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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: Reliquias de Casa Velha - -Author: Machado de Assis - -Release Date: April 26, 2022 [eBook #67935] - -Language: Portuguese - -Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the - Online Distributed Proofreading Team at - https://www.pgdp.net (This file was produced from images - generously made available by Brasiliana Digital.) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK RELIQUIAS DE CASA VELHA *** - - - - - - ACABA DE SER PUBLICADO - - O - - Plano Pangermanista - - desmascarado - - A temivel cilada Berlineza da "=Partida Nulla=" - - POR - - _André Chéradame_ - - - Um vol. in-16 com 31 mappas no texto, - brochado, 4$000 - - Á venda na LIVRARIA GARNIER - - _109, Rua do Ouvidor--Rio de Janeiro_ - - - _Todos os direitos reservados_ - - - - - MACHADO DE ASSIS - - DA ACADEMIA BRASILEIRA - - - Reliquias - de - Casa Velha - - - H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR - - 71, RUA DO OUVIDOR, 71 - RIO DE JANEIRO - - 6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6 - PARIS - - 1906 - - - - - INDICE - - - ADVERTENCIA. I - - A CAROLINA. III - - Pae contra mãe. 1 - - Maria Cora. 19 - - Marcha funebre. 47 - - Um capitão de voluntarios. 59 - - Suje-se gordo! 79 - - Umas ferias. 87 - - Evolução. 99 - - Pylades e Orestes. 109 - - Anecdota do cabriolet. 125 - - Paginas criticas e commemorativas. 137 - - Não consultes medico. 167 - - Licção de botanica. 211 - - - - -ADVERTENCIA - - -_Uma casa tem muita vez as suas reliquias, lembranças de um dia ou de -outro, da tristeza que passou, da felicidade que se perdeu. Suppõe que -o dono pense em as arejar e expôr para teu e meu desenfado. Nem todas -serão interessantes, não raras serão aborrecidas, mas, se o dono tiver -cuidado, póde extrair uma duzia dellas que mereçam sair cá fóra._ - -_Chama-lhe á minha vida uma casa, dá o nome de reliquias aos ineditos e -impressos que aqui vão, idéas, historias, críticas, dialogos, e verás -explicados o livro e o titulo. Possivelmente não terão a mesma supposta -fortuna daquella duzia de outras, nem todas valerão a pena de sair cá -fóra. Depende da tua impressão, leitor amigo, como dependerá de ti a -absolvição da má escolha._ - - MACHADO DE ASSIS. - - - - -A Carolina - - - Querida, ao pé do leito derradeiro - Em que descanças dessa longa vida, - Aqui venho e virei, pobre querida, - Trazer-te o coração do companheiro. - - Pulsa-lhe aquelle affecto verdadeiro - Que, a despeito de toda a humana lida, - Fez a nossa existencia appetecida - E n'um recanto poz um mundo inteiro. - - Trago-te flores,--restos arrancados - Da terra que nos viu passar unidos - E ora mortos nos deixa e separados. - - Que eu, se tenho nos olhos mal feridos - Pensamentos de vida formulados, - São pensamentos idos e vividos. - - - - -Pae contra Mãe - - -A escravidão levou comsigo officios e apparelhos, como terá succedido -a outras instituições sociaes. Não cito alguns apparelhos senão por -se ligarem a certo officio. Um delles era o ferro ao pescoço, outro o -ferro ao pé; havia tambem a mascara de folha de Flandres. A mascara -fazia perder o vicio da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a -bocca. Tinha só tres buracos, dous para ver, um para respirar, e era -fechada atraz da cabeça por um cadeado. Com o vicio de beber, perdiam -a tentação de furtar, porque geralmente era dos vintens do senhor -que elles tiravam com que matar a sêde, e ahi ficavam dous peccados -extinctos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal -mascara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o -grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, á -venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de mascaras. - -O ferro ao pescoço era applicado aos escravos fujões. Imaginae uma -colleira grossa, com a haste grossa tambem, á direita ou á esquerda, -até ao alto da cabeça e fechada atraz com chave. Pesava, naturalmente, -mas era menos castigo que signal. Escravo que fugia assim, onde quer -que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado. - -Ha meio seculo, os escravos fugiam com frequencia. Eram muitos, e -nem todos gostavam da escravidão. Succedia occasionalmente apanharem -pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era -apenas reprehendida; havia alguem de casa que servia de padrinho, e -o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade -moderava a acção, porque dinheiro tambem dóe. A fuga repetia-se, -entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de -contrabando, apenas comprado no Vallongo, deitava a correr, sem -conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raros, -apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam -ganhal-o fóra, quitandando. - -Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lh'o -levasse. Punha annuncios nas folhas publicas, com os signaes do -fugido, o nome, a roupa, o defeito physico, se o tinha, o bairro por -onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, -vinha promessa: «gratificar-se-ha generosamente,»--ou «receberá uma -boa gratificação.» Muita vez o annuncio trazia em cima ou ao lado uma -vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao hombro, e na -ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o -acoutasse. - -Ora, pegar escravos fugidos era um officio do tempo. Não seria -nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei -e a propriedade, trazia esta outra nobreza implicita das acções -reivindicadoras. Ninguem se mettia em tal officio por desfastio ou -estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros -trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir tambem, ainda que -por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo -para pôr ordem á desordem. - -Candido Neves,--em familia, Candinho,--é a pessoa a quem se liga a -historia de uma fuga, cedeu á pobreza, quando adquiriu o officio -de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não -aguentava emprego nem officio, carecia de estabilidade; é o que elle -chamava caiporismo. Começou por querer aprender typographia, mas viu -cedo que era preciso algum tempo para compôr bem, e ainda assim talvez -não ganhasse o bastante; foi o que elle disse a si mesmo. O commercio -chamou-lhe a attenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de -caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de attender e servir a -todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas -estava na rua por sua vontade. Fiel de cartorio, continuo de uma -repartição annexa ao ministerio do imperio, carteiro e outros empregos -foram deixados pouco depois de obtidos. - -Quando veiu a paixão da moça Clara, não tinha elle mais que dividas, -ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de officio. -Depois de varias tentativas para obter emprego, resolveu adoptar o -officio do primo, de que aliás já tomára algumas licções. Não lhe -custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu -mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás -e relevos communs para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando -casasse, e o casamento não se demorou muito. - -Contava trinta annos, Clara vinte e dous. Ella era orphã, morava com -uma tia, Monica, e cosia com ella. Não cosia tanto que não namorasse -o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não -tinham outro empenho. Passavam ás tardes, olhavam muito para ella, -ella para elles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O -que ella notava é que nenhum d'elles lhe deixava saudades nem lhe -accendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, -naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se -o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só -para andar á roda da isca, miral-a, cheiral-a, deixal-a e ir a outras. - -O amor traz sobrescriptos. Quando a moça viu Candido Neves, sentiu que -era este o possivel marido, o marido verdadeiro e unico. O encontro -deu-se em um baile; tal foi--para lembrar o primeiro officio do -namorado,--tal foi a pagina inicial daquelle livro, que tinha de sair -mal composto e peior brochado. O casamento fez-se onze mezes depois, e -foi a mais bella festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos -por amizade que por inveja, tentaram arredal-a do passo que ia dar. -Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda -algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas. - ---Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto. - ---Não, defunto não; mas é que... - -Não diziam o que era. Tia Monica, depois do casamento, na casa pobre -onde elles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possiveis. -Elles queriam um, um só, embora viesse aggravar a necessidade. - ---Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia á sobrinha. - ---Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara. - -Tia Monica devia ter-lhes feito a advertencia, ou ameaça, quando elle -lhe foi pedir a mão da moça; mas tambem ella era amiga de patuscadas, e -o casamento seria uma festa, como foi. - -A alegria era commum aos tres. O casal ria a proposito de tudo. Os -mesmos nomes eram objecto de trocados, Clara, Neves, Candido; não davam -que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ella -cosia agora mais, elle saía a empreitadas de uma cousa e outra; não -tinha emprego certo. - -Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquelle -desejo especifico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia, -porém, deu signal de si a creança; varão ou femea, era o fructo -abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Monica -ficou desorientada, Candido e Clara riram dos seus sustos. - ---Deus nos ha de ajudar, titia, insistia a futura mãe. - -A noticia correu de visinha a visinha. Não houve mais que espreitar a -aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e -assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir -fazendo com retalhos o enxoval da creança. Á força de pensar nella, -vivia já com ella, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era -escassa, os intervallos longos. Tia Monica ajudava, é certo, ainda que -de má vontade. - ---Vocês verão a triste vida, suspirava ella. - ---Mas as outras creanças não nascem tambem? perguntou Clara. - ---Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que -pouco... - ---Certa como? - ---Certa, um emprego, um officio, uma occupação, mas em que é que o pae -dessa infeliz creatura que ahi vem, gasta o tempo? - -Candido Neves, logo que soube daquella advertencia, foi ter com a tia, -não aspero, mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já -algum dia deixára de comer. - ---A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo -quando não quer jantar commigo. Nunca deixámos de ter o nosso -bacalhau... - ---Bem sei, mas somos tres. - ---Seremos quatro. - ---Não é a mesma cousa. - ---Que quer então que eu faça, além do que faço? - ---Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem -do armarinho, o typographo que casou sabbado, todos têm um emprego -certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a -occupação que escolheu, é vaga. Você passa semanas sem vintem. - ---Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não -me abandona, e preto fugido sabe que commigo não brinca; quasi nenhum -resiste, muitos entregam-se logo. - -Tinha gloria nisto, falava da esperança como de capital seguro. Dahi a -pouco ria, e fazia rir á tia, que era naturalmente alegre, e previa uma -patuscada no baptisado. - -Candido Neves perdera já o officio de entalhador, como abrira mão de -outros muitos, melhores ou peiores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe -um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia -força, olho vivo, paciencia, coragem e um pedaço de corda. Candido -Neves lia os annuncios, copiava-os, mettia-os no bolso e saía ás -pesquizas. Tinha boa memoria. Fixados os signaes e os costumes de um -escravo fugido, gastava pouco tempo em achal-o, segural-o, amarral-o -e leval-o. A força era muita, a agilidade tambem. Mais de uma vez, a -uma esquina, conversando de cousas remotas, via passar um escravo como -os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, -a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atraz do -vicioso. Não o apanhava logo, espreitava logar azado, e de um salto -tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e -os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente elle os vencia sem o -menor arranhão. - -Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham -já, como d'antes, metter-se nas mãos de Candido Neves. Havia mãos novas -e habeis. Como o negocio crescesse, mais de um desempregado pegou em -si e n'uma corda, foi aos jornaes, copiou annuncios e deitou-se á -caçada. No proprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que -as dividas de Candido Neves começaram de subir, sem aquelles pagamentos -promptos ou quasi promptos dos primeiros tempos. A vida fez-se difficil -e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelos -alugueis. - -Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta -era a necessidade de coser para fóra. Tia Monica ajudava a sobrinha, -naturalmente. Quando elle chegava á tarde, via-se-lhe pela cara que não -trazia vintem. Jantava e saía outra vez, á cata de algum fugido. Já -lhe succedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo -fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. -Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu -grande somma de murros que lhe deram os parentes do homem. - ---É o que lhe faltava! exclamou tia Monica, ao vel-o entrar, e depois -de ouvir narrar o equivoco e suas consequencias. Deixe-se disso, -Candinho; procure outra vida, outro emprego. - -Candido quizera effectivamente fazer outra cousa, não pela razão do -conselho, mas por simples gosto de trocar de officio; seria um modo de -mudar de pelle ou de pessoa. O peior é que não achava á mão negocio que -aprendesse depressa. - -A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado á mãe, antes -de nascer. Chegou o oitavo mez, mez de angustias e necessidades, menos -ainda que o nono, cuja narração dispenso tambem. Melhor é dizer somente -os seus effeitos. Não podiam ser mais amargos. - ---Não, tia Monica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa -escrever, quanto mais ao pae ouvil-o. Isso nunca! - -Foi na ultima semana do derradeiro mez que a tia Monica deu ao casal -o conselho de levar a creança que nascesse á Roda dos engeitados. Em -verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens -paes que espreitavam a creança, para beijal-a, guardal-a, vel-a rir, -crescer, engordar, pular... Engeitar quê? engeitar como? Candinho -arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de -jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quasi a se -desfazer inteiramente. Clara interveiu: - ---Titia não fala por mal, Candinho. - ---Por mal? replicou tia Monica. Por mal ou por bem, seja o que fôr, -digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne -e o feijão vão faltando. Se não apparecer algum dinheiro, como é que -a familia ha de augmentar? E depois, ha tempo; mais tarde, quando o -senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos -com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe -faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se -mata ninguem, ninguem morre á tôa, emquanto que aqui é certo morrer, se -viver á mingua. Enfim... - -Tia Monica terminou a phrase com um gesto de hombros, deu as costas e -foi metter-se na alcova. Tinha já insinuado aquella solução, mas era -a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor,--crueldade, se -preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o animo; -Candido Neves fez uma careta, e chamou maluca á tia, em voz baixa. A -ternura dos dous foi interrompida por alguem que batia á porta da rua. - ---Quem é? perguntou o marido. - ---Sou eu. - -Era o dono da casa, credor de tres mezes de aluguel, que vinha em -pessoa ameaçar o inquilino. Este quiz que elle entrasse. - ---Não é preciso... - ---Faça favor. - -O credor entrou e recusou sentar-se; deitou os olhos á mobilia para ver -se daria algo á penhora; achou que pouco. Vinha receber os alugueis -vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse -pago, pol-o-hia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. -Ao vel-o, ninguem diria que era proprietario; mas a palavra suppria -o que faltava ao gesto, e o pobre Candido Neves preferiu calar a -retorquir. Fez uma inclinação de promessa e supplica ao mesmo tempo. O -dono da casa não cedeu mais. - ---Cinco dias ou rua! repetiu, mettendo a mão no ferrolho da porta e -saindo. - -Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao -desespero, contava com algum emprestimo, não sabia como nem onde, -mas contava. Demais, recorreu aos annuncios. Achou varios, alguns -já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas -sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou -recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietario, -não alcançando mais que a ordem de mudança. - -A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que -lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. -Tia Monica teve arte de alcançar aposento para os tres em casa de uma -senhora velha e rica, que lhe prometteu emprestar os quartos baixos -da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pateo. Teve ainda -a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Candido Neves, -no desespero da crise, começasse por engeitar o filho e acabasse -alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a -vida, em summa. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, -mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, -fal-os-hia espantar com a noticia do obsequio e iriam dormir melhor do -que cuidassem. - -Assim succedeu. Postos fóra da casa, passaram ao aposento de favor, -e dous dias depois nasceu a creança. A alegria do pae foi enorme, e -a tristeza tambem. Tia Monica insistiu em dar a creança á Roda. «Se -você não a quer levar, deixe isso commigo; eu vou á rua dos Barbonos.» -Candido Neves pediu que não, que esperasse, que elle mesmo a levaria. -Notae que era um menino, e que ambos os paes desejavam justamente este -sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse á noite, assentou o -pae leval-o á Roda na noite seguinte. - -Naquella reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As -gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a somma -escripta e escassa. Uma, porém, subia a cem mil réis. Tratava-se de uma -mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Candido Neves andára a -pesquizal-a sem melhor fortuna, e abrira mão do negocio; imaginou que -algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista -nova da quantia e a necessidade della animaram Candido Neves a fazer -um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela rua -e largo da Carioca, rua do Parto e da Ajuda, onde ella parecia andar, -segundo o annuncio. Não a achou; apenas um pharmaceutico da rua da -Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, tres dias -antes, á pessoa que tinha os signaes indicados. Candido Neves parecia -falar como dono da escrava, e agradeceu cortezmente a noticia. Não foi -mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata. - -Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Monica -arranjára de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino -para ser levado á Roda. O pae, não obstante o accordo feito, mal poude -esconder a dôr do espectaculo. Não quiz comer o que Tia Monica lhe -guardára; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos -de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o proprio -albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. -Tia Monica pintára-lhe a criação do menino; seria maior miseria, -podendo succeder que o filho achasse a morte sem recurso. Candido Neves -foi obrigado a cumprir a promessa; pediu á mulher que désse ao filho -o resto do leite que elle beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno -adormeceu, o pae pegou delle, e saiu na direcção da rua dos Barbonos. - -Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com elle, é certo; não -menos certo é que o agazalhava muito, que o beijava, que lhe cobria o -rosto para preserval-o do sereno. Ao entrar na rua da Guarda Velha, -Candido Neves começou a afrouxar o passo. - ---Hei de entregal-o o mais tarde que puder, murmurou elle. - -Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabal-a; foi -então que lhe occorreu entrar por um dos beccos que ligavam aquella á -rua da Ajuda. Chegou ao fim do becco e, indo a dobrar á direita, na -direcção do largo da Ajuda, viu do lado opposto, um vulto de mulher; -era a mulata fugida. Não dou aqui a commoção de Candido Neves por não -podel-o fazer com a intensidade real. Um adjectivo basta; digamos -enorme. Descendo a mulher, desceu elle tambem; a poucos passos estava a -pharmacia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o -pharmaceutico, pediu-lhe a fineza de guardar a creança por um instante; -viria buscal-a sem falta. - ---Mas... - -Candido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rapido, atravessou -a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarme. No -extremo da rua, quando ella ia a descer a de S. José, Candido Neves -approximou-se della. Era a mesma, era a mulata fujona. - ---Arminda! bradou, conforme a nomeava o annuncio. - -Arminda voltou-se sem cuidar malicia. Foi só quando elle, tendo tirado -o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ella -comprehendeu e quiz fugir. Era já impossivel. Candido Neves, com as -mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quiz -gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, -mas entendeu logo que ninguem viria libertal-a, ao contrario. Pediu -então que a soltasse pelo amor de Deus. - ---Estou gravida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum -filho, peço-lhe por amor delle que me solte; eu serei sua escrava, vou -servil-o pelo tempo que quizer. Me solte, meu senhor moço! - ---Siga! repetiu Candido Neves. - ---Me solte! - ---Não quero demoras; siga! - -Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao -filho. Quem passava ou estava á porta de uma loja, comprehendia o que -era e naturalmente não acudia. Arminda ia allegando que o senhor era -muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes,-- cousa que, no -estado em que ella estava, seria peior de sentir. Com certeza, elle lhe -mandaria dar açoutes. - ---Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? -perguntou Candido Neves. - -Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficára na -pharmacia, á espera delle. Tambem é certo que não costumava dizer -grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela rua dos Ourives, em -direcção á da Alfandega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta -cresceu; a escrava poz os pés á parede, recuou com grande esforço, -inutilmente. O que alcançou foi, apezar de ser a casa proxima, gastar -mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, emfim, arrastada, -desesperada, arquejando. Ainda alli ajoelhou-se, mas em vão. O senhor -estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor. - ---Aqui está a fujona, disse Candido Neves. - ---É ella mesma. - ---Meu senhor! - ---Anda, entra... - -Arminda caiu no corredor. Alli mesmo o senhor da escrava abriu a -carteira e tirou os cem mil reis de gratificação. Candido Neves guardou -as duas notas de cincoenta mil reis, emquanto o senhor novamente dizia -á escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dôr, e -após algum tempo de luta a escrava abortou. - -O fructo de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos -da mãe e os gestos de desespero do dono. Candido Neves viu todo esse -espectaculo. Não sabia que horas eram. Quaesquer que fossem, urgia -correr á rua da Ajuda, e foi o que elle fez sem querer conhecer as -consequencias do desastre. - -Quando lá chegou, viu o pharmaceutico sósinho, sem o filho que lhe -entregára. Quiz esganal-o. Felizmente, o pharmaceutico explicou tudo a -tempo; o menino estava lá dentro com a familia, e ambos entraram. O -pae recebeu o filho com a mesma furia com que pegára a escrava fujona -de ha pouco, furia diversa, naturalmente, furia de amor. Agradeceu -depressa e mal, e saiu ás carreiras, não para a Roda dos engeitados, -mas para a casa de emprestimo, com o filho e os cem mil reis de -gratificação. Tia Monica, ouvida a explicação, perdoou a volta do -pequeno, uma vez que trazia os cem mil reis. Disse, é verdade, algumas -palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. -Candido Neves, beijando o filho, entre lagrimas verdadeiras, abençoava -a fuga e não se lhe dava do aborto. - ---Nem todas as creanças vingam, bateu-lhe o coração. - - - - -Maria Cora - - -I - -Uma noite, voltando para casa, trazia tanto somno que não dei corda -ao relogio. Póde ser tambem que a vista de uma senhora que encontrei -em casa do commendador T. contribuisse para aquelle esquecimento; -mas estas duas razões destróem-se. Cogitação tira o somno e o somno -impede a cogitação; só uma das causas devia ser verdadeira. Ponhamos -que nenhuma, e fiquemos no principal, que é o relogio parado, de manhã, -quando me levantei, ouvindo dez horas no relogio da casa. - -Morava então (1893) em uma casa de pensão no Cattete. Já por esse -tempo este genero de residencia florescia no Rio de Janeiro. Aquella -era pequena e tranquilla. Os quatrocentos contos de réis permittiam-me -casa exclusiva e propria; mas, em primeiro logar, já eu alli residia -quando os adquri, por jogo de praça; em segundo logar, era um solteirão -de quarenta annos, tão affeito á vida de hospedaria que me seria -impossivel morar só. Casar não era menos impossivel. Não é que me -faltassem noivas. Desde os fins de 1891 mais de uma dama,--e não das -menos bellas,--olhou para mim com olhos brandos e amigos. Uma das -filhas do commendador tratava-me com particular attenção. A nenhuma dei -corda; o celibato era a minha alma, a minha vocação, o meu costume, a -minha unica ventura. Amaria de empreitada e por desfastio. Uma ou duas -aventuras por anno bastavam a um coração meio inclinado ao occaso e á -noite. - -Talvez por isso dei alguma attenção á senhora que vi em casa do -commendador, na vespera. Era uma creatura morena, robusta, vinte e oito -a trinta annos, vestida de escuro; entrou ás dez horas, acompanhada de -uma tia velha. A recepção que lhe fizeram, foi mais cerimoniosa que as -outras; era a primeira vez que alli ia. Eu era a terceira. Perguntei se -era viuva. - ---Não; é casada. - ---Com quem? - ---Com um estancieiro do Rio Grande. - ---Chama-se? - ---Elle? Fonseca, ella Maria Cora. - ---O marido não veiu com ella? - ---Está no Rio Grande. - -Não soube mais nada; mas a figura da dama interessou-me pelas graças -physicas, que eram o opposto do que poderiam sonhar poetas romanticos -e artistas seraphicos. Conversei com ella alguns minutos, sobre cousas -indifferentes,--mas sufficientes para escutar-lhe a voz, que era -musical, e saber que tinha opiniões republicanas. Vexou-me confessar -que não as professava de especie alguma; declarei-me vagamente pelo -futuro do paiz. Quando ella falava, tinha um modo de humedecer os -beiços, não sei se casual, mas gracioso e picante. Creio que, vistas -assim ao pé, as feições não eram tão correctas como pareciam a -distancia, mas eram mais suas, mais originaes. - - -II - -De manhã tinha o relogio parado. Chegando á cidade, desci a rua do -Ouvidor, até á da Quitanda, e indo a voltar á direita, para ir ao -escriptorio do meu advogado, lembrou-me ver que horas eram. Não me -acudiu que o relogio estava parado. - ---Que massada! exclamei. - -Felizmente, naquella mesma rua da Quitanda, á esquerda, entre as do -Ouvidor e Rosario, era a officina onde eu comprára o relogio, e a -cuja pendula usava acertal-o. Em vez de ir para um lado, fui para -outro. Era apenas meia hora; dei corda ao relogio, acertei-o, troquei -duas palavras com o official que estava ao balcão, e indo a sair, vi -á porta de uma loja de novidades que ficava defronte, nem mais nem -menos que a senhora de escuro que encontrára em casa do commendador. -Comprimentei-a, ella correspondeu depois de alguma hesitação, como se -me não houvesse reconhecido logo, e depois seguiu pela rua da Quitanda -fóra, ainda para o lado esquerdo. - -Como tivesse algum tempo ante mim (pouco menos de trinta minutos), -dei-me a andar atraz de Maria Cora. Não digo que uma força violenta -me levasse já, mas não posso esconder que cedia a qualquer impulso de -curiosidade e desejo; era tambem um resto da juventude passada. Na rua, -andando, vestida de escuro, como na vespera, Maria Cora pareceu-me -ainda melhor. Pisava forte, não apressada nem lenta, o bastante -para deixar ver e admirar as bellas fórmas, mui mais correctas que -as linhas do rosto. Subiu a rua do Hospicio, até uma officina de -ocularista, onde entrou e ficou dez minutos ou mais. Deixei-me estar -a distancia, fitando a porta disfarçadamente. Depois saiu, arrepiou -caminho, e dobrou a rua dos Ourives, até á do Rosario, por onde subiu -até ao largo da Sé; dahi passou ao de S. Francisco de Paula. Todas -essas reminiscencias parecerão escusadas, senão aborreciveis; a mim -dão-me uma sensação intensa e particular, são os primeiros passos de -uma carreira penosa e longa. Demais, vereis por aqui que ella evitava -subir a rua do Ouvidor, que todos e todas buscariam áquella ou a outra -hora para ir ao largo de S. Francisco de Paula. Foi atravessando o -largo, na direcção da Escola Polytechnica, mas a meio caminho veiu -ter com ella um carro que estava parado defronte da Escola; metteu-se -nelle, e o carro partiu. - -A vida tem suas encruzilhadas, como outros caminhos da terra. Naquelle -momento achei-me deante de uma assaz complicada, mas não tive tempo de -escolher direcção,--nem tempo nem liberdade. Ainda agora não sei como -é que me vi dentro de um tilbury; é certo que me vi nelle, dizendo ao -cocheiro que fosse atraz do carro. - -Maria Cora morava no Engenho Velho; era uma boa casa, solida, posto -que antiga, dentro de uma chacara. Vi que morava alli, porque a tia -estava a uma das janellas. Demais, saindo do carro, Maria Cora disse ao -cocheiro (o meu tilbury ia passando adeante) que naquella semana não -sairia mais, e que apparecesse segunda-feira ao meio-dia. Em seguida, -entrou pela chacara, como dona della, e parou a falar ao feitor, que -lhe explicava alguma cousa com o gesto. - -Voltei depois que ella entrou em casa, e só muito abaixo é que me -lembrou de ver as horas; era quasi uma e meia. Vim a trote largo até á -rua da Quitanda, onde me apeei á porta do advogado. - ---Pensei que não vinha, disse-me elle. - ---Desculpe, doutor, encontrei um amigo que me deu uma massada. - -Não era a primeira vez que mentia na minha vida, nem seria a ultima. - - -III - -Fiz-me encontradiço com Maria Cora, na casa do commendador, primeiro, -e depois em outras. Maria Cora não vivia absolutamente reclusa, dava -alguns passeios e fazia visitas. Tambem recebia, mas sem dia certo, -uma ou outra vez, e apenas cinco a seis pessoas da intimidade. O -sentimento geral é que era pessoa de fortes sentimentos e austeros -costumes. Accrescentae a isto o espirito, um espirito agudo, brilhante -e viril. Capaz de resistencias e fadigas, não menos que de violencias e -combates, era feita, como dizia um poeta que lá ia á casa della, «de um -pedaço de pampa e outro de pampeiro.» A imagem era um verso e rima, mas -a mim só me ficou a idéa e o principal das palavras. Maria Cora gostava -de ouvir definir-se assim, posto não andasse mostrando aquellas forças -a cada passo, nem contando as suas memorias da adolescencia. A tia é -que contava algumas, com amor, para concluir que lhe saia a ella, que -tambem fôra assim na mocidade. A justiça pede que se diga que, ainda -agora, apezar de doente, a tia era pessoa de muita vida e robustez. - -Com pouco, apaixonei-me pela sobrinha. Não me pesa confessal-o, pois -foi a occasião da unica pagina da minha vida que merece attenção -particular. Vou narral-a brevemente; não conto novella nem direi -mentiras. - -Gostei de Maria Cora. Não lhe confiei logo o que sentia, mas é provavel -que ella o percebesse ou adivinhasse, como todas as mulheres. Se a -descoberta ou adivinhação foi anterior á minha ida á casa do Engenho -Velho, nem assim deveis censural-a por me haver convidado a ir alli uma -noite. Podia ser-lhe então indifferente a minha disposição moral; podia -tambem gostar de se sentir querida, sem a menor idéa de retribuição. A -verdade é que fui essa noite e tornei outras; a tia gostava de mim e -dos meus modos. O poeta que lá ia, tagarella e tonto, disse uma vez que -estava afinando a lyra para o casamento da tia commigo. A tia riu-se; -eu, que queria as boas graças della, não podia deixar de rir tambem, e -o caso foi materia de conversação por uma semana; mas já então o meu -amor á outra tinha attingido ao cume. - -Soube, pouco depois, que Maria Cora vivia separada do marido. Tinham -casado oito annos antes, por verdadeira paixão. Viveram felizes cinco. -Um dia, sobreveiu uma aventura do marido que destruiu a paz do casal. -João da Fonseca apaixonou-se por uma figura de circo, uma chilena que -voava em cima do cavallo, Dolores, e deixou a estancia para ir atraz -della. Voltou seis mezes depois, curado do amor, mas curado á força, -porque a aventureira se namorou do redactor de um jornal, que não tinha -vintem, e por elle abandonou Fonseca e a sua prataria. A esposa tinha -jurado não acceitar mais o esposo, e tal foi a declaração que lhe fez -quando elle appareceu na estancia. - ---Tudo está acabado entre nós; vamos desquitar-nos. - -João da Fonseca teve um primeiro gesto de accordo; era um quadragenario -orgulhoso, para quem tal proposta era de si mesma uma offensa. Durante -uma noite tratou dos preparativos para o desquite; mas, na seguinte -manhã, a vista das graças da esposa novamente o commoveram. Então, sem -tom implorativo, antes como quem lhe perdoava, entendeu dizer-lhe que -deixasse passar uns seis mezes. Se ao fim de seis mezes, persistisse o -sentimento actual que inspirava a proposta do desquite, este se faria. -Maria Cora não queria aceitar a emenda, mas a tia, que residia em Porto -Alegre e fôra passar algumas semanas na estancia, interveiu com boas -palavras. Antes de tres mezes estavam reconciliados. - ---João, disse-lhe a mulher no dia seguinte ao da reconciliação, você -deve ver que o meu amor é maior que o meu ciume, mais fica entendido -que este caso da nossa vida é unico. Nem você me fará outra, nem eu lhe -perdoarei nada mais. - -João da Fonseca achava-se então em um renascimento do delirio conjugal; -respondeu á mulher jurando tudo e mais alguma cousa. Aos quarenta -annos, concluiu elle, não se fazem duas aventuras daquellas, e a minha -foi de doer. Você verá, agora é para sempre. - -A vida recomeçou tão feliz, como d'antes,--elle dizia que mais. Com -effeito, a paixão da esposa era violenta, e o marido tornou a amal-a -como outr'ora. Viveram assim dous annos. Ao fim desse tempo, os ardores -do marido haviam diminuido, alguns amores passageiros vieram metter-se -entre ambos. Maria Cora, ao contrario do que lhe dissera, perdoou -essas faltas, que aliás não tiveram a extensão nem o vulto da aventura -Dolores. Os desgostos, entretanto, appareceram e grandes. Houve scenas -violentas. Ella parece que chegou mais de uma vez a ameaçar que se -mataria; mas, posto não lhe faltasse o preciso animo, não fez tentativa -nenhuma, a tal ponto lhe doia deixar a propria causa do mal, que era -o marido. João da Fonseca percebeu isto mesmo, e acaso explorou a -fascinação