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-The Project Gutenberg EBook of Os contos do tio Joaquim, by
-Rodrigo Botelho da Fonseca Paganino
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
-almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
-re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
-with this eBook or online at www.gutenberg.org/license
-
-
-Title: Os contos do tio Joaquim
-
-Author: Rodrigo Botelho da Fonseca Paganino
-
-Release Date: September 27, 2020 [EBook #63317]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS CONTOS DO TIO JOAQUIM ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
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-
-15.º VOL. DA COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
-
-OS CONTOS DO TIO JOAQUIM
-
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-
-
-[Illustration: RODRIGO PAGANINO]
-
-
-
-
- COLLECÇAO ANTONIO MARIA PEREIRA
-
- RODRIGO PAGANINO
-
- OS CONTOS DO TIO JOAQUIM
-
- 3.ª EDIÇAO
-
- [Illustration]
-
- LISBOA
- PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
- LIVRARIA EDITORA
- _50, 52, Rua Augusta, 52, 54_
- 1900
-
- Typographia da Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
- _11, Beco dos Apostolos, 1.º_
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- Prefacio da 2.ª edição 5
-
- I—O tio Joaquim 13
-
- II—O romance de um sceptico d’aldeia 21
-
- III—A proposito da missa do dia 37
-
- IV—Os domingos de fóra da terra 49
-
- V—Os retratos de familia 59
-
- VI—O fructo prohibido 69
-
- VII—A gallinha da minha visinha 95
-
- VIII—O guarda do cemiterio 107
-
- IX—Como se ganha uma demanda 133
-
- X—O sexto mandamento 155
-
- XI—O Thomaz dos passarinhos 173
-
- XII—A historia do narrador 199
-
-
-
-
-PREFACIO DA 2.ª EDIÇÃO
-
-Rodrigo Paganino e a critica
-
-
-Um livro apparece, ao fugir do anno! Quando o sol está descoberto, quando
-tudo se cala no campo, como se o frio gelasse os menores ruidos, quando
-um somno lethargico se apodera das plantas, e as esperanças, a alegria,
-as flôres desapparecem da terra, um mancebo atira aos destinos o seu
-primeiro livro, atravez dos nevoeiros de dezembro!
-
-Depois, como se fosse ainda pouco esta especie de ironia á sorte, _habent
-sua fata libelli_, declina a gloria de auctor sobre um pobre homem a quem
-conhecera em tempos, e que não tinha de litterato senão saber guiar uma
-junta de bois, conduzir a rabiça de um arado, ser grande menino na poda
-e na empa, e, para fazer um pé de lagar ou erguer uma meda de pão, dar
-conselhos apenas comparaveis aos do _Archivo Rural_!
-
-Tio Joaquim se chamava esse amigo, que, depois de narrar muitas historias
-a Rodrigo Paganino, lhe disse poucos momentos antes de morrer:—«Agora
-acabaram-se os contos. Lembre-se de mim quando se lembrar d’elles; é a
-herança que lhe deixo.» Para outro qualquer, este legado teria algum
-parentesco com o de Rebollo pae, que na hora extrema concedia a seu filho
-a certeza de lhe deixar uma boa cabeça; mas Rodrigo Paganino, para honrar
-a memoria do velho, entendeu que devia dos contos d’elle fazer um bom
-livro, e foi o que fez!
-
-Ha qualidades n’esta obra que bastam por si sós para firmar a reputação
-de um escriptor. Um estylo espontaneo, claro, sem arrebiques nem
-pretenções, mas airoso, facil, cheio de côr, de propriedade, e, o que
-mais é, de razão. Conhece-se apenas que é um mancebo quem escreve, pelos
-dotes de imaginação, pela graça das divagações, pelo tom breve das
-phrases; a idéa é sempre séria, prudente, exacta. Não se deixa levar
-de extravagancias que tendam a affectar excentricidade; é excentrico
-ás vezes sem se sentir, excentrico com chiste, excentrico com feição.
-Não planeia os effeitos, não prepara a phrase final, não hesita ante
-um adverbio por ser commum; concebe a acção, dispõe-a, depois deixa-se
-ir escrevendo, com uma rapidez, com uma veia, com uma facilidade de
-elaboração, que julga sentir-se a penna a conduzil-o, em vez de o sentir
-a conduzir a penna. E isto é o que dá a principal individualidade do
-livro, é este o segredo d’aquella maneira regular e serena, que só
-procura encantos na sua simplicidade. Faz-me lembrar os primeiros
-livros d’Alphonse Karr, em que elle escrevia ao publico como a um amigo
-desconhecido, cheio de familiaridade e de confiança. Rodrigo Paganino é
-d’esta familia de talentos; não procura impôr-se ao leitor; simplesmente
-trata de se identificar com elle. O merecimento dos _Contos do tio
-Joaquim_ não consiste na maior ou menor novidade da fabula, nos effeitos
-de surpreza mais ou menos habilmente preparados, mas na pintura dos
-caracteres e dos costumes. Cada um dos seus personagens é desenhado com
-tanta espontaneidade, que fica vivo, real, palpavel, e toma o seu logar
-n’esta grande familia de seres creados pela arte, mais verdadeiros do
-que a verdade, particulares e geraes, individuaes e humanos, corpos de
-carne transfigurados em estatuas. Ha escriptores para quem a rapidez de
-trabalho é uma condição favoravel, e com o auctor d’este livro julgo
-dar-se este caso; se elle escrevesse com uma pachorra de academico, faria
-talvez um livro indigerivel. O seu estylo é claro, preciso, e franco; e,
-a exceptuarmos algumas raras passagens em que apparece o auctor, cada
-personagem falla perfeitamente a linguagem do seu caracter.
-
-Encontrei-me com o auctor dos _Contos do tio Joaquim_, ao entrarmos na
-vida; fizemos aulas juntos, e juntos fizemos versos; tinhamos quinze
-annos então:—hoje encontramo-nos de novo, cada um de nós, como outr’ora,
-com o seu livro na mão, mas a differença é que do livro que levamos hoje
-somos nós o auctor! Isto é mau, ou, pelo menos, bom não é. Mais valia
-talvez ser estudante ainda. Ao vêr-se no frontespicio de uma obra o nome
-do que a escreveu, qual de vós cogita que foi á força de trabalho, de
-paciencia, de miseria supportada heroicamente, de privações e de luctas
-de toda a especie, que ao fim de alguns annos, ao vencer os ataques da
-critica e as invectivas da inveja, teve um homem o direito de escrever
-o seu nome na primeira pagina de um volume, esquecendo-se de que o
-injuriaram no seu talento, na sua vida, no seu coração, e que o seu peito
-serviu de alvo luminoso ás flechas atiradas de noite por uma cambada de
-archeiros invisiveis?!
-
-Para viver tranquillo e feliz, é melhor fechar hermeticamente a porta, e
-não abrir a quem bater, sobretudo se fôr a gloria. Apesar da sua mascara
-de anjo, não passa do esqueleto vestido de lantejoulas; namora-se uma
-pessoa d’ella, para se arrepender depois centos de vezes; em todo o
-caso, hoje que o barco vae n’agua, como dizem os maritimos, é continuar
-a remar! Que atraz dos _Contos do tio Joaquim_ venha outra obra, na
-certeza de que, digo-o sem cumprimento ao auctor, o despedir-se o anno
-por este livro é o sufficiente para deixar lembranças na litteratura.
-
- Dezembro de 1861.
-
- JULIO CESAR MACHADO.
-
- * * * * *
-
-Appareceu um finalmente, um livro, cujo auctor abençoei com todas as
-veras do meu coração. Infeliz! Morreu já.
-
-A meu vêr, desappareceu com elle um dos mais promettedores talentos de
-romancista popular que teem surgido entre nós. O auctor era _Rodrigo
-Paganino_, o livro _Os contos do tio Joaquim_.
-
-A imprensa havia recommendado pouco este livro.
-
-Tem d’esses descuidos a imprensa. Li-o por isso sem a menor prevenção
-favoravel. Mas era justamente um livro assim, que Reine Garde pedia; é
-d’este genero de litteratura que o povo precisa; é por esta fórma que se
-resolve a importante questão das subsistencias intellectuaes, não menos
-valiosa do que a que occupa as attenções dos economistas.
-
-Pouco tempo antes, discutia-se primazias entre os Lusiadas e o poema
-do sr. Thomaz Ribeiro; tratava-se de tirar a limpo qual dos dois seria
-preferivel como livro para leitura nas aulas de instrucção primaria.
-
-Todos se lembram d’essas renhidas controversias. Eu por mim nunca
-pude tomal-as a sério n’aquelle ponto. Achei sempre muita graça ao
-empenho em que via mettidos os criticos. Quem se podia convencer
-sériamente que qualquer d’aquelles excellentes livros fosse proprio
-para as intelligencias infantis dos pequenos leitores? Um com o seu
-sabor classico e epico e suas comparações mythologicas, o outro com o
-seu pronunciadissimo caracter de lyrismo e suas imagens romanticas e
-arrojadas, e ambos a suscitarem fundamentadas apprehensões nos mestres
-por um ou outro episodio que, baldados os esforços dos criticos, ninguem
-poderá considerar como demasiado edificantes.
-
-Ora, quando eu li o livro de Paganino, pareceu-me encontrar n’elle
-justamente tudo o que debalde os criticos procuravam nos outros. Aquelle
-sim que era um livro verdadeiramente escripto para o povo e para as
-creanças! livro em que a attenção se prende pela verdade, em que o gosto
-se educa pelo estylo, em que o sentimento se cultiva por uma moral sem
-liga, porque é a moral do decalogo e do evangelho; livro escripto segundo
-o programma estabelecido por Lamartine n’aquelle bello prefacio da
-_Genoveva_ e talvez mais fielmente observado ainda por o nosso romancista
-do que por o proprio legislador. Lembra-me bem que o li a um rancho
-de raparigas do campo e pude observar como ellas o comprehendiam sem
-custo. Não havia uma palavra que ignorassem, uma maneira de dizer que
-lhes causasse estranheza, as imagens faziam-as sorrir pela exactidão,
-como sorrimos ao vêr o retrato fiel d’uma pessoa conhecida; não eram
-caracteres extravagantes, paixões excepcionaes, situações inesperadas
-e unicas o que assim lhes absorvia a attenção; pelo contrario, era por
-aquelles personagens pensarem, sentirem e viverem como ellas, que tanto
-lhes interessava o livro.
-
-Foi uma grande perda a de Rodrigo Paganino! E, vejam, aquelle volume,
-escripto para se lêr no campo, como eu o li, junto á fogueira que crepita
-no lar, sobre a ponte rustica que atravessa o ribeiro ou no degrau da
-ermida que, elevando-se no topo do monte, domina a aldeia toda, passou
-quasi desapercebido no mundo das lettras. Não suscitou esse murmurio
-litterario, que acompanha certas obras felizes; murmurio em que se reune
-o louvor á maledicencia, a hyperbole laudatoria á calumnia escandalosa,
-os guindados elogios ás censuras exageradas. Foi um livro annunciado
-apenas, lido por poucos, comprado por menos, livro cujo auctor não tem
-sequer o seu retrato gravado na _Revista Contemporanea_ e que por tanto
-quem quer tem o direito de desconhecer. E apezar de tudo isso, aquelle
-livro, como disse não sei quem a respeito de não sei que obra, era alguma
-coisa mais do que um bom livro: era uma boa acção!
-
-Acceitem-se-me estas palavras, não a titulo de critica litteraria,—Deus
-me defenda de pretenções a esse genero—, mas como um tributo rendido á
-memoria de um escriptor infeliz a quem sou devedor de algumas horas de
-incomparavel prazer, que a sua leitura me proporcionou.
-
- Maio de 1861.
-
- JULIO DINIZ.
-
- * * * * *
-
-Rodrigo Paganino morreu ha pouco menos d’um anno, deixando de si, como
-homem, muita saudade em muitos; e, como escriptor, um livro precioso,
-e não somenos inedito. Morreu, passou, desappareceu d’entre amigos,
-levantou-se aos vinte e oito annos, como Gilbert, do banquete da vida,
-trocou a purpura do genio pela mortalha funebre; e a raça enorme dos
-papagueadores, dos chroniqueiros, dos assopradores encartados de
-reputações e de nomes, quando o via passar para a sua cova tartamudeou
-quatro palavras de _requiem_, como se a terra se tivesse defecado d’algum
-sandeu ou estadista.
-
-Apenas Bulhão Pato n’uma breve noticia cheia d’aquella eloquencia que
-nasce dos mais entranhados affectos, apenas elle espargiu sobre a
-sepultura d’aquelle moço algumas flôres de saudade.
-
-Isto é a verdade, verdade amarga é bem certo, porque attesta a
-deslealdade d’esses applausos que por ahi resoam, o immerecido d’esses
-triumphos que por ahi campeam, o nada d’essas glorias que por ahi
-balzonam, o facticio d’essas proeminencias que por ahi se decretam.
-
-Em 1861 Rodrigo Paganino publicou os seus _Contos do tio Joaquim_. O
-que este livro significa, que o digam com a mão na consciencia todos
-esses criticos, florentissimos e profundos, que entendem por ahi de
-litteratura. Para mim, o que elle importa, é nada menos do que a
-implantação, entre nós, da litteratura popular. O nosso povo, quer dizer,
-a porção menos cultivada e mais numerosa da sociedade, carece de livros
-proprios. Rodrigo Paganino sentia, comprehendia esta falta; e foi no
-intuito, senão de a remediar completamente, ao menos de a attenuar pela
-sua parte, e de chamar a egual trabalho os obreiros do futuro, que elle
-escreveu o seu livro.
-
-Ouçamol-o: «Entre nós, n’estes ultimos tempos sobre tudo, a litteratura
-tem desprezado um tanto o gosto popular. Não acontece, porém, o mesmo em
-França, em Allemanha, e nos demais paizes, em que, segundo nos consta, se
-cura d’estas coisas e se lhes attendem os resultados.»
-
-Mais abaixo continua:
-
-«Os _Contos do tio Joaquim_ pertencem ao genero das obras de Emilio
-Souvestre, e deveriam tomar logar, pela natureza e não pelo merito,
-proximo d’aquella mimosa collecção que elle intitula—_Au coin du feu_.»
-
-Este é que é o valor litterario da obra; este é que é o seu alcance
-philosophico.
-
-Hoje, a primeira condição de quem escreve, é ser essencialmente popular.
-Quando o povo não se eleva, como na Allemanha, á comprehensão do bello, é
-forçoso que o escriptor desça até elle, que lhe desenvolva a razão, que
-lhe eduque o espirito, que lhe vibre a sensibilidade.
-
-Acabaram-se os almotacés da critica; o gosto é livre como a consciencia.
-
-«Os livros para o povo, diz Lamartine na _Genoveva_, devem ser historias
-simples e interessantes; inspiradas dos costumes, das profissões, das
-amarguras, dos contentamentos do lar e da familia, e escriptas quasi
-na linguagem do povo; devem ser como que o espelho onde elle se veja
-em toda a sua simplicidade e candura; mas que em vez de reflectir as
-suas abominações e torpezas, reflicta com preferencia os seus bons
-sentimentos, os seus trabalhos, as suas dedicações e virtudes, para lhe
-dar o amor de si proprio, e ancia do aperfeiçoamento moral e litterario.»
-
-E acaso não são isto mesmo os _Contos do tio Joaquim_?
-
-Não se filiam n’esta escola _Os retratos de familia_, _O sexto
-mandamento_, _O Thomaz dos passarinhos_, e _O romance de um sceptico_?
-
-Creio que me não engano; diz-m’o o coração, pelo menos, que é quem
-decide, em regra, do valor d’estas obras, que são todas coração e
-sentimento.
-
-O livro de Paganino prima, incontestavelmente, pela sublime simplicidade
-do estylo, e purissima verdade de affectos. O primeiro dote era resultado
-da espontaneidade, da fecundidade, da força viva de imaginação, da caudal
-impetuosidade das idéas, do genio, emfim. O segundo refluia-lhe inteiro
-do coração,—do coração que lhe era manancial perenne de amarguras, depois
-de lhe ter sido ludibrio de desenganos crueis, das illusões dobradas, dos
-sorrisos desleaes e das palavras traiçoeiras, com que este mundo costuma
-pagar liberalmente a sinceridade do amor e das affeições mais intimas.
-
-Que Deus perdôe, como elle havia perdoado, a quem pensou que esmagar o
-coração de um homem valia tanto, ou talvez menos que espedaçar o mais
-futil brinco de creança!
-
-Relevem-me o intempestivo da digressão; eu torno ao meu logar de critico.
-
-Publicados os _Contos do tio Joaquim_, Paganino, apesar do mal que
-o definhava a olhos vistos, e que elle, melhor do que ninguem,
-comprehendia, pensou em escrever successivamente algumas obras já
-delineadas. Em Pedrouços começou o romance _Aos vinte e dois annos_,
-romance a que se prendiam muitas saudades e ungido com muitas lagrimas;
-escreveu _Beatriz_, pequena historia affectuosa e apaixonada; e, afóra
-isto, um grande numero de trabalhos de indoles diversas.
