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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: A Primavera - -Author: Antonio Feliciano de Castilho - -Release Date: April 07, 2021 [eBook #65021] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the Online - Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This - book was produced from scanned images of public domain - material from the Google Books project.) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRIMAVERA *** - - - - - -OBRAS - -DE - -Antonio Feliciano de Castilho - - -_Constando-me ter havido quem reimprimisse em França, sem licença minha, -dois volumes de minhas Obras, e sendo isto sobre iniquidade, manifesto -roubo, declaro que perseguirei em juizo com acção de furto, em quanto a -nossa Lei sobre imprensa não estabelecer outra propria para taes casos, -a quem quer que, sem minha expressa licença, reimprimir esta ou outra -qualquer Obra minha, ou impressas fóra as introduzir e vender neste -reino._ - - _A. F. de Castilho._ - - - - - A PRIMAVERA - - POR - - _Antonio Feliciano de Castilho_, - - _Bacharel Formado em Direito, Socio da Academia - das Sciencias de Lisboa, da Sociedade - Juridica e da dos Amigos das Letras da - mesma Cidade, da Sociedade Literaria Portuense, - do Instituto Historico de Paris, da - Academia Real das Sciencias e Bellas Letras - de Roão._ - - _Mais correcta, emendada, e copiosissimamente accrescentada._ - - Lisboa. - NA TYPOGRAFIA DE A.I.S DE BULHÕES. - _Rua do Soccorro de Cima N.º 39. 1.º andar._ - 1837. - - - - - _Stet quicumque volet potens_ - _Aulœ culmine lubrico:_ - _Me dulcis saturet quies;_ - _Obscuro positus loco_ - _Leni perfruar otio;_ - _Nullis nota Quiritibus_ - _Ætas per tacitum flua_ - _Sic cum transierint mei_ - _Nullo cum strepitu dies,_ - _Plebeius moriar senex._ - _Illi mors gravis incubat,_ - _Qui notus nimis omnibus,_ - _Ignotus moritur sibi._ - - _Sen. Thyest. Act. 11._ - - - - -ANTE-PROLOGO. - - -Bem será para alguns motivo de maravilha, e de riso para muitos, a -declaração por onde me agrada começar este Ante Prologo; e he, que o -estou principiando, e querendo Deos o levarei ao cabo, antes de conhecer -a Obra para que vai feito. Quatorze annos, e não poucos d’elles bem -estirados, são hoje discorridos depois de impressa, e por tanto segundo -meu costume aposentada e esquecida, a minha _Primavera_. N’estes quatorze -annos, começados a contar aos vinte e dois da minha vida, não só se -encerrou, e desvaneceo aquella melhor, mais florída e derramada parte -d’ella, que tanto discrimina, e afasta o periodo seguinte do anterior, -senão que ahi se desatou tão desfeito temporal de successos estranhos, -de terrores e calamidades publicas; tantas certezas saírão vãs, -realisarão-se tantos impossiveis; por tal arte se transtornou e renovou -ora em bem ora em mal a face do nosso Portugal; tão fracas e tenues -reliquias de um passado, que ainda nós os moços alcançámos, subsistem -já agora quer nas pessoas, quer nas cousas e costumes, e emfim por tudo -isto nos petreficámos, e envelhecemos em tanta maneira, que por mim digo, -n’estes quatorze annos me parece ter a Fortuna desbaratado cabedal de -seculos, e o Tempo uma larga idade do mundo. Tantos e taes annos que da -minha Obra me separão, não custará muito a crer ma tenhão tornado ao cabo -tão alhea, como se d’ella só mui por longe me houvera susurrado uma leve -noticia. Esta idea confusa, mas suave e suavissima como apagado retrato -de antigos amores, como lua de estio contemplada em fundo de ermo, ou -como vista de remotas velas ao coração do que alem-mar definha desterrado -entre asperezas, esta idea toda mansa, toda rosada, toda primavera, mais -temo perdê-la do que todas as minhas outras illusões, se por ventura já -hoje alguma tenho. Talvez receie, e se receio talvez me não falte rasão, -que ao reler estes Poemettos, nem ache n’elles as côres que os longes -me figuravão, nem os gostos com que os hia não compondo, mas para assim -dizer colhendo e enramalhetando pelas varzeas e valles do Mondego: tanta -foi a metamorphose que de mim fizerão os livros, as couzas, e a idade! -Como que tenho uma dolorosa certeza de que me acontecerá com isto o que -ja me succedeo visitando, depois de espaçosissima ausencia, as cazas -onde a minha primeira infancia fôra brincada, amada e perdida: tudo -achei mesquinho, solitario e quasi mudo, tudo me dizia muita saudade -e nenhum prazer; cada pedra tinha sua historia, mas todas me clamavão -outros tantos desenganos. Grande differença esta entre as nossas -proprias antigalhas e as do mundo! as do mundo pelo seu mesmo misterio -nos deleitão, são a primeira pagina de um romanse para a imaginação; -as nossas pela sua certeza nos contristão, e são a pagina ultima de uma -historia que assaz nos corria formosissima. - -Apraz-me por tanto boiar ainda por algumas horas ao de cima d’estas -fantasias, e antes de se me apagarem, se já he que isso tem de ser, -alegrar com o seu reflexo estas paginas, que mal poderáõ ser muitas: -sempre he cedo para lançar pelas janellas fóra os brinquedos de nossa -puericia; e mal haja quem o faz sem que todo o coração se lhe aperte -dentro no peito. - -Por isto que digo, entenderáõ meus leitores o porque, exhausta logo -no primeiro anno a primeira impressão da _Primavera_, tantos se tem -devolvido sem que jamais me deliberasse a reimprimi-la. Pelos fins de -todos os invernos e começos da melhor estação, me era ella de todos -meus livreiros requerida; por mais de uma vez me senti abalado, mas a -lembrança do meu desencantamento me era sempre esquiva, e repugnava-me, -como uma certa simonia, o arriscar-me a por alguns cruzados malbaratar -uma dilicia do sanctuario de meu animo. N’esta parte não me entenderáõ -todos, mas os meus intimos confirmarião com juramento o que digo. -Agora porem que até a minha pobre bibliotheca já se ahi vai rareando -e desfazendo vendida, e me importa pôr entre mim e a terra do meu -nascimento muita outra terra de permeio, e Deos sabe para quanto tempo, -obedeço aos desejos de muitos dos que ainda lem, ao conselho dos amigos, -e á lei da necessidade. Reverei para a impressão, e perderei para mim -este livro de saudades, livro que só fechado eu poderia ler como me -convinha. E por quanto, depois de sua leitura talvez me desamparasse -a vontade de aventurar algumas reflexões sobre este genero de poemas, -fa-las-hei antes, e já aqui; deixando para o Prologo as que ácerca da -Obra me forem por ella mesma suggeridas. - -A Poesia campesina, ou segundo vulgarmente lhe dão nome, pastoril, com -ser de todas a mais antiga, nunca em nenhuma parte se perdeo, dado em -muitas decaisse não raro do seu credito e lustre; e segundo todas as -mostras, deitará ainda até ao fim das idades literarias. Sempre moça -como a terra sua mãi, mansa como os arroios seus irmãos, formosa como -as flores que lhe guarnecem o chapeo de palha, livre e leve como os -zefiros pela assomada dos montes, alegre, namorada e innocente como as -aves na madrugada do anno, he de ver qual se vai sozinha e vivissima por -entre tantas couzas mais fortes que morrem; com o seu cajado de pastora, -segura entre tantos inimigos; girando todo o orbe, e por todo elle bem -vinda; vingando e vencendo todos os seculos; dando a alguns d’elles de -mais amoravel indole a sua propria fórma; e relevando-lhe, ainda os mais -ferozes e guerreiros, que lhes ella misture com a sua frauta do serão os -himnos da guerra, lhes entreteça maliciosa violetas com os louros, e os -campos que elles a ferro e fogo devastarão os repovoe ella de imaginadas -verdura, flores e felicidade. - -Hum curioso reparo poderáõ ter feito os que os fazem no ler poetas, e -he, que apenas haverá algum dos chamados Epicos, para quem o campo e sua -vivenda não fosse deleitoso assumpto. Compraz-se Homero de travar com -as façanhas dos heroes toques e pinturas do viver natural e primitivo; -Virgilio, que ja primeiro que se abalançasse ás armas e guerras tinha -cantado os pastores, e doutrinado os lavradores, particularmente se -recreia quando no meio das batalhas pode a uns e outros mandar algumas -saudades; nos dois Orlandos e em todos os livros de cavallaria, vai igual -mistura; o mesmo na Jerusalem, cujo autor havia escrito o Amintas: e -d’entre os nossos, para por todos citar um, mas um que por todos valha, -Camoẽs, não só afamou os Portuguezes sujeitadores de elementos e homens, -mas todo se deleita em conversar os pegureiros e campos da nossa graciosa -Lusitania, terra cujos filhos, se me não engano, são por indole dotados -destes dois extremos, de brandura e de valor, de amor ao obscuro rusticar -e ao glorioso correr de aventuras e perigos: por onde entendo que para -muito mais do que são os fizera Deos, assim como fizera para muito mais -do que he o grandioso torrãozinho que habitão. - -Disse engenho subtil, e bons juizos crêrão, que o desejo, ancia e -esperança de bem que todos temos innatamente, era claro argumento de -uma vida futura, ja que nesta se nos não deparava contentamento: assim -tambem dissera eu, que este natural e universal gosto á poesia amena he -um indicio de que, se jamais o homem foi homem e ditoso, la nos campos -o foi; que as plantas d’onde nos brotão sustento e recreação, exhalão -secretamente amor para os seus vizinhos, e que pelos saudosos valles -das idades patriarchaes, em quanto os bosques não caírão para em sua -vez se levantarem as muralhas, as bençãos do ceo orvalhavão muito mais -amiude. Alguma couza farão para aqui palavras do meu Florian, que porque -d’elle são as verterei de muito boa mente—“Oh se nós podessemos ler em -seu original texto os bons autores d’essa Allemanha, enlevar-nos-hia a -tanta singeleza, a tanta doçura por onde de todas as outras se estremão -suas obras! Em conhecer a natureza, e especialmente a natureza campezina, -levão-nos elles uma infinita vantagem: amão-na mais deveras, retratão-na -com tintas mais fieis. Todos nossos poemas pastoris nada tem que ver com -as meras traducções de Gessner. Ninguem jamais fecha a Morte de Abel, -os Idyllios ou Daphnis, sem ja se sentir mais soffrido, mais terno, -mais mavioso, e porque tudo diga, mais virtuoso que antes da lição. -Não respira senão moral pura e facil, e virtude d’aquella que logo -vem trazendo bemaventuranças. Fosse eu parocho de aldea, que sempre á -estação da missa havia de ler e reler Gessner aos meus fregueses: e por -certissimo tenho que todos meus aldeões se farião probos, todas minhas -parochianas castas, e ninguem me havia de ao sermão adormecer.”— - -Isto dizia de Gessner Florian, digno de o louvar pelo mui bem que o sabia -comprehender e seguir. Isto não escrevia eu nem o dizia, mas amplamente -o sentia n’esse bom tempo que ja la vai. Gessner não era para mim um -nome, senão um individuo presente, um suavissimo contubernal; nem ja -suas obras me erão livros, mas realidade, vida e mundo.—Sei que se -não leva a bem o muito fallar um individuo de si proprio, mormente em -publico, e mormente ainda quando esse individuo he tão mesquinho sujeito -como eu: mas de que outra couza posso eu escrever? dos outros? não os -conheço; erudito, não o sou; descubrimentos não os fiz, nem ja agora os -farei: fólgo de espraiar conversa com os meus patricios, na falta de -melhor assunto, fallo-lhes de mim e de meus gostos.—O mais selecto de -todos elles era pois Gessner, no qual e na escolha de Poesias Allemãs -por Huber, andou por alguns annos cifrada toda minha leitura, porque -de quantos autores patrios meus conhecidos havião escrito e poetado de -couzas rusticas, nenhum havia que ou por sobejidão de engenho e argucia, -ou por mal cabida escuridade, ou pelo trivial do pensamento e dicção, ou -pelo desageitado do metro, ou pelo urbano artificio do que lhes parecia -singeleza, ou emfim por um não sei que de mais ou de menos, lhe não -lançasse lodo e arêa no jardim que bem ao meio da alma me havia sido por -Gessner plantado.[1] Muito aproveitei em tão boa escola: como poeta não, -que bem o sabem meus leitores; como homem sim, que disso tive mui cabal e -experimentada certeza. Minhas nativas propensões beneficas se arraigarão; -minha interior aspereza, que todos de si a tem, se amolleceo; sentia-me -palpitar no peito um coração da idade de ouro; esvoaçava-me na cabeça -uma alma inteira de Arcade; compunha todo o meu economico futuro de uma -choupana, um pomarinho, e pombas mui brancas e cordeiros mui nedios; em -summa, se Florian fosse meu parocho, propor-mehia nas suas homilias como -um santo da sua bemaventurança. Assim, e por esse tempo, foi a minha -_Primavera_ improvisada, e como ella as _Flores_ e as _Quatro Partes do -Dia_, Poemas que brevemente sairáõ estampados, e inteirão com o presente -volume o fragil monumentinho dos annos, em que fui tal, qual desejava -permanecer toda a vida. - -Passe ainda adeante a sinceridade: com vergonha não só minha, mas do -tempo em que vivo, confesso que d’essa ingenua bondade, pela qual eu -mesmo a mim me comprazia, o de mais (como espirito que era subtilissimo) -se evaporou; parte se azedou no vaso com as más sementes de odio que -de fóra lhe lançavão; o resto se recozeo e estragou ao fogo das civis -dissensões: procuro-me e não me acho, ou se me acho não me amo. Ainda a -minha antiga choupana, os cordeiros nedios e as pombas alvissimas se me -fazem lembrados por uma noite de estio, mas riem menos, e não me acenão -senão fracamente. Tanto vi e vejo de alhêas maldades, tanto tem procurado -os entes mais abjetos e vis amargurar-me, que nem quasi na virtude -acredito, nem na possibilidade de ser feliz: e este estado, se não he -de todos o mais antipoetico, se na escola romantica pode até lograr os -foros do _bello ideal_ e ultimo sublime, pelo menos he o mais avêsso á -filosofia e mansidão Gessnerica. Oh quando poderáõ os dois monstros, em -cujas garras inexpertamente caí, quando poderáõ Politica e Romantismo -dar-me um longe, uma sombra dos interiores commodos que me lá ficarão com -a poesia natural e singela? E igual pergunta dolorosa poderia fazer o -mundo, a ter um coração e uma voz. Ja quanto á Politica me calo, que esse -voto fiz eu; mas quando será que o Romantismo exclusivo e tiranno qual -se presenta, se gabe de perfumar entendimentos para o amor, de reclinar -o amor como filho nos braços da virtude, e de transformar o templo da -virtude em caza do contentamento? Quando será que outro homem, da laia e -costumes dos nossos velhos, possa dizer na sinceridade da sua alma:—“Se -eu fosse parocho, leria Byron ou Schiller á estação da missa, para tornar -castas e probas as minhas ovelhas”? Mas todas estas reflexões de nado -valem: a torrente vai funda e rapida, ninguem, e muito menos eu lhe poria -dique. E até (que tão pouco dou pela minha filosofia) talvez que tudo o -que por ahi vai, que certamente: parece bem triste e bem máo, seja bem -necessario ao concerto e melhoria do mundo. Não digo eu o que as couzas -são, sim o que se me ellas figurão: não as sentencêo sem appellação; na -minha primeira instancia as julgo, e o que moralmente me parecem isso -assento com afoita liberdade. Perde ou ganha a humana especie em cada -vez mais se apartar por obra, por palavra, e por pensamento, do rural e -simples theor de seu primitivo ser? por minha experiencia affirmaria que -perde, mas os sabios que o decidão, e a mim seja-me licito pôr duvidas. - -Não me intrometterei com o que vai por outros reinos; esse uso de -qualquer contrabandista literario de nunca chegar ás couzas patrias sem -primeiro haver tocado nas de França e Inglaterra, não me quadra a mim, -que ao menos tenho a sufficiente consciencia e pejo para não citar o que -mal conheço: em Portugal me limito. Somos nós mais felizes ou melhores -que nossos avós? Certo que não; e tanto, que se esses bons e honrados -velhos podessem ter adivinhado quaes seriamos nós, nós herdeiros de -seus nomes, escarnecedores de seus exemplos, e deshonradores de seus -castos e amigaveis costumes; nós que ao seu velho fallar e escrever de -_deveres_, substituimos o nosso novo fallar e escrever de _direitos_, e -á moda de ter palavra, a moda de ter palavras, ter-se-hião horrorisado -como de abominação, do pensamento de gerar. Acordai do sepulchro um -d’esses anciãos, que depois de pagar inteira a divida a pai e mãi, -viveo todo para a mulher, matou-se pelos filhos, guardou a palavra como -religião, a religião como necessidade, e cada paschoa de flores, bem -com Deos, contentissimo comsigo, se ufanava de sentar ao melhor lugar -de sua mesa o parocho, e todos os seus vizinhos de envolta com seus -filhos. Mostrai-lhe todos os nossos progressos, que em sós algumas -vantagens materiaes e corporaes se resumem: alardeai-lhe o que esperamos, -mas não lhe escondaes o que destruimos: lede-lhe a primeira pagina do -primeiro Jornal que topardes d’esse mesmo dia, raza de impudencia, -empapada com fel, estillando lagrimas, revendo sangue, suando calumnias -e desavergonhamentos, respirando e soprando odios de nação contra nação, -de cidade contra cidade, de familia contra familia, de irmão contra -irmão, de povos contra reis, de reis contra povos, e dos homens contra -a Providencia. Supponde que Deos lhe offerece renovação da vida, e -offerecei-lhe vós todas as blazonadissimas excellencias do nosso viver -e do nosso esperar: repellir-vos-ha com aquelle braço que antigamente -defendia e não apunhalava a Patria; tapará com o resto da mortalha o -rosto que só depois de cadaver córa pela primeira vez; e cerrando rijo os -olhos contra a luz, e deixando-se recair pezadamente, de vós não pedirá -mais do que um favor, o de lhe restituirdes a sua lagea.[2] - -Emquanto assim vai o presente avesso do preterito pelo que toca á moral -e á felicidade, fallo da verdadeira felicidade, d’aquella em que a -moral entra como elemento, e não da fizica e corporal, da de fazenda -e honras, como hoje se entende; vejamos a que ponto subirão com o -_movimento_ e _progresso_ as nossas letras. Entrai as typografias, e -dizei-me porque assim amotinão com o seu noturno e diurno lavor a -vizinhança? perguntei-lhes porque assim gemem e se afadigão? em quaes -livros nos estão preparando mananciaes de doutrina, ou de costumes, ou -de suave, honesto e ja tão precizo desenfadamento? Dissereis que nossos -laboriosos maiores as deixarão esfalfadas com os copiosos frutos de -suas lucubrações: o mais com que se atrevem, são ridiculos farrapos de -bestiaes torpezas. Seguem-se os mezes aos mezes e os annos aos annos, -sem outras literarias novidades. Terra he que ja deo optimas searas e -vinhas abundosas; agora descultivada e baldia, e á lei da natureza bruta, -desata toda sua força e substancia em cardos, em ortigas, em venenos -e serpentes. Quantos livros, e quantos bons livros, que nós outros -nem conhecemos nem ja valemos a sopesar, saíão dos nossos prelos, nos -tempos em que a probidade, e a mansidão, e a concordia tinhão seu preço. -Um só reinado, e ainda bem chegado a nós, e de rei que por bom se não -cita, com tanta copia de literarios monumentos nos deixou avergadas as -bibliothecas, que dez centos de annos como o presente não produziráõ -a decima parte. São os nossos typógrafos de hoje, se com aquelles os -comparamos, como os nossos cutileiros de punhaes, comparados com os bons -armeiros que forjavão espadas como as de nossos heroes de boa data, que -só com sua pezada presença nos maravilhão, a nós, que por nossa verbosa -sabedoria, acabaremos de desbaratar tantas e tão longes terras, como nos -ellas ganharão esgremindo-se. - -Tal vai pois o estado literario como o social; e nem menos podia ser, -porque estas duas couzas, como alma e corpo, se pertencem inseparaveis: -Mão de Deos que ao corpo politico quizesse restituir a saude, por ahi -lhe fortaleceria não menos o espirito; Sopro de Deos que ao espirito -restituisse a luz, por ahi lhe ordenaria e vigoraria todos os movimentos. -Por tanto, conhecendo e confessando que nem facil he nem possivel torcer -a carreira desenfreada que o nosso mundo leva não sei para onde, todavia -para mim tenho, se na cabeça está isto, se no coração, não o direi, mas -tenho para mim, que mui bem fará, e muito amado será dos rectos juizos -quem nos fizer volver olhos de saudade para a vida que ja se viveo, o -que ainda um ou outro, aqui ou acolá poderá inteira, ou quando mais -não fôr, em partes, em amostras reviver. E pois será isto uma illusão -minha? Se o geral da gente vai por entre dores para uma couza que se -chama perfeição, não pode um individuo em particular deixar-se ficar -atraz, despir essas suadas armas de milicia conquistadora, e recolher-se, -honrado desertor, lá onde viva seguro com Deos, comsigo, com poucos -vizinhos, logrando-se da natureza, e desfrutando em variados prazeres -todos as estações; prezentes que Deos enviou para todos os homens, mas -de que os das cidades só pela folhinha tem noticia! Por quão feliz se -não devêra dar o escritor desambicioso, se aos puros sons de sua lira -afinada nos bosques, lograsse, não como Anfião fundar e povoar cidades, -não como Orfeo arrancar as feras dos arvoredos e domestica-las; mas -arrancar d’entre feras humanas homens inda não corrutos, e assenta-los, -para sempre feriados do reboliço dos grandes povos, no divino remanso de -uma campestre solidão! De mui leves cousas e tenuissimos momentos pende -ás vezes o destino de toda uma vida: assim como de um encontro fortuito -resulta uma affeição amorosa, que logo produz um consorcio e um sisthema -completo de existir, assim de uma palavra em uma conversa casual, da -substancia de uma pagina lida em certa hora, do aspéto de um painel, -podem nascer, e mil vezes terão nascido, determinações, vocação, e fados -de individuos. E para vir a um exemplo recente e meu, aquelle bom livro -das _Prisões_ de Silvio Péllico (todo imbuido, releve-se-me a expressão, -de uma christã e filosofica filosofia, que a maior parte das assim -chamadas nem uma nem outra couza tem) aquelle bom livro, ja principiou e -talvez acabará de me curar o animo: não lhe restituirá a muita harmonia -com que o de Gessner mo temperára, porque a mocidade das illusões passa -e não volta; mas deixar-mo-ha provavelmente assaz alto e forte, que -ainda no meio das maiores tempestades repouze e abençoe tudo. E não he -isto maravilha, que a alguns outros que o lerão ja eu ouvi iguaes, senão -maiores encarecimentos de sua medicinal virtude.[3] - -Este desvio, por onde me agora deixava ir, levar-me-hia longe, que assim -he accomodado a meus gostos; mas porque he desvio o largo, e retomo o -caminho que hia seguindo. A poesia amavel, a que nas mãos e seio nos -vinha offerecendo ramalhetes, e frutos no regaço, e amores nos olhos, -e nas fallas consolações, afastou-se d’entre nós, onde ainda a alguns -poderia aproveitar, e assim como outras muitas boas artes e prendas, foi -reclinar-se á espera na beira da torrente dos dias, d’onde não volverá, -sem que primeiro se restaurem muitas optimas couzas e todas suas, que -o mundo velho tinha produzido. Mas d’onde viráõ estas couzas? Do mesmo -mundo velho? mal o creio, que o novo quebrou a ponte que os juntava, -e rio de ufania vendo abismar-se fábrica que assim parecia eterna. -Renasceráõ por tanto da propria natureza da terra, da indole da alma -humana que ja uma vez as produzio, ou do sopro do ceo: renasceráõ tarde; -renasceráõ quando nós ja não formos; renasceráõ, talvez diversas, mas -renasceráõ. E quaes são estas couzas do mundo passado, cuja perda tanto -dóe ás Musas e á Virtude? são as formosuras e magnificencias da religião, -o respeito aos finados e a seus sepulchros, ás lições da experiencia, ás -obras dos antigos homens, a veneração ás cãs, o quasi culto ás mulheres, -a benevolencia e sociabilidade, o aferro aos usos e modas patrias, o -amor do estudo, que nós dissipámos com as leituras efemeras, e o amor do -torrão natal, nobre fecundissimo sentimento, mas impossivel onde se vive -sem muita brandura e sem firme certeza de permanecer. Tudo isto se perdeo -para nós, e não sei que bens haja em seu lugar posto a _Filosofia_. A que -verdadeiramente o he, ainda que esse nome se não dê, a que realmente faz -homens livres e felizes, não he Furia que destrua tão venerandos objetos; -ama-os, defende-os, reforma-os quando o tempo os viciou, concerta-os que -se amparem mutuamente, pede-lhes frutos, e com seus frutos se fortalece. - -Quando de espaço me dou a escavar estas verdades, nada me assombra a -nossa crassa e desdenhosa ignorancia, mãi ou filha, e certamente socia -da nossa immoralidade. Esta mal agoirada ignorancia e esta immoralidade -cresceráõ; ja nossos filhos apenas saberáõ ler, e se o turbilhão que a -roda leva não houver quem o suspenda, brutos e ferozes sairáõ os netos. -Applicai todos os vossos sentidos ao coração da nossa Cidade: se a vida -he movimento, ahi trabalha vida; se porem a vida ha-de ter um perfume, -uma harmonia, ahi não ha senão morte, e aquelle movimento he de cadaver -que fermenta para se dissolver. Poesia, verdadeira poesia ja n’este -Reino, onde em todos os tempos pullullava espontanea, posto que raro -amadurecesse, ja por consequencia acabou: quanto desde hoje se poetar -nas enamoradas doçuras da vida aldeã, mais não será que recordações sem -germen de futuro. D’entre a memoria e o espirito, não da experimental -convicção do poeta, nasceráõ esses versos, como lagrimas de balsamo, -que não de dentro da arvore, mas d’entre a casca e o libro vem raras -gotejando, para cairem e se perderem no terreno bravio da solidão. Oh -Liberdade, Liberdade! quão mal te comprehendem os que te separão do -bello! quão mal te servem os que te malquistão com os homens de bem! -como involuntariamente te levão á morte os que só te pedem como summa -felicidade, o direito de nada respeitar, estradas de ferro, navios de -vapor, um himno, e punhaes ou carceres contra quem quer que não beber ás -suas mesas! Pobre Liberdade, não he este ainda o teu dia: não és tu idolo -de selvagens, mas Divindade benefica de homens prudentes. - -Eis-me outra vez com a Politica, e o meu voto quebrado. Ja vejo que a -minha cura não está tão adeantada como o eu suppunha: não ha remedio, -amanhã releremos Silvio Péllico, e por hoje voltemo-nos com toda a -diligencia a rematar, como quer que seja, este escrito. - -Sáe pois o presente livro por todos os modos extemporaneo, ja porque a -estação nem he d’elles nem para elles, ja porque lhe fallecêrão dias -para amadurecer e sasoar, e ja porque dos que lhe tomarem o sabor, uns -o taxaráõ de temporão, outros de serodio, sendo que uma e outra couza -he elle, e demais a mais pêco, segundo a planta de que se creou. Uma só -lembrança me consola, e he, que assim mesmo ja deveo ser peor, quando -da primeira vez appareceo, e mais lhe não faltárão gostadores; tanto he -assim que nunca faltaráõ simpathias ao que de sua origem he bom, ainda -quando desbotado e estragado pela impericia de quem o tratou. Melhor he -hoje do que então era; não porque o eu tornasse á forja e á bigorna, ou -o recorresse e lustrasse com esmerada lima, senão porque havendo hoje -menos dados á lição dos livros, e em especial d’este genero, tambem ja -não ha criticos, senão he para as acções da vida publica e domestica; por -onde as obras escritas podem passar a seu salvo, sem que suas pobrezas -e vergonhas sejão vistas e apupadas na praça. Desconsolada consolação -he esta de se poder desafinar cantando, por se cantar entre surdos: -mas esse mal, se o he, só a mim me toca, e para o descontar me sobra -a lembrança, de que alguns caladamente me agradeceráõ o diverti-los -do publico espetaculo. Para estes em boa hora sáia e sai o livrinho -fallador de campos e amores: suave appareça como a violeta sozinha -encontrada no passeio de inverno: suave e não estranhado como o raio de -sol por cima de campo de batalha apoz uma noite de geada; nada aproveita -elle aos cadaveres, mas alegra e consola como esperança aos que mal -feridos jazião, e a quem o regelado lentor das trevas coalhava o sangue, -desesperava as dores, tranzia os ossos, e os descoroçoava da providencia. - -Ramalhete he de flores silvestres que a meus amigos deixo na hora do -apartamento, que ao menos em quanto durar lhes recordará que os amei. -Terra de Portugal e outr’ora de Portuguezes, terra namorada do mais -formoso ceo, terra sombreada de larangeiras e murtas, acobertada de verde -e bordada alcatifa, amorosamente abraçada do Oceano, talhada e regada de -tão espelhados rios, terra de tanta poesia e de tanto amor, eu te deixo! -E para que ja nunca onde quer que a fortuna me detenha, me cuides de ti -esquecido, terra do meu Portugal lembre-te que o meu ultimo pensamento ao -sair das tuas praias foi o da tua Primavera e o da minha Mocidade. - - _Lisboa: 1 de Dezembro 1836._ - - - - -PROLOGO. - - -Não erão vãos os meus receios; acabo de visitar a _Primavera_, não ainda -para lhe emendar as miudezas, mas para a conhecer por alto, e podê-la -sentenciar no todo. Reconheci-a, mas demudada, mui outra da que a tinha -deixado na graça, geito e amores; trocarão-ma os annos, trocando-me. -Desama-la ainda não, mas ama-la tambem ja não! Se lhe não quero mal, he -só porque lhe quiz muito bem, e foi minha; mas como ja me risquei de seu -namorado, não hei de chamar-lhe formosa, que o não he, nem dissimular que -sejão defeitos, muitos que em bom tempo ja talvez lhe tive por perfeições -e primores. Não ha remedio, prometti-me seu juiz, passará por onde -houvéra de passar, se de inimigo fôra. Se ella perder do seu preço, e eu -do meu, consolemo-nos ambos d’esse pouco damno; ella por não receber de -mim injustiça, eu com ter obedecido á consciencia, que tambem em letras a -ha. Antes porem que entremos a contas e lhe formemos o summario, releva -anticipar uma dúvida não leve, que se me pode pôr, e desfazer um reparo, -que deixado a si pareceria de fôrça. - -He o reparo e a dúvida; que pois he o Livro inamavel por defeitos a -seu proprio autor, não havia porque de novo o semear em público, antes -importava pôr todos os meios para que o nunca mais vissem, nem d’elle se -fizesse menção; que o contrario he faltar a toda a reverencia, que aos -leitores se deve, dando-os por broncos para conhecer o máo; ou á caridade -natural comsigo proprio, expondo-se sem fôrça de obrigação a menoscabos, -se não injurias. - -Não quero responder que em dar o que ha quando ou emquanto não ha melhor, -ja o que o faz se ha de haver por desempenhado; nem que, para reo que sem -tratos e sôlto confessa os delitos, sempre por bom direito se usou de -misericordia; melhores me parecem do que estes, os meus fundamentos: e -ei-los aqui. - -Primeiro: que andando a _Primavera_ ja impressa e corrente por muitas -mãos, e não podendo ser recolhê-la eu de novo, e desluzi-la da memoria -de muitos que a bem agazalharão, melhor arbitrio he, pois que tem de -se conservar no mundo, renascer n’elle expurgada de muitos vicios da -primeira impressão, e se a paciencia me acudir com o preciso valor, -retocada no que pertence ao literario. - -Segundo: que havendo talvez ainda, e podendo vir a haver, moços que se -dem a poetar, acontecerá que entre os mais livros portuguezes que ás -mãos lhes cheguem, vão de envolta os meus (assim mo promette sua boa -fortuna, que os livros a tem como os homens, e ás vezes os mais ruins -muito melhor do que os bons): mãos de principiantes não sabem escolher, -os amores, amenidades e branduras da _Primavera_ cáem muito a gente moça, -ir-se-hião traz o gosto, e beberião muitos defeitos; do que seria minha a -culpa, se eu não procurasse agora arrancar boa parte d’elles, e contra os -demais os não precavesse com honestas advertencias. - -Terceiro, finalmente: que eu pretendo antes ser bem conhecido pelo que -fui, sou, e hei de ser, do que só pelo que sou; porque nascendo-nos o -presente do passado, ainda que diverso, e produzindo-nos ainda que tambem -diverso, o futuro, o sermos só conhecidos pelo que somos não he sermos -conhecidos. He pensamento que merece ser entendido. Alexandre Dumas o -explicará. Sem pedir venia traduzo o passo, com quanto seja longo, certo -de que o não parecerá. - -—“A maior desgraça da crítica, ainda quando se não sae com ignorancias -e velhacarias (diz elle no prologo da _Catharina Howard_) consiste em -sentenciar uma Obra nova desmembrada do feixe literario cuja he parte: -ahi está porque nunca se póde avaliar um livro com exacção antes da -morte do autor; e mais ainda he preciso que Deos lhe haja concedido -desde o primeiro até o ultimo, os dias, que para acabar seu edificio se -lhe fazião mister; por quanto, se antes de tempo morreo, o monumento -que traçára tem de ficar incompleto para sempre como a Sé de Colonia, -e os homens mal justos para com elle ainda para alem da sepultura, -lançar-lhe-hão á conta de humana fraqueza o ter-lhe ficado certo vão por -tapar, quando a morte de invejosa e apressada lhe veio atar as mãos, e -ja talvez para se arrematar mais não faltava que uma só pedra: ora por -aquelle vão, he que a crítica se mette e entra, quer o autor esteja vivo, -quer defunto.” - -“De trez idades se compoem a vida de quem nasceo fadado a dar de si -produções, e em trez periodos se desparte: como couza alta e nobre que -he, tem primeiramente sua base por onde se começa; depois um cume onde -se chega; ultimamente la por dentro um motivo, tenção e fim particular -para onde se torna a descer. Pelo que, he necessario que o homem tenha -vivido todas estas trez idades e que o seu talento haja cursado estes -trez periodos, para se poder avaliar aquelle talento no seu todo, aquelle -homem na sua produção.” - -“Primeira idade, quando a fantasia prevalece á rasão. A esta idade de -viço pertencem as horas que tão despedidas voão dos vinte e cinco aos -trinta e cinco. He o periodo para dever inventar _Hamlet_ quem se chamar -Shakespeare, o _Cid_ quem tiver nome de Corneille, os _Salteadores_ quem -for Schiller.” - -“Segunda idade, em que a fantasia e a rasão se embalanção, ajudando-se -mutuamente, e vindo a formar das suas duas uma só força neutra. A esta -idade vigorosa pertencem os dias que vão correndo dos trinta e cinco aos -quarenta e cinco. He o periodo em que os mesmos trez sujeitos produzem _O -Rei Lear_, _Cinna_, _Wallenstein_.” - -“Terceira idade, em que a rasão prevalece á imaginação. A esta idade de -reflexão pertencem os annos que descem dos quarenta e cinco aos cincoenta -e cinco. He o periodo em que elles compoem _Ricardo III_, _Polyeuctes_, -_Guilherme Tell_.” - -“Ora pergunto, ficarião completos Schiller sem _Wallenstein_ e _Guilherme -Tell_, Corneille sem _Cinna_ e _Polyeuctes_, e Shakespeare sem _O Rei -Lear_ e _Ricardo III_?” - -“Parece-me portanto que nunca devêra a crítica requerer de um poeta, -senão as obras de sua idade; e bem sabemos nós como o faz ella sempre -ao revez, sendo as obras que mais se empenha em querer extorquir de um -engenho as dos annos que ainda não vingou, ou as dos outros annos que ja -deixou transpostos. Pelo que toca a uma obra que vem condizendo com o -periodo d’onde dimana, nunca a impertinencia dos juizes a dá por cabal: -são uns Aristarchos sem paciencia, que acodem logo com a crítica a cada -pedra de per si, ao passo que ainda se está guindando, sem advertirem -que aquella pedra só assente e junta com as outras pedras he que ha de -dar prova da traça e desenho geral do architéto: são como uns pomareiros -esquipaticos, que não tomando em conta o inalteravel fio das quadras do -anno, pedem fruta madura á primavera, frutos verdes ao verão, e ao outono -flores.”— - -Bem haja Alexandre Dumas, que tão artificiosa e claramente me decifrou, e -me ajudou a pôr em limpo uma verdade, cujos ares muito ha que eu tomava -de longe; uma verdade que eu andava adivinhando como por entre nevoas. - -Ora pois, dos trez apontados motivos de determinação, foi este ultimo o -de maior momento: quiz dar completo o meu retrato, menos o intellectual -do que o moral, a quem desejasse conhecer-me: não podia omittir como -feição o que eu havia sido, e ainda antes d’aquella primeira idade, que -dos vinte e cinco decorre até os trinta e cinco annos. A _Primavera_, -escrita aos vinte e dois, tinha por tanto de entrar encorporada na -collecção das minhas Obras. Se a refundisse pelo meu gôsto de hoje -em dia, não sei se ficára melhor, mas sei que ficára outra, e por -conseguinte falsa como feição. Tudo quanto era seu geito, seu pensar, -seu ser proprio passará intato; e n’isso, se se hão de perdoar gabos -a quem sem disfarces nem dó se disciplina deante do Povo por peccados -poeticos, n’isso digo, alguma couza ha de bom, sem o que não tivera -agradado a tanta gente. O por onde a lima pode e deve correr afoita e sem -dó, são—_as numerosas faltas de boa falla portugueza—desleixo de frase—e -estiramento de períodos_. - -Quero-me explicar, não para os Mestres, sim para os novéis no officio -de escrever, com os quaes particularmente converso nos meus prologos; -e porque não havia eu repartir do fruto de minha tanta ou quanta -experiencia com quem não a póde ainda ter, nem suppri-la com seguir -cursos de Bellas-letras que entre nós se não ensinão? Um dos maiores -delitos literarios, e em que mais usualmente cáem os moços, he o -_desprezo de lingua e corréção_; delito que per si basta para descontar -muitos meritos intrinsecos de escritura. Sem bem saber sua lingua, diz -Boileau, o autor mais divino nunca passará, por muito que faça, de máo -escritor. He ella a ferramenta para este genero de lavor da alma; e quem -poem as mãos na obra sem primeiro ajuntar, conhecer, escolher e apontar -bem os instrumentos de que se ha de valer, nem se pode mostrar bom -artífice, nem merecer desculpa de o não ser. - -Toda a Musa em creança padece dispepsia de versos, diabetes disséra quem -se menos prezára de cortez com Divindades. Na primeira idade he costume, -e por muitas rasões, das quaes não será a mais fraca a aversão ao -trabalho, presumir-se antes de facilidade e presteza no escrever, do que -de corréção e primor: coração e fantasia tudo anda ligeiro, querem que a -penna lhes obedeça, como se ella podesse; forção-na, e dahi resulta que -pensamento ou afféto que lá dentro era soberbo, apparece cá fora frio, -mesquinho, desengraçado; e maravilha-se o escrevedor quando a mesma couza -que valentemente o agitava, em quanto em si a revolvia, depois de passada -para o papel adormenta os ouvintes, e a elle proprio o desconsola. De -todos os defeitos de autor, talvez se podesse affirmar que só este he -verdadeiro, real e absoluto defeito; porque, se os pensamentos e affetos -de cada idade são della, e dessoão e descontentão a todas as outras, tem -por si o serem d’ella, e como taes se defendem por conterem verdade e -pintarem o homem; não assim a lingua, que em todas as idades he ou deve -ser uma, não provando outra couza o faltar-se a ella, senão que se quer -fallar antes de se ter aprendido. Sou experimentado, e por bem do proximo -direi com vergonha minha, que no que me ficou escrito d’essa quasi -infancia poetica, as couzas nem me espantão nem me offendem, ainda quando -as desapprovo, mas a linguagem e o dizer me fazem de continuo caír as -faces; e por isso que he escolho em que naufraguei tão desastradamente, -o assignalo com tanta miudeza e teima; nem cançarei de o assignalar e -accender-lhe em cima boa luz de farol, em quanto vir, como vejo, outros, -que nem por idade se absolvem, esbarrar n’elle e perder-se a todas as -horas. Mancebos, (se os ha ahi que se dem ás letras) vós que encetaes a -mui ardua e perigosa vereda que pelas letras conduz á fama, seja qual -fôr o genero de poesia para onde propendais, seja qual fôr o vosso não -vulgar engenho, sejão quaes forem os louvores que os velhos na arte vos -concedão, e os applausos com que as sociedades vos afoutem, não vos deis -pressa de apparecer: os conselhos que Horacio vos deu, durão com toda a -fôrça que a natureza e a pratica lhe bafejarão. Deve-se compor de espaço, -consultar os bons e peritos, guardar por nove annos, chamar, e tornar a -chamar dez vezes á unha a obra ja perfeita. O amor proprio nos persuade -e impelle a apparecermos cedo, devia elle, se não fôra cego, ter-nos mão -para nos não sairmos senão a horas; - - _A melhor fruta colhe-se mais tarde._ - - (_F. R. Lobo._) - -Muito mais vale começar jornada com dia claro, do que, para adeantar -horas, largar a pouzada pelo escuro da noite, em que os tropeços são -faceis, perigosas as quedas, e quasi certo o extravio, que a final -lançadas as contas nos farão chegar mais tarde e menos gostosos ao lugar -que demandâmos. Repetirei, porque nunca o repeti-lo será de sóbra, o -que ja por semelhante occasião disse em outro meu livrinho, contra -esta enfermidade que se tornou praga, e nos traz a todos lastimosamente -gafados; não ha mais remedio senão soccorrermo-nos aos livros mestres -de nossa lingua. A aversão que vós outros, gente moça, lhes tendes, bem -sei d’onde nasce, que tambem eu por ahi passei: correm para vós como -rio caudal os livros d’essa França, todos especiosos e doirados, todos -galhardos e louçãos, arrebicados e argutos no dizer, promettedores de -maravilhas nos titulos e indices, conversando comvosco paixões fortes -e brandos affetos, uns vomitando republica por todas as folhas, outros -por todos os poros exhalando commodissima incredulidade, e todos á uma -embebidos do presente, afinados pelo vosso ponto, e se o posso dizer, -mancebos como vós mesmos. Não ja assim os nossos patrios autores: estes -não vos sáem ao caminho; pouzão, antes jazem, pela escuridão êrma das -bibliothecas, mal envoltos na grosseira capa de seu tempo, enterrados -no pó, meio devorados dos bichos; se os olhais por fóra, parece-vos que -a vida vos não daria para um só volume: se os consultais por dentro ja -os titulos vos não namorão, os indices vos descoroçoão: folheai-los por -alto, vem os milagres incriveis, a historia encarecida ou chã, a poesia -enleada e escura, o estilo incorreto e desflorido, o amor grave e sizudo, -os costumes castos, a moral severa, a fé religiosa e inconcussa: cada -pagina na sua simplicidade apregoa Deos, revem por cada poro o cheiro -do mundo velho: mas esforçai, affazei-vos por alguns dias a soffrê-los -e comsenti-los; continuá-los-heis sem tedio, logo com gôsto, com ancia, -reconhecendo a final quanto as primeiras mostras vos havião mentido, como -pelo meio e fundo d’aquelle enganoso dissabor andavão sumidas galas, -joias, riquezas, maravilhas, que vos enchem os olhos, vos cativão a -vontade, e fazem que vos peze do tempo que os não conhecestes. Assaz nos -divertimos do caminho, rasão he que a elle nos tornemos. - -O segundo defeito geral que me occorreo n’esta leitura, foi o que eu -chamei _desleixo de frase_. He este muito menos grave que a impureza da -lingua, sendo-o todavia assaz que mereça quanta reformação lhe eu possa -fazer. Quando quem não cura da pureza de sua lingua, cura ao menos de -lhe não deitar remendo de panno estranho ou novo que não seja vistoso -e garrido, quando o que se não preza de dizer limpa e castamente, ao -menos timbra no exprimir com viveza não vulgar, com certo matiz, com -certa novidade, algum passo mais se lhe póde conceder. Procurei se ao -menos teria eu posto algum pouco d’isto, e achei um desconsolado não. A -locução não me pareceo tão poeticameme figurada como convinha em poesia, -ainda pastoril; os epíthetos erão tão sem succo e bastos como a caruma no -mato. Uma e outra couza requerião, em quem as quizesse bem emendar, muita -paciencia, e muitissima mais da que eu tenho. De ambas, mormente dos -epíthetos, procurarei limpar a maior; todos não he possivel: tanto e por -tal geito estão com toda a Obra cozidos e enraizados, que lhes vale o que -ás ervas parasítas em parede velha mas necessaria; foução-se-lhe algumas -demazias, perdoa-se ao resto, com o medo que em faltando, se esboroe a -parede, e venha ao chão toda delida. - -Tambem me queixei de _estiramento de períodos_. He defeito portuguez, -peninsular, meridional. Dava-me agora na vontade tornar a culpa ao -sol, que n’estas suas terras faz que tudo se desaperte, e derrame, e -desate em viço e sobejidão: mas fiquem esses milagres do sol para os -esquadrinhadores metafisicos, a quem inda assim, não quero mal; e eu, -melhor que a nenhuma outra causa, lançarei aquella minha diffusão ás -costas dos annos em que escrevia, com o que sempre fico de bom partido, -por das minhas a tirar. O que he grandemente verdade, he ser este defeito -para muitissimos leitores, principalmente mancebos ou hospedes nas regras -de escrever, virtude, e a virtude contrária vicio. Saírão a _Noite do -Castello_ e _Ciumes do Bardo_ muito mais contraídos e apanhados em couzas -e palavras, do que estes Poemettos e as _Cartas de Echo_: pois comtudo -muitos houve e ha, que por isso mesmo ficárão preferindo aos novos os -antigos e até velhos opusculos. A cada hora me diz um que me torne ao -meu primeiro caminho; outro que não desampare o novo: uns, que estas -ultimas obras se não lem senão de escaço numero; outros que as passadas -não occupão meia hora os olhos dos homens graves e bons juizes. Oh! -quem reconheceo nunca a verdade da fabula do velho, do rapaz e do burro -como o triste, que para expiação talvez d’algum grande peccado, entrega -e desampara a público os partos do seu tinteiro! Pois que não póde -ser contentar a todos, ir-me-hei como e por onde o meu juizo, gôsto e -natureza me levarem. - -A poesia substancial e severamente escrupulosa, he o mais das vezes -descontada por uma certa desharmonia: a muita harmonia, ainda quando mais -apoucada de ideas, ja entretem suavemente: qualquer leitor se entende -com taes escritos, ninguem com elles se cança; são um genero de musica -facil, que ainda quando não exprime affetos, se ouve com gosto; são -como um deslizar de barco por uma agoa mansa: por isto he que os livros -do _Porto_ e _Tristezas_ de Ovidio se lem de um cabo a outro com muita -deleitação.—_Inter utrumque_: nem tanto apêrto como Almeno na chamada -tradução de Ovidio; nem tanta soltura como o seu amigo, e outr’ora meu -mestre, Elpino Duriense[4] nas poesias originaes; nem tanto pospor a -harmonia e clareza á brevidade como Filinto; nem tanto sacrificar o -entendimento ao ouvido como Elmano. Isto foi o que me pareceo lograr -na _Noite do Castello_, e _Ciumes do Bardo_, e não me arrependo se por -ventura o consegui. - -Tanto não, mas alguma couza d’isto fôra o que eu quizera na _Primavera_: -alguma couza, para poder com ella reconciliar os severos; tudo não, por -não dessimilhar em demazia esta parte do retrato. - -Até aqui descubrimos defeitos que importa emendar, agora os vamos ver -do outro genero, em que me não he licito bolir, por serem essencia do -livro: erão aquelles no tocante á lingua, estilo, e metro, que ainda que -importantes, não passão de accidentes da obra; estes são da alma, vida, e -pensamento da mesma obra. Entremos pelo descritivo (não será portugueza -a voz, mas o uso e necessidade lhe valeráõ.) Descritivos se chamão em -geral todos os poemas deste genero, e como a taes, parece que tudo quanto -for pintar dentro do quadro do seu painel, lhes compete e convem. Não -he comtudo bem assim, porque as descrições, por mui formosa e naturaes -que se ostentem, tambem canção a imaginativa de quem lê, quando umas -ás outras se vem succedendo perennemente e sem um bom entremeio de -narração, ou outro valente interesse, que por um modo verosimil as reuna, -separando-as ao mesmo tempo, para que se não confundão, nem se afrontem, -nem esmoreção. Não o advertio Delílle, e d’ahi procedeo não bastar seu -altissimo engenho para livrar seus poemas de enfadosos. Ora este livro -he quasi um embrechado massiço de descrições; e assim, se o posso dizer, -mais para ou olhos da alma do que para o seu entendimento. Mas serão ao -menos estas pinturas, consideradas uma por uma, de algum preço por fineza -de tintas, ou pontualidade de desenho? autos são em que me não compete -dar sentença. O Padre Kinsey, ou o Portuguez que em seu nome escreveo, -disse que eu não pintava bem a natureza; talvez que outro tanto, e -ainda peór, se devesse dizer da mór parte de nossos poetas; mas não he -contra elles, senão contra mim só que eu enfeixei varas no princípio -d’este prologo: como os applicados noviços se não enganem comigo por -minha culpa, que se desvairem e percão com os outros, paciencia! Aqui -está comtudo o que me parece; este descritivo he desbotado e de côres -pouco vivas e proprias se com o de Gessner ou Kleist se compara, mas -he o melhor que eu soube; eu que nem podia ir-me pelos campos fazendo, -como de si dizia Kleist, caçadas poeticas de imagens, nem discorrê-los -como Gessner, de lapis na mão. Ja póde ser que o Padre Kinsey, ou o seu -ponto, não houvessem de se me avantajar muito, se lhes coubesse tirar ás -escuras, ou quasi, o retrato da natureza: muito mais faz quem atravessa o -Tejo a nado, do que hum Almirante Inglez que em segura e bem apercebida -náo rodêa a esfera; poderá este trazer mais riquezas e informações, mas á -fé que não prova mais fôrças e esfôrço que o desconhecido nadador de uma -só corrente. - -Passemos ávante, e das descrições entremos nos affetos. N’esta parte -direi pouco, porque sem embargo de que o desabrimento com que me castigo -onde entendo merecê-lo, me podia deixar alguma licença para tambem me -louvar pelo que em mim visse de bom, melhor he que nos louvores, em que -mais facilmente nos podêmos enganar, nos contentemos de ser ouvintes. -Ainda assim, não acabo eu de dizer tão pouco, que muito bem se não -entenda ja que no tocante a affetos não quero muito mal á minha Obra: -fallo dos affetos em geral, porque passos ha n’ella a cujo affeto não sei -ja hoje querer mal nem bem; honesto, formoso, e macio me parece, sei que -n’esse tempo devia ser meu, porque eu não compunha, tirava do coração, -mas ja o não posso entender cabalmente, e avaliar. Esses passos, apezar -de tudo e de mim, hão de passar intatos, que em assunto de branduras o -eu de hoje respeita religiosamente ao eu de algum dia; e porque tudo -diga, ainda que quizera emendar, não saberia. Sim me inclino a que haverá -(e ja de alguns m’o boquejarão) excesso, redundancia, languidez em -tantas suavidades, caricias e extremos de bem querer a tudo, e a todos. -Inclino-me e talvez o creio: mas que havia de cortar? a que havia de -perdoar, se assim como o eu antigo valia tanto mais que o eu presente, -póde ser que o melhor se me figurasse agora peór, e o peór melhor? - -Digamos duas palavras da Mithologia. Ja não sou tão emperrado pagão como -n’outro tempo; desconsola-me ver o desmedido uso que d’ella fiz. Não se -entenda por isto que me alistasse debaixo das bandeiras triunfaes dos -modernos espanca-numes, nem que tiro vãgloria de botar pelo mundo pregáõ, -como Beranger, que os Deuzes ja saírão do meu credo. Todo o excesso -em crer ou não crer, em admittir, ou recusar me parece hoje em dia um -disparate, de que sempre, mais por aqui mais por ali, vem a resultar -contras e arrependimentos. Enjoa-me a fabula dos Lusiadas, e muita, e -muita, e muita outra: aborrece-me quasi todo o emprego que dos Romanos -para cá se tem feito d’ella, _incredulus odi_. Só consinto na fabula -parca, explicavel, e só a amo quando soberbamente poetada. Alumiarei -com um exemplo: quero-a assim como a derrama ás mãos chêas por suas tão -poeticas prozas o christianissimo Chateaubriand, esse mesmo que de longe -visto, assim parece guerrea-la. Nada d’isto acho eu pelo commum no meu -livro: de cada canto me surde uma Divindade; a boa parte d’ellas não -responde verdade, e se alguma couza ahi vierão fazer, certo que não foi -inspirar-me um só rasgo poetico. Porque pois as deixarei? porque não -substancia do livro, e n’elle tem posse velha e apozentadoria. - -Dêmos a derradeira parte do prologo, que em prologos deve ser sempre -esta a de vantagem, a algum poucachinho dizer sobre a moral. Moral -hoje, moral em livro de poeta, grande novidade e grande estranheza! Sim -hoje, que ainda ha muito quem se preze de viver honesto, virtuoso e -pela antiga: sim em livro de poeta, e por isso mesmo; visto como tudo -quanto era contra ella o tem a proza a si tomado, não será muito que lhe -abra sua porta a poesia, e lhe dê guarida em um pobre cantinho térreo -de sua pousada, como he este: inda mal, que até cá, no fundo de tamanha -escuridão e penuria, por todas as fendas e agulheiros do mal reparado -edificio poetico lhe chegaráõ as risadas sem alma nem sal de seus -inimigos, e contra essas não ha valer-lhe. Ha pois do titulo d’este livro -a dentro, dado se não prometta senão primavera, um como ar de bondade e -saude para o animo, de socego e bemaventurança para a vida: e por isso -he que, a despeito da todas suas manchas, me parece bem, como ja no -Ante-Prologo deixei tocado, atira-lo, como sementinha de erva medicinal, -ao baldio sáfaro e corruto d’esta idade. Bem estou eu antevendo quantos -de mim hão de haver lástima, por me assentar no meio de tão ferida e -accesa batalha, por cantar entre tantas vozerias de odios. Paciencia! -tambem sei que homem sentado não sóbe, nem a trôco de cantigas se comprão -riquezas e valimentos: mas cada qual tem sua estrella, e a minha, que -outra vez descobrio depois de largo eclipse, esta foi, e esta ha de ser; -oxalá que para sempre! Com o bom de Archimedes me pareço n’isto, o qual -na hora que a cidade estava sendo entrada do inimigo, e alagada das -torrentes de ferro e fogo, nem tinha ouvidos para o estrondo, nem deixava -de proseguir na composição da lustrosissima esfera celeste, unicos amores -que no canto calado de sua casa o desvelavão. Havia ahi uma não sei que -magnanimidade; e a ninguem deixa de doer a cutilada do soldado feroz que -despede tal cabeça para cima de tal obra. Mas quando me ólho, e me vejo -a brincar com flores e cordeiros, ao tempo que em redor de mim estão no -chôco tão grandes destinos do mundo, não me lastimo, porem rio-me, e -cuido estar vendo em mim proprio um menino, que por um dia de tempestade, -enthesoura conchas e forma lagoazinhas na praia, emquanto andão á vista -galeões alterosos á luta com os elementos, e na mesma praia uns pasmão, -outros se aterrão, outros suspirão pelo instante do naufragio para se -arremessarem aos despojos, apenas o mar os cuspir.