advogado, mas na medida das
-suas habilitações, era distincto.
-
--- Você porque não se casa? perguntou-lhe um dia; um advogado precisa
-casar.
-
-Gonçalves respondia rindo. Tinha uma tia, unica parenta, a quem elle
-queria muito, e que lhe morreu, quando elles iam em trinta annos. Dias
-depois, dizia ao amigo:
-
--- Agora só me resta você.
-
-Quintanilha sentiu os olhos molhados, e não achou que lhe respondesse.
-Quando se lembrou de dizer que «iria até á morte» era tarde. Redobrou
-então de carinhos, e um dia accordou com a idéa de fazer testamento.
-Sem revelar nada ao outro, nomeou-o testamenteiro e herdeiro universal.
-
--- Guarde-me este papel, Gonçalves, disse-lhe entregando o testamento.
-Sinto-me forte, mas a morte é facil, e não quero confiar a qualquer
-pessoa as minhas ultimas vontades.
-
-Foi por esse tempo que succedeu um caso que vou contar.
-
-Quintanilha tinha uma prima-segunda, Camilla, moça de vinte e dous
-annos, modesta, educada e bonita. Não era rica; o pae, João Bastos,
-era guarda-livros de uma casa de café. Haviam brigado por occasião da
-herança; mas, Quintanilha foi ao enterro da mulher de João Bastos,
-e este acto de piedade novamente os ligou. João Bastos esqueceu
-facilmente alguns nomes crús que dissera do primo, chamou-lhe outros
-nomes doces, e pediu-lhe que fosse jantar com elle. Quintanilha foi e
-tornou a ir. Ouviu ao primo o elogio da finada mulher; n'uma occasião
-em que Camilla os deixou sós, João Bastos louvou as raras prendas da
-filha, que affirmava haver recebido integralmente a herança moral da
-mãe.
-
--- Não direi isto nunca á pequena, nem você lhe diga nada. É modesta,
-e, se começarmos a elogial-a, póde perder-se. Assim, por exemplo, nunca
-lhe direi que é tão bonita como foi a mãe, quando tinha a edade d'ella;
-póde ficar vaidosa. Mas a verdade é que é mais, não lhe parece? Tem
-ainda o talento de tocar piano, que a mãe não possuia.
-
-Quando Camilla voltou á sala de jantar, Quintanilha sentiu vontade de
-lhe descobrir tudo, conteve-se e piscou o olho ao primo. Quiz ouvil-a
-ao piano; ella respondeu, cheia de melancolia:
-
--- Ainda não, ha apenas um mez que mamãe falleceu, deixe passar mais
-tempo. Demais, eu toco mal.
-
--- Mal?
-
--- Muito mal.
-
-Quintanilha tornou a piscar o olho ao primo, e ponderou á moça que a
-prova de tocar bem ou mal só se dava ao piano. Quanto ao prazo, era
-certo que apenas passára um mez; todavia era tambem certo que a musica
-era uma distracção natural e elevada. Além d'isso, bastava tocar um
-pedaço triste. João Bastos approvou este modo de ver e lembrou uma
-composição elegiaca. Camilla abanou a cabeça.
-
--- Não, não, sempre é tocar piano; os vizinhos são capazes de inventar
-que eu toquei uma polka.
-
-Quintanilha achou graça e riu. Depois concordou e esperou que os tres
-mezes fossem passados. Até lá, viu a prima algumas vezes, sendo as tres
-ultimas visitas mais proximas e longas. Emfim, poude ouvil-a tocar
-piano, e gostou. O pae confessou que, ao principio, não gostava muito
-d'aquellas musicas allemãs; com o tempo e o costume achou-lhes sabor.
-Chamava á filha «a minha allemãsinha», appellido que foi adoptado por
-Quintanilha, apenas modificado para o plural: «a nossa allemãsinha».
-Pronomes possessivos dão intimidade; dentro em pouco, ella existia
-entre os tres,--ou quatro, se contarmos Gonçalves, que alli foi
-apresentado pelo amigo; -- mas fiquemos nos tres.
-
-Que elle é cousa já farejada por ti, leitor sagaz. Quintanilha acabou
-gostando da moça. Como não, se Camilla tinha uns longos olhos mortaes?
-Não é que os pousasse muita vez nelle, e, se o fazia, era com tal
-ou qual constrangimento, a principio, como as creanças que obedecem
-sem vontade ás ordens do mestre ou do pae; mas pousava-os, e elles
-eram taes que, ainda sem intenção, feriam de morte. Tambem sorria
-com frequencia e falava com graça. Ao piano, e por mais aborrecida
-que tocasse, tocava bem. Em summa, Camilla não faria obra de impulso
-proprio, sem ser por isso menos feiticeira. Quintanilha descobriu um
-dia de manhã que sonhára com ella a noite toda, e á noite que pensára
-nella todo o dia, e concluiu da descoberta que a amava e era amado. Tão
-tonto ficou que esteve prestes a imprimil-o nas folhas publicas. Quando
-menos, quiz dizel-o ao amigo Gonçalves e correu ao escriptorio d'este.
-A affeição de Quintanilha complicava-se de respeito e temor. Quasi a
-abrir a boca, engoliu outra vez o segredo. Não ousou dizel-o nesse dia
-nem no outro.
-
-Antes dissesse; talvez fosse tempo de vencer a campanha. Adiou a
-revelação por uma semana. Um dia foi jantar com o amigo, e, depois de
-muitas hesitações, disse-lhe tudo; amava a prima e era amado.
-
--- Você approva, Gonçalves?
-
-Gonçalves empallideceu,--ou, pelo menos, ficou serio; nelle a seriedade
-confundia-se com a pallidez. Mas, não; verdadeiramente ficou pallido.
-
--- Approva? repetiu Quintanilha.
-
-Após alguns segundos, Gonçalves ia abrir a bocca para responder, mas
-fechou-a de novo, e fitou os olhos «em hontem», como elle mesmo dizia
-de si, quando os estendia ao longe. Em vão Quintanilha teimou em
-saber o que era, o que pensava, se aquelle amor era asneira. Estava
-tão acostumado a ouvir-lhe este vocabulo que já lhe não doia nem
-affrontava, ainda em materia tão melindrosa e pessoal. Gonçalves tornou
-a si d'aquella meditação, sacudiu os hombros, com ar desenganado, e
-murmurou esta palavra tão surdamente que o outro mal a poude ouvir:
-
--- Não me pergunte nada; faça o que quizer.
-
--- Gonçalves, que é isso? perguntou Quintanilha, pegando-lhe nas mãos,
-assustado.
-
-Gonçalves soltou um grande suspiro, que, se tinha azas, ainda agora
-estará voando. Tal foi, sem esta fórma paradoxal, a impressão de
-Quintanilha. O relogio da sala de jantar bateu oito horas, Gonçalves
-allegou que ia visitar um desembargador, e o outro despediu-se.
-
-Na rua, Quintanilha parou atordoado. Não acabava de entender aquelles
-gestos, aquelle suspiro, aquella pallidez, todo o effeito mysterioso
-da noticia dos seus amores. Entrára e falára, disposto a ouvir do
-outro um ou mais d'aquelles epithetos costumados e amigos, _idiota,
-credulo, paspalhão_, e não ouviu nenhum. Ao contrario, havia nos gestos
-de Gonçalves alguma cousa que pegava com o respeito. Não se lembrava
-de nada, ao jantar, que pudesse tel-o offendido; foi só depois de lhe
-confiar o sentimento novo que trazia a respeito da prima que o amigo
-ficou acabrunhado.
-
--- Mas, não póde ser, pensava elle; o que é que Camilla tem que não
-possa ser boa esposa?
-
-Nisto gastou, parado, defronte da casa, mais de meia hora. Advertiu
-então que Gonçalves não saira. Esperou mais meia hora, nada. Quiz
-entrar outra vez, abraçal-o, interrogal-o... Não teve forças; enfiou
-pela rua fóra, desesperado. Chegou á casa de João Bastos, e não viu
-Camilla; tinha-se recolhido, constipada. Queria justamente contar-lhe
-tudo, e aqui é preciso explicar que elle ainda não se havia declarado
-á prima. Os olhares da moça não fugiam dos seus; era tudo, e podia não
-passar de faceirice. Mas o lance não podia ser melhor para clarear a
-situação. Contando o que se passára com o amigo, tinha o ensejo de lhe
-fazer saber que a amava e ia pedil-a ao pae. Era uma consolação no meio
-d'aquella agonia, o acaso negou-lh'a, e Quintanilha saiu da casa, peior
-do que entrára. Recolheu-se á sua.
-
-Não dormiu antes das duas horas da manhã, e não foi para repouso, senão
-para agitação maior e nova. Sonhou que ia a atravessar uma ponte velha
-e longa, entre duas montanhas, e a meio caminho viu surdir debaixo um
-vulto e fincar os pés defronte d'elle. Era Gonçalves. «Infame, disse
-este com os olhos accesos, porque me vens tirar a noiva de meu coração,
-a mulher que eu amo e é minha? Toma, toma logo o meu coração, é mais
-completo.» E com um gesto rapido abriu o peito, arrancou o coração
-e metteu-lh'o na bocca. Quintanilha tentou pegar da viscera amiga e
-repol-a no peito de Gonçalves; foi impossivel. Os queixos acabaram por
-fechal-a. Quiz cuspil-a, e foi peior; os dentes cravaram-se no coração.
-Quiz falar, mas vá alguem falar com a bocca cheia d'aquella maneira.
-Afinal o amigo ergueu os braços e estendeu-lhe as mãos com o gesto de
-maldição que elle vira nos melodramas, em dias de rapaz; logo depois,
-brotaram-lhe dos olhos duas immensas lagrimas, que encheram o valle de
-agua, atirou-se abaixo e desappareceu. Quintanilha accordou suffocado.
-
-A illusão do pesadelo era tal que elle ainda levou as mãos á bocca,
-para arrancar de lá o coração do amigo. Achou a lingua sómente,
-esfregou os olhos e sentou-se. Onde estava? Que era? E a ponte? E o
-Gonçalves? Voltou a si de todo, comprehendeu e novamente se deitou,
-para outra insomnia, menor que a primeira, é certo; veiu a dormir ás
-quatro horas.
-
-De dia, rememorando toda a vespera, realidade e sonho, chegou á
-conclusão de que o amigo Gonçalves era seu rival, amava a prima
-d'elle, era talvez amado por ella... Sim, sim, podia ser. Quintanilha
-passou duas horas crueis. Afinal pegou em si e foi ao escriptorio de
-Gonçalves, para saber tudo de uma vez; e, se fosse verdade, sim, se
-fosse verdade...
-
-Gonçalves redigia umas razões de embargo. Interrompeu-as para fital-o
-um instante, erguer-se, abrir o armario de ferro, onde guardava os
-papeis graves, tirar de lá o testamento de Quintanilha, e entregal-o ao
-testador.
-
--- Que é isto?
-
--- Você vae mudar de estado, respondeu Gonçalves, sentando-se á mesa.
-
-Quintanilha sentiu-lhe lagrimas na voz; assim lhe pareceu, ao menos.
-Pediu-lhe que guardasse o testamento; era o seu depositario natural.
-Instou muito; só lhe respondia o som aspero da penna correndo no papel.
-Não corria bem a penna, a letra era tremida, as emendas mais numerosas
-que de costume, provavelmente as datas erradas. A consulta dos livros
-era feita com tal melancolia que entristecia o outro. Ás vezes, parava
-tudo, penna e consulta, para só ficar o olhar fito «em hontem».
-
--- Entendo, disse Quintanilha subitamente; ella será tua.
-
--- Ella quem? quiz perguntar Gonçalves, mas já o amigo voava, escada
-abaixo, como uma flecha, e elle continuou as suas razões de embargo.
-
-Não se adivinha todo o resto; basta saber o final. Nem se adivinha nem
-se crê; mas a alma humana é capaz de esforços grandes, no bem como no
-mal. Quintanilha fez outro testamento, legando tudo á prima, com a
-condição de desposar o amigo. Camilla não acceitou o testamento, mas
-ficou tão contente, quando o primo lhe falou das lagrimas de Gonçalves,
-que acceitou Gonçalves e as lagrimas. Então Quintanilha não achou
-melhor remedio que fazer terceiro testamento legando tudo ao amigo.
-
-O final da historia foi dito em latim. Quintanilha serviu de
-testemunha ao noivo, e de padrinho aos dous primeiros filhos. Um dia
-em que, levando doces para os afilhados, atravessava a praça Quinze
-de Novembro, recebeu uma bala revoltosa (1893) que o matou quasi
-instantaneamente. Está enterrado no cemiterio de S. João Baptista; a
-sepultura é simples, a pedra tem um epitaphio que termina com esta
-pia phrase: «Orae por elle!» É tambem o fecho da minha historia.
-Orestes vive ainda, sem os remorsos do modelo grego. Pylades é agora o
-personagem mudo de Sophocles. Orae por elle!
-
-
-
-
-Anecdota do cabriolet
-
-
---_Cabriolet_ está ahi, sim, senhor, dizia o preto que viera á matriz
-de S. José chamar o vigario para sacramentar dous moribundos.
-
-A geração de hoje não viu a entrada e a saida do _cabriolet_ no Rio de
-Janeiro. Tambem não saberá do tempo em que o _cab_ e o _tilbury_ vieram
-para o rol dos nossos vehiculos de praça ou particulares. O _cab_
-durou pouco. O _tilbury_, anterior aos dous, promette ir á destruição
-da cidade. Quando esta acabar e entrarem os cavadores de ruinas,
-achar-se-ha um parado, com o cavallo e o cocheiro em ossos, esperando
-o freguez do costume. A paciencia será a mesma de hoje, por mais que
-chova, a melancolia maior, como quer que brilhe o sol, porque juntará
-a propria actual á do espectro dos tempos. O archeologo dirá cousas
-raras sobre os tres esqueletos. O _cabriolet_ não teve historia; deixou
-apenas a anecdota que vou dizer.
-
---Dous! exclamou o sacristão.
-
---Sim, senhor, dous: nhã Annunciada e nhô Pedrinho. Coitado de nhô
-Pedrinho! E nhã Annunciada, coitada! continuou o preto a gemer, andando
-de um lado para outro, afflicto, fóra de si.
-
-Alguem que leia isto com a alma turva de duvidas, é natural que
-pergunte se o preto sentia devéras, ou se queria picar a curiosidade
-do coadjuctor e do sacristão. Eu estou que tudo se póde combinar neste
-mundo, como no outro. Creio que elle sentia devéras: não descreio
-que anciasse por dizer alguma historia terrivel. Em todo caso, nem o
-coadjuctor nem o sacristão lhe perguntavam nada.
-
-Não é que o sacristão não fosse curioso. Em verdade, pouco mais era
-que isso. Trazia a parochia de cór; sabia os nomes ás devotas, a vida
-dellas, a dos maridos e a dos paes, as prendas e os recursos de cada
-uma, e o que comiam, e o que bebiam, e o que diziam, os vestidos e
-as virtudes, os dotes das solteiras, o comportamento das casadas, as
-saudades das viuvas. Pesquizava tudo; nos intervallos ajudava a missa
-e o resto. Chamava-se João das Mercês, homem quarentão, pouca barba e
-grisalho, magro e meão.
-
---Que Pedrinho e que Annunciada serão esses? dizia comsigo,
-acompanhando o coadjuctor.
-
-Embora ardesse por sabel-os, a presença do coadjuctor impediria
-qualquer pergunta. Este ia tão calado e pio, caminhando para a porta
-da egreja, que era força mostrar o mesmo silencio e piedade que
-elle. Assim foram andando. O _cabriolet_ esperava-os; o cocheiro
-desbarretou-se, os vizinhos e alguns passantes ajoelharam-se, emquanto
-o padre e o sacristão entravam e o vehiculo enfiava pela rua da
-Misericordia. O preto desandou o caminho a passo largo.
-
-Que andem burros e pessoas na rua, e as nuvens no ceu, se as ha, e os
-pensamentos nas cabeças, se os tem. A do sacristão tinha-os varios e
-confusos. Não era ácerca de _Nosso-Pae_, embora soubesse adoral-o,
-nem da agua benta e do hyssope que levava; tambem não era ácerca da
-hora,--oito e quarto da noite,--aliás, o ceu estava claro e a lua ia
-apparecendo. O proprio _cabriolet_, que era novo na terra, e substituia
-neste caso a sege, esse mesmo vehiculo não occupava o cerebro todo de
-João das Mercês, a não ser na parte que pegava com nhô Pedrinho e nhâ
-Annunciada.
-
---Ha de ser gente nova, ia pensando o sacristão, mas hóspeda em alguma
-casa, de certo, porque não ha casa vasia na praia, e o numero é da do
-commendador Brito. Parentes, serão? Que parentes, se nunca ouvi...?
-Amigos, não sei; conhecidos, talvez, simples conhecidos. Mas então
-mandariam _cabriolet_? Este mesmo preto é novo na casa; ha de ser
-escravo de um dos moribundos, ou de ambos.
-
-Era assim que João das Mercês ia cogitando, e não foi por muito tempo.
-O _cabriolet_ parou á porta de um sobrado, justamente a casa do
-commendador Brito, José Martins de Brito. Já havia algumas pessoas em
-baixo com velas, o padre e o sacristão apearam-se e subiram a escada,
-acompanhados do commendador. A esposa deste, no patamar, beijou o annel
-ao padre. Gente grande, creanças, escravos, um borborinho surdo, meia
-claridade, e os dous moribundos á espera, cada um no seu quarto, ao
-fundo.
-
-Tudo se passou, como é de uso e regra, em taes occasiões. Nhô Pedrinho
-foi absolvido e ungido, nhâ Annunciada tambem, e o coadjuctor
-despediu-se da casa para tornar á matriz com o sacristão. Este não se
-despediu do commendador sem lhe perguntar ao ouvido se os dous eram
-parentes seus. Não, não eram parentes, respondeu Brito; eram amigos de
-um sobrinho que vivia em Campinas; uma historia terrivel... Os olhos
-de João das Mercês escutaram arregaladamente estas duas palavras, e
-disseram, sem falar, que viriam ouvir o resto,--talvez naquella mesma
-noite. Tudo foi rapido, porque o padre descia a escada, era força ir
-com elle.
-
-Foi tão curta a moda do _cabriolet_ que este provavelmente não levou
-outro padre a moribundos. Ficou-lhe a anecdota, que vou acabar já,
-tão escassa foi ella, uma anecdota de nada. Não importa. Qualquer que
-fosse o tamanho ou a importancia, era sempre uma fatia de vida para
-o sacristão, que ajudou o padre a guardar o pão sagrado, a despir a
-sobrepeliz, e a fazer tudo mais, antes de se despedir e sair. Saiu,
-emfim, a pé, rua acima, praia fóra, até parar á porta do commendador.
-
-Em caminho foi evocando toda a vida daquelle homem, antes e depois
-da commenda. Compoz o negocio, que era fornecimento de navios, creio
-eu, a familia, as festas dadas, os cargos parochiaes, commerciaes
-e eleitoraes, e daqui aos boatos e anecdotas não houve mais que um
-passo ou dous. A grande memoria de João das Mercês guardava todas as
-cousas, maximas e minimas, com tal nitidez que pareciam da vespera,
-e tão completas que nem o proprio objecto delles era capaz de as
-repetir eguaes. Sabia-as como o Padre-Nosso, isto é, sem pensar nas
-palavras; elle resava tal qual comia, mastigando a oração, que lhe
-saía dos queixos sem sentir. Se a regra mandasse rezar tres duzias de
-Padre-Nossos seguidamente, João das Mercês os diria sem contar. Tal era
-com as vidas alheias; amava sabel-as, pesquisava-as, decorava-as, e
-nunca mais lhe saiam da memoria.
-
-Na parochia todos lhe queriam bem, porque elle não enredava nem
-maldizia. Tinha o amor da arte pela arte. Muita vez nem era preciso
-perguntar nada. José dizia-lhe a vida de Antonio e Antonio a de José.
-
-O que elle fazia era ratificar ou rectificar um com outro, e os dous
-com Sancho, Sancho com Martinho, e vice-versa, todos com todos. Assim
-é que enchia as horas vagas, que eram muitas. Alguma vez, á propria
-missa, recordava uma anecdota da vespera, e, a principio, pedia perdão
-a Deus; deixou de lh'o pedir quando reflectiu que não falhava uma só
-palavra ou gesto do santo sacrificio, tão consubstanciados os trazia em
-si. A anecdota que então revivia por instantes, era como a andorinha
-que atravessa uma paizagem. A paizagem fica sendo a mesma, e a agua,
-se ha agua, murmura o mesmo som. Esta comparação, que era delle, valia
-mais do que elle pensava, porque a andorinha, ainda voando, faz parte
-da paizagem, e a anecdota fazia nelle parte da pessoa; era um dos seus
-actos de viver.
-
-Quando chegou á casa do commendador, tinha desfiado o rosario da vida
-deste, e entrou com o pé direito para não sair mal. Não pensou em
-sair cedo, por mais afflicta que fosse a occasião, e nisto a fortuna
-o ajudou. Brito estava na sala da frente, em conversa com a mulher,
-quando lhe vieram dizer que João das Mercês perguntava pelo estado dos
-moribundos. A esposa retirou-se da sala, o sacristão entrou pedindo
-desculpas e dizendo que era por pouco tempo; ia passando e lembrára-se
-de saber se os enfermos tinham ido para o ceu,--ou se ainda eram deste
-mundo. Tudo o que dissesse respeito ao commendador seria ouvido por
-elle com interesse.
-
---Não morreram, nem sei se escaparão; quando menos, ella creio que
-morrerá, concluiu Brito.
-
---Parecem bem mal.
-
---Ella, principalmente; tambem é a que mais padece da febre. A febre
-os pegou aqui em nossa casa, logo que chegaram de Campinas, ha dias.
-
---Já estavam aqui? perguntou o sacristão, pasmado de o não saber.
-
---Já; chegaram ha quinze dias,--quatorze. Vieram com o meu sobrinho
-Carlos e aqui apanharam a doença...
-
-Brito interrompeu o que ia dizendo; assim pareceu ao sacristão, que
-poz no semblante toda a expressão de pessoa que espera o resto.
-Entretanto, como o outro estivesse a morder os beiços e a olhar para
-as paredes, não viu o gesto de espera, e ambos se detiveram calados.
-Brito acabou andando ao longo da sala, emquanto João das Mercês dizia
-comsigo que havia alguma cousa mais que febre. A primeira idéa que lhe
-acudiu, foi se os medicos teriam errado na doença ou no remedio; tambem
-pensou que podia ser outro mal escondido, a que deram o nome de febre
-para encobrir a verdade. Ia acompanhando com os olhos o commendador,
-emquanto este andava e desandava a sala toda, apagando os passos para
-não aborrecer mais os que estavam dentro. De lá vinha algum murmurio
-de conversação, chamado, recado, porta que se abria ou fechava. Tudo
-isso era cousa nenhuma para quem tivesse outro cuidado; mas o nosso
-sacristão já agora não tinha mais que saber o que não sabia. Quando
-menos, a familia dos enfermos, a posição, o actual estado, alguma
-pagina da vida delles, tudo era conhecer algo, por mais arredado que
-fosse da parochia.
-
---Ah! exclamou Brito estacando o passo.
-
-Parecia haver nelle o desejo impaciente de referir um caso,--a
-«historia terrivel», que annunciára ao sacristão, pouco antes; mas nem
-este ousava pedil-a, nem aquelle dizel-a, e o commendador pegou a
-andar outra vez.
-
-João das Mercês sentou-se. Viu bem que em tal situação cumpria
-despedir-se com boas palavras de esperança ou de conforto, e voltar no
-dia seguinte; preferiu sentar-se e aguardar. Não viu na cara do outro
-nenhum signal de reprovação do seu gesto; ao contrario, elle parou
-defronte e suspirou com grande cançaço.
-
---Triste, sim, triste, concordou João das Mercês. Boas pessoas, não?
-
---Iam casar.
-
---Casar? Noivos um do outro?
-
-Brito confirmou de cabeça. A nota era melancolica, mas não havia signal
-da historia terrivel annunciada, e o sacristão esperou por ella.
-Observou comsigo que era a primeira vez que ouvia alguma cousa de
-gente que absolutamente não conhecia. As caras, vistas ha pouco, eram
-o unico signal dessas pessoas. Nem por isso se sentia menos curioso.
-Iam casar... Podia ser que a historia terrivel fosse isso mesmo. Em
-verdade, atacados de um mal na vespera de um bem, o mal devia ser
-terrivel. Noivos e moribundos...
-
-Vieram trazer recado ao dono da casa; este pediu licença ao sacristão,
-tão depressa que nem deu tempo a que elle se despedisse e saisse.
-Correu para dentro, e lá ficou cincoenta minutos. Ao cabo, chegou á
-sala um pranto suffocado; logo após, tornou o commendador.
-
---Que lhe dizia eu, ha pouco? Quando menos, ella ia morrer; morreu.
-
-Brito disse isto sem lagrimas e quasi sem tristeza. Conhecia a defunta
-de pouco tempo. As lagrimas, segundo referiu, eram do sobrinho de
-Campinas e de uma parenta da defunta, que morava em Mata-porcos. Dahi
-a suppôr que o sobrinho do commendador gostasse da noiva do moribundo
-foi um instante para o sacristão, mas não se lhe pegou a idéa por muito
-tempo; não era forçoso, e depois se elle proprio os acompanhára...
-Talvez fosse padrinho de casamento. Quiz saber, e era natural,--o nome
-da defunta. O dono da casa,--ou por não querer dar-lh'o,--ou porque
-outra idéa lhe tomasse agora a cabeça,--não declarou o nome da noiva,
-nem do noivo. Ambas as causas seriam.
-
---Iam casar...
-
---Deus a receberá em sua santa guarda, e a elle tambem, se vier a
-expirar, disse o sacristão cheio de melancolia.
-
-E esta palavra bastou a arrancar metade do segredo que parece anciava
-por sair da boca do fornecedor de navios. Quando João das Mercês lhe
-viu a expressão dos olhos, o gesto com que o levou á janella, e o
-pedido que lhe fez de jurar,--jurou por todas as almas dos seus que
-ouviria e calaria tudo. Nem era homem de assoalhar as confidencias
-alheias, mórmente as de pessoas gradas e honradas, como era o
-commendador. Ao que este se deu por satisfeito e animado, e então lhe
-confiou a primeira metade do segredo, a qual era que os dous noivos,
-criados juntos, vinham casar aqui quando souberam, pela parenta de
-Mata-porcos, uma noticia abominavel...
-
---E foi...? precipitou-se em dizer João das Mercês, sentindo alguma
-hesitação no commendador.
-
---Que eram irmãos.
-
---Irmãos como? Irmãos de verdade?
-
---De verdade; irmãos por parte de mãe. O pae é que não era o mesmo. A
-parenta não lhes disse tudo nem claro, mas jurou que era assim, e elles
-ficaram fulminados durante um dia ou mais...
-
-João das Mercês não ficou menos espantado que elles; dispoz-se a não
-sair dalli sem saber o resto. Ouviu dez horas, ouviria todas as demais
-da noite, velaria o cadaver de um ou de ambos, uma vez que pudesse
-juntar mais esta pagina ás outras da parochia, embora não fosse da
-parochia.
-
---E vamos, vamos, foi então que a febre os tomou...?
-
-Brito cerrou os dentes para não dizer mais nada. Como, porém, o viessem
-chamar de dentro, acudiu depressa, e meia hora depois estava de volta,
-com a nova do segundo passamento. O choro, agora mais franco, posto que
-mais esperado, não havendo já de quem o esconder, trouxera a noticia ao
-sacristão.
-
---Lá se foi o outro, o irmão, o noivo... Que Deus lhes perdôe! Saiba
-agora tudo, meu amigo. Saiba que elles se queriam tanto que alguns dias
-depois de conhecido o impedimento natural e canonico do consorcio,
-pegaram em si e, fiados em serem apenas meios irmãos e não irmãos
-inteiros, metteram-se em um _cabriolet_ e fugiram de casa. Dado logo
-o alarme, alcançámos pegar o _cabriolet_ em caminho da Cidade Nova, e
-elles ficaram tão pungidos e vexados da captura que adoeceram de febre
-e acabam de morrer.
-
-Não se póde escrever o que sentiu o sacristão, ouvindo-lhe este caso.
-Guardou-o por algum tempo, com difficuldade. Soube os nomes das pessoas
-pelo obituario dos jornaes, e combinou as circumstancias ouvidas ao
-commendador com outras. Emfim, sem se ter por indiscreto, espalhou
-a historia, só com esconder os nomes e contal-a a um amigo, que a
-passou a outro, este a outros, e todos a todos. Fez mais; metteu-se-lhe
-em cabeça que o _cabriolet_ da fuga podia ser o mesmo dos ultimos
-sacramentos; foi á cocheira, conversou familiarmente com um empregado,
-e descobriu que sim. Donde veiu chamar-se a esta pagina a «anecdota do
-_cabriolet_.»
-
-
-
-
-Paginas criticas e commemorativas
-
-
-GONÇALVES DIAS
-
-DISCURSO LIDO NO PASSEIO PUBLICO, AO INAUGURAR-SE O BUSTO DE GONÇALVES
-DIAS
-
-Sr. Prefeito do Districto Federal,
-
-A commissão que tomou a si erguer este monumento, incumbiu-me,
-como presidente da Academia Brazileira, de o entregar a V Ex.,
-como representante da cidade. O encargo é não sómente honroso, mas
-particularmente agradavel á Academia e a mim.
-
-Se eu houvesse de dizer tudo o que este busto exprime para nós, faria
-um discurso, e é justamente o que os autores da homenagem não devem
-querer neste momento. Conta Renan que, uma hora antes dos funeraes de
-George Sand, quando alguns cogitavam no que convinha proferir á beira
-da sepultura, ouviu-se no parque da defunta cantar um rouxinol. «Ah!
-eis o verdadeiro discurso!» disseram elles comsigo. O mesmo seria
-aqui, se cantasse um sabiá. A ave do nosso grande poeta seria o melhor
-discurso da occasião. Ella repetiria á alma de todos aquella canção do
-exilio que ensinou aos ouvidos da antiga mãe-patria uma licção nova
-da lingua de Camões. Não importa! A canção está em todos nós, com os
-outros cantos que elle veiu espalhando pela vida e pelo mundo, e o
-som dos golpes de Itajuba, a piedade de Y-Juca-Pyrama, os suspiros de
-Coema, tudo o que os mais velhos ouviram na mocidade, depois os mais
-jovens, e daqui em deante ouvirão outros e outros, emquanto a lingua
-que falamos fôr a lingua dos nossos destinos.
-
-Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins publicos. Talvez
-este busto emende o costume; mas, suppondo que não, nem por isso
-perderão os que só vierem contemplar aquella fronte que meditou paginas
-tão magnificas. A solidão e o silencio são azas robustas para os surtos
-do espirito. Quem vier a este canto do jardim, entre o mar e a rua,
-achará o que se encontra nas capellas solitarias, uma voz interior,
-e dirá pelo rosario da memoria as preces em verso que elle compoz e
-ensinou aos seus compatricios.
-
-E desde já ficam as duas obras juntas. Uma responderá pela outra.
-Nem V. Ex., nem os seus successores consentirão que se destrua este
-abrigo de folhas verdes, ou se arranque daqui este monumento de arte.
-Se alguem propuzer arrazar um e mudar outro, para trazer utilidade
-ao terreno, por meio de uma avenida ou cousa equivalente, o Prefeito
-recusará a concessão, dizendo que este jardim, conservado por diversos
-regimens, está agora consagrado pela poesia, que é um regimen só,
-universal, commum e perpetuo. Tambem póde declarar que a veneração
-dos seus grandes homens é uma virtude das cidades. E isto farão os
-Prefeitos de todos os partidos, sem aggravo do seu proprio, porque o
-poeta que ora celebramos, fiel á vocação, não teve outro partido que o
-de cantar maravilhosamente.
-
-Demais, se o caso fôr de utilidade, V. Ex. e os seus successores
-acharão aqui o mais util remedio ás agruras administrativas. Este busto
-consolará do trabalho acerbo e ingrato; elle dirá que ha tambem uma
-prefeitura do espirito, cujo exercicio não pede mais que o mudo bronze
-e a capacidade de ser ouvido no seu eterno silencio. E repetirá a todos
-o nome de V. Ex., que o recebeu e o dos outros que porventura vierem
-contemplal-o. Tambem aqui vinha, ha muitos annos, desenfadar-se da
-vespera, sem outro encargo nem magistratura que os seus livros, o autor
-de _Iracema_. Se já estivesse aqui este busto, elle se consolaria da
-vida com a memoria, e do tempo com a perennidade. Mas então só existiam
-as arvores. Bernardelli, que tinha de fundir o bronze de ambos, não
-povoára ainda as nossas praças com outras obras de artista illustre.
-Olavo Bilac, que promoveu a subscripção de senhoras a que se deve
-esta obra, não afinára ainda pela lyra de Gonçalves Dias a sua lyra
-deliciosa.
-
-Aqui fica entregue o monumento a V. Ex., Sr. Prefeito, aqui onde elle
-deve estar, como outro exemplo da nossa unidade, ligando a patria
-inteira no mesmo ponto em que a historia, melhor que leis, poz a cabeça
-da nação, perto daquelle gigante de pedra que o grande poeta cantou em
-versos masculos.
-
-
-UM LIVRO
-
-
-Aqui está um livro que ha de ser relido com apreço, com interesse,
-não raro com admiração. O autor que occupa logar eminente na critica
-brasileira, tambem enveredou um dia pela novella, como Sainte-Beuve,
-que escreveu _Volupté_, antes de attingir o summo gráo na critica
-franceza. Tambem ha aqui um narrador e um observador, e ha mais aquillo
-que não acharemos em _Volupté_, um paizagista e um miniaturista. Já era
-tempo de dar ás _Scenas da vida amazonica_ outra e melhor edição. Eu,
-que as reli, achei-lhes o mesmo sabor de outr'ora. Os que as lerem,
-pela primeira vez, dirão se o meu falar desmente as suas proprias
-impressões.
-
-Talvez achem commigo que o titulo é exacto, sem dizer tudo. São
-effectivamente scenas daquella vida e daquelle meio; sente-se que não
-podem ser de outra parte, que foram vistas e recolhidas directamente.
-Mas não diz tudo o titulo. Tres, ao menos, das quatro novellas em
-que se divide o livro, são pequenos dramas completos. Taes o _Bôto_,
-o _Crime do Tapuio_ e a _Sorte de Vicentina_. O proprio _Voluntario
-da patria_ tem o drama na alma de tia Zeferina, desde a quietação na
-palhoça até aquelle adeus que ella fica acenando na margem, não já ao
-filho, que a não póde ver, nem ella a elle, mas ao fumo do vapor que se
-perde ao longe no rio, como uma sombra.
-
-Em todos elles, os costumes locaes e a natureza grande e rica, quando
-não é só aspera e dura, servem de quadro a sentimentos ingenuos,
-simples e alguma vez fortes. O Sr. José Verissimo possue o dom da
-sympathia e da piedade. As suas principaes figuras são as victimas de
-um meio rude, como Benedicta, Rosinha e Vicentina, ou ainda aquelle
-José Tapuio, que confessa um crime não existente, com o unico fim de
-salvar uma menina, ou de «fazê bem p'ra ella», como diz o texto. Não
-se irritem os amigos da lingua culta com a prosodia e a syntaxe de
-José Tapuio. Ha dessas phrases no livro, postas com arte e cabimento,
-a espaços, onde é preciso caracterisar melhor as pessoas. Ha locuções
-da terra. Ha a technologia dos usos e costumes. Ninguem esquece que
-está deante da vida amazonica, não toda, mas aquella que o Sr. José
-Verissimo escolheu naturalmente para dar-nos a visão do contraste entre
-o meio e o homem.
-
-O contraste é grande. A floresta e a agua envolvem e acabrunham a
-alma. A magnificencia d'aquellas regiões chega a ser excessiva. Tudo é
-innumeravel e immensuravel. São milhões, milhares e centenas os seres
-que vão pelos rios e igarapés, que espiam entre a agua e a terra, ou
-bramam e cantam na matta, em meio de um concerto de rumores, coleras,
-delicias e mysterios. O Sr. José Verissimo dá-nos a sensação daquella
-realidade. A descripção do caminho que leva ao povoado do Ereré,
-atravez do «coberto», do «lavrado» e de um espaço sem nome, é das mais
-bellas e acabadas do livro. Assim tambem a do Parú, ou antes a historia
-do rio nas duas partes do anno, de verão e de inverno, um só lago
-intermino ou muitos lagos grandes, as ilhas que nascem e desapparecem,
-com os aspectos varios do tempo e da margem.
-
-Não são descripções trazidas de acarreto. As pessoas das narrativas
-vão para alli continuar a acção começada. No Parú, como o tempo é de
-«salga», a agua é sulcada de canôas, a margem alastrada de barracas, o
-sussurro do trabalho humano espalha-se e cresce. Ahi assistimos á morte
-tragica do pelintra de Obidos, regatão de alguns dias, deixando uma
-triste moça defunta, amarella e magra. Adeante, por meio do «coberto»
-e do «lavrado», vemos correr Vicentina, com a filha de alguns mezes
-«escarranchada nos quadris», fugindo á casa do marido, depois ás onças,
-depois á solidão, que parece maior alli que em nenhuma parte; e ambas
-as scenas são das mais vivas do livro.
-
-Ao pé do tragico, o mesquinho, o commum, o quotidiano da existencia e
-dos costumes, que o autor pinta breve ou minuciosamente. Os pequenos
-quadros succedem-se, como o da rua Bacuri, na cidade de Obidos, á hora
-da sésta, ou no fim d'ella, quando «a natureza estira os braços n'um
-bocejo preguiçoso de quem deixa a rêde». A rêde é o movel principal das
-casas; ella serve ao somno, ao descanço, á palestra, á indolencia. Se
-a casa é pobre, pouco mais ha que ella; mas, pouco ou muito, podemos
-fiar-nos da veracidade do autor, que não perde o que seja um rasgo de
-costumes ou possa avivar a côr da realidade. Vimos o regatão; veremos a
-benzedeira, a pintadeira de cuias, a mameluca, sem exclusão do jurado,
-do promotor, do presidente de provincia.
-
-Nem falta aqui a observação fina e aguda. Uma senhora, a quem a tia
-Zeferina, que a criou, recorre chorando para que faça soltar o filho,
-preso para voluntario (como diziam aqui no sul), ouve a mãe tapuia, tem
-sincera pena della, promette que sim, fala do presidente da provincia,
-que é bom moço, do baile do dia 7 de Setembro, em palacio, a que ella
-foi: «uma festa de estrondo; as senhoras estavam todas vestidas de
-verde e amarello; muitas tinham mandado vir o vestido do Pará, mas
-foi tolice, porque em Manáos arranjava-se um vestido tão bem como no
-Pará; o della, por exemplo, foi muito gabado...» Já a tia Zeferina
-ouvira cousa analoga ao major Rabello, seu compadre, quando lhe foi
-contar a prisão do filho, e elle rompeu furioso contra os adversarios
-politicos. Todos os negocios pessoaes se vão coçando assim naquella
-agonia errante. No _Bôto_, é o proprio pae de Rosinha, que não excava
-muito as razões do abatimento mortal da filha, «por andar atarefado com
-as eleições».
-
-Que elle tambem ha eleições no Amazonas; é o tempo da salga politica,
-a quadra das barracas e dos regatões. Não nos dá um capitulo desses
-o Sr. José Verissimo, naturalmente por lhe não ser necessario, mas a
-rivalidade da villa e do porto de Monte Alegre é um quadro vivo do que
-são raivas locaes, os motivos que as accendem, a guerra que fazem e
-os odios que ficam. Aqui basta a questão de saber se o correio morará
-no porto, em baixo, ou na villa em cima. E porque não ha victoria sem
-foguetes, os foguetes vão contar ás nuvens o despacho presidencial. A
-sessão do jury, no _Crime do Tapuio_, é outro quadro finamente acabado.
-Tudo sem sombra de caricatura. O embarque dos voluntarios é outro, mas
-ahi a emoção discreta acompanha os movimentos mal ordenados dos homens.
-Nós os vimos desembarcar aqui, esses e outros, tropegos e obedientes,
-marchando mal, mas emfim marchando seguros para a guerra que já lá vae.
-
-Em tão varias scenas e lances, o estylo do Sr. José Verissimo (salvo
-nos _Esbocetos_, cuja estructura é differente) é já o estylo correntio
-e vernaculo dos seus escriptos posteriores. Já então vemos o homem
-feito de mão assentada, dominando a materia. Ha, a mais uma nota de
-poesia, a graça e o vigor das imagens que outra sorte de trabalhos nem
-sempre consentem. Aqui está a frente da casa do sitio em que Rosinha
-nasceu: «A palha da cobertura, não aparada, dava-lhe o aspecto alvar
-das creanças que trazem os cabellos cahidos na testa.» No tempo da
-pesca emigram, não só os homens, mas tambem os cães e os urubús. Os
-cães são magros e famintos: «Cães magros, com as costellas salientes,
-como se houvessem engolido arcos de barris...» Os urubús pousam nas
-arvores, alguma vez baixam ao solo, andando «com o seu passo rythmado
-de anjos de procissão». A umas arvores que ha na grande charneca
-do «coberto», bastava mostral-as por uma imagem curta e viva, «em
-posições retorcidas de entrevados». Mas não se contenta o nosso autor
-de as dizer assim: em terra tal, tudo ha de vibrar ao calor do sol:
-«Dir-se-hia que o sol, que abraza aquellas paragens, obriga-as a taes
-contorções violentas e paralysa-as depois...»
-
-Ha muitas dessas imagens originaes e expressivas; melhor é lel-as ou
-relel-as intercaladas na narração e na descripção. Chateaubriand,
-escrevendo em 1834 a Sainte-Beuve, justamente a proposito de _Volupté_,
-que acabava de sahir do prélo, pergunta-lhe admirado como é que elle,
-René, não achára tantas outras. «Comment n'ai-je pas trouvé _ces
-deux vieillards et ces deux enfants entre lesquels une révolution a
-passé_...» etc. Desculpe a pontinha de vaidade, é de Chateaubriand, e
-alguma cousa se ha de perdoar ao genio. Mas, em verdade, mais de um de
-nós outros poderiamos dizer com sinceridade e modestia como é que nos
-não acudiram taes e taes imagens do nosso autor, pois que ellas trazem
-a feição de cousas antes saidas do tinteiro que compostas no papel.
-
-Tambem é dado perguntar porque é que o Sr. José Verissimo deixou logo
-um terreno que soube arrotear com fructo. Elle dirá, em uma nota,
-falando dos _Esbocetos_, que o fructo era da primeira mocidade. Vá que
-sim; mas as _Scenas_ trazem outra experiencia, e a boa terra não é
-esquecida, se se lhe encommenda alguma cousa com amor.
-
-Até lá, fiquem-nos estas _Scenas da vida amazonica_. Mais tarde, algum
-critico da escola do autor compulsará as suas paginas para restituir
-costumes extinctos. Muito estará mudado. Onde José Tapuio lutou com
-a sicurijú até matal-a, outro homem estudará alguma nova força da
-natureza até reduzil-a ao domestico. Coberto e lavrado darão melhor
-caminho ás pessoas. Já agora, como disse nhâ Miloca á mãe tapuia, os
-vestidos fazem-se tão bons em Manáos como em Belém. A politica irá
-pelas tesouras da costureira, e a natureza agasalhará todas as artes,
-suas hospedas. Tal critico, se tiver o mesmo dom de analyse do Sr. José
-Verissimo, achará que um testemunho esclarecido é mais cabal que outro,
-e regalará os seus leitores dando-lhe este depoimento feito com emoção,
-com exacção e com estylo.
-
-
-EDUARDO PRADO
-
-A ultima vez que vi Eduardo Prado foi na vespera de deixar o Rio de
-Janeiro para recolher a S. Paulo, dizem que com o germen do mal e da
-morte em si. Naquella occasião era todo vida e saúde. Quem então me
-dissesse que elle ia tambem deixar o mundo, não me causaria espanto,
-porque a injustiça da natureza acostuma a gente aos seus golpes; mas,
-é certo que eu buscaria maneira de obter outras horas como aquella, em
-que me detivesse ao pé delle, para ouvil-o e admiral-o.
-
-Só falámos de arte. Ouvi-lhe noticias e impressões, senti-lhe o
-gosto apurado e a critica superior, tudo envolvido naquelle tom
-ameno e simples, que era um relevo mais aos seus dotes. Não tinhamos
-intimidade; faltou-nos tempo e a pratica necessaria. Antes daquella vez
-ultima, apenas falámos tres ou quatro, o bastante para consideral-o
-bem e cotejar o homem com o escriptor. Eduardo Prado era dos que se
-deixam penetrar sem esforço e com prazer. O que agora li a seu respeito
-na primeira mocidade, na escola e nos ultimos annos, referido por
-amigos que parecem não o esquecer mais, confirma a minha impressão
-pessoal. Aliás, os seus escriptos mostravam bem o homem. Apanhava-se o
-sentimento da harmonia que ajustava nelle a vida moral, intellectual e
-social.
-
-Principalmente artista e pensador, possuia o divino horror á
-vulgaridade, ao logar commum e á declamação. Se entrasse na vida
-politica, que apenas atravessou com a penna, em dias de luta, levaria
-para ella qualidades de primeira ordem, não contando o _humour_, tão
-diverso da chalaça e tão original nelle. Mas a erudição e a historia,
-não menos que a arte, eram agora o seu maior encanto. Sabia bem todas
-as cousas que sabia.
-
-Naturalmente remontei commigo, durante aquella boa hora, e ainda depois
-della, ao tempo das cartas de viagem que nos deu tão rica amostra de um
-grande talento que viria a crescer e subir. A materia em si convidava
-ao egotismo, mas elle não padecia desse mal. Tambem faria correr
-o risco da repetição de cousas vistas e pintadas, que se não acha
-aqui. A faculdade de ver claro e largo, a arte de dizer originalmente
-a sensação pessoal, elle as possuia como os principaes que hajam
-andado as terras ou rasgado os mares deste mundo. Invenção de estylo,
-observação aguda, erudição discreta e vasta, graça, poesia e imaginação
-produziram essas paginas vivas e saborosas. Aquella partida de Napoles,
-sob um céo chuvoso e de chumbo, não se esquece. Relê-se com encanto
-essa explicação do tempo aspero, durante o qual o céo napolitano se
-recompõe, para começar novamente a opera «com os córos de pescadores e
-as barcarolas, a musica de luz e de azul». Assim a Africa, assim todas
-as partes onde quer que este brasileiro levou a ancia de ver homens e
-cousas, cidades e costumes, a natureza vária entre ruínas perpetuas,
-através de regiões remotas...
-
-Conta-se que elle chorou, quando morreu Eça de Queiroz. Agora, que
-ambos são mortos, alguem que imaginasse e escrevesse o encontro das
-duas sombras, á maneira de Luciano, daria uma curiosa pagina de
-psychologia. As confabulações de taes espiritos são dignas de memoria.
-Sterne escreveu que «um dia, conversando com Voltaire...» e imagina-se
-o que diriam elles. Imagina-se o que diriam, todas as noites, Stendhal
-e Byron, passeando no solitario _foyer_ do theatro Scala. Quando
-Montaigne ouvia as historias que Amyot lhe ia contar, podemos ver a
-delicia de ambos e admittir que as visitas continuam no outro mundo.
-Assim se podia dizer do Eça e do Eduardo, por um texto que exprimisse
-o talento, o amor das cousas finas e bellas, e, emfim, a grande
-sympathia que um inspirava ao outro.
-
-Quando me despedi de Eduardo Prado, naquelle dia, vim perguntando a mim
-mesmo se teria vida bastante para ler e admirar as obras-primas que
-esse talentoso brasileiro levava no cerebro em gestação, ou em germen,
-e durante muitos annos viriam abastecer a nossa lingua e a nossa terra.
-Seis dias depois, era elle que morria. Chamei injusta á natureza;
-bastaria dizer--indifferente.
-
-
-ANTONIO JOSÉ
-
-Um dia destes, relembrando uma passagem da tragedia que Magalhães
-consagrou á memoria de Antonio José, adverti na resposta dada pelo
-judeu ao conde de Ericeira, quando este lhe recommenda que imite
-Molière; o judeu responde que Molière escrevia para francezes e elle
-não. Será essa resposta a rigorosa expressão da verdade? Antonio
-José não se modelou, certamente, pelas obras do grande comico, não
-cogitou jamais da simples pintura dos vicios e dos caracteres. Molière
-caminhou do _Medico Volante_ e dos _Zelos de Barbouillé_ á _Escola
-das Mulheres_ e ao _Tartufo_; Antonio José não passou das _Guerras do
-Alecrim e Mangerona_, e, dado que tentasse fazel-o, é certo que não
-poderia ir muito além. Não tinha centro apropriado, nem largas vistas;
-faltavam-lhe outros meios, outros intuitos; e, se porventura entrou
-em seu espirito reatar a tradição de Gil Vicente, levantando sobre os
-alicerces lançados por esse operario do seculo XVI as paredes de um
-theatro regular, convinha justamente não imitar nada, nem ninguem, não
-se fazer Molière, nem Plauto, ficar Antonio José; é a condição das
-obras vivas.
-
-Interpretada desse modo, é exacta e verdadeira a resposta que Magalhães
-põe na boca do judeu; mas só desse modo. O _Amphytrião_ prova que o
-nosso poeta alguma cousa imitou e transplantou de Molière, a tal ponto
-que forçosamente o tinha deante de si, ou na banca de trabalho ou na
-memoria; e, porque esta observação não haja sido feita, cuido que
-interessará, quando menos, a titulo de curiosidade litteraria. Ao mesmo
-tempo, direi o que me parece do escriptor e da sua obra.
-
-E, antes de mais nada, occorre ponderar que Antonio José gosa de
-uma reputação sobre palavra. A fogueira de 18 de Outubro de 1739
-illuminou-lhe a figura de maneira que o puderam ver todos os olhos;
-a tragedia do Sr. Magalhães vulgarisou-o entre as nossas platéas de
-ha 40 annos; mas só os estudiosos o terão lido, e nem todos, porque
-a tarefa exige constancia e esforço, embora de certo modo os pague.
-Póde-se dizer, sem erro, que elle pertence á familia dos poetas
-comicos, qualquer que seja o grau de parentesco,--com a circumstancia
-que era um desperdiçado,--trocava a boa moeda do comico pelo cobre
-vulgar do burlesco. Mas, poeta comico era-o, e de boa veia;--mais de
-certo que Nicolau Luiz, que lhe succedeu na estima das platéas de
-Lisboa, mais ainda que Manuel de Figueiredo, cujas intenções literarias
-abafaram, talvez, a livre expansão do engenho, e que aliás escrevia
-de si mesmo que--«havendo-se enganado comsigo em infinitas cousas,
-nunca se preoccupou de que tinha graça.» Accresce que o fim tragico
-do judeu communica ás suas paginas alegres e juvenis um reflexo de
-sympathica melancolia, que ainda mais nos convida a percorrel-as e
-estudal-as. A piedade não é de certo razão determinativa em pontos de
-critica, e tal poetastro haverá que, succumbindo a uma grande injustiça
-social, somente inspire compaixão sem desafiar a analyse. Não é o caso
-de Antonio José; este mereceria por si só que o estudassemos, ainda
-despido das occorrencias tragicas que lhe circumdam o nome.
-
-Nenhuma das comedias do judeu se póde dizer excellente e perfeita;
-ha porém graus entre ellas, e a todas sobreleva a das _Guerras do
-Alecrim e Mangerona_. Nesta, como nas demais, nota-se de certo muita
-espontaneidade, viveza de dialogo, graça de estylo, variedade de
-situações, e certo conhecimento de scena; mas a alma de todas ellas
-não é grande; vive-se alli de enredo e de apparato. Se ao poeta foi
-estranha a invenção dos caracteres e a pintura dos vicios, não menos o
-foi a transcripção dos costumes locaes. Salvo o _Alecrim e Mangerona_,
-todas as suas peças são inteiramente alheias á sociedade e ao tempo;
-a _Esopaida_ tem por base um assumpto antigo; a _Vida de D. Quixote_
-põe em scena o personagem de Cervantes; as outras peças são todas
-mythologicas. Podiam estas, não obstante o rotulo, conter a pintura
-dos costumes e da sociedade cujo producto eram; mas, comquanto em taes
-composições influa muito o moderno, não se descobre nellas nenhuma
-intenção daquella natureza.
-
-Ao contrario, a intenção quasi exclusiva do poeta era a galhofa, e tal
-galhofa que transcendia muita vez as raias da conveniencia publica.
-Nenhuma de suas peças,--operas é o nome classico,--nenhuma é isenta
-de expressões baixas e até obscenas, com que elle, segundo lhe arguia
-um prelado, «chafurdou na immundicie.» Tinha razão o prelado, mas não
-basta ter razão; cumpre saber tel-a. Ora, a baixeza e a obscenidade
-das locuções não eram novidade na scena portugueza, nem na de outros
-paizes; e, deixando de ir agora a exemplos estranhos á nossa lingua,
-basta lembrar que o _Cioso_, de Ferreira, do culto autor da _Castro_,
-foi dado por Figueiredo com a declaração de ter sido «expurgado
-segundo o melindre dos ouvidos do nosso seculo.» Gil Vicente, sem
-embargo de se representarem suas peças na côrte de D. João III e D.
-Manuel, adubava-as ás vezes de especies que nos parecem hoje bem pouco
-exquisitas. As operas do judeu eram dadas num theatro popular; não as
-ouvia a côrte de D. João V, mas o povo e os burguezes de Lisboa, cujas
-orelhas não teriam ainda os melindres que mais tarde lhes attribuiu
-Figueiredo. A differença entre Antonio José e os outros era afinal uma
-questão de quantidade; mas, se o tempo lh'o permittia e, com o tempo,
-a censura, que muito é que o poeta reincidisse? Não é isto escusal-o,
-mas explical-o. Deixemos os trocados e equivocos, que são um chiste de
-mau gosto, mácula de estylo, que o poeta exagerou até á puerilidade,
-cedendo a si mesmo e ao riso das platéas. Outro defeito que se lhe
-argúe, é o tom guindado e os arrebiques de conceito, que se notam em
-muitas falas de certos personagens, os deuses, principes e heróes.
-Um de seus biographos, comparando o estylo de taes personagens com o
-dos criados e pessoas infimas, que são simples e naturaes, suppõe que
-houve no poeta intenção satyrica, opinião que me parece carecer de
-fundamento, entre outras razões porque não ha sempre aquella differença
-de estylo, e não é raro falarem os principaes personagens do mesmo
-modo natural e recto, que os de condição inferior. Guindam-se muita
-vez, mas era achaque do tempo e exageração na maneira de empregar o
-estylo nobre, porque havia então um estylo nobre; e, se o judeu teve
-alguma vez intenção satyrica, arrebicando ou empolando a expressão,
-tal intenção foi sómente literaria e nenhuma outra. Que diremos dos
-anachronismos de linguagem? Esses são constantes e excessivos. Os
-dobrões de Alcmena, a alcunha de _alfacinha_ dada a Amphytrião, Juno
-chrismada em Felizarda, um criado antigo «de corpo á ingleza,» outro
-com «relogio de pendurucalhos,» deviam promover a gargalhada franca
-do povo. Esse fugir do meio e da acção para a realidade presente vae
-algumas vezes além, como na _Esopaida_, em que o heróe, falando de
-sua vida, diz que anda em livros pelo mundo--«e agora me dizem que se
-está representando no Bairro-Alto.» Já na _Vida de D. Quixote_ havia o
-poeta posto a mesma cousa na boca de Sancho, quando o cavalleiro, vendo
-um barco amarrado, pergunta ao escudeiro:--«Sabes onde estamos?--Sei
-bem.--Aonde?--No Bairro-Alto.» O judeu podia responder que tal séstro
-foi o de Regnard e o de Boursault, por exemplo, que poz o seu Esopo a
-tomar café e metteu com elle esposas de tabelliães; podia citar muitos
-outros exemplos anteriores e contemporaneos, e a critica se incumbiria
-de apontar os que vieram depois delle; mas não vale a pena.
-
-Venhamos ao _Amphytrião_. Um erudito escriptor, o Sr. Theophilo
-Braga, suppõe que a intenção do poeta, nessa comedia, foi pintar em
-Jupiter a pessoa de D. João V, supposição que detidamente examinei
-e me parece inteiramente gratuita. Cuido que o critico faz de uma
-coincidencia um proposito, e fundamenta a sua suspeita na possivel
-analogia das aventuras do deus pagão e do rei christão. A analogia
-podia ser um elemento de prova, mas desacompanhada de outras não faz
-chegar a nenhum resultado definitivo. Ora, basta ler o _Amphytrião_,
-basta comparar a situação do poeta e o tempo para varrer do espirito
-semelhante hypothese. Certo, não faltava audacia ao poeta; ahi está,
-como exemplo, a definição da justiça, feita por Sancho, na _Vida de D.
-Quixote_; mas entre a generalidade desse trecho e a satyra pessoal do
-_Amphytrião_ vae um abysmo. Occorre-me que do _Amphytrião_ de Molière
-tambem se disse ser allusão a Luiz XIV, com a differença que em França
-não se attribuiu a Molière a intenção de ferir, mas de ser agradavel
-ao rei, que lhe havia encommendado aquella apotheose de suas proprias
-aventuras, opinião esta que foi de todo condemnada. Não, não ha motivo
-para attribuir a Antonio José a intenção que lhe suppõe o Sr. Theophilo
-Braga; e, se tal intenção existisse, o desenlace da comedia, quando
-Jupiter se declara acima da lei, viria a ser de um sarcasmo tão crú que
-não alcançariamos comprehendel-o naquelle seculo.
-
-Evidentemente, o judeu achou na aventura pagã o mesmo que lhe acharam
-Plauto, Molière e Camões,--um assumpto prestadio ás combinações
-scenicas, e, demais, singularmente proprio para as chufas do
-Bairro-Alto. Desnecessario é dizer os tramites dessa travessura de
-Jupiter, que, namorado de Alcmena, toma a figura do marido e vae á
-casa della, acompanhado de Mercurio, que copia as feições de Sosias,
-criado de Amphytrião. O nosso poeta seguiu no principal a fabula
-que encontrou nos antecessores, fazendo-lhe todavia as alterações
-suscitadas pelo gosto proprio e das platéas. Assim, o Sosias de Plauto,
-de Molière e de Camões é na peça de Antonio José um Saramago. Não lhe
-mudou elle o essencial; trocando-lhe o nome, obedeceu ao systema de
-dar aos criados nomes burlescos. O de Jason, nos _Encantos de Medéa_,
-chama-se Sacatrapos; ha nas outras operas um Carangueijo, um Esfusiote,
-um Chichisbéu. São nomes, não valem mais que nomes. Nem Molière chamou
-Dandin ao principal personagem de uma de suas comedias sinão para o
-caracterisar desde logo de um modo jovial; não pretendeu outra cousa.
-Comtudo, a observação em relação a Antonio José tem o valor de um rasgo
-significativo.
-
-Cotejando o _Amphytrião_ de Antonio José com os de seus antecessores,
-vê-se o que elle imitou dos modelos, e o que de sua casa introduziu.
-Já disse que no principal os seguiu a todos; mas nem sempre soube
-escolher, e darei disso um exemplo claro. Camões, que não sendo
-poeta comico, era todavia homem de tacto e gosto, corrigiu, antes de
-Molière, o desenlace do _Amphytrião_ de Plauto. Na comedia deste, logo
-depois de explicar Jupiter os equivocos da situação e de annunciar
-ao marido de Alcmena que o filho desta é seu, mostra-se Amphytrião
-inteiramente satisfeito e glorioso com o desenlace. Camões supprimiu
-tão singular contentamento, e o mesmo fez Molière; em ambos os poetas
-Amphytrião ouve silencioso as declarações do pae dos deuses, sem que
-Alcmena assista a ellas. Antonio José não só não seguiu nessa parte
-os modelos recentes, mas até carregou a mão sobre o que imitou de
-Plauto. A alegria do seu Amphytrião e da sua Alcmena é tão franca,
-tamanho é o alvoroço dos dous esposos, que realmente chega a offender
-as leis da verosimilhança, ainda tratando-se de um caso divino. Neste
-ponto Antonio José foi antes inadvertido do que obrigado do gosto
-publico. Outro caso. Nas comedias anteriores não ha nenhum logar em
-que Alcmena veja ao mesmo tempo os dois Amphytriões, e isto não só era
-necessario para prolongar e justificar os equivocos, mas até o exigia a
-verosimilhança, porque, desde que Alcmena chegasse a ver juntos os dous
-exemplares exactos do marido, saía da boa fé que serve de fundamento á
-sua illusão, para cair no maravilhoso e no inextricavel. E é justamente
-o que acontece na comedia do judeu.
-
-Vamos agora ao que o judeu imitou directamente de Molière. Ha na
-comedia daquelle um caracter, o de Cornucopia, mulher de Saramago,
-que não tem equivalente na de Plauto, nem na de Camões, e que só na
-de Molière existe. «Molière (é observação de La Harpe), fazendo de
-Cleanthis mulher de Sosias, inventou uma situação parallela á de
-Amphytrião e Alcmena, dando-lhe porém differente aspecto; Cleanthis
-pertence ao numero das esposas que, por serem honestas, cuidam ter
-o direito de ser insupportaveis». Ora bem, a situação e o caracter
-de Cleanthis transportou-os o judeu para o seu _Amphytrião_, e não
-se póde dizer encontro fortuito, senão deliberado proposito. Basta
-cotejal-os com espirito advertido; a differença é de tom, de estylo;
-substancialmente, a invenção é a mesma; as proprias idéas reproduzem-se
-ás vezes na obra do judeu. Assim, logo na scena em que Mercurio
-transformado em Saramago (Sosias) encontra a mulher deste, achamos o
-traço commum aos dois poetas.
-
-Na comedia de Molière:
-
- CLEANTHIS
-
- Regarde, traitre, Amphytrion;
- Vois comme pour Alcmène il étale de flamme;
- Et rougis là-dessus du peu de passion
- Que tu témoignes pour ta femme.
-
- MERCURIO
-
- Hé! mon Dieu! Cléanthis, ils sont encore amants.
- Il est certain âge où tout passe;
- Et ce qui leur sied bien dans ces commencements,
- En nous, vieux mariés, aurait mauvaise grâce.
- Il nous ferait beau voir, attachés face à face,
- A pousser les beaux sentiments!
-
- CLEANTHIS
-
- Mérites-tu, pendard, cet insigne bonheur
- De te voir pour épouse une femme d'honneur?
-
- MERCURIO
-
- Mon Dieu! tu n'es que trop honnête;
- Ce grand honneur ne me vaut rien.
- Ne sois point si femme de bien,
- Et me romps un peu moins la tête.