-
-Quando o futuro se lhe abria mais esplendido, quando a lição e a
-experiencia lhe amadureciam as prendas naturaes, quando aquelle fecundo
-talento devia produzir fructos mais sasonados, a morte veiu arrancal-o
-aos carinhos de uma familia estremecida, ao affecto de amigos que tanto o
-bem queriam, e á gloria certa que o esperava.
-
-Os seus escriptos inéditos lá jazem na obscuridade, em quanto por ahi
-pompeam radiantes tantos abortos malfadados.
-
-E os governos dos conventiculos, das commissões rendosas, das subvenções
-pingues, das prodigalidades ás mãos cheias, não sabem que ao lado d’esse
-progresso que faz machinas de vapor e telegraphos electricos, deve andar
-sempre, de continuo, emparelhadamente, o progresso que derrama a luz, que
-arrôtea os espiritos, que os educa, que os esclarece, que os distrahe,
-que os moralisa, e que vae desenvolver no coração muitos germens de
-grandiosos instinctos. Não sabem que, na vida dos povos, seis ou dez
-kilometros de linha ferrea não influem mais que a publicação de um bom
-livro.
-
-É que elles cuidam, como diz o sr. Castilho, que nada ha sério, senão o
-coadjuvar ou impecer o bulicio governativo.
-
-Isto disse eu por me lembrar que essas paginas de preço, escriptas por
-Paganino com tanto amor e tanto fogo, é provavel que, cedo ou tarde, se
-percam de todo, quando, dadas a lume, ganhariam mais um louro para elle,
-e mais uma gloria para a patria.
-
- Maio de 1864.
-
- E. A. VIDAL.
-
- * * * * *
-
-Os _Contos do tio Joaquim_, livro de alto merecimento litterario, devido
-ao mallogrado homem de lettras, Rodrigo Paganino, que uma terrivel e
-fatal doença—a tysica pulmonar—arrebatou do mundo na primavera da vida,
-appareceram ha mais de vinte annos, quer dizer, n’uma epocha afastada,
-em que ainda ninguem fallava de processos realistas para a factura de um
-romance.
-
-Pois apesar de não ser ainda conhecida n’esse tempo a escola realista,
-os _Contos do tio Joaquim_, mostram-se já seguidores dos seus preceitos
-pela naturalidade, singeleza e sentimento espontaneo das respectivas
-descripções.
-
-Rodrigo Paganino, antes e depois de concluir em S. José o seu curso de
-medicina, foi um escriptor pujante, floreando na imprensa como jornalista
-notavel e no theatro como dramaturgo distincto.
-
-Á pujança do seu talento não correspondia infelizmente o vigor do seu
-organismo; por isso a morte o derrubou a meio da carreira da vida, quando
-elle punha todo o seu empenho e boa vontade em terminar para o theatro de
-D. Maria uma comedia em 4 actos.
-
-Infeliz Paganino! e duplamente infeliz, porque não gosaste, como homem,
-o lado risonho da vida, nem podeste, como escriptor, deixar apoz ti os
-fructos amadurecidos do teu brilhantissimo engenho.
-
- Abril de 1885.
-
- PINHEIRO CHAGAS.
-
- * * * * *
-
-Ultimo adeus a Rodrigo Paganino
-
-(_A. Francisco Montez de Champalimaud_)
-
-_1867 Agosto, 3._—Amigo do coração:—Hontem de manhã fomos esperar, no
-cemiterio dos Prazeres, os restos mortaes do nosso querido e desventurado
-amigo Rodrigo Paganino. Fomos sete, apenas, os que nos lembrámos de
-cumprir a dolorosa missão: José Elias Garcia, Manuel Roussado, Ricardo
-Cordeiro, Carlos Barreiros, Eduardo Gomes de Barros, José d’Avellar e
-eu. Ninguem mais! O ceu estava alegre; o sol brilhava com o natural
-esplendor do estio. Parecia uma pungente ironia á tristeza que apertava
-os nossos corações, em presença d’aquella sepultura! É porque os jubilos
-são apanagio do ceu, e as lagrimas a triste condição do mundo! A morte,
-meu amigo, phenomeno naturalissimo, trivialissimo, mas que nos espanta
-sempre, quando vem ferir o homem na força da vida, e o arrebata no
-momento em que a sua intelligencia começava a dar luz á humanidade, a
-morte, n’essas circumstancias, parece-nos um impossivel. Olhando para
-a arvore secular que abrigou á sua sombra o viajante, que floresceu em
-centos de primaveras, que produziu abundantissimas colheitas de fructo,
-se a vêmos cair falta de seiva, dizemos: «Cumpriste a tua missão;
-deste-nos sombra; embellezaste-nos com as tuas flôres; saciaste-nos com
-os teus fructos; chegou a tua hora; caiste porque eras da terra», e
-saudamol-a com veneração! Mas vendo a arvore robusta, que abre com as
-flôres do seu primeiro abril, flôres que são prenuncio de magnificos
-fructos, fulminada subitamente pelo raio, enfurece-nos a protervia do
-raio! Assim a morte, quando vem cortar o genio em flôr, nos produz
-muitas vezes o desespero! Rodrigo Paganino saía apenas da adolescencia,
-quando caiu no tumulo. Era medico e escriptor. Restam d’elle algumas
-folhas volantes, perdidas por aqui e por além, e um livro (os _Contos
-do tio Joaquim_), livro que ha de viver ao passo que muitas composições
-laureadas pelo capricho de hoje, morrerão ámanhã. Todavia, isso que
-Paganino nos deixou, não são mais do que as primicias do muito que tinha
-para dar aquelle grande talento. Rapida, brilhante, e, dolorosissima
-foi a carreira de seus dias! Ha quatro annos, n’uma carta que escrevi
-para a imprensa, desenhei o quadro que apresentava a familia de Rodrigo
-Paganino, pouco antes d’elle expirar. O pae, as duas irmãs, modelos
-de raras virtudes, e a mãe, pedindo em secreto, a Deus, um logar na
-mesma cova do filho. Tres annos a fez esperar a Providencia; finalmente
-concedeu-lhe a appetecida graça. Hontem, se Paganino fosse vivo, contava
-trinta e dois annos. Trinta e dois annos que a mãe o déra á luz do mundo;
-que o beijára entre dôres e alegrias, depondo o filho no berço; o filho
-hontem pagava-lhe essa fineza indo repousar ao lado d’ella, no berço
-do eterno descanço, onde para aquelles que padeceram com resignação,
-e que esperaram a morte, arrependidos dos erros mundanos, brilha a
-aurora da bemaventurança! O padre que acompanhou do Alto de S. João
-para os Prazeres os restos mortaes do nosso pobre amigo e que celebrou
-a missa, que nós ouvimos, pelo eterno descanço do nosso finado querido,
-fôra companheiro de estudos de Rodrigo Paganino. Terminada a missa,
-conduzimos o feretro para em frente do jazigo de familia onde havia de
-ser soterrado. Perguntou alguem, se queriam que o caixão se abrisse. José
-Avellar, de todos nós o mais intimo de Paganino, disse com a expressão
-tocante e varonil da sua bella physionomia: quero eu vêl-o. Mas que viu?!
-Quatro ossos e uma caveira a que se adheria uma pouca de terra! Era
-quanto restava do corpo que abrigara aquelle gentil espirito! O caixão
-foi collocado sobre o caixão da mãe, e nós, na extrema despedida, votámos
-á memoria do amigo quanto lhe podiamos votar: um adeus, e uma lagrima!
-Concluo esta carta, meu querido amigo pela verdadeira conclusão da dôr,
-que são as lagrimas. Um aperto de mão; volta quanto antes d’esse ponto do
-Alemtejo onde estás; lembra-te do anno passado!
-
- Teu
-
- BULHÃO PATO.
-
-
-
-
-I
-
-O tio Joaquim
-
-
-Ha de haver dez annos proximamente, fui passar o inverno a uma quinta,
-pouco distante de Lisboa; porque, segundo diziam, corria perigo de vida,
-se não mudasse de ares quanto antes.
-
-O campo é sempre bello. Cada edade do anno imprime-lhe uma feição,
-differente embora, mas formosa sempre: e o inverno, apezar da sua fria
-nudez, tem attractivos, como os que nos fazem amar muitas estatuas
-antigas, em que a falta de roupas mais realça a magestade.
-
-A uma legua apenas, parecia-me estar muito mais afastado de Lisboa. As
-noticias só repercutiam alli com ecco bem tardio; o apartamento do sitio,
-mais augmentado ainda pela quadra do anno em que se estava, parecia
-cortar de todo as relações com a capital: e se a vida latente que girava
-n’aquellas plantas entorpecidas pelo frio, não se deixasse transparecer
-de quando em quando, suppôr-se-hia, que um largo sarcophago nos
-encerrava: tão silenciosa, tão muda, tão melancolica era aquella solidão.
-
-Os dias passavam-se facilmente; mas as horas do crepusculo, essas, é que
-pareciam immensas, insupportaveis. Quando a noite, começando a escurecer
-os campos, nos escurecia a alma com elles; quando as trevas desciam
-sobre a terra, e afastando diante de si alguma vida, que ainda por alli
-havia, nos entristeciam o coração: quando as oliveiras verdenegras, que
-ao longe limitavam o horisonte avultavam com as sombras, estreitando-se,
-e parecendo encerrar-nos n’um circulo sinistro, como deveria ser o das
-bruxas de Macbeth: então partia-se-nos a alma de saudades enlevada no
-viver folgasão e agitado, que n’esses momentos costuma offerecer a
-cidade. Tem-se dito, que nada ha mais triste, do que vêr cerrar-se o
-horisonte em mar alto á chegada da noite; mas dizem-no talvez os que não
-experimentaram ainda o angustiado negrume, que em similhantes momentos,
-no campo, nos confrange muitas vezes. Parece que tudo esmorece, e morre
-em redor: e n’essa hora, se no bater do pulso não encontrassemos provas
-da nossa existencia, chegar-nos-hiamos a convencer mesmo, de que a vida
-se nos esvaecia tambem, como se esvaece em tudo, que nos cerca.
-
-Mas, ainda assim, havia compensação para nós na chegada da noite. Havia,
-porque de ante-mão contavamos passar essas horas, não muitas, que no
-campo precedem o deitar, n’uma conversa singella, e innocente; mas que
-d’essa singelleza e innocencia tirava os encantos que lhe sentiamos.
-
-Á bocca da noite recolhiam os trabalhadores, os _maltezes_ como ali lhe
-chamam, do trabalho e entravam para uma d’essas cosinhas do campo, tão
-nossas, tão conhecidas de todos: e que não faltam em quinta alguma de
-certa ordem.
-
-Esperava-os um bom lume e uma boa ceia, e sobretudo esperava-os, que
-era o que elles mais queriam, as historias do tio Joaquim, e as suas
-narrações cheias de verdade e de moral.
-
-Quem era o tio Joaquim, o que fôra, que papel representava, são
-perguntas, que naturalmente hão de vir á bocca dos nossos leitores,
-se os tivermos, e a que não poderemos responder como desejâmos. Tinha
-apparecido depois de uma das nossas guerras civis, e tinha pedido
-trabalho a um dos fazendeiros mais ricos do logar. D’onde viera, se
-alguem lh’o perguntava podia contar com a seguinte resposta, que não
-poucas vezes lhe ouvimos repetir: importem-se com a sua vida e deixem-me,
-que nada tenho que lhes contar; baste-lhes saber o que sou hoje, e não o
-que fui; agrada-lhes o meu trabalho; estão contentes comigo, que teem com
-o resto. Sempre ouvi dizer, que homem que muito se occupa dos outros, é
-porque se não póde occupar de si.
-
-Todos voltavam sabendo talvez menos do que até então sabiam; mas curados
-da sua curiosidade indiscreta.
-
-E depois, o tio Joaquim era velho, tinha sido honrado sempre, ninguem
-como elle sabia guiar uma junta de bois, conduzir a rabiça d’um arado,
-ou fallar do tempo, olhando para as estrellas; na poda e na empa ninguem
-se lhe punha ao lado, e quando era necessario fazer um pé de lagar,
-ou erguer uma meda de pão, já era sabido que sempre o escutavam e lhe
-seguiam sempre os conselhos. No contar de historias não fallemos. O tio
-Joaquim era um livro aberto, como por ali diziam: e dava sota e az ao
-barbeiro do logar e ao mestre de meninos.
-
-Este, contra as leis constitucionaes do paiz, ás quaes, aqui para nós,
-não era muito affeiçoado, accumulava ao seu mister de educador da
-mocidade, além dos empregos de escrivão de juiz de paz, escanhoador,
-tendeiro, agiota e outros encargos nem por isso muito compativeis, uma
-maledicencia sem egual. Pois cuidam que se atrevia a boquejar do tio
-Joaquim? Nem por sombras. Verdade é tambem, que lhe não fazia elogios,
-mas quando se tratava d’elle mudava logo de conversa, fazendo um tregeito
-desapprovador.
-
-Diziam as velhas d’aquelles sitios, que eu não o sei ao certo pois
-nunca tratei de o averiguar, que o mestre Francisco, tal era o nome do
-professor, tinha tido n’outros tempos seus dares e tomares com o tio
-Joaquim, dos quaes tinha saido de cara a uma banda. Entretanto o silencio
-do mestre de meninos não influia pouco para a reputação favoravel
-do nosso bom velho, porque se dizia:—é tão boa pessoa, que o mestre
-Francisco não diz mal d’elle.
-
-Pobre tio Joaquim! Assisti-lhe aos ultimos momentos e poude fazer idéa
-do que era a morte do justo. Sorria ainda, e já era cadaver. A hora do
-passamento foi para elle tão suave como o desprender da folha secca em
-manhã de outono. Momentos antes de fallecer voltou-se para o meu lado,
-e disse-me affavel e bondoso como sempre: _agora acabaram-se os contos.
-Lembre-se de mim, quando se lembrar d’elles, é a herança que lhe deixo_.
-Levou a mão ao peito, apertou um saquinho, que trazia pendente de um
-cordão, e que mostrava conter uma reliquia, voltou os olhos para o céo,
-pareceu procurar o rumo que a alma ia seguir em breve cortando o espaço,
-e expirou.
-
-Foram as primeiras lagrimas, que derramei na minha vida; até então não
-sabia o que era morrer.
-
-Guardei a herança. Bem ou mal administrada ella ahi vae em parte, tal
-como a memoria a conserva; mas não como me foi doada.
-
-Havia um cunho tal de ingenuidade n’aquellas narrações, uma tal poesia e
-mimo de imagem, uma fluencia de dicção e uma propriedade de termos, que
-embora as procuremos imitar, não o conseguiremos nunca.
-
-E não supponham, entretanto, que fosse buscar a figura ou a comparação a
-coisas de grande altura; ás sciencias, ou á historia: que ornamentasse o
-periodo com flores de rethorica, ou que procurasse guindar e alambicar a
-phrase, como tanta gente que por ahi vemos. Nada d’isso. Mais prudente e
-mais feliz, pois não commettia barbaridades, o tio Joaquim não saía dos
-limites das intelligencias dos seus ouvintes e ia buscar aos campos, ás
-flores, á agricultura, á mesma casa, (quantas vezes!) os _similes_ de que
-se servia. Tudo era comesinho e humilde, sem ser rasteiro, e muitas vezes
-alcançava elle o que não conseguem muitos litteratos de polpa depois de
-terem trabalhado deveras—o sublime na simplicidade.
-
-Mas nem só o estylo tornava recommendaveis os seus contos: se assim
-fôra, não ousariamos nunca encetar similhante tarefa. A idéa moral, que
-d’elles se deprehendia facilmente, a simplicidade dos episodios, e as
-curtas dimensões, que elle lhes dava, faziam com que fossem por mais
-d’um respeito dignos de publicidade. Confiados n’isto mesmo tambem é que
-começâmos esta collecção, de que somos meros reproductores, cabendo toda
-a gloria se a houver, ao tio Joaquim, e o desdoiro todo áquelles, que
-estragando-a talvez, a vêem agora dar ao publico.
-
-Entre nós, n’estes ultimos tempos sobretudo, a litteratura tem despresado
-um tanto o gosto popular.
-
-Não acontece, porém, o mesmo em França, em Allemanha e nos demais paizes,
-em que, segundo nos consta, se cura d’estas coisas e se lhes attendem
-os resultados. Muitos homens de vulto, intelligencias eminentemente
-superiores, tem-se approximado das turbas, e as obras, que se tem
-publicado com este intuito, não são as que menos contribuem para a sua
-gloria.
