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-The Project Gutenberg eBook of A Primavera, by Antonio Feliciano de
-Castilho
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
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-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
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-using this eBook.
-
-Title: A Primavera
-
-Author: Antonio Feliciano de Castilho
-
-Release Date: April 07, 2021 [eBook #65021]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the Online
- Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This
- book was produced from scanned images of public domain
- material from the Google Books project.)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRIMAVERA ***
-
-
-
-
-
-OBRAS
-
-DE
-
-Antonio Feliciano de Castilho
-
-
-_Constando-me ter havido quem reimprimisse em França, sem licença minha,
-dois volumes de minhas Obras, e sendo isto sobre iniquidade, manifesto
-roubo, declaro que perseguirei em juizo com acção de furto, em quanto a
-nossa Lei sobre imprensa não estabelecer outra propria para taes casos,
-a quem quer que, sem minha expressa licença, reimprimir esta ou outra
-qualquer Obra minha, ou impressas fóra as introduzir e vender neste
-reino._
-
- _A. F. de Castilho._
-
-
-
-
- A PRIMAVERA
-
- POR
-
- _Antonio Feliciano de Castilho_,
-
- _Bacharel Formado em Direito, Socio da Academia
- das Sciencias de Lisboa, da Sociedade
- Juridica e da dos Amigos das Letras da
- mesma Cidade, da Sociedade Literaria Portuense,
- do Instituto Historico de Paris, da
- Academia Real das Sciencias e Bellas Letras
- de Roão._
-
- _Mais correcta, emendada, e copiosissimamente accrescentada._
-
- Lisboa.
- NA TYPOGRAFIA DE A.I.S DE BULHÕES.
- _Rua do Soccorro de Cima N.º 39. 1.º andar._
- 1837.
-
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-
- _Stet quicumque volet potens_
- _Aulœ culmine lubrico:_
- _Me dulcis saturet quies;_
- _Obscuro positus loco_
- _Leni perfruar otio;_
- _Nullis nota Quiritibus_
- _Ætas per tacitum flua_
- _Sic cum transierint mei_
- _Nullo cum strepitu dies,_
- _Plebeius moriar senex._
- _Illi mors gravis incubat,_
- _Qui notus nimis omnibus,_
- _Ignotus moritur sibi._
-
- _Sen. Thyest. Act. 11._
-
-
-
-
-ANTE-PROLOGO.
-
-
-Bem será para alguns motivo de maravilha, e de riso para muitos, a
-declaração por onde me agrada começar este Ante Prologo; e he, que o
-estou principiando, e querendo Deos o levarei ao cabo, antes de conhecer
-a Obra para que vai feito. Quatorze annos, e não poucos d’elles bem
-estirados, são hoje discorridos depois de impressa, e por tanto segundo
-meu costume aposentada e esquecida, a minha _Primavera_. N’estes quatorze
-annos, começados a contar aos vinte e dois da minha vida, não só se
-encerrou, e desvaneceo aquella melhor, mais florída e derramada parte
-d’ella, que tanto discrimina, e afasta o periodo seguinte do anterior,
-senão que ahi se desatou tão desfeito temporal de successos estranhos,
-de terrores e calamidades publicas; tantas certezas saírão vãs,
-realisarão-se tantos impossiveis; por tal arte se transtornou e renovou
-ora em bem ora em mal a face do nosso Portugal; tão fracas e tenues
-reliquias de um passado, que ainda nós os moços alcançámos, subsistem
-já agora quer nas pessoas, quer nas cousas e costumes, e emfim por tudo
-isto nos petreficámos, e envelhecemos em tanta maneira, que por mim digo,
-n’estes quatorze annos me parece ter a Fortuna desbaratado cabedal de
-seculos, e o Tempo uma larga idade do mundo. Tantos e taes annos que da
-minha Obra me separão, não custará muito a crer ma tenhão tornado ao cabo
-tão alhea, como se d’ella só mui por longe me houvera susurrado uma leve
-noticia. Esta idea confusa, mas suave e suavissima como apagado retrato
-de antigos amores, como lua de estio contemplada em fundo de ermo, ou
-como vista de remotas velas ao coração do que alem-mar definha desterrado
-entre asperezas, esta idea toda mansa, toda rosada, toda primavera, mais
-temo perdê-la do que todas as minhas outras illusões, se por ventura já
-hoje alguma tenho. Talvez receie, e se receio talvez me não falte rasão,
-que ao reler estes Poemettos, nem ache n’elles as côres que os longes
-me figuravão, nem os gostos com que os hia não compondo, mas para assim
-dizer colhendo e enramalhetando pelas varzeas e valles do Mondego: tanta
-foi a metamorphose que de mim fizerão os livros, as couzas, e a idade!
-Como que tenho uma dolorosa certeza de que me acontecerá com isto o que
-ja me succedeo visitando, depois de espaçosissima ausencia, as cazas
-onde a minha primeira infancia fôra brincada, amada e perdida: tudo
-achei mesquinho, solitario e quasi mudo, tudo me dizia muita saudade
-e nenhum prazer; cada pedra tinha sua historia, mas todas me clamavão
-outros tantos desenganos. Grande differença esta entre as nossas
-proprias antigalhas e as do mundo! as do mundo pelo seu mesmo misterio
-nos deleitão, são a primeira pagina de um romanse para a imaginação;
-as nossas pela sua certeza nos contristão, e são a pagina ultima de uma
-historia que assaz nos corria formosissima.
-
-Apraz-me por tanto boiar ainda por algumas horas ao de cima d’estas
-fantasias, e antes de se me apagarem, se já he que isso tem de ser,
-alegrar com o seu reflexo estas paginas, que mal poderáõ ser muitas:
-sempre he cedo para lançar pelas janellas fóra os brinquedos de nossa
-puericia; e mal haja quem o faz sem que todo o coração se lhe aperte
-dentro no peito.
-
-Por isto que digo, entenderáõ meus leitores o porque, exhausta logo
-no primeiro anno a primeira impressão da _Primavera_, tantos se tem
-devolvido sem que jamais me deliberasse a reimprimi-la. Pelos fins de
-todos os invernos e começos da melhor estação, me era ella de todos
-meus livreiros requerida; por mais de uma vez me senti abalado, mas a
-lembrança do meu desencantamento me era sempre esquiva, e repugnava-me,
-como uma certa simonia, o arriscar-me a por alguns cruzados malbaratar
-uma dilicia do sanctuario de meu animo. N’esta parte não me entenderáõ
-todos, mas os meus intimos confirmarião com juramento o que digo.
-Agora porem que até a minha pobre bibliotheca já se ahi vai rareando
-e desfazendo vendida, e me importa pôr entre mim e a terra do meu
-nascimento muita outra terra de permeio, e Deos sabe para quanto tempo,
-obedeço aos desejos de muitos dos que ainda lem, ao conselho dos amigos,
-e á lei da necessidade. Reverei para a impressão, e perderei para mim
-este livro de saudades, livro que só fechado eu poderia ler como me
-convinha. E por quanto, depois de sua leitura talvez me desamparasse
-a vontade de aventurar algumas reflexões sobre este genero de poemas,
-fa-las-hei antes, e já aqui; deixando para o Prologo as que ácerca da
-Obra me forem por ella mesma suggeridas.
-
-A Poesia campesina, ou segundo vulgarmente lhe dão nome, pastoril, com
-ser de todas a mais antiga, nunca em nenhuma parte se perdeo, dado em
-muitas decaisse não raro do seu credito e lustre; e segundo todas as
-mostras, deitará ainda até ao fim das idades literarias. Sempre moça
-como a terra sua mãi, mansa como os arroios seus irmãos, formosa como
-as flores que lhe guarnecem o chapeo de palha, livre e leve como os
-zefiros pela assomada dos montes, alegre, namorada e innocente como as
-aves na madrugada do anno, he de ver qual se vai sozinha e vivissima por
-entre tantas couzas mais fortes que morrem; com o seu cajado de pastora,
-segura entre tantos inimigos; girando todo o orbe, e por todo elle bem
-vinda; vingando e vencendo todos os seculos; dando a alguns d’elles de
-mais amoravel indole a sua propria fórma; e relevando-lhe, ainda os mais
-ferozes e guerreiros, que lhes ella misture com a sua frauta do serão os
-himnos da guerra, lhes entreteça maliciosa violetas com os louros, e os
-campos que elles a ferro e fogo devastarão os repovoe ella de imaginadas
-verdura, flores e felicidade.
-
-Hum curioso reparo poderáõ ter feito os que os fazem no ler poetas, e
-he, que apenas haverá algum dos chamados Epicos, para quem o campo e sua
-vivenda não fosse deleitoso assumpto. Compraz-se Homero de travar com
-as façanhas dos heroes toques e pinturas do viver natural e primitivo;
-Virgilio, que ja primeiro que se abalançasse ás armas e guerras tinha
-cantado os pastores, e doutrinado os lavradores, particularmente se
-recreia quando no meio das batalhas pode a uns e outros mandar algumas
-saudades; nos dois Orlandos e em todos os livros de cavallaria, vai igual
-mistura; o mesmo na Jerusalem, cujo autor havia escrito o Amintas: e
-d’entre os nossos, para por todos citar um, mas um que por todos valha,
-Camoẽs, não só afamou os Portuguezes sujeitadores de elementos e homens,
-mas todo se deleita em conversar os pegureiros e campos da nossa graciosa
-Lusitania, terra cujos filhos, se me não engano, são por indole dotados
-destes dois extremos, de brandura e de valor, de amor ao obscuro rusticar
-e ao glorioso correr de aventuras e perigos: por onde entendo que para
-muito mais do que são os fizera Deos, assim como fizera para muito mais
-do que he o grandioso torrãozinho que habitão.
-
-Disse engenho subtil, e bons juizos crêrão, que o desejo, ancia e
-esperança de bem que todos temos innatamente, era claro argumento de
-uma vida futura, ja que nesta se nos não deparava contentamento: assim
-tambem dissera eu, que este natural e universal gosto á poesia amena he
-um indicio de que, se jamais o homem foi homem e ditoso, la nos campos
-o foi; que as plantas d’onde nos brotão sustento e recreação, exhalão
-secretamente amor para os seus vizinhos, e que pelos saudosos valles
-das idades patriarchaes, em quanto os bosques não caírão para em sua
-vez se levantarem as muralhas, as bençãos do ceo orvalhavão muito mais
-amiude. Alguma couza farão para aqui palavras do meu Florian, que porque
-d’elle são as verterei de muito boa mente—“Oh se nós podessemos ler em
-seu original texto os bons autores d’essa Allemanha, enlevar-nos-hia a
-tanta singeleza, a tanta doçura por onde de todas as outras se estremão
-suas obras! Em conhecer a natureza, e especialmente a natureza campezina,
-levão-nos elles uma infinita vantagem: amão-na mais deveras, retratão-na
-com tintas mais fieis. Todos nossos poemas pastoris nada tem que ver com
-as meras traducções de Gessner. Ninguem jamais fecha a Morte de Abel,
-os Idyllios ou Daphnis, sem ja se sentir mais soffrido, mais terno,
-mais mavioso, e porque tudo diga, mais virtuoso que antes da lição.
-Não respira senão moral pura e facil, e virtude d’aquella que logo
-vem trazendo bemaventuranças. Fosse eu parocho de aldea, que sempre á
-estação da missa havia de ler e reler Gessner aos meus fregueses: e por
-certissimo tenho que todos meus aldeões se farião probos, todas minhas
-parochianas castas, e ninguem me havia de ao sermão adormecer.”—
-
-Isto dizia de Gessner Florian, digno de o louvar pelo mui bem que o sabia
-comprehender e seguir. Isto não escrevia eu nem o dizia, mas amplamente
-o sentia n’esse bom tempo que ja la vai. Gessner não era para mim um
-nome, senão um individuo presente, um suavissimo contubernal; nem ja
-suas obras me erão livros, mas realidade, vida e mundo.—Sei que se
-não leva a bem o muito fallar um individuo de si proprio, mormente em
-publico, e mormente ainda quando esse individuo he tão mesquinho sujeito
-como eu: mas de que outra couza posso eu escrever? dos outros? não os
-conheço; erudito, não o sou; descubrimentos não os fiz, nem ja agora os
-farei: fólgo de espraiar conversa com os meus patricios, na falta de
-melhor assunto, fallo-lhes de mim e de meus gostos.—O mais selecto de
-todos elles era pois Gessner, no qual e na escolha de Poesias Allemãs
-por Huber, andou por alguns annos cifrada toda minha leitura, porque
-de quantos autores patrios meus conhecidos havião escrito e poetado de
-couzas rusticas, nenhum havia que ou por sobejidão de engenho e argucia,
-ou por mal cabida escuridade, ou pelo trivial do pensamento e dicção, ou
-pelo desageitado do metro, ou pelo urbano artificio do que lhes parecia
-singeleza, ou emfim por um não sei que de mais ou de menos, lhe não
-lançasse lodo e arêa no jardim que bem ao meio da alma me havia sido por
-Gessner plantado.[1] Muito aproveitei em tão boa escola: como poeta não,
-que bem o sabem meus leitores; como homem sim, que disso tive mui cabal e
-experimentada certeza. Minhas nativas propensões beneficas se arraigarão;
-minha interior aspereza, que todos de si a tem, se amolleceo; sentia-me
-palpitar no peito um coração da idade de ouro; esvoaçava-me na cabeça
-uma alma inteira de Arcade; compunha todo o meu economico futuro de uma
-choupana, um pomarinho, e pombas mui brancas e cordeiros mui nedios; em
-summa, se Florian fosse meu parocho, propor-mehia nas suas homilias como
-um santo da sua bemaventurança. Assim, e por esse tempo, foi a minha
-_Primavera_ improvisada, e como ella as _Flores_ e as _Quatro Partes do
-Dia_, Poemas que brevemente sairáõ estampados, e inteirão com o presente
-volume o fragil monumentinho dos annos, em que fui tal, qual desejava
-permanecer toda a vida.
-
-Passe ainda adeante a sinceridade: com vergonha não só minha, mas do
-tempo em que vivo, confesso que d’essa ingenua bondade, pela qual eu
-mesmo a mim me comprazia, o de mais (como espirito que era subtilissimo)
-se evaporou; parte se azedou no vaso com as más sementes de odio que
-de fóra lhe lançavão; o resto se recozeo e estragou ao fogo das civis
-dissensões: procuro-me e não me acho, ou se me acho não me amo. Ainda a
-minha antiga choupana, os cordeiros nedios e as pombas alvissimas se me
-fazem lembrados por uma noite de estio, mas riem menos, e não me acenão
-senão fracamente. Tanto vi e vejo de alhêas maldades, tanto tem procurado
-os entes mais abjetos e vis amargurar-me, que nem quasi na virtude
-acredito, nem na possibilidade de ser feliz: e este estado, se não he
-de todos o mais antipoetico, se na escola romantica pode até lograr os
-foros do _bello ideal_ e ultimo sublime, pelo menos he o mais avêsso á
-filosofia e mansidão Gessnerica. Oh quando poderáõ os dois monstros, em
-cujas garras inexpertamente caí, quando poderáõ Politica e Romantismo
-dar-me um longe, uma sombra dos interiores commodos que me lá ficarão com
-a poesia natural e singela? E igual pergunta dolorosa poderia fazer o
-mundo, a ter um coração e uma voz. Ja quanto á Politica me calo, que esse
-voto fiz eu; mas quando será que o Romantismo exclusivo e tiranno qual
-se presenta, se gabe de perfumar entendimentos para o amor, de reclinar
-o amor como filho nos braços da virtude, e de transformar o templo da
-virtude em caza do contentamento? Quando será que outro homem, da laia e
-costumes dos nossos velhos, possa dizer na sinceridade da sua alma:—“Se
-eu fosse parocho, leria Byron ou Schiller á estação da missa, para tornar
-castas e probas as minhas ovelhas”? Mas todas estas reflexões de nado
-valem: a torrente vai funda e rapida, ninguem, e muito menos eu lhe poria
-dique. E até (que tão pouco dou pela minha filosofia) talvez que tudo o
-que por ahi vai, que certamente: parece bem triste e bem máo, seja bem
-necessario ao concerto e melhoria do mundo. Não digo eu o que as couzas
-são, sim o que se me ellas figurão: não as sentencêo sem appellação; na
-minha primeira instancia as julgo, e o que moralmente me parecem isso
-assento com afoita liberdade. Perde ou ganha a humana especie em cada
-vez mais se apartar por obra, por palavra, e por pensamento, do rural e
-simples theor de seu primitivo ser? por minha experiencia affirmaria que
-perde, mas os sabios que o decidão, e a mim seja-me licito pôr duvidas.
-
-Não me intrometterei com o que vai por outros reinos; esse uso de
-qualquer contrabandista literario de nunca chegar ás couzas patrias sem
-primeiro haver tocado nas de França e Inglaterra, não me quadra a mim,
-que ao menos tenho a sufficiente consciencia e pejo para não citar o que
-mal conheço: em Portugal me limito. Somos nós mais felizes ou melhores
-que nossos avós? Certo que não; e tanto, que se esses bons e honrados
-velhos podessem ter adivinhado quaes seriamos nós, nós herdeiros de
-seus nomes, escarnecedores de seus exemplos, e deshonradores de seus
-castos e amigaveis costumes; nós que ao seu velho fallar e escrever de
-_deveres_, substituimos o nosso novo fallar e escrever de _direitos_, e
-á moda de ter palavra, a moda de ter palavras, ter-se-hião horrorisado
-como de abominação, do pensamento de gerar. Acordai do sepulchro um
-d’esses anciãos, que depois de pagar inteira a divida a pai e mãi,
-viveo todo para a mulher, matou-se pelos filhos, guardou a palavra como
-religião, a religião como necessidade, e cada paschoa de flores, bem
-com Deos, contentissimo comsigo, se ufanava de sentar ao melhor lugar
-de sua mesa o parocho, e todos os seus vizinhos de envolta com seus
-filhos. Mostrai-lhe todos os nossos progressos, que em sós algumas
-vantagens materiaes e corporaes se resumem: alardeai-lhe o que esperamos,
-mas não lhe escondaes o que destruimos: lede-lhe a primeira pagina do
-primeiro Jornal que topardes d’esse mesmo dia, raza de impudencia,
-empapada com fel, estillando lagrimas, revendo sangue, suando calumnias
-e desavergonhamentos, respirando e soprando odios de nação contra nação,
-de cidade contra cidade, de familia contra familia, de irmão contra
-irmão, de povos contra reis, de reis contra povos, e dos homens contra
-a Providencia. Supponde que Deos lhe offerece renovação da vida, e
-offerecei-lhe vós todas as blazonadissimas excellencias do nosso viver
-e do nosso esperar: repellir-vos-ha com aquelle braço que antigamente
-defendia e não apunhalava a Patria; tapará com o resto da mortalha o
-rosto que só depois de cadaver córa pela primeira vez; e cerrando rijo os
-olhos contra a luz, e deixando-se recair pezadamente, de vós não pedirá
-mais do que um favor, o de lhe restituirdes a sua lagea.[2]
-
-Emquanto assim vai o presente avesso do preterito pelo que toca á moral
-e á felicidade, fallo da verdadeira felicidade, d’aquella em que a
-moral entra como elemento, e não da fizica e corporal, da de fazenda
-e honras, como hoje se entende; vejamos a que ponto subirão com o
-_movimento_ e _progresso_ as nossas letras. Entrai as typografias, e
-dizei-me porque assim amotinão com o seu noturno e diurno lavor a
-vizinhança? perguntei-lhes porque assim gemem e se afadigão? em quaes
-livros nos estão preparando mananciaes de doutrina, ou de costumes, ou
-de suave, honesto e ja tão precizo desenfadamento? Dissereis que nossos
-laboriosos maiores as deixarão esfalfadas com os copiosos frutos de
-suas lucubrações: o mais com que se atrevem, são ridiculos farrapos de
-bestiaes torpezas. Seguem-se os mezes aos mezes e os annos aos annos,
-sem outras literarias novidades. Terra he que ja deo optimas searas e
-vinhas abundosas; agora descultivada e baldia, e á lei da natureza bruta,
-desata toda sua força e substancia em cardos, em ortigas, em venenos
-e serpentes. Quantos livros, e quantos bons livros, que nós outros
-nem conhecemos nem ja valemos a sopesar, saíão dos nossos prelos, nos
-tempos em que a probidade, e a mansidão, e a concordia tinhão seu preço.
-Um só reinado, e ainda bem chegado a nós, e de rei que por bom se não
-cita, com tanta copia de literarios monumentos nos deixou avergadas as
-bibliothecas, que dez centos de annos como o presente não produziráõ
-a decima parte. São os nossos typógrafos de hoje, se com aquelles os
-comparamos, como os nossos cutileiros de punhaes, comparados com os bons
-armeiros que forjavão espadas como as de nossos heroes de boa data, que
-só com sua pezada presença nos maravilhão, a nós, que por nossa verbosa
-sabedoria, acabaremos de desbaratar tantas e tão longes terras, como nos
-ellas ganharão esgremindo-se.
-
-Tal vai pois o estado literario como o social; e nem menos podia ser,
-porque estas duas couzas, como alma e corpo, se pertencem inseparaveis:
-Mão de Deos que ao corpo politico quizesse restituir a saude, por ahi
-lhe fortaleceria não menos o espirito; Sopro de Deos que ao espirito
-restituisse a luz, por ahi lhe ordenaria e vigoraria todos os movimentos.
-Por tanto, conhecendo e confessando que nem facil he nem possivel torcer
-a carreira desenfreada que o nosso mundo leva não sei para onde, todavia
-para mim tenho, se na cabeça está isto, se no coração, não o direi, mas
-tenho para mim, que mui bem fará, e muito amado será dos rectos juizos
-quem nos fizer volver olhos de saudade para a vida que ja se viveo, o
-que ainda um ou outro, aqui ou acolá poderá inteira, ou quando mais
-não fôr, em partes, em amostras reviver. E pois será isto uma illusão
-minha? Se o geral da gente vai por entre dores para uma couza que se
-chama perfeição, não pode um individuo em particular deixar-se ficar
-atraz, despir essas suadas armas de milicia conquistadora, e recolher-se,
-honrado desertor, lá onde viva seguro com Deos, comsigo, com poucos
-vizinhos, logrando-se da natureza, e desfrutando em variados prazeres
-todos as estações; prezentes que Deos enviou para todos os homens, mas
-de que os das cidades só pela folhinha tem noticia! Por quão feliz se
-não devêra dar o escritor desambicioso, se aos puros sons de sua lira
-afinada nos bosques, lograsse, não como Anfião fundar e povoar cidades,
-não como Orfeo arrancar as feras dos arvoredos e domestica-las; mas
-arrancar d’entre feras humanas homens inda não corrutos, e assenta-los,
-para sempre feriados do reboliço dos grandes povos, no divino remanso de
-uma campestre solidão! De mui leves cousas e tenuissimos momentos pende
-ás vezes o destino de toda uma vida: assim como de um encontro fortuito
-resulta uma affeição amorosa, que logo produz um consorcio e um sisthema
-completo de existir, assim de uma palavra em uma conversa casual, da
-substancia de uma pagina lida em certa hora, do aspéto de um painel,
-podem nascer, e mil vezes terão nascido, determinações, vocação, e fados
-de individuos. E para vir a um exemplo recente e meu, aquelle bom livro
-das _Prisões_ de Silvio Péllico (todo imbuido, releve-se-me a expressão,
-de uma christã e filosofica filosofia, que a maior parte das assim
-chamadas nem uma nem outra couza tem) aquelle bom livro, ja principiou e
-talvez acabará de me curar o animo: não lhe restituirá a muita harmonia
-com que o de Gessner mo temperára, porque a mocidade das illusões passa
-e não volta; mas deixar-mo-ha provavelmente assaz alto e forte, que
-ainda no meio das maiores tempestades repouze e abençoe tudo. E não he
-isto maravilha, que a alguns outros que o lerão ja eu ouvi iguaes, senão
-maiores encarecimentos de sua medicinal virtude.[3]
-
-Este desvio, por onde me agora deixava ir, levar-me-hia longe, que assim
-he accomodado a meus gostos; mas porque he desvio o largo, e retomo o
-caminho que hia seguindo. A poesia amavel, a que nas mãos e seio nos
-vinha offerecendo ramalhetes, e frutos no regaço, e amores nos olhos,
-e nas fallas consolações, afastou-se d’entre nós, onde ainda a alguns
-poderia aproveitar, e assim como outras muitas boas artes e prendas, foi
-reclinar-se á espera na beira da torrente dos dias, d’onde não volverá,
-sem que primeiro se restaurem muitas optimas couzas e todas suas, que
-o mundo velho tinha produzido. Mas d’onde viráõ estas couzas? Do mesmo
-mundo velho? mal o creio, que o novo quebrou a ponte que os juntava,
-e rio de ufania vendo abismar-se fábrica que assim parecia eterna.
-Renasceráõ por tanto da propria natureza da terra, da indole da alma
-humana que ja uma vez as produzio, ou do sopro do ceo: renasceráõ tarde;
-renasceráõ quando nós ja não formos; renasceráõ, talvez diversas, mas
-renasceráõ. E quaes são estas couzas do mundo passado, cuja perda tanto
-dóe ás Musas e á Virtude? são as formosuras e magnificencias da religião,
-o respeito aos finados e a seus sepulchros, ás lições da experiencia, ás
-obras dos antigos homens, a veneração ás cãs, o quasi culto ás mulheres,
-a benevolencia e sociabilidade, o aferro aos usos e modas patrias, o
-amor do estudo, que nós dissipámos com as leituras efemeras, e o amor do
-torrão natal, nobre fecundissimo sentimento, mas impossivel onde se vive
-sem muita brandura e sem firme certeza de permanecer. Tudo isto se perdeo
-para nós, e não sei que bens haja em seu lugar posto a _Filosofia_. A que
-verdadeiramente o he, ainda que esse nome se não dê, a que realmente faz
-homens livres e felizes, não he Furia que destrua tão venerandos objetos;
-ama-os, defende-os, reforma-os quando o tempo os viciou, concerta-os que
-se amparem mutuamente, pede-lhes frutos, e com seus frutos se fortalece.
-
-Quando de espaço me dou a escavar estas verdades, nada me assombra a
-nossa crassa e desdenhosa ignorancia, mãi ou filha, e certamente socia
-da nossa immoralidade. Esta mal agoirada ignorancia e esta immoralidade
-cresceráõ; ja nossos filhos apenas saberáõ ler, e se o turbilhão que a
-roda leva não houver quem o suspenda, brutos e ferozes sairáõ os netos.
-Applicai todos os vossos sentidos ao coração da nossa Cidade: se a vida
-he movimento, ahi trabalha vida; se porem a vida ha-de ter um perfume,
-uma harmonia, ahi não ha senão morte, e aquelle movimento he de cadaver
-que fermenta para se dissolver. Poesia, verdadeira poesia ja n’este
-Reino, onde em todos os tempos pullullava espontanea, posto que raro
-amadurecesse, ja por consequencia acabou: quanto desde hoje se poetar
-nas enamoradas doçuras da vida aldeã, mais não será que recordações sem
-germen de futuro. D’entre a memoria e o espirito, não da experimental
-convicção do poeta, nasceráõ esses versos, como lagrimas de balsamo,
-que não de dentro da arvore, mas d’entre a casca e o libro vem raras
-gotejando, para cairem e se perderem no terreno bravio da solidão. Oh
-Liberdade, Liberdade! quão mal te comprehendem os que te separão do
-bello! quão mal te servem os que te malquistão com os homens de bem!
-como involuntariamente te levão á morte os que só te pedem como summa
-felicidade, o direito de nada respeitar, estradas de ferro, navios de
-vapor, um himno, e punhaes ou carceres contra quem quer que não beber ás
-suas mesas! Pobre Liberdade, não he este ainda o teu dia: não és tu idolo
-de selvagens, mas Divindade benefica de homens prudentes.
-
-Eis-me outra vez com a Politica, e o meu voto quebrado. Ja vejo que a
-minha cura não está tão adeantada como o eu suppunha: não ha remedio,
-amanhã releremos Silvio Péllico, e por hoje voltemo-nos com toda a
-diligencia a rematar, como quer que seja, este escrito.
-
-Sáe pois o presente livro por todos os modos extemporaneo, ja porque a
-estação nem he d’elles nem para elles, ja porque lhe fallecêrão dias
-para amadurecer e sasoar, e ja porque dos que lhe tomarem o sabor, uns
-o taxaráõ de temporão, outros de serodio, sendo que uma e outra couza
-he elle, e demais a mais pêco, segundo a planta de que se creou. Uma só
-lembrança me consola, e he, que assim mesmo ja deveo ser peor, quando
-da primeira vez appareceo, e mais lhe não faltárão gostadores; tanto he
-assim que nunca faltaráõ simpathias ao que de sua origem he bom, ainda
-quando desbotado e estragado pela impericia de quem o tratou. Melhor he
-hoje do que então era; não porque o eu tornasse á forja e á bigorna, ou
-o recorresse e lustrasse com esmerada lima, senão porque havendo hoje
-menos dados á lição dos livros, e em especial d’este genero, tambem ja
-não ha criticos, senão he para as acções da vida publica e domestica; por
-onde as obras escritas podem passar a seu salvo, sem que suas pobrezas
-e vergonhas sejão vistas e apupadas na praça. Desconsolada consolação
-he esta de se poder desafinar cantando, por se cantar entre surdos:
-mas esse mal, se o he, só a mim me toca, e para o descontar me sobra
-a lembrança, de que alguns caladamente me agradeceráõ o diverti-los
-do publico espetaculo. Para estes em boa hora sáia e sai o livrinho
-fallador de campos e amores: suave appareça como a violeta sozinha
-encontrada no passeio de inverno: suave e não estranhado como o raio de
-sol por cima de campo de batalha apoz uma noite de geada; nada aproveita
-elle aos cadaveres, mas alegra e consola como esperança aos que mal
-feridos jazião, e a quem o regelado lentor das trevas coalhava o sangue,
-desesperava as dores, tranzia os ossos, e os descoroçoava da providencia.
-
-Ramalhete he de flores silvestres que a meus amigos deixo na hora do
-apartamento, que ao menos em quanto durar lhes recordará que os amei.
-Terra de Portugal e outr’ora de Portuguezes, terra namorada do mais
-formoso ceo, terra sombreada de larangeiras e murtas, acobertada de verde
-e bordada alcatifa, amorosamente abraçada do Oceano, talhada e regada de
-tão espelhados rios, terra de tanta poesia e de tanto amor, eu te deixo!
-E para que ja nunca onde quer que a fortuna me detenha, me cuides de ti
-esquecido, terra do meu Portugal lembre-te que o meu ultimo pensamento ao
-sair das tuas praias foi o da tua Primavera e o da minha Mocidade.
-
- _Lisboa: 1 de Dezembro 1836._
-
-
-
-
-PROLOGO.
-
-
-Não erão vãos os meus receios; acabo de visitar a _Primavera_, não ainda
-para lhe emendar as miudezas, mas para a conhecer por alto, e podê-la
-sentenciar no todo. Reconheci-a, mas demudada, mui outra da que a tinha
-deixado na graça, geito e amores; trocarão-ma os annos, trocando-me.
-Desama-la ainda não, mas ama-la tambem ja não! Se lhe não quero mal, he
-só porque lhe quiz muito bem, e foi minha; mas como ja me risquei de seu
-namorado, não hei de chamar-lhe formosa, que o não he, nem dissimular que
-sejão defeitos, muitos que em bom tempo ja talvez lhe tive por perfeições
-e primores. Não ha remedio, prometti-me seu juiz, passará por onde
-houvéra de passar, se de inimigo fôra. Se ella perder do seu preço, e eu
-do meu, consolemo-nos ambos d’esse pouco damno; ella por não receber de
-mim injustiça, eu com ter obedecido á consciencia, que tambem em letras a
-ha. Antes porem que entremos a contas e lhe formemos o summario, releva
-anticipar uma dúvida não leve, que se me pode pôr, e desfazer um reparo,
-que deixado a si pareceria de fôrça.
-
-He o reparo e a dúvida; que pois he o Livro inamavel por defeitos a
-seu proprio autor, não havia porque de novo o semear em público, antes
-importava pôr todos os meios para que o nunca mais vissem, nem d’elle se
-fizesse menção; que o contrario he faltar a toda a reverencia, que aos
-leitores se deve, dando-os por broncos para conhecer o máo; ou á caridade
-natural comsigo proprio, expondo-se sem fôrça de obrigação a menoscabos,
-se não injurias.
-
-Não quero responder que em dar o que ha quando ou emquanto não ha melhor,
-ja o que o faz se ha de haver por desempenhado; nem que, para reo que sem
-tratos e sôlto confessa os delitos, sempre por bom direito se usou de
-misericordia; melhores me parecem do que estes, os meus fundamentos: e
-ei-los aqui.
-
-Primeiro: que andando a _Primavera_ ja impressa e corrente por muitas
-mãos, e não podendo ser recolhê-la eu de novo, e desluzi-la da memoria
-de muitos que a bem agazalharão, melhor arbitrio he, pois que tem de
-se conservar no mundo, renascer n’elle expurgada de muitos vicios da
-primeira impressão, e se a paciencia me acudir com o preciso valor,
-retocada no que pertence ao literario.
-
-Segundo: que havendo talvez ainda, e podendo vir a haver, moços que se
-dem a poetar, acontecerá que entre os mais livros portuguezes que ás
-mãos lhes cheguem, vão de envolta os meus (assim mo promette sua boa
-fortuna, que os livros a tem como os homens, e ás vezes os mais ruins
-muito melhor do que os bons): mãos de principiantes não sabem escolher,
-os amores, amenidades e branduras da _Primavera_ cáem muito a gente moça,
-ir-se-hião traz o gosto, e beberião muitos defeitos; do que seria minha a
-culpa, se eu não procurasse agora arrancar boa parte d’elles, e contra os
-demais os não precavesse com honestas advertencias.
-
-Terceiro, finalmente: que eu pretendo antes ser bem conhecido pelo que
-fui, sou, e hei de ser, do que só pelo que sou; porque nascendo-nos o
-presente do passado, ainda que diverso, e produzindo-nos ainda que tambem
-diverso, o futuro, o sermos só conhecidos pelo que somos não he sermos
-conhecidos. He pensamento que merece ser entendido. Alexandre Dumas o
-explicará. Sem pedir venia traduzo o passo, com quanto seja longo, certo
-de que o não parecerá.
-
-—“A maior desgraça da crítica, ainda quando se não sae com ignorancias
-e velhacarias (diz elle no prologo da _Catharina Howard_) consiste em
-sentenciar uma Obra nova desmembrada do feixe literario cuja he parte:
-ahi está porque nunca se póde avaliar um livro com exacção antes da
-morte do autor; e mais ainda he preciso que Deos lhe haja concedido
-desde o primeiro até o ultimo, os dias, que para acabar seu edificio se
-lhe fazião mister; por quanto, se antes de tempo morreo, o monumento
-que traçára tem de ficar incompleto para sempre como a Sé de Colonia,
-e os homens mal justos para com elle ainda para alem da sepultura,
-lançar-lhe-hão á conta de humana fraqueza o ter-lhe ficado certo vão por
-tapar, quando a morte de invejosa e apressada lhe veio atar as mãos, e
-ja talvez para se arrematar mais não faltava que uma só pedra: ora por
-aquelle vão, he que a crítica se mette e entra, quer o autor esteja vivo,
-quer defunto.”
-
-“De trez idades se compoem a vida de quem nasceo fadado a dar de si
-produções, e em trez periodos se desparte: como couza alta e nobre que
-he, tem primeiramente sua base por onde se começa; depois um cume onde
-se chega; ultimamente la por dentro um motivo, tenção e fim particular
-para onde se torna a descer. Pelo que, he necessario que o homem tenha
-vivido todas estas trez idades e que o seu talento haja cursado estes
-trez periodos, para se poder avaliar aquelle talento no seu todo, aquelle
-homem na sua produção.”
-
-“Primeira idade, quando a fantasia prevalece á rasão. A esta idade de
-viço pertencem as horas que tão despedidas voão dos vinte e cinco aos
-trinta e cinco. He o periodo para dever inventar _Hamlet_ quem se chamar
-Shakespeare, o _Cid_ quem tiver nome de Corneille, os _Salteadores_ quem
-for Schiller.”
-
-“Segunda idade, em que a fantasia e a rasão se embalanção, ajudando-se
-mutuamente, e vindo a formar das suas duas uma só força neutra. A esta
-idade vigorosa pertencem os dias que vão correndo dos trinta e cinco aos
-quarenta e cinco. He o periodo em que os mesmos trez sujeitos produzem _O
-Rei Lear_, _Cinna_, _Wallenstein_.”
-
-“Terceira idade, em que a rasão prevalece á imaginação. A esta idade de
-reflexão pertencem os annos que descem dos quarenta e cinco aos cincoenta
-e cinco. He o periodo em que elles compoem _Ricardo III_, _Polyeuctes_,
-_Guilherme Tell_.”
-
-“Ora pergunto, ficarião completos Schiller sem _Wallenstein_ e _Guilherme
-Tell_, Corneille sem _Cinna_ e _Polyeuctes_, e Shakespeare sem _O Rei
-Lear_ e _Ricardo III_?”
-
-“Parece-me portanto que nunca devêra a crítica requerer de um poeta,
-senão as obras de sua idade; e bem sabemos nós como o faz ella sempre
-ao revez, sendo as obras que mais se empenha em querer extorquir de um
-engenho as dos annos que ainda não vingou, ou as dos outros annos que ja
-deixou transpostos. Pelo que toca a uma obra que vem condizendo com o
-periodo d’onde dimana, nunca a impertinencia dos juizes a dá por cabal:
-são uns Aristarchos sem paciencia, que acodem logo com a crítica a cada
-pedra de per si, ao passo que ainda se está guindando, sem advertirem
-que aquella pedra só assente e junta com as outras pedras he que ha de
-dar prova da traça e desenho geral do architéto: são como uns pomareiros
-esquipaticos, que não tomando em conta o inalteravel fio das quadras do
-anno, pedem fruta madura á primavera, frutos verdes ao verão, e ao outono
-flores.”—
-
-Bem haja Alexandre Dumas, que tão artificiosa e claramente me decifrou, e
-me ajudou a pôr em limpo uma verdade, cujos ares muito ha que eu tomava
-de longe; uma verdade que eu andava adivinhando como por entre nevoas.
-
-Ora pois, dos trez apontados motivos de determinação, foi este ultimo o
-de maior momento: quiz dar completo o meu retrato, menos o intellectual
-do que o moral, a quem desejasse conhecer-me: não podia omittir como
-feição o que eu havia sido, e ainda antes d’aquella primeira idade, que
-dos vinte e cinco decorre até os trinta e cinco annos. A _Primavera_,
-escrita aos vinte e dois, tinha por tanto de entrar encorporada na
-collecção das minhas Obras. Se a refundisse pelo meu gôsto de hoje
-em dia, não sei se ficára melhor, mas sei que ficára outra, e por
-conseguinte falsa como feição. Tudo quanto era seu geito, seu pensar,
-seu ser proprio passará intato; e n’isso, se se hão de perdoar gabos
-a quem sem disfarces nem dó se disciplina deante do Povo por peccados
-poeticos, n’isso digo, alguma couza ha de bom, sem o que não tivera
-agradado a tanta gente. O por onde a lima pode e deve correr afoita e sem
-dó, são—_as numerosas faltas de boa falla portugueza—desleixo de frase—e
-estiramento de períodos_.
-
-Quero-me explicar, não para os Mestres, sim para os novéis no officio
-de escrever, com os quaes particularmente converso nos meus prologos;
-e porque não havia eu repartir do fruto de minha tanta ou quanta
-experiencia com quem não a póde ainda ter, nem suppri-la com seguir
-cursos de Bellas-letras que entre nós se não ensinão? Um dos maiores
-delitos literarios, e em que mais usualmente cáem os moços, he o
-_desprezo de lingua e corréção_; delito que per si basta para descontar
-muitos meritos intrinsecos de escritura. Sem bem saber sua lingua, diz
-Boileau, o autor mais divino nunca passará, por muito que faça, de máo
-escritor. He ella a ferramenta para este genero de lavor da alma; e quem
-poem as mãos na obra sem primeiro ajuntar, conhecer, escolher e apontar
-bem os instrumentos de que se ha de valer, nem se pode mostrar bom
-artífice, nem merecer desculpa de o não ser.
-
-Toda a Musa em creança padece dispepsia de versos, diabetes disséra quem
-se menos prezára de cortez com Divindades. Na primeira idade he costume,
-e por muitas rasões, das quaes não será a mais fraca a aversão ao
-trabalho, presumir-se antes de facilidade e presteza no escrever, do que
-de corréção e primor: coração e fantasia tudo anda ligeiro, querem que a
-penna lhes obedeça, como se ella podesse; forção-na, e dahi resulta que
-pensamento ou afféto que lá dentro era soberbo, apparece cá fora frio,
-mesquinho, desengraçado; e maravilha-se o escrevedor quando a mesma couza
-que valentemente o agitava, em quanto em si a revolvia, depois de passada
-para o papel adormenta os ouvintes, e a elle proprio o desconsola. De
-todos os defeitos de autor, talvez se podesse affirmar que só este he
-verdadeiro, real e absoluto defeito; porque, se os pensamentos e affetos
-de cada idade são della, e dessoão e descontentão a todas as outras, tem
-por si o serem d’ella, e como taes se defendem por conterem verdade e
-pintarem o homem; não assim a lingua, que em todas as idades he ou deve
-ser uma, não provando outra couza o faltar-se a ella, senão que se quer
-fallar antes de se ter aprendido. Sou experimentado, e por bem do proximo
-direi com vergonha minha, que no que me ficou escrito d’essa quasi
-infancia poetica, as couzas nem me espantão nem me offendem, ainda quando
-as desapprovo, mas a linguagem e o dizer me fazem de continuo caír as
-faces; e por isso que he escolho em que naufraguei tão desastradamente,
-o assignalo com tanta miudeza e teima; nem cançarei de o assignalar e
-accender-lhe em cima boa luz de farol, em quanto vir, como vejo, outros,
-que nem por idade se absolvem, esbarrar n’elle e perder-se a todas as
-horas. Mancebos, (se os ha ahi que se dem ás letras) vós que encetaes a
-mui ardua e perigosa vereda que pelas letras conduz á fama, seja qual
-fôr o genero de poesia para onde propendais, seja qual fôr o vosso não
-vulgar engenho, sejão quaes forem os louvores que os velhos na arte vos
-concedão, e os applausos com que as sociedades vos afoutem, não vos deis
-pressa de apparecer: os conselhos que Horacio vos deu, durão com toda a
-fôrça que a natureza e a pratica lhe bafejarão. Deve-se compor de espaço,
-consultar os bons e peritos, guardar por nove annos, chamar, e tornar a
-chamar dez vezes á unha a obra ja perfeita. O amor proprio nos persuade
-e impelle a apparecermos cedo, devia elle, se não fôra cego, ter-nos mão
-para nos não sairmos senão a horas;
-
- _A melhor fruta colhe-se mais tarde._
-
- (_F. R. Lobo._)
-
-Muito mais vale começar jornada com dia claro, do que, para adeantar
-horas, largar a pouzada pelo escuro da noite, em que os tropeços são
-faceis, perigosas as quedas, e quasi certo o extravio, que a final
-lançadas as contas nos farão chegar mais tarde e menos gostosos ao lugar
-que demandâmos. Repetirei, porque nunca o repeti-lo será de sóbra, o
-que ja por semelhante occasião disse em outro meu livrinho, contra
-esta enfermidade que se tornou praga, e nos traz a todos lastimosamente
-gafados; não ha mais remedio senão soccorrermo-nos aos livros mestres
-de nossa lingua. A aversão que vós outros, gente moça, lhes tendes, bem
-sei d’onde nasce, que tambem eu por ahi passei: correm para vós como
-rio caudal os livros d’essa França, todos especiosos e doirados, todos
-galhardos e louçãos, arrebicados e argutos no dizer, promettedores de
-maravilhas nos titulos e indices, conversando comvosco paixões fortes
-e brandos affetos, uns vomitando republica por todas as folhas, outros
-por todos os poros exhalando commodissima incredulidade, e todos á uma
-embebidos do presente, afinados pelo vosso ponto, e se o posso dizer,
-mancebos como vós mesmos. Não ja assim os nossos patrios autores: estes
-não vos sáem ao caminho; pouzão, antes jazem, pela escuridão êrma das
-bibliothecas, mal envoltos na grosseira capa de seu tempo, enterrados
-no pó, meio devorados dos bichos; se os olhais por fóra, parece-vos que
-a vida vos não daria para um só volume: se os consultais por dentro ja
-os titulos vos não namorão, os indices vos descoroçoão: folheai-los por
-alto, vem os milagres incriveis, a historia encarecida ou chã, a poesia
-enleada e escura, o estilo incorreto e desflorido, o amor grave e sizudo,
-os costumes castos, a moral severa, a fé religiosa e inconcussa: cada
-pagina na sua simplicidade apregoa Deos, revem por cada poro o cheiro
-do mundo velho: mas esforçai, affazei-vos por alguns dias a soffrê-los
-e comsenti-los; continuá-los-heis sem tedio, logo com gôsto, com ancia,
-reconhecendo a final quanto as primeiras mostras vos havião mentido, como
-pelo meio e fundo d’aquelle enganoso dissabor andavão sumidas galas,
-joias, riquezas, maravilhas, que vos enchem os olhos, vos cativão a
-vontade, e fazem que vos peze do tempo que os não conhecestes. Assaz nos
-divertimos do caminho, rasão he que a elle nos tornemos.
-
-O segundo defeito geral que me occorreo n’esta leitura, foi o que eu
-chamei _desleixo de frase_. He este muito menos grave que a impureza da
-lingua, sendo-o todavia assaz que mereça quanta reformação lhe eu possa
-fazer. Quando quem não cura da pureza de sua lingua, cura ao menos de
-lhe não deitar remendo de panno estranho ou novo que não seja vistoso
-e garrido, quando o que se não preza de dizer limpa e castamente, ao
-menos timbra no exprimir com viveza não vulgar, com certo matiz, com
-certa novidade, algum passo mais se lhe póde conceder. Procurei se ao
-menos teria eu posto algum pouco d’isto, e achei um desconsolado não. A
-locução não me pareceo tão poeticameme figurada como convinha em poesia,
-ainda pastoril; os epíthetos erão tão sem succo e bastos como a caruma no
-mato. Uma e outra couza requerião, em quem as quizesse bem emendar, muita
-paciencia, e muitissima mais da que eu tenho. De ambas, mormente dos
-epíthetos, procurarei limpar a maior; todos não he possivel: tanto e por
-tal geito estão com toda a Obra cozidos e enraizados, que lhes vale o que
-ás ervas parasítas em parede velha mas necessaria; foução-se-lhe algumas
-demazias, perdoa-se ao resto, com o medo que em faltando, se esboroe a
-parede, e venha ao chão toda delida.
-
-Tambem me queixei de _estiramento de períodos_. He defeito portuguez,
-peninsular, meridional. Dava-me agora na vontade tornar a culpa ao
-sol, que n’estas suas terras faz que tudo se desaperte, e derrame, e
-desate em viço e sobejidão: mas fiquem esses milagres do sol para os
-esquadrinhadores metafisicos, a quem inda assim, não quero mal; e eu,
-melhor que a nenhuma outra causa, lançarei aquella minha diffusão ás
-costas dos annos em que escrevia, com o que sempre fico de bom partido,
-por das minhas a tirar. O que he grandemente verdade, he ser este defeito
-para muitissimos leitores, principalmente mancebos ou hospedes nas regras
-de escrever, virtude, e a virtude contrária vicio. Saírão a _Noite do
-Castello_ e _Ciumes do Bardo_ muito mais contraídos e apanhados em couzas
-e palavras, do que estes Poemettos e as _Cartas de Echo_: pois comtudo
-muitos houve e ha, que por isso mesmo ficárão preferindo aos novos os
-antigos e até velhos opusculos. A cada hora me diz um que me torne ao
-meu primeiro caminho; outro que não desampare o novo: uns, que estas
-ultimas obras se não lem senão de escaço numero; outros que as passadas
-não occupão meia hora os olhos dos homens graves e bons juizes. Oh!
-quem reconheceo nunca a verdade da fabula do velho, do rapaz e do burro
-como o triste, que para expiação talvez d’algum grande peccado, entrega
-e desampara a público os partos do seu tinteiro! Pois que não póde
-ser contentar a todos, ir-me-hei como e por onde o meu juizo, gôsto e
-natureza me levarem.
-
-A poesia substancial e severamente escrupulosa, he o mais das vezes
-descontada por uma certa desharmonia: a muita harmonia, ainda quando mais
-apoucada de ideas, ja entretem suavemente: qualquer leitor se entende
-com taes escritos, ninguem com elles se cança; são um genero de musica
-facil, que ainda quando não exprime affetos, se ouve com gosto; são
-como um deslizar de barco por uma agoa mansa: por isto he que os livros
-do _Porto_ e _Tristezas_ de Ovidio se lem de um cabo a outro com muita
-deleitação.—_Inter utrumque_: nem tanto apêrto como Almeno na chamada
-tradução de Ovidio; nem tanta soltura como o seu amigo, e outr’ora meu
-mestre, Elpino Duriense[4] nas poesias originaes; nem tanto pospor a
-harmonia e clareza á brevidade como Filinto; nem tanto sacrificar o
-entendimento ao ouvido como Elmano. Isto foi o que me pareceo lograr
-na _Noite do Castello_, e _Ciumes do Bardo_, e não me arrependo se por
-ventura o consegui.
-
-Tanto não, mas alguma couza d’isto fôra o que eu quizera na _Primavera_:
-alguma couza, para poder com ella reconciliar os severos; tudo não, por
-não dessimilhar em demazia esta parte do retrato.
-
-Até aqui descubrimos defeitos que importa emendar, agora os vamos ver
-do outro genero, em que me não he licito bolir, por serem essencia do
-livro: erão aquelles no tocante á lingua, estilo, e metro, que ainda que
-importantes, não passão de accidentes da obra; estes são da alma, vida, e
-pensamento da mesma obra. Entremos pelo descritivo (não será portugueza
-a voz, mas o uso e necessidade lhe valeráõ.) Descritivos se chamão em
-geral todos os poemas deste genero, e como a taes, parece que tudo quanto
-for pintar dentro do quadro do seu painel, lhes compete e convem. Não
-he comtudo bem assim, porque as descrições, por mui formosa e naturaes
-que se ostentem, tambem canção a imaginativa de quem lê, quando umas
-ás outras se vem succedendo perennemente e sem um bom entremeio de
-narração, ou outro valente interesse, que por um modo verosimil as reuna,
-separando-as ao mesmo tempo, para que se não confundão, nem se afrontem,
-nem esmoreção. Não o advertio Delílle, e d’ahi procedeo não bastar seu
-altissimo engenho para livrar seus poemas de enfadosos. Ora este livro
-he quasi um embrechado massiço de descrições; e assim, se o posso dizer,
-mais para ou olhos da alma do que para o seu entendimento. Mas serão ao
-menos estas pinturas, consideradas uma por uma, de algum preço por fineza
-de tintas, ou pontualidade de desenho? autos são em que me não compete
-dar sentença. O Padre Kinsey, ou o Portuguez que em seu nome escreveo,
-disse que eu não pintava bem a natureza; talvez que outro tanto, e
-ainda peór, se devesse dizer da mór parte de nossos poetas; mas não he
-contra elles, senão contra mim só que eu enfeixei varas no princípio
-d’este prologo: como os applicados noviços se não enganem comigo por
-minha culpa, que se desvairem e percão com os outros, paciencia! Aqui
-está comtudo o que me parece; este descritivo he desbotado e de côres
-pouco vivas e proprias se com o de Gessner ou Kleist se compara, mas
-he o melhor que eu soube; eu que nem podia ir-me pelos campos fazendo,
-como de si dizia Kleist, caçadas poeticas de imagens, nem discorrê-los
-como Gessner, de lapis na mão. Ja póde ser que o Padre Kinsey, ou o seu
-ponto, não houvessem de se me avantajar muito, se lhes coubesse tirar ás
-escuras, ou quasi, o retrato da natureza: muito mais faz quem atravessa o
-Tejo a nado, do que hum Almirante Inglez que em segura e bem apercebida
-náo rodêa a esfera; poderá este trazer mais riquezas e informações, mas á
-fé que não prova mais fôrças e esfôrço que o desconhecido nadador de uma
-só corrente.
-
-Passemos ávante, e das descrições entremos nos affetos. N’esta parte
-direi pouco, porque sem embargo de que o desabrimento com que me castigo
-onde entendo merecê-lo, me podia deixar alguma licença para tambem me
-louvar pelo que em mim visse de bom, melhor he que nos louvores, em que
-mais facilmente nos podêmos enganar, nos contentemos de ser ouvintes.
-Ainda assim, não acabo eu de dizer tão pouco, que muito bem se não
-entenda ja que no tocante a affetos não quero muito mal á minha Obra:
-fallo dos affetos em geral, porque passos ha n’ella a cujo affeto não sei
-ja hoje querer mal nem bem; honesto, formoso, e macio me parece, sei que
-n’esse tempo devia ser meu, porque eu não compunha, tirava do coração,
-mas ja o não posso entender cabalmente, e avaliar. Esses passos, apezar
-de tudo e de mim, hão de passar intatos, que em assunto de branduras o
-eu de hoje respeita religiosamente ao eu de algum dia; e porque tudo
-diga, ainda que quizera emendar, não saberia. Sim me inclino a que haverá
-(e ja de alguns m’o boquejarão) excesso, redundancia, languidez em
-tantas suavidades, caricias e extremos de bem querer a tudo, e a todos.
-Inclino-me e talvez o creio: mas que havia de cortar? a que havia de
-perdoar, se assim como o eu antigo valia tanto mais que o eu presente,
-póde ser que o melhor se me figurasse agora peór, e o peór melhor?
-
-Digamos duas palavras da Mithologia. Ja não sou tão emperrado pagão como
-n’outro tempo; desconsola-me ver o desmedido uso que d’ella fiz. Não se
-entenda por isto que me alistasse debaixo das bandeiras triunfaes dos
-modernos espanca-numes, nem que tiro vãgloria de botar pelo mundo pregáõ,
-como Beranger, que os Deuzes ja saírão do meu credo. Todo o excesso
-em crer ou não crer, em admittir, ou recusar me parece hoje em dia um
-disparate, de que sempre, mais por aqui mais por ali, vem a resultar
-contras e arrependimentos. Enjoa-me a fabula dos Lusiadas, e muita, e
-muita, e muita outra: aborrece-me quasi todo o emprego que dos Romanos
-para cá se tem feito d’ella, _incredulus odi_. Só consinto na fabula
-parca, explicavel, e só a amo quando soberbamente poetada. Alumiarei
-com um exemplo: quero-a assim como a derrama ás mãos chêas por suas tão
-poeticas prozas o christianissimo Chateaubriand, esse mesmo que de longe
-visto, assim parece guerrea-la. Nada d’isto acho eu pelo commum no meu
-livro: de cada canto me surde uma Divindade; a boa parte d’ellas não
-responde verdade, e se alguma couza ahi vierão fazer, certo que não foi
-inspirar-me um só rasgo poetico. Porque pois as deixarei? porque não
-substancia do livro, e n’elle tem posse velha e apozentadoria.
-
-Dêmos a derradeira parte do prologo, que em prologos deve ser sempre
-esta a de vantagem, a algum poucachinho dizer sobre a moral. Moral
-hoje, moral em livro de poeta, grande novidade e grande estranheza! Sim
-hoje, que ainda ha muito quem se preze de viver honesto, virtuoso e
-pela antiga: sim em livro de poeta, e por isso mesmo; visto como tudo
-quanto era contra ella o tem a proza a si tomado, não será muito que lhe
-abra sua porta a poesia, e lhe dê guarida em um pobre cantinho térreo
-de sua pousada, como he este: inda mal, que até cá, no fundo de tamanha
-escuridão e penuria, por todas as fendas e agulheiros do mal reparado
-edificio poetico lhe chegaráõ as risadas sem alma nem sal de seus
-inimigos, e contra essas não ha valer-lhe. Ha pois do titulo d’este livro
-a dentro, dado se não prometta senão primavera, um como ar de bondade e
-saude para o animo, de socego e bemaventurança para a vida: e por isso
-he que, a despeito da todas suas manchas, me parece bem, como ja no
-Ante-Prologo deixei tocado, atira-lo, como sementinha de erva medicinal,
-ao baldio sáfaro e corruto d’esta idade. Bem estou eu antevendo quantos
-de mim hão de haver lástima, por me assentar no meio de tão ferida e
-accesa batalha, por cantar entre tantas vozerias de odios. Paciencia!
-tambem sei que homem sentado não sóbe, nem a trôco de cantigas se comprão
-riquezas e valimentos: mas cada qual tem sua estrella, e a minha, que
-outra vez descobrio depois de largo eclipse, esta foi, e esta ha de ser;
-oxalá que para sempre! Com o bom de Archimedes me pareço n’isto, o qual
-na hora que a cidade estava sendo entrada do inimigo, e alagada das
-torrentes de ferro e fogo, nem tinha ouvidos para o estrondo, nem deixava
-de proseguir na composição da lustrosissima esfera celeste, unicos amores
-que no canto calado de sua casa o desvelavão. Havia ahi uma não sei que
-magnanimidade; e a ninguem deixa de doer a cutilada do soldado feroz que
-despede tal cabeça para cima de tal obra. Mas quando me ólho, e me vejo
-a brincar com flores e cordeiros, ao tempo que em redor de mim estão no
-chôco tão grandes destinos do mundo, não me lastimo, porem rio-me, e
-cuido estar vendo em mim proprio um menino, que por um dia de tempestade,
-enthesoura conchas e forma lagoazinhas na praia, emquanto andão á vista
-galeões alterosos á luta com os elementos, e na mesma praia uns pasmão,
-outros se aterrão, outros suspirão pelo instante do naufragio para se
-arremessarem aos despojos, apenas o mar os cuspir.—Fugindo me hião agora
-outra vez os pés pela antiga ladeira abaixo: e a moral, esquecida até
-por quem lhe deo couto! Com ella sou, e com ella determino acabar.
