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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: O Guarany: - romance brazileiro Vol. 02 (of 2) - -Author: José Martiniano de Alencar - -Release Date: March 28, 2022 [eBook #67725] - -Language: Portuguese - -Produced by: Laura Natal Rodrigues and Kristen Carmean (Images - generously made available by Hathi Trust Digital Library.) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O GUARANY: *** - - -J. DE ALENCAR - - - - -O - -GUARANY - - -ROMANCE BRAZILEIRO - - - - -QUINTA EDIÇÃO - - - - -TOMO SEGUNDO - - - - -RIO DE JANEIRO - -B.-L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR - -71, RUA DO OUVIDOR, 71 - -PARIS.--E. MELLIER, 17, RUA SÉGUIER. - -Ficão reservados os direitos de propriedade. - -1883 - - - - -INDICE -TERCEIRA PARTE -OS AYMORÉS -I.--A Partida........................................ 3 -II.--Preparativos.................................... 15 -III.--Verme e flôr................................... 27 -IV.--Na treva........................................ 39 -V.--Deos dispõe...................................... 51 -VI.--Revolta......................................... 65 -VII.--Os selvagens................................... 77 -VIII.--Desanimo...................................... 89 -IX.--Esperança....................................... 99 -X.--Na brecha........................................ 111 -XI.--O frade......................................... 121 -XII.--Desobediencia.................................. 131 -XIII.--Combate....................................... 141 -XIV.--O prisioneiro.................................. 151 -QUARTA PARTE -A CATASTROPHE -I.--Arrependimento................................... 163 -II.--O sacrificio.................................... 173 -III.--Sortida........................................ 185 -IV.--Revelação....................................... 197 -V.--O paiol.......................................... 207 -VI.--Tregoa.......................................... 217 -VII.--Peleja......................................... 227 -VIII.--Noiva......................................... 238 -IX.--O castigo....................................... 247 -X.--Christão......................................... 257 -XI.--Epilogo......................................... 269 -Notas................................................ 327 - - - - -TERCEIRA PARTE - - -OS AYMORÉS - - - - -I - -A PARTIDA - - -Na segunda-feira, erão seis horas da manhã, quando D. Antonio de Mariz -chamou seu filho. - -O velho fidalgo velara uma boa parte da noite; ou escrevendo ou -reflectindo sobre os perigos que ameaçavão sua familia. - -Pery lhe havia contado todas as particularidades de seu encontro com os -Aymorés; e o cavalheiro, que conhecia a ferocidade e espirito vingativo -dessa raça selvagem, esperava a cada momento ser atacado. - -Por isso, de acordo com Alvaro, D. Diogo, com seu escudeiro Ayres Gomes, -tinha tomado todas as medidas de precaução que as circumstancias e sua -longa experiencia lhe aconselhavão. - -Quando seu filho entrou, o velho fidalgo acabava de sellar duas cartas -que escrevêra na vespera. - ---Meu filho, disse elle com uma ligeira emoção, reflecti essa noite -sobre o que nos pode acontecer, e assentei que deves partir hoje mesmo -para S. Sebastião. - ---Não é possivel, senhor!... Afastais-me de vós justamente quando -correis um perigo? - ---Sim! É justamente quando um grande perigo nos ameaça, que eu, chefe -da casa, entendo ser do meu dever salvar o representante do meu nome e -meu herdeiro legitimo, o protector de minha familia orphã. - ---Confio em Deos, meu pai, que vossos receios serão infundados; mas se -elle nos quizesse submetter a tal provança, o unico lugar que compete a -vosso filho e herdeiro de vosso nome é nesta casa ameaçada, ao vosso -lado, para defender-vos e partilhar a vossa sorte, qualquer que ella -seja. - -D. Antonio apertou seu filho ao peito. - ---Eu te reconheço; tu és meu filho; é o meu sangue juvenil que gyra -em tuas veias, e o meu coração de moço que falla pelos teus labios. -Deixa porém que os cincoenta annos de experiencia que desde então -passárão sobre minha cabeça encanecida te ensinem o que vai da -mocidade á velhice, o que vai do ardente cavalheiro ao pai de uma -familia. - ---Eu vos escuto, senhor; mas pelo amor que vos consagro poupai-me a dôr -e a vergonha de deixar-vos no momento em que mais precisais de um -servidor fiel e dedicado. - -O fidalgo proseguio já calmo: - ---Não é uma espada, D. Diogo, que nos dará a victoria, fosse ella -valente e forte como a vossa: entre quarenta combatentes que vão se -medir talvez contra centenas e centenas de inimigos, um de mais ou de -menos não importa ao resultado. - ---Que assim seja, respondeu o cavalheiro com energia; reclamo o meu -posto de honra, e a minha parte do perigo; não vos ajudarei a vencer, -porém morrerei junto dos meus. - ---E é por esse nobre mas esteril orgulho que quereis sacrificar o unico -meio de salvação que talvez nos reste, se, como temo, as minhas -previsões se realisarem? - ---Que dizeis, senhor? - ---Qualquer que seja a força e o numero de inimigos, conto que o valor -portuguez e a posição desta casa me ajudarão a resistir-lhes por -algum tempo, por vinte dias, mesmo por um mez; mas por fim teremos de -succumbir. - ---Então?... exclamou D. Diogo pallido. - ---Então, se meu filho D. Diogo, em vez de ficar nesta casa por uma -obstinação imprudente, tiver ido ao Rio de Janeiro, e pedido o auxilio -que fidalgos portuguezes não lhe recusarão de certo, poderá voar em -socorro de seu pai, e chegar com tempo para defender sua familia. Então -verá que esta gloria de ser o salvador de sua casa vale bem a honra de -um perigo inutil. - -D. Diogo deitou o joelho em terra, e beijou com ternura a mão do -fidalgo: - ---Perdão, meu pai, por não vos ter comprehendido. Eu devia adivinhar -que D. Antonio de Mariz não pode querer para o filho senão o que é -digno do pai. - ---Vamos, D. Diogo, não ha tempo a perder. Lembrai-vos que uma hora, um -minuto de tardança talvez tenha de ser contado anciosamente por -aquelles que vão esperar-vos. - ---Parto neste instante, disse o cavalheiro dirigindo-se á porta. - ---Tomai; esta carta é para Martim de Sá, governador desta capitania; -esta outra é para meu cunhado e vosso tio Crispim Tenreiro, valente -fidalgo que vos poupará o trabalho de procurardes defensores para vossa -familia. Ide despedir-vos de vossa mãi e vossas irmãs: eu farei tudo -preparar para a partida. - -O fidalgo, reprimindo a sua emoção, sahio do gabinete onde se passava -esta scena, e foi ter com Alvaro que o procurava. - ---Alvaro, escolhei quatro homens que acompanhem D. Diogo ao Rio de -Janeiro. - ---D. Diogo parte?... perguntou o moço admirado. - ---Sim, depois vos direi as razões. Por agora dai-vos pressa em que tudo -esteja prompto dentro de uma hora. - -Alvaro dirigio-se immediatamente ao fundo da casa onde habitavão os -aventureiros. - -Havia ahi grande agitação: uns fallavão em tom de queixa, outros -murmuravão apenas palavras entrecortadas; e alguns finalmente rião e -motejavão do descontentamento de seus companheiros. - -Ayres Gomes com todo o seu arreganho militar passeava no meio do -terreiro, a mão no punho da espada, a cabeça alta e o bigode -retorcido. Quando o escudeiro passava, a voz dos aventureiros descia -dous tons; mas á medida que elle se afastava, cada um dava livre -desabafo ao seu máo humor. - -Entre os mais inquietos et turbulentos distinguião-se tres grupos -presididos por personagens de nosso conhecimento: Loredano, Ruy Soeiro e -Bento Simões. - -A causa desse descontentamento quasi geral era a seguinte: - -Por volta de seis horas da manhã, Ruy, em virtude do emprazamento da -vespera, dirigio-se o primeiro á escada para ganhar o matto. - -Chegando ao fim da esplanada admirou-se de ver ahi Vasco Alphonso e -Martim Vaz de vigia, o que era extraordinario; pois só á noite se -usava de uma tal precaução, e esta cessava apenas amanhecia. - -Ainda mais admirado porém ficou quando os dous aventureiros, cruzando -as espadas, proferirão quasi ao mesmo tempo estas palavras: - ---Não se passa. - ---E por que razão? - ---É a ordem, respondeu Martim Vaz. - -Ruy empallideceu, e voltou apressadamente; a primeira idéa que lhe -acudio foi que os tinhão denunciado, e cuidou em prevenir a Loredano. - -Ayres Gomes porém embargou-lhe o passo, e dirigio-se com elle para o -terreiro: ahi o digno escudeiro desempenando o corpo, e levando a mão -á bocca em fórma de busina, gritou: - -Olá! Á frente toda a banda! - -Os aventureiros chegárão-se formando um circulo ao redor de Ayres -Gomes; Ruy já tinha tido occasião de lançar uma palavra ao ouvido do -italiano; e ambos, um pouco pallidos mas resolutos, esperavão o -desfecho daquella scena. - ---O Sr. D. Antonio de Mariz, disse o escudeiro, por meu intermedio vos -faz saber a sua vontade, e manda que ninguem se afaste um passo da casa -sem sua ordem. Quem o contrario fizer pereça morte natural. - -Um silencio morno acolheu a enunciação desta ordem; Loredano trocou -uma vista rapida com os seus dous complices. - ---Estais entendidos? disse Ayres Gomes. - ---O que nem eu, nem meus companheiros entendemos é a razão disto, -retrucou o italiano avançando um passo. - ---Sim; a razão? exclamou em coro a maioria dos aventureiros. - ---As ordens cumprem-se, e não se discutem, respondeu o escudeiro com -uma certa solemnidade. - ---Comtudo nós... ia dizendo Loredano. - ---Toca a debandar! gritou Ayres Gomes. Aquelle que não estiver -contente, que o diga ao Sr. D. Antonio de Mariz. - -E o escudeiro com uma fleugma imperturbavel rompeu o circulo, e começou -a passear pelo terreiro olhando de travez os aventureiros, e rindo á -sorrelfa do seu desapontamento. - -Quasi todos estavão contrariados; sem fallar dos conspiradores que se -havião emprazado para concertarem seu plano de campanha, os outros, -cujo divertimento era caçar e bater os mattos, não recebião a ordem -com prazer. Apenas alguns de genio mais bonachão e jovial tinhão -tomado a cousa á boa parte, e zombavão da contrariedade que soffrião -seus companheiros. - -Quando Alvaro se aproximou todos os olhos se voltárão para elle, -esperando a explicação do que se passava. - ---Sr. cavalheiro, disse Ayres Gomes, acabo de transmittir a ordem para -que ninguem arrede pé da casa. - ---Bem, respondeu o moço, e continuou dirigindo-se aos aventureiros: -Assim é preciso, meus amigos, estamos ameaçados de um ataque dos -selvagens, e toda a prudencia é pouca nestas occasiões. Não é só a -nossa vida que temos a defender, e essa pouco vale para cada um de nós; -é sim a pessoa daquelle que confia em nosso zelo e coragem, e mais -ainda o socego de uma familia honrada que todos prezamos. - -As nobres palavras do cavalheiro, e a affabilidade do gesto que -suavisava a firmeza de sua voz, serenárão completamente os animos; -todos os descontentes mostrárão-se satisfeitos. - -Apenas Loredano estava desesperado por ser obrigado a retardar a -combinação do seu plano; pois era arriscado tenta-lo em casa, onde o -menor gesto o podia trahir. - -Alvaro trocou poucas palavras com Ayres Gomes, e voltou-se para os -aventureiros: - ---D. Antonio de Mariz precisa de quatro homens dedicados para -acompanharem seu filho D. Diogo á cidade de S. Sebastião. É uma -missão perigosa; quatro homens nestes desertos marchão de perigo em -perigo. Quem de vós se offerece para desempenha-la? - -Vinte homens se adiantárão; o cavalheiro escolheu tres entres elles. - ---Vós sereis o quarto, Loredano. - -O italiano, que se tinha escondido entre os seus companheiros, ficou -como fulminado por estas palavras; sahir naquella occasião da casa era -perder para sempre a sua mais ardente esperança; durante a ausencia -tudo podia se descobrir. - ---Peza-me ser obrigado a negar-me ao serviço que exigis de mim; mas -sinto-me doente, e sem forças para uma viagem. - -O cavalheiro sorrio. - ---Não ha enfermidade que prive um homem de cumprir o seu dever; -sobretudo quando é um homem valente e leal como vós, Loredano. - -Depois abaixou a voz para não ser ouvido pelos outros aventureiros: - ---Se não partis, sereis arcabuzado em uma hora. Esqueceis que tenho a -vossa vida em minha mão, e vos faço esmola mandando-vos sahir desta -casa? - -O italiano comprehendeu que não tinha remedio senão partir; bastava -que o moço o accusasse de ter atirado sobre elle, bastava a palavra de -Alvaro para fazê-lo condemnar pelo chefe e pelos seus proprios -companheiros. - ---Aviai-vos, disse o cavalheiro aos quatro aventureiros escolhidos por -elle; partis em meia hora. - -Alvaro retirou-se. - -Loredano ficou um momento abatido pela fatalidade que pesava sobre elle; -mas a pouco a pouco foi recobrando a calma, animando-se; por fim sorrio. -Para que sorrisse era necessario que alguma inspiração infernal -tivesse subido do centro da terra a essa intelligencia votada ao crime. - -Fez um aceno a Ruy Soeiro, e os dous encaminhárão-se para um cubiculo -que o italiano occupava no fim da esplanada. Ahi conversárão algum -tempo, rapidamente e em voz baixa. - -Forão interrompidos por Ayres Gomes, que bateu com a espada na porta: - ---Eh! lá! Loredano. A cavallo, homem; e boa viagem. - -O italiano abrio a porta, e ia sahir; mas voltou-se para dizer a Ruy -Soeiro: - ---Olhai os homens da guarda; é o principal. - ---Ide tranquillo. - -Alguns minutos depois, D. Diogo, com o coração cerrado e as lagrimas -nos olhos, apertava nos braços sua mãi querida, Cecilia que elle -adorava, e Isabel que já amava tambem como irmã. - -Depois desprendendo-se com um esforço, encaminhou-se apressadamente -para a escada e desceu ao valle; ahi recebeu a benção de seu pai e -abraçando a Alvaro saltou na sella do cavallo, que Ayres Gomes tinha -pela redea. - -A pequena cavalgata partio; com pouco sumia-se na volta do caminho. - - - - -II - -PREPARATIVOS - - -Ao tempo que D. Antonio de Mariz e seu filho conversavão no gabinete, -Pery examinava as suas armas, carregava as pistolas que sua senhora lhe -havia dado na vespera, e sahia da cabana. - -A physionomia do selvagem tinha uma expressão de energia e ardimento, -que revelava resolução violenta, talvez desesperada. - -O que ia fazer, nem elle mesmo sabia. Certo de que o italiano e seus -companheiros se reunirião naquella manhã, contava antes que a reunião -se effectuasse ter mudado inteiramente a face das cousas. - -Só tinha uma vida como dissera; mas essa com a sua agilidade e a sua -força e coragem valia por muitas; tranquillo sobre o futuro pela -promessa de Alvaro, não lhe importava o numero dos inimigos: podia -morrer mas esperava deixar pouco ou talvez nada que fazer ao cavalheiro. - -Sahindo de sua cabana, Pery entrou no jardim: Cecilia estava sentada -n'um tapete de pelles sobre a relva, e amimava ao seio a sua rolinha -predilecta, offerecendo os labios de carmim ás caricias que a ave lhe -fazia com o bico delicado. - -A menina estava pensativa; doce melancolia desvanecia a vivacidade -natural de seu semblante. - ---Tu estás agastada com Pery, senhora? - ---Não, respondeu a menina fitando nelle os grandes olhos azues. Não -quizeste fazer o que eu pedi; tua senhora ficou triste. - -Ella dizia a verdade com a ingénua franqueza da innocencia. Na vespera, -quando se tinha recolhido enfadada pela recusa de Pery, ficara -contrariada. - -Educada no fervor religioso de sua mãi, embora sem os prejuizos que a -razão de D. Antonio corrigira no espirito de sua filha, Cecilia tinha a -fé christã em toda a pureza e santidade. Por isso se affligia com a -idéa de que Pery, a quem votava uma amizade profunda, não salvasse a -sua alma, e não conhecesse o Deus bom e compassivo a quem ella dirigia -suas preces. - -Conhecia que a razão por que sua mãi e os outros desprezavão o indio -era o seu gentilismo; e a menina no seu reconhecimento queria elevar o -amigo e torna-lo digno da estima de todos. - -Eis a razão por que ficara triste; era gratidão por Pery, que -defendera sua vida de tantos perigos, e a quem ella queria retribuir -salvando a sua alma. - -Nesta disposição de espirito, seus olhos cahirão sobre a guitarra -hespanhola que estava em cima da commoda e veio-lhe vontade de cantar. -É cousa singular como a melancolia inspira! Seja por uma necessidade de -expansão, seja porque a musica e a poesia suavisem a dôr, toda a -creatura triste acha no canto um supremo consolo. - -A menina tirou ligeiros preludios do instrumento emquanto repassava na -memoria as letras de alguns soláos e cantigas que sua mãi lhe havia -ensinado. A que lhe acudio mais naturalmente foi a chacara que ouvimos; -havia nessa composição uns longes, um quer que seja que ella não -sabia explicar, mas ia com seus pensamentos. - -Quando acabou de cantar levantou-se, apanhou a flôr de Pery que tinha -atirado ao chão, deitou-a nos cabellos, e fazendo a sua oração da -noite, adormeceu tranquillamente. O ultimo pensamento que roçou a sua -fronte alva foi um voto de gratidão pelo amigo que lhe salvára a vida -naquella manhã. Depois um sorriso adejou sobre seu rosto gracioso, como -se a alma durante o somno dos olhos viesse brincar nos labios -entreabertos. - -O indio, ouvindo as palavras que acabava de proferir Cecilia, sentio que -pela primeira vez tinha causado uma mágoa real á sua senhora. - ---Tu não entendestes Pery, senhora; Pery te pedio que o deixasses na -vida em que nasceu, porque precisa desta vida para servir-te. - ---Como?... Não te entendo! - ---Pery, selvagem, é o primeiro dos seus; só tem uma lei, uma -religião, é sua senhora; Pery, christão, será o ultimo dos teus; -será um escravo, e não poderá defender-te. - ---Um escravo!... Não! serás um amigo. Eu te juro! exclamou a menina -com vivacidade. - -O indio sorrio: - ---Se Pery fosse christão, e um homem quizesse te offender, elle não -poderia mata-lo, porque o teu Deus manda que um homem não mate -outro. Pery selvagem não respeita ninguem; quem offende sua senhora é -seu inimigo, e morre! - -Cecilia, pallida de emoção, olhou o indio, admirada não tanto da -sublime dedicação, como do raciocinio; ella ignorava a conversa que o -indio tivera na vespera com o cavalheiro. - ---Pery te desobedeceu por ti sómente; quando já não correres perigo, -elle virá ajoelhar a teus pés, e beijar a cruz que tu lhe déste. Não -fique zangada! - ---Meu Deus!... murmurou Cecilia pondo os olhos no céo. É possivel que -uma dedicação tamanha não seja inspirada por vossa santa -religião!... - -A alegria serena e doce de sua alma irradiava na physionomia -encantadora: - ---Eu sabia que tu não me negarias o que te pedi; assim não exijo mais; -espero. Lembra-te sómente que no dia em que tu fôres christão, tua -senhora te estimará ainda mais. - ---Não ficas triste? - ---Não; agora estou satisfeita, contente, muito contente! - ---Pery quer pedir-te uma cousa. - ---Dize, o que é? - ---Pery quer que tu risques um papel para elle. - ---Riscar um papel?... - ---Como este que teu pai deo hoje a Pery. - ---Ah! queres que eu escreva? - ---Sim. - ---O que? - ---Pery vai dizer. - ---Espera. - -Ligeira e graciosa, a menina correu á banquinha, e tomando uma folha de -papel e uma pena, fez signal a Pery que se aproximasse. - -Não devia ella satisfazer os desejos do indio, como este satisfazia ás -suas menores fantasias? - ---Vamos: falla, que eu escrevo. - ---Pery a Alvaro, disse o indio. - ---É uma carta ao Sr. Alvaro? perguntou a menina corando. - ---Sim: é para elle. - ---Que vais tu dizer-lhe? - ---Escreve. - -A menina traçou a primeira linha, e depois, por pedido de Pery, o nome -de Loredano e dos seus dous complices. - ---Agora, disse o indio, fecha. - -Cecilia sellou a carta. - ---Entrega á tarde; antes não. - ---Mas que quer isto dizer? perguntou Cecilia sem comprehender. - ---Elle te dirá. - ---Não que eu... - -A menina balbuciou corando estas palavras: ia dizer que não fallaria -ao cavalheiro e arrependeu-se; não queria revelar a Pery o que se tinha -passado. Sabia que se o indio suspeitasse a scena da vespera, odiaria -Isabel e Alvaro, só por lhe terem causado um pezar involuntario. - -Emquanto Cecilia confusa procurava disfarçar o enleio, Pery fitava -nella o seu olhar brilhante; mal pensava a menina que aquelle olhar era -o adeos extremo que o indio lhe dizia. - -Mas para isto fora preciso que adivinhasse o plano desesperado que elle -havia concebido de exterminar naquelle dia todos os inimigos da casa. - -D. Diogo entrou neste momento no quarto de sua irmã: vinha despedir-se -della. - -Quanto a Pery, deixando Cecilia dirigio-se á escada, e achou as mesmas -vigias, que depois embargárão a passagem de Ruy Soeiro. - ---Não se passa, disserão os aventureiros cruzando as espadas. - -O indio levantou os hombros desdenhosamente; e antes que as sentinellas -voltassem a si da sorpreza, tinha mergulhado sob as espadas, e descido a -escada. Então ganhou a matta, examinou de novo as suas armas e esperou; -já estava cansado quando viu passar a pequena calvagata. - -Pery não comprehendeu o que succedia; mas conheceu que o seu plano -tinha abortado. - -Foi ter com Alvaro. - -O cavalheiro explicou-lhe como se aproveitára da ida de D. Diogo ao Rio -de Janeiro para expulsar o italiano sem rumor e sem escandalo. Então o -indio por sua vez contou ao moço o que tinha ouvido na touça de -cardos; o projecto que formára de matar os tres aventureiros naquelle -manhã; e finalmente a carta que lhe escrevêra por intermedio de -Cecilia, para, no caso de succumbir elle, saber o cavalheiro quem erão -os inimigos. - -Alvaro duvidava ainda acreditar em tanta perfidia do italiano. - ---Agora, concluio Pery, é preciso que os dous tambem saião; se -ficarem, o outro póde voltar. - ---Não se animará! disse o cavalheiro. - ---Pery não se engana! Manda sahir os dous. - ---Fica descansado. Fallarei com D. Antonio de Mariz. - -O resto do dia passou tranquillamente; mas a tristeza tinha entrado -nesta casa ainda na vespera tão alegre e feliz; a partida de D. Diogo, -o temor vago que produz o perigo quando se aproxima, e o receio de um -ataque dos selvagens, preoccupavão os moradores do _Paquequer_. - -Os aventureiros dirigidos por D. Antonio, executavão trabalhos de -defesa tornando ainda mais inaccessivel o rochedo em que estava situada -a casa. - -Uns construião palissadas em roda da esplanada; outros arrastavão para -a frente da casa uma colubrina que o fidalgo por excesso de cautela -mandára vir de S. Sebastião havia dous annos. Toda a casa emfim -apresentava um aspecto martial, que indicava a vespera de um combate; D. -Antonio preparava-se para receber dignamente o inimigo. - -Apenas em toda esta casa uma pessoa se conservava alheia ao que se -passava; era Isabel, que só pensava no seu amor. - -Depois de sua confissão, arrancada violentamente ao seu coração por -uma força irresistivel, por um impulso que ella não sabia explicar, a -pobre menina quando se vira só, no seu quarto, á noite, quasi morreu -de vergonha. - -Lembrava-se de suas palavras, e perguntava a si mesma como tivera a -coragem de dizer aquillo, que antes nem mesmo os seus olhos se animavão -a exprimir silenciosamente. Parecia-lhe que era impossivel tornar a ver -Alvaro sem que cada um dos olhares do moço queimasse suas faces e a -obrigasse a esconder o rosto de pejo. - -Entretanto nem por isso seu amor era menos ardente; ao contrario agora -é que a paixão, por muito tempo reprimida, se exacerbava com as lutas -e contrariedades. - -As poucas palavras doces que o moço lhe dirigira, a pressão das mãos, -e o aperto rapido sobre o coração de Alvaro n'um momento de -hallucinação, passavão e repassavão na sua memoria a lodo o momento. - -Seu espirito, como uma borboleta em torno da flor, esvoaçava -constantemente em torno das reminiscencias ainda vivas, como para libar -todo o mel que encerravão aquellas sensações, as primeiras de seu -infeliz amor. - -Nesse mesmo dia de segunda-feira, á tarde, Alvaro encontrou-se um -momento com Isabel na esplanada. - -Ambos ficárão mudos, e corárão. Alvaro ia retirar-se. - ---Sr. Alvaro... balbuciou a moça tremula. - ---Que quereis de mim, D. Isabel? perguntou o moço perturbado. - ---Esqueci-me restituir-vos hontem o que não me pertence. - ---É ainda este malfadada bracelete? - ---Sim, respondeu a moça docemente, é este malfadado bracelete: Cecilia -teima que é elle vosso. - ---Se meu é, vos peço que o aceiteis. - ---Não, Sr. Alvaro, não tenho direito. - ---Uma irmã não tem direito de aceitar a prenda que lhe offerece seu -irmão? - ---Tendes razão, respondeu a moça suspirando, eu o guardarei como -lembrança vossa; não será adorno para mim, senão reliquia. - -O moço não respondeu; retirou-se para cortar a conversa. - -Desde a vespera Alvaro não podia eximir-se á impressão poderosa que -causara nelle a paixão de Isabel; era preciso que não fosse homem para -não se sentir profundamente commovido pelo amor ardente de uma mulher -bella, e pelas palavras de fogo que corrião dos labios de Isabel -impregnadas de perfume e sentimento. - -Mas a razão direita do cavalheiro recalcava essa impressão no fundo do -coração; elle não se pertencia; tinha aceitado o legado de D. Antonio -de Mariz e jurado dar a sua mão a Cecilia. - -Embora não esperasse mais realisar o seu sonho dourado, entendia que -estava rigorosamente obrigado a sujeitar-se á vontade do fidalgo, a -proteger sua filha, a dedicar-lhe sua existência. Quando Cecilia o -repellisse abertamente, e D. Antonio o desobrigasse de sua promessa, -então seu coração seria livre, se não estivesse morto pelo -desengano. - -O unico facto notavel que se deu nesse dia foi a chegada de seis -aventureiros das vizinhanças, que prevenidos por D. Diogo vinhão -offerecer seus serviços a D. Antonio. - -Chegarão ao lusco-fusco; á frente delles vinha o nosso conhecido -mestre Nunes, que um anno antes dera hospitalidade no seu pouso a frei -Angelo di Lucca. - - - - -III - -VERME E FLOR - - -Erão onze horas da noite. - -O silencio reinava na habitação e seus arredores, tudo estava -tranquillo e sereno. Algumas estrellas brilhavão no céo; os sopros -escassos da viração susurravão na folhagem. - -Os dous homens de vigia, apoiados ao arcabuz e reclinados sobre o -alcantil, sondavão a sombra espessa que se estendia pela aba do -rochedo. - -O vulto magestoso de D. Antonio de Mariz passou lentamente pela -esplanada, e desappareceu no canto da casa. O fidalgo fazia a sua ronda -nocturna, como um general na vespera de uma batalha. - -Passados alguns momentos ouvio-se cantar uma coruja no valle, junto da -escada de pedra; uma das vigias abaixou-se, e tomando dous pequenos -seixos deixou-os cahir um depois do outro. - -O som fraco que produzio a quedadas pedras sobre o arvoredo da varzea -foi quasi imperceptivel; seria difficil distingui-lo do rumor do vento -nas folhas. - -Um instante depois um vulto subio ligeiramente a escada, e reunio-se aos -dous homens que fazião a guarda nocturna: - ---Tudo está preparado? - ---Só esperamos por vós. - ---Vamos! não ha tempo a perder. - -Trocadas estas palavras rapidamente entre o que chegava e uma das -vigias, os tres encaminhárão-se com todas as precauções para a -alpendrada em que habitava a banda dos aventureiros. - -Ahi, como no resto da casa, tudo estava calmo e tranquillo; apenas -via-se luzir na soleira da porta do aposento de Ayres Gomes a claridade -de uma luz. - -Um dos tres chegou-se á entrada do alpendre, e esgueirando-se pela -parede perdeu-se na escuridão que havia no interior. - -Os outros dous se dirigirão ao fim da casa, e ahi occultos pela sombra -e pelo angulo que formava um largo pilar do edificio, começárão um -dialogo breve e rapido. - ---Quantos são? perguntou o homem que chegára. - ---Vinte ao todo. - ---Restão-nos? - ---Dezenoze. - ---Bem. A senha? - ---Prata. - ---E o fogo? - ---Prompto. - ---Aonde? - ---Nos quatro cantos. - ---Quantos sobrão? - ---Dous apenas. - ---Seremos nós. - ---Precisais de mim? - ---Sim. - -Houve uma pequena pausa, em que um dos aventureiros parecia reflectir -profundamente emquanto o outro esperava; por fim o primeiro ergueu a -cabeça: - ---Ruy, vós me sois dedicado? - ---Dei-vos a prova. - ---Preciso de um amigo fiel. - ---Contai comigo. - ---Obrigado. - -O desconhecido apertou a mão de seu companheiro. - ---Sabeis que amo uma mulher? - ---Vós m'o dissestes. - ---Sabeis que é mais por essa mulher do que por esse thesouro fabuloso -que concebi este plano horrivel? - ---Não; não o sabia. - ---Pois é a verdade; pouco me importa a riqueza; sêde meu amigo; -servi-me lealmente, e tereis a maior parte do meu thesouro. - ---Fallai; que quereis que eu faça? - ---Um juramento; mas um juramento sagrado, terrivel. - ---Qual dizei! - ---Hoje esta mulher me pertencerá; entretanto se por qualquer acaso eu -vier a morrer, quero que... - -O desconhecido hesitou: - ---Quero que nenhum homem possa ama-la, que nenhum homem possa gozar a -felicidade suprema que ella pode dar. - ---Mas como? - ---Matando-a! - -Ruy sentio um calafrio. - ---Matando-a, para que a mesma cova receba nossos dous corpos; não sei -porque, mas parece-me que ainda cadaver, o contacto desta mulher deve -ser para mim um gozo immenso. - ---Loredano!... exclamou seu companheiro horrorisado. - ---Sois meu amigo e sereis meu herdeiro! disse o italiano agarrando-lhe -convulsivamente no braço. É a minha condição; se recusais, outro -aceitará o thesouro que rejetais! - -O aventureiro estava em luta com dous sentimentos oppostos; mas a -ambição violenta, cega, esvairada, abafou o grito fraco da -consciencia. - ---Jurais? perguntou Loredano. - ---Juro!... respondeu Ruy com a voz estrangulada. - ---Avante então! - -Loredano abrio a porta do seu cubiculo, e voltou algum tempo depois -trazendo uma taboa longa e estreita que collocou sobre o despenhadeiro -como uma especie de ponte suspensa. - ---Ides segurar esta taboa, Ruy. Entrego em vossas mãos a minha vida, e -nisto dou-vos a maior prova de confiança. Basta que deixeis esta -prancha mover-se para que eu me precipite sobre os rochedos. - -O italiano achava-se então no mesmo lugar que na noite da chegada, -algumas braças distante da janella de Cecilia, onde não podia chegar -por causa do angulo que formava o rochedo e o edificio. - -A taboa foi collocada na direcção da janella; a primeira vez tinha-lhe -bastado o seu punhal; agora porém necessitava de um apoio seguro, e do -livre movimento de seus braços. Ruy collocou-se sobre a ponta da taboa, -e segurando-se a um frechai do alpendre manteve immovel sobre o -precipicio essa ponte pensil em que o italiano ia arriscar-se. - -Quanto a este, sem hesitar, tirou as suas armas para ficar mais leve, -descalçou-se, segurou a longa faca entre os dentes, e pôz o pé sobre -a prancha. - ---Esperar-me-heis do outro lado, disse o italiano. - ---Sim, respondeu Ruy com a voz tremula. - -A razão por que a voz de Ruy tremia, era um pensamento diabolico que -começava a fermentar no seu espirito. Lembrou-lhe que tinha na mão -Loredano e o seu segredo; que para vêr-se livre de um e senhor do -outro, bastava afastar o pé e deixar a taboa inclinar sobre o abysmo. - -Entretanto hesitava; não que o remorso anticipado lhe exprobasse o -crime que ia commetter; já tinha-se afundado muito no vicio e na -depravação para recuar. Mas o italiano exercia sobre seus complices -tal prestigio e influencia tão poderosa, que Ruy não podia mesmo nesse -momento esquivar-se a elles. - -Loredano estava suspenso sobre o abysmo pela sua mão; podia salva-lo ou -precipital-o no despenhadeiro; e comtudo dessa posição ainda elle -impunha respeito ao aventureiro. - -Ruy tinha medo: não comprehendia o motivo desse terror irresistivel; -mas o sentia como uma obsessão e um pesadelo. - -No emtanto a imagem da riqueza esplendida, brilhante, radiando galas e -luzimentos, passava diante de seus olhos e o deslumbrava; um pouco de -coragem, e seria o unico senhor do thesouro fabuloso, de cujo segredo -era o italiano depositario. - -Mas coragem é o que lhe faltava; por duas ou tres vezes o aventureiro -teve um impeto de suspender-se ao frechai, e deixar a taboa rolar no -abysmo; não passou de um desejo. - -Venceu a final a tentação. - -Teve um momento de desvario: os joelhos acurvárão-se; a taboa soffreu -uma oscillação tão forte, que Ruy admirou-se como o italiano se tinha -podido suster. - -Então o medo desappareceu; foi substituido por uma especie de raiva e -frenesi que se apoderou do aventureiro; o primeiro esforço lhe dera a -ousadia, como a vista do sangue excita a féra. - -Um segundo abalo mais forte agitou a taboa, que oscillou á borda do -rochedo; porém não se ouvio o baque de um corpo; não se ouvio mais -que o choque da madeira sobre a pedra. Ruy, desesperado, ia soltar a -prancha, quando chegou-lhe ao ouvido, abafada e sumida, a voz do -italiano, que apenas se percebia no silencio profundo da noite. - ---Estais cansado, Ruy?... Podeis tirar a taboa: não preciso mais della. - -O aventureiro ficou espavorido; decididamente esse homem era um espirito -infernal que plainava sobre o abysmo, e escarnecia do perigo; um ente -superiora quem a morte não podia tocar. - -Elle ignorava que Loredano, com a sua previdencia ordinaria, quando -entrara no seu cubiculo para tirar a prancha, tivera o cuidado de passar -por um caibro do alpendre, que era de telhavan, a ponta de uma longa -corda que cahio sobre a parte de fóra da parede uma braça distante da -janella de Cecilia. - -Assim, apenas deo o primeiro passo sobre a ponte improvisada, o italiano -mio se descuidou de estender o braço e agarrar a ponta da corda, que -logo atou á cintura: então se o apoio lhe faltasse ficaria suspenso no -ar, e, embora com mais difficuldade, realisaria o seu intento. - -Foi por isso que os dous abalos produzidos pelo seu complice não -tiverão o resultado que elle esperava; logo de primeiro, Loredano -adivinhou o que se passava n'alma de Ruy, mas não querendo dar-lhe a -perceber que conhecia a sua traição, servio-se de um meio indirecto -para dizer-lhe que estava em segurança, e que era inutil a tentativa de -precipita-lo. - -A taboa não fez mais um só movimento; conservou-se immovel como se -estivera solidamente pregada ao rochedo. - -Loredano adiantou-se, tocou a janella da moça, e com a ponta da faca -conseguio levantar a aldraba; as gelosias abrindo-se afastárão as -cortinas de cassa que vendavão o asylo do pudor e da innocencia. - -Cecilia dormia envolta nas alvas roupas de seu leito; sua cabecinha -loura apparecia entra as rendas finissimas sobre as quaes se -desenrolavão os lindos anneis dourados de seus cabellos. O doce -amortecimento de um somno calmo e sereno vendava seu rosto gracioso, -como a sombra esvaecida que desmaia o semblante das virgens de Murillo; -seu sorriso era apenas enlevo. - -O talho de sua anagoa abrindo-se deixava entrever um collo de linhas -puras, mais alvo do que a cambraia; e com a ondulação que a -respiração branda imprimia ao seu peito, desenhavão-se sob a -lençaria diaphana os seios mimosos. - -Tudo isto resaltava como um quadro d'entre as ondas de uma colcha de -damasco azul que nas suas largas dobras moldava sobre a alvura -transparente do linho os contornos harmoniosos e puros. - -Havia porém nessa belleza adormecida uma expressão indefinivel, um -quer que seja de tão casto e innocente, que envolvia essa menina no seu -somno tranquillo e parecia afugentar della um pensamento profano. - -Chegando-se á beira daquelle leito, um homem ajoelharia antes como ao -pé de uma santa, do que se animaria a tocar na ponta dessas roupagens -brancas que protegião a innocencia. - -Loredano aproximou-se tremendo, pallido e offegante; toda a força de -sua vigorosa organisação, toda a sua vontade poderosa e irresistivel, -estava ahi vencida, subjugada, diante de uma menina adormecida. O que -sentio quando seu olhar ardente cahio sobre o leito, é difficil dizer, -é talvez mesmo difficil de comprehender. Foi a um tempo suprema ventura -e horrivel supplicio. - -A paixão brutal o devorava escaldando-lhe o sangue nas veias e fazendo -saltar-lhe o coração; entretanto o aspecto dessa menina que não tinha -para sua defesa senão a sua castidade, o encadeava. - -Sentia que o fogo queimava-lhe o seio; sentia que seus labios tinhão -sêde de prazer; e a mão gelada e inerte não se podia erguer, e o -corpo estava paralysado: apenas o olhar scintillava, e as narinas -dilatadas aspiravão as emanações voluptuosas de que estava impregnada -a sua atmosphera. - -E a menina sorria no seu placido somno, enleiando-se talvez n'algum -sonho gracioso, n'algum dos sonhos azues que Deus esparge como folhas de -rosas sobre o leito das virgens. - -Era o anjo em face do demonio; era a mulher em face da serpente; a -virtude em face do vicio. - -O italiano fez um esforço supremo, e passando a mão pelos olhos como -para arrancar uma visão importuna, encaminhou-se a um bofete e acendeu -uma vela de cera côr de rosa. - -O aposento, até então esclarecido apenas por uma lamparina collocada -sobre uma cantoneira, illuminou-se; e a imagem graciosa de Cecilia -appareceu cercada de uma aureola. - -Sentindo a impressão da luz sobre os olhos, a menina fez um movimento, -e voltando um pouco o rosto para o lado opposto continuou o somno, que -nem fôra interrompido. - -Loredano passou entre o leito e a parede, e pôde então admira-la em -toda a sua belleza; não se lembrava de nada mais, esquecêra o mundo e -seu thesouro: nem pensava no rapto que ia praticar. - -A rolinha que dormia sobre a commoda no seu ninho de algodão ergueu-se -e agitou as azas; o italiano, despertado por este rumor, conheceu que -já era tarde e que não tinha tempo a perder. - - - - -IV - -NA TREVA - - -Alguns esclarecimentos são necessarios aos acontecimentos -que acabavão de passar. - -Quando Loredano viu-se obrigado pela ameaça de Alvaro a partir para o -Rio de Janeiro, ficou succumbido; mas, depois de alguns momentos, um -sorriso diabolico tinha enrugado os seus labios. - -Este sorriso era uma idéa infame que luzira no seu espirito como a -flamma desses fogos perdidos que brilhão no seio das trevas em noites -de grande calma. - -O italiano lembrou-se que no momento em que todos o suppunhão em -viagem, podia preparar a execução do seu plano que elle realisaria -naquella mesma noite. - -Na conversa que tivera com Ruy Soeiro transmittio-lhe as suas -instrucções, breves, simples e concisas; consistião em livrarem-se -dos homens que podião pôr embaraços á sua empreza. - -Para isso os seus complices recebêrão ordem de quando se recolhessem -para dormir, collocarem-se ao lado de cada um dos homens da banda fieis -a D. Antonio de Mariz. - -Naquelle tempo e naquelles lugares não era possivel que os aventureiros -tivessem cada um o seu cubiculo, poucos gozavão desse privilegio, e -assim mesmo erão obrigados a partilhar o seu aposento com um -companheiro: os outros dormião na vasta alpendrada que occupava quasi -toda essa parte do edificio. - -Ruy Soeiro tinha, conforme ás instrucções de Loredano, arranjado as -cousas de tal modo que naquelle momento cada um dos aventureiros -dedicados a D. Antonio de Mariz tinha a seu lado um homem que parecia -adormecido, e que só esperava ouvir pronunciara senha convencionada -para enterrar o seu punhal na garganta do seu companheiro. - -Ao mesmo tempo havia pelos cantos da casa grandes molhos de palha secca -collocados junto das portas ou mettidos pela beirada do telhado, e que -só esperavão uma faisca para atear o incendio em todo o edificio. - -Ruy Soeiro, com uma sagacidade e uma prudencia dignas de seu chefe, -dispuzera tudo isto; parte durante o dia, e parte nas horas mortas da -noite em que tudo estava recolhido. - -Não se esqueceu da recommendação especial de Loredano, e offereceu-se -voluntariamente a Ayres Gomes para fazer a guarda nocturna com um dos -seus companheiros, visto recear-se ataque de inimigo; o digno escudeiro, -que o conhecia como um dos mais valentes da banda, cahio no laço e -aceitou o offerecimento. - -Senhor do campo, o aventureiro pôde então acabar livremente os seus -preparativos, e para mais segurança arranjou traça de ver-se livre do -escudeiro, que podia de um momento para outro vir incommoda-lo. - -Ayres Gomes em companhia de seu velho amigo mestre Nunes esvasiava uma -botelha de vinho de Valverde que elles bebião lentamente, trago a -trago, para assim disfarçarem a módica porção do liquido destinado -a humedecer as guelas de dous formidaveis bebedores. - -Mestre Nunes applicou voluptuosamente os labios á borda do cangirão, -tomou uma vez de vinho, e dando um ligeiro estalinho com a lingua no -céo da bocca, repimpou-se na tripeça em que estava sentado, cruzando -as mãos sobre o seu ventre proeminente com uma beatitude celeste. - ---Ora estou desde que cheguei para perguntar-vos uma cousa, amigo Ayres; -e sempre a passar-me.