-
-Dois exemplos bastarão: Lamartine e Emile Souvestre: o auctor da Genoveva
-e Canteiro de Saint-Point, e o auctor de _Coin du feu_ e do _Philosophe
-sous les toits_. Ambos tem vindo por vezes conversar, como amigos e
-parceiros, com as classes rudes; ambos se teem por vezes esforçado
-para lhes fazer comprehender as suas idéas, e, tem conseguido verem-as
-admittidas e bemquistas na officina do operario, e na agua furtada do
-infeliz.
-
-Sacrosanta missão da imprensa, como é admiravel e veneranda, quando
-evangelisa as turbas, dando consolação ao desgraçado e conforto ao que
-desanima! Como nos sentimos enlevar de respeito perante essa instituição
-maravilhosa, quando vemos os seus fructos sem vicio e sem defeito,
-alimentarem o que pede o pão do espirito, e darem refrigerio ao peregrino
-resequido d’este grande Saharah em que vivemos! É então, e não quando a
-vemos maculada pelas viltas e polemicas indecorosas, que devemos bemdizer
-os seus inventores, e pagar o devido tributo ao genio que similhante
-dadiva nos legou.
-
-Mas não é esta a melhor occasião para similhantes dissertações;
-perdoem-nos o divagar intempestivo, e, se nol-o permittem, iremos ligar o
-nosso interrompido assumpto, no ponto em que o deixámos, ha pouco.
-
-Os contos do tio Joaquim pertencem ao genero das obras de Emile Souvestre
-e deveriam tomar logar, pela natureza e não pelo merito, proximo
-d’aquella mimosa collecção que elle intitula—_Au Coin du feu_. Dir-se-hia
-mesmo, que inspirado por este bello livro, se não commettia um plagiato,
-resentia-se muito da leitura do auctor francez; porém o tio Joaquim nunca
-soube ler e por isso nem de longe poude cahir em tão feio peccado.
-
-Não é a primeira vez que a ignorancia se apresenta como pretexto para a
-originalidade de muito escriptor publico. Não é para admirar, que este
-nosso que se estrêa, comece no mesmo ponto, d’onde muitos, que já são
-veteranos, não teem podido passar.
-
-As historias que lhe ouvimos são em grande numero. Não apresentaremos
-n’este livro senão as que mais notaveis nos pareceram e que mais
-profunda impressão nos deixaram, procurando, quanto nos fôr possivel,
-aproximar-nos d’aquella engraçada ingenuidade, que tanto nos encantava,
-quando lhe ouvimos a palavra facil e singela.
-
-Não conseguiremos de certo imprimir-lhes aquelle cunho de originalidade,
-que o narrador lhes dava. Oxalá que possamos ao menos, fazer com que os
-nossos leitores passem algumas horas entretidas n’esta leitura: e que,
-esquecendo-se embora da pessoa que lh’as apresenta, não se esqueçam de
-todo do velho tio Joaquim.
-
-
-
-
-II
-
-O romance d’um sceptico d’aldeia
-
-
-De tantos contos, que ouvi ao tio Joaquim, foi o seguinte, que maior
-impressão me produziu.
-
-Tinha morrido nos sitios um fazendeiro, que não gosava de boa fama, e ao
-lembrarem-se d’elle começaram os homens do trabalho a cortar-lhe um pouco
-na pelle.
-
-O tio Joaquim desde que se fallára no finado, fôra gradualmente
-entristecendo; e pela primeira vez na sua vida caiu-lhe a colher da mão,
-quando ia começar a comer.
-
-Os maltezes, que estimavam devéras o velho narrador começaram a
-preoccupar-se com similhante tristeza, e, antes de acabar a ceia, já
-estavam todos em roda d’elle, a perguntar-lhe o que tinha.
-
-—A morte do Manuel Simões fez lembrar um caso, a que assisti, ha tempos,
-quem sabe se o Manuel padeceria tanto como o outro, que eu vi morrer.
-
-—Conta-nos isso, tio Joaquim?
-
-—Contarei, apesar de não me sentir muito para contos. Entretanto
-servir-lhes-ha de lição para deixarem em paz, quem já deu contas de si.
-
-Callaram-se todos e o narrador começou por estas palavras:
-
-Ha de haver dez annos a esta parte, que succedeu o caso, que lhes vou
-contar. Defronte da egreja estava n’esse tempo uma loja de barbeiro,
-afreguezada como poucas, e concorrida por toda a gente dos arredores.
-Era o pasmatorio do logar e o covil da maledicencia: o mestre Ignacio
-sabia do seu officio como poucos, e cortava nas vidas alheias, como nos
-cabellos e barbas dos freguezes.
-
-Tambem a loja estava sempre cheia: uns que lhe acudiam á obra, acceiada
-na verdade; outros, que para ali iam dar á taramella e saber o que se
-passava pelos sitios.
-
-Nem uns nem outros deixavam de ser servidos: os primeiros saiam com a
-pelle, que nem um setim; os outros levavam medida rasa de novidades e não
-poucas vezes acogulada de mentiras.
-
-De todos os que por ali iam, um freguez havia a quem o mestre não gostava
-muito de vêr na loja. Ninguem o diria, porém, ao vêr as barretadas do
-velho Ignacio e as mesurinhas com que o acatava. Havia de ter que vêr,
-que o não fizesse! Se era o sr. padre prior, o padre mais santo, que
-tenho conhecido e a melhor alma que Deus tem deitado a este mundo de
-Christo.
-
-E sabem porque o mestre não engraçava com o padre prior, e até mesmo
-ardia por vêl-o pelas costas? Era porque, o unico talvez dos freguezes
-todos, não fazia a sua perna á má lingua, nem deixava deitar-lhe muito os
-braços de fóra, quando estava presente.
-
-—Cala-te lá, homem, lhe dizia muitas vezes, sabes por ventura quantos
-annos de trabalho leva uma reputação a crear, quantos cuidados e lidas
-custa o ser honrado, para assim deitares essa obra toda por terra
-sem tir-te nem guar-te? Se fosses fazendeiro e se gastasses cabedal e
-vida a fazer a tua propriedade e a amanhar as terras; se todos os dias
-regando-as com o suor do teu rosto, e ageitando-as com o teu trabalho,
-conseguisses crear as arvores de um pomarsito, por bem pequeno que
-fosse, gostavas, que um alma damnada te deitasse fogo á casa; ou que te
-succedesse dar o mal nas searas e o peco no pomar? Pois olha, pomar,
-casa, e terras são coisas todas, que, uma vez perdidas, se podem tornar a
-ganhar; mas o credito e a fama, esses é que não.
-
-O mestre barbeiro, que se temia do bom pobre ficava sem saber da sua
-freguezia, e este então, que não era de reserva, nem homem, que gostasse
-de pôr as uvas em pisa a outro por muito tempo, tornava-lhe logo mudando
-de modo de fallar.—Ora vamos, sô mestre, não desmanche creditos dos
-outros, pois que não póde vêr entrar o mal por sua casa; que a fama de má
-lingua ninguem lh’a dá nem lh’a tira, e em quanto a obra, ninguem lh’a
-desfaz, por que não a tem feita.
-
-Era n’um domingo de manhã e a loja do mestre Ignacio estava a deitar por
-fóra. O dono da casa tinha acabado de talhar umas poucas de carapuças
-e encaixava-as nas cabeças para que as talhára, quando entrou o padre
-prior. Calou-se logo o velho e deu um ponto na bocca; porém o padre, que
-lhe sabia da balda, e que desconfiou da alhada, começou a fazer-lhe a
-cama, quasi do feitio que acabei de lhes contar, e por modos taes, que
-deixou o pobre do homem em lençoes de vinho.
-
-Os que por ali estavam, que não eram muito affectos ao dono da casa, e
-que por vezes tinham apanhado tambem a sua maquia, começaram a rir, e aos
-ditos, mais ajudando ainda para o deixar em tallas.
-
-Elle já dizia mal á sua vida: para mostrar que não ia muito do vivo
-ao pintado, já tinha assente um formidavel lanho na cara d’um pobre
-trabalhador, que lhe caira nas unhas, e promettia continuar quando um
-novo freguez, que entrou na loja o veiu tirar do aperto em que se via,
-pondo ao mesmo tempo uma rolha na bocca de todos.
-
-Nem mais um abriu bico. Parecia uma mó de creanças, que estando a fazer
-grande algaraviada em casa de escola, vêem chegar o mestre armado
-de palmatoria e com modos de dar a torto e a direito. Ficam logo
-calladinhos, que nem ratos; mas ainda bem o mestre não tem dado costas,
-tornam á mesma, ou ainda a peior, fazendo uma ingresia infernal.
-
-Assim foram os nossos amigos. Alguns d’elles até pareceram que viam lobo,
-e tanto se lhes puzeram os cabellos em pé, que o mestre teve de dar
-mais vezes novo fio ás navalhas, porque já não queriam cortar nem por
-um Christo: elle mesmo, apesar de pouco medroso, sentiu seus calafrios,
-quando deu de rosto com o recem-chegado.
-
-Este não era nenhuma cara de metter medo, mas tambem não mostrava ser de
-muitos amigos. Entre os trinta e os trinta e cinco, os cabellos já se
-lhe começavam a encher de brancas, e a cara de rugas. Parecia triste;
-e sem dar nem uma palavra esteve na loja até que lhe chegou a sua vez,
-barbeou-se e saiu, cumprimentando todos á saída como o tinha feito á
-entrada.
-
-Levou comsigo a callada. Apenas voltou para a azinhaga mais proxima
-começaram todos a desenferrujar a lingua, como se tivessem medo de que
-lhes ficasse lesa com o tempo, que estivera sem bulir. E como de razão,
-foi o mestre Ignacio, quem atirou primeiro a sua bola.
-
-—Excommungado d’uma figa! Cruzes demonio, e embirrou com a minha loja o
-maldito.
-
-—Parece que anda em peccado mortal!
-
-—Podera não, se elle desde que veio para estes sitios não foi ainda á
-missa.
-
-—E que olhos que deita para a gente? Pae do céo! É capaz de nos dar
-quebranto!
-
-—Sim, que o não deu outro dia a uma jumenta da Felicia, que desde que
-elle a viu não teve uma hora de saude.
-
-—Quem a Felicia?
-
-—Não a jumenta; se elle é lobishomem!
-
-—Callem-se lá, leva de má lingua, parece-me que já é de mais; estarão
-vocês tão limpos de consciencia, para assim poderem entrar pela terra
-alheia, como se fosse roupa de francezes?
-
-Era a voz do bom prior. Apenas tinha começado a ladainha, procurára logo
-pôr-lhe cobro, mas foi trabalho de malhar em ferro frio. Era um dize
-tu, direi eu, que promettia não ter fim. Todos queriam molhar a sua
-sopa; porém quando um carreiro velho, que era pessoa acreditada na loja,
-affiançou que o tal estrangeiro tinha embruxado a burra da tia Felicia e
-que era lobishomem, ficaram todos passados em pontos de admiração por um
-instante, e n’essa occasião mesmo, é que o prior poude socegar aquella
-algaravia.
-
-Ninguem se atreveu a retrucar. Todos tinham os seus podresitos mais ou
-menos, que o parocho sabia; e por isso todos metteram a viola no sacco,
-quando lhes foi com as mãos á cara, fallando lhes nas suas culpas. Porém
-o mestre Ignacio, que não era homem de se atrapalhar com qualquer coisa,
-quiz vêr se fazia frente ainda, e se podia continuar amolando o caso.
-
-—Mas perdôe a sua palavra honrada, sua reverendissima bem sabe que desde
-que veio para aqui este homem ainda nem appareceu na egreja, nem em logar
-de reza, ou em festas da freguezia.
-
-—O que tem o mestre com isso? Todos fallam, fallam sem saberem o que
-dizem, o caso é dar á lingua. Esse homem não é nenhum hereje, eu sei quem
-é. Se não vae á egreja, talvez que a egreja vá ter com elle. O mestre bem
-sabe que não é esta a primeira pessoa de quem se duvida; outros havia
-que nem por muito irem á egreja, passavam por christãos de lei.
-
-O padre tinha dado no vinte. O barbeiro ficou sem tugir nem mugir, porque
-se lembrava da fama de judeu que por aquelles sitios tivera, e que lhe
-ia acarretando mais de uma carga de pau; os outros, que viram as barbas
-do visinho a arder, foram deitando as suas de molho, esgueirando-se á
-formiga, apenas acabaram de fazer a barba.
-
-O remedio do parocho não produziu effeito; por que, dias depois, já
-tornavam á mesma: agora se tinham razão julguem-n’o lá pela historia do
-tal homem, que mais tarde vim a saber.
-
-O freguez com que tanto se estomagára o mestre Ignacio, tinha vindo para
-aquelles logares havia dez annos pelos tempos das vindimas. Alugára uma
-casita pequena, que fica mesmo defronte da egreja, onde está agora o
-Manoel Ferrador, e que tem vae por meia duzia de geiras de pertenças:
-para ali se mettera com mulher e filhita que trazia comsigo.
-
-Parecia gente morta, não saiam nunca, salvo a mulher, que de manhã cedo
-ia aos seus arranjos: e não procuravam dar-se com pessoa alguma da
-visinhança. E lá n’isso faziam bem, que a maior parte das vezes estas
-velhas onzeneiras e visinhas palradoras vão ás casas dos outros para
-darem fé do que lá se passa, e para depois á porta da rua, á tarde ou
-pela manhã, cortarem pelas vidas alheias como ferro de arado por terra
-mechida de fresco.
-
-O que é verdade porém, é que este seu systema, não lhe tinha creado
-amigos, nem levantado uma reputação de encher as medidas. Todos
-murmuravam d’aquelle modo de viver, e estavam de alcatêa sempre para vêr
-se achavam fio á meada.
-
-Tinham reparado por vezes que a pobre mulher, que parecia boa pessoa,
-saía quasi sempre com os olhos inchados e como quem acabava de chorar;
-mas por mais que se pozessem á escuta não tinham topado nunca signaes de
-ralhos ou resingas: antes se poderia dizer, se o dono da casa não tivesse
-tão má fama, que viviam como Deus com os anjos.
-
-Uma noite, alta noite, já tinham cantado os gallos, morava eu então ao pé
-da freguezia, ouvi tocar a Nosso Pae fóra, levantei-me e fui acompanhar
-o viatico. Era para casa do mesmo homem, que tinha visto, pela primeira
-vez, na loja do mestre Ignacio, e que estava para dar a alma a Deus.
-
-Como o caso não era para se estar com pannos mornos, o parocho tratou
-de começar a confissão, e nós quizemos sair do quarto, para deixar o
-doente mais á sua vontade, como é costume. Elle porém não o consentiu, e,
-fazendo-nos signal para ficar, disse-nos com modos que me não passaram
-ainda:
-
-—Grandes foram os meus peccados, se esta historia lhes poder aproveitar,
-que a oiçam todos; porque só assim servirei a alguem.
-
-Não havia que dizer, e de mais a mais o demo da curiosidade apertava
-comnosco. Ficámos, e na verdade disse coisas para se ouvirem.
-
-O quarto estava allumiado por uma lamparina a tremelicar e a dizer adeus.
-A luz, que espalhava pela casa tinha um tanto de soturna e de aterradora.
-Á cabeceira estava o padre, a alvejarem-lhe as roupas e cercado por
-um não sei que, mais do céo do que da terra; a seu lado, o moribundo,
-estendido na cama, e estorcendo-se na agonia.
-
-Têem visto lá para o Minho, ao pé dos castanheiros, uma videira que levou
-um córte na cepa, e que em vez de enleiada aos troncos da arvore, se lhe
-roja pelo chão, quasi a morrer, como uma cobra, que leva com uma pedra na
-cabeça? Pois assim me parecia aquella vista, bem triste que ella era!
-
-Mas o que me cortou o coração foi vêr a triste senhora lavada em lagrimas
-aos pés da cama, de joelhos, abraçada a uma creança que teria quando
-muito tres annos, e que, adivinhando o que ali se passava, tambem carpia,
-gritando quasi sem parar:
-
-—Não quero que o pae morra, não quero que o pae vá para o céo!
-
-Era uma dôr d’alma, e tanto me impressionou aquelle espectaculo, que,
-palavra a palavra, me lembra do que ouvi n’aquella casa.
-
-—Meu padre, dizia o moribundo com voz sumida, conheço que a minha hora
-chegou, e preciso partir para essa jornada tremenda, limpo de culpas e
-cheio de arrependimento. Grande me vae esta empreza, mas com o perdão de
-Deus e vosso auxilio, espero leval-a ao cabo.
-
-—Descance: a misericordia do Senhor é infinita, e se os meus soccorros
-lhe poderem servir, aqui estou d’alma e coração, como é meu dever, para
-lh’os ministrar.
-
-—Ouça-me pois, meu padre, e na historia da minha vida veja a razão da
-minha desgraça.
-
-—Para todo o peccado ha remedio na egreja; falle, e não se arreceie.