-
-He a moral na maior parte d’estes poemas pura, facil e amavel; e se não
-tão efficaz como a de Gessner, não he porque o eu dezejasse menos, he
-porque podia menos atavia-la, e aformozea-la do que elle, e atavios e
-formozuras até servem para fazer do bom optimo. Todos os amores de que
-se urde e tece a domestica felicidade, se achão aqui representados por
-um modo que se recommendão, e d’elles se imbue de mui bom grado o animo;
-o amor filial, o paterno, o materno, o conjugal, a amizade, até o affeto
-aos animaes, arvores, flores, e mais creaturas de Deos, companheiras
-nossas n’este mundo, aqui vem de envolta com a recreação. Porque tudo
-diga, pelo gostador ou gostadora d’este livro daria eu mais, e mais
-quizera viver com elle debaixo do mesmo telhado, e tratar quer negocios
-quer passatempos, do que, se dizê-lo ouro, com gostadores e pregoadores
-d’outros livros que estamos vendo rebentar de muito mais avultados
-engenhos. Se eu tivesse filhos e filhas a quem dar criação, sei que
-emquanto não podessem ler Gessner, e seus bons imitadores estrangeiros,
-lhes daria a _Primavera_; e ja não digo o mesmo das _Cartas de Echo_, e
-muito menos da _Noite do Castello_, e _Ciumes do Bardo_. Mas, acudirá
-algum prudente, couzas se deparão na _Primavera_ que mais são para ser
-defendidas a donzellas, e resguardadas de fantasias ainda verdes, do que
-para se aconselharem por doutrina. Sim as ha, e todas essas paginas que
-para idades encorpadas e apercebidas de experiencia bem podem não ser
-damnosas e parar em mero deleite, todas rasgára e déra ao fogo antes de
-lhes entregar a obra para lição: e porei exemplos; na _Festa de Maio_,
-os fins dos episodios de Galatea e Ignez de Castro, no mesmo poema boa
-parte da republica de Chipre, como o culto religioso da Natureza, os
-bens em communidade, a nudez, o divorcio, o cazamento de um com muitas
-_et cetera_. Antes de passar adeante, trasladarei, que alguma couza fará
-para aqui, parte de uma Nota que ácerca da republica de Chipre se lia na
-primeira edição, a pag. 169.
-
-—“Note-se que este poema está muito longe de dever ser considerado como
-didático; que toda esta republica de Chipre he meramente um Dithirambo,
-aonde a licença do poeta he muito mais ampla do que em outro qualquer
-genero de poesia; que esta sociedade de que se ha de formar a republica,
-he de poetas, homens de quem vulgarmente se diz que mais dão ao prazer do
-que á rasão; e que em boca de poeta se poem a arenga recitada no templo.
-Para os avisados escusada fôra a nota, mas para os fanaticos, que ignorão
-ter a Musa do Dithirambo licença para nos seus delirios arremetter contra
-tudo, he indispensavel.”
-
-Era este arrasondo o melhor que o caso admittia, porem melhor houvéra
-sido não carecer d’elle; e se ainda por elle se pode perdoar á republica
-de Chipre, não assim ás demais desenvolturas, como as dos dois ja
-apontados episodios. Porque as puz umas e outras? vá mais penitencia. Puz
-as pinturas amorosas em quasi nudez, porque estava n’aquella sazão da
-vida e do anno, em que todos nos deliciamos nas fantasias sensuaes, e se
-somos poetas, cuidamos morrer abrazados e afrontados em não desabafando.
-Porque não expurguei d’ellas esta segunda edição? pelo mesmo motivo do
-retrato, e não outro. Quanto ao culto da Natureza, e á gente nua, e aos
-maridos de muitas mulheres, são necedades taes, que não merecem que
-nos detenhâmos em as refutar: são d’aquellas demencias, cujo aggregado
-dá o que entre moços que esfolheão livrinhos bem doirados e térsos, se
-denomina filosofia, e que só dura emquanto a experiencia e o tempo nos
-não desmamão da presunção; pelo que, e pela rasão geral, ja muitas vezes
-apontada, de querer mostrar-me qual fui, vivão, durem e passem, que
-depois d’isto ja a ninguem farão mal.
-
-Eis aqui por alto, mas com toda a lealdade, o juizo que da _Primavera_
-formei; he primavera por matos de serra, com mais flores do que graças,
-com mais ares saudaveis do que ervas medicinaes, mui tibia de fragrancias
-mimosas, mui nua em muita parte de terreno, mas com seus longes de campos
-e cazaes felizes, e muitas saudades lá pelos extremos confusos do seu
-horizonte. Quem se d’estas cousas contenta, fico se recreie com ella;
-e quem com ella se recrear, para amigo o quero, que esse saberá, como
-eu, amar muito os homens, fugindo-os; e enfadado, como eu, das terras
-onde não ha ver passaros senão em gaiola, nem verdura fóra de gigas,
-nem arvoredo que não seja pintado, nem pastores e innocencia senão na
-opera e trajados de seda e veludo, nem felicidade senão em promessas de
-políticos, irá procurar-se, achar-se, e lograr-se de Deos, de si, e dos
-penhores de sua alma no seio e entranhas da vida campestre. Oh, se assim
-fosse!... e se Deos a um tal me désse ainda por vizinho!...
-
- _Lisboa 4 de Dezembro de 1836._
-
-
-
-
-_Post Scriptum._
-
-
-_Lisboa 29 de Março de 1837._
-
-Quando todo estava no trabalho de desempenhar minha palavra, e fazer
-ainda mais do que no Prologo deixára promettido, revendo cuidadosamente,
-afeiçoando, podando e enxertando de novo este volume, sobreveio-me aos
-2 de Fevereiro passado, o maior infortunio de minha vida, uma perda de
-que em nenhum tempo se me poderá o coração consolar. Quebrarão-se-me
-as forças para continuar no trabalho, bem como se esvairão muitos,
-antes todos, meus projetos. Ja não arrancarei (e para que?) este pouco
-e inutil resto de mim mesmo da terra que encobre a minha melhor metade:
-aqui procurarei, se tanto podér ainda, pagar com uma pouca fama e muitas
-lagrimas, a quem a mim me deo até á sua ultima hora seus olhos, seu amor,
-toda sua alma. Qual ficou este livro tal sae, e muito inferior ao que eu
-promettia, podia e devia fazer. Se algum de meus leitores entende por
-experiencia o que seja padecer n’uma viuvez uma completa orfandade, esse
-passará com indulgencia, e ainda suspirando, pelos muitos defeitos que
-na leitura lhe occorrerem. Aos sem alma não tenho que dizer: se quizerem
-castigar o espirito meio morto, porque não pôde mais, fação-no, que dôres
-d’essas não acharáõ ja em mim lugar nenhum.
-
-
-
-
-EPISTOLA Á PRIMAVERA
-
-
-_Vai a Epistola em tudo outra da que fôra na primeira Edição: conserva
-a invenção e os pensamentos, mas emendou-se a linguagem, apertou-se o
-estilo, deu-se alguma côr mais ás imagens, explicarão-se melhor alguns
-pensamentos, reformarão-se e afinarão-se quasi todos os versos._
-
-
-
-
-DEDICATORIA A MINHA IRMÃ.
-
-
-_Eu mandei o meu Genio campestre apanhar flores por entre os gelos do
-inverno. Formosas não saírão, bem o sei, porem n’esta estação do anno não
-mas dá melhores o estreito jardimzinho que me as Musas doarão nas fraldas
-do Parnaso. A ti, minha Irmã, me ordena o coração que as offereça.
-Felicidade será para mim, se quando para o teu lado me tornar, tu me
-disseres abraçando-me:—“Eu amo as flores que tu me enviaste, no meu seio
-as guardo: as da primavera menos me contentão do que estas, que o teu
-Genio campestre colhe no teu jardim, por entre os gelos do inverno.”_
-
-
-
-
-DUAS PALAVRAS DE INTRODUÇÃO
-
-
-Fôra o inverno de 1821 para 22 dos mais desabridos e temerosos de que
-entre os vivos se faz memoria. Na Beira, onde me então achava, vião-se
-arrancados e espedaçados bosques, olivaes e pomares, sementeiras
-afogadas, pontes demolidas, e os rios sem margens. Dos 25 de Dezembro
-até os 9 de Janeiro, que me demorei em uma aldeinha, uma legua desviada
-de Coimbra, saboreando no trato cordeal de alguns amigos e parentes
-as férias, então mui festivas, de meus estudos, foi sempre tão atada
-e rigorosa a porfia das invernadas, que nos falseou quasi de todo a
-recreação mais apetecida dos que fartos da cidade, vão alguma hora ao
-campo desenfadar-se. De não passear nos vingavamos o melhor que o tempo
-e lugar no-lo consentião: práticas desaffrontadas de constrangimento,
-temperadas de bom sal, e muitas vezes substanciaes; a voltas d’ellas,
-leituras accommodadas ao mais dos gostos, poesia, e improvisos de
-_charadas_ e adivinhações nos enchião as horas não contadas. As
-espaçosas noites e boa parte dos dias, se levavão n’estes e semelhantes
-passatempos, em de redor de uma farta fogueira, segundo he costume
-d’aquellas terras. Por alguma rara tarde, quando o sol descobria, e o ar
-um pouco mitigado nos consentia saír, nos hiamos, ora pelo jardim onde
-se explanava um soberbo lago, outr’ora pela orla mais assoalhada dos
-laranjaes, que mui corpulentos e viçosos, acenavão de seus ramos com
-frutos e flores, pondo a vista, o cheiro e o gôsto em doce competencia
-de delicias. Era ainda aquillo, ou ja era, umas lembranças, uns longes
-de primavera no coração do inverno, saíamos da prisão dos lares,
-aproveitavão-se com sofreguidão: talvez nenhum dia de perfeita primavera
-na longa cadêa d’elles me pareceo nunca melhor e mais ledo, do que estas
-pobres tardes sonegadas ao mez do Natal. A fantasia enganada do sol, toda
-se me desatava em poeticas flores, o que n’esses tempos só por maravilha
-me acontecia fóra da primavera, e luares do verão. Quando vinha a noite,
-acceita ao meu coração, (que sempre de si o conheci, não sei porque,
-amigo de com ella suspirar saudades), e ja todos ao conchego do nosso
-lume fiel nos tornavamos alvoraçados, comigo só me hia pouzar a um canto,
-colhendo, concertando e accrescentando com mui entranhado contentamento,
-quantas florinhas me havia brotado a fantasia. De saudades da primavera
-me parece ainda agora que nascião todas; o que certo sei, he que ahi, e
-n’um imaginar d’estes meus, me veio a lembrança e desejo de escrever á
-Primavera uma Epistola. Se n’isto abusei ou não da licença tão concedida
-a poetas, não o sei; sei que no ditar estes versos para se escreverem, e
-no conceber-lhes o assunto a passear ou a seroar, gozei prazeres que ja a
-crítica me não póde tirar. Se contra o bom juizo pequei, todo o meu pezar
-he não poder outra vez peccar pelo mesmo modo, nem outra vez namorar-me
-da Primavera: os annos que a trazem ás arvores no-la levão a nós, e ja la
-vão quinze, (quinze annos!) sôbre o tempo em que eu brincava com estas
-innocencias.
-
- _Lisboa: 9 de Dezembro de 1836._
-
-
-
-
-EPISTOLA
-
-_Á PRIMAVERA_.
-
-
- Corre a Noite, jaz muda a natureza;
- Os campos solitarios esmorecem;
- Mal se ouve ao longe o estrondo da corrente:
- De quando em quando a lua desmaiada
- Mergulha em nuvens, surde, outra vez morre;
- E das planicies a extensão geosa
- Ora resae e alveja, ora se apaga.
-
- N’esta cabana de grosseiros troncos,
- Tecido vime e colmo, onde sereno,
- Vento, e cuidados não coárão nunca,
- N’esta onde habita perennal fogueira,
- E onde he Penate o Genio da hospedagem,
- Venho entre amigos deslembrar tristezas:
- Do frio lá de fóra o ultimo resto
- Ja o atirei á chama tragadora.
- Em ti, Amores meus, em ti só fallo
- Ó Primavera minha; em ti só cuido;
- A ti quero escrever: inda ha bem pouco
- Em meu passeio a flor das larangeiras,
- E do sol que hia a pôr-se o extremo raio,
- Cá me derão de ti saudades tristes.
-
- Desde que ao scetro do raivoso Junho
- Tu doce com teus Zéfiros fugiste,
- Meu dia estendo em languidos suspiros.
- A noite em vagos sonhos me afigura
- Ver-te, cantar-te, desfrutar teus mimos:
- Mal desponta a manhã, mal foge o sono,
- Desespero-me, lido entre amarguras;
- Peço aos bosques sem folha, aos ermos campos,
- Aos rochedos de neve, ás turvas fontes,
- Ao ceo toldado, aos ares tempestosos,
- E a toda a natureza, a minha Amada.
-
- “Primavera, onde estás?” do outeiro exclamo;
- De valle em valle, de um cabêço em outro,
- “Primavera, onde estás?” responde o echo:
- No prado o guardador, no monte o Fauno,
- Pelo arvoredo as Dríades á escuta,
- “Primavera, onde estás?” depois exclamão.
- Emquanto assim fiel, por ti ó Deosa
- Me desentranho em ais, onde te escondes,
- Perguiçosa gentil? onde vagueas
- Bella inconstante que estes ais não ouves?
- Algum Deos namorado, em plaga estranha,
- Encheria de amor teus olhos livres?
- Esquecer-te-hião, (Ceos!) promessas tantas?
- Sim: que te importa o definhar de um vate?
- Do vate que te amou, te adora ausente?
- Tu folgas e elle gema; elle delire,
- Tu a prados sorris vestindo prados,
- Revês-te, amante nova, em novas flores:
- Fontes ha tambem lá, que importão éstas?
- De fonte ao claro espelho te engrinaldas;
- E ufana de encantar sensiveis peitos,
- Tambem, como entre nós, por lá dardejas
- Fogo de amor aos entes insensiveis.
-
- Volta, volta, ó cruel, aos campos nossos.
- Qual paiz no universo, a não ser Pafos,
- He mais digno de ti? ¿por onde achaste
- Para o cortejo teu, Ninfas, pastoras,
- Como éstas que entre a murta o ceo nos cria?
- Amantes mais fieis? florestas, rios
- Namorar-se, mais frescas, mais formosos?
- Mais doces flautas quando amor entoão,
- Aves mais doces quando amor gorgêão?
- ¿A tua Cintra, Elisio dos desejos,
- Nobre jardim do Oceano, onde folgavas
- Contemplar na alta noite em mista dança
- Ninfas das ondas, Ninfas das florestas,
- Assim te descaío? ja não proteges
- Os córos virginaes que ali passêão
- Sorrindo ao ver seu nome em bosque e bosque?
- ¿Por toda a parte as Graças que espairecem;
- Do aligero esquadrão travêssos brincos,
- Frechas doiradas em contínuo vôo
- Aqui e ali aos peitos descuidados,
- E se errão corações, ferindo os bosques,
- Porque os bosques ali tambem suspirão,
- Tudo pois te esqueceo? Volve, ó Querida;
- Cede, não sejas dura, a amor, aos versos.
-
- Desde que te ausentaste ahi pende a lira
- Nos braços nus de um álamo sem folhas,
- A minha lira ao vento abandonada!
- A lira d’oiro, onde entoei teu Nome,
- Onde a minha paixão soou mil vezes
- Na linguagem dos ceos a teus ouvidos,
- Ei-la sem honra; os ventos lhe roubárão
- Dos antigos festões o escaço resto!
- Ao passar com seu gado, e vendo-a muda,
- Diz suspirando a turba dos pastores:
- “E’sta a que dava alento ás nossas festas:
- Mal haja quem a trouxe a tal desterro!”
- Dríades ternas, que meu canto ouvião
- Não talvez sem prazer, dizem passando:
- “O vate emmudeceo longe da Amada!”
- Mas apenas teus Silfos precursores,
- C’roados de violetas assomarem
- Na ethérea região de nossos climas;
- Apenas este ceo pezado e turvo
- Mandar á terra os ultimos chuveiros;
- Apenas rebentando as novas folhas
- Se remoçar esse álamo tristonho,
- E entre a nova ramage, emtorno á lira,
- Cançada de seguir-te andar pouzando
- A rolinha estrangeira, e sócia tua,
- Á lira despirei do inverno o musgo;
- E n’ella, de aureas cordas melhorada,
- Só de ti chêo, na presença tua,
- Brotarei versos, como brotas flores.
-
- Oh voa, acode a consolar Cibele,
- Cibele a térrea mãi da especie humana,
- Cibele, amores teus, qual tu Deidade!
- Se ora a visses! ... do carro verdejante
- Os rebeldes tufões a derrubarão:
- Co’a trança descomposta, o manto em rios,
- A altiva c’roa em parte destruida,
- Nua jaz á vergonha, ao vento, á neve.
- Seu tanto desamparo he mágoa aos filhos:
- Mas para dar-lhe a mão, torna-la a Nume,
- Poder, qual em ti ha, não ha nos homens:
- Do fundo do teu lodo a ti só chama,
- Ai, leve-te algum vento as queixas d’ella!
-
- As torrentes sem freio divagando
- Contra marmóreas pontes indignadas,
- Investem, chocão, despedação, rojão
- Ruinas em montoẽs aos fundos mares.
- As Dríades, teu povo e tua gloria,
- Tremem, oh dor! ao furioso assalto
- D’Euros, e Notos, e Africos em guerra:
- A seu brutal furor nenhuma escapa:
- Crer-se-hia que as prisões da Eolia furna
- Para sempre arrazára a mão de Jove.
- Dríades nobres de arvores antigas,
- Refugio outr’ora das calmosas séstas;
- Dríades bellas de arvores vaidosas
- Co’a idade juvenil, verdura e fôrças,
- Tem a seus pés quaes vítimas caído.
- Co’os negros frutos oliveira amiga
- Baqueou; não lhe valeo celeste guarda;
- E Minerva prantêa o estrago enorme:
- Cáe o pinheiro amedrontando os valles,
- E Pan, sentado nos troncados restos,
- Triste espera por ti co’a flauta muda.
-
- ¿D’esta cabana a rustica fogueira
- Sabes quem a sustenta? ah! corre, vôa:
- Cedro, que eu te sagrei, caío por terra,
- E onde brincou favonio estalão chamas.
- Mui tarde chegarás se não-te apressas;
- Do colono e pastor os ais te invocão,
- A mesma natureza he morta quasi!
-
- Que fragor, que trovão! piedade ó Numes!...
- Este deu raio, e pérto.—Outro rebrama!...
- O Olimpo sobre nós desaba em fogo!
- Chlóe, e Amarilis trémulas, gritando,
- Desfeita a rubra côr em côr da morte,
- Enchem de seu terror esta cabana.
- O’ innocentes, miseras pastoras,
- Não griteis, não tremais; vereis em breve
- Dissipado este horror nos longes ares;
- Contra o crime orgulhoso os Deoses troão,
- Não fere o raio a rusticos alvergues.
- Não, não me engano, ouvís como se afasta?
- Como la vai ja longe? o mais do estrondo
- Ja he toada vã no vão dos bosques.
- Chuva propícia em caudalosa enchente
- Desce na escuridão; resoa o této
- Com o crebro saltitar das frias gotas:
- Sibila o vento na vizinha serra.
- Chlóe a porta fechou: nós apertâmos
- O cerco estreito em deredor do fogo.
- Cantou o gallo esperto: he meia noite!
- E eu vélo ainda, e velarei saudoso
- As horas todas que á manhã precedem!
- Horas, horas de paz no horror das trevas;
- Horas de estro, misterio, omnipotencia
- Ao que nasceo das Musas bafejado!
- Sonhe a ambição com purpuras, e scetros;
- Torpe avareza com os inuteis cofres;
- A vingança, fatal a si e aos outros,
- Cogite embora nas traições, no engano,
- Nos agudos punhaes, no sangue em jorros;
- Vulgar amante afine, esmere astucias,
- Com que succumba a tímida innocencia,
- E aos laços venha destramente armados:
- Eu dando a amor o que se deve ao sono,
- Em chama pura, porque he tua, ardendo,
- Alégro com teu Nome a horrenda noite,
- A saudade em saudades apascento,
- E inda ausente, comtigo ausente fallo.
- Como o perdido em temeroso escuro,
- Que ao mais leve rumor trémulo pára,
- Assacinos agoura em cada tronco,
- Não ouza resfolgar, prosegue a medo,
- Aqui lhe surde a silva, alem penedos,
- E lhe abrem fauces mil os precepicios,
- Só tem na aurora esp’rança, e mal que ao longe
- Annuncios d’ella vê, canta e renasce;
- Serei mais que feliz pois vas ser minha,
- Mal te sonhar ao longe, ó Primavera.
-
- Sim: eu te amo inda mais que a vide ao tronco,
- Mais do que o touro em maio ama a novilha;
- Quero-te mais que o Deos de amor ás trevas,
- Mais do que Flora ao Zéfiro inconstante.
- Eu suspiro por ti, como suspira
- Murchada planta por sereno orvalho,
- E ardente ceifador por fresca fonte:
- Es-me tão cara como a bella esposa
- A seu amante de chorar cançado,
- Quando no dia d’hirneneo se abração:
- Tão doce emfim como o primeiro beijo,
- Que uma terna pastora, a medo e a furto,
- Consente ao seu pastor levar-lhe aos labios.
- Qual dos amores, que no mundo girão,
- He mais grato que o meu? Este em delícias
- Excede tanto aos mais, como tu vences,
- Tu belleza do ceo, do mundo as bellas:
- Eu amo e para amar não me recato,
- Ao mundo inteiro meu ardor confesso,
- Tenho rivaes e do ciume zombo,
- Gozo-te, e nem pudor nem leis mo estorvão.
-
- Inda me está lembrando (hora doirada!)
- Quando longe do mundo, e a sós comtigo,
- Pela primeira vez te disse “Eu te amo!”
- Abria a Aurora o roxo mez das flores:
- Juntas em córos no arvoredo as aves,
- De ramo em ramo aos ranchos adejando,
- Em nunca ouvidos sons a luz saudavão:
- Inda do puro rio a opaca nevoa
- Bem não era desfeita ao sol nascido;
- Inda das folhas concavas pendião
- Trémulas gotas de luzente orvalho,
- Que depois leva o brincador Favonio;
- Quando (ai memoria doce!) eu dei comtigo
- Inda meia a dormir na fofa relva.
- N’alguns louros de roda entretecida
- Hera tenaz um toldo te formava:
- O melro grave, o rouxinol cadente,
- Para encantar-te os sonhos, diffundião
- Entre uns rosaes a musica dos prados;
- Enchia aroma puro os puros ares.
- Ligeiras, bellas Sílfides, velando
- Invisiveis teu placido retiro,
- Impedião que um Fauno petulante
- Ou rustico pastor pozessem olhos
- Em teu corpo sem véo, cheio de encantos.
- Alí me conduzio propicio acazo:
- Não mo impedirão Sílfides zelosas,
- A natureza inteira he franca ao vate.
- Ridente sono, da innocencia imagem,
- Cerrava ainda os olhos teus ao dia:
- Todo brandura o juvenil semblante,
- Até sem o saber, até dormindo,
- Faria suspirar homens e feras.
- Entre a face mimosa e a fria relva
- Tinhas meio curvado o braço lindo:
- Como ao desdem, na esquerda seguravas
- A cornucopia, a não poder com flores:
- Halito doce de fragancia amena
- Sáe do seio, que túrgido se eleva;
- Dos roseos labios, da pequena boca
- Vem tão doce, vem tal, que um peito humano
- Bafejado por elle, excede os numes,
- E a alma, em vez de pensar, delicias volve.
-
- Tal eras, tal fiquei ó Primavera!
- Espertaste de todo; e toda risos,
- E todos luz e amor os olhos verdes,
- O que era ja sem termo accrescentaste,
- Dobrou-se a graça ao mundo, o fogo aos peitos.
- Um mar de deleitosas fantasias
- Me soçobrou, confesso, e tempo largo
- Jazi com o ledo mundo em braços da alma.
- Depois tornando em mim, ví-te ja prestes
- Para baixar do outeiro aos amplos valles:
- Quão mais louçã, e em galas mais garrida!
- ¿Que muito, se a mais nova das trez Graças,
- De tuas mil Oréades servida,
- Pozera as proprias mãos ao vago enfeite?
- Erão-te manto ondado, e roupas simples,
- Quanto verde ha na terra, e flor nas plantas;
- Mas triunfava a rosa! aos botões d’ella,
- Nem ja todos botões, nem flores todos,
- Fôra o tépido seio em throno dado,
- E em vez de o embellezar, se ornavão d’elle:
- Erão raios do Sol a c’roa tua!...
- Parei de embevecido! e quem no mundo
- Te vio jamais como te vio teu vate?
- Em teu seio amoroso um Cupidinho,
- Qual borboleta d’oiro, esvoaçava
- De botões a botões, na escolha incerto.
- Vio-me; e curto farpáõ, doirado, agudo,
- Curto farpáõ que os olhos não percebem,
- Me arrojou, me sumio dentro no peito.
- Graças ao tiro do mimoso Alado!
- Na profundez da f’rida, e gôstos d’ella,
- Contente reconheço, adoro um Nome.
-
- Amante, desde então, ditoso amante,
- De dia a dia te encontrei mais terna.
- Incenso, que antes dava a falsas Musas,
- Off’reci-te, acceitaste, e foste a minha.
- Abriste-me a Aganippe em cada arroio,
- Cada monte foi Pindo, e Tempo os valles:
- E tu em cada valle, em cada monte,
- Ante a lua, ante o sol, me estavas sempre
- Musa do coração, presente aos olhos.
- De poetas foi sonho a voz das outras,
- A tua graciosa ciciava,
- De toda a parte vinha em tom macio,
- Que filtra inspirações, e a amor contenta.
-
- Se os de ambições miserrimos forçados
- Que ás cidades dão vida, e a si a roubão,
- Podessem vir um dia onde tu reinas!
- Se a mente que as paixões lhes anuvião,
- E olhos em que os cuidados, seus verdugos,
- Atárão com trez nós perpétua venda,
- Podessem ver-te a luz deliciosa,
- O manso da alegria, os gostos puros!...
- Deixando sem adeos tumulto e pompas,
- Mais de um, mais de um, salvando a tempo os filhos,
- Co’as pouzadas dos bons unirra a sua.
- E a quem darás tu nunca o riso cheio,
- Como o déras a este, que trocasse
- Oiro a virtude, e marmores a flores?
- ¿Que ja sôlto de si e a si tornado,
- Viesse pôr, para os livrar de queda
- E adora-los em ocio, os seus penates
- Á beira de uma límpida corrente,
- Que de um bosque atravéz susurra e foge.
- Víra os Genios da terra o anno inteiro
- A lhe aprestar a mesa; aqui brotando a
- No pomar curvo, ali na horta regada,
- Lá no chão da seara, alem na vinha
- Que o recôsto do outeiro alastra e enreda,
- Mais longe nos cabeços verdejantes
- Onde o gado em socego os leites cria.
- Não lhe ameaçára o raio o této humilde:
- As manhãs, d’entre as ramas espreitando
- Pela aberta janella, o acordarião,
- Por lhe alargar a vida: os passarinhos
- Lhe dirão nas frescas alvoradas
- “Bem vindo, alegre amigo, ás nossas casas!
- Nós cantamos teu Deos, somos felizes,
- Tu louva o nosso, e goza d’este mundo.”
- Se algum cuidado a vespera deixasse,
- Levar-lho-hia na vêa murmurante
- A correntinha onde lavasse o rosto.
- Vê zagalas fieis, vê perigrinas
- De formosura e joias não compradas,
- (Que uma da-lha a saude, outras o prado);
- Com ellas espairece a fantasia,
- E se inda o coração quer mais ventura,
- Ama; ao ceo que ja tinha, um Deos lhe accresce!
- Quanto via e pasmava em mortos quadros,
- Onde astuto pincel prodigios obra,
- Sombras vãs, cujo preço he rios d’oiro,
- Tudo agora real, vivo, mais bello,
- De mais subida mão pintura immensa,
- De graça lhe cercára o lar e a vida.
- Mas ah! porque me sólto em vãs ideas!
- Embora o preço teu não saiba o mundo,
- Primavera, eu te adoro e tu me afagas:
- Caro co’a lira vezes mil teu nome,
- E tu me infloras magamente a lira:
- Em longo mútuo abraço almas trocâmos;
- A minha he mansidão, frescor, perfume,
- Toda a tua, poesia, amor, extremos.
- Lanças-me em teu regaço, e quando a noite
- A lira e cornucopia aos dois nos furta,
- Das-me dormir co’a fronte no teu seio,
- D’onde me vem coando uns sonhos leves,
- Todos teus, todos candidos, na fórma
- De flores, de aves, de amorinhos, de auras.
- Assim, me queres teu até no sono!
- E porque sombras más o não perturbem,
- Mo ficas a velar á luz dos astros,
- O semblante pacífico ao sereno,
- Os olhos no ceo da alva, e o peito amores.
-
- Mas tu ... porque não vens?—Não não me engano,
- Inda agora os trovões rijo batalhão.
- Talvez rola n’esta hora a tempestade
- Pelo oceano de Atlante ondas sobre ondas;
- Rugindo estoira o mar em crespas serras:
- Possança de baixeis, esfôrço, industria
- Não vale a contrastar-lhe a valentia;
- De toda a parte a morte esvoaça, ruge
- Na horrenda cerração com sons do averno;
- O náufrago abraçado a sôlto lenho,
- De toda a parte a vê, a ouve, a sorve;
- Vai a abismos e a ceos repulso d’ambos,
- E perde, antes da vida, a luz e a mente.
- Sumio-se o ultimo audaz de sôbre as aguas!
- De nuvens atro veo submerge a lua;
- Não luz na escuridade alguma estrella;
- He o luto do Homem forte! Ó Mar és livre!
- Triunfaste, adormece.—Ah que de vezes
- Taes scenas, tal horror, maior, mais negro,
- Nos tem de si brotado a umbrosa quadra!
- Ó tu contrária sua, o tu dos homens
- Sempre invocada amiga, ethéreo Nume,
- A quem ceo, terra e mar dão vassallagem,
- Onde estás, que não vens com um leve assopro
- Trazer serenidade aos elementos?
- Se inda és a mesma, e súpplicas te movem,
- Sobe ao carro da aurora, os ares fende,
- E acode ao Luso clima, onde te invocão.
-
- ¿Lembra-te a gruta, a gruta onde Amarilis
- De seu ja quasi esposo Umbrano, o astuto,
- Acceitou, de sincera, a grave aposta?
- Qual era, que o pastor lhe não podia
- Dar n’uma tarde tantos beijos, tantos,
- Como as folhas do plátano vizinho,
- Sendo o premio da aposta inda outro beijo?
- ¿Aquella gruta, onde ambos consumirão
- Um dia teu, a adivinhar a ponto
- Todas as graças do primeiro filho;
- E só no sexo os votos discordavão,
- Porque Umbrano pintava outra Amarilis,
- E Amarilis raivosa um novo Umbrano?
- Pois n’essa, n’essa gruta os meus amigos
- Para hospedar-te um grão festejo tração.
- Pôr-se-ha do cedro á sombra altar gramíneo
- Com seus flóreos listões, onde c’roados
- Te libem vinho annoso e leite puro,
- Concertando himnos teus com lira e flautas.
- O lavrador da proxima campina,
- A estirada cantiga aos bois tardios
- Parando calará, para escutar-nos.
-
- Então, então começa o tempo d’oiro,
- Folgão no campo os naturaes prazeres,
- E a rustica alegria apraz aos deoses.
- Aqui, apoz as candidas ovelhas,
- Vai trigueira, descalça pastorinha
- Aos echos do arredor cantando amores;
- Ali galhudo Sátiro se esconde
- Para colher alguma Ninfa errante;
- Alem com ledos sons retine o bosque,
- O riso ferve, as flautas se misturão;
- Mais longe, aos pés de mal fingida ingrata,
- Se exhalão rogos apiedando as selvas.
- Um favonio subtil encrespa as ágoas,
- E enfada a Ninfa, que estudava uns geitos
- De se enfadar com quem de amor lhe falle.
- Priapo brincador gira saltando
- Nos jardins, nos vergeis, e nos pomares,
- Ramos bate, alvorota o plúmeo bando,
- Que foge, mas de Amor não foge ás settas.
- Amor e seus irmãos, com o facho em punho,
- Lanção tacito fogo a quanto existe.
- Junto da verde faia susurrando
- Se ouve outra faia um não sei que, tão doce,
- Que aos amantes apraz o seu murmúrio.
- Do rebanho o marido entre o rebanho
- Bala amoroso, e todas lhe respondem:
- Pela novilha se enfurece o toiro,
- Accomette o rival, goza o triunfo.
- Côr de neve, innocentes cordeirinhos
- Ja balão na verdura, ja recresce
- Maravilhando a serra, a grei profusa
- Das erradias cabras saltadoras:
- A nova creação corre exultando;
- Aquelle foge, os outros o perseguem,
- Voltão, saltão, empinão-se, discorrem
- Por toda a parte n’um momento o prado;
- Cresce o leite, e o pastor a quem ja faltão
- Cinchos para o queijar, tarros que o levem,
- Lédo se enraiva com riquezas tantas.
- Todo o arredor da aldea he movimento,
- Contente lida, esp’rança, amenidade.
-
- Porque se hão de calar da infancia os brincos?
- A infancia he primavera, he mundozinho
- Florente, de que nasce um grande mundo.
- Menino á espreita e mudo entre as silveiras,
- Apoz o som do grillo o vai buscando;
- Outro os ramos envisca, as redes arma;
- Prêzo de longo fio ao pé mimoso
- Passarinho pelo ar chirla e revoa,
- E crendo-se de novo o rei do espaço,
- De inconstante creança um dedo o rege.
- Um mais travêsso, ás árvores trepado,
- Nos ramos se embalança, ou furta os ninhos;
- Outro mais atrevido, emvão forceja
- Por montar no carneiro, que se escapa,
- Fazendo ao longe retinir os bosques
- Co’ o crebro som da aguda campainha.
- Tenra menina um malmequer desfolha,
- E pelo amor da mãi á flor pergunta;
- Em quanto seus irmãos vão na corrente
- Pôr de cortiça um concavo barquinho.
- Na luta, na carreira apostas fervem.
- Oh! da infancia do mundo amaveis scenas!
- Se inda as virtudes sôbre a terra existem,
- Se inda existe o prazer, o socio d’ellas,
- He no campo, no campo; e a quadra tua
- Nos mostra, ó Primavera, este prodigio.
-
- Mas da fogueira as chamas enfraquecem!
- Ja os gallos das proximas cabanas
- Vão começando a annunciar-me o dia:
- Que som grato! que enlêvo estar sentindo
- Por um sereno albor, estes vizinhos
- Nuncios da aurora, a cuja voz respondem
- Outros aqui e alem, com voz diversa!
- Sim, o dia começa: a luz nascente
- Pelas fendas do této está brilhando.
- Eis-me só junto ao lar! quem sabe ha quanto
- Se irião meus bons hospedes ao colmo:
- Agora em doce paz lá estão dormindo.
- Que breve noite! e he finda; ah toda he finda!
- Da fresta, onde cheguei, contemplo os ares,
- E claro vejo o ceo, de nuvens limpo:
- Mal brilha no horizonte a estrella d’alva.
- E os olhos meus (oh dor!) só descobrirem
- Como por um véo denso a natureza!
- Os montes que longissimo se alcanção
- De vinhas e arvoredo entresachados,
- O rio ao longe a fulgurar co’as ondas,
- Os remotos cazaes da gente humilde
- Pelas verdes campinas alvejando,
- Não vê-los eu! não ver!... Mas que murmúrio
- Sólta a folhagem do loureiro antigo,
- Que defronte de mim remonta aos ares?
- O Favonio acordou, que hontem de tarde,
- Cançado de girar, adormecêra
- Junto á cascata no pomar sombrio.
- Vai subito partir: em curtas horas
- Será comtigo, e te dirá meus versos.
-
- Meus Amores, adeos! adeos meu Nume!
- Da Epistola a resposta a vinda seja.
-
-
-
-
-O DIA DA PRIMAVERA
-
-POEMETTO EM DOIS CANTOS
-
-
-_Em dois Cantos se divide agora este Poema, para commodo de quem lê.
-Entendi em apertar melhor que da primeira vez, este feixe de flores, se o
-he: algumas deitei fóra sem fazerem mingoa; as demais forão refrescadas,
-e se me não engano mais algum viço ganharão. Puz-lhe com tão boa vontade
-as mãos como na Epistola: pelo que, sem deixar de ser o mesmo, he outro;
-he o mesmo no essencial e intrinseco, todo outro no lustre e na toada._
-
-
-
-
-DEDICATORIA A MINHA MÃI.
-
-
-_Á maneira das arvores, que acordando do sono do inverno ao bafo
-omnipotente da primavera, como que ressuscitão com o riso e vida nos
-primeiros olhos e flores, o meu engenho começa a matizar-se das suas,
-com a tornada d’estes dias puros e deleitosos aos amigos do campo. As
-primicias, que d’ellas pude colher, forão para a grinalda que apresentei
-na Festa da Primavera celebrada com os meus amigos. Depois de a haver
-tirado do altar da Deosa que governa a mocidade do anno, a quem senão a
-ti, ó minha Mãi, devêra offerecer esta grinalda? sim: outrem qualquer
-a engeitára por de nenhum preço; de ti sei eu certo que lhe acharás
-uma graça especial, mais finas côres, e fragrancias mais suaves: emfim
-me atrevo esperar que póstos amorosamente os olhos na minha Obra,
-entenderás, sem o dizer, como eu sinto todo o amoroso da gratidão, ao
-cuidar em quem me deo alem do ser, a educação, e todos os mais carinhosos
-desvelos: alguns suspiros e lagrimas, para cúmulo da minha felicidade,
-serão talvez por ti, ó minha Mãi, espalhados na minha ausencia._
-
-
-
-
-HISTORIA DA FESTA DA _PRIMAVERA_.
-
-
-Remontando a vêa do Mondego até obra de um quarto de legua para cima da
-Cidade, encontra-se na margem do poente um gracioso retiro, selvatico
-sem aspereza, e como que enfeitado sem arte: dissereis que em hora
-de contentamento o fizera a Natureza, para algum dia hospedar no
-regalo d’aquellas suas sombras um ajuntamento de poetas seus. De _Lapa
-dos Esteios_ pozerão nome ao sítio em dias remotos, segundo soa, os
-vinhateiros e pomareiros que de umas e outras varzeas do rio costumavão
-acudir ali por paos, com que estear suas parreiras e arvores derreadas
-com o pezo da fruta. Ainda permanece o nome, porem ja o arvoredo se não
-desbarata pelos vizinhos, e a Lapa, de tão solitaria e amena que he,
-parece a appetecida estancia do Genio da liberdade.
-
-Entra-se por um breve cáes ornado de cinco alterosas arvores, das quaes
-uma torcendo-se toda para o rio, se debruça para saudar e cobrir com
-a sua sombra os bateis que chegão. No tôpo do cáes, e fronteira a quem
-desembarca, se alevanta um genero de muralha nativa de rochedo, rôto em
-muitos seios. Esta penedia, até aos nove ou dez palmos de altura, sóbe
-nua e só ornada de sua mesma aspereza; d’ahi para cima, como envergonhada
-de sua dura condição, se esconde toda com um frontal de heras, que ora
-resaem como cabeços pendurados, ora se recolhem para fantasiarem la
-por dentro suas grutazinhas e labirinthos, d’onde ás vezes se estão
-vendo saír por um cabo e por outro os passaros, que depois de beber e
-se banharem na vêa da agoa, se empoleirão pelos lamegueiros vizinhos,
-namorando e cantando a suavidade e fresquidão de suas habitações. Pelo
-lado direito d’esta aprazivel scena, sóbe uma cerrada espessura de bosque
-pequeno, onde os olhos se enleão na confusão de troncos e folhagem:
-pelo esquerdo abre-se para cima uma escada rustica mas commoda, de doze
-degraos. Tecem-lhe estendido toldo dois lamegueiros velhos, e outras
-arvores mais pequenas se abração por ali, travadas com mil voltas de
-hera. Dá esta subida em uma planura sôbre o comprido com seus assentos
-de ambas as bandas, isto he da terra e do rio, o qual por entre um basto
-arvoredo, que d’ahi por uma especie de promontorio, vai descendo até
-lhe metter os pés na corrente, se está vendo a furto transparecer: das
-primeiras cabeças d’este arvoredo cáe para os assentos uma boa a vedada
-sombra. O puro e perfumado dos ares, a vária presença da terra e aguas,
-o susurrar dos ramos abanados da viração, as melodiosas querellas das
-aves, em summa o natureza enfeitada só de suas mãos, e paz e descanço
-de deserto, são a fonte perenne dos encantamentos d’este sítio. Uma
-ladeira suave opposta á escada, e ainda mais sombreada, despede em outro
-cáes com seus degraos nativos de rocha até á agua. He este menos bem
-assombrado que o primeiro: não tem relva, nem arvore, nem verdura afóra
-ada muralha no tôpo, toda velada de musgos, matizados com seus tufos de
-fetos silvestres, congossas e um sem numero de outras plantas e ervas,
-sobresaindo a espaços alguns ramos solitarios de figueira brava: mas o
-que de interior graça lhe fallece, lho compensa a larga vista que para
-fóra desfruta.
-
-Era chegado o primeiro dia de primavera. Tratado e assentado estava de
-ha muito entre mim e meus amigos, como iriamos passa-lo juntos, em uma
-romaria e festa poetica á honra d’aquella mais formosa parte do anno. Não
-faltavão á volta da Cidade muitos sitios accommodados ao intento, antes
-não creio que possa haver no mundo outra verdadeira Arcadia, que em tão
-pequeno espaço resuma tantos: mas d’entre todos coube á Lapa dos Esteios
-a palma da competencia. De doze se compunha o rancho, todos amigos,
-poetas e academicos.
-
-Por volta de meio dia, pouco mais, nos ajuntámos com muita alegria e
-abraços, e todos com as nossos ramalhetes de primavera nas mãos, nos
-pozemos alvoraçadamente em caminho para o rio, onde ja o barco nos
-aguardava. O ar estava puro: contra o sol que ardia rijo, nos acudia com
-refrigerio um pouco vento, que ao mesmo tempo nos fazia mui boa feição
-para contrastar a corrente. Saltámos e partimos.—Em quanto alguns por
-um e outro bordo ajudavão o favor do ar com o trabalho de suas varas,
-repellindo o álveo, e fazendo-nos resvalar mais prestes á medida de
-nossos desejos, os demais amotinavão ao longe ambas as ribeiras com suas
-cantigas de amores, entoadas em chusma. A cada momento porem se quebrava
-por si o canto, para se contemplar e encarecer o muito que a natureza
-e o artificio podérão e soubérão crear para enlevo de olhos, por ambas
-aquellas dilatadas margens e campos: pradaria verde e florída, outeiros
-risonhos, cazaes branqueados, grangearia e recreação de quintas, pomares,
-hortas, jardins, e mil arbustos curvos por entre choupos e salgueiros até
-beijarem a agua, esse era o painel em que meus amigos se hião enlevando,
-e que a mim, que pelo longe que era posto, o não podia nem por nevoas
-enxergar, me desentranhou algum suspiro, dando-me a sentir no meio da
-geral alegria alguns momentos magoados, recostado na borda da embarcaçaõ.
-
-Mil couzas pequenas, e por ventura vãs (mas quaes ha que sejão taes para
-gente moça em dia de júbilo?) matizarão toda esta viagem: taes como a
-grita que de subito alevantámos ao passar por baixo do arco grande da
-ponte, aonde as vozes, refletindo do massiço da cantaria, nos ressortião
-para os ouvidos com uma estranha soada, como que por aquella porta e
-esteiro estivessemos entrando um mar nunca d’antes descoberto; despedidas
-á Cidade que de nós se alongava, branca e assentada em seu monte, até que
-desapparecia, e ás margens que para nós arremettião correndo com seus
-estendaes, lavradores e rebanhos, para logo nos passarem alem, fugir-nos
-e perderem-se; a vista de um bando immenso de pombas, que levantando-se
-espavoridas com a nossa passagem, de um ilheo de arêa onde se estavão
-a beber e banhar-se, nos atravessarão pela proa e forão derramar-se
-todas queixosas pela ribanceira vizinha; o ceo a espelhar-se inteiro
-nas aguas ufanas de retratarem multiplicado o sol da primavera com toda
-sua magnificencia: semelhantes nadas produzião em somma um genero de
-felicidade a estes moços Anacreontes viajando, á qual, para de todo o
-ser, só faltava poder durar.
-
-De instante para instante importunavamos os barqueiros, perguntando
-insoffridos quanto nos restava do caminho. Cuidava-se ver a Lapa dos
-Esteios em quantas soledades apraziveis nos apparecião ao longe. Emfim
-a apontárão com o dedo; levantão-se todos, todos com clamor unísono a
-saudão. Saltámos logo no primeiro cáes, deixando o nosso barco amarrado
-a uma arvorezinha, que se algum curioso vier visitar aquelle sitio,
-he a terceira da parte esquerda. Uns de outros derramados, nos fomos
-prestesmente por onde o acaso ou a fantasia nos levavão, correndo e
-devassando toda aquella solidão, que por algumas horas vinhamos povoar:
-e tornando-nos a ajuntar no alto, onde tão commodos assentos se nos
-deparavão. “Esta Lapa disse um, para estancia e habitação das Musas
-parece feita; por aqui as heras pendem de toda a parte!” Sobre o que, se
-procedeo logo á lição dos poemas que todos levavamos. Aqui usarão meus
-amigos para comigo de huma cortezia, de que por mais que fiz me não foi
-possivel defender-me, ordenando-me com seus rogos que os meus versos,
-para os quaes o ultimo lugar em tal companhia podéra ainda ser de muita
-honra, rompessem antes de outros aquelle acto. Estes, a que eu pozera o
-titulo que ainda tem _O Dia da Primavera_, ja primeiro que o sitio fosse
-escolhido se achavão feitos, rasão porque não ha que procurar n’elles a
-pintura d’elle. Concebêra eu um dia de Primavera levado pelos campos em
-contentamento com aquelles companheiros; tomei de minha livre imaginação
-o que me pareceo bastaria para o encher; e poetei-o sem me obrigar a
-nenhuma outra verdade.
-
-_Elmiro_ (que todos havião arcadicamente tomado para si nomes de
-pastores) assim como a leitura foi rematada, veio para mim com um listão
-de heras nas mãos, e mo lançou, a todo o poder que eu pude para me
-escusar, do hombro direito ao lado esquerdo.—Seguio-se _Anfrizo_, o qual
-em pé junto de mim, e com uma coroa em punho, recitou uma formosa Ode,
-toda floreada dos louvores que a amisade lhe figurava poderem-me bem
-assentar; e chegado que foi á ultima estrofe, me coroou abraçando-me.
-Tambem a esta honra me foi forçado ceder, com quanto claramente em mim
-sentisse o muito que vinha mal empregada: a amisade ordenava, o dia era
-seu, rendi-me. Era a grinalda de artificiosissimo lavor, mui fresca, e
-tecido de louros, heras e cópia de flores naturaes; guardei-a com ufania
-e como joia; quizera conserva-la para sempre, mas representava gloria, e
-minha, murchou, desfez se, largos annos ha que he pó, e pó disperso.
-
-Dado que ja então fosse tal o meu triunfo, qual nem em sonhos de ambição
-o podéra antever, _Josino_, a cuja feiticeira Musa ja eu era, muito
-havia, devedor, inda o subio de ponto, lendo antes de um poema, pequeno
-em extensão mas grande e grandissimo em merecimento, um elogio a mim em
-tão delicados versos, que não posso menos de perdoar-lhe a lisonja.
-
-_Aulizo_[5] leo um longo poema intitulado _A Primavera_, que todo
-respirava amor aos campos e á virtude, ataviado de mui mimosas galas
-poeticas, e de mui particular doçura e sabor para os ouvidos: nem se
-cuide que sangue ou amisade ou vãgloria me fazem fôrça para o dizer,
-que antes o dissimulára eu, se o ser irmão e amigo fossem partes para,
-quando a todos os mais vou distribuindo seu preço, lho sonegar a elle; e
-ainda assim talvez o não ousára, se tão boas testemunhas não valessem a
-confirma-lo.
-
-Foi esta leitura interrompida de uns sons de flauta, que por cima
-das cabeças, e de mui perto nos vinhão: era o meu caro amigo,
-Horacio portuguez, José Fernandes de Oliveira Leitão de Gouvea, que
-alvoraçando-nos e alvoraçado, nos apparecia ao cimo da curta escada que
-da Lapa sobe para a _Quinta das Canas_, que lhe fica sobranceira. Forão
-tudo clamores de alegria, recebendo entre nós, poetas todos verdes, o
-nosso decano e patriarcha; cercámo-lo com abraços, das mãos lhe furtarão
-a flauta, foi levado de repente a todos os recantos do nosso Parnaso,
-contando-lhe todos á uma o que até ali se passára, que vezes se fallára
-n’elle, e se desconfiára de sua promettida vinda. Este homem amavel,
-jovial, incapaz de estudadas gravidades, dado e corrente com todos, bom
-sem merecimento de esfôrço, filosofo sem o cuidar, coração que ainda não
-saío nem ja agora sairá da infancia, homem só comsigo parecido, que a
-ninguem imitou nunca, nem de outrem será nunca imitado, e cuja vida, se
-alguem soubesse escrevê-la, sairia tão original e unica como elle mesmo,
-este digo, nascido para ser alma de qualquer ajuntamento moço e alegre,
-tomou para logo seu quinhão na Festa. Deu-se fim ao poema interrompido
-com a chegada do novo socio, que muitas outras vezes o tornou a
-interromper com applaudir e abraçar o poeta. _Josino_, que assim como o
-ouvia fôra entrançando uma coroa de hora da arvore mais chegada, mal que
-o ultimo verso expirou, se foi com ella, por entre as palmas de todos,
-premiar a fronte do cantor.
-
-_Elmiro_, que de apoz se seguio, nos cativou as attenções com um poema
-de muita invenção e belleza, aonde outra vez a amizade me brindou com
-perfumes seus, para os não dizer da lizonja. Igualmente o coroámos; e
-outro tanto se foi fazendo aos demais, que recitarão poemas mais breves
-ou traduções.
-
-_Salicio_[6] repetio uma mimosissima tradução livre de uma parte da
-_Primavera_ de Thompson: _Albano_, uma tradução em lindas quadras do
-Idillio Primavera de Gessner: _Francilio_, uma tradução em proza de Utz,
-que leo de pé com o copo em punho, e rematou com um brinde: _Franzino_
-uma versão da _Primavera_ de Cramer: cerrando-se finalmente este rico
-banquete poetico com mais de quatrocentos versos de um poema de meu irmão
-José Feliciano de Castilho, que pelo muito menino que ainda áquelle tempo
-era, não foi dos menos vitoriados.
-
-Todos estavamos coroados, e o rancho se espalhou. “Ja la vai o sol
-abaixo; os seus raios apenas tocão ja os cumes dos outeiros d’alem:
-aproveitar o tempo!” bradarão alguns amigos da borda de uma eira que
-dominava a Lapa: e todos sentimos que a tarde nos hia insensivelmente
-escapando. Então ao som da flauta do nosso Horacio, começarão todos
-de dançar e saltar, e as aves incitadas da musica, levantarão mais
-alto os gorgeios da tarde. As folhas das heras, que por ali guarnecião
-todas as arvores, e algumas flores voavão ás mãos chêas como em chuva,
-de uns contra os outros. De quando em quando se alevantava alguma voz
-inculcando, porque o fossem todos ver, algum particular gracioso e ainda
-não observado d’aquelle sítio. Chamando _Aulizo_ pelos outros, lhes
-fez notar do cáes mais arido, o como o rio d’ali visto, á conta de sua
-curvidade se afigurava lago cercado de collinas desiguaes, coroadas e
-semeadas de larangeiras, oliveiras e pinheiros, e cazaes alvejando,
-enxergando-se mais a longe, e por entre estes, outros outeiros, quasi a
-se desvanecer na distancia e sombra da tarde. Debuxava eu no animo toda
-aquella scena saudosa; saía-me o quadro maravilhoso, mas era por ventura
-verdadeiro? não o sei.
-
-Uma merenda saborosa nos appareceo de repente e como por encanto:
-_Elmiro_ fôra o magico providente. Toalhas brancas de neve estendidas no
-cáes do desembarque, forão povoadas de primorosos manjares, garrafas ja
-de dias, e copos coroados de verdura: uns rolos de arvores estendidos
-em quadro nos valerão de assentos: dois meninos gémeos, vestidinhos da
-branco, erão os Ganimedes do nosso banquete folgazão. Parte assentados,
-parte reclinados em diversas posturas, outros por entre estes girando com
-os copos e pratos na mão, boas descaídas, descuidos a tempo, apontadas
-graciosidades e risos do íntimo, brindes com o copo alto na direita,
-enviados a mui longes e mui diversas terras (que não havia um só que da
-sua não padecesse ausencia e se não finasse com saudades), outras saudes
-ora mais ora menos sumidas, a objetos nomeados umas vezes e outras não,
-mas mui bons de adivinhar pelos suspiros e geito do saudador, a voltas
-e proposito d’isso narrativas e contos para folgar, musicas alegres de
-flauta mil vezes começadas e outras tantas interrompidas, e outros muitos
-nadas com que a penna se não atreve, convinhão em aprazivel mistura para
-encantar a ultima hora da Festa da Primavera.
-
-Posto era o sol, mas o ceo ainda não carregado de noite: havia-se de
-partir, faltava o animo para o fazer; instavão os barqueiros, crescião
-n’elles a rasão e o importunar, acabárão comnosco que nos rendessemos.
-Despedidos os amorosamente da Lapa ja áquella hora entranhada de
-escuridão temerosa; com os pés ja postos na beira da agua, nenhum queria
-ser primeiro que trocasse terra de tanta festa, por um barco que nos
-hía tornar para onde vida de proza e cuidados nos aguardava: senão
-quando, levantando o bom Gouvea a voz, com ella suave e chêa que se hía
-por aquellas margens alem, começa de cantar _A minha Lilia morreo_;
-improviso seu, chêo de uma branda tristeza, que aos cançados e não fartos
-de gozar costuma ser segundo gozo. Assim hia elle até n’isto imitando
-o seu Horacio, que nos poeticos festins que dava ao Genio da alegria,
-nunca se esquecia com seu quinhão de pensamento para a morte. Profundo
-era o silencio que de toda a parte cercava o nosso cantor; só se ouvia o
-murmurio baixinho da corrente.
-
-Não havia quem nos apartasse: por derradeira vez nos tornámos ainda á
-Lapa, travou-se uma dança por despedida, e fez-se uma saude geral ao
-lugar e ás trez Graças que ali costumão a vir muitas vezes[7], até que
-emfim nos embarcámos, com as nossas coroas na cabeça. Foi aos barqueiros
-defendido usar de vara, antes se lhes encommendou que nos deixassem
-embora ir, tão mansa e perguiçosamente como á vêa mal desperta do rio
-parecesse, e ainda n’aquelle pouco descer das aguas houvéramos nós tido
-mão, se podessemos.
-
-Pareceo bem, para atalhar a confusão de tantas vozes como as que ali
-fervião juntas, nomear á maneira do Rei do vinho nos festins dos antigos,
-um que nos governasse. Este foi Gouvea por acclamação unanime. Lembrou
-um que d’ahi ao deante nos ficassemos uns aos outros dando o tratamento
-de confiança, que a boa amizade consente e requer: approvou-se. “E
-quemquer que a esta lei desobedeça, haja-se por expulso da _Sociedade
-dos Amigos da Primavera_.” Approvou-se com alvoroço; levantarão-se todos
-abraçando-se, apertando-se entre si as mãos, e dando-se entre risos o
-tratamento novo tão amiudado para lhe quebrar a estranheza, que ninguem
-se entendia.—“Todos os Socios (gritou outro, e de novo se fez silencio)
-hão de conservar até que o tempo as destrua, estas suas coroas, se não
-monumentos de gloria, penhores certo que mais vale, de horas felizes:”
-approvou-se por lei o que ja todos levavão no coração bem votado.
-Suscitou-se depois que recitasse cada um segundo a ordem dos assentos,
-alguma sua poesia breve, e que mais lhe parecesse accommodada á occasião.
-Não faltárão aqui seus debates, lembrando uns como apoz tanto recitar,
-tinha a cantoria muito melhor cabida do que os versos nus, outros
-affirmando que a flauta melhor que nenhuma outra cousa diria com a hora,
-sítio, e calada grande do rio: até que um veio conciliar a diversidade
-dos pareceres, dizendo que umas couzas não tolhião as outras, antes
-podião ir todas a revezes tendo seu lugar: o que assim se cumprio.
-
-A serenidade da noite junta com as saudades do dia, nos fez achar
-inefavel doçura nos sons da flauta, que parecião modulados pela
-melancolia, e se esvaíão ao longe nos ares. Se ás vezes o acaso nos
-levava mais para uma das margens, uns frouxos echos chêos de doçura a
-tristeza se comprazião de repetir a musica e as palmas com que a nós
-applaudiamos. Emquanto um só cantava em meia voz, e nós o ouviamos
-calados, a face na mão, e meio reclinados contra o rio, suave nos era
-escutar como as quasi insensiveis ondas, com som muito mais baixo nos
-vinhão beijar os lados do batel, d’onde, se fugião partindo, com um
-murmurinho saudoso.
-
-Descemos em terra, e abraçando-nos repassados de igual amizade, e das
-mesmas lembranças, votámos logo ali nova Festa em honra do primeiro dia
-de Maio, a qual se veio a fazer, como ao deante o declarará o volume: e
-todo esse meio tempo de uma até á outra, foi tecido de doces memorias,
-fantasias poeticas, tenções e esperanças de prazer.
-
-Assim se podia e sabia ainda então passar dias mansos, innocentes e
-bemaventurados!
-
- _Lisboa: 2 de Janeiro de 1837._
-
-
-
-
-O DIA DA PRIMAVERA.