--Não a deixeis passar agora, Nunes. Aqui me -tendes para responder-vos. - ---Dizei-me cá, quem é um tal que acompanhava D. Diogo, e a quem dais -um diabo de nome que não é portuguez? - ---Ah! Quereis fallar de Loredano? Um tunante? - ---Conheceis este homem, Ayres? - ---Por Deus! se elle é dos nossos! - ---Quando pergunto se o conheceis, quero dizer se sabeis donde veio, quem -era e o que fazia? - ---Á fé que não! Appareceu-nos aqui um dia a pedir hospitalidade; e -depois como sahisse um homem, ficou em lugar delle. - ---E quando isto, se vos lembra? - ---Esperai! Estou com os meus cincoenta e nove... - -O escudeiro contou pelos dedos consultando o seu calendario, que era a -sua idade. - ---Foi por este tempo, ha um anno; principios de março. - ---Estais bem certo? exclamou mestre Nunes. - ---Certissimo: é conta que não engana. Mas que tendes? - -Com effeito mestre Nunes se erguêra espantado. - ---Nada! Não é possivel! - ---Não acreditais? - ---É outra cousa, Ayres! É um sacrilegio! uma obra de Satan! uma -simonia horrenda! - ---Que dizeis, homem, explicai-vos lá de uma vez. - -Mestre Nunes conseguio restabelecer-se da sua perturbação, e contou ao -escudeiro as suas desconfianças a respeito de Frei Angelo di Lucca e da -sua morte, que nunca fôra possivel explicar: notou-lhe a coincidencia -do desapparecimento do carmelita com o apparecimento do aventureiro, e o -facto de serem da mesma nação. - ---Depois, concluio Nunes, aquella voz, aquelle olhar!... Quando o vi -hoje estremeci, e recuei espavorido julgando que o frade tinha sahido -debaixo da terra. - -Ayres Gomes levantou-se furioso, e saltando sobre o seu catre, agarrou o -espadão que tinha á cabeceira. - ---Que ides fazer? gritou mestre Nunes. - ---Mata-lo, e desta vez ás direitas; que não torne. Esqueceis que vai -longe? - ---É verdade! murmurou o escudeiro rangendo os dentes de raiva. - -Ouvio-se um ligeiro rumor na porta; os dous amigos o attribuîrão ao -vento e não se voltárão sentados em face um do outro, continuárão -em voz baixa a sua conversa interrompida pela brusca revelação de -Nunes. - -Entretanto fóra passavão-se cousas que devião excitar a attenção do -digno escudeiro. O rumor que ouvira fôra produzido pela volta que Ruy -dera á chave, fechando a porta. - -O aventureiro tinha ouvido todo a conversa; a principio aterrado, cobrou -animo, e lembrou-se que em todo o caso era bom estar senhor do segredo -do italiano para qualquer emergencia futura. Confiado nessa excellente -idéa, Ruy metteu a chave no peito do gibão, e foi reunir-se a seu -companheiro que estava de vigia junto da escada. - -Esperava por Loredano, que devia entrar na casa alta noite, para dirigir -toda essa trama que havia urdido com uma intelligencia superior. - -O italiano tinha facilmente illudido a D. Diogo de Mariz; sabia que o -ardente cavalheiro ia de rota batida, e que não se demoraria em caminho -por motivo algum. - -A tres leguas do Paquequer, inventou um pretexto de ter-se quebrado a -cilha de sua cavalgadura, e parou para arranja-la; emquanto D. Diogo e -seus companheiros pensavão que os seguia de perto, elle tinha voltado -sobre os passos, e escondido nas vizinhanças esperava que a noite se -adiantasse. - -Quando percebeu que tudo estava em silencio aproximou-se; trocou o -signal convencionado, que era o canto da coruja; e introduzio-se -furtivamente na habitação. - -O mais já vimos. Sabendo que tudo estava preparado e prompto ao -primeiro signal, Loredano deo começo á execução de seu projecto, e -conseguio penetrar no quarto de Cecilia. - -Tomar a menina nos braços, rapta-la, atravessar a esplanada, chegar á -porta da alpendrada, e pronunciar a senha convencionada, era cousa que -elle contava realisar n'um momento. - -Quando Cecilia, arrancada de seu leito, lançasse um grito que elle não -podesse abafar, isto pouco lhe importava; antes que alguem despertasse -teria chegado ao outro lado, e então a uma palavra sua o fogo e o ferro -virião em seu soccorro. - -Ruy lançaria a chamma á palha preparada para este fim; e a faca de -cada um dos seus complices se enterraria na gorja dos homens -adormecidos. - -Depois no meio desse horror e confusão, os vinte demonios acabarião a -sua obra, e fugirião como os máos espiritos das lendas antigas, quando -a primeira luz da alvorada terminava o _sabbat_ infernal. - -Ião ao Rio de Janeiro; ahi, ligados todos por um mesmo laço do crime, -por um mesmo perigo e uma só ambição, Loredano contava ter nelles -agentes fieis e dedicados para levar ao cabo a sua empreza. - -Emquanto a traição solapava assim o socego, a felicidade, a vida e a -honra desta familia, todos dormião tranquillos e descuidados; nem um -presentimento os vinha advertir da desgraça que os ameaçava. - -Loredano, graças á sua agilidade e á sua força, tinha conseguido -chegar até ao leito da menina, sem que o menor rumor trahisse a sua -presença, sem que na habitação alguem tivesse podido perceber o que -se passava. - -Certo pois do bom resultado, o italiano advertido pela innocente -avezinha, que não sabia o mal que fazia, cuidou em consummar a sua obra. -Abrio a commoda de Cecilia, tirou roupas de sedas e linho e fez de tudo -isto um embrulho tão pequeno quanto era possivel; depois envolveu-o em -uma das pelles que servião de tapete, e collocou n'uma cadeira, a geito -de o poder apanhar com facilidade. - -Era cousa original o pensamento deste homem. Ao passo que commettia um -crime, tinha a lembrança delicada de querer suavisar a desgraça da -menina fazendo que nada lhe faltasse na viagem incommoda que tinha de -fazer. - -Quando tudo estava preparado abrio a portinha que dava para o jardim, e -estudou o caminho que tinha de seguir. Era preciso; porque apenas -tomasse Cecilia nos braços devia partir e chegar d'uma só corrida -direita, rapida e cega. - -A porta ficava n'um canto do aposento, defronte do vão que havia entre -o leito e a parede; collocado neste lugar, não tinha senão um -movimento a fazer, agarrar a menina e lançar-se fóra do aposento. - -Na occasião em que elle se aproximava ouvio-se um gemido, quasi um -suspiro, abafado e cheio de angustia. - -Os cabellos irriçárão-se sobre a fronte do italiano; gotas de suor -frio e gelado sulcárão as suas faces pallidas e contrahidas. - -A pouco e pouco foi sahindo do estupor que o paralysára, e volvendo -lentamente ao redor de si uns esgares d'olhos allucinados. - -Nada! Nem um insecto parecia acordado na solidão profunda da noite em -que tudo dormia excepto o crime, o verdadeiro duende da terra, o máo -genio das crenças de nossos pais. - -Tudo estava em socego; até o vento parecia se ter abrigado no calice -das flôres e adormecido neste berço perfumado, como n'um regaço de -amante. - -O italiano restabeleceu-se do violento abalo que soffrêra, deo um -passo, e inclinou-se sobre o leito. - -Cecilia sonhava neste momento. - -Seu rosto esclareceu-se com uma expressão de alegria angelica; sua -mãozinha, que repousava aninhada entre os seios, moveu-se com a -indolencia e a molteza do somno, e recahio sobre a face. - -A pequena cruz de esmalte que tinha ao collo e que estava agora presa -entre os dedos da mão roçou-lhe os labios; e uma musica celeste -escapou-se, como se Deus tivesse vibrado uma das cordas de sua harpa -àolis. - -Foi a principio um sorriso que adejou-lhe nos labios; depois o sorriso -colheu as azas e formou um beijo por fim o beijo entreabrio-se como uma -flôr e exhalou um suspiro perfumado. - ---Pery! - -O collo arfou docemente, e a mão descahindo foi de novo aninhar-se -entre o talho da sua anagoa de cambraia. - -O italiano ergueu-se pallido. - -Não se animava a tocar naquelle corpo tão casto, tão puro; não podia -fitar aquella physionomia radiante de innocencia e de candura. - -Mas o tempo urgia. - -Fez um esforço supremo sobre si mesmo; firmou o joelho na bordado -leito, fechou os olhos, estendeu as mãos. - - - - -V - -DEOS DISPÕE - - -O braço de Loredano estendeu-se sobre o leito; porém a mão que se -adiantava e ia tocar o corpo de Cecilia estacou no meio do movimento, e -subitamente impellida foi bater de encontro á parede. - -Uma setta, que não se podia saber d'onde vinha, atravessara o espaço -com a rapidez de um raio, e antes que se ouvisse o sibillo forte e agudo -pregára a mão do italiano no muro do aposento. - -O aventureiro vacillou, e abateu-se por detrás da cama; era tempo, -porque uma segunda setta, despedida com a mesma força e a mesma -rapidez, cravava-se no lugar onde ha pouco se projectava a sombra de sua -cabeça. - -Passou-se então ao redor da innocente menina adormecida na isenção de -sua alma pura uma scena horrivel, porém silenciosa. - -Loredano nos transes da dôr por que passava comprehendêra o que -succedia; tinha adivinhado naquella setta que o ferira a mão de Pery; e -sem ver, sentia o indio aproximar-se terrivel de odio, de vingança, de -colera e desespero pela offensa que acabava de soffrer sua senhora. - -Então o reprobo teve medo; erguendo-se sobre os joelhos arrancou -convulsivamente com os dentes a setta que pregava sua mão á parede, e -precipitou-se para o jardim, cego, louco e delirante. - -Nesse mesmo instante, dous segundos talvez depois que a ultima flecha -cahira no aposento, a folhagem do oleo que ficava fronteiro á janella -de Cecilia agitou-se e um vulto embalançando-se sobre o abysmo, -suspenso por um fragil galho da arvore, veio cahir sobre o peitoril. - -Ahi agarrando-se á hombreira saltou dentro do aposento com uma -agilidade extraordinaria; a luz dando em cheio sobre elle desenhou o seu -corpo flexivel e as suas fórmas esbeltas. - -Era Pery. - -O indio avançou-se para o leito, e vendo sua senhora salva respirou; -com effeito a menina, a meio despertada pelo rumor da fugida de -Loredano, voltára-se do outro lado e continuára o somno forte e -reparador como é sempre o somno da juventude e da innocencia. - -Pery quiz seguir o italiano e mata-lo, como já tinha feito aos seus -dous complices; mas resolveu não deixar a menina exposta a um novo -insulto, como o que acabava de soffrer, e tratou antes de velar sobre -sua segurança e socego. - -O primeiro cuidado do indio foi apagar a vela, depois fechando os olhos -aproximou-se do leito e com uma delicadeza extrema puxou a colcha de -damasco azul até ao collo da menina. - -Parecia-lhe uma profanação que seus olhos admirassem as graças e os -encantos que o pudor de Cecilia trazia sempre vendados; pensava que o -homem que uma vez tivesse visto tanta belleza, nunca mais devia ver a -luz do dia. - -Depois desse primeiro desvelo, o indio restabeleceu a ordem no aposento; -deitou a roupa na commoda, fechou a gelosia e as abas da janella, lavou -as nodoas de sangue que ficárão impressas na parede e no soalho; e -tudo isto com tanta solicitude, tão subtilmente, que não perturbou o -somno da menina. - -Quando acabou o seu trabalho, aproximou-se de novo do leito, e á luz -frouxa da lamparina contemplou as feições mimosas e encantadoras de -Cecilia. - -Estava tão alegre, tão satisfeito de ter chegado a tempo de salva-la -de uma offensa e talvez de um crime; era tão feliz de vê-la tranquilla -e risonha sem ter soffrido o menor susto, o mais leve abalo, que sentio -a necessidade de exprimir-lhe por algum modo a sua ventura. - -Nisto seus olhos abaixando-se descobrirão sobre o tapete da cama dous -pantufos mimosos forrados de setim e tão pequeninos que parecião -feitos para os pés de uma criança; ajoelhou e beijou-os com respeito, -como se forão reliquia sagrada. - -Erão então perto de quatro horas; pouco tardava para amanhecer; as -estrellas já ião se apagando a uma e uma; e a noite começava a perder -o silencio profundo da natureza quando dorme. - -O indio fechou por fóra a porta do quarto que dava para o jardim, e -mettendo a chave na cintura, sentou-se na soleira como o cão fiel que -guarda a casa de seu senhor, resolvido a não deixar ninguem -aproximar-se. - -Ahi reflectio sobre o que acabava de passar; e accusava-se a si mesmo de -ter deixado o italiano penetrar no aposento de sua senhora; Pery, porém -calumniava-se, porque só a Providencia podia ter feito nesta noite mais -do que elle; porque tudo quanto era possivel á intelligencia, á -coragem, á sagacidade e á força do homem, o indio havia realisado. - -Depois da partida de Loredano, e da conversa que teve com Alvaro, certo -de que sua senhora já não corria perigo, e de que os dous complices do -italiano ião ser expulsos como elle, o indio não pensando mais senão -no ataque dos Aymorés partio immediatamente. - -O seu pensamento era ver se descobrisse pelas vizinhanças do -_Paquequer_ indicios da passagem de alguma tribu da grande raça guarany -a que elle pertencia; seria um amigo e um alliado para D. Antonio de -Mariz. - -O odio inveterado que havia entre as tribus da grande raça e a nação -degenerada dos Aymorés, justificava a esperança de Pery; mas -infelizmente, tendo percorrido todo o dia a floresta, não encontrou o -menor vestigio do que procurava. - -O fidalgo estava pois reduzido ás suas proprias forças; mas embora -fossem estas pequenas, o indio não desanimou; tinha consciencia de si; -e sabia que na ultima extremidade a sua dedicação por Cecilia lhe -inspiraria meios de salvar a ella e a tudo que ella amava. - -Voltou á casa já noite fechada: foi ter com Alvaro; perguntou-lhe o -que era feito dos dous aventureiros; o cavalheiro disse-lhe que D. -Antonio de Mariz recusára crer na accusação. - -De facto, o fidalgo leal, habituado ao respeito e á fidelidade de seus -homens, não admittia que se concebesse uma suspeita sem provas; -entretanto, como a palavra de Pery tinha para elle toda a valia, ficára -de ouvir de sua bocca a narração do que presenciára, para conhecer o -peso que devia dar a semelhante accusação. - -Pery retirou-se inquieto e arrependido de não ter persistido no seu -primeiro projecto; emquanto estes dous homens que elle já suppunha -expulsos estivessem ali, sabia que um perigo pairava sobre a casa. - -Assim resolveu não dormir; tomou o seu arco e sentou-se na porta de sua -cabana; apezar de possuir a clavina que lhe dera D. Antonio, o arco era -a arma favorita de Pery; não demandava tempo para carregar; não fazia -o menor estrepito; lançava quasi instantaneamente dous, tres tiros: e -sua flecha era tão terrivel e tão certeira como a bala. - -Passado muito tempo o indio ouvio cantar uma coruja do lado da escada; -esse canto causou-lhe estranheza por duas razões: a primeira, porque -era mais sonoro do que é o cacarejar daquella ave agoureira; a segunda, -porque em vez de partir do cimo de uma arvore sahia do chão. - -Esta reflexão o fez levantar; desconfiou da coruja que tinha habitos -differentes de suas companheiras; quiz conhecer a razão desta -singularidade. - -Viu do outro lado da esplanada tres vultos que atravessavão -ligeiramente; isto augmentou a sua desconfiança; os homens de vigia -erão ordinariamente dous e não tres. - -Seguio-os de longe; mas quando chegou ao pateo, não viu senão um dos -homens que entrava na alpendrada; os outros tinhão desapparecido. - -Pery procurou-os por toda parte e não os viu; estavão occultos pelo -pilar que se elevava na ponta do rochedo, e não lhe era possivel -descobri-los. - -Suppondo que tivessem tambem entrado no alpendre, o indio agachou-se e -penetrou no interior; de repente a sua mão tocou uma lamina fria que -conheceu immediatamente ser a folha de um punhal. - ---És tu, Ruy? perguntou uma voz sumida. - -Pery emmudeceu; mas de chofre aquelle nome de Ruy lembrou-lhe Loredano e -o seu projecto; percebeu que se tramava alguma cousa: e tomou um -partido. - ---Sim! respondeu com a voz quasi imperceptivel. - ---Já é hora? - ---Não. - ---Todos dormem. - -Emquanto trocavão essas duas perguntas, a mão de Pery correndo pela -lamina de aço tinha conhecido que outra mão segurava o cabo do punhal. - -O indio sahio do alpendre, e dirigio-se ao quarto de Ayres Gomes; a -porta estava fechada, e junto della tinhão collocado um grande montão -de palha. - -Tudo isto denunciava um plano prestes a realisar-se; Pery comprehendia, -e tinha medo de já não ser tempo para destruir a obra dos inimigos. - -Que fazia aquelle homem deitado que fingia dormir, e que tinha o punhal -desembainhado na mão como se estivesse prompto a ferir? Que significava -aquella pergunta da hora e aquelle aviso de que todos dormião? Que -queria dizer a palha encostada á porta do escudeiro? - -Não restava duvida; havia ali homens que esperavão um signal para -matarem seus companheiros adormecidos, e deitarem fogo á casa; tudo -estava perdido se o plano não fosse immediatamente destruido. - -Cumpria acordar os que dormião, preveni-los do perigo que corrião, ou -ao menos prepara-los para se defenderem e escaparem de uma morte certa e -inevitavel. - -O indio agarrou convulsamente a cabeça com as duas mãos como se -quizesse arrancar á força de seu espirito agitado e em desordem um -pensamento salvador. Seu largo peito dilatou-se; uma idéa feliz luzira -de repente na confusão de tantos pensamentos encontrados que -fermentavão no cerebro, e reanimára sua coragem e força. - -Era uma idéa original. - -Pery lembrára-se que o alpendre estava cheio de grandes talhas e vasos -enormes contendo agua potavel, vinhos fermentados, licores selvagens de -que os aventureiros fazião sempre uma ampla provisão. - -Correu de novo ao saguão, e encontrando a primeira talha tirou a -torneira; o liquido começou a derramar-se pelo chão; ia passar á -segunda quando a voz, que já lhe tinha fallado, soou de novo, baixa mas -ameaçadora. - ---Quem vai lá?... - -Pery comprehendeu que a sua idéa ia ficar sem effeito, e talvez não -servisse senão de apresar o que elle queria evitar. - -Não hesitou pois; e quando o aventureiro que fallava erguia-se, sentio -duas tenazes vivas que cahião sobre o seu pescoço e o estrangulavão -como uma golilha de ferro, antes que podesse soltar um grito. - -O indio deitou o corpo hirto sobre o chão sem fazer o menor rumor, e -consumou a sua obra; todas as talhas do alpendre esvasiavão-se a pouco -e pouco e inundavão o chão. - -Dentro de um segundo a frialdade acordaria todos os homens adormecidos, -e os obrigaria a sahir do alpendre; era o que Pery esperava. - -Livre do maior perigo, o indio rodeou a casa para ver se tudo estava em -socego; e teve então occasião de notar que por todo o edificio tinhão -Aposto feixes da palha para atear um incendio. - -Pery inutilisando estes preparativos, chegou ao canto da casa que ficava -defronte de sua cabana; parecia procurar alguem. Ahi ouvio a -respiração offegante de um homem cosido com a parede junto do jardim -de Cecilia. - -O indio tirou a sua faca; a noite estava tão escura que era impossivel -descobrir a menor sombra, o menor vulto entre as trevas. - -Mas elle conheceu Ruy Soeiro. - -Pery tinha o ouvido subtil e delicado, e o faro do selvagem que dispensa -a vista; o som da respiração servia-lhe de alvo; escutou um momento, -ergueu o braço, e a faca enterrando-se na bocca da victima cortou-lhe -a garganta. - -Nem um gemido escapou da massa inerte que se estorceu um momento e -quedou de encontro ao muro. - -Pery apanhou o arco que encostára á parede, e voltando-se para lançar -um olhar sobre o quarto de Cecilia, estremeceu. - -Acabava de ver pela soleira da porta o reflexo vivo de uma luz; e logo -depois sobre a folhagem do oleo um clarão que indicava estar a janella -aberta. - -Ergueu os braços com um desespero e uma angustia inexprimivel; estava a -dous passos de sua senhora e entretanto um muro e uma porta o separavão -delia, que talvez áquella hora corria um perigo imminente. - -Que ia fazer? Precipitar-se de encontro a essa porta quebra-la, -espedaça-la? Mas podia aquella luz não significar cousa alguma, e a -janella ter sido aberta por Cecilia. - -Este ultimo pensamento tranquillisou-o, tanto mais quando nada revelava -a existencia de um perigo, quando tudo estiva em socego no jardim e no -quarto da menina. - -Lançou-se para a cabana, e segurando-se ás folhas da palmeira galgou o -ramo do oleo, e aproximou-se para ver porque sua senhora estava acordada -áquella hora. - -O espectaculo que se apresentou diante de seus olhos fez correr-lhe um -calafrio pelo corpo; a gelosia aberta deixou-lhe ver a menina -adormecida, e o italiano que tendo aberto a porta do jardim dirigia-se -ao leito. - -Um grito de desespero e de agonia ia romper-lhe do seio; mas o indio -mordendo os labios com força reprimio a voz, que se escapou apenas n'um -som rouco e plangente. Então prendendo-se á arvore com as pernas, o -indio estendeu-se ao longo do galho e esticou a corda do arco. - -O coração batia-lhe violentamente; e por um momento o seu braço -tremeu só com a idéa de que a sua flecha tinha de passar perto de -Cecilia. - -Quando porém a mão do italiano se adiantou e ia tocar o corpo da -menina, não pensou, não viu mais nada senão esses dedos prestes a -mancharem com o seu contacto o corpo de sua senhora, não se lembrou -senão dessa horrivel profanação. - -A flecha partio rapida, prompta, e veloz como o seu pensamento; a mão -do italiano estava pregada ao muro. - -Foi só então que Pery reflectio que teria sido mais acertado ferir -essa mão na fonte da vida que a animava; fulminar o corpo a que -pertencia esse braço: a segunda setta partio sobre a primeira, e o -italiano teria deixado de existir se a dôr não o obrigára a -curvar-se. - - - - -VI - -REVOLTA - - -Quando Pery acabou de reflectir sobre o que passara ergueu-se, abrio de -novo a porta, fechou-a por dentro, e seguio pelo corredor que ia do -quarto de Cecilia ao interior da casa. - -Estava tranquillo sobre o futuro; sabia que Bento Simões e Ruy Soeiro -não o incommodarião mais, que o italiano não lhe podia escapar, e que -áquella hora todos os aventureiros devião estar acordados; mas julgou -prudente prevenir D. Antonio de Mariz do que occorria. - -A este tempo Loredano já tinha chegado á alpendrada, onde o esperava -uma nova e terrivel sorpreza, uma ultima decepção. - -Lançando-se do quarto de Cecilia, sua intenção era ganhar o fundo da -casa, pronunciar a senha convencionada, e senhor do campo voltar com -seus complices, raptar a menina, e vingar-se de Pery. - -Mal sabia porém que o indio tinha destruido toda a sua machinação; -chegando ao pateo viu o alpendre illuminado por fachos, e todos os -aventureiros de pé cercando um objecto que não pôde distinguir. - -Aproximou-se e descobrio o corpo de seu complice Bento Simões, que -jazia no chão alagado do pavimento: o aventureiro tinha os olhos -saltados das orbitas, a lingua sahida da bocca, o pescoço cheio de -contusões; todos os signaes emfim de uma estrangulação violenta. - -De livido que estava o italiano tornou-se verde; procurou com os olhos a -Ruy Soeiro e não o viu; decididamente o castigo da Providencia cahia -sobre as suas cabeças, conheceu que estava irremediavelmente perdido, e -que só a audacia e o desespero o podião salvar. - -A extremidade em que se achava inspirou-lhe uma idéa digna delle: ia -tirar partido para seus fins daquelle mesmo facto que parecia -destrui-los; ia fazer do castigo uma arma de vingança. - -Os aventureiros espantados sem comprehenderem o que vião, olhavão-se e -murmura vão em voz baixa fazendo supposições sobre a morte do seu -companheiro. Uns despertados de sobresalto pela agua que corria das -talhas, outros que não dormião apenas admirados, se havião erguido, e -no meio de um côro de imprecações e blasphemias acendêrão fachos -para ver a causa daquella inundação. - -Foi então que descobrirão o corpo de Bento Simões, e ficárão ainda -mais surprendidos; os complices temendo que aquillo não fosse um -começo de punição, os outros indignados pelo assassinato de seu -companheiro. - -Loredano percebeu o que passava no espirito dos aventureiros: - ---Não sabeis o que significa isto? disse elle. - ---Oh! não! explicai-nos! exclamarão os aventureiros. - ---Isto significa, continuou o italiano, que ha nesta casa uma vibora, -uma serpente que nós alimentamos no nosso seio, e que nos morderá a -todos com o seu dente envenenado. - ---Como?... Que quereis dizer?... Fallai!... - ---Olhai, disse o frade apontando para o cadaver e mostrando a sua mão -ferida; eis a primeira victima, e a segunda que escapou por um milagre; -a terceira... Quem sabe o que é feito de Ruy Soeiro? - ---É verdade!... Onde está Ruy? disse Martim Vaz. - ---Talvez morto tambem! - ---Depois delle virá outro e outro até que sejamos exterminados um por -um; até que todos os christãos tenhão sido sacrificados. - ---Mas por quem?... Dizei o nome do vil assassino! É preciso um exemplo! -O nome!... - ---E não adivinhais? respondeu o italiano. Não adivinhais quem nesta -casa póde desejar a morte dos brancos, e a destruição da nossa -religião? Quem senão o herege, o gentio, o selvagem traidor e infame? - ---Pery?... exclamarão os aventureiros. - ---Sim, esse indio que conta assassinar-nos a todos para saciar a sua -vingança! - ---Não ha de ser assim como dizeis, eu vos juro, Loredano! exclamou -Vasco Affonso. - ---Bofé! gritou outro, deixai isto por minha conta. Não vos dê -cuidado! - ---E não passa desta noite. O corpo de Bento Simões pede justiça. - ---E justiça será feita. - ---Neste mesmo instante. - ---Sim; agora mesmo. Eia! Segui-me. - -Loredano ouvia estas exclamações rapidas que denunciavão como a -exacerbação ia lavrando com intensidade; quando porém os aventureiros -quizerão lançar-se em procura do indio, elle os conteve com um gesto. - -Não lhe convinha isto; a morte de Pery era cousa accidental para elle; -o seu fim principal era outro, e esperava consegui-lo facilmente. - ---O que ides fazer? perguntou imperativamente aos seus companheiros. - -Os aventureiros ficárão pasmados com semelhante pergunta. - ---Ides mata-lo?... - ---Mas de certo! - ---E não sabeis que não podereis fazê-lo? Que elle é protegido, -amado, estimado por aquelles que pouco se importão se morremos ou -vivemos? - ---Seja embora protegido, quando é criminoso... - ---Como vos illudis! Quem o julgará criminoso? Vós? Pois bem; outros o -julgarão innocente e o defenderão; e não tereis remedio senão curvar -a cabeça e calar-vos. - ---Oh! isso é de mais! - ---Julgais que somos alimarias que se podem matar impunemente! retrucou -Martim Vaz. - ---Sois peiores que alimarias; sois escravos! - ---Por São Braz, tendes razão, Loredano. - ---Vereis morrer vossos companheiros assassinados infamemente, e não -podereis vinga-los; e sereis obrigados a tragar até as vossas queixas, -porque o assassino é sagrado! Sim, não o podereis tocar, repita. - ---Pois bem; eu vo-lo mostrarei! - ---E eu! gritou toda a banda. - ---Qual é vossa tenção? perguntou o italiano. - ---A nossa tenção é pedirmos a D. Antonio de Mariz que nos entregue o -assassino de Bento. - ---Justo! E se elle recusar, estamos desligados do nosso juramento e -faremos justiça pelas nossas mãos. - ---Procedeis como homens de brio e pundonor: liguemo-nos todos e vereis -que obteremos reparação; mas para isto é preciso firmeza e vontade. -Não percamos tempo. Quem de vós se incumbe de ir como parlamentario a -D. Antonio? - -Um aventureiro dos mais audazes e turbulentos da banda offereceu-se: -chamava-se João Feio. - ---Serei eu! - ---Sabeis o que lhe deveis dizer? - ---Oh! ficai descansado. Ouvirá boas! - ---Ides já? - ---Neste instante. - -Uma voz calma, sonora e de grave entonação, uma voz que fez estremecer -todos os aventureiros, soou na entrada do alpendre: - ---Não é preciso irdes, pois que vim. Aqui me tendes. - -D. Antonio de Mariz, calmo e impassivel, adiantou-se até o meio do -grupo, e cruzando os braços sobre o peito, volveu lentamente pelos -aventureiros o seu olhar severo. - -O fidalgo não tinha uma só arma; e entretanto o aspecto de sua -physionomia veneravel, a firmeza de sua voz e a altivez de seu gesto -nobre bastárão para fazer curvar a cabeça de todos esses homens que -ameaçavão. - -Advertido por Pery dos acontecimentos que tinhão tido lugar naquelle -noite, D. Antonio de Mariz ia sahir, quando apparecérão Alvaro e Ayres -Gomes. - -O escudeiro, que depois de sua conversa com mestre Nunes tinha -adormecido, fôra despertado de repente pelas imprecações e gritos que -soltavão os aventureiros quando a agua começou a invadir as esteiras -em que esta vão deitados. - -Admirado desse rumor extraordinario, Ayres bateu o fuzil, acendeu a -vela, e dirigio-se para a porta para conhecer o que pertubava o seu -somno: a porta, como sabemos, estava fechada e sem chave. - -O escudeiro esfregou os olhos para certificar-se do que via, e acordando -Nunes, perguntou-lhe quem tomara aquella medida de precaução: seu -amigo ignorava como elle. - -Nesse momento ouvia-se a voz do italiano que excitava os aventureiros á -revolta; Ayres Gomes percebeu então do que se tratava. - -Agarrou mestre Nunes, encostou-o á parede como se fosse uma escada, e -sem dizer palavra trepou do catre sobre os seus hombros, e levantando as -telhas com a cabeça enfiou por entre as ripas dos caibros. - -Apenas ganhou o telhado, o escudeiro pensou no que devia fazer; e -assentou que o verdadeiro era dar parte a Alvaro e ao fidalgo, a quem -cabia tomar as providencias que o caso pedia. - -D. Antonio de Mariz sem se pertubar ouvio a narração do escudeiro, -como tinha ouvido a do indio. - ---Bem, meus amigos! sei o que me cumpre fazer. Nada de rumor; não -perturbemos o socego da casa; estou certo que isto passará. Esperai-me -aqui. - ---Não posso deixar que vos arrisqueis só, disse Alvaro dando um passo -para segui-lo. - ---Ficai; vós e esses dous amigos dedicados velareis sobre minha mulher, -Cecilia e Isabel. Nas circumstancias em que nos achamos, assim é -preciso. - ---Consenti ao menos que um de nós vos acompanhe? - ---Não, basta a minha presença; emquanto que aqui todo o vosso valor e -fidelidade não bastão para o thesouro que confio á vossa guarda. - -O fidalgo tomou o seu chapéo, e poucos momentos depois apparecia -imprevistamente no meio dos aventureiros, que tremulos, cabisbaixos, -corridos de vergonha, não ousavão proferir uma palavra. - ---Aqui me tendes! repetio o cavalheiro. Dizei o que quereis de D. -Antonio de Mariz, e dizei-o claro e breve. Se fôr de justiça, sereis -satisfeitos; se fôr uma falta, tereis a punição que merecerdes. - -Nem um dos aventureiros ousou levantar os olhos; todos emmudecêrão. - ---Calais-vos?... Passa-se então aqui alguma cousa que não vos atreveis -a revelar? Acaso ver-me-hei obrigado a castigar severamente um primeiro -exemplo de revolta e desobediencia? Fallai? Quero saber o nome dos -culpados! - -O mesmo silencio respondeu ás palavras firmes e graves do velho -fidalgo. - -Loredano hesitava desde o principio desta scena; não tinha a coragem -necessaria para apresentar-se em face de D. Antonio; mas tambem sentia -que se elle deixasse as cousas marcharem pela maneira por que ião, -estava infallivelmente perdido. - -Adiantou-se: - ---Não ha aqui culpados, Sr. D. Antonio de Mariz, disse o italiano -animando-se progressivamente; ha homens que são tratados como cães; -que são sacrificados a um capricho vosso, e que estão resolvidos a -reivindicarem os seus fóros de homens e de christãos! - ---Sim! gritárão os aventureiros reanimando-se. Queremos que se -respeite a nossa vida! - ---Não somos escravos! - ---Obedecemos, mas não nos captivamos. - ---Valemos mais que um herege! - ---Temos arriscado a nossa existência para defender-vos! - -D. Antonio ouvio impassivel todas estas exclamações que ião subindo -gradualmente ao tom da ameaça. - ---Silencio, vilões! Esqueceis que D. Antonio de Mariz ainda tem -bastante força para arrancar a lingua que o pretendesse insultar! -Miseraveis, que lembrais o dever como um beneficio! Arriscastes a vossa -vida para defender-me?... E qual era vossa obrigação, homens que -vendeis o vosso braço e sangue ao que melhor paga. Sim'! Sois menos que -escravos, menos que cães, menos que féras! Sois traidores infames e -refeces!... Mereceis mais do que a morte; mereceis o desprezo. - -Os aventureiros, cuja raiva fermentava surdamente, não se contiverão -mais; das palavras de ameaça passárão ao gesto. - ---Amigos! gritou Loredano aproveitando habilmente o ensejo. Deixareis -que vos insultem atrozmente, que vos cuspão o desprezo na cara? E por -que motivo!... - ---Não! Nunca! vociferarão os aventureiros furiosos. - -Desembainhando as adagas estreitarão o circulo ao redor de D. Antonio -de Mariz; era uma confusão de gritos, injurias, ameaças, que corria -por todas as boccas, emquanto os braços suspensos hesitavão ainda em -lançar o golpe. - -D. Antonio de Mariz, sereno, magestoso, calmo, olhava todas essas -physionomias decompostas com um sorriso de escarneo; e sempre altivo e -sobranceiro, parecia sob os punhaes que o ameaçavão, não a victima -que ia ser immolada, mas o senhor que mandava. - - - - -VII - -OS SELVAGENS - - -Os aventureiros com o punhal erguido ameaçavão; mas não se animavão -a romper o estreito circulo que os separava de D. Antonio de Mariz. - -O respeito, essa força moral tão poderosa, dominava ainda a alma -daquelles homens cegos pela cólera e pela exaltação; todos esperavão -que o primeiro ferisse; e nem um tinha a coragem de ser o primeiro. - -Loredano conheceu que era necessario um exemplo; o desespero de sua -posição, as paixões ardentes que tumultuavão em seu coração, -derão-lhe o delirio que suppre o valor nas circumstancias extremas. - -O aventureiro apertou convulsivamente o cabo de sua faca, e fechando os -olhos e dando um passo ás cegas, ergueu a mão para desfechar o golpe. - -O fidalgo com um gesto nobre afastou o seio do gibão, e descobrio o -peito; nem um tremor imperceptivel agitou os musculos de seu rosto; sua -fronte alta conservou a mesma serenidade; o seu olhar limpido e -brilhante não se turvou. - -Tal era a influencia magnetica que exercia essa coragem nobre e altiva, -que o braço do italiano tremeu, e a ponta do ferro tocando a vestia do -fidalgo paralysou os dedos hirtos do assassino. - -D. Antonio sorrio com desdem; e abaixando a sua mão fechada sobre o -alto da cabeça de Loredano, abateu-o a suas plantas como uma massa -bruta e inerte: então erguendo a ponta do pé á fronte do italiano, o -estendeu de costas sobre o pavimento. - -O baque do corpo no chão echoou no meio de um silencio profundo; todos -os aventureiros, mudos e estaticos, parecião querer sumir-se pelo seio -da terra. - ---Abaixai as armas, miseraveis! O ferro que ha de ferir o peito de D. -Antonio de Mariz não será manchado pela mão cobarde e traiçoeira de -vis assassinos! Deus reserva uma morte justa e gloriosa áquelles que -vivêrão uma vida honrada! - -Os aventureiros aturdidos embainhárão machinalmente os punhaes; -aquella palavra sonora, calma e firme tinha um accento tão imperativo, -uma tal força de vontade, que era impossivel resistir. - ---O castigo que vos espera ha de ser rigoroso; não deveis contar com a -clemencia nem com o perdão: quatro d'entre vós á sorte soffrerão a -pena de homizio; os outros farão o officio dos executores da alta -justiça. Bem vêdes que tanto a pena como o officio são dignos de -vós! - -O fidalgo pronunciou estas palavras com um soberano desprezo, e encarou -os aventureiros como para ver se d'entre elles partia alguma -reclamação, algum murmurio de desobediencia; mas todos esses homens, -ha pouco furiosos, estavão agora humildes, e cabisbaixos. - ---Dentro de uma hora, continuou o cavalheiro apontando para o corpo de -Loredano, este homem será justiçado á frente da banda; para elle não -ha julgamento; eu o condemno como pai, como chefe, como um homem que -mata o cão ingrato que o morde. É ignobil de mais para que o toque com -as minhas armas; entrego-o ao baraço e ao cutelo. - -Com a mesma impassibilidade e o mesmo socego que conservava desde o -momento em que apparecêra imprevistamente, o velho fidalgo atravessou -por entre os aventureiros immoveis e respeitosos, e caminhou para a -sahida. - -Ahi voltou-se; e levando a mão ao chapéo descobrio a sua bella cabeça -encanecida, que destacava sobre o fundo negro da noite e no meio do -clarão avermelhado das tochas com um vigor de colorido admiravel. - ---Se algum de vós der o menor signal de desobediencia; se uma das -minhas ordens não fôr cumprida prompta e fielmente; eu, D. Antonio de -Mariz, vos juro por Deus e pela minha honra, que desta casa não sahirá -um homem vivo. Sois trinta; mas a vossa vida, de todos vós, tenho-a na -minha mão; basta-me um movimento para exterminar-vos, e livrar a terra -de trinta assassinos. - -No momento em que o fidalgo ia retirar-se appareceu Alvaro pallido de -emoção, mas brilhante de coragem e indignação. - ---Quem se animou aqui a erguer a voz para D. Antonio de Mariz? exclamou -o moço. - -O velho fidalgo sorrindo com orgulho pôz a mão no braço do -cavalheiro. - ---Não vos occupeis disto, Alvaro; sois bastante nobre para vingar uma -affronta desta natureza, e eu bastante superior para não ser offendido -por ella. - ---Mas, senhor, cumpre que se dê um exemplo! - ---O exemplo vai ser dado, e como cumpre. Aqui não ha senão culpados e -executores da pena. O lugar não vos compete. Vinde! - -O moço não resistio, e acompanhou D. Antonio de Mariz, que se dirigio -lentamente á sala, onde achou Ayres Gomes. - -Quanto a Pery, voltára ao jardim de Cecilia, decidido a defender sua -senhora contra o mundo inteiro. - -O dia vinha rompendo. - -O fidalgo chamou Ayres Gomes e entrou com elle no seu gabinete de armas, -onde tiverão uma longa conferencia de meia hora. - -O que ahi se passou ficou um segredo entre Deus e estes dous homens; -apenas Alvaro notou, quando a porta do gabinete se abrio, que D. Antonio -estava pensativo, e o escudeiro livido como um morto. - -Neste momento ouvio-se um pequeno rumor na entrada da sala; quatro -aventureiros parados, immoveis, esperavão uma ordem do fidalgo para se -aproximarem. - -D. Antonio fez-lhes um signal; e elles vierão ajoelhar-se a seus pés; -as lagrimas rolavão por essas faces queimadas pelo sol; e a palavra -tremia balbuciando nesses labios pallidos que ha instantes vomitavão -ameaças: - ---Que significa isto? perguntou o cavalheiro com severidade. - -Um dos aventureiros respondeu: - ---Vimo-nos entregar em vossas mãos, preferimos appellar para o vosso -coração do que recorrer ás armas para escaparmos á punição de -nossa falta. - ---E vossos companheiros? replicou o fidalgo. - ---Deus lhes perdoe, senhor, a enormidade do crime que vão commetter. -Depois que vos retirastes tudo mudou; preparão-se para atacar-vos! - ---Que venhão, disse D. Antonio, eu os receberei. Mas vós porque não -os acompanhais? Não sabeis que D. Antonio de Mariz perdoa uma falta, -mas nunca uma desobediencia? - ---Embora, disse o aventureiro que fallava em nome de seus camaradas; -aceitaremos de bom grado o castigo que nos impozerdes. Mandai, que -obedeceremos. Somos quatro contra vinte e tantos; dai-nos essa punição -de morrer defendendo-vos, de reparar pela nossa morte um momento de -hallucinação!... É a graça que vos pedimos! - -D. Antonio olhou admirado os homens que estavão ajoelhados a seus pés; -e reconheceu nelles os restos dos seus antigos companheiros de armas no -tempo em que o velho fidalgo combatia os inimigos de Portugal. - -Sentio-se commovido; sua alma grande, inabalavel no meio do perigo, -orgulhosa em face da ameaça, deixava-se facilmente dominar pelos -sentimentos nobres e generosos. - -Essa prova