-
-O moribundo começou assim:
-
-—De ruim semente fraco fructo poderia sair, e meu pae, Deus lhe falle
-n’alma, andou n’este mundo, mais cuidando da vida em que vivia, do que da
-outra em que devia durar eternamente.
-
-No seu tempo, d’involta com os livros bons, havia misturadas, como o joio
-com o trigo, essas más obras vindas de França, e algumas mesmo d’aqui,
-que prégavam a falta de religião e o despreso pela Divindade.
-
-Pelo menos elle assim o acreditava, e esse effeito lhe tinham produzido.
-Mais tarde vim a saber que valiam muito, mas que não era para gente rude,
-que não as percebia, que só lhes apanhava o mau, mais facil de colher,
-deixando de parte o bom, que andava mais escondido.
-
-O mesmo acontece ao podador novato, que deita fóra a vara do vinho,
-deixando em vez d’ella as outras que devia cortar.
-
-Mas lá diz o rifão: quem não sabe é como quem não vê; e meu pae, andava
-tanto ás escuras, que fugia da luz da graça, como lobo do povoado.
-
-Assim me creei, e assim vivi tambem até agora, e Deus sabe quantos
-desgostos me tem custado esta minha triste cegueira!
-
-Pobre de mim! Não me lembrava de que o homem anda cá n’este mundo como o
-arado em terra de semeadura. Se o lavrador não tem mão na rabiça ou se
-descuida do trabalho, eil-o ahi vae corrido com os bois, como o homem com
-as paixões por terras e ribanceiras, enterrando-se aqui a mais não poder
-andar, resvalando além a não deixar rego.
-
-Assim me ensinára meu pae, com magua bastante de minha mãe, que se finava
-e padecia; e assim ía creando meus filhos, se o lavrador sagrado, que lá
-de cima nos vê, me não encaminhasse, lançando mão do arado, que ameaçava
-partir-se de encontro aos barrancos d’este mundo.
-
-Ainda em creança, os rapazes do sitio fugiam, quando procurava brincar
-com elles. Chamavam-me o _diabo pequeno_, e temiam-se de mim como do
-fogo. Eu em paga escarnecia-os por irem á egreja, ou dava-lhes pancada de
-cego quando fugiam de brincar comigo.
-
-Todavia soffria immenso por me vêr sósinho.
-
-Os entretenimentos de creança, que tanto agradam nas primeiras edades,
-não eram para mim, que vivia como o espargo no monte, á ventura e ao
-desamparo.
-
-É voz do povo: só se veja quem só se deseja, e rifão bem verdadeiro.
-Tambem o é que a solidão nos dá maus conselhos e causa os maus
-pensamentos.
-
-A planta lançada á terra sem cultura e sem cuidados, vegetando em mau
-torrão, crestada das geadas e dos soes, e sacudida dos ventos; se cria
-vigor e robustez, tambem ganha espinhos para os troncos e amargo para os
-fructos.
-
-Entregue só a mim, conhecia que o coração se empedernia e apertava,
-ficando de rija tempera, sem se dobrar á compaixão nem ao amor do
-proximo. Se eu era assim, a culpa não era minha de todo; mas o castigo,
-esse aguentei-o em cheio.
-
-Muito em creança me faltou minha mãe. E a triste consolação de a
-acompanhar á sepultura, de rezar por ella na egreja, de lhe derramar
-lagrimas e agua benta sobre a cova, foram coisas que a minha má sina me
-prohibiu.
-
-Entrar na egreja, eu, e provar fraquezas dobrando-me a pedir ao Senhor!
-Não o podia, era de vil, e não de um espirito forte e desamparado de
-credulidades de velhas. Ir sobre uma pouca de terra, onde alguns ossos
-ficavam e a carne se apodrecia, recitar orações, em que não acreditava,
-era loucura que não devia praticar!
-
-E assim, padre, com a morte de minha mãe perdia eu muito mais do que
-outros a quem semelhante desgraça succede. Esses ao menos esperam tornar
-a vêl-a na outra vida, e a morte sómente lhes é como separação de pouco
-tempo.
-
-Para mim era o apartamento eterno. Aquella cova roubava-me minha mãe para
-sempre. Nada ali me podia fallar e a terra ficava muda, como os céus já
-de ha muito o eram para mim.
-
-O que senti então, Deus o sabe, que eu nem o posso dizer nem mesmo sei
-o que foi. Era como a planta enfezada, que se lhe vê partir o extremo
-esteio, sem encontrar mão amiga que a ampare, e que desde então receia a
-menor aragem que a faça encurvar, ou o menor encontro que a derrube.
-
-Cresci, cresci, e a descrença continuou a crescer em mim. Semelhava-se
-aos animaes na dureza; a muitos na ferocidade, a todos no embrutecimento.
-
-Por estes tempos ainda se me apresentou occasião de emenda; mas regato
-que de principio erra o caminho, não é quando se lhe engrossa a corrente
-com as cheias que póde tornar ao leito; nem planta que de pequena vae
-torcida, póde, quando cria maior tronco, ganhar a direitura que perdeu.
-
-Uma mulher d’aquelles sitios, que vivia recatada em companhia de sua mãe
-e resguardada por ella, como o fructo pelas folhas, reparou em mim uma
-vez e tomou-se de amores por quem não a merecia.
-
-Estas coisas não se explicam. Porque ha de a violeta dar-se e florescer
-escondida, quando outras flôres por ahi, que menos merecem ser vistas,
-não se querem senão nos jardins a bom recato e bem cuidadas?
-
-Porque ha de aquelle pedaço de ferro dos relogios de sol aqui do campo
-voltar-se sempre para o mesmo lado; ou porque ha de a flôr das boas
-noites abrir-se ao pôr do sol e cerrar-se quando elle nasce?
-
-Porque ha de a mulher perder-se de amores pelo homem que vê pela primeira
-vez, e que muitas vezes a esquece depois?
-
-São mysterios da natureza, que ninguem póde devassar, mas que nem por
-isso deixam de existir.
-
-Joanna, é o nome d’essa infeliz que ahi me chora aos pés da cama, amou
-sem que lh’o merecesse, e o seu amor, em vez de me abrir os olhos, mais
-m’os cerrou ainda.
-
-Comecei a querer-lhe tambem. Como foi não o sei: mas desde esse momento
-todas as tardes nos procuravamos, e todas as tardes repetiamos juras de
-um amor eterno.
-
-Começaram a estreitar-se as nossas relações como duas plantas que uma á
-outra ligadas mais se apertam com o crescer. Já na aldêa se murmurava,
-e já se espalhavam rumores contra a pobre Joanna, que se amofinava e
-entristecia.
-
-Um modo facil de remediarmos tudo era o casamento; porém eu que não
-acreditava na santidade d’aquella ligação, não queria, nem por sombras,
-cair em semelhante fraqueza.
-
-Ella acreditava em mim como n’um livro aberto. Convenci-a da loucura de
-seus desejos, e da fé que me prestava, nasceu a descrença na fé em que se
-creara. A minha maldade crestou a innocencia d’aquella virgem, como o mau
-vento cresta a relva: e a apaixonada donzella conheceu que era mulher, e
-envergonhou-se de o ser.
-
-Como a flôr que perde as folhas e as bellezas quando se lhe desenvolve
-o fructo, tambem ella perdeu as rosas nas faces e as canduras da alma,
-quando conheceu que ia ser mãe: e de pejo do que soffrera, encerrou-se na
-sua magoa, como certos vermesinhos se involvem no casulo que lhe serve de
-protecção.
-
-Para ninguem podia já ser mysterio o seu estado: a pobre mãe, que via a
-perdição da filha, deixou-se finar de magoa.
-
-E nem uma flôr desfolhámos sobre a sua sepultura; nem uma queixa soltou a
-infeliz, porque dôres d’aquellas, não ha palavras que as expressem, como
-não ha côres que possam representar o negrume da tormenta.
-
-Nossas mães, que hoje estão no céu, quantas lagrimas não carpiriam
-juntas, ao attentar nos desventurados erros de seus filhos; mas por mais
-que sobre nós ellas cahissem, de nada poderiam servir, como nenhuma chuva
-póde fertilisar o terreno maninho, ou a charneca esteril.
-
-Desde então, padre, a minha vida tem sido um penar continuado, um
-soffrimento sem cessar.
-
-O remorso rala-me a alma: a lembrança d’aquellas santas atormenta-me de
-dia e de noite: a vista da mulher, que perdi, desvaira-me; e a idéa da
-minha filha, a filha querida da minha alma, a quem não posso dar nome
-perante Deus, porque não foi ainda purificada pela agua santa do baptismo
-dos peccados de seus paes, nem perante os homens, porque seu pae e mãe
-não se podem assim chamar á face de mundo, quasi que me enlouquece.
-
-E a duvida a perseguir-me como um demonio agachado em logar santo, e eu a
-abrir-lhe os braços como a seara ao fogo que a vae consumir, e a cerrar
-os olhos á fé, como a toupeira á luz do sol.
-
-A natureza com as suas grandezas todas, a flôr com o seu aroma e côres,
-a ave com o seu cantar, o céu com as suas estrellas, e o mar com as suas
-ondas de prata, tem sido harmonias perdidas, que só me fallam do acaso e
-que nada mais me fazem lembrar. Tenho cerrado os olhos á luz e a alma á
-razão. Não tenho procurado coisa alguma no passado nem esperado do futuro.
-
-Tenho sido o navio sem rumo e sem norte, que navega á tona d’agua; o
-viajante perdido, que não encontra fim ao caminho, nem trilho para voltar
-a d’onde partira.
-
-Para que viera a este mundo, quando por acaso m’o perguntava a mim mesmo,
-era o que não sabia dizer; e cansado de o perguntar sem resposta, mudo
-de pensamento como o mendigo de porta a que tem batido debalde. Tenho-me
-supposto feliz e tenho vivido como as feras; tenho-me julgado senhor de
-mim porque não tenho conhecido o Senhor de todos.
-
-Mas ha dias tudo se mudou em mim. Minha pobre filha sahira de manhã, e
-esteve lá por fóra mais do que o costume. Perguntei-lhe o que fizera,
-porque se demorára: e a sua resposta foi como a luz da madrugada rompendo
-em descampado para o viajante perdido.
-
-«Meu pae, me disse, quando sai, ouvi ali defronte uma musica tão linda,
-tão linda como ainda não ouvira em minha vida outra semelhante. Vi uma
-porta aberta e entrei para ouvir melhor. Era uma casa muito grande, muito
-grande, e onde estava muita gente de joelhos.
-
-«A musica vinha de uma janella de grades, d’onde saiam tambem vozes de
-senhoras; e os que ali estavam pareciam tão entretidos, que nem deram
-pela minha entrada. Com medo que me reprehendessem por ter entrado sem
-licença, perguntei a uma mulher, que me parecia boa pessoa, quem eram os
-donos d’aquella casa tão grande e que tão ricos deviam ser.
-
-«Admirou-se da pergunta e disse-me se lhe fallava devéras.
-
-«Devéras, minha senhora, eu não conheço ninguem d’esta terra; vim ha
-pouco tempo para aqui com meu pae e minha mãe, e nunca saio de casa.
-
-«Pois olhe, minha filha, esta casa é uma egreja, e seus donos são
-aquelles que além estão, pae e mãe dos homens e do céu.
-
-«Olhei e vi uma senhora e um homem, que me pareceram tão bons, tão
-tristes, que desatei a chorar.
-
-«Elle estava de braços abertos, como o papá quando me chama para o seu
-collo, e ella parecia-me minha mãe, mais bonita ainda, quando está ao pé
-da cama olhando para mim com os olhos arrasados em lagrimas, emquanto não
-adormeço.
-
-«Eu queria-lhes fallar, meu pae, conheço que me haviam de dizer muitas
-coisas boas, mas como me tem dito que não quer que converse com pessoa
-nenhuma de fóra, tive medo que ralhasse comigo, fui-me embora; mas com
-tanta pena! Por minha vontade estava ali sempre a olhar para elles até
-que olhassem para mim, e me fallassem tambem.»
-
-Como ella chorára, chorei eu então. Aquella voz infantil veio
-despertar-me a fé adormecida, como á mãe extremosa, quando a dormir, os
-choros do filho querido.
-
-Desde esse momento um raio de luz allumiou-me as trevas, em que vivia.
-A flôr, a terra, o mar e o céu, tiveram vozes que me fallavam e que eu
-percebia.
-
-A flôr erguendo-se para as alturas; a terra levantando ao romper do sol
-os vapores tenues da madrugada como rolos de incenso á Divindade; o mar
-erriçando o seu dorso de vagas ao signal da tormenta e coroando-se de
-espumas; o céu recamado de estrellas, recordavam-me a existencia de Deus,
-creador de tudo que me cercava, e que em tudo tinha estampado o sello de
-suas mãos como o artifice nas suas obras.
-
-Tambem o Senhor, que se parecia ter esquecido de mim, ao vêr-me
-arrependido lembrou-se de que existia: quer me chamar á sua presença,
-como o pastor, que ao vêr melhorias na rez contaminada, que lançou a
-monte, procura, pelos cuidados e disvelos, livral-a das enfermidades e
-males.
-
-Hoje, padre, que avisto a immensidade da morte sem receio, e a eternidade
-sem pavor, hoje que tenho fé no meu Deus e esperança na salvação,
-peço-vos, padre, a benção para o contricto, e absolvição para o peccador.
-
-—Eu te absolvo, disse o padre com voz solemne, que por muito tempo me
-estrugiu aos ouvidos, e o Senhor de caridade vos perdoa por minha bocca.
-
-N’este momento em lagrimas chegou-se a pobre Joanna ao leito do
-moribundo: e a filhinha, que a acompanhava, ficou debaixo dos jorros
-d’agua que corriam em fio dos olhos de seus paes.
-
-O parocho attentou n’aquella vista, e como levado por idéa do céu, disse,
-abençoando a creança:
-
-Eu te baptiso em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo; as lagrimas
-de teu pae e as de tua mãe, peccadores mas arrependidos, essas lagrimas
-de contricção, tão gratas a Deus, te sirvam de agua de baptismo. Vae em
-paz, és christã.
-
-Logo em seguida tratou de casar aquelles dois, que pela alma e pelo amor
-já estavam casados; e acabada a cerimonia, a alma do agonisante, que nada
-mais tinha que a prendesse á terra, começou a soltar-se do corpo para
-voar á morada eterna.
-
-Elle conheceu-o, e com voz difficultada pela agonia disse ao sacerdote:
-
-—Abri-me essa janella meu padre, vou morrer, quero adorar ainda o Creador
-na sua obra.
-
-Um de nós correu a satisfazer-lhe a vontade. Já era manhã, e o sol vinha
-apparecendo fronteiro a romper por entre labaredas de fogo; o padre
-estava de costas para a janella; o vulto recortava-se-lhe sobre a luz, e
-os seus raios pareciam formar-lhe um resplendor de santo.—E se o era!
-
-Desviou-se para o lado, e um raio de sol veio bater de chapa na face do
-agonisante; parecia um signal mandado por Deus em prova de perdão.
-
-Foi elle quem chamou de novo á vida o que parecia já um cadaver, e lhe
-deixou proferir com grande esforço estas ultimas palavras:
-
-—Illuminae minha alma com a vossa divina graça, como me allumia agora o
-sol, que desponta no firmamento, perdoae-me Senhor!
-
-Passados momentos, o padre rezava sobre o cadaver as rezas de defunctos,
-e no dia seguinte nós todos iamos com os olhos arrasados de lagrimas,
-conduzir á sepultura o cadaver d’aquelle a cuja morte tinhamos assistido.
-
-
-
-
-III
-
-A proposito da missa do dia
-
-
-Entre os trabalhadores da quinta, havia um chamado Antonio, bom rapaz, é
-verdade; mas que tinha um defeito, de que se não corrigia.
-
-Era mentiroso, como os que o são, e quando o não acreditavam, amontoava
-juras, qual mais tremenda ou de mais responsabilidade e respeito para um
-homem de bem.
-
-E era pena; porque poucos havia tão laboriosos como elle.
-
-Era conhecido pelo—gallo da madrugada—titulo bem justificado em vista
-do que se apressava em concorrer ao trabalho: e não poucas vezes os
-pobres beneficios, que o seu magro peculio lhe permittia fazer, vinham a
-constar, pelos outros e não por elle, muito em seu abono e boa reputação.
-
-O tio Joaquim, conselheiro honorario d’aquella republica tinha-o
-reprehendido muito; mas aquelle maldito sestro não o queria o Antonio
-perder nem a bem nem a mal. Era o seu senão, que lhe acarretava não
-poucos dissabores e com o que não pouco prejudicava os outros.
-
-Era n’um domingo, e depois da missa do dia, no adro da egreja estavam
-reunidos, em mó, os saloios d’aquelles sitios que tinham concorrido ao
-santo sacrificio. De fatos domingueiros, e varapaus ferrados, discorriam
-pelas novidades do logar, exactamente como os nossos elegantes á porta do
-Marrare, ou nas salas do Gremio.