-
-CANTO I.
-
-_A Manhã_
-
-
- Ei-la que chega a amante Primavera!
- Logo ao romper do dia susurrando
- Vós, Favonios azues, a annunciaveis.
- Chega ... chegou! as aves a festejão
- Desatinadas, doidas; ja com verdes
- Braços lhe acena o bosque; estão-se os rios
- A retrata-la; as fontes a murmurão;
- Traz gala o monte; os valles se alcatifão;
- Ri-lhe o ceo todo, a Natureza he d’ella!
-
- Mais cedo ao leito do marido annoso
- Hoje a Aurora fugio; tomou regaço
- De orientaes aljofares mais rico,
- Mais cópia em seio e mãos de ethéreas flores.
- Aos umbraes inda escuros do horisonte
- Quem a aguardava, quem? os meus Amores
- Que encontro! que abraçar-se!... O Zefirinho
- Que ja por entre nós passou trez vezes,
- Trez vezes ao passar mo ha segredado:
- Vio tudo, tudo ouvio, que era elle proprio
- Um dos que pelo ar vinhão soprando
- O matizado pavilhão de nuvens,
- Em que ás terras baixava o Par celeste.
- Rosto a rosto inclinado; as mãos unidas;
- Mago riso um só riso em bocas duas;
- Absortos em luz mutua os mutuos olhos;
- Duas Gémeas do ceo, duas Virtudes
- N’uma Virtude só, se afiguravão.
- —“Ó minha Irmã (dizia a Primavera)
- “Quem nos ha de estremar? tu es do dia
- “A Primavera, eu sou do anno Aurora”—
- —“Filha como eu do Sol (acode rindo
- “A Aurora), ó doce Irmã, vérte-te o Fado,
- “Não q eu to inveje, os bens de urna mais ampla:
- “Deu-te folgar sem mim, deu-te a alegria
- “Dos dias que eu só abro, e os tão gabados
- “Prazeres que eu não vi, não verei nunca,
- “Prazeres do sol pôsto, e de alvas noites.
- “A mim lida perenne, a mim rigores
- “De oppostas estações, reinar de instantes,
- “Contínua fuga, e os odios dos ditosos,
- “E as maldições de Amor comtigo affavel.
- “Eis porque a meu pezar, já por costume,
- “De olhos que espargem luz se orvalhão choros.
- “Perdôa-mos teu jubilo mos sécca.
- “Desce, eu parto, urge o Tempo, e ja me acena
- “Co’a mão rugosa para novos climas.
- “Fica-te em nossa amada Lusitania,
- “Inda pouco ha tão triste. Observa os cumes
- “Contra o nosso nascente; ahi vês á espera
- “A turba toda dos campestres Deozes,
- “Flora, Cibele, Dríades, Napéas,
- “Hamadríades, Náiades, Silvano,
- “A caçadora Cinthia, Amores, Graças,
- “Os ledos Risos, a amorosa Venus;
- “E Pan ha muito tempo em nova flauta,
- “No verde cume do apartado monte,
- “Lá onde canas trémulas susurrão,
- “Para a tua chegada estuda um hino,
- “A cujo estrondo os Sátiros voltêem.”—
- Diz: olha para traz, vê o Sol, desmaia,
- Beija a Amiga, e fugindo a entrega ao dia.
-
- Desfez-se a névoa eis Sol! Joelho em terra,
- Amigos meus; he o Sol da Primavera!
- “Ó Sol das flores, Salve! Ó Sol de amantes,
- “Salve! E trez vezes Salve! ó Sol dos vates!”
- Vêde-o doirando do arvoredo os cumes;
- Vêde nas aguas límpidas fervendo
- De reflexos de luz áureo cardume.
- Corramos n’um momento os campos todos!
- Como esta luz do Ceo, que a toda a parte
- Desce, rompe, insinua-se, alvoroça;
- Como esta luz do Ceo, vates mancebos,
- Devassemos a terra: uma só gruta
- Não fique, um arvoredo, ou valle, ou fonte,
- Por onde não mergulhe a vista, o estro.
-
- Esta, que ora seguimos, tortuosa
- Concava senda, ha pouco estreito rio
- Co’as grossas chuvas da vizinha serra,
- Parece de um jardim curiosa rua!
- De um lado e d’outro os còmaros pendentes
- Ja não são montes de crueis espinhos,
- Montes são de verdura, e roxas flores,
- Onde n’outra estação viráõ c’os cestos
- Colher nevadas mãos negras amoras:
- Recende o legacão, e a madresilva.
- De madresilva ornemo-nos as frontes ...
- Mas não: fique-se em paz a flor nevada;
- Quer-se antes a violeta, eu sei outeiro
- Onde ella mora, he flor da Primavera;
- D’esta eu fiz elleição não quero d’outra,
- Vós, se outra preferís, apanhai d’essa.
-
- Por aqui vai a encosta desfarçada:
- Como que ja de cór meus pés a sabem.
- Ja vós de cá vereis, la quasi ao cimo,
- Um ramalhete espesso de aveleiras,
- E de dentro luzindo uma apparencia
- De alvo lirio entre verde, um cazalinho;
- Pois essa he a casa de Egle. E mais avante,
- No alto; não voltêão solitarias
- As pandas velas de veloz moinho?
- Tambem ja la pouzei n’uma afrontada
- Tarde do estio, e lhe dormi á sombra.
- Tudo isto me conhece! Esta ladeira
- De rusticos degráos, que ahi desce á dextra,
- De perenne verdor acobertada,
- Cáe na fonte da aldea. (Ahi vão por agua
- Com seus vermelhos cantaros as moças.
- Outras cá vem, com passo mais tardio,
- Sobindo ja, com os potes á cabeça
- Lustrosos, vacillando e sempre firmes)
- Não presumis quanto he social a boa
- Da fontinha aldeã! não ha formosa
- Que ali se não detenha e não se enfeite;
- Não ha pastor cortez, que ao fim da tarde,
- Ja recolhido o gado, ali não desça
- Para ajudar a encher; inda não houve
- Na vizinhança amor, cantiga nova,
- Ou fallado successo, que cem vezes
- Do fundo de seu antro os não ouvisse
- A Náiade anciã; nem bôda alguma,
- Sem se enramar o portico musgoso.
-
- Á esquerda, pela varzea anda rebanho;
- Que ouvi balar, e ainda ouço a cantilena
- De pegureira voz. Dizei-me á pressa,
- Que scena off’rece a varzea? a relva molle
- De alvas boninas trémulas brincada,
- Onde o calor nascente o orvalho enxuga,
- O sombrear das arvores dispersas,
- Bellos não são de ver? he vasto o bando
- Das ovelhas pacíficas? he linda
- A guardadora sua? está sozinha
- Em pé volvendo o fuso e olhando o pasto,
- Ou com algum pastor sentada em ocio?
- Traz disperso o cabello ou prezo em rosas?
- Que donoso cantar! que peregrina
- Poesia que esperdiça aquella moça
- Com broncas solidões e ovelhas rudes!
- Couza que assim namore a fantasia
- Não quero que haja, não: virgem formosa
- Sozinha sob o ceo; velando em brutos
- A que era de velar como um thesouro;
- A graça envolta em lãs, contente e rica;
- E annos verdes, sem pena aqui florindo,
- Longe de olhos e amor, jogos e esp’ranças!
-
- Detende-vos: o aroma he de violetas.
- Ei-las! irei tecendo a c’roa minha
- Com estas, que escondidas, pudibundas,
- Como a pastora, em paz desabrocharão,
- O ar, como a pastora, em roda encantão.
-
- Ja percebo o rugir das aveleiras;
- Não vejo inda o cazal estancia d’Egle,
- Mas perto, oh perto vem: todo esse rôlo
- De espesso fumo que serpêa aos ares,
- He da interna fogueira que amanhece,
- Cuidadosa do almoço, aos moradores.
-
- Entremos no pomar. Ja Primavera
- Copiosa o bafejou, de agradecida
- Ás pomareiras mãos que lho aprestárão.
- Inda folhas não ha, mas tudo he flores!
- Vede como ante o sol tremúla e brilha
- O pecegueiro co’o vermelho ornato:
- Vede alem da pereira a branca véste,
- Da cerejeira, do abrunheiro a cópa:
- Vede como uma vide em cada tronco
- Tenaz se enlêa em tortuoso abraço;
- Ja seus pequenos pampanos rebentão,
- Verdejantes festões ja vão formando:
- Do cheiroso morango a planta humilde
- Aqui e ali no verde chão rasteja.
- Arvores, plantas d’Egle, a nomeada
- Em todo este arredor pelas delicias
- Dos ricos frutos seus, não se numérão,
- Nem sei louvor que lhes não ceda, e muito.
- O porque sejão taes, fique em segredo
- Quando vo-lo eu disser. — Aqui Vertumno
- Veio uma tarde do passado outono,
- Mudado em rouxinol, cantar nos ramos,
- D’onde, mais bella que a gentil Pomona,
- Egle andava colhendo a rica fruta.
- Julgou ver sua Deoza o terno amante,
- E tão doce cantou por entre os frutos,
- Tão queixoso gemeo, gemeo tão meigo
- Cercou-a tanto com chorosos pios,
- Tantas vezes pouzou na mão de neve,
- Na trança negra, no virgineo seio,
- Que Egle o metteo no candido regaço,
- O levou toda ufana ao lar paterno,
- E em pintada gaiola inda hoje o guarda,
- Que o Deos não quer fugir do cativeiro.
- Quando a sente acordar pela alta noite,
- Acalenta-a com languidos requebros:
- Ao romper da manhã, quando no bosque
- Ouve perto cantando as outras aves,
- Logo a acorda com vividos gorgeios:
- Mas quando a vê surgir, qual Venus da agua,
- Sem mais vestido que a esparsida coma ...
- Ahi he o pipillar, o esvoaçar-se,
- O encrespar de plumage, o dar sem tino
- Contra os duros varões co’ o peito brando:
- Ahi o abrir do bico a pedir beijos,
- E o revelar calado o amor e o nume.
- Por isso he que ao pomar onde foi prezo
- Fadou, quanta vos prende, infinda graça.
-
- Como he puro este ceo do campo d’Egle!
- Como he doce este Zéfiro que folga
- Entre as arvores d’Egle! este he ditoso!
- Ei-la que sáe de seu campestre alvergue.
- Calados se podeis, entre estes verdes
- Porque vos não descubra, olhai-a um pouco.
- Quereis ver como a ponto lhe adivinho
- Os passos, e o que faz, e os pensamentos?
- Sim, Egle he sempre aquella, he sempre a mesma;
- Arvore sem enxerto he sua vida,
- Dá sempre a flor igual, iguaes os frutos.
- Mas silencio, Vertumnos insoffridos,
- Ja vo-la pinto, e me direis se eu érro.
- Do braço nu e candido lhe pende
- De louro milho o próvido cestinho.
- Chama as pombas, lá vão pouzar no alpendre;
- Á eira arroja os grãos, lá são na eira,
- Arrulhão, comem sofregas, refogem;
- Ahi vai novo punhado, ahi vem de novo.
- Uma d’ellas, mais alva do que o leite,
- Vai pouzar no cestinho ao lado d’Egle,
- E mansa come na formosa dextra;
- Furtão côres com o sol o collo, as azas.
- Egle lhe chama filha; affirmarieis
- Que o brutinho a entendeo, salta-lhe ao seio,
- Espaneja-se: agora lhe promette
- O pombo mais fiel para consorte,
- E um ninho todo fôfo, e muito afago
- Aos pequeninos seus; mas quer em paga
- Um beijo, e um beijo pede: a face inclina,
- O bico a vem libar; alonga os labios
- Unidos em botão, corre o biquinho,
- E ao centro do botão lhe leva o beijo.
-
- Agora vem ao tanque, aos rubros peixes
- Trazer segundo almoço: oh!—providencia
- Não ha mais desvelada, ou mais formosa!
- Mal que o choveo nas aguas transparentes,
- Por entre os crebros circulos assoma
- De vivos olhos purpurina turba,
- Tragão-no, e fogem requebrando as caudas:
- Ermo o lago outra vez ficou dormindo.
-
- Que dizeis? volve a casa? em manhã d’estas
- Egle volve ao cazal! tornará logo.
- Mas vós não ficareis, que o não consinto;
- Hoje he só Divindade a Primavera.
- Emquanto a hora da Festa inda vem longe,
- Irmos correndo á sôlta, irmos folgando
- He o nosso dever, foi jura nossa.
-
- ¿Mas que risadas d’esta parte sôão
- Entre os salgueiros, do regato á borda?
- Rasgado o cinto, desgrenhada a trança,
- Uma Ninfa gentil é quem sozinha,
- Se ouve rir no pacífico arvoredo!
- La vai na vêa d’agua bracejando,
- E a soltar de afflição piedosos gritos
- Um Sátiro infeliz! ja muito longe
- A corrente lhe leva o odre e a flauta.
- Agora á flôr das agoas apparece,
- Some-se agora no lodoso fundo.
- Em vez de o soccorrer, o apupão rindo
- Da opposta varzea os rusticos pastores.
- —“Dize, bom guardador das vaccas nedeas
- “Que successo foi este?”—“Eu vo-lo conto.
- “A Ninfa hia correndo, antes voando,
- “Ao longo d’esta margem que verdeja,
- “Quando eu dei fé; suava-lhe no alcance
- “O mofino do Sátiro ... (Que vejo!
- “Inda poude aferrar ... Más horas leve
- “A agua que o não tragou! Pois ja não larga
- “Os vimes que aferrou co’a mão pelluda.
- “La trepa ... Vê-lo em cima! Oh como o bruto
- “Se estira ao sol e arqueja!) Hia no alcance
- “Da pobre Ninfa o Sátiro; umas silvas
- “A prendêrão, travando-lhe do cinto.
- “Carpia-se a coitada entre alaridos,
- “Como passaro prezo; esta novilha
- “Não muge com mais ancia em vendo os lobos.
- “Bate as palmas o fero, e mais ligeiro
- “Atropella a carreira, e vai clamando
- —“Venci-te—Avida mão ja lhe lançava,
- “Senão quando (tomado está dos vinhos)
- “O pé caprino na orvalhada relva
- “Resvala: vê-lo vai de tombo em tombo
- “Medindo a ribanceira, e dá no rio!
- “Logo ao caír, fugíra-lhe dos hombros
- “O odre do vinho, e a flauta d’entre os dedos.
- “Mal poude resfolgar—Ó flauta! ó odre!—
- “Disse trez vezes, e esqueceo-lhe a Ninfa”—
- —“Bem hajas, guardador das nedeas vaccas:
- “Mais feliz sejas tu com teus amores,
- “E menos apressada a que seguires.”
-
- Socios, que mais ha ahi? Que vos demora
- Em de redor de um choupo? Letras, versos
- Entalhados no tronco! uma grinalda
- A abraça-lo, outras mil por toda a cópa,
- Que parece um rosal! na terra mirtos!
- Lede-me esse letreiro: algum queixume
- De infeliz namorado. Oh! ceos, he crivel?
- LEI DE AMOR tem por titulo? se fosse
- Da propria mão do Nume aqui gravada!
-
- _Amar, amar! viver d’amores!_
- _Que o tempo off’rece e nunca espera;_
- _Aos corações bem como ás flores_
- _Não se renova a Primavera._
-
- Oh Lei, porta de Elisio antes da morte!
- Sim, sim, de Amor tu es; vós sois das Graças
- Coroas que a ufanaes, a encheis de aroma.
- Socios, ministros das Piérias Deozas,
- Erguei mão não profana ás flores sacras,
- Privilegio he do estro, ouzai colhê-las:
- Levará cadaqual no peito a sua
- Bem sobre o coração, tão perto d’elle
- Que ouvindo-o palpitar lhe falle amores.
-
- Pois he lei quero amar: sim. Porém onde
- Onde estará da Primavera a Deoza?
- Por toda a parte os seus vestigios nóto,
- Mas não a posso achar. Ah! vós que rides,
- A insólita paixão julgaes chimera.
- Existe, existe a Virgem graciosa,
- Dos Ceos a Filha occulta anda na terra:
- Não são sem divindade estes prodigios.
- Quem faz tão branda murmurar a fonte?
- Quem abre a rosa na materna planta?
- Quem dá cheiro á violeta, e côr ao lirio,
- Ao ar fresco o regalo e verde aos campos?
- Quem poesia de amor ensina ás aves?
- Quem é que influe no coração dos homens
- Tanto amor, tanta paz, doçura tanta?
- Existe, existe a Virgem graciosa,
- A minha doce Amante, a minha Amada,
- Dos Ceos a Filha occulta anda na terra.
- Sinaes de sua mão, pizadas suas,
- Fragrancias que espirou, por toda a parte
- Me envolvem, me arrebatão, me endoidecem;
- Mas busco-a e não se mostra; exclamo, he surda!
- O dia he fallador, he distraído,
- Deidade virginal recêa o dia,
- Casta, só quer talvez ás castas sombras
- Revelar seu misterio, abrir seu peito.
- Oh quem me dera que baixasse a noite!
- Da noite no pacífico silencio
- Côa pelo ar vazio o som mais leve:
- Por isso a Filomela a quiz por sua,
- E o mocho lhe confia as longas queixas:
- Quem me ja déra que baixasse a noite!
- Irei clamar do cume dos outeiros
- “Ó Primavera, ó minha Primavera!”
- E depois que trez vezes repetirem,
- Ao longe os echos meu tristonho grito,
- Attento escutarei se me responde.
- Se nada ouvir, prostrando-me, e cobrindo
- De igneos beijos a terra (os igneos beijos
- Tem valor de conjurio entre amadores)
- Com maior devoção, dobrada fôrça,
- Clamarei “Primavera, ó Primavera!”
- E os campos todos correrei bradando.
- Na solitaria gruta alguma Ninfa
- Ha de acordar, e á parte do oriente
- Lançar a vista, procurando a aurora:
- A aurora não virá, e eu longo tempo
- Andarei pelas trevas suspirando.
- Se trez vezes o sol descer ás ondas,
- Sem que possa encontrar a minha Amada,
- E sem que algum mortal dê novas d’ella,
- Apagarei no peito o incendio inutil,
- Pensando que era ingrata, ou que por sonhos
- Somente a víra em extases do estro.
-
- Mas viver sem amar, sem ser amado?
- Vida entre gelos equivale á morte,
- No pasto ao coração mantem-se a vida;
- Sois brandas affeições, a essencia d’ella.
- Confessar-me da Lei que abrange a todos,
- O primeiro infrátor? Ó Chlóe, ó bella,
- Serás tu d’entre mil, o preferido
- Emprego aos versos meus e aos meus excessos.
- Ja tens da Primavera o genio, as graças,
- Sua fama terás, terás seus hinos.
- Quando com teu rebanho para o rio
- O bosque ao fim da tarde atravessares,
- De longe me verás na flórea margem
- Sobre um penedo a celebrar teu nome.
- Quando o quente redil ao gado abrires
- No frescor da manhã, dir-te-ha meu rosto
- Que entre as da tua porta arvores caras
- Não fui amanhecer, mas toda a noite
- De amor andei cercando o teu descanço,
- Sentindo-te o respiro, ou crendo ouvi-lo.
- Quando na sésta, á sombra da oliveira
- Tiveres descuidosa adormecido,
- Em sons de flauta escutarás por sonhos
- O cantar novo que te mais recreie.
-
- Mas vede como leve escapa o tempo!
- Ja alto e rijo o sol encurta as sombras.
- Largo se ha divagado! Hora purpúrea,
- A mais social, mais folgazã das horas,
- Chamando está por nós co’a mesa agreste.
- Onde a iremos tomar? n’algum tugurio
- De solitaria Baucis? nem de feno
- Pobres tétos consente o sacro Dia.
- Ali temos o outeiro alcatifado,
- Rico montáõ de flores! Que mui frescos
- Pela assomada os louros se entrelação!
- Mas sobre tudo que aprazivel gruta!
- Por fóra he de hera um tufo luzidio,
- Dentro um fôrro de musgo. Alvitre novo
- Ó Socios escutai. Esta collina
- Desde hoje para nós fique Parnaso.
- Eis a gruta de Cirrha, onde costuma
- Febo sonhar magníficas imagens!
- Esses louros são delle! Aquella fonte
- (Ceos nada falta!) he fonte de Castalia!
- No remanso diáfano boiando
- Niveos ganços as azas empavezão;
- Fingi-lhes doce a voz, chamai-lhes cisnes:
- Lindas pastoras nossas Musas sejão.
- Respiremos o estro! Ó lá de Cirrha
- Virações, acudi-nos contra a calma:
- E vós louros selvaticos, ó louros,
- Velai com vossa abobada frondente
- Os vates e o banquete, o rir e os versos.
- A primeira saude a Bacho e Ceres,
- A Palles e Pomona, ora presentes
- Do banquete á rural simplicidade.
- Para dias iguaes, plantar-lhes voto
- Cá bem no viso do sagrado outeiro,
- Densa cabana de perpetua folha:
- Para aqui, de canceiras feriados,
- Viremos amiude abrir os peitos
- Ao bachico folguedo, a Amor e aos cantos,
- Co’a alegria assombrar, e co’a amizade
- Do loureiral as Dríades vizinhas.
-
- Na venturosa paz d’este retiro,
- Não virá perturbar nossa humildade
- Com seus trovões, com seus _coriscos horridos_
- Turba sublime de soturnos vates.
- Alçando o collo, enfaticos praguejem
- Contra os _tirannos_, contra os _monstros barbaros_;
- Pintem de rôjo os _prepotentes déspotas_,
- Fulminem os _perversos aristócratas_,
- E fujão por estudo á natureza.
- Não lhes invejo, não, a bronsea tuba,
- Que despede trovões e rasga ouvidos.
- De nosso humilde genio estou contente:
- Nada mais temos que uma agreste flauta;
- Com ella muda, ás vezes longas horas,
- Da natureza os quadros estudâmos.
- Socios dos rouxinoes, só diffundimos
- Depois de meditar, nossos gorgeios;
- Em quanto o mocho a luz aborrecendo,
- Nos amenos vergeis nunca discorre;
- Dorme o formoso dia em cava furna,
- E sólta pela noite horrendos guinchos,
- Pouzado junto ao ceo, mas entre horrores.
-
- Elmiro, ó tu que, tanto como odêo,
- Odêas as sonoras bagatelas,
- E ris, como eu, dos estrondosos nadas;
- Nunca te afastes da florída róta,
- Por onde a Natureza o Genio chama.
- Da madrugada nos mimosos sonhos,
- Costumas ver de murtas coroada,
- A amavel Sombra do risonho Géssner.
- Oh! quando aos campos teus um dia voltes,
- Á sombra do teu cedro será doce
- Ouvir-te prantear perdida amante!
- Entre as folhas cheirosas susurrando,
- Qual favonio indeciso, os Manes d’ella,
- Mansa tristeza ao coração te enviem.
- Emquanto no escarceo da grão Cidade
- Eu misero, eu saudoso andar lutando,
- La no fertil torrão verás contente
- Por ceos de teu jardim nascer a aurora:
- Regarás pela fresca as flores tuas
- Junto da terna Mãi, que este só gôsto
- Na morte conservou do esposo amado;
- Triste e formosa qual viuva rôla.
- Outras vezes as pombas que sustentas,
- Terno irás vizitar co’as Irmãs bellas,
- Qual entre as Graças passeára Adonis
- Nos arvoredos da ociosa Chipre.
- Elmiro, ¿e alguma vez tambem meus versos
- Serão do teu retiro um passatempo?
- Quando eu tos enviar, vós reunidos
- Junto do fogo nos serões do inverno,
- Contentes os lereis; e tu, girando
- Co’a vaga idea nos passados tempos,
- Dirás a suspirar “He meu amigo”.
-
-FIM DO CANTO PRIMEIRO.
-
-
-
-
-O DIA DA PRIMAVERA.
-
-CANTO II.
-
-_A Tarde._
-
-
- Ja dos louros as grimpas se embalanção:
- Surgir, surgir da relva sonolenta!
- Ja fresca viração consola os ares:
- Que zoada que vai por toda a selva!
- Estrépito de rio impetuoso
- Na calada da noite a crê mil vezes
- O viandante perdido. Hora da Festa,
- Bem te ouvimos anciosa estar chamando.
- ¡Da Primavera á Festa, á gruta, ó Socios,
- De Amarilis e Umbrano á vasta gruta!
- Ja agora o bom de Anfrizo ha de ter pronto
- De sua déstra mão o altar gramíneo,
- Arqueado em docel do cedro a cópa,
- E do cedro no pé com flórea tarja
- Da nossa Primavera aberto o nome,
- Se he que amor lhe não fez gravar _Dorinda_;
- Dorinda, cujos magicos encantos
- Na lira do amador gerão milagres;
- Cujos olhos, tão negros como a noite,
- São como a noite ao Deos de amor tão caros.
-
- Sim, vamos — Vedes vós o pequenino
- Que la vem amontado em verde cana?
- Quão guapo agita as redeas côr de rosa,
- E açouta co’a varinha a brava fera!
- Ouvis-lhe a doce voz que por mim chama?
- —“Salve, menino! e adeos, que hoje não posso.
- “Outro dia virei, toda uma tarde,
- “Trabalhar nas flautinhas, que arremedem
- “Cantar de rouxinol soprando-as n’agua.
- “Amanhã me procura aqui no outeiro,
- “Verás, verás que historias te não conto.”—
-
- Partio: como galopa afervorado!
- Ja vai conta-lo á mãi. Este menino
- He da aldea a doudice, e os meus amores.
- He dote de seus annos a innocencia,
- Como do botãozinho he dote a graça:
- Mas aqui ha melhor, he botãozinho
- Ja fragrante, he virtude antes do sizo.
- N’aquella sésta do abafado agosto,
- Quando fostes nadar, eu passeava
- Sozinho a espairecer pela frescura;
- Eis para mim correndo este menino,
- Vergonhoso me diz:—“Queres atar-me
- “Este cordel nas pontas do meu arco,
- “Bem seguro, bem forte, que não quebre?”—
- —“Sim, amavel menino (eu lhe respondo)
- “Sim quero atar-to bem seguro e forte”—
- E emquanto lho fazia, assim lhe disse:
- —“Vais caçar borboletas? ou mordeo-te
- “Alguma abelha, e queres castiga-la?”—
- —“Não, não: vou dar em minha mãi um tiro”—
- —“Um tiro em tua mãi!”—“Sim n’outro dia
- “Deo-me tanto nas mãos, que me ficarão
- “A doer, tão vermelhas como as rosas”—
- —“E porque assim te deo, que te ficassem
- “As mãozinhas vermelhas como as rosas?”—
- —“Eu tinha (acudio elle) um melro novo:
- “Era meu, apanhou-o a minha rede.
- “Sempre estava a cantar; era tão lindo!
- “E quando assobiava? os outros melros
- “Punhão-se la do bosque a responder-lhe,
- “Queria tanto á nossa Mirtilinha!
- “(A nossa Mirtilinha he a mais pequena
- “Das minhas trez irmãs): e ella tratava-o,
- “Quando eu hia á seara ás cegarregas.
- “No outro dia esqueceo nos a gaiola
- “Ao sol toda a manhã: quando fui vê-lo,
- “Não se podia ter, abria o bico
- “E não tomava nada. Um pequenito
- “Me disse que era calma: agarro n’elle,
- “Vou-me ao tanque, e mergulho-o cinco vezes.
- “Ficou muito peór: punha-o direito,
- “E elle sempre a caír, fechava os olhos,
- “E estremecia todo. Aquietou-se:
- “Cuidei eu que dormia e disse, Dorme,
- “Veio um velho, abanou-o, e disse, He morto.
- “Fui com elle na mão chorando, e em gritos, ta,
- “Procurar minha mãi. Ficou pasmada
- “Quando o vio, e eu lhe disse—Ahi está, não can-
- “Nem ja faz festa á nossa Mirtilinha—
- “Poz-se a ralhar por isto, e castigou me”—
- “Cruel menino (lhe volvi severo),
- “Cruel menino, e em tua mãi pretendes
- “Ir com setas vingar-te?”—“Oh! não (me torna),
- “Não lhe hei de fazer mal. Se tu soubesses
- “O que uma seta faz!...”—“Não te percebo,
- “E pois que faz? explica-te, saibamos”—
- —“Na cabana de Silvio (me responde)
- “Ha um cópo de páo todo pintado,
- “Que elle ja prometteo que me daria
- “Se eu lhe levasse a fita, com que ás vezes
- “A minha irmã Glicera ata os cabellos.
- “Por fóra do tal cópo está com um arco,
- “Para atirar a uma pastora linda,
- “Um menino como eu, com os olhos negros
- “Voltados para mim, e sempre a rir-se.
- “Anda nuzinho ao frio, e tem nos hombros
- “Azas, que lhe não ganha a borboleta.
- “Silvio disse-me o nome que lhe davão,
- “Porem ... ja me esqueceo: tambem me disse
- “Que elle costuma á gente descuidada
- “Atirar muita vez d’aquellas setas.
- “Eu cuidava que as setas matarião,
- “Tinhão-mo dito um dia os caçadores,
- “Mas Silvio me jurou que não matavão,
- “E contou-mo sem rir; Silvio não mente.
- “Aquellas setas vem, entrão no peito
- “Sem ferida nem sangue, e até sem dores.
- “Se obrigão a chorar e a ficar triste,
- “Como ás vezes succede ao meu bom Silvio,
- “Em toda esta tristeza ha tanto gôsto,
- “Que he mais doce gemer, que estar alegre.
- “Eu d’isto nada entendo, porem Silvio
- “Me disse que algum tempo o entenderia.
- “Lembra-me agora! o tal menino d’azas (certo
- “Chama-se _Amor_; não he verdade?”—“He
- (Lhe respondo, apertando-o nos meus braços),
- “Chama-se Amor, e he como tu formoso.”—
- —“E seus tiros não fazem que fiquemos
- “Tão amigos de alguem, como o cordeiro
- “Que anda a brincar com seu irmão no prado?”—
- —“Sim he verdade”—“Então venha o meu arco,
- “Ja tenho em casa muitas setas prontas,
- “Vou ferir minha mãi.”—“Louco! o teu arco
- “Como o d’elle não he (lhe brado rindo):
- “Lança-te ao collo seu, perdão lhe pede,
- “Beija-a, conta-lhe tudo, e eu te prometto
- “Por cada beijo teu, mil beijos d’ella”—
- Não me ouvio mais, correo: e de caminho
- Colheo para offertar-lhe algumas flores.
-
- Mas eis-no; ja no suspirado sitio!
- Essa a gruta: este o cedro annoso e immenso,
- Condigno pavilhão do altar votivo.
- Inda as c’roas vos faltão, ela ó Socios,
- Rompei demoras, ide ás flores, ide,
- E volvei logo a dar princípio á Festa.
-
- Só fiquei: se eu podesse aqui no prado
- Por meus olhos tambem colher algumas!
- (Que as violetas que hei posto andão ja murchas.)
- —“Ó pastorinha de formoso gado,
- “Se podes, nem te peza alguns momentos
- “Perder comigo, apanha-me violetas,
- “Ensinar-te-hei por prémio outros cantares.
- “Teu rafeiro no emtanto o gado vele.”
- Partio, deixando ao lado meu, na relva
- O cordeiro que tinha em seu regaço,
- Tão alvo, tão pequeno como um lirio.
- Pobre innocente! nos meus dedos busca
- Da mãi, que ao longe bala, a doce têta!
- Se comer ja soubesse, eu lhe daria
- D’estas papoulas, d’esta fina grama.
-
- Que silencio! mal ouço uma fontinha;
- Serena viração de quando em quando;
- O crepitar miudo dos raminhos,
- Que a leve cabra arranca do espinheiro;
- A voz d’um lavrador aos bois tardios;
- E o cançado gemer de um carro ao longe.
-
- Cá volve a minha Flora! estou c’roado:
- “Graças ó doce e rustica Belleza!
- Sempre emtorno de ti rebentem flores
- Que o teu rebanho cobiçoso pasça;
- Nunca te falte pelo estio a sombra:
- E amor te volte em fruto as esperanças,
- Se esperanças de amor no peito nutres.
- Vês tu aquelle altar? foi obra nossa,
- Foi por nós consagrado á Primavera,
- E vamos festeja-la. Altar sem Nume
- Faz menos devoção; se tu quizesses,
- Bem o podias ser. Anda, mimosa
- E amavel pastorinha; enflora á pressa
- A trança, o collo, o seio, e no regaço
- Lança flores quaesquer, qualquer verdura:
- Oh! da-me este prazer. Do cedro ao tronco
- Vai-te encostar do modo que te digo,
- Co’a mão na face, e com o sorrir nos labios[8].
- Direi aos socios meus, quando voltarem:
- “Invoquei tanto e tanto os meus Amores
- (Nome he que á Deoza dou, não tenhas susto
- “Nem me furtos a mão) e he tão benigna,
- “Tão docil, tão cortez a Primavera,
- “Que saío do seu bosque, e apraz-lhe ouvir-nos.”
- Folgaremos de os ver caír no engano,
- Ajoelhar-se á fingida Primavera,
- E mais de coração cantar-lhe os hinos.
- De que te ris, singela rapariga?
- Porque foges de mim? Se não consentes,
- Cedo iremos buscar-te nos teus montes,
- Chamar-te Deoza, em dôbro envergonhar-te.”
-
- Que he isto! ja volveis? mostrai-me as c’roas.
- Como escolheste bem, terno Josino,
- Meigo no coração, na voz mavioso!
- Goivos com mirtos para ti cazaste,
- Com o suave condiz a suavidade.
- Se nos campos do ceo, reino do Genio,
- Eu podesse colher miudos astros,
- Dos versos onde alçaste ao ceo meu nome
- C’roa de ethérea luz seria prémio.
- Dou-te o que posso, gravarei teu nome
- Em bosque, onde Hamadríades o leão:
- Decoraráõ com o verso os teus louvores,
- E alguma em si dirá: “Quem me ora désse
- Em minhas solidões este Josino,
- Por ver se he no cantar, qual dizem, meigo.”
-
- Vejamos meu Irmão[9] a tua escolha.
- Eis-te como eu cingido de violetas;
- Ah quanto são iguaes os gostos nossos!
- Abraça-me cantor da natureza,
- Um a outro, um pelo outro aqui juremos
- Juntar sempre em busca-la a industria nossa.
- Abraça-me outra vez: nossa amizade,
- Nossa terna amizade, e nosso estudo
- Aperte mais e mais do sangue os laços.
- Se jamais fado atroz nos separasse ...
- Longe do pensamento esse impossivel!
- Duas vidas irmãs que medrão juntas
- Tem uma só raiz; dão flor, dão fruto
- Nas mesmas estações, e ás horas mesmas.
- Quer benção mande o ceo, quer sôpro de ira,
- Um só bem, um só mal abrange as duas,
- Emquanto uma existir persiste a sócia.
- Vai para o nosso altar, um só momento
- Me prende, o meu lugar tu la conserva
- Entre ti e o das Musas ja mimoso
- Nosso irmão, que no berço achou a flauta:
- Menino, a quem cingistes de alvas rosas,
- Como elle emblemas da innocencia breve.
-
- Elmiro, o teu diadema he bello e simples;
- Mirto e teixo pregões de amor e mágoa.
- Não são menos de ver, nem menos proprias
- As vossas, bom Franzino, alegre Albano.
- Do amor perfeito as flores melindrosas
- Tecem, Franzino, a tua, e tem por joia
- Uma saudade a tremular na fronte.
- De teus suspiros o ditoso emprego
- Longe está, bem o sei, mas não suspires:
- Tua amada fiel na ausencia chora,
- Sua imaginação durante o dia
- Voa a buscar-te aos campos do Mondego;
- Dos campos do Mondego aos braços d’ella
- Sua imaginação te leva em sonhos.
- Albano, a ti o amor foi mais propício:
- Vês amiude os olhos que te inflammão
- E o sorrir facil que te muda em louco.
- Não muito abertas, incendidas rosas
- Cercando as tuas fontes, me afigurão
- A imagem ver de envergonhados beijos.
-
- Vem meu Anfrizo: a tua d’entre todas
- He por certo a mais funebre grinalda;
- Um ramo de cipreste e alguns suspiros.
- Ah tua mãi tão cedo abandonar-te!
- Orfão triste, perdoa ao vate amigo,
- Que em chaga inda tão fresca a mão te ha pôsto.
- Se para ella ha balsamo no mundo,
- Só Amor sabe d’elle, e mãos de neve
- Tem para to applicar virtude innata.
- Sim, Dorinda gentil como que busca
- Esse ermo de tua alma encher de affetos,
- E no vão do teu peito insinuar-se.
- Mas a saudade maternal he muito;
- Todo o mundo, a amizade, e até Dorinda
- Só poderáõ na angustia confortar-te.
- Teu mal sustido chôro eis recomeça!
- Só a dor te contenta, á dor sirvamos:
- Narrar-te quero a historia do cipreste,
- Que dos ramos feraes partio comtigo.
-
- Prêzo das graças da opulenta Silvia
- Titiro guardador de pobre armento,
- Com seus ais estes montes abalava.
- A bella desdenhosa, muitas vezes
- Quando o sentia a modular ternura
- Ao som da flauta n’um sombrio valle,
- Torcia, por não ve-lo, o seu caminho.
- Ah se o visse, estendido entre o rebanho,
- O pranto a borbulhar nos fitos olhos,
- E ao som da flauta, em baixa voz unidos
- De quando em quando um ai, e o nome d’ella!
- Rigores virginaes, desdens de rica
- A amor, á compaixão talvez cedessem,
- E ficasse mais bella, a ser piedosa.
- Por só consolação de seus desgostos,
- Co’a pèga que ja foi da ingrata Silvia
- Folgava repetir de Silvia o nome.
- Nunca a avezinha ao misero deixava,
- Que assim a havião prêza os novos mimos.
- Só ás vezes aos lares revoando
- Da formosa cruel, de la trazia
- Furtada alguma prenda ao pobre dono;
- Sem querer lhe atiçava o fogo inutil.
- Era triste, mas doce, ouvir de noite
- Pelos bosques bradar “Ó Silvia, ó Silvia”
- O terno amante; e acompanha-lo a pêga,
- Ja pouzada em seu hombro, ou ja gritando
- La de cima de um tronco “Ó Silvia, ó Silvia!”
- Longos tempos assim pelas florestas
- Vagar se ouvirão solitarios ambos;
- Té que o loquaz brutinho de cançado
- Veio um dia caír entre as mãos d’elle,
- Bateo as azas, terminou seus dias.
- Á fiel companheira ultimas honras
- Deo como poude Titiro: sagrou-lhe
- Um pequenino tumulo de barro,
- E um ciprestinho de anno, que por novo
- Inda estudava o geito de ser triste.
- Aos Numes implorou que o não crescessem:
- Mas pouco e pouco o tronco foi subindo,
- E com elle de Titiro a saudade.
- Bem póde ser que o tumulo não visses,
- Que ervas espessas de redor o afogão
- Ah desde que o pastor tambem jaz morto,
- Morto ás mãos da saudade, e em terra alhêa!
-
- Tempo he da Festa. Á Festa!—Ahi estão as flautas
- Ja silvando rebate ás alegrias!
- Travai dança, alta dança ruidosa,
- Quaes em seu monte os Sátiros a saltão!
- Venhão de apoz os hinos: logo Bacho
- Nos acuda co’as taças, menineiro
- No aspéto e no palrar, no resto annoso,
- De cãs a reluzir por entre as parras.
- Ser-lhe-ha boa salva o retinir dos cópos
- E os das saudes misturados gritos.
- Do altar meu canto agora ascenda ao Nume!
-
- Vem ó Dona das Graças e Flores,
- Volve á terra teu mago calor;
- Aos que fogem de amor gera amores,
- Nos que a amores se dão cria amor.
-
- Tu és Venus, a Grecia delira
- Crendo-a Filha do túrbido mar,
- Tu és Venus e Musa da lira,
- Cumpre á lira teu Nume exaltar.
-
- Tu és Dríade, e Náiade, e Flora,
- Mocidade e Saude e Prazer,
- Com mil nomes o mundo te adora,
- Mil poderes compoem teu poder.
-
- Do Ceo puro és a noiva córada,
- És só d’elle como elle he só teu;
- Rica em trajos, de aromas banhada
- A seus beijos te off’rece Himeneo.
-
- Feliz extase, abraço jocundo
- Do consorcio completa as prizões,
- Primavera, em teu seio fecundo
- Ja pullullão mais trez estações.
-
- Á voz tua amorosa e macia,
- A teu mago e perpetuo sorrir
- Tudo cede, e te adora á porfia,
- Como te ha de o mortal resistir?
-
- Léda brinca a feliz meninice,
- Léda a ninfa em seus dons se revê,
- Lédo o velho desruga a velhice,
- Tudo he lédo, e não sabe o porque.
-
- Onde assomas o mato florece,
- Desatina a avezinha a cantar,
- Côr d’esp’ranças a terra amanhece,
- Arde o peixe nas brenhas do mar.
-
- Perde as iras a rábida fera,
- E se estranha de ter coração.
- Primavera, que és tu Primavera?
- Vida, fôrça, virtude, união.
-
- Desde que abre ao carneiro doirado
- Hora alegre o celeste redil,
- E das sombras e gelo espalhado
- Despe as terras Favonio subtíl;
-
- Despe a mente por ti bafejada
- Suas neves e escuro invernal,
- Ressuscita de flores toucada,
- Enche a lira, nem sôa mortal.
-
- Pois tu és quem me acorda e me inflamma,
- A ti, Deoza, os meus versos serão.
- Mas debalde o meu estro te chama,
- Os meus olhos jamais te verão!
-
- Amigos, baixo he o Sol, findem-se os hinos:
- Ponde silencio aos copos falladores;
- Assaz he tempo. O dia era dos campos,
- Ás aguas toca a noite; a noite grave,
- Recolhida, saudosa, ama pascer-se
- No murmurinho de deserto rio:
- Tambem o coração tem dia e noite,
- E precisa dos bens desenfadar-se.
- Largo dista a corrente; o passo aperte
- Quem sabe quanto he grato á luz de estrellas
- Ouvir palrar as Náias a deshoras.
- Vamos tomando o gôsto aos fins da tarde;
- E emquanto mais ligeiro o bom Josino
- Corre a aprestar a barca, entreteremos
- O caminhar, colhendo rosmaninho
- Para o colchão nóturno. ¡Que delicias,
- Ir-se acamado em flores aboiando
- Á luz modesta da nascente lua!
- Ama o rio os cantares de saudade;
- Cantares de saudade atiraremos
- Até ao mar pelas sombrias margens.
- Logo que o não rogado, amigo sono,
- De papoulas toucado perguiçosas,
- Lá nos for procurar, e manso e manso
- Forem caindo os sons e pensamentos,
- Iremos amarrar na margem muda
- A qualquer tronco a barca flutuante:
- Lançaremos por cima o branco toldo,
- Bastante abrigo do nóturno orvalho:
- E estendidos macio, e conversando
- Em voz baixa, embalados cederemos
- Ao começado sono os restos da alma.
- Quando alta noite algum de nós acorde
- A um leve crepitar do linho undaute,
- Cuidará que uma Náiade surgíra
- Fóra da agua a cabeça curiosa,
- E inclina o seio ao bôrdo; e nos espreitas
- Assim como alvoreça, a luz da aurora,
- E vós, madrugadoras andorinhas,
- Para o campo acordado heis de acordar-nos.
- Correremos as candidas cortinas,
- E veremos de subito, encantados,
- Sobre nós a verdura estar pendente,
- Do pranto da manhã ja rociada.
-
- Não tarda o Sol momentos em sumir-se;
- No mais vivo escarlate ensopa os campos,
- Tinge a folhage, os rostos nos accende,
- Por montes e olivaes dos ceos oppostos
- Começa a desdobrar seu manto a noite.
- Busca o rustico azilo o boi tardio;
- Por toda a parte os gados vão passando.
- Sustenhamos o halito, escutemos
- Esta distante musica toada
- Que assim transporta os animos em gôstos:
- He toda feminil, toda feitiços,
- Vem toda ao coração; oh se a conheço!
- Pastoras são, que ao longe no arvoredo,
- Vão para a aldea recolhendo em chusma
- O tropel dos rebanhos misturados.
- Cantão, porque he sazão de primavera,
- E peito de mulher, como avezinha,
- Desfaz-se em canto e amor em vendo flores:
- Cantão, porque de um dia assim formoso
- Serão formoso as toma, e o fuso leve
- Que andou por solidões um dia inteiro,
- Vai girar no conchego da fogueira;
- E cantão, porque flautas de pastores
- Que vão na companhia, as desafião.
- Mas tantos sons confunde-os a distancia,
- Figura-se uma voz de tantas vozes;
- Como que uma só boca a manda aos ares,
- Exprime um só afféto, um só deseja.
- Oh Natureza! oh Tarde! oh Primavera!...
- Lagrimas de prazer vertem meus olhos!
- Somos em bosques de propícias Fadas?
- Ou vaguêo ja Sombra, e vós comigo,
- Na semi-vida e semi-luz do Elisio?
-
- Ja tudo se esvaío, tudo he silencio:
- Por campo e campo ao largo impera a Noite.
- Erguida a lua nova o horror lhe troca
- Em saudosa tristeza, e o mocho alerta
- La do alto a ajuda com o piar carpido:
- Ja ouço o estrepitar das frescas aguas.
- Vem barquinha da noite, perguiçosa,
- Vem, toma o rosmaninho, e a nós recebe,
- Oh que ameno he pousar passada a lida,
- Em meio de aguas tantas, rodeado
- De amigos bons, e triste, não de proprias
- Tristezas, sim das mansas do Universo!
- Ouvi, amigos meus, os meus dezejos,
- Quaes mos ora no seio estão brotando
- A hora, o sítio, a lua, aquelles pios;
- Relevai que ao folgar vos furte instantes.
-
- Seios Deozes minhas supplicas ouvissem,
- Um torrão fertil, rústica vivenda,
- Houvérão de abrigar-me a vida pura:
- La minhas ambições se fartarião
- De nobre, de quieta obscuridade.
- Mas pois que de outra sorte aprouve aos Deozes,
- E o fio, não de lã grosseira e nívea,
- Me torcem, mas de ferro as trez do Averno,
- Guardai vós na memoria o meu dezejo.
-
- Depois que entre os abraços delirantes
- De todos os que amei, findar meus dias,
- Sepultai-me n’um valle ignoto e fertil[10].
- Para marcar da sepultura o sítio,
- Sôbre o cadaver, que vos foi tão caro,
- Mangeronas plantai, cuja verdura
- Em roda fechem variados lirios.
- Na raiz funda de soberba olaia
- Pouze a minha cabeça, e o tronco amigo
- Sobre mim curve a cópa florecente.
- Mil piteiras unidas, ostentando
- Na hastea vaidosa as flores amarellas,
- Em quadrado não grande me defendão
- Das incursões das cabras roedoras.
- Em meu tronco se escreva este epitafio:
-
- _Foi poeta amador da Natureza:_
- _D’entre as sombras ancioso a procurava,_
- _Qual terno amante a bella fugitiva._
-
- Sôbre isto pendurai sonora flauta,
- Que se revolva á discrição do vento.
- Não cerque os ossos meus, não mos ensombre
- Nem teixo nem cipreste; arvores quatro
- Quizéra só no meu jardim de morte.
- N’um canto a larangeira graciosa,
- Que mescla util e doce, a flor e o fruto:
- N’outro a figueira sob as amplas folhas
- Modesta occulte seus nectareos mimos:
- Defronte um pecegueiro em frutos mostre
- Que amavel he pudor, quando enche faces
- De penugem subtil inda cobertas:
- No ultimo canto ... (a escolha me confunde)
- Plantai no ultimo canto uma ginjeira,
- He a arvore da infancia, até na altura;
- D’esta por sua mão colhe um menino
- A mui ridente baga, e ri de ufano.
- Alguns tempos depois que a fria terra
- Meus restos encerrar, á minha olaia
- Vós, meus amigos, vós dareis meu nome,
- Pois de mim se nutrio, e eu serei n’ella.
-
- Dos guerreiros nos tumulos afiem
- Faminta espada os barbaros guerreiros:
- No sepulchro do sabio o sabio estude;
- E dos reis nos marmoreos monumentos
- Vá sonhar a ambição, grandeza e pompas:
- Vós soltos de freneticas loucuras
- Aqui vireis mil vezes vizitar-me,
- Na amizade pensar que nos uníra,
- E unir-nos deverá transposto o Lethes.
- Porque me interrompeis com taes suspiros?
- Ah! deixai-me acabar. Quando sentados
- Emtorno a mim na flórida alcatifa,
- Guardardes meditando alto silencio,
- Se d’entre as mangeronas que me cobrem,
- Saír acaso a borboleta errante,
- ¿Não vereis n’ella o espirito do amigo
- Que vem gozar do sol a claridade?
- Quando o suave rouxinol de noite
- Da minha olaia gorgear nos ramos,
- Não pensareis, de santo horror tranzidos,
- Que feito rouxinol, meus cantos sólto?
- Sim pensareis, e erguendo-se inspirado
- Algum lhe ha de bradar “Ó meu Amigo!”
- Responderáõ “Ó meu Amigo” os bosques;
- E vós direis que o meu fantasma errante
- Da argentea lua á muda claridade,
- Á conhecida voz d’alem responde,
- E em tudo encontrareis a imagem minha.
-
- Se inda então meus costumes vos lembrarem,
- Se vos lembrar meu coração piedoso,
- Velai que em meu retiro as bellas aves
- De caçador cruel cantem seguras:
- Amor, o leve Amor, com arco d’oiro,
- Só elle e mais ninguem, logre atirar-lhes;
- Careço de amorosa melodia
- Que me poetize o sono derrabeiro:
- Morto que nada tem preciza d’estas
- Pobres delicias rusticas, se folga
- Que a namorada moça, o terno amante
- Juntos ou sós, a vizitá-lo acudão.
- Então ao som de languidos suspiros,
- De alegres cantos, de amorosos versos,
- De ternas queixas, de perdões suaves,
- Muitas vezes contente a minha Sombra;
- Formando ao pôr do sol vermelha nuvem,
- Girará n’estes ares, revolvendo
- Da passada existencia almas lembranças.
-
-FIM DO POEMETTO
-
-
-
-
-NOTAS AO POEMETTO ANTECEDENTE.
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-
-
-
-_Pag. 109. verso 10._
-
- Com seus trovões, com seus coriscos _horridos_.
-
-
-Trazia este verso na primeira edição a seguinte Nota—_Eis àhi os
-primeiros esdruxolos que fiz em minha vida, e espero que sejão os
-ultimos, ainda que por isso que fique excluido da communhão de certa
-Seita moderna._—Supprimi-a, e no declarar o porque, vou dar não equivoca
-prova da minha candura. Prezar-se um escritor de mais amigo da verdade
-que de Platão e de Aristoteles, alguma couza he; mostrar porem que mais
-do que a si proprio a ama, certo que não he vulgar o exemplo, e esse
-tenho eu dado, e não raro, ja fallando ja escrevendo limpa e rasgadamente
-o que de minhas Obras me parece. He um bom propozito que eu fiz em meu
-interior, e espero não quebrantar nunca, não só porque de si he honesto
-e nobre, senão que por este meio, o qual não custa mais do que algum
-suspiro á nossa vaidade que sempre se torce e confrange de ser mostrada
-nua, me estremarei da manada dos charlatães literarios, de quem nem
-o estomago me consente fallar. E porque chegue por direito caminho á
-questão dos esdruxolos, recordarei com vénia e boa paz dos leitores, o
-que ja no Prologo da terceira Edição das minhas _Cartas de Echo_ deixei
-tocado; com a differença, que d’esta vez o farei mais explicitamente.
-
-No tempo em que eu cursava meus estudos na Universidade de Coimbra,
-florecia ella com muitos e bons engenhos de mancebos dados ás
-Bellas-letras. E porque ainda então se não tinhão accendido os
-desastradissimos odios das parcialidades políticas, a Hobbesiana
-propensão de guerrear se exercia nas letras. Duas seitas de escrever
-se contavão; a cada uma das quaes não faltavão admiradores, apostolos
-e evangelistas, assim como por isso mesmo inimigos, escarnecedores e
-parodiadores. Os Livros em que uma juramentava os seus adeptos, erão
-Gessner e Bocage; Filinto era o Alcorão da outra. Gessner quanto ás
-couzas e affétos, e Bocage quanto ao térso e lustroso de estilo e metro,
-erão os idolos de uma; os da outra erão, quanto a couzas e affétos
-Filinto, quanto a estilo e metro Filinto, e Filinto quanto a tudo em
-que Filinto podesse bem ou mal ser imitado. Tinha cada uma d’ellas suas
-vantagens e seus descontos, como agora claramente diviso, quando as
-considero com animo livro e desassombrado de preoccupações. Não fallarei
-aqui de Gessner, porque ja no Prologo o fiz; confrontarei somente, e de
-corrida, Elmano e Filinto.
-
-A ambos dotára natureza de talentos, bem que entre si diversissimos,
-assaz fortes todavia que podessem cunhar á sua feição a poesia do seus
-tempos. Elmano, que talvez em seu genero nos ficará sendo unico, de
-fôrça devia deslumbrar e encantar pelo caudal inexhaurivel, brilhante e
-estrepitoso de sua vêa, que eu appellidarei, e ria quem rir, um Niagara
-de talento: e assim como, os que pasmão deante d’essa grande catarata de
-puro embevecidos em sua cópia e magnificencia, não tem olhos para notar
-o esteril do seu curso, o assolador do seu ímpeto, e os penedos que rója
-envoltos e desfarçados com suas aguas, assim os que presentes assistirão
-ao poetar de Bocage, ou da tradição o receberão, fascinados com os seus
-estrondos, espumas e iris, mal se podem lembrar de lhe desejar afféto,
-sizo, e exatidão, que muitas vezes lhe fallecem.
-
-Cinco couzas, pelo menos, para o bom poeta se requerem: _faculdade
-inventiva_—_faculdade sensitiva_—_sciencia_—_lingua_—_e ouvido_; e ainda
-com estas cinco outra, que talvez resultará rempre de sua união, e sem a
-qual todas as mais seráõ baldadas; fallo d’aquelle discernimento pronto,
-que a muitos erradamente pafeceo instinto, e a que se costuma dar nome
-de _gôsto_. Em raros sujeitos concorrem tantos predicados; por isso só
-de longe a longe apparecem os maximos poetas, e ja se dão por grandes
-aquelles a quem menos faltou d’estes requisitos. —
-
-_Faculdade inventiva_ ou não a tinha, ou apenas a tinha Manoel
-Maria; a sua queda para tradutor bastaria para indicio, se de
-indicios te carecesse aonde claras reluzem as provas: um _Fado_, um
-_Jove_, _Eternidade_, _Natureza_, _Sóes_ e _Caos_ são o _index rerum
-notabilium_ da maior parte de seus escritos; e tanto abunda n’estes
-bordões sustedores e disfarçadores de sua fraqueza, como Ferreira (e
-quem descobrirá os meus?) na cançada repetição do _esprito_, Jorge de
-Montemayor na de _hermoso_ e _hermosura_, Pina e Mello na de _alento_
-e _impulso_, Alfeno Cynthio na de _santo_ (epítheto, que por mais não
-ter onde o pegue, até o poem, se bem me lembro, como arrebique na cara
-de suas pastoras e namoradas): com a differença que os particulares
-bordões d’estes poetas, e ainda outros de outros muitos, não são em suas
-Obras senão meras circunstancias e accidentes, e os de Bocage menos são
-estribilhos do que fundo o substancia de inteiros e repetidos periodos.
-
-De _faculdade sensitiva_ talvez o houvesse menos escaçamente dotado a
-natureza, mas outras qualidades que lhe ella mesma deo em maior auge,
-taes como volubilidade de fantasia, aspereza de condição, espirito
-sobranceiro e satírico, e coração, como elle mesmo confessa.
-
-_Mais propenso ao furor do que á ternura,_ lhe entibiarão os affétos
-benignos, de que sé a longes distancias lhe sáe, como a descuido, algum
-reflexo. A estes máos e naturaes elementos accrescêrão desvarios da
-fortuna ou do acaso, bem valentes para de todo lhe seccarem a fonte das
-branduras. Vida mal preparada de educação, nua dos amoraveis habitos
-domesticos, desalumiada de doutrina e estudo, aturdida de applausos
-contínuos e encarecidos, amargurada amiude de pobreza, vagabunda entre
-amigos não amados e por terras não suas, vida, porque tudo diga, corrida
-á ventura e sem norte conhecido, desenfreada de todas as leis, sôlta por
-todos os vicios, cínica por timbre, e por indole silvestre e bravia,
-como podia ser que lhe não tisnasse no germen os affétos maviosos? Isso
-foi, e isso conhece quem bem attento o ler e meditar. Mas em desconto,
-as paixões fortes como o ciume, a colera, a vingança, sente-as e
-pinta-as vigoroso, assim como todos os objétos grandiosos, remontados,
-encarecidos, ou terriveis. Não vos debuxará um mendigo, avergado de
-annos, estendido n’umas palhas esquecidas, junto do cão seu ultimo
-companheiro, e orando no desamparo da noute, por quem, sem o convidar
-para a sua fogueira do inverno, lhe deo fóra da porta meia fatia de pão;
-nem ainda as carícias de uma mãi a seu filho: mas dir-vos-ha, rico e
-altisono, os impetos de uma tempestade, a sanha de uma batalha, as iras
-de uma madrasta, ou as furias de um infeliz que pragueja sua má ventura.