-
-Agora Antonio José:
-
- CORNUCOPIA
-
- Tambem nosso amo trazia bastante fome, e comtudo está dizendo á nossa
- ama tanta cousa galantinha que faria derreter uma pedra
-
- MERCURIO
-
- Com que é o mesmo nossos amos do que nós? Elles casadinhos de um anno,
- e nós ha um seculo? Elles senhores e rapazes, e nós velhos e moços?[1]
- Elles dous jasmins e nós dous lagartos? E finalmente elles com amor, e
- nós, ou pelo menos eu, sem nenhum?
-
-[1] Criados.
-
- CORNUCOPIA
-
- Ora o certo é que peior é fazer festa a villões ruins; por estas, que
- se tu conheceras a mulher que tens, que outra cousa fôra; talvez que
- se eu fôra alguma dessas bonecrinhas enfeitadas que me quizeras mais;
- porém a culpa tenho eu em não aceitar o que me davam nas tuas costas.
-
- MERCURIO
-
- Pois ainda estás em tempo...
-
- Trata-se, como se vê, de um caracter e de uma situação integralmente
- transcriptos, embora de outro geito, cedendo o poeta aos seus habitos
- literarios, á sua indole e ao seu meio. Nem é sómente na introducção
- do caracter de Cornucopia, e na situação dos dous personagens, que
- Antonio José revela ter deante de si ou na memoria a peça de Molière,
- ha ainda outro vestigio; ha uma idéa na scena em que Jupiter se
- despede de Alcmena,--idéa que o judeu expressa deste modo:
-
- ALCMENA
-
- Este amor nasce da obrigação.
-
- JUPITER
-
- Pois quizera que esta fineza nascera mais do teu amor que da tua
- obrigação.
-
- ALCMENA
-
- A obrigação de amar ao esposo supera toda a obrigação.
-
- JUPITER
-
- Pois mais devera que me quizeras como a amante que como a esposo.
-
- ALCMENA
-
- Não sei fazer esta differença, pois não posso amar-te como a esposa,
- sem que te ame como a amante.
-
-Na comedia de Molière:
-
- JUPITER
-
- En moi, belle et charmante Alcmène,
- Vous voyez un mari, vous voyez un amant;
- Mais l'amant seul me touche, à parler franchement;
- Et je sens près de vous que le mari me gêne.
- Cet amant, de vos vœux jaloux au dernier point,
- Souhaite qu'à lui seul votre amour s'abandonne.
-
- ALCMENA
-
- Je ne sépare point ce qu'unissent les dieux;
- Et l'époux et l'amant me sont fort précieux.
-
-Se, neste ponto, já se não trata de uma situação, de um caracter
-novo, mas de uma idéa entrelaçada no dialogo, importa repetir
-que, ainda imitando ou recordando, o judeu se conserva fiel á sua
-physionomia literaria; póde ir buscar a especiaria alheia, mas ha de
-ser para temperal-a com o molho da sua fabrica. Dessa inclinação ao
-baixo-comico achamos outro exemplo na _Esopaida_, cujo assumpto fôra
-tratado, antes delle, por Boursault. O caracter tradicional de Esopo
-era pouco apropriado á comedia: é um moralista, um autor de apologos,
-mas Boursault trouxe-o assim mesmo para a scena, unico modo de lhe
-conservar a côr original. O Esopo de Antonio José parece antes um
-exemplar apurado daquelles lacaios argutos e atrevidos da comedia
-classica; salvo dous ou tres logares, é outro genero de Sacatrapos
-ou Chichisbéo; figura alli com agudezas e trocadilhos. Ha destes
-extremamente bufões, como o da bacia das almas, e disso e de pouco
-mais se compõe a philosophia de Esopo. Não obstante essa côr geral,
-notam-se alli toques de bom comico, embora leves e a espaços. Ha
-tambem, e principalmente, a veia satyrica, na scena que quasi todos
-os seus biographos transcrevem,--a das theses dos philosophos, scena
-extremamente chistosa, e que o proprio Diniz, com toda a sua veia do
-_Hyssope_ e do _Falso Heroismo_, não sei se chegaria a fazer mais
-acabada. Compare-se essa scena com a da invasão do Parnaso pelos maus
-poetas, na _Vida de D. Quixote_, e ver-se-ha que havia no talento
-de Antonio José uma forte dóse de satyra,--o que, de certa maneira,
-lhe diminuia a força comica. Nessas duas peças é, aliás, sensivel a
-habilidade theatral do poeta, que não tinha propriamente uma acção em
-nenhuma dellas, e, não obstante, logrou condensar a vida dos episodios,
-manter a unidade do interesse e angariar o applauso publico. Accresce
-que o seu D. Quixote não tem o defeito capital do seu Esopo; o poeta
-soube dar-lhe alguns toques da ingenuidade sublime, que caracterisa o
-typo de Cervantes: é o que se vê logo, na exposição, quando D. Quixote
-responde ao barbeiro acerca da armada que se prepara para combater o
-turco:--«Para que se cançam com tantas machinas? diz elle. Eu lhes déra
-um bom arbitrio com que, em menos de uma hora, vençam quantas armadas
-e armadilhas o turco tiver.» É ocioso dizer que o arbitrio seria a
-cavallaria andante.
-
-De todas as comedias, porém, a que goza as honras da primazia, é a
-das _Guerras do Alecrim e Mangerona_, e com razão; é a mais acabada e
-a mais comica. Tem o gosto do tempo, e até um resaibo da maneira de
-Calderon, que de si mesmo escrevia:
-
- Es comedia de Don Pedro
- Calderon, d'onde hade haber,
- Por fuerza, amante escondido
- Y rebozada mujer.
-
-Ha alli com effeito mulheres rebuçadas e amantes escondidos, e tanta
-vida como nas peças de Calderon.
-
-Não trato aqui do facto que poderia ter dado logar á obra do judeu, nem
-das duvidas de Costa e Silva sobre se os dois _ranchos_ do _alecrim_
-e da _mangerona_ existiam antes da comedia, ou se esta os fez nascer;
-é investigação que não vale a pena de um minuto, e aliás o texto do
-poeta é claro. Em tudo se avantaja o _Alecrim_ e _mangerona_, até na
-linguagem, que é ahi muito menos obscena que nas outras, differença que
-se póde attribuir ao progresso do talento, porquanto já no _Labyrintho
-de Creta_ se dá o mesmo phenomeno. Não direi, como Garrett, que essa
-peça teria hoje todo o valor de uma comedia historica; mas assim
-mesmo, quem lhe vê as figuras, a seculo e meio de distancia, parece
-contemplar uma gravura em que ellas conservam as feições e o vestuario
-do tempo,--os namorados pobres, o velho avarento que arde por se ver
-livre das sobrinhas, e que, ao annunciarem-lhe a chegada do pretendente
-provinciano, manda deitar «mais um ovo nos espinafres,» D. Tiburcio, as
-duas damas, o Semicupio e a velha Fagundes, todo o pessoal da antiga
-farça.
-
-Superior ás outras composições, como estylo e originalidade, não menos
-o é como viveza, graça e movimento: e, se a farça domina, não é tanto
-que não appareça a comedia. Basta apontar, por exemplo, a scena da
-consulta medica, por occasião do desastre de D. Tiburcio, que é uma
-das melhores do theatro do judeu, e não ficaria vexada si a puzessemos
-ao lado das de Molière e Gil Vicente. Para não faltar nada, ha tambem
-aphorismos latinos, e até uma copla latina, digna de Molière. Podemos
-considerar o _Alecrim e Mangerona_ como uma das melhores comedias do
-seculo XVIII.
-
-Ler o _Alecrim e Mangerona_, o _Amphytrião_, a _Esopaida_ e o _D.
-Quixote_, é avaliar todo o poeta, com suas qualidades boas e más,
-com o geito do seu espirito e influencia do seu tempo. Nicolau Luiz,
-Figueiredo, Diniz e Garção, no mesmo seculo, tiveram talvez mais
-intenção comica do que Antonio José, mas os meios deste eram maiores,
-possuiam outra virtualidade, outra espontaneidade, outra abundancia.
-Dir-se-ha que, se a Inquisição o deixára viver, Antonio José produziria
-alguma obra de esphera superior? Repito: não creio que elle subisse
-muito acima do _Alecrim e Mangerona_; iria talvez ao ponto de fazer
-alguma cousa parecida com o _Avaro_, mas não faria todo o _Avaro_.
-
-Agora, a seculo e meio de distancia, podemos affirmar que Antonio
-José foi um destino decapitado. Qualquer que fosse a natureza do
-seu engenho, é fóra de duvida que o auto da fé em que elle pereceu,
-devorou com a mesma flamma assaz de paginas alegres e vivazes. A
-prova de que o theatro poderia ainda esperar muito de Antonio José,
-está na comparação das obras delle com a vida delle. Era um christão
-novo, como tal suspeitado e perseguido; aos vinte e um annos padeceu
-um primeiro processo, e sabe-se que terriveis eram os processos
-inquisitoriaes; basta dizer que o delinquente revelou todos os seus
-complices em judaismo, com a maior franqueza e minuciosidade, o que
-se póde explicar pela tenra edade do poeta, mas tambem pelo terror
-que o tribunal infundia, não menos que pela exhortação mansa com que
-os inquisidores extorquiam a confissão de todos os erros e a denuncia
-de todos os complices,--sem prejuizo, aliás, do carcere e da polé.
-Pois bem, não obstante os vestigios e as lembranças desse primeiro
-acto da Inquisição, não obstante o espectaculo do que padeciam os
-seus, as operas de Antonio José trazem o sabor de uma mocidade
-imperturbavelmente feliz, a facecia grossa e petulante, tal como lh'a
-pedia o paladar das platéas, nenhum vislumbre do episodio tragico,
-salvo uns versos do _Amphytrião_ que se creem, (e, quanto a mim, sem
-outro fundamento além da conjectura) como applicaveis a elle mesmo.
-Mas ainda suppondo que a conjectura tenha razão, admittindo mais que a
-allegoria da justiça na _Vida de D. Quixote_ seja o resumo das queixas
-pessoaes do poeta (supposição tão fragil como aquella), a verdade é
-que os successos da vida delle não influiram, não diminuiram a força
-nativa do talento, nem lhe torceram a natureza, que estava muito longe
-da hypocondria. Molière, que, se nem sempre teve flores no caminho,
-não conheceu o infimo dos padecimentos de Antonio José, foi o creador
-de Alceste; o nosso judeu, dado que tivesse a mesma intensidade de
-talento, não escolheria nunca o assumpto do _Misanthropo_.
-
-Nisto, menos que em nenhuma outra cousa, imitaria elle o grande mestre.
-Não lhe fossem propôr graves problemas, nem maximas profundas, nem
-os caracteres, nem as altas observações que formam o argumento das
-comedias de outra esphera, nem sobretudo as melancolias de Molière e
-Shakespeare. O nosso judeu era a farça, a genuina farça, sem outras
-pretenções, sem mais remotas vistas que os limites do seu bairro e
-do seu tempo. Certo, eu posso hoje, á fina força, arrancar alguma
-idéa inicial das operas do judeu; por exemplo, ao ver nos _Encantos
-de Medéa_ a dedicação da feiticeira de Colchos, que tráe os deveres
-filiaes e põe todas as suas artes ao serviço de Jason, ao ponto de lhe
-entregar o vellocino e ao ver que, apezar de tudo isto, o principe
-foge com Creusa, posso, digo eu, attribuir ao poeta a intenção de que
-o reconhecimento não é o caminho do amor e que um coração póde ser
-legitimamente ingrato. Seria logico, seria bem deduzido da acção, mas
-não passaria de obra da critica, inteiramente alheia á intenção do
-poeta, que achou no assumpto uma farça de tramoias e nada mais. Esta
-é a ultima conclusão que rigorosamente se póde tirar do poeta. Elle
-não imitou, não chegaria a imitar Molière, ainda que repetisse as
-transcripções que fez no _Amphytrião_; tinha originalidade, embora a
-influencia das operas italianas. Convenhamos que era um engenho sem
-disciplina, nem gosto, mas caracterisco e pessoal.
-
-
-
-
-Não consultes medico
-
-
-PESSOAS
-
- D. LEOCADIA
- D. ADELAIDE
- D. CARLOTA
- CAVALCANTE
- MAGALHAES
-
-Um gabinete em casa de Magalhães, na Tijuca.
-
-
-SCENA I
-
-MAGALHÃES, D. ADELAIDE
-
-Magalhães lê um livro, D. Adelaide folhea um livro de gravuras.
-
-MAGALHÃES
-
-Esta gente não terá vindo?
-
-D. ADELAIDE
-
-Parece que não. Já sairam ha um bom pedaço; felizmente o dia está
-fresco. Titia estava tão contente ao almoço! E hontem? Você viu que
-risadas que ella dava, ao jantar, ouvindo o Dr. Cavalcante? E o
-Cavalcante serio. Meu Deus, que homem triste! que cara de defunto!
-
-MAGALHÃES
-
-Coitado do Cavalcante! Mas que quererá ella commigo? Falou-me em um
-obsequio.
-
-D. ADELAIDE
-
-Sei o que é.
-
-MAGALHÃES
-
-Que é?
-
-D. ADELAIDE
-
-Por ora é segredo. Titia quer que levemos Carlota comnosco.
-
-MAGALHÃES
-
-Para a Grecia?
-
-D. ADELAIDE
-
-Sim, para a Grecia.
-
-MAGALHÃES,
-
-Talvez ella pense que a Grecia é em Pariz. Eu acceitei a legação de
-Athenas porque não me dava bem em Guatemala, e não ha outra vaga na
-America. Nem é só por isso; você tem vontade de ir acabar a lua de mel
-na Europa... Mas então Carlota vae ficar comnosco?
-
-D. ADELAIDE
-
-É só algum tempo. Carlota gostava muito de um tal Rodrigues, capitão de
-engenharia, que casou com uma viuva hespanhola. Soffreu muito, e ainda
-agora anda meia triste; titia diz que ha de cural-a.
-
-MAGALHÃES, _rindo_
-
-É a mania della.
-
-D. ADELAIDE, _rindo_
-
-Só cura molestias moraes.
-
-MAGALHÃES
-
-A verdade é que nos curou; mas, por muito que lhe paguemos em
-gratidão, fala-nos sempre da nossa antiga molestia. «Como vão os meus
-doentesinhos? Não é verdade que estão curados?»
-
-D. ADELAIDE
-
-Pois falemos-lhe nós da cura, para lhe dar gosto. Agora quer curar a
-filha.
-
-MAGALHÃES
-
-Do mesmo modo?
-
-D. ADELAIDE
-
-Por ora não. Quer mandal-a á Grecia para que ella esqueça o capitão de
-engenharia.
-
-MAGALHÃES
-
-Mas, em qualquer parte se esquece um capitão de engenharia.
-
-D. ADELAIDE
-
-Titia pensa que a vista das ruinas e dos costumes differentes cura mais
-depressa. Carlota está com dezoito para dezenove annos; titia não a
-quer casar antes dos vinte. Desconfio que já traz um noivo em mente,
-um moço que não é feio, mas tem o olhar espantado.
-
-MAGALHÃES
-
-É um desarranjo para nós; mas, emfim, póde ser que lhe achemos lá
-na Grecia algum descendente de Alcibiades que a preserve do olhar
-espantado.
-
-D. ADELAIDE
-
-Ouço passos. Ha de ser titia...
-
-MAGALHÃES
-
-Justamente! Continuemos a estudar a Grecia.
-
-(_Sentam-se outra vez, Magalhães lendo, D. Adelaide folheando o livro
-de vistas._)
-
-
-SCENA II
-
-OS MESMOS E D. LEOCADIA
-
-D. LEOCADIA (_pára á porta, desce pé ante pé, e mette a cabeça entre os
-dous_.)
-
-Como vão os meus doentesinhos? Não é verdade que estão curados?
-
-MAGALHÃES, _aparte_ É isto todos os dias.
-
-D. LEOCADIA
-
-Agora estudam a Grecia; fazem muito bem. O paiz do casamento é que
-vocês não precisaram estudar.
-
-D. ADELAIDE
-
-A senhora foi a nossa geographia, foi quem nos deu as primeiras licções.
-
-D. LEOCADIA
-
-Não diga licções, diga remedios. Eu sou doutora, eu sou medica. Este
-(_indicando Magalhães_), quando voltou de Guatemala, tinha um ar
-exquisito; perguntei-lhe se queria ser deputado, disse-me que não;
-observei-lhe o nariz, e vi que era um triste nariz solitario...
-
-MAGALHÃES
-
-Já me disse isto cem vezes.
-
-D. LEOCADIA, _voltando-se para elle e continuando_
-
-Esta (_designando Adelaide_) andava hypocondriaca. O medico da casa
-receitava pilulas, capsulas, uma porção de tolices que ella não tomava,
-porque eu não deixava; o medico devia ser eu.
-
-D. ADELAIDE
-
-Foi uma felicidade. Que é que se ganha em engolir pilulas?
-
-D. LEOCADIA
-
-Apanham-se molestias.
-
-D. ADELAIDE
-
-Uma tarde, fitando eu os olhos de Magalhães...
-
-D. LEOCADIA
-
-Perdão, o nariz.
-
-ADELAIDE
-
-Vá lá. A senhora disse-me que elle tinha o nariz bonito, mas muito
-solitario. Não entendi; dous dias depois, perguntou-me se queria casar,
-eu não sei que disse, e acabei casando.
-
-D. LEOCADIA
-
-Não é verdade que estão curados?
-
-MAGALHÃES
-
-Perfeitamente.
-
-D. LEOCADIA
-
-A proposito, como irá o Dr. Cavalcante? Que exquisitão! Disse-me hontem
-que a cousa mais alegre do mundo era um cemiterio. Perguntei-lhe se
-gostava aqui da Tijuca, respondeu-me que sim, e que o Rio de Janeiro
-era uma grande cidade. «É a segunda vez que a vejo, disse elle; eu
-sou do Norte. É uma grande cidade, José Bonifacio é um grande homem,
-a rua do Ouvidor um poema, o chafariz da Carioca um bello chafariz,
-o Corcovado, o gigante de pedra, Gonçalves Dias, os _Tymbiras_, o
-Maranhão...» Embrulhava tudo a tal ponto que me fez rir. Elle é doudo?
-
-MAGALHÃES
-
-Não.
-
-D. LEOCADIA
-
-A principio, cuidei que era. Mas o melhor foi quando se serviu o perú.
-Perguntei-lhe que tal achava o perú. Ficou pallido, deixou cair o
-garfo, fechou os olhos e não me respondeu. Eu ia chamar a attenção de
-vocês, quando elle abriu os olhos e disse com voz surda: «D. Leocadia,
-eu não conheço o Perú...» Eu, espantada, perguntei: «Pois não está
-comendo...?» «Não falo desta pobre ave; falo-lhe da republica.»
-
-MAGALHÃES
-
-Pois conhece a republica.
-
-D. LEOCADIA
-
-Então mentiu.
-
-MAGALHÃES
-
-Não, porque nunca lá foi.
-
-D. LEOCADIA (_a D.Adelaide_)
-
-Mau! seu marido parece que tambem está virando o juizo. (_A Magalhães_)
-Conhece então o Perú, como vocês estão conhecendo a Grecia... pelos
-livros.
-
-MAGALHÃES
-
-Tambem não.
-
-D. LEOCADIA
-
-Pelos homems?
-
-MAGALHÃES
-
-Não, senhora.
-
-D. LEOCADIA
-
-Então pelas mulheres?
-
-MAGALHÃES
-
-Nem pelas mulheres.
-
-D. LEOCADIA
-
-Por uma mulher?
-
-MAGALHÃES
-
-Por uma mocinha, filha do ministro do Perú em Guatemala. Já contei
-a historia a Adelaide. (_D. Adelaide senta-se folheando o livro de
-gravuras_.)
-
-D. LEOCADIA, _senta-se_
-
-Ouçamos a historia. É curta?
-
-MAGALHÃES
-
-Quatro palavras. Cavalcante estava em commissão do nosso governo, e
-frequentava o corpo diplomatico, onde era muito bem visto. Realmente,
-não se podia achar creatura mais dada, mais expansiva, mais estimavel.
-Um dia começou a gostar da peruana. A peruana era bella e alta, com uns
-olhos admiraveis. Cavalcante, dentro de pouco, estava doudo por ella,
-não pensava em mais nada, não falava de outra pessoa. Quando a via
-ficava extatico. Se ella gostava delle, não sei; é certo que o animava,
-e já se falava em casamento. Puro engano! Dolores voltou para o Perú,
-onde casou com um primo, segundo me escreveu o pae.
-
-D. LEOCADIA
-
-Elle ficou desconsolado, naturalmente.
-
-MAGALHÃES
-
-Ah! não me fale! Quiz matar-se; pude impedir esse acto de desespero, e
-o desespero desfez-se em lagrimas. Caiu doente, uma febre que quasi o
-levou. Pediu dispensa da commissão, e, como eu tinha obtido seis mezes
-de licença, voltámos juntos. Não imagina o abatimento em que ficou, a
-tristeza profunda; chegou a ter as idéas baralhadas. Ainda agora, diz
-alguns disparates, mas emenda-se logo e ri de si mesmo.
-
-D. LEOCADIA
-
-Quer que lhe diga? Já hontem suspeitei que era negocio de amores;
-achei-lhe um riso amargo... Terá bom coração?
-
-MAGALHÃES
-
-Coração de ouro.
-
-D. LEOCADIA
-
-Espirito elevado?
-
-MAGALHÃES
-
-Sim, senhora.
-
-D. LEOCADIA
-
-Espirito elevado, coração de ouro, saudades... Está entendido.
-
-MAGALHÃES
-
-Entendido o que?
-
-D. LEOCADIA
-
-Vou curar o seu amigo Cavalcante. De que é que vocês se espantam?
-
-D. ADELAIDE
-
-De nada.
-
-MAGALHÃES
-
-De nada, mas...
-
-D. LEOCADIA
-
-Mas que?
-
-MAGALHÃES
-
-Parece-me...
-
-D. LEOCADIA
-
-Não parece nada; vocês são uns ingratos. Pois se confessam que eu curei
-o nariz de um e a hypocondria do outro, como é que põem em duvida que
-eu possa curar a maluquice do Cavalcante? Vou cural-o. Elle virá hoje?
-
-D. ADELAIDE
-
-Não vem todos os dias; ás vezes passa-se uma semana.
-
-MAGALHÃES
-
-Mora perto daqui; vou escrever-lhe que venha, e, quando chegar,
-dir-lhe-hei que a senhora é o maior medico do seculo; cura o moral...
-Mas, minha tia, devo avisal-a de uma cousa; não lhe fale em casamento.
-
-D. LEOCADIA
-
-Oh! não!
-
-MAGALHÃES
-
-Fica furioso quando lhe falam em casamento; responde que só se ha de
-casar com a morte... A senhora exponha-lhe...
-
-D. LEOCADIA
-
-Ora, meu sobrinho, vá ensinar o _padre-nosso_ ao vigario. Eu sei o que
-elle precisa, mas quero estudar primeiro o doente e a doença. Já volto.
-
-MAGALHÃES
-
-Não lhe diga que eu é que lhe contei o caso da peruana...
-
-D. LEOCADIA
-
-Pois se eu mesma adivinhei que elle soffria do coração. (_Sae; entra
-Carlota._)
-
-
-SCENA III
-
-MAGALHÃES, D. ADELAIDE, D. CARLOTA
-
-D. ADELAIDE
-
-Bravo! está mais corada agora!
-
-D. CARLOTA
-
-Foi do passeio.
-
-D. ADELAIDE
-
-De que é que você gosta mais, da Tijuca ou da cidade?
-
-D. CARLOTA
-
-Eu por mim, ficava mettida aqui na Tijuca.
-
-MAGALHÃES
-
-Não creio. Sem bailes? sem theatro lyrico?
-
-D. CARLOTA
-
-Os bailes cançam, e não temos agora theatro lyrico.
-
-MAGALHÃES
-
-Mas, em summa, aqui ou na cidade, o que é preciso é que você ria; esse
-ar tristonho faz-lhe a cara feia.
-
-D. CARLOTA
-
-Mas eu rio. Ainda agora não pude deixar de rir vendo o Dr. Cavalcante.
-
-MAGALHÃES
-
-Porque?
-
-D. CARLOTA
-
-Elle passava ao longe, a cavallo, tão distrahido que levava a cabeça
-caida entre as orelhas do animal; ri da posição, mas lembrei-me que
-podia cair e ferir-se, e estremeci toda.
-
-MAGALHÃES
-
-Mas não caiu?
-
-CARLOTA
-
-Não.
-
-ADELAIDE
-
-Titia viu tambem?
-
-CARLOTA
-
-Mamãe ia-me falando da Grecia, do ceu da Grecia, dos monumentos da
-Grecia, do rei da Grecia; toda ella é Grecia, fala como se tivesse
-estado na Grecia.
-
-ADELAIDE
-
-Você quer ir comnosco para lá?
-
-CARLOTA
-
-Mamãe não ha de querer.
-
-ADELAIDE
-
-Talvez queira. (_Mostrando-lhe as gravuras do livro_) Olhe que bonitas
-vistas! Isto são ruinas. Aqui está uma scena de costumes. Olhe esta
-rapariga com um pote...
-
-MAGALHÃES, _á janella_
-
-Cavalcante ahi vem.
-
-CARLOTA
-
-Não quero vel-o.
-
-ADELAIDE
-
-Porque?
-
-CARLOTA
-
-Agora que passou o medo, posso rir-me lembrando a figura que elle fazia.
-
-ADELAIDE
-
-Eu tambem vou. (_Saem as duas; Cavalcante apparece á porta, Magalhães
-deixa a janella._)
-
-
-SCENA IV
-
-CAVALCANTE e MAGALHÃES
-
-MAGALHÃES
-
-Entra. Como passaste a noite?
-
-CAVALCANTE
-
-Bem. Dei um bello passeio; fui até ao Vaticano e vi o papa. (_Magalhães
-olha espantado._) Não te assustes, não estou doudo. Eis o que foi: o
-meu cavallo ia para um lado e o meu espirito para outro. Eu pensava
-em fazer-me frade; então todas as minhas idéas vestiram-se de burel,
-e entrei a ver sobrepelizes e tochas; emfim, cheguei a Roma,
-apresentei-me á porta do Vaticano e pedi para ver o papa. No momento em
-que Sua Santidade appareceu, prosternei-me, depois estremeci, despertei
-e vi que o meu corpo seguira atraz do sonho, e que eu ia quasi caindo.
-
-MAGALHÃES
-
-Foi então que a nossa prima Carlota deu comtigo ao longe.
-
-CAVALCANTE
-
-Tambem eu a vi, e, de vexado, piquei o cavallo.
-
-MAGALHÃES
-
-Mas, então ainda não perdeste essa idéa de ser frade?
-
-CAVALCANTE
-
-Não.
-
-MAGALHÃES
-
-Que paixão romanesca!
-
-CAVALCANTE
-
-Não, Magalhães; reconheço agora o que vale o mundo com as suas
-perfidias e tempestades. Quero achar um abrigo contra ellas; esse
-abrigo é o claustro. Não sairei nunca da minha cella, e buscarei
-esquecer deante do altar...
-
-MAGALHÃES
-
-Olha que vaes cair do cavallo!
-
-CAVALCANTE
-
-Não te rias, meu amigo!
-
-MAGALHÃES
-
-Não; quero só accordar-te. Realmente, estás ficando maluco. Não penses
-mais em semelhante moça. Ha no mundo milhares e milhares de moças
-eguaes á bella Dolores.
-
-CAVALCANTE
-
-Milhares e milhares? Mais uma razão para que eu me esconda em um
-convento. Mas é engano; ha só uma, e basta.
-
-MAGALHÃES
-
-Bem; não ha remedio se não entregar-te á minha tia.
-
-CAVALCANTE
-
-Á tua tia?
-
-MAGALHÃES
-
-Minha tia crê que tu deves padecer de alguma doença moral,--e
-adivinhou,--e fala de curar-te. Não sei se sabes que ella vive na
-persuasão de que cura todas as enfermidades moraes.
-
-CAVALCANTE
-
-Oh! eu sou incuravel!
-
-MAGALHÃES
-
-Por isso mesmo deves sujeitar-te aos seus remedios. Se te não curar,
-dar-te-ha alguma distracção, e é o que eu quero. (_Abre a charuteira,
-que está vazia_). Olha, espera aqui, lê algum livro; eu vou buscar
-charutos. (_Sae; Cavalcante pega num livro e senta-se._)
-
-
-SCENA V
-
-CAVALCANTE, D. CARLOTA, apparecendo ao fundo.
-
-D. CARLOTA
-
-Primo... (_Vendo Cavalcante_) Ah! perdão!
-
-CAVALCANTE (_erguendo-se_)
-
-Perdão de que?
-
-D. CARLOTA
-
-Cuidei que meu primo estava aqui; vim buscar um livro de gravuras de
-prima Adelaide; está aqui...
-
-CAVALCANTE
-
-A senhora viu-me passar a cavallo, ha uma hora, n'uma posição incommoda
-e inexplicavel.
-
-D. CARLOTA
-
-Perdão, mas...
-
-CAVALCANTE
-
-Quero dizer-lhe que eu levava na cabeça uma idéa séria, um negocio
-grave.
-
-D. CARLOTA
-
-Creio.
-
-CAVALCANTE
-
-Deus queira que nunca possa entender o que era! Basta crer. Foi a
-distracção que me deu aquella postura inexplicavel. Na minha familia
-quasi todos são distrahidos. Um dos meus tios morreu na guerra do
-Paraguay, por cousa de uma distracção; era capitão de engenharia...
-
-D. CARLOTA, _perturbada_.
-
-Oh! não me fale!
-
-CAVALCANTE
-
-Porque? Não póde tel-o conhecido.
-
-D. CARLOTA
-
-Não, senhor; desculpe-me, sou um pouco tonta. Vou levar o livro á minha
-prima.
-
-CAVALCANTE
-
-Peço-lhe perdão, mas...
-
-D. CARLOTA
-
-Passe bem. (_Vae até á porta._)
-
-CAVALCANTE
-
-Mas, eu desejava saber...
-
-D. CARLOTA
-
-Não, não, perdôe-me (_Sae._)
-
-
-SCENA VI
-
-CAVALCANTE, só
-
-Não comprehendo; não sei se a offendi. Falei no tio João Pedro, que
-morreu no Paraguay, antes della nascer...
-
-
-SCENA VII
-
-CAVALCANTE, D. LEOCADIA
-
-D. Leocadia, _ao fundo, aparte_.
-
-Está pensando (_Desce._) Bom dia, Dr. Cavalcante!
-
-CAVALCANTE
-
-Como passou, minha senhora?
-
-D. LEOCADIA
-
-Bem, obrigada. Então meu sobrinho deixou-o aqui só?
-
-CAVALCANTE
-
-Foi buscar charutos, já volta.
-
-D. LEOCADIA
-
-Os senhores são muito amigos.
-
-CAVALCANTE
-
-Somos como dous irmãos.
-
-D. LEOCADIA
-
-Magalhães é um coração de ouro, e o senhor parece-me outro. Acho-lhe só
-um defeito, doutor... Desculpe-me esta franqueza de velha; acho que o
-senhor fala trocado.
-
-CAVALCANTE
-
-Disse-lhe hontem algumas tolices, não?
-
-D. LEOCADIA
-
-Tolices, é muito; umas palavras sem sentido.
-
-CAVALCANTE
-
-Sem sentido, insensatas, vem a dar na mesma.
-
-D. LEOCADIA, _pegando-lhe nas mãos_.
-
-Olhe bem para mim (_Pausa._) Suspire. (_Cavalcante suspira._) O senhor
-está doente; não negue que está doente,--moralmente, entenda-se; não
-negue! (_Solta-lhe as mãos._)
-
-CAVALCANTE
-
-Negar seria mentir. Sim, minha senhora, confesso que tive um
-grandissimo desgosto...
-
-D. LEOCADIA
-
-Jogo de praça?
-
-CAVALCANTE
-
-Não, senhora.
-
-D. LEOCADIA
-
-Ambições politicas mallogradas?
-
-CAVALCANTE
-
-Não conheço politica.
-
-D. LEOCADIA
-
-Algum livro mal recebido pela imprensa?
-
-CAVALCANTE
-
-Só escrevo cartas particulares.
-
-D. LEOCADIA
-
-Não atino. Diga francamente; eu sou medico de enfermidades moraes, e
-posso cural-o. Ao medico diz-se tudo. Ande, fale, conte-me tudo, tudo,
-tudo. Não se trata de amores?...
-
-CAVALCANTE, _suspirando_.
-
-Trata-se justamente de amores.
-
-D. LEOCADIA
-
-Paixão grande?
-
-CAVALCANTE
-
-Oh! immensa!
-
-D. LEOCADIA
-
-Não quero saber o nome da pessoa, não é preciso. Naturalmente, bonita?
-
-CAVALCANTE
-
-Como um anjo!
-
-D. LEOCADIA
-
-O coração também era de anjo?
-
-CAVALCANTE
-
-Póde ser, mas de anjo mau.
-
-D. LEOCADIA
-
-Uma ingrata...
-
-CAVALCANTE
-
-Uma perversa!
-
-D. LEOCADIA
-
-Diabolica...
-
-CAVALCANTE
-
-Sem entranhas!
-
-D. LEOCADIA
-
-Vê que estou adivinhando. Console-se; uma creatura dessas não acha
-casamento.
-
-CAVALCANTE
-
-Já achou!
-
-D. LEOCADIA
-
-Já?
-
-CAVALCANTE
-
-Casou, minha senhora; teve a crueldade de casar com um primo.
-
-D. LEOCADIA
-
-Os primos quasi que não nascem para outra cousa. Diga-me, não procurou
-esquecer o mal nas folias proprias de rapazes?
-
-CAVALCANTE
-
-Oh! não! Meu unico prazer é pensar nella.
-
-D. LEOCADIA
-
-Desgraçado! Assim nunca ha de sarar.
-
-CAVALCANTE
-
-Vou tratar de esquecel-a.
-
-D. LEOCADIA
-
-De que modo?
-
-CAVALCANTE
-
-De um modo velho, alguns dizem que já obsoleto e archaico. Penso em
-fazer-me frade. Ha de haver em algum recanto do mundo um claustro em
-que não penetre sol nem lua.
-
-D. LEOCADIA
-
-Que illusão! Lá mesmo achará a sua namorada. Ha de vel-a nas paredes da
-cella, no tecto, no chão, nas folhas do breviario. O silencio far-se-ha
-boca da moça, a solidão será o seu corpo.
-
-CAVALCANTE
-
-Então estou perdido. Onde acharei paz e esquecimento?
-
-D. LEOCADIA
-
-Póde ser frade sem ficar no convento. No seu caso o remedio
-naturalmente indicado é ir prégar... na China, por exemplo. Va prégar
-aos infieis na China. Paredes de convento são mais perigosas que olhos
-de chinezas. Ande, vá pregar na China. No fim de dez annos está curado.
-Volte, metta-se no convento e não achará lá o diabo.
-
-CAVALCANTE
-
-Está certa que na China...
-
-D. LEOCADIA
-
-Certissima.
-
-CAVALCANTE
-
-O seu remedio é muito amargo! Porque é que me não manda antes para o
-Egypto? Também é paiz de infieis.
-
-D. LEOCADIA
-
-Não serve; é a terra daquella rainha... Como se chama?
-
-CAVALCANTE
-
-Cleopatra? Morreu ha tantos seculos!
-
-D. LEOCADIA
-
-Meu marido disse que era uma desmiolada.
-
-CAVALCANTE
-
-Seu marido era, talvez, um erudito. Minha senhora, não se aprende amor
-nos livros velhos, mas nos olhos bonitos; por isso, estou certo de que
-elle adorava a V. Ex.
-
-D. LEOCADIA
-
-Ah! ah! Já o doente começa a adular o medico. Não, senhor, ha de ir á
-China. Lá ha mais livros velhos que olhos bonitos. Ou não tem confiança
-em mim?
-
-CAVALCANTE
-
-Oh! tenho, tenho. Mas ao doente é permittido fazer uma careta antes de
-engolir a pilula. Obedeço; vou para a China. Dez annos, não?
-
-D. LEOCADIA, _levanta-se_.
-
-Dez ou quinze, se quizer; mas antes dos quinze está curado.
-
-CAVALCANTE
-
-Vou.
-
-D. LEOCADIA
-
-Muito bem. A sua doença é tal que só com remedios fortes. Vá; dez annos
-passam depressa.
-
-CAVALCANTE
-
-Obrigado, minha senhora.
-
-D. LEOCADIA
-
-Até logo.
-
-CAVALCANTE
-
-Não, minha senhora, vou já.
-
-D. LEOCADIA
-
-Já para a China!
-
-CAVALCANTE
-
-Vou arranjar as malas, e amanhã embarco para a Europa; vou a Roma,
-depois sigo immediatamente para a China. Até daqui a dez annos.
-(_Estende-lhe a mão._)
-
-D. LEOCADIA
-
-Fique ainda uns dias...
-
-CAVALCANTE
-
-Não posso.
-
-D. LEOCADIA
-
-Gosto de ver essa pressa; mas, emfim, póde esperar ainda uma semana.
-
-CAVALCANTE
-
-Não, não devo esperar. Quero ir ás pilulas, quanto antes; é preciso
-obedecer religiosamente ao medico.
-
-D. LEOCADIA
-
-Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem fé no medico. O
-peior é que daqui a pouco, talvez, não se lembre delle.
-
-CAVALCANTE
-
-Oh! não! Hei de lembrar-me sempre, sempre!
-
-D. LEOCADIA
-
-No fim de dous annos escreva-me; informe-me sobre o seu estado, e
-talvez eu o faça voltar. Mas, não minta, olhe lá; se já tiver esquecido
-a namorada, consentirei que volte.
-
-CAVALCANTE
-
-Obrigado. Vou ter com seu sobrinho, e depois vou arranjar as malas.
-
-D. LEOCADIA
-
-Então não volta mais a esta casa?
-
-CAVALCANTE
-
-Virei daqui a pouco, uma visita de dez minutos, e depois desço, vou
-tomar passagem no paquete de amanhã.
-
-D. LEOCADIA
-
-Jante, ao menos, comnosco.
-
-CAVALCANTE
-
-Janto na cidade.
-
-D. LEOCADIA
-
-Bem, adeus; guardemos o nosso segredo. Adeus, Dr. Cavalcante. Creia-me:
-o senhor merece estar doente. Ha pessoas que adoecem sem merecimento
-nenhum; ao contrario, não merecem outra cousa mais que uma saude de
-ferro. O senhor nasceu para adoecer; que obediencia ao medico! que
-facilidade em engolir todas as nossas pilulas! Adeus!
-
-CAVALCANTE
-
-Adeus, D. Leocadia. (_Sae pelo fundo._)
-
-
-SCENA VIII
-
-D. LEOCADIA, D. ADELAIDE
-
-D. LEOCADIA
-
-Com dous annos de China está curado. (_Vendo entrar Adelaide_) O Dr.
-Cavalcante saiu agora mesmo. Ouviste o meu exame medico?
-
-D. ADELAIDE
-
-Não. Que lhe pareceu?
-
-D. LEOCADIA
-
-Cura-se.
-
-D. ADELAIDE
-
-De que modo?
-
-D. LEOCADIA
-
-Não posso dizer; é segredo profissional.
-
-D. ADELAIDE
-
-Em quantas semanas fica bem?
-
-D. LEOCADIA
-
-Em dez annos.
-
-D. ADELAIDE
-
-Misericordia! Dez annos!
-
-D. LEOCADIA
-
-Talvez dous; é moço, é robusto, a natureza ajudará a medicina,
-comquanto esteja muito atacado. Ahi vem teu marido.
-
-
-SCENA IX
-
-OS MESMOS, MAGALHÃES
-
-MAGALHÃES, _a D. Leocadia_.
-
-Cavalcante disse-me que vae embora; eu vim correndo saber o que é que
-lhe receitou.
-
-D. LEOCADIA
-
-Receitei-lhe um remedio energico, mas que ha de salval-o. Não são
-consolações de cacaracá. Coitado! Soffre muito, está gravemente doente;
-mas, descancem, meus filhos, juro-lhes, á fé do meu gráo, que hei de
-cural-o. Tudo é que me obedeça, e este obedece. Oh! aquelle crê em mim.
-E vocês, meus filhos? Como vão os meus doentesinhos? Não é verdade que
-estão curados? (_Sae pelo fundo._)
-
-
-SCENA X
-
-MAGALHÃES, D. ADELAIDE
-
-MAGALHÃES
-
-Tinha vontade de saber o que é que ella lhe receitou.
-
-D. ADELAIDE
-
-Não falemos disso.
-
-MAGALHÃES
-
-Sabes o que foi?
-
-D. ADELAIDE
-
-Não; mas titia disse-me que a cura se fará em dez annos. (_Espanto de
-Magalhães._) Sim, dez annos; talvez dous, mas a cura certa é em dez
-annos.
-
-MAGALHÃES, _atordoado_.
-
-Dez annos!
-
-D. ADELAIDE
-
-Ou dous.
-
-MAGALHÃES
-
-Ou dous?
-
-D. ADELAIDE
-
-Ou dez.
-
-MAGALHÃES
-
-Dez annos! Mas é impossivel! Quiz brincar comtigo. Ninguem leva dez
-annos a sarar; ou sára antes ou morre.
-
-D. ADELAIDE
-
-Talvez ella pense que a melhor cura é a morte.
-
-MAGALHÃES
-
-Talvez. Dez annos!
-
-D. ADELAIDE
-
-Ou dous; não esqueças.
-
-MAGALHÃES
-
-Sim, ou dous; dous annos é muito, mas, ha casos... Vou ter com elle.
-
-D. ADELAIDE
-
-Se titia quiz enganar a gente, não é bom que os estranhos saibam.
-Vamos falar com ella, talvez que, pedindo muito, ella diga a verdade.
-Não leves essa cara assustada; é preciso falar-lhe naturalmente, com
-indifferença.
-
-MAGALHÃES
-
-Pois vamos.
-
-D. ADELAIDE
-
-Pensando bem, é melhor que eu vá só; entre mulheres...
-
-MAGALHÃES
-
-Não; ella continuará a zombar de ti; vamos juntos, estou sobre brazas.
-
-D. ADELAIDE
-
-Vamos.
-
-MAGALHÃES
-
-Dez annos!
-
-D. ADELAIDE
-
-Ou dous. (_Saem pelo fundo._)
-
-
-SCENA XI
-
-D. CARLOTA, entrando pela direita.
-
-Ninguem! Afinal foram-se! Esta casa anda hoje cheia de mysterios. Ha um
-quarto de hora quiz vir aqui, e prima Adelaide disse-me que não, que
-se tratavam aqui negocios graves. Pouco depois levantou-se e saiu; mas
-antes disso contou-me que mamãe é que quer que eu vá para a Grecia. A
-verdade é que todos me falam de Athenas, de ruinas, de danças gregas,
-da Acropole... Creio que é Acropole que se diz. (_Pega no livro que
-Magalhães estivera lendo, senta-se, abre e lê_) «Entre os proverbios
-gregos, ha um muito fino: Não consultes medico; consulta alguem que
-tenha estado doente.» Consultar alguem que tenha estado doente! Não sei
-que possa ser. (_Continua a ler em voz baixa._)
-
-
-SCENA XII
-
-D. CARLOTA, CAVALCANTE
-
-CAVALCANTE, _ao fundo_.
-
-D. Leocadia! (_Entra e fala de longe a Carlota, que está de costas._)
-Quando eu ia a sair, lembrei-me...
-
-D. CARLOTA
-
-Quem é? (_Levanta-se._) Ah! doutor!
-
-CAVALCANTE
-
-Desculpe-me, vinha falar á senhora sua mãe para lhe pedir um favor.
-
-D. CARLOTA
-
-Vou chamal-a.
-
-CAVALCANTE
-
-Não se incommode; falar-lhe-hei logo. Saberá por acaso se a senhora sua
-mãe conhece algum cardeal em Roma?
-
-D. CARLOTA
-
-Não sei, não, senhor.
-
-CAVALCANTE
-
-Queria pedir-lhe uma carta de apresentação; voltarei mais tarde
-(_Corteja, sae e pára._) Ah! aproveito a occasião para lhe perguntar
-ainda uma vez em que é que a offendi?
-
-D. CARLOTA
-
-O senhor nunca me offendeu.
-
-CAVALCANTE
-
-Certamente que não; mas ainda ha pouco, falando-lhe de um tio meu, que
-morreu no Paraguay, tio João Pedro, capitão de engenharia...
-
-D. CARLOTA, _atalhando_.
-
-Porque é que o senhor quer ser apresentado a um cardeal?
-
-CAVALCANTE
-
-Bem respondido! Confesso que fui indiscreto com a minha pergunta. Já
-ha de saber que eu tenho distracções repentinas, e quando não caio
-no ridiculo, como hoje de manhã, caio na indiscreção. São segredos
-mais graves que os seus. É feliz, é bonita, póde contar com o futuro,
-emquanto que eu... Mas eu não quero aborrecel-a. O meu caso ha de andar
-em romances. (_Indicando o livro que ella tem na mão_) Talvez nesse.
-
-D. CARLOTA
-
-Não é romance. (_Dá-lhe o livro._)
-
-CAVALCANTE
-
-Não? (_Lê o titulo_) Como? Está estudando a Grecia?
-
-D. CARLOTA
-
-Estou.
-
-CAVALCANTE
-
-Vae para lá?
-
-D. CARLOTA
-
-Vou, com prima Adelaide.
-
-CAVALCANTE
-
-Viagem de recreio, ou vae tratar-se?
-
-D. CARLOTA
-
-Deixe-me ir chamar mamãe.
-
-CAVALCANTE
-
-Perdôe-me ainda uma vez; fui indiscreto, retiro-me. (_Dá alguns passos
-para sair._)
-
-D. CARLOTA
-
-Doutor! (_Cavalcante pára._) Não se zangue commigo; sou um pouco tonta,
-o senhor é bom...
-
-Cavalcante, _descendo_.
-
-Não diga que sou bom; os infelizes são apenas infelizes. A bondade é
-toda sua. Ha poucos dias que nos conhecemos, e já nos zangámos, por
-minha causa. Não proteste; a causa é a minha molestia.
-
-D. CARLOTA
-
-O senhor está doente?
-
-CAVALCANTE
-
-Mortalmente.
-
-D. CARLOTA
-
-Não diga isso!
-
-CAVALCANTE
-
-Ou gravemente, se prefere.
-
-D. CARLOTA
-
-Ainda é muito. E que molestia é?
-
-CAVALCANTE
-
-Quanto ao nome, não ha accordo: loucura, espirito romanesco e muitos
-outros. Alguns dizem que é amor. Olhe, está outra vez aborrecida
-commigo!
-
-D. CARLOTA
-
-Oh! não, não, não. (_Procurando rir._) É o contrario; estou até muito
-alegre. Diz-me então que está doente, louco...
-
-CAVALCANTE
-
-Louco de amor, é o que alguns dizem. Os autores divergem. Eu prefiro
-amor, por ser mais bonito, mas a molestia, qualquer que seja a causa,
-é cruel e terrivel. Não póde comprehender este _imbroglio_; peça a
-Deus que a conserva nessa boa e feliz ignorancia. Porque é que me está
-olhando assim? Quer talvez saber...
-
-D. CARLOTA
-
-Não, não quero saber nada.
-
-CAVALCANTE
-
-Não é crime ser curiosa.
-
-D. CARLOTA
-
-Seja ou não loucura, não quero ouvir historias como a sua.
-
-CAVALCANTE
-
-Já sabe qual é?
-
-D. CARLOTA
-
-Não.
-
-CAVALCANTE
-
-Não tenho direito de interrogal-a; mas ha já dez minutos que estamos
-neste gabinete, falando de cousas bem exquisitas para duas pessoas que
-apenas se conhecem.
-
-D. CARLOTA, _estendendo-lhe a mão_
-
-Até logo.
-
-CAVALCANTE
-
-A sua mão está fria. Não se vá ainda embora; hão de achal-a agitada.
-Socegue um pouco, sente-se (_Carlota senta-se._) Eu retiro-me.
-
-D. CARLOTA
-
-Passe bem.
-
-CAVALCANTE
-
-Até logo.
-
-D. CARLOTA
-
-Volta logo?
-
-CAVALCANTE
-
-Não, não volto mais; queria enganal-a.
-
-D. CARLOTA
-
-Enganar-me porque?
-
-CAVALCANTE
-
-Porque já fui enganado uma vez. Ouça-me; são duas palavras. Eu gostava
-muito de uma moça que tinha a sua belleza, e ella casou com outro. Eis
-a minha molestia.
-
-D. CARLOTA, _erguendo-se_
-
-Como assim?
-
-CAVALCANTE
-
-É verdade; casou com outro.
-
-D. CARLOTA, _indignada_
-
-Que acção vil!
-
-CAVALCANTE
-
-Não acha?
-
-D. CARLOTA
-
-E ella gostava do senhor?
-
-CAVALCANTE
-
-Apparentemente; mas, depois vi que eu não era mais que um passatempo.
-
-D. CARLOTA, _animando-se aos poucos_
-
-Um passatempo! Fazia-lhe juramentos, dizia-lhe que o senhor era a sua
-unica ambição, o seu verdadeiro Deus, parecia orgulhosa em contemplal-o
-por horas infinitas, dizia-lhe tudo, tudo, umas cousas que pareciam
-cair do ceu, e suspirava...
-
-CAVALCANTE
-
-Sim, suspirava, mas...
-
-D. CARLOTA, _muito animada_
-
-Um dia abandonou-o, sem uma só palavra de saudade nem de consolação,
-fugiu e foi casar com uma viuva hespanhola!
-
-CAVALCANTE, _espantado_
-
-Uma viuva hespanhola!
-
-D. CARLOTA
-
-Ah! tem muita razão em estar doente!
-
-CAVALCANTE
-
-Mas que viuva hespanhola é essa de que me fala?
-
-D. CARLOTA, _caindo em si_
-
-Eu falei-lhe de uma viuva hespanhola?
-
-CAVALCANTE
-
-Falou.
-
-D. CARLOTA
-
-Foi engano... Adeus, sr. doutor.
-
-CAVALCANTE
-
-Espere um instante. Creio que me comprehendeu. Falou com tal paixão que
-os medicos não têm. Oh! como eu execro os medicos! principalmente os
-que me mandam para a China.
-
-D. CARLOTA
-
-O senhor vae para a China?
-
-CAVALCANTE
-
-Vou; mas não diga nada! foi sua mãe que me deu esta receita.
-
-D. CARLOTA
-
-A China é muito longe!
-
-CAVALCANTE
-
-Creio até que está fóra do mundo.
-
-D. CARLOTA
-
-Tão longe porque?
-
-CAVALCANTE
-
-Boa palavra essa. Sim, porque ir á China, se a gente póde sarar na
-Grecia? Dizem que a Grecia é muito efficaz para estas feridas; ha quem
-affirme que não ha melhor para as que são feitas pelos capitães de
-engenharia. Quanto tempo vae lá passar?
-
-D. CARLOTA
-
-Não sei. Um anno, talvez.
-
-CAVALCANTE
-
-Crê que eu possa sarar n'um anno?
-
-D. CARLOTA
-
-É possivel.
-
-CAVALCANTE
-
-Talvez sejam precisos dous,--dous ou tres.
-
-D. CARLOTA
-
-Ou tres.
-
-CAVALCANTE
-
-Quatro, cinco...
-
-D. CARLOTA
-
-Cinco, seis...
-
-CAVALCANTE
-
-Depende menos do paiz que da doença.
-
-D. CARLOTA
-
-Ou do doente.
-
-CAVALCANTE
-
-Ou do doente. Já a passagem do mar póde ser que me faça bem. A minha
-molestia casou com um primo. A sua (perdôe esta outra indiscreção; é a
-ultima) a sua casou com a viuva hespanhola. As hespanholas, mórmente
-viuvas, são detestaveis. Mas, diga-me uma cousa: se uma pessoa já está
-curada, que é que vae fazer á Grecia?
-
-D. CARLOTA
-
-Convalescer, naturalmente. O senhor, como ainda está doente, vae para a
-China.
-
-CAVALCANTE
-
-Tem razão. Entretanto, começo a ter medo de morrer... Pensou alguma vez
-na morte?
-
-D. CARLOTA
-
-Pensa-se nella, mas lá vem um dia em que a gente acceita a vida, seja
-como fôr.
-
-CAVALCANTE
-
-Vejo que sabe muita cousa.
-
-D. CARLOTA
-
-Não sei nada; sou uma tagarella, que o senhor obrigou a dar por páos
-e por pedras; mas, como é a ultima vez que nos vemos, não importa.
-Agora, passe bem.
-
-CAVALCANTE
-
-Adeus, D. Carlota!
-
-D. CARLOTA
-
-Adeus, doutor!
-
-CAVALCANTE
-
-Adeus. (_Dá um passo para a porta do fundo._) Talvez eu vá a Athenas;
-não fuja se me vir vestido de frade.
-
-D.CARLOTA (_indo a elle_)
-
-De frade? O senhor vae ser frade?
-
-CAVALCANTE
-
-Frade. Sua mãe approva-me, comtanto que eu vá á China. Parece-lhe que
-devo obedecer a esta vocação, ainda depois de perdida?
-
-D. CARLOTA
-
-É difficil obedecer a uma vocação perdida.
-
-CAVALCANTE
-
-Talvez nem a tivesse, e ninguem se deu ao trabalho de me dissuadir. Foi
-aqui, a seu lado, que comecei a mudar. A sua voz sae de um coração que
-padeceu tambem, e sabe falar a quem padece. Olhe, julgue-me doudo, se
-quizer, mas eu vou pedir-lhe um favor: conceda-me que a ame (_Carlota,
-perturbada, volta o rosto_). Não lhe peço que me ame, mas que se deixe
-amar; é um modo de ser grato. Se fosse uma santa, não podia impedir que
-lhe accendesse uma vela.
-
-D.CARLOTA
-
-Não falemos mais nisto, e separemo-nos.
-
-CAVALCANTE
-
-A sua voz treme; olhe para mim...
-
-D. CARLOTA
-
-Adeus; ahi vem mamãe.
-
-
-SCENA XIII
-
-OS MESMOS, D. LEOCADIA
-
-D. LEOCADIA
-
-Que é isto, doutor? Então o senhor quer só um anno de China? Vieram
-pedir-me que reduzisse a sua ausencia.
-
-CAVALCANTE
-
-D. Carlota lhe dirá o que eu desejo.
-
-D. CARLOTA
-
-O doutor veiu saber se mamãe conhece algum cardeal em Roma.
-
-CAVALCANTE
-
-A principio era um cardeal; agora basta um vigario.
-
-D. LEOCADIA
-
-Um vigario? Para que?
-
-CAVALCANTE
-
-Não posso dizer.
-
-D. LEOCADIA, _a Carlota_
-
-Deixa-nos sós, Carlota; o doutor quer fazer-me uma confidencia.
-
-CAVALCANTE
-
-Não, não, ao contrario... D. Carlota póde ficar. O que eu quero dizer é
-que um vigario basta para casar.
-
-D. LEOCADIA
-
-Casar a quem?
-
-CAVALCANTE
-
-Não é já, falta-me ainda a noiva.
-
-D. LEOCADIA
-
-Mas quem é que me está falando?
-
-CAVALCANTE
-
-Sou eu, D. Leocadia.
-
-D. LEOCADIA
-
-O senhor! o senhor! o senhor!
-
-CAVALCANTE
-
-Eu mesmo. Pedi licença a alguem...
-
-D. LEOCADIA
-
-Para casar?
-
-
-SCENA XIV
-
-OS MESMOS, MAGALHÃES, D. LEOCADIA
-
-MAGALHÃES
-
-Consentiu, titia?
-
-D. LEOCADIA
-
-Em reduzir a China a um anno? Mas elle agora quer a vida inteira.
-
-MAGALHÃES
-
-Estás doudo?
-
-D. LEOCADIA
-
-Sim, a vida inteira, mas é para casar. (_D. Carlota fala baixo a D.
-Adelaide_) Você entende, Magalhães?
-
-CAVALCANTE
-
-Eu, que devia entender, não entendo.
-
-D. ADELAIDE, _que ouviu D. Carlota_
-
-Entendo eu. O Dr. Cavalcante contou as suas tristezas a Carlota, e
-Carlota, meia curada do seu proprio mal, expoz sem querer o que tinha
-sentido. Entenderam-se e casam-se.
-
-D. LEOCADIA, _a Carlota_
-
-Devéras? (_D. Carlota baixa os olhos_) Bem; como é para saude dos dous,
-concedo; são mais duas curas!
-
-MAGALHÃES
-
-Perdão; estas fizeram-se pela receita de um proverbio grego que está
-aqui neste livro (_Abre o livro_) «Não consultes medico; consulta
-alguem que tenha estado doente.»
-
-
-
-
-Licção de botanica
-
-
- PESSOAS
-
- D. HELENA
- D. LEONOR
- D. CECILIA
- BARÃO SEGISMUNDO DE KERNOBERG
-
-Logar da scena: Andarahy.
-
-
-
-
-ACTO UNICO
-
-Sala em casa de D. Leonor. Portas ao fundo, uma á direita do espectador.
-
-
-SCENA I
-
-D. LEONOR, D. HELENA, D. CECILIA
-
-D. Leonor entra, lendo uma carta. D. Helena e D. Cecilia entram do
-fundo.
-
-D. HELENA
-
-Já de volta!
-
-D. CECILIA, _a D. Helena, depois de um silencio_
-
-Será alguma carta de namoro?
-
-D. HELENA, _baixo_
-
-Creança!
-
-D. LEONOR
-
-Não me explicarão isto?
-
-D. HELENA
-
-Que é?
-
-D. LEONOR
-
-Recebi ao descer do carro este bilhete. «Minha senhora. Permitta que o
-mais respeitoso vizinho lhe peça dez minutos de attenção. Vae n'isto um
-grande interesse da sciencia». Que tenho eu com a sciencia?
-
-D. HELENA
-
-Mas de quem é a carta?
-
-D. LEONOR
-
-Do Barão Segismundo de Kernoberg.
-
-D. CECILIA
-
-Ah! o tio de Henrique!
-
-D. LEONOR
-
-De Henrique! Que familiaridade é essa?
-
-D. CECILIA
-
-Titia, eu...
-
-D. LEONOR
-
-Eu quê?... Henrique!
-
-D. HELENA
-
-Foi uma maneira de falar na ausencia... Com que então o Sr. Barão
-Segismundo de Kernoberg pede-lhe dez minutos de attenção, em nome e por
-amor da sciencia. Da parte de um botanico é por força alguma egloga.
-
-D. LEONOR
-
-Seja o que fôr, não sei se deva receber um senhor a quem nunca vimos.
-Já o viram alguma vez?
-
-D. CECILIA
-
-Eu nunca.
-
-D. HELENA
-
-Nem eu.
-
-D. LEONOR
-
-Botanico e sueco: duas razões para ser gravemente aborrecido. Nada, não
-estou em casa.
-
-D. CECILIA
-
-Mas quem sabe, titia, se elle quer pedir-lhe... sim... um exame no
-nosso jardim?
-
-D. LEONOR
-
-Ha por todo esse Andarahy muito jardim para examinar.
-
-D. HELENA
-
-Não, senhora, ha de recebel-o.
-
-D. LEONOR
-
-Porque?
-
-D. HELENA
-
-Porque é nosso vizinho, porque tem necessidade de falar-lhe, e, emfim,
-porque, a julgar pelo sobrinho, deve ser um homem distincto.
-
-D. LEONOR
-
-Não me lembrava do sobrinho. Vá lá; aturemos o botanico. (_Sae pela
-porta do fundo, á esquerda._)
-
-
-SCENA II
-
-D. HELENA, D. CECILIA
-
-D. HELENA
-
-Não me agradeces?
-
-D. CECILIA
-
-O que?
-
-D. HELENA
-
-Sonsa! Pois não adivinhas o que vem cá fazer o barão?
-
-D. CECILIA
-
-Não.
-
-D. HELENA
-
-Vem pedir a tua mão para o sobrinho.
-
-D. CECILIA
-
-Helena!
-
-D. HELENA, _imitando-a_
-
-Helena!
-
-D. CECILIA
-
-Juro...
-
-D. HELENA
-
-Que o não amas.
-
-D. CECILIA
-
-Não é isso.
-
-D. HELENA
-
-Que o amas?
-
-D. CECILIA
-
-Tambem não.
-
-D. HELENA
-
-Mau! Alguma cousa ha de ser. _Il faut qu'une porte soit ouverte ou
-fermée._ Porta neste caso é coração. O teu coração ha de estar fechado
-ou aberto...
-
-D. CECILIA
-
-Perdi a chave.
-
-D. HELENA, _rindo_
-
-E não o pódes fechar outra vez. São assim todos os corações ao pé de
-todos os Henriques. O teu Henrique viu a porta aberta, e tomou posse do
-logar. Não escolheste mal, não; é um bonito rapaz.
-
-D. CECILIA
-
-Oh! uns olhos!
-
-D. HELENA
-
-Azues.
-
-D. CECILIA
-
-Como o ceu.
-
-D. HELENA
-
-Louro...
-
-D. CECILIA
-
-Elegante...
-
-D. HELENA
-
-Espirituoso...
-
-D. CECILIA
-
-E bom.
-
-D. HELENA
-
-Uma perola. (_Suspira._) Ah!
-
-D. CECILIA
-
-Suspiras?
-
-D. HELENA
-
-Que ha de fazer uma viuva, falando... de uma perola?
-
-D. CECILIA
-
-Oh! tens naturalmente em vista algum diamante de primeira grandeza.
-
-D. HELENA
-
-Não tenho, não; meu coração já não quer joias.
-
-D. CECILIA
-
-Mas as joias querem o teu coração.
-
-D. HELENA
-
-Tanto peior para ellas: hão de ficar em casa do joalheiro.
-
-D. CECILIA
-
-Veremos isso. (_Sobe_) Ah!
-
-D. HELENA
-
-Que é?
-
-D. CECILIA, _olhando para a direita_.
-
-Um homem desconhecido que lá vem; ha de ser o barão.
-
-D. HELENA
-
-Vou avisar titia. (_Sae pelo fundo, esquerda._)
-
-
-SCENA III
-
-D. CECILIA, BARÃO
-
-D. CECILIA
-
-Será devéras elle? Estou tremula... Henrique não me avisou de nada...
-Virá pedir-me?... Mas não, não, não póde ser elle... Tão moço!... (_O
-barão apparece._)
-
-BARÃO, _á porta, depois de profunda cortezia_
-
-Creio que a Excellentissima senhora D. Leonor Gouvea recebeu uma
-carta... Vim sem esperar a resposta.
-
-D. CECILIA
-
-É o Sr. Barão Segismundo de Kernoberg? (_O barão faz um gesto
-affirmativo._) Recebeu. Queira entrar e sentar-se. (_Áparte._) Devo
-estar vermelha...
-
-O BARÃO, _áparte, olhando para Cecilia_
-
-Ha de ser esta.