que exercia na mulher. - -Uma circumstancia politica veiu complicar esta situação moral. João da -Fonseca era pelo lado da revolução, dava-se com varios dos seus chefes, -e pessoalmente detestava alguns dos contrarios. Maria Cora, por laços -de familia, era adversa aos federalistas. Esta opposição de sentimentos -não seria bastante para separal-os, nem se póde dizer que, por si -mesma, azedasse a vida dos dous. Embora a mulher, ardente em tudo, -não o fosse menos em condemnar a revolução, chamando nomes crús aos -seus chefes e officiaes; embora o marido, tambem excessivo, replicasse -com egual odio, os seus arrufos politicos apenas augmentariam os -domesticos, e provavelmente não passariam dessa troca de conceitos, se -uma nova Dolores, desta vez Prazeres, e não chilena nem saltimbanca, -não revivesse os dias amargos de outro tempo. Prazeres era ligada ao -partido da revolução, não só pelos sentimentos, como pelas relações da -vida com um federalista. Eu a conheci pouco depois, era bella e airosa; -João da Fonseca era tambem um homem gentil e seductor. Podiam amar-se -fortemente, e assim foi. Vieram incidentes, mais ou menos graves, até -que um decisivo determinou a separação do casal. - -Já cuidavam disto desde algum tempo, mas a reconciliação não seria -impossivel, apesar da palavra de Maria Cora, graças á intervenção da -tia; esta havia insinuado á sobrinha que residisse tres ou quatro mezes -no Rio de Janeiro ou em S. Paulo. Succedeu, porém, uma cousa triste -de dizer. O marido, em um momento de desvario, ameaçou a mulher com o -rebenque. Outra versão diz que elle tentára esganal-a. Quero crer que -a veridica é a primeira, e que a segunda foi inventada para tirar á -violencia de João da Fonseca o que pudesse haver deprimente e vulgar. -Maria Cora não disse mais uma só palavra ao marido. A separação foi -immediata; a mulher veiu com a tia para o Rio de Janeiro, depois de -arranjados amigavelmente os interesses pecuniarios. Demais, a tia era -rica. - -João da Fonseca e Prazeres ficaram vivendo juntos uma vida de aventuras -que não importa escrever aqui. Só uma cousa interessa directamente á -minha narração. Tempos depois da separação do casal, João da Fonseca -estava alistado entre os revolucionarios. A paixão politica, posto -que forte, não o levaria a pegar em armas, se não fosse uma especie -de desafio da parte de Prazeres; assim correu entre os amigos delle, -mas ainda este ponto é obscuro. A versão é que ella, exasperada com o -resultado de alguns combates, disse ao estancieiro que iria, disfarçada -em homem, vestir farda de soldado e bater-se pela revolução. Era capaz -disto; o amante disse-lhe que era uma loucura, ella acabou propondo-lhe -que, nesse caso, fosse elle bater-se em vez della; era uma grande prova -de amor que lhe daria. - ---Não te tenho dado tantas? - ---Tem, sim; mas esta é a maior de todas, esta me fará captiva até á -morte. - ---Então agora ainda não é até á morte? perguntou elle rindo. - ---Não. - -Póde ser que as cousas se passassem assim. Prazeres era, com effeito, -uma mulher caprichosa e imperiosa, e sabia prender um homem por laços -de ferro. O federalista, de quem se separou para acompanhar João -da Fonseca, depois de fazer tudo para rehavel-a, passou á campanha -oriental, onde dizem que vive pobremente, encanecido e envelhecido -vinte annos, sem querer saber de mulheres nem de politica. João da -Fonseca acabou cedendo; ella pediu para acompanhal-o, e até bater-se, -se fosse preciso; elle negou-lh'o. A revolução triumpharia em breve, -disse; vencidas as forças do governo, tornaria á estancia, onde ella o -esperaria. - ---Na estancia, não, respondeu Prazeres; espero-te em Porto Alegre. - - -IV - -Não importa dizer o tempo que despendi nos inicios da minha paixão, -mas não foi grande. A paixão cresceu rapida e forte. Afinal senti-me -tão tomado della que não pude mais guardal-a commigo, e resolvi -declarar-lh'a uma noite; mas a tia, que usava cochilar desde as nove -horas (accordava ás quatro) d'aquella vez não pregou olho, e, ainda que -o fizesse, é provavel que eu não alcançasse falar; tinha a voz presa e -na rua senti uma vertigem egual á que me deu a primeira paixão da minha -vida. - ---Sr. Corrêa, não vá cair, disse a tia quando eu passei á varanda, -despedindo-me. - ---Deixe estar, não caio. - -Passei mal a noite; não pude dormir mais de duas horas, aos pedaços, e -antes das cinco estava em pé. - ---É preciso acabar com isto! exclamei. - -De facto, não parecia achar em Maria Cora mais que benevolencia e -perdão, mas era isso mesmo que a tornava appetecivel. Todos os amores -da minha vida tinham sido faceis; em nenhuma encontrei resistencia, -a nenhuma deixei com dôr; alguma pena, é possivel, e um pouco de -recordação. Desta vez sentia-me tomado por ganchos de ferro. Maria Cora -era toda vida; parece que, ao pé della, as proprias cadeiras andavam -e as figuras do tapete moviam os olhos. Põe nisso uma forte dose de -meiguice e graça; finalmente, a ternura da tia fazia d'aquella creatura -um anjo. É banal a comparação, mas não tenho outra. - -Resolvi cortar o mal pela raiz, não tornando ao Engenho Velho, e assim -fiz por alguns dias largos, duas ou tres semanas. Busquei distrair-me -e esquecel-a, mas foi em vão. Comecei a sentir a ausencia como de um -bem querido; apesar d'isso, resisti e não tornei logo. Mas, crescendo -a ausencia, cresceu o mal, e emfim resolvi tornar lá uma noite. Ainda -assim póde ser que não fosse, a não achar Maria Cora na mesma officina -da rua da Quitanda, aonde eu fôra acertar o relogio parado. - ---É freguez tambem? perguntou-me ao entrar. - ---Sou. - ---Vim acertar o meu. Mas, porque não tem apparecido? - ---É verdade, porque não voltou lá á casa? completou a tia. - ---Uns negocios, murmurei; mas, hoje mesmo contava ir lá. - ---Hoje não; vá amanhã, disse a sobrinha. Hoje vamos passar a noite -fóra. - -Pareceu-me ler naquella palavra um convite a amal-a de vez, assim como -a primeira trouxera um tom que presumi ser de saudade. Realmente, -no dia seguinte, fui ao Engenho Velho. Maria Cora acolheu-me com a -mesma boa vontade de antes. O poeta lá estava e contou-me em verso os -suspiros que a tia dera por mim. Entrei a frequental-as novamente e -resolvi declarar tudo. - -Já acima disse que ella provavelmente percebera ou adivinhára o que eu -sentia, como todas as mulheres; referi-me aos primeiros dias. D'esta -vez com certeza percebeu, nem por isso me repelliu. Ao contrario, -parecia gostar de se ver querida, muito e bem. - -Pouco depois d'aquella noite escrevi-lhe uma carta e fui ao Engenho -Velho. Achei-a um pouco retrahida; a tia explicou-me que recebera -noticias do Rio Grande que a affligiram. Não liguei isto ao casamento, -e busquei alegral-a; apenas consegui vel-a cortez. Antes de sair, -perto da varanda, entreguei-lhe a carta; ia a dizer-lhe: «Peço-lhe que -leia», mas a voz não saiu. Vi-a um pouco atrapalhada, e para evitar -dizer o que melhor ia escripto, comprimentei-a e enfiei pelo jardim. -Póde imaginar-se a noite que passei, e o dia seguinte foi naturalmente -egual, á medida que a outra noite vinha. Pois, ainda assim, não tornei -á casa d'ella; resolvi esperar tres ou quatro dias, não que ella me -escrevesse logo, mas que pensasse nos termos da resposta. Que estes -haviam de ser sympathicos, era certeza minha; as maneiras della, nos -ultimos tempos, eram mais que affaveis, pareciam-me convidativas. - -Não cheguei, porém, aos quatro dias; mal pude esperar tres. Na noite -do terceiro fui ao Engenho Velho. Se disser que entrei tremulo da -primeira commoção, não minto. Achei-a ao piano, tocando para o poeta -ouvir; a tia, na poltrona, pensava em não sei qué, mas eu quasi não a -vi, tal a minha primeira allucinação. - ---Entre, Sr. Correia, disse esta; não caia em cima de mim. - ---Perdão... - -Maria Cora não interrompeu a musica; ao ver-me chegar, disse: - ---Desculpe, se lhe não dou a mão, estou aqui servindo de musa a este -senhor. - -Minutos depois, veiu a mim, e estendeu-me a mão com tanta galhardia, -que li nella a resposta, e estive quasi a dar-lhe um agradecimento. -Passaram-se alguns minutos, quinze ou vinte. Ao fim desse tempo, ella -pretextou um livro, que estava em cima das musicas, e pediu-me para -dizer se o conhecia; fomos alli ambos, e ella abriu-m'o; entre as duas -folhas estava um papel. - ---Na outra noite, quando aqui esteve, deu-me esta carta; não podia -dizer-me o que tem dentro? - ---Não adivinha? - ---Posso errar na adivinhação. - ---É isso mesmo. - ---Bem, mas eu sou uma senhora casada, e nem por estar separada do meu -marido deixo de estar casada. O senhor ama-me, não é? Supponha, pelo -melhor, que eu tambem o amo; nem por isso deixo de estar casada. - -Dizendo isto, entregou-me a carta; não fôra aberta. Se estivessemos -sós, é possivel que eu lh'a lesse, mas a presença de extranhos -impedia-me este recurso. Demais, era desnecessario; a resposta de Maria -Cora era definitiva ou me pareceu tal. Peguei na carta, e antes de a -guardar commigo: - ---Não quer então ler? - ---Não. - ---Nem para ver os termos? - ---Não. - ---Imagine que lhe proponho ir combater contra seu marido, matal-o e -voltar, disse eu cada vez mais tonto. - ---Propõe isto? - ---Imagine. - ---Não creio que ninguem me ame com tal força, concluiu sorrindo. Olhe, -que estão reparando em nós. - -Dizendo isto, separou-se de mim, e foi ter com a tia e o poeta. Eu -fiquei ainda alguns segundos com o livro na mão, como se devéras o -examinasse, e afinal deixei-o. Vim sentar-me defronte della. Os tres -conversavam de cousas do Rio Grande, de combates entre federalistas -e legalistas, e da varia sorte delles. O que eu então senti não se -escreve; pelo menos, não o escrevo eu, que não sou romancista. Foi -uma especie de vertigem, um delirio, uma scena pavorosa e lucida, -um combate e uma gloria. Imaginei-me no campo, entre uns e outros, -combatendo os federalistas, e afinal matando João da Fonseca, voltando -e casando-me com a viuva. Maria Cora contribuia para esta visão -seductora; agora, que me recusára a carta, parecia-me mais bella que -nunca, e a isto accrescia que se não mostrava zangada nem offendida, -tratava-me com egual carinho que antes, creio até que maior. Disto -podia sair uma impressão dupla e contraria,--uma de acquiescencia -tacita, outra de indifferença, mas eu só via a primeira, e sai de lá -completamente louco. - -O que então resolvi foi realmente de louco. As palavras de Maria Cora: -«Não creio que ninguem me ame com tal força»--soavam-me aos ouvidos, -como um desafio. Pensei nellas toda a noite, e no dia seguinte fui ao -Engenho Velho; logo que tive occasião de jurar-lhe a prova, fil-o. - ---Deixo tudo o que me interessa, a começar pela paz, com o unico fim de -lhe mostrar que a amo, e a quero só e santamente para mim. Vou combater -a revolta. - -Maria Cora fez um gesto de deslumbramento. Daquella vez percebi que -realmente gostava de mim, verdadeira paixão, e se fosse viuva, não -casava com outro. Jurei novamente que ia para o Sul. Ella commovida, -estendeu-me a mão. Estavamos em pleno romantismo. Quando eu nasci, os -meus não acreditavam em outras provas de amor, e minha mãe contava-me -os romances em versos de cavalleiros andantes que iam á Terra-Santa -libertar o sepulcro de Christo por amor da fé e da sua dama. Estavamos -em pleno romantismo. - - -V - -Fui para o Sul. Os combates entre legalistas e revolucionarios eram -continuos e sangrentos, e a noticia d'elles contribuiu a animar-me. -Entretanto, como nenhuma paixão politica me levava a entrar na luta, -força é confessar que por um instante me senti abatido e hesitei. Não -era medo da morte, podia ser amor da vida, que é um synonymo; mas, uma -ou outra cousa, não foi tal nem tamanha que fizesse durar por muito -tempo a hesitação. Na cidade do Rio Grande encontrei um amigo, a quem -eu por carta do Rio de Janeiro dissera muito reservadamente que ia lá -por motivos politicos. Quiz saber quaes. - ---Naturalmente são reservados, respondi tentando sorrir. - ---Bem; mas uma cousa creio que posso saber, uma só, porque não sei -absolutamente o que pense a tal respeito, nada havendo antes que me -instrua. De que lado estás, legalistas ou revoltosos? - ---É boa! Se não fosse dos legalistas, não te mandaria dizer nada; viria -ás escondidas. - ---Vens com alguma commissão secreta do marechal? - ---Não. - -Não me arrancou então mais nada, mas eu não pude deixar de lhe -confiar os meus projectos, ainda que sem os seus motivos. Quando -elle soube que aquelles eram alistar-me entre os voluntarios que -combatiam a revolução, não poude crer em mim, e talvez desconfiasse -que effectivamente eu levava algum plano secreto do presidente. Nunca -da minha parte ouviu nada que pudesse explicar semelhante passo. -Entretanto, não perdeu tempo em despersuadir-me; pessoalmente era -legalista e falava dos adversarios com odio e furor. Passado o espanto, -acceitou o meu acto, tanto mais nobre quanto não era inspirado por -sentimento de partido. Sobre isto disse-me muita palavra bella e -heroica, propria a levantar o animo de quem já tivesse tendencia para a -luta. Eu não tinha nenhuma, fóra das razões particulares; estas, porém, -eram agora maiores. Justamente acabava de receber uma carta da tia de -Maria Cora, dando-me noticias dellas, e recommendações da sobrinha, -tudo com alguma generalidade e certa sympathia verdadeira. - -Fui a Porto Alegre, alistei-me e marchei para a campanha. Não disse -a meu respeito nada que pudesse despertar a curiosidade de ninguem, -mas era difficil encobrir a minha condição, a minha origem, a minha -viagem com o plano de ir combater a revolução. Fez-se logo uma lenda a -meu respeito. Eu era um republicano antigo, riquissimo, enthusiasta, -disposto a dar pela Republica mil vidas, se as tivesse, e resoluto -a não poupar a unica. Deixei dizer isto e o mais, e fui. Como eu -indagasse das forças revolucionarias com que estaria João da Fonseca, -alguem quiz ver nisto uma razão de odio pessoal; tambem não faltou -quem me suppozesse espião dos rebeldes, que ia pôr-me em communicação -secreta com aquelle. Pessoas que sabiam das relações delle com a -Prazeres, imaginavam que era um antigo amante desta que se queria -vingar dos amores delle. Todas aquellas supposições morreram, para -só ficar a do meu enthusiasmo politico; a da minha espionagem ia-me -prejudicando; felizmente, não passou de duas cabeças e de uma noite. - -Levava commigo um retrato de Maria Cora; alcançára-o della mesma, -uma noite, pouco antes do meu embarque, com uma pequena dedicatoria -cerimoniosa. Já disse que estava em pleno romantismo; dado o primeiro -passo, os outros vieram de si mesmos. E agora juntae a isto o amor -proprio, e comprehendereis que de simples cidadão indifferente da -capital saisse um guerreiro aspero da campanha rio-grandense. - -Nem por isso conto combates, nem escrevo para falar da revolução, que -não teve nada commigo, por si mesma, senão pela occasião que me dava, -e por algum golpe que lhe desfechei na estreita área da minha acção. -João da Fonseca era o meu rebelde. Depois de haver tomado parte no -combate de Sarandy e Coxilla Negra, ouvi que o marido de Maria Cora -fôra morto, não sei em que recontro; mais tarde deram-me a noticia de -estar com as forças de Gumercindo, e tambem que fôra feito prisioneiro -e seguira, para Porto Alegre; mas ainda isto não era verdade. Disperso, -com dois camaradas, encontrei um dia um regimento legal que ia em -defeza da Encruzilhada, investida ultimamente por uma força dos -federalistas; apresentei-me ao commandante e segui. Ahi soube que João -da Fonseca estava entre essa força; deram-me todos os signaes delle, -contaram-me a historia dos amores e a separação da mulher. - -A idéa de matal-o no turbilhão de um combate tinha algo phantastico; -nem eu sabia se taes duellos eram possiveis em semelhantes occasiões, -quando a força de cada homem tem de sommar com a de toda uma força -unica e obediente a uma só direcção. Tambem me pareceu, mais de uma -vez, que ia commetter um crime pessoal, e a sensação que isto me -dava, podeis crer que não era leve nem doce; mas a figura de Maria -Cora abraçava-me e absolvia com uma benção de felicidades. Atirei-me -de vez. Não conhecia João da Fonseca; além dos signaes que me haviam -dado, tinha de memoria um retrato delle que vira no Engenho Velho; se -as feições não estivessem mudadas, era provavel que eu o reconhecesse -entre muitos. Mas, ainda uma vez, seria este encontro possivel? Os -combates em que eu entrára, já me faziam desconfiar que não era facil, -ao menos. - -Não foi facil nem breve. No combate da Encruzilhada creio que me houve -com a necessaria intrepidez e disciplina, e devo aqui notar que eu me -ia acostumando á vida da guerra civil. Os odios que ouvia, eram forças -reaes. De um lado e outro batiam-se com ardor, e a paixão que eu -sentia nos meus ia-se pegando em mim. Já lêra o meu nome em uma ordem -do dia, e de viva voz recebêra louvores, que commigo não pude deixar de -achar justos, e ainda agora taes os declaro. Mas vamos ao principal, -que é acabar com isto. - -Naquelle combate achei-me um tanto como o heróe de Stendhal na batalha -de Waterloo; a differença é que o espaço foi menor. Por isso, e tambem -porque não me quero deter em cousas de recordação facil, direi sómente -que tive occasião de matar em pessoa a João da Fonseca. Verdade é que -escapei de ser morto por elle. Ainda agora trago na testa a cicatriz -que elle me deixou. O combate entre nós foi curto. Se não parecesse -romanesco de mais, eu diria que João da Fonseca adivinhára o motivo e -previra o resultado da acção. - -Poucos minutos depois da luta pessoal, a um canto da villa, João da -Fonseca caiu prostrado. Quiz ainda lutar, e certamente lutou um pouco; -eu é que não consenti na desforra, que podia ser a minha derrota, se -é que raciocinei; creio que não. Tudo o que fiz foi cego pelo sangue -em que o deixára banhado, e surdo pelo clamor e tumulto de combate. -Matava-se, gritava-se, vencia-se; em pouco ficámos senhores do campo. - -Quando vi que João da Fonseca morrêra devéras, voltei ao combate por -instantes; a minha ebriedade cessára um pouco, e os motivos primarios -tornaram a dominar-me, como se fossem unicos. A figura de Maria Cora -appareceu-me como um sorriso de approvação e perdão; tudo foi rapido. - -Haveis de ter lido que alli se apprehenderam tres ou quatro mulheres. -Uma destas era a Prazeres. Quando, acabado tudo, a Prazeres viu o -cadaver do amante, fez uma scena que me encheu de odio e de inveja. -Pegou em si e deitou-se a abraçal-o; as lagrimas que verteu, as -palavras que disse, fizeram rir a uns; a outros, se não enterneceram, -deram algum sentimento de admiração. Eu, como digo, achei-me tomado de -inveja e odio, mas tambem esse duplo sentimento desappareceu para não -ficar nem admiração; acabei rindo. Prazeres, depois de honrar com dôr -a morte do amante, ficou sendo a federalista que já era; não vestia -farda, como dissera ao desafiar João da Fonseca, quiz ser prisioneira -com os rebeldes e seguir com elles. - -É claro que não deixei logo as forças, bati-me ainda algumas vezes, mas -a razão principal dominou, e abri mão das armas. Durante o tempo em que -estive alistado, só escrevi duas cartas a Maria Cora, uma pouco depois -de encetar aquella vida nova,--outra depois do combate da Encruzilhada; -nesta não lhe contei nada do marido, nem da morte, nem sequer que -o vira. Unicamente annunciei que era provavel acabasse brevemente -a guerra civil. Em nenhuma das duas fiz a menor allusão aos meus -sentimentos nem ao motivo do meu acto; entretanto, para quem soubesse -delles, a carta era significativa. Maria Cora só respondeu á primeira -das cartas, com serenidade, mas não com isenção. Percebia-se,--ou -percebia-o eu,--que, não promettendo nada, tudo agradecia, e, quando -menos, admirava. Gratidão e admiração podiam encaminhal-a ao amor. - -Ainda não disse,--e não sei como diga este ponto,--que na Encruzilhada, -depois da morte de João da Fonseca, tentei degolal-o; mas nem queria -fazel-o nem realmente o fiz. O meu objecto era ainda outro e romanesco. -Perdoa-me tu, realista sincero, ha nisto tambem um pouco de realidade, -e foi o que pratiquei, de accôrdo com o estado da minha alma: o que -fiz foi cortar-lhe um molho de cabellos. Era o recibo da morte que eu -levaria á viuva. - - -VI - -Quando voltei ao Rio de Janeiro, tinham já passado muitos mezes do -combate da Encruzilhada. O meu nome figurou não só em partes officiaes -como em telegrammas e correspondencias, por mais que eu buscasse -esquivar-me ao ruido e desapparecer na sombra. Recebi cartas de -felicitações e de indagações. Não vim logo para o Rio de Janeiro, -note-se; podia ter aqui alguma festa; preferi ficar em S. Paulo. Um -dia, sem ser esperado, metti-me na estrada de ferro e entrei na cidade. -Fui para a casa de pensão do Cattete. - -Não procurei logo Maria Cora. Pareceu-me até mais acertado que a -noticia da minha vinda lhe chegasse pelos jornaes. Não tinha pessoa -que lhe falasse; vexava-me ir eu mesmo a alguma redacção contar o meu -regresso do Rio Grande; não era passageiro de mar, cujo nome viesse em -lista nas folhas publicas. Passaram dous dias; no terceiro, abrindo -uma destas, dei com o meu nome. Dizia-se alli que viera de S. Paulo -e estivera nas lutas do Rio Grande, citavam-se os combates, tudo com -adjectivos de louvor; emfim, que voltava á mesma pensão do Cattete. -Como eu só contára alguma cousa ao dono da casa, podia ser elle o autor -das notas; disse-me que não. Entrei a receber visitas pessoaes. Todas -queriam saber tudo; eu pouco mais disse que nada. - -Entre os cartões, recebi dous de Maria Cora e da tia, com palavras -de boas vindas. Não era preciso mais; restava-me ir agradecer-lhes, -e dispuz-me a isso; mas, no proprio dia em que resolvi ir ao Engenho -Velho, tive uma sensação de... De quê? Expliquem, se podem, o -acanhamento que me deu a lembrança do marido de Maria Cora, morto ás -minhas mãos. A sensação que ia ter diante della tolheu-me inteiramente. -Sabendo-se qual foi o movel principal da minha acção militar, mal se -comprehende aquella hesitação; mas, se considerardes que, por mais que -me defendesse do marido e o matasse para não morrer, elle era sempre o -marido, terás entendido o mal-estar que me fez adiar a visita. Afinal, -peguei em mim e fui á casa della. - -Maria Cora estava de luto. Recebeu-me com bondade, e repetiu-me, como a -tia, as felicitações escriptas. Falámos da guerra civil, dos costumes -do Rio Grande, um pouco de politica, e mais nada. Não se disse de João -da Fonseca. Ao sair de lá, perguntei a mim mesmo se Maria Cora estaria -disposta a casar conmigo. - ---Não me parece que recuse, embora não lhe ache maneiras especiaes. -Creio até que está menos affavel que d'antes... Terá mudado? - -Pensei assim, vagamente. Attribui a alteração ao estado moral da -viuvez; era natural. E continuei a frequental-a, disposto a deixar -passar a primeira phase do luto para lhe pedir formalmente a mão. -Não tinha que fazer declarações novas; ella sabia tudo. Continuou -a receber-me bem. Nenhuma pergunta me fez sobre o marido, a tia -tambem não, e da propria revolução não se falou mais. Pela minha -parte, tornando á situação anterior, busquei não perder tempo, fiz-me -pretendente com todas as maneiras do officio. Um dia, perguntei-lhe se -pensava em tornar ao Rio Grande. - ---Por ora, não. - ---Mas irá? - ---É possivel; não tenho plano nem prazo marcado; é possivel. - -Eu, depois de algum silencio, durante o qual olhava interrogativamente -para ella, acabei por inquirir se antes de ir, caso fosse, não -alteraria nada em sua vida. - ---A minha vida está tão alterada... - -Não me entendera; foi o que suppuz. Tratei de me explicar melhor, e -escrevi uma carta em que lhe lembrava a entrega e a recusa da primeira -e lhe pedia francamente a mão. Entreguei a carta, dous dias depois, com -estas palavras: - ---Desta vez não recusará ler-me. - -Não recusou, acceitou a carta. Foi á saida, á porta da sala. Creio até -que lhe vi certa commoção de bom agouro. Não me respondeu por escripto, -como esperei. Passados tres dias, estava tão ancioso que resolvi ir -ao Engenho Velho. Em caminho imaginei tudo: que me recusasse, que me -acceitasse, que me adiasse, e já me contentava com a ultima hypothese, -se não houvesse de ser a segunda. Não a achei em casa; tinha ido passar -alguns dias na Tijuca. Sai de lá aborrecido. Pareceu-me que não queria -absolutamente casar; mas então era mais simples dizel-o ou escrevel-o. -Esta consideração trouxe-me esperanças novas. - -Tinha ainda presentes as palavras que me dissera, quando me devolveu -a primeira carta, e eu lhe falei da minha paixão: «Supponha que eu -o amo; nem por isso deixo de ser uma senhora casada.» Era claro que -então gostava de mim, e agora mesmo não havia razão decisiva para crer -o contrario, embora a apparencia fosse um tanto fria. Ultimamente, -entrei a crer que ainda gostava, um pouco por vaidade, um pouco por -sympathia, e não sei se por gratidão tambem; tive alguns vestigios -disso. Não obstante, não me deu resposta á segunda carta. Ao voltar da -Tijuca, vinha menos expansiva, acaso mais triste. Tive eu mesmo de lhe -falar na materia; a resposta foi que, por ora, estava disposta a não -casar. - ---Mas um dia...? perguntei depois de algum silencio. - ---Estarei velha. - ---Mas então... será muito tarde? - ---Meu marido póde não estar morto. - -Espantou-me esta objecção. - ---Mas a senhora está de luto. - ---Tal foi a noticia que li e me deram; póde não ser exacta. Tenho visto -desmentir outras que se reputavam certas. - ---Quer certeza absoluta? perguntei. Eu posso dal-a. - -Maria Cora empallideceu. Certeza. Certeza de quê? Queria que lhe -contasse tudo, mas tudo. A situação era tão penosa para mim que não -hesitei mais, e, depois de lhe dizer que era intenção minha não lhe -contar nada, como não contára a ninguem, ia fazel-o, unicamente para -obedecer á intimação. E referi o combate, as suas phases todas, os -riscos, as palavras, finalmente a morte de João da Fonseca. A ancia com -que me ouviu foi grande, e não menor o abatimento final. Ainda assim, -dominou-se, e perguntou-me: - ---Jura que me não está enganando? - ---Para que a enganar? O que tenho feito é bastante para provar que sou -sincero. Amanhã, trago-lhe outra prova, se é preciso mais alguma. - -Levei-lhe os cabellos que cortára ao cadaver. Contei-lhe,--e confesso -que o meu fim foi irrital-a contra a memoria do defunto,--contei-lhe -o desespero da Prazeres. Descrevi essa mulher e as suas lagrimas. -Maria Cora ouviu-me com os olhos grandes e perdidos; estava ainda com -ciumes. Quando lhe mostrei os cabellos do marido, atirou-se a elles, -recebeu-os, beijou-os, chorando, chorando, chorando... Entendi melhor -sair e sair para sempre. Dias depois recebi a resposta á minha carta; -recusava casar. - -Na resposta havia uma palavra que é a unica razão de escrever esta -narrativa: «Comprehende que eu não podia aceitar a mão do homem que, -embora lealmente, matou meu marido.» Comparei-a áquella outra que me -dissera antes, quando eu me propunha sair a combate, matal-o e voltar: -«Não creio que ninguem me ame com tal força.» E foi essa palavra que -me levou á guerra. Maria Cora vive agora reclusa; de costume manda -dizer uma missa por alma do marido, no anniversario do combate da -Encruzilhada. Nunca mais a vi; e, cousa menos difficil, nunca mais -esqueci dar corda ao relogio. - - - - -Marcha funebre - - -O deputado Cordovil não podia pregar olho uma noite de Agosto de 186... -Viera cedo do Cassino Fluminense, depois da retirada do imperador, e -durante o baile não tivera o minimo incommodo moral nem physico. Ao -contrario, a noite foi excellente; tão excellente que um inimigo seu, -que padecia do coração, falleceu antes das dez horas, e a noticia -chegou ao Cassino pouco depois das onze. - -Naturalmente conclues que elle ficou alegre com a morte do homem, -especie de vingança que os corações adversos e fracos tomam em falta -de outra. Digo-te que conclues mal; não foi alegria, foi desabafo. -A morte vinha de mezes, era daquellas que não acabam mais, e moem, -mordem, comem, trituram a pobre creatura humana. Cordovil sabia dos -padecimentos do adversario. Alguns amigos, para o consolar de antigas -injurias, iam contar-lhe o que viam ou sabiam do enfermo, pregado a -uma cadeira de braços, vivendo as noites horrivelmente, sem que as -auroras lhe trouxessem esperanças, nem as tardes desenganos. Cordovil -pagava-lhes com alguma palavra de compaixão, que o alviçareiro -adoptava, e repetia, e era mais sincera naquelle que neste. Emfim -acabára de padecer; dahi o desabafo. - -Este sentimento pegava com a piedade humana. Cordovil, salvo em -politica, não gostava do mal alheio. Quando resava, ao levantar da -cama: «Padre Nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome, -venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como -no céu; o pão nosso de cada dia nos dá hoje; perdoa as nossas dividas, -como nós perdoamos aos nossos devedores...» não imitava um de seus -amigos que resava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores, -como dizia de lingua; esse chegava a cobrar além do que elles lhe -deviam, isto é, se ouvia maldizer de alguem, decorava tudo e mais -alguma cousa, e ia repetil-o a outra parte. No dia seguinte, porém, a -bella oração de Jesus tornava a sair dos labios da vespera com a mesma -caridade de officio. - -Cordovil não ia nas aguas d'esse amigo; perdoava devéras. Que entrasse -no perdão um tantinho de preguiça, é possivel, sem aliás ser evidente. -Preguiça amamenta muita virtude. Sempre é alguma cousa mingoar força -á acção do mal. Não esqueça que o deputado só gostava do mal alheio -em politica, e o inimigo morto era inimigo pessoal. Quanto á causa da -inimizade, não a sei eu, e o nome do homem acabou com a vida. - ---Coitado! descançou, disse Cordovil. - -Conversaram da longa doença do finado. Tambem falaram das varias mortes -d'este mundo, dizendo Cordovil que a todas preferia a de Cesar, não por -motivo do ferro, mas por inesperada e rapida. - ---_Tu quoque?_ perguntou-lhe um collega rindo. - -Ao que elle, apanhando a allusão, replicou: - ---Eu, se tivesse um filho, quizera morrer ás mãos delle. O parricidio, -estando fóra do commum, faria a tragedia mais tragica. - -Tudo foi assim alegre. Cordovil saiu do baile com somno, e foi -cochilando no carro, apesar do mal calçado das ruas. Perto de casa, -sentiu parar o carro e ouviu rumor de vozes. Era o caso de um defunto, -que duas praças de policia estavam levantando do chão. - ---Assassinado? perguntou elle ao lacaio, que descêra da almofada para -saber o que era. - ---Não sei, não, senhor. - ---Pergunta o que é. - ---Este moço sabe como foi, disse o lacaio, indicando um desconhecido, -que falava a outros. - -O moço approximou-se da portinhola, antes que o deputado recusasse -ouvil-o. Referiu-lhe então em poucas palavras o accidente a que -assistira. - ---Vinhamos andando, elle adeante, eu atraz. Parece que assobiava uma -polka. Indo a atravessar a rua para o lado do Mangue, vi que estacou o -passo, a modo que torceu o corpo, não sei bem, e caiu sem sentidos. Um -doutor, que chegou logo, descendo de um sobradinho, examinou o homem e -disse que «morreu de repente». Foi-se juntando gente, a patrulha levou -muito tempo a chegar. Agora pegou delle. Quer ver o defunto? - ---Não, obrigado. Já se póde passar? - ---Póde. - ---Obrigado. Vamos, Domingos. - -Domingos trepou á almofada, o cocheiro tocou os animaes, e o carro -seguiu até á rua de S. Christovão, onde morava Cordovil. - -Antes de chegar á casa, Cordovil foi pensando na morte do desconhecido. -Em si mesma, era boa; comparada á do inimigo pessoal, excellente. -Ia a assobiar, cuidando sabe Deus em que delicia passada ou em que -esperança futura; revivia o que vivêra, ou antevia o que podia viver, -senão quando, a morte pegou da delicia ou da esperança, e lá se foi o -homem ao eterno repouso. Morreu sem dôr, ou, se alguma teve, foi acaso -brevissima, como um relampago que deixa a escuridão mais escura. - -Então poz o caso em si. Se lhe tem acontecido no Cassino a morte do -Aterrado? Não seria dançando; os seus quarenta annos não dançavam. -Podia até dizer que elle só dançou até aos vinte. Não era dado a moças, -tivera uma affeição unica na vida,--aos vinte e cinco annos, casou e -enviuvou ao cabo de cinco semanas para não casar mais. Não é que lhe -faltassem noivas,--mórmente depois de perder o avô, que lhe deixou duas -fazendas. Vendeu-as ambas e passou a viver comsigo, fez duas viagens á -Europa, continuou a politica e a sociedade. Ultimamente parecia enojado -de uma e de outra, mas não tendo em que matar o tempo, não abriu mão -dellas. Chegou a ser ministro uma vez, creio que da marinha, não passou -de sete mezes. Nem a pasta lhe deu gloria, nem a demissão desgosto. Não -era ambicioso, e mais puxava para a quietação que para o movimento. - -Mas se lhe tivesse succedido morrer de repente no Cassino, ante uma -valsa ou quadrilha, entre duas portas? Podia ser muito bem. Cordovil -compoz de imaginação a scena, elle caido de bruços ou de costas, o -prazer turbado, a dança interrompida... e d'ahi podia ser que não; um -pouco de espanto apenas, outro de susto, os homens animando as damas, -a orchestra continuando por instantes a opposição do compasso e da -confusão. Não faltariam braços que o levasse para um gabinete, já -morto, totalmente morto. - ---Tal qual a morte de Cesar, ia dizendo comsigo. - -E logo emendou: - ---Não, melhor que ella; sem ameaça, nem armas, nem sangue, uma simples -queda e o fim. Não sentiria nada. - -Cordovil deu comsigo a rir ou a sorrir, alguma cousa que afastava o -terror e deixava a sensação da liberdade. Em verdade, antes a morte -assim que após longos dias ou longos mezes e annos, como o adversario -que perdêra algumas horas antes. Nem era morrer; era um gesto de -chapéo, que se perdia no ar com a propria mão e a alma que lhe déra -movimento. Um cochilo e o somno eterno. Achava-lhe um só defeito,--o -apparato. Essa morte no meio de um baile, defronte do imperador, ao som -de Strauss, contada, pintada, enfeitada nas folhas publicas, essa morte -pareceria de encommenda. Paciencia, uma vez que fosse repentina. - -Tambem pensou que podia ser na Camara, no dia seguinte, ao começar o -debate do orçamento. Tinha a palavra; já andava cheio de algarismos e -citações. Não quiz imaginar o caso, não valia a pena; mas o caso teimou -e appareceu de si mesmo. O salão da Camara, em vez do Cassino, sem -damas ou com poucas, nas tribunas. Vasto silencio. Cordovil em pé -começaria o discurso, depois de circular os olhos pela casa, fitar o -ministro e fitar o presidente: «Releve-me a Camara que lhe tome algum -tempo, serei breve, buscarei ser justo...» Aqui uma nuvem lhe taparia -os olhos, a lingua pararia, o coração tambem, e elle cairia de golpe no -chão. Camara, galerias, tribunas ficariam assombradas. Muitos deputados -correriam a erguel-o; um, que era medico, verificaria a morte; não -diria que fôra de repente, como o do sobradinho do Aterrado, mas por -outro estylo mais technico. Os trabalhos seriam suspensos, depois de -algumas palavras do presidente e escolha da commissão que acompanharia -o finado ao cemiterio... - -Cordovil quiz rir da circumstancia de imaginar além da morte, o -movimento e o sahimento, as proprias noticias dos jornaes, que elle leu -de cór e depressa. Quiz rir, mas preferia cochilar; os olhos é que, -estando já perto de casa e da cama, não quizeram desperdiçar o somno, e -ficaram arregalados. - -Então a morte, que elle imaginára pudesse ter sido no baile, antes -de sair, ou no dia seguinte em plena sessão da Camara, appareceu -alli mesmo no carro. Suppoz elle que, ao abrirem-lhe a portinhola, -déssem com o seu cadaver. Sairia assim de