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-The Project Gutenberg eBook of O Guarany:, by José Martiniano de
-Alencar
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: O Guarany:
- romance brazileiro Vol. 02 (of 2)
-
-Author: José Martiniano de Alencar
-
-Release Date: March 28, 2022 [eBook #67725]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Laura Natal Rodrigues and Kristen Carmean (Images
- generously made available by Hathi Trust Digital Library.)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O GUARANY: ***
-
-
-J. DE ALENCAR
-
-
-
-
-O
-
-GUARANY
-
-
-ROMANCE BRAZILEIRO
-
-
-
-
-QUINTA EDIÇÃO
-
-
-
-
-TOMO SEGUNDO
-
-
-
-
-RIO DE JANEIRO
-
-B.-L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
-
-71, RUA DO OUVIDOR, 71
-
-PARIS.--E. MELLIER, 17, RUA SÉGUIER.
-
-Ficão reservados os direitos de propriedade.
-
-1883
-
-
-
-
-INDICE
-TERCEIRA PARTE
-OS AYMORÉS
-I.--A Partida........................................ 3
-II.--Preparativos.................................... 15
-III.--Verme e flôr................................... 27
-IV.--Na treva........................................ 39
-V.--Deos dispõe...................................... 51
-VI.--Revolta......................................... 65
-VII.--Os selvagens................................... 77
-VIII.--Desanimo...................................... 89
-IX.--Esperança....................................... 99
-X.--Na brecha........................................ 111
-XI.--O frade......................................... 121
-XII.--Desobediencia.................................. 131
-XIII.--Combate....................................... 141
-XIV.--O prisioneiro.................................. 151
-QUARTA PARTE
-A CATASTROPHE
-I.--Arrependimento................................... 163
-II.--O sacrificio.................................... 173
-III.--Sortida........................................ 185
-IV.--Revelação....................................... 197
-V.--O paiol.......................................... 207
-VI.--Tregoa.......................................... 217
-VII.--Peleja......................................... 227
-VIII.--Noiva......................................... 238
-IX.--O castigo....................................... 247
-X.--Christão......................................... 257
-XI.--Epilogo......................................... 269
-Notas................................................ 327
-
-
-
-
-TERCEIRA PARTE
-
-
-OS AYMORÉS
-
-
-
-
-I
-
-A PARTIDA
-
-
-Na segunda-feira, erão seis horas da manhã, quando D. Antonio de Mariz
-chamou seu filho.
-
-O velho fidalgo velara uma boa parte da noite; ou escrevendo ou
-reflectindo sobre os perigos que ameaçavão sua familia.
-
-Pery lhe havia contado todas as particularidades de seu encontro com os
-Aymorés; e o cavalheiro, que conhecia a ferocidade e espirito vingativo
-dessa raça selvagem, esperava a cada momento ser atacado.
-
-Por isso, de acordo com Alvaro, D. Diogo, com seu escudeiro Ayres Gomes,
-tinha tomado todas as medidas de precaução que as circumstancias e sua
-longa experiencia lhe aconselhavão.
-
-Quando seu filho entrou, o velho fidalgo acabava de sellar duas cartas
-que escrevêra na vespera.
-
---Meu filho, disse elle com uma ligeira emoção, reflecti essa noite
-sobre o que nos pode acontecer, e assentei que deves partir hoje mesmo
-para S. Sebastião.
-
---Não é possivel, senhor!... Afastais-me de vós justamente quando
-correis um perigo?
-
---Sim! É justamente quando um grande perigo nos ameaça, que eu, chefe
-da casa, entendo ser do meu dever salvar o representante do meu nome e
-meu herdeiro legitimo, o protector de minha familia orphã.
-
---Confio em Deos, meu pai, que vossos receios serão infundados; mas se
-elle nos quizesse submetter a tal provança, o unico lugar que compete a
-vosso filho e herdeiro de vosso nome é nesta casa ameaçada, ao vosso
-lado, para defender-vos e partilhar a vossa sorte, qualquer que ella
-seja.
-
-D. Antonio apertou seu filho ao peito.
-
---Eu te reconheço; tu és meu filho; é o meu sangue juvenil que gyra
-em tuas veias, e o meu coração de moço que falla pelos teus labios.
-Deixa porém que os cincoenta annos de experiencia que desde então
-passárão sobre minha cabeça encanecida te ensinem o que vai da
-mocidade á velhice, o que vai do ardente cavalheiro ao pai de uma
-familia.
-
---Eu vos escuto, senhor; mas pelo amor que vos consagro poupai-me a dôr
-e a vergonha de deixar-vos no momento em que mais precisais de um
-servidor fiel e dedicado.
-
-O fidalgo proseguio já calmo:
-
---Não é uma espada, D. Diogo, que nos dará a victoria, fosse ella
-valente e forte como a vossa: entre quarenta combatentes que vão se
-medir talvez contra centenas e centenas de inimigos, um de mais ou de
-menos não importa ao resultado.
-
---Que assim seja, respondeu o cavalheiro com energia; reclamo o meu
-posto de honra, e a minha parte do perigo; não vos ajudarei a vencer,
-porém morrerei junto dos meus.
-
---E é por esse nobre mas esteril orgulho que quereis sacrificar o unico
-meio de salvação que talvez nos reste, se, como temo, as minhas
-previsões se realisarem?
-
---Que dizeis, senhor?
-
---Qualquer que seja a força e o numero de inimigos, conto que o valor
-portuguez e a posição desta casa me ajudarão a resistir-lhes por
-algum tempo, por vinte dias, mesmo por um mez; mas por fim teremos de
-succumbir.
-
---Então?... exclamou D. Diogo pallido.
-
---Então, se meu filho D. Diogo, em vez de ficar nesta casa por uma
-obstinação imprudente, tiver ido ao Rio de Janeiro, e pedido o auxilio
-que fidalgos portuguezes não lhe recusarão de certo, poderá voar em
-socorro de seu pai, e chegar com tempo para defender sua familia. Então
-verá que esta gloria de ser o salvador de sua casa vale bem a honra de
-um perigo inutil.
-
-D. Diogo deitou o joelho em terra, e beijou com ternura a mão do
-fidalgo:
-
---Perdão, meu pai, por não vos ter comprehendido. Eu devia adivinhar
-que D. Antonio de Mariz não pode querer para o filho senão o que é
-digno do pai.
-
---Vamos, D. Diogo, não ha tempo a perder. Lembrai-vos que uma hora, um
-minuto de tardança talvez tenha de ser contado anciosamente por
-aquelles que vão esperar-vos.
-
---Parto neste instante, disse o cavalheiro dirigindo-se á porta.
-
---Tomai; esta carta é para Martim de Sá, governador desta capitania;
-esta outra é para meu cunhado e vosso tio Crispim Tenreiro, valente
-fidalgo que vos poupará o trabalho de procurardes defensores para vossa
-familia. Ide despedir-vos de vossa mãi e vossas irmãs: eu farei tudo
-preparar para a partida.
-
-O fidalgo, reprimindo a sua emoção, sahio do gabinete onde se passava
-esta scena, e foi ter com Alvaro que o procurava.
-
---Alvaro, escolhei quatro homens que acompanhem D. Diogo ao Rio de
-Janeiro.
-
---D. Diogo parte?... perguntou o moço admirado.
-
---Sim, depois vos direi as razões. Por agora dai-vos pressa em que tudo
-esteja prompto dentro de uma hora.
-
-Alvaro dirigio-se immediatamente ao fundo da casa onde habitavão os
-aventureiros.
-
-Havia ahi grande agitação: uns fallavão em tom de queixa, outros
-murmuravão apenas palavras entrecortadas; e alguns finalmente rião e
-motejavão do descontentamento de seus companheiros.
-
-Ayres Gomes com todo o seu arreganho militar passeava no meio do
-terreiro, a mão no punho da espada, a cabeça alta e o bigode
-retorcido. Quando o escudeiro passava, a voz dos aventureiros descia
-dous tons; mas á medida que elle se afastava, cada um dava livre
-desabafo ao seu máo humor.
-
-Entre os mais inquietos et turbulentos distinguião-se tres grupos
-presididos por personagens de nosso conhecimento: Loredano, Ruy Soeiro e
-Bento Simões.
-
-A causa desse descontentamento quasi geral era a seguinte:
-
-Por volta de seis horas da manhã, Ruy, em virtude do emprazamento da
-vespera, dirigio-se o primeiro á escada para ganhar o matto.
-
-Chegando ao fim da esplanada admirou-se de ver ahi Vasco Alphonso e
-Martim Vaz de vigia, o que era extraordinario; pois só á noite se
-usava de uma tal precaução, e esta cessava apenas amanhecia.
-
-Ainda mais admirado porém ficou quando os dous aventureiros, cruzando
-as espadas, proferirão quasi ao mesmo tempo estas palavras:
-
---Não se passa.
-
---E por que razão?
-
---É a ordem, respondeu Martim Vaz.
-
-Ruy empallideceu, e voltou apressadamente; a primeira idéa que lhe
-acudio foi que os tinhão denunciado, e cuidou em prevenir a Loredano.
-
-Ayres Gomes porém embargou-lhe o passo, e dirigio-se com elle para o
-terreiro: ahi o digno escudeiro desempenando o corpo, e levando a mão
-á bocca em fórma de busina, gritou:
-
-Olá! Á frente toda a banda!
-
-Os aventureiros chegárão-se formando um circulo ao redor de Ayres
-Gomes; Ruy já tinha tido occasião de lançar uma palavra ao ouvido do
-italiano; e ambos, um pouco pallidos mas resolutos, esperavão o
-desfecho daquella scena.
-
---O Sr. D. Antonio de Mariz, disse o escudeiro, por meu intermedio vos
-faz saber a sua vontade, e manda que ninguem se afaste um passo da casa
-sem sua ordem. Quem o contrario fizer pereça morte natural.
-
-Um silencio morno acolheu a enunciação desta ordem; Loredano trocou
-uma vista rapida com os seus dous complices.
-
---Estais entendidos? disse Ayres Gomes.
-
---O que nem eu, nem meus companheiros entendemos é a razão disto,
-retrucou o italiano avançando um passo.
-
---Sim; a razão? exclamou em coro a maioria dos aventureiros.
-
---As ordens cumprem-se, e não se discutem, respondeu o escudeiro com
-uma certa solemnidade.
-
---Comtudo nós... ia dizendo Loredano.
-
---Toca a debandar! gritou Ayres Gomes. Aquelle que não estiver
-contente, que o diga ao Sr. D. Antonio de Mariz.
-
-E o escudeiro com uma fleugma imperturbavel rompeu o circulo, e começou
-a passear pelo terreiro olhando de travez os aventureiros, e rindo á
-sorrelfa do seu desapontamento.
-
-Quasi todos estavão contrariados; sem fallar dos conspiradores que se
-havião emprazado para concertarem seu plano de campanha, os outros,
-cujo divertimento era caçar e bater os mattos, não recebião a ordem
-com prazer. Apenas alguns de genio mais bonachão e jovial tinhão
-tomado a cousa á boa parte, e zombavão da contrariedade que soffrião
-seus companheiros.
-
-Quando Alvaro se aproximou todos os olhos se voltárão para elle,
-esperando a explicação do que se passava.
-
---Sr. cavalheiro, disse Ayres Gomes, acabo de transmittir a ordem para
-que ninguem arrede pé da casa.
-
---Bem, respondeu o moço, e continuou dirigindo-se aos aventureiros:
-Assim é preciso, meus amigos, estamos ameaçados de um ataque dos
-selvagens, e toda a prudencia é pouca nestas occasiões. Não é só a
-nossa vida que temos a defender, e essa pouco vale para cada um de nós;
-é sim a pessoa daquelle que confia em nosso zelo e coragem, e mais
-ainda o socego de uma familia honrada que todos prezamos.
-
-As nobres palavras do cavalheiro, e a affabilidade do gesto que
-suavisava a firmeza de sua voz, serenárão completamente os animos;
-todos os descontentes mostrárão-se satisfeitos.
-
-Apenas Loredano estava desesperado por ser obrigado a retardar a
-combinação do seu plano; pois era arriscado tenta-lo em casa, onde o
-menor gesto o podia trahir.
-
-Alvaro trocou poucas palavras com Ayres Gomes, e voltou-se para os
-aventureiros:
-
---D. Antonio de Mariz precisa de quatro homens dedicados para
-acompanharem seu filho D. Diogo á cidade de S. Sebastião. É uma
-missão perigosa; quatro homens nestes desertos marchão de perigo em
-perigo. Quem de vós se offerece para desempenha-la?
-
-Vinte homens se adiantárão; o cavalheiro escolheu tres entres elles.
-
---Vós sereis o quarto, Loredano.
-
-O italiano, que se tinha escondido entre os seus companheiros, ficou
-como fulminado por estas palavras; sahir naquella occasião da casa era
-perder para sempre a sua mais ardente esperança; durante a ausencia
-tudo podia se descobrir.
-
---Peza-me ser obrigado a negar-me ao serviço que exigis de mim; mas
-sinto-me doente, e sem forças para uma viagem.
-
-O cavalheiro sorrio.
-
---Não ha enfermidade que prive um homem de cumprir o seu dever;
-sobretudo quando é um homem valente e leal como vós, Loredano.
-
-Depois abaixou a voz para não ser ouvido pelos outros aventureiros:
-
---Se não partis, sereis arcabuzado em uma hora. Esqueceis que tenho a
-vossa vida em minha mão, e vos faço esmola mandando-vos sahir desta
-casa?
-
-O italiano comprehendeu que não tinha remedio senão partir; bastava
-que o moço o accusasse de ter atirado sobre elle, bastava a palavra de
-Alvaro para fazê-lo condemnar pelo chefe e pelos seus proprios
-companheiros.
-
---Aviai-vos, disse o cavalheiro aos quatro aventureiros escolhidos por
-elle; partis em meia hora.
-
-Alvaro retirou-se.
-
-Loredano ficou um momento abatido pela fatalidade que pesava sobre elle;
-mas a pouco a pouco foi recobrando a calma, animando-se; por fim sorrio.
-Para que sorrisse era necessario que alguma inspiração infernal
-tivesse subido do centro da terra a essa intelligencia votada ao crime.
-
-Fez um aceno a Ruy Soeiro, e os dous encaminhárão-se para um cubiculo
-que o italiano occupava no fim da esplanada. Ahi conversárão algum
-tempo, rapidamente e em voz baixa.
-
-Forão interrompidos por Ayres Gomes, que bateu com a espada na porta:
-
---Eh! lá! Loredano. A cavallo, homem; e boa viagem.
-
-O italiano abrio a porta, e ia sahir; mas voltou-se para dizer a Ruy
-Soeiro:
-
---Olhai os homens da guarda; é o principal.
-
---Ide tranquillo.
-
-Alguns minutos depois, D. Diogo, com o coração cerrado e as lagrimas
-nos olhos, apertava nos braços sua mãi querida, Cecilia que elle
-adorava, e Isabel que já amava tambem como irmã.
-
-Depois desprendendo-se com um esforço, encaminhou-se apressadamente
-para a escada e desceu ao valle; ahi recebeu a benção de seu pai e
-abraçando a Alvaro saltou na sella do cavallo, que Ayres Gomes tinha
-pela redea.
-
-A pequena cavalgata partio; com pouco sumia-se na volta do caminho.
-
-
-
-
-II
-
-PREPARATIVOS
-
-
-Ao tempo que D. Antonio de Mariz e seu filho conversavão no gabinete,
-Pery examinava as suas armas, carregava as pistolas que sua senhora lhe
-havia dado na vespera, e sahia da cabana.
-
-A physionomia do selvagem tinha uma expressão de energia e ardimento,
-que revelava resolução violenta, talvez desesperada.
-
-O que ia fazer, nem elle mesmo sabia. Certo de que o italiano e seus
-companheiros se reunirião naquella manhã, contava antes que a reunião
-se effectuasse ter mudado inteiramente a face das cousas.
-
-Só tinha uma vida como dissera; mas essa com a sua agilidade e a sua
-força e coragem valia por muitas; tranquillo sobre o futuro pela
-promessa de Alvaro, não lhe importava o numero dos inimigos: podia
-morrer mas esperava deixar pouco ou talvez nada que fazer ao cavalheiro.
-
-Sahindo de sua cabana, Pery entrou no jardim: Cecilia estava sentada
-n'um tapete de pelles sobre a relva, e amimava ao seio a sua rolinha
-predilecta, offerecendo os labios de carmim ás caricias que a ave lhe
-fazia com o bico delicado.
-
-A menina estava pensativa; doce melancolia desvanecia a vivacidade
-natural de seu semblante.
-
---Tu estás agastada com Pery, senhora?
-
---Não, respondeu a menina fitando nelle os grandes olhos azues. Não
-quizeste fazer o que eu pedi; tua senhora ficou triste.
-
-Ella dizia a verdade com a ingénua franqueza da innocencia. Na vespera,
-quando se tinha recolhido enfadada pela recusa de Pery, ficara
-contrariada.
-
-Educada no fervor religioso de sua mãi, embora sem os prejuizos que a
-razão de D. Antonio corrigira no espirito de sua filha, Cecilia tinha a
-fé christã em toda a pureza e santidade. Por isso se affligia com a
-idéa de que Pery, a quem votava uma amizade profunda, não salvasse a
-sua alma, e não conhecesse o Deus bom e compassivo a quem ella dirigia
-suas preces.
-
-Conhecia que a razão por que sua mãi e os outros desprezavão o indio
-era o seu gentilismo; e a menina no seu reconhecimento queria elevar o
-amigo e torna-lo digno da estima de todos.
-
-Eis a razão por que ficara triste; era gratidão por Pery, que
-defendera sua vida de tantos perigos, e a quem ella queria retribuir
-salvando a sua alma.
-
-Nesta disposição de espirito, seus olhos cahirão sobre a guitarra
-hespanhola que estava em cima da commoda e veio-lhe vontade de cantar.
-É cousa singular como a melancolia inspira! Seja por uma necessidade de
-expansão, seja porque a musica e a poesia suavisem a dôr, toda a
-creatura triste acha no canto um supremo consolo.
-
-A menina tirou ligeiros preludios do instrumento emquanto repassava na
-memoria as letras de alguns soláos e cantigas que sua mãi lhe havia
-ensinado. A que lhe acudio mais naturalmente foi a chacara que ouvimos;
-havia nessa composição uns longes, um quer que seja que ella não
-sabia explicar, mas ia com seus pensamentos.
-
-Quando acabou de cantar levantou-se, apanhou a flôr de Pery que tinha
-atirado ao chão, deitou-a nos cabellos, e fazendo a sua oração da
-noite, adormeceu tranquillamente. O ultimo pensamento que roçou a sua
-fronte alva foi um voto de gratidão pelo amigo que lhe salvára a vida
-naquella manhã. Depois um sorriso adejou sobre seu rosto gracioso, como
-se a alma durante o somno dos olhos viesse brincar nos labios
-entreabertos.
-
-O indio, ouvindo as palavras que acabava de proferir Cecilia, sentio que
-pela primeira vez tinha causado uma mágoa real á sua senhora.
-
---Tu não entendestes Pery, senhora; Pery te pedio que o deixasses na
-vida em que nasceu, porque precisa desta vida para servir-te.
-
---Como?... Não te entendo!
-
---Pery, selvagem, é o primeiro dos seus; só tem uma lei, uma
-religião, é sua senhora; Pery, christão, será o ultimo dos teus;
-será um escravo, e não poderá defender-te.
-
---Um escravo!... Não! serás um amigo. Eu te juro! exclamou a menina
-com vivacidade.
-
-O indio sorrio:
-
---Se Pery fosse christão, e um homem quizesse te offender, elle não
-poderia mata-lo, porque o teu Deus manda que um homem não mate
-outro. Pery selvagem não respeita ninguem; quem offende sua senhora é
-seu inimigo, e morre!
-
-Cecilia, pallida de emoção, olhou o indio, admirada não tanto da
-sublime dedicação, como do raciocinio; ella ignorava a conversa que o
-indio tivera na vespera com o cavalheiro.
-
---Pery te desobedeceu por ti sómente; quando já não correres perigo,
-elle virá ajoelhar a teus pés, e beijar a cruz que tu lhe déste. Não
-fique zangada!
-
---Meu Deus!... murmurou Cecilia pondo os olhos no céo. É possivel que
-uma dedicação tamanha não seja inspirada por vossa santa
-religião!...
-
-A alegria serena e doce de sua alma irradiava na physionomia
-encantadora:
-
---Eu sabia que tu não me negarias o que te pedi; assim não exijo mais;
-espero. Lembra-te sómente que no dia em que tu fôres christão, tua
-senhora te estimará ainda mais.
-
---Não ficas triste?
-
---Não; agora estou satisfeita, contente, muito contente!
-
---Pery quer pedir-te uma cousa.
-
---Dize, o que é?
-
---Pery quer que tu risques um papel para elle.
-
---Riscar um papel?...
-
---Como este que teu pai deo hoje a Pery.
-
---Ah! queres que eu escreva?
-
---Sim.
-
---O que?
-
---Pery vai dizer.
-
---Espera.
-
-Ligeira e graciosa, a menina correu á banquinha, e tomando uma folha de
-papel e uma pena, fez signal a Pery que se aproximasse.
-
-Não devia ella satisfazer os desejos do indio, como este satisfazia ás
-suas menores fantasias?
-
---Vamos: falla, que eu escrevo.
-
---Pery a Alvaro, disse o indio.
-
---É uma carta ao Sr. Alvaro? perguntou a menina corando.
-
---Sim: é para elle.
-
---Que vais tu dizer-lhe?
-
---Escreve.
-
-A menina traçou a primeira linha, e depois, por pedido de Pery, o nome
-de Loredano e dos seus dous complices.
-
---Agora, disse o indio, fecha.
-
-Cecilia sellou a carta.
-
---Entrega á tarde; antes não.
-
---Mas que quer isto dizer? perguntou Cecilia sem comprehender.
-
---Elle te dirá.
-
---Não que eu...
-
-A menina balbuciou corando estas palavras: ia dizer que não fallaria
-ao cavalheiro e arrependeu-se; não queria revelar a Pery o que se tinha
-passado. Sabia que se o indio suspeitasse a scena da vespera, odiaria
-Isabel e Alvaro, só por lhe terem causado um pezar involuntario.
-
-Emquanto Cecilia confusa procurava disfarçar o enleio, Pery fitava
-nella o seu olhar brilhante; mal pensava a menina que aquelle olhar era
-o adeos extremo que o indio lhe dizia.
-
-Mas para isto fora preciso que adivinhasse o plano desesperado que elle
-havia concebido de exterminar naquelle dia todos os inimigos da casa.
-
-D. Diogo entrou neste momento no quarto de sua irmã: vinha despedir-se
-della.
-
-Quanto a Pery, deixando Cecilia dirigio-se á escada, e achou as mesmas
-vigias, que depois embargárão a passagem de Ruy Soeiro.
-
---Não se passa, disserão os aventureiros cruzando as espadas.
-
-O indio levantou os hombros desdenhosamente; e antes que as sentinellas
-voltassem a si da sorpreza, tinha mergulhado sob as espadas, e descido a
-escada. Então ganhou a matta, examinou de novo as suas armas e esperou;
-já estava cansado quando viu passar a pequena calvagata.
-
-Pery não comprehendeu o que succedia; mas conheceu que o seu plano
-tinha abortado.
-
-Foi ter com Alvaro.
-
-O cavalheiro explicou-lhe como se aproveitára da ida de D. Diogo ao Rio
-de Janeiro para expulsar o italiano sem rumor e sem escandalo. Então o
-indio por sua vez contou ao moço o que tinha ouvido na touça de
-cardos; o projecto que formára de matar os tres aventureiros naquelle
-manhã; e finalmente a carta que lhe escrevêra por intermedio de
-Cecilia, para, no caso de succumbir elle, saber o cavalheiro quem erão
-os inimigos.
-
-Alvaro duvidava ainda acreditar em tanta perfidia do italiano.
-
---Agora, concluio Pery, é preciso que os dous tambem saião; se
-ficarem, o outro póde voltar.
-
---Não se animará! disse o cavalheiro.
-
---Pery não se engana! Manda sahir os dous.
-
---Fica descansado. Fallarei com D. Antonio de Mariz.
-
-O resto do dia passou tranquillamente; mas a tristeza tinha entrado
-nesta casa ainda na vespera tão alegre e feliz; a partida de D. Diogo,
-o temor vago que produz o perigo quando se aproxima, e o receio de um
-ataque dos selvagens, preoccupavão os moradores do _Paquequer_.
-
-Os aventureiros dirigidos por D. Antonio, executavão trabalhos de
-defesa tornando ainda mais inaccessivel o rochedo em que estava situada
-a casa.
-
-Uns construião palissadas em roda da esplanada; outros arrastavão para
-a frente da casa uma colubrina que o fidalgo por excesso de cautela
-mandára vir de S. Sebastião havia dous annos. Toda a casa emfim
-apresentava um aspecto martial, que indicava a vespera de um combate; D.
-Antonio preparava-se para receber dignamente o inimigo.
-
-Apenas em toda esta casa uma pessoa se conservava alheia ao que se
-passava; era Isabel, que só pensava no seu amor.
-
-Depois de sua confissão, arrancada violentamente ao seu coração por
-uma força irresistivel, por um impulso que ella não sabia explicar, a
-pobre menina quando se vira só, no seu quarto, á noite, quasi morreu
-de vergonha.
-
-Lembrava-se de suas palavras, e perguntava a si mesma como tivera a
-coragem de dizer aquillo, que antes nem mesmo os seus olhos se animavão
-a exprimir silenciosamente. Parecia-lhe que era impossivel tornar a ver
-Alvaro sem que cada um dos olhares do moço queimasse suas faces e a
-obrigasse a esconder o rosto de pejo.
-
-Entretanto nem por isso seu amor era menos ardente; ao contrario agora
-é que a paixão, por muito tempo reprimida, se exacerbava com as lutas
-e contrariedades.
-
-As poucas palavras doces que o moço lhe dirigira, a pressão das mãos,
-e o aperto rapido sobre o coração de Alvaro n'um momento de
-hallucinação, passavão e repassavão na sua memoria a lodo o momento.
-
-Seu espirito, como uma borboleta em torno da flor, esvoaçava
-constantemente em torno das reminiscencias ainda vivas, como para libar
-todo o mel que encerravão aquellas sensações, as primeiras de seu
-infeliz amor.
-
-Nesse mesmo dia de segunda-feira, á tarde, Alvaro encontrou-se um
-momento com Isabel na esplanada.
-
-Ambos ficárão mudos, e corárão. Alvaro ia retirar-se.
-
---Sr. Alvaro... balbuciou a moça tremula.
-
---Que quereis de mim, D. Isabel? perguntou o moço perturbado.
-
---Esqueci-me restituir-vos hontem o que não me pertence.
-
---É ainda este malfadada bracelete?
-
---Sim, respondeu a moça docemente, é este malfadado bracelete: Cecilia
-teima que é elle vosso.
-
---Se meu é, vos peço que o aceiteis.
-
---Não, Sr. Alvaro, não tenho direito.
-
---Uma irmã não tem direito de aceitar a prenda que lhe offerece seu
-irmão?
-
---Tendes razão, respondeu a moça suspirando, eu o guardarei como
-lembrança vossa; não será adorno para mim, senão reliquia.
-
-O moço não respondeu; retirou-se para cortar a conversa.
-
-Desde a vespera Alvaro não podia eximir-se á impressão poderosa que
-causara nelle a paixão de Isabel; era preciso que não fosse homem para
-não se sentir profundamente commovido pelo amor ardente de uma mulher
-bella, e pelas palavras de fogo que corrião dos labios de Isabel
-impregnadas de perfume e sentimento.
-
-Mas a razão direita do cavalheiro recalcava essa impressão no fundo do
-coração; elle não se pertencia; tinha aceitado o legado de D. Antonio
-de Mariz e jurado dar a sua mão a Cecilia.
-
-Embora não esperasse mais realisar o seu sonho dourado, entendia que
-estava rigorosamente obrigado a sujeitar-se á vontade do fidalgo, a
-proteger sua filha, a dedicar-lhe sua existência. Quando Cecilia o
-repellisse abertamente, e D. Antonio o desobrigasse de sua promessa,
-então seu coração seria livre, se não estivesse morto pelo
-desengano.
-
-O unico facto notavel que se deu nesse dia foi a chegada de seis
-aventureiros das vizinhanças, que prevenidos por D. Diogo vinhão
-offerecer seus serviços a D. Antonio.
-
-Chegarão ao lusco-fusco; á frente delles vinha o nosso conhecido
-mestre Nunes, que um anno antes dera hospitalidade no seu pouso a frei
-Angelo di Lucca.
-
-
-
-
-III
-
-VERME E FLOR
-
-
-Erão onze horas da noite.
-
-O silencio reinava na habitação e seus arredores, tudo estava
-tranquillo e sereno. Algumas estrellas brilhavão no céo; os sopros
-escassos da viração susurravão na folhagem.
-
-Os dous homens de vigia, apoiados ao arcabuz e reclinados sobre o
-alcantil, sondavão a sombra espessa que se estendia pela aba do
-rochedo.
-
-O vulto magestoso de D. Antonio de Mariz passou lentamente pela
-esplanada, e desappareceu no canto da casa. O fidalgo fazia a sua ronda
-nocturna, como um general na vespera de uma batalha.
-
-Passados alguns momentos ouvio-se cantar uma coruja no valle, junto da
-escada de pedra; uma das vigias abaixou-se, e tomando dous pequenos
-seixos deixou-os cahir um depois do outro.
-
-O som fraco que produzio a quedadas pedras sobre o arvoredo da varzea
-foi quasi imperceptivel; seria difficil distingui-lo do rumor do vento
-nas folhas.
-
-Um instante depois um vulto subio ligeiramente a escada, e reunio-se aos
-dous homens que fazião a guarda nocturna:
-
---Tudo está preparado?
-
---Só esperamos por vós.
-
---Vamos! não ha tempo a perder.
-
-Trocadas estas palavras rapidamente entre o que chegava e uma das
-vigias, os tres encaminhárão-se com todas as precauções para a
-alpendrada em que habitava a banda dos aventureiros.
-
-Ahi, como no resto da casa, tudo estava calmo e tranquillo; apenas
-via-se luzir na soleira da porta do aposento de Ayres Gomes a claridade
-de uma luz.
-
-Um dos tres chegou-se á entrada do alpendre, e esgueirando-se pela
-parede perdeu-se na escuridão que havia no interior.
-
-Os outros dous se dirigirão ao fim da casa, e ahi occultos pela sombra
-e pelo angulo que formava um largo pilar do edificio, começárão um
-dialogo breve e rapido.
-
---Quantos são? perguntou o homem que chegára.
-
---Vinte ao todo.
-
---Restão-nos?
-
---Dezenoze.
-
---Bem. A senha?
-
---Prata.
-
---E o fogo?
-
---Prompto.
-
---Aonde?
-
---Nos quatro cantos.
-
---Quantos sobrão?
-
---Dous apenas.
-
---Seremos nós.
-
---Precisais de mim?
-
---Sim.
-
-Houve uma pequena pausa, em que um dos aventureiros parecia reflectir
-profundamente emquanto o outro esperava; por fim o primeiro ergueu a
-cabeça:
-
---Ruy, vós me sois dedicado?
-
---Dei-vos a prova.
-
---Preciso de um amigo fiel.
-
---Contai comigo.
-
---Obrigado.
-
-O desconhecido apertou a mão de seu companheiro.
-
---Sabeis que amo uma mulher?
-
---Vós m'o dissestes.
-
---Sabeis que é mais por essa mulher do que por esse thesouro fabuloso
-que concebi este plano horrivel?
-
---Não; não o sabia.
-
---Pois é a verdade; pouco me importa a riqueza; sêde meu amigo;
-servi-me lealmente, e tereis a maior parte do meu thesouro.
-
---Fallai; que quereis que eu faça?
-
---Um juramento; mas um juramento sagrado, terrivel.
-
---Qual dizei!
-
---Hoje esta mulher me pertencerá; entretanto se por qualquer acaso eu
-vier a morrer, quero que...
-
-O desconhecido hesitou:
-
---Quero que nenhum homem possa ama-la, que nenhum homem possa gozar a
-felicidade suprema que ella pode dar.
-
---Mas como?
-
---Matando-a!
-
-Ruy sentio um calafrio.
-
---Matando-a, para que a mesma cova receba nossos dous corpos; não sei
-porque, mas parece-me que ainda cadaver, o contacto desta mulher deve
-ser para mim um gozo immenso.
-
---Loredano!... exclamou seu companheiro horrorisado.
-
---Sois meu amigo e sereis meu herdeiro! disse o italiano agarrando-lhe
-convulsivamente no braço. É a minha condição; se recusais, outro
-aceitará o thesouro que rejetais!
-
-O aventureiro estava em luta com dous sentimentos oppostos; mas a
-ambição violenta, cega, esvairada, abafou o grito fraco da
-consciencia.
-
---Jurais? perguntou Loredano.
-
---Juro!... respondeu Ruy com a voz estrangulada.
-
---Avante então!
-
-Loredano abrio a porta do seu cubiculo, e voltou algum tempo depois
-trazendo uma taboa longa e estreita que collocou sobre o despenhadeiro
-como uma especie de ponte suspensa.
-
---Ides segurar esta taboa, Ruy. Entrego em vossas mãos a minha vida, e
-nisto dou-vos a maior prova de confiança. Basta que deixeis esta
-prancha mover-se para que eu me precipite sobre os rochedos.
-
-O italiano achava-se então no mesmo lugar que na noite da chegada,
-algumas braças distante da janella de Cecilia, onde não podia chegar
-por causa do angulo que formava o rochedo e o edificio.
-
-A taboa foi collocada na direcção da janella; a primeira vez tinha-lhe
-bastado o seu punhal; agora porém necessitava de um apoio seguro, e do
-livre movimento de seus braços. Ruy collocou-se sobre a ponta da taboa,
-e segurando-se a um frechai do alpendre manteve immovel sobre o
-precipicio essa ponte pensil em que o italiano ia arriscar-se.
-
-Quanto a este, sem hesitar, tirou as suas armas para ficar mais leve,
-descalçou-se, segurou a longa faca entre os dentes, e pôz o pé sobre
-a prancha.
-
---Esperar-me-heis do outro lado, disse o italiano.
-
---Sim, respondeu Ruy com a voz tremula.
-
-A razão por que a voz de Ruy tremia, era um pensamento diabolico que
-começava a fermentar no seu espirito. Lembrou-lhe que tinha na mão
-Loredano e o seu segredo; que para vêr-se livre de um e senhor do
-outro, bastava afastar o pé e deixar a taboa inclinar sobre o abysmo.
-
-Entretanto hesitava; não que o remorso anticipado lhe exprobasse o
-crime que ia commetter; já tinha-se afundado muito no vicio e na
-depravação para recuar. Mas o italiano exercia sobre seus complices
-tal prestigio e influencia tão poderosa, que Ruy não podia mesmo nesse
-momento esquivar-se a elles.
-
-Loredano estava suspenso sobre o abysmo pela sua mão; podia salva-lo ou
-precipital-o no despenhadeiro; e comtudo dessa posição ainda elle
-impunha respeito ao aventureiro.
-
-Ruy tinha medo: não comprehendia o motivo desse terror irresistivel;
-mas o sentia como uma obsessão e um pesadelo.
-
-No emtanto a imagem da riqueza esplendida, brilhante, radiando galas e
-luzimentos, passava diante de seus olhos e o deslumbrava; um pouco de
-coragem, e seria o unico senhor do thesouro fabuloso, de cujo segredo
-era o italiano depositario.
-
-Mas coragem é o que lhe faltava; por duas ou tres vezes o aventureiro
-teve um impeto de suspender-se ao frechai, e deixar a taboa rolar no
-abysmo; não passou de um desejo.
-
-Venceu a final a tentação.
-
-Teve um momento de desvario: os joelhos acurvárão-se; a taboa soffreu
-uma oscillação tão forte, que Ruy admirou-se como o italiano se tinha
-podido suster.
-
-Então o medo desappareceu; foi substituido por uma especie de raiva e
-frenesi que se apoderou do aventureiro; o primeiro esforço lhe dera a
-ousadia, como a vista do sangue excita a féra.
-
-Um segundo abalo mais forte agitou a taboa, que oscillou á borda do
-rochedo; porém não se ouvio o baque de um corpo; não se ouvio mais
-que o choque da madeira sobre a pedra. Ruy, desesperado, ia soltar a
-prancha, quando chegou-lhe ao ouvido, abafada e sumida, a voz do
-italiano, que apenas se percebia no silencio profundo da noite.
-
---Estais cansado, Ruy?... Podeis tirar a taboa: não preciso mais della.
-
-O aventureiro ficou espavorido; decididamente esse homem era um espirito
-infernal que plainava sobre o abysmo, e escarnecia do perigo; um ente
-superiora quem a morte não podia tocar.
-
-Elle ignorava que Loredano, com a sua previdencia ordinaria, quando
-entrara no seu cubiculo para tirar a prancha, tivera o cuidado de passar
-por um caibro do alpendre, que era de telhavan, a ponta de uma longa
-corda que cahio sobre a parte de fóra da parede uma braça distante da
-janella de Cecilia.
-
-Assim, apenas deo o primeiro passo sobre a ponte improvisada, o italiano
-mio se descuidou de estender o braço e agarrar a ponta da corda, que
-logo atou á cintura: então se o apoio lhe faltasse ficaria suspenso no
-ar, e, embora com mais difficuldade, realisaria o seu intento.
-
-Foi por isso que os dous abalos produzidos pelo seu complice não
-tiverão o resultado que elle esperava; logo de primeiro, Loredano
-adivinhou o que se passava n'alma de Ruy, mas não querendo dar-lhe a
-perceber que conhecia a sua traição, servio-se de um meio indirecto
-para dizer-lhe que estava em segurança, e que era inutil a tentativa de
-precipita-lo.
-
-A taboa não fez mais um só movimento; conservou-se immovel como se
-estivera solidamente pregada ao rochedo.
-
-Loredano adiantou-se, tocou a janella da moça, e com a ponta da faca
-conseguio levantar a aldraba; as gelosias abrindo-se afastárão as
-cortinas de cassa que vendavão o asylo do pudor e da innocencia.
-
-Cecilia dormia envolta nas alvas roupas de seu leito; sua cabecinha
-loura apparecia entra as rendas finissimas sobre as quaes se
-desenrolavão os lindos anneis dourados de seus cabellos. O doce
-amortecimento de um somno calmo e sereno vendava seu rosto gracioso,
-como a sombra esvaecida que desmaia o semblante das virgens de Murillo;
-seu sorriso era apenas enlevo.
-
-O talho de sua anagoa abrindo-se deixava entrever um collo de linhas
-puras, mais alvo do que a cambraia; e com a ondulação que a
-respiração branda imprimia ao seu peito, desenhavão-se sob a
-lençaria diaphana os seios mimosos.
-
-Tudo isto resaltava como um quadro d'entre as ondas de uma colcha de
-damasco azul que nas suas largas dobras moldava sobre a alvura
-transparente do linho os contornos harmoniosos e puros.
-
-Havia porém nessa belleza adormecida uma expressão indefinivel, um
-quer que seja de tão casto e innocente, que envolvia essa menina no seu
-somno tranquillo e parecia afugentar della um pensamento profano.
-
-Chegando-se á beira daquelle leito, um homem ajoelharia antes como ao
-pé de uma santa, do que se animaria a tocar na ponta dessas roupagens
-brancas que protegião a innocencia.
-
-Loredano aproximou-se tremendo, pallido e offegante; toda a força de
-sua vigorosa organisação, toda a sua vontade poderosa e irresistivel,
-estava ahi vencida, subjugada, diante de uma menina adormecida. O que
-sentio quando seu olhar ardente cahio sobre o leito, é difficil dizer,
-é talvez mesmo difficil de comprehender. Foi a um tempo suprema ventura
-e horrivel supplicio.
-
-A paixão brutal o devorava escaldando-lhe o sangue nas veias e fazendo
-saltar-lhe o coração; entretanto o aspecto dessa menina que não tinha
-para sua defesa senão a sua castidade, o encadeava.
-
-Sentia que o fogo queimava-lhe o seio; sentia que seus labios tinhão
-sêde de prazer; e a mão gelada e inerte não se podia erguer, e o
-corpo estava paralysado: apenas o olhar scintillava, e as narinas
-dilatadas aspiravão as emanações voluptuosas de que estava impregnada
-a sua atmosphera.
-
-E a menina sorria no seu placido somno, enleiando-se talvez n'algum
-sonho gracioso, n'algum dos sonhos azues que Deus esparge como folhas de
-rosas sobre o leito das virgens.
-
-Era o anjo em face do demonio; era a mulher em face da serpente; a
-virtude em face do vicio.
-
-O italiano fez um esforço supremo, e passando a mão pelos olhos como
-para arrancar uma visão importuna, encaminhou-se a um bofete e acendeu
-uma vela de cera côr de rosa.
-
-O aposento, até então esclarecido apenas por uma lamparina collocada
-sobre uma cantoneira, illuminou-se; e a imagem graciosa de Cecilia
-appareceu cercada de uma aureola.
-
-Sentindo a impressão da luz sobre os olhos, a menina fez um movimento,
-e voltando um pouco o rosto para o lado opposto continuou o somno, que
-nem fôra interrompido.
-
-Loredano passou entre o leito e a parede, e pôde então admira-la em
-toda a sua belleza; não se lembrava de nada mais, esquecêra o mundo e
-seu thesouro: nem pensava no rapto que ia praticar.
-
-A rolinha que dormia sobre a commoda no seu ninho de algodão ergueu-se
-e agitou as azas; o italiano, despertado por este rumor, conheceu que
-já era tarde e que não tinha tempo a perder.
-
-
-
-
-IV
-
-NA TREVA
-
-
-Alguns esclarecimentos são necessarios aos acontecimentos
-que acabavão de passar.
-
-Quando Loredano viu-se obrigado pela ameaça de Alvaro a partir para o
-Rio de Janeiro, ficou succumbido; mas, depois de alguns momentos, um
-sorriso diabolico tinha enrugado os seus labios.
-
-Este sorriso era uma idéa infame que luzira no seu espirito como a
-flamma desses fogos perdidos que brilhão no seio das trevas em noites
-de grande calma.
-
-O italiano lembrou-se que no momento em que todos o suppunhão em
-viagem, podia preparar a execução do seu plano que elle realisaria
-naquella mesma noite.
-
-Na conversa que tivera com Ruy Soeiro transmittio-lhe as suas
-instrucções, breves, simples e concisas; consistião em livrarem-se
-dos homens que podião pôr embaraços á sua empreza.
-
-Para isso os seus complices recebêrão ordem de quando se recolhessem
-para dormir, collocarem-se ao lado de cada um dos homens da banda fieis
-a D. Antonio de Mariz.
-
-Naquelle tempo e naquelles lugares não era possivel que os aventureiros
-tivessem cada um o seu cubiculo, poucos gozavão desse privilegio, e
-assim mesmo erão obrigados a partilhar o seu aposento com um
-companheiro: os outros dormião na vasta alpendrada que occupava quasi
-toda essa parte do edificio.
-
-Ruy Soeiro tinha, conforme ás instrucções de Loredano, arranjado as
-cousas de tal modo que naquelle momento cada um dos aventureiros
-dedicados a D. Antonio de Mariz tinha a seu lado um homem que parecia
-adormecido, e que só esperava ouvir pronunciara senha convencionada
-para enterrar o seu punhal na garganta do seu companheiro.
-
-Ao mesmo tempo havia pelos cantos da casa grandes molhos de palha secca
-collocados junto das portas ou mettidos pela beirada do telhado, e que
-só esperavão uma faisca para atear o incendio em todo o edificio.
-
-Ruy Soeiro, com uma sagacidade e uma prudencia dignas de seu chefe,
-dispuzera tudo isto; parte durante o dia, e parte nas horas mortas da
-noite em que tudo estava recolhido.
-
-Não se esqueceu da recommendação especial de Loredano, e offereceu-se
-voluntariamente a Ayres Gomes para fazer a guarda nocturna com um dos
-seus companheiros, visto recear-se ataque de inimigo; o digno escudeiro,
-que o conhecia como um dos mais valentes da banda, cahio no laço e
-aceitou o offerecimento.
-
-Senhor do campo, o aventureiro pôde então acabar livremente os seus
-preparativos, e para mais segurança arranjou traça de ver-se livre do
-escudeiro, que podia de um momento para outro vir incommoda-lo.
-
-Ayres Gomes em companhia de seu velho amigo mestre Nunes esvasiava uma
-botelha de vinho de Valverde que elles bebião lentamente, trago a
-trago, para assim disfarçarem a módica porção do liquido destinado
-a humedecer as guelas de dous formidaveis bebedores.
-
-Mestre Nunes applicou voluptuosamente os labios á borda do cangirão,
-tomou uma vez de vinho, e dando um ligeiro estalinho com a lingua no
-céo da bocca, repimpou-se na tripeça em que estava sentado, cruzando
-as mãos sobre o seu ventre proeminente com uma beatitude celeste.
-
---Ora estou desde que cheguei para perguntar-vos uma cousa, amigo Ayres;
-e sempre a passar-me.--Não a deixeis passar agora, Nunes. Aqui me
-tendes para responder-vos.
-
---Dizei-me cá, quem é um tal que acompanhava D. Diogo, e a quem dais
-um diabo de nome que não é portuguez?
-
---Ah! Quereis fallar de Loredano? Um tunante?
-
---Conheceis este homem, Ayres?
-
---Por Deus! se elle é dos nossos!
-
---Quando pergunto se o conheceis, quero dizer se sabeis donde veio, quem
-era e o que fazia?
-
---Á fé que não! Appareceu-nos aqui um dia a pedir hospitalidade; e
-depois como sahisse um homem, ficou em lugar delle.
-
---E quando isto, se vos lembra?
-
---Esperai! Estou com os meus cincoenta e nove...
-
-O escudeiro contou pelos dedos consultando o seu calendario, que era a
-sua idade.
-
---Foi por este tempo, ha um anno; principios de março.
-
---Estais bem certo? exclamou mestre Nunes.
-
---Certissimo: é conta que não engana. Mas que tendes?
-
-Com effeito mestre Nunes se erguêra espantado.
-
---Nada! Não é possivel!
-
---Não acreditais?
-
---É outra cousa, Ayres! É um sacrilegio! uma obra de Satan! uma
-simonia horrenda!
-
---Que dizeis, homem, explicai-vos lá de uma vez.
-
-Mestre Nunes conseguio restabelecer-se da sua perturbação, e contou ao
-escudeiro as suas desconfianças a respeito de Frei Angelo di Lucca e da
-sua morte, que nunca fôra possivel explicar: notou-lhe a coincidencia
-do desapparecimento do carmelita com o apparecimento do aventureiro, e o
-facto de serem da mesma nação.
-
---Depois, concluio Nunes, aquella voz, aquelle olhar!... Quando o vi
-hoje estremeci, e recuei espavorido julgando que o frade tinha sahido
-debaixo da terra.
-
-Ayres Gomes levantou-se furioso, e saltando sobre o seu catre, agarrou o
-espadão que tinha á cabeceira.
-
---Que ides fazer? gritou mestre Nunes.
-
---Mata-lo, e desta vez ás direitas; que não torne. Esqueceis que vai
-longe?
-
---É verdade! murmurou o escudeiro rangendo os dentes de raiva.
-
-Ouvio-se um ligeiro rumor na porta; os dous amigos o attribuîrão ao
-vento e não se voltárão sentados em face um do outro, continuárão
-em voz baixa a sua conversa interrompida pela brusca revelação de
-Nunes.
-
-Entretanto fóra passavão-se cousas que devião excitar a attenção do
-digno escudeiro. O rumor que ouvira fôra produzido pela volta que Ruy
-dera á chave, fechando a porta.
-
-O aventureiro tinha ouvido todo a conversa; a principio aterrado, cobrou
-animo, e lembrou-se que em todo o caso era bom estar senhor do segredo
-do italiano para qualquer emergencia futura. Confiado nessa excellente
-idéa, Ruy metteu a chave no peito do gibão, e foi reunir-se a seu
-companheiro que estava de vigia junto da escada.
-
-Esperava por Loredano, que devia entrar na casa alta noite, para dirigir
-toda essa trama que havia urdido com uma intelligencia superior.
-
-O italiano tinha facilmente illudido a D. Diogo de Mariz; sabia que o
-ardente cavalheiro ia de rota batida, e que não se demoraria em caminho
-por motivo algum.
-
-A tres leguas do Paquequer, inventou um pretexto de ter-se quebrado a
-cilha de sua cavalgadura, e parou para arranja-la; emquanto D. Diogo e
-seus companheiros pensavão que os seguia de perto, elle tinha voltado
-sobre os passos, e escondido nas vizinhanças esperava que a noite se
-adiantasse.
-
-Quando percebeu que tudo estava em silencio aproximou-se; trocou o
-signal convencionado, que era o canto da coruja; e introduzio-se
-furtivamente na habitação.
-
-O mais já vimos. Sabendo que tudo estava preparado e prompto ao
-primeiro signal, Loredano deo começo á execução de seu projecto, e
-conseguio penetrar no quarto de Cecilia.
-
-Tomar a menina nos braços, rapta-la, atravessar a esplanada, chegar á
-porta da alpendrada, e pronunciar a senha convencionada, era cousa que
-elle contava realisar n'um momento.
-
-Quando Cecilia, arrancada de seu leito, lançasse um grito que elle não
-podesse abafar, isto pouco lhe importava; antes que alguem despertasse
-teria chegado ao outro lado, e então a uma palavra sua o fogo e o ferro
-virião em seu soccorro.
-
-Ruy lançaria a chamma á palha preparada para este fim; e a faca de
-cada um dos seus complices se enterraria na gorja dos homens
-adormecidos.
-
-Depois no meio desse horror e confusão, os vinte demonios acabarião a
-sua obra, e fugirião como os máos espiritos das lendas antigas, quando
-a primeira luz da alvorada terminava o _sabbat_ infernal.
-
-Ião ao Rio de Janeiro; ahi, ligados todos por um mesmo laço do crime,
-por um mesmo perigo e uma só ambição, Loredano contava ter nelles
-agentes fieis e dedicados para levar ao cabo a sua empreza.
-
-Emquanto a traição solapava assim o socego, a felicidade, a vida e a
-honra desta familia, todos dormião tranquillos e descuidados; nem um
-presentimento os vinha advertir da desgraça que os ameaçava.
-
-Loredano, graças á sua agilidade e á sua força, tinha conseguido
-chegar até ao leito da menina, sem que o menor rumor trahisse a sua
-presença, sem que na habitação alguem tivesse podido perceber o que
-se passava.
-
-Certo pois do bom resultado, o italiano advertido pela innocente
-avezinha, que não sabia o mal que fazia, cuidou em consummar a sua obra.
-Abrio a commoda de Cecilia, tirou roupas de sedas e linho e fez de tudo
-isto um embrulho tão pequeno quanto era possivel; depois envolveu-o em
-uma das pelles que servião de tapete, e collocou n'uma cadeira, a geito
-de o poder apanhar com facilidade.
-
-Era cousa original o pensamento deste homem. Ao passo que commettia um
-crime, tinha a lembrança delicada de querer suavisar a desgraça da
-menina fazendo que nada lhe faltasse na viagem incommoda que tinha de
-fazer.
-
-Quando tudo estava preparado abrio a portinha que dava para o jardim, e
-estudou o caminho que tinha de seguir. Era preciso; porque apenas
-tomasse Cecilia nos braços devia partir e chegar d'uma só corrida
-direita, rapida e cega.
-
-A porta ficava n'um canto do aposento, defronte do vão que havia entre
-o leito e a parede; collocado neste lugar, não tinha senão um
-movimento a fazer, agarrar a menina e lançar-se fóra do aposento.
-
-Na occasião em que elle se aproximava ouvio-se um gemido, quasi um
-suspiro, abafado e cheio de angustia.
-
-Os cabellos irriçárão-se sobre a fronte do italiano; gotas de suor
-frio e gelado sulcárão as suas faces pallidas e contrahidas.
-
-A pouco e pouco foi sahindo do estupor que o paralysára, e volvendo
-lentamente ao redor de si uns esgares d'olhos allucinados.
-
-Nada! Nem um insecto parecia acordado na solidão profunda da noite em
-que tudo dormia excepto o crime, o verdadeiro duende da terra, o máo
-genio das crenças de nossos pais.
-
-Tudo estava em socego; até o vento parecia se ter abrigado no calice
-das flôres e adormecido neste berço perfumado, como n'um regaço de
-amante.
-
-O italiano restabeleceu-se do violento abalo que soffrêra, deo um
-passo, e inclinou-se sobre o leito.
-
-Cecilia sonhava neste momento.
-
-Seu rosto esclareceu-se com uma expressão de alegria angelica; sua
-mãozinha, que repousava aninhada entre os seios, moveu-se com a
-indolencia e a molteza do somno, e recahio sobre a face.
-
-A pequena cruz de esmalte que tinha ao collo e que estava agora presa
-entre os dedos da mão roçou-lhe os labios; e uma musica celeste
-escapou-se, como se Deus tivesse vibrado uma das cordas de sua harpa
-àolis.
-
-Foi a principio um sorriso que adejou-lhe nos labios; depois o sorriso
-colheu as azas e formou um beijo por fim o beijo entreabrio-se como uma
-flôr e exhalou um suspiro perfumado.
-
---Pery!
-
-O collo arfou docemente, e a mão descahindo foi de novo aninhar-se
-entre o talho da sua anagoa de cambraia.
-
-O italiano ergueu-se pallido.
-
-Não se animava a tocar naquelle corpo tão casto, tão puro; não podia
-fitar aquella physionomia radiante de innocencia e de candura.
-
-Mas o tempo urgia.
-
-Fez um esforço supremo sobre si mesmo; firmou o joelho na bordado
-leito, fechou os olhos, estendeu as mãos.
-
-
-
-
-V
-
-DEOS DISPÕE
-
-
-O braço de Loredano estendeu-se sobre o leito; porém a mão que se
-adiantava e ia tocar o corpo de Cecilia estacou no meio do movimento, e
-subitamente impellida foi bater de encontro á parede.
-
-Uma setta, que não se podia saber d'onde vinha, atravessara o espaço
-com a rapidez de um raio, e antes que se ouvisse o sibillo forte e agudo
-pregára a mão do italiano no muro do aposento.
-
-O aventureiro vacillou, e abateu-se por detrás da cama; era tempo,
-porque uma segunda setta, despedida com a mesma força e a mesma
-rapidez, cravava-se no lugar onde ha pouco se projectava a sombra de sua
-cabeça.
-
-Passou-se então ao redor da innocente menina adormecida na isenção de
-sua alma pura uma scena horrivel, porém silenciosa.
-
-Loredano nos transes da dôr por que passava comprehendêra o que
-succedia; tinha adivinhado naquella setta que o ferira a mão de Pery; e
-sem ver, sentia o indio aproximar-se terrivel de odio, de vingança, de
-colera e desespero pela offensa que acabava de soffrer sua senhora.
-
-Então o reprobo teve medo; erguendo-se sobre os joelhos arrancou
-convulsivamente com os dentes a setta que pregava sua mão á parede, e
-precipitou-se para o jardim, cego, louco e delirante.
-
-Nesse mesmo instante, dous segundos talvez depois que a ultima flecha
-cahira no aposento, a folhagem do oleo que ficava fronteiro á janella
-de Cecilia agitou-se e um vulto embalançando-se sobre o abysmo,
-suspenso por um fragil galho da arvore, veio cahir sobre o peitoril.
-
-Ahi agarrando-se á hombreira saltou dentro do aposento com uma
-agilidade extraordinaria; a luz dando em cheio sobre elle desenhou o seu
-corpo flexivel e as suas fórmas esbeltas.
-
-Era Pery.
-
-O indio avançou-se para o leito, e vendo sua senhora salva respirou;
-com effeito a menina, a meio despertada pelo rumor da fugida de
-Loredano, voltára-se do outro lado e continuára o somno forte e
-reparador como é sempre o somno da juventude e da innocencia.
-
-Pery quiz seguir o italiano e mata-lo, como já tinha feito aos seus
-dous complices; mas resolveu não deixar a menina exposta a um novo
-insulto, como o que acabava de soffrer, e tratou antes de velar sobre
-sua segurança e socego.
-
-O primeiro cuidado do indio foi apagar a vela, depois fechando os olhos
-aproximou-se do leito e com uma delicadeza extrema puxou a colcha de
-damasco azul até ao collo da menina.
-
-Parecia-lhe uma profanação que seus olhos admirassem as graças e os
-encantos que o pudor de Cecilia trazia sempre vendados; pensava que o
-homem que uma vez tivesse visto tanta belleza, nunca mais devia ver a
-luz do dia.
-
-Depois desse primeiro desvelo, o indio restabeleceu a ordem no aposento;
-deitou a roupa na commoda, fechou a gelosia e as abas da janella, lavou
-as nodoas de sangue que ficárão impressas na parede e no soalho; e
-tudo isto com tanta solicitude, tão subtilmente, que não perturbou o
-somno da menina.
-
-Quando acabou o seu trabalho, aproximou-se de novo do leito, e á luz
-frouxa da lamparina contemplou as feições mimosas e encantadoras de
-Cecilia.
-
-Estava tão alegre, tão satisfeito de ter chegado a tempo de salva-la
-de uma offensa e talvez de um crime; era tão feliz de vê-la tranquilla
-e risonha sem ter soffrido o menor susto, o mais leve abalo, que sentio
-a necessidade de exprimir-lhe por algum modo a sua ventura.
-
-Nisto seus olhos abaixando-se descobrirão sobre o tapete da cama dous
-pantufos mimosos forrados de setim e tão pequeninos que parecião
-feitos para os pés de uma criança; ajoelhou e beijou-os com respeito,
-como se forão reliquia sagrada.
-
-Erão então perto de quatro horas; pouco tardava para amanhecer; as
-estrellas já ião se apagando a uma e uma; e a noite começava a perder
-o silencio profundo da natureza quando dorme.
-
-O indio fechou por fóra a porta do quarto que dava para o jardim, e
-mettendo a chave na cintura, sentou-se na soleira como o cão fiel que
-guarda a casa de seu senhor, resolvido a não deixar ninguem
-aproximar-se.
-
-Ahi reflectio sobre o que acabava de passar; e accusava-se a si mesmo de
-ter deixado o italiano penetrar no aposento de sua senhora; Pery, porém
-calumniava-se, porque só a Providencia podia ter feito nesta noite mais
-do que elle; porque tudo quanto era possivel á intelligencia, á
-coragem, á sagacidade e á força do homem, o indio havia realisado.
-
-Depois da partida de Loredano, e da conversa que teve com Alvaro, certo
-de que sua senhora já não corria perigo, e de que os dous complices do
-italiano ião ser expulsos como elle, o indio não pensando mais senão
-no ataque dos Aymorés partio immediatamente.
-
-O seu pensamento era ver se descobrisse pelas vizinhanças do
-_Paquequer_ indicios da passagem de alguma tribu da grande raça guarany
-a que elle pertencia; seria um amigo e um alliado para D. Antonio de
-Mariz.
-
-O odio inveterado que havia entre as tribus da grande raça e a nação
-degenerada dos Aymorés, justificava a esperança de Pery; mas
-infelizmente, tendo percorrido todo o dia a floresta, não encontrou o
-menor vestigio do que procurava.
-
-O fidalgo estava pois reduzido ás suas proprias forças; mas embora
-fossem estas pequenas, o indio não desanimou; tinha consciencia de si;
-e sabia que na ultima extremidade a sua dedicação por Cecilia lhe
-inspiraria meios de salvar a ella e a tudo que ella amava.
-
-Voltou á casa já noite fechada: foi ter com Alvaro; perguntou-lhe o
-que era feito dos dous aventureiros; o cavalheiro disse-lhe que D.
-Antonio de Mariz recusára crer na accusação.
-
-De facto, o fidalgo leal, habituado ao respeito e á fidelidade de seus
-homens, não admittia que se concebesse uma suspeita sem provas;
-entretanto, como a palavra de Pery tinha para elle toda a valia, ficára
-de ouvir de sua bocca a narração do que presenciára, para conhecer o
-peso que devia dar a semelhante accusação.
-
-Pery retirou-se inquieto e arrependido de não ter persistido no seu
-primeiro projecto; emquanto estes dous homens que elle já suppunha
-expulsos estivessem ali, sabia que um perigo pairava sobre a casa.
-
-Assim resolveu não dormir; tomou o seu arco e sentou-se na porta de sua
-cabana; apezar de possuir a clavina que lhe dera D. Antonio, o arco era
-a arma favorita de Pery; não demandava tempo para carregar; não fazia
-o menor estrepito; lançava quasi instantaneamente dous, tres tiros: e
-sua flecha era tão terrivel e tão certeira como a bala.
-
-Passado muito tempo o indio ouvio cantar uma coruja do lado da escada;
-esse canto causou-lhe estranheza por duas razões: a primeira, porque
-era mais sonoro do que é o cacarejar daquella ave agoureira; a segunda,
-porque em vez de partir do cimo de uma arvore sahia do chão.
-
-Esta reflexão o fez levantar; desconfiou da coruja que tinha habitos
-differentes de suas companheiras; quiz conhecer a razão desta
-singularidade.
-
-Viu do outro lado da esplanada tres vultos que atravessavão
-ligeiramente; isto augmentou a sua desconfiança; os homens de vigia
-erão ordinariamente dous e não tres.
-
-Seguio-os de longe; mas quando chegou ao pateo, não viu senão um dos
-homens que entrava na alpendrada; os outros tinhão desapparecido.
-
-Pery procurou-os por toda parte e não os viu; estavão occultos pelo
-pilar que se elevava na ponta do rochedo, e não lhe era possivel
-descobri-los.
-
-Suppondo que tivessem tambem entrado no alpendre, o indio agachou-se e
-penetrou no interior; de repente a sua mão tocou uma lamina fria que
-conheceu immediatamente ser a folha de um punhal.
-
---És tu, Ruy? perguntou uma voz sumida.
-
-Pery emmudeceu; mas de chofre aquelle nome de Ruy lembrou-lhe Loredano e
-o seu projecto; percebeu que se tramava alguma cousa: e tomou um
-partido.
-
---Sim! respondeu com a voz quasi imperceptivel.
-
---Já é hora?
-
---Não.
-
---Todos dormem.
-
-Emquanto trocavão essas duas perguntas, a mão de Pery correndo pela
-lamina de aço tinha conhecido que outra mão segurava o cabo do punhal.
-
-O indio sahio do alpendre, e dirigio-se ao quarto de Ayres Gomes; a
-porta estava fechada, e junto della tinhão collocado um grande montão
-de palha.
-
-Tudo isto denunciava um plano prestes a realisar-se; Pery comprehendia,
-e tinha medo de já não ser tempo para destruir a obra dos inimigos.
-
-Que fazia aquelle homem deitado que fingia dormir, e que tinha o punhal
-desembainhado na mão como se estivesse prompto a ferir? Que significava
-aquella pergunta da hora e aquelle aviso de que todos dormião? Que
-queria dizer a palha encostada á porta do escudeiro?
-
-Não restava duvida; havia ali homens que esperavão um signal para
-matarem seus companheiros adormecidos, e deitarem fogo á casa; tudo
-estava perdido se o plano não fosse immediatamente destruido.
-
-Cumpria acordar os que dormião, preveni-los do perigo que corrião, ou
-ao menos prepara-los para se defenderem e escaparem de uma morte certa e
-inevitavel.
-
-O indio agarrou convulsamente a cabeça com as duas mãos como se
-quizesse arrancar á força de seu espirito agitado e em desordem um
-pensamento salvador. Seu largo peito dilatou-se; uma idéa feliz luzira
-de repente na confusão de tantos pensamentos encontrados que
-fermentavão no cerebro, e reanimára sua coragem e força.
-
-Era uma idéa original.
-
-Pery lembrára-se que o alpendre estava cheio de grandes talhas e vasos
-enormes contendo agua potavel, vinhos fermentados, licores selvagens de
-que os aventureiros fazião sempre uma ampla provisão.
-
-Correu de novo ao saguão, e encontrando a primeira talha tirou a
-torneira; o liquido começou a derramar-se pelo chão; ia passar á
-segunda quando a voz, que já lhe tinha fallado, soou de novo, baixa mas
-ameaçadora.
-
---Quem vai lá?...
-
-Pery comprehendeu que a sua idéa ia ficar sem effeito, e talvez não
-servisse senão de apresar o que elle queria evitar.
-
-Não hesitou pois; e quando o aventureiro que fallava erguia-se, sentio
-duas tenazes vivas que cahião sobre o seu pescoço e o estrangulavão
-como uma golilha de ferro, antes que podesse soltar um grito.
-
-O indio deitou o corpo hirto sobre o chão sem fazer o menor rumor, e
-consumou a sua obra; todas as talhas do alpendre esvasiavão-se a pouco
-e pouco e inundavão o chão.
-
-Dentro de um segundo a frialdade acordaria todos os homens adormecidos,
-e os obrigaria a sahir do alpendre; era o que Pery esperava.
-
-Livre do maior perigo, o indio rodeou a casa para ver se tudo estava em
-socego; e teve então occasião de notar que por todo o edificio tinhão
-Aposto feixes da palha para atear um incendio.
-
-Pery inutilisando estes preparativos, chegou ao canto da casa que ficava
-defronte de sua cabana; parecia procurar alguem. Ahi ouvio a
-respiração offegante de um homem cosido com a parede junto do jardim
-de Cecilia.
-
-O indio tirou a sua faca; a noite estava tão escura que era impossivel
-descobrir a menor sombra, o menor vulto entre as trevas.
-
-Mas elle conheceu Ruy Soeiro.
-
-Pery tinha o ouvido subtil e delicado, e o faro do selvagem que dispensa
-a vista; o som da respiração servia-lhe de alvo; escutou um momento,
-ergueu o braço, e a faca enterrando-se na bocca da victima cortou-lhe
-a garganta.
-
-Nem um gemido escapou da massa inerte que se estorceu um momento e
-quedou de encontro ao muro.
-
-Pery apanhou o arco que encostára á parede, e voltando-se para lançar
-um olhar sobre o quarto de Cecilia, estremeceu.
-
-Acabava de ver pela soleira da porta o reflexo vivo de uma luz; e logo
-depois sobre a folhagem do oleo um clarão que indicava estar a janella
-aberta.
-
-Ergueu os braços com um desespero e uma angustia inexprimivel; estava a
-dous passos de sua senhora e entretanto um muro e uma porta o separavão
-delia, que talvez áquella hora corria um perigo imminente.
-
-Que ia fazer? Precipitar-se de encontro a essa porta quebra-la,
-espedaça-la? Mas podia aquella luz não significar cousa alguma, e a
-janella ter sido aberta por Cecilia.
-
-Este ultimo pensamento tranquillisou-o, tanto mais quando nada revelava
-a existencia de um perigo, quando tudo estiva em socego no jardim e no
-quarto da menina.
-
-Lançou-se para a cabana, e segurando-se ás folhas da palmeira galgou o
-ramo do oleo, e aproximou-se para ver porque sua senhora estava acordada
-áquella hora.
-
-O espectaculo que se apresentou diante de seus olhos fez correr-lhe um
-calafrio pelo corpo; a gelosia aberta deixou-lhe ver a menina
-adormecida, e o italiano que tendo aberto a porta do jardim dirigia-se
-ao leito.
-
-Um grito de desespero e de agonia ia romper-lhe do seio; mas o indio
-mordendo os labios com força reprimio a voz, que se escapou apenas n'um
-som rouco e plangente. Então prendendo-se á arvore com as pernas, o
-indio estendeu-se ao longo do galho e esticou a corda do arco.
-
-O coração batia-lhe violentamente; e por um momento o seu braço
-tremeu só com a idéa de que a sua flecha tinha de passar perto de
-Cecilia.
-
-Quando porém a mão do italiano se adiantou e ia tocar o corpo da
-menina, não pensou, não viu mais nada senão esses dedos prestes a
-mancharem com o seu contacto o corpo de sua senhora, não se lembrou
-senão dessa horrivel profanação.
-
-A flecha partio rapida, prompta, e veloz como o seu pensamento; a mão
-do italiano estava pregada ao muro.
-
-Foi só então que Pery reflectio que teria sido mais acertado ferir
-essa mão na fonte da vida que a animava; fulminar o corpo a que
-pertencia esse braço: a segunda setta partio sobre a primeira, e o
-italiano teria deixado de existir se a dôr não o obrigára a
-curvar-se.
-
-
-
-
-VI
-
-REVOLTA
-
-
-Quando Pery acabou de reflectir sobre o que passara ergueu-se, abrio de
-novo a porta, fechou-a por dentro, e seguio pelo corredor que ia do
-quarto de Cecilia ao interior da casa.
-
-Estava tranquillo sobre o futuro; sabia que Bento Simões e Ruy Soeiro
-não o incommodarião mais, que o italiano não lhe podia escapar, e que
-áquella hora todos os aventureiros devião estar acordados; mas julgou
-prudente prevenir D. Antonio de Mariz do que occorria.
-
-A este tempo Loredano já tinha chegado á alpendrada, onde o esperava
-uma nova e terrivel sorpreza, uma ultima decepção.
-
-Lançando-se do quarto de Cecilia, sua intenção era ganhar o fundo da
-casa, pronunciar a senha convencionada, e senhor do campo voltar com
-seus complices, raptar a menina, e vingar-se de Pery.
-
-Mal sabia porém que o indio tinha destruido toda a sua machinação;
-chegando ao pateo viu o alpendre illuminado por fachos, e todos os
-aventureiros de pé cercando um objecto que não pôde distinguir.
-
-Aproximou-se e descobrio o corpo de seu complice Bento Simões, que
-jazia no chão alagado do pavimento: o aventureiro tinha os olhos
-saltados das orbitas, a lingua sahida da bocca, o pescoço cheio de
-contusões; todos os signaes emfim de uma estrangulação violenta.
-
-De livido que estava o italiano tornou-se verde; procurou com os olhos a
-Ruy Soeiro e não o viu; decididamente o castigo da Providencia cahia
-sobre as suas cabeças, conheceu que estava irremediavelmente perdido, e
-que só a audacia e o desespero o podião salvar.
-
-A extremidade em que se achava inspirou-lhe uma idéa digna delle: ia
-tirar partido para seus fins daquelle mesmo facto que parecia
-destrui-los; ia fazer do castigo uma arma de vingança.
-
-Os aventureiros espantados sem comprehenderem o que vião, olhavão-se e
-murmura vão em voz baixa fazendo supposições sobre a morte do seu
-companheiro. Uns despertados de sobresalto pela agua que corria das
-talhas, outros que não dormião apenas admirados, se havião erguido, e
-no meio de um côro de imprecações e blasphemias acendêrão fachos
-para ver a causa daquella inundação.
-
-Foi então que descobrirão o corpo de Bento Simões, e ficárão ainda
-mais surprendidos; os complices temendo que aquillo não fosse um
-começo de punição, os outros indignados pelo assassinato de seu
-companheiro.
-
-Loredano percebeu o que passava no espirito dos aventureiros:
-
---Não sabeis o que significa isto? disse elle.
-
---Oh! não! explicai-nos! exclamarão os aventureiros.
-
---Isto significa, continuou o italiano, que ha nesta casa uma vibora,
-uma serpente que nós alimentamos no nosso seio, e que nos morderá a
-todos com o seu dente envenenado.
-
---Como?... Que quereis dizer?... Fallai!...
-
---Olhai, disse o frade apontando para o cadaver e mostrando a sua mão
-ferida; eis a primeira victima, e a segunda que escapou por um milagre;
-a terceira... Quem sabe o que é feito de Ruy Soeiro?
-
---É verdade!... Onde está Ruy? disse Martim Vaz.
-
---Talvez morto tambem!
-
---Depois delle virá outro e outro até que sejamos exterminados um por
-um; até que todos os christãos tenhão sido sacrificados.
-
---Mas por quem?... Dizei o nome do vil assassino! É preciso um exemplo!
-O nome!...
-
---E não adivinhais? respondeu o italiano. Não adivinhais quem nesta
-casa póde desejar a morte dos brancos, e a destruição da nossa
-religião? Quem senão o herege, o gentio, o selvagem traidor e infame?
-
---Pery?... exclamarão os aventureiros.
-
---Sim, esse indio que conta assassinar-nos a todos para saciar a sua
-vingança!
-
---Não ha de ser assim como dizeis, eu vos juro, Loredano! exclamou
-Vasco Affonso.
-
---Bofé! gritou outro, deixai isto por minha conta. Não vos dê
-cuidado!
-
---E não passa desta noite. O corpo de Bento Simões pede justiça.
-
---E justiça será feita.
-
---Neste mesmo instante.
-
---Sim; agora mesmo. Eia! Segui-me.
-
-Loredano ouvia estas exclamações rapidas que denunciavão como a
-exacerbação ia lavrando com intensidade; quando porém os aventureiros
-quizerão lançar-se em procura do indio, elle os conteve com um gesto.
-
-Não lhe convinha isto; a morte de Pery era cousa accidental para elle;
-o seu fim principal era outro, e esperava consegui-lo facilmente.
-
---O que ides fazer? perguntou imperativamente aos seus companheiros.
-
-Os aventureiros ficárão pasmados com semelhante pergunta.
-
---Ides mata-lo?...
-
---Mas de certo!
-
---E não sabeis que não podereis fazê-lo? Que elle é protegido,
-amado, estimado por aquelles que pouco se importão se morremos ou
-vivemos?
-
---Seja embora protegido, quando é criminoso...
-
---Como vos illudis! Quem o julgará criminoso? Vós? Pois bem; outros o
-julgarão innocente e o defenderão; e não tereis remedio senão curvar
-a cabeça e calar-vos.
-
---Oh! isso é de mais!
-
---Julgais que somos alimarias que se podem matar impunemente! retrucou
-Martim Vaz.
-
---Sois peiores que alimarias; sois escravos!
-
---Por São Braz, tendes razão, Loredano.
-
---Vereis morrer vossos companheiros assassinados infamemente, e não
-podereis vinga-los; e sereis obrigados a tragar até as vossas queixas,
-porque o assassino é sagrado! Sim, não o podereis tocar, repita.
-
---Pois bem; eu vo-lo mostrarei!
-
---E eu! gritou toda a banda.
-
---Qual é vossa tenção? perguntou o italiano.
-
---A nossa tenção é pedirmos a D. Antonio de Mariz que nos entregue o
-assassino de Bento.
-
---Justo! E se elle recusar, estamos desligados do nosso juramento e
-faremos justiça pelas nossas mãos.
-
---Procedeis como homens de brio e pundonor: liguemo-nos todos e vereis
-que obteremos reparação; mas para isto é preciso firmeza e vontade.
-Não percamos tempo. Quem de vós se incumbe de ir como parlamentario a
-D. Antonio?
-
-Um aventureiro dos mais audazes e turbulentos da banda offereceu-se:
-chamava-se João Feio.
-
---Serei eu!
-
---Sabeis o que lhe deveis dizer?
-
---Oh! ficai descansado. Ouvirá boas!
-
---Ides já?
-
---Neste instante.
-
-Uma voz calma, sonora e de grave entonação, uma voz que fez estremecer
-todos os aventureiros, soou na entrada do alpendre:
-
---Não é preciso irdes, pois que vim. Aqui me tendes.
-
-D. Antonio de Mariz, calmo e impassivel, adiantou-se até o meio do
-grupo, e cruzando os braços sobre o peito, volveu lentamente pelos
-aventureiros o seu olhar severo.
-
-O fidalgo não tinha uma só arma; e entretanto o aspecto de sua
-physionomia veneravel, a firmeza de sua voz e a altivez de seu gesto
-nobre bastárão para fazer curvar a cabeça de todos esses homens que
-ameaçavão.
-
-Advertido por Pery dos acontecimentos que tinhão tido lugar naquelle
-noite, D. Antonio de Mariz ia sahir, quando apparecérão Alvaro e Ayres
-Gomes.
-
-O escudeiro, que depois de sua conversa com mestre Nunes tinha
-adormecido, fôra despertado de repente pelas imprecações e gritos que
-soltavão os aventureiros quando a agua começou a invadir as esteiras
-em que esta vão deitados.
-
-Admirado desse rumor extraordinario, Ayres bateu o fuzil, acendeu a
-vela, e dirigio-se para a porta para conhecer o que pertubava o seu
-somno: a porta, como sabemos, estava fechada e sem chave.
-
-O escudeiro esfregou os olhos para certificar-se do que via, e acordando
-Nunes, perguntou-lhe quem tomara aquella medida de precaução: seu
-amigo ignorava como elle.
-
-Nesse momento ouvia-se a voz do italiano que excitava os aventureiros á
-revolta; Ayres Gomes percebeu então do que se tratava.
-
-Agarrou mestre Nunes, encostou-o á parede como se fosse uma escada, e
-sem dizer palavra trepou do catre sobre os seus hombros, e levantando as
-telhas com a cabeça enfiou por entre as ripas dos caibros.
-
-Apenas ganhou o telhado, o escudeiro pensou no que devia fazer; e
-assentou que o verdadeiro era dar parte a Alvaro e ao fidalgo, a quem
-cabia tomar as providencias que o caso pedia.
-
-D. Antonio de Mariz sem se pertubar ouvio a narração do escudeiro,
-como tinha ouvido a do indio.
-
---Bem, meus amigos! sei o que me cumpre fazer. Nada de rumor; não
-perturbemos o socego da casa; estou certo que isto passará. Esperai-me
-aqui.
-
---Não posso deixar que vos arrisqueis só, disse Alvaro dando um passo
-para segui-lo.
-
---Ficai; vós e esses dous amigos dedicados velareis sobre minha mulher,
-Cecilia e Isabel. Nas circumstancias em que nos achamos, assim é
-preciso.
-
---Consenti ao menos que um de nós vos acompanhe?
-
---Não, basta a minha presença; emquanto que aqui todo o vosso valor e
-fidelidade não bastão para o thesouro que confio á vossa guarda.
-
-O fidalgo tomou o seu chapéo, e poucos momentos depois apparecia
-imprevistamente no meio dos aventureiros, que tremulos, cabisbaixos,
-corridos de vergonha, não ousavão proferir uma palavra.
-
---Aqui me tendes! repetio o cavalheiro. Dizei o que quereis de D.
-Antonio de Mariz, e dizei-o claro e breve. Se fôr de justiça, sereis
-satisfeitos; se fôr uma falta, tereis a punição que merecerdes.
-
-Nem um dos aventureiros ousou levantar os olhos; todos emmudecêrão.
-
---Calais-vos?... Passa-se então aqui alguma cousa que não vos atreveis
-a revelar? Acaso ver-me-hei obrigado a castigar severamente um primeiro
-exemplo de revolta e desobediencia? Fallai? Quero saber o nome dos
-culpados!
-
-O mesmo silencio respondeu ás palavras firmes e graves do velho
-fidalgo.
-
-Loredano hesitava desde o principio desta scena; não tinha a coragem
-necessaria para apresentar-se em face de D. Antonio; mas tambem sentia
-que se elle deixasse as cousas marcharem pela maneira por que ião,
-estava infallivelmente perdido.
-
-Adiantou-se:
-
---Não ha aqui culpados, Sr. D. Antonio de Mariz, disse o italiano
-animando-se progressivamente; ha homens que são tratados como cães;
-que são sacrificados a um capricho vosso, e que estão resolvidos a
-reivindicarem os seus fóros de homens e de christãos!
-
---Sim! gritárão os aventureiros reanimando-se. Queremos que se
-respeite a nossa vida!
-
---Não somos escravos!
-
---Obedecemos, mas não nos captivamos.
-
---Valemos mais que um herege!
-
---Temos arriscado a nossa existência para defender-vos!
-
-D. Antonio ouvio impassivel todas estas exclamações que ião subindo
-gradualmente ao tom da ameaça.
-
---Silencio, vilões! Esqueceis que D. Antonio de Mariz ainda tem
-bastante força para arrancar a lingua que o pretendesse insultar!
-Miseraveis, que lembrais o dever como um beneficio! Arriscastes a vossa
-vida para defender-me?... E qual era vossa obrigação, homens que
-vendeis o vosso braço e sangue ao que melhor paga. Sim'! Sois menos que
-escravos, menos que cães, menos que féras! Sois traidores infames e
-refeces!... Mereceis mais do que a morte; mereceis o desprezo.
-
-Os aventureiros, cuja raiva fermentava surdamente, não se contiverão
-mais; das palavras de ameaça passárão ao gesto.
-
---Amigos! gritou Loredano aproveitando habilmente o ensejo. Deixareis
-que vos insultem atrozmente, que vos cuspão o desprezo na cara? E por
-que motivo!...
-
---Não! Nunca! vociferarão os aventureiros furiosos.
-
-Desembainhando as adagas estreitarão o circulo ao redor de D. Antonio
-de Mariz; era uma confusão de gritos, injurias, ameaças, que corria
-por todas as boccas, emquanto os braços suspensos hesitavão ainda em
-lançar o golpe.
-
-D. Antonio de Mariz, sereno, magestoso, calmo, olhava todas essas
-physionomias decompostas com um sorriso de escarneo; e sempre altivo e
-sobranceiro, parecia sob os punhaes que o ameaçavão, não a victima
-que ia ser immolada, mas o senhor que mandava.
-
-
-
-
-VII
-
-OS SELVAGENS
-
-
-Os aventureiros com o punhal erguido ameaçavão; mas não se animavão
-a romper o estreito circulo que os separava de D. Antonio de Mariz.
-
-O respeito, essa força moral tão poderosa, dominava ainda a alma
-daquelles homens cegos pela cólera e pela exaltação; todos esperavão
-que o primeiro ferisse; e nem um tinha a coragem de ser o primeiro.
-
-Loredano conheceu que era necessario um exemplo; o desespero de sua
-posição, as paixões ardentes que tumultuavão em seu coração,
-derão-lhe o delirio que suppre o valor nas circumstancias extremas.
-
-O aventureiro apertou convulsivamente o cabo de sua faca, e fechando os
-olhos e dando um passo ás cegas, ergueu a mão para desfechar o golpe.
-
-O fidalgo com um gesto nobre afastou o seio do gibão, e descobrio o
-peito; nem um tremor imperceptivel agitou os musculos de seu rosto; sua
-fronte alta conservou a mesma serenidade; o seu olhar limpido e
-brilhante não se turvou.
-
-Tal era a influencia magnetica que exercia essa coragem nobre e altiva,
-que o braço do italiano tremeu, e a ponta do ferro tocando a vestia do
-fidalgo paralysou os dedos hirtos do assassino.
-
-D. Antonio sorrio com desdem; e abaixando a sua mão fechada sobre o
-alto da cabeça de Loredano, abateu-o a suas plantas como uma massa
-bruta e inerte: então erguendo a ponta do pé á fronte do italiano, o
-estendeu de costas sobre o pavimento.
-
-O baque do corpo no chão echoou no meio de um silencio profundo; todos
-os aventureiros, mudos e estaticos, parecião querer sumir-se pelo seio
-da terra.
-
---Abaixai as armas, miseraveis! O ferro que ha de ferir o peito de D.
-Antonio de Mariz não será manchado pela mão cobarde e traiçoeira de
-vis assassinos! Deus reserva uma morte justa e gloriosa áquelles que
-vivêrão uma vida honrada!
-
-Os aventureiros aturdidos embainhárão machinalmente os punhaes;
-aquella palavra sonora, calma e firme tinha um accento tão imperativo,
-uma tal força de vontade, que era impossivel resistir.
-
---O castigo que vos espera ha de ser rigoroso; não deveis contar com a
-clemencia nem com o perdão: quatro d'entre vós á sorte soffrerão a
-pena de homizio; os outros farão o officio dos executores da alta
-justiça. Bem vêdes que tanto a pena como o officio são dignos de
-vós!
-
-O fidalgo pronunciou estas palavras com um soberano desprezo, e encarou
-os aventureiros como para ver se d'entre elles partia alguma
-reclamação, algum murmurio de desobediencia; mas todos esses homens,
-ha pouco furiosos, estavão agora humildes, e cabisbaixos.
-
---Dentro de uma hora, continuou o cavalheiro apontando para o corpo de
-Loredano, este homem será justiçado á frente da banda; para elle não
-ha julgamento; eu o condemno como pai, como chefe, como um homem que
-mata o cão ingrato que o morde. É ignobil de mais para que o toque com
-as minhas armas; entrego-o ao baraço e ao cutelo.
-
-Com a mesma impassibilidade e o mesmo socego que conservava desde o
-momento em que apparecêra imprevistamente, o velho fidalgo atravessou
-por entre os aventureiros immoveis e respeitosos, e caminhou para a
-sahida.
-
-Ahi voltou-se; e levando a mão ao chapéo descobrio a sua bella cabeça
-encanecida, que destacava sobre o fundo negro da noite e no meio do
-clarão avermelhado das tochas com um vigor de colorido admiravel.
-
---Se algum de vós der o menor signal de desobediencia; se uma das
-minhas ordens não fôr cumprida prompta e fielmente; eu, D. Antonio de
-Mariz, vos juro por Deus e pela minha honra, que desta casa não sahirá
-um homem vivo. Sois trinta; mas a vossa vida, de todos vós, tenho-a na
-minha mão; basta-me um movimento para exterminar-vos, e livrar a terra
-de trinta assassinos.
-
-No momento em que o fidalgo ia retirar-se appareceu Alvaro pallido de
-emoção, mas brilhante de coragem e indignação.
-
---Quem se animou aqui a erguer a voz para D. Antonio de Mariz? exclamou
-o moço.
-
-O velho fidalgo sorrindo com orgulho pôz a mão no braço do
-cavalheiro.
-
---Não vos occupeis disto, Alvaro; sois bastante nobre para vingar uma
-affronta desta natureza, e eu bastante superior para não ser offendido
-por ella.
-
---Mas, senhor, cumpre que se dê um exemplo!
-
---O exemplo vai ser dado, e como cumpre. Aqui não ha senão culpados e
-executores da pena. O lugar não vos compete. Vinde!
-
-O moço não resistio, e acompanhou D. Antonio de Mariz, que se dirigio
-lentamente á sala, onde achou Ayres Gomes.
-
-Quanto a Pery, voltára ao jardim de Cecilia, decidido a defender sua
-senhora contra o mundo inteiro.
-
-O dia vinha rompendo.
-
-O fidalgo chamou Ayres Gomes e entrou com elle no seu gabinete de armas,
-onde tiverão uma longa conferencia de meia hora.
-
-O que ahi se passou ficou um segredo entre Deus e estes dous homens;
-apenas Alvaro notou, quando a porta do gabinete se abrio, que D. Antonio
-estava pensativo, e o escudeiro livido como um morto.
-
-Neste momento ouvio-se um pequeno rumor na entrada da sala; quatro
-aventureiros parados, immoveis, esperavão uma ordem do fidalgo para se
-aproximarem.
-
-D. Antonio fez-lhes um signal; e elles vierão ajoelhar-se a seus pés;
-as lagrimas rolavão por essas faces queimadas pelo sol; e a palavra
-tremia balbuciando nesses labios pallidos que ha instantes vomitavão
-ameaças:
-
---Que significa isto? perguntou o cavalheiro com severidade.
-
-Um dos aventureiros respondeu:
-
---Vimo-nos entregar em vossas mãos, preferimos appellar para o vosso
-coração do que recorrer ás armas para escaparmos á punição de
-nossa falta.
-
---E vossos companheiros? replicou o fidalgo.
-
---Deus lhes perdoe, senhor, a enormidade do crime que vão commetter.
-Depois que vos retirastes tudo mudou; preparão-se para atacar-vos!
-
---Que venhão, disse D. Antonio, eu os receberei. Mas vós porque não
-os acompanhais? Não sabeis que D. Antonio de Mariz perdoa uma falta,
-mas nunca uma desobediencia?
-
---Embora, disse o aventureiro que fallava em nome de seus camaradas;
-aceitaremos de bom grado o castigo que nos impozerdes. Mandai, que
-obedeceremos. Somos quatro contra vinte e tantos; dai-nos essa punição
-de morrer defendendo-vos, de reparar pela nossa morte um momento de
-hallucinação!... É a graça que vos pedimos!
-
-D. Antonio olhou admirado os homens que estavão ajoelhados a seus pés;
-e reconheceu nelles os restos dos seus antigos companheiros de armas no
-tempo em que o velho fidalgo combatia os inimigos de Portugal.
-
-Sentio-se commovido; sua alma grande, inabalavel no meio do perigo,
-orgulhosa em face da ameaça, deixava-se facilmente dominar pelos
-sentimentos nobres e generosos.
-
-Essa prova de fidelidade que davão aquelles quatro homens na occasião
-da revolta geral dos seus companheiros; a acção que acabavão de
-praticar, e o sacrificio com que desejavão expiar a sua falta,
-elevou-os no espirito do fidalgo.
-
---Erguei-vos. Reconheço-vos!... Já não seis os traidores que ha pouco
-reprehendi; sois os bravos companheiros que pelejastes a meu lado; o que
-fazeis agora esquece o que fizestes ha uma hora. Sim!... Mereceis que
-morramos juntos, combatendo ainda uma vez na mesma fileira. D. Antonio
-de Mariz vos perdoa. Podeis levantar a cabeça e trazê-la alta!
-
-Os aventureiros erguêrão-se radiantes do perdão que o nobre fidalgo
-tinha lançado sobre suas cabeças; todos elles estavão promptos a dar
-sua vida para salvarem o seu chefe.
-
-O que tinha occorrido depois da sahida de D. Antonio do alpendre, seria
-longo de descrever.
-
-Loredano tornando a si da vertigem que lhe causara o atordoamente e a
-violencia da queda, soube da ordem que havia a seu respeito. Não era
-preciso tanto para que o audaz aventureiro recorresse á sua eloquencia
-afim de excitar de novo a revolta.
-
-Pintou a posição de todos como desesperada, attribuio o seu castigo e
-as desgraças que ião succeder ao fanatismo que havia por Pery; esgotou
-emfim os recursos de sua intelligencia.
-
-D. Antonio não estava mais ahi para conter com a sua presença a colera
-que ia fermentando, a excitação que começava a lavrar, a principio
-surdamente, as queixas e os murmurios que a final fizerão côro.
-
-Um incidente veio atear a chamma que lastrava; Pery, apenas começou a
-romper o dia, via a alguma distancia do jardim o cadaver do Ruy Soeiro;
-e temendo que sua senhora acordando não presenciasse este triste
-espectaculo, tomou o corpo, e atravessando a esplanada, veio atira-lo no
-meio do pateo.
-
-Os aventureiros empallidecêrão, e ficárão estupefactos; depois
-rompeu a indignação feroz, raivosa, delirante; estavão como possessos
-de furor e vingança. Não houve mais hesitação; a revolta
-pronunciou-se; apenas o pequeno grupo de quatro homens que desde a
-sabida de D. Antonio se conservava em distancia, não tomou parte na
-insubordinação.
-
-Ao contrario quando virão que seus companheiros com Loredano á frente
-se preparavão para atacar o fidalgo, forão, como vimos, offerecer-se
-voluntariamente ao castigo, e reunir-se ao seu chefe para partilharem a
-sua sorte.
-
-Pouco tardou que João Feio não se apresentasse como parlamentario da
-parte dos revoltosos; o fidalgo não o deixou fallar.
-
---Dize a teus companheiros, rebelde, que D. Antonio de Mariz manda e
-não discute condições: que elles estão condemnados; e verão se sei
-ou não cumprir o meu juramento.
-
-O fidalgo tratou então de dispôr os seus meios de defeza; apenas podia
-contar com quatorze combatentes; elle, Alvaro, Pery, Ayres Gomes, mestre
-Nunes com os seus companheiros, e os quatro homens que se havião
-conservado fieis; os inimigos erão em numero de vinte e tantos.
-
-Toda a sua familia já então despertada recebeu a triste sorpreza de
-tantos acontecimentos passados durante aquella noite fatal: D. Lauriana,
-Cecilia e Isabel recolhêrão-se ao oratorio, e rezavão emquanto se
-preparava tudo para uma resistencia desesperada.
-
-Os aventureiros commandados por Loredano arregimentárão-se, e
-marchárão para a casa dispostos a dar um assalto terrivel; o seu furor
-redobrava tanto mais, quanto o remorso no fundo da consciencia começava
-a mostrar-lhes toda a hediondez de sua acção.
-
-No momento em que dobra vão o canto ouvio-se um som rouco que se
-prolongou pelo espaço, como o echo surdo de um trovão em distancia.
-
-Pery estremeceu, e lançando-se para a beira da esplanada estendeu os
-olhos pelo campo que costeava a floresta. Quasi ao mesmo tempo um dos
-aventureiros que estava ao lado de Loredano cahio traspassado por uma
-flecha.
-
---Os Aymorés!...
-
-Apenas soltou Pery esta exclamação, uma linha movediça, longo arco de
-côres vivas e brilhantes, agitou-se ao longe na planicie, irradiando á
-luz do sol nascente.
-
-Homens quasi nús, de estatura gigantesca e aspecto feroz, coberto de
-pelles de animaes e pennas amarellas e escarlates, armados de grossas
-clavas e arcos enormes, avançavão soltando gritos medonhos.