—Fugindo me hião agora -outra vez os pés pela antiga ladeira abaixo: e a moral, esquecida até -por quem lhe deo couto! Com ella sou, e com ella determino acabar. - -He a moral na maior parte d’estes poemas pura, facil e amavel; e se não -tão efficaz como a de Gessner, não he porque o eu dezejasse menos, he -porque podia menos atavia-la, e aformozea-la do que elle, e atavios e -formozuras até servem para fazer do bom optimo. Todos os amores de que -se urde e tece a domestica felicidade, se achão aqui representados por -um modo que se recommendão, e d’elles se imbue de mui bom grado o animo; -o amor filial, o paterno, o materno, o conjugal, a amizade, até o affeto -aos animaes, arvores, flores, e mais creaturas de Deos, companheiras -nossas n’este mundo, aqui vem de envolta com a recreação. Porque tudo -diga, pelo gostador ou gostadora d’este livro daria eu mais, e mais -quizera viver com elle debaixo do mesmo telhado, e tratar quer negocios -quer passatempos, do que, se dizê-lo ouro, com gostadores e pregoadores -d’outros livros que estamos vendo rebentar de muito mais avultados -engenhos. Se eu tivesse filhos e filhas a quem dar criação, sei que -emquanto não podessem ler Gessner, e seus bons imitadores estrangeiros, -lhes daria a _Primavera_; e ja não digo o mesmo das _Cartas de Echo_, e -muito menos da _Noite do Castello_, e _Ciumes do Bardo_. Mas, acudirá -algum prudente, couzas se deparão na _Primavera_ que mais são para ser -defendidas a donzellas, e resguardadas de fantasias ainda verdes, do que -para se aconselharem por doutrina. Sim as ha, e todas essas paginas que -para idades encorpadas e apercebidas de experiencia bem podem não ser -damnosas e parar em mero deleite, todas rasgára e déra ao fogo antes de -lhes entregar a obra para lição: e porei exemplos; na _Festa de Maio_, -os fins dos episodios de Galatea e Ignez de Castro, no mesmo poema boa -parte da republica de Chipre, como o culto religioso da Natureza, os -bens em communidade, a nudez, o divorcio, o cazamento de um com muitas -_et cetera_. Antes de passar adeante, trasladarei, que alguma couza fará -para aqui, parte de uma Nota que ácerca da republica de Chipre se lia na -primeira edição, a pag. 169. - -—“Note-se que este poema está muito longe de dever ser considerado como -didático; que toda esta republica de Chipre he meramente um Dithirambo, -aonde a licença do poeta he muito mais ampla do que em outro qualquer -genero de poesia; que esta sociedade de que se ha de formar a republica, -he de poetas, homens de quem vulgarmente se diz que mais dão ao prazer do -que á rasão; e que em boca de poeta se poem a arenga recitada no templo. -Para os avisados escusada fôra a nota, mas para os fanaticos, que ignorão -ter a Musa do Dithirambo licença para nos seus delirios arremetter contra -tudo, he indispensavel.” - -Era este arrasondo o melhor que o caso admittia, porem melhor houvéra -sido não carecer d’elle; e se ainda por elle se pode perdoar á republica -de Chipre, não assim ás demais desenvolturas, como as dos dois ja -apontados episodios. Porque as puz umas e outras? vá mais penitencia. Puz -as pinturas amorosas em quasi nudez, porque estava n’aquella sazão da -vida e do anno, em que todos nos deliciamos nas fantasias sensuaes, e se -somos poetas, cuidamos morrer abrazados e afrontados em não desabafando. -Porque não expurguei d’ellas esta segunda edição? pelo mesmo motivo do -retrato, e não outro. Quanto ao culto da Natureza, e á gente nua, e aos -maridos de muitas mulheres, são necedades taes, que não merecem que -nos detenhâmos em as refutar: são d’aquellas demencias, cujo aggregado -dá o que entre moços que esfolheão livrinhos bem doirados e térsos, se -denomina filosofia, e que só dura emquanto a experiencia e o tempo nos -não desmamão da presunção; pelo que, e pela rasão geral, ja muitas vezes -apontada, de querer mostrar-me qual fui, vivão, durem e passem, que -depois d’isto ja a ninguem farão mal. - -Eis aqui por alto, mas com toda a lealdade, o juizo que da _Primavera_ -formei; he primavera por matos de serra, com mais flores do que graças, -com mais ares saudaveis do que ervas medicinaes, mui tibia de fragrancias -mimosas, mui nua em muita parte de terreno, mas com seus longes de campos -e cazaes felizes, e muitas saudades lá pelos extremos confusos do seu -horizonte. Quem se d’estas cousas contenta, fico se recreie com ella; -e quem com ella se recrear, para amigo o quero, que esse saberá, como -eu, amar muito os homens, fugindo-os; e enfadado, como eu, das terras -onde não ha ver passaros senão em gaiola, nem verdura fóra de gigas, -nem arvoredo que não seja pintado, nem pastores e innocencia senão na -opera e trajados de seda e veludo, nem felicidade senão em promessas de -políticos, irá procurar-se, achar-se, e lograr-se de Deos, de si, e dos -penhores de sua alma no seio e entranhas da vida campestre. Oh, se assim -fosse!... e se Deos a um tal me désse ainda por vizinho!... - - _Lisboa 4 de Dezembro de 1836._ - - - - -_Post Scriptum._ - - -_Lisboa 29 de Março de 1837._ - -Quando todo estava no trabalho de desempenhar minha palavra, e fazer -ainda mais do que no Prologo deixára promettido, revendo cuidadosamente, -afeiçoando, podando e enxertando de novo este volume, sobreveio-me aos -2 de Fevereiro passado, o maior infortunio de minha vida, uma perda de -que em nenhum tempo se me poderá o coração consolar. Quebrarão-se-me -as forças para continuar no trabalho, bem como se esvairão muitos, -antes todos, meus projetos. Ja não arrancarei (e para que?) este pouco -e inutil resto de mim mesmo da terra que encobre a minha melhor metade: -aqui procurarei, se tanto podér ainda, pagar com uma pouca fama e muitas -lagrimas, a quem a mim me deo até á sua ultima hora seus olhos, seu amor, -toda sua alma. Qual ficou este livro tal sae, e muito inferior ao que eu -promettia, podia e devia fazer. Se algum de meus leitores entende por -experiencia o que seja padecer n’uma viuvez uma completa orfandade, esse -passará com indulgencia, e ainda suspirando, pelos muitos defeitos que -na leitura lhe occorrerem. Aos sem alma não tenho que dizer: se quizerem -castigar o espirito meio morto, porque não pôde mais, fação-no, que dôres -d’essas não acharáõ ja em mim lugar nenhum. - - - - -EPISTOLA Á PRIMAVERA - - -_Vai a Epistola em tudo outra da que fôra na primeira Edição: conserva -a invenção e os pensamentos, mas emendou-se a linguagem, apertou-se o -estilo, deu-se alguma côr mais ás imagens, explicarão-se melhor alguns -pensamentos, reformarão-se e afinarão-se quasi todos os versos._ - - - - -DEDICATORIA A MINHA IRMÃ. - - -_Eu mandei o meu Genio campestre apanhar flores por entre os gelos do -inverno. Formosas não saírão, bem o sei, porem n’esta estação do anno não -mas dá melhores o estreito jardimzinho que me as Musas doarão nas fraldas -do Parnaso. A ti, minha Irmã, me ordena o coração que as offereça. -Felicidade será para mim, se quando para o teu lado me tornar, tu me -disseres abraçando-me:—“Eu amo as flores que tu me enviaste, no meu seio -as guardo: as da primavera menos me contentão do que estas, que o teu -Genio campestre colhe no teu jardim, por entre os gelos do inverno.”_ - - - - -DUAS PALAVRAS DE INTRODUÇÃO - - -Fôra o inverno de 1821 para 22 dos mais desabridos e temerosos de que -entre os vivos se faz memoria. Na Beira, onde me então achava, vião-se -arrancados e espedaçados bosques, olivaes e pomares, sementeiras -afogadas, pontes demolidas, e os rios sem margens. Dos 25 de Dezembro -até os 9 de Janeiro, que me demorei em uma aldeinha, uma legua desviada -de Coimbra, saboreando no trato cordeal de alguns amigos e parentes -as férias, então mui festivas, de meus estudos, foi sempre tão atada -e rigorosa a porfia das invernadas, que nos falseou quasi de todo a -recreação mais apetecida dos que fartos da cidade, vão alguma hora ao -campo desenfadar-se. De não passear nos vingavamos o melhor que o tempo -e lugar no-lo consentião: práticas desaffrontadas de constrangimento, -temperadas de bom sal, e muitas vezes substanciaes; a voltas d’ellas, -leituras accommodadas ao mais dos gostos, poesia, e improvisos de -_charadas_ e adivinhações nos enchião as horas não contadas. As -espaçosas noites e boa parte dos dias, se levavão n’estes e semelhantes -passatempos, em de redor de uma farta fogueira, segundo he costume -d’aquellas terras. Por alguma rara tarde, quando o sol descobria, e o ar -um pouco mitigado nos consentia saír, nos hiamos, ora pelo jardim onde -se explanava um soberbo lago, outr’ora pela orla mais assoalhada dos -laranjaes, que mui corpulentos e viçosos, acenavão de seus ramos com -frutos e flores, pondo a vista, o cheiro e o gôsto em doce competencia -de delicias. Era ainda aquillo, ou ja era, umas lembranças, uns longes -de primavera no coração do inverno, saíamos da prisão dos lares, -aproveitavão-se com sofreguidão: talvez nenhum dia de perfeita primavera -na longa cadêa d’elles me pareceo nunca melhor e mais ledo, do que estas -pobres tardes sonegadas ao mez do Natal. A fantasia enganada do sol, toda -se me desatava em poeticas flores, o que n’esses tempos só por maravilha -me acontecia fóra da primavera, e luares do verão. Quando vinha a noite, -acceita ao meu coração, (que sempre de si o conheci, não sei porque, -amigo de com ella suspirar saudades), e ja todos ao conchego do nosso -lume fiel nos tornavamos alvoraçados, comigo só me hia pouzar a um canto, -colhendo, concertando e accrescentando com mui entranhado contentamento, -quantas florinhas me havia brotado a fantasia. De saudades da primavera -me parece ainda agora que nascião todas; o que certo sei, he que ahi, e -n’um imaginar d’estes meus, me veio a lembrança e desejo de escrever á -Primavera uma Epistola. Se n’isto abusei ou não da licença tão concedida -a poetas, não o sei; sei que no ditar estes versos para se escreverem, e -no conceber-lhes o assunto a passear ou a seroar, gozei prazeres que ja a -crítica me não póde tirar. Se contra o bom juizo pequei, todo o meu pezar -he não poder outra vez peccar pelo mesmo modo, nem outra vez namorar-me -da Primavera: os annos que a trazem ás arvores no-la levão a nós, e ja la -vão quinze, (quinze annos!) sôbre o tempo em que eu brincava com estas -innocencias. - - _Lisboa: 9 de Dezembro de 1836._ - - - - -EPISTOLA - -_Á PRIMAVERA_. - - - Corre a Noite, jaz muda a natureza; - Os campos solitarios esmorecem; - Mal se ouve ao longe o estrondo da corrente: - De quando em quando a lua desmaiada - Mergulha em nuvens, surde, outra vez morre; - E das planicies a extensão geosa - Ora resae e alveja, ora se apaga. - - N’esta cabana de grosseiros troncos, - Tecido vime e colmo, onde sereno, - Vento, e cuidados não coárão nunca, - N’esta onde habita perennal fogueira, - E onde he Penate o Genio da hospedagem, - Venho entre amigos deslembrar tristezas: - Do frio lá de fóra o ultimo resto - Ja o atirei á chama tragadora. - Em ti, Amores meus, em ti só fallo - Ó Primavera minha; em ti só cuido; - A ti quero escrever: inda ha bem pouco - Em meu passeio a flor das larangeiras, - E do sol que hia a pôr-se o extremo raio, - Cá me derão de ti saudades tristes. - - Desde que ao scetro do raivoso Junho - Tu doce com teus Zéfiros fugiste, - Meu dia estendo em languidos suspiros. - A noite em vagos sonhos me afigura - Ver-te, cantar-te, desfrutar teus mimos: - Mal desponta a manhã, mal foge o sono, - Desespero-me, lido entre amarguras; - Peço aos bosques sem folha, aos ermos campos, - Aos rochedos de neve, ás turvas fontes, - Ao ceo toldado, aos ares tempestosos, - E a toda a natureza, a minha Amada. - - “Primavera, onde estás?” do outeiro exclamo; - De valle em valle, de um cabêço em outro, - “Primavera, onde estás?” responde o echo: - No prado o guardador, no monte o Fauno, - Pelo arvoredo as Dríades á escuta, - “Primavera, onde estás?” depois exclamão. - Emquanto assim fiel, por ti ó Deosa - Me desentranho em ais, onde te escondes, - Perguiçosa gentil? onde vagueas - Bella inconstante que estes ais não ouves? - Algum Deos namorado, em plaga estranha, - Encheria de amor teus olhos livres? - Esquecer-te-hião, (Ceos!) promessas tantas? - Sim: que te importa o definhar de um vate? - Do vate que te amou, te adora ausente? - Tu folgas e elle gema; elle delire, - Tu a prados sorris vestindo prados, - Revês-te, amante nova, em novas flores: - Fontes ha tambem lá, que importão éstas? - De fonte ao claro espelho te engrinaldas; - E ufana de encantar sensiveis peitos, - Tambem, como entre nós, por lá dardejas - Fogo de amor aos entes insensiveis. - - Volta, volta, ó cruel, aos campos nossos. - Qual paiz no universo, a não ser Pafos, - He mais digno de ti? ¿por onde achaste - Para o cortejo teu, Ninfas, pastoras, - Como éstas que entre a murta o ceo nos cria? - Amantes mais fieis? florestas, rios - Namorar-se, mais frescas, mais formosos? - Mais doces flautas quando amor entoão, - Aves mais doces quando amor gorgêão? - ¿A tua Cintra, Elisio dos desejos, - Nobre jardim do Oceano, onde folgavas - Contemplar na alta noite em mista dança - Ninfas das ondas, Ninfas das florestas, - Assim te descaío? ja não proteges - Os córos virginaes que ali passêão - Sorrindo ao ver seu nome em bosque e bosque? - ¿Por toda a parte as Graças que espairecem; - Do aligero esquadrão travêssos brincos, - Frechas doiradas em contínuo vôo - Aqui e ali aos peitos descuidados, - E se errão corações, ferindo os bosques, - Porque os bosques ali tambem suspirão, - Tudo pois te esqueceo? Volve, ó Querida; - Cede, não sejas dura, a amor, aos versos. - - Desde que te ausentaste ahi pende a lira - Nos braços nus de um álamo sem folhas, - A minha lira ao vento abandonada! - A lira d’oiro, onde entoei teu Nome, - Onde a minha paixão soou mil vezes - Na linguagem dos ceos a teus ouvidos, - Ei-la sem honra; os ventos lhe roubárão - Dos antigos festões o escaço resto! - Ao passar com seu gado, e vendo-a muda, - Diz suspirando a turba dos pastores: - “E’sta a que dava alento ás nossas festas: - Mal haja quem a trouxe a tal desterro!” - Dríades ternas, que meu canto ouvião - Não talvez sem prazer, dizem passando: - “O vate emmudeceo longe da Amada!” - Mas apenas teus Silfos precursores, - C’roados de violetas assomarem - Na ethérea região de nossos climas; - Apenas este ceo pezado e turvo - Mandar á terra os ultimos chuveiros; - Apenas rebentando as novas folhas - Se remoçar esse álamo tristonho, - E entre a nova ramage, emtorno á lira, - Cançada de seguir-te andar pouzando - A rolinha estrangeira, e sócia tua, - Á lira despirei do inverno o musgo; - E n’ella, de aureas cordas melhorada, - Só de ti chêo, na presença tua, - Brotarei versos, como brotas flores. - - Oh voa, acode a consolar Cibele, - Cibele a térrea mãi da especie humana, - Cibele, amores teus, qual tu Deidade! - Se ora a visses! ... do carro verdejante - Os rebeldes tufões a derrubarão: - Co’a trança descomposta, o manto em rios, - A altiva c’roa em parte destruida, - Nua jaz á vergonha, ao vento, á neve. - Seu tanto desamparo he mágoa aos filhos: - Mas para dar-lhe a mão, torna-la a Nume, - Poder, qual em ti ha, não ha nos homens: - Do fundo do teu lodo a ti só chama, - Ai, leve-te algum vento as queixas d’ella! - - As torrentes sem freio divagando - Contra marmóreas pontes indignadas, - Investem, chocão, despedação, rojão - Ruinas em montoẽs aos fundos mares. - As Dríades, teu povo e tua gloria, - Tremem, oh dor! ao furioso assalto - D’Euros, e Notos, e Africos em guerra: - A seu brutal furor nenhuma escapa: - Crer-se-hia que as prisões da Eolia furna - Para sempre arrazára a mão de Jove. - Dríades nobres de arvores antigas, - Refugio outr’ora das calmosas séstas; - Dríades bellas de arvores vaidosas - Co’a idade juvenil, verdura e fôrças, - Tem a seus pés quaes vítimas caído. - Co’os negros frutos oliveira amiga - Baqueou; não lhe valeo celeste guarda; - E Minerva prantêa o estrago enorme: - Cáe o pinheiro amedrontando os valles, - E Pan, sentado nos troncados restos, - Triste espera por ti co’a flauta muda. - - ¿D’esta cabana a rustica fogueira - Sabes quem a sustenta? ah! corre, vôa: - Cedro, que eu te sagrei, caío por terra, - E onde brincou favonio estalão chamas. - Mui tarde chegarás se não-te apressas; - Do colono e pastor os ais te invocão, - A mesma natureza he morta quasi! - - Que fragor, que trovão! piedade ó Numes!... - Este deu raio, e pérto.—Outro rebrama!... - O Olimpo sobre nós desaba em fogo! - Chlóe, e Amarilis trémulas, gritando, - Desfeita a rubra côr em côr da morte, - Enchem de seu terror esta cabana. - O’ innocentes, miseras pastoras, - Não griteis, não tremais; vereis em breve - Dissipado este horror nos longes ares; - Contra o crime orgulhoso os Deoses troão, - Não fere o raio a rusticos alvergues. - Não, não me engano, ouvís como se afasta? - Como la vai ja longe? o mais do estrondo - Ja he toada vã no vão dos bosques. - Chuva propícia em caudalosa enchente - Desce na escuridão; resoa o této - Com o crebro saltitar das frias gotas: - Sibila o vento na vizinha serra. - Chlóe a porta fechou: nós apertâmos - O cerco estreito em deredor do fogo. - Cantou o gallo esperto: he meia noite! - E eu vélo ainda, e velarei saudoso - As horas todas que á manhã precedem! - Horas, horas de paz no horror das trevas; - Horas de estro, misterio, omnipotencia - Ao que nasceo das Musas bafejado! - Sonhe a ambição com purpuras, e scetros; - Torpe avareza com os inuteis cofres; - A vingança, fatal a si e aos outros, - Cogite embora nas traições, no engano, - Nos agudos punhaes, no sangue em jorros; - Vulgar amante afine, esmere astucias, - Com que succumba a tímida innocencia, - E aos laços venha destramente armados: - Eu dando a amor o que se deve ao sono, - Em chama pura, porque he tua, ardendo, - Alégro com teu Nome a horrenda noite, - A saudade em saudades apascento, - E inda ausente, comtigo ausente fallo. - Como o perdido em temeroso escuro, - Que ao mais leve rumor trémulo pára, - Assacinos agoura em cada tronco, - Não ouza resfolgar, prosegue a medo, - Aqui lhe surde a silva, alem penedos, - E lhe abrem fauces mil os precepicios, - Só tem na aurora esp’rança, e mal que ao longe - Annuncios d’ella vê, canta e renasce; - Serei mais que feliz pois vas ser minha, - Mal te sonhar ao longe, ó Primavera. - - Sim: eu te amo inda mais que a vide ao tronco, - Mais do que o touro em maio ama a novilha; - Quero-te mais que o Deos de amor ás trevas, - Mais do que Flora ao Zéfiro inconstante. - Eu suspiro por ti, como suspira - Murchada planta por sereno orvalho, - E ardente ceifador por fresca fonte: - Es-me tão cara como a bella esposa - A seu amante de chorar cançado, - Quando no dia d’hirneneo se abração: - Tão doce emfim como o primeiro beijo, - Que uma terna pastora, a medo e a furto, - Consente ao seu pastor levar-lhe aos labios. - Qual dos amores, que no mundo girão, - He mais grato que o meu? Este em delícias - Excede tanto aos mais, como tu vences, - Tu belleza do ceo, do mundo as bellas: - Eu amo e para amar não me recato, - Ao mundo inteiro meu ardor confesso, - Tenho rivaes e do ciume zombo, - Gozo-te, e nem pudor nem leis mo estorvão. - - Inda me está lembrando (hora doirada!) - Quando longe do mundo, e a sós comtigo, - Pela primeira vez te disse “Eu te amo!” - Abria a Aurora o roxo mez das flores: - Juntas em córos no arvoredo as aves, - De ramo em ramo aos ranchos adejando, - Em nunca ouvidos sons a luz saudavão: - Inda do puro rio a opaca nevoa - Bem não era desfeita ao sol nascido; - Inda das folhas concavas pendião - Trémulas gotas de luzente orvalho, - Que depois leva o brincador Favonio; - Quando (ai memoria doce!) eu dei comtigo - Inda meia a dormir na fofa relva. - N’alguns louros de roda entretecida - Hera tenaz um toldo te formava: - O melro grave, o rouxinol cadente, - Para encantar-te os sonhos, diffundião - Entre uns rosaes a musica dos prados; - Enchia aroma puro os puros ares. - Ligeiras, bellas Sílfides, velando - Invisiveis teu placido retiro, - Impedião que um Fauno petulante - Ou rustico pastor pozessem olhos - Em teu corpo sem véo, cheio de encantos. - Alí me conduzio propicio acazo: - Não mo impedirão Sílfides zelosas, - A natureza inteira he franca ao vate. - Ridente sono, da innocencia imagem, - Cerrava ainda os olhos teus ao dia: - Todo brandura o juvenil semblante, - Até sem o saber, até dormindo, - Faria suspirar homens e feras. - Entre a face mimosa e a fria relva - Tinhas meio curvado o braço lindo: - Como ao desdem, na esquerda seguravas - A cornucopia, a não poder com flores: - Halito doce de fragancia amena - Sáe do seio, que túrgido se eleva; - Dos roseos labios, da pequena boca - Vem tão doce, vem tal, que um peito humano - Bafejado por elle, excede os numes, - E a alma, em vez de pensar, delicias volve. - - Tal eras, tal fiquei ó Primavera! - Espertaste de todo; e toda risos, - E todos luz e amor os olhos verdes, - O que era ja sem termo accrescentaste, - Dobrou-se a graça ao mundo, o fogo aos peitos. - Um mar de deleitosas fantasias - Me soçobrou, confesso, e tempo largo - Jazi com o ledo mundo em braços da alma. - Depois tornando em mim, ví-te ja prestes - Para baixar do outeiro aos amplos valles: - Quão mais louçã, e em galas mais garrida! - ¿Que muito, se a mais nova das trez Graças, - De tuas mil Oréades servida, - Pozera as proprias mãos ao vago enfeite? - Erão-te manto ondado, e roupas simples, - Quanto verde ha na terra, e flor nas plantas; - Mas triunfava a rosa! aos botões d’ella, - Nem ja todos botões, nem flores todos, - Fôra o tépido seio em throno dado, - E em vez de o embellezar, se ornavão d’elle: - Erão raios do Sol a c’roa tua!... - Parei de embevecido! e quem no mundo - Te vio jamais como te vio teu vate? - Em teu seio amoroso um Cupidinho, - Qual borboleta d’oiro, esvoaçava - De botões a botões, na escolha incerto. - Vio-me; e curto farpáõ, doirado, agudo, - Curto farpáõ que os olhos não percebem, - Me arrojou, me sumio dentro no peito. - Graças ao tiro do mimoso Alado! - Na profundez da f’rida, e gôstos d’ella, - Contente reconheço, adoro um Nome. - - Amante, desde então, ditoso amante, - De dia a dia te encontrei mais terna. - Incenso, que antes dava a falsas Musas, - Off’reci-te, acceitaste, e foste a minha. - Abriste-me a Aganippe em cada arroio, - Cada monte foi Pindo, e Tempo os valles: - E tu em cada valle, em cada monte, - Ante a lua, ante o sol, me estavas sempre - Musa do coração, presente aos olhos. - De poetas foi sonho a voz das outras, - A tua graciosa ciciava, - De toda a parte vinha em tom macio, - Que filtra inspirações, e a amor contenta. - - Se os de ambições miserrimos forçados - Que ás cidades dão vida, e a si a roubão, - Podessem vir um dia onde tu reinas! - Se a mente que as paixões lhes anuvião, - E olhos em que os cuidados, seus verdugos, - Atárão com trez nós perpétua venda, - Podessem ver-te a luz deliciosa, - O manso da alegria, os gostos puros!... - Deixando sem adeos tumulto e pompas, - Mais de um, mais de um, salvando a tempo os filhos, - Co’as pouzadas dos bons unirra a sua. - E a quem darás tu nunca o riso cheio, - Como o déras a este, que trocasse - Oiro a virtude, e marmores a flores? - ¿Que ja sôlto de si e a si tornado, - Viesse pôr, para os livrar de queda - E adora-los em ocio, os seus penates - Á beira de uma límpida corrente, - Que de um bosque atravéz susurra e foge. - Víra os Genios da terra o anno inteiro - A lhe aprestar a mesa; aqui brotando a - No pomar curvo, ali na horta regada, - Lá no chão da seara, alem na vinha - Que o recôsto do outeiro alastra e enreda, - Mais longe nos cabeços verdejantes - Onde o gado em socego os leites cria. - Não lhe ameaçára o raio o této humilde: - As manhãs, d’entre as ramas espreitando - Pela aberta janella, o acordarião, - Por lhe alargar a vida: os passarinhos - Lhe dirão nas frescas alvoradas - “Bem vindo, alegre amigo, ás nossas casas! - Nós cantamos teu Deos, somos felizes, - Tu louva o nosso, e goza d’este mundo.” - Se algum cuidado a vespera deixasse, - Levar-lho-hia na vêa murmurante - A correntinha onde lavasse o rosto. - Vê zagalas fieis, vê perigrinas - De formosura e joias não compradas, - (Que uma da-lha a saude, outras o prado); - Com ellas espairece a fantasia, - E se inda o coração quer mais ventura, - Ama; ao ceo que ja tinha, um Deos lhe accresce! - Quanto via e pasmava em mortos quadros, - Onde astuto pincel prodigios obra, - Sombras vãs, cujo preço he rios d’oiro, - Tudo agora real, vivo, mais bello, - De mais subida mão pintura immensa, - De graça lhe cercára o lar e a vida. - Mas ah! porque me sólto em vãs ideas! - Embora o preço teu não saiba o mundo, - Primavera, eu te adoro e tu me afagas: - Caro co’a lira vezes mil teu nome, - E tu me infloras magamente a lira: - Em longo mútuo abraço almas trocâmos; - A minha he mansidão, frescor, perfume, - Toda a tua, poesia, amor, extremos. - Lanças-me em teu regaço, e quando a noite - A lira e cornucopia aos dois nos furta, - Das-me dormir co’a fronte no teu seio, - D’onde me vem coando uns sonhos leves, - Todos teus, todos candidos, na fórma - De flores, de aves, de amorinhos, de auras. - Assim, me queres teu até no sono! - E porque sombras más o não perturbem, - Mo ficas a velar á luz dos astros, - O semblante pacífico ao sereno, - Os olhos no ceo da alva, e o peito amores. - - Mas tu ... porque não vens?—Não não me engano, - Inda agora os trovões rijo batalhão. - Talvez rola n’esta hora a tempestade - Pelo oceano de Atlante ondas sobre ondas; - Rugindo estoira o mar em crespas serras: - Possança de baixeis, esfôrço, industria - Não vale a contrastar-lhe a valentia; - De toda a parte a morte esvoaça, ruge - Na horrenda cerração com sons do averno; - O náufrago abraçado a sôlto lenho, - De toda a parte a vê, a ouve, a sorve; - Vai a abismos e a ceos repulso d’ambos, - E perde, antes da vida, a luz e a mente. - Sumio-se o ultimo audaz de sôbre as aguas! - De nuvens atro veo submerge a lua; - Não luz na escuridade alguma estrella; - He o luto do Homem forte! Ó Mar és livre! - Triunfaste, adormece.—Ah que de vezes - Taes scenas, tal horror, maior, mais negro, - Nos tem de si brotado a umbrosa quadra! - Ó tu contrária sua, o tu dos homens - Sempre invocada amiga, ethéreo Nume, - A quem ceo, terra e mar dão vassallagem, - Onde estás, que não vens com um leve assopro - Trazer serenidade aos elementos? - Se inda és a mesma, e súpplicas te movem, - Sobe ao carro da aurora, os ares fende, - E acode ao Luso clima, onde te invocão. - - ¿Lembra-te a gruta, a gruta onde Amarilis - De seu ja quasi esposo Umbrano, o astuto, - Acceitou, de sincera, a grave aposta? - Qual era, que o pastor lhe não podia - Dar n’uma tarde tantos beijos, tantos, - Como as folhas do plátano vizinho, - Sendo o premio da aposta inda outro beijo? - ¿Aquella gruta, onde ambos consumirão - Um dia teu, a adivinhar a ponto - Todas as graças do primeiro filho; - E só no sexo os votos discordavão, - Porque Umbrano pintava outra Amarilis, - E Amarilis raivosa um novo Umbrano? - Pois n’essa, n’essa gruta os meus amigos - Para hospedar-te um grão festejo tração. - Pôr-se-ha do cedro á sombra altar gramíneo - Com seus flóreos listões, onde c’roados - Te libem vinho annoso e leite puro, - Concertando himnos teus com lira e flautas. - O lavrador da proxima campina, - A estirada cantiga aos bois tardios - Parando calará, para escutar-nos. - - Então, então começa o tempo d’oiro, - Folgão no campo os naturaes prazeres, - E a rustica alegria apraz aos deoses. - Aqui, apoz as candidas ovelhas, - Vai trigueira, descalça pastorinha - Aos echos do arredor cantando amores; - Ali galhudo Sátiro se esconde - Para colher alguma Ninfa errante; - Alem com ledos sons retine o bosque, - O riso ferve, as flautas se misturão; - Mais longe, aos pés de mal fingida ingrata, - Se exhalão rogos apiedando as selvas. - Um favonio subtil encrespa as ágoas, - E enfada a Ninfa, que estudava uns geitos - De se enfadar com quem de amor lhe falle. - Priapo brincador gira saltando - Nos jardins, nos vergeis, e nos pomares, - Ramos bate, alvorota o plúmeo bando, - Que foge, mas de Amor não foge ás settas. - Amor e seus irmãos, com o facho em punho, - Lanção tacito fogo a quanto existe. - Junto da verde faia susurrando - Se ouve outra faia um não sei que, tão doce, - Que aos amantes apraz o seu murmúrio. - Do rebanho o marido entre o rebanho - Bala amoroso, e todas lhe respondem: - Pela novilha se enfurece o toiro, - Accomette o rival, goza o triunfo. - Côr de neve, innocentes cordeirinhos - Ja balão na verdura, ja recresce - Maravilhando a serra, a grei profusa - Das erradias cabras saltadoras: - A nova creação corre exultando; - Aquelle foge, os outros o perseguem, - Voltão, saltão, empinão-se, discorrem - Por toda a parte n’um momento o prado; - Cresce o leite, e o pastor a quem ja faltão - Cinchos para o queijar, tarros que o levem, - Lédo se enraiva com riquezas tantas. - Todo o arredor da aldea he movimento, - Contente lida, esp’rança, amenidade. - - Porque se hão de calar da infancia os brincos? - A infancia he primavera, he mundozinho - Florente, de que nasce um grande mundo. - Menino á espreita e mudo entre as silveiras, - Apoz o som do grillo o vai buscando; - Outro os ramos envisca, as redes arma; - Prêzo de longo fio ao pé mimoso - Passarinho pelo ar chirla e revoa, - E crendo-se de novo o rei do espaço, - De inconstante creança um dedo o rege. - Um mais travêsso, ás árvores trepado, - Nos ramos se embalança, ou furta os ninhos; - Outro mais atrevido, emvão forceja - Por montar no carneiro, que se escapa, - Fazendo ao longe retinir os bosques - Co’ o crebro som da aguda campainha. - Tenra menina um malmequer desfolha, - E pelo amor da mãi á flor pergunta; - Em quanto seus irmãos vão na corrente - Pôr de cortiça um concavo barquinho. - Na luta, na carreira apostas fervem. - Oh! da infancia do mundo amaveis scenas! - Se inda as virtudes sôbre a terra existem, - Se inda existe o prazer, o socio d’ellas, - He no campo, no campo; e a quadra tua - Nos mostra, ó Primavera, este prodigio. - - Mas da fogueira as chamas enfraquecem! - Ja os gallos das proximas cabanas - Vão começando a annunciar-me o dia: - Que som grato! que enlêvo estar sentindo - Por um sereno albor, estes vizinhos - Nuncios da aurora, a cuja voz respondem - Outros aqui e alem, com voz diversa! - Sim, o dia começa: a luz nascente - Pelas fendas do této está brilhando. - Eis-me só junto ao lar! quem sabe ha quanto - Se irião meus bons hospedes ao colmo: - Agora em doce paz lá estão dormindo. - Que breve noite! e he finda; ah toda he finda! - Da fresta, onde cheguei, contemplo os ares, - E claro vejo o ceo, de nuvens limpo: - Mal brilha no horizonte a estrella d’alva. - E os olhos meus (oh dor!) só descobrirem - Como por um véo denso a natureza! - Os montes que longissimo se alcanção - De vinhas e arvoredo entresachados, - O rio ao longe a fulgurar co’as ondas, - Os remotos cazaes da gente humilde - Pelas verdes campinas alvejando, - Não vê-los eu! não ver!... Mas que murmúrio - Sólta a folhagem do loureiro antigo, - Que defronte de mim remonta aos ares? - O Favonio acordou, que hontem de tarde, - Cançado de girar, adormecêra - Junto á cascata no pomar sombrio. - Vai subito partir: em curtas horas - Será comtigo, e te dirá meus versos. - - Meus Amores, adeos! adeos meu Nume! - Da Epistola a resposta a vinda seja. - - - - -O DIA DA PRIMAVERA - -POEMETTO EM DOIS CANTOS - - -_Em dois Cantos se divide agora este Poema, para commodo de quem lê. -Entendi em apertar melhor que da primeira vez, este feixe de flores, se o -he: algumas deitei fóra sem fazerem mingoa; as demais forão refrescadas, -e se me não engano mais algum viço ganharão. Puz-lhe com tão boa vontade -as mãos como na Epistola: pelo que, sem deixar de ser o mesmo, he outro; -he o mesmo no essencial e intrinseco, todo outro no lustre e na toada._ - - - - -DEDICATORIA A MINHA MÃI. - - -_Á maneira das arvores, que acordando do sono do inverno ao bafo -omnipotente da primavera, como que ressuscitão com o riso e vida nos -primeiros olhos e flores, o meu engenho começa a matizar-se das suas, -com a tornada d’estes dias puros e deleitosos aos amigos do campo. As -primicias, que d’ellas pude colher, forão para a grinalda que apresentei -na Festa da Primavera celebrada com os meus amigos. Depois de a haver -tirado do altar da Deosa que governa a mocidade do anno, a quem senão a -ti, ó minha Mãi, devêra offerecer esta grinalda? sim: outrem qualquer -a engeitára por de nenhum preço; de ti sei eu certo que lhe acharás -uma graça especial, mais finas côres, e fragrancias mais suaves: emfim -me atrevo esperar que póstos amorosamente os olhos na minha Obra, -entenderás, sem o dizer, como eu sinto todo o amoroso da gratidão, ao -cuidar em quem me deo alem do ser, a educação, e todos os mais carinhosos -desvelos: alguns suspiros e lagrimas, para cúmulo da minha felicidade, -serão talvez por ti, ó minha Mãi, espalhados na minha ausencia._ - - - - -HISTORIA DA FESTA DA _PRIMAVERA_. - - -Remontando a vêa do Mondego até obra de um quarto de legua para cima da -Cidade, encontra-se na margem do poente um gracioso retiro, selvatico -sem aspereza, e como que enfeitado sem arte: dissereis que em hora -de contentamento o fizera a Natureza, para algum dia hospedar no -regalo d’aquellas suas sombras um ajuntamento de poetas seus. De _Lapa -dos Esteios_ pozerão nome ao sítio em dias remotos, segundo soa, os -vinhateiros e pomareiros que de umas e outras varzeas do rio costumavão -acudir ali por paos, com que estear suas parreiras e arvores derreadas -com o pezo da fruta. Ainda permanece o nome, porem ja o arvoredo se não -desbarata pelos vizinhos, e a Lapa, de tão solitaria e amena que he, -parece a appetecida estancia do Genio da liberdade. - -Entra-se por um breve cáes ornado de cinco alterosas arvores, das quaes -uma torcendo-se toda para o rio, se debruça para saudar e cobrir com -a sua sombra os bateis que chegão. No tôpo do cáes, e fronteira a quem -desembarca, se alevanta um genero de muralha nativa de rochedo, rôto em -muitos seios. Esta penedia, até aos nove ou dez palmos de altura, sóbe -nua e só ornada de sua mesma aspereza; d’ahi para cima, como envergonhada -de sua dura condição, se esconde toda com um frontal de heras, que ora -resaem como cabeços pendurados, ora se recolhem para fantasiarem la -por dentro suas grutazinhas e labirinthos, d’onde ás vezes se estão -vendo saír por um cabo e por outro os passaros, que depois de beber e -se banharem na vêa da agoa, se empoleirão pelos lamegueiros vizinhos, -namorando e cantando a suavidade e fresquidão de suas habitações. Pelo -lado direito d’esta aprazivel scena, sóbe uma cerrada espessura de bosque -pequeno, onde os olhos se enleão na confusão de troncos e folhagem: -pelo esquerdo abre-se para cima uma escada rustica mas commoda, de doze -degraos. Tecem-lhe estendido toldo dois lamegueiros velhos, e outras -arvores mais pequenas se abração por ali, travadas com mil voltas de -hera. Dá esta subida em uma planura sôbre o comprido com seus assentos -de ambas as bandas, isto he da terra e do rio, o qual por entre um basto -arvoredo, que d’ahi por uma especie de promontorio, vai descendo até -lhe metter os pés na corrente, se está vendo a furto transparecer: das -primeiras cabeças d’este arvoredo cáe para os assentos uma boa a vedada -sombra. O puro e perfumado dos ares, a vária presença da terra e aguas, -o susurrar dos ramos abanados da viração, as melodiosas querellas das -aves, em summa o natureza enfeitada só de suas mãos, e paz e descanço -de deserto, são a fonte perenne dos encantamentos d’este sítio. Uma -ladeira suave opposta á escada, e ainda mais sombreada, despede em outro -cáes com seus degraos nativos de rocha até á agua. He este menos bem -assombrado que o primeiro: não tem relva, nem arvore, nem verdura afóra -ada muralha no tôpo, toda velada de musgos, matizados com seus tufos de -fetos silvestres, congossas e um sem numero de outras plantas e ervas, -sobresaindo a espaços alguns ramos solitarios de figueira brava: mas o -que de interior graça lhe fallece, lho compensa a larga vista que para -fóra desfruta. - -Era chegado o primeiro dia de primavera. Tratado e assentado estava de -ha muito entre mim e meus amigos, como iriamos passa-lo juntos, em uma -romaria e festa poetica á honra d’aquella mais formosa parte do anno. Não -faltavão á volta da Cidade muitos sitios accommodados ao intento, antes -não creio que possa haver no mundo outra verdadeira Arcadia, que em tão -pequeno espaço resuma tantos: mas d’entre todos coube á Lapa dos Esteios -a palma da competencia. De doze se compunha o rancho, todos amigos, -poetas e academicos. - -Por volta de meio dia, pouco mais, nos ajuntámos com muita alegria e -abraços, e todos com as nossos ramalhetes de primavera nas mãos, nos -pozemos alvoraçadamente em caminho para o rio, onde ja o barco nos -aguardava. O ar estava puro: contra o sol que ardia rijo, nos acudia com -refrigerio um pouco vento, que ao mesmo tempo nos fazia mui boa feição -para contrastar a corrente. Saltámos e partimos.—Em quanto alguns por -um e outro bordo ajudavão o favor do ar com o trabalho de suas varas, -repellindo o álveo, e fazendo-nos resvalar mais prestes á medida de -nossos desejos, os demais amotinavão ao longe ambas as ribeiras com suas -cantigas de amores, entoadas em chusma. A cada momento porem se quebrava -por si o canto, para se contemplar e encarecer o muito que a natureza -e o artificio podérão e soubérão crear para enlevo de olhos, por ambas -aquellas dilatadas margens e campos: pradaria verde e florída, outeiros -risonhos, cazaes branqueados, grangearia e recreação de quintas, pomares, -hortas, jardins, e mil arbustos curvos por entre choupos e salgueiros até -beijarem a agua, esse era o painel em que meus amigos se hião enlevando, -e que a mim, que pelo longe que era posto, o não podia nem por nevoas -enxergar, me desentranhou algum suspiro, dando-me a sentir no meio da -geral alegria alguns momentos magoados, recostado na borda da embarcaçaõ. - -Mil couzas pequenas, e por ventura vãs (mas quaes ha que sejão taes para -gente moça em dia de júbilo?) matizarão toda esta viagem: taes como a -grita que de subito alevantámos ao passar por baixo do arco grande da -ponte, aonde as vozes, refletindo do massiço da cantaria, nos ressortião -para os ouvidos com uma estranha soada, como que por aquella porta e -esteiro estivessemos entrando um mar nunca d’antes descoberto; despedidas -á Cidade que de nós se alongava, branca e assentada em seu monte, até que -desapparecia, e ás margens que para nós arremettião correndo com seus -estendaes, lavradores e rebanhos, para logo nos passarem alem, fugir-nos -e perderem-se; a vista de um bando immenso de pombas, que levantando-se -espavoridas com a nossa passagem, de um ilheo de arêa onde se estavão -a beber e banhar-se, nos atravessarão pela proa e forão derramar-se -todas queixosas pela ribanceira vizinha; o ceo a espelhar-se inteiro -nas aguas ufanas de retratarem multiplicado o sol da primavera com toda -sua magnificencia: semelhantes nadas produzião em somma um genero de -felicidade a estes moços Anacreontes viajando, á qual, para de todo o -ser, só faltava poder durar. - -De instante para instante importunavamos os barqueiros, perguntando -insoffridos quanto nos restava do caminho. Cuidava-se ver a Lapa dos -Esteios em quantas soledades apraziveis nos apparecião ao longe. Emfim -a apontárão com o dedo; levantão-se todos, todos com clamor unísono a -saudão. Saltámos logo no primeiro cáes, deixando o nosso barco amarrado -a uma arvorezinha, que se algum curioso vier visitar aquelle sitio, -he a terceira da parte esquerda. Uns de outros derramados, nos fomos -prestesmente por onde o acaso ou a fantasia nos levavão, correndo e -devassando toda aquella solidão, que por algumas horas vinhamos povoar: -e tornando-nos a ajuntar no alto, onde tão commodos assentos se nos -deparavão. “Esta Lapa disse um, para estancia e habitação das Musas -parece feita; por aqui as heras pendem de toda a parte!” Sobre o que, se -procedeo logo á lição dos poemas que todos levavamos. Aqui usarão meus -amigos para comigo de huma cortezia, de que por mais que fiz me não foi -possivel defender-me, ordenando-me com seus rogos que os meus versos, -para os quaes o ultimo lugar em tal companhia podéra ainda ser de muita -honra, rompessem antes de outros aquelle acto. Estes, a que eu pozera o -titulo que ainda tem _O Dia da Primavera_, ja primeiro que o sitio fosse -escolhido se achavão feitos, rasão porque não ha que procurar n’elles a -pintura d’elle. Concebêra eu um dia de Primavera levado pelos campos em -contentamento com aquelles companheiros; tomei de minha livre imaginação -o que me pareceo bastaria para o encher; e poetei-o sem me obrigar a -nenhuma outra verdade. - -_Elmiro_ (que todos havião arcadicamente tomado para si nomes de -pastores) assim como a leitura foi rematada, veio para mim com um listão -de heras nas mãos, e mo lançou, a todo o poder que eu pude para me -escusar, do hombro direito ao lado esquerdo.—Seguio-se _Anfrizo_, o qual -em pé junto de mim, e com uma coroa em punho, recitou uma formosa Ode, -toda floreada dos louvores que a amisade lhe figurava poderem-me bem -assentar; e chegado que foi á ultima estrofe, me coroou abraçando-me. -Tambem a esta honra me foi forçado ceder, com quanto claramente em mim -sentisse o muito que vinha mal empregada: a amisade ordenava, o dia era -seu, rendi-me. Era a grinalda de artificiosissimo lavor, mui fresca, e -tecido de louros, heras e cópia de flores naturaes; guardei-a com ufania -e como joia; quizera conserva-la para sempre, mas representava gloria, e -minha, murchou, desfez se, largos annos ha que he pó, e pó disperso. - -Dado que ja então fosse tal o meu triunfo, qual nem em sonhos de ambição -o podéra antever, _Josino_, a cuja feiticeira Musa ja eu era, muito -havia, devedor, inda o subio de ponto, lendo antes de um poema, pequeno -em extensão mas grande e grandissimo em merecimento, um elogio a mim em -tão delicados versos, que não posso menos de perdoar-lhe a lisonja. - -_Aulizo_[5] leo um longo poema intitulado _A Primavera_, que todo -respirava amor aos campos e á virtude, ataviado de mui mimosas galas -poeticas, e de mui particular doçura e sabor para os ouvidos: nem se -cuide que sangue ou amisade ou vãgloria me fazem fôrça para o dizer, -que antes o dissimulára eu, se o ser irmão e amigo fossem partes para, -quando a todos os mais vou distribuindo seu preço, lho sonegar a elle; e -ainda assim talvez o não ousára, se tão boas testemunhas não valessem a -confirma-lo. - -Foi esta leitura interrompida de uns sons de flauta, que por cima -das cabeças, e de mui perto nos vinhão: era o meu caro amigo, -Horacio portuguez, José Fernandes de Oliveira Leitão de Gouvea, que -alvoraçando-nos e alvoraçado, nos apparecia ao cimo da curta escada que -da Lapa sobe para a _Quinta das Canas_, que lhe fica sobranceira. Forão -tudo clamores de alegria, recebendo entre nós, poetas todos verdes, o -nosso decano e patriarcha; cercámo-lo com abraços, das mãos lhe furtarão -a flauta, foi levado de repente a todos os recantos do nosso Parnaso, -contando-lhe todos á uma o que até ali se passára, que vezes se fallára -n’elle, e se desconfiára de sua promettida vinda. Este homem amavel, -jovial, incapaz de estudadas gravidades, dado e corrente com todos, bom -sem merecimento de esfôrço, filosofo sem o cuidar, coração que ainda não -saío nem ja agora sairá da infancia, homem só comsigo parecido, que a -ninguem imitou nunca, nem de outrem será nunca imitado, e cuja vida, se -alguem soubesse escrevê-la, sairia tão original e unica como elle mesmo, -este digo, nascido para ser alma de qualquer ajuntamento moço e alegre, -tomou para logo seu quinhão na Festa. Deu-se fim ao poema interrompido -com a chegada do novo socio, que muitas outras vezes o tornou a -interromper com applaudir e abraçar o poeta. _Josino_, que assim como o -ouvia fôra entrançando uma coroa de hora da arvore mais chegada, mal que -o ultimo verso expirou, se foi com ella, por entre as palmas de todos, -premiar a fronte do cantor. - -_Elmiro_, que de apoz se seguio, nos cativou as attenções com um poema -de muita invenção e belleza, aonde outra vez a amizade me brindou com -perfumes seus, para os não dizer da lizonja. Igualmente o coroámos; e -outro tanto se foi fazendo aos demais, que recitarão poemas mais breves -ou traduções. - -_Salicio_[6] repetio uma mimosissima tradução livre de uma parte da -_Primavera_ de Thompson: _Albano_, uma tradução em lindas quadras do -Idillio Primavera de Gessner: _Francilio_, uma tradução em proza de Utz, -que leo de pé com o copo em punho, e rematou com um brinde: _Franzino_ -uma versão da _Primavera_ de Cramer: cerrando-se finalmente este rico -banquete poetico com mais de quatrocentos versos de um poema de meu irmão -José Feliciano de Castilho, que pelo muito menino que ainda áquelle tempo -era, não foi dos menos vitoriados. - -Todos estavamos coroados, e o rancho se espalhou. “Ja la vai o sol -abaixo; os seus raios apenas tocão ja os cumes dos outeiros d’alem: -aproveitar o tempo!” bradarão alguns amigos da borda de uma eira que -dominava a Lapa: e todos sentimos que a tarde nos hia insensivelmente -escapando. Então ao som da flauta do nosso Horacio, começarão todos -de dançar e saltar, e as aves incitadas da musica, levantarão mais -alto os gorgeios da tarde. As folhas das heras, que por ali guarnecião -todas as arvores, e algumas flores voavão ás mãos chêas como em chuva, -de uns contra os outros. De quando em quando se alevantava alguma voz -inculcando, porque o fossem todos ver, algum particular gracioso e ainda -não observado d’aquelle sítio. Chamando _Aulizo_ pelos outros, lhes -fez notar do cáes mais arido, o como o rio d’ali visto, á conta de sua -curvidade se afigurava lago cercado de collinas desiguaes, coroadas e -semeadas de larangeiras, oliveiras e pinheiros, e cazaes alvejando, -enxergando-se mais a longe, e por entre estes, outros outeiros, quasi a -se desvanecer na distancia e sombra da tarde. Debuxava eu no animo toda -aquella scena saudosa; saía-me o quadro maravilhoso, mas era por ventura -verdadeiro? não o sei. - -Uma merenda saborosa nos appareceo de repente e como por encanto: -_Elmiro_ fôra o magico providente. Toalhas brancas de neve estendidas no -cáes do desembarque, forão povoadas de primorosos manjares, garrafas ja -de dias, e copos coroados de verdura: uns rolos de arvores estendidos -em quadro nos valerão de assentos: dois meninos gémeos, vestidinhos da -branco, erão os Ganimedes do nosso banquete folgazão. Parte assentados, -parte reclinados em diversas posturas, outros por entre estes girando com -os copos e pratos na mão, boas descaídas, descuidos a tempo, apontadas -graciosidades e risos do íntimo, brindes com o copo alto na direita, -enviados a mui longes e mui diversas terras (que não havia um só que da -sua não padecesse ausencia e se não finasse com saudades), outras saudes -ora mais ora menos sumidas, a objetos nomeados umas vezes e outras não, -mas mui bons de adivinhar pelos suspiros e geito do saudador, a voltas -e proposito d’isso narrativas e contos para folgar, musicas alegres de -flauta mil vezes começadas e outras tantas interrompidas, e outros muitos -nadas com que a penna se não atreve, convinhão em aprazivel mistura para -encantar a ultima hora da Festa da Primavera. - -Posto era o sol, mas o ceo ainda não carregado de noite: havia-se de -partir, faltava o animo para o fazer; instavão os barqueiros, crescião -n’elles a rasão e o importunar, acabárão comnosco que nos rendessemos. -Despedidos os amorosamente da Lapa ja áquella hora entranhada de -escuridão temerosa; com os pés ja postos na beira da agua, nenhum queria -ser primeiro que trocasse terra de tanta festa, por um barco que nos -hía tornar para onde vida de proza e cuidados nos aguardava: senão -quando, levantando o bom Gouvea a voz, com ella suave e chêa que se hía -por aquellas margens alem, começa de cantar _A minha Lilia morreo_; -improviso seu, chêo de uma branda tristeza, que aos cançados e não fartos -de gozar costuma ser segundo gozo. Assim hia elle até n’isto imitando -o seu Horacio, que nos poeticos festins que dava ao Genio da alegria, -nunca se esquecia com seu quinhão de pensamento para a morte. Profundo -era o silencio que de toda a parte cercava o nosso cantor; só se ouvia o -murmurio baixinho da corrente. - -Não havia quem nos apartasse: por derradeira vez nos tornámos ainda á -Lapa, travou-se uma dança por despedida, e fez-se uma saude geral ao -lugar e ás trez Graças que ali costumão a vir muitas vezes[7], até que -emfim nos embarcámos, com as nossas coroas na cabeça. Foi aos barqueiros -defendido usar de vara, antes se lhes encommendou que nos deixassem -embora ir, tão mansa e perguiçosamente como á vêa mal desperta do rio -parecesse, e ainda n’aquelle pouco descer das aguas houvéramos nós tido -mão, se podessemos. - -Pareceo bem, para atalhar a confusão de tantas vozes como as que ali -fervião juntas, nomear á maneira do Rei do vinho nos festins dos antigos, -um que nos governasse. Este foi Gouvea por acclamação unanime. Lembrou -um que d’ahi ao deante nos ficassemos uns aos outros dando o tratamento -de confiança, que a boa amizade consente e requer: approvou-se. “E -quemquer que a esta lei desobedeça, haja-se por expulso da _Sociedade -dos Amigos da Primavera_.” Approvou-se com alvoroço; levantarão-se todos -abraçando-se, apertando-se entre si as mãos, e dando-se entre risos o -tratamento novo tão amiudado para lhe quebrar a estranheza, que ninguem -se entendia.