uma noite ruidosa para outra -pacifica, sem conversas, nem danças, nem encontros, sem especie alguma -de luta ou resistencia. O estremeção que teve fez-lhe ver que não era -verdade. Effectivamente, o carro entrou na chacara, estacou, e Domingos -saltou da almofada para vir abrir-lhe a portinhola. Cordovil desceu com -as pernas e a alma vivas, e entrou pela porta lateral, onde o aguardava -com um castiçal e vela accesa o escravo Florindo. Subiu a escada, e -os pés sentiam que os degraus eram d'este mundo; se fossem do outro, -desceriam naturalmente. Em cima, ao entrar no quarto, olhou para a -cama; era a mesma dos somnos quietos e demorados. - ---Veiu alguem? - ---Não, senhor, respondeu o escravo distrahido, mas corrigiu logo: Veiu, -sim, senhor; veiu aquelle doutor que almoçou com meu senhor domingo -passado. - ---Queria alguma cousa? - ---Disse que vinha dar a meu senhor uma boa noticia, e deixou este -bilhete--que eu botei ao pé da cama. - -O bilhete referia a morte do inimigo; era de um dos amigos que usavam -contar-lhe a marcha da molestia. Quiz ser o primeiro a annunciar o -desenlace, um alegrão, com um abraço apertado. Emfim, morrêra o patife. -Não disse a cousa assim por esses termos claros, mas os que empregou -vinham a dar nelles, accrescendo que não attribuiu esse unico objecto -á visita. Vinha passar a noite; só alli soube que Cordovil fôra ao -Cassino. Ia a sair, quando lhe lembrou a morte e pediu ao Florindo que -lhe deixasse escrever duas linhas. Cordovil entendeu o significado, e -ainda uma vez lhe doeu a agonia do outro. Fez um gesto de melancolia e -exclamou a meia voz: - ---Coitado! Vivam as mortes subitas! - -Florindo, se referisse o gesto e a phrase ao doutor do bilhete, talvez -o fizesse arrepender da cançeira. Nem pensou nisso; ajudou o senhor -a preparar-se para dormir, ouviu as ultimas ordens e despediu-se. -Cordovil deitou-se. - ---Ah! suspirou elle estirando o corpo cançado. - -Teve então uma idéa, a de amanhecer morto. Esta hypothese, a melhor de -todas, porque o apanharia meio morto, trouxe comsigo mil phantasias -que lhe arredaram o somno dos olhos. Em parte, era a repetição das -outras, a participação á Camara, as palavras do presidente, commissão -para o sahimento, e o resto. Ouviu lastimas de amigos e de famulos, viu -noticias impressas, todas lisonjeiras ou justas. Chegou a desconfiar -que era já sonho. Não era. Chamou-se ao quarto, á cama, a si mesmo: -estava accordado. - -A lamparina deu melhor corpo á realidade. Cordovil espancou as idéas -funebres e esperou que as alegres tomassem conta delle e dançassem -até cançal-o. Tentou vencer uma visão com outra. Fez até uma cousa -engenhosa, convocou os cinco sentidos, porque a memoria de todos elles -era aguda e fresca; foi assim evocando lances e rasgos longamente -extinctos. Gestos, scenas de sociedade e de familia, panoramas, -repassou muita cousa vista, com o aspecto do tempo diverso e remoto. -Deixára de comer acepipes que outra vez lhe sabiam, como se estivesse -agora a mastigal-os. Os ouvidos escutavam passos leves e pesados, -cantos joviaes e tristes, e palavras de todos os feitios. O tacto, o -olfacto, todos fizeram o seu officio, durante um prazo que elle não -calculou. - -Cuidou de dormir e cerrou bem os olhos. Não poude, nem do lado direito, -nem do esquerdo, de costas nem de bruços. Ergueu-se e foi ao relogio; -eram tres horas. Insensivelmente levou-o á orelha a ver se estava -parado; estava andando, déra-lhe corda. Sim, tinha tempo de dormir um -bom somno; deitou-se, cobriu a cabeça para não ver a luz. - -Ah! foi então que o somno tentou entrar, calado e surdo, todo -cautellas, como seria a morte, se quizesse leval-o de repente, para -nunca mais. Cordovil cerrou os olhos com força, e fez mal, porque a -força accentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de os afrouxar, e -fez bem. O somno, que ia a recuar, tornou atraz, e veiu estirar-se ao -lado delle, passando-lhe aquelles braços leves e pesados, a um tempo, -que tiram á pessoa todo movimento. Cordovil os sentia, e com os seus -quiz conchegal-os ainda mais... A imagem não é boa, mas não tenho outra -á mão nem tempo de ir buscal-a. Digo só o resultado do gesto, que foi -arredar o somno de si, tão aborrecido ficou este reformador de cançados. - ---Que terá elle hoje contra mim? perguntaria o somno, se falasse. - -Tu sabes que elle é mudo por essencia. Quando parece que fala é o sonho -que abre a boca á pessoa; elle não, elle é a pedra, e ainda a pedra -fala, se lhe batem, como estão fazendo agora os calceteiros da minha -rua. Cada pancada accorda na pedra um som, e a regularidade do gesto -torna aquelle som tão pontual que parece a alma de um relogio. Vozes -de conversa ou de pregão, rodas de carro, passos de gente, uma janella -batida pelo vento, nada dessas cousas que ora ouço, animava então a rua -e a noite de Cordovil. Tudo era propicio ao somno. - -Cordovil ia finalmente dormir, quando a idéa de amanhecer morto -appareceu outra vez. O somno recuou e fugiu. Esta alternativa durou -muito tempo. Sempre que o somno ia a grudar-lhe os olhos, a lembrança -da morte os abria, até que elle sacudiu o lençol e saiu da cama. Abriu -uma janella e encostou-se ao peitoril. O céu queria clarear, alguns -vultos iam passando na rua, trabalhadores e mercadores que desciam para -o centro da cidade. Cordovil sentiu um arrepio; não sabendo se era -frio ou medo, foi vestir um camisão de chita, e voltou para a janella. -Parece que era frio, porque não sentia mais nada. - -A gente continuava a passar, o céu a clarear, e um assobio da estrada -de ferro deu signal de trem que ia partir. Homens e cousas vinham do -descanço; o céu fazia economia de estrellas, apagando-as, á medida -que o sol ia chegando para o seu officio. Tudo dava idéa de vida. -Naturalmente a idéa da morte foi recuando e desappareceu de todo, -emquanto o nosso homem, que suspirou por ella no Cassino, que a -desejou para o dia seguinte na Camara dos deputados, que a encarou no -carro, voltou-lhe as costas quando a viu entrar com o somno, seu irmão -mais velho,--ou mais moço, não sei. - -Quando veiu a fallecer, muitos annos depois, pediu e teve a morte, não -subita, mas vagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sae impuro -de uma garrafa para entrar purificado em outra; a borra iria para o -cemiterio. Agora é que lhe via a philosophia; em ambas as garrafas era -sempre o vinho que ia ficando, até passar inteiro e pingado para a -segunda. Morte subita não acabava de entender o que era. - - - - -Um capitão de voluntarios - - -Indo a embarcar para a Europa, logo depois da proclamação da Republica, -Simão de Castro fez inventario das cartas e apontamentos; rasgou tudo. -Só lhe ficou a narração que ides ler; entregou-a a um amigo para -imprimil-a quando elle estivesse barra fóra. O amigo não cumpriu a -recommendação por achar na historia alguma cousa que podia ser penosa, -e assim lh'o disse em carta. Simão respondeu que estava por tudo o que -quizesse; não tendo vaidades literarias, pouco se lhe dava de vir ou -não a publico. Agora que os dous falleceram, e não ha egual escrupulo, -dá-se o manuscripto ao prelo. - - * * * * * - -Eramos dous, ellas duas. Os dous iamos alli por visita, costume, -desfastio, e finalmente por amizade. Fiquei amigo do dono da casa, elle -meu amigo. Às tardes, sobre o jantar,--jantava-se cedo em 1866,--ia -alli fumar um charuto. O sol ainda entrava pela janella, donde se via -um morro com casas em cima. A janella opposta dava para o mar. Não digo -a rua nem o bairro; a cidade posso dizer que era o Rio de Janeiro. -Occultarei o nome do meu amigo; ponhamos uma letra, X... Ella, uma -dellas, chamava-se Maria. - -Quando eu entrava, já elle estava na cadeira de balanço. Os moveis da -sala eram poucos, os ornatos raros, tudo simples. X... estendia-me a -mão larga e forte; eu ia sentar-me ao pé da janella, olho na sala, olho -na rua. Maria, ou já estava ou vinha de dentro. Eramos nada um para o -outro; ligava-nos unicamente a affeição de X... Conversavamos; eu saía -para casa ou ia passear, elles ficavam e iam dormir. Algumas vezes -jogavamos cartas, ás noites, e, para o fim do tempo, era alli que eu -passava a maior parte destas. - -Tudo em X... me dominava. A figura primeiro. Elle robusto, eu franzino; -a minha graça feminina, debil, desapparecia ao pé do garbo varonil -delle, dos seus hombros largos, cadeiras largas, jarrete forte e o pé -solido que, andando, batia rijo no chão. Dae-me um bigode escasso e -fino; vêde nelle as suissas longas, espessas e encaracoladas, e um dos -seus gestos habituaes, pensando ou escutando, era passar os dedos por -ellas, encaracolando-as sempre. Os olhos completavam a figura, não só -por serem grandes e bellos, mas por que riam mais e melhor que a boca. -Depois da figura, a edade; X... era homem de quarenta annos, eu não -passava dos vinte e quatro. Depois da edade, a vida; elle vivêra muito, -em outro meio, donde saíra a encafuar-se naquella casa, com aquella -senhora; eu não vivêra nada nem com pessoa alguma. Emfim,--e este rasgo -é capital,--havia nelle uma fibra castelhana, uma gotta do sangue que -circula nas paginas de Calderon, uma attitude moral que posso comparar, -sem depressão nem riso, á do heróe de Cervantes. - -Como se tinham amado? Datava de longe. Maria contava já vinte e sete -annos, e parecia haver recebido alguma educação. Ouvi que o primeiro -encontro fôra em um baile de mascaras, no antigo Theatro Provisorio. -Ella trajava uma saia curta, e dançava ao som de um pandeiro. Tinha os -pés admiraveis, e foram elles ou o seu destino a causa do amor de X... -Nunca lhe perguntei a origem da alliança; sei só que ella tinha uma -filha, que estava no collegio e não vinha á casa; a mãe é que ia vê-la. -Verdadeiramente as nossas relações eram respeitosas, e o respeito ia ao -ponto de acceitar a situação sem a examinar. - -Quando comecei a ir alli, não tinha ainda o emprego no banco. Só -dous ou tres mezes depois é que entrei para este, e não interrompi -as relações. Maria tocava piano; ás vezes, ella e a amiga Raymunda -conseguiam arrastar X... ao theatro; eu ia com elles. No fim, tomavamos -chá em sala particular, e, uma ou outra vez, se havia lua, acabavamos a -noite indo de carro a Botafogo. - -A estas festas não ia Barreto, que só mais tarde começou a frequentar -a casa. Entretanto, era bom companheiro, alegre e rumoroso. Uma noite, -como saissemos de lá, encaminhou a conversa para as duas mulheres, e -convidou-me a namoral-as. - ---Tu escolhes uma, Simão, eu outra. - -Estremecei e parei. - ---Ou antes, eu já escolhi, continuou elle; escolhi a Raymunda. Gosto -muito da Raymunda. Tu, escolhe a outra. - ---A Maria? - ---Pois que outra ha de ser. - -O alvoroço que me deu este tentador foi tal que não achei palavra de -recusa, nem palavra nem gesto. Tudo me pareceu natural e necessario. -Sim, concordei em escolher Maria; era mais velha que eu tres annos, mas -tinha a edade conveniente para ensinar-me a amar. Está dito, Maria. -Deitámo-nos ás duas conquistas com ardor e tenacidade. Barreto não -tinha que vencer muito; a eleita delle não trazia amores, mas até pouco -antes padecêra de uns que rompêra contra a vontade, indo o amante casar -com uma moça de Minas. Depressa se deixou consolar. Barreto um dia, -estando eu a almoçar, veiu annunciar-me que recebêra uma carta della, e -mostrou-m'a. - ---Estão entendidos? - ---Estamos. E vocês? - ---Eu não. - ---Então quando? - ---Deixa ver; eu te digo. - -Naquelle dia fiquei meio vexado. Com effeito, apezar da melhor vontade -deste mundo, não me atrevia a dizer a Maria os meus sentimentos. Não -supponhas que era nenhuma paixão. Não tinha paixão, mas curiosidade. -Quando a via esbelta e fresca, toda calor e vida, sentia-me tomado de -uma força nova e mysteriosa; mas, por um lado, não amára nunca, e, -por outro, Maria era a companheira de meu amigo. Digo isto, não para -explicar escrupulos, mas unicamente para fazer comprehender o meu -acanhamento. Viviam juntos desde alguns annos, um para o outro. X... -tinha confiança em mim, confiança absoluta, communicava-me os seus -negocios, contava-me cousas da vida passada. Apezar da desproporção da -edade, eramos como estudantes do mesmo anno. - -Como entrasse a pensar mais constantemente em Maria, é provavel que por -algum gesto lhe houvesse descoberto o meu recente estado; certo é que, -um dia, ao apertar-lhe a mão, senti que os dedos della se demoravam -mais entre os meus. Dous dias depois, indo ao correio, encontrei-a -sellando uma carta para a Bahia. Ainda não disse que era bahiana? Era -bahiana. Ella é que me viu primeiro e me falou. Ajudei-lhe a pôr o -sello e despedimo-nos. Á porta ia a dizer alguma cousa, quando vi ante -nós, parada, a figura de X... - ---Vim trazer a carta para mamãe, apressou-se ella em dizer. - -Despediu-se de nós e foi para casa; elle e eu tomámos outro rumo. X... -aproveitou a occasião para fazer muitos elogios de Maria. Sem entrar em -minudencias ácerca da origem das relações, assegurou-me que fôra uma -grande paixão egual em ambos, e concluiu que tinha a vida feita. - ---Já agora não me caso; vivo maritalmente com ella, morrerei com ella. -Tenho só uma pena; é ser obrigado a viver separado de minha mãe. Minha -mãe sabe, disse-me elle parando. E continuou andando: sabe, e até já -me fez uma allusão muito vaga e remota, mas que eu percebi. Consta-me -que não desapprova; sabe que Maria é séria e boa, e uma vez que eu seja -feliz, não exige mais nada. O casamento não me daria mais que isto.... - -Disse muitas outras cousas, que eu fui ouvindo sem saber de mim; o -coração batia-me rijo, e as pernas andavam frouxas. Não atinava com -resposta idonea; alguma palavra que soltava, saia-me engasgada. Ao cabo -de algum tempo, elle notou o meu estado e interpretou-o erradamente; -suppoz que as suas confidencias me aborreciam, e disse-m'o rindo. -Contestei serio; - ---Ao contrario, ouço com interesse, e trata-se de pessoa de toda a -consideração e respeito. - -Penso agora que cedia inconscientemente a uma necessidade de -hypocrisia. A edade das paixões é confusa, e naquella situação não -posso discernir bem os sentimentos e suas causas. Entretanto, não é -fóra de proposito que buscasse dissipar no animo de X... qualquer -possivel desconfiança. A verdade é que elle me ouviu agradecido. -Os seus grandes olhos de creança envolveram-me todo, e quando nos -despedimos, apertou-me a mão com energia. Creio até que lhe ouvi dizer: -«Obrigado!» - -Não me separei delle atterrado, nem ferido de remorsos previos. A -primeira impressão da confidencia esvaiu-se, ficou só a confidencia, -e senti crescer-me o alvoroço da curiosidade. X... falára-me de Maria -como de pessoa casta e conjugal; nenhuma allusão ás suas prendas -physicas, mas a minha edade dispensava qualquer referencia directa. -Agora, na rua, via de cór a figura da moça, os seus gestos egualmente -languidos e robustos, e cada vez me sentia mais fóra de mim. Em casa -escrevi-lhe uma carta longa e diffusa, que rasguei meia hora depois, e -fui jantar. Sobre o jantar fui á casa de X... - -Eram ave-marias. Elle estava na cadeira de balanço, eu sentei-me no -logar do costume, olho na sala, olho no morro. Maria appareceu tarde, -depois das horas, e tão anojada que não tomou parte na conversação. -Sentou-se e cochilou; depois tocou um pouco de piano e saiu da sala. - ---Maria accordou hoje com a mania de colher donativos para a guerra, -disse-me elle. Já lhe fiz notar que nem todos quererão parecer que... -Você sabe... A posição della... Felizmente, a idéa ha de passar; tem -dessas phantasias... - ---E porque não? - ---Ora, porque não! E depois, a guerra do Paraguay, não digo que -não seja como todas as guerras, mas palavra, não me enthusiasma. A -principio, sim, quando o Lopez tomou o _Marquez de Olinda_, fiquei -indignado; logo depois perdi a impressão, e agora, francamente, acho -que tinhamos feito muito melhor se nos alliassemos ao Lopez contra os -argentinos. - ---Eu não. Prefiro os argentinos. - ---Tambem gosto delles, mas, no interesse da nossa gente, era melhor -ficar com o Lopez. - ---Não; olhe, eu estive quasi a alistar-me como voluntario da patria. - ---Eu, nem que me fizessem coronel, não me alistava. - -Elle disse não sei que mais. Eu, como tinha a orelha afiada, á escuta -dos pés de Maria, não respondi logo, nem claro, nem seguido; fui -engrolando alguma palavra e sempre á escuta. Mas o diabo da moça não -vinha; imaginei que estariam arrufados. Emfim, propuz cartas, podiamos -jogar uma partida de voltarete. - ---Podemos, disse elle. - -Passámos ao gabinete. X... poz as cartas na mesa e foi chamar a amiga. -Dalli ouvi algumas phrases sussurradas, mas só estas me chegaram claras: - ---Vem! é só meia hora. - ---Que massada! Estou doente. - -Maria appareceu no gabinete, bocejando. Disse-me que era só meia -hora; tinha dormido mal, doia-lhe a cabeça e contava deitar-se cedo. -Sentou-se enfastiada, e começámos a partida. Eu arrependia-me de -haver rasgado a carta; lembravam-me alguns trechos della, que diriam -bem o meu estado, com o calor necessario a persuadil-a. Se a tenho -conservado, entregava-lh'a agora; ella ia muita vez ao patamar da -escada despedir-se de mim e fechar a cancella. Nessa occasião podia -dar-lh'a; era uma solução da minha crise. - -Ao cabo de alguns minutos, X... levantou-se para ir buscar tabaco de -uma caixa de folha de Flandres, posta sobre a secretaria. Maria fez -então um gesto que não sei como diga nem pinte. Ergueu as cartas á -altura dos olhos para os tapar, voltou-os para mim que lhe ficava á -esquerda, e arregalou-os tanto e com tal fogo e attracção, que não sei -como não entrei por elles. Tudo foi rapido. Quando elle voltou fazendo -um cigarro, Maria tinha as cartas embaixo dos olhos, abertas em leque, -fitando-as como se calculasse. Eu devia estar tremulo; não obstante, -calculava tambem, com a differença de não poder falar. Ella disse então -com placidez uma das palavras do jogo, _passo_ ou _licença_. - -Jogámos cerca de uma hora. Maria, para o fim, cochilava literalmente, -e foi o proprio X... que lhe disse que era melhor ir descançar. -Despedi-me e passei ao corredor, onde tinha o chapéo e a bengala. -Maria, á porta da sala, esperava que eu saisse e acompanhou-me até á -cancella, para fechal-a. Antes que eu descesse, lançou-me um dos braços -ao pescoço, chegou-me a si, collou-me os labios nos labios, onde elles -me depositaram um beijo grande, rapido e surdo. Na mão senti alguma -cousa. - ---Boa noite, disse Maria fechando a cancella. - -Não sei como não caí. Desci atordoado, com o beijo na boca, os olhos -nos della, e a mão apertando instinctivamente um objecto. Cuidei de me -pôr longe. Na primeira rua, corri a um lampião, para ver o que trazia. -Era um cartão de loja de fazendas, um annuncio, com isto escripto nas -costas, a lapis: «Espere-me amanhã, na ponte das barcas de Nietheroy, a -uma hora da tarde.» - -O meu alvoroço foi tamanho que durante os primeiros minutos não -soube absolutamente o que fiz. Em verdade, as emoções eram demasiado -grandes e numerosas, e tão de perto seguidas que eu mal podia saber -de mim. Andei até ao largo de S. Francisco de Paula. Tornei a ler o -cartão; arrepiei caminho, novamente parei, e uma patrulha que estava -perto, talvez desconfiou dos meus gestos. Felizmente, a despeito da -commoção, tinha fome e fui cear ao Hotel dos Principes. Não dormi antes -da madrugada; ás seis horas estava em pé. A manhã foi lenta como as -agonias lentas. Dez minutos antes de uma hora cheguei á ponte; já lá -achei Maria, envolvida n'uma capa, e com um veu azul no rosto. Ia sair -uma barca, entrámos nella. - -O mar acolheu-nos bem. A hora era de poucos passageiros. Havia -movimento de lanchas, de aves, e o ceu luminoso parecia cantar a nossa -primeira entrevista. O que dissemos foi tão de atropello e confusão -que não me ficou mais de meia duzia de palavras, e dellas nenhuma foi -o nome de X... ou qualquer referencia a elle. Sentiamos ambos que -trahiamos, eu o meu amigo, ella o seu amigo e protector. Mas, ainda -que o não sentissemos, não é provavel que falassemos delle, tão pouco -era o tempo para o nosso infinito. Maria appareceu-me então como nunca -a vi nem suspeitára, falando de mim e de si, com a ternura possivel -naquelle logar publico, mas toda a possivel, não menos. As nossas -mãos collavam-se, os nossos olhos comiam-se, e os corações batiam -provavelmente ao mesmo compasso rapido e rapido. Pelo menos foi a -sensação com que me separei della, após a viagem redonda a Nictheroy e -S. Domingos. Convidei-a a desembarcar em ambos os pontos, mas recusou; -na volta, lembrei-lhe que nos mettessemos n'uma caleça fechada: -«Que idéa faria de mim?» perguntou-me com um gesto de pudor que a -transfigurou. E despedimo-nos com prazo dado, jurando-lhe que eu não -deixaria de ir vel-os, á noite, como de costume. - -Como eu não tomei da penna para narrar a minha felicidade, deixo -a parte deliciosa da aventura, com as suas entrevistas, cartas e -palavras, e mais os sonhos e esperanças, as infinitas saudades e os -renascentes desejos. Taes aventuras são como os almanaks, que, com -todas as suas mudanças, hão de trazer os mesmos dias e mezes, com os -seus eternos nomes e santos. O nosso almanak apenas durou um trimestre, -sem quartos minguantes nem occasos de sol. Maria era um modelo de -graças finas, toda vida, todo movimento. Era bahiana, como disse, fôra -educada no Rio Grande do Sul, na campanha, perto da fronteira. Quando -lhe falei do seu primeiro encontro com X... no Theatro Provisorio, -dançando ao som de um pandeiro, disse-me que era verdade, fôra alli -vestida á castelhana e de mascara; e, como eu lhe pedisse a mesma -cousa, menos a mascara, ou um simples lundú nosso, respondeu-me como -quem recusa um perigo: - ---Você poderia ficar doudo. - ---Mas X... não ficou doudo. - ---Ainda hoje não está em seu juizo, replicou Maria rindo. Imagina que -eu fazia isto só... - -E em pé, n'um meneio rapido, deu uma volta ao corpo, que me fez ferver -o sangue. - -O trimestre acabou depressa, como os trimestres daquella casta. Maria -faltou um dia á entrevista. Era tão pontual que fiquei tonto quando -vi passar a hora. Cinco, dez, quinze minutos; depois vinte, depois -trinta, depois quarenta... Não digo as vezes que andei de um lado -para outro, na sala, no corredor, á espreita e á escuta, até que de -todo passou a possibilidade de vir. Poupo a noticia do meu desespero, -o tempo que rolei no chão, falando, gritando ou chorando. Quando -cancei, escrevi-lhe uma longa carta; esperei que me escrevesse tambem, -explicando a falta. Não mandei a carta, e á noite fui á casa delles. - -Maria poude explicar-me a falta pelo receio de ser vista e acompanhada -por alguem que a perseguia desde algum tempo. Com effeito, havia-me -já falado em não sei que vizinho que a cortejava com instancia; uma -vez disse-me que elle a seguira até á porta da minha casa. Acreditei -na razão, e propuz-lhe outro logar de encontro, mas não lhe pareceu -conveniente. Desta vez achou melhor suspendermos as nossas entrevistas, -até fazer calar as suspeitas. Não sairia de casa. Não comprehendi então -que a principal verdade era ter cessado nella o ardor dos primeiros -dias. Maria era outra, principalmente outra. E não pódes imaginar o que -vinha a ser essa bella creatura, que tinha em si o fogo e o gelo, e era -mais quente e mais fria que ninguem. - -Quando me entrou a convicção de que tudo estava acabado, resolvi não -voltar lá, mas nem por isso perdia a esperança; era para mim questão de -esforço. A imaginação, que torna presentes os dias passados, fazia-me -crer facilmente na possibilidade de restaurar as primeiras semanas. Ao -cabo de cinco dias, voltei: não podia viver sem ella. - -X... recebeu-me com o seu grande riso infante, os olhos puros, a mão -forte e sincera; perguntou a razão da minha ausencia. Alleguei uma -febresinha, e, para explicar o enfadamento que eu não podia vencer, -disse que ainda me doia a cabeça. Maria comprehendeu tudo; nem por -isso se mostrou meiga ou compassiva, e, á minha saida, não foi até ao -corredor, como de costume. - -Tudo isto dobrou a minha angustia. A idéa de morrer entrou a passar-me -pela cabeça; e, por uma symetria romantica, pensei em metter-me na -barca de Nictheroy, que primeiro acolheu os nossos amores, e, no meio -da bahia, atirar-me ao mar. Não iniciei tal plano nem outro. Tendo -encontrado casualmente o meu amigo Barreto, não vacillei em lhe dizer -tudo; precisava de alguem para falar commigo mesmo. No fim pedi-lhe -segredo; devia pedir-lhe que especialmente não contasse nada a -Raymunda. Nessa mesma noite ella soube tudo. Raymunda era um espirito -aventureiro, amigo de entreprezas e novidades. Não se lhe dava, talvez, -de mim nem da outra, mas viu naquillo um lance, uma occupação, e cuidou -em reconciliar-nos; foi o que eu soube depois, e é o que dá logar a -este papel. - -Falou-lhe uma e mais vezes. Maria quiz negar a principio, acabou -confessando tudo, dizendo-se arrependida da cabeçada que déra. Usaria -provavelmente de circumloquios e synonymos, phrases vagas e truncadas, -alguma vez empregaria só gestos. O texto que ahi fica é o da propria -Raymunda, que me mandou chamar á casa della e me referiu todos os seus -esforços, contente de si mesma. - ---Mas não perca as esperanças, concluiu; eu disse-lhe que o senhor era -capaz de matar-se. - ---E sou. - ---Pois não se mate por ora; espere. - -No dia seguinte vi nos jornaes uma lista de cidadãos que, na vespera, -tinham ido ao quartel-general apresentar-se como voluntarios da patria, -e nella o nome de X..., com o posto de capitão. Não acreditei logo; -mas eram os mesmos, na mesma ordem, e uma das folhas fazia referencias -á familia de X..., ao pae, que fôra official de marinha, e á figura -esbelta e varonil do novo capitão; era elle mesmo. - -A minha primeira impressão foi de prazer; iamos ficar sós. Ella não -iria de vivandeira para o Sul. Depois, lembrou-me o que elle me disse -ácerca da guerra, e achei extranho o seu alistamento de voluntario, -ainda que o amor dos actos generosos e a nota cavalheiresca do espirito -de X... pudessem explical-o. Nem de coronel iria, disse-me, e agora -acceitava o posto de capitão. Emfim, Maria; como é que elle, que tanto -lhe queria, ia separar-se della repentinamente, sem paixão forte que o -levasse á guerra? - -Havia tres semanas que eu não ia á casa delles. A noticia do -alistamento justificava a minha visita immediata e dispensava-me de -explicações. Almocei e fui. Compuz um rosto ajustado á situação e -entrei. X... veiu á sala, depois de alguns minutos de espera. A cara -desdizia das palavras; estas queriam ser alegres e leves, aquella era -fechada e torva, além de pallida. Estendeu-me a mão, dizendo: - ---Então, vem ver o capitão de voluntarios? - ---Venho ouvir o desmentido. - ---Que desmentido? É pura verdade. Não sei como isto foi, creio que as -ultimas noticias... Você porque não vem commigo? - ---Mas então é verdade? - ---É - -Após alguns instantes de silencio, meio sincero, por não saber -realmente que dissesse, meio calculado, para persuadil-o da minha -consternação, murmurei que era melhor não ir, e falei-lhe na mãe. X... -respondeu-me que a mãe approvava; era viuva de militar. Fazia esforços -para sorrir, mas a cara continuava a ser de pedra. Os olhos buscavam -desviar-se, e geralmente não fitavam bem nem longo. Não conversámos -muito; elle ergueu-se, allegando que ia liquidar um negocio, e pediu-me -que voltasse a vel-o. Á porta, disse-me com algum esforço: - ---Venha jantar um dia destes, antes da minha partida. - ---Sim. - ---Olhe, venha jantar amanhã. - ---Amanhã? - ---Ou hoje, se quizer. - ---Amanhã. - -Quiz deixar lembranças a Maria; era natural e necessario, mas faltou-me -o animo. Embaixo arrependi-me de o não ter feito. Recapitulei a -conversação, achei-me atado e incerto; elle pareceu-me, além de frio, -sobranceiro. Vagamente, senti alguma cousa mais. O seu aperto de mão -tanto á entrada, como á saida, não me déra a sensação do costume. - -Na noite desse dia, Barreto veiu ter commigo, atordoado com a noticia -da manhã, e perguntando-me o que sabia; disse-lhe que nada. Contei-lhe -a minha visita da manhã, a nossa conversação, sem as minhas suspeitas. - ---Póde ser engano, disse elle, depois de um instante. - ---Engano? - ---Raymunda contou-me hoje que falára a Maria, que esta negára tudo a -principio, depois confessára, e recusára reatar as relações com você. - ---Já sei. - ---Sim, mas parece que da terceira vez foram presentidas e ouvidas por -elle, que estava na saleta ao pé. Maria correu a contar a Raymunda que -elle mudára inteiramente; esta dispoz-se a sondal-o, eu oppuz-me, até -que li a noticia nos jornaes. Vi-o na rua, andando: não tinha aquelle -gesto sereno de costume, mas o passo era forte. - -Fiquei aturdido com a noticia, que confirmava a minha impressão. Nem -por isso deixei de ir lá jantar no dia seguinte. Barreto quiz ir -tambem; percebi que era com o fim unico de estar commigo, e recusei. - -X... não dissera nada a Maria; achei-os na sala, e não me lembro de -outra situação na vida em que me sentisse mais extranho a mim mesmo. -Apertei-lhes a mão, sem olhar para ella. Creio que ella tambem desviou -os olhos. Elle é que, com certeza, não nos observou; riscava um -phosphoro e accendia um cigarro. Ao jantar falou o mais naturalmente -que poude, ainda que frio. O rosto exprimia maior esforço que na -vespera. Para explicar a possivel alteração, disse-me que embarcaria -no fim da semana, e que, á proporção que a hora ia chegando, sentia -difficuldade em sair. - ---Mas é só até fóra da barra; lá fóra torno a ser o que sou, e, na -campanha, serei o que devo ser. - -Usava dessas palavras rigidas, alguma vez emphaticas. Notei que Maria -trazia os olhos pisados; soube depois que chorára muito e tivera grande -luta com elle, na vespera, para que não embarcasse. Só conhecêra a -resolução pelos jornaes, prova de alguma cousa mais particular que o -patriotismo. Não falou á mesa, e a dôr podia explicar o silencio, sem -nenhuma outra causa de constrangimento pessoal. Ao contrario, X... -procurava falar muito, contava os batalhões, os officiaes novos, as -probabilidades de victoria, e referia anecdotas e boatos, sem curar -de ligação. Ás vezes, queria rir; para o fim, disse que naturalmente -voltaria general, mas ficou tão carrancudo depois deste gracejo, que -não tentou outro. O jantar acabou frio; fumámos, elle ainda quiz falar -da guerra, mas o assumpto estava exhausto. Antes de sair, convidei-o a -ir jantar commigo. - ---Não posso; todos os meus dias estão tomados. - ---Venha almoçar. - ---Tambem não posso. Faço uma cousa; na volta do Paraguay, o terceiro -dia é seu. - -Creio ainda hoje que o fim desta ultima phrase era indicar que os dous -primeiros dias seriam da mãe e de Maria; assim, qualquer suspeita que -eu tivesse dos motivos secretos da resolução, devia dissipar-se. Nem -bastou isso; disse-me que escolhesse uma prenda em lembrança, um livro, -por exemplo. Preferi o seu ultimo retrato, photographado a pedido da -mãe, com a farda de capitão de voluntarios. Por dissimulação, quiz que -assignasse; elle promptamente escreveu: «Ao seu leal amigo Simão de -Castro offerece o capitão de voluntarios da patria X...» O marmore do -rosto era mais duro, o olhar mais torvo; passou os dedos pelo bigode, -com um gesto convulso, e despedimo-nos. - -No sabbado embarcou. Deixou a Maria os recursos necessarios para viver -aqui, na Bahia, ou no Rio Grande do Sul; ella preferiu o Rio Grande, -e partiu para lá, trez semanas depois, a esperar que elle voltasse -da guerra. Não a pude ver antes; fechára-me a porta, como já me havia -fechado o rosto e o coração. - -Antes de um anno, soube-se que elle morrêra em combate, no qual se -houve com mais denodo que pericia. Ouvi contar que primeiro perdêra um -braço, e que provavelmente a vergonha de ficar aleijado o fez atirar-se -contra as armas inimigas, como quem queria acabar de vez. Esta versão -podia ser exacta, porque elle tinha desvanecimento das bellas fórmas; -mas a causa foi complexa. Tambem me contaram que Maria, voltando do Rio -Grande, morreu em Curytiba; outros dizem que foi acabar em Montevidéo. -A filha não passou dos quinze annos. - -Eu cá fiquei entre os meus remorsos e saudades; depois, só remorsos; -agora admiração apenas, uma admiração particular, que não é grande -senão por me fazer sentir pequeno. Sim, eu não era capaz de praticar o -que elle praticou. Nem effectivamente conheci ninguem que se parecesse -com X... E porque teimar nesta letra? Chamemol-o pelo nome que lhe -deram na pia, Emilio, o meigo, o forte, o simples Emilio. - - - - -Suje-se gordo! - - -Uma noite, ha muitos annos, passeava eu com um amigo no terraço do -theatro de S. Pedro de Alcantara. Era entre o segundo e o terceiro acto -da peça _A sentença ou o tribunal do jury_. Só me ficou o titulo, e foi -justamente o titulo que nos levou a falar da instituição e de um facto -que nunca mais me esqueceu. - -Fui sempre contrario ao jury,--disse-me aquelle amigo,--não pela -instituição em si, que é liberal, mas porque me repugna condemnar -alguem, e por aquelle preceito do Evangelho: «Não queiraes julgar para -que não sejais julgados.» Não obstante, servi duas vezes. O tribunal -era então no antigo Aljube, fim da rua dos Ourives, principio da -ladeira da Conceição. - -Tal era o meu escrupulo que, salvo dous, absolvi todos os réos. Com -effeito, os crimes não me pareceram provados; um ou dous processos -eram muito mal feitos. O primeiro réo que condemnei, era um moço -limpo, accusado de haver furtado certa quantia, não grande, antes -pequena, com falsificação de um papel. Não negou o facto, nem podia -fazel-o, contestou que lhe coubesse a iniciativa ou inspiração do -crime. Alguem, que não citava, foi que lhe lembrou esse modo de acudir -a uma necessidade urgente; mas Deus, que via os corações, daria ao -criminoso verdadeiro o merecido castigo. Disse isso sem emphase, -triste, a palavra surda, os olhos mortos, com tal pallidez que mettia -pena; o promotor publico achou nessa mesma côr do gesto a confissão do -crime. Ao contrario, o defensor mostrou que o abatimento e a pallidez -significavam a lastima da innocencia calumniada. - -Poucas vezes terei assistido a debate tão brilhante. O discurso do -promotor foi curto, mas forte, indignado, com um tom que parecia odio, -e não era. A defeza, além do talento do advogado, tinha a circumstancia -de ser a estréa delle na tribuna. Parentes, collegas e amigos esperavam -o primeiro discurso do rapaz, e não perderam na espera. O discurso foi -admiravel, e teria salvo o réo, se elle pudesse ser salvo, mas o crime -mettia-se pelos olhos dentro. O advogado morreu dous annos depois, em -1865. Quem sabe o que se perdeu nelle! Eu, acredite, quando vejo morrer -um moço de talento, sinto mais que quando morre um velho... Mas vamos -ao que ia contando. Houve réplica do promotor e tréplica do defensor. O -presidente do tribunal resumiu os debates, e, lidos os quesitos, foram -entregues ao presidente do conselho, que era eu. - -Não digo o que se passou na sala secreta; além de ser secreto o que lá -se passou, não interessa ao caso particular, que era melhor ficasse -tambem calado, confesso. Contarei depressa; o terceiro acto não tarda. - -Um dos jurados do conselho, cheio de corpo e ruivo, parecia mais -que ninguem convencido do delicto e do delinquente. O processo foi -examinado, os quesitos lidos, e as respostas dadas (onze votos -contra um); só o jurado ruivo estava inquieto. No fim, como os votos -assegurassem a condemnação, ficou satisfeito, disse que seria um acto -de fraqueza, ou cousa peior, a absolvição que lhe déssemos. Um dos -jurados, certamente o que votára pela negativa,--proferiu algumas -palavras de defeza do moço. O ruivo,--chamava-se Lopes,--replicou com -aborrecimento: - ---Como, senhor? Mas o crime do réo está mais que provado. - ---Deixemos de debate, disse eu, e todos concordaram commigo. - ---Não estou debatendo, estou defendendo o meu voto, continuou Lopes. O -crime está mais que provado. O sujeito nega, porque todo o réo nega, -mas o certo é que elle commetteu a falsidade, e que falsidade! Tudo por -uma miseria, duzentos mil reis! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se -gordo! - -«Suje-se gordo!» Confesso-lhe que fiquei de boca aberta, não que -entendesse a phrase, ao contrario; nem a entendi nem a achei limpa, e -foi por isso mesmo que fiquei de boca aberta. Afinal caminhei e bati á -porta, abriram-nos, fui á mesa do juiz, dei as respostas do conselho -e o réu saiu condemnado. O advogado appellou; se a sentença foi -confirmada ou a appellação acceita, não sei; perdi o negocio de vista. - -Quando sai do tribunal, vim pensando na phrase do Lopes, e pareceu-me -entendel-a. «Suje-se gordo!» era como se dissesse que o condemnado -era mais que ladrão, era um ladrão reles, um ladrão de nada. Achei -esta explicação na esquina da rua de S. Pedro; vinha ainda pela dos -Ourives. Cheguei a desandar um pouco, a ver se descobria o Lopes para -lhe apertar a mão; nem sombra de Lopes. No dia seguinte, lendo nos -jornaes os nossos nomes, dei com o nome todo delle; não valia a pena -procural-o, nem me ficou de cór. Assim são as paginas da vida, como -dizia meu filho quando fazia versos, e accrescentava que as paginas vão -passando umas sobre outras, esquecidas apenas lidas. Rimava assim, mas -não me lembra a fórma dos versos. - -Em prosa disse-me elle, muito tempo depois, que eu não devia faltar -ao jury, para o qual acabava de ser designado. Respondi-lhe que não -compareceria, e citei o preceito evangelico; elle teimou, dizendo ser -um dever de cidadão, um serviço gratuito, que ninguem que se prezasse -podia negar ao seu paiz. Fui e julguei tres processos. - -Um destes era de um empregado do Banco do Trabalho Honrado, o caixa, -accusado de um desvio de dinheiro. Ouvira falar no caso, que os jornaes -deram sem grande minucia, e aliás eu lia pouco as noticias de crimes. -O accusado appareceu e foi sentar-se no famoso banco dos réos. Era um -homem magro e ruivo. Fitei-o bem, e estremeci; pareceu-me ver o meu -collega daquelle julgamento de annos antes. Não poderia reconhecel-o -logo por estar agora magro, mas era a mesma côr dos cabellos e das -barbas, o mesmo ar, e por fim a mesma voz e o mesmo nome: Lopes. - ---Como se chama? perguntou o presidente. - ---Antonio do Carmo Ribeiro Lopes. - -Já me não lembravam os tres primeiros nomes, o quarto era o mesmo, e -os outros signaes vieram confirmando as reminiscencias; não me tardou -reconhecer a pessoa exacta daquelle dia remoto. Digo-lhe aqui com -verdade que todas essas circumstancias me impediram de acompanhar -attentamente o interrogatorio, e muitas cousas me escaparam. Quando me -dispuz a ouvil-o bem, estava quasi no fim. Lopes negava com firmeza -tudo o que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma -complicação ao processo. Circulava os olhos sem medo nem anciedade; não -sei até se com uma pontinha de riso nos cantos da boca. - -Seguiu-se a leitura do processo. Era uma falsidade e um desvio de cento -e dez contos de reis. Não lhe digo como se descobriu o crime nem o -criminoso, por já ser tarde; a orchestra está afinando os instrumentos. -O que lhe digo com certeza é que a leitura dos autos me impressionou -muito, o inquerito, os documentos, a tentativa de fuga do caixa e -uma serie de circumstancias aggravantes; por fim o depoimento das -testemunhas. Eu ouvia ler ou falar e olhava para o Lopes. Tambem elle -ouvia, mas com o rosto alto, mirando o escrivão, o presidente, o tecto -e as pessoas que o iam julgar; entre ellas eu. Quando olhou para mim, -não me reconheceu; fitou-me algum tempo e sorriu, como fazia aos outros. - -Todos esses gestos do homem serviram á accusação e á defeza, tal como -serviram, tempos antes, os gestos contrarios do outro accusado. O -promotor achou nelles a revelação clara do cynismo, o advogado mostrou -que só a innocencia e a certeza da absolvição podiam trazer aquella paz -de espirito. - -Emquanto os dous oradores falavam, vim pensando na fatalidade de estar -alli, no mesmo banco do outro, este homem que votára a condemnação -delle, e naturalmente repeti commigo o texto evangelico: «Não queiraes -julgar, para que não sejaes julgados.» Confesso-lhe que mais de uma -vez me senti frio. Não é que eu mesmo viesse a commetter algum desvio -de dinheiro, mas podia, em occasião de raiva, matar alguem ou ser -calumniado de desfalque. Aquelle que julgava outr'ora, era agora -julgado tambem. - -Ao pé da palavra biblica lembrou-me de repente a do mesmo Lopes: -«Suje-se gordo!» Não imagina o sacudimento que me deu esta lembrança. -Evoquei tudo o que contei agora, o discursinho que lhe ouvi na sala -secreta, até áquellas palavras: «Suje-se gordo!» Vi que não era um -ladrão réles, um ladrão de nada, sim de grande valor. O verbo é que -definia duramente a acção: «Suje-se gordo!» Queria dizer que o homem -não se devia levar a um acto daquella especie sem a grossura da somma. -A ninguem cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se -gordo! - -Idéas e palavras iam assim rolando na minha cabeça, sem eu dar pelo -resumo dos debates que o presidente do tribunal fazia. Tinha acabado, -leu os quesitos e recolhemo-nos á sala secreta. Posso dizer-lhe aqui em -particular que votei affirmativamente, tão certo me pareceu o desvio -dos cento e dez contos. Havia, entre outros documentos, uma carta de -Lopes que fazia evidente o crime. Mas parece que nem todos leram com -os mesmos olhos que eu. Votaram commigo dous jurados. Nove negaram a -criminalidade do Lopes, a sentença de absolvição foi lavrada e lida, -e o accusado saiu para a rua. A differença da votação era tamanha que -cheguei a duvidar commigo se teria acertado. Podia ser que não. Agora -mesmo sinto uns repellões de consciencia. Felizmente, se o Lopes não -commetteu devéras o crime, não recebeu a pena do meu voto, e esta -consideração acaba por me consolar do erro, mas os repellões voltam. O -melhor de tudo é não julgar ninguem para não vir a ser julgado. Suje-se -gordo! suje-se magro! suje-se como lhe parecer! o mais seguro é não -julgar ninguem... Acabou a musica, vamos para as nossas cadeiras. - - - - -Umas férias - - -Vieram dizer ao mestre-escola que alguem lhe queria falar. - ---Quem é? - ---Diz que meu senhor não o conhece, respondeu o preto. - ---Que entre. - -Houve um movimento geral de cabeças na direcção da porta do corredor, -por onde devia entrar a pessoa desconhecida. Eramos não sei quantos -meninos na escola. Não tardou que apparecesse uma figura rude, tez -queimada, cabellos compridos, sem signal de pente, a roupa amarrotada, -não me lembra bem a côr nem a fazenda, mas provavelmente era brim -pardo. Todos ficaram esperando o que vinha dizer o homem, eu mais -que ninguem, porque elle era meu tio, roceiro, morador em Guaratiba. -Chamava-se tio Zéca. - -Tio Zéca foi ao mestre e falou-lhe baixo. O mestre fêl-o sentar, olhou -para mim, e creio que lhe perguntou alguma cousa, porque tio Zéca -entrou a falar demorado, muito explicativo. O mestre insistiu, elle -respondeu, até que o mestre, voltando-se para mim, disse alto: - ---Sr. José Martins, póde sair. - -A minha sensação de prazer foi tal que venceu a de espanto. Tinha dez -annos apenas, gostava de folgar, não gostava de aprender. Um chamado -de casa, o proprio tio, irmão de meu pae, que chegára na vespera de -Guaratiba, era naturalmente alguma festa, passeio, qualquer cousa. -Corri a buscar o chapéo, metti o livro de leitura no bolso e desci -as escadas da escola, um sobradinho da rua do Senado. No corredor -beijei a mão a tio Zéca. Na rua fui andando ao pé delle, amiudando os -passos, e levantando a cara. Elle não me dizia nada, eu não me atrevia -a nenhuma pergunta. Pouco depois chegavamos ao collegio de minha irmã -Felicia; disse-me que esperasse, entrou, subiu, desceram, e fomos os -tres caminho de casa. A minha alegria agora era maior. Certamente havia -festa em casa, pois que iamos os dous, ella e eu; iamos na frente, -trocando as nossas perguntas e conjecturas. Talvez annos de tio Zéca. -Voltei a cara para elle; vinha com os olhos no chão, provavelmente para -não cair. - -Fomos andando. Felicia era mais velha que eu um anno. Calçava sapato -raso, atado ao peito do pé por duas fitas cruzadas, vindo acabar acima -do tornozello com laço. Eu, botins de cordavão, já gastos. As calcinhas -della pegavam com a fita dos sapatos, as minhas calças, largas, caíam -sobre o peito do pé; eram de chita. Uma ou outra vez paravamos, ella -para admirar as bonecas á porta dos armarinhos, eu para ver, á porta -das vendas, algum papagaio que descia e subia pela corrente de ferro -atada ao pé. Geralmente, era meu conhecido, mas papagaio não cança -em tal edade. Tio Zéca é que nos tirava do espectaculo industrial ou -natural. Andem, dizia elle em voz sumida. E nós andavamos, até que -outra curiosidade nos fazia deter o passo. Entretanto, o principal era -a festa que nos esperava em casa. - ---Não creio que sejam annos de tio Zéca, disse-me Felicia. - ---Porqué? - ---Parece meio triste. - ---Triste, não, parece carrancudo. - ---Ou carrancudo. Quem faz annos tem a cara alegre. - ---Então serão annos de meu padrinho... - ---Ou de minha madrinha... - ---Mas porque é que mamãe nos mandou para a escola? - ---Talvez não soubesse. - ---Ha de haver jantar grande... - ---Com doce... - ---Talvez dancemos. - -Fizemos um accordo: podia ser festa, sem anniversario de ninguem. A -sorte grande, por exemplo. Occorreu-me tambem que podiam ser eleições. -Meu padrinho era candidato a vereador; embora eu não soubesse bem o que -era candidatura nem vereação, tanto ouvira falar em victoria proxima -que a achei certa e ganha. Não sabia que a eleição era ao domingo, e o -dia era sexta-feira. Imaginei bandas de musica, vivas e palmas, e nós, -meninos, pulando, rindo, comendo cocadas. Talvez houvesse espectaculo -á noite; fiquei meio tonto. Tinha ido uma vez ao theatro, e voltei -dormindo, mas no dia seguinte estava tão contente que morria por lá -tornar, posto não houvesse entendido nada do que ouvira. Vira muita -cousa, isso sim, cadeiras ricas, thronos, lanças compridas, scenas que -mudavam á vista, passando de uma sala a um bosque, e do bosque a uma -rua. Depois, os personagens, todos principes. Era assim que chamavamos -aos que vestiam calção de seda, sapato de fivella ou botas, espada, -capa de velludo, gorra com pluma. Tambem houve bailado. As bailarinas -e os bailarinos falavam com os pés e as mãos, trocando de posição e um -sorriso constante na boca. Depois os gritos do publico e as palmas... - -Já duas vezes escrevi palmas; é que as conhecia bem. Felicia, a quem -communiquei a possibilidade do espectaculo, não me pareceu gostar -muito, mas tambem não recusou nada. Iria ao theatro. E quem sabe se não -seria em casa, theatrinho de bonecos? Iamos nessas conjecturas, quando -tio Zéca nos disse que esperassemos; tinha parado a conversar com um -sujeito. - -Parámos, á espera. A idéa da festa, qualquer que fosse, continuou a -agitar-nos, mais a mim que a ella. Imaginei trinta mil cousas, sem -acabar nenhuma, tão precipitadas vinham, e tão confusas que não as -distinguia; póde ser até que se repetissem. Felicia chamou a minha -attenção para dous moleques de carapuça encarnada, que passavam -carregando cannas,--o que nos lembrou as noites de Santo Antonio e -S. João, já lá idas. Então falei-lhe das fogueiras do nosso quintal, -das bichas que queimámos, das rodinhas, das pistolas e das danças com -outros meninos. Se houvesse agora a mesma cousa... Ah! lembrou-me que -era occasião de deitar á fogueira o livro da escola, e o della tambem, -com os pontos de costura que estava aprendendo. - ---Isso não, acudiu Felicia. - ---Eu queimava o meu livro. - ---Papae comprava outro. - ---Emquanto comprasse, eu ficava brincando em casa; aprender é muito -aborrecido. - -Nisto estavamos, quando vimos tio Zéca e o desconhecido ao pé de nós. -O desconhecido pegou-nos nos queixos e levantou-nos a cara para elle, -fitou-nos com seriedade, deixou-nos e despediu-se. - ---Nove horas? Lá estarei, disse elle. - ---Vamos, disse-nos tio Zéca. - -Quiz perguntar-lhe quem era aquelle homem, e até me pareceu conhecel-o -vagamente. Felicia tambem. Nenhum de nós acertava com a pessoa; mas -a promessa de lá estar ás nove horas dominou o resto. Era festa, -algum baile, comquanto ás nove horas costumassemos ir para a cama. -Naturalmente, por excepção, estariamos accordados. Como chegassemos -a um rego de lama, peguei da mão de Felicia, e transpuzemol-o de um -salto, tão violento que quasi me caiu o livro. Olhei para tio Zéca, a -ver o effeito do gesto; viu-o abanar a cabeça com reprovação. Ri, ella -sorriu, e fomos pela calçada adeante. - -Era o dia dos desconhecidos. Desta vez estavam em burros, e um dos dous -era mulher. Vinham da roça. Tio Zéca foi ter com elles ao meio da rua, -depois de dizer que esperassemos. Os animaes pararam, creio que de si -mesmos, por tambem conhecerem a tio Zéca, idéa que Felicia reprovou -com o gesto, e que eu defendi rindo. Teria apenas meia convicção; -tudo era folgar. Fosse como fosse, esperámos os dous, examinando o -casal de roceiros. Eram ambos magros, a mulher mais que o marido, e -tambem mais moça; elle tinha os cabellos grisalhos. Não ouvimos o que -disseram, elle e tio Zéca; vimol-o, sim, o marido olhar para nós com -ar de curiosidade, e falar á mulher, que tambem nos deitou os olhos, -agora com pena ou cousa parecida. Emfim apartaram-se, tio Zéca veiu ter -comnosco e enfiámos para casa. - -A casa ficava na rua proxima, perto da esquina. Ao dobrarmos esta, -vimos os portaes da casa forrados de preto,--o que nos encheu de -espanto. Instinctivamente parámos e voltámos a cabeça para tio Zéca. -Este veiu a nós, deu a mão a cada um e ia a dizer alguma palavra que -lhe ficou na garganta; andou, levando-nos comsigo. Quando chegámos, -as portas estavam meio cerradas. Não sei se lhes disse que era um -armarinho. Na rua, curiosos. Nas janellas fronteiras e lateraes, -cabeças agglomeradas. Houve certo reboliço quando chegámos. É natural -que eu tivesse a boca aberta, como Felicia. Tio Zéca empurrou uma das -meias portas, entrámos os tres, elle tornou a cerral-a, metteu-se pelo -corredor e fomos á sala de jantar e á alcova. - -Dentro, ao pé da cama, estava minha mãe com a cabeça entre as mãos. -Sabendo da nossa chegada, ergueu-se de salto, veiu abraçar-nos entre -lagrimas, bradando: - ---Meus filhos, vosso pae morreu! - -A commoção foi grande, por mais que o confuso e o vago entorpecessem -a consciencia da noticia. Não tive forças para andar, e teria medo de -o fazer. Morto como? morto porque? Estas duas perguntas, se as metto -aqui, é para dar seguimento á acção; naquelle momento não perguntei -nada a mim nem a ninguem. Ouvia as palavras de minha mãe, que se -repetiam em mim, e os seus soluços que eram grandes. Ella pegou em nós -e arrastou-nos para a cama, onde jazia o cadaver do marido; e fez-nos -beijar-lhe a mão. Tão longe estava eu daquillo que, apezar de tudo, -não entendêra nada a principio; a tristeza e o silencio das pessoas que -rodeavam a cama, ajudaram a explicar que meu pae morrêra devéras. Não -se tratava de um dia santo, com a sua folga e recreio, não era festa, -não eram as horas breves ou longas, para a gente desfiar em casa, -arredada dos castigos da escola. Que essa queda de um sonho tão bonito -fizesse crescer a minha dôr de filho não é cousa que possa affirmar -ou negar; melhor é calar. O pae alli estava defunto, sem pulos, -nem danças, nem risadas, nem bandas de musica, cousas todas tambem -defuntas. Se me houvessem dito á saida da escola porque é que me iam lá -buscar, é claro que a alegria não houvera penetrado o coração, donde -era agora expellida a punhadas. - -O enterro foi no dia seguinte ás nove horas da manhã, e provavelmente -lá estava aquelle amigo de tio Zeca que se despediu na rua, com a -promessa de ir ás nove horas. Não vi as cerimonias; alguns vultos, -poucos, vestidos de preto, lembra-me que vi. Meu padrinho, dono de um -trapiche, lá estava, e a mulher tambem, que me levou a uma alcova dos -fundos para me mostrar gravuras. Na occasião da saida, ouvi os gritos -de minha mãe, o rumor dos passos, algumas palavras abafadas de pessoas -que pegavam nas alças do caixão, creio eu: «--vire de lado,--mais á -esquerda,--assim,--segure bem...» Depois, ao longe, o coche andando e -as seges atraz delle... - -Lá iam meu pae e as férias! Um dia de folga sem folguedo! Não, não -foi um dia, mas oito, oito dias de nojo, durante os quaes alguma vez -me lembrei do collegio. Minha mãe chorava, cosendo o luto, entre duas -visitas de pesames. Eu tambem chorava; não via meu pae ás horas do -costume, não lhe ouvia as palavras á mesa ou ao balcão, nem as caricias -que dizia aos passaros. Que elle era muito amigo de passaros, e tinha -tres ou quatro, em gaiolas. Minha mãe vivia calada. Quasi que só falava -ás pessoas de fóra. Foi assim que eu soube que meu pae morrêra de -apoplexia. Ouvi esta noticia muitas vezes; as visitas perguntavam pela -causa da morte, e ella referia tudo, a hora, o gesto, a occasião: tinha -ido beber agua, e enchia um copo, á janella da área. Tudo decorei, á -força de ouvil-o contar. - -Nem por isso os meninos do collegio deixavam de vir espiar para dentro -da minha memoria. Um delles chegou a perguntar-me quando é que eu -voltaria. - ---Sabbado, meu filho, disse minha mãe, quando lhe repeti a pergunta -imaginada; a missa é sexta-feira. Talvez seja melhor voltar na segunda. - ---Antes sabbado, emendei. - ---Pois sim, concordou. - -Não sorria; se pudesse, sorriria de gosto ao ver que eu queria voltar -mais cedo á escola. Mas, sabendo que eu não gostava de aprender, como -entenderia a emenda? Provavelmente, deu-lhe algum sentido superior, -conselho do ceu ou do marido. Em verdade, eu não folgava, se lerdes -isto com o sentido de rir. Com o de descançar tambem não cabe, porque -minha mãe fazia-me estudar, e, tanto como o estudo, aborrecia-me a -attitude. Obrigado a estar sentado, com o livro nas mãos, a um canto ou -á mesa, dava ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava um recurso que -recommendo aos preguiçosos: deixava os olhos na pagina e abria a porta -á imaginação. Corria a apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os -realejos, a bailar com meninas, a cantar, a rir, a espancar de mentira -ou de brincadeira, como fôr mais claro. - -Uma vez, como désse por mim a andar na sala sem ler, minha mãe -reprehendeu-me, e eu respondi que estava pensando em meu pae. A -explicação fel-a chorar, e, para dizer tudo, não era totalmente -mentira; tinha-me lembrado o ultimo presentinho que elle me déra, e -entrei a vel-o com o mimo na mão. - -Felicia vivia tão triste como eu, mas confesso a minha verdade, a -causa principal não era a mesma. Gostava de brincar, mas não sentia -a ausencia do brinco, não se lhe dava de acompanhar a mãe, coser com -ella, e uma vez fui achal-a a enxugar-lhe os olhos. Meio vexado, pensei -em imital-a, e metti a mão no bolso para tirar o lenço. A mão entrou -sem ternura, e, não achando lenço, saiu sem pesar. Creio que ao gesto -não faltava só originalidade, mas sinceridade tambem. - -Não me censurem. Sincero fui longos dias calados e reclusos. Quiz -uma vez ir para o armarinho, que se abriu depois do enterro, onde o -caixeiro continuou a servir. Conversaria com este, assistiria á venda -de linhas e agulhas, á medição de fitas, iria á porta, á calçada, á -esquina da rua... Minha mãe suffocou este sonho pouco depois delle -nascer. Mal chegára ao balcão, mandou-me buscar pela escrava; lá fui -para o interior da casa e para o estudo. Arrepelei-me, apertei os dedos -á guiza de quem quer dar murro; não me lembra se chorei de raiva. - -O livro lembrou-me a escola, e a imagem da escola consolou-me. Já então -lhe tinha grandes saudades. Via de longe as caras dos meninos, os -nossos gestos de troça nos bancos, e os saltos á saida. Senti cair-me -na cara uma daquellas bolinhas de papel com que nos espertavamos -uns aos outros, e fiz a minha e atirei-a ao meu supposto espertador. -A bolinha, como acontecia ás vezes, foi cair na cabeça de terceiro, -que se desforrou depressa. Alguns, mais timidos, limitavam-se a fazer -caretas. Não era folguedo franco, mas já me valia por elle. Aquelle -degredo que eu deixei tão alegremente com tio Zeca, parecia-me agora -um céo remoto, e tinha medo de o perder. Nenhuma festa em casa, poucas -palavras, raro movimento. Foi por esse tempo que eu desenhei a lapis -maior numero de gatos nas margens do livro de leitura; gatos e porcos. -Não alegrava, mas distrahia. - -A missa do setimo dia restituiu-me á rua; no sabbado não fui á escola, -fui á casa de meu padrinho, onde pude falar um pouco mais, e no domingo -estive á porta da loja. Não era alegria completa. A total alegria -foi segunda-feira, na escola. Entrei vestido de preto, fui mirado -com curiosidade, mas tão outro ao pé dos meus condiscipulos, que me -esqueceram as férias sem gosto, e achei uma grande alegria sem férias. - - - - -Evolução - - -Chamo-me Ignacio; elle, Benedicto. Não digo o resto dos nossos nomes -por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará. -Ignacio basta. Contentem-se com Benedicto. Não é muito, mas é alguma -cousa, e está com a philosophia de Julieta: «Que valem nomes? -perguntava ella ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, terá -sempre o mesmo cheiro.» Vamos ao cheiro do Benedicto. - -E desde logo assentemos que elle era o menos Romeo d'este mundo. Tinha -quarenta e cinco annos, quando o conheci; não declaro em que tempo, -porque tudo n'este conto ha de ser mysterioso e truncado. Quarenta e -cinco annos, e muitos cabellos pretos; para os que o não eram, usava -um processo chimico, tão efficaz que não se lhe distinguiam os pretos -dos outros--salvo ao levantar da cama; mas ao levantar da cama não -apparecia a ninguem. Tudo mais era natural, pernas, braços, cabeça, -olhos, roupa, sapatos, corrente do relogio e bengala. O proprio -alfinete de diamante, que trazia na gravata, um dos mais lindos -que tenho visto, era natural e legitimo; custou-lhe bom dinheiro; -eu mesmo o vi comprar na casa do... lá me ia escapando o nome do -joalheiro;--fiquemos na rua do Ouvidor. - -Moralmente, era elle mesmo. Ninguem muda de caracter, e o do Benedicto -era bom,--ou para melhor dizer, pacato. Mas, intellectualmente, é -que elle era menos original. Podemos comparal-o a uma hospedaria bem -afreguezada, aonde iam ter idéas de toda parte e de toda sorte, que se -sentavam á mesa com a familia da casa. Ás vezes, acontecia acharem-se -alli duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipathicas; ninguem -brigava, o dono da casa impunha aos hospedes a indulgencia reciproca. -Era assim que elle conseguia ajustar uma especie de atheismo vago -com duas irmandades que fundou, não sei se na Gavea, na Tijuca ou no -Engenho-Velho. Usava assim, promiscuamente, a devoção, a irreligião e -as meias de seda. Nunca lhe vi as meias, note-se; mas elle não tinha -segredos para os amigos. - -Conhecemo-nos em viagem para Vassouras. Tinhamos deixado o trem e -entrado na diligencia que nos ia levar da estação á cidade. Trocámos -algumas palavras, e não tardou conversarmos francamente, ao sabor das -circumstancias que nos impunham a convivencia, antes mesmo de saber -quem eramos. - -Naturalmente, o primeiro objecto foi o progresso que nos traziam as -estradas de ferro. Benedicto lembrava-se do tempo em que toda a jornada -era feita ás costas de burro. Contámos então algumas anecdotas, falámos -de alguns nomes, e ficámos de accordo em que as estradas de ferro eram -uma condição de progresso do paiz. Quem nunca viajou não sabe o valor -que tem uma d'essas banalidades graves e solidas para dissipar os -tedios do caminho. O espirito areja-se, os proprios musculos recebem -uma communicação agradavel, o sangue não salta, fica-se em paz com Deus -e os homens. - ---Não serão os nossos filhos que verão todo este paiz cortado de -estradas, disse elle. - ---Não, de certo. O senhor tem filhos? - ---Nenhum. - ---Nem eu. Não será ainda em cincoenta annos; e, entretanto, é a nossa -primeira necessidade. Eu comparo o Brazil a uma creança que está -engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro. - ---Bonita idéa! exclamou Benedicto faiscando-lhe os olhos. - ---Importa-me pouco que seja bonita, comtanto que seja justa. - ---Bonita e justa, redarguiu elle com amabilidade. Sim, senhor, tem -razão:--o Brazil está engatinhando; só começará a andar quando tiver -muitas estradas de ferro. - -Chegámos a Vassouras; eu fui para a casa do juiz municipal, camarada -antigo; elle demorou-se um dia e seguiu para o interior. Oito dias -depois voltei ao Rio de Janeiro, mas sósinho. Uma semana mais tarde, -voltou elle; encontrámo-nos no theatro, conversámos muito e trocámos -noticias; Benedicto acabou convidando-me a ir almoçar com elle no dia -seguinte. Fui; deu-me um almoço de principe, bons charutos e palestra -animada. Notei que a conversa d'elle fazia mais effeito no meio da -viagem--arejando o espirito e deixando a gente em paz com Deus e os -homens; mas devo dizer que o almoço póde ter prejudicado o resto. -Realmente era magnifico; e seria impertinencia historica pôr a mesa -de Lucullo na casa de Platão. Entre o café e o cognac, disse-me elle, -apoiando o cotovello na borda da mesa, e olhando para o charuto que -ardia: - ---Na minha viagem agora, achei occasião de ver como o senhor tem razão -com aquella idéa do Brazil engatinhando. - ---Ah? - ---Sim, senhor; é justamente o que o senhor dizia na diligencia de -Vassouras. Só começaremos a andar quando tivermos muitas estradas de -ferro. Não imagina como isso é verdade. - -E referiu muita cousa, observações relativas aos costumes do interior, -difficuldades da vida, atrazo, concordando, porém, nos bons sentimentos -da população e nas aspirações de progresso. Infelizmente, o governo -não correspondia ás necessidades da patria; parecia até interessado -em mantel-a atraz das outras nações americanas. Mas era indispensavel -que nos persuadissemos de que os principios são tudo e os homens nada. -Não se fazem os povos para os governos, mas os governos para os povos; -e _abyssus abyssum invocat_. Depois foi mostrar-me outras salas. -Eram todas alfaiadas com apuro. Mostrou-me as collecções de quadros, -de moedas, de livros antigos, de sellos, de armas; tinha espadas e -floretes, mas confessou que não sabia esgrimir. Entre os quadros vi um -lindo retrato de mulher; perguntei-lhe quem era. Benedicto sorriu. - ---Não irei adeante, disse eu sorrindo tambem. - ---Não, não ha que negar, acudiu elle; foi uma moça de quem gostei -muito. Bonita, não? Não imagina a belleza que era. Os labios eram mesmo -de carmim e as faces de rosa; tinha os olhos negros, côr da noite. E -que dentes! verdadeiras perolas. Um mimo da natureza. - -Em seguida, passámos ao gabinete. Era vasto, elegante, um pouco -trivial, mas não lhe faltava nada. Tinha duas estantes, cheias de -livros muito bem encadernados, um mappa-mundi, dous mappas do Brazil. -A secretaria era de ebano, obra fina; sobre ella, casualmente aberto, -um almanak de Laemmert. O tinteiro era de crystal,--«crystal de rocha», -disse-me elle, explicando o tinteiro, como explicava as outras cousas. -Na sala contigua havia um orgão. Tocava orgão, e gostava muito de -musica, falou d'ella com enthusiasmo, citando as operas, os trechos -melhores, e noticiou-me que, em pequeno, começára a aprender flauta; -abandonou-a logo,--o que foi pena, concluiu, porque é, na verdade, um -instrumento muito saudoso. Mostrou-me ainda outras salas, fomos ao -jardim, que era esplendido, tanto ajudava a arte á natureza, e tanto a -natureza coroava a arte. Em rosas, por exemplo, (não ha negar, disse-me -elle, que é a rainha das flôres) em rosas, tinha-as de toda casta e de -todas as regiões. - -Saí encantado. Encontrámo-nos algumas vezes, na rua, no theatro, em -casa de amigos communs, tive occasião de aprecial-o. Quatro mezes -depois fui á Europa, negocio que me obrigava á ausencia de um anno; -elle ficou cuidando da eleição; queria ser deputado. Fui eu mesmo que -o induzi a isso, sem a menor intenção politica, mas com o unico fim de -lhe ser agradavel; mal comparando, era como se lhe elogiasse o córte do -collete. Elle pegou da idéa, e apresentou-se. Um dia, atravessando uma -rua de Pariz, dei subitamente com o Benedicto. --Que é isto? exclamei. - ---Perdi a eleição, disse elle, e vim passear á Europa. - -Não me deixou mais; viajámos juntos o resto do tempo. Confessou-me que -a perda da eleição não lhe tirára a idéa de entrar no parlamento. Ao -contrario, incitára-o mais. Falou-me de um grande plano. - ---Quero vel-o ministro, disse-lhe. - -Benedicto não contava com esta palavra, o rosto illuminou-se-lhe; mas -disfarçou depressa. - ---Não digo isso, respondeu. Quando, porém, seja ministro, creia que -serei tão sómente ministro industrial. Estamos fartos de partidos; -precisamos desenvolver as forças vivas do paiz, os seus grandes -recursos. Lembra-se do que _nós diziamos_ na diligencia de Vassouras? O -Brazil está engatinhando; só andará com estradas de ferro. - ---Tem razão, concordei um pouco espantado. E porque é que eu mesmo -vim á Europa? Vim cuidar de uma estrada de ferro. Deixo as cousas -arranjadas em Londres. - ---Sim? - ---Perfeitamente. - -Mostrei-lhe os papeis; elle viu-os deslumbrado. Como eu tivesse -então recolhido alguns apontamentos, dados estatisticos, folhetos, -relatorios, copias de contractos, tudo referente a materias -industriaes, e lh'os mostrasse, Benedicto declarou-me que ia tambem -colligir algumas cousas d'aquellas. E, na verdade, vi-o andar por -ministerios, bancos, associações, pedindo muitas notas e opusculos, que -amontoava nas malas; mas o ardor com que o fez, se foi intenso, foi -curto; era de emprestimo. Benedicto recolheu com muito mais gosto os -anexins politicos e fórmulas parlamentares. Tinha na cabeça um vasto -arsenal d'elles. Nas conversas commigo repetia-os muita vez, á laia -de experiencia; achava n'elles grande prestigio e valor inestimavel. -Muitos eram de tradição ingleza, e elle os preferia aos outros, como -trazendo em si um pouco da Camara dos Communs. Saboreava-os tanto que -eu não sei se elle acceitaria jámais a liberdade real sem aquelle -apparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar, -optaria por essas fórmas curtas, tão commodas, algumas lindas, outras -sonoras, todas axiomaticas, que não forçam a reflexão, preenchem os -vasios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens. - -Regressámos juntos; mas eu fiquei em Pernambuco, e tornei mais tarde -a Londres, d'onde vim ao Rio de Janeiro, um anno depois. Já então -Benedicto era deputado. Fui visital-o; achei-o preparando o discurso de -estréa. Mostrou-me alguns apontamentos, trechos de relatorios, livros -de economia politica, alguns com paginas marcadas, por meio de tiras -de papel rubricadas assim:--_Cambio_, _Taxa das terras_, _Questão dos -cereaes em Inglaterra_, _Opinião de Stuart Mill_, _Erro de Thiers sobre -caminhos de ferro_, etc. Era sincero, minucioso e callido. Falava-me -d'aquellas cousas, como se acabasse de as descobrir, expondo-me tudo, -ab ovo; tinha a peito mostrar aos homens praticos da Camara que tambem -elle era pratico. Em seguida, perguntou-me pela empreza; disse-lhe o -que havia. - ---Dentro de dous annos conto inaugurar o primeiro trecho da estrada. - ---E os capitalistas inglezes? - ---Que têm? - ---Estão contentes, esperançados? - ---Muito; não imagina. - -Contei-lhe algumas particularidades technicas, que elle ouviu -distrahidamente,--ou porque a minha narração fosse em extremo -complicada, ou por outro motivo. Quando acabei, disse-me que estimava -ver-me entregue ao movimento industrial; era d'elle que precisavamos, e -a este proposito fez-me o favor de ler o exordio do discurso que devia -proferir d'alli a dias. - ---Está ainda em borrão, explicou-me; mas as idéas capitaes ficam. E -começou: «No meio da agitação crescente dos espiritos, do alarido -partidario que encobre as vozes dos legitimos interesses, permitti que -alguem faça ouvir uma supplica da nação. Senhores, é tempo de cuidar, -exclusivamente,--notae que digo exclusivamente,--dos melhoramentos -materiaes do paiz. Não desconheço o que se me póde replicar; -dir-me-heis que uma nação não se compõe só de estomago para digerir, -mas de cabeça para pensar e de coração para sentir. Respondo-vos que -tudo isso não valerá nada ou pouco, se ella não tiver pernas para -caminhar; e aqui repetirei o que, ha alguns annos, _dizia eu_ a um -amigo, em viagem pelo interior: o Brazil é uma creança que engatinha; -só começará a andar quando estiver cortado de estradas de ferro...» - -Não pude ouvir mais nada e fiquei pensativo. Mais que pensativo, fiquei -assombrado, desvairado deante do abysmo que a psychologia rasgava aos -meus pés. Este homem é sincero, pensei commigo, está persuadido do -que escreveu. E fui por ahi abaixo até ver se achava a explicação dos -tramites por que passou aquella recordação da diligencia de Vassouras. -Achei (perdôem-me se ha n'isto infatuação), achei alli mais um effeito -da lei da evolução, tal como a definiu Spencer,--Spencer ou Benedicto, -um d'elles. - - - - -Pylades e Orestes - - -Quintanilha engendrou Gonçalves. Tal era a impressão que davam os dous -juntos, não que se parecessem. Ao contrario, Quintanilha tinha o rosto -redondo, Gonçalves comprido, o primeiro era baixo e moreno, o segundo -alto e claro, e a expressão total divergia inteiramente. Accresce que -eram quasi da mesma edade. A idéa da paternidade nascia das maneiras -com que o primeiro tratava o segundo; um pae não se desfaria mais em -carinhos, cautellas e pensamentos. - -Tinham estudado juntos, morado juntos, e eram bachareis do mesmo -anno. Quintanilha não seguiu advocacia nem magistratura, metteu-se na -politica; mas, eleito deputado provincial em 187... cumpriu o prazo -da legislatura e abandonou a carreira. Herdára os bens de um tio, que -lhe davam de renda cerca de trinta contos de réis. Veiu para o seu -Gonçalves, que advogava no Rio de Janeiro. - -Posto que abastado, moço, amigo do seu unico amigo, não se póde dizer -que Quintanilha fosse inteiramente feliz, como vaes ver. Ponho de lado -o desgosto que lhe trouxe a herança com o odio dos parentes; tal odio -foi que elle esteve prestes a abrir mão d'ella, e não o fez porque o -amigo Gonçalves, que lhe dava idéas e conselhos, o convenceu de que -similhante acto seria rematada loucura. - ---Que culpa tem você que merecesse mais a seu tio que os outros -parentes? Não foi você que fez o testamento nem andou a bajular o -defunto, como os outros. Se elle deixou tudo a você, é que o achou -melhor que elles; fique-se com a fortuna, que é a vontade do morto, e -não seja tolo. - -Quintanilha acabou concordando. Dos parentes alguns buscaram -reconciliar-se com elle, mas o amigo mostrou-lhe a intenção recondita -dos taes, e Quintanilha não lhes abriu a porta. Um d'esses, ao vê-lo -ligado com o antigo companheiro de estudos, bradava por toda a parte: - --- Ahi está, deixa os parentes para se metter com extranhos; ha de ver -o fim que leva. - -Ao saber d'isto, Quintanilha correu a contal-o a Gonçalves, indignado. -Gonçalves sorriu, chamou-lhe tolo e aquietou-lhe o animo; não valia a -pena irritar-se por ditinhos. - --- Uma só cousa desejo, continuou, é que nos separemos, para que se não -diga... - ---Que se não diga o quê? É boa! Tinha que vêr, se eu passava a escolher -as minhas amizades conforme o capricho de alguns peraltas