-
-A inubia retroava; o som dos instrumentos de guerra misturado com os
-brados e alaridos formavão um concerto horrivel, harmonia sinistra que
-revelava os instinctos dessa horda selvagem reduzida á brutalidade das
-féras.
-
---Os Aymorés!... repetirão os aventureiros empallidecendo.
-
-
-
-
-VIII
-
-DESANIMO
-
-
-Dous dias passárão depois da chegada dos Aymorés; a posição de D.
-Antonio de Mariz e de sua familia era desesperada.
-
-Os selvagens tinhão atacado a casa com uma força extraordinaria;
-diante delles a india terrivel de odio os excitava á vingança.
-
-As settas escurecendo o ar abatião-se como uma nuvem sobre a esplanada,
-e crivavão as portas e as paredes do edificio.
-
-Á vista do perigo imminente que corrião todos, os aventureiros
-revoltados retirárão-se e tratárão de defender-se do ataque dos
-selvagens.
-
-Houve como que um armisticio entre os rebeldes e o fidalgo; sem se
-reunirem, os aventureiros conhecerão que devião combater o inimigo
-commum, embora depois levassem ao cabo a sua revolta.
-
-D. Antonio de Mariz, encastellado na parte da casa que habitava, rodeado
-de sua familia e de seus amigos fieis, resolvêra defender até á
-ultima extremidade esses penhores confiados ao seu amor de esposo e de
-pai.
-
-Se a Providencia não permittisse que um milagre os viesse salvar,
-morrerião todos; mas elle contava ser o ultimo, afim de velar que mesmo
-sobre os seus despojos não atirassem um insulto.
-
-Era o seu dever de pai, e o seu dever de chefe, como o capitão que é o
-ultimo a abandonar o seu navio, elle seria o ultimo a abandonar a vida,
-depois de ter assegurado ás cinzas dos seus o respeito que se deve aos
-mortos.
-
-Bem mudada estava essa casa que vimos tão alegre e tão animada! Parte
-do edificio que tocava com o fundo onde habitavão os aventureiros tinha
-sido abandonada por prudencia; D. Antonio concentrara sua familia no
-interior da habitação para evitar algum accidente.
-
-Cecilia deixara o seu quartinho tão lindo e tão mimoso, e nelle
-estabelecêra Pery o seu quartel-general e o seu centro de operações;
-porque, é preciso dizer, o indio não partilhava o desanimo geral, e
-tinha uma confiança inabalavel nos seus recursos.
-
-Serião dez horas da noite: a lampada de prata suspensa no tecto da
-grande sala illuminava uma scena triste e silenciosa.
-
-Todas as janellas e portas estavão fechadas; de vez em quando ouvia-se
-o estrepito que fazia uma setta cravando-se na madeira, ou enfiando-se
-por entre as telhas.
-
-Nas duas extremidades da sala e na frente tinhão-se praticado no alto
-da parede algumas setteiras, junta das quaes os aventureiros fazião a
-noite uma sentinella constante, afim de prevenir uma sorpreza.
-
-D. Antonio de Mariz, sentado n'uma cadeira de espaldar, sob o docel,
-repousava um instante; o dia fôra rude; os indios tinhão investido por
-differentes vezes a escada de pedra da esplanada; e o fidalgo com o
-pequeno numero de combatentes de que dispunha e com o auxilio da
-colubrina conseguira repelli-los.
-
-A sua clavina carregada descansava de encontro ao espaldar da cadeira; e
-as suas pistolas estavão collocadas em cima de um bufete ao alcance do
-braço.
-
-Sua bella cabeça encanecida pendida ao seio resaltava sobre o velludo
-preto de seu gibão, coberto por uma rede finissima de malhas d'aço que
-lhe guarnecia o peito.
-
-Parecia adormecido, mas de vez em quando erguia os olhos e corria o
-vasto aposento, contemplando com uma melancolia extrema a scena que se
-desenhava no fundo meio esclarecido da sala.
-
-Depois voltava á mesma posição, e continuava suas dolorosas
-reflexões; o fidalgo conservava toda a firmeza e coragem, mas
-interiormente tinha perdido a esperança.
-
-Do lado opposto Cecilia recostada em um sofá parecia desfallecida; seu
-rosto perdera a habitual vivacidade: seu corpo ligeiro e gracioso,
-alquebrado por tantas emoções, prostrava-se com indolencia sobre uma
-colcha de damasco. A mãozinha cahia immovel como uma flôr a que
-tivessem quebrado a haste delicada; e os labios descorados agitavão-se
-ás vezes murmurando uma prece.
-
-De joelhos á beira do sofá, Pery não tirava os olhos de sua senhora;
-dir-se-hia que aquella respiração branda que fazia ondular os seios da
-menina, e que se exhalava de sua bocca entreaberta, era o sopro que
-alimentava a vida do indio.
-
-Desde o momento da revolta não deixou mais Cecilia; segui-a como uma
-sombra; sua dedicação, já tão admiravel, tinha tocado o sublime com
-a imminencia do perigo. Durante estes dous dias elle havia feito cousas
-incriveis, verdadeiras loucuras de heroismo e abnegação.
-
-Succedia que um selvagem aproximando-se da casa soltava um grito que
-vinha causar um ligeiro susto á menina?
-
-Pery lançava-se como um raio, e antes que tivessem tempo de contê-lo,
-passava entre uma nuvem de flechas, chegava á beira da esplanada, e com
-um tiro de sua clavina abatia o Aymoré que assustára sua senhora,
-antes que elle tivesse tempo de soltar um segundo grito.
-
-Cecilia, afflicta e doente, recusava tomar o alimento que sua mãi ou
-sua prima lhe trazião?
-
-Pery correndo mil perigos, arriscando-se a despedaçar-se nas pontas dos
-rochedos e a ser crivado pelas flechas dos selvagens, ganhava a
-floresta, e d'ahi a uma hora voltava trazendo um fructo delicado, um
-favo de mel envolto de flôres, uma caça exquisita, que sua senhora
-tocava com os labios para assim pagar ao menos tanto amor e tanta
-dedicação.
-
-As loucuras do indio chegárão a ponto que Cecilia foi obrigada a
-prohibir-lhe que sahisse de junto della, e a guarda-lo á vista com
-receio de que não se fizesse matar a todo o momento.
-
-Além da amizade que lhe tinha, um quer que seja, uma esperança vaga
-lhe dizia que na posição extrema em que se achavão, se alguma
-salvação podia haver para sua familia, seria á coragem, á
-intelligencia e á sublime abnegação de Pery que a deverião.
-
-Se elle morresse, quem velaria sobre ella com a solicitude e o ardente
-zelo que tinha ao mesmo tempo o carinho de uma mãi, a protecção de um
-pai, a meiguice de um irmão? Quem seria seu anjo da guarda para
-livra-la de um pezar, e ao mesmo tempo seu escravo para satisfazer o seu
-menor desejo?
-
-Não; Cecilia não podia de modo algum admittir nem a possibilidade de
-que seu amigo viesse a morrer; por isso mandou, pedio, e até
-supplicou-lhe que não sahisse de junto della; queria por sua vez ser
-para Pery o bom anjo de Deus, o seu genio protector.
-
-Do mesmo lado em que estava Cecilia, mais n'um outro canto da sala,
-via-se Isabel sentada de encontro á hombreira da janella; enfiava um
-olhar ardente, cheio de anciedade e de susto por uma pequena fresta, que
-ella entreabrira a furto.
-
-O raio de luz que filtrava por esta aberta da janella servia de mira aos
-indios, que fazião chover settas sobre settas naquella direcção: mas
-Isabel, alheia de si, nem se importava com o perigo que corria.
-
-Ella olhava Alvaro, que no alto da escada com a maior parte dos
-aventureiros fieis fazia a guarda nocturna; o moço passeava pela
-esplanada ao abrigo de uma ligeira palissada. Cada setta que passava por
-sua cabeça, cada movimento que fazia, causavão em Isabel uma
-afflicção immensa; sentia não poder estar junto delle para ampara-lo,
-e receber a morte que lhe fosse destinada.
-
-D. Lauriana, sentada em um dos degráos do oratorio, rezava: a boa
-senhora era uma das pessoas que mais coragem e mais calma mostravão no
-transe horrivel em que se achava a familia; animada pela sua fé
-religiosa e pelo sangue nobre que gyrava nas suas veias, ella se tinha
-conservado digna de seu marido.
-
-Fazia tudo quanto era possivel; pensava os feridos, encorajava as
-meninas, auxiliava os preparativos de defeza, e ainda em cima dirigia
-sua casa como se nada se passasse.
-
-Ayres Gomes encostado á porta do gabinete, com os braços cruzados, e
-immovel, dormia; o escudeiro guardava o posto que lhe fôra confiado
-pelo fidalgo. Desde a conferencia que os dous tinhão tido, Ayres se
-postára naquelle lugar, donde não sabia senão quando D. Antonio vinha
-sentar-se na cadeira que havia junto da porta.
-
-Dormia de pé; porém mal um passo, por mais subtil que fosse, soava no
-pavimento, acordava sobresaltado, com a pistola em punho, e a mão sobre
-o fecho da porta.
-
-D. Antonio de Mariz levantou-se, e passando á cinta as suas pistolas e
-tomando a sua clavina, dirigio-se ao sofá onde repousava sua filha, e
-beijou-a na fronte; fez o mesmo a Isabel, abraçou sua mulher e sahio. O
-fidalgo ia render a Alvaro, que fazia o seu quarto desde o anoitecer;
-poucos momentos depois de sua sahida, a porta abrio-se de novo, e o
-cavalheiro entrou.
-
-Alvaro trajava um gibão de lã forrado de escarlate; quando elle
-appareceu no vão da porta, Isabel soltou um grito fraco, e correu para
-elle.
-
---Estais ferido? perguntou a moça com anciedade, e tomando-lhe as
-mãos.
-
---Não; respondeu o moço admirado.
-
---Ah!... exclamou Isabel respirando.
-
-Tinha-se illudido; o rasgão que uma flecha fizera sobre o hombro
-mostrando o forro escarlate do gibão, tinha de repente lhe parecido uma
-ferida.
-
-Alvaro procurou desprender suas mãos das mãos de Isabel; mas a moça
-supplicando-o com o olhar, e arrastando-o docemente, levou-o até o
-lugar onde estava ha pouco, e obrigou o cavalleiro a sentar-se junto
-della.
-
-Muitos acontecimentos se tinhão passado entre elles nestes dous dias;
-ha circumstancias em que os sentimentos marchão com uma rapidez
-extraordinaria, e devorão mezes e annos n'um só minuto.
-
-Reunidos nesta sala pela necessidade extrema do perigo, vendo-se
-a cada momento, trocando ora uma palavra, ora um olhar, sentindo-se
-emfim perto um do outro, esses dous corações, se não se amavão,
-comprehendião-se ao menos.
-
-Alvaro fugia e evitava Isabel; tinha medo desse amor ardente que o
-envolvia n'um olhar, dessa paixão profunda e resignada que se curvava a
-seus pés sorrindo melancolicamente, sentia-se fraco para resistir, e
-entretanto o seu dever mandava que resistisse.
-
-Elle amava, ou cuidava amar ainda a Cecilia; promettêra a seu pai ser
-seu marido; e na situação em que se achavão, aquella promessa era
-mais do que um juramento, era uma necessidade imperiosa, uma fatalidade
-que se devia cumprir.
-
-Como podia elle pois alimentar uma esperança de Isabel? Não seria
-infame, indigno, aceitar o amor que ella lhe offerecêra supplicando?
-Não era seu dever destruir naquelle coração esse sentimento
-impossivel?
-
-Alvaro pensava assim, e evitava todas as occasiões de estar só com a
-moça, porque conhecia a impressão vehemente, a attracção poderosa
-que exercia essa belleza fascinadora quando a paixão, animando-a,
-cercava-a de um brilho deslumbrante.
-
-Dizia a si mesmo que não amava, que nunca amaria Isabel! entretanto
-sabia que se elle a visse outra vez como no momento em que lhe
-confessara seu amor, cahiria de joelhos a seus pés, e esqueceria o
-dever, a honra, tudo por ella.
-
-A luta era terrivel; mas a alma nobre do cavalheiro não cedia, e
-combatia heroicamente: podia ser vencida, mas depois de ter feito o que
-fosse possivel ao homem para conservar-se fiel á sua promessa.
-
-O que tornava a luta ainda mais violenta era que Isabel não o perseguia
-com o seu amor; depois daquella primeira hallucinação concentrava-se,
-e resignada amava sem esperança de nunca ser amada.
-
-
-
-
-IX
-
-ESPERANÇA
-
-
-Sentando-se junto da moça, Alvaro sentio a sua coragem vacillar.
-
---Que me quereis, Isabel? perguntou elle com a voz um pouco tremula.
-
-A menina não respondeu; estava embebida a contemplar o moço;
-saciava-se de olha-lo, de senti-lo junto de si, depois de ter soffrido a
-angustia de ver a morte roçando a sua cabeça, e ameaçando a sua vida.
-
-É preciso amar para comprehender essa voluptuosidade do olhar que se
-repousa sobre o objecto amado, que não se cansa de ver aquillo que
-está impresso na imaginação, mas que tem sempre um novo encanto.
-
---Deixai-me olhar-vos! respondeu Isabel supplicando. Quem sabe! Talvez
-seja pela ultima vez!
-
---Porque essas idéas tristes? disse Alvaro com brandura. A esperança
-ainda não está de todo perdida.
-
---Que importa?... exclamou a moça. Ainda ha pouco vos vi de longe que
-passeáveis sobre a esplanada, e a cada momento me parecia que uma setta
-vos tocava, vos feria e...
-
---Como!... Tivestes a imprudencia de abrir a janella?...
-
-O moço voltou-se, e estremeceu vendo a janella entreaberta, crivada da
-parte exterior pelas settas dos selvagens.
-
---Meu Deus!... exclamou elle, porque expondes assim a vossa vida,
-Isabel?...
-
---Que vale a minha vida, para que a conserve? disse a moça animando-se.
-Tem ella algum prazer, alguma ventura, que me prenda? De que serviria a
-existencia se não fosse para satisfazer um impulso de nossa alma? A
-minha felicidade é acompanhar-vos com os olhos e com o pensamento. Se
-esta felicidade me deve custar a vida, embora!...
-
---Não falleis assim, Isabel, que me partis a alma.
-
---E como quereis que falle? Mentir-vos é impossivel; depois daquelle
-dia, em que trahi o meu segredo, de escravo que elle era, tornou-se
-senhor, senhor despotico e absoluto. Sei que vos faço soffrer...
-
---Nunca disse semelhante cousa!
-
---Sois bastante generoso para dizê-lo, mas sentis. Eu conheço, eu leio
-nos vossos menores movimentos. Vós me estimais talvez como irmão, mas
-fugis de mim, e tendes receio que Cecilia pense que me amais; não é
-verdade?
-
---Não, exclamou Alvaro insensivelmente; tenho receio, tendo medo... mas
-é de amar-vos!
-
-Isabel sentio uma commoção tão violenta, ouvindo as palavras rapidas
-do moço, que ficou como extatica sem fazer um movimento; as
-palpitações fortes do seu coração a suffocavão.
-
-Alvaro não estava menos commovido; subjugado por aquelle amor ardente,
-impressionado pela abnegação da menina que expunha sua vida só para
-acompanha-lo de longe com um olhar e protegê-lo com a sua solicitude,
-tinha deixado escapar o segredo da luta que se passava em sua alma.
-
-Mas apenas pronunciara aquellas palavras imprudentes, conseguio
-dominar-se, e tornando-se frio e reservado, fallou a Isabel em um tom
-grave.
-
---Sabeis que amo Cecilia; mas ignorais que prometti a seu pai ser seu
-marido. Emquanto elle por sua livre vontade não me desligar de minha
-promessa, estou obrigado a cumpri-la. Quanto ao meu amor, este me
-pertence, e só a morte me pode desligar delle. No dia em que eu amasse
-outra mulher, que não ella, me condemnaria a mim mesmo como um homem
-desleal.
-
-O moço voltou-se para Isabel com um triste sorriso:
-
---E comprehendeis o que faz um homem desleal que tem ainda a
-consciencia precisa para se julgar a si?
-
-Os olhos da moça brilhárão com um fogo sinistro:
-
---Oh! comprehendo!... É o mesmo que faz a mulher que ama sem
-esperança, e cujo amor é um insulto ou um soffrimento para aquelle a
-quem ama!
-
---Isabel!... exclamou Alvaro estremecendo.
-
---Tendes razão! Só a morte póde desligar de um primeiro e santo amor
-aos corações como os nossos!
-
---Deixai-vos dessas idéas, Isabel! Crede-me; uma unica razão póde
-justificar semelhante loucura.
-
---Qual? perguntou Isabel.
-
---A deshonra.
-
---Ha ainda outra, respondeu a moça com exaltação; outra menos
-egoista, mas tão nobre como esta; a felicidade daquelles que se ama.
-
---Não vos comprehendo.
-
---Quando se sabe que se pôde ser uma causa de desgraça para aquelles
-que se estima, melhor é desatar o unico laço que nos prende á vida do
-que vê-lo despedaçar-se. Não dizieis que tendes medo de amar-me? Pois
-bem, agora sou eu que tenho medo de ser amada.
-
-Alvaro não soube o que responder: estava n'uma terrivel agitação:
-conhecia Isabel, e sabia que força tinhão aquellas palavras ardentes
-que soltavão os labios da moça.
-
---Isabel! disse elle tomando-lhe as mãos. Se me tendes alguma
-affeição, não me recuseis a graça que vou pedir-vos. Repelli esses
-pensamentos! Eu vos supplico!
-
-A moça sorrio-se melancolicamente:
-
---Vós me supplicais?... Me pedis que conserve esta vida que
-recusastes!... Não é ella vossa? Aceitai-a; e já não tereis que
-supplicar!
-
-O olhar ardente de Isabel fascinava; Alvaro não se pôde mais conter;
-ergueu-se; e reclinando-se ao ouvido da moça balbuciou:
-
---Aceito!...
-
-Emquanto Isabel, pallida de emoção e felicidade, duvidava ainda da voz
-que resoava no seu ouvido, o moço tinha sahido da sala.
-
-Durante que Alvaro e Isabel conversavão á meia voz, Pery continuava a
-contemplar sua senhora.
-
-O indio estava pensativo: e via-se que uma idéa o preoccupava, e
-absorvia toda a sua attenção.
-
-Por fim levantou-se, e lançando um ultimo olhar repassado de tristeza a
-Cecilia, encaminhou-se lentamente para a porta da sala.
-
-A menina fez um ligeiro movimento e levantou a cabeça:
-
---Pery!...
-
-Elle estremeceu, e voltando foi de novo ajoelhar-se junto do sofá.
-
---Tu me promette não deixar tua senhora! disse Cecilia com uma doce
-exprobação.
-
---Pery quer te salvar.
-
---Como?
-
---Tu saberás. Deixa Pery fazer o que tem no pensamento.
-
---Mas não correrás nem um perigo?
-
---Porque perguntas isto, senhora? disse o indio timidamente.
-
---Porque?... exclamou Cecilia levantando-se com vivacidade. Porque se
-para nos salvar é preciso que tu morras, eu rejeito o teu sacrificio,
-rejeito-o em meu nome e no de meu pai.
-
---Socega, senhora; Pery não teme o inimigo; sabe o modo de vencê-lo.
-
-A menina abanou a cabeça com ar incredulo.
-
---Elles são tantos!...
-
-O indio sorrio com orgulho.
-
---Sejão mil; Pery vencerá a todos; aos indios e aos brancos.
-
-Elle pronunciou estas palavras com a expressão de naturalidade e ao
-mesmo tempo de firmeza que dá a consciencia da força e do poder.
-
-Comtudo Cecilia não podia acreditar o que ouvia; parecia-lhe
-inconcebivel que um homem só, embora tivesse a dedicação e o heroismo
-do indio, podesse vencer não só os aventureiros revoltados, como os
-duzentos guerreiros Aymorés que assaltavão a casa.
-
-Mas ella não contava com os recursos immensos de que dispunha essa
-intelligencia vigorosa, que tinha ao seu serviço um braço forte, um
-corpo agil, e uma destreza admiravel; não sabia que o pensamento é a
-arma mais poderosa que Deus deo ao homem, e que com ella se abatem os
-inimigos, se quebra o ferro, se doma o fogo, e se vence por essa força
-irresistivel e providencial que manda ao espirito dominar a materia.
-
---Não te illudas; vais fazer um sacrificio inutil. Não é possivel que
-um homem só vença tantos inimigos ainda mesmo que este homem seja
-Pery.
-
---Tu verás! respondeu o indio com segurança.
-
---E quem te dará força para lutar contra um poder tão grande?...
-
---Quem?... Tu senhora, tu só, respondeu o indio fitando nella o seu
-olhar brilhante.
-
-Cecilia sorrio, como devem sorrir os anjos.
-
---Vai, disse ella, vai salvar-nos. Mas lembra-te que se tu morreres,
-Cecilia não aceitará a vida que lhe deres.
-
-Pery ergueu-se.
-
---O sol que se levantar amanhã será o ultimo para todos os teus
-inimigos; Ceci poderá sorrir como dantes, e ficar alegre e contente.
-
-A voz do indio tornou-se tremula; sentindo que não podia vencer a
-emoção atravessou rapidamente a sala e sahio.
-
-Chegando á esplanada Pery olhou as estrellas que começavão a
-apagar-se, e viu que o dia pouco tardaria a raiar: não tinha tempo a
-perder.
-
-Qual era o projecto que havia concebido, e que lhe dava uma certeza e
-uma convicção profunda a respeito do seu resultado? Que meio ousado
-tinha ella para contar com a destruição dos inimigos, e salvação de
-sua senhora?
-
-Fôra difficil adivinhar; Pery guardava no fundo do coração esse
-segredo impenetravel, e nem a si mesmo o dizia com receio de trahir-se,
-e de annullar o effeito, que esperava com uma confiança inabalavel.
-
-Tinha todos os inimigos na sua mão; e bastava-lhe um pouco de prudencia
-para fulmina-los a todos como a colera celeste, como o fogo de raio.
-
-Pery dirigio-se ao jardim e entrou no quarto de Cecilia, então
-abandonado por sua senhora, por causa da proximidade em que ficava do
-fundo da casa occupado pelos aventureiros revoltados.
-
-O quarto estava ás escuras: mas a tenue claridade que entrava pela
-janella bastava ao indio para distinguir os objectos perfeitamente; a
-perfeição dos sentidos é um dom que os selvagens possuem no mais alto
-gráo.
-
-Elle tomou suas armas uma a uma, beijou as pistolas que Cecilia lhe
-havia dado e deitou-as no chão no meio do aposento, tirou os seus
-ornatos de pennas, sua faxa de guerreiro, a pluma brilhante do seu cocar
-e lançou-os como um tropheo sobre as suas armas.
-
-Depois agarrou o seu grande arco de guerra, apertou-o ao seio e
-curvando-o de encontro ao joelho quebrou-o em duas metades, que forão
-juntar-se ás armas e aos ornatos.
-
-Por algum tempo Pery contemplou com um sentimento de dôr profunda esses
-despojos de sua vida selvagem; esses emblemas de sua dedicação sublime
-por Cecilia, e de seu heroismo admiravel.
-
-Em luta com essa emoção poderosa, insensivelmente murmurou na sua
-lingua algumas destas palavras que a alma manda aos labios nos momentos
-supremos:
-
---Arma de Pery, companheira e amiga, adeus! Teu senhor te abandona e te
-deixa: comtigo elle venceria; comtigo ninguem poderia vencê-lo. E elle
-quer ser vencido...
-
-O indio levou a mão ao coração:
-
---Sim!... Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu, forte entre os
-fortes, guerreiro goytacaz, nunca vencido, vai succumbir na guerra. A
-arma de Pery não pode ver seu senhor pedir a vida ao inimigo; o arco de
-Ararê, já quebrado, não salvará o filho.
-
-Sua cabeça altiva e sobranceira emquanto pronunciava estas palavras
-cahio-lhe sobre o seio; por fim venceu a sua emoção, e cingindo nos
-seus braços esse tropheo de suas armas e de suas insignias de guerra,
-estreitou-as ao peito em um ultimo abraço de despedida.
-
-Um aroma agreste das plantas que começavão a se abrir com a
-aproximação do dia, avisou-lhe que a noite estava a acabar.
-
-Quebrou a axorca de fructos que trazia na perna sobre a artelho, como
-todos os selvagens: este ornato era feito de pequenos cocos ligados por
-um fio, e tingidos de amarello.
-
-Pery tomou dous destes fructos, e partio-os com a faca, sem comtudo
-separar as cascas; fechando-os então na sua mão, levantou o braço
-como fazendo um desafio ou uma ameaça terrivel e lançou-se fora do
-aposento.
-
-
-
-
-X
-
-A BRECHA
-
-
-Quando Pery entrou no quarto de Cecilia, Loredano passeava do outro
-lado da esplanada, em frente do alpendre.
-
-O italiano reflectia sobre os acontecimentos que havião passado nos
-ultimos dias, sobre as vicissitudes que corrêra a sua vida e a sua
-fortuna.
-
-Por differentes vezes tinha posto o pé sobre o tumulo; tinha tocado a
-sua ultima hora; e a morte fugira delle, e o respeitára. Tambem por
-differentes vezes havia encarado a felicidade, o poder, a fortuna; e
-tudo se esvaecêra como um sonho.
-
-Quando á frente dos aventureiros revoltados ia atacar a D. Antonio de
-Mariz que não lhe podia resistir, os Aymorés tinhão apparecido de
-repente e mudado a face das cousas.
-
-A necessidade da defeza contra o inimigo commum trouxe uma suspensão de
-hostilidades; acima da ambição estava o instincto da vida e da
-conservação. A luta de interesses e de odios cedeu á grande luta das
-raças inimigas.
-
-Por isso no primeiro ataque dos selvagens, todos por um movimento
-espontaneo tratárão de repellir o inimigo, e de salvar a casa da
-ruina que a ameaçava. Depois separárão-se de novo, e sempre
-observando-se, sempre promptos a defenderem-se um do outro, os dous
-grupos continuárão a repellir os indios com a maior coragem.
-
-No meio disto porém Loredano, que se constituîra o chefe da revolta,
-não abandonava o seu projecto de apoderar-se de Cecilia, e vingar-se de
-D. Antonio de Mariz e de Alvaro.
-
-Seu espirito tenaz trabalhava incessantemente procurando o meio de
-chegar áquelle resultado; atacar abertamente o fidalgo era uma loucura
-que não podia commetter. A menor luta que houvesse entre elles,
-entregava-os todos aos selvagens, que excitados pela vingança e pelos
-seus instinctos sanguinarios e ferozes, atacavão o edificio sem repouso
-e sem descanso.
-
-A unica barreira que continha os Aymorés era a posição inexpugnavel
-da casa, assentada sobre um rochedo, apenas accessivel por um ponto,
-pela escada de pedra que descrevêmos no primeiro capitulo desta
-historia.
-
-Esta escada era defendida por D. Antonio de Mariz e pelos seus homens; a
-ponte de madeira tinha sido destruida; mas apezar disto os selvagens a
-substituirião facilmente se não fosse a resistencia desesperada que o
-fidalgo oppunha aos seus ataques.
-
-Desde o momento pois que, impellido pelo seu amor, D. Antonio corresse
-em defeza de sua familia, e abandonasse a escada, os duzentos guerreiros
-Aymorés se precipitarião sobre a casa, e não havia coragem que lhes
-podesse resistir.
-
-O italiano, que comprehendia isto, estava bem longe de tentar o menor
-ataque a peito descoberto; a prudencia o aconselhava então como o tinha
-aconselhado no dia do primeiro assalto.
-
-O que elle procurava era um meio de, sem estrepito, sem luta,
-imprevistamente, fazer morrer D. Antonio de Mariz, Pery, Alvaro, e Ayres
-Gomes; feito isto os outros se reunirião a elle pela necessidade da
-defeza, e pelo instincto da conservação.
-
-Tornar-se-hia então senhor da casa; ou repellia os indios, salvava
-Cecilia, se realisava todos os seus sonhos de amor e de felicidade; ou
-morria tendo ao menos esgotado até ao meio a taça do prazer que seus
-labios nem sequer havião tocado.
-
-Era impossivel que esse espirito satanico, fixando-se em uma idéa
-durante tres dias, não tivesse conseguido achar um meio para a
-consummação desse novo crime que planejara.
-
-Não só o tinha achado, mas já havia começado a pô-lo em pratica;
-tudo o protegia, até mesmo o inimigo que o deixava em repouso, atacando
-unicamente o lado da casa protegido por D. Antonio de Mariz.
-
-Passeava pois embalando-se de novo nas suas esperanças, quando Martim
-Vaz, sahindo do alpendre, chegou-se a elle.
-
---Uma com que não contávamos!... disse o aventureiro.
-
---O que? perguntou o italiano com vivacidade.
-
---Uma porta fechada.
-
---Abre-se!
-
---Não com essa facilidade.
-
---Veremos.
-
---Está pregada por dentro.
-
---Terão presentido?...
-
---Foi a idéa que já tive.
-
-Loredano fez um gesto de desespero.
-
---Vem!
-
-Os dous encaminhárão-se para o alpendre, onde dormião os aventureiros
-armados, promptos ao menor signal de ataque.
-
-O italiano acordou João Feio, e por precaução mandou-o fazer a guarda
-na esplanada, apezar de não haver receio que os selvagens atacassem do
-seu lado.
-
-O aventureiro, ainda tonto do somno, ergueu-se e sahio.
-
-Loredano e seu companheiro caminhárão para uma sala interior que
-servia de cozinha e despensa a esta parte da casa. Quando ião entrar, a
-luz que o aventureiro levava na mão para esclarecer o caminho,
-apagou-se de repente.
-
---Sois um desasado! disse Loredano contrariado.
-
---E tenho eu culpa! Quexai-vos do vento.
-
---Bom! não gasteis o tempo em palavras! Tirai fogo!
-
-O aventureiro voltou a procurar o seu fuzil.
-
-Loredano ficou em pé na porta á espera que o seu companheiro voltasse;
-e pareceu-lhe ouvir perto delle a respiração de um homem. Applicou o
-ouvido para certificar-se; e por segurança tirou o seu punhal e
-collocou-se no centro da porta, para impedir a sahida de quem quer que
-fosse.
-
-Não ouvio mais nada; porém sentio de repente um corpo frio e gelado
-que tocou-lhe a fronte; o italiano recuou, e brandindo a sua faca deu um
-golpe ás escuras.
-
-Pareceu-lhe que tinha tocado alguma cousa; entretanto tudo conservou-se
-no mais profundo silencio.
-
-O aventureiro voltou trazendo a luz.
-
---É singular, disse elle; o vento póde apagar uma candeia, mas não
-lhe tira o pavio.
-
---O vento, dizeis. Acaso o vento tem sangue?
-
---Que quereis dizer?
-
---Que o vento que apagou a vela é o mesmo que deixou o seu signal neste
-ferro.
-
-E Loredano mostrou ao aventureiro a sua faca, cuja ponta estava tinta de
-sangue ainda liquido.
-
---Ha aqui então um inimigo?...
-
---De certo; os amigos não precisão occultar-se.
-
-Nisto ouvirão um rumor no telhado, e um morcego passou agitando
-lentamente as grandes azas: estava ferido.
-
---Eis o inimigo!... exclamou Martim rindo-se.
-
---É verdade, respondeu Loredano no mesmo tom; confesso que já tive
-medo de um morcego.
-
-Tranquillos a respeito do incidente que os havia demorado, os dous
-entrárão na cozinha, e d'ahi por uma brecha estreita praticada na
-parede penetrárão no interior da casa ha pouco habitada por D. Antonio
-de Mariz e sua familia.
-
-Atravessárão parte do edificio e chegárão a uma varanda que tocava
-de um lado com o quarto de Cecilia e do outro com o oratorio e o
-gabinete d'armas do fidalgo.
-
-Ahi o aventureiro parou; e mostrando a Loredano a porta adufada de
-jacarandá, que dava entrada para o gabinete, disse-lhe:
-
---Não é com duas razões que a deitaremos dentro!
-
-Loredano aproximou-se e reconheceu que a solidez e fortaleza da porta
-não lhe permittia a menor violencia: todo o seu plano estava
-destruido.
-
-Contava durante a noite se introduzir furtivamente na sala, e assassinar
-a D. Antonio de Mariz, Ayres Gomes e Alvaro antes que elles podessem ser
-soccorridos por seus companheiros; consummado o crime, estava senhor da
-casa.
-
-Como remover o obstaculo que lhe apparecia? A menor violencia contra a
-porta despertaria a attenção de D. Antonio de Mariz, e inutilisaria
-todo o seu projecto.
-
-Emquanto reflectia nisto, os seus olhos cahirão sobre uma estreita
-fresta que havia no alto da parede do oratorio, e que servia mais para
-dar ar do que luz.
-
-Por esta abertura o italiano conheceu que aquella parte da parede era
-singela, e feita de um só tijolo; com effeito o oratorio tinha sido
-outr'ora um corredor largo que ia da varanda á sala, e que fôra
-separado por uma ligeira divisão.
-
-Loredano medio a parede de alto a baixo, e acenou ao seu companheiro.
-
---É por aqui que havemos de entrar, disse elle apontando para a parede.
-
---Como? A menos de não ser um mosquito para passar por aquella fresta!
-
---Esta parede assenta sobre uma viga; tirada ella, está aberto o
-caminho!
-
---Entendo.
-
---Antes que possão tornar a si do susto, teremos acabado.
-
-O aventureiro quebrou com a ponta da faca o reboco da parede, e
-descobrio a viga que lhe servia de alicerce.
-
---Então?
-
---Não ha duvida. Daqui a duas horas dou-vos isto prompto.
-
-Martim Vaz, depois da morte de Ruy Soeiro e Bento Simões, tinha-se
-tornado o braço direito de Loredano, era o unico a quem o italiano
-confiára o seu segredo, occulto para os outros em quem receava ainda a
-influencia de D. Antonio de Mariz.
-
-O italiano deixou o aventureiro no seu trabalho, e voltou pelo mesmo
-caminho; chegando á cozinha, sentio-se suffocado por uma fumaça
-espessa que enchia todo o alpendre. Os aventureiros acordados de repente
-blasphemavão contra o autor de semelhante lembrança.
-
-Quando Loredano no meio delles procurava indagar a causa do que
-succedia, João Feio appareceu na entrada do alpendre.
-
-Havia na sua physionomia uma expressão terrivel de colera e ao mesmo
-tempo de espanto; de um salto aproximou-se do italiano, e chegando-lhe a
-bocca ao ouvido, disse:
-
---Renegado e sacrilego, dou-te uma hora para ires entregar-te a
-D. Antonio de Mariz, e obter delle o nosso perdão, e o teu castigo. Se o
-não fizeres dentro desse tempo, é comigo que te has de avir.
-
-O italiano fez um movimento de raiva; mas conteve-se:
-
---Amigo, o sereno transtornou-vos o juizo; ide deitar-vos. Boa noite, ou
-antes bom dia.
-
-A alvorada despontava no horizonte.
-
-
-
-
-XI
-
-O FRADE
-
-
-Sahindo do quarto de Cecilia, Pery tomára pelo corredor que communicava
-com o interior do edificio.
-
-O indio, á cuja perspicacia nada escapava do que se passava no interior
-da casa, por mais insignificante que fosse, havia percebido o plano de
-Loredano desde a primeira pancada dada para a abertura da brecha.
-
-Na vespera o som do ferro na parede tinha ido despertar a sua attenção
-na sala onde elle repousava um momento, deitado aos pés do leito de sua
-senhora; seu ouvido fino e delicado auscultára o seio da terra.
-Levantou-se de salto, e atravessando todo o edificio chegou, guiado
-pelas pancadas, ao lugar onde Loredano e o aventureiro começavão a
-abrir uma fenda no muro.
-
-Em vez de atemorisar-se com esta nova audacia do italiano, o indio
-sorrio-se; a brecha que praticava seria a sua perdição, porque ia dar
-facil passagem a elle Pery.
-
-Contentou-se pois em examinar todas as portas que communicavão com a
-sala e prega-las por dentro; seria um novo obstaculo que demoraria os
-aventureiros, e lhe daria tempo de sobra para extermina-los.
-
-Foi por isso que do quarto de Cecilia, cuja porta fechou sobre si,
-caminhou direito á brecha e por ella penetrou na despensa dos
-aventureiros.
-
-Era uma sala bastante espaçosa, onde havia uma mesa, algumas talhas e
-uma grande quartola de vinho; o indio mesmo ás escuras chegou-se a cada
-um desses vasos; e por alguns instantes ouvio-se o fraco vascolejar do
-liquido que elles continhão.
-
-Então Pery viu uma luz que se aproximava; era Loredano e o seu
-companheiro.
-
-A vista do italiano lhe gelou o sangue no coração. Tal odio votava a
-esse homem abjecto e vil, que teve medo de si, medo de o matar. Isso
-fôra agora uma imprudencia; pois inutilisaria todo o seu plano.
-
-Muita vez depois da noite em que Loredano penetrára na alcova de
-Cecilia, Pery tivera impetos de ir vingar a injuria feita á sua senhora
-no sangue do italiano, para quem pensava que uma morte não era bastante
-punição.
-
-Mas lembrava-se que não se pertencia; que precisava da vida para
-consummar sua obra salvando Cecilia de tantos inimigos que a cercavão.
-E recalcava a vingança no fundo do coração.
-
-Fez o mesmo então: cosido com a parede conseguio apagar a vela. Ia
-sahir, quando sentira que o italiano tomava a porta.
-
-Hesitou.
-
-Podia lançar-se sobre Loredano e subjuga-lo; mas isto produziria uma
-luta, e denunciaria a sua presença; era preciso que fugisse sem que
-restasse um só vestigio de sua passagem: a mais leve suspeita faria
-abortar o seu plano.
-
-Teve uma idéa feliz, ergueu a mão molhada e tocou o rosto do italiano;
-emquanto este recuava para atirar a punhalada ás escuras, o indio
-resvalou entre elle e a porta.
-
-A faca de Loredano tinha-lhe ferido o braço esquerdo; não soltou
-porém nem um gemido, não fez um movimento que o trahisse; ganhou o
-fundo do alpendre antes que o aventureiro voltasse com a luz.
-
-Mas Pery não estava contente; o seu sangue ia denuncia-lo; não lhe
-convinha de modo algum que o italiano suspeitasse que elle ali tinha
-estado.
-
-Os morcegos que esvoaçavão espantados pelo tecto do alpendre
-lembrárão-lhe um excellente expediente; agarrou o primeiro que lhe
-passou ao alçance do braço, e abrindo-lhe uma cesura com a faca,
-soltou-o.
-
-Elle sabia que o vampiro procuraria a luz, e iria esvoaçar em torno dos
-dous aventureiros; contava que as gotas de sangue que cahião de sua aza
-ferida os enganaria; a realidade correspondeu ás suas previsões.
-
-Apenas Loredano desappareceu, Pery continuou a execução do seu plano;
-chegou-se a um canto do alpendre onde havia um resto de fogo encoberto
-pela cinza, e atirou sobre elle alguma roupa dos aventureiros que ahi
-estava a enxugar.
-
-Este incidente, por insignificante que pareça, entrava nos planos de
-Pery; a roupa queimando-se devia encher a casa de fumaça, acordar os
-aventureiros e excitar-lhes a sêde. Era justamente o que desejava o
-indio.
-
-Satisfeito do resultado que obtivera, Pery atravessou a esplanada: ahi
-porém foi obrigado a recuar, surprehendido do que via.
-
-Um homem do lado de D. Antonio de Mariz e um aventureiro revoltado
-conversavão através da estacada que dividia esses dous campos
-inimigos; havia realmente motivo para que o indio se admirasse.
-
-Não só isso era contra a ordem expressa de D. Antonio de Mariz, que
-prohibira qualquer relação entre seus homens e os revoltados, como
-contrariava o plano de Loredano, que temia ainda o respeito e o habito
-de obediencia que os aventureiros tinhão para com o fidalgo.
-
-O que se tinha passado antes explicava esse acontecimento
-extraordinario.
-
-O aventureiro a quem Loredano mandára rondar a esplanada, emquanto elle
-entrava, tinha começado o seu gyro de uma ponta á outra do pateo.
-
-Sempre que chegava junto da estacada, notava que do outro lado um homem
-se aproximava como elle, voltava, e se alongava pela beira da esplanada;
-adivinhou facilmente que era tambem uma sentinella.
-
-João Feio era um franco o jovial companheiro, e não podia supportar o
-tedio de um passeio alta noite, no meio de um somno interrompido, sem
-uma pinga para beber, sem um camarada para conversar, sem uma
-distracção emfim.
-
-Para maior desprazer, uma das vezes que se aproximava da estacada,
-sentio uma baforada de tabaco, e viu que o seu companheiro de guarda
-fumava.
-
-Levou a mão ao bolso das bragas, e achou algumas folhas de fumo, mas
-não trazia o seu caximbo; ficou desesperado, e decidio dirigir-se ao
-outro.
-
---Olá, amigo! Tambem fazeis a vossa guarda?
-
-O homem voltou-se, e continuou o seu caminho sem dar resposta.
-
-No segundo gyro o aventureiro atirou segunda isca.
-
---Felizmente o dia não tarda a raiar; não vos parece?
-
-O mesmo silencio que a primeira vez: o aventureiro comtudo não
-desanimou, e na terceira volta retrucou:
-
---Somos inimigos, camarada; mas isto não impede a um homem cortez de
-responder quando outro lhe falla.
-
-Desta vez o silencioso sentinella voltou-se de todo:
-
---Antes da cortezia está a nossa santa religião, que manda a todo
-christão não fallar a um herege, a um reprobo, a um phariseo.
-
---Que é lá isto? Fallais serio, ou quereis fazer-me enraivar por
-nonadas?
-
---Fallo-vos serio, como se estivesse diante do nosso Santo Redemptor
-confessando as minhas culpas.
-
---Pois então, digo-vos que mentis! Porque tão bom podeis ser, porém
-melhor crente que eu não o é outrem.
-
---Tendes a lingua um pouco longa, amigo. Mas Belzebuth vos fará as
-contas, que não eu: perderia minha alma se tocasse o corpo de
-endemoniados!
-
---Por S. João Baptista, meu patrão, não me façais saltar esta
-estacada para perguntar-vos a razão por que tratais em ar de mofa a
-devoção dos mais. Chamai-nos rebeldes, mas hereges não.
-
---E como quereis então que chame os companheiros de um frade sacrilego,
-maldito, que abjurou dos seus votos, e atirou o seu habito ás ortigas?
-
---Um frade! Dissestes vós?
-
---Sim, um frade. Não o sabeis?
-
---O que? De que frade fallais vós?
-
---Do italiano, bofé!
-
---Elle!...
-
-O homem, que não era outro senão o nosso antigo conhecido mestre
-Nunes, contou então, exagerando com o fervor de seus sentimentos
-religiosos, aquillo que sabia da historia de Loredano.
-
-O aventureiro horrorisado, tremendo de raiva, não deixou mestre Nunes
-acabar a sua historia e lançou-se para o alpendre, onde viu-se a
-ameaça que fez ao italiano.
-
-Quando elles se separárão, Pery saltou por cima da estacada, e
-dirigio-se para o quarto que ha pouco tinha deixado.
-
-O dia vinha então rompendo; os primeiros raios do sol illuminavão já
-o campo dos Aymorés, assentado sobre a varzea á margem do rio. Os
-selvagens irritados olhavão de longe a casa, fazendo gestos de raiva
-por não poderem vencer a barreira de pedra que defendia o inimigo.
-
-Pery olhou um momento aquelles homens de estatura gigantesca, de aspecto
-horrivel, aquelles duzentos guerreiros de força prodigiosa, ferozes
-como tigres.
-
-O indio murmurou:
-
---Hoje cahirão todos como a arvore da floresta, para não se erguerem
-mais.
-
-Sentou-se no vão da janella, e encostando a cabeça sobre a curva do
-braço, começou a reflectir.
-
-A obra gigantesca que emprehendêra, obra que parecia exceder todo o
-poder do homem, estava prestes a realisar-se: já tinha levado ao cabo
-metade della, faltava a conclusão, a parte a mais difficil e a mais
-delicada.
-
-Antes de lançar-se, Pery queria prever tudo; fixar bem no seu espirito
-as menores circumstancias; traçar a sua linha invariavel, afim de
-marchar firme, direito, infallivel ao alvo a que visada; afim de que a
-menor hesitação não pozesse em risco o effeito do seu plano.
-
-Seu espirito percorreu em alguns segundos um mundo de pensamentos;
-guiado pelo seu instincto maravilhoso e pelo seu nobre coração,
-formulou n'um rapido instante um grande e terrivel drama, do qual devia
-ser o heróe; drama sublime de heroismo e dedicação, que para elle era
-apenas o cumprimento de um dever e a satisfação de um desejo.
-
-As almas grandes têm esse privilegio; suas acções, que nos outros
-inspirão a admiração, se anihilão em face dessa nobreza innata do
-coração superior, para o qual tudo é natural e possivel.
-
-Quando Pery ergueu a cabeça estava radiante de felicidade e orgulho;
-felicidade por salvar sua senhora; orgulho pela consciencia de que elle
-só bastava para fazer o que cincoenta homens não farião; o que o
-proprio pai, o amante, não conseguirão nunca.
-
-Não duvidava mais do resultado: via nos acontecimentos futuros como no
-espaço que se estendia diante delle, e no qual nem um objecto escapava
-ao seu olhar limpido; tanto quanto é possível ao homem, elle tinha a
-certeza e a convicção de que Cecilia estava salva.
-
-Cobrio o peito e as costas com uma pelle de cobra que ligou
-estreitamente ao corpo; vestio por cima o seu saiote de algodão;
-experimentou os musculos dos braços e das pernas; e sentindo-se forte,
-agil e flexivel, sahio inerme.
-
-
-
-
-XII
-
-DESOBEDIENCIA
-
-
-Alvaro, recostado da parte de fora a uma das janellas da casa, pensava
-em Isabel.
-
-Sua alma lutava ainda, mas já sem força, contra o amor ardente e
-profundo que o dominava; procurava illudir-se, mas a sua razão não o
-permittia.
-
-Conhecia que amava Isabel, e que a amava como nunca tinha amado Cecilia;
-a affeição calma e serena de outr'ora fôra substituida pela paixão
-abrasadora.
-
-Seu nobre coração revoltava-se contra essa verdade; mas a vontade era
-impotente contra o amor; não podia mais arranca-lo do seu seio; não o
-desejava mesmo.
-
-Alvaro soffria; o que dissera na vespera a Isabel era realmente o que
-sentia; não se exagerára; no dia em que deixasse de amar Cecilia e
-fosse infiel á promessa feita a D. Antonio, se condemnaria como um
-homem sem honra e sem lealdade.
-
-Consolava-o a idéa de que a situação em que se achavão não podia
-durar muito; pouco tardava que exhaustos, enfraquecidos, succumbissem á
-força dos inimigos que os atacavão.
-
-Então nos momentos extremos, á bordado tumulo, quando a morte o
-tivesse já desligado da terra, poderia com o ultimo suspiro balbuciar a
-primeira palavra do seu amor! poderia confessar a Isabel que a amava.
-
-Até então lutaria.
-
-Nisto Pery chegou-se e tocou-lhe no hombro:
-
---Pery parte.
-
---Para onde?
-
---Para longe.
-
---Que vais fazer?
-
-O indio hesitou:
-
---Procurar soccorro.
-
-Alvaro sorrio-se com incredulidade.
-
---Tu duvidas?
-
---De ti não; mas do soccorro.
-
---Escuta; se Pery não voltar, tu farás enterrar as suas armas.
-
---Podes ir tranquillo? eu te prometto.
-
---Outra cousa.
-
---O que é?
-
-O indio hesitou de novo:
-
---Se tu vires a cabeça de Pery desligada do corpo, enterra-a com as
-suas armas.
-
---Porque este pedido? A que vem semelhante lembrança?
-
---Pery vai passar pelo meio dos selvagens, e pode morrer. Tu és
-guerreiro; e sabes que a vida é como a palmeira: murcha quando tudo
-reverdece.
-
---Tens razão. Farei tudo quanto pedes; mas espero ver-te ainda.
-
-O indio sorrio.
-
---Ama a senhora, disse elle estendendo a mão ao moço.
-
-O seu adeus era uma ultima prece pela felicidade de Cecilia.
-
-Pery entrou na sala onde se achava reunida a familia.
-
-Todos dormião; só D. Antonio de Mariz velava sempre, apezar da
-velhice; sua vontade poderosa cobrava novas forças, e reanimava o corpo
-gasto pelos annos. Não lhe restava senão uma esperança; a de morrer
-rodeado dos entes que amava, cercado de sua familia, como um fidalgo
-portuguez devia morrer; com honra e coragem.
-
-O indio atravessou a sala, e collocando-se junto do sofa em que Cecilia
-adormecida repousava, contemplou-a um instante com um sentimento de
-profunda melancolia.
-
-Dir-se-hia que nesse olhar ardente fazia uma ultima e solemne despedida;
-que partindo-se, o escravo fiel e dedicado queria deixar a sua alma
-enleiada naquella imagem, que representava a sua divindade na terra.
-
-Que sublime linguagem não fallavão aquelles olhos intelligentes,
-animados por um brilhante reflexo de amor e de fidelidade? Que epopéa
-de sentimento e de abnegação não havia naquella muda e respeitosa
-contemplação?
-
-Por fim Pery fez um esforço supremo, e a custo conseguio quebrar o
-encanto que o prendia, e o conservava immovel, como uma estatua, diante
-da linda menina adormecida. Reclinou sobre o sofá, e beijou
-respeitosamente a fimbria do vestido de Cecilia; quando ergueu-se, uma
-lagrima triste e silenciosa que deslisava pela sua face cahio sobre a
-mão da menina.
-
-Cecilia, sentindo aquella gota ardente, entreabrio os olhos; mas Pery
-não viu este movimento, porque já se tinha voltado e aproximava-se de
-D. Antonio de Mariz.
-
-O fidalgo, sentado na sua poltrona, recebeu-o com um sorriso pungente:
-
---Tu soffres? perguntou o indio.
-
---Por elles, por ella especialmente, por minha Cecilia.
-
---Por ti não? disse Pery com intenção.
-
-— Por mim? Daria a minha vida para salva-la: e morreria feliz!
-
---Ainda que ella te pedisse que vivesse?
-
---Embora me supplicasse de joelhos.
-
-O indio sentio-se alliviado como de um remorso.
-
---Pery te pede uma cousa?
-
---Falla!
-
---Pery quer beijar a tua mão.
-
-D. Antonio de Mariz tirou o seu guante, e sem comprehender a razão do
-pedido do indio, estendeu-lhe a mão.
-
---Tu dirás a Cecilia que Pery partio; que foi longe; não deves
-contar-lhe a verdade: ella soffrerá. Adeus; Pery sente te deixar; mas
-é preciso.
-
-Emquanto o indio proferia estas palavras em voz baixa e inclinado ao
-ouvido do fidalgo, este surprehendido procurava ligar-lhes um sentido
-que lhe parecia vago e confuso:
-
---Que pretendes tu fazer Pery? perguntou D. Antonio.
-
---O mesmo que tu querias fazer para salvar a senhora.
-
---Morrer!... exclamou o fidalgo.
-
---Pery levou o dedo aos labios recommendando silencio; mas era tarde; um
-grito partido do canto da sala fê-lo estremecer.
-
-Voltando-se viu Cecilia, que ao ouvir a ultima palavra de seu pai
-quizera correr para elle, e cahira de joelhos, sem forças para dar um
-passo. A menina com as mãos estendidas e supplicantes parecia pedir a
-seu pai que evitasse aquelle sacrificio heroico, e salvasse a Pery de
-uma morte voluntaria.
-
-O fidalgo a comprehendeu:
-
---Não, Pery; eu, D. Antonio de Mariz, não consentirei nunca em
-semelhante cousa. Se a morte de alguem podesse trazer a salvação de
-minha Cecilia e de minha familia, era a mim que competia o sacrificio. E
-por Deus e pela minha honra o juro, que a ninguem o cederia; quem
-quizesse roubar-me esse direito me faria um insulto cruel.
-
-Pery volvia os olhos de sua senhora afflicta e supplicante para o
-fidalgo severo erigido no cumprimento de seu dever; temia aquellas duas
-opposições differentes, mas que tinhão ambas um grande poder sobre a
-sua alma.
-
-Podia o escravo resistir a uma supplica de sua senhora, e causar-lhe uma
-mágoa, quando toda a sua vida fôra destinada a fazê-la alegre e
-feliz? Podia o amigo offender a D. Antonio de Mariz, a quem respeitava,
-praticando uma acção que o fidalgo considerava como uma injuria feita
-á sua honra?
-
-Pery teve um momento de hallucinação, em que pareceu-lhe que o
-coração lhe estacava no peito, a vida lhe fugia, e a cabeça se
-despedaçava com a pressão violenta das idéas que tumultuavão no
-cerebro.
-
-No rapido instante que durou a vertigem, elle viu gyrarem rapidamente em
-torno de si as figuras sinistras dos Aymorés, que ameaçavão a vida
-preciosa daquelles a quem mais amava no mundo. Vio Cecilia supplicando,
-não a elle, mas ao inimigo feroz e sanguinario, prestes a mancha-la com
-as mãos impuras; viu a bella e nobre cabeça do velho fidalgo rojar
-mutilada com os alvos cabellos tintos de sangue.
-
-O indio horrorisado com estas imagens lugubres que lhe desenhava a sua
-imaginação em delirio, apertou a cabeça entre as mãos, com para
-arranca-la daquella febre.
-
---Pery balbuciava Cecilia; tua senhora te pede!...
-
---Morreremos todos juntos, amigo, quando chegar o momento, dizia D.
-Antonio de Mariz.
-
-Pery levantou a cabeça, e lançou sobre a menina e o fidalgo um olhar
-hallucinado:
-
---Não!... exclamou elle.
-
-Cecilia ergueu-se com um movimento instantaneo, de pé e pallida,
-soberba de cólera e indignação, a gentil e graciosa menina de
-outr'ora se tinha de repente transformado n'uma rainha imperiosa.
-
-Sua bella fronte alva resplandecia com um assomo de orgulho; seus olhos
-azues tinhão desses reflexos fulvos que illuminão as nuvens no meio da
-tormenta; seus labios tremulos e ligeiramente arqueados parecião reter
-a palavra para deixa-la cahir com toda a força.
-
-Atirando a cabecinha loura sobre o hombre esquerdo commum gesto de
-energia, ella estendeu a mão para Pery:
-
---Prohibo-te que saias desta casa
-
-O indio julgou que ia enlouquecer; quiz lançar-se aos pés de sua
-senhora, mas recuou anhelante, oppresso e suffocado. Um canto; ou antes
-uma celeuma dos selvagens soava ao longe.
-
-Pery deo um passo para a porta; D. Antonio o reteve:
-
---Tua senhora, disse o fidalgo friamente, acaba de te dar uma ordem; tu
-a cumprirás. Tranquillisa-te, minha filha; Pery é meu prisioneiro.
-
-Ouvindo esta palavra que destruia todas as suas esperanças, que o
-impossibilitava de salvar sua senhora, o indio retrahindo-se deo um
-salto, e cahio no meio da sala.
-
---Pery é livre!... gritou elle fora de si; Pery não obedece a ninguem
-mais; fará o que lhe manda o coração!
-
-Emquanto D. Antonio de Mariz e Cecilia, admirados desse primeiro acto de
-desobediencia, olhavão espantados o indio de pé no meio do vasto
-aposento, elle lançou-se a um cabide de armas, e empunhando um pesado
-montante, como se fôra uma ligeira espada, correu á janella e saltou.
-
---Perdoa a Pery, senhora!
-
-Cecilia soltou um grito, e precipitou-se para a janella.
-
-Não viu mais Pery.
-
-Alvaro e os aventureiros, de pé sobre a esplanada, tinhão os olhos
-fitos sobre a arvore que se elevava a um lado da casa, na encosta
-opposta, e cuja folhagem ainda se agitava.
-
-Longe descortinava-se o campo dos Aymorés; a brisa que passava trazia o
-rumor confuso das vozes e gritos dos selvagens.
-
-
-
-
-XIII
-
-COMBATE
-
-
-Erão seis horas da manhã.
-
-O sol elevando-se no horizonte derramava cascatas de ouro sobre o verde
-brilhante das vastas florestas.
-
-O tempo estava soberbo; o céo azul, esmaltado de pequenas nuvens
-brancas que se achamalotavão como as dobras de uma lençaria.
-
-Os Aymorés, grupados em torno de alguns troncos já meio reduzidos á
-cinza, fazião preparativos para dar um ataque decisivo.
-
-O instincto selvagem suppria a industria do homem civilisado; a primeira
-das artes foi incontestavelmente a arte da guerra,--a arte da defeza e
-da vingança, os dous mais fortes estímulos do coração humano.
-
-Nesse momento os Aymorés preparavão settas inflammaveis para incendiar
-a casa de D. Antonio de Mariz; não podendo vencer o inimigo pelas
-armas, contavão destrui-lo pelo fogo.
-
-A maneira por que arranjavão esses terriveis projectis que lembravão
-os pelouros e bombardas dos povos civilisados era muito simples;
-envolvião a ponta da flecha com frocos de algodão embebido na resinada
-almecegueira.
-
-Essas settas assim inflammadas, despedidas dos seus arcos voavão pelos
-ares e ião cravar-se nas vigas e portas das casas; o fogo que o vento
-incitava, lambia a madeira, estendia a sua lingua vermelha, e lastrava
-pelo edificio.
-
-Emquanto se occupavão com esse trabalho, um prazer feroz animava todas
-essas physionomias sinistras, nas quaes a braveza, a ignorancia e os
-instinctos carniceiros tinhão quasi de todo apagado o cunho da raça
-humana.
-
-Os cabellos arruivados cahião-lhes sobre a fronte e occultavão
-inteiramente a parte mais nobre do rosto, creada por Deos para a séde
-da intelligencia, e para o throno d'onde o pensamento deve reinar sobre
-a materia.
-
-Os labios decompostos, arregaçados por uma contracção dos musculos
-faciaes, tinhão perdido a expressão suave e doce que imprimem o
-sorriso e a palavra; de labios de homem se havião transformado em
-mandibulas de féra, affeitas ao grito e ao bramido.
-
-Os dentes agudos como as presas do jaguar, já não tinhão o esmalte
-que a natureza lhes dera; armas ao mesmo tempo que instrumentos da
-alimentação, o sangue os tingira da côr amarellenta que têm os
-dentes dos animaes carniceiros.
-
-As grandes unhas negras e retorcidas que crescião nos dedos, a pelle
-aspera e callosa fazião de suas mãos antes garras temiveis, do que a
-parte destinada a servir ao homem e dar ao aspecto a nobreza do gesto.
-
-Grandes pelles de animaes cobrião o corpo agigantado desses filhos das
-brenhas, que a não ser o porte erecto se julgaria alguma raça de
-quadrumanos indigena no novo mundo.
-
-Alguns se ornavão de pennas, e collares de ossos; outros completamente
-nús tinhão o corpo untado de oleo por causa dos insectos.
-
-Entre todos distinguia-se um velho que parecia ser o chefe da tribu. Sua
-alta estatura, direita apezar da idade avançada, dominava a cabeça dos
-seus companheiros sentados ou grupados em torno do fogo.
-
-Não trabalhava; presidia apenas aos trabalhos dos selvagens, e de vez
-em quando lançava um olhar de ameaça para a casa que se elevava ao
-longe sobre o rochedo inexpugnavel.
-
-Ao lado delle, uma bella india na flôr da idade, queimava sobre uma
-pedra côva algumas folhas de tabaco cuja fumaça se elevava em grossas
-espiraes e cingia a cabeça do velho de uma especie de bruma ou nevoa.
-
-Elle aspirava esse aroma embriagador que fazia dilatar o seu vasto
-peito, e dava á sua physionomia terrivel um quer que seja de sensual,
-que se poderia chamar a voluptuosidade dos seus instinctos de cannibal.
-Envolta pelo fumo espesso que se ennovelava em torno delia, aquella
-figura fantastica parecia algum idolo selvagem, divindade creada pelo
-fanatismo desses povos ignorantes e barbaros.
-
-De repente a pequena india que soprava o brasido queimando as folhas de
-_pityma_ estremeceu levantou a cabeça e fitou os olhos no velho, como
-para interrogar a sua physionomia.
-
-Vendo-o calmo e impassivel, a menina debruçou-se sobre o hombro do
-selvagem, e tocando-lhe de leve na cabeça, disse-lhe uma palavra ao
-ouvido. Elle voltou-se tranquillamente, e um riso sardonico mostrou os
-seus dentes; sem responder obrigou a india a sentar-se de novo, e a
-voltar á sua occupação.
-
-Pouco tempo havia passado depois deste pequeno incidente, quando a
-menina tornou a estremecer, tinha ouvido perto o mesmo rumor que já
-ouvira ao longe. Ao passo que ella espantada procurava confirmar-se, um
-dos selvagens sentados em roda do fogo a trabalhar fez o mesmo movimento
-que a india, e levantou a cabeça.
-
-Como se um fio electrico se communicasse entre esses homens e imprimisse
-a todos successivamente o mesmo movimento, um após outro interrompeu o
-seu trabalho de chofre, e inclinando o ouvido poz-se á escuta.
-
-A menina não escutava só; collocando-se longe do fumo e de encontro á
-brisa que soprava, de vez em quando aspirava o ar com a finura de
-olfacto com que os cães farejão a caça.
-
-Tudo isto passou rapidamente, sem que os actores desta scena tivessem
-nem sequer o tempo de trocar uma observação e dizer o seu pensamento.
-
-De repente a india soltou um grito; todos voltárão-se para ella e a
-virão tremula, offegante, apoiando-se com uma mão sobre o hombro do
-velho cacique, e a outra estendida na direcção da floresta que passava
-a duas braças servindo de fundo a esse quadro.
-
-O velho ergueu-se então sempre com a mesma calma feroz e sinistra; e
-empunhando a sua pesada tagapema, que parecia uma clava de cyclope,
-fê-la gyrar sobre a sua cabeça como um junco; depois fincando-a no
-chão e apoiando-se sobre ella, esperou.
-
-Os outros selvagens armados de arcos e tacapes, especie de longas
-espadas de páo que cortavão como ferro, collocárão-se a par do
-velho, e promptos para o ataque, esperavão como elle. As mulheres
-misturárão-se com os guerreiros: as crianças e meninos, defendidos
-pela barreira que oppunhão os combatentes conservárão-se no centro do
-campo.
-
-Todos com os olhos fitos, os sentidos applicados, contavão ver o
-inimigo apparecer a cada momento e se prepara vão para cahir sobre elle
-com a audacia e o impeto de ataque que distinguia a raça dos Aymorés.
-
-Um segundo se passou nesta expectativa inquieta.
-
-O estalido que a principio tinhão ouvido cessou completamente; e os
-selvagens cobrando-se do susto, voltárão aos seus trabalhos,
-convencidos de que tinhão sido illudidos por algum vago rumor da
-floresta.
-
-Mas o inimigo cahio no meio delles, subitamente, sem que podessem saber
-se tinha surgido do seia da terra, ou se tinha descido das nuvens.
-
-Era Pery.
-
-Altivo, nobre, radiante da coragem invencivel e do sublime heroismo de
-que já dera tantos exemplos, o indio se apresentava só em face de
-duzentos inimigos fortes e sequiosos de vingança.
-
-Cahindo do alto dc uma arvore sobre elles, tinha abatido dous; e
-volvendo o seu montante como um raio em torno de sua cabeça, abrio um
-circulo no meio dos selvagens.
-
-Então encostou-se a uma lasca de pedra que descansava sobre uma
-ondulação do terreno, e preparou-se para o combate monstruoso de um
-só homem contra duzentos.
-
-A posição em que se achava o favorecia, se isto é possivel á vista
-de uma tal disparidade de numero; apenas dous inimigos podião ataca-lo
-de frente.
-
-Passado o primeiro espanto, os selvagens bramindo atirárão-se todos
-como uma só mola, como uma tromba do oceano, contra o indio que ousava
-ataca-los a peito descoberto.
-
-Houve uma confusão, um turbilhão horrivel de homens que se repellião,
-tombavão e se estorcião; de cabeças que se levantavão e outras que
-desapparecião; de braços e dorsos que se agitavão e se contrahião,
-como se tudo isto fosse partes de um só corpo, membros de algum monstro
-desconhecido debatendo-se em convulsões.
-
-No meio desse cahos via-se brilhar aos raios do sol com reflexos rapidos
-e luzentes a lamina do montante de Pery, que passava e repassava com a
-velocidade do relampago quando percorre as nuvens e atravessa o espaço.
-
-Um côro de gritos, imprecações e gemidos roucos e abafados,
-confundindo-se com o choque das armas, se elevava desse pandemonio, e ia
-perder-se ao longe nos rumores da cascata.
-
-Houve uma calma aterradora; os selvagens immoveis de espanto e de raiva
-suspendêrão o ataque; os corpos dos mortos fazião uma barreira entre
-elles e o inimigo.
-
-Pery abaixou o seu montante e esperou; seu braço direito fatigado desse
-enorme esforço não podia mais servir-lhe, e cahia inerte; passou a
-arma para a mão esquerda.
-
-Era tempo.
-
-O velho cacique dos Aymorés se avançava para elle, sopesando a sua
-immensa clava crivada de escamas de peixe e dentes de féra; alavanca
-terrivel que o seu braço possante fazia jogar com a ligeireza da
-flecha.
-
-Os olhos de Pery brilhárão; endireitando o seu talhe, fitou no selvagem
-esse olhar seguro e certeiro, que não o enganava nunca.
-
-O velho aproximando-se levantou a sua clava e imprimindo-lhe o movimento
-de rotação, ia descarrega-la sobre Pery e abatê-lo; não havia espada
-nem montante que podesse resistir áquelle choque.
-
-O que passou-se então foi tão rapido, que não é possivel
-descrevê-lo; quando o braço do velho volvendo a clava ia atira-la, o
-montante de Pery lampejou no ar e decepou o punho do selvagem; mão e
-clava forão rojar pelo chão.
-
-O velho selvagem soltou um bramido, que repercutio ao longe pelos échos
-da floresta, e levantando ao céo o seu punho decepado atirou as gotas
-de sangue que vertião sobre os Aymorés, como conjurando-os á
-vingança.
-
-Os guerreiros lançárão-se para vingar o seu chefe; mas um novo
-espectaculo se apresentava aos seus olhos.
-
-Pery vencedor do cacique, volveu um olhar em torno delle, e vendo o
-estrago que tinha feito, os cadaveres dos Aymorés amontoados uns sobre
-os outros, fincou a ponta do montante no chão e quebrou a lamina. Tomou
-depois os dous fragmentos, e atirou-os ao rio.
-
-Então passou-se nelle uma luta silenciosa, mas terrivel para quem
-podesse comprehendê-la. Tinha quebrado a sua espada, porque não queria
-mais combater; e decidira que era tempo de supplicar a vida ao inimigo.
-
-Mas quando chegou o momento de realisar essa supplica conheceu que
-exigia de si mesmo uma cousa sobrehumana, uma cousa superior ás suas
-forças.
-
-Elle, Pery, o guerreiro invencivel, elle o selvagem livre, o senhor das
-florestas, o rei dessa terra virgem, o chefe da mais valente nação dos
-Guaranys, supplicar a vida ao inimigo! Era impossivel.
-
-Tres vezes quiz ajoelhar, e tres vezes as curvas de suas pernas
-distendendo-se como duas molas de aço o obrigárão a erguer-se.
-
-Finalmente a lembrança de Cecilia foi mais forte do que a sua vontade.
-
-Ajoelhou.
-
-
-
-
-XIV
-
-O PRISIONEIRO
-
-
-Quando os selvagens se precipitavão sobre o inimigo, que já não se
-defendia e se confessava vencido, o velho cacique adiantou-se; e
-deixando cahir a mão sobre o hombro de Pery, fez um movimento energico
-com o braço direito decepado.
-
-Este movimento exprimia que Pery era seu prisioneiro, que lhe pertencia
-como o primeiro que tinha posto a mão sobre elle, como o seu vencedor;
-e que todos devião respeitar o seu direito de propriedade, o seu
-direito da guerra.
-
-Os selvagens abaixárão as armas, e não derão um passo; esse povo
-barbaro tinha seus costumes e suas leis; e uma dellas era esse direito
-exclusivo do vencedor sobre o seu prisioneiro de guerra, essa conquista
-do fraco pelo forte.
-
-Tinhão em tanta conta a gloria de trazerem um captivo de combate e
-sacrifica-lo no meio das festas e ceremonias que costumavão celebrar,
-que nenhum selvagem matava o inimigo que se rendia; fazia-o prisioneiro.
-
-Quanto a Pery, vendo o gesto do cacique e o effeito que produzia, a sua
-physionomia expandio-se; a humildade tingida, a posição supplicante
-que por um esforço supremo conseguira tomar, desappareceu
-immediatamente.
-
-Ergueu-se; e com um soberbo desdem estendeu os punhos aos selvagens que
-por mandado do velho se dispunhão a ligar-lhe os braços; parecia antes
-um rei que dava uma ordem aos seus vassallos, do que um captivo que se
-sujeitava aos vencedores; tal era a altivez do seu porte, e o desprezo
-com que encarava o inimigo.
-
-Os Aymorés, depois de ligarem os punhos do prisioneiro, o conduzirão a
-alguma distancia a sombra de uma arvore, e ahi o prendêrão com uma
-corda de algodão matizada de varias côres, a que os Guaranys chamavão
-_mussurana_.
-
-Depois, ao passo que as mulheres enterravão os mortos, reunirão-se em
-conselho, presididos pelo velho cacique, a quem todos ouvião com
-respeito, e respondião cada um por sua vez.
-
-Durante o tempo que os guerreiros fallavão, a pequena india escolhia os
-melhores fructos, as bebidas mais bem preparadas, e offerecia ao
-prisioneiro, a quem estava encarregada de servir.
-
-Pery, sentado sobre a raiz da arvore e apoiado contra o tronco, não
-percebia o que se passava em torno delle; tinha os olhos fitos na
-esplanada da casa que se elevava a alguma distancia.
-
-Via o vulto de D. Antonio de Mariz que assomava por cima da palissada; e
-suspensa ao seu braço, reclinada sobre o abysmo, Cecilia, sua linda
-senhora, que lhe fazia de longe um gesto de desespero; ao lado Alvaro e
-a familia.
-
-Tudo que elle havia amado neste mundo ali estava diante de seus olhos;
-sentia um prazer intenso por ver ainda uma vez esses objectos de sua
-dedicação extrema, de seu amor profundo.
-
-Adivinhava e comprehendia o que sentia então o coração de seus bons
-amigos; sabia que soffrião vendo-o prisioneiro, proximo a morrer, sem
-terem o poder e a força para salva-lo das mãos do inimigo.
-
-Consolava-o porém essa esperança que estava prestes a realisar-se;
-esse gozo ineffavel de salvar sua senhora, e de deixa-la feliz no seio
-de sua familia, protegida pelo amor de Alvaro.
-
-Emquanto Pery, preoccupado por essas idéas, enlevava-se ainda uma vez
-em contemplar mesmo de longe a figura de Cecilia, a india de pé de
-fronte delle olhava-o com um sentimento de prazer misturado de surpreza
-e curiosidade.
-
-Comparava suas fórmas esbeltas e delicadas com o corpo selvagem de seus
-companheiros; a expressão intelligente de sua physionomia com o aspecto
-embrutecido dos Aymorés; para ella Pery era um homem superior e
-excitava-lhe profunda admiração.
-
-Foi só quando Cecilia e D. Antonio de Mariz desapparecêrão da
-esplanada, que Pery, lançando ao redor um olhar para ver se a sua morte
-ainda se demoraria muito, descobrio a india perto delle.
-
-Voltou o rosto e continuou a pensar em sua senhora, e a rever a sua
-imagem; debalde a menina selvagem, lhe apresentava um lindo fructo, um
-alimento, um vinho saboroso; elle não lhe dava attenção.
-
-A india tornou-se triste por causa dessa obstinação com que o
-prisioneiro recusava o que lhe offerecia; e achegando-se levantou a
-cabeça pensativa de Pery.
-
-Havia nos olhos da menina tanto fogo, tanta lubricidade no seu sorriso;
-as ondulações morbidas do seu corpo trahião tantos desejos e tanta
-voluptuosidade, que o prisioneiro comprehendeu immediatamente qual era a
-missão dessa enviada da morte, dessa esposa do tumulo, destinada a
-embellezar os ultimos momentos da vida!
-
-O indio voltou o rosto com desdem; recusava as flôres como tinha
-recusado os fructos; repellia a embriaguez do prazer como havia
-repellido a embriaguez do vinho.
-
-A menina enlaçou-o com os braços, murmurando palavras entrecortadas de
-uma lingua desconhecida, da lingua dos Aymorés, que Pery não entendia;
-era talvez uma supplica, ou um consolo com que procurava mitigar a dôr
-do vencido.
-
-Mal sabia que o indio ia morrer feliz e esperava o supplicio como a
-realisação de um sonho doce, como a satisfação de um desejo querido
-e por muito tempo afagado com amor.
-
-Mas podia ella, pobre selvagem, presentir e mesmo comprehender
-semelhante cousa? O que sabia era que Pery ia ser morto; que ella devia
-suavisar-lhe a ultima hora; e cumpria esse dever com um certo
-contentamento.
-
-Pery sentindo os braços da menina cingirem seu collo, repellio-a
-vivamente para longe de si; e voltando procurou ver por entre as folhas
-se descobria os preparativos que os Aymorés fazião para o sacrificio.
-
-Tardava-lhe o momento supremo em que devia ser immolado á colera e á
-vingança dos inimigos; sua altivez revoltava-se contra essa
-humilhação do captiveiro.
-
-A india continuava a olha-lo tristemente, e sem comprehender porque a
-repellia; ella era linda e desejada por todos os jovens guerreiros de
-sua tribu; seu pai, o velho cacique, tinha-a destinado para o mais
-valente prisioneiro, ou para o mais forte dos vencedores.
-
-Depois de conservar-se muito tempo nesta posição, a menina adiantou-se
-de novo, tomou um vaso cheio de _cauim_, e apresentou-o a Pery sorrindo
-e quasi supplicante.
-
-Ao gesto de recusa que fez o indio, ella deitou o vaso no rio, e
-escolhendo sobre as folhas um cardo vermelho e doce como um favo de mel,
-estendeu a mão e tocou com o fructo a bocca do prisioneiro.
-
-Pery engeitou o fructo como tinha engeitado o vinho, e a virgem selvagem
-atirando-o por sua vez ao rio, aproximou-se e offereceu ao prisioneiro
-seus labios encarnados, ligeiramente destendidos como para receberem o
-beijo que pedião.
-
-O indio fechou os olhos, e pensou em sua senhora. Elevando-se até
-Cecilia, seu pensamento desprendia-se do involucro terrestre, e adejava
-n'uma atmosphera pura e isenta da fascinação dos sentidos que
-escravisa o homem.
-
-Comtudo Pery sentia o halito ardente da menina que lhe requeimava as
-faces: entreabrio os olhos, e viu-a na mesma posição, esperando uma
-caricia, um afago daquelle a quem a sua tribu mandára que amasse, e a
-quem ella já amava espontaneamente.
-
-Na vida selvagem, tão proxima da natureza, onde a conveniencia e os
-costumes não reprimem os movimentos do coração, o sentimento é uma
-flor que nasce como a flor do campo, e cresce em algumas horas com uma
-gota de orvalho e um raio de sol.
-
-Nos tempos de civilisação, ao contrario, o sentimento torna-se planta
-exotica; e só vinga e floresce nas estufas, isto é, nos corações
-onde o sangue é vigoroso, e o fogo da paixão ardente e intenso.
-
-Vendo Pery no meio do combate, só contra toda a sua tribu, a india o
-admirara: contemplando-o depois quando prisioneiro, o achára mais bello
-do que todos os guerreiros.
-
-Seu pai a destinára para esposa do inimigo que ia ser sacrificado; e
-portanto ella que começára por admira-lo acabava por deseja-lo, por
-ama-lo algumas horas apenas depois que o tinha visto.
-
-Mas Pery, frio e indifferente, não se commovia, nem aceitava essa
-affeição passageira e ephemera que tinha começado com o dia e devia
-acabar com elle, sua idéa fixa, a lembrança de seus amigos, o protegia
-contra a tentação.
-
-Voltando as costas, levantou os olhos ao céo para evitar o rosto da
-selvagem que acompanhava a sua vista, como certas flôres acompanhão a
-rotação apparente do sol.
-
-Entre a folhagem das arvores passava-se uma das scenas graciosas e
-singelas, que a cada momento no campo se offerecem á attenção
-daquelles que estudão a natureza nas suas pequenas creaturas.
-
-Um casal de corrixos, que tinha feito o seu ninho n'um ramo, sentindo a
-habitação do homem e o fogo em baixo da arvore, mudava a sua pequena
-casa de palha e algodão.
-
-Um desfazia com o bico o ninho, e o outro conduzia a palha para longe,
-para o lugar onde ião novamente fabrica-lo; quando acabárão este
-trabalho, acariciárão-se, e batendo as azas forão esconder o seu amor
-n'algum lindo retiro.
-
-Pery se divertia em ver esse innocente idyllio, quando a india
-levantando-se de repente soltou um pequeno grito de alegria e de prazer,
-e sorrindo mostrou ao prisioneiro os dous passarinhos que voavão um a
-par do outre sobre o cupola da floresta.
-
-Emquanto elle procurava comprehender o que queria dizer este aceno, a
-virgem desappareceu, e voltou quasi immediatamente trazendo um
-instrumento de pedra que cortava como faca e um arco de guerra.
-
-Aproximou-se do indio, soltou-lhe os laços que lhe ligavão os punhos,
-e partio a mussurana que o prendia á arvore. Executou isto com uma
-extrema rapidez; e entregando a Pery o arco e as flechas, estendeu a
-mão na direcção da floresta, mostrando-lhe o espaço que se abria
-diante delles.
-
-Seus olhos e o seu gesto fallavão melhor do que a sua linguagem
-inculta, e exprimião claramente o seu pensamento:
-
---Tu és livre. Partamos!
-
-
-
-
-FIM DA TERCEIRA PARTE.
-
-
-
-
-QUARTA PARTE
-
-
-A CATASTROPHE
-
-
-
-
-I
-
-ARREPENDIMENTO
-
-
-Quando Loredano afastou-se de João Feio que o acabava de ameaçar,
-chamou quatro companheiros em quem mais confiava, e retirou-se com elles
-para a despensa.
-
-Fechou a porta afim de interceptar a communicação com os aventureiros,
-e poder tranquillamente tratar o negocio que tinha em mente.
-
-Nesse curto instante havia feito uma modificação no seu plano da
-vespera; as palavras de ameaça ha pouco proferidas lhe revelárão que
-o descontentamento começava a lavrar. Ora, o italiano não era homem
-que recuasse diante de um obstaculo, e deixasse roubarem-lhe a
-esperança, que nutria desde tanto tempo.
-
-Resolveu trazer as cousas rapidamente e executar naquelle mesmo dia o
-seu intento: seis homens fortes e destemidos bastavão para levar ao
-cabo a empreza que projectára.
-
-Tendo fechado a porta, guiou os quatro aventureiros á sala que tocava
-com o oratorio, e onde Martim Vaz continuava a sua obra de demolição,
-minando a parede que os separava da familia.
-
---Amigos, disse o italiano, estamos n'uma posição desesperada; não
-temos força para resistir aos selvagens, e mais dia menos dia havemos
-de succumbir.
-
-Os aventureiros abaixarão a cabeça e não respondêrão; sabião que
-aquella era a triste verdade.
-
---A morte que nos espera é horrivel; serviremos de pasto a esses
-barbaros que se alimentão de carne humana; nossos corpos sem sepultura
-cevarão os instinctos ferozes dessa horda de cannibaes!...
-
-A expressão do horror se pintou na physionomia daquelles homens, que
-sentirão um calafrio percorrer-lhes os membros e penetrar até á
-medulla dos ossos.
-
-Loredano demorou um instante o seu olhar perspicaz sobre esses rostos
-decompostos:
-
---Tenho porém um meio de salvar-vos.
-
---Qual? perguntárão todos á uma voz.
-
---Esperai. Posso salvar-vos; mas isto não quer dizer que esteja
-disposto a fazê-lo.
-
---Por que razão?
-
---Por que... Porque todo o serviço tem o seu preço.
-
---Que exigis então? disse Martim Vaz.
-
---Exijo que me acompanheis, que me obedeçais cegamente, succeda o que
-succeder.
-
---Podeis ficar descansado, disse um dos aventureiros; eu respondo pelos
-meus companheiros.
-
---Sim! exclamarão os outros.
-
---Bem! Sabeis o que vamos fazer, já, neste momento?
-
---Não; mas vós nos direis.
-
---Escutai! Vamos acabar de demolir esta parede e atira-la dentro; entrar
-nessa sala, matar tudo quanto encontrarmos, menos uma pessoa.
-
---E essa pessoa...
-
---É a filha de D. Antonio de Mariz, Cecilia. Se algum de vós deseja a
-outra, póde toma-la; eu vol-a dou.
-
---E depois disto feito?
-
---Tomamos conta da casa; reunimos os nossos companheiros, e atacamos os
-Aymorés.
-
---Mas isto não nos salvará, retrucou um dos aventureiros; ha pouco
-dissestes que não temos força para resistir-lhes.
-
---De certo! acudio Loredano; não lhes resistiremos, mas nos salvaremos.
-
---Como! disserão os aventureiros desconfiados.
-
-O italiano sorrio.
-
---Quando disse que atacaremos o inimigo, não fallei claro: queria dizer
-que os outros o atacarão.
-
---Não vos entendo ainda; fallai mais claro.
-
---Ahi vai pois. Dividiremos os nossos homens em duas bandas; nós e mais
-alguns pertenceremos a uma que ficará sob a minha obediencia.
-
---Até aqui vamos bem.
-
---Isto feito, uma das bandas sahirá da casa para fazer uma sortida
-emquanto os outros atacarão os selvagens do alto do rochedo; é um
-estratagema já velho e que deveis conhecer; metter o inimigo entre dous
-fogos.
-
---Adiante; continuai.
-
---Como a expedição de sahir é a mais perigosa e arriscada, tomo-a
-sobre mim; vós me acompanhais e marchamos. Sómente em lugar de marchar
-sobre o inimigo, marchamos sobre o mais proximo povoado.
-
---Oh! exclamarão os aventureiros.
-
---Sob pretexto de que os selvagens podem cortar-nos a entrada da casa
-por alguns dias, levamos provisão de viveres. Caminhamos sem parar, sem
-olhar atrás; e prometto-vos que nos salvaremos.
-
---Uma traição! gritou um dos aventureiros. Entregarmos nossos
-companheiros nas mãos dos inimigos!
-
---Que quereis? A morte de uns é necessaria para a vida dos outros; este
-mundo é assim: não seremos nós que o havemos de emendar; andemos com
-elle.
-
---Nunca! Não faremos isto! É uma vilania!
-
---Bom, respondeu Loredano friamente, fazei o que vos aprouver. Ficai;
-quando vos arrependerdes será tarde.
-
---Mas, ouvi...
-
---Não; não conteis já comigo. Julgei que fallava a homens a quem
-valesse salvar a vida; vejo que me enganei. Adeus.
-
---Se não fôra uma traição...
-
---Que fallais em traição!... replicou o italiano com arrogancia.
-Dizei-me, credes vós que algum escapará d'aqui na posição em que nos
-achamos? Morreremos todos. Pois se assim é, mais vale que se salvem
-alguns.
-
-Os aventureiros parecêrão abalados por este argumento.
-
---Elles mesmos, continuou Loredano, a menos de serem egoistas, não
-terão o direito de se queixarem; e morrerão com a satisfação de que
-sua morte foi util aos seus companheiros, e não esteril como deve ser
-se ficarmos todos de braços cruzados.
-
---Vá feito; tendes razões a que não se resiste. Contai comnosco,
-acudio um aventureiro.
-
---Comtudo levarei sempre um remorso, disse outro.
-
---Faremos dizer uma missa por sua alma.
-
---Bem lembrado! respondeu o italiano.
-
-Os aventureiros forão ajudar o seu companheiro na demolição surda da
-parede, e Loredano ficou só retirado a um canto.
-
-Por algum tempo acompanhou com a vista o trabalho dos cinco homens;
-depois tirou um largo cinto de escamas de aço que apertava o seu
-gibão.
-
-Da parte interior desse cinto havia uma estreita abertura pela qual elle
-sacou um pergaminho dobrado ao comprido, era o famoso roteiro das _minas
-de prata_.
-
-Revendo esse papel, todo o seu passado debuxou-se na sua memoria, não
-para deixar-lhe o remorso, mas para exita-lo a proseguir em busca desse
-thesouro que lhe pertencia, e do qual não podia gozar.
-
-Foi tirado da sua distracção por um dos aventureiros, que se achegára
-para elle desapercebido, e depois de olhar por muito tempo o papel,
-dirigio-lhe a palavra:
-
---Não podemos derrubar a parede.
-
---Porque? perguntou Loredano erguendo-se. Está segura?
-
---Não é isso, basta um empurrão; mas o oratorio?
-
---Que tem o oratorio?
-
---Que tem? Os santos, as sagradas imagens bentas não são cousa que se
-atire ao chão! Se tão damnada tentação nos tomasse, pediríamos a
-Deus que nos livrasse della.
-
-Loredano desesperado dessa nova resistencia, cuja força elle conhecia,
-passeava pela sala de uma ponta á outra.
-
---Estupidos! murmurava elle. Basta um fragmento de madeira e um pouco de
-argila para fazê-los recuar! E dizem que são homens! Animaes sem
-intelligencia, que nem sequer têm o instincto da conservação!...
-
-Alguns momentos decorrêrão: os aventureiros parados esperavão a
-resolução do seu chefe.
-
---Tendes medo de tocar nos santos, disse Loredano avançando para elles;
-pois bem, serei eu que deitarei a parede abaixo. Continuai, e avisai-me
-quando for tempo.
-
-Emquanto isto se passava, o resto dos aventureiros que ficara no
-alpendre ouvia a narração de João Feio, que lhes communicava as
-revelações de mestre Nunes.
-
-Quando elles souberão que Loredano era um frade que abjurára dos seus
-votos, erguêrão-se furiosos, e quizerão procura-lo e espedaça-lo.
-
---Que ides fazer? gritou o aventureiro. Não é assim que elle deve
-acabar; a sua morte ha de ser uma punição, uma terrivel punição.
-Deixai-me arranjar isto.
-
---Para que mais demora? respondeu Vasco Affonso.
-
---Prometto-vos que não haverá demora; hoje mesmo será condemnado;
-amanhã receberá o castigo de seus crimes.
-
-E porque não hoje?
-
---Deixemos-lhe o tempo de arrepender-se; é preciso que antes de morrer
-sinta remorso do que praticou.
-
-Os aventureiros decidirão por fim seguir esse conselho, e esperárão
-que Loredano apparecesse para se apoderarem delle, e o condemnarem
-summariamente.
-
-Passou-se um bom espaço de tempo, e nada do italiano sahir; era quasi
-meio-dia.
-
-Os aventureiros estavão desesperados de sêde; a sua provisão de agua
-e de vinho, já bastante diminuida depois do sitio dos selvagens,
-achava-se na despensa, cuja porta Loredano fechara por dentro.
-
-Felizmente descobrirão no quarto do italiano algumas garrafas de vinho,
-que bebêrão no meio de risadas e chacotas, fazendo brindes ao frade
-que ião dentro em pouco condemnar á pena de morte.
-
-No meio da hilaridade algumas palavras revelavão o arrependimento que
-começava a se apoderar delles; fallavão de ir pedir perdão ao
-fidalgo, de se reunir de novo a elle, e ajuda-lo a bater o inimigo.
-
-Se não fosse a vergonha da má acção que tinhão praticado,
-correrião a lançar-se ao joelhos de D. Antonio de Mariz
-immediatamente; mas resolvêrão fazê-lo quando o principal autor da
-revolta tivesse recebido o castigo do seu crime.
-
-Seria esse o seu primeiro titulo ao perdão que ião supplicar; seria
-mais a prova da sinceridade do seu arrependimento.
-
-
-
-
-II
-
-O SACRIFICIO
-
-
-Pery comprehendêra o gesto da india; não fez porém o menor movimento
-para segui-la.
-
-Fitou nella o seu olhar brilhante e sorrio.
-
-Por sua vez a menina tambem comprehendeu a expressão daquelle sorriso e
-a resolução firme e inabalavel que se lia na fronte serena do
-prisioneiro.
-
-Insistio por algum tempo, mas debalde. Pery tinha atirado para longe o
-arco e as flechas, e recostando-se ao tronco da arvore, conservava-se
-calmo e impassivel.
-
-De repente o indio estremeceu.
-
-Cecilia apparecêra no alto da esplanada, e lhe acenára; sua mãozinha
-alva e delicada agitando-se no ar parecia dizer-lhe que esperasse; Pery
-julgou mesmo ver no rostinho gentil de sua senhora, apezar da distancia,
-brilhar um raio de felicidade.
-
-Quando com os olhos fitos naquella graciosa visão elle esforçava-se
-por adivinhar a causa de tão subita alegria, a india soltou um segundo
-grito selvagem, um grito terrivel.
-
-Tinha pela direcção do olhar do prisioneiro visto Cecilia sobre a
-esplanada; tinha percebido o gesto da menina, e comprehendêra vagamente
-a razão por que Pery recusára a liberdade e o seu amor. Precipitou-se
-sobre o arco que estava atirado ao chão; mas apezar da rapidez desse
-movimento, quando ella estendia a mão, já Pery tinha posto o pé sobre
-a arma.
-
-A selvagem, com os olhos ardentes, os labios entreabertos, tremula de
-ciume e de vingança, levantou sobre o peito do indio a faca de pedra
-com que lhe cortara os laços ha pouco; mas a arma cahio-lhe da mão, e
-vacillando apoiou-se no seio que ameaçára.
-
-Pery tomou-a nos braços, deitou-a sobre a relva, e sentou-se de novo
-junto ao tronco da arvore, tranquillo a respeito de Cecilia, que
-desapparecêra da esplanada e estava fora de perigo.
-
-Era a hora em que a sombra das montanhas sobe ás encostas, e o jacaré
-deitado sobre a arêa se aquece aos raios do sol.
-
-O ar estrugio com os sons roucos da inubia e do maracá; ao mesmo tempo
-um canto selvagem, o canto guerreiro dos Aymorés, misturou-se com a
-harmonia sinistra daquelles instrumentos ásperos e retumbantes.
-
-A india deitada junto da arvore sobresaltou-se; e erguendo-se
-rapidamente, acenou ao prisioneiro mostrando-lhe a floresta e
-supplicando-lhe que fugisse. Pery sorrio como da primeira vez; tornando
-a mão da menina a fez sentar perto delle, e tirou do pescoço a cruz de
-ouro que Cecilia lhe havia dado.
-
-Então começou entre elle e a selvagem uma conversa por acenos de que
-seria difficil dar uma idéa.
-
-Pery dizia á menina que lhe dava aquella cruz como uma lembrança, mas
-que só depois que elle morresse é que devia tira-la do pescoço. A
-selvagem entendeu ou julgou entender o que Pery procurava exprimir
-symbolicamente, e beijou-lhe as mãos em signal de reconhecimento.
-
-O prisioneiro obrigou-a a atar de novo os laços que o ligavão, e que
-ella no seu generoso impulso de dar-lhe a liberdade havia desfeito.
-
-Nesse momento quatro guerreiros Aymorés dirigirão-se á arvore em que
-se achava Pery; e segurando as pontas da corda o conduzirão ao campo,
-onde tudo estava já preparado para o sacrificio.
-
-O indio ergueu-se e caminhou com o passo firme e a fronte alta diante
-dos quatro inimigos, que não percebêrão o olhar rapido que nessa
-occasião elle lançou ás pontas da sua tunica de algodão, torcidas em
-dous nós pequenos.
-
-O campo cortado em ellipse no meio das arvores estava cercado por cento
-e tantos guerreiros armados em guerra e cobertos de ornatos de pennas.
-
-No fundo as velhas pintadas de listras negras e amarellas, de aspecto
-horrido, preparavão um grande brasido, lavavão a lage que devia servir
-de mesa, e afiavão as suas facas de ossos e lascas de pedra.
-
-As moças grupadas de um lado guardavão os vasos cheios de vinho e
-bebidas fermentadas, que offerecião aos guerreiros quando estes
-passavão diante dellas entoando o canto de guerra dos Aymorés.
-
-A menina que fôra incumbida de servir ao prisioneiro, e o acompanhára
-ao lugar do sacrificio, conservava-se a alguma distancia, e olhava
-tristemente todo esses preparativos; pela primeira vez seu instincto
-natural parecia relevar-lhe a atrocidade desse costume tradicional de
-seus pais, a que ella tantas vezes assistira com prazer.
-
-Agora que ia representar como heroina no drama terrivel, e como esposa
-do prisioneiro devia acompanha-lo até o momento supremo, insultando-lhe
-a dôr e a desgraça, o seu coração confrangia-se; porque realmente
-amava Pery, tanto quanto amar era possivel a uma natureza como a sua.