-
-Os affétos e a invenção póde a _sciencia_ por álgum modo suppri-los,
-opulentando-nos com os affétos e invenção de melhores autores, uma
-vez que por nós tenhamos a arte de bem escolher, bem digerir, e bem
-converter esses literarios alimentos em substancia nossa, em nosso
-proprio ser: ainda mui boa estrella he essa, e não poucos dos afamados
-desde Virgilio até ós nossos dias, só á sciencia, e a essa arte de a
-aproveitar, haverão devido a melhor parte do seu credito. He o saber,
-princípio e fonte de bem escrever, dizia o Mestre dos poetas; e dizia o
-dos oradores, que uns e outros era mister entenderem de tudo. E se ja
-isso foi nos tempos antigos conselho e quasi preceito, preceito absoluto
-se tornou, e necessidade, para quem escreve n’estes tempos, em que a luz
-se derramou mais ampla, em que as sciencias, cançadas de viver sobre
-si, se congregarão como boas irmãs em uma só familia, juntarão os seus
-patrimonios em commum, e cada uma ajudando a todas as outras, vem a por
-todas ellas receber um infinito accrescimo em seu peculio. Limitadissima
-era a instrução de Bocage: o latim e o francez, na primeira de cujas
-linguas mormente era primoroso sabedor, segundo referem, podérão ter-lha
-dado copiosissima: mas nem a viveza de seu animo, os prazeres e os
-divertimentos que em seu cerrado círculo o trazião como enfeitiçado, lhe
-permittião estudos, nem são elles facil couza para pobres e viciosos,
-nem o que era saudado por divino, como quer que _desatasse na voz o
-acceso turbilhão_ de suas ideas, carecia de ir excavar em livros o suado
-cabedal, com que outros negocêão veneração.
-
-Quanto á _linguagem_, não será pêjo dizer, que a usava limpa e sã, não
-se podendo taxar a sua de mendiga e remendada, como a ja muitos de seus
-contemporaneos vinha acontecendo, nem encarecer de rica e ambiciosa:
-pouco tinha lido do portuguez, mas esse pouco com aproveitamento: só
-d’isso ajudado, e do latim la se foi remindo e esteando a sua Musa
-sem emprestimos do francez; e este carecer de vicios ja então era
-grande virtude. Para lhe darem, como a texto, cabimento em nosso
-Diccionario[11], não vejo eu razão sufficiente, assim como a não ha para
-o desprezo e esquecimento, em que os havidos por puritanos o deixárão
-cair. Uma couza he porem verdade irrefragavel, e he, que em nenhum
-escritor, antigo nem moderno, apparece a lingua portugueza mais senhoril
-e polida, mais igual e ao meio entre o usual e o sublime, entre a penuria
-e a prodigalidade.
-
-Somos chegados á _harmonia_, o mais eminente merito de Bocage, e no qual
-nem antecessor teve, nem ainda até hoje successor. De todas as partes
-que em Bocage concorrião para poeta, nenhuma havia tão delicada, e em
-que tanto se houvesse a natureza esmerado como o ouvido. A verdadeira
-musica dos nossos metros, particularmente do hendecassíllabo, não só
-a desempenhou e ensinou elle, senão que a inventou; e com felicidade
-tão rara, que não cuido se possa a pontar hespanhol, e nem por ventura
-italiano que o iguale, e mais he o italiano pela abundancia de suas
-brandas e variadas vogaes, pelo moderado e macio de suas consoantes,
-pelas licenças e elasticidade de seus vocabulos, muito mais pronto e
-domavel para todo o uso métrico do que o portuguez. Poucos estafárão
-tanto os consoantes como Bocage (e ainda ahi he grande o seu louvor, que
-não he dado rimar mais primorosamente); mas a ninguem erão os consoantes
-mais escuzados: são esses para o verso uns arrebiques e sinaes com que
-os mal assombrados se disfarção, para poderem apparecer, mas de que os
-graciosos e bellos não carecem, nem os devem consentir, por não parecerem
-menos do que são. Porque não ouzarei eu dizer, que mais são os seus
-versos poeticos, do que era poeta elle proprio? Como simples cantilena
-agradão, agradão ainda quando por vãos os engeita o juizo e o coração
-por frios: um estrangeiro que ignorante d’esta lingua os ouvisse bem
-e devidamente ler, recrear-se-hia como com a toada de um bem tangido
-instrumento. Grande excellencia por certo he esta, á qual principalmente
-deveo levar traz si suspensos e encantados os animos, e por onde logrou
-ser, sem o cuidar, fundador de uma escola, que se me não engano, ainda
-de todo não passou. Toda a gloria de engenho he oiro em que nunca
-faltão fezes: o produzir pela mágica de sua versificação uma seita de
-versificadores, por honroso se podéra haver, se aos discipulos podesse
-ter transmittido, juntamente com as normas, o talento, a fôrça, a graça e
-o gôsto com que as produzia e aperfeiçoava: porem quiz algum Genio máo,
-para lhe humilhar a vaidade e descontar a vitoria, que a maior parte
-de seus sectarios menos lhe tomassem a melodia do que os escarcéos, as
-empollas, os trocadilhos, as apóstrofes, as redundancias, e os versos que
-ja se hoje chamão de dobrar,
-
- _Seu mais doce penhor, seu bem mais doce.—_
- _Vio n’ella os risos, vio as graças n’ella.—_
- _Um Deos não he perjuro, um Deos não mente._
- _Que não paga de um Deos, de um Ceo não paga,_
- _Ouzaste pregoar mais Ceos, mais Deozes.—_
-
-versos, que parcamente lançados, como nas Obras de Virgilio, tem graça;
-semeados a frouxo são affeites e desdoiros do estilo.
-
-Do seu _gôsto_ ja me julgo dispensado de fallar, porque me parece que
-o que d’isso podéra dizer por si mesmo está nascendo do que fica dito.
-Concluamos: o que de Bocage digo em geral, com suas exceções se ha
-de entender, porque por uma parte muitas paginas ha suas, mormente
-em algumas traduções do francez, onde parece lhe esqueceo pôr o tal
-verniz de dicção e sons que para si inventára, e de que a ninguem
-deixou a verdadeira receita: e por outra parte tambem, obras ternos
-suas, mormente sonetos e traduções latinas, cabaes e redondissimamente
-perfeitas.—Passemo-nos já a tomar iguaes contas a Filinto.
-
-Muito mais melindroso he este processo, até porque ja o querer tomar-lhas
-será para seus apaniguados um crime de leso Apollo, e primeira cabeça.
-Valha-me porem a declaração que faço, de que em tudo quanto disser, não
-seguirei outras partes que as de minha razão, declarando previamente
-que muito pouco dou eu mesmo por ella; mais são consultas que faço
-que sentenças que profiro, e antes exercicios de imparcialidade do
-que acintei de inimigo: de ninguem o sou, quanto mais de poetas, de
-perseguidos, de velhos, de mortos. Foi tempo em que eu, obscuro poetastre
-do Mondego, ria e vazava epigrammas contra o tradutor dos _Martyres_:
-hoje se me afigure muito mais valioso. He elle o mesmo, mudei eu; Deos
-sabe quantas vezes mudarei ainda com os annos: do mudar não he nossa a
-culpa; nossa he porem, e feíssima a de persistir no erro conhecido; se
-a republica literaria tivesse inquisidores, por heresia e contumacia
-que não havião relaxar ao braço secular. Ha por ahi muito homem do meu
-officio que possa dizer de si outro tanto? Mas deixemos esses que estão
-vivos, e vamo-nos a Filinto.
-
-Se he ou não _creador_, ja vi ser renhida questão entre ociosos: para
-mim tenho que semelhante titulo mal lhe pode caber. O frequente verter
-ha pouco disse eu que denunciava esterilidade; e podéra accrescentar uma
-sentença ainda mais desabrida, que ha muito encontrei, cuido que nas
-Lições literarias do Doutor inglez Blair, e que muito me caío; a saber,
-que o costume de traduzir, bem que olhado pela rama pareça dever ser
-frutífero, sempre ao cabo vem a desgastar-nos a faculdade inventiva.
-Compara-lo hei com o linho, que apezar de tão precizo no mundo e de
-tão agradavel aos lavradores depois de colhido, por isto só desgosta a
-muitos d’elles, que a terra onde se criou fica magra, e como elles dizem
-queimada para outras novidades. Muito mais de metade dos tomos de Filinto
-trazem no titulo os nomes de autores estranhos, devendo-se ainda lançar a
-este rol por boa restituição, bastantes Obras, que talvez por descuido,
-imprimio sem nenhuma menção de serem, como erão, vertidas. As imitações
-são no merito e inconvenientes meias traduções, e as do nosso poeta são
-numerosissimas, disfarçadas umas, outras manhosamente dissimuladas. No
-resto que he de sua lavra, apenas se nos depara couza que abone talento
-original e produtivo a: são os chamados lugares communs de poesia
-filosofica, que ja por safados custão a passar, e as tão esfalfadas
-visões e apparecimentos de Apollos, de Musas, de Amores, de Pégasos, e
-de outros mil defuntos, a quem o tempo ja comeo o balsamo, e que todavia
-são ainda a unica povoação de quasi todos seus poemas, tanto jocosos como
-sérios. Algumas vezes me vem desconfianças de que n’aquelle passo da
-Sátira do _Bilhar_, em que o nosso Tolentino parece rir de certas Odes,
-contra Filinto hia tirada a seta de sua crítica:
-
- _Co’as verdes mãos o serpeado Tejo_
- _Alça o trilingue, mádido tridente;_
- _Mas que Górgona filtra? eu vejo, eu vejo ..._
- Em dizendo isto he Ode certamente.
-
-Em _affétos_ porem sobreleva a Bocage, e não abunda. A espaços lhe
-vislumbrão assomos d’aquella sismadora melancolia, que mais ou menos
-respira em todos os bons poetas. As amarguras e saudades, que em tão
-larga vida e desterro lhe não faltárão, alguma, e não rara vez, lhe
-soprárão versos amoraveis, e deliciosos de tristeza. He este de todos
-os dotes de poeta o mais caramente comprado; sendo assim que Deos sabe
-quantas vezes em applaudir um verso que nos toca, batemos por ventura
-palmas a calados infortunios de quem no-lo escreveo. Não nos assuntos
-ditos _sentimentaes_ se conhece tanto o verdadeiro sentimento, como
-nos de indole mais fria e izenta; porque, se n’estes ultimos apparece
-inesperada uma palavra maviosa, n’uma flor de festa uma nôdoa de lagrima
-a descuido, ahi vem o infallivel documento de ternura e suavidade: e
-d’estas sombras de lagrimas, d’estas palavras, maviosas achamo-las em
-Filinto.
-
-Na _sciencia_ he que elle mais notoriamente leva a palma ao seu
-contendor. Que muito? com o dôbro de vida, com precizáõ de estudar para
-se divertir das mágoas e ganhar pão, com o ar e tráfico de Paris onde
-todos inspirão e expirão letras, e com tão espaçosa velhice, pingue
-quadra em que as paixões quietando nos deixão todo o silencio, remanso
-e curiosidade necessarios para o estudo! Tornarão-se-lhe familiares
-os classicos portuguezes e latinos, de uns e outros dos quaes talvez
-Bocage não tivesse acabado dois ou trez volumes; familiares os classicos
-francezes, hespanhoes e italianos, e ainda as versões dos inglezes e
-allemães. Á roda d’elle chovião de dia a dia, e de hora a hora, os frutos
-novos de todos os ramos das Sciencias, de que he impossivel a quem por lá
-vive não provar, até sem querer, e ao cabo não se nutrir e fortificar.
-Entretanto repararia eu, se o ousasse, que para quem logrou concurso de
-tão favoraveis circunstancias, como as que a sua má estrella lhe deparou,
-não saío Filinto o que se podéra esperar de noticioso e culto; e ou
-desaproveitou o maná que ás mãos do espirito lhe chovia, ou se o tomou
-lhe não luzio. Á primeira d’estas duas conjéturas me inclino, porque
-segundo o que de seu natural alcanço por suas Obras, parece-me que na
-lição das estranhas mais se hia á caça de vocabulos e frases curiosas,
-insolentes e atrevidas, do que de doutrinas e filosofia. A sua era meã
-e usual: cançados louvores á Liberdade, á Amisade e á sã Virtude, ao
-estudo, ao descanço e ao deleite, alguns arremeços de encontro aos Bonzos
-e Naires, eis ahi sondado até ao lastro o seu poço de saber moral: alguma
-historia não rara antiga e moderna, eis todo o seu saber positivo; e todo
-o seu saber natural, alguns dos principios geraes e diarios das Sciencias
-fisicas. E certo, que se mais avultados fossem estes seus cabedaes, e vêa
-mais fecunda lhe consentisse anciar mais altas couzas do que palavras
-e frases, não se deixára ficar tanto atraz no meio de um seculo novo
-e alado de poesia; não se contentára o seu estro abstémio com a agua
-do Parnaso até á ultima hora da vida; e não nos deixára seus volumes
-pejados quasi só de fabula, como armarios de muzeu antiquario, onde se
-não vai procurar qual he o mundo em que vivemos, mas deduzir de troncados
-e desluzidos fragmentos, o que em tal ou tal parte da terra houve lá
-n’outros tempos, com os quaes e com a qual só pouco ou nada temos. Diz um
-Escritor insigne[12], que a poesia assim como ontr’ora viveo de fabula,
-revive hoje e se apascenta de verdade. Melhor dissera que de verdade
-viveo em todos os tempos a nobre poesia, pois que o que para nós se
-descubrio fabula, era nos dias em que appareceo e florio, verdade de
-factos, ou capa allegórica de verdades, mui crida e sincera.—Resumamos;
-Filinto soube mais que Bocage, menos do que podéra, e diverso do que
-devêra saber.
-
-A _linguagem_, de que pela ordem se me segue fallar, mais requeria n’este
-caso um tratado, do que uma nota de fugida. Algum dia o tentarei, quando
-me achar mais de assento e sobre mão do que agora, que as justas raias
-d’este escrito me estão tolhendo. He a linguagem e elocução a principal
-feição caraterística de Francisco Manoel, como de Manoel Maria o he a
-harmoniosa elegancia.
-
-A torrente das hipérboles e conceitos hia arrazando e engolindo todo o
-nosso Parnaso, quando para lhe pôr a ella diques, e a elle salva-lo,
-e repovoa-lo de natureza, appareceo a Arcadia. Detençosa e ardua se
-representava a obra, como aquella em que a razão nua tinha de lutar com a
-imaginação delirante. Para anteparar ímpetos de vêa tão engrossada com as
-contínuas nascentes e tão copiosas de Italia, Hespanha e Portugal, ja tão
-senhora do leito e dominadora das margens, era mister que braços fortes
-lhe levantassem muralhas solidas de grossa e pezada cantaria. Virão os
-Arcades como lhes estavão á mão as obras, não todas primorosas, mas
-quasi todas massiças dos nossos quinhentistas e dos romanos classieos:
-erão accommodadas ao intento, dizião com seu gôsto e costume; valerão-se
-d’ellas, accrescentarão-lhes as suas proprias, levantarão o muro; bramio,
-quebrou e escoou-se a inundação. Raro he o bem, que só porque o he, não
-traga outros comsigo: dos trabalhos, que havião tido por fim acabar com
-os nojos e puerilidades do falso engenho, nasceo um conhecimento mais
-profundo da linguagem, mais extremoso amor á sua pureza, e o comêço do
-encarniçado e ainda não findo pleito, entre a puridade e o gallicismo.
-Verdade he que n’este segundo campo se não guerreou com tão favoravel
-marte como no primeiro, porque se as maravilhas da _Fenix Renascida_
-passárão, os gallicismos fôrão em successivo crescimento, sendo ja hoje
-tão caudaes e trasbordados, que princípio a desconfiar não haverá remedio
-senão rendermo-nos, encruzar os braços, e deicharmo-nos ir ao fundo:
-tanto estou convencido de que nem a propria razão he poderosa contra o
-espirito de um povo: e a final de contas, Deos sabe, até n’isto, o que he
-razão!
-
-Era Filinto, por sua amizade e commercio íntimo com os sujeitos de maior
-credito na Arcadia, e por motivos de sua propria conveniencia, homem que
-de necessidade devia entrar na pendencia, e sustenta-la até á ultima:
-n’isso assentou, e o cumprio mui pontualmente. Entendeu desde todo o
-princípio, como aquelle a quem não fallecia bom juizo, em se prover das
-armas seguras e bem temperadas, sem que lhe não conviria arriscar-se
-no combate: e se as defensivas que vestio lhe podessem ter saído tão
-impenetraveis ás setas do ridiculo como as offensivas que meneou erão
-fortes e penetrantes, guapissimo Cavalleiro houvéra apparecido, e
-invencivel. Do antigo portuguez e do latim instituio concertar toda sua
-armadura: com diurna e nóturna mão versou pois os monumentos de ambas
-estas linguas; e quanto do portuguez ja feito se podia enthezourar, ou
-se lhe podia accrescentar por derivação, por composição, por analogia,
-por translação, ou por qualquer outra licença poetica, sem embargo
-de desenvolta e extrema, tudo ouzou com ardimento verdadeiramente
-admiravel. Fez estranheza a novidade, offenderão-se os mimosos com o
-escabroso e difficil de tal estilo, arripiarão-se os pusillanimes com o
-arrôjo, os ignorantes e priguiçosos com a immensa fadiga que bem vião
-seria necessaria para entender, não só imitar e seguir, quem tão por
-fóra caminhava das veredas batidas e vulgares. Todos estes, e com elles
-os invejosos, saírão em campo, combaterão, e apuparão, e quanto mais
-apupavão e combatião, mais recrescia em Filinto o acintoso proposito de
-se não descer do começado, antes encarecê-lo sempre até o ultimo ponto.
-Outra causa havia que para isto lhe fazia fôrça, e era conhecer como
-sem estes bordados, recamos e relêvos de frase, o cabedal de suas galas
-poeticas appareceria, qual em realidade era, grosso, commum e de mui
-baixa valia. Mas quer o movesse esta causa bem perdoavel, quer fosse
-generosidade com que se offerecia aos motejos, e desapreço de muitos, com
-o só intuito de restaurar, e avantajado, o edificio do idioma portuguez,
-sempre fica certo que n’este particular mereceo mui bem de sua patria,
-e a deixou muito mais medrada do que a achára. Oxalá que dois ou trez
-mais, dotados de igual credito, pozessem como elle peito á empreza; e
-muito embora demaziassem como elle: cunhassem a flux tudo quanto dão
-as minas portugueza e romana; ainda muito oiro puro de dicção viria
-enriquecer-nos, e facilitar-nos o tracto; pôsto que tambem como elle lá
-cunhassem á mistura oiro enfezado, não de lei, nem de receber: o juizo
-público estremaria umas de outras moedas, e as engeitadas a ninguem
-farião mal, se não fosse ao credito de seu autor. Assim crescêra cabedal,
-que ainda mingoa para as obras do engenho patrio. Nossa lingua, qual por
-ora a temos, e até restituindo-lhe todos seus fóros caídos, todas suas
-joias enterradas, não supre as hodiernas precizões do espirito. Quando
-a esfera do saber, sentir e pensar se está de hora para hora dilatando
-no mundo, do qual nós outros (ainda que o não pareçâmos) somos tambem
-parte, forçado hé que a esféra da expressão ao mesmo compasso se dilate,
-e engrandeça. Repôr ao idioma quanto ja teve será louvavel consciencia,
-porem não bastará, se apoz isso se lhe não dér com mão liberal, mas
-prudente, quanta substancia nova elle possa receber e commutar, para que
-na apostada carreira que os entendimentos das nações agora levão para o
-infinito desconhecido, o da nossa, por fraco e sem azas, se não deixe
-ficar atraz.
-
-Uma reflexão quero eu aqui fazer, mais que a taxem de digressão; não será
-nova para os que escrevem, mas servirá para que os que lem se abstenhão
-mais de acoimar pobrezas em nossos poetas. Ja das palavras se averiguou
-serem ellas fio e arrimo de que a mente se vale para melhor ir seguindo
-por suas ideas sem queda nem tropêço. Pois se as palavras, que não passão
-de reflexos e retratos do pensamento, tem virtude para o fecundar,
-menos ainda se duvidará precizar a imaginação poetica de uma abundante
-linguagem, para se manifestar por obras, assim como o pintor de finas e
-variadas tintas para seus paineis, e o musico de instrumento pronto e
-copiosamente registado, para enlevar os animos. O poeta francez, porque
-tem uma lingua que á fôrça de bem cultivada por muitos e differentes
-engenhos, se accommoda préstes e serviçal aos pensamentos mais subtis
-e novos, e aos affétos mais delicados e passageiros, d’ella se ajuda
-para inventar, e com ella exprime completamente o que inventou. Não
-assim nós, que em pertendendo alçar-nos por cima das communs ideas do
-nosso paiz, nos achâmos, sem o cuidar, pensando em francez; e se isso,
-que bem ou mal nos apparece na alma, tentâmos passa-lo para o papel,
-suâmos, bramimos, aqui nos faltão de todo as expressões, ali só tibias
-nos acodem, outras mal determinadas e mal entendidas, outras estiradas
-em perífrases. Dai-me o proprio Lamartine nascido nas margens do Tejo,
-e pedi-lhe uma só _Meditação_, uma só epocha de _Jocelyn_; grande será
-o acêrto se as conceber, quasi impossivel que as escreva. Ponderou
-Condillac mui avizadamente, que a razão porque apparecião em certo povo
-e tempo maior numero de varões abalisados em letras, era o ponto de
-crescimento e sufficiencia abastada a que chegou n’esse tempo a lingua
-d’esse povo. Melhor será que o deixemos por sua boca doutrinar-nos, que
-bom missionario he em couzas d’estas.
-
-“Acontece com as linguas (diz elle) o mesmo que com os algarismos dos
-geómetras: quanto mais perfeitas são, mais vistas novas nos offerecem, e
-mais nos dilatão o espirito. Os bons acertos de Newton de antemão havião
-sido preparados pela escolha dos sinaes que antes d’elle se fizera, e
-pelos methodos de calculo ja imaginados. Se mais cedo nascesse, podéra
-ter sido homem grande para o seu seculo, mas não fôra agora maravilha
-d’este nosso. Outro tanto vai pelos demais generos. A boa fortuna dos
-engenhos mais bem aparelhados inteiramente depende dos progressos da
-lingua no seculo em que vivem, porque os vocabulos correspondem aos
-algarismos dos geómetras, e o modo de empregar os vocabulos corresponde
-aos methodos do calculo. Por tanto, em uma lingua aonde ha penuria de
-palavras ou de construções bem azadas, ha os mesmos obstaculos em que a
-geometria topava antes do invento da algebra. O idioma francez foi por
-largo discurso de tempo tão pouco ageitado aos progressos do espirito,
-que se imaginarmos Corneille em cada um dos seculos ascendentes da
-monarchia franceza, quanto mais ao remontar nos fôrmos afastando do em
-que viveo, tanto mais, e gradualmente, irá mingoando o seu engenho, e
-chegar-se-hia por ultimo a um Corneille que nenhuma prova poderia dar de
-talento.”
-
-Voltemos a Filinto. Não decedirei se houve ou não bom fundamento
-para o allegarem por autor e texto, como o fizerão na quarta edição
-do Diccionario de Moraes: nem ouzaria eu pôr mão no fogo pela
-infallibilidade de sua pureza, porque (mas a medo e sommisso vai o dito,
-que por dito e não sentença merece vénia) aqui ou acolá se me figura
-enxergar por suas paginas algumas nódoas d’aquella mesma côr a que nunca
-perdoou odio. Mas se as ha, são manchas, no passo que o geral de sua
-escritura he recheado de muitas preciosidades para quem poz peito a bem
-escrever esta lingua. Por toda a parte lhe estão pullullando lusitanismos
-em vocabulos, frases, collocação, inversões, geito e feição de períodos,
-que se houver gôsto em quem lê para os joeirar e limpar de alguma mistura
-chôcha ou sédiça, farão muito bom sustento para poetas e prozadores. Se
-houver gôsto, puz eu, e muito que o puz de indústria, porque, os que
-d’elle carecerem, lição tal só os fará mais ridiculos; os que ainda o não
-houverem formado, e se metterem por esses onze e mais volumes sem bom e
-constante Mentor, não sei se em linguagem e em poesia viráõ nunca a dar
-fruto que bem saiba e se abençoe.
-
-Em summa, Francisco Manoel do Nascimento foi um martyr da religião de
-nossa lingua: para lhe lançar mais gloria cerceou a sua propria: com o
-excessivo das joias com que a arreou, deixou-a affétada, e menos matrona
-grave do que bailarina de corda; sim habilidosa e leve, mas dengosa
-e presumida: mostrou-lhe o como e por onde devia subir á perfeição,
-a que por outros, porem tarde e mui tarde, será levada: foi, porque
-tudo diga, um destemperado despertador, que nos poz a pé para o dia
-das letras.—Quero repetir, fez serviço talvez maior que nenhum dos
-classicos, mas he de todos o menos para seguir ás cegas. Bem haja elle
-que tocou a alvorada para nos acordar, mas mal haja quem quizer ficar com
-trombeta tão rouca e dissonante a tocar alvoradas todo o dia: ja estamos
-acordados, cabe agora aproveitar o tempo, como gente de juizo.
-
-Se da lingua passâmos em Filinto á _harmonia métrica_, damos maior salto
-que o de Léucade, e como cumprindo igual oraculo, ou nos afogamos em
-um mar bravo, ou de lá surdimos curados de todo o amor a tal poeta.
-Em nenhuma das quatro ou cinco partes do globo, e em nenhuma era se
-metrificou jamais lão dura, desleixada e insolentemente. Se alguma vez
-se esquece com dois ou trez versos bons, logo se vinga com duas ou trez
-duzias, que se os reduzissem a linhas iguaes, não serião mais nem menos
-que desaceiada proza. E ainda he para agradecer quando só lhe falta
-melodia, porque algumas vezes nos dispara versos, em que as pauzas vem
-todas desconjuntadas, e outros, em que sobejão síllabas, por mais que a
-maço as procuremos entalar e embeber umas por outras.—A sua rima he por
-via de regra desnatural a pobre: os seus sonetos e toda sua lírica de
-consoantes, enxabimentos ou arripíos. Bem se alcança como erão arrufos
-de maltratado, as injurias que em muitas partes vomitou contra a rima, e
-não como as de Boileau, vozes só de um juizo rigoroso, que de dentro das
-letras as media. Nos defeitos de versificador fez de idade para idade
-successivos enotados progressos, sendo assim que ou por desleixo, ou por
-certa petulancia, em que engenhos grandes muitas vezes cáem, tomando
-por timbre o escarnecer do Publico, quanto mais hia usando do officio,
-tanto mais desprimoroso se foi mostrando, até ganhar tão duro callo na
-consciencia, que nem a deliciosa harmonia dos versos de Racine lhe podia
-ja ao cabo inspirar, um só verso toleravel de tradução.
-
-Do muito que só deixo apontado se deduz a idea que para mim tenho do seu
-_gôsto_; melhor será do que só deixa-la deduzir, declara-la. Parece-me
-pois ser o seu gôsto pouco e máo; e n’isto estribo o parecer: 1.º que
-para suas Obras originaes costumava de escolher fracos sujeitos—2.º
-que as pejava de taes invenções que ja em tempo de Romanos o não
-erão—3.º que por vida se repete, e por costume redunda—4.º que na ordem
-desordenadissima em que seus escritos pôz, anda o peor tão travado com
-o melhor, e as puerilidades vergonhosas com as Odes que lhe lucrárão
-nome, que sem que o lustre do bom disfarce o máo, o esqualor e nojo
-d’este deturpa e estraga aquelle—5.º que se para traduzir elegeo ás vezes
-bons originaes, taes como o Oberon e os Martyres, outras os escolheo
-desenganadamente incapazes, taes como a triste historia em verso da
-Guerra Púnica: outras vezes, escolhendo originaes optimos, nem antevio,
-nem pelo discurso do trabalho conheceo, nem sequer sentio depois de
-findo (porque talvez se o sentisse nos houvéra poupado a ler a versão),
-que havia n’essas Obras exclusivos e essencialidades, quer da lingua em
-que estavão feitas, quer do engenho que as fizera; haja vista ás tão
-graciosas e admiraveis fabulas de Lafontaine, que em Filinto parecem
-tanto as mesmas, como a estampa de Bertoldo se podéra julgar retrato do
-Apollo de Belveder. etc. etc. etc. etc.
-
-Taes são hoje para mim Filinto e Bocage: mui outros dos que ja me
-parecêrão, e talvez dos que me hão de parecer quando novos livros,
-novas couzas, e o rodear dos annos me houverem feito sou ordinario e
-incontrastavel officio. N’aquellas eras pois, que ja eras antigas se me
-representão aquelles meus tempos, caía todo com o meu Gessner em braços,
-para a parte de Bocage, mancebo e lustrozo; e se me figurava que se
-lograsse trava-los, fundi-los em um, faria obra de se me agradecer. Os
-partidarios de Filinto, que não sei porque, trazião guerra declarada com
-Bocage, vierão saindo de seus montes escarpados, empeçados e tenebrosos,
-para dar váias e tirar remêssos de epigrammas ao nosso bando: cerrámo-nos
-com a bandeira, démos sobre elles com iguaes armas, foi batalha campal,
-rôta e sem misericordia: não houve mórtos nem cativos, poucos transfugas,
-feridos muitos. Recolhidos nas trincheiras, cantámos uns e outros,
-como he costume, o _Te deum_ da vitoria; dobrámos a altura aos vallos,
-e profundez aos fossos que nos estremavão; jurámos não acceitar nunca
-pazes, quanto menos commette-las, nem consentir em alguma couza que ás
-dos inimigos se parecesse. Eu que fôra dos mal feridos e ainda palpava
-as costuras, como havia de faltar a nenhum ponto da conjuração? Muitos
-d’elles merecerião tratados, mas porque não fazem para o fim d’esta Nota,
-venho aos esdruxolos, e só libarei a materia.
-
-Da natureza, como quer que seja, nos vem sempre o gôsto; mas sendo que
-a moda, que muitas vezes se gera de um acaso, introduz o uso, e este
-chega a mudar ou alterar a natureza, vem a ser o gôsto em muitos casos
-enleada materia e muito esquiva para questão, abonando-se talvez por ahi
-o proverbio, que sobre gôstos prohibe disputar. Dir-me-hão, que nada
-tem a natureza com os métros, que só a moda a seu talante os cria e os
-acaba: he e não he verdade; mas tambem isso deixaremos de parte, por
-pedir digressão larga e mui sobida filosofia. Em breve, parece-me que a
-fantasia ou o acaso inventa os métros, a moda os espalha e rege, a nossa
-natureza se lhes affaz, mas deve quanto podér afeiçoa-los e conchega-los
-comsigo. Das dez, onze ou doze síllabas de que pode constar o nosso verso
-heroico, quiz a moda que o numero de onze fosse em Portugal, Hespanha
-e Italia o usual e corrente; moda que estribou no ser d’estas linguas,
-em que a quantia de vozes graves excede á das agudas e dactílicas.
-Costumou-se o ouvido com a igualdade da queda, criou uma certa natureza,
-e todas as vezes que inopinadamente o obrigão a outra queda maior ou
-menor, como que se espanta e sobresalta: porei exemplo nos que sobem ou
-descem ás escuras e ja pelo tino uma escada; se lhes falta no subir um
-degráo com que ainda contavão, o pé que no ar pôz firmeza cáe em falso,
-e comsigo leva todo o corpo estremecido; se lhes sobeja um no descer, o
-pé que ja se dava por assente, não desce mas atropella e traspoem. Por
-tanto, regra geral, o verso grave, que he o da moda e tambem o da nossa
-natureza, he o de que nos deveremos servir: como porem entre as couzas
-sujeitas á poesia, se nos deparem algumas, cuja indole póde ser esse
-mesmo estremeçáõ, ou atropellamento, razão será que em taes casos bem
-averiguados e por via de excéção, acudamos á idea com o verso que melhor
-lhe condiz: os exemplos são faceis de colher nos autores, não gastaremos
-com elles papel. Ora para se consentir n’esta excéção, não deixa de haver
-outro motivo de algum momento, e verdadeiramente he elle o mesmo em que
-a regra geral se fundou; porque as estranhezas, que por desagradaveis
-persuadírão á regra, por uteis nos conformão com a excéção, sendo que
-tem virtude para nos espertarem, quando o embalar da monotonia nos vai
-adormecendo. Não por outra causa, vierão os melhores metrificadores
-latinos em variar, ainda que rarissima vez, os seus hexámetros perfeitos
-com o espondaico ou com um monosíllabo final: ambos nos abalão; os
-primeiros em certo modo como os esdruxolos, os segundos como os agudos;
-e abalando-nos a propozito, por exemplo para sentirmos a queda do animal
-no famoso _procumbit humi bos_, deixão-nos afiados para proseguir com
-attenção, e melhor tomar o gôsto ao caminho, que outra vez continúa lizo
-e macio, passado o tropêço.
-
-Assentámos o princípio, vejamos se o uso lhe tem sido conforme. A Italia,
-attenta a prontidão, e musica de sua lingua, devêra ser d’estes trez
-povos do sul o mais aprimorado em toda a qualidade de metrificação, e
-todavia he o contrario no hendecasíllabo sôlto, podendo dizer por si o
-que o seu Ovidio poz na boca de Narciso, que a sua riqueza a fez pobre:
-os seus poetas, ainda os modernissimos, sôbre não curarem dos sons
-que recheão o verso, e quantas vezes nem das pauzas, sôbre estirarem
-desmesuradamente os seus períodos, consentindo que os versos se travem e
-encadêem de contínuo, misturão sem nenhum motivo de effeito, os versos
-agudos e esdrúxolos com os graves, segundo o acaso lhos vai deparando.
-He o mesmo que succede a quem possue terra de sobejo fertil e facil:
-ella que supra por si ás primeiras precizões; trabalhe-se o necessario
-para que não falte, o resto, que bastaria para a fazer paraizo, dê-se á
-priguiça. Os francezes, que tão menos poetica lingua tinhão, obrigados
-por essa mesma pobreza a cultiva-la, esmerados e incançaveis, ¡quanto a
-não levão ja por arte, adeante do que por natureza podéra ser a italiana!
-são n’uma parte os paúes de Hollanda a produzir; na outra, terras pingues
-e dobradas de Otaiti a regalar com pão e frutos espontaneos aos semi-nus
-e ociosos naturaes. D’este versejar de italianos, me dizia uma vez José
-Agostinho de Macedo, que a maior parte de taes poesias lhe dava a lembrar
-as récuas de mulos de almocreve, que enfiados e prezos uns a outros, ao
-som dos chocalhos enfadosos, la se vão, ora tropeçando ora erguendo-se,
-continuando o caminho, e sempre chegão com a carga onde tem de ir.
-Quando assim fallo, quero que se entenda que me não refiro a todos sem
-excéção, mas só ao geral d’aquelles poetas. Bem pode ser que os haja
-agora primorosissimos que eu não conheça, e dos conheçidos alguns ha com
-quem não serei tão severo taes como Monti na tradução da Illiada, Fóscolo
-se me não engana a lembrança que d’elle me ficou, Alexandre Manzoni, e
-Felice Romani.
-
-Em Portugal, pois que a lingua era tambem préstes e serviçal, e os que
-n’ella poeta vão se comprazião de se irem sempre na pista dos Toscanos,
-sente-se nos poetas antigos o mesmo desmazelo. La andão com os versos
-graves os esdruxolos inuteis, ainda que não frequentes e os agudos aos
-cardumes. Camões, que de todos elles foi por ventura o de mais delicado
-ouvido, rimando hendecasíllabos, até na epopea não duvidou em os pôr,
-quando acaso lhe apparecião, e sem nenhuma intenção ou fito poetico; o
-que a Vasco Mauzinho de Quebedo seu inferior em poesia, mas superior, se
-he lícito dizê-lo, em metrificar, por tal arte desagradou, que em todo
-o poema de Affonso Africano nunca interpolou com elles versos graves, e
-d’isso faz alarde em seu prologo.
-
-N’esta incerteza correo a couza até os nossos tempos, em que dois
-homens de fôrça, dois athletas da poesia, representando cada um uma das
-encontradas opiniões, devião ter perante os olhos publicos um calado
-e rijo certame, para decisão ultima da contenda. Foi Bocage o mancebo,
-cavalleiro da metrificação liza e uniforme; o velho Filinto da mista
-e libérrima. Todo o empenho de Bocage era a harmonia constante, todos
-os seus versos forão graves, e de compasso batido. Nascimento queria
-por cima de todas as outras couzas dar todas suas ideas, boas ou más,
-graudas ou miudas, mui bem pintadas e repintadas, que ainda quando
-insignificantes, não deixassem de ferir na vista. Servia Bocage ao metro
-como a senhor: Nascimento, como de escravo se servia d’elle, trazia-o
-rôto, contrafeito, demudado, e por todas as ilhargas estalando com o
-pezo da carga. Se he lícito comparar estes dois poetas com outros dois
-romanos, de muito mais subidos quilates, digo, que são na metrificação
-hendecasíllaba, o que nos dístichos elegíacos eróticos forão Ovidio e
-Propercio. O dísticho de Ovidio he sempre torneado por medida, nada
-lhe falta nem sóbra, reluz de polido, e algumas vezes pouco péza: nos
-de Propercio ha sempre mais succo de couzas (bastante espremeo d’elles
-Ovidio para seu remedio); mas o hexámetro sáe amiude desalinhado, o
-pentámetro dissonante da sua usual toada, acabando não em dissíllabo,
-como para bem o requer o geito de tal metro, mas em trissílabos e
-quadrissíllabos á moda de Catullo; partem-se menos apuradamente os
-hemistíchios, embebe-se e embrulha-se em demazia o pentámetro no
-hexámetro, e, o que mais rijo he, o hexámetro de um dísticho no
-pentámetro do anterior; o que não tira ser Propercio, em meu conceito, um
-poeta de mui alta valia (e não sei se diga que o unico amante apaixonado
-dos antigos, com licença dos grammaticos e dos priguiçosos que o engeitão
-por escuro), e Ovidio um dos mais bem assombrados engenhos do mundo.
-
-Do que levo ponderado, se he exáto como cuido que he, segue-se que nem
-Bocage, nem Filinto erão para modellos absolutos, e que tão desacordado
-andava quem não consentia em verso que grave não fosse, como quem
-esdruxolava por vida e fóra d’aquelles casos em que o esdruxolar traz
-em si mesmo a desculpa e o louvor. Entendi que ja por acinte o fazião,
-e por acinte contra acinte escrevi essa Nota da primeira edição, que
-atraz deixo trasladada. Fôra o voto pueril, conheci-o assim como o sangue
-alvoraçado da batalha me esfriou, mas tão sobre maneira se oppunha a
-vergonha a uma retratação, que permaneci até hoje sem um esdruxolo em
-tantos versos soltos como tenho impresso, e tantos mais que ainda não
-saírão á luz. Quantas vezes, compondo a _Noite do Castello_ e o _Bardo_,
-não senti tentações e ímpetos de romper e acabar por uma vez com uma
-prizão imaginária, que a olhos vistos me estava tolhendo mui bons
-effeitos poeticos; e comtudo confrangia-me, esquivava-me, escrupuleava,
-e não podia acabar comigo que me resolvesse, podendo dizer como aquelle
-rei de França _La se vai tudo, menos a honra_. Os passos d’esses poemas
-em que tal me acontecia, por si se estão indo agora denunciando, póstos
-os dactílicos imitativos nos lugares, que abaixo do final se podem
-reputar pelos mais autorizados e distintos do verso, que são o ponto do
-hemistíchio ou pauza do meio verso, e o comêço do seguinte, quando fica
-bem cortado e estremado. — D’este livro ao deante me dou por desobrigado
-do voto; e eis aqui, me parece, o como lã para os outros me hei de haver:
-nunca porer só por pôr ou por me forrar trabalho, verso dactílico; nunca
-o engeitarei quando a fôrça, graça ou qualquer outra vantagem da poesia
-o requererem. Bem quizera dizer outro tanto dos agudos, mas ahi ainda
-o meu antojo he forte; sei que a razão não está menos por elles, e não
-ouzo segui-la: veremos o que o tempo, grande causador de mudanças, poderá
-trazer comsigo.
-
-
-
-
-NOTA
-
-_de Augusto Frederico de Castilho._
-
-_Pag. 118. verso 6._
-
- Vejamos, meu Irmão, a tua escolha. &c.
-
-
-Quando um autor, para publicar os seus pensamentos se entrega á nossa boa
-fé o lealdade, os nossos olhos e mãos para logo mudão de dono, ficão
-seus; tem de vigiar e selar o depósito confiado, para que nada se lhe
-accrescente nem cercêe: qualquer palavra, qualquer vírgula de mais ou de
-menos, por muito que as pareção estar pedindo este ou aquelle passo do
-texto, são mais que violação de testamento, porque ideas são propriedade
-mais real e sagrada do que bens da fortuna. Assim he, mas cumpre que não
-seja assim na presente occasião: faltarei ao direito do autor e á minha
-obrigação de secretario, para cumprir com outra mais santa lei, a do amor
-fraterno, alliviando aqui, e em mais de uma maneira, o meu coração, ás
-escondidas do mesmo autor, para quem serão grande novidade estas linhas,
-quando de alguem (que não de mim) as chegar a ouvir ler.
-
-Direi em primeiro lugar, que na Festa da Primavera, cujas honras forão
-na maior parte a meu Irmão, os versos a que esta Nota vai lançada
-tanto abalo fizerão em mim, que pela primeira vez os lia, que eu me vi
-necessitado a interrompê-los coberto de lagrimas e afogado em soluços,
-para me ir lançar no seio d’elle, protestando-lhe assim, com um silencio
-que eu não tive palavras para romper, que os seus dezejos de vivermos
-para sempre unidos, ja em mim erão necessidade, e que o pensamento de
-separação se me representava tão _atroz_ e _impossivel_ como a elle.
-Eu o vi profundamente commovido entre os meus braços, e foi esta a
-primeira vez em que nos-fizemos uma declaração tão expressa e amor,
-nós que semelhantes aos _Dois amigos_ de Gessner, sempre tinhamos
-vivido e contávamos com viver um para o outro, sem ainda uma só vez nos
-havermos dado o nome de amigos. O meu voto, ufano-me de o dizer, tem
-sido santamente cumprido: ja la vão quinze annos, e eis-me aqui ao lado
-d’elle, eis-me tão inseparavel como tinha sido desde menino até áquella
-hora! que digo? ainda mais, porque para reparar a perda horrivel que elle
-acaba de experimentar; eu carecia de ter agora em mim, em vez de um, dois
-ou mais corações para lhe offerecer.
-
-Agora cumpre-me preencher o principal fim d’esta Nota, transcrevendo
-para aqui alguns versos parallelos a estes, de um meu Poemetto, que
-com o titulo de _Primavera_ recitei n’aquelle mesmo Dia. Os elogios
-que o leitor vai achar, não mos inspirou só a amizade fraternal, mas a
-convicção em que ainda hoje estou, e hoje muito mais, do subido mérito do
-elogiado. Aqui era o lugar de desmentir um grande numero, talvez a maior
-parte das sentenças, que sôbre a valia d’estes poemas a sua modestia (em
-tudo excessiva) lhe dictou no Ante-Prologo, e principalmente no Prologo
-d’este Livro: mas não cuido que a minha licença possa chegar tanto
-adeante: calar-me-hei, bastando-me agora ter desabafado, por algum modo,
-nos versos que se vão ler.
-
- E tu, meu caro Irmão, tu me arrabatas,
- Quando magico attráes aos sons da lira,
- As Musas da Danubio á foz do Tejo.
- Oh dize-me onde has visto a Natureza,
- Virgem tão bella para ti sorrindo?
- La na idade infantil, quando teus olhos
- Inda na luz formosos se espraiavão,
- ¿Veio ella mesma perfumar-te o berço,
- Tingir-te em rósea côr dos ceos o espaço,
- Encher-te o ar de ignotas harmonias,
- De affétos orvalhar-te o brando seio,
- E com magas visões doirar teus sonhos?
- Sim veio; e quaes na mente que as afaga
- As maternas feições impressas ficão,
- Taes seu olhar, e voz, e graça, e tudo
- Te vivem, te reluzem pela mente,
- Doirão-te a escuridão, compõem-te um mundo,
- Em silencio te admiro ha longo tempo;
- E até (que fui tão louco) ouzei co’as tuas
- Minhas fôrças medir, tentar-te a gloria.
- Não somos nós irmãos, me disse eu mesmo?
- Não corremos iguaes no longo estudo?
- Pois ha de a lira d’elle ousar prodigios,
- Sem que, para a imitar, desperte a minha?
- Mas que vale o dezejo, o sangue, o estudo!
- Tu sabes remontar-te aos ceos n’um vôo:
- Eu tento, eu me debato, ergo-me, cáio,
- No inglorio chão cançado me adormeço:
- Será pois d’elle só a eternidade.
- Só d’elle? a sua gloria aos dois nos basta;
- Qual nossos corações amor vincula,
- Tal has de unir, ó fama, os nomes d’ambos.
- Com todo o eterno sôpro enchendo a tuba,
- “Este o maior, dirás dos lusos vates!”
- Dirás depois mais baixo: “Este com os olhos
- “Leo e estudou do Irmão, do terno amigo.”
-
-
-
-
-OS CANTOS DE ABRIL IDILLIO.
-
-
-_O mais deslavado e insôsso Poemetto na primeira edição, erão Os
-Cantos de Abril. Só a invenção fôra boa; na execução e estilo revia um
-tão contínuo desprimor, que me foi necessario demolir e reedificar.
-Por tanto, com o mesmo titulo he obra diversa, muito melhor, mas não
-perfeita, porque ja para a emenda da emenda não chegou a paciencia._
-
-
-
-
-DEDICATORIA A MEU PAI.
-
-
-_He a educação o maior prezente que de homem se pode haver. Vós, meu Pai,
-fizestes mais do que educar-me: superior a uma preoccupação tão geral
-quão perniciosa, vistes nascer o meu engenho poetico e não o destruistes,
-viste-lo crescer e não o contrastastes, senão que antes lhe déstes
-amparo, bafo e desvelos. Eis aqui por tanto um reconhecimento da minha
-gratidão._
-
-_Oxalá possão estes versos, que me afouto a vos offerecer, agradar-vos
-tanto, como os Cantos de Abril, no silencio da noite e debaixo do
-parreiral da cabana, agradárão ao bom Menalca._
-
-
-
-
-ADVERTENCIA.
-
-
-Notar-se-ha que por todos os Poemettos d’este livro se dão sempre versos
-á infancia, e n’este Idillio tem ella não uma parte, nem a principal,
-senão o todo: se o porque, pode importar a alguem, agora lho direi
-brevemente.
-
-Parece-me um Menino, de todas as couzas graciosas que Deos fez u
-graciosissima. Aquelle ajuntamento e consonancia de tantos dotes;
-formosura, d’elle proprio nem buscada nem sabida; graças que lhe ninguem
-ensinou; singeleza e candura; alegria, fraqueza, innocencia; e muito
-afféto, e muito mostra-lo; e total descuido do porvir; e não o temer
-nada; e a poesia particular do seu dizer; e a sua grammaticazinha natural
-que a nó nos faz rir, couzas são estas que apoz si me levão esquecido
-e encantado. No trato d’estes botões da humanidade, que vem abrindo,
-parece-me, e ja pareceo a muitos, poderem-se lucrar boas vantagens:
-ja não fallo em seu bondoso contentamento que talvez se pega, e na
-felicidade de recobrarmos horas de meninice, imitando-os, sem saber, a
-elles, como elles nos imitão a nós; fallo porem no muito que o nosso
-espirito se acostuma então a estremar o bom do máo, e a joeirar cá
-dentro o puro do impuro, para nem por sonhos profanar o que das mãos da
-natureza saío e se conserva santo. E demais, um Menino não sabe nada,
-quer saber tudo, e por tudo nos pergunta: ¿não he isso estar-nos pondo
-a caminho de muitos descobrimentos de verdades e relações das couzas,
-que nunca aliás por nossa preguiça ou descuido fariamos?—Muitas pessoas
-vejo, e faz-me pena, desamarem as creanças, despreza-las, havê-las por
-menos de gente, tolher-lhes as fallas, as obras de sua idade, e Deos sabe
-se tambem o entendimento: eu por mim, quero-lhes muito, porque entendo
-que excedem em valia aos seus desprezadores, e sinto que a mim me levão
-grande vantagem em bondade e ventura. De um ajuntamento esplendido mil
-vezes tenho fugido para elles: no campo, melhor que em nenhuma outra
-parte, saboreio esta doçura a meu contento. Todos os pequenos das aldeas
-em que tenho estado me conhecem, e sei que são meus amigos: apinhão-se-me
-ao redor em me vendo; invento jogos, historias ou conversas para elles;
-divirto-os, divertem-me; uns com outros, e uns de outros aprendemos.
-
-Erão horas bem doiradas essas de minha vida, como as ja tivéra João
-Jaques, como as terão tido muitos, e como as poderáõ ter quantos as
-dezejarem.
-
- _Lisboa: 7 de Janeiro de 1837._
-
-
-
-
-OS CANTOS DE ABRIL IDILLIO.
-
-
- Por um serão de Abril suave e ameno,
- Menalca, a bella Dafne, e seus trez filhos,
- Estavão-se a folgar ante a cabana.
- Por entre as parras do sonoro alpendre
- A mansa lua chêa se enlevava,
- Espreitando esta rústica familia.
- Menalca erà ja velho: os justos Deozes,
- Querendo premiar lhe a larga vida
- Passada em os amar e amar aos homens,
- De Citheréa ao Filho havião dito:
- “Filho de Citheréa, entrega Dafne
- Por esposa na Menalca, a fim que o velho
- Remoce, vendo ao lar a mocidade,
- E a virtude que tem o alegre em outrem.”
- Amor nem sempre aos Deozes obedece,
- Porem amava a Dafne; entrançou logo
- A florente cadêa, e vendo-os prezos,
- Tanto a si mesmo do que fez se aprouve,
- Que ficou sempre entre elles na cabana.
-
- “Filho de Citheréa, accrescentárão
- Depois os Deozes, da-lhe o teu retrato
- Em filhos, e uma filha irmã das Graças,
- A fim que em seu crepúsculo da tarde.
- O velho inda se alegre, e abrace esp’ranças:
- Da-lhe prole, o fada-la a nós pertence.”
- E Amor lhe déra prole, dois meninos
- Seu retrato, e uma filha irmã das Graças.
- Ja rosas de abril decimo florecem
- No semblante de Silvia; um anno a vence
- Titiro; e vence a este um anno Alexis.
-
- Menalca, em juncos molles estendido,
- Tem da esposa no candido regaço
- Como em ninho amoroso a branca fronte:
- Pelas feições transpira-lhe bondade;
- O mistico luar o diviniza.
- Dafne o contempla muda, e niveos dedos
- De afagar umas cãs sentem vaidade.
- Elle a querida mão colhe entre as suas,
- Beijada a achêga ao rosto, os fracos olhos
- Derrama pelos céos alumiados,
- E fitando-os na lua “Olhai, meus filhos,
- Olhai, disse elle, como brilha a lua!
- Que suavidade e paz não côa ao largo
- O astro das noites! como attráe da terra
- Nosso espirito humilde a pensamentos
- De outro mundo melhor, mansão de Deozes!
- Que esp’ranças, de saudades misturadas,
- Não traz a pura noite ás almas puras!
- Dias que em vão suspiro, amenos dias
- Da minha mocidade...! agora jazo
- Como arvore das folhas despedida,
- Que mais não florirá, porque o machado
- Ja lhe abrio marca para se ir ao fogo.
- Então era eu cantor chamado ás festas,
- E afamado por longe entre os cantores
- Na frauta e no rabil, porque os meus cantos
- Erão sempre á Virtude e á Natureza.
- Por uns serões assim, como acodião
- Todos a ouvir-me! As Ninfas era fama
- Que descião do bosque, e pelas sarças
- Vinhão pôr mais de perto o ouvido á escuta:
- E os ventos se detinhão, recostados
- Aos duros troncos, sem bolir co’os ramos.
- Té dizião que a frauta, em que eu tangia,
- O benevolo Pan ma déra em sonhos.
- E ora jaz, annos ha, de pó coberta!
- Em tôrno ao meu fogão ja não se apinhão
- Os pegureiros a aprender-me os cantos,
- Meu cabello nevou, nevou minha alma.
- Ah! se não fosseis vós, Dafne, meus filhos,
- Vivido tenho assaz, pedíra aos Numes
- Tornar a ver meus pais n’outras cabanas,
- Onde he perpetua a luz, e a eternidade
- Uma estação de musicas e flores.
- Quando eu la renascer á vossa espera,
- Á tua espera ó Dafne, á vossa ó filhos,
- Resurgirá comigo a minha frauta;
- E com ella enganando aquella ausencia,
- Penosa até no Elisio, em versos novos
- Louvando os Immortaes, e eterno eu mesmo,
- Pedir-lhes-hei comtudo que só tarde
- Vos levem para mim; que vos derramem
- De virtudes e bens copiosas bençãos
- Sempre n’esta cabana, onde hei nascido;
- E que no meu sepulchro o passageiro
- Diga parando—Ó bom pastor Menales,
- Leve te seja a terra, e tu contente
- Porque os teus filhos te excedêrão todos.”
-
- Aqui sentio caír na fronte calva
- Uma calada lagrima, e doeo-lhe
- Ter nublado o prazer de seus Penates.
- Senta-se, alegra o rosto, enchuga os olhos;
- E unindo ao seio a esposa “Ouvi meus filhos:”
- O cantar diz co’a noite, agrada á lua,
- Contenta á vossa mãi. Cantai louvores
- D’este suave Abril; nunca em meus versos
- Deixei de o celebrar, quando era moço.
- Os pastores de outr’ora Abril sagrarão
- A Venus, graciosa Mãi de tudo.
- Vede-a n’aquella estrella estar sorrindo;
- As glorias do seu mez são glorias d’ella.
- Alexis, principia, eu te acompanho
- Co’a tua mesma frauta; os sons da frauta
- Dão como vida ás solidões da noite.
- Seja a toada a que inventei (quão lédo!)
- No dia que nasceste, e a nossos olhos
- Se doirou de alegria esta cabana:
- Bem a sabes, começa, e Pan te ajude.
-
- ALEXIS.
-
- Eu amo o verde Abril, porque he formoso,
- Todo está chêo de arvores vestidas.
-
- TITIRO.
-
- Eu amo o alegre Abril, porque he sonoro;
- Vem cantado por bandos de avesinhas.
-
- SILVIA.
-
- Eu amo o rico Abril porque he cheiroso,
- Espalha em cada prado um mar de flores.
-
- ALEXIS.
-
- A folhagem traz sombra, as sombras trazem:
- Seus folgares da sésta á gente grande,
- E a nós para brincar franca licença.
-
- TITIRO.
-
- As aves são dos ares alegria;
- Chamão na madrugada os preguiçosos,
- E divertem na lida aos lavradores.
-
- SILVIA.
-
- Flores dão côr á terra, e cheiro ás auras;
- Flores são mãis da fruta; os Deozes rindo
- As crearão, e rindo acceitão flores.
-
- ALEXIS.
-
- O Pan que está na gruta do arvoredo
- Não pára senão lá, por mais que o mudem;
- Sinal que um bosque e a sombra apraz aos Deozes.
- Tudo ali he formoso á maravilha!
- Por baixo a fresquidão, por cima o verde;
- A terra de reflexos variada;
- O této sonoroso e movediço;
- Mais alto, o ceo azul, dado ás amostras.
- E que direis do rio entre arvoredos?
- ¿Como se pintão na agua aquellas folhas,
- E o vento que as revolve, e as pombas alvas
- Pelos ramos, e um sol desfeito em muitos?
- Parece que no fundo do remanso
- Tem Pan outro arvoredo, igual em tudo.
- Quando hoje eu lá passava, a Pan dei graças,
- Porque achei que um tal sítio encantaria
- Ó meu Pai, teus passeios solitarios.
-
- TITIRO.
-
- Fonte como a das Náiades nenhuma:
- Cantão-lhe em volta passaros sem conto;
- Sinal que o bando alado apraz ás Ninfas.
- Por ali me regala ir espreitando
- Tantos ninhos por entre tantas folhas.
- Admiro a perfeição d’aquelles berços,
- E o tino com que os pobres de uns brutinhos
- Os souberão livrar a soes e a chuvas:
- Aqui uma avezinha inda sem pennas,
- Outra a romper da casca; alem uns ovos
- Branquejão d’entre o musgo, e ja palpitão;
- Se os tóco, sinto dentro o passarinho,
- E fujo com temor que a mãi o engeite.
- ¡Ver as mãis vir do pasto alvoraçadas,
- Darem o almoço aos filhos que pipilão,
- E co’as azas e peito agazalha-los!
- E ver logo os maridos tão contentes
- A gorgear-lhe á roda! o porque o fazem
- Mal sabeis vós; cuidais que he diverti-las!
- Oh que não: he ja dar lições e exemplos
- De canto aos filhos seus: não de outra sorte
- O nosso pai nos ensinou seus versos.
-
- SILVIA.
-
- C’roas frescas de rosas cada dia
- De Citheréa ás portas amanhecem;
- Sinal que a Citheréa aprazem flores.
- Todo o anno era Abril se eu fôra a Deoza!
- Nunca no meu altar e ás minhas portas
- Faltarião montões de flores frescas.
- Todas só para ti as cobiçava,
- Ó minha mãi: com ellas te enfeitára
- Cada hora do dia; cada noite
- As renovára ao leito onde tu dormes;
- Não porias teus pés senão em flores.
- Se o passageiro ás vezes me pergunta,
- Quando me encontra á borda do caminho,
- “Quem he a tua mãi?” eu lhe respondo
- Chêa de gloria “A minha mãi he Dafne!”
- Hontem de tarde o graciosa Amintas,
- O pobre guardador das duas cabras,
- Quando o meu pão lhe dei pedio-me um beijo,
- Chamou-me bella, e disse que o meu rosto
- Era como o de Dafne, ou como as rosas.
- Sendo assim, bella sou, que outra pastora
- Igual a minha mãi não ha na aldea,
- Nem flor em todo o mundo irmã da rosa.
-
- ALEXIS.
-
- O vizinho Milão, que hoje he tão rico,
- Não tinha mais que uma arvore, e de terra
- Só quanto aquella sombra lhe cobria.
- “Corta-a Milão, dizião-lhe os pastores,
- Alegras teu campinho, e terás lenha
- Para aquecer a choça um meio inverno”—
- —“Eu? respondia o triste, eu pôr machado
- Na boa da minha arvore? primeiro
- Me falte lume alheio o inverno todo,
- Que eu mate a que a meu pai ja dava séstas;
- A que de meu avô me foi mandada,
- Que a não poz para si; e a que nos braços
- Me embalou tanta vez sendo menino.