sem vergonha! - --- Não fale assim, Quintanilha. Você é grosseiro com seus parentes. - --- Parentes do diabo que os leve! Pois eu hei de viver com as pessoas -que me fôrem designadas por meia duzia de velhacos que o que querem -é comer-me o dinheiro? Não, Gonçalves; tudo o que você quizer, menos -isso. Quem escolhe os meus amigos sou eu, é o meu coração. Ou você -está... está aborrecido de mim? - --- Eu? Tinha graça. - --- Pois então? - --- Mas é... - --- Não é tal! - -A vida que viviam os dous, era a mais unida d'este mundo. Quintanilha -accordava, pensava no outro, almoçava e ia ter com elle. Jantavam -juntos, faziam alguma visita, passeavam ou acabavam a noite no theatro. -Se Gonçalves tinha algum trabalho que fazer á noite, Quintanilha ia -ajudal-o como obrigação; dava busca aos textos de lei, marcava-os, -copiava-os, carregava os livros. Gonçalves esquecia com facilidade, -ora um recado, ora uma carta, sapatos, charutos, papeis. Quintanilha -suppria-lhe a memoria. Ás vezes, na rua do Ouvidor, vendo passar as -moças, Gonçalves lembrava-se de uns autos que deixára no escriptorio. -Quintanilha voava a buscal-os e tornava com elles, tão contente que -não se podia saber se eram autos, se a sorte grande; procurava-o -anciosamente com os olhos, corria, sorria, morria de fadiga. - --- São estes? - --- São; deixa ver, são estes mesmos. Dá cá. - --- Deixa, eu levo. - -A principio, Gonçalves suspirava: - ---Que massada que dei a você! - -Quintanilha ria do suspiro com tão bom humor que o outro, para não -o molestar, não se accusou de mais nada; concordou em receber os -obsequios. Com o tempo, os obsequios ficaram sendo puro officio. -Gonçalves dizia ao outro: «Você hoje ha de lembrar-me isto e aquillo.» -E o outro decorava as recommendações, ou escrevia-as, se eram muitas. -Algumas dependiam de horas; era de ver como o bom Quintanilha -suspirava afflicto, á espera que chegasse tal ou tal hora para ter o -gosto de lembrar os negocios ao amigo. E levava-lhe as cartas e papeis, -ia buscar as respostas, procurar as pessoas, esperal-as na estrada -de ferro, fazia viagens ao interior. De si mesmo descobria-lhe bons -charutos, bons jantares, bons espectaculos. Gonçalves já não tinha -liberdade de falar de um livro novo, ou sómente caro, que não achasse -um exemplar em casa. - --- Você é um perdulario, dizia-lhe em tom reprehensivo. - --- Então gastar com letras e sciencias é botar fóra? É boa! concluia o -outro. - -No fim do anno quiz obrigal-o a passar fóra as férias. Gonçalves -acabou acceitando, e o prazer que lhe deu com isto foi enorme. Subiram -a Petropolis. Na volta, serra abaixo, como falassem de pintura, -Quintanilha advertiu que não tinham ainda uma tela com o retrato dos -dous, e mandou fazel-a. Quando a levou ao amigo, este não poude deixar -de lhe dizer que não prestava para nada. Quintanilha ficou sem voz. - --- É uma porcaria, insistiu Gonçalves. - --- Pois o pintor disse-me... - --- Você não entende de pintura, Quintanilha, e o pintor aproveitou a -occasião para metter a espiga. Pois isto é cara decente? Eu tenho este -braço torto? - --- Que ladrão! - --- Não, elle não tem culpa, fez o seu negocio; você é que não tem o -sentimento da arte, nem pratica, e espichou-se redondamente. A intenção -foi boa, creio... - --- Sim, a intenção foi boa. - --- E aposto que já pagou? - --- Já. - -Gonçalves abanou a cabeça, chamou-lhe ignorante e acabou rindo. -Quintanilha, vexado e aborrecido, olhava para a tela, até que saccou -de um canivete e rasgou-a de alto a baixo. Com se não bastasse esse -gesto de vingança, devolveu a pintura ao artista com um bilhete em que -lhe transmittiu alguns dos nomes recebidos e mais o de asno. A vida -tem muitas de taes pagas. Demais, uma letra de Gonçalves que se venceu -d'alli a dias e que este não poude pagar, veiu trazer ao espirito de -Quintanilha uma diversão. Quasi brigaram; a idéa de Gonçalves era -reformar a letra; Quintanilha, que era o endossante, entendia não valer -a pena pedir o favor por tão escassa quantia (um conto e quinhentos), -elle emprestaria o valor da letra, e o outro que lhe pagasse, quando -pudesse. Gonçalves não consentiu e fez-se a reforma. Quando, ao fim -d'ella, a situação se repetiu, o mais que este admittiu foi acceitar -uma letra de Quintanilha, com o mesmo juro. - --- Você não vê que me envergonha, Gonçalves? Pois eu hei de receber -juro de você...? - --- Ou recebe, ou não fazemos nada. - --- Mas, meu querido... - -Teve que concordar. A união dos dous era tal que uma senhora -chamava-lhes os «casadinhos de fresco», e um letrado, Pylades e -Orestes. Elles riam, naturalmente, mas o riso de Quintanilha trazia -alguma cousa parecida com lagrimas: era, nos olhos, uma ternura -humida. Outra differença é que o sentimento de Quintanilha tinha uma -nota de enthusiasmo, que absolutamente faltava ao de Gonçalves; mas, -enthusiasmo não se inventa. É claro que o segundo era mais capaz de -inspiral-o ao primeiro do que este a elle. Em verdade, Quintanilha era -mui sensivel a qualquer distincção; uma palavra, um olhar bastava a -accender-lhe o cerebro. Uma pancadinha no hombro ou no ventre, com o -fim de approval-o ou só accentuar a intimidade, era para derretel-o de -prazer. Contava o gesto e as circumstancias durante dous e tres dias. - -Não era raro vel-o irritar-se, teimar, descompôr os outros. Tambem era -commum vel-o rir-se; alguma vez o riso era universal, entornava-se-lhe -da bocca, dos olhos, da testa, dos braços, das pernas, todo elle era um -riso unico. Sem ter paixões, estava longe de ser apathico. - -A letra saccada contra Gonçalves tinha o prazo de seis mezes. No -dia do vencimento, não só não pensou em cobral-a, mas resolveu ir -jantar a algum arrabalde para não ver o amigo, se fosse convidado á -reforma. Gonçalves destruiu todo esse plano; logo cedo, foi levar-lhe -o dinheiro. O primeiro gesto de Quintanilha foi recusal-o, dizendo-lhe -que o guardasse, podia precisar d'elle; o devedor teimou em pagar e -pagou. - -Quintanilha acompanhava os actos de Gonçalves; via a constancia do seu -trabalho, o zelo que elle punha na defesa das demandas, e vivia cheio -de admiração. Realmente, não era grande advogado, mas na medida das -suas habilitações, era distincto. - --- Você porque não se casa? perguntou-lhe um dia; um advogado precisa -casar. - -Gonçalves respondia rindo. Tinha uma tia, unica parenta, a quem elle -queria muito, e que lhe morreu, quando elles iam em trinta annos. Dias -depois, dizia ao amigo: - --- Agora só me resta você. - -Quintanilha sentiu os olhos molhados, e não achou que lhe respondesse. -Quando se lembrou de dizer que «iria até á morte» era tarde. Redobrou -então de carinhos, e um dia accordou com a idéa de fazer testamento. -Sem revelar nada ao outro, nomeou-o testamenteiro e herdeiro universal. - --- Guarde-me este papel, Gonçalves, disse-lhe entregando o testamento. -Sinto-me forte, mas a morte é facil, e não quero confiar a qualquer -pessoa as minhas ultimas vontades. - -Foi por esse tempo que succedeu um caso que vou contar. - -Quintanilha tinha uma prima-segunda, Camilla, moça de vinte e dous -annos, modesta, educada e bonita. Não era rica; o pae, João Bastos, -era guarda-livros de uma casa de café. Haviam brigado por occasião da -herança; mas, Quintanilha foi ao enterro da mulher de João Bastos, -e este acto de piedade novamente os ligou. João Bastos esqueceu -facilmente alguns nomes crús que dissera do primo, chamou-lhe outros -nomes doces, e pediu-lhe que fosse jantar com elle. Quintanilha foi e -tornou a ir. Ouviu ao primo o elogio da finada mulher; n'uma occasião -em que Camilla os deixou sós, João Bastos louvou as raras prendas da -filha, que affirmava haver recebido integralmente a herança moral da -mãe. - --- Não direi isto nunca á pequena, nem você lhe diga nada. É modesta, -e, se começarmos a elogial-a, póde perder-se. Assim, por exemplo, nunca -lhe direi que é tão bonita como foi a mãe, quando tinha a edade d'ella; -póde ficar vaidosa. Mas a verdade é que é mais, não lhe parece? Tem -ainda o talento de tocar piano, que a mãe não possuia. - -Quando Camilla voltou á sala de jantar, Quintanilha sentiu vontade de -lhe descobrir tudo, conteve-se e piscou o olho ao primo. Quiz ouvil-a -ao piano; ella respondeu, cheia de melancolia: - --- Ainda não, ha apenas um mez que mamãe falleceu, deixe passar mais -tempo. Demais, eu toco mal. - --- Mal? - --- Muito mal. - -Quintanilha tornou a piscar o olho ao primo, e ponderou á moça que a -prova de tocar bem ou mal só se dava ao piano. Quanto ao prazo, era -certo que apenas passára um mez; todavia era tambem certo que a musica -era uma distracção natural e elevada. Além d'isso, bastava tocar um -pedaço triste. João Bastos approvou este modo de ver e lembrou uma -composição elegiaca. Camilla abanou a cabeça. - --- Não, não, sempre é tocar piano; os vizinhos são capazes de inventar -que eu toquei uma polka. - -Quintanilha achou graça e riu. Depois concordou e esperou que os tres -mezes fossem passados. Até lá, viu a prima algumas vezes, sendo as tres -ultimas visitas mais proximas e longas. Emfim, poude ouvil-a tocar -piano, e gostou. O pae confessou que, ao principio, não gostava muito -d'aquellas musicas allemãs; com o tempo e o costume achou-lhes sabor. -Chamava á filha «a minha allemãsinha», appellido que foi adoptado por -Quintanilha, apenas modificado para o plural: «a nossa allemãsinha». -Pronomes possessivos dão intimidade; dentro em pouco, ella existia -entre os tres,--ou quatro, se contarmos Gonçalves, que alli foi -apresentado pelo amigo; -- mas fiquemos nos tres. - -Que elle é cousa já farejada por ti, leitor sagaz. Quintanilha acabou -gostando da moça. Como não, se Camilla tinha uns longos olhos mortaes? -Não é que os pousasse muita vez nelle, e, se o fazia, era com tal -ou qual constrangimento, a principio, como as creanças que obedecem -sem vontade ás ordens do mestre ou do pae; mas pousava-os, e elles -eram taes que, ainda sem intenção, feriam de morte. Tambem sorria -com frequencia e falava com graça. Ao piano, e por mais aborrecida -que tocasse, tocava bem. Em summa, Camilla não faria obra de impulso -proprio, sem ser por isso menos feiticeira. Quintanilha descobriu um -dia de manhã que sonhára com ella a noite toda, e á noite que pensára -nella todo o dia, e concluiu da descoberta que a amava e era amado. Tão -tonto ficou que esteve prestes a imprimil-o nas folhas publicas. Quando -menos, quiz dizel-o ao amigo Gonçalves e correu ao escriptorio d'este. -A affeição de Quintanilha complicava-se de respeito e temor. Quasi a -abrir a boca, engoliu outra vez o segredo. Não ousou dizel-o nesse dia -nem no outro. - -Antes dissesse; talvez fosse tempo de vencer a campanha. Adiou a -revelação por uma semana. Um dia foi jantar com o amigo, e, depois de -muitas hesitações, disse-lhe tudo; amava a prima e era amado. - --- Você approva, Gonçalves? - -Gonçalves empallideceu,--ou, pelo menos, ficou serio; nelle a seriedade -confundia-se com a pallidez. Mas, não; verdadeiramente ficou pallido. - --- Approva? repetiu Quintanilha. - -Após alguns segundos, Gonçalves ia abrir a bocca para responder, mas -fechou-a de novo, e fitou os olhos «em hontem», como elle mesmo dizia -de si, quando os estendia ao longe. Em vão Quintanilha teimou em -saber o que era, o que pensava, se aquelle amor era asneira. Estava -tão acostumado a ouvir-lhe este vocabulo que já lhe não doia nem -affrontava, ainda em materia tão melindrosa e pessoal. Gonçalves tornou -a si d'aquella meditação, sacudiu os hombros, com ar desenganado, e -murmurou esta palavra tão surdamente que o outro mal a poude ouvir: - --- Não me pergunte nada; faça o que quizer. - --- Gonçalves, que é isso? perguntou Quintanilha, pegando-lhe nas mãos, -assustado. - -Gonçalves soltou um grande suspiro, que, se tinha azas, ainda agora -estará voando. Tal foi, sem esta fórma paradoxal, a impressão de -Quintanilha. O relogio da sala de jantar bateu oito horas, Gonçalves -allegou que ia visitar um desembargador, e o outro despediu-se. - -Na rua, Quintanilha parou atordoado. Não acabava de entender aquelles -gestos, aquelle suspiro, aquella pallidez, todo o effeito mysterioso -da noticia dos seus amores. Entrára e falára, disposto a ouvir do -outro um ou mais d'aquelles epithetos costumados e amigos, _idiota, -credulo, paspalhão_, e não ouviu nenhum. Ao contrario, havia nos gestos -de Gonçalves alguma cousa que pegava com o respeito. Não se lembrava -de nada, ao jantar, que pudesse tel-o offendido; foi só depois de lhe -confiar o sentimento novo que trazia a respeito da prima que o amigo -ficou acabrunhado. - --- Mas, não póde ser, pensava elle; o que é que Camilla tem que não -possa ser boa esposa? - -Nisto gastou, parado, defronte da casa, mais de meia hora. Advertiu -então que Gonçalves não saira. Esperou mais meia hora, nada. Quiz -entrar outra vez, abraçal-o, interrogal-o... Não teve forças; enfiou -pela rua fóra, desesperado. Chegou á casa de João Bastos, e não viu -Camilla; tinha-se recolhido, constipada. Queria justamente contar-lhe -tudo, e aqui é preciso explicar que elle ainda não se havia declarado -á prima. Os olhares da moça não fugiam dos seus; era tudo, e podia não -passar de faceirice. Mas o lance não podia ser melhor para clarear a -situação. Contando o que se passára com o amigo, tinha o ensejo de lhe -fazer saber que a amava e ia pedil-a ao pae. Era uma consolação no meio -d'aquella agonia, o acaso negou-lh'a, e Quintanilha saiu da casa, peior -do que entrára. Recolheu-se á sua. - -Não dormiu antes das duas horas da manhã, e não foi para repouso, senão -para agitação maior e nova. Sonhou que ia a atravessar uma ponte velha -e longa, entre duas montanhas, e a meio caminho viu surdir debaixo um -vulto e fincar os pés defronte d'elle. Era Gonçalves. «Infame, disse -este com os olhos accesos, porque me vens tirar a noiva de meu coração, -a mulher que eu amo e é minha? Toma, toma logo o meu coração, é mais -completo.» E com um gesto rapido abriu o peito, arrancou o coração -e metteu-lh'o na bocca. Quintanilha tentou pegar da viscera amiga e -repol-a no peito de Gonçalves; foi impossivel. Os queixos acabaram por -fechal-a. Quiz cuspil-a, e foi peior; os dentes cravaram-se no coração. -Quiz falar, mas vá alguem falar com a bocca cheia d'aquella maneira. -Afinal o amigo ergueu os braços e estendeu-lhe as mãos com o gesto de -maldição que elle vira nos melodramas, em dias de rapaz; logo depois, -brotaram-lhe dos olhos duas immensas lagrimas, que encheram o valle de -agua, atirou-se abaixo e desappareceu. Quintanilha accordou suffocado. - -A illusão do pesadelo era tal que elle ainda levou as mãos á bocca, -para arrancar de lá o coração do amigo. Achou a lingua sómente, -esfregou os olhos e sentou-se. Onde estava? Que era? E a ponte? E o -Gonçalves? Voltou a si de todo, comprehendeu e novamente se deitou, -para outra insomnia, menor que a primeira, é certo; veiu a dormir ás -quatro horas. - -De dia, rememorando toda a vespera, realidade e sonho, chegou á -conclusão de que o amigo Gonçalves era seu rival, amava a prima -d'elle, era talvez amado por ella... Sim, sim, podia ser. Quintanilha -passou duas horas crueis. Afinal pegou em si e foi ao escriptorio de -Gonçalves, para saber tudo de uma vez; e, se fosse verdade, sim, se -fosse verdade... - -Gonçalves redigia umas razões de embargo. Interrompeu-as para fital-o -um instante, erguer-se, abrir o armario de ferro, onde guardava os -papeis graves, tirar de lá o testamento de Quintanilha, e entregal-o ao -testador. - --- Que é isto? - --- Você vae mudar de estado, respondeu Gonçalves, sentando-se á mesa. - -Quintanilha sentiu-lhe lagrimas na voz; assim lhe pareceu, ao menos. -Pediu-lhe que guardasse o testamento; era o seu depositario natural. -Instou muito; só lhe respondia o som aspero da penna correndo no papel. -Não corria bem a penna, a letra era tremida, as emendas mais numerosas -que de costume, provavelmente as datas erradas. A consulta dos livros -era feita com tal melancolia que entristecia o outro. Ás vezes, parava -tudo, penna e consulta, para só ficar o olhar fito «em hontem». - --- Entendo, disse Quintanilha subitamente; ella será tua. - --- Ella quem? quiz perguntar Gonçalves, mas já o amigo voava, escada -abaixo, como uma flecha, e elle continuou as suas razões de embargo. - -Não se adivinha todo o resto; basta saber o final. Nem se adivinha nem -se crê; mas a alma humana é capaz de esforços grandes, no bem como no -mal. Quintanilha fez outro testamento, legando tudo á prima, com a -condição de desposar o amigo. Camilla não acceitou o testamento, mas -ficou tão contente, quando o primo lhe falou das lagrimas de Gonçalves, -que acceitou Gonçalves e as lagrimas. Então Quintanilha não achou -melhor remedio que fazer terceiro testamento legando tudo ao amigo. - -O final da historia foi dito em latim. Quintanilha serviu de -testemunha ao noivo, e de padrinho aos dous primeiros filhos. Um dia -em que, levando doces para os afilhados, atravessava a praça Quinze -de Novembro, recebeu uma bala revoltosa (1893) que o matou quasi -instantaneamente. Está enterrado no cemiterio de S. João Baptista; a -sepultura é simples, a pedra tem um epitaphio que termina com esta -pia phrase: «Orae por elle!» É tambem o fecho da minha historia. -Orestes vive ainda, sem os remorsos do modelo grego. Pylades é agora o -personagem mudo de Sophocles. Orae por elle! - - - - -Anecdota do cabriolet - - ---_Cabriolet_ está ahi, sim, senhor, dizia o preto que viera á matriz -de S. José chamar o vigario para sacramentar dous moribundos. - -A geração de hoje não viu a entrada e a saida do _cabriolet_ no Rio de -Janeiro. Tambem não saberá do tempo em que o _cab_ e o _tilbury_ vieram -para o rol dos nossos vehiculos de praça ou particulares. O _cab_ -durou pouco. O _tilbury_, anterior aos dous, promette ir á destruição -da cidade. Quando esta acabar e entrarem os cavadores de ruinas, -achar-se-ha um parado, com o cavallo e o cocheiro em ossos, esperando -o freguez do costume. A paciencia será a mesma de hoje, por mais que -chova, a melancolia maior, como quer que brilhe o sol, porque juntará -a propria actual á do espectro dos tempos. O archeologo dirá cousas -raras sobre os tres esqueletos. O _cabriolet_ não teve historia; deixou -apenas a anecdota que vou dizer. - ---Dous! exclamou o sacristão. - ---Sim, senhor, dous: nhã Annunciada e nhô Pedrinho. Coitado de nhô -Pedrinho! E nhã Annunciada, coitada! continuou o preto a gemer, andando -de um lado para outro, afflicto, fóra de si. - -Alguem que leia isto com a alma turva de duvidas, é natural que -pergunte se o preto sentia devéras, ou se queria picar a curiosidade -do coadjuctor e do sacristão. Eu estou que tudo se póde combinar neste -mundo, como no outro. Creio que elle sentia devéras: não descreio -que anciasse por dizer alguma historia terrivel. Em todo caso, nem o -coadjuctor nem o sacristão lhe perguntavam nada. - -Não é que o sacristão não fosse curioso. Em verdade, pouco mais era -que isso. Trazia a parochia de cór; sabia os nomes ás devotas, a vida -dellas, a dos maridos e a dos paes, as prendas e os recursos de cada -uma, e o que comiam, e o que bebiam, e o que diziam, os vestidos e -as virtudes, os dotes das solteiras, o comportamento das casadas, as -saudades das viuvas. Pesquizava tudo; nos intervallos ajudava a missa -e o resto. Chamava-se João das Mercês, homem quarentão, pouca barba e -grisalho, magro e meão. - ---Que Pedrinho e que Annunciada serão esses? dizia comsigo, -acompanhando o coadjuctor. - -Embora ardesse por sabel-os, a presença do coadjuctor impediria -qualquer pergunta. Este ia tão calado e pio, caminhando para a porta -da egreja, que era força mostrar o mesmo silencio e piedade que -elle. Assim foram andando. O _cabriolet_ esperava-os; o cocheiro -desbarretou-se, os vizinhos e alguns passantes ajoelharam-se, emquanto -o padre e o sacristão entravam e o vehiculo enfiava pela rua da -Misericordia. O preto desandou o caminho a passo largo. - -Que andem burros e pessoas na rua, e as nuvens no ceu, se as ha, e os -pensamentos nas cabeças, se os tem. A do sacristão tinha-os varios e -confusos. Não era ácerca de _Nosso-Pae_, embora soubesse adoral-o, -nem da agua benta e do hyssope que levava; tambem não era ácerca da -hora,--oito e quarto da noite,--aliás, o ceu estava claro e a lua ia -apparecendo. O proprio _cabriolet_, que era novo na terra, e substituia -neste caso a sege, esse mesmo vehiculo não occupava o cerebro todo de -João das Mercês, a não ser na parte que pegava com nhô Pedrinho e nhâ -Annunciada. - ---Ha de ser gente nova, ia pensando o sacristão, mas hóspeda em alguma -casa, de certo, porque não ha casa vasia na praia, e o numero é da do -commendador Brito. Parentes, serão? Que parentes, se nunca ouvi...? -Amigos, não sei; conhecidos, talvez, simples conhecidos. Mas então -mandariam _cabriolet_? Este mesmo preto é novo na casa; ha de ser -escravo de um dos moribundos, ou de ambos. - -Era assim que João das Mercês ia cogitando, e não foi por muito tempo. -O _cabriolet_ parou á porta de um sobrado, justamente a casa do -commendador Brito, José Martins de Brito. Já havia algumas pessoas em -baixo com velas, o padre e o sacristão apearam-se e subiram a escada, -acompanhados do commendador. A esposa deste, no patamar, beijou o annel -ao padre. Gente grande, creanças, escravos, um borborinho surdo, meia -claridade, e os dous moribundos á espera, cada um no seu quarto, ao -fundo. - -Tudo se passou, como é de uso e regra, em taes occasiões. Nhô Pedrinho -foi absolvido e ungido, nhâ Annunciada tambem, e o coadjuctor -despediu-se da casa para tornar á matriz com o sacristão. Este não se -despediu do commendador sem lhe perguntar ao ouvido se os dous eram -parentes seus. Não, não eram parentes, respondeu Brito; eram amigos de -um sobrinho que vivia em Campinas; uma historia terrivel... Os olhos -de João das Mercês escutaram arregaladamente estas duas palavras, e -disseram, sem falar, que viriam ouvir o resto,--talvez naquella mesma -noite. Tudo foi rapido, porque o padre descia a escada, era força ir -com elle. - -Foi tão curta a moda do _cabriolet_ que este provavelmente não levou -outro padre a moribundos. Ficou-lhe a anecdota, que vou acabar já, -tão escassa foi ella, uma anecdota de nada. Não importa. Qualquer que -fosse o tamanho ou a importancia, era sempre uma fatia de vida para -o sacristão, que ajudou o padre a guardar o pão sagrado, a despir a -sobrepeliz, e a fazer tudo mais, antes de se despedir e sair. Saiu, -emfim, a pé, rua acima, praia fóra, até parar á porta do commendador. - -Em caminho foi evocando toda a vida daquelle homem, antes e depois -da commenda. Compoz o negocio, que era fornecimento de navios, creio -eu, a familia, as festas dadas, os cargos parochiaes, commerciaes -e eleitoraes, e daqui aos boatos e anecdotas não houve mais que um -passo ou dous. A grande memoria de João das Mercês guardava todas as -cousas, maximas e minimas, com tal nitidez que pareciam da vespera, -e tão completas que nem o proprio objecto delles era capaz de as -repetir eguaes. Sabia-as como o Padre-Nosso, isto é, sem pensar nas -palavras; elle resava tal qual comia, mastigando a oração, que lhe -saía dos queixos sem sentir. Se a regra mandasse rezar tres duzias de -Padre-Nossos seguidamente, João das Mercês os diria sem contar. Tal era -com as vidas alheias; amava sabel-as, pesquisava-as, decorava-as, e -nunca mais lhe saiam da memoria. - -Na parochia todos lhe queriam bem, porque elle não enredava nem -maldizia. Tinha o amor da arte pela arte. Muita vez nem era preciso -perguntar nada. José dizia-lhe a vida de Antonio e Antonio a de José. - -O que elle fazia era ratificar ou rectificar um com outro, e os dous -com Sancho, Sancho com Martinho, e vice-versa, todos com todos. Assim -é que enchia as horas vagas, que eram muitas. Alguma vez, á propria -missa, recordava uma anecdota da vespera, e, a principio, pedia perdão -a Deus; deixou de lh'o pedir quando reflectiu que não falhava uma só -palavra ou gesto do santo sacrificio, tão consubstanciados os trazia em -si. A anecdota que então revivia por instantes, era como a andorinha -que atravessa uma paizagem. A paizagem fica sendo a mesma, e a agua, -se ha agua, murmura o mesmo som. Esta comparação, que era delle, valia -mais do que elle pensava, porque a andorinha, ainda voando, faz parte -da paizagem, e a anecdota fazia nelle parte da pessoa; era um dos seus -actos de viver. - -Quando chegou á casa do commendador, tinha desfiado o rosario da vida -deste, e entrou com o pé direito para não sair mal. Não pensou em -sair cedo, por mais afflicta que fosse a occasião, e nisto a fortuna -o ajudou. Brito estava na sala da frente, em conversa com a mulher, -quando lhe vieram dizer que João das Mercês perguntava pelo estado dos -moribundos. A esposa retirou-se da sala, o sacristão entrou pedindo -desculpas e dizendo que era por pouco tempo; ia passando e lembrára-se -de saber se os enfermos tinham ido para o ceu,--ou se ainda eram deste -mundo. Tudo o que dissesse respeito ao commendador seria ouvido por -elle com interesse. - ---Não morreram, nem sei se escaparão; quando menos, ella creio que -morrerá, concluiu Brito. - ---Parecem bem mal. - ---Ella, principalmente; tambem é a que mais padece da febre. A febre -os pegou aqui em nossa casa, logo que chegaram de Campinas, ha dias. - ---Já estavam aqui? perguntou o sacristão, pasmado de o não saber. - ---Já; chegaram ha quinze dias,--quatorze. Vieram com o meu sobrinho -Carlos e aqui apanharam a doença... - -Brito interrompeu o que ia dizendo; assim pareceu ao sacristão, que -poz no semblante toda a expressão de pessoa que espera o resto. -Entretanto, como o outro estivesse a morder os beiços e a olhar para -as paredes, não viu o gesto de espera, e ambos se detiveram calados. -Brito acabou andando ao longo da sala, emquanto João das Mercês dizia -comsigo que havia alguma cousa mais que febre. A primeira idéa que lhe -acudiu, foi se os medicos teriam errado na doença ou no remedio; tambem -pensou que podia ser outro mal escondido, a que deram o nome de febre -para encobrir a verdade. Ia acompanhando com os olhos o commendador, -emquanto este andava e desandava a sala toda, apagando os passos para -não aborrecer mais os que estavam dentro. De lá vinha algum murmurio -de conversação, chamado, recado, porta que se abria ou fechava. Tudo -isso era cousa nenhuma para quem tivesse outro cuidado; mas o nosso -sacristão já agora não tinha mais que saber o que não sabia. Quando -menos, a familia dos enfermos, a posição, o actual estado, alguma -pagina da vida delles, tudo era conhecer algo, por mais arredado que -fosse da parochia. - ---Ah! exclamou Brito estacando o passo. - -Parecia haver nelle o desejo impaciente de referir um caso,--a -«historia terrivel», que annunciára ao sacristão, pouco antes; mas nem -este ousava pedil-a, nem aquelle dizel-a, e o commendador pegou a -andar outra vez. - -João das Mercês sentou-se. Viu bem que em tal situação cumpria -despedir-se com boas palavras de esperança ou de conforto, e voltar no -dia seguinte; preferiu sentar-se e aguardar. Não viu na cara do outro -nenhum signal de reprovação do seu gesto; ao contrario, elle parou -defronte e suspirou com grande cançaço. - ---Triste, sim, triste, concordou João das Mercês. Boas pessoas, não? - ---Iam casar. - ---Casar? Noivos um do outro? - -Brito confirmou de cabeça. A nota era melancolica, mas não havia signal -da historia terrivel annunciada, e o sacristão esperou por ella. -Observou comsigo que era a primeira vez que ouvia alguma cousa de -gente que absolutamente não conhecia. As caras, vistas ha pouco, eram -o unico signal dessas pessoas. Nem por isso se sentia menos curioso. -Iam casar... Podia ser que a historia terrivel fosse isso mesmo. Em -verdade, atacados de um mal na vespera de um bem, o mal devia ser -terrivel. Noivos e moribundos... - -Vieram trazer recado ao dono da casa; este pediu licença ao sacristão, -tão depressa que nem deu tempo a que elle se despedisse e saisse. -Correu para dentro, e lá ficou cincoenta minutos. Ao cabo, chegou á -sala um pranto suffocado; logo após, tornou o commendador. - ---Que lhe dizia eu, ha pouco? Quando menos, ella ia morrer; morreu. - -Brito disse isto sem lagrimas e quasi sem tristeza. Conhecia a defunta -de pouco tempo. As lagrimas, segundo referiu, eram do sobrinho de -Campinas e de uma parenta da defunta, que morava em Mata-porcos. Dahi -a suppôr que o sobrinho do commendador gostasse da noiva do moribundo -foi um instante para o sacristão, mas não se lhe pegou a idéa por muito -tempo; não era forçoso, e depois se elle proprio os acompanhára... -Talvez fosse padrinho de casamento. Quiz saber, e era natural,--o nome -da defunta. O dono da casa,--ou por não querer dar-lh'o,--ou porque -outra idéa lhe tomasse agora a cabeça,--não declarou o nome da noiva, -nem do noivo. Ambas as causas seriam. - ---Iam casar... - ---Deus a receberá em sua santa guarda, e a elle tambem, se vier a -expirar, disse o sacristão cheio de melancolia. - -E esta palavra bastou a arrancar metade do segredo que parece anciava -por sair da boca do fornecedor de navios. Quando João das Mercês lhe -viu a expressão dos olhos, o gesto com que o levou á janella, e o -pedido que lhe fez de jurar,--jurou por todas as almas dos seus que -ouviria e calaria tudo. Nem era homem de assoalhar as confidencias -alheias, mórmente as de pessoas gradas e honradas, como era o -commendador. Ao que este se deu por satisfeito e animado, e então lhe -confiou a primeira metade do segredo, a qual era que os dous noivos, -criados juntos, vinham casar aqui quando souberam, pela parenta de -Mata-porcos, uma noticia abominavel... - ---E foi...? precipitou-se em dizer João das Mercês, sentindo alguma -hesitação no commendador. - ---Que eram irmãos. - ---Irmãos como? Irmãos de verdade? - ---De verdade; irmãos por parte de mãe. O pae é que não era o mesmo. A -parenta não lhes disse tudo nem claro, mas jurou que era assim, e elles -ficaram fulminados durante um dia ou mais... - -João das Mercês não ficou menos espantado que elles; dispoz-se a não -sair dalli sem saber o resto. Ouviu dez horas, ouviria todas as demais -da noite, velaria o cadaver de um ou de ambos, uma vez que pudesse -juntar mais esta pagina ás outras da parochia, embora não fosse da -parochia. - ---E vamos, vamos, foi então que a febre os tomou...? - -Brito cerrou os dentes para não dizer mais nada. Como, porém, o viessem -chamar de dentro, acudiu depressa, e meia hora depois estava de volta, -com a nova do segundo passamento. O choro, agora mais franco, posto que -mais esperado, não havendo já de quem o esconder, trouxera a noticia ao -sacristão. - ---Lá se foi o outro, o irmão, o noivo... Que Deus lhes perdôe! Saiba -agora tudo, meu amigo. Saiba que elles se queriam tanto que alguns dias -depois de conhecido o impedimento natural e canonico do consorcio, -pegaram em si e, fiados em serem apenas meios irmãos e não irmãos -inteiros, metteram-se em um _cabriolet_ e fugiram de casa. Dado logo -o alarme, alcançámos pegar o _cabriolet_ em caminho da Cidade Nova, e -elles ficaram tão pungidos e vexados da captura que adoeceram de febre -e acabam de morrer. - -Não se póde escrever o que sentiu o sacristão, ouvindo-lhe este caso. -Guardou-o por algum tempo, com difficuldade. Soube os nomes das pessoas -pelo obituario dos jornaes, e combinou as circumstancias ouvidas ao -commendador com outras. Emfim, sem se ter por indiscreto, espalhou -a historia, só com esconder os nomes e contal-a a um amigo, que a -passou a outro, este a outros, e todos a todos. Fez mais; metteu-se-lhe -em cabeça que o _cabriolet_ da fuga podia ser o mesmo dos ultimos -sacramentos; foi á cocheira, conversou familiarmente com um empregado, -e descobriu que sim. Donde veiu chamar-se a esta pagina a «anecdota do -_cabriolet_.» - - - - -Paginas criticas e commemorativas - - -GONÇALVES DIAS - -DISCURSO LIDO NO PASSEIO PUBLICO, AO INAUGURAR-SE O BUSTO DE GONÇALVES -DIAS - -Sr. Prefeito do Districto Federal, - -A commissão que tomou a si erguer este monumento, incumbiu-me, -como presidente da Academia Brazileira, de o entregar a V Ex., -como representante da cidade. O encargo é não sómente honroso, mas -particularmente agradavel á Academia e a mim. - -Se eu houvesse de dizer tudo o que este busto exprime para nós, faria -um discurso, e é justamente o que os autores da homenagem não devem -querer neste momento. Conta Renan que, uma hora antes dos funeraes de -George Sand, quando alguns cogitavam no que convinha proferir á beira -da sepultura, ouviu-se no parque da defunta cantar um rouxinol. «Ah! -eis o verdadeiro discurso!» disseram elles comsigo. O mesmo seria -aqui, se cantasse um sabiá. A ave do nosso grande poeta seria o melhor -discurso da occasião. Ella repetiria á alma de todos aquella canção do -exilio que ensinou aos ouvidos da antiga mãe-patria uma licção nova -da lingua de Camões. Não importa! A canção está em todos nós, com os -outros cantos que elle veiu espalhando pela vida e pelo mundo, e o -som dos golpes de Itajuba, a piedade de Y-Juca-Pyrama, os suspiros de -Coema, tudo o que os mais velhos ouviram na mocidade, depois os mais -jovens, e daqui em deante ouvirão outros e outros, emquanto a lingua -que falamos fôr a lingua dos nossos destinos. - -Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins publicos. Talvez -este busto emende o costume; mas, suppondo que não, nem por isso -perderão os que só vierem contemplar aquella fronte que meditou paginas -tão magnificas. A solidão e o silencio são azas robustas para os surtos -do espirito. Quem vier a este canto do jardim, entre o mar e a rua, -achará o que se encontra nas capellas solitarias, uma voz interior, -e dirá pelo rosario da memoria as preces em verso que elle compoz e -ensinou aos seus compatricios. - -E desde já ficam as duas obras juntas. Uma responderá pela outra. -Nem V. Ex., nem os seus successores consentirão que se destrua este -abrigo de folhas verdes, ou se arranque daqui este monumento de arte. -Se alguem propuzer arrazar um e mudar outro, para trazer utilidade -ao terreno, por meio de uma avenida ou cousa equivalente, o Prefeito -recusará a concessão, dizendo que este jardim, conservado por diversos -regimens, está agora consagrado pela poesia, que é um regimen só, -universal, commum e perpetuo. Tambem póde declarar que a veneração -dos seus grandes homens é uma virtude das cidades. E isto farão os -Prefeitos de todos os partidos, sem aggravo do seu proprio, porque o -poeta que ora celebramos, fiel á vocação, não teve outro partido que o -de cantar maravilhosamente. - -Demais, se o caso fôr de utilidade, V. Ex. e os seus successores -acharão aqui o mais util remedio ás agruras administrativas. Este busto -consolará do trabalho acerbo e ingrato; elle dirá que ha tambem uma -prefeitura do espirito, cujo exercicio não pede mais que o mudo bronze -e a capacidade de ser ouvido no seu eterno silencio. E repetirá a todos -o nome de V. Ex., que o recebeu e o dos outros que porventura vierem -contemplal-o. Tambem aqui vinha, ha muitos annos, desenfadar-se da -vespera, sem outro encargo nem magistratura que os seus livros, o autor -de _Iracema_. Se já estivesse aqui este busto, elle se consolaria da -vida com a memoria, e do tempo com a perennidade. Mas então só existiam -as arvores. Bernardelli, que tinha de fundir o bronze de ambos, não -povoára ainda as nossas praças com outras obras de artista illustre. -Olavo Bilac, que promoveu a subscripção de senhoras a que se deve -esta obra, não afinára ainda pela lyra de Gonçalves Dias a sua lyra -deliciosa. - -Aqui fica entregue o monumento a V. Ex., Sr. Prefeito, aqui onde elle -deve estar, como outro exemplo da nossa unidade, ligando a patria -inteira no mesmo ponto em que a historia, melhor que