—“Todos os Socios (gritou outro, e de novo se fez silencio) -hão de conservar até que o tempo as destrua, estas suas coroas, se não -monumentos de gloria, penhores certo que mais vale, de horas felizes:” -approvou-se por lei o que ja todos levavão no coração bem votado. -Suscitou-se depois que recitasse cada um segundo a ordem dos assentos, -alguma sua poesia breve, e que mais lhe parecesse accommodada á occasião. -Não faltárão aqui seus debates, lembrando uns como apoz tanto recitar, -tinha a cantoria muito melhor cabida do que os versos nus, outros -affirmando que a flauta melhor que nenhuma outra cousa diria com a hora, -sítio, e calada grande do rio: até que um veio conciliar a diversidade -dos pareceres, dizendo que umas couzas não tolhião as outras, antes -podião ir todas a revezes tendo seu lugar: o que assim se cumprio. - -A serenidade da noite junta com as saudades do dia, nos fez achar -inefavel doçura nos sons da flauta, que parecião modulados pela -melancolia, e se esvaíão ao longe nos ares. Se ás vezes o acaso nos -levava mais para uma das margens, uns frouxos echos chêos de doçura a -tristeza se comprazião de repetir a musica e as palmas com que a nós -applaudiamos. Emquanto um só cantava em meia voz, e nós o ouviamos -calados, a face na mão, e meio reclinados contra o rio, suave nos era -escutar como as quasi insensiveis ondas, com som muito mais baixo nos -vinhão beijar os lados do batel, d’onde, se fugião partindo, com um -murmurinho saudoso. - -Descemos em terra, e abraçando-nos repassados de igual amizade, e das -mesmas lembranças, votámos logo ali nova Festa em honra do primeiro dia -de Maio, a qual se veio a fazer, como ao deante o declarará o volume: e -todo esse meio tempo de uma até á outra, foi tecido de doces memorias, -fantasias poeticas, tenções e esperanças de prazer. - -Assim se podia e sabia ainda então passar dias mansos, innocentes e -bemaventurados! - - _Lisboa: 2 de Janeiro de 1837._ - - - - -O DIA DA PRIMAVERA. - -CANTO I. - -_A Manhã_ - - - Ei-la que chega a amante Primavera! - Logo ao romper do dia susurrando - Vós, Favonios azues, a annunciaveis. - Chega ... chegou! as aves a festejão - Desatinadas, doidas; ja com verdes - Braços lhe acena o bosque; estão-se os rios - A retrata-la; as fontes a murmurão; - Traz gala o monte; os valles se alcatifão; - Ri-lhe o ceo todo, a Natureza he d’ella! - - Mais cedo ao leito do marido annoso - Hoje a Aurora fugio; tomou regaço - De orientaes aljofares mais rico, - Mais cópia em seio e mãos de ethéreas flores. - Aos umbraes inda escuros do horisonte - Quem a aguardava, quem? os meus Amores - Que encontro! que abraçar-se!... O Zefirinho - Que ja por entre nós passou trez vezes, - Trez vezes ao passar mo ha segredado: - Vio tudo, tudo ouvio, que era elle proprio - Um dos que pelo ar vinhão soprando - O matizado pavilhão de nuvens, - Em que ás terras baixava o Par celeste. - Rosto a rosto inclinado; as mãos unidas; - Mago riso um só riso em bocas duas; - Absortos em luz mutua os mutuos olhos; - Duas Gémeas do ceo, duas Virtudes - N’uma Virtude só, se afiguravão. - —“Ó minha Irmã (dizia a Primavera) - “Quem nos ha de estremar? tu es do dia - “A Primavera, eu sou do anno Aurora”— - —“Filha como eu do Sol (acode rindo - “A Aurora), ó doce Irmã, vérte-te o Fado, - “Não q eu to inveje, os bens de urna mais ampla: - “Deu-te folgar sem mim, deu-te a alegria - “Dos dias que eu só abro, e os tão gabados - “Prazeres que eu não vi, não verei nunca, - “Prazeres do sol pôsto, e de alvas noites. - “A mim lida perenne, a mim rigores - “De oppostas estações, reinar de instantes, - “Contínua fuga, e os odios dos ditosos, - “E as maldições de Amor comtigo affavel. - “Eis porque a meu pezar, já por costume, - “De olhos que espargem luz se orvalhão choros. - “Perdôa-mos teu jubilo mos sécca. - “Desce, eu parto, urge o Tempo, e ja me acena - “Co’a mão rugosa para novos climas. - “Fica-te em nossa amada Lusitania, - “Inda pouco ha tão triste. Observa os cumes - “Contra o nosso nascente; ahi vês á espera - “A turba toda dos campestres Deozes, - “Flora, Cibele, Dríades, Napéas, - “Hamadríades, Náiades, Silvano, - “A caçadora Cinthia, Amores, Graças, - “Os ledos Risos, a amorosa Venus; - “E Pan ha muito tempo em nova flauta, - “No verde cume do apartado monte, - “Lá onde canas trémulas susurrão, - “Para a tua chegada estuda um hino, - “A cujo estrondo os Sátiros voltêem.”— - Diz: olha para traz, vê o Sol, desmaia, - Beija a Amiga, e fugindo a entrega ao dia. - - Desfez-se a névoa eis Sol! Joelho em terra, - Amigos meus; he o Sol da Primavera! - “Ó Sol das flores, Salve! Ó Sol de amantes, - “Salve! E trez vezes Salve! ó Sol dos vates!” - Vêde-o doirando do arvoredo os cumes; - Vêde nas aguas límpidas fervendo - De reflexos de luz áureo cardume. - Corramos n’um momento os campos todos! - Como esta luz do Ceo, que a toda a parte - Desce, rompe, insinua-se, alvoroça; - Como esta luz do Ceo, vates mancebos, - Devassemos a terra: uma só gruta - Não fique, um arvoredo, ou valle, ou fonte, - Por onde não mergulhe a vista, o estro. - - Esta, que ora seguimos, tortuosa - Concava senda, ha pouco estreito rio - Co’as grossas chuvas da vizinha serra, - Parece de um jardim curiosa rua! - De um lado e d’outro os còmaros pendentes - Ja não são montes de crueis espinhos, - Montes são de verdura, e roxas flores, - Onde n’outra estação viráõ c’os cestos - Colher nevadas mãos negras amoras: - Recende o legacão, e a madresilva. - De madresilva ornemo-nos as frontes ... - Mas não: fique-se em paz a flor nevada; - Quer-se antes a violeta, eu sei outeiro - Onde ella mora, he flor da Primavera; - D’esta eu fiz elleição não quero d’outra, - Vós, se outra preferís, apanhai d’essa. - - Por aqui vai a encosta desfarçada: - Como que ja de cór meus pés a sabem. - Ja vós de cá vereis, la quasi ao cimo, - Um ramalhete espesso de aveleiras, - E de dentro luzindo uma apparencia - De alvo lirio entre verde, um cazalinho; - Pois essa he a casa de Egle. E mais avante, - No alto; não voltêão solitarias - As pandas velas de veloz moinho? - Tambem ja la pouzei n’uma afrontada - Tarde do estio, e lhe dormi á sombra. - Tudo isto me conhece! Esta ladeira - De rusticos degráos, que ahi desce á dextra, - De perenne verdor acobertada, - Cáe na fonte da aldea. (Ahi vão por agua - Com seus vermelhos cantaros as moças. - Outras cá vem, com passo mais tardio, - Sobindo ja, com os potes á cabeça - Lustrosos, vacillando e sempre firmes) - Não presumis quanto he social a boa - Da fontinha aldeã! não ha formosa - Que ali se não detenha e não se enfeite; - Não ha pastor cortez, que ao fim da tarde, - Ja recolhido o gado, ali não desça - Para ajudar a encher; inda não houve - Na vizinhança amor, cantiga nova, - Ou fallado successo, que cem vezes - Do fundo de seu antro os não ouvisse - A Náiade anciã; nem bôda alguma, - Sem se enramar o portico musgoso. - - Á esquerda, pela varzea anda rebanho; - Que ouvi balar, e ainda ouço a cantilena - De pegureira voz. Dizei-me á pressa, - Que scena off’rece a varzea? a relva molle - De alvas boninas trémulas brincada, - Onde o calor nascente o orvalho enxuga, - O sombrear das arvores dispersas, - Bellos não são de ver? he vasto o bando - Das ovelhas pacíficas? he linda - A guardadora sua? está sozinha - Em pé volvendo o fuso e olhando o pasto, - Ou com algum pastor sentada em ocio? - Traz disperso o cabello ou prezo em rosas? - Que donoso cantar! que peregrina - Poesia que esperdiça aquella moça - Com broncas solidões e ovelhas rudes! - Couza que assim namore a fantasia - Não quero que haja, não: virgem formosa - Sozinha sob o ceo; velando em brutos - A que era de velar como um thesouro; - A graça envolta em lãs, contente e rica; - E annos verdes, sem pena aqui florindo, - Longe de olhos e amor, jogos e esp’ranças! - - Detende-vos: o aroma he de violetas. - Ei-las! irei tecendo a c’roa minha - Com estas, que escondidas, pudibundas, - Como a pastora, em paz desabrocharão, - O ar, como a pastora, em roda encantão. - - Ja percebo o rugir das aveleiras; - Não vejo inda o cazal estancia d’Egle, - Mas perto, oh perto vem: todo esse rôlo - De espesso fumo que serpêa aos ares, - He da interna fogueira que amanhece, - Cuidadosa do almoço, aos moradores. - - Entremos no pomar. Ja Primavera - Copiosa o bafejou, de agradecida - Ás pomareiras mãos que lho aprestárão. - Inda folhas não ha, mas tudo he flores! - Vede como ante o sol tremúla e brilha - O pecegueiro co’o vermelho ornato: - Vede alem da pereira a branca véste, - Da cerejeira, do abrunheiro a cópa: - Vede como uma vide em cada tronco - Tenaz se enlêa em tortuoso abraço; - Ja seus pequenos pampanos rebentão, - Verdejantes festões ja vão formando: - Do cheiroso morango a planta humilde - Aqui e ali no verde chão rasteja. - Arvores, plantas d’Egle, a nomeada - Em todo este arredor pelas delicias - Dos ricos frutos seus, não se numérão, - Nem sei louvor que lhes não ceda, e muito. - O porque sejão taes, fique em segredo - Quando vo-lo eu disser. — Aqui Vertumno - Veio uma tarde do passado outono, - Mudado em rouxinol, cantar nos ramos, - D’onde, mais bella que a gentil Pomona, - Egle andava colhendo a rica fruta. - Julgou ver sua Deoza o terno amante, - E tão doce cantou por entre os frutos, - Tão queixoso gemeo, gemeo tão meigo - Cercou-a tanto com chorosos pios, - Tantas vezes pouzou na mão de neve, - Na trança negra, no virgineo seio, - Que Egle o metteo no candido regaço, - O levou toda ufana ao lar paterno, - E em pintada gaiola inda hoje o guarda, - Que o Deos não quer fugir do cativeiro. - Quando a sente acordar pela alta noite, - Acalenta-a com languidos requebros: - Ao romper da manhã, quando no bosque - Ouve perto cantando as outras aves, - Logo a acorda com vividos gorgeios: - Mas quando a vê surgir, qual Venus da agua, - Sem mais vestido que a esparsida coma ... - Ahi he o pipillar, o esvoaçar-se, - O encrespar de plumage, o dar sem tino - Contra os duros varões co’ o peito brando: - Ahi o abrir do bico a pedir beijos, - E o revelar calado o amor e o nume. - Por isso he que ao pomar onde foi prezo - Fadou, quanta vos prende, infinda graça. - - Como he puro este ceo do campo d’Egle! - Como he doce este Zéfiro que folga - Entre as arvores d’Egle! este he ditoso! - Ei-la que sáe de seu campestre alvergue. - Calados se podeis, entre estes verdes - Porque vos não descubra, olhai-a um pouco. - Quereis ver como a ponto lhe adivinho - Os passos, e o que faz, e os pensamentos? - Sim, Egle he sempre aquella, he sempre a mesma; - Arvore sem enxerto he sua vida, - Dá sempre a flor igual, iguaes os frutos. - Mas silencio, Vertumnos insoffridos, - Ja vo-la pinto, e me direis se eu érro. - Do braço nu e candido lhe pende - De louro milho o próvido cestinho. - Chama as pombas, lá vão pouzar no alpendre; - Á eira arroja os grãos, lá são na eira, - Arrulhão, comem sofregas, refogem; - Ahi vai novo punhado, ahi vem de novo. - Uma d’ellas, mais alva do que o leite, - Vai pouzar no cestinho ao lado d’Egle, - E mansa come na formosa dextra; - Furtão côres com o sol o collo, as azas. - Egle lhe chama filha; affirmarieis - Que o brutinho a entendeo, salta-lhe ao seio, - Espaneja-se: agora lhe promette - O pombo mais fiel para consorte, - E um ninho todo fôfo, e muito afago - Aos pequeninos seus; mas quer em paga - Um beijo, e um beijo pede: a face inclina, - O bico a vem libar; alonga os labios - Unidos em botão, corre o biquinho, - E ao centro do botão lhe leva o beijo. - - Agora vem ao tanque, aos rubros peixes - Trazer segundo almoço: oh!—providencia - Não ha mais desvelada, ou mais formosa! - Mal que o choveo nas aguas transparentes, - Por entre os crebros circulos assoma - De vivos olhos purpurina turba, - Tragão-no, e fogem requebrando as caudas: - Ermo o lago outra vez ficou dormindo. - - Que dizeis? volve a casa? em manhã d’estas - Egle volve ao cazal! tornará logo. - Mas vós não ficareis, que o não consinto; - Hoje he só Divindade a Primavera. - Emquanto a hora da Festa inda vem longe, - Irmos correndo á sôlta, irmos folgando - He o nosso dever, foi jura nossa. - - ¿Mas que risadas d’esta parte sôão - Entre os salgueiros, do regato á borda? - Rasgado o cinto, desgrenhada a trança, - Uma Ninfa gentil é quem sozinha, - Se ouve rir no pacífico arvoredo! - La vai na vêa d’agua bracejando, - E a soltar de afflição piedosos gritos - Um Sátiro infeliz! ja muito longe - A corrente lhe leva o odre e a flauta. - Agora á flôr das agoas apparece, - Some-se agora no lodoso fundo. - Em vez de o soccorrer, o apupão rindo - Da opposta varzea os rusticos pastores. - —“Dize, bom guardador das vaccas nedeas - “Que successo foi este?”—“Eu vo-lo conto. - “A Ninfa hia correndo, antes voando, - “Ao longo d’esta margem que verdeja, - “Quando eu dei fé; suava-lhe no alcance - “O mofino do Sátiro ... (Que vejo! - “Inda poude aferrar ... Más horas leve - “A agua que o não tragou! Pois ja não larga - “Os vimes que aferrou co’a mão pelluda. - “La trepa ... Vê-lo em cima! Oh como o bruto - “Se estira ao sol e arqueja!) Hia no alcance - “Da pobre Ninfa o Sátiro; umas silvas - “A prendêrão, travando-lhe do cinto. - “Carpia-se a coitada entre alaridos, - “Como passaro prezo; esta novilha - “Não muge com mais ancia em vendo os lobos. - “Bate as palmas o fero, e mais ligeiro - “Atropella a carreira, e vai clamando - —“Venci-te—Avida mão ja lhe lançava, - “Senão quando (tomado está dos vinhos) - “O pé caprino na orvalhada relva - “Resvala: vê-lo vai de tombo em tombo - “Medindo a ribanceira, e dá no rio! - “Logo ao caír, fugíra-lhe dos hombros - “O odre do vinho, e a flauta d’entre os dedos. - “Mal poude resfolgar—Ó flauta! ó odre!— - “Disse trez vezes, e esqueceo-lhe a Ninfa”— - —“Bem hajas, guardador das nedeas vaccas: - “Mais feliz sejas tu com teus amores, - “E menos apressada a que seguires.” - - Socios, que mais ha ahi? Que vos demora - Em de redor de um choupo? Letras, versos - Entalhados no tronco! uma grinalda - A abraça-lo, outras mil por toda a cópa, - Que parece um rosal! na terra mirtos! - Lede-me esse letreiro: algum queixume - De infeliz namorado. Oh! ceos, he crivel? - LEI DE AMOR tem por titulo? se fosse - Da propria mão do Nume aqui gravada! - - _Amar, amar! viver d’amores!_ - _Que o tempo off’rece e nunca espera;_ - _Aos corações bem como ás flores_ - _Não se renova a Primavera._ - - Oh Lei, porta de Elisio antes da morte! - Sim, sim, de Amor tu es; vós sois das Graças - Coroas que a ufanaes, a encheis de aroma. - Socios, ministros das Piérias Deozas, - Erguei mão não profana ás flores sacras, - Privilegio he do estro, ouzai colhê-las: - Levará cadaqual no peito a sua - Bem sobre o coração, tão perto d’elle - Que ouvindo-o palpitar lhe falle amores. - - Pois he lei quero amar: sim. Porém onde - Onde estará da Primavera a Deoza? - Por toda a parte os seus vestigios nóto, - Mas não a posso achar. Ah! vós que rides, - A insólita paixão julgaes chimera. - Existe, existe a Virgem graciosa, - Dos Ceos a Filha occulta anda na terra: - Não são sem divindade estes prodigios. - Quem faz tão branda murmurar a fonte? - Quem abre a rosa na materna planta? - Quem dá cheiro á violeta, e côr ao lirio, - Ao ar fresco o regalo e verde aos campos? - Quem poesia de amor ensina ás aves? - Quem é que influe no coração dos homens - Tanto amor, tanta paz, doçura tanta? - Existe, existe a Virgem graciosa, - A minha doce Amante, a minha Amada, - Dos Ceos a Filha occulta anda na terra. - Sinaes de sua mão, pizadas suas, - Fragrancias que espirou, por toda a parte - Me envolvem, me arrebatão, me endoidecem; - Mas busco-a e não se mostra; exclamo, he surda! - O dia he fallador, he distraído, - Deidade virginal recêa o dia, - Casta, só quer talvez ás castas sombras - Revelar seu misterio, abrir seu peito. - Oh quem me dera que baixasse a noite! - Da noite no pacífico silencio - Côa pelo ar vazio o som mais leve: - Por isso a Filomela a quiz por sua, - E o mocho lhe confia as longas queixas: - Quem me ja déra que baixasse a noite! - Irei clamar do cume dos outeiros - “Ó Primavera, ó minha Primavera!” - E depois que trez vezes repetirem, - Ao longe os echos meu tristonho grito, - Attento escutarei se me responde. - Se nada ouvir, prostrando-me, e cobrindo - De igneos beijos a terra (os igneos beijos - Tem valor de conjurio entre amadores) - Com maior devoção, dobrada fôrça, - Clamarei “Primavera, ó Primavera!” - E os campos todos correrei bradando. - Na solitaria gruta alguma Ninfa - Ha de acordar, e á parte do oriente - Lançar a vista, procurando a aurora: - A aurora não virá, e eu longo tempo - Andarei pelas trevas suspirando. - Se trez vezes o sol descer ás ondas, - Sem que possa encontrar a minha Amada, - E sem que algum mortal dê novas d’ella, - Apagarei no peito o incendio inutil, - Pensando que era ingrata, ou que por sonhos - Somente a víra em extases do estro. - - Mas viver sem amar, sem ser amado? - Vida entre gelos equivale á morte, - No pasto ao coração mantem-se a vida; - Sois brandas affeições, a essencia d’ella. - Confessar-me da Lei que abrange a todos, - O primeiro infrátor? Ó Chlóe, ó bella, - Serás tu d’entre mil, o preferido - Emprego aos versos meus e aos meus excessos. - Ja tens da Primavera o genio, as graças, - Sua fama terás, terás seus hinos. - Quando com teu rebanho para o rio - O bosque ao fim da tarde atravessares, - De longe me verás na flórea margem - Sobre um penedo a celebrar teu nome. - Quando o quente redil ao gado abrires - No frescor da manhã, dir-te-ha meu rosto - Que entre as da tua porta arvores caras - Não fui amanhecer, mas toda a noite - De amor andei cercando o teu descanço, - Sentindo-te o respiro, ou crendo ouvi-lo. - Quando na sésta, á sombra da oliveira - Tiveres descuidosa adormecido, - Em sons de flauta escutarás por sonhos - O cantar novo que te mais recreie. - - Mas vede como leve escapa o tempo! - Ja alto e rijo o sol encurta as sombras. - Largo se ha divagado! Hora purpúrea, - A mais social, mais folgazã das horas, - Chamando está por nós co’a mesa agreste. - Onde a iremos tomar? n’algum tugurio - De solitaria Baucis? nem de feno - Pobres tétos consente o sacro Dia. - Ali temos o outeiro alcatifado, - Rico montáõ de flores! Que mui frescos - Pela assomada os louros se entrelação! - Mas sobre tudo que aprazivel gruta! - Por fóra he de hera um tufo luzidio, - Dentro um fôrro de musgo. Alvitre novo - Ó Socios escutai. Esta collina - Desde hoje para nós fique Parnaso. - Eis a gruta de Cirrha, onde costuma - Febo sonhar magníficas imagens! - Esses louros são delle! Aquella fonte - (Ceos nada falta!) he fonte de Castalia! - No remanso diáfano boiando - Niveos ganços as azas empavezão; - Fingi-lhes doce a voz, chamai-lhes cisnes: - Lindas pastoras nossas Musas sejão. - Respiremos o estro! Ó lá de Cirrha - Virações, acudi-nos contra a calma: - E vós louros selvaticos, ó louros, - Velai com vossa abobada frondente - Os vates e o banquete, o rir e os versos. - A primeira saude a Bacho e Ceres, - A Palles e Pomona, ora presentes - Do banquete á rural simplicidade. - Para dias iguaes, plantar-lhes voto - Cá bem no viso do sagrado outeiro, - Densa cabana de perpetua folha: - Para aqui, de canceiras feriados, - Viremos amiude abrir os peitos - Ao bachico folguedo, a Amor e aos cantos, - Co’a alegria assombrar, e co’a amizade - Do loureiral as Dríades vizinhas. - - Na venturosa paz d’este retiro, - Não virá perturbar nossa humildade - Com seus trovões, com seus _coriscos horridos_ - Turba sublime de soturnos vates. - Alçando o collo, enfaticos praguejem - Contra os _tirannos_, contra os _monstros barbaros_; - Pintem de rôjo os _prepotentes déspotas_, - Fulminem os _perversos aristócratas_, - E fujão por estudo á natureza. - Não lhes invejo, não, a bronsea tuba, - Que despede trovões e rasga ouvidos. - De nosso humilde genio estou contente: - Nada mais temos que uma agreste flauta; - Com ella muda, ás vezes longas horas, - Da natureza os quadros estudâmos. - Socios dos rouxinoes, só diffundimos - Depois de meditar, nossos gorgeios; - Em quanto o mocho a luz aborrecendo, - Nos amenos vergeis nunca discorre; - Dorme o formoso dia em cava furna, - E sólta pela noite horrendos guinchos, - Pouzado junto ao ceo, mas entre horrores. - - Elmiro, ó tu que, tanto como odêo, - Odêas as sonoras bagatelas, - E ris, como eu, dos estrondosos nadas; - Nunca te afastes da florída róta, - Por onde a Natureza o Genio chama. - Da madrugada nos mimosos sonhos, - Costumas ver de murtas coroada, - A amavel Sombra do risonho Géssner. - Oh! quando aos campos teus um dia voltes, - Á sombra do teu cedro será doce - Ouvir-te prantear perdida amante! - Entre as folhas cheirosas susurrando, - Qual favonio indeciso, os Manes d’ella, - Mansa tristeza ao coração te enviem. - Emquanto no escarceo da grão Cidade - Eu misero, eu saudoso andar lutando, - La no fertil torrão verás contente - Por ceos de teu jardim nascer a aurora: - Regarás pela fresca as flores tuas - Junto da terna Mãi, que este só gôsto - Na morte conservou do esposo amado; - Triste e formosa qual viuva rôla. - Outras vezes as pombas que sustentas, - Terno irás vizitar co’as Irmãs bellas, - Qual entre as Graças passeára Adonis - Nos arvoredos da ociosa Chipre. - Elmiro, ¿e alguma vez tambem meus versos - Serão do teu retiro um passatempo? - Quando eu tos enviar, vós reunidos - Junto do fogo nos serões do inverno, - Contentes os lereis; e tu, girando - Co’a vaga idea nos passados tempos, - Dirás a suspirar “He meu amigo”. - -FIM DO CANTO PRIMEIRO. - - - - -O DIA DA PRIMAVERA. - -CANTO II. - -_A Tarde._ - - - Ja dos louros as grimpas se embalanção: - Surgir, surgir da relva sonolenta! - Ja fresca viração consola os ares: - Que zoada que vai por toda a selva! - Estrépito de rio impetuoso - Na calada da noite a crê mil vezes - O viandante perdido. Hora da Festa, - Bem te ouvimos anciosa estar chamando. - ¡Da Primavera á Festa, á gruta, ó Socios, - De Amarilis e Umbrano á vasta gruta! - Ja agora o bom de Anfrizo ha de ter pronto - De sua déstra mão o altar gramíneo, - Arqueado em docel do cedro a cópa, - E do cedro no pé com flórea tarja - Da nossa Primavera aberto o nome, - Se he que amor lhe não fez gravar _Dorinda_; - Dorinda, cujos magicos encantos - Na lira do amador gerão milagres; - Cujos olhos, tão negros como a noite, - São como a noite ao Deos de amor tão caros. - - Sim, vamos — Vedes vós o pequenino - Que la vem amontado em verde cana? - Quão guapo agita as redeas côr de rosa, - E açouta co’a varinha a brava fera! - Ouvis-lhe a doce voz que por mim chama? - —“Salve, menino! e adeos, que hoje não posso. - “Outro dia virei, toda uma tarde, - “Trabalhar nas flautinhas, que arremedem - “Cantar de rouxinol soprando-as n’agua. - “Amanhã me procura aqui no outeiro, - “Verás, verás que historias te não conto.”— - - Partio: como galopa afervorado! - Ja vai conta-lo á mãi. Este menino - He da aldea a doudice, e os meus amores. - He dote de seus annos a innocencia, - Como do botãozinho he dote a graça: - Mas aqui ha melhor, he botãozinho - Ja fragrante, he virtude antes do sizo. - N’aquella sésta do abafado agosto, - Quando fostes nadar, eu passeava - Sozinho a espairecer pela frescura; - Eis para mim correndo este menino, - Vergonhoso me diz:—“Queres atar-me - “Este cordel nas pontas do meu arco, - “Bem seguro, bem forte, que não quebre?”— - —“Sim, amavel menino (eu lhe respondo) - “Sim quero atar-to bem seguro e forte”— - E emquanto lho fazia, assim lhe disse: - —“Vais caçar borboletas? ou mordeo-te - “Alguma abelha, e queres castiga-la?”— - —“Não, não: vou dar em minha mãi um tiro”— - —“Um tiro em tua mãi!”—“Sim n’outro dia - “Deo-me tanto nas mãos, que me ficarão - “A doer, tão vermelhas como as rosas”— - —“E porque assim te deo, que te ficassem - “As mãozinhas vermelhas como as rosas?”— - —“Eu tinha (acudio elle) um melro novo: - “Era meu, apanhou-o a minha rede. - “Sempre estava a cantar; era tão lindo! - “E quando assobiava? os outros melros - “Punhão-se la do bosque a responder-lhe, - “Queria tanto á nossa Mirtilinha! - “(A nossa Mirtilinha he a mais pequena - “Das minhas trez irmãs): e ella tratava-o, - “Quando eu hia á seara ás cegarregas. - “No outro dia esqueceo nos a gaiola - “Ao sol toda a manhã: quando fui vê-lo, - “Não se podia ter, abria o bico - “E não tomava nada. Um pequenito - “Me disse que era calma: agarro n’elle, - “Vou-me ao tanque, e mergulho-o cinco vezes. - “Ficou muito peór: punha-o direito, - “E elle sempre a caír, fechava os olhos, - “E estremecia todo. Aquietou-se: - “Cuidei eu que dormia e disse, Dorme, - “Veio um velho, abanou-o, e disse, He morto. - “Fui com elle na mão chorando, e em gritos, ta, - “Procurar minha mãi. Ficou pasmada - “Quando o vio, e eu lhe disse—Ahi está, não can- - “Nem ja faz festa á nossa Mirtilinha— - “Poz-se a ralhar por isto, e castigou me”— - “Cruel menino (lhe volvi severo), - “Cruel menino, e em tua mãi pretendes - “Ir com setas vingar-te?”—“Oh! não (me torna), - “Não lhe hei de fazer mal. Se tu soubesses - “O que uma seta faz!...”—“Não te percebo, - “E pois que faz? explica-te, saibamos”— - —“Na cabana de Silvio (me responde) - “Ha um cópo de páo todo pintado, - “Que elle ja prometteo que me daria - “Se eu lhe levasse a fita, com que ás vezes - “A minha irmã Glicera ata os cabellos. - “Por fóra do tal cópo está com um arco, - “Para atirar a uma pastora linda, - “Um menino como eu, com os olhos negros - “Voltados para mim, e sempre a rir-se. - “Anda nuzinho ao frio, e tem nos hombros - “Azas, que lhe não ganha a borboleta. - “Silvio disse-me o nome que lhe davão, - “Porem ... ja me esqueceo: tambem me disse - “Que elle costuma á gente descuidada - “Atirar muita vez d’aquellas setas. - “Eu cuidava que as setas matarião, - “Tinhão-mo dito um dia os caçadores, - “Mas Silvio me jurou que não matavão, - “E contou-mo sem rir; Silvio não mente. - “Aquellas setas vem, entrão no peito - “Sem ferida nem sangue, e até sem dores. - “Se obrigão a chorar e a ficar triste, - “Como ás vezes succede ao meu bom Silvio, - “Em toda esta tristeza ha tanto gôsto, - “Que he mais doce gemer, que estar alegre. - “Eu d’isto nada entendo, porem Silvio - “Me disse que algum tempo o entenderia. - “Lembra-me agora! o tal menino d’azas (certo - “Chama-se _Amor_; não he verdade?”—“He - (Lhe respondo, apertando-o nos meus braços), - “Chama-se Amor, e he como tu formoso.”— - —“E seus tiros não fazem que fiquemos - “Tão amigos de alguem, como o cordeiro - “Que anda a brincar com seu irmão no prado?”— - —“Sim he verdade”—“Então venha o meu arco, - “Ja tenho em casa muitas setas prontas, - “Vou ferir minha mãi.”—“Louco! o teu arco - “Como o d’elle não he (lhe brado rindo): - “Lança-te ao collo seu, perdão lhe pede, - “Beija-a, conta-lhe tudo, e eu te prometto - “Por cada beijo teu, mil beijos d’ella”— - Não me ouvio mais, correo: e de caminho - Colheo para offertar-lhe algumas flores. - - Mas eis-no; ja no suspirado sitio! - Essa a gruta: este o cedro annoso e immenso, - Condigno pavilhão do altar votivo. - Inda as c’roas vos faltão, ela ó Socios, - Rompei demoras, ide ás flores, ide, - E volvei logo a dar princípio á Festa. - - Só fiquei: se eu podesse aqui no prado - Por meus olhos tambem colher algumas! - (Que as violetas que hei posto andão ja murchas.) - —“Ó pastorinha de formoso gado, - “Se podes, nem te peza alguns momentos - “Perder comigo, apanha-me violetas, - “Ensinar-te-hei por prémio outros cantares. - “Teu rafeiro no emtanto o gado vele.” - Partio, deixando ao lado meu, na relva - O cordeiro que tinha em seu regaço, - Tão alvo, tão pequeno como um lirio. - Pobre innocente! nos meus dedos busca - Da mãi, que ao longe bala, a doce têta! - Se comer ja soubesse, eu lhe daria - D’estas papoulas, d’esta fina grama. - - Que silencio! mal ouço uma fontinha; - Serena viração de quando em quando; - O crepitar miudo dos raminhos, - Que a leve cabra arranca do espinheiro; - A voz d’um lavrador aos bois tardios; - E o cançado gemer de um carro ao longe. - - Cá volve a minha Flora! estou c’roado: - “Graças ó doce e rustica Belleza! - Sempre emtorno de ti rebentem flores - Que o teu rebanho cobiçoso pasça; - Nunca te falte pelo estio a sombra: - E amor te volte em fruto as esperanças, - Se esperanças de amor no peito nutres. - Vês tu aquelle altar? foi obra nossa, - Foi por nós consagrado á Primavera, - E vamos festeja-la. Altar sem Nume - Faz menos devoção; se tu quizesses, - Bem o podias ser. Anda, mimosa - E amavel pastorinha; enflora á pressa - A trança, o collo, o seio, e no regaço - Lança flores quaesquer, qualquer verdura: - Oh! da-me este prazer. Do cedro ao tronco - Vai-te encostar do modo que te digo, - Co’a mão na face, e com o sorrir nos labios[8]. - Direi aos socios meus, quando voltarem: - “Invoquei tanto e tanto os meus Amores - (Nome he que á Deoza dou, não tenhas susto - “Nem me furtos a mão) e he tão benigna, - “Tão docil, tão cortez a Primavera, - “Que saío do seu bosque, e apraz-lhe ouvir-nos.” - Folgaremos de os ver caír no engano, - Ajoelhar-se á fingida Primavera, - E mais de coração cantar-lhe os hinos. - De que te ris, singela rapariga? - Porque foges de mim? Se não consentes, - Cedo iremos buscar-te nos teus montes, - Chamar-te Deoza, em dôbro envergonhar-te.” - - Que he isto! ja volveis? mostrai-me as c’roas. - Como escolheste bem, terno Josino, - Meigo no coração, na voz mavioso! - Goivos com mirtos para ti cazaste, - Com o suave condiz a suavidade. - Se nos campos do ceo, reino do Genio, - Eu podesse colher miudos astros, - Dos versos onde alçaste ao ceo meu nome - C’roa de ethérea luz seria prémio. - Dou-te o que posso, gravarei teu nome - Em bosque, onde Hamadríades o leão: - Decoraráõ com o verso os teus louvores, - E alguma em si dirá: “Quem me ora désse - Em minhas solidões este Josino, - Por ver se he no cantar, qual dizem, meigo.” - - Vejamos meu Irmão[9] a tua escolha. - Eis-te como eu cingido de violetas; - Ah quanto são iguaes os gostos nossos! - Abraça-me cantor da natureza, - Um a outro, um pelo outro aqui juremos - Juntar sempre em busca-la a industria nossa. - Abraça-me outra vez: nossa amizade, - Nossa terna amizade, e nosso estudo - Aperte mais e mais do sangue os laços. - Se jamais fado atroz nos separasse ... - Longe do pensamento esse impossivel! - Duas vidas irmãs que medrão juntas - Tem uma só raiz; dão flor, dão fruto - Nas mesmas estações, e ás horas mesmas. - Quer benção mande o ceo, quer sôpro de ira, - Um só bem, um só mal abrange as duas, - Emquanto uma existir persiste a sócia. - Vai para o nosso altar, um só momento - Me prende, o meu lugar tu la conserva - Entre ti e o das Musas ja mimoso - Nosso irmão, que no berço achou a flauta: - Menino, a quem cingistes de alvas rosas, - Como elle emblemas da innocencia breve. - - Elmiro, o teu diadema he bello e simples; - Mirto e teixo pregões de amor e mágoa. - Não são menos de ver, nem menos proprias - As vossas, bom Franzino, alegre Albano. - Do amor perfeito as flores melindrosas - Tecem, Franzino, a tua, e tem por joia - Uma saudade a tremular na fronte. - De teus suspiros o ditoso emprego - Longe está, bem o sei, mas não suspires: - Tua amada fiel na ausencia chora, - Sua imaginação durante o dia - Voa a buscar-te aos campos do Mondego; - Dos campos do Mondego aos braços d’ella - Sua imaginação te leva em sonhos. - Albano, a ti o amor foi mais propício: - Vês amiude os olhos que te inflammão - E o sorrir facil que te muda em louco. - Não muito abertas, incendidas rosas - Cercando as tuas fontes, me afigurão - A imagem ver de envergonhados beijos. - - Vem meu Anfrizo: a tua d’entre todas - He por certo a mais funebre grinalda; - Um ramo de cipreste e alguns suspiros. - Ah tua mãi tão cedo abandonar-te! - Orfão triste, perdoa ao vate amigo, - Que em chaga inda tão fresca a mão te ha pôsto. - Se para ella ha balsamo no mundo, - Só Amor sabe d’elle, e mãos de neve - Tem para to applicar virtude innata. - Sim, Dorinda gentil como que busca - Esse ermo de tua alma encher de affetos, - E no vão do teu peito insinuar-se. - Mas a saudade maternal he muito; - Todo o mundo, a amizade, e até Dorinda - Só poderáõ na angustia confortar-te. - Teu mal sustido chôro eis recomeça! - Só a dor te contenta, á dor sirvamos: - Narrar-te quero a historia do cipreste, - Que dos ramos feraes partio comtigo. - - Prêzo das graças da opulenta Silvia - Titiro guardador de pobre armento, - Com seus ais estes montes abalava. - A bella desdenhosa, muitas vezes - Quando o sentia a modular ternura - Ao som da flauta n’um sombrio valle, - Torcia, por não ve-lo, o seu caminho. - Ah se o visse, estendido entre o rebanho, - O pranto a borbulhar nos fitos olhos, - E ao som da flauta, em baixa voz unidos - De quando em quando um ai, e o nome d’ella! - Rigores virginaes, desdens de rica - A amor, á compaixão talvez cedessem, - E ficasse mais bella, a ser piedosa. - Por só consolação de seus desgostos, - Co’a pèga que ja foi da ingrata Silvia - Folgava repetir de Silvia o nome. - Nunca a avezinha ao misero deixava, - Que assim a havião prêza os novos mimos. - Só ás vezes aos lares revoando - Da formosa cruel, de la trazia - Furtada alguma prenda ao pobre dono; - Sem querer lhe atiçava o fogo inutil. - Era triste, mas doce, ouvir de noite - Pelos bosques bradar “Ó Silvia, ó Silvia” - O terno amante; e acompanha-lo a pêga, - Ja pouzada em seu hombro, ou ja gritando - La de cima de um tronco “Ó Silvia, ó Silvia!” - Longos tempos assim pelas florestas - Vagar se ouvirão solitarios ambos; - Té que o loquaz brutinho de cançado - Veio um dia caír entre as mãos d’elle, - Bateo as azas, terminou seus dias. - Á fiel companheira ultimas honras - Deo como poude Titiro: sagrou-lhe - Um pequenino tumulo de barro, - E um ciprestinho de anno, que por novo - Inda estudava o geito de ser triste. - Aos Numes implorou que o não crescessem: - Mas pouco e pouco o tronco foi subindo, - E com elle de Titiro a saudade. - Bem póde ser que o tumulo não visses, - Que ervas espessas de redor o afogão - Ah desde que o pastor tambem jaz morto, - Morto ás mãos da saudade, e em terra alhêa! - - Tempo he da Festa. Á Festa!—Ahi estão as flautas - Ja silvando rebate ás alegrias! - Travai dança, alta dança ruidosa, - Quaes em seu monte os Sátiros a saltão! - Venhão de apoz os hinos: logo Bacho - Nos acuda co’as taças, menineiro - No aspéto e no palrar, no resto annoso, - De cãs a reluzir por entre as parras. - Ser-lhe-ha boa salva o retinir dos cópos - E os das saudes misturados gritos. - Do altar meu canto agora ascenda ao Nume! - - Vem ó Dona das Graças e Flores, - Volve á terra teu mago calor; - Aos que fogem de amor gera amores, - Nos que a amores se dão cria amor. - - Tu és Venus, a Grecia delira - Crendo-a Filha do túrbido mar, - Tu és Venus e Musa da lira, - Cumpre á lira teu Nume exaltar. - - Tu és Dríade, e Náiade, e Flora, - Mocidade e Saude e Prazer, - Com mil nomes o mundo te adora, - Mil poderes compoem teu poder. - - Do Ceo puro és a noiva córada, - És só d’elle como elle he só teu; - Rica em trajos, de aromas banhada - A seus beijos te off’rece Himeneo. - - Feliz extase, abraço jocundo - Do consorcio completa as prizões, - Primavera, em teu seio fecundo - Ja pullullão mais trez estações. - - Á voz tua amorosa e macia, - A teu mago e perpetuo sorrir - Tudo cede, e te adora á porfia, - Como te ha de o mortal resistir? - - Léda brinca a feliz meninice, - Léda a ninfa em seus dons se revê, - Lédo o velho desruga a velhice, - Tudo he lédo, e não sabe o porque. - - Onde assomas o mato florece, - Desatina a avezinha a cantar, - Côr d’esp’ranças a terra amanhece, - Arde o peixe nas brenhas do mar. - - Perde as iras a rábida fera, - E se estranha de ter coração. - Primavera, que és tu Primavera? - Vida, fôrça, virtude, união. - - Desde que abre ao carneiro doirado - Hora alegre o celeste redil, - E das sombras e gelo espalhado - Despe as terras Favonio subtíl; - - Despe a mente por ti bafejada - Suas neves e escuro invernal, - Ressuscita de flores toucada, - Enche a lira, nem sôa mortal. - - Pois tu és quem me acorda e me inflamma, - A ti, Deoza, os meus versos serão. - Mas debalde o meu estro te chama, - Os meus olhos jamais te verão! - - Amigos, baixo he o Sol, findem-se os hinos: - Ponde silencio aos copos falladores; - Assaz he tempo. O dia era dos campos, - Ás aguas toca a noite; a noite grave, - Recolhida, saudosa, ama pascer-se - No murmurinho de deserto rio: - Tambem o coração tem dia e noite, - E precisa dos bens desenfadar-se. - Largo dista a corrente; o passo aperte - Quem sabe quanto he grato á luz de estrellas - Ouvir palrar as Náias a deshoras. - Vamos tomando o gôsto aos fins da tarde; - E emquanto mais ligeiro o bom Josino - Corre a aprestar a barca, entreteremos - O caminhar, colhendo rosmaninho - Para o colchão nóturno. ¡Que delicias, - Ir-se acamado em flores aboiando - Á luz modesta da nascente lua! - Ama o rio os cantares de saudade; - Cantares de saudade atiraremos - Até ao mar pelas sombrias margens. - Logo que o não rogado, amigo sono, - De papoulas toucado perguiçosas, - Lá nos for procurar, e manso e manso - Forem caindo os sons e pensamentos, - Iremos amarrar na margem muda - A qualquer tronco a barca flutuante: - Lançaremos por cima o branco toldo, - Bastante abrigo do nóturno orvalho: - E estendidos macio, e conversando - Em voz baixa, embalados cederemos - Ao começado sono os restos da alma. - Quando alta noite algum de nós acorde - A um leve crepitar do linho undaute, - Cuidará que uma Náiade surgíra - Fóra da agua a cabeça curiosa, - E inclina o seio ao bôrdo; e nos espreitas - Assim como alvoreça, a luz da aurora, - E vós, madrugadoras andorinhas, - Para o campo acordado heis de acordar-nos. - Correremos as candidas cortinas, - E veremos de subito, encantados, - Sobre nós a verdura estar pendente, - Do pranto da manhã ja rociada. - - Não tarda o Sol momentos em sumir-se; - No mais vivo escarlate ensopa os campos, - Tinge a folhage, os rostos nos accende, - Por montes e olivaes dos ceos oppostos - Começa a desdobrar seu manto a noite. - Busca o rustico azilo o boi tardio; - Por toda a parte os gados vão passando. - Sustenhamos o halito, escutemos - Esta distante musica toada - Que assim transporta os animos em gôstos: - He toda feminil, toda feitiços, - Vem toda ao coração; oh se a conheço! - Pastoras são, que ao longe no arvoredo, - Vão para a aldea recolhendo em chusma - O tropel dos rebanhos misturados. - Cantão, porque he sazão de primavera, - E peito de mulher, como avezinha, - Desfaz-se em canto e amor em vendo flores: - Cantão, porque de um dia assim formoso - Serão formoso as toma, e o fuso leve - Que andou por solidões um dia inteiro, - Vai girar no conchego da fogueira; - E cantão, porque flautas de pastores - Que vão na companhia, as desafião. - Mas tantos sons confunde-os a distancia, - Figura-se uma voz de tantas vozes; - Como que uma só boca a manda aos ares, - Exprime um só afféto, um só deseja. - Oh Natureza! oh Tarde! oh Primavera!... - Lagrimas de prazer vertem meus olhos! - Somos em bosques de propícias Fadas? - Ou vaguêo ja Sombra, e vós comigo, - Na semi-vida e semi-luz do Elisio? - - Ja tudo se esvaío, tudo he silencio: - Por campo e campo ao largo impera a Noite. - Erguida a lua nova o horror lhe troca - Em saudosa tristeza, e o mocho alerta - La do alto a ajuda com o piar carpido: - Ja ouço o estrepitar das frescas aguas. - Vem barquinha da noite, perguiçosa, - Vem, toma o rosmaninho, e a nós recebe, - Oh que ameno he pousar passada a lida, - Em meio de aguas tantas, rodeado - De amigos bons, e triste, não de proprias - Tristezas, sim das mansas do Universo! - Ouvi, amigos meus, os meus dezejos, - Quaes mos ora no seio estão brotando - A hora, o sítio, a lua, aquelles pios; - Relevai que ao folgar vos furte instantes. - - Seios Deozes minhas supplicas ouvissem, - Um torrão fertil, rústica vivenda, - Houvérão de abrigar-me a vida pura: - La minhas ambições se fartarião - De nobre, de quieta obscuridade. - Mas pois que de outra sorte aprouve aos Deozes, - E o fio, não de lã grosseira e nívea, - Me torcem, mas de ferro as trez do Averno, - Guardai vós na memoria o meu dezejo. - - Depois que entre os abraços delirantes - De todos os que amei, findar meus dias, - Sepultai-me n’um valle ignoto e fertil[10]. - Para marcar da sepultura o sítio, - Sôbre o cadaver, que vos foi tão caro, - Mangeronas plantai, cuja verdura - Em roda fechem variados lirios. - Na raiz funda de soberba olaia - Pouze a minha cabeça, e o tronco amigo - Sobre mim curve a cópa florecente. - Mil piteiras unidas, ostentando - Na hastea vaidosa as flores amarellas, - Em quadrado não grande me defendão - Das incursões das cabras roedoras. - Em meu tronco se escreva este epitafio: - - _Foi poeta amador da Natureza:_ - _D’entre as sombras ancioso a procurava,_ - _Qual terno amante a bella fugitiva._ - - Sôbre isto pendurai sonora flauta, - Que se revolva á discrição do vento. - Não cerque os ossos meus, não mos ensombre - Nem teixo nem cipreste; arvores quatro - Quizéra só no meu jardim de morte. - N’um canto a larangeira graciosa, - Que mescla util e doce, a flor e o fruto: - N’outro a figueira sob as amplas folhas - Modesta occulte seus nectareos mimos: - Defronte um pecegueiro em frutos mostre - Que amavel he pudor, quando enche faces - De penugem subtil inda cobertas: - No ultimo canto ... (a escolha me confunde) - Plantai no ultimo canto uma ginjeira, - He a arvore da infancia, até na altura; - D’esta por sua mão colhe um menino - A mui ridente baga, e ri de ufano. - Alguns tempos depois que a fria terra - Meus restos encerrar, á minha olaia - Vós, meus amigos, vós dareis meu nome, - Pois de mim se nutrio, e eu serei n’ella. - - Dos guerreiros nos tumulos afiem - Faminta espada os barbaros guerreiros: - No sepulchro do sabio o sabio estude; - E dos reis nos marmoreos monumentos - Vá sonhar a ambição, grandeza e pompas: - Vós soltos de freneticas loucuras - Aqui vireis mil vezes vizitar-me, - Na amizade pensar que nos uníra, - E unir-nos deverá transposto o Lethes. - Porque me interrompeis com taes suspiros? - Ah! deixai-me acabar. Quando sentados - Emtorno a mim na flórida alcatifa, - Guardardes meditando alto silencio, - Se d’entre as mangeronas que me cobrem, - Saír acaso a borboleta errante, - ¿Não vereis n’ella o espirito do amigo - Que vem gozar do sol a claridade? - Quando o suave rouxinol de noite - Da minha olaia gorgear nos ramos, - Não pensareis, de santo horror tranzidos, - Que feito rouxinol, meus cantos sólto? - Sim pensareis, e erguendo-se inspirado - Algum lhe ha de bradar “Ó meu Amigo!” - Responderáõ “Ó meu Amigo” os bosques; - E vós direis que o meu fantasma errante - Da argentea lua á muda claridade, - Á conhecida voz d’alem responde, - E em tudo encontrareis a imagem minha. - - Se inda então meus costumes vos lembrarem, - Se vos lembrar meu coração piedoso, - Velai que em meu retiro as bellas aves - De caçador cruel cantem seguras: - Amor, o leve Amor, com arco d’oiro, - Só elle e mais ninguem, logre atirar-lhes; - Careço de amorosa melodia - Que me poetize o sono derrabeiro: - Morto que nada tem preciza d’estas - Pobres delicias rusticas, se folga - Que a namorada moça, o terno amante - Juntos ou sós, a vizitá-lo acudão. - Então ao som de languidos suspiros, - De alegres cantos, de amorosos versos, - De ternas queixas, de perdões suaves, - Muitas vezes contente a minha Sombra; - Formando ao pôr do sol vermelha nuvem, - Girará n’estes ares, revolvendo - Da passada existencia almas lembranças. - -FIM DO POEMETTO - - - - -NOTAS AO POEMETTO ANTECEDENTE. - - - - -_Pag. 109. verso 10._ - - Com seus trovões, com seus coriscos _horridos_. - - -Trazia este verso na primeira edição a seguinte Nota—_Eis àhi os -primeiros esdruxolos que fiz em minha vida, e espero que sejão os -ultimos, ainda que por isso que fique excluido da communhão de certa -Seita moderna._—Supprimi-a, e no declarar o porque, vou dar não equivoca -prova da minha candura. Prezar-se um escritor de mais amigo da verdade -que de Platão e de Aristoteles, alguma couza he; mostrar porem que mais -do que a si proprio a ama, certo que não he vulgar o exemplo, e esse -tenho eu dado, e não raro, ja fallando ja escrevendo limpa e rasgadamente -o que de minhas Obras me parece. He um bom propozito que eu fiz em meu -interior, e espero não quebrantar nunca, não só porque de si he honesto -e nobre, senão que por este meio, o qual não custa mais do que algum -suspiro á nossa vaidade que sempre se torce e confrange de ser mostrada -nua, me estremarei da manada dos charlatães literarios, de quem nem -o estomago me consente fallar. E porque chegue por direito caminho á -questão dos esdruxolos, recordarei com vénia e boa paz dos leitores, o -que ja no Prologo da terceira Edição das minhas _Cartas de Echo_ deixei -tocado; com a differença, que d’esta vez o farei mais explicitamente. - -No tempo em que eu cursava meus estudos na Universidade de Coimbra, -florecia ella com muitos e bons engenhos de mancebos dados ás -Bellas-letras. E porque ainda então se não tinhão accendido os -desastradissimos odios das parcialidades políticas, a Hobbesiana -propensão de guerrear se exercia nas letras. Duas seitas de escrever -se contavão; a cada uma das quaes não faltavão admiradores, apostolos -e evangelistas, assim como por isso mesmo inimigos, escarnecedores e -parodiadores. Os Livros em que uma juramentava os seus adeptos, erão -Gessner e Bocage; Filinto era o Alcorão da outra. Gessner quanto ás -couzas e affétos, e Bocage quanto ao térso e lustroso de estilo e metro, -erão os idolos de uma; os da outra erão, quanto a couzas e affétos -Filinto, quanto a estilo e metro Filinto, e Filinto quanto a tudo em -que Filinto podesse bem ou mal ser imitado. Tinha cada uma d’ellas suas -vantagens e seus descontos, como agora claramente diviso, quando as -considero com animo livro e desassombrado de preoccupações. Não fallarei -aqui de Gessner, porque ja no Prologo o fiz; confrontarei somente, e de -corrida, Elmano e Filinto. - -A ambos dotára natureza de talentos, bem que entre si diversissimos, -assaz fortes todavia que podessem cunhar á sua feição a poesia do seus -tempos. Elmano, que talvez em seu genero nos ficará sendo unico, de -fôrça devia deslumbrar e encantar pelo caudal inexhaurivel, brilhante e -estrepitoso de sua vêa, que eu appellidarei, e ria quem rir, um Niagara -de talento: e assim como, os que pasmão deante d’essa grande catarata de -puro embevecidos em sua cópia e magnificencia, não tem olhos para notar -o esteril do seu curso, o assolador do seu ímpeto, e os penedos que rója -envoltos e desfarçados com suas aguas, assim os que presentes assistirão -ao poetar de Bocage, ou da tradição o receberão, fascinados com os seus -estrondos, espumas e iris, mal se podem lembrar de lhe desejar afféto, -sizo, e exatidão, que muitas vezes lhe fallecem. - -Cinco couzas, pelo menos, para o bom poeta se requerem: _faculdade -inventiva_—_faculdade sensitiva_—_sciencia_—_lingua_—_e ouvido_; e ainda -com estas cinco outra, que talvez resultará rempre de sua união, e sem a -qual todas as mais seráõ baldadas; fallo d’aquelle discernimento pronto, -que a muitos erradamente pafeceo instinto, e a que se costuma dar nome -de _gôsto_. Em raros sujeitos concorrem tantos predicados; por isso só -de longe a longe apparecem os maximos poetas, e ja se dão por grandes -aquelles a quem menos faltou d’estes requisitos. — - -_Faculdade inventiva_ ou não a tinha, ou apenas a tinha Manoel -Maria; a sua queda para tradutor bastaria para indicio, se de -indicios te carecesse aonde claras reluzem as provas: um _Fado_, um -_Jove_, _Eternidade_, _Natureza_, _Sóes_ e _Caos_ são o _index rerum -notabilium_ da maior parte de seus escritos; e tanto abunda n’estes -bordões sustedores e disfarçadores de sua fraqueza, como Ferreira (e -quem descobrirá os meus?) na cançada repetição do _esprito_, Jorge de -Montemayor na de _hermoso_ e _hermosura_, Pina e Mello na de _alento_ -e _impulso_, Alfeno Cynthio na de _santo_ (epítheto, que por mais não -ter onde o pegue, até o poem, se bem me lembro, como arrebique na cara -de suas pastoras e namoradas): com a differença que os particulares -bordões d’estes poetas, e ainda outros de outros muitos, não são em suas -Obras senão meras circunstancias e accidentes, e os de Bocage menos são -estribilhos do que fundo o substancia de inteiros e repetidos periodos. - -De _faculdade sensitiva_ talvez o houvesse menos escaçamente dotado a -natureza, mas outras qualidades que lhe ella mesma deo em maior auge, -taes como volubilidade de fantasia, aspereza de condição, espirito -sobranceiro e satírico, e coração, como elle mesmo confessa. - -_Mais propenso ao furor do que á ternura,_ lhe entibiarão os affétos -benignos, de que sé a longes distancias lhe sáe, como a descuido, algum -reflexo. A estes máos e naturaes elementos accrescêrão desvarios da -fortuna ou do acaso, bem valentes para de todo lhe seccarem a fonte das -branduras. Vida mal preparada de educação, nua dos amoraveis habitos -domesticos, desalumiada de doutrina e estudo, aturdida de applausos -contínuos e encarecidos, amargurada amiude de pobreza, vagabunda entre -amigos não amados e por terras não suas, vida, porque tudo diga, corrida -á ventura e sem norte conhecido, desenfreada de todas as leis, sôlta por -todos os vicios, cínica por timbre, e por indole silvestre e bravia, -como podia ser que lhe não tisnasse no germen os affétos maviosos? Isso -foi, e isso conhece quem bem attento o ler e meditar. Mas em desconto, -as paixões fortes como o ciume, a colera, a vingança, sente-as e -pinta-as vigoroso, assim como todos os objétos grandiosos, remontados, -encarecidos, ou terriveis. Não vos debuxará um mendigo, avergado de -annos, estendido n’umas palhas esquecidas, junto do cão seu ultimo -companheiro, e orando no desamparo da noute, por quem, sem o convidar -para a sua fogueira do inverno, lhe deo fóra da porta meia fatia de pão; -nem ainda as carícias de uma mãi a seu filho: mas dir-vos-ha, rico e -altisono, os impetos de uma tempestade, a sanha de uma batalha, as iras -de uma madrasta, ou as furias de um infeliz que pragueja sua má ventura. - -Os affétos e a invenção póde a _sciencia_ por álgum modo suppri-los, -opulentando-nos com os affétos e invenção de melhores autores, uma -vez que por nós tenhamos a arte de bem escolher, bem digerir, e bem -converter esses literarios alimentos em substancia nossa, em nosso -proprio ser: ainda mui boa estrella he essa, e não poucos dos afamados -desde Virgilio até ós nossos dias, só á sciencia, e a essa arte de a -aproveitar, haverão devido a melhor parte do seu credito. He o saber, -princípio e fonte de bem escrever, dizia o Mestre dos poetas; e dizia o -dos oradores, que uns e outros era mister entenderem de tudo. E se ja -isso foi nos tempos antigos conselho e quasi preceito, preceito absoluto -se tornou, e necessidade, para quem escreve n’estes tempos, em que a luz -se derramou mais ampla, em que as sciencias, cançadas de viver sobre -si, se congregarão como boas irmãs em uma só familia, juntarão os seus -patrimonios em commum, e cada uma ajudando a todas as outras, vem a por -todas ellas receber um infinito accrescimo em seu peculio. Limitadissima -era a instrução de Bocage: o latim e o francez, na primeira de cujas -linguas mormente era primoroso sabedor, segundo referem, podérão ter-lha -dado copiosissima: mas nem a viveza de seu animo, os prazeres e os -divertimentos que em seu cerrado círculo o trazião como enfeitiçado, lhe -permittião estudos, nem são elles facil couza para pobres e viciosos, -nem o que era saudado por divino, como quer que _desatasse na voz o -acceso turbilhão_ de suas ideas, carecia de ir excavar em livros o suado -cabedal, com que outros negocêão veneração. - -Quanto á _linguagem_, não será pêjo dizer, que a usava limpa e sã, não -se podendo taxar a sua de mendiga e remendada, como a ja muitos de seus -contemporaneos vinha acontecendo, nem encarecer de rica e ambiciosa: -pouco tinha lido do portuguez, mas esse pouco com aproveitamento: só -d’isso ajudado, e do latim la se foi remindo e esteando a sua Musa -sem emprestimos do francez; e este carecer de vicios ja então era -grande virtude. Para lhe darem, como a texto, cabimento em nosso -Diccionario[11], não vejo eu razão sufficiente, assim como a não ha para -o desprezo e esquecimento, em que os havidos por puritanos o deixárão -cair. Uma couza he porem verdade irrefragavel, e he, que em nenhum -escritor, antigo nem moderno, apparece a lingua portugueza mais senhoril -e polida, mais igual e ao meio entre o usual e o sublime, entre a penuria -e a prodigalidade. - -Somos chegados á _harmonia_, o mais eminente merito de Bocage, e no qual -nem antecessor teve, nem ainda até hoje successor. De todas as partes -que em Bocage concorrião para poeta, nenhuma havia tão delicada, e em -que tanto se houvesse a natureza esmerado como o ouvido. A verdadeira -musica dos nossos metros, particularmente do hendecassíllabo, não só -a desempenhou e ensinou elle, senão que a inventou; e com felicidade -tão rara, que não cuido se possa a pontar hespanhol, e nem por ventura -italiano que o iguale, e mais he o italiano pela abundancia de suas -brandas e variadas vogaes, pelo moderado e macio de suas consoantes, -pelas licenças e elasticidade de seus vocabulos, muito mais pronto e -domavel para todo o uso métrico do que o portuguez. Poucos estafárão -tanto os consoantes como Bocage (e ainda ahi he grande o seu louvor, que -não he dado rimar mais primorosamente); mas a ninguem erão os consoantes -mais escuzados: são esses para o verso uns arrebiques e sinaes com que -os mal assombrados se disfarção, para poderem apparecer, mas de que os -graciosos e bellos não carecem, nem os devem consentir, por não parecerem -menos do que são. Porque não ouzarei eu dizer, que mais são os seus -versos poeticos, do que era poeta elle proprio? Como simples cantilena -agradão, agradão ainda quando por vãos os engeita o juizo e o coração -por frios: um estrangeiro que ignorante d’esta lingua os ouvisse bem -e devidamente ler, recrear-se-hia como com a toada de um bem tangido -instrumento. Grande excellencia por certo he esta, á qual principalmente -deveo levar traz si suspensos e encantados os animos, e por onde logrou -ser, sem o cuidar, fundador de uma escola, que se me não engano, ainda -de todo não passou. Toda a gloria de engenho he oiro em que nunca -faltão fezes: o produzir pela mágica de sua versificação uma seita de -versificadores, por honroso se podéra haver, se aos discipulos podesse -ter transmittido, juntamente com as normas, o talento, a fôrça, a graça e -o gôsto com que as produzia e aperfeiçoava: porem quiz algum Genio máo, -para lhe humilhar a vaidade e descontar a vitoria, que a maior parte -de seus sectarios menos lhe tomassem a melodia do que os escarcéos, as -empollas, os trocadilhos, as apóstrofes, as redundancias, e os versos que -ja se hoje chamão de dobrar, - - _Seu mais doce penhor, seu bem mais doce.