-
-Diga se a verdade; as Marias e as Joannas não deixavam de influir
-n’aquellas reuniões, porque não poucos eram os que ali compareciam
-levando em mira fallar ás suas requestadas, ensaiar requebros, ou ajustar
-entretenimentos para as horas de sesta ou para as tardes dos dias santos.
-
-O nosso Antonio tambem não faltava á reunião, e já por mais de uma vez
-fizera das suas, sem consequencias de maior, pelo pouco credito que
-tinham n’aquelle mercado campestre as notas do nosso caramboleiro.
-
-Havia no logar uma rapariga que se podia chamar uma perfeição, e que
-fazia tanta differença das suas companheiras, como a rosa de musgo das
-rosas carrasqueiras dos vallados.
-
-Era gentil e mimosa, não tinha as côres de saude, nem aquelle acerejado
-do sol, ou fórmas robustas e quasi viris da raparigada do campo; mas era
-mais esbelta, mais pallida, mais clara e com uns olhos tão negros, tão
-negros, que lhe saiam da alvura do rosto, como dois diamantes negros
-engastados em esmalte branco.
-
-Vivia arredada e em recato, e não apparecia em arraial ou festa, senão de
-anno em anno e quasi por milagre.
-
-Chamavam-lhe—a fidalga,—e o nome casava tanto com a sua distincção de
-maneiras e garbo de porte, como o soar das ave-marias com os descampados
-das serras.
-
-Como já se deve suppôr, os fragatas da terra tinham pretendido as
-honras de arrojado; mas debalde, porque os rejeitava, e quasi todos
-descoroçoados tinham desistido da empreza.
-
-Digo quasi todos, porque dois ainda lhe arrastavam a aza, um, (aqui em
-segredo,) era attendido e bem olhado; o outro, mais feliz, nem fallar
-n’isso é bom, mordia-se de raiva pelos desdens que soffria, e pelo pouco
-em que eram tidos os seus requebros e paixões.
-
-A escolha de Emilia tinha sido acertada, porque o José da Avó era o mais
-guapo moço d’aquellas duas leguas em redor. Desempenado e direito como
-uma vara de abrunheiro, valente como um pau de carrasco, generoso e de
-brio, como nenhum: nem o mais pintado lhe levava as lampas em trabalho de
-fazenda, em jogos de pau, ou em balharicos de domingo.
-
-E cantigas! Sabia-as elle cantar, como os que as sabem; entoava uma
-desgarrada ou sustentava um desafio, mais afinado e a preceito do que
-muitos d’esses italianos em segunda mão, que os empresarios nos impõem
-como notabilidades cantantes.
-
-O outro pretendente não era muito cheio de não presta: mas ao pé do
-José da Avó ficava a perder de vista, o que não admira; porque vasados
-n’aquelles moldes não havia muitos no logar. Elle porém, como não queria
-attender á razão, damnava-se jurando pela pelle do ditoso preferido.
-
-Este era o estado da questão na manhã do tal domingo, e os dois rivaes
-conservavam-se a distancia respeitosa no meio de dois grupos distinctos.
-
-Tinha saido já quasi toda a gente da egreja, quando Emilia se retirou,
-sem que lhe faltassem commentarios, emquanto passava por meio dos grupos.
-
-—Olha a delambida! soltou d’ali uma das raparigas mais feias da terra,
-parece que vae com o rei na barriga, nem olha para a gente.
-
-—Era o que faltava, a fidalga!
-
-—Vae toda enlevada no seu José, tem medo que lh’o tirem do lance.
-
-N’isto o nosso Antonio, que não queria ficar atraz, tambem se intrometteu
-na conversa, dizendo com modos de quem estava corrente com os mysterios
-d’aquelle circulo:
-
-—Pois faz elle bem em perder o seu tempo, porque ainda não ha muito que
-vi o Miguel de conversa com ella á porta de casa, e pelos geitos que a
-coisa levava, não era a primeira vez que se fallavam.
-
-—Ora tu sempre tens uma lingua!
-
-—Um raio me parta se minto; tinha-me calado e feito vista grossa, mas
-agora ferveu-me o sangue quando a vi assim como quem queria deitar lama
-para a cara da gente.
-
-As palavras de Antonio não tinham caido no chão. José, desconfiado como
-todos, estivera de ouvido á escuta e não perdera nem syllaba. N’outra
-occasião voltaria de certo as costas ao maldizente, mas d’esta vez mudava
-o caso de figura: o ciume acreditava a voz do mentiroso e a tremer
-chegou-se ao pé d’elle, perguntando-lhe com voz indecisa:
-
-—Juras que é verdade o que acabas de dizer?
-
-—Se é! os diabos me levem se minto; eu por mim não queria causar-te
-nenhuma aquella; mas assim como assim mais tarde ou mais cedo havias de
-vir a sabel-o; e, verdade verdade, ella não te merece.
-
-—Basta, lhe retorquiu o pobre José, e foi-se como um raio até onde estava
-o supposto arrojado.
-
-Inutil é dizer que tinha sido tudo isto enredos e obra de Antonio.
-Soltára as primeiras palavras como por demais, sustentára o dito por
-capricho, mais tarde para que não suppozessem que tornára com a falla ao
-bucho por medroso.
-
-Do outro lado do adro uma floresta de paus se levantava no ar, e já
-as navalhas estavam fóra das algibeiras; os dois tinham-se travado de
-razões, e como palavra puxa palavra, tinham passado dos ditos a vias de
-facto e malhavam um no outro como se fosse um monte de milho.
-
-Ambos tinham partidarios, e por conseguinte a lucta assumiu proporções
-maiores; porém por muito encarniçada que fosse entre os partidos, parecia
-um brinco de creanças á vista d’aquella em que os dois se tinham travado.
-Davam como quem se despedia do mundo, e como quem desejava vêr estendido
-no chão o seu contrario.
-
-Ao principio arrancaram dos paus e começaram a atirar as primeiras
-pancadas, que quasi todas cairam em cheio; até que Miguel, depois de ter
-jogado umas poucas de sortes ao seu adversario, e como ambos estavam
-_descobertos_ e só queriam dar, dissimulando uma pancada á cabeça, lhe
-dirigiu o pau por meia volta no ar ás pernas. Quando lá chegou já o seu
-adversario o tinha procurado aparar, porém tanto em mal, e tão puxada
-d’alma ia a contraria, que o pau colhido no meio, não o aguentou e
-partiu-se; e o outro não encontrando resistencia no corpo de José, porque
-elle já lh’o tinha furtado, foi de encontro ás pedras do adro e partiu-se
-tambem.
-
-Vendo-se desarmado, Miguel não perdeu tempo: correu sobre o inimigo com
-uma navalha e baldeou-o logo no chão jorrando sangue por uma ferida no
-ventre.
-
-O assassino, apenas commettido o crime, tomou as de Villa Diogo, e a
-desordem começou a apaziguar-se com a chegada dos cabos da terra, que
-tratavam de remover o ferido e de prender os combatentes.
-
-O causador de tudo isto tinha, logo que viu tomar ao caso uma feição que
-lhe não suppozera, procurando socegar o motim, confessando a sua mentira,
-porém já era tarde, n’aquellas alturas qualquer intervenção seria
-inutil; teve pois de assistir arrepelando-se, dizendo mal á sua vida,
-áquella triste scena, e promettendo, com mil juras que não mentiria nunca
-mais; ajudou soluçando a levar o ferido para sua casa na maca, que tinham
-ido buscar, e accusando-se todo o caminho de ter sido elle, e só elle, o
-culpado de tudo que succedera.
-
-Nos tres dias, que succederam á catastrophe, não se fallou n’outra
-coisa nos serões da quinta. Conhecia-se que o tio Joaquim por vezes
-tinha vontade de fallar, porém tão sincero lhe parecia o arrependimento
-de Antonio, que sempre desistia do intento. Uma noite, porém, o nosso
-mentiroso, já esquecido das juras que fizera, começou, por uma coisa que
-nada valia, a invocar os santos todos do Paraizo em seu testemunho, e a
-pedir raios e coriscos para castigo se mentisse.
-
-O velho narrador d’essa vez saltou lhe no gallinheiro, dizendo com
-aquella placidez de espirito, que tão habitual lhe era:
-
-—Este Antonio faz-me lembrar o João da Tenda, que vivia lá em baixo ao pé
-das casas do mestre Raymundo e que por dez réis de mel coado fazia juras
-e protestos ás carradas. Em mal lhe deu o vicio, coitado!
-
-—O que lhe aconteceu, tio Joaquim?
-
-—O que foi, o que foi?
-
-—Conte, conte; ha tanto tempo que lhe não ouvimos uma historia!
-
-—Pois bem, soceguem, que lhe não faltarei hoje, e não será por culpa
-minha se esta lhes não agradar.
-
-O pobre do Antonio tinha pedido misericordia com um olhar de supplica:
-mas o velho compromettera palavra e não havia de se esquivar á promessa.
-
-—Diz lá o rifão: «quem compra e mente na bolsa o sente;» como diz tambem:
-«homem de boa lei tem palavra como rei», isto era quando os reis tinham
-palavra, se alguma vez a tiveram, que d’essas coisas não sei eu, e
-quando não faltavam ao que promettiam.
-
-O que é verdade é, que se o mentir prejudica a honra e o corpo, não menos
-prejudica a alma estar, por dá cá aquella palha a fallar no santo nome de
-Deus, e no dos santos, que não são pontos com que se brinque.
-
-Nenhum, dos que aqui estão, vae incommodar o patrão para coisas que não
-valem a pena, e muito menos por conseguinte devem ir bater á porta dos
-patrões mais subidos, para de mais a mais os tomarem para testemunhas e
-parceiros de coisas que não só não valem a pena, mas que são mentiras
-ainda em cima. E depois, quando se apanha fama de mentiroso, não ha quem
-nos acredite por mais que deitemos os bofes pela bocca fóra, e ainda
-mesmo que fallemos a verdade. Mau é dizer-se que o cão é damnado.
-
-—Mas se fôr para fazer bem, não se deve mentir tio Joaquim?
-
-—Para tudo ha remedio. Uns homens que perseguiam outro, perguntaram a um
-santo, que encontraram no caminho, se tinha visto passar o malfeitor.
-
-O bom do santo tinha-o visto, não havia muito; mas nem o queria
-denunciar, nem mentir tambem: já vêem que elle estava n’esse caso, e que
-se devia vêr a perros.
-
-—É verdade, é verdade, e que respondeu?
-
-—Que por ali não passára; e como estava com as mãos nas mangas, apontou
-para dentro d’uma d’ellas, por onde de certo o tal homem não podia caber.
-
-—Ora! exclamaram alguns dos circumstantes, como admirados.
-
-—Parecia santo saloio, tornou d’alli um _ratinho_, ultimamente embaçado
-na compra d’uma enchada.
-
-—Nada que não, respondeu lhe logo o vendedor, que o percebera á legua,
-não tinha alma de beirão, que lá diz o dictado: no bom beirão corpo e
-alma pequenos são.
-
-Talvez a questão se azedasse mais se o tio Joaquim os não interrompesse
-logo gritando: leva de rumor, vamos á historia do João da Tenda.
-
-Quando vim para esta terra, já vae n’um par de annos, tinha elle uma
-lojasita lá no largo de baixo, mesmo á esquina da estrada real. Era um
-pequeno modo de vida, que bem cultivado podia produzir bastante; mas como
-havia descuido no amanho a colheita foi infeliz.
-
-N’estas coisas de negocio a reputação de homem de palavra se não é ouro
-de lei vale-o bem; e d’esta riqueza o bom do João era mais pobre do que
-Job.
-
-Ninguem se fiava n’elle e o credito diminuia cada vez mais. Direito
-em contas e honrado era: porém aquelle sestro maldito de mentir por
-dá cá aquella palha, a mania de fazer juras e protestos, que nunca se
-realisavam, fazia com que lhe roessem a corda na maioria dos ajustes, sem
-que tivesse direito de se queixar, porque não era mais do que pagar-lhe
-na mesma moeda.
-
-Assim iam os tempos e o negocio corria-lhe por agua abaixo.
-
-Para maior desgraça, no sitio onde não havia senão a loja do João, veio
-estabelecer-se uma outra e tirar-lhe a freguezia.
-
-Era do José Fernandes, que ainda hoje lá a tem no mesmo logar, e que
-sabendo o valor do dictado—cara alegre ganha vontades,—tratou, emquanto
-o seu visinho andava de maus modos, porque os tempos iam maus tambem, de
-chamar freguezes, tratando-os ás mil maravilhas, e desfazendo-se em bons
-serviços.
-
-João tinha uma filha, a menina dos seus olhos, e uma flôr de enche-mão.
-Mais guapa rapariga não havia de certo por aquella meia duzia de leguas
-em redor; e se tivesse nascido na cidade, se lhe tivessem debastado as
-grossuras dos campos com a plaina das fidalguias, metteria de certo a um
-canto essas arrebicadas, que para ahi vem passar os verões e que parece
-que se estão mesmo a desfazer.
-
-É bem certo, que não ha panella sem testo, e para vasilha de tão fina
-loiça, é preciso que a tampa lhe não desmereça da qualidade.
-
-E assim era o arrojado de Joaquina: rapaz bem feito e espigado, forte de
-corpo e affeiçoado de rosto, um d’estes de quem não ha nada que deitar
-fóra.
-
-Como é de crêr, entendiam-se que era um regalo, e morriam um pelo outro.
-E que bem acertado por elles eram! Joaquina, delicada e fina como uma
-rosa de toucar, ou uma flôr de madre-silva: Domingos, forte como um
-zambujeiro e direito como um prumo.
-
-Encostados um ao outro, quando se fallavam ás furtadellas ao descair
-da tarde, pareciam, tanto ella se ageitava a elle, e tão erguido elle
-estava, contente por a ter comsigo, a haste da cruz de pedra que está
-defronte _dos Ouriços_, vestida com as braçadas flexiveis da hera, que
-lhe nasceu ao pé.
-
-Ninguem lhe invejava a felicidade; antes, pelo contrario todos gostavam
-de os vêr assim, pois pareciam ter nascido um para o outro. Mas sabem
-de certo, que não ha bem que dure sempre, e o d’elles por isso havia de
-acabar em pouco tempo.
-
-O pae de Domingos, Deus lhe falle na alma, era um fazendeiro abastado dos
-sitios, que contava para cima de vinte geiras de terra de pão, fóra umas
-seis courellas de trincadeira, duas hortas valentes, e um pomar de caroço
-de mais de trezentos pés de fructa. Por conseguinte o rapaz era um bom
-casamento para a rapariga, e por isso o João fazia a vista grossa. Que de
-mais a mais o noivo era moço de honra e incapaz de abusar.
-
-Mas não assim o tio Fernandes, que não engraçava com o tendeiro por
-as suas mentiras, e que nada queria com gentes, que pertencessem ao
-caramboleiro. Tinha sido toda a sua vida homem de palavra, as suas
-promessas eram mesmo um evangelho, e quem não seguisse este modo de vida
-nada tinha feito com elle.
-
-Domingos, como é de querer, tinha escondido do pae os seus amores com
-Joaquina. Uma vez por outra procurou sondal-o a tal respeito, porém,
-como visse que era tempo perdido, tinha desistido da empreza, e assim ia
-tenteando o namoro com esperanças em que ou o velho cedesse da birra, ou
-o outro do vicio.
-
-Foi por estes tempos que se armou uma das tantas guerras que por ahi
-tem havido na nossa desgraçada terra. Era preciso tropa e trataram de
-recrutamentos com toda a força.
-
-Domingos, foi um dos sorteados. Seu pae, rico bastante, podia com
-facilidade pagar a um homem para o substituir, o caso era que o quizesse,
-e tanto que estava resolvido a sacar uma duzia de loiras da arca, onde
-estavam havia um par de annos sem vêr sol nem lua.
-
-Era um domingo á noite, e o tio Fernandes recolhia-se de uma feira
-de gado onde fôra comprar uma junta de bois, de que precisava para a
-lavoira. Vinha deitando contas á sua vida, e tão entretido que nem lhe
-tinha custado o caminho.
-
-Ao voltar de uma azinhaga avistou de longe dois vultos, que não parecia
-darem pela sua vinda. Reconheceu-os logo, e percebeu tambem qual o fim
-com que seu filho tantas vezes lhe tinha desculpado o João da Tenda, e
-porque tão desgostoso andava por assentar praça.
-
-Fez os seus entes de razão, e ajustou com os seus botões, que: désse por
-onde désse, não se havia de fazer similhante casamento.
-
-N’essa noite houve questão até fóra de horas entre Domingos e seu pae. O
-rapaz confessou tudo e o velho negou-se a pagar-lhe o homem.
-
-—Ou deixar o namoro ou assentar praça, disse-lhe o tio Fernandes e
-Domingos preferiu a segunda condição.