-
-D. CECILIA, _áparte_
-
-E titia não vem... Que demora!... Não sei que lhe diga... estou tão
-vexada... (_O Barão tira um livro da algibeira e folhea-o._) Se eu
-pudesse deixal-o... É o que vou fazer. (_Sobe._)
-
-BARÃO, _fechando o livro e erguendo-se_
-
-V Ex. ha de desculpar-me. Recebi hoje mesmo este livro da Europa;
-é obra que vae fazer revolução na sciencia; nada menos que uma
-monographia das gramineas, premiada pela Academia de Stockolmo.
-
-D. CECILIA
-
-Sim? (_Áparte._) Aturemol-o, póde vir a ser meu tio.
-
-BARÃO
-
-As gramineas têm ou não têm periantho? A principio adoptou-se a
-negativa, posteriormente... V. Ex. talvez não conheça o que é o
-periantho...
-
-D. CECILIA
-
-Não, senhor.
-
-BARÃO
-
-Periantho compõe-se de duas palavras gregas: _peri_, em volta, e
-_anthos_ flor.
-
-D. CECILIA
-
-O envolucro da flor.
-
-BARÃO
-
-Acertou. É o que vulgarmente se chama calix. Pois as gramineas eram
-tidas... (_Apparece D. Leonor ao fundo._) Ah!
-
-
-SCENA IV
-
-OS MESMOS, D. LEONOR
-
-D. LEONOR
-
-Desejava falar-me?
-
-BARÃO
-
-Se me dá essa honra. Vim sem esperar resposta á minha carta. Dez
-minutos apenas.
-
-D. LEONOR
-
-Estou ás suas ordens.
-
-D. CECILIA
-
-Com licença. (_Áparte, olhando para o ceu._) Ah! minha Nossa Senhora!
-(_Retira-se pelo fundo._)
-
-
-SCENA V
-
-D. LEONOR, BARÃO
-
-(D. Leonor senta-se, fazendo um gesto ao Barão que a imita)
-
-
-BARÃO
-
-Sou o Barão Sigismundo de Kernoberg, seu vizinho, botanico de vocação,
-profissão e tradição, membro da Academia de Stockolmo, e commissionado
-pelo governo da Suecia para estudar a flora da America do Sul. V. Ex.
-dispensa a minha biographia? (_D. Leonor faz um gesto affirmativo._)
-Direi sómente que o tio de meu tio foi botanico, meu tio botanico, eu
-botanico, e meu sobrinho ha de ser botanico. Todos somos botanicos de
-tios a sobrinhos. Isto de algum modo explica minha vinda a esta casa.
-
-D. LEONOR
-
-Oh! o meu jardim é composto de plantas vulgares.
-
-BARÃO, _gracioso_
-
-É porque as melhores flores da casa estão dentro de casa. Mas V. Ex.
-engana-se; não venho pedir nada do seu jardim.
-
-D. LEONOR
-
-Ah!
-
-BARÃO
-
-Venho pedir-lhe uma cousa que lhe ha de parecer singular.
-
-D. LEONOR
-
-Fale.
-
-BARÃO
-
-O padre desposa a egreja; eu desposei a sciencia. Saber é o meu estado
-conjugal; os livros são a minha familia. N'uma palavra, fiz voto de
-celibato.
-
-D. LEONOR
-
-Não se case.
-
-BARÃO
-
-Justamente. Mas, V. Ex. comprehende que, sendo para mim ponto de fé que
-a sciencia não se dá bem com o matrimonio, nem eu devo casar, nem... V.
-Ex. já percebeu.
-
-D. LEONOR
-
-Cousa nenhuma.
-
-BARÃO
-
-Meu sobrinho Henrique anda estudando commigo os elementos da botanica.
-Tem talento, ha de vir a ser um luminar da sciencia. Se o casamos, está
-perdido.
-
-D. LEONOR
-
-Mas...
-
-BARÃO, _áparte_
-
-Não entendeu. (_Alto._) Sou obrigado a ser mais franco. Henrique anda
-apaixonado por uma de suas sobrinhas, creio que esta que saiu d'aqui,
-ha pouco. Impuz-lhe que não voltasse a esta casa; elle resistiu-me. Só
-me resta um meio: é que V. Ex. lhe feche a porta.
-
-D. LEONOR
-
-Senhor barão!
-
-BARÃO
-
-Admira-se do pedido? Creio que não é polido nem conveniente. Mas é
-necessario, minha senhora, é indispensavel. A sciencia precisa de mais
-um obreiro: não o encadeiemos no matrimonio.
-
-D. LEONOR
-
-Não sei se devo sorrir do pedido...
-
-BARÃO
-
-Deve sorrir, sorrir e fechar-nos a porta. Terá os meus agradecimentos e
-as benções da posteridade.
-
-D. LEONOR, _sorrindo_
-
-Não é preciso tanto; posso fechal-a de graça.
-
-BARÃO
-
-Justo. O verdadeiro beneficio é gratuito.
-
-D. LEONOR
-
-Antes, porém, de nos despedirmos, desejava dizer uma cousa e perguntar
-outra. (_O barão curva-se_) Direi primeiramente que ignoro se ha tal
-paixão da parte de seu sobrinho; em segundo logar, perguntarei se na
-Suecia estes pedidos são usuaes.
-
-BARÃO
-
-Na geographia intellectual não ha Suecia nem Brazil; os paizes
-são outros: astronomia, geologia, mathematicas; na botanica são
-obrigatorios.
-
-D. LEONOR
-
-Todavia, á força de andar com flores... deviam os botanicos trazel-as
-comsigo.
-
-BARÃO
-
-Ficam no gabinete.
-
-D. LEONOR
-
-Trazem os espinhos sómente.
-
-BARÃO
-
-V. Ex. tem espirito. Comprehendo a affeição de Henrique a esta casa.
-(_Levanta-se_) Promette-me então...
-
-D. LEONOR, _levantando-se_
-
-Que faria no meu caso?
-
-BARÃO
-
-Recusava.
-
-D. LEONOR
-
-Com prejuizo da sciencia?
-
-BARÃO
-
-Não, porque nesse caso a sciencia mudaria de acampamento, isto é, o
-vizinho prejudicado escolheria outro bairro para seus estudos.
-
-D. LEONOR
-
-Não lhe parece que era melhor ter feito isso mesmo, antes de arriscar
-um pedido inefficaz?
-
-BARÃO
-
-Quiz primeiro tentar fortuna.
-
-
-SCENA VI
-
-D. LEONOR, BARÃO, D. HELENA
-
-D. HELENA, _entra e pára_
-
-Ah!
-
-D. LEONOR
-
-Entra, não é assumpto reservado. O Sr. Barão de Kernoberg...(_Ao
-Barão_) É minha sobrinha Helena. (_A Helena._) Aqui o Sr. Barão vem
-pedir que o não perturbemos no estudo da botanica. Diz que seu sobrinho
-Henrique está destinado a um logar honroso na sciencia, e... Conclua,
-Sr. Barão.
-
-BARÃO
-
-Não convem que se case, a sciencia exige o celibato.
-
-D. LEONOR
-
-Ouviste?
-
-D. HELENA
-
-Não comprehendo...
-
-BARÃO
-
-Uma paixão louca de meu sobrinho póde impedir que... Minhas senhoras,
-não desejo roubar-lhes mais tempo... Confio em V. Ex., minha senhora...
-Ser-lhe-hei eternamente grato. Minhas senhoras. (_Faz uma grande
-cortezia e sae._)
-
-
-SCENA VII
-
-D. HELENA, D. LEONOR
-
-D. LEONOR, _rindo_
-
-Que urso!
-
-D. HELENA
-
-Realmente...
-
-D. LEONOR
-
-Perdôo-lhe em nome da sciencia. Fique com as suas hervas, e não nos
-aborreça mais, nem elle nem o sobrinho.
-
-D. HELENA
-
-Nem o sobrinho?
-
-D. LEONOR
-
-Nem o sobrinho, nem o creado, nem o cão, se o houver, nem cousa nenhuma
-que tenha relação com a sciencia. Enfada-te? Pelo que vejo, entre o
-Henrique e a Cecilia ha tal ou qual namoro?
-
-D. HELENA
-
-Se promette segredo... ha.
-
-D. LEONOR
-
-Pois acabe-se o namoro.
-
-D. HELENA
-
-Não é facil. O Henrique é um perfeito cavalheiro; ambos são dignos um
-do outro. Por que razão impediremos que dous corações...
-
-D. LEONOR
-
-Não sei de corações, não hão de faltar casamentos a Cecilia.
-
-D. HELENA
-
-Certamente que não, mas os casamentos não se improvisam nem se
-projectam na cabeça; são actos do coração, que a egreja santifica.
-Tentemos uma cousa.
-
-D. LEONOR
-
-Que é?
-
-D. HELENA
-
-Reconciliemo-nos com o Barão.
-
-D. LEONOR
-
-Nada, nada.
-
-D. HELENA
-
-Pobre Cecilia!
-
-D. LEONOR
-
-É ter paciencia, sujeite-se ás circumstancias... (_A D. Cecilia, que
-entra_) Ouviste?
-
-D. CECILIA
-
-O quê, titia?
-
-D. LEONOR
-
-Helena te explicará tudo. (_A D. Helena baixo_) Tira-lhe todas as
-esperanças. (_Indo-se_) Que urso! que urso!
-
-
-SCENA VIII
-
-D. HELENA, D. CECILIA
-
-D. CECILIA
-
-Que aconteceu?
-
-D. HELENA
-
-Aconteceu... (_Olha com tristeza para ella._)
-
-D. CECILIA
-
-Acaba.
-
-D. HELENA
-
-Pobre Cecilia!
-
-D. CECILIA
-
-Titia recusou a minha mão?
-
-D. HELENA
-
-Qual! O Barão é que se oppõe ao casamento.
-
-D. CECILIA
-
-Oppõe-se!
-
-D. HELENA
-
-Diz que a sciencia exige o celibato do sobrinho.
-
-(_D. Cecilia encosta-se a uma cadeira_) Mas, socega; nem tudo está
-perdido; póde ser que o tempo...
-
-D. CECILIA
-
-Mas quem impede que elle estude?
-
-D. HELENA
-
-Mania de sabio. Ou então, evasiva do sobrinho.
-
-D. CECILIA
-
-Oh! não! é impossivel; Henrique é uma alma angelica! Respondo por elle.
-Ha de certamente oppôr-se a semelhante exigencia...
-
-D. HELENA
-
-Não convem precipitar as cousas. O Barão póde zangar-se e ir-se embora.
-
-D. CECILIA
-
-Que devo então fazer?
-
-D. HELENA
-
-Esperar. Ha tempo para tudo.
-
-D. CECILIA
-
-Pois bem, quando Henrique vier...
-
-D. HELENA
-
-Não vem, titia resolveu fechar a porta a ambos.
-
-D. CECILIA
-
-Impossivel!
-
-D. HELENA
-
-Pura verdade. Foi uma exigencia do Barão.
-
-D. CECILIA
-
-Ah! conspiram todos contra mim. (_Põe as mãos na cabeça_) Sou muito
-infeliz! Que mal fiz eu a essa gente? Helena, salva-me! Ou eu mato-me!
-Anda, vê se descobres um meio...
-
-D. HELENA, _indo sentar-se_.
-
-Que meio?
-
-D. CECILIA, _acompanhando-a_.
-
-Um meio qualquer que não nos separe!
-
-D. HELENA, _sentada_.
-
-Ha um.
-
-D. CECILIA
-
-Qual? Dize.
-
-D. HELENA
-
-Casar.
-
-D. CECILIA
-
-Oh! não zombes de mim! Tu tambem amaste, Helena; deves respeitar estas
-angustias. Não tornar a ver o meu Henrique é uma idéa intoleravel.
-Anda, minha irmãsinha. (_Ajoelha-se inclinando o corpo sobre o regaço
-de D. Helena._) Salva-me! És tão intelligente, que has de achar por
-força alguma idéa; anda, pensa!
-
-D. HELENA, _beijando-lhe a testa_.
-
-Creança! suppões que seja cousa tão facil assim?
-
-D. CECILIA
-
-Para ti ha de ser facil.
-
-D. HELENA
-
-Lisonjeira! (_Pega machinalmente no livro deixado pelo Barão sobre a
-cadeira._) A boa vontade não póde tudo; é preciso... (_Tem aberto o
-livro._) Que livro é este?... Ah! talvez do Barão.
-
-D. CECILIA
-
-Mas vamos... continua.
-
-D. HELENA
-
-Isto ha de ser sueco... trata talvez de botanica. Sabes sueco?
-
-D. CECILIA
-
-Helena!
-
-D. HELENA
-
-Quem sabe se este livro póde salvar tudo? (_Depois de um instante de
-reflexão_) Sim, é possivel. Tratará de botanica?
-
-D. CECILIA
-
-Trata.
-
-D. HELENA
-
-Quem te disse?
-
-D. CECILIA
-
-Ouvi dizer ao Barão, trata das...
-
-D. HELENA
-
-Das...
-
-D. CECILIA
-
-Das gramineas.
-
-D. HELENA
-
-Só das gramineas?
-
-D. CECILIA
-
-Não sei; foi premiado pela Academia de Stockolmo.
-
-D. HELENA
-
-De Stockolmo. Bem. (_Levanta-se_).
-
-D. CECILIA, _levantando-se_
-
-Mas que é?
-
-D. HELENA
-
-Vou mandar-lhe o livro...
-
-D. CECILIA
-
-Que mais?
-
-D. HELENA
-
-Com um bilhete.
-
-D. CECILIA, _olhando para a direita_
-
-Não é preciso; lá vem elle.
-
-D. HELENA
-
-Ah!
-
-D. CECILIA
-
-Que vaes fazer?
-
-D. HELENA
-
-Dar-lhe o livro.
-
-D. CECILIA
-
-O livro, e...
-
-D. HELENA
-
-E as despedidas.
-
-D. CECILIA
-
-Não comprehendo.
-
-D. HELENA
-
-Espera e verás.
-
-D. CECILIA
-
-Não posso encaral-o; adeus.
-
-D. HELENA
-
-Cecilia! (_D. Cecilia sae._)
-
-
-SCENA IX
-
-D. HELENA, BARÃO
-
-BARÃO, _á porta_.
-
-Perdão, minha senhora; eu trazia um livro ha pouco...
-
-D. HELENA, _com o livro na mão_.
-
-Será este?
-
-BARÃO, _caminhando para ella_.
-
-Justamente.
-
-D. HELENA
-
-Escripto em sueco, penso eu...
-
-BARÃO
-
-Em sueco.
-
-D. HELENA
-
-Trata naturalmente de botanica.
-
-BARÃO
-
-Das gramineas.
-
-D. HELENA, _com interesse_.
-
-Das gramineas!
-
-BARÃO
-
-De que se espanta?
-
-D. HELENA
-
-Um livro publicado...
-
-BARÃO
-
-Ha quatro mezes.
-
-D. HELENA
-
-Premiado pela Academia de Stockolmo?
-
-BARÃO, _admirado_.
-
-É verdade. Mas...
-
-D. HELENA
-
-Que pena que eu não saiba sueco!
-
-BARÃO
-
-Tinha noticia do livro?
-
-D. HELENA
-
-Certamente. Ando anciosa por lel-o.
-
-BARÃO
-
-Perdão, minha senhora. Sabe botanica?
-
-D. HELENA
-
-Não ouso dizer que sim, estudo alguma cousa; leio quando posso. É
-sciencia profunda e encantadora.
-
-BARÃO, _com calor_.
-
-É a primeira de todas.
-
-D. HELENA
-
-Não me atrevo a apoial-o, porque nada sei das outras, e poucas luzes
-tenho de botanica, apenas as que póde dar um estudo solitario e
-deficiente. Se a vontade supprisse o talento...
-
-BARÃO
-
-Porque não? _Le génie, c'est la patience_, dizia Buffon.
-
-D. HELENA, _sentando-se_.
-
-Nem sempre.
-
-BARÃO
-
-Realmente, estava longe de suppôr que, tão perto de mim, uma pessoa tão
-distincta dava algumas horas vagas ao estudo da minha bella sciencia.
-
-D. HELENA
-
-Da sua esposa.
-
-BARÃO, _sentando-se_.
-
-É verdade. Um marido póde perder a mulher, e se a amar devéras, nada a
-compensará neste mundo, ao passo que a sciencia não morre... Morremos
-nós, ella sobrevive com todas as graças do primeiro dia, ou ainda
-maiores, porque cada descoberta é um encanto novo.
-
-D. HELENA
-
-Oh! tem razão!
-
-BARÃO
-
-Mas, diga-me V. Ex.: tem feito estudo especial das gramineas.
-
-D. HELENA
-
-Por alto... por alto...
-
-BARÃO
-
-Comtudo, sabe que a opinião dos sabios não admittia o periantho...
-(_D. Helena faz signal affirmativo._) Posteriormente reconheceu-se a
-existencia do periantho. (_Novo gesto de D. Helena._) Pois este livro
-refuta a segunda opinião.
-
-D. HELENA
-
-Refuta o periantho?
-
-BARÃO
-
-Completamente.
-
-D. HELENA
-
-Acho temeridade.
-
-BARÃO
-
-Tambem eu suppunha isso... Li-o, porém, e a demonstração é clarissima.
-Tenho pena que não possa lel-o. Se me dá licença, farei uma traducção
-portugueza e daqui a duas semanas...
-
-D. HELENA
-
-Não sei se deva acceitar...
-
-BARÃO
-
-Acceite; é o primeiro passo para me não recusar segundo pedido.
-
-D. HELENA
-
-Qual?
-
-BARÃO
-
-Que me deixe acompanhal-a em seus estudos, repartir o pão do saber
-com V. Ex. É a primeira vez que a fortuna me depara uma discipula.
-Discipula é, talvez, ousadia da minha parte...
-
-D. HELENA
-
-Ousadia, não; eu sei muito pouco; posso dizer que não sei nada.
-
-BARÃO
-
-A modestia é o aroma do talento, como o talento é o esplendor da graça.
-V. Ex. possue tudo isso. Posso comparal-a á violeta,--_viola odorata_
-de Linneo,--que é formosa e recatada...
-
-D. HELENA, _interrompendo_
-
-Pedirei licença á minha tia. Quando será a primeira licção?
-
-BARÃO
-
-Quando quizer. Póde ser amanhã. Tem certamente noticia da anatomia
-vegetal...
-
-D. HELENA
-
-Noticia incompleta.
-
-BARÃO
-
-Da physiologia?
-
-D. HELENA
-
-Um pouco menos.
-
-BARÃO
-
-Nesse caso, nem a taxonomia, nem a phytographia...
-
-D. HELENA
-
-Não fui até lá.
-
-BARÃO
-
-Mas ha de ir... Verá que mundos novos se lhe abrem deante do espirito.
-Estudaremos, uma por uma, todas as familias, as orchideas, as
-jasmineas, as rubiaceas, as oleaceas, as narciseas, as umbelliferas,
-as...
-
-D. HELENA
-
-Tudo, desde que se trata de flores.
-
-BARÃO
-
-Comprehendo: amor de familia.
-
-D. HELENA
-
-Bravo! um comprimento!
-
-BARÃO, _folheando o livro_.
-
-A sciencia os permitte.
-
-D. HELENA, _áparte_.
-
-O mestre é perigoso. (_Alto._) Tinham-me dito exactamente o contrario;
-disseram-me que o Sr Barão era... não sei como diga... era...
-
-BARÃO
-
-Talvez um urso.
-
-D. HELENA
-
-Pouco mais ou menos.
-
-BARÃO
-
-E sou.
-
-D. HELENA
-
-Não creio.
-
-BARÃO
-
-Porque não crê?
-
-D. HELENA
-
-Porque o vejo amavel.
-
-BARÃO
-
-Supportavel apenas.
-
-D. HELENA
-
-Demais, imaginava-o uma figura muito differente, um velho macillento,
-melenas caídas, olhos encovados.
-
-BARÃO
-
-Estou velho, minha senhora.
-
-D. HELENA
-
-Trinta e seis annos.
-
-BARÃO
-
-Trinta e nove.
-
-D. HELENA
-
-Plena mocidade.
-
-BARÃO
-
-Velho para o mundo. Que posso eu dar ao mundo senão a minha prosa
-scientifica?
-
-D. HELENA
-
-Só uma cousa lhe acho inacceitavel.
-
-BARÃO
-
-Que é?
-
-D. HELENA
-
-A theoria de que o amor e a sciencia são incompativeis.
-
-BARÃO
-
-Oh! isso...
-
-D. HELENA
-
-Dá-se o espirito á sciencia e o coração ao amor. São territorios
-differentes, ainda que limitrophes.
-
-BARÃO
-
-Um acaba por annexar o outro.
-
-D. HELENA
-
-Não creio.
-
-BARÃO
-
-O casamento é uma bella cousa, mas o que faz bem a uns, póde fazer
-mal a outros. Sabe que Mafoma não permitte o uso do vinho aos seus
-sectarios. Que fazem os turcos? Extraem o succo de uma planta, da
-familia das papaveraceas, bebem-no, e ficam alegres. Esse licor, se nós
-o bebessemos, matar-nos-hia. O casamento, para nós, é o vinho turco.
-
-D. HELENA, _erguendo os hombros_.
-
-Comparação não é argumento. Demais, houve e ha sabios casados.
-
-BARÃO
-
-Que seriam mais sabios se não fossem casados.
-
-D. HELENA
-
-Não fale assim. A esposa fortifica a alma do sabio. Deve ser um quadro
-delicioso para o homem que despende as suas horas na investigação da
-natureza, fazel-o ao lado da mulher que o ampara e anima, testemunha de
-seus esforços, socia de suas alegrias, attenta, dedicada, amorosa. Será
-vaidade de sexo? Póde ser, mas eu creio que o melhor premio do merito é
-o sorriso da mulher amada. O applauso publico é mais ruidoso, mas muito
-menos tocante que a approvação domestica.
-
-BARÃO, _depois de um instante de hesitação e luta_.
-
-Falemos da nossa licção.
-
-D. HELENA
-
-Amanhã, se minha tia consentir. (_Levanta-se_) Até amanhã, não?
-
-BARÃO
-
-Hoje mesmo, se o ordenar.
-
-D. HELENA
-
-Acredita que não perderei o tempo?
-
-BARÃO
-
-Estou certo que não.
-
-D. HELENA
-
-Serei academica de Stockolmo?
-
-BARÃO
-
-Conto que terei essa honra.
-
-D. HELENA, _cortejando_.
-
-Até amanhã.
-
-BARÃO, _o mesmo_.
-
-Minha senhora! (_D. Helena sae pelo fundo, esquerda, o barão caminha
-para a direita, mas volta para buscar o livro que ficára sobre a
-cadeira ou sophá_).
-
-
-SCENA X
-
-BARÃO, D. LEONOR
-
-BARÃO, _pensativo_.
-
-Até amanhã! Devo eu cá voltar? Talvez não devesse, mas é interesse
-da sciencia... a minha palavra empenhada... O peior de tudo é que a
-discipula é graciosa e bonita. Nunca tive discipula, ignoro até que
-ponto é perigoso... Ignoro? Talvez não... (_Põe a mão no peito_)
-Que é isto?... (_Resoluto_). Não, sicambro! Não has de adorar o que
-queimaste! Eia, volvamos ás flores e deixemos esta casa para sempre.
-(_Entra D. Leonor_)
-
-D. LEONOR, _vendo o barão_.
-
-Ah!
-
-BARÃO
-
-Voltei ha dous minutos; vim buscar este livro. (_Comprimentando_) Minha
-senhora!
-
-D. LEONOR
-
-Senhor Barão!
-
-BARÃO, _vae até á porta, e volta_.
-
-Creio que V. Ex. não me fica querendo mal?
-
-D. LEONOR
-
-Certamente que não.
-
-BARÃO, _comprimentando_.
-
-Minha senhora!
-
-LEONOR, _idem_.
-
-Senhor Barão!
-
-BARÃO, _vae até á porta e volta_.
-
-A senhora D. Helena não lhe falou agora?
-
-D. LEONOR
-
-Sobre quê?
-
-BARÃO
-
-Sobre umas licções de botanica...
-
-D. LEONOR
-
-Não me falou em nada...
-
-BARÃO, _comprimentando_.
-
-Minha senhora!
-
-D. LEONOR, _idem_.
-
-Senhor Barão! (_Barão sae._) Que exquisitão. Valia a pena cultival-o de
-perto.
-
-BARÃO, _reapparecendo_.
-
-Perdão...
-
-D. LEONOR
-
-Ah!--Que manda?
-
-BARÃO, _approxima-se_.
-
-Completo a minha pergunta. A sobrinha de V. Ex. falou-me em receber
-algumas licções de botanica. V. Ex. consente? (_Pausa._) Ha de
-parecer-lhe exquisito este pedido, depois do que tive a honra de
-fazer-lhe ha pouco...
-
-D. LEONOR
-
-Sr. Barão, no meio de tantas copias e imitações humanas...
-
-BARÃO
-
-Eu acabo: sou original.
-
-D. LEONOR
-
-Não ouso dizel-o.
-
-BARÃO
-
-Sou; noto, entretanto, que a observação de V. Ex. não responde á minha
-pergunta.
-
-D. LEONOR
-
-Bem sei; por isso mesmo é que a fiz.
-
-BARÃO
-
-Nesse caso...
-
-D. LEONOR
-
-Nesse caso, deixe-me reflectir.
-
-BARÃO
-
-Cinco minutos?
-
-D. LEONOR
-
-Vinte e quatro horas.
-
-BARÃO
-
-Nada menos?
-
-D. LEONOR
-
-Nada menos.
-
-BARÃO, _comprimentando_.
-
-Minha senhora!
-
-D. LEONOR, _idem_.
-
-Senhor Barão! (_Sae o barão._)
-
-
-SCENA XI
-
-D. LEONOR, D. CECILIA
-
-D. LEONOR
-
-Singular é elle, mas não menos singular é a idéa de Helena. Para que
-quererá ella aprender botanica?
-
-D. CECILIA, _entrando_.
-
-Helena! (_D. Leonor volta-se._) Ah! é titia.
-
-D. LEONOR
-
-Sou eu.
-
-D. CECILIA
-
-Onde está Helena?
-
-D. LEONOR
-
-Não sei, talvez lá em cima (_D. Cecilia dirige-se para o fundo._) Onde
-vaes?...
-
-D. CECILIA
-
-Vou...
-
-D. LEONOR
-
-Acaba.
-
-D. CECILIA
-
-Vou concertar o penteado.
-
-D. LEONOR
-
-Vem cá; concerto eu. (_D. Cecilia approxima-se de D. Leonor_) Não é
-preciso, está excellente. Dize-me: estás muito triste!
-
-D. CECILIA, _muito triste_
-
-Não, senhora; estou alegre.
-
-D. LEONOR
-
-Mas, Helena disse-me que tu...
-
-D. CECILIA
-
-Foi gracejo.
-
-D. LEONOR
-
-Não creio; tens alguma cousa que te afflige; has de contar-me tudo.
-
-D. CECILIA
-
-Não posso.
-
-D. LEONOR
-
-Não tens confiança em mim?
-
-D. CECILIA
-
-Oh! toda!
-
-D. LEONOR
-
-Pois eu exijo... (_Vendo Helena, que apparece á porta do fundo,
-esquerda_) Ah! chegas a proposito.
-
-
-SCENA XII
-
-D. LEONOR, D. CECILIA, D. HELENA
-
-D. HELENA
-
-Para que?
-
-D. LEONOR
-
-Explica-me que historia é essa que me contou o Barão?
-
-D. CECILIA, _com curiosidade_.
-
-O Barão?
-
-D. LEONOR
-
-Parece que estás disposta a estudar botanica.
-
-D. HELENA
-
-Estou.
-
-D. CECILIA, _sorrindo_
-
-Com o Barão?
-
-D. HELENA
-
-Com o Barão.
-
-D. LEONOR
-
-Sem o meu consentimento?
-
-D. HELENA
-
-Com o seu consentimento.
-
-D. LEONOR
-
-Mas de que te serve saber botanica?
-
-D. HELENA
-
-Serve para conhecer as flores dos meus _bouquets_, para não confundir
-jasmineas com rubiaceas, nem bromelias com umbelliferas.
-
-D. LEONOR
-
-Com que?
-
-D. HELENA
-
-Umbelliferas.
-
-D. LEONOR
-
-Umbe...
-
-D. HELENA
-
-...liferas. Umbelliferas.
-
-D. LEONOR
-
-Virgem santa! E que ganhas tu com esses nomes barbaros?
-
-D. HELENA
-
-Muita cousa.
-
-D. CECILIA, _áparte_
-
-Boa Helena! Comprehendo tudo.
-
-D. HELENA
-
-O periantho, por exemplo: a senhora talvez ignore a questão do
-periantho... a questão das gramineas...
-
-D. LEONOR
-
-E dou graças a Deus!
-
-D. CECILIA, _animada_
-
-Oh! deve ser uma questão importantissima!
-
-D. LEONOR, _espantada_.
-
-Tambem tu!
-
-D. CECILIA
-
-Só o nome! Periantho! É nome grego, titia; um delicioso nome grego.
-(_Áparte._) Estou morta por saber do que se trata.
-
-D. LEONOR
-
-Vocês fazem-me perder o juizo! Aqui andam bruxas, de certo. Periantho
-de um lado, bromelias de outro; uma lingua de gentios, avessa á gente
-christã. Que quer dizer tudo isso?
-
-D. CECILIA
-
-Quer dizer que a sciencia é uma grande cousa, e que não ha remedio
-senão adorar a botanica.
-
-D. LEONOR
-
-Que mais?
-
-D. CECILIA
-
-Que mais? Quer dizer que a noite de hoje ha de estar deliciosa,
-e podemos ir ao theatro lyrico. Vamos, sim? Amanhã é o baile do
-conselheiro, e sabbado o casamento da Julia Marcondes. Tres dias de
-festas! Prometto divertir-me muito, muito, muito. Estou tão contente!
-Ria-se, titia; ria-se e dê-me um beijo!
-
-D. LEONOR
-
-Não dou, não, senhora. Minha opinião é contra a botanica, e isto mesmo
-vou escrever ao Barão.
-
-D. HELENA
-
-Reflicta primeiro; basta amanhã!
-
-D. LEONOR
-
-Ha de ser hoje mesmo! Esta casa está ficando muito sueca; voltemos a
-ser brasileiras. Vou escrever ao urso. Acompanha-me, Cecilia; has de
-contar-me o que ha. (_Saem._)
-
-
-SCENA XIII
-
-D. HELENA, BARÃO
-
-D. HELENA
-
-Cecilia deitou tudo a perder... Não se póde fazer nada com creanças...
-Tanto peior para ella. (_Pausa_) Quem sabe se tanto melhor para mim?
-Póde ser. Aquelle professor não é assaz velho, como convinha. Além
-disso, ha nelle um ar de diamante bruto, uma alma apenas coberta pela
-crosta scientifica, mas cheia de fogo e luz. Se eu viesse a arder ou
-cegar... (_Levanta os hombros_) Que idéa! Não passa de um urso, como
-titia lhe chama, um urso com patas de rosas.
-
-BARÃO, _approximando-se_.
-
-Perdão, minha senhora. Ao atravessar a chacara, ia pensando no nosso
-accordo, e, sinto dizel-o, mudei de resolução.
-
-D. HELENA
-
-Mudou?
-
-BARÃO, _approximando-se_
-
-Mudei.
-
-D. HELENA
-
-Póde saber-se o motivo?
-
-BARÃO
-
-São tres. O primeiro é o meu pouco saber... Ri-se?
-
-D. HELENA
-
-De incredulidade. O segundo motivo...
-
-BARÃO
-
-O segundo motivo é o meu genio aspero e despotico.
-
-D. HELENA
-
-Vejamos o terceiro.
-
-BARÃO
-
-O terceiro é a sua edade. Vinte e um annos, não?
-
-D. HELENA
-
-Vinte e dous.
-
-BARÃO
-
-Solteira?
-
-D. HELENA
-
-Viuva.
-
-BARÃO
-
-Perpetuamente viuva?
-
-D. HELENA
-
-Talvez.
-
-BARÃO
-
-Nesse caso, quarto motivo: a sua viuvez perpetua.
-
-D. HELENA
-
-Conclusão: todo o nosso accordo está desfeito.
-
-BARÃO
-
-Não digo que esteja; só por mim não o posso romper. V. Ex. porém
-avaliará as razões que lhe dou, e decidirá se elle deve ser mantido.
-
-D. HELENA
-
-Supponha que respondo affirmativamente.
-
-BARÃO
-
-Paciencia! obedecerei.
-
-D. HELENA
-
-De má vontade?
-
-BARÃO
-
-Não; mas com grande desconsolação.
-
-D. HELENA
-
-Pois, Sr. Barão, não desejo violental-o; está livre.
-
-BARÃO
-
-Livre, e não menos desconsolado.
-
-D. HELENA
-
-Tanto melhor!
-
-BARÃO
-
-Como assim?
-
-D. HELENA
-
-Nada mais simples: vejo que é caprichoso e incoherente.
-
-BARÃO
-
-Incoherente, é verdade.
-
-D. HELENA
-
-Irei procurar outro mestre.
-
-BARÃO
-
-Outro mestre! Não faça isso.
-
-D. HELENA
-
-Porque?
-
-BARÃO
-
-Porque... (_Pausa_) V. Ex. é intelligente bastante para dispensar
-mestres.
-
-D. HELENA
-
-Quem lh'o disse?
-
-BARÃO
-
-Adivinha-se.
-
-D. HELENA
-
-Bem; irei queimar os olhos nos livros.
-
-BARÃO
-
-Oh! seria estragar as mais bellas flores do mundo!
-
-D. HELENA, _sorrindo_
-
-Mas então nem mestres nem livros?
-
-BARÃO
-
-Livros, mas applicação moderada. A sciencia não se colhe de afogadilho;
-é preciso penetral-a com segurança e cautella.
-
-D. HELENA
-
-Obrigada. (_Estendendo-lhe a mão_) E visto que me recusa as suas
-licções, adeus.
-
-BARÃO
-
-Já!
-
-D. HELENA
-
-Pensei que queria retirar-se.
-
-BARÃO
-
-Queria e custa-me. Em todo o caso, não desejava sair sem que V. Ex. me
-dissesse francamente o que pensa de mim. Bem ou mal?
-
-D. HELENA
-
-Bem e mal.
-
-BARÃO
-
-Pensa então...
-
-D. HELENA
-
-Penso que é intelligente e bom, mas caprichoso e egoista.
-
-BARÃO
-
-Egoista!
-
-D. HELENA
-
-Em toda a força da expressão. (_Senta-se_) Por egoismo,--scientifico,
-é verdade,--oppõe-se ás affeições de seu sobrinho; por egoismo,
-recusa-me as suas licções. Creio que o Sr. Barão nasceu para mirar-se
-no vasto espelho da natureza, a sós comsigo, longe do mundo e seus
-enfados. Aposto que, desculpe a indiscreção da pergunta,--aposto que
-nunca amou?
-
-BARÃO
-
-Nunca.
-
-D. HELENA
-
-De maneira que nunca uma flor teve a seus olhos outra applicação, além
-do estudo?
-
-BARÃO
-
-Engana-se.
-
-D. HELENA
-
-Sim?
-
-BARÃO
-
-Depositei algumas coroas de goivos no tumulo de minha mãe.
-
-D. HELENA
-
-Ah!
-
-BARÃO
-
-Ha em mim alguma cousa mais do que eu mesmo. Ha a poesia das affeições
-por baixo da prova scientifica. Não a ostento, é verdade; mas sabe
-V. Ex. o que tem sido a minha vida? Um claustro. Cedo perdi o que
-havia mais caro: a familia. Desposei a sciencia, que me tem servido
-de alegrias, consolações e esperanças. Deixemos, porém, tão tristes
-memorias...
-
-D. HELENA
-
-Memorias de homem; até aqui eu só via o sabio.
-
-BARÃO
-
-Mas o sabio reapparece e enterra o homem. Volto á vida vegetativa...
-se me é licito arriscar um trocadilho em portuguez, que eu não sei bem
-se o é. Póde ser que não passe de apparencia. Todo eu sou apparencias,
-minha senhora, apparencias de homem, de linguagem e até de sciencia...
-
-D. HELENA
-
-Quer que o elogie?
-
-BARÃO
-
-Não; desejo que me perdôe.
-
-D. HELENA
-
-Perdoar-lhe o que?
-
-BARÃO
-
-A incoherencia de que me accusava ha pouco.
-
-D. HELENA
-
-Tanto perdôo que o imito. Mudo egualmente de resolução, e dou de mão ao
-estudo.
-
-BARÃO
-
-Não faça isso!
-
-D. HELENA
-
-Não lerei uma só linha de botanica, que é a mais aborrecivel sciencia
-do mundo.
-
-BARÃO
-
-Mas o seu talento...
-
-D. HELENA
-
-Não tenho talento; tinha curiosidade.
-
-BARÃO
-
-É a chave do saber.
-
-D. HELENA
-
-Que monta isso? A porta fica tão longe!
-
-BARÃO
-
-É certo, mas o caminho é de flores.
-
-D. HELENA
-
-Com espinhos.
-
-BARÃO
-
-Eu lhe quebrarei os espinhos.
-
-D. HELENA
-
-De que modo?
-
-BARÃO
-
-Serei seu mestre.
-
-D. HELENA, _levanta-se_
-
-Não! Respeito os seus escrupulos. Subsistem, penso eu, os motivos que
-allegou. Deixe-me ficar na minha ignorancia.
-
-BARÃO
-
-É a ultima palavra de V. Ex.
-
-D. HELENA
-
-Ultima.
-
-BARÃO, _com ar de despedida_
-
-Nesse caso... aguardo as suas ordens.
-
-D. HELENA
-
-Que se não esqueça de nós.
-
-BARÃO
-
-Crê possivel que me esquecesse?
-
-D. HELENA
-
-Naturalmente: um conhecimento de vinte minutos.
-
-BARÃO
-
-O tempo importa pouco ao caso. Não me esquecerei nunca mais destes
-vinte minutos, os melhores da minha vida, os primeiros que hei
-realmente vivido. A sciencia não é tudo, minha senhora. Ha alguma cousa
-mais, além do espirito, alguma cousa essencial ao homem, e...
-
-D. HELENA
-
-Repare, Sr. Barão, que está falando á sua ex-discipula.
-
-BARÃO
-
-A minha ex-discipula tem coração, e sabe que o mundo intellectual
-é estreito para conter o homem todo; sabe que a vida moral é uma
-necessidade do ser pensante.
-
-D. HELENA
-
-Não passemos da botanica á philosophia, nem tanto á terra, nem tanto ao
-ceu. O que o sr. Barão quer dizer, em boa e mediana prosa, é que estes
-vinte minutos de palestra não o enfadaram de todo. Eu digo a mesma
-cousa. Pena é que fossem só vinte minutos, e que o Sr. Barão volte ás
-suas amadas plantas; mas é força ir ter com ellas, não quero tolher-lhe
-os passos. Adeus! (_Inclinando-se como a despedir-se_)
-
-BARÃO _comprimentando_
-
-Minha senhora! (_Caminha até á porta e pára._) Não transporei mais esta
-porta?
-
-D. HELENA
-
-Já a fechou por suas proprias mãos.
-
-BARÃO
-
-A chave está nas suas.
-
-D. HELENA, _olhando para as mãos_
-
-Nas minhas?
-
-BARÃO _approximando-se_
-
-De certo.
-
-D. HELENA
-
-Não a vejo.
-
-BARÃO
-
-É a esperança. Dê-me a esperança de que...
-
-D. HELENA _depois de uma pausa_
-
-A esperança de que...
-
-BARÃO
-
-A esperança de que... a esperança de...
-
-D. HELENA, _que tem tirado uma flor de um vaso_
-
-Creio que lhe será mais facil definir esta flor.
-
-BARÃO
-
-Talvez.
-
-D. HELENA
-
-Mas não é preciso dizer mais: adivinhei-o.
-
-BARÃO, _alvoraçado_
-
-Adivinhou?
-
-D. HELENA
-
-Adivinhei que quer a todo o trance ser meu mestre.
-
-BARÃO, _friamente_
-
-É isso.
-
-D. HELENA
-
-Acceito.
-
-BARÃO
-
-Obrigado.
-
-D. HELENA
-
-Parece-me que ficou triste?...
-
-BARÃO
-
-Fiquei, pois que só adivinhou metade do meu pensamento. Não adivinhou
-que eu... porque o não direi? dil-o-hei francamente... Não adivinhou
-que...
-
-D. HELENA
-
-Que...
-
-BARÃO, _depois de alguns esforços para falar_.
-
-Nada... nada...
-
-D. LEONOR, _dentro_
-
-Não admitto!
-
-
-SCENA XIV
-
-D. HELENA, BARÃO, D. LEONOR, D. CECILIA
-
-D. CECILIA, _entrando pelo fundo com D. Leonor_
-
-Mas, titia...
-
-D. LEONOR
-
-Não admitto, já disse! Não te faltam casamentos. (_Vendo o Barão._)
-Ainda aqui!
-
-BARÃO
-
-Ainda e sempre, minha senhora.
-
-D. LEONOR
-
-Nova originalidade.
-
-BARÃO
-
-Oh! não! A cousa mais vulgar do mundo. Reflecti, minha senhora, e venho
-pedir para meu sobrinho a mão de sua encantadora sobrinha. (_Gesto de
-Cecilia_)
-
-D. LEONOR
-
-A mão de Cecilia!
-
-D. CECILIA
-
-Que ouço!
-
-BARÃO
-
-O que eu lhe pedia ha pouco era uma extravagancia, um acto de egoismo
-e violencia, além de descortezia que era, e que V. Ex. me perdôou,
-attendendo á singularidade das minhas maneiras. Vejo tudo isso agora...
-
-D. LEONOR
-
-Não me opponho ao casamento, se fôr do agrado de Cecilia.
-
-D. CECILIA, _baixo a D. Helena_.
-
-Obrigada! Foste tu...
-
-D. LEONOR
-
-Vejo que o Sr. Barão reflectiu.
-
-BARÃO
-
-Não foi só reflexão, foi tambem resolução.
-
-D. LEONOR
-
-Resolução?
-
-BARÃO, _gravemente_
-
-Minha senhora, atrevo-me a fazer outro pedido.
-
-D. LEONOR
-
-Ensinar botanica a Helena? Já me deu vinte e quatro horas para
-responder.
-
-BARÃO
-
-Peço-lhe mais do que isso; V. Ex. que é, por assim dizer, irmã mais
-velha de sua sobrinha, póde intervir junto della para... (_Pausa_)
-
-D. LEONOR
-
-Para...
-
-D. HELENA
-
-Acabo eu. O que o Sr. Barão deseja é a minha mão.
-
-BARÃO
-
-Justamente!
-
-D. LEONOR, _espantada_
-
-Mas... Não comprehendo nada.
-
-BARÃO
-
-Não é preciso comprehender; basta pedir.
-
-D. HELENA
-
-Não basta pedir; é preciso alcançar.
-
-BARÃO
-
-Não alcançarei?
-
-D. HELENA
-
-Dê-me tres mezes de reflexão.
-
-BARÃO
-
-Tres mezes é a eternidade.
-
-D. HELENA
-
-Uma eternidade de noventa dias.
-
-BARÃO
-
-Depois della, a felicidade ou o desespero?
-
-D. HELENA, _estendendo-lhe a mão_
-
-Está nas suas mãos a escolha. (_A D. Leonor_) Não se admire tanto,
-titia; tudo isto é botanica applicada.
-
-
-
-
-Notas
-
-Os erros óbvios do editora foram corrigidos.
-
-O Indice foi realocado ao inicio para facilitar a navegaçäõ.
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-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK RELIQUIAS DE CASA VELHA ***
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- Reliquias de Casa Velha, by Machado de Assis&mdash;A Project Gutenberg eBook
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-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>Reliquias de Casa Velha</span>, by Machado de Assis</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
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-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>Reliquias de Casa Velha</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Machado de Assis</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: April 26, 2022 [eBook #67935]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by Brasiliana Digital.)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>RELIQUIAS DE CASA VELHA</span> ***</div>
-
-
-<p class="center big">ACABA DE SER PUBLICADO</p>
-
-<p class="center xbig">O<br />
-
-<span class="u">Plano Pangermanista<br />
-
-desmascarado</span></p>
-
-<p class="center p2">A temivel cilada Berlineza da "<b>Partida Nulla</b>"</p>
-
-<p class="center"><strong>POR</strong></p>
-
-<p class="center"><i>André Chéradame</i></p>
-
-<hr class="r5" />
-<p class="center">Um vol. in-16 com 31 mappas no texto, brochado, 4$000</p>
-
-<p class="center p2">Á venda na <span class="big">LIVRARIA GARNIER</span></p>
-
-<p class="center"><i><strong>109, Rua do Ouvidor</strong>&mdash;Rio de Janeiro</i></p>
-
-<hr class="r50" />
-<p class="center big"><i>Todos os direitos reservados</i><br />
-</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p class="center big"> MACHADO DE ASSIS</p>
-
-<p class="center small"> DA ACADEMIA BRASILEIRA</p>
-<hr class="r5" />
-<h1 class="nobreak" id="Reliquias">Reliquias<br /> <span class="small">de</span><br /> <span class="big">Casa Velha</span></h1>
-</div>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p class="center"> H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR</p>
-
-<p class="center"><span class="small">71, RUA DO OUVIDOR, 71</span><br />
- RIO DE JANEIRO</p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center"><span class="small">6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6</span><br />
- PARIS</p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center"> 1906
-</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="INDICE">INDICE</h2>
-
-
-<table class="autotable">
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#ADVERTENCIA"><span class="smcap">Advertencia.</span></a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_I">I</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#A_Carolina"><span class="smcap">A Carolina.</span></a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_III">III</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#Pae_contra_Mae">Pae contra mãe.</a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_3">1</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#Maria_Cora">Maria Cora.</a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_21">19</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#Marcha_funebre">Marcha funebre.</a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_49">47</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#Um_capitao_de_voluntarios">Um capitão de voluntarios.</a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_61">59</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#Suje-se_gordo">Suje-se gordo!</a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_81">79</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#Umas_ferias">Umas ferias.</a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_89">87</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#Evolucao">Evolução.</a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_101">99</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#Pylades_e_Orestes">Pylades e Orestes.</a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_111">109</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#Anecdota_do_cabriolet">Anecdota do cabriolet.</a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_127">125</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#Paginas_criticas_e_commemorativas">Paginas criticas e commemorativas.</a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_139">137</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#Nao_consultes_medico">Não consultes medico.</a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_169">167</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#Liccao_de_botanica">Licção de botanica.</a>
-</td>
-<td class="tdr page">
-<a href="#Page_213">211</a>
-</td></tr>
-</table></div>
-<p><span class="pagenum" id="Page_I">[Pg I]</span></p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="ADVERTENCIA">ADVERTENCIA</h2>
-</div>
-
-
-<p><i>Uma casa tem muita vez as suas reliquias, lembranças de um dia ou de
-outro, da tristeza que passou, da felicidade que se perdeu. Suppõe que
-o dono pense em as arejar e expôr para teu e meu desenfado. Nem todas
-serão interessantes, não raras serão aborrecidas, mas, se o dono tiver
-cuidado, póde extrair uma duzia dellas que mereçam sair cá fóra.</i></p>
-
-<p><i>Chama-lhe á minha vida uma casa, dá o nome de reliquias aos ineditos
-e impressos que aqui vão, idéas, historias, críticas, dialogos, e verás
-explicados o livro e o titulo. Possivelmente não terão a mesma supposta
-fortuna daquella duzia de outras, nem todas valerão a pena de sair cá
-fóra. Depende da tua impressão, leitor amigo, como dependerá de ti a
-absolvição da má escolha.</i></p>
-
-<p class="right">
-<span class="smcap">Machado de Assis.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_II">[Pg II]</span></p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_III">[Pg III]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="A_Carolina">A Carolina</h2>
-</div>
-
-
-<p class="poetry p0">
-<span style="margin-left: 1em;">Querida, ao pé do leito derradeiro</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em que descanças dessa longa vida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aqui venho e virei, pobre querida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Trazer-te o coração do companheiro.</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pulsa-lhe aquelle affecto verdadeiro</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que, a despeito de toda a humana lida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fez a nossa existencia appetecida</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E n'um recanto poz um mundo inteiro.</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Trago-te flores,&mdash;restos arrancados</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Da terra que nos viu passar unidos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E ora mortos nos deixa e separados.</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que eu, se tenho nos olhos mal feridos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pensamentos de vida formulados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">São pensamentos idos e vividos.</span><br />
-</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_3">[Pg 3]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="Pae_contra_Mae">Pae contra Mãe</h2>
-</div>
-
-
-<p>A escravidão levou comsigo officios e apparelhos, como terá succedido
-a outras instituições sociaes. Não cito alguns apparelhos senão por
-se ligarem a certo officio. Um delles era o ferro ao pescoço, outro o
-ferro ao pé; havia tambem a mascara de folha de Flandres. A mascara
-fazia perder o vicio da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a
-bocca. Tinha só tres buracos, dous para ver, um para respirar, e era
-fechada atraz da cabeça por um cadeado. Com o vicio de beber, perdiam
-a tentação de furtar, porque geralmente era dos vintens do senhor
-que elles tiravam com que matar a sêde, e ahi ficavam dous peccados
-extinctos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal
-mascara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o
-grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, á
-venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de mascaras.</p>
-
-<p>O ferro ao pescoço era applicado aos escravos fujões. Imaginae uma
-colleira grossa, com a haste grossa tambem, á direita ou á esquerda,
-até ao alto da cabeça e fechada atraz com chave. Pesava, naturalmente,<span class="pagenum" id="Page_4">[Pg 4]</span>
-mas era menos castigo que signal. Escravo que fugia assim, onde quer
-que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.</p>
-
-<p>Ha meio seculo, os escravos fugiam com frequencia. Eram muitos, e
-nem todos gostavam da escravidão. Succedia occasionalmente apanharem
-pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era
-apenas reprehendida; havia alguem de casa que servia de padrinho, e
-o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade
-moderava a acção, porque dinheiro tambem dóe. A fuga repetia-se,
-entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de
-contrabando, apenas comprado no Vallongo, deitava a correr, sem
-conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raros,
-apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam
-ganhal-o fóra, quitandando.</p>
-
-<p>Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lh'o
-levasse. Punha annuncios nas folhas publicas, com os signaes do
-fugido, o nome, a roupa, o defeito physico, se o tinha, o bairro por
-onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia,
-vinha promessa: «gratificar-se-ha generosamente,»&mdash;ou «receberá uma
-boa gratificação.» Muita vez o annuncio trazia em cima ou ao lado uma
-vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao hombro, e na
-ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o
-acoutasse.</p>
-
-<p>Ora, pegar escravos fugidos era um officio do tempo. Não seria
-nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei
-e a propriedade, trazia esta outra nobreza implicita das acções
-reivindicadoras. Ninguem se mettia em tal officio por<span class="pagenum" id="Page_5">[Pg 5]</span> desfastio ou
-estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros
-trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir tambem, ainda que
-por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo
-para pôr ordem á desordem.</p>
-
-<p>Candido Neves,&mdash;em familia, Candinho,&mdash;é a pessoa a quem se liga a
-historia de uma fuga, cedeu á pobreza, quando adquiriu o officio
-de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não
-aguentava emprego nem officio, carecia de estabilidade; é o que elle
-chamava caiporismo. Começou por querer aprender typographia, mas viu
-cedo que era preciso algum tempo para compôr bem, e ainda assim talvez
-não ganhasse o bastante; foi o que elle disse a si mesmo. O commercio
-chamou-lhe a attenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de
-caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de attender e servir a
-todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas
-estava na rua por sua vontade. Fiel de cartorio, continuo de uma
-repartição annexa ao ministerio do imperio, carteiro e outros empregos
-foram deixados pouco depois de obtidos.</p>
-
-<p>Quando veiu a paixão da moça Clara, não tinha elle mais que dividas,
-ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de officio.
-Depois de varias tentativas para obter emprego, resolveu adoptar o
-officio do primo, de que aliás já tomára algumas licções. Não lhe
-custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu
-mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás
-e relevos communs para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando
-casasse, e o casamento não se demorou muito.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_6">[Pg 6]</span></p>
-
-<p>Contava trinta annos, Clara vinte e dous. Ella era orphã, morava com
-uma tia, Monica, e cosia com ella. Não cosia tanto que não namorasse
-o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não
-tinham outro empenho. Passavam ás tardes, olhavam muito para ella,
-ella para elles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O
-que ella notava é que nenhum d'elles lhe deixava saudades nem lhe
-accendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar,
-naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se
-o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só
-para andar á roda da isca, miral-a, cheiral-a, deixal-a e ir a outras.</p>
-
-<p>O amor traz sobrescriptos. Quando a moça viu Candido Neves, sentiu que
-era este o possivel marido, o marido verdadeiro e unico. O encontro
-deu-se em um baile; tal foi&mdash;para lembrar o primeiro officio do
-namorado,&mdash;tal foi a pagina inicial daquelle livro, que tinha de sair
-mal composto e peior brochado. O casamento fez-se onze mezes depois, e
-foi a mais bella festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos
-por amizade que por inveja, tentaram arredal-a do passo que ia dar.
-Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda
-algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.</p>
-
-<p>&mdash;Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto.</p>
-
-<p>&mdash;Não, defunto não; mas é que...</p>
-
-<p>Não diziam o que era. Tia Monica, depois do casamento, na casa pobre
-onde elles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possiveis.
-Elles queriam um, um só, embora viesse aggravar a necessidade.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_7">[Pg 7]</span></p>
-
-<p>&mdash;Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia á sobrinha.</p>
-
-<p>&mdash;Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara.</p>
-
-<p>Tia Monica devia ter-lhes feito a advertencia, ou ameaça, quando elle
-lhe foi pedir a mão da moça; mas tambem ella era amiga de patuscadas, e
-o casamento seria uma festa, como foi.</p>
-
-<p>A alegria era commum aos tres. O casal ria a proposito de tudo. Os
-mesmos nomes eram objecto de trocados, Clara, Neves, Candido; não davam
-que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ella
-cosia agora mais, elle saía a empreitadas de uma cousa e outra; não
-tinha emprego certo.</p>
-
-<p>Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquelle
-desejo especifico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia,
-porém, deu signal de si a creança; varão ou femea, era o fructo
-abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Monica
-ficou desorientada, Candido e Clara riram dos seus sustos.</p>
-
-<p>&mdash;Deus nos ha de ajudar, titia, insistia a futura mãe.</p>
-
-<p>A noticia correu de visinha a visinha. Não houve mais que espreitar a
-aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e
-assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir
-fazendo com retalhos o enxoval da creança. Á força de pensar nella,
-vivia já com ella, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era
-escassa, os intervallos longos. Tia Monica ajudava, é certo, ainda que
-de má vontade.</p>
-
-<p>&mdash;Vocês verão a triste vida, suspirava ella.</p>
-
-<p>&mdash;Mas as outras creanças não nascem tambem? perguntou Clara.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_8">[Pg 8]</span></p>
-
-<p>&mdash;Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que
-pouco...</p>
-
-<p>&mdash;Certa como?</p>
-
-<p>&mdash;Certa, um emprego, um officio, uma occupação, mas em que é que o pae
-dessa infeliz creatura que ahi vem, gasta o tempo?</p>
-
-<p>Candido Neves, logo que soube daquella advertencia, foi ter com a tia,
-não aspero, mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já
-algum dia deixára de comer.</p>
-
-<p>&mdash;A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo
-quando não quer jantar commigo. Nunca deixámos de ter o nosso
-bacalhau...</p>
-
-<p>&mdash;Bem sei, mas somos tres.</p>
-
-<p>&mdash;Seremos quatro.</p>
-
-<p>&mdash;Não é a mesma cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Que quer então que eu faça, além do que faço?</p>
-
-<p>&mdash;Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem
-do armarinho, o typographo que casou sabbado, todos têm um emprego
-certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a
-occupação que escolheu, é vaga. Você passa semanas sem vintem.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não
-me abandona, e preto fugido sabe que commigo não brinca; quasi nenhum
-resiste, muitos entregam-se logo.</p>
-
-<p>Tinha gloria nisto, falava da esperança como de capital seguro. Dahi a
-pouco ria, e fazia rir á tia, que era naturalmente alegre, e previa uma
-patuscada no baptisado.</p>
-
-<p>Candido Neves perdera já o officio de entalhador, como abrira mão de
-outros muitos, melhores ou peiores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe
-um encanto<span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span> novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia
-força, olho vivo, paciencia, coragem e um pedaço de corda. Candido
-Neves lia os annuncios, copiava-os, mettia-os no bolso e saía ás
-pesquizas. Tinha boa memoria. Fixados os signaes e os costumes de um
-escravo fugido, gastava pouco tempo em achal-o, segural-o, amarral-o
-e leval-o. A força era muita, a agilidade tambem. Mais de uma vez, a
-uma esquina, conversando de cousas remotas, via passar um escravo como
-os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono,
-a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atraz do
-vicioso. Não o apanhava logo, espreitava logar azado, e de um salto
-tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e
-os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente elle os vencia sem o
-menor arranhão.</p>
-
-<p>Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham
-já, como d'antes, metter-se nas mãos de Candido Neves. Havia mãos novas
-e habeis. Como o negocio crescesse, mais de um desempregado pegou em
-si e n'uma corda, foi aos jornaes, copiou annuncios e deitou-se á
-caçada. No proprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que
-as dividas de Candido Neves começaram de subir, sem aquelles pagamentos
-promptos ou quasi promptos dos primeiros tempos. A vida fez-se difficil
-e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelos
-alugueis.</p>
-
-<p>Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta
-era a necessidade de coser para fóra. Tia Monica ajudava a sobrinha,
-naturalmente. Quando elle chegava á tarde, via-se-lhe pela cara que não
-trazia vintem. Jantava e saía outra vez, á cata de<span class="pagenum" id="Page_10">[Pg 10]</span> algum fugido. Já
-lhe succedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo
-fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade.
-Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu
-grande somma de murros que lhe deram os parentes do homem.</p>
-
-<p>&mdash;É o que lhe faltava! exclamou tia Monica, ao vel-o entrar, e depois
-de ouvir narrar o equivoco e suas consequencias. Deixe-se disso,
-Candinho; procure outra vida, outro emprego.</p>
-
-<p>Candido quizera effectivamente fazer outra cousa, não pela razão do
-conselho, mas por simples gosto de trocar de officio; seria um modo de
-mudar de pelle ou de pessoa. O peior é que não achava á mão negocio que
-aprendesse depressa.</p>
-
-<p>A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado á mãe, antes
-de nascer. Chegou o oitavo mez, mez de angustias e necessidades, menos
-ainda que o nono, cuja narração dispenso tambem. Melhor é dizer somente
-os seus effeitos. Não podiam ser mais amargos.</p>
-
-<p>&mdash;Não, tia Monica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa
-escrever, quanto mais ao pae ouvil-o. Isso nunca!</p>
-
-<p>Foi na ultima semana do derradeiro mez que a tia Monica deu ao casal
-o conselho de levar a creança que nascesse á Roda dos engeitados. Em
-verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens
-paes que espreitavam a creança, para beijal-a, guardal-a, vel-a rir,
-crescer, engordar, pular... Engeitar quê? engeitar como? Candinho
-arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de
-jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quasi a se
-desfazer inteiramente. Clara interveiu:</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span></p>
-
-<p>&mdash;Titia não fala por mal, Candinho.</p>
-
-<p>&mdash;Por mal? replicou tia Monica. Por mal ou por bem, seja o que fôr,
-digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne
-e o feijão vão faltando. Se não apparecer algum dinheiro, como é que
-a familia ha de augmentar? E depois, ha tempo; mais tarde, quando o
-senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos
-com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe
-faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se
-mata ninguem, ninguem morre á tôa, emquanto que aqui é certo morrer, se
-viver á mingua. Enfim...</p>
-
-<p>Tia Monica terminou a phrase com um gesto de hombros, deu as costas e
-foi metter-se na alcova. Tinha já insinuado aquella solução, mas era
-a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor,&mdash;crueldade, se
-preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o animo;
-Candido Neves fez uma careta, e chamou maluca á tia, em voz baixa. A
-ternura dos dous foi interrompida por alguem que batia á porta da rua.</p>
-
-<p>&mdash;Quem é? perguntou o marido.</p>
-
-<p>&mdash;Sou eu.</p>
-
-<p>Era o dono da casa, credor de tres mezes de aluguel, que vinha em
-pessoa ameaçar o inquilino. Este quiz que elle entrasse.</p>
-
-<p>&mdash;Não é preciso...</p>
-
-<p>&mdash;Faça favor.</p>
-
-<p>O credor entrou e recusou sentar-se; deitou os olhos á mobilia para ver
-se daria algo á penhora; achou que pouco. Vinha receber os alugueis
-vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse
-pago, pol-o-hia na rua. Não havia trabalhado para<span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span> regalo dos outros.
-Ao vel-o, ninguem diria que era proprietario; mas a palavra suppria
-o que faltava ao gesto, e o pobre Candido Neves preferiu calar a
-retorquir. Fez uma inclinação de promessa e supplica ao mesmo tempo. O
-dono da casa não cedeu mais.</p>
-
-<p>&mdash;Cinco dias ou rua! repetiu, mettendo a mão no ferrolho da porta e
-saindo.</p>
-
-<p>Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao
-desespero, contava com algum emprestimo, não sabia como nem onde,
-mas contava. Demais, recorreu aos annuncios. Achou varios, alguns
-já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas
-sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou
-recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietario,
-não alcançando mais que a ordem de mudança.</p>
-
-<p>A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que
-lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia.
-Tia Monica teve arte de alcançar aposento para os tres em casa de uma
-senhora velha e rica, que lhe prometteu emprestar os quartos baixos
-da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pateo. Teve ainda
-a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Candido Neves,
-no desespero da crise, começasse por engeitar o filho e acabasse
-alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a
-vida, em summa. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo,
-mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa,
-fal-os-hia espantar com a noticia do obsequio e iriam dormir melhor do
-que cuidassem.</p>
-
-<p>Assim succedeu. Postos fóra da casa, passaram ao aposento de favor,
-e dous dias depois nasceu a creança.<span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span> A alegria do pae foi enorme, e
-a tristeza tambem. Tia Monica insistiu em dar a creança á Roda. «Se
-você não a quer levar, deixe isso commigo; eu vou á rua dos Barbonos.»
-Candido Neves pediu que não, que esperasse, que elle mesmo a levaria.