-
-Chegados ao campo, os selvagens que conduzião o prisioneiro passárão
-as pontas da corda ao tronco de duas arvores, e esticando o laço o
-ohrigárão a ficar immovel no meio do terreiro. Os guerreiros
-desfilárão em roda entoando o canto da vingança; as inubias
-retroárão de novo; os gritos confundirão-se com o som dos maracás, e
-tudo isto formou um concerto horrivel.
-
-Á medida que se animavão, a cadencia apressava-se, de modo que a
-marcha triumphal dos guerreiros se tornava uma dansa macabria, uma
-corrida veloz, uma valsa fantastica, em que todos esses vultos
-horrendos, cobertos de pennas que brilhavão á luz do sol, passavão
-como espiritos satanicos envoltos na chamma eterna.
-
-A cada volta que fazia esse sabbat, um dos guerreiros destacava-se do
-circulo, e adiantando-se para o prisioneiro o desafiava ao combate, e
-conjurava-o a que désse provas de sua coragem, de sua força e de seu
-valor.
-
-Pery, sereno e altivo, recebia com um soberbo desdem a ameaça e o
-insulto, e sentia um certo orgulho pensando que no meio de todos
-aquelles guerreiros fortes e armados, elle, o prisioneiro, o inimigo que
-ia ser sacrificado, era o verdadeiro, o unico vencedor.
-
-Talvez pareça isto incomprehensivel; mas o facto é que Pery o pensava,
-e que só o segredo que elle guardava no fundo de sua alma podia
-explicar a razão desse pensamento e a tranquillidade com que esperava o
-supplicio.
-
-A dansa continuava no meio dos cantos, dos alaridos e das constantes
-libações, quando de repente tudo emmudeceo, e o mais profundo silencio
-reinou no campo dos Aymorés.
-
-Todos os olhos se voltárão para uma cortina de folhas que occultava
-uma especie de cabana selvagem, construida a um lado do campo em face do
-prisioneiro.
-
-Os guerreiros se afastárão, as folhas se abrirão, e entre aquellas
-franjas de verdura assomou o vulto gigantesco do velho cacique. Duas
-pelles de tapir ligadas sobre os hombros cobrião seu corpo como uma
-tunica; um grande cocar de pennas escarlates ondeava sobre a sua
-cabeça, e realçava-lhe a grande estatura.
-
-Tinha o rosto pintado de uma cor esverdeada e oleosa, e o pescoço
-cingido de uma colleira feita com as pennas brilhantes do tucano; no
-meio desse aspecto horrendo os seus olhos brilhavão como dous fogos
-vulcanicos no seio das trevas. Trazia na mão esquerda a tagapema
-coberta de plumas resplandecentes, e amarrada ao punho direito uma
-especie de busina formada de um osso enorme da canella de algum inimigo
-morto em combate.
-
-Chegando á entrada do campo o velho selvagem levou á bocca o seu
-instrumento barbaro, e tirou delle um som estrondoso; os Aymorés
-saudárão com gritos de alegria e de enthusiasmo o apparecimento do
-vencedor.
-
-Ao cacique cabia a honra de ser o algoz da victima, o matador do
-prisioneiro; seu braço devia consummar a grande obra da vingança, esse
-sentimento que constituia para aquelles povos fanaticos a verdadeira
-gloria.
-
-Apenas cessárão as acclamações com que foi acolhida a entrada do
-vencedor, um dos guerreiros que o acompanhavão adiantou-se e fincou na
-extrema do campo uma estaca destinada a receber a cabeça do inimigo,
-logo que ella fosse decepada do corpo.
-
-Ao mesmo tempo a joven india que servia de esposa ao prisioneiro,
-tirou o tacape que pendia do hombro de seu pai, e caminhando para Pery
-desligou-lhe os braços e offereceu-lhe a arma, fitando nelle um olhar
-triste, ardente e cheio de amarga exprobação.
-
-Nesse olhar dizia-lhe que se tivesse aceitado o amor que lhe
-offerecêra, e com o amor a vida e a liberdade, ella não seria obrigada
-pelo costume tradicional de sua nação a escarnecer assim da sua morte.
-
-Com effeito esse offerecimento que os selvagens fazião ao prisioneiro
-de uma arma para se defender, era uma ironia cruel; ligado pelo laço
-que o prendia, immovel pela tensão da corda, de que lhe servia vibrar
-o _tacape_ no ar, se não podia attingir os inimigos?
-
-Pery aceitou a arma que a menina lhe trazia; calcando-a aos pés cruzou
-os braços e esperou o cacique, que avançava lentamente, terrivel e
-ameaçador.
-
-Chegado em face do prisioneiro, a physionomia do velho esclareceu-se com
-um sorriso feroz, reflexo dessa embriaguez do sangue, que dilata as
-narinas do jaguar prestes a saltar sobre a presa.
-
---Sou teu matador! disse em guarany.
-
-Pery não se admirou ouvindo a sua bella lingua adulterada pelos sons
-roucos e guturaes que sahião dos labios do selvagem.
-
---Pery não te teme!
-
---És Goytacaz?
-
---Sou teu inimigo!
-
---Defende-te!
-
-O indio sorrio:
-
---Tu não mereces.
-
-Os olhos do velho fuzilárão de raiva: a mão cerrou o punho da
-tagapema; mas elle reprimio logo o assomo da colera.
-
-A esposa do prsioneiro atravessou o campo e offereceu ao vencedor um
-grande vaso de barro vidrado cheio de vinho de ananaz ainda espumante.
-
-O selvagem virou de um trago a bebida aromatica, e endireitando o seu
-alto talhe, lançou ao prisioneiro um olhar soberbo:
-
---Guerreiro Goytacaz, tu és forte e valente; tua nação é temida na
-guerra. A nação Aymoré é forte entre as mais fortes, valente entre
-as mais valentes. Tu vais morrer.
-
-O côro dos selvagens respondeu a essa especie de canto guerreiro, que
-preludiava o tremendo sacrificio.
-
-O velho continou:
-
---Guerreiro Goytacaz, tu és prisioneiro; tua cabeça pertence ao
-guerreiro Aymoré; teu corpo aos filhos de sua tribu; tuas entranhas
-servirão ao banquete da vingança. Tu vais morrer.
-
-Os gritos dos selvagens respondêrão de novo: e o canto se prolongou
-por muito tempo lembrando os feitos gloriosos da nação Aymoré, e as
-acções de valor de seu chefe.
-
-Emquanto o velho fallava, Pery o escutava com a mesma calma e
-impassibilidade; nem um dos musculos do seu rosto trahia a menor
-emoção; seu olhar limpido e sereno ora fitava-se no rosto do cacique,
-ora volvia-se pelo campo examinando os preparativos do sacrificio.
-
-Apenas quem o observasse veria que de braços cruzados como estava, uma
-das mãos desfazia imperceptivelmente um dos nós que havião na ponta
-de seu saio de algodão.
-
-Quando o velho acabou de fallar encarou o prisioneiro, e recuando dous
-passos elevou lentamente a pesada clava que empunhava na mão esquerda.
-Os Aymorés anciosos esperavão; as velhas com as suas navalhas de pedra
-estremecião de impaciencia; as jovens indias sorrião, emquanto a noiva
-do prisioneiro voltava o rosto para não ver o espectaculo horrivel que
-ia apresentar-se.
-
-Nesse momento Pery levando as duas mãos aos olhos cobrio o rosto, e
-curvando a cabeça ficou algum tempo nessa posição, sem fazer um
-movimento que revelasse a menor perturbação.
-
-O velho sorrio.
-
---Tens medo!
-
-Ouvindo estas palavras, Pery ergueu a cabeça com ar senhoril. Uma
-expressão de jubilo e serenidade irradiava no seu rosto, dir-se-hia o
-extasi dos martyres da religião que na ultima hora, através do tumulo,
-entrevêm a felicidade suprema.
-
-A alma nobre do indio prestes a deixar a terra parecia exhalar já do
-seu involucro; e pousando nos seus labios, nos seus olhos, na sua
-fronte, esperava o momento de lançar-se no espaço para ir se abrigar
-no seio do Creador.
-
-Erguendo a cabeça, fitou os olhos no céo, com se a morte que ia cahir
-sobre elle fosse uma visão encantadora que descesse das nuvens
-sorrindo-lhe. Era que nesse ultimo sonho da existência via a linda
-imagem de Cecilia, feliz, alegre e contente; via sua senhora salva.
-
---Fere!... disse Pery ao velho cacique.
-
-Os instrumentos retumbarão de novo; os gritos e os cantos se
-confundirão com aquelles sons roucos, e rebóarão pela floresta como o
-trovão rolando pelas nuvens.
-
-A tagapema coberta de plumas gyrou no ar scintillando aos raios de sol
-que ferião as côres brillantes.
-
-No meio desse turbilhão ouvio-se um estrondo, uma ancia de agonisante e
-o baque de um corpo: tudo isto confusamente, sem que no primeiro
-instante se podesse perceber o que havia passado.
-
-
-
-
-III
-
-SORTIDA
-
-
-O estrondo que se ouvio, fôra causado por um tiro que partio d'entre as
-arvores.
-
-O velho Aymoré vacillou; seu braço que vibrava o tacape com uma força
-herculea, cahio inerte; o corpo abateu-se como o ipê da floresta
-cortado pelo raio.
-
-A morte tinha sido quasi instantanea; apenas um estertor de agonia
-resoou no seu peito largo e ainda ha pouco vigoroso: cahira já cadaver.
-
-Emquanto os selvagens permanecião estaticos diante do que se passava,
-Alvaro com a espada na mão e a clavina ainda fumegante precipitava-se
-no meio do campo. De dous talhos rapidos cortou os laços de Pery, e com
-as evoluções de sua espada conteve os selvagens, que voltando a si
-cahião sobre elle bramindo de furor.
-
-Immediatamente ouvio-se uma descarga de arcabuzes; dez homens destemidos
-tendo á sua frente Ayres Gomes saltárão por sua vez com a arma em
-punho, e começárão a talhar de alto a baixo a grandes golpes de
-espada.
-
-Não parecião homens, e sim dez demonios, dez machinas de guerra
-vomitando a morte de todos os lados; emquanto a sua mão direita imprima
-á lamina da espada mil voltas, que erão outros tantos golpes
-terriveis, a esquerda jogava a adaga com destreza e segurança
-admiravel.
-
-O escudeiro e seus homens tinhão feito um semi-circulo em roda de
-Alvaro e de Pery, e apresentavão uma barreira de ferro e fogo ás ondas
-de inimigos que bramião, recuavão, e lançavão-se de novo
-quebrando-se de encontro a esse dique.
-
-No curto instante que mediou entre a morte do cacique e o ataque dos
-aventureiros, Pery de braços cruzados olhava impassivel para tudo o
-que se passava em torno d'elle. Comprehendia então o gesto que sua
-senhora ha pouco lhe fizera do alto da esplanada, e o raio de esperança
-e de alegria que elle julgára ver brilhar no seu semblante.
-
-Com effeito no primeiro momento de afflicção Cecilia se lançára para
-ver o indio, chama-lo ainda, e supplicar-lhe mesmo que não expozesse a
-sua vida inutilmente.
-
-Não tendo mais visto Pery, a menina sentio um desespero cruel;
-voltou-se para seu pai, e com as faces orvalhadas de lagrimas, com o
-seio anhelante, com a voz cheia de angustia, pedio-lhe que salvasse
-Pery.
-
-D. Antonio de Mariz, antes que sua filha lhe fizesse esse pedido, já
-tinha-se lembrado de chamar os seus companheiros fieis, e seguido por
-elles correr contra o inimigo, e livrar o indio da morte certa e
-inevitavel que procurava.
-
-Mas o fidalgo era um homem de uma lealdade e de uma generosidade a toda
-a prova; sabia que aquella empreza era de um risco immenso, e não
-queria obrigar os seus companheiros a partilhar um sacrificio que elle
-só faria de bom grado á amizade que votava a Pery.
-
-Os aventureiros que se havião dedicado com tanta constancia á
-salvação de sua familia, não tinhão as mesmas razões para se
-arriscarem por causa de um homem que não pertencia á sua religião, e
-que não tinha com elles o menor laço de communidade.
-
-D. Antonio de Mariz perplexo, irresoluto entre a amizade e o seu
-escrupulo generoso, não soube o que responder a sua filha; procurou
-consola-la, afflicto por não poder satisfazer immediatamente a sua
-vontade.
-
-Alvaro, que contemplava esta scena pungente a alguma distancia, no meio
-dos aventureiros fieis e dedicados que tinha sob suas ordens, tomou
-repentinamente uma resolução.
-
-Seu coração partia-se vendo Cecilia soffrer; e embora amasse Isabel, a
-sua alma nobre sentia ainda pela mulher a quem votára os seus primeiros
-sonhos, uma affeição pura, respeitosa, uma especie de culto.
-
-Era uma cousa singular na vida dessa menina; todas as paixões, todos os
-sentimentos que a envolvião soffrião a influencia de sua innocencia, e
-ião a pouco e pouco depurando-se e tomando um quer que seja de ideal,
-um cunho de adoração.
-
-O mesmo amor ardente e sensual de Loredano, quando se tinha visto em
-face della, adormecida na sua casta isenção, emmudecêra e hesitara um
-momento se devia manchar a santidade do seu pudor.
-
-Alvaro trocou com os aventureiros algumas palavras; e dirigio-se para o
-grupo que formavão D. Antonio de Mariz e sua filha.
-
---Consolai-vos, D. Cecilia; disse o moço, e esperai!
-
-A menina fitou nelle os seus olhos azues cheios de reconhecimento;
-aquella palavra era ao menos uma esperança.
-
---Que contais fazer! perguntou D. Antonio ao cavalheiro.
-
---Tirar Pery das mãos do inimigo!
-
---Vós!... exclamou Cecilia.
-
---Sim, D. Cecilia, disse o moço; aquelles homens dedicados vendo a
-vossa afflicção sentirão-se commovidos e desejão poupar-vos uma
-justa mágoa.
-
-Alvaro attribuia a generosa iniciativa aos seus companheiros, quando
-elles não tinhão feito senão aceita-la com enthusiasmo.
-
-Quanto a D. Antonio de Mariz, sentira uma intima satisfação ouvindo as
-palavras do moço: seus escrupulos cessavão desde que seus homens
-espontaneamente se offerecião para realisar aquella difficil empreza.
-
---Cedereis-me uma parte dos nossos homens; quatro ou cinco me bastão;
-continuou o moço dirigindo-se ao fidalgo; ficareis com o resto para
-defender-vos no caso de algum ataque imprevisto.
-
---Não; respondeu D. Antonio; levai-os todos, já que se prestão a essa
-tão nobre acção, que não me animava a exigir de sua coragem. Para
-defender a minha filha, basto eu, apezar de velho.
-
---Desculpai-me, Sr. D. Antonio, replicou Alvaro; mas é uma imprudencia
-a que me opponho; pensai que a dous passos de vós existem homens
-perdidos, que nada respeitão, e que espião o momento de fazer-vos mal.
-
---Sabeis se prezo e estimo esse thesouro cuja guarda me foi confiada por
-Deus. Julgais que haja neste mundo alguma cousa que me faça expo-lo a
-um novo perigo? Acreditai-me: D. Antonio de Mariz, só, defenderá sua
-familia, emquanto vós salvareis um bom e nobre amigo.
-
---Confiais demasiado em vossas forças!...
-
---Confio em Deus, e no poder que elle collocou em minha mão: poder
-terrivel, quando chegar o momento fulminará todos os nossos inimigos
-com a rapidez do raio.
-
-A voz do velho fidalgo pronunciando estas palavras tinha-se revestido de
-uma solemnidade imponente; o seu rosto illuminou-se com uma expressão
-de heroismo e de magestade que realçou a belleza severa do seu busto
-veneravel.
-
-Alvaro olhou com uma admiração respeitosa o velho cavalheiro emquanto
-Cecilia, pallida e palpitante das emoções que sentira, esperava com
-anciedade a decisão que ião tomar.
-
-O moço não insistio e sujeitou-se á vontade de D. Antonio de Mariz;
-
---Obedeço-vos; iremos todos e voltaremos mais promptos.
-
-O fidalgo apertou-lhe a mão:
-
---Salvai-o!
-
---Oh! sim, exclamou Cecilia, salvai-o, Sr. Alvaro.
-
---Juro-vos, D. Cecilia, que só a vontade do céo fará que eu não
-cumpra a vossa ordem.
-
-A menina não achou uma palavra para agradecer essa generosa promessa;
-toda a sua alma partio-se n'um sorriso divino.
-
-Alvaro inclinou-se diante della; foi juntar-se aos aventureiros, e
-deo-lhes ordem de se prepararem para partir. Quando o moço entrou na
-sala então deserta para tomar a suas armas, Isabel, que já sabia do
-seu projecto, correu a elle pallida e assustada.
-
---Ides bater-vos? disse ella coma voz tremula.
-
-Em que isto vos admira? Não nos batemos todos os dias com o inimigo!
-
---De longe!... Defendidos pela posição! Mas agora é differente!
-
---Não vos assusteis. Isabel! Daqui a uma hora estarei de volta.
-
-O moço passou a clavina á tiracollo e quiz sahir.
-
-Isabel tomou-lhe as mãos com um movimento arrebatado; seus olhos
-scintillavão com um fogo estranho; suas faces estavão incendiadas de
-vivo rubor.
-
-O moço procurou tirar as mãos daquella pressão ardente e apaixonada:
-
---Isabel, disse elle com uma doce exprobação; quereis que falte á
-minha palavra, que recue diante de um perigo?
-
---Não! Nunca eu vos pediria semelhante cousa! Era preciso que não vos
-conhecesse, e que não... vos amasse!...
-
---Mas então dexai-me partir.
-
---Tenho uma graça a supplicar-vos?
-
---De mim?... Neste momento?
-
---Sim! Neste momento!... Apezar do que me dizieis ha pouco, apezar do
-vosso heroismo, sei que caminhais a uma morte certa, inevitavel.
-
-A voz de Isabel tornou-se balbuciante:
-
---Quem sabe... se nos veremos mais neste mundo?!
-
---Isabel!... disse o moço querendo fugir para evitar a commoção que
-se apoderava delle.
-
---Promettestes fazer-me a graça que vos pedi.
-
---Qual?
-
---Antes de partir, antes de me dizer adeus para sempre...
-
-A moça fitou no cavalheiro um olhar que fascinava.
-
---Fallai!... fallai!...
-
---Antes de nos separarmos, eu vos supplico, deixai-me uma lembrança
-vossa!... Mas uma lembrança que fique dentro de minha alma!
-
-E a menina cahio de joelhos aos pés de Alvaro, occultando seu rosto que
-o pudor revoltado em luta com a paixão cobria de um brillante carmim.
-
-Alvaro ergueu-a confusa e vergonhosa do que tinha feito, e chegando os
-seus labios ao ouvido proferio, ou antes murmurou uma phrase.
-
-O semblante de Isabel expandio-se; uma aureola de ventura cingio a sua
-fronte; seu seio dilatou-se, e respirou com a embriaguez do coração
-feliz.
-
---Eu te amo!
-
-Era a phrase que Alvaro deixára cahir na sua alma, e que a enchia toda
-como um effluvio celeste, como um canto divino que resoava nos seus
-ouvidos e fazia palpitar todas as suas fibras.
-
-Quando ella sahio desse extasi, o moço tinha sahido da sala, e unia-se
-aos seus companheiros promptos a marchar.
-
-Foi nessa occasião que Cecilia, chegando imprudentemente á palissada,
-fez a Pery un aceno que lhe dizia esperasse.
-
-A pequena columna partio commandada por Alvaro e por Ayres Gomes, que
-depois de tres dias não deixava o seu posto dentro do gabinete do
-fidalgo.
-
-Quando os bravos combatentes desapparecêrão na floresta, D. Antonio de
-Mariz recolheu-se com sua familia para a sala, e sentando-se na sua
-poltrona esperou tranquillamente. Não mostrava o menor temor de ser
-atacado pelos aventureiros revoltados, que estavão a alguns passos de
-distancia apenas, e que não deixarião de aproveitar um ensejo tão
-favoravel.
-
-D. Antonio tinha a este respeito uma completa segurança; tendo fechada
-as portas e examinado a escorva de suas pistolas, recommendou silencio,
-afim de que nem um rumor lhe escapasse.
-
-Vigilante e attento, o fidalgo reflectia ao mesmo tempo sobre o facto
-que se acabava de passar, e que o tinha profundamente impressionado.
-
-Conhecia Pery e não podia comprehender como o indio, sempre tão
-intelligente e tão perspicaz, se deixára levar por uma louca
-esperança a ponte de ir elle só atacar os selvagens.
-
-A extrema dedicação do indio por sua senhora, o desespero da posição
-em que se achavão, podia explicar essa hallucinação, se o fidalgo
-não soubesse quanto Pery tinha a calma, a força e o sangue-frio que
-tornão o homem superior a todos os perigos. O resultado de suas
-reflexões foi que havia no procedimento de Pery alguma cousa que não
-estava clara e que devia explicar-se mais tarde.
-
-Ao passo que elle se entregava a esses pensamentos, Alvaro tinha feito
-uma volta, e favorecido pela festa dos selvagens se aproximara sem ser
-percebido.
-
-Quando avistou Pery a algumas braças de distancia, o velho cacique
-levantava a tagapema sobre a sua cabeça.
-
-O moço levou a clavina ao rosto; e a bala sibilando foi atravessar o
-craneo do selvagem.
-
-
-
-
-IV
-
-REVELAÇÃO
-
-
-Apenas Alvaro, com a chegada dos seus companheiros, viu-se livre dos
-inimigos que o atacavão, voltou a Pery, que assistia immovel a toda
-esta scena.
-
---Vinde! disse o moço com autoridade.
-
---Não! respondeu o indio friamente.
-
---Tua senhora te chama!
-
-Pery abaixou a cabeça com uma profunda tristeza.
-
---Dize á senhora que Pery deve morrer; que vai morrer por ella. E tu
-parte, porque senão seria tarde.
-
-Alvaro olhou a physionomia intelligente do indio para ver se descobria
-nella algum signal de perturbação de espirito: porque o moço não
-comprehendia, nem podia comprehender a causa desta obstinação
-insensata.
-
-O rosto de Pery, calmo e sereno, não lhe deixou ver senão uma
-resolução firme, inabalavel, tanto mais profundo quando se mostrava
-sob uma apparencia de socego e tranquillidade.
-
---Assim, tu não obedece á tua senhora?
-
-Pery custou a arrancar a palavra dos labios.
-
---A ninguem.
-
-Quando pronunciava esta palavra, um grito fraco soou ao lado delle;
-voltando-se viu a india que lhe havião destinado por esposa cahindo
-atravessada por uma flecha.
-
-O tiro fôra destinado a Pery por um dos selvagens, e a menina
-lançando-se para cobrir o corpo daquelle que amára uma hora recebêra
-a setta no peito.
-
-Seus olhos negros, desmaiados pelas sombras da morte, volvêrão a Pery
-um ultimo olhar; e cerrando tornárão a abrir-se, já sem vida e sem
-brilho. Pery sentio um movimento de piedade e sympathia vendo essa
-victima de sua dedicação, que como elle sacrificava sem hesitar a sua
-existencia para salvar aquelle a quem amava.
-
-Alvaro nem se apercebeu do que acabava de passar; lançando um olhar
-para seus homens que batião-se valentemente com os Aymorés fez um
-aceno a Ayres Gomes.
-
---Escuta, Pery; tu sabes se costumo cumprir a minha palavra. Jurei a
-Cecilia levar-te; e ou tu me acompanhas, ou morreremos todos neste
-lugar.
-
---Faze o que quizeres! Pery não sahira d'aqui.
-
---Vês estes homens?... são os unicos defensores que restão á tua
-senhora; se todos elles morrem, bem sabes que é impossivel que ella se
-salve.
-
-Pery estremeceu. Ficou um momento pensativo; depois, sem dar tempo a que
-o seguissem, lançou-se entre as arvores.
-
-D. Antonio de Mariz e sua familia, tendo ouvido os tiros dos arcabuzes,
-esperavão com anciedade o resultado da expedição.
-
-Dez minutos havião decorrido na maior impaciencia, quando sentirão
-tocar na porta, e ouvirão a voz de Pery; Cecilia correu, e o indio
-ajoelhou-se a seus pés pedindo-lhe perdão.
-
-O fidalgo, livre do pezar de perder um amigo, assumira a sua costumada
-severidade, como sempre que se tratava de uma falta grave.
-
---Commetteste uma grande imprudencia, disse elle ao indio; fizeste
-soffrer teus amigos; expozeste a vida daquelles que te amão; não
-precisas de outra punição além desta.
-
---Pery ia salvar-te!
-
---Entregando-te nas mãos do inimigo?
-
---Sim!
-
---Fazendo-te matar por elles?
-
---Matar e...
-
---Mas qual era o resultado dessa loucura?
-
-O indio calou-se.
-
---É preciso explicar-te, para que não julguemos que o amigo
-intelligente e dedicado de outr'ora tornou-se um louco e um rebelde.
-
-A palavra era dura; e o tom em que foi dita ainda aggravava mais a
-reprehenção severa que ella encerrava.
-
-Pery sentio um lagrima humedecer-lhe as palpebras:
-
---Obrigas Perry a dizer tudo!
-
---Deves fazê-lo, se desejas rehabilitar-te na estima que te votava, e
-que sinto perder.
-
---Pery vai fallar.
-
-Alvaro entrava nesse momento tendo deixado no alto da esplanada os seus
-companheiros já livres de perigo, e quites por algumas feridas que não
-erão felizmente muito graves.
-
-Cecilia apertou as mãos do moço com reconhecimento; Isabel enviou-lhe
-n'um olhar toda a sua alma.
-
-As pessoas presentes se grupárão ao redor da poltrona de D. Antonio,
-em face do qual Pery de pé com a cabeça baixa, confuso e envergonhado
-como um criminoso, ia justificar-se.
-
-Dir-se-hia que confessava uma acção indigna e vil: ninguem adivinhava
-que sublime heroismo, que concepção gigantesca havia nesse acto, que
-todos condemnavão como uma loucura.
-
-Elle começou:
-
-«Quando Ararê deitou o seu corpo sobre a terra para não tornar a
-erguê-lo, chamou Pery e disse:
-
-«Filho de Ararê, teu pai vai morrer; lembra-te que tua carne é a
-minha carne; que teu sangue é meu sangue. Teu corpo não deve servir ao
-banquete do inimigo.
-
-«Ararê disse, e tirou suas contas de fructos que deo a seu filho;
-estavão cheias de veneno; tinhão nellas a morte.
-
-«Quando Pery fosse prisioneiro, bastava quebrar um fructo, e ria do
-vencedor que não se animaria a tocar no seu corpo.
-
-«Pery viu que a senhora soffria e olhou as suas contas; teve uma idéa;
-a herança de Ararê podia salvar a todos.
-
-«Se tu deixasses fazer o que queria, quando a noite viesse não acharia
-um inimigo vivo; os brancos e os indios não te offenderião mais.»
-
-Toda a familia ouvia esta narração com uma surpreza extraordinaria;
-comprehendião delia que havia em tudo isto uma arma terrivel,--o
-veneno; mas não podião saber os meios de que o indio se servira ou
-pretendia servir-se para usar desse agente de destruição.
-
---Acaba! disse D. Antonio; por que modo contavas então destruir o
-inimigo?
-
---Pery envenenou a agua que os brancos bebem, e o seu corpo, que devia
-servir ao banquete dos Aymorés!
-
-Um grito de horror acolheu essas palavras ditas pelo indio em um tom
-simples e natural.
-
-O plano que Pery combinára para salvar seus amigos acabava de
-revelar-se em toda a sua abnegação sublime, e com o cortejo de scenas
-terriveis e monstruosas que devião acompanhar a sua realisação.
-
-Confiado nesse veneno que os indios conhecião com o nome de _curarê_,
-e cuja fabricação era um segredo de algumas tribus, Pery com a sua
-intelligencia e dedicação descobrira um meio de vencer elle só aos
-inimigos, apezar do seu numero e da sua força.
-
-Sabia a violencia e o effeito prompto daquella arma que seu pai lhe
-confiára na hora da morte; sabia que bastava uma pequena parcella desse
-pó subtil para destruir em algumas horas a organisação a mais forte e
-a mais robusta. O indio resolveu pois usar desse poder que na sua mão
-heroica ia tornar-se um instrumento de salvação, e o agente de um
-sacrificio tremendo feito á amizade.
-
-Dous fructos bastárão; um servio para envenenar a agua e as bebidas
-dos aventureiros revoltados; o outro acompanhou-o até o momento do
-supplicio, em que passou de suas mãos aos seus labios.
-
-Quando o cacique vendo-o cobrir o rosto perguntou-lhe se tinha medo,
-Pery acabava de envenenar o seu corpo, que devia d'ahi a algumas horas
-ser um germen de morte para todos esses guerreiros bravos e fortes.
-
-O que porém dava a esse plano um cunho de grandeza e de admiração,
-não era sómente o heroismo do sacrificio; era a belleza horrivel da
-concepção, era o pensamento superior que ligára tantos acontecimentos,
-que os submettêra á sua vontade, fazendo-os succeder-se naturalmente
-e caminhar para um desfecho necessario e infallivel.
-
-Porque, é preciso notar, a menos de um facto extraordinario, desses que
-a previdencia humana não pode prevenir, Pery quando sahio da casa
-tinha a certeza de que as cousas se passarião como de facto se
-passárão.
-
-Atacando os Aymorés a sua intenção era excita-los á vingança;
-precisava mostrar-se forte, valente, destemido, para merecer que os
-selvagens o tratassem como um inimigo digno de seu odio. Com a sua
-destreza e com a precaução que tomára tornando o seu corpo
-impenetravel, contava evitara morte antes de poder realisar o seu
-projecto; quando mesmo cahisse ferido, tinha tempo de passar o veneno
-aos labios.
-
-A sua previsão porém não o illudio; tendo conseguido o que desejava,
-tendo excitado a raiva dos Aymorés, quebrou a sua arma, e supplicou a
-vida ao inimigo; foi de todo o sacrificio o que mais lhe custou.
-
-Mas assim era preciso; a vida de Cecilia o exigia; a morte que o havia
-respeitado até então podia surprendê-lo; e Pery queria ser feito
-prisioneiro, como foi, e contava ser.
-
-O costume dos selvagens, de não matar na guerra o inimigo e de
-captiva-lo para servir ao festim da vingança, era para Pery uma
-garantia e uma condição favoravel á execução do seu projecto.
-
-Quanto á peripecia final, que a intervenção de Alvaro obstára; não
-fôra esse incidente imprevisto, que seria igualmente infallivel.
-
-Segundo as leis tradicionaes do povo barbaro, toda a tribu devia tomar
-parte no festim, as mulheres moças tocavão apenas na carne do
-prisioneiro; mas os guerreiros a saboreavão como um manjar delicado,
-adubado pelo prazer da vingança: e as velhas com a gula feroz das
-harpias que se cevão no sangue de suas victimas.
-
-Pery contava pois com toda a segurança que dentro de algumas horas o
-corpo envenenado da victima levaria a morte ás entranhas do seus
-algozes, e que elle só destruiria toda uma tribu, grande, forte,
-poderosa, apenas com auxilio dessa arma silenciosa.
-
-Póde-se agora comprehender qual tinha sido o seu desespero vendo esse
-plano inutilisado; depois de ter desobedecido á sua senhora, depois de
-haver tudo realisado, quando só faltava o desfecho, quando o golpe que
-ia salvar a todos cahia, mudar-se de repente a face das cousas, e ver
-destruida a sua obra, filha de tanta meditação!
-
-Ainda assim quiz resistir, quiz ficar, esperando que os Aymorés
-continuarião o sacrificio; mas conheceu que a resolução de Alvaro era
-inabalavel como a sua; que ia ser causa da morte de todos os defensores
-fieis de D. Antonio, sem ter já a certeza de sua salvação.
-
-No primeiro momento que succedeu á confissão de Pery, todos os actores
-dessa scena, pallidos, tomados de espanto e de terror, com os olhos
-cravados no indio, duvidavão ainda do que tinhão ouvido; o espirito
-horrorisado não formulava uma idéa; os labios tremulos não achavão
-uma palavra.
-
-D. Antonio foi o primeiro que recobrou a calma; no meio da admiração
-que lhe causava aquella acção heroica, e das emoções produzidas por
-essa idéa ao mesmo tempo sublime e horrivel, uma circumstancia o tinha
-sobretudo impressionado.
-
-Os aventureiros ião ser victimas do envenenamento; e por maior que
-fosse o gráo de baixeza e aviltamento a que tinhão descido esses
-homens pela sua traição, a nobreza do fidalgo não podia soffrer
-semelhante homicidio.
-
-Elle os puniria a todos com a morte ou com o desprezo, essa outra morte
-moral; mas o castigo na sua opinião elevava a morte á altura de um
-exemplo; emquanto que a vingança a fazia descer ao nivel do
-assassinato.
-
---Vai, Ayres Gomes, gritou D. Antonio ao seu escudeiro; corre e previne
-a esses desgraçados, se ainda é tempo!
-
-
-
-
-V
-
-O PAIOL
-
-
-Cecilia ouvindo a voz de seu pai estremeceu como se acordasse de um
-sonho.
-
-Atravessou o aposento com passo vacillante, e chegando-se a Pery, fitou
-nelle os seus lindos olhos azues com uma expressão indefinivel.
-
-Havia nesse olhar ao mesmo tempo a admiração immensa que lhe causava a
-acção heroica do indio; a dôr profunda que sentia pela sua perda; e
-uma exprobação por não ter elle ouvido as suas supplicas.
-
-O indio nem se animava a levantar os olhos para sua senhora; não tendo
-realisado o sen desejo, considerava agora tudo quanto fizera como uma
-loucura.
-
-Sentia-se criminoso, e de toda a sua acção heroica e sublime para os
-outros, só lhe restava o pezar de ter offendido Cecilia, e de lhe haver
-causado inutilmente um degosto.
-
---Pery, disse a menina com desespero, porque não fizeste o que tua
-senhora te pedia?...
-
-O indio não sabia o que responder; temia ter perdido a affeição de
-Cecilia, e essa idéa martyrisava os últimos momentos que lhe restavão
-a viver.
-
---Cecilia não te disse, continuou a menina soluçando, que ella não
-aceitaria a salvação com o sacrificio de tua vida?
-
---Pery já te pedio que perdoasses! mnrmurou o indio
-
---Oh! Se tu soubesses o que fizeste hoje soffrer á tua senhora!... Mas
-ella te perdôa.
-
---Ah!... exclamou Pery, cuja physionomia illuminou-se.
-
---Sim!... Cecilia te perdôa tudo que soffreu, e tudo que vai soffrer!
-Mas será por pouco tempo...
-
-A menina dizia essas palavras com um triste sorriso de sublime
-resignação; conhecia que não havia mais esperança de salvação, e
-esta idéa quasi a consolava.
-
-Não pôde acabar porém; a palavra ficou-lhe presa aos labios,
-tremula, consulva: seus olhos se fixavão em Pery com um sentimento de
-terror e de espanto.
-
-A physionomia do indio se tinha decomposto; seus traços nobres
-alterados por contracções violentas, o rosto encovado, os labios
-roxos, os dentes que se entrechocavão, os cabellos erriçados da
-vão-lhe um aspecto medonho.
-
---O veneno!... gritárão os espectadores dessa scena horrorisados.
-
-Cecilia fez um esforço extraordinario; e lançando-se para o indio,
-procurou reanima-lo.
-
---Pery!... Pery... balbuciava a menina aquecendo nas suas as mãos
-geladas de seu amigo.
-
---Pery vai-te deixar para sempre, senhora.
-
---Não!... Não!... exclamou a menina fora de si.
-
-Não quero que tu nos deixes!... Oh! tu és máo muito máo!... Se
-estimasses tua senhora, não a abandonarias assim!...
-
-As lagrimas orvalhavão as faces da menina, que no seu desespero não
-sabia o que dizia. Erão palavras entrecortadas, sem sentido; mas que
-revelavão a sua augustia.
-
---Tu queres que Pery viva, senhora? disse o indio com a voz commovida.
-
---Sim!... respondeu a menina supplicante. Quero que tu vivas!
-
---Pery viverá!
-
-O indio fez um esforço supremo, e restituindo um pouco de elasticidade
-aos seus membros entorpecidos, dirigio-se á porta e desappareceu.
-
-Todas as pessoas presentes o acompanharão com os olhos e o virão
-descer á varzea e ganhar a floresta correndo.
-
-A ultima palavra que elle proferira tinha um momento restituido a
-esperança a D. Antonio de Mariz; mas quasi logo a duvida apoderou-se do
-seu espirito; julgou que o indio se illudia.
-
-Cecilia porém tinha mais do que uma esperança; tinha quasi uma certeza
-de que Pery não se enganára; a promessa de seu amigo lhe inspirava uma
-confiança profunda. Nunca Pery lhe havia dito uma cousa que se não
-realisasse; o que parecia impossivel aos outros, tornava-se facil para a
-sua vontade firme e inabalavel, para o poder sobrehumano de que a força
-e a intelligencia o revestia.
-
-Quando D. Antonio de Mariz e sua familia se recolhêrão tristemente
-impressionados, Alvaro de pé na porta do gabinete fez um gesto de
-espanto ao fidalgo, e apontou-lhe para o oratorio.
-
-A parede do fundo, prestes a tombar, oscillava sobre a sua base como uma
-arvore balançada pelo vento.
-
-D. Antonio sorrio, e ordenando a sua familia que entrasse no gabinete,
-tirou a pistola da cinta, armou-a e esperou na porta ao lado de Alvaro.
-
-No mesmo instante ouvio-se um grande estrondo, e no meio da nuvem
-espessa de pó que se elevou desse montão de ruinas seis homens
-precipitárão-se na sala.
-
-Loredano foi o primeiro; apenas tocou o chão, ergueu-se com
-extraordinaria rapidez, e seguido pelos seus companheiros caminhou
-direito ao gabinete onde se achava recolhida a familia.
-
-Recuárão porém lividos e tremulos; horrorisados diante da cena muda e
-terrivel que se apresentava aos seus olhos espantados.
-
-No meio do aposento via-se um desses grandes vasos de barros vidrados,
-feitos pelos indios, e que continha pelo menos uma arroba de polvora. De
-uma aberta que havia nesse vaso corria um largo trilho que ia perder-se
-no fundo do paiol, onde se achavão enterradas todas as munições de
-guerra do fidalgo.
-
-Duas pistolas, a de D. Antonio de Mariz e a de Alvaro, esperavão um
-movimento dos aventureiros para lançarem a primeira faisca ao volcão.
-D. Lauriana, Cecilia e Isabel de joelhos, oravão julgando a cada
-momento ver confundirem-se no turbilhão todos os espectadores dessa
-scena.
-
-Era esta a arma terrivel de que fallára ha pouco D. Antonio, quando
-dizia a Alvaro que Deus lhe havia confiado o poder de fulminar todos os
-seus inimigos. O moço comprehendeu então a razão por que o fidalgo o
-tinha obrigado a partir com todos os homens para salvar Pery,
-julgando-se bastante forte para defender elle só, a sua familia.
-
-Quanto aos aventureiros, lembrárão-se do juramento solemne de D.
-Antonio de Mariz; o fidalgo os tinha todos fechados na sua mão, e
-bastava apertar essa mão para esmaga-los como um terrão de argila.
-Lançando um olhar esvairado em torno de si os seis criminosos quizerão
-fugir, mas não tiverão animo de dar um passo, e ficárão como
-pregados ao solo.
-
-Ouvio-se então um rumor de vozes da parte de fora, e Ayres Gomes
-seguido pelos aventureiros apresentou-se á porta da sala.
-
-Loredano conheceu que desta vez estava irremediavelmente perdido, e
-assentou de vender caro a sua vida; mas a desgraça pesava sobre elle.
-Dous dos seus companheiros cahirão a seus pés estorcendo-se em
-convulsões horriveis, e soltando gritos que mettião dó e compaixão.
-
-A principio ninguem comprehendeu a causa dessa morte subita e violenta;
-mas a lembrança do veneno de Pery acudio logo á memoria de alguns e
-explicou tudo.
-
-Os aventureiros que chegavão guiados por Ayres Gomes apoderárão-se de
-Loredano, e forão ajoelhar-se confusos e envergonhados aos pés de D.
-Antonio de Mariz, pedindo-lhe o perdão de sua falta.
-
-O fidalgo tinha assistido a todos esses acontecimentos que se succedião
-tão rapidamente, sem deixar a sua primeira posição; dir-se-hia que
-sobre essas paixões humanas que se debatião a seus pés elle plainava
-como um genio, prestes a vibrar o raio celeste.
-
---A vossa falta é daquellas que não se perdoão, disse D. Antonio; mas
-estamos nesse momento extremo em que Deus manda esquecer todas as
-offensas. Levantai-vos e preparemo-nos todos para morrer como
-christãos.
-
-Os aventureiros erguêrão-se, e arrastando Loredano para fóra da sala,
-retirárão-se para o alpendre, com a consciencia alliviada de um grande
-peso.
-
-A familia pôde então, depois de tantas emoções, gozar um pouco de
-socego e repouso; apezar da posição desesperada em que se achavão, a
-reunião dos aventureiros revoltados tinha trazido um fraco vislumbre de
-esperança.
-
-Só D. Antonio de Mariz não se illudia, e desde aquella manhã tinha
-conhecido que, quando os Aymorés não o vencessem pelas armas, o
-vencerião pela fome. Todos os viveres estavão consumidos, e só uma
-sortida vigorosa podia salvar a familia desse martyrio que a ameaçava,
-martyrio muito mais cruel do que uma morte violenta.
-
-O fidalgo resolveu esgotar os ultimos recursos antes de confessar-se
-vencido; queria morrer com a consciencia tranquilla de ter cumprido o
-seu dever, e de haver feito o que fosse humanamente possivel. Chamou
-Alvaro e entreteve-se com o moço durante algum tempo em voz baixa;
-concertavão um meio de realisar essa idéa de que dependia toda a
-esperança de salvação.
-
-Ao mesmo tempo que isto se passava, os aventureiros reunidos em
-conselho, julgavão a Frei Angelo di Lucca, e o condemnavão por um voto
-unanime.
-
-Proferida a sentença, apresentárão-se diversas opiniões sobre o
-supplicio que devia ser infligido ao culpado; cada um lembrava o genero
-de morte mais cruel; porém a opinião geral adoptou a fogueira como o
-castigo consagrado pela inquisição para punir os hereges.
-
-Fincárão no meio do terreiro um alto poste, e o cercárão com uma
-grande pilha de madeira e outros combustiveis; depois sobre essa pyra
-ligárão o frade, que soffria todos os insultos e todas as injurias sem
-proferir uma palavra.
-
-Uma especie de atonia apoderára do italiano desde o momento em que os
-aventureiros o havião arrastado da sala de D. Antonio de Mariz; elle
-tinha a consciencia do seu crime, e a certeza de sua condemnação.
-
-Entretanto na occasião em que o atavão á fogueira, um incidente
-espertou de repente a sensibilidade desse homem embrutecido pela idéa
-da morte, e pela convicção de que não podia escapar a ella.
-
-Um dos aventureiros, um dos cinco complices da ultima conspiração,
-chegou-se a Loredano, e tirando-lhe a cinta que prendia o seu gibão,
-mostrou-a aos seus companheiros. O italiano vendo-se separado do seu
-thesouro sentio uma dôr muito mais forte do que a que ia soffrer na
-fogueira; para elle não havia supplicio, não havia martyrio que
-igualasse a este.
-
-O que o consolava na sua ultima hora era a idéa de que esse segredo que
-possuia, e do qual não podéra utilisar-se, ia morrer com elle, e
-ficaria perdido para todos; que ninguem gozaria do thesouro que lhe
-escapava.
-
-Por isso apenas o aventureiro tirou-lhe a cinta onde guardava o roteiro,
-soltou um rugido de colera e de raiva impotente; seus olhos
-injectárão-se de sangue, e seus membros crispando-se ferirão-se
-contra as cordas que os ligavão ao poste.
-
-Era horrivel de ver nesse momento; seu aspecto tinha a expressão brutal
-e feroz de um hydrophobo, seus labios espumavão, silvando como a
-serpente; e seus dentes ameaçavão de longe os seus algozes como as
-presas do jaguar.
-
-Os aventureiros rirão-se do desespero do frade por ver roubarem-lhe o
-seu precioso thesouro, e divertirão-se em augmentar-lhe o supplicio,
-promettendo que apenas livres dos Aymorés farião uma expedição ás
-minas de prata.
-
-A raiva do italiano redobrou quando Martim Vaz atou a cinta ao corpo, e
-disse-lhe sorrindo:
-
---Bem sabeis o proverbio: «O bocado não é para quem o faz.»
-
-
-
-
-VI
-
-TREGOA
-
-
-Erão oito horas da noite.
-
-Os aventureiros, sentados no terreiro em roda de um pequeno fogo,
-esperavão tristemente que cozinhassem alguns legumes destinados á
-magra cêa.
-
-A penuria tinha succedido á abundancia de outr'ora; privados da caça,
-sua alimentação ordinaria, estavão reduzidos a simples vegetaes. Os
-seus vinhos e as bebidas fermentadas de que fazião largas libações,
-tinhão sido envenenadas por Pery, e forão pois obrigados a deita-las
-fóra, muito felizes ainda por não terem sido victimas dellas.
-
-Loredano fechando a porta da despensa foi que os tinha salvado; apenas
-dous dos aventureiros que o havião acompanhado tinhão tocado nessas
-bebidas, e por isso poucas horas depois cahirão mortos, como vimos, na
-occasião em que ião atacar D. Antonio de Mariz.
-
-Não erão porém essas scenas de luto e a situação critica em que se
-achavão, que infundião nesses homens sempre alegres e tão galhofeiros
-aquella tristeza que não lhes era habitual. Morrer com as armas na
-mão, batendo-se contra o inimigo, era para elles uma cousa natural, uma
-idéa a que a suavidade aventuras e de perigos os tinha affeito.
-
-O que realmente os entristecia, era não terem uma boa cêa, e um
-cangirão de vinho diante de si; era o seu estomago que se contrahia por
-falto de alimento, e que tirava-lhes toda a disposição de rir e de
-folgar.
-
-A chamma avermelhada da fogueira ás vezes oscillava ao sopro do vento,
-e estendendo-se pelo terreiro ia illuminar a alguma distancia com o seu
-frouxo clarão o vulto de Loredano atado ao poste sobre a pyra de lenha.
-
-Os aventureiros tinhão resolvido demorar o supplicio, e dar tempo a que
-o frade se arrependesse dos seus crimes e se decidisse a morrer como
-christão, humilde e penitente; por isso deixárão-lhe a noite para
-reflectir.
-
-Talvez entrasse tambem nessa resolução um requinte de maldade e de
-vingança; julgando o italiano a verdadeira causa da posição em que
-estavão collocados, os seus companheiros o odiavão e querião
-prolongar o seu soffrimento como uma reparação do mal que lhes tinha
-feito.
-
-Assim, de vez em quando um delles se erguia, e chegando-se ao frade
-exprobrava-lhe a sua perversidade, e cobria-o de improperios e de
-injurias. Loredano estorcia-se de raiva, mas não proferia uma palavra,
-porque seus algozes o tinhão ameaçado de cortar-lhe a lingua.
-
-Ayres Gomes veio chamar os aventureiros da parte de D. Antonio de Mariz;
-todos se apressárão em obedecer, e pouco depois entrárão na sala
-onde estava reunida toda a familia.
-
-Tratava-se de uma sortida como fim de procurar viveres que podessem
-alimentar os habitantes da casa, até que D. Diogo tivesse tempo de
-chegar com o soccorro que tinha ido procurar. D. Antonio de Mariz
-reservava dez homens para defender-se; os outros partirião com Alvaro;
-se fossem felizes, havia ainda uma esperança de salvação; se fossem
-mal succedidos, uns e outros, os que fossem e os que ficassem morrerião
-como christãos e portuguezes.
-
-Immediatamente a expedição preparou-se, e favorecida pelo silencio da
-noite partio e internou-se pela floresta; devia afastar-se sem ser
-percebida pelos Aymorés, e procurar pelas vizinhanças fazer uma ampla
-provisão de alimentos.
-
-Durante a primeira hora que succedeu á partida, todos os que ficárão,
-com o ouvido attento escutavão, temendo ouvir a cada momento o estrondo
-de tiros que annunciasse um combate entre os aventureiros e os indios.
-Tudo conservou-se em silencio; e uma esperança, bem que vaga e tenue,
-veio pousar nesses corações quebrados por tantos soffrimentos e tantas
-angustias.
-
-A noite passou-se tranquillamente; nada indicava que a casa estivesse
-cercada por um inimigo tão terrivel como os Aymorés.
-
-D. Antonio admirava-se que os selvagens, depois do ataque da manhã, se
-conservassem tranquillos no seu campo, e não tivessem investido a
-habitação uma só vez. Passou-lhe pelo espirito a idéa de que se
-tivessem retirado com a perda de alguns dos seus principaes guerreiros;
-mas elle conhecia de ha muito o espirito vingativo e tenacidade dessa
-raça para admittir semelhante supposição.
-
-Cecilia recostou-se n'um sofá, e alquebrada de fadiga conseguio
-adormecer apezar das idéas tristes e das inquietações que a
-agitavão. Isabel, com o coração cerrado por um terrivel
-presentimento, lembrava-se de Alvaro, e acompanhava-o de longe na sua
-perigosa expedição, misturando as suas preces com as palavras ardentes
-do seu amor.
-
-Assim passou-se esta noite; a primeira, depois de tres dias, em que a
-familia de D. Antonio de Mariz pôde gozar alguns momentos de socego.
-
-De vez em quando o fidalgo chegando á janella via ao longe, perto do
-rio, brilharem os fogos do campo dos Aymorés, mas uma calma profunda
-reinava em toda aquella planicie. Nem mesmo se ouvia o écho
-enfraquecido de uma dessas cantigas monotonas com que os selvagens
-costumão á noite acompanhar o embalançar de sua rede de palha; apenas
-o sussurrar do vento nas folhas, a queda da agua sobre as pedras, e o
-grito do oitibó.
-
-Contemplando a solidão, o fidalgo insensivelmente voltava a essa
-esperança que ha pouco sorrira, e que o seu espirito tinha repellido
-como uma simples illusão. Tudo com effeito parecia indicar que os
-selvagens havião abandonado o seu campo, deixando nelle apenas os fogos
-que havião servido para esclarecer os seus preparativos de partida.
-
-Para quem conhecia, como D. Antonio, os costumes desses povos barbaros,
-para quem sabia quanto era activa, agitada, ruidosa essa existencia
-nomada, o silencio em que estava sepultada a margem do rio era um signal
-certo de que os Aymorés já alli não estavão.
-
-Comtudo o fidalgo, demasiadamente prudente para se fiar em apparencias,
-recommendára aos seus homens que redobrassem de vigilancia para evitar
-alguma surpreza.
-
-Talvez que aquelle socego e aquella serenidade fossem apenas uma dessas
-calmas sinistras que preludião as grandes tempestades, e durante as
-quaes os elementos parecem concentrar as suas forças para entrarem
-nessa luta espantosa, que tem por campo de batalha o espaço e o
-infinito.
-
-As horas corrêrão silenciosamente; a viuvinha cantou pela primeira
-vez; e a luz branca da alvorada veio empallidecer as sombras da noite.
-
-Pouco a pouco o dia foi rompendo; o arrebol da manhã desenhou-se no
-horizonte, tingindo as nuvens com todas as côres do prisma. O primeiro
-raio do sol, desprendendo-se daquelles vapores tenues e diaphanos,
-deslisou pelo azul do céo, e foi brincar no cabeço dos montes.
-
-O astro assomou, e torrentes de luz inundárão toda a floresta, que
-nadava n'um mar de ouro marchetado de brilhantes que scintillavão em
-cada uma das gotas do orvalho suspensas ás folhas das arvores.
-
-Os habitantes da casa, despertando, admiravão esse espectaculo
-magnifico do nascer do dia, que depois de tantas tribulações e de
-tantas augustias, lhes parecia completamente novo.
-
-Uma noite de quietação e socego os tinha como que restituido á vida;
-nunca esses campos verdes, esse rio puro e limpido, essas arvores
-florescentes, esses horizontes descortinados se havião mostrado a seus
-olhos tão bellos, tão risonhos como agora.
-
-É que o prazer e o soffrimento não passão de um contraste; em luta
-perpetua e continua, elles se acrysolão um no outro, e se depurão;
-não ha homem verdadeiramente feliz senão aquelle que já conheceu a
-desgraça.
-
-Cecilia, com a frescura da manhã, tinha-se expandido como uma flôr do
-campo; suas faces colorirão-se de novo, como se um raio do sol
-beijando-as lhes tivesse imprimido o seu reflexo roseado; os olhos
-brilhárão; e os labios entreabrindo-se para aspirarem o ar puro e
-embalsamado da manhã, arqueárão-se graciosamente quasi sorrindo.
-
-A esperança, esse anjo invisivel, essa doce amiga dos que soffrem,
-tinha vindo pousar no seu coração, e murmurava-lhe ao ouvido palavras
-confusas, cantos mysteriosos, que ella não comprehendia, mas que a
-consolavão e vertião em sua alma um balsamo suave.
-
-Sentia-se em todas as pessoas da casa um quer que seja, uma animação,
-um começo de bem-estar que revelava uma grande transformação operada
-na situação da vespera; era mais do que a esperança, menos do que a
-seguridade.
-
-Só Isabel não partilhava essa impressão geral; como sua prima, ella
-tambem viera contemplar o raiar do dia; mas fôra para interrogar a
-natureza, e perguntar ao sol, á luz, ao céo, se as lugubres imagens
-que tinhão passado e repassado na sua longa vigilia, erão uma
-realidade ou uma visão.
-
-E cousa singular! Esse sol tão brilhante, essa luz esplendida, esse
-céo azul, que aos outros reanimára, e que devia inspirar a Isabel o
-mesmo sentimento, pareceu-lhe ao contrario uma amarga ironia.
-
-Comparou a scena radiante que se apresentava aos seus olhos com o quadro
-que se desenhava em sua alma; emquanto a natureza sorria, o seu
-coração chorava. No meio dessa festa esplendida do nascer do dia, a
-sua dôr, só, isolada, não achava uma sympathia, e repellida pela
-creação voltava a recalcar-se em seu seio. A moça recostou a cabeça
-sobre o hombro de sua prima, e escondeu ahi o rosto para não perturbar
-a doce serenidade que se expandia no semblante de Cecilia.
-
-Entretanto D. Antonio tinha tratado de averiguar se as suas suspeitas da
-vespera erão reaes; certificou-se de que os selvagens havião
-abandonado o campo. Ayres Gomes, acompanhado de mestre Nunes, chegou
-mesmo a sahir da casa, e aproximar-se com todas as cautelas do lugar
-onde na vespera os Aymorés festejavão o sacrificio de Pery.
-
-Tudo estava deserto; não se vião mais no campo os vasos de barro, as
-peças de caça suspensas aos galhos da arvore, e as redes grosseiras
-que indicavão a alta de uma horda selvagem. Não havia já duvida, os
-Aymorés tinhão partido desde a vespera á noite, depois de enterrarem
-os seus mortos.
-
-O escudeiro voltou a dar esta noticia ao fidalgo, que recebeu-a menos
-favoravelmente do que se devia suppôr; ignorava a causa e o fim dessa
-partida repentina, e desconfiava della.
-
-Não ha que admirar nisto; D. Antonio era um homem prudente e avisado; a
-sua experiencia de quarenta annos o tinha tornado suspeitoso; por cousa
-nenhuma queria dar aos seus uma esperança que viesse a frustrar-se.
-
-
-
-
-VII
-
-PELEJA
-
-
-Quando a familia de D. Antonio de Mariz gozava dos primeiros momentos de
-tranquillidade que succedião a tantas afflicções, soou um grito na
-escada de pedra.
-
-Cecilia levantou-se estremecendo de alegria e felicidade; tinha
-reconhecido a voz de Pery.
-
-No momento em que ia correr ao encontro de seu amigo, mestre Nunes já
-tinha abaixado uma prancha que servia de ponte levadiça, e Pery chegava
-á porta da sala.
-
-D. Antonio de Mariz, sua mulher e sua filha ficárão mudos de espanto e
-terror; Isabel cahio fulminada, como se a vida lhe faltasse de repente.
-
-Pery trazia nos seus hombros o corpo inanimado de Alvaro; e no rosto uma
-expressão de tristeza profunda. Atravessando a sala, depôz sobre o
-sofá o seu fardo precioso, e olhando o rosto livido daquelle que fôra
-seu amigo, enxugou uma lagrima que lhe corria pela face.
-
-Nunhuma das pessoas presentes se animava a quebrar o silencio solemne
-que envolvia aquella scena lugubre; os aventureiros que havião
-acompanhado Pery quando passára no meio delles correndo, pararão na
-porta, tomados de compaixão e respeito por aquella desgraça.
-
-Cecilia nem pôde gozar da alegria de ver Pery salvo; seus olhos apezar
-dos soffrimentos passados, ainda tinhão lagrimas para chorar essa vida
-nobre e leal que a morte acabava de ceifar. Quanto a D. Antonio de
-Mariz, sua dôr era a de um pai que havia perdido um filho, era a dôr
-muda e concentrada que abala as organisações fortes, sem comtudo
-abatê-las.
-
-Depois dessa primeira commoção produzida pela chegada de Pery, o
-fidalgo interrogou o indio e ouvio de sua bocca a narração breve dos
-acontecimentos, cuja peripecia tinha diante dos olhos.
-
-Eis o que havia passado.
-
-Partindo na vespera, no momento em que começava a sentir os primeiros
-effeitos do veneno terrivel que tomára, Pery ia cumprir a promessa que
-tinha feito a Cecilia. Ia procurar a vida em um contra-veneno infallivel
-cuja existencia só era conhecida pelos velhos _payás_ da tribu, e
-pelas mulheres que os auxiliavão nas suas preparações medicinaes.
-
-Sua mãi, quando elle partira para a primeira guerra lhe tinha revelado
-esse segredo que devia salva-lo de uma morte certa no caso de ser ferido
-por alguma setta hervada.
-
-Vendo o desespero de sua senhora, o indio sentio-se com forças de
-resistir ao torpor do envenenamento que começava a ganhar-lhe o corpo,
-e ir ao fundo da floresta procurar essa herva poderosa que devia
-restituir-lhe a saude, o vigor e a existencia.
-
-Comtudo, quando atravessava a matta parecia-lhe ás vezes que já era
-tarde, que não chegaria a tempo: então tinha medo de morrer longe de
-sua senhora, sem poder volver para ella o seu ultimo olhar.
-Arrependia-se quasi de ter partido de casa e não deixar-se ficar aos
-pés de Cecilia até exhalar o seu ultimo suspiro; mas lembrava-se que a
-menina o esperava, lembrava-se que ella ainda precisava de sua vida e
-creava novas forças.
-
-Pery entranhou-se no mais basto e sombrio da floresta, e ahi, na sombra
-e no silencio passou-se entre elle e a natureza uma scena da vida
-selvagem, dessa vida primitiva, cuja imagem nos chegou tão incompleta
-e desfigurada. O dia declinou: veio a tarde, depois a noite, e sob essa
-abobada espessa em que Pery dormia como em um sanctuario, nem um rumor
-revelára o que ahi se passou.
-
-Quando o primeiro reflexo do dia purpureou o horizonte, as folhas se
-abrirão, e Pery exhausto de forças, vacillante, emmagrecido como se
-acabasse de uma longa enfermidade, sahio do seu retiro.
-
-Mal se podia suster, e para caminhar era obrigado a sustentar-se aos
-galhos das arvores que encontrava na sua passagem: assim adiantou-se
-pela floresta, e colheu alguns fructos, que lhe restabelecêrão um
-tanto as forças.
-
-Chegando á beira do rio, Pery já sentia o vigor que voltava, e o calor
-que começava a animar-lhe o corpo en torpecido; atirou-se á agua e
-mergulhou. Quando voltou á margem, era outro homem; uma reacção se
-havia operado; seus membros tinhão adquirido a elasticidade natural; o
-sangue gyrava livremente nas veias.
-
-Então tratou de recuperar as forças que havia perdido, e tudo quanto a
-floresta lhe offerecia de saboroso nutriente servio a esse banquete da
-vida, em que o selvagem festejava a sua victoria sobre a morte e o
-veneno.
-
-O sol tinha raiado havia horas; Pery, acabada a sua refeição,
-caminhava pensativo, quando ouvio uma descarga de armas de fogo, cujo
-estrondo reboou pelo ambito da floresta.
-
-Lançou-se na direcção dos tiros, e a pouca distancia, n'um claro da
-matta, descobrio um espectaculo grandioso.
-
-Alvaro e os seus nove companheiros divididos em duas columnas de cinco
-homens com as costas apoiadas ás costas uns dos outros, estavão
-cercados por mais de cem Aymorés que se precipitavão sobre elles com
-um furor selvagem.
-
-Mas as ondas dessa torrente de barbaros que soltavão bramidos
-espantosos, ião quebrar-se contra essa pequena columna, que não
-parecia de homens, mas de aço; as espadas jogavão com tanta velocidade
-que a tornavão impenetravel; no raio de uma braça o inimigo que se
-adiantava cahia morto.
-
-Havia uma hora que durava esse combate, começado com armas de fogo; mas
-os Aymorés atacarão com tanta furia, que breve tinhão chegado á luta
-corpo a corpo e á arma branca.
-
-No momento em que Pery assomava á margem da clareira, um incidente veio
-modificar a face do combate.
-
-O aventureiro que dava as costas a Alvaro, levado pelo ardor da peleja,
-adiantou-se, alguns passos para ferir um inimigo; os selvagens o
-envolvêrão, deixando a columna interrompida e Alvaro sem defeza.
-
-Entretando o valente cavalheiro continuava a fazer prodigios de valor e
-de coragem; cada volta que descrevia sua espada era um inimigo de menos,
-uma vida que se extinguia a seus pés n'um rio de sangue. Os selvagens
-redobravão de furor contra elle, e cada vez o seu braço agil movia-se
-com mais segurança e mais certeza, fazendo jogar como um raio a lamina
-de aço que mal se via brillar nas suas rapidas evoluções.
-
-Desde porém que os Aymorés virão o moço sem defeza pelas costas, e
-exposto aos seus golpes, concentrárão-se nesse ponto; um delles
-adiantando-se, ergueu com as duas mãos a pesada tagapema e atirou-a ao
-alto da cabeça de Alvaro.
-
-O moço cahio; mas na sua queda a espada descreveu ainda um semi-circulo
-e abateu o inimigo que o tinha ferido á traição; a dôr violenta dera
-a esse ultimo golpe uma força sobrenatural.
-
-Quando os indios ião precipitar-se sobre o cavalheiro, Pery saltou no
-meio delles, e agarrando a espingarda que estava a seus pés fez delia
-uma arma terrivel, uma clava formidavel, cujo poder em breve sentirão
-os Aymorés. Apenas se viu livre do turbilhão dos inimigos o indio
-tomou Alvaro nos seus hombros, e abrindo caminho com a sua arma temivel,
-lançou-se pela floresta e desappareceu.
-
-Alguns o seguirão; mas Pery voltou-se e fê-los arrepender-se de sua
-ousadia; livrando-se do peso que levava, carregou a espingarda com as
-munições que Alvaro trazia e mandou uma bala áquelle que o perseguia
-mais de perto; os outros, que o conhecião pelo combate da vespera,
-retrocedêrão.
-
-A idéa de Pery era salvar Alvaro, não só pela amizade que lhe tinha,
-como por causa de Cecilia, que elle suppunha amar o cavalheiro; vendo
-porém que o corpo continuava inanimado, acreditou que Alvaro estava
-morto. Apezar disto não desistio do seu proposito; morto ou vivo devia
-leva-lo áquelles que o amavão, ou para o restituirem á vida, ou para
-derramarem sobre o seu corpo o pranto da despedida.
-
-Quando Pery acabou a sua narração, o fidalgo commovido chegou-se á
-beira do sofá, e apertando a mão gelada e fria do cavalheiro, disse:
-
---Até logo, bravo e valente amigo; até logo! A nossa separação é de
-poucos instantes; breve nos reuniremos na mansão dos justos onde
-deveis estar, e onde espero que Deus me concederá a graça de entrar.
-
-Cecilia deo á memoria do moço as ultimas lagrimas, e ajoelhando aos
-pés do moribundo com sua mãi dirigio ao céo uma prece ardente.
-
-D. Lauriana tinha esgotado todos os recursos dessa medicina domestica
-que no interior das casas substituia a falta dos homens professionaes,
-muito raros naquella epoca, e sobretudo longe das cidades; o moço não
-deo porém o menor signal de vida.
-
-D. Antonio de Mariz, que comprehendêra perfeitamente o que devia
-esperar da pretendida retirada dos Aymorés, mandou que os seus homens
-se preparassem para a defeza, não que tivesse a menor esperança, mas
-porque desejava resistir até o ultimo momento.
-
-Pery, depois de ter respondido a todas as perguntas de Cecilia a
-respeito do modo por que se havia salvado do veneno, sahio da sala e
-percorreu a esplanada, observando os arredores. O indio infatigavel
-sempre que se tratava de sua senhora, apenas acabava de uma empreza
-gigantesca, como a que o tinha levado ao campo dos Aymorés, cuidava já
-em combinar outro projecto para salvar Cecilia.
-
-Depois do seu exame estrategico, entrou no quarto que havia abandonado
-na ante-vespera, e no qual encontrou ainda as suas armas, do mesmo modo
-que as tinha deixado.
-
-Lembrou-se do pedido que fizera a Alvaro, da contradicção do destino
-que lhe restituía a vida a elle um homem tres vezes morto, e roubava-a
-ao cavalheiro a quem elle havia deixado são e salvo.
-
-
-
-
-VIII
-
-NOIVA
-
-
-Uma hora depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, Pery,
-recostado á janella do quarto que tinha pertencido á sua senhora,
-olhava com uma grande attenção para uma arvore que se elevava a
-algumas braças de distancia.
-
-Seu olhar parecia estudar as curvas dos galhos retorcidos, medinho-lhe a
-distancia, a altura e o tamanho, como se disso dependesse a solução de
-uma grande difficuldade com que lutava o seu espirito. No momento em que
-estava de todo entregue a esse exame minucioso, o indio sentio uma mão
-timida e delicada tocar-lhe de leve no hombro.
-
-Voltou-se; era Isabel que estava junto delle, e que se havia aproximado
-como uma sombra, sem fazer o menor rumor. Uma pallidez mortal cobria as
-feições da moça, que apenas sahia do seu desmaio; mas o rosto tinha
-uma calma ou antes uma immobilidade que assustava.
-
-Voltando a si, Isabel correu um olhar pelo aposento, como para
-certificar-se de que não era um sonho o que havia passado.
-
-A sala estava deserta; D. Antonio de Mariz tinha sahido para dar as suas
-ordens; sua mulher, ajoelhada no oratorio sobre um montão de ruinas,
-rezava ao pé de uma cruz que ficára junto ao altar. No fundo do
-aposento, sobre o sofá, destacava-se o vulto immovel do cavalheiro, aos
-pés do qual ardia uma vela de cêra, lançando pallidos clarões.
-
-Cecilia é que estava perto della, e apertava no seio a sua cabeça
-desfallecida, procurando reanima-la.
-
-Quando o olhar de Isabel cahio sobre o corpo de seu amante, ella
-ergueu-se como impellida por uma força sobrenatural, atravessou
-rapidamente a sala, e foi por sua vez ajoelhar-se em face desse leito
-mortuario. Mas não era para fazer uma prece que ajoelhava, era para
-embeber-se na contemplação desse rosto livido e gelado, desses labios
-frios, desses olhos extinctos, que ella amava apezar da morte.
-
-Cecilia respeitou a dôr de sua prima, e por um instincto de delicadeza
-que só possuem as mulheres, comprehendeu que o amor, mesmo em face de
-um cadaver, tem o seu pudor e a sua castidade; sahio para deixar que
-Isabel chorasse livremente.
-
-Passado algum tempo depois da sahida de Cecilia, a moça ergueu-se,
-percorreu automaticamente a casa, e vendo Pery de longe aproximou-se
-delle o tocou-lhe no hombro.
-
-O indio e a moça se odiavão desde o primeiro dia em que se tinhão
-visto; em Isabel era o odio de uma raça que a rebaixava a seus proprios
-olhos; em Pery era essa repugnancia natural que sente o homem por
-aquelles em quem reconhece um inimigo.
-
-Por isso Pery, vendo Isabel junto delle, ficou extremamente admirado,
-sobretudo quando reparou no gesto supplicante que a moça lhe dirigia,
-como se esperasse delle uma graça.
-
---Pery!...
-
-O indio sentio-se commovido ao aspecto daquelle soffrimento, e pela
-primeira vez na sua vida dirigio a palavra a Isabel.
-
---Precisas de Pery? disse elle.
-
---Vinha pedir-te um serviço. Não m'o negarás, sim? balbuciou a moça.
-
---Falla; se fôr cousa que Pery possa fazer, elle não te negará.
-
---Promettes então? exclamou Isabel, cujos olhos brilhárão com uma
-expressão de alegria.
-
---Sim, Pery te promette.
-
---Vem!
-
-Dizendo essa palavra, a moça fez um gesto ao indio e dirigio-se
-acompanhada por elle á sala que ainda estava deserta como tinha
-deixado. Parou junto do sofá, e apontando para o corpo inanimado de seu
-amante, acenou a Pery que o tomasse nos seus braços.
-
-O indio obedeceu, e acompanhou Isabel até um gabinete retirado a um
-lado da casa; ahi deitou o seu fardo sobre um leito, cujas cortinas a
-moça entreabrio, corando como uma noiva.
-
-Corava porque o gabinete onde tinha entrado era o quarto em que
-habitára e encontrava ainda povoado de todos os sonhos de seu amor;
-porque o leito, que recebia seu amante, era o seu leito de virgem casta
-e pura; porque ella era realmente uma noiva do tumulo.
-
-Pery, tendo satisfeito o desejo da moça, retirou-se e voltou ao seu
-trabalho, que elle proseguia com uma constancia infatigavel.
-
-Apenas ficou só, Isabel sorrio; mas o seu sorriso tinha um quer que
-seja do extasi da dôr, da voluptuosidade do soffrimento, que faz sorrir
-na sua ultima hora os martyres e os desgraçados.
-
-Tirou do seio a redoma de vidro onde guardava os cabellos de sua mãi e
-fitou nella um olhar ardente; mas abanou a cabeça com um gesto de
-expressão indefinivel. Tinha mudado de resolução; o segredo que
-encerrava essa joia, o pó subtil que empanava a face interior do
-crystal, a morte que sua mãi lhe confiára não a satisfazia; era muito
-rapida, quasi instantanea.
-
-Sahio então furtivamente e acendeu uma vela de cêra, que havia sobre a
-commoda ao lado de um crucifixo de marfim; depois fechou a porta, cerrou
-as janellas e interceptou as frestas por onde a luz do dia podia
-penetrar. O gabinete ficou ás escuras; apenas em torno do cirio que
-ardia, uma aureola pallida se destacava no meio das trevas e illuminava
-a imagem de Christo.
-
-A moça ajoelhou e fez uma oração breve; pedia a Deus uma ultima
-graça; pedia a eternidade e a ventura do seu amor, que tinha passado
-tão rapido pela terra.
-
-Acabando a prece, tomou a luz, deitou-a na cabeceira do leito, afastou o
-cortinado e começou a contemplar o seu amante com enlevo.
-
-Alvaro parecia adormecido apenas; sua bella physionomia não tinha a
-menor alteração; a morte imprimindo nos seus traços o descoramento da
-cêra e do marmore, havia unicamente immobilisado a expressão e feito
-do gentil cavalheiro um bella estatua.
-
-Isabel interrompeu o enlevo de sua contemplação para chegar-se de novo
-á commoda, onde se vião algumas conchas de mariscos tintas de nacar
-que se apanhão nas nossas praias, e uma cesta de palha matizada.
-
-Esta cesta continha todas as resinas aromaticas, todos os perfumes que
-dão as arvores de nossa terra; o anime da aroeira, as perolas do
-beijoim, as lagrimas crystallisadas da embaiba, e gotas do balsamo, esse
-sandalo do Brazil.
-
-A moça deitou na concha a maior parte dos perfumes, e acendeu algumas
-bagas de beijoim; o oleo de que estavão impregnadas, alimentando a
-chamma, communicou-a ás outras resinas.
-
-Frocos de fumo alvadio impregnado de perfumes embriagadores se elevarão
-da caçoula em grossas espiraes, e enchêrão o gabinete de nuvens
-transparentes que oscillavão á luz pallida do cirio.
-
-Isabel, sentada á beira do leito, com as mãos do seu amante nas suas e
-com os olhos embebidos naquella imagem querida, balbuciava phrases
-entrecortadas, confidencias intimas, sons inarticulados, que são a
-linguagem verdadeira do coração.
-
-Ás vezes sonhava que Alvaro ainda vivia, que lhe murmurava ao ouvido a
-confissão do seu amor; e ella fallava-lhe como se seu amante a ouvisse,
-contava-lhe os segredos de sua paixão, vertia toda a sua alma nas
-palavras que cahião dos labios. Sua mão, delicada afastava os cabellos
-do moço, descobria a sua fronte, animava a sua face gelada, e roçava
-aquelles labios frios e mudos como pedindo-lhe um sorriso.
-
---Porque não me fallas? murmurava ella docemente: Não conheces tua
-Isabel?... Dize outra vez que me amas! Dize sempre essa palavra, para
-que minha alma não duvide da felicidade! Eu te supplico!...
-
-E com o ouvido attento, com os labios entreabertos, o seio palpitante,
-ella esperava o som dessa voz querida e o echo dessa primeira e ultima
-palavra de seu triste amor.
-
-Mas o silencio só lhe respondia; seu peito aspirava apenas as ondas dos
-perfumes inebriantes, que fazião circular nas suas veias uma chamma
-ardente.
-
-O aposento apresentava então um aspecto fantastico: no fundo escuro
-desenhava-se um circulo esclarecido, envolto por uma nevoa espessa.
-
-Nessa esphera luminosa como no meio de uma visão surgião Alvaro
-deitado no leito e Isabel reclinada sobre o rosto de seu amante, a quem
-continuava a fallar, como se elle a escutasse. A menina começava a
-sentir a respiração faltar-lhe; seu seio oppresso suffocava-a, e
-entretanto uma voluptuosidade inexprimivel a embriagava: um gozo immenso
-havia nessa asphyxia de perfumes que se condensavão e rarefazião o ar.
-
-Louca, perdida, hallucinada, ella ergueu-se, seu seio dilatou-se, e sua
-bocca, entreabrindo-se, collou-se aos labios frios e gelados de seu
-amante; era o seu primeiro e ultimo beijo; o seu beijo de noiva.
-
-Foi uma agonia lenta, um pesadelo horrivel em que a dôr lutava com o
-gozo, em que as sensações tinhão um requinte de prazer e de
-soffrimento ao mesmo tempo; em que a morte, torturando o corpo, vertia
-na alma effluvios celestes.
-
-De repente pareceu a Isabel que os labios de Alvaro se agitavão, que um
-tenue suspiro se exhalava de seu peito, ainda ha pouco insensivel como o
-marmore.
-
-Julgou que se illudia, mais não; Alvaro estava vivo, realmente vivo,
-suas mãos apertavão as della convulsamente; seus olhos, brilhando com
-um fogo estranho, se tinhão fitado no rosto da moça: um sopro reanimou
-seus labios, que exhalárão uma palavra quasi imperceptivel.
-
---Isabel!...
-
-A moça soltou um grito debil de alegria, de espanto, de medo; entre as
-idéas confusas que se agitavão na sua cabeça desvairada, lembrou-se
-com horror que era ella quem matava seu amante, quem o ia sacrificar por
-causa de um engano fatal. Fazendo um esforço extraordinario, conseguio
-erguer a cabeça e ia precipitar-se para janella, abri-la e dar entrada
-ao ar livre; sabia que a morte era inevitavel; mas salvaria Alvaro.
-
-No momento, porém, em que se levantava, sentio as mãos do moço que
-apertavão as suas, e a obrigárão a reclinar-se sobre o leito; seus
-olhos encontrárão de novo os olhos de seu amante.
-
-Isabel não tinha mais forças para resistir e realisar seu heroico
-sacrificio; deixou cahir a cabeça desfallecida, e seus labios se
-unirão outra vez n'um longo beijo, em que essas duas almas irmãs,
-confundindo-se n'uma só, voárão ao céo, e forão abrigar-se no seio
-do Creador.
-
-As nuvens de fumaça e de perfume se condensavão cada vez mais e
-envolvião como um lençol aquelle grupo original, impossivel de
-descrever.
-
-Por volta de duas horas da tarde, a porta da gabinete, impellida por um
-choque violento, abrio-se; e um turbilhão de fumo lançou-se por essa
-aberta, e quasi suffocou as pessoas que ahi estavão.
-
-Erão Cecilia e Pery.
-
-A menina, inquieta pela longa ausencia de sua prima, soube de Pery que
-ella estava no seu quarto; mas o indio occultou parte da verdade, e não
-disse onde deitára o corpo de Alvaro.
-
-Duas vezes Cecilia viera até á porta, escutára e nada ouvira; por fim
-resolveu-se a bater, a fallar a Isabel, e não teve a menor resposta.
-Chamou Pery e contou-lhe o que se passava; o indio, tomado de um
-presentimento metteu o hombro á porta e abrio-a.
-
-Quando a corrente de ar expellio a fumaça do aposento, Cecilia pôde
-entrar e ver a scena que descrevêmos.
-
-A menina recuou, e respeitando esse mysterio de um amor profundo, fez um
-gesto a Pery e retirou-se.
-
-O indio fechou de novo a porta e acompanhou sua senhora.
-
---Ella morreu feliz! disse Pery.
-
-Cecilia fitou nelle os seus grandes olhos azues, e córou.
-
-
-
-
-IX
-
-O CASTIGO
-
-
-O dia declinava rapidamente e as sombras da noite começavão a
-estender-se sobre o verde-negro da floresta.
-
-D. Antonio de Mariz, apoiado ao umbral da porta, junto de sua mulher,
-passava o braço pela cintura de Cecilia. O sol a esconder-se illuminava
-com o seu reflexo esse grupo de familia, digno do quadro magestoso que
-lhe servia de baixo-relevo.
-
-O fidalgo, Cecilia e sua mãi, com os olhos no horizonte, recebião esse
-ultimo raio de despedida, e mandavão o adeus extremo á luz do dia, ás
-montanhas que os cercavão, ás arvores, aos campos, ao rio, á toda a
-natureza.
-
-Para elles esse sol era a imagem de sua vida; o occaso era a sua hora
-derradeira; e as sombras da eternidade se estendião já como as sombras
-da noite.
-
-Os Aymorés tinhão voltado, depois do combate em que os aventureiros
-vendêrão caro a sua vida; e cada vez mais sequiosos de vingança,
-esperavão que anoitecesse para assaltar a casa. Certos desta vez que o
-inimigo extenuado não resistiria a um ataque violento, tinhão tratado
-de destruir todos os meios que podessem favorecer a fuga de um só dos
-brancos.
-
-Isto era facil; além da escada de pedra, o rochedo formava um
-despenhadeiro por todos os lados; e só a arvore, que lançava os galhos
-sobre a cabana de Pery, offerecia um ponto de communicação praticavel
-para quem tivesse a agilidade e a força do indio.
-
-Os selvagens, que não querião que lhes escapasse um só inimigo, e
-ainda menos que esse fosse Pery, abaterão a arvore, e cortárão assim
-a unica passagem por onde um homem poderia sahir do rochedo, no momento
-do ataque.
-
-Ao primeiro golpe do machado de pedra sobre o grosso tronco do oleo,
-Pery estremeceu, e, saltando sobre a sua clavina, ia despedaçar a
-cabeça do selvagem; mas sorrio-se, e encostou tranquillamente a arma á
-parede. Sem inquietar-se com a destruição que fazião os Aymorés,
-continuou no seu trabalho interrompido, e acabou de torcer uma corda com
-os filamentos de uma das palmeiras que servião de esteio á sua cabana.
-
-Elle tinha o seu plano: e para realisa-lo, começára por cortar as duas
-palmeiras e trazê-las para o quarto de Cecilia; depois rachou uma das
-arvores, e durante toda a manhã occupou-se em tercer essa longa corda,
-a que dava uma extraordinaria importancia.
-
-Quando Pery terminava a sua obra, ouvio o baque da arvore que tombava
-sobre o rochedo; chegou-se de novo á janella, e seu rosto exprimio uma
-satisfação immensa. O oleo, cortado pela raiz, deitára-se sobre o
-precipicio, elevando a uma grande altura os seus galhos seculares, mais
-frondosos e mais robustos do que uma arvore nova da floresta.
-
-Os Aymorés, tranquillos por esse lado, continuárão nos seus
-preparativos para o combate que conta vão dar durante as horas mortas
-da noite.
-
-Quando o sol desappareceu no horizonte e a que luz do crepúsculo cedeu
-ás trevas que envolvião a terra, Pery dirigio-se á sala.
-
-Ayres Gomes, sempre infatigavel, guardava a porta do gabinete; D.
-Antonio de Mariz estava recostado na sua cadeira de espaldar; e Cecilia,
-sentada sobre os seus joelhos, recusava beber uma taça que seu pai lhe
-apresentava.
-
---Bebe, minha Cecilia, dizia o fidalgo; é um cordial que te fará muito
-bem.
-
---De que serve, meu pai? Por uma hora, se tanto nos resta a viver, não
-vale a pena! respondia a menina, sorrindo tristemente.
-
---Tu te enganas! Ainda não estamos de todo perdidos.
-
---Tendes alguma esperança? perguntou ella incredula.
-
---Sim, tenho uma esperança, e esta não me illudirá! respondeu D.
-Antonio, com um accento profundo.
-
---Qual? Dizei-me!
-
---És curiosa? replicou o fidalgo sorrindo. Pois só te direi se fizeres
-o que te peço.
-
---Quereis que beba essa taça?
-
---Sim.
-
-Cecilia tomou a taça das mãos de seu pai, e depois de beber, volveu
-para elle o seu olhar interrogador.
-
---A esperança que eu tenho, minha filha, é que nenhum inimigo passará
-nunca do limiar daquella porta; pódes crer na palavra de teu pai e
-dormir tranquilla. Deus vela sobre nós.
-
-Beijando a fronte pura da menina, elle ergueu-se, tomou-a nos seus
-braços, e, recostando-a sobre a poltrona em que estivera sentado, sahio
-do gabinete e foi examinar o que se passava fóra da casa.
-
-Pery, que tinha assistido a esse dialogo entre o pai e a filha, estava
-occupado em procurar no gabinete varios objectos de que tinha
-necessidade apparentemente.
-
-Logo que achou quanto desejava, o indio encaminhou-se para a porta.
-
---Onde vais? disse Cecilia, que tinha acompanhado todos os seus
-movimentos.
-
---Pery volta, senhora.
-
---E porque nos deixas?
-
---Porque é preciso.
-
---Ao menos volta logo. Não devemos morrer todos juntos, da mesma morte?
-
-O indio estremeceu.
-
---Não; Pery morrerá: mas tu has de viver, senhora.
-
---Para que viver, depois de ter perdido todos os seus amigos?...
-
-Cecilia, que lia alguns momentos sentia a cabeça vacillar, os olhos
-cerrarem-se e um somno invencivel apoderar-se della, deixou-se cahir
-sobre o espaldar da cadeira.
-
---Não!... Antes morrer como Isabel! murmurou a menina já entorpecida
-pelo somno.
-
-Um meigo sorriso veio adejar nos seus labios entreabertos, por onde se
-escapava a respiração doce, branda e igual.
-
-Pery a principio assustou-se com esse somno repentino que não lhe
-parecia natural e com a pallidez subita de que se cobrirão as feições
-de Cecilia.
-
-Seus olhos cahirão sobre a taça que estava em cima da mesa; deitou nos
-labios algumas gotas do liquido que tinhão ficado no fundo e tomou-lhes
-o sabor: não podia conhecer o que continha; mas satisfez-se em não
-achar o que receiára.
-
-Repellio a idéa que lhe assaltára o espirito, e lembrou-se que D.
-Antonio sorria no momento em que pedia a sua filha para beber, e que a
-sua mão não tremêra apresentando-lhe a taça. Tranquillo a este
-respeito, o indio, que não tinha tempo a perder, ganhou a esplanada,
-correu para o quarto que occupava, e desappareceu.
-
-A noite já estava fechada, e uma escuridão profunda envolvia a casa e
-os arredores. Durante esse tempo nenhum acontecimento extraordinario
-viera modificar a posição desesperada em que se achava a familia; a
-calma sinistra, que precede as grandes tempestades, plainava sobre a
-cabeça d'essas victimas que contavão, não as horas, mas os instantes
-de vida que lhes restavão.
-
-D. Antonio passeava ao longo da sala, com a mesma serenidade dos seus
-dias tranquillos e placidos de outr'ora; de vez em quando o fidalgo
-parava na porta do gabinete, lançava um olhar sobre sua mulher que
-orava e sua filha adormecida; depois continuava o passeio interrompido.
-
-Os aventureiros grupados junto á porta seguião com os olhos o vulto do
-fidalgo que se perdia no fundo escuro da sala, ou se destacava cheio de
-vigor e de colorido na esphera luminosa a que cingia a lampada de prata
-suspensa ao tecto.
-
-Mudos, resignados, nenhum d'esses homens deixava escapar uma queixa, um
-suspiro que fosse; o exemplo de seu chefe reanimava nelles essa coragem
-heroica do soldado que morre por uma causa santa.
-
-Antes de obedecerem á ordem de D. Antonio de Mariz, elles tinhão
-executado a sua sentença proferida contra Loredano; e quem passasse
-então sobre a esplanada veria em torno do poste, em que estava atado o
-frade, uma lingua vermelha que lambia a fogueira, enroscando-se pelos
-toros de lenha.
-
-O italiano sentia já o fogo que se aproximava e a fumaça, que,
-ennovelando-se, envolvia-o n'uma nevoa espessa: é impossivel descrever
-a raiva, a colera e o furor que se apossárão d'elle n'esses momentos
-que precedêrão o supplicio.
-
-Mas voltemos á sala em que se achavão reunidos os principaes
-personagens d'essa historia, e onde se vão passar as scenas talvez mais
-importantes do drama.
-
-A calma profunda que reinava n'essa solidão não tinha sido perturbada;
-tudo estava em silencio; e as trevas espessas da noite não deixavão
-perceber os objectos a alguns passos de distancia.
-
-De repente listras de fogo atravessárão o ar, e se abatêrão sobre o
-edificio; erão as settas inflammadas dos selvagens que annunciavão o
-começo do ataque; durante alguns minutos foi como uma chuva de fogo,
-uma cascata de chammas que cahio sobre a casa.
-
-Os aventureiros estremecêrão; D. Antonio sorrio.
-
---É chegado o momento, meus amigos. Temos uma hora de vida;
-preparai-vos para morrer como christãos e portuguezes. Abri as portas
-para que possamos ver o céo.
-
-O fidalgo dizia que lhe restava uma hora de vida, porque, tendo
-destruido o resto da escada de pedra, os selvagens não podião subir ao
-rochedo senão escalando-o; e por maior que fosse a sua habilidade, não
-era possivel que consumissem n'isso menos tempo.
-
-Quando os aventureiros abrirão as portas, um vulto resvalou na sombra,
-e entrou na sala.
-
-Era Pery.
-
-
-
-
-X
-
-CHRISTÃO
-
-
-O indio dirigio-se rapidamente a D. Antonio de Mariz.
-
---Pery quer salvar a senhora.
-
-O fidalgo abanou a cabeça em signal de duvida.
-
---Escuta! replicou o indio.
-
-Aproximando os labios do ouvido de D. Antonio, fallou-lhe por algum
-tempo em voz baixa, e n'um tom rapido e decisivo.
-
---Tudo está preparado: parte, desce o rio; quando a lua estender o seu
-arco chegarás á tribu dos Goytacazes. A mãi de Pery te conhece: cem
-guerreiros te acompanharão á grande taba dos brancos.
-
-D. Antonio de Mariz ouvio em profundo silencio as palavras do indio; e
-quando elle terminou, apertou-lhe a mão com reconhecimento.
-
---Não, Pery: o que me propões é impossivel. D. Antonio de Mariz não
-pode abandonar a sua casa, a sua familia e os seus amigos no momento do
-perigo, ainda mesmo para salvar aquillo que elle mais ama n'este mundo.
-Um fidalgo portuguez não pode fugir diante do inimigo, qualquer que
-elle seja; morre vingando a sua morte.
-
-Pery fez um gesto de desespero.
-
---Assim tu não queres salvar a senhora?
-
---Não posso, respondeu o cavalheiro; o meu dever manda que fique, e
-partilhe a sorte de meus companheiros.
-
-O indio no seu fanatismo não comprehendia que houvesse uma razão capaz
-de sacrificar a vida de Cecilia, que para elle era sagrada.
-
---Pery pensou que tu amasses a senhora! disse elle fôra de si.
-
-D. Antonio olhou-o com uma expressão de dignidade e nobreza.
-
---Perdôo-te a offensa que me fizeste, amigo; porque é ainda uma prova
-de tua grande dedicação. Mas acredita-me; se fosse preciso que eu me
-votasse só ao sacrificio barbaro dos selvagens para salvar minha filha,
-eu o faria sorrindo.
-
---E porque recusas o que Pery te pede?
-
---Porque?... Porque o que tu pedes não é um sacrificio, é uma
-vergonha; é uma traição. Tu abandonarias tua mulher, teus
-companheiros, para salvar-te do inimigo, Pery?...
-
-O indio abaixou a cabeça com abatimento.
-
---Demais, essa empreza demanda forças com que um velho como eu já não
-póde contar. Havia duas pessoas que a poderião realisar.
-
---Quem? perguntou Pery com um raio de esperança.
-
---Uma era meu filho, que a esta hora esta bem longe d'aqui; a outra
-deixou-nos esta manhã e nos espera; era Alvaro.
-
---Pery fez pela senhora o que podia; tu não queres salva-la; Pery vai
-morrer a seus pés.
-
-Morrer? disse o fidalgo. Quando tens a liberdade e a vida á tua
-disposição? E julgas que consentirei nisto?... Nunca! Vai, Pery;
-conserva a lembrança de teus amigos; a nossa alma te acompanhará na
-terra. Adeus. Parte: o tempo urge.
-
-O indio ergueu a cabeça com um gesto soberbo de indignação.
-
---Pery arriscou bastantes vezes a sua vida por ti, para ter o direito de
-morrer comtigo; tu não pódes abandonar teus companheiros; o escravo
-não póde abandonar sua senhora.
-
---És injusto, amigo; exprimi um desejo, não quiz arrogar-te uma
-injuria. Se exiges uma parte do sacrificio, esta te pertence, e tu és
-digno d'ella; fica.
-
-Um grito dos selvagens retroou nos ares.
-
-D. Antonio, fazendo um gesto aos aventureiros, encaminhou-se para o
-gabinete.
-
-Cecilia, adormecida sobre a cadeira de espaldar, sorria como se algum
-sonho alegre a embalasse no seu somno tranquillo; o rosto um pouco
-pallido, moldurado pelas tranças louras de seus cabellos, tinha a
-expressão suave da innocencia feliz.
-
-O fidalgo, contemplando sua filha, sentio uma dôr pungente e quasi
-arrependeu-se de não ter aceitado o offerecimento de Pery, e de não
-tentar ao menos esse ultimo esforço para defender aquella vida que
-apenas começava a expandir-se.
-
-Mas podia elle mentir ao seu passado e faltar ao dever imperioso que o
-obrigava a morrer no seu posto? Podia trahir na sua ultima hora aquelles
-que havião partilhado a sua sorte?
-
-Tal era o sentimento de honra naquelles antigos cavalheiros, que D.
-Antonio nem um momento admittio a idéa de fugir para salvar sua filha;
-se houvesse outro meio, de certo o receberia como um favor do céo; mas
-aquelle era impossivel.
-
-Emquanto o espirito do fidalgo se debatia nessa luta cruel, Pery, de pé
-junto de Cecilia, parecia querer ainda protegê-la contra a morte
-inevitavel que a ameaçava. Dir-se-hia que o indio esperava algum
-soccorro imprevisto, algum milagre que salvasse sua senhora; e que
-aguardava o momento de fazer por ella tudo quanto fosse possivel ao
-homem.
-
-D. Antonio, vendo a resolução que se pintava no rosto do selvagem,
-tornou-se ainda mais pensativo; quando passado esse momento de
-reflexão, ergueu a cabeça, seus olhos brilhavão com un raio de
-esperança.
-
-Atravessou o espaço que o separava de sua filha, e, tomando a mão de
-Pery, disse-lhe com uma voz profunda e solemne:
-
---Se tu fosses christão, Pery!...
-
-O indio voltou-se extremamente admirado daquellas palavras.
-
---Porque?... perguntou elle.