—_ - _Vio n’ella os risos, vio as graças n’ella.—_ - _Um Deos não he perjuro, um Deos não mente._ - _Que não paga de um Deos, de um Ceo não paga,_ - _Ouzaste pregoar mais Ceos, mais Deozes.—_ - -versos, que parcamente lançados, como nas Obras de Virgilio, tem graça; -semeados a frouxo são affeites e desdoiros do estilo. - -Do seu _gôsto_ ja me julgo dispensado de fallar, porque me parece que -o que d’isso podéra dizer por si mesmo está nascendo do que fica dito. -Concluamos: o que de Bocage digo em geral, com suas exceções se ha -de entender, porque por uma parte muitas paginas ha suas, mormente -em algumas traduções do francez, onde parece lhe esqueceo pôr o tal -verniz de dicção e sons que para si inventára, e de que a ninguem -deixou a verdadeira receita: e por outra parte tambem, obras ternos -suas, mormente sonetos e traduções latinas, cabaes e redondissimamente -perfeitas.—Passemo-nos já a tomar iguaes contas a Filinto. - -Muito mais melindroso he este processo, até porque ja o querer tomar-lhas -será para seus apaniguados um crime de leso Apollo, e primeira cabeça. -Valha-me porem a declaração que faço, de que em tudo quanto disser, não -seguirei outras partes que as de minha razão, declarando previamente -que muito pouco dou eu mesmo por ella; mais são consultas que faço -que sentenças que profiro, e antes exercicios de imparcialidade do -que acintei de inimigo: de ninguem o sou, quanto mais de poetas, de -perseguidos, de velhos, de mortos. Foi tempo em que eu, obscuro poetastre -do Mondego, ria e vazava epigrammas contra o tradutor dos _Martyres_: -hoje se me afigure muito mais valioso. He elle o mesmo, mudei eu; Deos -sabe quantas vezes mudarei ainda com os annos: do mudar não he nossa a -culpa; nossa he porem, e feíssima a de persistir no erro conhecido; se -a republica literaria tivesse inquisidores, por heresia e contumacia -que não havião relaxar ao braço secular. Ha por ahi muito homem do meu -officio que possa dizer de si outro tanto? Mas deixemos esses que estão -vivos, e vamo-nos a Filinto. - -Se he ou não _creador_, ja vi ser renhida questão entre ociosos: para -mim tenho que semelhante titulo mal lhe pode caber. O frequente verter -ha pouco disse eu que denunciava esterilidade; e podéra accrescentar uma -sentença ainda mais desabrida, que ha muito encontrei, cuido que nas -Lições literarias do Doutor inglez Blair, e que muito me caío; a saber, -que o costume de traduzir, bem que olhado pela rama pareça dever ser -frutífero, sempre ao cabo vem a desgastar-nos a faculdade inventiva. -Compara-lo hei com o linho, que apezar de tão precizo no mundo e de -tão agradavel aos lavradores depois de colhido, por isto só desgosta a -muitos d’elles, que a terra onde se criou fica magra, e como elles dizem -queimada para outras novidades. Muito mais de metade dos tomos de Filinto -trazem no titulo os nomes de autores estranhos, devendo-se ainda lançar a -este rol por boa restituição, bastantes Obras, que talvez por descuido, -imprimio sem nenhuma menção de serem, como erão, vertidas. As imitações -são no merito e inconvenientes meias traduções, e as do nosso poeta são -numerosissimas, disfarçadas umas, outras manhosamente dissimuladas. No -resto que he de sua lavra, apenas se nos depara couza que abone talento -original e produtivo a: são os chamados lugares communs de poesia -filosofica, que ja por safados custão a passar, e as tão esfalfadas -visões e apparecimentos de Apollos, de Musas, de Amores, de Pégasos, e -de outros mil defuntos, a quem o tempo ja comeo o balsamo, e que todavia -são ainda a unica povoação de quasi todos seus poemas, tanto jocosos como -sérios. Algumas vezes me vem desconfianças de que n’aquelle passo da -Sátira do _Bilhar_, em que o nosso Tolentino parece rir de certas Odes, -contra Filinto hia tirada a seta de sua crítica: - - _Co’as verdes mãos o serpeado Tejo_ - _Alça o trilingue, mádido tridente;_ - _Mas que Górgona filtra? eu vejo, eu vejo ..._ - Em dizendo isto he Ode certamente. - -Em _affétos_ porem sobreleva a Bocage, e não abunda. A espaços lhe -vislumbrão assomos d’aquella sismadora melancolia, que mais ou menos -respira em todos os bons poetas. As amarguras e saudades, que em tão -larga vida e desterro lhe não faltárão, alguma, e não rara vez, lhe -soprárão versos amoraveis, e deliciosos de tristeza. He este de todos -os dotes de poeta o mais caramente comprado; sendo assim que Deos sabe -quantas vezes em applaudir um verso que nos toca, batemos por ventura -palmas a calados infortunios de quem no-lo escreveo. Não nos assuntos -ditos _sentimentaes_ se conhece tanto o verdadeiro sentimento, como -nos de indole mais fria e izenta; porque, se n’estes ultimos apparece -inesperada uma palavra maviosa, n’uma flor de festa uma nôdoa de lagrima -a descuido, ahi vem o infallivel documento de ternura e suavidade: e -d’estas sombras de lagrimas, d’estas palavras, maviosas achamo-las em -Filinto. - -Na _sciencia_ he que elle mais notoriamente leva a palma ao seu -contendor. Que muito? com o dôbro de vida, com precizáõ de estudar para -se divertir das mágoas e ganhar pão, com o ar e tráfico de Paris onde -todos inspirão e expirão letras, e com tão espaçosa velhice, pingue -quadra em que as paixões quietando nos deixão todo o silencio, remanso -e curiosidade necessarios para o estudo! Tornarão-se-lhe familiares -os classicos portuguezes e latinos, de uns e outros dos quaes talvez -Bocage não tivesse acabado dois ou trez volumes; familiares os classicos -francezes, hespanhoes e italianos, e ainda as versões dos inglezes e -allemães. Á roda d’elle chovião de dia a dia, e de hora a hora, os frutos -novos de todos os ramos das Sciencias, de que he impossivel a quem por lá -vive não provar, até sem querer, e ao cabo não se nutrir e fortificar. -Entretanto repararia eu, se o ousasse, que para quem logrou concurso de -tão favoraveis circunstancias, como as que a sua má estrella lhe deparou, -não saío Filinto o que se podéra esperar de noticioso e culto; e ou -desaproveitou o maná que ás mãos do espirito lhe chovia, ou se o tomou -lhe não luzio. Á primeira d’estas duas conjéturas me inclino, porque -segundo o que de seu natural alcanço por suas Obras, parece-me que na -lição das estranhas mais se hia á caça de vocabulos e frases curiosas, -insolentes e atrevidas, do que de doutrinas e filosofia. A sua era meã -e usual: cançados louvores á Liberdade, á Amisade e á sã Virtude, ao -estudo, ao descanço e ao deleite, alguns arremeços de encontro aos Bonzos -e Naires, eis ahi sondado até ao lastro o seu poço de saber moral: alguma -historia não rara antiga e moderna, eis todo o seu saber positivo; e todo -o seu saber natural, alguns dos principios geraes e diarios das Sciencias -fisicas. E certo, que se mais avultados fossem estes seus cabedaes, e vêa -mais fecunda lhe consentisse anciar mais altas couzas do que palavras -e frases, não se deixára ficar tanto atraz no meio de um seculo novo -e alado de poesia; não se contentára o seu estro abstémio com a agua -do Parnaso até á ultima hora da vida; e não nos deixára seus volumes -pejados quasi só de fabula, como armarios de muzeu antiquario, onde se -não vai procurar qual he o mundo em que vivemos, mas deduzir de troncados -e desluzidos fragmentos, o que em tal ou tal parte da terra houve lá -n’outros tempos, com os quaes e com a qual só pouco ou nada temos. Diz um -Escritor insigne[12], que a poesia assim como ontr’ora viveo de fabula, -revive hoje e se apascenta de verdade. Melhor dissera que de verdade -viveo em todos os tempos a nobre poesia, pois que o que para nós se -descubrio fabula, era nos dias em que appareceo e florio, verdade de -factos, ou capa allegórica de verdades, mui crida e sincera.—Resumamos; -Filinto soube mais que Bocage, menos do que podéra, e diverso do que -devêra saber. - -A _linguagem_, de que pela ordem se me segue fallar, mais requeria n’este -caso um tratado, do que uma nota de fugida. Algum dia o tentarei, quando -me achar mais de assento e sobre mão do que agora, que as justas raias -d’este escrito me estão tolhendo. He a linguagem e elocução a principal -feição caraterística de Francisco Manoel, como de Manoel Maria o he a -harmoniosa elegancia. - -A torrente das hipérboles e conceitos hia arrazando e engolindo todo o -nosso Parnaso, quando para lhe pôr a ella diques, e a elle salva-lo, -e repovoa-lo de natureza, appareceo a Arcadia. Detençosa e ardua se -representava a obra, como aquella em que a razão nua tinha de lutar com a -imaginação delirante. Para anteparar ímpetos de vêa tão engrossada com as -contínuas nascentes e tão copiosas de Italia, Hespanha e Portugal, ja tão -senhora do leito e dominadora das margens, era mister que braços fortes -lhe levantassem muralhas solidas de grossa e pezada cantaria. Virão os -Arcades como lhes estavão á mão as obras, não todas primorosas, mas -quasi todas massiças dos nossos quinhentistas e dos romanos classieos: -erão accommodadas ao intento, dizião com seu gôsto e costume; valerão-se -d’ellas, accrescentarão-lhes as suas proprias, levantarão o muro; bramio, -quebrou e escoou-se a inundação. Raro he o bem, que só porque o he, não -traga outros comsigo: dos trabalhos, que havião tido por fim acabar com -os nojos e puerilidades do falso engenho, nasceo um conhecimento mais -profundo da linguagem, mais extremoso amor á sua pureza, e o comêço do -encarniçado e ainda não findo pleito, entre a puridade e o gallicismo. -Verdade he que n’este segundo campo se não guerreou com tão favoravel -marte como no primeiro, porque se as maravilhas da _Fenix Renascida_ -passárão, os gallicismos fôrão em successivo crescimento, sendo ja hoje -tão caudaes e trasbordados, que princípio a desconfiar não haverá remedio -senão rendermo-nos, encruzar os braços, e deicharmo-nos ir ao fundo: -tanto estou convencido de que nem a propria razão he poderosa contra o -espirito de um povo: e a final de contas, Deos sabe, até n’isto, o que he -razão! - -Era Filinto, por sua amizade e commercio íntimo com os sujeitos de maior -credito na Arcadia, e por motivos de sua propria conveniencia, homem que -de necessidade devia entrar na pendencia, e sustenta-la até á ultima: -n’isso assentou, e o cumprio mui pontualmente. Entendeu desde todo o -princípio, como aquelle a quem não fallecia bom juizo, em se prover das -armas seguras e bem temperadas, sem que lhe não conviria arriscar-se -no combate: e se as defensivas que vestio lhe podessem ter saído tão -impenetraveis ás setas do ridiculo como as offensivas que meneou erão -fortes e penetrantes, guapissimo Cavalleiro houvéra apparecido, e -invencivel. Do antigo portuguez e do latim instituio concertar toda sua -armadura: com diurna e nóturna mão versou pois os monumentos de ambas -estas linguas; e quanto do portuguez ja feito se podia enthezourar, ou -se lhe podia accrescentar por derivação, por composição, por analogia, -por translação, ou por qualquer outra licença poetica, sem embargo -de desenvolta e extrema, tudo ouzou com ardimento verdadeiramente -admiravel. Fez estranheza a novidade, offenderão-se os mimosos com o -escabroso e difficil de tal estilo, arripiarão-se os pusillanimes com o -arrôjo, os ignorantes e priguiçosos com a immensa fadiga que bem vião -seria necessaria para entender, não só imitar e seguir, quem tão por -fóra caminhava das veredas batidas e vulgares. Todos estes, e com elles -os invejosos, saírão em campo, combaterão, e apuparão, e quanto mais -apupavão e combatião, mais recrescia em Filinto o acintoso proposito de -se não descer do começado, antes encarecê-lo sempre até o ultimo ponto. -Outra causa havia que para isto lhe fazia fôrça, e era conhecer como -sem estes bordados, recamos e relêvos de frase, o cabedal de suas galas -poeticas appareceria, qual em realidade era, grosso, commum e de mui -baixa valia. Mas quer o movesse esta causa bem perdoavel, quer fosse -generosidade com que se offerecia aos motejos, e desapreço de muitos, com -o só intuito de restaurar, e avantajado, o edificio do idioma portuguez, -sempre fica certo que n’este particular mereceo mui bem de sua patria, -e a deixou muito mais medrada do que a achára. Oxalá que dois ou trez -mais, dotados de igual credito, pozessem como elle peito á empreza; e -muito embora demaziassem como elle: cunhassem a flux tudo quanto dão -as minas portugueza e romana; ainda muito oiro puro de dicção viria -enriquecer-nos, e facilitar-nos o tracto; pôsto que tambem como elle lá -cunhassem á mistura oiro enfezado, não de lei, nem de receber: o juizo -público estremaria umas de outras moedas, e as engeitadas a ninguem -farião mal, se não fosse ao credito de seu autor. Assim crescêra cabedal, -que ainda mingoa para as obras do engenho patrio. Nossa lingua, qual por -ora a temos, e até restituindo-lhe todos seus fóros caídos, todas suas -joias enterradas, não supre as hodiernas precizões do espirito. Quando -a esfera do saber, sentir e pensar se está de hora para hora dilatando -no mundo, do qual nós outros (ainda que o não pareçâmos) somos tambem -parte, forçado hé que a esféra da expressão ao mesmo compasso se dilate, -e engrandeça. Repôr ao idioma quanto ja teve será louvavel consciencia, -porem não bastará, se apoz isso se lhe não dér com mão liberal, mas -prudente, quanta substancia nova elle possa receber e commutar, para que -na apostada carreira que os entendimentos das nações agora levão para o -infinito desconhecido, o da nossa, por fraco e sem azas, se não deixe -ficar atraz. - -Uma reflexão quero eu aqui fazer, mais que a taxem de digressão; não será -nova para os que escrevem, mas servirá para que os que lem se abstenhão -mais de acoimar pobrezas em nossos poetas. Ja das palavras se averiguou -serem ellas fio e arrimo de que a mente se vale para melhor ir seguindo -por suas ideas sem queda nem tropêço. Pois se as palavras, que não passão -de reflexos e retratos do pensamento, tem virtude para o fecundar, -menos ainda se duvidará precizar a imaginação poetica de uma abundante -linguagem, para se manifestar por obras, assim como o pintor de finas e -variadas tintas para seus paineis, e o musico de instrumento pronto e -copiosamente registado, para enlevar os animos. O poeta francez, porque -tem uma lingua que á fôrça de bem cultivada por muitos e differentes -engenhos, se accommoda préstes e serviçal aos pensamentos mais subtis -e novos, e aos affétos mais delicados e passageiros, d’ella se ajuda -para inventar, e com ella exprime completamente o que inventou. Não -assim nós, que em pertendendo alçar-nos por cima das communs ideas do -nosso paiz, nos achâmos, sem o cuidar, pensando em francez; e se isso, -que bem ou mal nos apparece na alma, tentâmos passa-lo para o papel, -suâmos, bramimos, aqui nos faltão de todo as expressões, ali só tibias -nos acodem, outras mal determinadas e mal entendidas, outras estiradas -em perífrases. Dai-me o proprio Lamartine nascido nas margens do Tejo, -e pedi-lhe uma só _Meditação_, uma só epocha de _Jocelyn_; grande será -o acêrto se as conceber, quasi impossivel que as escreva. Ponderou -Condillac mui avizadamente, que a razão porque apparecião em certo povo -e tempo maior numero de varões abalisados em letras, era o ponto de -crescimento e sufficiencia abastada a que chegou n’esse tempo a lingua -d’esse povo. Melhor será que o deixemos por sua boca doutrinar-nos, que -bom missionario he em couzas d’estas. - -“Acontece com as linguas (diz elle) o mesmo que com os algarismos dos -geómetras: quanto mais perfeitas são, mais vistas novas nos offerecem, e -mais nos dilatão o espirito. Os bons acertos de Newton de antemão havião -sido preparados pela escolha dos sinaes que antes d’elle se fizera, e -pelos methodos de calculo ja imaginados. Se mais cedo nascesse, podéra -ter sido homem grande para o seu seculo, mas não fôra agora maravilha -d’este nosso. Outro tanto vai pelos demais generos. A boa fortuna dos -engenhos mais bem aparelhados inteiramente depende dos progressos da -lingua no seculo em que vivem, porque os vocabulos correspondem aos -algarismos dos geómetras, e o modo de empregar os vocabulos corresponde -aos methodos do calculo. Por tanto, em uma lingua aonde ha penuria de -palavras ou de construções bem azadas, ha os mesmos obstaculos em que a -geometria topava antes do invento da algebra. O idioma francez foi por -largo discurso de tempo tão pouco ageitado aos progressos do espirito, -que se imaginarmos Corneille em cada um dos seculos ascendentes da -monarchia franceza, quanto mais ao remontar nos fôrmos afastando do em -que viveo, tanto mais, e gradualmente, irá mingoando o seu engenho, e -chegar-se-hia por ultimo a um Corneille que nenhuma prova poderia dar de -talento.” - -Voltemos a Filinto. Não decedirei se houve ou não bom fundamento -para o allegarem por autor e texto, como o fizerão na quarta edição -do Diccionario de Moraes: nem ouzaria eu pôr mão no fogo pela -infallibilidade de sua pureza, porque (mas a medo e sommisso vai o dito, -que por dito e não sentença merece vénia) aqui ou acolá se me figura -enxergar por suas paginas algumas nódoas d’aquella mesma côr a que nunca -perdoou odio. Mas se as ha, são manchas, no passo que o geral de sua -escritura he recheado de muitas preciosidades para quem poz peito a bem -escrever esta lingua. Por toda a parte lhe estão pullullando lusitanismos -em vocabulos, frases, collocação, inversões, geito e feição de períodos, -que se houver gôsto em quem lê para os joeirar e limpar de alguma mistura -chôcha ou sédiça, farão muito bom sustento para poetas e prozadores. Se -houver gôsto, puz eu, e muito que o puz de indústria, porque, os que -d’elle carecerem, lição tal só os fará mais ridiculos; os que ainda o não -houverem formado, e se metterem por esses onze e mais volumes sem bom e -constante Mentor, não sei se em linguagem e em poesia viráõ nunca a dar -fruto que bem saiba e se abençoe. - -Em summa, Francisco Manoel do Nascimento foi um martyr da religião de -nossa lingua: para lhe lançar mais gloria cerceou a sua propria: com o -excessivo das joias com que a arreou, deixou-a affétada, e menos matrona -grave do que bailarina de corda; sim habilidosa e leve, mas dengosa -e presumida: mostrou-lhe o como e por onde devia subir á perfeição, -a que por outros, porem tarde e mui tarde, será levada: foi, porque -tudo diga, um destemperado despertador, que nos poz a pé para o dia -das letras.—Quero repetir, fez serviço talvez maior que nenhum dos -classicos, mas he de todos o menos para seguir ás cegas. Bem haja elle -que tocou a alvorada para nos acordar, mas mal haja quem quizer ficar com -trombeta tão rouca e dissonante a tocar alvoradas todo o dia: ja estamos -acordados, cabe agora aproveitar o tempo, como gente de juizo. - -Se da lingua passâmos em Filinto á _harmonia métrica_, damos maior salto -que o de Léucade, e como cumprindo igual oraculo, ou nos afogamos em -um mar bravo, ou de lá surdimos curados de todo o amor a tal poeta. -Em nenhuma das quatro ou cinco partes do globo, e em nenhuma era se -metrificou jamais lão dura, desleixada e insolentemente. Se alguma vez -se esquece com dois ou trez versos bons, logo se vinga com duas ou trez -duzias, que se os reduzissem a linhas iguaes, não serião mais nem menos -que desaceiada proza. E ainda he para agradecer quando só lhe falta -melodia, porque algumas vezes nos dispara versos, em que as pauzas vem -todas desconjuntadas, e outros, em que sobejão síllabas, por mais que a -maço as procuremos entalar e embeber umas por outras.—A sua rima he por -via de regra desnatural a pobre: os seus sonetos e toda sua lírica de -consoantes, enxabimentos ou arripíos. Bem se alcança como erão arrufos -de maltratado, as injurias que em muitas partes vomitou contra a rima, e -não como as de Boileau, vozes só de um juizo rigoroso, que de dentro das -letras as media. Nos defeitos de versificador fez de idade para idade -successivos enotados progressos, sendo assim que ou por desleixo, ou por -certa petulancia, em que engenhos grandes muitas vezes cáem, tomando -por timbre o escarnecer do Publico, quanto mais hia usando do officio, -tanto mais desprimoroso se foi mostrando, até ganhar tão duro callo na -consciencia, que nem a deliciosa harmonia dos versos de Racine lhe podia -ja ao cabo inspirar, um só verso toleravel de tradução. - -Do muito que só deixo apontado se deduz a idea que para mim tenho do seu -_gôsto_; melhor será do que só deixa-la deduzir, declara-la. Parece-me -pois ser o seu gôsto pouco e máo; e n’isto estribo o parecer: 1.º que -para suas Obras originaes costumava de escolher fracos sujeitos—2.º -que as pejava de taes invenções que ja em tempo de Romanos o não -erão—3.º que por vida se repete, e por costume redunda—4.º que na ordem -desordenadissima em que seus escritos pôz, anda o peor tão travado com -o melhor, e as puerilidades vergonhosas com as Odes que lhe lucrárão -nome, que sem que o lustre do bom disfarce o máo, o esqualor e nojo -d’este deturpa e estraga aquelle—5.º que se para traduzir elegeo ás vezes -bons originaes, taes como o Oberon e os Martyres, outras os escolheo -desenganadamente incapazes, taes como a triste historia em verso da -Guerra Púnica: outras vezes, escolhendo originaes optimos, nem antevio, -nem pelo discurso do trabalho conheceo, nem sequer sentio depois de -findo (porque talvez se o sentisse nos houvéra poupado a ler a versão), -que havia n’essas Obras exclusivos e essencialidades, quer da lingua em -que estavão feitas, quer do engenho que as fizera; haja vista ás tão -graciosas e admiraveis fabulas de Lafontaine, que em Filinto parecem -tanto as mesmas, como a estampa de Bertoldo se podéra julgar retrato do -Apollo de Belveder. etc. etc. etc. etc. - -Taes são hoje para mim Filinto e Bocage: mui outros dos que ja me -parecêrão, e talvez dos que me hão de parecer quando novos livros, -novas couzas, e o rodear dos annos me houverem feito sou ordinario e -incontrastavel officio. N’aquellas eras pois, que ja eras antigas se me -representão aquelles meus tempos, caía todo com o meu Gessner em braços, -para a parte de Bocage, mancebo e lustrozo; e se me figurava que se -lograsse trava-los, fundi-los em um, faria obra de se me agradecer. Os -partidarios de Filinto, que não sei porque, trazião guerra declarada com -Bocage, vierão saindo de seus montes escarpados, empeçados e tenebrosos, -para dar váias e tirar remêssos de epigrammas ao nosso bando: cerrámo-nos -com a bandeira, démos sobre elles com iguaes armas, foi batalha campal, -rôta e sem misericordia: não houve mórtos nem cativos, poucos transfugas, -feridos muitos. Recolhidos nas trincheiras, cantámos uns e outros, -como he costume, o _Te deum_ da vitoria; dobrámos a altura aos vallos, -e profundez aos fossos que nos estremavão; jurámos não acceitar nunca -pazes, quanto menos commette-las, nem consentir em alguma couza que ás -dos inimigos se parecesse. Eu que fôra dos mal feridos e ainda palpava -as costuras, como havia de faltar a nenhum ponto da conjuração? Muitos -d’elles merecerião tratados, mas porque não fazem para o fim d’esta Nota, -venho aos esdruxolos, e só libarei a materia. - -Da natureza, como quer que seja, nos vem sempre o gôsto; mas sendo que -a moda, que muitas vezes se gera de um acaso, introduz o uso, e este -chega a mudar ou alterar a natureza, vem a ser o gôsto em muitos casos -enleada materia e muito esquiva para questão, abonando-se talvez por ahi -o proverbio, que sobre gôstos prohibe disputar. Dir-me-hão, que nada -tem a natureza com os métros, que só a moda a seu talante os cria e os -acaba: he e não he verdade; mas tambem isso deixaremos de parte, por -pedir digressão larga e mui sobida filosofia. Em breve, parece-me que a -fantasia ou o acaso inventa os métros, a moda os espalha e rege, a nossa -natureza se lhes affaz, mas deve quanto podér afeiçoa-los e conchega-los -comsigo. Das dez, onze ou doze síllabas de que pode constar o nosso verso -heroico, quiz a moda que o numero de onze fosse em Portugal, Hespanha -e Italia o usual e corrente; moda que estribou no ser d’estas linguas, -em que a quantia de vozes graves excede á das agudas e dactílicas. -Costumou-se o ouvido com a igualdade da queda, criou uma certa natureza, -e todas as vezes que inopinadamente o obrigão a outra queda maior ou -menor, como que se espanta e sobresalta: porei exemplo nos que sobem ou -descem ás escuras e ja pelo tino uma escada; se lhes falta no subir um -degráo com que ainda contavão, o pé que no ar pôz firmeza cáe em falso, -e comsigo leva todo o corpo estremecido; se lhes sobeja um no descer, o -pé que ja se dava por assente, não desce mas atropella e traspoem. Por -tanto, regra geral, o verso grave, que he o da moda e tambem o da nossa -natureza, he o de que nos deveremos servir: como porem entre as couzas -sujeitas á poesia, se nos deparem algumas, cuja indole póde ser esse -mesmo estremeçáõ, ou atropellamento, razão será que em taes casos bem -averiguados e por via de excéção, acudamos á idea com o verso que melhor -lhe condiz: os exemplos são faceis de colher nos autores, não gastaremos -com elles papel. Ora para se consentir n’esta excéção, não deixa de haver -outro motivo de algum momento, e verdadeiramente he elle o mesmo em que -a regra geral se fundou; porque as estranhezas, que por desagradaveis -persuadírão á regra, por uteis nos conformão com a excéção, sendo que -tem virtude para nos espertarem, quando o embalar da monotonia nos vai -adormecendo. Não por outra causa, vierão os melhores metrificadores -latinos em variar, ainda que rarissima vez, os seus hexámetros perfeitos -com o espondaico ou com um monosíllabo final: ambos nos abalão; os -primeiros em certo modo como os esdruxolos, os segundos como os agudos; -e abalando-nos a propozito, por exemplo para sentirmos a queda do animal -no famoso _procumbit humi bos_, deixão-nos afiados para proseguir com -attenção, e melhor tomar o gôsto ao caminho, que outra vez continúa lizo -e macio, passado o tropêço. - -Assentámos o princípio, vejamos se o uso lhe tem sido conforme. A Italia, -attenta a prontidão, e musica de sua lingua, devêra ser d’estes trez -povos do sul o mais aprimorado em toda a qualidade de metrificação, e -todavia he o contrario no hendecasíllabo sôlto, podendo dizer por si o -que o seu Ovidio poz na boca de Narciso, que a sua riqueza a fez pobre: -os seus poetas, ainda os modernissimos, sôbre não curarem dos sons -que recheão o verso, e quantas vezes nem das pauzas, sôbre estirarem -desmesuradamente os seus períodos, consentindo que os versos se travem e -encadêem de contínuo, misturão sem nenhum motivo de effeito, os versos -agudos e esdrúxolos com os graves, segundo o acaso lhos vai deparando. -He o mesmo que succede a quem possue terra de sobejo fertil e facil: -ella que supra por si ás primeiras precizões; trabalhe-se o necessario -para que não falte, o resto, que bastaria para a fazer paraizo, dê-se á -priguiça. Os francezes, que tão menos poetica lingua tinhão, obrigados -por essa mesma pobreza a cultiva-la, esmerados e incançaveis, ¡quanto a -não levão ja por arte, adeante do que por natureza podéra ser a italiana! -são n’uma parte os paúes de Hollanda a produzir; na outra, terras pingues -e dobradas de Otaiti a regalar com pão e frutos espontaneos aos semi-nus -e ociosos naturaes. D’este versejar de italianos, me dizia uma vez José -Agostinho de Macedo, que a maior parte de taes poesias lhe dava a lembrar -as récuas de mulos de almocreve, que enfiados e prezos uns a outros, ao -som dos chocalhos enfadosos, la se vão, ora tropeçando ora erguendo-se, -continuando o caminho, e sempre chegão com a carga onde tem de ir. -Quando assim fallo, quero que se entenda que me não refiro a todos sem -excéção, mas só ao geral d’aquelles poetas. Bem pode ser que os haja -agora primorosissimos que eu não conheça, e dos conheçidos alguns ha com -quem não serei tão severo taes como Monti na tradução da Illiada, Fóscolo -se me não engana a lembrança que d’elle me ficou, Alexandre Manzoni, e -Felice Romani. - -Em Portugal, pois que a lingua era tambem préstes e serviçal, e os que -n’ella poeta vão se comprazião de se irem sempre na pista dos Toscanos, -sente-se nos poetas antigos o mesmo desmazelo. La andão com os versos -graves os esdruxolos inuteis, ainda que não frequentes e os agudos aos -cardumes. Camões, que de todos elles foi por ventura o de mais delicado -ouvido, rimando hendecasíllabos, até na epopea não duvidou em os pôr, -quando acaso lhe apparecião, e sem nenhuma intenção ou fito poetico; o -que a Vasco Mauzinho de Quebedo seu inferior em poesia, mas superior, se -he lícito dizê-lo, em metrificar, por tal arte desagradou, que em todo -o poema de Affonso Africano nunca interpolou com elles versos graves, e -d’isso faz alarde em seu prologo. - -N’esta incerteza correo a couza até os nossos tempos, em que dois -homens de fôrça, dois athletas da poesia, representando cada um uma das -encontradas opiniões, devião ter perante os olhos publicos um calado -e rijo certame, para decisão ultima da contenda. Foi Bocage o mancebo, -cavalleiro da metrificação liza e uniforme; o velho Filinto da mista -e libérrima. Todo o empenho de Bocage era a harmonia constante, todos -os seus versos forão graves, e de compasso batido. Nascimento queria -por cima de todas as outras couzas dar todas suas ideas, boas ou más, -graudas ou miudas, mui bem pintadas e repintadas, que ainda quando -insignificantes, não deixassem de ferir na vista. Servia Bocage ao metro -como a senhor: Nascimento, como de escravo se servia d’elle, trazia-o -rôto, contrafeito, demudado, e por todas as ilhargas estalando com o -pezo da carga. Se he lícito comparar estes dois poetas com outros dois -romanos, de muito mais subidos quilates, digo, que são na metrificação -hendecasíllaba, o que nos dístichos elegíacos eróticos forão Ovidio e -Propercio. O dísticho de Ovidio he sempre torneado por medida, nada -lhe falta nem sóbra, reluz de polido, e algumas vezes pouco péza: nos -de Propercio ha sempre mais succo de couzas (bastante espremeo d’elles -Ovidio para seu remedio); mas o hexámetro sáe amiude desalinhado, o -pentámetro dissonante da sua usual toada, acabando não em dissíllabo, -como para bem o requer o geito de tal metro, mas em trissílabos e -quadrissíllabos á moda de Catullo; partem-se menos apuradamente os -hemistíchios, embebe-se e embrulha-se em demazia o pentámetro no -hexámetro, e, o que mais rijo he, o hexámetro de um dísticho no -pentámetro do anterior; o que não tira ser Propercio, em meu conceito, um -poeta de mui alta valia (e não sei se diga que o unico amante apaixonado -dos antigos, com licença dos grammaticos e dos priguiçosos que o engeitão -por escuro), e Ovidio um dos mais bem assombrados engenhos do mundo. - -Do que levo ponderado, se he exáto como cuido que he, segue-se que nem -Bocage, nem Filinto erão para modellos absolutos, e que tão desacordado -andava quem não consentia em verso que grave não fosse, como quem -esdruxolava por vida e fóra d’aquelles casos em que o esdruxolar traz -em si mesmo a desculpa e o louvor. Entendi que ja por acinte o fazião, -e por acinte contra acinte escrevi essa Nota da primeira edição, que -atraz deixo trasladada. Fôra o voto pueril, conheci-o assim como o sangue -alvoraçado da batalha me esfriou, mas tão sobre maneira se oppunha a -vergonha a uma retratação, que permaneci até hoje sem um esdruxolo em -tantos versos soltos como tenho impresso, e tantos mais que ainda não -saírão á luz. Quantas vezes, compondo a _Noite do Castello_ e o _Bardo_, -não senti tentações e ímpetos de romper e acabar por uma vez com uma -prizão imaginária, que a olhos vistos me estava tolhendo mui bons -effeitos poeticos; e comtudo confrangia-me, esquivava-me, escrupuleava, -e não podia acabar comigo que me resolvesse, podendo dizer como aquelle -rei de França _La se vai tudo, menos a honra_. Os passos d’esses poemas -em que tal me acontecia, por si se estão indo agora denunciando, póstos -os dactílicos imitativos nos lugares, que abaixo do final se podem -reputar pelos mais autorizados e distintos do verso, que são o ponto do -hemistíchio ou pauza do meio verso, e o comêço do seguinte, quando fica -bem cortado e estremado. — D’este livro ao deante me dou por desobrigado -do voto; e eis aqui, me parece, o como lã para os outros me hei de haver: -nunca porer só por pôr ou por me forrar trabalho, verso dactílico; nunca -o engeitarei quando a fôrça, graça ou qualquer outra vantagem da poesia -o requererem. Bem quizera dizer outro tanto dos agudos, mas ahi ainda -o meu antojo he forte; sei que a razão não está menos por elles, e não -ouzo segui-la: veremos o que o tempo, grande causador de mudanças, poderá -trazer comsigo. - - - - -NOTA - -_de Augusto Frederico de Castilho._ - -_Pag. 118. verso 6._ - - Vejamos, meu Irmão, a tua escolha. &c. - - -Quando um autor, para publicar os seus pensamentos se entrega á nossa boa -fé o lealdade, os nossos olhos e mãos para logo mudão de dono, ficão -seus; tem de vigiar e selar o depósito confiado, para que nada se lhe -accrescente nem cercêe: qualquer palavra, qualquer vírgula de mais ou de -menos, por muito que as pareção estar pedindo este ou aquelle passo do -texto, são mais que violação de testamento, porque ideas são propriedade -mais real e sagrada do que bens da fortuna. Assim he, mas cumpre que não -seja assim na presente occasião: faltarei ao direito do autor e á minha -obrigação de secretario, para cumprir com outra mais santa lei, a do amor -fraterno, alliviando aqui, e em mais de uma maneira, o meu coração, ás -escondidas do mesmo autor, para quem serão grande novidade estas linhas, -quando de alguem (que não de mim) as chegar a ouvir ler. - -Direi em primeiro lugar, que na Festa da Primavera, cujas honras forão -na maior parte a meu Irmão, os versos a que esta Nota vai lançada -tanto abalo fizerão em mim, que pela primeira vez os lia, que eu me vi -necessitado a interrompê-los coberto de lagrimas e afogado em soluços, -para me ir lançar no seio d’elle, protestando-lhe assim, com um silencio -que eu não tive palavras para romper, que os seus dezejos de vivermos -para sempre unidos, ja em mim erão necessidade, e que o pensamento de -separação se me representava tão _atroz_ e _impossivel_ como a elle. -Eu o vi profundamente commovido entre os meus braços, e foi esta a -primeira vez em que nos-fizemos uma declaração tão expressa e amor, -nós que semelhantes aos _Dois amigos_ de Gessner, sempre tinhamos -vivido e contávamos com viver um para o outro, sem ainda uma só vez nos -havermos dado o nome de amigos. O meu voto, ufano-me de o dizer, tem -sido santamente cumprido: ja la vão quinze annos, e eis-me aqui ao lado -d’elle, eis-me tão inseparavel como tinha sido desde menino até áquella -hora! que digo? ainda mais, porque para reparar a perda horrivel que elle -acaba de experimentar; eu carecia de ter agora em mim, em vez de um, dois -ou mais corações para lhe offerecer. - -Agora cumpre-me preencher o principal fim d’esta Nota, transcrevendo -para aqui alguns versos parallelos a estes, de um meu Poemetto, que -com o titulo de _Primavera_ recitei n’aquelle mesmo Dia. Os elogios -que o leitor vai achar, não mos inspirou só a amizade fraternal, mas a -convicção em que ainda hoje estou, e hoje muito mais, do subido mérito do -elogiado. Aqui era o lugar de desmentir um grande numero, talvez a maior -parte das sentenças, que sôbre a valia d’estes poemas a sua modestia (em -tudo excessiva) lhe dictou no Ante-Prologo, e principalmente no Prologo -d’este Livro: mas não cuido que a minha licença possa chegar tanto -adeante: calar-me-hei, bastando-me agora ter desabafado, por algum modo, -nos versos que se vão ler. - - E tu, meu caro Irmão, tu me arrabatas, - Quando magico attráes aos sons da lira, - As Musas da Danubio á foz do Tejo. - Oh dize-me onde has visto a Natureza, - Virgem tão bella para ti sorrindo? - La na idade infantil, quando teus olhos - Inda na luz formosos se espraiavão, - ¿Veio ella mesma perfumar-te o berço, - Tingir-te em rósea côr dos ceos o espaço, - Encher-te o ar de ignotas harmonias, - De affétos orvalhar-te o brando seio, - E com magas visões doirar teus sonhos? - Sim veio; e quaes na mente que as afaga - As maternas feições impressas ficão, - Taes seu olhar, e voz, e graça, e tudo - Te vivem, te reluzem pela mente, - Doirão-te a escuridão, compõem-te um mundo, - Em silencio te admiro ha longo tempo; - E até (que fui tão louco) ouzei co’as tuas - Minhas fôrças medir, tentar-te a gloria. - Não somos nós irmãos, me disse eu mesmo? - Não corremos iguaes no longo estudo? - Pois ha de a lira d’elle ousar prodigios, - Sem que, para a imitar, desperte a minha? - Mas que vale o dezejo, o sangue, o estudo! - Tu sabes remontar-te aos ceos n’um vôo: - Eu tento, eu me debato, ergo-me, cáio, - No inglorio chão cançado me adormeço: - Será pois d’elle só a eternidade. - Só d’elle? a sua gloria aos dois nos basta; - Qual nossos corações amor vincula, - Tal has de unir, ó fama, os nomes d’ambos. - Com todo o eterno sôpro enchendo a tuba, - “Este o maior, dirás dos lusos vates!” - Dirás depois mais baixo: “Este com os olhos - “Leo e estudou do Irmão, do terno amigo.” - - - - -OS CANTOS DE ABRIL IDILLIO. - - -_O mais deslavado e insôsso Poemetto na primeira edição, erão Os -Cantos de Abril. Só a invenção fôra boa; na execução e estilo revia um -tão contínuo desprimor, que me foi necessario demolir e reedificar. -Por tanto, com o mesmo titulo he obra diversa, muito melhor, mas não -perfeita, porque ja para a emenda da emenda não chegou a paciencia._ - - - - -DEDICATORIA A MEU PAI. - - -_He a educação o maior prezente que de homem se pode haver. Vós, meu Pai, -fizestes mais do que educar-me: superior a uma preoccupação tão geral -quão perniciosa, vistes nascer o meu engenho poetico e não o destruistes, -viste-lo crescer e não o contrastastes, senão que antes lhe déstes -amparo, bafo e desvelos. Eis aqui por tanto um reconhecimento da minha -gratidão._ - -_Oxalá possão estes versos, que me afouto a vos offerecer, agradar-vos -tanto, como os Cantos de Abril, no silencio da noite e debaixo do -parreiral da cabana, agradárão ao bom Menalca._ - - - - -ADVERTENCIA. - - -Notar-se-ha que por todos os Poemettos d’este livro se dão sempre versos -á infancia, e n’este Idillio tem ella não uma parte, nem a principal, -senão o todo: se o porque, pode importar a alguem, agora lho direi -brevemente. - -Parece-me um Menino, de todas as couzas graciosas que Deos fez u -graciosissima. Aquelle ajuntamento e consonancia de tantos dotes; -formosura, d’elle proprio nem buscada nem sabida; graças que lhe ninguem -ensinou; singeleza e candura; alegria, fraqueza, innocencia; e muito -afféto, e muito mostra-lo; e total descuido do porvir; e não o temer -nada; e a poesia particular do seu dizer; e a sua grammaticazinha natural -que a nó nos faz rir, couzas são estas que apoz si me levão esquecido -e encantado. No trato d’estes botões da humanidade, que vem abrindo, -parece-me, e ja pareceo a muitos, poderem-se lucrar boas vantagens: -ja não fallo em seu bondoso contentamento que talvez se pega, e na -felicidade de recobrarmos horas de meninice, imitando-os, sem saber, a -elles, como elles nos imitão a nós; fallo porem no muito que o nosso -espirito se acostuma então a estremar o bom do máo, e a joeirar cá -dentro o puro do impuro, para nem por sonhos profanar o que das mãos da -natureza saío e se conserva santo. E demais, um Menino não sabe nada, -quer saber tudo, e por tudo nos pergunta: ¿não he isso estar-nos pondo -a caminho de muitos descobrimentos de verdades e relações das couzas, -que nunca aliás por nossa preguiça ou descuido fariamos?