-Notae que era um menino, e que ambos os paes desejavam justamente este
-sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse á noite, assentou o
-pae leval-o á Roda na noite seguinte.</p>
-
-<p>Naquella reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As
-gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a somma
-escripta e escassa. Uma, porém, subia a cem mil réis. Tratava-se de uma
-mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Candido Neves andára a
-pesquizal-a sem melhor fortuna, e abrira mão do negocio; imaginou que
-algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista
-nova da quantia e a necessidade della animaram Candido Neves a fazer
-um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela rua
-e largo da Carioca, rua do Parto e da Ajuda, onde ella parecia andar,
-segundo o annuncio. Não a achou; apenas um pharmaceutico da rua da
-Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, tres dias
-antes, á pessoa que tinha os signaes indicados. Candido Neves parecia
-falar como dono da escrava, e agradeceu cortezmente a noticia. Não foi
-mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.</p>
-
-<p>Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Monica
-arranjára de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino
-para ser levado á Roda. O pae, não obstante o accordo feito, mal poude
-esconder a dôr do espectaculo. Não quiz comer o que<span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span> Tia Monica lhe
-guardára; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos
-de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o proprio
-albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada.
-Tia Monica pintára-lhe a criação do menino; seria maior miseria,
-podendo succeder que o filho achasse a morte sem recurso. Candido Neves
-foi obrigado a cumprir a promessa; pediu á mulher que désse ao filho
-o resto do leite que elle beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno
-adormeceu, o pae pegou delle, e saiu na direcção da rua dos Barbonos.</p>
-
-<p>Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com elle, é certo; não
-menos certo é que o agazalhava muito, que o beijava, que lhe cobria o
-rosto para preserval-o do sereno. Ao entrar na rua da Guarda Velha,
-Candido Neves começou a afrouxar o passo.</p>
-
-<p>&mdash;Hei de entregal-o o mais tarde que puder, murmurou elle.</p>
-
-<p>Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabal-a; foi
-então que lhe occorreu entrar por um dos beccos que ligavam aquella á
-rua da Ajuda. Chegou ao fim do becco e, indo a dobrar á direita, na
-direcção do largo da Ajuda, viu do lado opposto, um vulto de mulher;
-era a mulata fugida. Não dou aqui a commoção de Candido Neves por não
-podel-o fazer com a intensidade real. Um adjectivo basta; digamos
-enorme. Descendo a mulher, desceu elle tambem; a poucos passos estava a
-pharmacia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o
-pharmaceutico, pediu-lhe a fineza de guardar a creança por um instante;
-viria buscal-a sem falta.</p>
-
-<p>&mdash;Mas...</p>
-
-<p>Candido Neves não lhe deu tempo de dizer nada;<span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span> saiu rapido, atravessou
-a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarme. No
-extremo da rua, quando ella ia a descer a de S. José, Candido Neves
-approximou-se della. Era a mesma, era a mulata fujona.</p>
-
-<p>&mdash;Arminda! bradou, conforme a nomeava o annuncio.</p>
-
-<p>Arminda voltou-se sem cuidar malicia. Foi só quando elle, tendo tirado
-o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ella
-comprehendeu e quiz fugir. Era já impossivel. Candido Neves, com as
-mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quiz
-gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume,
-mas entendeu logo que ninguem viria libertal-a, ao contrario. Pediu
-então que a soltasse pelo amor de Deus.</p>
-
-<p>&mdash;Estou gravida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum
-filho, peço-lhe por amor delle que me solte; eu serei sua escrava, vou
-servil-o pelo tempo que quizer. Me solte, meu senhor moço!</p>
-
-<p>&mdash;Siga! repetiu Candido Neves.</p>
-
-<p>&mdash;Me solte!</p>
-
-<p>&mdash;Não quero demoras; siga!</p>
-
-<p>Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao
-filho. Quem passava ou estava á porta de uma loja, comprehendia o que
-era e naturalmente não acudia. Arminda ia allegando que o senhor era
-muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes,&mdash; cousa que, no
-estado em que ella estava, seria peior de sentir. Com certeza, elle lhe
-mandaria dar açoutes.</p>
-
-<p>&mdash;Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois?
-perguntou Candido Neves.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span></p>
-
-<p>Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficára na
-pharmacia, á espera delle. Tambem é certo que não costumava dizer
-grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela rua dos Ourives, em
-direcção á da Alfandega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta
-cresceu; a escrava poz os pés á parede, recuou com grande esforço,
-inutilmente. O que alcançou foi, apezar de ser a casa proxima, gastar
-mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, emfim, arrastada,
-desesperada, arquejando. Ainda alli ajoelhou-se, mas em vão. O senhor
-estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.</p>
-
-<p>&mdash;Aqui está a fujona, disse Candido Neves.</p>
-
-<p>&mdash;É ella mesma.</p>
-
-<p>&mdash;Meu senhor!</p>
-
-<p>&mdash;Anda, entra...</p>
-
-<p>Arminda caiu no corredor. Alli mesmo o senhor da escrava abriu a
-carteira e tirou os cem mil reis de gratificação. Candido Neves guardou
-as duas notas de cincoenta mil reis, emquanto o senhor novamente dizia
-á escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dôr, e
-após algum tempo de luta a escrava abortou.</p>
-
-<p>O fructo de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos
-da mãe e os gestos de desespero do dono. Candido Neves viu todo esse
-espectaculo. Não sabia que horas eram. Quaesquer que fossem, urgia
-correr á rua da Ajuda, e foi o que elle fez sem querer conhecer as
-consequencias do desastre.</p>
-
-<p>Quando lá chegou, viu o pharmaceutico sósinho, sem o filho que lhe
-entregára. Quiz esganal-o. Felizmente, o pharmaceutico explicou tudo a
-tempo; o menino estava lá dentro com a familia, e ambos entraram.<span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span> O
-pae recebeu o filho com a mesma furia com que pegára a escrava fujona
-de ha pouco, furia diversa, naturalmente, furia de amor. Agradeceu
-depressa e mal, e saiu ás carreiras, não para a Roda dos engeitados,
-mas para a casa de emprestimo, com o filho e os cem mil reis de
-gratificação. Tia Monica, ouvida a explicação, perdoou a volta do
-pequeno, uma vez que trazia os cem mil reis. Disse, é verdade, algumas
-palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga.
-Candido Neves, beijando o filho, entre lagrimas verdadeiras, abençoava
-a fuga e não se lhe dava do aborto.</p>
-
-<p>&mdash;Nem todas as creanças vingam, bateu-lhe o coração.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="Maria_Cora">Maria Cora</h2>
-</div>
-
-
-<h3>I</h3>
-
-<p>Uma noite, voltando para casa, trazia tanto somno que não dei corda
-ao relogio. Póde ser tambem que a vista de uma senhora que encontrei
-em casa do commendador T. contribuisse para aquelle esquecimento;
-mas estas duas razões destróem-se. Cogitação tira o somno e o somno
-impede a cogitação; só uma das causas devia ser verdadeira. Ponhamos
-que nenhuma, e fiquemos no principal, que é o relogio parado, de manhã,
-quando me levantei, ouvindo dez horas no relogio da casa.</p>
-
-<p>Morava então (1893) em uma casa de pensão no Cattete. Já por esse
-tempo este genero de residencia florescia no Rio de Janeiro. Aquella
-era pequena e tranquilla. Os quatrocentos contos de réis permittiam-me
-casa exclusiva e propria; mas, em primeiro logar, já eu alli residia
-quando os adquri, por jogo de praça; em segundo logar, era um solteirão
-de quarenta annos, tão affeito á vida de hospedaria que me seria
-impossivel morar só. Casar não era menos impossivel. Não é que me
-faltassem noivas. Desde os fins<span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span> de 1891 mais de uma dama,&mdash;e não das
-menos bellas,&mdash;olhou para mim com olhos brandos e amigos. Uma das
-filhas do commendador tratava-me com particular attenção. A nenhuma dei
-corda; o celibato era a minha alma, a minha vocação, o meu costume, a
-minha unica ventura. Amaria de empreitada e por desfastio. Uma ou duas
-aventuras por anno bastavam a um coração meio inclinado ao occaso e á
-noite.</p>
-
-<p>Talvez por isso dei alguma attenção á senhora que vi em casa do
-commendador, na vespera. Era uma creatura morena, robusta, vinte e oito
-a trinta annos, vestida de escuro; entrou ás dez horas, acompanhada de
-uma tia velha. A recepção que lhe fizeram, foi mais cerimoniosa que as
-outras; era a primeira vez que alli ia. Eu era a terceira. Perguntei se
-era viuva.</p>
-
-<p>&mdash;Não; é casada.</p>
-
-<p>&mdash;Com quem?</p>
-
-<p>&mdash;Com um estancieiro do Rio Grande.</p>
-
-<p>&mdash;Chama-se?</p>
-
-<p>&mdash;Elle? Fonseca, ella Maria Cora.</p>
-
-<p>&mdash;O marido não veiu com ella?</p>
-
-<p>&mdash;Está no Rio Grande.</p>
-
-<p>Não soube mais nada; mas a figura da dama interessou-me pelas graças
-physicas, que eram o opposto do que poderiam sonhar poetas romanticos
-e artistas seraphicos. Conversei com ella alguns minutos, sobre cousas
-indifferentes,&mdash;mas sufficientes para escutar-lhe a voz, que era
-musical, e saber que tinha opiniões republicanas. Vexou-me confessar
-que não as professava de especie alguma; declarei-me vagamente pelo
-futuro do paiz. Quando ella falava, tinha um modo de humedecer os
-beiços, não sei se casual, mas gracioso e picante. Creio que, vistas
-assim ao pé, as feições<span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span> não eram tão correctas como pareciam a
-distancia, mas eram mais suas, mais originaes.</p>
-
-
-<h3>II</h3>
-
-<p>De manhã tinha o relogio parado. Chegando á cidade, desci a rua do
-Ouvidor, até á da Quitanda, e indo a voltar á direita, para ir ao
-escriptorio do meu advogado, lembrou-me ver que horas eram. Não me
-acudiu que o relogio estava parado.</p>
-
-<p>&mdash;Que massada! exclamei.</p>
-
-<p>Felizmente, naquella mesma rua da Quitanda, á esquerda, entre as do
-Ouvidor e Rosario, era a officina onde eu comprára o relogio, e a
-cuja pendula usava acertal-o. Em vez de ir para um lado, fui para
-outro. Era apenas meia hora; dei corda ao relogio, acertei-o, troquei
-duas palavras com o official que estava ao balcão, e indo a sair, vi
-á porta de uma loja de novidades que ficava defronte, nem mais nem
-menos que a senhora de escuro que encontrára em casa do commendador.
-Comprimentei-a, ella correspondeu depois de alguma hesitação, como se
-me não houvesse reconhecido logo, e depois seguiu pela rua da Quitanda
-fóra, ainda para o lado esquerdo.</p>
-
-<p>Como tivesse algum tempo ante mim (pouco menos de trinta minutos),
-dei-me a andar atraz de Maria Cora. Não digo que uma força violenta
-me levasse já, mas não posso esconder que cedia a qualquer impulso de
-curiosidade e desejo; era tambem um resto da juventude passada. Na rua,
-andando, vestida de escuro, como na vespera, Maria Cora pareceu-me
-ainda melhor. Pisava forte, não apressada nem lenta, o bastante
-para deixar ver e admirar as bellas fórmas, mui<span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span> mais correctas que
-as linhas do rosto. Subiu a rua do Hospicio, até uma officina de
-ocularista, onde entrou e ficou dez minutos ou mais. Deixei-me estar
-a distancia, fitando a porta disfarçadamente. Depois saiu, arrepiou
-caminho, e dobrou a rua dos Ourives, até á do Rosario, por onde subiu
-até ao largo da Sé; dahi passou ao de S. Francisco de Paula. Todas
-essas reminiscencias parecerão escusadas, senão aborreciveis; a mim
-dão-me uma sensação intensa e particular, são os primeiros passos de
-uma carreira penosa e longa. Demais, vereis por aqui que ella evitava
-subir a rua do Ouvidor, que todos e todas buscariam áquella ou a outra
-hora para ir ao largo de S. Francisco de Paula. Foi atravessando o
-largo, na direcção da Escola Polytechnica, mas a meio caminho veiu
-ter com ella um carro que estava parado defronte da Escola; metteu-se
-nelle, e o carro partiu.</p>
-
-<p>A vida tem suas encruzilhadas, como outros caminhos da terra. Naquelle
-momento achei-me deante de uma assaz complicada, mas não tive tempo de
-escolher direcção,&mdash;nem tempo nem liberdade. Ainda agora não sei como
-é que me vi dentro de um tilbury; é certo que me vi nelle, dizendo ao
-cocheiro que fosse atraz do carro.</p>
-
-<p>Maria Cora morava no Engenho Velho; era uma boa casa, solida, posto
-que antiga, dentro de uma chacara. Vi que morava alli, porque a tia
-estava a uma das janellas. Demais, saindo do carro, Maria Cora disse ao
-cocheiro (o meu tilbury ia passando adeante) que naquella semana não
-sairia mais, e que apparecesse segunda-feira ao meio-dia. Em seguida,
-entrou pela chacara, como dona della, e parou a falar ao feitor, que
-lhe explicava alguma cousa com o gesto.</p>
-
-<p>Voltei depois que ella entrou em casa, e só muito<span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span> abaixo é que me
-lembrou de ver as horas; era quasi uma e meia. Vim a trote largo até á
-rua da Quitanda, onde me apeei á porta do advogado.</p>
-
-<p>&mdash;Pensei que não vinha, disse-me elle.</p>
-
-<p>&mdash;Desculpe, doutor, encontrei um amigo que me deu uma massada.</p>
-
-<p>Não era a primeira vez que mentia na minha vida, nem seria a ultima.</p>
-
-
-<h3>III</h3>
-
-<p>Fiz-me encontradiço com Maria Cora, na casa do commendador, primeiro,
-e depois em outras. Maria Cora não vivia absolutamente reclusa, dava
-alguns passeios e fazia visitas. Tambem recebia, mas sem dia certo,
-uma ou outra vez, e apenas cinco a seis pessoas da intimidade. O
-sentimento geral é que era pessoa de fortes sentimentos e austeros
-costumes. Accrescentae a isto o espirito, um espirito agudo, brilhante
-e viril. Capaz de resistencias e fadigas, não menos que de violencias e
-combates, era feita, como dizia um poeta que lá ia á casa della, «de um
-pedaço de pampa e outro de pampeiro.» A imagem era um verso e rima, mas
-a mim só me ficou a idéa e o principal das palavras. Maria Cora gostava
-de ouvir definir-se assim, posto não andasse mostrando aquellas forças
-a cada passo, nem contando as suas memorias da adolescencia. A tia é
-que contava algumas, com amor, para concluir que lhe saia a ella, que
-tambem fôra assim na mocidade. A justiça pede que se diga que, ainda
-agora, apezar de doente, a tia era pessoa de muita vida e robustez.</p>
-
-<p>Com pouco, apaixonei-me pela sobrinha. Não me<span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span> pesa confessal-o, pois
-foi a occasião da unica pagina da minha vida que merece attenção
-particular. Vou narral-a brevemente; não conto novella nem direi
-mentiras.</p>
-
-<p>Gostei de Maria Cora. Não lhe confiei logo o que sentia, mas é provavel
-que ella o percebesse ou adivinhasse, como todas as mulheres. Se a
-descoberta ou adivinhação foi anterior á minha ida á casa do Engenho
-Velho, nem assim deveis censural-a por me haver convidado a ir alli uma
-noite. Podia ser-lhe então indifferente a minha disposição moral; podia
-tambem gostar de se sentir querida, sem a menor idéa de retribuição. A
-verdade é que fui essa noite e tornei outras; a tia gostava de mim e
-dos meus modos. O poeta que lá ia, tagarella e tonto, disse uma vez que
-estava afinando a lyra para o casamento da tia commigo. A tia riu-se;
-eu, que queria as boas graças della, não podia deixar de rir tambem, e
-o caso foi materia de conversação por uma semana; mas já então o meu
-amor á outra tinha attingido ao cume.</p>
-
-<p>Soube, pouco depois, que Maria Cora vivia separada do marido. Tinham
-casado oito annos antes, por verdadeira paixão. Viveram felizes cinco.
-Um dia, sobreveiu uma aventura do marido que destruiu a paz do casal.
-João da Fonseca apaixonou-se por uma figura de circo, uma chilena que
-voava em cima do cavallo, Dolores, e deixou a estancia para ir atraz
-della. Voltou seis mezes depois, curado do amor, mas curado á força,
-porque a aventureira se namorou do redactor de um jornal, que não tinha
-vintem, e por elle abandonou Fonseca e a sua prataria. A esposa tinha
-jurado não acceitar mais o esposo, e tal foi a declaração que lhe fez
-quando elle appareceu na estancia.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span></p>
-
-<p>&mdash;Tudo está acabado entre nós; vamos desquitar-nos.</p>
-
-<p>João da Fonseca teve um primeiro gesto de accordo; era um quadragenario
-orgulhoso, para quem tal proposta era de si mesma uma offensa. Durante
-uma noite tratou dos preparativos para o desquite; mas, na seguinte
-manhã, a vista das graças da esposa novamente o commoveram. Então, sem
-tom implorativo, antes como quem lhe perdoava, entendeu dizer-lhe que
-deixasse passar uns seis mezes. Se ao fim de seis mezes, persistisse o
-sentimento actual que inspirava a proposta do desquite, este se faria.
-Maria Cora não queria aceitar a emenda, mas a tia, que residia em Porto
-Alegre e fôra passar algumas semanas na estancia, interveiu com boas
-palavras. Antes de tres mezes estavam reconciliados.</p>
-
-<p>&mdash;João, disse-lhe a mulher no dia seguinte ao da reconciliação, você
-deve ver que o meu amor é maior que o meu ciume, mais fica entendido
-que este caso da nossa vida é unico. Nem você me fará outra, nem eu lhe
-perdoarei nada mais.</p>
-
-<p>João da Fonseca achava-se então em um renascimento do delirio conjugal;
-respondeu á mulher jurando tudo e mais alguma cousa. Aos quarenta
-annos, concluiu elle, não se fazem duas aventuras daquellas, e a minha
-foi de doer. Você verá, agora é para sempre.</p>
-
-<p>A vida recomeçou tão feliz, como d'antes,&mdash;elle dizia que mais. Com
-effeito, a paixão da esposa era violenta, e o marido tornou a amal-a
-como outr'ora. Viveram assim dous annos. Ao fim desse tempo, os ardores
-do marido haviam diminuido, alguns amores passageiros vieram metter-se
-entre ambos. Maria Cora, ao contrario do que lhe dissera, perdoou<span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span>
-essas faltas, que aliás não tiveram a extensão nem o vulto da aventura
-Dolores. Os desgostos, entretanto, appareceram e grandes. Houve scenas
-violentas. Ella parece que chegou mais de uma vez a ameaçar que se
-mataria; mas, posto não lhe faltasse o preciso animo, não fez tentativa
-nenhuma, a tal ponto lhe doia deixar a propria causa do mal, que era
-o marido. João da Fonseca percebeu isto mesmo, e acaso explorou a
-fascinação que exercia na mulher.</p>
-
-<p>Uma circumstancia politica veiu complicar esta situação moral. João da
-Fonseca era pelo lado da revolução, dava-se com varios dos seus chefes,
-e pessoalmente detestava alguns dos contrarios. Maria Cora, por laços
-de familia, era adversa aos federalistas. Esta opposição de sentimentos
-não seria bastante para separal-os, nem se póde dizer que, por si
-mesma, azedasse a vida dos dous. Embora a mulher, ardente em tudo,
-não o fosse menos em condemnar a revolução, chamando nomes crús aos
-seus chefes e officiaes; embora o marido, tambem excessivo, replicasse
-com egual odio, os seus arrufos politicos apenas augmentariam os
-domesticos, e provavelmente não passariam dessa troca de conceitos, se
-uma nova Dolores, desta vez Prazeres, e não chilena nem saltimbanca,
-não revivesse os dias amargos de outro tempo. Prazeres era ligada ao
-partido da revolução, não só pelos sentimentos, como pelas relações da
-vida com um federalista. Eu a conheci pouco depois, era bella e airosa;
-João da Fonseca era tambem um homem gentil e seductor. Podiam amar-se
-fortemente, e assim foi. Vieram incidentes, mais ou menos graves, até
-que um decisivo determinou a separação do casal.</p>
-
-<p>Já cuidavam disto desde algum tempo, mas a reconciliação não seria
-impossivel, apesar da palavra de<span class="pagenum" id="Page_29">[Pg 29]</span> Maria Cora, graças á intervenção da
-tia; esta havia insinuado á sobrinha que residisse tres ou quatro mezes
-no Rio de Janeiro ou em S. Paulo. Succedeu, porém, uma cousa triste
-de dizer. O marido, em um momento de desvario, ameaçou a mulher com o
-rebenque. Outra versão diz que elle tentára esganal-a. Quero crer que
-a veridica é a primeira, e que a segunda foi inventada para tirar á
-violencia de João da Fonseca o que pudesse haver deprimente e vulgar.
-Maria Cora não disse mais uma só palavra ao marido. A separação foi
-immediata; a mulher veiu com a tia para o Rio de Janeiro, depois de
-arranjados amigavelmente os interesses pecuniarios. Demais, a tia era
-rica.</p>
-
-<p>João da Fonseca e Prazeres ficaram vivendo juntos uma vida de aventuras
-que não importa escrever aqui. Só uma cousa interessa directamente á
-minha narração. Tempos depois da separação do casal, João da Fonseca
-estava alistado entre os revolucionarios. A paixão politica, posto
-que forte, não o levaria a pegar em armas, se não fosse uma especie
-de desafio da parte de Prazeres; assim correu entre os amigos delle,
-mas ainda este ponto é obscuro. A versão é que ella, exasperada com o
-resultado de alguns combates, disse ao estancieiro que iria, disfarçada
-em homem, vestir farda de soldado e bater-se pela revolução. Era capaz
-disto; o amante disse-lhe que era uma loucura, ella acabou propondo-lhe
-que, nesse caso, fosse elle bater-se em vez della; era uma grande prova
-de amor que lhe daria.</p>
-
-<p>&mdash;Não te tenho dado tantas?</p>
-
-<p>&mdash;Tem, sim; mas esta é a maior de todas, esta me fará captiva até á
-morte.</p>
-
-<p>&mdash;Então agora ainda não é até á morte? perguntou elle rindo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span></p>
-
-<p>&mdash;Não.</p>
-
-<p>Póde ser que as cousas se passassem assim. Prazeres era, com effeito,
-uma mulher caprichosa e imperiosa, e sabia prender um homem por laços
-de ferro. O federalista, de quem se separou para acompanhar João
-da Fonseca, depois de fazer tudo para rehavel-a, passou á campanha
-oriental, onde dizem que vive pobremente, encanecido e envelhecido
-vinte annos, sem querer saber de mulheres nem de politica. João da
-Fonseca acabou cedendo; ella pediu para acompanhal-o, e até bater-se,
-se fosse preciso; elle negou-lh'o. A revolução triumpharia em breve,
-disse; vencidas as forças do governo, tornaria á estancia, onde ella o
-esperaria.</p>
-
-<p>&mdash;Na estancia, não, respondeu Prazeres; espero-te em Porto Alegre.</p>
-
-
-<h3>IV</h3>
-
-<p>Não importa dizer o tempo que despendi nos inicios da minha paixão,
-mas não foi grande. A paixão cresceu rapida e forte. Afinal senti-me
-tão tomado della que não pude mais guardal-a commigo, e resolvi
-declarar-lh'a uma noite; mas a tia, que usava cochilar desde as nove
-horas (accordava ás quatro) d'aquella vez não pregou olho, e, ainda que
-o fizesse, é provavel que eu não alcançasse falar; tinha a voz presa e
-na rua senti uma vertigem egual á que me deu a primeira paixão da minha
-vida.</p>
-
-<p>&mdash;Sr. Corrêa, não vá cair, disse a tia quando eu passei á varanda,
-despedindo-me.</p>
-
-<p>&mdash;Deixe estar, não caio.</p>
-
-<p>Passei mal a noite; não pude dormir mais de duas<span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span> horas, aos pedaços, e
-antes das cinco estava em pé.</p>
-
-<p>&mdash;É preciso acabar com isto! exclamei.</p>
-
-<p>De facto, não parecia achar em Maria Cora mais que benevolencia e
-perdão, mas era isso mesmo que a tornava appetecivel. Todos os amores
-da minha vida tinham sido faceis; em nenhuma encontrei resistencia,
-a nenhuma deixei com dôr; alguma pena, é possivel, e um pouco de
-recordação. Desta vez sentia-me tomado por ganchos de ferro. Maria Cora
-era toda vida; parece que, ao pé della, as proprias cadeiras andavam
-e as figuras do tapete moviam os olhos. Põe nisso uma forte dose de
-meiguice e graça; finalmente, a ternura da tia fazia d'aquella creatura
-um anjo. É banal a comparação, mas não tenho outra.</p>
-
-<p>Resolvi cortar o mal pela raiz, não tornando ao Engenho Velho, e assim
-fiz por alguns dias largos, duas ou tres semanas. Busquei distrair-me
-e esquecel-a, mas foi em vão. Comecei a sentir a ausencia como de um
-bem querido; apesar d'isso, resisti e não tornei logo. Mas, crescendo
-a ausencia, cresceu o mal, e emfim resolvi tornar lá uma noite. Ainda
-assim póde ser que não fosse, a não achar Maria Cora na mesma officina
-da rua da Quitanda, aonde eu fôra acertar o relogio parado.</p>
-
-<p>&mdash;É freguez tambem? perguntou-me ao entrar.</p>
-
-<p>&mdash;Sou.</p>
-
-<p>&mdash;Vim acertar o meu. Mas, porque não tem apparecido?</p>
-
-<p>&mdash;É verdade, porque não voltou lá á casa? completou a tia.</p>
-
-<p>&mdash;Uns negocios, murmurei; mas, hoje mesmo contava ir lá.</p>
-
-<p>&mdash;Hoje não; vá amanhã, disse a sobrinha. Hoje vamos passar a noite
-fóra.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span></p>
-
-<p>Pareceu-me ler naquella palavra um convite a amal-a de vez, assim como
-a primeira trouxera um tom que presumi ser de saudade. Realmente,
-no dia seguinte, fui ao Engenho Velho. Maria Cora acolheu-me com a
-mesma boa vontade de antes. O poeta lá estava e contou-me em verso os
-suspiros que a tia dera por mim. Entrei a frequental-as novamente e
-resolvi declarar tudo.</p>
-
-<p>Já acima disse que ella provavelmente percebera ou adivinhára o que eu
-sentia, como todas as mulheres; referi-me aos primeiros dias. D'esta
-vez com certeza percebeu, nem por isso me repelliu. Ao contrario,
-parecia gostar de se ver querida, muito e bem.</p>
-
-<p>Pouco depois d'aquella noite escrevi-lhe uma carta e fui ao Engenho
-Velho. Achei-a um pouco retrahida; a tia explicou-me que recebera
-noticias do Rio Grande que a affligiram. Não liguei isto ao casamento,
-e busquei alegral-a; apenas consegui vel-a cortez. Antes de sair,
-perto da varanda, entreguei-lhe a carta; ia a dizer-lhe: «Peço-lhe que
-leia», mas a voz não saiu. Vi-a um pouco atrapalhada, e para evitar
-dizer o que melhor ia escripto, comprimentei-a e enfiei pelo jardim.
-Póde imaginar-se a noite que passei, e o dia seguinte foi naturalmente
-egual, á medida que a outra noite vinha. Pois, ainda assim, não tornei
-á casa d'ella; resolvi esperar tres ou quatro dias, não que ella me
-escrevesse logo, mas que pensasse nos termos da resposta. Que estes
-haviam de ser sympathicos, era certeza minha; as maneiras della, nos
-ultimos tempos, eram mais que affaveis, pareciam-me convidativas.</p>
-
-<p>Não cheguei, porém, aos quatro dias; mal pude esperar tres. Na noite
-do terceiro fui ao Engenho Velho.<span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span> Se disser que entrei tremulo da
-primeira commoção, não minto. Achei-a ao piano, tocando para o poeta
-ouvir; a tia, na poltrona, pensava em não sei qué, mas eu quasi não a
-vi, tal a minha primeira allucinação.</p>
-
-<p>&mdash;Entre, Sr. Correia, disse esta; não caia em cima de mim.</p>
-
-<p>&mdash;Perdão...</p>
-
-<p>Maria Cora não interrompeu a musica; ao ver-me chegar, disse:</p>
-
-<p>&mdash;Desculpe, se lhe não dou a mão, estou aqui servindo de musa a este
-senhor.</p>
-
-<p>Minutos depois, veiu a mim, e estendeu-me a mão com tanta galhardia,
-que li nella a resposta, e estive quasi a dar-lhe um agradecimento.
-Passaram-se alguns minutos, quinze ou vinte. Ao fim desse tempo, ella
-pretextou um livro, que estava em cima das musicas, e pediu-me para
-dizer se o conhecia; fomos alli ambos, e ella abriu-m'o; entre as duas
-folhas estava um papel.</p>
-
-<p>&mdash;Na outra noite, quando aqui esteve, deu-me esta carta; não podia
-dizer-me o que tem dentro?</p>
-
-<p>&mdash;Não adivinha?</p>
-
-<p>&mdash;Posso errar na adivinhação.</p>
-
-<p>&mdash;É isso mesmo.</p>
-
-<p>&mdash;Bem, mas eu sou uma senhora casada, e nem por estar separada do meu
-marido deixo de estar casada. O senhor ama-me, não é? Supponha, pelo
-melhor, que eu tambem o amo; nem por isso deixo de estar casada.</p>
-
-<p>Dizendo isto, entregou-me a carta; não fôra aberta. Se estivessemos
-sós, é possivel que eu lh'a lesse, mas a presença de extranhos
-impedia-me este recurso. Demais, era desnecessario; a resposta de Maria
-Cora<span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span> era definitiva ou me pareceu tal. Peguei na carta, e antes de a
-guardar commigo:</p>
-
-<p>&mdash;Não quer então ler?</p>
-
-<p>&mdash;Não.</p>
-
-<p>&mdash;Nem para ver os termos?</p>
-
-<p>&mdash;Não.</p>
-
-<p>&mdash;Imagine que lhe proponho ir combater contra seu marido, matal-o e
-voltar, disse eu cada vez mais tonto.</p>
-
-<p>&mdash;Propõe isto?</p>
-
-<p>&mdash;Imagine.</p>
-
-<p>&mdash;Não creio que ninguem me ame com tal força, concluiu sorrindo. Olhe,
-que estão reparando em nós.</p>
-
-<p>Dizendo isto, separou-se de mim, e foi ter com a tia e o poeta. Eu
-fiquei ainda alguns segundos com o livro na mão, como se devéras o
-examinasse, e afinal deixei-o. Vim sentar-me defronte della. Os tres
-conversavam de cousas do Rio Grande, de combates entre federalistas
-e legalistas, e da varia sorte delles. O que eu então senti não se
-escreve; pelo menos, não o escrevo eu, que não sou romancista. Foi
-uma especie de vertigem, um delirio, uma scena pavorosa e lucida,
-um combate e uma gloria. Imaginei-me no campo, entre uns e outros,
-combatendo os federalistas, e afinal matando João da Fonseca, voltando
-e casando-me com a viuva. Maria Cora contribuia para esta visão
-seductora; agora, que me recusára a carta, parecia-me mais bella que
-nunca, e a isto accrescia que se não mostrava zangada nem offendida,
-tratava-me com egual carinho que antes, creio até que maior. Disto
-podia sair uma impressão dupla e contraria,&mdash;uma de acquiescencia
-tacita, outra de indifferença, mas eu só via a primeira, e sai de lá
-completamente louco.</p>
-
-<p>O que então resolvi foi realmente de louco. As palavras<span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span> de Maria Cora:
-«Não creio que ninguem me ame com tal força»&mdash;soavam-me aos ouvidos,
-como um desafio. Pensei nellas toda a noite, e no dia seguinte fui ao
-Engenho Velho; logo que tive occasião de jurar-lhe a prova, fil-o.</p>
-
-<p>&mdash;Deixo tudo o que me interessa, a começar pela paz, com o unico fim de
-lhe mostrar que a amo, e a quero só e santamente para mim. Vou combater
-a revolta.</p>
-
-<p>Maria Cora fez um gesto de deslumbramento. Daquella vez percebi que
-realmente gostava de mim, verdadeira paixão, e se fosse viuva, não
-casava com outro. Jurei novamente que ia para o Sul. Ella commovida,
-estendeu-me a mão. Estavamos em pleno romantismo. Quando eu nasci, os
-meus não acreditavam em outras provas de amor, e minha mãe contava-me
-os romances em versos de cavalleiros andantes que iam á Terra-Santa
-libertar o sepulcro de Christo por amor da fé e da sua dama. Estavamos
-em pleno romantismo.</p>
-
-
-<h3>V</h3>
-
-<p>Fui para o Sul. Os combates entre legalistas e revolucionarios eram
-continuos e sangrentos, e a noticia d'elles contribuiu a animar-me.
-Entretanto, como nenhuma paixão politica me levava a entrar na luta,
-força é confessar que por um instante me senti abatido e hesitei. Não
-era medo da morte, podia ser amor da vida, que é um synonymo; mas, uma
-ou outra cousa, não foi tal nem tamanha que fizesse durar por muito
-tempo a hesitação. Na cidade do Rio Grande encontrei um amigo, a quem
-eu por carta do Rio de<span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span> Janeiro dissera muito reservadamente que ia lá
-por motivos politicos. Quiz saber quaes.</p>
-
-<p>&mdash;Naturalmente são reservados, respondi tentando sorrir.</p>
-
-<p>&mdash;Bem; mas uma cousa creio que posso saber, uma só, porque não sei
-absolutamente o que pense a tal respeito, nada havendo antes que me
-instrua. De que lado estás, legalistas ou revoltosos?</p>
-
-<p>&mdash;É boa! Se não fosse dos legalistas, não te mandaria dizer nada; viria
-ás escondidas.</p>
-
-<p>&mdash;Vens com alguma commissão secreta do marechal?</p>
-
-<p>&mdash;Não.</p>
-
-<p>Não me arrancou então mais nada, mas eu não pude deixar de lhe
-confiar os meus projectos, ainda que sem os seus motivos. Quando
-elle soube que aquelles eram alistar-me entre os voluntarios que
-combatiam a revolução, não poude crer em mim, e talvez desconfiasse
-que effectivamente eu levava algum plano secreto do presidente. Nunca
-da minha parte ouviu nada que pudesse explicar semelhante passo.
-Entretanto, não perdeu tempo em despersuadir-me; pessoalmente era
-legalista e falava dos adversarios com odio e furor. Passado o espanto,
-acceitou o meu acto, tanto mais nobre quanto não era inspirado por
-sentimento de partido. Sobre isto disse-me muita palavra bella e
-heroica, propria a levantar o animo de quem já tivesse tendencia para a
-luta. Eu não tinha nenhuma, fóra das razões particulares; estas, porém,
-eram agora maiores. Justamente acabava de receber uma carta da tia de
-Maria Cora, dando-me noticias dellas, e recommendações da sobrinha,
-tudo com alguma generalidade e certa sympathia verdadeira.</p>
-
-<p>Fui a Porto Alegre, alistei-me e marchei para a<span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span> campanha. Não disse
-a meu respeito nada que pudesse despertar a curiosidade de ninguem,
-mas era difficil encobrir a minha condição, a minha origem, a minha
-viagem com o plano de ir combater a revolução. Fez-se logo uma lenda a
-meu respeito. Eu era um republicano antigo, riquissimo, enthusiasta,
-disposto a dar pela Republica mil vidas, se as tivesse, e resoluto
-a não poupar a unica. Deixei dizer isto e o mais, e fui. Como eu
-indagasse das forças revolucionarias com que estaria João da Fonseca,
-alguem quiz ver nisto uma razão de odio pessoal; tambem não faltou
-quem me suppozesse espião dos rebeldes, que ia pôr-me em communicação
-secreta com aquelle. Pessoas que sabiam das relações delle com a
-Prazeres, imaginavam que era um antigo amante desta que se queria
-vingar dos amores delle. Todas aquellas supposições morreram, para
-só ficar a do meu enthusiasmo politico; a da minha espionagem ia-me
-prejudicando; felizmente, não passou de duas cabeças e de uma noite.</p>
-
-<p>Levava commigo um retrato de Maria Cora; alcançára-o della mesma,
-uma noite, pouco antes do meu embarque, com uma pequena dedicatoria
-cerimoniosa. Já disse que estava em pleno romantismo; dado o primeiro
-passo, os outros vieram de si mesmos. E agora juntae a isto o amor
-proprio, e comprehendereis que de simples cidadão indifferente da
-capital saisse um guerreiro aspero da campanha rio-grandense.</p>
-
-<p>Nem por isso conto combates, nem escrevo para falar da revolução, que
-não teve nada commigo, por si mesma, senão pela occasião que me dava,
-e por algum golpe que lhe desfechei na estreita área da minha acção.
-João da Fonseca era o meu rebelde. Depois de haver tomado parte no
-combate de Sarandy e<span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span> Coxilla Negra, ouvi que o marido de Maria Cora
-fôra morto, não sei em que recontro; mais tarde deram-me a noticia de
-estar com as forças de Gumercindo, e tambem que fôra feito prisioneiro
-e seguira, para Porto Alegre; mas ainda isto não era verdade. Disperso,
-com dois camaradas, encontrei um dia um regimento legal que ia em
-defeza da Encruzilhada, investida ultimamente por uma força dos
-federalistas; apresentei-me ao commandante e segui. Ahi soube que João
-da Fonseca estava entre essa força; deram-me todos os signaes delle,
-contaram-me a historia dos amores e a separação da mulher.</p>
-
-<p>A idéa de matal-o no turbilhão de um combate tinha algo phantastico;
-nem eu sabia se taes duellos eram possiveis em semelhantes occasiões,
-quando a força de cada homem tem de sommar com a de toda uma força
-unica e obediente a uma só direcção. Tambem me pareceu, mais de uma
-vez, que ia commetter um crime pessoal, e a sensação que isto me
-dava, podeis crer que não era leve nem doce; mas a figura de Maria
-Cora abraçava-me e absolvia com uma benção de felicidades. Atirei-me
-de vez. Não conhecia João da Fonseca; além dos signaes que me haviam
-dado, tinha de memoria um retrato delle que vira no Engenho Velho; se
-as feições não estivessem mudadas, era provavel que eu o reconhecesse
-entre muitos. Mas, ainda uma vez, seria este encontro possivel? Os
-combates em que eu entrára, já me faziam desconfiar que não era facil,
-ao menos.</p>
-
-<p>Não foi facil nem breve. No combate da Encruzilhada creio que me houve
-com a necessaria intrepidez e disciplina, e devo aqui notar que eu me
-ia acostumando á vida da guerra civil. Os odios que ouvia, eram forças
-reaes. De um lado e outro batiam-se com<span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span> ardor, e a paixão que eu
-sentia nos meus ia-se pegando em mim. Já lêra o meu nome em uma ordem
-do dia, e de viva voz recebêra louvores, que commigo não pude deixar de
-achar justos, e ainda agora taes os declaro. Mas vamos ao principal,
-que é acabar com isto.</p>
-
-<p>Naquelle combate achei-me um tanto como o heróe de Stendhal na batalha
-de Waterloo; a differença é que o espaço foi menor. Por isso, e tambem
-porque não me quero deter em cousas de recordação facil, direi sómente
-que tive occasião de matar em pessoa a João da Fonseca. Verdade é que
-escapei de ser morto por elle. Ainda agora trago na testa a cicatriz
-que elle me deixou. O combate entre nós foi curto. Se não parecesse
-romanesco de mais, eu diria que João da Fonseca adivinhára o motivo e
-previra o resultado da acção.</p>
-
-<p>Poucos minutos depois da luta pessoal, a um canto da villa, João da
-Fonseca caiu prostrado. Quiz ainda lutar, e certamente lutou um pouco;
-eu é que não consenti na desforra, que podia ser a minha derrota, se
-é que raciocinei; creio que não. Tudo o que fiz foi cego pelo sangue
-em que o deixára banhado, e surdo pelo clamor e tumulto de combate.
-Matava-se, gritava-se, vencia-se; em pouco ficámos senhores do campo.</p>
-
-<p>Quando vi que João da Fonseca morrêra devéras, voltei ao combate por
-instantes; a minha ebriedade cessára um pouco, e os motivos primarios
-tornaram a dominar-me, como se fossem unicos. A figura de Maria Cora
-appareceu-me como um sorriso de approvação e perdão; tudo foi rapido.</p>
-
-<p>Haveis de ter lido que alli se apprehenderam tres ou quatro mulheres.
-Uma destas era a Prazeres. Quando, acabado tudo, a Prazeres viu o
-cadaver do amante, fez uma scena que me encheu de odio e de<span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span> inveja.
-Pegou em si e deitou-se a abraçal-o; as lagrimas que verteu, as
-palavras que disse, fizeram rir a uns; a outros, se não enterneceram,
-deram algum sentimento de admiração. Eu, como digo, achei-me tomado de
-inveja e odio, mas tambem esse duplo sentimento desappareceu para não
-ficar nem admiração; acabei rindo. Prazeres, depois de honrar com dôr
-a morte do amante, ficou sendo a federalista que já era; não vestia
-farda, como dissera ao desafiar João da Fonseca, quiz ser prisioneira
-com os rebeldes e seguir com elles.</p>
-
-<p>É claro que não deixei logo as forças, bati-me ainda algumas vezes, mas
-a razão principal dominou, e abri mão das armas. Durante o tempo em que
-estive alistado, só escrevi duas cartas a Maria Cora, uma pouco depois
-de encetar aquella vida nova,&mdash;outra depois do combate da Encruzilhada;
-nesta não lhe contei nada do marido, nem da morte, nem sequer que
-o vira. Unicamente annunciei que era provavel acabasse brevemente
-a guerra civil. Em nenhuma das duas fiz a menor allusão aos meus
-sentimentos nem ao motivo do meu acto; entretanto, para quem soubesse
-delles, a carta era significativa. Maria Cora só respondeu á primeira
-das cartas, com serenidade, mas não com isenção. Percebia-se,&mdash;ou
-percebia-o eu,&mdash;que, não promettendo nada, tudo agradecia, e, quando
-menos, admirava. Gratidão e admiração podiam encaminhal-a ao amor.</p>
-
-<p>Ainda não disse,&mdash;e não sei como diga este ponto,&mdash;que na Encruzilhada,
-depois da morte de João da Fonseca, tentei degolal-o; mas nem queria
-fazel-o nem realmente o fiz. O meu objecto era ainda outro e romanesco.
-Perdoa-me tu, realista sincero, ha nisto tambem um pouco de realidade,
-e foi o que pratiquei,<span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span> de accôrdo com o estado da minha alma: o que
-fiz foi cortar-lhe um molho de cabellos. Era o recibo da morte que eu
-levaria á viuva.</p>
-
-
-<h3>VI</h3>
-
-<p>Quando voltei ao Rio de Janeiro, tinham já passado muitos mezes do
-combate da Encruzilhada. O meu nome figurou não só em partes officiaes
-como em telegrammas e correspondencias, por mais que eu buscasse
-esquivar-me ao ruido e desapparecer na sombra. Recebi cartas de
-felicitações e de indagações. Não vim logo para o Rio de Janeiro,
-note-se; podia ter aqui alguma festa; preferi ficar em S. Paulo. Um
-dia, sem ser esperado, metti-me na estrada de ferro e entrei na cidade.
-Fui para a casa de pensão do Cattete.</p>
-
-<p>Não procurei logo Maria Cora. Pareceu-me até mais acertado que a
-noticia da minha vinda lhe chegasse pelos jornaes. Não tinha pessoa
-que lhe falasse; vexava-me ir eu mesmo a alguma redacção contar o meu
-regresso do Rio Grande; não era passageiro de mar, cujo nome viesse em
-lista nas folhas publicas. Passaram dous dias; no terceiro, abrindo
-uma destas, dei com o meu nome. Dizia-se alli que viera de S. Paulo
-e estivera nas lutas do Rio Grande, citavam-se os combates, tudo com
-adjectivos de louvor; emfim, que voltava á mesma pensão do Cattete.
-Como eu só contára alguma cousa ao dono da casa, podia ser elle o autor
-das notas; disse-me que não. Entrei a receber visitas pessoaes. Todas
-queriam saber tudo; eu pouco mais disse que nada.</p>
-
-<p>Entre os cartões, recebi dous de Maria Cora e da tia, com palavras
-de boas vindas. Não era preciso mais;<span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span> restava-me ir agradecer-lhes,
-e dispuz-me a isso; mas, no proprio dia em que resolvi ir ao Engenho
-Velho, tive uma sensação de... De quê? Expliquem, se podem, o
-acanhamento que me deu a lembrança do marido de Maria Cora, morto ás
-minhas mãos. A sensação que ia ter diante della tolheu-me inteiramente.
-Sabendo-se qual foi o movel principal da minha acção militar, mal se
-comprehende aquella hesitação; mas, se considerardes que, por mais que
-me defendesse do marido e o matasse para não morrer, elle era sempre o
-marido, terás entendido o mal-estar que me fez adiar a visita. Afinal,
-peguei em mim e fui á casa della.</p>
-
-<p>Maria Cora estava de luto. Recebeu-me com bondade, e repetiu-me, como a
-tia, as felicitações escriptas. Falámos da guerra civil, dos costumes
-do Rio Grande, um pouco de politica, e mais nada. Não se disse de João
-da Fonseca. Ao sair de lá, perguntei a mim mesmo se Maria Cora estaria
-disposta a casar conmigo.</p>
-
-<p>&mdash;Não me parece que recuse, embora não lhe ache maneiras especiaes.
-Creio até que está menos affavel que d'antes... Terá mudado?</p>
-
-<p>Pensei assim, vagamente. Attribui a alteração ao estado moral da
-viuvez; era natural. E continuei a frequental-a, disposto a deixar
-passar a primeira phase do luto para lhe pedir formalmente a mão.
-Não tinha que fazer declarações novas; ella sabia tudo. Continuou
-a receber-me bem. Nenhuma pergunta me fez sobre o marido, a tia
-tambem não, e da propria revolução não se falou mais. Pela minha
-parte, tornando á situação anterior, busquei não perder tempo, fiz-me
-pretendente com todas as maneiras do officio. Um dia, perguntei-lhe se
-pensava em tornar ao Rio Grande.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span></p>
-
-<p>&mdash;Por ora, não.</p>
-
-<p>&mdash;Mas irá?</p>
-
-<p>&mdash;É possivel; não tenho plano nem prazo marcado; é possivel.</p>
-
-<p>Eu, depois de algum silencio, durante o qual olhava interrogativamente
-para ella, acabei por inquirir se antes de ir, caso fosse, não
-alteraria nada em sua vida.</p>
-
-<p>&mdash;A minha vida está tão alterada...</p>
-
-<p>Não me entendera; foi o que suppuz. Tratei de me explicar melhor, e
-escrevi uma carta em que lhe lembrava a entrega e a recusa da primeira
-e lhe pedia francamente a mão. Entreguei a carta, dous dias depois, com
-estas palavras:</p>
-
-<p>&mdash;Desta vez não recusará ler-me.</p>
-
-<p>Não recusou, acceitou a carta. Foi á saida, á porta da sala. Creio até
-que lhe vi certa commoção de bom agouro. Não me respondeu por escripto,
-como esperei. Passados tres dias, estava tão ancioso que resolvi ir
-ao Engenho Velho. Em caminho imaginei tudo: que me recusasse, que me
-acceitasse, que me adiasse, e já me contentava com a ultima hypothese,
-se não houvesse de ser a segunda. Não a achei em casa; tinha ido passar
-alguns dias na Tijuca. Sai de lá aborrecido. Pareceu-me que não queria
-absolutamente casar; mas então era mais simples dizel-o ou escrevel-o.
-Esta consideração trouxe-me esperanças novas.</p>
-
-<p>Tinha ainda presentes as palavras que me dissera, quando me devolveu
-a primeira carta, e eu lhe falei da minha paixão: «Supponha que eu
-o amo; nem por isso deixo de ser uma senhora casada.» Era claro que
-então gostava de mim, e agora mesmo não havia razão decisiva para crer
-o contrario, embora a apparencia fosse um tanto fria. Ultimamente,
-entrei a crer que<span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span> ainda gostava, um pouco por vaidade, um pouco por
-sympathia, e não sei se por gratidão tambem; tive alguns vestigios
-disso. Não obstante, não me deu resposta á segunda carta. Ao voltar da
-Tijuca, vinha menos expansiva, acaso mais triste. Tive eu mesmo de lhe
-falar na materia; a resposta foi que, por ora, estava disposta a não
-casar.</p>
-
-<p>&mdash;Mas um dia...? perguntei depois de algum silencio.</p>
-
-<p>&mdash;Estarei velha.</p>
-
-<p>&mdash;Mas então... será muito tarde?</p>
-
-<p>&mdash;Meu marido póde não estar morto.</p>
-
-<p>Espantou-me esta objecção.</p>
-
-<p>&mdash;Mas a senhora está de luto.</p>
-
-<p>&mdash;Tal foi a noticia que li e me deram; póde não ser exacta. Tenho visto
-desmentir outras que se reputavam certas.</p>
-
-<p>&mdash;Quer certeza absoluta? perguntei. Eu posso dal-a.</p>
-
-<p>Maria Cora empallideceu. Certeza. Certeza de quê? Queria que lhe
-contasse tudo, mas tudo. A situação era tão penosa para mim que não
-hesitei mais, e, depois de lhe dizer que era intenção minha não lhe
-contar nada, como não contára a ninguem, ia fazel-o, unicamente para
-obedecer á intimação. E referi o combate, as suas phases todas, os
-riscos, as palavras, finalmente a morte de João da Fonseca. A ancia com
-que me ouviu foi grande, e não menor o abatimento final. Ainda assim,
-dominou-se, e perguntou-me:</p>
-
-<p>&mdash;Jura que me não está enganando?</p>
-
-<p>&mdash;Para que a enganar? O que tenho feito é bastante para provar que sou
-sincero. Amanhã, trago-lhe outra prova, se é preciso mais alguma.</p>
-
-<p>Levei-lhe os cabellos que cortára ao cadaver. Contei-lhe,&mdash;e confesso
-que o meu fim foi irrital-a contra a<span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span> memoria do defunto,&mdash;contei-lhe
-o desespero da Prazeres. Descrevi essa mulher e as suas lagrimas.
-Maria Cora ouviu-me com os olhos grandes e perdidos; estava ainda com
-ciumes. Quando lhe mostrei os cabellos do marido, atirou-se a elles,
-recebeu-os, beijou-os, chorando, chorando, chorando... Entendi melhor
-sair e sair para sempre. Dias depois recebi a resposta á minha carta;
-recusava casar.</p>
-
-<p>Na resposta havia uma palavra que é a unica razão de escrever esta
-narrativa: «Comprehende que eu não podia aceitar a mão do homem que,
-embora lealmente, matou meu marido.» Comparei-a áquella outra que me
-dissera antes, quando eu me propunha sair a combate, matal-o e voltar:
-«Não creio que ninguem me ame com tal força.» E foi essa palavra que
-me levou á guerra. Maria Cora vive agora reclusa; de costume manda
-dizer uma missa por alma do marido, no anniversario do combate da
-Encruzilhada. Nunca mais a vi; e, cousa menos difficil, nunca mais
-esqueci dar corda ao relogio.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="Marcha_funebre">Marcha funebre</h2>
-</div>
-
-
-<p>O deputado Cordovil não podia pregar olho uma noite de Agosto de 186...
-Viera cedo do Cassino Fluminense, depois da retirada do imperador, e
-durante o baile não tivera o minimo incommodo moral nem physico. Ao
-contrario, a noite foi excellente; tão excellente que um inimigo seu,
-que padecia do coração, falleceu antes das dez horas, e a noticia
-chegou ao Cassino pouco depois das onze.</p>
-
-<p>Naturalmente conclues que elle ficou alegre com a morte do homem,
-especie de vingança que os corações adversos e fracos tomam em falta
-de outra. Digo-te que conclues mal; não foi alegria, foi desabafo.
-A morte vinha de mezes, era daquellas que não acabam mais, e moem,
-mordem, comem, trituram a pobre creatura humana. Cordovil sabia dos
-padecimentos do adversario. Alguns amigos, para o consolar de antigas
-injurias, iam contar-lhe o que viam ou sabiam do enfermo, pregado a
-uma cadeira de braços, vivendo as noites horrivelmente, sem que as
-auroras lhe trouxessem esperanças, nem as tardes desenganos. Cordovil
-pagava-lhes com alguma palavra de compaixão, que o alviçareiro
-adoptava, e repetia, e era mais sincera<span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span> naquelle que neste. Emfim
-acabára de padecer; dahi o desabafo.</p>
-
-<p>Este sentimento pegava com a piedade humana. Cordovil, salvo em
-politica, não gostava do mal alheio. Quando resava, ao levantar da
-cama: «Padre Nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome,
-venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como
-no céu; o pão nosso de cada dia nos dá hoje; perdoa as nossas dividas,
-como nós perdoamos aos nossos devedores...» não imitava um de seus
-amigos que resava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores,
-como dizia de lingua; esse chegava a cobrar além do que elles lhe
-deviam, isto é, se ouvia maldizer de alguem, decorava tudo e mais
-alguma cousa, e ia repetil-o a outra parte. No dia seguinte, porém, a
-bella oração de Jesus tornava a sair dos labios da vespera com a mesma
-caridade de officio.</p>
-
-<p>Cordovil não ia nas aguas d'esse amigo; perdoava devéras. Que entrasse
-no perdão um tantinho de preguiça, é possivel, sem aliás ser evidente.
-Preguiça amamenta muita virtude. Sempre é alguma cousa mingoar força
-á acção do mal. Não esqueça que o deputado só gostava do mal alheio
-em politica, e o inimigo morto era inimigo pessoal. Quanto á causa da
-inimizade, não a sei eu, e o nome do homem acabou com a vida.</p>
-
-<p>&mdash;Coitado! descançou, disse Cordovil.</p>
-
-<p>Conversaram da longa doença do finado. Tambem falaram das varias mortes
-d'este mundo, dizendo Cordovil que a todas preferia a de Cesar, não por
-motivo do ferro, mas por inesperada e rapida.</p>
-
-<p>&mdash;<i>Tu quoque?</i> perguntou-lhe um collega rindo.</p>
-
-<p>Ao que elle, apanhando a allusão, replicou:</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span></p>
-
-<p>&mdash;Eu, se tivesse um filho, quizera morrer ás mãos delle. O parricidio,
-estando fóra do commum, faria a tragedia mais tragica.</p>
-
-<p>Tudo foi assim alegre. Cordovil saiu do baile com somno, e foi
-cochilando no carro, apesar do mal calçado das ruas. Perto de casa,
-sentiu parar o carro e ouviu rumor de vozes. Era o caso de um defunto,
-que duas praças de policia estavam levantando do chão.</p>
-
-<p>&mdash;Assassinado? perguntou elle ao lacaio, que descêra da almofada para
-saber o que era.</p>
-
-<p>&mdash;Não sei, não, senhor.</p>
-
-<p>&mdash;Pergunta o que é.</p>
-
-<p>&mdash;Este moço sabe como foi, disse o lacaio, indicando um desconhecido,
-que falava a outros.</p>
-
-<p>O moço approximou-se da portinhola, antes que o deputado recusasse
-ouvil-o. Referiu-lhe então em poucas palavras o accidente a que
-assistira.</p>
-
-<p>&mdash;Vinhamos andando, elle adeante, eu atraz. Parece que assobiava uma
-polka. Indo a atravessar a rua para o lado do Mangue, vi que estacou o
-passo, a modo que torceu o corpo, não sei bem, e caiu sem sentidos. Um
-doutor, que chegou logo, descendo de um sobradinho, examinou o homem e
-disse que «morreu de repente». Foi-se juntando gente, a patrulha levou
-muito tempo a chegar. Agora pegou delle. Quer ver o defunto?</p>
-
-<p>&mdash;Não, obrigado. Já se póde passar?</p>
-
-<p>&mdash;Póde.</p>
-
-<p>&mdash;Obrigado. Vamos, Domingos.</p>
-
-<p>Domingos trepou á almofada, o cocheiro tocou os animaes, e o carro
-seguiu até á rua de S. Christovão, onde morava Cordovil.</p>
-
-<p>Antes de chegar á casa, Cordovil foi pensando na morte do desconhecido.
-Em si mesma, era boa; comparada<span class="pagenum" id="Page_52">[Pg 52]</span> á do inimigo pessoal, excellente.
-Ia a assobiar, cuidando sabe Deus em que delicia passada ou em que
-esperança futura; revivia o que vivêra, ou antevia o que podia viver,
-senão quando, a morte pegou da delicia ou da esperança, e lá se foi o
-homem ao eterno repouso. Morreu sem dôr, ou, se alguma teve, foi acaso
-brevissima, como um relampago que deixa a escuridão mais escura.</p>
-
-<p>Então poz o caso em si. Se lhe tem acontecido no Cassino a morte do
-Aterrado? Não seria dançando; os seus quarenta annos não dançavam.
-Podia até dizer que elle só dançou até aos vinte. Não era dado a moças,
-tivera uma affeição unica na vida,&mdash;aos vinte e cinco annos, casou e
-enviuvou ao cabo de cinco semanas para não casar mais. Não é que lhe
-faltassem noivas,&mdash;mórmente depois de perder o avô, que lhe deixou duas
-fazendas. Vendeu-as ambas e passou a viver comsigo, fez duas viagens á
-Europa, continuou a politica e a sociedade. Ultimamente parecia enojado
-de uma e de outra, mas não tendo em que matar o tempo, não abriu mão
-dellas. Chegou a ser ministro uma vez, creio que da marinha, não passou
-de sete mezes. Nem a pasta lhe deu gloria, nem a demissão desgosto. Não
-era ambicioso, e mais puxava para a quietação que para o movimento.</p>
-
-<p>Mas se lhe tivesse succedido morrer de repente no Cassino, ante uma
-valsa ou quadrilha, entre duas portas? Podia ser muito bem. Cordovil
-compoz de imaginação a scena, elle caido de bruços ou de costas, o
-prazer turbado, a dança interrompida... e d'ahi podia ser que não; um
-pouco de espanto apenas, outro de susto, os homens animando as damas,
-a orchestra continuando por instantes a opposição do compasso e da
-confusão. Não faltariam braços que o levasse<span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span> para um gabinete, já
-morto, totalmente morto.</p>
-
-<p>&mdash;Tal qual a morte de Cesar, ia dizendo comsigo.</p>
-
-<p>E logo emendou:</p>
-
-<p>&mdash;Não, melhor que ella; sem ameaça, nem armas, nem sangue, uma simples
-queda e o fim. Não sentiria nada.</p>
-
-<p>Cordovil deu comsigo a rir ou a sorrir, alguma cousa que afastava o
-terror e deixava a sensação da liberdade. Em verdade, antes a morte
-assim que após longos dias ou longos mezes e annos, como o adversario
-que perdêra algumas horas antes. Nem era morrer; era um gesto de
-chapéo, que se perdia no ar com a propria mão e a alma que lhe déra
-movimento. Um cochilo e o somno eterno. Achava-lhe um só defeito,&mdash;o
-apparato. Essa morte no meio de um baile, defronte do imperador, ao som
-de Strauss, contada, pintada, enfeitada nas folhas publicas, essa morte
-pareceria de encommenda. Paciencia, uma vez que fosse repentina.</p>
-
-<p>Tambem pensou que podia ser na Camara, no dia seguinte, ao começar o
-debate do orçamento. Tinha a palavra; já andava cheio de algarismos e
-citações. Não quiz imaginar o caso, não valia a pena; mas o caso teimou
-e appareceu de si mesmo. O salão da Camara, em vez do Cassino, sem
-damas ou com poucas, nas tribunas. Vasto silencio. Cordovil em pé
-começaria o discurso, depois de circular os olhos pela casa, fitar o
-ministro e fitar o presidente: «Releve-me a Camara que lhe tome algum
-tempo, serei breve, buscarei ser justo...» Aqui uma nuvem lhe taparia
-os olhos, a lingua pararia, o coração tambem, e elle cairia de golpe no
-chão. Camara, galerias, tribunas ficariam assombradas. Muitos deputados
-correriam a erguel-o; um, que era medico, verificaria a morte;<span class="pagenum" id="Page_54">[Pg 54]</span> não
-diria que fôra de repente, como o do sobradinho do Aterrado, mas por
-outro estylo mais technico. Os trabalhos seriam suspensos, depois de
-algumas palavras do presidente e escolha da commissão que acompanharia
-o finado ao cemiterio...</p>
-
-<p>Cordovil quiz rir da circumstancia de imaginar além da morte, o
-movimento e o sahimento, as proprias noticias dos jornaes, que elle leu
-de cór e depressa. Quiz rir, mas preferia cochilar; os olhos é que,
-estando já perto de casa e da cama, não quizeram desperdiçar o somno, e
-ficaram arregalados.</p>
-
-<p>Então a morte, que elle imaginára pudesse ter sido no baile, antes
-de sair, ou no dia seguinte em plena sessão da Camara, appareceu
-alli mesmo no carro. Suppoz elle que, ao abrirem-lhe a portinhola,
-déssem com o seu cadaver. Sairia assim de uma noite ruidosa para outra
-pacifica, sem conversas, nem danças, nem encontros, sem especie alguma
-de luta ou resistencia. O estremeção que teve fez-lhe ver que não era
-verdade. Effectivamente, o carro entrou na chacara, estacou, e Domingos
-saltou da almofada para vir abrir-lhe a portinhola. Cordovil desceu com
-as pernas e a alma vivas, e entrou pela porta lateral, onde o aguardava
-com um castiçal e vela accesa o escravo Florindo. Subiu a escada, e
-os pés sentiam que os degraus eram d'este mundo; se fossem do outro,
-desceriam naturalmente. Em cima, ao entrar no quarto, olhou para a
-cama; era a mesma dos somnos quietos e demorados.</p>
-
-<p>&mdash;Veiu alguem?</p>
-
-<p>&mdash;Não, senhor, respondeu o escravo distrahido, mas corrigiu logo: Veiu,
-sim, senhor; veiu aquelle doutor que almoçou com meu senhor domingo
-passado.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span></p>
-
-<p>&mdash;Queria alguma cousa?</p>
-
-<p>&mdash;Disse que vinha dar a meu senhor uma boa noticia, e deixou este
-bilhete&mdash;que eu botei ao pé da cama.</p>
-
-<p>O bilhete referia a morte do inimigo; era de um dos amigos que usavam
-contar-lhe a marcha da molestia. Quiz ser o primeiro a annunciar o
-desenlace, um alegrão, com um abraço apertado. Emfim, morrêra o patife.