-
---Porque?... disse lentamente o fidalgo. Porque se tu fosses christão,
-eu te confiaria a salvação de minha Cecilia, estou convencido de que a
-levarias ao Rio de Janeiro, á minha irmã.
-
-O rosto do selvagem illuminou-se; seu peito arquejou de felicidade; seus
-labios tremulos mal podião articular o turbilhão de palavras que lhe
-vinhão do intimo d'alma.
-
---Pery quer ser christão! exclamou elle.
-
-D. Antonio lançou-lhe um olhar humido de reconhecimento.
-
---A nossa religião permitte, disse o fidalgo, que na hora extrema todo
-o homem possa dar o baptismo. Nós estamos com o pé sobre o tumulo.
-Ajoelha, Pery!
-
-O indio cahio aos pés do velho cavalheiro, que impoz-lhe as mãos sobre
-a cabeça.
-
---Sê christão! Dou-te o meu nome.
-
-Pery beijou a cruz da espada que o fidalgo lhe apresentou, e ergueu-se
-altivo e sobranceiro, prompto a affrontar todos os perigos para salvar
-sua senhora.
-
---Escuso exigir de ti a promessa de respeitares e defenderes minha
-filha. Conheço a tua alma nobre, conheço o teu heroismo e a tua
-sublime dedicação por Cecilia. Mas quero que me faças um outro
-juramento.
-
---Qual? Pery está prompto para tudo.
-
-Jura que, se não poderes salvar minha filha, ella não cahirá nas
-mãos do inimigo?
-
---Pery te jura que elle levará a senhora a tua irmã; e que se o senhor
-do céo não deixar que Pery cumpra a sua promessa, nenhum inimigo
-tocará em tua filha; ainda que para isso seja preciso queimar uma
-floresta inteira.
-
---Bem; estou tranquillo. Ponho minha Cecilia sob tua guarda: e morro
-satisfeito. Podes partir.
-
---Manda fechar todas as portas.
-
-Os aventureiros obedecêrão á ordem do fidalgo; todas as portas se
-fechárão; o indio empregava este meio para ganhar tempo.
-
-Os gritos e bramidos dos selvagens, que continuavão com algumas
-interrupções, forão-se aproximando da casa; conhecia-se que
-escalavão o rochedo nesse momento.
-
-Alguns minutos se passárão n'uma anciedade cruel. D. Antonio de Mariz
-depositou um ultimo beijo na fronte de sua filha; D. Lauriana apertou ao
-seio a cabeça adormecida da menina e envolveu-a n'uma manta de seda.
-
-Pery, com o ouvido attento, o olhar fito na porta, esperava.
-Ligeiramente apoiado sobre o espaldar da cadeira ás vezes estremecia de
-impaciencia e batia com o pé sobre o pavimento da sala.
-
-De repente, um grande clamor soou em tomo da casa; as chammas lambêrão
-com as suas linguas de fogo as frestas das portas e janellas: o edificio
-tremeu desde os alicerces com o embate da tromba de selvagens que se
-lançava furiosa no meio do incendio.
-
-Pery, apenas ouvio o primeiro grito, reclinou sobre a cadeira e tomou
-Cecilia nos braços; quando o estrondo soou na porta larga do salão, o
-indio já tinha desapparecido.
-
-Apezar da escuridão profunda que reinava em todo o interior da casa,
-Pery não hesitou um momento; caminhou direita ao quarto onde habitára
-sua senhora e subio á janella.
-
-Uma das palmeiras da cabana estendia-se por cima do precipicio e
-apoiava-se a trinta palmos de distancia sobre um dos galhos da arvore
-que os Aymorés tinhão abatido durante o dia para tirarem aos
-habitantes da casa a menor esperança de fuga.
-
-Pery apertando Cecilia nos braços, firmou o pé sobre essa ponte
-fragil, cuja faça convexa tinha quando muito algumas pollegadas de
-largura.
-
-Quem lançasse os olhos nesse momento para aquella banda da esplanada
-veria ao pallido clarão do incendio deslisar-se lentamente por cima do
-precipicio o vulto hirto, como um dos fantasmas que, segundo a crença
-popular, atravessavão á meia noite as velhas amêas de algum castello
-em ruinas.
-
-A palmeira oscillava, e Pery, embalançando-se sobre o abysmo,
-adiantava-se vagarosamente para a encosta opposta. Os gritos dos
-selvagens repercutião nos ares de envolta com o estrepito dos _tacapes_
-que abalavão as porta da sala e as paredes do edificio.
-
-Sem se inquetar com a scena tumultuosa que deixava após si, o indio
-ganhou a encosta opposta, e segurando com uma mão nos galho da arvore,
-conseguio tocar a terra sem o menor accidente.
-
-Então, fazendo uma volta para não aproximar-se do campo dos Aymorés,
-dirigio-se á margem do rio; ahi estava escondida entre as folhas a
-pequena canoa que servia outr'ora para os habitantes da casa
-atravessarem o _Paquequer_.
-
-Durante a ausencia de uma hora que Pery tinha feito, quando deixára
-Cecilia adormecida, elle havia tudo preparado para essa empreza
-arriscada que devia salvar sua senhora.
-
-Graças á sua actividade espantosa, armou com o auxilio da corda a
-ponte pensil sobre o precipicio, correu ao rio, amarrou a canôa no
-lugar que lhe pareceu mais propicio, e em duas viagens levou a esse
-barquinho, que ia servir de morada a Cecilia durante alguns dias, tudo
-quanto a menina podia carecer.
-
-Erão roupas, uma colcha de damasco com que se poderia arranjar um
-leito, alguns alimentos que restavão na casa; lembrou-se até que D.
-Antonio devia ter necessidade de dinheiro logo que chegasse ao Rio de
-Janeiro, porque Pery contava que o fidalgo não duvidaria salvar sua
-filha.
-
-Chegando á beira do rio, o indio deitou sua senhora no fundo da canôa,
-como uma menina no seu berço, envolveu-a na manta de seda para
-abrita-la do orvalho da noite, e tomando o remo, fez a canôa saltar
-como um peixe sobre as aguas.
-
-A algumas braças de distancia, por entre uma aberta da floresta, Pery
-viu sobre o rochedo a casa illuminada pelas chammas do incendio, que
-começava a lavrar com alguma intensidade.
-
-De repente uma scena fantastica, terrivel, passou, diante de seus olhos,
-como uma dessas visões rapidas que brilhão e se apagão de repente no
-delirio da imaginação.
-
-A frente da casa estava ás escuras; o fogo ganhára as outras faces do
-edificio e o vento o lançava para o fundo. Pery do primeiro olhar tinha
-visto os vultos dos Aymorés a se moverem nas sombras; e a figura
-horrivel e medonha de Loredano, erguendo-se como um espectro no meio das
-chammas que o devoravão.
-
-De repente a fachada do edificio tombou sobre a esplanada esmagando na
-sua queda um grande numero de selvagens.
-
-Foi então que o quadro fantastico se desenhou aos olhos de Pery.
-
-A sala era um mar de fogo; os vultos que se movião nessa esphera
-luminosa parecião nadar em vagas de chammas.
-
-No fundo destacava-se o vulto magestoso de D. Antonio de Mariz, de pé
-no meio do gabinete, elevando com a mão esquerda uma imagem de Christo
-e com a direita abaixando a pistola para a cava escura onde dormia o
-volcão.
-
-Sua mulher abraçava os seus joelhos calma e resignada; Ayres Gomes e os
-poucos aventureiros que restavão, immoveis e ajoelhados a seus pés,
-formavão o baixo-relevo dessa estatua digna de um grande cinzel.
-
-Sobre o montão de ruinas formado pela parede que desmoronára,
-desenhavão-se as figuras sinistras dos selvagens, semelhantes a
-espiritos diabolicos dansando nas chammas infernaes.
-
-Tudo isso, Pery viu de um só relance d'olhos; como um painel vivo
-illuminado um momento pelo clarão instantaneo do relampago.
-
-Um estampido horrivel reboou por toda aquella solidão: aterra tremeu,
-as aguas do rio se encapellárão como batidas pelo tufão. As trevas
-envolvêrão o rochedo ha pouco esclarecido pelas chammas, e tudo entrou
-de novo no silencio profundo da noite.
-
-Um soluço partio o peito de Pery, talvez a unica testemunha dessa
-grande catastrophe.
-
-Dominando a sua dôr, o indio vergou sobre o remo, e a canôa voou pela
-face lisa e polida do _Paquequer_.
-
-
-
-
-XI
-
-EPILOGO
-
-
-Quando o sol, erguendo-se no horizonte, illuminou os campos um montão
-de ruinas cobria as margens do _Paquequer_.
-
-Grandes lascas de rochedos, talhadas de um golpe e semeadas pelo campo,
-paredão ter saltado do malho gigantesco de Novos Cyclopes.
-
-A eminencia sobre a qual estava situada a casa tinha desapparecido, e no
-seu lugar via-se apenas uma larga fenda semelhante á cratera de algum
-volcão subterraneo.
-
-As arvores arrancadas dos seus alveolos, a terra revolta, a cinza
-ennegrecida que cobria a floresta, annunciavão que por ahi tinha
-passado algum desses cataclysmas que deixão após si a morte e a
-destruição.
-
-Aqui e alli por entre os comoros das ruinas apparecia alguma india,
-resto da tribu dos Aymorés, que tinha ficado para chorar a morte dos
-seus, e levar ás outras tribus a noticia dessa tremenda vingança.
-
-Quem plainasse nesse momento sobre aquella solidão, e lançasse os
-olhos pelos vastos horizontes que se abrião em torno, se a vista
-podesse devassar a distancia de muitas leguas, veria ao longe, na larga
-esteira do Parahyba, passar rapidamente uma forma vaga e indecisa.
-
-Era a canoa de Pery, que impellida pelo remo e pela viração da manhã
-corria com uma velocidade espantosa semelhando uma sombra a fugir das
-primeiras claridades do dia.
-
-Toda a noite o indio tinha remado sem descansar um momento; não
-ignorava que D. Antonio de Mariz na sua terrivel vingança havia
-exterminado a tribu dos Aymorés, mas desejava apartar-se do theatro da
-catastrophe, e aproximar-se dos seus campos nativos.
-
-Não era o sentimento da patria, sempre tão poderoso no coração do
-homem; não era o desejo de ver sua cabana reclinada á beira do rio, e
-abraçar sua mãi e seus irmãos, que dominava sua alma nesse momento e
-lhe dava esse ardor.
-
-Era sim a idéa de que ia salvar sua senhora e cumprir o juramento que
-tinha feita ao velho fidalgo; era o sentimento de orgulho que se
-apoderava delle, pensando que bastava a sua coragem e a sua força para
-vencer todos os obstaculos, e realisar a missão de que se havia
-encarregado.
-
-Quando o sol, no meio de sua carreira, lançava torrentes de luz sobre
-esse vasto deserto, Pery sentio que era tempo de abrigar Cecilia dos
-raios abrazadores, e fez a canôa abicar á beira do rio na sombra de
-uma ramagem de arvores.
-
-A menina envolta na sua manta de seda com a cabeça apoiada sobre a
-prôa do barquinho dormia ainda o mesmo somno tranquillo da vespera; as
-côres tinhão voltado, e sob a alvura transparente de sua pelle alva
-brilhavão esses tons côr de rosa, esse colorido suave, que só a
-natureza, artista sublime, sabe crear.
-
-Pery tomou a canôa nos seus braços, como se fôra um berço mimoso, e
-deitou-a sobre a relva que cobria a margem do rio; depois sentou-se ao
-lado, e com os olhos fitos em Cecilia, esperou que ella sahisse desse
-somno prolongado que começava a inquieta-lo.
-
-Tremia lembrando-se da dôr que sua senhora ia sentir quando soubesse a
-desgraça de que elle fôra testemunha na vespera; e não se achava com
-forças de responder ao primeiro olhar de surpreza que a menina
-lançaria em torno de si logo que despertasse no meio do deserto.
-
-Emquanto durou o somno, Pery, com o braço apoiado á borda da canôa e
-o corpo reclinado sobre o rosto da menina, esperando com anciedade o
-momento que elle desejava e temia ao mesmo tempo, velava sobre Cecilia
-com um cuidado e uma solicitude admiravel.
-
-A mãi mais extremosa não se desvelaria tanto por seu filho, como esse
-amigo dedicado por sua senhora; uma restea de sol que, enfiando-se pelas
-folhas, vinha brincar no rosto da menina, um passarinho que cantava
-sobre um ramo do arbusto, um insecto que saltava na relva, tudo elle
-afastava para não perturbar o seu repouso.
-
-Cada minuto que passava era uma nova inquietação para elle; porém era
-tambem um instante mais de socego e de tranquillidade que a menina
-gozava, antes de saber a desgraça que pesava sobre ella, e que a
-privára de sua familia.
-
-Um longo suspiro elevou o seio de Cecilia; seus lindos olhos azues se
-abrirão e cerrarão, deslumbrados pela claridade do dia; ella passou a
-mão delicada pelas palpebras rosadas, como para afugentar o somno, e
-seu olhar limpido e suave foi pousar no rosto de Pery. Soltou um
-gritozinho de prazer, e sentando-se com vivacidade, lançou um olhar de
-surpreza e admiração em torno da especie de pavilhão de folhagem que
-a cercava; parecia interrogar as arvores, o rio, o céo; mas tudo
-emmudecia.
-
-Pery não se animava a pronunciar uma palavra, via o que se passava
-n'alma de sua senhora, e não tinha a coragem de dizer a primeira letra
-do enigma que ella não tardaria a comprehender.
-
-Por fim, a menina, baixando a vista para ver onde estava, descobrio a
-canôa, e lançando um volver rapido para o vasto leito do Parahyba que
-se espreguiçava indolentemente pela floresta, ficou branca como a
-cambraia do seu roupão.
-
-Voltou-se para o indio com os olhos extremamente dilatados, os labios
-tremulos, a respiração presa, o seio offegante, e supplicando com as
-mãozinhas juntas:
-
---Meu pai!... meu pai!... exclamou soluçando.
-
-O selvagem deixou cahir a cabeça sobre o peito e escondeu o rosto nas
-mãos.
-
---Morto!... Minha mãi tambem morta!... Todos mortos!...
-
-Vencida pela dôr, a menina apertou convulsamente o seio que lhe
-estalava com os soluços, e reclinando-se como o calice delicado de uma
-flôr que a noite enchêra de orvalho, desfez-se em lagrimas.
-
---Pery só podia salvar a ti, senhora! murmurou o indio tristemente.
-
-Cecilia ergueu a cabeça altiva.
-
---Porque não me deixaste morrer com os meus?... exclamou ella n'uma
-exaltação febril. Pedi-te eu que me salvasses? Precisava de teus
-serviços?...
-
-Seu rosto tomou uma expressão de energia extraordinaria.
-
---Tu vais me levar ao lugar onde descansa o corpo de meu pai. É ahi que
-deve estar sua filha... Depois partirás!... Não careço de ti.
-
-Pery estremeceu.
-
---Escuta, senhora... balbuciou elle em tom submisso.
-
-A menina lançou-lhe um olhar tão imperioso, tão soberano, que o indio
-emmudeceu, e voltando o rosto escondeu as lagrimas que lhe molhavão as
-faces.
-
-Cecilia caminhou até á beira do rio, e com os olhos estendidos pelo
-horizonte, que ella suppunha occultar o lugar em que habitára, ajoelhou
-e fez uma oração longa e ardente.
-
-Quando ergueu-se, estava mais calma: a dôr tinha-se repassado do
-consolo sublime da religião, dessa doçura e suavidade que infiltra no
-coração a esperança de uma vida celeste, que reune aquelles que se
-amárão na terra.
-
-Ella pôde então reflectir sobre o que se tinha passado na vespera; e
-procurou lembrar-se das circumstancias que havião precedido á morte de
-sua familia. Todas as suas recordações, porém, chegavão unicamente
-até o momento em que, já meia adormecida, fallava a Pery, e dizia essa
-palavra ingénua e innocente que lhe escapára do intimo d'alma.
-
---Antes morrer como Isabel!
-
-Lembrando-se dessa palavra, córou; e vendo-se só no deserto com Pery,
-sentio uma inquietação vaga e indefinida, um sentimento de temor e de
-receio, cuja causa não sabia explicar.
-
-Seria essa desconfiança subita proveniente da colera que ella sentira,
-porque o indio salvára a sua vida, e a arrancára da desgraça que
-tinha destruido toda a sua familia?
-
-Não; não era essa a causa: ao contrario Cecilia conhecia que fôra
-injusta para com seu amigo que tinha talvez feito impossiveis por ella;
-e a não ser o receio instinctivo que se apoderára involuntariamente de
-sua alma, já o teria chamado para pedir-lhe perdão daquellas palavras
-duras e crueis.
-
-A menina ergueu os olhos timidos e encontrou o olhar triste e supplice
-de Pery: não pôde resistir; esqueceu os seus receios, e um tenue
-sorriso fugio-lhe pelos labios.
-
---Pery!...
-
---O indio estremeceu, mas desta vez de alegria e de contentamento: veio
-cahir aos pés de sua senhora, que elle encontrava de novo boa como
-sempre tinha sido.
-
---Perdoa a Pery, senhora!
-
---És tu que me deves perdoar, porque te fiz soffrer; não é verdade?
-Mas bem sabes!... Não podia abandonar meu pobre pai!
-
---Foi elle que mandou a Pery que te salvasse! disse o indio.
-
---Como?... exclamou a menina. Conta-me, meu amigo.
-
-O indio fez a narração da scena da noite antecedente desde que Cecilia
-tinha adormecido até o momento em que a casa saltára com a explosão,
-restando delia apenas um montão de ruinas.
-
-Contou que elle tinha preparado tudo para que D. Antonio de Mariz
-fugissse, salvando Cecilia; mas que o fidalgo recusára, dizendo que a
-sua lealdade e a sua honra mandavão que morresse no seu posto.
-
---Meu nobre pai! murmurou a menina enxugando as lagrimas.
-
-Houve um instante de silencio, depois do qual Pery concluio a sua
-narração, e referio como D. Antonio de Mariz o tinha baptisado, e lhe
-havia confiado a salvação de sua filha.
-
---Tu és christão, Pery?... exclamou a menina, cujos olhos brilhárão
-com uma alegria ineffavel.
-
---Sim; teu pai disse: «Pery; tu és christão; dou-te o meu nome!»
-
---Obrigado, meu Deus, disse a menina juntando as mãos e erguendo os
-olhos ao céo.
-
-Depois, envergonhada desse movimento espontaneo, escondeu o rosto: o
-rubor que cobrio as suas faces tingio de longes côr de rosa as linhas
-puras do collo assetinado.
-
-Pery ergueu-se e foi colher alguns fructos delicados que servirão de
-refeição á sua senhora.
-
-O sol tinha quebrado a sua força, era tempo de continuar a viagem e
-aproveitar a frescura da tarde para vencer a distancia que os separava
-do campo dos Goytacazes.
-
-O indio chegou-se tremulo para a menina:
-
---Que queres tu que Pery faça, senhora?
-
---Não sei; respondeu Cecilia indecisa.
-
---Não queres que Pery te leve á taba dos brancos?
-
---É a vontade de meu pai?... Deves cumpri-la.
-
---Pery prometteu a D. Antonio levar-te a sua irmã.
-
-O indio fez a canôa boiar sobre as aguas do rio, e quando tomou a
-menina nos seus braços para deita-la no barquinho, ella sentio pela
-primeira vez na sua vida que o coração de Pery palpitava sobre o seu
-seio.
-
-A tarde estava soberba; os raios do sol no occaso, filtrando por entre
-as folhas das arvores, douravão as flôres alvas que crescião pela
-beira do rio.
-
-As rolas começavão a soltar os seus arrulhos no fundo da floresta; e a
-brisa, que passava ainda tepida das exhalações da terra, vinha
-impregnada de aromas silvestres.
-
-A canôa resvalou pela flôr d'agua, como uma garça ligeira levada pela
-correnteza do rio.
-
-Pery remava sentado na prôa.
-
-Cecilia, deitada no fundo, meio apoiada sobre uma alcatifa de folhas que
-Pery tinha arranjado, engolfava-se nos seus pensamentos, e aspirava as
-emanações suaves e perfumadas das plantas, e a frescura do ar e das
-aguas.
-
-Quando seus olhos encontravão os de Pery, os longos cilios descião
-occultando um momento o seu olhar doce e triste.
-
-
-A noite estava serena.
-
-A canôa, vogando sobre as aguas do rio, abria essas flôres de espuma,
-que brilhão um momento á luz das estrellas, e se desfazem como o
-sorriso da mulher.
-
-A brisa tinha escasseado; e a natureza adormecida respirava a calma
-tepida e perfumada das noites americanas, tão cheias de enlevo e
-encanto.
-
-A viagem fora silenciosa; essas duas creaturas abandonadas no meio do
-deserto, sós em face da natureza, emmudecião, como se temessem
-despertar o echo profundo da solidão.
-
-Cecilia repassava na memoria toda a sua vida innocente e tranquilla,
-cujo fio dourado tinha-se rompido de uma maneira tão cruel; mas era
-sobretudo o ultimo anno dessa existencia, desde o dia do apparecimento
-imprevisto de Pery, que se desenhava na sua imaginação.
-
-Porque interrogava ella assim os dias que tinha vivido no remanso da
-felicidade? Porque o seu espirito voltava ao passado, e procurava ligar
-todos esses factos a que na descuidosa ingenuidade dos primeiros annos
-dera tão pouco apreço?
-
-Ella mesma não saberia explicar as emoções que sentia; sua alma
-innocente e ignorante tinha-se illuminado com uma subita revelação:
-novos horizontes se abrião aos sonhos castos de seu pensamento.
-
-Volvendo ao passado admirava-se de sua existencia, como os olhos se
-deslumbrão com a claridadade depois de um somno profundo; não se
-reconhecia na imagem do que fôra outr'ora, na menina isenta e travessa.
-
-Toda a sua vida estava mudada; a desgraça tinha operado essa
-revolução repentina, e um outro sentimento ainda confuso ia talvez
-completar a transformação mysteriosa da mulher.
-
-Em torno della tudo se resentia dessa mudança; as côres tinhão tons
-harmoniosos, o ar perfumes inebriantes, a luz reflexos avelludados, que
-seus sentidos não conhecião.
-
-Uma flôr que antes era para ella apenas uma bella fórma, parecia-lhe
-agora uma creatura que sentia e palpitava; a brisa que outr'ora passava
-como um simples bafejo das auras, murmurava ao seu ouvido nesse momento
-melodias ineffaveis, notas mysticas que resoavão no seu coração.
-
-Pery, julgando sua senhora adormecida, remava docemente para não
-perturbar o seu repouso; a fadiga começava a vencê-lo; apezar de sua
-coragem indomavel e de sua vontade poderosa, as forças estavão
-exhaustas.
-
-Apenas vencedor da luta terrivel que travára com o veneno, tinha
-começado a empreza quasi impossivel da salvação de sua senhora; havia
-tres dias que seus olhos não se cerravão, que seu espirito não
-repousava um instante.
-
-Tudo quanto a natureza permittia á intelligencia e ao poder do homem,
-elle tinha feito; e comtudo não era a fadiga do corpo que o vencia,
-erão sim as emoções violentas por que passára durante esse tempo.
-
-O que elle tinha sentido quando plainava sobre o abysmo, e que a vida de
-sua senhora dependia de um passo falso, de uma oscillação da haste
-fragil que lhe servia de ponte pensil, ninguem comprehenderia.
-
-O que soffreu quando Cecilia no seu desespero pela morte de seu pai o
-accusava por tê-la salvado, e lhe dava ordem de leva-la ao lugar onde
-repousavão as cinzas do velho fidalgo, é impossivel de descrever.
-
-Forão horas de martyrio, de soffrimento horrivel, em que sua alma
-succumbiria, se não achasse na sua vontade inflexivel e na sua
-dedicação sublime um conforto para a dôr, e um estimulo para
-triumphar de todos os obstaculos.
-
-Erão essas emoções que o vencião, e ainda depois de vencidas, elle
-conheceu que seus musculos de aço, escravos submissos que obedecião ao
-seu menor desejo, se destendião como a corda do arco depois do combate.
-Lembrou-se que sua senhora precisava delle e que devia aproveitar esses
-momentos em que ella repousava para pedir ao somno novo vigor e novas
-forças.
-
-Ganhou o meio do rio, e escolhendo um lugar onde não chegava nem um
-galho das arvores que crescião nas ribanceiras, amarrou a canôa nos
-nenuphares que boiavão á tona d'agua.
-
-Tudo estava quieto; a terra ficava a uma distancia de muitas braças;
-portanto podia sua senhora dormir sem perigo sobre esse chão prateado,
-debaixo da abobada azul do céo; as ondinhas a embalarião no seu
-berço, as estrellas vigiarião o seu somno.
-
-Livre de inquietação, Pery encostou a cabeça na borda da canôa; um
-momento depois suas palpebras entorpecidas cerrárão-se a pouco e
-pouco; seu ultimo olhar, esse olhar vago e incerto que adeja na pupilla
-já meio adormecida, viu desenhar-se na sombra uma forma alva e graciosa
-que se reclinava docemente para elle.
-
-Não era um sonho, essa linda visão. Cecilia sentindo a canôa immovel
-despertou das suas recordações; sentou-se, e debruçando-se um pouco
-viu que seu amigo dormia, e accusou-se por não ter ha mais tempo
-exigido delle esse instante de repouso.
-
-O primeiro sentimento que se apoderou da menina, vendo-se só, foi o
-terror solemne e respeitoso que infunde a solidão no meio do deserto,
-nas horas mortas da noite.
-
-O silencio parece fallar; as sombras se povoão de seres invisiveis; os
-objectos, na sua immobilidade, como que oscillão pelo espaço.
-
-E ao mesmo tempo o nada com o seu vacuo profundo, immenso, infinito; e o
-chãos com a sua confusão, as suas trevas, as suas formas increadas; a
-alma sente que falta-lhe a vida ou a luz em torno.
-
-Cecilia recebeu essa impressão com um temor religioso; mas não se
-deixou dominar pelo susto; a desgraça a habituára ao perigo; e a
-confiança que tinha no seu companheiro era tanta, que mesmo dormindo
-parecia-lhe que Pery velava sobre ella.
-
-Contemplando essa cabeça adormecida, a menina admirou-se da belleza
-inculta dos traços, da correcção das linhas do perfil altivo, da
-expressão de força e intelligencia que animava aquelle busto selvagem
-moldado pela natureza.
-
-Como era que até então ella não tinha percebido naquelle aspecto
-senão um rosto amigo? Como seus olhos tinhão passado sem ver sobre
-essas feições talhadas com tanta energia?
-
-Era que a revelação physica que acabava de illuminar o seu olhar, não
-era senão o resultado dessa outra revelação moral que esclarecêra o
-seu espirito; dantes via com os olhos do corpo, agora via com os olhos
-da alma.
-
-Pery, que durante um anno não fôra para ella senão um amigo dedicado,
-apparecia-lhe de repente como um heróe; no seio de sua familia
-estimava-o, no meio dessa solidão admirava-o.
-
-Como os quadros dos grandes pintores que precisão de luz, de um fundo
-brilhante, e de uma moldura simples, para mostrarem a perfeição de seu
-colorido e a pureza de suas linhas, o selvagem precisava do deserto para
-revelar-se em todo o esplendor de sua belleza primitiva.
-
-No meio de homens civilisados, era um indio ignorante, nascido de uma
-raça barbara, a quem a civilisação repellia, e marcava o lugar de
-captivo. Embora para Cecilia e D. Antonio fosse um amigo, era apenas um
-amigo escravo.
-
-Aqui, porém, todas as distincções desapparecião; o filho das mattas,
-voltando ao seio de sua mãi, recobrava a liberdade; era o rei do
-deserto, o senhor das florestas, dominando pelo direito da força e da
-coragem.
-
-As altas montanhas, as nuvens, as catadupas, os grandes rios, as arvores
-seculares, servião de throno, de docel, de manto e sceptro a esse
-monarca das selvas cercado de toda a magestade e de todo o esplendor da
-natureza.
-
-Que effusão de reconhecimento e de admiração não havia no olhar de
-Cecilia! Era nesse momento que ella comprehendia toda a abnegação do
-culto santo e respeitoso que o indio lhe votava!
-
-As horas corrêrâo silenciosamente nessa muda contemplação; a aragem
-fresca que annuncia o despontar do dia bafejou o rosto da menina; e
-pouco depois o primeiro albor da manhã desmaiou o negrume do horizonte.
-
-Sobre o relevo que formava o perfil escuro da floresta, nas sombras da
-noite, luzio limpida e brilhante a estrella d'alva; as aguas do rio
-arfárão docemente; e os leques das palmeiras se agitárão
-rumorejando.
-
-A menina lembrou-se do seu despertar tão placido de outr'ora, de suas
-manhãs tão descuidosas, de sua prece alegre e risonha em que agradecia
-a Deus a ventura que vertia sobre ella e sua familia.
-
-Uma lagrima pendeu nos cilios dourados, e cahio sobre a face de Pery;
-abrindo os olhos, e vendo ainda a mesma doce visão que o adormecêra, o
-indio julgou que o sonho continuava.
-
-Cecilia sorrio-lhe; e passou a mãozinha pelas palpebras ainda meio
-cerradas de seu amigo:
-
---Dorme, disse ella, dorme; Cecy vela.
-
-A musica dessas palavras despertou completamente o selvagem.
-
---Não! balbuciou elle envergonhado de ter cedido á fadiga. Pery
-sente-se forte.
-
---Mas tu deves ter necessidade de repouso! Ha tão pouco tempo que
-adormeceste!
-
---O dia vai raiar; Pery deve velar sobre sua senhora.
-
---E porque tua senhora não velará tambem sobre ti? Queres tomar tudo;
-e não me deixas nem mesmo a gratidão!
-
-O indio lançou um olhar cheio de admiração á menina:
-
---Pery não entende o que tu dizes. A rolinha quando atravessa o campo e
-sente-se fatigada, descansa sobre a aza de seu companheiro que é mais
-forte; é elle que guarda o seu ninho emquanto ella dorme, que vai
-buscar o alimento, que a defende e que a protege. Tu és como a rolinha,
-senhora.
-
-Cecilia córou da comparação ingénua de seu amigo.
-
---E tu? perguntou ella confusa e tremula de emoção.
-
---Pery... é teu escravo, respondeu o indio naturalmente.
-
-A menina abanou a cabeça com uma inflexão graciosa:
-
---A rolinha não tem escravo.
-
-Os olhos de Pery brilhárão, uma exclamação partio de seus labios:
-
---Teu...
-
-Cecilia com o seio palpitante, as faces vermelhas, os olhos humidos,
-levou a mãozinha aos labios de Pery, e reteve a palavra que ella mesma
-na sua innocente faceirice tinha provocado.
-
---Tu és meu irmão! disse ella com um sorriso divino.
-
-Pery olhou o céo, para fazê-lo confidente de sua felicidade.
-
-A claridade da alvorada estendia-se sobre a floresta e os campos como um
-vêo finissimo; a estrella da manhã scintillava em todo o seu fulgor.
-
-Cecilia ajoelhou-se.
-
---Salve, rainha!...
-
-O indio contemplava-a com uma expressão de ventura ineffavel.
-
---Tu és christão, Pery! disse ella lançando-lhe um olhar supplicante.
-
-Seu amigo comprehendeu-a, e ajoelhando, juntou as mãos como ella.
-
---Tu repetirás todas as minhas palavras; e faze por não esquecê-las.
-Sim?
-
---Ellas vêm de teus labios, senhora.
-
---Senhora, não! irmã!
-
-Dahi a pouco os murmurios das aguas confundião-se com os accentos
-maviosos da voz de Cecilia que recitava o hymno christão repassado de
-tanta uncção e poesia.
-
-A palavra de Pery repetia como um écho a phrase sagrada.
-
-
-Terminada a prece christã, talvez a primeira que tinhão ouvido
-aqnellas arvores seculares, a viagem continuou.
-
-Logo que o sol chegou ao zenith, Pery procurou como na vespera um abrigo
-para passar as horas de calma.
-
-A canôa pojou n'um pequeno seio do rio, Cecilia saltou em terra; e seu
-companheiro escolheu uma sombra onde ella repousasse.
-
---Espera aqui; Pery já volta.
-
---Onde vais? perguntou a menina inquieta.
-
---Ver fructos para ti.
-
---Não tenho fome.
-
---Tu os guardarás.
-
---Pois bem; eu te acompanho.
-
---Não; Pery não consente.
-
---E porque? Não me queres junto de ti?
-
---Olha tuas roupas; olha teus pés, senhora; os espinhos do cardo te
-offenderião.
-
-Com effeito Cecilia estava vestida com um ligeiro roupão de cambraia; e
-seu pézinho que descansava sobre a relva, calçava um borzeguim de
-seda.
-
---Então me deixas só? disse a menina entristecendo.
-
-O indio ficou um momento indeciso; mas de repente sua physionomia
-expandio-se.
-
-Cortou a haste de um iris que se balançava ao sopro da aragem, e
-apresentou a flôr á menina.
-
---Escuta, disse elle. Os velhos da tribu ouvirão de seus pais, que a
-alma do homem quando sahe do corpo, se esconde n'uma flôr, e fica alli
-até que a _ave do céo_ vem busca-la e leva-la bem longe. É por isso
-que tu vês o _guanumby_, saltando de flôr em flôr, beijando uma,
-beijando outro; e depois batendo as azas e fugindo.
-
-Cecilia, habituada á linguagem poetica do selvagem esperava a ultima
-palavra que devia fazê-la comprehender o seu pensamento.
-
-O indio continuo:
-
---Pery não leva a sua alma no corpo, deixa-a nesta flôr. Tu não ficas
-só.
-
-A menina sorrio, e tomando a flôr escondeu-a no seio.
-
---Ella me acompanhará. Vai, meu irmão, e volta logo.
-
---Pery não se afastará; se tu o chamares, elle ouvirá.
-
---E me responderás, sim?... para que eu te sinta perto de mim...
-
-O indio, antes de partir, circulou a alguma distancia o lugar onde se
-achava Cecilia de uma corda de pequenas fogueiras feitas de louro, de
-canella, uratahy e outras arvores aromaticas.
-
-Desta maneira tornava aquelle retiro impenetravel: o rio de um lado, e
-do outro as chammas que afugentarião os animaes damnihos, e sobretudo
-os reptis, o fumo odorifero que se escapava das fogueiras afastaria até
-mesmo os insectos. Pery não soffreria que uma vespa e uma mosca sequer
-offendesse a cutis de sua senhora, e sugasse uma gota desse sangue
-precioso; por isso tomára todas essas precauções.
-
-Cecilia devia pois ficar tranquilla como se estivesse em um palacio; e
-de facto era um palacio de rainha do deserto esse sombrio cheio de
-frescura a que a relva servia de alcatifa, as folhas de docel, as
-grinaldas em flôres de cortinas, os sabiás de orchestra, as aguas de
-espelho, e os raios do sol de arabescos dourados.
-
-A menina vio de longe o desvelo com que seu amigo tratava de sua
-segurança, e acompanhou-o com o olhar até o momento em que elle
-desappareceu no mais espesso da matta.
-
-Foi então que ella sentio a soledade estender-se em torno e
-envolvê-la; insensivelmente levou a mão ao seio e tirou a flôr que
-Pery lhe tinha dado.
-
-Apezar de sua fé christã, não pôde vencer essa innocente
-superstição do coração: pareceu-lhe, olhando o iris, que já não
-estava só e que a alma de Pery a acompanhava.
-
-Qual é o seio de dezaseis annos que não abriga uma dessas illusões
-encantadoras, nascidas com o fogo dos primeiros raios do amor? Qual é a
-menina que não consulta o oraculo de um malmequer, e não vê n'uma
-borboleta negra a sibylla fatidica que lhe annuncia a perda da mais
-bella esperança?
-
-Como a humanidade na infancia, o coração nos primeiros annos tem
-tambem a sua mythologia; mythologia mais graciosa e mais poetica do que
-as creações da Grecia; o amor é o seu Olympo povoado de deosas ou
-deoses de uma belleza celeste e immortal.
-
-Cecilia amava; a gentil e innocente menina procurava illudir-se a si
-mesma, attribuindo o sentimento que enchia sua alma a uma affeição
-fraternal, e occultando, sob o doce nome de irmão, um outro mais doce
-que titillava nos seus labios, mas que seus labios não ousavão
-pronunciar.
-
-Mesmo só, de vez em quando um pensamento que passava no seu espirito,
-incendia-lhe as faces de rubor, fazia palpitar-lhe o seio e pender
-mollemente a cabeça, como a haste da planta delicada quando o calor do
-sol fecunda a florescencia.
-
-Em que pensava ella, com os olhos fitos no iris, que o seu habito
-bafejava, comas palpebras meio cerradas e o corpo reclinado sobre os
-joelhos?
-
-Pensava no passado que não voltaria; no presente que devia escoar-se
-rapidamente; e no futuro que lhe apparecia vago, incerto e confuso.
-
-Pensava que de todo o seu mundo só lhe restava um irmão de sangue,
-cujo destino ignorava, e um irmão d'alma, em que tinha concentrado
-todas as affeições que perdera.
-
-Um sentimento de tristeza profunda annuviava seu semblante, lembrando-se
-de seu pai, de sua mãi, de Isabel, de Alvaro, de todos que amava e que
-formavão o universo para ella; então o que a consolava era a
-esperança de que os dous unicos corações que lhe restavão não a
-abandonarião nunca.
-
-E isto a fazia feliz; não desejava mais nada; não pedia a Deos mais
-ventura do que a que sentiria vivendo junto de seus amigos e enchendo o
-futuro com as recordações do passado.
-
-A sombra das arvores já beijava as aguas do rio, e Pery ainda não
-tinha voltado; Cecilia assustou-se, e, temendo que não lhe tivesse
-succedido alguma cousa, chamou por elle.
-
-O indio respondeu de longe, e pouco depois appareceu entre as arvores; o
-seu tempo não tinha sido inutilmente empregado, a julgar pelos objectos
-que trazia.
-
---Como tardaste!... disse-lhe Cecilia erguendo-se e indo ao seu
-encontro.
-
---Tu estavas socegado; Pery aproveitou para não te deixar amanhã.
-
---Amanhã só?
-
---Sim, porque depois chegaremos.
-
---Aonde? perguntou a menina com vivacidade.
-
---Aos campos dos Goytacazes, á cabana de Pery, onde tu mandarás a
-todos os guerreiros da tribu.
-
---E depois, como iremos ao Rio de Janeiro?
-
---Não te inquietes; os Goytacazes tem _igaras_ grandes como aquella
-arvore que toca ás nuvens; quando elles atirão o remo, ellas voão
-sobre as aguas como a _atyaty_ de azas brancas. Antes que a lua, que vai
-nascer, tenha desapparecido, Pery te deixará com a irmã de teu pai.
-
---Deixará!... exclamou a menina, empallidecendo. Tu queres me
-abandonar?
-
---Pery é um selvagem, disse o indio tristemente; não póde viver na
-taba dos brancos.
-
---Porque? perguntou a menina com anciedade. Não és tu christão como
-Cecy?
-
---Sim; porque era preciso ser christão para te salvar; mas Pery
-morrerá selvagem como Ararê.
-
---Oh! não, disse a menina, eu te ensinarei a conhecer Deus, Nossa
-Senhora, as suas virgens e os seus anginhos. Tu viverás comigo e não
-me deixarás nunca!
-
---Vê, senhora: a flor que Pery te deu já murchou porque sahio de sua
-planta; e a flôr estava no teu seio. Pery na taba dos brancos, ainda
-mesmo junto de ti, será como esta flôr; tu terás vergonha de olhar
-para elle.
-
---Pery!... exclamou a menina offendida.
-
---Tu és boa; mas todas as que têm a tua côr não têm o teu
-coração. Lá, o selvagem seria um escravo dos escravos; e quem nasceu
-o primeiro póde ser teu escravo; mas é senhor dos campos, e mando aos
-mais fortes.
-
-Cecilia, admirando o reflexo de nobre orgulho que brilhava na fronte do
-indio, sentio que não podia combater a sua resolução dictada por um
-sentimento elevado. Reconheceu que havia no fundo de suas palavras uma
-grande verdade, que o seu instincto adivinhava; ella tinha a prova na
-revolução que se operára no seu espirito, vendo Pery no meio do
-deserto, livre, grande, magestoso com um rei.
-
-Qual não seria pois a consequencia dessa outra transição, muito mais
-brusca? N'uma cidade, no meio da civilisação, o que seria um selvagem,
-senão um captivo, tratado por todos com desprezo?
-
-No intimo de sua alma quasi que approvava a resolução de Pery; mas
-não podia afazer-se á idéa de perder seu amigo, seu companheiro, a
-unica affeição que talvez ainda lhe restava no mundo.
-
-Durante esse tempo, o indio preparava a simples refeição que lhes
-offerecia a natureza. Deitou sobre uma folha larga os fructos que tinha
-colhido: erão os aracás, os jambos corados, os ingás de polpa macia,
-os cocos de varias especies.
-
-A outra folha continha favos de uma pequena abelha, que fabricára a sua
-colmeia no tronco de uma cabuiba, de sorte que o mel puro e claro tinha
-perfumes deliciosos: dir-se-hia mel de flôres.
-
-O indio tornou concava uma palma larga e encheu-a com o succo do ananaz,
-cuja fragrancia é como a essencia do sabor: era o vinho que devia
-servir ao banquete frugal.
-
-N'uma segunda palma tambem concava, apanhou a agua crystallina da
-corrente que murmurava a alguns passos; devia servir para Cecilia lavar
-as mãos depois da refeição.
-
-Quando acabou esses preparativos que elle fazia com uma satisfação
-inexprimivel, Pery sentou-se junto da menina, e começou a trabalhar
-n'um arco de que precisava. O arco era sua arma favorita, e sem elle,
-embora possuisse a clavinha e as munições que por precaução deitára
-na canôa para servirem a D. Antonio de Mariz, não tinha tranquillidade
-de espirito e confiança plena na sua agilidade.
-
-Reparando, porém, que sua senhora não tocava nos alimentos, ergueu a
-cabeça e vio o rosto da menina banhado de lagrimas, que cahião em
-perolas sobre os fructos, e os rociavão como gotas de orvalho.
-
-Não era preciso adivinhar, para conhecer a causa dessas lagrimas.
-
---Não chores, senhora, disse o indio afflicto; Pery te fallou o que
-sentia; manda, e Pery fará a tua vontade.
-
-Cecilia olhou-o com uma expressão de melancolia que partia a alma.
-
---Queres que Pery fique comtigo? Elle ficará; todos serão seus
-inimigos; todos o tratarão mal; desejará defender-te e não poderá;
-quererá servir-te e não o deixarão; mas Pery ficará.
-
---Não, respondeu Cecilia; não exijo de ti esse ultimo sacrificio.
-Deves viver onde nasceste, Pery.
-
---Mas tu vais ainda chorar!
-
---Vê, disse a menina enxugando as lagrimas; estou contente.
-
---Agora toma uma fructa.
-
---Sim; jantaremos juntos, como jantavas outr'ora no meio das mattas com
-tua irmã.
-
---Pery nunca teve irmã.
-
---Mas tens agora, respondeu ella sorrindo.
-
-E como uma filha das florestas, uma verdadeira americana, a gentil
-menina fez a sua refeição partilhando-a com seu companheiro, e
-acompanhando-a dos gestos innocentes e faceiros que só ella sabia ter.
-
-Pery admirava-se da mudança brusca que se tinha operado em sua senhora,
-e no fundo do seu coração sentia um aperto, pensando que ella se
-consolára bem depressa com a lembrança da separação.
-
-Mas elle não era egoista, e preferia a alegria de sua senhora a seu
-prazer; porque vivia antes da vida della do que da sua propria.
-
-
-Depois da refeição, Pery voltou ao seu trabalho.
-
-Cecilia, que desde o primeiro dia sentia-se abatida e languida, tinha
-recobrado um pouco de sua vivacidade e gentileza dos bons dias.
-
-O rosto mimoso conservava ainda a sombra melancolica que lhe deixarão
-impressas as scenas tristes de que fora testemunha, e sobretudo a ultima
-desgraça que a tinha privado de seu pai e de sua mãi.
-
-Mas essa mágoa tomava nas suas feições uma expressão angelica, e tal
-mansuetude e suavidade que dava novo encanto á sua belleza ideal.
-
-Deixando seu companheiro distrahido com a sua obra, chegou á beira do
-rio e sentou-se junto de uma moita de uvaias, á qual estava amarrada a
-canôa.
-
-Pery viu-a afastar-se, e, sempre seguindo-a com os olhos, continuou a
-preparar a vergontea que devia servir-lhe de arco, e as cannas
-selvagens, ás quaes o seu braço ia dar o vôo da ave altaneira.
-
-A menina com a face apoiada na mão e os olhos postos na correnteza do
-rio, scimava; ás vezes as palpebras cerravão-se; os labios se
-agitavão imperceptivelmente; nesses momentos parecia que conversava com
-algum espirito invisivel.
-
-Outras vezes, um doce sorriso despontava nos seus labios e desfazia-se
-logo, como se o pensamento que viera pousar ali voltasse a esconder-se
-no fundo do coração, donde se tinha escapado.
-
-Por fim ergueu a fronte com o meneio de rainha, que ás vezes tomava a
-sua cabecinha loura, á qual só faltava o diadema; a physionomia
-mostrou uma expressão de energia, que lembrava o caracter de D. Antonio
-de Mariz.
-
-Tinha tomado uma resolução; uma resolução firme, inabalavel, que ia
-cumprir com a mesma força de vontade e coragem que herdára de seu pai,
-e dormia no fundo de sua alma, para só revelar-se nas occasiões
-extremas.
-
-Levantou os olhos ao céo, e pedio a Deos um perdão para uma falta, e
-ao mesmo tempo uma esperança para uma boa acção que ia praticar; sua
-oração foi breve, mas ardente e cheia de fervor.
-
-Emquanto isso se passava, Pery, vendo que as sombras da terra já se
-deitavão sobre o leito do Parahyba, conheceu que era tempo de partir, e
-preparou-se para continuar a viagem.
-
-No momento em que levantava-se, Cecilia, correu para elle, e collocou-se
-em face, de modo a lhe occultar a vista do rio.
-
---Tu sabes? disse ella sorrindo; tenho uma cousa a pedir-te.
-
-Esta só palavra bastava para que Pery não visse mais nada senão os
-olhos e os labios de sua senhora, que ião dizer-lhe o que ella
-desejava.
-
---Quero que apanhes muito algodão para mim e me tragas uma pelle
-bonita. Sim?
-
---Para que? perguntou o indio admirado.
-
---Do algodão fiarei um vestido; da pelle tu cobrirás os meus pés.
-
-Pery, cada vez mais admirado, ouvia sua senhora sem comprehendê-la:
-
---Assim, disse a menina sorrindo, tu me deixarás acompanhar-te, os
-espinhos não me farão mal.
-
-O espanto do indio tinha-o tornado immovel, mas de repente soltou um
-grito, e quiz precipitar-se para o rio.
-
-A mãozinha de Cecilia apoiando-se no seu peito, reteve-o.
-
---Espera!
-
---Olha; respondeu o indio inquieto apontando o rio.
-
-A canôa desprendida do tronco a que estava amarrada resvalava á
-discrição das aguas, e, gyrando sobre si, desapparecia levada pela
-correnteza.
-
-Cecilia depois de olhar se voltou sorrindo:
-
---Fui eu que soltei!
-
---Tu senhora! Porque?
-
---Porque não precisamos mais della.
-
-Fitando então no seu amigo os lindos olhos azues, disse com o tom grave
-e lento que revela um pensamento profundamente reflectido e uma
-resolução inabalavel.
-
---Pery não póde viver junto de sua irmã na cidade dos brancos; sua
-irmã fica com elle no deserto, no meio das florestas.
-
-Era essa a idéa que ella ha pouco acariciava no seu espirito, e para a
-qual tinha invoeado a graça divina.
-
-Não foi sem algum esforço que ella conseguio dominar os primeiros
-temores que a assaltárão, quando encarou em face essa existencia longe
-da sociedade, na solidão, no isolamento.
-
-Mas qual era o laço que a prendia ao mundo civilisado? Não era ella
-quasi uma filha desses campos, criada com o seu ar puro e livre, com as
-suas aguas crystallinas?
-
-A cidade lhe apparecia apenas como uma recordação da primeira
-infancia, como um sonho do berço; deixara o Rio de Janeiro aos cinco
-annos, e nunca mais alli voltára.
-
-O campo, esse tinha para ella outras recordações ainda vivas e
-palpitantes; a flor da sua mocidade tinha sido bafejada por essas auras;
-o botão desatára aos raios desse sol esplendido.
-
-Toda a sua vida, todos os seus bellos dias, todos os seus prazeres
-infantis vivião alli, fallavão naquelles échos da solidão, naquelles
-murmurios confusos, naquelle silencio mesmo.
-
-Ella pertencia, pois, mais ao deserto do que á cidade; era mais uma
-virgem brazileira do que uma menina cortezã; seus habitos e seus
-gostos prendião-se mais ás pompas singelas da natureza, do que ás
-festas e ás galas da arte e da civilisação.
-
-Decidio ficar.
-
-A unica felicidade que ainda podia gozar neste mundo, depois da perda de
-sua familia, era viver com os dous entes que a amavão; essa felicidade
-não era possivel; devia escolher entre um delles.
-
-Ahi o seu coração foi impellido pela força invencivel que o
-arrastava; mas depois, envergonhando-se de ter cedido tão depressa,
-procurou desculpar-se a si mesma.
-
-Disse então que entre seus dous irmãos era justo que acompanhasse
-antes aquelle que só vivia para ella, que não tinha um pensamento, um
-cuidado, um desejo que não fosse inspirado por ella.
-
-D. Diogo era um fidalgo, herdeiro do nome de seu pai; tinha um futuro
-diante de si, tinha uma missão a cumprir no mundo; elle escolheria uma
-companheira para suavisar-lhe a existencia.
-
-Pery tinha abandonado tudo por ella; seu passado, seu presente, seu
-futuro, sua ambição, sua vida, sua religião mesmo; tudo era ella, e
-unicamente ella; não havia pois que hesitar.
-
-Depois Cecilia tinha ainda um pensamento que lhe sorria: queria abrir ao
-seu amigo o céo que ella entrevia na sua fé christã; queria dar-lhe
-um lugar perto della na mansão dos justos, aos pés do throno celeste
-do Creador.
-
-É impossivel descrever o que se passou no espirito do selvagem ouvindo
-as palavras de Cecilia: sua intelligencia inculta, mas brilhante, capaz
-de elevar-se aos mais altos pensamentos, não podia comprehender aquella
-idéa; duvidou do que escutava.
-
---Cecilia fica no deserto!... balbuciou elle.
-
---Sim! respondeu a menina tomando-lhe as mãos; Cecilia fica comtigo e
-não te deixará. Tu és rei destas florestas, destes campos, destas
-montanhas; tua irmã te acompanhará!
-
---Sempre?...
-
---Sempre!.... Viveremos juntos como hontem, como hoje, como amanhã. Tu
-cuidas?... Eu tambem sou filha desta terra; tambem me criei no seio
-desta natureza. Amo este bello paiz!...
-
---Mas, senhora, tu não vês que tuas mãos forão feitas para as flores
-e não para os espinhos; teus pés para brincar e não para andar; teu
-corpo para a sombra e não para o sol e a chuva?
-
---Oh! Eu sou forte! exclamou a menina erguendo a cabeça com altivez.
-Junto de ti não tenho medo. Quando eu estiver cansada, tu me levarás
-nos teus braços. A rolinha não se apoia sobre a aza de seu
-companheiro?
-
-Era preciso ver a gentileza e a garridice com que ella dizia todas essas
-phrases graciosas, que borbulhavão dos seus labios! A irradiação do
-seu olhar, a animação do seu rosto e a travessura de seu gesto
-fascinavão.
-
-Pery ficou estatico diante da perspectiva dessa felicidade immensa, com
-a qual nunca sonhara; mas jurou de novo em sua alma que cumpriria a
-promessa feita a D. Antonio.
-
-A tarde descahia; e era preciso tratar de prover aos meios de passar a
-noite em terra, o que seria muito mais perigoso; não para elle a quem
-bastava o galho de uma arvore; mas para Cecilia.
-
-Seguindo pela margem para escolher o lugar mais favoravel, Pery soltou
-uma palavra de surpreza vendo a canôa que se tinha embaraçado numa
-dessas ilhas fluctuantes feitas pelas parasitas do rio que boião sobre
-as aguas.
-
-Era o melhor leito que podia ter a menina no meio do deserto; puxou a
-canôa, alcatifou o fundo com as folhas macias das palmeiras, e, tomando
-Cecilia nos braços, deitou-a no seu berço.
-
-A menina não consentio que Pery remasse; e a canôa deslisou docemente
-pelo leito do rio, apenas impellida pela correnteza.
-
-Cecilia brincava; debruçava-se sobre as aguas para colher uma flôr de
-passavem, para perseguir um peixe que beijava a face lisa das ondas,
-para ter o prazer de molhar as mãos nessa agua crystallina, para rever
-a sua imagem nesse espelho vacillante.
-
-Quando tinha brincado bastante, voltava-se para seu amigo e fallava-lhe
-com o gazeio argentino, mimoso chilrear dos labios travessos de uma
-linda menina, onde as cousas mais ligeiras e mais frivolas revestem
-encantos e graça suprema.
-
-Pery estava distrahido; seu olhar fitava-se no horizonte com uma
-attenção extraordinaria; a inquietação que se desenhava no seu
-semblante era indicio de algum perigo, embora ainda remoto.
-
-Sobre a linha azulada da cordilheira dos Orgãos, que se destacava n'um
-fundo de purpura e rosicler, amontoavão-se grossas nuvens escuras e
-pesadas, que, feridas pelos raios do occaso, lançavão reflexos
-acobreados.
-
-Dahi a pouco a serrania desappareceu envolta nesse manto côr de bronze,
-que se elevava como as columnas e abobadas de stalactites que se
-encontrão nas grutas das nossas montanhas. O azul puro e risonho que
-cobria o resto do firmamento contrastava com a cinta escura, que ia
-ennegrecendo gradualmente á medida que a noite cahia.
-
-Pery voltou-se.
-
---Tu queres ir para terra, senhora?
-
---Não; estou tão bem aqui! Não foste tu que me trouxeste?
-
---Sim; mas...
-
---O que?
-
---Nada; pódes dormir sem receio!
-
-Elle tinha-se lembrado que entre dous perigos o melhor era preferir o
-mais remoto; aquelle que ainda estava longe e talvez não viesse.
-
-Por isso resolveu não dizer nada a Cecilia, e conservar-se attento e
-vigilante para salva-la, se o que elle temia se realisasse.
-
-Pery havia lutado com o tigre, os homens, com uma tribu de selvagens,
-com o veneno; e tinha vencido. Era chegada a occasião de lutar com os
-elementos; com a mesma confiança calma e impassivel, esperou prompto a
-aceitar o combate.
-
-Anoiteceu.
-
-O horizonte, sempre negro e fechado, se illuminava ás vezes com um
-lampejo phosphorescente: um tremor surdo parecia correr pelas entranhas
-da terra e fazia ondular a superficie das aguas, como o seio de uma
-vela enfunada pelo vento.
-
-Entretanto, ao redor tudo estava quieto; as estrellas recamavão o azul
-do céo; a viração aninhava-se nas folhas das arvores; os murmurios
-doces da solidão cantavão o hymno da noite.
-
-Cecilia adormeceu no seu berço, murmurando uma prece.
-
-
-Era alta noite; sombras espessas cobrião as margens do Parahyba.
-
-De repente um rumor surdo e abafado, como de um tremor subterraneo,
-propagando-se por aquella solidão, quebrou o silencio profundo do ermo.
-
-Pery estremeceu: ergueu a cabeça e estendeu os olhos pela larga esteira
-do rio, que, enroscando-se como uma serpente monstruosa de escamas
-prateadas, ia perder-se no fundo negro da floresta.
-
-O espelho das aguas, liso e polido como um crystal, reflectia a
-claridade das estrellas, que já desmaiavão com a aproximação do dia;
-tudo estava immovel e quêdo.
-
-O indio curvou-se sobre a borda da canôa, e de novo applicou o ouvido;
-pela superficie do rio rolava um som estrepitoso, semelhante ao
-quebrar-se da catadupa precipitando-se do alto dos rochedos.
-
-Cecilia dormia tranquillamente; sua respiração ligeira resoava com a
-harmonia doce e subtil das folhas da canna quando estremecem ao sopro
-tenue da aragem.
-
-Pery lançou um olhar de desespero para as margens que se destacavão a
-alguma distancia sobre a corrente placida do rio. Quebrou o laço que
-prendia a canôa, e impellio-a para a terra com toda a força do remo,
-que fendeu a agua rapidamente.
-
-Á beira do rio elevava-se uma bella palmeira, cujo alto tronco era
-coroado pela grande cupola verde, formada com os leques de suas folhas
-lindas e graciosas. Os cipós e as parasitas, engrazando-se pelos ramos
-das arvores vizinhas, descião até o chão, formando grinaldas e
-cortinas de folhagem, que se prendião ás hastes da palmeira.
-
-Tocando a margem, Pery saltou em terra, tomou Cecilia meio adormecida
-nos seus braços, e ia entranhar-se pela matta virgem que se elevava
-diante delle.
-
-Nesse momento, o rio arquejou como um gigante estorcendo-se em
-convulsões, e deitou-se de novo no seu leito, soltando um gemido
-profundo e cavernoso.
-
-Ao longe o crystal da corrente achamalotou-se; as aguas frisárão-se; e
-um lençol de espuma estendeu-se sobre essa face lisa e polida,
-semelhante a uma vaga do mar desenrolando-se pela arêa da praia.
-
-Logo todo o leito do rio cobrio-se com esse delgado sendal que se
-desdobrava com uma velocidade espantosa, rumorejando como um manto de
-seda.
-
-Então no fundo da floresta troou um estampido horrivel, que veio
-reboando pelo espaço; dir-se-hia o trovão correndo nas quebradas da
-serrania.
-
-Era tarde!
-
-Não havia tempo para fugir; a agua tinha soltado o seu primeiro
-bramido, e, erguendo o collo, precipitava-se furiosa, invencivel,
-devorando o espaço como algum monstro do deserto.
-
-Pery tomou a resolução prompta que exigia a eminencia do perigo: em
-vez de ganhar a matta, suspendeu-se a um dos cipós, e galgando o cimo
-da palmeira, ahi abrigou-se com Cecilia.
-
-A menina, despertada violentamente e procurando conhecer o que se
-passava, interrogou seu amigo.
-
---A agua!... respondeu elle, apontando para o horizonte.
-
-Com effeito, uma montanha branca, phosphorescente, assomou entre as
-arcarias gigantescas formadas pela floresta, e atirou-se sobre o leito
-do rio, mugindo como o oceano quando açouta os rochedos com as suas
-vagas.
-
-A torrente passou, rapida, veloz, vencendo na carreira o tapir das
-selvas ou a ema do deserto; seu dorso enorme se estorcia e enrolava
-pelos troncos diluvianos das grandes arvores, que estremecião com o
-embate herculeo.
-
-Depois, outra montanha, e outra, e outra, se elevarão no fundo da
-floresta; arremessando-se no turbilhão, lutárão corpo a corpo,
-esmagando com o peso tudo que se oppunha á sua passagem.
-
-Dir-se-hia que algum monstro enorme, dessas giboias tremendas quo vivem
-nas profundezas da agua, mordendo a raiz de uma rocha, fazia gyrar a
-cauda immensa, apertando nas suas mil voltas a matta que se estendia
-pelas margens.
-
-Ou que o Parahyba, levantando-se qual novo Briareo no meio do deserto,
-estendia os cem braços titanicos, e apertava ao peito, estrangulando-a
-em uma convulsão horrivel, toda essa floresta secular que nascêra com
-o mundo.
-
-As arvores estalavão; arrancadas do seio da terra ou partidas pelo
-tronco, prostravão-se vencidas sobre o gigante, que, carregando-as ao
-hombro, precipitava-se para o oceano.
-
-O estrondo dessas montanhas d'agua que se quebravão, o estampido da
-torrente, os trôos do embate desses rochedos movediços, que se
-pulverisavão enchendo o espaço de neblina espessa, formavão um
-concerto horrivel, digno do drama magestoso que se representava no
-grande scenario.
-
-As trevas envolvião o quadro, e apenas deixavão ver os reflexos
-prateados da espuma e a muralha negra que cingia esse vasto recinto,
-onde um dos elementos reinava como soberano.
-
-Cecilia, apoiada ao hombro de seu amigo, assistia horrorisada a esse
-espectaculo pavoroso; Pery sentia o seu corpinho estremecer; mas os
-labios da menina não soltárão uma só queixa, um só grito de susto.
-
-Em face desses trances solemnes, desses grandes cataclysmas da natureza,
-a alma humana sente-se tão pequena, anihila-se tanto, que se esquece da
-existencia; o receio é substituido pelo pavor, pelo respeito, pela
-emoção que emmudece e paralysa.
-
-O sol, dissipando as trevas da noite, assomou no oriente; seu aspecto
-magestoso illuminou o deserto; as ondas de sua luz brilhante
-derramárão-se em cascatas sobre um lago immenso, sem horizontes.
-
-Tudo era agua e céo.
-
-A inundação tinha coberto as margens do rio até onde a vista podia
-alcançar; as grandes massas d'agua, que o temporal durante uma noite
-inteira vertêra sobre as cabeceiras dos confluentes do Parahyba,
-descêrão das serranias, e, de torrente em torrente, havião formado
-essa tromba gigantesca que se abatêra sobre a varzea.
-
-A tempestade continuava ainda ao longo de toda a cordilheira, que
-apparecia coberta por um nevoeiro escuro; mas o céo, azul e limpido,
-sorria mirando-se no espelho das aguas.
-
-A inundação crescia sempre; o leito do rio elevava-se gradualmente; as
-arvores pequenas desapparecião; e a folhagem dos soberbos jacarandás
-sobrenadava já como grandes moitas de arbustos.
-
-A cupola da palmeira, em que se achavão Pery e Cecilia, parecia uma
-ilha de verdura banhando-se nas aguas da corrente; as palmas que se
-abrião formavão no centro um berço mimoso, onde os dous amigos,
-estreitando-se, pedião ao céo para ambos uma só morte, pois uma só
-era a sua vida.
-
-Cecilia esperava o seu ultimo momento com a sublime resignação
-evangelica, que só dá a religião de Christo; morria feliz; Pery tinha
-confundido as suas almas na derradeira prece que expirára dos seus
-labios.
-
---Podemos morrer, meu amigo! disse ella com uma expressão sublime.
-
-Pery estremeceu; ainda nessa hora suprema seu espirito revoltava-se
-contra aquella idéa, e não podia conceber que a vida de sua senhora
-tivesse de perecer como a de um simples mortal.
-
---Não! exclamou elle. Tu não podes morrer.
-
-A menina sorrio docemente.
-
---Olha? disse ella com a sua voz maviosa, a agua sobe, sobe...
-
---Que importa! Pery vencerá a agua, como venceu a todos os teus
-inimigos.
-
---Se fosse um inimigo, tu o vencerias, Pery. Mas é Deos... É o seu
-poder infinito!
-
---Tu não sabes? disse o indio como inspirado pelo seu amor ardente, o
-Senhor do céo manda ás vezes áquelles a quem ama um bom pensamento!
-
-E o indio ergueu os olhos com uma expressão ineffavel de
-reconhecimento.
-
-Fallou com um tom solemne:
-
-«Foi longe, bem longe dos tempos de agora. As aguas cahirão, e
-começárão a cobrir toda a terra. Os homens subirão ao alto dos
-montes; um só ficou na varzea com sua esposa.
-
-«Era Tamandaré; forte entre os fortes; sabia mais que todos. O Senhor
-fallava-lhe de noite; e de dia elle ensinava aos filhos da tribu o que
-aprendia do céo.
-
-«Quando todos subirão aos montes, elle disse:--Ficai comigo; fazei
-como eu, e deixai que venha a agua.
-
-«Os outros não o escutárão; e forão para o alto; e deixárão elle
-só na varzea com sua companheira, que não o abandonou.
-
-«Tamandaré tomou sua mulher nos braços e subio com ella ao olho da
-palmeira; ahi esperou que a agua viesse e passasse; a palmeira dava
-fructos que os alimentavão.
-
-«A agua veio, subio e cresceu; o sol mergulhou e surgio uma, duas e
-tres vezes. A terra desappareceu; a arvore desappareceu; a montanha
-desappareceu.
-
-«A agua tocou o céo; e o Senhor mandou então que parasse. O sol
-olhando só viu céo e agua, e entre a agua e o céo, a palmeira que
-boiava levando Tamandaré e sua companheira.
-
-«A corrente cavou a terra; cavando a terra, arrancou a palmeira;
-arrancando a palmeira, subio com ella; subió acima do valle, acima da
-arvore, acima da montanha.
-
-«Todos morrêrão. A agua tocou o céo tres sões com tres noites;
-depois baixou: baixou até que descobrio a terra.
-
-«Quando veio o dia, Tamandaré viu que a palmeira estava plantada no
-meio da varzea; e ouvio a avezinha do céo, o guanumby, que batia as
-azas.
-
-«Desceu com a sua companheira, e povoou a terra.»
-
-Pery tinha fallado com o tom inspirado que dão as crenças profundas;
-com o enthusiasmo das almas ricas de poesia e sentimento.
-
-Cecilia o ouvia sorrindo, e bebia uma a uma as suas palavras como se
-fossem as particulas do ar que respirava; parecia-lhe que a alma de seu
-amigo, essa alma nobre e bella, se desprendia do seu corpo em cada uma
-das phrases solemnes, e vinha embeber-se no seu coração, que se abria
-para recebê-la.
-
-A agua subindo molhou as pontas das largas folhas da palmeira, e uma
-gota, resvalando pelo leque, foi embeber-se na alva cambraia das roupas
-de Cecilia.
-
-A menina, por um movimento instinctivo de terror, conchegou-se ao seu
-amigo; e nesse momento supremo, em que a inundação abria fauce enorme
-para traga-los, murmurou docemente:
-
---Meu Deus!... Pery!...
-
-Então passou-se sobre esse vasto deserto d'agua e céo uma scena
-estupenda, heroica, sobrehumana; um espectaculo grandioso, uma sublime
-loucura.
-
-Pery hallucinado suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavão pelos
-ramos das arvores já cobertas d'agua, e com esforço desesperado
-cingindo o tronco da palmeira nos seus braços hirtos, abalou-o até ás
-raizes.
-
-Tres vezes os seus musculos de aço, estorcendo-se, inclinárão a haste
-robusta; e tres vezes o seu corpo vergou, cedendo á retracção
-violenta da arvore, que voltava ao lugar que a natureza lhe havia
-marcado.
-
-Luta terrivel, espantosa, louca, esvairada, luta da vida contra a
-materia; luta do homem contra a terra; luta da força contra a
-immobilidade.
-
-Houve um momento de repouso em que o homem, concentrando todo o seu
-poder, estorceu-se de novo contra a arvore; o impeto foi terrivel; e
-pareceu que o corpo ia despedaçar-se nessa distensão horrivel.
-
-Ambos, arvore e homem, embalançáráo-se no seio das aguas: a haste
-oscillou; as raizes desprendêrão-se da terra já minada profundamente
-pela torrente.
-
-A cupola da palmeira, embalançando-se graciosamente, resvalou pela
-flôr d'agua como um ninho de garças ou alguma ilha fluctuante, formada
-pelas vegetações aquaticas.
-
-Pery estava de novo sentado junto de sua senhora quasi inanimada; e,
-tomando-a nos braços, disse-lhe com um accento de ventura suprema:
-
---Tu viverás!
-
-Cecilia abrio os olhos, e vendo seu amigo junto della, ouvindo ainda
-suas palavras, sentio o enlevo que deve ser o gozo da vida eterna.
-
---Sim?... murmurou ella; viveremos!... lá no céo, no seio de Deos,
-junto daquelles que amamos!...
-
-O anjo espanejava-se para remontarão berço.
-
---Sobre aquelle azul que tu vês, continuou ella, Deos mora no seu
-throno, rodeado dos que o adorão. Nós iremos lá, Pery! Tu viverás
-com tua irmã, sempre!..
-
-Ella embebeu os olhos nos olhos do seu amigo, e languida reclinou a
-loura fronte.
-
-O halito ardente de Pery bafejou-lhe a face.
-
-Fez-se no semblante da virgem um ninho de castos rubores e limpidos
-sorrisos: os labios abrirão como as azas purpureas de um beijo soltando
-o vôo.
-
-A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia...
-
-E sumio-se no horizonte.
-
-
-
-
-FIM DA QUARTA E ULTIMA PARTE.
-
-
-
-
-NOTAS
-
-DO TOMO SEGUNDO
-
-PAG. 7.--=Crispim Tenreiro=.
-
-Foi um dos fundadores do Rio de Janeiro; era casado com D. Isabel Mariz,
-irmã de D. Antonio.
-
-
-PAG. 153.--=Mussurana=.
-
-«Os contrarios que os Tupinambás captivão na guerra ou de outra
-maneira, mettem-nos em prisões, as quaes são cordas de algodão grossas,
-que para isso tem muito louçãs, a que chamão mussuranas.»--G.S.
-de SOUZA, _Roteiro do Brazil_.
-
-
-PAG. 155.--=Esposa do tumulo=.
-
-«Dão a cada um prisioneiro por mulher a mais formosa moça que ha na
-sua casa; a qual moça tem o cuidado de o servir e dar-lhe o necessario
-para comer e beber.»--G. SOARES DE SOUZA, _Roteiro do Brazil_, _cap_.
-71.
-
-
-PAG. 156.--=Cardo=.
-
-Fructo da urumbeba e de outras palmas de espinhos de que ha differentes
-especies; é vermelho na casca, de polpa branca e sementes pretas.
-
-
-PAG. 158.--=Corrixo=.
-
-Corrixo é um passarinho que tem o dom de arremedar a todos os outros.
-
-
- «Temos o passaro que entôa
- Por mil differentes modos,
- Porque elle remeda a todos,
- Seu proprio nome é corrixo.»
-
- J. J. LISBOA, _Desc. curiosa_.
-
-
-PAG. 159.--=És livre=.
-
-«Mas tambem ha algumas que tomárão tamanho amor aos captivos que as
-tomárão por mulher, que lhes derão muito geito para se acolherem e
-fugirem das prisões que elle cortão com alguma ferramenta que ellas
-ás escondidas lhes derão, etc.»--G. SOARES DE SOUZA, _Roteiro do
-Brazil_, _cap_. 171.
-
-
-PAG. 173.--=Sacrificio=.
-
-Os costumes dos Aymorés não erão inteiramente conhecidos, por causa
-do afastamento em que sempre viverão dos colonos. Em algumas cousas
-porém assemelhavão-se á raça tupy; e é por isso que na descripção
-do sacrificio aproveitámos o que dizem Simão de Vasconcellos e
-Lamartinière a respeito dos Tupinambás e outras tribus mais ferozes.
-
-
-PAG. 201.--=Veneno=.
-
-Os indigenas fabricavão diversos venenos, e a sua perfeição foi
-objecto de admiração para os colonisadores. Humboldt, á vista dos
-seus conhecimentos toxicologicos, concluio que devia ter havido na
-America antigamente uma grande civilisação, e que delia havião os
-selvagens herdado esses usos. Os principaes desses venenos erão o
-_bororé_ e o _uirari_.
-
-
-PAG. 202.--=Curarê=.
-
-«Le bororé, dont le révérend père Grumilha a donné la description
-dans son _Orenoco illustrado_, parait être exactement le même dont
-l'abbé Gilly parle dans son _Histoire de l'Amérique_, et qu'on
-désigne aujourd'hui par le nom de _curarê_. Suivant M. Humboldt, c'est
-un strichnos, et il ne faut pas le confondre avec le tucunas, composé
-toxique dont parle M. de la Condamine dans la relation de son voyage aux
-Amazones.»--Dʳ SIGAUD, _Du climat et des maladies du Brésil_.
-
-
-PAG. 203.--=Em algumas horas=.
-
-Sobre a violencia do _curarê_ diz ainda o Dʳ Sigaud o seguinte:
-
-«En 1830, le président C. J. de Nyemer apporta du Pará à Rio de
-Janeiro une petite portion de _curarê_ qu'on fit prendre à petites
-doses à divers animaux, qui tous ont succombé en peu d'heures dans des
-convulsions violentes. Le docteur Lacerda, qui a longtemps pratique au
-Pará et au Maranhão, a fait, dit-on, d'importantes recherches sur les
-poisons indiens encore inédites; le _curarê_ est, de son aveu, un
-poison violent, causant d'abord un état tétanique, ensuite une torpeur
-générale qui précède la mort.»
-
-
-PAG. 229.--=Contraveneno=.
-
-Segundo Humboldt, o assucar é um contraveneno do _curarê_. Os indios
-porém conhecião naturalmente outros muito mais efficazes, e que hoje
-ignorão-se, do mesmo modo que o da cascavel.
-
-
-PAG. 229.--=Setta hervada=.
-
-O curarê tambem servia aos indios para hervarem as settas, e nesse caso
-tinha uma preparação especial. Vid. GUMILHA, _Orenoco illustrado_.
-
-
-PAG. 292.--=Guanumby=.
-
-Segundo uma tradição dos indios, o colibri, que conhecião pelo nome
-de _guanumby_, levava e trazia as almas do outro mundo.
-
-
-PAG. 296.--=Igara=.
-
-Significa em guarany _canôa_; _atyaty_ é o nome que davão á gaivota.
-
-
-PAG. 321.--=Tamandaré=.
-
-É o nome do Noé indigena. A tradição rezava que na occasião do
-diluvio elle escapara no olho de uma palmeira, e depois povoára a
-terra. É a lenda que conta Pery.
-
-
-
-
-FIM DAS NOTAS DO TOMO SEGUNDO.
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O GUARANY: ***
-
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- O Guarany - Tomo Segundo, by J. De Alencar&mdash;A Project Gutenberg eBook
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-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>O Guarany:</span>, by José Martiniano de Alencar</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
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-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
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-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>O Guarany:</span></p>
-<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>romance brazileiro Vol. 02 (of 2)</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: José Martiniano de Alencar</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: March 28, 2022 [eBook #67725]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues and Kristen Carmean (Images generously made available by Hathi Trust Digital Library.)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O GUARANY:</span> ***</div>
-
-
-
-
-<p class="center"><br />
-<span class="big">J. DE ALENCAR</span></p>
-<hr class="r5" />
-
-<h1 class="p2"><span class="small">O</span><br />
-<span class="big">GUARANY</span><br /><br />
-<span class="small">ROMANCE BRAZILEIRO</span></h1>
-<hr class="r5" />
-
-<p class="center p2">QUINTA EDIÇÃO<br /><br /></p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center">TOMO SEGUNDO</p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center p2"><span class="big">RIO DE JANEIRO</span><br /><br />
-B.-L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR<br />
-<span class="small">71, RUA DO OUVIDOR, 71</span><br />
-PARIS.&mdash;E. MELLIER, 17, RUA SÉGUIER.</p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center">Ficão reservados os direitos de propriedade.</p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center"><strong>1883</strong></p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="INDICE">INDICE</h2>
-<p class="center"><a href="#TERCEIRA_PARTE">TERCEIRA PARTE<br />
-<strong>OS AYMORÉS</strong></a></p>
-<ul class="index">
-<li class="ifrst"><a href="#p3-I">I.&mdash;A Partida</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p3-II">II.&mdash;Preparativos</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p3-III">III.&mdash;Verme e flôr</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p3-IV">IV.&mdash;Na treva</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p3-V">V.&mdash;Deos dispõe</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p3-VI">VI.&mdash;Revolta</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p3-VII">VII.&mdash;Os selvagens</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p3-VIII">VIII.&mdash;Desanimo</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p3-IX">IX.&mdash;Esperança</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p3-X">X.&mdash;Na brecha</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p3-XI">XI.&mdash;O frade</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p3-XII">XII.&mdash;Desobediencia</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p3-XIII">XIII.&mdash;Combate</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p3-XIV">XIV.&mdash;O prisioneiro</a></li>
-</ul>
-<p class="center">
-<a href="#QUARTA_PARTE">QUARTA PARTE<br />
-<strong>A CATASTROPHE</strong></a></p>
-<ul class="index">
-<li class="ifrst"><a href="#p4-I">I.&mdash;Arrependimento</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p4-II">II.&mdash;O sacrificio</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p4-III">
-III.&mdash;Sortida</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p4-IV">
-IV.&mdash;Revelação</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p4-V">
-V.&mdash;O paiol</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p4-VI">
-VI.&mdash;Tregoa</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p4-VII">
-VII.&mdash;Peleja</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p4-VIII">
-VIII.&mdash;Noiva</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p4-IX">
-IX.&mdash;O castigo</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p4-X">
-X.&mdash;Christão</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#p4-XI">
-XI.&mdash;Epilogo</a></li>
-<li class="ifrst"><a href="#NOTAS">
-Notas</a></li>
-</ul>
-</div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="TERCEIRA_PARTE"><span class="small">TERCEIRA PARTE</span><br />
-<span class="big"><span id="aymores">OS AYMORÉS</span></span></h2>
-</div>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-I">I<br />A PARTIDA</h3>
-</div>
-
-<p>Na segunda-feira, erão seis horas da manhã, quando D. Antonio de Mariz
-chamou seu filho.</p>
-
-<p>O velho fidalgo velara uma boa parte da noite; ou escrevendo ou
-reflectindo sobre os perigos que ameaçavão sua familia.</p>
-
-<p>Pery lhe havia contado todas as particularidades de seu encontro com os
-Aymorés; e o cavalheiro, que conhecia a ferocidade e espirito vingativo
-dessa raça selvagem, esperava a cada momento ser atacado.</p>
-
-<p>Por isso, de acordo com Alvaro, D. Diogo, com seu escudeiro Ayres Gomes,
-tinha tomado todas as medidas de precaução que as circumstancias e sua
-longa experiencia lhe aconselhavão.</p>
-
-<p>Quando seu filho entrou, o velho fidalgo acabava de sellar duas cartas
-que escrevêra na vespera.</p>
-
-<p>&mdash;Meu filho, disse elle com uma ligeira emoção, reflecti essa noite
-sobre o que nos pode acontecer, e assentei que deves partir hoje mesmo
-para S. Sebastião.</p>
-
-<p>&mdash;Não é possivel, senhor!... Afastais-me de vós justamente quando
-correis um perigo?</p>
-
-<p>&mdash;Sim! É justamente quando um grande perigo nos ameaça, que eu, chefe
-da casa, entendo ser do meu dever salvar o representante do meu nome e
-meu herdeiro legitimo, o protector de minha familia orphã.</p>
-
-<p>&mdash;Confio em Deos, meu pai, que vossos receios serão infundados; mas se
-elle nos quizesse submetter a tal provança, o unico lugar que compete a
-vosso filho e herdeiro de vosso nome é nesta casa ameaçada, ao vosso
-lado, para defender-vos e partilhar a vossa sorte, qualquer que ella
-seja.</p>
-
-<p>D. Antonio apertou seu filho ao peito.</p>
-
-<p>&mdash;Eu te reconheço; tu és meu filho; é o meu sangue juvenil que gyra
-em tuas veias, e o meu coração de moço que falla pelos teus labios.
-Deixa porém que os cincoenta annos de experiencia que desde então
-passárão sobre minha cabeça encanecida te ensinem o que vai da
-mocidade á velhice, o que vai do ardente cavalheiro ao pai de uma
-familia.</p>
-
-<p>&mdash;Eu vos escuto, senhor; mas pelo amor que vos consagro poupai-me a dôr
-e a vergonha de deixar-vos no momento em que mais precisais de um
-servidor fiel e dedicado.</p>
-
-<p>O fidalgo proseguio já calmo:</p>
-
-<p>&mdash;Não é uma espada, D. Diogo, que nos dará a victoria, fosse ella
-valente e forte como a vossa: entre quarenta combatentes que vão se
-medir talvez contra centenas e centenas de inimigos, um de mais ou de
-menos não importa ao resultado.</p>
-
-<p>&mdash;Que assim seja, respondeu o cavalheiro com energia; reclamo o meu
-posto de honra, e a minha parte do perigo; não vos ajudarei a vencer,
-porém morrerei junto dos meus.</p>
-
-<p>&mdash;E é por esse nobre mas esteril orgulho que quereis sacrificar o unico
-meio de salvação que talvez nos reste, se, como temo, as minhas
-previsões se realisarem?</p>
-
-<p>&mdash;Que dizeis, senhor?</p>
-
-<p>&mdash;Qualquer que seja a força e o numero de inimigos, conto que o valor
-portuguez e a posição desta casa me ajudarão a resistir-lhes por
-algum tempo, por vinte dias, mesmo por um mez; mas por fim teremos de
-succumbir.</p>
-
-<p>&mdash;Então?... exclamou D. Diogo pallido.</p>
-
-<p>&mdash;Então, se meu filho D. Diogo, em vez de ficar nesta casa por uma
-obstinação imprudente, tiver ido ao Rio de Janeiro, e pedido o auxilio
-que fidalgos portuguezes não lhe recusarão de certo, poderá voar em
-socorro de seu pai, e chegar com tempo para defender sua familia. Então
-verá que esta gloria de ser o salvador de sua casa vale bem a honra de
-um perigo inutil.</p>
-
-<p>D. Diogo deitou o joelho em terra, e beijou com ternura a mão do
-fidalgo:</p>
-
-<p>&mdash;Perdão, meu pai, por não vos ter comprehendido. Eu devia adivinhar
-que D. Antonio de Mariz não pode querer para o filho senão o que é
-digno do pai.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos, D. Diogo, não ha tempo a perder. Lembrai-vos que uma hora, um
-minuto de tardança talvez tenha de ser contado anciosamente por
-aquelles que vão esperar-vos.</p>
-
-<p>&mdash;Parto neste instante, disse o cavalheiro dirigindo-se á porta.</p>
-
-<p id="crispim">&mdash;Tomai; esta carta é para Martim de Sá, governador desta capitania;
-esta outra é para meu cunhado e vosso tio Crispim Tenreiro, valente
-fidalgo que vos poupará o trabalho de procurardes defensores para vossa
-familia. Ide despedir-vos de vossa mãi e vossas irmãs: eu farei tudo
-preparar para a partida.</p>
-
-<p>O fidalgo, reprimindo a sua emoção, sahio do gabinete onde se passava
-esta scena, e foi ter com Alvaro que o procurava.</p>
-
-<p>&mdash;Alvaro, escolhei quatro homens que acompanhem D. Diogo ao Rio de
-Janeiro.</p>
-
-<p>&mdash;D. Diogo parte?... perguntou o moço admirado.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, depois vos direi as razões. Por agora dai-vos pressa em que tudo
-esteja prompto dentro de uma hora.</p>
-
-<p>Alvaro dirigio-se immediatamente ao fundo da casa onde habitavão os
-aventureiros.</p>
-
-<p>Havia ahi grande agitação: uns fallavão em tom de queixa, outros
-murmuravão apenas palavras entrecortadas; e alguns finalmente rião e
-motejavão do descontentamento de seus companheiros.</p>
-
-<p>Ayres Gomes com todo o seu arreganho militar passeava no meio do
-terreiro, a mão no punho da espada, a cabeça alta e o bigode
-retorcido. Quando o escudeiro passava, a voz dos aventureiros descia
-dous tons; mas á medida que elle se afastava, cada um dava livre
-desabafo ao seu máo humor.</p>
-
-<p>Entre os mais inquietos et turbulentos distinguião-se tres grupos
-presididos por personagens de nosso conhecimento: Loredano, Ruy Soeiro e
-Bento Simões.</p>
-
-<p>A causa desse descontentamento quasi geral era a seguinte:</p>
-
-<p>Por volta de seis horas da manhã, Ruy, em virtude do emprazamento da
-vespera, dirigio-se o primeiro á escada para ganhar o matto.</p>
-
-<p>Chegando ao fim da esplanada admirou-se de ver ahi Vasco Alphonso e
-Martim Vaz de vigia, o que era extraordinario; pois só á noite se
-usava de uma tal precaução, e esta cessava apenas amanhecia.</p>
-
-<p>Ainda mais admirado porém ficou quando os dous aventureiros, cruzando
-as espadas, proferirão quasi ao mesmo tempo estas palavras:</p>
-
-<p>&mdash;Não se passa.</p>
-
-<p>&mdash;E por que razão?</p>
-
-<p>&mdash;É a ordem, respondeu Martim Vaz.</p>
-
-<p>Ruy empallideceu, e voltou apressadamente; a primeira idéa que lhe
-acudio foi que os tinhão denunciado, e cuidou em prevenir a Loredano.</p>
-
-<p>Ayres Gomes porém embargou-lhe o passo, e dirigio-se com elle para o
-terreiro: ahi o digno escudeiro desempenando o corpo, e levando a mão
-á bocca em fórma de busina, gritou:</p>
-
-<p>Olá! Á frente toda a banda!</p>
-
-<p>Os aventureiros chegárão-se formando um circulo ao redor de Ayres
-Gomes; Ruy já tinha tido occasião de lançar uma palavra ao ouvido do
-italiano; e ambos, um pouco pallidos mas resolutos, esperavão o
-desfecho daquella scena.</p>
-
-<p>&mdash;O Sr. D. Antonio de Mariz, disse o escudeiro, por meu intermedio vos
-faz saber a sua vontade, e manda que ninguem se afaste um passo da casa
-sem sua ordem. Quem o contrario fizer pereça morte natural.</p>
-
-<p>Um silencio morno acolheu a enunciação desta ordem; Loredano trocou
-uma vista rapida com os seus dous complices.</p>
-
-<p>&mdash;Estais entendidos? disse Ayres Gomes.</p>
-
-<p>&mdash;O que nem eu, nem meus companheiros entendemos é a razão disto,
-retrucou o italiano avançando um passo.</p>
-
-<p>&mdash;Sim; a razão? exclamou em coro a maioria dos aventureiros.</p>
-
-<p>&mdash;As ordens cumprem-se, e não se discutem, respondeu o escudeiro com
-uma certa solemnidade.</p>
-
-<p>&mdash;Comtudo nós... ia dizendo Loredano.</p>
-
-<p>&mdash;Toca a debandar! gritou Ayres Gomes. Aquelle que não estiver
-contente, que o diga ao Sr. D. Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>E o escudeiro com uma fleugma imperturbavel rompeu o circulo, e começou
-a passear pelo terreiro olhando de travez os aventureiros, e rindo á
-sorrelfa do seu desapontamento.</p>
-
-<p>Quasi todos estavão contrariados; sem fallar dos conspiradores que se
-havião emprazado para concertarem seu plano de campanha, os outros,
-cujo divertimento era caçar e bater os mattos, não recebião a ordem
-com prazer. Apenas alguns de genio mais bonachão e jovial tinhão
-tomado a cousa á boa parte, e zombavão da contrariedade que soffrião
-seus companheiros.</p>
-
-<p>Quando Alvaro se aproximou todos os olhos se voltárão para elle,
-esperando a explicação do que se passava.</p>
-
-<p>&mdash;Sr. cavalheiro, disse Ayres Gomes, acabo de transmittir a ordem para
-que ninguem arrede pé da casa.</p>
-
-<p>&mdash;Bem, respondeu o moço, e continuou dirigindo-se aos aventureiros:
-Assim é preciso, meus amigos, estamos ameaçados de um ataque dos
-selvagens, e toda a prudencia é pouca nestas occasiões. Não é só a
-nossa vida que temos a defender, e essa pouco vale para cada um de nós;
-é sim a pessoa daquelle que confia em nosso zelo e coragem, e mais
-ainda o socego de uma familia honrada que todos prezamos.</p>
-
-<p>As nobres palavras do cavalheiro, e a affabilidade do gesto que
-suavisava a firmeza de sua voz, serenárão completamente os animos;
-todos os descontentes mostrárão-se satisfeitos.</p>
-
-<p>Apenas Loredano estava desesperado por ser obrigado a retardar a
-combinação do seu plano; pois era arriscado tenta-lo em casa, onde o
-menor gesto o podia trahir.</p>
-
-<p>Alvaro trocou poucas palavras com Ayres Gomes, e voltou-se para os
-aventureiros:</p>
-
-<p>&mdash;D. Antonio de Mariz precisa de quatro homens dedicados para
-acompanharem seu filho D. Diogo á cidade de S. Sebastião. É uma
-missão perigosa; quatro homens nestes desertos marchão de perigo em
-perigo. Quem de vós se offerece para desempenha-la?</p>
-
-<p>Vinte homens se adiantárão; o cavalheiro escolheu tres entres elles.</p>
-
-<p>&mdash;Vós sereis o quarto, Loredano.</p>
-
-<p>O italiano, que se tinha escondido entre os seus companheiros, ficou
-como fulminado por estas palavras; sahir naquella occasião da casa era
-perder para sempre a sua mais ardente esperança; durante a ausencia
-tudo podia se descobrir.</p>
-
-<p>&mdash;Peza-me ser obrigado a negar-me ao serviço que exigis de mim; mas
-sinto-me doente, e sem forças para uma viagem.</p>
-
-<p>O cavalheiro sorrio.</p>
-
-<p>&mdash;Não ha enfermidade que prive um homem de cumprir o seu dever;
-sobretudo quando é um homem valente e leal como vós, Loredano.</p>
-
-<p>Depois abaixou a voz para não ser ouvido pelos outros aventureiros:</p>
-
-<p>&mdash;Se não partis, sereis arcabuzado em uma hora. Esqueceis que tenho a
-vossa vida em minha mão, e vos faço esmola mandando-vos sahir desta
-casa?</p>
-
-<p>O italiano comprehendeu que não tinha remedio senão partir; bastava
-que o moço o accusasse de ter atirado sobre elle, bastava a palavra de
-Alvaro para fazê-lo condemnar pelo chefe e pelos seus proprios
-companheiros.</p>
-
-<p>&mdash;Aviai-vos, disse o cavalheiro aos quatro aventureiros escolhidos por
-elle; partis em meia hora.</p>
-
-<p>Alvaro retirou-se.</p>
-
-<p>Loredano ficou um momento abatido pela fatalidade que pesava sobre elle;
-mas a pouco a pouco foi recobrando a calma, animando-se; por fim sorrio.
-Para que sorrisse era necessario que alguma inspiração infernal
-tivesse subido do centro da terra a essa intelligencia votada ao crime.</p>
-
-<p>Fez um aceno a Ruy Soeiro, e os dous encaminhárão-se para um cubiculo
-que o italiano occupava no fim da esplanada. Ahi conversárão algum
-tempo, rapidamente e em voz baixa.</p>
-
-<p>Forão interrompidos por Ayres Gomes, que bateu com a espada na porta:</p>
-
-<p>&mdash;Eh! lá! Loredano. A cavallo, homem; e boa viagem.</p>
-
-<p>O italiano abrio a porta, e ia sahir; mas voltou-se para dizer a Ruy
-Soeiro:</p>
-
-<p>&mdash;Olhai os homens da guarda; é o principal.</p>
-
-<p>&mdash;Ide tranquillo.</p>
-
-<p>Alguns minutos depois, D. Diogo, com o coração cerrado e as lagrimas
-nos olhos, apertava nos braços sua mãi querida, Cecilia que elle
-adorava, e Isabel que já amava tambem como irmã.</p>
-
-<p>Depois desprendendo-se com um esforço, encaminhou-se apressadamente
-para a escada e desceu ao valle; ahi recebeu a benção de seu pai e
-abraçando a Alvaro saltou na sella do cavallo, que Ayres Gomes tinha
-pela redea.</p>
-
-<p>A pequena cavalgata partio; com pouco sumia-se na volta do caminho.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-II">II<br />PREPARATIVOS</h3>
-</div>
-
-
-<p>Ao tempo que D. Antonio de Mariz e seu filho conversavão no gabinete,
-Pery examinava as suas armas, carregava as pistolas que sua senhora lhe
-havia dado na vespera, e sahia da cabana.</p>
-
-<p>A physionomia do selvagem tinha uma expressão de energia e ardimento,
-que revelava resolução violenta, talvez desesperada.</p>
-
-<p>O que ia fazer, nem elle mesmo sabia. Certo de que o italiano e seus
-companheiros se reunirião naquella manhã, contava antes que a reunião
-se effectuasse ter mudado inteiramente a face das cousas.</p>
-
-<p>Só tinha uma vida como dissera; mas essa com a sua agilidade e a sua
-força e coragem valia por muitas; tranquillo sobre o futuro pela
-promessa de Alvaro, não lhe importava o numero dos inimigos: podia
-morrer mas esperava deixar pouco ou talvez nada que fazer ao cavalheiro.</p>
-
-<p>Sahindo de sua cabana, Pery entrou no jardim: Cecilia estava sentada
-n'um tapete de pelles sobre a relva, e amimava ao seio a sua rolinha
-predilecta, offerecendo os labios de carmim ás caricias que a ave lhe
-fazia com o bico delicado.</p>
-
-<p>A menina estava pensativa; doce melancolia desvanecia a vivacidade
-natural de seu semblante.</p>
-
-<p>&mdash;Tu estás agastada com Pery, senhora?</p>
-
-<p>&mdash;Não, respondeu a menina fitando nelle os grandes olhos azues. Não
-quizeste fazer o que eu pedi; tua senhora ficou triste.</p>
-
-<p>Ella dizia a verdade com a ingénua franqueza da innocencia. Na vespera,
-quando se tinha recolhido enfadada pela recusa de Pery, ficara
-contrariada.</p>
-
-<p>Educada no fervor religioso de sua mãi, embora sem os prejuizos que a
-razão de D. Antonio corrigira no espirito de sua filha, Cecilia tinha a
-fé christã em toda a pureza e santidade. Por isso se affligia com a
-idéa de que Pery, a quem votava uma amizade profunda, não salvasse a
-sua alma, e não conhecesse o Deus bom e compassivo a quem ella dirigia
-suas preces.</p>
-
-<p>Conhecia que a razão por que sua mãi e os outros desprezavão o indio
-era o seu gentilismo; e a menina no seu reconhecimento queria elevar o
-amigo e torna-lo digno da estima de todos.</p>
-
-<p>Eis a razão por que ficara triste; era gratidão por Pery, que
-defendera sua vida de tantos perigos, e a quem ella queria retribuir
-salvando a sua alma.</p>
-
-<p>Nesta disposição de espirito, seus olhos cahirão sobre a guitarra
-hespanhola que estava em cima da commoda e veio-lhe vontade de cantar.