—Muitas pessoas -vejo, e faz-me pena, desamarem as creanças, despreza-las, havê-las por -menos de gente, tolher-lhes as fallas, as obras de sua idade, e Deos sabe -se tambem o entendimento: eu por mim, quero-lhes muito, porque entendo -que excedem em valia aos seus desprezadores, e sinto que a mim me levão -grande vantagem em bondade e ventura. De um ajuntamento esplendido mil -vezes tenho fugido para elles: no campo, melhor que em nenhuma outra -parte, saboreio esta doçura a meu contento. Todos os pequenos das aldeas -em que tenho estado me conhecem, e sei que são meus amigos: apinhão-se-me -ao redor em me vendo; invento jogos, historias ou conversas para elles; -divirto-os, divertem-me; uns com outros, e uns de outros aprendemos. - -Erão horas bem doiradas essas de minha vida, como as ja tivéra João -Jaques, como as terão tido muitos, e como as poderáõ ter quantos as -dezejarem. - - _Lisboa: 7 de Janeiro de 1837._ - - - - -OS CANTOS DE ABRIL IDILLIO. - - - Por um serão de Abril suave e ameno, - Menalca, a bella Dafne, e seus trez filhos, - Estavão-se a folgar ante a cabana. - Por entre as parras do sonoro alpendre - A mansa lua chêa se enlevava, - Espreitando esta rústica familia. - Menalca erà ja velho: os justos Deozes, - Querendo premiar lhe a larga vida - Passada em os amar e amar aos homens, - De Citheréa ao Filho havião dito: - “Filho de Citheréa, entrega Dafne - Por esposa na Menalca, a fim que o velho - Remoce, vendo ao lar a mocidade, - E a virtude que tem o alegre em outrem.” - Amor nem sempre aos Deozes obedece, - Porem amava a Dafne; entrançou logo - A florente cadêa, e vendo-os prezos, - Tanto a si mesmo do que fez se aprouve, - Que ficou sempre entre elles na cabana. - - “Filho de Citheréa, accrescentárão - Depois os Deozes, da-lhe o teu retrato - Em filhos, e uma filha irmã das Graças, - A fim que em seu crepúsculo da tarde. - O velho inda se alegre, e abrace esp’ranças: - Da-lhe prole, o fada-la a nós pertence.” - E Amor lhe déra prole, dois meninos - Seu retrato, e uma filha irmã das Graças. - Ja rosas de abril decimo florecem - No semblante de Silvia; um anno a vence - Titiro; e vence a este um anno Alexis. - - Menalca, em juncos molles estendido, - Tem da esposa no candido regaço - Como em ninho amoroso a branca fronte: - Pelas feições transpira-lhe bondade; - O mistico luar o diviniza. - Dafne o contempla muda, e niveos dedos - De afagar umas cãs sentem vaidade. - Elle a querida mão colhe entre as suas, - Beijada a achêga ao rosto, os fracos olhos - Derrama pelos céos alumiados, - E fitando-os na lua “Olhai, meus filhos, - Olhai, disse elle, como brilha a lua! - Que suavidade e paz não côa ao largo - O astro das noites! como attráe da terra - Nosso espirito humilde a pensamentos - De outro mundo melhor, mansão de Deozes! - Que esp’ranças, de saudades misturadas, - Não traz a pura noite ás almas puras! - Dias que em vão suspiro, amenos dias - Da minha mocidade...! agora jazo - Como arvore das folhas despedida, - Que mais não florirá, porque o machado - Ja lhe abrio marca para se ir ao fogo. - Então era eu cantor chamado ás festas, - E afamado por longe entre os cantores - Na frauta e no rabil, porque os meus cantos - Erão sempre á Virtude e á Natureza. - Por uns serões assim, como acodião - Todos a ouvir-me! As Ninfas era fama - Que descião do bosque, e pelas sarças - Vinhão pôr mais de perto o ouvido á escuta: - E os ventos se detinhão, recostados - Aos duros troncos, sem bolir co’os ramos. - Té dizião que a frauta, em que eu tangia, - O benevolo Pan ma déra em sonhos. - E ora jaz, annos ha, de pó coberta! - Em tôrno ao meu fogão ja não se apinhão - Os pegureiros a aprender-me os cantos, - Meu cabello nevou, nevou minha alma. - Ah! se não fosseis vós, Dafne, meus filhos, - Vivido tenho assaz, pedíra aos Numes - Tornar a ver meus pais n’outras cabanas, - Onde he perpetua a luz, e a eternidade - Uma estação de musicas e flores. - Quando eu la renascer á vossa espera, - Á tua espera ó Dafne, á vossa ó filhos, - Resurgirá comigo a minha frauta; - E com ella enganando aquella ausencia, - Penosa até no Elisio, em versos novos - Louvando os Immortaes, e eterno eu mesmo, - Pedir-lhes-hei comtudo que só tarde - Vos levem para mim; que vos derramem - De virtudes e bens copiosas bençãos - Sempre n’esta cabana, onde hei nascido; - E que no meu sepulchro o passageiro - Diga parando—Ó bom pastor Menales, - Leve te seja a terra, e tu contente - Porque os teus filhos te excedêrão todos.” - - Aqui sentio caír na fronte calva - Uma calada lagrima, e doeo-lhe - Ter nublado o prazer de seus Penates. - Senta-se, alegra o rosto, enchuga os olhos; - E unindo ao seio a esposa “Ouvi meus filhos:” - O cantar diz co’a noite, agrada á lua, - Contenta á vossa mãi. Cantai louvores - D’este suave Abril; nunca em meus versos - Deixei de o celebrar, quando era moço. - Os pastores de outr’ora Abril sagrarão - A Venus, graciosa Mãi de tudo. - Vede-a n’aquella estrella estar sorrindo; - As glorias do seu mez são glorias d’ella. - Alexis, principia, eu te acompanho - Co’a tua mesma frauta; os sons da frauta - Dão como vida ás solidões da noite. - Seja a toada a que inventei (quão lédo!) - No dia que nasceste, e a nossos olhos - Se doirou de alegria esta cabana: - Bem a sabes, começa, e Pan te ajude. - - ALEXIS. - - Eu amo o verde Abril, porque he formoso, - Todo está chêo de arvores vestidas. - - TITIRO. - - Eu amo o alegre Abril, porque he sonoro; - Vem cantado por bandos de avesinhas. - - SILVIA. - - Eu amo o rico Abril porque he cheiroso, - Espalha em cada prado um mar de flores. - - ALEXIS. - - A folhagem traz sombra, as sombras trazem: - Seus folgares da sésta á gente grande, - E a nós para brincar franca licença. - - TITIRO. - - As aves são dos ares alegria; - Chamão na madrugada os preguiçosos, - E divertem na lida aos lavradores. - - SILVIA. - - Flores dão côr á terra, e cheiro ás auras; - Flores são mãis da fruta; os Deozes rindo - As crearão, e rindo acceitão flores. - - ALEXIS. - - O Pan que está na gruta do arvoredo - Não pára senão lá, por mais que o mudem; - Sinal que um bosque e a sombra apraz aos Deozes. - Tudo ali he formoso á maravilha! - Por baixo a fresquidão, por cima o verde; - A terra de reflexos variada; - O této sonoroso e movediço; - Mais alto, o ceo azul, dado ás amostras. - E que direis do rio entre arvoredos? - ¿Como se pintão na agua aquellas folhas, - E o vento que as revolve, e as pombas alvas - Pelos ramos, e um sol desfeito em muitos? - Parece que no fundo do remanso - Tem Pan outro arvoredo, igual em tudo. - Quando hoje eu lá passava, a Pan dei graças, - Porque achei que um tal sítio encantaria - Ó meu Pai, teus passeios solitarios. - - TITIRO. - - Fonte como a das Náiades nenhuma: - Cantão-lhe em volta passaros sem conto; - Sinal que o bando alado apraz ás Ninfas. - Por ali me regala ir espreitando - Tantos ninhos por entre tantas folhas. - Admiro a perfeição d’aquelles berços, - E o tino com que os pobres de uns brutinhos - Os souberão livrar a soes e a chuvas: - Aqui uma avezinha inda sem pennas, - Outra a romper da casca; alem uns ovos - Branquejão d’entre o musgo, e ja palpitão; - Se os tóco, sinto dentro o passarinho, - E fujo com temor que a mãi o engeite. - ¡Ver as mãis vir do pasto alvoraçadas, - Darem o almoço aos filhos que pipilão, - E co’as azas e peito agazalha-los! - E ver logo os maridos tão contentes - A gorgear-lhe á roda! o porque o fazem - Mal sabeis vós; cuidais que he diverti-las! - Oh que não: he ja dar lições e exemplos - De canto aos filhos seus: não de outra sorte - O nosso pai nos ensinou seus versos. - - SILVIA. - - C’roas frescas de rosas cada dia - De Citheréa ás portas amanhecem; - Sinal que a Citheréa aprazem flores. - Todo o anno era Abril se eu fôra a Deoza! - Nunca no meu altar e ás minhas portas - Faltarião montões de flores frescas. - Todas só para ti as cobiçava, - Ó minha mãi: com ellas te enfeitára - Cada hora do dia; cada noite - As renovára ao leito onde tu dormes; - Não porias teus pés senão em flores. - Se o passageiro ás vezes me pergunta, - Quando me encontra á borda do caminho, - “Quem he a tua mãi?” eu lhe respondo - Chêa de gloria “A minha mãi he Dafne!” - Hontem de tarde o graciosa Amintas, - O pobre guardador das duas cabras, - Quando o meu pão lhe dei pedio-me um beijo, - Chamou-me bella, e disse que o meu rosto - Era como o de Dafne, ou como as rosas. - Sendo assim, bella sou, que outra pastora - Igual a minha mãi não ha na aldea, - Nem flor em todo o mundo irmã da rosa. - - ALEXIS. - - O vizinho Milão, que hoje he tão rico, - Não tinha mais que uma arvore, e de terra - Só quanto aquella sombra lhe cobria. - “Corta-a Milão, dizião-lhe os pastores, - Alegras teu campinho, e terás lenha - Para aquecer a choça um meio inverno”— - —“Eu? respondia o triste, eu pôr machado - Na boa da minha arvore? primeiro - Me falte lume alheio o inverno todo, - Que eu mate a que a meu pai ja dava séstas; - A que de meu avô me foi mandada, - Que a não poz para si; e a que nos braços - Me embalou tanta vez sendo menino. - Os Deozes a existencia lhe dilatem, - Que assim lhe quero eu muito, e o meu campinho - Produza o que podér, que eu sou contente.”— - Sorrião-se os pastores; o carvalho - Cada vez mais as sombras estendia, - E Milão de anno em anno hia a mais pobre. - Lembrou-lhe um dia, em bem, que uma videira - Plantada a par com o tronco, o enfeitaria, - E os cachos pendurados pela cópa - Lhe darião tambem sua vindima: - E eis que ao abrir a cova, acha um thesouro! - Desde então ficou rico, e diz-me sempre, - Que os Deozes immortaes lhe hão dado em prémio - Por amar suas arvores. He elle - Quem mas ensina a amar, são d’elle os versos, - Com que ao bosque de Pan cantei louvores. - - TITIRO - - Deozes, tocai o peito de Mirtilo - Porque não sáia máu quando fôr grande. - Hoje, entrando na mata, o vi la dentro - Andar armando aos passaros. Que pena, - Disse em mim; não ser passaro um momento; - Não poder ir correndo o bosque aos pios, - E dizendo em cada arvore “Cautella - Meus irmãozinhos do ar; vejo inimigo; - Não saiaes; o inimigo anda no bosque...!” - Paciencia, assim mesmo hei de acudir-lhes. - Vou-me por entre as moutas rastejando - Até ao ouco e immenso castanheiro, - Que abre em seu tronco uma portada de heras, - E se nomêa a casa de Silvano. - Trepo, e dentro me escondo: os meus vizinhos - Lá por cima na cópa papeavão, - Cuido que adivinhando o que eu faria. - Encósto a boca á fresta carcomida, - Que está fronteira ao portico da entrada, - E clamo em rouca voz “Pára Mirtilo.” - Parou, ergueo-se, e poz-se a olhar em roda; - Vendo tudo em socego ás redes torna. - Com voz mais estrondosa e mais horrenda, - Torno-lhe eu a bradar “Mirtilo pára.” - Não esperou terceira: arroja tudo, - Salta, vôa; oh que riso! uns echos fêos - Lhe hião gritando apoz “Mirtilo pára.” - Somio-se; á terra pulo, espreito o mato, - Acho as redes, os presos sólto, os mortos - Levo-os onde ôlho de ave os não descubra: - Encho-as de pedras, na torrente as lanço, - E corro a procura-lo—“Oh tu não sabes, - Lhe digo, de que morte escapo agora! - Não te engano, era um Deos, vi-o eu, rangia - Os dentes, bracejava uma alta fouce, - Vinha a saír das sombras do arvoredo; - Vio-me e gritou me “Pára” eu páro e chóro. - —“Es tu que andas armando ás minhas aves? - Pois eu vou dar-te o ensino; as tuas redes - Ja te lá vão por esse rio abaixo, - E agora has de ir tu morto á caça d’ellas.”— - E então vem para mim, co’a fouce aos lanços - Cortando pelo ar—“Bom Deos, perdoa, - Lhe grito a soluçar co’as mãos erguidas, - Eu sou Titiro, o filho de Menalca, - As tuas aves amo, e temo os Deozes: - Eu redes, eu caçar!”—“Estou perdido! - Disseste que eu ... Mirtilo me interrompe.” - —“Não, Mirtilo, socega, eu não lho disse, - Nem sabia que tu ... fallemos baixo - Que nos não ouça o Deos. Olha, este p’rigo - Passou, mas outra vez não te aventures, - Que eu bem sei como o vi, não te perdoa. - Deixa ás pobres das aves innocentes - Divertir-te e cantar; nada mais querem; - Não tens razão, não teus de as perseguires. - Quanto ás redes, eu quero consolar-te: - Ouve Mirtilo, acceita este cestinho - De cana entretecida em juncos verdes, - E este meu cajadinho em boa altura - Liso, airoso, e sem nós.”—Assim dizendo, - Enfiei-lhe no braço o meu cestinho - De cana entretecida em verdes juncos, - E entreguei-lhe o cajado. Então Mirtilo - Me abraçou, e saltando de contente, - Jurou-me nunca mais armar ás aves. - - SILVIA. - - Glicera por vaidosa he que ama as flôres: - Apanha-as para si não para os Deozes, - Não lhas merece a Mãi e alcança-as Mopso. - Quando em nosso jardim vejo Glicera, - Ja me eu ponho a tremer: corta as melhores, - He seu costume; enfado-me, sorri-se; - Chóro, ri-se; e enfeixando-as, me repete: - “Que te servem por ora estas floritas? - Deixa passar mais cinco primaveras, - E então sim, nem mais uma hei de furtar-te; - Pois sei te hão de servir quaes me hoje servem.” - Coitado de quem he como eu menina, - Que se manda esperar por primaveras! - Que podia eu fazer? queixei-me ás Ninfas. - Hontem, ja pôsto o sol, quando erão horas - De logo vir Glicera, a presumida, - Que furta e vai cantando; ajoelhei-me - Co’as mãos póstas por entre as minhas flôres. - E disse: “Como as arvores tem ninfas, - Que lhes morão la dentro e as aviventão, - Ha ninfazinhas a velar nas flores. - Ninfazinhas das flores, escutai-me: - Se a rega, com que as folhas aquecidas - Vos refresquei ha pouco, vos foi grata, - Olhai por vós, fazei com que Glicera, - Como eu vos vi e ouvi, vos veja e ouça; - Apparecei-lhe como a mim, por sonhos, - Vestidas de mil côres, perfumadas, - Pequenas, mui mimosas, e só outras - Em não mostrar-lhe a ella um ar festivo. - Dizei-lhe como os Deozes vos crearão - Para amores de zefiros, recreio - De borboletas e olhos, e formosas - Copeiras do formoso mel doirado: - Dizei-lhe que tão bella e curta vida - Não se deve encurtar, que as deshumanas - Tem máo fim, que apezar de passageiras, - Ninfas sois, e o Destino ha de vingar-vos: - Que se tornar sacrílega a colher-vos, - Vossos fragrantes ultimos suspiros - Seráõ de queixa aos ceos, e antes de tempo - As rosas no seu rôsto hão de murchar-se.” - Como eu isto dizia, entrou Glicera: - Murchas trazia as rosas de seu rôsto, - Não rio, nem colheo nada, e suspiráva. - Penada de a assim ver, beijei-a, e disse: - “Se alguma d’estas flores te contenta, - Eu mesma a vou cortar.”—“Não (me responde) - Ja não quero mais flores, Mopso ingrato - As que ultimas lhe dei deo-as a outrem: - Como as flores me engeita hei de engeita-lo.” - Ao que eu logo acudi—“Vês tu, Glicera, - Fallei verdade ou não? nascem as flores - Só para as nossas mãis, e para os Deozes, - Da-lhas tu, e verás se hão de engeitar-tas.” - - MENALCA. - - Basta meus filhos, basta; não ha sombras - Tão gratas no verão, cheiro de flores - Tão suave, ou tão ledo canto de aves, - Que me recrêem como os vossos versos. - Vinde, vinde, abracemo-nos, ó filhos: - Dei-vos eu a doutrina; engenho os Fados; - Mas os Deozes virtude: alcatifais-me - De bem viçosa esp’rança o meu declivio: - Dais-me o que nem pedir ouzava aos Deozes. - Antevejo a florir-me a sepultura ... - - DAFNE. - - Entremos na cabana: aquella nuvem - Quer encobrir a lua; ergueo-se o vento, - Não tarda muito algum ligeiro orvalho. - - - - -NOTA AO IDILLIO. - - -Na muita rama que ao Idillio decotei para esta segunda edição, ninguem, -por mais que a cate, poderá achar fruto, nem sequer uma triste flôr, -se a não he o passo que para aqui traslado, da falla de Alexis pag. 96 -na primeira edição; ácerca do qual e de tudo o mais quanto supprimi ou -accrescentei, releva reclamar pela maior indulgencia dos leitores. Não ma -negará quem ja alguma vez houver experimentado como de todas as couzas, -que parecendo tenues, são agras e laboriosas, a mais agra, laboriosa, e -não sei se diga impossivel, he poetar e metrificar as fallas da infancia: -caminho he esse que estreitissimo corre por entre precipicios, sendo -maravilha que ahi os maiores engenhos se tenhão, e sigão sem caír ou para -a direita ou para a esquerda. O primeiro e melhor juiz do homem candido -he a sua consciencia: a minha me diz que os trez filhos de Menalca nem -sempre, antes poucas vezes, fallão como conviria: de sobejo são poetas -para meninos e rusticos; e tanto, que se não fôra a resalva, que logo -do comêço lhes vai lançada, de serem filhos de improvizador, e por elle -doutrinados no canto, não haveria perdão que de ridiculos os salvasse. - -Segue-se o excerpto, com todos seus defeitos e aleijões de nascença: - - O MENINO ALEXIS. - - Ver-me no bosque de prazer me enchia; - Quando Amintas, chamando-me da gruta, - Aonde estão de musgo revestidas - As imagens das Náiades da fonte, - Assim me disse, dando-me uma rosa: - —“Eu te darei uma pequena ovelha, - Toda branca, na testa só malhada, - Se fores ter com Egle, e lhe entregares - A rosa, que te dou, se lhe disseres - “Egle, Amintas por ti morre de amores.” - Beija-a depois na face, e continúa; - “Egle, este beijo é do extremoso Amintas.” - ¿Não a vês la ao longe entre os salgueiros, - Apascentando as candidas novilhas? - Corre; e não tardes a buscar a ovelha.”— - Eu fui correndo a ella, dei-lhe a rosa, - Beijei-lhe a face, e disse-lhe: “Este beijo, - Egle, este beijo é do extremoso Amintas.” - Nada me respondeo, sorrio-se, e as faces - Como a rosa encarnadas lhe ficárão. - Abraçando-a depois, lhe disse alegre, - “Egle, Amintas por ti morre de amores.” - Rio-se outra vez, e dando-me na face, - “Oh como tu és máo! vai-te, me-disse, - Não posso ... não, não quero acreditar-te.” - Nada lhe respondi, voltei á gruta, - Onde o Pastor contente e alvoraçado - Me deo sem custo uma pequena ovelha - Toda branca, na testa só malhada. - ¡Como a minha ovelhinha é bella, e mansa! - Andei com ella todo o dia ao pasto - Pela relva do bosque, etc. - - - - -A FESTA DE MAIO - -POEMETTO EM DOIS CANTOS. - - -_Se nos trez Poemettos precedentes pude fazer muito mais do promettido -no Prologo, n’este último fica a minha palavra empenhada. Pouquissimos -de seus defeitos mais palpaveis cheguei a apagar, e esses quasi só de -linguagem. Receoso de me vir a faltar o tempo ou o animo, se desde a -primeira pagina do Livro me começasse a esmerar seguidamente, fôra minha -primeira occupação ir por todo elle despontando, á ventura e sem ordem, o -que me apparecia pessimo, justamente como no Prologo deixára promettido. -Conheci logo que este trabalho era insufficiente: entrei no outro mais -miudo e ordenado; refundi a cito_ a Epistola, o Dia da Primavera, os -Cantos de Abril, _nenhuma das quaes Obras cheguei com tudo a lustrar. A_ -Festa de Maio, _por ser a derradeira, quasi ficou, e até nova edição (se -algum dia se fizer) ficará, como era. O maior bem que lhe pude fazer, foi -abri-la em dois Cantos, para que o leitor achasse marco onde descançar em -tão enfadonha e comprida estrada._ - - - - -DEDICATORIA ÁS SENHORAS DA LAPA DOS ESTEIOS. - - -SENHORAS, - -_A segunda tarde, que passámos em Festa na vossa Lapa, não tem jamais -de nos esquecer. O vosso gracioso e cortez descer a ouvir-nos, as -carícias com que amimastes o nosso Maiozinho, dando-lhe entre vós -assento, detendo-o nos regaços, beijando-o, ¿como he que nos não havião -de cativar, a nós, que o cingíramos de suas galas, o sentáramos em -throno, pôsto que menos para apetecer, e o levantáramos por Divindade em -nossos Cantos? Finalmente aquelle vosso generoso trocar de nome á Lapa, -querendo que por nosso respeito se ficasse chamando_ dos Poetas, _em -tamanhos obrigações nos pozerão, que as Musas nos acodiráõ para um dia -vos provarmos que nós, Sacerdotes seus, não somos ingratos. A minha, de -mais atrevida que he, me envia adeante, a tributar-vos este Poema, que -pois o approvastes, ja não he de vós indigno. He prezente de uma Deoza do -Parnaso, não podem as trez Graças rejeita-lo._ - - - - -HISTORIA DA FESTA DE MAIO. - - -Pelas trez horas da tarde do primeiro dia de Maio de 1822 ja nós, a -Sociedade dos poetas _Amigos da Primavera_, nos achávamos á sombra das -arvores, pelo Encanamento do Mondego, esperando anciosamente o batel, que -nos havia de tornar á Lapa dos Esteios, para celebrarmos a Festa de Maio: -de tantos que lá fôramos no Dia da Primavera, só faltava _Anfrizo_, em -cuja vez recebêramos _Antíono_, mancebo mui dado a bons estudos, versado -na lingua e poesia allemã, e autor ja então de Anacreonticas e Idillios -de muito preço. - -O suspirado batel acudio cedo á nossa ancia: todo toldado, alcatifado e -cingido com mui curiosas invenções de verdes e flores, vinha parecendo -o naviozinho do _Primeiro Navegante_. Abica, saltâmos-lhe dentro todos -juntos; larga, vogâmos contentes e cantando. Quem bem quizesse pintar com -a penna affétos do coração, não achára bastante um volume para historiar -esta só tarde. Dezejára eu muito convidar cortezmente meus leitores a nos -acompanharem, tomando seu quinhão em nosso folgar; mas não o posso, e -ainda mal, que o de maior valia fica-lo-hão perdendo. Hiamos todos tão -unidos em vontade, conformes em gôsto, feriados de cuidados, crentes na -ventura, chêos e cercados de poesia, e namorados da natureza, que os -todos só parecião um, um só moço, transportado em bemaventurança. - -Ora cantando, ora encarecendo, quasi adorando as varias gentilezas -que a perto e a longe, e por toda a parte se presentavão e renovavão -de contínuo, aportámos apoz uma hora, na formosa Lapa dos Esteios. -Erguemo-nos, vozeâmos, voão do barco para o ceo foguetes que todo o ar -estrugem, e para a margem os hinos de uma orchestra que comnosco hia. Diz -a musica muito com todos os affétos da alma, mas do contentamento, onde o -ha, faz alvorôço, que muitas vezes prorompe em lagrimas. D’esta maneira -triunfal saltámos para o cáes, voámos ao alto da Lapa. Conhecia-nos o -sítio pelos mesmos, desconheciamo-lo nós por melhorado: obrados erão -sobre a natureza milagres de Maio. Ja as arvores alardeavão ás virações -montes de folhagem, que pelo ar se embalavão ao sol; era agora o rio -ainda mais puro, os ares mais temperados e benignos. ¿Quereis haver -alguma idea da habitação das almas felizes? quereis pintar os lugares -onde as Ninfas, os Faunos e Pan apparecião aos pastores innocentes na -idade de oiro? entrai a Lapa dos Esteios pelos graciosos dias de Maio. -He a Primavera nos princípios uma linda menina; mas não sabe firmar o -passo, balbucia, tudo teme, não se decide em nada, suas graças ja se -annuncião claramente mas ainda se não desenvolverão; em Maio he moça toda -viçosa de mocidade, a quem ledos cortejão Amores e Prazeres, cujo sorrir -endoidece o pensamento, e vai entender com os corações. Tinha a Natureza -dado a segunda mão e ultima ao lugar; mas a Arte quizera entrar com ella -á competencia, sem comtudo lhe desacatar a primazia: tudo estava varrido -e puro e concertado de um sem numero de vasos de muitas, e finissimas -flores. - -No alto assentámos o altar do Deozinho Maio: todo elle era verdura; duas -colunas, artificiosamente fabricadas de flores, e rematadas em umas -maçanêtas de igual marmore, se alevantavão dos dois cantos da frente, e -communicando-se no cimo por um semicirculo, que na materia e primor não -desdizia do resto, ajudavão a formar um genero de portico bem vistoso e -engraçado; os lados, fundo e abobada do recinto erão de ramos verdes de -todas as qualidades, bem entrelaçados e bordados de frescas e vermelhas -rosas; no meio estava um assento pequeno, á feição de poial rústico, -tecido de lustrosas heras, onde se via recostado o Maio em acto mui -gentil, e com um geito todo seu. Era um Menino de cinco annos, louro como -o sol, e alvo como a neve, cabellos crespos e annelados, caídos por um e -outro hombro: de roupagem, não tinha outra de seu que um aventalinho, -que debaixo dos peitos lhe descia aos joelhos; o qual, assim como os -listões que de cima dos hombros lho vinhão tomar encruzando-se por -deante e pelas costas, estava recamado de cedro e buxo, com sua orla mui -accesa de flores de romeira, cravos, e rosas: calçava cothurnos de seda -escarlate; na cabeça ostentava corôa de verdura, e do braço esquerdo como -que acenava ás vontades com um cabazinho, farto dos frutos do seu tempo; -e tudo por modo tal, que a bôca se não sabia determinar se o diria nu -ou vestido, nem a fantasia dos poetas se o quereria simples Menino, ou -verdadeira Divindade. - -Mandámos por dois dos nossos vizitar e convidar para a Festa as amaveis -Senhoras, cuja he a Lapa, as quaes na quinta que por cima fica tem seu -perpétuo domicilio. Não tardarão: recebemo-las como convinha, nós com -a festa dos nossos musicos, e com muitos seus abraços as Senhoras, que -abaladas dos annuncios de tão bôa tarde, nos tinhão feito a honra de -acudir ao sítio. Ja era crescido o auditorio, e muito para contentar -e accender engenhos: fomo-nos uns a outros seguindo com os poemas que -levavamos, os quaes em fórma de rito religioso, se recitavão em pé -deante do altar, fazendo a nossa orchestra uma harmoniosa ráia de poema -a poema, que para tudo as tardes de Maio deixão tempo. Poz-se-lhe remate -com os vinhos e saudes d’uma saborosa merenda, como á primeira tarde da -Primavera se havia feito. Passou-se o serão parte pelas salas, outra -parte pelo jardim das nossas hospedeiras. - -A noite era uma das mais bellas de tal mez: a lua brilhantissima despedia -até os horisontes um clarão quasi diurno, não se enxergando nuvem por -todo o descampado do seu céo; refletia-se, e desenrolava sua alcatifa de -movediça prata ao longo d’esse Mondego tão digno de seus amores; o ar era -tão manso e quêdo, que as luzes, curiosamente distribuidas por entre os -vasos de flores, nem de leve estremecião; suave era de ver sair por toda -a parte d’entre planta e planta uns reflexos verdejantes mui amigos dos -olhos, muito mais da fantasia de poetas. - -Prazeres que o coração estriou por uma noite assim enfeitiçada, não são -para se poderem pintar. Pouco tardou que a sociedade, como acontece, se -não soltasse e dispartisse em ranchos pequenos: a musica errante e fóra -dos olhos, umas vezes folgando, suspirando outras, e outras como quem -sismava algumas amorosas mágoas, hia-se ja pelos arvoredos da quinta, -ja ribeiras do rio acima e abaixo, tão grata, que ainda não sei couza -que mais quizesse. Muitos e muitas baillavão arcadicamente sob a abobada -do céo, em quanto nós outros, os que das Musas só fôramos fadados para -versos, os estudavamos e repetiamos á porfia. Algumas semelhantes horas -devia ter passado o primeiro que escreveo Elisios. - -Era a noite crescida para muito alem do meio, quando nos despedimos; e -la foi caír na eternidade um dia, que ainda agora me persegue saudoso, e -apoz o qual nenhum outro veio semelhante. - - - - -A FESTA DE MAIO. - -POEMETTO - -CANTO I. - - - Eia, amigos, ao campo! ha ja trez horas, - Que os Tindáreos Irmãos no aéreo espaço - Vírão do meio dia o rôsto ardente: - Eia, amigos, ao campo! as horas vôão, - E o Maio alegre ás féstas nos convida: - Os Zéfiros ligeiros, embalando - Do parreiral a trémula folhagem, - Ao rio, ao barco estão chamando a turba. - ¿O Deos Menino, o gracioso Maio - Não vamos celebrar na fresca Lapa? - Pois que se tarda? os Numes não consentem - No culto seu ministros preguiçosos. - Chamai á pressa as pastorís Camenas, - Tomai as flautas, coroai as frontes - Co’as grinaldas, que em premio vos cingírão - Da Primavera no primeira tarde. - Como! o tempo ... (ai da flor da mocidade!) - O tempo as destruio! de graças tantas - Que existe pois? um pó. Jazem desfeitas, - Sem perfume, sem côr as lindas flores, - E as verdes folhas se enrolárão murchas! - Ah! corramos; o pezo, que as esmaga, - Róla tambem sôbre a existencia nossa: - Nossas grinaldas nos festins vivêrão, - Morrêrão no prazer; e nós, como ellas, - Devemos esperar, brincando, a morte. - - Cedo nos hombros do nervoso Atlante - O eixo voluvel em perpétuo giro - Ha de erguer ante o Sol novas esferas: - O Touro ja fugio: Castor, e Pollux - Succedêrão-lhe agora: hão de apoz elles - Os astros scintillar, que nos conduzão - Da estiva calma os importunos tempos. - Então fenecem pelo campo as flores, - Tépidas correm na planicie as fontes, - Calão-se as aves nos cavados troncos, - E fallece a frescura ás proprias noites. - Vamos, emquanto as flores não perecem, - Emquanto soprão lisongeiras auras, - Emquanto um doce frio as ondas levão, - Emquanto as aves pelos ares cantão, - E as claras noites co’a frescura aprazem; - Vamos correndo: de vergonha córe - Quem último chegar do rio á margem. - - ¡Graças aos ceos, que a suspirada arêa - Ja pizâmos emfim! mas pelas faces - Abrazado suor me está caindo. - Inda o barco não chega: eia, sentai-vos. - D’esta aura carinhosa ao fresco sôpro - Quanto he doce voltar o rosto ardente, - E ora uma face, ora outra offerecer-lhe! - Ella as beija brincando, e espalha em ondas - Os escuros anneis, que lhas roubavão. - - Verde canavial, salve trez vezes! - Co’as boliçosas, arqueadas folhas - Nos escondes a rir de Febo aos olhos. - Ninfa adorada pelo Deos da Arcadia, - (Deos dos pastores, inventor da flauta) - Sacrilego furor não nos incita: - Não te offendas se agora as nossas dextras - De tuas canas adornadas vires: - Sua altiveza airosa nos agrada, - Vates somos, os trémulos seus cumes - Ondulando, os lascivos seus abraços - A cada viração que vai fugindo, - Tudo isso nos namora, e diz poesia. - Não te offendas ó Ninfa, ei-las colhidas! - Gravai com ellas n’esta arêa os nomes - Das vossas bellas, imprimi-lhe um beijo, - E partamos, que o barco ahi fere a margem. - Bem: eu lancei da Primavera o nome - Em caratéres taes, que ao longe possa - Lê-los o pescador no fim da tarde. - - Eis-nos emfim nas transparentes ondas! - Agora cumpre diligencia, esfôrço, - Para vencer as fugitivas aguas. - Ferva o trabalho, as varas não descancem; - No fundo leito redobrai os golpes, - E suavisai com musica a fadiga. - Eu deitado na pôpa, eu dicto os versos; - Cantai, e o echo em baixa voz aprenda. - - Ouvi Ninfas do placido Mondego, - Ouvi com ledo rôsto as preces nossas. - - Saí correndo das limosas grutas: - Occultas no cristal do patrio rio, - Vós podeis impellir co’as mãos de neve, - E fazer que o batel, qual aguia, vôe. - Bellas Filhas do lúcido Mondego, - Vamos passar a tarde á grata sombra, - Das lindas Graças na famosa Lapa. - Ali, se acaso não me illude o estro, - Vós, Ninfas, vós com ellas muitas vezes - As noites do luar passais em danças: - Sôbre um tronco musgoso Amor sentado, - Para acertar as rápidas choréas - Com saudosa flauta a Noite acorda, - E Venus compassiva lhe desata - Dos olhos entretanto a escura venda. - Mil Amorinhos sem farpões, sem facho, - (Nem onde vós estais carecem d’elles) - Vôão aqui e ali por entre os ramos. - - Ouvi Ninfas do placido Mondego, - Ouvi com ledo rôsto as preces nossas. - - Dai-nos breve chegar, sereis cantadas; - E iremos outro dia erguer altares - De cada vosso chôpo á sombra amiga, - Pondo-lhe em roda uma vistosa grade - D’aureas canas com murtas revestidas: - Em vossas ondas lançaremos rosas, - E puro leite, e saboroso vinho. - Porque tardais, ó Náiades esquivas? - Turba innocente de mancebos rindo - Bem merece o favor dos sacros Numes. - Nós não vamos em lenhos alterosos, - Roçando as nuvens com soberbas velas, - C’o ferro a lampejar nas bravas dextras, - Levar da guerra a furia aos outros povos, - Lançar em fogo os bosques, e as cidades, - Para voltar aos mares tormentosos - Co’um pouco do metal, que gera os crimes: - Nós vamos procurar vizinha praia - Para rir, e beber de Maio em honra; - Vamos c’roar-nos de verdura, e lirios, - Cantar ao som da flauta a Natureza, - Dançar no meio de innocentes gostos, - E longe dos mortaes, viver ditosos, - Poucas horas sequer, na paz dos campos. - - Ouvi, Ninfas do placido Mondego, - Ouvi com ledo rôsto as preces nossas. - - Terra, terra: éstas árvores das margens, - Que ora nos vão passando sôbre as frontes, - Convidão a colher sua folhagem: - Saltai, colhei os mais viçosos ramos, - Teça-se um tôldo, que nos roube á calma. - - Ávante! adeos, ó Driades, ficai-vos - Em doce paz; o orvalho vos fecunde; - Ache vossa raiz no estio as aguas - Tão abundantes, como as tendes hoje. - Nós vamos celebrar o mez das flores, - Quando voltarmos vos daremos graças. - Ávante! não cesseis, alegres nautas! - Cantai: eu voas ensino um canto novo. - - Das Filhas de Nereo a mais formosa - Foi Galatéa candida, e rosada. - Por seus olhos azues morreo de inveja - Aglaia, irmã de Amor; a curta boca - Ciumes acendeo no peito d’Egle, - Bem que da boca d’Egle um doce beijo - O scetro pagaria ao rei dos Numes; - E Eufrosina, entre os Deozes celebrada - Pelos aureos anneis da longa trança, - De Galatéa a trança cobiçava. - E o seio! o seio túrgido e nevado, - Mais nevado que a espuma em que se tornão - Na frente de um cachopo as crespas vagas, - O seio era melhor que o teu, ó Cípria! - Treze vezes floríra a primavera, - Depois que aura vital gozava a Ninfa, - E ja no mar, no ceo, no mundo inteiro - Das bellas todas triunfava a bella, - E ais e louvores a seguião sempre. - Nereo, chamando-a á funda gruta um-dia, - Assentou-a nos trémulos joelhos, - Ao hombro lhe lançou paterna dextra, - E beijando-a lhe diz.—“Assaz he tempo, - “Filha, de rematar da infancia os brincos. - “Tu conheces teu rôsto, ¿e não conheces - “Que he preciso fugir á turba insana, - “Que te rodêa, que te chama bella? - “Crê tu nas cãs de um pai, de um pai no afféto; - “Quanto mais suas fallas te agradarem, - “E mais seus modos lisongeiros vires, - “Mais pérfidos serão. Cabe a meus annos - “Dar prudente conselho á tenra idade; - “Perdoa-me, acautello-te a innocencia. - “De meus delfias o lúbrico rebanho, - “Desde hoje apascentar he teu cuidado: - “Não convem á belleza ociosa vida.”— - Disse, e poz-lhe na mão, como a pastora, - Cajado de coral com ponta d’oiro; - Entregou-lhe a rebanho, e conduzindo-a - De seus mares a um placido retivo, - —“Fica, pastora, aqui, lhe-disse o Velho, - “Vir-te-hei vêr muita vez.”—Rio-se, e deixou-a. - - Alguns dias ali viveo contente - Com seu rebanho a equorea pegureira. - Ora entre as moutas dos coraes ramosos - O levava a pascer os brandos limos, - Ora ao marinho cão deixando-o entregue, - Hia colher das perolas as conchas. - - Uma tarde de Maio, quando aos braços - De Thetis vio que o sol hia descendo, - Ouzou sair do fundo, e foi sentar-se - A gozar do espétaculo dos bosques - Na alegre entrada de uma verde gruta. - Nas ondas por acaso então nadava - Acis gentil de encantadores olhos: - Vio-o, e visto, calou seu canto alegre; - Sólta um suspiro, e se perturba, e córa. - Do paternal preceito inda lembrada, - Quer na gruta esconder-se até que parta - Das ondas o mancebo: eis se arrepende, - Ja não quer occultar-se, e quer que a veja. - D’entre o verde do mar o níveo corpo, - Que os olhos cega, e o coração cativa, - As proporções, a ligeireza, a graça, - Com que agora se occulta, agora assoma, - E em modos mil as posições varía, - Tudo, tudo a detem. De quando em quando, - Sem conhecer que o faz, se lhe aproxima; - As tranças, que trazia ao vento sôltas, - Sem saber o porque, reparte e lança - Sôbre os hombros de neve, e cobre o seio: - Consulta no mar lizo a propria imagem; - Quer mais bella tornar-se, e mais não póde. - - Cançado de banhar-se o Moço emtanto - Vinha a praia ganhando: ella assustada - Corre á gruta; ali cora, ali desmaia, - Quando o mancebo, quando o pai lhe lembra. - O bello nadador não tarda muito, - Entra na gruta, onde largára as vestes ... - - Amigos, vós parais como esquecidos? - Deixais que o lenho na corrente desça? - Ah! voltai ao trabalho; e por castigo - Não ouvirèis do alegre canto o resto. - - Novo me inspira agora esse murmúrio, - Com que a Fonte das lagrimas se lança - Da serpeada varzea ao rio aberto. - - Junto á fresca matriz d’este ribeiro, - Onde gozou em seculo remoto - O mais ditoso par de amor os mimos, - Meu estro agora placido voltêa - Por entre os cedros, e os feraes ciprestes; - E ora ao lago pacífico se arroja, - Ora da fonte nos penedos pouza. - Comvosco não existe o vosso amigo; - Gira fóra d’aqui no sítio umbroso, - La conversa co’a Musa, aprende, e canta - Gratas histórias dos passados tempos. - - Uma noite de Maio Inez formosa, - Ao pallido clarão da argentea lua, - Com seu Pedro fiel aqui vagava. - De seu candido amor primeiro fruto, - Lindo, qual dos Amores o mais lindo, - Um tenro filho, que a fallar começa, - Co’a pequenina mão á mãi seguro, - A passos desiguaes a acompanhava. - No dextro braço do gentil consorte - O alvo braço despido entrelaçando, - Languidamente a bella se apoiava. - Traja da côr da neve, ornão-lhe as tranças - Rúbidas rosas que reveste o musgo: - Sob um véo raro e sôlto arfão dois peitos, - Que estrema, que matiza, e que perfuma - A flor, que he d’entre mil só digna d’elles, - O amor perfeito em fresco ramalhete. - Pelo silencio, e paz da noite amiga, - Nos extasis de amor arrebatados, - Ebrios ambos do nectar da ternura, - Vagueando em seu ermo, respiravão - Todo quanto prazer nas almas cabe. - —“Inez, dizia Pedro, olha estes cedros, - “Que doce murmurando agita o vento! - “Olha as aguas do tanque, onde tão clara - “Se está dos Ceos a Lua retratando! - “Ouve o rumor das ondas transparentes, - “Que vem brotando da cavada penha! - “Cara Inez ... ah! calemo-nos; escuta - “O amante rouxinol como gorgeia! - “Não o sentes mui proximo? quem sabe! - “Talvez que em teu jardim celébre agora - “Ao lado de uma esposa os seus prazeres: - “Se assim he, refinai perfume, ó flores, - “E vós levai-lho, zefiros da noite, - “No instante em que Himeneo tem de ajuntal-los. - “Ó minha Inez, não ser inda possivel - “Confiarmos á luz nossa ventura, - “E eu dizer, sou de Inez!...”—N’isto o mancebo, - Apertando a seu peito o braço d’ella, - De beijos lhe inundava a mão mimosa. - Em silencio e cuidosa a linda Castro - Parava contemplando os ceos, o esposo, - E unindo a regia dextra ao seio oppresso, - Dava a resposta n’um fiel suspiro. - —“Oh! (dizia depois) que Deos contrário - “Ao terno amor, á candída innocencia, - “Poz peito, ó doce encanto, a separar-nos? - “Quão melhor fôra haver nascido em choças! - “La, tendo por imperio um só rebanho, - “Lãs por purpura, e flores por diadema, - “Pedro fôra pastor e Inez pastora. - “Teu solio quantas lagrimas nos custa! - “Mas se fosse teu solio um manso outeiro, - “Docel um parreiral firme em colunas - “Das que dão fruto e flor, saude, e agrados, - “Não cortíra em meus sonhos o remorso, - “Teu coração ninguem mo disputára, - “Não se encobríra o meu amor ...”—“Oh cessa, - “Cessa (Pedro lhe diz interrompendo-a): - “De que servem, querida, essas lembranças! - “Se te adoro, que temes? se me adoras, - “Que posso eu mais querer! Virtudes tantas, - “Raros dons quaes os ceos em ti resumem, - “Não são para jazer na escuridade; - “Dos reis, de teus avós te poem no estrada, - “Para luzires nos corrutos dias, - “Como astro de bondade entre os humanos. - “Gozemos do prazer. Olha esta noite - “Como he formosa, minha Inez; não tornes, - “Eu to peço por mim, por ti, por esse - “Fruto do nosso amor que te he tão caro, - “Não tornes a acordar taes pensamentos. - “Queres tu, minha amada, á curta noite - “Dar emprego melhor, mais proprio d’ella? - “O assento ao pé da fonte nos convida, - “Vem-me outra vez cantar os magos versos, - “Onde quasi exprimiste o enlevo d’ambos, - “Quando a primeira vez nos vimos juntos - “Tambem de noite, e n’este sítio mesmo.” - - Disse, e Inez imprimindo-lhe nos labios - Co’a meiga curta boca um longo beijo, - —“Vamos, responde, apraz-me esse meu canto, - “E agradar-te, inda mais; partamos logo.”— - Diz, e ja leva ao collo o seu filhinho. - Forceja o pai furtar-lhe o doce pezo, - Ella a ninguem o cede:—“O meu menino - “He meu, lhe diz; quando eu tiver meninas, - “Dar-tas-hei, desde ja chama-lhe tuas; - “Pertence o filho á mãi, e ao pai a filha.”— - Sorrindo com ternura o ledo Amante, - —“Ser-me-ha dado, lhe diz, que de teu filho - “Ao menos colha uns beijos que me deve, - “Ou hei de só com os teus ficar contente”?— - —“Se tos deve meu filho, eu vou pagar-tos” - Inez responde, e lhe pagou mil beijos. - - Chegados são aos bancos do rochedo. - —“Ja do sol o calor morreo na pedra; - “Para assento, he mister ser estufada. - “Não rias, o brocado hão de ser ramos; - “Para a pastora Inez, nenhum mais proprio”— - Voa ao proximo cedro, os ramos corta, - Alastra-os sobre o marmore, e reclina - O infantinho, que pósta a loira fronte - No maternal joelho, eis adormece. - - Absorto no painel delicioso, - Não podendo parar nem desviar-se, - Como homem, que formosa feiticeira - Prende e agita n’um círculo encantado, - Vaga o Principe á luz voluptuosa - De lua por entre arvores. Desponta - No ermo silencio o canto namorado! - O suave da voz, o doce estilo, - A musica tocante, a frase meiga - Alhêão-no de si, todo elle he fogo: - Não conhece onde está, quem he não sabe: - No cahos do prazer, em que se abisma, - Só vê brilhar Inez, Inez só ouve; - E qual se nunca em braços a apertára, - E virgem melindrosa o ceo benigno - Lha houvéra ali chovido aquella noite, - Arde e delira em sofregos dezejos. - Já não sabe conter-se, o fim do canto - Já não póde esperar; “Ó minha, exclama, - “Ó minha ...” e sem findar, pois não encontra - Nome que exprima o que lhe ferve na alma, - Voa a abraça-la sem poder fallar-lhe; - A voz com loucos beijos lhe interrompe, - Quer dos labios sorver-lhe os sons divinos; - Mas ella rindo, e a boca desviando, - Que a deixe terminar lhe pede a custo. - —“Sim, acaba (responde), Inez, acaba”— - E emtanto hia beijando o collo, o seio. - Depois, como ante Nume, ajoelhando, - Suspenso a contemplava espaço longo; - E depois no regaço o rôsto acceso - Lhe punha, como em ninho de delicias, - E no certo esperar crescia o fogo. - Só vós caladas arvores no emtanto - A canção namorada ouvindo estaveis - Da mui ditosa Inez! Como expirava - A derradeira nota, estremecendo - Acorda o moço, alvoraçado surge, - E tomando á cantora a mão submissa, - —“Vamos, lhe diz, a lua vai descendo, - “O tácito poente a chama ao sono: - “Oh quão leve entre nós foge esta noite! - “As auras pela relva estão dormindo, - “Pendem com sono as arvores seus cumes, - “Do largo tanque as aguas nem se encrespão. - “O rouxinol que ha pouco gorgeava ... - “Ja tambem se calou: sabes a causa?”— - —“Talvez lhe empeça a voz, responde a bella, - “Teimoso furto de continuos beijos.”— - —“Não, não, responde o amante, agora occulto - “Co’a docil companheira em quente abrigo, - “Aperta o rouxinol de amor os laços. - “E nós Inez? ah toma o teu menino, - “Talvez não tarde a aurora, ao leito vamos, - “E do fresco da noite ali zombemos.” - - Emfim chegámos! c’o ligeiro impulso - Bate a proa no cáes, o lenho treme, - Tremem com elle de seu tôldo as folhas. - Salve ameno lugar, que as Graças pizão! - Glória ao sacro arvoredo, que diffunde - Sôbre a calma do vate a sombra fria! - Glória ás auras, que prêzas n’este sítio, - Das Dríades por mão aos troncos d’ellas, - Agitão com susurro a massa enorme - Da folhagem suspensa! honra aos que brincão - Puros raios do sol sôbre o terreno, - Mal que um favonio lhes descobre a entrada! - Eterno amor ás aves, que em seus ramos - A vinda nossa a gorgear celebrão! - Paz ao dezerto, onde comnosco as Musas, - Esquecidas de Pimpla, se contentão - De encher de alegres canticos os ares! - - Á festa, á festa! Reuni-vos todos, - Vinde colhêr as fugitivas horas: - Como vaga que passa, ou flôr que murcha, - Para mais não voltar, se escoa o tempo. - Á festa, amigos! Oh! n’esta eminencia - Eis ja pronto um altar! ei-lo cingido - Com largas fitas de pintadas flores! - Ante elle o rosmaninho, a murta, as rosas - Té não curta distancia o chão tapizão; - Heras, e lirios candidos o toldão: - De heras e lirios adornai as frontes. - Ajoelhai: lá sobe a Divindade! - Silencio! paz!... Retumbe pelos echos, - Sem mistura de voz, o som das flautas. - No coração, no espirito me chovem - D’estro divino eléctricas centelhas. - Ja me sinto mudado em branco cisne! - Cercai-me: eu vou cantar; calam-se os ventos! - - Voa invisivel das Hemonias serras, - Tu que no Xantho as aureas tranças lavas: - E se he tua, qual Roma suppozera, - Ésta a melhor porção da florea quadra, - Do cantor de teu mez protege a audacia. - - D’entre os filhos da immensa eternidade, - D’entre esses doze Irmãos, que repartido - Tem por sua influencia o anho inteiro, - Maio foi sempre o mais gentil de todos: - Qual dos cachos o Deos, e o Deos das setas, - Goza brincando eterna mocidade. - As Graças infantis, e a Formosura - O creárão nos ceos com o proprio leite. - Mal que o mundo surgio do horrendo cáhos, - Veio formar-lhe os seus primeiros dias, - E Maio foi da terra a fresca aurora. - Em mimos escondendo a magestade, - He Maio o pai, e o rei da Natureza: - Qual em soberbo paço, anda nos bosques; - Ou, qual em solio, nos outeiros verdes - Se assenta, ao lado da risonha Flora. - Compõe-lhe o seu cortejo Auras, Favonios, - Que das plumas azues fragrancia espargem - Furtada ha pouco ás pudibundas rosas. - Em seu reinado insolita doçura - Exhala o canto dos volateis bandos, - E canoro parece o bosque inteiro. - Em seu reinado os prados florecentes - Só curão de ostentar perfume e cores: - E a Ninfa ás vezes longas horas fica - A meditar na escolha dos ornatos. - - Co’a folhagem densissima susurra - O bosque annoso a celebrar-te, ó Maio; - Susurra a celebrar-te o rio, a fonte. - Com serena alegria o sol derrama - Vasto oceano de luz no aereo espaço. - A pompa da manhã, da tarde o brilho - Tem não visto matiz d’oiro e de rosas, - E côr de fogo sôbre um ceo de leite. - Toda patente a abobada de estrellas, - Toda brilhante a prateada lua, - Te dão, como as do Elisio, alegres noites, - De importuno calor desafrontadas, - Chêias de encanto, da saudade amigas, - Gratas a um tempo ao coração, e ao estro. - Aqui, e ali os rouxinoes se escutão - Longas horas c’os echos porfiando. - Gira, vaguêa pelas fracas trevas - Dos pirilampos o lustroso bando: - Resoa em cada aldêa alguma frauta, - E emtôrno d’ella as camponezas danção: - Bala no aprisco impaciente o gado - As poucas horas, que á manhã precedem. - - Como he doce o teu mez, benigno Maio! - Alegra-se o viandante ao ver nos campos - Do verde trigo as trémulas searas - Iguaes a um vasto lago, onde os favonios, - Nascidos inda ha pouco entre as florestas, - Aprendem a encrespar as verdes aguas. - Aqui a par de um campo, onde começa - O milho a despontar, desprega aos ares - Com vaidosa soberba altas bandeiras - De outros milhos o exército infinito. - Ostentando riqueza alem menêão, - Entre a argentea folhagem pendurados - Cachos de flor, os olivaes fecundos. - Os pomares de frutos se carregão, - Que ja sem medo aos furacões, e ás chuvas, - Com áncia a côr, e a madureza esperão. - As aves da manhã, quando revôão - Com longo canto pela immensa altura, - Se aprazem de os olhar; e ás vezes descem, - E vem pouzar nos encurvados ramos, - O futuro sustento ali festejão: - Tal de annos onze uma pequena virgem - De adoradores mil se vê cercada; - Bem que á sua belleza inda lhe faltem - Terno expressivo olhar, globos de neve, - Voluptuoso dezejo entre suspiros, - Buscado enfeite, graciosas fallas, - Rodêão-na comtudo, adivinhando - Pelo botáõ fechado a flor aberta. - - Mas, ó Maio, o teu mez não brilha esteril! - La se ergue o laranjal c’os frutos d’oiro; - Doces limões, e saborosas limas, - D’entre a larga folhagem descobrindo - A amarellada tez e o forte aroma, - Prendem sentidos convidando ao furto; - Ri-se entre as mais a alegre cerejeira, - Que ainda que no gôsto a muitas cede, - Mais que todas seduz co’as vivas bagas; - A ginjeira com ella aposta encantos, - Mas apenas gostada, a palma he sua; - Iguaes a um coração em côr, em fórma - Os suaves morangos ja maduros, - Contentes da humildade, estão dormindo - No fresco seio da materna planta: - D’ali, se vem um zefiro acorda-los, - Olhão em roda as pampinosas vinhas; - E vendo como os pequeninos cachos, - Que a fronte cingem do celeste Bromio, - E um dia gratos brilharáõ nas mezas - Mudados no licor, que gera os risos, - Do nativo terreno apenas se erguem, - Zombando riem da vaidosa audacia, - Com que somem no ceo pomposo cume - Árvores tantas menos uteis que elles. - Por toda a parte as desveladas hortas - C’o verde alegre das crescidas plantas - O suor do colono estão pagando; - Seu terreno sulcado está coberto - De immensas produções, que vão nas mesas - Ser preciso sustento, ou grato mimo, - E ora entrar na choupana, ora nos Paços. - - Em teus dias, ó Maio, as vélas sólta - Sem medo o nauta pelo vasto oceano, - E olhando puro o ceo, de leite as ondas, - A cujas furias escapou nadando, - Sobre a pôpa da náo regendo o leme, - Pensa na esposa, nos filhinhos pensa; - Prometteu-lhes voltar; nem ja receia, - Maio, fiado em ti, ser-lhes perjuro: - Sobre a cana do leme encosta os braços, - E ou sólta em grande voz grosseiros versos, - Ou costumada musica assobia - Olhando a estrada de alvejante espuma, - Que d’um e d’outro lado á prôa foge. - Brinca nas aguas, e ou se esconde, ou salta - De vagos peixes prateada turba; - Na verde superficie as Ninfas danção, - Da tarda noite nas caladas horas, - Das estrellas á doce claridade. - - Mas eu quero soltar mais altos vôos, - Trazer ao mundo incognitas verdades. - Em teus dias, ó Maio, os Páfios bosques - Vírão nascer os trêfegos Amores! - N’um valle opaco, onde buscando o fresco - Costumavas dormir entre mil flores, - La teve a Deoza o seu fecundo parto. - Apenas sobre a attonita verdura - Cípria depunha um pequenino alado, - Logo o via nos ceos voar, sumir-se: - Tal dos Amores o soberbo genio! - Quando cançados de brincar nos ares, - Um passatempo á terna Mãi pedião, - Tu lhes foste ensinar pelas florestas - A formar arcos de flexiveis ramos, - E despedir, sem nunca errar, seus golpes. - Tu lhes mostraste os rezinosos troncos, - De que havião formar brilhantes fachos. - Tu mesmo entre elles companheiro e mestre, - Pelos campos as flores procuravas, - Com que doces prizões tecer devião. - - Tudo em teus dias no universo adora; - O sexo, a idade, as condições não livrão. - Entre o rebanho, que amoroso bala, - Amoroso pastor canta ou suspira; - Ternas gorgêão no arvoredo as aves; - Ragem ardendo de dezejo as feras; - Suspiros ouço ás arvores, e aos ventos; - Abrem o seio as virgemzinhas flores, - E Venus as fecunda, e mãis se tornão. - Em cada gruta, em cada bosque ás Ninfas - Uma emboscada os Sátiros aprestão. - Em bellezas mortaes embevecido, - Canta em rustica voz novos amores - C’roado de pinheiro o Deos da Arcadia, - E ante a Ninfa gentil mudada em canas - Pelas canas da flauta os sons varía - Com ar alegre, que perjuro o torna. - Sensivel para o Sol se volta Clície; - O Sol na terra outras bellezas busca, - E outras acha, que o peito lhe cativão, - E fazem que mais tarde a Thetis desça. - Entre os astros as Pléiades luzentes - Com saudade seus thalamos recordão: - Junto d’ellas o Touro inda parece - Mugir lembrado da formosa Europa. - Mais placida refulge a Cípria estrella; - Dissereis que saudosa indaga os sitios, - Onde comtigo, venturoso Adonis, - Passava as noites do formoso Maio: - E quando foge, a Aurora se envergonha, - E cora por voltar tão cedo ao mundo; - Pois quem ha que não saiba os seus segredos? - Quem de Céfalo a história não repete? - Em cada tronco um dísticho de amores, - Ou dois nomes se lem, como enlaçados. - Uma sombra, uma só não ha nos campos, - Onde Amor não recorde, ou não prepare, - Ou não veja presente uma vitoria. - Foi, Maio, foi teu mez que ao Rei das sombras - Fez que deixasse o sempiterno cáhos, - Para roubar a encantadora esquiva, - Do flóreo campo de Enna ornato, e Deoza. - Foi, Maio, foi teu mez que ouviu primeiro - Diana a suspirar, arrepender-se - De ser das virgens tutelar Deidade. - - Graças ao teu poder, e ao teu influxo! - És tu que a rir convidas gracioso - Minerva um pouco a abandonar seus livros[13]. - Quem póde resistir-te? emfim te cede, - Toma-te pela mão, para que a leves - A divagar em teus vistosos campos; - O ar de meditação troca em agrados, - E vê contente abandonar-lhe a côrte - De seus alunos juvenil caterva, - Que alvoraçada aos patrios lares vôa. - Sim, Maio, eu voarei aos patrios lares! - Mas cuidas que jamais distancia ou tempo - D’este dia a memoria hão de apagar-me? - Não: onde quer que os fados me conduzão - Sempre te hei de cantar, sempre c’roado - De teus altares me verás ministro: - Mas d’esta sociedade, e d’estes brincos, - Em quanto a noite se adornar de estrellas, - Nunca a lembrança volverei sem mágoa. - - De generoso vinho enchei-me o copo, - Que de mírtea grinalda ornado quero. - Imitai-me tambem. Por este, ó Maio, - Suavissimo licor, pai da alegria, - Por este, digo, cuja taça empunho, - Juro ante o ceo, de teu altar em frente, - Que um anno só não deixará meu estro - De exaltar tua glória, e a minha amada, - A Deoza tua mãi, a Primavera. - Reformai-me outra vez a funda taça. - Em honra a vós, formosas moradoras - D’este ameno lugar, esta se esgote. - - Aguardai, cabe agora o sacrificio; - Vou-me a buscar a vítima, que a trouxe - Occulta e prêza do batel na pôpa. - Eis-me, abri-me caminho! eu volto ás aras: - Para a santa ablução trazei-me um vaso. - Silencio! fallo ao Deos!