- Os Deozes a existencia lhe dilatem,
- Que assim lhe quero eu muito, e o meu campinho
- Produza o que podér, que eu sou contente.”—
- Sorrião-se os pastores; o carvalho
- Cada vez mais as sombras estendia,
- E Milão de anno em anno hia a mais pobre.
- Lembrou-lhe um dia, em bem, que uma videira
- Plantada a par com o tronco, o enfeitaria,
- E os cachos pendurados pela cópa
- Lhe darião tambem sua vindima:
- E eis que ao abrir a cova, acha um thesouro!
- Desde então ficou rico, e diz-me sempre,
- Que os Deozes immortaes lhe hão dado em prémio
- Por amar suas arvores. He elle
- Quem mas ensina a amar, são d’elle os versos,
- Com que ao bosque de Pan cantei louvores.
-
- TITIRO
-
- Deozes, tocai o peito de Mirtilo
- Porque não sáia máu quando fôr grande.
- Hoje, entrando na mata, o vi la dentro
- Andar armando aos passaros. Que pena,
- Disse em mim; não ser passaro um momento;
- Não poder ir correndo o bosque aos pios,
- E dizendo em cada arvore “Cautella
- Meus irmãozinhos do ar; vejo inimigo;
- Não saiaes; o inimigo anda no bosque...!”
- Paciencia, assim mesmo hei de acudir-lhes.
- Vou-me por entre as moutas rastejando
- Até ao ouco e immenso castanheiro,
- Que abre em seu tronco uma portada de heras,
- E se nomêa a casa de Silvano.
- Trepo, e dentro me escondo: os meus vizinhos
- Lá por cima na cópa papeavão,
- Cuido que adivinhando o que eu faria.
- Encósto a boca á fresta carcomida,
- Que está fronteira ao portico da entrada,
- E clamo em rouca voz “Pára Mirtilo.”
- Parou, ergueo-se, e poz-se a olhar em roda;
- Vendo tudo em socego ás redes torna.
- Com voz mais estrondosa e mais horrenda,
- Torno-lhe eu a bradar “Mirtilo pára.”
- Não esperou terceira: arroja tudo,
- Salta, vôa; oh que riso! uns echos fêos
- Lhe hião gritando apoz “Mirtilo pára.”
- Somio-se; á terra pulo, espreito o mato,
- Acho as redes, os presos sólto, os mortos
- Levo-os onde ôlho de ave os não descubra:
- Encho-as de pedras, na torrente as lanço,
- E corro a procura-lo—“Oh tu não sabes,
- Lhe digo, de que morte escapo agora!
- Não te engano, era um Deos, vi-o eu, rangia
- Os dentes, bracejava uma alta fouce,
- Vinha a saír das sombras do arvoredo;
- Vio-me e gritou me “Pára” eu páro e chóro.
- —“Es tu que andas armando ás minhas aves?
- Pois eu vou dar-te o ensino; as tuas redes
- Ja te lá vão por esse rio abaixo,
- E agora has de ir tu morto á caça d’ellas.”—
- E então vem para mim, co’a fouce aos lanços
- Cortando pelo ar—“Bom Deos, perdoa,
- Lhe grito a soluçar co’as mãos erguidas,
- Eu sou Titiro, o filho de Menalca,
- As tuas aves amo, e temo os Deozes:
- Eu redes, eu caçar!”—“Estou perdido!
- Disseste que eu ... Mirtilo me interrompe.”
- —“Não, Mirtilo, socega, eu não lho disse,
- Nem sabia que tu ... fallemos baixo
- Que nos não ouça o Deos. Olha, este p’rigo
- Passou, mas outra vez não te aventures,
- Que eu bem sei como o vi, não te perdoa.
- Deixa ás pobres das aves innocentes
- Divertir-te e cantar; nada mais querem;
- Não tens razão, não teus de as perseguires.
- Quanto ás redes, eu quero consolar-te:
- Ouve Mirtilo, acceita este cestinho
- De cana entretecida em juncos verdes,
- E este meu cajadinho em boa altura
- Liso, airoso, e sem nós.”—Assim dizendo,
- Enfiei-lhe no braço o meu cestinho
- De cana entretecida em verdes juncos,
- E entreguei-lhe o cajado. Então Mirtilo
- Me abraçou, e saltando de contente,
- Jurou-me nunca mais armar ás aves.
-
- SILVIA.
-
- Glicera por vaidosa he que ama as flôres:
- Apanha-as para si não para os Deozes,
- Não lhas merece a Mãi e alcança-as Mopso.
- Quando em nosso jardim vejo Glicera,
- Ja me eu ponho a tremer: corta as melhores,
- He seu costume; enfado-me, sorri-se;
- Chóro, ri-se; e enfeixando-as, me repete:
- “Que te servem por ora estas floritas?
- Deixa passar mais cinco primaveras,
- E então sim, nem mais uma hei de furtar-te;
- Pois sei te hão de servir quaes me hoje servem.”
- Coitado de quem he como eu menina,
- Que se manda esperar por primaveras!
- Que podia eu fazer? queixei-me ás Ninfas.
- Hontem, ja pôsto o sol, quando erão horas
- De logo vir Glicera, a presumida,
- Que furta e vai cantando; ajoelhei-me
- Co’as mãos póstas por entre as minhas flôres.
- E disse: “Como as arvores tem ninfas,
- Que lhes morão la dentro e as aviventão,
- Ha ninfazinhas a velar nas flores.
- Ninfazinhas das flores, escutai-me:
- Se a rega, com que as folhas aquecidas
- Vos refresquei ha pouco, vos foi grata,
- Olhai por vós, fazei com que Glicera,
- Como eu vos vi e ouvi, vos veja e ouça;
- Apparecei-lhe como a mim, por sonhos,
- Vestidas de mil côres, perfumadas,
- Pequenas, mui mimosas, e só outras
- Em não mostrar-lhe a ella um ar festivo.
- Dizei-lhe como os Deozes vos crearão
- Para amores de zefiros, recreio
- De borboletas e olhos, e formosas
- Copeiras do formoso mel doirado:
- Dizei-lhe que tão bella e curta vida
- Não se deve encurtar, que as deshumanas
- Tem máo fim, que apezar de passageiras,
- Ninfas sois, e o Destino ha de vingar-vos:
- Que se tornar sacrílega a colher-vos,
- Vossos fragrantes ultimos suspiros
- Seráõ de queixa aos ceos, e antes de tempo
- As rosas no seu rôsto hão de murchar-se.”
- Como eu isto dizia, entrou Glicera:
- Murchas trazia as rosas de seu rôsto,
- Não rio, nem colheo nada, e suspiráva.
- Penada de a assim ver, beijei-a, e disse:
- “Se alguma d’estas flores te contenta,
- Eu mesma a vou cortar.”—“Não (me responde)
- Ja não quero mais flores, Mopso ingrato
- As que ultimas lhe dei deo-as a outrem:
- Como as flores me engeita hei de engeita-lo.”
- Ao que eu logo acudi—“Vês tu, Glicera,
- Fallei verdade ou não? nascem as flores
- Só para as nossas mãis, e para os Deozes,
- Da-lhas tu, e verás se hão de engeitar-tas.”
-
- MENALCA.
-
- Basta meus filhos, basta; não ha sombras
- Tão gratas no verão, cheiro de flores
- Tão suave, ou tão ledo canto de aves,
- Que me recrêem como os vossos versos.
- Vinde, vinde, abracemo-nos, ó filhos:
- Dei-vos eu a doutrina; engenho os Fados;
- Mas os Deozes virtude: alcatifais-me
- De bem viçosa esp’rança o meu declivio:
- Dais-me o que nem pedir ouzava aos Deozes.
- Antevejo a florir-me a sepultura ...
-
- DAFNE.
-
- Entremos na cabana: aquella nuvem
- Quer encobrir a lua; ergueo-se o vento,
- Não tarda muito algum ligeiro orvalho.
-
-
-
-
-NOTA AO IDILLIO.
-
-
-Na muita rama que ao Idillio decotei para esta segunda edição, ninguem,
-por mais que a cate, poderá achar fruto, nem sequer uma triste flôr,
-se a não he o passo que para aqui traslado, da falla de Alexis pag. 96
-na primeira edição; ácerca do qual e de tudo o mais quanto supprimi ou
-accrescentei, releva reclamar pela maior indulgencia dos leitores. Não ma
-negará quem ja alguma vez houver experimentado como de todas as couzas,
-que parecendo tenues, são agras e laboriosas, a mais agra, laboriosa, e
-não sei se diga impossivel, he poetar e metrificar as fallas da infancia:
-caminho he esse que estreitissimo corre por entre precipicios, sendo
-maravilha que ahi os maiores engenhos se tenhão, e sigão sem caír ou para
-a direita ou para a esquerda. O primeiro e melhor juiz do homem candido
-he a sua consciencia: a minha me diz que os trez filhos de Menalca nem
-sempre, antes poucas vezes, fallão como conviria: de sobejo são poetas
-para meninos e rusticos; e tanto, que se não fôra a resalva, que logo
-do comêço lhes vai lançada, de serem filhos de improvizador, e por elle
-doutrinados no canto, não haveria perdão que de ridiculos os salvasse.
-
-Segue-se o excerpto, com todos seus defeitos e aleijões de nascença:
-
- O MENINO ALEXIS.
-
- Ver-me no bosque de prazer me enchia;
- Quando Amintas, chamando-me da gruta,
- Aonde estão de musgo revestidas
- As imagens das Náiades da fonte,
- Assim me disse, dando-me uma rosa:
- —“Eu te darei uma pequena ovelha,
- Toda branca, na testa só malhada,
- Se fores ter com Egle, e lhe entregares
- A rosa, que te dou, se lhe disseres
- “Egle, Amintas por ti morre de amores.”
- Beija-a depois na face, e continúa;
- “Egle, este beijo é do extremoso Amintas.”
- ¿Não a vês la ao longe entre os salgueiros,
- Apascentando as candidas novilhas?
- Corre; e não tardes a buscar a ovelha.”—
- Eu fui correndo a ella, dei-lhe a rosa,
- Beijei-lhe a face, e disse-lhe: “Este beijo,
- Egle, este beijo é do extremoso Amintas.”
- Nada me respondeo, sorrio-se, e as faces
- Como a rosa encarnadas lhe ficárão.
- Abraçando-a depois, lhe disse alegre,
- “Egle, Amintas por ti morre de amores.”
- Rio-se outra vez, e dando-me na face,
- “Oh como tu és máo! vai-te, me-disse,
- Não posso ... não, não quero acreditar-te.”
- Nada lhe respondi, voltei á gruta,
- Onde o Pastor contente e alvoraçado
- Me deo sem custo uma pequena ovelha
- Toda branca, na testa só malhada.
- ¡Como a minha ovelhinha é bella, e mansa!
- Andei com ella todo o dia ao pasto
- Pela relva do bosque, etc.
-
-
-
-
-A FESTA DE MAIO
-
-POEMETTO EM DOIS CANTOS.
-
-
-_Se nos trez Poemettos precedentes pude fazer muito mais do promettido
-no Prologo, n’este último fica a minha palavra empenhada. Pouquissimos
-de seus defeitos mais palpaveis cheguei a apagar, e esses quasi só de
-linguagem. Receoso de me vir a faltar o tempo ou o animo, se desde a
-primeira pagina do Livro me começasse a esmerar seguidamente, fôra minha
-primeira occupação ir por todo elle despontando, á ventura e sem ordem, o
-que me apparecia pessimo, justamente como no Prologo deixára promettido.
-Conheci logo que este trabalho era insufficiente: entrei no outro mais
-miudo e ordenado; refundi a cito_ a Epistola, o Dia da Primavera, os
-Cantos de Abril, _nenhuma das quaes Obras cheguei com tudo a lustrar. A_
-Festa de Maio, _por ser a derradeira, quasi ficou, e até nova edição (se
-algum dia se fizer) ficará, como era. O maior bem que lhe pude fazer, foi
-abri-la em dois Cantos, para que o leitor achasse marco onde descançar em
-tão enfadonha e comprida estrada._
-
-
-
-
-DEDICATORIA ÁS SENHORAS DA LAPA DOS ESTEIOS.
-
-
-SENHORAS,
-
-_A segunda tarde, que passámos em Festa na vossa Lapa, não tem jamais
-de nos esquecer. O vosso gracioso e cortez descer a ouvir-nos, as
-carícias com que amimastes o nosso Maiozinho, dando-lhe entre vós
-assento, detendo-o nos regaços, beijando-o, ¿como he que nos não havião
-de cativar, a nós, que o cingíramos de suas galas, o sentáramos em
-throno, pôsto que menos para apetecer, e o levantáramos por Divindade em
-nossos Cantos? Finalmente aquelle vosso generoso trocar de nome á Lapa,
-querendo que por nosso respeito se ficasse chamando_ dos Poetas, _em
-tamanhos obrigações nos pozerão, que as Musas nos acodiráõ para um dia
-vos provarmos que nós, Sacerdotes seus, não somos ingratos. A minha, de
-mais atrevida que he, me envia adeante, a tributar-vos este Poema, que
-pois o approvastes, ja não he de vós indigno. He prezente de uma Deoza do
-Parnaso, não podem as trez Graças rejeita-lo._
-
-
-
-
-HISTORIA DA FESTA DE MAIO.
-
-
-Pelas trez horas da tarde do primeiro dia de Maio de 1822 ja nós, a
-Sociedade dos poetas _Amigos da Primavera_, nos achávamos á sombra das
-arvores, pelo Encanamento do Mondego, esperando anciosamente o batel, que
-nos havia de tornar á Lapa dos Esteios, para celebrarmos a Festa de Maio:
-de tantos que lá fôramos no Dia da Primavera, só faltava _Anfrizo_, em
-cuja vez recebêramos _Antíono_, mancebo mui dado a bons estudos, versado
-na lingua e poesia allemã, e autor ja então de Anacreonticas e Idillios
-de muito preço.
-
-O suspirado batel acudio cedo á nossa ancia: todo toldado, alcatifado e
-cingido com mui curiosas invenções de verdes e flores, vinha parecendo
-o naviozinho do _Primeiro Navegante_. Abica, saltâmos-lhe dentro todos
-juntos; larga, vogâmos contentes e cantando. Quem bem quizesse pintar com
-a penna affétos do coração, não achára bastante um volume para historiar
-esta só tarde. Dezejára eu muito convidar cortezmente meus leitores a nos
-acompanharem, tomando seu quinhão em nosso folgar; mas não o posso, e
-ainda mal, que o de maior valia fica-lo-hão perdendo. Hiamos todos tão
-unidos em vontade, conformes em gôsto, feriados de cuidados, crentes na
-ventura, chêos e cercados de poesia, e namorados da natureza, que os
-todos só parecião um, um só moço, transportado em bemaventurança.
-
-Ora cantando, ora encarecendo, quasi adorando as varias gentilezas
-que a perto e a longe, e por toda a parte se presentavão e renovavão
-de contínuo, aportámos apoz uma hora, na formosa Lapa dos Esteios.
-Erguemo-nos, vozeâmos, voão do barco para o ceo foguetes que todo o ar
-estrugem, e para a margem os hinos de uma orchestra que comnosco hia. Diz
-a musica muito com todos os affétos da alma, mas do contentamento, onde o
-ha, faz alvorôço, que muitas vezes prorompe em lagrimas. D’esta maneira
-triunfal saltámos para o cáes, voámos ao alto da Lapa. Conhecia-nos o
-sítio pelos mesmos, desconheciamo-lo nós por melhorado: obrados erão
-sobre a natureza milagres de Maio. Ja as arvores alardeavão ás virações
-montes de folhagem, que pelo ar se embalavão ao sol; era agora o rio
-ainda mais puro, os ares mais temperados e benignos. ¿Quereis haver
-alguma idea da habitação das almas felizes? quereis pintar os lugares
-onde as Ninfas, os Faunos e Pan apparecião aos pastores innocentes na
-idade de oiro? entrai a Lapa dos Esteios pelos graciosos dias de Maio.
-He a Primavera nos princípios uma linda menina; mas não sabe firmar o
-passo, balbucia, tudo teme, não se decide em nada, suas graças ja se
-annuncião claramente mas ainda se não desenvolverão; em Maio he moça toda
-viçosa de mocidade, a quem ledos cortejão Amores e Prazeres, cujo sorrir
-endoidece o pensamento, e vai entender com os corações. Tinha a Natureza
-dado a segunda mão e ultima ao lugar; mas a Arte quizera entrar com ella
-á competencia, sem comtudo lhe desacatar a primazia: tudo estava varrido
-e puro e concertado de um sem numero de vasos de muitas, e finissimas
-flores.
-
-No alto assentámos o altar do Deozinho Maio: todo elle era verdura; duas
-colunas, artificiosamente fabricadas de flores, e rematadas em umas
-maçanêtas de igual marmore, se alevantavão dos dois cantos da frente, e
-communicando-se no cimo por um semicirculo, que na materia e primor não
-desdizia do resto, ajudavão a formar um genero de portico bem vistoso e
-engraçado; os lados, fundo e abobada do recinto erão de ramos verdes de
-todas as qualidades, bem entrelaçados e bordados de frescas e vermelhas
-rosas; no meio estava um assento pequeno, á feição de poial rústico,
-tecido de lustrosas heras, onde se via recostado o Maio em acto mui
-gentil, e com um geito todo seu. Era um Menino de cinco annos, louro como
-o sol, e alvo como a neve, cabellos crespos e annelados, caídos por um e
-outro hombro: de roupagem, não tinha outra de seu que um aventalinho,
-que debaixo dos peitos lhe descia aos joelhos; o qual, assim como os
-listões que de cima dos hombros lho vinhão tomar encruzando-se por
-deante e pelas costas, estava recamado de cedro e buxo, com sua orla mui
-accesa de flores de romeira, cravos, e rosas: calçava cothurnos de seda
-escarlate; na cabeça ostentava corôa de verdura, e do braço esquerdo como
-que acenava ás vontades com um cabazinho, farto dos frutos do seu tempo;
-e tudo por modo tal, que a bôca se não sabia determinar se o diria nu
-ou vestido, nem a fantasia dos poetas se o quereria simples Menino, ou
-verdadeira Divindade.
-
-Mandámos por dois dos nossos vizitar e convidar para a Festa as amaveis
-Senhoras, cuja he a Lapa, as quaes na quinta que por cima fica tem seu
-perpétuo domicilio. Não tardarão: recebemo-las como convinha, nós com
-a festa dos nossos musicos, e com muitos seus abraços as Senhoras, que
-abaladas dos annuncios de tão bôa tarde, nos tinhão feito a honra de
-acudir ao sítio. Ja era crescido o auditorio, e muito para contentar
-e accender engenhos: fomo-nos uns a outros seguindo com os poemas que
-levavamos, os quaes em fórma de rito religioso, se recitavão em pé
-deante do altar, fazendo a nossa orchestra uma harmoniosa ráia de poema
-a poema, que para tudo as tardes de Maio deixão tempo. Poz-se-lhe remate
-com os vinhos e saudes d’uma saborosa merenda, como á primeira tarde da
-Primavera se havia feito. Passou-se o serão parte pelas salas, outra
-parte pelo jardim das nossas hospedeiras.
-
-A noite era uma das mais bellas de tal mez: a lua brilhantissima despedia
-até os horisontes um clarão quasi diurno, não se enxergando nuvem por
-todo o descampado do seu céo; refletia-se, e desenrolava sua alcatifa de
-movediça prata ao longo d’esse Mondego tão digno de seus amores; o ar era
-tão manso e quêdo, que as luzes, curiosamente distribuidas por entre os
-vasos de flores, nem de leve estremecião; suave era de ver sair por toda
-a parte d’entre planta e planta uns reflexos verdejantes mui amigos dos
-olhos, muito mais da fantasia de poetas.
-
-Prazeres que o coração estriou por uma noite assim enfeitiçada, não são
-para se poderem pintar. Pouco tardou que a sociedade, como acontece, se
-não soltasse e dispartisse em ranchos pequenos: a musica errante e fóra
-dos olhos, umas vezes folgando, suspirando outras, e outras como quem
-sismava algumas amorosas mágoas, hia-se ja pelos arvoredos da quinta,
-ja ribeiras do rio acima e abaixo, tão grata, que ainda não sei couza
-que mais quizesse. Muitos e muitas baillavão arcadicamente sob a abobada
-do céo, em quanto nós outros, os que das Musas só fôramos fadados para
-versos, os estudavamos e repetiamos á porfia. Algumas semelhantes horas
-devia ter passado o primeiro que escreveo Elisios.
-
-Era a noite crescida para muito alem do meio, quando nos despedimos; e
-la foi caír na eternidade um dia, que ainda agora me persegue saudoso, e
-apoz o qual nenhum outro veio semelhante.
-
-
-
-
-A FESTA DE MAIO.
-
-POEMETTO
-
-CANTO I.
-
-
- Eia, amigos, ao campo! ha ja trez horas,
- Que os Tindáreos Irmãos no aéreo espaço
- Vírão do meio dia o rôsto ardente:
- Eia, amigos, ao campo! as horas vôão,
- E o Maio alegre ás féstas nos convida:
- Os Zéfiros ligeiros, embalando
- Do parreiral a trémula folhagem,
- Ao rio, ao barco estão chamando a turba.
- ¿O Deos Menino, o gracioso Maio
- Não vamos celebrar na fresca Lapa?
- Pois que se tarda? os Numes não consentem
- No culto seu ministros preguiçosos.
- Chamai á pressa as pastorís Camenas,
- Tomai as flautas, coroai as frontes
- Co’as grinaldas, que em premio vos cingírão
- Da Primavera no primeira tarde.
- Como! o tempo ... (ai da flor da mocidade!)
- O tempo as destruio! de graças tantas
- Que existe pois? um pó. Jazem desfeitas,
- Sem perfume, sem côr as lindas flores,
- E as verdes folhas se enrolárão murchas!
- Ah! corramos; o pezo, que as esmaga,
- Róla tambem sôbre a existencia nossa:
- Nossas grinaldas nos festins vivêrão,
- Morrêrão no prazer; e nós, como ellas,
- Devemos esperar, brincando, a morte.
-
- Cedo nos hombros do nervoso Atlante
- O eixo voluvel em perpétuo giro
- Ha de erguer ante o Sol novas esferas:
- O Touro ja fugio: Castor, e Pollux
- Succedêrão-lhe agora: hão de apoz elles
- Os astros scintillar, que nos conduzão
- Da estiva calma os importunos tempos.
- Então fenecem pelo campo as flores,
- Tépidas correm na planicie as fontes,
- Calão-se as aves nos cavados troncos,
- E fallece a frescura ás proprias noites.
- Vamos, emquanto as flores não perecem,
- Emquanto soprão lisongeiras auras,
- Emquanto um doce frio as ondas levão,
- Emquanto as aves pelos ares cantão,
- E as claras noites co’a frescura aprazem;
- Vamos correndo: de vergonha córe
- Quem último chegar do rio á margem.
-
- ¡Graças aos ceos, que a suspirada arêa
- Ja pizâmos emfim! mas pelas faces
- Abrazado suor me está caindo.
- Inda o barco não chega: eia, sentai-vos.
- D’esta aura carinhosa ao fresco sôpro
- Quanto he doce voltar o rosto ardente,
- E ora uma face, ora outra offerecer-lhe!
- Ella as beija brincando, e espalha em ondas
- Os escuros anneis, que lhas roubavão.
-
- Verde canavial, salve trez vezes!
- Co’as boliçosas, arqueadas folhas
- Nos escondes a rir de Febo aos olhos.
- Ninfa adorada pelo Deos da Arcadia,
- (Deos dos pastores, inventor da flauta)
- Sacrilego furor não nos incita:
- Não te offendas se agora as nossas dextras
- De tuas canas adornadas vires:
- Sua altiveza airosa nos agrada,
- Vates somos, os trémulos seus cumes
- Ondulando, os lascivos seus abraços
- A cada viração que vai fugindo,
- Tudo isso nos namora, e diz poesia.
- Não te offendas ó Ninfa, ei-las colhidas!
- Gravai com ellas n’esta arêa os nomes
- Das vossas bellas, imprimi-lhe um beijo,
- E partamos, que o barco ahi fere a margem.
- Bem: eu lancei da Primavera o nome
- Em caratéres taes, que ao longe possa
- Lê-los o pescador no fim da tarde.
-
- Eis-nos emfim nas transparentes ondas!
- Agora cumpre diligencia, esfôrço,
- Para vencer as fugitivas aguas.
- Ferva o trabalho, as varas não descancem;
- No fundo leito redobrai os golpes,
- E suavisai com musica a fadiga.
- Eu deitado na pôpa, eu dicto os versos;
- Cantai, e o echo em baixa voz aprenda.
-
- Ouvi Ninfas do placido Mondego,
- Ouvi com ledo rôsto as preces nossas.
-
- Saí correndo das limosas grutas:
- Occultas no cristal do patrio rio,
- Vós podeis impellir co’as mãos de neve,
- E fazer que o batel, qual aguia, vôe.
- Bellas Filhas do lúcido Mondego,
- Vamos passar a tarde á grata sombra,
- Das lindas Graças na famosa Lapa.
- Ali, se acaso não me illude o estro,
- Vós, Ninfas, vós com ellas muitas vezes
- As noites do luar passais em danças:
- Sôbre um tronco musgoso Amor sentado,
- Para acertar as rápidas choréas
- Com saudosa flauta a Noite acorda,
- E Venus compassiva lhe desata
- Dos olhos entretanto a escura venda.
- Mil Amorinhos sem farpões, sem facho,
- (Nem onde vós estais carecem d’elles)
- Vôão aqui e ali por entre os ramos.
-
- Ouvi Ninfas do placido Mondego,
- Ouvi com ledo rôsto as preces nossas.
-
- Dai-nos breve chegar, sereis cantadas;
- E iremos outro dia erguer altares
- De cada vosso chôpo á sombra amiga,
- Pondo-lhe em roda uma vistosa grade
- D’aureas canas com murtas revestidas:
- Em vossas ondas lançaremos rosas,
- E puro leite, e saboroso vinho.
- Porque tardais, ó Náiades esquivas?
- Turba innocente de mancebos rindo
- Bem merece o favor dos sacros Numes.
- Nós não vamos em lenhos alterosos,
- Roçando as nuvens com soberbas velas,
- C’o ferro a lampejar nas bravas dextras,
- Levar da guerra a furia aos outros povos,
- Lançar em fogo os bosques, e as cidades,
- Para voltar aos mares tormentosos
- Co’um pouco do metal, que gera os crimes:
- Nós vamos procurar vizinha praia
- Para rir, e beber de Maio em honra;
- Vamos c’roar-nos de verdura, e lirios,
- Cantar ao som da flauta a Natureza,
- Dançar no meio de innocentes gostos,
- E longe dos mortaes, viver ditosos,
- Poucas horas sequer, na paz dos campos.
-
- Ouvi, Ninfas do placido Mondego,
- Ouvi com ledo rôsto as preces nossas.
-
- Terra, terra: éstas árvores das margens,
- Que ora nos vão passando sôbre as frontes,
- Convidão a colher sua folhagem:
- Saltai, colhei os mais viçosos ramos,
- Teça-se um tôldo, que nos roube á calma.
-
- Ávante! adeos, ó Driades, ficai-vos
- Em doce paz; o orvalho vos fecunde;
- Ache vossa raiz no estio as aguas
- Tão abundantes, como as tendes hoje.
- Nós vamos celebrar o mez das flores,
- Quando voltarmos vos daremos graças.
- Ávante! não cesseis, alegres nautas!
- Cantai: eu voas ensino um canto novo.
-
- Das Filhas de Nereo a mais formosa
- Foi Galatéa candida, e rosada.
- Por seus olhos azues morreo de inveja
- Aglaia, irmã de Amor; a curta boca
- Ciumes acendeo no peito d’Egle,
- Bem que da boca d’Egle um doce beijo
- O scetro pagaria ao rei dos Numes;
- E Eufrosina, entre os Deozes celebrada
- Pelos aureos anneis da longa trança,
- De Galatéa a trança cobiçava.
- E o seio! o seio túrgido e nevado,
- Mais nevado que a espuma em que se tornão
- Na frente de um cachopo as crespas vagas,
- O seio era melhor que o teu, ó Cípria!
- Treze vezes floríra a primavera,
- Depois que aura vital gozava a Ninfa,
- E ja no mar, no ceo, no mundo inteiro
- Das bellas todas triunfava a bella,
- E ais e louvores a seguião sempre.
- Nereo, chamando-a á funda gruta um-dia,
- Assentou-a nos trémulos joelhos,
- Ao hombro lhe lançou paterna dextra,
- E beijando-a lhe diz.—“Assaz he tempo,
- “Filha, de rematar da infancia os brincos.
- “Tu conheces teu rôsto, ¿e não conheces
- “Que he preciso fugir á turba insana,
- “Que te rodêa, que te chama bella?
- “Crê tu nas cãs de um pai, de um pai no afféto;
- “Quanto mais suas fallas te agradarem,
- “E mais seus modos lisongeiros vires,
- “Mais pérfidos serão. Cabe a meus annos
- “Dar prudente conselho á tenra idade;
- “Perdoa-me, acautello-te a innocencia.
- “De meus delfias o lúbrico rebanho,
- “Desde hoje apascentar he teu cuidado:
- “Não convem á belleza ociosa vida.”—
- Disse, e poz-lhe na mão, como a pastora,
- Cajado de coral com ponta d’oiro;
- Entregou-lhe a rebanho, e conduzindo-a
- De seus mares a um placido retivo,
- —“Fica, pastora, aqui, lhe-disse o Velho,
- “Vir-te-hei vêr muita vez.”—Rio-se, e deixou-a.
-
- Alguns dias ali viveo contente
- Com seu rebanho a equorea pegureira.
- Ora entre as moutas dos coraes ramosos
- O levava a pascer os brandos limos,
- Ora ao marinho cão deixando-o entregue,
- Hia colher das perolas as conchas.
-
- Uma tarde de Maio, quando aos braços
- De Thetis vio que o sol hia descendo,
- Ouzou sair do fundo, e foi sentar-se
- A gozar do espétaculo dos bosques
- Na alegre entrada de uma verde gruta.
- Nas ondas por acaso então nadava
- Acis gentil de encantadores olhos:
- Vio-o, e visto, calou seu canto alegre;
- Sólta um suspiro, e se perturba, e córa.
- Do paternal preceito inda lembrada,
- Quer na gruta esconder-se até que parta
- Das ondas o mancebo: eis se arrepende,
- Ja não quer occultar-se, e quer que a veja.
- D’entre o verde do mar o níveo corpo,
- Que os olhos cega, e o coração cativa,
- As proporções, a ligeireza, a graça,
- Com que agora se occulta, agora assoma,
- E em modos mil as posições varía,
- Tudo, tudo a detem. De quando em quando,
- Sem conhecer que o faz, se lhe aproxima;
- As tranças, que trazia ao vento sôltas,
- Sem saber o porque, reparte e lança
- Sôbre os hombros de neve, e cobre o seio:
- Consulta no mar lizo a propria imagem;
- Quer mais bella tornar-se, e mais não póde.
-
- Cançado de banhar-se o Moço emtanto
- Vinha a praia ganhando: ella assustada
- Corre á gruta; ali cora, ali desmaia,
- Quando o mancebo, quando o pai lhe lembra.
- O bello nadador não tarda muito,
- Entra na gruta, onde largára as vestes ...
-
- Amigos, vós parais como esquecidos?
- Deixais que o lenho na corrente desça?
- Ah! voltai ao trabalho; e por castigo
- Não ouvirèis do alegre canto o resto.
-
- Novo me inspira agora esse murmúrio,
- Com que a Fonte das lagrimas se lança
- Da serpeada varzea ao rio aberto.
-
- Junto á fresca matriz d’este ribeiro,
- Onde gozou em seculo remoto
- O mais ditoso par de amor os mimos,
- Meu estro agora placido voltêa
- Por entre os cedros, e os feraes ciprestes;
- E ora ao lago pacífico se arroja,
- Ora da fonte nos penedos pouza.
- Comvosco não existe o vosso amigo;
- Gira fóra d’aqui no sítio umbroso,
- La conversa co’a Musa, aprende, e canta
- Gratas histórias dos passados tempos.
-
- Uma noite de Maio Inez formosa,
- Ao pallido clarão da argentea lua,
- Com seu Pedro fiel aqui vagava.
- De seu candido amor primeiro fruto,
- Lindo, qual dos Amores o mais lindo,
- Um tenro filho, que a fallar começa,
- Co’a pequenina mão á mãi seguro,
- A passos desiguaes a acompanhava.
- No dextro braço do gentil consorte
- O alvo braço despido entrelaçando,
- Languidamente a bella se apoiava.
- Traja da côr da neve, ornão-lhe as tranças
- Rúbidas rosas que reveste o musgo:
- Sob um véo raro e sôlto arfão dois peitos,
- Que estrema, que matiza, e que perfuma
- A flor, que he d’entre mil só digna d’elles,
- O amor perfeito em fresco ramalhete.
- Pelo silencio, e paz da noite amiga,
- Nos extasis de amor arrebatados,
- Ebrios ambos do nectar da ternura,
- Vagueando em seu ermo, respiravão
- Todo quanto prazer nas almas cabe.
- —“Inez, dizia Pedro, olha estes cedros,
- “Que doce murmurando agita o vento!
- “Olha as aguas do tanque, onde tão clara
- “Se está dos Ceos a Lua retratando!
- “Ouve o rumor das ondas transparentes,
- “Que vem brotando da cavada penha!
- “Cara Inez ... ah! calemo-nos; escuta
- “O amante rouxinol como gorgeia!
- “Não o sentes mui proximo? quem sabe!
- “Talvez que em teu jardim celébre agora
- “Ao lado de uma esposa os seus prazeres:
- “Se assim he, refinai perfume, ó flores,
- “E vós levai-lho, zefiros da noite,
- “No instante em que Himeneo tem de ajuntal-los.
- “Ó minha Inez, não ser inda possivel
- “Confiarmos á luz nossa ventura,
- “E eu dizer, sou de Inez!...”—N’isto o mancebo,
- Apertando a seu peito o braço d’ella,
- De beijos lhe inundava a mão mimosa.
- Em silencio e cuidosa a linda Castro
- Parava contemplando os ceos, o esposo,
- E unindo a regia dextra ao seio oppresso,
- Dava a resposta n’um fiel suspiro.
- —“Oh! (dizia depois) que Deos contrário
- “Ao terno amor, á candída innocencia,
- “Poz peito, ó doce encanto, a separar-nos?
- “Quão melhor fôra haver nascido em choças!
- “La, tendo por imperio um só rebanho,
- “Lãs por purpura, e flores por diadema,
- “Pedro fôra pastor e Inez pastora.
- “Teu solio quantas lagrimas nos custa!
- “Mas se fosse teu solio um manso outeiro,
- “Docel um parreiral firme em colunas
- “Das que dão fruto e flor, saude, e agrados,
- “Não cortíra em meus sonhos o remorso,
- “Teu coração ninguem mo disputára,
- “Não se encobríra o meu amor ...”—“Oh cessa,
- “Cessa (Pedro lhe diz interrompendo-a):
- “De que servem, querida, essas lembranças!
- “Se te adoro, que temes? se me adoras,
- “Que posso eu mais querer! Virtudes tantas,
- “Raros dons quaes os ceos em ti resumem,
- “Não são para jazer na escuridade;
- “Dos reis, de teus avós te poem no estrada,
- “Para luzires nos corrutos dias,
- “Como astro de bondade entre os humanos.
- “Gozemos do prazer. Olha esta noite
- “Como he formosa, minha Inez; não tornes,
- “Eu to peço por mim, por ti, por esse
- “Fruto do nosso amor que te he tão caro,
- “Não tornes a acordar taes pensamentos.
- “Queres tu, minha amada, á curta noite
- “Dar emprego melhor, mais proprio d’ella?
- “O assento ao pé da fonte nos convida,
- “Vem-me outra vez cantar os magos versos,
- “Onde quasi exprimiste o enlevo d’ambos,
- “Quando a primeira vez nos vimos juntos
- “Tambem de noite, e n’este sítio mesmo.”
-
- Disse, e Inez imprimindo-lhe nos labios
- Co’a meiga curta boca um longo beijo,
- —“Vamos, responde, apraz-me esse meu canto,
- “E agradar-te, inda mais; partamos logo.”—
- Diz, e ja leva ao collo o seu filhinho.
- Forceja o pai furtar-lhe o doce pezo,
- Ella a ninguem o cede:—“O meu menino
- “He meu, lhe diz; quando eu tiver meninas,
- “Dar-tas-hei, desde ja chama-lhe tuas;
- “Pertence o filho á mãi, e ao pai a filha.”—
- Sorrindo com ternura o ledo Amante,
- —“Ser-me-ha dado, lhe diz, que de teu filho
- “Ao menos colha uns beijos que me deve,
- “Ou hei de só com os teus ficar contente”?—
- —“Se tos deve meu filho, eu vou pagar-tos”
- Inez responde, e lhe pagou mil beijos.
-
- Chegados são aos bancos do rochedo.
- —“Ja do sol o calor morreo na pedra;
- “Para assento, he mister ser estufada.
- “Não rias, o brocado hão de ser ramos;
- “Para a pastora Inez, nenhum mais proprio”—
- Voa ao proximo cedro, os ramos corta,
- Alastra-os sobre o marmore, e reclina
- O infantinho, que pósta a loira fronte
- No maternal joelho, eis adormece.
-
- Absorto no painel delicioso,
- Não podendo parar nem desviar-se,
- Como homem, que formosa feiticeira
- Prende e agita n’um círculo encantado,
- Vaga o Principe á luz voluptuosa
- De lua por entre arvores. Desponta
- No ermo silencio o canto namorado!
- O suave da voz, o doce estilo,
- A musica tocante, a frase meiga
- Alhêão-no de si, todo elle he fogo:
- Não conhece onde está, quem he não sabe:
- No cahos do prazer, em que se abisma,
- Só vê brilhar Inez, Inez só ouve;
- E qual se nunca em braços a apertára,
- E virgem melindrosa o ceo benigno
- Lha houvéra ali chovido aquella noite,
- Arde e delira em sofregos dezejos.
- Já não sabe conter-se, o fim do canto
- Já não póde esperar; “Ó minha, exclama,
- “Ó minha ...” e sem findar, pois não encontra
- Nome que exprima o que lhe ferve na alma,
- Voa a abraça-la sem poder fallar-lhe;
- A voz com loucos beijos lhe interrompe,
- Quer dos labios sorver-lhe os sons divinos;
- Mas ella rindo, e a boca desviando,
- Que a deixe terminar lhe pede a custo.
- —“Sim, acaba (responde), Inez, acaba”—
- E emtanto hia beijando o collo, o seio.
- Depois, como ante Nume, ajoelhando,
- Suspenso a contemplava espaço longo;
- E depois no regaço o rôsto acceso
- Lhe punha, como em ninho de delicias,
- E no certo esperar crescia o fogo.
- Só vós caladas arvores no emtanto
- A canção namorada ouvindo estaveis
- Da mui ditosa Inez! Como expirava
- A derradeira nota, estremecendo
- Acorda o moço, alvoraçado surge,
- E tomando á cantora a mão submissa,
- —“Vamos, lhe diz, a lua vai descendo,
- “O tácito poente a chama ao sono:
- “Oh quão leve entre nós foge esta noite!
- “As auras pela relva estão dormindo,
- “Pendem com sono as arvores seus cumes,
- “Do largo tanque as aguas nem se encrespão.
- “O rouxinol que ha pouco gorgeava ...
- “Ja tambem se calou: sabes a causa?”—
- —“Talvez lhe empeça a voz, responde a bella,
- “Teimoso furto de continuos beijos.”—
- —“Não, não, responde o amante, agora occulto
- “Co’a docil companheira em quente abrigo,
- “Aperta o rouxinol de amor os laços.
- “E nós Inez? ah toma o teu menino,
- “Talvez não tarde a aurora, ao leito vamos,
- “E do fresco da noite ali zombemos.”
-
- Emfim chegámos! c’o ligeiro impulso
- Bate a proa no cáes, o lenho treme,
- Tremem com elle de seu tôldo as folhas.
- Salve ameno lugar, que as Graças pizão!
- Glória ao sacro arvoredo, que diffunde
- Sôbre a calma do vate a sombra fria!
- Glória ás auras, que prêzas n’este sítio,
- Das Dríades por mão aos troncos d’ellas,
- Agitão com susurro a massa enorme
- Da folhagem suspensa! honra aos que brincão
- Puros raios do sol sôbre o terreno,
- Mal que um favonio lhes descobre a entrada!
- Eterno amor ás aves, que em seus ramos
- A vinda nossa a gorgear celebrão!
- Paz ao dezerto, onde comnosco as Musas,
- Esquecidas de Pimpla, se contentão
- De encher de alegres canticos os ares!
-
- Á festa, á festa! Reuni-vos todos,
- Vinde colhêr as fugitivas horas:
- Como vaga que passa, ou flôr que murcha,
- Para mais não voltar, se escoa o tempo.
- Á festa, amigos! Oh! n’esta eminencia
- Eis ja pronto um altar! ei-lo cingido
- Com largas fitas de pintadas flores!
- Ante elle o rosmaninho, a murta, as rosas
- Té não curta distancia o chão tapizão;
- Heras, e lirios candidos o toldão:
- De heras e lirios adornai as frontes.
- Ajoelhai: lá sobe a Divindade!
- Silencio! paz!... Retumbe pelos echos,
- Sem mistura de voz, o som das flautas.
- No coração, no espirito me chovem
- D’estro divino eléctricas centelhas.
- Ja me sinto mudado em branco cisne!
- Cercai-me: eu vou cantar; calam-se os ventos!
-
- Voa invisivel das Hemonias serras,
- Tu que no Xantho as aureas tranças lavas:
- E se he tua, qual Roma suppozera,
- Ésta a melhor porção da florea quadra,
- Do cantor de teu mez protege a audacia.
-
- D’entre os filhos da immensa eternidade,
- D’entre esses doze Irmãos, que repartido
- Tem por sua influencia o anho inteiro,
- Maio foi sempre o mais gentil de todos:
- Qual dos cachos o Deos, e o Deos das setas,
- Goza brincando eterna mocidade.
- As Graças infantis, e a Formosura
- O creárão nos ceos com o proprio leite.
- Mal que o mundo surgio do horrendo cáhos,
- Veio formar-lhe os seus primeiros dias,
- E Maio foi da terra a fresca aurora.
- Em mimos escondendo a magestade,
- He Maio o pai, e o rei da Natureza:
- Qual em soberbo paço, anda nos bosques;
- Ou, qual em solio, nos outeiros verdes
- Se assenta, ao lado da risonha Flora.
- Compõe-lhe o seu cortejo Auras, Favonios,
- Que das plumas azues fragrancia espargem
- Furtada ha pouco ás pudibundas rosas.
- Em seu reinado insolita doçura
- Exhala o canto dos volateis bandos,
- E canoro parece o bosque inteiro.
- Em seu reinado os prados florecentes
- Só curão de ostentar perfume e cores:
- E a Ninfa ás vezes longas horas fica
- A meditar na escolha dos ornatos.
-
- Co’a folhagem densissima susurra
- O bosque annoso a celebrar-te, ó Maio;
- Susurra a celebrar-te o rio, a fonte.
- Com serena alegria o sol derrama
- Vasto oceano de luz no aereo espaço.
- A pompa da manhã, da tarde o brilho
- Tem não visto matiz d’oiro e de rosas,
- E côr de fogo sôbre um ceo de leite.
- Toda patente a abobada de estrellas,
- Toda brilhante a prateada lua,
- Te dão, como as do Elisio, alegres noites,
- De importuno calor desafrontadas,
- Chêias de encanto, da saudade amigas,
- Gratas a um tempo ao coração, e ao estro.
- Aqui, e ali os rouxinoes se escutão
- Longas horas c’os echos porfiando.
- Gira, vaguêa pelas fracas trevas
- Dos pirilampos o lustroso bando:
- Resoa em cada aldêa alguma frauta,
- E emtôrno d’ella as camponezas danção:
- Bala no aprisco impaciente o gado
- As poucas horas, que á manhã precedem.
-
- Como he doce o teu mez, benigno Maio!
- Alegra-se o viandante ao ver nos campos
- Do verde trigo as trémulas searas
- Iguaes a um vasto lago, onde os favonios,
- Nascidos inda ha pouco entre as florestas,
- Aprendem a encrespar as verdes aguas.
- Aqui a par de um campo, onde começa
- O milho a despontar, desprega aos ares
- Com vaidosa soberba altas bandeiras
- De outros milhos o exército infinito.
- Ostentando riqueza alem menêão,
- Entre a argentea folhagem pendurados
- Cachos de flor, os olivaes fecundos.
- Os pomares de frutos se carregão,
- Que ja sem medo aos furacões, e ás chuvas,
- Com áncia a côr, e a madureza esperão.
- As aves da manhã, quando revôão
- Com longo canto pela immensa altura,
- Se aprazem de os olhar; e ás vezes descem,
- E vem pouzar nos encurvados ramos,
- O futuro sustento ali festejão:
- Tal de annos onze uma pequena virgem
- De adoradores mil se vê cercada;
- Bem que á sua belleza inda lhe faltem
- Terno expressivo olhar, globos de neve,
- Voluptuoso dezejo entre suspiros,
- Buscado enfeite, graciosas fallas,
- Rodêão-na comtudo, adivinhando
- Pelo botáõ fechado a flor aberta.
-
- Mas, ó Maio, o teu mez não brilha esteril!
- La se ergue o laranjal c’os frutos d’oiro;
- Doces limões, e saborosas limas,
- D’entre a larga folhagem descobrindo
- A amarellada tez e o forte aroma,
- Prendem sentidos convidando ao furto;
- Ri-se entre as mais a alegre cerejeira,
- Que ainda que no gôsto a muitas cede,
- Mais que todas seduz co’as vivas bagas;
- A ginjeira com ella aposta encantos,
- Mas apenas gostada, a palma he sua;
- Iguaes a um coração em côr, em fórma
- Os suaves morangos ja maduros,
- Contentes da humildade, estão dormindo
- No fresco seio da materna planta:
- D’ali, se vem um zefiro acorda-los,
- Olhão em roda as pampinosas vinhas;
- E vendo como os pequeninos cachos,
- Que a fronte cingem do celeste Bromio,
- E um dia gratos brilharáõ nas mezas
- Mudados no licor, que gera os risos,
- Do nativo terreno apenas se erguem,
- Zombando riem da vaidosa audacia,
- Com que somem no ceo pomposo cume
- Árvores tantas menos uteis que elles.
- Por toda a parte as desveladas hortas
- C’o verde alegre das crescidas plantas
- O suor do colono estão pagando;
- Seu terreno sulcado está coberto
- De immensas produções, que vão nas mesas
- Ser preciso sustento, ou grato mimo,
- E ora entrar na choupana, ora nos Paços.
-
- Em teus dias, ó Maio, as vélas sólta
- Sem medo o nauta pelo vasto oceano,
- E olhando puro o ceo, de leite as ondas,
- A cujas furias escapou nadando,
- Sobre a pôpa da náo regendo o leme,
- Pensa na esposa, nos filhinhos pensa;
- Prometteu-lhes voltar; nem ja receia,
- Maio, fiado em ti, ser-lhes perjuro:
- Sobre a cana do leme encosta os braços,
- E ou sólta em grande voz grosseiros versos,
- Ou costumada musica assobia
- Olhando a estrada de alvejante espuma,
- Que d’um e d’outro lado á prôa foge.
- Brinca nas aguas, e ou se esconde, ou salta
- De vagos peixes prateada turba;
- Na verde superficie as Ninfas danção,
- Da tarda noite nas caladas horas,
- Das estrellas á doce claridade.
-
- Mas eu quero soltar mais altos vôos,
- Trazer ao mundo incognitas verdades.
- Em teus dias, ó Maio, os Páfios bosques
- Vírão nascer os trêfegos Amores!
- N’um valle opaco, onde buscando o fresco
- Costumavas dormir entre mil flores,
- La teve a Deoza o seu fecundo parto.
- Apenas sobre a attonita verdura
- Cípria depunha um pequenino alado,
- Logo o via nos ceos voar, sumir-se:
- Tal dos Amores o soberbo genio!
- Quando cançados de brincar nos ares,
- Um passatempo á terna Mãi pedião,
- Tu lhes foste ensinar pelas florestas
- A formar arcos de flexiveis ramos,
- E despedir, sem nunca errar, seus golpes.
- Tu lhes mostraste os rezinosos troncos,
- De que havião formar brilhantes fachos.
- Tu mesmo entre elles companheiro e mestre,
- Pelos campos as flores procuravas,
- Com que doces prizões tecer devião.
-
- Tudo em teus dias no universo adora;
- O sexo, a idade, as condições não livrão.
- Entre o rebanho, que amoroso bala,
- Amoroso pastor canta ou suspira;
- Ternas gorgêão no arvoredo as aves;
- Ragem ardendo de dezejo as feras;
- Suspiros ouço ás arvores, e aos ventos;
- Abrem o seio as virgemzinhas flores,
- E Venus as fecunda, e mãis se tornão.
- Em cada gruta, em cada bosque ás Ninfas
- Uma emboscada os Sátiros aprestão.
- Em bellezas mortaes embevecido,
- Canta em rustica voz novos amores
- C’roado de pinheiro o Deos da Arcadia,
- E ante a Ninfa gentil mudada em canas
- Pelas canas da flauta os sons varía
- Com ar alegre, que perjuro o torna.
- Sensivel para o Sol se volta Clície;
- O Sol na terra outras bellezas busca,
- E outras acha, que o peito lhe cativão,
- E fazem que mais tarde a Thetis desça.
- Entre os astros as Pléiades luzentes
- Com saudade seus thalamos recordão:
- Junto d’ellas o Touro inda parece
- Mugir lembrado da formosa Europa.
- Mais placida refulge a Cípria estrella;
- Dissereis que saudosa indaga os sitios,
- Onde comtigo, venturoso Adonis,
- Passava as noites do formoso Maio:
- E quando foge, a Aurora se envergonha,
- E cora por voltar tão cedo ao mundo;
- Pois quem ha que não saiba os seus segredos?
- Quem de Céfalo a história não repete?
- Em cada tronco um dísticho de amores,
- Ou dois nomes se lem, como enlaçados.
- Uma sombra, uma só não ha nos campos,
- Onde Amor não recorde, ou não prepare,
- Ou não veja presente uma vitoria.
- Foi, Maio, foi teu mez que ao Rei das sombras
- Fez que deixasse o sempiterno cáhos,
- Para roubar a encantadora esquiva,
- Do flóreo campo de Enna ornato, e Deoza.
- Foi, Maio, foi teu mez que ouviu primeiro
- Diana a suspirar, arrepender-se
- De ser das virgens tutelar Deidade.
-
- Graças ao teu poder, e ao teu influxo!
- És tu que a rir convidas gracioso
- Minerva um pouco a abandonar seus livros[13].
- Quem póde resistir-te? emfim te cede,
- Toma-te pela mão, para que a leves
- A divagar em teus vistosos campos;
- O ar de meditação troca em agrados,
- E vê contente abandonar-lhe a côrte
- De seus alunos juvenil caterva,
- Que alvoraçada aos patrios lares vôa.
- Sim, Maio, eu voarei aos patrios lares!
- Mas cuidas que jamais distancia ou tempo
- D’este dia a memoria hão de apagar-me?
- Não: onde quer que os fados me conduzão
- Sempre te hei de cantar, sempre c’roado
- De teus altares me verás ministro:
- Mas d’esta sociedade, e d’estes brincos,
- Em quanto a noite se adornar de estrellas,
- Nunca a lembrança volverei sem mágoa.
-
- De generoso vinho enchei-me o copo,
- Que de mírtea grinalda ornado quero.
- Imitai-me tambem. Por este, ó Maio,
- Suavissimo licor, pai da alegria,
- Por este, digo, cuja taça empunho,
- Juro ante o ceo, de teu altar em frente,
- Que um anno só não deixará meu estro
- De exaltar tua glória, e a minha amada,
- A Deoza tua mãi, a Primavera.
- Reformai-me outra vez a funda taça.
- Em honra a vós, formosas moradoras
- D’este ameno lugar, esta se esgote.
-
- Aguardai, cabe agora o sacrificio;
- Vou-me a buscar a vítima, que a trouxe
- Occulta e prêza do batel na pôpa.
- Eis-me, abri-me caminho! eu volto ás aras:
- Para a santa ablução trazei-me um vaso.
- Silencio! fallo ao Deos!—“Sejão-te acceitos
- A vida, e leve espirito do prezo
- Que vem n’esta gaiola, o qual eu vate
- Por todos nós agora te dedico,
- E dedicado entrego ás livres Parcas.
- Digna he de ti formoso ave formosa
- Como esta; pintasilgo ativo em canto,
- Garrido em côres, no brincar esperto,
- Mestre em tirar do cristalino poço
- Com o balde de avelã sua bebida:
- Outro melhor nunca girou nos bosques.
- D’esta estação n’um dos primeiros dias,
- Segundo o meu costume antes da aurora
- Saí a espairecer nos campos verdes,
- Ouvir das aves os primeiros cantos,
- E aquecer-me sentado sobre a relva
- Ao primeiro calor do sol nascente.
- Banhei o rôsto n’um remanso puro,
- Colhi as flores inda ha pouco abertas;
- E co’a mente serena, e possuido
- Do amor do campo, e dos campestres gostos,
- Voltei de novo ao lar. Junto á janella
- Por onde largo sol ja vinha entrando,
- Fui sentar-me a pascer em vãs delicias.
- Eu sonhava acordado! ah nos meus sonhos
- Não via mais que bosques e pastores,
- Rebanhos, fontes, rusticas choupanas!
- Dono me cria d’um torrão pequeno
- Mas pingue, de uma choça pequenina
- Mas alva, entre nogueiras, rodeada
- De alvos cordeiros nédeos e alvas pombas.
- Eis que afoitando um vôo, esta avezinha
- Me entra por casa; ao seu gorgeio acórdo,
- Pois junto a mim pouzava gorgeando.
- Ouves, Maio, este som, com que parece
- Approvar adejando o que te conto?
- Ouves? repara bem: tal modulava
- Quando amoroso a vizitar-me veio.
- Ganhando confiança a pouco e pouco,
- Saltou-me para o hombro, e de improvizo
- Prêzo se vio na minha mão fechado.
- Quiz debater-se, emvão; piou, carpio-se,
- O bom coraçãozinho lhe batia.
- Beijei-o, puz-lhe mesa; o sem ventura
- Nada acceitava, anciando só fugir-me.
- “Conheces-me bem mal, pobre innocente,
- Lhe digo; essa gaiola he teu palacio
- Não carcere, eu teu servo e não tirano.
- Servo e palacio um dia de experiencia
- Talvez tos faça amar: se não, prometto
- Abrir-te a porta e libertar-te os vôos.”
- Á janella da minha a estancia d’elle
- Penduro; os aureos grãos e a clara linfa,
- Cama fôfa entre ramos florecentes,
- Vista de campo e céo por toda a parte,
- Mas livres um de açôr, outro do tiros,
- Manso, mansinho ás grades o affizerão:
- Comeo, bebeo, cantou. “Pois que tu cantas,
- Vatezinho silvestre, em nossa casa,
- Juntos e amigos ficaremos sempre.
- Tu serás de meus dias a harmonia,
- Eu tua providencia; a fonte e a messe
- Te viráõ procurar, dar-te-hei florestas
- La dentro em teus penates de cortiça,
- E porque logres tudo, uma consorte
- Virgem, bella, fagueira, e cujos filhos
- Seráõ só teus, e como tu formosos.”
- Desde então ledo vive, e tanto aos mimos
- Se acostumou domesticos, e tanto
- A amizade entendeo, que lhe abro a grade
- Fronteira aos ceos da aurora, aos bosques amplos,
- E nem bosques nem ceos lhe dizem—foge.—
- Da liberdade que lhe acena á porta
- Se despede cantando, e empoleirado,
- Reizinho em casa sua, a mim e a ella
- Nos compara, e lhe diz: “Aquelle humano
- Deos foi que para mim creou taes ocios!”
-
- “He esta, ó Maio, a vítima que trago
- Ao sacrificio teu! perco um amigo!”
- Com esta mimosissima grinalda
- De sensitiva lhe circundo o collo,
- Para sinal da dor que me comprime.
- Vamos, venha o punhal, que eu limpo o pranto.
- Ó ceos!... quanto me custa! He sacrilegio
- Qualquer demora mais: ânimo agora,
- Saudoso coração!... Venceste, ó Maio!
- Venceste! consumou-se o sacrificio!
- O fio prêzo ao pé cortei de um golpe,
- Lancei-o ao ar; voou; nem ja o ouvimos.
- Foi rever seus antigos companheiros,
- Sua amada, seu bosque, e o seu alvergue.
- Oh! como será doce emtôrno ao sócio
- Que julgárão perdido, apinhoada
- Papear parabens a alada tribu!
- Oh tu lhes dize então do amigo o nome,
- Que vezes te beijei de madrugada
- Por me acordares co’o suave canto,
- Para trocar o leito pelo grato
- Passeio da manhã, d’onde trazia
- Pera a tua gaiola hastes de flores.
- Ouvirá leda a esposa a leda historia,
- E a contará depois aos tenros filhos.
- Talvez que em meu passeio inda algum dia,
- A festejar-me, emtôrno a mim se junte
- Chêa de gratidão toda a familia,
- Tu meu amigo, a tua esposa, e prole.
-
- Dispersai-vos, bebei, cantai, amigos,
- Ride, e dançai, porque invejoso o tempo,
- Co’as cãs na fronte, e o coração gelado,
- As horas do prazer furta aos mancebos.
- Mas ai de nós, que o perfido voando
- Ja nos fugio co’a encantadora tarde!
-
- Desçamos ao batel: adeos ó Lapa,
- Adeos, fica-te em paz; e cedo espera
- Ver de novo juntar-se á sombra tua
- Da Natureza os candidos Amigos.