-Não disse a cousa assim por esses termos claros, mas os que empregou
-vinham a dar nelles, accrescendo que não attribuiu esse unico objecto
-á visita. Vinha passar a noite; só alli soube que Cordovil fôra ao
-Cassino. Ia a sair, quando lhe lembrou a morte e pediu ao Florindo que
-lhe deixasse escrever duas linhas. Cordovil entendeu o significado, e
-ainda uma vez lhe doeu a agonia do outro. Fez um gesto de melancolia e
-exclamou a meia voz:</p>
-
-<p>&mdash;Coitado! Vivam as mortes subitas!</p>
-
-<p>Florindo, se referisse o gesto e a phrase ao doutor do bilhete, talvez
-o fizesse arrepender da cançeira. Nem pensou nisso; ajudou o senhor
-a preparar-se para dormir, ouviu as ultimas ordens e despediu-se.
-Cordovil deitou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! suspirou elle estirando o corpo cançado.</p>
-
-<p>Teve então uma idéa, a de amanhecer morto. Esta hypothese, a melhor de
-todas, porque o apanharia meio morto, trouxe comsigo mil phantasias
-que lhe arredaram o somno dos olhos. Em parte, era a repetição das
-outras, a participação á Camara, as palavras do presidente, commissão
-para o sahimento, e o resto. Ouviu lastimas de amigos e de famulos, viu
-noticias impressas, todas lisonjeiras ou justas. Chegou a desconfiar
-que era já sonho. Não era. Chamou-se ao quarto, á cama, a si mesmo:
-estava accordado.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span></p>
-
-<p>A lamparina deu melhor corpo á realidade. Cordovil espancou as idéas
-funebres e esperou que as alegres tomassem conta delle e dançassem
-até cançal-o. Tentou vencer uma visão com outra. Fez até uma cousa
-engenhosa, convocou os cinco sentidos, porque a memoria de todos elles
-era aguda e fresca; foi assim evocando lances e rasgos longamente
-extinctos. Gestos, scenas de sociedade e de familia, panoramas,
-repassou muita cousa vista, com o aspecto do tempo diverso e remoto.
-Deixára de comer acepipes que outra vez lhe sabiam, como se estivesse
-agora a mastigal-os. Os ouvidos escutavam passos leves e pesados,
-cantos joviaes e tristes, e palavras de todos os feitios. O tacto, o
-olfacto, todos fizeram o seu officio, durante um prazo que elle não
-calculou.</p>
-
-<p>Cuidou de dormir e cerrou bem os olhos. Não poude, nem do lado direito,
-nem do esquerdo, de costas nem de bruços. Ergueu-se e foi ao relogio;
-eram tres horas. Insensivelmente levou-o á orelha a ver se estava
-parado; estava andando, déra-lhe corda. Sim, tinha tempo de dormir um
-bom somno; deitou-se, cobriu a cabeça para não ver a luz.</p>
-
-<p>Ah! foi então que o somno tentou entrar, calado e surdo, todo
-cautellas, como seria a morte, se quizesse leval-o de repente, para
-nunca mais. Cordovil cerrou os olhos com força, e fez mal, porque a
-força accentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de os afrouxar, e
-fez bem. O somno, que ia a recuar, tornou atraz, e veiu estirar-se ao
-lado delle, passando-lhe aquelles braços leves e pesados, a um tempo,
-que tiram á pessoa todo movimento. Cordovil os sentia, e com os seus
-quiz conchegal-os ainda mais... A imagem não é boa, mas não tenho outra
-á mão nem tempo de ir buscal-a. Digo só o resultado do gesto,<span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span> que foi
-arredar o somno de si, tão aborrecido ficou este reformador de cançados.</p>
-
-<p>&mdash;Que terá elle hoje contra mim? perguntaria o somno, se falasse.</p>
-
-<p>Tu sabes que elle é mudo por essencia. Quando parece que fala é o sonho
-que abre a boca á pessoa; elle não, elle é a pedra, e ainda a pedra
-fala, se lhe batem, como estão fazendo agora os calceteiros da minha
-rua. Cada pancada accorda na pedra um som, e a regularidade do gesto
-torna aquelle som tão pontual que parece a alma de um relogio. Vozes
-de conversa ou de pregão, rodas de carro, passos de gente, uma janella
-batida pelo vento, nada dessas cousas que ora ouço, animava então a rua
-e a noite de Cordovil. Tudo era propicio ao somno.</p>
-
-<p>Cordovil ia finalmente dormir, quando a idéa de amanhecer morto
-appareceu outra vez. O somno recuou e fugiu. Esta alternativa durou
-muito tempo. Sempre que o somno ia a grudar-lhe os olhos, a lembrança
-da morte os abria, até que elle sacudiu o lençol e saiu da cama. Abriu
-uma janella e encostou-se ao peitoril. O céu queria clarear, alguns
-vultos iam passando na rua, trabalhadores e mercadores que desciam para
-o centro da cidade. Cordovil sentiu um arrepio; não sabendo se era
-frio ou medo, foi vestir um camisão de chita, e voltou para a janella.
-Parece que era frio, porque não sentia mais nada.</p>
-
-<p>A gente continuava a passar, o céu a clarear, e um assobio da estrada
-de ferro deu signal de trem que ia partir. Homens e cousas vinham do
-descanço; o céu fazia economia de estrellas, apagando-as, á medida
-que o sol ia chegando para o seu officio. Tudo dava idéa de vida.
-Naturalmente a idéa da morte foi recuando e desappareceu de todo,
-emquanto o nosso<span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span> homem, que suspirou por ella no Cassino, que a
-desejou para o dia seguinte na Camara dos deputados, que a encarou no
-carro, voltou-lhe as costas quando a viu entrar com o somno, seu irmão
-mais velho,&mdash;ou mais moço, não sei.</p>
-
-<p>Quando veiu a fallecer, muitos annos depois, pediu e teve a morte, não
-subita, mas vagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sae impuro
-de uma garrafa para entrar purificado em outra; a borra iria para o
-cemiterio. Agora é que lhe via a philosophia; em ambas as garrafas era
-sempre o vinho que ia ficando, até passar inteiro e pingado para a
-segunda. Morte subita não acabava de entender o que era.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="Um_capitao_de_voluntarios">Um capitão de voluntarios</h2>
-</div>
-
-
-<p>Indo a embarcar para a Europa, logo depois da proclamação da Republica,
-Simão de Castro fez inventario das cartas e apontamentos; rasgou tudo.
-Só lhe ficou a narração que ides ler; entregou-a a um amigo para
-imprimil-a quando elle estivesse barra fóra. O amigo não cumpriu a
-recommendação por achar na historia alguma cousa que podia ser penosa,
-e assim lh'o disse em carta. Simão respondeu que estava por tudo o que
-quizesse; não tendo vaidades literarias, pouco se lhe dava de vir ou
-não a publico. Agora que os dous falleceram, e não ha egual escrupulo,
-dá-se o manuscripto ao prelo.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Eramos dous, ellas duas. Os dous iamos alli por visita, costume,
-desfastio, e finalmente por amizade. Fiquei amigo do dono da casa, elle
-meu amigo. Às tardes, sobre o jantar,&mdash;jantava-se cedo em 1866,&mdash;ia
-alli fumar um charuto. O sol ainda entrava pela janella, donde se via
-um morro com casas em cima. A janella opposta dava para o mar. Não digo
-a rua nem o bairro; a cidade posso dizer que era o Rio de Janeiro.
-Occultarei o nome do meu amigo; ponhamos<span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span> uma letra, X... Ella, uma
-dellas, chamava-se Maria.</p>
-
-<p>Quando eu entrava, já elle estava na cadeira de balanço. Os moveis da
-sala eram poucos, os ornatos raros, tudo simples. X... estendia-me a
-mão larga e forte; eu ia sentar-me ao pé da janella, olho na sala, olho
-na rua. Maria, ou já estava ou vinha de dentro. Eramos nada um para o
-outro; ligava-nos unicamente a affeição de X... Conversavamos; eu saía
-para casa ou ia passear, elles ficavam e iam dormir. Algumas vezes
-jogavamos cartas, ás noites, e, para o fim do tempo, era alli que eu
-passava a maior parte destas.</p>
-
-<p>Tudo em X... me dominava. A figura primeiro. Elle robusto, eu franzino;
-a minha graça feminina, debil, desapparecia ao pé do garbo varonil
-delle, dos seus hombros largos, cadeiras largas, jarrete forte e o pé
-solido que, andando, batia rijo no chão. Dae-me um bigode escasso e
-fino; vêde nelle as suissas longas, espessas e encaracoladas, e um dos
-seus gestos habituaes, pensando ou escutando, era passar os dedos por
-ellas, encaracolando-as sempre. Os olhos completavam a figura, não só
-por serem grandes e bellos, mas por que riam mais e melhor que a boca.
-Depois da figura, a edade; X... era homem de quarenta annos, eu não
-passava dos vinte e quatro. Depois da edade, a vida; elle vivêra muito,
-em outro meio, donde saíra a encafuar-se naquella casa, com aquella
-senhora; eu não vivêra nada nem com pessoa alguma. Emfim,&mdash;e este rasgo
-é capital,&mdash;havia nelle uma fibra castelhana, uma gotta do sangue que
-circula nas paginas de Calderon, uma attitude moral que posso comparar,
-sem depressão nem riso, á do heróe de Cervantes.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span></p>
-
-<p>Como se tinham amado? Datava de longe. Maria contava já vinte e sete
-annos, e parecia haver recebido alguma educação. Ouvi que o primeiro
-encontro fôra em um baile de mascaras, no antigo Theatro Provisorio.
-Ella trajava uma saia curta, e dançava ao som de um pandeiro. Tinha os
-pés admiraveis, e foram elles ou o seu destino a causa do amor de X...
-Nunca lhe perguntei a origem da alliança; sei só que ella tinha uma
-filha, que estava no collegio e não vinha á casa; a mãe é que ia vê-la.
-Verdadeiramente as nossas relações eram respeitosas, e o respeito ia ao
-ponto de acceitar a situação sem a examinar.</p>
-
-<p>Quando comecei a ir alli, não tinha ainda o emprego no banco. Só
-dous ou tres mezes depois é que entrei para este, e não interrompi
-as relações. Maria tocava piano; ás vezes, ella e a amiga Raymunda
-conseguiam arrastar X... ao theatro; eu ia com elles. No fim, tomavamos
-chá em sala particular, e, uma ou outra vez, se havia lua, acabavamos a
-noite indo de carro a Botafogo.</p>
-
-<p>A estas festas não ia Barreto, que só mais tarde começou a frequentar
-a casa. Entretanto, era bom companheiro, alegre e rumoroso. Uma noite,
-como saissemos de lá, encaminhou a conversa para as duas mulheres, e
-convidou-me a namoral-as.</p>
-
-<p>&mdash;Tu escolhes uma, Simão, eu outra.</p>
-
-<p>Estremecei e parei.</p>
-
-<p>&mdash;Ou antes, eu já escolhi, continuou elle; escolhi a Raymunda. Gosto
-muito da Raymunda. Tu, escolhe a outra.</p>
-
-<p>&mdash;A Maria?</p>
-
-<p>&mdash;Pois que outra ha de ser.</p>
-
-<p>O alvoroço que me deu este tentador foi tal que<span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span> não achei palavra de
-recusa, nem palavra nem gesto. Tudo me pareceu natural e necessario.
-Sim, concordei em escolher Maria; era mais velha que eu tres annos, mas
-tinha a edade conveniente para ensinar-me a amar. Está dito, Maria.
-Deitámo-nos ás duas conquistas com ardor e tenacidade. Barreto não
-tinha que vencer muito; a eleita delle não trazia amores, mas até pouco
-antes padecêra de uns que rompêra contra a vontade, indo o amante casar
-com uma moça de Minas. Depressa se deixou consolar. Barreto um dia,
-estando eu a almoçar, veiu annunciar-me que recebêra uma carta della, e
-mostrou-m'a.</p>
-
-<p>&mdash;Estão entendidos?</p>
-
-<p>&mdash;Estamos. E vocês?</p>
-
-<p>&mdash;Eu não.</p>
-
-<p>&mdash;Então quando?</p>
-
-<p>&mdash;Deixa ver; eu te digo.</p>
-
-<p>Naquelle dia fiquei meio vexado. Com effeito, apezar da melhor vontade
-deste mundo, não me atrevia a dizer a Maria os meus sentimentos. Não
-supponhas que era nenhuma paixão. Não tinha paixão, mas curiosidade.
-Quando a via esbelta e fresca, toda calor e vida, sentia-me tomado de
-uma força nova e mysteriosa; mas, por um lado, não amára nunca, e,
-por outro, Maria era a companheira de meu amigo. Digo isto, não para
-explicar escrupulos, mas unicamente para fazer comprehender o meu
-acanhamento. Viviam juntos desde alguns annos, um para o outro. X...
-tinha confiança em mim, confiança absoluta, communicava-me os seus
-negocios, contava-me cousas da vida passada. Apezar da desproporção da
-edade, eramos como estudantes do mesmo anno.</p>
-
-<p>Como entrasse a pensar mais constantemente em Maria, é provavel que por
-algum gesto lhe houvesse<span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span> descoberto o meu recente estado; certo é que,
-um dia, ao apertar-lhe a mão, senti que os dedos della se demoravam
-mais entre os meus. Dous dias depois, indo ao correio, encontrei-a
-sellando uma carta para a Bahia. Ainda não disse que era bahiana? Era
-bahiana. Ella é que me viu primeiro e me falou. Ajudei-lhe a pôr o
-sello e despedimo-nos. Á porta ia a dizer alguma cousa, quando vi ante
-nós, parada, a figura de X...</p>
-
-<p>&mdash;Vim trazer a carta para mamãe, apressou-se ella em dizer.</p>
-
-<p>Despediu-se de nós e foi para casa; elle e eu tomámos outro rumo. X...
-aproveitou a occasião para fazer muitos elogios de Maria. Sem entrar em
-minudencias ácerca da origem das relações, assegurou-me que fôra uma
-grande paixão egual em ambos, e concluiu que tinha a vida feita.</p>
-
-<p>&mdash;Já agora não me caso; vivo maritalmente com ella, morrerei com ella.
-Tenho só uma pena; é ser obrigado a viver separado de minha mãe. Minha
-mãe sabe, disse-me elle parando. E continuou andando: sabe, e até já
-me fez uma allusão muito vaga e remota, mas que eu percebi. Consta-me
-que não desapprova; sabe que Maria é séria e boa, e uma vez que eu seja
-feliz, não exige mais nada. O casamento não me daria mais que isto....</p>
-
-<p>Disse muitas outras cousas, que eu fui ouvindo sem saber de mim; o
-coração batia-me rijo, e as pernas andavam frouxas. Não atinava com
-resposta idonea; alguma palavra que soltava, saia-me engasgada. Ao cabo
-de algum tempo, elle notou o meu estado e interpretou-o erradamente;
-suppoz que as suas confidencias me aborreciam, e disse-m'o rindo.
-Contestei serio;</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span></p>
-
-<p>&mdash;Ao contrario, ouço com interesse, e trata-se de pessoa de toda a
-consideração e respeito.</p>
-
-<p>Penso agora que cedia inconscientemente a uma necessidade de
-hypocrisia. A edade das paixões é confusa, e naquella situação não
-posso discernir bem os sentimentos e suas causas. Entretanto, não é
-fóra de proposito que buscasse dissipar no animo de X... qualquer
-possivel desconfiança. A verdade é que elle me ouviu agradecido.
-Os seus grandes olhos de creança envolveram-me todo, e quando nos
-despedimos, apertou-me a mão com energia. Creio até que lhe ouvi dizer:
-«Obrigado!»</p>
-
-<p>Não me separei delle atterrado, nem ferido de remorsos previos. A
-primeira impressão da confidencia esvaiu-se, ficou só a confidencia,
-e senti crescer-me o alvoroço da curiosidade. X... falára-me de Maria
-como de pessoa casta e conjugal; nenhuma allusão ás suas prendas
-physicas, mas a minha edade dispensava qualquer referencia directa.
-Agora, na rua, via de cór a figura da moça, os seus gestos egualmente
-languidos e robustos, e cada vez me sentia mais fóra de mim. Em casa
-escrevi-lhe uma carta longa e diffusa, que rasguei meia hora depois, e
-fui jantar. Sobre o jantar fui á casa de X...</p>
-
-<p>Eram ave-marias. Elle estava na cadeira de balanço, eu sentei-me no
-logar do costume, olho na sala, olho no morro. Maria appareceu tarde,
-depois das horas, e tão anojada que não tomou parte na conversação.
-Sentou-se e cochilou; depois tocou um pouco de piano e saiu da sala.</p>
-
-<p>&mdash;Maria accordou hoje com a mania de colher donativos para a guerra,
-disse-me elle. Já lhe fiz notar que nem todos quererão parecer que...
-Você sabe...<span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span> A posição della... Felizmente, a idéa ha de passar; tem
-dessas phantasias...</p>
-
-<p>&mdash;E porque não?</p>
-
-<p>&mdash;Ora, porque não! E depois, a guerra do Paraguay, não digo que
-não seja como todas as guerras, mas palavra, não me enthusiasma. A
-principio, sim, quando o Lopez tomou o <i>Marquez de Olinda</i>, fiquei
-indignado; logo depois perdi a impressão, e agora, francamente, acho
-que tinhamos feito muito melhor se nos alliassemos ao Lopez contra os
-argentinos.</p>
-
-<p>&mdash;Eu não. Prefiro os argentinos.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem gosto delles, mas, no interesse da nossa gente, era melhor
-ficar com o Lopez.</p>
-
-<p>&mdash;Não; olhe, eu estive quasi a alistar-me como voluntario da patria.</p>
-
-<p>&mdash;Eu, nem que me fizessem coronel, não me alistava.</p>
-
-<p>Elle disse não sei que mais. Eu, como tinha a orelha afiada, á escuta
-dos pés de Maria, não respondi logo, nem claro, nem seguido; fui
-engrolando alguma palavra e sempre á escuta. Mas o diabo da moça não
-vinha; imaginei que estariam arrufados. Emfim, propuz cartas, podiamos
-jogar uma partida de voltarete.</p>
-
-<p>&mdash;Podemos, disse elle.</p>
-
-<p>Passámos ao gabinete. X... poz as cartas na mesa e foi chamar a amiga.
-Dalli ouvi algumas phrases sussurradas, mas só estas me chegaram claras:</p>
-
-<p>&mdash;Vem! é só meia hora.</p>
-
-<p>&mdash;Que massada! Estou doente.</p>
-
-<p>Maria appareceu no gabinete, bocejando. Disse-me que era só meia
-hora; tinha dormido mal, doia-lhe a cabeça e contava deitar-se cedo.
-Sentou-se enfastiada, e começámos a partida. Eu arrependia-me de
-haver rasgado a carta; lembravam-me alguns trechos<span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span> della, que diriam
-bem o meu estado, com o calor necessario a persuadil-a. Se a tenho
-conservado, entregava-lh'a agora; ella ia muita vez ao patamar da
-escada despedir-se de mim e fechar a cancella. Nessa occasião podia
-dar-lh'a; era uma solução da minha crise.</p>
-
-<p>Ao cabo de alguns minutos, X... levantou-se para ir buscar tabaco de
-uma caixa de folha de Flandres, posta sobre a secretaria. Maria fez
-então um gesto que não sei como diga nem pinte. Ergueu as cartas á
-altura dos olhos para os tapar, voltou-os para mim que lhe ficava á
-esquerda, e arregalou-os tanto e com tal fogo e attracção, que não sei
-como não entrei por elles. Tudo foi rapido. Quando elle voltou fazendo
-um cigarro, Maria tinha as cartas embaixo dos olhos, abertas em leque,
-fitando-as como se calculasse. Eu devia estar tremulo; não obstante,
-calculava tambem, com a differença de não poder falar. Ella disse então
-com placidez uma das palavras do jogo, <i>passo</i> ou <i>licença</i>.</p>
-
-<p>Jogámos cerca de uma hora. Maria, para o fim, cochilava literalmente,
-e foi o proprio X... que lhe disse que era melhor ir descançar.
-Despedi-me e passei ao corredor, onde tinha o chapéo e a bengala.
-Maria, á porta da sala, esperava que eu saisse e acompanhou-me até á
-cancella, para fechal-a. Antes que eu descesse, lançou-me um dos braços
-ao pescoço, chegou-me a si, collou-me os labios nos labios, onde elles
-me depositaram um beijo grande, rapido e surdo. Na mão senti alguma
-cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Boa noite, disse Maria fechando a cancella.</p>
-
-<p>Não sei como não caí. Desci atordoado, com o beijo na boca, os olhos
-nos della, e a mão apertando instinctivamente um objecto. Cuidei de me
-pôr longe.<span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span> Na primeira rua, corri a um lampião, para ver o que trazia.
-Era um cartão de loja de fazendas, um annuncio, com isto escripto nas
-costas, a lapis: «Espere-me amanhã, na ponte das barcas de Nietheroy, a
-uma hora da tarde.»</p>
-
-<p>O meu alvoroço foi tamanho que durante os primeiros minutos não
-soube absolutamente o que fiz. Em verdade, as emoções eram demasiado
-grandes e numerosas, e tão de perto seguidas que eu mal podia saber
-de mim. Andei até ao largo de S. Francisco de Paula. Tornei a ler o
-cartão; arrepiei caminho, novamente parei, e uma patrulha que estava
-perto, talvez desconfiou dos meus gestos. Felizmente, a despeito da
-commoção, tinha fome e fui cear ao Hotel dos Principes. Não dormi antes
-da madrugada; ás seis horas estava em pé. A manhã foi lenta como as
-agonias lentas. Dez minutos antes de uma hora cheguei á ponte; já lá
-achei Maria, envolvida n'uma capa, e com um veu azul no rosto. Ia sair
-uma barca, entrámos nella.</p>
-
-<p>O mar acolheu-nos bem. A hora era de poucos passageiros. Havia
-movimento de lanchas, de aves, e o ceu luminoso parecia cantar a nossa
-primeira entrevista. O que dissemos foi tão de atropello e confusão
-que não me ficou mais de meia duzia de palavras, e dellas nenhuma foi
-o nome de X... ou qualquer referencia a elle. Sentiamos ambos que
-trahiamos, eu o meu amigo, ella o seu amigo e protector. Mas, ainda
-que o não sentissemos, não é provavel que falassemos delle, tão pouco
-era o tempo para o nosso infinito. Maria appareceu-me então como nunca
-a vi nem suspeitára, falando de mim e de si, com a ternura possivel
-naquelle logar publico, mas toda a possivel, não menos. As nossas
-mãos collavam-se, os nossos olhos<span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span> comiam-se, e os corações batiam
-provavelmente ao mesmo compasso rapido e rapido. Pelo menos foi a
-sensação com que me separei della, após a viagem redonda a Nictheroy e
-S. Domingos. Convidei-a a desembarcar em ambos os pontos, mas recusou;
-na volta, lembrei-lhe que nos mettessemos n'uma caleça fechada:
-«Que idéa faria de mim?» perguntou-me com um gesto de pudor que a
-transfigurou. E despedimo-nos com prazo dado, jurando-lhe que eu não
-deixaria de ir vel-os, á noite, como de costume.</p>
-
-<p>Como eu não tomei da penna para narrar a minha felicidade, deixo
-a parte deliciosa da aventura, com as suas entrevistas, cartas e
-palavras, e mais os sonhos e esperanças, as infinitas saudades e os
-renascentes desejos. Taes aventuras são como os almanaks, que, com
-todas as suas mudanças, hão de trazer os mesmos dias e mezes, com os
-seus eternos nomes e santos. O nosso almanak apenas durou um trimestre,
-sem quartos minguantes nem occasos de sol. Maria era um modelo de
-graças finas, toda vida, todo movimento. Era bahiana, como disse, fôra
-educada no Rio Grande do Sul, na campanha, perto da fronteira. Quando
-lhe falei do seu primeiro encontro com X... no Theatro Provisorio,
-dançando ao som de um pandeiro, disse-me que era verdade, fôra alli
-vestida á castelhana e de mascara; e, como eu lhe pedisse a mesma
-cousa, menos a mascara, ou um simples lundú nosso, respondeu-me como
-quem recusa um perigo:</p>
-
-<p>&mdash;Você poderia ficar doudo.</p>
-
-<p>&mdash;Mas X... não ficou doudo.</p>
-
-<p>&mdash;Ainda hoje não está em seu juizo, replicou Maria rindo. Imagina que
-eu fazia isto só...</p>
-
-<p>E em pé, n'um meneio rapido, deu uma volta ao corpo, que me fez ferver
-o sangue.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span></p>
-
-<p>O trimestre acabou depressa, como os trimestres daquella casta. Maria
-faltou um dia á entrevista. Era tão pontual que fiquei tonto quando
-vi passar a hora. Cinco, dez, quinze minutos; depois vinte, depois
-trinta, depois quarenta... Não digo as vezes que andei de um lado
-para outro, na sala, no corredor, á espreita e á escuta, até que de
-todo passou a possibilidade de vir. Poupo a noticia do meu desespero,
-o tempo que rolei no chão, falando, gritando ou chorando. Quando
-cancei, escrevi-lhe uma longa carta; esperei que me escrevesse tambem,
-explicando a falta. Não mandei a carta, e á noite fui á casa delles.</p>
-
-<p>Maria poude explicar-me a falta pelo receio de ser vista e acompanhada
-por alguem que a perseguia desde algum tempo. Com effeito, havia-me
-já falado em não sei que vizinho que a cortejava com instancia; uma
-vez disse-me que elle a seguira até á porta da minha casa. Acreditei
-na razão, e propuz-lhe outro logar de encontro, mas não lhe pareceu
-conveniente. Desta vez achou melhor suspendermos as nossas entrevistas,
-até fazer calar as suspeitas. Não sairia de casa. Não comprehendi então
-que a principal verdade era ter cessado nella o ardor dos primeiros
-dias. Maria era outra, principalmente outra. E não pódes imaginar o que
-vinha a ser essa bella creatura, que tinha em si o fogo e o gelo, e era
-mais quente e mais fria que ninguem.</p>
-
-<p>Quando me entrou a convicção de que tudo estava acabado, resolvi não
-voltar lá, mas nem por isso perdia a esperança; era para mim questão de
-esforço. A imaginação, que torna presentes os dias passados, fazia-me
-crer facilmente na possibilidade de restaurar as primeiras semanas. Ao
-cabo de cinco dias, voltei: não podia viver sem ella.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span></p>
-
-<p>X... recebeu-me com o seu grande riso infante, os olhos puros, a mão
-forte e sincera; perguntou a razão da minha ausencia. Alleguei uma
-febresinha, e, para explicar o enfadamento que eu não podia vencer,
-disse que ainda me doia a cabeça. Maria comprehendeu tudo; nem por
-isso se mostrou meiga ou compassiva, e, á minha saida, não foi até ao
-corredor, como de costume.</p>
-
-<p>Tudo isto dobrou a minha angustia. A idéa de morrer entrou a passar-me
-pela cabeça; e, por uma symetria romantica, pensei em metter-me na
-barca de Nictheroy, que primeiro acolheu os nossos amores, e, no meio
-da bahia, atirar-me ao mar. Não iniciei tal plano nem outro. Tendo
-encontrado casualmente o meu amigo Barreto, não vacillei em lhe dizer
-tudo; precisava de alguem para falar commigo mesmo. No fim pedi-lhe
-segredo; devia pedir-lhe que especialmente não contasse nada a
-Raymunda. Nessa mesma noite ella soube tudo. Raymunda era um espirito
-aventureiro, amigo de entreprezas e novidades. Não se lhe dava, talvez,
-de mim nem da outra, mas viu naquillo um lance, uma occupação, e cuidou
-em reconciliar-nos; foi o que eu soube depois, e é o que dá logar a
-este papel.</p>
-
-<p>Falou-lhe uma e mais vezes. Maria quiz negar a principio, acabou
-confessando tudo, dizendo-se arrependida da cabeçada que déra. Usaria
-provavelmente de circumloquios e synonymos, phrases vagas e truncadas,
-alguma vez empregaria só gestos. O texto que ahi fica é o da propria
-Raymunda, que me mandou chamar á casa della e me referiu todos os seus
-esforços, contente de si mesma.</p>
-
-<p>&mdash;Mas não perca as esperanças, concluiu; eu disse-lhe que o senhor era
-capaz de matar-se.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span></p>
-
-<p>&mdash;E sou.</p>
-
-<p>&mdash;Pois não se mate por ora; espere.</p>
-
-<p>No dia seguinte vi nos jornaes uma lista de cidadãos que, na vespera,
-tinham ido ao quartel-general apresentar-se como voluntarios da patria,
-e nella o nome de X..., com o posto de capitão. Não acreditei logo;
-mas eram os mesmos, na mesma ordem, e uma das folhas fazia referencias
-á familia de X..., ao pae, que fôra official de marinha, e á figura
-esbelta e varonil do novo capitão; era elle mesmo.</p>
-
-<p>A minha primeira impressão foi de prazer; iamos ficar sós. Ella não
-iria de vivandeira para o Sul. Depois, lembrou-me o que elle me disse
-ácerca da guerra, e achei extranho o seu alistamento de voluntario,
-ainda que o amor dos actos generosos e a nota cavalheiresca do espirito
-de X... pudessem explical-o. Nem de coronel iria, disse-me, e agora
-acceitava o posto de capitão. Emfim, Maria; como é que elle, que tanto
-lhe queria, ia separar-se della repentinamente, sem paixão forte que o
-levasse á guerra?</p>
-
-<p>Havia tres semanas que eu não ia á casa delles. A noticia do
-alistamento justificava a minha visita immediata e dispensava-me de
-explicações. Almocei e fui. Compuz um rosto ajustado á situação e
-entrei. X... veiu á sala, depois de alguns minutos de espera. A cara
-desdizia das palavras; estas queriam ser alegres e leves, aquella era
-fechada e torva, além de pallida. Estendeu-me a mão, dizendo:</p>
-
-<p>&mdash;Então, vem ver o capitão de voluntarios?</p>
-
-<p>&mdash;Venho ouvir o desmentido.</p>
-
-<p>&mdash;Que desmentido? É pura verdade. Não sei como isto foi, creio que as
-ultimas noticias... Você porque não vem commigo?</p>
-
-<p>&mdash;Mas então é verdade?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span></p>
-
-<p>&mdash;É</p>
-
-<p>Após alguns instantes de silencio, meio sincero, por não saber
-realmente que dissesse, meio calculado, para persuadil-o da minha
-consternação, murmurei que era melhor não ir, e falei-lhe na mãe. X...
-respondeu-me que a mãe approvava; era viuva de militar. Fazia esforços
-para sorrir, mas a cara continuava a ser de pedra. Os olhos buscavam
-desviar-se, e geralmente não fitavam bem nem longo. Não conversámos
-muito; elle ergueu-se, allegando que ia liquidar um negocio, e pediu-me
-que voltasse a vel-o. Á porta, disse-me com algum esforço:</p>
-
-<p>&mdash;Venha jantar um dia destes, antes da minha partida.</p>
-
-<p>&mdash;Sim.</p>
-
-<p>&mdash;Olhe, venha jantar amanhã.</p>
-
-<p>&mdash;Amanhã?</p>
-
-<p>&mdash;Ou hoje, se quizer.</p>
-
-<p>&mdash;Amanhã.</p>
-
-<p>Quiz deixar lembranças a Maria; era natural e necessario, mas faltou-me
-o animo. Embaixo arrependi-me de o não ter feito. Recapitulei a
-conversação, achei-me atado e incerto; elle pareceu-me, além de frio,
-sobranceiro. Vagamente, senti alguma cousa mais. O seu aperto de mão
-tanto á entrada, como á saida, não me déra a sensação do costume.</p>
-
-<p>Na noite desse dia, Barreto veiu ter commigo, atordoado com a noticia
-da manhã, e perguntando-me o que sabia; disse-lhe que nada. Contei-lhe
-a minha visita da manhã, a nossa conversação, sem as minhas suspeitas.</p>
-
-<p>&mdash;Póde ser engano, disse elle, depois de um instante.</p>
-
-<p>&mdash;Engano?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span></p>
-
-<p>&mdash;Raymunda contou-me hoje que falára a Maria, que esta negára tudo a
-principio, depois confessára, e recusára reatar as relações com você.</p>
-
-<p>&mdash;Já sei.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, mas parece que da terceira vez foram presentidas e ouvidas por
-elle, que estava na saleta ao pé. Maria correu a contar a Raymunda que
-elle mudára inteiramente; esta dispoz-se a sondal-o, eu oppuz-me, até
-que li a noticia nos jornaes. Vi-o na rua, andando: não tinha aquelle
-gesto sereno de costume, mas o passo era forte.</p>
-
-<p>Fiquei aturdido com a noticia, que confirmava a minha impressão. Nem
-por isso deixei de ir lá jantar no dia seguinte. Barreto quiz ir
-tambem; percebi que era com o fim unico de estar commigo, e recusei.</p>
-
-<p>X... não dissera nada a Maria; achei-os na sala, e não me lembro de
-outra situação na vida em que me sentisse mais extranho a mim mesmo.
-Apertei-lhes a mão, sem olhar para ella. Creio que ella tambem desviou
-os olhos. Elle é que, com certeza, não nos observou; riscava um
-phosphoro e accendia um cigarro. Ao jantar falou o mais naturalmente
-que poude, ainda que frio. O rosto exprimia maior esforço que na
-vespera. Para explicar a possivel alteração, disse-me que embarcaria
-no fim da semana, e que, á proporção que a hora ia chegando, sentia
-difficuldade em sair.</p>
-
-<p>&mdash;Mas é só até fóra da barra; lá fóra torno a ser o que sou, e, na
-campanha, serei o que devo ser.</p>
-
-<p>Usava dessas palavras rigidas, alguma vez emphaticas. Notei que Maria
-trazia os olhos pisados; soube depois que chorára muito e tivera grande
-luta com elle, na vespera, para que não embarcasse. Só conhecêra a
-resolução pelos jornaes, prova de alguma cousa<span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span> mais particular que o
-patriotismo. Não falou á mesa, e a dôr podia explicar o silencio, sem
-nenhuma outra causa de constrangimento pessoal. Ao contrario, X...
-procurava falar muito, contava os batalhões, os officiaes novos, as
-probabilidades de victoria, e referia anecdotas e boatos, sem curar
-de ligação. Ás vezes, queria rir; para o fim, disse que naturalmente
-voltaria general, mas ficou tão carrancudo depois deste gracejo, que
-não tentou outro. O jantar acabou frio; fumámos, elle ainda quiz falar
-da guerra, mas o assumpto estava exhausto. Antes de sair, convidei-o a
-ir jantar commigo.</p>
-
-<p>&mdash;Não posso; todos os meus dias estão tomados.</p>
-
-<p>&mdash;Venha almoçar.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem não posso. Faço uma cousa; na volta do Paraguay, o terceiro
-dia é seu.</p>
-
-<p>Creio ainda hoje que o fim desta ultima phrase era indicar que os dous
-primeiros dias seriam da mãe e de Maria; assim, qualquer suspeita que
-eu tivesse dos motivos secretos da resolução, devia dissipar-se. Nem
-bastou isso; disse-me que escolhesse uma prenda em lembrança, um livro,
-por exemplo. Preferi o seu ultimo retrato, photographado a pedido da
-mãe, com a farda de capitão de voluntarios. Por dissimulação, quiz que
-assignasse; elle promptamente escreveu: «Ao seu leal amigo Simão de
-Castro offerece o capitão de voluntarios da patria X...» O marmore do
-rosto era mais duro, o olhar mais torvo; passou os dedos pelo bigode,
-com um gesto convulso, e despedimo-nos.</p>
-
-<p>No sabbado embarcou. Deixou a Maria os recursos necessarios para viver
-aqui, na Bahia, ou no Rio Grande do Sul; ella preferiu o Rio Grande,
-e partiu para lá, trez semanas depois, a esperar que elle voltasse<span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span>
-da guerra. Não a pude ver antes; fechára-me a porta, como já me havia
-fechado o rosto e o coração.</p>
-
-<p>Antes de um anno, soube-se que elle morrêra em combate, no qual se
-houve com mais denodo que pericia. Ouvi contar que primeiro perdêra um
-braço, e que provavelmente a vergonha de ficar aleijado o fez atirar-se
-contra as armas inimigas, como quem queria acabar de vez. Esta versão
-podia ser exacta, porque elle tinha desvanecimento das bellas fórmas;
-mas a causa foi complexa. Tambem me contaram que Maria, voltando do Rio
-Grande, morreu em Curytiba; outros dizem que foi acabar em Montevidéo.
-A filha não passou dos quinze annos.</p>
-
-<p>Eu cá fiquei entre os meus remorsos e saudades; depois, só remorsos;
-agora admiração apenas, uma admiração particular, que não é grande
-senão por me fazer sentir pequeno. Sim, eu não era capaz de praticar o
-que elle praticou. Nem effectivamente conheci ninguem que se parecesse
-com X... E porque teimar nesta letra? Chamemol-o pelo nome que lhe
-deram na pia, Emilio, o meigo, o forte, o simples Emilio.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="Suje-se_gordo">Suje-se gordo!</h2>
-</div>
-
-
-<p>Uma noite, ha muitos annos, passeava eu com um amigo no terraço do
-theatro de S. Pedro de Alcantara. Era entre o segundo e o terceiro acto
-da peça <i>A sentença ou o tribunal do jury</i>. Só me ficou o titulo,
-e foi justamente o titulo que nos levou a falar da instituição e de um
-facto que nunca mais me esqueceu.</p>
-
-<p>Fui sempre contrario ao jury,&mdash;disse-me aquelle amigo,&mdash;não pela
-instituição em si, que é liberal, mas porque me repugna condemnar
-alguem, e por aquelle preceito do Evangelho: «Não queiraes julgar para
-que não sejais julgados.» Não obstante, servi duas vezes. O tribunal
-era então no antigo Aljube, fim da rua dos Ourives, principio da
-ladeira da Conceição.</p>
-
-<p>Tal era o meu escrupulo que, salvo dous, absolvi todos os réos. Com
-effeito, os crimes não me pareceram provados; um ou dous processos
-eram muito mal feitos. O primeiro réo que condemnei, era um moço
-limpo, accusado de haver furtado certa quantia, não grande, antes
-pequena, com falsificação de um papel. Não negou o facto, nem podia
-fazel-o, contestou que lhe coubesse a iniciativa ou inspiração do<span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span>
-crime. Alguem, que não citava, foi que lhe lembrou esse modo de acudir
-a uma necessidade urgente; mas Deus, que via os corações, daria ao
-criminoso verdadeiro o merecido castigo. Disse isso sem emphase,
-triste, a palavra surda, os olhos mortos, com tal pallidez que mettia
-pena; o promotor publico achou nessa mesma côr do gesto a confissão do
-crime. Ao contrario, o defensor mostrou que o abatimento e a pallidez
-significavam a lastima da innocencia calumniada.</p>
-
-<p>Poucas vezes terei assistido a debate tão brilhante. O discurso do
-promotor foi curto, mas forte, indignado, com um tom que parecia odio,
-e não era. A defeza, além do talento do advogado, tinha a circumstancia
-de ser a estréa delle na tribuna. Parentes, collegas e amigos esperavam
-o primeiro discurso do rapaz, e não perderam na espera. O discurso foi
-admiravel, e teria salvo o réo, se elle pudesse ser salvo, mas o crime
-mettia-se pelos olhos dentro. O advogado morreu dous annos depois, em
-1865. Quem sabe o que se perdeu nelle! Eu, acredite, quando vejo morrer
-um moço de talento, sinto mais que quando morre um velho... Mas vamos
-ao que ia contando. Houve réplica do promotor e tréplica do defensor. O
-presidente do tribunal resumiu os debates, e, lidos os quesitos, foram
-entregues ao presidente do conselho, que era eu.</p>
-
-<p>Não digo o que se passou na sala secreta; além de ser secreto o que lá
-se passou, não interessa ao caso particular, que era melhor ficasse
-tambem calado, confesso. Contarei depressa; o terceiro acto não tarda.</p>
-
-<p>Um dos jurados do conselho, cheio de corpo e ruivo, parecia mais
-que ninguem convencido do delicto e do delinquente. O processo foi
-examinado, os quesitos lidos, e as respostas dadas (onze votos
-contra<span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span> um); só o jurado ruivo estava inquieto. No fim, como os votos
-assegurassem a condemnação, ficou satisfeito, disse que seria um acto
-de fraqueza, ou cousa peior, a absolvição que lhe déssemos. Um dos
-jurados, certamente o que votára pela negativa,&mdash;proferiu algumas
-palavras de defeza do moço. O ruivo,&mdash;chamava-se Lopes,&mdash;replicou com
-aborrecimento:</p>
-
-<p>&mdash;Como, senhor? Mas o crime do réo está mais que provado.</p>
-
-<p>&mdash;Deixemos de debate, disse eu, e todos concordaram commigo.</p>
-
-<p>&mdash;Não estou debatendo, estou defendendo o meu voto, continuou Lopes. O
-crime está mais que provado. O sujeito nega, porque todo o réo nega,
-mas o certo é que elle commetteu a falsidade, e que falsidade! Tudo por
-uma miseria, duzentos mil reis! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se
-gordo!</p>
-
-<p>«Suje-se gordo!» Confesso-lhe que fiquei de boca aberta, não que
-entendesse a phrase, ao contrario; nem a entendi nem a achei limpa, e
-foi por isso mesmo que fiquei de boca aberta. Afinal caminhei e bati á
-porta, abriram-nos, fui á mesa do juiz, dei as respostas do conselho
-e o réu saiu condemnado. O advogado appellou; se a sentença foi
-confirmada ou a appellação acceita, não sei; perdi o negocio de vista.</p>
-
-<p>Quando sai do tribunal, vim pensando na phrase do Lopes, e pareceu-me
-entendel-a. «Suje-se gordo!» era como se dissesse que o condemnado
-era mais que ladrão, era um ladrão reles, um ladrão de nada. Achei
-esta explicação na esquina da rua de S. Pedro; vinha ainda pela dos
-Ourives. Cheguei a desandar um pouco, a ver se descobria o Lopes para
-lhe apertar a mão; nem sombra de Lopes. No dia seguinte, lendo nos
-jornaes os nossos nomes, dei com o nome todo delle;<span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span> não valia a pena
-procural-o, nem me ficou de cór. Assim são as paginas da vida, como
-dizia meu filho quando fazia versos, e accrescentava que as paginas vão
-passando umas sobre outras, esquecidas apenas lidas. Rimava assim, mas
-não me lembra a fórma dos versos.</p>
-
-<p>Em prosa disse-me elle, muito tempo depois, que eu não devia faltar
-ao jury, para o qual acabava de ser designado. Respondi-lhe que não
-compareceria, e citei o preceito evangelico; elle teimou, dizendo ser
-um dever de cidadão, um serviço gratuito, que ninguem que se prezasse
-podia negar ao seu paiz. Fui e julguei tres processos.</p>
-
-<p>Um destes era de um empregado do Banco do Trabalho Honrado, o caixa,
-accusado de um desvio de dinheiro. Ouvira falar no caso, que os jornaes
-deram sem grande minucia, e aliás eu lia pouco as noticias de crimes.
-O accusado appareceu e foi sentar-se no famoso banco dos réos. Era um
-homem magro e ruivo. Fitei-o bem, e estremeci; pareceu-me ver o meu
-collega daquelle julgamento de annos antes. Não poderia reconhecel-o
-logo por estar agora magro, mas era a mesma côr dos cabellos e das
-barbas, o mesmo ar, e por fim a mesma voz e o mesmo nome: Lopes.</p>
-
-<p>&mdash;Como se chama? perguntou o presidente.</p>
-
-<p>&mdash;Antonio do Carmo Ribeiro Lopes.</p>
-
-<p>Já me não lembravam os tres primeiros nomes, o quarto era o mesmo, e
-os outros signaes vieram confirmando as reminiscencias; não me tardou
-reconhecer a pessoa exacta daquelle dia remoto. Digo-lhe aqui com
-verdade que todas essas circumstancias me impediram de acompanhar
-attentamente o interrogatorio, e muitas cousas me escaparam. Quando me
-dispuz a ouvil-o bem, estava quasi no fim. Lopes negava<span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span> com firmeza
-tudo o que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma
-complicação ao processo. Circulava os olhos sem medo nem anciedade; não
-sei até se com uma pontinha de riso nos cantos da boca.</p>
-
-<p>Seguiu-se a leitura do processo. Era uma falsidade e um desvio de cento
-e dez contos de reis. Não lhe digo como se descobriu o crime nem o
-criminoso, por já ser tarde; a orchestra está afinando os instrumentos.
-O que lhe digo com certeza é que a leitura dos autos me impressionou
-muito, o inquerito, os documentos, a tentativa de fuga do caixa e
-uma serie de circumstancias aggravantes; por fim o depoimento das
-testemunhas. Eu ouvia ler ou falar e olhava para o Lopes. Tambem elle
-ouvia, mas com o rosto alto, mirando o escrivão, o presidente, o tecto
-e as pessoas que o iam julgar; entre ellas eu. Quando olhou para mim,
-não me reconheceu; fitou-me algum tempo e sorriu, como fazia aos outros.</p>
-
-<p>Todos esses gestos do homem serviram á accusação e á defeza, tal como
-serviram, tempos antes, os gestos contrarios do outro accusado. O
-promotor achou nelles a revelação clara do cynismo, o advogado mostrou
-que só a innocencia e a certeza da absolvição podiam trazer aquella paz
-de espirito.</p>
-
-<p>Emquanto os dous oradores falavam, vim pensando na fatalidade de estar
-alli, no mesmo banco do outro, este homem que votára a condemnação
-delle, e naturalmente repeti commigo o texto evangelico: «Não queiraes
-julgar, para que não sejaes julgados.» Confesso-lhe que mais de uma
-vez me senti frio. Não é que eu mesmo viesse a commetter algum desvio
-de dinheiro, mas podia, em occasião de raiva, matar alguem ou ser
-calumniado de desfalque. Aquelle<span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span> que julgava outr'ora, era agora
-julgado tambem.</p>
-
-<p>Ao pé da palavra biblica lembrou-me de repente a do mesmo Lopes:
-«Suje-se gordo!» Não imagina o sacudimento que me deu esta lembrança.
-Evoquei tudo o que contei agora, o discursinho que lhe ouvi na sala
-secreta, até áquellas palavras: «Suje-se gordo!» Vi que não era um
-ladrão réles, um ladrão de nada, sim de grande valor. O verbo é que
-definia duramente a acção: «Suje-se gordo!» Queria dizer que o homem
-não se devia levar a um acto daquella especie sem a grossura da somma.
-A ninguem cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se
-gordo!</p>
-
-<p>Idéas e palavras iam assim rolando na minha cabeça, sem eu dar pelo
-resumo dos debates que o presidente do tribunal fazia. Tinha acabado,
-leu os quesitos e recolhemo-nos á sala secreta. Posso dizer-lhe aqui em
-particular que votei affirmativamente, tão certo me pareceu o desvio
-dos cento e dez contos. Havia, entre outros documentos, uma carta de
-Lopes que fazia evidente o crime. Mas parece que nem todos leram com
-os mesmos olhos que eu. Votaram commigo dous jurados. Nove negaram a
-criminalidade do Lopes, a sentença de absolvição foi lavrada e lida,
-e o accusado saiu para a rua. A differença da votação era tamanha que
-cheguei a duvidar commigo se teria acertado. Podia ser que não. Agora
-mesmo sinto uns repellões de consciencia. Felizmente, se o Lopes não
-commetteu devéras o crime, não recebeu a pena do meu voto, e esta
-consideração acaba por me consolar do erro, mas os repellões voltam. O
-melhor de tudo é não julgar ninguem para não vir a ser julgado. Suje-se
-gordo! suje-se magro! suje-se como lhe parecer! o mais seguro é não
-julgar ninguem... Acabou a musica, vamos para as nossas cadeiras.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="Umas_ferias">Umas férias</h2>
-</div>
-
-
-
-<p>Vieram dizer ao mestre-escola que alguem lhe queria falar.</p>
-
-<p>&mdash;Quem é?</p>
-
-<p>&mdash;Diz que meu senhor não o conhece, respondeu o preto.</p>
-
-<p>&mdash;Que entre.</p>
-
-<p>Houve um movimento geral de cabeças na direcção da porta do corredor,
-por onde devia entrar a pessoa desconhecida. Eramos não sei quantos
-meninos na escola. Não tardou que apparecesse uma figura rude, tez
-queimada, cabellos compridos, sem signal de pente, a roupa amarrotada,
-não me lembra bem a côr nem a fazenda, mas provavelmente era brim
-pardo. Todos ficaram esperando o que vinha dizer o homem, eu mais
-que ninguem, porque elle era meu tio, roceiro, morador em Guaratiba.
-Chamava-se tio Zéca.</p>
-
-<p>Tio Zéca foi ao mestre e falou-lhe baixo. O mestre fêl-o sentar, olhou
-para mim, e creio que lhe perguntou alguma cousa, porque tio Zéca
-entrou a falar demorado, muito explicativo. O mestre insistiu, elle<span class="pagenum" id="Page_90">[Pg 90]</span>
-respondeu, até que o mestre, voltando-se para mim, disse alto:</p>
-
-<p>&mdash;Sr. José Martins, póde sair.</p>
-
-<p>A minha sensação de prazer foi tal que venceu a de espanto. Tinha dez
-annos apenas, gostava de folgar, não gostava de aprender. Um chamado
-de casa, o proprio tio, irmão de meu pae, que chegára na vespera de
-Guaratiba, era naturalmente alguma festa, passeio, qualquer cousa.
-Corri a buscar o chapéo, metti o livro de leitura no bolso e desci
-as escadas da escola, um sobradinho da rua do Senado. No corredor
-beijei a mão a tio Zéca. Na rua fui andando ao pé delle, amiudando os
-passos, e levantando a cara. Elle não me dizia nada, eu não me atrevia
-a nenhuma pergunta. Pouco depois chegavamos ao collegio de minha irmã
-Felicia; disse-me que esperasse, entrou, subiu, desceram, e fomos os
-tres caminho de casa. A minha alegria agora era maior. Certamente havia
-festa em casa, pois que iamos os dous, ella e eu; iamos na frente,
-trocando as nossas perguntas e conjecturas. Talvez annos de tio Zéca.
-Voltei a cara para elle; vinha com os olhos no chão, provavelmente para
-não cair.</p>
-
-<p>Fomos andando. Felicia era mais velha que eu um anno. Calçava sapato
-raso, atado ao peito do pé por duas fitas cruzadas, vindo acabar acima
-do tornozello com laço. Eu, botins de cordavão, já gastos. As calcinhas
-della pegavam com a fita dos sapatos, as minhas calças, largas, caíam
-sobre o peito do pé; eram de chita. Uma ou outra vez paravamos, ella
-para admirar as bonecas á porta dos armarinhos, eu para ver, á porta
-das vendas, algum papagaio que descia e subia pela corrente de ferro
-atada ao pé. Geralmente, era meu conhecido, mas papagaio não<span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span> cança
-em tal edade. Tio Zéca é que nos tirava do espectaculo industrial ou
-natural. Andem, dizia elle em voz sumida. E nós andavamos, até que
-outra curiosidade nos fazia deter o passo. Entretanto, o principal era
-a festa que nos esperava em casa.</p>
-
-<p>&mdash;Não creio que sejam annos de tio Zéca, disse-me Felicia.</p>
-
-<p>&mdash;Porqué?</p>
-
-<p>&mdash;Parece meio triste.</p>
-
-<p>&mdash;Triste, não, parece carrancudo.</p>
-
-<p>&mdash;Ou carrancudo. Quem faz annos tem a cara alegre.</p>
-
-<p>&mdash;Então serão annos de meu padrinho...</p>
-
-<p>&mdash;Ou de minha madrinha...</p>
-
-<p>&mdash;Mas porque é que mamãe nos mandou para a escola?</p>
-
-<p>&mdash;Talvez não soubesse.</p>
-
-<p>&mdash;Ha de haver jantar grande...</p>
-
-<p>&mdash;Com doce...</p>
-
-<p>&mdash;Talvez dancemos.</p>
-
-<p>Fizemos um accordo: podia ser festa, sem anniversario de ninguem. A
-sorte grande, por exemplo. Occorreu-me tambem que podiam ser eleições.
-Meu padrinho era candidato a vereador; embora eu não soubesse bem o que
-era candidatura nem vereação, tanto ouvira falar em victoria proxima
-que a achei certa e ganha. Não sabia que a eleição era ao domingo, e o
-dia era sexta-feira. Imaginei bandas de musica, vivas e palmas, e nós,
-meninos, pulando, rindo, comendo cocadas. Talvez houvesse espectaculo
-á noite; fiquei meio tonto. Tinha ido uma vez ao theatro, e voltei
-dormindo, mas no dia seguinte estava tão contente que morria por lá
-tornar, posto não houvesse entendido nada do que ouvira. Vira muita
-cousa,<span class="pagenum" id="Page_92">[Pg 92]</span> isso sim, cadeiras ricas, thronos, lanças compridas, scenas que
-mudavam á vista, passando de uma sala a um bosque, e do bosque a uma
-rua. Depois, os personagens, todos principes. Era assim que chamavamos
-aos que vestiam calção de seda, sapato de fivella ou botas, espada,
-capa de velludo, gorra com pluma. Tambem houve bailado. As bailarinas
-e os bailarinos falavam com os pés e as mãos, trocando de posição e um
-sorriso constante na boca. Depois os gritos do publico e as palmas...</p>
-
-<p>Já duas vezes escrevi palmas; é que as conhecia bem. Felicia, a quem
-communiquei a possibilidade do espectaculo, não me pareceu gostar
-muito, mas tambem não recusou nada. Iria ao theatro. E quem sabe se não
-seria em casa, theatrinho de bonecos? Iamos nessas conjecturas, quando
-tio Zéca nos disse que esperassemos; tinha parado a conversar com um
-sujeito.</p>
-
-<p>Parámos, á espera. A idéa da festa, qualquer que fosse, continuou a
-agitar-nos, mais a mim que a ella. Imaginei trinta mil cousas, sem
-acabar nenhuma, tão precipitadas vinham, e tão confusas que não as
-distinguia; póde ser até que se repetissem. Felicia chamou a minha
-attenção para dous moleques de carapuça encarnada, que passavam
-carregando cannas,&mdash;o que nos lembrou as noites de Santo Antonio e
-S. João, já lá idas. Então falei-lhe das fogueiras do nosso quintal,
-das bichas que queimámos, das rodinhas, das pistolas e das danças com
-outros meninos. Se houvesse agora a mesma cousa... Ah! lembrou-me que
-era occasião de deitar á fogueira o livro da escola, e o della tambem,
-com os pontos de costura que estava aprendendo.</p>
-
-<p>&mdash;Isso não, acudiu Felicia.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span></p>
-
-<p>&mdash;Eu queimava o meu livro.</p>
-
-<p>&mdash;Papae comprava outro.</p>
-
-<p>&mdash;Emquanto comprasse, eu ficava brincando em casa; aprender é muito
-aborrecido.</p>
-
-<p>Nisto estavamos, quando vimos tio Zéca e o desconhecido ao pé de nós.
-O desconhecido pegou-nos nos queixos e levantou-nos a cara para elle,
-fitou-nos com seriedade, deixou-nos e despediu-se.</p>
-
-<p>&mdash;Nove horas? Lá estarei, disse elle.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos, disse-nos tio Zéca.</p>
-
-<p>Quiz perguntar-lhe quem era aquelle homem, e até me pareceu conhecel-o
-vagamente. Felicia tambem. Nenhum de nós acertava com a pessoa; mas
-a promessa de lá estar ás nove horas dominou o resto. Era festa,
-algum baile, comquanto ás nove horas costumassemos ir para a cama.
-Naturalmente, por excepção, estariamos accordados. Como chegassemos
-a um rego de lama, peguei da mão de Felicia, e transpuzemol-o de um
-salto, tão violento que quasi me caiu o livro. Olhei para tio Zéca, a
-ver o effeito do gesto; viu-o abanar a cabeça com reprovação. Ri, ella
-sorriu, e fomos pela calçada adeante.</p>
-
-<p>Era o dia dos desconhecidos. Desta vez estavam em burros, e um dos dous
-era mulher. Vinham da roça. Tio Zéca foi ter com elles ao meio da rua,
-depois de dizer que esperassemos. Os animaes pararam, creio que de si
-mesmos, por tambem conhecerem a tio Zéca, idéa que Felicia reprovou
-com o gesto, e que eu defendi rindo. Teria apenas meia convicção;
-tudo era folgar. Fosse como fosse, esperámos os dous, examinando o
-casal de roceiros. Eram ambos magros, a mulher mais que o marido, e
-tambem mais moça; elle tinha os cabellos grisalhos. Não ouvimos o que
-disseram, elle e tio Zéca; vimol-o, sim, o marido<span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span> olhar para nós com
-ar de curiosidade, e falar á mulher, que tambem nos deitou os olhos,
-agora com pena ou cousa parecida. Emfim apartaram-se, tio Zéca veiu ter
-comnosco e enfiámos para casa.</p>
-
-<p>A casa ficava na rua proxima, perto da esquina. Ao dobrarmos esta,
-vimos os portaes da casa forrados de preto,&mdash;o que nos encheu de
-espanto. Instinctivamente parámos e voltámos a cabeça para tio Zéca.
-Este veiu a nós, deu a mão a cada um e ia a dizer alguma palavra que
-lhe ficou na garganta; andou, levando-nos comsigo. Quando chegámos,
-as portas estavam meio cerradas. Não sei se lhes disse que era um
-armarinho. Na rua, curiosos. Nas janellas fronteiras e lateraes,
-cabeças agglomeradas. Houve certo reboliço quando chegámos. É natural
-que eu tivesse a boca aberta, como Felicia. Tio Zéca empurrou uma das
-meias portas, entrámos os tres, elle tornou a cerral-a, metteu-se pelo
-corredor e fomos á sala de jantar e á alcova.</p>
-
-<p>Dentro, ao pé da cama, estava minha mãe com a cabeça entre as mãos.
-Sabendo da nossa chegada, ergueu-se de salto, veiu abraçar-nos entre
-lagrimas, bradando:</p>
-
-<p>&mdash;Meus filhos, vosso pae morreu!</p>
-
-<p>A commoção foi grande, por mais que o confuso e o vago entorpecessem
-a consciencia da noticia. Não tive forças para andar, e teria medo de
-o fazer. Morto como? morto porque? Estas duas perguntas, se as metto
-aqui, é para dar seguimento á acção; naquelle momento não perguntei
-nada a mim nem a ninguem. Ouvia as palavras de minha mãe, que se
-repetiam em mim, e os seus soluços que eram grandes. Ella pegou em nós
-e arrastou-nos para a cama, onde jazia o cadaver do marido; e fez-nos
-beijar-lhe a mão. Tão<span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span> longe estava eu daquillo que, apezar de tudo,
-não entendêra nada a principio; a tristeza e o silencio das pessoas que
-rodeavam a cama, ajudaram a explicar que meu pae morrêra devéras. Não
-se tratava de um dia santo, com a sua folga e recreio, não era festa,
-não eram as horas breves ou longas, para a gente desfiar em casa,
-arredada dos castigos da escola. Que essa queda de um sonho tão bonito
-fizesse crescer a minha dôr de filho não é cousa que possa affirmar
-ou negar; melhor é calar. O pae alli estava defunto, sem pulos,
-nem danças, nem risadas, nem bandas de musica, cousas todas tambem
-defuntas. Se me houvessem dito á saida da escola porque é que me iam lá
-buscar, é claro que a alegria não houvera penetrado o coração, donde
-era agora expellida a punhadas.</p>
-
-<p>O enterro foi no dia seguinte ás nove horas da manhã, e provavelmente
-lá estava aquelle amigo de tio Zeca que se despediu na rua, com a
-promessa de ir ás nove horas. Não vi as cerimonias; alguns vultos,
-poucos, vestidos de preto, lembra-me que vi. Meu padrinho, dono de um
-trapiche, lá estava, e a mulher tambem, que me levou a uma alcova dos
-fundos para me mostrar gravuras. Na occasião da saida, ouvi os gritos
-de minha mãe, o rumor dos passos, algumas palavras abafadas de pessoas
-que pegavam nas alças do caixão, creio eu: «&mdash;vire de lado,&mdash;mais á
-esquerda,&mdash;assim,&mdash;segure bem...» Depois, ao longe, o coche andando e
-as seges atraz delle...</p>
-
-<p>Lá iam meu pae e as férias! Um dia de folga sem folguedo! Não, não
-foi um dia, mas oito, oito dias de nojo, durante os quaes alguma vez
-me lembrei do collegio. Minha mãe chorava, cosendo o luto, entre duas
-visitas de pesames. Eu tambem chorava; não<span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span> via meu pae ás horas do
-costume, não lhe ouvia as palavras á mesa ou ao balcão, nem as caricias
-que dizia aos passaros. Que elle era muito amigo de passaros, e tinha
-tres ou quatro, em gaiolas. Minha mãe vivia calada. Quasi que só falava
-ás pessoas de fóra. Foi assim que eu soube que meu pae morrêra de
-apoplexia. Ouvi esta noticia muitas vezes; as visitas perguntavam pela
-causa da morte, e ella referia tudo, a hora, o gesto, a occasião: tinha
-ido beber agua, e enchia um copo, á janella da área. Tudo decorei, á
-força de ouvil-o contar.</p>
-
-<p>Nem por isso os meninos do collegio deixavam de vir espiar para dentro
-da minha memoria. Um delles chegou a perguntar-me quando é que eu
-voltaria.</p>
-
-<p>&mdash;Sabbado, meu filho, disse minha mãe, quando lhe repeti a pergunta
-imaginada; a missa é sexta-feira. Talvez seja melhor voltar na segunda.</p>
-
-<p>&mdash;Antes sabbado, emendei.</p>
-
-<p>&mdash;Pois sim, concordou.</p>
-
-<p>Não sorria; se pudesse, sorriria de gosto ao ver que eu queria voltar
-mais cedo á escola. Mas, sabendo que eu não gostava de aprender, como
-entenderia a emenda? Provavelmente, deu-lhe algum sentido superior,
-conselho do ceu ou do marido. Em verdade, eu não folgava, se lerdes
-isto com o sentido de rir. Com o de descançar tambem não cabe, porque
-minha mãe fazia-me estudar, e, tanto como o estudo, aborrecia-me a
-attitude. Obrigado a estar sentado, com o livro nas mãos, a um canto ou
-á mesa, dava ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava um recurso que
-recommendo aos preguiçosos: deixava os olhos na pagina e abria a porta
-á imaginação. Corria a apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os
-realejos, a bailar com meninas,<span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span> a cantar, a rir, a espancar de mentira
-ou de brincadeira, como fôr mais claro.</p>
-
-<p>Uma vez, como désse por mim a andar na sala sem ler, minha mãe
-reprehendeu-me, e eu respondi que estava pensando em meu pae. A
-explicação fel-a chorar, e, para dizer tudo, não era totalmente
-mentira; tinha-me lembrado o ultimo presentinho que elle me déra, e
-entrei a vel-o com o mimo na mão.</p>
-
-<p>Felicia vivia tão triste como eu, mas confesso a minha verdade, a
-causa principal não era a mesma. Gostava de brincar, mas não sentia
-a ausencia do brinco, não se lhe dava de acompanhar a mãe, coser com
-ella, e uma vez fui achal-a a enxugar-lhe os olhos. Meio vexado, pensei
-em imital-a, e metti a mão no bolso para tirar o lenço. A mão entrou
-sem ternura, e, não achando lenço, saiu sem pesar. Creio que ao gesto
-não faltava só originalidade, mas sinceridade tambem.</p>
-
-<p>Não me censurem. Sincero fui longos dias calados e reclusos. Quiz
-uma vez ir para o armarinho, que se abriu depois do enterro, onde o
-caixeiro continuou a servir. Conversaria com este, assistiria á venda
-de linhas e agulhas, á medição de fitas, iria á porta, á calçada, á
-esquina da rua... Minha mãe suffocou este sonho pouco depois delle
-nascer. Mal chegára ao balcão, mandou-me buscar pela escrava; lá fui
-para o interior da casa e para o estudo. Arrepelei-me, apertei os dedos
-á guiza de quem quer dar murro; não me lembra se chorei de raiva.</p>
-
-<p>O livro lembrou-me a escola, e a imagem da escola consolou-me. Já então
-lhe tinha grandes saudades. Via de longe as caras dos meninos, os
-nossos gestos de troça nos bancos, e os saltos á saida. Senti cair-me
-na cara uma daquellas bolinhas de papel com<span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span> que nos espertavamos
-uns aos outros, e fiz a minha e atirei-a ao meu supposto espertador.