leis, poz a cabeça -da nação, perto daquelle gigante de pedra que o grande poeta cantou em -versos masculos. - - -UM LIVRO - - -Aqui está um livro que ha de ser relido com apreço, com interesse, -não raro com admiração. O autor que occupa logar eminente na critica -brasileira, tambem enveredou um dia pela novella, como Sainte-Beuve, -que escreveu _Volupté_, antes de attingir o summo gráo na critica -franceza. Tambem ha aqui um narrador e um observador, e ha mais aquillo -que não acharemos em _Volupté_, um paizagista e um miniaturista. Já era -tempo de dar ás _Scenas da vida amazonica_ outra e melhor edição. Eu, -que as reli, achei-lhes o mesmo sabor de outr'ora. Os que as lerem, -pela primeira vez, dirão se o meu falar desmente as suas proprias -impressões. - -Talvez achem commigo que o titulo é exacto, sem dizer tudo. São -effectivamente scenas daquella vida e daquelle meio; sente-se que não -podem ser de outra parte, que foram vistas e recolhidas directamente. -Mas não diz tudo o titulo. Tres, ao menos, das quatro novellas em -que se divide o livro, são pequenos dramas completos. Taes o _Bôto_, -o _Crime do Tapuio_ e a _Sorte de Vicentina_. O proprio _Voluntario -da patria_ tem o drama na alma de tia Zeferina, desde a quietação na -palhoça até aquelle adeus que ella fica acenando na margem, não já ao -filho, que a não póde ver, nem ella a elle, mas ao fumo do vapor que se -perde ao longe no rio, como uma sombra. - -Em todos elles, os costumes locaes e a natureza grande e rica, quando -não é só aspera e dura, servem de quadro a sentimentos ingenuos, -simples e alguma vez fortes. O Sr. José Verissimo possue o dom da -sympathia e da piedade. As suas principaes figuras são as victimas de -um meio rude, como Benedicta, Rosinha e Vicentina, ou ainda aquelle -José Tapuio, que confessa um crime não existente, com o unico fim de -salvar uma menina, ou de «fazê bem p'ra ella», como diz o texto. Não -se irritem os amigos da lingua culta com a prosodia e a syntaxe de -José Tapuio. Ha dessas phrases no livro, postas com arte e cabimento, -a espaços, onde é preciso caracterisar melhor as pessoas. Ha locuções -da terra. Ha a technologia dos usos e costumes. Ninguem esquece que -está deante da vida amazonica, não toda, mas aquella que o Sr. José -Verissimo escolheu naturalmente para dar-nos a visão do contraste entre -o meio e o homem. - -O contraste é grande. A floresta e a agua envolvem e acabrunham a -alma. A magnificencia d'aquellas regiões chega a ser excessiva. Tudo é -innumeravel e immensuravel. São milhões, milhares e centenas os seres -que vão pelos rios e igarapés, que espiam entre a agua e a terra, ou -bramam e cantam na matta, em meio de um concerto de rumores, coleras, -delicias e mysterios. O Sr. José Verissimo dá-nos a sensação daquella -realidade. A descripção do caminho que leva ao povoado do Ereré, -atravez do «coberto», do «lavrado» e de um espaço sem nome, é das mais -bellas e acabadas do livro. Assim tambem a do Parú, ou antes a historia -do rio nas duas partes do anno, de verão e de inverno, um só lago -intermino ou muitos lagos grandes, as ilhas que nascem e desapparecem, -com os aspectos varios do tempo e da margem. - -Não são descripções trazidas de acarreto. As pessoas das narrativas -vão para alli continuar a acção começada. No Parú, como o tempo é de -«salga», a agua é sulcada de canôas, a margem alastrada de barracas, o -sussurro do trabalho humano espalha-se e cresce. Ahi assistimos á morte -tragica do pelintra de Obidos, regatão de alguns dias, deixando uma -triste moça defunta, amarella e magra. Adeante, por meio do «coberto» -e do «lavrado», vemos correr Vicentina, com a filha de alguns mezes -«escarranchada nos quadris», fugindo á casa do marido, depois ás onças, -depois á solidão, que parece maior alli que em nenhuma parte; e ambas -as scenas são das mais vivas do livro. - -Ao pé do tragico, o mesquinho, o commum, o quotidiano da existencia e -dos costumes, que o autor pinta breve ou minuciosamente. Os pequenos -quadros succedem-se, como o da rua Bacuri, na cidade de Obidos, á hora -da sésta, ou no fim d'ella, quando «a natureza estira os braços n'um -bocejo preguiçoso de quem deixa a rêde». A rêde é o movel principal das -casas; ella serve ao somno, ao descanço, á palestra, á indolencia. Se -a casa é pobre, pouco mais ha que ella; mas, pouco ou muito, podemos -fiar-nos da veracidade do autor, que não perde o que seja um rasgo de -costumes ou possa avivar a côr da realidade. Vimos o regatão; veremos a -benzedeira, a pintadeira de cuias, a mameluca, sem exclusão do jurado, -do promotor, do presidente de provincia. - -Nem falta aqui a observação fina e aguda. Uma senhora, a quem a tia -Zeferina, que a criou, recorre chorando para que faça soltar o filho, -preso para voluntario (como diziam aqui no sul), ouve a mãe tapuia, tem -sincera pena della, promette que sim, fala do presidente da provincia, -que é bom moço, do baile do dia 7 de Setembro, em palacio, a que ella -foi: «uma festa de estrondo; as senhoras estavam todas vestidas de -verde e amarello; muitas tinham mandado vir o vestido do Pará, mas -foi tolice, porque em Manáos arranjava-se um vestido tão bem como no -Pará; o della, por exemplo, foi muito gabado...» Já a tia Zeferina -ouvira cousa analoga ao major Rabello, seu compadre, quando lhe foi -contar a prisão do filho, e elle rompeu furioso contra os adversarios -politicos. Todos os negocios pessoaes se vão coçando assim naquella -agonia errante. No _Bôto_, é o proprio pae de Rosinha, que não excava -muito as razões do abatimento mortal da filha, «por andar atarefado com -as eleições». - -Que elle tambem ha eleições no Amazonas; é o tempo da salga politica, -a quadra das barracas e dos regatões. Não nos dá um capitulo desses -o Sr. José Verissimo, naturalmente por lhe não ser necessario, mas a -rivalidade da villa e do porto de Monte Alegre é um quadro vivo do que -são raivas locaes, os motivos que as accendem, a guerra que fazem e -os odios que ficam. Aqui basta a questão de saber se o correio morará -no porto, em baixo, ou na villa em cima. E porque não ha victoria sem -foguetes, os foguetes vão contar ás nuvens o despacho presidencial. A -sessão do jury, no _Crime do Tapuio_, é outro quadro finamente acabado. -Tudo sem sombra de caricatura. O embarque dos voluntarios é outro, mas -ahi a emoção discreta acompanha os movimentos mal ordenados dos homens. -Nós os vimos desembarcar aqui, esses e outros, tropegos e obedientes, -marchando mal, mas emfim marchando seguros para a guerra que já lá vae. - -Em tão varias scenas e lances, o estylo do Sr. José Verissimo (salvo -nos _Esbocetos_, cuja estructura é differente) é já o estylo correntio -e vernaculo dos seus escriptos posteriores. Já então vemos o homem -feito de mão assentada, dominando a materia. Ha, a mais uma nota de -poesia, a graça e o vigor das imagens que outra sorte de trabalhos nem -sempre consentem. Aqui está a frente da casa do sitio em que Rosinha -nasceu: «A palha da cobertura, não aparada, dava-lhe o aspecto alvar -das creanças que trazem os cabellos cahidos na testa.» No tempo da -pesca emigram, não só os homens, mas tambem os cães e os urubús. Os -cães são magros e famintos: «Cães magros, com as costellas salientes, -como se houvessem engolido arcos de barris...» Os urubús pousam nas -arvores, alguma vez baixam ao solo, andando «com o seu passo rythmado -de anjos de procissão». A umas arvores que ha na grande charneca -do «coberto», bastava mostral-as por uma imagem curta e viva, «em -posições retorcidas de entrevados». Mas não se contenta o nosso autor -de as dizer assim: em terra tal, tudo ha de vibrar ao calor do sol: -«Dir-se-hia que o sol, que abraza aquellas paragens, obriga-as a taes -contorções violentas e paralysa-as depois...» - -Ha muitas dessas imagens originaes e expressivas; melhor é lel-as ou -relel-as intercaladas na narração e na descripção. Chateaubriand, -escrevendo em 1834 a Sainte-Beuve, justamente a proposito de _Volupté_, -que acabava de sahir do prélo, pergunta-lhe admirado como é que elle, -René, não achára tantas outras. «Comment n'ai-je pas trouvé _ces -deux vieillards et ces deux enfants entre lesquels une révolution a -passé_...» etc. Desculpe a pontinha de vaidade, é de Chateaubriand, e -alguma cousa se ha de perdoar ao genio. Mas, em verdade, mais de um de -nós outros poderiamos dizer com sinceridade e modestia como é que nos -não acudiram taes e taes imagens do nosso autor, pois que ellas trazem -a feição de cousas antes saidas do tinteiro que compostas no papel. - -Tambem é dado perguntar porque é que o Sr. José Verissimo deixou logo -um terreno que soube arrotear com fructo. Elle dirá, em uma nota, -falando dos _Esbocetos_, que o fructo era da primeira mocidade. Vá que -sim; mas as _Scenas_ trazem outra experiencia, e a boa terra não é -esquecida, se se lhe encommenda alguma cousa com amor. - -Até lá, fiquem-nos estas _Scenas da vida amazonica_. Mais tarde, algum -critico da escola do autor compulsará as suas paginas para restituir -costumes extinctos. Muito estará mudado. Onde José Tapuio lutou com -a sicurijú até matal-a, outro homem estudará alguma nova força da -natureza até reduzil-a ao domestico. Coberto e lavrado darão melhor -caminho ás pessoas. Já agora, como disse nhâ Miloca á mãe tapuia, os -vestidos fazem-se tão bons em Manáos como em Belém. A politica irá -pelas tesouras da costureira, e a natureza agasalhará todas as artes, -suas hospedas. Tal critico, se tiver o mesmo dom de analyse do Sr. José -Verissimo, achará que um testemunho esclarecido é mais cabal que outro, -e regalará os seus leitores dando-lhe este depoimento feito com emoção, -com exacção e com estylo. - - -EDUARDO PRADO - -A ultima vez que vi Eduardo Prado foi na vespera de deixar o Rio de -Janeiro para recolher a S. Paulo, dizem que com o germen do mal e da -morte em si. Naquella occasião era todo vida e saúde. Quem então me -dissesse que elle ia tambem deixar o mundo, não me causaria espanto, -porque a injustiça da natureza acostuma a gente aos seus golpes; mas, -é certo que eu buscaria maneira de obter outras horas como aquella, em -que me detivesse ao pé delle, para ouvil-o e admiral-o. - -Só falámos de arte. Ouvi-lhe noticias e impressões, senti-lhe o -gosto apurado e a critica superior, tudo envolvido naquelle tom -ameno e simples, que era um relevo mais aos seus dotes. Não tinhamos -intimidade; faltou-nos tempo e a pratica necessaria. Antes daquella vez -ultima, apenas falámos tres ou quatro, o bastante para consideral-o -bem e cotejar o homem com o escriptor. Eduardo Prado era dos que se -deixam penetrar sem esforço e com prazer. O que agora li a seu respeito -na primeira mocidade, na escola e nos ultimos annos, referido por -amigos que parecem não o esquecer mais, confirma a minha impressão -pessoal. Aliás, os seus escriptos mostravam bem o homem. Apanhava-se o -sentimento da harmonia que ajustava nelle a vida moral, intellectual e -social. - -Principalmente artista e pensador, possuia o divino horror á -vulgaridade, ao logar commum e á declamação. Se entrasse na vida -politica, que apenas atravessou com a penna, em dias de luta, levaria -para ella qualidades de primeira ordem, não contando o _humour_, tão -diverso da chalaça e tão original nelle. Mas a erudição e a historia, -não menos que a arte, eram agora o seu maior encanto. Sabia bem todas -as cousas que sabia. - -Naturalmente remontei commigo, durante aquella boa hora, e ainda depois -della, ao tempo das cartas de viagem que nos deu tão rica amostra de um -grande talento que viria a crescer e subir. A materia em si convidava -ao egotismo, mas elle não padecia desse mal. Tambem faria correr -o risco da repetição de cousas vistas e pintadas, que se não acha -aqui. A faculdade de ver claro e largo, a arte de dizer originalmente -a sensação pessoal, elle as possuia como os principaes que hajam -andado as terras ou rasgado os mares deste mundo. Invenção de estylo, -observação aguda, erudição discreta e vasta, graça, poesia e imaginação -produziram essas paginas vivas e saborosas. Aquella partida de Napoles, -sob um céo chuvoso e de chumbo, não se esquece. Relê-se com encanto -essa explicação do tempo aspero, durante o qual o céo napolitano se -recompõe, para começar novamente a opera «com os córos de pescadores e -as barcarolas, a musica de luz e de azul». Assim a Africa, assim todas -as partes onde quer que este brasileiro levou a ancia de ver homens e -cousas, cidades e costumes, a natureza vária entre ruínas perpetuas, -através de regiões remotas... - -Conta-se que elle chorou, quando morreu Eça de Queiroz. Agora, que -ambos são mortos, alguem que imaginasse e escrevesse o encontro das -duas sombras, á maneira de Luciano, daria uma curiosa pagina de -psychologia. As confabulações de taes espiritos são dignas de memoria. -Sterne escreveu que «um dia, conversando com Voltaire...» e imagina-se -o que diriam elles. Imagina-se o que diriam, todas as noites, Stendhal -e Byron, passeando no solitario _foyer_ do theatro Scala. Quando -Montaigne ouvia as historias que Amyot lhe ia contar, podemos ver a -delicia de ambos e admittir que as visitas continuam no outro mundo. -Assim se podia dizer do Eça e do Eduardo, por um texto que exprimisse -o talento, o amor das cousas finas e bellas, e, emfim, a grande -sympathia que um inspirava ao outro. - -Quando me despedi de Eduardo Prado, naquelle dia, vim perguntando a mim -mesmo se teria vida bastante para ler e admirar as obras-primas que -esse talentoso brasileiro levava no cerebro em gestação, ou em germen, -e durante muitos annos viriam abastecer a nossa lingua e a nossa terra. -Seis dias depois, era elle que morria. Chamei injusta á natureza; -bastaria dizer--indifferente. - - -ANTONIO JOSÉ - -Um dia destes, relembrando uma passagem da tragedia que Magalhães -consagrou á memoria de Antonio José, adverti na resposta dada pelo -judeu ao conde de Ericeira, quando este lhe recommenda que imite -Molière; o judeu responde que Molière escrevia para francezes e elle -não. Será essa resposta a rigorosa expressão da verdade? Antonio -José não se modelou, certamente, pelas obras do grande comico, não -cogitou jamais da simples pintura dos vicios e dos caracteres. Molière -caminhou do _Medico Volante_ e dos _Zelos de Barbouillé_ á _Escola -das Mulheres_ e ao _Tartufo_; Antonio José não passou das _Guerras do -Alecrim e Mangerona_, e, dado que tentasse fazel-o, é certo que não -poderia ir muito além. Não tinha centro apropriado, nem largas vistas; -faltavam-lhe outros meios, outros intuitos; e, se porventura entrou -em seu espirito reatar a tradição de Gil Vicente, levantando sobre os -alicerces lançados por esse operario do seculo XVI as paredes de um -theatro regular, convinha justamente não imitar nada, nem ninguem, não -se fazer Molière, nem Plauto, ficar Antonio José; é a condição das -obras vivas. - -Interpretada desse modo, é exacta e verdadeira a resposta que Magalhães -põe na boca do judeu; mas só desse modo. O _Amphytrião_ prova que o -nosso poeta alguma cousa imitou e transplantou de Molière, a tal ponto -que forçosamente o tinha deante de si, ou na banca de trabalho ou na -memoria; e, porque esta observação não haja sido feita, cuido que -interessará, quando menos, a titulo de curiosidade litteraria. Ao mesmo -tempo, direi o que me parece do escriptor e da sua obra. - -E, antes de mais nada, occorre ponderar que Antonio José gosa de -uma reputação sobre palavra. A fogueira de 18 de Outubro de 1739 -illuminou-lhe a figura de maneira que o puderam ver todos os olhos; -a tragedia do Sr. Magalhães vulgarisou-o entre as nossas platéas de -ha 40 annos; mas só os estudiosos o terão lido, e nem todos, porque -a tarefa exige constancia e esforço, embora de certo modo os pague. -Póde-se dizer, sem erro, que elle pertence á familia dos poetas -comicos, qualquer que seja o grau de parentesco,--com a circumstancia -que era um desperdiçado,--trocava a boa moeda do comico pelo cobre -vulgar do burlesco. Mas, poeta comico era-o, e de boa veia;--mais de -certo que Nicolau Luiz, que lhe succedeu na estima das platéas de -Lisboa, mais ainda que Manuel de Figueiredo, cujas intenções literarias -abafaram, talvez, a livre expansão do engenho, e que aliás escrevia -de si mesmo que--«havendo-se enganado comsigo em infinitas cousas, -nunca se preoccupou de que tinha graça.» Accresce que o fim tragico -do judeu communica ás suas paginas alegres e juvenis um reflexo de -sympathica melancolia, que ainda mais nos convida a percorrel-as e -estudal-as. A piedade não é de certo razão determinativa em pontos de -critica, e tal poetastro haverá que, succumbindo a uma grande injustiça -social, somente inspire compaixão sem desafiar a analyse. Não é o caso -de Antonio José; este mereceria por si só que o estudassemos, ainda -despido das occorrencias tragicas que lhe circumdam o nome. - -Nenhuma das comedias do judeu se póde dizer excellente e perfeita; -ha porém graus entre ellas, e a todas sobreleva a das _Guerras do -Alecrim e Mangerona_. Nesta, como nas demais, nota-se de certo muita -espontaneidade, viveza de dialogo, graça de estylo, variedade de -situações, e certo conhecimento de scena; mas a alma de todas ellas -não é grande; vive-se alli de enredo e de apparato. Se ao poeta foi -estranha a invenção dos caracteres e a pintura dos vicios, não menos o -foi a transcripção dos costumes locaes. Salvo o _Alecrim e Mangerona_, -todas as suas peças são inteiramente alheias á sociedade e ao tempo; -a _Esopaida_ tem por base um assumpto antigo; a _Vida de D. Quixote_ -põe em scena o personagem de Cervantes; as outras peças são todas -mythologicas. Podiam estas, não obstante o rotulo, conter a pintura -dos costumes e da sociedade cujo producto eram; mas, comquanto em taes -composições influa muito o moderno, não se descobre nellas nenhuma -intenção daquella natureza. - -Ao contrario, a intenção quasi exclusiva do poeta era a galhofa, e tal -galhofa que transcendia muita vez as raias da conveniencia publica. -Nenhuma de suas peças,--operas é o nome classico,--nenhuma é isenta -de expressões baixas e até obscenas, com que elle, segundo lhe arguia -um prelado, «chafurdou na immundicie.» Tinha razão o prelado, mas não -basta ter razão; cumpre saber tel-a. Ora, a baixeza e a obscenidade -das locuções não eram novidade na scena portugueza, nem na de outros -paizes; e, deixando de ir agora a exemplos estranhos á nossa lingua, -basta lembrar que o _Cioso_, de Ferreira, do culto autor da _Castro_, -foi dado por Figueiredo com a declaração de ter sido «expurgado -segundo o melindre dos ouvidos do nosso seculo.» Gil Vicente, sem -embargo de se representarem suas peças na côrte de D. João III e D. -Manuel, adubava-as ás vezes de especies que nos parecem hoje bem pouco -exquisitas. As operas do judeu eram dadas num theatro popular; não as -ouvia a côrte de D. João V, mas o povo e os burguezes de Lisboa, cujas -orelhas não teriam ainda os melindres que mais tarde lhes attribuiu -Figueiredo. A differença entre Antonio José e os outros era afinal uma -questão de quantidade; mas, se o tempo lh'o permittia e, com o tempo, -a censura, que muito é que o poeta reincidisse? Não é isto escusal-o, -mas explical-o. Deixemos os trocados e equivocos, que são um chiste de -mau gosto, mácula de estylo, que o poeta exagerou até á puerilidade, -cedendo a si mesmo e ao riso das platéas. Outro defeito que se lhe -argúe, é o tom guindado e os arrebiques de conceito, que se notam em -muitas falas de certos personagens, os deuses, principes e heróes. -Um de seus biographos, comparando o estylo de taes personagens com o -dos criados e pessoas infimas, que são simples e naturaes, suppõe que -houve no poeta intenção satyrica, opinião que me parece carecer de -fundamento, entre outras razões porque não ha sempre aquella differença -de estylo, e não é raro falarem os principaes personagens do mesmo -modo natural e recto, que os de condição inferior. Guindam-se muita -vez, mas era achaque do tempo e exageração na maneira de empregar o -estylo nobre, porque havia então um estylo nobre; e, se o judeu teve -alguma vez intenção satyrica, arrebicando ou empolando a expressão, -tal intenção foi sómente literaria e nenhuma outra. Que diremos dos -anachronismos de linguagem? Esses são constantes e excessivos. Os -dobrões de Alcmena, a alcunha de _alfacinha_ dada a Amphytrião, Juno -chrismada em Felizarda, um criado antigo «de corpo á ingleza,» outro -com «relogio de pendurucalhos,» deviam promover a gargalhada franca -do povo. Esse fugir do meio e da acção para a realidade presente vae -algumas vezes além, como na _Esopaida_, em que o heróe, falando de -sua vida, diz que anda em livros pelo mundo--«e agora me dizem que se -está representando no Bairro-Alto.» Já na _Vida de D. Quixote_ havia o -poeta posto a mesma cousa na boca de Sancho, quando o cavalleiro, vendo -um barco amarrado, pergunta ao escudeiro:--«Sabes onde estamos?--Sei -bem.--Aonde?--No Bairro-Alto.» O judeu podia responder que tal séstro -foi o de Regnard e o de Boursault, por exemplo, que poz o seu Esopo a -tomar café e metteu com elle esposas de tabelliães; podia citar muitos -outros exemplos anteriores e contemporaneos, e a critica se incumbiria -de apontar os que vieram depois delle; mas não vale a pena. - -Venhamos ao _Amphytrião_. Um erudito escriptor, o Sr. Theophilo -Braga, suppõe que a intenção do poeta, nessa comedia, foi pintar em -Jupiter a pessoa de D. João V, supposição que detidamente examinei -e me parece inteiramente gratuita. Cuido que o critico faz de uma -coincidencia um proposito, e fundamenta a sua suspeita na possivel -analogia das aventuras do deus pagão e do rei christão. A analogia -podia ser um elemento de prova, mas desacompanhada de outras não faz -chegar a nenhum resultado definitivo. Ora, basta ler o _Amphytrião_, -basta comparar a situação do poeta e o tempo para varrer do espirito -semelhante hypothese. Certo, não faltava audacia ao poeta; ahi está, -como exemplo, a definição da justiça, feita por Sancho, na _Vida de D. -Quixote_; mas entre a generalidade desse trecho e a satyra pessoal do -_Amphytrião_ vae um abysmo. Occorre-me que do _Amphytrião_ de Molière -tambem se disse ser allusão a Luiz XIV, com a differença que em França -não se attribuiu a Molière a intenção de ferir, mas de ser agradavel -ao rei, que lhe havia encommendado aquella apotheose de suas proprias -aventuras, opinião esta que foi de todo condemnada. Não, não ha motivo -para attribuir a Antonio José a intenção que lhe suppõe o Sr. Theophilo -Braga; e, se tal intenção existisse, o desenlace da comedia, quando -Jupiter se declara acima da lei, viria a ser de um sarcasmo tão crú que -não alcançariamos comprehendel-o naquelle seculo. - -Evidentemente, o judeu achou na aventura pagã o mesmo que lhe acharam -Plauto, Molière e Camões,--um assumpto prestadio ás combinações -scenicas, e, demais, singularmente proprio para as chufas do -Bairro-Alto. Desnecessario é dizer os tramites dessa travessura de -Jupiter, que, namorado de Alcmena, toma a figura do marido e vae á -casa della, acompanhado de Mercurio, que copia as feições de Sosias, -criado de Amphytrião. O nosso poeta seguiu no principal a fabula -que encontrou nos antecessores, fazendo-lhe todavia as alterações -suscitadas pelo gosto proprio e das platéas. Assim, o Sosias de Plauto, -de Molière e de Camões é na peça de Antonio José um Saramago. Não lhe -mudou elle o essencial; trocando-lhe o nome, obedeceu ao systema de -dar aos criados nomes burlescos. O de Jason, nos _Encantos de Medéa_, -chama-se Sacatrapos; ha nas outras operas um Carangueijo, um Esfusiote, -um Chichisbéu. São nomes, não valem mais que nomes. Nem Molière chamou -Dandin ao principal personagem de uma de suas comedias sinão para o -caracterisar desde logo de um modo jovial; não pretendeu outra cousa. -Comtudo, a observação em relação a Antonio José tem o valor de um rasgo -significativo. - -Cotejando o _Amphytrião_ de Antonio José com os de seus antecessores, -vê-se o que elle imitou dos modelos, e o que de sua casa introduziu. -Já disse que no principal os seguiu a todos; mas nem sempre soube -escolher, e darei disso um exemplo claro. Camões, que não sendo -poeta comico, era todavia homem de tacto e gosto, corrigiu, antes de -Molière, o desenlace do _Amphytrião_ de Plauto. Na comedia deste, logo -depois de explicar Jupiter os equivocos da situação e de annunciar -ao marido de Alcmena que o filho desta é seu, mostra-se Amphytrião -inteiramente satisfeito e glorioso com o desenlace. Camões supprimiu -tão singular contentamento, e o mesmo fez Molière; em ambos os poetas -Amphytrião ouve silencioso as declarações do pae dos deuses, sem que -Alcmena assista a ellas. Antonio José não só não seguiu nessa parte -os modelos recentes, mas até carregou a mão sobre o que imitou de -Plauto. A alegria do seu Amphytrião e da sua Alcmena é tão franca, -tamanho é o alvoroço dos dous esposos, que realmente chega a offender -as leis da verosimilhança, ainda tratando-se de um caso divino. Neste -ponto Antonio José foi antes inadvertido do que obrigado do gosto -publico. Outro caso. Nas comedias anteriores não ha nenhum logar em -que Alcmena veja ao mesmo tempo os dois Amphytriões, e isto não só era -necessario para prolongar e justificar os equivocos, mas até o exigia a -verosimilhança, porque, desde que Alcmena chegasse a ver juntos os dous -exemplares exactos do marido, saía da boa fé que serve de fundamento á -sua illusão, para cair no maravilhoso e no inextricavel. E é justamente -o que acontece na comedia do judeu. - -Vamos agora ao que o judeu imitou directamente de Molière. Ha na -comedia daquelle um caracter, o de Cornucopia, mulher de Saramago, -que não tem equivalente na de Plauto, nem na de Camões, e que só na -de Molière existe. «Molière (é observação de La Harpe), fazendo de -Cleanthis mulher de Sosias, inventou uma situação parallela á de -Amphytrião e Alcmena, dando-lhe porém differente aspecto; Cleanthis -pertence ao numero das esposas que, por serem honestas, cuidam ter -o direito de ser insupportaveis». Ora bem, a situação e o caracter -de Cleanthis transportou-os o judeu para o seu _Amphytrião_, e não -se póde dizer encontro fortuito, senão deliberado proposito. Basta -cotejal-os com espirito advertido; a differença é de tom, de estylo; -substancialmente, a invenção é a mesma; as proprias idéas reproduzem-se -ás vezes na obra do judeu. Assim, logo na scena em que Mercurio -transformado em Saramago (Sosias) encontra a mulher deste, achamos o -traço commum aos dois poetas. - -Na comedia de Molière: - - CLEANTHIS - - Regarde, traitre, Amphytrion; - Vois comme pour Alcmène il étale de flamme; - Et rougis là-dessus du peu de passion - Que tu témoignes pour ta femme. - - MERCURIO - - Hé! mon Dieu! Cléanthis, ils sont encore amants. - Il est certain âge où tout passe; - Et ce qui leur sied bien dans ces commencements, - En nous, vieux mariés, aurait mauvaise grâce. - Il nous ferait beau voir, attachés face à face, - A pousser les beaux sentiments! - - CLEANTHIS - - Mérites-tu, pendard, cet insigne bonheur - De te voir pour épouse une femme d'honneur? - - MERCURIO - - Mon Dieu! tu n'es que trop honnête; - Ce grand honneur ne me vaut rien. - Ne sois point si femme de bien, - Et me romps un peu moins la tête. - -Agora Antonio José: - - CORNUCOPIA - - Tambem nosso amo trazia bastante fome, e comtudo está dizendo á nossa - ama tanta cousa galantinha que faria derreter uma pedra - - MERCURIO - - Com que é o mesmo nossos amos do que nós? Elles casadinhos de um anno, - e nós ha um seculo? Elles senhores e rapazes, e nós velhos e moços?[1] - Elles dous jasmins e nós dous lagartos? E finalmente elles com amor, e - nós, ou pelo menos eu, sem nenhum? - -[1] Criados. - - CORNUCOPIA - - Ora o certo é que peior é fazer festa a villões ruins; por estas, que - se tu conheceras a mulher que tens, que outra cousa fôra; talvez que - se eu fôra alguma dessas bonecrinhas enfeitadas que me quizeras mais; - porém a culpa tenho eu em não aceitar o que me davam nas tuas costas. - - MERCURIO - - Pois ainda estás em tempo... - - Trata-se, como se vê, de um caracter e de uma situação integralmente - transcriptos, embora de outro geito, cedendo o poeta aos seus habitos - literarios, á sua indole e ao seu meio. Nem é sómente na introducção - do caracter de Cornucopia, e na situação dos dous personagens, que - Antonio José revela ter deante de si ou na memoria a peça de Molière, - ha ainda outro vestigio; ha uma idéa na scena em que Jupiter se - despede de Alcmena,--idéa que o judeu expressa deste modo: - - ALCMENA - - Este amor nasce da obrigação. - - JUPITER - - Pois quizera que esta fineza nascera mais do teu amor que da tua - obrigação. - - ALCMENA - - A obrigação de amar ao esposo supera toda a obrigação. - - JUPITER - - Pois mais devera que me quizeras como a amante que como a esposo. - - ALCMENA - - Não sei fazer esta differença, pois não posso amar-te como a esposa, - sem que te ame como a amante. - -Na comedia de Molière: - - JUPITER - - En moi, belle et charmante Alcmène, - Vous voyez un mari, vous voyez un amant; - Mais l'amant seul me touche, à parler franchement; - Et je sens près de vous que le mari me gêne. - Cet amant, de vos vœux jaloux au dernier point, - Souhaite qu'à lui seul votre amour s'abandonne. - - ALCMENA - - Je ne sépare point ce qu'unissent les dieux; - Et l'époux et l'amant me sont fort précieux. - -Se, neste ponto, já se não trata de uma situação, de um caracter -novo, mas de uma idéa entrelaçada no dialogo, importa repetir -que, ainda imitando ou recordando, o judeu se conserva fiel á sua -physionomia literaria; póde ir buscar a especiaria alheia, mas ha de -ser para temperal-a com o molho da sua fabrica. Dessa inclinação ao -baixo-comico achamos outro exemplo na _Esopaida_, cujo assumpto fôra -tratado, antes delle, por Boursault. O caracter tradicional de Esopo -era pouco apropriado á comedia: é um moralista, um autor de apologos, -mas Boursault trouxe-o assim mesmo para a scena, unico modo de lhe -conservar a côr original. O Esopo de Antonio José parece antes um -exemplar apurado daquelles lacaios argutos e atrevidos da comedia -classica; salvo dous ou tres logares, é outro genero de Sacatrapos -ou Chichisbéo; figura alli com agudezas e trocadilhos. Ha destes -extremamente bufões, como o da bacia das almas, e disso e de pouco -mais se compõe a philosophia de Esopo. Não obstante essa côr geral, -notam-se alli toques de bom comico, embora leves e a espaços. Ha -tambem, e principalmente, a veia satyrica, na scena que quasi todos -os seus biographos transcrevem,--a das theses dos philosophos, scena -extremamente chistosa, e que o proprio Diniz, com toda a sua veia do -_Hyssope_ e do _Falso Heroismo_, não sei se chegaria a fazer mais -acabada. Compare-se essa scena com a da invasão do Parnaso pelos maus -poetas, na _Vida de D. Quixote_, e ver-se-ha que havia no talento -de Antonio José uma forte dóse de satyra,--o que, de certa maneira, -lhe diminuia a força comica. Nessas duas peças é, aliás, sensivel a -habilidade theatral do poeta, que não tinha propriamente uma acção em -nenhuma dellas, e, não obstante, logrou condensar a vida dos episodios, -manter a unidade do interesse e angariar o applauso publico. Accresce -que o seu D. Quixote não tem o defeito capital do seu Esopo; o poeta -soube dar-lhe alguns toques da ingenuidade sublime, que caracterisa o -typo de Cervantes: é o que se vê logo, na exposição, quando D. Quixote -responde ao barbeiro acerca da armada que se prepara para combater o -turco:--«Para que se cançam com tantas machinas? diz elle. Eu lhes déra -um bom arbitrio com que, em menos de uma hora, vençam quantas armadas -e armadilhas o turco tiver.» É ocioso dizer que o arbitrio seria a -cavallaria andante. - -De todas as comedias, porém, a que goza as honras da primazia, é a -das _Guerras do Alecrim e Mangerona_, e com razão; é a mais acabada e -a mais comica. Tem o gosto do tempo, e até um resaibo da maneira de -Calderon, que de si mesmo escrevia: - - Es comedia de Don Pedro - Calderon, d'onde hade haber, - Por fuerza, amante escondido - Y rebozada mujer. - -Ha alli com effeito mulheres rebuçadas e amantes escondidos, e tanta -vida como nas peças de Calderon. - -Não trato aqui do facto que poderia ter dado logar á obra do judeu, nem -das duvidas de Costa e Silva sobre se os dois _ranchos_ do _alecrim_ -e da _mangerona_ existiam antes da comedia, ou se esta os fez nascer; -é investigação que não vale a pena de um minuto, e aliás o texto do -poeta é claro. Em tudo se avantaja o _Alecrim_ e _mangerona_, até na -linguagem, que é ahi muito menos obscena que nas outras, differença que -se póde attribuir ao progresso do talento, porquanto já no _Labyrintho -de Creta_ se dá o mesmo phenomeno. Não direi, como Garrett, que essa -peça teria hoje todo o valor de uma comedia historica; mas assim -mesmo, quem lhe vê as figuras, a seculo e meio de distancia, parece -contemplar uma gravura em que ellas conservam as feições e o vestuario -do tempo,--os namorados pobres, o velho avarento que arde por se ver -livre das sobrinhas, e que, ao annunciarem-lhe a chegada do pretendente -provinciano, manda deitar «mais um ovo nos espinafres,» D. Tiburcio, as -duas damas, o Semicupio e a velha Fagundes, todo o pessoal da antiga -farça. - -Superior ás outras composições, como estylo e originalidade, não menos -o é como viveza, graça e movimento: e, se a farça domina, não é tanto -que não appareça a comedia. Basta apontar, por exemplo, a scena da -consulta medica, por occasião do desastre de D. Tiburcio, que é uma -das melhores do theatro do judeu, e não ficaria vexada si a puzessemos -ao lado das de Molière e Gil Vicente. Para não faltar nada, ha tambem -aphorismos latinos, e até uma copla latina, digna de Molière. Podemos -considerar o _Alecrim e Mangerona_ como uma das melhores comedias do -seculo XVIII. - -Ler o _Alecrim e Mangerona_, o _Amphytrião_, a _Esopaida_ e o _D. -Quixote_, é avaliar todo o poeta, com suas qualidades boas e más, -com o geito do seu espirito e influencia do seu tempo. Nicolau Luiz, -Figueiredo, Diniz e Garção, no mesmo seculo, tiveram talvez mais -intenção comica do que Antonio José, mas os meios deste eram maiores, -possuiam outra virtualidade, outra espontaneidade, outra abundancia. -Dir-se-ha que, se a Inquisição o deixára viver, Antonio José produziria -alguma obra de esphera superior? Repito: não creio que elle subisse -muito acima do _Alecrim e Mangerona_; iria talvez ao ponto de fazer -alguma cousa parecida com o _Avaro_, mas não faria todo o _Avaro_. - -Agora, a seculo e meio de distancia, podemos affirmar que Antonio -José foi um destino decapitado. Qualquer que fosse a natureza do -seu engenho, é fóra de duvida que o auto da fé em que elle pereceu, -devorou com a mesma flamma assaz de paginas alegres e vivazes. A -prova de que o theatro poderia ainda esperar muito de Antonio José, -está na comparação das obras delle com a vida delle. Era um christão -novo, como tal suspeitado e perseguido; aos vinte e um annos padeceu -um primeiro processo, e sabe-se que terriveis eram os processos -inquisitoriaes; basta dizer que o delinquente revelou todos os seus -complices em judaismo, com a maior franqueza e minuciosidade, o que -se póde explicar pela tenra edade do poeta, mas tambem pelo terror -que o tribunal infundia, não menos que pela exhortação mansa com que -os inquisidores extorquiam a confissão de todos os erros e a denuncia -de todos os complices,--sem prejuizo, aliás, do carcere e da polé. -Pois bem, não obstante os vestigios e as lembranças desse primeiro -acto da Inquisição, não obstante o espectaculo do que padeciam os -seus, as operas de Antonio José trazem o sabor de uma mocidade -imperturbavelmente feliz, a facecia grossa e petulante, tal como