de fidelidade que davão aquelles quatro homens na occasião -da revolta geral dos seus companheiros; a acção que acabavão de -praticar, e o sacrificio com que desejavão expiar a sua falta, -elevou-os no espirito do fidalgo. - ---Erguei-vos. Reconheço-vos!... Já não seis os traidores que ha pouco -reprehendi; sois os bravos companheiros que pelejastes a meu lado; o que -fazeis agora esquece o que fizestes ha uma hora. Sim!... Mereceis que -morramos juntos, combatendo ainda uma vez na mesma fileira. D. Antonio -de Mariz vos perdoa. Podeis levantar a cabeça e trazê-la alta! - -Os aventureiros erguêrão-se radiantes do perdão que o nobre fidalgo -tinha lançado sobre suas cabeças; todos elles estavão promptos a dar -sua vida para salvarem o seu chefe. - -O que tinha occorrido depois da sahida de D. Antonio do alpendre, seria -longo de descrever. - -Loredano tornando a si da vertigem que lhe causara o atordoamente e a -violencia da queda, soube da ordem que havia a seu respeito. Não era -preciso tanto para que o audaz aventureiro recorresse á sua eloquencia -afim de excitar de novo a revolta. - -Pintou a posição de todos como desesperada, attribuio o seu castigo e -as desgraças que ião succeder ao fanatismo que havia por Pery; esgotou -emfim os recursos de sua intelligencia. - -D. Antonio não estava mais ahi para conter com a sua presença a colera -que ia fermentando, a excitação que começava a lavrar, a principio -surdamente, as queixas e os murmurios que a final fizerão côro. - -Um incidente veio atear a chamma que lastrava; Pery, apenas começou a -romper o dia, via a alguma distancia do jardim o cadaver do Ruy Soeiro; -e temendo que sua senhora acordando não presenciasse este triste -espectaculo, tomou o corpo, e atravessando a esplanada, veio atira-lo no -meio do pateo. - -Os aventureiros empallidecêrão, e ficárão estupefactos; depois -rompeu a indignação feroz, raivosa, delirante; estavão como possessos -de furor e vingança. Não houve mais hesitação; a revolta -pronunciou-se; apenas o pequeno grupo de quatro homens que desde a -sabida de D. Antonio se conservava em distancia, não tomou parte na -insubordinação. - -Ao contrario quando virão que seus companheiros com Loredano á frente -se preparavão para atacar o fidalgo, forão, como vimos, offerecer-se -voluntariamente ao castigo, e reunir-se ao seu chefe para partilharem a -sua sorte. - -Pouco tardou que João Feio não se apresentasse como parlamentario da -parte dos revoltosos; o fidalgo não o deixou fallar. - ---Dize a teus companheiros, rebelde, que D. Antonio de Mariz manda e -não discute condições: que elles estão condemnados; e verão se sei -ou não cumprir o meu juramento. - -O fidalgo tratou então de dispôr os seus meios de defeza; apenas podia -contar com quatorze combatentes; elle, Alvaro, Pery, Ayres Gomes, mestre -Nunes com os seus companheiros, e os quatro homens que se havião -conservado fieis; os inimigos erão em numero de vinte e tantos. - -Toda a sua familia já então despertada recebeu a triste sorpreza de -tantos acontecimentos passados durante aquella noite fatal: D. Lauriana, -Cecilia e Isabel recolhêrão-se ao oratorio, e rezavão emquanto se -preparava tudo para uma resistencia desesperada. - -Os aventureiros commandados por Loredano arregimentárão-se, e -marchárão para a casa dispostos a dar um assalto terrivel; o seu furor -redobrava tanto mais, quanto o remorso no fundo da consciencia começava -a mostrar-lhes toda a hediondez de sua acção. - -No momento em que dobra vão o canto ouvio-se um som rouco que se -prolongou pelo espaço, como o echo surdo de um trovão em distancia. - -Pery estremeceu, e lançando-se para a beira da esplanada estendeu os -olhos pelo campo que costeava a floresta. Quasi ao mesmo tempo um dos -aventureiros que estava ao lado de Loredano cahio traspassado por uma -flecha. - ---Os Aymorés!... - -Apenas soltou Pery esta exclamação, uma linha movediça, longo arco de -côres vivas e brilhantes, agitou-se ao longe na planicie, irradiando á -luz do sol nascente. - -Homens quasi nús, de estatura gigantesca e aspecto feroz, coberto de -pelles de animaes e pennas amarellas e escarlates, armados de grossas -clavas e arcos enormes, avançavão soltando gritos medonhos. - -A inubia retroava; o som dos instrumentos de guerra misturado com os -brados e alaridos formavão um concerto horrivel, harmonia sinistra que -revelava os instinctos dessa horda selvagem reduzida á brutalidade das -féras. - ---Os Aymorés!... repetirão os aventureiros empallidecendo. - - - - -VIII - -DESANIMO - - -Dous dias passárão depois da chegada dos Aymorés; a posição de D. -Antonio de Mariz e de sua familia era desesperada. - -Os selvagens tinhão atacado a casa com uma força extraordinaria; -diante delles a india terrivel de odio os excitava á vingança. - -As settas escurecendo o ar abatião-se como uma nuvem sobre a esplanada, -e crivavão as portas e as paredes do edificio. - -Á vista do perigo imminente que corrião todos, os aventureiros -revoltados retirárão-se e tratárão de defender-se do ataque dos -selvagens. - -Houve como que um armisticio entre os rebeldes e o fidalgo; sem se -reunirem, os aventureiros conhecerão que devião combater o inimigo -commum, embora depois levassem ao cabo a sua revolta. - -D. Antonio de Mariz, encastellado na parte da casa que habitava, rodeado -de sua familia e de seus amigos fieis, resolvêra defender até á -ultima extremidade esses penhores confiados ao seu amor de esposo e de -pai. - -Se a Providencia não permittisse que um milagre os viesse salvar, -morrerião todos; mas elle contava ser o ultimo, afim de velar que mesmo -sobre os seus despojos não atirassem um insulto. - -Era o seu dever de pai, e o seu dever de chefe, como o capitão que é o -ultimo a abandonar o seu navio, elle seria o ultimo a abandonar a vida, -depois de ter assegurado ás cinzas dos seus o respeito que se deve aos -mortos. - -Bem mudada estava essa casa que vimos tão alegre e tão animada! Parte -do edificio que tocava com o fundo onde habitavão os aventureiros tinha -sido abandonada por prudencia; D. Antonio concentrara sua familia no -interior da habitação para evitar algum accidente. - -Cecilia deixara o seu quartinho tão lindo e tão mimoso, e nelle -estabelecêra Pery o seu quartel-general e o seu centro de operações; -porque, é preciso dizer, o indio não partilhava o desanimo geral, e -tinha uma confiança inabalavel nos seus recursos. - -Serião dez horas da noite: a lampada de prata suspensa no tecto da -grande sala illuminava uma scena triste e silenciosa. - -Todas as janellas e portas estavão fechadas; de vez em quando ouvia-se -o estrepito que fazia uma setta cravando-se na madeira, ou enfiando-se -por entre as telhas. - -Nas duas extremidades da sala e na frente tinhão-se praticado no alto -da parede algumas setteiras, junta das quaes os aventureiros fazião a -noite uma sentinella constante, afim de prevenir uma sorpreza. - -D. Antonio de Mariz, sentado n'uma cadeira de espaldar, sob o docel, -repousava um instante; o dia fôra rude; os indios tinhão investido por -differentes vezes a escada de pedra da esplanada; e o fidalgo com o -pequeno numero de combatentes de que dispunha e com o auxilio da -colubrina conseguira repelli-los. - -A sua clavina carregada descansava de encontro ao espaldar da cadeira; e -as suas pistolas estavão collocadas em cima de um bufete ao alcance do -braço. - -Sua bella cabeça encanecida pendida ao seio resaltava sobre o velludo -preto de seu gibão, coberto por uma rede finissima de malhas d'aço que -lhe guarnecia o peito. - -Parecia adormecido, mas de vez em quando erguia os olhos e corria o -vasto aposento, contemplando com uma melancolia extrema a scena que se -desenhava no fundo meio esclarecido da sala. - -Depois voltava á mesma posição, e continuava suas dolorosas -reflexões; o fidalgo conservava toda a firmeza e coragem, mas -interiormente tinha perdido a esperança. - -Do lado opposto Cecilia recostada em um sofá parecia desfallecida; seu -rosto perdera a habitual vivacidade: seu corpo ligeiro e gracioso, -alquebrado por tantas emoções, prostrava-se com indolencia sobre uma -colcha de damasco. A mãozinha cahia immovel como uma flôr a que -tivessem quebrado a haste delicada; e os labios descorados agitavão-se -ás vezes murmurando uma prece. - -De joelhos á beira do sofá, Pery não tirava os olhos de sua senhora; -dir-se-hia que aquella respiração branda que fazia ondular os seios da -menina, e que se exhalava de sua bocca entreaberta, era o sopro que -alimentava a vida do indio. - -Desde o momento da revolta não deixou mais Cecilia; segui-a como uma -sombra; sua dedicação, já tão admiravel, tinha tocado o sublime com -a imminencia do perigo. Durante estes dous dias elle havia feito cousas -incriveis, verdadeiras loucuras de heroismo e abnegação. - -Succedia que um selvagem aproximando-se da casa soltava um grito que -vinha causar um ligeiro susto á menina? - -Pery lançava-se como um raio, e antes que tivessem tempo de contê-lo, -passava entre uma nuvem de flechas, chegava á beira da esplanada, e com -um tiro de sua clavina abatia o Aymoré que assustára sua senhora, -antes que elle tivesse tempo de soltar um segundo grito. - -Cecilia, afflicta e doente, recusava tomar o alimento que sua mãi ou -sua prima lhe trazião? - -Pery correndo mil perigos, arriscando-se a despedaçar-se nas pontas dos -rochedos e a ser crivado pelas flechas dos selvagens, ganhava a -floresta, e d'ahi a uma hora voltava trazendo um fructo delicado, um -favo de mel envolto de flôres, uma caça exquisita, que sua senhora -tocava com os labios para assim pagar ao menos tanto amor e tanta -dedicação. - -As loucuras do indio chegárão a ponto que Cecilia foi obrigada a -prohibir-lhe que sahisse de junto della, e a guarda-lo á vista com -receio de que não se fizesse matar a todo o momento. - -Além da amizade que lhe tinha, um quer que seja, uma esperança vaga -lhe dizia que na posição extrema em que se achavão, se alguma -salvação podia haver para sua familia, seria á coragem, á -intelligencia e á sublime abnegação de Pery que a deverião. - -Se elle morresse, quem velaria sobre ella com a solicitude e o ardente -zelo que tinha ao mesmo tempo o carinho de uma mãi, a protecção de um -pai, a meiguice de um irmão? Quem seria seu anjo da guarda para -livra-la de um pezar, e ao mesmo tempo seu escravo para satisfazer o seu -menor desejo? - -Não; Cecilia não podia de modo algum admittir nem a possibilidade de -que seu amigo viesse a morrer; por isso mandou, pedio, e até -supplicou-lhe que não sahisse de junto della; queria por sua vez ser -para Pery o bom anjo de Deus, o seu genio protector. - -Do mesmo lado em que estava Cecilia, mais n'um outro canto da sala, -via-se Isabel sentada de encontro á hombreira da janella; enfiava um -olhar ardente, cheio de anciedade e de susto por uma pequena fresta, que -ella entreabrira a furto. - -O raio de luz que filtrava por esta aberta da janella servia de mira aos -indios, que fazião chover settas sobre settas naquella direcção: mas -Isabel, alheia de si, nem se importava com o perigo que corria. - -Ella olhava Alvaro, que no alto da escada com a maior parte dos -aventureiros fieis fazia a guarda nocturna; o moço passeava pela -esplanada ao abrigo de uma ligeira palissada. Cada setta que passava por -sua cabeça, cada movimento que fazia, causavão em Isabel uma -afflicção immensa; sentia não poder estar junto delle para ampara-lo, -e receber a morte que lhe fosse destinada. - -D. Lauriana, sentada em um dos degráos do oratorio, rezava: a boa -senhora era uma das pessoas que mais coragem e mais calma mostravão no -transe horrivel em que se achava a familia; animada pela sua fé -religiosa e pelo sangue nobre que gyrava nas suas veias, ella se tinha -conservado digna de seu marido. - -Fazia tudo quanto era possivel; pensava os feridos, encorajava as -meninas, auxiliava os preparativos de defeza, e ainda em cima dirigia -sua casa como se nada se passasse. - -Ayres Gomes encostado á porta do gabinete, com os braços cruzados, e -immovel, dormia; o escudeiro guardava o posto que lhe fôra confiado -pelo fidalgo. Desde a conferencia que os dous tinhão tido, Ayres se -postára naquelle lugar, donde não sabia senão quando D. Antonio vinha -sentar-se na cadeira que havia junto da porta. - -Dormia de pé; porém mal um passo, por mais subtil que fosse, soava no -pavimento, acordava sobresaltado, com a pistola em punho, e a mão sobre -o fecho da porta. - -D. Antonio de Mariz levantou-se, e passando á cinta as suas pistolas e -tomando a sua clavina, dirigio-se ao sofá onde repousava sua filha, e -beijou-a na fronte; fez o mesmo a Isabel, abraçou sua mulher e sahio. O -fidalgo ia render a Alvaro, que fazia o seu quarto desde o anoitecer; -poucos momentos depois de sua sahida, a porta abrio-se de novo, e o -cavalheiro entrou. - -Alvaro trajava um gibão de lã forrado de escarlate; quando elle -appareceu no vão da porta, Isabel soltou um grito fraco, e correu para -elle. - ---Estais ferido? perguntou a moça com anciedade, e tomando-lhe as -mãos. - ---Não; respondeu o moço admirado. - ---Ah!... exclamou Isabel respirando. - -Tinha-se illudido; o rasgão que uma flecha fizera sobre o hombro -mostrando o forro escarlate do gibão, tinha de repente lhe parecido uma -ferida. - -Alvaro procurou desprender suas mãos das mãos de Isabel; mas a moça -supplicando-o com o olhar, e arrastando-o docemente, levou-o até o -lugar onde estava ha pouco, e obrigou o cavalleiro a sentar-se junto -della. - -Muitos acontecimentos se tinhão passado entre elles nestes dous dias; -ha circumstancias em que os sentimentos marchão com uma rapidez -extraordinaria, e devorão mezes e annos n'um só minuto. - -Reunidos nesta sala pela necessidade extrema do perigo, vendo-se -a cada momento, trocando ora uma palavra, ora um olhar, sentindo-se -emfim perto um do outro, esses dous corações, se não se amavão, -comprehendião-se ao menos. - -Alvaro fugia e evitava Isabel; tinha medo desse amor ardente que o -envolvia n'um olhar, dessa paixão profunda e resignada que se curvava a -seus pés sorrindo melancolicamente, sentia-se fraco para resistir, e -entretanto o seu dever mandava que resistisse. - -Elle amava, ou cuidava amar ainda a Cecilia; promettêra a seu pai ser -seu marido; e na situação em que se achavão, aquella promessa era -mais do que um juramento, era uma necessidade imperiosa, uma fatalidade -que se devia cumprir. - -Como podia elle pois alimentar uma esperança de Isabel? Não seria -infame, indigno, aceitar o amor que ella lhe offerecêra supplicando? -Não era seu dever destruir naquelle coração esse sentimento -impossivel? - -Alvaro pensava assim, e evitava todas as occasiões de estar só com a -moça, porque conhecia a impressão vehemente, a attracção poderosa -que exercia essa belleza fascinadora quando a paixão, animando-a, -cercava-a de um brilho deslumbrante. - -Dizia a si mesmo que não amava, que nunca amaria Isabel! entretanto -sabia que se elle a visse outra vez como no momento em que lhe -confessara seu amor, cahiria de joelhos a seus pés, e esqueceria o -dever, a honra, tudo por ella. - -A luta era terrivel; mas a alma nobre do cavalheiro não cedia, e -combatia heroicamente: podia ser vencida, mas depois de ter feito o que -fosse possivel ao homem para conservar-se fiel á sua promessa. - -O que tornava a luta ainda mais violenta era que Isabel não o perseguia -com o seu amor; depois daquella primeira hallucinação concentrava-se, -e resignada amava sem esperança de nunca ser amada. - - - - -IX - -ESPERANÇA - - -Sentando-se junto da moça, Alvaro sentio a sua coragem vacillar. - ---Que me quereis, Isabel? perguntou elle com a voz um pouco tremula. - -A menina não respondeu; estava embebida a contemplar o moço; -saciava-se de olha-lo, de senti-lo junto de si, depois de ter soffrido a -angustia de ver a morte roçando a sua cabeça, e ameaçando a sua vida. - -É preciso amar para comprehender essa voluptuosidade do olhar que se -repousa sobre o objecto amado, que não se cansa de ver aquillo que -está impresso na imaginação, mas que tem sempre um novo encanto. - ---Deixai-me olhar-vos! respondeu Isabel supplicando. Quem sabe! Talvez -seja pela ultima vez! - ---Porque essas idéas tristes? disse Alvaro com brandura. A esperança -ainda não está de todo perdida. - ---Que importa?... exclamou a moça. Ainda ha pouco vos vi de longe que -passeáveis sobre a esplanada, e a cada momento me parecia que uma setta -vos tocava, vos feria e... - ---Como!... Tivestes a imprudencia de abrir a janella?... - -O moço voltou-se, e estremeceu vendo a janella entreaberta, crivada da -parte exterior pelas settas dos selvagens. - ---Meu Deus!... exclamou elle, porque expondes assim a vossa vida, -Isabel?... - ---Que vale a minha vida, para que a conserve? disse a moça animando-se. -Tem ella algum prazer, alguma ventura, que me prenda? De que serviria a -existencia se não fosse para satisfazer um impulso de nossa alma? A -minha felicidade é acompanhar-vos com os olhos e com o pensamento. Se -esta felicidade me deve custar a vida, embora!... - ---Não falleis assim, Isabel, que me partis a alma. - ---E como quereis que falle? Mentir-vos é impossivel; depois daquelle -dia, em que trahi o meu segredo, de escravo que elle era, tornou-se -senhor, senhor despotico e absoluto. Sei que vos faço soffrer... - ---Nunca disse semelhante cousa! - ---Sois bastante generoso para dizê-lo, mas sentis. Eu conheço, eu leio -nos vossos menores movimentos. Vós me estimais talvez como irmão, mas -fugis de mim, e tendes receio que Cecilia pense que me amais; não é -verdade? - ---Não, exclamou Alvaro insensivelmente; tenho receio, tendo medo... mas -é de amar-vos! - -Isabel sentio uma commoção tão violenta, ouvindo as palavras rapidas -do moço, que ficou como extatica sem fazer um movimento; as -palpitações fortes do seu coração a suffocavão. - -Alvaro não estava menos commovido; subjugado por aquelle amor ardente, -impressionado pela abnegação da menina que expunha sua vida só para -acompanha-lo de longe com um olhar e protegê-lo com a sua solicitude, -tinha deixado escapar o segredo da luta que se passava em sua alma. - -Mas apenas pronunciara aquellas palavras imprudentes, conseguio -dominar-se, e tornando-se frio e reservado, fallou a Isabel em um tom -grave. - ---Sabeis que amo Cecilia; mas ignorais que prometti a seu pai ser seu -marido. Emquanto elle por sua livre vontade não me desligar de minha -promessa, estou obrigado a cumpri-la. Quanto ao meu amor, este me -pertence, e só a morte me pode desligar delle. No dia em que eu amasse -outra mulher, que não ella, me condemnaria a mim mesmo como um homem -desleal. - -O moço voltou-se para Isabel com um triste sorriso: - ---E comprehendeis o que faz um homem desleal que tem ainda a -consciencia precisa para se julgar a si? - -Os olhos da moça brilhárão com um fogo sinistro: - ---Oh! comprehendo!... É o mesmo que faz a mulher que ama sem -esperança, e cujo amor é um insulto ou um soffrimento para aquelle a -quem ama! - ---Isabel!... exclamou Alvaro estremecendo. - ---Tendes razão! Só a morte póde desligar de um primeiro e santo amor -aos corações como os nossos! - ---Deixai-vos dessas idéas, Isabel! Crede-me; uma unica razão póde -justificar semelhante loucura. - ---Qual? perguntou Isabel. - ---A deshonra. - ---Ha ainda outra, respondeu a moça com exaltação; outra menos -egoista, mas tão nobre como esta; a felicidade daquelles que se ama. - ---Não vos comprehendo. - ---Quando se sabe que se pôde ser uma causa de desgraça para aquelles -que se estima, melhor é desatar o unico laço que nos prende á vida do -que vê-lo despedaçar-se. Não dizieis que tendes medo de amar-me? Pois -bem, agora sou eu que tenho medo de ser amada. - -Alvaro não soube o que responder: estava n'uma terrivel agitação: -conhecia Isabel, e sabia que força tinhão aquellas palavras ardentes -que soltavão os labios da moça. - ---Isabel! disse elle tomando-lhe as mãos. Se me tendes alguma -affeição, não me recuseis a graça que vou pedir-vos. Repelli esses -pensamentos! Eu vos supplico! - -A moça sorrio-se melancolicamente: - ---Vós me supplicais?... Me pedis que conserve esta vida que -recusastes!... Não é ella vossa? Aceitai-a; e já não tereis que -supplicar! - -O olhar ardente de Isabel fascinava; Alvaro não se pôde mais conter; -ergueu-se; e reclinando-se ao ouvido da moça balbuciou: - ---Aceito!... - -Emquanto Isabel, pallida de emoção e felicidade, duvidava ainda da voz -que resoava no seu ouvido, o moço tinha sahido da sala. - -Durante que Alvaro e Isabel conversavão á meia voz, Pery continuava a -contemplar sua senhora. - -O indio estava pensativo: e via-se que uma idéa o preoccupava, e -absorvia toda a sua attenção. - -Por fim levantou-se, e lançando um ultimo olhar repassado de tristeza a -Cecilia, encaminhou-se lentamente para a porta da sala. - -A menina fez um ligeiro movimento e levantou a cabeça: - ---Pery!... - -Elle estremeceu, e voltando foi de novo ajoelhar-se junto do sofá. - ---Tu me promette não deixar tua senhora! disse Cecilia com uma doce -exprobação. - ---Pery quer te salvar. - ---Como? - ---Tu saberás. Deixa Pery fazer o que tem no pensamento. - ---Mas não correrás nem um perigo? - ---Porque perguntas isto, senhora? disse o indio timidamente. - ---Porque?... exclamou Cecilia levantando-se com vivacidade. Porque se -para nos salvar é preciso que tu morras, eu rejeito o teu sacrificio, -rejeito-o em meu nome e no de meu pai. - ---Socega, senhora; Pery não teme o inimigo; sabe o modo de vencê-lo. - -A menina abanou a cabeça com ar incredulo. - ---Elles são tantos!... - -O indio sorrio com orgulho. - ---Sejão mil; Pery vencerá a todos; aos indios e aos brancos. - -Elle pronunciou estas palavras com a expressão de naturalidade e ao -mesmo tempo de firmeza que dá a consciencia da força e do poder. - -Comtudo Cecilia não podia acreditar o que ouvia; parecia-lhe -inconcebivel que um homem só, embora tivesse a dedicação e o heroismo -do indio, podesse vencer não só os aventureiros revoltados, como os -duzentos guerreiros Aymorés que assaltavão a casa. - -Mas ella não contava com os recursos immensos de que dispunha essa -intelligencia vigorosa, que tinha ao seu serviço um braço forte, um -corpo agil, e uma destreza admiravel; não sabia que o pensamento é a -arma mais poderosa que Deus deo ao homem, e que com ella se abatem os -inimigos, se quebra o ferro, se doma o fogo, e se vence por essa força -irresistivel e providencial que manda ao espirito dominar a materia. - ---Não te illudas; vais fazer um sacrificio inutil. Não é possivel que -um homem só vença tantos inimigos ainda mesmo que este homem seja -Pery. - ---Tu verás! respondeu o indio com segurança. - ---E quem te dará força para lutar contra um poder tão grande?... - ---Quem?... Tu senhora, tu só, respondeu o indio fitando nella o seu -olhar brilhante. - -Cecilia sorrio, como devem sorrir os anjos. - ---Vai, disse ella, vai salvar-nos. Mas lembra-te que se tu morreres, -Cecilia não aceitará a vida que lhe deres. - -Pery ergueu-se. - ---O sol que se levantar amanhã será o ultimo para todos os teus -inimigos; Ceci poderá sorrir como dantes, e ficar alegre e contente. - -A voz do indio tornou-se tremula; sentindo que não podia vencer a -emoção atravessou rapidamente a sala e sahio. - -Chegando á esplanada Pery olhou as estrellas que começavão a -apagar-se, e viu que o dia pouco tardaria a raiar: não tinha tempo a -perder. - -Qual era o projecto que havia concebido, e que lhe dava uma certeza e -uma convicção profunda a respeito do seu resultado? Que meio ousado -tinha ella para contar com a destruição dos inimigos, e salvação de -sua senhora? - -Fôra difficil adivinhar; Pery guardava no fundo do coração esse -segredo impenetravel, e nem a si mesmo o dizia com receio de trahir-se, -e de annullar o effeito, que esperava com uma confiança inabalavel. - -Tinha todos os inimigos na sua mão; e bastava-lhe um pouco de prudencia -para fulmina-los a todos como a colera celeste, como o fogo de raio. - -Pery dirigio-se ao jardim e entrou no quarto de Cecilia, então -abandonado por sua senhora, por causa da proximidade em que ficava do -fundo da casa occupado pelos aventureiros revoltados. - -O quarto estava ás escuras: mas a tenue claridade que entrava pela -janella bastava ao indio para distinguir os objectos perfeitamente; a -perfeição dos sentidos é um dom que os selvagens possuem no mais alto -gráo. - -Elle tomou suas armas uma a uma, beijou as pistolas que Cecilia lhe -havia dado e deitou-as no chão no meio do aposento, tirou os seus -ornatos de pennas, sua faxa de guerreiro, a pluma brilhante do seu cocar -e lançou-os como um tropheo sobre as suas armas. - -Depois agarrou o seu grande arco de guerra, apertou-o ao seio e -curvando-o de encontro ao joelho quebrou-o em duas metades, que forão -juntar-se ás armas e aos ornatos. - -Por algum tempo Pery contemplou com um sentimento de dôr profunda esses -despojos de sua vida selvagem; esses emblemas de sua dedicação sublime -por Cecilia, e de seu heroismo admiravel. - -Em luta com essa emoção poderosa, insensivelmente murmurou na sua -lingua algumas destas palavras que a alma manda aos labios nos momentos -supremos: - ---Arma de Pery, companheira e amiga, adeus! Teu senhor te abandona e te -deixa: comtigo elle venceria; comtigo ninguem poderia vencê-lo. E elle -quer ser vencido... - -O indio levou a mão ao coração: - ---Sim!... Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu, forte entre os -fortes, guerreiro goytacaz, nunca vencido, vai succumbir na guerra. A -arma de Pery não pode ver seu senhor pedir a vida ao inimigo; o arco de -Ararê, já quebrado, não salvará o filho. - -Sua cabeça altiva e sobranceira emquanto pronunciava estas palavras -cahio-lhe sobre o seio; por fim venceu a sua emoção, e cingindo nos -seus braços esse tropheo de suas armas e de suas insignias de guerra, -estreitou-as ao peito em um ultimo abraço de despedida. - -Um aroma agreste das plantas que começavão a se abrir com a -aproximação do dia, avisou-lhe que a noite estava a acabar. - -Quebrou a axorca de fructos que trazia na perna sobre a artelho, como -todos os selvagens: este ornato era feito de pequenos cocos ligados por -um fio, e tingidos de amarello. - -Pery tomou dous destes fructos, e partio-os com a faca, sem comtudo -separar as cascas; fechando-os então na sua mão, levantou o braço -como fazendo um desafio ou uma ameaça terrivel e lançou-se fora do -aposento. - - - - -X - -A BRECHA - - -Quando Pery entrou no quarto de Cecilia, Loredano passeava do outro -lado da esplanada, em frente do alpendre. - -O italiano reflectia sobre os acontecimentos que havião passado nos -ultimos dias, sobre as vicissitudes que corrêra a sua vida e a sua -fortuna. - -Por differentes vezes tinha posto o pé sobre o tumulo; tinha tocado a -sua ultima hora; e a morte fugira delle, e o respeitára. Tambem por -differentes vezes havia encarado a felicidade, o poder, a fortuna; e -tudo se esvaecêra como um sonho. - -Quando á frente dos aventureiros revoltados ia atacar a D. Antonio de -Mariz que não lhe podia resistir, os Aymorés tinhão apparecido de -repente e mudado a face das cousas. - -A necessidade da defeza contra o inimigo commum trouxe uma suspensão de -hostilidades; acima da ambição estava o instincto da vida e da -conservação. A luta de interesses e de odios cedeu á grande luta das -raças inimigas. - -Por isso no primeiro ataque dos selvagens, todos por um movimento -espontaneo tratárão de repellir o inimigo, e de salvar a casa da -ruina que a ameaçava. Depois separárão-se de novo, e sempre -observando-se, sempre promptos a defenderem-se um do outro, os dous -grupos continuárão a repellir os indios com a maior coragem. - -No meio disto porém Loredano, que se constituîra o chefe da revolta, -não abandonava o seu projecto de apoderar-se de Cecilia, e vingar-se de -D. Antonio de Mariz e de Alvaro. - -Seu espirito tenaz trabalhava incessantemente procurando o meio de -chegar áquelle resultado; atacar abertamente o fidalgo era uma loucura -que não podia commetter. A menor luta que houvesse entre elles, -entregava-os todos aos selvagens, que excitados pela vingança e pelos -seus instinctos sanguinarios e ferozes, atacavão o edificio sem repouso -e sem descanso. - -A unica barreira que continha os Aymorés era a posição inexpugnavel -da casa, assentada sobre um rochedo, apenas accessivel por um ponto, -pela escada de pedra que descrevêmos no primeiro capitulo desta -historia. - -Esta escada era defendida por D. Antonio de Mariz e pelos seus homens; a -ponte de madeira tinha sido destruida; mas apezar disto os selvagens a -substituirião facilmente se não fosse a resistencia desesperada que o -fidalgo oppunha aos seus ataques. - -Desde o momento pois que, impellido pelo seu amor, D. Antonio corresse -em defeza de sua familia, e abandonasse a escada, os duzentos guerreiros -Aymorés se precipitarião sobre a casa, e não havia coragem que lhes -podesse resistir. - -O italiano, que comprehendia isto, estava bem longe de tentar o menor -ataque a peito descoberto; a prudencia o aconselhava então como o tinha -aconselhado no dia do primeiro assalto. - -O que elle procurava era um meio de, sem estrepito, sem luta, -imprevistamente, fazer morrer D. Antonio de Mariz, Pery, Alvaro, e Ayres -Gomes; feito isto os outros se reunirião a elle pela necessidade da -defeza, e pelo instincto da conservação. - -Tornar-se-hia então senhor da casa; ou repellia os indios, salvava -Cecilia, se realisava todos os seus sonhos de amor e de felicidade; ou -morria tendo ao menos esgotado até ao meio a taça do prazer que seus -labios nem sequer havião tocado. - -Era impossivel que esse espirito satanico, fixando-se em uma idéa -durante tres dias, não tivesse conseguido achar um meio para a -consummação desse novo crime que planejara. - -Não só o tinha achado, mas já havia começado a pô-lo em pratica; -tudo o protegia, até mesmo o inimigo que o deixava em repouso, atacando -unicamente o lado da casa protegido por D. Antonio de Mariz. - -Passeava pois embalando-se de novo nas suas esperanças, quando Martim -Vaz, sahindo do alpendre, chegou-se a elle. - ---Uma com que não contávamos!... disse o aventureiro. - ---O que? perguntou o italiano com vivacidade. - ---Uma porta fechada. - ---Abre-se! - ---Não com essa facilidade. - ---Veremos. - ---Está pregada por dentro. - ---Terão presentido?... - ---Foi a idéa que já tive. - -Loredano fez um gesto de desespero. - ---Vem! - -Os dous encaminhárão-se para o alpendre, onde dormião os aventureiros -armados, promptos ao menor signal de ataque. - -O italiano acordou João Feio, e por precaução mandou-o fazer a guarda -na esplanada, apezar de não haver receio que os selvagens atacassem do -seu lado. - -O aventureiro, ainda tonto do somno, ergueu-se e sahio. - -Loredano e seu companheiro caminhárão para uma sala interior que -servia de cozinha e despensa a esta parte da casa. Quando ião entrar, a -luz que o aventureiro levava na mão para esclarecer o caminho, -apagou-se de repente. - ---Sois um desasado! disse Loredano contrariado. - ---E tenho eu culpa! Quexai-vos do vento. - ---Bom! não gasteis o tempo em palavras! Tirai fogo! - -O aventureiro voltou a procurar o seu fuzil. - -Loredano ficou em pé na porta á espera que o seu companheiro voltasse; -e pareceu-lhe ouvir perto delle a respiração de um homem. Applicou o -ouvido para certificar-se; e por segurança tirou o seu punhal e -collocou-se no centro da porta, para impedir a sahida de quem quer que -fosse. - -Não ouvio mais nada; porém sentio de repente um corpo frio e gelado -que tocou-lhe a fronte; o italiano recuou, e brandindo a sua faca deu um -golpe ás escuras. - -Pareceu-lhe que tinha tocado alguma cousa; entretanto tudo conservou-se -no mais profundo silencio. - -O aventureiro voltou trazendo a luz. - ---É singular, disse elle; o vento póde apagar uma candeia, mas não -lhe tira o pavio. - ---O vento, dizeis. Acaso o vento tem sangue? - ---Que quereis dizer? - ---Que o vento que apagou a vela é o mesmo que deixou o seu signal neste -ferro. - -E Loredano mostrou ao aventureiro a sua faca, cuja ponta estava tinta de -sangue ainda liquido. - ---Ha aqui então um inimigo?... - ---De certo; os amigos não precisão occultar-se. - -Nisto ouvirão um rumor no telhado, e um morcego passou agitando -lentamente as grandes azas: estava ferido. - ---Eis o inimigo!... exclamou Martim rindo-se. - ---É verdade, respondeu Loredano no mesmo tom; confesso que já tive -medo de um morcego. - -Tranquillos a respeito do incidente que os havia demorado, os dous -entrárão na cozinha, e d'ahi por uma brecha estreita praticada na -parede penetrárão no interior da casa ha pouco habitada por D. Antonio -de Mariz e sua familia. - -Atravessárão parte do edificio e chegárão a uma varanda que tocava -de um lado com o quarto de Cecilia e do outro com o oratorio e o -gabinete d'armas do fidalgo. - -Ahi o aventureiro parou; e mostrando a Loredano a porta adufada de -jacarandá, que dava entrada para o gabinete, disse-lhe: - ---Não é com duas razões que a deitaremos dentro! - -Loredano aproximou-se e reconheceu que a solidez e fortaleza da porta -não lhe permittia a menor violencia: todo o seu plano estava -destruido. - -Contava durante a noite se introduzir furtivamente na sala, e assassinar -a D. Antonio de Mariz, Ayres Gomes e Alvaro antes que elles podessem ser -soccorridos por seus companheiros; consummado o crime, estava senhor da -casa. - -Como remover o obstaculo que lhe apparecia? A menor violencia contra a -porta despertaria a attenção de D. Antonio de Mariz, e inutilisaria -todo o seu projecto. - -Emquanto reflectia nisto, os seus olhos cahirão sobre uma estreita -fresta que havia no alto da parede do oratorio, e que servia mais para -dar ar do que luz. - -Por esta abertura o italiano conheceu que aquella parte da parede era -singela, e feita de um só tijolo; com effeito o oratorio tinha sido -outr'ora um corredor largo que ia da varanda á sala, e que fôra -separado por uma ligeira divisão. - -Loredano medio a parede de alto a baixo, e acenou ao seu companheiro. - ---É por aqui que havemos de entrar, disse elle apontando para a parede. - ---Como? A menos de não ser um mosquito para passar por aquella fresta! - ---Esta parede assenta sobre uma viga; tirada ella, está aberto o -caminho! - ---Entendo. - ---Antes que possão tornar a si do susto, teremos acabado. - -O aventureiro quebrou com a ponta da faca o reboco da parede, e -descobrio a viga que lhe servia de alicerce. - ---Então? - ---Não ha duvida. Daqui a duas horas dou-vos isto prompto. - -Martim Vaz, depois da morte de Ruy Soeiro e Bento Simões, tinha-se -tornado o braço direito de Loredano, era o unico a quem o italiano -confiára o seu segredo, occulto para os outros em quem receava ainda a -influencia de D. Antonio de Mariz. - -O italiano deixou o aventureiro no seu trabalho, e voltou pelo mesmo -caminho; chegando á cozinha, sentio-se suffocado por uma fumaça -espessa que enchia todo o alpendre. Os aventureiros acordados de repente -blasphemavão contra o autor de semelhante lembrança. - -Quando Loredano no meio delles procurava indagar a causa do que -succedia, João Feio appareceu na entrada do alpendre. - -Havia na sua physionomia uma expressão terrivel de colera e ao mesmo -tempo de espanto; de um salto aproximou-se do italiano, e chegando-lhe a -bocca ao ouvido, disse: - ---Renegado e sacrilego, dou-te uma hora para ires entregar-te a -D. Antonio de Mariz, e obter delle o nosso perdão, e o teu castigo. Se o -não fizeres dentro desse tempo, é comigo que te has de avir. - -O italiano fez um movimento de raiva; mas conteve-se: - ---Amigo, o sereno transtornou-vos o juizo; ide deitar-vos. Boa noite, ou -antes bom dia. - -A alvorada despontava no horizonte. - - - - -XI - -O FRADE - - -Sahindo do quarto de Cecilia, Pery tomára pelo corredor que communicava -com o interior do edificio. - -O indio, á cuja perspicacia nada escapava do que se passava no interior -da casa, por mais insignificante que fosse, havia percebido o plano de -Loredano desde a primeira pancada dada para a abertura da brecha. - -Na vespera o som do ferro na parede tinha ido despertar a sua attenção -na sala onde elle repousava um momento, deitado aos pés do leito de sua -senhora; seu ouvido fino e delicado auscultára o seio da terra. -Levantou-se de salto, e atravessando todo o edificio chegou, guiado -pelas pancadas, ao lugar onde Loredano e o aventureiro começavão a -abrir uma fenda no muro. - -Em vez de atemorisar-se com esta nova audacia do italiano, o indio -sorrio-se; a brecha que praticava seria a sua perdição, porque ia dar -facil passagem a elle Pery. - -Contentou-se pois em examinar todas as portas que communicavão com a -sala e prega-las por dentro; seria um novo obstaculo que demoraria os -aventureiros, e lhe daria tempo de sobra para extermina-los. - -Foi por isso que do quarto de Cecilia, cuja porta fechou sobre si, -caminhou direito á brecha e por ella penetrou na despensa dos -aventureiros. - -Era uma sala bastante espaçosa, onde havia uma mesa, algumas talhas e -uma grande quartola de vinho; o indio mesmo ás escuras chegou-se a cada -um desses vasos; e por alguns instantes ouvio-se o fraco vascolejar do -liquido que elles continhão. - -Então Pery viu uma luz que se aproximava; era Loredano e o seu -companheiro. - -A vista do italiano lhe gelou o sangue no coração. Tal odio votava a -esse homem abjecto e vil, que teve medo de si, medo de o matar. Isso -fôra agora uma imprudencia; pois inutilisaria todo o seu plano. - -Muita vez depois da noite em que Loredano penetrára na alcova de -Cecilia, Pery tivera impetos de ir vingar a injuria feita á sua senhora -no sangue do italiano, para quem pensava que uma morte não era bastante -punição. - -Mas lembrava-se que não se pertencia; que precisava da vida para -consummar sua obra salvando Cecilia de tantos inimigos que a cercavão. -E recalcava a vingança no fundo do coração. - -Fez o mesmo então: cosido com a parede conseguio apagar a vela. Ia -sahir, quando sentira que o italiano tomava a porta. - -Hesitou. - -Podia lançar-se sobre Loredano e subjuga-lo; mas isto produziria uma -luta, e denunciaria a sua presença; era preciso que fugisse sem que -restasse um só vestigio de sua passagem: a mais leve suspeita faria -abortar o seu plano. - -Teve uma idéa feliz, ergueu a mão molhada e tocou o rosto do italiano; -emquanto este recuava para atirar a punhalada ás escuras, o indio -resvalou entre elle e a porta. - -A faca de Loredano tinha-lhe ferido o braço esquerdo; não soltou -porém nem um gemido, não fez um movimento que o trahisse; ganhou o -fundo do alpendre antes que o aventureiro voltasse com a luz. - -Mas Pery não estava contente; o seu sangue ia denuncia-lo; não lhe -convinha de modo algum que o italiano suspeitasse que elle ali tinha -estado. - -Os morcegos que esvoaçavão espantados pelo tecto do alpendre -lembrárão-lhe um excellente expediente; agarrou o primeiro que lhe -passou ao alçance do braço, e abrindo-lhe uma cesura com a faca, -soltou-o. - -Elle sabia que o vampiro procuraria a luz, e iria esvoaçar em torno dos -dous aventureiros; contava que as gotas de sangue que cahião de sua aza -ferida os enganaria; a realidade correspondeu ás suas previsões. - -Apenas Loredano desappareceu, Pery continuou a execução do seu plano; -chegou-se a um canto do alpendre onde havia um resto de fogo encoberto -pela cinza, e atirou sobre elle alguma roupa dos aventureiros que ahi -estava a enxugar. - -Este incidente, por insignificante que pareça, entrava nos planos de -Pery; a roupa queimando-se devia encher a casa de fumaça, acordar os -aventureiros e excitar-lhes a sêde. Era justamente o que desejava o -indio. - -Satisfeito do resultado que obtivera, Pery atravessou a esplanada: ahi -porém foi obrigado a recuar, surprehendido do que via. - -Um homem do lado de D. Antonio de Mariz e um aventureiro revoltado -conversavão através da estacada que dividia esses dous campos -inimigos; havia realmente motivo para que o indio se admirasse. - -Não só isso era contra a ordem expressa de D. Antonio de Mariz, que -prohibira qualquer relação entre seus homens e os revoltados, como -contrariava o plano de Loredano, que temia ainda o respeito e o habito -de obediencia que os aventureiros tinhão para com o fidalgo. - -O que se tinha passado antes explicava esse acontecimento -extraordinario. - -O aventureiro a quem Loredano mandára rondar a esplanada, emquanto elle -entrava, tinha começado o seu gyro de uma ponta á outra do pateo. - -Sempre que chegava junto da estacada, notava que do outro lado um homem -se aproximava como elle, voltava, e se alongava pela beira da esplanada; -adivinhou facilmente que era tambem uma sentinella. - -João Feio era um franco o jovial companheiro, e não podia supportar o -tedio de um passeio alta noite, no meio de um somno interrompido, sem -uma pinga para beber, sem um camarada para conversar, sem uma -distracção emfim. - -Para maior desprazer, uma das vezes que se aproximava da estacada, -sentio uma baforada de tabaco, e viu que o seu companheiro de guarda -fumava. - -Levou a mão ao bolso das bragas, e achou algumas folhas de fumo, mas -não trazia o seu caximbo; ficou desesperado, e decidio dirigir-se ao -outro. - ---Olá, amigo! Tambem fazeis a vossa guarda? - -O homem voltou-se, e continuou o seu caminho sem dar resposta. - -No segundo gyro o aventureiro atirou segunda isca. - ---Felizmente o dia não tarda a raiar; não vos parece? - -O mesmo silencio que a primeira vez: o aventureiro comtudo não -desanimou, e na terceira volta retrucou: - ---Somos inimigos, camarada; mas isto não impede a um homem cortez de -responder quando outro lhe falla. - -Desta vez o silencioso sentinella voltou-se de todo: - ---Antes da cortezia está a nossa santa religião, que manda a todo -christão não fallar a um herege, a um reprobo, a um phariseo. - ---Que é lá isto? Fallais serio, ou quereis fazer-me enraivar por -nonadas? - ---Fallo-vos serio, como se estivesse diante do nosso Santo Redemptor -confessando as minhas culpas. - ---Pois então, digo-vos que mentis! Porque tão bom podeis ser, porém -melhor crente que eu não o é outrem. - ---Tendes a lingua um pouco longa, amigo. Mas Belzebuth vos fará as -contas, que não eu: perderia minha alma se tocasse o corpo de -endemoniados! - ---Por S. João Baptista, meu patrão, não me façais saltar esta -estacada para perguntar-vos a razão por que tratais em ar de mofa a -devoção dos mais. Chamai-nos rebeldes, mas hereges não. - ---E como quereis então que chame os companheiros de um frade sacrilego, -maldito, que abjurou dos seus votos, e atirou o seu habito ás ortigas? - ---Um frade! Dissestes vós? - ---Sim, um frade. Não o sabeis? - ---O que? De que frade fallais vós? - ---Do italiano, bofé! - ---Elle!... - -O homem, que não era outro senão o nosso antigo conhecido mestre -Nunes, contou então, exagerando com o fervor de seus sentimentos -religiosos, aquillo que sabia da historia de Loredano. - -O aventureiro horrorisado, tremendo de raiva, não deixou mestre Nunes -acabar a sua historia e lançou-se para o alpendre, onde viu-se a -ameaça que fez ao italiano. - -Quando elles se separárão, Pery saltou por cima da estacada, e -dirigio-se para o quarto que ha pouco tinha deixado. - -O dia vinha então rompendo; os primeiros raios do sol illuminavão já -o campo dos Aymorés, assentado sobre a varzea á margem do rio. Os -selvagens irritados olhavão de longe a casa, fazendo gestos de raiva -por não poderem vencer a barreira de pedra que defendia o inimigo. - -Pery olhou um momento aquelles homens de estatura gigantesca, de aspecto -horrivel, aquelles duzentos guerreiros de força prodigiosa, ferozes -como tigres. - -O indio murmurou: - ---Hoje cahirão todos como a arvore da floresta, para não se erguerem -mais. - -Sentou-se no vão da janella, e encostando a cabeça sobre a curva do -braço, começou a reflectir. - -A obra gigantesca que emprehendêra, obra que parecia exceder todo o -poder do homem, estava prestes a realisar-se: já tinha levado ao cabo -metade della, faltava a conclusão, a parte a mais difficil e a mais -delicada. - -Antes de lançar-se, Pery queria prever tudo; fixar bem no seu espirito -as menores circumstancias; traçar a sua linha invariavel, afim de -marchar firme, direito, infallivel ao alvo a que visada; afim de que a -menor hesitação não pozesse em risco o effeito do seu plano. - -Seu espirito percorreu em alguns segundos um mundo de pensamentos; -guiado pelo seu instincto maravilhoso e pelo seu nobre coração, -formulou n'um rapido instante um grande e terrivel drama, do qual devia -ser o heróe; drama sublime de heroismo e dedicação, que para elle era -apenas o cumprimento de um dever e a satisfação de um desejo. - -As almas grandes têm esse privilegio; suas acções, que nos outros -inspirão a admiração, se anihilão em face dessa nobreza innata do -coração superior, para o qual tudo é natural e possivel. - -Quando Pery ergueu a cabeça estava radiante de felicidade e orgulho; -felicidade por salvar sua senhora; orgulho pela consciencia de que elle -só bastava para fazer o que cincoenta homens não farião; o que o -proprio pai, o amante, não conseguirão nunca. - -Não duvidava mais do resultado: via nos acontecimentos futuros como no -espaço que se estendia diante delle, e no qual nem um objecto escapava -ao seu olhar limpido; tanto quanto é possível ao homem, elle tinha a -certeza e a convicção de que Cecilia estava salva. - -Cobrio o peito e as costas com uma pelle de cobra que ligou -estreitamente ao corpo; vestio por cima o seu saiote de algodão; -experimentou os musculos dos braços e das pernas; e sentindo-se forte, -agil e flexivel, sahio inerme. - - - - -XII - -DESOBEDIENCIA - - -Alvaro, recostado da parte de fora a uma das janellas da casa, pensava -em Isabel. - -Sua alma lutava ainda, mas já sem força, contra o amor ardente e -profundo que o dominava; procurava illudir-se, mas a sua razão não o -permittia. - -Conhecia que amava Isabel, e que a amava como nunca tinha amado Cecilia; -a affeição calma e serena de outr'ora fôra substituida pela paixão -abrasadora. - -Seu nobre coração revoltava-se contra essa verdade; mas a vontade era -impotente contra o amor; não podia mais arranca-lo do seu seio; não o -desejava mesmo. - -Alvaro soffria; o que dissera na vespera a Isabel era realmente o que -sentia; não se exagerára; no dia em que deixasse de amar Cecilia e -fosse infiel á promessa feita a D. Antonio, se condemnaria como um -homem sem honra e sem lealdade. - -Consolava-o a idéa de que a situação em que se achavão não podia -durar muito; pouco tardava que exhaustos, enfraquecidos, succumbissem á -força dos inimigos que os atacavão. - -Então nos momentos extremos, á bordado tumulo, quando a morte o -tivesse já desligado da terra, poderia com o ultimo suspiro balbuciar a -primeira palavra do seu amor! poderia confessar a Isabel que a amava. - -Até então lutaria. - -Nisto Pery chegou-se e tocou-lhe no hombro: - ---Pery parte. - ---Para onde? - ---Para longe. - ---Que vais fazer? - -O indio hesitou: - ---Procurar soccorro. - -Alvaro sorrio-se com incredulidade. - ---Tu duvidas? - ---De ti não; mas do soccorro. - ---Escuta; se Pery não voltar, tu farás enterrar as suas armas. - ---Podes ir tranquillo? eu te prometto. - ---Outra cousa. - ---O que é? - -O indio hesitou de novo: - ---Se tu vires a cabeça de Pery desligada do corpo, enterra-a com as -suas armas. - ---Porque este pedido? A que vem semelhante lembrança? - ---Pery vai passar pelo meio dos selvagens, e pode morrer. Tu és -guerreiro; e sabes que a vida é como a palmeira: murcha quando tudo -reverdece. - ---Tens razão. Farei tudo quanto pedes; mas espero ver-te ainda. - -O indio sorrio. - ---Ama a senhora, disse elle estendendo a mão ao moço. - -O seu adeus era uma ultima prece pela felicidade de Cecilia. - -Pery entrou na sala onde se achava reunida a familia. - -Todos dormião; só D. Antonio de Mariz velava sempre, apezar da -velhice; sua vontade poderosa cobrava novas forças, e reanimava o corpo -gasto pelos annos. Não lhe restava senão uma esperança; a de morrer -rodeado dos entes que amava, cercado de sua familia, como um fidalgo -portuguez devia morrer; com honra e coragem. - -O indio atravessou a sala, e collocando-se junto do sofa em que Cecilia -adormecida repousava, contemplou-a um instante com um sentimento de -profunda melancolia. - -Dir-se-hia que nesse olhar ardente fazia uma ultima e solemne despedida; -que partindo-se, o escravo fiel e dedicado queria deixar a sua alma -enleiada naquella imagem, que representava a sua divindade na terra. - -Que sublime linguagem não fallavão aquelles olhos intelligentes, -animados por um brilhante reflexo de amor e de fidelidade? Que epopéa -de sentimento e de abnegação não havia naquella muda e respeitosa -contemplação? - -Por fim Pery fez um esforço supremo, e a custo conseguio quebrar o -encanto que o prendia, e o conservava immovel, como uma estatua, diante -da linda menina adormecida. Reclinou sobre o sofá, e beijou -respeitosamente a fimbria do vestido de Cecilia; quando ergueu-se, uma -lagrima triste e silenciosa que deslisava pela sua face cahio sobre a -mão da menina. - -Cecilia, sentindo aquella gota ardente, entreabrio os olhos; mas Pery -não viu este movimento, porque já se tinha voltado e aproximava-se de -D. Antonio de Mariz. - -O fidalgo, sentado na sua poltrona, recebeu-o com um sorriso pungente: - ---Tu soffres? perguntou o indio. - ---Por elles, por ella especialmente, por minha Cecilia. - ---Por ti não? disse Pery com intenção. - -— Por mim? Daria a minha vida para salva-la: e morreria feliz! - ---Ainda que ella te pedisse que vivesse? - ---Embora me supplicasse de joelhos. - -O indio sentio-se alliviado como de um remorso. - ---Pery te pede uma cousa? - ---Falla! - ---Pery quer beijar a tua mão. - -D. Antonio de Mariz tirou o seu guante, e sem comprehender a razão do -pedido do indio, estendeu-lhe a mão. - ---Tu dirás a Cecilia que Pery partio; que foi longe; não deves -contar-lhe a verdade: ella soffrerá. Adeus; Pery sente te deixar; mas -é preciso. - -Emquanto o indio proferia estas palavras em voz baixa e inclinado ao -ouvido do fidalgo, este surprehendido procurava ligar-lhes um sentido -que lhe parecia vago e confuso: - ---Que pretendes tu fazer Pery? perguntou D. Antonio. - ---O mesmo que tu querias fazer para salvar a senhora. - ---Morrer!... exclamou o fidalgo. - ---Pery levou o dedo aos labios recommendando silencio; mas era tarde; um -grito partido do canto da sala fê-lo estremecer. - -Voltando-se viu Cecilia, que ao ouvir a ultima palavra de seu pai -quizera correr para elle, e cahira de joelhos, sem forças para dar um -passo. A menina com as mãos estendidas e supplicantes parecia pedir a -seu pai que evitasse aquelle sacrificio heroico, e salvasse a Pery de -uma morte voluntaria. - -O fidalgo a comprehendeu: - ---Não, Pery; eu, D. Antonio de Mariz, não consentirei nunca em -semelhante cousa. Se a morte de alguem podesse trazer a salvação de -minha Cecilia e de minha familia, era a mim que competia o sacrificio. E -por Deus e pela minha honra o juro, que a ninguem o cederia; quem -quizesse roubar-me esse direito me faria um insulto cruel. - -Pery volvia os olhos de sua senhora afflicta e supplicante para o -fidalgo severo erigido no cumprimento de seu dever; temia aquellas duas -opposições differentes, mas que tinhão ambas um grande poder sobre a -sua alma. - -Podia o escravo resistir a uma supplica de sua senhora, e causar-lhe uma -mágoa, quando toda a sua vida fôra destinada a fazê-la alegre e -feliz? Podia o amigo offender a D. Antonio de Mariz, a quem respeitava, -praticando uma acção que o fidalgo considerava como uma injuria feita -á sua honra? - -Pery teve um momento de hallucinação, em que pareceu-lhe que o -coração lhe estacava no peito, a vida lhe fugia, e a cabeça se -despedaçava com a pressão violenta das idéas que tumultuavão no -cerebro. - -No rapido instante que durou a vertigem, elle viu gyrarem rapidamente em -torno de si as figuras sinistras dos Aymorés, que ameaçavão a vida -preciosa daquelles a quem mais amava no mundo. Vio Cecilia supplicando, -não a elle, mas ao inimigo feroz e sanguinario, prestes a mancha-la com -as mãos impuras; viu a bella e nobre cabeça do velho fidalgo rojar -mutilada com os alvos cabellos tintos de sangue. - -O indio horrorisado com estas imagens lugubres que lhe desenhava a sua -imaginação em delirio, apertou a cabeça entre as mãos, com para -arranca-la daquella febre. - ---Pery balbuciava Cecilia; tua senhora te pede!... - ---Morreremos todos juntos, amigo, quando chegar o momento, dizia D. -Antonio de Mariz. - -Pery levantou a cabeça, e lançou sobre a menina e o fidalgo um olhar -hallucinado: - ---Não!... exclamou elle. - -Cecilia ergueu-se com um movimento instantaneo, de pé e pallida, -soberba de cólera e indignação, a gentil e graciosa menina de -outr'ora se tinha de repente transformado n'uma rainha imperiosa. - -Sua bella fronte alva resplandecia com um assomo de orgulho; seus olhos -azues tinhão desses reflexos fulvos que illuminão as nuvens no meio da -tormenta; seus labios tremulos e ligeiramente arqueados parecião reter -a palavra para deixa-la cahir com toda a força. - -Atirando a cabecinha loura sobre o hombre esquerdo commum gesto de -energia, ella estendeu a mão para Pery: - ---Prohibo-te que saias desta casa - -O indio julgou que ia enlouquecer; quiz lançar-se aos pés de sua -senhora, mas recuou anhelante, oppresso e suffocado. Um canto; ou antes -uma celeuma dos selvagens soava ao longe. - -Pery deo um passo para a porta; D. Antonio o reteve: - ---Tua senhora, disse o fidalgo friamente, acaba de te dar uma ordem; tu -a cumprirás. Tranquillisa-te, minha filha; Pery é meu prisioneiro. - -Ouvindo esta palavra que destruia todas as suas esperanças, que o -impossibilitava de salvar sua senhora, o indio retrahindo-se deo um -salto, e cahio no meio da sala. - ---Pery é livre!... gritou elle fora de si; Pery não obedece a ninguem -mais; fará o que lhe manda o coração! - -Emquanto D. Antonio de Mariz e Cecilia, admirados desse primeiro acto de -desobediencia, olhavão espantados o indio de pé no meio do vasto -aposento, elle lançou-se a um cabide de armas, e empunhando um pesado -montante, como se fôra uma ligeira espada, correu á janella e saltou. - ---Perdoa a Pery, senhora! - -Cecilia soltou um grito, e precipitou-se para a janella. - -Não viu mais Pery. - -Alvaro e os aventureiros, de pé sobre a esplanada, tinhão os olhos -fitos sobre a arvore que se elevava a um lado da casa, na encosta -opposta, e cuja folhagem ainda se agitava. - -Longe descortinava-se o campo dos Aymorés; a brisa que passava trazia o -rumor confuso das vozes e gritos dos selvagens. - - - - -XIII - -COMBATE - - -Erão seis horas da manhã. - -O sol elevando-se no horizonte derramava cascatas de ouro sobre o verde -brilhante das vastas florestas. - -O tempo estava soberbo; o céo azul, esmaltado de pequenas nuvens -brancas que se achamalotavão como as dobras de uma lençaria. - -Os Aymorés, grupados em torno de alguns troncos já meio reduzidos á -cinza, fazião preparativos para dar um ataque decisivo. - -O instincto selvagem suppria a industria do homem civilisado; a primeira -das artes foi incontestavelmente a arte da guerra,--a arte da defeza e -da vingança, os dous mais fortes estímulos do coração humano. - -Nesse momento os Aymorés preparavão settas inflammaveis para incendiar -a casa de D. Antonio de Mariz; não podendo vencer o inimigo pelas -armas, contavão destrui-lo pelo fogo. - -A maneira por que arranjavão esses terriveis projectis que lembravão -os pelouros e bombardas dos povos civilisados era muito simples; -envolvião a ponta da flecha com frocos de algodão embebido na resinada -almecegueira. - -Essas settas assim inflammadas, despedidas dos seus arcos voavão pelos -ares e ião cravar-se nas vigas e portas das casas; o fogo que o vento -incitava, lambia a madeira, estendia a sua lingua vermelha, e lastrava -pelo edificio. - -Emquanto se occupavão com esse trabalho, um prazer feroz animava todas -essas physionomias sinistras, nas quaes a braveza, a ignorancia e os -instinctos carniceiros tinhão quasi de todo apagado o cunho da raça -humana. - -Os cabellos arruivados cahião-lhes sobre a fronte e occultavão -inteiramente a parte mais nobre do rosto, creada por Deos para a séde -da intelligencia, e para o throno d'onde o pensamento deve reinar sobre -a materia. - -Os labios decompostos, arregaçados por uma contracção dos musculos -faciaes, tinhão perdido a expressão suave e doce que imprimem o -sorriso e a palavra; de labios de homem se havião transformado em -mandibulas de féra, affeitas ao grito e ao bramido. - -Os dentes agudos como as presas do jaguar, já não tinhão o esmalte -que a natureza lhes dera; armas ao mesmo tempo que instrumentos da -alimentação, o sangue os tingira da côr amarellenta que têm os -dentes dos animaes carniceiros. - -As grandes unhas negras e retorcidas que crescião nos dedos, a pelle -aspera e callosa fazião de suas mãos antes garras temiveis, do que a -parte destinada a servir ao homem e dar ao aspecto a nobreza do gesto. - -Grandes pelles de animaes cobrião o corpo agigantado desses filhos das -brenhas, que a não ser o porte erecto se julgaria alguma raça de -quadrumanos indigena no novo mundo. - -Alguns se ornavão de pennas, e collares de ossos; outros completamente -nús tinhão o corpo untado de oleo por causa dos insectos. - -Entre todos distinguia-se um velho que parecia ser o chefe da tribu. Sua -alta estatura, direita apezar da idade avançada, dominava a cabeça dos -seus companheiros sentados ou grupados em torno do fogo. - -Não trabalhava; presidia apenas aos trabalhos dos selvagens, e de vez -em quando lançava um olhar de ameaça para a casa que se elevava ao -longe sobre o rochedo inexpugnavel. - -Ao lado delle, uma bella india na flôr da idade, queimava sobre uma -pedra côva algumas folhas de tabaco cuja fumaça se elevava em grossas -espiraes e cingia a cabeça do velho de uma especie de bruma ou nevoa. - -Elle aspirava esse aroma embriagador que fazia dilatar o seu vasto -peito, e dava á sua physionomia terrivel um quer que seja de sensual, -que se poderia chamar a voluptuosidade dos seus instinctos de cannibal. -Envolta pelo fumo espesso que se ennovelava em torno delia, aquella -figura fantastica parecia algum idolo selvagem, divindade creada pelo -fanatismo desses povos ignorantes e barbaros. - -De repente a pequena india que soprava o brasido queimando as folhas de -_pityma_ estremeceu levantou a cabeça e fitou os olhos no velho, como -para interrogar a sua physionomia. - -Vendo-o calmo e impassivel, a menina debruçou-se sobre o hombro do -selvagem, e tocando-lhe de leve na cabeça, disse-lhe uma palavra ao -ouvido. Elle voltou-se tranquillamente, e um riso sardonico mostrou os -seus dentes; sem responder obrigou a india a sentar-se de novo, e a -voltar á sua occupação. - -Pouco tempo havia passado depois deste pequeno incidente, quando a -menina tornou a estremecer, tinha ouvido perto o mesmo rumor que já -ouvira ao longe. Ao passo que ella espantada procurava confirmar-se, um -dos selvagens sentados em roda do fogo a trabalhar fez o mesmo movimento -que a india, e levantou a cabeça. - -Como se um fio electrico se communicasse entre esses homens e imprimisse -a todos successivamente o mesmo movimento, um após outro interrompeu o -seu trabalho de chofre, e inclinando o ouvido poz-se á escuta. - -A menina não escutava só; collocando-se longe do fumo e de encontro á -brisa que soprava, de vez em quando aspirava o ar com a finura de -olfacto com que os cães farejão a caça. - -Tudo isto passou rapidamente, sem que os actores desta scena tivessem -nem sequer o tempo de trocar uma observação e dizer o seu pensamento. - -De repente a india soltou um grito; todos voltárão-se para ella e a -virão tremula, offegante, apoiando-se com uma mão sobre o hombro do -velho cacique, e a outra estendida na direcção da floresta que passava -a duas braças servindo de fundo a esse quadro. - -O velho ergueu-se então sempre com a mesma calma feroz e sinistra; e -empunhando a sua pesada tagapema, que parecia uma clava de cyclope, -fê-la gyrar sobre a sua cabeça como um junco; depois fincando-a no -chão e apoiando-se sobre ella, esperou. - -Os outros selvagens armados de arcos e tacapes, especie de longas -espadas de páo que cortavão como ferro, collocárão-se a par do -velho, e promptos para o ataque, esperavão como elle. As mulheres -misturárão-se com os guerreiros: as crianças e meninos, defendidos -pela barreira que oppunhão os combatentes conservárão-se no centro do -campo. - -Todos com os olhos fitos, os sentidos applicados, contavão ver o -inimigo apparecer a cada momento e se prepara vão para cahir sobre elle -com a audacia e o impeto de ataque que distinguia a raça dos Aymorés. - -Um segundo se passou nesta expectativa inquieta. - -O estalido que a principio tinhão ouvido cessou completamente; e os -selvagens cobrando-se do susto, voltárão aos seus trabalhos, -convencidos de que tinhão sido illudidos por algum vago rumor da -floresta. - -Mas o inimigo cahio no meio delles, subitamente, sem que podessem saber -se tinha surgido do seia da terra, ou se tinha descido das nuvens. - -Era Pery. - -Altivo, nobre, radiante da coragem invencivel e do sublime heroismo de -que já dera tantos exemplos, o indio se apresentava só em face de -duzentos inimigos fortes e sequiosos de vingança. - -Cahindo do alto dc uma arvore sobre elles, tinha abatido dous; e -volvendo o seu montante como um raio em torno de sua cabeça, abrio um -circulo no meio dos selvagens. - -Então encostou-se a uma lasca de pedra que descansava sobre uma -ondulação do terreno, e preparou-se para o combate monstruoso de um -só homem contra duzentos. - -A posição em que se achava o favorecia, se isto é possivel á vista -de uma tal disparidade de numero; apenas dous inimigos podião ataca-lo -de frente. - -Passado o primeiro espanto, os selvagens bramindo atirárão-se todos -como uma só mola, como uma tromba do oceano, contra o indio que ousava -ataca-los a peito descoberto. - -Houve uma confusão, um turbilhão horrivel de homens que se repellião, -tombavão e se estorcião; de cabeças que se levantavão e outras que -desapparecião; de braços e dorsos que se agitavão e se contrahião, -como se tudo isto fosse partes de um só corpo, membros de algum monstro -desconhecido debatendo-se em convulsões. - -No meio desse cahos via-se brilhar aos raios do sol com reflexos rapidos -e luzentes a lamina do montante de Pery, que passava e repassava com a -velocidade do relampago quando percorre as nuvens e atravessa o espaço. - -Um côro de gritos, imprecações e gemidos roucos e abafados, -confundindo-se com o choque das armas, se elevava desse pandemonio, e ia -perder-se ao longe nos rumores da cascata. - -Houve uma calma aterradora; os selvagens immoveis de espanto e de raiva -suspendêrão o ataque; os corpos dos mortos fazião uma barreira entre -elles e o inimigo. - -Pery abaixou o seu montante e esperou; seu braço direito fatigado desse -enorme esforço não podia mais servir-lhe, e cahia inerte; passou a -arma para a mão esquerda. - -Era tempo. - -O velho cacique dos Aymorés se avançava para elle, sopesando a sua -immensa clava crivada de escamas de peixe e dentes de féra; alavanca -terrivel que o seu braço possante fazia jogar com a ligeireza da -flecha. - -Os olhos de Pery brilhárão; endireitando o seu talhe, fitou no selvagem -esse olhar seguro e certeiro, que não o enganava nunca. - -O velho aproximando-se levantou a sua clava e imprimindo-lhe o movimento -de rotação, ia descarrega-la sobre Pery e abatê-lo; não havia espada -nem montante que podesse resistir áquelle choque. - -O que passou-se então foi tão rapido, que não é possivel -descrevê-lo; quando o braço do velho volvendo a clava ia atira-la, o -montante de Pery lampejou no ar e decepou o punho do selvagem; mão e -clava forão rojar pelo chão. - -O velho selvagem soltou um bramido, que repercutio ao longe pelos échos -da floresta, e levantando ao céo o seu punho decepado atirou as gotas -de sangue que vertião sobre os Aymorés, como conjurando-os á -vingança. - -Os guerreiros lançárão-se para vingar o seu chefe; mas um novo -espectaculo se apresentava aos seus olhos. - -Pery vencedor do cacique, volveu um olhar em torno delle, e vendo o -estrago que tinha feito, os cadaveres dos Aymorés amontoados uns sobre -os outros, fincou a ponta do montante no chão e quebrou a lamina. Tomou -depois os dous fragmentos, e atirou-os ao rio. - -Então passou-se nelle uma luta silenciosa, mas terrivel para quem -podesse comprehendê-la. Tinha quebrado a sua espada, porque não queria -mais combater; e decidira que era tempo de supplicar a vida ao inimigo. - -Mas quando chegou o momento de realisar essa supplica conheceu que -exigia de si mesmo uma cousa sobrehumana, uma cousa superior ás suas -forças. - -Elle, Pery, o guerreiro invencivel, elle o selvagem livre, o senhor das -florestas, o rei dessa terra virgem, o chefe da mais valente nação dos -Guaranys, supplicar a vida ao inimigo! Era impossivel. - -Tres vezes quiz ajoelhar, e tres vezes as curvas de suas pernas -distendendo-se como duas molas de aço o obrigárão a erguer-se. - -Finalmente a lembrança de Cecilia foi mais forte do que a sua vontade. - -Ajoelhou. - - - - -XIV - -O PRISIONEIRO - - -Quando os selvagens se precipitavão sobre o inimigo, que já não se -defendia e se confessava vencido, o velho cacique adiantou-se; e -deixando cahir a mão sobre o hombro de Pery, fez um movimento energico -com o braço direito decepado. - -Este movimento exprimia que Pery era seu prisioneiro, que lhe pertencia -como o primeiro que tinha posto a mão sobre elle, como o seu vencedor; -e que todos devião respeitar o seu direito de propriedade, o seu -direito da guerra. - -Os selvagens abaixárão as armas, e não derão um passo; esse povo -barbaro tinha seus costumes e suas leis; e uma dellas era esse direito -exclusivo do vencedor sobre o seu prisioneiro de guerra, essa conquista -do fraco pelo forte. - -Tinhão em tanta conta a gloria de trazerem um captivo de combate e -sacrifica-lo no meio das festas e ceremonias que costumavão celebrar, -que nenhum selvagem matava o inimigo que se rendia; fazia-o prisioneiro. - -Quanto a Pery, vendo o gesto do cacique e o effeito que produzia, a sua -physionomia expandio-se; a humildade tingida, a posição supplicante -que por um esforço supremo conseguira tomar, desappareceu -immediatamente. - -Ergueu-se; e com um soberbo desdem estendeu os punhos aos selvagens que -por mandado do velho se dispunhão a ligar-lhe os braços; parecia antes -um rei que dava uma ordem aos seus vassallos, do que um captivo que se -sujeitava aos vencedores; tal era a altivez do seu porte, e o desprezo -com que encarava o inimigo. - -Os Aymorés, depois de ligarem os punhos do prisioneiro, o conduzirão a -alguma distancia a sombra de uma arvore, e ahi o prendêrão com uma -corda de algodão matizada de varias côres, a que os Guaranys chamavão -_mussurana_. - -Depois, ao passo que as mulheres enterravão os mortos, reunirão-se em -conselho, presididos pelo velho cacique, a quem todos ouvião com -respeito, e respondião cada um por sua vez. - -Durante o tempo que os guerreiros fallavão, a pequena india escolhia os -melhores fructos, as bebidas mais bem preparadas, e offerecia ao -prisioneiro, a quem estava encarregada de servir. - -Pery, sentado sobre a raiz da arvore e apoiado contra o tronco, não -percebia o que se passava em torno delle; tinha os olhos fitos na -esplanada da casa que se elevava a alguma distancia. - -Via o vulto de D. Antonio de Mariz que assomava por cima da palissada; e -suspensa ao seu braço, reclinada sobre o abysmo, Cecilia, sua linda -senhora, que lhe fazia de longe um gesto de desespero; ao lado Alvaro e -a familia. - -Tudo que elle havia amado neste mundo ali estava diante de seus olhos; -sentia um prazer intenso por ver ainda uma vez esses objectos de sua -dedicação extrema, de seu amor profundo. - -Adivinhava e comprehendia o que sentia então o coração de seus bons -amigos; sabia que soffrião vendo-o prisioneiro, proximo a morrer, sem -terem o poder e a força para salva-lo das mãos do inimigo. - -Consolava-o porém essa esperança que estava prestes a realisar-se; -esse gozo ineffavel de salvar sua senhora, e de deixa-la feliz no seio -de sua familia, protegida pelo amor de Alvaro. - -Emquanto Pery, preoccupado por essas idéas, enlevava-se ainda uma vez -em contemplar mesmo de longe a figura de Cecilia, a india de pé de -fronte delle olhava-o com um sentimento de prazer misturado de surpreza -e curiosidade. - -Comparava suas fórmas esbeltas e delicadas com o corpo selvagem de seus -companheiros; a expressão intelligente de sua physionomia com o aspecto -embrutecido dos Aymorés; para ella Pery era um homem superior e -excitava-lhe profunda admiração. - -Foi só quando Cecilia e D. Antonio de Mariz desapparecêrão da -esplanada, que Pery, lançando ao redor um olhar para ver se a sua morte -ainda se demoraria muito, descobrio a india perto delle. - -Voltou o rosto e continuou a pensar em sua senhora, e a rever a sua -imagem; debalde a menina selvagem, lhe apresentava um lindo fructo, um -alimento, um vinho saboroso; elle não lhe dava attenção. - -A india tornou-se triste por causa dessa obstinação com que o -prisioneiro recusava o que lhe offerecia; e achegando-se levantou a -cabeça pensativa de Pery. - -Havia nos olhos da menina tanto fogo, tanta lubricidade no seu sorriso; -as ondulações morbidas do seu corpo trahião tantos desejos e tanta -voluptuosidade, que o prisioneiro comprehendeu immediatamente qual era a -missão dessa enviada da morte, dessa esposa do tumulo, destinada a -embellezar os ultimos momentos da vida! - -O indio voltou o rosto com desdem; recusava as flôres como tinha -recusado os fructos; repellia a embriaguez do prazer como havia -repellido a embriaguez do vinho. - -A menina enlaçou-o com os braços, murmurando palavras entrecortadas de -uma lingua desconhecida, da lingua dos Aymorés, que Pery não entendia; -era talvez uma supplica, ou um consolo com que procurava mitigar a dôr -do vencido. - -Mal sabia que o indio ia morrer feliz e esperava o supplicio como a -realisação de um sonho doce, como a satisfação de um desejo querido -e por muito tempo afagado com amor. - -Mas podia ella, pobre selvagem, presentir e mesmo comprehender -semelhante cousa? O que sabia era que Pery ia ser morto; que ella devia -suavisar-lhe a ultima hora; e cumpria esse dever com um certo -contentamento. - -Pery sentindo os braços da menina cingirem seu collo, repellio-a -vivamente para longe de si; e voltando procurou ver por entre as folhas -se descobria os preparativos que os Aymorés fazião para o sacrificio. - -Tardava-lhe o momento supremo em que devia ser immolado á colera e á -vingança dos inimigos; sua altivez revoltava-se contra essa -humilhação do captiveiro. - -A india continuava a olha-lo tristemente, e sem comprehender porque a -repellia; ella era linda e desejada por todos os jovens guerreiros de -sua tribu; seu pai, o velho cacique, tinha-a destinado para o mais -valente prisioneiro, ou para o mais forte dos vencedores. - -Depois de conservar-se muito tempo nesta posição, a menina adiantou-se -de novo, tomou um vaso cheio de _cauim_, e apresentou-o a Pery sorrindo -e quasi supplicante. - -Ao gesto de recusa que fez o indio, ella deitou o vaso no rio, e -escolhendo sobre as folhas um cardo vermelho e doce como um favo de mel, -estendeu a mão e tocou com o fructo a bocca do prisioneiro. - -Pery engeitou o fructo como tinha engeitado o vinho, e a virgem selvagem -atirando-o por sua vez ao rio, aproximou-se e offereceu ao prisioneiro -seus labios encarnados, ligeiramente destendidos como para receberem o -beijo que pedião. - -O indio fechou os olhos, e pensou em sua senhora. Elevando-se até -Cecilia, seu pensamento desprendia-se do involucro terrestre, e adejava -n'uma atmosphera pura e isenta da fascinação dos sentidos que -escravisa o homem. - -Comtudo Pery sentia o halito ardente da menina que lhe requeimava as -faces: entreabrio os olhos, e viu-a na mesma posição, esperando uma -caricia, um afago daquelle a quem a sua tribu mandára que amasse, e a -quem ella já amava espontaneamente. - -Na vida selvagem, tão proxima da natureza, onde a conveniencia e os -costumes não reprimem os movimentos do coração, o sentimento é uma -flor que nasce como a flor do campo, e cresce em algumas horas com uma -gota de orvalho e um raio de sol. - -Nos tempos de civilisação, ao contrario, o sentimento torna-se planta -exotica; e só vinga e floresce nas estufas, isto é, nos corações -onde o sangue é vigoroso, e o fogo da paixão ardente e intenso. - -Vendo Pery no meio do combate, só contra toda a sua tribu, a india o -admirara: contemplando-o depois quando prisioneiro, o achára mais bello -do que todos os guerreiros. - -Seu pai a destinára para esposa do inimigo que ia ser sacrificado; e -portanto ella que começára por admira-lo acabava por deseja-lo, por -ama-lo algumas horas apenas depois que o tinha visto. - -Mas Pery, frio e indifferente, não se commovia, nem aceitava essa -affeição passageira e ephemera que tinha começado com o dia e devia -acabar com elle, sua idéa fixa, a lembrança de seus amigos, o protegia -contra a tentação. - -Voltando as costas, levantou os olhos ao céo para evitar o rosto da -selvagem que acompanhava a sua vista, como certas flôres acompanhão a -rotação apparente do sol. - -Entre a folhagem das arvores passava-se uma das scenas graciosas e -singelas, que a cada momento no campo se offerecem á attenção -daquelles que estudão a natureza nas suas pequenas creaturas. - -Um casal de corrixos, que tinha feito o seu ninho n'um ramo, sentindo a -habitação do homem e o fogo em baixo da arvore, mudava a sua pequena -casa de palha e algodão. - -Um desfazia com o bico o ninho, e o outro conduzia a palha para longe, -para o lugar onde ião novamente fabrica-lo; quando acabárão este -trabalho, acariciárão-se, e batendo as azas forão esconder o seu amor -n'algum lindo retiro. - -Pery se divertia em ver esse innocente idyllio, quando a india -levantando-se de repente soltou um pequeno grito de alegria e de prazer, -e sorrindo mostrou ao prisioneiro os dous passarinhos que voavão um a -par do outre sobre o cupola da floresta. - -Emquanto elle procurava comprehender o que queria dizer este aceno, a -virgem desappareceu, e voltou quasi immediatamente trazendo um -instrumento de pedra que cortava como faca e um arco de guerra. - -Aproximou-se do indio, soltou-lhe os laços que lhe ligavão os punhos, -e partio a mussurana que o prendia á arvore. Executou isto com uma -extrema rapidez; e entregando a Pery o arco e as flechas, estendeu a -mão na direcção da floresta, mostrando-lhe o espaço que se abria -diante delles. - -Seus olhos e o seu gesto fallavão melhor do que a sua linguagem -inculta, e exprimião claramente o seu pensamento: - ---Tu és livre. Partamos! - - - - -FIM DA TERCEIRA PARTE. - - - - -QUARTA PARTE - - -A CATASTROPHE - - - - -I - -ARREPENDIMENTO - - -Quando Loredano afastou-se de João Feio que o acabava de ameaçar, -chamou quatro companheiros em quem mais confiava, e retirou-se com elles -para a despensa. - -Fechou a porta afim de interceptar a communicação com os aventureiros, -e poder tranquillamente tratar o negocio que tinha em mente. - -Nesse curto instante havia feito uma modificação no seu plano da -vespera; as palavras de ameaça ha pouco proferidas lhe revelárão que -o descontentamento começava a lavrar. Ora, o italiano não era homem -que recuasse diante de um obstaculo, e deixasse roubarem-lhe a -esperança, que nutria desde tanto tempo. - -Resolveu trazer as cousas rapidamente e executar naquelle mesmo dia o -seu intento: seis homens fortes e destemidos bastavão para levar ao -cabo a empreza que projectára. - -Tendo fechado a porta, guiou os quatro aventureiros á sala que tocava -com o oratorio, e onde Martim Vaz continuava a sua obra de demolição, -minando a parede que os separava da familia. - ---Amigos, disse o italiano, estamos n'uma posição desesperada; não -temos força para resistir aos selvagens, e mais dia menos dia havemos -de succumbir. - -Os aventureiros abaixarão a cabeça e não respondêrão; sabião que -aquella era a triste verdade. - ---A morte que nos espera é horrivel; serviremos de pasto a esses -barbaros que se alimentão de carne humana; nossos corpos sem sepultura -cevarão os instinctos ferozes dessa horda de cannibaes!... - -A expressão do horror se pintou na physionomia daquelles homens, que -sentirão um calafrio percorrer-lhes os membros e penetrar até á -medulla dos ossos. - -Loredano demorou um instante o seu olhar perspicaz sobre esses rostos -decompostos: - ---Tenho porém um meio de salvar-vos. - ---Qual? perguntárão todos á uma voz. - ---Esperai. Posso salvar-vos; mas isto não quer dizer que esteja -disposto a fazê-lo. - ---Por que razão? - ---Por que... Porque todo o serviço tem o seu preço. - ---Que exigis então? disse Martim Vaz. - ---Exijo que me acompanheis, que me obedeçais cegamente, succeda o que -succeder. - ---Podeis ficar descansado, disse um dos aventureiros; eu respondo pelos -meus companheiros. - ---Sim! exclamarão os outros. - ---Bem! Sabeis o que vamos fazer, já, neste momento? - ---Não; mas vós nos direis. - ---Escutai! Vamos acabar de demolir esta parede e atira-la dentro; entrar -nessa sala, matar tudo quanto encontrarmos, menos uma pessoa. - ---E essa pessoa... - ---É a filha de D. Antonio de Mariz, Cecilia. Se algum de vós deseja a -outra, póde toma-la; eu vol-a dou. - ---E depois disto feito? - ---Tomamos conta da casa; reunimos os nossos companheiros, e atacamos os -Aymorés. - ---Mas isto não nos salvará, retrucou um dos aventureiros; ha pouco -dissestes que não temos força para resistir-lhes. - ---De certo! acudio Loredano; não lhes resistiremos, mas nos salvaremos. - ---Como! disserão os aventureiros desconfiados. - -O italiano sorrio. - ---Quando disse que atacaremos o inimigo, não fallei claro: queria dizer -que os outros o atacarão. - ---Não vos entendo ainda; fallai mais claro. - ---Ahi vai pois. Dividiremos os nossos homens em duas bandas; nós e mais -alguns pertenceremos a uma que ficará sob a minha obediencia. - ---Até aqui vamos bem. - ---Isto feito, uma das bandas sahirá da casa para fazer uma sortida -emquanto os outros atacarão os selvagens do alto do rochedo; é um -estratagema já velho e que deveis conhecer; metter o inimigo entre dous -fogos. - ---Adiante; continuai. - ---Como a expedição de sahir é a mais perigosa e arriscada, tomo-a -sobre mim; vós me acompanhais e marchamos. Sómente em lugar de marchar -sobre o inimigo, marchamos sobre o mais proximo povoado. - ---Oh! exclamarão os aventureiros. - ---Sob pretexto de que os selvagens podem cortar-nos a entrada da casa -por alguns dias, levamos provisão de viveres. Caminhamos sem parar, sem -olhar atrás; e prometto-vos que nos salvaremos. - ---Uma traição! gritou um dos aventureiros. Entregarmos nossos -companheiros nas mãos dos inimigos! - ---Que quereis? A morte de uns é necessaria para a vida dos outros; este -mundo é assim: não seremos nós que o havemos de emendar; andemos com -elle. - ---Nunca! Não faremos isto! É uma vilania! - ---Bom, respondeu Loredano friamente, fazei o que vos aprouver. Ficai; -quando vos arrependerdes será tarde. - ---Mas, ouvi... - ---Não; não conteis já comigo. Julgei que fallava a homens a quem -valesse salvar a vida; vejo que me enganei. Adeus. - ---Se não fôra uma traição... - ---Que fallais em traição!... replicou o italiano com arrogancia. -Dizei-me, credes vós que algum escapará d'aqui na posição em que nos -achamos? Morreremos todos. Pois se assim é, mais vale que se salvem -alguns. - -Os aventureiros parecêrão abalados por este argumento. - ---Elles mesmos, continuou Loredano, a