-É cousa singular como a melancolia inspira! Seja por uma necessidade de
-expansão, seja porque a musica e a poesia suavisem a dôr, toda a
-creatura triste acha no canto um supremo consolo.</p>
-
-<p>A menina tirou ligeiros preludios do instrumento emquanto repassava na
-memoria as letras de alguns soláos e cantigas que sua mãi lhe havia
-ensinado. A que lhe acudio mais naturalmente foi a chacara que ouvimos;
-havia nessa composição uns longes, um quer que seja que ella não
-sabia explicar, mas ia com seus pensamentos.</p>
-
-<p>Quando acabou de cantar levantou-se, apanhou a flôr de Pery que tinha
-atirado ao chão, deitou-a nos cabellos, e fazendo a sua oração da
-noite, adormeceu tranquillamente. O ultimo pensamento que roçou a sua
-fronte alva foi um voto de gratidão pelo amigo que lhe salvára a vida
-naquella manhã. Depois um sorriso adejou sobre seu rosto gracioso, como
-se a alma durante o somno dos olhos viesse brincar nos labios
-entreabertos.</p>
-
-<p>O indio, ouvindo as palavras que acabava de proferir Cecilia, sentio que
-pela primeira vez tinha causado uma mágoa real á sua senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Tu não entendestes Pery, senhora; Pery te pedio que o deixasses na
-vida em que nasceu, porque precisa desta vida para servir-te.</p>
-
-<p>&mdash;Como?... Não te entendo!</p>
-
-<p>&mdash;Pery, selvagem, é o primeiro dos seus; só tem uma lei, uma
-religião, é sua senhora; Pery, christão, será o ultimo dos teus;
-será um escravo, e não poderá defender-te.</p>
-
-<p>&mdash;Um escravo!... Não! serás um amigo. Eu te juro! exclamou a menina
-com vivacidade.</p>
-
-<p>O indio sorrio:</p>
-
-<p>&mdash;Se Pery fosse christão, e um homem quizesse te offender, elle não
-poderia mata-lo, porque o teu Deus manda que um homem não mate
-outro. Pery selvagem não respeita ninguem; quem offende sua senhora é
-seu inimigo, e morre!</p>
-
-<p>Cecilia, pallida de emoção, olhou o indio, admirada não tanto da
-sublime dedicação, como do raciocinio; ella ignorava a conversa que o
-indio tivera na vespera com o cavalheiro.</p>
-
-<p>&mdash;Pery te desobedeceu por ti sómente; quando já não correres perigo,
-elle virá ajoelhar a teus pés, e beijar a cruz que tu lhe déste. Não
-fique zangada!</p>
-
-<p>&mdash;Meu Deus!... murmurou Cecilia pondo os olhos no céo. É possivel que
-uma dedicação tamanha não seja inspirada por vossa santa
-religião!...</p>
-
-<p>A alegria serena e doce de sua alma irradiava na physionomia
-encantadora:</p>
-
-<p>&mdash;Eu sabia que tu não me negarias o que te pedi; assim não exijo mais;
-espero. Lembra-te sómente que no dia em que tu fôres christão, tua
-senhora te estimará ainda mais.</p>
-
-<p>&mdash;Não ficas triste?</p>
-
-<p>&mdash;Não; agora estou satisfeita, contente, muito contente!</p>
-
-<p>&mdash;Pery quer pedir-te uma cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Dize, o que é?</p>
-
-<p>&mdash;Pery quer que tu risques um papel para elle.</p>
-
-<p>&mdash;Riscar um papel?...</p>
-
-<p>&mdash;Como este que teu pai deo hoje a Pery.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! queres que eu escreva?</p>
-
-<p>&mdash;Sim.</p>
-
-<p>&mdash;O que?</p>
-
-<p>&mdash;Pery vai dizer.</p>
-
-<p>&mdash;Espera.</p>
-
-<p>Ligeira e graciosa, a menina correu á banquinha, e tomando uma folha de
-papel e uma pena, fez signal a Pery que se aproximasse.</p>
-
-<p>Não devia ella satisfazer os desejos do indio, como este satisfazia ás
-suas menores fantasias?</p>
-
-<p>&mdash;Vamos: falla, que eu escrevo.</p>
-
-<p>&mdash;Pery a Alvaro, disse o indio.</p>
-
-<p>&mdash;É uma carta ao Sr. Alvaro? perguntou a menina corando.</p>
-
-<p>&mdash;Sim: é para elle.</p>
-
-<p>&mdash;Que vais tu dizer-lhe?</p>
-
-<p>&mdash;Escreve.</p>
-
-<p>A menina traçou a primeira linha, e depois, por pedido de Pery, o nome
-de Loredano e dos seus dous complices.</p>
-
-<p>&mdash;Agora, disse o indio, fecha.</p>
-
-<p>Cecilia sellou a carta.</p>
-
-<p>&mdash;Entrega á tarde; antes não.</p>
-
-<p>&mdash;Mas que quer isto dizer? perguntou Cecilia sem comprehender.</p>
-
-<p>&mdash;Elle te dirá.</p>
-
-<p>&mdash;Não que eu...</p>
-
-<p>A menina balbuciou corando estas palavras: ia dizer que não fallaria
-ao cavalheiro e arrependeu-se; não queria revelar a Pery o que se tinha
-passado. Sabia que se o indio suspeitasse a scena da vespera, odiaria
-Isabel e Alvaro, só por lhe terem causado um pezar involuntario.</p>
-
-<p>Emquanto Cecilia confusa procurava disfarçar o enleio, Pery fitava
-nella o seu olhar brilhante; mal pensava a menina que aquelle olhar era
-o adeos extremo que o indio lhe dizia.</p>
-
-<p>Mas para isto fora preciso que adivinhasse o plano desesperado que elle
-havia concebido de exterminar naquelle dia todos os inimigos da casa.</p>
-
-<p>D. Diogo entrou neste momento no quarto de sua irmã: vinha despedir-se
-della.</p>
-
-<p>Quanto a Pery, deixando Cecilia dirigio-se á escada, e achou as mesmas
-vigias, que depois embargárão a passagem de Ruy Soeiro.</p>
-
-<p>&mdash;Não se passa, disserão os aventureiros cruzando as espadas.</p>
-
-<p>O indio levantou os hombros desdenhosamente; e antes que as sentinellas
-voltassem a si da sorpreza, tinha mergulhado sob as espadas, e descido a
-escada. Então ganhou a matta, examinou de novo as suas armas e esperou;
-já estava cansado quando viu passar a pequena calvagata.</p>
-
-<p>Pery não comprehendeu o que succedia; mas conheceu que o seu plano
-tinha abortado.</p>
-
-<p>Foi ter com Alvaro.</p>
-
-<p>O cavalheiro explicou-lhe como se aproveitára da ida de D. Diogo ao Rio
-de Janeiro para expulsar o italiano sem rumor e sem escandalo. Então o
-indio por sua vez contou ao moço o que tinha ouvido na touça de
-cardos; o projecto que formára de matar os tres aventureiros naquelle
-manhã; e finalmente a carta que lhe escrevêra por intermedio de
-Cecilia, para, no caso de succumbir elle, saber o cavalheiro quem erão
-os inimigos.</p>
-
-<p>Alvaro duvidava ainda acreditar em tanta perfidia do italiano.</p>
-
-<p>&mdash;Agora, concluio Pery, é preciso que os dous tambem saião; se
-ficarem, o outro póde voltar.</p>
-
-<p>&mdash;Não se animará! disse o cavalheiro.</p>
-
-<p>&mdash;Pery não se engana! Manda sahir os dous.</p>
-
-<p>&mdash;Fica descansado. Fallarei com D. Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>O resto do dia passou tranquillamente; mas a tristeza tinha entrado
-nesta casa ainda na vespera tão alegre e feliz; a partida de D. Diogo,
-o temor vago que produz o perigo quando se aproxima, e o receio de um
-ataque dos selvagens, preoccupavão os moradores do <em>Paquequer</em>.</p>
-
-<p>Os aventureiros dirigidos por D. Antonio, executavão trabalhos de
-defesa tornando ainda mais inaccessivel o rochedo em que estava situada
-a casa.</p>
-
-<p>Uns construião palissadas em roda da esplanada; outros arrastavão para
-a frente da casa uma colubrina que o fidalgo por excesso de cautela
-mandára vir de S. Sebastião havia dous annos. Toda a casa emfim
-apresentava um aspecto martial, que indicava a vespera de um combate; D.
-Antonio preparava-se para receber dignamente o inimigo.</p>
-
-<p>Apenas em toda esta casa uma pessoa se conservava alheia ao que se
-passava; era Isabel, que só pensava no seu amor.</p>
-
-<p>Depois de sua confissão, arrancada violentamente ao seu coração por
-uma força irresistivel, por um impulso que ella não sabia explicar, a
-pobre menina quando se vira só, no seu quarto, á noite, quasi morreu
-de vergonha.</p>
-
-<p>Lembrava-se de suas palavras, e perguntava a si mesma como tivera a
-coragem de dizer aquillo, que antes nem mesmo os seus olhos se animavão
-a exprimir silenciosamente. Parecia-lhe que era impossivel tornar a ver
-Alvaro sem que cada um dos olhares do moço queimasse suas faces e a
-obrigasse a esconder o rosto de pejo.</p>
-
-<p>Entretanto nem por isso seu amor era menos ardente; ao contrario agora
-é que a paixão, por muito tempo reprimida, se exacerbava com as lutas
-e contrariedades.</p>
-
-<p>As poucas palavras doces que o moço lhe dirigira, a pressão das mãos,
-e o aperto rapido sobre o coração de Alvaro n'um momento de
-hallucinação, passavão e repassavão na sua memoria a lodo o momento.</p>
-
-<p>Seu espirito, como uma borboleta em torno da flor, esvoaçava
-constantemente em torno das reminiscencias ainda vivas, como para libar
-todo o mel que encerravão aquellas sensações, as primeiras de seu
-infeliz amor.</p>
-
-<p>Nesse mesmo dia de segunda-feira, á tarde, Alvaro encontrou-se um
-momento com Isabel na esplanada.</p>
-
-<p>Ambos ficárão mudos, e corárão. Alvaro ia retirar-se.</p>
-
-<p>&mdash;Sr. Alvaro... balbuciou a moça tremula.</p>
-
-<p>&mdash;Que quereis de mim, D. Isabel? perguntou o moço perturbado.</p>
-
-<p>&mdash;Esqueci-me restituir-vos hontem o que não me pertence.</p>
-
-<p>&mdash;É ainda este malfadada bracelete?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, respondeu a moça docemente, é este malfadado bracelete: Cecilia
-teima que é elle vosso.</p>
-
-<p>&mdash;Se meu é, vos peço que o aceiteis.</p>
-
-<p>&mdash;Não, Sr. Alvaro, não tenho direito.</p>
-
-<p>&mdash;Uma irmã não tem direito de aceitar a prenda que lhe offerece seu
-irmão?</p>
-
-<p>&mdash;Tendes razão, respondeu a moça suspirando, eu o guardarei como
-lembrança vossa; não será adorno para mim, senão reliquia.</p>
-
-<p>O moço não respondeu; retirou-se para cortar a conversa.</p>
-
-<p>Desde a vespera Alvaro não podia eximir-se á impressão poderosa que
-causara nelle a paixão de Isabel; era preciso que não fosse homem para
-não se sentir profundamente commovido pelo amor ardente de uma mulher
-bella, e pelas palavras de fogo que corrião dos labios de Isabel
-impregnadas de perfume e sentimento.</p>
-
-<p>Mas a razão direita do cavalheiro recalcava essa impressão no fundo do
-coração; elle não se pertencia; tinha aceitado o legado de D. Antonio
-de Mariz e jurado dar a sua mão a Cecilia.</p>
-
-<p>Embora não esperasse mais realisar o seu sonho dourado, entendia que
-estava rigorosamente obrigado a sujeitar-se á vontade do fidalgo, a
-proteger sua filha, a dedicar-lhe sua existência. Quando Cecilia o
-repellisse abertamente, e D. Antonio o desobrigasse de sua promessa,
-então seu coração seria livre, se não estivesse morto pelo
-desengano.</p>
-
-<p>O unico facto notavel que se deu nesse dia foi a chegada de seis
-aventureiros das vizinhanças, que prevenidos por D. Diogo vinhão
-offerecer seus serviços a D. Antonio.</p>
-
-<p>Chegarão ao lusco-fusco; á frente delles vinha o nosso conhecido
-mestre Nunes, que um anno antes dera hospitalidade no seu pouso a frei
-Angelo di Lucca.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-III">III<br />VERME E FLOR</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>Erão onze horas da noite.</p>
-
-<p>O silencio reinava na habitação e seus arredores, tudo estava
-tranquillo e sereno. Algumas estrellas brilhavão no céo; os sopros
-escassos da viração susurravão na folhagem.</p>
-
-<p>Os dous homens de vigia, apoiados ao arcabuz e reclinados sobre o
-alcantil, sondavão a sombra espessa que se estendia pela aba do
-rochedo.</p>
-
-<p>O vulto magestoso de D. Antonio de Mariz passou lentamente pela
-esplanada, e desappareceu no canto da casa. O fidalgo fazia a sua ronda
-nocturna, como um general na vespera de uma batalha.</p>
-
-<p>Passados alguns momentos ouvio-se cantar uma coruja no valle, junto da
-escada de pedra; uma das vigias abaixou-se, e tomando dous pequenos
-seixos deixou-os cahir um depois do outro.</p>
-
-<p>O som fraco que produzio a quedadas pedras sobre o arvoredo da varzea
-foi quasi imperceptivel; seria difficil distingui-lo do rumor do vento
-nas folhas.</p>
-
-<p>Um instante depois um vulto subio ligeiramente a escada, e reunio-se aos
-dous homens que fazião a guarda nocturna:</p>
-
-<p>&mdash;Tudo está preparado?</p>
-
-<p>&mdash;Só esperamos por vós.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos! não ha tempo a perder.</p>
-
-<p>Trocadas estas palavras rapidamente entre o que chegava e uma das
-vigias, os tres encaminhárão-se com todas as precauções para a
-alpendrada em que habitava a banda dos aventureiros.</p>
-
-<p>Ahi, como no resto da casa, tudo estava calmo e tranquillo; apenas
-via-se luzir na soleira da porta do aposento de Ayres Gomes a claridade
-de uma luz.</p>
-
-<p>Um dos tres chegou-se á entrada do alpendre, e esgueirando-se pela
-parede perdeu-se na escuridão que havia no interior.</p>
-
-<p>Os outros dous se dirigirão ao fim da casa, e ahi occultos pela sombra
-e pelo angulo que formava um largo pilar do edificio, começárão um
-dialogo breve e rapido.</p>
-
-<p>&mdash;Quantos são? perguntou o homem que chegára.</p>
-
-<p>&mdash;Vinte ao todo.</p>
-
-<p>&mdash;Restão-nos?</p>
-
-<p>&mdash;Dezenoze.</p>
-
-<p>&mdash;Bem. A senha?</p>
-
-<p>&mdash;Prata.</p>
-
-<p>&mdash;E o fogo?</p>
-
-<p>&mdash;Prompto.</p>
-
-<p>&mdash;Aonde?</p>
-
-<p>&mdash;Nos quatro cantos.</p>
-
-<p>&mdash;Quantos sobrão?</p>
-
-<p>&mdash;Dous apenas.</p>
-
-<p>&mdash;Seremos nós.</p>
-
-<p>&mdash;Precisais de mim?</p>
-
-<p>&mdash;Sim.</p>
-
-<p>Houve uma pequena pausa, em que um dos aventureiros parecia reflectir
-profundamente emquanto o outro esperava; por fim o primeiro ergueu a
-cabeça:</p>
-
-<p>&mdash;Ruy, vós me sois dedicado?</p>
-
-<p>&mdash;Dei-vos a prova.</p>
-
-<p>&mdash;Preciso de um amigo fiel.</p>
-
-<p>&mdash;Contai comigo.</p>
-
-<p>&mdash;Obrigado.</p>
-
-<p>O desconhecido apertou a mão de seu companheiro.</p>
-
-<p>&mdash;Sabeis que amo uma mulher?</p>
-
-<p>&mdash;Vós m'o dissestes.</p>
-
-<p>&mdash;Sabeis que é mais por essa mulher do que por esse thesouro fabuloso
-que concebi este plano horrivel?</p>
-
-<p>&mdash;Não; não o sabia.</p>
-
-<p>&mdash;Pois é a verdade; pouco me importa a riqueza; sêde meu amigo;
-servi-me lealmente, e tereis a maior parte do meu thesouro.</p>
-
-<p>&mdash;Fallai; que quereis que eu faça?</p>
-
-<p>&mdash;Um juramento; mas um juramento sagrado, terrivel.</p>
-
-<p>&mdash;Qual dizei!</p>
-
-<p>&mdash;Hoje esta mulher me pertencerá; entretanto se por qualquer acaso eu
-vier a morrer, quero que...</p>
-
-<p>O desconhecido hesitou:</p>
-
-<p>&mdash;Quero que nenhum homem possa ama-la, que nenhum homem possa gozar a
-felicidade suprema que ella pode dar.</p>
-
-<p>&mdash;Mas como?</p>
-
-<p>&mdash;Matando-a!</p>
-
-<p>Ruy sentio um calafrio.</p>
-
-<p>&mdash;Matando-a, para que a mesma cova receba nossos dous corpos; não sei
-porque, mas parece-me que ainda cadaver, o contacto desta mulher deve
-ser para mim um gozo immenso.</p>
-
-<p>&mdash;Loredano!... exclamou seu companheiro horrorisado.</p>
-
-<p>&mdash;Sois meu amigo e sereis meu herdeiro! disse o italiano agarrando-lhe
-convulsivamente no braço. É a minha condição; se recusais, outro
-aceitará o thesouro que rejetais!</p>
-
-<p>O aventureiro estava em luta com dous sentimentos oppostos; mas a
-ambição violenta, cega, esvairada, abafou o grito fraco da
-consciencia.</p>
-
-<p>&mdash;Jurais? perguntou Loredano.</p>
-
-<p>&mdash;Juro!... respondeu Ruy com a voz estrangulada.</p>
-
-<p>&mdash;Avante então!</p>
-
-<p>Loredano abrio a porta do seu cubiculo, e voltou algum tempo depois
-trazendo uma taboa longa e estreita que collocou sobre o despenhadeiro
-como uma especie de ponte suspensa.</p>
-
-<p>&mdash;Ides segurar esta taboa, Ruy. Entrego em vossas mãos a minha vida, e
-nisto dou-vos a maior prova de confiança. Basta que deixeis esta
-prancha mover-se para que eu me precipite sobre os rochedos.</p>
-
-<p>O italiano achava-se então no mesmo lugar que na noite da chegada,
-algumas braças distante da janella de Cecilia, onde não podia chegar
-por causa do angulo que formava o rochedo e o edificio.</p>
-
-<p>A taboa foi collocada na direcção da janella; a primeira vez tinha-lhe
-bastado o seu punhal; agora porém necessitava de um apoio seguro, e do
-livre movimento de seus braços. Ruy collocou-se sobre a ponta da taboa,
-e segurando-se a um frechai do alpendre manteve immovel sobre o
-precipicio essa ponte pensil em que o italiano ia arriscar-se.</p>
-
-<p>Quanto a este, sem hesitar, tirou as suas armas para ficar mais leve,
-descalçou-se, segurou a longa faca entre os dentes, e pôz o pé sobre
-a prancha.</p>
-
-<p>&mdash;Esperar-me-heis do outro lado, disse o italiano.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, respondeu Ruy com a voz tremula.</p>
-
-<p>A razão por que a voz de Ruy tremia, era um pensamento diabolico que
-começava a fermentar no seu espirito. Lembrou-lhe que tinha na mão
-Loredano e o seu segredo; que para vêr-se livre de um e senhor do
-outro, bastava afastar o pé e deixar a taboa inclinar sobre o abysmo.</p>
-
-<p>Entretanto hesitava; não que o remorso anticipado lhe exprobasse o
-crime que ia commetter; já tinha-se afundado muito no vicio e na
-depravação para recuar. Mas o italiano exercia sobre seus complices
-tal prestigio e influencia tão poderosa, que Ruy não podia mesmo nesse
-momento esquivar-se a elles.</p>
-
-<p>Loredano estava suspenso sobre o abysmo pela sua mão; podia salva-lo ou
-precipital-o no despenhadeiro; e comtudo dessa posição ainda elle
-impunha respeito ao aventureiro.</p>
-
-<p>Ruy tinha medo: não comprehendia o motivo desse terror irresistivel;
-mas o sentia como uma obsessão e um pesadelo.</p>
-
-<p>No emtanto a imagem da riqueza esplendida, brilhante, radiando galas e
-luzimentos, passava diante de seus olhos e o deslumbrava; um pouco de
-coragem, e seria o unico senhor do thesouro fabuloso, de cujo segredo
-era o italiano depositario.</p>
-
-<p>Mas coragem é o que lhe faltava; por duas ou tres vezes o aventureiro
-teve um impeto de suspender-se ao frechai, e deixar a taboa rolar no
-abysmo; não passou de um desejo.</p>
-
-<p>Venceu a final a tentação.</p>
-
-<p>Teve um momento de desvario: os joelhos acurvárão-se; a taboa soffreu
-uma oscillação tão forte, que Ruy admirou-se como o italiano se tinha
-podido suster.</p>
-
-<p>Então o medo desappareceu; foi substituido por uma especie de raiva e
-frenesi que se apoderou do aventureiro; o primeiro esforço lhe dera a
-ousadia, como a vista do sangue excita a féra.</p>
-
-<p>Um segundo abalo mais forte agitou a taboa, que oscillou á borda do
-rochedo; porém não se ouvio o baque de um corpo; não se ouvio mais
-que o choque da madeira sobre a pedra. Ruy, desesperado, ia soltar a
-prancha, quando chegou-lhe ao ouvido, abafada e sumida, a voz do
-italiano, que apenas se percebia no silencio profundo da noite.</p>
-
-<p>&mdash;Estais cansado, Ruy?... Podeis tirar a taboa: não preciso mais della.</p>
-
-<p>O aventureiro ficou espavorido; decididamente esse homem era um espirito
-infernal que plainava sobre o abysmo, e escarnecia do perigo; um ente
-superiora quem a morte não podia tocar.</p>
-
-<p>Elle ignorava que Loredano, com a sua previdencia ordinaria, quando
-entrara no seu cubiculo para tirar a prancha, tivera o cuidado de passar
-por um caibro do alpendre, que era de telhavan, a ponta de uma longa
-corda que cahio sobre a parte de fóra da parede uma braça distante da
-janella de Cecilia.</p>
-
-<p>Assim, apenas deo o primeiro passo sobre a ponte improvisada, o italiano
-mio se descuidou de estender o braço e agarrar a ponta da corda, que
-logo atou á cintura: então se o apoio lhe faltasse ficaria suspenso no
-ar, e, embora com mais difficuldade, realisaria o seu intento.</p>
-
-<p>Foi por isso que os dous abalos produzidos pelo seu complice não
-tiverão o resultado que elle esperava; logo de primeiro, Loredano
-adivinhou o que se passava n'alma de Ruy, mas não querendo dar-lhe a
-perceber que conhecia a sua traição, servio-se de um meio indirecto
-para dizer-lhe que estava em segurança, e que era inutil a tentativa de
-precipita-lo.</p>
-
-<p>A taboa não fez mais um só movimento; conservou-se immovel como se
-estivera solidamente pregada ao rochedo.</p>
-
-<p>Loredano adiantou-se, tocou a janella da moça, e com a ponta da faca
-conseguio levantar a aldraba; as gelosias abrindo-se afastárão as
-cortinas de cassa que vendavão o asylo do pudor e da innocencia.</p>
-
-<p>Cecilia dormia envolta nas alvas roupas de seu leito; sua cabecinha
-loura apparecia entra as rendas finissimas sobre as quaes se
-desenrolavão os lindos anneis dourados de seus cabellos. O doce
-amortecimento de um somno calmo e sereno vendava seu rosto gracioso,
-como a sombra esvaecida que desmaia o semblante das virgens de Murillo;
-seu sorriso era apenas enlevo.</p>
-
-<p>O talho de sua anagoa abrindo-se deixava entrever um collo de linhas
-puras, mais alvo do que a cambraia; e com a ondulação que a
-respiração branda imprimia ao seu peito, desenhavão-se sob a
-lençaria diaphana os seios mimosos.</p>
-
-<p>Tudo isto resaltava como um quadro d'entre as ondas de uma colcha de
-damasco azul que nas suas largas dobras moldava sobre a alvura
-transparente do linho os contornos harmoniosos e puros.</p>
-
-<p>Havia porém nessa belleza adormecida uma expressão indefinivel, um
-quer que seja de tão casto e innocente, que envolvia essa menina no seu
-somno tranquillo e parecia afugentar della um pensamento profano.</p>
-
-<p>Chegando-se á beira daquelle leito, um homem ajoelharia antes como ao
-pé de uma santa, do que se animaria a tocar na ponta dessas roupagens
-brancas que protegião a innocencia.</p>
-
-<p>Loredano aproximou-se tremendo, pallido e offegante; toda a força de
-sua vigorosa organisação, toda a sua vontade poderosa e irresistivel,
-estava ahi vencida, subjugada, diante de uma menina adormecida. O que
-sentio quando seu olhar ardente cahio sobre o leito, é difficil dizer,
-é talvez mesmo difficil de comprehender. Foi a um tempo suprema ventura
-e horrivel supplicio.</p>
-
-<p>A paixão brutal o devorava escaldando-lhe o sangue nas veias e fazendo
-saltar-lhe o coração; entretanto o aspecto dessa menina que não tinha
-para sua defesa senão a sua castidade, o encadeava.</p>
-
-<p>Sentia que o fogo queimava-lhe o seio; sentia que seus labios tinhão
-sêde de prazer; e a mão gelada e inerte não se podia erguer, e o
-corpo estava paralysado: apenas o olhar scintillava, e as narinas
-dilatadas aspiravão as emanações voluptuosas de que estava impregnada
-a sua atmosphera.</p>
-
-<p>E a menina sorria no seu placido somno, enleiando-se talvez n'algum
-sonho gracioso, n'algum dos sonhos azues que Deus esparge como folhas de
-rosas sobre o leito das virgens.</p>
-
-<p>Era o anjo em face do demonio; era a mulher em face da serpente; a
-virtude em face do vicio.</p>
-
-<p>O italiano fez um esforço supremo, e passando a mão pelos olhos como
-para arrancar uma visão importuna, encaminhou-se a um bofete e acendeu
-uma vela de cera côr de rosa.</p>
-
-<p>O aposento, até então esclarecido apenas por uma lamparina collocada
-sobre uma cantoneira, illuminou-se; e a imagem graciosa de Cecilia
-appareceu cercada de uma aureola.</p>
-
-<p>Sentindo a impressão da luz sobre os olhos, a menina fez um movimento,
-e voltando um pouco o rosto para o lado opposto continuou o somno, que
-nem fôra interrompido.</p>
-
-<p>Loredano passou entre o leito e a parede, e pôde então admira-la em
-toda a sua belleza; não se lembrava de nada mais, esquecêra o mundo e
-seu thesouro: nem pensava no rapto que ia praticar.</p>
-
-<p>A rolinha que dormia sobre a commoda no seu ninho de algodão ergueu-se
-e agitou as azas; o italiano, despertado por este rumor, conheceu que
-já era tarde e que não tinha tempo a perder.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-IV">IV<br />NA TREVA</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>Alguns esclarecimentos são necessarios aos acontecimentos
-que acabavão de passar.</p>
-
-<p>Quando Loredano viu-se obrigado pela ameaça de Alvaro a partir para o
-Rio de Janeiro, ficou succumbido; mas, depois de alguns momentos, um
-sorriso diabolico tinha enrugado os seus labios.</p>
-
-<p>Este sorriso era uma idéa infame que luzira no seu espirito como a
-flamma desses fogos perdidos que brilhão no seio das trevas em noites
-de grande calma.</p>
-
-<p>O italiano lembrou-se que no momento em que todos o suppunhão em
-viagem, podia preparar a execução do seu plano que elle realisaria
-naquella mesma noite.</p>
-
-<p>Na conversa que tivera com Ruy Soeiro transmittio-lhe as suas
-instrucções, breves, simples e concisas; consistião em livrarem-se
-dos homens que podião pôr embaraços á sua empreza.</p>
-
-<p>Para isso os seus complices recebêrão ordem de quando se recolhessem
-para dormir, collocarem-se ao lado de cada um dos homens da banda fieis
-a D. Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>Naquelle tempo e naquelles lugares não era possivel que os aventureiros
-tivessem cada um o seu cubiculo, poucos gozavão desse privilegio, e
-assim mesmo erão obrigados a partilhar o seu aposento com um
-companheiro: os outros dormião na vasta alpendrada que occupava quasi
-toda essa parte do edificio.</p>
-
-<p>Ruy Soeiro tinha, conforme ás instrucções de Loredano, arranjado as
-cousas de tal modo que naquelle momento cada um dos aventureiros
-dedicados a D. Antonio de Mariz tinha a seu lado um homem que parecia
-adormecido, e que só esperava ouvir pronunciara senha convencionada
-para enterrar o seu punhal na garganta do seu companheiro.</p>
-
-<p>Ao mesmo tempo havia pelos cantos da casa grandes molhos de palha secca
-collocados junto das portas ou mettidos pela beirada do telhado, e que
-só esperavão uma faisca para atear o incendio em todo o edificio.</p>
-
-<p>Ruy Soeiro, com uma sagacidade e uma prudencia dignas de seu chefe,
-dispuzera tudo isto; parte durante o dia, e parte nas horas mortas da
-noite em que tudo estava recolhido.</p>
-
-<p>Não se esqueceu da recommendação especial de Loredano, e offereceu-se
-voluntariamente a Ayres Gomes para fazer a guarda nocturna com um dos
-seus companheiros, visto recear-se ataque de inimigo; o digno escudeiro,
-que o conhecia como um dos mais valentes da banda, cahio no laço e
-aceitou o offerecimento.</p>
-
-<p>Senhor do campo, o aventureiro pôde então acabar livremente os seus
-preparativos, e para mais segurança arranjou traça de ver-se livre do
-escudeiro, que podia de um momento para outro vir incommoda-lo.</p>
-
-<p>Ayres Gomes em companhia de seu velho amigo mestre Nunes esvasiava uma
-botelha de vinho de Valverde que elles bebião lentamente, trago a
-trago, para assim disfarçarem a módica porção do liquido destinado
-a humedecer as guelas de dous formidaveis bebedores.</p>
-
-<p>Mestre Nunes applicou voluptuosamente os labios á borda do cangirão,
-tomou uma vez de vinho, e dando um ligeiro estalinho com a lingua no
-céo da bocca, repimpou-se na tripeça em que estava sentado, cruzando
-as mãos sobre o seu ventre proeminente com uma beatitude celeste.</p>
-
-<p>&mdash;Ora estou desde que cheguei para perguntar-vos uma cousa, amigo Ayres;
-e sempre a passar-me.&mdash;Não a deixeis passar agora, Nunes. Aqui me
-tendes para responder-vos.</p>
-
-<p>&mdash;Dizei-me cá, quem é um tal que acompanhava D. Diogo, e a quem dais
-um diabo de nome que não é portuguez?</p>
-
-<p>&mdash;Ah! Quereis fallar de Loredano? Um tunante?</p>
-
-<p>&mdash;Conheceis este homem, Ayres?</p>
-
-<p>&mdash;Por Deus! se elle é dos nossos!</p>
-
-<p>&mdash;Quando pergunto se o conheceis, quero dizer se sabeis donde veio, quem
-era e o que fazia?</p>
-
-<p>&mdash;Á fé que não! Appareceu-nos aqui um dia a pedir hospitalidade; e
-depois como sahisse um homem, ficou em lugar delle.</p>
-
-<p>&mdash;E quando isto, se vos lembra?</p>
-
-<p>&mdash;Esperai! Estou com os meus cincoenta e nove...</p>
-
-<p>O escudeiro contou pelos dedos consultando o seu calendario, que era a
-sua idade.</p>
-
-<p>&mdash;Foi por este tempo, ha um anno; principios de março.</p>
-
-<p>&mdash;Estais bem certo? exclamou mestre Nunes.</p>
-
-<p>&mdash;Certissimo: é conta que não engana. Mas que tendes?</p>
-
-<p>Com effeito mestre Nunes se erguêra espantado.</p>
-
-<p>&mdash;Nada! Não é possivel!</p>
-
-<p>&mdash;Não acreditais?</p>
-
-<p>&mdash;É outra cousa, Ayres! É um sacrilegio! uma obra de Satan! uma
-simonia horrenda!</p>
-
-<p>&mdash;Que dizeis, homem, explicai-vos lá de uma vez.</p>
-
-<p>Mestre Nunes conseguio restabelecer-se da sua perturbação, e contou ao
-escudeiro as suas desconfianças a respeito de Frei Angelo di Lucca e da
-sua morte, que nunca fôra possivel explicar: notou-lhe a coincidencia
-do desapparecimento do carmelita com o apparecimento do aventureiro, e o
-facto de serem da mesma nação.</p>
-
-<p>&mdash;Depois, concluio Nunes, aquella voz, aquelle olhar!... Quando o vi
-hoje estremeci, e recuei espavorido julgando que o frade tinha sahido
-debaixo da terra.</p>
-
-<p>Ayres Gomes levantou-se furioso, e saltando sobre o seu catre, agarrou o
-espadão que tinha á cabeceira.</p>
-
-<p>&mdash;Que ides fazer? gritou mestre Nunes.</p>
-
-<p>&mdash;Mata-lo, e desta vez ás direitas; que não torne. Esqueceis que vai
-longe?</p>
-
-<p>&mdash;É verdade! murmurou o escudeiro rangendo os dentes de raiva.</p>
-
-<p>Ouvio-se um ligeiro rumor na porta; os dous amigos o attribuîrão ao
-vento e não se voltárão sentados em face um do outro, continuárão
-em voz baixa a sua conversa interrompida pela brusca revelação de
-Nunes.</p>
-
-<p>Entretanto fóra passavão-se cousas que devião excitar a attenção do
-digno escudeiro. O rumor que ouvira fôra produzido pela volta que Ruy
-dera á chave, fechando a porta.</p>
-
-<p>O aventureiro tinha ouvido todo a conversa; a principio aterrado, cobrou
-animo, e lembrou-se que em todo o caso era bom estar senhor do segredo
-do italiano para qualquer emergencia futura. Confiado nessa excellente
-idéa, Ruy metteu a chave no peito do gibão, e foi reunir-se a seu
-companheiro que estava de vigia junto da escada.</p>
-
-<p>Esperava por Loredano, que devia entrar na casa alta noite, para dirigir
-toda essa trama que havia urdido com uma intelligencia superior.</p>
-
-<p>O italiano tinha facilmente illudido a D. Diogo de Mariz; sabia que o
-ardente cavalheiro ia de rota batida, e que não se demoraria em caminho
-por motivo algum.</p>
-
-<p>A tres leguas do Paquequer, inventou um pretexto de ter-se quebrado a
-cilha de sua cavalgadura, e parou para arranja-la; emquanto D. Diogo e
-seus companheiros pensavão que os seguia de perto, elle tinha voltado
-sobre os passos, e escondido nas vizinhanças esperava que a noite se
-adiantasse.</p>
-
-<p>Quando percebeu que tudo estava em silencio aproximou-se; trocou o
-signal convencionado, que era o canto da coruja; e introduzio-se
-furtivamente na habitação.</p>
-
-<p>O mais já vimos. Sabendo que tudo estava preparado e prompto ao
-primeiro signal, Loredano deo começo á execução de seu projecto, e
-conseguio penetrar no quarto de Cecilia.</p>
-
-<p>Tomar a menina nos braços, rapta-la, atravessar a esplanada, chegar á
-porta da alpendrada, e pronunciar a senha convencionada, era cousa que
-elle contava realisar n'um momento.</p>
-
-<p>Quando Cecilia, arrancada de seu leito, lançasse um grito que elle não
-podesse abafar, isto pouco lhe importava; antes que alguem despertasse
-teria chegado ao outro lado, e então a uma palavra sua o fogo e o ferro
-virião em seu soccorro.</p>
-
-<p>Ruy lançaria a chamma á palha preparada para este fim; e a faca de
-cada um dos seus complices se enterraria na gorja dos homens
-adormecidos.</p>
-
-<p>Depois no meio desse horror e confusão, os vinte demonios acabarião a
-sua obra, e fugirião como os máos espiritos das lendas antigas, quando
-a primeira luz da alvorada terminava o <em>sabbat</em> infernal.</p>
-
-<p>Ião ao Rio de Janeiro; ahi, ligados todos por um mesmo laço do crime,
-por um mesmo perigo e uma só ambição, Loredano contava ter nelles
-agentes fieis e dedicados para levar ao cabo a sua empreza.</p>
-
-<p>Emquanto a traição solapava assim o socego, a felicidade, a vida e a
-honra desta familia, todos dormião tranquillos e descuidados; nem um
-presentimento os vinha advertir da desgraça que os ameaçava.</p>
-
-<p>Loredano, graças á sua agilidade e á sua força, tinha conseguido
-chegar até ao leito da menina, sem que o menor rumor trahisse a sua
-presença, sem que na habitação alguem tivesse podido perceber o que
-se passava.</p>
-
-<p>Certo pois do bom resultado, o italiano advertido pela innocente
-avezinha, que não sabia o mal que fazia, cuidou em consummar a sua obra.
-Abrio a commoda de Cecilia, tirou roupas de sedas e linho e fez de tudo
-isto um embrulho tão pequeno quanto era possivel; depois envolveu-o em
-uma das pelles que servião de tapete, e collocou n'uma cadeira, a geito
-de o poder apanhar com facilidade.</p>
-
-<p>Era cousa original o pensamento deste homem. Ao passo que commettia um
-crime, tinha a lembrança delicada de querer suavisar a desgraça da
-menina fazendo que nada lhe faltasse na viagem incommoda que tinha de
-fazer.</p>
-
-<p>Quando tudo estava preparado abrio a portinha que dava para o jardim, e
-estudou o caminho que tinha de seguir. Era preciso; porque apenas
-tomasse Cecilia nos braços devia partir e chegar d'uma só corrida
-direita, rapida e cega.</p>
-
-<p>A porta ficava n'um canto do aposento, defronte do vão que havia entre
-o leito e a parede; collocado neste lugar, não tinha senão um
-movimento a fazer, agarrar a menina e lançar-se fóra do aposento.</p>
-
-<p>Na occasião em que elle se aproximava ouvio-se um gemido, quasi um
-suspiro, abafado e cheio de angustia.</p>
-
-<p>Os cabellos irriçárão-se sobre a fronte do italiano; gotas de suor
-frio e gelado sulcárão as suas faces pallidas e contrahidas.</p>
-
-<p>A pouco e pouco foi sahindo do estupor que o paralysára, e volvendo
-lentamente ao redor de si uns esgares d'olhos allucinados.</p>
-
-<p>Nada! Nem um insecto parecia acordado na solidão profunda da noite em
-que tudo dormia excepto o crime, o verdadeiro duende da terra, o máo
-genio das crenças de nossos pais.</p>
-
-<p>Tudo estava em socego; até o vento parecia se ter abrigado no calice
-das flôres e adormecido neste berço perfumado, como n'um regaço de
-amante.</p>
-
-<p>O italiano restabeleceu-se do violento abalo que soffrêra, deo um
-passo, e inclinou-se sobre o leito.</p>
-
-<p>Cecilia sonhava neste momento.</p>
-
-<p>Seu rosto esclareceu-se com uma expressão de alegria angelica; sua
-mãozinha, que repousava aninhada entre os seios, moveu-se com a
-indolencia e a molteza do somno, e recahio sobre a face.</p>
-
-<p>A pequena cruz de esmalte que tinha ao collo e que estava agora presa
-entre os dedos da mão roçou-lhe os labios; e uma musica celeste
-escapou-se, como se Deus tivesse vibrado uma das cordas de sua harpa
-àolis.</p>
-
-<p>Foi a principio um sorriso que adejou-lhe nos labios; depois o sorriso
-colheu as azas e formou um beijo por fim o beijo entreabrio-se como uma
-flôr e exhalou um suspiro perfumado.</p>
-
-<p>&mdash;Pery!</p>
-
-<p>O collo arfou docemente, e a mão descahindo foi de novo aninhar-se
-entre o talho da sua anagoa de cambraia.</p>
-
-<p>O italiano ergueu-se pallido.</p>
-
-<p>Não se animava a tocar naquelle corpo tão casto, tão puro; não podia
-fitar aquella physionomia radiante de innocencia e de candura.</p>
-
-<p>Mas o tempo urgia.</p>
-
-<p>Fez um esforço supremo sobre si mesmo; firmou o joelho na bordado
-leito, fechou os olhos, estendeu as mãos.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-V">V<br />DEOS DISPÕE</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>O braço de Loredano estendeu-se sobre o leito; porém a mão que se
-adiantava e ia tocar o corpo de Cecilia estacou no meio do movimento, e
-subitamente impellida foi bater de encontro á parede.</p>
-
-<p>Uma setta, que não se podia saber d'onde vinha, atravessara o espaço
-com a rapidez de um raio, e antes que se ouvisse o sibillo forte e agudo
-pregára a mão do italiano no muro do aposento.</p>
-
-<p>O aventureiro vacillou, e abateu-se por detrás da cama; era tempo,
-porque uma segunda setta, despedida com a mesma força e a mesma
-rapidez, cravava-se no lugar onde ha pouco se projectava a sombra de sua
-cabeça.</p>
-
-<p>Passou-se então ao redor da innocente menina adormecida na isenção de
-sua alma pura uma scena horrivel, porém silenciosa.</p>
-
-<p>Loredano nos transes da dôr por que passava comprehendêra o que
-succedia; tinha adivinhado naquella setta que o ferira a mão de Pery; e
-sem ver, sentia o indio aproximar-se terrivel de odio, de vingança, de
-colera e desespero pela offensa que acabava de soffrer sua senhora.</p>
-
-<p>Então o reprobo teve medo; erguendo-se sobre os joelhos arrancou
-convulsivamente com os dentes a setta que pregava sua mão á parede, e
-precipitou-se para o jardim, cego, louco e delirante.</p>
-
-<p>Nesse mesmo instante, dous segundos talvez depois que a ultima flecha
-cahira no aposento, a folhagem do oleo que ficava fronteiro á janella
-de Cecilia agitou-se e um vulto embalançando-se sobre o abysmo,
-suspenso por um fragil galho da arvore, veio cahir sobre o peitoril.</p>
-
-<p>Ahi agarrando-se á hombreira saltou dentro do aposento com uma
-agilidade extraordinaria; a luz dando em cheio sobre elle desenhou o seu
-corpo flexivel e as suas fórmas esbeltas.</p>
-
-<p>Era Pery.</p>
-
-<p>O indio avançou-se para o leito, e vendo sua senhora salva respirou;
-com effeito a menina, a meio despertada pelo rumor da fugida de
-Loredano, voltára-se do outro lado e continuára o somno forte e
-reparador como é sempre o somno da juventude e da innocencia.</p>
-
-<p>Pery quiz seguir o italiano e mata-lo, como já tinha feito aos seus
-dous complices; mas resolveu não deixar a menina exposta a um novo
-insulto, como o que acabava de soffrer, e tratou antes de velar sobre
-sua segurança e socego.</p>
-
-<p>O primeiro cuidado do indio foi apagar a vela, depois fechando os olhos
-aproximou-se do leito e com uma delicadeza extrema puxou a colcha de
-damasco azul até ao collo da menina.</p>
-
-<p>Parecia-lhe uma profanação que seus olhos admirassem as graças e os
-encantos que o pudor de Cecilia trazia sempre vendados; pensava que o
-homem que uma vez tivesse visto tanta belleza, nunca mais devia ver a
-luz do dia.</p>
-
-<p>Depois desse primeiro desvelo, o indio restabeleceu a ordem no aposento;
-deitou a roupa na commoda, fechou a gelosia e as abas da janella, lavou
-as nodoas de sangue que ficárão impressas na parede e no soalho; e
-tudo isto com tanta solicitude, tão subtilmente, que não perturbou o
-somno da menina.</p>
-
-<p>Quando acabou o seu trabalho, aproximou-se de novo do leito, e á luz
-frouxa da lamparina contemplou as feições mimosas e encantadoras de
-Cecilia.</p>
-
-<p>Estava tão alegre, tão satisfeito de ter chegado a tempo de salva-la
-de uma offensa e talvez de um crime; era tão feliz de vê-la tranquilla
-e risonha sem ter soffrido o menor susto, o mais leve abalo, que sentio
-a necessidade de exprimir-lhe por algum modo a sua ventura.</p>
-
-<p>Nisto seus olhos abaixando-se descobrirão sobre o tapete da cama dous
-pantufos mimosos forrados de setim e tão pequeninos que parecião
-feitos para os pés de uma criança; ajoelhou e beijou-os com respeito,
-como se forão reliquia sagrada.</p>
-
-<p>Erão então perto de quatro horas; pouco tardava para amanhecer; as
-estrellas já ião se apagando a uma e uma; e a noite começava a perder
-o silencio profundo da natureza quando dorme.</p>
-
-<p>O indio fechou por fóra a porta do quarto que dava para o jardim, e
-mettendo a chave na cintura, sentou-se na soleira como o cão fiel que
-guarda a casa de seu senhor, resolvido a não deixar ninguem
-aproximar-se.</p>
-
-<p>Ahi reflectio sobre o que acabava de passar; e accusava-se a si mesmo de
-ter deixado o italiano penetrar no aposento de sua senhora; Pery, porém
-calumniava-se, porque só a Providencia podia ter feito nesta noite mais
-do que elle; porque tudo quanto era possivel á intelligencia, á
-coragem, á sagacidade e á força do homem, o indio havia realisado.</p>
-
-<p>Depois da partida de Loredano, e da conversa que teve com Alvaro, certo
-de que sua senhora já não corria perigo, e de que os dous complices do
-italiano ião ser expulsos como elle, o indio não pensando mais senão
-no ataque dos Aymorés partio immediatamente.</p>
-
-<p>O seu pensamento era ver se descobrisse pelas vizinhanças do
-<em>Paquequer</em> indicios da passagem de alguma tribu da grande raça guarany
-a que elle pertencia; seria um amigo e um alliado para D. Antonio de
-Mariz.</p>
-
-<p>O odio inveterado que havia entre as tribus da grande raça e a nação
-degenerada dos Aymorés, justificava a esperança de Pery; mas
-infelizmente, tendo percorrido todo o dia a floresta, não encontrou o
-menor vestigio do que procurava.</p>
-
-<p>O fidalgo estava pois reduzido ás suas proprias forças; mas embora
-fossem estas pequenas, o indio não desanimou; tinha consciencia de si;
-e sabia que na ultima extremidade a sua dedicação por Cecilia lhe
-inspiraria meios de salvar a ella e a tudo que ella amava.</p>
-
-<p>Voltou á casa já noite fechada: foi ter com Alvaro; perguntou-lhe o
-que era feito dos dous aventureiros; o cavalheiro disse-lhe que D.
-Antonio de Mariz recusára crer na accusação.</p>
-
-<p>De facto, o fidalgo leal, habituado ao respeito e á fidelidade de seus
-homens, não admittia que se concebesse uma suspeita sem provas;
-entretanto, como a palavra de Pery tinha para elle toda a valia, ficára
-de ouvir de sua bocca a narração do que presenciára, para conhecer o
-peso que devia dar a semelhante accusação.</p>
-
-<p>Pery retirou-se inquieto e arrependido de não ter persistido no seu
-primeiro projecto; emquanto estes dous homens que elle já suppunha
-expulsos estivessem ali, sabia que um perigo pairava sobre a casa.</p>
-
-<p>Assim resolveu não dormir; tomou o seu arco e sentou-se na porta de sua
-cabana; apezar de possuir a clavina que lhe dera D. Antonio, o arco era
-a arma favorita de Pery; não demandava tempo para carregar; não fazia
-o menor estrepito; lançava quasi instantaneamente dous, tres tiros: e
-sua flecha era tão terrivel e tão certeira como a bala.</p>
-
-<p>Passado muito tempo o indio ouvio cantar uma coruja do lado da escada;
-esse canto causou-lhe estranheza por duas razões: a primeira, porque
-era mais sonoro do que é o cacarejar daquella ave agoureira; a segunda,
-porque em vez de partir do cimo de uma arvore sahia do chão.</p>
-
-<p>Esta reflexão o fez levantar; desconfiou da coruja que tinha habitos
-differentes de suas companheiras; quiz conhecer a razão desta
-singularidade.</p>
-
-<p>Viu do outro lado da esplanada tres vultos que atravessavão
-ligeiramente; isto augmentou a sua desconfiança; os homens de vigia
-erão ordinariamente dous e não tres.</p>
-
-<p>Seguio-os de longe; mas quando chegou ao pateo, não viu senão um dos
-homens que entrava na alpendrada; os outros tinhão desapparecido.</p>
-
-<p>Pery procurou-os por toda parte e não os viu; estavão occultos pelo
-pilar que se elevava na ponta do rochedo, e não lhe era possivel
-descobri-los.</p>
-
-<p>Suppondo que tivessem tambem entrado no alpendre, o indio agachou-se e
-penetrou no interior; de repente a sua mão tocou uma lamina fria que
-conheceu immediatamente ser a folha de um punhal.</p>
-
-<p>&mdash;És tu, Ruy? perguntou uma voz sumida.</p>
-
-<p>Pery emmudeceu; mas de chofre aquelle nome de Ruy lembrou-lhe Loredano e
-o seu projecto; percebeu que se tramava alguma cousa: e tomou um
-partido.</p>
-
-<p>&mdash;Sim! respondeu com a voz quasi imperceptivel.</p>
-
-<p>&mdash;Já é hora?</p>
-
-<p>&mdash;Não.</p>
-
-<p>&mdash;Todos dormem.</p>
-
-<p>Emquanto trocavão essas duas perguntas, a mão de Pery correndo pela
-lamina de aço tinha conhecido que outra mão segurava o cabo do punhal.</p>
-
-<p>O indio sahio do alpendre, e dirigio-se ao quarto de Ayres Gomes; a
-porta estava fechada, e junto della tinhão collocado um grande montão
-de palha.</p>
-
-<p>Tudo isto denunciava um plano prestes a realisar-se; Pery comprehendia,
-e tinha medo de já não ser tempo para destruir a obra dos inimigos.</p>
-
-<p>Que fazia aquelle homem deitado que fingia dormir, e que tinha o punhal
-desembainhado na mão como se estivesse prompto a ferir? Que significava
-aquella pergunta da hora e aquelle aviso de que todos dormião? Que
-queria dizer a palha encostada á porta do escudeiro?</p>
-
-<p>Não restava duvida; havia ali homens que esperavão um signal para
-matarem seus companheiros adormecidos, e deitarem fogo á casa; tudo
-estava perdido se o plano não fosse immediatamente destruido.</p>
-
-<p>Cumpria acordar os que dormião, preveni-los do perigo que corrião, ou
-ao menos prepara-los para se defenderem e escaparem de uma morte certa e
-inevitavel.</p>
-
-<p>O indio agarrou convulsamente a cabeça com as duas mãos como se
-quizesse arrancar á força de seu espirito agitado e em desordem um
-pensamento salvador. Seu largo peito dilatou-se; uma idéa feliz luzira
-de repente na confusão de tantos pensamentos encontrados que
-fermentavão no cerebro, e reanimára sua coragem e força.</p>
-
-<p>Era uma idéa original.</p>
-
-<p>Pery lembrára-se que o alpendre estava cheio de grandes talhas e vasos
-enormes contendo agua potavel, vinhos fermentados, licores selvagens de
-que os aventureiros fazião sempre uma ampla provisão.</p>
-
-<p>Correu de novo ao saguão, e encontrando a primeira talha tirou a
-torneira; o liquido começou a derramar-se pelo chão; ia passar á
-segunda quando a voz, que já lhe tinha fallado, soou de novo, baixa mas
-ameaçadora.</p>
-
-<p>&mdash;Quem vai lá?...</p>
-
-<p>Pery comprehendeu que a sua idéa ia ficar sem effeito, e talvez não
-servisse senão de apresar o que elle queria evitar.</p>
-
-<p>Não hesitou pois; e quando o aventureiro que fallava erguia-se, sentio
-duas tenazes vivas que cahião sobre o seu pescoço e o estrangulavão
-como uma golilha de ferro, antes que podesse soltar um grito.</p>
-
-<p>O indio deitou o corpo hirto sobre o chão sem fazer o menor rumor, e
-consumou a sua obra; todas as talhas do alpendre esvasiavão-se a pouco
-e pouco e inundavão o chão.</p>
-
-<p>Dentro de um segundo a frialdade acordaria todos os homens adormecidos,
-e os obrigaria a sahir do alpendre; era o que Pery esperava.</p>
-
-<p>Livre do maior perigo, o indio rodeou a casa para ver se tudo estava em
-socego; e teve então occasião de notar que por todo o edificio tinhão
-Aposto feixes da palha para atear um incendio.</p>
-
-<p>Pery inutilisando estes preparativos, chegou ao canto da casa que ficava
-defronte de sua cabana; parecia procurar alguem. Ahi ouvio a
-respiração offegante de um homem cosido com a parede junto do jardim
-de Cecilia.</p>
-
-<p>O indio tirou a sua faca; a noite estava tão escura que era impossivel
-descobrir a menor sombra, o menor vulto entre as trevas.</p>
-
-<p>Mas elle conheceu Ruy Soeiro.</p>
-
-<p>Pery tinha o ouvido subtil e delicado, e o faro do selvagem que dispensa
-a vista; o som da respiração servia-lhe de alvo; escutou um momento,
-ergueu o braço, e a faca enterrando-se na bocca da victima cortou-lhe
-a garganta.</p>
-
-<p>Nem um gemido escapou da massa inerte que se estorceu um momento e
-quedou de encontro ao muro.</p>
-
-<p>Pery apanhou o arco que encostára á parede, e voltando-se para lançar
-um olhar sobre o quarto de Cecilia, estremeceu.</p>
-
-<p>Acabava de ver pela soleira da porta o reflexo vivo de uma luz; e logo
-depois sobre a folhagem do oleo um clarão que indicava estar a janella
-aberta.</p>
-
-<p>Ergueu os braços com um desespero e uma angustia inexprimivel; estava a
-dous passos de sua senhora e entretanto um muro e uma porta o separavão
-delia, que talvez áquella hora corria um perigo imminente.</p>
-
-<p>Que ia fazer? Precipitar-se de encontro a essa porta quebra-la,
-espedaça-la? Mas podia aquella luz não significar cousa alguma, e a
-janella ter sido aberta por Cecilia.</p>
-
-<p>Este ultimo pensamento tranquillisou-o, tanto mais quando nada revelava
-a existencia de um perigo, quando tudo estiva em socego no jardim e no
-quarto da menina.</p>
-
-<p>Lançou-se para a cabana, e segurando-se ás folhas da palmeira galgou o
-ramo do oleo, e aproximou-se para ver porque sua senhora estava acordada
-áquella hora.</p>
-
-<p>O espectaculo que se apresentou diante de seus olhos fez correr-lhe um
-calafrio pelo corpo; a gelosia aberta deixou-lhe ver a menina
-adormecida, e o italiano que tendo aberto a porta do jardim dirigia-se
-ao leito.</p>
-
-<p>Um grito de desespero e de agonia ia romper-lhe do seio; mas o indio
-mordendo os labios com força reprimio a voz, que se escapou apenas n'um
-som rouco e plangente. Então prendendo-se á arvore com as pernas, o
-indio estendeu-se ao longo do galho e esticou a corda do arco.</p>
-
-<p>O coração batia-lhe violentamente; e por um momento o seu braço
-tremeu só com a idéa de que a sua flecha tinha de passar perto de
-Cecilia.</p>
-
-<p>Quando porém a mão do italiano se adiantou e ia tocar o corpo da
-menina, não pensou, não viu mais nada senão esses dedos prestes a
-mancharem com o seu contacto o corpo de sua senhora, não se lembrou
-senão dessa horrivel profanação.</p>
-
-<p>A flecha partio rapida, prompta, e veloz como o seu pensamento; a mão
-do italiano estava pregada ao muro.</p>
-
-<p>Foi só então que Pery reflectio que teria sido mais acertado ferir
-essa mão na fonte da vida que a animava; fulminar o corpo a que
-pertencia esse braço: a segunda setta partio sobre a primeira, e o
-italiano teria deixado de existir se a dôr não o obrigára a
-curvar-se.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-VI">VI<br />REVOLTA</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>Quando Pery acabou de reflectir sobre o que passara ergueu-se, abrio de
-novo a porta, fechou-a por dentro, e seguio pelo corredor que ia do
-quarto de Cecilia ao interior da casa.</p>
-
-<p>Estava tranquillo sobre o futuro; sabia que Bento Simões e Ruy Soeiro
-não o incommodarião mais, que o italiano não lhe podia escapar, e que
-áquella hora todos os aventureiros devião estar acordados; mas julgou
-prudente prevenir D. Antonio de Mariz do que occorria.</p>
-
-<p>A este tempo Loredano já tinha chegado á alpendrada, onde o esperava
-uma nova e terrivel sorpreza, uma ultima decepção.</p>
-
-<p>Lançando-se do quarto de Cecilia, sua intenção era ganhar o fundo da
-casa, pronunciar a senha convencionada, e senhor do campo voltar com
-seus complices, raptar a menina, e vingar-se de Pery.</p>
-
-<p>Mal sabia porém que o indio tinha destruido toda a sua machinação;
-chegando ao pateo viu o alpendre illuminado por fachos, e todos os
-aventureiros de pé cercando um objecto que não pôde distinguir.</p>
-
-<p>Aproximou-se e descobrio o corpo de seu complice Bento Simões, que
-jazia no chão alagado do pavimento: o aventureiro tinha os olhos
-saltados das orbitas, a lingua sahida da bocca, o pescoço cheio de
-contusões; todos os signaes emfim de uma estrangulação violenta.</p>
-
-<p>De livido que estava o italiano tornou-se verde; procurou com os olhos a
-Ruy Soeiro e não o viu; decididamente o castigo da Providencia cahia
-sobre as suas cabeças, conheceu que estava irremediavelmente perdido, e
-que só a audacia e o desespero o podião salvar.</p>
-
-<p>A extremidade em que se achava inspirou-lhe uma idéa digna delle: ia
-tirar partido para seus fins daquelle mesmo facto que parecia
-destrui-los; ia fazer do castigo uma arma de vingança.</p>
-
-<p>Os aventureiros espantados sem comprehenderem o que vião, olhavão-se e
-murmura vão em voz baixa fazendo supposições sobre a morte do seu
-companheiro. Uns despertados de sobresalto pela agua que corria das
-talhas, outros que não dormião apenas admirados, se havião erguido, e
-no meio de um côro de imprecações e blasphemias acendêrão fachos
-para ver a causa daquella inundação.</p>
-
-<p>Foi então que descobrirão o corpo de Bento Simões, e ficárão ainda
-mais surprendidos; os complices temendo que aquillo não fosse um
-começo de punição, os outros indignados pelo assassinato de seu
-companheiro.</p>
-
-<p>Loredano percebeu o que passava no espirito dos aventureiros:</p>
-
-<p>&mdash;Não sabeis o que significa isto? disse elle.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! não! explicai-nos! exclamarão os aventureiros.</p>
-
-<p>&mdash;Isto significa, continuou o italiano, que ha nesta casa uma vibora,
-uma serpente que nós alimentamos no nosso seio, e que nos morderá a
-todos com o seu dente envenenado.</p>
-
-<p>&mdash;Como?... Que quereis dizer?... Fallai!...</p>
-
-<p>&mdash;Olhai, disse o frade apontando para o cadaver e mostrando a sua mão
-ferida; eis a primeira victima, e a segunda que escapou por um milagre;
-a terceira... Quem sabe o que é feito de Ruy Soeiro?</p>
-
-<p>&mdash;É verdade!... Onde está Ruy? disse Martim Vaz.</p>
-
-<p>&mdash;Talvez morto tambem!</p>
-
-<p>&mdash;Depois delle virá outro e outro até que sejamos exterminados um por
-um; até que todos os christãos tenhão sido sacrificados.</p>
-
-<p>&mdash;Mas por quem?... Dizei o nome do vil assassino! É preciso um exemplo!
-O nome!...</p>
-
-<p>&mdash;E não adivinhais? respondeu o italiano. Não adivinhais quem nesta
-casa póde desejar a morte dos brancos, e a destruição da nossa
-religião? Quem senão o herege, o gentio, o selvagem traidor e infame?</p>
-
-<p>&mdash;Pery?... exclamarão os aventureiros.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, esse indio que conta assassinar-nos a todos para saciar a sua
-vingança!</p>
-
-<p>&mdash;Não ha de ser assim como dizeis, eu vos juro, Loredano! exclamou
-Vasco Affonso.</p>
-
-<p>&mdash;Bofé! gritou outro, deixai isto por minha conta. Não vos dê
-cuidado!</p>
-
-<p>&mdash;E não passa desta noite. O corpo de Bento Simões pede justiça.</p>
-
-<p>&mdash;E justiça será feita.</p>
-
-<p>&mdash;Neste mesmo instante.</p>
-
-<p>&mdash;Sim; agora mesmo. Eia! Segui-me.</p>
-
-<p>Loredano ouvia estas exclamações rapidas que denunciavão como a
-exacerbação ia lavrando com intensidade; quando porém os aventureiros
-quizerão lançar-se em procura do indio, elle os conteve com um gesto.</p>
-
-<p>Não lhe convinha isto; a morte de Pery era cousa accidental para elle;
-o seu fim principal era outro, e esperava consegui-lo facilmente.</p>
-
-<p>&mdash;O que ides fazer? perguntou imperativamente aos seus companheiros.</p>
-
-<p>Os aventureiros ficárão pasmados com semelhante pergunta.</p>
-
-<p>&mdash;Ides mata-lo?...</p>
-
-<p>&mdash;Mas de certo!</p>
-
-<p>&mdash;E não sabeis que não podereis fazê-lo? Que elle é protegido,
-amado, estimado por aquelles que pouco se importão se morremos ou
-vivemos?</p>
-
-<p>&mdash;Seja embora protegido, quando é criminoso...</p>
-
-<p>&mdash;Como vos illudis! Quem o julgará criminoso? Vós? Pois bem; outros o
-julgarão innocente e o defenderão; e não tereis remedio senão curvar
-a cabeça e calar-vos.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! isso é de mais!</p>
-
-<p>&mdash;Julgais que somos alimarias que se podem matar impunemente! retrucou
-Martim Vaz.</p>
-
-<p>&mdash;Sois peiores que alimarias; sois escravos!</p>
-
-<p>&mdash;Por São Braz, tendes razão, Loredano.</p>
-
-<p>&mdash;Vereis morrer vossos companheiros assassinados infamemente, e não
-podereis vinga-los; e sereis obrigados a tragar até as vossas queixas,
-porque o assassino é sagrado! Sim, não o podereis tocar, repita.</p>
-
-<p>&mdash;Pois bem; eu vo-lo mostrarei!</p>
-
-<p>&mdash;E eu! gritou toda a banda.</p>
-
-<p>&mdash;Qual é vossa tenção? perguntou o italiano.</p>
-
-<p>&mdash;A nossa tenção é pedirmos a D. Antonio de Mariz que nos entregue o
-assassino de Bento.</p>
-
-<p>&mdash;Justo! E se elle recusar, estamos desligados do nosso juramento e
-faremos justiça pelas nossas mãos.</p>
-
-<p>&mdash;Procedeis como homens de brio e pundonor: liguemo-nos todos e vereis
-que obteremos reparação; mas para isto é preciso firmeza e vontade.
-Não percamos tempo. Quem de vós se incumbe de ir como parlamentario a
-D. Antonio?</p>
-
-<p>Um aventureiro dos mais audazes e turbulentos da banda offereceu-se:
-chamava-se João Feio.</p>
-
-<p>&mdash;Serei eu!</p>
-
-<p>&mdash;Sabeis o que lhe deveis dizer?</p>
-
-<p>&mdash;Oh! ficai descansado. Ouvirá boas!</p>
-
-<p>&mdash;Ides já?</p>
-
-<p>&mdash;Neste instante.</p>
-
-<p>Uma voz calma, sonora e de grave entonação, uma voz que fez estremecer
-todos os aventureiros, soou na entrada do alpendre:</p>
-
-<p>&mdash;Não é preciso irdes, pois que vim. Aqui me tendes.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz, calmo e impassivel, adiantou-se até o meio do
-grupo, e cruzando os braços sobre o peito, volveu lentamente pelos
-aventureiros o seu olhar severo.</p>
-
-<p>O fidalgo não tinha uma só arma; e entretanto o aspecto de sua
-physionomia veneravel, a firmeza de sua voz e a altivez de seu gesto
-nobre bastárão para fazer curvar a cabeça de todos esses homens que
-ameaçavão.</p>
-
-<p>Advertido por Pery dos acontecimentos que tinhão tido lugar naquelle
-noite, D. Antonio de Mariz ia sahir, quando apparecérão Alvaro e Ayres
-Gomes.</p>
-
-<p>O escudeiro, que depois de sua conversa com mestre Nunes tinha
-adormecido, fôra despertado de repente pelas imprecações e gritos que
-soltavão os aventureiros quando a agua começou a invadir as esteiras
-em que esta vão deitados.</p>
-
-<p>Admirado desse rumor extraordinario, Ayres bateu o fuzil, acendeu a
-vela, e dirigio-se para a porta para conhecer o que pertubava o seu
-somno: a porta, como sabemos, estava fechada e sem chave.</p>
-
-<p>O escudeiro esfregou os olhos para certificar-se do que via, e acordando
-Nunes, perguntou-lhe quem tomara aquella medida de precaução: seu
-amigo ignorava como elle.</p>
-
-<p>Nesse momento ouvia-se a voz do italiano que excitava os aventureiros á
-revolta; Ayres Gomes percebeu então do que se tratava.</p>
-
-<p>Agarrou mestre Nunes, encostou-o á parede como se fosse uma escada, e
-sem dizer palavra trepou do catre sobre os seus hombros, e levantando as
-telhas com a cabeça enfiou por entre as ripas dos caibros.</p>
-
-<p>Apenas ganhou o telhado, o escudeiro pensou no que devia fazer; e
-assentou que o verdadeiro era dar parte a Alvaro e ao fidalgo, a quem
-cabia tomar as providencias que o caso pedia.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz sem se pertubar ouvio a narração do escudeiro,
-como tinha ouvido a do indio.</p>
-
-<p>&mdash;Bem, meus amigos! sei o que me cumpre fazer. Nada de rumor; não
-perturbemos o socego da casa; estou certo que isto passará. Esperai-me
-aqui.</p>
-
-<p>&mdash;Não posso deixar que vos arrisqueis só, disse Alvaro dando um passo
-para segui-lo.</p>
-
-<p>&mdash;Ficai; vós e esses dous amigos dedicados velareis sobre minha mulher,
-Cecilia e Isabel. Nas circumstancias em que nos achamos, assim é
-preciso.</p>
-
-<p>&mdash;Consenti ao menos que um de nós vos acompanhe?</p>
-
-<p>&mdash;Não, basta a minha presença; emquanto que aqui todo o vosso valor e
-fidelidade não bastão para o thesouro que confio á vossa guarda.</p>
-
-<p>O fidalgo tomou o seu chapéo, e poucos momentos depois apparecia
-imprevistamente no meio dos aventureiros, que tremulos, cabisbaixos,
-corridos de vergonha, não ousavão proferir uma palavra.</p>
-
-<p>&mdash;Aqui me tendes! repetio o cavalheiro. Dizei o que quereis de D.
-Antonio de Mariz, e dizei-o claro e breve. Se fôr de justiça, sereis
-satisfeitos; se fôr uma falta, tereis a punição que merecerdes.</p>
-
-<p>Nem um dos aventureiros ousou levantar os olhos; todos emmudecêrão.</p>
-
-<p>&mdash;Calais-vos?... Passa-se então aqui alguma cousa que não vos atreveis
-a revelar? Acaso ver-me-hei obrigado a castigar severamente um primeiro
-exemplo de revolta e desobediencia? Fallai? Quero saber o nome dos
-culpados!</p>
-
-<p>O mesmo silencio respondeu ás palavras firmes e graves do velho
-fidalgo.</p>
-
-<p>Loredano hesitava desde o principio desta scena; não tinha a coragem
-necessaria para apresentar-se em face de D. Antonio; mas tambem sentia
-que se elle deixasse as cousas marcharem pela maneira por que ião,
-estava infallivelmente perdido.</p>
-
-<p>Adiantou-se:</p>
-
-<p>&mdash;Não ha aqui culpados, Sr. D. Antonio de Mariz, disse o italiano
-animando-se progressivamente; ha homens que são tratados como cães;
-que são sacrificados a um capricho vosso, e que estão resolvidos a
-reivindicarem os seus fóros de homens e de christãos!</p>
-
-<p>&mdash;Sim! gritárão os aventureiros reanimando-se. Queremos que se
-respeite a nossa vida!</p>
-
-<p>&mdash;Não somos escravos!</p>
-
-<p>&mdash;Obedecemos, mas não nos captivamos.</p>
-
-<p>&mdash;Valemos mais que um herege!</p>
-
-<p>&mdash;Temos arriscado a nossa existência para defender-vos!</p>
-
-<p>D. Antonio ouvio impassivel todas estas exclamações que ião subindo
-gradualmente ao tom da ameaça.</p>
-
-<p>&mdash;Silencio, vilões! Esqueceis que D. Antonio de Mariz ainda tem
-bastante força para arrancar a lingua que o pretendesse insultar!
-Miseraveis, que lembrais o dever como um beneficio! Arriscastes a vossa
-vida para defender-me?... E qual era vossa obrigação, homens que
-vendeis o vosso braço e sangue ao que melhor paga. Sim'! Sois menos que
-escravos, menos que cães, menos que féras! Sois traidores infames e
-refeces!... Mereceis mais do que a morte; mereceis o desprezo.</p>
-
-<p>Os aventureiros, cuja raiva fermentava surdamente, não se contiverão
-mais; das palavras de ameaça passárão ao gesto.</p>
-
-<p>&mdash;Amigos! gritou Loredano aproveitando habilmente o ensejo. Deixareis
-que vos insultem atrozmente, que vos cuspão o desprezo na cara? E por
-que motivo!...</p>
-
-<p>&mdash;Não! Nunca! vociferarão os aventureiros furiosos.</p>
-
-<p>Desembainhando as adagas estreitarão o circulo ao redor de D. Antonio
-de Mariz; era uma confusão de gritos, injurias, ameaças, que corria
-por todas as boccas, emquanto os braços suspensos hesitavão ainda em
-lançar o golpe.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz, sereno, magestoso, calmo, olhava todas essas
-physionomias decompostas com um sorriso de escarneo; e sempre altivo e
-sobranceiro, parecia sob os punhaes que o ameaçavão, não a victima
-que ia ser immolada, mas o senhor que mandava.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-VII">VII<br />OS SELVAGENS</h3>
-</div>
-
-
-<p>Os aventureiros com o punhal erguido ameaçavão; mas não se animavão
-a romper o estreito circulo que os separava de D. Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>O respeito, essa força moral tão poderosa, dominava ainda a alma
-daquelles homens cegos pela cólera e pela exaltação; todos esperavão
-que o primeiro ferisse; e nem um tinha a coragem de ser o primeiro.</p>
-
-<p>Loredano conheceu que era necessario um exemplo; o desespero de sua
-posição, as paixões ardentes que tumultuavão em seu coração,
-derão-lhe o delirio que suppre o valor nas circumstancias extremas.</p>
-
-<p>O aventureiro apertou convulsivamente o cabo de sua faca, e fechando os
-olhos e dando um passo ás cegas, ergueu a mão para desfechar o golpe.</p>
-
-<p>O fidalgo com um gesto nobre afastou o seio do gibão, e descobrio o
-peito; nem um tremor imperceptivel agitou os musculos de seu rosto; sua
-fronte alta conservou a mesma serenidade; o seu olhar limpido e
-brilhante não se turvou.</p>
-
-<p>Tal era a influencia magnetica que exercia essa coragem nobre e altiva,
-que o braço do italiano tremeu, e a ponta do ferro tocando a vestia do
-fidalgo paralysou os dedos hirtos do assassino.</p>
-
-<p>D. Antonio sorrio com desdem; e abaixando a sua mão fechada sobre o
-alto da cabeça de Loredano, abateu-o a suas plantas como uma massa
-bruta e inerte: então erguendo a ponta do pé á fronte do italiano, o
-estendeu de costas sobre o pavimento.</p>
-
-<p>O baque do corpo no chão echoou no meio de um silencio profundo; todos
-os aventureiros, mudos e estaticos, parecião querer sumir-se pelo seio
-da terra.</p>
-
-<p>&mdash;Abaixai as armas, miseraveis! O ferro que ha de ferir o peito de D.
-Antonio de Mariz não será manchado pela mão cobarde e traiçoeira de
-vis assassinos! Deus reserva uma morte justa e gloriosa áquelles que
-vivêrão uma vida honrada!</p>
-
-<p>Os aventureiros aturdidos embainhárão machinalmente os punhaes;
-aquella palavra sonora, calma e firme tinha um accento tão imperativo,
-uma tal força de vontade, que era impossivel resistir.</p>
-
-<p>&mdash;O castigo que vos espera ha de ser rigoroso; não deveis contar com a
-clemencia nem com o perdão: quatro d'entre vós á sorte soffrerão a
-pena de homizio; os outros farão o officio dos executores da alta
-justiça. Bem vêdes que tanto a pena como o officio são dignos de
-vós!</p>
-
-<p>O fidalgo pronunciou estas palavras com um soberano desprezo, e encarou
-os aventureiros como para ver se d'entre elles partia alguma
-reclamação, algum murmurio de desobediencia; mas todos esses homens,
-ha pouco furiosos, estavão agora humildes, e cabisbaixos.</p>
-
-<p>&mdash;Dentro de uma hora, continuou o cavalheiro apontando para o corpo de
-Loredano, este homem será justiçado á frente da banda; para elle não
-ha julgamento; eu o condemno como pai, como chefe, como um homem que
-mata o cão ingrato que o morde. É ignobil de mais para que o toque com
-as minhas armas; entrego-o ao baraço e ao cutelo.</p>
-
-<p>Com a mesma impassibilidade e o mesmo socego que conservava desde o
-momento em que apparecêra imprevistamente, o velho fidalgo atravessou
-por entre os aventureiros immoveis e respeitosos, e caminhou para a
-sahida.</p>
-
-<p>Ahi voltou-se; e levando a mão ao chapéo descobrio a sua bella cabeça
-encanecida, que destacava sobre o fundo negro da noite e no meio do
-clarão avermelhado das tochas com um vigor de colorido admiravel.</p>
-
-<p>&mdash;Se algum de vós der o menor signal de desobediencia; se uma das
-minhas ordens não fôr cumprida prompta e fielmente; eu, D. Antonio de
-Mariz, vos juro por Deus e pela minha honra, que desta casa não sahirá
-um homem vivo. Sois trinta; mas a vossa vida, de todos vós, tenho-a na
-minha mão; basta-me um movimento para exterminar-vos, e livrar a terra
-de trinta assassinos.</p>
-
-<p>No momento em que o fidalgo ia retirar-se appareceu Alvaro pallido de
-emoção, mas brilhante de coragem e indignação.</p>
-
-<p>&mdash;Quem se animou aqui a erguer a voz para D. Antonio de Mariz? exclamou
-o moço.</p>
-
-<p>O velho fidalgo sorrindo com orgulho pôz a mão no braço do
-cavalheiro.</p>
-
-<p>&mdash;Não vos occupeis disto, Alvaro; sois bastante nobre para vingar uma
-affronta desta natureza, e eu bastante superior para não ser offendido
-por ella.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, senhor, cumpre que se dê um exemplo!</p>
-
-<p>&mdash;O exemplo vai ser dado, e como cumpre. Aqui não ha senão culpados e
-executores da pena. O lugar não vos compete. Vinde!</p>
-
-<p>O moço não resistio, e acompanhou D. Antonio de Mariz, que se dirigio
-lentamente á sala, onde achou Ayres Gomes.</p>
-
-<p>Quanto a Pery, voltára ao jardim de Cecilia, decidido a defender sua
-senhora contra o mundo inteiro.</p>
-
-<p>O dia vinha rompendo.</p>
-
-<p>O fidalgo chamou Ayres Gomes e entrou com elle no seu gabinete de armas,
-onde tiverão uma longa conferencia de meia hora.</p>
-
-<p>O que ahi se passou ficou um segredo entre Deus e estes dous homens;
-apenas Alvaro notou, quando a porta do gabinete se abrio, que D. Antonio
-estava pensativo, e o escudeiro livido como um morto.</p>
-
-<p>Neste momento ouvio-se um pequeno rumor na entrada da sala; quatro
-aventureiros parados, immoveis, esperavão uma ordem do fidalgo para se
-aproximarem.</p>
-
-<p>D. Antonio fez-lhes um signal; e elles vierão ajoelhar-se a seus pés;
-as lagrimas rolavão por essas faces queimadas pelo sol; e a palavra
-tremia balbuciando nesses labios pallidos que ha instantes vomitavão
-ameaças:</p>
-
-<p>&mdash;Que significa isto? perguntou o cavalheiro com severidade.</p>
-
-<p>Um dos aventureiros respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;Vimo-nos entregar em vossas mãos, preferimos appellar para o vosso
-coração do que recorrer ás armas para escaparmos á punição de
-nossa falta.</p>
-
-<p>&mdash;E vossos companheiros? replicou o fidalgo.</p>
-
-<p>&mdash;Deus lhes perdoe, senhor, a enormidade do crime que vão commetter.
-Depois que vos retirastes tudo mudou; preparão-se para atacar-vos!</p>
-
-<p>&mdash;Que venhão, disse D. Antonio, eu os receberei. Mas vós porque não
-os acompanhais? Não sabeis que D. Antonio de Mariz perdoa uma falta,
-mas nunca uma desobediencia?</p>
-
-<p>&mdash;Embora, disse o aventureiro que fallava em nome de seus camaradas;
-aceitaremos de bom grado o castigo que nos impozerdes. Mandai, que
-obedeceremos. Somos quatro contra vinte e tantos; dai-nos essa punição
-de morrer defendendo-vos, de reparar pela nossa morte um momento de
-hallucinação!... É a graça que vos pedimos!</p>
-
-<p>D. Antonio olhou admirado os homens que estavão ajoelhados a seus pés;
-e reconheceu nelles os restos dos seus antigos companheiros de armas no
-tempo em que o velho fidalgo combatia os inimigos de Portugal.</p>
-
-<p>Sentio-se commovido; sua alma grande, inabalavel no meio do perigo,
-orgulhosa em face da ameaça, deixava-se facilmente dominar pelos
-sentimentos nobres e generosos.</p>
-
-<p>Essa prova de fidelidade que davão aquelles quatro homens na occasião
-da revolta geral dos seus companheiros; a acção que acabavão de
-praticar, e o sacrificio com que desejavão expiar a sua falta,
-elevou-os no espirito do fidalgo.</p>
-
-<p>&mdash;Erguei-vos. Reconheço-vos!... Já não seis os traidores que ha pouco
-reprehendi; sois os bravos companheiros que pelejastes a meu lado; o que
-fazeis agora esquece o que fizestes ha uma hora. Sim!... Mereceis que
-morramos juntos, combatendo ainda uma vez na mesma fileira. D. Antonio
-de Mariz vos perdoa. Podeis levantar a cabeça e trazê-la alta!</p>
-
-<p>Os aventureiros erguêrão-se radiantes do perdão que o nobre fidalgo
-tinha lançado sobre suas cabeças; todos elles estavão promptos a dar
-sua vida para salvarem o seu chefe.</p>
-
-<p>O que tinha occorrido depois da sahida de D. Antonio do alpendre, seria
-longo de descrever.</p>
-
-<p>Loredano tornando a si da vertigem que lhe causara o atordoamente e a
-violencia da queda, soube da ordem que havia a seu respeito. Não era
-preciso tanto para que o audaz aventureiro recorresse á sua eloquencia
-afim de excitar de novo a revolta.</p>
-
-<p>Pintou a posição de todos como desesperada, attribuio o seu castigo e
-as desgraças que ião succeder ao fanatismo que havia por Pery; esgotou
-emfim os recursos de sua intelligencia.</p>
-
-<p>D. Antonio não estava mais ahi para conter com a sua presença a colera
-que ia fermentando, a excitação que começava a lavrar, a principio
-surdamente, as queixas e os murmurios que a final fizerão côro.</p>
-
-<p>Um incidente veio atear a chamma que lastrava; Pery, apenas começou a
-romper o dia, via a alguma distancia do jardim o cadaver do Ruy Soeiro;
-e temendo que sua senhora acordando não presenciasse este triste
-espectaculo, tomou o corpo, e atravessando a esplanada, veio atira-lo no
-meio do pateo.</p>
-
-<p>Os aventureiros empallidecêrão, e ficárão estupefactos; depois
-rompeu a indignação feroz, raivosa, delirante; estavão como possessos
-de furor e vingança. Não houve mais hesitação; a revolta
-pronunciou-se; apenas o pequeno grupo de quatro homens que desde a
-sabida de D. Antonio se conservava em distancia, não tomou parte na
-insubordinação.</p>
-
-<p>Ao contrario quando virão que seus companheiros com Loredano á frente
-se preparavão para atacar o fidalgo, forão, como vimos, offerecer-se
-voluntariamente ao castigo, e reunir-se ao seu chefe para partilharem a
-sua sorte.</p>
-
-<p>Pouco tardou que João Feio não se apresentasse como parlamentario da
-parte dos revoltosos; o fidalgo não o deixou fallar.</p>
-
-<p>&mdash;Dize a teus companheiros, rebelde, que D. Antonio de Mariz manda e
-não discute condições: que elles estão condemnados; e verão se sei
-ou não cumprir o meu juramento.</p>
-
-<p>O fidalgo tratou então de dispôr os seus meios de defeza; apenas podia
-contar com quatorze combatentes; elle, Alvaro, Pery, Ayres Gomes, mestre
-Nunes com os seus companheiros, e os quatro homens que se havião
-conservado fieis; os inimigos erão em numero de vinte e tantos.</p>
-
-<p>Toda a sua familia já então despertada recebeu a triste sorpreza de
-tantos acontecimentos passados durante aquella noite fatal: D. Lauriana,
-Cecilia e Isabel recolhêrão-se ao oratorio, e rezavão emquanto se
-preparava tudo para uma resistencia desesperada.</p>
-
-<p>Os aventureiros commandados por Loredano arregimentárão-se, e
-marchárão para a casa dispostos a dar um assalto terrivel; o seu furor
-redobrava tanto mais, quanto o remorso no fundo da consciencia começava
-a mostrar-lhes toda a hediondez de sua acção.</p>
-
-<p>No momento em que dobra vão o canto ouvio-se um som rouco que se
-prolongou pelo espaço, como o echo surdo de um trovão em distancia.</p>
-
-<p>Pery estremeceu, e lançando-se para a beira da esplanada estendeu os
-olhos pelo campo que costeava a floresta. Quasi ao mesmo tempo um dos
-aventureiros que estava ao lado de Loredano cahio traspassado por uma
-flecha.</p>
-
-<p>&mdash;Os Aymorés!...</p>
-
-<p>Apenas soltou Pery esta exclamação, uma linha movediça, longo arco de
-côres vivas e brilhantes, agitou-se ao longe na planicie, irradiando á
-luz do sol nascente.</p>
-
-<p>Homens quasi nús, de estatura gigantesca e aspecto feroz, coberto de
-pelles de animaes e pennas amarellas e escarlates, armados de grossas
-clavas e arcos enormes, avançavão soltando gritos medonhos.</p>
-
-<p>A inubia retroava; o som dos instrumentos de guerra misturado com os
-brados e alaridos formavão um concerto horrivel, harmonia sinistra que
-revelava os instinctos dessa horda selvagem reduzida á brutalidade das
-féras.</p>
-
-<p>&mdash;Os Aymorés!... repetirão os aventureiros empallidecendo.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-VIII">VIII<br />DESANIMO</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>Dous dias passárão depois da chegada dos Aymorés; a posição de D.
-Antonio de Mariz e de sua familia era desesperada.</p>
-
-<p>Os selvagens tinhão atacado a casa com uma força extraordinaria;
-diante delles a india terrivel de odio os excitava á vingança.</p>
-
-<p>As settas escurecendo o ar abatião-se como uma nuvem sobre a esplanada,
-e crivavão as portas e as paredes do edificio.</p>
-
-<p>Á vista do perigo imminente que corrião todos, os aventureiros
-revoltados retirárão-se e tratárão de defender-se do ataque dos
-selvagens.</p>
-
-<p>Houve como que um armisticio entre os rebeldes e o fidalgo; sem se
-reunirem, os aventureiros conhecerão que devião combater o inimigo
-commum, embora depois levassem ao cabo a sua revolta.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz, encastellado na parte da casa que habitava, rodeado
-de sua familia e de seus amigos fieis, resolvêra defender até á
-ultima extremidade esses penhores confiados ao seu amor de esposo e de
-pai.</p>
-
-<p>Se a Providencia não permittisse que um milagre os viesse salvar,
-morrerião todos; mas elle contava ser o ultimo, afim de velar que mesmo
-sobre os seus despojos não atirassem um insulto.</p>
-
-<p>Era o seu dever de pai, e o seu dever de chefe, como o capitão que é o
-ultimo a abandonar o seu navio, elle seria o ultimo a abandonar a vida,
-depois de ter assegurado ás cinzas dos seus o respeito que se deve aos
-mortos.</p>
-
-<p>Bem mudada estava essa casa que vimos tão alegre e tão animada! Parte
-do edificio que tocava com o fundo onde habitavão os aventureiros tinha
-sido abandonada por prudencia; D. Antonio concentrara sua familia no
-interior da habitação para evitar algum accidente.</p>
-
-<p>Cecilia deixara o seu quartinho tão lindo e tão mimoso, e nelle
-estabelecêra Pery o seu quartel-general e o seu centro de operações;
-porque, é preciso dizer, o indio não partilhava o desanimo geral, e
-tinha uma confiança inabalavel nos seus recursos.</p>
-
-<p>Serião dez horas da noite: a lampada de prata suspensa no tecto da
-grande sala illuminava uma scena triste e silenciosa.</p>
-
-<p>Todas as janellas e portas estavão fechadas; de vez em quando ouvia-se
-o estrepito que fazia uma setta cravando-se na madeira, ou enfiando-se
-por entre as telhas.</p>
-
-<p>Nas duas extremidades da sala e na frente tinhão-se praticado no alto
-da parede algumas setteiras, junta das quaes os aventureiros fazião a
-noite uma sentinella constante, afim de prevenir uma sorpreza.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz, sentado n'uma cadeira de espaldar, sob o docel,
-repousava um instante; o dia fôra rude; os indios tinhão investido por
-differentes vezes a escada de pedra da esplanada; e o fidalgo com o
-pequeno numero de combatentes de que dispunha e com o auxilio da
-colubrina conseguira repelli-los.</p>
-
-<p>A sua clavina carregada descansava de encontro ao espaldar da cadeira; e
-as suas pistolas estavão collocadas em cima de um bufete ao alcance do
-braço.</p>
-
-<p>Sua bella cabeça encanecida pendida ao seio resaltava sobre o velludo
-preto de seu gibão, coberto por uma rede finissima de malhas d'aço que
-lhe guarnecia o peito.</p>
-
-<p>Parecia adormecido, mas de vez em quando erguia os olhos e corria o
-vasto aposento, contemplando com uma melancolia extrema a scena que se
-desenhava no fundo meio esclarecido da sala.</p>
-
-<p>Depois voltava á mesma posição, e continuava suas dolorosas
-reflexões; o fidalgo conservava toda a firmeza e coragem, mas
-interiormente tinha perdido a esperança.</p>
-
-<p>Do lado opposto Cecilia recostada em um sofá parecia desfallecida; seu
-rosto perdera a habitual vivacidade: seu corpo ligeiro e gracioso,
-alquebrado por tantas emoções, prostrava-se com indolencia sobre uma
-colcha de damasco. A mãozinha cahia immovel como uma flôr a que
-tivessem quebrado a haste delicada; e os labios descorados agitavão-se
-ás vezes murmurando uma prece.</p>
-
-<p>De joelhos á beira do sofá, Pery não tirava os olhos de sua senhora;
-dir-se-hia que aquella respiração branda que fazia ondular os seios da
-menina, e que se exhalava de sua bocca entreaberta, era o sopro que
-alimentava a vida do indio.</p>
-
-<p>Desde o momento da revolta não deixou mais Cecilia; segui-a como uma
-sombra; sua dedicação, já tão admiravel, tinha tocado o sublime com
-a imminencia do perigo. Durante estes dous dias elle havia feito cousas
-incriveis, verdadeiras loucuras de heroismo e abnegação.</p>
-
-<p>Succedia que um selvagem aproximando-se da casa soltava um grito que
-vinha causar um ligeiro susto á menina?</p>
-
-<p>Pery lançava-se como um raio, e antes que tivessem tempo de contê-lo,
-passava entre uma nuvem de flechas, chegava á beira da esplanada, e com
-um tiro de sua clavina abatia o Aymoré que assustára sua senhora,
-antes que elle tivesse tempo de soltar um segundo grito.</p>
-
-<p>Cecilia, afflicta e doente, recusava tomar o alimento que sua mãi ou
-sua prima lhe trazião?</p>
-
-<p>Pery correndo mil perigos, arriscando-se a despedaçar-se nas pontas dos
-rochedos e a ser crivado pelas flechas dos selvagens, ganhava a
-floresta, e d'ahi a uma hora voltava trazendo um fructo delicado, um
-favo de mel envolto de flôres, uma caça exquisita, que sua senhora
-tocava com os labios para assim pagar ao menos tanto amor e tanta
-dedicação.</p>
-
-<p>As loucuras do indio chegárão a ponto que Cecilia foi obrigada a
-prohibir-lhe que sahisse de junto della, e a guarda-lo á vista com
-receio de que não se fizesse matar a todo o momento.</p>
-
-<p>Além da amizade que lhe tinha, um quer que seja, uma esperança vaga
-lhe dizia que na posição extrema em que se achavão, se alguma
-salvação podia haver para sua familia, seria á coragem, á
-intelligencia e á sublime abnegação de Pery que a deverião.</p>
-
-<p>Se elle morresse, quem velaria sobre ella com a solicitude e o ardente
-zelo que tinha ao mesmo tempo o carinho de uma mãi, a protecção de um
-pai, a meiguice de um irmão? Quem seria seu anjo da guarda para
-livra-la de um pezar, e ao mesmo tempo seu escravo para satisfazer o seu
-menor desejo?</p>
-
-<p>Não; Cecilia não podia de modo algum admittir nem a possibilidade de
-que seu amigo viesse a morrer; por isso mandou, pedio, e até
-supplicou-lhe que não sahisse de junto della; queria por sua vez ser
-para Pery o bom anjo de Deus, o seu genio protector.</p>
-
-<p>Do mesmo lado em que estava Cecilia, mais n'um outro canto da sala,
-via-se Isabel sentada de encontro á hombreira da janella; enfiava um
-olhar ardente, cheio de anciedade e de susto por uma pequena fresta, que
-ella entreabrira a furto.</p>
-
-<p>O raio de luz que filtrava por esta aberta da janella servia de mira aos
-indios, que fazião chover settas sobre settas naquella direcção: mas
-Isabel, alheia de si, nem se importava com o perigo que corria.</p>
-
-<p>Ella olhava Alvaro, que no alto da escada com a maior parte dos
-aventureiros fieis fazia a guarda nocturna; o moço passeava pela
-esplanada ao abrigo de uma ligeira palissada. Cada setta que passava por
-sua cabeça, cada movimento que fazia, causavão em Isabel uma
-afflicção immensa; sentia não poder estar junto delle para ampara-lo,
-e receber a morte que lhe fosse destinada.</p>
-
-<p>D. Lauriana, sentada em um dos degráos do oratorio, rezava: a boa
-senhora era uma das pessoas que mais coragem e mais calma mostravão no
-transe horrivel em que se achava a familia; animada pela sua fé
-religiosa e pelo sangue nobre que gyrava nas suas veias, ella se tinha
-conservado digna de seu marido.</p>
-
-<p>Fazia tudo quanto era possivel; pensava os feridos, encorajava as
-meninas, auxiliava os preparativos de defeza, e ainda em cima dirigia
-sua casa como se nada se passasse.</p>
-
-<p>Ayres Gomes encostado á porta do gabinete, com os braços cruzados, e
-immovel, dormia; o escudeiro guardava o posto que lhe fôra confiado
-pelo fidalgo. Desde a conferencia que os dous tinhão tido, Ayres se
-postára naquelle lugar, donde não sabia senão quando D. Antonio vinha
-sentar-se na cadeira que havia junto da porta.</p>
-
-<p>Dormia de pé; porém mal um passo, por mais subtil que fosse, soava no
-pavimento, acordava sobresaltado, com a pistola em punho, e a mão sobre
-o fecho da porta.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz levantou-se, e passando á cinta as suas pistolas e
-tomando a sua clavina, dirigio-se ao sofá onde repousava sua filha, e
-beijou-a na fronte; fez o mesmo a Isabel, abraçou sua mulher e sahio. O
-fidalgo ia render a Alvaro, que fazia o seu quarto desde o anoitecer;
-poucos momentos depois de sua sahida, a porta abrio-se de novo, e o
-cavalheiro entrou.</p>
-
-<p>Alvaro trajava um gibão de lã forrado de escarlate; quando elle
-appareceu no vão da porta, Isabel soltou um grito fraco, e correu para
-elle.</p>
-
-<p>&mdash;Estais ferido? perguntou a moça com anciedade, e tomando-lhe as
-mãos.</p>
-
-<p>&mdash;Não; respondeu o moço admirado.</p>
-
-<p>&mdash;Ah!... exclamou Isabel respirando.</p>
-
-<p>Tinha-se illudido; o rasgão que uma flecha fizera sobre o hombro
-mostrando o forro escarlate do gibão, tinha de repente lhe parecido uma
-ferida.</p>
-
-<p>Alvaro procurou desprender suas mãos das mãos de Isabel; mas a moça
-supplicando-o com o olhar, e arrastando-o docemente, levou-o até o
-lugar onde estava ha pouco, e obrigou o cavalleiro a sentar-se junto
-della.</p>
-
-<p>Muitos acontecimentos se tinhão passado entre elles nestes dous dias;
-ha circumstancias em que os sentimentos marchão com uma rapidez
-extraordinaria, e devorão mezes e annos n'um só minuto.</p>
-
-<p>Reunidos nesta sala pela necessidade extrema do perigo, vendo-se
-a cada momento, trocando ora uma palavra, ora um olhar, sentindo-se
-emfim perto um do outro, esses dous corações, se não se amavão,
-comprehendião-se ao menos.</p>
-
-<p>Alvaro fugia e evitava Isabel; tinha medo desse amor ardente que o
-envolvia n'um olhar, dessa paixão profunda e resignada que se curvava a
-seus pés sorrindo melancolicamente, sentia-se fraco para resistir, e
-entretanto o seu dever mandava que resistisse.</p>
-
-<p>Elle amava, ou cuidava amar ainda a Cecilia; promettêra a seu pai ser
-seu marido; e na situação em que se achavão, aquella promessa era
-mais do que um juramento, era uma necessidade imperiosa, uma fatalidade
-que se devia cumprir.</p>
-
-<p>Como podia elle pois alimentar uma esperança de Isabel? Não seria
-infame, indigno, aceitar o amor que ella lhe offerecêra supplicando?