—“Sejão-te acceitos - A vida, e leve espirito do prezo - Que vem n’esta gaiola, o qual eu vate - Por todos nós agora te dedico, - E dedicado entrego ás livres Parcas. - Digna he de ti formoso ave formosa - Como esta; pintasilgo ativo em canto, - Garrido em côres, no brincar esperto, - Mestre em tirar do cristalino poço - Com o balde de avelã sua bebida: - Outro melhor nunca girou nos bosques. - D’esta estação n’um dos primeiros dias, - Segundo o meu costume antes da aurora - Saí a espairecer nos campos verdes, - Ouvir das aves os primeiros cantos, - E aquecer-me sentado sobre a relva - Ao primeiro calor do sol nascente. - Banhei o rôsto n’um remanso puro, - Colhi as flores inda ha pouco abertas; - E co’a mente serena, e possuido - Do amor do campo, e dos campestres gostos, - Voltei de novo ao lar. Junto á janella - Por onde largo sol ja vinha entrando, - Fui sentar-me a pascer em vãs delicias. - Eu sonhava acordado! ah nos meus sonhos - Não via mais que bosques e pastores, - Rebanhos, fontes, rusticas choupanas! - Dono me cria d’um torrão pequeno - Mas pingue, de uma choça pequenina - Mas alva, entre nogueiras, rodeada - De alvos cordeiros nédeos e alvas pombas. - Eis que afoitando um vôo, esta avezinha - Me entra por casa; ao seu gorgeio acórdo, - Pois junto a mim pouzava gorgeando. - Ouves, Maio, este som, com que parece - Approvar adejando o que te conto? - Ouves? repara bem: tal modulava - Quando amoroso a vizitar-me veio. - Ganhando confiança a pouco e pouco, - Saltou-me para o hombro, e de improvizo - Prêzo se vio na minha mão fechado. - Quiz debater-se, emvão; piou, carpio-se, - O bom coraçãozinho lhe batia. - Beijei-o, puz-lhe mesa; o sem ventura - Nada acceitava, anciando só fugir-me. - “Conheces-me bem mal, pobre innocente, - Lhe digo; essa gaiola he teu palacio - Não carcere, eu teu servo e não tirano. - Servo e palacio um dia de experiencia - Talvez tos faça amar: se não, prometto - Abrir-te a porta e libertar-te os vôos.” - Á janella da minha a estancia d’elle - Penduro; os aureos grãos e a clara linfa, - Cama fôfa entre ramos florecentes, - Vista de campo e céo por toda a parte, - Mas livres um de açôr, outro do tiros, - Manso, mansinho ás grades o affizerão: - Comeo, bebeo, cantou. “Pois que tu cantas, - Vatezinho silvestre, em nossa casa, - Juntos e amigos ficaremos sempre. - Tu serás de meus dias a harmonia, - Eu tua providencia; a fonte e a messe - Te viráõ procurar, dar-te-hei florestas - La dentro em teus penates de cortiça, - E porque logres tudo, uma consorte - Virgem, bella, fagueira, e cujos filhos - Seráõ só teus, e como tu formosos.” - Desde então ledo vive, e tanto aos mimos - Se acostumou domesticos, e tanto - A amizade entendeo, que lhe abro a grade - Fronteira aos ceos da aurora, aos bosques amplos, - E nem bosques nem ceos lhe dizem—foge.— - Da liberdade que lhe acena á porta - Se despede cantando, e empoleirado, - Reizinho em casa sua, a mim e a ella - Nos compara, e lhe diz: “Aquelle humano - Deos foi que para mim creou taes ocios!” - - “He esta, ó Maio, a vítima que trago - Ao sacrificio teu! perco um amigo!” - Com esta mimosissima grinalda - De sensitiva lhe circundo o collo, - Para sinal da dor que me comprime. - Vamos, venha o punhal, que eu limpo o pranto. - Ó ceos!... quanto me custa! He sacrilegio - Qualquer demora mais: ânimo agora, - Saudoso coração!... Venceste, ó Maio! - Venceste! consumou-se o sacrificio! - O fio prêzo ao pé cortei de um golpe, - Lancei-o ao ar; voou; nem ja o ouvimos. - Foi rever seus antigos companheiros, - Sua amada, seu bosque, e o seu alvergue. - Oh! como será doce emtôrno ao sócio - Que julgárão perdido, apinhoada - Papear parabens a alada tribu! - Oh tu lhes dize então do amigo o nome, - Que vezes te beijei de madrugada - Por me acordares co’o suave canto, - Para trocar o leito pelo grato - Passeio da manhã, d’onde trazia - Pera a tua gaiola hastes de flores. - Ouvirá leda a esposa a leda historia, - E a contará depois aos tenros filhos. - Talvez que em meu passeio inda algum dia, - A festejar-me, emtôrno a mim se junte - Chêa de gratidão toda a familia, - Tu meu amigo, a tua esposa, e prole. - - Dispersai-vos, bebei, cantai, amigos, - Ride, e dançai, porque invejoso o tempo, - Co’as cãs na fronte, e o coração gelado, - As horas do prazer furta aos mancebos. - Mas ai de nós, que o perfido voando - Ja nos fugio co’a encantadora tarde! - - Desçamos ao batel: adeos ó Lapa, - Adeos, fica-te em paz; e cedo espera - Ver de novo juntar-se á sombra tua - Da Natureza os candidos Amigos. - Deixai as varas, gracejemos antes, - Não cumpre trabalhar, para fugirmos - De um bosque sacro a Maio, e sacro ás Musas. - -FIM DO CANTO PRIMEIRO. - - - - -A FESTA DE MAIO. - -POEMETTO - -CANTO II. - - - D’essa garrafa de cristal doirado - Duas taças me enchei. Venha a primeira: - Esta se esgote da amizade em honra. - Ó divino licor! se o puro nectar, - Que Hebes formosa a Jove ministrava, - Comtigo competir podesse ao menos, - Jove lhe perdoára o seu descuido, - Nem dos bosques Ideos arrebatado - Ganimedes gentil voára aos Numes. - - Dai-me, dai-me a segunda. Em honra agora - Do celeste prazer, que nos encende, - Este liquido fogo ao peito envio. - Graças ás mãos, que á terra afortunada - Derão em hora boa éstas videiras! - Graças a Baccho, ao protétor, que tanto - Desvelo lhes prestou! Graças á turba - De alegres raparigas, que levárão - Os cachos ao lagar em largos cestos! - A vós mancebos rusticos e alegres, - Que aos pés calcastes as cheirosas uvas! - E a ti, lenho feliz, em cujo seio - Os sagrados toneis se transportárão - Desde os campos de Chipre aos campos nossos! - Do celeste perfume ébrias as Ninfas - Te acompanhárão na veloz carreira; - Continuamente as velas te enfunárão - Com halito propício os frescos ventos, - Que lá brincavão pelas ferteis vinhas, - Faceis criando, e colorindo as uvas: - E o mesmo Baccho (eu não vos minto, amigos: - Ah! dai-me a taça, os labios se me seccão); - Baccho em pessoa, o vencedor das Indias, - Invisivel na pôpa revirava - O leme dirétor co’a mão divina. - Dai-me á pressa outro copo: outro: mais cinco: - Mais um que eu vote a Febo, e nove ás Musas. - Sinto o meu coração desfeito em gôsto! - Ah! por piedade rodeai-me todos; - Quando entre amigos bebo, um só não basta - Para me encher atropelados copos. - A cada qual de vós uma saude - Quero fazer; mais uma a cada Ninfa; - Aos Numes todos, que na terra habitão, - Aos Numes todos, que dos ceos nos olhão, - A todos que no Elisio nos esperão; - Farei uma saude a cada vaga, - Que desde a Herminea Serra[14] aos mares corre, - Álua, a cada estrella, a quanto existe. - Do mais vivo prazer me volvo em braços! - Rio, e respiro magicas delicias! - - Gelos, que em serras coroais as fontes, - D’onde as urnas as Náiades inclinão - Para mandar-nos de tão longe as aguas, - Derretei-vos em subitas correntes: - Brami de roda dos Hermineos lagos, - Ventos da tempestade; as átras nuvens - Reuní, condensai: retumbe ao longe - O ronco do trovão pelas florestas, - E o monte enorme em seus abismos trema. - Todo em chuveiros se desate o polo: - E cedo (oh! praza aos ceos!) e cedo o rio - Vença o leito, e com impeto revolva - Tropel ruidoso de espumosas vagas. - Sem poder contrastar-lhe a furia immensa, - Perto da margem sem poder ganha-la, - No escuro turbilhão de rôjo iremos. - Quando a aurora assomar, ja muito longe - Nos verá pelo Atlantico engolfados. - Do enfeitado batel voltando a prôa - Contra as vagas austraes, candidas velas - Presentaremos ao ligeiro Boreas. - Em dia bonançoso, e mar de rosas - Iremos sem temor, chêos de assombro, - Gozando entre as equoreas Divindades - Scenas de Maio no ceruleo campo. - Cedo veremos verdejando e rindo - O alto Cabo surgir na extrema ponta - Da Lusitana terra: erguendo aos astros - A nautica celeuma, alvoraçados. - Poremos no occidente o vago leme - Para afrontarmos as Titóneas plagas. - Entre o Barbaro solo, e o solo Hispano - Passaremos cantando o Estreito, aonde - As Colunas ergueo famoso Alcides. - Pelos ventos Hesperios ajudados, - Movendo assombro ás cérulas Nereidas, - Cortaremos, voando, em curtos dias, - Mediterraneo, tua longa estrada. - - Nossos astros serão por entre as ondas - O astro de Venus luminoso, e claro, - Ariadne, a esposa do contente Bromio, - E os Tindáreos Irmãos, cuja concordia, - Cuja amizade nos será de exemplo. - Eolo prenderá com mil cadêas - Euro o nosso contrario: as verdes ondas, - Ouvindo de Tritão troar o buzio, - Sem furia, sem fragor do barco emtôrno, - Chêas por cima de alvejante espuma, - Saltaráõ quaes no prado os cordeirinhos. - Que, meus amigos! receais procellas? - Procellas contra nós! Assáz os Numes - Nas almas sabem ler; nós demandâmos - Chipre, votada aos candidos prazeres: - Do vinho a Deoza, a Deoza dos amores, - Os Numes da amizade, eis nossos astros; - Que havemos de temer? Não, não me importa - Que o ar, que o pégo em furias se revolva: - Por entre a serração, por entre a morte, - Voaremos a rir de Chipre aos campos, - Quaes na barca da Estige um dia iremos - Dos lagos avernaes ao grato Elisio. - - Não ha que recear. Dai-me outro copo; - Outro bebei, e ouvi-me. Amigos fados - Da Ilha encantadora ao melhor sítio - Nos hão de conduzir: ja cuido vê-la! - Um cáes em meia lua, um cáes não grande, - Ja nos hospeda na conchosa arêa: - Unidas penhas de elegante aspéto - O anfitheatro deleitoso fórmão: - Todas se vestem de verdura, e flores, - Todas tem fria gruta, ou doce fonte. - D’estas fontes, que emtôrno enchem os ares - De um desigual, suavissimo murmúrio, - Umas descem chovendo entre os penedos, - Outras em larga enchente se arremeção, - Sem o musgo occultar, de rocha em rocha, - Té que ás bacias espumosas saltão. - Aqui um mirto, alem uma roseira - Coroa a entrada das pequenas grutas, - Ou lhes fórma seu tôldo, ou quasi as cobre. - Por toda a parte melindrosos ninhos - Se ouvem piar; por toda a parte adejão - Co’o sustento no bico as ternas aves. - D’esta folhagem se levanta o melro, - E vai pouzar na proxima folhagem: - Queixa-se n’uma gruta Filomela - Quando Progne sentida eleva o canto. - Prezos aos troncos Zéfiros murmurão; - Auras, dos valles proximos correndo, - Das invisiveis azas nos derramão - Almos efluvios de cheirosas flores. - Vede assentos, que a mão da Natureza - Nos rochedos abrio, que a mão do Tempo - Cobrio, amaciou com verde estofo; - Aqui se tem as Ninfas assentado - Pelas tardes de Maio muitas vezes, - Para gozar os brincos dos Amores, - Que ora lutão na arêa, ora apostando, - Se arrojão de mergulho aos verdes mares, - E apparecem depois nadando e rindo. - - Vamos: por esta parte o cáes nos deixa - Na Ilha penetrar: commoda entrada - Nos off’rece este portico de murtas. - Deozes! que vamos vêr! Salve cem vezes, - Bosque sombrio, magestoso, immenso! - Do desmedido Atlante a espadoa enorme - Não, não he quem sustem o eterno Olimpo, - És tu, sagrado bosque; a vista humana - Chegar não póde a teus soberbos cumes! - Serras, diluvios de ondeantes folhas - Sôbre colunas mil, que o raio assustão, - Se agitão sôbre nós. Longe, ó profanos! - Vates, erremos pelas frescas trevas! - Alem, se não me engano, o sol penetra. - Corramos. Oh prazer! oh maravilha! - Eis um retiro aos Numes consagrado, - Incognito aos mortaes, de encantos fertil! - Tu que vizitas cada dia o mundo, - Ó Sol, ¿que outro lugar no mundo encontras, - Onde com mais prazer teus raios lances? - Vede este prado, cujo fundo escondem - De Hibleas flores animadas nuvens: - Olhai sem guardador pingues rebanhos - Livres saltando nos outeiros verdes: - Vêde encostas de pampanos cobertas; - Fontes á sombra de arvores sagradas; - Jardins fechados de cheirosos muros - De altos lilazes, de azareiro e cedro; - Tanques no meio, onde em repuxo aos ares - Voão do bico de marmoreos cisnes - Argenteas linfas, que no ar se cruzão, - Mil arcos, mil abobadas formando, - E em fresca chuva vem mover os lagos! - - Que ditoso paiz! não sei que sinto - No meio agora d’estes sons campestres, - Respirando balsamicos vapores, - Em sacra habitação, entre os amigos, - Longe dos homens, da innocencia ao lado! - Abraçemo-nos. Sim: desde hoje unidos, - Seremos d’este sítio os habitantes. - - D’esse ribeiro na fecunda varzea, - Ali, onde hospedagem graciosa - Presta ás aves do ceo pequena selva; - Ali, onde estendidos pela grama - Junto ás novilhas candidas, repouzão, - Co’a cornígera fronte entre as papoulas, - Mansos touros, que o jugo inda não vírão, - Ali se vos apraz, se apraz aos Deozes, - Vamos pois construir nossas moradas. - - Do Genio do lugar primeiro em honra - Cumpre fazer as libações, e os votos; - Venerar, depois d’isto, a turba agreste - Das Ninfas do paiz; e culto, e nome - Dar ás fontes, aos campos, e ás collinas - D’estas gentis, incognitas paragens. - - Vede faias aqui, pinheiros, chôpos; - Abatei-os, tecei nossas cabanas. - Formemos uma aldêa: a cada alvergue - Juntemos um jardim, que ao fundo banhem - Do claro rio as fugitivas aguas. - - Não falte o culto ás sacras Divindades. - Á obra, á obra! o templo se levante - Nobre, proprio de nós, digno dos Deozes, - Com paredes de cedro á luz vedadas. - Deixamos á vaidade altas colunas, - Cúpulas d’oiro, abobadas suspensas - Em meia altura da extensão dos ares; - De trémula parreira um této basta. - - Ponde no tôpo o altar da Natureza, - De nossa adoração primeiro objéto: - Firmada sôbre um globo, como o nosso, - Uma estatua gentil figure a Deoza, - Virgem, bella, risonha, affavel, nua, - Guardando-lhe o pudor sendal ligeiro: - Colar de flores lhe atavie o collo, - C’roa de frutos lhe circunde a fronte, - Diversos ramos as madeixas ornem: - Tenha n’uma das mãos celeste chama; - Penda da outra, e por seguro fio, - O Genio do prazer, que as azas bata - Para voar-lhe ao cobiçado seio: - Cerquem-lhe o pedestal em turba immensa - Homens, feras, volateis, nadadores, - E quanto emfim por seu influxo existe: - Vejão-se á volta os poderosos Genios, - Que a seu sabor os elementos movem, - Salamandras, Ondins, Silfos, e Gnomos. - D’esta ara ao lado se verão pendentes - As flautas nossas, pois lhe são votadas. - - Sôbre outro altar a Deoza de Cithéra, - Não de marfim, nem marmore talhada, - Mas de alva cera das abelhas nossas, - Feita por nossas mãos encante a vista. - Quero-a nua de todo: ao seio amime - Entre os braços de neve o filho alado; - E co’a ternura languida nos olhos, - Como para o beijar lhe estenda os labios, - Curta tornando, como a d’elle, a boca. - As trez Irmãs de Amor pequenas, bellas, - Como invejando do menino a sorte, - Forcejem por trepar da Mãi ao collo, - Emquanto o Irmão travêsso a rir pretende - Co’as delicadas mãos lança-las fôra. - Duas turbas de Amores apinhados - Se ergão d’aqui d’ali: tenhão por terra - Os arcos, e os farpões; na dextra empunhem - Fachos, que hão de brilhar nos festos dias, - Por nossas mãos com sacro lume accesos. - - Defronte d’esta, na parede opposta, - Outro brilhe votado á Primavera. - Ali se mostre a Deoza, cuja veste - Um manto seja de tecidas flores; - De flores o toucado; a planta nua - Sôbre floreo torráõ firmada alveje: - Durma a seus pés o aurígero carneiro; - O Maio, filho seu, tenha em seus braços, - Igual em perfeições á Mãi formosa, - Alado como os Zéfiros e Amores, - Que os Amores, que os Zéfiros mais lindo. - Tenha na dextra um ramo florecente, - Onde pouzem pintadas borboletas: - No esquerdo braço um cabazinho grave, - C’os doces frutos, que em seu mez se colhem, - E a rir pareça á Deoza appresenta-los; - Mas a Deoza, estendendo a mão de neve, - Como que busque o grávido cestinho - Tirar de sôbre o seio, onde elle o punha. - De Favonios um bando se reparta - Aos dois lados do altar, em cujas dextras - Ponhamos bem fingidas cornucopias - Chêas d’agua, onde flores se conservam. - - Atrio cercado de sombrios louros - Haja na frente do sagrado alcaçar. - Por trez frondosos porticos se passe - Do templo ao atrio: emtôrno d’elle avultem, - Dos loureiros á sombra, as Deozas nove, - E o Nume protétor do equorea Delos. - - Um de nós cada mez será por sorte - Da sacra estancia o sacerdote, e o guarda. - Ficaráõ a seu cargo os festos dias, - Dos altares o culto, os hinos sacros, - E a protéção dos ninhos melindrosos, - Que as aves formaráõ do této em volta; - Para que nunca violados sejão, - Santa hospitalidade, os teus direitos. - - Da nossa aldêa ás proximas campinas - Daremos de cultura uteis desvelos. - Vertumno, e Ceres, e Pomona, e Flora - Hão de favonear trabalhos nossos, - E em sustento pagar nossas fadigas. - - Ricas hortas, dulcissimos pomares, - Doiradas messes, pampinosas vinhas - O celleiro commum nos terão chêo. - Da ociosidade vã não será filha - Nossa innocente e solida riqueza. - Algum de nós ao trato dos rebanhos - Seus cuidados dará: que importa o mundo? - Vida de nossos pais! vida dos campos! - Quem te nomeia humilde, e vergonhosa? - Vive o pastor no seio da innocencia; - No meio da pobreza he rico, e folga. - Emquanto os grandes entre escravos gemem, - Canta o pastor entre o rebanho, ou dorme, - Fiado em seu amigo, em seu rafeiro: - Nem ao menos que ha leis sabe nos campos. - São seus dias cadêas de prazeres, - E seus prazeres innocencia todos. - Não cala seu amor, canta-o nos bosques - Em alta voz, ou goza-lhe as delicias. - Ao transmontar do sol volta a seus lares; - Conta á porta o rebanho, e junto ao fogo - Vai co’a cêa frugal entre os amigos - Restaurar o vigor para o trabalho. - Repouza em paz sobre o macio feno - Emquanto alguma luz no ceo não raia: - Não ha cuidado, que lhe rompa o sono; - Se acaso sonha, os sonhos não lhe pezão, - Pintão passados bens, ou bens futuros, - E volta ao mesmo quando nasce a aurora. - Vergonhosa ésta vida! ó desgraçados, - Corai no meio das grandezas vossas: - Se o pastor conhecesse o vosso estado, - Nem de olhar-vos sequer nem se dignava. - - No regaço feliz da natureza, - Ao lado da ventura, os dias nossos - Serão a imagem dos doirados dias. - Como os primeiros pais da especie humana, - Viveremos frugaes entre a abundancia, - Ricos sem pompa, sem vaidade sabios, - Socegados sem leis, sem armas fortes. - Hão de mil vezes os campestres Numes, - E o sacro Povo, morador do Olimpo, - Compràzer-se de olhar a nossa aldêa. - Ao romper da manhã, ser-lhes-ha doce - Ver-nos todos sair dos proprios lares - Co’a alegria na face: uns diligentes - C’os instrumentos rusticos nas dextras, - Ou seguindo seus bois, tornar-se aos campos; - Outros guiando para os ferteis pastos - Longa tropa lanígera balante. - Ser-lhes-ha doce o ver como trabalhão - Todos no bem commum, sem que se escutem - Do _meu_ e _teu_ os nomes perigosos. - - Quando o gallo doméstico no aldêa - Soltar ao meiodia o canto agodo, - Correremos á mesa: unidos todos - De um bosque á sombra nos calmosos tempos - E junto ao fogo quando reine o frio, - Não veremos deante a rica prata - Com vivo resplendor cegando os olhos; - Nem dourados cristaes, nem porcelanas, - Cuja louca ambição furiosa arrasta - Tantos loucos mortaes, dignos de pranto, - D’entre os braços dos seus aos torvos mares, - E em fragil pinho, que rodêa a morte, - De longinquo paiz os leva aos portos. - De facil construção vermelho barro - Fará nossa baixella; e cavos troncos - Fundos, polidos, de jasmins c’roados, - Servir-nos hão de o rúbido falerno. - - De nossas hortas vegetaes gostosos, - Os teus dons, ó Pomona, e os teus, ó Ceres, - O mel puro e doirado, e o branco leite - Bastão assaz da Natureza aos filhos. - - E que? algum de nós contra o que vive - Ouzaria vibrar da morte a fouce! - O touro soffredor, cuja fereza - Para servir-nos se abateo ao jugo, - O touro, o nosso amigo, e o nosso escravo, - Que sem ter parte alguma em nossos gostos - Tomava parte nas fadigas nossas; - Que armado pelas mãos da Natureza - Podia, se quizesse, oppôr-se aos fracos, - Que a paz, que a liberdade ouzão roubar-lhe, - Depois de longo, aviltador serviço - Deve ... (oh pejo! oh furor! oh sacrilegio!) - Caír ás mãos do barbaro assassino, - Para quem só viveo! por quem mil vezes - Coberto de suor, chêo de espuma, - Co’a fronte baixa, sem mugir ao menos, - Queimado pelo sol, até soffria - Duro, ferreo aguilhão se fraquejava! - Qual ouzaria ensanguentar a dextra - Na mansa ovelha, da innocencia imagem; - Que incapaz de offender, nunca rebelde - Aos brados do pastor, seu proprio leite - Entre seus filhos e elle repartia, - E até para cobri-lo as lãs lhe dava! - Lindos filhos do ar, ternos cantores, - Que innocentes voais pelas florestas, - Nos prazeres, no Amor gastando a vida, - Filhos do ceo, modelos, que adorâmos, - Não temais habitar nos campos nossos. - Se o açor, se o falcão por estes sítios - Passar alguma vez, vinde, eu vos peço, - Vinde-vos esconder em nossos lares, - De vossa timidez sacra guarida: - Se nos virdes passar nos sitios, onde - Entre os ramos, á sombra vos agrada - Divertir gorgeando a terna esposa, - Que muda, e carinhosa esconde, e aquece - Entre as azas seus filhos pipilando, - Se nos virdes passar ... oh! por piedade - Não fujais, prosegui vossas cantigas; - Sois como nós da Natureza filhos; - A Mãi commum vos deo a liberdade, - Sustenta-vos, bem como nos sustenta: - Sois fracos, tanta basta; e nós não somos - Nem tiranos, nem perfidos, nem baixos - Para abusar da fôrça: he jus terrivel! - Se para vos matar compete ao homem, - Para o homem matar compete ao tigre. - Não: vivei entre nós, como entre amigos: - Somos todos irmãos: arcos, e setas, - Redes, e visco, passatempos torpes, - Não usa quem adora a Natureza: - Serião entre nós nefandos crimes. - - Se um dia á caça algum de nós (os Deozes - Affastem para longe o agouro horrendo), - Se um dia á caça algum de nós corresse; - Coberto de suor, de sede extinto - Praza aos ceos que discorra os duros campos; - Curve-o das armas o terrivel pezo; - Não ache onde empregar da morte as furias; - Seus proprios cães os membros lhe lacerem - Té que as entranhas vis ao sol descubrão, - E rôto arqueje o coração perverso: - Semivivo, rugindo, ardendo em raiva, - Entre penedos se revolva, e espume, - C’os olhos ja sem luz, chêos da morte, - Pallido o rosto, ensanguentada a coma; - Té que, mugindo em subita voragem, - Se rasgue a terra ao detestavel pezo, - E ao fundo o arroje dos sulfureos lagos. - E se o malvado consummar seu crime, - Se as mãos tingir no sangue do innocente, - O rio onde correr para banha-las - As ondas atropelle, e volte á fonte, - Fique attonito o monstro, e o leito sêcco; - E quando sôbre o fogo os miseraveis - Membros pozer, que o sangue inda gotejão, - Que inda tem no tremor de vida um resto, - Chêas de horror e de piedade as chamas, - Deixando intáto o funebre cadaver, - Com medonho estampido abandonando - N’um momento seu lar, se ergão aos ares - Para chover no algoz, torna-lo em cinzas. - - Mas vá longe de nós o quadro infame! - Somos frugaes, e simplices; e basta - Olhar-nos para ver nossa virtude. - Sim: que a lavrada seda, o oiro, as telas, - E dos insanos cortezãos a pompa - Não nos ha de cubrir. No inverno algente, - Contra os rigores da estação nublosa - Usaremos da lã que nos revista, - Sem que do artista a dextra insultadora - Lhe desfigure a côr, lhe mude o aspéto: - Se no outono reinar do inverno o frio - Voltaremos á lã: na primavera - Basta o candido linho: emfim no estio, - (Deixe-me em paz, ou seus ouvidos serre - Quem no corruto coração fomenta - De prejuizos vãos caterva impura!) - No estio, amigos meus, com vosco fallo, - Seremos todos nus: rião-se embora - Os perversos, que ao vício costumados, - Até na natureza encontrão vício. - Sim, andaremos nus; nus se mostrárão - Os pais, e as mãis do mundo em tempos d’oiro, - Nos vaguêão da America nos bosques - Da Natureza não corrutos filhos, - Nem os tinge o rubor, a côr do pejo, - Que o pejo nasce se a innocencia morre: - A Innocencia, a Verdade, as Graças bellas - Pintão-se nuas: nuas pelos bosques - Errão as Ninfas: d’entre as ondas nua - Venus saío de encantos rodeada: - Seu Filho, qual nasceo, se mostra ainda: - E todos nós, dizei, como nascemos? - Quando, depois de trabalhosas dores, - Nos cingem nossas mãis aos ternos peitos, - Tecidas vestes sobre nós encontrão? - Não: se o tempo o exigir cubra-se o corpo; - Se o tempo o não requer, porque insensatos, - Vãos, inuteis incommodos buscâmos? - - Prazeres me pédis, dou-vos prazeres: - A musica suave, a dança, os versos, - Dos bons ditos o sal, carreiras, lutas, - Tecer grinaldas de campestres flores, - Fresco, e murmúrio de favonios, e aguas, - Os ternos sons de aligeros cantores, - Da natureza o estudo, as graças d’ella, - As formosas manhãs, as bellas tardes. - Iremos navegar pelo ribeiro - N’este mesmo batel; a branca lua - Deante nos irá para guiar-nos: - Os ventos dormiráõ pelos outeiros: - De um, d’outro lado as arvores ao longo - Das socegadas margens, docemente - Se ouviráõ susurar de quando em quando: - O astro da noite ledo e scintillante - Se verá na corrente em longa estrada: - Echos repetiráõ nossas cantigas: - D’entre um canavial a Filomela - Se ouvirá gorgeando convidar-nos: - Com mil olhos de luz o ceo da noite - De ver nossa alegria ha de alegrar-se. - Algum campestre Fauno, que aturdindo - Com voz immensa a silenciosa margem, - Seus amores contar da fonte ás Ninfas, - O canto estrugidor alguns momentos - Suspenderá, de assombro arrebatado. - Se tivermos calor volta-se a proa - Sobre uma ilhota de vermelha arêa, - E encalhando o batel salta-se ás ondas: - N’uma noite encalmada um banho fresco - Nos consola, e refaz: ali se julga - Acima estar da natureza o homem; - Vive em novo elemento, em cujo seio - Revestido se crê de essencia nova. - Ao brando frio os membros pouco a pouco - Se conformão, se affazem, se contentão; - Dissipa-se o tremor, e a voz anciada - Um momento depois se resserena. - Todo o vivo prazer então começa: - Ora apraz o nadar contra a corrente, - Ora girar nas aguas escondido, - Ou c’os olhos na lua ir descançado - Em parte occulto, em parte descoberto, - De costas, ao som d’agua, escorregando. - De quando em quando um toma pé no fundo, - Assemelhando o busto de uma estatua - De marmore polido, que se eleva - Fronteira á lua, e solitaria brilha; - Os companheiros de redor o cercão, - E com muito clamor sobre elle atirão - Co’as plantas, e co’as mãos ondas sobre ondas. - Elle grita, elle ri, jura, e promette - De os punir, de vingar-se; então se arroja - Ás ondas outra vez, e os segue, e os urge, - Chove sobre elles desmedidas vagas. - C’o festival combate o rio ferve, - Perturba-se a corrente, os echos bradão - Oh como he doce um banho entre mancebos! - Um ri contando uma engraçada história, - Outro grita, outro canta, e todos folgão. - No fundo desigual talvez se encontre - Dormindo alguma Náiade entre as conchas. - Sois mortaes? e que importa? humano he Páris, - He Páris um pastor, goza entretanto - Ternos abraços de immortal Enone, - Que deixa por goza-lo a propria fonte, - E vem sentar-se entre um rebanho humilde; - E ai de vós, se das Ninfas não moverdes - Os puros corações para a ternura! - Mulheres não as ha nos campos nossos, - E vazia de amor a vida he nada. - Redobrai a attenção, pois devo agora - Fallar em baixa voz, porque receio - Que as formosas Mondágides me escutem. - - O mesmo coração, dezejos, gostos, - Que tem nossas mortaes no peito occultos, - Tem as Ninfas tambem: de exemplos quantos - Se não póde cingir ésta verdade! - Sobre as aras de Amor todas off’recem: - Os ais do adorador nenhuma offendem, - Comprazem-se de ouvir que as chamão bellas, - E a gloria prezão de enxugar o pranto, - O pranto que ellas sós nos arrancárão. - Se nos ouvem crueis, se esquivas fogem, - He porque insana lei de atroz costume - Lhes ordena o fugir, lhes insinua - Que he delito em seu sexo a natureza: - Mas contra a natureza em vão combatem - De cega educação fataes abúsos! - A mãi universal ou cedo ou tarde - Vence, triunfa, e no triunfo leva - O sexo encantador ja maniatado. - Todas oppõe sabida resistencia, - Mas cumpre não ceder: por nós combatem - Seu mesmo coração e a natureza, - Que auxilio inefficaz jamais nos farão. - ¿E não sabeis que emquanto desdenhosas - De nossos ais parecem offendidas, - Quaes se as mordesse venenosa serpe, - Tremem, recêão que ao temor cedamos, - E frouxa timidez nos furte as armas? - Inda que ostentem ríspida esquivança, - Agrada-lhes a guerra, e occultos votos - Fazem a Amor para ficar vencidas. - Implorar-lhes perdão he ultraja-las; - Contra ellas ser audaz he ser-lhes caro, - He dar-lhes bens, poupando-lhe a vergonha. - Mas a regra primeira, a grande, o tudo - Entre as regras de amor, he o artificio. - He vasta a gradação de sentimentos - Da innocencia á ternura. Em cume altivo - De alta montanha, cujo aspéto assombra, - Tem seu templo a Ternura, onde cercada - Das Graças, dos Prazeres, dos Amores, - Encanta os corações benigna Venus: - He forçoso galgar toda a montanha, - Subir de rocha em rocha, e p’rigo em p’rigo - Para se entrar no deleitoso alcaçar. - Quem pretender poupar um passo ao menos, - Quem saltar pretender, perde o ja ganho, - Para mais não surgir baquêa em terra. - Amor azas não tem, como se pinta; - A curtos passos, devagar só anda. - - Começaremos offertando ás Ninfas - Sôbre altares campestres, levantados - Das arvores á sombra, ao pé das fontes, - Ou nas grutas do fresco, ou sôbre outeiros, - Festões, grinaldas, passarinhos, frutos, - E capellas de búzios e de conchas, - Mais brilhantes, mais bellas do que o Iris. - Formaremos cantigas, em que aos echos - Dos campos entre a lida repitamos - As perfeições, os méritos, os nomes - Das Napéas, das Dríades formosas, - Hamadríades, Náiades, e quantas - Filhas da Natureza a terra habitão, - Para formar com dextra occulta e sábia - Do rústico o prazer, do vate o encanto. - Isto, e a nossa virtude, e a vida nossa - Laboriosa, honrada, alegre, e quasi - Igual á vida dos campestres Deozes, - Disporáõ para nós seu terno peito. - Talvez qué pouco a pouco minorado - O custo susto de encontrar humanos, - Não fujão de mostrar-se a seus cantores. - Se eu descançar junto de um cedro antigo, - Ou de uma faia, ou reclinar a fronte - Sôbre a raiz em parte descoberta - De uma oliveira, ou castanheiro antigo, - Darei graças á Dríade, que habita - No tronco bemfeitor, que me faz sombra; - E d’elle a amavel Dríade saindo - Virá sentar-se ao lado meu na relva. - - Depois que pouco e pouco transformado - Se houver em confiança o pejo, o susto, - Mudaremos de estilo: em nossos versos, - E só, e de contínuo a formosura - Em fogo nos porá do estro as azas. - Hão de sorrir-se e comprazer-se, e muitas - Suspenderáõ em seu caminho os passos. - He lei sem excéção; domina em todas - A sêde, a gloria de chamar-se bellas. - Mas bellas tão somente heis de chama-las, - Sem falar-lhes de amar: depois de affeitas - A ouvir a narração de seus encantos, - Dizei-lhes que por certo as rochas mesmas, - Os troncos, e o cristal das frias aguas - Ardem cativos de bellezas tantas; - Que o sol com mais prazer detem seus olhos - Nos campos d’ellas, só por ver seus rostos. - Se virdes que um sorriso gracioso - Vos recompensa o canto, audacia, amigos! - Avante um passo, e n’este passo cumpre - O segredo buscar. Desde esse instante - Não lhes falleis deante das mais Ninfas; - Buscai até que os socios vos não oução. - - Suppõe tu, caro Antíeno, encontrar-te - (Esta supposição perdoe Alcippe) - N’um bosque solitario, onde vaguêa - Quem te faz delirar em novo incendio. - Se ella está pensativa, “Oh venturoso - O objéto, lhe dirás, em que se occupa - Tua imaginação, formosa Ninfa! - Se eu o fosse!... ai de mim! porque revolve - Loucas esp’ranças, se chorar só devo?” - Se a vires sôbre o espelho do cascata - Com brancas rosas concertando as tranças, - Qual sôbre o teu ribeiro o faz Alcippe, - “Feliz rainha das mimosas flores, - Feliz rosa, dirás, inda que perdes - Ao pé das graças d’ella as graças tuas!” - Se pozer sôbre o seio as melindrosas - Roxas flores de amor, dirás: “Que inveja! - Por ser vós um momento eu dera a vida!” - Mas isto em meia voz, para que julgue - Que não he por te ouvir que assim fallaste. - Não se irritou? prosegue, e de mais perto, - “Permitte-me, (dirás com ar ingenuo, - Chêo de timidez) permitte, ó Ninfa, - Que eu te torne mais bella, e te componha - Essas flores, que um pouco se desmandão.” - Se ella o permitte, a occasião não percas: - Se ella hesita e se cala, não recusa; - Compõe-lhe o ornato no formoso seio, - E sorrindo, lhe dize: “Alguem no mundo - Existe que não ame as proprias obras? - E’sta obra, que findei, me agrada tanto!...” - N’isto beija-lhe o seio, e deixa as flores. - D’aqui avante o mar he ja tranquillo, - Propício o vento, e mui vizinho o porto: - Ja de piloto o lenho não carece; - Quanto offerece amor tudo he ja vosso. - - Ja vejo sôbre os ceos dos nossos campos - Todo o dia brincando em roseo coche - Pelas pombas tirada a amavel Cípria: - Coroado de louro, ei-la contente - Entre palmas, que sombra lhe derramão! - Ei-la por toda a parte sacodindo - Do misterioso cinto encantos, gostos, - Delicias, tudo emfim que obriga a Jove - Mudado em branco cisne, ou chuva d’oiro, - A trocar pela terra o sacro Olimpo! - Desde então mais ditosa he nossa aldêa, - Mais risonhos seus bellos arrabaldes: - Ha misterios de amor em qualquer gruta, - Em qualquer solidão brincão prazeres. - - Eis os frutos de amor, que desabrochão! - Ja os vejo das bellas entre os braços, - Qual pequeno botáõ nascido apenas - Da rosa ja perfeita ao lado brilha. - Ei-las co’o proprio leite a sustenta-los; - Taes como descreveo nos magos versos - Francilia; Musa de meu patrio rio, - A doce amiga sustentando o filho, - _Igual a Venus com Amor nos braços._ - Eu as vejo, depois de afagos ternos, - Soltar de si os cintos azulados, - Em dois troncos prender as pontas ambas, - Abri-los, deitar dentro entre mil flores, - Depois de o ter beijado, o tenro infante, - Para ser dos favonios embalado. - Eu as vejo nos troncos encostar-se - Co’as mãos na face, e os olhos no innocente, - Juntando aos sons das aves em seu ninho - Ternos cantos, que os filhos adormeção. - - Ja co’a turba infantil recresce a aldêa: - Succedem ao silencio alegres brincos, - Gostosos passatempos se preparão, - De nossos bens o número se aumenta. - Vai crescendo em razão, crescendo em fôrça - Ésta prole feliz, que os Cíprios valles - Como os Amores, como as Graças, honra. - Creados longe do tropel das côrtes, - Puros no coração, que ninguem busca - Semear de illusões, de prejuizos, - Educados na paz, sem ver tiranos, - Sem ouvir discorrer pedantes sabios, - Té das Sciencias ignorando os nomes, - Terão destinos, que excedendo os nossos, - Não hajão que invejar os puros dias, - Que cegamente se nomêão d’oiro. - D’oiro! ai d’elles se o oiro então se visse! - Mais nocivo que o ferro, a bemfazeja - Terra o sumio nas maternaes entranhas, - Sôbre leitos de pallido veneno. - Quando o Genio do mal o trouxe ao dia, - Chêas de assombro, de tropel correndo, - Fugírão co’a Justiça almas Virtudes; - E pelas fundas minas, que o guardavão, - Surgio do patrio inferno a perseguir-nos - Chusma de Vicios, e raivosas Furias, - Que os Vicios inspirando, os Vicios punem. - Se alguma vez os descendentes nossos, - Quando a terra pacificos romperem, - Encontraram com oiro, um grito soltem; - A aldêa se reuna ardendo em raiva, - Qual se dos bosques férvido saisse, - Igual ao raio, o bruto d’Erimantho; - E o pallido fulgor da massa infesta - Vão longe sepultar nos verdes mares. - “Monstro contrário a nós, sê devorado - Pelo monstro do mar, que em furia vences” - Dirão todos em chusma; e socegados - Tornaráõ a lavrar seus ferteis campos. - - Que idea pelo espirito me adeja - Chêa de luz, de encantos rodeada! - Ja vejo pelos ares scintillando - Os fachos de Himeneo. Ja pelas ruas - Vestidos de alvo linho, e coroados - De fresca mangerona os moços correm, - “Ó Himeneo! Vem Himeneo!” gritando. - “Ó Himeneo! Vem Himeneo!” respondem - Os campos d’echo em echo; e pelas casas, - Chêas de gôsto, e de esperança as virgens - “Vem Himeneo, ó Himeneo!” repetem. - As ruas de verdura estão juncadas, - Listões de flores coroando as portas - Enchem os ares de composto cheiro: - E os meninos, que as causas não percebem - Do confuso prazer, vão transportados - Correndo em chusmas, e batendo as palmas, - Gritando, “Ó Himeneo!” La desce, e pouza - O Nume sôbre o altar da Cípria Deoza! - O venturoso par la vai sobindo - Por entre a multidão, que attenta o mede. - La chega ao sítio destinado aos votos. - Sacerdotes não ha: da aldêa os velhos - Os cercão de redor. La se abraçárão!... - He curto o voto seu. “Juro adorar-te - Emquanto o doce amor tiver no peito.” - Unindo o seio ao seio, e face á face, - Depois se beijaráõ por largo tempo; - E o Nume da alliança, o carinhoso - Filho de Urania os cingirá dos mirtos, - Que de Venus, e Amor as frontes ornão. - Depois algum de nós se erga c’roado, - Para fallar d’ésta maneira ao povo. - - “Nasceo Amor para encantar os homens, - Não para ser dos corações tirano. - Menino ama o brincar, e quer ser livre. - Cura o tempo as feridas que elle fórma: - Depois de alto clarão, que cega os olhos, - Seu facho, pouco e pouco enfraquecendo, - Vem por fim a apagar-se: a Natureza, - Nada produz que não succumba á morte. - Os animaes, as flores, os arbustos - Tem curta duração: vai manso, e manso - O tempo destruindo altas montanhas, - Gasta-se o escolho c’o bater das ondas; - Succede a lua ao sol, á noite o dia, - Uma estação perece, outra renasce: - Tudo he mortal na terra, e mais que tudo - As humanas paixões insulta a morte: - Succede ao riso o pranto; á dor prazeres; - Ao odio amor; ao terno amor a raiva. - Eu vi moraes affétos n’um só dia - Nascer e terminar, qual nasce e murcha - N’um só dia de abril a rubra rosa. - Ditoso par! amai-vos extremosos - Emquanto a natureza vos consinta, - E oxalá que o consinta em largos annos! - E oxalá que de vós o que entre os mortos - Primeiro descançar, sinta regadas - Pelos olhos do sócio as mudas cinzas. - Feliz quem n’um só fogo arde constante; - Feliz, mas raro como os negros cisnes! - E ha loucos, e ha perversos, que ante as aras - Jurem guardar uma constancia eterna? - Cegos, que a natureza desconhecem, - Ou zombão d’ella escarnecendo os votos. - Jurão-se amar sem fim, e ou tarde ou cedo, - Sem fim, e sem remorsos se detestão! - Jurão-se amar sem fim! Mal que resoa - Debaixo das abobadas o voto, - Calcando o arco aos pés com ar maligno - O pobre Amor retira-se chorando - D’ésta afronta cruel; pois sua glória, - Seu prazer, e seu timbre he ser voluvel. - Crepitando em faiscas derradeiras - Se apaga o facho, que debalde agita, - E emtôrno espalha venenoso fumo, - Fumo, que obriga a lágrimas eternas. - Entre pios e agouros desgraçados, - Ao leito nupcial os acompanha - Entre alegre e assustada a meiga Venus. - Co’as serpes do cabello desgrenhadas, - Mas inda sem silvar, detraz os segue - Impaciente a rabida Discordia. - De flores se coroa a lauta mesa, - Voão-lhe em roda as graças, e o falerno, - E riso, e confusão de encantos chêa. - Mas ah! cedo os pezares, e os suspiros, - A desesperação, e as vãs querellas, - E a desordem, e as lágrimas rodêão - Os lares do prazer; a scena infausta - Não rara vez negro punhal termina, - A viuvez, o luto envolve o leito! - Mas vós, ditoso par, vós, cujos labios - Não proferírão temerario voto, - Folgai, vivei, nos braços da ternura, - Melindrosa ternura, que não morre - Se lhe não lanção vergonhoso jugo. - Para amar-vos fieis por largo tempo - Sede amaveis, ou sede virtuosos - Porque a doce virtude he sempre amavel. - Se o fogo se acabar, voltai ao templo, - A prender novo objéto em novos laços.” - - Ouvindo este discurso o povo inteiro - O applaude em baixa voz, e á Mãi das Graças - Se canta o hino, que remata a festa. - O resto d’este dia he dado aos jogos, - Gasta-se a noite á roda das fogueiras - Em musicas e em danças variadas. - - Engano-me, ou queixosa a Natureza - Escuto suspirar? não, não me engano! - Ella suspira, e pede-nos vingança - D’outra injustiça, que lhe faz o mundo. - Ouvi, e concordai: sabeis que muito - Em número nos vence o amavel sexo. - Se a Mãi universal não gera um ente, - Que não consagre a amor; e a lei sagrada, - Que obriga a propagar a propria especie, - He lei universal, que abrange a todos, - ¿Com que jus, por que horrenda tirania - Privadas d’Himeneo suspirão tantas? - Não: cada esposo esposas enumere, - Té que uma só sem thalamo não fique; - Todas d’est’arte viveráõ contentes; - A honra de ser mãi pertence a todas: - Cresce a aldêa, não brada a Natureza; - Infamadas não são as que procurão - Os prazeres de amar, de ser amadas: - Não se ouvirá que um barbaro veneno - Dera a mãi a seu filho inda no ventre; - Ou que um férreo punhal, ou laço infame - Logo ao nascer lhe terminára os dias: - Nem Venus corará vendo offertar-se - De ternura venal corsutos mimos. - - Quão bellos correráõ nossos momentos, - Longo, e tão longe dos polidos povos! - Quasi Numes na vida encantadora, - Até na duração quasi seremos - Rivaes do povo habitador do Elisio. - O fio d’oiro da existencia nossa - Inteiro volveráõ no fuso as Parcas. - Com pé tardío a inevitavel Deoza, - Que o Mundo despovoa, e bebe o pranto, - E acompanha a saudade entre os ciprestes, - Sem terror, e sem fouce, e até sorrindo, - Sem que a precedão seus fataes ministros, - Nos levará de manso e a curtos passos, - Coroados do cãs para o sepulcro. - Mas, amigos, quem sabe! as Cíprias Ninfas, - Se o fado o não tolher, talvez nos mostrem - A verde planta, que ao cerúleo reino - Deo mais um Nume, transformando a Glauco. - Semideozes então, nos tornaremos - De nossa aldêa os sacros protétores! - Mas não: a lei da morte he lei terrivel, - Que rara vez os Numes quebrantárão. - - He forçoso morrer!... Longe os temores! - He forçoso morrer, morra-se embora. - Não faltaráõ dulcissimos transportes, - Prazeres e ternura ao lance extremo! - Sôbre o funereo leito o moribundo, - Ja sem côr, ja sem fôrça, e quasi extinta - Em seus olhos a luz, e a voz nos labios, - Erguendo a fraca dextra acena, e chama - Cadaum junto a si; vai despedir-se - Para o sono sem fim! Sôbre as heranças - Que ha de recommendar se não tem nada? - Nada excéto a virtude, e os instrumentos - Com que a terra lavrou. Sua cabana - Vai ter outro senhor; as flores suas - Implorão no jardim desde este instante - D’outro cultor a próvida tutella: - D’outro, sim; cuja mão todos os dias - Irá de madrugada aos sacros manes, - Pendurar sôbre o tumulo orvalhado - Uma grinalda de orvalhadas flores. - - Elle abre inda uma vez seus frouxos olhos, - Onde começa a derramar-se a noite, - E de seus labios tremulos, por onde - Ja põe a occulta morte a mão gelada, - Sólta chêo de afféto a voz, que expira, - E seus amigos, e seus filhos chama: - Os seus amigos mudamente o cercão, - E não mostrar-lhe as lágrimas procurão: - Áluz da tibia alampada contemplão - Quanto a hora fatal ja se aproxima. - E seus pobres filhinhos entretanto - N’um canto da cabana estão sentados; - Dos amigos no gesto, e nas maneiras - Ler seu destino impacientes buscão, - E attonitos, e tristes nem se atrevem - A fallar, a fazer qualquer pergunta, - Porque os não lancem d’este sítio fóra: - Mas olhão-se entre si co’um ar tão meigo, - Lastimoso, innocente, que podéra - Desfazer de piedade a propria morte, - Se o fado não contasse os nossos dias. - Seu Pai, que os adorou, quer inda vê-los, - Lançar-lhes a sagrada, última benção, - Ver seu pranto, gozar dos seus afagos, - Quer chama-los. A voz faltou de todo! - E deixando caír de lado o rôsto, - Soltou da vida o derradeiro arranco. - - Ao profundo silencio altos clamores - Succedem n’um momento; e o pranto, e os gritos - Por toda a parte na cabana sôão. - Os meninos confusos se levantão, - Ouvem a nova, attentão no cadaver: - Ouriçado o cabello, o sangue frio, - Pallido o rosto, e vacillante o passo, - Fogem para o jardim, por onde os segue - A imagem de seu Pai, no susto envolta. - Qual o vírão ha pouco, o tem comsigo! - Dos parreiraes as sombras os perturbão, - Vem nos troncos das árvores fantasmas. - Vão buscar o luar do rio á borda; - Mas lembrão-se que ali todas as noites - Passeavão com elle: ésta lembrança - Os torna a perseguir; e em tudo encontrão - De um Pai tão caro o aspéto, que os assusta, - - Pela aldêa se espalha a infausta nova, - E parece que a morte em cada casa - Arvorára um trofeo! Domina em todos - A dor, que se desfaz em pranto e gritos! - Dir-se-hia que furioso, insuperavel, - Hia de této em této um vasto incendio. - Depois que um pouco em lúgubres transportes - A dor se evaporou, por toda a parte - Sôão louvores do chorado amigo. - Cadaum lhe encarece uma virtude, - E de cada virtude exemplos contão. - - O Justo dorme em paz: mas entretanto - Ninguem dorme na aldêa. Ouvio-se o gallo - Cantar, quando expirou da noite em meio: - Torna o gallo a cantar na madrugada; - E em contínua vigilia discorrêrão - As longas horas, que á manhã precedem! - Torna o gallo a cantar na madrugada, - A aurora quer nascer; enchem-se os ares - De uma luz, que ao luar excede um pouco. - Do ninho suspendido em nossos tétos - A andorinha ja sáe; vôa cantando - Defronte agora das janellas nossas - Para nos saudar, pois entra o dia. - Ja dos ceos pelos flúidos espaços - Circula a cotovía, que não cança - No longo canto, ou desmedido vôo: - Ja o rumor das arvores e fontes, - Que da noite na paz costuma ouvir-se, - Vai fugindo com as trémulas estrellas; - Torna a alegria ao mundo, e ao campo as cores: - Mas a alegria d’entre nós he longe, - Os campos todos para nós tem luto. - Ja se ouvem resoar da aldêa as portas; - Ja sáe, ja se reune o povo inteiro. - O ar de meditação domina em todos, - Todos trazem de pranto rociadas - As recentes grinaldas, que tecêrão. - - Em plantas aromaticas envolto, - Do alvergue, ha pouco seu, la vem saindo - O deplorado amigo: ao caro pêzo - Submettem quatro os hombros vigorosos. - Bençãos, bençãos ao Justo, em cujo aspéto - Por entre a pallidez inda ressumbrão - Mansa innocencia, affétos generosos! - A lenta marcha á turba consternada - Rompem com baixo tom sonoras flautas, - Que de triste alverôço o peito agitão. - Apôz ellas, o funebre cadaver - Dos Anciãos vai precedendo á chusma. - Estes, fronte inclinada, olhos em terra, - Vão suspirando, e a vista lacrimosa - Lanção de quando em quando ao doce amigo, - Que os precedeo na regiáõ da morte. - Em seguida, modestos se confundem - Os mancebos, de teixo coroados, - Co’as bellas raparigas, que parecem - Mais formosas co’a languida tristeza: - Elles cantão em côro aos longos echos - O como a quanto existe abrange a morte; - Ellas em tom mais doce a voz levantão, - Para mostrar como a existencia curta - De prazeres doirar-se ao menos deve. - Vão depois os meninos innocentes - De ambos os sexos em confuso bando: - Levão em suas mãos para o sepulcro - Pequenas oblações; pomos, e flores, - Taças de leite e mel, de vinho e d’agua - Tomada em fonte viva antes da aurora, - E de barro thuribulos não grandes. - - Ja se chega ao lugar sagrado á morte: - He um valle sombrio, onde se abração - Mil arvores diversas, onde habitão - Meigas filhas do ceo, canoras aves: - Reveste fresca relva a terra fria, - Pallido musgo os carcomidos troncos. - Aqui frescos favonios adejando - Pelas folhudas grimpas, docemente - Só se ouvem suspirar: aqui mais terna - Derrama a aurora o pranto matutino; - Mais terna geme e rôla; e mais delirios - Na alma gera o luar por estes campos. - He fechado o lugar de mil rochedos, - Por onde algumas fontes se derivão - Com tacito rumor, que inspira os sonos: - Pelas profundas, tenebrosas grutas, - E sôbre os agudissimos rochedos - Crê-se ver e escutar sagrados manes, - Em frouxa voz, que as auras assemelha, - Cantando os gostos da passada vida. - La não geme a coruja, ou pia o mocho: - Reina em vez do terror branda saudade, - Terna melancolia, encanto, enlêvo - Dos corações, das almas bem nascidas. - - Que estrondo he este pelo chão de morte? - São as férreas enchadas, que se alternão - Para formar do eterno sono o leito. - Agora cresce a dor na despedida. - La chega, la se arroja, la se esconde - Da Mãi universal no seio um filho! - “Paz ao homem de bem!” dizem de roda - Os velhos, e retirão-se chorando. - “Leve te seja a terra!” os moços gritão, - E partem derramando-lhe folhagem. - Chega a turba infantil, seus dons off’rece, - E vai juntar-se á multidão, que torna - Aos trabalhos de novo á sua aldêa. - - Mas ah! qual d’entre nós terá primeiro, - Caros amigos, de fechar seus dias? - Quaes choraráõ no tumulo silvestre! - Talvez eu vos preceda, e vá saudoso - Ver na Tenárea porta o Cão trifauce, - Na Estige nebulosa a barca horrenda, - E do Elisio paiz os gratos campos, - La onde os vates do universo inteiro, - Ja Numes, em republica se unírão. - - Mas não pensemos n’isto: he Maio agora - Que devemos cantar: nós o jurámos. - Recomponde na fronte as vossas c’roas; - Ergamo-nos, enchei de vinho as taças; - E ante o Ceo, ante a Lua, que nos ouve, - Entre os Favonios, e as formosas Ninfas, - Que escondidas nas ondas nos rodêão, - Saudemos novamente o alegre Maio, - Jurando que desde hoje em nossas liras - Ha de escutar cada anno os seus louvores. - - Ó Maio, eu fallo; escuta-me. “Por este - Licor de Bassareo, que me arrebata; - Pelos Filhos gentís da branca Leda, - Que pela mão a nós te conduzírão; - Por tuas flores, com que estou soberbo; - Por tuas fontes, zéfiros e bosques; - Por teu ceo graciosa; e por ti mesmo; - E pela tua amiga, a minha Musa, - Juro de consagrar emquanto viva, - Todo o teu mez ao teu louvor, e ás festas.” - -FIM DA FESTA DE MAIO. - - - - -NOTAS Á FESTA DE MAIO. - - - - -CANTO I. - -_Pag. 204. verso 4.