menos de serem egoistas, não -terão o direito de se queixarem; e morrerão com a satisfação de que -sua morte foi util aos seus companheiros, e não esteril como deve ser -se ficarmos todos de braços cruzados. - ---Vá feito; tendes razões a que não se resiste. Contai comnosco, -acudio um aventureiro. - ---Comtudo levarei sempre um remorso, disse outro. - ---Faremos dizer uma missa por sua alma. - ---Bem lembrado! respondeu o italiano. - -Os aventureiros forão ajudar o seu companheiro na demolição surda da -parede, e Loredano ficou só retirado a um canto. - -Por algum tempo acompanhou com a vista o trabalho dos cinco homens; -depois tirou um largo cinto de escamas de aço que apertava o seu -gibão. - -Da parte interior desse cinto havia uma estreita abertura pela qual elle -sacou um pergaminho dobrado ao comprido, era o famoso roteiro das _minas -de prata_. - -Revendo esse papel, todo o seu passado debuxou-se na sua memoria, não -para deixar-lhe o remorso, mas para exita-lo a proseguir em busca desse -thesouro que lhe pertencia, e do qual não podia gozar. - -Foi tirado da sua distracção por um dos aventureiros, que se achegára -para elle desapercebido, e depois de olhar por muito tempo o papel, -dirigio-lhe a palavra: - ---Não podemos derrubar a parede. - ---Porque? perguntou Loredano erguendo-se. Está segura? - ---Não é isso, basta um empurrão; mas o oratorio? - ---Que tem o oratorio? - ---Que tem? Os santos, as sagradas imagens bentas não são cousa que se -atire ao chão! Se tão damnada tentação nos tomasse, pediríamos a -Deus que nos livrasse della. - -Loredano desesperado dessa nova resistencia, cuja força elle conhecia, -passeava pela sala de uma ponta á outra. - ---Estupidos! murmurava elle. Basta um fragmento de madeira e um pouco de -argila para fazê-los recuar! E dizem que são homens! Animaes sem -intelligencia, que nem sequer têm o instincto da conservação!... - -Alguns momentos decorrêrão: os aventureiros parados esperavão a -resolução do seu chefe. - ---Tendes medo de tocar nos santos, disse Loredano avançando para elles; -pois bem, serei eu que deitarei a parede abaixo. Continuai, e avisai-me -quando for tempo. - -Emquanto isto se passava, o resto dos aventureiros que ficara no -alpendre ouvia a narração de João Feio, que lhes communicava as -revelações de mestre Nunes. - -Quando elles souberão que Loredano era um frade que abjurára dos seus -votos, erguêrão-se furiosos, e quizerão procura-lo e espedaça-lo. - ---Que ides fazer? gritou o aventureiro. Não é assim que elle deve -acabar; a sua morte ha de ser uma punição, uma terrivel punição. -Deixai-me arranjar isto. - ---Para que mais demora? respondeu Vasco Affonso. - ---Prometto-vos que não haverá demora; hoje mesmo será condemnado; -amanhã receberá o castigo de seus crimes. - -E porque não hoje? - ---Deixemos-lhe o tempo de arrepender-se; é preciso que antes de morrer -sinta remorso do que praticou. - -Os aventureiros decidirão por fim seguir esse conselho, e esperárão -que Loredano apparecesse para se apoderarem delle, e o condemnarem -summariamente. - -Passou-se um bom espaço de tempo, e nada do italiano sahir; era quasi -meio-dia. - -Os aventureiros estavão desesperados de sêde; a sua provisão de agua -e de vinho, já bastante diminuida depois do sitio dos selvagens, -achava-se na despensa, cuja porta Loredano fechara por dentro. - -Felizmente descobrirão no quarto do italiano algumas garrafas de vinho, -que bebêrão no meio de risadas e chacotas, fazendo brindes ao frade -que ião dentro em pouco condemnar á pena de morte. - -No meio da hilaridade algumas palavras revelavão o arrependimento que -começava a se apoderar delles; fallavão de ir pedir perdão ao -fidalgo, de se reunir de novo a elle, e ajuda-lo a bater o inimigo. - -Se não fosse a vergonha da má acção que tinhão praticado, -correrião a lançar-se ao joelhos de D. Antonio de Mariz -immediatamente; mas resolvêrão fazê-lo quando o principal autor da -revolta tivesse recebido o castigo do seu crime. - -Seria esse o seu primeiro titulo ao perdão que ião supplicar; seria -mais a prova da sinceridade do seu arrependimento. - - - - -II - -O SACRIFICIO - - -Pery comprehendêra o gesto da india; não fez porém o menor movimento -para segui-la. - -Fitou nella o seu olhar brilhante e sorrio. - -Por sua vez a menina tambem comprehendeu a expressão daquelle sorriso e -a resolução firme e inabalavel que se lia na fronte serena do -prisioneiro. - -Insistio por algum tempo, mas debalde. Pery tinha atirado para longe o -arco e as flechas, e recostando-se ao tronco da arvore, conservava-se -calmo e impassivel. - -De repente o indio estremeceu. - -Cecilia apparecêra no alto da esplanada, e lhe acenára; sua mãozinha -alva e delicada agitando-se no ar parecia dizer-lhe que esperasse; Pery -julgou mesmo ver no rostinho gentil de sua senhora, apezar da distancia, -brilhar um raio de felicidade. - -Quando com os olhos fitos naquella graciosa visão elle esforçava-se -por adivinhar a causa de tão subita alegria, a india soltou um segundo -grito selvagem, um grito terrivel. - -Tinha pela direcção do olhar do prisioneiro visto Cecilia sobre a -esplanada; tinha percebido o gesto da menina, e comprehendêra vagamente -a razão por que Pery recusára a liberdade e o seu amor. Precipitou-se -sobre o arco que estava atirado ao chão; mas apezar da rapidez desse -movimento, quando ella estendia a mão, já Pery tinha posto o pé sobre -a arma. - -A selvagem, com os olhos ardentes, os labios entreabertos, tremula de -ciume e de vingança, levantou sobre o peito do indio a faca de pedra -com que lhe cortara os laços ha pouco; mas a arma cahio-lhe da mão, e -vacillando apoiou-se no seio que ameaçára. - -Pery tomou-a nos braços, deitou-a sobre a relva, e sentou-se de novo -junto ao tronco da arvore, tranquillo a respeito de Cecilia, que -desapparecêra da esplanada e estava fora de perigo. - -Era a hora em que a sombra das montanhas sobe ás encostas, e o jacaré -deitado sobre a arêa se aquece aos raios do sol. - -O ar estrugio com os sons roucos da inubia e do maracá; ao mesmo tempo -um canto selvagem, o canto guerreiro dos Aymorés, misturou-se com a -harmonia sinistra daquelles instrumentos ásperos e retumbantes. - -A india deitada junto da arvore sobresaltou-se; e erguendo-se -rapidamente, acenou ao prisioneiro mostrando-lhe a floresta e -supplicando-lhe que fugisse. Pery sorrio como da primeira vez; tornando -a mão da menina a fez sentar perto delle, e tirou do pescoço a cruz de -ouro que Cecilia lhe havia dado. - -Então começou entre elle e a selvagem uma conversa por acenos de que -seria difficil dar uma idéa. - -Pery dizia á menina que lhe dava aquella cruz como uma lembrança, mas -que só depois que elle morresse é que devia tira-la do pescoço. A -selvagem entendeu ou julgou entender o que Pery procurava exprimir -symbolicamente, e beijou-lhe as mãos em signal de reconhecimento. - -O prisioneiro obrigou-a a atar de novo os laços que o ligavão, e que -ella no seu generoso impulso de dar-lhe a liberdade havia desfeito. - -Nesse momento quatro guerreiros Aymorés dirigirão-se á arvore em que -se achava Pery; e segurando as pontas da corda o conduzirão ao campo, -onde tudo estava já preparado para o sacrificio. - -O indio ergueu-se e caminhou com o passo firme e a fronte alta diante -dos quatro inimigos, que não percebêrão o olhar rapido que nessa -occasião elle lançou ás pontas da sua tunica de algodão, torcidas em -dous nós pequenos. - -O campo cortado em ellipse no meio das arvores estava cercado por cento -e tantos guerreiros armados em guerra e cobertos de ornatos de pennas. - -No fundo as velhas pintadas de listras negras e amarellas, de aspecto -horrido, preparavão um grande brasido, lavavão a lage que devia servir -de mesa, e afiavão as suas facas de ossos e lascas de pedra. - -As moças grupadas de um lado guardavão os vasos cheios de vinho e -bebidas fermentadas, que offerecião aos guerreiros quando estes -passavão diante dellas entoando o canto de guerra dos Aymorés. - -A menina que fôra incumbida de servir ao prisioneiro, e o acompanhára -ao lugar do sacrificio, conservava-se a alguma distancia, e olhava -tristemente todo esses preparativos; pela primeira vez seu instincto -natural parecia relevar-lhe a atrocidade desse costume tradicional de -seus pais, a que ella tantas vezes assistira com prazer. - -Agora que ia representar como heroina no drama terrivel, e como esposa -do prisioneiro devia acompanha-lo até o momento supremo, insultando-lhe -a dôr e a desgraça, o seu coração confrangia-se; porque realmente -amava Pery, tanto quanto amar era possivel a uma natureza como a sua. - -Chegados ao campo, os selvagens que conduzião o prisioneiro passárão -as pontas da corda ao tronco de duas arvores, e esticando o laço o -ohrigárão a ficar immovel no meio do terreiro. Os guerreiros -desfilárão em roda entoando o canto da vingança; as inubias -retroárão de novo; os gritos confundirão-se com o som dos maracás, e -tudo isto formou um concerto horrivel. - -Á medida que se animavão, a cadencia apressava-se, de modo que a -marcha triumphal dos guerreiros se tornava uma dansa macabria, uma -corrida veloz, uma valsa fantastica, em que todos esses vultos -horrendos, cobertos de pennas que brilhavão á luz do sol, passavão -como espiritos satanicos envoltos na chamma eterna. - -A cada volta que fazia esse sabbat, um dos guerreiros destacava-se do -circulo, e adiantando-se para o prisioneiro o desafiava ao combate, e -conjurava-o a que désse provas de sua coragem, de sua força e de seu -valor. - -Pery, sereno e altivo, recebia com um soberbo desdem a ameaça e o -insulto, e sentia um certo orgulho pensando que no meio de todos -aquelles guerreiros fortes e armados, elle, o prisioneiro, o inimigo que -ia ser sacrificado, era o verdadeiro, o unico vencedor. - -Talvez pareça isto incomprehensivel; mas o facto é que Pery o pensava, -e que só o segredo que elle guardava no fundo de sua alma podia -explicar a razão desse pensamento e a tranquillidade com que esperava o -supplicio. - -A dansa continuava no meio dos cantos, dos alaridos e das constantes -libações, quando de repente tudo emmudeceo, e o mais profundo silencio -reinou no campo dos Aymorés. - -Todos os olhos se voltárão para uma cortina de folhas que occultava -uma especie de cabana selvagem, construida a um lado do campo em face do -prisioneiro. - -Os guerreiros se afastárão, as folhas se abrirão, e entre aquellas -franjas de verdura assomou o vulto gigantesco do velho cacique. Duas -pelles de tapir ligadas sobre os hombros cobrião seu corpo como uma -tunica; um grande cocar de pennas escarlates ondeava sobre a sua -cabeça, e realçava-lhe a grande estatura. - -Tinha o rosto pintado de uma cor esverdeada e oleosa, e o pescoço -cingido de uma colleira feita com as pennas brilhantes do tucano; no -meio desse aspecto horrendo os seus olhos brilhavão como dous fogos -vulcanicos no seio das trevas. Trazia na mão esquerda a tagapema -coberta de plumas resplandecentes, e amarrada ao punho direito uma -especie de busina formada de um osso enorme da canella de algum inimigo -morto em combate. - -Chegando á entrada do campo o velho selvagem levou á bocca o seu -instrumento barbaro, e tirou delle um som estrondoso; os Aymorés -saudárão com gritos de alegria e de enthusiasmo o apparecimento do -vencedor. - -Ao cacique cabia a honra de ser o algoz da victima, o matador do -prisioneiro; seu braço devia consummar a grande obra da vingança, esse -sentimento que constituia para aquelles povos fanaticos a verdadeira -gloria. - -Apenas cessárão as acclamações com que foi acolhida a entrada do -vencedor, um dos guerreiros que o acompanhavão adiantou-se e fincou na -extrema do campo uma estaca destinada a receber a cabeça do inimigo, -logo que ella fosse decepada do corpo. - -Ao mesmo tempo a joven india que servia de esposa ao prisioneiro, -tirou o tacape que pendia do hombro de seu pai, e caminhando para Pery -desligou-lhe os braços e offereceu-lhe a arma, fitando nelle um olhar -triste, ardente e cheio de amarga exprobação. - -Nesse olhar dizia-lhe que se tivesse aceitado o amor que lhe -offerecêra, e com o amor a vida e a liberdade, ella não seria obrigada -pelo costume tradicional de sua nação a escarnecer assim da sua morte. - -Com effeito esse offerecimento que os selvagens fazião ao prisioneiro -de uma arma para se defender, era uma ironia cruel; ligado pelo laço -que o prendia, immovel pela tensão da corda, de que lhe servia vibrar -o _tacape_ no ar, se não podia attingir os inimigos? - -Pery aceitou a arma que a menina lhe trazia; calcando-a aos pés cruzou -os braços e esperou o cacique, que avançava lentamente, terrivel e -ameaçador. - -Chegado em face do prisioneiro, a physionomia do velho esclareceu-se com -um sorriso feroz, reflexo dessa embriaguez do sangue, que dilata as -narinas do jaguar prestes a saltar sobre a presa. - ---Sou teu matador! disse em guarany. - -Pery não se admirou ouvindo a sua bella lingua adulterada pelos sons -roucos e guturaes que sahião dos labios do selvagem. - ---Pery não te teme! - ---És Goytacaz? - ---Sou teu inimigo! - ---Defende-te! - -O indio sorrio: - ---Tu não mereces. - -Os olhos do velho fuzilárão de raiva: a mão cerrou o punho da -tagapema; mas elle reprimio logo o assomo da colera. - -A esposa do prsioneiro atravessou o campo e offereceu ao vencedor um -grande vaso de barro vidrado cheio de vinho de ananaz ainda espumante. - -O selvagem virou de um trago a bebida aromatica, e endireitando o seu -alto talhe, lançou ao prisioneiro um olhar soberbo: - ---Guerreiro Goytacaz, tu és forte e valente; tua nação é temida na -guerra. A nação Aymoré é forte entre as mais fortes, valente entre -as mais valentes. Tu vais morrer. - -O côro dos selvagens respondeu a essa especie de canto guerreiro, que -preludiava o tremendo sacrificio. - -O velho continou: - ---Guerreiro Goytacaz, tu és prisioneiro; tua cabeça pertence ao -guerreiro Aymoré; teu corpo aos filhos de sua tribu; tuas entranhas -servirão ao banquete da vingança. Tu vais morrer. - -Os gritos dos selvagens respondêrão de novo: e o canto se prolongou -por muito tempo lembrando os feitos gloriosos da nação Aymoré, e as -acções de valor de seu chefe. - -Emquanto o velho fallava, Pery o escutava com a mesma calma e -impassibilidade; nem um dos musculos do seu rosto trahia a menor -emoção; seu olhar limpido e sereno ora fitava-se no rosto do cacique, -ora volvia-se pelo campo examinando os preparativos do sacrificio. - -Apenas quem o observasse veria que de braços cruzados como estava, uma -das mãos desfazia imperceptivelmente um dos nós que havião na ponta -de seu saio de algodão. - -Quando o velho acabou de fallar encarou o prisioneiro, e recuando dous -passos elevou lentamente a pesada clava que empunhava na mão esquerda. -Os Aymorés anciosos esperavão; as velhas com as suas navalhas de pedra -estremecião de impaciencia; as jovens indias sorrião, emquanto a noiva -do prisioneiro voltava o rosto para não ver o espectaculo horrivel que -ia apresentar-se. - -Nesse momento Pery levando as duas mãos aos olhos cobrio o rosto, e -curvando a cabeça ficou algum tempo nessa posição, sem fazer um -movimento que revelasse a menor perturbação. - -O velho sorrio. - ---Tens medo! - -Ouvindo estas palavras, Pery ergueu a cabeça com ar senhoril. Uma -expressão de jubilo e serenidade irradiava no seu rosto, dir-se-hia o -extasi dos martyres da religião que na ultima hora, através do tumulo, -entrevêm a felicidade suprema. - -A alma nobre do indio prestes a deixar a terra parecia exhalar já do -seu involucro; e pousando nos seus labios, nos seus olhos, na sua -fronte, esperava o momento de lançar-se no espaço para ir se abrigar -no seio do Creador. - -Erguendo a cabeça, fitou os olhos no céo, com se a morte que ia cahir -sobre elle fosse uma visão encantadora que descesse das nuvens -sorrindo-lhe. Era que nesse ultimo sonho da existência via a linda -imagem de Cecilia, feliz, alegre e contente; via sua senhora salva. - ---Fere!... disse Pery ao velho cacique. - -Os instrumentos retumbarão de novo; os gritos e os cantos se -confundirão com aquelles sons roucos, e rebóarão pela floresta como o -trovão rolando pelas nuvens. - -A tagapema coberta de plumas gyrou no ar scintillando aos raios de sol -que ferião as côres brillantes. - -No meio desse turbilhão ouvio-se um estrondo, uma ancia de agonisante e -o baque de um corpo: tudo isto confusamente, sem que no primeiro -instante se podesse perceber o que havia passado. - - - - -III - -SORTIDA - - -O estrondo que se ouvio, fôra causado por um tiro que partio d'entre as -arvores. - -O velho Aymoré vacillou; seu braço que vibrava o tacape com uma força -herculea, cahio inerte; o corpo abateu-se como o ipê da floresta -cortado pelo raio. - -A morte tinha sido quasi instantanea; apenas um estertor de agonia -resoou no seu peito largo e ainda ha pouco vigoroso: cahira já cadaver. - -Emquanto os selvagens permanecião estaticos diante do que se passava, -Alvaro com a espada na mão e a clavina ainda fumegante precipitava-se -no meio do campo. De dous talhos rapidos cortou os laços de Pery, e com -as evoluções de sua espada conteve os selvagens, que voltando a si -cahião sobre elle bramindo de furor. - -Immediatamente ouvio-se uma descarga de arcabuzes; dez homens destemidos -tendo á sua frente Ayres Gomes saltárão por sua vez com a arma em -punho, e começárão a talhar de alto a baixo a grandes golpes de -espada. - -Não parecião homens, e sim dez demonios, dez machinas de guerra -vomitando a morte de todos os lados; emquanto a sua mão direita imprima -á lamina da espada mil voltas, que erão outros tantos golpes -terriveis, a esquerda jogava a adaga com destreza e segurança -admiravel. - -O escudeiro e seus homens tinhão feito um semi-circulo em roda de -Alvaro e de Pery, e apresentavão uma barreira de ferro e fogo ás ondas -de inimigos que bramião, recuavão, e lançavão-se de novo -quebrando-se de encontro a esse dique. - -No curto instante que mediou entre a morte do cacique e o ataque dos -aventureiros, Pery de braços cruzados olhava impassivel para tudo o -que se passava em torno d'elle. Comprehendia então o gesto que sua -senhora ha pouco lhe fizera do alto da esplanada, e o raio de esperança -e de alegria que elle julgára ver brilhar no seu semblante. - -Com effeito no primeiro momento de afflicção Cecilia se lançára para -ver o indio, chama-lo ainda, e supplicar-lhe mesmo que não expozesse a -sua vida inutilmente. - -Não tendo mais visto Pery, a menina sentio um desespero cruel; -voltou-se para seu pai, e com as faces orvalhadas de lagrimas, com o -seio anhelante, com a voz cheia de angustia, pedio-lhe que salvasse -Pery. - -D. Antonio de Mariz, antes que sua filha lhe fizesse esse pedido, já -tinha-se lembrado de chamar os seus companheiros fieis, e seguido por -elles correr contra o inimigo, e livrar o indio da morte certa e -inevitavel que procurava. - -Mas o fidalgo era um homem de uma lealdade e de uma generosidade a toda -a prova; sabia que aquella empreza era de um risco immenso, e não -queria obrigar os seus companheiros a partilhar um sacrificio que elle -só faria de bom grado á amizade que votava a Pery. - -Os aventureiros que se havião dedicado com tanta constancia á -salvação de sua familia, não tinhão as mesmas razões para se -arriscarem por causa de um homem que não pertencia á sua religião, e -que não tinha com elles o menor laço de communidade. - -D. Antonio de Mariz perplexo, irresoluto entre a amizade e o seu -escrupulo generoso, não soube o que responder a sua filha; procurou -consola-la, afflicto por não poder satisfazer immediatamente a sua -vontade. - -Alvaro, que contemplava esta scena pungente a alguma distancia, no meio -dos aventureiros fieis e dedicados que tinha sob suas ordens, tomou -repentinamente uma resolução. - -Seu coração partia-se vendo Cecilia soffrer; e embora amasse Isabel, a -sua alma nobre sentia ainda pela mulher a quem votára os seus primeiros -sonhos, uma affeição pura, respeitosa, uma especie de culto. - -Era uma cousa singular na vida dessa menina; todas as paixões, todos os -sentimentos que a envolvião soffrião a influencia de sua innocencia, e -ião a pouco e pouco depurando-se e tomando um quer que seja de ideal, -um cunho de adoração. - -O mesmo amor ardente e sensual de Loredano, quando se tinha visto em -face della, adormecida na sua casta isenção, emmudecêra e hesitara um -momento se devia manchar a santidade do seu pudor. - -Alvaro trocou com os aventureiros algumas palavras; e dirigio-se para o -grupo que formavão D. Antonio de Mariz e sua filha. - ---Consolai-vos, D. Cecilia; disse o moço, e esperai! - -A menina fitou nelle os seus olhos azues cheios de reconhecimento; -aquella palavra era ao menos uma esperança. - ---Que contais fazer! perguntou D. Antonio ao cavalheiro. - ---Tirar Pery das mãos do inimigo! - ---Vós!... exclamou Cecilia. - ---Sim, D. Cecilia, disse o moço; aquelles homens dedicados vendo a -vossa afflicção sentirão-se commovidos e desejão poupar-vos uma -justa mágoa. - -Alvaro attribuia a generosa iniciativa aos seus companheiros, quando -elles não tinhão feito senão aceita-la com enthusiasmo. - -Quanto a D. Antonio de Mariz, sentira uma intima satisfação ouvindo as -palavras do moço: seus escrupulos cessavão desde que seus homens -espontaneamente se offerecião para realisar aquella difficil empreza. - ---Cedereis-me uma parte dos nossos homens; quatro ou cinco me bastão; -continuou o moço dirigindo-se ao fidalgo; ficareis com o resto para -defender-vos no caso de algum ataque imprevisto. - ---Não; respondeu D. Antonio; levai-os todos, já que se prestão a essa -tão nobre acção, que não me animava a exigir de sua coragem. Para -defender a minha filha, basto eu, apezar de velho. - ---Desculpai-me, Sr. D. Antonio, replicou Alvaro; mas é uma imprudencia -a que me opponho; pensai que a dous passos de vós existem homens -perdidos, que nada respeitão, e que espião o momento de fazer-vos mal. - ---Sabeis se prezo e estimo esse thesouro cuja guarda me foi confiada por -Deus. Julgais que haja neste mundo alguma cousa que me faça expo-lo a -um novo perigo? Acreditai-me: D. Antonio de Mariz, só, defenderá sua -familia, emquanto vós salvareis um bom e nobre amigo. - ---Confiais demasiado em vossas forças!... - ---Confio em Deus, e no poder que elle collocou em minha mão: poder -terrivel, quando chegar o momento fulminará todos os nossos inimigos -com a rapidez do raio. - -A voz do velho fidalgo pronunciando estas palavras tinha-se revestido de -uma solemnidade imponente; o seu rosto illuminou-se com uma expressão -de heroismo e de magestade que realçou a belleza severa do seu busto -veneravel. - -Alvaro olhou com uma admiração respeitosa o velho cavalheiro emquanto -Cecilia, pallida e palpitante das emoções que sentira, esperava com -anciedade a decisão que ião tomar. - -O moço não insistio e sujeitou-se á vontade de D. Antonio de Mariz; - ---Obedeço-vos; iremos todos e voltaremos mais promptos. - -O fidalgo apertou-lhe a mão: - ---Salvai-o! - ---Oh! sim, exclamou Cecilia, salvai-o, Sr. Alvaro. - ---Juro-vos, D. Cecilia, que só a vontade do céo fará que eu não -cumpra a vossa ordem. - -A menina não achou uma palavra para agradecer essa generosa promessa; -toda a sua alma partio-se n'um sorriso divino. - -Alvaro inclinou-se diante della; foi juntar-se aos aventureiros, e -deo-lhes ordem de se prepararem para partir. Quando o moço entrou na -sala então deserta para tomar a suas armas, Isabel, que já sabia do -seu projecto, correu a elle pallida e assustada. - ---Ides bater-vos? disse ella coma voz tremula. - -Em que isto vos admira? Não nos batemos todos os dias com o inimigo! - ---De longe!... Defendidos pela posição! Mas agora é differente! - ---Não vos assusteis. Isabel! Daqui a uma hora estarei de volta. - -O moço passou a clavina á tiracollo e quiz sahir. - -Isabel tomou-lhe as mãos com um movimento arrebatado; seus olhos -scintillavão com um fogo estranho; suas faces estavão incendiadas de -vivo rubor. - -O moço procurou tirar as mãos daquella pressão ardente e apaixonada: - ---Isabel, disse elle com uma doce exprobação; quereis que falte á -minha palavra, que recue diante de um perigo? - ---Não! Nunca eu vos pediria semelhante cousa! Era preciso que não vos -conhecesse, e que não... vos amasse!... - ---Mas então dexai-me partir. - ---Tenho uma graça a supplicar-vos? - ---De mim?... Neste momento? - ---Sim! Neste momento!... Apezar do que me dizieis ha pouco, apezar do -vosso heroismo, sei que caminhais a uma morte certa, inevitavel. - -A voz de Isabel tornou-se balbuciante: - ---Quem sabe... se nos veremos mais neste mundo?! - ---Isabel!... disse o moço querendo fugir para evitar a commoção que -se apoderava delle. - ---Promettestes fazer-me a graça que vos pedi. - ---Qual? - ---Antes de partir, antes de me dizer adeus para sempre... - -A moça fitou no cavalheiro um olhar que fascinava. - ---Fallai!... fallai!... - ---Antes de nos separarmos, eu vos supplico, deixai-me uma lembrança -vossa!... Mas uma lembrança que fique dentro de minha alma! - -E a menina cahio de joelhos aos pés de Alvaro, occultando seu rosto que -o pudor revoltado em luta com a paixão cobria de um brillante carmim. - -Alvaro ergueu-a confusa e vergonhosa do que tinha feito, e chegando os -seus labios ao ouvido proferio, ou antes murmurou uma phrase. - -O semblante de Isabel expandio-se; uma aureola de ventura cingio a sua -fronte; seu seio dilatou-se, e respirou com a embriaguez do coração -feliz. - ---Eu te amo! - -Era a phrase que Alvaro deixára cahir na sua alma, e que a enchia toda -como um effluvio celeste, como um canto divino que resoava nos seus -ouvidos e fazia palpitar todas as suas fibras. - -Quando ella sahio desse extasi, o moço tinha sahido da sala, e unia-se -aos seus companheiros promptos a marchar. - -Foi nessa occasião que Cecilia, chegando imprudentemente á palissada, -fez a Pery un aceno que lhe dizia esperasse. - -A pequena columna partio commandada por Alvaro e por Ayres Gomes, que -depois de tres dias não deixava o seu posto dentro do gabinete do -fidalgo. - -Quando os bravos combatentes desapparecêrão na floresta, D. Antonio de -Mariz recolheu-se com sua familia para a sala, e sentando-se na sua -poltrona esperou tranquillamente. Não mostrava o menor temor de ser -atacado pelos aventureiros revoltados, que estavão a alguns passos de -distancia apenas, e que não deixarião de aproveitar um ensejo tão -favoravel. - -D. Antonio tinha a este respeito uma completa segurança; tendo fechada -as portas e examinado a escorva de suas pistolas, recommendou silencio, -afim de que nem um rumor lhe escapasse. - -Vigilante e attento, o fidalgo reflectia ao mesmo tempo sobre o facto -que se acabava de passar, e que o tinha profundamente impressionado. - -Conhecia Pery e não podia comprehender como o indio, sempre tão -intelligente e tão perspicaz, se deixára levar por uma louca -esperança a ponte de ir elle só atacar os selvagens. - -A extrema dedicação do indio por sua senhora, o desespero da posição -em que se achavão, podia explicar essa hallucinação, se o fidalgo -não soubesse quanto Pery tinha a calma, a força e o sangue-frio que -tornão o homem superior a todos os perigos. O resultado de suas -reflexões foi que havia no procedimento de Pery alguma cousa que não -estava clara e que devia explicar-se mais tarde. - -Ao passo que elle se entregava a esses pensamentos, Alvaro tinha feito -uma volta, e favorecido pela festa dos selvagens se aproximara sem ser -percebido. - -Quando avistou Pery a algumas braças de distancia, o velho cacique -levantava a tagapema sobre a sua cabeça. - -O moço levou a clavina ao rosto; e a bala sibilando foi atravessar o -craneo do selvagem. - - - - -IV - -REVELAÇÃO - - -Apenas Alvaro, com a chegada dos seus companheiros, viu-se livre dos -inimigos que o atacavão, voltou a Pery, que assistia immovel a toda -esta scena. - ---Vinde! disse o moço com autoridade. - ---Não! respondeu o indio friamente. - ---Tua senhora te chama! - -Pery abaixou a cabeça com uma profunda tristeza. - ---Dize á senhora que Pery deve morrer; que vai morrer por ella. E tu -parte, porque senão seria tarde. - -Alvaro olhou a physionomia intelligente do indio para ver se descobria -nella algum signal de perturbação de espirito: porque o moço não -comprehendia, nem podia comprehender a causa desta obstinação -insensata. - -O rosto de Pery, calmo e sereno, não lhe deixou ver senão uma -resolução firme, inabalavel, tanto mais profundo quando se mostrava -sob uma apparencia de socego e tranquillidade. - ---Assim, tu não obedece á tua senhora? - -Pery custou a arrancar a palavra dos labios. - ---A ninguem. - -Quando pronunciava esta palavra, um grito fraco soou ao lado delle; -voltando-se viu a india que lhe havião destinado por esposa cahindo -atravessada por uma flecha. - -O tiro fôra destinado a Pery por um dos selvagens, e a menina -lançando-se para cobrir o corpo daquelle que amára uma hora recebêra -a setta no peito. - -Seus olhos negros, desmaiados pelas sombras da morte, volvêrão a Pery -um ultimo olhar; e cerrando tornárão a abrir-se, já sem vida e sem -brilho. Pery sentio um movimento de piedade e sympathia vendo essa -victima de sua dedicação, que como elle sacrificava sem hesitar a sua -existencia para salvar aquelle a quem amava. - -Alvaro nem se apercebeu do que acabava de passar; lançando um olhar -para seus homens que batião-se valentemente com os Aymorés fez um -aceno a Ayres Gomes. - ---Escuta, Pery; tu sabes se costumo cumprir a minha palavra. Jurei a -Cecilia levar-te; e ou tu me acompanhas, ou morreremos todos neste -lugar. - ---Faze o que quizeres! Pery não sahira d'aqui. - ---Vês estes homens?... são os unicos defensores que restão á tua -senhora; se todos elles morrem, bem sabes que é impossivel que ella se -salve. - -Pery estremeceu. Ficou um momento pensativo; depois, sem dar tempo a que -o seguissem, lançou-se entre as arvores. - -D. Antonio de Mariz e sua familia, tendo ouvido os tiros dos arcabuzes, -esperavão com anciedade o resultado da expedição. - -Dez minutos havião decorrido na maior impaciencia, quando sentirão -tocar na porta, e ouvirão a voz de Pery; Cecilia correu, e o indio -ajoelhou-se a seus pés pedindo-lhe perdão. - -O fidalgo, livre do pezar de perder um amigo, assumira a sua costumada -severidade, como sempre que se tratava de uma falta grave. - ---Commetteste uma grande imprudencia, disse elle ao indio; fizeste -soffrer teus amigos; expozeste a vida daquelles que te amão; não -precisas de outra punição além desta. - ---Pery ia salvar-te! - ---Entregando-te nas mãos do inimigo? - ---Sim! - ---Fazendo-te matar por elles? - ---Matar e... - ---Mas qual era o resultado dessa loucura? - -O indio calou-se. - ---É preciso explicar-te, para que não julguemos que o amigo -intelligente e dedicado de outr'ora tornou-se um louco e um rebelde. - -A palavra era dura; e o tom em que foi dita ainda aggravava mais a -reprehenção severa que ella encerrava. - -Pery sentio um lagrima humedecer-lhe as palpebras: - ---Obrigas Perry a dizer tudo! - ---Deves fazê-lo, se desejas rehabilitar-te na estima que te votava, e -que sinto perder. - ---Pery vai fallar. - -Alvaro entrava nesse momento tendo deixado no alto da esplanada os seus -companheiros já livres de perigo, e quites por algumas feridas que não -erão felizmente muito graves. - -Cecilia apertou as mãos do moço com reconhecimento; Isabel enviou-lhe -n'um olhar toda a sua alma. - -As pessoas presentes se grupárão ao redor da poltrona de D. Antonio, -em face do qual Pery de pé com a cabeça baixa, confuso e envergonhado -como um criminoso, ia justificar-se. - -Dir-se-hia que confessava uma acção indigna e vil: ninguem adivinhava -que sublime heroismo, que concepção gigantesca havia nesse acto, que -todos condemnavão como uma loucura. - -Elle começou: - -«Quando Ararê deitou o seu corpo sobre a terra para não tornar a -erguê-lo, chamou Pery e disse: - -«Filho de Ararê, teu pai vai morrer; lembra-te que tua carne é a -minha carne; que teu sangue é meu sangue. Teu corpo não deve servir ao -banquete do inimigo. - -«Ararê disse, e tirou suas contas de fructos que deo a seu filho; -estavão cheias de veneno; tinhão nellas a morte. - -«Quando Pery fosse prisioneiro, bastava quebrar um fructo, e ria do -vencedor que não se animaria a tocar no seu corpo. - -«Pery viu que a senhora soffria e olhou as suas contas; teve uma idéa; -a herança de Ararê podia salvar a todos. - -«Se tu deixasses fazer o que queria, quando a noite viesse não acharia -um inimigo vivo; os brancos e os indios não te offenderião mais.» - -Toda a familia ouvia esta narração com uma surpreza extraordinaria; -comprehendião delia que havia em tudo isto uma arma terrivel,--o -veneno; mas não podião saber os meios de que o indio se servira ou -pretendia servir-se para usar desse agente de destruição. - ---Acaba! disse D. Antonio; por que modo contavas então destruir o -inimigo? - ---Pery envenenou a agua que os brancos bebem, e o seu corpo, que devia -servir ao banquete dos Aymorés! - -Um grito de horror acolheu essas palavras ditas pelo indio em um tom -simples e natural. - -O plano que Pery combinára para salvar seus amigos acabava de -revelar-se em toda a sua abnegação sublime, e com o cortejo de scenas -terriveis e monstruosas que devião acompanhar a sua realisação. - -Confiado nesse veneno que os indios conhecião com o nome de _curarê_, -e cuja fabricação era um segredo de algumas tribus, Pery com a sua -intelligencia e dedicação descobrira um meio de vencer elle só aos -inimigos, apezar do seu numero e da sua força. - -Sabia a violencia e o effeito prompto daquella arma que seu pai lhe -confiára na hora da morte; sabia que bastava uma pequena parcella desse -pó subtil para destruir em algumas horas a organisação a mais forte e -a mais robusta. O indio resolveu pois usar desse poder que na sua mão -heroica ia tornar-se um instrumento de salvação, e o agente de um -sacrificio tremendo feito á amizade. - -Dous fructos bastárão; um servio para envenenar a agua e as bebidas -dos aventureiros revoltados; o outro acompanhou-o até o momento do -supplicio, em que passou de suas mãos aos seus labios. - -Quando o cacique vendo-o cobrir o rosto perguntou-lhe se tinha medo, -Pery acabava de envenenar o seu corpo, que devia d'ahi a algumas horas -ser um germen de morte para todos esses guerreiros bravos e fortes. - -O que porém dava a esse plano um cunho de grandeza e de admiração, -não era sómente o heroismo do sacrificio; era a belleza horrivel da -concepção, era o pensamento superior que ligára tantos acontecimentos, -que os submettêra á sua vontade, fazendo-os succeder-se naturalmente -e caminhar para um desfecho necessario e infallivel. - -Porque, é preciso notar, a menos de um facto extraordinario, desses que -a previdencia humana não pode prevenir, Pery quando sahio da casa -tinha a certeza de que as cousas se passarião como de facto se -passárão. - -Atacando os Aymorés a sua intenção era excita-los á vingança; -precisava mostrar-se forte, valente, destemido, para merecer que os -selvagens o tratassem como um inimigo digno de seu odio. Com a sua -destreza e com a precaução que tomára tornando o seu corpo -impenetravel, contava evitara morte antes de poder realisar o seu -projecto; quando mesmo cahisse ferido, tinha tempo de passar o veneno -aos labios. - -A sua previsão porém não o illudio; tendo conseguido o que desejava, -tendo excitado a raiva dos Aymorés, quebrou a sua arma, e supplicou a -vida ao inimigo; foi de todo o sacrificio o que mais lhe custou. - -Mas assim era preciso; a vida de Cecilia o exigia; a morte que o havia -respeitado até então podia surprendê-lo; e Pery queria ser feito -prisioneiro, como foi, e contava ser. - -O costume dos selvagens, de não matar na guerra o inimigo e de -captiva-lo para servir ao festim da vingança, era para Pery uma -garantia e uma condição favoravel á execução do seu projecto. - -Quanto á peripecia final, que a intervenção de Alvaro obstára; não -fôra esse incidente imprevisto, que seria igualmente infallivel. - -Segundo as leis tradicionaes do povo barbaro, toda a tribu devia tomar -parte no festim, as mulheres moças tocavão apenas na carne do -prisioneiro; mas os guerreiros a saboreavão como um manjar delicado, -adubado pelo prazer da vingança: e as velhas com a gula feroz das -harpias que se cevão no sangue de suas victimas. - -Pery contava pois com toda a segurança que dentro de algumas horas o -corpo envenenado da victima levaria a morte ás entranhas do seus -algozes, e que elle só destruiria toda uma tribu, grande, forte, -poderosa, apenas com auxilio dessa arma silenciosa. - -Póde-se agora comprehender qual tinha sido o seu desespero vendo esse -plano inutilisado; depois de ter desobedecido á sua senhora, depois de -haver tudo realisado, quando só faltava o desfecho, quando o golpe que -ia salvar a todos cahia, mudar-se de repente a face das cousas, e ver -destruida a sua obra, filha de tanta meditação! - -Ainda assim quiz resistir, quiz ficar, esperando que os Aymorés -continuarião o sacrificio; mas conheceu que a resolução de Alvaro era -inabalavel como a sua; que ia ser causa da morte de todos os defensores -fieis de D. Antonio, sem ter já a certeza de sua salvação. - -No primeiro momento que succedeu á confissão de Pery, todos os actores -dessa scena, pallidos, tomados de espanto e de terror, com os olhos -cravados no indio, duvidavão ainda do que tinhão ouvido; o espirito -horrorisado não formulava uma idéa; os labios tremulos não achavão -uma palavra. - -D. Antonio foi o primeiro que recobrou a calma; no meio da admiração -que lhe causava aquella acção heroica, e das emoções produzidas por -essa idéa ao mesmo tempo sublime e horrivel, uma circumstancia o tinha -sobretudo impressionado. - -Os aventureiros ião ser victimas do envenenamento; e por maior que -fosse o gráo de baixeza e aviltamento a que tinhão descido esses -homens pela sua traição, a nobreza do fidalgo não podia soffrer -semelhante homicidio. - -Elle os puniria a todos com a morte ou com o desprezo, essa outra morte -moral; mas o castigo na sua opinião elevava a morte á altura de um -exemplo; emquanto que a vingança a fazia descer ao nivel do -assassinato. - ---Vai, Ayres Gomes, gritou D. Antonio ao seu escudeiro; corre e previne -a esses desgraçados, se ainda é tempo! - - - - -V - -O PAIOL - - -Cecilia ouvindo a voz de seu pai estremeceu como se acordasse de um -sonho. - -Atravessou o aposento com passo vacillante, e chegando-se a Pery, fitou -nelle os seus lindos olhos azues com uma expressão indefinivel. - -Havia nesse olhar ao mesmo tempo a admiração immensa que lhe causava a -acção heroica do indio; a dôr profunda que sentia pela sua perda; e -uma exprobação por não ter elle ouvido as suas supplicas. - -O indio nem se animava a levantar os olhos para sua senhora; não tendo -realisado o sen desejo, considerava agora tudo quanto fizera como uma -loucura. - -Sentia-se criminoso, e de toda a sua acção heroica e sublime para os -outros, só lhe restava o pezar de ter offendido Cecilia, e de lhe haver -causado inutilmente um degosto. - ---Pery, disse a menina com desespero, porque não fizeste o que tua -senhora te pedia?... - -O indio não sabia o que responder; temia ter perdido a affeição de -Cecilia, e essa idéa martyrisava os últimos momentos que lhe restavão -a viver. - ---Cecilia não te disse, continuou a menina soluçando, que ella não -aceitaria a salvação com o sacrificio de tua vida? - ---Pery já te pedio que perdoasses! mnrmurou o indio - ---Oh! Se tu soubesses o que fizeste hoje soffrer á tua senhora!... Mas -ella te perdôa. - ---Ah!... exclamou Pery, cuja physionomia illuminou-se. - ---Sim!... Cecilia te perdôa tudo que soffreu, e tudo que vai soffrer! -Mas será por pouco tempo... - -A menina dizia essas palavras com um triste sorriso de sublime -resignação; conhecia que não havia mais esperança de salvação, e -esta idéa quasi a