-A bolinha, como acontecia ás vezes, foi cair na cabeça de terceiro,
-que se desforrou depressa. Alguns, mais timidos, limitavam-se a fazer
-caretas. Não era folguedo franco, mas já me valia por elle. Aquelle
-degredo que eu deixei tão alegremente com tio Zeca, parecia-me agora
-um céo remoto, e tinha medo de o perder. Nenhuma festa em casa, poucas
-palavras, raro movimento. Foi por esse tempo que eu desenhei a lapis
-maior numero de gatos nas margens do livro de leitura; gatos e porcos.
-Não alegrava, mas distrahia.</p>
-
-<p>A missa do setimo dia restituiu-me á rua; no sabbado não fui á escola,
-fui á casa de meu padrinho, onde pude falar um pouco mais, e no domingo
-estive á porta da loja. Não era alegria completa. A total alegria
-foi segunda-feira, na escola. Entrei vestido de preto, fui mirado
-com curiosidade, mas tão outro ao pé dos meus condiscipulos, que me
-esqueceram as férias sem gosto, e achei uma grande alegria sem férias.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="Evolucao">Evolução</h2>
-</div>
-
-
-<p>Chamo-me Ignacio; elle, Benedicto. Não digo o resto dos nossos nomes
-por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará.
-Ignacio basta. Contentem-se com Benedicto. Não é muito, mas é alguma
-cousa, e está com a philosophia de Julieta: «Que valem nomes?
-perguntava ella ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, terá
-sempre o mesmo cheiro.» Vamos ao cheiro do Benedicto.</p>
-
-<p>E desde logo assentemos que elle era o menos Romeo d'este mundo. Tinha
-quarenta e cinco annos, quando o conheci; não declaro em que tempo,
-porque tudo n'este conto ha de ser mysterioso e truncado. Quarenta e
-cinco annos, e muitos cabellos pretos; para os que o não eram, usava
-um processo chimico, tão efficaz que não se lhe distinguiam os pretos
-dos outros&mdash;salvo ao levantar da cama; mas ao levantar da cama não
-apparecia a ninguem. Tudo mais era natural, pernas, braços, cabeça,
-olhos, roupa, sapatos, corrente do relogio e bengala. O proprio
-alfinete de diamante, que trazia na gravata, um dos mais lindos
-que tenho visto, era natural e<span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span> legitimo; custou-lhe bom dinheiro;
-eu mesmo o vi comprar na casa do... lá me ia escapando o nome do
-joalheiro;&mdash;fiquemos na rua do Ouvidor.</p>
-
-<p>Moralmente, era elle mesmo. Ninguem muda de caracter, e o do Benedicto
-era bom,&mdash;ou para melhor dizer, pacato. Mas, intellectualmente, é
-que elle era menos original. Podemos comparal-o a uma hospedaria bem
-afreguezada, aonde iam ter idéas de toda parte e de toda sorte, que se
-sentavam á mesa com a familia da casa. Ás vezes, acontecia acharem-se
-alli duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipathicas; ninguem
-brigava, o dono da casa impunha aos hospedes a indulgencia reciproca.
-Era assim que elle conseguia ajustar uma especie de atheismo vago
-com duas irmandades que fundou, não sei se na Gavea, na Tijuca ou no
-Engenho-Velho. Usava assim, promiscuamente, a devoção, a irreligião e
-as meias de seda. Nunca lhe vi as meias, note-se; mas elle não tinha
-segredos para os amigos.</p>
-
-<p>Conhecemo-nos em viagem para Vassouras. Tinhamos deixado o trem e
-entrado na diligencia que nos ia levar da estação á cidade. Trocámos
-algumas palavras, e não tardou conversarmos francamente, ao sabor das
-circumstancias que nos impunham a convivencia, antes mesmo de saber
-quem eramos.</p>
-
-<p>Naturalmente, o primeiro objecto foi o progresso que nos traziam as
-estradas de ferro. Benedicto lembrava-se do tempo em que toda a jornada
-era feita ás costas de burro. Contámos então algumas anecdotas, falámos
-de alguns nomes, e ficámos de accordo em que as estradas de ferro eram
-uma condição de progresso do paiz. Quem nunca viajou não sabe o valor
-que tem uma d'essas banalidades graves e solidas<span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span> para dissipar os
-tedios do caminho. O espirito areja-se, os proprios musculos recebem
-uma communicação agradavel, o sangue não salta, fica-se em paz com Deus
-e os homens.</p>
-
-<p>&mdash;Não serão os nossos filhos que verão todo este paiz cortado de
-estradas, disse elle.</p>
-
-<p>&mdash;Não, de certo. O senhor tem filhos?</p>
-
-<p>&mdash;Nenhum.</p>
-
-<p>&mdash;Nem eu. Não será ainda em cincoenta annos; e, entretanto, é a nossa
-primeira necessidade. Eu comparo o Brazil a uma creança que está
-engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro.</p>
-
-<p>&mdash;Bonita idéa! exclamou Benedicto faiscando-lhe os olhos.</p>
-
-<p>&mdash;Importa-me pouco que seja bonita, comtanto que seja justa.</p>
-
-<p>&mdash;Bonita e justa, redarguiu elle com amabilidade. Sim, senhor, tem
-razão:&mdash;o Brazil está engatinhando; só começará a andar quando tiver
-muitas estradas de ferro.</p>
-
-<p>Chegámos a Vassouras; eu fui para a casa do juiz municipal, camarada
-antigo; elle demorou-se um dia e seguiu para o interior. Oito dias
-depois voltei ao Rio de Janeiro, mas sósinho. Uma semana mais tarde,
-voltou elle; encontrámo-nos no theatro, conversámos muito e trocámos
-noticias; Benedicto acabou convidando-me a ir almoçar com elle no dia
-seguinte. Fui; deu-me um almoço de principe, bons charutos e palestra
-animada. Notei que a conversa d'elle fazia mais effeito no meio da
-viagem&mdash;arejando o espirito e deixando a gente em paz com Deus e os
-homens; mas devo dizer que o almoço póde ter prejudicado o resto.
-Realmente era magnifico; e seria<span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span> impertinencia historica pôr a mesa
-de Lucullo na casa de Platão. Entre o café e o cognac, disse-me elle,
-apoiando o cotovello na borda da mesa, e olhando para o charuto que
-ardia:</p>
-
-<p>&mdash;Na minha viagem agora, achei occasião de ver como o senhor tem razão
-com aquella idéa do Brazil engatinhando.</p>
-
-<p>&mdash;Ah?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, senhor; é justamente o que o senhor dizia na diligencia de
-Vassouras. Só começaremos a andar quando tivermos muitas estradas de
-ferro. Não imagina como isso é verdade.</p>
-
-<p>E referiu muita cousa, observações relativas aos costumes do interior,
-difficuldades da vida, atrazo, concordando, porém, nos bons sentimentos
-da população e nas aspirações de progresso. Infelizmente, o governo
-não correspondia ás necessidades da patria; parecia até interessado
-em mantel-a atraz das outras nações americanas. Mas era indispensavel
-que nos persuadissemos de que os principios são tudo e os homens nada.
-Não se fazem os povos para os governos, mas os governos para os povos;
-e <i>abyssus abyssum invocat</i>. Depois foi mostrar-me outras salas.
-Eram todas alfaiadas com apuro. Mostrou-me as collecções de quadros,
-de moedas, de livros antigos, de sellos, de armas; tinha espadas e
-floretes, mas confessou que não sabia esgrimir. Entre os quadros vi um
-lindo retrato de mulher; perguntei-lhe quem era. Benedicto sorriu.</p>
-
-<p>&mdash;Não irei adeante, disse eu sorrindo tambem.</p>
-
-<p>&mdash;Não, não ha que negar, acudiu elle; foi uma moça de quem gostei
-muito. Bonita, não? Não imagina a belleza que era. Os labios eram mesmo
-de carmim e as faces de rosa; tinha os olhos negros, côr<span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span> da noite. E
-que dentes! verdadeiras perolas. Um mimo da natureza.</p>
-
-<p>Em seguida, passámos ao gabinete. Era vasto, elegante, um pouco
-trivial, mas não lhe faltava nada. Tinha duas estantes, cheias de
-livros muito bem encadernados, um mappa-mundi, dous mappas do Brazil.
-A secretaria era de ebano, obra fina; sobre ella, casualmente aberto,
-um almanak de Laemmert. O tinteiro era de crystal,&mdash;«crystal de rocha»,
-disse-me elle, explicando o tinteiro, como explicava as outras cousas.
-Na sala contigua havia um orgão. Tocava orgão, e gostava muito de
-musica, falou d'ella com enthusiasmo, citando as operas, os trechos
-melhores, e noticiou-me que, em pequeno, começára a aprender flauta;
-abandonou-a logo,&mdash;o que foi pena, concluiu, porque é, na verdade, um
-instrumento muito saudoso. Mostrou-me ainda outras salas, fomos ao
-jardim, que era esplendido, tanto ajudava a arte á natureza, e tanto a
-natureza coroava a arte. Em rosas, por exemplo, (não ha negar, disse-me
-elle, que é a rainha das flôres) em rosas, tinha-as de toda casta e de
-todas as regiões.</p>
-
-<p>Saí encantado. Encontrámo-nos algumas vezes, na rua, no theatro, em
-casa de amigos communs, tive occasião de aprecial-o. Quatro mezes
-depois fui á Europa, negocio que me obrigava á ausencia de um anno;
-elle ficou cuidando da eleição; queria ser deputado. Fui eu mesmo que
-o induzi a isso, sem a menor intenção politica, mas com o unico fim de
-lhe ser agradavel; mal comparando, era como se lhe elogiasse o córte do
-collete. Elle pegou da idéa, e apresentou-se. Um dia, atravessando uma
-rua de Pariz, dei subitamente com o Benedicto. &mdash;Que é isto? exclamei.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span></p>
-
-<p>&mdash;Perdi a eleição, disse elle, e vim passear á Europa.</p>
-
-<p>Não me deixou mais; viajámos juntos o resto do tempo. Confessou-me que
-a perda da eleição não lhe tirára a idéa de entrar no parlamento. Ao
-contrario, incitára-o mais. Falou-me de um grande plano.</p>
-
-<p>&mdash;Quero vel-o ministro, disse-lhe.</p>
-
-<p>Benedicto não contava com esta palavra, o rosto illuminou-se-lhe; mas
-disfarçou depressa.</p>
-
-<p>&mdash;Não digo isso, respondeu. Quando, porém, seja ministro, creia que
-serei tão sómente ministro industrial. Estamos fartos de partidos;
-precisamos desenvolver as forças vivas do paiz, os seus grandes
-recursos. Lembra-se do que <i>nós diziamos</i> na diligencia de
-Vassouras? O Brazil está engatinhando; só andará com estradas de ferro.</p>
-
-<p>&mdash;Tem razão, concordei um pouco espantado. E porque é que eu mesmo
-vim á Europa? Vim cuidar de uma estrada de ferro. Deixo as cousas
-arranjadas em Londres.</p>
-
-<p>&mdash;Sim?</p>
-
-<p>&mdash;Perfeitamente.</p>
-
-<p>Mostrei-lhe os papeis; elle viu-os deslumbrado. Como eu tivesse
-então recolhido alguns apontamentos, dados estatisticos, folhetos,
-relatorios, copias de contractos, tudo referente a materias
-industriaes, e lh'os mostrasse, Benedicto declarou-me que ia tambem
-colligir algumas cousas d'aquellas. E, na verdade, vi-o andar por
-ministerios, bancos, associações, pedindo muitas notas e opusculos, que
-amontoava nas malas; mas o ardor com que o fez, se foi intenso, foi
-curto; era de emprestimo. Benedicto recolheu com muito mais gosto os
-anexins politicos e fórmulas parlamentares. Tinha na cabeça um vasto
-arsenal d'elles. Nas<span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span> conversas commigo repetia-os muita vez, á laia
-de experiencia; achava n'elles grande prestigio e valor inestimavel.
-Muitos eram de tradição ingleza, e elle os preferia aos outros, como
-trazendo em si um pouco da Camara dos Communs. Saboreava-os tanto que
-eu não sei se elle acceitaria jámais a liberdade real sem aquelle
-apparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar,
-optaria por essas fórmas curtas, tão commodas, algumas lindas, outras
-sonoras, todas axiomaticas, que não forçam a reflexão, preenchem os
-vasios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens.</p>
-
-<p>Regressámos juntos; mas eu fiquei em Pernambuco, e tornei mais tarde
-a Londres, d'onde vim ao Rio de Janeiro, um anno depois. Já então
-Benedicto era deputado. Fui visital-o; achei-o preparando o discurso
-de estréa. Mostrou-me alguns apontamentos, trechos de relatorios,
-livros de economia politica, alguns com paginas marcadas, por meio
-de tiras de papel rubricadas assim:&mdash;<i>Cambio</i>, <i>Taxa das
-terras</i>, <i>Questão dos cereaes em Inglaterra</i>, <i>Opinião de
-Stuart Mill</i>, <i>Erro de Thiers sobre caminhos de ferro</i>, etc.
-Era sincero, minucioso e callido. Falava-me d'aquellas cousas, como
-se acabasse de as descobrir, expondo-me tudo, ab ovo; tinha a peito
-mostrar aos homens praticos da Camara que tambem elle era pratico. Em
-seguida, perguntou-me pela empreza; disse-lhe o que havia.</p>
-
-<p>&mdash;Dentro de dous annos conto inaugurar o primeiro trecho da estrada.</p>
-
-<p>&mdash;E os capitalistas inglezes?</p>
-
-<p>&mdash;Que têm?</p>
-
-<p>&mdash;Estão contentes, esperançados?</p>
-
-<p>&mdash;Muito; não imagina.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span></p>
-
-<p>Contei-lhe algumas particularidades technicas, que elle ouviu
-distrahidamente,&mdash;ou porque a minha narração fosse em extremo
-complicada, ou por outro motivo. Quando acabei, disse-me que estimava
-ver-me entregue ao movimento industrial; era d'elle que precisavamos, e
-a este proposito fez-me o favor de ler o exordio do discurso que devia
-proferir d'alli a dias.</p>
-
-<p>&mdash;Está ainda em borrão, explicou-me; mas as idéas capitaes ficam. E
-começou: «No meio da agitação crescente dos espiritos, do alarido
-partidario que encobre as vozes dos legitimos interesses, permitti que
-alguem faça ouvir uma supplica da nação. Senhores, é tempo de cuidar,
-exclusivamente,&mdash;notae que digo exclusivamente,&mdash;dos melhoramentos
-materiaes do paiz. Não desconheço o que se me póde replicar;
-dir-me-heis que uma nação não se compõe só de estomago para digerir,
-mas de cabeça para pensar e de coração para sentir. Respondo-vos que
-tudo isso não valerá nada ou pouco, se ella não tiver pernas para
-caminhar; e aqui repetirei o que, ha alguns annos, <i>dizia eu</i> a um
-amigo, em viagem pelo interior: o Brazil é uma creança que engatinha;
-só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro...»</p>
-
-<p>Não pude ouvir mais nada e fiquei pensativo. Mais que pensativo, fiquei
-assombrado, desvairado deante do abysmo que a psychologia rasgava aos
-meus pés. Este homem é sincero, pensei commigo, está persuadido do
-que escreveu. E fui por ahi abaixo até ver se achava a explicação dos
-tramites por que passou aquella recordação da diligencia de Vassouras.
-Achei (perdôem-me se ha n'isto infatuação), achei alli mais um effeito
-da lei da evolução, tal como a definiu Spencer,&mdash;Spencer ou Benedicto,
-um d'elles.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="Pylades_e_Orestes">Pylades e Orestes</h2>
-</div>
-
-<p>Quintanilha engendrou Gonçalves. Tal era a impressão que davam os dous
-juntos, não que se parecessem. Ao contrario, Quintanilha tinha o rosto
-redondo, Gonçalves comprido, o primeiro era baixo e moreno, o segundo
-alto e claro, e a expressão total divergia inteiramente. Accresce que
-eram quasi da mesma edade. A idéa da paternidade nascia das maneiras
-com que o primeiro tratava o segundo; um pae não se desfaria mais em
-carinhos, cautellas e pensamentos.</p>
-
-<p>Tinham estudado juntos, morado juntos, e eram bachareis do mesmo
-anno. Quintanilha não seguiu advocacia nem magistratura, metteu-se na
-politica; mas, eleito deputado provincial em 187... cumpriu o prazo
-da legislatura e abandonou a carreira. Herdára os bens de um tio, que
-lhe davam de renda cerca de trinta contos de réis. Veiu para o seu
-Gonçalves, que advogava no Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>Posto que abastado, moço, amigo do seu unico amigo, não se póde dizer
-que Quintanilha fosse inteiramente feliz, como vaes ver. Ponho de lado
-o desgosto que lhe trouxe a herança com o odio dos parentes;<span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span> tal odio
-foi que elle esteve prestes a abrir mão d'ella, e não o fez porque o
-amigo Gonçalves, que lhe dava idéas e conselhos, o convenceu de que
-similhante acto seria rematada loucura.</p>
-
-<p>&mdash;Que culpa tem você que merecesse mais a seu tio que os outros
-parentes? Não foi você que fez o testamento nem andou a bajular o
-defunto, como os outros. Se elle deixou tudo a você, é que o achou
-melhor que elles; fique-se com a fortuna, que é a vontade do morto, e
-não seja tolo.</p>
-
-<p>Quintanilha acabou concordando. Dos parentes alguns buscaram
-reconciliar-se com elle, mas o amigo mostrou-lhe a intenção recondita
-dos taes, e Quintanilha não lhes abriu a porta. Um d'esses, ao vê-lo
-ligado com o antigo companheiro de estudos, bradava por toda a parte:</p>
-
-<p>&mdash; Ahi está, deixa os parentes para se metter com extranhos; ha de ver
-o fim que leva.</p>
-
-<p>Ao saber d'isto, Quintanilha correu a contal-o a Gonçalves, indignado.
-Gonçalves sorriu, chamou-lhe tolo e aquietou-lhe o animo; não valia a
-pena irritar-se por ditinhos.</p>
-
-<p>&mdash; Uma só cousa desejo, continuou, é que nos separemos, para que se não
-diga...</p>
-
-<p>&mdash;Que se não diga o quê? É boa! Tinha que vêr, se eu passava a escolher
-as minhas amizades conforme o capricho de alguns peraltas sem vergonha!</p>
-
-<p>&mdash; Não fale assim, Quintanilha. Você é grosseiro com seus parentes.</p>
-
-<p>&mdash; Parentes do diabo que os leve! Pois eu hei de viver com as pessoas
-que me fôrem designadas por meia duzia de velhacos que o que querem
-é comer-me o dinheiro? Não, Gonçalves; tudo o que você quizer, menos
-isso. Quem escolhe os meus amigos sou eu, é<span class="pagenum" id="Page_113">[Pg 113]</span> o meu coração. Ou você
-está... está aborrecido de mim?</p>
-
-<p>&mdash; Eu? Tinha graça.</p>
-
-<p>&mdash; Pois então?</p>
-
-<p>&mdash; Mas é...</p>
-
-<p>&mdash; Não é tal!</p>
-
-<p>A vida que viviam os dous, era a mais unida d'este mundo. Quintanilha
-accordava, pensava no outro, almoçava e ia ter com elle. Jantavam
-juntos, faziam alguma visita, passeavam ou acabavam a noite no theatro.
-Se Gonçalves tinha algum trabalho que fazer á noite, Quintanilha ia
-ajudal-o como obrigação; dava busca aos textos de lei, marcava-os,
-copiava-os, carregava os livros. Gonçalves esquecia com facilidade,
-ora um recado, ora uma carta, sapatos, charutos, papeis. Quintanilha
-suppria-lhe a memoria. Ás vezes, na rua do Ouvidor, vendo passar as
-moças, Gonçalves lembrava-se de uns autos que deixára no escriptorio.
-Quintanilha voava a buscal-os e tornava com elles, tão contente que
-não se podia saber se eram autos, se a sorte grande; procurava-o
-anciosamente com os olhos, corria, sorria, morria de fadiga.</p>
-
-<p>&mdash; São estes?</p>
-
-<p>&mdash; São; deixa ver, são estes mesmos. Dá cá.</p>
-
-<p>&mdash; Deixa, eu levo.</p>
-
-<p>A principio, Gonçalves suspirava:</p>
-
-<p>&mdash;Que massada que dei a você!</p>
-
-<p>Quintanilha ria do suspiro com tão bom humor que o outro, para não
-o molestar, não se accusou de mais nada; concordou em receber os
-obsequios. Com o tempo, os obsequios ficaram sendo puro officio.
-Gonçalves dizia ao outro: «Você hoje ha de lembrar-me isto e aquillo.»
-E o outro decorava as recommendações, ou escrevia-as, se eram muitas.
-Algumas dependiam<span class="pagenum" id="Page_114">[Pg 114]</span> de horas; era de ver como o bom Quintanilha
-suspirava afflicto, á espera que chegasse tal ou tal hora para ter o
-gosto de lembrar os negocios ao amigo. E levava-lhe as cartas e papeis,
-ia buscar as respostas, procurar as pessoas, esperal-as na estrada
-de ferro, fazia viagens ao interior. De si mesmo descobria-lhe bons
-charutos, bons jantares, bons espectaculos. Gonçalves já não tinha
-liberdade de falar de um livro novo, ou sómente caro, que não achasse
-um exemplar em casa.</p>
-
-<p>&mdash; Você é um perdulario, dizia-lhe em tom reprehensivo.</p>
-
-<p>&mdash; Então gastar com letras e sciencias é botar fóra? É boa! concluia o
-outro.</p>
-
-<p>No fim do anno quiz obrigal-o a passar fóra as férias. Gonçalves
-acabou acceitando, e o prazer que lhe deu com isto foi enorme. Subiram
-a Petropolis. Na volta, serra abaixo, como falassem de pintura,
-Quintanilha advertiu que não tinham ainda uma tela com o retrato dos
-dous, e mandou fazel-a. Quando a levou ao amigo, este não poude deixar
-de lhe dizer que não prestava para nada. Quintanilha ficou sem voz.</p>
-
-<p>&mdash; É uma porcaria, insistiu Gonçalves.</p>
-
-<p>&mdash; Pois o pintor disse-me...</p>
-
-<p>&mdash; Você não entende de pintura, Quintanilha, e o pintor aproveitou a
-occasião para metter a espiga. Pois isto é cara decente? Eu tenho este
-braço torto?</p>
-
-<p>&mdash; Que ladrão!</p>
-
-<p>&mdash; Não, elle não tem culpa, fez o seu negocio; você é que não tem o
-sentimento da arte, nem pratica, e espichou-se redondamente. A intenção
-foi boa, creio...</p>
-
-<p>&mdash; Sim, a intenção foi boa.</p>
-
-<p>&mdash; E aposto que já pagou?</p>
-
-<p>&mdash; Já.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_115">[Pg 115]</span></p>
-
-<p>Gonçalves abanou a cabeça, chamou-lhe ignorante e acabou rindo.
-Quintanilha, vexado e aborrecido, olhava para a tela, até que saccou
-de um canivete e rasgou-a de alto a baixo. Com se não bastasse esse
-gesto de vingança, devolveu a pintura ao artista com um bilhete em que
-lhe transmittiu alguns dos nomes recebidos e mais o de asno. A vida
-tem muitas de taes pagas. Demais, uma letra de Gonçalves que se venceu
-d'alli a dias e que este não poude pagar, veiu trazer ao espirito de
-Quintanilha uma diversão. Quasi brigaram; a idéa de Gonçalves era
-reformar a letra; Quintanilha, que era o endossante, entendia não valer
-a pena pedir o favor por tão escassa quantia (um conto e quinhentos),
-elle emprestaria o valor da letra, e o outro que lhe pagasse, quando
-pudesse. Gonçalves não consentiu e fez-se a reforma. Quando, ao fim
-d'ella, a situação se repetiu, o mais que este admittiu foi acceitar
-uma letra de Quintanilha, com o mesmo juro.</p>
-
-<p>&mdash; Você não vê que me envergonha, Gonçalves? Pois eu hei de receber
-juro de você...?</p>
-
-<p>&mdash; Ou recebe, ou não fazemos nada.</p>
-
-<p>&mdash; Mas, meu querido...</p>
-
-<p>Teve que concordar. A união dos dous era tal que uma senhora
-chamava-lhes os «casadinhos de fresco», e um letrado, Pylades e
-Orestes. Elles riam, naturalmente, mas o riso de Quintanilha trazia
-alguma cousa parecida com lagrimas: era, nos olhos, uma ternura
-humida. Outra differença é que o sentimento de Quintanilha tinha uma
-nota de enthusiasmo, que absolutamente faltava ao de Gonçalves; mas,
-enthusiasmo não se inventa. É claro que o segundo era mais capaz de
-inspiral-o ao primeiro do que este a elle. Em verdade, Quintanilha era
-mui sensivel a qualquer distincção;<span class="pagenum" id="Page_116">[Pg 116]</span> uma palavra, um olhar bastava a
-accender-lhe o cerebro. Uma pancadinha no hombro ou no ventre, com o
-fim de approval-o ou só accentuar a intimidade, era para derretel-o de
-prazer. Contava o gesto e as circumstancias durante dous e tres dias.</p>
-
-<p>Não era raro vel-o irritar-se, teimar, descompôr os outros. Tambem era
-commum vel-o rir-se; alguma vez o riso era universal, entornava-se-lhe
-da bocca, dos olhos, da testa, dos braços, das pernas, todo elle era um
-riso unico. Sem ter paixões, estava longe de ser apathico.</p>
-
-<p>A letra saccada contra Gonçalves tinha o prazo de seis mezes. No
-dia do vencimento, não só não pensou em cobral-a, mas resolveu ir
-jantar a algum arrabalde para não ver o amigo, se fosse convidado á
-reforma. Gonçalves destruiu todo esse plano; logo cedo, foi levar-lhe
-o dinheiro. O primeiro gesto de Quintanilha foi recusal-o, dizendo-lhe
-que o guardasse, podia precisar d'elle; o devedor teimou em pagar e
-pagou.</p>
-
-<p>Quintanilha acompanhava os actos de Gonçalves; via a constancia do seu
-trabalho, o zelo que elle punha na defesa das demandas, e vivia cheio
-de admiração. Realmente, não era grande advogado, mas na medida das
-suas habilitações, era distincto.</p>
-
-<p>&mdash; Você porque não se casa? perguntou-lhe um dia; um advogado precisa
-casar.</p>
-
-<p>Gonçalves respondia rindo. Tinha uma tia, unica parenta, a quem elle
-queria muito, e que lhe morreu, quando elles iam em trinta annos. Dias
-depois, dizia ao amigo:</p>
-
-<p>&mdash; Agora só me resta você.</p>
-
-<p>Quintanilha sentiu os olhos molhados, e não achou que lhe respondesse.
-Quando se lembrou de dizer que «iria até á morte» era tarde. Redobrou
-então de carinhos,<span class="pagenum" id="Page_117">[Pg 117]</span> e um dia accordou com a idéa de fazer testamento.
-Sem revelar nada ao outro, nomeou-o testamenteiro e herdeiro universal.</p>
-
-<p>&mdash; Guarde-me este papel, Gonçalves, disse-lhe entregando o testamento.
-Sinto-me forte, mas a morte é facil, e não quero confiar a qualquer
-pessoa as minhas ultimas vontades.</p>
-
-<p>Foi por esse tempo que succedeu um caso que vou contar.</p>
-
-<p>Quintanilha tinha uma prima-segunda, Camilla, moça de vinte e dous
-annos, modesta, educada e bonita. Não era rica; o pae, João Bastos,
-era guarda-livros de uma casa de café. Haviam brigado por occasião da
-herança; mas, Quintanilha foi ao enterro da mulher de João Bastos,
-e este acto de piedade novamente os ligou. João Bastos esqueceu
-facilmente alguns nomes crús que dissera do primo, chamou-lhe outros
-nomes doces, e pediu-lhe que fosse jantar com elle. Quintanilha foi e
-tornou a ir. Ouviu ao primo o elogio da finada mulher; n'uma occasião
-em que Camilla os deixou sós, João Bastos louvou as raras prendas da
-filha, que affirmava haver recebido integralmente a herança moral da
-mãe.</p>
-
-<p>&mdash; Não direi isto nunca á pequena, nem você lhe diga nada. É modesta,
-e, se começarmos a elogial-a, póde perder-se. Assim, por exemplo, nunca
-lhe direi que é tão bonita como foi a mãe, quando tinha a edade d'ella;
-póde ficar vaidosa. Mas a verdade é que é mais, não lhe parece? Tem
-ainda o talento de tocar piano, que a mãe não possuia.</p>
-
-<p>Quando Camilla voltou á sala de jantar, Quintanilha sentiu vontade de
-lhe descobrir tudo, conteve-se e piscou o olho ao primo. Quiz ouvil-a
-ao piano; ella respondeu, cheia de melancolia:</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_118">[Pg 118]</span></p>
-
-<p>&mdash; Ainda não, ha apenas um mez que mamãe falleceu, deixe passar mais
-tempo. Demais, eu toco mal.</p>
-
-<p>&mdash; Mal?</p>
-
-<p>&mdash; Muito mal.</p>
-
-<p>Quintanilha tornou a piscar o olho ao primo, e ponderou á moça que a
-prova de tocar bem ou mal só se dava ao piano. Quanto ao prazo, era
-certo que apenas passára um mez; todavia era tambem certo que a musica
-era uma distracção natural e elevada. Além d'isso, bastava tocar um
-pedaço triste. João Bastos approvou este modo de ver e lembrou uma
-composição elegiaca. Camilla abanou a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash; Não, não, sempre é tocar piano; os vizinhos são capazes de inventar
-que eu toquei uma polka.</p>
-
-<p>Quintanilha achou graça e riu. Depois concordou e esperou que os tres
-mezes fossem passados. Até lá, viu a prima algumas vezes, sendo as tres
-ultimas visitas mais proximas e longas. Emfim, poude ouvil-a tocar
-piano, e gostou. O pae confessou que, ao principio, não gostava muito
-d'aquellas musicas allemãs; com o tempo e o costume achou-lhes sabor.
-Chamava á filha «a minha allemãsinha», appellido que foi adoptado por
-Quintanilha, apenas modificado para o plural: «a nossa allemãsinha».
-Pronomes possessivos dão intimidade; dentro em pouco, ella existia
-entre os tres,&mdash;ou quatro, se contarmos Gonçalves, que alli foi
-apresentado pelo amigo; &mdash; mas fiquemos nos tres.</p>
-
-<p>Que elle é cousa já farejada por ti, leitor sagaz. Quintanilha acabou
-gostando da moça. Como não, se Camilla tinha uns longos olhos mortaes?
-Não é que os pousasse muita vez nelle, e, se o fazia, era com tal
-ou qual constrangimento, a principio, como as creanças que obedecem
-sem vontade ás ordens do mestre<span class="pagenum" id="Page_119">[Pg 119]</span> ou do pae; mas pousava-os, e elles
-eram taes que, ainda sem intenção, feriam de morte. Tambem sorria
-com frequencia e falava com graça. Ao piano, e por mais aborrecida
-que tocasse, tocava bem. Em summa, Camilla não faria obra de impulso
-proprio, sem ser por isso menos feiticeira. Quintanilha descobriu um
-dia de manhã que sonhára com ella a noite toda, e á noite que pensára
-nella todo o dia, e concluiu da descoberta que a amava e era amado. Tão
-tonto ficou que esteve prestes a imprimil-o nas folhas publicas. Quando
-menos, quiz dizel-o ao amigo Gonçalves e correu ao escriptorio d'este.
-A affeição de Quintanilha complicava-se de respeito e temor. Quasi a
-abrir a boca, engoliu outra vez o segredo. Não ousou dizel-o nesse dia
-nem no outro.</p>
-
-<p>Antes dissesse; talvez fosse tempo de vencer a campanha. Adiou a
-revelação por uma semana. Um dia foi jantar com o amigo, e, depois de
-muitas hesitações, disse-lhe tudo; amava a prima e era amado.</p>
-
-<p>&mdash; Você approva, Gonçalves?</p>
-
-<p>Gonçalves empallideceu,&mdash;ou, pelo menos, ficou serio; nelle a seriedade
-confundia-se com a pallidez. Mas, não; verdadeiramente ficou pallido.</p>
-
-<p>&mdash; Approva? repetiu Quintanilha.</p>
-
-<p>Após alguns segundos, Gonçalves ia abrir a bocca para responder, mas
-fechou-a de novo, e fitou os olhos «em hontem», como elle mesmo dizia
-de si, quando os estendia ao longe. Em vão Quintanilha teimou em
-saber o que era, o que pensava, se aquelle amor era asneira. Estava
-tão acostumado a ouvir-lhe este vocabulo que já lhe não doia nem
-affrontava, ainda em materia tão melindrosa e pessoal. Gonçalves tornou
-a si d'aquella meditação, sacudiu os hombros, com ar<span class="pagenum" id="Page_120">[Pg 120]</span> desenganado, e
-murmurou esta palavra tão surdamente que o outro mal a poude ouvir:</p>
-
-<p>&mdash; Não me pergunte nada; faça o que quizer.</p>
-
-<p>&mdash; Gonçalves, que é isso? perguntou Quintanilha, pegando-lhe nas mãos,
-assustado.</p>
-
-<p>Gonçalves soltou um grande suspiro, que, se tinha azas, ainda agora
-estará voando. Tal foi, sem esta fórma paradoxal, a impressão de
-Quintanilha. O relogio da sala de jantar bateu oito horas, Gonçalves
-allegou que ia visitar um desembargador, e o outro despediu-se.</p>
-
-<p>Na rua, Quintanilha parou atordoado. Não acabava de entender aquelles
-gestos, aquelle suspiro, aquella pallidez, todo o effeito mysterioso da
-noticia dos seus amores. Entrára e falára, disposto a ouvir do outro um
-ou mais d'aquelles epithetos costumados e amigos, <i>idiota, credulo,
-paspalhão</i>, e não ouviu nenhum. Ao contrario, havia nos gestos de
-Gonçalves alguma cousa que pegava com o respeito. Não se lembrava de
-nada, ao jantar, que pudesse tel-o offendido; foi só depois de lhe
-confiar o sentimento novo que trazia a respeito da prima que o amigo
-ficou acabrunhado.</p>
-
-<p>&mdash; Mas, não póde ser, pensava elle; o que é que Camilla tem que não
-possa ser boa esposa?</p>
-
-<p>Nisto gastou, parado, defronte da casa, mais de meia hora. Advertiu
-então que Gonçalves não saira. Esperou mais meia hora, nada. Quiz
-entrar outra vez, abraçal-o, interrogal-o... Não teve forças; enfiou
-pela rua fóra, desesperado. Chegou á casa de João Bastos, e não viu
-Camilla; tinha-se recolhido, constipada. Queria justamente contar-lhe
-tudo, e aqui é preciso explicar que elle ainda não se havia declarado
-á prima. Os olhares da moça não fugiam dos seus; era tudo, e podia não
-passar de faceirice. Mas o lance<span class="pagenum" id="Page_121">[Pg 121]</span> não podia ser melhor para clarear a
-situação. Contando o que se passára com o amigo, tinha o ensejo de lhe
-fazer saber que a amava e ia pedil-a ao pae. Era uma consolação no meio
-d'aquella agonia, o acaso negou-lh'a, e Quintanilha saiu da casa, peior
-do que entrára. Recolheu-se á sua.</p>
-
-<p>Não dormiu antes das duas horas da manhã, e não foi para repouso, senão
-para agitação maior e nova. Sonhou que ia a atravessar uma ponte velha
-e longa, entre duas montanhas, e a meio caminho viu surdir debaixo um
-vulto e fincar os pés defronte d'elle. Era Gonçalves. «Infame, disse
-este com os olhos accesos, porque me vens tirar a noiva de meu coração,
-a mulher que eu amo e é minha? Toma, toma logo o meu coração, é mais
-completo.» E com um gesto rapido abriu o peito, arrancou o coração
-e metteu-lh'o na bocca. Quintanilha tentou pegar da viscera amiga e
-repol-a no peito de Gonçalves; foi impossivel. Os queixos acabaram por
-fechal-a. Quiz cuspil-a, e foi peior; os dentes cravaram-se no coração.
-Quiz falar, mas vá alguem falar com a bocca cheia d'aquella maneira.
-Afinal o amigo ergueu os braços e estendeu-lhe as mãos com o gesto de
-maldição que elle vira nos melodramas, em dias de rapaz; logo depois,
-brotaram-lhe dos olhos duas immensas lagrimas, que encheram o valle de
-agua, atirou-se abaixo e desappareceu. Quintanilha accordou suffocado.</p>
-
-<p>A illusão do pesadelo era tal que elle ainda levou as mãos á bocca,
-para arrancar de lá o coração do amigo. Achou a lingua sómente,
-esfregou os olhos e sentou-se. Onde estava? Que era? E a ponte? E o
-Gonçalves? Voltou a si de todo, comprehendeu e novamente se deitou,
-para outra insomnia, menor que a primeira, é certo; veiu a dormir ás
-quatro horas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_122">[Pg 122]</span></p>
-
-<p>De dia, rememorando toda a vespera, realidade e sonho, chegou á
-conclusão de que o amigo Gonçalves era seu rival, amava a prima
-d'elle, era talvez amado por ella... Sim, sim, podia ser. Quintanilha
-passou duas horas crueis. Afinal pegou em si e foi ao escriptorio de
-Gonçalves, para saber tudo de uma vez; e, se fosse verdade, sim, se
-fosse verdade...</p>
-
-<p>Gonçalves redigia umas razões de embargo. Interrompeu-as para fital-o
-um instante, erguer-se, abrir o armario de ferro, onde guardava os
-papeis graves, tirar de lá o testamento de Quintanilha, e entregal-o ao
-testador.</p>
-
-<p>&mdash; Que é isto?</p>
-
-<p>&mdash; Você vae mudar de estado, respondeu Gonçalves, sentando-se á mesa.</p>
-
-<p>Quintanilha sentiu-lhe lagrimas na voz; assim lhe pareceu, ao menos.
-Pediu-lhe que guardasse o testamento; era o seu depositario natural.
-Instou muito; só lhe respondia o som aspero da penna correndo no papel.
-Não corria bem a penna, a letra era tremida, as emendas mais numerosas
-que de costume, provavelmente as datas erradas. A consulta dos livros
-era feita com tal melancolia que entristecia o outro. Ás vezes, parava
-tudo, penna e consulta, para só ficar o olhar fito «em hontem».</p>
-
-<p>&mdash; Entendo, disse Quintanilha subitamente; ella será tua.</p>
-
-<p>&mdash; Ella quem? quiz perguntar Gonçalves, mas já o amigo voava, escada
-abaixo, como uma flecha, e elle continuou as suas razões de embargo.</p>
-
-<p>Não se adivinha todo o resto; basta saber o final. Nem se adivinha nem
-se crê; mas a alma humana é capaz de esforços grandes, no bem como no
-mal. Quintanilha fez outro testamento, legando tudo á<span class="pagenum" id="Page_123">[Pg 123]</span> prima, com a
-condição de desposar o amigo. Camilla não acceitou o testamento, mas
-ficou tão contente, quando o primo lhe falou das lagrimas de Gonçalves,
-que acceitou Gonçalves e as lagrimas. Então Quintanilha não achou
-melhor remedio que fazer terceiro testamento legando tudo ao amigo.</p>
-
-<p>O final da historia foi dito em latim. Quintanilha serviu de
-testemunha ao noivo, e de padrinho aos dous primeiros filhos. Um dia
-em que, levando doces para os afilhados, atravessava a praça Quinze
-de Novembro, recebeu uma bala revoltosa (1893) que o matou quasi
-instantaneamente. Está enterrado no cemiterio de S. João Baptista; a
-sepultura é simples, a pedra tem um epitaphio que termina com esta
-pia phrase: «Orae por elle!» É tambem o fecho da minha historia.
-Orestes vive ainda, sem os remorsos do modelo grego. Pylades é agora o
-personagem mudo de Sophocles. Orae por elle!</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_127">[Pg 127]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="Anecdota_do_cabriolet">Anecdota do cabriolet</h2>
-</div>
-
-
-<p>&mdash;<i>Cabriolet</i> está ahi, sim, senhor, dizia o preto que viera á
-matriz de S. José chamar o vigario para sacramentar dous moribundos.</p>
-
-<p>A geração de hoje não viu a entrada e a saida do <i>cabriolet</i>
-no Rio de Janeiro. Tambem não saberá do tempo em que o <i>cab</i> e
-o <i>tilbury</i> vieram para o rol dos nossos vehiculos de praça ou
-particulares. O <i>cab</i> durou pouco. O <i>tilbury</i>, anterior
-aos dous, promette ir á destruição da cidade. Quando esta acabar e
-entrarem os cavadores de ruinas, achar-se-ha um parado, com o cavallo
-e o cocheiro em ossos, esperando o freguez do costume. A paciencia
-será a mesma de hoje, por mais que chova, a melancolia maior, como
-quer que brilhe o sol, porque juntará a propria actual á do espectro
-dos tempos. O archeologo dirá cousas raras sobre os tres esqueletos. O
-<i>cabriolet</i> não teve historia; deixou apenas a anecdota que vou
-dizer.</p>
-
-<p>&mdash;Dous! exclamou o sacristão.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, senhor, dous: nhã Annunciada e nhô Pedrinho. Coitado de nhô
-Pedrinho! E nhã Annunciada, coitada! continuou o preto a gemer, andando
-de um lado para outro, afflicto, fóra de si.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_128">[Pg 128]</span></p>
-
-<p>Alguem que leia isto com a alma turva de duvidas, é natural que
-pergunte se o preto sentia devéras, ou se queria picar a curiosidade
-do coadjuctor e do sacristão. Eu estou que tudo se póde combinar neste
-mundo, como no outro. Creio que elle sentia devéras: não descreio
-que anciasse por dizer alguma historia terrivel. Em todo caso, nem o
-coadjuctor nem o sacristão lhe perguntavam nada.</p>
-
-<p>Não é que o sacristão não fosse curioso. Em verdade, pouco mais era
-que isso. Trazia a parochia de cór; sabia os nomes ás devotas, a vida
-dellas, a dos maridos e a dos paes, as prendas e os recursos de cada
-uma, e o que comiam, e o que bebiam, e o que diziam, os vestidos e
-as virtudes, os dotes das solteiras, o comportamento das casadas, as
-saudades das viuvas. Pesquizava tudo; nos intervallos ajudava a missa
-e o resto. Chamava-se João das Mercês, homem quarentão, pouca barba e
-grisalho, magro e meão.</p>
-
-<p>&mdash;Que Pedrinho e que Annunciada serão esses? dizia comsigo,
-acompanhando o coadjuctor.</p>
-
-<p>Embora ardesse por sabel-os, a presença do coadjuctor impediria
-qualquer pergunta. Este ia tão calado e pio, caminhando para a porta
-da egreja, que era força mostrar o mesmo silencio e piedade que elle.
-Assim foram andando. O <i>cabriolet</i> esperava-os; o cocheiro
-desbarretou-se, os vizinhos e alguns passantes ajoelharam-se, emquanto
-o padre e o sacristão entravam e o vehiculo enfiava pela rua da
-Misericordia. O preto desandou o caminho a passo largo.</p>
-
-<p>Que andem burros e pessoas na rua, e as nuvens no ceu, se as ha, e os
-pensamentos nas cabeças, se os tem. A do sacristão tinha-os varios e
-confusos. Não era ácerca de <i>Nosso-Pae</i>, embora soubesse adoral-o,
-nem da agua benta e do hyssope que levava; tambem<span class="pagenum" id="Page_129">[Pg 129]</span> não era ácerca da
-hora,&mdash;oito e quarto da noite,&mdash;aliás, o ceu estava claro e a lua
-ia apparecendo. O proprio <i>cabriolet</i>, que era novo na terra,
-e substituia neste caso a sege, esse mesmo vehiculo não occupava o
-cerebro todo de João das Mercês, a não ser na parte que pegava com nhô
-Pedrinho e nhâ Annunciada.</p>
-
-<p>&mdash;Ha de ser gente nova, ia pensando o sacristão, mas hóspeda em alguma
-casa, de certo, porque não ha casa vasia na praia, e o numero é da do
-commendador Brito. Parentes, serão? Que parentes, se nunca ouvi...?
-Amigos, não sei; conhecidos, talvez, simples conhecidos. Mas então
-mandariam <i>cabriolet</i>? Este mesmo preto é novo na casa; ha de ser
-escravo de um dos moribundos, ou de ambos.</p>
-
-<p>Era assim que João das Mercês ia cogitando, e não foi por muito tempo.
-O <i>cabriolet</i> parou á porta de um sobrado, justamente a casa do
-commendador Brito, José Martins de Brito. Já havia algumas pessoas em
-baixo com velas, o padre e o sacristão apearam-se e subiram a escada,
-acompanhados do commendador. A esposa deste, no patamar, beijou o annel
-ao padre. Gente grande, creanças, escravos, um borborinho surdo, meia
-claridade, e os dous moribundos á espera, cada um no seu quarto, ao
-fundo.</p>
-
-<p>Tudo se passou, como é de uso e regra, em taes occasiões. Nhô Pedrinho
-foi absolvido e ungido, nhâ Annunciada tambem, e o coadjuctor
-despediu-se da casa para tornar á matriz com o sacristão. Este não se
-despediu do commendador sem lhe perguntar ao ouvido se os dous eram
-parentes seus. Não, não eram parentes, respondeu Brito; eram amigos de
-um sobrinho que vivia em Campinas; uma historia terrivel... Os olhos
-de João das Mercês escutaram arregaladamente estas duas palavras, e
-disseram, sem<span class="pagenum" id="Page_130">[Pg 130]</span> falar, que viriam ouvir o resto,&mdash;talvez naquella mesma
-noite. Tudo foi rapido, porque o padre descia a escada, era força ir
-com elle.</p>
-
-<p>Foi tão curta a moda do <i>cabriolet</i> que este provavelmente não
-levou outro padre a moribundos. Ficou-lhe a anecdota, que vou acabar
-já, tão escassa foi ella, uma anecdota de nada. Não importa. Qualquer
-que fosse o tamanho ou a importancia, era sempre uma fatia de vida
-para o sacristão, que ajudou o padre a guardar o pão sagrado, a despir
-a sobrepeliz, e a fazer tudo mais, antes de se despedir e sair. Saiu,
-emfim, a pé, rua acima, praia fóra, até parar á porta do commendador.</p>
-
-<p>Em caminho foi evocando toda a vida daquelle homem, antes e depois
-da commenda. Compoz o negocio, que era fornecimento de navios, creio
-eu, a familia, as festas dadas, os cargos parochiaes, commerciaes
-e eleitoraes, e daqui aos boatos e anecdotas não houve mais que um
-passo ou dous. A grande memoria de João das Mercês guardava todas as
-cousas, maximas e minimas, com tal nitidez que pareciam da vespera,
-e tão completas que nem o proprio objecto delles era capaz de as
-repetir eguaes. Sabia-as como o Padre-Nosso, isto é, sem pensar nas
-palavras; elle resava tal qual comia, mastigando a oração, que lhe
-saía dos queixos sem sentir. Se a regra mandasse rezar tres duzias de
-Padre-Nossos seguidamente, João das Mercês os diria sem contar. Tal era
-com as vidas alheias; amava sabel-as, pesquisava-as, decorava-as, e
-nunca mais lhe saiam da memoria.</p>
-
-<p>Na parochia todos lhe queriam bem, porque elle não enredava nem
-maldizia. Tinha o amor da arte pela arte. Muita vez nem era preciso
-perguntar nada. José dizia-lhe a vida de Antonio e Antonio a de José.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_131">[Pg 131]</span></p>
-
-<p>O que elle fazia era ratificar ou rectificar um com outro, e os dous
-com Sancho, Sancho com Martinho, e vice-versa, todos com todos. Assim
-é que enchia as horas vagas, que eram muitas. Alguma vez, á propria
-missa, recordava uma anecdota da vespera, e, a principio, pedia perdão
-a Deus; deixou de lh'o pedir quando reflectiu que não falhava uma só
-palavra ou gesto do santo sacrificio, tão consubstanciados os trazia em
-si. A anecdota que então revivia por instantes, era como a andorinha
-que atravessa uma paizagem. A paizagem fica sendo a mesma, e a agua,
-se ha agua, murmura o mesmo som. Esta comparação, que era delle, valia
-mais do que elle pensava, porque a andorinha, ainda voando, faz parte
-da paizagem, e a anecdota fazia nelle parte da pessoa; era um dos seus
-actos de viver.</p>
-
-<p>Quando chegou á casa do commendador, tinha desfiado o rosario da vida
-deste, e entrou com o pé direito para não sair mal. Não pensou em
-sair cedo, por mais afflicta que fosse a occasião, e nisto a fortuna
-o ajudou. Brito estava na sala da frente, em conversa com a mulher,
-quando lhe vieram dizer que João das Mercês perguntava pelo estado dos
-moribundos. A esposa retirou-se da sala, o sacristão entrou pedindo
-desculpas e dizendo que era por pouco tempo; ia passando e lembrára-se
-de saber se os enfermos tinham ido para o ceu,&mdash;ou se ainda eram deste
-mundo. Tudo o que dissesse respeito ao commendador seria ouvido por
-elle com interesse.</p>
-
-<p>&mdash;Não morreram, nem sei se escaparão; quando menos, ella creio que
-morrerá, concluiu Brito.</p>
-
-<p>&mdash;Parecem bem mal.</p>
-
-<p>&mdash;Ella, principalmente; tambem é a que mais padece<span class="pagenum" id="Page_132">[Pg 132]</span> da febre. A febre
-os pegou aqui em nossa casa, logo que chegaram de Campinas, ha dias.</p>
-
-<p>&mdash;Já estavam aqui? perguntou o sacristão, pasmado de o não saber.</p>
-
-<p>&mdash;Já; chegaram ha quinze dias,&mdash;quatorze. Vieram com o meu sobrinho
-Carlos e aqui apanharam a doença...</p>
-
-<p>Brito interrompeu o que ia dizendo; assim pareceu ao sacristão, que
-poz no semblante toda a expressão de pessoa que espera o resto.
-Entretanto, como o outro estivesse a morder os beiços e a olhar para
-as paredes, não viu o gesto de espera, e ambos se detiveram calados.
-Brito acabou andando ao longo da sala, emquanto João das Mercês dizia
-comsigo que havia alguma cousa mais que febre. A primeira idéa que lhe
-acudiu, foi se os medicos teriam errado na doença ou no remedio; tambem
-pensou que podia ser outro mal escondido, a que deram o nome de febre
-para encobrir a verdade. Ia acompanhando com os olhos o commendador,
-emquanto este andava e desandava a sala toda, apagando os passos para
-não aborrecer mais os que estavam dentro. De lá vinha algum murmurio
-de conversação, chamado, recado, porta que se abria ou fechava. Tudo
-isso era cousa nenhuma para quem tivesse outro cuidado; mas o nosso
-sacristão já agora não tinha mais que saber o que não sabia. Quando
-menos, a familia dos enfermos, a posição, o actual estado, alguma
-pagina da vida delles, tudo era conhecer algo, por mais arredado que
-fosse da parochia.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! exclamou Brito estacando o passo.</p>
-
-<p>Parecia haver nelle o desejo impaciente de referir um caso,&mdash;a
-«historia terrivel», que annunciára ao sacristão, pouco antes; mas nem
-este ousava pedil-a,<span class="pagenum" id="Page_133">[Pg 133]</span> nem aquelle dizel-a, e o commendador pegou a
-andar outra vez.</p>
-
-<p>João das Mercês sentou-se. Viu bem que em tal situação cumpria
-despedir-se com boas palavras de esperança ou de conforto, e voltar no
-dia seguinte; preferiu sentar-se e aguardar. Não viu na cara do outro
-nenhum signal de reprovação do seu gesto; ao contrario, elle parou
-defronte e suspirou com grande cançaço.</p>
-
-<p>&mdash;Triste, sim, triste, concordou João das Mercês. Boas pessoas, não?</p>
-
-<p>&mdash;Iam casar.</p>
-
-<p>&mdash;Casar? Noivos um do outro?</p>
-
-<p>Brito confirmou de cabeça. A nota era melancolica, mas não havia signal
-da historia terrivel annunciada, e o sacristão esperou por ella.
-Observou comsigo que era a primeira vez que ouvia alguma cousa de
-gente que absolutamente não conhecia. As caras, vistas ha pouco, eram
-o unico signal dessas pessoas. Nem por isso se sentia menos curioso.
-Iam casar... Podia ser que a historia terrivel fosse isso mesmo. Em
-verdade, atacados de um mal na vespera de um bem, o mal devia ser
-terrivel. Noivos e moribundos...</p>
-
-<p>Vieram trazer recado ao dono da casa; este pediu licença ao sacristão,
-tão depressa que nem deu tempo a que elle se despedisse e saisse.
-Correu para dentro, e lá ficou cincoenta minutos. Ao cabo, chegou á
-sala um pranto suffocado; logo após, tornou o commendador.</p>
-
-<p>&mdash;Que lhe dizia eu, ha pouco? Quando menos, ella ia morrer; morreu.</p>
-
-<p>Brito disse isto sem lagrimas e quasi sem tristeza. Conhecia a defunta
-de pouco tempo. As lagrimas, segundo referiu, eram do sobrinho de
-Campinas e de<span class="pagenum" id="Page_134">[Pg 134]</span> uma parenta da defunta, que morava em Mata-porcos. Dahi
-a suppôr que o sobrinho do commendador gostasse da noiva do moribundo
-foi um instante para o sacristão, mas não se lhe pegou a idéa por muito
-tempo; não era forçoso, e depois se elle proprio os acompanhára...
-Talvez fosse padrinho de casamento. Quiz saber, e era natural,&mdash;o nome
-da defunta. O dono da casa,&mdash;ou por não querer dar-lh'o,&mdash;ou porque
-outra idéa lhe tomasse agora a cabeça,&mdash;não declarou o nome da noiva,
-nem do noivo. Ambas as causas seriam.</p>
-
-<p>&mdash;Iam casar...</p>
-
-<p>&mdash;Deus a receberá em sua santa guarda, e a elle tambem, se vier a
-expirar, disse o sacristão cheio de melancolia.</p>
-
-<p>E esta palavra bastou a arrancar metade do segredo que parece anciava
-por sair da boca do fornecedor de navios. Quando João das Mercês lhe
-viu a expressão dos olhos, o gesto com que o levou á janella, e o
-pedido que lhe fez de jurar,&mdash;jurou por todas as almas dos seus que
-ouviria e calaria tudo. Nem era homem de assoalhar as confidencias
-alheias, mórmente as de pessoas gradas e honradas, como era o
-commendador. Ao que este se deu por satisfeito e animado, e então lhe
-confiou a primeira metade do segredo, a qual era que os dous noivos,
-criados juntos, vinham casar aqui quando souberam, pela parenta de
-Mata-porcos, uma noticia abominavel...</p>
-
-<p>&mdash;E foi...? precipitou-se em dizer João das Mercês, sentindo alguma
-hesitação no commendador.</p>
-
-<p>&mdash;Que eram irmãos.</p>
-
-<p>&mdash;Irmãos como? Irmãos de verdade?</p>
-
-<p>&mdash;De verdade; irmãos por parte de mãe. O pae é<span class="pagenum" id="Page_135">[Pg 135]</span> que não era o mesmo. A
-parenta não lhes disse tudo nem claro, mas jurou que era assim, e elles
-ficaram fulminados durante um dia ou mais...</p>
-
-<p>João das Mercês não ficou menos espantado que elles; dispoz-se a não
-sair dalli sem saber o resto. Ouviu dez horas, ouviria todas as demais
-da noite, velaria o cadaver de um ou de ambos, uma vez que pudesse
-juntar mais esta pagina ás outras da parochia, embora não fosse da
-parochia.</p>
-
-<p>&mdash;E vamos, vamos, foi então que a febre os tomou...?</p>
-
-<p>Brito cerrou os dentes para não dizer mais nada. Como, porém, o viessem
-chamar de dentro, acudiu depressa, e meia hora depois estava de volta,
-com a nova do segundo passamento. O choro, agora mais franco, posto que
-mais esperado, não havendo já de quem o esconder, trouxera a noticia ao
-sacristão.</p>
-
-<p>&mdash;Lá se foi o outro, o irmão, o noivo... Que Deus lhes perdôe! Saiba
-agora tudo, meu amigo. Saiba que elles se queriam tanto que alguns dias
-depois de conhecido o impedimento natural e canonico do consorcio,
-pegaram em si e, fiados em serem apenas meios irmãos e não irmãos
-inteiros, metteram-se em um <i>cabriolet</i> e fugiram de casa. Dado
-logo o alarme, alcançámos pegar o <i>cabriolet</i> em caminho da Cidade
-Nova, e elles ficaram tão pungidos e vexados da captura que adoeceram
-de febre e acabam de morrer.</p>
-
-<p>Não se póde escrever o que sentiu o sacristão, ouvindo-lhe este caso.
-Guardou-o por algum tempo, com difficuldade. Soube os nomes das pessoas
-pelo obituario dos jornaes, e combinou as circumstancias ouvidas ao
-commendador com outras. Emfim, sem se ter por indiscreto, espalhou a
-historia, só com esconder os<span class="pagenum" id="Page_136">[Pg 136]</span> nomes e contal-a a um amigo, que a passou
-a outro, este a outros, e todos a todos. Fez mais; metteu-se-lhe em
-cabeça que o <i>cabriolet</i> da fuga podia ser o mesmo dos ultimos
-sacramentos; foi á cocheira, conversou familiarmente com um empregado,
-e descobriu que sim. Donde veiu chamar-se a esta pagina a «anecdota do
-<i>cabriolet</i>.»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_139">[Pg 139]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="Paginas_criticas_e_commemorativas">Paginas criticas e commemorativas</h2>
-</div>
-
-
-<h3>GONÇALVES DIAS</h3>
-
-<p class="center">DISCURSO LIDO NO PASSEIO PUBLICO, AO INAUGURAR-SE O BUSTO DE GONÇALVES
-DIAS</p>
-
-<p>Sr. Prefeito do Districto Federal,</p>
-
-<p>A commissão que tomou a si erguer este monumento, incumbiu-me,
-como presidente da Academia Brazileira, de o entregar a V Ex.,
-como representante da cidade. O encargo é não sómente honroso, mas
-particularmente agradavel á Academia e a mim.</p>
-
-<p>Se eu houvesse de dizer tudo o que este busto exprime para nós, faria
-um discurso, e é justamente o que os autores da homenagem não devem
-querer neste momento. Conta Renan que, uma hora antes dos funeraes de
-George Sand, quando alguns cogitavam no que convinha proferir á beira
-da sepultura, ouviu-se no parque da defunta cantar um rouxinol. «Ah!
-eis o verdadeiro discurso!» disseram elles<span class="pagenum" id="Page_140">[Pg 140]</span> comsigo. O mesmo seria
-aqui, se cantasse um sabiá. A ave do nosso grande poeta seria o melhor
-discurso da occasião. Ella repetiria á alma de todos aquella canção do
-exilio que ensinou aos ouvidos da antiga mãe-patria uma licção nova
-da lingua de Camões. Não importa! A canção está em todos nós, com os
-outros cantos que elle veiu espalhando pela vida e pelo mundo, e o
-som dos golpes de Itajuba, a piedade de Y-Juca-Pyrama, os suspiros de
-Coema, tudo o que os mais velhos ouviram na mocidade, depois os mais
-jovens, e daqui em deante ouvirão outros e outros, emquanto a lingua
-que falamos fôr a lingua dos nossos destinos.</p>
-
-<p>Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins publicos. Talvez
-este busto emende o costume; mas, suppondo que não, nem por isso
-perderão os que só vierem contemplar aquella fronte que meditou paginas
-tão magnificas. A solidão e o silencio são azas robustas para os surtos
-do espirito. Quem vier a este canto do jardim, entre o mar e a rua,
-achará o que se encontra nas capellas solitarias, uma voz interior,
-e dirá pelo rosario da memoria as preces em verso que elle compoz e
-ensinou aos seus compatricios.</p>
-
-<p>E desde já ficam as duas obras juntas. Uma responderá pela outra.
-Nem V. Ex., nem os seus successores consentirão que se destrua este
-abrigo de folhas verdes, ou se arranque daqui este monumento de arte.