º_ - - Das Filhas de Nereo a mais formosa - Foi Galatéa candida e rosada. - - -Como das bagatelas que forçadamente tenho semeado por alguns d’esses -Jornaes, que he o mesmo que escrever em folhas e atira-las ao ar, algumas -haja que não mereção de todo perder-se, estas me pareceo i-las recolhendo -a meus livros, por qualquer modo que fossem achando cabida, para não ser -como a Sibilla de Cumas, que em uma vez se lhe desmandando com os ventos -as folhas que tinha escritas, ja para sempre tirava d’ellas o sentido: -_neo ponere in ordine curat_. Por isso traslado do Num. 3 do _Jornal dos -Amigos das Letras_, todo o seguinte Artigo[15]. - - _Antonii Feliciani de Castilho_, - - GALATEA: CARMEN. - - ADVERTENCIA PRELIMINAR - - O fragmento latino que se vos offerece, sob o titulo de - Galatea, he huma tentativa e nada mais: e quem mo quisesse - haver a ostentação, não só mostrára quam pouco me conhece, - mas ainda com atrocissima injúria me aggravaria. Discorridos - são hoje mais de dez annos, depois que, desejoso de refrescar - lembranças de conhecido com as Romanas Musas companheiras e - alegria de minha infancia, me dei ao passatempo de metrificar - em latim, ja os pensamentos que primeiros me occorrião, ja - algum episodio de minhas proprias obrinhas; sendo assim, - que esta fabula de Galatea a trasladei do Poema da _Festa - de Maio_, no meu livro da _Primavera_. Sei bem que não ha - hoje, e especialmente por cá, leitores para o latim, sendo a - final chegado o prazo de, com razão e sem o mínimo escrupulo, - se poder chamar tal lingua morta e enterrada: sei mais que, - inda mal, não respondem estes meus versos ao que eu anciára - que elles fossem, e nem valem mais que uma boa parte dos ahi - impressos na custosa Coléção de Poetas do nosso Padre Reis; - e com tudo, a despeito d’estas duas tão fortes razões, e tão - valentes para me deverem dissuadir, convim em que tão pobre - couza se désse á estampa. Será, segundo muitas vezes se escreve - em Prologos, para incitar engenhos a fazerem melhor? não. Pois - será, como tambem em Prologos se usa de escrever, para que - os Aristarchos me ensinem o que, o como, e o por onde devo - corrigir e melhorar? menos; que não sei eu de um só que se hoje - occupe com semelhantes vaidades. Como por tanto me livrarei da - desmerecida taxa de presunçoso? confessando, como tambem em - Prologos se costuma, mas d’esta vez com verdade, que o faço por - obedecer a dezejos de pessoa, com quem muito me importa estar - em tudo bem. - - GALATEA - - _Carmen, ex Lusitano Latine redditum._ - - Assiduis, juvenes, proscindite flumina remis, - Dum vacat et picto lœtos juvat ire phaselo; - Intereaque meo vestrum fallente laborem - Carmine, Romanas percurram pollice chordas. - - Nereidas inter quondam pulcherrima Nymphas - Nympha fuit Galatea maris: cui lilia mixtis - Ore rosis, flavæque comæ, roseique labelli, - Cæruleoque oculi placido fulgore micantes, - Et sinus albenti in scopulis albentior unda, - Qualem nec Paphiis habuit quæ regnat in arvis. - - Tertia postdecimam vernantia tempora brumam - Floruerant, postquam vitali vescitur aura - Nympha; nec in terris, aut cœlo, aut æquore toto - Est quæ formosis ausit contendere formis. - Multi illam juvenes, multi petiere deorum, - Undique blanditiis et laudibus insidiantes, - Nulli illi juvenes, nulli placuere deorum. - - Hanc pater undisono sub gurgite in antra vocavit, - Amplexumque dedit, tremulisque sedere coegit - In genibus, tales fundens post oscula voces: - “Filia, tempus adest pueriles linquere ludos. - “Non te pulchra latet, qua subjicis omnia, forma; - “Tene latet quantis fugiendi viribus, instant - “Qui toties, laudesque ferunt, gressusque sequuntur? - “Crede patris canis et amori crede paterno; - “Quò plus obsequiis, quò plus sermone placebunt - “(Parce seni juvenem patri non grata monenti) - “Hóc magis incautæ protendent retia formæ. - “Filia, tempus adest pueriles linquere ludos: - “Sit tibi cura meos posthac delphinas in undis - “Pascere, perque salum deformes ducere phocas; - “Non bene pigra tuis ignavia convenit annis.” - - Dixit: et e patrio discerpta coralia ponto, - Cuspide inaurata, pastoria munera, virgam - Tradidit, atque pecus natæ commisit habendum. - Est virides inter, Nereus quibus imperat, undas - Valle locus tuta, nec divo pervius ulli, - “Hic maneas, dixit, te sæpe deinde revisam.” - Arrisit, natamque pater sine teste reliquit. - - Haud semel ignifero radiarant lumine currus, - Phæbe tui, dum lœta pecus Galatea marinum, - Gurgitis inter opes, viridanti paverat alga. - Interdum æquoreis linquens armenta molossis - Ibat, et in calathos modo tinctas murice conchas, - Et modo lucentes baccas contenta legebat. - Ver erat, et pictos zephyris mulcentibus agros, - Mense renidebat tellus lætissima Majo; - Aureus in liquidæ Sol brachia Thetidos ibat. - Deserere ima maris, solum conscendere littus - Ausa fuit virgo, non sic reditura sub undas. - Summa petens scopuli viridi sub rupe recessit, - Unde fretum, terrasque lubens circumspicit omnes. - Hic sedet, et pascens animos novitate locorum, - Miratur, facilesque oculos fert omnia circum. - Ut mediis vidit formosum fluctibus Acin - Æquora jactatis tranantem cana lacertis, - Versibus abstinuit, versus nam forte canebat; - Erubuit, turbata silet, suspiria ducit; - Nunc subeunt jussus, subeunt hortamina patris; - Jam cupiat tutis fugiendo immergier undis, - Nec potis est cupiens, et littore perdita inhæret: - Nunc libet et tacito cautæ latuisse sub antro, - Donec arenoso mutarit littore fluctus - Discedensque puer securam liquerit oram; - Pænitet inde fugæ, sistit, mavultque videri. - Corpora, cæruleas inter candentia lymphas, - Quam numeris perfecta suis! quam fortia pulsis - Devectantur aquis! quam multa est gratia nanti! - Quam bene suffuso sua membra liquore teguntur, - Quam bene disperso nudantur eburnea ponto! - Cuncta tenent oculos, in cunctis Nympha moratur. - Interdum propius sensim vestigia ponit, - Nec propiora tamen fieri vestigia sentit. - Queisque prins sparsis volitaverat aura capillis, - Nescia cur fingat, vel collo dividat apte, - Dividit illa tamen, studioque indulget inani. - Hinc littus petit, ac vultus speculatur in unda, - Et quanquam ipsa sibi pulcherruma tota videtur, - Pulchrior exoptat fieri, frustraque laborat. - - Interea juvenis, jam fessus nasse, redibat, - Et prope jam fulvas manibus tangebat arenas: - Illa fugit, trepidatque, et rupe reconditur ima. - Hic latet, et votis contraria vota rependens, - Nunc patris hortatus, et nunc reminiscitur Acin, - Et rubet, et pallet, nec vultibus hæret in isdem. - - Haud mora: nudus adest, antrumque Simethius intrat - Acis, ut abjectas repetat sub tegmine vestes. - - Quid remi cecidere, quid ó cessatis amici? - Nonne retro refugisse ratem, dumque ora tenetis, - Aversam in portus sentitis abire relictos? - Instaurate opus, ac totis incumbite remis: - Quó pœnas detis, dictis nihil amplius addam. - - - - -CANTO II. - -_Pag. 237. versos 15 e 16._ - - E que? algum de nós contra o que vive - - -A questão, se sim ou não se ha de o homem alimentar de substancias -animaes, tem sido muitas vezes, e com oppostas sentenças, debatida por -filosofos, poetas, naturalistas e medicos. A affirmação e a negação -achárão para argumentos ja uso e consenso de povos em todos os tempos, -ja razões intrinsecas tiradas de nossa propria conveniencia. He assunto -que requeria larga escritura, e em que a qualquer seria facil dissertar -eruditamente. Voar-lhe-hei pelas summidades. - -Aquella vaga tradição, que em toda a parte permanece, de uma primitiva -idade do mundo innocente e felicissima, entre as couzas de que reza, -aponta sempre o não se comer de animal algum, senão só de frutas, hervas, -leite e mel. De outro modo se não podião sustentar, conforme parece -pelo ancianíssimo Genesis, os moradores do Paraizo, não só homens, -porem todos os viventes. Quadrava o preceito e toava o uso pelo menos -á humana natureza, que ainda agora, se a bem espreitarmos na infancia, -ou antes de alterada por contrarios habitos, se afflige e revolve com -o aspéto do sangue e morte. Verdade he, que depois da queda de nossos -primeiros pais, nem o Testamento velho nem o novo, tornão a prohibir as -carnes; mas toques da mesma nativa compaixão para com os animaes não -lhes faltão, dos quaes pelo menos se deduz por bom discurso, que se os -tivermos de comer, ainda ahi nos devemos haver com a possivel mansidão, -poupando cruezas escuzadas, como são, e se costuma, atormenta-los na -agonia por lhes refinar o sabor, caçar, montear e pescar por passatempo -e pelo mero gôsto de malfazer. Lê-se nos Proverbios, segundo as versão -dos Setenta: _Justus miseretur animas jumentorum suorum; viscera autem -impiorum crudelia._—O que justo fôr ha de se apiedar da condição dos seus -brutos; mas as entranhas dos impios não se apiedão da nenhuma couza.—No -Exodo: _Non coques hædum in lacte matris suæ._—Não cozas o cabrito no -leite de sua mãi.—He dito para ser ruminado, pelo mimoso do afféto que -recende. No Deuteronomio: _Si ambulans per viam, in arbore vel in terra -nidum avis inveneris, et matrem pullis vel ovis desuper incubantem, non -tenebis eam cum filiis sed abire palicris, ut bene sit tibi, et longo -vivas tempore._—Se o acaso te deparar no caminho, quer em arvore quer no -chão, um ninho de ave, e a mãi estiver a agazalhar os filhos ou os ovos, -não a tomes com os filhos, senão que em boa hora a deixes ir, para que -boa estrêa te venha, e vivas largos annos.— - -Entre os Santos Padres, que são os depositarios e dispenseiros do -espirito christão, alguma couza se podéra citar que autorizasse este -genero de piedade. Sabida he a de que usou S. Anselmo, uma vez para -com uma lebre, outra para com um passarinho. Tertulliano se maravilha -de que entre christãos, os haja que se accommodem a ser carniceiros: -_nescio an dolendum an erubescendumn sit_;—não sei, diz elle, se mais he -para se haver lástima, se vergonha. S. João Chrisosthomo escreva, que -se não podia ser santo sem uma estremada suavidade de affétos, e muita -vehemencia de bem querer, não só aos nossos, mas ainda aos estranhos, em -tanta maneira que até aos brutos animaes abranja essa mansidão. (_Homil. -29. na Epist. ad Rom._) E dizia bem, que nas vidas de não poucos santos -resplandecem as provas. S. Francisco de Assiz resgatava os cordeiros -que hião para o córte, pagava e soltava as redadas dos peixes e os -viveiros das aves. Mas não apontemos mais, por não enjoar filosofos, -digo filosofos de nossa terra, dos que nos assoalhão filosofia de torna -viagem, porque os lá de fóra ja deixarão muito para traz a impiedade. - -Não he porem necessario ser christão, senão que basta ser homem, -para repartir com os brutos do thesouro da charidade, de que muitos -d’elles usão a seu modo, não só para com os seus, mas para comnosco. -Sendo assim que onde os não maltratão, são elles de indole muito mais -benigna: em Inglaterra, segundo se diz, nem ha cão que ladre, nem besta -que escoucinhe: em não sei que ilha dezerta, acharão os primeiros -descobridores, em aportando, (segundo encontrei na Escolha de Viagens -por John Adams) serem tão cortezes as aves de que toda era chêa, que -não fogião dos novos hospedes, antes os festejavão e se deixavão pôr a -mão; semelhantemente ao que da ilha das Garças aponta João de Barros -_Dec. 1 Liv. 1 Cap. 7_, aonde “como não erão traquejadas de gente (as -garças e outras aves), ás mãos tomarão (os marinheiros de Nuno Tristão) -tanta quantidade d’ellas, que ficou por refresco ao navio.” Dos leões he -corrente entre os naturalistas não perseguirem, mas esquivarem-se dos -perseguidores, embrenhando-se cada vez mais pelos seus sertões adentro, -sendo alias mui leves de domesticar, e folgando de acompanhar, como -rafeiros innocentes, a trôco de qualquer esmola de pão, por largo espaço -de leguas. Muitas são em toda a parte, mormente em Africa, as serpentes, -que namoradas do bom gazalhado, trocão seus matos pelas pouzadas humanas, -e n’ellas se hão como boas comadres da familia. O cavallo do Arabe he o -contubernal e primeiro amigo de seu dono: um bom Arabe na morte do seu -cavallo deveria de se expressar pouco mais ou menos como Millevoye o -suppoem na Elegia. Muitos prezos tem logrado domesticar aranhas e ratos, -até o ponto de, no meio das asperezas de um segredo, se poderem esquecer -por muitas horas do seu desamparo, crueldades e injustiças humanas. No -páteo da rezidencia parochial de S. Mamede da Castanheira do Vouga, -todos os dias a horas certas viamos acudir ao almoço e cêa que ás nossas -pombas desparriamos, todos os passarinhos da vizinhança, que ja traziamos -tão correntes, que nos vinhão comer aos pés, por saberem (porque os -brutinhos sabem muito mais do que nós outros cuidâmos) que n’aquella -cazinha da solidão moravão amigos seus, e nunca terem ouvido tiro, nem -enxergado rede no pequeno arredor do templo e passaes solitarios.[16] Se -a tudo isto e a muitos outros exemplos se lançar conta, alguma verdade se -achará no affirmarem poetas, que no discaír da idade de oiro, ao mesmo -tempo que se os homens corromperão degenerando em crueis, se forão as -feras tornando bravias e desabridas. - -Em todos os tempos, e até por fóra e mui longe d’esta religião charidosa, -houve quem bem entendesse como entes nossos conterraneos n’este -orbe, irmãos nossos em viver, sentir, padecer e acabar, com sangue e -coração como nós, com amor, prazeres e filhos como nós, bebendo como -nós no immenso vaso do pai commum o mesmo ar, a mesma luz, as mesmas -aguas, e comendo comnosco á mesma mesa do universal banquete, poderião -quando muito servir-nos de pasto; mas fóra d’ahi, qualquer injúria -que se lhes accrescentasse, seria hortorosa profanação e violação da -natureza. Plutarcho e Quintiliano referem, que os Athenienses castigarão -severamente algumas sevicias commettidas contra animaes. O Alcorão -espalhou por todos os povos, que largamente senhorea, muita d’esta -benignidade: raro Mahometano deixará de matar a fome ao cão de seu -inimigo. Na China passa esta beneficencia muito adeante. Que no-lo diga -em seu estilo chão o nosso Fernão Mendes, ou talvez o Jesuita que em seu -nome, e por um modo tão rijo de crer, compilou tantas e tão preciosas -noticias do Oriente, mui desacreditadas em tempo, ja hoje em parte mui -abonadas de verdadeiras. Padre ou marinheiro, diz assim: (falla de uma -feira que no rio de Batampina, em caminho de Nanquim para Pequim, se faz -com mais da duas mil ruas de barcaças, nas quaes ha para vender tudo a -que no mundo se pode pôr nome.) “Ha tambem outras embarcações em que os -homens trazem grande soma de gayolas com passarinhos viuos e tangendo com -instrumentos musicos dizem em voz alta á gente que os ouve, que libertem -aquelles cativos que são criaturas de Deos, a que muita gente acede a -lhes dar esmola com que resgata daquelles cativos os que cada um quer e -os lança logo a avoar, e toda a gente dando hũa grande grita lhe diz, -_pichau pitanel catão vocaxi_, que quer dizer, _dize lá a Deos como cá -o servimos_. Ha outros homens que noutras embarcações trazem grandes -panellas cheyas de agoa, em que trazem muitos peixinhos viuos que tomão -nos rios nũas redes de malha muyto miudas, tambem pela mesma maneira -vem bradando que libertem aquelles cativos por seruiço de Deos que são -innocentes que nunca peccarão, a que tambem a gente dando sua esmola, -comprão daquelles peixinhos os que querem e os tornão logo a lançar no -rio, dizendo, _vayte embora, e lá dize de mym este bem que te fiz por -seruiço de Deos_. E estas embarcações em que estas cousas se trazem a -vender não se hão de contar por menos soma que de cento e duzentas para -cima.” - -Na India são n’esta virtude extremosissimos. Alguns viajantes tanto -encarecem a couza, que chegão a affirmar haverem por lá, ainda no seculo -passado, hospitaes para as mais asquerosas sevandijas, como piolhos, -pulgas e persovejos. - -Pôsto que tudo quanto até aqui tenho trazido, possa parecer uma diversão -do principal propozito, não o he, por quanto d’estes misericordiosos -affétos he que se tem em parte derivado a abstinencia de carnes, -observada por muitas pessoas, communidades, seitas e povos: em parte -digo, porque em outros diversos fundamentos tem tambem estribado, como -veremos. - -E pois que a ultima que tocámos foi a India, a ella tornemos, levando por -explorador e lingua, não algum estrangeiro, de que outros se contentão -mais, mas um patricio nosso, dos varios que para tal officio se podérão -tomar: he Duarte Barbosa, e diz: - -“Ha neste regno (de Guzarate) outra sorte de Gentios, que chamaom -Bramanes, estes nom comem carne, nem pescado, nem nenhũa cousa que -mora, nem mataom, nem menos querem uer matar, por asy lho defender sua -idolatria; e guardaom isto em tamanho estremo que he cousa espantosa, -porque muytas uezes acontece leuarem-lhe hos Mouros bichos, e pasarinhos -uiuos, e fazerem que hos querem matar perante eles, e estes Bramanes lhos -compraom e resgataom, dando-lhe por eles muyto mais do que ualem, por -lhe saluarem has uidas, e soltalos. Se tambem El Rey, ou ho gouernador -da tera, tem algũu homem, porculpas que cometese, julgado ha morte; -ajuntamse eles, e compramno ha justiça, se lho quer uender, pera que nom -mora; e tambem algũus Mouros pedintes, quando querem auer esmola destes, -tomaom muy grandes pedras, e daom com elas emsima dos ombros e barigas, -como que se querem matar perante eles, e porque ho nom façaom, lhe daom -muytas esmolas, e que se uaom em pas; outros trazem faquas, e daom-se -cõelas cutiladas pelos braços e pernas, e pera se nom matarem lhes daom -muytas esmolas; outros lhe uem has portas ha querer lhe degolar ratos e -cobras, ha hos quaes eles daom muyto dinheiro por ho nom fazerem, e desta -maneira saom dos Mouros muy apreciados: estes Bramanes se achaom no -caminho algũu golpe de formiguas, aredam-se buscando por honde pasem sem -bas pisarem. E em suas casas de dia çeaom; de dia nem de noyte acendem -candea, per caso de algũs mosquitos nom irem morer no lume da candea; e -se todauia tem grande necesidade de acenderem de noyte, tem hũa alenterna -de papel ou de pano agomado, pera cousa nenhũa uiua poder ir morer dentro -no fogo; se estes criaom muytos piolhos, nom hos mataom, e quando hos -muyto aqueixaom mandaom chamar hũs homeins que antre eles uiuem, que -tambem saom gentios, e eles hos haom por de santa uida, e saom come -irmytães, uiuendo em muyta abstinença por reuerencia dos seus Deoses; -estes hos cataom, e quantos piolhos lhe tiraom poemnos em suas cabeças, -e hos criaom com suas carnes, em que dizem fazerem muy grande seruiço ha -seu Idolo, e asy guardaom hũus e outros com muyta temperança ha ley de -nom matarem: estes Gentios saom muy delicados e temperados em seu comer; -seus manjares saom leites, manteiga, açuquar, e aros, e muytas conseruas -de diuersas maneiras; seruem-se muyto de cousas de fruyta e ortaliça, e -deruas de campo pera seus manjares; honde quer que uiuem tem muytas ortas -e pomares.” - -Na _Historia de Mysore_, lê-se que em Bengala, quando a violencia da fome -a devastou em 1774, consumindo-lhe obra de trez milhões d’almas, forão -em muito grande numero os Indios que antes quizerão deixar-se morrer á -mingoa, do que acabar comsigo comer carne de animaes. - -Frequente e antigo he na India este antojo, e tão notorio, que não ha -porque afogar o discurso com mais exemplos. Bem podia proceder isso em -parte da vegetavel abundancia e espantosa cultura d’aquellas terras, -e de alguma especial compleição do clima, ou natureza ou costumes -dos moradores, ou algumas outras circunstancias, segundo as quaes os -corpos se dessem melhor com os pastos leves e frugaes: viria depois a -religião consagrar por dogmas seus os conselhos da higiene, como com -vinho, toucinho e abluções aconteceo em muito oriente á conta da lepra: -para melhor incutir o preceito, cerca-lo-hia de fabulas amigas da -imaginação do vulgo, como a encarnação dos Deozes em corpos de brutos, e -a transmigração das almas humanas por differentes sortes de viventes até -parar na vacca; materias estas de que as historias e perigrinações fazem -larga menção. Dos Indios podérão tomar por mão a crença os Egipcios, os -quaes, sendo moradores de solo não menos liberal, devião tambem perdoar -grandemente aos animaes, em quem reverenciavão suas Divindades, ou -santuarios ambulantes que d’ellas forão: e confirma-me na suspeita a -conveniencia, que ja de alguem deverá ter sido notada, do boi Apis do -Egito com a vacca ainda hoje sagrada dos Indios. Do Egito provavelmente -trouxe Pithagoras para a Italia, em tempos de Numa ou Servio Tullio, a -sua metempsícosa com a defensão do uso das carnes. Não pegou a invenção, -se não foi em alguns escolares fanaticos de tamanho mestre; e nem -filosofos pelo tempo adeante a sustentarão, nem poetas se valerão d’ella, -afóra Ovidio nas metamorfoses, e só como narrador; e mais não deixava de -ser fecunda e bem assombrada crença para poesias. Não pegou, porque não -vinha propria á indole do solo ou ao temperamento dos Italos, ou, o que -he mais certo, porque encontrava os antiquissimos usos de umas gentes, -que primeiro tinhão sido pastoras e depois guerreiras. - -Na Ilha da Palma, acharão os nossos, quando descobrião, conquistavão e -amansavão aquelle archipelago, (senhorio traspassado depois em Castella, -mas padrão glorioso do nosso Infante D. Henrique) serem mantimento dos -moradores hervas, leite e mel.—Com este particular exemplo me acóde a -memoria, mas alguns outros semelhantes de outras ilhas me parece ter -achado pelas historias, de que me não ficou nem fiz a lembrança preciza. - -Com a propagação da fé christã renasceo religiosa a abstinencia na -Europa, por motivo não de brandura, mas de mortificação. Apparecerão -Ordens numerosas de religiosos, primeiro só de homens, logo tambem -de mulheres, que renunciando todos os carnaes deleites para melhor -apurarem os do espirito, tomando o exemplo dos primitivos eremitas que -se abastavão com as hervas, raizes, frutas silvestres, e aguas dos -montes, não só cortarão pelas demazias na quantidade do sustento, não só -o estreitarão com regra de jejuns, mas em varios de seus institutos o -expurgarão de todo animal terrestre ou volatil, não consentindo, quando -muito, senão em algum marisco secco e fraco, para regalo das festas. E he -para notar como ainda os mais rígidos observantes logravão saude inteira -e robusta, e chegavão ao ultimo fio da velhice: _mens sana in corpore -sano_. - -Annos ha que me recordo de ter achado em uma Gazeta de Lisboa, estar-se -creando em Manchester uma seita, que por filosofica defendia tomar -qualquer sustento animal. Era noticia de Gazeta, não affirmarei que -tivesse pé, e se o teve, não sei em que parou. - -Ja que estamos com Inglezes, fallemos de Franklin. Este homem, a quem a -probidade e o juizo fizerão filosofo e liberal, e não a devassidão e o -estouvamento, tendo lido, di-lo elle, o livro em que Tryon recommenda -a dieta vegetal, determinou-se em a observar. Pô-lo por obra, e -limitando-se em arroz e batatas, e ás vezes ainda em menos, como passas, -bolaxa ou pão, com uma gota de agua, não só forrou do seu salario (era -ainda então compositor de imprensa) com que poder comprar livros, mas -do seu tempo acerescentou para estudos o que as refeições e digestões -lhe podérão consumir: fez progressos proporcionados á clareza de ideas e -fortaleza de percepção, que são o fruto da temperança no comer e beber. -Seguio constante por algum tempo, não pouco, até que chega á ilha de -Block, assiste a uma pesca, revolvem-se-lhe nas entranhas as maximas do -seu Tryon, dá por genero de assassinio aquelle matar viventes, que nem -tinhão feito nem erão capazes de fazer o mínimo mal. Poem-se os mortos ao -lume, recende o guizado; o filosofo no seu tempo gostára apaixonadamente -de peixe; entra pelo nariz a tentação, estremece a filosofia, e em boa -hora lhe acode com uma bulla de composição, lembrando-lhe como ao abrir e -limpar d’aquelles peixes, lhes víra dentro do buxo outros peixinhos mais -pequenos. “Pois que he isto, diz elle entre si, se vós uns a outros vos -comeis, porque não hei de eu tambem comer-vos a vós?” N’essa hora e com -esta palavra se lhe quebrou o fadario; o que muito bem prova, acrescenta -o bom homem, sermos nós _animaes racionaes_, sabendo, como sabemos, achar -pretextos plausiveis para quanto nos póde dar gôsto. - -Outro autor muito afamado de nossos dias, Raynal, era igualmente sobrio. -A Senhora Marqueza d’Alorna, que muitas vezes o teve a jantar, me contou, -que nunca o víra comer mais que algumas poucas hervas e fruta, nem beber -senão agua. Era, observava ella, como um conviva das Ninfas, custando a -crer como com aquellas refeições de idillio se podessem sustentar tantos -nervos d’alma e de pensamento. - -Se depois de autores de livros se póde citar quem não sabe ler, em Grada, -lugarejo da Bairrada, vivia um moço que eu conheci, o qual nunca provára -vacca. Perguntado a causa, não era religião, nem filosofia, nem tedio -natural, mas effeito de um vehementissimo e entranhado amor que tinha -aos bois, com quem se creára, com quem vivia, lavrava, e dormia paredes -meias. Rústico era, e sem o cuidar discorria e fallava como o Sabio de -Cheronea, quando dizia, que por tudo quanto o mundo tinha, não venderia -nunca o boi que em seu serviço envelhecêra. - -Afóra os monges, filosofos e amigos dos bois, ha ainda uma grande quantia -de homens, puro comedores de vegetaes em quasi todo o anno: são os -moradores das serras e aldêas pobres, a quem a estreiteza de sua fortuna -mal dá licença para chegarem á carne por entrudo e paschoa, e poucas -mais vezes e só escassissimamente, ao pescado, vizita mui rara em terras -mesquinhas do sertão. De choupanas sei eu, e quasi de inteiros lugares, -pelas abas da Serra do Caramulo, onde oito annos vivi, que de pouco mais -se sustentão que do pão de centeio e milho, batatas e alguns legumes: e -estes asperissimos banquetes, em que até pelo demais fallece o agro vinho -verde de seus montes, trazem-os comtudo mais rijos e sãos no trabalho, -do que as grandes ucharias aos mimosos das cidades. - -Acabarei estes exemplos com o que melhor conheço, que he o meu. Quando -eu compuz estes versos da _Festa de Maio_, era como ja no Ante-Prologo -disse, todo Gessnérico: trazia a alma toda a nadar no coração empapado -com os mais brandos affétos do mundo, como rosa a boiar em vaso de leite: -amava as plantas e tratava com ellas como com entes sensitivos; todos -os entes sensitivos amava-os como amigos e companheiros: tinha fantasia -pronta, que muito ajuda em todo o genero de bem querer; esta me revelava -de contínuo e me ataviava de suas fabulas e côres a particular vida e -cheíssimo mundo de cada inséto; e porque esse seu mundo e vida dizia -tanto com o meu, e o commum de seus substanciaes interesses com o commum -dos substanciaes interesses dos homens, acontecia que imaginando-me ora -grilo, ora passaro, ora borboleta, tinha aprendido uma perfeita, e se -dizè-lo posso, egoista charidade para com todos elles. Ouvi debater a -questão do uso das carnes: as razões affirmativas podião ter mais fôrça, -mas as negativas dizião com o meu gôsto; he meia persuasão; caírão-me -tão bem, que logo me dei, se não por convencido, por persuadido: e como -persuadido e convencido escrevi os versos, que por isso aos indifferentes -se de contrária sentença, devem parecer, como em verdade são, sobejos, -exagerados e declamatorios. - -Era o escrito fruto de minha opinião; mas esta, como accontece, se -roborou por elle, e até tal ponto se confirmou, que do que até alí não -passára de poetica theoria, instituí fazer prática minha em toda a vida, -renunciando qualquer genero de alimento animal. Por duas vias se fazia de -mal o tenta-lo, ja porque em couza tão excetuada do geral não deixarias -de caír estranhezas e zombarias, ja porque tanta sobriedade entre quem -a não usava, era genero de martirio continuamente renovado. Mas contra -estes dois contrastes prevalecião outros dois argumentos: primeiro, minha -consciencia, que repugnava banquetes de sangue: segundo, o presuposto em -que estava, de que as faculdades da alma se havião de adelgaçar e crescer -onde o corpo fosse favorecido da parcimonia. Metti-me Pithagorico aos -vinte e trez d’Agosto do anno de 1822, tendo sido gastos os mezes, que -desde a feitura do poema decorrerão até esse, em acabar de me resolver e -aparelhar para tão grande façanha; e permaneci na observancia do voto até -vinte e trez d’Agosto do seguinte anno. Acabei o noviciado, e em lugar de -professar, despedi-me. Tive minhas razões; e ainda que pouco se me havia -de dar agora do que se podesse dizer ácerca de um indivíduo, que n’esse -tempo tinha o nome que eu hoje tenho, e do qual, segundo as theorias dos -medicos, não conservo hoje uma só particula, sendo eu um, vivo e junto; -elle outro, morto e disperso por todo esse mundo: todavia, porque ainda -temos commum um leve som, que he o nome, quero lançar pontualmente na -balança do juizo dos meus leitores os seus porques; e bons ou máos, forão -estes.—Primeiro: que a abstinencia de uma só pessoa não poupava uma unica -existencia de animal. Segundo: que era presunção ridicula o desquitar-se -um sujeito, por alguns argumentos, de uma opinião e uso quasi universal, -sendo assim que todos os homens, guerreando-se entre si por crenças -religiosas, por sisthemas filosoficos, por principios de política e -sciencias, por modas e gostos, todos se conformavão no comer das carnes. -Terceiro: que realmente era obstinação o desconhecer como a natureza nos -não aparelhára só para comer e digerir vegetaes. Quarto: estar-nos ella -dando nos proprios animaes, que uns de outros se sustentão, uma prova -de ser menos escrupulosa do que Pithagoras e a poesia. Quinto: que ella -propria os multiplica á proporção do que uns a outros devem tragar. -Sexto: que se ella faz com que cada passada, cada pedra que movemos, cada -gota de agua que engolimos, cada fruto ou folha que aproveitamos, cada -sôpro que inspiramos ou expiramos, cada movimento emfim que fazemos, -ainda dos mais indispensaveis para a vida, a destrua a milhões e milhões -de entes conhecidos, e a numero talvez ainda maior de desconhecidos, -não ha porque nos tenha a grande peccado, o aumentar-mos por nosso -bem a lista com mais algumas unidades. Setimo: que o adelgaçamento e -crescimento de minhas faculdades intelletuaes que eu esperára d’aquella -mais leve nutrição, não só se não tinha verificado, mas antes o contrário -succedêra, pôsto que de diversas causas podésse pender o successo: -e por muito tempo me ficou o costume de, quando via versos fracos e -desengraçados, dizer: Devião estes de ser compostos por quem não comia -senão hervas. Outavo, ultimo, e não leve motivo: que ainda que pouco dado -ás delicias da gula, o cheiro e presença de melhores iguarias do que as -minhas, de dia em dia me tentava mais, e quando succedia achar-me entre -gente alegre e em mesa de festa, as ondas de tentação, que eu forcejava -dissimular o melhor que podia, crescião e redobravão com os motejos dos -circunstantes, que bem poderião ter sal, mas não que adubasse as minhas -insôssas hervas. - -De todos os varios antecedentes deduzo, que sem embargo das objeções, -autoridades e exemplos, o uso das carnes se ha de ter por licito, e por -dithirambico o que lá fica no texto: mas que fóra do caso de necessidade -ou clara utilidade, e alem do ponto em que essa necessidade ou utilidade -pararem, toda a sevicia contra viventes he immoral, injusta, insensata, e -digna de muito grande castigo. - -E tanto isto assim he, que, porque todo o carniceiro de officio contrahe -na alma e nos modos alguma couza de cruento e de tigre, em muitas partes -se tem por infame. Em Portugal, nenhum mechanico honrado e de conta -acceitaria um tal para sogro ou genro, ainda com grosso cabedal de -renda; nem de boca plebea pode saír mais afrontosa injúria que o nome -de magarefe. Em Inglaterra não os admittem jurados em causa crime. Na -principal ilha das Canarias encontrárão seus descobridores, que os -naturaes, com viverem á lei de sua rudeza silvestre, “havião por couza -mui torpe esfolar alguem gado, e n’este mister de magarefes lhes servião -os cativos que tomavão; e quando lhe estes falecião, buscavão homens dos -mais baixos do povo para este officio, os quaes vivião apartados da outra -gente e não os communicavão em aquelle mister” (_Barr. Dec. 1. L. 1. C. -12._)—Bem hajão os inglezes, que formão sociedades para proteger animaes, -e abençoado seja o inglez Deputado Martin, que para lhes fazer bem, se -arrosta com os escarneos dos praguentos. Bem hajão os allemães, que em -seus campos não perdoão multa municipal aos que, no levar rezes pelos -caminhos, as atravessão deante de si na albardadura, ou tolhidamente as -apinhoão dentro em carros. E bem haja a nossa Camara, quando conseguir -desterrar o escandalo do afrontoso trato que nossos carreiros dão a seus -bois, como ja desterrou a atroz e immoral matança dos porcos perante os -olhos do povo. - -Quero rematar com uma reflexão, que ja acima podéra ter cabido, mas que -por dezejar da-la por conselho, e pô-la onde melhor se recommendasse, -muito de industria deixei para o fecho. Vai o dito a pais e educadores, -a quem toca. Nada importa mais, do que affazer cedo os meninos a uma -grande suavidade de costumes: assim foi creado o bom Montaigne. Se os -eu tivesse, parece-me que tambem assim os crearia, e bem bons frutos -lhes havia de colher na minha velhice. Primeiro que tudo, parece-me que -me conformaria com Rousseau em os não alimentar desde o leite senão com -vegetaes, por entender como elle, serem estes mais accommodados a suas -naturezas, e mais proprios para fisicamente os suavizar e humanar. Mas -não quero agora averiguar isto que pertence a medicos; outro he o meu -alvo. Não consentíra jamais que presenceassem espetaculos de atrocidades -ou injustiça; e quando a minha má estrella lhos presentasse, procuraria -afea-los com boas razões, mais de affétos e lagrimas que de raciocinios. -As urbanas corridas de touros e as aldeanas festas de alanceamento de -pombos, frangos e patos, como couzas antiquissimas e nacional feição, -as respeito; mas não levára la os meus tenrinhos, que são mui branda -cera para qualquer bom ou máo cunho. Se de alguem lhes fosse insinuada a -correntissima abusão de nossos provincianos, de que em casa que devasta -ou maltrata os ninhos do seu beirado, tudo vai para traz e de fôrça se ha -de aguardar por enterramento, calára-me, porque acho razão a Fontenelle -em dizer, que se na mão tivesse fechadas todas as verdades do mundo, Deos -o defendesse de a abrir. - - _Magnànima menzogna, or quando è il vero_ - _Si bello, che si possa a te preporre?_ - -Dar-lhes-hia, da Historia natural poetizada, tanta luz, quanta bastasse -para levarem grande interesse nos fados de cada individuozinho que -respira: um raio de tal luz póde bastar para pôr fim a muita dureza que -provenha de cegueira. Conheci e tratei com um parocho de fóra da terra, -que desgostoso de que uma sua fregueza, rapariga nova, não pozesse reparo -em maltratar animaes, a chamou brandamente, explicou-lhe como tudo -que era nascido devia ter algum entendimento, capacidade para dores e -prazeres, parentes, amigos e affeições. Com isto só a fez outra, e tão -outra desde essa hora, que onde depois se lhe fazia de mister dar morte -a uma pomba ou gallinha, ainda que em seu páteo não forão creadas, ja o -coração se lhe confrangia, tremião-lhe os pulsos, e chegada á execução, -não corria mais sangue da ferida, que mal acertava, do que lagrimas de -seus olhos.—De mim mesmo me parece agora, que se escrevi os versos a que -me refiro, e em commenta-los me alargo tanto, e uma e outra couza de tão -boa mente, de tudo deve ter sido raiz a creação, em tudo excellente e -n’esta parte bem empregada, que meu pai se esmerou em dar a todos seus -filhos. - -Outra couza fizera eu principalmente; era commetter-lhes o trato e -tutela de alguns animaes caseiros, a quem podessem chamar seus. N’este -exercicio aprenderião a ser observadores, vigilantes, serviçaes; tomarião -com o gôsto da propriedade o amor do trabalho, havendo-se ja por algum -modo como pais de familias; costumar-se-hião a acautelar, previnir e -amar; tomarião para toda a vida o geito de amparar fracos e desvalidos, -e de não ver um qualquer indivíduo, sem logo compor na imaginação a -historia completa do seu viver, do seu padecer, do seu precizar. - -Da efficacia de tal methodo, e tão simples, e tão formoso, tenho eu uma -muito amavel prova de minhas portas a dentro. Uma mulher, toda boa, toda -extremosa, tomou unicamente a peito o vingar-me da natureza; cerca-me -de contínuo, como um anjo, de amor e de luz; empresta-me olhos para eu -ver o mundo e as obras dos seculos; tira deante dos meus passos todos -os espinhos no caminho da vida; inventa-me um encantamento novo para -cada minuto; diz-me e faz-me entender como a verdadeira felicidade se -não compoem de grandes pedaços, mas sim de atomozinhos que de longe se -não podem perceber; repete-me e persuade-me que nasci para as Musas -e para o amor, e não para a política, nem para os odios, serve-me, -vela-me e defende-me como a filho, ama-me como a esposo, zela o meu nome -como o de irmão; lançou a sua vida na minha vida, o seu pensamento no -meu pensamento; existe pelo meu amor, morreria se lhe elle faltasse. -Quem lhe ensinou tão generosa, tão nova benevolencia? quem lhe deo -tantos segredos de fazer feliz? as suas aves e pombas, a sua amiga, e -alguns livros, unica sociedade da cella, onde desde seus annos verdes a -Providencia ma estava guardando e aperfeiçoando[17]. - - - - -_Pag. 243. verso 18 e seguintes_ - - O mesmo coração, dezejos, gostos, - Que tem nossas mortaes no peito occultos, - Tem as Ninfas tambem &c. - - -Por estes versos começa uma torrente caudal de couzas vãs e doidas ácerca -das mulheres, e relações dos dois sexos, que ora mais, ora menos turva, -se vai alongando até pag. 254. A pezar de se devolver por leito de quasi -proza, e por entre margens para meu gôsto mal assombradas, bom seria que -por ellas nos podéramos ir detendo a pescar, e a examinar algumas das -couzas mais graúdas que vão na chêa: serião questões apraziveis de ociosa -filosofia, mas prometti no prologo despreza-las; perdoar-lhes-hemos, -deixa-las ir seu caminho. Passem a seu salvo as regras de namorar á -antiga; a arte não de amar mas de enredar e colher, como o são quantas -com titulo de amar se tem escrito; a poligamia, menos de Mahometano do -que de Tupinamba; o divorcio e ulteriores nupcias dos divorciados e -divorciadas; a botecuda nudez dos sexos &c. La se avenhão como poderem -todas essas puerilidades com seus inimigos, que se de minha Musa -nascêrão, muito ha que eu e ella as desherdámos. O meu ponto agora he -assentar boas pazes para sempre com as damas. Todas minhas Obras, não -só esta, _Cartas de Echo_, _Amor e Melancolia_, _Noite do Castello_, -_Ciumes do Bardo_, me devem ter perante ellas representado cavalleiro -descortez de desleal poesia. Tempo he de mudar de cores, abjurar o erro, -e para merecer o perdão, que ellas de puro boas concedem antes de pedido, -romper lanças em favor de sua fama, não só contra inimigos, se os podem -ter, mas contra mim proprio, pelas ter aggravado. He uma Nota estreita -arena para tão singular duello: mas embora, que para outro dia e campo -desafiado fica o eu mancebo desatinado e altivo d’outro tempo por mim -grave, reflexivo e respeitoso; o eu versejador por mim pensador; o eu -academico e solteiro por mim cazado e recolhido: emfim por mim conhecedor -do terreno do combate o eu ignorante d’elle, a cuja face ja n’esta hora -arremésso a luva, e lhe digo “Mentiste, e mercê de Deos e de minha Dama, -provar-to-hei.” Mas pois que he forçado ficar para outro dia a pendencia, -aqui não farei mais do que um pouco ensaiar-me para ella, campeando -soltamente e esgremindo nos ares. - -Nenhuma couza tem sido mais experimentada no mundo e mais vezes definida -que o amor, nenhuma ha tão mal e imperfeitamente comprehendida como o -amor. Fallo do amor dos homens, unico de que os homens podem fallar: o -das mulheres he ainda mais incomprehensivel, e certamente muito mais -espantoso, quando verdadeiro. O que pretende dar regras de amar, como -alguns outros fizerão antes de mim, e como eu proprio supponho que -pretendi, assemelha-se ao astronomo, que tendo endoidecido á força de -ter velado as noites a observar os astros, presumisse, riscando órbitas -com o lapis, constrangê-los a segui-las: as esferas e os affétos saem do -nada ao sôpro de Deos, resplandecem com a sua luz propria e misteriosa, -vão-se ora afastando ora aproximando de seus centros pelo caminho que -sua natureza lhes ordena, eclipsão-se na hora prescrita, desappareceráõ -quando Deos fôr servido; sem que em tudo isso haja querer, escolha, -presciencia, ou conhecimento de nossa parte. Amamos uma mulher, e certa -mulher; porque temos de a amar; porque he necessidade sua e nossa que -a amemos; amamo-la pelo modo que a natureza quer e não outro, não he -uma acção mas uma paixão: se a premião o premio he gratuito, se a punem -he injusto o castigo, porque não recáem sôbre um effeito de eleição. -Ama-se uma mulher, repito, sem o procurar, sem o cuidar, sem arbitrio, a -despeito da razão, da vontade e dos votos, como á rosa, como á lua, como -á harmonia, como aos sabores dos frutos deliciosos. Para ellas se vai -como os rios dos montes para os valles, como a chamma para o ceo, como -a pedra do ar para a terra, como o menino para os peitos da ama, como o -coração para o prazer. N’estas occasioẽs todo em nós he extraordinario, -e se o posso dizer, sobre-natural: sentimo-nos fôrças que não possuiamos -para querer, seguir, abraçar e reter: o pensamento se torna infinito, -porque o objéto que procurâmos, como uma metade nossa que nos foge, -nos apparece infinito. Por dentro d’aquellas graças fisicas, de que -os sentidos se namorão, imagina-se um mundo estranho e illimitado de -perfeições, de que se namora a alma: ahi se dezeja tudo quanto he capaz -de embellezar a vida; o dezejo he logo esperança, a esperança certeza, -a certeza delirio, e novamente dezejos; e quem porá limites a dezejos, -a delirios, a esperanças? O abrangimento do infinito da Divindade em um -corpo humano não he misterio que o amor não saiba muito bem entender. He -aqui o lugar de confessar que a este sobre-humano conceito, que da mulher -amada se faz, mil vezes corresponde plenissima realidade. - -Por mais que a natureza se aprimore em modelar, tornear, corar, amaciar, -brunir, bafejar e endeozar o fisico da mulher, as suas graças, o seu -merito, o seu ser de mulher não são esses dotes, sujeitos ao tempo e -dependentes de um ar, assim como nas flores não são mel as pétalas -vistosas e coradas, o cheiro suave e attrátivo, que o sol e o vento -attenuão e desbaratão. Diz-se que as feiticeiras tem o seu encantamento -em um novêlo; o novêlo do feitiço das mulheres está no seu coração e no -seu espirito, que n’ellas he tambem coração. O coração da mulher não -mora descançadamente reclinado no peito como o nosso, por toda sua alma -esvoaça perdido de amor, gemendo de amor, como uma ave mãi e feliz por -todos os ramos de um bosque de primavera: sente-se-lhe o frémito das -azas, ouve-se-lhe a harmonia em tudo quanto diz, em tudo quanto cala, -no que faz como no que deixa de fazer, no que pensa, recorda ou espera, -nas lagrimas e no riso, no enfado e no contentamento, na vigilia e no -sono. O coração lhe está á porta interior de cada sentido recebendo as -impressões; para elle e por elle veẽm, para elle e por elle ouvem, para -elle e por elle presencêão a natureza, communicão com ella e comnosco. Um -sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo delicioso -deveo ser formada. - -Este afféto, esta doçura, esta, quero eu dizê-lo, feminidade da mulher -são de tão alta natureza, tão estremes de liga, tão independentes do fim -mesmo para que a providencia a destinou, que me parece ainda despojada de -sentidos, poderia amar vehementemente como os espiritos angelicos. Que -será quando os sentidos confluem, para atear com sua materia inflammavel -este fogo celeste? ¿quando a Vestal, afrontando todo o futuro, deixa -apagar no altar da Deoza de sua infancia a luz virginal que velou por -tantos dias e noites? ¿quando na turbação insólita d’estas trevas -desconhecidas, se entregou toda e com todo seu futuro ao ente que a -implorou como Divindade, e que ella sabe e sente em si tornará feliz -por cima de todas as felicidades? ¿quando uma vez encetou prazeres, -cujo maior encanto para ella se da-los recebendo-os, e não os receber -sem ao mesmo tempo consummar mais de um doloroso sacrificio? Oh então -he o amar do amar! o afféto, que ja em profundeza não podia crescer, -cresce em superficie, e trasborda todo e para toda a parte, como um -perfume abundante; então he que sem voz pronunciou o _sempre_; que sentio -apertar-se-lhe nas entranhas a indissolubilidade do consorcio, porque o -amor de fantasia se fez realidade, de dezejo destino, de suspiro occulto -gloria; a tudo tem ja direito porque ja deo tudo, não póde dezejar ser -de outrem porque a outrem não teria tanto que dar. E he esta a grande -differença da mulher ao homem, e do amor ao amor: o d’ella tem um abono -e côr de eternidade, o nosso um elemento e uma côr de tempo. Podéra -ser emblema do nosso, uma náo alterosa e possante, surta em uma bahia -aprazivel, mercadejando e folgando com a terra, empavezando ufania -de flammulas e galhardetes, aferrada ao fundo do mar com uma unha de -ferro, mas podendo de uma hora para outra arranca-la ou picar a amarra, -desfraldar as velas que sempre estão prestes, e vogar atravez de todas -as ondas, por cima de todos os abismos, a mercadejar e folgar no extremo -opposto do mundo: emquanto a feminil affeição, como barquinha contente e -desambiciosa, feita para os ocios de sua enseada, coroada a pôpa ora de -flores abertas ora de esperançosos verdes, sem deitar nenhuma ancora, não -foge nunca d’entre aquellas margens conhecidas; por entre ellas vai e vem -avoejando de contínuo, levando e trazendo sempre commodos e alegrias, sem -curar que de sua barra em fóra haja outros mares, n’esses mares outras -bahias; delicia-se na sua, onde tudo a festeja e saúda por seu nome, onde -se entende com todos os ventos, todos os refugios conhece para o dia -da tempestade. O amor do homem, com os sentidos satisfeitos muita vez -se satisfaz e adormece; como o frizão dos Jogos Olímpicos, que chegado -apoz violenta carreira a tocar na meta, surdo até ás vozes da gloria que -esporeou, se estirava para repouzar ou para morrer. O amor da mulher, -satisfeitos os sentidos, se restaura, resurge mais puro e extremoso, -mais vivaz e promettedor; semelhante ás plantas, quando desfallecidas -nos afrontamentos do verão se dessedentão com a chuva de uma nuvem que -passsou, e viçosas reverdecem para embalsamar os ares de seu valle. -Uma de muitas razões que para esta differença podem concorrer, he que -n’essa hora adquirio a mulher direitos, o homem contrahio obrigações; as -obrigações pezão, os direitos agradão, as obrigações limitão e apoucão, -os direitos accrescentão e engrandecem. Trocarão-se os papeis na scena, -o seguidor esquiva-se, a perseguida segue. O amor do homem he só amor, -o amor da mulher he amor e amizade: elle, porque pertence ao mundo, á -gloria e a tantas outras paixões, só tem meio coração, meia vontade, -meio tempo para dar á sua companheira; esta, separada do mundo pelo -mesmo mundo e pela natureza, por isso mesmo mais raramente accessivel a -outras paixões, dá ao seu amigo todo o coração, toda a vontade e toda -a vida; dar-lhe-hia se podesse mais vida, e mais coração, mas não mais -vontade: com elle, por elle, e para elle existe, na propria ausencia o -tem presente; e quando cessa de abraça-lo, he para se gozar de o ter -abraçado, e cuidar como logo o abraçará de novo, e volverá a ser d’elle -amado, fazendo-o feliz. - -Tal he o theor da natureza: tem excéções e numerosas. Corações ha de -homens, que sem ser effeminados, não desdirião n’um peito feminino; -e corações de mulheres, que talvez bem nascidos e bem fadados, mas -torcidos depois pela educação, quebrados pela sociedade, corrutos pelos -exemplos, merecem as satiras, demaziadamente geraes, com que os autores -de sua degeneração todos os dias lhe poem ferrete: mas essas, mais -infelizes do que culpadas, os desgraçados que as pintem e condenem, eu -pinto a mulher amante, a mulher perfeita, a mulher mulher, a mulher -como a concebi, como a conheço, como a adoro. Foi esta a que Deos fez e -temperou de poesia e harmonia lá na origem do mundo, quando vio que não -era bom que o homem vivesse só. Esta he a que depois de nos dar a vida, -no-la suaviza e apura; no-la multiplica em entes novos; no-la adoça nos -momentos derradeiros; nos ama ainda, quando ja não somos; dá seus beijos -amorosos a uma pedra, porque do nosso nome lhe conserva uma letra; e -consummando o seu destino de amar, felicitar, sacrificar-se, ajoelhada na -terra, nos vizita no mundo das sombras; estreitando o seu commercio com -os ceos que a esperão, para nós só os invoca, e depois de no-los ter dado -em amostra no tempo á fôrça de amor, á fôrça de amor no-los grangêa na -eternidade. - -Custa a crer como um ente, que he metade da nossa especie, que das duas -he a mais amavel metade, a mais carinhosa, em tantas couzas nosso igual -para nos attraír, mas com tantas differenças de nós para se nos unir -ainda mais, que se tem defeitos de nós os recebe, e nos dá em troca, -sem o cuidar, tantas das virtudes que possuimos, custa, digo, a crer -como um talento, a quem sua propria fraqueza devêra tornar inviolavel, -pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a ser até ao -fim dos seculos, alvo e emprego das críticas mais desabridas, e mais -grosseiras calúnias. Divindade extraordinaria, a quem seus proprios -ministros e sacrificadores insultão adorando-a, e que de cima de seu -altar, fragil mas eterno, inalteravel em sua mansidão, derrama sôbre bons -e máos a felicidade! Que a filosofia as injuriasse não espantára. La -Bruyere foi cruel para com ellas, Larochefoucault furioso, nenhum d’elles -justo, nem sequer francez: a filosofia não anda sem os filosofos, e todos -sabem como os dados a esse triste officio, são pelo demais almas seccas -e incapazes de avaliar branduras, entendimentos sem olhos de imaginação, -unicos proprios para julgar da verdadeira belleza; homens emfim -eremiticos, rusticos e ignorantes no meio da sociedade; e para remate de -suspeição, ja alongados pelo inverno da vida: da-se á filosofia o que as -mulheres ja não querem. - -A poesia não tem sido menos descomedida: a poesia, que d’ellas e para -ellas nasceo, cujas Divindades forão com razão pelos antigos fabuladas em -fórma feminil, como as Graças, como os Genios de tudo quanto ha amavel na -natureza, a poesia, a seu máo grado, lhes tem sido rebelde todas quantas -vezes os poetas, por de sobejo amantes e zelosos, precizárão desabafar -desgraças verdadeiras ou fantásticas: a lira acostumada a lhes entoar -seraficamente não louvores senão hinos, resoou execrações, ás quaes -respondêrão numerosos echos; porque onde o numero dos ingratos e indignos -era grande, não podia o dos maltratados e queixosos ser pequeno: e d’ahi -nascêrão essas civis guerras da literatura a favor e contra o sexo, -guerras batalhadas nas salas e saráos, nos passeios em romagens, nas -merendas das comadres e nas academias, desde o Japão até Portugal, desde -os serões da arca diluviana até os nossos dias, em que o amor cedeo á -política, e as questões das mulheres ás questões dos ministerios: _Factus -est repente de cœlo sonus, tamquam advenientis spiritus vehementer_.... -Ahi vinha ja querendo-se intrometter o meu demonio meridiano: ápage! - -Para as grandes pelejas de que fallava, se despejárão todos os arsenaes -da mística theologia, da methafísica, da historia sagrada e profana, das -fabulas e anecdotas, da fisiologia e novellas. Ficou largamente juncado o -campo de cadaveres em folio, em quarto, em outavo, em doze, em dezeseis, -em trinta e dois, em sessenta e quatro; de pergaminho, de marroquim, de -seda, de taboa, de papelão, de carneira, de papel: defuntos quasi todos -sem amenta, e cujos nomes, se os houvesse de compilar, encherião maior -livro do que este. Depois do derramamento de tantos rios de tinta, ainda -pende a mesma questão; ainda até ao fim do mundo se tem de trazer para -ella couzas que pareção novas; e as cinzas de Lucrecia, Dido, Phryne, -Sapho, Aspasia, Arria, Cornelia, Osmia, Heloiza; Christina, Catharina, -Maria Thereza; as cinzas das que habitárão cazaes, harens, palacios, -mosteiros; as cinzas de Ninivitas, Gomorritas, Babilonicas, Espartanas, -Atticas, Romanas, Africanas, Botecudas, Amazonas bellicosas, Indicas -Bailladeiras, Viuvas Indostanicas, continuárão a ser revolvidas, pizadas -e adoradas por modos sempre differentes, e quasi sempre cegamente, até -á consummação dos seculos. A mulher fisica principia a ser conhecida, a -mulher intellétual sê-lo-ha, a mulher moral he o infinito. - -A mocidade, quadra da vida em que reinão os mais encontrados ventos, em -obras a maior vassalla e tributária do sexo, he, fallando, escrevendo, -e talvez pensando, a sua maior detrátora. Uma conversação de mancebos, -embora amantes, não se detem senão em rebaixar o merito das mulheres: -nascidos os disséreis das pedras de Deucalião e criados ás tetas das -lobas. Qual pode ser a causa d’esta mais que montezinha ferocidade? -Será inveja á superioridade modesta? será despeito de vencidos? não; -essas vitorias, e ainda essas superioridades em virtudes, que não são -as distintivas do nosso sexo, facilmente se perdoão. He a causa o mesmo -natural instinto, que faz que os soldados em tempo de guerra, seroando -entre as armas á fogueira ociosa do seu rancho, encareção as derrotas -do inimigo, e lhe assaquem fraquezas que não tem, para a si proprios -accrescentarem animos e determinação para as futuras pelejas. - -Facil he carecer das loucuras da idade que ja não temos, ou que ainda -não temos; blazona-se d’isso, mas não he virtude: carecer porem dos -vicios proprios dos nossos annos seria virtude, mas tão rara he, que o -despossui-la deve merecer vénia dos sizudos. Era eu em toda a fôrça de -minha adolescencia, quando entre coetâneos e a seu contento, cantava em -meus versos destinados os fracos e imperfeições de algumas mulheres, -como fracos e imperfeições de todas ou da maior parte. Da falsidade -que n’isso havia me corro, mas muito mais do pouco delicado tom do meu -cantar, porque se me figura agora delito ainda muito mais grave, do -que attribuir-lhes defeitos, o pintar-lhos inamavelmente: a graça he -o seu primeiro mérito, injuria-las graciosamente ainda não he de todo -injuria-las. De muita nuvem se desaffronta, e de mui grande carga respira -um coração confessando suas culpas, mormente quando pelas confessar -se torna a entrar absolto e regenerado na estima e benevolencia das -dominadoras do mundo: quasi se folga, como me está succedendo, de ter -tido a culpa, para merecer a vénia e saborear a reconciliação. - -Transfuga dos arraiaes dos levantados, ás trincheiras d’ellas me -recolho, não só com as armas com que as guerriei, para as defender, mas -com uma bandeira para chamamento e reunião de outros. Ressuscitaria, -se podesse, para o meu novo campo todos os bem nascidos espiritos das -idades cavalleiras e cortezes, para procurarmos salvar da ultima ruina -o feminil imperio, que de dia para dia vai sendo entrado, talado e -engolido da Política; fero monstro em que tão mal assenta feminino! E se -o conseguissemos, se os moços que deixárão os affétos pelos debates, as -sociedades pelos _clubs_, os versos e cartas apaixonadas pelos jornaes -frios e praguentos, quizessem volver a seu natural officio de amar, de -agradar e divertir-se, ¡como se não amaciaria esta bruteza quasi, cínica -de nosso tempo illuminado, em que se não sabe ler! A propria Liberdade -lucraria, porque os seus nervos e verdadeiros espiritos vitaes não são -outros senão as virtudes e as bondades: ¿e quem como as mulheres, nos -poderia ainda attrair da praça onde se briga, odêa e persegue, para a -casa onde se quer bem e se folga, para a cosa onde até á ultima velhice -nos educâmos, para a casa onde de bondades e virtudes nos dão ellas a -todos os momentos exemplos vivos e formosissimos? _Tellus, et domus, et -placens uxor!