consolava. - -Não pôde acabar porém; a palavra ficou-lhe presa aos labios, -tremula, consulva: seus olhos se fixavão em Pery com um sentimento de -terror e de espanto. - -A physionomia do indio se tinha decomposto; seus traços nobres -alterados por contracções violentas, o rosto encovado, os labios -roxos, os dentes que se entrechocavão, os cabellos erriçados da -vão-lhe um aspecto medonho. - ---O veneno!... gritárão os espectadores dessa scena horrorisados. - -Cecilia fez um esforço extraordinario; e lançando-se para o indio, -procurou reanima-lo. - ---Pery!... Pery... balbuciava a menina aquecendo nas suas as mãos -geladas de seu amigo. - ---Pery vai-te deixar para sempre, senhora. - ---Não!... Não!... exclamou a menina fora de si. - -Não quero que tu nos deixes!... Oh! tu és máo muito máo!... Se -estimasses tua senhora, não a abandonarias assim!... - -As lagrimas orvalhavão as faces da menina, que no seu desespero não -sabia o que dizia. Erão palavras entrecortadas, sem sentido; mas que -revelavão a sua augustia. - ---Tu queres que Pery viva, senhora? disse o indio com a voz commovida. - ---Sim!... respondeu a menina supplicante. Quero que tu vivas! - ---Pery viverá! - -O indio fez um esforço supremo, e restituindo um pouco de elasticidade -aos seus membros entorpecidos, dirigio-se á porta e desappareceu. - -Todas as pessoas presentes o acompanharão com os olhos e o virão -descer á varzea e ganhar a floresta correndo. - -A ultima palavra que elle proferira tinha um momento restituido a -esperança a D. Antonio de Mariz; mas quasi logo a duvida apoderou-se do -seu espirito; julgou que o indio se illudia. - -Cecilia porém tinha mais do que uma esperança; tinha quasi uma certeza -de que Pery não se enganára; a promessa de seu amigo lhe inspirava uma -confiança profunda. Nunca Pery lhe havia dito uma cousa que se não -realisasse; o que parecia impossivel aos outros, tornava-se facil para a -sua vontade firme e inabalavel, para o poder sobrehumano de que a força -e a intelligencia o revestia. - -Quando D. Antonio de Mariz e sua familia se recolhêrão tristemente -impressionados, Alvaro de pé na porta do gabinete fez um gesto de -espanto ao fidalgo, e apontou-lhe para o oratorio. - -A parede do fundo, prestes a tombar, oscillava sobre a sua base como uma -arvore balançada pelo vento. - -D. Antonio sorrio, e ordenando a sua familia que entrasse no gabinete, -tirou a pistola da cinta, armou-a e esperou na porta ao lado de Alvaro. - -No mesmo instante ouvio-se um grande estrondo, e no meio da nuvem -espessa de pó que se elevou desse montão de ruinas seis homens -precipitárão-se na sala. - -Loredano foi o primeiro; apenas tocou o chão, ergueu-se com -extraordinaria rapidez, e seguido pelos seus companheiros caminhou -direito ao gabinete onde se achava recolhida a familia. - -Recuárão porém lividos e tremulos; horrorisados diante da cena muda e -terrivel que se apresentava aos seus olhos espantados. - -No meio do aposento via-se um desses grandes vasos de barros vidrados, -feitos pelos indios, e que continha pelo menos uma arroba de polvora. De -uma aberta que havia nesse vaso corria um largo trilho que ia perder-se -no fundo do paiol, onde se achavão enterradas todas as munições de -guerra do fidalgo. - -Duas pistolas, a de D. Antonio de Mariz e a de Alvaro, esperavão um -movimento dos aventureiros para lançarem a primeira faisca ao volcão. -D. Lauriana, Cecilia e Isabel de joelhos, oravão julgando a cada -momento ver confundirem-se no turbilhão todos os espectadores dessa -scena. - -Era esta a arma terrivel de que fallára ha pouco D. Antonio, quando -dizia a Alvaro que Deus lhe havia confiado o poder de fulminar todos os -seus inimigos. O moço comprehendeu então a razão por que o fidalgo o -tinha obrigado a partir com todos os homens para salvar Pery, -julgando-se bastante forte para defender elle só, a sua familia. - -Quanto aos aventureiros, lembrárão-se do juramento solemne de D. -Antonio de Mariz; o fidalgo os tinha todos fechados na sua mão, e -bastava apertar essa mão para esmaga-los como um terrão de argila. -Lançando um olhar esvairado em torno de si os seis criminosos quizerão -fugir, mas não tiverão animo de dar um passo, e ficárão como -pregados ao solo. - -Ouvio-se então um rumor de vozes da parte de fora, e Ayres Gomes -seguido pelos aventureiros apresentou-se á porta da sala. - -Loredano conheceu que desta vez estava irremediavelmente perdido, e -assentou de vender caro a sua vida; mas a desgraça pesava sobre elle. -Dous dos seus companheiros cahirão a seus pés estorcendo-se em -convulsões horriveis, e soltando gritos que mettião dó e compaixão. - -A principio ninguem comprehendeu a causa dessa morte subita e violenta; -mas a lembrança do veneno de Pery acudio logo á memoria de alguns e -explicou tudo. - -Os aventureiros que chegavão guiados por Ayres Gomes apoderárão-se de -Loredano, e forão ajoelhar-se confusos e envergonhados aos pés de D. -Antonio de Mariz, pedindo-lhe o perdão de sua falta. - -O fidalgo tinha assistido a todos esses acontecimentos que se succedião -tão rapidamente, sem deixar a sua primeira posição; dir-se-hia que -sobre essas paixões humanas que se debatião a seus pés elle plainava -como um genio, prestes a vibrar o raio celeste. - ---A vossa falta é daquellas que não se perdoão, disse D. Antonio; mas -estamos nesse momento extremo em que Deus manda esquecer todas as -offensas. Levantai-vos e preparemo-nos todos para morrer como -christãos. - -Os aventureiros erguêrão-se, e arrastando Loredano para fóra da sala, -retirárão-se para o alpendre, com a consciencia alliviada de um grande -peso. - -A familia pôde então, depois de tantas emoções, gozar um pouco de -socego e repouso; apezar da posição desesperada em que se achavão, a -reunião dos aventureiros revoltados tinha trazido um fraco vislumbre de -esperança. - -Só D. Antonio de Mariz não se illudia, e desde aquella manhã tinha -conhecido que, quando os Aymorés não o vencessem pelas armas, o -vencerião pela fome. Todos os viveres estavão consumidos, e só uma -sortida vigorosa podia salvar a familia desse martyrio que a ameaçava, -martyrio muito mais cruel do que uma morte violenta. - -O fidalgo resolveu esgotar os ultimos recursos antes de confessar-se -vencido; queria morrer com a consciencia tranquilla de ter cumprido o -seu dever, e de haver feito o que fosse humanamente possivel. Chamou -Alvaro e entreteve-se com o moço durante algum tempo em voz baixa; -concertavão um meio de realisar essa idéa de que dependia toda a -esperança de salvação. - -Ao mesmo tempo que isto se passava, os aventureiros reunidos em -conselho, julgavão a Frei Angelo di Lucca, e o condemnavão por um voto -unanime. - -Proferida a sentença, apresentárão-se diversas opiniões sobre o -supplicio que devia ser infligido ao culpado; cada um lembrava o genero -de morte mais cruel; porém a opinião geral adoptou a fogueira como o -castigo consagrado pela inquisição para punir os hereges. - -Fincárão no meio do terreiro um alto poste, e o cercárão com uma -grande pilha de madeira e outros combustiveis; depois sobre essa pyra -ligárão o frade, que soffria todos os insultos e todas as injurias sem -proferir uma palavra. - -Uma especie de atonia apoderára do italiano desde o momento em que os -aventureiros o havião arrastado da sala de D. Antonio de Mariz; elle -tinha a consciencia do seu crime, e a certeza de sua condemnação. - -Entretanto na occasião em que o atavão á fogueira, um incidente -espertou de repente a sensibilidade desse homem embrutecido pela idéa -da morte, e pela convicção de que não podia escapar a ella. - -Um dos aventureiros, um dos cinco complices da ultima conspiração, -chegou-se a Loredano, e tirando-lhe a cinta que prendia o seu gibão, -mostrou-a aos seus companheiros. O italiano vendo-se separado do seu -thesouro sentio uma dôr muito mais forte do que a que ia soffrer na -fogueira; para elle não havia supplicio, não havia martyrio que -igualasse a este. - -O que o consolava na sua ultima hora era a idéa de que esse segredo que -possuia, e do qual não podéra utilisar-se, ia morrer com elle, e -ficaria perdido para todos; que ninguem gozaria do thesouro que lhe -escapava. - -Por isso apenas o aventureiro tirou-lhe a cinta onde guardava o roteiro, -soltou um rugido de colera e de raiva impotente; seus olhos -injectárão-se de sangue, e seus membros crispando-se ferirão-se -contra as cordas que os ligavão ao poste. - -Era horrivel de ver nesse momento; seu aspecto tinha a expressão brutal -e feroz de um hydrophobo, seus labios espumavão, silvando como a -serpente; e seus dentes ameaçavão de longe os seus algozes como as -presas do jaguar. - -Os aventureiros rirão-se do desespero do frade por ver roubarem-lhe o -seu precioso thesouro, e divertirão-se em augmentar-lhe o supplicio, -promettendo que apenas livres dos Aymorés farião uma expedição ás -minas de prata. - -A raiva do italiano redobrou quando Martim Vaz atou a cinta ao corpo, e -disse-lhe sorrindo: - ---Bem sabeis o proverbio: «O bocado não é para quem o faz.» - - - - -VI - -TREGOA - - -Erão oito horas da noite. - -Os aventureiros, sentados no terreiro em roda de um pequeno fogo, -esperavão tristemente que cozinhassem alguns legumes destinados á -magra cêa. - -A penuria tinha succedido á abundancia de outr'ora; privados da caça, -sua alimentação ordinaria, estavão reduzidos a simples vegetaes. Os -seus vinhos e as bebidas fermentadas de que fazião largas libações, -tinhão sido envenenadas por Pery, e forão pois obrigados a deita-las -fóra, muito felizes ainda por não terem sido victimas dellas. - -Loredano fechando a porta da despensa foi que os tinha salvado; apenas -dous dos aventureiros que o havião acompanhado tinhão tocado nessas -bebidas, e por isso poucas horas depois cahirão mortos, como vimos, na -occasião em que ião atacar D. Antonio de Mariz. - -Não erão porém essas scenas de luto e a situação critica em que se -achavão, que infundião nesses homens sempre alegres e tão galhofeiros -aquella tristeza que não lhes era habitual. Morrer com as armas na -mão, batendo-se contra o inimigo, era para elles uma cousa natural, uma -idéa a que a suavidade aventuras e de perigos os tinha affeito. - -O que realmente os entristecia, era não terem uma boa cêa, e um -cangirão de vinho diante de si; era o seu estomago que se contrahia por -falto de alimento, e que tirava-lhes toda a disposição de rir e de -folgar. - -A chamma avermelhada da fogueira ás vezes oscillava ao sopro do vento, -e estendendo-se pelo terreiro ia illuminar a alguma distancia com o seu -frouxo clarão o vulto de Loredano atado ao poste sobre a pyra de lenha. - -Os aventureiros tinhão resolvido demorar o supplicio, e dar tempo a que -o frade se arrependesse dos seus crimes e se decidisse a morrer como -christão, humilde e penitente; por isso deixárão-lhe a noite para -reflectir. - -Talvez entrasse tambem nessa resolução um requinte de maldade e de -vingança; julgando o italiano a verdadeira causa da posição em que -estavão collocados, os seus companheiros o odiavão e querião -prolongar o seu soffrimento como uma reparação do mal que lhes tinha -feito. - -Assim, de vez em quando um delles se erguia, e chegando-se ao frade -exprobrava-lhe a sua perversidade, e cobria-o de improperios e de -injurias. Loredano estorcia-se de raiva, mas não proferia uma palavra, -porque seus algozes o tinhão ameaçado de cortar-lhe a lingua. - -Ayres Gomes veio chamar os aventureiros da parte de D. Antonio de Mariz; -todos se apressárão em obedecer, e pouco depois entrárão na sala -onde estava reunida toda a familia. - -Tratava-se de uma sortida como fim de procurar viveres que podessem -alimentar os habitantes da casa, até que D. Diogo tivesse tempo de -chegar com o soccorro que tinha ido procurar. D. Antonio de Mariz -reservava dez homens para defender-se; os outros partirião com Alvaro; -se fossem felizes, havia ainda uma esperança de salvação; se fossem -mal succedidos, uns e outros, os que fossem e os que ficassem morrerião -como christãos e portuguezes. - -Immediatamente a expedição preparou-se, e favorecida pelo silencio da -noite partio e internou-se pela floresta; devia afastar-se sem ser -percebida pelos Aymorés, e procurar pelas vizinhanças fazer uma ampla -provisão de alimentos. - -Durante a primeira hora que succedeu á partida, todos os que ficárão, -com o ouvido attento escutavão, temendo ouvir a cada momento o estrondo -de tiros que annunciasse um combate entre os aventureiros e os indios. -Tudo conservou-se em silencio; e uma esperança, bem que vaga e tenue, -veio pousar nesses corações quebrados por tantos soffrimentos e tantas -angustias. - -A noite passou-se tranquillamente; nada indicava que a casa estivesse -cercada por um inimigo tão terrivel como os Aymorés. - -D. Antonio admirava-se que os selvagens, depois do ataque da manhã, se -conservassem tranquillos no seu campo, e não tivessem investido a -habitação uma só vez. Passou-lhe pelo espirito a idéa de que se -tivessem retirado com a perda de alguns dos seus principaes guerreiros; -mas elle conhecia de ha muito o espirito vingativo e tenacidade dessa -raça para admittir semelhante supposição. - -Cecilia recostou-se n'um sofá, e alquebrada de fadiga conseguio -adormecer apezar das idéas tristes e das inquietações que a -agitavão. Isabel, com o coração cerrado por um terrivel -presentimento, lembrava-se de Alvaro, e acompanhava-o de longe na sua -perigosa expedição, misturando as suas preces com as palavras ardentes -do seu amor. - -Assim passou-se esta noite; a primeira, depois de tres dias, em que a -familia de D. Antonio de Mariz pôde gozar alguns momentos de socego. - -De vez em quando o fidalgo chegando á janella via ao longe, perto do -rio, brilharem os fogos do campo dos Aymorés, mas uma calma profunda -reinava em toda aquella planicie. Nem mesmo se ouvia o écho -enfraquecido de uma dessas cantigas monotonas com que os selvagens -costumão á noite acompanhar o embalançar de sua rede de palha; apenas -o sussurrar do vento nas folhas, a queda da agua sobre as pedras, e o -grito do oitibó. - -Contemplando a solidão, o fidalgo insensivelmente voltava a essa -esperança que ha pouco sorrira, e que o seu espirito tinha repellido -como uma simples illusão. Tudo com effeito parecia indicar que os -selvagens havião abandonado o seu campo, deixando nelle apenas os fogos -que havião servido para esclarecer os seus preparativos de partida. - -Para quem conhecia, como D. Antonio, os costumes desses povos barbaros, -para quem sabia quanto era activa, agitada, ruidosa essa existencia -nomada, o silencio em que estava sepultada a margem do rio era um signal -certo de que os Aymorés já alli não estavão. - -Comtudo o fidalgo, demasiadamente prudente para se fiar em apparencias, -recommendára aos seus homens que redobrassem de vigilancia para evitar -alguma surpreza. - -Talvez que aquelle socego e aquella serenidade fossem apenas uma dessas -calmas sinistras que preludião as grandes tempestades, e durante as -quaes os elementos parecem concentrar as suas forças para entrarem -nessa luta espantosa, que tem por campo de batalha o espaço e o -infinito. - -As horas corrêrão silenciosamente; a viuvinha cantou pela primeira -vez; e a luz branca da alvorada veio empallidecer as sombras da noite. - -Pouco a pouco o dia foi rompendo; o arrebol da manhã desenhou-se no -horizonte, tingindo as nuvens com todas as côres do prisma. O primeiro -raio do sol, desprendendo-se daquelles vapores tenues e diaphanos, -deslisou pelo azul do céo, e foi brincar no cabeço dos montes. - -O astro assomou, e torrentes de luz inundárão toda a floresta, que -nadava n'um mar de ouro marchetado de brilhantes que scintillavão em -cada uma das gotas do orvalho suspensas ás folhas das arvores. - -Os habitantes da casa, despertando, admiravão esse espectaculo -magnifico do nascer do dia, que depois de tantas tribulações e de -tantas augustias, lhes parecia completamente novo. - -Uma noite de quietação e socego os tinha como que restituido á vida; -nunca esses campos verdes, esse rio puro e limpido, essas arvores -florescentes, esses horizontes descortinados se havião mostrado a seus -olhos tão bellos, tão risonhos como agora. - -É que o prazer e o soffrimento não passão de um contraste; em luta -perpetua e continua, elles se acrysolão um no outro, e se depurão; -não ha homem verdadeiramente feliz senão aquelle que já conheceu a -desgraça. - -Cecilia, com a frescura da manhã, tinha-se expandido como uma flôr do -campo; suas faces colorirão-se de novo, como se um raio do sol -beijando-as lhes tivesse imprimido o seu reflexo roseado; os olhos -brilhárão; e os labios entreabrindo-se para aspirarem o ar puro e -embalsamado da manhã, arqueárão-se graciosamente quasi sorrindo. - -A esperança, esse anjo invisivel, essa doce amiga dos que soffrem, -tinha vindo pousar no seu coração, e murmurava-lhe ao ouvido palavras -confusas, cantos mysteriosos, que ella não comprehendia, mas que a -consolavão e vertião em sua alma um balsamo suave. - -Sentia-se em todas as pessoas da casa um quer que seja, uma animação, -um começo de bem-estar que revelava uma grande transformação operada -na situação da vespera; era mais do que a esperança, menos do que a -seguridade. - -Só Isabel não partilhava essa impressão geral; como sua prima, ella -tambem viera contemplar o raiar do dia; mas fôra para interrogar a -natureza, e perguntar ao sol, á luz, ao céo, se as lugubres imagens -que tinhão passado e repassado na sua longa vigilia, erão uma -realidade ou uma visão. - -E cousa singular! Esse sol tão brilhante, essa luz esplendida, esse -céo azul, que aos outros reanimára, e que devia inspirar a Isabel o -mesmo sentimento, pareceu-lhe ao contrario uma amarga ironia. - -Comparou a scena radiante que se apresentava aos seus olhos com o quadro -que se desenhava em sua alma; emquanto a natureza sorria, o seu -coração chorava. No meio dessa festa esplendida do nascer do dia, a -sua dôr, só, isolada, não achava uma sympathia, e repellida pela -creação voltava a recalcar-se em seu seio. A moça recostou a cabeça -sobre o hombro de sua prima, e escondeu ahi o rosto para não perturbar -a doce serenidade que se expandia no semblante de Cecilia. - -Entretanto D. Antonio tinha tratado de averiguar se as suas suspeitas da -vespera erão reaes; certificou-se de que os selvagens havião -abandonado o campo. Ayres Gomes, acompanhado de mestre Nunes, chegou -mesmo a sahir da casa, e aproximar-se com todas as cautelas do lugar -onde na vespera os Aymorés festejavão o sacrificio de Pery. - -Tudo estava deserto; não se vião mais no campo os vasos de barro, as -peças de caça suspensas aos galhos da arvore, e as redes grosseiras -que indicavão a alta de uma horda selvagem. Não havia já duvida, os -Aymorés tinhão partido desde a vespera á noite, depois de enterrarem -os seus mortos. - -O escudeiro voltou a dar esta noticia ao fidalgo, que recebeu-a menos -favoravelmente do que se devia suppôr; ignorava a causa e o fim dessa -partida repentina, e desconfiava della. - -Não ha que admirar nisto; D. Antonio era um homem prudente e avisado; a -sua experiencia de quarenta annos o tinha tornado suspeitoso; por cousa -nenhuma queria dar aos seus uma esperança que viesse a frustrar-se. - - - - -VII - -PELEJA - - -Quando a familia de D. Antonio de Mariz gozava dos primeiros momentos de -tranquillidade que succedião a tantas afflicções, soou um grito na -escada de pedra. - -Cecilia levantou-se estremecendo de alegria e felicidade; tinha -reconhecido a voz de Pery. - -No momento em que ia correr ao encontro de seu amigo, mestre Nunes já -tinha abaixado uma prancha que servia de ponte levadiça, e Pery chegava -á porta da sala. - -D. Antonio de Mariz, sua mulher e sua filha ficárão mudos de espanto e -terror; Isabel cahio fulminada, como se a vida lhe faltasse de repente. - -Pery trazia nos seus hombros o corpo inanimado de Alvaro; e no rosto uma -expressão de tristeza profunda. Atravessando a sala, depôz sobre o -sofá o seu fardo precioso, e olhando o rosto livido daquelle que fôra -seu amigo, enxugou uma lagrima que lhe corria pela face. - -Nunhuma das pessoas presentes se animava a quebrar o silencio solemne -que envolvia aquella scena lugubre; os aventureiros que havião -acompanhado Pery quando passára no meio delles correndo, pararão na -porta, tomados de compaixão e respeito por aquella desgraça. - -Cecilia nem pôde gozar da alegria de ver Pery salvo; seus olhos apezar -dos soffrimentos passados, ainda tinhão lagrimas para chorar essa vida -nobre e leal que a morte acabava de ceifar. Quanto a D. Antonio de -Mariz, sua dôr era a de um pai que havia perdido um filho, era a dôr -muda e concentrada que abala as organisações fortes, sem comtudo -abatê-las. - -Depois dessa primeira commoção produzida pela chegada de Pery, o -fidalgo interrogou o indio e ouvio de sua bocca a narração breve dos -acontecimentos, cuja peripecia tinha diante dos olhos. - -Eis o que havia passado. - -Partindo na vespera, no momento em que começava a sentir os primeiros -effeitos do veneno terrivel que tomára, Pery ia cumprir a promessa que -tinha feito a Cecilia. Ia procurar a vida em um contra-veneno infallivel -cuja existencia só era conhecida pelos velhos _payás_ da tribu, e -pelas mulheres que os auxiliavão nas suas preparações medicinaes. - -Sua mãi, quando elle partira para a primeira guerra lhe tinha revelado -esse segredo que devia salva-lo de uma morte certa no caso de ser ferido -por alguma setta hervada. - -Vendo o desespero de sua senhora, o indio sentio-se com forças de -resistir ao torpor do envenenamento que começava a ganhar-lhe o corpo, -e ir ao fundo da floresta procurar essa herva poderosa que devia -restituir-lhe a saude, o vigor e a existencia. - -Comtudo, quando atravessava a matta parecia-lhe ás vezes que já era -tarde, que não chegaria a tempo: então tinha medo de morrer longe de -sua senhora, sem poder volver para ella o seu ultimo olhar. -Arrependia-se quasi de ter partido de casa e não deixar-se ficar aos -pés de Cecilia até exhalar o seu ultimo suspiro; mas lembrava-se que a -menina o esperava, lembrava-se que ella ainda precisava de sua vida e -creava novas forças. - -Pery entranhou-se no mais basto e sombrio da floresta, e ahi, na sombra -e no silencio passou-se entre elle e a natureza uma scena da vida -selvagem, dessa vida primitiva, cuja imagem nos chegou tão incompleta -e desfigurada. O dia declinou: veio a tarde, depois a noite, e sob essa -abobada espessa em que Pery dormia como em um sanctuario, nem um rumor -revelára o que ahi se passou. - -Quando o primeiro reflexo do dia purpureou o horizonte, as folhas se -abrirão, e Pery exhausto de forças, vacillante, emmagrecido como se -acabasse de uma longa enfermidade, sahio do seu retiro. - -Mal se podia suster, e para caminhar era obrigado a sustentar-se aos -galhos das arvores que encontrava na sua passagem: assim adiantou-se -pela floresta, e colheu alguns fructos, que lhe restabelecêrão um -tanto as forças. - -Chegando á beira do rio, Pery já sentia o vigor que voltava, e o calor -que começava a animar-lhe o corpo en torpecido; atirou-se á agua e -mergulhou. Quando voltou á margem, era outro homem; uma reacção se -havia operado; seus membros tinhão adquirido a elasticidade natural; o -sangue gyrava livremente nas veias. - -Então tratou de recuperar as forças que havia perdido, e tudo quanto a -floresta lhe offerecia de saboroso nutriente servio a esse banquete da -vida, em que o selvagem festejava a sua victoria sobre a morte e o -veneno. - -O sol tinha raiado havia horas; Pery, acabada a sua refeição, -caminhava pensativo, quando ouvio uma descarga de armas de fogo, cujo -estrondo reboou pelo ambito da floresta. - -Lançou-se na direcção dos tiros, e a pouca distancia, n'um claro da -matta, descobrio um espectaculo grandioso. - -Alvaro e os seus nove companheiros divididos em duas columnas de cinco -homens com as costas apoiadas ás costas uns dos outros, estavão -cercados por mais de cem Aymorés que se precipitavão sobre elles com -um furor selvagem. - -Mas as ondas dessa torrente de barbaros que soltavão bramidos -espantosos, ião quebrar-se contra essa pequena columna, que não -parecia de homens, mas de aço; as espadas jogavão com tanta velocidade -que a tornavão impenetravel; no raio de uma braça o inimigo que se -adiantava cahia morto. - -Havia uma hora que durava esse combate, começado com armas de fogo; mas -os Aymorés atacarão com tanta furia, que breve tinhão chegado á luta -corpo a corpo e á arma branca. - -No momento em que Pery assomava á margem da clareira, um incidente veio -modificar a face do combate. - -O aventureiro que dava as costas a Alvaro, levado pelo ardor da peleja, -adiantou-se, alguns passos para ferir um inimigo; os selvagens o -envolvêrão, deixando a columna interrompida e Alvaro sem defeza. - -Entretando o valente cavalheiro continuava a fazer prodigios de valor e -de coragem; cada volta que descrevia sua espada era um inimigo de menos, -uma vida que se extinguia a seus pés n'um rio de sangue. Os selvagens -redobravão de furor contra elle, e cada vez o seu braço agil movia-se -com mais segurança e mais certeza, fazendo jogar como um raio a lamina -de aço que mal se via brillar nas suas rapidas evoluções. - -Desde porém que os Aymorés virão o moço sem defeza pelas costas, e -exposto aos seus golpes, concentrárão-se nesse ponto; um delles -adiantando-se, ergueu com as duas mãos a pesada tagapema e atirou-a ao -alto da cabeça de Alvaro. - -O moço cahio; mas na sua queda a espada descreveu ainda um semi-circulo -e abateu o inimigo que o tinha ferido á traição; a dôr violenta dera -a esse ultimo golpe uma força sobrenatural. - -Quando os indios ião precipitar-se sobre o cavalheiro, Pery saltou no -meio delles, e agarrando a espingarda que estava a seus pés fez delia -uma arma terrivel, uma clava formidavel, cujo poder em breve sentirão -os Aymorés. Apenas se viu livre do turbilhão dos inimigos o indio -tomou Alvaro nos seus hombros, e abrindo caminho com a sua arma temivel, -lançou-se pela floresta e desappareceu. - -Alguns o seguirão; mas Pery voltou-se e fê-los arrepender-se de sua -ousadia; livrando-se do peso que levava, carregou a espingarda com as -munições que Alvaro trazia e mandou uma bala áquelle que o perseguia -mais de perto; os outros, que o conhecião pelo combate da vespera, -retrocedêrão. - -A idéa de Pery era salvar Alvaro, não só pela amizade que lhe tinha, -como por causa de Cecilia, que elle suppunha amar o cavalheiro; vendo -porém que o corpo continuava inanimado, acreditou que Alvaro estava -morto. Apezar disto não desistio do seu proposito; morto ou vivo devia -leva-lo áquelles que o amavão, ou para o restituirem á vida, ou para -derramarem sobre o seu corpo o pranto da despedida. - -Quando Pery acabou a sua narração, o fidalgo commovido chegou-se á -beira do sofá, e apertando a mão gelada e fria do cavalheiro, disse: - ---Até logo, bravo e valente amigo; até logo! A nossa separação é de -poucos instantes; breve nos reuniremos na mansão dos justos onde -deveis estar, e onde espero que Deus me concederá a graça de entrar. - -Cecilia deo á memoria do moço as ultimas lagrimas, e ajoelhando aos -pés do moribundo com sua mãi dirigio ao céo uma prece ardente. - -D. Lauriana tinha esgotado todos os recursos dessa medicina domestica -que no interior das casas substituia a falta dos homens professionaes, -muito raros naquella epoca, e sobretudo longe das cidades; o moço não -deo porém o menor signal de vida. - -D. Antonio de Mariz, que comprehendêra perfeitamente o que devia -esperar da pretendida retirada dos Aymorés, mandou que os seus homens -se preparassem para a defeza, não que tivesse a menor esperança, mas -porque desejava resistir até o ultimo momento. - -Pery, depois de ter respondido a todas as perguntas de Cecilia a -respeito do modo por que se havia salvado do veneno, sahio da sala e -percorreu a esplanada, observando os arredores. O indio infatigavel -sempre que se tratava de sua senhora, apenas acabava de uma empreza -gigantesca, como a que o tinha levado ao campo dos Aymorés, cuidava já -em combinar outro projecto para salvar Cecilia. - -Depois do seu exame estrategico, entrou no quarto que havia abandonado -na ante-vespera, e no qual encontrou ainda as suas armas, do mesmo modo -que as tinha deixado. - -Lembrou-se do pedido que fizera a Alvaro, da contradicção do destino -que lhe restituía a vida a elle um homem tres vezes morto, e roubava-a -ao cavalheiro a quem elle havia deixado são e salvo. - - - - -VIII - -NOIVA - - -Uma hora depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, Pery, -recostado á janella do quarto que tinha pertencido á sua senhora, -olhava com uma grande attenção para uma arvore que se elevava a -algumas braças de distancia. - -Seu olhar parecia estudar as curvas dos galhos retorcidos, medinho-lhe a -distancia, a altura e o tamanho, como se disso dependesse a solução de -uma grande difficuldade com que lutava o seu espirito. No momento em que -estava de todo entregue a esse exame minucioso, o indio sentio uma mão -timida e delicada tocar-lhe de leve no hombro. - -Voltou-se; era Isabel que estava junto delle, e que se havia aproximado -como uma sombra, sem fazer o menor rumor. Uma pallidez mortal cobria as -feições da moça, que apenas sahia do seu desmaio; mas o rosto tinha -uma calma ou antes uma immobilidade que assustava. - -Voltando a si, Isabel correu um olhar pelo aposento, como para -certificar-se de que não era um sonho o que havia passado. - -A sala estava deserta; D. Antonio de Mariz tinha sahido para dar as suas -ordens; sua mulher, ajoelhada no oratorio sobre um montão de ruinas, -rezava ao pé de uma cruz que ficára junto ao altar. No fundo do -aposento, sobre o sofá, destacava-se o vulto immovel do cavalheiro, aos -pés do qual ardia uma vela de cêra, lançando pallidos clarões. - -Cecilia é que estava perto della, e apertava no seio a sua cabeça -desfallecida, procurando reanima-la. - -Quando o olhar de Isabel cahio sobre o corpo de seu amante, ella -ergueu-se como impellida por uma força sobrenatural, atravessou -rapidamente a sala, e foi por sua vez ajoelhar-se em face desse leito -mortuario. Mas não era para fazer uma prece que ajoelhava, era para -embeber-se na contemplação desse rosto livido e gelado, desses labios -frios, desses olhos extinctos, que ella amava apezar da morte. - -Cecilia respeitou a dôr de sua prima, e por um instincto de delicadeza -que só possuem as mulheres, comprehendeu que o amor, mesmo em face de -um cadaver, tem o seu pudor e a sua castidade; sahio para deixar que -Isabel chorasse livremente. - -Passado algum tempo depois da sahida de Cecilia, a moça ergueu-se, -percorreu automaticamente a casa, e vendo Pery de longe aproximou-se -delle o tocou-lhe no hombro. - -O indio e a moça se odiavão desde o primeiro dia em que se tinhão -visto; em Isabel era o odio de uma raça que a rebaixava a seus proprios -olhos; em Pery era essa repugnancia natural que sente o homem por -aquelles em quem reconhece um inimigo. - -Por isso Pery, vendo Isabel junto delle, ficou extremamente admirado, -sobretudo quando reparou no gesto supplicante que a moça lhe dirigia, -como se esperasse delle uma graça. - ---Pery!... - -O indio sentio-se commovido ao aspecto daquelle soffrimento, e pela -primeira vez na sua vida dirigio a palavra a Isabel. - ---Precisas de Pery? disse elle. - ---Vinha pedir-te um serviço. Não m'o negarás, sim? balbuciou a moça. - ---Falla; se fôr cousa que Pery possa fazer, elle não te negará. - ---Promettes então? exclamou Isabel, cujos olhos brilhárão com uma -expressão de alegria. - ---Sim, Pery te promette. - ---Vem! - -Dizendo essa palavra, a moça fez um gesto ao indio e dirigio-se -acompanhada por elle á sala que ainda estava deserta como tinha -deixado. Parou junto do sofá, e apontando para o corpo inanimado de seu -amante, acenou a Pery que o tomasse nos seus braços. - -O indio obedeceu, e acompanhou Isabel até um gabinete retirado a um -lado da casa; ahi deitou o seu fardo sobre um leito, cujas cortinas a -moça entreabrio, corando como uma noiva. - -Corava porque o gabinete onde tinha entrado era o quarto em que -habitára e encontrava ainda povoado de todos os sonhos de seu amor; -porque o leito, que recebia seu amante, era o seu leito de virgem casta -e pura; porque ella era realmente uma noiva do tumulo. - -Pery, tendo satisfeito o desejo da moça, retirou-se e voltou ao seu -trabalho, que elle proseguia com uma constancia infatigavel. - -Apenas ficou só, Isabel sorrio; mas o seu sorriso tinha um quer que -seja do extasi da dôr, da voluptuosidade do soffrimento, que faz sorrir -na sua ultima hora os martyres e os desgraçados. - -Tirou do seio a redoma de vidro onde guardava os cabellos de sua mãi e -fitou nella um olhar ardente; mas abanou a cabeça com um gesto de -expressão indefinivel. Tinha mudado de resolução; o segredo que -encerrava essa joia, o pó subtil que empanava a face interior do -crystal, a morte que sua mãi lhe confiára não a satisfazia; era muito -rapida, quasi instantanea. - -Sahio então furtivamente e acendeu uma vela de cêra, que havia sobre a -commoda ao lado de um crucifixo de marfim; depois fechou a porta, cerrou -as janellas e interceptou as frestas por onde a luz do dia podia -penetrar. O gabinete ficou ás escuras; apenas em torno do cirio que -ardia, uma aureola pallida se destacava no meio das trevas e illuminava -a imagem de Christo. - -A moça ajoelhou e fez uma oração breve; pedia a Deus uma ultima -graça; pedia a eternidade e a ventura do seu amor, que tinha passado -tão rapido pela terra. - -Acabando a prece, tomou a luz, deitou-a na cabeceira do leito, afastou o -cortinado e começou a contemplar o seu amante com enlevo. - -Alvaro parecia adormecido apenas; sua bella physionomia não tinha a -menor alteração; a morte imprimindo nos seus traços o descoramento da -cêra e do marmore, havia unicamente immobilisado a expressão e feito -do gentil cavalheiro um bella estatua. - -Isabel interrompeu o enlevo de sua contemplação para chegar-se de novo -á commoda, onde se vião algumas conchas de mariscos tintas de nacar -que se apanhão nas nossas praias, e uma cesta de palha matizada. - -Esta cesta continha todas as resinas aromaticas, todos os perfumes que -dão as arvores de nossa terra; o anime da aroeira, as perolas do -beijoim, as lagrimas crystallisadas da embaiba, e gotas do balsamo, esse -sandalo do Brazil. - -A moça deitou na concha a maior parte dos perfumes, e acendeu algumas -bagas de beijoim; o oleo de que estavão impregnadas, alimentando a -chamma, communicou-a ás outras resinas. - -Frocos de fumo alvadio impregnado de perfumes embriagadores se elevarão -da caçoula em grossas espiraes, e enchêrão o gabinete de nuvens -transparentes que oscillavão á luz pallida do cirio. - -Isabel, sentada á beira do leito, com as mãos do seu amante nas suas e -com os olhos embebidos naquella imagem querida, balbuciava phrases -entrecortadas, confidencias intimas, sons inarticulados, que são a -linguagem verdadeira do coração. - -Ás vezes sonhava que Alvaro ainda vivia, que lhe murmurava ao ouvido a -confissão do seu amor; e ella fallava-lhe como se seu amante a ouvisse, -contava-lhe os segredos de sua paixão, vertia toda a sua alma nas -palavras que cahião dos labios. Sua mão, delicada afastava os cabellos -do moço, descobria a sua fronte, animava a sua face gelada, e roçava -aquelles labios frios e mudos como pedindo-lhe um sorriso. - ---Porque não me fallas? murmurava ella docemente: Não conheces tua -Isabel?... Dize outra vez que me amas! Dize sempre essa palavra, para -que minha alma não duvide da felicidade! Eu te supplico!... - -E com o ouvido attento, com os labios entreabertos, o seio palpitante, -ella esperava o som dessa voz querida e o echo dessa primeira e ultima -palavra de seu triste amor. - -Mas o silencio só lhe respondia; seu peito aspirava apenas as ondas dos -perfumes inebriantes, que fazião circular nas suas veias uma chamma -ardente. - -O aposento apresentava então um aspecto fantastico: no fundo escuro -desenhava-se um circulo esclarecido, envolto por uma nevoa espessa. - -Nessa esphera luminosa como no meio de uma visão surgião Alvaro -deitado no leito e Isabel reclinada sobre o rosto de seu amante, a quem -continuava a fallar, como se elle a escutasse. A menina começava a -sentir a respiração faltar-lhe; seu seio oppresso suffocava-a, e -entretanto uma voluptuosidade inexprimivel a embriagava: um gozo immenso -havia nessa asphyxia de perfumes que se condensavão e rarefazião o ar. - -Louca, perdida, hallucinada, ella ergueu-se, seu seio dilatou-se, e sua -bocca, entreabrindo-se, collou-se aos labios frios e gelados de seu -amante; era o seu primeiro e ultimo beijo; o seu beijo de noiva. - -Foi uma agonia lenta, um pesadelo horrivel em que a dôr lutava com o -gozo, em que as sensações tinhão um requinte de prazer e de -soffrimento ao mesmo tempo; em que a morte, torturando o corpo, vertia -na alma effluvios celestes. - -De repente pareceu a Isabel que os labios de Alvaro se agitavão, que um -tenue suspiro se exhalava de seu peito, ainda ha pouco insensivel como o -marmore. - -Julgou que se illudia, mais não; Alvaro estava vivo, realmente vivo, -suas mãos apertavão as della convulsamente; seus olhos, brilhando com -um fogo estranho, se tinhão fitado no rosto da moça: um sopro reanimou -seus labios, que exhalárão uma palavra quasi imperceptivel. - ---Isabel!... - -A moça soltou um grito debil de alegria, de espanto, de medo; entre as -idéas confusas que se agitavão na sua cabeça desvairada, lembrou-se -com horror que era ella quem matava seu amante, quem o ia sacrificar por -causa de um engano fatal. Fazendo um esforço extraordinario, conseguio -erguer a cabeça e ia precipitar-se para janella, abri-la e dar entrada -ao ar livre; sabia que a morte era inevitavel; mas salvaria Alvaro. - -No momento, porém, em que se levantava, sentio as mãos do moço que -apertavão as suas, e a obrigárão a reclinar-se sobre o leito; seus -olhos encontrárão de novo os olhos de seu amante. - -Isabel não tinha mais forças para resistir e realisar seu heroico -sacrificio; deixou cahir a cabeça desfallecida, e seus labios se -unirão outra vez n'um longo beijo, em que essas duas almas irmãs, -confundindo-se n'uma só, voárão ao céo, e forão abrigar-se no seio -do Creador. - -As nuvens de fumaça e de perfume se condensavão cada vez mais e -envolvião como um lençol aquelle grupo original, impossivel de -descrever. - -Por volta de duas horas da tarde, a porta da gabinete, impellida por um -choque violento, abrio-se; e um turbilhão de fumo lançou-se por essa -aberta, e quasi suffocou as pessoas que ahi estavão. - -Erão Cecilia e Pery. - -A menina, inquieta pela longa ausencia de sua prima, soube de Pery que -ella estava no seu quarto; mas o indio occultou parte da verdade, e não -disse onde deitára o corpo de Alvaro. - -Duas vezes Cecilia viera até á porta, escutára e nada ouvira; por fim -resolveu-se a bater, a fallar a Isabel, e não teve a menor resposta. -Chamou Pery e contou-lhe o que se passava; o indio, tomado de um -presentimento metteu o hombro á porta e abrio-a. - -Quando a corrente de ar expellio a fumaça do aposento, Cecilia pôde -entrar e ver a scena que descrevêmos. - -A menina recuou, e respeitando esse mysterio de um amor profundo, fez um -gesto a Pery e retirou-se. - -O indio fechou de novo a porta e acompanhou sua senhora. - ---Ella morreu feliz! disse Pery. - -Cecilia fitou nelle os seus grandes olhos azues, e córou. - - - - -IX - -O CASTIGO - - -O dia declinava rapidamente e as sombras da noite começavão a -estender-se sobre o verde-negro da floresta. - -D. Antonio de Mariz, apoiado ao umbral da porta, junto de sua mulher, -passava o braço pela cintura de Cecilia. O sol a esconder-se illuminava -com o seu reflexo esse grupo de familia, digno do quadro magestoso que -lhe servia de baixo-relevo. - -O fidalgo, Cecilia e sua mãi, com os olhos