-Se alguem propuzer arrazar um e mudar outro, para trazer utilidade
-ao terreno, por meio de uma avenida ou cousa equivalente, o Prefeito
-recusará a concessão, dizendo que este jardim, conservado por diversos
-regimens, está agora consagrado pela poesia, que é um regimen só,
-universal, commum e perpetuo. Tambem póde declarar que a veneração<span class="pagenum" id="Page_141">[Pg 141]</span>
-dos seus grandes homens é uma virtude das cidades. E isto farão os
-Prefeitos de todos os partidos, sem aggravo do seu proprio, porque o
-poeta que ora celebramos, fiel á vocação, não teve outro partido que o
-de cantar maravilhosamente.</p>
-
-<p>Demais, se o caso fôr de utilidade, V. Ex. e os seus successores
-acharão aqui o mais util remedio ás agruras administrativas. Este busto
-consolará do trabalho acerbo e ingrato; elle dirá que ha tambem uma
-prefeitura do espirito, cujo exercicio não pede mais que o mudo bronze
-e a capacidade de ser ouvido no seu eterno silencio. E repetirá a todos
-o nome de V. Ex., que o recebeu e o dos outros que porventura vierem
-contemplal-o. Tambem aqui vinha, ha muitos annos, desenfadar-se da
-vespera, sem outro encargo nem magistratura que os seus livros, o autor
-de <i>Iracema</i>. Se já estivesse aqui este busto, elle se consolaria
-da vida com a memoria, e do tempo com a perennidade. Mas então só
-existiam as arvores. Bernardelli, que tinha de fundir o bronze de
-ambos, não povoára ainda as nossas praças com outras obras de artista
-illustre. Olavo Bilac, que promoveu a subscripção de senhoras a que se
-deve esta obra, não afinára ainda pela lyra de Gonçalves Dias a sua
-lyra deliciosa.</p>
-
-<p>Aqui fica entregue o monumento a V. Ex., Sr. Prefeito, aqui onde elle
-deve estar, como outro exemplo da nossa unidade, ligando a patria
-inteira no mesmo ponto em que a historia, melhor que leis, poz a cabeça
-da nação, perto daquelle gigante de pedra que o grande poeta cantou em
-versos masculos.</p>
-<p><span class="pagenum" id="Page_142">[Pg 142]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="UM_LIVRO">UM LIVRO</h3>
-
-
-
-<p>Aqui está um livro que ha de ser relido com apreço, com interesse,
-não raro com admiração. O autor que occupa logar eminente na critica
-brasileira, tambem enveredou um dia pela novella, como Sainte-Beuve,
-que escreveu <i>Volupté</i>, antes de attingir o summo gráo na critica
-franceza. Tambem ha aqui um narrador e um observador, e ha mais aquillo
-que não acharemos em <i>Volupté</i>, um paizagista e um miniaturista.
-Já era tempo de dar ás <i>Scenas da vida amazonica</i> outra e melhor
-edição. Eu, que as reli, achei-lhes o mesmo sabor de outr'ora. Os que
-as lerem, pela primeira vez, dirão se o meu falar desmente as suas
-proprias impressões.</p>
-
-<p>Talvez achem commigo que o titulo é exacto, sem dizer tudo. São
-effectivamente scenas daquella vida e daquelle meio; sente-se que não
-podem ser de outra parte, que foram vistas e recolhidas directamente.
-Mas não diz tudo o titulo. Tres, ao menos, das quatro novellas em que
-se divide o livro, são pequenos dramas completos. Taes o <i>Bôto</i>,
-o <i>Crime do Tapuio</i> e a <i>Sorte de Vicentina</i>. O proprio
-<i>Voluntario da patria</i> tem o drama na alma de tia Zeferina, desde
-a quietação na palhoça até aquelle adeus que ella fica acenando na
-margem, não já ao filho, que a não póde ver, nem ella a elle, mas ao
-fumo do vapor que se perde ao longe no rio, como uma sombra.</p>
-
-<p>Em todos elles, os costumes locaes e a natureza grande e rica, quando
-não é só aspera e dura, servem<span class="pagenum" id="Page_143">[Pg 143]</span> de quadro a sentimentos ingenuos,
-simples e alguma vez fortes. O Sr. José Verissimo possue o dom da
-sympathia e da piedade. As suas principaes figuras são as victimas de
-um meio rude, como Benedicta, Rosinha e Vicentina, ou ainda aquelle
-José Tapuio, que confessa um crime não existente, com o unico fim de
-salvar uma menina, ou de «fazê bem p'ra ella», como diz o texto. Não
-se irritem os amigos da lingua culta com a prosodia e a syntaxe de
-José Tapuio. Ha dessas phrases no livro, postas com arte e cabimento,
-a espaços, onde é preciso caracterisar melhor as pessoas. Ha locuções
-da terra. Ha a technologia dos usos e costumes. Ninguem esquece que
-está deante da vida amazonica, não toda, mas aquella que o Sr. José
-Verissimo escolheu naturalmente para dar-nos a visão do contraste entre
-o meio e o homem.</p>
-
-<p>O contraste é grande. A floresta e a agua envolvem e acabrunham a
-alma. A magnificencia d'aquellas regiões chega a ser excessiva. Tudo é
-innumeravel e immensuravel. São milhões, milhares e centenas os seres
-que vão pelos rios e igarapés, que espiam entre a agua e a terra, ou
-bramam e cantam na matta, em meio de um concerto de rumores, coleras,
-delicias e mysterios. O Sr. José Verissimo dá-nos a sensação daquella
-realidade. A descripção do caminho que leva ao povoado do Ereré,
-atravez do «coberto», do «lavrado» e de um espaço sem nome, é das mais
-bellas e acabadas do livro. Assim tambem a do Parú, ou antes a historia
-do rio nas duas partes do anno, de verão e de inverno, um só lago
-intermino ou muitos lagos grandes, as ilhas que nascem e desapparecem,
-com os aspectos varios do tempo e da margem.</p>
-
-<p>Não são descripções trazidas de acarreto. As pessoas das narrativas
-vão para alli continuar a acção<span class="pagenum" id="Page_144">[Pg 144]</span> começada. No Parú, como o tempo é de
-«salga», a agua é sulcada de canôas, a margem alastrada de barracas, o
-sussurro do trabalho humano espalha-se e cresce. Ahi assistimos á morte
-tragica do pelintra de Obidos, regatão de alguns dias, deixando uma
-triste moça defunta, amarella e magra. Adeante, por meio do «coberto»
-e do «lavrado», vemos correr Vicentina, com a filha de alguns mezes
-«escarranchada nos quadris», fugindo á casa do marido, depois ás onças,
-depois á solidão, que parece maior alli que em nenhuma parte; e ambas
-as scenas são das mais vivas do livro.</p>
-
-<p>Ao pé do tragico, o mesquinho, o commum, o quotidiano da existencia e
-dos costumes, que o autor pinta breve ou minuciosamente. Os pequenos
-quadros succedem-se, como o da rua Bacuri, na cidade de Obidos, á hora
-da sésta, ou no fim d'ella, quando «a natureza estira os braços n'um
-bocejo preguiçoso de quem deixa a rêde». A rêde é o movel principal das
-casas; ella serve ao somno, ao descanço, á palestra, á indolencia. Se
-a casa é pobre, pouco mais ha que ella; mas, pouco ou muito, podemos
-fiar-nos da veracidade do autor, que não perde o que seja um rasgo de
-costumes ou possa avivar a côr da realidade. Vimos o regatão; veremos a
-benzedeira, a pintadeira de cuias, a mameluca, sem exclusão do jurado,
-do promotor, do presidente de provincia.</p>
-
-<p>Nem falta aqui a observação fina e aguda. Uma senhora, a quem a tia
-Zeferina, que a criou, recorre chorando para que faça soltar o filho,
-preso para voluntario (como diziam aqui no sul), ouve a mãe tapuia, tem
-sincera pena della, promette que sim, fala do presidente da provincia,
-que é bom moço, do baile do dia 7 de Setembro, em palacio, a que ella
-foi:<span class="pagenum" id="Page_145">[Pg 145]</span> «uma festa de estrondo; as senhoras estavam todas vestidas de
-verde e amarello; muitas tinham mandado vir o vestido do Pará, mas foi
-tolice, porque em Manáos arranjava-se um vestido tão bem como no Pará;
-o della, por exemplo, foi muito gabado...» Já a tia Zeferina ouvira
-cousa analoga ao major Rabello, seu compadre, quando lhe foi contar a
-prisão do filho, e elle rompeu furioso contra os adversarios politicos.
-Todos os negocios pessoaes se vão coçando assim naquella agonia
-errante. No <i>Bôto</i>, é o proprio pae de Rosinha, que não excava
-muito as razões do abatimento mortal da filha, «por andar atarefado com
-as eleições».</p>
-
-<p>Que elle tambem ha eleições no Amazonas; é o tempo da salga politica,
-a quadra das barracas e dos regatões. Não nos dá um capitulo desses
-o Sr. José Verissimo, naturalmente por lhe não ser necessario, mas a
-rivalidade da villa e do porto de Monte Alegre é um quadro vivo do que
-são raivas locaes, os motivos que as accendem, a guerra que fazem e
-os odios que ficam. Aqui basta a questão de saber se o correio morará
-no porto, em baixo, ou na villa em cima. E porque não ha victoria sem
-foguetes, os foguetes vão contar ás nuvens o despacho presidencial. A
-sessão do jury, no <i>Crime do Tapuio</i>, é outro quadro finamente
-acabado. Tudo sem sombra de caricatura. O embarque dos voluntarios é
-outro, mas ahi a emoção discreta acompanha os movimentos mal ordenados
-dos homens. Nós os vimos desembarcar aqui, esses e outros, tropegos e
-obedientes, marchando mal, mas emfim marchando seguros para a guerra
-que já lá vae.</p>
-
-<p>Em tão varias scenas e lances, o estylo do Sr. José Verissimo (salvo
-nos <i>Esbocetos</i>, cuja estructura é differente)<span class="pagenum" id="Page_146">[Pg 146]</span> é já o estylo
-correntio e vernaculo dos seus escriptos posteriores. Já então vemos o
-homem feito de mão assentada, dominando a materia. Ha, a mais uma nota
-de poesia, a graça e o vigor das imagens que outra sorte de trabalhos
-nem sempre consentem. Aqui está a frente da casa do sitio em que
-Rosinha nasceu: «A palha da cobertura, não aparada, dava-lhe o aspecto
-alvar das creanças que trazem os cabellos cahidos na testa.» No tempo
-da pesca emigram, não só os homens, mas tambem os cães e os urubús. Os
-cães são magros e famintos: «Cães magros, com as costellas salientes,
-como se houvessem engolido arcos de barris...» Os urubús pousam nas
-arvores, alguma vez baixam ao solo, andando «com o seu passo rythmado
-de anjos de procissão». A umas arvores que ha na grande charneca
-do «coberto», bastava mostral-as por uma imagem curta e viva, «em
-posições retorcidas de entrevados». Mas não se contenta o nosso autor
-de as dizer assim: em terra tal, tudo ha de vibrar ao calor do sol:
-«Dir-se-hia que o sol, que abraza aquellas paragens, obriga-as a taes
-contorções violentas e paralysa-as depois...»</p>
-
-<p>Ha muitas dessas imagens originaes e expressivas; melhor é lel-as ou
-relel-as intercaladas na narração e na descripção. Chateaubriand,
-escrevendo em 1834 a Sainte-Beuve, justamente a proposito de
-<i>Volupté</i>, que acabava de sahir do prélo, pergunta-lhe admirado
-como é que elle, René, não achára tantas outras. «Comment n'ai-je pas
-trouvé <i>ces deux vieillards et ces deux enfants entre lesquels une
-révolution a passé</i>...» etc. Desculpe a pontinha de vaidade, é
-de Chateaubriand, e alguma cousa se ha de perdoar ao genio. Mas, em
-verdade, mais de um de nós outros poderiamos dizer com sinceridade e
-modestia como é<span class="pagenum" id="Page_147">[Pg 147]</span> que nos não acudiram taes e taes imagens do nosso
-autor, pois que ellas trazem a feição de cousas antes saidas do
-tinteiro que compostas no papel.</p>
-
-<p>Tambem é dado perguntar porque é que o Sr. José Verissimo deixou logo
-um terreno que soube arrotear com fructo. Elle dirá, em uma nota,
-falando dos <i>Esbocetos</i>, que o fructo era da primeira mocidade. Vá
-que sim; mas as <i>Scenas</i> trazem outra experiencia, e a boa terra
-não é esquecida, se se lhe encommenda alguma cousa com amor.</p>
-
-<p>Até lá, fiquem-nos estas <i>Scenas da vida amazonica</i>. Mais tarde,
-algum critico da escola do autor compulsará as suas paginas para
-restituir costumes extinctos. Muito estará mudado. Onde José Tapuio
-lutou com a sicurijú até matal-a, outro homem estudará alguma nova
-força da natureza até reduzil-a ao domestico. Coberto e lavrado
-darão melhor caminho ás pessoas. Já agora, como disse nhâ Miloca á
-mãe tapuia, os vestidos fazem-se tão bons em Manáos como em Belém. A
-politica irá pelas tesouras da costureira, e a natureza agasalhará
-todas as artes, suas hospedas. Tal critico, se tiver o mesmo dom de
-analyse do Sr. José Verissimo, achará que um testemunho esclarecido
-é mais cabal que outro, e regalará os seus leitores dando-lhe este
-depoimento feito com emoção, com exacção e com estylo.</p>
-
-
-<h3>EDUARDO PRADO</h3>
-
-<p>A ultima vez que vi Eduardo Prado foi na vespera de deixar o Rio de
-Janeiro para recolher a S. Paulo, dizem que com o germen do mal e da
-morte em si.<span class="pagenum" id="Page_148">[Pg 148]</span> Naquella occasião era todo vida e saúde. Quem então me
-dissesse que elle ia tambem deixar o mundo, não me causaria espanto,
-porque a injustiça da natureza acostuma a gente aos seus golpes; mas,
-é certo que eu buscaria maneira de obter outras horas como aquella, em
-que me detivesse ao pé delle, para ouvil-o e admiral-o.</p>
-
-<p>Só falámos de arte. Ouvi-lhe noticias e impressões, senti-lhe o
-gosto apurado e a critica superior, tudo envolvido naquelle tom
-ameno e simples, que era um relevo mais aos seus dotes. Não tinhamos
-intimidade; faltou-nos tempo e a pratica necessaria. Antes daquella vez
-ultima, apenas falámos tres ou quatro, o bastante para consideral-o
-bem e cotejar o homem com o escriptor. Eduardo Prado era dos que se
-deixam penetrar sem esforço e com prazer. O que agora li a seu respeito
-na primeira mocidade, na escola e nos ultimos annos, referido por
-amigos que parecem não o esquecer mais, confirma a minha impressão
-pessoal. Aliás, os seus escriptos mostravam bem o homem. Apanhava-se o
-sentimento da harmonia que ajustava nelle a vida moral, intellectual e
-social.</p>
-
-<p>Principalmente artista e pensador, possuia o divino horror á
-vulgaridade, ao logar commum e á declamação. Se entrasse na vida
-politica, que apenas atravessou com a penna, em dias de luta, levaria
-para ella qualidades de primeira ordem, não contando o <i>humour</i>,
-tão diverso da chalaça e tão original nelle. Mas a erudição e a
-historia, não menos que a arte, eram agora o seu maior encanto. Sabia
-bem todas as cousas que sabia.</p>
-
-<p>Naturalmente remontei commigo, durante aquella boa hora, e ainda depois
-della, ao tempo das cartas de viagem que nos deu tão rica amostra de um
-grande<span class="pagenum" id="Page_149">[Pg 149]</span> talento que viria a crescer e subir. A materia em si convidava
-ao egotismo, mas elle não padecia desse mal. Tambem faria correr
-o risco da repetição de cousas vistas e pintadas, que se não acha
-aqui. A faculdade de ver claro e largo, a arte de dizer originalmente
-a sensação pessoal, elle as possuia como os principaes que hajam
-andado as terras ou rasgado os mares deste mundo. Invenção de estylo,
-observação aguda, erudição discreta e vasta, graça, poesia e imaginação
-produziram essas paginas vivas e saborosas. Aquella partida de Napoles,
-sob um céo chuvoso e de chumbo, não se esquece. Relê-se com encanto
-essa explicação do tempo aspero, durante o qual o céo napolitano se
-recompõe, para começar novamente a opera «com os córos de pescadores e
-as barcarolas, a musica de luz e de azul». Assim a Africa, assim todas
-as partes onde quer que este brasileiro levou a ancia de ver homens e
-cousas, cidades e costumes, a natureza vária entre ruínas perpetuas,
-através de regiões remotas...</p>
-
-<p>Conta-se que elle chorou, quando morreu Eça de Queiroz. Agora, que
-ambos são mortos, alguem que imaginasse e escrevesse o encontro das
-duas sombras, á maneira de Luciano, daria uma curiosa pagina de
-psychologia. As confabulações de taes espiritos são dignas de memoria.
-Sterne escreveu que «um dia, conversando com Voltaire...» e imagina-se
-o que diriam elles. Imagina-se o que diriam, todas as noites, Stendhal
-e Byron, passeando no solitario <i>foyer</i> do theatro Scala. Quando
-Montaigne ouvia as historias que Amyot lhe ia contar, podemos ver a
-delicia de ambos e admittir que as visitas continuam no outro mundo.
-Assim se podia dizer do Eça e do Eduardo, por um texto que exprimisse
-o talento, o amor das<span class="pagenum" id="Page_150">[Pg 150]</span> cousas finas e bellas, e, emfim, a grande
-sympathia que um inspirava ao outro.</p>
-
-<p>Quando me despedi de Eduardo Prado, naquelle dia, vim perguntando a mim
-mesmo se teria vida bastante para ler e admirar as obras-primas que
-esse talentoso brasileiro levava no cerebro em gestação, ou em germen,
-e durante muitos annos viriam abastecer a nossa lingua e a nossa terra.
-Seis dias depois, era elle que morria. Chamei injusta á natureza;
-bastaria dizer&mdash;indifferente.</p>
-
-
-<h3>ANTONIO JOSÉ</h3>
-
-<p>Um dia destes, relembrando uma passagem da tragedia que Magalhães
-consagrou á memoria de Antonio José, adverti na resposta dada pelo
-judeu ao conde de Ericeira, quando este lhe recommenda que imite
-Molière; o judeu responde que Molière escrevia para francezes e elle
-não. Será essa resposta a rigorosa expressão da verdade? Antonio José
-não se modelou, certamente, pelas obras do grande comico, não cogitou
-jamais da simples pintura dos vicios e dos caracteres. Molière caminhou
-do <i>Medico Volante</i> e dos <i>Zelos de Barbouillé</i> á <i>Escola
-das Mulheres</i> e ao <i>Tartufo</i>; Antonio José não passou das
-<i>Guerras do Alecrim e Mangerona</i>, e, dado que tentasse fazel-o,
-é certo que não poderia ir muito além. Não tinha centro apropriado,
-nem largas vistas; faltavam-lhe outros meios, outros intuitos; e, se
-porventura entrou em seu espirito reatar a tradição de Gil Vicente,
-levantando sobre os alicerces lançados por esse operario<span class="pagenum" id="Page_151">[Pg 151]</span> do seculo XVI
-as paredes de um theatro regular, convinha justamente não imitar nada,
-nem ninguem, não se fazer Molière, nem Plauto, ficar Antonio José; é a
-condição das obras vivas.</p>
-
-<p>Interpretada desse modo, é exacta e verdadeira a resposta que Magalhães
-põe na boca do judeu; mas só desse modo. O <i>Amphytrião</i> prova que
-o nosso poeta alguma cousa imitou e transplantou de Molière, a tal
-ponto que forçosamente o tinha deante de si, ou na banca de trabalho ou
-na memoria; e, porque esta observação não haja sido feita, cuido que
-interessará, quando menos, a titulo de curiosidade litteraria. Ao mesmo
-tempo, direi o que me parece do escriptor e da sua obra.</p>
-
-<p>E, antes de mais nada, occorre ponderar que Antonio José gosa de
-uma reputação sobre palavra. A fogueira de 18 de Outubro de 1739
-illuminou-lhe a figura de maneira que o puderam ver todos os olhos;
-a tragedia do Sr. Magalhães vulgarisou-o entre as nossas platéas de
-ha 40 annos; mas só os estudiosos o terão lido, e nem todos, porque
-a tarefa exige constancia e esforço, embora de certo modo os pague.
-Póde-se dizer, sem erro, que elle pertence á familia dos poetas
-comicos, qualquer que seja o grau de parentesco,&mdash;com a circumstancia
-que era um desperdiçado,&mdash;trocava a boa moeda do comico pelo cobre
-vulgar do burlesco. Mas, poeta comico era-o, e de boa veia;&mdash;mais de
-certo que Nicolau Luiz, que lhe succedeu na estima das platéas de
-Lisboa, mais ainda que Manuel de Figueiredo, cujas intenções literarias
-abafaram, talvez, a livre expansão do engenho, e que aliás escrevia
-de si mesmo que&mdash;«havendo-se enganado comsigo em infinitas cousas,
-nunca se preoccupou de que tinha graça.» Accresce<span class="pagenum" id="Page_152">[Pg 152]</span> que o fim tragico
-do judeu communica ás suas paginas alegres e juvenis um reflexo de
-sympathica melancolia, que ainda mais nos convida a percorrel-as e
-estudal-as. A piedade não é de certo razão determinativa em pontos de
-critica, e tal poetastro haverá que, succumbindo a uma grande injustiça
-social, somente inspire compaixão sem desafiar a analyse. Não é o caso
-de Antonio José; este mereceria por si só que o estudassemos, ainda
-despido das occorrencias tragicas que lhe circumdam o nome.</p>
-
-<p>Nenhuma das comedias do judeu se póde dizer excellente e perfeita;
-ha porém graus entre ellas, e a todas sobreleva a das <i>Guerras do
-Alecrim e Mangerona</i>. Nesta, como nas demais, nota-se de certo
-muita espontaneidade, viveza de dialogo, graça de estylo, variedade
-de situações, e certo conhecimento de scena; mas a alma de todas
-ellas não é grande; vive-se alli de enredo e de apparato. Se ao poeta
-foi estranha a invenção dos caracteres e a pintura dos vicios, não
-menos o foi a transcripção dos costumes locaes. Salvo o <i>Alecrim e
-Mangerona</i>, todas as suas peças são inteiramente alheias á sociedade
-e ao tempo; a <i>Esopaida</i> tem por base um assumpto antigo; a
-<i>Vida de D. Quixote</i> põe em scena o personagem de Cervantes; as
-outras peças são todas mythologicas. Podiam estas, não obstante o
-rotulo, conter a pintura dos costumes e da sociedade cujo producto
-eram; mas, comquanto em taes composições influa muito o moderno, não se
-descobre nellas nenhuma intenção daquella natureza.</p>
-
-<p>Ao contrario, a intenção quasi exclusiva do poeta era a galhofa, e tal
-galhofa que transcendia muita vez as raias da conveniencia publica.
-Nenhuma de suas peças,&mdash;operas é o nome classico,&mdash;nenhuma<span class="pagenum" id="Page_153">[Pg 153]</span> é isenta
-de expressões baixas e até obscenas, com que elle, segundo lhe arguia
-um prelado, «chafurdou na immundicie.» Tinha razão o prelado, mas não
-basta ter razão; cumpre saber tel-a. Ora, a baixeza e a obscenidade
-das locuções não eram novidade na scena portugueza, nem na de outros
-paizes; e, deixando de ir agora a exemplos estranhos á nossa lingua,
-basta lembrar que o <i>Cioso</i>, de Ferreira, do culto autor da
-<i>Castro</i>, foi dado por Figueiredo com a declaração de ter sido
-«expurgado segundo o melindre dos ouvidos do nosso seculo.» Gil
-Vicente, sem embargo de se representarem suas peças na côrte de D.
-João III e D. Manuel, adubava-as ás vezes de especies que nos parecem
-hoje bem pouco exquisitas. As operas do judeu eram dadas num theatro
-popular; não as ouvia a côrte de D. João V, mas o povo e os burguezes
-de Lisboa, cujas orelhas não teriam ainda os melindres que mais tarde
-lhes attribuiu Figueiredo. A differença entre Antonio José e os outros
-era afinal uma questão de quantidade; mas, se o tempo lh'o permittia
-e, com o tempo, a censura, que muito é que o poeta reincidisse? Não é
-isto escusal-o, mas explical-o. Deixemos os trocados e equivocos, que
-são um chiste de mau gosto, mácula de estylo, que o poeta exagerou até
-á puerilidade, cedendo a si mesmo e ao riso das platéas. Outro defeito
-que se lhe argúe, é o tom guindado e os arrebiques de conceito, que se
-notam em muitas falas de certos personagens, os deuses, principes e
-heróes. Um de seus biographos, comparando o estylo de taes personagens
-com o dos criados e pessoas infimas, que são simples e naturaes, suppõe
-que houve no poeta intenção satyrica, opinião que me parece carecer de
-fundamento, entre outras razões porque não ha sempre aquella differença
-de<span class="pagenum" id="Page_154">[Pg 154]</span> estylo, e não é raro falarem os principaes personagens do mesmo
-modo natural e recto, que os de condição inferior. Guindam-se muita
-vez, mas era achaque do tempo e exageração na maneira de empregar o
-estylo nobre, porque havia então um estylo nobre; e, se o judeu teve
-alguma vez intenção satyrica, arrebicando ou empolando a expressão,
-tal intenção foi sómente literaria e nenhuma outra. Que diremos dos
-anachronismos de linguagem? Esses são constantes e excessivos. Os
-dobrões de Alcmena, a alcunha de <i>alfacinha</i> dada a Amphytrião,
-Juno chrismada em Felizarda, um criado antigo «de corpo á ingleza,»
-outro com «relogio de pendurucalhos,» deviam promover a gargalhada
-franca do povo. Esse fugir do meio e da acção para a realidade
-presente vae algumas vezes além, como na <i>Esopaida</i>, em que o
-heróe, falando de sua vida, diz que anda em livros pelo mundo&mdash;«e
-agora me dizem que se está representando no Bairro-Alto.» Já na
-<i>Vida de D. Quixote</i> havia o poeta posto a mesma cousa na boca
-de Sancho, quando o cavalleiro, vendo um barco amarrado, pergunta ao
-escudeiro:&mdash;«Sabes onde estamos?&mdash;Sei bem.&mdash;Aonde?&mdash;No Bairro-Alto.» O
-judeu podia responder que tal séstro foi o de Regnard e o de Boursault,
-por exemplo, que poz o seu Esopo a tomar café e metteu com elle
-esposas de tabelliães; podia citar muitos outros exemplos anteriores
-e contemporaneos, e a critica se incumbiria de apontar os que vieram
-depois delle; mas não vale a pena.</p>
-
-<p>Venhamos ao <i>Amphytrião</i>. Um erudito escriptor, o Sr. Theophilo
-Braga, suppõe que a intenção do poeta, nessa comedia, foi pintar em
-Jupiter a pessoa de D. João V, supposição que detidamente examinei
-e me parece inteiramente gratuita. Cuido que o critico<span class="pagenum" id="Page_155">[Pg 155]</span> faz de uma
-coincidencia um proposito, e fundamenta a sua suspeita na possivel
-analogia das aventuras do deus pagão e do rei christão. A analogia
-podia ser um elemento de prova, mas desacompanhada de outras
-não faz chegar a nenhum resultado definitivo. Ora, basta ler o
-<i>Amphytrião</i>, basta comparar a situação do poeta e o tempo para
-varrer do espirito semelhante hypothese. Certo, não faltava audacia
-ao poeta; ahi está, como exemplo, a definição da justiça, feita
-por Sancho, na <i>Vida de D. Quixote</i>; mas entre a generalidade
-desse trecho e a satyra pessoal do <i>Amphytrião</i> vae um abysmo.
-Occorre-me que do <i>Amphytrião</i> de Molière tambem se disse ser
-allusão a Luiz XIV, com a differença que em França não se attribuiu a
-Molière a intenção de ferir, mas de ser agradavel ao rei, que lhe havia
-encommendado aquella apotheose de suas proprias aventuras, opinião
-esta que foi de todo condemnada. Não, não ha motivo para attribuir a
-Antonio José a intenção que lhe suppõe o Sr. Theophilo Braga; e, se tal
-intenção existisse, o desenlace da comedia, quando Jupiter se declara
-acima da lei, viria a ser de um sarcasmo tão crú que não alcançariamos
-comprehendel-o naquelle seculo.</p>
-
-<p>Evidentemente, o judeu achou na aventura pagã o mesmo que lhe acharam
-Plauto, Molière e Camões,&mdash;um assumpto prestadio ás combinações
-scenicas, e, demais, singularmente proprio para as chufas do
-Bairro-Alto. Desnecessario é dizer os tramites dessa travessura de
-Jupiter, que, namorado de Alcmena, toma a figura do marido e vae á casa
-della, acompanhado de Mercurio, que copia as feições de Sosias, criado
-de Amphytrião. O nosso poeta seguiu no principal a fabula que encontrou
-nos antecessores, fazendo-lhe<span class="pagenum" id="Page_156">[Pg 156]</span> todavia as alterações suscitadas pelo
-gosto proprio e das platéas. Assim, o Sosias de Plauto, de Molière e
-de Camões é na peça de Antonio José um Saramago. Não lhe mudou elle o
-essencial; trocando-lhe o nome, obedeceu ao systema de dar aos criados
-nomes burlescos. O de Jason, nos <i>Encantos de Medéa</i>, chama-se
-Sacatrapos; ha nas outras operas um Carangueijo, um Esfusiote, um
-Chichisbéu. São nomes, não valem mais que nomes. Nem Molière chamou
-Dandin ao principal personagem de uma de suas comedias sinão para o
-caracterisar desde logo de um modo jovial; não pretendeu outra cousa.
-Comtudo, a observação em relação a Antonio José tem o valor de um rasgo
-significativo.</p>
-
-<p>Cotejando o <i>Amphytrião</i> de Antonio José com os de seus
-antecessores, vê-se o que elle imitou dos modelos, e o que de sua casa
-introduziu. Já disse que no principal os seguiu a todos; mas nem sempre
-soube escolher, e darei disso um exemplo claro. Camões, que não sendo
-poeta comico, era todavia homem de tacto e gosto, corrigiu, antes
-de Molière, o desenlace do <i>Amphytrião</i> de Plauto. Na comedia
-deste, logo depois de explicar Jupiter os equivocos da situação e de
-annunciar ao marido de Alcmena que o filho desta é seu, mostra-se
-Amphytrião inteiramente satisfeito e glorioso com o desenlace. Camões
-supprimiu tão singular contentamento, e o mesmo fez Molière; em ambos
-os poetas Amphytrião ouve silencioso as declarações do pae dos deuses,
-sem que Alcmena assista a ellas. Antonio José não só não seguiu nessa
-parte os modelos recentes, mas até carregou a mão sobre o que imitou
-de Plauto. A alegria do seu Amphytrião e da sua Alcmena é tão franca,
-tamanho é o alvoroço dos dous esposos, que realmente chega a offender
-as<span class="pagenum" id="Page_157">[Pg 157]</span> leis da verosimilhança, ainda tratando-se de um caso divino. Neste
-ponto Antonio José foi antes inadvertido do que obrigado do gosto
-publico. Outro caso. Nas comedias anteriores não ha nenhum logar em
-que Alcmena veja ao mesmo tempo os dois Amphytriões, e isto não só era
-necessario para prolongar e justificar os equivocos, mas até o exigia a
-verosimilhança, porque, desde que Alcmena chegasse a ver juntos os dous
-exemplares exactos do marido, saía da boa fé que serve de fundamento á
-sua illusão, para cair no maravilhoso e no inextricavel. E é justamente
-o que acontece na comedia do judeu.</p>
-
-<p>Vamos agora ao que o judeu imitou directamente de Molière. Ha na
-comedia daquelle um caracter, o de Cornucopia, mulher de Saramago,
-que não tem equivalente na de Plauto, nem na de Camões, e que só na
-de Molière existe. «Molière (é observação de La Harpe), fazendo de
-Cleanthis mulher de Sosias, inventou uma situação parallela á de
-Amphytrião e Alcmena, dando-lhe porém differente aspecto; Cleanthis
-pertence ao numero das esposas que, por serem honestas, cuidam ter o
-direito de ser insupportaveis». Ora bem, a situação e o caracter de
-Cleanthis transportou-os o judeu para o seu <i>Amphytrião</i>, e não
-se póde dizer encontro fortuito, senão deliberado proposito. Basta
-cotejal-os com espirito advertido; a differença é de tom, de estylo;
-substancialmente, a invenção é a mesma; as proprias idéas reproduzem-se
-ás vezes na obra do judeu. Assim, logo na scena em que Mercurio
-transformado em Saramago (Sosias) encontra a mulher deste, achamos o
-traço commum aos dois poetas.</p>
-
-<p>Na comedia de Molière:</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_158">[Pg 158]</span></p>
-<div class="blockquot" xml:lang="fr" lang="fr">
-<p class="center">
-CLEANTHIS</p>
-<p class="poetry p0">
-<span style="margin-left: 6em;">Regarde, traitre, Amphytrion;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vois comme pour Alcmène il étale de flamme;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Et rougis là-dessus du peu de passion</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Que tu témoignes pour ta femme.</span></p>
-
-<p class="center">MERCURIO</p>
-<p class="poetry p0">
-<span style="margin-left: 1em;">Hé! mon Dieu! Cléanthis, ils sont encore amants.</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Il est certain âge où tout passe;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Et ce qui leur sied bien dans ces commencements,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">En nous, vieux mariés, aurait mauvaise grâce.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Il nous ferait beau voir, attachés face à face,</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">A pousser les beaux sentiments!</span></p>
-<p class="center">CLEANTHIS</p>
-<p class="poetry p0">Mérites-tu, pendard, cet insigne bonheur<br />
-<span style="margin-left: 1em;">De te voir pour épouse une femme d'honneur?</span></p>
-<p class="center">MERCURIO</p>
-<p class="poetry p0">Mon Dieu! tu n'es que trop honnête;<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ce grand honneur ne me vaut rien.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ne sois point si femme de bien,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Et me romps un peu moins la tête.</span><br />
-</p>
-</div>
-<p>Agora Antonio José:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="center">CORNUCOPIA</p>
-
-<p>Tambem nosso amo trazia bastante fome, e comtudo está dizendo á nossa
-ama tanta cousa galantinha que faria derreter uma pedra</p>
-
-<p class="center">MERCURIO</p>
-
-<p>Com que é o mesmo nossos amos do que nós? Elles casadinhos de um anno,
-e nós ha um seculo? Elles senhores e rapazes, e nós velhos e moços?<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a>
-Elles dous jasmins e nós dous lagartos? E finalmente elles com amor, e
-nós, ou pelo menos eu, sem nenhum?</p>
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> Criados.</p>
-
-</div>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_159">[Pg 159]</span></p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="center">CORNUCOPIA</p>
-
-<p>Ora o certo é que peior é fazer festa a villões ruins; por estas, que
-se tu conheceras a mulher que tens, que outra cousa fôra; talvez que
-se eu fôra alguma dessas bonecrinhas enfeitadas que me quizeras mais;
-porém a culpa tenho eu em não aceitar o que me davam nas tuas costas.</p>
-
-<p class="center">MERCURIO</p>
-
-<p>Pois ainda estás em tempo...</p>
-
-<p>Trata-se, como se vê, de um caracter e de uma situação integralmente
-transcriptos, embora de outro geito, cedendo o poeta aos seus habitos
-literarios, á sua indole e ao seu meio. Nem é sómente na introducção
-do caracter de Cornucopia, e na situação dos dous personagens, que
-Antonio José revela ter deante de si ou na memoria a peça de Molière,
-ha ainda outro vestigio; ha uma idéa na scena em que Jupiter se
-despede de Alcmena,&mdash;idéa que o judeu expressa deste modo:</p>
-
-<p class="center">ALCMENA</p>
-
-<p>Este amor nasce da obrigação.</p>
-
-<p class="center">JUPITER</p>
-
-<p>Pois quizera que esta fineza nascera mais do teu amor que da tua
-obrigação.</p>
-
-<p class="center">ALCMENA</p>
-
-<p>A obrigação de amar ao esposo supera toda a obrigação.</p>
-
-<p class="center">JUPITER</p>
-
-<p>Pois mais devera que me quizeras como a amante que como a esposo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_160">[Pg 160]</span></p>
-
-<p class="center">ALCMENA</p>
-
-<p>Não sei fazer esta differença, pois não posso amar-te como a esposa,
-sem que te ame como a amante.</p>
-</div>
-
-<p>Na comedia de Molière:</p>
-<div class="blockquot" xml:lang="fr" lang="fr">
-<p class="center">JUPITER</p>
-<p class="poetry p0"><span style="margin-left: 7em;">En moi, belle et charmante Alcmène,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vous voyez un mari, vous voyez un amant;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mais l'amant seul me touche, à parler franchement;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Et je sens près de vous que le mari me gêne.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cet amant, de vos vœux jaloux au dernier point,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Souhaite qu'à lui seul votre amour s'abandonne.</span></p>
-<p class="center">ALCMENA</p>
-<p class="poetry p0">
-<span style="margin-left: 1em;">Je ne sépare point ce qu'unissent les dieux;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Et l'époux et l'amant me sont fort précieux.</span><br />
-</p>
-</div>
-<p>Se, neste ponto, já se não trata de uma situação, de um caracter novo,
-mas de uma idéa entrelaçada no dialogo, importa repetir que, ainda
-imitando ou recordando, o judeu se conserva fiel á sua physionomia
-literaria; póde ir buscar a especiaria alheia, mas ha de ser para
-temperal-a com o molho da sua fabrica. Dessa inclinação ao baixo-comico
-achamos outro exemplo na <i>Esopaida</i>, cujo assumpto fôra tratado,
-antes delle, por Boursault. O caracter tradicional de Esopo era
-pouco apropriado á comedia: é um moralista, um autor de apologos,
-mas Boursault trouxe-o assim mesmo para a scena, unico modo de lhe
-conservar a côr original. O Esopo de Antonio José parece antes um
-exemplar apurado daquelles lacaios argutos e atrevidos da comedia
-classica; salvo dous ou tres<span class="pagenum" id="Page_161">[Pg 161]</span> logares, é outro genero de Sacatrapos
-ou Chichisbéo; figura alli com agudezas e trocadilhos. Ha destes
-extremamente bufões, como o da bacia das almas, e disso e de pouco
-mais se compõe a philosophia de Esopo. Não obstante essa côr geral,
-notam-se alli toques de bom comico, embora leves e a espaços. Ha
-tambem, e principalmente, a veia satyrica, na scena que quasi todos
-os seus biographos transcrevem,&mdash;a das theses dos philosophos, scena
-extremamente chistosa, e que o proprio Diniz, com toda a sua veia do
-<i>Hyssope</i> e do <i>Falso Heroismo</i>, não sei se chegaria a fazer
-mais acabada. Compare-se essa scena com a da invasão do Parnaso pelos
-maus poetas, na <i>Vida de D. Quixote</i>, e ver-se-ha que havia no
-talento de Antonio José uma forte dóse de satyra,&mdash;o que, de certa
-maneira, lhe diminuia a força comica. Nessas duas peças é, aliás,
-sensivel a habilidade theatral do poeta, que não tinha propriamente
-uma acção em nenhuma dellas, e, não obstante, logrou condensar a vida
-dos episodios, manter a unidade do interesse e angariar o applauso
-publico. Accresce que o seu D. Quixote não tem o defeito capital do
-seu Esopo; o poeta soube dar-lhe alguns toques da ingenuidade sublime,
-que caracterisa o typo de Cervantes: é o que se vê logo, na exposição,
-quando D. Quixote responde ao barbeiro acerca da armada que se prepara
-para combater o turco:&mdash;«Para que se cançam com tantas machinas? diz
-elle. Eu lhes déra um bom arbitrio com que, em menos de uma hora,
-vençam quantas armadas e armadilhas o turco tiver.» É ocioso dizer que
-o arbitrio seria a cavallaria andante.</p>
-
-<p>De todas as comedias, porém, a que goza as honras da primazia, é a das
-<i>Guerras do Alecrim e Mangerona</i>, e com razão; é a mais acabada e
-a mais comica. Tem<span class="pagenum" id="Page_162">[Pg 162]</span> o gosto do tempo, e até um resaibo da maneira de
-Calderon, que de si mesmo escrevia:</p>
-
-<p class="poetry p0" xml:lang="es" lang="es">
-<span style="margin-left: 1em;">Es comedia de Don Pedro</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Calderon, d'onde hade haber,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por fuerza, amante escondido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Y rebozada mujer.</span><br />
-</p>
-
-<p>Ha alli com effeito mulheres rebuçadas e amantes escondidos, e tanta
-vida como nas peças de Calderon.</p>
-
-<p>Não trato aqui do facto que poderia ter dado logar á obra do judeu,
-nem das duvidas de Costa e Silva sobre se os dois <i>ranchos</i> do
-<i>alecrim</i> e da <i>mangerona</i> existiam antes da comedia, ou se
-esta os fez nascer; é investigação que não vale a pena de um minuto, e
-aliás o texto do poeta é claro. Em tudo se avantaja o <i>Alecrim</i> e
-<i>mangerona</i>, até na linguagem, que é ahi muito menos obscena que
-nas outras, differença que se póde attribuir ao progresso do talento,
-porquanto já no <i>Labyrintho de Creta</i> se dá o mesmo phenomeno.
-Não direi, como Garrett, que essa peça teria hoje todo o valor de
-uma comedia historica; mas assim mesmo, quem lhe vê as figuras, a
-seculo e meio de distancia, parece contemplar uma gravura em que ellas
-conservam as feições e o vestuario do tempo,&mdash;os namorados pobres,
-o velho avarento que arde por se ver livre das sobrinhas, e que, ao
-annunciarem-lhe a chegada do pretendente provinciano, manda deitar
-«mais um ovo nos espinafres,» D. Tiburcio, as duas damas, o Semicupio e
-a velha Fagundes, todo o pessoal da antiga farça.</p>
-
-<p>Superior ás outras composições, como estylo e originalidade, não menos
-o é como viveza, graça e movimento: e, se a farça domina, não é tanto
-que não appareça a comedia. Basta apontar, por exemplo, a<span class="pagenum" id="Page_163">[Pg 163]</span> scena da
-consulta medica, por occasião do desastre de D. Tiburcio, que é uma
-das melhores do theatro do judeu, e não ficaria vexada si a puzessemos
-ao lado das de Molière e Gil Vicente. Para não faltar nada, ha tambem
-aphorismos latinos, e até uma copla latina, digna de Molière. Podemos
-considerar o <i>Alecrim e Mangerona</i> como uma das melhores comedias
-do seculo XVIII.</p>
-
-<p>Ler o <i>Alecrim e Mangerona</i>, o <i>Amphytrião</i>, a
-<i>Esopaida</i> e o <i>D. Quixote</i>, é avaliar todo o poeta, com suas
-qualidades boas e más, com o geito do seu espirito e influencia do
-seu tempo. Nicolau Luiz, Figueiredo, Diniz e Garção, no mesmo seculo,
-tiveram talvez mais intenção comica do que Antonio José, mas os meios
-deste eram maiores, possuiam outra virtualidade, outra espontaneidade,
-outra abundancia. Dir-se-ha que, se a Inquisição o deixára viver,
-Antonio José produziria alguma obra de esphera superior? Repito: não
-creio que elle subisse muito acima do <i>Alecrim e Mangerona</i>; iria
-talvez ao ponto de fazer alguma cousa parecida com o <i>Avaro</i>, mas
-não faria todo o <i>Avaro</i>.</p>
-
-<p>Agora, a seculo e meio de distancia, podemos affirmar que Antonio
-José foi um destino decapitado. Qualquer que fosse a natureza do
-seu engenho, é fóra de duvida que o auto da fé em que elle pereceu,
-devorou com a mesma flamma assaz de paginas alegres e vivazes. A
-prova de que o theatro poderia ainda esperar muito de Antonio José,
-está na comparação das obras delle com a vida delle. Era um christão
-novo, como tal suspeitado e perseguido; aos vinte e um annos padeceu
-um primeiro processo, e sabe-se que terriveis eram os processos
-inquisitoriaes; basta dizer que o delinquente revelou todos os seus
-complices<span class="pagenum" id="Page_164">[Pg 164]</span> em judaismo, com a maior franqueza e minuciosidade, o que
-se póde explicar pela tenra edade do poeta, mas tambem pelo terror
-que o tribunal infundia, não menos que pela exhortação mansa com que
-os inquisidores extorquiam a confissão de todos os erros e a denuncia
-de todos os complices,&mdash;sem prejuizo, aliás, do carcere e da polé.
-Pois bem, não obstante os vestigios e as lembranças desse primeiro
-acto da Inquisição, não obstante o espectaculo do que padeciam os
-seus, as operas de Antonio José trazem o sabor de uma mocidade
-imperturbavelmente feliz, a facecia grossa e petulante, tal como lh'a
-pedia o paladar das platéas, nenhum vislumbre do episodio tragico,
-salvo uns versos do <i>Amphytrião</i> que se creem, (e, quanto a mim,
-sem outro fundamento além da conjectura) como applicaveis a elle mesmo.
-Mas ainda suppondo que a conjectura tenha razão, admittindo mais que
-a allegoria da justiça na <i>Vida de D. Quixote</i> seja o resumo das
-queixas pessoaes do poeta (supposição tão fragil como aquella), a
-verdade é que os successos da vida delle não influiram, não diminuiram
-a força nativa do talento, nem lhe torceram a natureza, que estava
-muito longe da hypocondria. Molière, que, se nem sempre teve flores no
-caminho, não conheceu o infimo dos padecimentos de Antonio José, foi o
-creador de Alceste; o nosso judeu, dado que tivesse a mesma intensidade
-de talento, não escolheria nunca o assumpto do <i>Misanthropo</i>.</p>
-
-<p>Nisto, menos que em nenhuma outra cousa, imitaria elle o grande mestre.
-Não lhe fossem propôr graves problemas, nem maximas profundas, nem
-os caracteres, nem as altas observações que formam o argumento das
-comedias de outra esphera, nem sobretudo as melancolias de Molière e
-Shakespeare. O<span class="pagenum" id="Page_165">[Pg 165]</span> nosso judeu era a farça, a genuina farça, sem outras
-pretenções, sem mais remotas vistas que os limites do seu bairro e do
-seu tempo. Certo, eu posso hoje, á fina força, arrancar alguma idéa
-inicial das operas do judeu; por exemplo, ao ver nos <i>Encantos de
-Medéa</i> a dedicação da feiticeira de Colchos, que tráe os deveres
-filiaes e põe todas as suas artes ao serviço de Jason, ao ponto de lhe
-entregar o vellocino e ao ver que, apezar de tudo isto, o principe
-foge com Creusa, posso, digo eu, attribuir ao poeta a intenção de que
-o reconhecimento não é o caminho do amor e que um coração póde ser
-legitimamente ingrato. Seria logico, seria bem deduzido da acção, mas
-não passaria de obra da critica, inteiramente alheia á intenção do
-poeta, que achou no assumpto uma farça de tramoias e nada mais. Esta
-é a ultima conclusão que rigorosamente se póde tirar do poeta. Elle
-não imitou, não chegaria a imitar Molière, ainda que repetisse as
-transcripções que fez no <i>Amphytrião</i>; tinha originalidade, embora
-a influencia das operas italianas. Convenhamos que era um engenho sem
-disciplina, nem gosto, mas caracterisco e pessoal.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_169">[Pg 169]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="Nao_consultes_medico">Não consultes medico</h2>
-</div>
-
-
-<h3>PESSOAS</h3>
-
-<p class="p0 poetry">
-D. LEOCADIA <br />
-D. ADELAIDE<br />
-D. CARLOTA<br />
-CAVALCANTE<br />
-MAGALHAES<br />
-</p>
-
-<p class="center">Um gabinete em casa de Magalhães, na Tijuca.</p>
-
-
-<h3>SCENA I</h3>
-
-<p class="center">MAGALHÃES, D. ADELAIDE</p>
-
-<p class="center">Magalhães lê um livro, D. Adelaide folhea um livro de gravuras.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Esta gente não terá vindo?</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Parece que não. Já sairam ha um bom pedaço; felizmente o dia está
-fresco. Titia estava tão contente ao almoço! E hontem? Você viu que
-risadas que ella dava, ao jantar, ouvindo o Dr. Cavalcante? E o
-Cavalcante serio. Meu Deus, que homem triste! que cara de defunto!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_170">[Pg 170]</span></p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Coitado do Cavalcante! Mas que quererá ella commigo? Falou-me em um
-obsequio.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Sei o que é.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Que é?</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Por ora é segredo. Titia quer que levemos Carlota comnosco.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Para a Grecia?</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Sim, para a Grecia.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES,</p>
-
-<p>Talvez ella pense que a Grecia é em Pariz. Eu acceitei a legação de
-Athenas porque não me dava bem em Guatemala, e não ha outra vaga na
-America. Nem é só por isso; você tem vontade de ir acabar a lua de mel
-na Europa... Mas então Carlota vae ficar comnosco?</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>É só algum tempo. Carlota gostava muito de um tal Rodrigues, capitão de
-engenharia, que casou com uma viuva hespanhola. Soffreu muito, e ainda
-agora anda meia triste; titia diz que ha de cural-a.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_171">[Pg 171]</span></p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES, <i>rindo</i></p>
-
-<p>É a mania della.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE, <i>rindo</i></p>
-
-<p>Só cura molestias moraes.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>A verdade é que nos curou; mas, por muito que lhe paguemos em
-gratidão, fala-nos sempre da nossa antiga molestia. «Como vão os meus
-doentesinhos? Não é verdade que estão curados?»</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Pois falemos-lhe nós da cura, para lhe dar gosto. Agora quer curar a
-filha.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Do mesmo modo?</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Por ora não. Quer mandal-a á Grecia para que ella esqueça o capitão de
-engenharia.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Mas, em qualquer parte se esquece um capitão de engenharia.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Titia pensa que a vista das ruinas e dos costumes differentes cura mais
-depressa. Carlota está com dezoito para dezenove annos; titia não a
-quer casar antes dos vinte. Desconfio que já traz um noivo em<span class="pagenum" id="Page_172">[Pg 172]</span> mente,
-um moço que não é feio, mas tem o olhar espantado.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>É um desarranjo para nós; mas, emfim, póde ser que lhe achemos lá
-na Grecia algum descendente de Alcibiades que a preserve do olhar
-espantado.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Ouço passos. Ha de ser titia...</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Justamente! Continuemos a estudar a Grecia.</p>
-
-<p class="center">(<i>Sentam-se outra vez, Magalhães lendo, D. Adelaide folheando o livro
-de vistas.</i>)</p>
-
-
-<h3>SCENA II</h3>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Os Mesmos e D. LEOCADIA</span></p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA (<i>pára á porta, desce pé ante pé, e mette a cabeça entre
-os dous</i>.)</p>
-
-<p>Como vão os meus doentesinhos? Não é verdade que estão curados?</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES, <i>aparte</i> </p>
-<p>É isto todos os dias.</p>
-<p class="center">
-D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Agora estudam a Grecia; fazem muito bem. O paiz do casamento é que
-vocês não precisaram estudar.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_173">[Pg 173]</span></p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>A senhora foi a nossa geographia, foi quem nos deu as primeiras licções.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Não diga licções, diga remedios. Eu sou doutora, eu sou medica. Este
-(<i>indicando Magalhães</i>), quando voltou de Guatemala, tinha um ar
-exquisito; perguntei-lhe se queria ser deputado, disse-me que não;
-observei-lhe o nariz, e vi que era um triste nariz solitario...</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Já me disse isto cem vezes.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA, <i>voltando-se para elle e continuando</i></p>
-
-<p>Esta (<i>designando Adelaide</i>) andava hypocondriaca. O medico da
-casa receitava pilulas, capsulas, uma porção de tolices que ella não
-tomava, porque eu não deixava; o medico devia ser eu.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Foi uma felicidade. Que é que se ganha em engolir pilulas?</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Apanham-se molestias.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Uma tarde, fitando eu os olhos de Magalhães...</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Perdão, o nariz.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_174">[Pg 174]</span></p>
-
-<p class="center">ADELAIDE</p>
-
-<p>Vá lá. A senhora disse-me que elle tinha o nariz bonito, mas muito
-solitario. Não entendi; dous dias depois, perguntou-me se queria casar,
-eu não sei que disse, e acabei casando.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Não é verdade que estão curados?</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Perfeitamente.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>A proposito, como irá o Dr. Cavalcante? Que exquisitão! Disse-me hontem
-que a cousa mais alegre do mundo era um cemiterio. Perguntei-lhe se
-gostava aqui da Tijuca, respondeu-me que sim, e que o Rio de Janeiro
-era uma grande cidade. «É a segunda vez que a vejo, disse elle; eu
-sou do Norte. É uma grande cidade, José Bonifacio é um grande homem,
-a rua do Ouvidor um poema, o chafariz da Carioca um bello chafariz, o
-Corcovado, o gigante de pedra, Gonçalves Dias, os <i>Tymbiras</i>, o
-Maranhão...» Embrulhava tudo a tal ponto que me fez rir. Elle é doudo?</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Não.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>A principio, cuidei que era. Mas o melhor foi quando se serviu o perú.
-Perguntei-lhe que tal achava o perú. Ficou pallido, deixou cair o
-garfo, fechou<span class="pagenum" id="Page_175">[Pg 175]</span> os olhos e não me respondeu. Eu ia chamar a attenção de
-vocês, quando elle abriu os olhos e disse com voz surda: «D. Leocadia,
-eu não conheço o Perú...» Eu, espantada, perguntei: «Pois não está
-comendo...?» «Não falo desta pobre ave; falo-lhe da republica.»</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Pois conhece a republica.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Então mentiu.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Não, porque nunca lá foi.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA (<i>a D.Adelaide</i>)</p>
-
-<p>Mau! seu marido parece que tambem está virando o juizo. (<i>A
-Magalhães</i>) Conhece então o Perú, como vocês estão conhecendo a
-Grecia... pelos livros.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Tambem não.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Pelos homems?</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Não, senhora.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Então pelas mulheres?</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Nem pelas mulheres.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Por uma mulher?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_176">[Pg 176]</span></p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Por uma mocinha, filha do ministro do Perú em Guatemala. Já contei a
-historia a Adelaide. (<i>D. Adelaide senta-se folheando o livro de
-gravuras</i>.)</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA, <i>senta-se</i></p>
-
-<p>Ouçamos a historia. É curta?</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Quatro palavras. Cavalcante estava em commissão do nosso governo, e
-frequentava o corpo diplomatico, onde era muito bem visto. Realmente,
-não se podia achar creatura mais dada, mais expansiva, mais estimavel.
-Um dia começou a gostar da peruana. A peruana era bella e alta, com uns
-olhos admiraveis. Cavalcante, dentro de pouco, estava doudo por ella,
-não pensava em mais nada, não falava de outra pessoa. Quando a via
-ficava extatico. Se ella gostava delle, não sei; é certo que o animava,
-e já se falava em casamento. Puro engano! Dolores voltou para o Perú,
-onde casou com um primo, segundo me escreveu o pae.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Elle ficou desconsolado, naturalmente.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Ah! não me fale! Quiz matar-se; pude impedir esse acto de desespero, e
-o desespero desfez-se em lagrimas. Caiu doente, uma febre que quasi o
-levou. Pediu dispensa da commissão, e, como eu tinha obtido seis mezes
-de licença, voltámos juntos. Não imagina o abatimento em que ficou, a
-tristeza profunda; chegou<span class="pagenum" id="Page_177">[Pg 177]</span> a ter as idéas baralhadas. Ainda agora, diz
-alguns disparates, mas emenda-se logo e ri de si mesmo.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Quer que lhe diga? Já hontem suspeitei que era negocio de amores;
-achei-lhe um riso amargo... Terá bom coração?</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Coração de ouro.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Espirito elevado?</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Sim, senhora.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Espirito elevado, coração de ouro, saudades... Está entendido.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Entendido o que?</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Vou curar o seu amigo Cavalcante. De que é que vocês se espantam?</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>De nada.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>De nada, mas...</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Mas que?</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Parece-me...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_178">[Pg 178]</span></p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Não parece nada; vocês são uns ingratos. Pois se confessam que eu curei
-o nariz de um e a hypocondria do outro, como é que põem em duvida que
-eu possa curar a maluquice do Cavalcante? Vou cural-o. Elle virá hoje?</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Não vem todos os dias; ás vezes passa-se uma semana.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Mora perto daqui; vou escrever-lhe que venha, e, quando chegar,
-dir-lhe-hei que a senhora é o maior medico do seculo; cura o moral...
-Mas, minha tia, devo avisal-a de uma cousa; não lhe fale em casamento.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Oh! não!</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Fica furioso quando lhe falam em casamento; responde que só se ha de
-casar com a morte... A senhora exponha-lhe...</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Ora, meu sobrinho, vá ensinar o <i>padre-nosso</i> ao vigario. Eu sei
-o que elle precisa, mas quero estudar primeiro o doente e a doença. Já
-volto.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Não lhe diga que eu é que lhe contei o caso da peruana...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_179">[Pg 179]</span></p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Pois se eu mesma adivinhei que elle soffria do coração. (<i>Sae; entra
-Carlota.</i>)</p>
-
-
-<h3>SCENA III</h3>
-
-<p class="center">MAGALHÃES, D. ADELAIDE, D. CARLOTA</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Bravo! está mais corada agora!</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Foi do passeio.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>De que é que você gosta mais, da Tijuca ou da cidade?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Eu por mim, ficava mettida aqui na Tijuca.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Não creio. Sem bailes? sem theatro lyrico?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Os bailes cançam, e não temos agora theatro lyrico.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Mas, em summa, aqui ou na cidade, o que é preciso é que você ria; esse
-ar tristonho faz-lhe a cara feia.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_180">[Pg 180]</span></p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Mas eu rio. Ainda agora não pude deixar de rir vendo o Dr. Cavalcante.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Porque?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Elle passava ao longe, a cavallo, tão distrahido que levava a cabeça
-caida entre as orelhas do animal; ri da posição, mas lembrei-me que
-podia cair e ferir-se, e estremeci toda.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Mas não caiu?</p>
-
-<p class="center">CARLOTA</p>
-
-<p>Não.</p>
-
-<p class="center">ADELAIDE</p>
-
-<p>Titia viu tambem?</p>
-
-<p class="center">CARLOTA</p>
-
-<p>Mamãe ia-me falando da Grecia, do ceu da Grecia, dos monumentos da
-Grecia, do rei da Grecia; toda ella é Grecia, fala como se tivesse
-estado na Grecia.</p>
-
-<p class="center">ADELAIDE</p>
-
-<p>Você quer ir comnosco para lá?</p>
-
-<p class="center">CARLOTA</p>
-
-<p>Mamãe não ha de querer.</p>
-
-<p class="center">ADELAIDE</p>
-
-<p>Talvez queira. (<i>Mostrando-lhe as gravuras do livro</i>)<span class="pagenum" id="Page_181">[Pg 181]</span> Olhe que
-bonitas vistas! Isto são ruinas. Aqui está uma scena de costumes. Olhe
-esta rapariga com um pote...</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES, <i>á janella</i></p>
-
-<p>Cavalcante ahi vem.</p>
-
-<p class="center">CARLOTA</p>
-
-<p>Não quero vel-o.</p>
-
-<p class="center">ADELAIDE</p>
-
-<p>Porque?</p>
-
-<p class="center">CARLOTA</p>
-
-<p>Agora que passou o medo, posso rir-me lembrando a figura que elle fazia.</p>
-
-<p class="center">ADELAIDE</p>
-
-<p>Eu tambem vou. (<i>Saem as duas; Cavalcante apparece á porta, Magalhães
-deixa a janella.</i>)</p>
-
-
-<h3>SCENA IV</h3>
-
-<p class="center">CAVALCANTE e MAGALHÃES</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Entra. Como passaste a noite?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Bem. Dei um bello passeio; fui até ao Vaticano e vi o papa.
-(<i>Magalhães olha espantado.</i>) Não te assustes, não estou doudo.
-Eis o que foi: o meu cavallo ia para um lado e o meu espirito para
-outro. Eu pensava em fazer-me frade; então todas as minhas idéas
-vestiram-se de burel, e entrei a ver sobrepelizes e<span class="pagenum" id="Page_182">[Pg 182]</span> tochas; emfim,
-cheguei a Roma, apresentei-me á porta do Vaticano e pedi para ver o
-papa. No momento em que Sua Santidade appareceu, prosternei-me, depois
-estremeci, despertei e vi que o meu corpo seguira atraz do sonho, e que
-eu ia quasi caindo.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Foi então que a nossa prima Carlota deu comtigo ao longe.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Tambem eu a vi, e, de vexado, piquei o cavallo.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Mas, então ainda não perdeste essa idéa de ser frade?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Que paixão romanesca!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não, Magalhães; reconheço agora o que vale o mundo com as suas
-perfidias e tempestades. Quero achar um abrigo contra ellas; esse
-abrigo é o claustro. Não sairei nunca da minha cella, e buscarei
-esquecer deante do altar...</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Olha que vaes cair do cavallo!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não te rias, meu amigo!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_183">[Pg 183]</span></p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Não; quero só accordar-te. Realmente, estás ficando maluco. Não penses
-mais em semelhante moça. Ha no mundo milhares e milhares de moças
-eguaes á bella Dolores.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Milhares e milhares? Mais uma razão para que eu me esconda em um
-convento. Mas é engano; ha só uma, e basta.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Bem; não ha remedio se não entregar-te á minha tia.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Á tua tia?</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Minha tia crê que tu deves padecer de alguma doença moral,&mdash;e
-adivinhou,&mdash;e fala de curar-te. Não sei se sabes que ella vive na
-persuasão de que cura todas as enfermidades moraes.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Oh! eu sou incuravel!</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Por isso mesmo deves sujeitar-te aos seus remedios. Se te não curar,
-dar-te-ha alguma distracção, e é o que eu quero. (<i>Abre a charuteira,
-que está vazia</i>). Olha, espera aqui, lê algum livro; eu vou buscar
-charutos. (<i>Sae; Cavalcante pega num livro e senta-se.</i>)</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_184">[Pg 184]</span></p>
-
-
-<h3>SCENA V</h3>
-
-<p class="center">CAVALCANTE, D. CARLOTA, apparecendo ao fundo.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Primo... (<i>Vendo Cavalcante</i>) Ah! perdão!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE (<i>erguendo-se</i>)</p>
-
-<p>Perdão de que?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Cuidei que meu primo estava aqui; vim buscar um livro de gravuras de
-prima Adelaide; está aqui...</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>A senhora viu-me passar a cavallo, ha uma hora, n'uma posição incommoda
-e inexplicavel.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Perdão, mas...</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Quero dizer-lhe que eu levava na cabeça uma idéa séria, um negocio
-grave.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Creio.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Deus queira que nunca possa entender o que era! Basta crer. Foi a
-distracção que me deu aquella postura inexplicavel. Na minha familia
-quasi todos são distrahidos. Um dos meus tios morreu na guerra do<span class="pagenum" id="Page_185">[Pg 185]</span>
-Paraguay, por cousa de uma distracção; era capitão de engenharia...</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA, <i>perturbada</i>.</p>
-
-<p>Oh! não me fale!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Porque? Não póde tel-o conhecido.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Não, senhor; desculpe-me, sou um pouco tonta. Vou levar o livro á minha
-prima.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Peço-lhe perdão, mas...</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Passe bem. (<i>Vae até á porta.</i>)</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Mas, eu desejava saber...</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Não, não, perdôe-me (<i>Sae.</i>)</p>
-
-
-<h3>SCENA VI</h3>
-
-<p class="center">CAVALCANTE, só</p>
-
-<p>Não comprehendo; não sei se a offendi. Falei no tio João Pedro, que
-morreu no Paraguay, antes della nascer...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_186">[Pg 186]</span></p>
-
-
-<h3>SCENA VII</h3>
-
-<p class="center">CAVALCANTE, D. LEOCADIA</p>
-
-<p class="center">D. Leocadia, <i>ao fundo, aparte</i>.</p>
-
-<p>Está pensando (<i>Desce.</i>) Bom dia, Dr. Cavalcante!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Como passou, minha senhora?</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Bem, obrigada. Então meu sobrinho deixou-o aqui só?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Foi buscar charutos, já volta.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Os senhores são muito amigos.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Somos como dous irmãos.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Magalhães é um coração de ouro, e o senhor parece-me outro. Acho-lhe só
-um defeito, doutor... Desculpe-me esta franqueza de velha; acho que o
-senhor fala trocado.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Disse-lhe hontem algumas tolices, não?</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Tolices, é muito; umas palavras sem sentido.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_187">[Pg 187]</span></p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Sem sentido, insensatas, vem a dar na mesma.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA, <i>pegando-lhe nas mãos</i>.</p>
-
-<p>Olhe bem para mim (<i>Pausa.</i>) Suspire. (<i>Cavalcante suspira.</i>)
-O senhor está doente; não negue que está doente,&mdash;moralmente,
-entenda-se; não negue! (<i>Solta-lhe as mãos.</i>)</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Negar seria mentir. Sim, minha senhora, confesso que tive um
-grandissimo desgosto...</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Jogo de praça?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não, senhora.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Ambições politicas mallogradas?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não conheço politica.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Algum livro mal recebido pela imprensa?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Só escrevo cartas particulares.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Não atino. Diga francamente; eu sou medico de<span class="pagenum" id="Page_188">[Pg 188]</span> enfermidades moraes, e
-posso cural-o. Ao medico diz-se tudo. Ande, fale, conte-me tudo, tudo,
-tudo. Não se trata de amores?...</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE, <i>suspirando</i>.</p>
-
-<p>Trata-se justamente de amores.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Paixão grande?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Oh! immensa!</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Não quero saber o nome da pessoa, não é preciso. Naturalmente, bonita?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Como um anjo!</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>O coração também era de anjo?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Póde ser, mas de anjo mau.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Uma ingrata...</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Uma perversa!</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Diabolica...</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Sem entranhas!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_189">[Pg 189]</span></p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Vê que estou adivinhando. Console-se; uma creatura dessas não acha
-casamento.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Já achou!</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Já?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Casou, minha senhora; teve a crueldade de casar com um primo.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Os primos quasi que não nascem para outra cousa. Diga-me, não procurou
-esquecer o mal nas folias proprias de rapazes?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Oh! não! Meu unico prazer é pensar nella.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Desgraçado! Assim nunca ha de sarar.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Vou tratar de esquecel-a.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>De que modo?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>De um modo velho, alguns dizem que já obsoleto e archaico. Penso em
-fazer-me frade. Ha de haver em<span class="pagenum" id="Page_190">[Pg 190]</span> algum recanto do mundo um claustro em
-que não penetre sol nem lua.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Que illusão! Lá mesmo achará a sua namorada. Ha de vel-a nas paredes da
-cella, no tecto, no chão, nas folhas do breviario. O silencio far-se-ha
-boca da moça, a solidão será o seu corpo.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Então estou perdido. Onde acharei paz e esquecimento?</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Póde ser frade sem ficar no convento. No seu caso o remedio
-naturalmente indicado é ir prégar... na China, por exemplo. Va prégar
-aos infieis na China. Paredes de convento são mais perigosas que olhos
-de chinezas. Ande, vá pregar na China. No fim de dez annos está curado.