-Não era seu dever destruir naquelle coração esse sentimento
-impossivel?</p>
-
-<p>Alvaro pensava assim, e evitava todas as occasiões de estar só com a
-moça, porque conhecia a impressão vehemente, a attracção poderosa
-que exercia essa belleza fascinadora quando a paixão, animando-a,
-cercava-a de um brilho deslumbrante.</p>
-
-<p>Dizia a si mesmo que não amava, que nunca amaria Isabel! entretanto
-sabia que se elle a visse outra vez como no momento em que lhe
-confessara seu amor, cahiria de joelhos a seus pés, e esqueceria o
-dever, a honra, tudo por ella.</p>
-
-<p>A luta era terrivel; mas a alma nobre do cavalheiro não cedia, e
-combatia heroicamente: podia ser vencida, mas depois de ter feito o que
-fosse possivel ao homem para conservar-se fiel á sua promessa.</p>
-
-<p>O que tornava a luta ainda mais violenta era que Isabel não o perseguia
-com o seu amor; depois daquella primeira hallucinação concentrava-se,
-e resignada amava sem esperança de nunca ser amada.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-IX">IX<br />ESPERANÇA</h3>
-</div>
-
-<p>Sentando-se junto da moça, Alvaro sentio a sua coragem vacillar.</p>
-
-<p>&mdash;Que me quereis, Isabel? perguntou elle com a voz um pouco tremula.</p>
-
-<p>A menina não respondeu; estava embebida a contemplar o moço;
-saciava-se de olha-lo, de senti-lo junto de si, depois de ter soffrido a
-angustia de ver a morte roçando a sua cabeça, e ameaçando a sua vida.</p>
-
-<p>É preciso amar para comprehender essa voluptuosidade do olhar que se
-repousa sobre o objecto amado, que não se cansa de ver aquillo que
-está impresso na imaginação, mas que tem sempre um novo encanto.</p>
-
-<p>&mdash;Deixai-me olhar-vos! respondeu Isabel supplicando. Quem sabe! Talvez
-seja pela ultima vez!</p>
-
-<p>&mdash;Porque essas idéas tristes? disse Alvaro com brandura. A esperança
-ainda não está de todo perdida.</p>
-
-<p>&mdash;Que importa?... exclamou a moça. Ainda ha pouco vos vi de longe que
-passeáveis sobre a esplanada, e a cada momento me parecia que uma setta
-vos tocava, vos feria e...</p>
-
-<p>&mdash;Como!... Tivestes a imprudencia de abrir a janella?...</p>
-
-<p>O moço voltou-se, e estremeceu vendo a janella entreaberta, crivada da
-parte exterior pelas settas dos selvagens.</p>
-
-<p>&mdash;Meu Deus!... exclamou elle, porque expondes assim a vossa vida,
-Isabel?...</p>
-
-<p>&mdash;Que vale a minha vida, para que a conserve? disse a moça animando-se.
-Tem ella algum prazer, alguma ventura, que me prenda? De que serviria a
-existencia se não fosse para satisfazer um impulso de nossa alma? A
-minha felicidade é acompanhar-vos com os olhos e com o pensamento. Se
-esta felicidade me deve custar a vida, embora!...</p>
-
-<p>&mdash;Não falleis assim, Isabel, que me partis a alma.</p>
-
-<p>&mdash;E como quereis que falle? Mentir-vos é impossivel; depois daquelle
-dia, em que trahi o meu segredo, de escravo que elle era, tornou-se
-senhor, senhor despotico e absoluto. Sei que vos faço soffrer...</p>
-
-<p>&mdash;Nunca disse semelhante cousa!</p>
-
-<p>&mdash;Sois bastante generoso para dizê-lo, mas sentis. Eu conheço, eu leio
-nos vossos menores movimentos. Vós me estimais talvez como irmão, mas
-fugis de mim, e tendes receio que Cecilia pense que me amais; não é
-verdade?</p>
-
-<p>&mdash;Não, exclamou Alvaro insensivelmente; tenho receio, tendo medo... mas
-é de amar-vos!</p>
-
-<p>Isabel sentio uma commoção tão violenta, ouvindo as palavras rapidas
-do moço, que ficou como extatica sem fazer um movimento; as
-palpitações fortes do seu coração a suffocavão.</p>
-
-<p>Alvaro não estava menos commovido; subjugado por aquelle amor ardente,
-impressionado pela abnegação da menina que expunha sua vida só para
-acompanha-lo de longe com um olhar e protegê-lo com a sua solicitude,
-tinha deixado escapar o segredo da luta que se passava em sua alma.</p>
-
-<p>Mas apenas pronunciara aquellas palavras imprudentes, conseguio
-dominar-se, e tornando-se frio e reservado, fallou a Isabel em um tom
-grave.</p>
-
-<p>&mdash;Sabeis que amo Cecilia; mas ignorais que prometti a seu pai ser seu
-marido. Emquanto elle por sua livre vontade não me desligar de minha
-promessa, estou obrigado a cumpri-la. Quanto ao meu amor, este me
-pertence, e só a morte me pode desligar delle. No dia em que eu amasse
-outra mulher, que não ella, me condemnaria a mim mesmo como um homem
-desleal.</p>
-
-<p>O moço voltou-se para Isabel com um triste sorriso:</p>
-
-<p>&mdash;E comprehendeis o que faz um homem desleal que tem ainda a
-consciencia precisa para se julgar a si?</p>
-
-<p>Os olhos da moça brilhárão com um fogo sinistro:</p>
-
-<p>&mdash;Oh! comprehendo!... É o mesmo que faz a mulher que ama sem
-esperança, e cujo amor é um insulto ou um soffrimento para aquelle a
-quem ama!</p>
-
-<p>&mdash;Isabel!... exclamou Alvaro estremecendo.</p>
-
-<p>&mdash;Tendes razão! Só a morte póde desligar de um primeiro e santo amor
-aos corações como os nossos!</p>
-
-<p>&mdash;Deixai-vos dessas idéas, Isabel! Crede-me; uma unica razão póde
-justificar semelhante loucura.</p>
-
-<p>&mdash;Qual? perguntou Isabel.</p>
-
-<p>&mdash;A deshonra.</p>
-
-<p>&mdash;Ha ainda outra, respondeu a moça com exaltação; outra menos
-egoista, mas tão nobre como esta; a felicidade daquelles que se ama.</p>
-
-<p>&mdash;Não vos comprehendo.</p>
-
-<p>&mdash;Quando se sabe que se pôde ser uma causa de desgraça para aquelles
-que se estima, melhor é desatar o unico laço que nos prende á vida do
-que vê-lo despedaçar-se. Não dizieis que tendes medo de amar-me? Pois
-bem, agora sou eu que tenho medo de ser amada.</p>
-
-<p>Alvaro não soube o que responder: estava n'uma terrivel agitação:
-conhecia Isabel, e sabia que força tinhão aquellas palavras ardentes
-que soltavão os labios da moça.</p>
-
-<p>&mdash;Isabel! disse elle tomando-lhe as mãos. Se me tendes alguma
-affeição, não me recuseis a graça que vou pedir-vos. Repelli esses
-pensamentos! Eu vos supplico!</p>
-
-<p>A moça sorrio-se melancolicamente:</p>
-
-<p>&mdash;Vós me supplicais?... Me pedis que conserve esta vida que
-recusastes!... Não é ella vossa? Aceitai-a; e já não tereis que
-supplicar!</p>
-
-<p>O olhar ardente de Isabel fascinava; Alvaro não se pôde mais conter;
-ergueu-se; e reclinando-se ao ouvido da moça balbuciou:</p>
-
-<p>&mdash;Aceito!...</p>
-
-<p>Emquanto Isabel, pallida de emoção e felicidade, duvidava ainda da voz
-que resoava no seu ouvido, o moço tinha sahido da sala.</p>
-
-<p>Durante que Alvaro e Isabel conversavão á meia voz, Pery continuava a
-contemplar sua senhora.</p>
-
-<p>O indio estava pensativo: e via-se que uma idéa o preoccupava, e
-absorvia toda a sua attenção.</p>
-
-<p>Por fim levantou-se, e lançando um ultimo olhar repassado de tristeza a
-Cecilia, encaminhou-se lentamente para a porta da sala.</p>
-
-<p>A menina fez um ligeiro movimento e levantou a cabeça:</p>
-
-<p>&mdash;Pery!...</p>
-
-<p>Elle estremeceu, e voltando foi de novo ajoelhar-se junto do sofá.</p>
-
-<p>&mdash;Tu me promette não deixar tua senhora! disse Cecilia com uma doce
-exprobação.</p>
-
-<p>&mdash;Pery quer te salvar.</p>
-
-<p>&mdash;Como?</p>
-
-<p>&mdash;Tu saberás. Deixa Pery fazer o que tem no pensamento.</p>
-
-<p>&mdash;Mas não correrás nem um perigo?</p>
-
-<p>&mdash;Porque perguntas isto, senhora? disse o indio timidamente.</p>
-
-<p>&mdash;Porque?... exclamou Cecilia levantando-se com vivacidade. Porque se
-para nos salvar é preciso que tu morras, eu rejeito o teu sacrificio,
-rejeito-o em meu nome e no de meu pai.</p>
-
-<p>&mdash;Socega, senhora; Pery não teme o inimigo; sabe o modo de vencê-lo.</p>
-
-<p>A menina abanou a cabeça com ar incredulo.</p>
-
-<p>&mdash;Elles são tantos!...</p>
-
-<p>O indio sorrio com orgulho.</p>
-
-<p>&mdash;Sejão mil; Pery vencerá a todos; aos indios e aos brancos.</p>
-
-<p>Elle pronunciou estas palavras com a expressão de naturalidade e ao
-mesmo tempo de firmeza que dá a consciencia da força e do poder.</p>
-
-<p>Comtudo Cecilia não podia acreditar o que ouvia; parecia-lhe
-inconcebivel que um homem só, embora tivesse a dedicação e o heroismo
-do indio, podesse vencer não só os aventureiros revoltados, como os
-duzentos guerreiros Aymorés que assaltavão a casa.</p>
-
-<p>Mas ella não contava com os recursos immensos de que dispunha essa
-intelligencia vigorosa, que tinha ao seu serviço um braço forte, um
-corpo agil, e uma destreza admiravel; não sabia que o pensamento é a
-arma mais poderosa que Deus deo ao homem, e que com ella se abatem os
-inimigos, se quebra o ferro, se doma o fogo, e se vence por essa força
-irresistivel e providencial que manda ao espirito dominar a materia.</p>
-
-<p>&mdash;Não te illudas; vais fazer um sacrificio inutil. Não é possivel que
-um homem só vença tantos inimigos ainda mesmo que este homem seja
-Pery.</p>
-
-<p>&mdash;Tu verás! respondeu o indio com segurança.</p>
-
-<p>&mdash;E quem te dará força para lutar contra um poder tão grande?...</p>
-
-<p>&mdash;Quem?... Tu senhora, tu só, respondeu o indio fitando nella o seu
-olhar brilhante.</p>
-
-<p>Cecilia sorrio, como devem sorrir os anjos.</p>
-
-<p>&mdash;Vai, disse ella, vai salvar-nos. Mas lembra-te que se tu morreres,
-Cecilia não aceitará a vida que lhe deres.</p>
-
-<p>Pery ergueu-se.</p>
-
-<p>&mdash;O sol que se levantar amanhã será o ultimo para todos os teus
-inimigos; Ceci poderá sorrir como dantes, e ficar alegre e contente.</p>
-
-<p>A voz do indio tornou-se tremula; sentindo que não podia vencer a
-emoção atravessou rapidamente a sala e sahio.</p>
-
-<p>Chegando á esplanada Pery olhou as estrellas que começavão a
-apagar-se, e viu que o dia pouco tardaria a raiar: não tinha tempo a
-perder.</p>
-
-<p>Qual era o projecto que havia concebido, e que lhe dava uma certeza e
-uma convicção profunda a respeito do seu resultado? Que meio ousado
-tinha ella para contar com a destruição dos inimigos, e salvação de
-sua senhora?</p>
-
-<p>Fôra difficil adivinhar; Pery guardava no fundo do coração esse
-segredo impenetravel, e nem a si mesmo o dizia com receio de trahir-se,
-e de annullar o effeito, que esperava com uma confiança inabalavel.</p>
-
-<p>Tinha todos os inimigos na sua mão; e bastava-lhe um pouco de prudencia
-para fulmina-los a todos como a colera celeste, como o fogo de raio.</p>
-
-<p>Pery dirigio-se ao jardim e entrou no quarto de Cecilia, então
-abandonado por sua senhora, por causa da proximidade em que ficava do
-fundo da casa occupado pelos aventureiros revoltados.</p>
-
-<p>O quarto estava ás escuras: mas a tenue claridade que entrava pela
-janella bastava ao indio para distinguir os objectos perfeitamente; a
-perfeição dos sentidos é um dom que os selvagens possuem no mais alto
-gráo.</p>
-
-<p>Elle tomou suas armas uma a uma, beijou as pistolas que Cecilia lhe
-havia dado e deitou-as no chão no meio do aposento, tirou os seus
-ornatos de pennas, sua faxa de guerreiro, a pluma brilhante do seu cocar
-e lançou-os como um tropheo sobre as suas armas.</p>
-
-<p>Depois agarrou o seu grande arco de guerra, apertou-o ao seio e
-curvando-o de encontro ao joelho quebrou-o em duas metades, que forão
-juntar-se ás armas e aos ornatos.</p>
-
-<p>Por algum tempo Pery contemplou com um sentimento de dôr profunda esses
-despojos de sua vida selvagem; esses emblemas de sua dedicação sublime
-por Cecilia, e de seu heroismo admiravel.</p>
-
-<p>Em luta com essa emoção poderosa, insensivelmente murmurou na sua
-lingua algumas destas palavras que a alma manda aos labios nos momentos
-supremos:</p>
-
-<p>&mdash;Arma de Pery, companheira e amiga, adeus! Teu senhor te abandona e te
-deixa: comtigo elle venceria; comtigo ninguem poderia vencê-lo. E elle
-quer ser vencido...</p>
-
-<p>O indio levou a mão ao coração:</p>
-
-<p>&mdash;Sim!... Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu, forte entre os
-fortes, guerreiro goytacaz, nunca vencido, vai succumbir na guerra. A
-arma de Pery não pode ver seu senhor pedir a vida ao inimigo; o arco de
-Ararê, já quebrado, não salvará o filho.</p>
-
-<p>Sua cabeça altiva e sobranceira emquanto pronunciava estas palavras
-cahio-lhe sobre o seio; por fim venceu a sua emoção, e cingindo nos
-seus braços esse tropheo de suas armas e de suas insignias de guerra,
-estreitou-as ao peito em um ultimo abraço de despedida.</p>
-
-<p>Um aroma agreste das plantas que começavão a se abrir com a
-aproximação do dia, avisou-lhe que a noite estava a acabar.</p>
-
-<p>Quebrou a axorca de fructos que trazia na perna sobre a artelho, como
-todos os selvagens: este ornato era feito de pequenos cocos ligados por
-um fio, e tingidos de amarello.</p>
-
-<p>Pery tomou dous destes fructos, e partio-os com a faca, sem comtudo
-separar as cascas; fechando-os então na sua mão, levantou o braço
-como fazendo um desafio ou uma ameaça terrivel e lançou-se fora do
-aposento.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-X">X<br />A BRECHA</h3>
-</div>
-
-
-<p>Quando Pery entrou no quarto de Cecilia, Loredano passeava do outro
-lado da esplanada, em frente do alpendre.</p>
-
-<p>O italiano reflectia sobre os acontecimentos que havião passado nos
-ultimos dias, sobre as vicissitudes que corrêra a sua vida e a sua
-fortuna.</p>
-
-<p>Por differentes vezes tinha posto o pé sobre o tumulo; tinha tocado a
-sua ultima hora; e a morte fugira delle, e o respeitára. Tambem por
-differentes vezes havia encarado a felicidade, o poder, a fortuna; e
-tudo se esvaecêra como um sonho.</p>
-
-<p>Quando á frente dos aventureiros revoltados ia atacar a D. Antonio de
-Mariz que não lhe podia resistir, os Aymorés tinhão apparecido de
-repente e mudado a face das cousas.</p>
-
-<p>A necessidade da defeza contra o inimigo commum trouxe uma suspensão de
-hostilidades; acima da ambição estava o instincto da vida e da
-conservação. A luta de interesses e de odios cedeu á grande luta das
-raças inimigas.</p>
-
-<p>Por isso no primeiro ataque dos selvagens, todos por um movimento
-espontaneo tratárão de repellir o inimigo, e de salvar a casa da
-ruina que a ameaçava. Depois separárão-se de novo, e sempre
-observando-se, sempre promptos a defenderem-se um do outro, os dous
-grupos continuárão a repellir os indios com a maior coragem.</p>
-
-<p>No meio disto porém Loredano, que se constituîra o chefe da revolta,
-não abandonava o seu projecto de apoderar-se de Cecilia, e vingar-se de
-D. Antonio de Mariz e de Alvaro.</p>
-
-<p>Seu espirito tenaz trabalhava incessantemente procurando o meio de
-chegar áquelle resultado; atacar abertamente o fidalgo era uma loucura
-que não podia commetter. A menor luta que houvesse entre elles,
-entregava-os todos aos selvagens, que excitados pela vingança e pelos
-seus instinctos sanguinarios e ferozes, atacavão o edificio sem repouso
-e sem descanso.</p>
-
-<p>A unica barreira que continha os Aymorés era a posição inexpugnavel
-da casa, assentada sobre um rochedo, apenas accessivel por um ponto,
-pela escada de pedra que descrevêmos no primeiro capitulo desta
-historia.</p>
-
-<p>Esta escada era defendida por D. Antonio de Mariz e pelos seus homens; a
-ponte de madeira tinha sido destruida; mas apezar disto os selvagens a
-substituirião facilmente se não fosse a resistencia desesperada que o
-fidalgo oppunha aos seus ataques.</p>
-
-<p>Desde o momento pois que, impellido pelo seu amor, D. Antonio corresse
-em defeza de sua familia, e abandonasse a escada, os duzentos guerreiros
-Aymorés se precipitarião sobre a casa, e não havia coragem que lhes
-podesse resistir.</p>
-
-<p>O italiano, que comprehendia isto, estava bem longe de tentar o menor
-ataque a peito descoberto; a prudencia o aconselhava então como o tinha
-aconselhado no dia do primeiro assalto.</p>
-
-<p>O que elle procurava era um meio de, sem estrepito, sem luta,
-imprevistamente, fazer morrer D. Antonio de Mariz, Pery, Alvaro, e Ayres
-Gomes; feito isto os outros se reunirião a elle pela necessidade da
-defeza, e pelo instincto da conservação.</p>
-
-<p>Tornar-se-hia então senhor da casa; ou repellia os indios, salvava
-Cecilia, se realisava todos os seus sonhos de amor e de felicidade; ou
-morria tendo ao menos esgotado até ao meio a taça do prazer que seus
-labios nem sequer havião tocado.</p>
-
-<p>Era impossivel que esse espirito satanico, fixando-se em uma idéa
-durante tres dias, não tivesse conseguido achar um meio para a
-consummação desse novo crime que planejara.</p>
-
-<p>Não só o tinha achado, mas já havia começado a pô-lo em pratica;
-tudo o protegia, até mesmo o inimigo que o deixava em repouso, atacando
-unicamente o lado da casa protegido por D. Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>Passeava pois embalando-se de novo nas suas esperanças, quando Martim
-Vaz, sahindo do alpendre, chegou-se a elle.</p>
-
-<p>&mdash;Uma com que não contávamos!... disse o aventureiro.</p>
-
-<p>&mdash;O que? perguntou o italiano com vivacidade.</p>
-
-<p>&mdash;Uma porta fechada.</p>
-
-<p>&mdash;Abre-se!</p>
-
-<p>&mdash;Não com essa facilidade.</p>
-
-<p>&mdash;Veremos.</p>
-
-<p>&mdash;Está pregada por dentro.</p>
-
-<p>&mdash;Terão presentido?...</p>
-
-<p>&mdash;Foi a idéa que já tive.</p>
-
-<p>Loredano fez um gesto de desespero.</p>
-
-<p>&mdash;Vem!</p>
-
-<p>Os dous encaminhárão-se para o alpendre, onde dormião os aventureiros
-armados, promptos ao menor signal de ataque.</p>
-
-<p>O italiano acordou João Feio, e por precaução mandou-o fazer a guarda
-na esplanada, apezar de não haver receio que os selvagens atacassem do
-seu lado.</p>
-
-<p>O aventureiro, ainda tonto do somno, ergueu-se e sahio.</p>
-
-<p>Loredano e seu companheiro caminhárão para uma sala interior que
-servia de cozinha e despensa a esta parte da casa. Quando ião entrar, a
-luz que o aventureiro levava na mão para esclarecer o caminho,
-apagou-se de repente.</p>
-
-<p>&mdash;Sois um desasado! disse Loredano contrariado.</p>
-
-<p>&mdash;E tenho eu culpa! Quexai-vos do vento.</p>
-
-<p>&mdash;Bom! não gasteis o tempo em palavras! Tirai fogo!</p>
-
-<p>O aventureiro voltou a procurar o seu fuzil.</p>
-
-<p>Loredano ficou em pé na porta á espera que o seu companheiro voltasse;
-e pareceu-lhe ouvir perto delle a respiração de um homem. Applicou o
-ouvido para certificar-se; e por segurança tirou o seu punhal e
-collocou-se no centro da porta, para impedir a sahida de quem quer que
-fosse.</p>
-
-<p>Não ouvio mais nada; porém sentio de repente um corpo frio e gelado
-que tocou-lhe a fronte; o italiano recuou, e brandindo a sua faca deu um
-golpe ás escuras.</p>
-
-<p>Pareceu-lhe que tinha tocado alguma cousa; entretanto tudo conservou-se
-no mais profundo silencio.</p>
-
-<p>O aventureiro voltou trazendo a luz.</p>
-
-<p>&mdash;É singular, disse elle; o vento póde apagar uma candeia, mas não
-lhe tira o pavio.</p>
-
-<p>&mdash;O vento, dizeis. Acaso o vento tem sangue?</p>
-
-<p>&mdash;Que quereis dizer?</p>
-
-<p>&mdash;Que o vento que apagou a vela é o mesmo que deixou o seu signal neste
-ferro.</p>
-
-<p>E Loredano mostrou ao aventureiro a sua faca, cuja ponta estava tinta de
-sangue ainda liquido.</p>
-
-<p>&mdash;Ha aqui então um inimigo?...</p>
-
-<p>&mdash;De certo; os amigos não precisão occultar-se.</p>
-
-<p>Nisto ouvirão um rumor no telhado, e um morcego passou agitando
-lentamente as grandes azas: estava ferido.</p>
-
-<p>&mdash;Eis o inimigo!... exclamou Martim rindo-se.</p>
-
-<p>&mdash;É verdade, respondeu Loredano no mesmo tom; confesso que já tive
-medo de um morcego.</p>
-
-<p>Tranquillos a respeito do incidente que os havia demorado, os dous
-entrárão na cozinha, e d'ahi por uma brecha estreita praticada na
-parede penetrárão no interior da casa ha pouco habitada por D. Antonio
-de Mariz e sua familia.</p>
-
-<p>Atravessárão parte do edificio e chegárão a uma varanda que tocava
-de um lado com o quarto de Cecilia e do outro com o oratorio e o
-gabinete d'armas do fidalgo.</p>
-
-<p>Ahi o aventureiro parou; e mostrando a Loredano a porta adufada de
-jacarandá, que dava entrada para o gabinete, disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Não é com duas razões que a deitaremos dentro!</p>
-
-<p>Loredano aproximou-se e reconheceu que a solidez e fortaleza da porta
-não lhe permittia a menor violencia: todo o seu plano estava
-destruido.</p>
-
-<p>Contava durante a noite se introduzir furtivamente na sala, e assassinar
-a D. Antonio de Mariz, Ayres Gomes e Alvaro antes que elles podessem ser
-soccorridos por seus companheiros; consummado o crime, estava senhor da
-casa.</p>
-
-<p>Como remover o obstaculo que lhe apparecia? A menor violencia contra a
-porta despertaria a attenção de D. Antonio de Mariz, e inutilisaria
-todo o seu projecto.</p>
-
-<p>Emquanto reflectia nisto, os seus olhos cahirão sobre uma estreita
-fresta que havia no alto da parede do oratorio, e que servia mais para
-dar ar do que luz.</p>
-
-<p>Por esta abertura o italiano conheceu que aquella parte da parede era
-singela, e feita de um só tijolo; com effeito o oratorio tinha sido
-outr'ora um corredor largo que ia da varanda á sala, e que fôra
-separado por uma ligeira divisão.</p>
-
-<p>Loredano medio a parede de alto a baixo, e acenou ao seu companheiro.</p>
-
-<p>&mdash;É por aqui que havemos de entrar, disse elle apontando para a parede.</p>
-
-<p>&mdash;Como? A menos de não ser um mosquito para passar por aquella fresta!</p>
-
-<p>&mdash;Esta parede assenta sobre uma viga; tirada ella, está aberto o
-caminho!</p>
-
-<p>&mdash;Entendo.</p>
-
-<p>&mdash;Antes que possão tornar a si do susto, teremos acabado.</p>
-
-<p>O aventureiro quebrou com a ponta da faca o reboco da parede, e
-descobrio a viga que lhe servia de alicerce.</p>
-
-<p>&mdash;Então?</p>
-
-<p>&mdash;Não ha duvida. Daqui a duas horas dou-vos isto prompto.</p>
-
-<p>Martim Vaz, depois da morte de Ruy Soeiro e Bento Simões, tinha-se
-tornado o braço direito de Loredano, era o unico a quem o italiano
-confiára o seu segredo, occulto para os outros em quem receava ainda a
-influencia de D. Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>O italiano deixou o aventureiro no seu trabalho, e voltou pelo mesmo
-caminho; chegando á cozinha, sentio-se suffocado por uma fumaça
-espessa que enchia todo o alpendre. Os aventureiros acordados de repente
-blasphemavão contra o autor de semelhante lembrança.</p>
-
-<p>Quando Loredano no meio delles procurava indagar a causa do que
-succedia, João Feio appareceu na entrada do alpendre.</p>
-
-<p>Havia na sua physionomia uma expressão terrivel de colera e ao mesmo
-tempo de espanto; de um salto aproximou-se do italiano, e chegando-lhe a
-bocca ao ouvido, disse:</p>
-
-<p>&mdash;Renegado e sacrilego, dou-te uma hora para ires entregar-te a
-D. Antonio de Mariz, e obter delle o nosso perdão, e o teu castigo. Se o
-não fizeres dentro desse tempo, é comigo que te has de avir.</p>
-
-<p>O italiano fez um movimento de raiva; mas conteve-se:</p>
-
-<p>&mdash;Amigo, o sereno transtornou-vos o juizo; ide deitar-vos. Boa noite, ou
-antes bom dia.</p>
-
-<p>A alvorada despontava no horizonte.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-XI">XI<br />O FRADE</h3>
-</div>
-
-
-<p>Sahindo do quarto de Cecilia, Pery tomára pelo corredor que communicava
-com o interior do edificio.</p>
-
-<p>O indio, á cuja perspicacia nada escapava do que se passava no interior
-da casa, por mais insignificante que fosse, havia percebido o plano de
-Loredano desde a primeira pancada dada para a abertura da brecha.</p>
-
-<p>Na vespera o som do ferro na parede tinha ido despertar a sua attenção
-na sala onde elle repousava um momento, deitado aos pés do leito de sua
-senhora; seu ouvido fino e delicado auscultára o seio da terra.
-Levantou-se de salto, e atravessando todo o edificio chegou, guiado
-pelas pancadas, ao lugar onde Loredano e o aventureiro começavão a
-abrir uma fenda no muro.</p>
-
-<p>Em vez de atemorisar-se com esta nova audacia do italiano, o indio
-sorrio-se; a brecha que praticava seria a sua perdição, porque ia dar
-facil passagem a elle Pery.</p>
-
-<p>Contentou-se pois em examinar todas as portas que communicavão com a
-sala e prega-las por dentro; seria um novo obstaculo que demoraria os
-aventureiros, e lhe daria tempo de sobra para extermina-los.</p>
-
-<p>Foi por isso que do quarto de Cecilia, cuja porta fechou sobre si,
-caminhou direito á brecha e por ella penetrou na despensa dos
-aventureiros.</p>
-
-<p>Era uma sala bastante espaçosa, onde havia uma mesa, algumas talhas e
-uma grande quartola de vinho; o indio mesmo ás escuras chegou-se a cada
-um desses vasos; e por alguns instantes ouvio-se o fraco vascolejar do
-liquido que elles continhão.</p>
-
-<p>Então Pery viu uma luz que se aproximava; era Loredano e o seu
-companheiro.</p>
-
-<p>A vista do italiano lhe gelou o sangue no coração. Tal odio votava a
-esse homem abjecto e vil, que teve medo de si, medo de o matar. Isso
-fôra agora uma imprudencia; pois inutilisaria todo o seu plano.</p>
-
-<p>Muita vez depois da noite em que Loredano penetrára na alcova de
-Cecilia, Pery tivera impetos de ir vingar a injuria feita á sua senhora
-no sangue do italiano, para quem pensava que uma morte não era bastante
-punição.</p>
-
-<p>Mas lembrava-se que não se pertencia; que precisava da vida para
-consummar sua obra salvando Cecilia de tantos inimigos que a cercavão.
-E recalcava a vingança no fundo do coração.</p>
-
-<p>Fez o mesmo então: cosido com a parede conseguio apagar a vela. Ia
-sahir, quando sentira que o italiano tomava a porta.</p>
-
-<p>Hesitou.</p>
-
-<p>Podia lançar-se sobre Loredano e subjuga-lo; mas isto produziria uma
-luta, e denunciaria a sua presença; era preciso que fugisse sem que
-restasse um só vestigio de sua passagem: a mais leve suspeita faria
-abortar o seu plano.</p>
-
-<p>Teve uma idéa feliz, ergueu a mão molhada e tocou o rosto do italiano;
-emquanto este recuava para atirar a punhalada ás escuras, o indio
-resvalou entre elle e a porta.</p>
-
-<p>A faca de Loredano tinha-lhe ferido o braço esquerdo; não soltou
-porém nem um gemido, não fez um movimento que o trahisse; ganhou o
-fundo do alpendre antes que o aventureiro voltasse com a luz.</p>
-
-<p>Mas Pery não estava contente; o seu sangue ia denuncia-lo; não lhe
-convinha de modo algum que o italiano suspeitasse que elle ali tinha
-estado.</p>
-
-<p>Os morcegos que esvoaçavão espantados pelo tecto do alpendre
-lembrárão-lhe um excellente expediente; agarrou o primeiro que lhe
-passou ao alçance do braço, e abrindo-lhe uma cesura com a faca,
-soltou-o.</p>
-
-<p>Elle sabia que o vampiro procuraria a luz, e iria esvoaçar em torno dos
-dous aventureiros; contava que as gotas de sangue que cahião de sua aza
-ferida os enganaria; a realidade correspondeu ás suas previsões.</p>
-
-<p>Apenas Loredano desappareceu, Pery continuou a execução do seu plano;
-chegou-se a um canto do alpendre onde havia um resto de fogo encoberto
-pela cinza, e atirou sobre elle alguma roupa dos aventureiros que ahi
-estava a enxugar.</p>
-
-<p>Este incidente, por insignificante que pareça, entrava nos planos de
-Pery; a roupa queimando-se devia encher a casa de fumaça, acordar os
-aventureiros e excitar-lhes a sêde. Era justamente o que desejava o
-indio.</p>
-
-<p>Satisfeito do resultado que obtivera, Pery atravessou a esplanada: ahi
-porém foi obrigado a recuar, surprehendido do que via.</p>
-
-<p>Um homem do lado de D. Antonio de Mariz e um aventureiro revoltado
-conversavão através da estacada que dividia esses dous campos
-inimigos; havia realmente motivo para que o indio se admirasse.</p>
-
-<p>Não só isso era contra a ordem expressa de D. Antonio de Mariz, que
-prohibira qualquer relação entre seus homens e os revoltados, como
-contrariava o plano de Loredano, que temia ainda o respeito e o habito
-de obediencia que os aventureiros tinhão para com o fidalgo.</p>
-
-<p>O que se tinha passado antes explicava esse acontecimento
-extraordinario.</p>
-
-<p>O aventureiro a quem Loredano mandára rondar a esplanada, emquanto elle
-entrava, tinha começado o seu gyro de uma ponta á outra do pateo.</p>
-
-<p>Sempre que chegava junto da estacada, notava que do outro lado um homem
-se aproximava como elle, voltava, e se alongava pela beira da esplanada;
-adivinhou facilmente que era tambem uma sentinella.</p>
-
-<p>João Feio era um franco o jovial companheiro, e não podia supportar o
-tedio de um passeio alta noite, no meio de um somno interrompido, sem
-uma pinga para beber, sem um camarada para conversar, sem uma
-distracção emfim.</p>
-
-<p>Para maior desprazer, uma das vezes que se aproximava da estacada,
-sentio uma baforada de tabaco, e viu que o seu companheiro de guarda
-fumava.</p>
-
-<p>Levou a mão ao bolso das bragas, e achou algumas folhas de fumo, mas
-não trazia o seu caximbo; ficou desesperado, e decidio dirigir-se ao
-outro.</p>
-
-<p>&mdash;Olá, amigo! Tambem fazeis a vossa guarda?</p>
-
-<p>O homem voltou-se, e continuou o seu caminho sem dar resposta.</p>
-
-<p>No segundo gyro o aventureiro atirou segunda isca.</p>
-
-<p>&mdash;Felizmente o dia não tarda a raiar; não vos parece?</p>
-
-<p>O mesmo silencio que a primeira vez: o aventureiro comtudo não
-desanimou, e na terceira volta retrucou:</p>
-
-<p>&mdash;Somos inimigos, camarada; mas isto não impede a um homem cortez de
-responder quando outro lhe falla.</p>
-
-<p>Desta vez o silencioso sentinella voltou-se de todo:</p>
-
-<p>&mdash;Antes da cortezia está a nossa santa religião, que manda a todo
-christão não fallar a um herege, a um reprobo, a um phariseo.</p>
-
-<p>&mdash;Que é lá isto? Fallais serio, ou quereis fazer-me enraivar por
-nonadas?</p>
-
-<p>&mdash;Fallo-vos serio, como se estivesse diante do nosso Santo Redemptor
-confessando as minhas culpas.</p>
-
-<p>&mdash;Pois então, digo-vos que mentis! Porque tão bom podeis ser, porém
-melhor crente que eu não o é outrem.</p>
-
-<p>&mdash;Tendes a lingua um pouco longa, amigo. Mas Belzebuth vos fará as
-contas, que não eu: perderia minha alma se tocasse o corpo de
-endemoniados!</p>
-
-<p>&mdash;Por S. João Baptista, meu patrão, não me façais saltar esta
-estacada para perguntar-vos a razão por que tratais em ar de mofa a
-devoção dos mais. Chamai-nos rebeldes, mas hereges não.</p>
-
-<p>&mdash;E como quereis então que chame os companheiros de um frade sacrilego,
-maldito, que abjurou dos seus votos, e atirou o seu habito ás ortigas?</p>
-
-<p>&mdash;Um frade! Dissestes vós?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, um frade. Não o sabeis?</p>
-
-<p>&mdash;O que? De que frade fallais vós?</p>
-
-<p>&mdash;Do italiano, bofé!</p>
-
-<p>&mdash;Elle!...</p>
-
-<p>O homem, que não era outro senão o nosso antigo conhecido mestre
-Nunes, contou então, exagerando com o fervor de seus sentimentos
-religiosos, aquillo que sabia da historia de Loredano.</p>
-
-<p>O aventureiro horrorisado, tremendo de raiva, não deixou mestre Nunes
-acabar a sua historia e lançou-se para o alpendre, onde viu-se a
-ameaça que fez ao italiano.</p>
-
-<p>Quando elles se separárão, Pery saltou por cima da estacada, e
-dirigio-se para o quarto que ha pouco tinha deixado.</p>
-
-<p>O dia vinha então rompendo; os primeiros raios do sol illuminavão já
-o campo dos Aymorés, assentado sobre a varzea á margem do rio. Os
-selvagens irritados olhavão de longe a casa, fazendo gestos de raiva
-por não poderem vencer a barreira de pedra que defendia o inimigo.</p>
-
-<p>Pery olhou um momento aquelles homens de estatura gigantesca, de aspecto
-horrivel, aquelles duzentos guerreiros de força prodigiosa, ferozes
-como tigres.</p>
-
-<p>O indio murmurou:</p>
-
-<p>&mdash;Hoje cahirão todos como a arvore da floresta, para não se erguerem
-mais.</p>
-
-<p>Sentou-se no vão da janella, e encostando a cabeça sobre a curva do
-braço, começou a reflectir.</p>
-
-<p>A obra gigantesca que emprehendêra, obra que parecia exceder todo o
-poder do homem, estava prestes a realisar-se: já tinha levado ao cabo
-metade della, faltava a conclusão, a parte a mais difficil e a mais
-delicada.</p>
-
-<p>Antes de lançar-se, Pery queria prever tudo; fixar bem no seu espirito
-as menores circumstancias; traçar a sua linha invariavel, afim de
-marchar firme, direito, infallivel ao alvo a que visada; afim de que a
-menor hesitação não pozesse em risco o effeito do seu plano.</p>
-
-<p>Seu espirito percorreu em alguns segundos um mundo de pensamentos;
-guiado pelo seu instincto maravilhoso e pelo seu nobre coração,
-formulou n'um rapido instante um grande e terrivel drama, do qual devia
-ser o heróe; drama sublime de heroismo e dedicação, que para elle era
-apenas o cumprimento de um dever e a satisfação de um desejo.</p>
-
-<p>As almas grandes têm esse privilegio; suas acções, que nos outros
-inspirão a admiração, se anihilão em face dessa nobreza innata do
-coração superior, para o qual tudo é natural e possivel.</p>
-
-<p>Quando Pery ergueu a cabeça estava radiante de felicidade e orgulho;
-felicidade por salvar sua senhora; orgulho pela consciencia de que elle
-só bastava para fazer o que cincoenta homens não farião; o que o
-proprio pai, o amante, não conseguirão nunca.</p>
-
-<p>Não duvidava mais do resultado: via nos acontecimentos futuros como no
-espaço que se estendia diante delle, e no qual nem um objecto escapava
-ao seu olhar limpido; tanto quanto é possível ao homem, elle tinha a
-certeza e a convicção de que Cecilia estava salva.</p>
-
-<p>Cobrio o peito e as costas com uma pelle de cobra que ligou
-estreitamente ao corpo; vestio por cima o seu saiote de algodão;
-experimentou os musculos dos braços e das pernas; e sentindo-se forte,
-agil e flexivel, sahio inerme.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-XII">XII<br />DESOBEDIENCIA</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>Alvaro, recostado da parte de fora a uma das janellas da casa, pensava
-em Isabel.</p>
-
-<p>Sua alma lutava ainda, mas já sem força, contra o amor ardente e
-profundo que o dominava; procurava illudir-se, mas a sua razão não o
-permittia.</p>
-
-<p>Conhecia que amava Isabel, e que a amava como nunca tinha amado Cecilia;
-a affeição calma e serena de outr'ora fôra substituida pela paixão
-abrasadora.</p>
-
-<p>Seu nobre coração revoltava-se contra essa verdade; mas a vontade era
-impotente contra o amor; não podia mais arranca-lo do seu seio; não o
-desejava mesmo.</p>
-
-<p>Alvaro soffria; o que dissera na vespera a Isabel era realmente o que
-sentia; não se exagerára; no dia em que deixasse de amar Cecilia e
-fosse infiel á promessa feita a D. Antonio, se condemnaria como um
-homem sem honra e sem lealdade.</p>
-
-<p>Consolava-o a idéa de que a situação em que se achavão não podia
-durar muito; pouco tardava que exhaustos, enfraquecidos, succumbissem á
-força dos inimigos que os atacavão.</p>
-
-<p>Então nos momentos extremos, á bordado tumulo, quando a morte o
-tivesse já desligado da terra, poderia com o ultimo suspiro balbuciar a
-primeira palavra do seu amor! poderia confessar a Isabel que a amava.</p>
-
-<p>Até então lutaria.</p>
-
-<p>Nisto Pery chegou-se e tocou-lhe no hombro:</p>
-
-<p>&mdash;Pery parte.</p>
-
-<p>&mdash;Para onde?</p>
-
-<p>&mdash;Para longe.</p>
-
-<p>&mdash;Que vais fazer?</p>
-
-<p>O indio hesitou:</p>
-
-<p>&mdash;Procurar soccorro.</p>
-
-<p>Alvaro sorrio-se com incredulidade.</p>
-
-<p>&mdash;Tu duvidas?</p>
-
-<p>&mdash;De ti não; mas do soccorro.</p>
-
-<p>&mdash;Escuta; se Pery não voltar, tu farás enterrar as suas armas.</p>
-
-<p>&mdash;Podes ir tranquillo? eu te prometto.</p>
-
-<p>&mdash;Outra cousa.</p>
-
-<p>&mdash;O que é?</p>
-
-<p>O indio hesitou de novo:</p>
-
-<p>&mdash;Se tu vires a cabeça de Pery desligada do corpo, enterra-a com as
-suas armas.</p>
-
-<p>&mdash;Porque este pedido? A que vem semelhante lembrança?</p>
-
-<p>&mdash;Pery vai passar pelo meio dos selvagens, e pode morrer. Tu és
-guerreiro; e sabes que a vida é como a palmeira: murcha quando tudo
-reverdece.</p>
-
-<p>&mdash;Tens razão. Farei tudo quanto pedes; mas espero ver-te ainda.</p>
-
-<p>O indio sorrio.</p>
-
-<p>&mdash;Ama a senhora, disse elle estendendo a mão ao moço.</p>
-
-<p>O seu adeus era uma ultima prece pela felicidade de Cecilia.</p>
-
-<p>Pery entrou na sala onde se achava reunida a familia.</p>
-
-<p>Todos dormião; só D. Antonio de Mariz velava sempre, apezar da
-velhice; sua vontade poderosa cobrava novas forças, e reanimava o corpo
-gasto pelos annos. Não lhe restava senão uma esperança; a de morrer
-rodeado dos entes que amava, cercado de sua familia, como um fidalgo
-portuguez devia morrer; com honra e coragem.</p>
-
-<p>O indio atravessou a sala, e collocando-se junto do sofa em que Cecilia
-adormecida repousava, contemplou-a um instante com um sentimento de
-profunda melancolia.</p>
-
-<p>Dir-se-hia que nesse olhar ardente fazia uma ultima e solemne despedida;
-que partindo-se, o escravo fiel e dedicado queria deixar a sua alma
-enleiada naquella imagem, que representava a sua divindade na terra.</p>
-
-<p>Que sublime linguagem não fallavão aquelles olhos intelligentes,
-animados por um brilhante reflexo de amor e de fidelidade? Que epopéa
-de sentimento e de abnegação não havia naquella muda e respeitosa
-contemplação?</p>
-
-<p>Por fim Pery fez um esforço supremo, e a custo conseguio quebrar o
-encanto que o prendia, e o conservava immovel, como uma estatua, diante
-da linda menina adormecida. Reclinou sobre o sofá, e beijou
-respeitosamente a fimbria do vestido de Cecilia; quando ergueu-se, uma
-lagrima triste e silenciosa que deslisava pela sua face cahio sobre a
-mão da menina.</p>
-
-<p>Cecilia, sentindo aquella gota ardente, entreabrio os olhos; mas Pery
-não viu este movimento, porque já se tinha voltado e aproximava-se de
-D. Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>O fidalgo, sentado na sua poltrona, recebeu-o com um sorriso pungente:</p>
-
-<p>&mdash;Tu soffres? perguntou o indio.</p>
-
-<p>&mdash;Por elles, por ella especialmente, por minha Cecilia.</p>
-
-<p>&mdash;Por ti não? disse Pery com intenção.</p>
-
-<p>— Por mim? Daria a minha vida para salva-la: e morreria feliz!</p>
-
-<p>&mdash;Ainda que ella te pedisse que vivesse?</p>
-
-<p>&mdash;Embora me supplicasse de joelhos.</p>
-
-<p>O indio sentio-se alliviado como de um remorso.</p>
-
-<p>&mdash;Pery te pede uma cousa?</p>
-
-<p>&mdash;Falla!</p>
-
-<p>&mdash;Pery quer beijar a tua mão.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz tirou o seu guante, e sem comprehender a razão do
-pedido do indio, estendeu-lhe a mão.</p>
-
-<p>&mdash;Tu dirás a Cecilia que Pery partio; que foi longe; não deves
-contar-lhe a verdade: ella soffrerá. Adeus; Pery sente te deixar; mas
-é preciso.</p>
-
-<p>Emquanto o indio proferia estas palavras em voz baixa e inclinado ao
-ouvido do fidalgo, este surprehendido procurava ligar-lhes um sentido
-que lhe parecia vago e confuso:</p>
-
-<p>&mdash;Que pretendes tu fazer Pery? perguntou D. Antonio.</p>
-
-<p>&mdash;O mesmo que tu querias fazer para salvar a senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Morrer!... exclamou o fidalgo.</p>
-
-<p>&mdash;Pery levou o dedo aos labios recommendando silencio; mas era tarde; um
-grito partido do canto da sala fê-lo estremecer.</p>
-
-<p>Voltando-se viu Cecilia, que ao ouvir a ultima palavra de seu pai
-quizera correr para elle, e cahira de joelhos, sem forças para dar um
-passo. A menina com as mãos estendidas e supplicantes parecia pedir a
-seu pai que evitasse aquelle sacrificio heroico, e salvasse a Pery de
-uma morte voluntaria.</p>
-
-<p>O fidalgo a comprehendeu:</p>
-
-<p>&mdash;Não, Pery; eu, D. Antonio de Mariz, não consentirei nunca em
-semelhante cousa. Se a morte de alguem podesse trazer a salvação de
-minha Cecilia e de minha familia, era a mim que competia o sacrificio. E
-por Deus e pela minha honra o juro, que a ninguem o cederia; quem
-quizesse roubar-me esse direito me faria um insulto cruel.</p>
-
-<p>Pery volvia os olhos de sua senhora afflicta e supplicante para o
-fidalgo severo erigido no cumprimento de seu dever; temia aquellas duas
-opposições differentes, mas que tinhão ambas um grande poder sobre a
-sua alma.</p>
-
-<p>Podia o escravo resistir a uma supplica de sua senhora, e causar-lhe uma
-mágoa, quando toda a sua vida fôra destinada a fazê-la alegre e
-feliz? Podia o amigo offender a D. Antonio de Mariz, a quem respeitava,
-praticando uma acção que o fidalgo considerava como uma injuria feita
-á sua honra?</p>
-
-<p>Pery teve um momento de hallucinação, em que pareceu-lhe que o
-coração lhe estacava no peito, a vida lhe fugia, e a cabeça se
-despedaçava com a pressão violenta das idéas que tumultuavão no
-cerebro.</p>
-
-<p>No rapido instante que durou a vertigem, elle viu gyrarem rapidamente em
-torno de si as figuras sinistras dos Aymorés, que ameaçavão a vida
-preciosa daquelles a quem mais amava no mundo. Vio Cecilia supplicando,
-não a elle, mas ao inimigo feroz e sanguinario, prestes a mancha-la com
-as mãos impuras; viu a bella e nobre cabeça do velho fidalgo rojar
-mutilada com os alvos cabellos tintos de sangue.</p>
-
-<p>O indio horrorisado com estas imagens lugubres que lhe desenhava a sua
-imaginação em delirio, apertou a cabeça entre as mãos, com para
-arranca-la daquella febre.</p>
-
-<p>&mdash;Pery balbuciava Cecilia; tua senhora te pede!...</p>
-
-<p>&mdash;Morreremos todos juntos, amigo, quando chegar o momento, dizia D.
-Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>Pery levantou a cabeça, e lançou sobre a menina e o fidalgo um olhar
-hallucinado:</p>
-
-<p>&mdash;Não!... exclamou elle.</p>
-
-<p>Cecilia ergueu-se com um movimento instantaneo, de pé e pallida,
-soberba de cólera e indignação, a gentil e graciosa menina de
-outr'ora se tinha de repente transformado n'uma rainha imperiosa.</p>
-
-<p>Sua bella fronte alva resplandecia com um assomo de orgulho; seus olhos
-azues tinhão desses reflexos fulvos que illuminão as nuvens no meio da
-tormenta; seus labios tremulos e ligeiramente arqueados parecião reter
-a palavra para deixa-la cahir com toda a força.</p>
-
-<p>Atirando a cabecinha loura sobre o hombre esquerdo commum gesto de
-energia, ella estendeu a mão para Pery:</p>
-
-<p>&mdash;Prohibo-te que saias desta casa</p>
-
-<p>O indio julgou que ia enlouquecer; quiz lançar-se aos pés de sua
-senhora, mas recuou anhelante, oppresso e suffocado. Um canto; ou antes
-uma celeuma dos selvagens soava ao longe.</p>
-
-<p>Pery deo um passo para a porta; D. Antonio o reteve:</p>
-
-<p>&mdash;Tua senhora, disse o fidalgo friamente, acaba de te dar uma ordem; tu
-a cumprirás. Tranquillisa-te, minha filha; Pery é meu prisioneiro.</p>
-
-<p>Ouvindo esta palavra que destruia todas as suas esperanças, que o
-impossibilitava de salvar sua senhora, o indio retrahindo-se deo um
-salto, e cahio no meio da sala.</p>
-
-<p>&mdash;Pery é livre!... gritou elle fora de si; Pery não obedece a ninguem
-mais; fará o que lhe manda o coração!</p>
-
-<p>Emquanto D. Antonio de Mariz e Cecilia, admirados desse primeiro acto de
-desobediencia, olhavão espantados o indio de pé no meio do vasto
-aposento, elle lançou-se a um cabide de armas, e empunhando um pesado
-montante, como se fôra uma ligeira espada, correu á janella e saltou.</p>
-
-<p>&mdash;Perdoa a Pery, senhora!</p>
-
-<p>Cecilia soltou um grito, e precipitou-se para a janella.</p>
-
-<p>Não viu mais Pery.</p>
-
-<p>Alvaro e os aventureiros, de pé sobre a esplanada, tinhão os olhos
-fitos sobre a arvore que se elevava a um lado da casa, na encosta
-opposta, e cuja folhagem ainda se agitava.</p>
-
-<p>Longe descortinava-se o campo dos Aymorés; a brisa que passava trazia o
-rumor confuso das vozes e gritos dos selvagens.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-XIII">XIII<br />COMBATE</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>Erão seis horas da manhã.</p>
-
-<p>O sol elevando-se no horizonte derramava cascatas de ouro sobre o verde
-brilhante das vastas florestas.</p>
-
-<p>O tempo estava soberbo; o céo azul, esmaltado de pequenas nuvens
-brancas que se achamalotavão como as dobras de uma lençaria.</p>
-
-<p>Os Aymorés, grupados em torno de alguns troncos já meio reduzidos á
-cinza, fazião preparativos para dar um ataque decisivo.</p>
-
-<p>O instincto selvagem suppria a industria do homem civilisado; a primeira
-das artes foi incontestavelmente a arte da guerra,&mdash;a arte da defeza e
-da vingança, os dous mais fortes estímulos do coração humano.</p>
-
-<p>Nesse momento os Aymorés preparavão settas inflammaveis para incendiar
-a casa de D. Antonio de Mariz; não podendo vencer o inimigo pelas
-armas, contavão destrui-lo pelo fogo.</p>
-
-<p>A maneira por que arranjavão esses terriveis projectis que lembravão
-os pelouros e bombardas dos povos civilisados era muito simples;
-envolvião a ponta da flecha com frocos de algodão embebido na resinada
-almecegueira.</p>
-
-<p>Essas settas assim inflammadas, despedidas dos seus arcos voavão pelos
-ares e ião cravar-se nas vigas e portas das casas; o fogo que o vento
-incitava, lambia a madeira, estendia a sua lingua vermelha, e lastrava
-pelo edificio.</p>
-
-<p>Emquanto se occupavão com esse trabalho, um prazer feroz animava todas
-essas physionomias sinistras, nas quaes a braveza, a ignorancia e os
-instinctos carniceiros tinhão quasi de todo apagado o cunho da raça
-humana.</p>
-
-<p>Os cabellos arruivados cahião-lhes sobre a fronte e occultavão
-inteiramente a parte mais nobre do rosto, creada por Deos para a séde
-da intelligencia, e para o throno d'onde o pensamento deve reinar sobre
-a materia.</p>
-
-<p>Os labios decompostos, arregaçados por uma contracção dos musculos
-faciaes, tinhão perdido a expressão suave e doce que imprimem o
-sorriso e a palavra; de labios de homem se havião transformado em
-mandibulas de féra, affeitas ao grito e ao bramido.</p>
-
-<p>Os dentes agudos como as presas do jaguar, já não tinhão o esmalte
-que a natureza lhes dera; armas ao mesmo tempo que instrumentos da
-alimentação, o sangue os tingira da côr amarellenta que têm os
-dentes dos animaes carniceiros.</p>
-
-<p>As grandes unhas negras e retorcidas que crescião nos dedos, a pelle
-aspera e callosa fazião de suas mãos antes garras temiveis, do que a
-parte destinada a servir ao homem e dar ao aspecto a nobreza do gesto.</p>
-
-<p>Grandes pelles de animaes cobrião o corpo agigantado desses filhos das
-brenhas, que a não ser o porte erecto se julgaria alguma raça de
-quadrumanos indigena no novo mundo.</p>
-
-<p>Alguns se ornavão de pennas, e collares de ossos; outros completamente
-nús tinhão o corpo untado de oleo por causa dos insectos.</p>
-
-<p>Entre todos distinguia-se um velho que parecia ser o chefe da tribu. Sua
-alta estatura, direita apezar da idade avançada, dominava a cabeça dos
-seus companheiros sentados ou grupados em torno do fogo.</p>
-
-<p>Não trabalhava; presidia apenas aos trabalhos dos selvagens, e de vez
-em quando lançava um olhar de ameaça para a casa que se elevava ao
-longe sobre o rochedo inexpugnavel.</p>
-
-<p>Ao lado delle, uma bella india na flôr da idade, queimava sobre uma
-pedra côva algumas folhas de tabaco cuja fumaça se elevava em grossas
-espiraes e cingia a cabeça do velho de uma especie de bruma ou nevoa.</p>
-
-<p>Elle aspirava esse aroma embriagador que fazia dilatar o seu vasto
-peito, e dava á sua physionomia terrivel um quer que seja de sensual,
-que se poderia chamar a voluptuosidade dos seus instinctos de cannibal.
-Envolta pelo fumo espesso que se ennovelava em torno delia, aquella
-figura fantastica parecia algum idolo selvagem, divindade creada pelo
-fanatismo desses povos ignorantes e barbaros.</p>
-
-<p>De repente a pequena india que soprava o brasido queimando as folhas de
-<em>pityma</em> estremeceu levantou a cabeça e fitou os olhos no velho, como
-para interrogar a sua physionomia.</p>
-
-<p>Vendo-o calmo e impassivel, a menina debruçou-se sobre o hombro do
-selvagem, e tocando-lhe de leve na cabeça, disse-lhe uma palavra ao
-ouvido. Elle voltou-se tranquillamente, e um riso sardonico mostrou os
-seus dentes; sem responder obrigou a india a sentar-se de novo, e a
-voltar á sua occupação.</p>
-
-<p>Pouco tempo havia passado depois deste pequeno incidente, quando a
-menina tornou a estremecer, tinha ouvido perto o mesmo rumor que já
-ouvira ao longe. Ao passo que ella espantada procurava confirmar-se, um
-dos selvagens sentados em roda do fogo a trabalhar fez o mesmo movimento
-que a india, e levantou a cabeça.</p>
-
-<p>Como se um fio electrico se communicasse entre esses homens e imprimisse
-a todos successivamente o mesmo movimento, um após outro interrompeu o
-seu trabalho de chofre, e inclinando o ouvido poz-se á escuta.</p>
-
-<p>A menina não escutava só; collocando-se longe do fumo e de encontro á
-brisa que soprava, de vez em quando aspirava o ar com a finura de
-olfacto com que os cães farejão a caça.</p>
-
-<p>Tudo isto passou rapidamente, sem que os actores desta scena tivessem
-nem sequer o tempo de trocar uma observação e dizer o seu pensamento.</p>
-
-<p>De repente a india soltou um grito; todos voltárão-se para ella e a
-virão tremula, offegante, apoiando-se com uma mão sobre o hombro do
-velho cacique, e a outra estendida na direcção da floresta que passava
-a duas braças servindo de fundo a esse quadro.</p>
-
-<p>O velho ergueu-se então sempre com a mesma calma feroz e sinistra; e
-empunhando a sua pesada tagapema, que parecia uma clava de cyclope,
-fê-la gyrar sobre a sua cabeça como um junco; depois fincando-a no
-chão e apoiando-se sobre ella, esperou.</p>
-
-<p>Os outros selvagens armados de arcos e tacapes, especie de longas
-espadas de páo que cortavão como ferro, collocárão-se a par do
-velho, e promptos para o ataque, esperavão como elle. As mulheres
-misturárão-se com os guerreiros: as crianças e meninos, defendidos
-pela barreira que oppunhão os combatentes conservárão-se no centro do
-campo.</p>
-
-<p>Todos com os olhos fitos, os sentidos applicados, contavão ver o
-inimigo apparecer a cada momento e se prepara vão para cahir sobre elle
-com a audacia e o impeto de ataque que distinguia a raça dos Aymorés.</p>
-
-<p>Um segundo se passou nesta expectativa inquieta.</p>
-
-<p>O estalido que a principio tinhão ouvido cessou completamente; e os
-selvagens cobrando-se do susto, voltárão aos seus trabalhos,
-convencidos de que tinhão sido illudidos por algum vago rumor da
-floresta.</p>
-
-<p>Mas o inimigo cahio no meio delles, subitamente, sem que podessem saber
-se tinha surgido do seia da terra, ou se tinha descido das nuvens.</p>
-
-<p>Era Pery.</p>
-
-<p>Altivo, nobre, radiante da coragem invencivel e do sublime heroismo de
-que já dera tantos exemplos, o indio se apresentava só em face de
-duzentos inimigos fortes e sequiosos de vingança.</p>
-
-<p>Cahindo do alto dc uma arvore sobre elles, tinha abatido dous; e
-volvendo o seu montante como um raio em torno de sua cabeça, abrio um
-circulo no meio dos selvagens.</p>
-
-<p>Então encostou-se a uma lasca de pedra que descansava sobre uma
-ondulação do terreno, e preparou-se para o combate monstruoso de um
-só homem contra duzentos.</p>
-
-<p>A posição em que se achava o favorecia, se isto é possivel á vista
-de uma tal disparidade de numero; apenas dous inimigos podião ataca-lo
-de frente.</p>
-
-<p>Passado o primeiro espanto, os selvagens bramindo atirárão-se todos
-como uma só mola, como uma tromba do oceano, contra o indio que ousava
-ataca-los a peito descoberto.</p>
-
-<p>Houve uma confusão, um turbilhão horrivel de homens que se repellião,
-tombavão e se estorcião; de cabeças que se levantavão e outras que
-desapparecião; de braços e dorsos que se agitavão e se contrahião,
-como se tudo isto fosse partes de um só corpo, membros de algum monstro
-desconhecido debatendo-se em convulsões.</p>
-
-<p>No meio desse cahos via-se brilhar aos raios do sol com reflexos rapidos
-e luzentes a lamina do montante de Pery, que passava e repassava com a
-velocidade do relampago quando percorre as nuvens e atravessa o espaço.</p>
-
-<p>Um côro de gritos, imprecações e gemidos roucos e abafados,
-confundindo-se com o choque das armas, se elevava desse pandemonio, e ia
-perder-se ao longe nos rumores da cascata.</p>
-
-<p>Houve uma calma aterradora; os selvagens immoveis de espanto e de raiva
-suspendêrão o ataque; os corpos dos mortos fazião uma barreira entre
-elles e o inimigo.</p>
-
-<p>Pery abaixou o seu montante e esperou; seu braço direito fatigado desse
-enorme esforço não podia mais servir-lhe, e cahia inerte; passou a
-arma para a mão esquerda.</p>
-
-<p>Era tempo.</p>
-
-<p>O velho cacique dos Aymorés se avançava para elle, sopesando a sua
-immensa clava crivada de escamas de peixe e dentes de féra; alavanca
-terrivel que o seu braço possante fazia jogar com a ligeireza da
-flecha.</p>
-
-<p>Os olhos de Pery brilhárão; endireitando o seu talhe, fitou no selvagem
-esse olhar seguro e certeiro, que não o enganava nunca.</p>
-
-<p>O velho aproximando-se levantou a sua clava e imprimindo-lhe o movimento
-de rotação, ia descarrega-la sobre Pery e abatê-lo; não havia espada
-nem montante que podesse resistir áquelle choque.</p>
-
-<p>O que passou-se então foi tão rapido, que não é possivel
-descrevê-lo; quando o braço do velho volvendo a clava ia atira-la, o
-montante de Pery lampejou no ar e decepou o punho do selvagem; mão e
-clava forão rojar pelo chão.</p>
-
-<p>O velho selvagem soltou um bramido, que repercutio ao longe pelos échos
-da floresta, e levantando ao céo o seu punho decepado atirou as gotas
-de sangue que vertião sobre os Aymorés, como conjurando-os á
-vingança.</p>
-
-<p>Os guerreiros lançárão-se para vingar o seu chefe; mas um novo
-espectaculo se apresentava aos seus olhos.</p>
-
-<p>Pery vencedor do cacique, volveu um olhar em torno delle, e vendo o
-estrago que tinha feito, os cadaveres dos Aymorés amontoados uns sobre
-os outros, fincou a ponta do montante no chão e quebrou a lamina. Tomou
-depois os dous fragmentos, e atirou-os ao rio.</p>
-
-<p>Então passou-se nelle uma luta silenciosa, mas terrivel para quem
-podesse comprehendê-la. Tinha quebrado a sua espada, porque não queria
-mais combater; e decidira que era tempo de supplicar a vida ao inimigo.</p>
-
-<p>Mas quando chegou o momento de realisar essa supplica conheceu que
-exigia de si mesmo uma cousa sobrehumana, uma cousa superior ás suas
-forças.</p>
-
-<p>Elle, Pery, o guerreiro invencivel, elle o selvagem livre, o senhor das
-florestas, o rei dessa terra virgem, o chefe da mais valente nação dos
-Guaranys, supplicar a vida ao inimigo! Era impossivel.</p>
-
-<p>Tres vezes quiz ajoelhar, e tres vezes as curvas de suas pernas
-distendendo-se como duas molas de aço o obrigárão a erguer-se.</p>
-
-<p>Finalmente a lembrança de Cecilia foi mais forte do que a sua vontade.</p>
-
-<p>Ajoelhou.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p3-XIV">XIV<br />O PRISIONEIRO</h3>
-</div>
-
-
-<p>Quando os selvagens se precipitavão sobre o inimigo, que já não se
-defendia e se confessava vencido, o velho cacique adiantou-se; e
-deixando cahir a mão sobre o hombro de Pery, fez um movimento energico
-com o braço direito decepado.</p>
-
-<p>Este movimento exprimia que Pery era seu prisioneiro, que lhe pertencia
-como o primeiro que tinha posto a mão sobre elle, como o seu vencedor;
-e que todos devião respeitar o seu direito de propriedade, o seu
-direito da guerra.</p>
-
-<p>Os selvagens abaixárão as armas, e não derão um passo; esse povo
-barbaro tinha seus costumes e suas leis; e uma dellas era esse direito
-exclusivo do vencedor sobre o seu prisioneiro de guerra, essa conquista
-do fraco pelo forte.</p>
-
-<p>Tinhão em tanta conta a gloria de trazerem um captivo de combate e
-sacrifica-lo no meio das festas e ceremonias que costumavão celebrar,
-que nenhum selvagem matava o inimigo que se rendia; fazia-o prisioneiro.</p>
-
-<p>Quanto a Pery, vendo o gesto do cacique e o effeito que produzia, a sua
-physionomia expandio-se; a humildade tingida, a posição supplicante
-que por um esforço supremo conseguira tomar, desappareceu
-immediatamente.</p>
-
-<p>Ergueu-se; e com um soberbo desdem estendeu os punhos aos selvagens que
-por mandado do velho se dispunhão a ligar-lhe os braços; parecia antes
-um rei que dava uma ordem aos seus vassallos, do que um captivo que se
-sujeitava aos vencedores; tal era a altivez do seu porte, e o desprezo
-com que encarava o inimigo.</p>
-
-<p id="mussu">Os Aymorés, depois de ligarem os punhos do prisioneiro, o conduzirão a
-alguma distancia a sombra de uma arvore, e ahi o prendêrão com uma
-corda de algodão matizada de varias côres, a que os Guaranys chamavão
-<em>mussurana</em>.</p>
-
-<p>Depois, ao passo que as mulheres enterravão os mortos, reunirão-se em
-conselho, presididos pelo velho cacique, a quem todos ouvião com
-respeito, e respondião cada um por sua vez.</p>
-
-<p>Durante o tempo que os guerreiros fallavão, a pequena india escolhia os
-melhores fructos, as bebidas mais bem preparadas, e offerecia ao
-prisioneiro, a quem estava encarregada de servir.</p>
-
-<p>Pery, sentado sobre a raiz da arvore e apoiado contra o tronco, não
-percebia o que se passava em torno delle; tinha os olhos fitos na
-esplanada da casa que se elevava a alguma distancia.</p>
-
-<p>Via o vulto de D. Antonio de Mariz que assomava por cima da palissada; e
-suspensa ao seu braço, reclinada sobre o abysmo, Cecilia, sua linda
-senhora, que lhe fazia de longe um gesto de desespero; ao lado Alvaro e
-a familia.</p>
-
-<p>Tudo que elle havia amado neste mundo ali estava diante de seus olhos;
-sentia um prazer intenso por ver ainda uma vez esses objectos de sua
-dedicação extrema, de seu amor profundo.</p>
-
-<p>Adivinhava e comprehendia o que sentia então o coração de seus bons
-amigos; sabia que soffrião vendo-o prisioneiro, proximo a morrer, sem
-terem o poder e a força para salva-lo das mãos do inimigo.</p>
-
-<p>Consolava-o porém essa esperança que estava prestes a realisar-se;
-esse gozo ineffavel de salvar sua senhora, e de deixa-la feliz no seio
-de sua familia, protegida pelo amor de Alvaro.</p>
-
-<p>Emquanto Pery, preoccupado por essas idéas, enlevava-se ainda uma vez
-em contemplar mesmo de longe a figura de Cecilia, a india de pé de
-fronte delle olhava-o com um sentimento de prazer misturado de surpreza
-e curiosidade.</p>
-
-<p>Comparava suas fórmas esbeltas e delicadas com o corpo selvagem de seus
-companheiros; a expressão intelligente de sua physionomia com o aspecto
-embrutecido dos Aymorés; para ella Pery era um homem superior e
-excitava-lhe profunda admiração.</p>
-
-<p>Foi só quando Cecilia e D. Antonio de Mariz desapparecêrão da
-esplanada, que Pery, lançando ao redor um olhar para ver se a sua morte
-ainda se demoraria muito, descobrio a india perto delle.</p>
-
-<p>Voltou o rosto e continuou a pensar em sua senhora, e a rever a sua
-imagem; debalde a menina selvagem, lhe apresentava um lindo fructo, um
-alimento, um vinho saboroso; elle não lhe dava attenção.</p>
-
-<p>A india tornou-se triste por causa dessa obstinação com que o
-prisioneiro recusava o que lhe offerecia; e achegando-se levantou a
-cabeça pensativa de Pery.</p>
-
-<p id="tumulo">Havia nos olhos da menina tanto fogo, tanta lubricidade no seu sorriso;
-as ondulações morbidas do seu corpo trahião tantos desejos e tanta
-voluptuosidade, que o prisioneiro comprehendeu immediatamente qual era a
-missão dessa enviada da morte, dessa esposa do tumulo, destinada a
-embellezar os ultimos momentos da vida!</p>
-
-<p>O indio voltou o rosto com desdem; recusava as flôres como tinha
-recusado os fructos; repellia a embriaguez do prazer como havia
-repellido a embriaguez do vinho.</p>
-
-<p>A menina enlaçou-o com os braços, murmurando palavras entrecortadas de
-uma lingua desconhecida, da lingua dos Aymorés, que Pery não entendia;
-era talvez uma supplica, ou um consolo com que procurava mitigar a dôr
-do vencido.</p>
-
-<p>Mal sabia que o indio ia morrer feliz e esperava o supplicio como a
-realisação de um sonho doce, como a satisfação de um desejo querido
-e por muito tempo afagado com amor.</p>
-
-<p>Mas podia ella, pobre selvagem, presentir e mesmo comprehender
-semelhante cousa? O que sabia era que Pery ia ser morto; que ella devia
-suavisar-lhe a ultima hora; e cumpria esse dever com um certo
-contentamento.</p>
-
-<p>Pery sentindo os braços da menina cingirem seu collo, repellio-a
-vivamente para longe de si; e voltando procurou ver por entre as folhas
-se descobria os preparativos que os Aymorés fazião para o sacrificio.</p>
-
-<p>Tardava-lhe o momento supremo em que devia ser immolado á colera e á
-vingança dos inimigos; sua altivez revoltava-se contra essa
-humilhação do captiveiro.</p>
-
-<p>A india continuava a olha-lo tristemente, e sem comprehender porque a
-repellia; ella era linda e desejada por todos os jovens guerreiros de
-sua tribu; seu pai, o velho cacique, tinha-a destinado para o mais
-valente prisioneiro, ou para o mais forte dos vencedores.</p>
-
-<p>Depois de conservar-se muito tempo nesta posição, a menina adiantou-se
-de novo, tomou um vaso cheio de <em>cauim</em>, e apresentou-o a Pery sorrindo
-e quasi supplicante.</p>
-
-<p id="cardo">Ao gesto de recusa que fez o indio, ella deitou o vaso no rio, e
-escolhendo sobre as folhas um cardo vermelho e doce como um favo de mel,
-estendeu a mão e tocou com o fructo a bocca do prisioneiro.</p>
-
-<p>Pery engeitou o fructo como tinha engeitado o vinho, e a virgem selvagem
-atirando-o por sua vez ao rio, aproximou-se e offereceu ao prisioneiro
-seus labios encarnados, ligeiramente destendidos como para receberem o
-beijo que pedião.</p>
-
-<p>O indio fechou os olhos, e pensou em sua senhora. Elevando-se até
-Cecilia, seu pensamento desprendia-se do involucro terrestre, e adejava
-n'uma atmosphera pura e isenta da fascinação dos sentidos que
-escravisa o homem.</p>
-
-<p>Comtudo Pery sentia o halito ardente da menina que lhe requeimava as
-faces: entreabrio os olhos, e viu-a na mesma posição, esperando uma
-caricia, um afago daquelle a quem a sua tribu mandára que amasse, e a
-quem ella já amava espontaneamente.</p>
-
-<p>Na vida selvagem, tão proxima da natureza, onde a conveniencia e os
-costumes não reprimem os movimentos do coração, o sentimento é uma
-flor que nasce como a flor do campo, e cresce em algumas horas com uma
-gota de orvalho e um raio de sol.</p>
-
-<p>Nos tempos de civilisação, ao contrario, o sentimento torna-se planta
-exotica; e só vinga e floresce nas estufas, isto é, nos corações
-onde o sangue é vigoroso, e o fogo da paixão ardente e intenso.</p>
-
-<p>Vendo Pery no meio do combate, só contra toda a sua tribu, a india o
-admirara: contemplando-o depois quando prisioneiro, o achára mais bello
-do que todos os guerreiros.</p>
-
-<p>Seu pai a destinára para esposa do inimigo que ia ser sacrificado; e
-portanto ella que começára por admira-lo acabava por deseja-lo, por
-ama-lo algumas horas apenas depois que o tinha visto.</p>
-
-<p>Mas Pery, frio e indifferente, não se commovia, nem aceitava essa
-affeição passageira e ephemera que tinha começado com o dia e devia
-acabar com elle, sua idéa fixa, a lembrança de seus amigos, o protegia
-contra a tentação.</p>
-
-<p>Voltando as costas, levantou os olhos ao céo para evitar o rosto da
-selvagem que acompanhava a sua vista, como certas flôres acompanhão a
-rotação apparente do sol.</p>
-
-<p>Entre a folhagem das arvores passava-se uma das scenas graciosas e
-singelas, que a cada momento no campo se offerecem á attenção
-daquelles que estudão a natureza nas suas pequenas creaturas.</p>
-
-<p id="corrixo">Um casal de corrixos, que tinha feito o seu ninho n'um ramo, sentindo a
-habitação do homem e o fogo em baixo da arvore, mudava a sua pequena
-casa de palha e algodão.</p>
-
-<p>Um desfazia com o bico o ninho, e o outro conduzia a palha para longe,
-para o lugar onde ião novamente fabrica-lo; quando acabárão este
-trabalho, acariciárão-se, e batendo as azas forão esconder o seu amor
-n'algum lindo retiro.</p>
-
-<p>Pery se divertia em ver esse innocente idyllio, quando a india
-levantando-se de repente soltou um pequeno grito de alegria e de prazer,
-e sorrindo mostrou ao prisioneiro os dous passarinhos que voavão um a
-par do outre sobre o cupola da floresta.</p>
-
-<p>Emquanto elle procurava comprehender o que queria dizer este aceno, a
-virgem desappareceu, e voltou quasi immediatamente trazendo um
-instrumento de pedra que cortava como faca e um arco de guerra.</p>
-
-<p>Aproximou-se do indio, soltou-lhe os laços que lhe ligavão os punhos,
-e partio a mussurana que o prendia á arvore. Executou isto com uma
-extrema rapidez; e entregando a Pery o arco e as flechas, estendeu a
-mão na direcção da floresta, mostrando-lhe o espaço que se abria
-diante delles.</p>
-
-<p>Seus olhos e o seu gesto fallavão melhor do que a sua linguagem
-inculta, e exprimião claramente o seu pensamento:</p>
-
-<p id="livre">&mdash;Tu és livre. Partamos!</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="FIM_DA_TERCEIRA_PARTE"><span class="small">FIM DA TERCEIRA PARTE.</span></h2>
-</div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="QUARTA_PARTE">QUARTA PARTE<br />A CATASTROPHE</h2>
-</div>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p4-I">I<br />ARREPENDIMENTO</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>Quando Loredano afastou-se de João Feio que o acabava de ameaçar,
-chamou quatro companheiros em quem mais confiava, e retirou-se com elles
-para a despensa.</p>
-
-<p>Fechou a porta afim de interceptar a communicação com os aventureiros,
-e poder tranquillamente tratar o negocio que tinha em mente.</p>
-
-<p>Nesse curto instante havia feito uma modificação no seu plano da
-vespera; as palavras de ameaça ha pouco proferidas lhe revelárão que
-o descontentamento começava a lavrar. Ora, o italiano não era homem
-que recuasse diante de um obstaculo, e deixasse roubarem-lhe a
-esperança, que nutria desde tanto tempo.</p>
-
-<p>Resolveu trazer as cousas rapidamente e executar naquelle mesmo dia o seu
-intento: seis homens fortes e destemidos bastavão para levar ao cabo a
-empreza que projectára.</p>
-
-<p>Tendo fechado a porta, guiou os quatro aventureiros á sala que tocava
-com o oratorio, e onde Martim Vaz continuava a sua obra de demolição,
-minando a parede que os separava da familia.</p>
-
-<p>&mdash;Amigos, disse o italiano, estamos n'uma posição desesperada; não
-temos força para resistir aos selvagens, e mais dia menos dia havemos
-de succumbir.</p>
-
-<p>Os aventureiros abaixarão a cabeça e não respondêrão; sabião que
-aquella era a triste verdade.</p>
-
-<p>&mdash;A morte que nos espera é horrivel; serviremos de pasto a esses
-barbaros que se alimentão de carne humana; nossos corpos sem sepultura
-cevarão os instinctos ferozes dessa horda de cannibaes!...</p>
-
-<p>A expressão do horror se pintou na physionomia daquelles homens, que
-sentirão um calafrio percorrer-lhes os membros e penetrar até á
-medulla dos ossos.</p>
-
-<p>Loredano demorou um instante o seu olhar perspicaz sobre esses rostos
-decompostos:</p>
-
-<p>&mdash;Tenho porém um meio de salvar-vos.</p>
-
-<p>&mdash;Qual? perguntárão todos á uma voz.</p>
-
-<p>&mdash;Esperai. Posso salvar-vos; mas isto não quer dizer que esteja
-disposto a fazê-lo.</p>
-
-<p>&mdash;Por que razão?</p>
-
-<p>&mdash;Por que... Porque todo o serviço tem o seu preço.</p>
-
-<p>&mdash;Que exigis então? disse Martim Vaz.</p>
-
-<p>&mdash;Exijo que me acompanheis, que me obedeçais cegamente, succeda o que
-succeder.</p>
-
-<p>&mdash;Podeis ficar descansado, disse um dos aventureiros; eu respondo pelos
-meus companheiros.</p>
-
-<p>&mdash;Sim! exclamarão os outros.</p>
-
-<p>&mdash;Bem! Sabeis o que vamos fazer, já, neste momento?</p>
-
-<p>&mdash;Não; mas vós nos direis.</p>
-
-<p>&mdash;Escutai! Vamos acabar de demolir esta parede e atira-la dentro; entrar
-nessa sala, matar tudo quanto encontrarmos, menos uma pessoa.</p>
-
-<p>&mdash;E essa pessoa...</p>
-
-<p>&mdash;É a filha de D. Antonio de Mariz, Cecilia. Se algum de vós deseja a
-outra, póde toma-la; eu vol-a dou.</p>
-
-<p>&mdash;E depois disto feito?</p>
-
-<p>&mdash;Tomamos conta da casa; reunimos os nossos companheiros, e atacamos os
-Aymorés.</p>
-
-<p>&mdash;Mas isto não nos salvará, retrucou um dos aventureiros; ha pouco
-dissestes que não temos força para resistir-lhes.</p>
-
-<p>&mdash;De certo! acudio Loredano; não lhes resistiremos, mas nos salvaremos.</p>
-
-<p>&mdash;Como! disserão os aventureiros desconfiados.</p>
-
-<p>O italiano sorrio.</p>
-
-<p>&mdash;Quando disse que atacaremos o inimigo, não fallei claro: queria dizer
-que os outros o atacarão.</p>
-
-<p>&mdash;Não vos entendo ainda; fallai mais claro.</p>
-
-<p>&mdash;Ahi vai pois. Dividiremos os nossos homens em duas bandas; nós e mais
-alguns pertenceremos a uma que ficará sob a minha obediencia.</p>
-
-<p>&mdash;Até aqui vamos bem.</p>
-
-<p>&mdash;Isto feito, uma das bandas sahirá da casa para fazer uma sortida
-emquanto os outros atacarão os selvagens do alto do rochedo; é um
-estratagema já velho e que deveis conhecer; metter o inimigo entre dous
-fogos.</p>
-
-<p>&mdash;Adiante; continuai.</p>
-
-<p>&mdash;Como a expedição de sahir é a mais perigosa e arriscada, tomo-a
-sobre mim; vós me acompanhais e marchamos. Sómente em lugar de marchar
-sobre o inimigo, marchamos sobre o mais proximo povoado.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! exclamarão os aventureiros.</p>
-
-<p>&mdash;Sob pretexto de que os selvagens podem cortar-nos a entrada da casa
-por alguns dias, levamos provisão de viveres. Caminhamos sem parar, sem
-olhar atrás; e prometto-vos que nos salvaremos.</p>
-
-<p>&mdash;Uma traição! gritou um dos aventureiros. Entregarmos nossos
-companheiros nas mãos dos inimigos!</p>
-
-<p>&mdash;Que quereis? A morte de uns é necessaria para a vida dos outros; este
-mundo é assim: não seremos nós que o havemos de emendar; andemos com
-elle.</p>
-
-<p>&mdash;Nunca! Não faremos isto! É uma vilania!</p>
-
-<p>&mdash;Bom, respondeu Loredano friamente, fazei o que vos aprouver. Ficai;
-quando vos arrependerdes será tarde.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, ouvi...</p>
-
-<p>&mdash;Não; não conteis já comigo. Julgei que fallava a homens a quem
-valesse salvar a vida; vejo que me enganei. Adeus.</p>
-
-<p>&mdash;Se não fôra uma traição...</p>
-
-<p>&mdash;Que fallais em traição!... replicou o italiano com arrogancia.
-Dizei-me, credes vós que algum escapará d'aqui na posição em que nos
-achamos? Morreremos todos. Pois se assim é, mais vale que se salvem
-alguns.</p>
-
-<p>Os aventureiros parecêrão abalados por este argumento.</p>
-
-<p>&mdash;Elles mesmos, continuou Loredano, a menos de serem egoistas, não
-terão o direito de se queixarem; e morrerão com a satisfação de que
-sua morte foi util aos seus companheiros, e não esteril como deve ser
-se ficarmos todos de braços cruzados.</p>
-
-<p>&mdash;Vá feito; tendes razões a que não se resiste. Contai comnosco,
-acudio um aventureiro.</p>
-
-<p>&mdash;Comtudo levarei sempre um remorso, disse outro.</p>
-
-<p>&mdash;Faremos dizer uma missa por sua alma.</p>
-
-<p>&mdash;Bem lembrado! respondeu o italiano.</p>
-
-<p>Os aventureiros forão ajudar o seu companheiro na demolição surda da
-parede, e Loredano ficou só retirado a um canto.</p>
-
-<p>Por algum tempo acompanhou com a vista o trabalho dos cinco homens;
-depois tirou um largo cinto de escamas de aço que apertava o seu
-gibão.</p>
-
-<p>Da parte interior desse cinto havia uma estreita abertura pela qual elle
-sacou um pergaminho dobrado ao comprido, era o famoso roteiro das <em>minas
-de prata</em>.</p>
-
-<p>Revendo esse papel, todo o seu passado debuxou-se na sua memoria, não
-para deixar-lhe o remorso, mas para exita-lo a proseguir em busca desse
-thesouro que lhe pertencia, e do qual não podia gozar.</p>
-
-<p>Foi tirado da sua distracção por um dos aventureiros, que se achegára
-para elle desapercebido, e depois de olhar por muito tempo o papel,
-dirigio-lhe a palavra:</p>
-
-<p>&mdash;Não podemos derrubar a parede.</p>
-
-<p>&mdash;Porque? perguntou Loredano erguendo-se. Está segura?</p>
-
-<p>&mdash;Não é isso, basta um empurrão; mas o oratorio?</p>
-
-<p>&mdash;Que tem o oratorio?</p>
-
-<p>&mdash;Que tem? Os santos, as sagradas imagens bentas não são cousa que se
-atire ao chão! Se tão damnada tentação nos tomasse, pediríamos a
-Deus que nos livrasse della.</p>
-
-<p>Loredano desesperado dessa nova resistencia, cuja força elle conhecia,
-passeava pela sala de uma ponta á outra.</p>
-
-<p>&mdash;Estupidos! murmurava elle. Basta um fragmento de madeira e um pouco de
-argila para fazê-los recuar! E dizem que são homens! Animaes sem
-intelligencia, que nem sequer têm o instincto da conservação!...</p>
-
-<p>Alguns momentos decorrêrão: os aventureiros parados esperavão a
-resolução do seu chefe.</p>
-
-<p>&mdash;Tendes medo de tocar nos santos, disse Loredano avançando para elles;
-pois bem, serei eu que deitarei a parede abaixo. Continuai, e avisai-me
-quando for tempo.</p>
-
-<p>Emquanto isto se passava, o resto dos aventureiros que ficara no
-alpendre ouvia a narração de João Feio, que lhes communicava as
-revelações de mestre Nunes.</p>
-
-<p>Quando elles souberão que Loredano era um frade que abjurára dos seus
-votos, erguêrão-se furiosos, e quizerão procura-lo e espedaça-lo.</p>
-
-<p>&mdash;Que ides fazer? gritou o aventureiro. Não é assim que elle deve
-acabar; a sua morte ha de ser uma punição, uma terrivel punição.