no horizonte, recebião esse -ultimo raio de despedida, e mandavão o adeus extremo á luz do dia, ás -montanhas que os cercavão, ás arvores, aos campos, ao rio, á toda a -natureza. - -Para elles esse sol era a imagem de sua vida; o occaso era a sua hora -derradeira; e as sombras da eternidade se estendião já como as sombras -da noite. - -Os Aymorés tinhão voltado, depois do combate em que os aventureiros -vendêrão caro a sua vida; e cada vez mais sequiosos de vingança, -esperavão que anoitecesse para assaltar a casa. Certos desta vez que o -inimigo extenuado não resistiria a um ataque violento, tinhão tratado -de destruir todos os meios que podessem favorecer a fuga de um só dos -brancos. - -Isto era facil; além da escada de pedra, o rochedo formava um -despenhadeiro por todos os lados; e só a arvore, que lançava os galhos -sobre a cabana de Pery, offerecia um ponto de communicação praticavel -para quem tivesse a agilidade e a força do indio. - -Os selvagens, que não querião que lhes escapasse um só inimigo, e -ainda menos que esse fosse Pery, abaterão a arvore, e cortárão assim -a unica passagem por onde um homem poderia sahir do rochedo, no momento -do ataque. - -Ao primeiro golpe do machado de pedra sobre o grosso tronco do oleo, -Pery estremeceu, e, saltando sobre a sua clavina, ia despedaçar a -cabeça do selvagem; mas sorrio-se, e encostou tranquillamente a arma á -parede. Sem inquietar-se com a destruição que fazião os Aymorés, -continuou no seu trabalho interrompido, e acabou de torcer uma corda com -os filamentos de uma das palmeiras que servião de esteio á sua cabana. - -Elle tinha o seu plano: e para realisa-lo, começára por cortar as duas -palmeiras e trazê-las para o quarto de Cecilia; depois rachou uma das -arvores, e durante toda a manhã occupou-se em tercer essa longa corda, -a que dava uma extraordinaria importancia. - -Quando Pery terminava a sua obra, ouvio o baque da arvore que tombava -sobre o rochedo; chegou-se de novo á janella, e seu rosto exprimio uma -satisfação immensa. O oleo, cortado pela raiz, deitára-se sobre o -precipicio, elevando a uma grande altura os seus galhos seculares, mais -frondosos e mais robustos do que uma arvore nova da floresta. - -Os Aymorés, tranquillos por esse lado, continuárão nos seus -preparativos para o combate que conta vão dar durante as horas mortas -da noite. - -Quando o sol desappareceu no horizonte e a que luz do crepúsculo cedeu -ás trevas que envolvião a terra, Pery dirigio-se á sala. - -Ayres Gomes, sempre infatigavel, guardava a porta do gabinete; D. -Antonio de Mariz estava recostado na sua cadeira de espaldar; e Cecilia, -sentada sobre os seus joelhos, recusava beber uma taça que seu pai lhe -apresentava. - ---Bebe, minha Cecilia, dizia o fidalgo; é um cordial que te fará muito -bem. - ---De que serve, meu pai? Por uma hora, se tanto nos resta a viver, não -vale a pena! respondia a menina, sorrindo tristemente. - ---Tu te enganas! Ainda não estamos de todo perdidos. - ---Tendes alguma esperança? perguntou ella incredula. - ---Sim, tenho uma esperança, e esta não me illudirá! respondeu D. -Antonio, com um accento profundo. - ---Qual? Dizei-me! - ---És curiosa? replicou o fidalgo sorrindo. Pois só te direi se fizeres -o que te peço. - ---Quereis que beba essa taça? - ---Sim. - -Cecilia tomou a taça das mãos de seu pai, e depois de beber, volveu -para elle o seu olhar interrogador. - ---A esperança que eu tenho, minha filha, é que nenhum inimigo passará -nunca do limiar daquella porta; pódes crer na palavra de teu pai e -dormir tranquilla. Deus vela sobre nós. - -Beijando a fronte pura da menina, elle ergueu-se, tomou-a nos seus -braços, e, recostando-a sobre a poltrona em que estivera sentado, sahio -do gabinete e foi examinar o que se passava fóra da casa. - -Pery, que tinha assistido a esse dialogo entre o pai e a filha, estava -occupado em procurar no gabinete varios objectos de que tinha -necessidade apparentemente. - -Logo que achou quanto desejava, o indio encaminhou-se para a porta. - ---Onde vais? disse Cecilia, que tinha acompanhado todos os seus -movimentos. - ---Pery volta, senhora. - ---E porque nos deixas? - ---Porque é preciso. - ---Ao menos volta logo. Não devemos morrer todos juntos, da mesma morte? - -O indio estremeceu. - ---Não; Pery morrerá: mas tu has de viver, senhora. - ---Para que viver, depois de ter perdido todos os seus amigos?... - -Cecilia, que lia alguns momentos sentia a cabeça vacillar, os olhos -cerrarem-se e um somno invencivel apoderar-se della, deixou-se cahir -sobre o espaldar da cadeira. - ---Não!... Antes morrer como Isabel! murmurou a menina já entorpecida -pelo somno. - -Um meigo sorriso veio adejar nos seus labios entreabertos, por onde se -escapava a respiração doce, branda e igual. - -Pery a principio assustou-se com esse somno repentino que não lhe -parecia natural e com a pallidez subita de que se cobrirão as feições -de Cecilia. - -Seus olhos cahirão sobre a taça que estava em cima da mesa; deitou nos -labios algumas gotas do liquido que tinhão ficado no fundo e tomou-lhes -o sabor: não podia conhecer o que continha; mas satisfez-se em não -achar o que receiára. - -Repellio a idéa que lhe assaltára o espirito, e lembrou-se que D. -Antonio sorria no momento em que pedia a sua filha para beber, e que a -sua mão não tremêra apresentando-lhe a taça. Tranquillo a este -respeito, o indio, que não tinha tempo a perder, ganhou a esplanada, -correu para o quarto que occupava, e desappareceu. - -A noite já estava fechada, e uma escuridão profunda envolvia a casa e -os arredores. Durante esse tempo nenhum acontecimento extraordinario -viera modificar a posição desesperada em que se achava a familia; a -calma sinistra, que precede as grandes tempestades, plainava sobre a -cabeça d'essas victimas que contavão, não as horas, mas os instantes -de vida que lhes restavão. - -D. Antonio passeava ao longo da sala, com a mesma serenidade dos seus -dias tranquillos e placidos de outr'ora; de vez em quando o fidalgo -parava na porta do gabinete, lançava um olhar sobre sua mulher que -orava e sua filha adormecida; depois continuava o passeio interrompido. - -Os aventureiros grupados junto á porta seguião com os olhos o vulto do -fidalgo que se perdia no fundo escuro da sala, ou se destacava cheio de -vigor e de colorido na esphera luminosa a que cingia a lampada de prata -suspensa ao tecto. - -Mudos, resignados, nenhum d'esses homens deixava escapar uma queixa, um -suspiro que fosse; o exemplo de seu chefe reanimava nelles essa coragem -heroica do soldado que morre por uma causa santa. - -Antes de obedecerem á ordem de D. Antonio de Mariz, elles tinhão -executado a sua sentença proferida contra Loredano; e quem passasse -então sobre a esplanada veria em torno do poste, em que estava atado o -frade, uma lingua vermelha que lambia a fogueira, enroscando-se pelos -toros de lenha. - -O italiano sentia já o fogo que se aproximava e a fumaça, que, -ennovelando-se, envolvia-o n'uma nevoa espessa: é impossivel descrever -a raiva, a colera e o furor que se apossárão d'elle n'esses momentos -que precedêrão o supplicio. - -Mas voltemos á sala em que se achavão reunidos os principaes -personagens d'essa historia, e onde se vão passar as scenas talvez mais -importantes do drama. - -A calma profunda que reinava n'essa solidão não tinha sido perturbada; -tudo estava em silencio; e as trevas espessas da noite não deixavão -perceber os objectos a alguns passos de distancia. - -De repente listras de fogo atravessárão o ar, e se abatêrão sobre o -edificio; erão as settas inflammadas dos selvagens que annunciavão o -começo do ataque; durante alguns minutos foi como uma chuva de fogo, -uma cascata de chammas que cahio sobre a casa. - -Os aventureiros estremecêrão; D. Antonio sorrio. - ---É chegado o momento, meus amigos. Temos uma hora de vida; -preparai-vos para morrer como christãos e portuguezes. Abri as portas -para que possamos ver o céo. - -O fidalgo dizia que lhe restava uma hora de vida, porque, tendo -destruido o resto da escada de pedra, os selvagens não podião subir ao -rochedo senão escalando-o; e por maior que fosse a sua habilidade, não -era possivel que consumissem n'isso menos tempo. - -Quando os aventureiros abrirão as portas, um vulto resvalou na sombra, -e entrou na sala. - -Era Pery. - - - - -X - -CHRISTÃO - - -O indio dirigio-se rapidamente a D. Antonio de Mariz. - ---Pery quer salvar a senhora. - -O fidalgo abanou a cabeça em signal de duvida. - ---Escuta! replicou o indio. - -Aproximando os labios do ouvido de D. Antonio, fallou-lhe por algum -tempo em voz baixa, e n'um tom rapido e decisivo. - ---Tudo está preparado: parte, desce o rio; quando a lua estender o seu -arco chegarás á tribu dos Goytacazes. A mãi de Pery te conhece: cem -guerreiros te acompanharão á grande taba dos brancos. - -D. Antonio de Mariz ouvio em profundo silencio as palavras do indio; e -quando elle terminou, apertou-lhe a mão com reconhecimento. - ---Não, Pery: o que me propões é impossivel. D. Antonio de Mariz não -pode abandonar a sua casa, a sua familia e os seus amigos no momento do -perigo, ainda mesmo para salvar aquillo que elle mais ama n'este mundo. -Um fidalgo portuguez não pode fugir diante do inimigo, qualquer que -elle seja; morre vingando a sua morte. - -Pery fez um gesto de desespero. - ---Assim tu não queres salvar a senhora? - ---Não posso, respondeu o cavalheiro; o meu dever manda que fique, e -partilhe a sorte de meus companheiros. - -O indio no seu fanatismo não comprehendia que houvesse uma razão capaz -de sacrificar a vida de Cecilia, que para elle era sagrada. - ---Pery pensou que tu amasses a senhora! disse elle fôra de si. - -D. Antonio olhou-o com uma expressão de dignidade e nobreza. - ---Perdôo-te a offensa que me fizeste, amigo; porque é ainda uma prova -de tua grande dedicação. Mas acredita-me; se fosse preciso que eu me -votasse só ao sacrificio barbaro dos selvagens para salvar minha filha, -eu o faria sorrindo. - ---E porque recusas o que Pery te pede? - ---Porque?... Porque o que tu pedes não é um sacrificio, é uma -vergonha; é uma traição. Tu abandonarias tua mulher, teus -companheiros, para salvar-te do inimigo, Pery?... - -O indio abaixou a cabeça com abatimento. - ---Demais, essa empreza demanda forças com que um velho como eu já não -póde contar. Havia duas pessoas que a poderião realisar. - ---Quem? perguntou Pery com um raio de esperança. - ---Uma era meu filho, que a esta hora esta bem longe d'aqui; a outra -deixou-nos esta manhã e nos espera; era Alvaro. - ---Pery fez pela senhora o que podia; tu não queres salva-la; Pery vai -morrer a seus pés. - -Morrer? disse o fidalgo. Quando tens a liberdade e a vida á tua -disposição? E julgas que consentirei nisto?... Nunca! Vai, Pery; -conserva a lembrança de teus amigos; a nossa alma te acompanhará na -terra. Adeus. Parte: o tempo urge. - -O indio ergueu a cabeça com um gesto soberbo de indignação. - ---Pery arriscou bastantes vezes a sua vida por ti, para ter o direito de -morrer comtigo; tu não pódes abandonar teus companheiros; o escravo -não póde abandonar sua senhora. - ---És injusto, amigo; exprimi um desejo, não quiz arrogar-te uma -injuria. Se exiges uma parte do sacrificio, esta te pertence, e tu és -digno d'ella; fica. - -Um grito dos selvagens retroou nos ares. - -D. Antonio, fazendo um gesto aos aventureiros, encaminhou-se para o -gabinete. - -Cecilia, adormecida sobre a cadeira de espaldar, sorria como se algum -sonho alegre a embalasse no seu somno tranquillo; o rosto um pouco -pallido, moldurado pelas tranças louras de seus cabellos, tinha a -expressão suave da innocencia feliz. - -O fidalgo, contemplando sua filha, sentio uma dôr pungente e quasi -arrependeu-se de não ter aceitado o offerecimento de Pery, e de não -tentar ao menos esse ultimo esforço para defender aquella vida que -apenas começava a expandir-se. - -Mas podia elle mentir ao seu passado e faltar ao dever imperioso que o -obrigava a morrer no seu posto? Podia trahir na sua ultima hora aquelles -que havião partilhado a sua sorte? - -Tal era o sentimento de honra naquelles antigos cavalheiros, que D. -Antonio nem um momento admittio a idéa de fugir para salvar sua filha; -se houvesse outro meio, de certo o receberia como um favor do céo; mas -aquelle era impossivel. - -Emquanto o espirito do fidalgo se debatia nessa luta cruel, Pery, de pé -junto de Cecilia, parecia querer ainda protegê-la contra a morte -inevitavel que a ameaçava. Dir-se-hia que o indio esperava algum -soccorro imprevisto, algum milagre que salvasse sua senhora; e que -aguardava o momento de fazer por ella tudo quanto fosse possivel ao -homem. - -D. Antonio, vendo a resolução que se pintava no rosto do selvagem, -tornou-se ainda mais pensativo; quando passado esse momento de -reflexão, ergueu a cabeça, seus olhos brilhavão com un raio de -esperança. - -Atravessou o espaço que o separava de sua filha, e, tomando a mão de -Pery, disse-lhe com uma voz profunda e solemne: - ---Se tu fosses christão, Pery!... - -O indio voltou-se extremamente admirado daquellas palavras. - ---Porque?... perguntou elle. - ---Porque?... disse lentamente o fidalgo. Porque se tu fosses christão, -eu te confiaria a salvação de minha Cecilia, estou convencido de que a -levarias ao Rio de Janeiro, á minha irmã. - -O rosto do selvagem illuminou-se; seu peito arquejou de felicidade; seus -labios tremulos mal podião articular o turbilhão de palavras que lhe -vinhão do intimo d'alma. - ---Pery quer ser christão! exclamou elle. - -D. Antonio lançou-lhe um olhar humido de reconhecimento. - ---A nossa religião permitte, disse o fidalgo, que na hora extrema todo -o homem possa dar o baptismo. Nós estamos com o pé sobre o tumulo. -Ajoelha, Pery! - -O indio cahio aos pés do velho cavalheiro, que impoz-lhe as mãos sobre -a cabeça. - ---Sê christão! Dou-te o meu nome. - -Pery beijou a cruz da espada que o fidalgo lhe apresentou, e ergueu-se -altivo e sobranceiro, prompto a affrontar todos os perigos para salvar -sua senhora. - ---Escuso exigir de ti a promessa de respeitares e defenderes minha -filha. Conheço a tua alma nobre, conheço o teu heroismo e a tua -sublime dedicação por Cecilia. Mas quero que me faças um outro -juramento. - ---Qual? Pery está prompto para tudo. - -Jura que, se não poderes salvar minha filha, ella não cahirá nas -mãos do inimigo? - ---Pery te jura que elle levará a senhora a tua irmã; e que se o senhor -do céo não deixar que Pery cumpra a sua promessa, nenhum inimigo -tocará em tua filha; ainda que para isso seja preciso queimar uma -floresta inteira. - ---Bem; estou tranquillo. Ponho minha Cecilia sob tua guarda: e morro -satisfeito. Podes partir. - ---Manda fechar todas as portas. - -Os aventureiros obedecêrão á ordem do fidalgo; todas as portas se -fechárão; o indio empregava este meio para ganhar tempo. - -Os gritos e bramidos dos selvagens, que continuavão com algumas -interrupções, forão-se aproximando da casa; conhecia-se que -escalavão o rochedo nesse momento. - -Alguns minutos se passárão n'uma anciedade cruel. D. Antonio de Mariz -depositou um ultimo beijo na fronte de sua filha; D. Lauriana apertou ao -seio a cabeça adormecida da menina e envolveu-a n'uma manta de seda. - -Pery, com o ouvido attento, o olhar fito na porta, esperava. -Ligeiramente apoiado sobre o espaldar da cadeira ás vezes estremecia de -impaciencia e batia com o pé sobre o pavimento da sala. - -De repente, um grande clamor soou em tomo da casa; as chammas lambêrão -com as suas linguas de fogo as frestas das portas e janellas: o edificio -tremeu desde os alicerces com o embate da tromba de selvagens que se -lançava furiosa no meio do incendio. - -Pery, apenas ouvio o primeiro grito, reclinou sobre a cadeira e tomou -Cecilia nos braços; quando o estrondo soou na porta larga do salão, o -indio já tinha desapparecido. - -Apezar da escuridão profunda que reinava em todo o interior da casa, -Pery não hesitou um momento; caminhou direita ao quarto onde habitára -sua senhora e subio á janella. - -Uma das palmeiras da cabana estendia-se por cima do precipicio e -apoiava-se a trinta palmos de distancia sobre um dos galhos da arvore -que os Aymorés tinhão abatido durante o dia para tirarem aos -habitantes da casa a menor esperança de fuga. - -Pery apertando Cecilia nos braços, firmou o pé sobre essa ponte -fragil, cuja faça convexa tinha quando muito algumas pollegadas de -largura. - -Quem lançasse os olhos nesse momento para aquella banda da esplanada -veria ao pallido clarão do incendio deslisar-se lentamente por cima do -precipicio o vulto hirto, como um dos fantasmas que, segundo a crença -popular, atravessavão á meia noite as velhas amêas de algum castello -em ruinas. - -A palmeira oscillava, e Pery, embalançando-se sobre o abysmo, -adiantava-se vagarosamente para a encosta opposta. Os gritos dos -selvagens repercutião nos ares de envolta com o estrepito dos _tacapes_ -que abalavão as porta da sala e as paredes do edificio. - -Sem se inquetar com a scena tumultuosa que deixava após si, o indio -ganhou a encosta opposta, e segurando com uma mão nos galho da arvore, -conseguio tocar a terra sem o menor accidente. - -Então, fazendo uma volta para não aproximar-se do campo dos Aymorés, -dirigio-se á margem do rio; ahi estava escondida entre as folhas a -pequena canoa que servia outr'ora para os habitantes da casa -atravessarem o _Paquequer_. - -Durante a ausencia de uma hora que Pery tinha feito, quando deixára -Cecilia adormecida, elle havia tudo preparado para essa empreza -arriscada que devia salvar sua senhora. - -Graças á sua actividade espantosa, armou com o auxilio da corda a -ponte pensil sobre o precipicio, correu ao rio, amarrou a canôa no -lugar que lhe pareceu mais propicio, e em duas viagens levou a esse -barquinho, que ia servir de morada a Cecilia durante alguns dias, tudo -quanto a menina podia carecer. - -Erão roupas, uma colcha de damasco com que se poderia arranjar um -leito, alguns alimentos que restavão na casa; lembrou-se até que D. -Antonio devia ter necessidade de dinheiro logo que chegasse ao Rio de -Janeiro, porque Pery contava que o fidalgo não duvidaria salvar sua -filha. - -Chegando á beira do rio, o indio deitou sua senhora no fundo da canôa, -como uma menina no seu berço, envolveu-a na manta de seda para -abrita-la do orvalho da noite, e tomando o remo, fez a canôa saltar -como um peixe sobre as aguas. - -A algumas braças de distancia, por entre uma aberta da floresta, Pery -viu sobre o rochedo a casa illuminada pelas chammas do incendio, que -começava a lavrar com alguma intensidade. - -De repente uma scena fantastica, terrivel, passou, diante de seus olhos, -como uma dessas visões rapidas que brilhão e se apagão de repente no -delirio da imaginação. - -A frente da casa estava ás escuras; o fogo ganhára as outras faces do -edificio e o vento o lançava para o fundo. Pery do primeiro olhar tinha -visto os vultos dos Aymorés a se moverem nas sombras; e a figura -horrivel e medonha de Loredano, erguendo-se como um espectro no meio das -chammas que o devoravão. - -De repente a fachada do edificio tombou sobre a esplanada esmagando na -sua queda um grande numero de selvagens. - -Foi então que o quadro fantastico se desenhou aos olhos de Pery. - -A sala era um mar de fogo; os vultos que se movião nessa esphera -luminosa parecião nadar em vagas de chammas. - -No fundo destacava-se o vulto magestoso de D. Antonio de Mariz, de pé -no meio do gabinete, elevando com a mão esquerda uma imagem de Christo -e com a direita abaixando a pistola para a cava escura onde dormia o -volcão. - -Sua mulher abraçava os seus joelhos calma e resignada; Ayres Gomes e os -poucos aventureiros que restavão, immoveis e ajoelhados a seus pés, -formavão o baixo-relevo dessa estatua digna de um grande cinzel. - -Sobre o montão de ruinas formado pela parede que desmoronára, -desenhavão-se as figuras sinistras dos selvagens, semelhantes a -espiritos diabolicos dansando nas chammas infernaes. - -Tudo isso, Pery viu de um só relance d'olhos; como um painel vivo -illuminado um momento pelo clarão instantaneo do relampago. - -Um estampido horrivel reboou por toda aquella solidão: aterra tremeu, -as aguas do rio se encapellárão como batidas pelo tufão. As trevas -envolvêrão o rochedo ha pouco esclarecido pelas chammas, e tudo entrou -de novo no silencio profundo da noite. - -Um soluço partio o peito de Pery, talvez a unica testemunha dessa -grande catastrophe. - -Dominando a sua dôr, o indio vergou sobre o remo, e a canôa voou pela -face lisa e polida do _Paquequer_. - - - - -XI - -EPILOGO - - -Quando o sol, erguendo-se no horizonte, illuminou os campos um montão -de ruinas cobria as margens do _Paquequer_. - -Grandes lascas de rochedos, talhadas de um golpe e semeadas pelo campo, -paredão ter saltado do malho gigantesco de Novos Cyclopes. - -A eminencia sobre a qual estava situada a casa tinha desapparecido, e no -seu lugar via-se apenas uma larga fenda semelhante á cratera de algum -volcão subterraneo. - -As arvores arrancadas dos seus alveolos, a terra revolta, a cinza -ennegrecida que cobria a floresta, annunciavão que por ahi tinha -passado algum desses cataclysmas que deixão após si a morte e a -destruição. - -Aqui e alli por entre os comoros das ruinas apparecia alguma india, -resto da tribu dos Aymorés, que tinha ficado para chorar a morte dos -seus, e levar ás outras tribus a noticia dessa tremenda vingança. - -Quem plainasse nesse momento sobre aquella solidão, e lançasse os -olhos pelos vastos horizontes que se abrião em torno, se a vista -podesse devassar a distancia de muitas leguas, veria ao longe, na larga -esteira do Parahyba, passar rapidamente uma forma vaga e indecisa. - -Era a canoa de Pery, que impellida pelo remo e pela viração da manhã -corria com uma velocidade espantosa semelhando uma sombra a fugir das -primeiras claridades do dia. - -Toda a noite o indio tinha remado sem descansar um momento; não -ignorava que D. Antonio de Mariz na sua terrivel vingança havia -exterminado a tribu dos Aymorés, mas desejava apartar-se do theatro da -catastrophe, e aproximar-se dos seus campos nativos. - -Não era o sentimento da patria, sempre tão poderoso no coração do -homem; não era o desejo de ver sua cabana reclinada á beira do rio, e -abraçar sua mãi e seus irmãos, que dominava sua alma nesse momento e -lhe dava esse ardor. - -Era sim a idéa de que ia salvar sua senhora e cumprir o juramento que -tinha feita ao velho fidalgo; era o sentimento de orgulho que se -apoderava delle, pensando que bastava a sua coragem e a sua força para -vencer todos os obstaculos, e realisar a missão de que se havia -encarregado. - -Quando o sol, no meio de sua carreira, lançava torrentes de luz sobre -esse vasto deserto, Pery sentio que era tempo de abrigar Cecilia dos -raios abrazadores, e fez a canôa abicar á beira do rio na sombra de -uma ramagem de arvores. - -A menina envolta na sua manta de seda com a cabeça apoiada sobre a -prôa do barquinho dormia ainda o mesmo somno tranquillo da vespera; as -côres tinhão voltado, e sob a alvura transparente de sua pelle alva -brilhavão esses tons côr de rosa, esse colorido suave, que só a -natureza, artista sublime, sabe crear. - -Pery tomou a canôa nos seus braços, como se fôra um berço mimoso, e -deitou-a sobre a relva que cobria a margem do rio; depois sentou-se ao -lado, e com os olhos fitos em Cecilia, esperou que ella sahisse desse -somno prolongado que começava a inquieta-lo. - -Tremia lembrando-se da dôr que sua senhora ia sentir quando soubesse a -desgraça de que elle fôra testemunha na vespera; e não se achava com -forças de responder ao primeiro olhar de surpreza que a menina -lançaria em torno de si logo que despertasse no meio do deserto. - -Emquanto durou o somno, Pery, com o braço apoiado á borda da canôa e -o corpo reclinado sobre o rosto da menina, esperando com anciedade o -momento que elle desejava e temia ao mesmo tempo, velava sobre Cecilia -com um cuidado e uma solicitude admiravel. - -A mãi mais extremosa não se desvelaria tanto por seu filho, como esse -amigo dedicado por sua senhora; uma restea de sol que, enfiando-se pelas -folhas, vinha brincar no rosto da menina, um passarinho que cantava -sobre um ramo do arbusto, um insecto que saltava na relva, tudo elle -afastava para não perturbar o seu repouso. - -Cada minuto que passava era uma nova inquietação para elle; porém era -tambem um instante mais de socego e de tranquillidade que a menina -gozava, antes de saber a desgraça que pesava sobre ella, e que a -privára de sua familia. - -Um longo suspiro elevou o seio de Cecilia; seus lindos olhos azues se -abrirão e cerrarão, deslumbrados pela claridade do dia; ella passou a -mão delicada pelas palpebras rosadas, como para afugentar o somno, e -seu olhar limpido e suave foi pousar no rosto de Pery. Soltou um -gritozinho de prazer, e sentando-se com vivacidade, lançou um olhar de -surpreza e admiração em torno da especie de pavilhão de folhagem que -a cercava; parecia interrogar as arvores, o rio, o céo; mas tudo -emmudecia. - -Pery não se animava a pronunciar uma palavra, via o que se passava -n'alma de sua senhora, e não tinha a coragem de dizer a primeira letra -do enigma que ella não tardaria a comprehender. - -Por fim, a menina, baixando a vista para ver onde estava, descobrio a -canôa, e lançando um volver rapido para o vasto leito do Parahyba que -se espreguiçava indolentemente pela floresta, ficou branca como a -cambraia do seu roupão. - -Voltou-se para o indio com os olhos extremamente dilatados, os labios -tremulos, a respiração presa, o seio offegante, e supplicando com as -mãozinhas juntas: - ---Meu pai!... meu pai!... exclamou soluçando. - -O selvagem deixou cahir a cabeça sobre o peito e escondeu o rosto nas -mãos. - ---Morto!... Minha mãi tambem morta!... Todos mortos!... - -Vencida pela dôr, a menina apertou convulsamente o seio que lhe -estalava com os soluços, e reclinando-se como o calice delicado de uma -flôr que a noite enchêra de orvalho, desfez-se em lagrimas. - ---Pery só podia salvar a ti, senhora! murmurou o indio tristemente. - -Cecilia ergueu a cabeça altiva. - ---Porque não me deixaste morrer com os meus?... exclamou ella n'uma -exaltação febril. Pedi-te eu que me salvasses? Precisava de teus -serviços?... - -Seu rosto tomou uma expressão de energia extraordinaria. - ---Tu vais me levar ao lugar onde descansa o corpo de meu pai. É ahi que -deve estar sua filha... Depois partirás!... Não careço de ti. - -Pery estremeceu. - ---Escuta, senhora... balbuciou elle em tom submisso. - -A menina lançou-lhe um olhar tão imperioso, tão soberano, que o indio -emmudeceu, e voltando o rosto escondeu as lagrimas que lhe molhavão as -faces. - -Cecilia caminhou até á beira do rio, e com os olhos estendidos pelo -horizonte, que ella suppunha occultar o lugar em que habitára, ajoelhou -e fez uma oração longa e ardente. - -Quando ergueu-se, estava mais calma: a dôr tinha-se repassado do -consolo sublime da religião, dessa doçura e suavidade que infiltra no -coração a esperança de uma vida celeste, que reune aquelles que se -amárão na terra. - -Ella pôde então reflectir sobre o que se tinha passado na vespera; e -procurou lembrar-se das circumstancias que havião precedido á morte de -sua familia. Todas as suas recordações, porém, chegavão unicamente -até o momento em que, já meia adormecida, fallava a Pery, e dizia essa -palavra ingénua e innocente que lhe escapára do intimo d'alma. - ---Antes morrer como Isabel! - -Lembrando-se dessa palavra, córou; e vendo-se só no deserto com Pery, -sentio uma inquietação vaga e indefinida, um sentimento de temor e de -receio, cuja causa não sabia explicar. - -Seria essa desconfiança subita proveniente da colera que ella sentira, -porque o indio salvára a sua vida, e a arrancára da desgraça que -tinha destruido toda a sua familia? - -Não; não era essa a causa: ao contrario Cecilia conhecia que fôra -injusta para com seu amigo que tinha talvez feito impossiveis por ella; -e a não ser o receio instinctivo que se apoderára involuntariamente de -sua alma, já o teria chamado para pedir-lhe perdão daquellas palavras -duras e crueis. - -A menina ergueu os olhos timidos e encontrou o olhar triste e supplice -de Pery: não pôde resistir; esqueceu os seus receios, e um tenue -sorriso fugio-lhe pelos labios. - ---Pery!... - ---O indio estremeceu, mas desta vez de alegria e de contentamento: veio -cahir aos pés de sua senhora, que elle encontrava de novo boa como -sempre tinha sido. - ---Perdoa a Pery, senhora! - ---És tu que me deves perdoar, porque te fiz soffrer; não é verdade? -Mas bem sabes!... Não podia abandonar meu pobre pai! - ---Foi elle que mandou a Pery que te salvasse! disse o indio. - ---Como?... exclamou a menina. Conta-me, meu amigo. - -O indio fez a narração da scena da noite antecedente desde que Cecilia -tinha adormecido até o momento em que a casa saltára com a explosão, -restando delia apenas um montão de ruinas. - -Contou que elle tinha preparado tudo para que D. Antonio de Mariz -fugissse, salvando Cecilia; mas que o fidalgo recusára, dizendo que a -sua lealdade e a sua honra mandavão que morresse no seu posto. - ---Meu nobre pai! murmurou a menina enxugando as lagrimas. - -Houve um instante de silencio, depois do qual Pery concluio a sua -narração, e referio como D. Antonio de Mariz o tinha baptisado, e lhe -havia confiado a salvação de sua filha. - ---Tu és christão, Pery?... exclamou a menina, cujos olhos brilhárão -com uma alegria ineffavel. - ---Sim; teu pai disse: «Pery; tu és christão; dou-te o meu nome!» - ---Obrigado, meu Deus, disse a menina juntando as mãos e erguendo os -olhos ao céo. - -Depois, envergonhada desse movimento espontaneo, escondeu o rosto: o -rubor que cobrio as suas faces tingio de longes côr de rosa as linhas -puras do collo assetinado. - -Pery ergueu-se e foi colher alguns fructos delicados que servirão de -refeição á sua senhora. - -O sol tinha quebrado a sua força, era tempo de continuar a viagem e -aproveitar a frescura da tarde para vencer a distancia que os separava -do campo dos Goytacazes. - -O indio chegou-se tremulo para a menina: - ---Que queres tu que Pery faça, senhora? - ---Não sei; respondeu Cecilia indecisa. - ---Não queres que Pery te leve á taba dos brancos? - ---É a vontade de meu pai?... Deves cumpri-la. - ---Pery prometteu a D. Antonio levar-te a sua irmã. - -O indio fez a canôa boiar sobre as aguas do rio, e quando tomou a -menina nos seus braços para deita-la no barquinho, ella sentio pela -primeira vez na sua vida que o coração de Pery palpitava sobre o seu -seio. - -A tarde estava soberba; os raios do sol no occaso, filtrando por entre -as folhas das arvores, douravão as flôres alvas que crescião pela -beira do rio. - -As rolas começavão a soltar os seus arrulhos no fundo da floresta; e a -brisa, que passava ainda tepida das exhalações da terra, vinha -impregnada de aromas silvestres. - -A canôa resvalou pela flôr d'agua, como uma garça ligeira levada pela -correnteza do rio. - -Pery remava sentado na prôa. - -Cecilia, deitada no fundo, meio apoiada sobre uma alcatifa de folhas que -Pery tinha arranjado, engolfava-se nos seus pensamentos, e aspirava as -emanações suaves e perfumadas das plantas, e a frescura do ar e das -aguas. - -Quando seus olhos encontravão os de Pery, os longos cilios descião -occultando um momento o seu olhar doce e triste. - - -A noite estava serena. - -A canôa, vogando sobre as aguas do rio, abria essas flôres de espuma, -que brilhão um momento á luz das estrellas, e se desfazem como o -sorriso da mulher. - -A brisa tinha escasseado; e a natureza adormecida respirava a calma -tepida e perfumada das noites americanas, tão cheias de enlevo e -encanto. - -A viagem fora silenciosa; essas duas creaturas abandonadas no meio do -deserto, sós em face da natureza, emmudecião, como se temessem -despertar o echo profundo da solidão. - -Cecilia repassava na memoria toda a sua vida innocente e tranquilla, -cujo fio dourado tinha-se rompido de uma maneira tão cruel; mas era -sobretudo o ultimo anno dessa existencia, desde o dia do apparecimento -imprevisto de Pery, que se desenhava na sua imaginação. - -Porque interrogava ella assim os dias que tinha vivido no remanso da -felicidade? Porque o seu espirito voltava ao passado, e procurava ligar -todos esses factos a que na descuidosa ingenuidade dos primeiros annos -dera tão pouco apreço? - -Ella mesma não saberia explicar as emoções que sentia; sua alma -innocente e ignorante tinha-se illuminado com uma subita revelação: -novos horizontes se abrião aos sonhos castos de seu pensamento. - -Volvendo ao passado admirava-se de sua existencia, como os olhos se -deslumbrão com a claridadade depois de um somno profundo; não se -reconhecia na imagem do que fôra outr'ora, na menina isenta e travessa. - -Toda a sua vida estava mudada; a desgraça tinha operado essa -revolução repentina, e um outro sentimento ainda confuso ia talvez -completar a transformação mysteriosa da mulher. - -Em torno della tudo se resentia dessa mudança; as côres tinhão tons -harmoniosos, o ar perfumes inebriantes, a luz reflexos avelludados, que -seus sentidos não conhecião. - -Uma flôr que antes era para ella apenas uma bella fórma, parecia-lhe -agora uma creatura que sentia e palpitava; a brisa que outr'ora passava -como um simples bafejo das auras, murmurava ao seu ouvido nesse momento -melodias ineffaveis, notas mysticas que resoavão no seu coração. - -Pery, julgando sua senhora adormecida, remava docemente para não -perturbar o seu repouso; a fadiga começava a vencê-lo; apezar de sua -coragem indomavel e de sua vontade poderosa, as forças estavão -exhaustas. - -Apenas vencedor da luta terrivel que travára com o veneno, tinha -começado a empreza quasi impossivel da salvação de sua senhora; havia -tres dias que seus olhos não se cerravão, que seu espirito não -repousava um instante. - -Tudo quanto a natureza permittia á intelligencia e ao poder do homem, -elle tinha feito; e comtudo não era a fadiga do corpo que o vencia, -erão sim as emoções violentas por que passára durante esse tempo. - -O que elle tinha sentido quando plainava sobre o abysmo, e que a vida de -sua senhora dependia de um passo falso, de uma oscillação da haste -fragil que lhe servia de ponte pensil, ninguem comprehenderia. - -O que soffreu quando Cecilia no seu desespero pela morte de seu pai o -accusava por tê-la salvado, e lhe dava ordem de leva-la ao lugar onde -repousavão as cinzas do velho fidalgo, é impossivel de descrever. - -Forão horas de martyrio, de soffrimento horrivel, em que sua alma -succumbiria, se não achasse na sua vontade inflexivel e na sua -dedicação sublime um conforto para a dôr, e um estimulo para -triumphar de todos os obstaculos. - -Erão essas emoções que o vencião, e ainda depois de vencidas, elle -conheceu que seus musculos de aço, escravos submissos que obedecião ao -seu menor desejo, se destendião como a corda do arco depois do combate. -Lembrou-se que sua senhora precisava delle e que devia aproveitar esses -momentos em que ella repousava para pedir ao somno novo vigor e novas -forças. - -Ganhou o meio do rio, e escolhendo um lugar onde não chegava nem um -galho das arvores que crescião nas ribanceiras, amarrou a canôa nos -nenuphares que boiavão á tona d'agua. - -Tudo estava quieto; a terra ficava a uma distancia de muitas braças; -portanto podia sua senhora dormir sem perigo sobre esse chão prateado, -debaixo da abobada azul do céo; as ondinhas a embalarião no seu -berço, as estrellas vigiarião o seu somno. - -Livre de inquietação, Pery encostou a cabeça na borda da canôa; um -momento depois suas palpebras entorpecidas cerrárão-se a pouco e -pouco; seu ultimo olhar, esse olhar vago e incerto que adeja na pupilla -já meio adormecida, viu desenhar-se na sombra uma forma alva e graciosa -que se reclinava docemente para elle. - -Não era um sonho, essa linda visão. Cecilia sentindo a canôa immovel -despertou das suas recordações; sentou-se, e debruçando-se um pouco -viu que seu amigo dormia, e accusou-se por não ter ha mais tempo -exigido delle esse instante de repouso. - -O primeiro sentimento que se apoderou da menina, vendo-se só, foi o -terror solemne e respeitoso que infunde a solidão no meio do deserto, -nas horas mortas da noite. - -O silencio parece fallar; as sombras se povoão de seres invisiveis; os -objectos, na sua immobilidade, como que oscillão pelo espaço. - -E ao mesmo tempo o nada com o seu vacuo profundo, immenso, infinito; e o -chãos com a sua confusão, as suas trevas, as suas formas increadas; a -alma sente que falta-lhe a vida ou a luz em torno. - -Cecilia recebeu essa impressão com um temor religioso; mas não se -deixou dominar pelo susto; a desgraça a habituára ao perigo; e a -confiança que tinha no seu companheiro era tanta, que mesmo dormindo -parecia-lhe que Pery velava sobre ella. - -Contemplando essa cabeça adormecida, a menina admirou-se da belleza -inculta dos traços, da correcção das linhas do perfil altivo, da -expressão de força e intelligencia que animava aquelle busto selvagem -moldado pela natureza. - -Como era que até então ella não tinha percebido naquelle aspecto -senão um rosto amigo? Como seus olhos tinhão passado sem ver sobre -essas feições talhadas com tanta energia? - -Era que a revelação physica que acabava de illuminar o seu olhar, não -era senão o resultado dessa outra revelação moral que esclarecêra o -seu espirito; dantes via com os olhos do corpo, agora via com os olhos -da alma. - -Pery, que durante um anno não fôra para ella senão um amigo dedicado, -apparecia-lhe de repente como um heróe; no seio de sua familia -estimava-o, no meio dessa solidão admirava-o. - -Como os quadros dos grandes pintores que precisão de luz, de um fundo -brilhante, e de uma moldura simples, para mostrarem a perfeição de seu -colorido e a pureza de suas linhas, o selvagem precisava do deserto para -revelar-se em todo o esplendor de sua belleza primitiva. - -No meio de homens civilisados, era um indio ignorante, nascido de uma -raça barbara, a quem a civilisação repellia, e marcava o lugar de -captivo. Embora para Cecilia e D. Antonio fosse um amigo, era apenas um -amigo escravo. - -Aqui, porém, todas as distincções desapparecião; o filho das mattas, -voltando ao seio de sua mãi, recobrava a liberdade; era o rei do -deserto, o senhor das florestas, dominando pelo direito da força e da -coragem. - -As altas montanhas, as nuvens, as catadupas, os grandes rios, as arvores -seculares, servião de throno, de docel, de manto e sceptro a esse -monarca das selvas cercado de toda a magestade e de todo o esplendor da -natureza. - -Que effusão de reconhecimento e de admiração não havia no olhar de -Cecilia! Era nesse momento que ella comprehendia toda a abnegação do -culto santo e respeitoso que o indio lhe votava! - -As horas corrêrâo silenciosamente nessa muda contemplação; a aragem -fresca que annuncia o despontar do dia bafejou o rosto da menina; e -pouco depois o primeiro albor da manhã desmaiou o negrume do horizonte. - -Sobre o relevo que formava o perfil escuro da floresta, nas sombras da -noite, luzio limpida e brilhante a estrella d'alva; as aguas do rio -arfárão docemente; e os leques das palmeiras se agitárão -rumorejando. - -A menina lembrou-se do seu despertar tão placido de outr'ora, de suas -manhãs tão descuidosas, de sua prece alegre e risonha em que agradecia -a Deus a ventura que vertia sobre ella e sua familia. - -Uma lagrima pendeu nos cilios dourados, e cahio sobre a face de Pery; -abrindo os olhos, e vendo ainda a mesma doce visão que o adormecêra, o -indio julgou que o sonho continuava. - -Cecilia sorrio-lhe; e passou a mãozinha pelas palpebras ainda meio -cerradas de seu amigo: - ---Dorme, disse ella, dorme; Cecy vela. - -A musica dessas palavras despertou completamente o selvagem. - ---Não! balbuciou elle envergonhado de ter cedido á fadiga. Pery -sente-se forte. - ---Mas tu deves ter necessidade