-
-Mezes depois chegava á terra a noticia da morte de Domingos. Tinha-se
-batido como um homem, tinha sido um dos primeiros a atacar, e pagára o
-atrevimento com a vida.
-
-Figurem-se agora qual seria a pena de Joaquina ao saber de similhante
-noticia. A pobre da rapariga, depois que o seu apaixonado partira, não
-tivera nunca mais uma hora de consolação. Levava os dias a chorar, que
-era uma dôr de alma, e ia-se infesando a olhos vistos.
-
-João, o culpado de tudo, pelo seu amaldiçoado costume, sem recursos
-porque os freguezes lhe tinham fugido, e porque o mal de sua filha lhe
-levava o resto, estava que parecia outro: e n’aquella casa, onde todos
-viviam contentes, não havia já nem signaes de alegria.
-
-A apaixonada moça foi esmorecendo cada vez mais, os medicos não lhe
-achavam remedio para o mal, e qualquer que lhe receitassem não o queria
-ella tomar.
-
-Acabou a sua cruz, e, em poucos mezes, foi reunir-se a Domingos, n’essa
-outra terra onde os amantes vivem unicos eternamente, e onde os justos
-gosam da felicidade sem fim.
-
-Quando entrarem no cemiterio reparem para a esquerda, que hão de vêr
-debaixo do terceiro cypreste, a contar da porta, uma cova com duas cruzes
-de madeira e uma corôa de perpetuas. Ajoelhem sobre a terra benta,
-rapazes, e rezem ao Senhor pelo pae e pela filha, que ahi descançam
-juntos como o tinham estado em vida. Lembrem-se do que lhes succedeu,
-e reparem, que ás vezes uma mentira póde deitar a terra uma reputação
-por mais antiga que seja. Rapazes, quando se apanha um homem que não
-falle verdade, e quando se perde o credito, perde-se em pouco dinheiro e
-honras. Felizes ainda dos que não pagam com a vida como o pobre João da
-Tenda.
-
-Quando os trabalhadores saíram, chegou-se Antonio ao narrador.
-
-—Percebi tudo, tio Joaquim, prometto-lhe não mentir nunca mais nem fazer
-juras por coisas poucas.
-
-—Deus te oiça, tornou-lhe o velho, que és bom rapaz; e se perderes esse
-mau costume, poucos haverá que te levem a palma.
-
-
-
-
-IV
-
-Os domingos de fóra da terra
-
-
-Era n’um domingo de novembro. A agua tinha caido a cantaros todo o santo
-dia, e a chuva fôra tanta, que diziam pelos sitios: já os cães a bebem em
-pé.
-
-Grande parte dos trabalhadores da quinta, em que eu vivia, tinha
-saido depois do jantar, embrulhados uns em mantas, outros em gabões e
-gabinardos em direcção á quinta do tio Joaquim de Mattos, acreditado pelo
-bom vinho que vendia, e pelos bons piteos que lá, de quando em quando,
-arranjava a sr.ª Josepha, sua respeitavel sobrinha, desenxovalhada moça e
-uma das mulheres com menos papas na lingua d’aquelles arredores.
-
-De tempos a tempos apparecia pela adega do sr. Mattos, Deus lhe falle
-n’alma, pois era um honrado homem, um ensebado baralho, que cortava a
-monotonia de um sempiterno jogo de bola, e entretinha quando o tempo
-estava de peior catadura, os afreguezados frequentadores. Outras vezes
-tambem um ou outro especulador lisboeta arribava áquellas paragens
-com esperanças de armar trapaças e jogatinas, e esse então premunia-se
-antecipadamente com uns dados, de lizura problematica, ou com algumas
-cartas de egualdade controversa, que manejadas habilmente lhe serviam de
-traiçoeira isca para os agourentados vintens dos pobres maltezes.
-
-Mas, verdade verdade, era uma excepção da regra. O dono da casa obstava
-quanto podia a estes desvios: e já experimentado nas consequencias,
-tratava de pôr cobro a semelhantes armadilhas.
-
-O domingo, porém, a que nos referimos era um dos taes dias aziagos. Os
-lisboetas, as cartas e os dados tinham trabalhado muito, acompanhados,
-já se vê, de um numero infinito de quartilhos de vinho, que n’uma roda
-viva passavam do balcão para a mesa do jogo, e d’esta para o poder da tia
-Josepha, que já não tinha mãos a medir.
-
-Em medidas effectivamente passara ella o tempo todo; mas nem todas
-eguaes, porque, por amor do proximo já se entende, quando os via mais
-carregados alliviava-lhes a mão, e esvasiava-lhes os copos; até que por
-fim de contas, quasi que, em vista da exiguidade da dóse, mal se poderia
-reconhecer quanto tinham pedido.
-
-Mas decretos da Providencia, que sempre são de immenso alcance,
-disfarçados mesmo nas tibornias da tia Josepha! Se não se compadecesse
-tanto dos miseros bebedores, em que estado não ficariam elles, que mesmo
-assim, quasi sempre, ao sair, não sabiam quem era o cura da sua freguezia!
-
-Os nossos amigos trabalhadores, que não queriam passar por homens de
-ficar atraz em coisas d’aquellas, entraram na quinta, á volta da adega
-do tio Mattos, que era uma lastima vêl-os. Uns a cair, outros cheios de
-escalavradellas, e todos elles sem real da feria da semana.
-
-Começaram beberricando para não fazer desfeita aos lá da cidade que
-os tinham convidado; pouco a pouco foram chegando-se para o jogo, ao
-principio sómente para vêr, depois para jogar. Emfim quando não cabiam em
-si de contentes, porque iam de cima e tinham alguns vintens diante de si,
-viram n’um relance de fortuna varrer-se-lhes tudo da frente, á maneira de
-comoro de vallado feito de terra solta, e que uma cheia leva no enxurro.
-
-D’aqui os ralhos e as desordens; apoz as descomposturas, as vias de
-facto, e quem sabe, se não lhe acudissem, onde a coisa iria parar.
-
-Fazer-lhes prégações n’aquellas alturas era o mesmo que chover no
-molhado. O tio Joaquim, que não era de hoje nem de hontem, conheceu
-logo que perdia o seu tempo; deu-lhes de mão n’aquella noite, e no dia
-seguinte ás horas do costume contou-lhes pouco mais ou menos o que se
-segue:
-
-Poucas coisas ha que tanto custem, para nós, que toda a semana andâmos
-agarrados ao cabo da enxada ou rabiça do arado, como é entreter os
-domingos e dias santos, que o Senhor nos manda para descanço do corpo e
-recobro de forças.
-
-Depois da missa fica um por ahi além de horas, que é preciso matar sem
-quebra do temor de Deus, nem offensa do proximo; mas como nem todos sabem
-o que hão de fazer, acontece quasi sempre, que as perdem, e as perdem
-muito para mal.
-
-As velhas onzeneiras, que almejam pelos domingos para bisbilhotarem as
-vidas alheias e darem cresta ás colmêas dos outros, dizem que se deve
-descançar do trabalho, e passam-n’os na ociosidade, que de todos os
-vicios é o peior; os mal comportados destinam-n’os para as tabernas, do
-que conseguem, além de ficar moidos e ralados, sem poder fazer obra que
-se veja nos dias mais proximos, fazerem-se brutos de todo ao cabo de
-pouco tempo.
-
-E dizem que descançam! Qual descanço nem meio descanço! Como se o homem
-não fosse como a terra, e como esta precisasse estar em pouzio para
-melhor produzir!
-
-Muda-se a sementeira como se deve variar o trabalho, e o melhor descanço
-não é aquelle que consiste em não fazer nada; ou então, o que é peior
-ainda, em armar disturbios e levantar rixas.
-
-Tres rapazes conheci eu, não ha muitos annos, cada um dos quaes tinha
-o seu modo particular de entreter os dias de festa, cada um dos quaes
-tambem escolheu fructos correspondentes ao grão que lançára á terra.
-
-Variavam tanto nos costumes e systemas, como se apartavam nas feições, e
-como se vieram a differençar tambem no destino que levaram.
-
-Tinham nascido na mesma terra, e, bem moços ainda, tinham vindo procurar
-trabalho á mesma fazenda; porque, acostumados a viverem juntos desde
-pequenos, não se podiam separar nem á mão de Deus Padre.
-
-Roberto, o mais velho de todos, era feio de cara e de peior catadura.
-Zangava-se por dez réis de coisa nenhuma, e quando estava zangado
-dava por paus e por pedras. Tinha tanto de robusto, como de mau, e
-só respeitava, de toda a gente, os seus dois companheiros, Pedro e
-Anastacio. O primeiro d’estes fazia tanta differença de Roberto, como o
-dia da noite. Franzino e delgado, parecia que o menor sopro o deitava a
-terra, e lembrava mais um alfinete de toucar do que um trabalhador de
-enxada. Comedido e de bons termos para todos, em pouco tempo ficou sendo
-o ai Jesus da fazenda, onde morriam por elle.
-
-Anastacio, o ultimo em que lhes fallei, era, por assim dizer, como uma
-ponte entre os dois. Fazia lembrar o outono entre o verão e o inverno. Se
-era desembaraçado e lesto como Roberto, era bom como Pedro, estimava um
-e outro devéras: mas se não podia levar a bem os arremessos e maus modos
-de Roberto, não gostava tambem muito de tanto de não presta, de que
-estava cheio o outro seu companheiro. Não lh’o deitava á cara para não o
-envergonhar; mas muitas vezes lh’o ouvi dizer:
-
-—Não se ha de fazer nunca d’ali coisa que tenha geito, parece um
-Sant’Antoninho onde te porei; nasceu mais para fiar n’uma roca do que
-para puxar ao trabalho com substancia. Não é culpa sua, isso é verdade,
-mas por mais que me digam, aquillo foi erro da natureza.
-
-Em pouco tempo teve cada um uma occupação adequada ás suas posses. Pedro,
-que mais não podia, foi encarregado de guardar um rebanho de ovelhas
-e cabras, que tinha mais de duzentas cabeças; Roberto tomou conta da
-abegoaria e das cocheiras; Anastacio ficou de rancho na malta, entre os
-trabalhadores de enxada.
-
-Como é bem de vêr, o peior dos tres começou a fazer das suas: trabalhava
-de má vontade, embebedava-se, e tratava do gado á moda de mil demonios.
-
-O mais fraquito, bem ao contrario, começou a fazer as vontades aos
-patrões e a cair lhes em graça.
-
-Tanto fez, tanto fez, que o filho da casa pegou a ensinar-lhe a lêr,
-coisa porque elle morria havia muito tempo, e em que entretinha os
-domingos, passando os dias de semana, em quanto o gado pastava, a estudar
-as lições e a puxar por si; o Anastacio que não podia aturar a lettra de
-imprensa, nem, segundo dizia, tinha cabeça para aprender, começou a fazer
-economias para, logo que podesse, tratar de casar com uma rapariga da sua
-terra, com quem estava justo desde pequeno.
-
-Emquanto uns iam para as tabernas e Pedro dava lição, elle, que não
-queria gastar o dinheiro em extravagancias, nem atormentar a cabeça com
-aquellas tontices dos livros, procurou vêr se aprendia algum officio
-ou arte, em que se entretivesse, e em que passasse o tempo com toda a
-economia.
-
-—Porque não estudas tu aos domingos tambem? perguntava eu muitas vezes a
-Roberto.
-
-—Ora, porque não nasci para sachristão, nem para besta de carga. Enfados
-bastam os da obrigação, que já não são poucos, quanto mais il-os eu
-buscar agora por minhas mãos. Sempre ouvi dizer que era preceito guardar
-os domingos e festas de guarda, e que trabalhar n’estes dias era peccado.
-
-Estavam as coisas n’estas alturas, quando tive de ir á minha terra,
-recolher uma herançasita que houvera, e demorar-me por lá algum tempo
-para pôr as minhas coisas a direito; quando voltei nenhum d’elles já
-estava na mesma quinta.
-
-Seis annos depois em dia de festa de Corpo de Deus, fui a Lisboa vêr a
-procissão e visitar de caminho uns parentes, que ali tinha,—já lá estão
-na terra da verdade, pobre gente!—Deus os tenha á sua vista.
-
-Passava pela rua dos Bacalhoeiros quando ouvi que de uma tenda me
-chamavam pelo meu nome. Vejam qual não seria a minha admiração, quando
-dei com duas caras conhecidas, que me faziam muita festa, e que eram nem
-mais nem menos do que os nossos amigos Pedro e Anastacio.
-
-Nem pareciam os mesmos, nos termos e nos trajes lembravam pessoas da
-cidade, mas no coração eram sempre os pobres e bons trabalhadores.
-
-—Ora o tio Joaquim por estes sitios, me disseram, e sem nos conhecer!
-
-—É verdade, rapazes, quem era capaz de pensar, que havia agora de vir
-topar com vocês, assim tão enfeitados e garridos. Com mil demonios, se me
-não chamassem, não era eu que os descobria.
-
-—Mas nós não esquecemos os amigos velhos, e logo que o vimos, não
-quizemos passar sem o abraçar.
-
-—Bem apertado e do coração. Mas pelo que vejo a fortuna fez das suas, e
-lembrou-se de vossês.
-
-—É como diz; alguma felicidade tivemos. Mas não ha de ficar á porta da
-rua, entra e vem conversar um poucochinho comnosco, não é assim?
-
-Fiz-lhes a vontade, e pelo que me contaram vim a saber o que lhes tinha
-acontecido, e que foi o seguinte:
-
-Cada um d’elles tinha seguido o seu modo de vida, conforme se ageitava
-melhor. Pedro estudando nos livros, Anastacio trabalhando nas horas de
-descanso, para juntar algum dinheiro.
-
-Metteu-se-lhe na cabeça aprender um officio e a troco de alguns serviços
-feitos ao mestre Antunes, tanoeiro, alcançou que lhe ensinasse o seu modo
-de vida, em que, com a vontade que tinha, chegou a ser um bom official.
-
-Já avesava um par de vintens, quando se descobriram essas terras lá da
-California, onde segundo diziam os papeis, havia mais oiro em pó, do que
-milho em celleiro rico nos annos de fartura.
-
-Os homens de ganhar começaram a mudar de rumo e a procurar fortuna por
-essas terras. Desinquietaram-n’o; mas elle, despresando o ditado: «muda
-de terra, mudarás de fortuna» como se ia dando bem por onde estava,
-resolveu-se a ficar.
-
-Ora, não sei se sabem, que apesar de haver dinheiro a rôdo pela tal
-California, não havia de comer, nem de beber, e qualquer coisa, que por
-lá se precisava, era comprada a peso de oiro. Fazia frio de cair o nariz,
-a aguardente e o figo, era—de mais a mim, mais a mim—e os tanoeiros por
-conseguinte não tinham occasião de dobrar canella.
-
-Anastacio, que já sabia do officio ás direitas, deitou-se á obra, empatou
-em madeira os pintos que juntára, e conseguiu montar uma tanoaria em
-grande, que em pouco tempo se afreguezou pelos bons modos do dono e bom
-preço das obras.
-
-Quando o encontrei em Lisboa, acabava de casar com a promettida
-desposada, que trouxera da terra. A sua loja, que era uma das melhores
-da cidade, gosava de excellentes creditos: e o negocio corria o melhor
-possivel.
-
-Pedro tambem tinha caminhado e muito; mas por estrada diversa. Pouco a
-pouco fôra lendo cada vez melhor, e escrevendo de fórma que levava as
-lampas ao mestre-escola do logar; parecia um treslado a lettra do rapaz.
-
-O dono da quinta, a quem elle caira em graça pelos seus termos comedidos
-e vontade de saber, tirou-o d’aquelle labutar e mandou-o para uma
-mercearia sua em Lisboa, a servir de caixeiro. Era o que elle queria e
-em que melhor calhava, tanto que em pouco tempo se fez um merceeiro de
-enche-mão.
-
-O patrão trazia-o nas palminhas, e dizia á bocca cheia: que não tivera
-nunca outro, que lhe chegasse tanto ás medidas.
-
-Nem só o sr. José Esteves era d’esta opinião: a senhora sua filha, que
-se derretia para o rapasito, achava ao pae carradas de razão e fazia-se
-com terra de lhe chamar seu marido. Atrever-se a pedil-a, não era o Pedro
-capaz d’isso; mas o pae da rapariga, que deu na ferida, e que não era
-de soberbas, antes pelo contrario muito dado e maneiro, reconheceu que
-lhe convinha para genro um bom rapaz socegado e amigo de dar ordem á sua
-vida, e em poucos tempos tratou de os pôr a caminho do setimo sacramento.
-
-Tambem vivia de grande quando lhe fallei, e a loja onde estavamos era do
-sogro; ou d’elle, que vinha a dar na mesma coisa.