lh'a -pedia o paladar das platéas, nenhum vislumbre do episodio tragico, -salvo uns versos do _Amphytrião_ que se creem, (e, quanto a mim, sem -outro fundamento além da conjectura) como applicaveis a elle mesmo. -Mas ainda suppondo que a conjectura tenha razão, admittindo mais que a -allegoria da justiça na _Vida de D. Quixote_ seja o resumo das queixas -pessoaes do poeta (supposição tão fragil como aquella), a verdade é -que os successos da vida delle não influiram, não diminuiram a força -nativa do talento, nem lhe torceram a natureza, que estava muito longe -da hypocondria. Molière, que, se nem sempre teve flores no caminho, -não conheceu o infimo dos padecimentos de Antonio José, foi o creador -de Alceste; o nosso judeu, dado que tivesse a mesma intensidade de -talento, não escolheria nunca o assumpto do _Misanthropo_. - -Nisto, menos que em nenhuma outra cousa, imitaria elle o grande mestre. -Não lhe fossem propôr graves problemas, nem maximas profundas, nem -os caracteres, nem as altas observações que formam o argumento das -comedias de outra esphera, nem sobretudo as melancolias de Molière e -Shakespeare. O nosso judeu era a farça, a genuina farça, sem outras -pretenções, sem mais remotas vistas que os limites do seu bairro e -do seu tempo. Certo, eu posso hoje, á fina força, arrancar alguma -idéa inicial das operas do judeu; por exemplo, ao ver nos _Encantos -de Medéa_ a dedicação da feiticeira de Colchos, que tráe os deveres -filiaes e põe todas as suas artes ao serviço de Jason, ao ponto de lhe -entregar o vellocino e ao ver que, apezar de tudo isto, o principe -foge com Creusa, posso, digo eu, attribuir ao poeta a intenção de que -o reconhecimento não é o caminho do amor e que um coração póde ser -legitimamente ingrato. Seria logico, seria bem deduzido da acção, mas -não passaria de obra da critica, inteiramente alheia á intenção do -poeta, que achou no assumpto uma farça de tramoias e nada mais. Esta -é a ultima conclusão que rigorosamente se póde tirar do poeta. Elle -não imitou, não chegaria a imitar Molière, ainda que repetisse as -transcripções que fez no _Amphytrião_; tinha originalidade, embora a -influencia das operas italianas. Convenhamos que era um engenho sem -disciplina, nem gosto, mas caracterisco e pessoal. - - - - -Não consultes medico - - -PESSOAS - - D. LEOCADIA - D. ADELAIDE - D. CARLOTA - CAVALCANTE - MAGALHAES - -Um gabinete em casa de Magalhães, na Tijuca. - - -SCENA I - -MAGALHÃES, D. ADELAIDE - -Magalhães lê um livro, D. Adelaide folhea um livro de gravuras. - -MAGALHÃES - -Esta gente não terá vindo? - -D. ADELAIDE - -Parece que não. Já sairam ha um bom pedaço; felizmente o dia está -fresco. Titia estava tão contente ao almoço! E hontem? Você viu que -risadas que ella dava, ao jantar, ouvindo o Dr. Cavalcante? E o -Cavalcante serio. Meu Deus, que homem triste! que cara de defunto! - -MAGALHÃES - -Coitado do Cavalcante! Mas que quererá ella commigo? Falou-me em um -obsequio. - -D. ADELAIDE - -Sei o que é. - -MAGALHÃES - -Que é? - -D. ADELAIDE - -Por ora é segredo. Titia quer que levemos Carlota comnosco. - -MAGALHÃES - -Para a Grecia? - -D. ADELAIDE - -Sim, para a Grecia. - -MAGALHÃES, - -Talvez ella pense que a Grecia é em Pariz. Eu acceitei a legação de -Athenas porque não me dava bem em Guatemala, e não ha outra vaga na -America. Nem é só por isso; você tem vontade de ir acabar a lua de mel -na Europa... Mas então Carlota vae ficar comnosco? - -D. ADELAIDE - -É só algum tempo. Carlota gostava muito de um tal Rodrigues, capitão de -engenharia, que casou com uma viuva hespanhola. Soffreu muito, e ainda -agora anda meia triste; titia diz que ha de cural-a. - -MAGALHÃES, _rindo_ - -É a mania della. - -D. ADELAIDE, _rindo_ - -Só cura molestias moraes. - -MAGALHÃES - -A verdade é que nos curou; mas, por muito que lhe paguemos em -gratidão, fala-nos sempre da nossa antiga molestia. «Como vão os meus -doentesinhos? Não é verdade que estão curados?» - -D. ADELAIDE - -Pois falemos-lhe nós da cura, para lhe dar gosto. Agora quer curar a -filha. - -MAGALHÃES - -Do mesmo modo? - -D. ADELAIDE - -Por ora não. Quer mandal-a á Grecia para que ella esqueça o capitão de -engenharia. - -MAGALHÃES - -Mas, em qualquer parte se esquece um capitão de engenharia. - -D. ADELAIDE - -Titia pensa que a vista das ruinas e dos costumes differentes cura mais -depressa. Carlota está com dezoito para dezenove annos; titia não a -quer casar antes dos vinte. Desconfio que já traz um noivo em mente, -um moço que não é feio, mas tem o olhar espantado. - -MAGALHÃES - -É um desarranjo para nós; mas, emfim, póde ser que lhe achemos lá -na Grecia algum descendente de Alcibiades que a preserve do olhar -espantado. - -D. ADELAIDE - -Ouço passos. Ha de ser titia... - -MAGALHÃES - -Justamente! Continuemos a estudar a Grecia. - -(_Sentam-se outra vez, Magalhães lendo, D. Adelaide folheando o livro -de vistas._) - - -SCENA II - -OS MESMOS E D. LEOCADIA - -D. LEOCADIA (_pára á porta, desce pé ante pé, e mette a cabeça entre os -dous_.) - -Como vão os meus doentesinhos? Não é verdade que estão curados? - -MAGALHÃES, _aparte_ É isto todos os dias. - -D. LEOCADIA - -Agora estudam a Grecia; fazem muito bem. O paiz do casamento é que -vocês não precisaram estudar. - -D. ADELAIDE - -A senhora foi a nossa geographia, foi quem nos deu as primeiras licções. - -D. LEOCADIA - -Não diga licções, diga remedios. Eu sou doutora, eu sou medica. Este -(_indicando Magalhães_), quando voltou de Guatemala, tinha um ar -exquisito; perguntei-lhe se queria ser deputado, disse-me que não; -observei-lhe o nariz, e vi que era um triste nariz solitario... - -MAGALHÃES - -Já me disse isto cem vezes. - -D. LEOCADIA, _voltando-se para elle e continuando_ - -Esta (_designando Adelaide_) andava hypocondriaca. O medico da casa -receitava pilulas, capsulas, uma porção de tolices que ella não tomava, -porque eu não deixava; o medico devia ser eu. - -D. ADELAIDE - -Foi uma felicidade. Que é que se ganha em engolir pilulas? - -D. LEOCADIA - -Apanham-se molestias. - -D. ADELAIDE - -Uma tarde, fitando eu os olhos de Magalhães... - -D. LEOCADIA - -Perdão, o nariz. - -ADELAIDE - -Vá lá. A senhora disse-me que elle tinha o nariz bonito, mas muito -solitario. Não entendi; dous dias depois, perguntou-me se queria casar, -eu não sei que disse, e acabei casando. - -D. LEOCADIA - -Não é verdade que estão curados? - -MAGALHÃES - -Perfeitamente. - -D. LEOCADIA - -A proposito, como irá o Dr. Cavalcante? Que exquisitão! Disse-me hontem -que a cousa mais alegre do mundo era um cemiterio. Perguntei-lhe se -gostava aqui da Tijuca, respondeu-me que sim, e que o Rio de Janeiro -era uma grande cidade. «É a segunda vez que a vejo, disse elle; eu -sou do Norte. É uma grande cidade, José Bonifacio é um grande homem, -a rua do Ouvidor um poema, o chafariz da Carioca um bello chafariz, -o Corcovado, o gigante de pedra, Gonçalves Dias, os _Tymbiras_, o -Maranhão...» Embrulhava tudo a tal ponto que me fez rir. Elle é doudo? - -MAGALHÃES - -Não. - -D. LEOCADIA - -A principio, cuidei que era. Mas o melhor foi quando se serviu o perú. -Perguntei-lhe que tal achava o perú. Ficou pallido, deixou cair o -garfo, fechou os olhos e não me respondeu. Eu ia chamar a attenção de -vocês, quando elle abriu os olhos e disse com voz surda: «D. Leocadia, -eu não conheço o Perú...» Eu, espantada, perguntei: «Pois não está -comendo...?» «Não falo desta pobre ave; falo-lhe da republica.» - -MAGALHÃES - -Pois conhece a republica. - -D. LEOCADIA - -Então mentiu. - -MAGALHÃES - -Não, porque nunca lá foi. - -D. LEOCADIA (_a D.Adelaide_) - -Mau! seu marido parece que tambem está virando o juizo. (_A Magalhães_) -Conhece então o Perú, como vocês estão conhecendo a Grecia... pelos -livros. - -MAGALHÃES - -Tambem não. - -D. LEOCADIA - -Pelos homems? - -MAGALHÃES - -Não, senhora. - -D. LEOCADIA - -Então pelas mulheres? - -MAGALHÃES - -Nem pelas mulheres. - -D. LEOCADIA - -Por uma mulher? - -MAGALHÃES - -Por uma mocinha, filha do ministro do Perú em Guatemala. Já contei -a historia a Adelaide. (_D. Adelaide senta-se folheando o livro de -gravuras_.) - -D. LEOCADIA, _senta-se_ - -Ouçamos a historia. É curta? - -MAGALHÃES - -Quatro palavras. Cavalcante estava em commissão do nosso governo, e -frequentava o corpo diplomatico, onde era muito bem visto. Realmente, -não se podia achar creatura mais dada, mais expansiva, mais estimavel. -Um dia começou a gostar da peruana. A peruana era bella e alta, com uns -olhos admiraveis. Cavalcante, dentro de pouco, estava doudo por ella, -não pensava em mais nada, não falava de outra pessoa. Quando a via -ficava extatico. Se ella gostava delle, não sei; é certo que o animava, -e já se falava em casamento. Puro engano! Dolores voltou para o Perú, -onde casou com um primo, segundo me escreveu o pae. - -D. LEOCADIA - -Elle ficou desconsolado, naturalmente. - -MAGALHÃES - -Ah! não me fale! Quiz matar-se; pude impedir esse acto de desespero, e -o desespero desfez-se em lagrimas. Caiu doente, uma febre que quasi o -levou. Pediu dispensa da commissão, e, como eu tinha obtido seis mezes -de licença, voltámos juntos. Não imagina o abatimento em que ficou, a -tristeza profunda; chegou a ter as idéas baralhadas. Ainda agora, diz -alguns disparates, mas emenda-se logo e ri de si mesmo. - -D. LEOCADIA - -Quer que lhe diga? Já hontem suspeitei que era negocio de amores; -achei-lhe um riso amargo... Terá bom coração? - -MAGALHÃES - -Coração de ouro. - -D. LEOCADIA - -Espirito elevado? - -MAGALHÃES - -Sim, senhora. - -D. LEOCADIA - -Espirito elevado, coração de ouro, saudades... Está entendido. - -MAGALHÃES - -Entendido o que? - -D. LEOCADIA - -Vou curar o seu amigo Cavalcante. De que é que vocês se espantam? - -D. ADELAIDE - -De nada. - -MAGALHÃES - -De nada, mas... - -D. LEOCADIA - -Mas que? - -MAGALHÃES - -Parece-me... - -D. LEOCADIA - -Não parece nada; vocês são uns ingratos. Pois se confessam que eu curei -o nariz de um e a hypocondria do outro, como é que põem em duvida que -eu possa curar a maluquice do Cavalcante? Vou cural-o. Elle virá hoje? - -D. ADELAIDE - -Não vem todos os dias; ás vezes passa-se uma semana. - -MAGALHÃES - -Mora perto daqui; vou escrever-lhe que venha, e, quando chegar, -dir-lhe-hei que a senhora é o maior medico do seculo; cura o moral... -Mas, minha tia, devo avisal-a de uma cousa; não lhe fale em casamento. - -D. LEOCADIA - -Oh! não! - -MAGALHÃES - -Fica furioso quando lhe falam em casamento; responde que só se ha de -casar com a morte... A senhora exponha-lhe... - -D. LEOCADIA - -Ora, meu sobrinho, vá ensinar o _padre-nosso_ ao vigario. Eu sei o que -elle precisa, mas quero estudar primeiro o doente e a doença. Já volto. - -MAGALHÃES - -Não lhe diga que eu é que lhe contei o caso da peruana... - -D. LEOCADIA - -Pois se eu mesma adivinhei que elle soffria do coração. (_Sae; entra -Carlota._) - - -SCENA III - -MAGALHÃES, D. ADELAIDE, D. CARLOTA - -D. ADELAIDE - -Bravo! está mais corada agora! - -D. CARLOTA - -Foi do passeio. - -D. ADELAIDE - -De que é que você gosta mais, da Tijuca ou da cidade? - -D. CARLOTA - -Eu por mim, ficava mettida aqui na Tijuca. - -MAGALHÃES - -Não creio. Sem bailes? sem theatro lyrico? - -D. CARLOTA - -Os bailes cançam, e não temos agora theatro lyrico. - -MAGALHÃES - -Mas, em summa, aqui ou na cidade, o que é preciso é que você ria; esse -ar tristonho faz-lhe a cara feia. - -D. CARLOTA - -Mas eu rio. Ainda agora não pude deixar de rir vendo o Dr. Cavalcante. - -MAGALHÃES - -Porque? - -D. CARLOTA - -Elle passava ao longe, a cavallo, tão distrahido que levava a cabeça -caida entre as orelhas do animal; ri da posição, mas lembrei-me que -podia cair e ferir-se, e estremeci toda. - -MAGALHÃES - -Mas não caiu? - -CARLOTA - -Não. - -ADELAIDE - -Titia viu tambem? - -CARLOTA - -Mamãe ia-me falando da Grecia, do ceu da Grecia, dos monumentos da -Grecia, do rei da Grecia; toda ella é Grecia, fala como se tivesse -estado na Grecia. - -ADELAIDE - -Você quer ir comnosco para lá? - -CARLOTA - -Mamãe não ha de querer. - -ADELAIDE - -Talvez queira. (_Mostrando-lhe as gravuras do livro_) Olhe que bonitas -vistas! Isto são ruinas. Aqui está uma scena de costumes. Olhe esta -rapariga com um pote... - -MAGALHÃES, _á janella_ - -Cavalcante ahi vem. - -CARLOTA - -Não quero vel-o. - -ADELAIDE - -Porque? - -CARLOTA - -Agora que passou o medo, posso rir-me lembrando a figura que elle fazia. - -ADELAIDE - -Eu tambem vou. (_Saem as duas; Cavalcante apparece á porta, Magalhães -deixa a janella._) - - -SCENA IV - -CAVALCANTE e MAGALHÃES - -MAGALHÃES - -Entra. Como passaste a noite? - -CAVALCANTE - -Bem. Dei um bello passeio; fui até ao Vaticano e vi o papa. (_Magalhães -olha espantado._) Não te assustes, não estou doudo. Eis o que foi: o -meu cavallo ia para um lado e o meu espirito para outro. Eu pensava -em fazer-me frade; então todas as minhas idéas vestiram-se de burel, -e entrei a ver sobrepelizes e tochas; emfim, cheguei a Roma, -apresentei-me á porta do Vaticano e pedi para ver o papa. No momento em -que Sua Santidade appareceu, prosternei-me, depois estremeci, despertei -e vi que o meu corpo seguira atraz do sonho, e que eu ia quasi caindo. - -MAGALHÃES - -Foi então que a nossa prima Carlota deu comtigo ao longe. - -CAVALCANTE - -Tambem eu a vi, e, de vexado, piquei o cavallo. - -MAGALHÃES - -Mas, então ainda não perdeste essa idéa de ser frade? - -CAVALCANTE - -Não. - -MAGALHÃES - -Que paixão romanesca! - -CAVALCANTE - -Não, Magalhães; reconheço agora o que vale o mundo com as suas -perfidias e tempestades. Quero achar um abrigo contra ellas; esse -abrigo é o claustro. Não sairei nunca da minha cella, e buscarei -esquecer deante do altar... - -MAGALHÃES - -Olha que vaes cair do cavallo! - -CAVALCANTE - -Não te rias, meu amigo! - -MAGALHÃES - -Não; quero só accordar-te. Realmente, estás ficando maluco. Não penses -mais em semelhante moça. Ha no mundo milhares e milhares de moças -eguaes á bella Dolores. - -CAVALCANTE - -Milhares e milhares? Mais uma razão para que eu me esconda em um -convento. Mas é engano; ha só uma, e basta. - -MAGALHÃES - -Bem; não ha remedio se não entregar-te á minha tia. - -CAVALCANTE - -Á tua tia? - -MAGALHÃES - -Minha tia crê que tu deves padecer de alguma doença moral,--e -adivinhou,--e fala de curar-te. Não sei se sabes que ella vive na -persuasão de que cura todas as enfermidades moraes. - -CAVALCANTE - -Oh! eu sou incuravel! - -MAGALHÃES - -Por isso mesmo deves sujeitar-te aos seus remedios. Se te não curar, -dar-te-ha alguma distracção, e é o que eu quero. (_Abre a charuteira, -que está vazia_). Olha, espera aqui, lê algum livro; eu vou buscar -charutos. (_Sae; Cavalcante pega num livro e senta-se._) - - -SCENA V - -CAVALCANTE, D. CARLOTA, apparecendo ao fundo. - -D. CARLOTA - -Primo... (_Vendo Cavalcante_) Ah! perdão! - -CAVALCANTE (_erguendo-se_) - -Perdão de que? - -D. CARLOTA - -Cuidei que meu primo estava aqui; vim buscar um livro de gravuras de -prima Adelaide; está aqui... - -CAVALCANTE - -A senhora viu-me passar a cavallo, ha uma hora, n'uma posição incommoda -e inexplicavel. - -D. CARLOTA - -Perdão, mas... - -CAVALCANTE - -Quero dizer-lhe que eu levava na cabeça uma idéa séria, um negocio -grave. - -D. CARLOTA - -Creio. - -CAVALCANTE - -Deus queira que nunca possa entender o que era! Basta crer. Foi a -distracção que me deu aquella postura inexplicavel. Na minha familia -quasi todos são distrahidos. Um dos meus tios morreu na guerra do -Paraguay, por cousa de uma distracção; era capitão de engenharia... - -D. CARLOTA, _perturbada_. - -Oh! não me fale! - -CAVALCANTE - -Porque? Não póde tel-o conhecido. - -D. CARLOTA - -Não, senhor; desculpe-me, sou um pouco tonta. Vou levar o livro á minha -prima. - -CAVALCANTE - -Peço-lhe perdão, mas... - -D. CARLOTA - -Passe bem. (_Vae até á porta._) - -CAVALCANTE - -Mas, eu desejava saber... - -D. CARLOTA - -Não, não, perdôe-me (_Sae._) - - -SCENA VI - -CAVALCANTE, só - -Não comprehendo; não sei se a offendi. Falei no tio João Pedro, que -morreu no Paraguay, antes della nascer... - - -SCENA VII - -CAVALCANTE, D. LEOCADIA - -D. Leocadia, _ao fundo, aparte_. - -Está pensando (_Desce._) Bom dia, Dr. Cavalcante! - -CAVALCANTE - -Como passou, minha senhora? - -D. LEOCADIA - -Bem, obrigada. Então meu sobrinho deixou-o aqui só? - -CAVALCANTE - -Foi buscar charutos, já volta. - -D. LEOCADIA - -Os senhores são muito amigos. - -CAVALCANTE - -Somos como dous irmãos. - -D. LEOCADIA - -Magalhães é um coração de ouro, e o senhor parece-me outro. Acho-lhe só -um defeito, doutor... Desculpe-me esta franqueza de velha; acho que o -senhor fala trocado. - -CAVALCANTE - -Disse-lhe hontem algumas tolices, não? - -D. LEOCADIA - -Tolices, é muito; umas palavras sem sentido. - -CAVALCANTE - -Sem sentido, insensatas, vem a dar na mesma. - -D. LEOCADIA, _pegando-lhe nas mãos_. - -Olhe bem para mim (_Pausa._) Suspire. (_Cavalcante suspira._) O senhor -está doente; não negue que está doente,--moralmente, entenda-se; não -negue! (_Solta-lhe as mãos._) - -CAVALCANTE - -Negar seria mentir. Sim, minha senhora, confesso que tive um -grandissimo desgosto... - -D. LEOCADIA - -Jogo de praça? - -CAVALCANTE - -Não, senhora. - -D. LEOCADIA - -Ambições politicas mallogradas? - -CAVALCANTE - -Não conheço politica. - -D. LEOCADIA - -Algum livro mal recebido pela imprensa? - -CAVALCANTE - -Só escrevo cartas particulares. - -D. LEOCADIA - -Não atino. Diga francamente; eu sou medico de enfermidades moraes, e -posso cural-o. Ao medico diz-se tudo. Ande, fale, conte-me tudo, tudo, -tudo. Não se trata de amores?... - -CAVALCANTE, _suspirando_. - -Trata-se justamente de amores. - -D. LEOCADIA - -Paixão grande? - -CAVALCANTE - -Oh! immensa! - -D. LEOCADIA - -Não quero saber o nome da pessoa, não é preciso. Naturalmente, bonita? - -CAVALCANTE - -Como um anjo! - -D. LEOCADIA - -O coração também era de anjo? - -CAVALCANTE - -Póde ser, mas de anjo mau. - -D. LEOCADIA - -Uma ingrata... - -CAVALCANTE - -Uma perversa! - -D. LEOCADIA - -Diabolica... - -CAVALCANTE - -Sem entranhas! - -D. LEOCADIA - -Vê que estou adivinhando. Console-se; uma creatura dessas não acha -casamento. - -CAVALCANTE - -Já achou! - -D. LEOCADIA - -Já? - -CAVALCANTE - -Casou, minha senhora; teve a crueldade de casar com um primo. - -D. LEOCADIA - -Os primos quasi que não nascem para outra cousa. Diga-me, não procurou -esquecer o mal nas folias proprias de rapazes? - -CAVALCANTE - -Oh! não! Meu unico prazer é pensar nella. - -D. LEOCADIA - -Desgraçado! Assim nunca ha de sarar. - -CAVALCANTE - -Vou tratar de esquecel-a. - -D. LEOCADIA - -De que modo? - -CAVALCANTE - -De um modo velho, alguns dizem que já obsoleto e archaico. Penso em -fazer-me frade. Ha de haver em algum recanto do mundo um claustro em -que não penetre sol nem lua. - -D. LEOCADIA - -Que illusão! Lá mesmo achará a sua namorada. Ha de vel-a nas paredes da -cella, no tecto, no chão, nas folhas do breviario. O silencio far-se-ha -boca da moça, a solidão será o seu corpo. - -CAVALCANTE - -Então estou perdido. Onde acharei paz e esquecimento? - -D. LEOCADIA - -Póde ser frade sem ficar no convento. No seu caso o remedio -naturalmente indicado é ir prégar... na China, por exemplo. Va prégar -aos infieis na China. Paredes de convento são mais perigosas que olhos -de chinezas. Ande, vá pregar na China. No fim de dez annos está curado. -Volte, metta-se no convento e não achará lá o diabo. - -CAVALCANTE - -Está certa que na China... - -D. LEOCADIA - -Certissima. - -CAVALCANTE - -O seu remedio é muito amargo! Porque é que me não manda antes para o -Egypto? Também é paiz de infieis. - -D. LEOCADIA - -Não serve; é a terra daquella rainha... Como se chama? - -CAVALCANTE - -Cleopatra? Morreu ha tantos seculos! - -D. LEOCADIA - -Meu marido disse que era uma desmiolada. - -CAVALCANTE - -Seu marido era, talvez, um erudito. Minha senhora, não se aprende amor -nos livros velhos, mas nos olhos bonitos; por isso, estou certo de que -elle adorava a V. Ex. - -D. LEOCADIA - -Ah! ah! Já o doente começa a adular o medico. Não, senhor, ha de ir á -China. Lá ha mais livros velhos que olhos bonitos. Ou não tem confiança -em mim? - -CAVALCANTE - -Oh! tenho, tenho. Mas ao doente é permittido fazer uma careta antes de -engolir a pilula. Obedeço; vou para a China. Dez annos, não? - -D. LEOCADIA, _levanta-se_. - -Dez ou quinze, se quizer; mas antes dos quinze está curado. - -CAVALCANTE - -Vou. - -D. LEOCADIA - -Muito bem. A sua doença é tal que só com remedios fortes. Vá; dez annos -passam depressa. - -CAVALCANTE - -Obrigado, minha senhora. - -D. LEOCADIA - -Até logo. - -CAVALCANTE - -Não, minha senhora, vou já. - -D. LEOCADIA - -Já para a China! - -CAVALCANTE - -Vou arranjar as malas, e amanhã embarco para a Europa; vou a Roma, -depois sigo immediatamente para a China. Até daqui a dez annos. -(_Estende-lhe a mão._) - -D. LEOCADIA - -Fique ainda uns dias... - -CAVALCANTE - -Não posso. - -D. LEOCADIA - -Gosto de ver essa pressa; mas, emfim, póde esperar ainda uma semana. - -CAVALCANTE - -Não, não devo esperar. Quero ir ás pilulas, quanto antes; é preciso -obedecer religiosamente ao medico. - -D. LEOCADIA - -Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem fé no medico. O -peior é que daqui a pouco, talvez, não se lembre delle. - -CAVALCANTE - -Oh! não! Hei de lembrar-me sempre, sempre! - -D. LEOCADIA - -No fim de dous annos escreva-me; informe-me sobre o seu estado, e -talvez eu o faça voltar. Mas, não minta, olhe lá; se já tiver esquecido -a namorada, consentirei que volte. - -CAVALCANTE - -Obrigado. Vou ter com seu sobrinho, e depois vou arranjar as malas. - -D. LEOCADIA - -Então não volta mais a esta casa? - -CAVALCANTE - -Virei daqui a pouco, uma visita de dez minutos, e depois desço, vou -tomar passagem no paquete de amanhã. - -D. LEOCADIA - -Jante, ao menos, comnosco. - -CAVALCANTE - -Janto na cidade. - -D. LEOCADIA - -Bem, adeus; guardemos o nosso segredo. Adeus, Dr. Cavalcante. Creia-me: -o senhor merece estar doente. Ha pessoas que adoecem sem merecimento -nenhum; ao contrario, não merecem outra cousa mais que uma saude de -ferro. O senhor nasceu para adoecer; que obediencia ao medico! que -facilidade em engolir todas as nossas pilulas! Adeus! - -CAVALCANTE - -Adeus, D. Leocadia. (_Sae pelo fundo._) - - -SCENA VIII - -D. LEOCADIA, D. ADELAIDE - -D. LEOCADIA - -Com dous annos de China está curado. (_Vendo entrar Adelaide_) O Dr. -Cavalcante saiu agora mesmo. Ouviste o meu exame medico? - -D. ADELAIDE - -Não. Que lhe pareceu? - -D. LEOCADIA - -Cura-se. - -D. ADELAIDE - -De que modo? - -D. LEOCADIA - -Não posso dizer; é segredo profissional. - -D. ADELAIDE - -Em quantas semanas fica bem? - -D. LEOCADIA - -Em dez annos. - -D. ADELAIDE - -Misericordia! Dez annos! - -D. LEOCADIA - -Talvez dous; é moço, é robusto, a natureza ajudará a medicina, -comquanto esteja muito atacado. Ahi vem teu marido. - - -SCENA IX - -OS MESMOS, MAGALHÃES - -MAGALHÃES, _a D. Leocadia_. - -Cavalcante disse-me que vae embora; eu vim correndo saber o que é que -lhe receitou. - -D. LEOCADIA - -Receitei-lhe um remedio energico, mas que ha de salval-o. Não são -consolações de cacaracá. Coitado! Soffre muito, está gravemente doente; -mas, descancem, meus filhos, juro-lhes, á fé do meu gráo, que hei de -cural-o. Tudo é que me obedeça, e este obedece. Oh! aquelle crê em mim. -E vocês, meus filhos? Como vão os meus doentesinhos? Não é verdade que -estão curados? (_Sae pelo fundo._) - - -SCENA X - -MAGALHÃES, D. ADELAIDE - -MAGALHÃES - -Tinha vontade de saber o que é que ella lhe receitou. - -D. ADELAIDE - -Não falemos disso. - -MAGALHÃES - -Sabes o que foi? - -D. ADELAIDE - -Não; mas titia disse-me que a cura se fará em dez annos. (_Espanto de -Magalhães._) Sim, dez annos; talvez dous, mas a cura certa é em dez -annos. - -MAGALHÃES, _atordoado_. - -Dez annos! - -D. ADELAIDE - -Ou dous. - -MAGALHÃES - -Ou dous? - -D. ADELAIDE - -Ou dez. - -MAGALHÃES - -Dez annos! Mas é impossivel! Quiz brincar comtigo. Ninguem leva dez -annos a sarar; ou sára antes ou morre. - -D. ADELAIDE - -Talvez ella pense que a melhor cura é a morte. - -MAGALHÃES - -Talvez. Dez annos! - -D. ADELAIDE - -Ou dous; não esqueças. - -MAGALHÃES - -Sim, ou dous; dous annos é muito, mas, ha casos... Vou ter com elle. - -D. ADELAIDE - -Se titia quiz enganar a gente, não é bom que os estranhos saibam. -Vamos falar com ella, talvez que, pedindo muito, ella diga a verdade. -Não leves essa cara assustada; é preciso falar-lhe naturalmente, com -indifferença. - -MAGALHÃES - -Pois vamos. - -D. ADELAIDE - -Pensando bem, é melhor que eu vá só; entre mulheres... - -MAGALHÃES - -Não; ella continuará a zombar de ti; vamos juntos, estou sobre brazas. - -D. ADELAIDE - -Vamos. - -MAGALHÃES - -Dez annos! - -D. ADELAIDE - -Ou dous. (_Saem pelo fundo._) - - -SCENA XI - -D. CARLOTA, entrando pela direita. - -Ninguem! Afinal foram-se! Esta casa anda hoje cheia de mysterios. Ha um -quarto de hora quiz vir aqui, e prima Adelaide disse-me que não, que -se tratavam aqui negocios graves. Pouco depois levantou-se e saiu; mas -antes disso contou-me que mamãe é que quer que eu vá para a Grecia. A -verdade é que todos me falam de Athenas, de ruinas, de danças gregas, -da Acropole... Creio que é Acropole que se diz. (_Pega no livro que -Magalhães estivera lendo, senta-se, abre e lê_) «Entre os proverbios -gregos, ha um muito fino: Não consultes medico; consulta alguem que -tenha estado doente.» Consultar alguem que tenha estado doente! Não sei -que possa ser. (_Continua a ler em voz baixa._) - - -SCENA XII - -D. CARLOTA, CAVALCANTE - -CAVALCANTE, _ao fundo_. - -D. Leocadia! (_Entra e fala de longe a Carlota, que está de costas._) -Quando eu ia a sair, lembrei-me... - -D. CARLOTA - -Quem é? (_Levanta-se._) Ah! doutor! - -CAVALCANTE - -Desculpe-me, vinha falar á senhora sua mãe para lhe pedir um favor. - -D. CARLOTA - -Vou chamal-a. - -CAVALCANTE - -Não se incommode; falar-lhe-hei logo. Saberá por acaso se a senhora sua -mãe conhece algum cardeal em Roma? - -D. CARLOTA - -Não sei, não, senhor. - -CAVALCANTE - -Queria pedir-lhe uma carta de apresentação; voltarei mais tarde -(_Corteja, sae e pára._) Ah! aproveito a occasião para lhe perguntar -ainda uma vez em que é que a offendi? - -D. CARLOTA - -O senhor nunca me offendeu. - -CAVALCANTE - -Certamente que não; mas ainda ha pouco, falando-lhe de um tio meu, que -morreu no Paraguay, tio João Pedro, capitão de engenharia... - -D. CARLOTA, _atalhando_. - -Porque é que o senhor quer ser apresentado a um cardeal? - -CAVALCANTE - -Bem respondido! Confesso que fui indiscreto com a minha pergunta. Já -ha de saber que eu tenho distracções repentinas, e quando não caio -no ridiculo, como hoje de manhã, caio na indiscreção. São segredos -mais graves que os seus. É feliz, é bonita, póde contar com o futuro, -emquanto que eu... Mas eu não quero aborrecel-a. O meu caso ha de andar -em romances. (_Indicando o livro que ella tem na mão_) Talvez nesse. - -D. CARLOTA - -Não é romance. (_Dá-lhe o livro._) - -CAVALCANTE - -Não? (_Lê o titulo_) Como? Está estudando a Grecia? - -D. CARLOTA - -Estou. - -CAVALCANTE - -Vae para lá? - -D. CARLOTA - -Vou, com prima Adelaide. - -CAVALCANTE - -Viagem de recreio, ou vae tratar-se? - -D. CARLOTA - -Deixe-me ir chamar mamãe. - -CAVALCANTE - -Perdôe-me ainda uma vez; fui indiscreto, retiro-me. (_Dá alguns passos -para sair._) - -D. CARLOTA - -Doutor! (_Cavalcante pára._) Não se zangue commigo; sou um pouco tonta, -o senhor é bom... - -Cavalcante, _descendo_. - -Não diga que sou bom; os infelizes são apenas infelizes. A bondade é -toda sua. Ha poucos dias que nos conhecemos, e já nos zangámos, por -minha causa. Não proteste; a causa é a minha molestia. - -D. CARLOTA - -O senhor está doente? - -CAVALCANTE - -Mortalmente. - -D. CARLOTA - -Não diga isso! - -CAVALCANTE - -Ou gravemente, se prefere. - -D. CARLOTA - -Ainda é muito. E que molestia é? - -CAVALCANTE - -Quanto ao nome, não ha accordo: loucura, espirito romanesco e muitos -outros. Alguns dizem que é amor. Olhe, está outra vez aborrecida -commigo! - -D. CARLOTA - -Oh! não, não, não. (_Procurando rir._) É o contrario; estou até muito -alegre. Diz-me então que está doente, louco... - -CAVALCANTE - -Louco de amor, é o que alguns dizem. Os autores divergem. Eu prefiro -amor, por ser mais bonito, mas a molestia, qualquer que seja a causa, -é cruel e terrivel. Não póde comprehender este _imbroglio_; peça a -Deus que a conserva nessa boa e feliz ignorancia. Porque é que me está -olhando assim? Quer talvez saber... - -D. CARLOTA - -Não, não quero saber nada. - -CAVALCANTE - -Não é crime ser curiosa. - -D. CARLOTA - -Seja ou não loucura, não quero ouvir historias como a sua. - -CAVALCANTE - -Já sabe qual é? - -D. CARLOTA - -Não. - -CAVALCANTE - -Não tenho direito de interrogal-a; mas ha já dez minutos que estamos -neste gabinete, falando de cousas bem exquisitas para duas pessoas que -apenas se conhecem. - -D. CARLOTA, _estendendo-lhe a mão_ - -Até logo. - -CAVALCANTE - -A sua mão está fria. Não se vá ainda embora; hão de achal-a agitada. -Socegue um pouco, sente-se (_Carlota senta-se._) Eu retiro-me. - -D. CARLOTA - -Passe bem. - -CAVALCANTE - -Até logo. - -D. CARLOTA - -Volta logo? - -CAVALCANTE - -Não, não volto mais; queria enganal-a. - -D. CARLOTA - -Enganar-me porque? - -CAVALCANTE - -Porque já fui enganado uma vez. Ouça-me; são duas palavras. Eu gostava -muito de uma moça que tinha a sua belleza, e ella casou com outro. Eis -a minha molestia. - -D. CARLOTA, _erguendo-se_ - -Como assim? - -CAVALCANTE - -É verdade; casou com outro. - -D. CARLOTA, _indignada_ - -Que acção vil! - -CAVALCANTE - -Não acha? - -D. CARLOTA - -E ella gostava do senhor? - -CAVALCANTE - -Apparentemente; mas, depois vi que eu não era mais que um passatempo. - -D. CARLOTA, _animando-se aos poucos_ - -Um passatempo! Fazia-lhe juramentos, dizia-lhe que o senhor era a sua -unica ambição, o seu verdadeiro Deus, parecia orgulhosa em contemplal-o -por horas infinitas, dizia-lhe tudo, tudo, umas cousas que pareciam -cair do ceu, e suspirava... - -CAVALCANTE - -Sim, suspirava, mas... - -D. CARLOTA, _muito animada_ - -Um dia abandonou-o, sem uma só palavra de saudade nem de consolação, -fugiu e foi casar com uma viuva hespanhola! - -CAVALCANTE, _espantado_ - -Uma viuva hespanhola! - -D. CARLOTA - -Ah! tem muita razão em estar doente! - -CAVALCANTE - -Mas que viuva hespanhola é essa de que me fala? - -D. CARLOTA, _caindo em si_ - -Eu falei-lhe de uma viuva hespanhola? - -CAVALCANTE - -Falou. - -D. CARLOTA - -Foi engano... Adeus, sr. doutor. - -CAVALCANTE - -Espere um instante. Creio que me comprehendeu. Falou com tal paixão que -os medicos não têm. Oh! como eu execro os medicos! principalmente os -que me mandam para a China. - -D. CARLOTA - -O senhor vae para a China? - -CAVALCANTE - -Vou; mas não diga nada! foi sua mãe que me deu esta receita. - -D. CARLOTA - -A China é muito longe! - -CAVALCANTE - -Creio até que está fóra do mundo. - -D. CARLOTA - -Tão longe porque? - -CAVALCANTE - -Boa palavra essa. Sim, porque ir á China, se a gente póde sarar na -Grecia? Dizem que a Grecia é muito efficaz para estas feridas; ha quem -affirme que não ha melhor para as que são feitas pelos capitães de -engenharia. Quanto tempo vae lá passar? - -D. CARLOTA - -Não sei. Um anno, talvez. - -CAVALCANTE - -Crê que eu possa sarar n'um anno? - -D. CARLOTA - -É possivel. - -CAVALCANTE - -Talvez sejam precisos dous,--dous ou tres. - -D. CARLOTA - -Ou tres. - -CAVALCANTE - -Quatro, cinco... - -D. CARLOTA - -Cinco, seis... - -CAVALCANTE - -Depende menos do paiz que da doença. - -D. CARLOTA - -Ou do doente. - -CAVALCANTE - -Ou do doente. Já a passagem do mar póde ser que me faça bem. A minha -molestia casou com um primo. A sua (perdôe esta outra indiscreção; é a -ultima) a sua casou com a viuva hespanhola. As hespanholas, mórmente -viuvas, são detestaveis. Mas, diga-me uma cousa: se uma pessoa já está -curada, que é que vae fazer á Grecia? - -D. CARLOTA - -Convalescer, naturalmente. O senhor, como ainda está doente, vae para a -China. - -CAVALCANTE - -Tem razão. Entretanto, começo a ter medo de morrer... Pensou alguma vez -na morte? - -D. CARLOTA - -Pensa-se nella, mas lá vem um dia em que a gente acceita a vida, seja -como fôr. - -CAVALCANTE - -Vejo que sabe muita cousa. - -D. CARLOTA - -Não sei nada; sou uma tagarella, que o senhor obrigou a dar por páos -e por pedras; mas, como é a ultima vez que nos vemos, não importa. -Agora, passe bem. - -CAVALCANTE - -Adeus, D. Carlota! - -D. CARLOTA - -Adeus, doutor! - -CAVALCANTE - -Adeus. (_Dá um passo para a porta do fundo._) Talvez eu vá a Athenas; -não fuja se me vir vestido de frade. - -D.CARLOTA (_indo a elle_) - -De frade? O senhor vae ser frade? - -CAVALCANTE - -Frade. Sua mãe approva-me, comtanto que eu vá á China. Parece-lhe que -devo obedecer a esta vocação, ainda depois de perdida? - -D. CARLOTA - -É difficil obedecer a uma vocação perdida. - -CAVALCANTE - -Talvez nem a tivesse, e ninguem se deu ao trabalho de me dissuadir. Foi -aqui, a seu lado, que comecei a mudar. A sua voz sae de um coração que -padeceu tambem, e sabe falar a quem padece. Olhe, julgue-me doudo, se -quizer, mas eu vou pedir-lhe um favor: conceda-me que a ame (_Carlota, -perturbada, volta o rosto_). Não lhe peço que me ame, mas que se deixe -amar; é um modo de ser grato. Se fosse uma santa, não podia impedir que -lhe accendesse uma vela. - -D.CARLOTA - -Não falemos mais nisto, e separemo-nos. - -CAVALCANTE - -A sua voz treme; olhe para mim... - -D. CARLOTA - -Adeus; ahi vem mamãe. - - -SCENA XIII - -OS MESMOS, D. LEOCADIA - -D. LEOCADIA - -Que é isto, doutor? Então o senhor quer só um anno de China? Vieram -pedir-me que reduzisse a sua ausencia. - -CAVALCANTE - -D. Carlota lhe dirá o que eu desejo. - -D. CARLOTA - -O doutor veiu saber se mamãe conhece algum cardeal em Roma. - -CAVALCANTE - -A principio era um cardeal; agora basta um vigario. - -D. LEOCADIA - -Um vigario? Para que? - -CAVALCANTE - -Não posso dizer. - -D. LEOCADIA, _a Carlota_ - -Deixa-nos sós, Carlota; o doutor quer fazer-me uma confidencia. - -CAVALCANTE - -Não, não, ao contrario... D. Carlota póde ficar. O que eu quero dizer é -que um vigario basta para casar. - -D. LEOCADIA - -Casar a quem? - -CAVALCANTE - -Não é já, falta-me ainda a noiva. - -D. LEOCADIA - -Mas quem é que me está falando? - -CAVALCANTE - -Sou eu, D. Leocadia. - -D. LEOCADIA - -O senhor! o senhor! o senhor! - -CAVALCANTE - -Eu mesmo. Pedi licença a alguem... - -D. LEOCADIA - -Para casar? - - -SCENA XIV - -OS MESMOS, MAGALHÃES, D. LEOCADIA - -MAGALHÃES - -Consentiu, titia? - -D. LEOCADIA - -Em reduzir a China a um anno? Mas elle agora quer a vida inteira. - -MAGALHÃES - -Estás doudo? - -D. LEOCADIA - -Sim, a vida inteira, mas é para casar. (_D. Carlota fala baixo a D. -Adelaide_) Você entende, Magalhães? - -CAVALCANTE - -Eu, que devia entender, não entendo. - -D. ADELAIDE, _que ouviu D. Carlota_ - -Entendo eu. O Dr. Cavalcante contou as suas tristezas a Carlota, e -Carlota, meia curada do seu proprio mal, expoz sem querer o que tinha -sentido. Entenderam-se e casam-se. - -D. LEOCADIA, _a Carlota_ - -Devéras? (_D. Carlota baixa os olhos_) Bem; como é para saude dos dous, -concedo; são mais duas curas! - -MAGALHÃES - -Perdão; estas fizeram-se pela receita de um proverbio grego que está -aqui neste livro (_Abre o livro_) «Não consultes medico; consulta -alguem que tenha estado doente.» - - - - -Licção de botanica - - - PESSOAS - - D. HELENA - D. LEONOR - D. CECILIA - BARÃO SEGISMUNDO DE KERNOBERG - -Logar da scena: Andarahy. - - - - -ACTO UNICO - -Sala em casa de D. Leonor. Portas ao fundo, uma á direita do espectador. - - -SCENA I - -D. LEONOR, D. HELENA, D. CECILIA - -D. Leonor entra, lendo uma carta. D. Helena e D. Cecilia entram do -fundo. - -D. HELENA - -Já de volta! - -D. CECILIA, _a D. Helena, depois de um silencio_ - -Será alguma carta de namoro? - -D. HELENA, _baixo_ - -Creança! - -D. LEONOR - -Não me explicarão isto? - -D. HELENA - -Que é? - -D. LEONOR - -Recebi ao descer do carro este bilhete. «Minha senhora. Permitta que o -mais respeitoso vizinho lhe peça dez minutos de attenção. Vae n'isto um -grande interesse da sciencia». Que tenho eu com a sciencia? - -D. HELENA - -Mas de quem é a carta? - -D. LEONOR - -Do Barão Segismundo de Kernoberg. - -D. CECILIA - -Ah! o tio de Henrique! - -D. LEONOR - -De Henrique! Que familiaridade é essa? - -D. CECILIA - -Titia, eu... - -D. LEONOR - -Eu quê?... Henrique! - -D. HELENA - -Foi uma maneira de falar na ausencia... Com que então o Sr. Barão -Segismundo de Kernoberg pede-lhe dez minutos de attenção, em nome e por -amor da sciencia. Da parte de um botanico é por força alguma egloga. - -D. LEONOR - -Seja o que fôr, não sei se deva receber um senhor a quem nunca vimos. -Já o viram alguma vez? - -D. CECILIA - -Eu nunca. - -D. HELENA - -Nem eu. - -D. LEONOR - -Botanico e sueco: duas razões para ser gravemente aborrecido. Nada, não -estou em casa. - -D. CECILIA - -Mas quem sabe, titia, se elle quer pedir-lhe... sim... um exame no -nosso jardim? - -D. LEONOR - -Ha por todo esse Andarahy muito jardim para examinar. - -D. HELENA - -Não, senhora, ha de recebel-o. - -D. LEONOR - -Porque? - -D. HELENA - -Porque é nosso vizinho, porque tem necessidade de falar-lhe, e, emfim, -porque, a julgar pelo sobrinho, deve ser um homem distincto. - -D. LEONOR - -Não me lembrava do sobrinho. Vá lá; aturemos o botanico. (_Sae pela -porta do fundo, á esquerda._) - - -SCENA II - -D. HELENA, D. CECILIA - -D. HELENA - -Não me agradeces? - -D. CECILIA - -O que? - -D. HELENA - -Sonsa! Pois não adivinhas o que vem cá fazer o barão? - -D. CECILIA - -Não. - -D. HELENA - -Vem pedir a tua mão para o sobrinho. - -D. CECILIA - -Helena! - -D. HELENA, _imitando-a_ - -Helena! - -D. CECILIA - -Juro... - -D. HELENA - -Que o não amas. - -D. CECILIA - -Não é isso. - -D. HELENA - -Que o amas? - -D. CECILIA - -Tambem não. - -D. HELENA - -Mau! Alguma cousa ha de ser. _Il faut qu'une porte soit ouverte ou -fermée._ Porta neste caso é coração. O teu coração ha de estar fechado -ou aberto... - -D. CECILIA - -Perdi a chave. - -D. HELENA, _rindo_ - -E não o pódes fechar outra vez. São assim todos os corações ao pé de -todos os Henriques. O teu Henrique viu a porta aberta, e tomou posse do -logar. Não escolheste mal, não; é um bonito rapaz. - -D. CECILIA - -Oh! uns olhos! - -D. HELENA - -Azues. - -D. CECILIA - -Como o ceu. - -D. HELENA - -Louro... - -D. CECILIA - -Elegante... - -D. HELENA - -Espirituoso... - -D. CECILIA - -E bom. - -D. HELENA - -Uma perola. (_Suspira._) Ah! - -D. CECILIA - -Suspiras? - -D. HELENA - -Que ha de fazer uma viuva, falando... de uma perola? - -D. CECILIA - -Oh! tens naturalmente em vista algum diamante de primeira grandeza. - -D. HELENA - -Não tenho, não; meu coração já não quer joias. - -D. CECILIA - -Mas as joias querem o teu coração. - -D. HELENA - -Tanto peior para ellas: hão de ficar em casa do joalheiro. - -D. CECILIA - -Veremos isso. (_Sobe_) Ah! - -D. HELENA - -Que é? - -D. CECILIA, _olhando para a direita_. - -Um homem desconhecido que lá vem; ha de ser o barão. - -D. HELENA - -Vou avisar titia. (_Sae pelo fundo, esquerda._) - - -SCENA III - -D. CECILIA, BARÃO - -D. CECILIA - -Será devéras elle? Estou tremula... Henrique não me avisou de nada... -Virá pedir-me?... Mas não, não, não póde ser elle... Tão moço!... (_O -barão apparece._) - -BARÃO, _á porta, depois de profunda cortezia_ - -Creio que a Excellentissima senhora D. Leonor Gouvea recebeu uma -carta... Vim sem esperar a resposta. - -D. CECILIA - -É o Sr. Barão Segismundo de Kernoberg? (_O barão faz um gesto -affirmativo._) Recebeu. Queira entrar e sentar-se. (_Áparte._) Devo -estar vermelha... - -O BARÃO, _áparte, olhando para Cecilia_ - -Ha de ser esta. - -D. CECILIA, _áparte_ - -E titia não vem... Que demora!... Não sei que lhe diga... estou tão -vexada... (_O Barão tira um livro da algibeira e folhea-o._) Se eu -pudesse deixal-o... É o que vou fazer. (_Sobe._) - -BARÃO, _fechando o livro e erguendo-se_ - -V Ex. ha de desculpar-me. Recebi hoje mesmo este livro da Europa; -é obra que vae fazer revolução na sciencia; nada menos que uma -monographia das gramineas, premiada pela Academia de Stockolmo. - -D. CECILIA - -Sim? (_Áparte._) Aturemol-o, póde vir a ser meu tio. - -BARÃO - -As gramineas têm ou não têm periantho? A principio adoptou-se a -negativa, posteriormente... V. Ex. talvez não conheça o que é o -periantho... - -D. CECILIA - -Não, senhor. - -BARÃO - -Periantho compõe-se de duas palavras gregas: _peri_, em volta, e -_anthos_ flor. - -D. CECILIA - -O envolucro da flor. - -BARÃO - -Acertou. É o que vulgarmente se chama calix. Pois as gramineas eram -tidas... (_Apparece D. Leonor ao fundo._) Ah! - - -SCENA IV - -OS MESMOS, D. LEONOR - -D. LEONOR - -Desejava falar-me? - -BARÃO - -Se me dá essa honra. Vim sem esperar resposta á minha carta. Dez -minutos apenas. - -D. LEONOR - -Estou ás suas ordens. - -D. CECILIA - -Com licença. (_Áparte, olhando para o ceu._) Ah! minha Nossa Senhora! -(_Retira-se pelo fundo._) - - -SCENA V - -D. LEONOR, BARÃO - -(D. Leonor senta-se, fazendo um gesto ao Barão que a imita) - - -BARÃO - -Sou o Barão Sigismundo de Kernoberg, seu vizinho, botanico de vocação, -profissão e tradição, membro da Academia de Stockolmo, e commissionado -pelo governo da Suecia para estudar a flora da America do Sul. V. Ex. -dispensa a minha biographia? (_D. Leonor faz um gesto affirmativo._) -Direi sómente que o tio de meu tio foi botanico, meu tio botanico, eu -botanico, e meu sobrinho ha de ser botanico. Todos somos botanicos de -tios a sobrinhos. Isto de algum modo explica minha vinda a esta casa. - -D. LEONOR - -Oh! o meu jardim é composto de plantas vulgares. - -BARÃO, _gracioso_ - -É porque as melhores flores da casa estão dentro de casa. Mas V. Ex. -engana-se; não venho pedir nada do seu jardim. - -D. LEONOR - -Ah! - -BARÃO - -Venho pedir-lhe uma cousa que lhe ha de parecer singular. - -D. LEONOR - -Fale. - -BARÃO - -O padre desposa a egreja; eu desposei a sciencia. Saber é o meu estado -conjugal; os livros são a minha familia. N'uma palavra, fiz voto de -celibato. - -D. LEONOR - -Não se case. - -BARÃO - -Justamente. Mas, V. Ex. comprehende que, sendo para mim ponto de fé que -a sciencia não se dá bem com o matrimonio, nem eu devo casar, nem... V. -Ex. já percebeu. - -D. LEONOR - -Cousa nenhuma. - -BARÃO - -Meu sobrinho Henrique anda estudando commigo os elementos da botanica. -Tem talento, ha de vir a ser um luminar da sciencia. Se o casamos, está -perdido. - -D. LEONOR - -Mas... - -BARÃO, _áparte_ - -Não entendeu. (_Alto._) Sou obrigado a ser mais franco. Henrique anda -apaixonado por uma de suas sobrinhas, creio que esta que saiu d'aqui, -ha pouco. Impuz-lhe que não voltasse a esta casa; elle resistiu-me. Só -me resta um meio: é que V. Ex. lhe feche a porta. - -D. LEONOR - -Senhor barão! - -BARÃO - -Admira-se do pedido? Creio que não é polido nem conveniente. Mas é -necessario, minha senhora, é indispensavel. A sciencia precisa de mais -um obreiro: não o encadeiemos no matrimonio. - -D. LEONOR - -Não sei se devo sorrir do pedido... - -BARÃO - -Deve sorrir, sorrir e fechar-nos a porta. Terá os meus agradecimentos e -as benções da posteridade. - -D. LEONOR, _sorrindo_ - -Não é preciso tanto; posso fechal-a de graça. - -BARÃO - -Justo. O verdadeiro beneficio é gratuito. - -D. LEONOR - -Antes, porém, de nos despedirmos, desejava dizer uma cousa e perguntar -outra. (_O barão curva-se_) Direi primeiramente que ignoro se ha tal -paixão da parte de seu sobrinho; em segundo logar, perguntarei se na -Suecia estes pedidos são usuaes. - -BARÃO - -Na geographia intellectual não ha Suecia nem Brazil; os paizes -são outros: astronomia, geologia, mathematicas; na botanica são -obrigatorios. - -D. LEONOR - -Todavia, á força de andar com flores... deviam os botanicos trazel-as -comsigo. - -BARÃO - -Ficam no gabinete. - -D. LEONOR - -Trazem os espinhos sómente. - -BARÃO - -V. Ex. tem espirito. Comprehendo a affeição de Henrique a esta casa. -(_Levanta-se_) Promette-me então... - -D. LEONOR, _levantando-se_ - -Que faria no meu caso? - -BARÃO - -Recusava. - -D. LEONOR - -Com prejuizo da sciencia? - -BARÃO - -Não, porque nesse caso a sciencia mudaria de acampamento, isto é, o -vizinho prejudicado escolheria outro bairro para seus estudos. - -D. LEONOR - -Não lhe parece que era melhor ter feito isso mesmo, antes de arriscar -um pedido inefficaz? - -BARÃO - -Quiz primeiro tentar fortuna. - - -SCENA VI - -D. LEONOR, BARÃO, D. HELENA - -D. HELENA, _entra e pára_ - -Ah! - -D. LEONOR - -Entra, não é assumpto reservado. O Sr. Barão de Kernoberg...(_Ao -Barão_) É minha sobrinha Helena. (_A Helena._) Aqui o Sr. Barão vem -pedir que o não perturbemos no estudo da botanica. Diz que seu sobrinho -Henrique está destinado a um logar honroso na sciencia, e... Conclua, -Sr. Barão. - -BARÃO - -Não convem que se case, a sciencia exige o celibato. - -D. LEONOR - -Ouviste? - -D. HELENA - -Não comprehendo... - -BARÃO - -Uma paixão louca de meu sobrinho póde impedir que... Minhas senhoras, -não desejo roubar-lhes mais tempo... Confio em V. Ex., minha senhora... -Ser-lhe-hei eternamente grato. Minhas senhoras. (_Faz uma grande -cortezia e sae._) - - -SCENA VII - -D. HELENA, D. LEONOR - -D. LEONOR, _rindo_ - -Que urso! - -D. HELENA - -Realmente... - -D. LEONOR - -Perdôo-lhe em nome da sciencia. Fique com as suas hervas, e não nos -aborreça mais, nem elle nem o sobrinho. - -D. HELENA - -Nem o sobrinho? - -D. LEONOR - -Nem o sobrinho, nem o creado, nem o cão, se o houver, nem cousa nenhuma -que tenha relação com a sciencia. Enfada-te? Pelo que vejo, entre o -Henrique e a Cecilia ha tal ou qual namoro? - -D. HELENA - -Se promette segredo... ha. - -D. LEONOR - -Pois acabe-se o namoro. - -D. HELENA - -Não é facil. O Henrique é um perfeito cavalheiro; ambos são dignos um -do outro. Por que razão impediremos que dous corações... - -D. LEONOR - -Não sei de corações, não hão de faltar casamentos a Cecilia. - -D. HELENA - -Certamente que não, mas os casamentos não se improvisam nem se -projectam na cabeça; são actos do coração, que a egreja santifica. -Tentemos uma cousa. - -D. LEONOR - -Que é? - -D. HELENA - -Reconciliemo-nos com o Barão. - -D. LEONOR - -Nada, nada. - -D. HELENA - -Pobre Cecilia! - -D. LEONOR - -É ter paciencia, sujeite-se ás circumstancias... (_A D. Cecilia, que -entra_) Ouviste? - -D. CECILIA - -O quê, titia? - -D. LEONOR - -Helena te explicará tudo. (_A D. Helena baixo_) Tira-lhe todas as -esperanças. (_Indo-se_) Que urso! que urso! - - -SCENA VIII - -D. HELENA, D. CECILIA - -D. CECILIA - -Que aconteceu? - -D. HELENA - -Aconteceu... (_Olha com tristeza para ella._) - -D. CECILIA - -Acaba. - -D. HELENA - -Pobre Cecilia! - -D. CECILIA - -Titia recusou a minha mão? - -D. HELENA - -Qual! O Barão é que se oppõe ao casamento. - -D. CECILIA - -Oppõe-se! - -D. HELENA - -Diz que a sciencia exige o celibato do sobrinho. - -(_D. Cecilia encosta-se a uma cadeira_) Mas, socega; nem tudo está -perdido; póde ser que o tempo... - -D. CECILIA - -Mas quem impede que elle estude? - -D. HELENA - -Mania de sabio. Ou então, evasiva do sobrinho. - -D. CECILIA - -Oh! não! é impossivel; Henrique é uma alma angelica! Respondo por elle. -Ha de certamente oppôr-se a semelhante exigencia... - -D. HELENA - -Não convem precipitar as cousas. O Barão póde zangar-se e ir-se embora. - -D. CECILIA - -Que devo então fazer? - -D. HELENA - -Esperar. Ha tempo para tudo. - -D. CECILIA - -Pois bem, quando Henrique vier... - -D. HELENA - -Não vem, titia resolveu fechar a porta a ambos. - -D. CECILIA - -Impossivel! - -D. HELENA - -Pura verdade. Foi uma exigencia do Barão. - -D. CECILIA - -Ah! conspiram todos contra mim. (_Põe as mãos na cabeça_) Sou muito -infeliz! Que mal fiz eu a essa gente? Helena, salva-me! Ou eu mato-me! -Anda, vê se descobres um meio... - -D. HELENA, _indo sentar-se_. - -Que meio? - -D. CECILIA, _acompanhando-a_. - -Um meio qualquer que não nos separe! - -D. HELENA, _sentada_. - -Ha um. - -D. CECILIA - -Qual? Dize. - -D. HELENA - -Casar. - -D. CECILIA - -Oh! não zombes de mim! Tu tambem amaste, Helena; deves respeitar estas -angustias. Não tornar a ver o meu Henrique é uma idéa intoleravel. -Anda, minha irmãsinha. (_Ajoelha-se inclinando o corpo sobre o regaço -de D. Helena._) Salva-me! És tão intelligente, que has de achar por -força alguma idéa; anda, pensa! - -D. HELENA, _beijando-lhe a testa_. - -Creança! suppões que seja cousa tão facil assim? - -D. CECILIA - -Para ti ha de ser facil. - -D. HELENA - -Lisonjeira! (_Pega machinalmente no livro deixado pelo Barão sobre a -cadeira._) A boa vontade não póde tudo; é preciso... (_Tem aberto o -livro._) Que livro é este?... Ah! talvez do Barão. - -D. CECILIA - -Mas vamos... continua. - -D. HELENA - -Isto ha de ser sueco... trata talvez de botanica. Sabes sueco? - -D. CECILIA - -Helena! - -D. HELENA - -Quem sabe se este livro póde salvar tudo? (_Depois de um instante de -reflexão_) Sim, é possivel. Tratará de botanica? - -D. CECILIA - -Trata. - -D. HELENA - -Quem te disse? - -D. CECILIA - -Ouvi dizer ao Barão, trata das... - -D. HELENA - -Das... - -D. CECILIA - -Das gramineas. - -D. HELENA - -Só das gramineas? - -D. CECILIA - -Não sei; foi premiado pela Academia de Stockolmo. - -D. HELENA - -De Stockolmo. Bem. (_Levanta-se_). - -D. CECILIA, _levantando-se_ - -Mas que é? - -D. HELENA - -Vou mandar-lhe o livro... - -D. CECILIA - -Que mais? - -D. HELENA - -Com um bilhete. - -D. CECILIA, _olhando para a direita_ - -Não é preciso; lá vem elle. - -D. HELENA - -Ah! - -D. CECILIA - -Que vaes fazer? - -D. HELENA - -Dar-lhe o livro. - -D. CECILIA - -O livro, e... - -D. HELENA - -E as despedidas. - -D. CECILIA - -Não comprehendo. - -D. HELENA - -Espera e verás. - -D. CECILIA - -Não posso encaral-o; adeus. - -D. HELENA - -Cecilia! (_D. Cecilia sae._) - - -SCENA IX - -D. HELENA, BARÃO - -BARÃO, _á porta_. - -Perdão, minha senhora; eu trazia um livro ha pouco... - -D. HELENA, _com o livro na mão_. - -Será este? - -BARÃO, _caminhando para ella_. - -Justamente. - -D. HELENA - -Escripto em sueco, penso eu... - -BARÃO - -Em sueco. - -D. HELENA - -Trata naturalmente de botanica. - -BARÃO - -Das gramineas. - -D. HELENA, _com interesse_. - -Das gramineas! - -BARÃO - -De que se espanta? - -D. HELENA - -Um livro publicado... - -BARÃO - -Ha quatro mezes. - -D. HELENA - -Premiado pela Academia de Stockolmo? - -BARÃO, _admirado_. - -É verdade. Mas... - -D. HELENA - -Que pena que eu não saiba sueco! - -BARÃO - -Tinha noticia do livro? - -D. HELENA - -Certamente. Ando anciosa por lel-o. - -BARÃO - -Perdão, minha senhora. Sabe botanica? - -D. HELENA - -Não ouso dizer que sim, estudo alguma cousa; leio quando posso. É -sciencia profunda e encantadora. - -BARÃO, _com calor_. - -É a primeira de todas. - -D. HELENA - -Não me atrevo a apoial-o, porque nada sei das outras, e poucas luzes -tenho de botanica, apenas as que póde dar um estudo solitario e -deficiente. Se a vontade supprisse o talento... - -BARÃO - -Porque não? _Le génie, c'est la patience_, dizia Buffon. - -D. HELENA, _sentando-se_. - -Nem sempre. - -BARÃO - -Realmente, estava longe de suppôr que, tão perto de mim, uma pessoa tão -distincta dava algumas horas vagas ao estudo da minha bella sciencia. - -D. HELENA - -Da sua esposa. - -BARÃO, _sentando-se_. - -É verdade. Um marido póde perder a mulher, e se a amar devéras, nada a -compensará neste mundo, ao passo que a sciencia não morre... Morremos -nós, ella sobrevive com todas as graças do primeiro dia, ou ainda -maiores, porque cada descoberta é um encanto novo. - -D. HELENA - -Oh! tem razão! - -BARÃO - -Mas, diga-me V. Ex.: tem feito estudo especial das gramineas. - -D. HELENA - -Por alto... por alto... - -BARÃO - -Comtudo, sabe que a opinião dos sabios não admittia o periantho... -(_D. Helena faz signal affirmativo._) Posteriormente reconheceu-se a -existencia do periantho. (_Novo gesto de D. Helena._) Pois este livro -refuta a segunda opinião. - -D. HELENA - -Refuta o periantho? - -BARÃO - -Completamente. - -D. HELENA - -Acho temeridade. - -BARÃO - -Tambem eu suppunha isso... Li-o, porém, e a demonstração é clarissima. -Tenho pena que não possa lel-o. Se me dá licença, farei uma traducção -portugueza e daqui a duas semanas... - -D. HELENA - -Não sei se deva acceitar... - -BARÃO - -Acceite; é o primeiro passo para me não recusar segundo pedido. - -D. HELENA - -Qual? - -BARÃO - -Que me deixe acompanhal-a em seus estudos, repartir o pão do saber -com V. Ex. É a primeira vez que a fortuna me depara uma discipula. -Discipula é, talvez, ousadia da minha parte... - -D. HELENA - -Ousadia, não; eu sei muito pouco; posso dizer que não sei nada. - -BARÃO - -A modestia é o aroma do talento, como o talento é o esplendor da graça. -V. Ex. possue tudo isso. Posso comparal-a á violeta,--_viola odorata_ -de Linneo,--que é formosa e recatada... - -D. HELENA, _interrompendo_ - -Pedirei licença á minha tia. Quando será a primeira licção? - -BARÃO - -Quando quizer. Póde ser amanhã. Tem certamente noticia da anatomia -vegetal... - -D. HELENA - -Noticia incompleta. - -BARÃO - -Da physiologia? - -D. HELENA - -Um pouco menos. - -BARÃO - -Nesse caso, nem a taxonomia, nem a phytographia... - -D. HELENA - -Não fui até lá. - -BARÃO - -Mas ha de ir... Verá que mundos novos se lhe abrem deante do espirito. -Estudaremos, uma por uma, todas as familias, as orchideas, as -jasmineas, as rubiaceas, as oleaceas, as narciseas, as umbelliferas, -as... - -D. HELENA - -Tudo, desde que se trata de flores. - -BARÃO - -Comprehendo: amor de familia. - -D. HELENA - -Bravo! um comprimento! - -BARÃO, _folheando o livro_. - -A sciencia os permitte. - -D. HELENA, _áparte_. - -O mestre é perigoso. (_Alto._) Tinham-me dito exactamente o contrario; -disseram-me que o Sr Barão era... não sei como diga... era... - -BARÃO - -Talvez um urso. - -D. HELENA - -Pouco mais ou menos. - -BARÃO - -E sou. - -D. HELENA - -Não creio. - -BARÃO - -Porque não crê? - -D. HELENA - -Porque o vejo amavel. - -BARÃO - -Supportavel apenas. - -D. HELENA - -Demais, imaginava-o uma figura muito differente, um velho macillento, -melenas caídas, olhos encovados. - -BARÃO - -Estou velho, minha senhora. - -D. HELENA - -Trinta e seis annos. - -BARÃO - -Trinta e nove. - -D. HELENA - -Plena mocidade. - -BARÃO - -Velho para o mundo. Que posso eu dar ao mundo senão a minha prosa -scientifica? - -D. HELENA - -Só uma cousa lhe acho inacceitavel. - -BARÃO - -Que é? - -D. HELENA - -A theoria de que o amor e a sciencia são incompativeis. - -BARÃO - -Oh! isso... - -D. HELENA - -Dá-se o espirito á sciencia e o coração ao amor. São territorios -differentes, ainda que limitrophes. - -BARÃO - -Um acaba por annexar o outro. - -D. HELENA - -Não creio. - -BARÃO - -O casamento é uma bella cousa, mas o que faz bem a uns, póde fazer -mal a outros. Sabe que Mafoma não permitte o uso do vinho aos seus -sectarios. Que fazem os turcos? Extraem o succo de uma planta, da -familia das papaveraceas, bebem-no, e ficam alegres. Esse licor, se nós -o bebessemos, matar-nos-hia. O casamento, para nós, é o vinho turco. - -D. HELENA, _erguendo os hombros_. - -Comparação não é argumento. Demais, houve e ha sabios casados. - -BARÃO - -Que seriam mais sabios se não fossem casados. - -D. HELENA - -Não fale assim. A esposa fortifica a alma do sabio. Deve ser um quadro -delicioso para o homem que despende as suas horas na investigação da -natureza, fazel-o ao lado da mulher que o ampara e anima, testemunha de -seus esforços, socia de suas alegrias, attenta, dedicada, amorosa. Será -vaidade de sexo? Póde ser, mas eu creio que o melhor premio do merito é -o sorriso da mulher amada. O applauso publico é mais ruidoso, mas muito -menos tocante que a approvação domestica. - -BARÃO, _depois de um instante de hesitação e luta_. - -Falemos da nossa licção. - -D. HELENA - -Amanhã, se minha tia consentir. (_Levanta-se_) Até amanhã, não? - -BARÃO - -Hoje mesmo, se o ordenar. - -D. HELENA - -Acredita que não perderei o tempo? - -BARÃO - -Estou certo que não. - -D. HELENA - -Serei academica de Stockolmo? - -BARÃO - -Conto que terei essa honra. - -D. HELENA, _cortejando_. - -Até amanhã. - -BARÃO, _o mesmo_. - -Minha senhora! (_D. Helena sae pelo fundo, esquerda, o barão caminha -para a direita, mas volta para buscar o livro que ficára sobre a -cadeira ou sophá_). - - -SCENA X - -BARÃO, D. LEONOR - -BARÃO, _pensativo_. - -Até amanhã! Devo eu cá voltar? Talvez não devesse, mas é interesse -da sciencia... a minha palavra empenhada... O peior de tudo é que a -discipula é graciosa e bonita. Nunca tive discipula, ignoro até que -ponto é perigoso... Ignoro? Talvez não... (_Põe a mão no peito_) -Que é isto?... (_Resoluto_). Não, sicambro! Não has de adorar o que -queimaste! Eia, volvamos ás flores e deixemos esta casa para sempre. -(_Entra D. Leonor_) - -D. LEONOR, _vendo o barão_. - -Ah! - -BARÃO - -Voltei ha dous minutos; vim buscar este livro. (_Comprimentando_) Minha -senhora! - -D. LEONOR - -Senhor Barão! - -BARÃO, _vae até á porta, e volta_. - -Creio que V. Ex. não me fica querendo mal? - -D. LEONOR - -Certamente que não. - -BARÃO, _comprimentando_. - -Minha senhora! - -LEONOR, _idem_. - -Senhor Barão! - -BARÃO, _vae até á porta e volta_. - -A senhora D. Helena não lhe falou agora? - -D. LEONOR - -Sobre quê? - -BARÃO - -Sobre umas licções de botanica... - -D. LEONOR - -Não me falou em nada... - -BARÃO, _comprimentando_. - -Minha senhora! - -D. LEONOR, _idem_. - -Senhor Barão! (_Barão sae._) Que exquisitão. Valia a pena cultival-o de -perto. - -BARÃO, _reapparecendo_. - -Perdão... - -D. LEONOR - -Ah!--Que manda? - -BARÃO, _approxima-se_. - -Completo a minha pergunta. A sobrinha de V. Ex. falou-me em receber -algumas licções de botanica. V. Ex. consente? (_Pausa._) Ha de -parecer-lhe exquisito este pedido, depois do que tive a honra de -fazer-lhe ha pouco... - -D. LEONOR - -Sr. Barão, no meio de tantas copias e imitações humanas... - -BARÃO - -Eu acabo: sou original. - -D. LEONOR - -Não ouso dizel-o. - -BARÃO - -Sou; noto, entretanto, que a observação de V. Ex. não responde á minha -pergunta. - -D. LEONOR - -Bem sei; por isso mesmo é que a fiz. - -BARÃO - -Nesse caso... - -D. LEONOR - -Nesse caso, deixe-me reflectir. - -BARÃO - -Cinco minutos? - -D. LEONOR - -Vinte e quatro horas. - -BARÃO - -Nada menos? - -D. LEONOR - -Nada menos. - -BARÃO, _comprimentando_. - -Minha senhora! - -D. LEONOR, _idem_. - -Senhor Barão! (_Sae o barão._) - - -SCENA XI - -D. LEONOR, D. CECILIA - -D. LEONOR - -Singular é elle, mas não menos singular é a idéa de Helena. Para que -quererá ella aprender botanica? - -D. CECILIA, _entrando_. - -Helena! (_D. Leonor volta-se._) Ah! é titia. - -D. LEONOR - -Sou eu. - -D. CECILIA - -Onde está Helena? - -D. LEONOR - -Não sei, talvez lá em cima (_D. Cecilia dirige-se para o fundo._) Onde -vaes?... - -D. CECILIA - -Vou... - -D. LEONOR - -Acaba. - -D. CECILIA - -Vou concertar o penteado. - -D. LEONOR - -Vem cá; concerto eu. (_D. Cecilia approxima-se de D. Leonor_) Não é -preciso, está excellente. Dize-me: estás muito triste! - -D. CECILIA, _muito triste_ - -Não, senhora; estou alegre. - -D. LEONOR - -Mas, Helena disse-me que tu... - -D. CECILIA - -Foi gracejo. - -D. LEONOR - -Não creio; tens alguma cousa que te afflige; has de contar-me tudo. - -D. CECILIA - -Não posso. - -D. LEONOR - -Não tens confiança em mim? - -D. CECILIA - -Oh! toda! - -D. LEONOR - -Pois eu exijo... (_Vendo Helena, que apparece á porta do fundo, -esquerda_) Ah! chegas a proposito. - - -SCENA XII - -D. LEONOR, D. CECILIA, D. HELENA - -D. HELENA - -Para que? - -D. LEONOR - -Explica-me que historia é essa que me contou o Barão? - -D. CECILIA, _com curiosidade_. - -O Barão? - -D. LEONOR - -Parece que estás disposta a estudar botanica. - -D. HELENA - -Estou. - -D. CECILIA, _sorrindo_ - -Com o Barão? - -D. HELENA - -Com o Barão. - -D. LEONOR - -Sem o meu consentimento? - -D. HELENA - -Com o seu consentimento. - -D. LEONOR - -Mas de que te serve saber botanica? - -D. HELENA - -Serve para conhecer as flores dos meus _bouquets_, para não confundir -jasmineas com rubiaceas, nem bromelias com umbelliferas. - -D. LEONOR - -Com que? - -D. HELENA - -Umbelliferas. - -D. LEONOR - -Umbe... - -D. HELENA - -...liferas. Umbelliferas. - -D. LEONOR - -Virgem santa! E que ganhas tu com esses nomes barbaros? - -D. HELENA - -Muita cousa. - -D. CECILIA, _áparte_ - -Boa Helena! Comprehendo tudo. - -D. HELENA - -O periantho, por exemplo: a senhora talvez ignore a questão do -periantho... a questão das gramineas... - -D. LEONOR - -E dou graças a Deus! - -D. CECILIA, _animada_ - -Oh! deve ser uma questão importantissima! - -D. LEONOR, _espantada_. - -Tambem tu! - -D. CECILIA - -Só o nome! Periantho! É nome grego, titia; um delicioso nome grego. -(_Áparte._) Estou morta por saber do que se trata. - -D. LEONOR - -Vocês fazem-me perder o juizo! Aqui andam bruxas, de certo. Periantho -de um lado, bromelias de outro; uma lingua de gentios, avessa á gente -christã. Que quer dizer tudo isso? - -D. CECILIA - -Quer dizer que a sciencia é uma grande cousa, e que não ha remedio -senão adorar a botanica. - -D. LEONOR - -Que mais? - -D. CECILIA - -Que mais? Quer dizer que a noite de hoje ha de estar deliciosa, -e podemos ir ao theatro lyrico. Vamos, sim? Amanhã é o baile do -conselheiro, e sabbado o casamento da Julia Marcondes. Tres dias de -festas! Prometto divertir-me muito, muito, muito. Estou tão contente! -Ria-se, titia; ria-se e dê-me um beijo! - -D. LEONOR - -Não dou, não, senhora. Minha opinião é contra a botanica, e isto mesmo -vou escrever ao Barão. - -D. HELENA - -Reflicta primeiro; basta amanhã! - -D. LEONOR - -Ha de ser hoje mesmo! Esta casa está ficando muito sueca; voltemos a -ser brasileiras. Vou escrever ao urso. Acompanha-me, Cecilia; has de -contar-me o que ha. (_Saem._) - - -SCENA XIII - -D. HELENA, BARÃO - -D. HELENA - -Cecilia deitou tudo a perder... Não se póde fazer nada com creanças... -Tanto peior para ella. (_Pausa_) Quem sabe se tanto melhor para mim? -Póde ser. Aquelle professor não é assaz velho, como convinha. Além -disso, ha nelle um ar de diamante bruto, uma alma apenas coberta pela -crosta scientifica, mas cheia de fogo e luz. Se eu viesse a arder ou -cegar... (_Levanta os hombros_) Que idéa! Não passa de um urso, como -titia lhe chama, um urso com patas de rosas. - -BARÃO, _approximando-se_. - -Perdão, minha senhora. Ao atravessar a chacara, ia pensando no nosso -accordo, e, sinto dizel-o, mudei de resolução. - -D. HELENA - -Mudou? - -BARÃO, _approximando-se_ - -Mudei. - -D. HELENA - -Póde saber-se o motivo? - -BARÃO - -São tres. O primeiro é o meu pouco saber... Ri-se? - -D. HELENA - -De incredulidade. O segundo motivo... - -BARÃO - -O segundo motivo é o meu genio aspero e despotico. - -D. HELENA - -Vejamos o terceiro. - -BARÃO - -O terceiro é a sua edade. Vinte e um annos, não? - -D. HELENA - -Vinte e dous. - -BARÃO - -Solteira? - -D. HELENA - -Viuva. - -BARÃO - -Perpetuamente viuva? - -D. HELENA - -Talvez. - -BARÃO - -Nesse caso, quarto motivo: a sua viuvez perpetua. - -D. HELENA - -Conclusão: todo o nosso accordo está desfeito. - -BARÃO - -Não digo que esteja; só por mim não o posso romper. V. Ex. porém -avaliará as razões que lhe dou, e decidirá se elle deve ser mantido. - -D. HELENA - -Supponha que respondo affirmativamente. - -BARÃO - -Paciencia! obedecerei. - -D. HELENA - -De má vontade? - -BARÃO - -Não; mas com grande desconsolação. - -D. HELENA - -Pois, Sr. Barão, não desejo violental-o; está livre. - -BARÃO - -Livre, e não menos desconsolado. - -D. HELENA - -Tanto melhor! - -BARÃO - -Como assim? - -D. HELENA - -Nada mais simples: vejo que é caprichoso e incoherente. - -BARÃO - -Incoherente, é verdade. - -D. HELENA - -Irei procurar outro mestre. - -BARÃO - -Outro mestre! Não faça isso. - -D. HELENA - -Porque? - -BARÃO - -Porque... (_Pausa_) V. Ex. é intelligente bastante para dispensar -mestres. - -D. HELENA - -Quem lh'o disse? - -BARÃO - -Adivinha-se. - -D. HELENA - -Bem; irei queimar os olhos nos livros. - -BARÃO - -Oh! seria estragar as mais bellas flores do mundo! - -D. HELENA, _sorrindo_ - -Mas então nem mestres nem livros? - -BARÃO - -Livros, mas applicação moderada. A sciencia não se colhe de afogadilho; -é preciso penetral-a com segurança e cautella. - -D. HELENA - -Obrigada. (_Estendendo-lhe a mão_) E visto que me recusa as suas -licções, adeus. - -BARÃO - -Já! - -D. HELENA - -Pensei que queria retirar-se. - -BARÃO - -Queria e custa-me. Em todo o caso, não desejava sair sem que V. Ex. me -dissesse francamente o que pensa de mim. Bem ou mal? - -D. HELENA - -Bem e mal. - -BARÃO - -Pensa então... - -D. HELENA - -Penso que é intelligente e bom, mas caprichoso e egoista. - -BARÃO - -Egoista! - -D. HELENA - -Em toda a força da expressão. (_Senta-se_) Por egoismo,--scientifico, -é verdade,--oppõe-se ás affeições de seu sobrinho; por egoismo, -recusa-me as suas licções. Creio que o Sr. Barão nasceu para mirar-se -no vasto espelho da natureza, a sós comsigo, longe do mundo e seus -enfados. Aposto que, desculpe a indiscreção da pergunta,--aposto que -nunca amou? - -BARÃO - -Nunca. - -D. HELENA - -De maneira que nunca uma flor teve a seus olhos outra applicação, além -do estudo? - -BARÃO - -Engana-se. - -D. HELENA - -Sim? - -BARÃO - -Depositei algumas coroas de goivos no tumulo de minha mãe. - -D. HELENA - -Ah! - -BARÃO - -Ha em mim alguma cousa mais do que eu mesmo. Ha a poesia das affeições -por baixo da prova scientifica. Não a ostento, é verdade; mas sabe -V. Ex. o que tem sido a minha vida? Um claustro. Cedo perdi o que -havia mais caro: a familia. Desposei a sciencia, que me tem servido -de alegrias, consolações e esperanças. Deixemos, porém, tão tristes -memorias... - -D. HELENA - -Memorias de homem; até aqui eu só via o sabio. - -BARÃO - -Mas o sabio reapparece e enterra o homem. Volto á vida vegetativa... -se me é licito arriscar um trocadilho em portuguez, que eu não sei bem -se o é. Póde ser que não passe de apparencia. Todo eu sou apparencias, -minha senhora, apparencias de homem, de linguagem e até de sciencia... - -D. HELENA - -Quer que o elogie? - -BARÃO - -Não; desejo que me perdôe. - -D. HELENA - -Perdoar-lhe o que? - -BARÃO - -A incoherencia de que me accusava ha pouco. - -D. HELENA - -Tanto perdôo que o imito. Mudo egualmente de resolução, e dou de mão ao -estudo. - -BARÃO - -Não faça isso! - -D. HELENA - -Não lerei uma só linha de botanica, que é a mais aborrecivel sciencia -do mundo. - -BARÃO - -Mas o seu talento... - -D. HELENA - -Não tenho talento; tinha curiosidade. - -BARÃO - -É a chave do saber. - -D. HELENA - -Que monta isso? A porta fica tão longe! - -BARÃO - -É certo, mas o caminho é de flores. - -D. HELENA - -Com espinhos. - -BARÃO - -Eu lhe quebrarei os espinhos. - -D. HELENA - -De que modo? - -BARÃO - -Serei seu mestre. - -D. HELENA, _levanta-se_ - -Não! Respeito os seus escrupulos. Subsistem, penso eu, os motivos que -allegou. Deixe-me ficar na minha ignorancia. - -BARÃO - -É a ultima palavra de V. Ex. - -D. HELENA - -Ultima. - -BARÃO, _com ar de despedida_ - -Nesse caso... aguardo as suas ordens. - -D. HELENA - -Que se não esqueça de nós. - -BARÃO - -Crê possivel que me esquecesse? - -D. HELENA - -Naturalmente: um conhecimento de vinte minutos. - -BARÃO - -O tempo importa pouco ao caso. Não me esquecerei nunca mais destes -vinte minutos, os melhores da minha vida, os primeiros que hei -realmente vivido. A sciencia não é tudo, minha senhora. Ha alguma cousa -mais, além do espirito, alguma cousa essencial ao homem, e... - -D. HELENA - -Repare, Sr. Barão, que está falando á sua ex-discipula. - -BARÃO - -A minha ex-discipula tem coração, e sabe que o mundo intellectual -é estreito para conter o homem todo; sabe que a vida moral é uma -necessidade do ser pensante. - -D. HELENA - -Não passemos da botanica á philosophia, nem tanto á terra, nem tanto ao -ceu. O que o sr. Barão quer dizer, em boa e mediana prosa, é que estes -vinte minutos de palestra não o enfadaram de todo. Eu digo a mesma -cousa. Pena é que fossem só vinte minutos, e que o Sr. Barão volte ás -suas amadas plantas; mas é força ir ter com ellas, não quero tolher-lhe -os passos. Adeus! (_Inclinando-se como a despedir-se_) - -BARÃO _comprimentando_ - -Minha senhora! (_Caminha até á porta e pára._) Não transporei mais esta -porta? - -D. HELENA - -Já a fechou por suas proprias mãos. - -BARÃO - -A chave está nas suas. - -D. HELENA, _olhando para as mãos_ - -Nas minhas? - -BARÃO _approximando-se_ - -De certo. - -D. HELENA - -Não a vejo. - -BARÃO - -É a esperança. Dê-me a esperança de que... - -D. HELENA _depois de uma pausa_ - -A esperança de que... - -BARÃO - -A esperança de que... a esperança de... - -D. HELENA, _que tem tirado uma flor de um vaso_ - -Creio que lhe será mais facil definir esta flor. - -BARÃO - -Talvez. - -D. HELENA - -Mas não é preciso dizer mais: adivinhei-o. - -BARÃO, _alvoraçado_ - -Adivinhou? - -D. HELENA - -Adivinhei que quer a todo o trance ser meu mestre. - -BARÃO, _friamente_ - -É isso. - -D. HELENA - -Acceito. - -BARÃO - -Obrigado. - -D. HELENA - -Parece-me que ficou triste?... - -BARÃO - -Fiquei, pois que só adivinhou metade do meu pensamento. Não adivinhou -que eu... porque o não direi? dil-o-hei francamente... Não adivinhou -que... - -D. HELENA - -Que... - -BARÃO, _depois de alguns esforços para falar_. - -Nada... nada... - -D. LEONOR, _dentro_ - -Não admitto! - - -SCENA XIV - -D. HELENA, BARÃO, D. LEONOR, D. CECILIA - -D. CECILIA, _entrando pelo fundo com D. Leonor_ - -Mas, titia... - -D. LEONOR - -Não admitto, já disse! Não te faltam casamentos. (_Vendo o Barão._) -Ainda aqui! - -BARÃO - -Ainda e sempre, minha senhora. - -D. LEONOR - -Nova originalidade. - -BARÃO - -Oh! não! A cousa mais vulgar do mundo. Reflecti, minha senhora, e venho -pedir para meu sobrinho a mão de sua encantadora sobrinha. (_Gesto de -Cecilia_) - -D. LEONOR - -A mão de Cecilia! - -D. CECILIA - -Que ouço! - -BARÃO - -O que eu lhe pedia ha pouco era uma extravagancia, um acto de egoismo -e violencia, além de descortezia que era, e que V. Ex. me perdôou, -attendendo á singularidade das minhas maneiras. Vejo tudo isso agora... - -D. LEONOR - -Não me opponho ao casamento, se fôr do agrado de Cecilia. - -D. CECILIA, _baixo a D. Helena_. - -Obrigada! Foste tu... - -D. LEONOR - -Vejo que o Sr. Barão reflectiu. - -BARÃO - -Não foi só reflexão, foi tambem resolução. - -D. LEONOR - -Resolução? - -BARÃO, _gravemente_ - -Minha senhora, atrevo-me a fazer outro pedido. - -D. LEONOR - -Ensinar botanica a Helena? Já me deu vinte e quatro horas para -responder. - -BARÃO - -Peço-lhe mais do que isso; V. Ex. que é, por assim dizer, irmã mais -velha de sua sobrinha, póde intervir junto della para... (_Pausa_) - -D. LEONOR - -Para... - -D. HELENA - -Acabo eu. O que o Sr. Barão deseja é a minha mão. - -BARÃO - -Justamente! - -D. LEONOR, _espantada_ - -Mas... Não comprehendo nada. - -BARÃO - -Não é preciso comprehender; basta pedir. - -D. HELENA - -Não basta pedir; é preciso alcançar. - -BARÃO - -Não alcançarei? - -D. HELENA - -Dê-me tres mezes de reflexão. - -BARÃO - -Tres mezes é a eternidade. - -D. HELENA - -Uma eternidade de noventa dias. - -BARÃO - -Depois della, a felicidade ou o desespero? - -D. HELENA, _estendendo-lhe a mão_ - -Está nas suas mãos a escolha. (_A D. Leonor_) Não se admire tanto, -titia; tudo isto é botanica applicada. - - - - -Notas - -Os erros óbvios do editora foram corrigidos. - -O Indice foi realocado ao inicio para facilitar a navegaçäõ. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK RELIQUIAS DE CASA VELHA *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. 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Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. 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