-Deixai-me arranjar isto.</p>
-
-<p>&mdash;Para que mais demora? respondeu Vasco Affonso.</p>
-
-<p>&mdash;Prometto-vos que não haverá demora; hoje mesmo será condemnado;
-amanhã receberá o castigo de seus crimes.</p>
-
-<p>E porque não hoje?</p>
-
-<p>&mdash;Deixemos-lhe o tempo de arrepender-se; é preciso que antes de morrer
-sinta remorso do que praticou.</p>
-
-<p>Os aventureiros decidirão por fim seguir esse conselho, e esperárão
-que Loredano apparecesse para se apoderarem delle, e o condemnarem
-summariamente.</p>
-
-<p>Passou-se um bom espaço de tempo, e nada do italiano sahir; era quasi
-meio-dia.</p>
-
-<p>Os aventureiros estavão desesperados de sêde; a sua provisão de agua
-e de vinho, já bastante diminuida depois do sitio dos selvagens,
-achava-se na despensa, cuja porta Loredano fechara por dentro.</p>
-
-<p>Felizmente descobrirão no quarto do italiano algumas garrafas de vinho,
-que bebêrão no meio de risadas e chacotas, fazendo brindes ao frade
-que ião dentro em pouco condemnar á pena de morte.</p>
-
-<p>No meio da hilaridade algumas palavras revelavão o arrependimento que
-começava a se apoderar delles; fallavão de ir pedir perdão ao
-fidalgo, de se reunir de novo a elle, e ajuda-lo a bater o inimigo.</p>
-
-<p>Se não fosse a vergonha da má acção que tinhão praticado,
-correrião a lançar-se ao joelhos de D. Antonio de Mariz
-immediatamente; mas resolvêrão fazê-lo quando o principal autor da
-revolta tivesse recebido o castigo do seu crime.</p>
-
-<p>Seria esse o seu primeiro titulo ao perdão que ião supplicar; seria
-mais a prova da sinceridade do seu arrependimento.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p4-II">II<br />O SACRIFICIO</h3>
-</div>
-
-
-<p id="sacrif">Pery comprehendêra o gesto da india; não fez porém o menor movimento
-para segui-la.</p>
-
-<p>Fitou nella o seu olhar brilhante e sorrio.</p>
-
-<p>Por sua vez a menina tambem comprehendeu a expressão daquelle sorriso e
-a resolução firme e inabalavel que se lia na fronte serena do
-prisioneiro.</p>
-
-<p>Insistio por algum tempo, mas debalde. Pery tinha atirado para longe o
-arco e as flechas, e recostando-se ao tronco da arvore, conservava-se
-calmo e impassivel.</p>
-
-<p>De repente o indio estremeceu.</p>
-
-<p>Cecilia apparecêra no alto da esplanada, e lhe acenára; sua mãozinha
-alva e delicada agitando-se no ar parecia dizer-lhe que esperasse; Pery
-julgou mesmo ver no rostinho gentil de sua senhora, apezar da distancia,
-brilhar um raio de felicidade.</p>
-
-<p>Quando com os olhos fitos naquella graciosa visão elle esforçava-se
-por adivinhar a causa de tão subita alegria, a india soltou um segundo
-grito selvagem, um grito terrivel.</p>
-
-<p>Tinha pela direcção do olhar do prisioneiro visto Cecilia sobre a
-esplanada; tinha percebido o gesto da menina, e comprehendêra vagamente
-a razão por que Pery recusára a liberdade e o seu amor. Precipitou-se
-sobre o arco que estava atirado ao chão; mas apezar da rapidez desse
-movimento, quando ella estendia a mão, já Pery tinha posto o pé sobre
-a arma.</p>
-
-<p>A selvagem, com os olhos ardentes, os labios entreabertos, tremula de
-ciume e de vingança, levantou sobre o peito do indio a faca de pedra
-com que lhe cortara os laços ha pouco; mas a arma cahio-lhe da mão, e
-vacillando apoiou-se no seio que ameaçára.</p>
-
-<p>Pery tomou-a nos braços, deitou-a sobre a relva, e sentou-se de novo
-junto ao tronco da arvore, tranquillo a respeito de Cecilia, que
-desapparecêra da esplanada e estava fora de perigo.</p>
-
-<p>Era a hora em que a sombra das montanhas sobe ás encostas, e o jacaré
-deitado sobre a arêa se aquece aos raios do sol.</p>
-
-<p>O ar estrugio com os sons roucos da inubia e do maracá; ao mesmo tempo
-um canto selvagem, o canto guerreiro dos Aymorés, misturou-se com a
-harmonia sinistra daquelles instrumentos ásperos e retumbantes.</p>
-
-<p>A india deitada junto da arvore sobresaltou-se; e erguendo-se
-rapidamente, acenou ao prisioneiro mostrando-lhe a floresta e
-supplicando-lhe que fugisse. Pery sorrio como da primeira vez; tornando
-a mão da menina a fez sentar perto delle, e tirou do pescoço a cruz de
-ouro que Cecilia lhe havia dado.</p>
-
-<p>Então começou entre elle e a selvagem uma conversa por acenos de que
-seria difficil dar uma idéa.</p>
-
-<p>Pery dizia á menina que lhe dava aquella cruz como uma lembrança, mas
-que só depois que elle morresse é que devia tira-la do pescoço. A
-selvagem entendeu ou julgou entender o que Pery procurava exprimir
-symbolicamente, e beijou-lhe as mãos em signal de reconhecimento.</p>
-
-<p>O prisioneiro obrigou-a a atar de novo os laços que o ligavão, e que
-ella no seu generoso impulso de dar-lhe a liberdade havia desfeito.</p>
-
-<p>Nesse momento quatro guerreiros Aymorés dirigirão-se á arvore em que
-se achava Pery; e segurando as pontas da corda o conduzirão ao campo,
-onde tudo estava já preparado para o sacrificio.</p>
-
-<p>O indio ergueu-se e caminhou com o passo firme e a fronte alta diante
-dos quatro inimigos, que não percebêrão o olhar rapido que nessa
-occasião elle lançou ás pontas da sua tunica de algodão, torcidas em
-dous nós pequenos.</p>
-
-<p>O campo cortado em ellipse no meio das arvores estava cercado por cento
-e tantos guerreiros armados em guerra e cobertos de ornatos de pennas.</p>
-
-<p>No fundo as velhas pintadas de listras negras e amarellas, de aspecto
-horrido, preparavão um grande brasido, lavavão a lage que devia servir
-de mesa, e afiavão as suas facas de ossos e lascas de pedra.</p>
-
-<p>As moças grupadas de um lado guardavão os vasos cheios de vinho e
-bebidas fermentadas, que offerecião aos guerreiros quando estes
-passavão diante dellas entoando o canto de guerra dos Aymorés.</p>
-
-<p>A menina que fôra incumbida de servir ao prisioneiro, e o acompanhára
-ao lugar do sacrificio, conservava-se a alguma distancia, e olhava
-tristemente todo esses preparativos; pela primeira vez seu instincto
-natural parecia relevar-lhe a atrocidade desse costume tradicional de
-seus pais, a que ella tantas vezes assistira com prazer.</p>
-
-<p>Agora que ia representar como heroina no drama terrivel, e como esposa
-do prisioneiro devia acompanha-lo até o momento supremo, insultando-lhe
-a dôr e a desgraça, o seu coração confrangia-se; porque realmente
-amava Pery, tanto quanto amar era possivel a uma natureza como a sua.</p>
-
-<p>Chegados ao campo, os selvagens que conduzião o prisioneiro passárão
-as pontas da corda ao tronco de duas arvores, e esticando o laço o
-ohrigárão a ficar immovel no meio do terreiro. Os guerreiros
-desfilárão em roda entoando o canto da vingança; as inubias
-retroárão de novo; os gritos confundirão-se com o som dos maracás, e
-tudo isto formou um concerto horrivel.</p>
-
-<p>Á medida que se animavão, a cadencia apressava-se, de modo que a
-marcha triumphal dos guerreiros se tornava uma dansa macabria, uma
-corrida veloz, uma valsa fantastica, em que todos esses vultos
-horrendos, cobertos de pennas que brilhavão á luz do sol, passavão
-como espiritos satanicos envoltos na chamma eterna.</p>
-
-<p>A cada volta que fazia esse sabbat, um dos guerreiros destacava-se do
-circulo, e adiantando-se para o prisioneiro o desafiava ao combate, e
-conjurava-o a que désse provas de sua coragem, de sua força e de seu
-valor.</p>
-
-<p>Pery, sereno e altivo, recebia com um soberbo desdem a ameaça e o
-insulto, e sentia um certo orgulho pensando que no meio de todos
-aquelles guerreiros fortes e armados, elle, o prisioneiro, o inimigo que
-ia ser sacrificado, era o verdadeiro, o unico vencedor.</p>
-
-<p>Talvez pareça isto incomprehensivel; mas o facto é que Pery o pensava,
-e que só o segredo que elle guardava no fundo de sua alma podia
-explicar a razão desse pensamento e a tranquillidade com que esperava o
-supplicio.</p>
-
-<p>A dansa continuava no meio dos cantos, dos alaridos e das constantes
-libações, quando de repente tudo emmudeceo, e o mais profundo silencio
-reinou no campo dos Aymorés.</p>
-
-<p>Todos os olhos se voltárão para uma cortina de folhas que occultava
-uma especie de cabana selvagem, construida a um lado do campo em face do
-prisioneiro.</p>
-
-<p>Os guerreiros se afastárão, as folhas se abrirão, e entre aquellas
-franjas de verdura assomou o vulto gigantesco do velho cacique. Duas
-pelles de tapir ligadas sobre os hombros cobrião seu corpo como uma
-tunica; um grande cocar de pennas escarlates ondeava sobre a sua
-cabeça, e realçava-lhe a grande estatura.</p>
-
-<p>Tinha o rosto pintado de uma cor esverdeada e oleosa, e o pescoço
-cingido de uma colleira feita com as pennas brilhantes do tucano; no
-meio desse aspecto horrendo os seus olhos brilhavão como dous fogos
-vulcanicos no seio das trevas. Trazia na mão esquerda a tagapema
-coberta de plumas resplandecentes, e amarrada ao punho direito uma
-especie de busina formada de um osso enorme da canella de algum inimigo
-morto em combate.</p>
-
-<p>Chegando á entrada do campo o velho selvagem levou á bocca o seu
-instrumento barbaro, e tirou delle um som estrondoso; os Aymorés
-saudárão com gritos de alegria e de enthusiasmo o apparecimento do
-vencedor.</p>
-
-<p>Ao cacique cabia a honra de ser o algoz da victima, o matador do
-prisioneiro; seu braço devia consummar a grande obra da vingança, esse
-sentimento que constituia para aquelles povos fanaticos a verdadeira
-gloria.</p>
-
-<p>Apenas cessárão as acclamações com que foi acolhida a entrada do
-vencedor, um dos guerreiros que o acompanhavão adiantou-se e fincou na
-extrema do campo uma estaca destinada a receber a cabeça do inimigo,
-logo que ella fosse decepada do corpo.</p>
-
-<p>Ao mesmo tempo a joven india que servia de esposa ao prisioneiro, tirou o
-tacape que pendia do hombro de seu pai, e caminhando para Pery
-desligou-lhe os braços e offereceu-lhe a arma, fitando nelle um olhar
-triste, ardente e cheio de amarga exprobação.</p>
-
-<p>Nesse olhar dizia-lhe que se tivesse aceitado o amor que lhe
-offerecêra, e com o amor a vida e a liberdade, ella não seria obrigada
-pelo costume tradicional de sua nação a escarnecer assim da sua morte.</p>
-
-<p>Com effeito esse offerecimento que os selvagens fazião ao prisioneiro
-de uma arma para se defender, era uma ironia cruel; ligado pelo laço
-que o prendia, immovel pela tensão da corda, de que lhe servia vibrar
-o <em>tacape</em> no ar, se não podia attingir os inimigos?</p>
-
-<p>Pery aceitou a arma que a menina lhe trazia; calcando-a aos pés cruzou
-os braços e esperou o cacique, que avançava lentamente, terrivel e
-ameaçador.</p>
-
-<p>Chegado em face do prisioneiro, a physionomia do velho esclareceu-se com
-um sorriso feroz, reflexo dessa embriaguez do sangue, que dilata as
-narinas do jaguar prestes a saltar sobre a presa.</p>
-
-<p>&mdash;Sou teu matador! disse em guarany.</p>
-
-<p>Pery não se admirou ouvindo a sua bella lingua adulterada pelos sons
-roucos e guturaes que sahião dos labios do selvagem.</p>
-
-<p>&mdash;Pery não te teme!</p>
-
-<p>&mdash;És Goytacaz?</p>
-
-<p>&mdash;Sou teu inimigo!</p>
-
-<p>&mdash;Defende-te!</p>
-
-<p>O indio sorrio:</p>
-
-<p>&mdash;Tu não mereces.</p>
-
-<p>Os olhos do velho fuzilárão de raiva: a mão cerrou o punho da
-tagapema; mas elle reprimio logo o assomo da colera.</p>
-
-<p>A esposa do prsioneiro atravessou o campo e offereceu ao vencedor um
-grande vaso de barro vidrado cheio de vinho de ananaz ainda espumante.</p>
-
-<p>O selvagem virou de um trago a bebida aromatica, e endireitando o seu
-alto talhe, lançou ao prisioneiro um olhar soberbo:</p>
-
-<p>&mdash;Guerreiro Goytacaz, tu és forte e valente; tua nação é temida na
-guerra. A nação Aymoré é forte entre as mais fortes, valente entre
-as mais valentes. Tu vais morrer.</p>
-
-<p>O côro dos selvagens respondeu a essa especie de canto guerreiro, que
-preludiava o tremendo sacrificio.</p>
-
-<p>O velho continou:</p>
-
-<p>&mdash;Guerreiro Goytacaz, tu és prisioneiro; tua cabeça pertence ao
-guerreiro Aymoré; teu corpo aos filhos de sua tribu; tuas entranhas
-servirão ao banquete da vingança. Tu vais morrer.</p>
-
-<p>Os gritos dos selvagens respondêrão de novo: e o canto se prolongou
-por muito tempo lembrando os feitos gloriosos da nação Aymoré, e as
-acções de valor de seu chefe.</p>
-
-<p>Emquanto o velho fallava, Pery o escutava com a mesma calma e
-impassibilidade; nem um dos musculos do seu rosto trahia a menor
-emoção; seu olhar limpido e sereno ora fitava-se no rosto do cacique,
-ora volvia-se pelo campo examinando os preparativos do sacrificio.</p>
-
-<p>Apenas quem o observasse veria que de braços cruzados como estava, uma
-das mãos desfazia imperceptivelmente um dos nós que havião na ponta
-de seu saio de algodão.</p>
-
-<p>Quando o velho acabou de fallar encarou o prisioneiro, e recuando dous
-passos elevou lentamente a pesada clava que empunhava na mão esquerda.
-Os Aymorés anciosos esperavão; as velhas com as suas navalhas de pedra
-estremecião de impaciencia; as jovens indias sorrião, emquanto a noiva
-do prisioneiro voltava o rosto para não ver o espectaculo horrivel que
-ia apresentar-se.</p>
-
-<p>Nesse momento Pery levando as duas mãos aos olhos cobrio o rosto, e
-curvando a cabeça ficou algum tempo nessa posição, sem fazer um
-movimento que revelasse a menor perturbação.</p>
-
-<p>O velho sorrio.</p>
-
-<p>&mdash;Tens medo!</p>
-
-<p>Ouvindo estas palavras, Pery ergueu a cabeça com ar senhoril. Uma
-expressão de jubilo e serenidade irradiava no seu rosto, dir-se-hia o
-extasi dos martyres da religião que na ultima hora, através do tumulo,
-entrevêm a felicidade suprema.</p>
-
-<p>A alma nobre do indio prestes a deixar a terra parecia exhalar já do
-seu involucro; e pousando nos seus labios, nos seus olhos, na sua
-fronte, esperava o momento de lançar-se no espaço para ir se abrigar
-no seio do Creador.</p>
-
-<p>Erguendo a cabeça, fitou os olhos no céo, com se a morte que ia cahir
-sobre elle fosse uma visão encantadora que descesse das nuvens
-sorrindo-lhe. Era que nesse ultimo sonho da existência via a linda
-imagem de Cecilia, feliz, alegre e contente; via sua senhora salva.</p>
-
-<p>&mdash;Fere!... disse Pery ao velho cacique.</p>
-
-<p>Os instrumentos retumbarão de novo; os gritos e os cantos se
-confundirão com aquelles sons roucos, e rebóarão pela floresta como o
-trovão rolando pelas nuvens.</p>
-
-<p>A tagapema coberta de plumas gyrou no ar scintillando aos raios de sol
-que ferião as côres brillantes.</p>
-
-<p>No meio desse turbilhão ouvio-se um estrondo, uma ancia de agonisante e
-o baque de um corpo: tudo isto confusamente, sem que no primeiro
-instante se podesse perceber o que havia passado.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p4-III">III<br />SORTIDA</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>O estrondo que se ouvio, fôra causado por um tiro que partio d'entre as
-arvores.</p>
-
-<p>O velho Aymoré vacillou; seu braço que vibrava o tacape com uma força
-herculea, cahio inerte; o corpo abateu-se como o ipê da floresta
-cortado pelo raio.</p>
-
-<p>A morte tinha sido quasi instantanea; apenas um estertor de agonia
-resoou no seu peito largo e ainda ha pouco vigoroso: cahira já cadaver.</p>
-
-<p>Emquanto os selvagens permanecião estaticos diante do que se passava,
-Alvaro com a espada na mão e a clavina ainda fumegante precipitava-se
-no meio do campo. De dous talhos rapidos cortou os laços de Pery, e com
-as evoluções de sua espada conteve os selvagens, que voltando a si
-cahião sobre elle bramindo de furor.</p>
-
-<p>Immediatamente ouvio-se uma descarga de arcabuzes; dez homens destemidos
-tendo á sua frente Ayres Gomes saltárão por sua vez com a arma em
-punho, e começárão a talhar de alto a baixo a grandes golpes de
-espada.</p>
-
-<p>Não parecião homens, e sim dez demonios, dez machinas de guerra
-vomitando a morte de todos os lados; emquanto a sua mão direita imprima
-á lamina da espada mil voltas, que erão outros tantos golpes
-terriveis, a esquerda jogava a adaga com destreza e segurança
-admiravel.</p>
-
-<p>O escudeiro e seus homens tinhão feito um semi-circulo em roda de
-Alvaro e de Pery, e apresentavão uma barreira de ferro e fogo ás ondas
-de inimigos que bramião, recuavão, e lançavão-se de novo
-quebrando-se de encontro a esse dique.</p>
-
-<p>No curto instante que mediou entre a morte do cacique e o ataque dos
-aventureiros, Pery de braços cruzados olhava impassivel para tudo o
-que se passava em torno d'elle. Comprehendia então o gesto que sua
-senhora ha pouco lhe fizera do alto da esplanada, e o raio de esperança
-e de alegria que elle julgára ver brilhar no seu semblante.</p>
-
-<p>Com effeito no primeiro momento de afflicção Cecilia se lançára para
-ver o indio, chama-lo ainda, e supplicar-lhe mesmo que não expozesse a
-sua vida inutilmente.</p>
-
-<p>Não tendo mais visto Pery, a menina sentio um desespero cruel;
-voltou-se para seu pai, e com as faces orvalhadas de lagrimas, com o
-seio anhelante, com a voz cheia de angustia, pedio-lhe que salvasse
-Pery.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz, antes que sua filha lhe fizesse esse pedido, já
-tinha-se lembrado de chamar os seus companheiros fieis, e seguido por
-elles correr contra o inimigo, e livrar o indio da morte certa e
-inevitavel que procurava.</p>
-
-<p>Mas o fidalgo era um homem de uma lealdade e de uma generosidade a toda
-a prova; sabia que aquella empreza era de um risco immenso, e não
-queria obrigar os seus companheiros a partilhar um sacrificio que elle
-só faria de bom grado á amizade que votava a Pery.</p>
-
-<p>Os aventureiros que se havião dedicado com tanta constancia á
-salvação de sua familia, não tinhão as mesmas razões para se
-arriscarem por causa de um homem que não pertencia á sua religião, e
-que não tinha com elles o menor laço de communidade.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz perplexo, irresoluto entre a amizade e o seu
-escrupulo generoso, não soube o que responder a sua filha; procurou
-consola-la, afflicto por não poder satisfazer immediatamente a sua
-vontade.</p>
-
-<p>Alvaro, que contemplava esta scena pungente a alguma distancia, no meio
-dos aventureiros fieis e dedicados que tinha sob suas ordens, tomou
-repentinamente uma resolução.</p>
-
-<p>Seu coração partia-se vendo Cecilia soffrer; e embora amasse Isabel, a
-sua alma nobre sentia ainda pela mulher a quem votára os seus primeiros
-sonhos, uma affeição pura, respeitosa, uma especie de culto.</p>
-
-<p>Era uma cousa singular na vida dessa menina; todas as paixões, todos os
-sentimentos que a envolvião soffrião a influencia de sua innocencia, e
-ião a pouco e pouco depurando-se e tomando um quer que seja de ideal,
-um cunho de adoração.</p>
-
-<p>O mesmo amor ardente e sensual de Loredano, quando se tinha visto em
-face della, adormecida na sua casta isenção, emmudecêra e hesitara um
-momento se devia manchar a santidade do seu pudor.</p>
-
-<p>Alvaro trocou com os aventureiros algumas palavras; e dirigio-se para o
-grupo que formavão D. Antonio de Mariz e sua filha.</p>
-
-<p>&mdash;Consolai-vos, D. Cecilia; disse o moço, e esperai!</p>
-
-<p>A menina fitou nelle os seus olhos azues cheios de reconhecimento;
-aquella palavra era ao menos uma esperança.</p>
-
-<p>&mdash;Que contais fazer! perguntou D. Antonio ao cavalheiro.</p>
-
-<p>&mdash;Tirar Pery das mãos do inimigo!</p>
-
-<p>&mdash;Vós!... exclamou Cecilia.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, D. Cecilia, disse o moço; aquelles homens dedicados vendo a
-vossa afflicção sentirão-se commovidos e desejão poupar-vos uma
-justa mágoa.</p>
-
-<p>Alvaro attribuia a generosa iniciativa aos seus companheiros, quando
-elles não tinhão feito senão aceita-la com enthusiasmo.</p>
-
-<p>Quanto a D. Antonio de Mariz, sentira uma intima satisfação ouvindo as
-palavras do moço: seus escrupulos cessavão desde que seus homens
-espontaneamente se offerecião para realisar aquella difficil empreza.</p>
-
-<p>&mdash;Cedereis-me uma parte dos nossos homens; quatro ou cinco me bastão;
-continuou o moço dirigindo-se ao fidalgo; ficareis com o resto para
-defender-vos no caso de algum ataque imprevisto.</p>
-
-<p>&mdash;Não; respondeu D. Antonio; levai-os todos, já que se prestão a essa
-tão nobre acção, que não me animava a exigir de sua coragem. Para
-defender a minha filha, basto eu, apezar de velho.</p>
-
-<p>&mdash;Desculpai-me, Sr. D. Antonio, replicou Alvaro; mas é uma imprudencia
-a que me opponho; pensai que a dous passos de vós existem homens
-perdidos, que nada respeitão, e que espião o momento de fazer-vos mal.</p>
-
-<p>&mdash;Sabeis se prezo e estimo esse thesouro cuja guarda me foi confiada por
-Deus. Julgais que haja neste mundo alguma cousa que me faça expo-lo a
-um novo perigo? Acreditai-me: D. Antonio de Mariz, só, defenderá sua
-familia, emquanto vós salvareis um bom e nobre amigo.</p>
-
-<p>&mdash;Confiais demasiado em vossas forças!...</p>
-
-<p>&mdash;Confio em Deus, e no poder que elle collocou em minha mão: poder
-terrivel, quando chegar o momento fulminará todos os nossos inimigos
-com a rapidez do raio.</p>
-
-<p>A voz do velho fidalgo pronunciando estas palavras tinha-se revestido de
-uma solemnidade imponente; o seu rosto illuminou-se com uma expressão
-de heroismo e de magestade que realçou a belleza severa do seu busto
-veneravel.</p>
-
-<p>Alvaro olhou com uma admiração respeitosa o velho cavalheiro emquanto
-Cecilia, pallida e palpitante das emoções que sentira, esperava com
-anciedade a decisão que ião tomar.</p>
-
-<p>O moço não insistio e sujeitou-se á vontade de D. Antonio de Mariz;</p>
-
-<p>&mdash;Obedeço-vos; iremos todos e voltaremos mais promptos.</p>
-
-<p>O fidalgo apertou-lhe a mão:</p>
-
-<p>&mdash;Salvai-o!</p>
-
-<p>&mdash;Oh! sim, exclamou Cecilia, salvai-o, Sr. Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Juro-vos, D. Cecilia, que só a vontade do céo fará que eu não
-cumpra a vossa ordem.</p>
-
-<p>A menina não achou uma palavra para agradecer essa generosa promessa;
-toda a sua alma partio-se n'um sorriso divino.</p>
-
-<p>Alvaro inclinou-se diante della; foi juntar-se aos aventureiros, e
-deo-lhes ordem de se prepararem para partir. Quando o moço entrou na
-sala então deserta para tomar a suas armas, Isabel, que já sabia do
-seu projecto, correu a elle pallida e assustada.</p>
-
-<p>&mdash;Ides bater-vos? disse ella coma voz tremula.</p>
-
-<p>Em que isto vos admira? Não nos batemos todos os dias com o inimigo!</p>
-
-<p>&mdash;De longe!... Defendidos pela posição! Mas agora é differente!</p>
-
-<p>&mdash;Não vos assusteis. Isabel! Daqui a uma hora estarei de volta.</p>
-
-<p>O moço passou a clavina á tiracollo e quiz sahir.</p>
-
-<p>Isabel tomou-lhe as mãos com um movimento arrebatado; seus olhos
-scintillavão com um fogo estranho; suas faces estavão incendiadas de
-vivo rubor.</p>
-
-<p>O moço procurou tirar as mãos daquella pressão ardente e apaixonada:</p>
-
-<p>&mdash;Isabel, disse elle com uma doce exprobação; quereis que falte á
-minha palavra, que recue diante de um perigo?</p>
-
-<p>&mdash;Não! Nunca eu vos pediria semelhante cousa! Era preciso que não vos
-conhecesse, e que não... vos amasse!...</p>
-
-<p>&mdash;Mas então dexai-me partir.</p>
-
-<p>&mdash;Tenho uma graça a supplicar-vos?</p>
-
-<p>&mdash;De mim?... Neste momento?</p>
-
-<p>&mdash;Sim! Neste momento!... Apezar do que me dizieis ha pouco, apezar do
-vosso heroismo, sei que caminhais a uma morte certa, inevitavel.</p>
-
-<p>A voz de Isabel tornou-se balbuciante:</p>
-
-<p>&mdash;Quem sabe... se nos veremos mais neste mundo?!</p>
-
-<p>&mdash;Isabel!... disse o moço querendo fugir para evitar a commoção que
-se apoderava delle.</p>
-
-<p>&mdash;Promettestes fazer-me a graça que vos pedi.</p>
-
-<p>&mdash;Qual?</p>
-
-<p>&mdash;Antes de partir, antes de me dizer adeus para sempre...</p>
-
-<p>A moça fitou no cavalheiro um olhar que fascinava.</p>
-
-<p>&mdash;Fallai!... fallai!...</p>
-
-<p>&mdash;Antes de nos separarmos, eu vos supplico, deixai-me uma lembrança
-vossa!... Mas uma lembrança que fique dentro de minha alma!</p>
-
-<p>E a menina cahio de joelhos aos pés de Alvaro, occultando seu rosto que
-o pudor revoltado em luta com a paixão cobria de um brillante carmim.</p>
-
-<p>Alvaro ergueu-a confusa e vergonhosa do que tinha feito, e chegando os
-seus labios ao ouvido proferio, ou antes murmurou uma phrase.</p>
-
-<p>O semblante de Isabel expandio-se; uma aureola de ventura cingio a sua
-fronte; seu seio dilatou-se, e respirou com a embriaguez do coração
-feliz.</p>
-
-<p>&mdash;Eu te amo!</p>
-
-<p>Era a phrase que Alvaro deixára cahir na sua alma, e que a enchia toda
-como um effluvio celeste, como um canto divino que resoava nos seus
-ouvidos e fazia palpitar todas as suas fibras.</p>
-
-<p>Quando ella sahio desse extasi, o moço tinha sahido da sala, e unia-se
-aos seus companheiros promptos a marchar.</p>
-
-<p>Foi nessa occasião que Cecilia, chegando imprudentemente á palissada,
-fez a Pery un aceno que lhe dizia esperasse.</p>
-
-<p>A pequena columna partio commandada por Alvaro e por Ayres Gomes, que
-depois de tres dias não deixava o seu posto dentro do gabinete do
-fidalgo.</p>
-
-<p>Quando os bravos combatentes desapparecêrão na floresta, D. Antonio de
-Mariz recolheu-se com sua familia para a sala, e sentando-se na sua
-poltrona esperou tranquillamente. Não mostrava o menor temor de ser
-atacado pelos aventureiros revoltados, que estavão a alguns passos de
-distancia apenas, e que não deixarião de aproveitar um ensejo tão
-favoravel.</p>
-
-<p>D. Antonio tinha a este respeito uma completa segurança; tendo fechada
-as portas e examinado a escorva de suas pistolas, recommendou silencio,
-afim de que nem um rumor lhe escapasse.</p>
-
-<p>Vigilante e attento, o fidalgo reflectia ao mesmo tempo sobre o facto
-que se acabava de passar, e que o tinha profundamente impressionado.</p>
-
-<p>Conhecia Pery e não podia comprehender como o indio, sempre tão
-intelligente e tão perspicaz, se deixára levar por uma louca
-esperança a ponte de ir elle só atacar os selvagens.</p>
-
-<p>A extrema dedicação do indio por sua senhora, o desespero da posição
-em que se achavão, podia explicar essa hallucinação, se o fidalgo
-não soubesse quanto Pery tinha a calma, a força e o sangue-frio que
-tornão o homem superior a todos os perigos. O resultado de suas
-reflexões foi que havia no procedimento de Pery alguma cousa que não
-estava clara e que devia explicar-se mais tarde.</p>
-
-<p>Ao passo que elle se entregava a esses pensamentos, Alvaro tinha feito
-uma volta, e favorecido pela festa dos selvagens se aproximara sem ser
-percebido.</p>
-
-<p>Quando avistou Pery a algumas braças de distancia, o velho cacique
-levantava a tagapema sobre a sua cabeça.</p>
-
-<p>O moço levou a clavina ao rosto; e a bala sibilando foi atravessar o
-craneo do selvagem.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p4-IV">IV<br />REVELAÇÃO</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>Apenas Alvaro, com a chegada dos seus companheiros, viu-se livre dos
-inimigos que o atacavão, voltou a Pery, que assistia immovel a toda
-esta scena.</p>
-
-<p>&mdash;Vinde! disse o moço com autoridade.</p>
-
-<p>&mdash;Não! respondeu o indio friamente.</p>
-
-<p>&mdash;Tua senhora te chama!</p>
-
-<p>Pery abaixou a cabeça com uma profunda tristeza.</p>
-
-<p>&mdash;Dize á senhora que Pery deve morrer; que vai morrer por ella. E tu
-parte, porque senão seria tarde.</p>
-
-<p>Alvaro olhou a physionomia intelligente do indio para ver se descobria
-nella algum signal de perturbação de espirito: porque o moço não
-comprehendia, nem podia comprehender a causa desta obstinação
-insensata.</p>
-
-<p>O rosto de Pery, calmo e sereno, não lhe deixou ver senão uma
-resolução firme, inabalavel, tanto mais profundo quando se mostrava
-sob uma apparencia de socego e tranquillidade.</p>
-
-<p>&mdash;Assim, tu não obedece á tua senhora?</p>
-
-<p>Pery custou a arrancar a palavra dos labios.</p>
-
-<p>&mdash;A ninguem.</p>
-
-<p>Quando pronunciava esta palavra, um grito fraco soou ao lado delle;
-voltando-se viu a india que lhe havião destinado por esposa cahindo
-atravessada por uma flecha.</p>
-
-<p>O tiro fôra destinado a Pery por um dos selvagens, e a menina
-lançando-se para cobrir o corpo daquelle que amára uma hora recebêra
-a setta no peito.</p>
-
-<p>Seus olhos negros, desmaiados pelas sombras da morte, volvêrão a Pery
-um ultimo olhar; e cerrando tornárão a abrir-se, já sem vida e sem
-brilho. Pery sentio um movimento de piedade e sympathia vendo essa
-victima de sua dedicação, que como elle sacrificava sem hesitar a sua
-existencia para salvar aquelle a quem amava.</p>
-
-<p>Alvaro nem se apercebeu do que acabava de passar; lançando um olhar
-para seus homens que batião-se valentemente com os Aymorés fez um
-aceno a Ayres Gomes.</p>
-
-<p>&mdash;Escuta, Pery; tu sabes se costumo cumprir a minha palavra. Jurei a
-Cecilia levar-te; e ou tu me acompanhas, ou morreremos todos neste
-lugar.</p>
-
-<p>&mdash;Faze o que quizeres! Pery não sahira d'aqui.</p>
-
-<p>&mdash;Vês estes homens?... são os unicos defensores que restão á tua
-senhora; se todos elles morrem, bem sabes que é impossivel que ella se
-salve.</p>
-
-<p>Pery estremeceu. Ficou um momento pensativo; depois, sem dar tempo a que
-o seguissem, lançou-se entre as arvores.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz e sua familia, tendo ouvido os tiros dos arcabuzes,
-esperavão com anciedade o resultado da expedição.</p>
-
-<p>Dez minutos havião decorrido na maior impaciencia, quando sentirão
-tocar na porta, e ouvirão a voz de Pery; Cecilia correu, e o indio
-ajoelhou-se a seus pés pedindo-lhe perdão.</p>
-
-<p>O fidalgo, livre do pezar de perder um amigo, assumira a sua costumada
-severidade, como sempre que se tratava de uma falta grave.</p>
-
-<p>&mdash;Commetteste uma grande imprudencia, disse elle ao indio; fizeste
-soffrer teus amigos; expozeste a vida daquelles que te amão; não
-precisas de outra punição além desta.</p>
-
-<p>&mdash;Pery ia salvar-te!</p>
-
-<p>&mdash;Entregando-te nas mãos do inimigo?</p>
-
-<p>&mdash;Sim!</p>
-
-<p>&mdash;Fazendo-te matar por elles?</p>
-
-<p>&mdash;Matar e...</p>
-
-<p>&mdash;Mas qual era o resultado dessa loucura?</p>
-
-<p>O indio calou-se.</p>
-
-<p>&mdash;É preciso explicar-te, para que não julguemos que o amigo
-intelligente e dedicado de outr'ora tornou-se um louco e um rebelde.</p>
-
-<p>A palavra era dura; e o tom em que foi dita ainda aggravava mais a
-reprehenção severa que ella encerrava.</p>
-
-<p>Pery sentio um lagrima humedecer-lhe as palpebras:</p>
-
-<p>&mdash;Obrigas Perry a dizer tudo!</p>
-
-<p>&mdash;Deves fazê-lo, se desejas rehabilitar-te na estima que te votava, e
-que sinto perder.</p>
-
-<p>&mdash;Pery vai fallar.</p>
-
-<p>Alvaro entrava nesse momento tendo deixado no alto da esplanada os seus
-companheiros já livres de perigo, e quites por algumas feridas que não
-erão felizmente muito graves.</p>
-
-<p>Cecilia apertou as mãos do moço com reconhecimento; Isabel enviou-lhe
-n'um olhar toda a sua alma.</p>
-
-<p>As pessoas presentes se grupárão ao redor da poltrona de D. Antonio,
-em face do qual Pery de pé com a cabeça baixa, confuso e envergonhado
-como um criminoso, ia justificar-se.</p>
-
-<p>Dir-se-hia que confessava uma acção indigna e vil: ninguem adivinhava
-que sublime heroismo, que concepção gigantesca havia nesse acto, que
-todos condemnavão como uma loucura.</p>
-
-<p>Elle começou:</p>
-
-<p>«Quando Ararê deitou o seu corpo sobre a terra para não tornar a
-erguê-lo, chamou Pery e disse:</p>
-
-<p>«Filho de Ararê, teu pai vai morrer; lembra-te que tua carne é a
-minha carne; que teu sangue é meu sangue. Teu corpo não deve servir ao
-banquete do inimigo.</p>
-
-<p id="veneno">«Ararê disse, e tirou suas contas de fructos que deo a seu filho;
-estavão cheias de veneno; tinhão nellas a morte.</p>
-
-<p>«Quando Pery fosse prisioneiro, bastava quebrar um fructo, e ria do
-vencedor que não se animaria a tocar no seu corpo.</p>
-
-<p>«Pery viu que a senhora soffria e olhou as suas contas; teve uma idéa;
-a herança de Ararê podia salvar a todos.</p>
-
-<p>«Se tu deixasses fazer o que queria, quando a noite viesse não acharia
-um inimigo vivo; os brancos e os indios não te offenderião mais.»</p>
-
-<p>Toda a familia ouvia esta narração com uma surpreza extraordinaria;
-comprehendião delia que havia em tudo isto uma arma terrivel,&mdash;o
-veneno; mas não podião saber os meios de que o indio se servira ou
-pretendia servir-se para usar desse agente de destruição.</p>
-
-<p>&mdash;Acaba! disse D. Antonio; por que modo contavas então destruir o
-inimigo?</p>
-
-<p>&mdash;Pery envenenou a agua que os brancos bebem, e o seu corpo, que devia
-servir ao banquete dos Aymorés!</p>
-
-<p>Um grito de horror acolheu essas palavras ditas pelo indio em um tom
-simples e natural.</p>
-
-<p>O plano que Pery combinára para salvar seus amigos acabava de
-revelar-se em toda a sua abnegação sublime, e com o cortejo de scenas
-terriveis e monstruosas que devião acompanhar a sua realisação.</p>
-
-<p id="curare">Confiado nesse veneno que os indios conhecião com o nome de <em>curarê</em>,
-e cuja fabricação era um segredo de algumas tribus, Pery com a sua
-intelligencia e dedicação descobrira um meio de vencer elle só aos
-inimigos, apezar do seu numero e da sua força.</p>
-
-<p id="horas">Sabia a violencia e o effeito prompto daquella arma que seu pai lhe
-confiára na hora da morte; sabia que bastava uma pequena parcella desse
-pó subtil para destruir em algumas horas a organisação a mais forte e
-a mais robusta. O indio resolveu pois usar desse poder que na sua mão
-heroica ia tornar-se um instrumento de salvação, e o agente de um
-sacrificio tremendo feito á amizade.</p>
-
-<p>Dous fructos bastárão; um servio para envenenar a agua e as bebidas
-dos aventureiros revoltados; o outro acompanhou-o até o momento do
-supplicio, em que passou de suas mãos aos seus labios.</p>
-
-<p>Quando o cacique vendo-o cobrir o rosto perguntou-lhe se tinha medo,
-Pery acabava de envenenar o seu corpo, que devia d'ahi a algumas horas
-ser um germen de morte para todos esses guerreiros bravos e fortes.</p>
-
-<p>O que porém dava a esse plano um cunho de grandeza e de admiração,
-não era sómente o heroismo do sacrificio; era a belleza horrivel da
-concepção, era o pensamento superior que ligára tantos acontecimentos,
-que os submettêra á sua vontade, fazendo-os succeder-se naturalmente
-e caminhar para um desfecho necessario e infallivel.</p>
-
-<p>Porque, é preciso notar, a menos de um facto extraordinario, desses que
-a previdencia humana não pode prevenir, Pery quando sahio da casa
-tinha a certeza de que as cousas se passarião como de facto se
-passárão.</p>
-
-<p>Atacando os Aymorés a sua intenção era excita-los á vingança;
-precisava mostrar-se forte, valente, destemido, para merecer que os
-selvagens o tratassem como um inimigo digno de seu odio. Com a sua
-destreza e com a precaução que tomára tornando o seu corpo
-impenetravel, contava evitara morte antes de poder realisar o seu
-projecto; quando mesmo cahisse ferido, tinha tempo de passar o veneno
-aos labios.</p>
-
-<p>A sua previsão porém não o illudio; tendo conseguido o que desejava,
-tendo excitado a raiva dos Aymorés, quebrou a sua arma, e supplicou a
-vida ao inimigo; foi de todo o sacrificio o que mais lhe custou.</p>
-
-<p>Mas assim era preciso; a vida de Cecilia o exigia; a morte que o havia
-respeitado até então podia surprendê-lo; e Pery queria ser feito
-prisioneiro, como foi, e contava ser.</p>
-
-<p>O costume dos selvagens, de não matar na guerra o inimigo e de
-captiva-lo para servir ao festim da vingança, era para Pery uma
-garantia e uma condição favoravel á execução do seu projecto.</p>
-
-<p>Quanto á peripecia final, que a intervenção de Alvaro obstára; não
-fôra esse incidente imprevisto, que seria igualmente infallivel.</p>
-
-<p>Segundo as leis tradicionaes do povo barbaro, toda a tribu devia tomar
-parte no festim, as mulheres moças tocavão apenas na carne do
-prisioneiro; mas os guerreiros a saboreavão como um manjar delicado,
-adubado pelo prazer da vingança: e as velhas com a gula feroz das
-harpias que se cevão no sangue de suas victimas.</p>
-
-<p>Pery contava pois com toda a segurança que dentro de algumas horas o
-corpo envenenado da victima levaria a morte ás entranhas do seus
-algozes, e que elle só destruiria toda uma tribu, grande, forte,
-poderosa, apenas com auxilio dessa arma silenciosa.</p>
-
-<p>Póde-se agora comprehender qual tinha sido o seu desespero vendo esse
-plano inutilisado; depois de ter desobedecido á sua senhora, depois de
-haver tudo realisado, quando só faltava o desfecho, quando o golpe que
-ia salvar a todos cahia, mudar-se de repente a face das cousas, e ver
-destruida a sua obra, filha de tanta meditação!</p>
-
-<p>Ainda assim quiz resistir, quiz ficar, esperando que os Aymorés
-continuarião o sacrificio; mas conheceu que a resolução de Alvaro era
-inabalavel como a sua; que ia ser causa da morte de todos os defensores
-fieis de D. Antonio, sem ter já a certeza de sua salvação.</p>
-
-<p>No primeiro momento que succedeu á confissão de Pery, todos os actores
-dessa scena, pallidos, tomados de espanto e de terror, com os olhos
-cravados no indio, duvidavão ainda do que tinhão ouvido; o espirito
-horrorisado não formulava uma idéa; os labios tremulos não achavão
-uma palavra.</p>
-
-<p>D. Antonio foi o primeiro que recobrou a calma; no meio da admiração
-que lhe causava aquella acção heroica, e das emoções produzidas por
-essa idéa ao mesmo tempo sublime e horrivel, uma circumstancia o tinha
-sobretudo impressionado.</p>
-
-<p>Os aventureiros ião ser victimas do envenenamento; e por maior que
-fosse o gráo de baixeza e aviltamento a que tinhão descido esses
-homens pela sua traição, a nobreza do fidalgo não podia soffrer
-semelhante homicidio.</p>
-
-<p>Elle os puniria a todos com a morte ou com o desprezo, essa outra morte
-moral; mas o castigo na sua opinião elevava a morte á altura de um
-exemplo; emquanto que a vingança a fazia descer ao nivel do
-assassinato.</p>
-
-<p>&mdash;Vai, Ayres Gomes, gritou D. Antonio ao seu escudeiro; corre e previne
-a esses desgraçados, se ainda é tempo!</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p4-V">V<br />O PAIOL</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>Cecilia ouvindo a voz de seu pai estremeceu como se acordasse de um
-sonho.</p>
-
-<p>Atravessou o aposento com passo vacillante, e chegando-se a Pery, fitou
-nelle os seus lindos olhos azues com uma expressão indefinivel.</p>
-
-<p>Havia nesse olhar ao mesmo tempo a admiração immensa que lhe causava a
-acção heroica do indio; a dôr profunda que sentia pela sua perda; e
-uma exprobação por não ter elle ouvido as suas supplicas.</p>
-
-<p>O indio nem se animava a levantar os olhos para sua senhora; não tendo
-realisado o sen desejo, considerava agora tudo quanto fizera como uma
-loucura.</p>
-
-<p>Sentia-se criminoso, e de toda a sua acção heroica e sublime para os
-outros, só lhe restava o pezar de ter offendido Cecilia, e de lhe haver
-causado inutilmente um degosto.</p>
-
-<p>&mdash;Pery, disse a menina com desespero, porque não fizeste o que tua
-senhora te pedia?...</p>
-
-<p>O indio não sabia o que responder; temia ter perdido a affeição de
-Cecilia, e essa idéa martyrisava os últimos momentos que lhe restavão
-a viver.</p>
-
-<p>&mdash;Cecilia não te disse, continuou a menina soluçando, que ella não
-aceitaria a salvação com o sacrificio de tua vida?</p>
-
-<p>&mdash;Pery já te pedio que perdoasses! mnrmurou o indio</p>
-
-<p>&mdash;Oh! Se tu soubesses o que fizeste hoje soffrer á tua senhora!... Mas
-ella te perdôa.</p>
-
-<p>&mdash;Ah!... exclamou Pery, cuja physionomia illuminou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Sim!... Cecilia te perdôa tudo que soffreu, e tudo que vai soffrer!
-Mas será por pouco tempo...</p>
-
-<p>A menina dizia essas palavras com um triste sorriso de sublime
-resignação; conhecia que não havia mais esperança de salvação, e
-esta idéa quasi a consolava.</p>
-
-<p>Não pôde acabar porém; a palavra ficou-lhe presa aos labios,
-tremula, consulva: seus olhos se fixavão em Pery com um sentimento de
-terror e de espanto.</p>
-
-<p>A physionomia do indio se tinha decomposto; seus traços nobres
-alterados por contracções violentas, o rosto encovado, os labios
-roxos, os dentes que se entrechocavão, os cabellos erriçados da
-vão-lhe um aspecto medonho.</p>
-
-<p>&mdash;O veneno!... gritárão os espectadores dessa scena horrorisados.</p>
-
-<p>Cecilia fez um esforço extraordinario; e lançando-se para o indio,
-procurou reanima-lo.</p>
-
-<p>&mdash;Pery!... Pery... balbuciava a menina aquecendo nas suas as mãos
-geladas de seu amigo.</p>
-
-<p>&mdash;Pery vai-te deixar para sempre, senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Não!... Não!... exclamou a menina fora de si.</p>
-
-<p>Não quero que tu nos deixes!... Oh! tu és máo muito máo!... Se
-estimasses tua senhora, não a abandonarias assim!...</p>
-
-<p>As lagrimas orvalhavão as faces da menina, que no seu desespero não
-sabia o que dizia. Erão palavras entrecortadas, sem sentido; mas que
-revelavão a sua augustia.</p>
-
-<p>&mdash;Tu queres que Pery viva, senhora? disse o indio com a voz commovida.</p>
-
-<p>&mdash;Sim!... respondeu a menina supplicante. Quero que tu vivas!</p>
-
-<p>&mdash;Pery viverá!</p>
-
-<p>O indio fez um esforço supremo, e restituindo um pouco de elasticidade
-aos seus membros entorpecidos, dirigio-se á porta e desappareceu.</p>
-
-<p>Todas as pessoas presentes o acompanharão com os olhos e o virão
-descer á varzea e ganhar a floresta correndo.</p>
-
-<p>A ultima palavra que elle proferira tinha um momento restituido a
-esperança a D. Antonio de Mariz; mas quasi logo a duvida apoderou-se do
-seu espirito; julgou que o indio se illudia.</p>
-
-<p>Cecilia porém tinha mais do que uma esperança; tinha quasi uma certeza
-de que Pery não se enganára; a promessa de seu amigo lhe inspirava uma
-confiança profunda. Nunca Pery lhe havia dito uma cousa que se não
-realisasse; o que parecia impossivel aos outros, tornava-se facil para a
-sua vontade firme e inabalavel, para o poder sobrehumano de que a força
-e a intelligencia o revestia.</p>
-
-<p>Quando D. Antonio de Mariz e sua familia se recolhêrão tristemente
-impressionados, Alvaro de pé na porta do gabinete fez um gesto de
-espanto ao fidalgo, e apontou-lhe para o oratorio.</p>
-
-<p>A parede do fundo, prestes a tombar, oscillava sobre a sua base como uma
-arvore balançada pelo vento.</p>
-
-<p>D. Antonio sorrio, e ordenando a sua familia que entrasse no gabinete,
-tirou a pistola da cinta, armou-a e esperou na porta ao lado de Alvaro.</p>
-
-<p>No mesmo instante ouvio-se um grande estrondo, e no meio da nuvem
-espessa de pó que se elevou desse montão de ruinas seis homens
-precipitárão-se na sala.</p>
-
-<p>Loredano foi o primeiro; apenas tocou o chão, ergueu-se com
-extraordinaria rapidez, e seguido pelos seus companheiros caminhou
-direito ao gabinete onde se achava recolhida a familia.</p>
-
-<p>Recuárão porém lividos e tremulos; horrorisados diante da cena muda e
-terrivel que se apresentava aos seus olhos espantados.</p>
-
-<p>No meio do aposento via-se um desses grandes vasos de barros vidrados,
-feitos pelos indios, e que continha pelo menos uma arroba de polvora. De
-uma aberta que havia nesse vaso corria um largo trilho que ia perder-se
-no fundo do paiol, onde se achavão enterradas todas as munições de
-guerra do fidalgo.</p>
-
-<p>Duas pistolas, a de D. Antonio de Mariz e a de Alvaro, esperavão um
-movimento dos aventureiros para lançarem a primeira faisca ao volcão.
-D. Lauriana, Cecilia e Isabel de joelhos, oravão julgando a cada
-momento ver confundirem-se no turbilhão todos os espectadores dessa
-scena.</p>
-
-<p>Era esta a arma terrivel de que fallára ha pouco D. Antonio, quando
-dizia a Alvaro que Deus lhe havia confiado o poder de fulminar todos os
-seus inimigos. O moço comprehendeu então a razão por que o fidalgo o
-tinha obrigado a partir com todos os homens para salvar Pery,
-julgando-se bastante forte para defender elle só, a sua familia.</p>
-
-<p>Quanto aos aventureiros, lembrárão-se do juramento solemne de D.
-Antonio de Mariz; o fidalgo os tinha todos fechados na sua mão, e
-bastava apertar essa mão para esmaga-los como um terrão de argila.
-Lançando um olhar esvairado em torno de si os seis criminosos quizerão
-fugir, mas não tiverão animo de dar um passo, e ficárão como
-pregados ao solo.</p>
-
-<p>Ouvio-se então um rumor de vozes da parte de fora, e Ayres Gomes
-seguido pelos aventureiros apresentou-se á porta da sala.</p>
-
-<p>Loredano conheceu que desta vez estava irremediavelmente perdido, e
-assentou de vender caro a sua vida; mas a desgraça pesava sobre elle.
-Dous dos seus companheiros cahirão a seus pés estorcendo-se em
-convulsões horriveis, e soltando gritos que mettião dó e compaixão.</p>
-
-<p>A principio ninguem comprehendeu a causa dessa morte subita e violenta;
-mas a lembrança do veneno de Pery acudio logo á memoria de alguns e
-explicou tudo.</p>
-
-<p>Os aventureiros que chegavão guiados por Ayres Gomes apoderárão-se de
-Loredano, e forão ajoelhar-se confusos e envergonhados aos pés de D.
-Antonio de Mariz, pedindo-lhe o perdão de sua falta.</p>
-
-<p>O fidalgo tinha assistido a todos esses acontecimentos que se succedião
-tão rapidamente, sem deixar a sua primeira posição; dir-se-hia que
-sobre essas paixões humanas que se debatião a seus pés elle plainava
-como um genio, prestes a vibrar o raio celeste.</p>
-
-<p>&mdash;A vossa falta é daquellas que não se perdoão, disse D. Antonio; mas
-estamos nesse momento extremo em que Deus manda esquecer todas as
-offensas. Levantai-vos e preparemo-nos todos para morrer como
-christãos.</p>
-
-<p>Os aventureiros erguêrão-se, e arrastando Loredano para fóra da sala,
-retirárão-se para o alpendre, com a consciencia alliviada de um grande
-peso.</p>
-
-<p>A familia pôde então, depois de tantas emoções, gozar um pouco de
-socego e repouso; apezar da posição desesperada em que se achavão, a
-reunião dos aventureiros revoltados tinha trazido um fraco vislumbre de
-esperança.</p>
-
-<p>Só D. Antonio de Mariz não se illudia, e desde aquella manhã tinha
-conhecido que, quando os Aymorés não o vencessem pelas armas, o
-vencerião pela fome. Todos os viveres estavão consumidos, e só uma
-sortida vigorosa podia salvar a familia desse martyrio que a ameaçava,
-martyrio muito mais cruel do que uma morte violenta.</p>
-
-<p>O fidalgo resolveu esgotar os ultimos recursos antes de confessar-se
-vencido; queria morrer com a consciencia tranquilla de ter cumprido o
-seu dever, e de haver feito o que fosse humanamente possivel. Chamou
-Alvaro e entreteve-se com o moço durante algum tempo em voz baixa;
-concertavão um meio de realisar essa idéa de que dependia toda a
-esperança de salvação.</p>
-
-<p>Ao mesmo tempo que isto se passava, os aventureiros reunidos em
-conselho, julgavão a Frei Angelo di Lucca, e o condemnavão por um voto
-unanime.</p>
-
-<p>Proferida a sentença, apresentárão-se diversas opiniões sobre o
-supplicio que devia ser infligido ao culpado; cada um lembrava o genero
-de morte mais cruel; porém a opinião geral adoptou a fogueira como o
-castigo consagrado pela inquisição para punir os hereges.</p>
-
-<p>Fincárão no meio do terreiro um alto poste, e o cercárão com uma
-grande pilha de madeira e outros combustiveis; depois sobre essa pyra
-ligárão o frade, que soffria todos os insultos e todas as injurias sem
-proferir uma palavra.</p>
-
-<p>Uma especie de atonia apoderára do italiano desde o momento em que os
-aventureiros o havião arrastado da sala de D. Antonio de Mariz; elle
-tinha a consciencia do seu crime, e a certeza de sua condemnação.</p>
-
-<p>Entretanto na occasião em que o atavão á fogueira, um incidente
-espertou de repente a sensibilidade desse homem embrutecido pela idéa
-da morte, e pela convicção de que não podia escapar a ella.</p>
-
-<p>Um dos aventureiros, um dos cinco complices da ultima conspiração,
-chegou-se a Loredano, e tirando-lhe a cinta que prendia o seu gibão,
-mostrou-a aos seus companheiros. O italiano vendo-se separado do seu
-thesouro sentio uma dôr muito mais forte do que a que ia soffrer na
-fogueira; para elle não havia supplicio, não havia martyrio que
-igualasse a este.</p>
-
-<p>O que o consolava na sua ultima hora era a idéa de que esse segredo que
-possuia, e do qual não podéra utilisar-se, ia morrer com elle, e
-ficaria perdido para todos; que ninguem gozaria do thesouro que lhe
-escapava.</p>
-
-<p>Por isso apenas o aventureiro tirou-lhe a cinta onde guardava o roteiro,
-soltou um rugido de colera e de raiva impotente; seus olhos
-injectárão-se de sangue, e seus membros crispando-se ferirão-se
-contra as cordas que os ligavão ao poste.</p>
-
-<p>Era horrivel de ver nesse momento; seu aspecto tinha a expressão brutal
-e feroz de um hydrophobo, seus labios espumavão, silvando como a
-serpente; e seus dentes ameaçavão de longe os seus algozes como as
-presas do jaguar.</p>
-
-<p>Os aventureiros rirão-se do desespero do frade por ver roubarem-lhe o
-seu precioso thesouro, e divertirão-se em augmentar-lhe o supplicio,
-promettendo que apenas livres dos Aymorés farião uma expedição ás
-minas de prata.</p>
-
-<p>A raiva do italiano redobrou quando Martim Vaz atou a cinta ao corpo, e
-disse-lhe sorrindo:</p>
-
-<p>&mdash;Bem sabeis o proverbio: «O bocado não é para quem o faz.»</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p4-VI">VI<br />TREGOA</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>Erão oito horas da noite.</p>
-
-<p>Os aventureiros, sentados no terreiro em roda de um pequeno fogo,
-esperavão tristemente que cozinhassem alguns legumes destinados á
-magra cêa.</p>
-
-<p>A penuria tinha succedido á abundancia de outr'ora; privados da caça,
-sua alimentação ordinaria, estavão reduzidos a simples vegetaes. Os
-seus vinhos e as bebidas fermentadas de que fazião largas libações,
-tinhão sido envenenadas por Pery, e forão pois obrigados a deita-las
-fóra, muito felizes ainda por não terem sido victimas dellas.</p>
-
-<p>Loredano fechando a porta da despensa foi que os tinha salvado; apenas
-dous dos aventureiros que o havião acompanhado tinhão tocado nessas
-bebidas, e por isso poucas horas depois cahirão mortos, como vimos, na
-occasião em que ião atacar D. Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>Não erão porém essas scenas de luto e a situação critica em que se
-achavão, que infundião nesses homens sempre alegres e tão galhofeiros
-aquella tristeza que não lhes era habitual. Morrer com as armas na
-mão, batendo-se contra o inimigo, era para elles uma cousa natural, uma
-idéa a que a suavidade aventuras e de perigos os tinha affeito.</p>
-
-<p>O que realmente os entristecia, era não terem uma boa cêa, e um
-cangirão de vinho diante de si; era o seu estomago que se contrahia por
-falto de alimento, e que tirava-lhes toda a disposição de rir e de
-folgar.</p>
-
-<p>A chamma avermelhada da fogueira ás vezes oscillava ao sopro do vento,
-e estendendo-se pelo terreiro ia illuminar a alguma distancia com o seu
-frouxo clarão o vulto de Loredano atado ao poste sobre a pyra de lenha.</p>
-
-<p>Os aventureiros tinhão resolvido demorar o supplicio, e dar tempo a que
-o frade se arrependesse dos seus crimes e se decidisse a morrer como
-christão, humilde e penitente; por isso deixárão-lhe a noite para
-reflectir.</p>
-
-<p>Talvez entrasse tambem nessa resolução um requinte de maldade e de
-vingança; julgando o italiano a verdadeira causa da posição em que
-estavão collocados, os seus companheiros o odiavão e querião
-prolongar o seu soffrimento como uma reparação do mal que lhes tinha
-feito.</p>
-
-<p>Assim, de vez em quando um delles se erguia, e chegando-se ao frade
-exprobrava-lhe a sua perversidade, e cobria-o de improperios e de
-injurias. Loredano estorcia-se de raiva, mas não proferia uma palavra,
-porque seus algozes o tinhão ameaçado de cortar-lhe a lingua.</p>
-
-<p>Ayres Gomes veio chamar os aventureiros da parte de D. Antonio de Mariz;
-todos se apressárão em obedecer, e pouco depois entrárão na sala
-onde estava reunida toda a familia.</p>
-
-<p>Tratava-se de uma sortida como fim de procurar viveres que podessem
-alimentar os habitantes da casa, até que D. Diogo tivesse tempo de
-chegar com o soccorro que tinha ido procurar. D. Antonio de Mariz
-reservava dez homens para defender-se; os outros partirião com Alvaro;
-se fossem felizes, havia ainda uma esperança de salvação; se fossem
-mal succedidos, uns e outros, os que fossem e os que ficassem morrerião
-como christãos e portuguezes.</p>
-
-<p>Immediatamente a expedição preparou-se, e favorecida pelo silencio da
-noite partio e internou-se pela floresta; devia afastar-se sem ser
-percebida pelos Aymorés, e procurar pelas vizinhanças fazer uma ampla
-provisão de alimentos.</p>
-
-<p>Durante a primeira hora que succedeu á partida, todos os que ficárão,
-com o ouvido attento escutavão, temendo ouvir a cada momento o estrondo
-de tiros que annunciasse um combate entre os aventureiros e os indios.
-Tudo conservou-se em silencio; e uma esperança, bem que vaga e tenue,
-veio pousar nesses corações quebrados por tantos soffrimentos e tantas
-angustias.</p>
-
-<p>A noite passou-se tranquillamente; nada indicava que a casa estivesse
-cercada por um inimigo tão terrivel como os Aymorés.</p>
-
-<p>D. Antonio admirava-se que os selvagens, depois do ataque da manhã, se
-conservassem tranquillos no seu campo, e não tivessem investido a
-habitação uma só vez. Passou-lhe pelo espirito a idéa de que se
-tivessem retirado com a perda de alguns dos seus principaes guerreiros;
-mas elle conhecia de ha muito o espirito vingativo e tenacidade dessa
-raça para admittir semelhante supposição.</p>
-
-<p>Cecilia recostou-se n'um sofá, e alquebrada de fadiga conseguio
-adormecer apezar das idéas tristes e das inquietações que a
-agitavão. Isabel, com o coração cerrado por um terrivel
-presentimento, lembrava-se de Alvaro, e acompanhava-o de longe na sua
-perigosa expedição, misturando as suas preces com as palavras ardentes
-do seu amor.</p>
-
-<p>Assim passou-se esta noite; a primeira, depois de tres dias, em que a
-familia de D. Antonio de Mariz pôde gozar alguns momentos de socego.</p>
-
-<p>De vez em quando o fidalgo chegando á janella via ao longe, perto do
-rio, brilharem os fogos do campo dos Aymorés, mas uma calma profunda
-reinava em toda aquella planicie. Nem mesmo se ouvia o écho
-enfraquecido de uma dessas cantigas monotonas com que os selvagens
-costumão á noite acompanhar o embalançar de sua rede de palha; apenas
-o sussurrar do vento nas folhas, a queda da agua sobre as pedras, e o
-grito do oitibó.</p>
-
-<p>Contemplando a solidão, o fidalgo insensivelmente voltava a essa
-esperança que ha pouco sorrira, e que o seu espirito tinha repellido
-como uma simples illusão. Tudo com effeito parecia indicar que os
-selvagens havião abandonado o seu campo, deixando nelle apenas os fogos
-que havião servido para esclarecer os seus preparativos de partida.</p>
-
-<p>Para quem conhecia, como D. Antonio, os costumes desses povos barbaros,
-para quem sabia quanto era activa, agitada, ruidosa essa existencia
-nomada, o silencio em que estava sepultada a margem do rio era um signal
-certo de que os Aymorés já alli não estavão.</p>
-
-<p>Comtudo o fidalgo, demasiadamente prudente para se fiar em apparencias,
-recommendára aos seus homens que redobrassem de vigilancia para evitar
-alguma surpreza.</p>
-
-<p>Talvez que aquelle socego e aquella serenidade fossem apenas uma dessas
-calmas sinistras que preludião as grandes tempestades, e durante as
-quaes os elementos parecem concentrar as suas forças para entrarem
-nessa luta espantosa, que tem por campo de batalha o espaço e o
-infinito.</p>
-
-<p>As horas corrêrão silenciosamente; a viuvinha cantou pela primeira
-vez; e a luz branca da alvorada veio empallidecer as sombras da noite.</p>
-
-<p>Pouco a pouco o dia foi rompendo; o arrebol da manhã desenhou-se no
-horizonte, tingindo as nuvens com todas as côres do prisma. O primeiro
-raio do sol, desprendendo-se daquelles vapores tenues e diaphanos,
-deslisou pelo azul do céo, e foi brincar no cabeço dos montes.</p>
-
-<p>O astro assomou, e torrentes de luz inundárão toda a floresta, que
-nadava n'um mar de ouro marchetado de brilhantes que scintillavão em
-cada uma das gotas do orvalho suspensas ás folhas das arvores.</p>
-
-<p>Os habitantes da casa, despertando, admiravão esse espectaculo
-magnifico do nascer do dia, que depois de tantas tribulações e de
-tantas augustias, lhes parecia completamente novo.</p>
-
-<p>Uma noite de quietação e socego os tinha como que restituido á vida;
-nunca esses campos verdes, esse rio puro e limpido, essas arvores
-florescentes, esses horizontes descortinados se havião mostrado a seus
-olhos tão bellos, tão risonhos como agora.</p>
-
-<p>É que o prazer e o soffrimento não passão de um contraste; em luta
-perpetua e continua, elles se acrysolão um no outro, e se depurão;
-não ha homem verdadeiramente feliz senão aquelle que já conheceu a
-desgraça.</p>
-
-<p>Cecilia, com a frescura da manhã, tinha-se expandido como uma flôr do
-campo; suas faces colorirão-se de novo, como se um raio do sol
-beijando-as lhes tivesse imprimido o seu reflexo roseado; os olhos
-brilhárão; e os labios entreabrindo-se para aspirarem o ar puro e
-embalsamado da manhã, arqueárão-se graciosamente quasi sorrindo.</p>
-
-<p>A esperança, esse anjo invisivel, essa doce amiga dos que soffrem,
-tinha vindo pousar no seu coração, e murmurava-lhe ao ouvido palavras
-confusas, cantos mysteriosos, que ella não comprehendia, mas que a
-consolavão e vertião em sua alma um balsamo suave.</p>
-
-<p>Sentia-se em todas as pessoas da casa um quer que seja, uma animação,
-um começo de bem-estar que revelava uma grande transformação operada
-na situação da vespera; era mais do que a esperança, menos do que a
-seguridade.</p>
-
-<p>Só Isabel não partilhava essa impressão geral; como sua prima, ella
-tambem viera contemplar o raiar do dia; mas fôra para interrogar a
-natureza, e perguntar ao sol, á luz, ao céo, se as lugubres imagens
-que tinhão passado e repassado na sua longa vigilia, erão uma
-realidade ou uma visão.</p>
-
-<p>E cousa singular! Esse sol tão brilhante, essa luz esplendida, esse
-céo azul, que aos outros reanimára, e que devia inspirar a Isabel o
-mesmo sentimento, pareceu-lhe ao contrario uma amarga ironia.</p>
-
-<p>Comparou a scena radiante que se apresentava aos seus olhos com o quadro
-que se desenhava em sua alma; emquanto a natureza sorria, o seu
-coração chorava. No meio dessa festa esplendida do nascer do dia, a
-sua dôr, só, isolada, não achava uma sympathia, e repellida pela
-creação voltava a recalcar-se em seu seio. A moça recostou a cabeça
-sobre o hombro de sua prima, e escondeu ahi o rosto para não perturbar
-a doce serenidade que se expandia no semblante de Cecilia.</p>
-
-<p>Entretanto D. Antonio tinha tratado de averiguar se as suas suspeitas da
-vespera erão reaes; certificou-se de que os selvagens havião
-abandonado o campo. Ayres Gomes, acompanhado de mestre Nunes, chegou
-mesmo a sahir da casa, e aproximar-se com todas as cautelas do lugar
-onde na vespera os Aymorés festejavão o sacrificio de Pery.</p>
-
-<p>Tudo estava deserto; não se vião mais no campo os vasos de barro, as
-peças de caça suspensas aos galhos da arvore, e as redes grosseiras
-que indicavão a alta de uma horda selvagem. Não havia já duvida, os
-Aymorés tinhão partido desde a vespera á noite, depois de enterrarem
-os seus mortos.</p>
-
-<p>O escudeiro voltou a dar esta noticia ao fidalgo, que recebeu-a menos
-favoravelmente do que se devia suppôr; ignorava a causa e o fim dessa
-partida repentina, e desconfiava della.</p>
-
-<p>Não ha que admirar nisto; D. Antonio era um homem prudente e avisado; a
-sua experiencia de quarenta annos o tinha tornado suspeitoso; por cousa
-nenhuma queria dar aos seus uma esperança que viesse a frustrar-se.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p4-VII">VII<br />PELEJA</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>Quando a familia de D. Antonio de Mariz gozava dos primeiros momentos de
-tranquillidade que succedião a tantas afflicções, soou um grito na
-escada de pedra.</p>
-
-<p>Cecilia levantou-se estremecendo de alegria e felicidade; tinha
-reconhecido a voz de Pery.</p>
-
-<p>No momento em que ia correr ao encontro de seu amigo, mestre Nunes já
-tinha abaixado uma prancha que servia de ponte levadiça, e Pery chegava
-á porta da sala.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz, sua mulher e sua filha ficárão mudos de espanto e
-terror; Isabel cahio fulminada, como se a vida lhe faltasse de repente.</p>
-
-<p>Pery trazia nos seus hombros o corpo inanimado de Alvaro; e no rosto uma
-expressão de tristeza profunda. Atravessando a sala, depôz sobre o
-sofá o seu fardo precioso, e olhando o rosto livido daquelle que fôra
-seu amigo, enxugou uma lagrima que lhe corria pela face.</p>
-
-<p>Nunhuma das pessoas presentes se animava a quebrar o silencio solemne
-que envolvia aquella scena lugubre; os aventureiros que havião
-acompanhado Pery quando passára no meio delles correndo, pararão na
-porta, tomados de compaixão e respeito por aquella desgraça.</p>
-
-<p>Cecilia nem pôde gozar da alegria de ver Pery salvo; seus olhos apezar
-dos soffrimentos passados, ainda tinhão lagrimas para chorar essa vida
-nobre e leal que a morte acabava de ceifar. Quanto a D. Antonio de
-Mariz, sua dôr era a de um pai que havia perdido um filho, era a dôr
-muda e concentrada que abala as organisações fortes, sem comtudo
-abatê-las.</p>
-
-<p>Depois dessa primeira commoção produzida pela chegada de Pery, o
-fidalgo interrogou o indio e ouvio de sua bocca a narração breve dos
-acontecimentos, cuja peripecia tinha diante dos olhos.</p>
-
-<p>Eis o que havia passado.</p>
-
-<p id="contrav">Partindo na vespera, no momento em que começava a sentir os primeiros
-effeitos do veneno terrivel que tomára, Pery ia cumprir a promessa que
-tinha feito a Cecilia. Ia procurar a vida em um contra-veneno infallivel
-cuja existencia só era conhecida pelos velhos <em>payás</em> da tribu, e
-pelas mulheres que os auxiliavão nas suas preparações medicinaes.</p>
-
-<p id="setta">Sua mãi, quando elle partira para a primeira guerra lhe tinha revelado
-esse segredo que devia salva-lo de uma morte certa no caso de ser ferido
-por alguma setta hervada.</p>
-
-<p>Vendo o desespero de sua senhora, o indio sentio-se com forças de
-resistir ao torpor do envenenamento que começava a ganhar-lhe o corpo,
-e ir ao fundo da floresta procurar essa herva poderosa que devia
-restituir-lhe a saude, o vigor e a existencia.</p>
-
-<p>Comtudo, quando atravessava a matta parecia-lhe ás vezes que já era
-tarde, que não chegaria a tempo: então tinha medo de morrer longe de
-sua senhora, sem poder volver para ella o seu ultimo olhar.
-Arrependia-se quasi de ter partido de casa e não deixar-se ficar aos
-pés de Cecilia até exhalar o seu ultimo suspiro; mas lembrava-se que a
-menina o esperava, lembrava-se que ella ainda precisava de sua vida e
-creava novas forças.</p>
-
-<p>Pery entranhou-se no mais basto e sombrio da floresta, e ahi, na sombra
-e no silencio passou-se entre elle e a natureza uma scena da vida
-selvagem, dessa vida primitiva, cuja imagem nos chegou tão incompleta
-e desfigurada. O dia declinou: veio a tarde, depois a noite, e sob essa
-abobada espessa em que Pery dormia como em um sanctuario, nem um rumor
-revelára o que ahi se passou.</p>
-
-<p>Quando o primeiro reflexo do dia purpureou o horizonte, as folhas se
-abrirão, e Pery exhausto de forças, vacillante, emmagrecido como se
-acabasse de uma longa enfermidade, sahio do seu retiro.</p>
-
-<p>Mal se podia suster, e para caminhar era obrigado a sustentar-se aos
-galhos das arvores que encontrava na sua passagem: assim adiantou-se
-pela floresta, e colheu alguns fructos, que lhe restabelecêrão um
-tanto as forças.</p>
-
-<p>Chegando á beira do rio, Pery já sentia o vigor que voltava, e o calor
-que começava a animar-lhe o corpo en torpecido; atirou-se á agua e
-mergulhou. Quando voltou á margem, era outro homem; uma reacção se
-havia operado; seus membros tinhão adquirido a elasticidade natural; o
-sangue gyrava livremente nas veias.</p>
-
-<p>Então tratou de recuperar as forças que havia perdido, e tudo quanto a
-floresta lhe offerecia de saboroso nutriente servio a esse banquete da
-vida, em que o selvagem festejava a sua victoria sobre a morte e o
-veneno.</p>
-
-<p>O sol tinha raiado havia horas; Pery, acabada a sua refeição,
-caminhava pensativo, quando ouvio uma descarga de armas de fogo, cujo
-estrondo reboou pelo ambito da floresta.</p>
-
-<p>Lançou-se na direcção dos tiros, e a pouca distancia, n'um claro da
-matta, descobrio um espectaculo grandioso.</p>
-
-<p>Alvaro e os seus nove companheiros divididos em duas columnas de cinco
-homens com as costas apoiadas ás costas uns dos outros, estavão
-cercados por mais de cem Aymorés que se precipitavão sobre elles com
-um furor selvagem.</p>
-
-<p>Mas as ondas dessa torrente de barbaros que soltavão bramidos
-espantosos, ião quebrar-se contra essa pequena columna, que não
-parecia de homens, mas de aço; as espadas jogavão com tanta velocidade
-que a tornavão impenetravel; no raio de uma braça o inimigo que se
-adiantava cahia morto.</p>
-
-<p>Havia uma hora que durava esse combate, começado com armas de fogo; mas
-os Aymorés atacarão com tanta furia, que breve tinhão chegado á luta
-corpo a corpo e á arma branca.</p>
-
-<p>No momento em que Pery assomava á margem da clareira, um incidente veio
-modificar a face do combate.</p>
-
-<p>O aventureiro que dava as costas a Alvaro, levado pelo ardor da peleja,
-adiantou-se, alguns passos para ferir um inimigo; os selvagens o
-envolvêrão, deixando a columna interrompida e Alvaro sem defeza.</p>
-
-<p>Entretando o valente cavalheiro continuava a fazer prodigios de valor e
-de coragem; cada volta que descrevia sua espada era um inimigo de menos,
-uma vida que se extinguia a seus pés n'um rio de sangue. Os selvagens
-redobravão de furor contra elle, e cada vez o seu braço agil movia-se
-com mais segurança e mais certeza, fazendo jogar como um raio a lamina
-de aço que mal se via brillar nas suas rapidas evoluções.</p>
-
-<p>Desde porém que os Aymorés virão o moço sem defeza pelas costas, e
-exposto aos seus golpes, concentrárão-se nesse ponto; um delles
-adiantando-se, ergueu com as duas mãos a pesada tagapema e atirou-a ao
-alto da cabeça de Alvaro.</p>
-
-<p>O moço cahio; mas na sua queda a espada descreveu ainda um semi-circulo
-e abateu o inimigo que o tinha ferido á traição; a dôr violenta dera
-a esse ultimo golpe uma força sobrenatural.</p>
-
-<p>Quando os indios ião precipitar-se sobre o cavalheiro, Pery saltou no
-meio delles, e agarrando a espingarda que estava a seus pés fez delia
-uma arma terrivel, uma clava formidavel, cujo poder em breve sentirão
-os Aymorés. Apenas se viu livre do turbilhão dos inimigos o indio
-tomou Alvaro nos seus hombros, e abrindo caminho com a sua arma temivel,
-lançou-se pela floresta e desappareceu.</p>
-
-<p>Alguns o seguirão; mas Pery voltou-se e fê-los arrepender-se de sua
-ousadia; livrando-se do peso que levava, carregou a espingarda com as
-munições que Alvaro trazia e mandou uma bala áquelle que o perseguia
-mais de perto; os outros, que o conhecião pelo combate da vespera,
-retrocedêrão.</p>
-
-<p>A idéa de Pery era salvar Alvaro, não só pela amizade que lhe tinha,
-como por causa de Cecilia, que elle suppunha amar o cavalheiro; vendo
-porém que o corpo continuava inanimado, acreditou que Alvaro estava
-morto. Apezar disto não desistio do seu proposito; morto ou vivo devia
-leva-lo áquelles que o amavão, ou para o restituirem á vida, ou para
-derramarem sobre o seu corpo o pranto da despedida.</p>
-
-<p>Quando Pery acabou a sua narração, o fidalgo commovido chegou-se á
-beira do sofá, e apertando a mão gelada e fria do cavalheiro, disse:</p>
-
-<p>&mdash;Até logo, bravo e valente amigo; até logo! A nossa separação é de
-poucos instantes; breve nos reuniremos na mansão dos justos onde
-deveis estar, e onde espero que Deus me concederá a graça de entrar.</p>
-
-<p>Cecilia deo á memoria do moço as ultimas lagrimas, e ajoelhando aos
-pés do moribundo com sua mãi dirigio ao céo uma prece ardente.</p>
-
-<p>D. Lauriana tinha esgotado todos os recursos dessa medicina domestica
-que no interior das casas substituia a falta dos homens professionaes,
-muito raros naquella epoca, e sobretudo longe das cidades; o moço não
-deo porém o menor signal de vida.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz, que comprehendêra perfeitamente o que devia
-esperar da pretendida retirada dos Aymorés, mandou que os seus homens
-se preparassem para a defeza, não que tivesse a menor esperança, mas
-porque desejava resistir até o ultimo momento.</p>
-
-<p>Pery, depois de ter respondido a todas as perguntas de Cecilia a
-respeito do modo por que se havia salvado do veneno, sahio da sala e
-percorreu a esplanada, observando os arredores. O indio infatigavel
-sempre que se tratava de sua senhora, apenas acabava de uma empreza
-gigantesca, como a que o tinha levado ao campo dos Aymorés, cuidava já
-em combinar outro projecto para salvar Cecilia.</p>
-
-<p>Depois do seu exame estrategico, entrou no quarto que havia abandonado
-na ante-vespera, e no qual encontrou ainda as suas armas, do mesmo modo
-que as tinha deixado.</p>
-
-<p>Lembrou-se do pedido que fizera a Alvaro, da contradicção do destino
-que lhe restituía a vida a elle um homem tres vezes morto, e roubava-a
-ao cavalheiro a quem elle havia deixado são e salvo.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p4-VIII">VIII<br />NOIVA</h3>
-</div>
-
-
-<p>Uma hora depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, Pery,
-recostado á janella do quarto que tinha pertencido á sua senhora,
-olhava com uma grande attenção para uma arvore que se elevava a
-algumas braças de distancia.</p>
-
-<p>Seu olhar parecia estudar as curvas dos galhos retorcidos, medinho-lhe a
-distancia, a altura e o tamanho, como se disso dependesse a solução de
-uma grande difficuldade com que lutava o seu espirito. No momento em que
-estava de todo entregue a esse exame minucioso, o indio sentio uma mão
-timida e delicada tocar-lhe de leve no hombro.</p>
-
-<p>Voltou-se; era Isabel que estava junto delle, e que se havia aproximado
-como uma sombra, sem fazer o menor rumor. Uma pallidez mortal cobria as
-feições da moça, que apenas sahia do seu desmaio; mas o rosto tinha
-uma calma ou antes uma immobilidade que assustava.</p>
-
-<p>Voltando a si, Isabel correu um olhar pelo aposento, como para
-certificar-se de que não era um sonho o que havia passado.</p>
-
-<p>A sala estava deserta; D. Antonio de Mariz tinha sahido para dar as suas
-ordens; sua mulher, ajoelhada no oratorio sobre um montão de ruinas,
-rezava ao pé de uma cruz que ficára junto ao altar. No fundo do
-aposento, sobre o sofá, destacava-se o vulto immovel do cavalheiro, aos
-pés do qual ardia uma vela de cêra, lançando pallidos clarões.</p>
-
-<p>Cecilia é que estava perto della, e apertava no seio a sua cabeça
-desfallecida, procurando reanima-la.</p>
-
-<p>Quando o olhar de Isabel cahio sobre o corpo de seu amante, ella
-ergueu-se como impellida por uma força sobrenatural, atravessou
-rapidamente a sala, e foi por sua vez ajoelhar-se em face desse leito
-mortuario. Mas não era para fazer uma prece que ajoelhava, era para
-embeber-se na contemplação desse rosto livido e gelado, desses labios
-frios, desses olhos extinctos, que ella amava apezar da morte.</p>
-
-<p>Cecilia respeitou a dôr de sua prima, e por um instincto de delicadeza
-que só possuem as mulheres, comprehendeu que o amor, mesmo em face de
-um cadaver, tem o seu pudor e a sua castidade; sahio para deixar que
-Isabel chorasse livremente.</p>
-
-<p>Passado algum tempo depois da sahida de Cecilia, a moça ergueu-se,
-percorreu automaticamente a casa, e vendo Pery de longe aproximou-se
-delle o tocou-lhe no hombro.</p>
-
-<p>O indio e a moça se odiavão desde o primeiro dia em que se tinhão
-visto; em Isabel era o odio de uma raça que a rebaixava a seus proprios
-olhos; em Pery era essa repugnancia natural que sente o homem por
-aquelles em quem reconhece um inimigo.</p>
-
-<p>Por isso Pery, vendo Isabel junto delle, ficou extremamente admirado,
-sobretudo quando reparou no gesto supplicante que a moça lhe dirigia,
-como se esperasse delle uma graça.</p>
-
-<p>&mdash;Pery!...</p>
-
-<p>O indio sentio-se commovido ao aspecto daquelle soffrimento, e pela
-primeira vez na sua vida dirigio a palavra a Isabel.</p>
-
-<p>&mdash;Precisas de Pery? disse elle.</p>
-
-<p>&mdash;Vinha pedir-te um serviço. Não m'o negarás, sim? balbuciou a moça.</p>
-
-<p>&mdash;Falla; se fôr cousa que Pery possa fazer, elle não te negará.</p>
-
-<p>&mdash;Promettes então? exclamou Isabel, cujos olhos brilhárão com uma
-expressão de alegria.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, Pery te promette.</p>
-
-<p>&mdash;Vem!</p>
-
-<p>Dizendo essa palavra, a moça fez um gesto ao indio e dirigio-se
-acompanhada por elle á sala que ainda estava deserta como tinha
-deixado. Parou junto do sofá, e apontando para o corpo inanimado de seu
-amante, acenou a Pery que o tomasse nos seus braços.</p>
-
-<p>O indio obedeceu, e acompanhou Isabel até um gabinete retirado a um
-lado da casa; ahi deitou o seu fardo sobre um leito, cujas cortinas a
-moça entreabrio, corando como uma noiva.</p>
-
-<p>Corava porque o gabinete onde tinha entrado era o quarto em que
-habitára e encontrava ainda povoado de todos os sonhos de seu amor;
-porque o leito, que recebia seu amante, era o seu leito de virgem casta
-e pura; porque ella era realmente uma noiva do tumulo.</p>
-
-<p>Pery, tendo satisfeito o desejo da moça, retirou-se e voltou ao seu
-trabalho, que elle proseguia com uma constancia infatigavel.</p>
-
-<p>Apenas ficou só, Isabel sorrio; mas o seu sorriso tinha um quer que
-seja do extasi da dôr, da voluptuosidade do soffrimento, que faz sorrir
-na sua ultima hora os martyres e os desgraçados.</p>
-
-<p>Tirou do seio a redoma de vidro onde guardava os cabellos de sua mãi e
-fitou nella um olhar ardente; mas abanou a cabeça com um gesto de
-expressão indefinivel. Tinha mudado de resolução; o segredo que
-encerrava essa joia, o pó subtil que empanava a face interior do
-crystal, a morte que sua mãi lhe confiára não a satisfazia; era muito
-rapida, quasi instantanea.</p>
-
-<p>Sahio então furtivamente e acendeu uma vela de cêra, que havia sobre a
-commoda ao lado de um crucifixo de marfim; depois fechou a porta, cerrou
-as janellas e interceptou as frestas por onde a luz do dia podia
-penetrar. O gabinete ficou ás escuras; apenas em torno do cirio que
-ardia, uma aureola pallida se destacava no meio das trevas e illuminava
-a imagem de Christo.</p>
-
-<p>A moça ajoelhou e fez uma oração breve; pedia a Deus uma ultima
-graça; pedia a eternidade e a ventura do seu amor, que tinha passado
-tão rapido pela terra.</p>
-
-<p>Acabando a prece, tomou a luz, deitou-a na cabeceira do leito, afastou o
-cortinado e começou a contemplar o seu amante com enlevo.</p>
-
-<p>Alvaro parecia adormecido apenas; sua bella physionomia não tinha a
-menor alteração; a morte imprimindo nos seus traços o descoramento da
-cêra e do marmore, havia unicamente immobilisado a expressão e feito
-do gentil cavalheiro um bella estatua.</p>
-
-<p>Isabel interrompeu o enlevo de sua contemplação para chegar-se de novo
-á commoda, onde se vião algumas conchas de mariscos tintas de nacar
-que se apanhão nas nossas praias, e uma cesta de palha matizada.</p>
-
-<p>Esta cesta continha todas as resinas aromaticas, todos os perfumes que
-dão as arvores de nossa terra; o anime da aroeira, as perolas do
-beijoim, as lagrimas crystallisadas da embaiba, e gotas do balsamo, esse
-sandalo do Brazil.</p>
-
-<p>A moça deitou na concha a maior parte dos perfumes, e acendeu algumas
-bagas de beijoim; o oleo de que estavão impregnadas, alimentando a
-chamma, communicou-a ás outras resinas.</p>
-
-<p>Frocos de fumo alvadio impregnado de perfumes embriagadores se elevarão
-da caçoula em grossas espiraes, e enchêrão o gabinete de nuvens
-transparentes que oscillavão á luz pallida do cirio.</p>
-
-<p>Isabel, sentada á beira do leito, com as mãos do seu amante nas suas e
-com os olhos embebidos naquella imagem querida, balbuciava phrases
-entrecortadas, confidencias intimas, sons inarticulados, que são a
-linguagem verdadeira do coração.</p>
-
-<p>Ás vezes sonhava que Alvaro ainda vivia, que lhe murmurava ao ouvido a
-confissão do seu amor; e ella fallava-lhe como se seu amante a ouvisse,
-contava-lhe os segredos de sua paixão, vertia toda a sua alma nas
-palavras que cahião dos labios. Sua mão, delicada afastava os cabellos
-do moço, descobria a sua fronte, animava a sua face gelada, e roçava
-aquelles labios frios e mudos como pedindo-lhe um sorriso.</p>
-
-<p>&mdash;Porque não me fallas? murmurava ella docemente: Não conheces tua
-Isabel?... Dize outra vez que me amas! Dize sempre essa palavra, para
-que minha alma não duvide da felicidade! Eu te supplico!...</p>
-
-<p>E com o ouvido attento, com os labios entreabertos, o seio palpitante,
-ella esperava o som dessa voz querida e o echo dessa primeira e ultima
-palavra de seu triste amor.</p>
-
-<p>Mas o silencio só lhe respondia; seu peito aspirava apenas as ondas dos
-perfumes inebriantes, que fazião circular nas suas veias uma chamma
-ardente.</p>
-
-<p>O aposento apresentava então um aspecto fantastico: no fundo escuro
-desenhava-se um circulo esclarecido, envolto por uma nevoa espessa.</p>
-
-<p>Nessa esphera luminosa como no meio de uma visão surgião Alvaro
-deitado no leito e Isabel reclinada sobre o rosto de seu amante, a quem
-continuava a fallar, como se elle a escutasse. A menina começava a
-sentir a respiração faltar-lhe; seu seio oppresso suffocava-a, e
-entretanto uma voluptuosidade inexprimivel a embriagava: um gozo immenso
-havia nessa asphyxia de perfumes que se condensavão e rarefazião o ar.</p>
-
-<p>Louca, perdida, hallucinada, ella ergueu-se, seu seio dilatou-se, e sua
-bocca, entreabrindo-se, collou-se aos labios frios e gelados de seu
-amante; era o seu primeiro e ultimo beijo; o seu beijo de noiva.</p>
-
-<p>Foi uma agonia lenta, um pesadelo horrivel em que a dôr lutava com o
-gozo, em que as sensações tinhão um requinte de prazer e de
-soffrimento ao mesmo tempo; em que a morte, torturando o corpo, vertia
-na alma effluvios celestes.</p>
-
-<p>De repente pareceu a Isabel que os labios de Alvaro se agitavão, que um
-tenue suspiro se exhalava de seu peito, ainda ha pouco insensivel como o
-marmore.</p>
-
-<p>Julgou que se illudia, mais não; Alvaro estava vivo, realmente vivo,
-suas mãos apertavão as della convulsamente; seus olhos, brilhando com
-um fogo estranho, se tinhão fitado no rosto da moça: um sopro reanimou
-seus labios, que exhalárão uma palavra quasi imperceptivel.</p>
-
-<p>&mdash;Isabel!...</p>
-
-<p>A moça soltou um grito debil de alegria, de espanto, de medo; entre as
-idéas confusas que se agitavão na sua cabeça desvairada, lembrou-se
-com horror que era ella quem matava seu amante, quem o ia sacrificar por
-causa de um engano fatal. Fazendo um esforço extraordinario, conseguio
-erguer a cabeça e ia precipitar-se para janella, abri-la e dar entrada
-ao ar livre; sabia que a morte era inevitavel; mas salvaria Alvaro.</p>
-
-<p>No momento, porém, em que se levantava, sentio as mãos do moço que
-apertavão as suas, e a obrigárão a reclinar-se sobre o leito; seus
-olhos encontrárão de novo os olhos de seu amante.</p>
-
-<p>Isabel não tinha mais forças para resistir e realisar seu heroico
-sacrificio; deixou cahir a cabeça desfallecida, e seus labios se
-unirão outra vez n'um longo beijo, em que essas duas almas irmãs,
-confundindo-se n'uma só, voárão ao céo, e forão abrigar-se no seio
-do Creador.</p>
-
-<p>As nuvens de fumaça e de perfume se condensavão cada vez mais e
-envolvião como um lençol aquelle grupo original, impossivel de
-descrever.</p>
-
-<p>Por volta de duas horas da tarde, a porta da gabinete, impellida por um
-choque violento, abrio-se; e um turbilhão de fumo lançou-se por essa
-aberta, e quasi suffocou as pessoas que ahi estavão.</p>
-
-<p>Erão Cecilia e Pery.</p>
-
-<p>A menina, inquieta pela longa ausencia de sua prima, soube de Pery que
-ella estava no seu quarto; mas o indio occultou parte da verdade, e não
-disse onde deitára o corpo de Alvaro.</p>
-
-<p>Duas vezes Cecilia viera até á porta, escutára e nada ouvira; por fim
-resolveu-se a bater, a fallar a Isabel, e não teve a menor resposta.
-Chamou Pery e contou-lhe o que se passava; o indio, tomado de um
-presentimento metteu o hombro á porta e abrio-a.</p>
-
-<p>Quando a corrente de ar expellio a fumaça do aposento, Cecilia pôde
-entrar e ver a scena que descrevêmos.</p>
-
-<p>A menina recuou, e respeitando esse mysterio de um amor profundo, fez um
-gesto a Pery e retirou-se.</p>
-
-<p>O indio fechou de novo a porta e acompanhou sua senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Ella morreu feliz! disse Pery.</p>
-
-<p>Cecilia fitou nelle os seus grandes olhos azues, e córou.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p4-IX">IX<br />O CASTIGO</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>O dia declinava rapidamente e as sombras da noite começavão a
-estender-se sobre o verde-negro da floresta.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz, apoiado ao umbral da porta, junto de sua mulher,
-passava o braço pela cintura de Cecilia. O sol a esconder-se illuminava
-com o seu reflexo esse grupo de familia, digno do quadro magestoso que
-lhe servia de baixo-relevo.</p>
-
-<p>O fidalgo, Cecilia e sua mãi, com os olhos no horizonte, recebião esse
-ultimo raio de despedida, e mandavão o adeus extremo á luz do dia, ás
-montanhas que os cercavão, ás arvores, aos campos, ao rio, á toda a
-natureza.</p>
-
-<p>Para elles esse sol era a imagem de sua vida; o occaso era a sua hora
-derradeira; e as sombras da eternidade se estendião já como as sombras
-da noite.</p>
-
-<p>Os Aymorés tinhão voltado, depois do combate em que os aventureiros
-vendêrão caro a sua vida; e cada vez mais sequiosos de vingança,
-esperavão que anoitecesse para assaltar a casa. Certos desta vez que o
-inimigo extenuado não resistiria a um ataque violento, tinhão tratado
-de destruir todos os meios que podessem favorecer a fuga de um só dos
-brancos.</p>
-
-<p>Isto era facil; além da escada de pedra, o rochedo formava um
-despenhadeiro por todos os lados; e só a arvore, que lançava os galhos
-sobre a cabana de Pery, offerecia um ponto de communicação praticavel
-para quem tivesse a agilidade e a força do indio.</p>
-
-<p>Os selvagens, que não querião que lhes escapasse um só inimigo, e
-ainda menos que esse fosse Pery, abaterão a arvore, e cortárão assim
-a unica passagem por onde um homem poderia sahir do rochedo, no momento
-do ataque.</p>
-
-<p>Ao primeiro golpe do machado de pedra sobre o grosso tronco do oleo,
-Pery estremeceu, e, saltando sobre a sua clavina, ia despedaçar a
-cabeça do selvagem; mas sorrio-se, e encostou tranquillamente a arma á
-parede. Sem inquietar-se com a destruição que fazião os Aymorés,
-continuou no seu trabalho interrompido, e acabou de torcer uma corda com
-os filamentos de uma das palmeiras que servião de esteio á sua cabana.</p>
-
-<p>Elle tinha o seu plano: e para realisa-lo, começára por cortar as duas
-palmeiras e trazê-las para o quarto de Cecilia; depois rachou uma das
-arvores, e durante toda a manhã occupou-se em tercer essa longa corda,
-a que dava uma extraordinaria importancia.</p>
-
-<p>Quando Pery terminava a sua obra, ouvio o baque da arvore que tombava
-sobre o rochedo; chegou-se de novo á janella, e seu rosto exprimio uma
-satisfação immensa. O oleo, cortado pela raiz, deitára-se sobre o
-precipicio, elevando a uma grande altura os seus galhos seculares, mais
-frondosos e mais robustos do que uma arvore nova da floresta.</p>
-
-<p>Os Aymorés, tranquillos por esse lado, continuárão nos seus
-preparativos para o combate que conta vão dar durante as horas mortas
-da noite.</p>
-
-<p>Quando o sol desappareceu no horizonte e a que luz do crepúsculo cedeu
-ás trevas que envolvião a terra, Pery dirigio-se á sala.</p>
-
-<p>Ayres Gomes, sempre infatigavel, guardava a porta do gabinete; D.
-Antonio de Mariz estava recostado na sua cadeira de espaldar; e Cecilia,
-sentada sobre os seus joelhos, recusava beber uma taça que seu pai lhe
-apresentava.</p>
-
-<p>&mdash;Bebe, minha Cecilia, dizia o fidalgo; é um cordial que te fará muito
-bem.</p>
-
-<p>&mdash;De que serve, meu pai? Por uma hora, se tanto nos resta a viver, não
-vale a pena! respondia a menina, sorrindo tristemente.</p>
-
-<p>&mdash;Tu te enganas! Ainda não estamos de todo perdidos.</p>
-
-<p>&mdash;Tendes alguma esperança? perguntou ella incredula.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, tenho uma esperança, e esta não me illudirá! respondeu D.
-Antonio, com um accento profundo.</p>
-
-<p>&mdash;Qual? Dizei-me!</p>
-
-<p>&mdash;És curiosa? replicou o fidalgo sorrindo. Pois só te direi se fizeres
-o que te peço.</p>
-
-<p>&mdash;Quereis que beba essa taça?</p>
-
-<p>&mdash;Sim.</p>
-
-<p>Cecilia tomou a taça das mãos de seu pai, e depois de beber, volveu
-para elle o seu olhar interrogador.</p>
-
-<p>&mdash;A esperança que eu tenho, minha filha, é que nenhum inimigo passará
-nunca do limiar daquella porta; pódes crer na palavra de teu pai e
-dormir tranquilla. Deus vela sobre nós.</p>
-
-<p>Beijando a fronte pura da menina, elle ergueu-se, tomou-a nos seus
-braços, e, recostando-a sobre a poltrona em que estivera sentado, sahio
-do gabinete e foi examinar o que se passava fóra da casa.</p>
-
-<p>Pery, que tinha assistido a esse dialogo entre o pai e a filha, estava
-occupado em procurar no gabinete varios objectos de que tinha
-necessidade apparentemente.</p>
-
-<p>Logo que achou quanto desejava, o indio encaminhou-se para a porta.</p>
-
-<p>&mdash;Onde vais? disse Cecilia, que tinha acompanhado todos os seus
-movimentos.</p>
-
-<p>&mdash;Pery volta, senhora.</p>
-
-<p>&mdash;E porque nos deixas?</p>
-
-<p>&mdash;Porque é preciso.</p>
-
-<p>&mdash;Ao menos volta logo. Não devemos morrer todos juntos, da mesma morte?</p>
-
-<p>O indio estremeceu.</p>
-
-<p>&mdash;Não; Pery morrerá: mas tu has de viver, senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Para que viver, depois de ter perdido todos os seus amigos?...</p>
-
-<p>Cecilia, que lia alguns momentos sentia a cabeça vacillar, os olhos
-cerrarem-se e um somno invencivel apoderar-se della, deixou-se cahir
-sobre o espaldar da cadeira.</p>
-
-<p>&mdash;Não!... Antes morrer como Isabel! murmurou a menina já entorpecida
-pelo somno.</p>
-
-<p>Um meigo sorriso veio adejar nos seus labios entreabertos, por onde se
-escapava a respiração doce, branda e igual.</p>
-
-<p>Pery a principio assustou-se com esse somno repentino que não lhe
-parecia natural e com a pallidez subita de que se cobrirão as feições
-de Cecilia.</p>
-
-<p>Seus olhos cahirão sobre a taça que estava em cima da mesa; deitou nos
-labios algumas gotas do liquido que tinhão ficado no fundo e tomou-lhes
-o sabor: não podia conhecer o que continha; mas satisfez-se em não
-achar o que receiára.</p>
-
-<p>Repellio a idéa que lhe assaltára o espirito, e lembrou-se que D.