- Deixai as varas, gracejemos antes,
- Não cumpre trabalhar, para fugirmos
- De um bosque sacro a Maio, e sacro ás Musas.
-
-FIM DO CANTO PRIMEIRO.
-
-
-
-
-A FESTA DE MAIO.
-
-POEMETTO
-
-CANTO II.
-
-
- D’essa garrafa de cristal doirado
- Duas taças me enchei. Venha a primeira:
- Esta se esgote da amizade em honra.
- Ó divino licor! se o puro nectar,
- Que Hebes formosa a Jove ministrava,
- Comtigo competir podesse ao menos,
- Jove lhe perdoára o seu descuido,
- Nem dos bosques Ideos arrebatado
- Ganimedes gentil voára aos Numes.
-
- Dai-me, dai-me a segunda. Em honra agora
- Do celeste prazer, que nos encende,
- Este liquido fogo ao peito envio.
- Graças ás mãos, que á terra afortunada
- Derão em hora boa éstas videiras!
- Graças a Baccho, ao protétor, que tanto
- Desvelo lhes prestou! Graças á turba
- De alegres raparigas, que levárão
- Os cachos ao lagar em largos cestos!
- A vós mancebos rusticos e alegres,
- Que aos pés calcastes as cheirosas uvas!
- E a ti, lenho feliz, em cujo seio
- Os sagrados toneis se transportárão
- Desde os campos de Chipre aos campos nossos!
- Do celeste perfume ébrias as Ninfas
- Te acompanhárão na veloz carreira;
- Continuamente as velas te enfunárão
- Com halito propício os frescos ventos,
- Que lá brincavão pelas ferteis vinhas,
- Faceis criando, e colorindo as uvas:
- E o mesmo Baccho (eu não vos minto, amigos:
- Ah! dai-me a taça, os labios se me seccão);
- Baccho em pessoa, o vencedor das Indias,
- Invisivel na pôpa revirava
- O leme dirétor co’a mão divina.
- Dai-me á pressa outro copo: outro: mais cinco:
- Mais um que eu vote a Febo, e nove ás Musas.
- Sinto o meu coração desfeito em gôsto!
- Ah! por piedade rodeai-me todos;
- Quando entre amigos bebo, um só não basta
- Para me encher atropelados copos.
- A cada qual de vós uma saude
- Quero fazer; mais uma a cada Ninfa;
- Aos Numes todos, que na terra habitão,
- Aos Numes todos, que dos ceos nos olhão,
- A todos que no Elisio nos esperão;
- Farei uma saude a cada vaga,
- Que desde a Herminea Serra[14] aos mares corre,
- Álua, a cada estrella, a quanto existe.
- Do mais vivo prazer me volvo em braços!
- Rio, e respiro magicas delicias!
-
- Gelos, que em serras coroais as fontes,
- D’onde as urnas as Náiades inclinão
- Para mandar-nos de tão longe as aguas,
- Derretei-vos em subitas correntes:
- Brami de roda dos Hermineos lagos,
- Ventos da tempestade; as átras nuvens
- Reuní, condensai: retumbe ao longe
- O ronco do trovão pelas florestas,
- E o monte enorme em seus abismos trema.
- Todo em chuveiros se desate o polo:
- E cedo (oh! praza aos ceos!) e cedo o rio
- Vença o leito, e com impeto revolva
- Tropel ruidoso de espumosas vagas.
- Sem poder contrastar-lhe a furia immensa,
- Perto da margem sem poder ganha-la,
- No escuro turbilhão de rôjo iremos.
- Quando a aurora assomar, ja muito longe
- Nos verá pelo Atlantico engolfados.
- Do enfeitado batel voltando a prôa
- Contra as vagas austraes, candidas velas
- Presentaremos ao ligeiro Boreas.
- Em dia bonançoso, e mar de rosas
- Iremos sem temor, chêos de assombro,
- Gozando entre as equoreas Divindades
- Scenas de Maio no ceruleo campo.
- Cedo veremos verdejando e rindo
- O alto Cabo surgir na extrema ponta
- Da Lusitana terra: erguendo aos astros
- A nautica celeuma, alvoraçados.
- Poremos no occidente o vago leme
- Para afrontarmos as Titóneas plagas.
- Entre o Barbaro solo, e o solo Hispano
- Passaremos cantando o Estreito, aonde
- As Colunas ergueo famoso Alcides.
- Pelos ventos Hesperios ajudados,
- Movendo assombro ás cérulas Nereidas,
- Cortaremos, voando, em curtos dias,
- Mediterraneo, tua longa estrada.
-
- Nossos astros serão por entre as ondas
- O astro de Venus luminoso, e claro,
- Ariadne, a esposa do contente Bromio,
- E os Tindáreos Irmãos, cuja concordia,
- Cuja amizade nos será de exemplo.
- Eolo prenderá com mil cadêas
- Euro o nosso contrario: as verdes ondas,
- Ouvindo de Tritão troar o buzio,
- Sem furia, sem fragor do barco emtôrno,
- Chêas por cima de alvejante espuma,
- Saltaráõ quaes no prado os cordeirinhos.
- Que, meus amigos! receais procellas?
- Procellas contra nós! Assáz os Numes
- Nas almas sabem ler; nós demandâmos
- Chipre, votada aos candidos prazeres:
- Do vinho a Deoza, a Deoza dos amores,
- Os Numes da amizade, eis nossos astros;
- Que havemos de temer? Não, não me importa
- Que o ar, que o pégo em furias se revolva:
- Por entre a serração, por entre a morte,
- Voaremos a rir de Chipre aos campos,
- Quaes na barca da Estige um dia iremos
- Dos lagos avernaes ao grato Elisio.
-
- Não ha que recear. Dai-me outro copo;
- Outro bebei, e ouvi-me. Amigos fados
- Da Ilha encantadora ao melhor sítio
- Nos hão de conduzir: ja cuido vê-la!
- Um cáes em meia lua, um cáes não grande,
- Ja nos hospeda na conchosa arêa:
- Unidas penhas de elegante aspéto
- O anfitheatro deleitoso fórmão:
- Todas se vestem de verdura, e flores,
- Todas tem fria gruta, ou doce fonte.
- D’estas fontes, que emtôrno enchem os ares
- De um desigual, suavissimo murmúrio,
- Umas descem chovendo entre os penedos,
- Outras em larga enchente se arremeção,
- Sem o musgo occultar, de rocha em rocha,
- Té que ás bacias espumosas saltão.
- Aqui um mirto, alem uma roseira
- Coroa a entrada das pequenas grutas,
- Ou lhes fórma seu tôldo, ou quasi as cobre.
- Por toda a parte melindrosos ninhos
- Se ouvem piar; por toda a parte adejão
- Co’o sustento no bico as ternas aves.
- D’esta folhagem se levanta o melro,
- E vai pouzar na proxima folhagem:
- Queixa-se n’uma gruta Filomela
- Quando Progne sentida eleva o canto.
- Prezos aos troncos Zéfiros murmurão;
- Auras, dos valles proximos correndo,
- Das invisiveis azas nos derramão
- Almos efluvios de cheirosas flores.
- Vede assentos, que a mão da Natureza
- Nos rochedos abrio, que a mão do Tempo
- Cobrio, amaciou com verde estofo;
- Aqui se tem as Ninfas assentado
- Pelas tardes de Maio muitas vezes,
- Para gozar os brincos dos Amores,
- Que ora lutão na arêa, ora apostando,
- Se arrojão de mergulho aos verdes mares,
- E apparecem depois nadando e rindo.
-
- Vamos: por esta parte o cáes nos deixa
- Na Ilha penetrar: commoda entrada
- Nos off’rece este portico de murtas.
- Deozes! que vamos vêr! Salve cem vezes,
- Bosque sombrio, magestoso, immenso!
- Do desmedido Atlante a espadoa enorme
- Não, não he quem sustem o eterno Olimpo,
- És tu, sagrado bosque; a vista humana
- Chegar não póde a teus soberbos cumes!
- Serras, diluvios de ondeantes folhas
- Sôbre colunas mil, que o raio assustão,
- Se agitão sôbre nós. Longe, ó profanos!
- Vates, erremos pelas frescas trevas!
- Alem, se não me engano, o sol penetra.
- Corramos. Oh prazer! oh maravilha!
- Eis um retiro aos Numes consagrado,
- Incognito aos mortaes, de encantos fertil!
- Tu que vizitas cada dia o mundo,
- Ó Sol, ¿que outro lugar no mundo encontras,
- Onde com mais prazer teus raios lances?
- Vede este prado, cujo fundo escondem
- De Hibleas flores animadas nuvens:
- Olhai sem guardador pingues rebanhos
- Livres saltando nos outeiros verdes:
- Vêde encostas de pampanos cobertas;
- Fontes á sombra de arvores sagradas;
- Jardins fechados de cheirosos muros
- De altos lilazes, de azareiro e cedro;
- Tanques no meio, onde em repuxo aos ares
- Voão do bico de marmoreos cisnes
- Argenteas linfas, que no ar se cruzão,
- Mil arcos, mil abobadas formando,
- E em fresca chuva vem mover os lagos!
-
- Que ditoso paiz! não sei que sinto
- No meio agora d’estes sons campestres,
- Respirando balsamicos vapores,
- Em sacra habitação, entre os amigos,
- Longe dos homens, da innocencia ao lado!
- Abraçemo-nos. Sim: desde hoje unidos,
- Seremos d’este sítio os habitantes.
-
- D’esse ribeiro na fecunda varzea,
- Ali, onde hospedagem graciosa
- Presta ás aves do ceo pequena selva;
- Ali, onde estendidos pela grama
- Junto ás novilhas candidas, repouzão,
- Co’a cornígera fronte entre as papoulas,
- Mansos touros, que o jugo inda não vírão,
- Ali se vos apraz, se apraz aos Deozes,
- Vamos pois construir nossas moradas.
-
- Do Genio do lugar primeiro em honra
- Cumpre fazer as libações, e os votos;
- Venerar, depois d’isto, a turba agreste
- Das Ninfas do paiz; e culto, e nome
- Dar ás fontes, aos campos, e ás collinas
- D’estas gentis, incognitas paragens.
-
- Vede faias aqui, pinheiros, chôpos;
- Abatei-os, tecei nossas cabanas.
- Formemos uma aldêa: a cada alvergue
- Juntemos um jardim, que ao fundo banhem
- Do claro rio as fugitivas aguas.
-
- Não falte o culto ás sacras Divindades.
- Á obra, á obra! o templo se levante
- Nobre, proprio de nós, digno dos Deozes,
- Com paredes de cedro á luz vedadas.
- Deixamos á vaidade altas colunas,
- Cúpulas d’oiro, abobadas suspensas
- Em meia altura da extensão dos ares;
- De trémula parreira um této basta.
-
- Ponde no tôpo o altar da Natureza,
- De nossa adoração primeiro objéto:
- Firmada sôbre um globo, como o nosso,
- Uma estatua gentil figure a Deoza,
- Virgem, bella, risonha, affavel, nua,
- Guardando-lhe o pudor sendal ligeiro:
- Colar de flores lhe atavie o collo,
- C’roa de frutos lhe circunde a fronte,
- Diversos ramos as madeixas ornem:
- Tenha n’uma das mãos celeste chama;
- Penda da outra, e por seguro fio,
- O Genio do prazer, que as azas bata
- Para voar-lhe ao cobiçado seio:
- Cerquem-lhe o pedestal em turba immensa
- Homens, feras, volateis, nadadores,
- E quanto emfim por seu influxo existe:
- Vejão-se á volta os poderosos Genios,
- Que a seu sabor os elementos movem,
- Salamandras, Ondins, Silfos, e Gnomos.
- D’esta ara ao lado se verão pendentes
- As flautas nossas, pois lhe são votadas.
-
- Sôbre outro altar a Deoza de Cithéra,
- Não de marfim, nem marmore talhada,
- Mas de alva cera das abelhas nossas,
- Feita por nossas mãos encante a vista.
- Quero-a nua de todo: ao seio amime
- Entre os braços de neve o filho alado;
- E co’a ternura languida nos olhos,
- Como para o beijar lhe estenda os labios,
- Curta tornando, como a d’elle, a boca.
- As trez Irmãs de Amor pequenas, bellas,
- Como invejando do menino a sorte,
- Forcejem por trepar da Mãi ao collo,
- Emquanto o Irmão travêsso a rir pretende
- Co’as delicadas mãos lança-las fôra.
- Duas turbas de Amores apinhados
- Se ergão d’aqui d’ali: tenhão por terra
- Os arcos, e os farpões; na dextra empunhem
- Fachos, que hão de brilhar nos festos dias,
- Por nossas mãos com sacro lume accesos.
-
- Defronte d’esta, na parede opposta,
- Outro brilhe votado á Primavera.
- Ali se mostre a Deoza, cuja veste
- Um manto seja de tecidas flores;
- De flores o toucado; a planta nua
- Sôbre floreo torráõ firmada alveje:
- Durma a seus pés o aurígero carneiro;
- O Maio, filho seu, tenha em seus braços,
- Igual em perfeições á Mãi formosa,
- Alado como os Zéfiros e Amores,
- Que os Amores, que os Zéfiros mais lindo.
- Tenha na dextra um ramo florecente,
- Onde pouzem pintadas borboletas:
- No esquerdo braço um cabazinho grave,
- C’os doces frutos, que em seu mez se colhem,
- E a rir pareça á Deoza appresenta-los;
- Mas a Deoza, estendendo a mão de neve,
- Como que busque o grávido cestinho
- Tirar de sôbre o seio, onde elle o punha.
- De Favonios um bando se reparta
- Aos dois lados do altar, em cujas dextras
- Ponhamos bem fingidas cornucopias
- Chêas d’agua, onde flores se conservam.
-
- Atrio cercado de sombrios louros
- Haja na frente do sagrado alcaçar.
- Por trez frondosos porticos se passe
- Do templo ao atrio: emtôrno d’elle avultem,
- Dos loureiros á sombra, as Deozas nove,
- E o Nume protétor do equorea Delos.
-
- Um de nós cada mez será por sorte
- Da sacra estancia o sacerdote, e o guarda.
- Ficaráõ a seu cargo os festos dias,
- Dos altares o culto, os hinos sacros,
- E a protéção dos ninhos melindrosos,
- Que as aves formaráõ do této em volta;
- Para que nunca violados sejão,
- Santa hospitalidade, os teus direitos.
-
- Da nossa aldêa ás proximas campinas
- Daremos de cultura uteis desvelos.
- Vertumno, e Ceres, e Pomona, e Flora
- Hão de favonear trabalhos nossos,
- E em sustento pagar nossas fadigas.
-
- Ricas hortas, dulcissimos pomares,
- Doiradas messes, pampinosas vinhas
- O celleiro commum nos terão chêo.
- Da ociosidade vã não será filha
- Nossa innocente e solida riqueza.
- Algum de nós ao trato dos rebanhos
- Seus cuidados dará: que importa o mundo?
- Vida de nossos pais! vida dos campos!
- Quem te nomeia humilde, e vergonhosa?
- Vive o pastor no seio da innocencia;
- No meio da pobreza he rico, e folga.
- Emquanto os grandes entre escravos gemem,
- Canta o pastor entre o rebanho, ou dorme,
- Fiado em seu amigo, em seu rafeiro:
- Nem ao menos que ha leis sabe nos campos.
- São seus dias cadêas de prazeres,
- E seus prazeres innocencia todos.
- Não cala seu amor, canta-o nos bosques
- Em alta voz, ou goza-lhe as delicias.
- Ao transmontar do sol volta a seus lares;
- Conta á porta o rebanho, e junto ao fogo
- Vai co’a cêa frugal entre os amigos
- Restaurar o vigor para o trabalho.
- Repouza em paz sobre o macio feno
- Emquanto alguma luz no ceo não raia:
- Não ha cuidado, que lhe rompa o sono;
- Se acaso sonha, os sonhos não lhe pezão,
- Pintão passados bens, ou bens futuros,
- E volta ao mesmo quando nasce a aurora.
- Vergonhosa ésta vida! ó desgraçados,
- Corai no meio das grandezas vossas:
- Se o pastor conhecesse o vosso estado,
- Nem de olhar-vos sequer nem se dignava.
-
- No regaço feliz da natureza,
- Ao lado da ventura, os dias nossos
- Serão a imagem dos doirados dias.
- Como os primeiros pais da especie humana,
- Viveremos frugaes entre a abundancia,
- Ricos sem pompa, sem vaidade sabios,
- Socegados sem leis, sem armas fortes.
- Hão de mil vezes os campestres Numes,
- E o sacro Povo, morador do Olimpo,
- Compràzer-se de olhar a nossa aldêa.
- Ao romper da manhã, ser-lhes-ha doce
- Ver-nos todos sair dos proprios lares
- Co’a alegria na face: uns diligentes
- C’os instrumentos rusticos nas dextras,
- Ou seguindo seus bois, tornar-se aos campos;
- Outros guiando para os ferteis pastos
- Longa tropa lanígera balante.
- Ser-lhes-ha doce o ver como trabalhão
- Todos no bem commum, sem que se escutem
- Do _meu_ e _teu_ os nomes perigosos.
-
- Quando o gallo doméstico no aldêa
- Soltar ao meiodia o canto agodo,
- Correremos á mesa: unidos todos
- De um bosque á sombra nos calmosos tempos
- E junto ao fogo quando reine o frio,
- Não veremos deante a rica prata
- Com vivo resplendor cegando os olhos;
- Nem dourados cristaes, nem porcelanas,
- Cuja louca ambição furiosa arrasta
- Tantos loucos mortaes, dignos de pranto,
- D’entre os braços dos seus aos torvos mares,
- E em fragil pinho, que rodêa a morte,
- De longinquo paiz os leva aos portos.
- De facil construção vermelho barro
- Fará nossa baixella; e cavos troncos
- Fundos, polidos, de jasmins c’roados,
- Servir-nos hão de o rúbido falerno.
-
- De nossas hortas vegetaes gostosos,
- Os teus dons, ó Pomona, e os teus, ó Ceres,
- O mel puro e doirado, e o branco leite
- Bastão assaz da Natureza aos filhos.
-
- E que? algum de nós contra o que vive
- Ouzaria vibrar da morte a fouce!
- O touro soffredor, cuja fereza
- Para servir-nos se abateo ao jugo,
- O touro, o nosso amigo, e o nosso escravo,
- Que sem ter parte alguma em nossos gostos
- Tomava parte nas fadigas nossas;
- Que armado pelas mãos da Natureza
- Podia, se quizesse, oppôr-se aos fracos,
- Que a paz, que a liberdade ouzão roubar-lhe,
- Depois de longo, aviltador serviço
- Deve ... (oh pejo! oh furor! oh sacrilegio!)
- Caír ás mãos do barbaro assassino,
- Para quem só viveo! por quem mil vezes
- Coberto de suor, chêo de espuma,
- Co’a fronte baixa, sem mugir ao menos,
- Queimado pelo sol, até soffria
- Duro, ferreo aguilhão se fraquejava!
- Qual ouzaria ensanguentar a dextra
- Na mansa ovelha, da innocencia imagem;
- Que incapaz de offender, nunca rebelde
- Aos brados do pastor, seu proprio leite
- Entre seus filhos e elle repartia,
- E até para cobri-lo as lãs lhe dava!
- Lindos filhos do ar, ternos cantores,
- Que innocentes voais pelas florestas,
- Nos prazeres, no Amor gastando a vida,
- Filhos do ceo, modelos, que adorâmos,
- Não temais habitar nos campos nossos.
- Se o açor, se o falcão por estes sítios
- Passar alguma vez, vinde, eu vos peço,
- Vinde-vos esconder em nossos lares,
- De vossa timidez sacra guarida:
- Se nos virdes passar nos sitios, onde
- Entre os ramos, á sombra vos agrada
- Divertir gorgeando a terna esposa,
- Que muda, e carinhosa esconde, e aquece
- Entre as azas seus filhos pipilando,
- Se nos virdes passar ... oh! por piedade
- Não fujais, prosegui vossas cantigas;
- Sois como nós da Natureza filhos;
- A Mãi commum vos deo a liberdade,
- Sustenta-vos, bem como nos sustenta:
- Sois fracos, tanta basta; e nós não somos
- Nem tiranos, nem perfidos, nem baixos
- Para abusar da fôrça: he jus terrivel!
- Se para vos matar compete ao homem,
- Para o homem matar compete ao tigre.
- Não: vivei entre nós, como entre amigos:
- Somos todos irmãos: arcos, e setas,
- Redes, e visco, passatempos torpes,
- Não usa quem adora a Natureza:
- Serião entre nós nefandos crimes.
-
- Se um dia á caça algum de nós (os Deozes
- Affastem para longe o agouro horrendo),
- Se um dia á caça algum de nós corresse;
- Coberto de suor, de sede extinto
- Praza aos ceos que discorra os duros campos;
- Curve-o das armas o terrivel pezo;
- Não ache onde empregar da morte as furias;
- Seus proprios cães os membros lhe lacerem
- Té que as entranhas vis ao sol descubrão,
- E rôto arqueje o coração perverso:
- Semivivo, rugindo, ardendo em raiva,
- Entre penedos se revolva, e espume,
- C’os olhos ja sem luz, chêos da morte,
- Pallido o rosto, ensanguentada a coma;
- Té que, mugindo em subita voragem,
- Se rasgue a terra ao detestavel pezo,
- E ao fundo o arroje dos sulfureos lagos.
- E se o malvado consummar seu crime,
- Se as mãos tingir no sangue do innocente,
- O rio onde correr para banha-las
- As ondas atropelle, e volte á fonte,
- Fique attonito o monstro, e o leito sêcco;
- E quando sôbre o fogo os miseraveis
- Membros pozer, que o sangue inda gotejão,
- Que inda tem no tremor de vida um resto,
- Chêas de horror e de piedade as chamas,
- Deixando intáto o funebre cadaver,
- Com medonho estampido abandonando
- N’um momento seu lar, se ergão aos ares
- Para chover no algoz, torna-lo em cinzas.
-
- Mas vá longe de nós o quadro infame!
- Somos frugaes, e simplices; e basta
- Olhar-nos para ver nossa virtude.
- Sim: que a lavrada seda, o oiro, as telas,
- E dos insanos cortezãos a pompa
- Não nos ha de cubrir. No inverno algente,
- Contra os rigores da estação nublosa
- Usaremos da lã que nos revista,
- Sem que do artista a dextra insultadora
- Lhe desfigure a côr, lhe mude o aspéto:
- Se no outono reinar do inverno o frio
- Voltaremos á lã: na primavera
- Basta o candido linho: emfim no estio,
- (Deixe-me em paz, ou seus ouvidos serre
- Quem no corruto coração fomenta
- De prejuizos vãos caterva impura!)
- No estio, amigos meus, com vosco fallo,
- Seremos todos nus: rião-se embora
- Os perversos, que ao vício costumados,
- Até na natureza encontrão vício.
- Sim, andaremos nus; nus se mostrárão
- Os pais, e as mãis do mundo em tempos d’oiro,
- Nos vaguêão da America nos bosques
- Da Natureza não corrutos filhos,
- Nem os tinge o rubor, a côr do pejo,
- Que o pejo nasce se a innocencia morre:
- A Innocencia, a Verdade, as Graças bellas
- Pintão-se nuas: nuas pelos bosques
- Errão as Ninfas: d’entre as ondas nua
- Venus saío de encantos rodeada:
- Seu Filho, qual nasceo, se mostra ainda:
- E todos nós, dizei, como nascemos?
- Quando, depois de trabalhosas dores,
- Nos cingem nossas mãis aos ternos peitos,
- Tecidas vestes sobre nós encontrão?
- Não: se o tempo o exigir cubra-se o corpo;
- Se o tempo o não requer, porque insensatos,
- Vãos, inuteis incommodos buscâmos?
-
- Prazeres me pédis, dou-vos prazeres:
- A musica suave, a dança, os versos,
- Dos bons ditos o sal, carreiras, lutas,
- Tecer grinaldas de campestres flores,
- Fresco, e murmúrio de favonios, e aguas,
- Os ternos sons de aligeros cantores,
- Da natureza o estudo, as graças d’ella,
- As formosas manhãs, as bellas tardes.
- Iremos navegar pelo ribeiro
- N’este mesmo batel; a branca lua
- Deante nos irá para guiar-nos:
- Os ventos dormiráõ pelos outeiros:
- De um, d’outro lado as arvores ao longo
- Das socegadas margens, docemente
- Se ouviráõ susurar de quando em quando:
- O astro da noite ledo e scintillante
- Se verá na corrente em longa estrada:
- Echos repetiráõ nossas cantigas:
- D’entre um canavial a Filomela
- Se ouvirá gorgeando convidar-nos:
- Com mil olhos de luz o ceo da noite
- De ver nossa alegria ha de alegrar-se.
- Algum campestre Fauno, que aturdindo
- Com voz immensa a silenciosa margem,
- Seus amores contar da fonte ás Ninfas,
- O canto estrugidor alguns momentos
- Suspenderá, de assombro arrebatado.
- Se tivermos calor volta-se a proa
- Sobre uma ilhota de vermelha arêa,
- E encalhando o batel salta-se ás ondas:
- N’uma noite encalmada um banho fresco
- Nos consola, e refaz: ali se julga
- Acima estar da natureza o homem;
- Vive em novo elemento, em cujo seio
- Revestido se crê de essencia nova.
- Ao brando frio os membros pouco a pouco
- Se conformão, se affazem, se contentão;
- Dissipa-se o tremor, e a voz anciada
- Um momento depois se resserena.
- Todo o vivo prazer então começa:
- Ora apraz o nadar contra a corrente,
- Ora girar nas aguas escondido,
- Ou c’os olhos na lua ir descançado
- Em parte occulto, em parte descoberto,
- De costas, ao som d’agua, escorregando.
- De quando em quando um toma pé no fundo,
- Assemelhando o busto de uma estatua
- De marmore polido, que se eleva
- Fronteira á lua, e solitaria brilha;
- Os companheiros de redor o cercão,
- E com muito clamor sobre elle atirão
- Co’as plantas, e co’as mãos ondas sobre ondas.
- Elle grita, elle ri, jura, e promette
- De os punir, de vingar-se; então se arroja
- Ás ondas outra vez, e os segue, e os urge,
- Chove sobre elles desmedidas vagas.
- C’o festival combate o rio ferve,
- Perturba-se a corrente, os echos bradão
- Oh como he doce um banho entre mancebos!
- Um ri contando uma engraçada história,
- Outro grita, outro canta, e todos folgão.
- No fundo desigual talvez se encontre
- Dormindo alguma Náiade entre as conchas.
- Sois mortaes? e que importa? humano he Páris,
- He Páris um pastor, goza entretanto
- Ternos abraços de immortal Enone,
- Que deixa por goza-lo a propria fonte,
- E vem sentar-se entre um rebanho humilde;
- E ai de vós, se das Ninfas não moverdes
- Os puros corações para a ternura!
- Mulheres não as ha nos campos nossos,
- E vazia de amor a vida he nada.
- Redobrai a attenção, pois devo agora
- Fallar em baixa voz, porque receio
- Que as formosas Mondágides me escutem.
-
- O mesmo coração, dezejos, gostos,
- Que tem nossas mortaes no peito occultos,
- Tem as Ninfas tambem: de exemplos quantos
- Se não póde cingir ésta verdade!
- Sobre as aras de Amor todas off’recem:
- Os ais do adorador nenhuma offendem,
- Comprazem-se de ouvir que as chamão bellas,
- E a gloria prezão de enxugar o pranto,
- O pranto que ellas sós nos arrancárão.
- Se nos ouvem crueis, se esquivas fogem,
- He porque insana lei de atroz costume
- Lhes ordena o fugir, lhes insinua
- Que he delito em seu sexo a natureza:
- Mas contra a natureza em vão combatem
- De cega educação fataes abúsos!
- A mãi universal ou cedo ou tarde
- Vence, triunfa, e no triunfo leva
- O sexo encantador ja maniatado.
- Todas oppõe sabida resistencia,
- Mas cumpre não ceder: por nós combatem
- Seu mesmo coração e a natureza,
- Que auxilio inefficaz jamais nos farão.
- ¿E não sabeis que emquanto desdenhosas
- De nossos ais parecem offendidas,
- Quaes se as mordesse venenosa serpe,
- Tremem, recêão que ao temor cedamos,
- E frouxa timidez nos furte as armas?
- Inda que ostentem ríspida esquivança,
- Agrada-lhes a guerra, e occultos votos
- Fazem a Amor para ficar vencidas.
- Implorar-lhes perdão he ultraja-las;
- Contra ellas ser audaz he ser-lhes caro,
- He dar-lhes bens, poupando-lhe a vergonha.
- Mas a regra primeira, a grande, o tudo
- Entre as regras de amor, he o artificio.
- He vasta a gradação de sentimentos
- Da innocencia á ternura. Em cume altivo
- De alta montanha, cujo aspéto assombra,
- Tem seu templo a Ternura, onde cercada
- Das Graças, dos Prazeres, dos Amores,
- Encanta os corações benigna Venus:
- He forçoso galgar toda a montanha,
- Subir de rocha em rocha, e p’rigo em p’rigo
- Para se entrar no deleitoso alcaçar.
- Quem pretender poupar um passo ao menos,
- Quem saltar pretender, perde o ja ganho,
- Para mais não surgir baquêa em terra.
- Amor azas não tem, como se pinta;
- A curtos passos, devagar só anda.
-
- Começaremos offertando ás Ninfas
- Sôbre altares campestres, levantados
- Das arvores á sombra, ao pé das fontes,
- Ou nas grutas do fresco, ou sôbre outeiros,
- Festões, grinaldas, passarinhos, frutos,
- E capellas de búzios e de conchas,
- Mais brilhantes, mais bellas do que o Iris.
- Formaremos cantigas, em que aos echos
- Dos campos entre a lida repitamos
- As perfeições, os méritos, os nomes
- Das Napéas, das Dríades formosas,
- Hamadríades, Náiades, e quantas
- Filhas da Natureza a terra habitão,
- Para formar com dextra occulta e sábia
- Do rústico o prazer, do vate o encanto.
- Isto, e a nossa virtude, e a vida nossa
- Laboriosa, honrada, alegre, e quasi
- Igual á vida dos campestres Deozes,
- Disporáõ para nós seu terno peito.
- Talvez qué pouco a pouco minorado
- O custo susto de encontrar humanos,
- Não fujão de mostrar-se a seus cantores.
- Se eu descançar junto de um cedro antigo,
- Ou de uma faia, ou reclinar a fronte
- Sôbre a raiz em parte descoberta
- De uma oliveira, ou castanheiro antigo,
- Darei graças á Dríade, que habita
- No tronco bemfeitor, que me faz sombra;
- E d’elle a amavel Dríade saindo
- Virá sentar-se ao lado meu na relva.
-
- Depois que pouco e pouco transformado
- Se houver em confiança o pejo, o susto,
- Mudaremos de estilo: em nossos versos,
- E só, e de contínuo a formosura
- Em fogo nos porá do estro as azas.
- Hão de sorrir-se e comprazer-se, e muitas
- Suspenderáõ em seu caminho os passos.
- He lei sem excéção; domina em todas
- A sêde, a gloria de chamar-se bellas.
- Mas bellas tão somente heis de chama-las,
- Sem falar-lhes de amar: depois de affeitas
- A ouvir a narração de seus encantos,
- Dizei-lhes que por certo as rochas mesmas,
- Os troncos, e o cristal das frias aguas
- Ardem cativos de bellezas tantas;
- Que o sol com mais prazer detem seus olhos
- Nos campos d’ellas, só por ver seus rostos.
- Se virdes que um sorriso gracioso
- Vos recompensa o canto, audacia, amigos!
- Avante um passo, e n’este passo cumpre
- O segredo buscar. Desde esse instante
- Não lhes falleis deante das mais Ninfas;
- Buscai até que os socios vos não oução.
-
- Suppõe tu, caro Antíeno, encontrar-te
- (Esta supposição perdoe Alcippe)
- N’um bosque solitario, onde vaguêa
- Quem te faz delirar em novo incendio.
- Se ella está pensativa, “Oh venturoso
- O objéto, lhe dirás, em que se occupa
- Tua imaginação, formosa Ninfa!
- Se eu o fosse!... ai de mim! porque revolve
- Loucas esp’ranças, se chorar só devo?”
- Se a vires sôbre o espelho do cascata
- Com brancas rosas concertando as tranças,
- Qual sôbre o teu ribeiro o faz Alcippe,
- “Feliz rainha das mimosas flores,
- Feliz rosa, dirás, inda que perdes
- Ao pé das graças d’ella as graças tuas!”
- Se pozer sôbre o seio as melindrosas
- Roxas flores de amor, dirás: “Que inveja!
- Por ser vós um momento eu dera a vida!”
- Mas isto em meia voz, para que julgue
- Que não he por te ouvir que assim fallaste.
- Não se irritou? prosegue, e de mais perto,
- “Permitte-me, (dirás com ar ingenuo,
- Chêo de timidez) permitte, ó Ninfa,
- Que eu te torne mais bella, e te componha
- Essas flores, que um pouco se desmandão.”
- Se ella o permitte, a occasião não percas:
- Se ella hesita e se cala, não recusa;
- Compõe-lhe o ornato no formoso seio,
- E sorrindo, lhe dize: “Alguem no mundo
- Existe que não ame as proprias obras?
- E’sta obra, que findei, me agrada tanto!...”
- N’isto beija-lhe o seio, e deixa as flores.
- D’aqui avante o mar he ja tranquillo,
- Propício o vento, e mui vizinho o porto:
- Ja de piloto o lenho não carece;
- Quanto offerece amor tudo he ja vosso.
-
- Ja vejo sôbre os ceos dos nossos campos
- Todo o dia brincando em roseo coche
- Pelas pombas tirada a amavel Cípria:
- Coroado de louro, ei-la contente
- Entre palmas, que sombra lhe derramão!
- Ei-la por toda a parte sacodindo
- Do misterioso cinto encantos, gostos,
- Delicias, tudo emfim que obriga a Jove
- Mudado em branco cisne, ou chuva d’oiro,
- A trocar pela terra o sacro Olimpo!
- Desde então mais ditosa he nossa aldêa,
- Mais risonhos seus bellos arrabaldes:
- Ha misterios de amor em qualquer gruta,
- Em qualquer solidão brincão prazeres.
-
- Eis os frutos de amor, que desabrochão!
- Ja os vejo das bellas entre os braços,
- Qual pequeno botáõ nascido apenas
- Da rosa ja perfeita ao lado brilha.
- Ei-las co’o proprio leite a sustenta-los;
- Taes como descreveo nos magos versos
- Francilia; Musa de meu patrio rio,
- A doce amiga sustentando o filho,
- _Igual a Venus com Amor nos braços._
- Eu as vejo, depois de afagos ternos,
- Soltar de si os cintos azulados,
- Em dois troncos prender as pontas ambas,
- Abri-los, deitar dentro entre mil flores,
- Depois de o ter beijado, o tenro infante,
- Para ser dos favonios embalado.
- Eu as vejo nos troncos encostar-se
- Co’as mãos na face, e os olhos no innocente,
- Juntando aos sons das aves em seu ninho
- Ternos cantos, que os filhos adormeção.
-
- Ja co’a turba infantil recresce a aldêa:
- Succedem ao silencio alegres brincos,
- Gostosos passatempos se preparão,
- De nossos bens o número se aumenta.
- Vai crescendo em razão, crescendo em fôrça
- Ésta prole feliz, que os Cíprios valles
- Como os Amores, como as Graças, honra.
- Creados longe do tropel das côrtes,
- Puros no coração, que ninguem busca
- Semear de illusões, de prejuizos,
- Educados na paz, sem ver tiranos,
- Sem ouvir discorrer pedantes sabios,
- Té das Sciencias ignorando os nomes,
- Terão destinos, que excedendo os nossos,
- Não hajão que invejar os puros dias,
- Que cegamente se nomêão d’oiro.
- D’oiro! ai d’elles se o oiro então se visse!
- Mais nocivo que o ferro, a bemfazeja
- Terra o sumio nas maternaes entranhas,
- Sôbre leitos de pallido veneno.
- Quando o Genio do mal o trouxe ao dia,
- Chêas de assombro, de tropel correndo,
- Fugírão co’a Justiça almas Virtudes;
- E pelas fundas minas, que o guardavão,
- Surgio do patrio inferno a perseguir-nos
- Chusma de Vicios, e raivosas Furias,
- Que os Vicios inspirando, os Vicios punem.
- Se alguma vez os descendentes nossos,
- Quando a terra pacificos romperem,
- Encontraram com oiro, um grito soltem;
- A aldêa se reuna ardendo em raiva,
- Qual se dos bosques férvido saisse,
- Igual ao raio, o bruto d’Erimantho;
- E o pallido fulgor da massa infesta
- Vão longe sepultar nos verdes mares.
- “Monstro contrário a nós, sê devorado
- Pelo monstro do mar, que em furia vences”
- Dirão todos em chusma; e socegados
- Tornaráõ a lavrar seus ferteis campos.
-
- Que idea pelo espirito me adeja
- Chêa de luz, de encantos rodeada!
- Ja vejo pelos ares scintillando
- Os fachos de Himeneo. Ja pelas ruas
- Vestidos de alvo linho, e coroados
- De fresca mangerona os moços correm,
- “Ó Himeneo! Vem Himeneo!” gritando.
- “Ó Himeneo! Vem Himeneo!” respondem
- Os campos d’echo em echo; e pelas casas,
- Chêas de gôsto, e de esperança as virgens
- “Vem Himeneo, ó Himeneo!” repetem.
- As ruas de verdura estão juncadas,
- Listões de flores coroando as portas
- Enchem os ares de composto cheiro:
- E os meninos, que as causas não percebem
- Do confuso prazer, vão transportados
- Correndo em chusmas, e batendo as palmas,
- Gritando, “Ó Himeneo!” La desce, e pouza
- O Nume sôbre o altar da Cípria Deoza!
- O venturoso par la vai sobindo
- Por entre a multidão, que attenta o mede.
- La chega ao sítio destinado aos votos.
- Sacerdotes não ha: da aldêa os velhos
- Os cercão de redor. La se abraçárão!...
- He curto o voto seu. “Juro adorar-te
- Emquanto o doce amor tiver no peito.”
- Unindo o seio ao seio, e face á face,
- Depois se beijaráõ por largo tempo;
- E o Nume da alliança, o carinhoso
- Filho de Urania os cingirá dos mirtos,
- Que de Venus, e Amor as frontes ornão.
- Depois algum de nós se erga c’roado,
- Para fallar d’ésta maneira ao povo.
-
- “Nasceo Amor para encantar os homens,
- Não para ser dos corações tirano.
- Menino ama o brincar, e quer ser livre.
- Cura o tempo as feridas que elle fórma:
- Depois de alto clarão, que cega os olhos,
- Seu facho, pouco e pouco enfraquecendo,
- Vem por fim a apagar-se: a Natureza,
- Nada produz que não succumba á morte.
- Os animaes, as flores, os arbustos
- Tem curta duração: vai manso, e manso
- O tempo destruindo altas montanhas,
- Gasta-se o escolho c’o bater das ondas;
- Succede a lua ao sol, á noite o dia,
- Uma estação perece, outra renasce:
- Tudo he mortal na terra, e mais que tudo
- As humanas paixões insulta a morte:
- Succede ao riso o pranto; á dor prazeres;
- Ao odio amor; ao terno amor a raiva.
- Eu vi moraes affétos n’um só dia
- Nascer e terminar, qual nasce e murcha
- N’um só dia de abril a rubra rosa.
- Ditoso par! amai-vos extremosos
- Emquanto a natureza vos consinta,
- E oxalá que o consinta em largos annos!
- E oxalá que de vós o que entre os mortos
- Primeiro descançar, sinta regadas
- Pelos olhos do sócio as mudas cinzas.
- Feliz quem n’um só fogo arde constante;
- Feliz, mas raro como os negros cisnes!
- E ha loucos, e ha perversos, que ante as aras
- Jurem guardar uma constancia eterna?
- Cegos, que a natureza desconhecem,
- Ou zombão d’ella escarnecendo os votos.
- Jurão-se amar sem fim, e ou tarde ou cedo,
- Sem fim, e sem remorsos se detestão!
- Jurão-se amar sem fim! Mal que resoa
- Debaixo das abobadas o voto,
- Calcando o arco aos pés com ar maligno
- O pobre Amor retira-se chorando
- D’ésta afronta cruel; pois sua glória,
- Seu prazer, e seu timbre he ser voluvel.
- Crepitando em faiscas derradeiras
- Se apaga o facho, que debalde agita,
- E emtôrno espalha venenoso fumo,
- Fumo, que obriga a lágrimas eternas.
- Entre pios e agouros desgraçados,
- Ao leito nupcial os acompanha
- Entre alegre e assustada a meiga Venus.
- Co’as serpes do cabello desgrenhadas,
- Mas inda sem silvar, detraz os segue
- Impaciente a rabida Discordia.
- De flores se coroa a lauta mesa,
- Voão-lhe em roda as graças, e o falerno,
- E riso, e confusão de encantos chêa.
- Mas ah! cedo os pezares, e os suspiros,
- A desesperação, e as vãs querellas,
- E a desordem, e as lágrimas rodêão
- Os lares do prazer; a scena infausta
- Não rara vez negro punhal termina,
- A viuvez, o luto envolve o leito!
- Mas vós, ditoso par, vós, cujos labios
- Não proferírão temerario voto,
- Folgai, vivei, nos braços da ternura,
- Melindrosa ternura, que não morre
- Se lhe não lanção vergonhoso jugo.
- Para amar-vos fieis por largo tempo
- Sede amaveis, ou sede virtuosos
- Porque a doce virtude he sempre amavel.
- Se o fogo se acabar, voltai ao templo,
- A prender novo objéto em novos laços.”
-
- Ouvindo este discurso o povo inteiro
- O applaude em baixa voz, e á Mãi das Graças
- Se canta o hino, que remata a festa.
- O resto d’este dia he dado aos jogos,
- Gasta-se a noite á roda das fogueiras
- Em musicas e em danças variadas.
-
- Engano-me, ou queixosa a Natureza
- Escuto suspirar? não, não me engano!
- Ella suspira, e pede-nos vingança
- D’outra injustiça, que lhe faz o mundo.
- Ouvi, e concordai: sabeis que muito
- Em número nos vence o amavel sexo.
- Se a Mãi universal não gera um ente,
- Que não consagre a amor; e a lei sagrada,
- Que obriga a propagar a propria especie,
- He lei universal, que abrange a todos,
- ¿Com que jus, por que horrenda tirania
- Privadas d’Himeneo suspirão tantas?
- Não: cada esposo esposas enumere,
- Té que uma só sem thalamo não fique;
- Todas d’est’arte viveráõ contentes;
- A honra de ser mãi pertence a todas:
- Cresce a aldêa, não brada a Natureza;
- Infamadas não são as que procurão
- Os prazeres de amar, de ser amadas:
- Não se ouvirá que um barbaro veneno
- Dera a mãi a seu filho inda no ventre;
- Ou que um férreo punhal, ou laço infame
- Logo ao nascer lhe terminára os dias:
- Nem Venus corará vendo offertar-se
- De ternura venal corsutos mimos.
-
- Quão bellos correráõ nossos momentos,
- Longo, e tão longe dos polidos povos!
- Quasi Numes na vida encantadora,
- Até na duração quasi seremos
- Rivaes do povo habitador do Elisio.
- O fio d’oiro da existencia nossa
- Inteiro volveráõ no fuso as Parcas.
- Com pé tardío a inevitavel Deoza,
- Que o Mundo despovoa, e bebe o pranto,
- E acompanha a saudade entre os ciprestes,
- Sem terror, e sem fouce, e até sorrindo,
- Sem que a precedão seus fataes ministros,
- Nos levará de manso e a curtos passos,
- Coroados do cãs para o sepulcro.
- Mas, amigos, quem sabe! as Cíprias Ninfas,
- Se o fado o não tolher, talvez nos mostrem
- A verde planta, que ao cerúleo reino
- Deo mais um Nume, transformando a Glauco.
- Semideozes então, nos tornaremos
- De nossa aldêa os sacros protétores!
- Mas não: a lei da morte he lei terrivel,
- Que rara vez os Numes quebrantárão.
-
- He forçoso morrer!... Longe os temores!
- He forçoso morrer, morra-se embora.
- Não faltaráõ dulcissimos transportes,
- Prazeres e ternura ao lance extremo!
- Sôbre o funereo leito o moribundo,
- Ja sem côr, ja sem fôrça, e quasi extinta
- Em seus olhos a luz, e a voz nos labios,
- Erguendo a fraca dextra acena, e chama
- Cadaum junto a si; vai despedir-se
- Para o sono sem fim! Sôbre as heranças
- Que ha de recommendar se não tem nada?
- Nada excéto a virtude, e os instrumentos
- Com que a terra lavrou. Sua cabana
- Vai ter outro senhor; as flores suas
- Implorão no jardim desde este instante
- D’outro cultor a próvida tutella:
- D’outro, sim; cuja mão todos os dias
- Irá de madrugada aos sacros manes,
- Pendurar sôbre o tumulo orvalhado
- Uma grinalda de orvalhadas flores.
-
- Elle abre inda uma vez seus frouxos olhos,
- Onde começa a derramar-se a noite,
- E de seus labios tremulos, por onde
- Ja põe a occulta morte a mão gelada,
- Sólta chêo de afféto a voz, que expira,
- E seus amigos, e seus filhos chama:
- Os seus amigos mudamente o cercão,
- E não mostrar-lhe as lágrimas procurão:
- Áluz da tibia alampada contemplão
- Quanto a hora fatal ja se aproxima.
- E seus pobres filhinhos entretanto
- N’um canto da cabana estão sentados;
- Dos amigos no gesto, e nas maneiras
- Ler seu destino impacientes buscão,
- E attonitos, e tristes nem se atrevem
- A fallar, a fazer qualquer pergunta,
- Porque os não lancem d’este sítio fóra:
- Mas olhão-se entre si co’um ar tão meigo,
- Lastimoso, innocente, que podéra
- Desfazer de piedade a propria morte,
- Se o fado não contasse os nossos dias.
- Seu Pai, que os adorou, quer inda vê-los,
- Lançar-lhes a sagrada, última benção,
- Ver seu pranto, gozar dos seus afagos,
- Quer chama-los. A voz faltou de todo!
- E deixando caír de lado o rôsto,
- Soltou da vida o derradeiro arranco.
-
- Ao profundo silencio altos clamores
- Succedem n’um momento; e o pranto, e os gritos
- Por toda a parte na cabana sôão.
- Os meninos confusos se levantão,
- Ouvem a nova, attentão no cadaver:
- Ouriçado o cabello, o sangue frio,
- Pallido o rosto, e vacillante o passo,
- Fogem para o jardim, por onde os segue
- A imagem de seu Pai, no susto envolta.
- Qual o vírão ha pouco, o tem comsigo!
- Dos parreiraes as sombras os perturbão,
- Vem nos troncos das árvores fantasmas.
- Vão buscar o luar do rio á borda;
- Mas lembrão-se que ali todas as noites
- Passeavão com elle: ésta lembrança
- Os torna a perseguir; e em tudo encontrão
- De um Pai tão caro o aspéto, que os assusta,
-
- Pela aldêa se espalha a infausta nova,
- E parece que a morte em cada casa
- Arvorára um trofeo! Domina em todos
- A dor, que se desfaz em pranto e gritos!
- Dir-se-hia que furioso, insuperavel,
- Hia de této em této um vasto incendio.
- Depois que um pouco em lúgubres transportes
- A dor se evaporou, por toda a parte
- Sôão louvores do chorado amigo.
- Cadaum lhe encarece uma virtude,
- E de cada virtude exemplos contão.
-
- O Justo dorme em paz: mas entretanto
- Ninguem dorme na aldêa. Ouvio-se o gallo
- Cantar, quando expirou da noite em meio:
- Torna o gallo a cantar na madrugada;
- E em contínua vigilia discorrêrão
- As longas horas, que á manhã precedem!
- Torna o gallo a cantar na madrugada,
- A aurora quer nascer; enchem-se os ares
- De uma luz, que ao luar excede um pouco.
- Do ninho suspendido em nossos tétos
- A andorinha ja sáe; vôa cantando
- Defronte agora das janellas nossas
- Para nos saudar, pois entra o dia.
- Ja dos ceos pelos flúidos espaços
- Circula a cotovía, que não cança
- No longo canto, ou desmedido vôo:
- Ja o rumor das arvores e fontes,
- Que da noite na paz costuma ouvir-se,
- Vai fugindo com as trémulas estrellas;
- Torna a alegria ao mundo, e ao campo as cores:
- Mas a alegria d’entre nós he longe,
- Os campos todos para nós tem luto.
- Ja se ouvem resoar da aldêa as portas;
- Ja sáe, ja se reune o povo inteiro.
- O ar de meditação domina em todos,
- Todos trazem de pranto rociadas
- As recentes grinaldas, que tecêrão.
-
- Em plantas aromaticas envolto,
- Do alvergue, ha pouco seu, la vem saindo
- O deplorado amigo: ao caro pêzo
- Submettem quatro os hombros vigorosos.
- Bençãos, bençãos ao Justo, em cujo aspéto
- Por entre a pallidez inda ressumbrão
- Mansa innocencia, affétos generosos!
- A lenta marcha á turba consternada
- Rompem com baixo tom sonoras flautas,
- Que de triste alverôço o peito agitão.
- Apôz ellas, o funebre cadaver
- Dos Anciãos vai precedendo á chusma.
- Estes, fronte inclinada, olhos em terra,
- Vão suspirando, e a vista lacrimosa
- Lanção de quando em quando ao doce amigo,
- Que os precedeo na regiáõ da morte.
- Em seguida, modestos se confundem
- Os mancebos, de teixo coroados,
- Co’as bellas raparigas, que parecem
- Mais formosas co’a languida tristeza:
- Elles cantão em côro aos longos echos
- O como a quanto existe abrange a morte;
- Ellas em tom mais doce a voz levantão,
- Para mostrar como a existencia curta
- De prazeres doirar-se ao menos deve.
- Vão depois os meninos innocentes
- De ambos os sexos em confuso bando:
- Levão em suas mãos para o sepulcro
- Pequenas oblações; pomos, e flores,
- Taças de leite e mel, de vinho e d’agua
- Tomada em fonte viva antes da aurora,
- E de barro thuribulos não grandes.
-
- Ja se chega ao lugar sagrado á morte:
- He um valle sombrio, onde se abração
- Mil arvores diversas, onde habitão
- Meigas filhas do ceo, canoras aves:
- Reveste fresca relva a terra fria,
- Pallido musgo os carcomidos troncos.
- Aqui frescos favonios adejando
- Pelas folhudas grimpas, docemente
- Só se ouvem suspirar: aqui mais terna
- Derrama a aurora o pranto matutino;
- Mais terna geme e rôla; e mais delirios
- Na alma gera o luar por estes campos.
- He fechado o lugar de mil rochedos,
- Por onde algumas fontes se derivão
- Com tacito rumor, que inspira os sonos:
- Pelas profundas, tenebrosas grutas,
- E sôbre os agudissimos rochedos
- Crê-se ver e escutar sagrados manes,
- Em frouxa voz, que as auras assemelha,
- Cantando os gostos da passada vida.
- La não geme a coruja, ou pia o mocho:
- Reina em vez do terror branda saudade,
- Terna melancolia, encanto, enlêvo
- Dos corações, das almas bem nascidas.
-
- Que estrondo he este pelo chão de morte?
- São as férreas enchadas, que se alternão
- Para formar do eterno sono o leito.
- Agora cresce a dor na despedida.
- La chega, la se arroja, la se esconde
- Da Mãi universal no seio um filho!
- “Paz ao homem de bem!” dizem de roda
- Os velhos, e retirão-se chorando.
- “Leve te seja a terra!” os moços gritão,
- E partem derramando-lhe folhagem.
- Chega a turba infantil, seus dons off’rece,
- E vai juntar-se á multidão, que torna
- Aos trabalhos de novo á sua aldêa.
-
- Mas ah! qual d’entre nós terá primeiro,
- Caros amigos, de fechar seus dias?
- Quaes choraráõ no tumulo silvestre!
- Talvez eu vos preceda, e vá saudoso
- Ver na Tenárea porta o Cão trifauce,
- Na Estige nebulosa a barca horrenda,
- E do Elisio paiz os gratos campos,
- La onde os vates do universo inteiro,
- Ja Numes, em republica se unírão.
-
- Mas não pensemos n’isto: he Maio agora
- Que devemos cantar: nós o jurámos.
- Recomponde na fronte as vossas c’roas;
- Ergamo-nos, enchei de vinho as taças;
- E ante o Ceo, ante a Lua, que nos ouve,
- Entre os Favonios, e as formosas Ninfas,
- Que escondidas nas ondas nos rodêão,
- Saudemos novamente o alegre Maio,
- Jurando que desde hoje em nossas liras
- Ha de escutar cada anno os seus louvores.
-
- Ó Maio, eu fallo; escuta-me. “Por este
- Licor de Bassareo, que me arrebata;
- Pelos Filhos gentís da branca Leda,
- Que pela mão a nós te conduzírão;
- Por tuas flores, com que estou soberbo;
- Por tuas fontes, zéfiros e bosques;
- Por teu ceo graciosa; e por ti mesmo;
- E pela tua amiga, a minha Musa,
- Juro de consagrar emquanto viva,
- Todo o teu mez ao teu louvor, e ás festas.”
-
-FIM DA FESTA DE MAIO.
-
-
-
-
-NOTAS Á FESTA DE MAIO.
-
-
-
-
-CANTO I.
-
-_Pag. 204. verso 4.º_
-
- Das Filhas de Nereo a mais formosa
- Foi Galatéa candida e rosada.
-
-
-Como das bagatelas que forçadamente tenho semeado por alguns d’esses
-Jornaes, que he o mesmo que escrever em folhas e atira-las ao ar, algumas
-haja que não mereção de todo perder-se, estas me pareceo i-las recolhendo
-a meus livros, por qualquer modo que fossem achando cabida, para não ser
-como a Sibilla de Cumas, que em uma vez se lhe desmandando com os ventos
-as folhas que tinha escritas, ja para sempre tirava d’ellas o sentido:
-_neo ponere in ordine curat_. Por isso traslado do Num. 3 do _Jornal dos
-Amigos das Letras_, todo o seguinte Artigo[15].
-
- _Antonii Feliciani de Castilho_,
-
- GALATEA: CARMEN.
-
- ADVERTENCIA PRELIMINAR
-
- O fragmento latino que se vos offerece, sob o titulo de
- Galatea, he huma tentativa e nada mais: e quem mo quisesse
- haver a ostentação, não só mostrára quam pouco me conhece,
- mas ainda com atrocissima injúria me aggravaria. Discorridos
- são hoje mais de dez annos, depois que, desejoso de refrescar
- lembranças de conhecido com as Romanas Musas companheiras e
- alegria de minha infancia, me dei ao passatempo de metrificar
- em latim, ja os pensamentos que primeiros me occorrião, ja
- algum episodio de minhas proprias obrinhas; sendo assim,
- que esta fabula de Galatea a trasladei do Poema da _Festa
- de Maio_, no meu livro da _Primavera_. Sei bem que não ha
- hoje, e especialmente por cá, leitores para o latim, sendo a
- final chegado o prazo de, com razão e sem o mínimo escrupulo,
- se poder chamar tal lingua morta e enterrada: sei mais que,
- inda mal, não respondem estes meus versos ao que eu anciára
- que elles fossem, e nem valem mais que uma boa parte dos ahi
- impressos na custosa Coléção de Poetas do nosso Padre Reis;
- e com tudo, a despeito d’estas duas tão fortes razões, e tão
- valentes para me deverem dissuadir, convim em que tão pobre
- couza se désse á estampa. Será, segundo muitas vezes se escreve
- em Prologos, para incitar engenhos a fazerem melhor? não. Pois
- será, como tambem em Prologos se usa de escrever, para que
- os Aristarchos me ensinem o que, o como, e o por onde devo
- corrigir e melhorar? menos; que não sei eu de um só que se hoje
- occupe com semelhantes vaidades. Como por tanto me livrarei da
- desmerecida taxa de presunçoso? confessando, como tambem em
- Prologos se costuma, mas d’esta vez com verdade, que o faço por
- obedecer a dezejos de pessoa, com quem muito me importa estar
- em tudo bem.
-
- GALATEA
-
- _Carmen, ex Lusitano Latine redditum._
-
- Assiduis, juvenes, proscindite flumina remis,
- Dum vacat et picto lœtos juvat ire phaselo;
- Intereaque meo vestrum fallente laborem
- Carmine, Romanas percurram pollice chordas.
-
- Nereidas inter quondam pulcherrima Nymphas
- Nympha fuit Galatea maris: cui lilia mixtis
- Ore rosis, flavæque comæ, roseique labelli,
- Cæruleoque oculi placido fulgore micantes,
- Et sinus albenti in scopulis albentior unda,
- Qualem nec Paphiis habuit quæ regnat in arvis.
-
- Tertia postdecimam vernantia tempora brumam
- Floruerant, postquam vitali vescitur aura
- Nympha; nec in terris, aut cœlo, aut æquore toto
- Est quæ formosis ausit contendere formis.
- Multi illam juvenes, multi petiere deorum,
- Undique blanditiis et laudibus insidiantes,
- Nulli illi juvenes, nulli placuere deorum.
-
- Hanc pater undisono sub gurgite in antra vocavit,
- Amplexumque dedit, tremulisque sedere coegit
- In genibus, tales fundens post oscula voces:
- “Filia, tempus adest pueriles linquere ludos.
- “Non te pulchra latet, qua subjicis omnia, forma;
- “Tene latet quantis fugiendi viribus, instant
- “Qui toties, laudesque ferunt, gressusque sequuntur?
- “Crede patris canis et amori crede paterno;
- “Quò plus obsequiis, quò plus sermone placebunt
- “(Parce seni juvenem patri non grata monenti)
- “Hóc magis incautæ protendent retia formæ.
- “Filia, tempus adest pueriles linquere ludos:
- “Sit tibi cura meos posthac delphinas in undis
- “Pascere, perque salum deformes ducere phocas;
- “Non bene pigra tuis ignavia convenit annis.”