-Volte, metta-se no convento e não achará lá o diabo.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Está certa que na China...</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Certissima.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>O seu remedio é muito amargo! Porque é que me não manda antes para o
-Egypto? Também é paiz de infieis.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Não serve; é a terra daquella rainha... Como se chama?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_191">[Pg 191]</span></p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Cleopatra? Morreu ha tantos seculos!</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Meu marido disse que era uma desmiolada.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Seu marido era, talvez, um erudito. Minha senhora, não se aprende amor
-nos livros velhos, mas nos olhos bonitos; por isso, estou certo de que
-elle adorava a V. Ex.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Ah! ah! Já o doente começa a adular o medico. Não, senhor, ha de ir á
-China. Lá ha mais livros velhos que olhos bonitos. Ou não tem confiança
-em mim?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Oh! tenho, tenho. Mas ao doente é permittido fazer uma careta antes de
-engolir a pilula. Obedeço; vou para a China. Dez annos, não?</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA, <i>levanta-se</i>.</p>
-
-<p>Dez ou quinze, se quizer; mas antes dos quinze está curado.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Vou.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Muito bem. A sua doença é tal que só com remedios fortes. Vá; dez annos
-passam depressa.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Obrigado, minha senhora.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_192">[Pg 192]</span></p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Até logo.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não, minha senhora, vou já.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Já para a China!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Vou arranjar as malas, e amanhã embarco para a Europa; vou a Roma,
-depois sigo immediatamente para a China. Até daqui a dez annos.
-(<i>Estende-lhe a mão.</i>)</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Fique ainda uns dias...</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não posso.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Gosto de ver essa pressa; mas, emfim, póde esperar ainda uma semana.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não, não devo esperar. Quero ir ás pilulas, quanto antes; é preciso
-obedecer religiosamente ao medico.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem fé no medico. O
-peior é que daqui a pouco, talvez, não se lembre delle.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Oh! não! Hei de lembrar-me sempre, sempre!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_193">[Pg 193]</span></p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>No fim de dous annos escreva-me; informe-me sobre o seu estado, e
-talvez eu o faça voltar. Mas, não minta, olhe lá; se já tiver esquecido
-a namorada, consentirei que volte.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Obrigado. Vou ter com seu sobrinho, e depois vou arranjar as malas.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Então não volta mais a esta casa?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Virei daqui a pouco, uma visita de dez minutos, e depois desço, vou
-tomar passagem no paquete de amanhã.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Jante, ao menos, comnosco.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Janto na cidade.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Bem, adeus; guardemos o nosso segredo. Adeus, Dr. Cavalcante. Creia-me:
-o senhor merece estar doente. Ha pessoas que adoecem sem merecimento
-nenhum; ao contrario, não merecem outra cousa mais que uma saude de
-ferro. O senhor nasceu para adoecer; que obediencia ao medico! que
-facilidade em engolir todas as nossas pilulas! Adeus!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Adeus, D. Leocadia. (<i>Sae pelo fundo.</i>)</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_194">[Pg 194]</span></p>
-
-
-<h3>SCENA VIII</h3>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA, D. ADELAIDE</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Com dous annos de China está curado. (<i>Vendo entrar Adelaide</i>) O
-Dr. Cavalcante saiu agora mesmo. Ouviste o meu exame medico?</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Não. Que lhe pareceu?</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Cura-se.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>De que modo?</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Não posso dizer; é segredo profissional.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Em quantas semanas fica bem?</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Em dez annos.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Misericordia! Dez annos!</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Talvez dous; é moço, é robusto, a natureza ajudará a medicina,
-comquanto esteja muito atacado. Ahi vem teu marido.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_195">[Pg 195]</span></p>
-
-
-<h3>SCENA IX</h3>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Os mesmos</span>, MAGALHÃES</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES, <i>a D. Leocadia</i>.</p>
-
-<p>Cavalcante disse-me que vae embora; eu vim correndo saber o que é que
-lhe receitou.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Receitei-lhe um remedio energico, mas que ha de salval-o. Não são
-consolações de cacaracá. Coitado! Soffre muito, está gravemente doente;
-mas, descancem, meus filhos, juro-lhes, á fé do meu gráo, que hei de
-cural-o. Tudo é que me obedeça, e este obedece. Oh! aquelle crê em mim.
-E vocês, meus filhos? Como vão os meus doentesinhos? Não é verdade que
-estão curados? (<i>Sae pelo fundo.</i>)</p>
-
-
-<h3>SCENA X</h3>
-
-<p class="center">MAGALHÃES, D. ADELAIDE</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Tinha vontade de saber o que é que ella lhe receitou.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Não falemos disso.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Sabes o que foi?</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Não; mas titia disse-me que a cura se fará em dez<span class="pagenum" id="Page_196">[Pg 196]</span> annos. (<i>Espanto
-de Magalhães.</i>) Sim, dez annos; talvez dous, mas a cura certa é em
-dez annos.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES, <i>atordoado</i>.</p>
-
-<p>Dez annos!</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Ou dous.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Ou dous?</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Ou dez.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Dez annos! Mas é impossivel! Quiz brincar comtigo. Ninguem leva dez
-annos a sarar; ou sára antes ou morre.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Talvez ella pense que a melhor cura é a morte.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Talvez. Dez annos!</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Ou dous; não esqueças.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Sim, ou dous; dous annos é muito, mas, ha casos... Vou ter com elle.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Se titia quiz enganar a gente, não é bom que os estranhos saibam.
-Vamos falar com ella, talvez que,<span class="pagenum" id="Page_197">[Pg 197]</span> pedindo muito, ella diga a verdade.
-Não leves essa cara assustada; é preciso falar-lhe naturalmente, com
-indifferença.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Pois vamos.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Pensando bem, é melhor que eu vá só; entre mulheres...</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Não; ella continuará a zombar de ti; vamos juntos, estou sobre brazas.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Vamos.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Dez annos!</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE</p>
-
-<p>Ou dous. (<i>Saem pelo fundo.</i>)</p>
-
-
-<h3>SCENA XI</h3>
-
-<p class="center">D. CARLOTA, entrando pela direita.</p>
-
-<p>Ninguem! Afinal foram-se! Esta casa anda hoje cheia de mysterios. Ha um
-quarto de hora quiz vir aqui, e prima Adelaide disse-me que não, que
-se tratavam aqui negocios graves. Pouco depois levantou-se e saiu; mas
-antes disso contou-me que mamãe é que quer que eu vá para a Grecia. A
-verdade é que todos me falam de Athenas, de ruinas, de danças gregas,
-da Acropole... Creio que é Acropole que se<span class="pagenum" id="Page_198">[Pg 198]</span> diz. (<i>Pega no livro que
-Magalhães estivera lendo, senta-se, abre e lê</i>) «Entre os proverbios
-gregos, ha um muito fino: Não consultes medico; consulta alguem que
-tenha estado doente.» Consultar alguem que tenha estado doente! Não sei
-que possa ser. (<i>Continua a ler em voz baixa.</i>)</p>
-
-
-<h3>SCENA XII</h3>
-
-<p class="center">D. CARLOTA, CAVALCANTE</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE, <i>ao fundo</i>.</p>
-
-<p>D. Leocadia! (<i>Entra e fala de longe a Carlota, que está de
-costas.</i>) Quando eu ia a sair, lembrei-me...</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Quem é? (<i>Levanta-se.</i>) Ah! doutor!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Desculpe-me, vinha falar á senhora sua mãe para lhe pedir um favor.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Vou chamal-a.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não se incommode; falar-lhe-hei logo. Saberá por acaso se a senhora sua
-mãe conhece algum cardeal em Roma?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Não sei, não, senhor.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Queria pedir-lhe uma carta de apresentação; voltarei<span class="pagenum" id="Page_199">[Pg 199]</span> mais tarde
-(<i>Corteja, sae e pára.</i>) Ah! aproveito a occasião para lhe
-perguntar ainda uma vez em que é que a offendi?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>O senhor nunca me offendeu.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Certamente que não; mas ainda ha pouco, falando-lhe de um tio meu, que
-morreu no Paraguay, tio João Pedro, capitão de engenharia...</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA, <i>atalhando</i>.</p>
-
-<p>Porque é que o senhor quer ser apresentado a um cardeal?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Bem respondido! Confesso que fui indiscreto com a minha pergunta. Já
-ha de saber que eu tenho distracções repentinas, e quando não caio
-no ridiculo, como hoje de manhã, caio na indiscreção. São segredos
-mais graves que os seus. É feliz, é bonita, póde contar com o futuro,
-emquanto que eu... Mas eu não quero aborrecel-a. O meu caso ha de andar
-em romances. (<i>Indicando o livro que ella tem na mão</i>) Talvez
-nesse.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Não é romance. (<i>Dá-lhe o livro.</i>)</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não? (<i>Lê o titulo</i>) Como? Está estudando a Grecia?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Estou.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_200">[Pg 200]</span></p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Vae para lá?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Vou, com prima Adelaide.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Viagem de recreio, ou vae tratar-se?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Deixe-me ir chamar mamãe.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Perdôe-me ainda uma vez; fui indiscreto, retiro-me. (<i>Dá alguns
-passos para sair.</i>)</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Doutor! (<i>Cavalcante pára.</i>) Não se zangue commigo; sou um pouco
-tonta, o senhor é bom...</p>
-
-<p class="center">Cavalcante, <i>descendo</i>.</p>
-
-<p>Não diga que sou bom; os infelizes são apenas infelizes. A bondade é
-toda sua. Ha poucos dias que nos conhecemos, e já nos zangámos, por
-minha causa. Não proteste; a causa é a minha molestia.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>O senhor está doente?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Mortalmente.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Não diga isso!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_201">[Pg 201]</span></p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Ou gravemente, se prefere.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Ainda é muito. E que molestia é?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Quanto ao nome, não ha accordo: loucura, espirito romanesco e muitos
-outros. Alguns dizem que é amor. Olhe, está outra vez aborrecida
-commigo!</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Oh! não, não, não. (<i>Procurando rir.</i>) É o contrario; estou até
-muito alegre. Diz-me então que está doente, louco...</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Louco de amor, é o que alguns dizem. Os autores divergem. Eu prefiro
-amor, por ser mais bonito, mas a molestia, qualquer que seja a causa, é
-cruel e terrivel. Não póde comprehender este <i>imbroglio</i>; peça a
-Deus que a conserva nessa boa e feliz ignorancia. Porque é que me está
-olhando assim? Quer talvez saber...</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Não, não quero saber nada.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não é crime ser curiosa.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Seja ou não loucura, não quero ouvir historias como a sua.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_202">[Pg 202]</span></p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Já sabe qual é?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Não.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não tenho direito de interrogal-a; mas ha já dez minutos que estamos
-neste gabinete, falando de cousas bem exquisitas para duas pessoas que
-apenas se conhecem.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA, <i>estendendo-lhe a mão</i></p>
-
-<p>Até logo.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>A sua mão está fria. Não se vá ainda embora; hão de achal-a agitada.
-Socegue um pouco, sente-se (<i>Carlota senta-se.</i>) Eu retiro-me.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Passe bem.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Até logo.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Volta logo?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não, não volto mais; queria enganal-a.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Enganar-me porque?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Porque já fui enganado uma vez. Ouça-me; são<span class="pagenum" id="Page_203">[Pg 203]</span> duas palavras. Eu gostava
-muito de uma moça que tinha a sua belleza, e ella casou com outro. Eis
-a minha molestia.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA, <i>erguendo-se</i></p>
-
-<p>Como assim?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>É verdade; casou com outro.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA, <i>indignada</i></p>
-
-<p>Que acção vil!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não acha?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>E ella gostava do senhor?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Apparentemente; mas, depois vi que eu não era mais que um passatempo.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA, <i>animando-se aos poucos</i></p>
-
-<p>Um passatempo! Fazia-lhe juramentos, dizia-lhe que o senhor era a sua
-unica ambição, o seu verdadeiro Deus, parecia orgulhosa em contemplal-o
-por horas infinitas, dizia-lhe tudo, tudo, umas cousas que pareciam
-cair do ceu, e suspirava...</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Sim, suspirava, mas...</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA, <i>muito animada</i></p>
-
-<p>Um dia abandonou-o, sem uma só palavra de saudade<span class="pagenum" id="Page_204">[Pg 204]</span> nem de consolação,
-fugiu e foi casar com uma viuva hespanhola!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE, <i>espantado</i></p>
-
-<p>Uma viuva hespanhola!</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Ah! tem muita razão em estar doente!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Mas que viuva hespanhola é essa de que me fala?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA, <i>caindo em si</i></p>
-
-<p>Eu falei-lhe de uma viuva hespanhola?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Falou.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Foi engano... Adeus, sr. doutor.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Espere um instante. Creio que me comprehendeu. Falou com tal paixão que
-os medicos não têm. Oh! como eu execro os medicos! principalmente os
-que me mandam para a China.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>O senhor vae para a China?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Vou; mas não diga nada! foi sua mãe que me deu esta receita.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_205">[Pg 205]</span></p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>A China é muito longe!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Creio até que está fóra do mundo.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Tão longe porque?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Boa palavra essa. Sim, porque ir á China, se a gente póde sarar na
-Grecia? Dizem que a Grecia é muito efficaz para estas feridas; ha quem
-affirme que não ha melhor para as que são feitas pelos capitães de
-engenharia. Quanto tempo vae lá passar?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Não sei. Um anno, talvez.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Crê que eu possa sarar n'um anno?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>É possivel.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Talvez sejam precisos dous,&mdash;dous ou tres.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Ou tres.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Quatro, cinco...</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Cinco, seis...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_206">[Pg 206]</span></p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Depende menos do paiz que da doença.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Ou do doente.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Ou do doente. Já a passagem do mar póde ser que me faça bem. A minha
-molestia casou com um primo. A sua (perdôe esta outra indiscreção; é a
-ultima) a sua casou com a viuva hespanhola. As hespanholas, mórmente
-viuvas, são detestaveis. Mas, diga-me uma cousa: se uma pessoa já está
-curada, que é que vae fazer á Grecia?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Convalescer, naturalmente. O senhor, como ainda está doente, vae para a
-China.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Tem razão. Entretanto, começo a ter medo de morrer... Pensou alguma vez
-na morte?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Pensa-se nella, mas lá vem um dia em que a gente acceita a vida, seja
-como fôr.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Vejo que sabe muita cousa.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Não sei nada; sou uma tagarella, que o senhor obrigou a dar por páos
-e por pedras; mas, como é a ultima<span class="pagenum" id="Page_207">[Pg 207]</span> vez que nos vemos, não importa.
-Agora, passe bem.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Adeus, D. Carlota!</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Adeus, doutor!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Adeus. (<i>Dá um passo para a porta do fundo.</i>) Talvez eu vá a
-Athenas; não fuja se me vir vestido de frade.</p>
-
-<p class="center">D.CARLOTA (<i>indo a elle</i>)</p>
-
-<p>De frade? O senhor vae ser frade?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Frade. Sua mãe approva-me, comtanto que eu vá á China. Parece-lhe que
-devo obedecer a esta vocação, ainda depois de perdida?</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>É difficil obedecer a uma vocação perdida.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Talvez nem a tivesse, e ninguem se deu ao trabalho de me dissuadir.
-Foi aqui, a seu lado, que comecei a mudar. A sua voz sae de um coração
-que padeceu tambem, e sabe falar a quem padece. Olhe, julgue-me
-doudo, se quizer, mas eu vou pedir-lhe um favor: conceda-me que a ame
-(<i>Carlota, perturbada, volta o rosto</i>). Não lhe peço que me ame,
-mas que se deixe amar; é um modo de ser grato. Se fosse uma santa, não
-podia impedir que lhe accendesse uma vela.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_208">[Pg 208]</span></p>
-
-<p class="center">D.CARLOTA</p>
-
-<p>Não falemos mais nisto, e separemo-nos.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>A sua voz treme; olhe para mim...</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>Adeus; ahi vem mamãe.</p>
-
-
-<h3>SCENA XIII</h3>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Os mesmos</span>, D. LEOCADIA</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Que é isto, doutor? Então o senhor quer só um anno de China? Vieram
-pedir-me que reduzisse a sua ausencia.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>D. Carlota lhe dirá o que eu desejo.</p>
-
-<p class="center">D. CARLOTA</p>
-
-<p>O doutor veiu saber se mamãe conhece algum cardeal em Roma.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>A principio era um cardeal; agora basta um vigario.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Um vigario? Para que?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não posso dizer.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_209">[Pg 209]</span></p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA, <i>a Carlota</i></p>
-
-<p>Deixa-nos sós, Carlota; o doutor quer fazer-me uma confidencia.</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não, não, ao contrario... D. Carlota póde ficar. O que eu quero dizer é
-que um vigario basta para casar.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Casar a quem?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Não é já, falta-me ainda a noiva.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Mas quem é que me está falando?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Sou eu, D. Leocadia.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>O senhor! o senhor! o senhor!</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Eu mesmo. Pedi licença a alguem...</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Para casar?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_210">[Pg 210]</span></p>
-
-
-<h3>SCENA XIV</h3>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Os mesmos</span>, MAGALHÃES, D. LEOCADIA</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Consentiu, titia?</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Em reduzir a China a um anno? Mas elle agora quer a vida inteira.</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Estás doudo?</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA</p>
-
-<p>Sim, a vida inteira, mas é para casar. (<i>D. Carlota fala baixo a D.
-Adelaide</i>) Você entende, Magalhães?</p>
-
-<p class="center">CAVALCANTE</p>
-
-<p>Eu, que devia entender, não entendo.</p>
-
-<p class="center">D. ADELAIDE, <i>que ouviu D. Carlota</i></p>
-
-<p>Entendo eu. O Dr. Cavalcante contou as suas tristezas a Carlota, e
-Carlota, meia curada do seu proprio mal, expoz sem querer o que tinha
-sentido. Entenderam-se e casam-se.</p>
-
-<p class="center">D. LEOCADIA, <i>a Carlota</i></p>
-
-<p>Devéras? (<i>D. Carlota baixa os olhos</i>) Bem; como é para saude dos
-dous, concedo; são mais duas curas!</p>
-
-<p class="center">MAGALHÃES</p>
-
-<p>Perdão; estas fizeram-se pela receita de um proverbio grego que está
-aqui neste livro (<i>Abre o livro</i>) «Não consultes medico; consulta
-alguem que tenha estado doente.»</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_213">[Pg 213]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="Liccao_de_botanica">Licção de botanica</h2>
-</div>
-
-<h3>PESSOAS</h3>
-<p class="poetry p0">D. HELENA<br />
-D. LEONOR<br />
-D. CECILIA<br />
-BARÃO SEGISMUNDO DE KERNOBERG<br />
-</p>
-
-<p class="center">Logar da scena: Andarahy.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="ACTO_UNICO">ACTO UNICO</h3>
-</div>
-
-<p class="center">Sala em casa de D. Leonor. Portas ao fundo, uma á direita do espectador.</p>
-
-
-<h4>SCENA I</h4>
-
-<p class="center">D. LEONOR, D. HELENA, D. CECILIA</p>
-
-<p class="center">D. Leonor entra, lendo uma carta. D. Helena e D. Cecilia entram do
-fundo.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Já de volta!</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>a D. Helena, depois de um silencio</i></p>
-
-<p>Será alguma carta de namoro?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_214">[Pg 214]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>baixo</i></p>
-
-<p>Creança!</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não me explicarão isto?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Que é?</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Recebi ao descer do carro este bilhete. «Minha senhora. Permitta que o
-mais respeitoso vizinho lhe peça dez minutos de attenção. Vae n'isto um
-grande interesse da sciencia». Que tenho eu com a sciencia?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Mas de quem é a carta?</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Do Barão Segismundo de Kernoberg.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Ah! o tio de Henrique!</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>De Henrique! Que familiaridade é essa?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Titia, eu...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Eu quê?... Henrique!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Foi uma maneira de falar na ausencia... Com que<span class="pagenum" id="Page_215">[Pg 215]</span> então o Sr. Barão
-Segismundo de Kernoberg pede-lhe dez minutos de attenção, em nome e por
-amor da sciencia. Da parte de um botanico é por força alguma egloga.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Seja o que fôr, não sei se deva receber um senhor a quem nunca vimos.
-Já o viram alguma vez?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Eu nunca.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Nem eu.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Botanico e sueco: duas razões para ser gravemente aborrecido. Nada, não
-estou em casa.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Mas quem sabe, titia, se elle quer pedir-lhe... sim... um exame no
-nosso jardim?</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Ha por todo esse Andarahy muito jardim para examinar.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não, senhora, ha de recebel-o.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Porque?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Porque é nosso vizinho, porque tem necessidade de<span class="pagenum" id="Page_216">[Pg 216]</span> falar-lhe, e, emfim,
-porque, a julgar pelo sobrinho, deve ser um homem distincto.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não me lembrava do sobrinho. Vá lá; aturemos o botanico. (<i>Sae pela
-porta do fundo, á esquerda.</i>)</p>
-
-
-<h4>SCENA II</h4>
-
-<p class="center">D. HELENA, D. CECILIA</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não me agradeces?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>O que?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Sonsa! Pois não adivinhas o que vem cá fazer o barão?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Não.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Vem pedir a tua mão para o sobrinho.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Helena!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>imitando-a</i></p>
-
-<p>Helena!</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Juro...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Que o não amas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_217">[Pg 217]</span></p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Não é isso.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Que o amas?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Tambem não.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Mau! Alguma cousa ha de ser. <i>Il faut qu'une porte soit ouverte ou
-fermée.</i> Porta neste caso é coração. O teu coração ha de estar
-fechado ou aberto...</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Perdi a chave.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>rindo</i></p>
-
-<p>E não o pódes fechar outra vez. São assim todos os corações ao pé de
-todos os Henriques. O teu Henrique viu a porta aberta, e tomou posse do
-logar. Não escolheste mal, não; é um bonito rapaz.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Oh! uns olhos!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Azues.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Como o ceu.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Louro...</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Elegante...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_218">[Pg 218]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Espirituoso...</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>E bom.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Uma perola. (<i>Suspira.</i>) Ah!</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Suspiras?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Que ha de fazer uma viuva, falando... de uma perola?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Oh! tens naturalmente em vista algum diamante de primeira grandeza.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não tenho, não; meu coração já não quer joias.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Mas as joias querem o teu coração.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Tanto peior para ellas: hão de ficar em casa do joalheiro.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Veremos isso. (<i>Sobe</i>) Ah!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Que é?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_219">[Pg 219]</span></p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>olhando para a direita</i>.</p>
-
-<p>Um homem desconhecido que lá vem; ha de ser o barão.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Vou avisar titia. (<i>Sae pelo fundo, esquerda.</i>)</p>
-
-
-<h4>SCENA III</h4>
-
-<p class="center">D. CECILIA, BARÃO</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Será devéras elle? Estou tremula... Henrique não me avisou de nada...
-Virá pedir-me?... Mas não, não, não póde ser elle... Tão moço!... (<i>O
-barão apparece.</i>)</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>á porta, depois de profunda cortezia</i></p>
-
-<p>Creio que a Excellentissima senhora D. Leonor Gouvea recebeu uma
-carta... Vim sem esperar a resposta.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>É o Sr. Barão Segismundo de Kernoberg? (<i>O barão faz um gesto
-affirmativo.</i>) Recebeu. Queira entrar e sentar-se. (<i>Áparte.</i>)
-Devo estar vermelha...</p>
-
-<p class="center">O BARÃO, <i>áparte, olhando para Cecilia</i></p>
-
-<p>Ha de ser esta.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>áparte</i></p>
-
-<p>E titia não vem... Que demora!... Não sei que lhe diga... estou tão
-vexada... (<i>O Barão tira um livro da algibeira e folhea-o.</i>)<span class="pagenum" id="Page_220">[Pg 220]</span> Se
-eu pudesse deixal-o... É o que vou fazer. (<i>Sobe.</i>)</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>fechando o livro e erguendo-se</i></p>
-
-<p>V Ex. ha de desculpar-me. Recebi hoje mesmo este livro da Europa;
-é obra que vae fazer revolução na sciencia; nada menos que uma
-monographia das gramineas, premiada pela Academia de Stockolmo.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Sim? (<i>Áparte.</i>) Aturemol-o, póde vir a ser meu tio.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>As gramineas têm ou não têm periantho? A principio adoptou-se a
-negativa, posteriormente... V. Ex. talvez não conheça o que é o
-periantho...</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Não, senhor.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Periantho compõe-se de duas palavras gregas: <i>peri</i>, em volta, e
-<i>anthos</i> flor.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>O envolucro da flor.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Acertou. É o que vulgarmente se chama calix. Pois as gramineas eram
-tidas... (<i>Apparece D. Leonor ao fundo.</i>) Ah!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_221">[Pg 221]</span></p>
-
-
-<h4>SCENA IV</h4>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Os Mesmos</span>, D. LEONOR</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Desejava falar-me?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Se me dá essa honra. Vim sem esperar resposta á minha carta. Dez
-minutos apenas.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Estou ás suas ordens.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Com licença. (<i>Áparte, olhando para o ceu.</i>) Ah! minha Nossa
-Senhora! (<i>Retira-se pelo fundo.</i>)</p>
-
-
-<h4>SCENA V</h4>
-
-<p class="center">D. LEONOR, BARÃO</p>
-
-<p class="center">(D. Leonor senta-se, fazendo um gesto ao Barão que a imita)</p>
-
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Sou o Barão Sigismundo de Kernoberg, seu vizinho, botanico de
-vocação, profissão e tradição, membro da Academia de Stockolmo, e
-commissionado pelo governo da Suecia para estudar a flora da America
-do Sul. V. Ex. dispensa a minha biographia? (<i>D. Leonor faz um gesto
-affirmativo.</i>) Direi sómente que o tio de meu tio foi botanico, meu
-tio<span class="pagenum" id="Page_222">[Pg 222]</span> botanico, eu botanico, e meu sobrinho ha de ser botanico. Todos
-somos botanicos de tios a sobrinhos. Isto de algum modo explica minha
-vinda a esta casa.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Oh! o meu jardim é composto de plantas vulgares.</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>gracioso</i></p>
-
-<p>É porque as melhores flores da casa estão dentro de casa. Mas V. Ex.
-engana-se; não venho pedir nada do seu jardim.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Ah!</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Venho pedir-lhe uma cousa que lhe ha de parecer singular.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Fale.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>O padre desposa a egreja; eu desposei a sciencia. Saber é o meu estado
-conjugal; os livros são a minha familia. N'uma palavra, fiz voto de
-celibato.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não se case.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Justamente. Mas, V. Ex. comprehende que, sendo para mim ponto de fé que
-a sciencia não se dá bem com o matrimonio, nem eu devo casar, nem... V.
-Ex. já percebeu.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Cousa nenhuma.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_223">[Pg 223]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Meu sobrinho Henrique anda estudando commigo os elementos da botanica.
-Tem talento, ha de vir a ser um luminar da sciencia. Se o casamos, está
-perdido.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Mas...</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>áparte</i></p>
-
-<p>Não entendeu. (<i>Alto.</i>) Sou obrigado a ser mais franco. Henrique
-anda apaixonado por uma de suas sobrinhas, creio que esta que saiu
-d'aqui, ha pouco. Impuz-lhe que não voltasse a esta casa; elle
-resistiu-me. Só me resta um meio: é que V. Ex. lhe feche a porta.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Senhor barão!</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Admira-se do pedido? Creio que não é polido nem conveniente. Mas é
-necessario, minha senhora, é indispensavel. A sciencia precisa de mais
-um obreiro: não o encadeiemos no matrimonio.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não sei se devo sorrir do pedido...</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Deve sorrir, sorrir e fechar-nos a porta. Terá os meus agradecimentos e
-as benções da posteridade.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR, <i>sorrindo</i></p>
-
-<p>Não é preciso tanto; posso fechal-a de graça.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_224">[Pg 224]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Justo. O verdadeiro beneficio é gratuito.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Antes, porém, de nos despedirmos, desejava dizer uma cousa e perguntar
-outra. (<i>O barão curva-se</i>) Direi primeiramente que ignoro se ha
-tal paixão da parte de seu sobrinho; em segundo logar, perguntarei se
-na Suecia estes pedidos são usuaes.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Na geographia intellectual não ha Suecia nem Brazil; os paizes
-são outros: astronomia, geologia, mathematicas; na botanica são
-obrigatorios.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Todavia, á força de andar com flores... deviam os botanicos trazel-as
-comsigo.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Ficam no gabinete.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Trazem os espinhos sómente.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>V. Ex. tem espirito. Comprehendo a affeição de Henrique a esta casa.
-(<i>Levanta-se</i>) Promette-me então...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR, <i>levantando-se</i></p>
-
-<p>Que faria no meu caso?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_225">[Pg 225]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Recusava.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Com prejuizo da sciencia?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Não, porque nesse caso a sciencia mudaria de acampamento, isto é, o
-vizinho prejudicado escolheria outro bairro para seus estudos.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não lhe parece que era melhor ter feito isso mesmo, antes de arriscar
-um pedido inefficaz?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Quiz primeiro tentar fortuna.</p>
-
-
-<h4>SCENA VI</h4>
-
-<p class="center">D. LEONOR, BARÃO, D. HELENA</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>entra e pára</i></p>
-
-<p>Ah!</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Entra, não é assumpto reservado. O Sr. Barão de Kernoberg...(<i>Ao
-Barão</i>) É minha sobrinha Helena. (<i>A Helena.</i>) Aqui o Sr. Barão
-vem pedir que o não perturbemos no estudo da botanica. Diz que seu
-sobrinho Henrique está destinado a um logar honroso na sciencia, e...
-Conclua, Sr. Barão.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Não convem que se case, a sciencia exige o celibato.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_226">[Pg 226]</span></p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Ouviste?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não comprehendo...</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Uma paixão louca de meu sobrinho póde impedir que... Minhas senhoras,
-não desejo roubar-lhes mais tempo... Confio em V. Ex., minha senhora...
-Ser-lhe-hei eternamente grato. Minhas senhoras. (<i>Faz uma grande
-cortezia e sae.</i>)</p>
-
-
-<h4>SCENA VII</h4>
-
-<p class="center">D. HELENA, D. LEONOR</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR, <i>rindo</i></p>
-
-<p>Que urso!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Realmente...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Perdôo-lhe em nome da sciencia. Fique com as suas hervas, e não nos
-aborreça mais, nem elle nem o sobrinho.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Nem o sobrinho?</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Nem o sobrinho, nem o creado, nem o cão, se o houver, nem cousa nenhuma
-que tenha relação com a sciencia. Enfada-te? Pelo que vejo, entre o
-Henrique e a Cecilia ha tal ou qual namoro?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_227">[Pg 227]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Se promette segredo... ha.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Pois acabe-se o namoro.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não é facil. O Henrique é um perfeito cavalheiro; ambos são dignos um
-do outro. Por que razão impediremos que dous corações...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não sei de corações, não hão de faltar casamentos a Cecilia.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Certamente que não, mas os casamentos não se improvisam nem se
-projectam na cabeça; são actos do coração, que a egreja santifica.
-Tentemos uma cousa.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Que é?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Reconciliemo-nos com o Barão.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Nada, nada.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Pobre Cecilia!</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>É ter paciencia, sujeite-se ás circumstancias... (<i>A D. Cecilia, que
-entra</i>) Ouviste?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_228">[Pg 228]</span></p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>O quê, titia?</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Helena te explicará tudo. (<i>A D. Helena baixo</i>) Tira-lhe todas as
-esperanças. (<i>Indo-se</i>) Que urso! que urso!</p>
-
-
-<h4>SCENA VIII</h4>
-
-<p class="center">D. HELENA, D. CECILIA</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Que aconteceu?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Aconteceu... (<i>Olha com tristeza para ella.</i>)</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Acaba.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Pobre Cecilia!</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Titia recusou a minha mão?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Qual! O Barão é que se oppõe ao casamento.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Oppõe-se!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Diz que a sciencia exige o celibato do sobrinho.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_229">[Pg 229]</span></p>
-
-<p>(<i>D. Cecilia encosta-se a uma cadeira</i>) Mas, socega; nem tudo está
-perdido; póde ser que o tempo...</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Mas quem impede que elle estude?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Mania de sabio. Ou então, evasiva do sobrinho.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Oh! não! é impossivel; Henrique é uma alma angelica! Respondo por elle.
-Ha de certamente oppôr-se a semelhante exigencia...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não convem precipitar as cousas. O Barão póde zangar-se e ir-se embora.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Que devo então fazer?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Esperar. Ha tempo para tudo.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Pois bem, quando Henrique vier...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não vem, titia resolveu fechar a porta a ambos.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Impossivel!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Pura verdade. Foi uma exigencia do Barão.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_230">[Pg 230]</span></p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Ah! conspiram todos contra mim. (<i>Põe as mãos na cabeça</i>) Sou
-muito infeliz! Que mal fiz eu a essa gente? Helena, salva-me! Ou eu
-mato-me! Anda, vê se descobres um meio...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>indo sentar-se</i>.</p>
-
-<p>Que meio?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>acompanhando-a</i>.</p>
-
-<p>Um meio qualquer que não nos separe!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>sentada</i>.</p>
-
-<p>Ha um.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Qual? Dize.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Casar.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Oh! não zombes de mim! Tu tambem amaste, Helena; deves respeitar estas
-angustias. Não tornar a ver o meu Henrique é uma idéa intoleravel.
-Anda, minha irmãsinha. (<i>Ajoelha-se inclinando o corpo sobre o regaço
-de D. Helena.</i>) Salva-me! És tão intelligente, que has de achar por
-força alguma idéa; anda, pensa!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>beijando-lhe a testa</i>.</p>
-
-<p>Creança! suppões que seja cousa tão facil assim?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Para ti ha de ser facil.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_231">[Pg 231]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Lisonjeira! (<i>Pega machinalmente no livro deixado pelo Barão sobre a
-cadeira.</i>) A boa vontade não póde tudo; é preciso... (<i>Tem aberto
-o livro.</i>) Que livro é este?... Ah! talvez do Barão.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Mas vamos... continua.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Isto ha de ser sueco... trata talvez de botanica. Sabes sueco?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Helena!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Quem sabe se este livro póde salvar tudo? (<i>Depois de um instante de
-reflexão</i>) Sim, é possivel. Tratará de botanica?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Trata.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Quem te disse?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Ouvi dizer ao Barão, trata das...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Das...</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Das gramineas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_232">[Pg 232]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Só das gramineas?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Não sei; foi premiado pela Academia de Stockolmo.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>De Stockolmo. Bem. (<i>Levanta-se</i>).</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>levantando-se</i></p>
-
-<p>Mas que é?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Vou mandar-lhe o livro...</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Que mais?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Com um bilhete.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>olhando para a direita</i></p>
-
-<p>Não é preciso; lá vem elle.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Ah!</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Que vaes fazer?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Dar-lhe o livro.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>O livro, e...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_233">[Pg 233]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>E as despedidas.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Não comprehendo.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Espera e verás.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Não posso encaral-o; adeus.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Cecilia! (<i>D. Cecilia sae.</i>)</p>
-
-
-<h4>SCENA IX</h4>
-
-<p class="center">D. HELENA, BARÃO</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>á porta</i>.</p>
-
-<p>Perdão, minha senhora; eu trazia um livro ha pouco...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>com o livro na mão</i>.</p>
-
-<p>Será este?</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>caminhando para ella</i>.</p>
-
-<p>Justamente.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Escripto em sueco, penso eu...</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Em sueco.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_234">[Pg 234]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Trata naturalmente de botanica.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Das gramineas.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>com interesse</i>.</p>
-
-<p>Das gramineas!</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>De que se espanta?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Um livro publicado...</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Ha quatro mezes.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Premiado pela Academia de Stockolmo?</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>admirado</i>.</p>
-
-<p>É verdade. Mas...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Que pena que eu não saiba sueco!</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Tinha noticia do livro?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Certamente. Ando anciosa por lel-o.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Perdão, minha senhora. Sabe botanica?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_235">[Pg 235]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não ouso dizer que sim, estudo alguma cousa; leio quando posso. É
-sciencia profunda e encantadora.</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>com calor</i>.</p>
-
-<p>É a primeira de todas.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não me atrevo a apoial-o, porque nada sei das outras, e poucas luzes
-tenho de botanica, apenas as que póde dar um estudo solitario e
-deficiente. Se a vontade supprisse o talento...</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Porque não? <i>Le génie, c'est la patience</i>, dizia Buffon.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>sentando-se</i>.</p>
-
-<p>Nem sempre.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Realmente, estava longe de suppôr que, tão perto de mim, uma pessoa tão
-distincta dava algumas horas vagas ao estudo da minha bella sciencia.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Da sua esposa.</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>sentando-se</i>.</p>
-
-<p>É verdade. Um marido póde perder a mulher, e se a amar devéras, nada a
-compensará neste mundo, ao passo que a sciencia não morre... Morremos
-nós, ella sobrevive com todas as graças do primeiro dia, ou ainda
-maiores, porque cada descoberta é um encanto novo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_236">[Pg 236]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Oh! tem razão!</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Mas, diga-me V. Ex.: tem feito estudo especial das gramineas.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Por alto... por alto...</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Comtudo, sabe que a opinião dos sabios não admittia o periantho...
-(<i>D. Helena faz signal affirmativo.</i>) Posteriormente reconheceu-se
-a existencia do periantho. (<i>Novo gesto de D. Helena.</i>) Pois este
-livro refuta a segunda opinião.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Refuta o periantho?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Completamente.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Acho temeridade.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Tambem eu suppunha isso... Li-o, porém, e a demonstração é clarissima.
-Tenho pena que não possa lel-o. Se me dá licença, farei uma traducção
-portugueza e daqui a duas semanas...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não sei se deva acceitar...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_237">[Pg 237]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Acceite; é o primeiro passo para me não recusar segundo pedido.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Qual?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Que me deixe acompanhal-a em seus estudos, repartir o pão do saber
-com V. Ex. É a primeira vez que a fortuna me depara uma discipula.
-Discipula é, talvez, ousadia da minha parte...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Ousadia, não; eu sei muito pouco; posso dizer que não sei nada.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>A modestia é o aroma do talento, como o talento é o esplendor da
-graça. V. Ex. possue tudo isso. Posso comparal-a á violeta,&mdash;<i>viola
-odorata</i> de Linneo,&mdash;que é formosa e recatada...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>interrompendo</i></p>
-
-<p>Pedirei licença á minha tia. Quando será a primeira licção?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Quando quizer. Póde ser amanhã. Tem certamente noticia da anatomia
-vegetal...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Noticia incompleta.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_238">[Pg 238]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Da physiologia?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Um pouco menos.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Nesse caso, nem a taxonomia, nem a phytographia...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não fui até lá.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Mas ha de ir... Verá que mundos novos se lhe abrem deante do espirito.
-Estudaremos, uma por uma, todas as familias, as orchideas, as
-jasmineas, as rubiaceas, as oleaceas, as narciseas, as umbelliferas,
-as...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Tudo, desde que se trata de flores.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Comprehendo: amor de familia.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Bravo! um comprimento!</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>folheando o livro</i>.</p>
-
-<p>A sciencia os permitte.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>áparte</i>.</p>
-
-<p>O mestre é perigoso. (<i>Alto.</i>) Tinham-me dito exactamente o
-contrario; disseram-me que o Sr Barão era... não sei como diga...
-era...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_239">[Pg 239]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Talvez um urso.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Pouco mais ou menos.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>E sou.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não creio.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Porque não crê?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Porque o vejo amavel.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Supportavel apenas.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Demais, imaginava-o uma figura muito differente, um velho macillento,
-melenas caídas, olhos encovados.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Estou velho, minha senhora.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Trinta e seis annos.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Trinta e nove.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Plena mocidade.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_240">[Pg 240]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Velho para o mundo. Que posso eu dar ao mundo senão a minha prosa
-scientifica?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Só uma cousa lhe acho inacceitavel.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Que é?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>A theoria de que o amor e a sciencia são incompativeis.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Oh! isso...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Dá-se o espirito á sciencia e o coração ao amor. São territorios
-differentes, ainda que limitrophes.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Um acaba por annexar o outro.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não creio.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>O casamento é uma bella cousa, mas o que faz bem a uns, póde fazer
-mal a outros. Sabe que Mafoma não permitte o uso do vinho aos seus
-sectarios. Que fazem os turcos? Extraem o succo de uma planta, da
-familia das papaveraceas, bebem-no, e ficam alegres. Esse licor, se nós
-o bebessemos, matar-nos-hia. O casamento, para nós, é o vinho turco.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_241">[Pg 241]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>erguendo os hombros</i>.</p>
-
-<p>Comparação não é argumento. Demais, houve e ha sabios casados.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Que seriam mais sabios se não fossem casados.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não fale assim. A esposa fortifica a alma do sabio. Deve ser um quadro
-delicioso para o homem que despende as suas horas na investigação da
-natureza, fazel-o ao lado da mulher que o ampara e anima, testemunha de
-seus esforços, socia de suas alegrias, attenta, dedicada, amorosa. Será
-vaidade de sexo? Póde ser, mas eu creio que o melhor premio do merito é
-o sorriso da mulher amada. O applauso publico é mais ruidoso, mas muito
-menos tocante que a approvação domestica.</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>depois de um instante de hesitação e luta</i>.</p>
-
-<p>Falemos da nossa licção.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Amanhã, se minha tia consentir. (<i>Levanta-se</i>) Até amanhã, não?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Hoje mesmo, se o ordenar.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Acredita que não perderei o tempo?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Estou certo que não.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_242">[Pg 242]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Serei academica de Stockolmo?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Conto que terei essa honra.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>cortejando</i>.</p>
-
-<p>Até amanhã.</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>o mesmo</i>.</p>
-
-<p>Minha senhora! (<i>D. Helena sae pelo fundo, esquerda, o barão caminha
-para a direita, mas volta para buscar o livro que ficára sobre a
-cadeira ou sophá</i>).</p>
-
-
-<h4>SCENA X</h4>
-
-<p class="center">BARÃO, D. LEONOR</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>pensativo</i>.</p>
-
-<p>Até amanhã! Devo eu cá voltar? Talvez não devesse, mas é interesse
-da sciencia... a minha palavra empenhada... O peior de tudo é que a
-discipula é graciosa e bonita. Nunca tive discipula, ignoro até que
-ponto é perigoso... Ignoro? Talvez não... (<i>Põe a mão no peito</i>)
-Que é isto?... (<i>Resoluto</i>). Não, sicambro! Não has de adorar
-o que queimaste! Eia, volvamos ás flores e deixemos esta casa para
-sempre. (<i>Entra D. Leonor</i>)</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR, <i>vendo o barão</i>.</p>
-
-<p>Ah!</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Voltei ha dous minutos; vim buscar este livro. (<i>Comprimentando</i>)
-Minha senhora!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_243">[Pg 243]</span></p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Senhor Barão!</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>vae até á porta, e volta</i>.</p>
-
-<p>Creio que V. Ex. não me fica querendo mal?</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Certamente que não.</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>comprimentando</i>.</p>
-
-<p>Minha senhora!</p>
-
-<p class="center">LEONOR, <i>idem</i>.</p>
-
-<p>Senhor Barão!</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>vae até á porta e volta</i>.</p>
-
-<p>A senhora D. Helena não lhe falou agora?</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Sobre quê?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Sobre umas licções de botanica...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não me falou em nada...</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>comprimentando</i>.</p>
-
-<p>Minha senhora!</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR, <i>idem</i>.</p>
-
-<p>Senhor Barão! (<i>Barão sae.</i>) Que exquisitão. Valia a pena
-cultival-o de perto.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_244">[Pg 244]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>reapparecendo</i>.</p>
-
-<p>Perdão...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Ah!&mdash;Que manda?</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>approxima-se</i>.</p>
-
-<p>Completo a minha pergunta. A sobrinha de V. Ex. falou-me em receber
-algumas licções de botanica. V. Ex. consente? (<i>Pausa.</i>) Ha de
-parecer-lhe exquisito este pedido, depois do que tive a honra de
-fazer-lhe ha pouco...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Sr. Barão, no meio de tantas copias e imitações humanas...</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Eu acabo: sou original.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não ouso dizel-o.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Sou; noto, entretanto, que a observação de V. Ex. não responde á minha
-pergunta.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Bem sei; por isso mesmo é que a fiz.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Nesse caso...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Nesse caso, deixe-me reflectir.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_245">[Pg 245]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Cinco minutos?</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Vinte e quatro horas.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Nada menos?</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Nada menos.</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>comprimentando</i>.</p>
-
-<p>Minha senhora!</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR, <i>idem</i>.</p>
-
-<p>Senhor Barão! (<i>Sae o barão.</i>)</p>
-
-
-<h4>SCENA XI</h4>
-
-<p class="center">D. LEONOR, D. CECILIA</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Singular é elle, mas não menos singular é a idéa de Helena. Para que
-quererá ella aprender botanica?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>entrando</i>.</p>
-
-<p>Helena! (<i>D. Leonor volta-se.</i>) Ah! é titia.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Sou eu.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Onde está Helena?</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não sei, talvez lá em cima (<i>D. Cecilia dirige-se para o fundo.</i>)
-Onde vaes?...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_246">[Pg 246]</span></p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Vou...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Acaba.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Vou concertar o penteado.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Vem cá; concerto eu. (<i>D. Cecilia approxima-se de D. Leonor</i>) Não
-é preciso, está excellente. Dize-me: estás muito triste!</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>muito triste</i></p>
-
-<p>Não, senhora; estou alegre.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Mas, Helena disse-me que tu...</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Foi gracejo.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não creio; tens alguma cousa que te afflige; has de contar-me tudo.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Não posso.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não tens confiança em mim?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Oh! toda!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_247">[Pg 247]</span></p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Pois eu exijo... (<i>Vendo Helena, que apparece á porta do fundo,
-esquerda</i>) Ah! chegas a proposito.</p>
-
-
-<h4>SCENA XII</h4>
-
-<p class="center">D. LEONOR, D. CECILIA, D. HELENA</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Para que?</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Explica-me que historia é essa que me contou o Barão?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>com curiosidade</i>.</p>
-
-<p>O Barão?</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Parece que estás disposta a estudar botanica.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Estou.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>sorrindo</i></p>
-
-<p>Com o Barão?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Com o Barão.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Sem o meu consentimento?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Com o seu consentimento.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_248">[Pg 248]</span></p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Mas de que te serve saber botanica?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Serve para conhecer as flores dos meus <i>bouquets</i>, para não
-confundir jasmineas com rubiaceas, nem bromelias com umbelliferas.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Com que?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Umbelliferas.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Umbe...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>...liferas. Umbelliferas.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Virgem santa! E que ganhas tu com esses nomes barbaros?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Muita cousa.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>áparte</i></p>
-
-<p>Boa Helena! Comprehendo tudo.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>O periantho, por exemplo: a senhora talvez ignore a questão do
-periantho... a questão das gramineas...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>E dou graças a Deus!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_249">[Pg 249]</span></p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>animada</i></p>
-
-<p>Oh! deve ser uma questão importantissima!</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR, <i>espantada</i>.</p>
-
-<p>Tambem tu!</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Só o nome! Periantho! É nome grego, titia; um delicioso nome grego.
-(<i>Áparte.</i>) Estou morta por saber do que se trata.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Vocês fazem-me perder o juizo! Aqui andam bruxas, de certo. Periantho
-de um lado, bromelias de outro; uma lingua de gentios, avessa á gente
-christã. Que quer dizer tudo isso?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Quer dizer que a sciencia é uma grande cousa, e que não ha remedio
-senão adorar a botanica.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Que mais?</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Que mais? Quer dizer que a noite de hoje ha de estar deliciosa,
-e podemos ir ao theatro lyrico. Vamos, sim? Amanhã é o baile do
-conselheiro, e sabbado o casamento da Julia Marcondes. Tres dias de
-festas! Prometto divertir-me muito, muito, muito. Estou tão contente!
-Ria-se, titia; ria-se e dê-me um beijo!</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não dou, não, senhora. Minha opinião é contra a botanica, e isto mesmo
-vou escrever ao Barão.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_250">[Pg 250]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Reflicta primeiro; basta amanhã!</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Ha de ser hoje mesmo! Esta casa está ficando muito sueca; voltemos a
-ser brasileiras. Vou escrever ao urso. Acompanha-me, Cecilia; has de
-contar-me o que ha. (<i>Saem.</i>)</p>
-
-
-<h4>SCENA XIII</h4>
-
-<p class="center">D. HELENA, BARÃO</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Cecilia deitou tudo a perder... Não se póde fazer nada com creanças...
-Tanto peior para ella. (<i>Pausa</i>) Quem sabe se tanto melhor para
-mim? Póde ser. Aquelle professor não é assaz velho, como convinha. Além
-disso, ha nelle um ar de diamante bruto, uma alma apenas coberta pela
-crosta scientifica, mas cheia de fogo e luz. Se eu viesse a arder ou
-cegar... (<i>Levanta os hombros</i>) Que idéa! Não passa de um urso,
-como titia lhe chama, um urso com patas de rosas.</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>approximando-se</i>.</p>
-
-<p>Perdão, minha senhora. Ao atravessar a chacara, ia pensando no nosso
-accordo, e, sinto dizel-o, mudei de resolução.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Mudou?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_251">[Pg 251]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>approximando-se</i></p>
-
-<p>Mudei.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Póde saber-se o motivo?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>São tres. O primeiro é o meu pouco saber... Ri-se?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>De incredulidade. O segundo motivo...</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>O segundo motivo é o meu genio aspero e despotico.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Vejamos o terceiro.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>O terceiro é a sua edade. Vinte e um annos, não?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Vinte e dous.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Solteira?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Viuva.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Perpetuamente viuva?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Talvez.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_252">[Pg 252]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Nesse caso, quarto motivo: a sua viuvez perpetua.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Conclusão: todo o nosso accordo está desfeito.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Não digo que esteja; só por mim não o posso romper. V. Ex. porém
-avaliará as razões que lhe dou, e decidirá se elle deve ser mantido.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Supponha que respondo affirmativamente.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Paciencia! obedecerei.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>De má vontade?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Não; mas com grande desconsolação.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Pois, Sr. Barão, não desejo violental-o; está livre.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Livre, e não menos desconsolado.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Tanto melhor!</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Como assim?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_253">[Pg 253]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Nada mais simples: vejo que é caprichoso e incoherente.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Incoherente, é verdade.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Irei procurar outro mestre.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Outro mestre! Não faça isso.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Porque?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Porque... (<i>Pausa</i>) V. Ex. é intelligente bastante para dispensar
-mestres.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Quem lh'o disse?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Adivinha-se.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Bem; irei queimar os olhos nos livros.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Oh! seria estragar as mais bellas flores do mundo!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>sorrindo</i></p>
-
-<p>Mas então nem mestres nem livros?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_254">[Pg 254]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Livros, mas applicação moderada. A sciencia não se colhe de afogadilho;
-é preciso penetral-a com segurança e cautella.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Obrigada. (<i>Estendendo-lhe a mão</i>) E visto que me recusa as suas
-licções, adeus.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Já!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Pensei que queria retirar-se.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Queria e custa-me. Em todo o caso, não desejava sair sem que V. Ex. me
-dissesse francamente o que pensa de mim. Bem ou mal?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Bem e mal.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Pensa então...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Penso que é intelligente e bom, mas caprichoso e egoista.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Egoista!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Em toda a força da expressão. (<i>Senta-se</i>) Por<span class="pagenum" id="Page_255">[Pg 255]</span>
-egoismo,&mdash;scientifico, é verdade,&mdash;oppõe-se ás affeições de seu
-sobrinho; por egoismo, recusa-me as suas licções. Creio que o Sr. Barão
-nasceu para mirar-se no vasto espelho da natureza, a sós comsigo,
-longe do mundo e seus enfados. Aposto que, desculpe a indiscreção da
-pergunta,&mdash;aposto que nunca amou?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Nunca.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>De maneira que nunca uma flor teve a seus olhos outra applicação, além
-do estudo?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Engana-se.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Sim?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Depositei algumas coroas de goivos no tumulo de minha mãe.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Ah!</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Ha em mim alguma cousa mais do que eu mesmo. Ha a poesia das affeições
-por baixo da prova scientifica. Não a ostento, é verdade; mas sabe
-V. Ex. o que tem sido a minha vida? Um claustro. Cedo perdi o que
-havia mais caro: a familia. Desposei a sciencia, que me tem servido
-de alegrias, consolações e esperanças. Deixemos, porém, tão tristes
-memorias...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_256">[Pg 256]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Memorias de homem; até aqui eu só via o sabio.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Mas o sabio reapparece e enterra o homem. Volto á vida vegetativa...
-se me é licito arriscar um trocadilho em portuguez, que eu não sei bem
-se o é. Póde ser que não passe de apparencia. Todo eu sou apparencias,
-minha senhora, apparencias de homem, de linguagem e até de sciencia...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Quer que o elogie?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Não; desejo que me perdôe.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Perdoar-lhe o que?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>A incoherencia de que me accusava ha pouco.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Tanto perdôo que o imito. Mudo egualmente de resolução, e dou de mão ao
-estudo.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Não faça isso!</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não lerei uma só linha de botanica, que é a mais aborrecivel sciencia
-do mundo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_257">[Pg 257]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Mas o seu talento...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não tenho talento; tinha curiosidade.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>É a chave do saber.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Que monta isso? A porta fica tão longe!</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>É certo, mas o caminho é de flores.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Com espinhos.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Eu lhe quebrarei os espinhos.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>De que modo?</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Serei seu mestre.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>levanta-se</i></p>
-
-<p>Não! Respeito os seus escrupulos. Subsistem, penso eu, os motivos que
-allegou. Deixe-me ficar na minha ignorancia.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>É a ultima palavra de V. Ex.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_258">[Pg 258]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Ultima.</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>com ar de despedida</i></p>
-
-<p>Nesse caso... aguardo as suas ordens.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Que se não esqueça de nós.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Crê possivel que me esquecesse?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Naturalmente: um conhecimento de vinte minutos.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>O tempo importa pouco ao caso. Não me esquecerei nunca mais destes
-vinte minutos, os melhores da minha vida, os primeiros que hei
-realmente vivido. A sciencia não é tudo, minha senhora. Ha alguma cousa
-mais, além do espirito, alguma cousa essencial ao homem, e...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Repare, Sr. Barão, que está falando á sua ex-discipula.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>A minha ex-discipula tem coração, e sabe que o mundo intellectual
-é estreito para conter o homem todo; sabe que a vida moral é uma
-necessidade do ser pensante.</p>
-
-<p class="center"><span class="pagenum" id="Page_259">[Pg 259]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não passemos da botanica á philosophia, nem tanto á terra, nem tanto ao
-ceu. O que o sr. Barão quer dizer, em boa e mediana prosa, é que estes
-vinte minutos de palestra não o enfadaram de todo. Eu digo a mesma
-cousa. Pena é que fossem só vinte minutos, e que o Sr. Barão volte ás
-suas amadas plantas; mas é força ir ter com ellas, não quero tolher-lhe
-os passos. Adeus! (<i>Inclinando-se como a despedir-se</i>)</p>
-
-<p class="center">BARÃO <i>comprimentando</i></p>
-
-<p>Minha senhora! (<i>Caminha até á porta e pára.</i>) Não transporei mais
-esta porta?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Já a fechou por suas proprias mãos.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>A chave está nas suas.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>olhando para as mãos</i></p>
-
-<p>Nas minhas?</p>
-
-<p class="center">BARÃO <i>approximando-se</i></p>
-
-<p>De certo.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não a vejo.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>É a esperança. Dê-me a esperança de que...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA <i>depois de uma pausa</i></p>
-
-<p>A esperança de que...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_260">[Pg 260]</span></p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>A esperança de que... a esperança de...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>que tem tirado uma flor de um vaso</i></p>
-
-<p>Creio que lhe será mais facil definir esta flor.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Talvez.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Mas não é preciso dizer mais: adivinhei-o.</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>alvoraçado</i></p>
-
-<p>Adivinhou?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Adivinhei que quer a todo o trance ser meu mestre.</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>friamente</i></p>
-
-<p>É isso.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Acceito.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Obrigado.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Parece-me que ficou triste?...</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Fiquei, pois que só adivinhou metade do meu pensamento. Não adivinhou
-que eu... porque o não direi? dil-o-hei francamente... Não adivinhou
-que...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_261">[Pg 261]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Que...</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>depois de alguns esforços para falar</i>.</p>
-
-<p>Nada... nada...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR, <i>dentro</i></p>
-
-<p>Não admitto!</p>
-
-
-<h4>SCENA XIV</h4>
-
-<p class="center">D. HELENA, BARÃO, D. LEONOR, D. CECILIA</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>entrando pelo fundo com D. Leonor</i></p>
-
-<p>Mas, titia...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não admitto, já disse! Não te faltam casamentos. (<i>Vendo o
-Barão.</i>) Ainda aqui!</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Ainda e sempre, minha senhora.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Nova originalidade.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Oh! não! A cousa mais vulgar do mundo. Reflecti, minha senhora, e venho
-pedir para meu sobrinho a mão de sua encantadora sobrinha. (<i>Gesto de
-Cecilia</i>)</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_262">[Pg 262]</span></p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>A mão de Cecilia!</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA</p>
-
-<p>Que ouço!</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>O que eu lhe pedia ha pouco era uma extravagancia, um acto de egoismo
-e violencia, além de descortezia que era, e que V. Ex. me perdôou,
-attendendo á singularidade das minhas maneiras. Vejo tudo isso agora...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Não me opponho ao casamento, se fôr do agrado de Cecilia.</p>
-
-<p class="center">D. CECILIA, <i>baixo a D. Helena</i>.</p>
-
-<p>Obrigada! Foste tu...</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Vejo que o Sr. Barão reflectiu.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Não foi só reflexão, foi tambem resolução.</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Resolução?</p>
-
-<p class="center">BARÃO, <i>gravemente</i></p>
-
-<p>Minha senhora, atrevo-me a fazer outro pedido.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_263">[Pg 263]</span></p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Ensinar botanica a Helena? Já me deu vinte e quatro horas para
-responder.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Peço-lhe mais do que isso; V. Ex. que é, por assim dizer, irmã mais
-velha de sua sobrinha, póde intervir junto della para... (<i>Pausa</i>)</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR</p>
-
-<p>Para...</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Acabo eu. O que o Sr. Barão deseja é a minha mão.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Justamente!</p>
-
-<p class="center">D. LEONOR, <i>espantada</i></p>
-
-<p>Mas... Não comprehendo nada.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Não é preciso comprehender; basta pedir.</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Não basta pedir; é preciso alcançar.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Não alcançarei?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Dê-me tres mezes de reflexão.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Tres mezes é a eternidade.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_264">[Pg 264]</span></p>
-
-<p class="center">D. HELENA</p>
-
-<p>Uma eternidade de noventa dias.</p>
-
-<p class="center">BARÃO</p>
-
-<p>Depois della, a felicidade ou o desespero?</p>
-
-<p class="center">D. HELENA, <i>estendendo-lhe a mão</i></p>
-
-<p>Está nas suas mãos a escolha. (<i>A D. Leonor</i>) Não se admire tanto,
-titia; tudo isto é botanica applicada.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter transnote">
-
-<h2 class="nobreak" id="Nota">Notas</h2>
-
-
-<p>Os erros óbvios do editora foram corrigidos.</p>
-
-<p>O <a href="#INDICE">Indice</a> foi realocado ao inicio para facilitar a navegaçäõ.</p>
-</div>
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-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>RELIQUIAS DE CASA VELHA</span> ***</div>
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-Defect you cause.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg&#8482;&#8217;s
-goals and ensuring that the Project Gutenberg&#8482; collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg&#8482; and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state&#8217;s laws.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
-public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state
-visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This website includes information about Project Gutenberg&#8482;,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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