-Antonio sorria no momento em que pedia a sua filha para beber, e que a
-sua mão não tremêra apresentando-lhe a taça. Tranquillo a este
-respeito, o indio, que não tinha tempo a perder, ganhou a esplanada,
-correu para o quarto que occupava, e desappareceu.</p>
-
-<p>A noite já estava fechada, e uma escuridão profunda envolvia a casa e
-os arredores. Durante esse tempo nenhum acontecimento extraordinario
-viera modificar a posição desesperada em que se achava a familia; a
-calma sinistra, que precede as grandes tempestades, plainava sobre a
-cabeça d'essas victimas que contavão, não as horas, mas os instantes
-de vida que lhes restavão.</p>
-
-<p>D. Antonio passeava ao longo da sala, com a mesma serenidade dos seus
-dias tranquillos e placidos de outr'ora; de vez em quando o fidalgo
-parava na porta do gabinete, lançava um olhar sobre sua mulher que
-orava e sua filha adormecida; depois continuava o passeio interrompido.</p>
-
-<p>Os aventureiros grupados junto á porta seguião com os olhos o vulto do
-fidalgo que se perdia no fundo escuro da sala, ou se destacava cheio de
-vigor e de colorido na esphera luminosa a que cingia a lampada de prata
-suspensa ao tecto.</p>
-
-<p>Mudos, resignados, nenhum d'esses homens deixava escapar uma queixa, um
-suspiro que fosse; o exemplo de seu chefe reanimava nelles essa coragem
-heroica do soldado que morre por uma causa santa.</p>
-
-<p>Antes de obedecerem á ordem de D. Antonio de Mariz, elles tinhão
-executado a sua sentença proferida contra Loredano; e quem passasse
-então sobre a esplanada veria em torno do poste, em que estava atado o
-frade, uma lingua vermelha que lambia a fogueira, enroscando-se pelos
-toros de lenha.</p>
-
-<p>O italiano sentia já o fogo que se aproximava e a fumaça, que,
-ennovelando-se, envolvia-o n'uma nevoa espessa: é impossivel descrever
-a raiva, a colera e o furor que se apossárão d'elle n'esses momentos
-que precedêrão o supplicio.</p>
-
-<p>Mas voltemos á sala em que se achavão reunidos os principaes
-personagens d'essa historia, e onde se vão passar as scenas talvez mais
-importantes do drama.</p>
-
-<p>A calma profunda que reinava n'essa solidão não tinha sido perturbada;
-tudo estava em silencio; e as trevas espessas da noite não deixavão
-perceber os objectos a alguns passos de distancia.</p>
-
-<p>De repente listras de fogo atravessárão o ar, e se abatêrão sobre o
-edificio; erão as settas inflammadas dos selvagens que annunciavão o
-começo do ataque; durante alguns minutos foi como uma chuva de fogo,
-uma cascata de chammas que cahio sobre a casa.</p>
-
-<p>Os aventureiros estremecêrão; D. Antonio sorrio.</p>
-
-<p>&mdash;É chegado o momento, meus amigos. Temos uma hora de vida;
-preparai-vos para morrer como christãos e portuguezes. Abri as portas
-para que possamos ver o céo.</p>
-
-<p>O fidalgo dizia que lhe restava uma hora de vida, porque, tendo
-destruido o resto da escada de pedra, os selvagens não podião subir ao
-rochedo senão escalando-o; e por maior que fosse a sua habilidade, não
-era possivel que consumissem n'isso menos tempo.</p>
-
-<p>Quando os aventureiros abrirão as portas, um vulto resvalou na sombra,
-e entrou na sala.</p>
-
-<p>Era Pery.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p4-X">X<br />CHRISTÃO</h3>
-</div>
-
-
-<p>O indio dirigio-se rapidamente a D. Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>&mdash;Pery quer salvar a senhora.</p>
-
-<p>O fidalgo abanou a cabeça em signal de duvida.</p>
-
-<p>&mdash;Escuta! replicou o indio.</p>
-
-<p>Aproximando os labios do ouvido de D. Antonio, fallou-lhe por algum
-tempo em voz baixa, e n'um tom rapido e decisivo.</p>
-
-<p>&mdash;Tudo está preparado: parte, desce o rio; quando a lua estender o seu
-arco chegarás á tribu dos Goytacazes. A mãi de Pery te conhece: cem
-guerreiros te acompanharão á grande taba dos brancos.</p>
-
-<p>D. Antonio de Mariz ouvio em profundo silencio as palavras do indio; e
-quando elle terminou, apertou-lhe a mão com reconhecimento.</p>
-
-<p>&mdash;Não, Pery: o que me propões é impossivel. D. Antonio de Mariz não
-pode abandonar a sua casa, a sua familia e os seus amigos no momento do
-perigo, ainda mesmo para salvar aquillo que elle mais ama n'este mundo.
-Um fidalgo portuguez não pode fugir diante do inimigo, qualquer que
-elle seja; morre vingando a sua morte.</p>
-
-<p>Pery fez um gesto de desespero.</p>
-
-<p>&mdash;Assim tu não queres salvar a senhora?</p>
-
-<p>&mdash;Não posso, respondeu o cavalheiro; o meu dever manda que fique, e
-partilhe a sorte de meus companheiros.</p>
-
-<p>O indio no seu fanatismo não comprehendia que houvesse uma razão capaz
-de sacrificar a vida de Cecilia, que para elle era sagrada.</p>
-
-<p>&mdash;Pery pensou que tu amasses a senhora! disse elle fôra de si.</p>
-
-<p>D. Antonio olhou-o com uma expressão de dignidade e nobreza.</p>
-
-<p>&mdash;Perdôo-te a offensa que me fizeste, amigo; porque é ainda uma prova
-de tua grande dedicação. Mas acredita-me; se fosse preciso que eu me
-votasse só ao sacrificio barbaro dos selvagens para salvar minha filha,
-eu o faria sorrindo.</p>
-
-<p>&mdash;E porque recusas o que Pery te pede?</p>
-
-<p>&mdash;Porque?... Porque o que tu pedes não é um sacrificio, é uma
-vergonha; é uma traição. Tu abandonarias tua mulher, teus
-companheiros, para salvar-te do inimigo, Pery?...</p>
-
-<p>O indio abaixou a cabeça com abatimento.</p>
-
-<p>&mdash;Demais, essa empreza demanda forças com que um velho como eu já não
-póde contar. Havia duas pessoas que a poderião realisar.</p>
-
-<p>&mdash;Quem? perguntou Pery com um raio de esperança.</p>
-
-<p>&mdash;Uma era meu filho, que a esta hora esta bem longe d'aqui; a outra
-deixou-nos esta manhã e nos espera; era Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Pery fez pela senhora o que podia; tu não queres salva-la; Pery vai
-morrer a seus pés.</p>
-
-<p>Morrer? disse o fidalgo. Quando tens a liberdade e a vida á tua
-disposição? E julgas que consentirei nisto?... Nunca! Vai, Pery;
-conserva a lembrança de teus amigos; a nossa alma te acompanhará na
-terra. Adeus. Parte: o tempo urge.</p>
-
-<p>O indio ergueu a cabeça com um gesto soberbo de indignação.</p>
-
-<p>&mdash;Pery arriscou bastantes vezes a sua vida por ti, para ter o direito de
-morrer comtigo; tu não pódes abandonar teus companheiros; o escravo
-não póde abandonar sua senhora.</p>
-
-<p>&mdash;És injusto, amigo; exprimi um desejo, não quiz arrogar-te uma
-injuria. Se exiges uma parte do sacrificio, esta te pertence, e tu és
-digno d'ella; fica.</p>
-
-<p>Um grito dos selvagens retroou nos ares.</p>
-
-<p>D. Antonio, fazendo um gesto aos aventureiros, encaminhou-se para o
-gabinete.</p>
-
-<p>Cecilia, adormecida sobre a cadeira de espaldar, sorria como se algum
-sonho alegre a embalasse no seu somno tranquillo; o rosto um pouco
-pallido, moldurado pelas tranças louras de seus cabellos, tinha a
-expressão suave da innocencia feliz.</p>
-
-<p>O fidalgo, contemplando sua filha, sentio uma dôr pungente e quasi
-arrependeu-se de não ter aceitado o offerecimento de Pery, e de não
-tentar ao menos esse ultimo esforço para defender aquella vida que
-apenas começava a expandir-se.</p>
-
-<p>Mas podia elle mentir ao seu passado e faltar ao dever imperioso que o
-obrigava a morrer no seu posto? Podia trahir na sua ultima hora aquelles
-que havião partilhado a sua sorte?</p>
-
-<p>Tal era o sentimento de honra naquelles antigos cavalheiros, que D.
-Antonio nem um momento admittio a idéa de fugir para salvar sua filha;
-se houvesse outro meio, de certo o receberia como um favor do céo; mas
-aquelle era impossivel.</p>
-
-<p>Emquanto o espirito do fidalgo se debatia nessa luta cruel, Pery, de pé
-junto de Cecilia, parecia querer ainda protegê-la contra a morte
-inevitavel que a ameaçava. Dir-se-hia que o indio esperava algum
-soccorro imprevisto, algum milagre que salvasse sua senhora; e que
-aguardava o momento de fazer por ella tudo quanto fosse possivel ao
-homem.</p>
-
-<p>D. Antonio, vendo a resolução que se pintava no rosto do selvagem,
-tornou-se ainda mais pensativo; quando passado esse momento de
-reflexão, ergueu a cabeça, seus olhos brilhavão com un raio de
-esperança.</p>
-
-<p>Atravessou o espaço que o separava de sua filha, e, tomando a mão de
-Pery, disse-lhe com uma voz profunda e solemne:</p>
-
-<p>&mdash;Se tu fosses christão, Pery!...</p>
-
-<p>O indio voltou-se extremamente admirado daquellas palavras.</p>
-
-<p>&mdash;Porque?... perguntou elle.</p>
-
-<p>&mdash;Porque?... disse lentamente o fidalgo. Porque se tu fosses christão,
-eu te confiaria a salvação de minha Cecilia, estou convencido de que a
-levarias ao Rio de Janeiro, á minha irmã.</p>
-
-<p>O rosto do selvagem illuminou-se; seu peito arquejou de felicidade; seus
-labios tremulos mal podião articular o turbilhão de palavras que lhe
-vinhão do intimo d'alma.</p>
-
-<p>&mdash;Pery quer ser christão! exclamou elle.</p>
-
-<p>D. Antonio lançou-lhe um olhar humido de reconhecimento.</p>
-
-<p>&mdash;A nossa religião permitte, disse o fidalgo, que na hora extrema todo
-o homem possa dar o baptismo. Nós estamos com o pé sobre o tumulo.
-Ajoelha, Pery!</p>
-
-<p>O indio cahio aos pés do velho cavalheiro, que impoz-lhe as mãos sobre
-a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Sê christão! Dou-te o meu nome.</p>
-
-<p>Pery beijou a cruz da espada que o fidalgo lhe apresentou, e ergueu-se
-altivo e sobranceiro, prompto a affrontar todos os perigos para salvar
-sua senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Escuso exigir de ti a promessa de respeitares e defenderes minha
-filha. Conheço a tua alma nobre, conheço o teu heroismo e a tua
-sublime dedicação por Cecilia. Mas quero que me faças um outro
-juramento.</p>
-
-<p>&mdash;Qual? Pery está prompto para tudo.</p>
-
-<p>Jura que, se não poderes salvar minha filha, ella não cahirá nas
-mãos do inimigo?</p>
-
-<p>&mdash;Pery te jura que elle levará a senhora a tua irmã; e que se o senhor
-do céo não deixar que Pery cumpra a sua promessa, nenhum inimigo
-tocará em tua filha; ainda que para isso seja preciso queimar uma
-floresta inteira.</p>
-
-<p>&mdash;Bem; estou tranquillo. Ponho minha Cecilia sob tua guarda: e morro
-satisfeito. Podes partir.</p>
-
-<p>&mdash;Manda fechar todas as portas.</p>
-
-<p>Os aventureiros obedecêrão á ordem do fidalgo; todas as portas se
-fechárão; o indio empregava este meio para ganhar tempo.</p>
-
-<p>Os gritos e bramidos dos selvagens, que continuavão com algumas
-interrupções, forão-se aproximando da casa; conhecia-se que
-escalavão o rochedo nesse momento.</p>
-
-<p>Alguns minutos se passárão n'uma anciedade cruel. D. Antonio de Mariz
-depositou um ultimo beijo na fronte de sua filha; D. Lauriana apertou ao
-seio a cabeça adormecida da menina e envolveu-a n'uma manta de seda.</p>
-
-<p>Pery, com o ouvido attento, o olhar fito na porta, esperava.
-Ligeiramente apoiado sobre o espaldar da cadeira ás vezes estremecia de
-impaciencia e batia com o pé sobre o pavimento da sala.</p>
-
-<p>De repente, um grande clamor soou em tomo da casa; as chammas lambêrão
-com as suas linguas de fogo as frestas das portas e janellas: o edificio
-tremeu desde os alicerces com o embate da tromba de selvagens que se
-lançava furiosa no meio do incendio.</p>
-
-<p>Pery, apenas ouvio o primeiro grito, reclinou sobre a cadeira e tomou
-Cecilia nos braços; quando o estrondo soou na porta larga do salão, o
-indio já tinha desapparecido.</p>
-
-<p>Apezar da escuridão profunda que reinava em todo o interior da casa,
-Pery não hesitou um momento; caminhou direita ao quarto onde habitára
-sua senhora e subio á janella.</p>
-
-<p>Uma das palmeiras da cabana estendia-se por cima do precipicio e
-apoiava-se a trinta palmos de distancia sobre um dos galhos da arvore
-que os Aymorés tinhão abatido durante o dia para tirarem aos
-habitantes da casa a menor esperança de fuga.</p>
-
-<p>Pery apertando Cecilia nos braços, firmou o pé sobre essa ponte
-fragil, cuja faça convexa tinha quando muito algumas pollegadas de
-largura.</p>
-
-<p>Quem lançasse os olhos nesse momento para aquella banda da esplanada
-veria ao pallido clarão do incendio deslisar-se lentamente por cima do
-precipicio o vulto hirto, como um dos fantasmas que, segundo a crença
-popular, atravessavão á meia noite as velhas amêas de algum castello
-em ruinas.</p>
-
-<p>A palmeira oscillava, e Pery, embalançando-se sobre o abysmo,
-adiantava-se vagarosamente para a encosta opposta. Os gritos dos
-selvagens repercutião nos ares de envolta com o estrepito dos <em>tacapes</em>
-que abalavão as porta da sala e as paredes do edificio.</p>
-
-<p>Sem se inquetar com a scena tumultuosa que deixava após si, o indio
-ganhou a encosta opposta, e segurando com uma mão nos galho da arvore,
-conseguio tocar a terra sem o menor accidente.</p>
-
-<p>Então, fazendo uma volta para não aproximar-se do campo dos Aymorés,
-dirigio-se á margem do rio; ahi estava escondida entre as folhas a
-pequena canoa que servia outr'ora para os habitantes da casa
-atravessarem o <em>Paquequer</em>.</p>
-
-<p>Durante a ausencia de uma hora que Pery tinha feito, quando deixára
-Cecilia adormecida, elle havia tudo preparado para essa empreza
-arriscada que devia salvar sua senhora.</p>
-
-<p>Graças á sua actividade espantosa, armou com o auxilio da corda a
-ponte pensil sobre o precipicio, correu ao rio, amarrou a canôa no
-lugar que lhe pareceu mais propicio, e em duas viagens levou a esse
-barquinho, que ia servir de morada a Cecilia durante alguns dias, tudo
-quanto a menina podia carecer.</p>
-
-<p>Erão roupas, uma colcha de damasco com que se poderia arranjar um
-leito, alguns alimentos que restavão na casa; lembrou-se até que D.
-Antonio devia ter necessidade de dinheiro logo que chegasse ao Rio de
-Janeiro, porque Pery contava que o fidalgo não duvidaria salvar sua
-filha.</p>
-
-<p>Chegando á beira do rio, o indio deitou sua senhora no fundo da canôa,
-como uma menina no seu berço, envolveu-a na manta de seda para
-abrita-la do orvalho da noite, e tomando o remo, fez a canôa saltar
-como um peixe sobre as aguas.</p>
-
-<p>A algumas braças de distancia, por entre uma aberta da floresta, Pery
-viu sobre o rochedo a casa illuminada pelas chammas do incendio, que
-começava a lavrar com alguma intensidade.</p>
-
-<p>De repente uma scena fantastica, terrivel, passou, diante de seus olhos,
-como uma dessas visões rapidas que brilhão e se apagão de repente no
-delirio da imaginação.</p>
-
-<p>A frente da casa estava ás escuras; o fogo ganhára as outras faces do
-edificio e o vento o lançava para o fundo. Pery do primeiro olhar tinha
-visto os vultos dos Aymorés a se moverem nas sombras; e a figura
-horrivel e medonha de Loredano, erguendo-se como um espectro no meio das
-chammas que o devoravão.</p>
-
-<p>De repente a fachada do edificio tombou sobre a esplanada esmagando na
-sua queda um grande numero de selvagens.</p>
-
-<p>Foi então que o quadro fantastico se desenhou aos olhos de Pery.</p>
-
-<p>A sala era um mar de fogo; os vultos que se movião nessa esphera
-luminosa parecião nadar em vagas de chammas.</p>
-
-<p>No fundo destacava-se o vulto magestoso de D. Antonio de Mariz, de pé
-no meio do gabinete, elevando com a mão esquerda uma imagem de Christo
-e com a direita abaixando a pistola para a cava escura onde dormia o
-volcão.</p>
-
-<p>Sua mulher abraçava os seus joelhos calma e resignada; Ayres Gomes e os
-poucos aventureiros que restavão, immoveis e ajoelhados a seus pés,
-formavão o baixo-relevo dessa estatua digna de um grande cinzel.</p>
-
-<p>Sobre o montão de ruinas formado pela parede que desmoronára,
-desenhavão-se as figuras sinistras dos selvagens, semelhantes a
-espiritos diabolicos dansando nas chammas infernaes.</p>
-
-<p>Tudo isso, Pery viu de um só relance d'olhos; como um painel vivo
-illuminado um momento pelo clarão instantaneo do relampago.</p>
-
-<p>Um estampido horrivel reboou por toda aquella solidão: aterra tremeu,
-as aguas do rio se encapellárão como batidas pelo tufão. As trevas
-envolvêrão o rochedo ha pouco esclarecido pelas chammas, e tudo entrou
-de novo no silencio profundo da noite.</p>
-
-<p>Um soluço partio o peito de Pery, talvez a unica testemunha dessa
-grande catastrophe.</p>
-
-<p>Dominando a sua dôr, o indio vergou sobre o remo, e a canôa voou pela
-face lisa e polida do <em>Paquequer</em>.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p4-XI">XI<br />EPILOGO</h3>
-</div>
-
-
-
-<p>Quando o sol, erguendo-se no horizonte, illuminou os campos um montão
-de ruinas cobria as margens do <em>Paquequer</em>.</p>
-
-<p>Grandes lascas de rochedos, talhadas de um golpe e semeadas pelo campo,
-paredão ter saltado do malho gigantesco de Novos Cyclopes.</p>
-
-<p>A eminencia sobre a qual estava situada a casa tinha desapparecido, e no
-seu lugar via-se apenas uma larga fenda semelhante á cratera de algum
-volcão subterraneo.</p>
-
-<p>As arvores arrancadas dos seus alveolos, a terra revolta, a cinza
-ennegrecida que cobria a floresta, annunciavão que por ahi tinha
-passado algum desses cataclysmas que deixão após si a morte e a
-destruição.</p>
-
-<p>Aqui e alli por entre os comoros das ruinas apparecia alguma india,
-resto da tribu dos Aymorés, que tinha ficado para chorar a morte dos
-seus, e levar ás outras tribus a noticia dessa tremenda vingança.</p>
-
-<p>Quem plainasse nesse momento sobre aquella solidão, e lançasse os
-olhos pelos vastos horizontes que se abrião em torno, se a vista
-podesse devassar a distancia de muitas leguas, veria ao longe, na larga
-esteira do Parahyba, passar rapidamente uma forma vaga e indecisa.</p>
-
-<p>Era a canoa de Pery, que impellida pelo remo e pela viração da manhã
-corria com uma velocidade espantosa semelhando uma sombra a fugir das
-primeiras claridades do dia.</p>
-
-<p>Toda a noite o indio tinha remado sem descansar um momento; não
-ignorava que D. Antonio de Mariz na sua terrivel vingança havia
-exterminado a tribu dos Aymorés, mas desejava apartar-se do theatro da
-catastrophe, e aproximar-se dos seus campos nativos.</p>
-
-<p>Não era o sentimento da patria, sempre tão poderoso no coração do
-homem; não era o desejo de ver sua cabana reclinada á beira do rio, e
-abraçar sua mãi e seus irmãos, que dominava sua alma nesse momento e
-lhe dava esse ardor.</p>
-
-<p>Era sim a idéa de que ia salvar sua senhora e cumprir o juramento que
-tinha feita ao velho fidalgo; era o sentimento de orgulho que se
-apoderava delle, pensando que bastava a sua coragem e a sua força para
-vencer todos os obstaculos, e realisar a missão de que se havia
-encarregado.</p>
-
-<p>Quando o sol, no meio de sua carreira, lançava torrentes de luz sobre
-esse vasto deserto, Pery sentio que era tempo de abrigar Cecilia dos
-raios abrazadores, e fez a canôa abicar á beira do rio na sombra de
-uma ramagem de arvores.</p>
-
-<p>A menina envolta na sua manta de seda com a cabeça apoiada sobre a
-prôa do barquinho dormia ainda o mesmo somno tranquillo da vespera; as
-côres tinhão voltado, e sob a alvura transparente de sua pelle alva
-brilhavão esses tons côr de rosa, esse colorido suave, que só a
-natureza, artista sublime, sabe crear.</p>
-
-<p>Pery tomou a canôa nos seus braços, como se fôra um berço mimoso, e
-deitou-a sobre a relva que cobria a margem do rio; depois sentou-se ao
-lado, e com os olhos fitos em Cecilia, esperou que ella sahisse desse
-somno prolongado que começava a inquieta-lo.</p>
-
-<p>Tremia lembrando-se da dôr que sua senhora ia sentir quando soubesse a
-desgraça de que elle fôra testemunha na vespera; e não se achava com
-forças de responder ao primeiro olhar de surpreza que a menina
-lançaria em torno de si logo que despertasse no meio do deserto.</p>
-
-<p>Emquanto durou o somno, Pery, com o braço apoiado á borda da canôa e
-o corpo reclinado sobre o rosto da menina, esperando com anciedade o
-momento que elle desejava e temia ao mesmo tempo, velava sobre Cecilia
-com um cuidado e uma solicitude admiravel.</p>
-
-<p>A mãi mais extremosa não se desvelaria tanto por seu filho, como esse
-amigo dedicado por sua senhora; uma restea de sol que, enfiando-se pelas
-folhas, vinha brincar no rosto da menina, um passarinho que cantava
-sobre um ramo do arbusto, um insecto que saltava na relva, tudo elle
-afastava para não perturbar o seu repouso.</p>
-
-<p>Cada minuto que passava era uma nova inquietação para elle; porém era
-tambem um instante mais de socego e de tranquillidade que a menina
-gozava, antes de saber a desgraça que pesava sobre ella, e que a
-privára de sua familia.</p>
-
-<p>Um longo suspiro elevou o seio de Cecilia; seus lindos olhos azues se
-abrirão e cerrarão, deslumbrados pela claridade do dia; ella passou a
-mão delicada pelas palpebras rosadas, como para afugentar o somno, e
-seu olhar limpido e suave foi pousar no rosto de Pery. Soltou um
-gritozinho de prazer, e sentando-se com vivacidade, lançou um olhar de
-surpreza e admiração em torno da especie de pavilhão de folhagem que
-a cercava; parecia interrogar as arvores, o rio, o céo; mas tudo
-emmudecia.</p>
-
-<p>Pery não se animava a pronunciar uma palavra, via o que se passava
-n'alma de sua senhora, e não tinha a coragem de dizer a primeira letra
-do enigma que ella não tardaria a comprehender.</p>
-
-<p>Por fim, a menina, baixando a vista para ver onde estava, descobrio a
-canôa, e lançando um volver rapido para o vasto leito do Parahyba que
-se espreguiçava indolentemente pela floresta, ficou branca como a
-cambraia do seu roupão.</p>
-
-<p>Voltou-se para o indio com os olhos extremamente dilatados, os labios
-tremulos, a respiração presa, o seio offegante, e supplicando com as
-mãozinhas juntas:</p>
-
-<p>&mdash;Meu pai!... meu pai!... exclamou soluçando.</p>
-
-<p>O selvagem deixou cahir a cabeça sobre o peito e escondeu o rosto nas
-mãos.</p>
-
-<p>&mdash;Morto!... Minha mãi tambem morta!... Todos mortos!...</p>
-
-<p>Vencida pela dôr, a menina apertou convulsamente o seio que lhe
-estalava com os soluços, e reclinando-se como o calice delicado de uma
-flôr que a noite enchêra de orvalho, desfez-se em lagrimas.</p>
-
-<p>&mdash;Pery só podia salvar a ti, senhora! murmurou o indio tristemente.</p>
-
-<p>Cecilia ergueu a cabeça altiva.</p>
-
-<p>&mdash;Porque não me deixaste morrer com os meus?... exclamou ella n'uma
-exaltação febril. Pedi-te eu que me salvasses? Precisava de teus
-serviços?...</p>
-
-<p>Seu rosto tomou uma expressão de energia extraordinaria.</p>
-
-<p>&mdash;Tu vais me levar ao lugar onde descansa o corpo de meu pai. É ahi que
-deve estar sua filha... Depois partirás!... Não careço de ti.</p>
-
-<p>Pery estremeceu.</p>
-
-<p>&mdash;Escuta, senhora... balbuciou elle em tom submisso.</p>
-
-<p>A menina lançou-lhe um olhar tão imperioso, tão soberano, que o indio
-emmudeceu, e voltando o rosto escondeu as lagrimas que lhe molhavão as
-faces.</p>
-
-<p>Cecilia caminhou até á beira do rio, e com os olhos estendidos pelo
-horizonte, que ella suppunha occultar o lugar em que habitára, ajoelhou
-e fez uma oração longa e ardente.</p>
-
-<p>Quando ergueu-se, estava mais calma: a dôr tinha-se repassado do
-consolo sublime da religião, dessa doçura e suavidade que infiltra no
-coração a esperança de uma vida celeste, que reune aquelles que se
-amárão na terra.</p>
-
-<p>Ella pôde então reflectir sobre o que se tinha passado na vespera; e
-procurou lembrar-se das circumstancias que havião precedido á morte de
-sua familia. Todas as suas recordações, porém, chegavão unicamente
-até o momento em que, já meia adormecida, fallava a Pery, e dizia essa
-palavra ingénua e innocente que lhe escapára do intimo d'alma.</p>
-
-<p>&mdash;Antes morrer como Isabel!</p>
-
-<p>Lembrando-se dessa palavra, córou; e vendo-se só no deserto com Pery,
-sentio uma inquietação vaga e indefinida, um sentimento de temor e de
-receio, cuja causa não sabia explicar.</p>
-
-<p>Seria essa desconfiança subita proveniente da colera que ella sentira,
-porque o indio salvára a sua vida, e a arrancára da desgraça que
-tinha destruido toda a sua familia?</p>
-
-<p>Não; não era essa a causa: ao contrario Cecilia conhecia que fôra
-injusta para com seu amigo que tinha talvez feito impossiveis por ella;
-e a não ser o receio instinctivo que se apoderára involuntariamente de
-sua alma, já o teria chamado para pedir-lhe perdão daquellas palavras
-duras e crueis.</p>
-
-<p>A menina ergueu os olhos timidos e encontrou o olhar triste e supplice
-de Pery: não pôde resistir; esqueceu os seus receios, e um tenue
-sorriso fugio-lhe pelos labios.</p>
-
-<p>&mdash;Pery!...</p>
-
-<p>&mdash;O indio estremeceu, mas desta vez de alegria e de contentamento: veio
-cahir aos pés de sua senhora, que elle encontrava de novo boa como
-sempre tinha sido.</p>
-
-<p>&mdash;Perdoa a Pery, senhora!</p>
-
-<p>&mdash;És tu que me deves perdoar, porque te fiz soffrer; não é verdade?
-Mas bem sabes!... Não podia abandonar meu pobre pai!</p>
-
-<p>&mdash;Foi elle que mandou a Pery que te salvasse! disse o indio.</p>
-
-<p>&mdash;Como?... exclamou a menina. Conta-me, meu amigo.</p>
-
-<p>O indio fez a narração da scena da noite antecedente desde que Cecilia
-tinha adormecido até o momento em que a casa saltára com a explosão,
-restando delia apenas um montão de ruinas.</p>
-
-<p>Contou que elle tinha preparado tudo para que D. Antonio de Mariz
-fugissse, salvando Cecilia; mas que o fidalgo recusára, dizendo que a
-sua lealdade e a sua honra mandavão que morresse no seu posto.</p>
-
-<p>&mdash;Meu nobre pai! murmurou a menina enxugando as lagrimas.</p>
-
-<p>Houve um instante de silencio, depois do qual Pery concluio a sua
-narração, e referio como D. Antonio de Mariz o tinha baptisado, e lhe
-havia confiado a salvação de sua filha.</p>
-
-<p>&mdash;Tu és christão, Pery?... exclamou a menina, cujos olhos brilhárão
-com uma alegria ineffavel.</p>
-
-<p>&mdash;Sim; teu pai disse: «Pery; tu és christão; dou-te o meu nome!»</p>
-
-<p>&mdash;Obrigado, meu Deus, disse a menina juntando as mãos e erguendo os
-olhos ao céo.</p>
-
-<p>Depois, envergonhada desse movimento espontaneo, escondeu o rosto: o
-rubor que cobrio as suas faces tingio de longes côr de rosa as linhas
-puras do collo assetinado.</p>
-
-<p>Pery ergueu-se e foi colher alguns fructos delicados que servirão de
-refeição á sua senhora.</p>
-
-<p>O sol tinha quebrado a sua força, era tempo de continuar a viagem e
-aproveitar a frescura da tarde para vencer a distancia que os separava
-do campo dos Goytacazes.</p>
-
-<p>O indio chegou-se tremulo para a menina:</p>
-
-<p>&mdash;Que queres tu que Pery faça, senhora?</p>
-
-<p>&mdash;Não sei; respondeu Cecilia indecisa.</p>
-
-<p>&mdash;Não queres que Pery te leve á taba dos brancos?</p>
-
-<p>&mdash;É a vontade de meu pai?... Deves cumpri-la.</p>
-
-<p>&mdash;Pery prometteu a D. Antonio levar-te a sua irmã.</p>
-
-<p>O indio fez a canôa boiar sobre as aguas do rio, e quando tomou a
-menina nos seus braços para deita-la no barquinho, ella sentio pela
-primeira vez na sua vida que o coração de Pery palpitava sobre o seu
-seio.</p>
-
-<p>A tarde estava soberba; os raios do sol no occaso, filtrando por entre
-as folhas das arvores, douravão as flôres alvas que crescião pela
-beira do rio.</p>
-
-<p>As rolas começavão a soltar os seus arrulhos no fundo da floresta; e a
-brisa, que passava ainda tepida das exhalações da terra, vinha
-impregnada de aromas silvestres.</p>
-
-<p>A canôa resvalou pela flôr d'agua, como uma garça ligeira levada pela
-correnteza do rio.</p>
-
-<p>Pery remava sentado na prôa.</p>
-
-<p>Cecilia, deitada no fundo, meio apoiada sobre uma alcatifa de folhas que
-Pery tinha arranjado, engolfava-se nos seus pensamentos, e aspirava as
-emanações suaves e perfumadas das plantas, e a frescura do ar e das
-aguas.</p>
-
-<p>Quando seus olhos encontravão os de Pery, os longos cilios descião
-occultando um momento o seu olhar doce e triste.</p>
-
-
-<p>A noite estava serena.</p>
-
-<p>A canôa, vogando sobre as aguas do rio, abria essas flôres de espuma,
-que brilhão um momento á luz das estrellas, e se desfazem como o
-sorriso da mulher.</p>
-
-<p>A brisa tinha escasseado; e a natureza adormecida respirava a calma
-tepida e perfumada das noites americanas, tão cheias de enlevo e
-encanto.</p>
-
-<p>A viagem fora silenciosa; essas duas creaturas abandonadas no meio do
-deserto, sós em face da natureza, emmudecião, como se temessem
-despertar o echo profundo da solidão.</p>
-
-<p>Cecilia repassava na memoria toda a sua vida innocente e tranquilla,
-cujo fio dourado tinha-se rompido de uma maneira tão cruel; mas era
-sobretudo o ultimo anno dessa existencia, desde o dia do apparecimento
-imprevisto de Pery, que se desenhava na sua imaginação.</p>
-
-<p>Porque interrogava ella assim os dias que tinha vivido no remanso da
-felicidade? Porque o seu espirito voltava ao passado, e procurava ligar
-todos esses factos a que na descuidosa ingenuidade dos primeiros annos
-dera tão pouco apreço?</p>
-
-<p>Ella mesma não saberia explicar as emoções que sentia; sua alma
-innocente e ignorante tinha-se illuminado com uma subita revelação:
-novos horizontes se abrião aos sonhos castos de seu pensamento.</p>
-
-<p>Volvendo ao passado admirava-se de sua existencia, como os olhos se
-deslumbrão com a claridadade depois de um somno profundo; não se
-reconhecia na imagem do que fôra outr'ora, na menina isenta e travessa.</p>
-
-<p>Toda a sua vida estava mudada; a desgraça tinha operado essa
-revolução repentina, e um outro sentimento ainda confuso ia talvez
-completar a transformação mysteriosa da mulher.</p>
-
-<p>Em torno della tudo se resentia dessa mudança; as côres tinhão tons
-harmoniosos, o ar perfumes inebriantes, a luz reflexos avelludados, que
-seus sentidos não conhecião.</p>
-
-<p>Uma flôr que antes era para ella apenas uma bella fórma, parecia-lhe
-agora uma creatura que sentia e palpitava; a brisa que outr'ora passava
-como um simples bafejo das auras, murmurava ao seu ouvido nesse momento
-melodias ineffaveis, notas mysticas que resoavão no seu coração.</p>
-
-<p>Pery, julgando sua senhora adormecida, remava docemente para não
-perturbar o seu repouso; a fadiga começava a vencê-lo; apezar de sua
-coragem indomavel e de sua vontade poderosa, as forças estavão
-exhaustas.</p>
-
-<p>Apenas vencedor da luta terrivel que travára com o veneno, tinha
-começado a empreza quasi impossivel da salvação de sua senhora; havia
-tres dias que seus olhos não se cerravão, que seu espirito não
-repousava um instante.</p>
-
-<p>Tudo quanto a natureza permittia á intelligencia e ao poder do homem,
-elle tinha feito; e comtudo não era a fadiga do corpo que o vencia,
-erão sim as emoções violentas por que passára durante esse tempo.</p>
-
-<p>O que elle tinha sentido quando plainava sobre o abysmo, e que a vida de
-sua senhora dependia de um passo falso, de uma oscillação da haste
-fragil que lhe servia de ponte pensil, ninguem comprehenderia.</p>
-
-<p>O que soffreu quando Cecilia no seu desespero pela morte de seu pai o
-accusava por tê-la salvado, e lhe dava ordem de leva-la ao lugar onde
-repousavão as cinzas do velho fidalgo, é impossivel de descrever.</p>
-
-<p>Forão horas de martyrio, de soffrimento horrivel, em que sua alma
-succumbiria, se não achasse na sua vontade inflexivel e na sua
-dedicação sublime um conforto para a dôr, e um estimulo para
-triumphar de todos os obstaculos.</p>
-
-<p>Erão essas emoções que o vencião, e ainda depois de vencidas, elle
-conheceu que seus musculos de aço, escravos submissos que obedecião ao
-seu menor desejo, se destendião como a corda do arco depois do combate.
-Lembrou-se que sua senhora precisava delle e que devia aproveitar esses
-momentos em que ella repousava para pedir ao somno novo vigor e novas
-forças.</p>
-
-<p>Ganhou o meio do rio, e escolhendo um lugar onde não chegava nem um
-galho das arvores que crescião nas ribanceiras, amarrou a canôa nos
-nenuphares que boiavão á tona d'agua.</p>
-
-<p>Tudo estava quieto; a terra ficava a uma distancia de muitas braças;
-portanto podia sua senhora dormir sem perigo sobre esse chão prateado,
-debaixo da abobada azul do céo; as ondinhas a embalarião no seu
-berço, as estrellas vigiarião o seu somno.</p>
-
-<p>Livre de inquietação, Pery encostou a cabeça na borda da canôa; um
-momento depois suas palpebras entorpecidas cerrárão-se a pouco e
-pouco; seu ultimo olhar, esse olhar vago e incerto que adeja na pupilla
-já meio adormecida, viu desenhar-se na sombra uma forma alva e graciosa
-que se reclinava docemente para elle.</p>
-
-<p>Não era um sonho, essa linda visão. Cecilia sentindo a canôa immovel
-despertou das suas recordações; sentou-se, e debruçando-se um pouco
-viu que seu amigo dormia, e accusou-se por não ter ha mais tempo
-exigido delle esse instante de repouso.</p>
-
-<p>O primeiro sentimento que se apoderou da menina, vendo-se só, foi o
-terror solemne e respeitoso que infunde a solidão no meio do deserto,
-nas horas mortas da noite.</p>
-
-<p>O silencio parece fallar; as sombras se povoão de seres invisiveis; os
-objectos, na sua immobilidade, como que oscillão pelo espaço.</p>
-
-<p>E ao mesmo tempo o nada com o seu vacuo profundo, immenso, infinito; e o
-chãos com a sua confusão, as suas trevas, as suas formas increadas; a
-alma sente que falta-lhe a vida ou a luz em torno.</p>
-
-<p>Cecilia recebeu essa impressão com um temor religioso; mas não se
-deixou dominar pelo susto; a desgraça a habituára ao perigo; e a
-confiança que tinha no seu companheiro era tanta, que mesmo dormindo
-parecia-lhe que Pery velava sobre ella.</p>
-
-<p>Contemplando essa cabeça adormecida, a menina admirou-se da belleza
-inculta dos traços, da correcção das linhas do perfil altivo, da
-expressão de força e intelligencia que animava aquelle busto selvagem
-moldado pela natureza.</p>
-
-<p>Como era que até então ella não tinha percebido naquelle aspecto
-senão um rosto amigo? Como seus olhos tinhão passado sem ver sobre
-essas feições talhadas com tanta energia?</p>
-
-<p>Era que a revelação physica que acabava de illuminar o seu olhar, não
-era senão o resultado dessa outra revelação moral que esclarecêra o
-seu espirito; dantes via com os olhos do corpo, agora via com os olhos
-da alma.</p>
-
-<p>Pery, que durante um anno não fôra para ella senão um amigo dedicado,
-apparecia-lhe de repente como um heróe; no seio de sua familia
-estimava-o, no meio dessa solidão admirava-o.</p>
-
-<p>Como os quadros dos grandes pintores que precisão de luz, de um fundo
-brilhante, e de uma moldura simples, para mostrarem a perfeição de seu
-colorido e a pureza de suas linhas, o selvagem precisava do deserto para
-revelar-se em todo o esplendor de sua belleza primitiva.</p>
-
-<p>No meio de homens civilisados, era um indio ignorante, nascido de uma
-raça barbara, a quem a civilisação repellia, e marcava o lugar de
-captivo. Embora para Cecilia e D. Antonio fosse um amigo, era apenas um
-amigo escravo.</p>
-
-<p>Aqui, porém, todas as distincções desapparecião; o filho das mattas,
-voltando ao seio de sua mãi, recobrava a liberdade; era o rei do
-deserto, o senhor das florestas, dominando pelo direito da força e da
-coragem.</p>
-
-<p>As altas montanhas, as nuvens, as catadupas, os grandes rios, as arvores
-seculares, servião de throno, de docel, de manto e sceptro a esse
-monarca das selvas cercado de toda a magestade e de todo o esplendor da
-natureza.</p>
-
-<p>Que effusão de reconhecimento e de admiração não havia no olhar de
-Cecilia! Era nesse momento que ella comprehendia toda a abnegação do
-culto santo e respeitoso que o indio lhe votava!</p>
-
-<p>As horas corrêrâo silenciosamente nessa muda contemplação; a aragem
-fresca que annuncia o despontar do dia bafejou o rosto da menina; e
-pouco depois o primeiro albor da manhã desmaiou o negrume do horizonte.</p>
-
-<p>Sobre o relevo que formava o perfil escuro da floresta, nas sombras da
-noite, luzio limpida e brilhante a estrella d'alva; as aguas do rio
-arfárão docemente; e os leques das palmeiras se agitárão
-rumorejando.</p>
-
-<p>A menina lembrou-se do seu despertar tão placido de outr'ora, de suas
-manhãs tão descuidosas, de sua prece alegre e risonha em que agradecia
-a Deus a ventura que vertia sobre ella e sua familia.</p>
-
-<p>Uma lagrima pendeu nos cilios dourados, e cahio sobre a face de Pery;
-abrindo os olhos, e vendo ainda a mesma doce visão que o adormecêra, o
-indio julgou que o sonho continuava.</p>
-
-<p>Cecilia sorrio-lhe; e passou a mãozinha pelas palpebras ainda meio
-cerradas de seu amigo:</p>
-
-<p>&mdash;Dorme, disse ella, dorme; Cecy vela.</p>
-
-<p>A musica dessas palavras despertou completamente o selvagem.</p>
-
-<p>&mdash;Não! balbuciou elle envergonhado de ter cedido á fadiga. Pery
-sente-se forte.</p>
-
-<p>&mdash;Mas tu deves ter necessidade de repouso! Ha tão pouco tempo que
-adormeceste!</p>
-
-<p>&mdash;O dia vai raiar; Pery deve velar sobre sua senhora.</p>
-
-<p>&mdash;E porque tua senhora não velará tambem sobre ti? Queres tomar tudo;
-e não me deixas nem mesmo a gratidão!</p>
-
-<p>O indio lançou um olhar cheio de admiração á menina:</p>
-
-<p>&mdash;Pery não entende o que tu dizes. A rolinha quando atravessa o campo e
-sente-se fatigada, descansa sobre a aza de seu companheiro que é mais
-forte; é elle que guarda o seu ninho emquanto ella dorme, que vai
-buscar o alimento, que a defende e que a protege. Tu és como a rolinha,
-senhora.</p>
-
-<p>Cecilia córou da comparação ingénua de seu amigo.</p>
-
-<p>&mdash;E tu? perguntou ella confusa e tremula de emoção.</p>
-
-<p>&mdash;Pery... é teu escravo, respondeu o indio naturalmente.</p>
-
-<p>A menina abanou a cabeça com uma inflexão graciosa:</p>
-
-<p>&mdash;A rolinha não tem escravo.</p>
-
-<p>Os olhos de Pery brilhárão, uma exclamação partio de seus labios:</p>
-
-<p>&mdash;Teu...</p>
-
-<p>Cecilia com o seio palpitante, as faces vermelhas, os olhos humidos,
-levou a mãozinha aos labios de Pery, e reteve a palavra que ella mesma
-na sua innocente faceirice tinha provocado.</p>
-
-<p>&mdash;Tu és meu irmão! disse ella com um sorriso divino.</p>
-
-<p>Pery olhou o céo, para fazê-lo confidente de sua felicidade.</p>
-
-<p>A claridade da alvorada estendia-se sobre a floresta e os campos como um
-vêo finissimo; a estrella da manhã scintillava em todo o seu fulgor.</p>
-
-<p>Cecilia ajoelhou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Salve, rainha!...</p>
-
-<p>O indio contemplava-a com uma expressão de ventura ineffavel.</p>
-
-<p>&mdash;Tu és christão, Pery! disse ella lançando-lhe um olhar supplicante.</p>
-
-<p>Seu amigo comprehendeu-a, e ajoelhando, juntou as mãos como ella.</p>
-
-<p>&mdash;Tu repetirás todas as minhas palavras; e faze por não esquecê-las.
-Sim?</p>
-
-<p>&mdash;Ellas vêm de teus labios, senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Senhora, não! irmã!</p>
-
-<p>Dahi a pouco os murmurios das aguas confundião-se com os accentos
-maviosos da voz de Cecilia que recitava o hymno christão repassado de
-tanta uncção e poesia.</p>
-
-<p>A palavra de Pery repetia como um écho a phrase sagrada.</p>
-
-
-<p>Terminada a prece christã, talvez a primeira que tinhão ouvido
-aqnellas arvores seculares, a viagem continuou.</p>
-
-<p>Logo que o sol chegou ao zenith, Pery procurou como na vespera um abrigo
-para passar as horas de calma.</p>
-
-<p>A canôa pojou n'um pequeno seio do rio, Cecilia saltou em terra; e seu
-companheiro escolheu uma sombra onde ella repousasse.</p>
-
-<p>&mdash;Espera aqui; Pery já volta.</p>
-
-<p>&mdash;Onde vais? perguntou a menina inquieta.</p>
-
-<p>&mdash;Ver fructos para ti.</p>
-
-<p>&mdash;Não tenho fome.</p>
-
-<p>&mdash;Tu os guardarás.</p>
-
-<p>&mdash;Pois bem; eu te acompanho.</p>
-
-<p>&mdash;Não; Pery não consente.</p>
-
-<p>&mdash;E porque? Não me queres junto de ti?</p>
-
-<p>&mdash;Olha tuas roupas; olha teus pés, senhora; os espinhos do cardo te
-offenderião.</p>
-
-<p>Com effeito Cecilia estava vestida com um ligeiro roupão de cambraia; e
-seu pézinho que descansava sobre a relva, calçava um borzeguim de
-seda.</p>
-
-<p>&mdash;Então me deixas só? disse a menina entristecendo.</p>
-
-<p>O indio ficou um momento indeciso; mas de repente sua physionomia
-expandio-se.</p>
-
-<p>Cortou a haste de um iris que se balançava ao sopro da aragem, e
-apresentou a flôr á menina.</p>
-
-<p id="guanumby">&mdash;Escuta, disse elle. Os velhos da tribu ouvirão de seus pais, que a
-alma do homem quando sahe do corpo, se esconde n'uma flôr, e fica alli
-até que a <em>ave do céo</em> vem busca-la e leva-la bem longe. É por isso
-que tu vês o <em>guanumby</em>, saltando de flôr em flôr, beijando uma,
-beijando outro; e depois batendo as azas e fugindo.</p>
-
-<p>Cecilia, habituada á linguagem poetica do selvagem esperava a ultima
-palavra que devia fazê-la comprehender o seu pensamento.</p>
-
-<p>O indio continuo:</p>
-
-<p>&mdash;Pery não leva a sua alma no corpo, deixa-a nesta flôr. Tu não ficas
-só.</p>
-
-<p>A menina sorrio, e tomando a flôr escondeu-a no seio.</p>
-
-<p>&mdash;Ella me acompanhará. Vai, meu irmão, e volta logo.</p>
-
-<p>&mdash;Pery não se afastará; se tu o chamares, elle ouvirá.</p>
-
-<p>&mdash;E me responderás, sim?... para que eu te sinta perto de mim...</p>
-
-<p>O indio, antes de partir, circulou a alguma distancia o lugar onde se
-achava Cecilia de uma corda de pequenas fogueiras feitas de louro, de
-canella, uratahy e outras arvores aromaticas.</p>
-
-<p>Desta maneira tornava aquelle retiro impenetravel: o rio de um lado, e
-do outro as chammas que afugentarião os animaes damnihos, e sobretudo
-os reptis, o fumo odorifero que se escapava das fogueiras afastaria até
-mesmo os insectos. Pery não soffreria que uma vespa e uma mosca sequer
-offendesse a cutis de sua senhora, e sugasse uma gota desse sangue
-precioso; por isso tomára todas essas precauções.</p>
-
-<p>Cecilia devia pois ficar tranquilla como se estivesse em um palacio; e
-de facto era um palacio de rainha do deserto esse sombrio cheio de
-frescura a que a relva servia de alcatifa, as folhas de docel, as
-grinaldas em flôres de cortinas, os sabiás de orchestra, as aguas de
-espelho, e os raios do sol de arabescos dourados.</p>
-
-<p>A menina vio de longe o desvelo com que seu amigo tratava de sua
-segurança, e acompanhou-o com o olhar até o momento em que elle
-desappareceu no mais espesso da matta.</p>
-
-<p>Foi então que ella sentio a soledade estender-se em torno e
-envolvê-la; insensivelmente levou a mão ao seio e tirou a flôr que
-Pery lhe tinha dado.</p>
-
-<p>Apezar de sua fé christã, não pôde vencer essa innocente
-superstição do coração: pareceu-lhe, olhando o iris, que já não
-estava só e que a alma de Pery a acompanhava.</p>
-
-<p>Qual é o seio de dezaseis annos que não abriga uma dessas illusões
-encantadoras, nascidas com o fogo dos primeiros raios do amor? Qual é a
-menina que não consulta o oraculo de um malmequer, e não vê n'uma
-borboleta negra a sibylla fatidica que lhe annuncia a perda da mais
-bella esperança?</p>
-
-<p>Como a humanidade na infancia, o coração nos primeiros annos tem
-tambem a sua mythologia; mythologia mais graciosa e mais poetica do que
-as creações da Grecia; o amor é o seu Olympo povoado de deosas ou
-deoses de uma belleza celeste e immortal.</p>
-
-<p>Cecilia amava; a gentil e innocente menina procurava illudir-se a si
-mesma, attribuindo o sentimento que enchia sua alma a uma affeição
-fraternal, e occultando, sob o doce nome de irmão, um outro mais doce
-que titillava nos seus labios, mas que seus labios não ousavão
-pronunciar.</p>
-
-<p>Mesmo só, de vez em quando um pensamento que passava no seu espirito,
-incendia-lhe as faces de rubor, fazia palpitar-lhe o seio e pender
-mollemente a cabeça, como a haste da planta delicada quando o calor do
-sol fecunda a florescencia.</p>
-
-<p>Em que pensava ella, com os olhos fitos no iris, que o seu habito
-bafejava, comas palpebras meio cerradas e o corpo reclinado sobre os
-joelhos?</p>
-
-<p>Pensava no passado que não voltaria; no presente que devia escoar-se
-rapidamente; e no futuro que lhe apparecia vago, incerto e confuso.</p>
-
-<p>Pensava que de todo o seu mundo só lhe restava um irmão de sangue,
-cujo destino ignorava, e um irmão d'alma, em que tinha concentrado
-todas as affeições que perdera.</p>
-
-<p>Um sentimento de tristeza profunda annuviava seu semblante, lembrando-se
-de seu pai, de sua mãi, de Isabel, de Alvaro, de todos que amava e que
-formavão o universo para ella; então o que a consolava era a
-esperança de que os dous unicos corações que lhe restavão não a
-abandonarião nunca.</p>
-
-<p>E isto a fazia feliz; não desejava mais nada; não pedia a Deos mais
-ventura do que a que sentiria vivendo junto de seus amigos e enchendo o
-futuro com as recordações do passado.</p>
-
-<p>A sombra das arvores já beijava as aguas do rio, e Pery ainda não
-tinha voltado; Cecilia assustou-se, e, temendo que não lhe tivesse
-succedido alguma cousa, chamou por elle.</p>
-
-<p>O indio respondeu de longe, e pouco depois appareceu entre as arvores; o
-seu tempo não tinha sido inutilmente empregado, a julgar pelos objectos
-que trazia.</p>
-
-<p>&mdash;Como tardaste!... disse-lhe Cecilia erguendo-se e indo ao seu
-encontro.</p>
-
-<p>&mdash;Tu estavas socegado; Pery aproveitou para não te deixar amanhã.</p>
-
-<p>&mdash;Amanhã só?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, porque depois chegaremos.</p>
-
-<p>&mdash;Aonde? perguntou a menina com vivacidade.</p>
-
-<p>&mdash;Aos campos dos Goytacazes, á cabana de Pery, onde tu mandarás a
-todos os guerreiros da tribu.</p>
-
-<p>&mdash;E depois, como iremos ao Rio de Janeiro?</p>
-
-<p id="igara">&mdash;Não te inquietes; os Goytacazes tem <em>igaras</em> grandes como aquella
-arvore que toca ás nuvens; quando elles atirão o remo, ellas voão
-sobre as aguas como a <em>atyaty</em> de azas brancas. Antes que a lua, que vai
-nascer, tenha desapparecido, Pery te deixará com a irmã de teu pai.</p>
-
-<p>&mdash;Deixará!... exclamou a menina, empallidecendo. Tu queres me
-abandonar?</p>
-
-<p>&mdash;Pery é um selvagem, disse o indio tristemente; não póde viver na
-taba dos brancos.</p>
-
-<p>&mdash;Porque? perguntou a menina com anciedade. Não és tu christão como
-Cecy?</p>
-
-<p>&mdash;Sim; porque era preciso ser christão para te salvar; mas Pery
-morrerá selvagem como Ararê.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! não, disse a menina, eu te ensinarei a conhecer Deus, Nossa
-Senhora, as suas virgens e os seus anginhos. Tu viverás comigo e não
-me deixarás nunca!</p>
-
-<p>&mdash;Vê, senhora: a flor que Pery te deu já murchou porque sahio de sua
-planta; e a flôr estava no teu seio. Pery na taba dos brancos, ainda
-mesmo junto de ti, será como esta flôr; tu terás vergonha de olhar
-para elle.</p>
-
-<p>&mdash;Pery!... exclamou a menina offendida.</p>
-
-<p>&mdash;Tu és boa; mas todas as que têm a tua côr não têm o teu
-coração. Lá, o selvagem seria um escravo dos escravos; e quem nasceu
-o primeiro póde ser teu escravo; mas é senhor dos campos, e mando aos
-mais fortes.</p>
-
-<p>Cecilia, admirando o reflexo de nobre orgulho que brilhava na fronte do
-indio, sentio que não podia combater a sua resolução dictada por um
-sentimento elevado. Reconheceu que havia no fundo de suas palavras uma
-grande verdade, que o seu instincto adivinhava; ella tinha a prova na
-revolução que se operára no seu espirito, vendo Pery no meio do
-deserto, livre, grande, magestoso com um rei.</p>
-
-<p>Qual não seria pois a consequencia dessa outra transição, muito mais
-brusca? N'uma cidade, no meio da civilisação, o que seria um selvagem,
-senão um captivo, tratado por todos com desprezo?</p>
-
-<p>No intimo de sua alma quasi que approvava a resolução de Pery; mas
-não podia afazer-se á idéa de perder seu amigo, seu companheiro, a
-unica affeição que talvez ainda lhe restava no mundo.</p>
-
-<p>Durante esse tempo, o indio preparava a simples refeição que lhes
-offerecia a natureza. Deitou sobre uma folha larga os fructos que tinha
-colhido: erão os aracás, os jambos corados, os ingás de polpa macia,
-os cocos de varias especies.</p>
-
-<p>A outra folha continha favos de uma pequena abelha, que fabricára a sua
-colmeia no tronco de uma cabuiba, de sorte que o mel puro e claro tinha
-perfumes deliciosos: dir-se-hia mel de flôres.</p>
-
-<p>O indio tornou concava uma palma larga e encheu-a com o succo do ananaz,
-cuja fragrancia é como a essencia do sabor: era o vinho que devia
-servir ao banquete frugal.</p>
-
-<p>N'uma segunda palma tambem concava, apanhou a agua crystallina da
-corrente que murmurava a alguns passos; devia servir para Cecilia lavar
-as mãos depois da refeição.</p>
-
-<p>Quando acabou esses preparativos que elle fazia com uma satisfação
-inexprimivel, Pery sentou-se junto da menina, e começou a trabalhar
-n'um arco de que precisava. O arco era sua arma favorita, e sem elle,
-embora possuisse a clavinha e as munições que por precaução deitára
-na canôa para servirem a D. Antonio de Mariz, não tinha tranquillidade
-de espirito e confiança plena na sua agilidade.</p>
-
-<p>Reparando, porém, que sua senhora não tocava nos alimentos, ergueu a
-cabeça e vio o rosto da menina banhado de lagrimas, que cahião em
-perolas sobre os fructos, e os rociavão como gotas de orvalho.</p>
-
-<p>Não era preciso adivinhar, para conhecer a causa dessas lagrimas.</p>
-
-<p>&mdash;Não chores, senhora, disse o indio afflicto; Pery te fallou o que
-sentia; manda, e Pery fará a tua vontade.</p>
-
-<p>Cecilia olhou-o com uma expressão de melancolia que partia a alma.</p>
-
-<p>&mdash;Queres que Pery fique comtigo? Elle ficará; todos serão seus
-inimigos; todos o tratarão mal; desejará defender-te e não poderá;
-quererá servir-te e não o deixarão; mas Pery ficará.</p>
-
-<p>&mdash;Não, respondeu Cecilia; não exijo de ti esse ultimo sacrificio.
-Deves viver onde nasceste, Pery.</p>
-
-<p>&mdash;Mas tu vais ainda chorar!</p>
-
-<p>&mdash;Vê, disse a menina enxugando as lagrimas; estou contente.</p>
-
-<p>&mdash;Agora toma uma fructa.</p>
-
-<p>&mdash;Sim; jantaremos juntos, como jantavas outr'ora no meio das mattas com
-tua irmã.</p>
-
-<p>&mdash;Pery nunca teve irmã.</p>
-
-<p>&mdash;Mas tens agora, respondeu ella sorrindo.</p>
-
-<p>E como uma filha das florestas, uma verdadeira americana, a gentil
-menina fez a sua refeição partilhando-a com seu companheiro, e
-acompanhando-a dos gestos innocentes e faceiros que só ella sabia ter.</p>
-
-<p>Pery admirava-se da mudança brusca que se tinha operado em sua senhora,
-e no fundo do seu coração sentia um aperto, pensando que ella se
-consolára bem depressa com a lembrança da separação.</p>
-
-<p>Mas elle não era egoista, e preferia a alegria de sua senhora a seu
-prazer; porque vivia antes da vida della do que da sua propria.</p>
-
-
-<p>Depois da refeição, Pery voltou ao seu trabalho.</p>
-
-<p>Cecilia, que desde o primeiro dia sentia-se abatida e languida, tinha
-recobrado um pouco de sua vivacidade e gentileza dos bons dias.</p>
-
-<p>O rosto mimoso conservava ainda a sombra melancolica que lhe deixarão
-impressas as scenas tristes de que fora testemunha, e sobretudo a ultima
-desgraça que a tinha privado de seu pai e de sua mãi.</p>
-
-<p>Mas essa mágoa tomava nas suas feições uma expressão angelica, e tal
-mansuetude e suavidade que dava novo encanto á sua belleza ideal.</p>
-
-<p>Deixando seu companheiro distrahido com a sua obra, chegou á beira do
-rio e sentou-se junto de uma moita de uvaias, á qual estava amarrada a
-canôa.</p>
-
-<p>Pery viu-a afastar-se, e, sempre seguindo-a com os olhos, continuou a
-preparar a vergontea que devia servir-lhe de arco, e as cannas
-selvagens, ás quaes o seu braço ia dar o vôo da ave altaneira.</p>
-
-<p>A menina com a face apoiada na mão e os olhos postos na correnteza do
-rio, scimava; ás vezes as palpebras cerravão-se; os labios se
-agitavão imperceptivelmente; nesses momentos parecia que conversava com
-algum espirito invisivel.</p>
-
-<p>Outras vezes, um doce sorriso despontava nos seus labios e desfazia-se
-logo, como se o pensamento que viera pousar ali voltasse a esconder-se
-no fundo do coração, donde se tinha escapado.</p>
-
-<p>Por fim ergueu a fronte com o meneio de rainha, que ás vezes tomava a
-sua cabecinha loura, á qual só faltava o diadema; a physionomia
-mostrou uma expressão de energia, que lembrava o caracter de D. Antonio
-de Mariz.</p>
-
-<p>Tinha tomado uma resolução; uma resolução firme, inabalavel, que ia
-cumprir com a mesma força de vontade e coragem que herdára de seu pai,
-e dormia no fundo de sua alma, para só revelar-se nas occasiões
-extremas.</p>
-
-<p>Levantou os olhos ao céo, e pedio a Deos um perdão para uma falta, e
-ao mesmo tempo uma esperança para uma boa acção que ia praticar; sua
-oração foi breve, mas ardente e cheia de fervor.</p>
-
-<p>Emquanto isso se passava, Pery, vendo que as sombras da terra já se
-deitavão sobre o leito do Parahyba, conheceu que era tempo de partir, e
-preparou-se para continuar a viagem.</p>
-
-<p>No momento em que levantava-se, Cecilia, correu para elle, e collocou-se
-em face, de modo a lhe occultar a vista do rio.</p>
-
-<p>&mdash;Tu sabes? disse ella sorrindo; tenho uma cousa a pedir-te.</p>
-
-<p>Esta só palavra bastava para que Pery não visse mais nada senão os
-olhos e os labios de sua senhora, que ião dizer-lhe o que ella
-desejava.</p>
-
-<p>&mdash;Quero que apanhes muito algodão para mim e me tragas uma pelle
-bonita. Sim?</p>
-
-<p>&mdash;Para que? perguntou o indio admirado.</p>
-
-<p>&mdash;Do algodão fiarei um vestido; da pelle tu cobrirás os meus pés.</p>
-
-<p>Pery, cada vez mais admirado, ouvia sua senhora sem comprehendê-la:</p>
-
-<p>&mdash;Assim, disse a menina sorrindo, tu me deixarás acompanhar-te, os
-espinhos não me farão mal.</p>
-
-<p>O espanto do indio tinha-o tornado immovel, mas de repente soltou um
-grito, e quiz precipitar-se para o rio.</p>
-
-<p>A mãozinha de Cecilia apoiando-se no seu peito, reteve-o.</p>
-
-<p>&mdash;Espera!</p>
-
-<p>&mdash;Olha; respondeu o indio inquieto apontando o rio.</p>
-
-<p>A canôa desprendida do tronco a que estava amarrada resvalava á
-discrição das aguas, e, gyrando sobre si, desapparecia levada pela
-correnteza.</p>
-
-<p>Cecilia depois de olhar se voltou sorrindo:</p>
-
-<p>&mdash;Fui eu que soltei!</p>
-
-<p>&mdash;Tu senhora! Porque?</p>
-
-<p>&mdash;Porque não precisamos mais della.</p>
-
-<p>Fitando então no seu amigo os lindos olhos azues, disse com o tom grave
-e lento que revela um pensamento profundamente reflectido e uma
-resolução inabalavel.</p>
-
-<p>&mdash;Pery não póde viver junto de sua irmã na cidade dos brancos; sua
-irmã fica com elle no deserto, no meio das florestas.</p>
-
-<p>Era essa a idéa que ella ha pouco acariciava no seu espirito, e para a
-qual tinha invoeado a graça divina.</p>
-
-<p>Não foi sem algum esforço que ella conseguio dominar os primeiros
-temores que a assaltárão, quando encarou em face essa existencia longe
-da sociedade, na solidão, no isolamento.</p>
-
-<p>Mas qual era o laço que a prendia ao mundo civilisado? Não era ella
-quasi uma filha desses campos, criada com o seu ar puro e livre, com as
-suas aguas crystallinas?</p>
-
-<p>A cidade lhe apparecia apenas como uma recordação da primeira
-infancia, como um sonho do berço; deixara o Rio de Janeiro aos cinco
-annos, e nunca mais alli voltára.</p>
-
-<p>O campo, esse tinha para ella outras recordações ainda vivas e
-palpitantes; a flor da sua mocidade tinha sido bafejada por essas auras;
-o botão desatára aos raios desse sol esplendido.</p>
-
-<p>Toda a sua vida, todos os seus bellos dias, todos os seus prazeres
-infantis vivião alli, fallavão naquelles échos da solidão, naquelles
-murmurios confusos, naquelle silencio mesmo.</p>
-
-<p>Ella pertencia, pois, mais ao deserto do que á cidade; era mais uma
-virgem brazileira do que uma menina cortezã; seus habitos e seus
-gostos prendião-se mais ás pompas singelas da natureza, do que ás
-festas e ás galas da arte e da civilisação.</p>
-
-<p>Decidio ficar.</p>
-
-<p>A unica felicidade que ainda podia gozar neste mundo, depois da perda de
-sua familia, era viver com os dous entes que a amavão; essa felicidade
-não era possivel; devia escolher entre um delles.</p>
-
-<p>Ahi o seu coração foi impellido pela força invencivel que o
-arrastava; mas depois, envergonhando-se de ter cedido tão depressa,
-procurou desculpar-se a si mesma.</p>
-
-<p>Disse então que entre seus dous irmãos era justo que acompanhasse
-antes aquelle que só vivia para ella, que não tinha um pensamento, um
-cuidado, um desejo que não fosse inspirado por ella.</p>
-
-<p>D. Diogo era um fidalgo, herdeiro do nome de seu pai; tinha um futuro
-diante de si, tinha uma missão a cumprir no mundo; elle escolheria uma
-companheira para suavisar-lhe a existencia.</p>
-
-<p>Pery tinha abandonado tudo por ella; seu passado, seu presente, seu
-futuro, sua ambição, sua vida, sua religião mesmo; tudo era ella, e
-unicamente ella; não havia pois que hesitar.</p>
-
-<p>Depois Cecilia tinha ainda um pensamento que lhe sorria: queria abrir ao
-seu amigo o céo que ella entrevia na sua fé christã; queria dar-lhe
-um lugar perto della na mansão dos justos, aos pés do throno celeste
-do Creador.</p>
-
-<p>É impossivel descrever o que se passou no espirito do selvagem ouvindo
-as palavras de Cecilia: sua intelligencia inculta, mas brilhante, capaz
-de elevar-se aos mais altos pensamentos, não podia comprehender aquella
-idéa; duvidou do que escutava.</p>
-
-<p>&mdash;Cecilia fica no deserto!... balbuciou elle.</p>
-
-<p>&mdash;Sim! respondeu a menina tomando-lhe as mãos; Cecilia fica comtigo e
-não te deixará. Tu és rei destas florestas, destes campos, destas
-montanhas; tua irmã te acompanhará!</p>
-
-<p>&mdash;Sempre?...</p>
-
-<p>&mdash;Sempre!.... Viveremos juntos como hontem, como hoje, como amanhã. Tu
-cuidas?... Eu tambem sou filha desta terra; tambem me criei no seio
-desta natureza. Amo este bello paiz!...</p>
-
-<p>&mdash;Mas, senhora, tu não vês que tuas mãos forão feitas para as flores
-e não para os espinhos; teus pés para brincar e não para andar; teu
-corpo para a sombra e não para o sol e a chuva?</p>
-
-<p>&mdash;Oh! Eu sou forte! exclamou a menina erguendo a cabeça com altivez.
-Junto de ti não tenho medo. Quando eu estiver cansada, tu me levarás
-nos teus braços. A rolinha não se apoia sobre a aza de seu
-companheiro?</p>
-
-<p>Era preciso ver a gentileza e a garridice com que ella dizia todas essas
-phrases graciosas, que borbulhavão dos seus labios! A irradiação do
-seu olhar, a animação do seu rosto e a travessura de seu gesto
-fascinavão.</p>
-
-<p>Pery ficou estatico diante da perspectiva dessa felicidade immensa, com
-a qual nunca sonhara; mas jurou de novo em sua alma que cumpriria a
-promessa feita a D. Antonio.</p>
-
-<p>A tarde descahia; e era preciso tratar de prover aos meios de passar a
-noite em terra, o que seria muito mais perigoso; não para elle a quem
-bastava o galho de uma arvore; mas para Cecilia.</p>
-
-<p>Seguindo pela margem para escolher o lugar mais favoravel, Pery soltou
-uma palavra de surpreza vendo a canôa que se tinha embaraçado numa
-dessas ilhas fluctuantes feitas pelas parasitas do rio que boião sobre
-as aguas.</p>
-
-<p>Era o melhor leito que podia ter a menina no meio do deserto; puxou a
-canôa, alcatifou o fundo com as folhas macias das palmeiras, e, tomando
-Cecilia nos braços, deitou-a no seu berço.</p>
-
-<p>A menina não consentio que Pery remasse; e a canôa deslisou docemente
-pelo leito do rio, apenas impellida pela correnteza.</p>
-
-<p>Cecilia brincava; debruçava-se sobre as aguas para colher uma flôr de
-passavem, para perseguir um peixe que beijava a face lisa das ondas,
-para ter o prazer de molhar as mãos nessa agua crystallina, para rever
-a sua imagem nesse espelho vacillante.</p>
-
-<p>Quando tinha brincado bastante, voltava-se para seu amigo e fallava-lhe
-com o gazeio argentino, mimoso chilrear dos labios travessos de uma
-linda menina, onde as cousas mais ligeiras e mais frivolas revestem
-encantos e graça suprema.</p>
-
-<p>Pery estava distrahido; seu olhar fitava-se no horizonte com uma
-attenção extraordinaria; a inquietação que se desenhava no seu
-semblante era indicio de algum perigo, embora ainda remoto.</p>
-
-<p>Sobre a linha azulada da cordilheira dos Orgãos, que se destacava n'um
-fundo de purpura e rosicler, amontoavão-se grossas nuvens escuras e
-pesadas, que, feridas pelos raios do occaso, lançavão reflexos
-acobreados.</p>
-
-<p>Dahi a pouco a serrania desappareceu envolta nesse manto côr de bronze,
-que se elevava como as columnas e abobadas de stalactites que se
-encontrão nas grutas das nossas montanhas. O azul puro e risonho que
-cobria o resto do firmamento contrastava com a cinta escura, que ia
-ennegrecendo gradualmente á medida que a noite cahia.</p>
-
-<p>Pery voltou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Tu queres ir para terra, senhora?</p>
-
-<p>&mdash;Não; estou tão bem aqui! Não foste tu que me trouxeste?</p>
-
-<p>&mdash;Sim; mas...</p>
-
-<p>&mdash;O que?</p>
-
-<p>&mdash;Nada; pódes dormir sem receio!</p>
-
-<p>Elle tinha-se lembrado que entre dous perigos o melhor era preferir o
-mais remoto; aquelle que ainda estava longe e talvez não viesse.</p>
-
-<p>Por isso resolveu não dizer nada a Cecilia, e conservar-se attento e
-vigilante para salva-la, se o que elle temia se realisasse.</p>
-
-<p>Pery havia lutado com o tigre, os homens, com uma tribu de selvagens,
-com o veneno; e tinha vencido. Era chegada a occasião de lutar com os
-elementos; com a mesma confiança calma e impassivel, esperou prompto a
-aceitar o combate.</p>
-
-<p>Anoiteceu.</p>
-
-<p>O horizonte, sempre negro e fechado, se illuminava ás vezes com um
-lampejo phosphorescente: um tremor surdo parecia correr pelas entranhas
-da terra e fazia ondular a superficie das aguas, como o seio de uma
-vela enfunada pelo vento.</p>
-
-<p>Entretanto, ao redor tudo estava quieto; as estrellas recamavão o azul
-do céo; a viração aninhava-se nas folhas das arvores; os murmurios
-doces da solidão cantavão o hymno da noite.</p>
-
-<p>Cecilia adormeceu no seu berço, murmurando uma prece.</p>
-
-
-<p>Era alta noite; sombras espessas cobrião as margens do Parahyba.</p>
-
-<p>De repente um rumor surdo e abafado, como de um tremor subterraneo,
-propagando-se por aquella solidão, quebrou o silencio profundo do ermo.</p>
-
-<p>Pery estremeceu: ergueu a cabeça e estendeu os olhos pela larga esteira
-do rio, que, enroscando-se como uma serpente monstruosa de escamas
-prateadas, ia perder-se no fundo negro da floresta.</p>
-
-<p>O espelho das aguas, liso e polido como um crystal, reflectia a
-claridade das estrellas, que já desmaiavão com a aproximação do dia;
-tudo estava immovel e quêdo.</p>
-
-<p>O indio curvou-se sobre a borda da canôa, e de novo applicou o ouvido;
-pela superficie do rio rolava um som estrepitoso, semelhante ao
-quebrar-se da catadupa precipitando-se do alto dos rochedos.</p>
-
-<p>Cecilia dormia tranquillamente; sua respiração ligeira resoava com a
-harmonia doce e subtil das folhas da canna quando estremecem ao sopro
-tenue da aragem.</p>
-
-<p>Pery lançou um olhar de desespero para as margens que se destacavão a
-alguma distancia sobre a corrente placida do rio. Quebrou o laço que
-prendia a canôa, e impellio-a para a terra com toda a força do remo,
-que fendeu a agua rapidamente.</p>
-
-<p>Á beira do rio elevava-se uma bella palmeira, cujo alto tronco era
-coroado pela grande cupola verde, formada com os leques de suas folhas
-lindas e graciosas. Os cipós e as parasitas, engrazando-se pelos ramos
-das arvores vizinhas, descião até o chão, formando grinaldas e
-cortinas de folhagem, que se prendião ás hastes da palmeira.</p>
-
-<p>Tocando a margem, Pery saltou em terra, tomou Cecilia meio adormecida
-nos seus braços, e ia entranhar-se pela matta virgem que se elevava
-diante delle.</p>
-
-<p>Nesse momento, o rio arquejou como um gigante estorcendo-se em
-convulsões, e deitou-se de novo no seu leito, soltando um gemido
-profundo e cavernoso.</p>
-
-<p>Ao longe o crystal da corrente achamalotou-se; as aguas frisárão-se; e
-um lençol de espuma estendeu-se sobre essa face lisa e polida,
-semelhante a uma vaga do mar desenrolando-se pela arêa da praia.</p>
-
-<p>Logo todo o leito do rio cobrio-se com esse delgado sendal que se
-desdobrava com uma velocidade espantosa, rumorejando como um manto de
-seda.</p>
-
-<p>Então no fundo da floresta troou um estampido horrivel, que veio
-reboando pelo espaço; dir-se-hia o trovão correndo nas quebradas da
-serrania.</p>
-
-<p>Era tarde!</p>
-
-<p>Não havia tempo para fugir; a agua tinha soltado o seu primeiro
-bramido, e, erguendo o collo, precipitava-se furiosa, invencivel,
-devorando o espaço como algum monstro do deserto.</p>
-
-<p>Pery tomou a resolução prompta que exigia a eminencia do perigo: em
-vez de ganhar a matta, suspendeu-se a um dos cipós, e galgando o cimo
-da palmeira, ahi abrigou-se com Cecilia.</p>
-
-<p>A menina, despertada violentamente e procurando conhecer o que se
-passava, interrogou seu amigo.</p>
-
-<p>&mdash;A agua!... respondeu elle, apontando para o horizonte.</p>
-
-<p>Com effeito, uma montanha branca, phosphorescente, assomou entre as
-arcarias gigantescas formadas pela floresta, e atirou-se sobre o leito
-do rio, mugindo como o oceano quando açouta os rochedos com as suas
-vagas.</p>
-
-<p>A torrente passou, rapida, veloz, vencendo na carreira o tapir das
-selvas ou a ema do deserto; seu dorso enorme se estorcia e enrolava
-pelos troncos diluvianos das grandes arvores, que estremecião com o
-embate herculeo.</p>
-
-<p>Depois, outra montanha, e outra, e outra, se elevarão no fundo da
-floresta; arremessando-se no turbilhão, lutárão corpo a corpo,
-esmagando com o peso tudo que se oppunha á sua passagem.</p>
-
-<p>Dir-se-hia que algum monstro enorme, dessas giboias tremendas quo vivem
-nas profundezas da agua, mordendo a raiz de uma rocha, fazia gyrar a
-cauda immensa, apertando nas suas mil voltas a matta que se estendia
-pelas margens.</p>
-
-<p>Ou que o Parahyba, levantando-se qual novo Briareo no meio do deserto,
-estendia os cem braços titanicos, e apertava ao peito, estrangulando-a
-em uma convulsão horrivel, toda essa floresta secular que nascêra com
-o mundo.</p>
-
-<p>As arvores estalavão; arrancadas do seio da terra ou partidas pelo
-tronco, prostravão-se vencidas sobre o gigante, que, carregando-as ao
-hombro, precipitava-se para o oceano.</p>
-
-<p>O estrondo dessas montanhas d'agua que se quebravão, o estampido da
-torrente, os trôos do embate desses rochedos movediços, que se
-pulverisavão enchendo o espaço de neblina espessa, formavão um
-concerto horrivel, digno do drama magestoso que se representava no
-grande scenario.</p>
-
-<p>As trevas envolvião o quadro, e apenas deixavão ver os reflexos
-prateados da espuma e a muralha negra que cingia esse vasto recinto,
-onde um dos elementos reinava como soberano.</p>
-
-<p>Cecilia, apoiada ao hombro de seu amigo, assistia horrorisada a esse
-espectaculo pavoroso; Pery sentia o seu corpinho estremecer; mas os
-labios da menina não soltárão uma só queixa, um só grito de susto.</p>
-
-<p>Em face desses trances solemnes, desses grandes cataclysmas da natureza,
-a alma humana sente-se tão pequena, anihila-se tanto, que se esquece da
-existencia; o receio é substituido pelo pavor, pelo respeito, pela
-emoção que emmudece e paralysa.</p>
-
-<p>O sol, dissipando as trevas da noite, assomou no oriente; seu aspecto
-magestoso illuminou o deserto; as ondas de sua luz brilhante
-derramárão-se em cascatas sobre um lago immenso, sem horizontes.</p>
-
-<p>Tudo era agua e céo.</p>
-
-<p>A inundação tinha coberto as margens do rio até onde a vista podia
-alcançar; as grandes massas d'agua, que o temporal durante uma noite
-inteira vertêra sobre as cabeceiras dos confluentes do Parahyba,
-descêrão das serranias, e, de torrente em torrente, havião formado
-essa tromba gigantesca que se abatêra sobre a varzea.</p>
-
-<p>A tempestade continuava ainda ao longo de toda a cordilheira, que
-apparecia coberta por um nevoeiro escuro; mas o céo, azul e limpido,
-sorria mirando-se no espelho das aguas.</p>
-
-<p>A inundação crescia sempre; o leito do rio elevava-se gradualmente; as
-arvores pequenas desapparecião; e a folhagem dos soberbos jacarandás
-sobrenadava já como grandes moitas de arbustos.</p>
-
-<p>A cupola da palmeira, em que se achavão Pery e Cecilia, parecia uma
-ilha de verdura banhando-se nas aguas da corrente; as palmas que se
-abrião formavão no centro um berço mimoso, onde os dous amigos,
-estreitando-se, pedião ao céo para ambos uma só morte, pois uma só
-era a sua vida.</p>
-
-<p>Cecilia esperava o seu ultimo momento com a sublime resignação
-evangelica, que só dá a religião de Christo; morria feliz; Pery tinha
-confundido as suas almas na derradeira prece que expirára dos seus
-labios.</p>
-
-<p>&mdash;Podemos morrer, meu amigo! disse ella com uma expressão sublime.</p>
-
-<p>Pery estremeceu; ainda nessa hora suprema seu espirito revoltava-se
-contra aquella idéa, e não podia conceber que a vida de sua senhora
-tivesse de perecer como a de um simples mortal.</p>
-
-<p>&mdash;Não! exclamou elle. Tu não podes morrer.</p>
-
-<p>A menina sorrio docemente.</p>
-
-<p>&mdash;Olha? disse ella com a sua voz maviosa, a agua sobe, sobe...</p>
-
-<p>&mdash;Que importa! Pery vencerá a agua, como venceu a todos os teus
-inimigos.</p>
-
-<p>&mdash;Se fosse um inimigo, tu o vencerias, Pery. Mas é Deos... É o seu
-poder infinito!</p>
-
-<p>&mdash;Tu não sabes? disse o indio como inspirado pelo seu amor ardente, o
-Senhor do céo manda ás vezes áquelles a quem ama um bom pensamento!</p>
-
-<p>E o indio ergueu os olhos com uma expressão ineffavel de
-reconhecimento.</p>
-
-<p>Fallou com um tom solemne:</p>
-
-<p>«Foi longe, bem longe dos tempos de agora. As aguas cahirão, e
-começárão a cobrir toda a terra. Os homens subirão ao alto dos
-montes; um só ficou na varzea com sua esposa.</p>
-
-<p id="taman">«Era Tamandaré; forte entre os fortes; sabia mais que todos. O Senhor
-fallava-lhe de noite; e de dia elle ensinava aos filhos da tribu o que
-aprendia do céo.</p>
-
-<p>«Quando todos subirão aos montes, elle disse:&mdash;Ficai comigo; fazei
-como eu, e deixai que venha a agua.</p>
-
-<p>«Os outros não o escutárão; e forão para o alto; e deixárão elle
-só na varzea com sua companheira, que não o abandonou.</p>
-
-<p>«Tamandaré tomou sua mulher nos braços e subio com ella ao olho da
-palmeira; ahi esperou que a agua viesse e passasse; a palmeira dava
-fructos que os alimentavão.</p>
-
-<p>«A agua veio, subio e cresceu; o sol mergulhou e surgio uma, duas e
-tres vezes. A terra desappareceu; a arvore desappareceu; a montanha
-desappareceu.</p>
-
-<p>«A agua tocou o céo; e o Senhor mandou então que parasse. O sol
-olhando só viu céo e agua, e entre a agua e o céo, a palmeira que
-boiava levando Tamandaré e sua companheira.</p>
-
-<p>«A corrente cavou a terra; cavando a terra, arrancou a palmeira;
-arrancando a palmeira, subio com ella; subió acima do valle, acima da
-arvore, acima da montanha.</p>
-
-<p>«Todos morrêrão. A agua tocou o céo tres sões com tres noites;
-depois baixou: baixou até que descobrio a terra.</p>
-
-<p>«Quando veio o dia, Tamandaré viu que a palmeira estava plantada no
-meio da varzea; e ouvio a avezinha do céo, o guanumby, que batia as
-azas.</p>
-
-<p>«Desceu com a sua companheira, e povoou a terra.»</p>
-
-<p>Pery tinha fallado com o tom inspirado que dão as crenças profundas;
-com o enthusiasmo das almas ricas de poesia e sentimento.</p>
-
-<p>Cecilia o ouvia sorrindo, e bebia uma a uma as suas palavras como se
-fossem as particulas do ar que respirava; parecia-lhe que a alma de seu
-amigo, essa alma nobre e bella, se desprendia do seu corpo em cada uma
-das phrases solemnes, e vinha embeber-se no seu coração, que se abria
-para recebê-la.</p>
-
-<p>A agua subindo molhou as pontas das largas folhas da palmeira, e uma
-gota, resvalando pelo leque, foi embeber-se na alva cambraia das roupas
-de Cecilia.</p>
-
-<p>A menina, por um movimento instinctivo de terror, conchegou-se ao seu
-amigo; e nesse momento supremo, em que a inundação abria fauce enorme
-para traga-los, murmurou docemente:</p>
-
-<p>&mdash;Meu Deus!... Pery!...</p>
-
-<p>Então passou-se sobre esse vasto deserto d'agua e céo uma scena
-estupenda, heroica, sobrehumana; um espectaculo grandioso, uma sublime
-loucura.</p>
-
-<p>Pery hallucinado suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavão pelos
-ramos das arvores já cobertas d'agua, e com esforço desesperado
-cingindo o tronco da palmeira nos seus braços hirtos, abalou-o até ás
-raizes.</p>
-
-<p>Tres vezes os seus musculos de aço, estorcendo-se, inclinárão a haste
-robusta; e tres vezes o seu corpo vergou, cedendo á retracção
-violenta da arvore, que voltava ao lugar que a natureza lhe havia
-marcado.</p>
-
-<p>Luta terrivel, espantosa, louca, esvairada, luta da vida contra a
-materia; luta do homem contra a terra; luta da força contra a
-immobilidade.</p>
-
-<p>Houve um momento de repouso em que o homem, concentrando todo o seu
-poder, estorceu-se de novo contra a arvore; o impeto foi terrivel; e
-pareceu que o corpo ia despedaçar-se nessa distensão horrivel.</p>
-
-<p>Ambos, arvore e homem, embalançáráo-se no seio das aguas: a haste
-oscillou; as raizes desprendêrão-se da terra já minada profundamente
-pela torrente.</p>
-
-<p>A cupola da palmeira, embalançando-se graciosamente, resvalou pela
-flôr d'agua como um ninho de garças ou alguma ilha fluctuante, formada
-pelas vegetações aquaticas.</p>
-
-<p>Pery estava de novo sentado junto de sua senhora quasi inanimada; e,
-tomando-a nos braços, disse-lhe com um accento de ventura suprema:</p>
-
-<p>&mdash;Tu viverás!</p>
-
-<p>Cecilia abrio os olhos, e vendo seu amigo junto della, ouvindo ainda
-suas palavras, sentio o enlevo que deve ser o gozo da vida eterna.</p>
-
-<p>&mdash;Sim?... murmurou ella; viveremos!... lá no céo, no seio de Deos,
-junto daquelles que amamos!...</p>
-
-<p>O anjo espanejava-se para remontarão berço.</p>
-
-<p>&mdash;Sobre aquelle azul que tu vês, continuou ella, Deos mora no seu
-throno, rodeado dos que o adorão. Nós iremos lá, Pery! Tu viverás
-com tua irmã, sempre!..</p>
-
-<p>Ella embebeu os olhos nos olhos do seu amigo, e languida reclinou a
-loura fronte.</p>
-
-<p>O halito ardente de Pery bafejou-lhe a face.</p>
-
-<p>Fez-se no semblante da virgem um ninho de castos rubores e limpidos
-sorrisos: os labios abrirão como as azas purpureas de um beijo soltando
-o vôo.</p>
-
-<p>A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia...</p>
-
-<p>E sumio-se no horizonte.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="FIM_DA_QUARTA_E_ULTIMA_PARTE"><span class="small">FIM DA QUARTA E ULTIMA PARTE.</span></h2>
-</div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="NOTAS">NOTAS<br />DO TOMO SEGUNDO</h2>
-</div>
-
-
-<p>PAG. 7.&mdash;<b><a href="#crispim">Crispim Tenreiro</a></b>.</p>
-
-<p>Foi um dos fundadores do Rio de Janeiro; era casado com D. Isabel Mariz,
-irmã de D. Antonio.</p>
-
-
-<p>PAG. 153.&mdash;<b><a href="#mussu">Mussurana</a></b>.</p>
-
-<p>«Os contrarios que os Tupinambás captivão na guerra ou de outra
-maneira, mettem-nos em prisões, as quaes são cordas de algodão grossas,
-que para isso tem muito louçãs, a que chamão mussuranas.»&mdash;G.S.
-de SOUZA, <em>Roteiro do Brazil</em>.</p>
-
-
-<p>PAG. 155.&mdash;<b><a href="#tumulo">Esposa do tumulo</a></b>.</p>
-
-<p>«Dão a cada um prisioneiro por mulher a mais formosa moça que ha na
-sua casa; a qual moça tem o cuidado de o servir e dar-lhe o necessario
-para comer e beber.»&mdash;G. SOARES DE SOUZA, <em>Roteiro do Brazil</em>, <em>cap</em>.
-71.</p>
-
-
-<p>PAG. 156.&mdash;<b><a href="#cardo">Cardo</a></b>.</p>
-
-<p>Fructo da urumbeba e de outras palmas de espinhos de que ha differentes
-especies; é vermelho na casca, de polpa branca e sementes pretas.</p>
-
-
-<p>PAG. 158.&mdash;<b><a href="#corrixo">Corrixo</a></b>.</p>
-
-<p>Corrixo é um passarinho que tem o dom de arremedar a todos os outros.</p>
-
-<p class="p0">
-<span style="margin-left: 2.5em;">«Temos o passaro que entôa</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Por mil differentes modos,</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Porque elle remeda a todos,</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Seu proprio nome é corrixo.»</span><br />
-
-<span style="margin-left: 9em;">J. J. LISBOA, <em>Desc. curiosa</em>.</span></p>
-
-
-<p>PAG. 159.&mdash;<b><a href="#livre">És livre</a></b>.</p>
-
-<p>«Mas tambem ha algumas que tomárão tamanho amor aos captivos que as
-tomárão por mulher, que lhes derão muito geito para se acolherem e
-fugirem das prisões que elle cortão com alguma ferramenta que ellas
-ás escondidas lhes derão, etc.»&mdash;G. SOARES DE SOUZA, <em>Roteiro do
-Brazil</em>, <em>cap</em>. 171.</p>
-
-
-<p>PAG. 173.&mdash;<b><a href="#sacrif">Sacrificio</a></b>.</p>
-
-<p>Os costumes dos Aymorés não erão inteiramente conhecidos, por causa
-do afastamento em que sempre viverão dos colonos. Em algumas cousas
-porém assemelhavão-se á raça tupy; e é por isso que na descripção
-do sacrificio aproveitámos o que dizem Simão de Vasconcellos e
-Lamartinière a respeito dos Tupinambás e outras tribus mais ferozes.</p>
-
-
-<p>PAG. 201.&mdash;<b><a href="#veneno">Veneno</a></b>.</p>
-
-<p>Os indigenas fabricavão diversos venenos, e a sua perfeição foi
-objecto de admiração para os colonisadores. Humboldt, á vista dos
-seus conhecimentos toxicologicos, concluio que devia ter havido na
-America antigamente uma grande civilisação, e que delia havião os
-selvagens herdado esses usos. Os principaes desses venenos erão o
-<em>bororé</em> e o <em>uirari</em>.</p>
-
-
-<p>PAG. 202.&mdash;<b><a href="#curare">Curarê</a></b>.</p>
-
-<p>«Le bororé, dont le révérend père Grumilha a donné la description
-dans son <em>Orenoco illustrado</em>, parait être exactement le même dont
-l'abbé Gilly parle dans son <em>Histoire de l'Amérique</em>, et qu'on
-désigne aujourd'hui par le nom de <em>curarê</em>. Suivant M. Humboldt, c'est
-un strichnos, et il ne faut pas le confondre avec le tucunas, composé
-toxique dont parle M. de la Condamine dans la relation de son voyage aux
-Amazones.»&mdash;D<sup>r</sup> SIGAUD, <em>Du climat et des maladies du Brésil</em>.</p>
-
-
-<p>PAG. 203.&mdash;<b><a href="#horas">Em algumas horas</a></b>.</p>
-
-<p>Sobre a violencia do <em>curarê</em> diz ainda o D<sup>r</sup> Sigaud o seguinte:</p>
-
-<p>«En 1830, le président C. J. de Nyemer apporta du Pará à Rio de
-Janeiro une petite portion de <em>curarê</em> qu'on fit prendre à petites
-doses à divers animaux, qui tous ont succombé en peu d'heures dans des
-convulsions violentes. Le docteur Lacerda, qui a longtemps pratique au
-Pará et au Maranhão, a fait, dit-on, d'importantes recherches sur les
-poisons indiens encore inédites; le <em>curarê</em> est, de son aveu, un
-poison violent, causant d'abord un état tétanique, ensuite une torpeur
-générale qui précède la mort.»</p>
-
-
-<p>PAG. 229.&mdash;<b><a href="#contrav">Contraveneno</a></b>.</p>
-
-<p>Segundo Humboldt, o assucar é um contraveneno do <em>curarê</em>. Os indios
-porém conhecião naturalmente outros muito mais efficazes, e que hoje
-ignorão-se, do mesmo modo que o da cascavel.</p>
-
-
-<p>PAG. 229.&mdash;<b><a href="#setta">Setta hervada</a></b>.</p>
-
-<p>O curarê tambem servia aos indios para hervarem as settas, e nesse caso
-tinha uma preparação especial. Vid. GUMILHA, <em>Orenoco illustrado</em>.</p>
-
-
-<p>PAG. 292.&mdash;<b><a href="#guanumby">Guanumby</a></b>.</p>
-
-<p>Segundo uma tradição dos indios, o colibri, que conhecião pelo nome
-de <em>guanumby</em>, levava e trazia as almas do outro mundo.</p>
-
-
-<p>PAG. 296.&mdash;<b><a href="#igara">Igara</a></b>.</p>
-
-<p>Significa em guarany <em>canôa</em>; <em>atyaty</em> é o nome que davão á gaivota.</p>
-
-
-<p>PAG. 321.&mdash;<b><a href="#taman">Tamandaré</a></b>.</p>
-
-<p>É o nome do Noé indigena. A tradição rezava que na occasião do
-diluvio elle escapara no olho de uma palmeira, e depois povoára a
-terra. É a lenda que conta Pery.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="FIM_DAS_NOTAS_DO_TOMO_SEGUNDO"><span class="small">FIM DAS NOTAS DO TOMO SEGUNDO.</span></h2>
-</div>
-
-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O GUARANY:</span> ***</div>
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-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you &#8216;AS-IS&#8217;, WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
-</div>
-
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-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
-damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
-violates the law of the state applicable to this agreement, the
-agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
-limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
-</div>
-
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-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
-providing copies of Project Gutenberg&#8482; electronic works in
-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
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-or any Project Gutenberg&#8482; work, (b) alteration, modification, or
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-Defect you cause.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg&#8482;&#8217;s
-goals and ensuring that the Project Gutenberg&#8482; collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg&#8482; and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state&#8217;s laws.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
-public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state
-visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This website includes information about Project Gutenberg&#8482;,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-</div>
-
-</div>
-</div>
-</body>
-</html>
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