de repouso! Ha tão pouco tempo que -adormeceste! - ---O dia vai raiar; Pery deve velar sobre sua senhora. - ---E porque tua senhora não velará tambem sobre ti? Queres tomar tudo; -e não me deixas nem mesmo a gratidão! - -O indio lançou um olhar cheio de admiração á menina: - ---Pery não entende o que tu dizes. A rolinha quando atravessa o campo e -sente-se fatigada, descansa sobre a aza de seu companheiro que é mais -forte; é elle que guarda o seu ninho emquanto ella dorme, que vai -buscar o alimento, que a defende e que a protege. Tu és como a rolinha, -senhora. - -Cecilia córou da comparação ingénua de seu amigo. - ---E tu? perguntou ella confusa e tremula de emoção. - ---Pery... é teu escravo, respondeu o indio naturalmente. - -A menina abanou a cabeça com uma inflexão graciosa: - ---A rolinha não tem escravo. - -Os olhos de Pery brilhárão, uma exclamação partio de seus labios: - ---Teu... - -Cecilia com o seio palpitante, as faces vermelhas, os olhos humidos, -levou a mãozinha aos labios de Pery, e reteve a palavra que ella mesma -na sua innocente faceirice tinha provocado. - ---Tu és meu irmão! disse ella com um sorriso divino. - -Pery olhou o céo, para fazê-lo confidente de sua felicidade. - -A claridade da alvorada estendia-se sobre a floresta e os campos como um -vêo finissimo; a estrella da manhã scintillava em todo o seu fulgor. - -Cecilia ajoelhou-se. - ---Salve, rainha!... - -O indio contemplava-a com uma expressão de ventura ineffavel. - ---Tu és christão, Pery! disse ella lançando-lhe um olhar supplicante. - -Seu amigo comprehendeu-a, e ajoelhando, juntou as mãos como ella. - ---Tu repetirás todas as minhas palavras; e faze por não esquecê-las. -Sim? - ---Ellas vêm de teus labios, senhora. - ---Senhora, não! irmã! - -Dahi a pouco os murmurios das aguas confundião-se com os accentos -maviosos da voz de Cecilia que recitava o hymno christão repassado de -tanta uncção e poesia. - -A palavra de Pery repetia como um écho a phrase sagrada. - - -Terminada a prece christã, talvez a primeira que tinhão ouvido -aqnellas arvores seculares, a viagem continuou. - -Logo que o sol chegou ao zenith, Pery procurou como na vespera um abrigo -para passar as horas de calma. - -A canôa pojou n'um pequeno seio do rio, Cecilia saltou em terra; e seu -companheiro escolheu uma sombra onde ella repousasse. - ---Espera aqui; Pery já volta. - ---Onde vais? perguntou a menina inquieta. - ---Ver fructos para ti. - ---Não tenho fome. - ---Tu os guardarás. - ---Pois bem; eu te acompanho. - ---Não; Pery não consente. - ---E porque? Não me queres junto de ti? - ---Olha tuas roupas; olha teus pés, senhora; os espinhos do cardo te -offenderião. - -Com effeito Cecilia estava vestida com um ligeiro roupão de cambraia; e -seu pézinho que descansava sobre a relva, calçava um borzeguim de -seda. - ---Então me deixas só? disse a menina entristecendo. - -O indio ficou um momento indeciso; mas de repente sua physionomia -expandio-se. - -Cortou a haste de um iris que se balançava ao sopro da aragem, e -apresentou a flôr á menina. - ---Escuta, disse elle. Os velhos da tribu ouvirão de seus pais, que a -alma do homem quando sahe do corpo, se esconde n'uma flôr, e fica alli -até que a _ave do céo_ vem busca-la e leva-la bem longe. É por isso -que tu vês o _guanumby_, saltando de flôr em flôr, beijando uma, -beijando outro; e depois batendo as azas e fugindo. - -Cecilia, habituada á linguagem poetica do selvagem esperava a ultima -palavra que devia fazê-la comprehender o seu pensamento. - -O indio continuo: - ---Pery não leva a sua alma no corpo, deixa-a nesta flôr. Tu não ficas -só. - -A menina sorrio, e tomando a flôr escondeu-a no seio. - ---Ella me acompanhará. Vai, meu irmão, e volta logo. - ---Pery não se afastará; se tu o chamares, elle ouvirá. - ---E me responderás, sim?... para que eu te sinta perto de mim... - -O indio, antes de partir, circulou a alguma distancia o lugar onde se -achava Cecilia de uma corda de pequenas fogueiras feitas de louro, de -canella, uratahy e outras arvores aromaticas. - -Desta maneira tornava aquelle retiro impenetravel: o rio de um lado, e -do outro as chammas que afugentarião os animaes damnihos, e sobretudo -os reptis, o fumo odorifero que se escapava das fogueiras afastaria até -mesmo os insectos. Pery não soffreria que uma vespa e uma mosca sequer -offendesse a cutis de sua senhora, e sugasse uma gota desse sangue -precioso; por isso tomára todas essas precauções. - -Cecilia devia pois ficar tranquilla como se estivesse em um palacio; e -de facto era um palacio de rainha do deserto esse sombrio cheio de -frescura a que a relva servia de alcatifa, as folhas de docel, as -grinaldas em flôres de cortinas, os sabiás de orchestra, as aguas de -espelho, e os raios do sol de arabescos dourados. - -A menina vio de longe o desvelo com que seu amigo tratava de sua -segurança, e acompanhou-o com o olhar até o momento em que elle -desappareceu no mais espesso da matta. - -Foi então que ella sentio a soledade estender-se em torno e -envolvê-la; insensivelmente levou a mão ao seio e tirou a flôr que -Pery lhe tinha dado. - -Apezar de sua fé christã, não pôde vencer essa innocente -superstição do coração: pareceu-lhe, olhando o iris, que já não -estava só e que a alma de Pery a acompanhava. - -Qual é o seio de dezaseis annos que não abriga uma dessas illusões -encantadoras, nascidas com o fogo dos primeiros raios do amor? Qual é a -menina que não consulta o oraculo de um malmequer, e não vê n'uma -borboleta negra a sibylla fatidica que lhe annuncia a perda da mais -bella esperança? - -Como a humanidade na infancia, o coração nos primeiros annos tem -tambem a sua mythologia; mythologia mais graciosa e mais poetica do que -as creações da Grecia; o amor é o seu Olympo povoado de deosas ou -deoses de uma belleza celeste e immortal. - -Cecilia amava; a gentil e innocente menina procurava illudir-se a si -mesma, attribuindo o sentimento que enchia sua alma a uma affeição -fraternal, e occultando, sob o doce nome de irmão, um outro mais doce -que titillava nos seus labios, mas que seus labios não ousavão -pronunciar. - -Mesmo só, de vez em quando um pensamento que passava no seu espirito, -incendia-lhe as faces de rubor, fazia palpitar-lhe o seio e pender -mollemente a cabeça, como a haste da planta delicada quando o calor do -sol fecunda a florescencia. - -Em que pensava ella, com os olhos fitos no iris, que o seu habito -bafejava, comas palpebras meio cerradas e o corpo reclinado sobre os -joelhos? - -Pensava no passado que não voltaria; no presente que devia escoar-se -rapidamente; e no futuro que lhe apparecia vago, incerto e confuso. - -Pensava que de todo o seu mundo só lhe restava um irmão de sangue, -cujo destino ignorava, e um irmão d'alma, em que tinha concentrado -todas as affeições que perdera. - -Um sentimento de tristeza profunda annuviava seu semblante, lembrando-se -de seu pai, de sua mãi, de Isabel, de Alvaro, de todos que amava e que -formavão o universo para ella; então o que a consolava era a -esperança de que os dous unicos corações que lhe restavão não a -abandonarião nunca. - -E isto a fazia feliz; não desejava mais nada; não pedia a Deos mais -ventura do que a que sentiria vivendo junto de seus amigos e enchendo o -futuro com as recordações do passado. - -A sombra das arvores já beijava as aguas do rio, e Pery ainda não -tinha voltado; Cecilia assustou-se, e, temendo que não lhe tivesse -succedido alguma cousa, chamou por elle. - -O indio respondeu de longe, e pouco depois appareceu entre as arvores; o -seu tempo não tinha sido inutilmente empregado, a julgar pelos objectos -que trazia. - ---Como tardaste!... disse-lhe Cecilia erguendo-se e indo ao seu -encontro. - ---Tu estavas socegado; Pery aproveitou para não te deixar amanhã. - ---Amanhã só? - ---Sim, porque depois chegaremos. - ---Aonde? perguntou a menina com vivacidade. - ---Aos campos dos Goytacazes, á cabana de Pery, onde tu mandarás a -todos os guerreiros da tribu. - ---E depois, como iremos ao Rio de Janeiro? - ---Não te inquietes; os Goytacazes tem _igaras_ grandes como aquella -arvore que toca ás nuvens; quando elles atirão o remo, ellas voão -sobre as aguas como a _atyaty_ de azas brancas. Antes que a lua, que vai -nascer, tenha desapparecido, Pery te deixará com a irmã de teu pai. - ---Deixará!... exclamou a menina, empallidecendo. Tu queres me -abandonar? - ---Pery é um selvagem, disse o indio tristemente; não póde viver na -taba dos brancos. - ---Porque? perguntou a menina com anciedade. Não és tu christão como -Cecy? - ---Sim; porque era preciso ser christão para te salvar; mas Pery -morrerá selvagem como Ararê. - ---Oh! não, disse a menina, eu te ensinarei a conhecer Deus, Nossa -Senhora, as suas virgens e os seus anginhos. Tu viverás comigo e não -me deixarás nunca! - ---Vê, senhora: a flor que Pery te deu já murchou porque sahio de sua -planta; e a flôr estava no teu seio. Pery na taba dos brancos, ainda -mesmo junto de ti, será como esta flôr; tu terás vergonha de olhar -para elle. - ---Pery!... exclamou a menina offendida. - ---Tu és boa; mas todas as que têm a tua côr não têm o teu -coração. Lá, o selvagem seria um escravo dos escravos; e quem nasceu -o primeiro póde ser teu escravo; mas é senhor dos campos, e mando aos -mais fortes. - -Cecilia, admirando o reflexo de nobre orgulho que brilhava na fronte do -indio, sentio que não podia combater a sua resolução dictada por um -sentimento elevado. Reconheceu que havia no fundo de suas palavras uma -grande verdade, que o seu instincto adivinhava; ella tinha a prova na -revolução que se operára no seu espirito, vendo Pery no meio do -deserto, livre, grande, magestoso com um rei. - -Qual não seria pois a consequencia dessa outra transição, muito mais -brusca? N'uma cidade, no meio da civilisação, o que seria um selvagem, -senão um captivo, tratado por todos com desprezo? - -No intimo de sua alma quasi que approvava a resolução de Pery; mas -não podia afazer-se á idéa de perder seu amigo, seu companheiro, a -unica affeição que talvez ainda lhe restava no mundo. - -Durante esse tempo, o indio preparava a simples refeição que lhes -offerecia a natureza. Deitou sobre uma folha larga os fructos que tinha -colhido: erão os aracás, os jambos corados, os ingás de polpa macia, -os cocos de varias especies. - -A outra folha continha favos de uma pequena abelha, que fabricára a sua -colmeia no tronco de uma cabuiba, de sorte que o mel puro e claro tinha -perfumes deliciosos: dir-se-hia mel de flôres. - -O indio tornou concava uma palma larga e encheu-a com o succo do ananaz, -cuja fragrancia é como a essencia do sabor: era o vinho que devia -servir ao banquete frugal. - -N'uma segunda palma tambem concava, apanhou a agua crystallina da -corrente que murmurava a alguns passos; devia servir para Cecilia lavar -as mãos depois da refeição. - -Quando acabou esses preparativos que elle fazia com uma satisfação -inexprimivel, Pery sentou-se junto da menina, e começou a trabalhar -n'um arco de que precisava. O arco era sua arma favorita, e sem elle, -embora possuisse a clavinha e as munições que por precaução deitára -na canôa para servirem a D. Antonio de Mariz, não tinha tranquillidade -de espirito e confiança plena na sua agilidade. - -Reparando, porém, que sua senhora não tocava nos alimentos, ergueu a -cabeça e vio o rosto da menina banhado de lagrimas, que cahião em -perolas sobre os fructos, e os rociavão como gotas de orvalho. - -Não era preciso adivinhar, para conhecer a causa dessas lagrimas. - ---Não chores, senhora, disse o indio afflicto; Pery te fallou o que -sentia; manda, e Pery fará a tua vontade. - -Cecilia olhou-o com uma expressão de melancolia que partia a alma. - ---Queres que Pery fique comtigo? Elle ficará; todos serão seus -inimigos; todos o tratarão mal; desejará defender-te e não poderá; -quererá servir-te e não o deixarão; mas Pery ficará. - ---Não, respondeu Cecilia; não exijo de ti esse ultimo sacrificio. -Deves viver onde nasceste, Pery. - ---Mas tu vais ainda chorar! - ---Vê, disse a menina enxugando as lagrimas; estou contente. - ---Agora toma uma fructa. - ---Sim; jantaremos juntos, como jantavas outr'ora no meio das mattas com -tua irmã. - ---Pery nunca teve irmã. - ---Mas tens agora, respondeu ella sorrindo. - -E como uma filha das florestas, uma verdadeira americana, a gentil -menina fez a sua refeição partilhando-a com seu companheiro, e -acompanhando-a dos gestos innocentes e faceiros que só ella sabia ter. - -Pery admirava-se da mudança brusca que se tinha operado em sua senhora, -e no fundo do seu coração sentia um aperto, pensando que ella se -consolára bem depressa com a lembrança da separação. - -Mas elle não era egoista, e preferia a alegria de sua senhora a seu -prazer; porque vivia antes da vida della do que da sua propria. - - -Depois da refeição, Pery voltou ao seu trabalho. - -Cecilia, que desde o primeiro dia sentia-se abatida e languida, tinha -recobrado um pouco de sua vivacidade e gentileza dos bons dias. - -O rosto mimoso conservava ainda a sombra melancolica que lhe deixarão -impressas as scenas tristes de que fora testemunha, e sobretudo a ultima -desgraça que a tinha privado de seu pai e de sua mãi. - -Mas essa mágoa tomava nas suas feições uma expressão angelica, e tal -mansuetude e suavidade que dava novo encanto á sua belleza ideal. - -Deixando seu companheiro distrahido com a sua obra, chegou á beira do -rio e sentou-se junto de uma moita de uvaias, á qual estava amarrada a -canôa. - -Pery viu-a afastar-se, e, sempre seguindo-a com os olhos, continuou a -preparar a vergontea que devia servir-lhe de arco, e as cannas -selvagens, ás quaes o seu braço ia dar o vôo da ave altaneira. - -A menina com a face apoiada na mão e os olhos postos na correnteza do -rio, scimava; ás vezes as palpebras cerravão-se; os labios se -agitavão imperceptivelmente; nesses momentos parecia que conversava com -algum espirito invisivel. - -Outras vezes, um doce sorriso despontava nos seus labios e desfazia-se -logo, como se o pensamento que viera pousar ali voltasse a esconder-se -no fundo do coração, donde se tinha escapado. - -Por fim ergueu a fronte com o meneio de rainha, que ás vezes tomava a -sua cabecinha loura, á qual só faltava o diadema; a physionomia -mostrou uma expressão de energia, que lembrava o caracter de D. Antonio -de Mariz. - -Tinha tomado uma resolução; uma resolução firme, inabalavel, que ia -cumprir com a mesma força de vontade e coragem que herdára de seu pai, -e dormia no fundo de sua alma, para só revelar-se nas occasiões -extremas. - -Levantou os olhos ao céo, e pedio a Deos um perdão para uma falta, e -ao mesmo tempo uma esperança para uma boa acção que ia praticar; sua -oração foi breve, mas ardente e cheia de fervor. - -Emquanto isso se passava, Pery, vendo que as sombras da terra já se -deitavão sobre o leito do Parahyba, conheceu que era tempo de partir, e -preparou-se para continuar a viagem. - -No momento em que levantava-se, Cecilia, correu para elle, e collocou-se -em face, de modo a lhe occultar a vista do rio. - ---Tu sabes? disse ella sorrindo; tenho uma cousa a pedir-te. - -Esta só palavra bastava para que Pery não visse mais nada senão os -olhos e os labios de sua senhora, que ião dizer-lhe o que ella -desejava. - ---Quero que apanhes muito algodão para mim e me tragas uma pelle -bonita. Sim? - ---Para que? perguntou o indio admirado. - ---Do algodão fiarei um vestido; da pelle tu cobrirás os meus pés. - -Pery, cada vez mais admirado, ouvia sua senhora sem comprehendê-la: - ---Assim, disse a menina sorrindo, tu me deixarás acompanhar-te, os -espinhos não me farão mal. - -O espanto do indio tinha-o tornado immovel, mas de repente soltou um -grito, e quiz precipitar-se para o rio. - -A mãozinha de Cecilia apoiando-se no seu peito, reteve-o. - ---Espera! - ---Olha; respondeu o indio inquieto apontando o rio. - -A canôa desprendida do tronco a que estava amarrada resvalava á -discrição das aguas, e, gyrando sobre si, desapparecia levada pela -correnteza. - -Cecilia depois de olhar se voltou sorrindo: - ---Fui eu que soltei! - ---Tu senhora! Porque? - ---Porque não precisamos mais della. - -Fitando então no seu amigo os lindos olhos azues, disse com o tom grave -e lento que revela um pensamento profundamente reflectido e uma -resolução inabalavel. - ---Pery não póde viver junto de sua irmã na cidade dos brancos; sua -irmã fica com elle no deserto, no meio das florestas. - -Era essa a idéa que ella ha pouco acariciava no seu espirito, e para a -qual tinha invoeado a graça divina. - -Não foi sem algum esforço que ella conseguio dominar os primeiros -temores que a assaltárão, quando encarou em face essa existencia longe -da sociedade, na solidão, no isolamento. - -Mas qual era o laço que a prendia ao mundo civilisado? Não era ella -quasi uma filha desses campos, criada com o seu ar puro e livre, com as -suas aguas crystallinas? - -A cidade lhe apparecia apenas como uma recordação da primeira -infancia, como um sonho do berço; deixara o Rio de Janeiro aos cinco -annos, e nunca mais alli voltára. - -O campo, esse tinha para ella outras recordações ainda vivas e -palpitantes; a flor da sua mocidade tinha sido bafejada por essas auras; -o botão desatára aos raios desse sol esplendido. - -Toda a sua vida, todos os seus bellos dias, todos os seus prazeres -infantis vivião alli, fallavão naquelles échos da solidão, naquelles -murmurios confusos, naquelle silencio mesmo. - -Ella pertencia, pois, mais ao deserto do que á cidade; era mais uma -virgem brazileira do que uma menina cortezã; seus habitos e seus -gostos prendião-se mais ás pompas singelas da natureza, do que ás -festas e ás galas da arte e da civilisação. - -Decidio ficar. - -A unica felicidade que ainda podia gozar neste mundo, depois da perda de -sua familia, era viver com os dous entes que a amavão; essa felicidade -não era possivel; devia escolher entre um delles. - -Ahi o seu coração foi impellido pela força invencivel que o -arrastava; mas depois, envergonhando-se de ter cedido tão depressa, -procurou desculpar-se a si mesma. - -Disse então que entre seus dous irmãos era justo que acompanhasse -antes aquelle que só vivia para ella, que não tinha um pensamento, um -cuidado, um desejo que não fosse inspirado por ella. - -D. Diogo era um fidalgo, herdeiro do nome de seu pai; tinha um futuro -diante de si, tinha uma missão a cumprir no mundo; elle escolheria uma -companheira para suavisar-lhe a existencia. - -Pery tinha abandonado tudo por ella; seu passado, seu presente, seu -futuro, sua ambição, sua vida, sua religião mesmo; tudo era ella, e -unicamente ella; não havia pois que hesitar. - -Depois Cecilia tinha ainda um pensamento que lhe sorria: queria abrir ao -seu amigo o céo que ella entrevia na sua fé christã; queria dar-lhe -um lugar perto della na mansão dos justos, aos pés do throno celeste -do Creador. - -É impossivel descrever o que se passou no espirito do selvagem ouvindo -as palavras de Cecilia: sua intelligencia inculta, mas brilhante, capaz -de elevar-se aos mais altos pensamentos, não podia comprehender aquella -idéa; duvidou do que escutava. - ---Cecilia fica no deserto!... balbuciou elle. - ---Sim! respondeu a menina tomando-lhe as mãos; Cecilia fica comtigo e -não te deixará. Tu és rei destas florestas, destes campos, destas -montanhas; tua irmã te acompanhará! - ---Sempre?... - ---Sempre!.... Viveremos juntos como hontem, como hoje, como amanhã. Tu -cuidas?... Eu tambem sou filha desta terra; tambem me criei no seio -desta natureza. Amo este bello paiz!... - ---Mas, senhora, tu não vês que tuas mãos forão feitas para as flores -e não para os espinhos; teus pés para brincar e não para andar; teu -corpo para a sombra e não para o sol e a chuva? - ---Oh! Eu sou forte! exclamou a menina erguendo a cabeça com altivez. -Junto de ti não tenho medo. Quando eu estiver cansada, tu me levarás -nos teus braços. A rolinha não se apoia sobre a aza de seu -companheiro? - -Era preciso ver a gentileza e a garridice com que ella dizia todas essas -phrases graciosas, que borbulhavão dos seus labios! A irradiação do -seu olhar, a animação do seu rosto e a travessura de seu gesto -fascinavão. - -Pery ficou estatico diante da perspectiva dessa felicidade immensa, com -a qual nunca sonhara; mas jurou de novo em sua alma que cumpriria a -promessa feita a D. Antonio. - -A tarde descahia; e era preciso tratar de prover aos meios de passar a -noite em terra, o que seria muito mais perigoso; não para elle a quem -bastava o galho de uma arvore; mas para Cecilia. - -Seguindo pela margem para escolher o lugar mais favoravel, Pery soltou -uma palavra de surpreza vendo a canôa que se tinha embaraçado numa -dessas ilhas fluctuantes feitas pelas parasitas do rio que boião sobre -as aguas. - -Era o melhor leito que podia ter a menina no meio do deserto; puxou a -canôa, alcatifou o fundo com as folhas macias das palmeiras, e, tomando -Cecilia nos braços, deitou-a no seu berço. - -A menina não consentio que Pery remasse; e a canôa deslisou docemente -pelo leito do rio, apenas impellida pela correnteza. - -Cecilia brincava; debruçava-se sobre as aguas para colher uma flôr de -passavem, para perseguir um peixe que beijava a face lisa das ondas, -para ter o prazer de molhar as mãos nessa agua crystallina, para rever -a sua imagem nesse espelho vacillante. - -Quando tinha brincado bastante, voltava-se para seu amigo e fallava-lhe -com o gazeio argentino, mimoso chilrear dos labios travessos de uma -linda menina, onde as cousas mais ligeiras e mais frivolas revestem -encantos e graça suprema. - -Pery estava distrahido; seu olhar fitava-se no horizonte com uma -attenção extraordinaria; a inquietação que se desenhava no seu -semblante era indicio de algum perigo, embora ainda remoto. - -Sobre a linha azulada da cordilheira dos Orgãos, que se destacava n'um -fundo de purpura e rosicler, amontoavão-se grossas nuvens escuras e -pesadas, que, feridas pelos raios do occaso, lançavão reflexos -acobreados. - -Dahi a pouco a serrania desappareceu envolta nesse manto côr de bronze, -que se elevava como as columnas e abobadas de stalactites que se -encontrão nas grutas das nossas montanhas. O azul puro e risonho que -cobria o resto do firmamento contrastava com a cinta escura, que ia -ennegrecendo gradualmente á medida que a noite cahia. - -Pery voltou-se. - ---Tu queres ir para terra, senhora? - ---Não; estou tão bem aqui! Não foste tu que me trouxeste? - ---Sim; mas... - ---O que? - ---Nada; pódes dormir sem receio! - -Elle tinha-se lembrado que entre dous perigos o melhor era preferir o -mais remoto; aquelle que ainda estava longe e talvez não viesse. - -Por isso resolveu não dizer nada a Cecilia, e conservar-se attento e -vigilante para salva-la, se o que elle temia se realisasse. - -Pery havia lutado com o tigre, os homens, com uma tribu de selvagens, -com o veneno; e tinha vencido. Era chegada a occasião de lutar com os -elementos; com a mesma confiança calma e impassivel, esperou prompto a -aceitar o combate. - -Anoiteceu. - -O horizonte, sempre negro e fechado, se illuminava ás vezes com um -lampejo phosphorescente: um tremor surdo parecia correr pelas entranhas -da terra e fazia ondular a superficie das aguas, como o seio de uma -vela enfunada pelo vento. - -Entretanto, ao redor tudo estava quieto; as estrellas recamavão o azul -do céo; a viração aninhava-se nas folhas das arvores; os murmurios -doces da solidão cantavão o hymno da noite. - -Cecilia adormeceu no seu berço, murmurando uma prece. - - -Era alta noite; sombras espessas cobrião as margens do Parahyba. - -De repente um rumor surdo e abafado, como de um tremor subterraneo, -propagando-se por aquella solidão, quebrou o silencio profundo do ermo. - -Pery estremeceu: ergueu a cabeça e estendeu os olhos pela larga esteira -do rio, que, enroscando-se como uma serpente monstruosa de escamas -prateadas, ia perder-se no fundo negro da floresta. - -O espelho das aguas, liso e polido como um crystal, reflectia a -claridade das estrellas, que já desmaiavão com a aproximação do dia; -tudo estava immovel e quêdo. - -O indio curvou-se sobre a borda da canôa, e de novo applicou o ouvido; -pela superficie do rio rolava um som estrepitoso, semelhante ao -quebrar-se da catadupa precipitando-se do alto dos rochedos. - -Cecilia dormia tranquillamente; sua respiração ligeira resoava com a -harmonia doce e subtil das folhas da canna quando estremecem ao sopro -tenue da aragem. - -Pery lançou um olhar de desespero para as margens que se destacavão a -alguma distancia sobre a corrente placida do rio. Quebrou o laço que -prendia a canôa, e impellio-a para a terra com toda a força do remo, -que fendeu a agua rapidamente. - -Á beira do rio elevava-se uma bella palmeira, cujo alto tronco era -coroado pela grande cupola verde, formada com os leques de suas folhas -lindas e graciosas. Os cipós e as parasitas, engrazando-se pelos ramos -das arvores vizinhas, descião até o chão, formando grinaldas e -cortinas de folhagem, que se prendião ás hastes da palmeira. - -Tocando a margem, Pery saltou em terra, tomou Cecilia meio adormecida -nos seus braços, e ia entranhar-se pela matta virgem que se elevava -diante delle. - -Nesse momento, o rio arquejou como um gigante estorcendo-se em -convulsões, e deitou-se de novo no seu leito, soltando um gemido -profundo e cavernoso. - -Ao longe o crystal da corrente achamalotou-se; as aguas frisárão-se; e -um lençol de espuma estendeu-se sobre essa face lisa e polida, -semelhante a uma vaga do mar desenrolando-se pela arêa da praia. - -Logo todo o leito do rio cobrio-se com esse delgado sendal que se -desdobrava com uma velocidade espantosa, rumorejando como um manto de -seda. - -Então no fundo da floresta troou um estampido horrivel, que veio -reboando pelo espaço; dir-se-hia o trovão correndo nas quebradas da -serrania. - -Era tarde! - -Não havia tempo para fugir; a agua tinha soltado o seu primeiro -bramido, e, erguendo o collo, precipitava-se furiosa, invencivel, -devorando o espaço como algum monstro do deserto. - -Pery tomou a resolução prompta que exigia a eminencia do perigo: em -vez de ganhar a matta, suspendeu-se a um dos cipós, e galgando o cimo -da palmeira, ahi abrigou-se com Cecilia. - -A menina, despertada violentamente e procurando conhecer o que se -passava, interrogou seu amigo. - ---A agua!... respondeu elle, apontando para o horizonte. - -Com effeito, uma montanha branca, phosphorescente, assomou entre as -arcarias gigantescas formadas pela floresta, e atirou-se sobre o leito -do rio, mugindo como o oceano quando açouta os rochedos com as suas -vagas. - -A torrente passou, rapida, veloz, vencendo na carreira o tapir das -selvas ou a ema do deserto; seu dorso enorme se estorcia e enrolava -pelos troncos diluvianos das grandes arvores, que estremecião com o -embate herculeo. - -Depois, outra montanha, e outra, e outra, se elevarão no fundo da -floresta; arremessando-se no turbilhão, lutárão corpo a corpo, -esmagando com o peso tudo que se oppunha á sua passagem. - -Dir-se-hia que algum monstro enorme, dessas giboias tremendas quo vivem -nas profundezas da agua, mordendo a raiz de uma rocha, fazia gyrar a -cauda immensa, apertando nas suas mil voltas a matta que se estendia -pelas margens. - -Ou que o Parahyba, levantando-se qual novo Briareo no meio do deserto, -estendia os cem braços titanicos, e apertava ao peito, estrangulando-a -em uma convulsão horrivel, toda essa floresta secular que nascêra com -o mundo. - -As arvores estalavão; arrancadas do seio da terra ou partidas pelo -tronco, prostravão-se vencidas sobre o gigante, que, carregando-as ao -hombro, precipitava-se para o oceano. - -O estrondo dessas montanhas d'agua que se quebravão, o estampido da -torrente, os trôos do embate desses rochedos movediços, que se -pulverisavão enchendo o espaço de neblina espessa, formavão um -concerto horrivel, digno do drama magestoso que se representava no -grande scenario. - -As trevas envolvião o quadro, e apenas deixavão ver os reflexos -prateados da espuma e a muralha negra que cingia esse vasto recinto, -onde um dos elementos reinava como soberano. - -Cecilia, apoiada ao hombro de seu amigo, assistia horrorisada a esse -espectaculo pavoroso; Pery sentia o seu corpinho estremecer; mas os -labios da menina não soltárão uma só queixa, um só grito de susto. - -Em face desses trances solemnes, desses grandes cataclysmas da natureza, -a alma humana sente-se tão pequena, anihila-se tanto, que se esquece da -existencia; o receio é substituido pelo pavor, pelo respeito, pela -emoção que emmudece e paralysa. - -O sol, dissipando as trevas da noite, assomou no oriente; seu aspecto -magestoso illuminou o deserto; as ondas de sua luz brilhante -derramárão-se em cascatas sobre um lago immenso, sem horizontes. - -Tudo era agua e céo. - -A inundação tinha coberto as margens do rio até onde a vista podia -alcançar; as grandes massas d'agua, que o temporal durante uma noite -inteira vertêra sobre as cabeceiras dos confluentes do Parahyba, -descêrão das serranias, e, de torrente em torrente, havião formado -essa tromba gigantesca que se abatêra sobre a varzea. - -A tempestade continuava ainda ao longo de toda a cordilheira, que -apparecia coberta por um nevoeiro escuro; mas o céo, azul e limpido, -sorria mirando-se no espelho das aguas. - -A inundação crescia sempre; o leito do rio elevava-se gradualmente; as -arvores pequenas desapparecião; e a folhagem dos soberbos jacarandás -sobrenadava já como grandes moitas de arbustos. - -A cupola da palmeira, em que se achavão Pery e Cecilia, parecia uma -ilha de verdura banhando-se nas aguas da corrente; as palmas que se -abrião formavão no centro um berço mimoso, onde os dous amigos, -estreitando-se, pedião ao céo para ambos uma só morte, pois uma só -era a sua vida. - -Cecilia esperava o seu ultimo momento com a sublime resignação -evangelica, que só dá a religião de Christo; morria feliz; Pery tinha -confundido as suas almas na derradeira prece que expirára dos seus -labios. - ---Podemos morrer, meu amigo! disse ella com uma expressão sublime. - -Pery estremeceu; ainda nessa hora suprema seu espirito revoltava-se -contra aquella idéa, e não podia conceber que a vida de sua senhora -tivesse de perecer como a de um simples mortal. - ---Não! exclamou elle. Tu não podes morrer. - -A menina sorrio docemente. - ---Olha? disse ella com a sua voz maviosa, a agua sobe, sobe... - ---Que importa! Pery vencerá a agua, como venceu a todos os teus -inimigos. - ---Se fosse um inimigo, tu o vencerias, Pery. Mas é Deos... É o seu -poder infinito! - ---Tu não sabes? disse o indio como inspirado pelo seu amor ardente, o -Senhor do céo manda ás vezes áquelles a quem ama um bom pensamento! - -E o indio ergueu os olhos com uma expressão ineffavel de -reconhecimento. - -Fallou com um tom solemne: - -«Foi longe, bem longe dos tempos de agora. As aguas cahirão, e -começárão a cobrir toda a terra. Os homens subirão ao alto dos -montes; um só ficou na varzea com sua esposa. - -«Era Tamandaré; forte entre os fortes; sabia mais que todos. O Senhor -fallava-lhe de noite; e de dia elle ensinava aos filhos da tribu o que -aprendia do céo. - -«Quando todos subirão aos montes, elle disse:--Ficai comigo; fazei -como eu, e deixai que venha a agua. - -«Os outros não o escutárão; e forão para o alto; e deixárão elle -só na varzea com sua companheira, que não o abandonou. - -«Tamandaré tomou sua mulher nos braços e subio com ella ao olho da -palmeira; ahi esperou que a agua viesse e passasse; a palmeira dava -fructos que os alimentavão. - -«A agua veio, subio e cresceu; o sol mergulhou e surgio uma, duas e -tres vezes. A terra desappareceu; a arvore desappareceu; a montanha -desappareceu. - -«A agua tocou o céo; e o Senhor mandou então que parasse. O sol -olhando só viu céo e agua, e entre a agua e o céo, a palmeira que -boiava levando Tamandaré e sua companheira. - -«A corrente cavou a terra; cavando a terra, arrancou a palmeira; -arrancando a palmeira, subio com ella; subió acima do valle, acima da -arvore, acima da montanha. - -«Todos morrêrão. A agua tocou o céo tres sões com tres noites; -depois baixou: baixou até que descobrio a terra. - -«Quando veio o dia, Tamandaré viu que a palmeira estava plantada no -meio da varzea; e ouvio a avezinha do céo, o guanumby, que batia as -azas. - -«Desceu com a sua companheira, e povoou a terra.» - -Pery tinha fallado com o tom inspirado que dão as crenças profundas; -com o enthusiasmo das almas ricas de poesia e sentimento. - -Cecilia o ouvia sorrindo, e bebia uma a uma as suas palavras como se -fossem as particulas do ar que respirava; parecia-lhe que a alma de seu -amigo, essa alma nobre e bella, se desprendia do seu corpo em cada uma -das phrases solemnes, e vinha embeber-se no seu coração, que se abria -para recebê-la. - -A agua subindo molhou as pontas das largas folhas da palmeira, e uma -gota, resvalando pelo leque, foi embeber-se na alva cambraia das roupas -de Cecilia. - -A menina, por um movimento instinctivo de terror, conchegou-se ao seu -amigo; e nesse momento supremo, em que a inundação abria fauce enorme -para traga-los, murmurou docemente: - ---Meu Deus!... Pery!... - -Então passou-se sobre esse vasto deserto d'agua e céo uma scena -estupenda, heroica, sobrehumana; um espectaculo grandioso, uma sublime -loucura. - -Pery hallucinado suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavão pelos -ramos das arvores já cobertas d'agua, e com esforço desesperado -cingindo o tronco da palmeira nos seus braços hirtos, abalou-o até ás -raizes. - -Tres vezes os seus musculos de aço, estorcendo-se, inclinárão a haste -robusta; e tres vezes o seu corpo vergou, cedendo á retracção -violenta da arvore, que voltava ao lugar que a natureza lhe havia -marcado. - -Luta terrivel, espantosa, louca, esvairada, luta da vida contra a -materia; luta do homem contra a terra; luta da força contra a -immobilidade. - -Houve um momento de repouso em que o homem, concentrando todo o seu -poder, estorceu-se de novo contra a arvore; o impeto foi terrivel; e -pareceu que o corpo ia despedaçar-se nessa distensão horrivel. - -Ambos, arvore e homem, embalançáráo-se no seio das aguas: a haste -oscillou; as raizes desprendêrão-se da terra já minada profundamente -pela torrente. - -A cupola da palmeira, embalançando-se graciosamente, resvalou pela -flôr d'agua como um ninho de garças ou alguma ilha fluctuante, formada -pelas vegetações aquaticas. - -Pery estava de novo sentado junto de sua senhora quasi inanimada; e, -tomando-a nos braços, disse-lhe com um accento de ventura suprema: - ---Tu viverás! - -Cecilia abrio os olhos, e vendo seu amigo junto della, ouvindo ainda -suas palavras, sentio o enlevo que deve ser o gozo da vida eterna. - ---Sim?... murmurou ella; viveremos!... lá no céo, no seio de Deos, -junto daquelles que amamos!... - -O anjo espanejava-se para remontarão berço. - ---Sobre aquelle azul que tu vês, continuou ella, Deos mora no seu -throno, rodeado dos que o adorão. Nós iremos lá, Pery! Tu viverás -com tua irmã, sempre!.. - -Ella embebeu os olhos nos olhos do seu amigo, e languida reclinou a -loura fronte. - -O halito ardente de Pery bafejou-lhe a face. - -Fez-se no semblante da virgem um ninho de castos rubores e limpidos -sorrisos: os labios abrirão como as azas purpureas de um beijo soltando -o vôo. - -A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia... - -E sumio-se no horizonte. - - - - -FIM DA QUARTA E ULTIMA PARTE. - - - - -NOTAS - -DO TOMO SEGUNDO - -PAG. 7.--=Crispim Tenreiro=. - -Foi um dos fundadores do Rio de Janeiro; era casado com D. Isabel Mariz, -irmã de D. Antonio. - - -PAG. 153.--=Mussurana=. - -«Os contrarios que os Tupinambás captivão na guerra ou de outra -maneira, mettem-nos em prisões, as quaes são cordas de algodão grossas, -que para isso tem muito louçãs, a que chamão mussuranas.»--G.S. -de SOUZA, _Roteiro do Brazil_. - - -PAG. 155.--=Esposa do tumulo=. - -«Dão a cada um prisioneiro por mulher a mais formosa moça que ha na -sua casa; a qual moça tem o cuidado de o servir e dar-lhe o necessario -para comer e beber.»--G. SOARES DE SOUZA, _Roteiro do Brazil_, _cap_. -71. - - -PAG. 156.--=Cardo=. - -Fructo da urumbeba e de outras palmas de espinhos de que ha differentes -especies; é vermelho na casca, de polpa branca e sementes pretas. - - -PAG. 158.--=Corrixo=. - -Corrixo é um passarinho que tem o dom de arremedar a todos os outros. - - - «Temos o passaro que entôa - Por mil differentes modos, - Porque elle remeda a todos, - Seu proprio nome é corrixo.» - - J. J. LISBOA, _Desc. curiosa_. - - -PAG. 159.--=És livre=. - -«Mas tambem ha algumas que tomárão tamanho amor aos captivos que as -tomárão por mulher, que lhes derão muito geito para se acolherem e -fugirem das prisões que elle cortão com alguma ferramenta que ellas -ás escondidas lhes derão, etc.»--G. SOARES DE SOUZA, _Roteiro do -Brazil_, _cap_. 171. - - -PAG. 173.--=Sacrificio=. - -Os costumes dos Aymorés não erão inteiramente conhecidos, por causa -do afastamento em que sempre viverão dos colonos. Em algumas cousas -porém assemelhavão-se á raça tupy; e é por isso que na descripção -do sacrificio aproveitámos o que dizem Simão de Vasconcellos e -Lamartinière a respeito dos Tupinambás e outras tribus mais ferozes. - - -PAG. 201.--=Veneno=. - -Os indigenas fabricavão diversos venenos, e a sua perfeição foi -objecto de admiração para os colonisadores. Humboldt, á vista dos -seus conhecimentos toxicologicos, concluio que devia ter havido na -America antigamente uma grande civilisação, e que delia havião os -selvagens herdado esses usos. Os principaes desses venenos erão o -_bororé_ e o _uirari_. - - -PAG. 202.--=Curarê=. - -«Le bororé, dont le révérend père Grumilha a donné la description -dans son _Orenoco illustrado_, parait être exactement le même dont -l'abbé Gilly parle dans son _Histoire de l'Amérique_, et qu'on -désigne aujourd'hui par le nom de _curarê_. Suivant M. Humboldt, c'est -un strichnos, et il ne faut pas le confondre avec le tucunas, composé -toxique dont parle M. de la Condamine dans la relation de son voyage aux -Amazones.»--Dʳ SIGAUD, _Du climat et des maladies du Brésil_. - - -PAG. 203.--=Em algumas horas=. - -Sobre a violencia do _curarê_ diz ainda o Dʳ Sigaud o seguinte: - -«En 1830, le président C. J. de Nyemer apporta du Pará à Rio de -Janeiro une petite portion de _curarê_ qu'on fit prendre à petites -doses à divers animaux, qui tous ont succombé en peu d'heures dans des -convulsions violentes. Le docteur Lacerda, qui a longtemps pratique au -Pará et au Maranhão, a fait, dit-on, d'importantes recherches sur les -poisons indiens encore inédites; le _curarê_ est, de son aveu, un -poison violent, causant d'abord un état tétanique, ensuite une torpeur -générale qui précède la mort.» - - -PAG. 229.--=Contraveneno=. - -Segundo Humboldt, o assucar é um contraveneno do _curarê_. Os indios -porém conhecião naturalmente outros muito mais efficazes, e que hoje -ignorão-se, do mesmo modo que o da cascavel. - - -PAG. 229.--=Setta hervada=. - -O curarê tambem servia aos indios para hervarem as settas, e nesse caso -tinha uma preparação especial. Vid. GUMILHA, _Orenoco illustrado_. - - -PAG. 292.--=Guanumby=. - -Segundo uma tradição dos indios, o colibri, que conhecião pelo nome -de _guanumby_, levava e trazia as almas do outro mundo. - - -PAG. 296.--=Igara=. - -Significa em guarany _canôa_; _atyaty_ é o nome que davão á gaivota. - - -PAG. 321.--=Tamandaré=. - -É o nome do Noé indigena. A tradição rezava que na occasião do -diluvio elle escapara no olho de uma palmeira, e depois povoára a -terra. É a lenda que conta Pery. - - - - -FIM DAS NOTAS DO TOMO SEGUNDO. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O GUARANY: *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. 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Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. 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