-
- Dixit: et e patrio discerpta coralia ponto,
- Cuspide inaurata, pastoria munera, virgam
- Tradidit, atque pecus natæ commisit habendum.
- Est virides inter, Nereus quibus imperat, undas
- Valle locus tuta, nec divo pervius ulli,
- “Hic maneas, dixit, te sæpe deinde revisam.”
- Arrisit, natamque pater sine teste reliquit.
-
- Haud semel ignifero radiarant lumine currus,
- Phæbe tui, dum lœta pecus Galatea marinum,
- Gurgitis inter opes, viridanti paverat alga.
- Interdum æquoreis linquens armenta molossis
- Ibat, et in calathos modo tinctas murice conchas,
- Et modo lucentes baccas contenta legebat.
- Ver erat, et pictos zephyris mulcentibus agros,
- Mense renidebat tellus lætissima Majo;
- Aureus in liquidæ Sol brachia Thetidos ibat.
- Deserere ima maris, solum conscendere littus
- Ausa fuit virgo, non sic reditura sub undas.
- Summa petens scopuli viridi sub rupe recessit,
- Unde fretum, terrasque lubens circumspicit omnes.
- Hic sedet, et pascens animos novitate locorum,
- Miratur, facilesque oculos fert omnia circum.
- Ut mediis vidit formosum fluctibus Acin
- Æquora jactatis tranantem cana lacertis,
- Versibus abstinuit, versus nam forte canebat;
- Erubuit, turbata silet, suspiria ducit;
- Nunc subeunt jussus, subeunt hortamina patris;
- Jam cupiat tutis fugiendo immergier undis,
- Nec potis est cupiens, et littore perdita inhæret:
- Nunc libet et tacito cautæ latuisse sub antro,
- Donec arenoso mutarit littore fluctus
- Discedensque puer securam liquerit oram;
- Pænitet inde fugæ, sistit, mavultque videri.
- Corpora, cæruleas inter candentia lymphas,
- Quam numeris perfecta suis! quam fortia pulsis
- Devectantur aquis! quam multa est gratia nanti!
- Quam bene suffuso sua membra liquore teguntur,
- Quam bene disperso nudantur eburnea ponto!
- Cuncta tenent oculos, in cunctis Nympha moratur.
- Interdum propius sensim vestigia ponit,
- Nec propiora tamen fieri vestigia sentit.
- Queisque prins sparsis volitaverat aura capillis,
- Nescia cur fingat, vel collo dividat apte,
- Dividit illa tamen, studioque indulget inani.
- Hinc littus petit, ac vultus speculatur in unda,
- Et quanquam ipsa sibi pulcherruma tota videtur,
- Pulchrior exoptat fieri, frustraque laborat.
-
- Interea juvenis, jam fessus nasse, redibat,
- Et prope jam fulvas manibus tangebat arenas:
- Illa fugit, trepidatque, et rupe reconditur ima.
- Hic latet, et votis contraria vota rependens,
- Nunc patris hortatus, et nunc reminiscitur Acin,
- Et rubet, et pallet, nec vultibus hæret in isdem.
-
- Haud mora: nudus adest, antrumque Simethius intrat
- Acis, ut abjectas repetat sub tegmine vestes.
-
- Quid remi cecidere, quid ó cessatis amici?
- Nonne retro refugisse ratem, dumque ora tenetis,
- Aversam in portus sentitis abire relictos?
- Instaurate opus, ac totis incumbite remis:
- Quó pœnas detis, dictis nihil amplius addam.
-
-
-
-
-CANTO II.
-
-_Pag. 237. versos 15 e 16._
-
- E que? algum de nós contra o que vive
-
-
-A questão, se sim ou não se ha de o homem alimentar de substancias
-animaes, tem sido muitas vezes, e com oppostas sentenças, debatida por
-filosofos, poetas, naturalistas e medicos. A affirmação e a negação
-achárão para argumentos ja uso e consenso de povos em todos os tempos,
-ja razões intrinsecas tiradas de nossa propria conveniencia. He assunto
-que requeria larga escritura, e em que a qualquer seria facil dissertar
-eruditamente. Voar-lhe-hei pelas summidades.
-
-Aquella vaga tradição, que em toda a parte permanece, de uma primitiva
-idade do mundo innocente e felicissima, entre as couzas de que reza,
-aponta sempre o não se comer de animal algum, senão só de frutas, hervas,
-leite e mel. De outro modo se não podião sustentar, conforme parece
-pelo ancianíssimo Genesis, os moradores do Paraizo, não só homens,
-porem todos os viventes. Quadrava o preceito e toava o uso pelo menos
-á humana natureza, que ainda agora, se a bem espreitarmos na infancia,
-ou antes de alterada por contrarios habitos, se afflige e revolve com
-o aspéto do sangue e morte. Verdade he, que depois da queda de nossos
-primeiros pais, nem o Testamento velho nem o novo, tornão a prohibir as
-carnes; mas toques da mesma nativa compaixão para com os animaes não
-lhes faltão, dos quaes pelo menos se deduz por bom discurso, que se os
-tivermos de comer, ainda ahi nos devemos haver com a possivel mansidão,
-poupando cruezas escuzadas, como são, e se costuma, atormenta-los na
-agonia por lhes refinar o sabor, caçar, montear e pescar por passatempo
-e pelo mero gôsto de malfazer. Lê-se nos Proverbios, segundo as versão
-dos Setenta: _Justus miseretur animas jumentorum suorum; viscera autem
-impiorum crudelia._—O que justo fôr ha de se apiedar da condição dos seus
-brutos; mas as entranhas dos impios não se apiedão da nenhuma couza.—No
-Exodo: _Non coques hædum in lacte matris suæ._—Não cozas o cabrito no
-leite de sua mãi.—He dito para ser ruminado, pelo mimoso do afféto que
-recende. No Deuteronomio: _Si ambulans per viam, in arbore vel in terra
-nidum avis inveneris, et matrem pullis vel ovis desuper incubantem, non
-tenebis eam cum filiis sed abire palicris, ut bene sit tibi, et longo
-vivas tempore._—Se o acaso te deparar no caminho, quer em arvore quer no
-chão, um ninho de ave, e a mãi estiver a agazalhar os filhos ou os ovos,
-não a tomes com os filhos, senão que em boa hora a deixes ir, para que
-boa estrêa te venha, e vivas largos annos.—
-
-Entre os Santos Padres, que são os depositarios e dispenseiros do
-espirito christão, alguma couza se podéra citar que autorizasse este
-genero de piedade. Sabida he a de que usou S. Anselmo, uma vez para
-com uma lebre, outra para com um passarinho. Tertulliano se maravilha
-de que entre christãos, os haja que se accommodem a ser carniceiros:
-_nescio an dolendum an erubescendumn sit_;—não sei, diz elle, se mais he
-para se haver lástima, se vergonha. S. João Chrisosthomo escreva, que
-se não podia ser santo sem uma estremada suavidade de affétos, e muita
-vehemencia de bem querer, não só aos nossos, mas ainda aos estranhos, em
-tanta maneira que até aos brutos animaes abranja essa mansidão. (_Homil.
-29. na Epist. ad Rom._) E dizia bem, que nas vidas de não poucos santos
-resplandecem as provas. S. Francisco de Assiz resgatava os cordeiros
-que hião para o córte, pagava e soltava as redadas dos peixes e os
-viveiros das aves. Mas não apontemos mais, por não enjoar filosofos,
-digo filosofos de nossa terra, dos que nos assoalhão filosofia de torna
-viagem, porque os lá de fóra ja deixarão muito para traz a impiedade.
-
-Não he porem necessario ser christão, senão que basta ser homem,
-para repartir com os brutos do thesouro da charidade, de que muitos
-d’elles usão a seu modo, não só para com os seus, mas para comnosco.
-Sendo assim que onde os não maltratão, são elles de indole muito mais
-benigna: em Inglaterra, segundo se diz, nem ha cão que ladre, nem besta
-que escoucinhe: em não sei que ilha dezerta, acharão os primeiros
-descobridores, em aportando, (segundo encontrei na Escolha de Viagens
-por John Adams) serem tão cortezes as aves de que toda era chêa, que
-não fogião dos novos hospedes, antes os festejavão e se deixavão pôr a
-mão; semelhantemente ao que da ilha das Garças aponta João de Barros
-_Dec. 1 Liv. 1 Cap. 7_, aonde “como não erão traquejadas de gente (as
-garças e outras aves), ás mãos tomarão (os marinheiros de Nuno Tristão)
-tanta quantidade d’ellas, que ficou por refresco ao navio.” Dos leões he
-corrente entre os naturalistas não perseguirem, mas esquivarem-se dos
-perseguidores, embrenhando-se cada vez mais pelos seus sertões adentro,
-sendo alias mui leves de domesticar, e folgando de acompanhar, como
-rafeiros innocentes, a trôco de qualquer esmola de pão, por largo espaço
-de leguas. Muitas são em toda a parte, mormente em Africa, as serpentes,
-que namoradas do bom gazalhado, trocão seus matos pelas pouzadas humanas,
-e n’ellas se hão como boas comadres da familia. O cavallo do Arabe he o
-contubernal e primeiro amigo de seu dono: um bom Arabe na morte do seu
-cavallo deveria de se expressar pouco mais ou menos como Millevoye o
-suppoem na Elegia. Muitos prezos tem logrado domesticar aranhas e ratos,
-até o ponto de, no meio das asperezas de um segredo, se poderem esquecer
-por muitas horas do seu desamparo, crueldades e injustiças humanas. No
-páteo da rezidencia parochial de S. Mamede da Castanheira do Vouga,
-todos os dias a horas certas viamos acudir ao almoço e cêa que ás nossas
-pombas desparriamos, todos os passarinhos da vizinhança, que ja traziamos
-tão correntes, que nos vinhão comer aos pés, por saberem (porque os
-brutinhos sabem muito mais do que nós outros cuidâmos) que n’aquella
-cazinha da solidão moravão amigos seus, e nunca terem ouvido tiro, nem
-enxergado rede no pequeno arredor do templo e passaes solitarios.[16] Se
-a tudo isto e a muitos outros exemplos se lançar conta, alguma verdade se
-achará no affirmarem poetas, que no discaír da idade de oiro, ao mesmo
-tempo que se os homens corromperão degenerando em crueis, se forão as
-feras tornando bravias e desabridas.
-
-Em todos os tempos, e até por fóra e mui longe d’esta religião charidosa,
-houve quem bem entendesse como entes nossos conterraneos n’este
-orbe, irmãos nossos em viver, sentir, padecer e acabar, com sangue e
-coração como nós, com amor, prazeres e filhos como nós, bebendo como
-nós no immenso vaso do pai commum o mesmo ar, a mesma luz, as mesmas
-aguas, e comendo comnosco á mesma mesa do universal banquete, poderião
-quando muito servir-nos de pasto; mas fóra d’ahi, qualquer injúria
-que se lhes accrescentasse, seria hortorosa profanação e violação da
-natureza. Plutarcho e Quintiliano referem, que os Athenienses castigarão
-severamente algumas sevicias commettidas contra animaes. O Alcorão
-espalhou por todos os povos, que largamente senhorea, muita d’esta
-benignidade: raro Mahometano deixará de matar a fome ao cão de seu
-inimigo. Na China passa esta beneficencia muito adeante. Que no-lo diga
-em seu estilo chão o nosso Fernão Mendes, ou talvez o Jesuita que em seu
-nome, e por um modo tão rijo de crer, compilou tantas e tão preciosas
-noticias do Oriente, mui desacreditadas em tempo, ja hoje em parte mui
-abonadas de verdadeiras. Padre ou marinheiro, diz assim: (falla de uma
-feira que no rio de Batampina, em caminho de Nanquim para Pequim, se faz
-com mais da duas mil ruas de barcaças, nas quaes ha para vender tudo a
-que no mundo se pode pôr nome.) “Ha tambem outras embarcações em que os
-homens trazem grande soma de gayolas com passarinhos viuos e tangendo com
-instrumentos musicos dizem em voz alta á gente que os ouve, que libertem
-aquelles cativos que são criaturas de Deos, a que muita gente acede a
-lhes dar esmola com que resgata daquelles cativos os que cada um quer e
-os lança logo a avoar, e toda a gente dando hũa grande grita lhe diz,
-_pichau pitanel catão vocaxi_, que quer dizer, _dize lá a Deos como cá
-o servimos_. Ha outros homens que noutras embarcações trazem grandes
-panellas cheyas de agoa, em que trazem muitos peixinhos viuos que tomão
-nos rios nũas redes de malha muyto miudas, tambem pela mesma maneira
-vem bradando que libertem aquelles cativos por seruiço de Deos que são
-innocentes que nunca peccarão, a que tambem a gente dando sua esmola,
-comprão daquelles peixinhos os que querem e os tornão logo a lançar no
-rio, dizendo, _vayte embora, e lá dize de mym este bem que te fiz por
-seruiço de Deos_. E estas embarcações em que estas cousas se trazem a
-vender não se hão de contar por menos soma que de cento e duzentas para
-cima.”
-
-Na India são n’esta virtude extremosissimos. Alguns viajantes tanto
-encarecem a couza, que chegão a affirmar haverem por lá, ainda no seculo
-passado, hospitaes para as mais asquerosas sevandijas, como piolhos,
-pulgas e persovejos.
-
-Pôsto que tudo quanto até aqui tenho trazido, possa parecer uma diversão
-do principal propozito, não o he, por quanto d’estes misericordiosos
-affétos he que se tem em parte derivado a abstinencia de carnes,
-observada por muitas pessoas, communidades, seitas e povos: em parte
-digo, porque em outros diversos fundamentos tem tambem estribado, como
-veremos.
-
-E pois que a ultima que tocámos foi a India, a ella tornemos, levando por
-explorador e lingua, não algum estrangeiro, de que outros se contentão
-mais, mas um patricio nosso, dos varios que para tal officio se podérão
-tomar: he Duarte Barbosa, e diz:
-
-“Ha neste regno (de Guzarate) outra sorte de Gentios, que chamaom
-Bramanes, estes nom comem carne, nem pescado, nem nenhũa cousa que
-mora, nem mataom, nem menos querem uer matar, por asy lho defender sua
-idolatria; e guardaom isto em tamanho estremo que he cousa espantosa,
-porque muytas uezes acontece leuarem-lhe hos Mouros bichos, e pasarinhos
-uiuos, e fazerem que hos querem matar perante eles, e estes Bramanes lhos
-compraom e resgataom, dando-lhe por eles muyto mais do que ualem, por
-lhe saluarem has uidas, e soltalos. Se tambem El Rey, ou ho gouernador
-da tera, tem algũu homem, porculpas que cometese, julgado ha morte;
-ajuntamse eles, e compramno ha justiça, se lho quer uender, pera que nom
-mora; e tambem algũus Mouros pedintes, quando querem auer esmola destes,
-tomaom muy grandes pedras, e daom com elas emsima dos ombros e barigas,
-como que se querem matar perante eles, e porque ho nom façaom, lhe daom
-muytas esmolas, e que se uaom em pas; outros trazem faquas, e daom-se
-cõelas cutiladas pelos braços e pernas, e pera se nom matarem lhes daom
-muytas esmolas; outros lhe uem has portas ha querer lhe degolar ratos e
-cobras, ha hos quaes eles daom muyto dinheiro por ho nom fazerem, e desta
-maneira saom dos Mouros muy apreciados: estes Bramanes se achaom no
-caminho algũu golpe de formiguas, aredam-se buscando por honde pasem sem
-bas pisarem. E em suas casas de dia çeaom; de dia nem de noyte acendem
-candea, per caso de algũs mosquitos nom irem morer no lume da candea; e
-se todauia tem grande necesidade de acenderem de noyte, tem hũa alenterna
-de papel ou de pano agomado, pera cousa nenhũa uiua poder ir morer dentro
-no fogo; se estes criaom muytos piolhos, nom hos mataom, e quando hos
-muyto aqueixaom mandaom chamar hũs homeins que antre eles uiuem, que
-tambem saom gentios, e eles hos haom por de santa uida, e saom come
-irmytães, uiuendo em muyta abstinença por reuerencia dos seus Deoses;
-estes hos cataom, e quantos piolhos lhe tiraom poemnos em suas cabeças,
-e hos criaom com suas carnes, em que dizem fazerem muy grande seruiço ha
-seu Idolo, e asy guardaom hũus e outros com muyta temperança ha ley de
-nom matarem: estes Gentios saom muy delicados e temperados em seu comer;
-seus manjares saom leites, manteiga, açuquar, e aros, e muytas conseruas
-de diuersas maneiras; seruem-se muyto de cousas de fruyta e ortaliça, e
-deruas de campo pera seus manjares; honde quer que uiuem tem muytas ortas
-e pomares.”
-
-Na _Historia de Mysore_, lê-se que em Bengala, quando a violencia da fome
-a devastou em 1774, consumindo-lhe obra de trez milhões d’almas, forão
-em muito grande numero os Indios que antes quizerão deixar-se morrer á
-mingoa, do que acabar comsigo comer carne de animaes.
-
-Frequente e antigo he na India este antojo, e tão notorio, que não ha
-porque afogar o discurso com mais exemplos. Bem podia proceder isso em
-parte da vegetavel abundancia e espantosa cultura d’aquellas terras,
-e de alguma especial compleição do clima, ou natureza ou costumes
-dos moradores, ou algumas outras circunstancias, segundo as quaes os
-corpos se dessem melhor com os pastos leves e frugaes: viria depois a
-religião consagrar por dogmas seus os conselhos da higiene, como com
-vinho, toucinho e abluções aconteceo em muito oriente á conta da lepra:
-para melhor incutir o preceito, cerca-lo-hia de fabulas amigas da
-imaginação do vulgo, como a encarnação dos Deozes em corpos de brutos, e
-a transmigração das almas humanas por differentes sortes de viventes até
-parar na vacca; materias estas de que as historias e perigrinações fazem
-larga menção. Dos Indios podérão tomar por mão a crença os Egipcios, os
-quaes, sendo moradores de solo não menos liberal, devião tambem perdoar
-grandemente aos animaes, em quem reverenciavão suas Divindades, ou
-santuarios ambulantes que d’ellas forão: e confirma-me na suspeita a
-conveniencia, que ja de alguem deverá ter sido notada, do boi Apis do
-Egito com a vacca ainda hoje sagrada dos Indios. Do Egito provavelmente
-trouxe Pithagoras para a Italia, em tempos de Numa ou Servio Tullio, a
-sua metempsícosa com a defensão do uso das carnes. Não pegou a invenção,
-se não foi em alguns escolares fanaticos de tamanho mestre; e nem
-filosofos pelo tempo adeante a sustentarão, nem poetas se valerão d’ella,
-afóra Ovidio nas metamorfoses, e só como narrador; e mais não deixava de
-ser fecunda e bem assombrada crença para poesias. Não pegou, porque não
-vinha propria á indole do solo ou ao temperamento dos Italos, ou, o que
-he mais certo, porque encontrava os antiquissimos usos de umas gentes,
-que primeiro tinhão sido pastoras e depois guerreiras.
-
-Na Ilha da Palma, acharão os nossos, quando descobrião, conquistavão e
-amansavão aquelle archipelago, (senhorio traspassado depois em Castella,
-mas padrão glorioso do nosso Infante D. Henrique) serem mantimento dos
-moradores hervas, leite e mel.—Com este particular exemplo me acóde a
-memoria, mas alguns outros semelhantes de outras ilhas me parece ter
-achado pelas historias, de que me não ficou nem fiz a lembrança preciza.
-
-Com a propagação da fé christã renasceo religiosa a abstinencia na
-Europa, por motivo não de brandura, mas de mortificação. Apparecerão
-Ordens numerosas de religiosos, primeiro só de homens, logo tambem
-de mulheres, que renunciando todos os carnaes deleites para melhor
-apurarem os do espirito, tomando o exemplo dos primitivos eremitas que
-se abastavão com as hervas, raizes, frutas silvestres, e aguas dos
-montes, não só cortarão pelas demazias na quantidade do sustento, não só
-o estreitarão com regra de jejuns, mas em varios de seus institutos o
-expurgarão de todo animal terrestre ou volatil, não consentindo, quando
-muito, senão em algum marisco secco e fraco, para regalo das festas. E he
-para notar como ainda os mais rígidos observantes logravão saude inteira
-e robusta, e chegavão ao ultimo fio da velhice: _mens sana in corpore
-sano_.
-
-Annos ha que me recordo de ter achado em uma Gazeta de Lisboa, estar-se
-creando em Manchester uma seita, que por filosofica defendia tomar
-qualquer sustento animal. Era noticia de Gazeta, não affirmarei que
-tivesse pé, e se o teve, não sei em que parou.
-
-Ja que estamos com Inglezes, fallemos de Franklin. Este homem, a quem a
-probidade e o juizo fizerão filosofo e liberal, e não a devassidão e o
-estouvamento, tendo lido, di-lo elle, o livro em que Tryon recommenda
-a dieta vegetal, determinou-se em a observar. Pô-lo por obra, e
-limitando-se em arroz e batatas, e ás vezes ainda em menos, como passas,
-bolaxa ou pão, com uma gota de agua, não só forrou do seu salario (era
-ainda então compositor de imprensa) com que poder comprar livros, mas
-do seu tempo acerescentou para estudos o que as refeições e digestões
-lhe podérão consumir: fez progressos proporcionados á clareza de ideas e
-fortaleza de percepção, que são o fruto da temperança no comer e beber.
-Seguio constante por algum tempo, não pouco, até que chega á ilha de
-Block, assiste a uma pesca, revolvem-se-lhe nas entranhas as maximas do
-seu Tryon, dá por genero de assassinio aquelle matar viventes, que nem
-tinhão feito nem erão capazes de fazer o mínimo mal. Poem-se os mortos ao
-lume, recende o guizado; o filosofo no seu tempo gostára apaixonadamente
-de peixe; entra pelo nariz a tentação, estremece a filosofia, e em boa
-hora lhe acode com uma bulla de composição, lembrando-lhe como ao abrir e
-limpar d’aquelles peixes, lhes víra dentro do buxo outros peixinhos mais
-pequenos. “Pois que he isto, diz elle entre si, se vós uns a outros vos
-comeis, porque não hei de eu tambem comer-vos a vós?” N’essa hora e com
-esta palavra se lhe quebrou o fadario; o que muito bem prova, acrescenta
-o bom homem, sermos nós _animaes racionaes_, sabendo, como sabemos, achar
-pretextos plausiveis para quanto nos póde dar gôsto.
-
-Outro autor muito afamado de nossos dias, Raynal, era igualmente sobrio.
-A Senhora Marqueza d’Alorna, que muitas vezes o teve a jantar, me contou,
-que nunca o víra comer mais que algumas poucas hervas e fruta, nem beber
-senão agua. Era, observava ella, como um conviva das Ninfas, custando a
-crer como com aquellas refeições de idillio se podessem sustentar tantos
-nervos d’alma e de pensamento.
-
-Se depois de autores de livros se póde citar quem não sabe ler, em Grada,
-lugarejo da Bairrada, vivia um moço que eu conheci, o qual nunca provára
-vacca. Perguntado a causa, não era religião, nem filosofia, nem tedio
-natural, mas effeito de um vehementissimo e entranhado amor que tinha
-aos bois, com quem se creára, com quem vivia, lavrava, e dormia paredes
-meias. Rústico era, e sem o cuidar discorria e fallava como o Sabio de
-Cheronea, quando dizia, que por tudo quanto o mundo tinha, não venderia
-nunca o boi que em seu serviço envelhecêra.
-
-Afóra os monges, filosofos e amigos dos bois, ha ainda uma grande quantia
-de homens, puro comedores de vegetaes em quasi todo o anno: são os
-moradores das serras e aldêas pobres, a quem a estreiteza de sua fortuna
-mal dá licença para chegarem á carne por entrudo e paschoa, e poucas
-mais vezes e só escassissimamente, ao pescado, vizita mui rara em terras
-mesquinhas do sertão. De choupanas sei eu, e quasi de inteiros lugares,
-pelas abas da Serra do Caramulo, onde oito annos vivi, que de pouco mais
-se sustentão que do pão de centeio e milho, batatas e alguns legumes: e
-estes asperissimos banquetes, em que até pelo demais fallece o agro vinho
-verde de seus montes, trazem-os comtudo mais rijos e sãos no trabalho,
-do que as grandes ucharias aos mimosos das cidades.
-
-Acabarei estes exemplos com o que melhor conheço, que he o meu. Quando
-eu compuz estes versos da _Festa de Maio_, era como ja no Ante-Prologo
-disse, todo Gessnérico: trazia a alma toda a nadar no coração empapado
-com os mais brandos affétos do mundo, como rosa a boiar em vaso de leite:
-amava as plantas e tratava com ellas como com entes sensitivos; todos
-os entes sensitivos amava-os como amigos e companheiros: tinha fantasia
-pronta, que muito ajuda em todo o genero de bem querer; esta me revelava
-de contínuo e me ataviava de suas fabulas e côres a particular vida e
-cheíssimo mundo de cada inséto; e porque esse seu mundo e vida dizia
-tanto com o meu, e o commum de seus substanciaes interesses com o commum
-dos substanciaes interesses dos homens, acontecia que imaginando-me ora
-grilo, ora passaro, ora borboleta, tinha aprendido uma perfeita, e se
-dizè-lo posso, egoista charidade para com todos elles. Ouvi debater a
-questão do uso das carnes: as razões affirmativas podião ter mais fôrça,
-mas as negativas dizião com o meu gôsto; he meia persuasão; caírão-me
-tão bem, que logo me dei, se não por convencido, por persuadido: e como
-persuadido e convencido escrevi os versos, que por isso aos indifferentes
-se de contrária sentença, devem parecer, como em verdade são, sobejos,
-exagerados e declamatorios.
-
-Era o escrito fruto de minha opinião; mas esta, como accontece, se
-roborou por elle, e até tal ponto se confirmou, que do que até alí não
-passára de poetica theoria, instituí fazer prática minha em toda a vida,
-renunciando qualquer genero de alimento animal. Por duas vias se fazia de
-mal o tenta-lo, ja porque em couza tão excetuada do geral não deixarias
-de caír estranhezas e zombarias, ja porque tanta sobriedade entre quem
-a não usava, era genero de martirio continuamente renovado. Mas contra
-estes dois contrastes prevalecião outros dois argumentos: primeiro, minha
-consciencia, que repugnava banquetes de sangue: segundo, o presuposto em
-que estava, de que as faculdades da alma se havião de adelgaçar e crescer
-onde o corpo fosse favorecido da parcimonia. Metti-me Pithagorico aos
-vinte e trez d’Agosto do anno de 1822, tendo sido gastos os mezes, que
-desde a feitura do poema decorrerão até esse, em acabar de me resolver e
-aparelhar para tão grande façanha; e permaneci na observancia do voto até
-vinte e trez d’Agosto do seguinte anno. Acabei o noviciado, e em lugar de
-professar, despedi-me. Tive minhas razões; e ainda que pouco se me havia
-de dar agora do que se podesse dizer ácerca de um indivíduo, que n’esse
-tempo tinha o nome que eu hoje tenho, e do qual, segundo as theorias dos
-medicos, não conservo hoje uma só particula, sendo eu um, vivo e junto;
-elle outro, morto e disperso por todo esse mundo: todavia, porque ainda
-temos commum um leve som, que he o nome, quero lançar pontualmente na
-balança do juizo dos meus leitores os seus porques; e bons ou máos, forão
-estes.—Primeiro: que a abstinencia de uma só pessoa não poupava uma unica
-existencia de animal. Segundo: que era presunção ridicula o desquitar-se
-um sujeito, por alguns argumentos, de uma opinião e uso quasi universal,
-sendo assim que todos os homens, guerreando-se entre si por crenças
-religiosas, por sisthemas filosoficos, por principios de política e
-sciencias, por modas e gostos, todos se conformavão no comer das carnes.
-Terceiro: que realmente era obstinação o desconhecer como a natureza nos
-não aparelhára só para comer e digerir vegetaes. Quarto: estar-nos ella
-dando nos proprios animaes, que uns de outros se sustentão, uma prova
-de ser menos escrupulosa do que Pithagoras e a poesia. Quinto: que ella
-propria os multiplica á proporção do que uns a outros devem tragar.
-Sexto: que se ella faz com que cada passada, cada pedra que movemos, cada
-gota de agua que engolimos, cada fruto ou folha que aproveitamos, cada
-sôpro que inspiramos ou expiramos, cada movimento emfim que fazemos,
-ainda dos mais indispensaveis para a vida, a destrua a milhões e milhões
-de entes conhecidos, e a numero talvez ainda maior de desconhecidos,
-não ha porque nos tenha a grande peccado, o aumentar-mos por nosso
-bem a lista com mais algumas unidades. Setimo: que o adelgaçamento e
-crescimento de minhas faculdades intelletuaes que eu esperára d’aquella
-mais leve nutrição, não só se não tinha verificado, mas antes o contrário
-succedêra, pôsto que de diversas causas podésse pender o successo:
-e por muito tempo me ficou o costume de, quando via versos fracos e
-desengraçados, dizer: Devião estes de ser compostos por quem não comia
-senão hervas. Outavo, ultimo, e não leve motivo: que ainda que pouco dado
-ás delicias da gula, o cheiro e presença de melhores iguarias do que as
-minhas, de dia em dia me tentava mais, e quando succedia achar-me entre
-gente alegre e em mesa de festa, as ondas de tentação, que eu forcejava
-dissimular o melhor que podia, crescião e redobravão com os motejos dos
-circunstantes, que bem poderião ter sal, mas não que adubasse as minhas
-insôssas hervas.
-
-De todos os varios antecedentes deduzo, que sem embargo das objeções,
-autoridades e exemplos, o uso das carnes se ha de ter por licito, e por
-dithirambico o que lá fica no texto: mas que fóra do caso de necessidade
-ou clara utilidade, e alem do ponto em que essa necessidade ou utilidade
-pararem, toda a sevicia contra viventes he immoral, injusta, insensata, e
-digna de muito grande castigo.
-
-E tanto isto assim he, que, porque todo o carniceiro de officio contrahe
-na alma e nos modos alguma couza de cruento e de tigre, em muitas partes
-se tem por infame. Em Portugal, nenhum mechanico honrado e de conta
-acceitaria um tal para sogro ou genro, ainda com grosso cabedal de
-renda; nem de boca plebea pode saír mais afrontosa injúria que o nome
-de magarefe. Em Inglaterra não os admittem jurados em causa crime. Na
-principal ilha das Canarias encontrárão seus descobridores, que os
-naturaes, com viverem á lei de sua rudeza silvestre, “havião por couza
-mui torpe esfolar alguem gado, e n’este mister de magarefes lhes servião
-os cativos que tomavão; e quando lhe estes falecião, buscavão homens dos
-mais baixos do povo para este officio, os quaes vivião apartados da outra
-gente e não os communicavão em aquelle mister” (_Barr. Dec. 1. L. 1. C.
-12._)—Bem hajão os inglezes, que formão sociedades para proteger animaes,
-e abençoado seja o inglez Deputado Martin, que para lhes fazer bem, se
-arrosta com os escarneos dos praguentos. Bem hajão os allemães, que em
-seus campos não perdoão multa municipal aos que, no levar rezes pelos
-caminhos, as atravessão deante de si na albardadura, ou tolhidamente as
-apinhoão dentro em carros. E bem haja a nossa Camara, quando conseguir
-desterrar o escandalo do afrontoso trato que nossos carreiros dão a seus
-bois, como ja desterrou a atroz e immoral matança dos porcos perante os
-olhos do povo.
-
-Quero rematar com uma reflexão, que ja acima podéra ter cabido, mas que
-por dezejar da-la por conselho, e pô-la onde melhor se recommendasse,
-muito de industria deixei para o fecho. Vai o dito a pais e educadores,
-a quem toca. Nada importa mais, do que affazer cedo os meninos a uma
-grande suavidade de costumes: assim foi creado o bom Montaigne. Se os
-eu tivesse, parece-me que tambem assim os crearia, e bem bons frutos
-lhes havia de colher na minha velhice. Primeiro que tudo, parece-me que
-me conformaria com Rousseau em os não alimentar desde o leite senão com
-vegetaes, por entender como elle, serem estes mais accommodados a suas
-naturezas, e mais proprios para fisicamente os suavizar e humanar. Mas
-não quero agora averiguar isto que pertence a medicos; outro he o meu
-alvo. Não consentíra jamais que presenceassem espetaculos de atrocidades
-ou injustiça; e quando a minha má estrella lhos presentasse, procuraria
-afea-los com boas razões, mais de affétos e lagrimas que de raciocinios.
-As urbanas corridas de touros e as aldeanas festas de alanceamento de
-pombos, frangos e patos, como couzas antiquissimas e nacional feição,
-as respeito; mas não levára la os meus tenrinhos, que são mui branda
-cera para qualquer bom ou máo cunho. Se de alguem lhes fosse insinuada a
-correntissima abusão de nossos provincianos, de que em casa que devasta
-ou maltrata os ninhos do seu beirado, tudo vai para traz e de fôrça se ha
-de aguardar por enterramento, calára-me, porque acho razão a Fontenelle
-em dizer, que se na mão tivesse fechadas todas as verdades do mundo, Deos
-o defendesse de a abrir.
-
- _Magnànima menzogna, or quando è il vero_
- _Si bello, che si possa a te preporre?_
-
-Dar-lhes-hia, da Historia natural poetizada, tanta luz, quanta bastasse
-para levarem grande interesse nos fados de cada individuozinho que
-respira: um raio de tal luz póde bastar para pôr fim a muita dureza que
-provenha de cegueira. Conheci e tratei com um parocho de fóra da terra,
-que desgostoso de que uma sua fregueza, rapariga nova, não pozesse reparo
-em maltratar animaes, a chamou brandamente, explicou-lhe como tudo
-que era nascido devia ter algum entendimento, capacidade para dores e
-prazeres, parentes, amigos e affeições. Com isto só a fez outra, e tão
-outra desde essa hora, que onde depois se lhe fazia de mister dar morte
-a uma pomba ou gallinha, ainda que em seu páteo não forão creadas, ja o
-coração se lhe confrangia, tremião-lhe os pulsos, e chegada á execução,
-não corria mais sangue da ferida, que mal acertava, do que lagrimas de
-seus olhos.—De mim mesmo me parece agora, que se escrevi os versos a que
-me refiro, e em commenta-los me alargo tanto, e uma e outra couza de tão
-boa mente, de tudo deve ter sido raiz a creação, em tudo excellente e
-n’esta parte bem empregada, que meu pai se esmerou em dar a todos seus
-filhos.
-
-Outra couza fizera eu principalmente; era commetter-lhes o trato e
-tutela de alguns animaes caseiros, a quem podessem chamar seus. N’este
-exercicio aprenderião a ser observadores, vigilantes, serviçaes; tomarião
-com o gôsto da propriedade o amor do trabalho, havendo-se ja por algum
-modo como pais de familias; costumar-se-hião a acautelar, previnir e
-amar; tomarião para toda a vida o geito de amparar fracos e desvalidos,
-e de não ver um qualquer indivíduo, sem logo compor na imaginação a
-historia completa do seu viver, do seu padecer, do seu precizar.
-
-Da efficacia de tal methodo, e tão simples, e tão formoso, tenho eu uma
-muito amavel prova de minhas portas a dentro. Uma mulher, toda boa, toda
-extremosa, tomou unicamente a peito o vingar-me da natureza; cerca-me
-de contínuo, como um anjo, de amor e de luz; empresta-me olhos para eu
-ver o mundo e as obras dos seculos; tira deante dos meus passos todos
-os espinhos no caminho da vida; inventa-me um encantamento novo para
-cada minuto; diz-me e faz-me entender como a verdadeira felicidade se
-não compoem de grandes pedaços, mas sim de atomozinhos que de longe se
-não podem perceber; repete-me e persuade-me que nasci para as Musas
-e para o amor, e não para a política, nem para os odios, serve-me,
-vela-me e defende-me como a filho, ama-me como a esposo, zela o meu nome
-como o de irmão; lançou a sua vida na minha vida, o seu pensamento no
-meu pensamento; existe pelo meu amor, morreria se lhe elle faltasse.
-Quem lhe ensinou tão generosa, tão nova benevolencia? quem lhe deo
-tantos segredos de fazer feliz? as suas aves e pombas, a sua amiga, e
-alguns livros, unica sociedade da cella, onde desde seus annos verdes a
-Providencia ma estava guardando e aperfeiçoando[17].
-
-
-
-
-_Pag. 243. verso 18 e seguintes_
-
- O mesmo coração, dezejos, gostos,
- Que tem nossas mortaes no peito occultos,
- Tem as Ninfas tambem &c.
-
-
-Por estes versos começa uma torrente caudal de couzas vãs e doidas ácerca
-das mulheres, e relações dos dois sexos, que ora mais, ora menos turva,
-se vai alongando até pag. 254. A pezar de se devolver por leito de quasi
-proza, e por entre margens para meu gôsto mal assombradas, bom seria que
-por ellas nos podéramos ir detendo a pescar, e a examinar algumas das
-couzas mais graúdas que vão na chêa: serião questões apraziveis de ociosa
-filosofia, mas prometti no prologo despreza-las; perdoar-lhes-hemos,
-deixa-las ir seu caminho. Passem a seu salvo as regras de namorar á
-antiga; a arte não de amar mas de enredar e colher, como o são quantas
-com titulo de amar se tem escrito; a poligamia, menos de Mahometano do
-que de Tupinamba; o divorcio e ulteriores nupcias dos divorciados e
-divorciadas; a botecuda nudez dos sexos &c. La se avenhão como poderem
-todas essas puerilidades com seus inimigos, que se de minha Musa
-nascêrão, muito ha que eu e ella as desherdámos. O meu ponto agora he
-assentar boas pazes para sempre com as damas. Todas minhas Obras, não
-só esta, _Cartas de Echo_, _Amor e Melancolia_, _Noite do Castello_,
-_Ciumes do Bardo_, me devem ter perante ellas representado cavalleiro
-descortez de desleal poesia. Tempo he de mudar de cores, abjurar o erro,
-e para merecer o perdão, que ellas de puro boas concedem antes de pedido,
-romper lanças em favor de sua fama, não só contra inimigos, se os podem
-ter, mas contra mim proprio, pelas ter aggravado. He uma Nota estreita
-arena para tão singular duello: mas embora, que para outro dia e campo
-desafiado fica o eu mancebo desatinado e altivo d’outro tempo por mim
-grave, reflexivo e respeitoso; o eu versejador por mim pensador; o eu
-academico e solteiro por mim cazado e recolhido: emfim por mim conhecedor
-do terreno do combate o eu ignorante d’elle, a cuja face ja n’esta hora
-arremésso a luva, e lhe digo “Mentiste, e mercê de Deos e de minha Dama,
-provar-to-hei.” Mas pois que he forçado ficar para outro dia a pendencia,
-aqui não farei mais do que um pouco ensaiar-me para ella, campeando
-soltamente e esgremindo nos ares.
-
-Nenhuma couza tem sido mais experimentada no mundo e mais vezes definida
-que o amor, nenhuma ha tão mal e imperfeitamente comprehendida como o
-amor. Fallo do amor dos homens, unico de que os homens podem fallar: o
-das mulheres he ainda mais incomprehensivel, e certamente muito mais
-espantoso, quando verdadeiro. O que pretende dar regras de amar, como
-alguns outros fizerão antes de mim, e como eu proprio supponho que
-pretendi, assemelha-se ao astronomo, que tendo endoidecido á força de
-ter velado as noites a observar os astros, presumisse, riscando órbitas
-com o lapis, constrangê-los a segui-las: as esferas e os affétos saem do
-nada ao sôpro de Deos, resplandecem com a sua luz propria e misteriosa,
-vão-se ora afastando ora aproximando de seus centros pelo caminho que
-sua natureza lhes ordena, eclipsão-se na hora prescrita, desappareceráõ
-quando Deos fôr servido; sem que em tudo isso haja querer, escolha,
-presciencia, ou conhecimento de nossa parte. Amamos uma mulher, e certa
-mulher; porque temos de a amar; porque he necessidade sua e nossa que
-a amemos; amamo-la pelo modo que a natureza quer e não outro, não he
-uma acção mas uma paixão: se a premião o premio he gratuito, se a punem
-he injusto o castigo, porque não recáem sôbre um effeito de eleição.
-Ama-se uma mulher, repito, sem o procurar, sem o cuidar, sem arbitrio, a
-despeito da razão, da vontade e dos votos, como á rosa, como á lua, como
-á harmonia, como aos sabores dos frutos deliciosos. Para ellas se vai
-como os rios dos montes para os valles, como a chamma para o ceo, como
-a pedra do ar para a terra, como o menino para os peitos da ama, como o
-coração para o prazer. N’estas occasioẽs todo em nós he extraordinario,
-e se o posso dizer, sobre-natural: sentimo-nos fôrças que não possuiamos
-para querer, seguir, abraçar e reter: o pensamento se torna infinito,
-porque o objéto que procurâmos, como uma metade nossa que nos foge,
-nos apparece infinito. Por dentro d’aquellas graças fisicas, de que
-os sentidos se namorão, imagina-se um mundo estranho e illimitado de
-perfeições, de que se namora a alma: ahi se dezeja tudo quanto he capaz
-de embellezar a vida; o dezejo he logo esperança, a esperança certeza,
-a certeza delirio, e novamente dezejos; e quem porá limites a dezejos,
-a delirios, a esperanças? O abrangimento do infinito da Divindade em um
-corpo humano não he misterio que o amor não saiba muito bem entender. He
-aqui o lugar de confessar que a este sobre-humano conceito, que da mulher
-amada se faz, mil vezes corresponde plenissima realidade.
-
-Por mais que a natureza se aprimore em modelar, tornear, corar, amaciar,
-brunir, bafejar e endeozar o fisico da mulher, as suas graças, o seu
-merito, o seu ser de mulher não são esses dotes, sujeitos ao tempo e
-dependentes de um ar, assim como nas flores não são mel as pétalas
-vistosas e coradas, o cheiro suave e attrátivo, que o sol e o vento
-attenuão e desbaratão. Diz-se que as feiticeiras tem o seu encantamento
-em um novêlo; o novêlo do feitiço das mulheres está no seu coração e no
-seu espirito, que n’ellas he tambem coração. O coração da mulher não
-mora descançadamente reclinado no peito como o nosso, por toda sua alma
-esvoaça perdido de amor, gemendo de amor, como uma ave mãi e feliz por
-todos os ramos de um bosque de primavera: sente-se-lhe o frémito das
-azas, ouve-se-lhe a harmonia em tudo quanto diz, em tudo quanto cala,
-no que faz como no que deixa de fazer, no que pensa, recorda ou espera,
-nas lagrimas e no riso, no enfado e no contentamento, na vigilia e no
-sono. O coração lhe está á porta interior de cada sentido recebendo as
-impressões; para elle e por elle veẽm, para elle e por elle ouvem, para
-elle e por elle presencêão a natureza, communicão com ella e comnosco. Um
-sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo delicioso
-deveo ser formada.
-
-Este afféto, esta doçura, esta, quero eu dizê-lo, feminidade da mulher
-são de tão alta natureza, tão estremes de liga, tão independentes do fim
-mesmo para que a providencia a destinou, que me parece ainda despojada de
-sentidos, poderia amar vehementemente como os espiritos angelicos. Que
-será quando os sentidos confluem, para atear com sua materia inflammavel
-este fogo celeste? ¿quando a Vestal, afrontando todo o futuro, deixa
-apagar no altar da Deoza de sua infancia a luz virginal que velou por
-tantos dias e noites? ¿quando na turbação insólita d’estas trevas
-desconhecidas, se entregou toda e com todo seu futuro ao ente que a
-implorou como Divindade, e que ella sabe e sente em si tornará feliz
-por cima de todas as felicidades? ¿quando uma vez encetou prazeres,
-cujo maior encanto para ella se da-los recebendo-os, e não os receber
-sem ao mesmo tempo consummar mais de um doloroso sacrificio? Oh então
-he o amar do amar! o afféto, que ja em profundeza não podia crescer,
-cresce em superficie, e trasborda todo e para toda a parte, como um
-perfume abundante; então he que sem voz pronunciou o _sempre_; que sentio
-apertar-se-lhe nas entranhas a indissolubilidade do consorcio, porque o
-amor de fantasia se fez realidade, de dezejo destino, de suspiro occulto
-gloria; a tudo tem ja direito porque ja deo tudo, não póde dezejar ser
-de outrem porque a outrem não teria tanto que dar. E he esta a grande
-differença da mulher ao homem, e do amor ao amor: o d’ella tem um abono
-e côr de eternidade, o nosso um elemento e uma côr de tempo. Podéra
-ser emblema do nosso, uma náo alterosa e possante, surta em uma bahia
-aprazivel, mercadejando e folgando com a terra, empavezando ufania
-de flammulas e galhardetes, aferrada ao fundo do mar com uma unha de
-ferro, mas podendo de uma hora para outra arranca-la ou picar a amarra,
-desfraldar as velas que sempre estão prestes, e vogar atravez de todas
-as ondas, por cima de todos os abismos, a mercadejar e folgar no extremo
-opposto do mundo: emquanto a feminil affeição, como barquinha contente e
-desambiciosa, feita para os ocios de sua enseada, coroada a pôpa ora de
-flores abertas ora de esperançosos verdes, sem deitar nenhuma ancora, não
-foge nunca d’entre aquellas margens conhecidas; por entre ellas vai e vem
-avoejando de contínuo, levando e trazendo sempre commodos e alegrias, sem
-curar que de sua barra em fóra haja outros mares, n’esses mares outras
-bahias; delicia-se na sua, onde tudo a festeja e saúda por seu nome, onde
-se entende com todos os ventos, todos os refugios conhece para o dia
-da tempestade. O amor do homem, com os sentidos satisfeitos muita vez
-se satisfaz e adormece; como o frizão dos Jogos Olímpicos, que chegado
-apoz violenta carreira a tocar na meta, surdo até ás vozes da gloria que
-esporeou, se estirava para repouzar ou para morrer. O amor da mulher,
-satisfeitos os sentidos, se restaura, resurge mais puro e extremoso,
-mais vivaz e promettedor; semelhante ás plantas, quando desfallecidas
-nos afrontamentos do verão se dessedentão com a chuva de uma nuvem que
-passsou, e viçosas reverdecem para embalsamar os ares de seu valle.
-Uma de muitas razões que para esta differença podem concorrer, he que
-n’essa hora adquirio a mulher direitos, o homem contrahio obrigações; as
-obrigações pezão, os direitos agradão, as obrigações limitão e apoucão,
-os direitos accrescentão e engrandecem. Trocarão-se os papeis na scena,
-o seguidor esquiva-se, a perseguida segue. O amor do homem he só amor,
-o amor da mulher he amor e amizade: elle, porque pertence ao mundo, á
-gloria e a tantas outras paixões, só tem meio coração, meia vontade,
-meio tempo para dar á sua companheira; esta, separada do mundo pelo
-mesmo mundo e pela natureza, por isso mesmo mais raramente accessivel a
-outras paixões, dá ao seu amigo todo o coração, toda a vontade e toda
-a vida; dar-lhe-hia se podesse mais vida, e mais coração, mas não mais
-vontade: com elle, por elle, e para elle existe, na propria ausencia o
-tem presente; e quando cessa de abraça-lo, he para se gozar de o ter
-abraçado, e cuidar como logo o abraçará de novo, e volverá a ser d’elle
-amado, fazendo-o feliz.
-
-Tal he o theor da natureza: tem excéções e numerosas. Corações ha de
-homens, que sem ser effeminados, não desdirião n’um peito feminino;
-e corações de mulheres, que talvez bem nascidos e bem fadados, mas
-torcidos depois pela educação, quebrados pela sociedade, corrutos pelos
-exemplos, merecem as satiras, demaziadamente geraes, com que os autores
-de sua degeneração todos os dias lhe poem ferrete: mas essas, mais
-infelizes do que culpadas, os desgraçados que as pintem e condenem, eu
-pinto a mulher amante, a mulher perfeita, a mulher mulher, a mulher
-como a concebi, como a conheço, como a adoro. Foi esta a que Deos fez e
-temperou de poesia e harmonia lá na origem do mundo, quando vio que não
-era bom que o homem vivesse só. Esta he a que depois de nos dar a vida,
-no-la suaviza e apura; no-la multiplica em entes novos; no-la adoça nos
-momentos derradeiros; nos ama ainda, quando ja não somos; dá seus beijos
-amorosos a uma pedra, porque do nosso nome lhe conserva uma letra; e
-consummando o seu destino de amar, felicitar, sacrificar-se, ajoelhada na
-terra, nos vizita no mundo das sombras; estreitando o seu commercio com
-os ceos que a esperão, para nós só os invoca, e depois de no-los ter dado
-em amostra no tempo á fôrça de amor, á fôrça de amor no-los grangêa na
-eternidade.
-
-Custa a crer como um ente, que he metade da nossa especie, que das duas
-he a mais amavel metade, a mais carinhosa, em tantas couzas nosso igual
-para nos attraír, mas com tantas differenças de nós para se nos unir
-ainda mais, que se tem defeitos de nós os recebe, e nos dá em troca,
-sem o cuidar, tantas das virtudes que possuimos, custa, digo, a crer
-como um talento, a quem sua propria fraqueza devêra tornar inviolavel,
-pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a ser até ao
-fim dos seculos, alvo e emprego das críticas mais desabridas, e mais
-grosseiras calúnias. Divindade extraordinaria, a quem seus proprios
-ministros e sacrificadores insultão adorando-a, e que de cima de seu
-altar, fragil mas eterno, inalteravel em sua mansidão, derrama sôbre bons
-e máos a felicidade! Que a filosofia as injuriasse não espantára. La
-Bruyere foi cruel para com ellas, Larochefoucault furioso, nenhum d’elles
-justo, nem sequer francez: a filosofia não anda sem os filosofos, e todos
-sabem como os dados a esse triste officio, são pelo demais almas seccas
-e incapazes de avaliar branduras, entendimentos sem olhos de imaginação,
-unicos proprios para julgar da verdadeira belleza; homens emfim
-eremiticos, rusticos e ignorantes no meio da sociedade; e para remate de
-suspeição, ja alongados pelo inverno da vida: da-se á filosofia o que as
-mulheres ja não querem.
-
-A poesia não tem sido menos descomedida: a poesia, que d’ellas e para
-ellas nasceo, cujas Divindades forão com razão pelos antigos fabuladas em
-fórma feminil, como as Graças, como os Genios de tudo quanto ha amavel na
-natureza, a poesia, a seu máo grado, lhes tem sido rebelde todas quantas
-vezes os poetas, por de sobejo amantes e zelosos, precizárão desabafar
-desgraças verdadeiras ou fantásticas: a lira acostumada a lhes entoar
-seraficamente não louvores senão hinos, resoou execrações, ás quaes
-respondêrão numerosos echos; porque onde o numero dos ingratos e indignos
-era grande, não podia o dos maltratados e queixosos ser pequeno: e d’ahi
-nascêrão essas civis guerras da literatura a favor e contra o sexo,
-guerras batalhadas nas salas e saráos, nos passeios em romagens, nas
-merendas das comadres e nas academias, desde o Japão até Portugal, desde
-os serões da arca diluviana até os nossos dias, em que o amor cedeo á
-política, e as questões das mulheres ás questões dos ministerios: _Factus
-est repente de cœlo sonus, tamquam advenientis spiritus vehementer_....
-Ahi vinha ja querendo-se intrometter o meu demonio meridiano: ápage!
-
-Para as grandes pelejas de que fallava, se despejárão todos os arsenaes
-da mística theologia, da methafísica, da historia sagrada e profana, das
-fabulas e anecdotas, da fisiologia e novellas. Ficou largamente juncado o
-campo de cadaveres em folio, em quarto, em outavo, em doze, em dezeseis,
-em trinta e dois, em sessenta e quatro; de pergaminho, de marroquim, de
-seda, de taboa, de papelão, de carneira, de papel: defuntos quasi todos
-sem amenta, e cujos nomes, se os houvesse de compilar, encherião maior
-livro do que este. Depois do derramamento de tantos rios de tinta, ainda
-pende a mesma questão; ainda até ao fim do mundo se tem de trazer para
-ella couzas que pareção novas; e as cinzas de Lucrecia, Dido, Phryne,
-Sapho, Aspasia, Arria, Cornelia, Osmia, Heloiza; Christina, Catharina,
-Maria Thereza; as cinzas das que habitárão cazaes, harens, palacios,
-mosteiros; as cinzas de Ninivitas, Gomorritas, Babilonicas, Espartanas,
-Atticas, Romanas, Africanas, Botecudas, Amazonas bellicosas, Indicas
-Bailladeiras, Viuvas Indostanicas, continuárão a ser revolvidas, pizadas
-e adoradas por modos sempre differentes, e quasi sempre cegamente, até
-á consummação dos seculos. A mulher fisica principia a ser conhecida, a
-mulher intellétual sê-lo-ha, a mulher moral he o infinito.
-
-A mocidade, quadra da vida em que reinão os mais encontrados ventos, em
-obras a maior vassalla e tributária do sexo, he, fallando, escrevendo,
-e talvez pensando, a sua maior detrátora. Uma conversação de mancebos,
-embora amantes, não se detem senão em rebaixar o merito das mulheres:
-nascidos os disséreis das pedras de Deucalião e criados ás tetas das
-lobas. Qual pode ser a causa d’esta mais que montezinha ferocidade?
-Será inveja á superioridade modesta? será despeito de vencidos? não;
-essas vitorias, e ainda essas superioridades em virtudes, que não são
-as distintivas do nosso sexo, facilmente se perdoão. He a causa o mesmo
-natural instinto, que faz que os soldados em tempo de guerra, seroando
-entre as armas á fogueira ociosa do seu rancho, encareção as derrotas
-do inimigo, e lhe assaquem fraquezas que não tem, para a si proprios
-accrescentarem animos e determinação para as futuras pelejas.
-
-Facil he carecer das loucuras da idade que ja não temos, ou que ainda
-não temos; blazona-se d’isso, mas não he virtude: carecer porem dos
-vicios proprios dos nossos annos seria virtude, mas tão rara he, que o
-despossui-la deve merecer vénia dos sizudos. Era eu em toda a fôrça de
-minha adolescencia, quando entre coetâneos e a seu contento, cantava em
-meus versos destinados os fracos e imperfeições de algumas mulheres,
-como fracos e imperfeições de todas ou da maior parte. Da falsidade
-que n’isso havia me corro, mas muito mais do pouco delicado tom do meu
-cantar, porque se me figura agora delito ainda muito mais grave, do
-que attribuir-lhes defeitos, o pintar-lhos inamavelmente: a graça he
-o seu primeiro mérito, injuria-las graciosamente ainda não he de todo
-injuria-las. De muita nuvem se desaffronta, e de mui grande carga respira
-um coração confessando suas culpas, mormente quando pelas confessar
-se torna a entrar absolto e regenerado na estima e benevolencia das
-dominadoras do mundo: quasi se folga, como me está succedendo, de ter
-tido a culpa, para merecer a vénia e saborear a reconciliação.
-
-Transfuga dos arraiaes dos levantados, ás trincheiras d’ellas me
-recolho, não só com as armas com que as guerriei, para as defender, mas
-com uma bandeira para chamamento e reunião de outros. Ressuscitaria,
-se podesse, para o meu novo campo todos os bem nascidos espiritos das
-idades cavalleiras e cortezes, para procurarmos salvar da ultima ruina
-o feminil imperio, que de dia para dia vai sendo entrado, talado e
-engolido da Política; fero monstro em que tão mal assenta feminino! E se
-o conseguissemos, se os moços que deixárão os affétos pelos debates, as
-sociedades pelos _clubs_, os versos e cartas apaixonadas pelos jornaes
-frios e praguentos, quizessem volver a seu natural officio de amar, de
-agradar e divertir-se, ¡como se não amaciaria esta bruteza quasi, cínica
-de nosso tempo illuminado, em que se não sabe ler! A propria Liberdade
-lucraria, porque os seus nervos e verdadeiros espiritos vitaes não são
-outros senão as virtudes e as bondades: ¿e quem como as mulheres, nos
-poderia ainda attrair da praça onde se briga, odêa e persegue, para a
-casa onde se quer bem e se folga, para a cosa onde até á ultima velhice
-nos educâmos, para a casa onde de bondades e virtudes nos dão ellas a
-todos os momentos exemplos vivos e formosissimos? _Tellus, et domus, et
-placens uxor!_ Oh se eu podesse mostrar este meu pensamento, como me
-está florejando na alma! dizer com palavras a mulher como a sei no meu
-coração!... mas feminina he a mão com que escrevo, ¿como dezenharia ella
-o seu retrato?
-
-
-
-
-_Pag. 261._
-
-FIM DA FESTA DE MAIO.