-
-Tinham acabado de me contar as suas historias, e ia-lhes perguntar, que
-norte tinha tomado Roberto, quando ao chegarmos á porta para vêr a gente
-que passava para a procissão, desembocaram de uma d’aquellas ruas uns
-poucos de grilhetas, que de barril ás costas, desciam lá das bandas do
-Castello e iam para o chafariz de Dentro. Não tive que perguntar, porque
-reconheci-o logo entre elles quando passaram diante da porta.
-
-Vim depois a saber por que fôra ali parar. O vinho, e as patuscadas dos
-domingos, tinham sido a causa d’aquella desgraça.
-
-Não deitava Nosso Senhor um dia santo a esta terra, que elle não fosse
-para a taberna, e que não sahisse de lá a não ser em miseravel estado. Em
-breve pozeram-no fóra do trabalho, porque não dava conta de si, nem se
-podia olhar para elle, de desmaselado que andava. Vendo-se sem trabalho,
-e sem ninguem o querer, ajuntou-se a uns poucos de vadios da terra, que
-passavam pelas peores firmas do logar.
-
-Ao principio eram comesainas e bebedices: depois como não havia dinheiro,
-nem gente que lhes fiasse, nem vontade de trabalhar, começaram a pregar
-calotes, a commetter roubos, e quem sabe se mortes tambem.
-
-Ao menos assim por lá se rosnava, e bem se diz: que n’estas coisas: «voz
-do povo, é voz de Deus.»
-
-Um dia a justiça, que andava com os olhos n’elles, deitou-lhes a unha. Um
-dos que resistiu foi Roberto, e ao fugir á prisão, feriu de morte um dos
-cabos, que o queriam prender.
-
-Foi condemnado ás galés por toda a vida: e a cumprir esta sentença o vi
-eu em Lisboa, no tal dia de festa do Corpo de Deus.
-
-Agora vocês lá rapazes, que perceberam aonde eu ia dar na minha: pensem
-na historia que lhes contei, e vejam de que modo deverão passar melhor os
-domingos e dias santos.
-
-Os bons dos maltezes não deram resposta ao narrador n’essa occasião; os
-resultados futuros deixaram vêr, porém, que as palavras do conto do tio
-Joaquim, não tinham sido deitadas ao vento.
-
-
-
-
-V
-
-Os retratos de familia[1]
-
-
-Faz para as vindimas dez annos, que eu ouvi ao tio Joaquim esta historia.
-
-Havia pouco que sahira da quinta, onde eu estava, o sr. Antonio Tavares,
-que passava por um dos fazendeiros mais ricos dos arredores.
-
-Amanhava para cima de sessenta geiras de terra: e só de uva mandava perto
-de quinhentas caixas para embarque.
-
-Era franco, alegre, e homem de boas petas; tinha pilhas de graça e
-parecia vender saude; emquanto a modos e linguagem, sabia o nome aos
-bois, e quando fallava de lavoira podia-se ouvir, discorria como um livro
-aberto.
-
-Todos gostavam d’elle, por não ser de contos, nem de arcas encoiradas;
-só cuidava da sua vida, andando lizo no negocio como poucos. Ninguem lhe
-acceitava signal, porque em dando a sua palavra era como se apresentasse
-o dinheiro contado na palma da mão. Não constava que faltasse, nem se
-dava fé, de quem tivesse duvida em fiar d’elle fosse o que fosse.
-
-Tinha vindo a comprar uns trigos, assistira ao carregar dos carros e
-sahira depois do trabalho acabado, n’uma vaca de cinco annos, esperta
-como um azougue e preta como um azeviche. Rira muito, contára muita
-coisa, e fizera bom negocio; porque lhe tinham dado o pão em conta por
-ser a venda redonda.
-
-O tio Joaquim, que não era dos mais falladores, nem dos que se abria
-muito com os extranhos, conversára com o sr. Antonio Tavares, como
-quem de ha muito o conhecia: apertára-lhe a mão na despedida com ares
-affectuosos, e seguira-o com a vista até desapparecer na volta da
-alameda, fazendo feitios com o pau na terra do pateo, e resmungando entre
-dentes palavras que não entendi.
-
-Esta excepção nos habitos do velho, aguçou-me a curiosidade, e
-perguntei-lhe se conhecia de ha muito o homem que d’ali saira.
-
-—Se conheço!...—respondeu-me inclinando a cabeça de alto a baixo,
-compassadamente, duas ou tres vezes.
-
-Havia tantas coisas n’aquella reticencia do tio Joaquim, que não pude
-resistir, e instei com elle para que me contasse a historia do sr.
-Antonio Tavares.
-
-Tanto fiz, tanto fiz, que sentou-se ao meu lado n’um poial de tijolo,
-carregou um cachimbo de madeira, enfeitado com virolas de latão, como os
-que usam os campinos do Ribatejo, petiscou, accendeu-o e começou.
-
-Mais palavra menos palavra disse o seguinte:
-
-—Vae tanta differença d’este Antonio, ao de outros tempos, como vae da
-noite ao dia, e tanto que se eu não presenciasse esta mudança, não podia
-acredital-a ainda que m’a contassem.
-
-Lá embaixo, ao pé do Joaquim Boleta, no recanto da azinhaga, morou por
-muito tempo o pae em companhia da mulher que veio a morrer de parto,
-quando este Antonio nasceu. Ali esteve, até que por causa da guerra com
-os francezes chamaram as baixas antigas e elle, como tinha sido soldado
-n’outros tempos, teve de partir deixando o rapaz entregue a uma visinha,
-boa mulher na verdade e que promettera tomar conta d’elle. Mas é mais
-facil ter um pouco d’azougue quieto em cima d’uma pedra, do que era
-conseguir, que o rapaz não fizesse por ahi obras de cabeça.
-
-Não deitava Deus nosso Senhor um dia a este mundo, em que se não
-dissesse: lá apanhou o Antonio engeitado, (assim é que lhe chamavam), uma
-escamoucadella na cabeça, lá o aleijaram n’uma brincadeira, lá lhe deram
-uma cossa quando andava aos figos.
-
-Era um rosario de coisas, que até fazia admiração como elle resistia; mas
-se o carrasco e o zambujeiro crescem, medram e enrijam ao desamparo por
-esses vallados, e não ha madeira como a d’elles para aguentar dura; não
-admira tambem que o rapaz enrijasse assim ao Deus dará e se fizesse um
-mocetão de mão cheia, esperto e guapo que era um regalo vêl-o.
-
-Emquanto a velha Thereza foi viva ainda elle trabalhou alguma coisa para
-a sustentar, não muito, que lá no seu dizer, o trabalho era para os cães
-e não para as almas christãs; mas apenas a velha fechou o olho, adeus
-minha vida, foi um vadiar, que não é para dizer.
-
-N’este comenos tinha um soldado, que viera da campanha passado pela
-terra, e entregára ao Antonio umas lembranças do pae, morto n’um ataque
-contra os francezes, recommendando-lhe o filho á hora da morte.
-
-Minguada herança, que ella era. A farda do soldado, meia duzia de peças,
-se tanto, e o retrato do pae, que um seu companheiro tinha feito n’uma
-hora de vagar. Muito parecido, por tal signal; era elle por uma pena, só
-lhe faltava fallar.
-
-Antonio chorou devéras, pouco se lembrava de seu pae; mas custou-lhe
-muito aquelle lance. E n’essa occasião mesmo deu mostras de boa alma que
-tinha, e que depois deixou vêr melhor lá para o diante, quando mudou de
-vida. Apesar de falto de dinheiro, não gastou comsigo nem um real da
-herança que recebera; uma parte empregou-a em mandar fazer um caixilho
-muito bonito para o retrato de seu pae, e o resto deu-o de esmolas aos
-pobres, pedindo-lhe que rezassem por alma do finado. Andou uns dias, que
-não parecia o mesmo, triste e regular no trabalho, depois tornou á antiga
-ou ainda peor se era possivel.
-
-Quando tinha algum vintem de seu não paravam as patuscadas, as festas e
-os divertimentos; depois trabalhava pouco e de má vontade até arranjar
-dinheiro, e, mal o conseguia, eil-o que voltava á boa vida.
-
-Mas, manda a verdade que se diga, esteve por vezes doente no hospital,
-viu-se em talas quando por ahi faltou o trabalho, vendeu, empenhou tudo,
-só não tocou, em occasião nenhuma, nem na fardeta, nem no retrato, que
-conservava á cabeceira da rabeca, onde dormia, como se fossem imagens do
-Senhor dos Passos ou orações do Justo Juiz.
-
-Uma vez, vim a sabel-o ao depois, tinha-se-lhe acabado todo o dinheiro e
-não havia que fazer; o jantar havia de vir; mas d’onde, é que elle ainda
-o não sabia. Antonio foi procurar um ferro velho do logar e propôz-lhe a
-venda da enxerga: era o resto dos trastes, que tinha, e estava tão velha
-e tão suja, que nem uma de doze valia.
-
-O ferro velho entrou, e mal deu com os olhos nas duas reliquias do pobre
-rapaz offereceu-se para lh’as comprar; mas inda bem o não tinha dito, já
-estava arrependido de o dizer, porque Antonio punha-o immediatamente no
-meio da rua com promessa de lhe fazer os ossos n’um feixe, se tivesse
-outra vez semelhante lembrança.
-
-Assim passou algum tempo com a barriga ora em lua cheia ora em quarto
-minguante, até que uma gente, que para aqui veio lhe fez mudar o modo de
-viver.
-
-Um velho tinha arrendado a quinta dos Fusis, para onde viera presistir em
-companhia de sua filha.
-
-Elle andava pelos seus cincoenta annos: parecia homem de bem; mas casca
-grossa e pouco de graças; ella, mais bonita que uma imagem e mais bem
-posta que uma fidalga.
-
-Quando íam no domingo á missa ou de tarde a espairecer por essas
-azinhagas, o velho de cabeça branca, corpo um tanto curvado, bigodes
-grandes, sobrancelhas espessas, parecer carregado e faces enrugadas;
-ella alta, esbelta, de olhos pretos e vivos, cabello castanho, faces
-córadas, feições alegres e cara de riso para todos, pareciam a noite e
-a madrugada, ou o inverno e a primavera que se combinassem para melhor
-parecer unidos um á outra.
-
-Os rapazes todos derretiam-se para ella, mas o pae que não tinha cara de
-muitos amigos, impunha-lhes respeito e conservava-os de largo; e d’ahi
-ella assim mesmo sempre alegre, mas toda senhora, dava tambem a entender,
-que não estava resolvida a acceitar a côrte a qualquer badameco.
-
-Antonio vio-a um dia e ficou perdido de cabeça; desde essa occasião
-começou vida nova: e o rapaz extravagante e vadio, começou a ser homem.
-
-Era tempo, tinha quasi vinte e cinco annos.
-
-Mas a vida que seguiu, foi tão differente da antiga, que não parecia o
-mesmo.
-
-Os dias passava-os a trabalhar, as noites a aprender a lêr, porque o
-mestre do logar lh’o ensinava a troco dos domingos, em que lhe trabalhava
-no quintal, e as horas de sesta ou de jantar passeando pela frente
-da casa da menina Maria, que o enfeitiçára: mas para bem, que são os
-melhores feitiços.
-
-E o caso é que o maganão do Antonio tinha bom gosto, por que mocetona
-mais perfeita não a havia n’estas tres leguas ao deredor. Ia-se
-desenvolvendo e medrando, que era um louvar a Deus, e não seria por sua
-parte, que podesse resultar má fama aos ares do logar.
-
-Bonita já ella o era, mas enfezada e doentia por amor d’aquelle mau
-respirar que as cidades fazem; apenas porém desatou por ahi a passear
-e a espairecer, entrou a córar, que nem uma pera de Santo Antonio, e a
-encorpar que nem uma maçã bemposta.
-
-Se ella reparava no rapaz, nem o sei eu, nem ha quem o jure, porque isto
-de mulheres, nem o demo as entende; mas que o não visse com maus olhos é
-de crêr, porque o Antonio, não tinha nada que se deitasse fóra e era um
-rapaz perfeito a mais não poder ser.
-
-Cá por a terra não se fallava n’outra coisa e não havia tenda nem
-barbeiro, onde se não désse á taramella a tal respeito. Tudo em bem, que
-em mal não havia rasão, nem atrevimento para tanto, por que com Antonio
-ninguem brincava, e todos se pellavam de medo de um certo marmelleiro
-ferrado, que elle trazia e que não era palito para dentes, nem vime de
-passar creanças.
-
-Tanto fallaram, tanto fallaram, que o caso foi aos ouvidos do pae, que já
-andava com a pedra no sapato por tanto rondar de porta e tanto encontrar
-o Antonio nas visinhanças da quinta.
-
-Um dia, que acabava de fazer a barba, dois maltezes que estavam no
-barbeiro, e que o não conheciam, entraram com pé de conversa a respeito
-do tal namoro e deram a entender, lá por meias palavras que o Antonio se
-fazia com terra de casar com a menina Maria.
-
-O sr. José Alves, assim se chamava o pae, não quiz ouvir mais nada;
-atirou com uma de trez para cima da mesa do barbeiro, e foi se como um
-raio a casa do Antonio.
-
-Boas tenções não tinha elle. Ia fumando, e vermelho como um pimentão,
-saccudia um camolete que levava, que mais parecia um bastão de
-tambor-mór, do que uma vara de encosto. Se encontrasse o rapaz no meio
-do caminho, atirava-se a elle, e não o deixava em quanto lhe encontrasse
-osso inteiro.
-
-Era um sabbado e quasi ao sol posto: o quarto estava escuro e Antonio,
-que voltára mais cedo do trabalho, tinha-se atirado para cima da cama,
-farto de lidar e sem poder comsigo.
-
-Apenas por uma claraboia, que havia no telhado, entrava alguma luz, e
-essa ia bater de chapa no retrato, que estava á cabeceira; parecia pessoa
-viva, e até mettia respeito olhar para elle.
-
-É de crêr que o sr. José Alves se não demorasse a bater á porta,
-atirou-lhe um encontrão e deitou-a dentro ás primeiras rasões.
-
-Antonio ia a agarrar no pau, que tinha ao pé de si, e saltar na visita,
-quando reconheceu o pae de Maria e ficou varado; este ia para fallar,
-quando deu com os olhos no retrato e pasmou. As lagrimas saltaram-lhe dos
-olhos, e, sem mais satisfações, perguntou a Antonio, apontando-lhe para o
-painel:
-
-—De quem é aquelle retrato?
-
-—De meu pae, respondeu o rapaz.
-
-—De Antonio, do meu velho amigo!—e em vez de se atirar á paulada ao
-namorado da filha, atirou-se a abraçal-o que parecia querer metter-lhe as
-costellas dentro.
-
-O que causára aquella mudança, já o senhor adivinha o que foi, continuou
-o tio Joaquim concluindo a sua narração, o sr. José Alves era o tal
-camarada de Antonio, que trouxera o retrato, quando o rapaz ainda
-era um fedelho, e a quem o pae o recommendára á hora da morte. Tinha
-continuado a servir depois que passára pela terra a cumprir o testamento
-do moribundo: e de batalha, em batalha, esquecera-se do companheiro, do
-filho, e da promessa.
-
-Antonio foi para casa do velho, entrou a administrar-lhe o que elle tinha
-e augmental-o com o trabalho e a boa vontade; o casamento que já era de
-gosto do sr. José Alves e a que a rapariga não dizia que não, fez-se
-d’alli a pouco... e lá tem vivido como Deus com os anjos até que o velho
-morreu, deixando a filha e o genro de posse da fortuna que o senhor sabe.
-
-No dia seguinte, áquelle em que o tio Joaquim me contára esta historia
-fui aos _Fusis_ procurar o sr. Antonio Tavares e receber o dinheiro dos
-trigos.
-
-Havia muito que não entrava n’uma quinta tão bem cultivada, nem via em
-fazenda alguma, n’aquelles sitios, tanta ordem, nem tão bom gosto.
-
-Os systemas mais modernos, os instrumentos mais appropriados, as
-descobertas de maior importancia pratica, tudo ali estava aproveitado,
-com uma tal arte, que bem mostrava ter sido, coisa rara entre nós, a
-theoria unida á experiencia com muito criterio e bom resultado. A _dos
-Fusis_ poderia servir de _quinta modelo_, se os fazendeiros da terra,
-afferrados á rutina, cuidassem de modernismos ou tratassem de innovações.
-
-Apenas soube, que eu ali chegára o sr. Antonio Tavares, mandou-me entrar
-para a casa de jantar, onde estava com a sua familia; Maria, que devera
-ter sido tão formosa, como o tio Joaquim o dissera: e duas creanças, que
-se tinham levantado da mesa e que brincavam ali para um canto.