_ Oh se eu podesse mostrar este meu pensamento, como me -está florejando na alma! dizer com palavras a mulher como a sei no meu -coração!... mas feminina he a mão com que escrevo, ¿como dezenharia ella -o seu retrato? - - - - -_Pag. 261._ - -FIM DA FESTA DE MAIO. - - -Se o fim de qualquer obra he a sua coroa, custará a achar obra tão mal -coroada como esta _Primavera_. Dos quatro Poemas he a _Festa de Maio_ -o ínfimo, não contribuindo pouco para isso o seu estirado comprimento: -e da _Festa de Maio_ a ínfima parte he sem nenhuma dúvida a segunda e -última. Boa e mui fertil era a idea primitiva, na qual, mas só na qual, -mui casualmente me encontrára com o allemão Gerstenberg no dithirambo -que traz titulo _Chipre_. Desenvolveo elle a sua, pôsto que em prosa, -como poeta mui valente: derramei eu, e enfraqueci a minha em pobrissimos -versos (era tempo que na maior parte dos dias compunha trezentos e mais) -que bem podérão, sem detrimento de pensamentos, ser reduzidos ao terço -do seu numero. Ja poderei parecer importuno com tanto repetir confissão -das minhas faltas; mas antes isso, do que se diga que eu as córo ou -tapo, ou com tantos annos ainda não caí em as conhecer cabalmente. Quem -a este meu cortar pelas proprias roupas chamasse affétação, muito se -enganára comigo: censuro-me, não para atalhar alhêas censuras; menos -para provocar defezas aos que sempre folgão, quer em bem quer em mal, -de encontrar as opiniões dos que escrevem; mas censuro-me e em todas -minhas couzas marco seu preço, para que os agora principiantes lá ao -deante se não queixem de mim, como eu podéra agora queixar-me de outros, -com cujos livros me criei. Consciencia e Verdade, ainda em mesquinhas -letras, devem de ser escrupulosamente servidas: tem uma e outra alguma -couza de tão divinas, que por mais dolorosos sacrificios que de nós -lhes façamos, no-los pagão com íntima satisfação. Certo he que fazendo -o que eu faço, se corre perigo de vir a um grande dissabor, como he, -depois de sinceramente confessados os defeitos, saírem os nescios na -arte de criticar, e que nunca uma só linha escrevêrão, aproveitarem-se -cobardemente de taes revelações, vozea-las como descobrimentos seus, e -vingando-se de sua propria esterilidade, triunfar miseravelmente dos -descuidos, sem nenhuma menção das boas partes. Ja isso por mim passou -depois que dissertei ácerca da invenção da _Noite do Castello_. Onde tal -se escreveo, quem o escreveo, e como o escreveo não o direi, que não -quero em livros meus andar carreando dementes para a posteridade, se he -que meus livros tem de la chegar, como cá chegárão alguns bem ruins dos -tempos atraz. E a final, que valem semelhantes pregoẽs e taes pregoeiros, -comparados com as suas duas maiores inimigas que são a verdade e a -consciencia? podéra accrescentar a vergonha. Em meu conceito nada. Por -tanto sigão elles por seu caminho, onde se afogão em lodo, e todos lhes -cospem na face; e eu, que nem sequer os tenho em assaz de conta para os -odiar, continue o dar documentos do unico merito de que me prézo, que he -a candura. Para dar culto á Verdade e á Consciencia, não sacrificarei -alhêas famas, que me não pertencem, mas pela minha rasgarei afoito: -far-lhes-hei de meu sujeito intellétual, o que de seus corpos diz Fernão -Mendes que fazião la em Tinagoogoo certos penitentes, que em procissões -públicas se hião espedaçando ante os carros triunfaes dos seus idolos, -e por fim se arremessavão por deante das rodas, para serem talhados e -esmagados: _a que toda a gente_, como refere o bom perigrino, _com uma -grande grita dezia: pachiloo a furão; que quer dizer: a minha alma com a -tua. E decendo logo de cima do carro um sacerdote ... se chegava áquelles -bemaventurados ou malaventurados ... e ajuntando os pedaços e as cabeças -... os mostravão ao povo de cima do mais alto sobrado do carro onde hia -o idolo, dezendo n’um tom muito sentido:_ “_Rogai peccadores todos a -Deos, que vos faça dignos de serdes santos como este que agora morreo em -sacrificio de cheiro suave._” - -FIM. - - - - -MAIS PRIMAVERA. - - - - -ADVERTENCIA. - - -Os trez seguintes Artigos vem, _mutatis mutandis_, trasladados da _Guarda -Avançada_, Jornal campeão da CARTA e da RAINHA, como todos os d’esse -tempo, sem excétuar um unico; Jornal exagerado, e muitas vezes injusto -sem querer, como o serão sempre os redigidos por almas novas e ardentes, -sinceras e poeticas, inexpertas e temerarias, que presumem que uma -revolução póde realizar os filantrópicos sonhos de um solitario; Jornal -emfim de que eu fui collaborador, quando vivia para a política, ainda que -não da política, e do qual perante minha consciencia me recordo com pezar -mas sem peijo, porque talvez fez males e grandes males, não aspirando -senão ao bem. Tanto he verdade, que só a moderação he capaz de dar frutos -abençoados! Relêa-se o meu Prologo do _Tributo Portuguez_. Aqui não quero -accrescentar mais nada sobre materias, sim importantissimas, mas que eu -ja dou todas por um malmequerzinho dos campos. — Sáem pois os Artigos -substancialmente os mesmos. Pena será, se passado agora tanto tempo -depois de escritos, os que por la estão espectadores das couzas públicas -os acharem muito mais applicaveis aos presentes dias; e ainda maior -lástima, se para o deante não vierem a perder boa parte de sua verdade. - -Remato com o louvor, que no Prologo deixei promettido, de meu mestre e -amigo o Snr. Antonio Ribeiro dos Santos: fragmento copiado do _Num. 2_ do -_Jornal dos Amigos das Letras_. Se a alguem parecer que não cáe este sob -o titulo de _Primavera_, paciencia; recebão-no como Nota, agazalhem-no -como filho de gratidão. Para mim recende elle muita primavera de -puericia, e de um jardim das Musas. - - - - -MARÇO - -(PRINCÍPIO DA PRIMAVERA) - - -Eis aqui os primeiros dias da graciosa estação. Das flores lhe chamárão -os poetas; melhor podérão chamar-lhe flor do anno. A terra, como viuva -ainda verde que se enfeita para novas bodas, a terra pelo sol repassada -de amorosa quentura, vendo-o volver a afaga-la, depois de lhe haver por -tanto tempo fugido, arrêa-se de todas suas galas, esperançosa sorrí por -entre a sua grinalda florída, embebe-se em perfumes, acerca-se de musicas -voluptuosas, e suspira brandamente dentro nos arvoredos recem vestidos, -nos valles alcatifados, pelas margens dos rios outra vez serenos. Com -razão foi a Primavera consagrada dos antigos ás Musas e Graças: com razão -se escolhião as suas vésperas para o Pontifice Maximo accender o novo -fogo, que devia durar todo o anno: com razão os pais de nossa lingua -derão a esta parte do anno um nome feminino, e os pintores apparencias -de formosa moça; emquanto Estio, Outono e Inverno pela aspereza, pela -fôrça, pela gravidade, pertencião a outro sexo. Cada fonte se aliza em -um espelho; cada pedra se veste em assento aveludado; cada haste nua se -desaperta n’um ramalhete: tornão-se os bosques outras tantas republicas -populosas, cujos cidadãos, livres como as virações, voão, cantão, -brincão, acaricião-se, desposão-se, educão a sua prole bafejada do ceo, -e parecem não respirar senão o prazer da independencia, da ternura e da -melodia. A natureza revoca á vida innumeraveis especies de animaes de que -o Inverno só continha o germen; ás outras infunde, como aos passaros, -um contentamento, uma ligeireza, uma attráção, que o Inverno lhes havia -roubado ou amortecido. Do ceo chove fecundidade sôbre tudo que he vivo; -e tudo o que he vivo sáe trajado de festa, e por toda a parte encontra -mesa que Deos lhe assoalha, carregada de sua abundancia com luxo, -magnificencia e formusura. - -A humana especie não podia em tão geral favor ser esquecida, antes foi -o seu quinhão de todos o mais largo. O amor, que para nós não tem uma -estação exclusiva, n’esta entretanto se nos desenvolve com recrescida -atividade: he porque o proprio ar, empregnado de elementos vitaes, nos -está coando aos peitos uma extraordinaria energia: he porque tudo em -de redor exemplos são que nos cativão: he porque o alvoroço e festa do -universo convidão o coração a gozar: he porque ao florir da rosa dos -jardins, muita e muita rosa esmorecida se reanima nas faces da belleza: -he porque a voz da mulher então sáe, não sei como, ainda mais doce; e -tanto ellas mesmas sem o saber o sentem, que em toda a parte em que as -horas e circunstancias do seu canto não andão assentadas nas tarifas da -moda, insensivelmente se achão a cantar, e este novo attrátivo parece -n’ellas uma necessidade, como he nas aves da primavera. Dir-se-hia que -a natureza nos manda as flores nos dias em que o amor nos instiga a -offerecê-las. - -Mas os feitiços da Primavera não se limitão nos da recreação e amor. -Um medico vos dirá que he ella a estação da saude; um sabio a do vigor -mental; um navegante a do princípio de confiança nos seus mares: o -artífice a saúda como a que abre a porta a longos dias; o pastor como a -mãi da abundancia; o agrícola vê as esperanças do anno desparzidas por -suas terras, por suas vinhas, por seus pomares. Ah! só os homens das -cidades, tristemente condenados á fadiga e ao luxo, quasi não encontrão a -primavera no seu anno! Para esses reduz-se a mais algumas horas de luz, -e a uma pouca mais serenidade em um ceo sem horizontes. Se ao menos se -podesse esta serenidade reflétir nas nossas almas!... mas os redemoinhos -das novidades, os raios das intrigas ambiciosas, o frio do desalento -e carregadas nuvens ao longe esterilizão tudo, e se uma ou outra flor -de esperança nos desabrocha a medo, lá está logo a reflexão, filha do -conhecimento dos homens, que a faz com um sôpro desapparecer. O anno dos -nossos destinos teve um inverno bem longo e rigoroso: n’elle sulcámos -a terra para semear liberdade e ventura, adubámo-la com o nosso sangue -e corpos de nossos irmãos, regámo-la com o nosso suor e lágrimas; e -agora que nós e nossos filhos esperavamos ao menos a florescencia que -nos augurasse frutos para o futuro, a Deos approuve de outro modo, e uma -torrente de iniquidades, que não quer parar, continúa a assolar a terra -de nossos avós. - - - - -ABRIL - - -Este mez, assim chamado por abrir o seio da terra á fecundidade; -consagrado desde a infancia de Roma á Deoza da formosura, á Mãi das -Graças, Amores, e Jogos, he o primeiro que ouza, por debaixo ainda das -últimas nuvens chuvosas do inverno, sair e folgar com seu manto verde, e -bordado de flores. O dia da sua entrada era para os nossos antepassados -uma festa popular, menos estrepitosa que o Carnaval, de que parecia -imitação, mas tambem mais innocente e serena. Ignoro se esse costume -o herdárão elles de nações mais antigas, com quanto dos Romanos o não -houvessem, de quem tantos outros lhes vierão. Tão pouco me recordo de -haver lido alguma origem historica aos brinquedos rituaes do primeiro de -Abril; mas sabido he que elles existírão em nossa terra, e inda hoje se -lhes conservão os restos, mormente pelas Provincias. O dinheiro pregado -nas ruas, as cartas, e prezentes de lôgro, a pedra que chamavão das -agulhas, a fôrca de Judas, e outras quejandas bagatelas para rir, estão -entretendo n’esta hora bastantes dos nossos aldeões do norte. - -As lembranças velhas tem para mim muito grande saudade, e doçura; doe-me -o coração quando vejo ir-se perdendo estas seculares tradições que a -ninguem fazião mal, ainda que nascidas em berço de superstição, e que -de bom tinhão o transportar-nos a tempos sabidos, e remotos, ou a tempos -mais remotos ainda, e ignorados. E que he o que as apaga, e fica em seu -lugar? odios, pobreza, e desgraças. Oh! aonde estará um poeta amigo dos -serões e da innocencia, que se apresse em nos escrever os Fastos do -nosso bom Portugal? No meio da confusão desconsolada do presente, nós -beijariamos essa obra como santa reliquia em terra de infieis: veriamos -um iris vão mas brilhante, entre nuvens de tormenta. Para excitar -algum bom engenho a no-lo dar, he que eu coméço, e continuarei sempre -a recordar nos seus dias proprios as nossas antiguãlhas: o que farei -com muita avidez, porque d’aqui a alguns annos, o investiga-las será -ja tarde. Assim os pintores Italianos se deleitão copiando os restos -amortecidos das pinturas a fresco que sobre-vivem ao grande Imperio, -e os antiquarios trasladão avidamente os enrolados livros das cidades -soterradas, antes que de todo se desfação em pó. - - - - -MAIO. - - -He a apparição d’este mez uma festa da natureza, em que sempre os homens -se alegrárão: quizeramos poder tributar-lhe algumas flores pelas tantas -que nos elle concede. Não teçamos o seu encomio d’aquillo que sendo -sensivel a todos não carece de ser descrito. Zéfiros e rosas, rolas e -rouxinoes, abelhas e borboletas, a terra toda verde, o ceo todo azul, as -noites começando a fugir como envergonhadas de esconder as alegrias da -natureza, objétos são que ainda que desde a origem do mundo se apresentem -sempre novos, já se tornárão lugares communs nas descrições da poesia. -Voltemo-nos para as recordações; embalemos e adormeçamos com ellas por -um pouco o espirito martirisado dos absurdos e crueldades d’estes máos -tempos, em que ja se não crião fabulas risonhas e innocentes, coloridas -pela imaginação, animadas pelo amor. - -Forão os homens antigos os que idolatras da concordia, para melhor a -insinuarem á terra, collocárão nos astros a sua imagem brilhante, e ao -signo de Maio chamarão o signo dos Gémeos. Elles forão os que sensiveis -aos encantos das Artes, consagrarão este mez a um Deos, que vivificando -a natureza pela luz e calor, presidia com a Lira na mão aos prestigiosos -artificios que a embellezão. Almas petrificadas ha ahi, para quem estas -saudades do mundo antigo são frivolas, comparadas com um artigo de -gazeta; para nós he delicioso andar mergulhando pelo oceano dos seculos, -e não voltar a assentar-nos na nossa Ilhota escabrosa e esteril, senão -carregados dos coraes, das pérolas, das riquezas formosissimas, que se cá -não produzem. O fundador de Roma dedicou aos mancebos (_Juvenes_) o mez -de Junho; era essa a idade que lhe fazia ganhar vitorias, mas ja primeiro -havia consagrado o Maio aos velhos (_Majores_), porque feroz como era, -Romulo experimentava o afféto que nos attráe para com o antigo. Passemos -por alto Festas misteriosas da Deoza Bona, celebradas pelas Romanas no -primeiro de Maio, em todo o segredo dos Penates e sem testemunha de -varão; visitas das Vestaes ao Pontifice Maximo e principaes Magistrados -da Republica; contemplemos a expiação dos Lémures, pois que usos nossos -me parecem ter d’ahi recebido origem. - -Á meia noite levantava-se o pai de familias, hia-se descalço, calado, e -chêo de terror santo, á fonte, dando por todo o caminho amiudados estalos -com os dedos para afugentar os genios máos. Lavava trez vezes as mãos, -e tornando-se para casa, vinha atirando uma a uma, por cima da cabeça e -para traz de si, favas negras, de que trazia chêa a boca, e articulando -taes palavras—_com estas favas me resgato a mim e aos meus_:—o que por -nove vezes repetia, sem olhar para traz, para não espantar o espétro -que vinha apanhando as favas negras. Tomava agua por uma ou duas vezes, -batia n’um vaso de bronze, e para conjurar a sombra a lhe largar a casa, -por nove vezes repetia—_Sahi, ó manes paternos_.—Eis provavelmente -d’onde provierão estes sustos vagos que ainda se dão a sentir aos homens -rusticos no princípio de Maio; este uso de se repartirem e comerem -castanhas seccas para evitar que o Maio se apodere de nós. A imaginação -do bom povo perdeo de vista essas larvas, mas o medo que ellas produzírão -lhe ficou: he uma especie de moeda, que safada como está de passar de -mãos em mãos, ainda conserva a sua valia. - -Outros costumes de Maio tem o nosso Portugal, a que folgáramos que -alguem escavasse e descobrisse a raiz, sendo certo que na historia a -devem ter. O Maio pequenino, que seguido de todas as crianças do bairro, -corre enfeitado de flores, as ruas da cidade, ao som de um cantar antigo -e uniforme; aquellas mimosas Maias tão arraiadas e donosas, que á orla -dos caminhos se encontrão comprimentando os passageiros; aquell’outro -estilo, ja talvez hoje passado, de se deitarem n’um mesmo leito um casal -de creanças innocentes, para se lhes cantar em roda um como epithalamio, -ou trova de suas bodas; os descantes amorosos dados com a viola n’esta -occasião pelos aldeões ás suas escolhidas; não provirá tudo isto de -alguma ja perdida lembrança de cultos da Deoza Maia? E a usança de -ornar com flores Maias as portas e interior das casas, não será reflexo -distante dos festejos Romanos á Deoza Bona? - -A religião, que para si tomou ornato de tantas joias ao Paganismo, não -se desdenhou tambem de perfilhar este mez. Em muitas freguezias, pelas -nossas provincias do norte, o bom Parocho vai benzer no princípio de Maio -a bandeja de rosas que entre os devotos se distribuem e se commungão, -porque esta flor abençoada traz felicidade.—Vem depois aquellas tão -esperançosas, tão cantadas e tão sabidas Ladainhas de Maio.—Hoje os -camponezes de França vão plantar o seu Maio á porta das pessoas honradas -da sua freguezia: os Inglezes renovão de certo modo as antigas _Vigilias -de Venus_: os Gregos, como se os seus poetas d’outro tempo os inspirassem -ainda, e a era das Elegias tornasse a reviver, vão descantar amores e -pendurar grinaldas aos umbraes das suas inclinações: e os moradores de -Roma, segundo nos foi dito por quem lá foi a essa terra de saudades, -ainda agora se reunem na fonte de Egeria a respirar as delicias da -natureza, debaixo d’aquelle ceo de tanto amor, que não a pensar em Numa e -na grandeza antiga dos Romanos, de que a elles só veio em herança a terra -coberta de muitas ruinas. - -¿Para que servem todas estas memorias, nos estão perguntando os -insaciaveis de Politica? e nós não lhes sabemos responder senão que -a nós estes pensamentos nos fazem muito bem, e que aos amigos de -passatempos innocentes se não ha de prohibir o que a ninguem faz mal. -Deixai-nos ser algum dia do anno semi-pagãos. São as superstições da -Politica ambiciosa as que empecem á felicidade, mas estes graciosos -prejuisos de nossos pais a nenhuma couza do mundo danão. E de mais, -se havemos de dizer toda a verdade, a fé, que a estes pobres erros -acompanha, costuma trazer comsigo muita piedade religiosa, e n’ella -alguma doçura moral, que nem sempre vai por onde vai a desenganada -Filosofia. Ditoso d’aquelle engenho que podesse trazer outra vez ao -mundo a innocencia que nos lá ficou no paiz das fabulas! mas interromper -um sonho de poesia quando se julga que a felicidade vem apoz os nossos -passos, voltarmo-nos, como Orfeo, para a abraçar, e vermo-la fugir e -desapparecer n’um ai, e um mundo de realidades dolorosas estender-se -immenso deante de nós, oh! isto he muito triste! - - - - -_ÁCERCA DA PESSOA DO Sr. Antonio Ribeiro dos Santos._ - - -Pôsto que o escrever de Varão tão conhecido dentro e fóra d’este -Reino, qual foi o Sr. Antonio Ribeiro dos Santos, já possa a muitos -parecer escusado, o deixar de o fazer, mais que seja por alto, nem -a opportunidade da occasião mo consente, nem menos mo consentiria o -gôsto, que sempre do refrescar essas memorias me resulta; por quanto na -primavera de minha vida, e primeira manhã de minha poesia, foi que a boa -de minha fortuna me deu conhecer este Nestor de nossa Literatura, que -já então, ao cabo da sua longa e proveitosa carreira, ornado de muitos -méritos de sciencias e virtudes, respeitado e apontado de longe, pouzava -sereno e magestoso, aguardando pela sua hora, á beira da eternidade. - -Que fosse nascido nas terras do Douro, d’onde lhe prouve tomar nome -de Elpino Duriense; que fizesse com bons mestres seus estudos; que se -tornasse, lendo na Universidade de Coimbra, um de seus mais lustrosos -luminares; que na Igreja e no Estado occupasse mui subidos empregos; que -fosse o amigo e centro de quantos bons engenhos em seu tempo florecerão, -não faltará quem o escreva entre seus outros muitos louvores. Tão -pouco me deterei dispartindo entre a Jurisprudencia, a Historia, as -Antiguidades, a Literatura, e a Poesia o opulentissimo cathalogo de suas -Obras, cuja maxima, e por ventura optima parte, ainda até agora não viu -a luz. Não hão de ser mãos tão debeis como as minhas as que revolvão -tamanhos trofeos, nem em tão pequeno espaço como este coubéra retratar -completo Homem que abrangeu duas idades, bem fazendo-lhes mutuamente a -uma pela outra; anticipando em meio do seculo passado o gôsto, o apuro, -a filosofia d’este nosso; transplantando para o presente o estudo, a -boa fé, o saber do passado; e legando ao futuro thesouros que andou -desencantando das antiguidades remotissimas. Menos arremessados são meus -dezejos, e mais seguros, que só quero levar meus leitores a com este bom -velho encetarem conhecimento. - -Corre a primavera do anno de 1814 ou 15, que eu certo o não sei. A -morada de Elpino, que em um dos mais desafrontados altos de Lisboa está -formosamente situada, longe do bolicio, como bem cabia á sua indole -pacifica e genio estudioso, he um templo de Musas, religiosamente vedado -aos olhos e vozes de profanos, isto he dos máos e ignorantes, unicos -de todos os entes para quem sua porta e animo não erão hospedeiros. -Por aquellas salas, gravemente ataviadas á laia dos nossos antigos, de -sedas e arrazes, alcatifas, tremós, espaldares e soberbos quadros dos -mais perigrinos pintores, reina o silencio, e uma lembrança dos antigos -e abundosos tempos de nossos avós, que tanto conforma com os nobres e -portuguezes pensamentos de suas poesias, as quaes se raras vezes voão -sublimes, nunca, nem por sombras, desmentem da boa moral e sã filosofia. -Aqui o bom Elpino nos recebe cordialmente, a meus irmãos e a mim; os -filhos do seu amigo são seus amigos, os estudiosos das Musas portuguezas -e romanas são os seus amores. O ancião, que ainda entre sabios podéra -ser ouvido como oraculo, remoça-se conversando com meninos, apouca-se -para que o melhor comprehendão, orna-lhes a moral e o estudo com quantas -flores sabe; do centro da gloria lhes ensina por onde se abre o caminho -que para lá conduz; e pelo grande espirito e persuasão com que falla, -talvez consegue crear algumas vehementes vocações literarias. Outras -vezes nos convida para a bibliotheca, suas delicias, e nos acompanha -com a alegria na boca. Os seus olhos, como que ao fim de tanto lêr ja -quizessem descançar para sempre, não lhe alumião o caminho; e semilhante -áquelle grande Bardo Ossian, a quem velho e cego, piedosa conduzia a -moça Malvina para os logares usados de sua inspiração, no hombro de uma -menina, sua afilhada e leitora, segurava o bom de Elpino uma das mãos, -emquanto com a outra arrimada a um bordão, palpava o caminho, e se -ajudava em seu quebrado andar. - -Era a bibliotheca o íntimo retiro d’este ermitão do Parnaso, fugida para -longe das casas, pôsto que tão quietas, e frescamente assentada em meio -de muitas sombras, verduras e aromas de seu jardim, hortas e pomares. -Grandissima cópia de livros, longamente procurados e custosamente juntos, -e entre os quaes se estremavão no numero e riqueza os Gregos, os Romanos, -e os antigos Portuguezes, alí estavão juntos, entre o susurro estudioso -das ramas e os cantares descuidosos dos passaros. Um Apollo de marmore -com a sua lira em punho, parecia estar-se mui bem cabido e contente no -meio d’aquelle seu alcaçar, cercado de tantos seus cultores, servido por -tão venerando Sacerdote. Lembranças são estas que trago colhidas de minha -infancia, e que transplanto para aqui, por não querer que se percão. - -Áquelle Homem, n’aquellas tardes, e debaixo d’aquelle této, devo a grande -veneração que ainda hoje consagro aos meus livros latinos, não poucos -dos quaes mos deu elle proprio; e tocados de suas mãos poeticas, me -inspirão ainda agora poesia e virtude, até cerrados, e n’elles confio que -me hajão de servir de pranchas, com que n’este pélago de freneticas e -descompostas innovações, me não deixe, como tantos que mais valião do que -eu, totalmente sossobrar. Nos seus ouvidos indulgentes lançava não só as -primicias dos meus versos, mas ainda as traças e esperanças de obras que -borbulhavão de uma seiba virgem de quatorze annos. Escutava elle tudo com -desvellada benevolencia, umas vezes apontando-me melhores caminhos ou -mais faceis, outras desviando-me de commettimentos maiores que meus annos -e forças; agora revelando-me regras, logo insinuando-mas com exemplos, -com que sempre fiel e muito a ponto lhe acudia a memoria. Não he verdade -que ha em tudo isto um não sei que, por onde o que o pratíca não póde -menos ser de um grande homem? Oxalá meus esforços melhor houvessem -respondido a suas diligencias, ou me não houvesse elle desamparado no -começo da carreira, para a qual apenas me aparelhou! Sim, porque embora -me hajão a vaidade, a gratidão péde que eu publique, foi este Pontifice -das Musas que me iniciou no seu culto, e no seu paternal enthusiasmo -me disse—Tu serás poeta.—Scena digna de um pincel eloquente: um ancião -coroado de louros, e cego como Homero, sagrando ao culto da mais bella -das Artes, um menino cego como elle! - - - - -NOTAS - - -[1] Alguma vez publicarei o que acerca d’isto disputamos por Cartas, -de Lisboa para Coimbra, o Padre José Agostinho de Macedo e eu. Negava -aquelle escriptor, de incontrastavel talento, que a Poesia Allemã e -Suissa mais fosse do que a nossa rica em graças naturaes, e amena -frescura, antes affirmava que a nossa a excedia grandemente. Ou não -escrevia elle deveras, ou se convenceo do erro, como será de ver das -Cartas, quando ellas aparecerem. O motivo porque até hoje as tenho dos -publicos olhos resguardadas, outro não foi senão recêo de que se me -attribuisse a vãgloria a publicação de uma disputa em que tamanho sujeito -me cedeo, principalmente sendo notorio que o favor que em seus escritos -deu ás minhas primeiras tentativas poeticas e infantis, jamais o denegou -com o andar do tempo, antes o reforçou com mui graciosos louvores. - -[2] Conceder-lha-heis, se ja não tiverdes determinado emprega-la em outro -uso, ou fundar nesse sitio alguma caza de Commissão que nada faça, ou -algum quartel de guarda que legisle sobre os destinos publicos. - -[3] O Livro _Le mie Prigione_, quanto á utilidade prática leva, me -parece, a palma á _Imitação_ de Kempis. Em Kempis apparece a descrição -da caridade e piedade, em Silvio a applicação d’ellas aos successos da -vida. Kempis aconselha, Silvio ensina a perdoar, a amar, e a ser feliz, -em despeito da fortuna: dá o exemplo d’isso, he elle proprio o exemplo. - -[4] Quem bem reparar na justiça rigorosa (de cruel a taxaráõ alguns) -com que eu proprio trato a minha Musa, perdoar-me-ha quando por amor ás -nossas letras, aponto um defeito em meu mestre e amigo o Snr. Antonio -Ribeiro dos Santos. Inda assim, porque me não fique remordendo a -consciencia, como expiação, e mui suave, porei no fim do volume um penhor -do meu respeito e grato animo a tão grande varão; capitulo ja impresso no -_Jornal dos Amigos das Letras_, mas por isso mesmo apenas conhecido. - -[5] Meu irmão Augusto Frederico de Castilho. - -[6] Meu irmão Adriano Ernesto de Castilho. - -[7] As Senhoras Mellos, a quem pertence a Lapa e a Quinta das Canas. - -[8] Na _Primavera_ de meu Irmão Augusto Frederico de Castilho ha um lugar -parallelo, não quanto á expressão, mas quanto ao pensamento principal. -Releva porem que em duas couzas se advirta: a uma, que nenhum de nós -foi plagiario, nem o podiamos ser, porque todos compunhamos em segredo; -a outra, que o passo do poema, em que elle descreve Nize a figurar de -Primavera, leva grande vantagem de valia a estes versos! - -[9] Augusto Frederico de Castilho. - -[10] O meu amigo Jose Vitorino Freire Cardozo da Fonseca (_Etmiro_) tinha -começado em uma sua quinta na Beira um jardim, tal como o descrevo aos -seguintes versos, e que pretendia consagrar á minha memoria. Mal haja -aquelle, a quem semelhante penhor de amizade não enternece! - -[11] Veja-se a Quarta Edição do Diccionario chamado de Moraes. - -[12] Lamartine no Prologo de _Jocelyn_ - -[13] Em Maio se poem o ponto aos Estudos da Universidade, que eu -n’aquelles tempos cursava. Só os que por ahi tem passado, podem entender -o alvoroço com que he recebido. - -[14] Antigo nome da Serra de Estrella d’onde nasce o Mondego. - -[15] Por esta occazião me importa fazer um annuncio ao Publico. Ei-lo: -declaro que se esse Jornal inexperadamente acabou, não foi minha a culpa, -assim como de nenhum dos sócios, mas somente dos acontecimentos, assim -publicos como privados da Sociedade: com elle nunca tive outras algumas -relações senão as onerosas e de trabalho, que eu tomava comtudo com muito -gôsto. Todos os sócios o sabem, mas interessa-me que o saiba toda a -gente, para me salvar de quaesquer desasizadas reclamações. - -[16] Em podendo ser, publicarei um volume de poesias, que lá compuz -acerca d’aquella bemaventurada solidão, onde annos vivi ignorado e -contente, na residencia de meu Irmão Augusto Frederico. - -[17] Tudo isto, que eu julgava para sempre meu, passou! Aprouve a Deos -mostrar-me só de relance a felicidade! Pouco mais de dois annos a -illustre e digna sobrinha de Nicolau Tolentino de Almeida, a Senhora -D. Maria Izabel de Baenna Coimbra Portugal, se sacrificou toda a -felicitar-me: o Pai de todo o amor e de toda a virtude a chamou logo -para o seu seio: era aquelle um Anjo que faltava no ceo. Esta Nota ao -poema, vai como se achava feita quando ella ja me não escrevia, senão -a espaços, mas ainda se comprazia de me ouvir dictar. Quando o seu fim -era ja inevitavel, todos o sabião e talvez ella mesma, e eu contava -ainda com largos annos de fortuna. O mesmo advirto quanto ás mais Notas -e accrescentamentos d’este Livro, que tudo estava pronto (faltando só -algumas poucas notas que não fiz nem ja farei) antes do fatal dia um -de Fevereiro passado: dois se imprimio erradamente no Post Scriptum do -Prologo. Se outrem não tivesse conservado essa data, e me não advertisse -da inexatidão em que mal informado caí, ainda agora a podéra eu ignorar: -esse dia, as vesperas e os seguintes não tiverão para mim nenhuma ráia -nem de luz, nem do sôno, nem de alguma outra das couzas que estremão os -dias.—_12 de Maio de 1837._ - - - - -INDEX. - - - Pag. - - Ante-Prologo 5 - - Prologo 25 - - _Post-Scriptum_ 47 - - Epistola á Primavera 49 - - Dedicatoria a minha Irmã 51 - - Duas Palavras de Introdução 53 - - Epistola 57 - - O Dia da Primavera Poemetto 75 - - Dedicatoria a minha Mãi 77 - - Historia da Festa da Primavera 79 - - O Dia da Primavera Canto I - _A Manhã_ 95 - - O Dia da Primavera Canto II - _A Tarde_ 111 - - Notas ao Poemetto antecedente 131 - - Nota 1.ª (_Elmano e Filinto—versificação - esdruxola e aguda_ &c.) 131 - - Nota 2.ª de Augusto Frederico de Castilho 162 - - Os Cantos de Abril Idillio 167 - - Dedicatoria a meu Pai 169 - - Advertencia 171 - - Os Cantos de Abril 173 - - Nota ao Idillio (_Excerpto de alguns - versos da primeira Edição do Idillio, - rejeitados n’esta segunda_) 186 - - A Festa de Maio Poemetto 189 - - Dedicatoria ás Senhoras da Lapa dos - Esteios 191 - - Historia da Festa de Maio 193 - - A Festa de Maio Canto I 199 - - —— Canto II 225 - - Notas á Festa de Maio 263 - - Nota 1.ª (_Com a tradução para latim - dos amores de Galatea no Cant. 1 da - Festa de Maio_) 263 - - Nota 2.ª (_Piedade para com os animaes—alimento - animal_ &c.) 269 - - Nota 3.ª (_Em desaggravo das mulheres_) 291 - - Nota 4.ª (_Sôbre o 2.º Canto da Festa - de Maio_) 305 - - Mais Primavera 309 - - Advertencia 311 - - Março (_Princípio da Primavera_) 313 - - Abril 317 - - Maio 319 - - Ácerca da Pessoa do Sr. Antonio Ribeiro - dos Santos 324 - -FIM - - - - -Lista de Assignantes. - - - S. M. F. A RAINHA D. MARIA II. - S. M. I. A DUQUEZA DE BRAGANÇA. - S. A. R. O PRINCIPE D. FERNANDO AUGUSTO. - - A. A. A. Moreira. - Ab. M.ᵃ J. Paiva Manso. - Abrahão Weelhause. - A. Carneiro. - Achilles de Pereira. - A. Eustaquio da Silva. - Ag.ᵗᵒ de Castro da Gama Lobo. - —— José Pereira. - —— Roïz da F. Soares. - A. J. R. Leitão. - Albino F. de Figueiredo. - Conselh.ᵒ Alexandre Alb. de Serpa Pinto. _4 Ex._ - Alexandre Lahmeyer. - D. Alvaro. - Amaro Coutinho Pereira. - Anacleto José da Silva. - André Joaquim Ramalho. - —— Perez. - A. Neves de Sequeira. - Angelo Augusto Martins. - D. Anna C. Guimarães. - —— Ifig. do Valle de S. e Menezes. - —— Lucinda Mont.ʳᵒ - —— Ludovina. - —— Margar.ᵈᵃ Fructuoso de Ar.ᵒ - —— Victoria da Rocha Torres. - Anonimo. _2 Exempl._ - Anselmo J.ᵉ Braamcamp. - Ant.ᵒ Adolfo Ferr.ᵃ Sarmento. _15 Exempl._ - —— Adriano da Mata P.ᵗᵃ - —— Ag.ᵒ Per.ᵃ Lacerda. - —— Alves Souto. - —— Aluisio Jervis d’Atouguia. - —— Augusto Gonsalves. - —— B. de Brito e Cunha. - —— Cardoso e Silva. - —— C. da Costa e Sousa. - —— Coelho Bragante. - —— da Costa Paiva. 130 _Exempl._ - —— Dias d’Azevedo. - —— —— Monteiro. - —— —— Rodão. - —— Diniz Couto Valente - —— Ezequiel d’Aguiar. - —— F. Mag.ᵃᵉˢ Coutᵒ - —— F. Mendonça Arraes. - —— Frz. Alves Fortuna. - —— Florencio Reixa. - —— Fr. Alv. Guimarães. - —— Freire Castello Br.ᶜᵒ - —— de Freitas. - —— Gaud. S.ᵃ Monteiro. - —— G. Barreto de Pina. - —— Gomes Lima. - —— Glz. d’Alm.ᵈᵃ Rino. - —— Gueifão Bello Per.ᵃ - —— Guilherme da Costa. - —— Henriques Doria. - —— Jacinto Santarem. - —— Joaquim de Abreu. - —— Cons.ᵒ Antᵒ Joaq.ᵐ da Costa Carv.ᵒ 6 _Ex._ - —— Joaq.ᵐ Reis Junior. - —— —— da Silva. - —— —— Teix.ᵃ S.ᵃ - —— J. d’Oliveira Lima. - —— José d’Avila. - —— J.ᵉ Bot.ᵒ da Cunha. - —— —— Ferr.ᵃ de Sousa. - —— —— Glz. Basto. - —— —— —— Duarte. - —— —— de Oliveira. - —— J.ᵉ de Oliveira e S.ᵃ - —— —— R. Guim.ᵃᵉˢ 3 _Ex._ - —— —— de Sá Camello. - —— —— da S.ᵃ Milheiros. - —— —— de Sousa Martins. - —— —— Teixeira Leal. - —— —— de Vasc.ᵒˢ 20 _Ex._ - —— Leite Pereira Lobo. - —— Lopes de C. Alm.ᵈᵃ - —— Lour. Coelho. 5 Ex. - —— Luiz Nogᵃ e Freitas. - —— M.ᵉˡ R. Abranches. - —— —— Vargas. - —— M.ᵃ d’Almeida e S.ᵃ - —— —— de Campos. - —— —— Ferreira. - —— —— L. M. Queiroz. - —— —— Machado. - —— —— Thovar Lemos. - —— Martins dos Santos. - —— de Mello Breyner. - —— N. Roïz. Cancella. - —— Nunes dos Reis. - —— Pedro de Carvalho. - —— P. X. O. B. Leite. - —— Pereira de Faria. - —— Porfirio de Freitas. - —— Ramos Azev.ᵒ Maia. - —— Rib. Azev.ᵒ Bastos. - —— Ribeiro de Faria. - —— Sald.ᵃ R. Albuq.ᵉ - —— Samp. X. Casqueiro. - —— dos Santos Monteiro. - —— de Sá Per.ᵃ Samp. - —— da Silva Bastos. - —— da Silva Leitão. - —— S.ᵃ Monteiro. 2 _Ex._ - —— Sotero Sz.ᵃ Falcão. - —— Thomaz Aquino S.ᵃ - —— Vicente de Sousa. - —— Vieira de Carvalho. - A. P. Ardisson. - A. P. B. de Saldanha. - A. R. Sealy. - Assemblea Lisbonense. - —— Portuense. - Associação Civilisadora. - Augusto. - —— Frederico Ferr.ᵃ - Dr. Augusto Lavit. 2 _Ex._ - Augusto Maria Dermott. - —— Victor Sabbo. - Aureliano J.ᵉ de Moraes. - Ayres Sá Nogueira. 3 _Ex._ - —— da Silva Coelho. - - Balthesar Lopes do Calheiros e Menezes. - Bandeira—Ex-Governador do Castello. 4 _Ex._ - Barão d’Argamaça. - —— de Ruivoz. - Barnabé F. Paula Ataide. - Bartholomeu dos Martires. - Bento Alão. - —— de Almeida. - —— G. Brito Taborda. - —— Guilherme Klingleofer. 3 _Exempl._ - —— J.ᵉ Teixeira Penna. - —— de Moura Portugal. - —— Pereira. - Bernardino J.ᵉ dos Santos. - Bernardo José de Miranda. - Busch. - - Dr. Cabral Teix.ᵃ Moraes. - Caet.ᵒ Alberto Orlandi. - —— J.ᵉ Alves d’Araujo. - —— José M.ᵃ de Sena. - —— Xavier Diniz. - C. Almeida. - Camillo da Silva Ferraz. - Candido José Roïz Vieira. - Cap.ᵃᵒ Engenheiro Carv.ᵒ - Carlos Augusto Poppe. - —— Gould. 5 _Exempl._ - —— de Sá. - —— Vieira da Silva. - Carneiro. - Castro Almeida. - C. F. Altavilla. - Christovão M.ᵃ dos Santos. - Cipriano A. Rib. Freire. - Cipriano Dom. Vianna. - C. Lagrange. - D. Clara Clorinda Lopes Pereira de Vasconcellos. - Clem.ᵉ A. O. M. Alm.ᵈᵃ - —— Augusto Bolonha. - D. Clementina Adelaide da Silva Monteiro. - C. Massa. - C. M. Caula. - Conde da Cunha. - —— de Lumiares. - —— de Mello. 6 _Ex._ - —— de Villa Real. - Condeça de Belmonte D. Jeronima. - —— de Mello. 2 _Ex._ - —— de Villa Real. - Cosme José Dias. 10 _Ex._ - - Daniel Cesar S.ᵃ Ferraz. - —— Sotero Caio dos S.ᵗᵒˢ - D. A. R. Varella. - David Ubaldo S.ᵃ Leitão. - Diogo Ant.ᵒ de Sequeira. - —— Aug. C. Constancio. - —— P. Mtr.ᵒ Bandeira. - Domingo Garcia Peres. - Domingos Fr. Santos Lim. - —— Monteiro de Albuquerque e Amaral. - —— Ribeiro de Faria. - —— —— dos S.ᵗᵒˢ - Duque da Terceira. - Duqueza da Terceira. - - C.ᵉˡ E. C. C. F. Furtado. - Eduardo Frederico Lour.ᵒ - Emilia C. de Figueiredo. - D. Emilia Martinini. - Epifanio Fr. de Miranda. - Ernesto Adolfo de Freitas. - —— M. V. Montenegro. - —— José Ferreira. - - D. Faustina M.ᵃ das Dominações Simões. - F. C. de M. - Feliciano Alm.ᵈᵃ Vidal. - Fernando Affonso Giraldes de Mello e Sampaio. - Fernando Theod. Arnaut. - F. L. Bettencourt. - Figueiredo. 13 _Exempl._ - Filippe Folque. - Fortunato José Barreiros. - —— —— N. M. e Mello. - D. Francisca de Noronha. - Fran.ᶜᵒ Abrantes. - —— Adrião Pereira. - —— Affonso da Costa Chaves e Mello. 12 _Ex._ - —— Alves Souto. - —— —— Alm.ᵈᵃ Reixa. - —— Ant.ᵒ de Pinho. - —— —— Cerqueira S.ᵃ - —— —— F. S.ᵃ Ferrão. - —— —— dos Santos. - —— de Assis Almeida. - —— —— —— Alm.ᵈᵃ C.ᵗᵉ Real. - P. Francisco d’Assis Biga. - Fran.ᶜᵒ Brito P. Almeida. - —— Candido Mend.ᵃ - —— de Castro Freire. - —— C. Judice Samora. - —— da Conc.ᵃᵒ Soares. - —— Dias Brandão. - —— Eduardo Andrade. - —— Fabião de Mend.ᶜᵃ - —— Gaspar Lahmeyer. - —— Gomes Loureiro. - —— Joaq.ᵐ da Cunha Travassos Cast.ᵒ Branco. - —— —— da Fonseca. - —— —— dos Santos. - —— J.ᵉ de Freitas. - —— J.ᵉ de Sousa Nunes. - —— —— Tavares Junior. - —— Luiz de Sousa. - —— da Mãi dos Homens Annes de Carvalho. - —— M.ᵉˡ C. Pimenta. - —— —— de Negreiros. - —— M. Silvr.ᵃ Menezes. - —— —— de S.ˢᵃ Brandão. - —— —— de Maris Coelho. - —— M. Walsh. 4 _Ex._ - —— Nunes da Silva. - —— Paula Costa Feio. - —— —— Seg. Lemos. - —— —— S.ˢᵃ V. Boas. - —— —— V. Campos. - —— —— Zuzarte. - —— P. Taboada Junior. - —— P.ᵗᵒ de Magalhães. - —— Raim. d’Andrade. - —— da Silva Falcão. - —— Vieira S. Barradas. - Frederico Aug.ᵗᵒ Martha. - Fructuoso Dias Mendes. - —— —— de Paiva Card.ᵒ - F. Z. Fer.ᵃ d’Ar.ᵒ 5 _Ex._ - - Dr. G. Centazzi. - Gabriel Fran.ᶜᵒ Ribeiro. - —— Lopes de Lima. - G. A. Pereira de Sousa. - Gaspar dos Reis e Sousa. - —— Schindler. - D. Genoveva Victoria da Rocha Farinho. - D. Gervasia Joaquina de Sousa Falcão. - Greg.ᵒ Mag.ᵃᵉˢ Collaço. - Guilherme Ignacio Basto. - - H. D. Wems. - Henriq. J. Passos Chaves. - Hermano Estanisláo Orlandi. - H. Hodgson. 10 _Exempl._ - H. J. Moser. - H. O. Maya. 2 _Exempl._ - Honorio Ces. Mendonça. - - Ignacio Cabral Arez da Silveira Barros. - Vice Almirante Ignacio da Costa Quintella. - —— José de Sá. - —— P. Qt.ᵃ Emaus. - D. Ignez Raim. Prado. - D. Ildefonso Olheiro. - Isidoro H. C. Semmedo. - Izidro Costa. - - Jacinto de Freitas Oliv.ʳᵃ - —— José de Mattos. - —— José de Sá Lima. - —— de Sousa Falcão. - —— —— —— —— 2 _Exempl._ - Jacomo Pereira de Carv.ᵒ - J. Bento Pereira. - J. B. Massa. - J. B. S. L. de Almeida Garrett. - J. C. Bastos. - Jeronimo José da Silva. - —— Perᵃ Vasconc.ᵒˢ - —— —— da S.ᵃ Cardoso. - J. F. Danin. - J. F. Passos. - J. F. R. S. de Azevedo. - J. F. Thomaz. - J. G. Toussaint. - J. J. A. Redondo. - J. J. da C. J. - J. J. Loureiro. - J. J. Manitti. - J. M. Chaves. - J. M. F. Dias. - J. M. S. Freire. - João A. de S.ˢᵃ Queiroga. - —— A. Lobo de Moira. - —— Anastacio Simões. - —— Antonio Biga Nunes. - —— —— Colasso da S.ᵃ 2 _Exempl._ - —— —— Marques. - —— —— Pereira. - —— Bap.ᵗᵃ da Costa. - —— —— da Cunha Fer.ᵃ - —— —— e Mafaos. - —— —— Sabo Junior. - P.ᵉ João Baptista da S.ᵃ - João Bpt.ᵃ S.ᵃ Malafaia. - —— Bento da Costa. - —— Bonifacio Guimarães. - D. João da Camara. - João Coelho de Gibraltar. - —— —— da Silva. - —— Dias X. do Loureiro. - —— Ferr.ᵃ Azev.ᵈᵒ Junior. - —— —— Camp. 10 _Ex._ - —— —— dos S.ᵗᵒˢ S.ᵃ J. - P. João Franc.ᵒ B. Lança. - João Gomes Roldão. - —— —— dos Santos. - Dr. João Gonç. Miranda. - Dr. João Gonç. M. Robalo. - João Guilherme Caldeira. - —— Ignacio Curvo. - —— Januario V. Rezende. - —— José da Assumpção. - —— —— Ferr.ᵃ de Sousa. - —— —— Freitas Aragão. - —— —— Machado Ferr.ᵃ - —— Lameira M. V. Lobos. - —— Lourenço Ferr.ᵃ Braga. 4 _Exempl._ - —— Luiz de Sousa Falcão. - —— —— Talone. - —— Manoel de Aral. - P.ᵉ João Maria Cardeira. - João Maria Feijó. - D. João Martins Falcão. - João da Matta e Silva. - —— Mend. A. Barbarino. - —— Neves Gomes Eliseu. - —— Nogueira Gandra. - —— Nunes da Silva. - —— Pedro Coelho. - —— —— Heitor Alcant.ᵃ - —— —— Nol. Cunha. - —— Per.ᵃ Queiroz Basto. 20 _Exempl._ - —— Silva Fonseca. - —— Procopio Tavares. - —— Saecadura Botte Corte Real. 2 _Exempl._ - —— da Silva Falcão. - D. João Silva Pessanha. - João da Silva Serrão. - —— de Sousa Falcão. - —— Vic.ᵗᵉ P.ᵗᵉˡ Mald.ᵈᵒ - —— de V.ˡᵃ N.ᵛᵃ de Vasc.ˡᵒˢ Correia de Barros. - Joaq.ᵐ Xavier da Maia. - —— Ant.ᵒ Aguiar. 5 _Ex._ - —— —— Barbosa Torres. - —— —— da Costa. - —— —— da Fonseca. - —— —— Tenreiro. - —— —— Vidal da Gama. - —— Augusto Burlamaqui Marecos. - —— Barreto de Castilho. - —— Corrêa Moreira. - —— Felix Moreira 6 _Ex._ - —— Francisco Danim. - —— G.ᵐᵉˢ V.ʳᵃ Gaio. - —— José Bernardes. - —— —— Costa Macedo. - —— —— Costa Portugal. - —— —— da Cunha. - —— —— Dias Lopes de Vasconcellos. 3 _Exemp._ - —— —— Figueira. - —— —— Gião. - —— —— Lobo. - —— —— Marques Cald.ᵃ - —— Julio da S.ᵛᵃ Ferraz. - Cons.ʳᵒ Joaq. Larcher. - Joaq. Lucio Arbues M.ʳᵃ - —— das Neves Franco. - —— Pedro Abreu Lima. - —— Romão Lob.ᵗᵒ Pires. - —— da Silva Cordeiro. - —— da Silva Machado. - —— Torquato Alvares Ribeiro. _6 Exemp._ - —— Victor S.ᵃ Gosmão. - —— Urbano de Sampaio. - D. Joaq.ⁿᵃ Carlota Fons.ᶜᵃ - Jorge Oom. - José Anastasio Pereira. - —— Antonio de Almeida. - —— —— de Castro. - —— —— Cob.ʳᵒ d’Azevedo Gentil. - —— —— Mello Ar.ʲᵒ - —— —— da Silveira. - —— —— Soares M.ᵈᵉˢ - —— d’Ar.ʲᵒ Coutinho V.ⁿᵃ - —— —— Machado. - —— Aug.ᵗᵒ Correa Leal. - —— Bernardino Frazão. - —— de Brito. - —— Caetano Rebello. - —— Candido Alz. Torres Barata Araujo e Lima. - —— Carlos Cerveira Val.ᵗᵉ - —— —— da Costa P.ʳᵃ - —— —— Guimarães. - B.ᵉˡ José Cesar da Silveira. - José C. M. - —— do Coração de Jesus. - —— Crispim da Cunha. - —— Ricardo P.ʳᵃ Cabral. - —— Roïz. da S.ᵃ Vianna. - —— dos Santos Nazareth. - —— Servulo Costa e S.ᵃˢ - —— Silverio da Fonseca. - —— Silvestre de Andrade. - —— Sousa Falcão Senior. - —— —— —— Junior. - —— Tello Mag.ᵃᵉˢ Collaço. - —— Vaz Araujo Veiga. - José Victorino Freire da Fonseca Cardoso. - —— —— Zuzarte Coelho da Silveira. - Jovencio Pedroso Oliv.ʳᵃ - J. Paulo da Silva. - J. P. N. X. de L. Brito. - J. P. R. G. - J. R. Blanco. - J. R. Manco. - J. R. Pinto. - - K. Pinto. - - L. A. M. Brandão. - L. J. de Gouvea. - Leandro Capistrano d’Almeida Figueiredo. - Lourenço de Almeida. - —— Justiniano Lima. - —— M. Telles Mattos. - L. T. H. de Brederode. - Luciano S. Carv.ᵒ para si e seus amigos 40 _Ex._ - Luiza Mathey. - Luiz A. Bello Reis Junior. - —— Antonio de Freitas. - —— B. Ribeiro Vianna. - —— Caet.ᵒ Guerra Santos. - —— C. Alm.ᵈᵃ Botelho. - —— da Costa Pereira. - —— —— —— Pinto. - —— Joaquim de Sampaio. - —— José da Silva. - D. Luiz M.ᵃ da Camara. - Luiz de Mello Breyner. - —— —— —— Corrêa. - —— Miguel d’Azevedo. - —— O. da Costa. - - M.ᵉˡ Alves do Rio Junior. - —— Antonio Rodrigues. - —— —— Vianna. - —— Bento Rodrigues. - D. Manoel da Camara. - M.ᵉˡ de Castro Pereira. - —— —— —— e Silva. - —— Coelho Bragante. - —— Felix Oliv. Pinheiro. - —— Ferreira Borges. - —— Francisco Dias. - —— —— —— das Neves. - —— Gonçalves Pombo. - —— I. Cunha Menezes. - —— I. Moreira Freire. - —— Joaq.ᵐ Cardoso Castello Branco. 2 _Ex._ - —— —— Fortes. - —— —— Freire. - —— —— Moreira. - —— —— Pereira Silva. - —— —— Santiago. - —— José Cordeiro Galão. - —— —— Esteves Campos. - —— —— da Motta. - —— Maria da Rocha. - D. M.ᵉˡ M. Sousa Falcão. - M.ᵉˡ Per.ᵃ Lima Tavares. - —— Ramos. - —— Roïz Costa Salgado. - —— dos Santos. - —— Thomaz S.ˢᵃ Menezes. - —— de Vasconcellos. - —— Urbano. - Marcellino Ant.ᵒ Moraes. - D. M.ᵃ B. C. Vilella. - —— —— C. S.ˢᵃ Falcão. - —— —— Carlota Vidal Gama Lobo. - —— —— Carmo Guimarães. - —— —— C. Guimarães. - —— —— Clara Braamcamp. - —— —— F. Paes de Mattos. - —— —— H. Sousa Falcão. - —— —— José Ozorio. - —— —— J. Sanches Brito. - —— —— Luiza d’Albuquerque. 2 _Exempl._ - —— —— Magdalena Sousa. - —— —— Manoel Vidal da Gama Lobo. - —— —— M. Silva Falcão. - —— —— R. Sousa Falcão Ferreri. - —— —— Vicencia de Mello. - —— —— Xavier Falcão. - D. Margarida Silva Machado Figueiredo. - D. Marianna C. Ribeiro. - —— —— G. Pereira de Beça. - —— —— Noronha. - —— —— da Silva Machado Figueiredo. - Marquez de Fronteira. - —— de Saldanha. - M. F. da Costa. - Miguel Ferreira da Costa. - —— Fran.ᶜᵒ Saldanha. - —— João Coelho. - —— Joaquim Pires. - —— J.ᵉ Okeeffe. 2 _Ex._ - —— M.ᵃ Gomes de Andrade e Leiros. - M. J. M. Dantas. 2 _Ex._ - M. T. H. de Brederode. - - N. H. Klingelhoufer. 3 _Exempl._ - D. Nicasio Canete y Moral. - Nicoláo Maria Nobre. - Nicoláo C. P.ᵗᵒ Queiros. - —— S. James. - Nuno José Gonçalves. - - Pedro A. N. Domingues. - D. Pedro Cunha Menezes. - Pedro Jacome de Calheiros e Menezes. - —— José de Oliveira. - —— M.ᵃ Costa Almeida. - —— Paulo Ferr.ᵃ Sousa. - —— —— Vasconcellos. - —— P.ᵗᵒ Moraes Sarm.ᵗᵒ - Bacharel Pedro dos Santos Freire. - Pedro da Silva Ferraz. - —— de Sousa Cardoso. - P. G. Toussaint. - P. M. Lagan. 4 _Exempl._ - Prior da Magdalena. - —— de Marv.ᵃ de Sant.ᵉᵐ - —— do Milagre de Sant.ᵉᵐ - - Quintino Teixeira Carv.ᵒ - D. Quiteria da Silva Machado Figueiredo. - - Rafael Antonio de Brito Pimenta d’Almeida. - —— Archanjo de Carv.ᵒ - Reis e Irmão. - Roberto Wanzeller. - Rodrigo de Azevedo Sousa da Camara. - —— José Dias Lopes de Vasconcellos. - —— Limpo Rav.ᶜᵒ Pereira de Lacerda. - Rosa Coelho de Gibraltar. - D. Rosa Dioguina Lopes Pereira de Vasconcellos. - - Sebastião André Xavier. - —— Casqueiro Vieira Gago. - —— de Gargamala. - —— J. Villaça Gama. - —— Xavier Botelho. - Servulo M.ᵃ de Carvalho. - S. J. de Gouvea. - Silencio Christão Barros. - Simplicio Moura Mach.ᵈᵒ - - Tertuliano Turibio Lobato Pinto Ferreira. - D. Ther.ᵃ Hedeviges Leite de Moraes Castilho. - —— —— Maria Botelho. - —— —— Miquelina Alves de Sousa. - —— —— Theodora da Soledade Martins. - —— —— Xavier Botelho. - Thomaz Aq.ᵒ S.ˢᵃ 2 _Ex._ - —— Pinto Saavedra. - —— Rufino Monteiro. - Thomé A. Frnz. Roxo. - Torcato Francisco Carn.ʳᵒ - - D. Vasco Guterre Cunha. - Vicente Altavilla. - —— Pires da Gama. - D. Vic.ᵗᵉ Segur. Menezes. - Victorino José Gomes. - —— Manoel de Oliveira Mascarenhas. - Visconde do Porto Covo. 2 _Exempl._ - Vital Jorge Maia Canhão. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRIMAVERA *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. 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General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. 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