-
-
-Se o fim de qualquer obra he a sua coroa, custará a achar obra tão mal
-coroada como esta _Primavera_. Dos quatro Poemas he a _Festa de Maio_
-o ínfimo, não contribuindo pouco para isso o seu estirado comprimento:
-e da _Festa de Maio_ a ínfima parte he sem nenhuma dúvida a segunda e
-última. Boa e mui fertil era a idea primitiva, na qual, mas só na qual,
-mui casualmente me encontrára com o allemão Gerstenberg no dithirambo
-que traz titulo _Chipre_. Desenvolveo elle a sua, pôsto que em prosa,
-como poeta mui valente: derramei eu, e enfraqueci a minha em pobrissimos
-versos (era tempo que na maior parte dos dias compunha trezentos e mais)
-que bem podérão, sem detrimento de pensamentos, ser reduzidos ao terço
-do seu numero. Ja poderei parecer importuno com tanto repetir confissão
-das minhas faltas; mas antes isso, do que se diga que eu as córo ou
-tapo, ou com tantos annos ainda não caí em as conhecer cabalmente. Quem
-a este meu cortar pelas proprias roupas chamasse affétação, muito se
-enganára comigo: censuro-me, não para atalhar alhêas censuras; menos
-para provocar defezas aos que sempre folgão, quer em bem quer em mal,
-de encontrar as opiniões dos que escrevem; mas censuro-me e em todas
-minhas couzas marco seu preço, para que os agora principiantes lá ao
-deante se não queixem de mim, como eu podéra agora queixar-me de outros,
-com cujos livros me criei. Consciencia e Verdade, ainda em mesquinhas
-letras, devem de ser escrupulosamente servidas: tem uma e outra alguma
-couza de tão divinas, que por mais dolorosos sacrificios que de nós
-lhes façamos, no-los pagão com íntima satisfação. Certo he que fazendo
-o que eu faço, se corre perigo de vir a um grande dissabor, como he,
-depois de sinceramente confessados os defeitos, saírem os nescios na
-arte de criticar, e que nunca uma só linha escrevêrão, aproveitarem-se
-cobardemente de taes revelações, vozea-las como descobrimentos seus, e
-vingando-se de sua propria esterilidade, triunfar miseravelmente dos
-descuidos, sem nenhuma menção das boas partes. Ja isso por mim passou
-depois que dissertei ácerca da invenção da _Noite do Castello_. Onde tal
-se escreveo, quem o escreveo, e como o escreveo não o direi, que não
-quero em livros meus andar carreando dementes para a posteridade, se he
-que meus livros tem de la chegar, como cá chegárão alguns bem ruins dos
-tempos atraz. E a final, que valem semelhantes pregoẽs e taes pregoeiros,
-comparados com as suas duas maiores inimigas que são a verdade e a
-consciencia? podéra accrescentar a vergonha. Em meu conceito nada. Por
-tanto sigão elles por seu caminho, onde se afogão em lodo, e todos lhes
-cospem na face; e eu, que nem sequer os tenho em assaz de conta para os
-odiar, continue o dar documentos do unico merito de que me prézo, que he
-a candura. Para dar culto á Verdade e á Consciencia, não sacrificarei
-alhêas famas, que me não pertencem, mas pela minha rasgarei afoito:
-far-lhes-hei de meu sujeito intellétual, o que de seus corpos diz Fernão
-Mendes que fazião la em Tinagoogoo certos penitentes, que em procissões
-públicas se hião espedaçando ante os carros triunfaes dos seus idolos,
-e por fim se arremessavão por deante das rodas, para serem talhados e
-esmagados: _a que toda a gente_, como refere o bom perigrino, _com uma
-grande grita dezia: pachiloo a furão; que quer dizer: a minha alma com a
-tua. E decendo logo de cima do carro um sacerdote ... se chegava áquelles
-bemaventurados ou malaventurados ... e ajuntando os pedaços e as cabeças
-... os mostravão ao povo de cima do mais alto sobrado do carro onde hia
-o idolo, dezendo n’um tom muito sentido:_ “_Rogai peccadores todos a
-Deos, que vos faça dignos de serdes santos como este que agora morreo em
-sacrificio de cheiro suave._”
-
-FIM.
-
-
-
-
-MAIS PRIMAVERA.
-
-
-
-
-ADVERTENCIA.
-
-
-Os trez seguintes Artigos vem, _mutatis mutandis_, trasladados da _Guarda
-Avançada_, Jornal campeão da CARTA e da RAINHA, como todos os d’esse
-tempo, sem excétuar um unico; Jornal exagerado, e muitas vezes injusto
-sem querer, como o serão sempre os redigidos por almas novas e ardentes,
-sinceras e poeticas, inexpertas e temerarias, que presumem que uma
-revolução póde realizar os filantrópicos sonhos de um solitario; Jornal
-emfim de que eu fui collaborador, quando vivia para a política, ainda que
-não da política, e do qual perante minha consciencia me recordo com pezar
-mas sem peijo, porque talvez fez males e grandes males, não aspirando
-senão ao bem. Tanto he verdade, que só a moderação he capaz de dar frutos
-abençoados! Relêa-se o meu Prologo do _Tributo Portuguez_. Aqui não quero
-accrescentar mais nada sobre materias, sim importantissimas, mas que eu
-ja dou todas por um malmequerzinho dos campos. — Sáem pois os Artigos
-substancialmente os mesmos. Pena será, se passado agora tanto tempo
-depois de escritos, os que por la estão espectadores das couzas públicas
-os acharem muito mais applicaveis aos presentes dias; e ainda maior
-lástima, se para o deante não vierem a perder boa parte de sua verdade.
-
-Remato com o louvor, que no Prologo deixei promettido, de meu mestre e
-amigo o Snr. Antonio Ribeiro dos Santos: fragmento copiado do _Num. 2_ do
-_Jornal dos Amigos das Letras_. Se a alguem parecer que não cáe este sob
-o titulo de _Primavera_, paciencia; recebão-no como Nota, agazalhem-no
-como filho de gratidão. Para mim recende elle muita primavera de
-puericia, e de um jardim das Musas.
-
-
-
-
-MARÇO
-
-(PRINCÍPIO DA PRIMAVERA)
-
-
-Eis aqui os primeiros dias da graciosa estação. Das flores lhe chamárão
-os poetas; melhor podérão chamar-lhe flor do anno. A terra, como viuva
-ainda verde que se enfeita para novas bodas, a terra pelo sol repassada
-de amorosa quentura, vendo-o volver a afaga-la, depois de lhe haver por
-tanto tempo fugido, arrêa-se de todas suas galas, esperançosa sorrí por
-entre a sua grinalda florída, embebe-se em perfumes, acerca-se de musicas
-voluptuosas, e suspira brandamente dentro nos arvoredos recem vestidos,
-nos valles alcatifados, pelas margens dos rios outra vez serenos. Com
-razão foi a Primavera consagrada dos antigos ás Musas e Graças: com razão
-se escolhião as suas vésperas para o Pontifice Maximo accender o novo
-fogo, que devia durar todo o anno: com razão os pais de nossa lingua
-derão a esta parte do anno um nome feminino, e os pintores apparencias
-de formosa moça; emquanto Estio, Outono e Inverno pela aspereza, pela
-fôrça, pela gravidade, pertencião a outro sexo. Cada fonte se aliza em
-um espelho; cada pedra se veste em assento aveludado; cada haste nua se
-desaperta n’um ramalhete: tornão-se os bosques outras tantas republicas
-populosas, cujos cidadãos, livres como as virações, voão, cantão,
-brincão, acaricião-se, desposão-se, educão a sua prole bafejada do ceo,
-e parecem não respirar senão o prazer da independencia, da ternura e da
-melodia. A natureza revoca á vida innumeraveis especies de animaes de que
-o Inverno só continha o germen; ás outras infunde, como aos passaros,
-um contentamento, uma ligeireza, uma attráção, que o Inverno lhes havia
-roubado ou amortecido. Do ceo chove fecundidade sôbre tudo que he vivo;
-e tudo o que he vivo sáe trajado de festa, e por toda a parte encontra
-mesa que Deos lhe assoalha, carregada de sua abundancia com luxo,
-magnificencia e formusura.
-
-A humana especie não podia em tão geral favor ser esquecida, antes foi
-o seu quinhão de todos o mais largo. O amor, que para nós não tem uma
-estação exclusiva, n’esta entretanto se nos desenvolve com recrescida
-atividade: he porque o proprio ar, empregnado de elementos vitaes, nos
-está coando aos peitos uma extraordinaria energia: he porque tudo em
-de redor exemplos são que nos cativão: he porque o alvoroço e festa do
-universo convidão o coração a gozar: he porque ao florir da rosa dos
-jardins, muita e muita rosa esmorecida se reanima nas faces da belleza:
-he porque a voz da mulher então sáe, não sei como, ainda mais doce; e
-tanto ellas mesmas sem o saber o sentem, que em toda a parte em que as
-horas e circunstancias do seu canto não andão assentadas nas tarifas da
-moda, insensivelmente se achão a cantar, e este novo attrátivo parece
-n’ellas uma necessidade, como he nas aves da primavera. Dir-se-hia que
-a natureza nos manda as flores nos dias em que o amor nos instiga a
-offerecê-las.
-
-Mas os feitiços da Primavera não se limitão nos da recreação e amor.
-Um medico vos dirá que he ella a estação da saude; um sabio a do vigor
-mental; um navegante a do princípio de confiança nos seus mares: o
-artífice a saúda como a que abre a porta a longos dias; o pastor como a
-mãi da abundancia; o agrícola vê as esperanças do anno desparzidas por
-suas terras, por suas vinhas, por seus pomares. Ah! só os homens das
-cidades, tristemente condenados á fadiga e ao luxo, quasi não encontrão a
-primavera no seu anno! Para esses reduz-se a mais algumas horas de luz,
-e a uma pouca mais serenidade em um ceo sem horizontes. Se ao menos se
-podesse esta serenidade reflétir nas nossas almas!... mas os redemoinhos
-das novidades, os raios das intrigas ambiciosas, o frio do desalento
-e carregadas nuvens ao longe esterilizão tudo, e se uma ou outra flor
-de esperança nos desabrocha a medo, lá está logo a reflexão, filha do
-conhecimento dos homens, que a faz com um sôpro desapparecer. O anno dos
-nossos destinos teve um inverno bem longo e rigoroso: n’elle sulcámos
-a terra para semear liberdade e ventura, adubámo-la com o nosso sangue
-e corpos de nossos irmãos, regámo-la com o nosso suor e lágrimas; e
-agora que nós e nossos filhos esperavamos ao menos a florescencia que
-nos augurasse frutos para o futuro, a Deos approuve de outro modo, e uma
-torrente de iniquidades, que não quer parar, continúa a assolar a terra
-de nossos avós.
-
-
-
-
-ABRIL
-
-
-Este mez, assim chamado por abrir o seio da terra á fecundidade;
-consagrado desde a infancia de Roma á Deoza da formosura, á Mãi das
-Graças, Amores, e Jogos, he o primeiro que ouza, por debaixo ainda das
-últimas nuvens chuvosas do inverno, sair e folgar com seu manto verde, e
-bordado de flores. O dia da sua entrada era para os nossos antepassados
-uma festa popular, menos estrepitosa que o Carnaval, de que parecia
-imitação, mas tambem mais innocente e serena. Ignoro se esse costume
-o herdárão elles de nações mais antigas, com quanto dos Romanos o não
-houvessem, de quem tantos outros lhes vierão. Tão pouco me recordo de
-haver lido alguma origem historica aos brinquedos rituaes do primeiro de
-Abril; mas sabido he que elles existírão em nossa terra, e inda hoje se
-lhes conservão os restos, mormente pelas Provincias. O dinheiro pregado
-nas ruas, as cartas, e prezentes de lôgro, a pedra que chamavão das
-agulhas, a fôrca de Judas, e outras quejandas bagatelas para rir, estão
-entretendo n’esta hora bastantes dos nossos aldeões do norte.
-
-As lembranças velhas tem para mim muito grande saudade, e doçura; doe-me
-o coração quando vejo ir-se perdendo estas seculares tradições que a
-ninguem fazião mal, ainda que nascidas em berço de superstição, e que
-de bom tinhão o transportar-nos a tempos sabidos, e remotos, ou a tempos
-mais remotos ainda, e ignorados. E que he o que as apaga, e fica em seu
-lugar? odios, pobreza, e desgraças. Oh! aonde estará um poeta amigo dos
-serões e da innocencia, que se apresse em nos escrever os Fastos do
-nosso bom Portugal? No meio da confusão desconsolada do presente, nós
-beijariamos essa obra como santa reliquia em terra de infieis: veriamos
-um iris vão mas brilhante, entre nuvens de tormenta. Para excitar
-algum bom engenho a no-lo dar, he que eu coméço, e continuarei sempre
-a recordar nos seus dias proprios as nossas antiguãlhas: o que farei
-com muita avidez, porque d’aqui a alguns annos, o investiga-las será
-ja tarde. Assim os pintores Italianos se deleitão copiando os restos
-amortecidos das pinturas a fresco que sobre-vivem ao grande Imperio,
-e os antiquarios trasladão avidamente os enrolados livros das cidades
-soterradas, antes que de todo se desfação em pó.
-
-
-
-
-MAIO.
-
-
-He a apparição d’este mez uma festa da natureza, em que sempre os homens
-se alegrárão: quizeramos poder tributar-lhe algumas flores pelas tantas
-que nos elle concede. Não teçamos o seu encomio d’aquillo que sendo
-sensivel a todos não carece de ser descrito. Zéfiros e rosas, rolas e
-rouxinoes, abelhas e borboletas, a terra toda verde, o ceo todo azul, as
-noites começando a fugir como envergonhadas de esconder as alegrias da
-natureza, objétos são que ainda que desde a origem do mundo se apresentem
-sempre novos, já se tornárão lugares communs nas descrições da poesia.
-Voltemo-nos para as recordações; embalemos e adormeçamos com ellas por
-um pouco o espirito martirisado dos absurdos e crueldades d’estes máos
-tempos, em que ja se não crião fabulas risonhas e innocentes, coloridas
-pela imaginação, animadas pelo amor.
-
-Forão os homens antigos os que idolatras da concordia, para melhor a
-insinuarem á terra, collocárão nos astros a sua imagem brilhante, e ao
-signo de Maio chamarão o signo dos Gémeos. Elles forão os que sensiveis
-aos encantos das Artes, consagrarão este mez a um Deos, que vivificando
-a natureza pela luz e calor, presidia com a Lira na mão aos prestigiosos
-artificios que a embellezão. Almas petrificadas ha ahi, para quem estas
-saudades do mundo antigo são frivolas, comparadas com um artigo de
-gazeta; para nós he delicioso andar mergulhando pelo oceano dos seculos,
-e não voltar a assentar-nos na nossa Ilhota escabrosa e esteril, senão
-carregados dos coraes, das pérolas, das riquezas formosissimas, que se cá
-não produzem. O fundador de Roma dedicou aos mancebos (_Juvenes_) o mez
-de Junho; era essa a idade que lhe fazia ganhar vitorias, mas ja primeiro
-havia consagrado o Maio aos velhos (_Majores_), porque feroz como era,
-Romulo experimentava o afféto que nos attráe para com o antigo. Passemos
-por alto Festas misteriosas da Deoza Bona, celebradas pelas Romanas no
-primeiro de Maio, em todo o segredo dos Penates e sem testemunha de
-varão; visitas das Vestaes ao Pontifice Maximo e principaes Magistrados
-da Republica; contemplemos a expiação dos Lémures, pois que usos nossos
-me parecem ter d’ahi recebido origem.
-
-Á meia noite levantava-se o pai de familias, hia-se descalço, calado, e
-chêo de terror santo, á fonte, dando por todo o caminho amiudados estalos
-com os dedos para afugentar os genios máos. Lavava trez vezes as mãos,
-e tornando-se para casa, vinha atirando uma a uma, por cima da cabeça e
-para traz de si, favas negras, de que trazia chêa a boca, e articulando
-taes palavras—_com estas favas me resgato a mim e aos meus_:—o que por
-nove vezes repetia, sem olhar para traz, para não espantar o espétro
-que vinha apanhando as favas negras. Tomava agua por uma ou duas vezes,
-batia n’um vaso de bronze, e para conjurar a sombra a lhe largar a casa,
-por nove vezes repetia—_Sahi, ó manes paternos_.—Eis provavelmente
-d’onde provierão estes sustos vagos que ainda se dão a sentir aos homens
-rusticos no princípio de Maio; este uso de se repartirem e comerem
-castanhas seccas para evitar que o Maio se apodere de nós. A imaginação
-do bom povo perdeo de vista essas larvas, mas o medo que ellas produzírão
-lhe ficou: he uma especie de moeda, que safada como está de passar de
-mãos em mãos, ainda conserva a sua valia.
-
-Outros costumes de Maio tem o nosso Portugal, a que folgáramos que
-alguem escavasse e descobrisse a raiz, sendo certo que na historia a
-devem ter. O Maio pequenino, que seguido de todas as crianças do bairro,
-corre enfeitado de flores, as ruas da cidade, ao som de um cantar antigo
-e uniforme; aquellas mimosas Maias tão arraiadas e donosas, que á orla
-dos caminhos se encontrão comprimentando os passageiros; aquell’outro
-estilo, ja talvez hoje passado, de se deitarem n’um mesmo leito um casal
-de creanças innocentes, para se lhes cantar em roda um como epithalamio,
-ou trova de suas bodas; os descantes amorosos dados com a viola n’esta
-occasião pelos aldeões ás suas escolhidas; não provirá tudo isto de
-alguma ja perdida lembrança de cultos da Deoza Maia? E a usança de
-ornar com flores Maias as portas e interior das casas, não será reflexo
-distante dos festejos Romanos á Deoza Bona?
-
-A religião, que para si tomou ornato de tantas joias ao Paganismo, não
-se desdenhou tambem de perfilhar este mez. Em muitas freguezias, pelas
-nossas provincias do norte, o bom Parocho vai benzer no princípio de Maio
-a bandeja de rosas que entre os devotos se distribuem e se commungão,
-porque esta flor abençoada traz felicidade.—Vem depois aquellas tão
-esperançosas, tão cantadas e tão sabidas Ladainhas de Maio.—Hoje os
-camponezes de França vão plantar o seu Maio á porta das pessoas honradas
-da sua freguezia: os Inglezes renovão de certo modo as antigas _Vigilias
-de Venus_: os Gregos, como se os seus poetas d’outro tempo os inspirassem
-ainda, e a era das Elegias tornasse a reviver, vão descantar amores e
-pendurar grinaldas aos umbraes das suas inclinações: e os moradores de
-Roma, segundo nos foi dito por quem lá foi a essa terra de saudades,
-ainda agora se reunem na fonte de Egeria a respirar as delicias da
-natureza, debaixo d’aquelle ceo de tanto amor, que não a pensar em Numa e
-na grandeza antiga dos Romanos, de que a elles só veio em herança a terra
-coberta de muitas ruinas.
-
-¿Para que servem todas estas memorias, nos estão perguntando os
-insaciaveis de Politica? e nós não lhes sabemos responder senão que
-a nós estes pensamentos nos fazem muito bem, e que aos amigos de
-passatempos innocentes se não ha de prohibir o que a ninguem faz mal.
-Deixai-nos ser algum dia do anno semi-pagãos. São as superstições da
-Politica ambiciosa as que empecem á felicidade, mas estes graciosos
-prejuisos de nossos pais a nenhuma couza do mundo danão. E de mais,
-se havemos de dizer toda a verdade, a fé, que a estes pobres erros
-acompanha, costuma trazer comsigo muita piedade religiosa, e n’ella
-alguma doçura moral, que nem sempre vai por onde vai a desenganada
-Filosofia. Ditoso d’aquelle engenho que podesse trazer outra vez ao
-mundo a innocencia que nos lá ficou no paiz das fabulas! mas interromper
-um sonho de poesia quando se julga que a felicidade vem apoz os nossos
-passos, voltarmo-nos, como Orfeo, para a abraçar, e vermo-la fugir e
-desapparecer n’um ai, e um mundo de realidades dolorosas estender-se
-immenso deante de nós, oh! isto he muito triste!
-
-
-
-
-_ÁCERCA DA PESSOA DO Sr. Antonio Ribeiro dos Santos._
-
-
-Pôsto que o escrever de Varão tão conhecido dentro e fóra d’este
-Reino, qual foi o Sr. Antonio Ribeiro dos Santos, já possa a muitos
-parecer escusado, o deixar de o fazer, mais que seja por alto, nem
-a opportunidade da occasião mo consente, nem menos mo consentiria o
-gôsto, que sempre do refrescar essas memorias me resulta; por quanto na
-primavera de minha vida, e primeira manhã de minha poesia, foi que a boa
-de minha fortuna me deu conhecer este Nestor de nossa Literatura, que
-já então, ao cabo da sua longa e proveitosa carreira, ornado de muitos
-méritos de sciencias e virtudes, respeitado e apontado de longe, pouzava
-sereno e magestoso, aguardando pela sua hora, á beira da eternidade.
-
-Que fosse nascido nas terras do Douro, d’onde lhe prouve tomar nome
-de Elpino Duriense; que fizesse com bons mestres seus estudos; que se
-tornasse, lendo na Universidade de Coimbra, um de seus mais lustrosos
-luminares; que na Igreja e no Estado occupasse mui subidos empregos; que
-fosse o amigo e centro de quantos bons engenhos em seu tempo florecerão,
-não faltará quem o escreva entre seus outros muitos louvores. Tão
-pouco me deterei dispartindo entre a Jurisprudencia, a Historia, as
-Antiguidades, a Literatura, e a Poesia o opulentissimo cathalogo de suas
-Obras, cuja maxima, e por ventura optima parte, ainda até agora não viu
-a luz. Não hão de ser mãos tão debeis como as minhas as que revolvão
-tamanhos trofeos, nem em tão pequeno espaço como este coubéra retratar
-completo Homem que abrangeu duas idades, bem fazendo-lhes mutuamente a
-uma pela outra; anticipando em meio do seculo passado o gôsto, o apuro,
-a filosofia d’este nosso; transplantando para o presente o estudo, a
-boa fé, o saber do passado; e legando ao futuro thesouros que andou
-desencantando das antiguidades remotissimas. Menos arremessados são meus
-dezejos, e mais seguros, que só quero levar meus leitores a com este bom
-velho encetarem conhecimento.
-
-Corre a primavera do anno de 1814 ou 15, que eu certo o não sei. A
-morada de Elpino, que em um dos mais desafrontados altos de Lisboa está
-formosamente situada, longe do bolicio, como bem cabia á sua indole
-pacifica e genio estudioso, he um templo de Musas, religiosamente vedado
-aos olhos e vozes de profanos, isto he dos máos e ignorantes, unicos
-de todos os entes para quem sua porta e animo não erão hospedeiros.
-Por aquellas salas, gravemente ataviadas á laia dos nossos antigos, de
-sedas e arrazes, alcatifas, tremós, espaldares e soberbos quadros dos
-mais perigrinos pintores, reina o silencio, e uma lembrança dos antigos
-e abundosos tempos de nossos avós, que tanto conforma com os nobres e
-portuguezes pensamentos de suas poesias, as quaes se raras vezes voão
-sublimes, nunca, nem por sombras, desmentem da boa moral e sã filosofia.
-Aqui o bom Elpino nos recebe cordialmente, a meus irmãos e a mim; os
-filhos do seu amigo são seus amigos, os estudiosos das Musas portuguezas
-e romanas são os seus amores. O ancião, que ainda entre sabios podéra
-ser ouvido como oraculo, remoça-se conversando com meninos, apouca-se
-para que o melhor comprehendão, orna-lhes a moral e o estudo com quantas
-flores sabe; do centro da gloria lhes ensina por onde se abre o caminho
-que para lá conduz; e pelo grande espirito e persuasão com que falla,
-talvez consegue crear algumas vehementes vocações literarias. Outras
-vezes nos convida para a bibliotheca, suas delicias, e nos acompanha
-com a alegria na boca. Os seus olhos, como que ao fim de tanto lêr ja
-quizessem descançar para sempre, não lhe alumião o caminho; e semilhante
-áquelle grande Bardo Ossian, a quem velho e cego, piedosa conduzia a
-moça Malvina para os logares usados de sua inspiração, no hombro de uma
-menina, sua afilhada e leitora, segurava o bom de Elpino uma das mãos,
-emquanto com a outra arrimada a um bordão, palpava o caminho, e se
-ajudava em seu quebrado andar.
-
-Era a bibliotheca o íntimo retiro d’este ermitão do Parnaso, fugida para
-longe das casas, pôsto que tão quietas, e frescamente assentada em meio
-de muitas sombras, verduras e aromas de seu jardim, hortas e pomares.
-Grandissima cópia de livros, longamente procurados e custosamente juntos,
-e entre os quaes se estremavão no numero e riqueza os Gregos, os Romanos,
-e os antigos Portuguezes, alí estavão juntos, entre o susurro estudioso
-das ramas e os cantares descuidosos dos passaros. Um Apollo de marmore
-com a sua lira em punho, parecia estar-se mui bem cabido e contente no
-meio d’aquelle seu alcaçar, cercado de tantos seus cultores, servido por
-tão venerando Sacerdote. Lembranças são estas que trago colhidas de minha
-infancia, e que transplanto para aqui, por não querer que se percão.
-
-Áquelle Homem, n’aquellas tardes, e debaixo d’aquelle této, devo a grande
-veneração que ainda hoje consagro aos meus livros latinos, não poucos
-dos quaes mos deu elle proprio; e tocados de suas mãos poeticas, me
-inspirão ainda agora poesia e virtude, até cerrados, e n’elles confio que
-me hajão de servir de pranchas, com que n’este pélago de freneticas e
-descompostas innovações, me não deixe, como tantos que mais valião do que
-eu, totalmente sossobrar. Nos seus ouvidos indulgentes lançava não só as
-primicias dos meus versos, mas ainda as traças e esperanças de obras que
-borbulhavão de uma seiba virgem de quatorze annos. Escutava elle tudo com
-desvellada benevolencia, umas vezes apontando-me melhores caminhos ou
-mais faceis, outras desviando-me de commettimentos maiores que meus annos
-e forças; agora revelando-me regras, logo insinuando-mas com exemplos,
-com que sempre fiel e muito a ponto lhe acudia a memoria. Não he verdade
-que ha em tudo isto um não sei que, por onde o que o pratíca não póde
-menos ser de um grande homem? Oxalá meus esforços melhor houvessem
-respondido a suas diligencias, ou me não houvesse elle desamparado no
-começo da carreira, para a qual apenas me aparelhou! Sim, porque embora
-me hajão a vaidade, a gratidão péde que eu publique, foi este Pontifice
-das Musas que me iniciou no seu culto, e no seu paternal enthusiasmo
-me disse—Tu serás poeta.—Scena digna de um pincel eloquente: um ancião
-coroado de louros, e cego como Homero, sagrando ao culto da mais bella
-das Artes, um menino cego como elle!
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] Alguma vez publicarei o que acerca d’isto disputamos por Cartas,
-de Lisboa para Coimbra, o Padre José Agostinho de Macedo e eu. Negava
-aquelle escriptor, de incontrastavel talento, que a Poesia Allemã e
-Suissa mais fosse do que a nossa rica em graças naturaes, e amena
-frescura, antes affirmava que a nossa a excedia grandemente. Ou não
-escrevia elle deveras, ou se convenceo do erro, como será de ver das
-Cartas, quando ellas aparecerem. O motivo porque até hoje as tenho dos
-publicos olhos resguardadas, outro não foi senão recêo de que se me
-attribuisse a vãgloria a publicação de uma disputa em que tamanho sujeito
-me cedeo, principalmente sendo notorio que o favor que em seus escritos
-deu ás minhas primeiras tentativas poeticas e infantis, jamais o denegou
-com o andar do tempo, antes o reforçou com mui graciosos louvores.
-
-[2] Conceder-lha-heis, se ja não tiverdes determinado emprega-la em outro
-uso, ou fundar nesse sitio alguma caza de Commissão que nada faça, ou
-algum quartel de guarda que legisle sobre os destinos publicos.
-
-[3] O Livro _Le mie Prigione_, quanto á utilidade prática leva, me
-parece, a palma á _Imitação_ de Kempis. Em Kempis apparece a descrição
-da caridade e piedade, em Silvio a applicação d’ellas aos successos da
-vida. Kempis aconselha, Silvio ensina a perdoar, a amar, e a ser feliz,
-em despeito da fortuna: dá o exemplo d’isso, he elle proprio o exemplo.
-
-[4] Quem bem reparar na justiça rigorosa (de cruel a taxaráõ alguns)
-com que eu proprio trato a minha Musa, perdoar-me-ha quando por amor ás
-nossas letras, aponto um defeito em meu mestre e amigo o Snr. Antonio
-Ribeiro dos Santos. Inda assim, porque me não fique remordendo a
-consciencia, como expiação, e mui suave, porei no fim do volume um penhor
-do meu respeito e grato animo a tão grande varão; capitulo ja impresso no
-_Jornal dos Amigos das Letras_, mas por isso mesmo apenas conhecido.
-
-[5] Meu irmão Augusto Frederico de Castilho.
-
-[6] Meu irmão Adriano Ernesto de Castilho.
-
-[7] As Senhoras Mellos, a quem pertence a Lapa e a Quinta das Canas.
-
-[8] Na _Primavera_ de meu Irmão Augusto Frederico de Castilho ha um lugar
-parallelo, não quanto á expressão, mas quanto ao pensamento principal.
-Releva porem que em duas couzas se advirta: a uma, que nenhum de nós
-foi plagiario, nem o podiamos ser, porque todos compunhamos em segredo;
-a outra, que o passo do poema, em que elle descreve Nize a figurar de
-Primavera, leva grande vantagem de valia a estes versos!
-
-[9] Augusto Frederico de Castilho.
-
-[10] O meu amigo Jose Vitorino Freire Cardozo da Fonseca (_Etmiro_) tinha
-começado em uma sua quinta na Beira um jardim, tal como o descrevo aos
-seguintes versos, e que pretendia consagrar á minha memoria. Mal haja
-aquelle, a quem semelhante penhor de amizade não enternece!
-
-[11] Veja-se a Quarta Edição do Diccionario chamado de Moraes.
-
-[12] Lamartine no Prologo de _Jocelyn_
-
-[13] Em Maio se poem o ponto aos Estudos da Universidade, que eu
-n’aquelles tempos cursava. Só os que por ahi tem passado, podem entender
-o alvoroço com que he recebido.
-
-[14] Antigo nome da Serra de Estrella d’onde nasce o Mondego.
-
-[15] Por esta occazião me importa fazer um annuncio ao Publico. Ei-lo:
-declaro que se esse Jornal inexperadamente acabou, não foi minha a culpa,
-assim como de nenhum dos sócios, mas somente dos acontecimentos, assim
-publicos como privados da Sociedade: com elle nunca tive outras algumas
-relações senão as onerosas e de trabalho, que eu tomava comtudo com muito
-gôsto. Todos os sócios o sabem, mas interessa-me que o saiba toda a
-gente, para me salvar de quaesquer desasizadas reclamações.
-
-[16] Em podendo ser, publicarei um volume de poesias, que lá compuz
-acerca d’aquella bemaventurada solidão, onde annos vivi ignorado e
-contente, na residencia de meu Irmão Augusto Frederico.
-
-[17] Tudo isto, que eu julgava para sempre meu, passou! Aprouve a Deos
-mostrar-me só de relance a felicidade! Pouco mais de dois annos a
-illustre e digna sobrinha de Nicolau Tolentino de Almeida, a Senhora
-D. Maria Izabel de Baenna Coimbra Portugal, se sacrificou toda a
-felicitar-me: o Pai de todo o amor e de toda a virtude a chamou logo
-para o seu seio: era aquelle um Anjo que faltava no ceo. Esta Nota ao
-poema, vai como se achava feita quando ella ja me não escrevia, senão
-a espaços, mas ainda se comprazia de me ouvir dictar. Quando o seu fim
-era ja inevitavel, todos o sabião e talvez ella mesma, e eu contava
-ainda com largos annos de fortuna. O mesmo advirto quanto ás mais Notas
-e accrescentamentos d’este Livro, que tudo estava pronto (faltando só
-algumas poucas notas que não fiz nem ja farei) antes do fatal dia um
-de Fevereiro passado: dois se imprimio erradamente no Post Scriptum do
-Prologo. Se outrem não tivesse conservado essa data, e me não advertisse
-da inexatidão em que mal informado caí, ainda agora a podéra eu ignorar:
-esse dia, as vesperas e os seguintes não tiverão para mim nenhuma ráia
-nem de luz, nem do sôno, nem de alguma outra das couzas que estremão os
-dias.—_12 de Maio de 1837._
-
-
-
-
-INDEX.
-
-
- Pag.
-
- Ante-Prologo 5
-
- Prologo 25
-
- _Post-Scriptum_ 47
-
- Epistola á Primavera 49
-
- Dedicatoria a minha Irmã 51
-
- Duas Palavras de Introdução 53
-
- Epistola 57
-
- O Dia da Primavera Poemetto 75
-
- Dedicatoria a minha Mãi 77
-
- Historia da Festa da Primavera 79
-
- O Dia da Primavera Canto I
- _A Manhã_ 95
-
- O Dia da Primavera Canto II
- _A Tarde_ 111
-
- Notas ao Poemetto antecedente 131
-
- Nota 1.ª (_Elmano e Filinto—versificação
- esdruxola e aguda_ &c.) 131
-
- Nota 2.ª de Augusto Frederico de Castilho 162
-
- Os Cantos de Abril Idillio 167
-
- Dedicatoria a meu Pai 169
-
- Advertencia 171
-
- Os Cantos de Abril 173
-
- Nota ao Idillio (_Excerpto de alguns
- versos da primeira Edição do Idillio,
- rejeitados n’esta segunda_) 186
-
- A Festa de Maio Poemetto 189
-
- Dedicatoria ás Senhoras da Lapa dos
- Esteios 191
-
- Historia da Festa de Maio 193
-
- A Festa de Maio Canto I 199
-
- —— Canto II 225
-
- Notas á Festa de Maio 263
-
- Nota 1.ª (_Com a tradução para latim
- dos amores de Galatea no Cant. 1 da
- Festa de Maio_) 263
-
- Nota 2.ª (_Piedade para com os animaes—alimento
- animal_ &c.) 269
-
- Nota 3.ª (_Em desaggravo das mulheres_) 291
-
- Nota 4.ª (_Sôbre o 2.º Canto da Festa
- de Maio_) 305
-
- Mais Primavera 309
-
- Advertencia 311
-
- Março (_Princípio da Primavera_) 313
-
- Abril 317
-
- Maio 319
-
- Ácerca da Pessoa do Sr. Antonio Ribeiro
- dos Santos 324
-
-FIM
-
-
-
-
-Lista de Assignantes.
-
-
- S. M. F. A RAINHA D. MARIA II.
- S. M. I. A DUQUEZA DE BRAGANÇA.
- S. A. R. O PRINCIPE D. FERNANDO AUGUSTO.
-
- A. A. A. Moreira.
- Ab. M.ᵃ J. Paiva Manso.
- Abrahão Weelhause.
- A. Carneiro.
- Achilles de Pereira.
- A. Eustaquio da Silva.
- Ag.ᵗᵒ de Castro da Gama Lobo.
- —— José Pereira.
- —— Roïz da F. Soares.
- A. J. R. Leitão.
- Albino F. de Figueiredo.
- Conselh.ᵒ Alexandre Alb. de Serpa Pinto. _4 Ex._
- Alexandre Lahmeyer.
- D. Alvaro.
- Amaro Coutinho Pereira.
- Anacleto José da Silva.
- André Joaquim Ramalho.
- —— Perez.
- A. Neves de Sequeira.
- Angelo Augusto Martins.
- D. Anna C. Guimarães.
- —— Ifig. do Valle de S. e Menezes.
- —— Lucinda Mont.ʳᵒ
- —— Ludovina.
- —— Margar.ᵈᵃ Fructuoso de Ar.ᵒ
- —— Victoria da Rocha Torres.
- Anonimo. _2 Exempl._
- Anselmo J.ᵉ Braamcamp.
- Ant.ᵒ Adolfo Ferr.ᵃ Sarmento. _15 Exempl._
- —— Adriano da Mata P.ᵗᵃ
- —— Ag.ᵒ Per.ᵃ Lacerda.
- —— Alves Souto.
- —— Aluisio Jervis d’Atouguia.
- —— Augusto Gonsalves.
- —— B. de Brito e Cunha.
- —— Cardoso e Silva.
- —— C. da Costa e Sousa.
- —— Coelho Bragante.
- —— da Costa Paiva. 130 _Exempl._
- —— Dias d’Azevedo.
- —— —— Monteiro.
- —— —— Rodão.
- —— Diniz Couto Valente
- —— Ezequiel d’Aguiar.
- —— F. Mag.ᵃᵉˢ Coutᵒ
- —— F. Mendonça Arraes.
- —— Frz. Alves Fortuna.
- —— Florencio Reixa.
- —— Fr. Alv. Guimarães.
- —— Freire Castello Br.ᶜᵒ
- —— de Freitas.
- —— Gaud. S.ᵃ Monteiro.
- —— G. Barreto de Pina.
- —— Gomes Lima.
- —— Glz. d’Alm.ᵈᵃ Rino.
- —— Gueifão Bello Per.ᵃ
- —— Guilherme da Costa.
- —— Henriques Doria.
- —— Jacinto Santarem.
- —— Joaquim de Abreu.
- —— Cons.ᵒ Antᵒ Joaq.ᵐ da Costa Carv.ᵒ 6 _Ex._
- —— Joaq.ᵐ Reis Junior.
- —— —— da Silva.
- —— —— Teix.ᵃ S.ᵃ
- —— J. d’Oliveira Lima.
- —— José d’Avila.
- —— J.ᵉ Bot.ᵒ da Cunha.
- —— —— Ferr.ᵃ de Sousa.
- —— —— Glz. Basto.
- —— —— —— Duarte.
- —— —— de Oliveira.
- —— J.ᵉ de Oliveira e S.ᵃ
- —— —— R. Guim.ᵃᵉˢ 3 _Ex._
- —— —— de Sá Camello.
- —— —— da S.ᵃ Milheiros.
- —— —— de Sousa Martins.
- —— —— Teixeira Leal.
- —— —— de Vasc.ᵒˢ 20 _Ex._
- —— Leite Pereira Lobo.
- —— Lopes de C. Alm.ᵈᵃ
- —— Lour. Coelho. 5 Ex.
- —— Luiz Nogᵃ e Freitas.
- —— M.ᵉˡ R. Abranches.
- —— —— Vargas.
- —— M.ᵃ d’Almeida e S.ᵃ
- —— —— de Campos.
- —— —— Ferreira.
- —— —— L. M. Queiroz.
- —— —— Machado.
- —— —— Thovar Lemos.
- —— Martins dos Santos.
- —— de Mello Breyner.
- —— N. Roïz. Cancella.
- —— Nunes dos Reis.
- —— Pedro de Carvalho.
- —— P. X. O. B. Leite.
- —— Pereira de Faria.
- —— Porfirio de Freitas.
- —— Ramos Azev.ᵒ Maia.
- —— Rib. Azev.ᵒ Bastos.
- —— Ribeiro de Faria.
- —— Sald.ᵃ R. Albuq.ᵉ
- —— Samp. X. Casqueiro.
- —— dos Santos Monteiro.
- —— de Sá Per.ᵃ Samp.
- —— da Silva Bastos.
- —— da Silva Leitão.
- —— S.ᵃ Monteiro. 2 _Ex._
- —— Sotero Sz.ᵃ Falcão.
- —— Thomaz Aquino S.ᵃ
- —— Vicente de Sousa.
- —— Vieira de Carvalho.
- A. P. Ardisson.
- A. P. B. de Saldanha.
- A. R. Sealy.
- Assemblea Lisbonense.
- —— Portuense.
- Associação Civilisadora.
- Augusto.
- —— Frederico Ferr.ᵃ
- Dr. Augusto Lavit. 2 _Ex._
- Augusto Maria Dermott.
- —— Victor Sabbo.
- Aureliano J.ᵉ de Moraes.
- Ayres Sá Nogueira. 3 _Ex._
- —— da Silva Coelho.
-
- Balthesar Lopes do Calheiros e Menezes.
- Bandeira—Ex-Governador do Castello. 4 _Ex._
- Barão d’Argamaça.
- —— de Ruivoz.
- Barnabé F. Paula Ataide.
- Bartholomeu dos Martires.
- Bento Alão.
- —— de Almeida.
- —— G. Brito Taborda.
- —— Guilherme Klingleofer. 3 _Exempl._
- —— J.ᵉ Teixeira Penna.
- —— de Moura Portugal.
- —— Pereira.
- Bernardino J.ᵉ dos Santos.
- Bernardo José de Miranda.
- Busch.
-
- Dr. Cabral Teix.ᵃ Moraes.
- Caet.ᵒ Alberto Orlandi.
- —— J.ᵉ Alves d’Araujo.
- —— José M.ᵃ de Sena.
- —— Xavier Diniz.
- C. Almeida.
- Camillo da Silva Ferraz.
- Candido José Roïz Vieira.
- Cap.ᵃᵒ Engenheiro Carv.ᵒ
- Carlos Augusto Poppe.
- —— Gould. 5 _Exempl._
- —— de Sá.
- —— Vieira da Silva.
- Carneiro.
- Castro Almeida.
- C. F. Altavilla.
- Christovão M.ᵃ dos Santos.
- Cipriano A. Rib. Freire.
- Cipriano Dom. Vianna.
- C. Lagrange.
- D. Clara Clorinda Lopes Pereira de Vasconcellos.
- Clem.ᵉ A. O. M. Alm.ᵈᵃ
- —— Augusto Bolonha.
- D. Clementina Adelaide da Silva Monteiro.
- C. Massa.
- C. M. Caula.
- Conde da Cunha.
- —— de Lumiares.
- —— de Mello. 6 _Ex._
- —— de Villa Real.
- Condeça de Belmonte D. Jeronima.
- —— de Mello. 2 _Ex._
- —— de Villa Real.
- Cosme José Dias. 10 _Ex._
-
- Daniel Cesar S.ᵃ Ferraz.
- —— Sotero Caio dos S.ᵗᵒˢ
- D. A. R. Varella.
- David Ubaldo S.ᵃ Leitão.
- Diogo Ant.ᵒ de Sequeira.
- —— Aug. C. Constancio.
- —— P. Mtr.ᵒ Bandeira.
- Domingo Garcia Peres.
- Domingos Fr. Santos Lim.
- —— Monteiro de Albuquerque e Amaral.
- —— Ribeiro de Faria.
- —— —— dos S.ᵗᵒˢ
- Duque da Terceira.
- Duqueza da Terceira.
-
- C.ᵉˡ E. C. C. F. Furtado.
- Eduardo Frederico Lour.ᵒ
- Emilia C. de Figueiredo.
- D. Emilia Martinini.
- Epifanio Fr. de Miranda.
- Ernesto Adolfo de Freitas.
- —— M. V. Montenegro.
- —— José Ferreira.
-
- D. Faustina M.ᵃ das Dominações Simões.
- F. C. de M.
- Feliciano Alm.ᵈᵃ Vidal.
- Fernando Affonso Giraldes de Mello e Sampaio.
- Fernando Theod. Arnaut.
- F. L. Bettencourt.
- Figueiredo. 13 _Exempl._
- Filippe Folque.
- Fortunato José Barreiros.
- —— —— N. M. e Mello.
- D. Francisca de Noronha.
- Fran.ᶜᵒ Abrantes.
- —— Adrião Pereira.
- —— Affonso da Costa Chaves e Mello. 12 _Ex._
- —— Alves Souto.
- —— —— Alm.ᵈᵃ Reixa.
- —— Ant.ᵒ de Pinho.
- —— —— Cerqueira S.ᵃ
- —— —— F. S.ᵃ Ferrão.
- —— —— dos Santos.
- —— de Assis Almeida.
- —— —— —— Alm.ᵈᵃ C.ᵗᵉ Real.
- P. Francisco d’Assis Biga.
- Fran.ᶜᵒ Brito P. Almeida.
- —— Candido Mend.ᵃ
- —— de Castro Freire.
- —— C. Judice Samora.
- —— da Conc.ᵃᵒ Soares.
- —— Dias Brandão.
- —— Eduardo Andrade.
- —— Fabião de Mend.ᶜᵃ
- —— Gaspar Lahmeyer.
- —— Gomes Loureiro.
- —— Joaq.ᵐ da Cunha Travassos Cast.ᵒ Branco.
- —— —— da Fonseca.
- —— —— dos Santos.
- —— J.ᵉ de Freitas.
- —— J.ᵉ de Sousa Nunes.
- —— —— Tavares Junior.
- —— Luiz de Sousa.
- —— da Mãi dos Homens Annes de Carvalho.
- —— M.ᵉˡ C. Pimenta.
- —— —— de Negreiros.
- —— M. Silvr.ᵃ Menezes.
- —— —— de S.ˢᵃ Brandão.
- —— —— de Maris Coelho.
- —— M. Walsh. 4 _Ex._
- —— Nunes da Silva.
- —— Paula Costa Feio.
- —— —— Seg. Lemos.
- —— —— S.ˢᵃ V. Boas.
- —— —— V. Campos.
- —— —— Zuzarte.
- —— P. Taboada Junior.
- —— P.ᵗᵒ de Magalhães.
- —— Raim. d’Andrade.
- —— da Silva Falcão.
- —— Vieira S. Barradas.
- Frederico Aug.ᵗᵒ Martha.
- Fructuoso Dias Mendes.
- —— —— de Paiva Card.ᵒ
- F. Z. Fer.ᵃ d’Ar.ᵒ 5 _Ex._
-
- Dr. G. Centazzi.
- Gabriel Fran.ᶜᵒ Ribeiro.
- —— Lopes de Lima.
- G. A. Pereira de Sousa.
- Gaspar dos Reis e Sousa.
- —— Schindler.
- D. Genoveva Victoria da Rocha Farinho.
- D. Gervasia Joaquina de Sousa Falcão.
- Greg.ᵒ Mag.ᵃᵉˢ Collaço.
- Guilherme Ignacio Basto.
-
- H. D. Wems.
- Henriq. J. Passos Chaves.
- Hermano Estanisláo Orlandi.
- H. Hodgson. 10 _Exempl._
- H. J. Moser.
- H. O. Maya. 2 _Exempl._
- Honorio Ces. Mendonça.
-
- Ignacio Cabral Arez da Silveira Barros.
- Vice Almirante Ignacio da Costa Quintella.
- —— José de Sá.
- —— P. Qt.ᵃ Emaus.
- D. Ignez Raim. Prado.
- D. Ildefonso Olheiro.
- Isidoro H. C. Semmedo.
- Izidro Costa.
-
- Jacinto de Freitas Oliv.ʳᵃ
- —— José de Mattos.
- —— José de Sá Lima.
- —— de Sousa Falcão.
- —— —— —— —— 2 _Exempl._
- Jacomo Pereira de Carv.ᵒ
- J. Bento Pereira.
- J. B. Massa.
- J. B. S. L. de Almeida Garrett.
- J. C. Bastos.
- Jeronimo José da Silva.
- —— Perᵃ Vasconc.ᵒˢ
- —— —— da S.ᵃ Cardoso.
- J. F. Danin.
- J. F. Passos.
- J. F. R. S. de Azevedo.
- J. F. Thomaz.
- J. G. Toussaint.
- J. J. A. Redondo.
- J. J. da C. J.
- J. J. Loureiro.
- J. J. Manitti.
- J. M. Chaves.
- J. M. F. Dias.
- J. M. S. Freire.
- João A. de S.ˢᵃ Queiroga.
- —— A. Lobo de Moira.
- —— Anastacio Simões.
- —— Antonio Biga Nunes.
- —— —— Colasso da S.ᵃ 2 _Exempl._
- —— —— Marques.
- —— —— Pereira.
- —— Bap.ᵗᵃ da Costa.
- —— —— da Cunha Fer.ᵃ
- —— —— e Mafaos.
- —— —— Sabo Junior.
- P.ᵉ João Baptista da S.ᵃ
- João Bpt.ᵃ S.ᵃ Malafaia.
- —— Bento da Costa.
- —— Bonifacio Guimarães.
- D. João da Camara.
- João Coelho de Gibraltar.
- —— —— da Silva.
- —— Dias X. do Loureiro.
- —— Ferr.ᵃ Azev.ᵈᵒ Junior.
- —— —— Camp. 10 _Ex._
- —— —— dos S.ᵗᵒˢ S.ᵃ J.
- P. João Franc.ᵒ B. Lança.
- João Gomes Roldão.
- —— —— dos Santos.
- Dr. João Gonç. Miranda.
- Dr. João Gonç. M. Robalo.
- João Guilherme Caldeira.
- —— Ignacio Curvo.
- —— Januario V. Rezende.
- —— José da Assumpção.
- —— —— Ferr.ᵃ de Sousa.
- —— —— Freitas Aragão.
- —— —— Machado Ferr.ᵃ
- —— Lameira M. V. Lobos.
- —— Lourenço Ferr.ᵃ Braga. 4 _Exempl._
- —— Luiz de Sousa Falcão.
- —— —— Talone.
- —— Manoel de Aral.
- P.ᵉ João Maria Cardeira.
- João Maria Feijó.
- D. João Martins Falcão.
- João da Matta e Silva.
- —— Mend. A. Barbarino.
- —— Neves Gomes Eliseu.
- —— Nogueira Gandra.
- —— Nunes da Silva.
- —— Pedro Coelho.
- —— —— Heitor Alcant.ᵃ
- —— —— Nol. Cunha.
- —— Per.ᵃ Queiroz Basto. 20 _Exempl._
- —— Silva Fonseca.
- —— Procopio Tavares.
- —— Saecadura Botte Corte Real. 2 _Exempl._
- —— da Silva Falcão.
- D. João Silva Pessanha.
- João da Silva Serrão.
- —— de Sousa Falcão.
- —— Vic.ᵗᵉ P.ᵗᵉˡ Mald.ᵈᵒ
- —— de V.ˡᵃ N.ᵛᵃ de Vasc.ˡᵒˢ Correia de Barros.
- Joaq.ᵐ Xavier da Maia.
- —— Ant.ᵒ Aguiar. 5 _Ex._
- —— —— Barbosa Torres.
- —— —— da Costa.
- —— —— da Fonseca.
- —— —— Tenreiro.
- —— —— Vidal da Gama.
- —— Augusto Burlamaqui Marecos.
- —— Barreto de Castilho.
- —— Corrêa Moreira.
- —— Felix Moreira 6 _Ex._
- —— Francisco Danim.
- —— G.ᵐᵉˢ V.ʳᵃ Gaio.
- —— José Bernardes.
- —— —— Costa Macedo.
- —— —— Costa Portugal.
- —— —— da Cunha.
- —— —— Dias Lopes de Vasconcellos. 3 _Exemp._
- —— —— Figueira.
- —— —— Gião.
- —— —— Lobo.
- —— —— Marques Cald.ᵃ
- —— Julio da S.ᵛᵃ Ferraz.
- Cons.ʳᵒ Joaq. Larcher.
- Joaq. Lucio Arbues M.ʳᵃ
- —— das Neves Franco.
- —— Pedro Abreu Lima.
- —— Romão Lob.ᵗᵒ Pires.
- —— da Silva Cordeiro.
- —— da Silva Machado.
- —— Torquato Alvares Ribeiro. _6 Exemp._
- —— Victor S.ᵃ Gosmão.
- —— Urbano de Sampaio.
- D. Joaq.ⁿᵃ Carlota Fons.ᶜᵃ
- Jorge Oom.
- José Anastasio Pereira.
- —— Antonio de Almeida.
- —— —— de Castro.
- —— —— Cob.ʳᵒ d’Azevedo Gentil.
- —— —— Mello Ar.ʲᵒ
- —— —— da Silveira.
- —— —— Soares M.ᵈᵉˢ
- —— d’Ar.ʲᵒ Coutinho V.ⁿᵃ
- —— —— Machado.
- —— Aug.ᵗᵒ Correa Leal.
- —— Bernardino Frazão.
- —— de Brito.
- —— Caetano Rebello.
- —— Candido Alz. Torres Barata Araujo e Lima.
- —— Carlos Cerveira Val.ᵗᵉ
- —— —— da Costa P.ʳᵃ
- —— —— Guimarães.
- B.ᵉˡ José Cesar da Silveira.
- José C. M.
- —— do Coração de Jesus.
- —— Crispim da Cunha.
- —— Ricardo P.ʳᵃ Cabral.
- —— Roïz. da S.ᵃ Vianna.
- —— dos Santos Nazareth.
- —— Servulo Costa e S.ᵃˢ
- —— Silverio da Fonseca.
- —— Silvestre de Andrade.
- —— Sousa Falcão Senior.
- —— —— —— Junior.
- —— Tello Mag.ᵃᵉˢ Collaço.
- —— Vaz Araujo Veiga.
- José Victorino Freire da Fonseca Cardoso.
- —— —— Zuzarte Coelho da Silveira.
- Jovencio Pedroso Oliv.ʳᵃ
- J. Paulo da Silva.
- J. P. N. X. de L. Brito.
- J. P. R. G.
- J. R. Blanco.
- J. R. Manco.
- J. R. Pinto.
-
- K. Pinto.
-
- L. A. M. Brandão.
- L. J. de Gouvea.
- Leandro Capistrano d’Almeida Figueiredo.
- Lourenço de Almeida.
- —— Justiniano Lima.
- —— M. Telles Mattos.
- L. T. H. de Brederode.
- Luciano S. Carv.ᵒ para si e seus amigos 40 _Ex._
- Luiza Mathey.
- Luiz A. Bello Reis Junior.
- —— Antonio de Freitas.
- —— B. Ribeiro Vianna.
- —— Caet.ᵒ Guerra Santos.
- —— C. Alm.ᵈᵃ Botelho.
- —— da Costa Pereira.
- —— —— —— Pinto.
- —— Joaquim de Sampaio.
- —— José da Silva.
- D. Luiz M.ᵃ da Camara.
- Luiz de Mello Breyner.
- —— —— —— Corrêa.
- —— Miguel d’Azevedo.
- —— O. da Costa.
-
- M.ᵉˡ Alves do Rio Junior.
- —— Antonio Rodrigues.
- —— —— Vianna.
- —— Bento Rodrigues.
- D. Manoel da Camara.
- M.ᵉˡ de Castro Pereira.
- —— —— —— e Silva.
- —— Coelho Bragante.
- —— Felix Oliv. Pinheiro.
- —— Ferreira Borges.
- —— Francisco Dias.
- —— —— —— das Neves.
- —— Gonçalves Pombo.
- —— I. Cunha Menezes.
- —— I. Moreira Freire.
- —— Joaq.ᵐ Cardoso Castello Branco. 2 _Ex._
- —— —— Fortes.
- —— —— Freire.
- —— —— Moreira.
- —— —— Pereira Silva.
- —— —— Santiago.
- —— José Cordeiro Galão.
- —— —— Esteves Campos.
- —— —— da Motta.
- —— Maria da Rocha.
- D. M.ᵉˡ M. Sousa Falcão.
- M.ᵉˡ Per.ᵃ Lima Tavares.
- —— Ramos.
- —— Roïz Costa Salgado.
- —— dos Santos.
- —— Thomaz S.ˢᵃ Menezes.
- —— de Vasconcellos.
- —— Urbano.
- Marcellino Ant.ᵒ Moraes.
- D. M.ᵃ B. C. Vilella.
- —— —— C. S.ˢᵃ Falcão.
- —— —— Carlota Vidal Gama Lobo.
- —— —— Carmo Guimarães.
- —— —— C. Guimarães.
- —— —— Clara Braamcamp.
- —— —— F. Paes de Mattos.
- —— —— H. Sousa Falcão.
- —— —— José Ozorio.
- —— —— J. Sanches Brito.
- —— —— Luiza d’Albuquerque. 2 _Exempl._
- —— —— Magdalena Sousa.
- —— —— Manoel Vidal da Gama Lobo.
- —— —— M. Silva Falcão.
- —— —— R. Sousa Falcão Ferreri.
- —— —— Vicencia de Mello.
- —— —— Xavier Falcão.
- D. Margarida Silva Machado Figueiredo.
- D. Marianna C. Ribeiro.
- —— —— G. Pereira de Beça.
- —— —— Noronha.
- —— —— da Silva Machado Figueiredo.
- Marquez de Fronteira.
- —— de Saldanha.
- M. F. da Costa.
- Miguel Ferreira da Costa.
- —— Fran.ᶜᵒ Saldanha.
- —— João Coelho.
- —— Joaquim Pires.
- —— J.ᵉ Okeeffe. 2 _Ex._
- —— M.ᵃ Gomes de Andrade e Leiros.
- M. J. M. Dantas. 2 _Ex._
- M. T. H. de Brederode.
-
- N. H. Klingelhoufer. 3 _Exempl._
- D. Nicasio Canete y Moral.
- Nicoláo Maria Nobre.
- Nicoláo C. P.ᵗᵒ Queiros.
- —— S. James.
- Nuno José Gonçalves.
-
- Pedro A. N. Domingues.
- D. Pedro Cunha Menezes.
- Pedro Jacome de Calheiros e Menezes.
- —— José de Oliveira.
- —— M.ᵃ Costa Almeida.
- —— Paulo Ferr.ᵃ Sousa.
- —— —— Vasconcellos.
- —— P.ᵗᵒ Moraes Sarm.ᵗᵒ
- Bacharel Pedro dos Santos Freire.
- Pedro da Silva Ferraz.
- —— de Sousa Cardoso.
- P. G. Toussaint.
- P. M. Lagan. 4 _Exempl._
- Prior da Magdalena.
- —— de Marv.ᵃ de Sant.ᵉᵐ
- —— do Milagre de Sant.ᵉᵐ
-
- Quintino Teixeira Carv.ᵒ
- D. Quiteria da Silva Machado Figueiredo.
-
- Rafael Antonio de Brito Pimenta d’Almeida.
- —— Archanjo de Carv.ᵒ
- Reis e Irmão.
- Roberto Wanzeller.
- Rodrigo de Azevedo Sousa da Camara.
- —— José Dias Lopes de Vasconcellos.
- —— Limpo Rav.ᶜᵒ Pereira de Lacerda.
- Rosa Coelho de Gibraltar.
- D. Rosa Dioguina Lopes Pereira de Vasconcellos.
-
- Sebastião André Xavier.
- —— Casqueiro Vieira Gago.
- —— de Gargamala.
- —— J. Villaça Gama.
- —— Xavier Botelho.
- Servulo M.ᵃ de Carvalho.
- S. J. de Gouvea.
- Silencio Christão Barros.
- Simplicio Moura Mach.ᵈᵒ
-
- Tertuliano Turibio Lobato Pinto Ferreira.
- D. Ther.ᵃ Hedeviges Leite de Moraes Castilho.
- —— —— Maria Botelho.
- —— —— Miquelina Alves de Sousa.
- —— —— Theodora da Soledade Martins.
- —— —— Xavier Botelho.
- Thomaz Aq.ᵒ S.ˢᵃ 2 _Ex._
- —— Pinto Saavedra.
- —— Rufino Monteiro.
- Thomé A. Frnz. Roxo.
- Torcato Francisco Carn.ʳᵒ
-
- D. Vasco Guterre Cunha.
- Vicente Altavilla.
- —— Pires da Gama.
- D. Vic.ᵗᵉ Segur. Menezes.
- Victorino José Gomes.
- —— Manoel de Oliveira Mascarenhas.
- Visconde do Porto Covo. 2 _Exempl._
- Vital Jorge Maia Canhão.
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