-
-A casa, posto que conservasse aquelle aspecto severo, que ainda se
-denota n’algumas fóra de Lisboa, que fosse de ladrilho, com as paredes
-revestidas d’azulejo até meio, e o tecto _em osso_, com as grossas vigas
-de castanho do emmadeiramento á mostra, era alegre, porque recebia muita
-luz de tres rasgadas janellas, que deitavam sobre uma horta. A mobilia
-era de pau santo torneado, e n’um grande armario meio aberto via-se
-boa louça da India, e algumas peças d’uma baixella de prata. No logar
-de honra dava-se com o retrato a lapis de Antonio e com um outro mais
-moderno, a oleo, que devia ser do sogro: uma santa, que não sei ao certo
-qual era e dois quadros de fructas ornavam as paredes.
-
-Tudo reunido dava á casa de jantar um certo ar patriarchal, que infundia
-respeito e inspirava felicidade.
-
-Antonio depois de me pedir que me sentasse, e de me offerecer um copo
-de vinho da lavra, levantou-se e foi a um contador buscar o dinheiro da
-compra, que já estava embrulhado e prompto desde a vespera; conversámos
-um pouco, e quando me despedia, pediu-me que o visitasse a meudo, porque
-estimaria vêr-me em sua casa.
-
-—Voltarei, lhe prometti, e voltarei em breve: o tio Joaquim contou me a
-sua vida, e apenas o conheci, comecei a respeital o.
-
-—Bondades suas e do tio Joaquim, que é muito velho, não ha razão para o
-que diz. Fui rapaz, fiz o que todos fazem, emendei-me a tempo, se é que
-não foi tarde: se alguma virtude tive, e essa mesma bem m’a têem pago
-aquelles,—disse-me olhando para Maria e para os pequenos,—foi não me
-esquecer no meio de todas as minhas doidices, que me tinham ensinado a
-_Honrar pae e mãe_.
-
-
-
-
-VI
-
-O fructo prohibido
-
-
-I
-
-Adeus, Rosa! Adeus! E adeus para sempre!
-
-—Ai! para sempre, meu Estevam?
-
-—Que queres que eu faça, dize?
-
-—Sei-o eu, por ventura? Mas partir... e o mar?... É tão bravo!
-
-—Não só no mar ha bravezas, na terra corre-se risco de maior: se eu
-ficasse!...
-
-—O que fazias?
-
-—Ou mettia uma navalha no Januario ou dava um tiro n’estes miolos.
-
-—Jesus, homem, tentação do demonio é essa, cruzes! Parte, parte, meu
-Estevam, mas não te esqueças de mim.
-
-—E tu?
-
-—Eu! Sempre.
-
-—Adeus!
-
-—Não te verei ainda ámanhã?!... Antes do embarque?...
-
-—Não, o que ha de ser seja, quanto mais estiver com demoras, mais me
-faltará o animo. Adeus Rosa, sê feliz.
-
-—Adeus, Estevam, volta breve.
-
-—Voltar para que? Para te vêr entregue a outrem, que virás a amar, se é
-que o não amas agora?... Para presencear essa vida de felicidade, que é
-a minha desgraça, o meu tormento; para comprehender que me illudiste,
-quando me juraste um amor eterno! Amores eternos de mulher, como as
-flôres d’este nome, que duram mezes, e que os primeiros sopros do inverno
-derrubam!...
-
-—Deus te perdôe a injustiça que me fazes!
-
-—Para que casas?
-
-—E a maldição de meu pae?... Meu pae amaldiçoava me Estevam.
-
-—E o nosso amor!
-
-—Fica-me no coração, ha de me matar, descança.
-
-—Antes tu morresses...
-
-—Oh! Quem dera!
-
-—Não fallemos mais em semelhante coisa. Para que has de dessimular ainda?
-
-—Se eu pudesse rasgar este peito, que me opprime, se pudesse arrancar-lhe
-este coração que é teu, e o ha de ser sempre, se te podesse mostrar como
-elle padece, não duvidarias de mim.
-
-—Queres que te agradeça talvez, queres que te bemdiga não é assim, queres
-que estime saber, que pertences a outro, não é verdade?
-
-—Não, Estevam, quero que tenhas dó de mim, e que me esqueças!
-
-—Esquecer-te, eu! E a minha existencia de até hoje, que foi sempre tua,
-e a minha fé no futuro, que estava em ti, e a minha vida toda, que te
-pertence; queres que esqueça tudo?... Se não fôra minha mãe!...
-
-—Tua mãe!
-
-—Sim, minha mãe, pobre e santa velhinha, que não tem no mundo mais do
-que eu, que lhe queira e que a ampare. Minha mãe, que eu mataria se
-morresse; minha mãe, a unica que me tem tido amor na terra!...
-
-—A unica! Talvez...
-
-—Olha, Rosa, escusas de fingir, para quê? Não vale a pena. Ámanhã por
-estas horas já estarei d’aqui bem longe. Só o que te peço, como um ultimo
-favor, como uma esmola, é que te lembres de minha mãe, que lhe enxugues
-as lagrimas, que chores com ella,—não te ha de custar muito, sabes tão
-bem illudir!—e que depois uma e outra vez te lembres de que te amei... e
-muito.
-
-—Pela alma da minha te juro, ha de ser minha mãe.
-
-—Obrigado, Rosa. Adeus!
-
-—Não me queiras mal.
-
-—Não poderia, ainda que quizesse.
-
-—Não queiras, Estevam, não, que t’o não mereço, perdôa-me e... não te
-esqueças de mim!... Meu pae, que nos vê, foge Estevam, elle encaminha-se
-para este lado.
-
-—Adeus!
-
-Passava-se este dialogo no pateo da quinta de _Valle do Freixo_ no dia de
-S. João, ao amanhecer.
-
-Houvera um bailarico de primor, a que tinham concorrido os rapazes e as
-raparigas das visinhanças e com elles os paes, as mães e os tios.
-
-Era um poder de gente, que passára a noite a cantar, a dançar, a pular, a
-rir, a comer, a beber, a respirar alegria: a provar que os cuidados lhes
-não pesavam na consciencia, nem o mau humor no espirito.
-
-Fôra um dos mais brilhantes bailaricos de que havia memoria.
-
-O dono da quinta pozera uma grande meda de vides á disposição da
-fogueira, e uma pipa de vinho ás ordens dos concorrentes; mandára cozer
-varias amassaduras de pão, frigir um por ahi além de peixe; transplantára
-dois alfobres de alface para quatro alguidares, juntando-lhes tambem
-quatro cestos vindimos com a fructa do tempo, e sobre tudo a boa vontade
-e o contentamento a resplandecerem-lhe na physionomia, convidando todos a
-divertirem se.
-
-Infelizmente, porém, nem todos podiam estar alegres. N’aquella multidão
-buliçosa duas creaturas havia tão tristes, tão attribuladas, que cortava
-o coração olhar para ellas: parecia que tinham vindo assistir, não a uma
-festa, mas a um enterro.
-
-E na verdade, ali enterravam vinte annos de esperança e de amor:
-n’aquella noite se viam em despedida, e só Deus poderia saber se essa
-despedida seria eterna.
-
-Rosa e Estevam tinham vivido juntos desde creanças e tinham-se acostumado
-a amar, antes, ainda antes de saberem o que era amor. Conheceram o
-que era quando começaram a padecer; porque é no soffrimento que elle
-desabrocha, como as rosas de mais apreço nos seus berços de espinhos.
-
-Juntos balbuciaram as primeiras palavras, juntos aprenderam a lêr,
-juntos iam á escóla, juntos voltavam ás tardes, e juntos passavam as
-noites brincando no campo e discorrendo alegremente, como duas avesinhas
-chilrando proximas na mesma arvore.
-
-E encontra-se o que quer que seja de gorgear de passaros no palrar
-infantil, que borboleteia de assumpto em assumpto, soltando de quando em
-quando notas agudas de admiração, ou modulando trilos narrativos de tanta
-viveza e simplicidade.
-
-Disseram em commum as primeiras orações, e muitas vezes os surprehendia
-o passeante enternecido, de joelhos e mãosinhas erguidas para o céo,
-repetindo em côro:—«Perdoae-nos, Senhor, as nossas dividas...» dividas,
-de um ninho surprehendido entre as giestas, ou de uma innocente mentira a
-denunciar-se logo pelo rubor da candura e pelo borbulhar de duas lagrimas
-de arrependimento, se por ventura os interrogavam.
-
-E que lindo grupo, quando estudavam juntos a lição do mestre, ou a reza
-que a mãe lhes ensinára, sentadinhos no limiar da porta, um repetindo
-entre incertezas e duvidas; outro escutando com toda a attenção e com
-ares concentrados, como quem comprehendia a gravidade da sua posição de
-professor: mas ambos a reverem-se um no outro e a casarem torrentes de
-luz, que lhes chispavam d’aquelles olhos brilhantes, vivos, buliçosos,
-humidos de alegria e languidos de sentimento.
-
-Com o decorrer dos annos não houve remedio senão ir gradualmente rareando
-aquelles doces encontros. Demais, tendo morrido a mãe de Rosa, esta
-ficára governando a casa e em companhia de seu pae, que não era para
-graças. Continuaram a vêr-se, a fallar-se; mas ás furtadellas, e quasi
-que ás escondidas.
-
-Rosa crescera, e ao desenvolver-se tinha ganho cada vez maiores
-perfeições. Fizera-se mulher, mas mulher tão formosa, tão delicadamente
-formosa, que confortava a alma admiral-a.
-
-Não parecia do campo, nem mesmo da terra.
-
-Devem ser assim aquellas phantasticas visões, que, aljofradas por
-milhares de perolas do orvalho da manhã, se esboçam na atmosphera ao
-romper do sol por entre as nevoas da aurora.
-
-Delicada flôr, que a mais terna aragem encurvava, parecia quebrar-se
-no andar. Resvallava pelo chão, deixando apenas uma suave fragancia a
-denunciar a sua rapida passagem, e uma indefinida sensação na mente dos
-que a viam.
-
-Por aquellas visinhanças não havia noticia de creança tão mimosa.
-
-Era branca; mas branca como o alabastro e como os lyrios, e na suave
-pallidez da physionomia lia-se o sentimento d’aquella organisação
-franzina e nervosa. Os cabellos negros como o azeviche, assetinados
-e brilhantes, poder-lhe hiam servir de manto, quando os desatasse
-ondeando pelas costas abaixo e dobrando ainda no chão; os olhos como dois
-diamantes negros, sempre velados por uma doce melancholia rasgavam-se-lhe
-no meio de duas palpebras escurecidas pelas sobrancelhas finamente
-desenhadas, e orladas d’umas pestanas compridas e densas, que davam ao
-olhar, já de si bem triste, mais tristeza ainda amortecendo-lhe o brilho,
-quando raramente o illuminava.
-
-Quem attentasse n’aquelle rosto sempre sentido, sempre scismando como
-que n’outro mundo, sempre voltado para o céo, sentiria, se de todo não
-tivesse a alma cerrada á compaixão, uma lagrima de sincera piedade
-cair dos olhos extaticos. Rosa era uma creatura que lembrava aquelles
-mysterios, os enlaces dos anjos com as formosas filhas dos homens, nas
-primeiras eras do mundo.
-
-Estevam tambem se desenvolvera, e se formára um guapo e gentil rapaz.
-
-Nas bem proporcionadas fórmas lia-se-lhes a força; no rosto franco e
-expansivo, a lealdade e o valor. Não havia idéa de que nunca em sua vida
-tivesse abusado da força: mas não constava tambem que tivesse recuado
-nunca. Não procurava o perigo, mas não se temia d’elle; era dotado de
-verdadeira coragem, fria, reflexiva, inabalavel.
-
-Estes dotes, porém, não eram de tal natureza, que podessem captivar o pae
-de Rosa, homem de lettras gordas, e mais para o dinheiro do que para o
-sentimento.
-
-Tinha casado com a senhora Placida, depois de lhe namorar os pintos e não
-a physionomia.
-
-Vivera feliz a seu modo, porque tivera os commodos da vida, e não
-comprehendia felicidade possivel, sem dinheiro ao canto do bahú, pão na
-arca, vinho na adega e azeite na talha. Todo esse palavreado de amor e
-paixão era engrimanço, que espremido não deitava nada; nem julgava que
-boas razões pagassem dividas ou enchessem barriga.
-
-Um seu visinho e compadre, homem dos seus quarenta puxados, casca grossa
-como elle, pé de boi, mas abastado, e com fama de entender do negocio e
-da lavoira, tinha conversado com o sr. Feliciano Gomes, assim se chamava
-o pae de Rosa, a respeito d’esta, affirmando-lhe que se não dava de tomar
-estado se encontrasse mulher tão perfeita como a filha. Feliciano, que ha
-muito andava com o olho n’uma courella do compadre Januario, e que por
-mais d’uma vez futurára comprar-lh’a, alegrou-se com a idéa de arredondar
-a sua propriedade, á custa de tão pouco.
-
-Tratou pois de desvanecer algumas duvidas, que ainda esvoaçavam no
-espirito modesto do sr. Januario, convencendo-o de que lhe sobravam
-perfeições para captivar o coração mais rebelde, que por ventura
-palpitasse em peito de mulher.
-
-—Mas, eu sei lá, homem?... Já não estou muito rapaz...
-
-—Melhor é isso, não tem edade para loucuras.
-
-—E se a rapariga me não quizer?
-
-—Era o que faltava, compadre, deitava-lhe os braços abaixo e nunca mais
-lhe punha a vista em cima!
-
-—N’isso é que eu não consentia!... Pobre Rosita!
-
-—Então quem ha de mandar em minha filha se não fôr eu? Quem póde saber o
-que lhe convém?
-
-—Olhe, compadre, se a pequena tiver alguma inclinação...
-
-—Sem minha licença? Não faltava mais que vêr! Ensinava-a por uma vez.
-
-—Veja lá o que faz, homem, não quero que a rapariga padeça por minha
-causa!
-
-—Qual padecer, nem meio padecer. Estou vendo-a já saltando de contente,
-quando lhe disser: não sabes, o visinho Januario quer casar comtigo.
-Foste feliz...
-
-—Isso ha de ser. Não lhe hei de faltar com coisa nenhuma.
-
-—Pois para as mulheres é o que é preciso: dinheiro para gastarem nos
-trapos, e andam satisfeitas.
-
-—Parece-lhe por conseguinte que serei seu genro?
-
-—Se me parece! Já o é desde hoje, toque lá e deixe tudo por minha conta.
-
-—Lembre-se de que eu não quero ir contra a vontade d’ella...
-
-—Qual vontade, nem meia vontade, compádre Januario; o dito dito, e até
-ámanhã.
-
-Esta conversação foi o começo das tristes aventuras dos dois amantes, que
-apresentei aos meus leitores, e cuja historia, n’uma noite bem invernosa,
-ouvi ao tio Joaquim.
-
-Emquanto Januario ficava scismando na sua vida futura e saboreando
-d’ante-mão a posse da rapariga mais guapa d’aquelles sitios, Feliciano
-recolhia rindo-se e esfregando as mãos, o que n’elle denotava o maior
-signal de contentamento.
-
-Acabava de fazer um excellente negocio. Trocára a filha por uma courella
-de dez alqueires de semeadura: isto é, uma mulher que tinha que sustentar
-por uma terra que dava de comer.
-
-E o olival das _queimadas_, e a quinta da _cortiça_, e o casal do
-_petisco_, e as terras do _Penetra_, e a horta da _allamôa_, e tantos
-outros bens e haveres, que constituiam a fortuna de Januario!
-
-Claro estava que tinha tido uma tarde feliz.
-
-Rosa ficou surprehendida ao vêr entrar seu pae em casa risonho e
-cantarolando, coisa de que não havia memoria; e sem lhe passar pela
-cabeça qual era o motivo de semelhante transformação, sentiu-se alegre
-tambem.
-
-Havia muitos annos que seu pae lhe não mostrava physionomia tão
-prasenteira, nem lhe fallava com tanto agrado.
-
-De repente deu-lhe uma pancada o coração, quando Feliciano, voltando-se
-para ella, lhe perguntou com certos modos em que transpareciam alegria e
-finura mal contidas:
-
-—Que te parece o compadre Januario?
-
-—Que me ha de parecer, meu pae, dizem que é tão boa pessoa!...
-
-—Sim, sim, bem se sabe isso, boa pessoa, assim como quem diz pedaço
-d’asno; não é pelas bondades, que eu te pergunto.
-
-—Então meu pae?...
-
-—Não olhaste para elle nunca com os teus olhos... de vêr?
-
-—Eu não senhor.
-
-—Pois é preciso que olhes, entendes-me? disse-lhe Feliciano derrubando
-as sobrancelhas e deixando cair a viseira: talvez te agradem mais esses
-alfenins lambidos, que por ahi se andam a desfazer? Pois estás muito
-enganada comigo, percebes?...
-
-E ao passo que ia fallando engrossava a voz e fazia cara de arremetter.
-Rosa tremia como varas verdes, e, com os olhos arrasados de lagrimas,
-encommendava se mentalmente a todos os santos do seu calendario.
-
-Mal teve forças para balbuciar um:—sim senhor, meu pae,—e, cambaleando,
-foi fechar-se no seu quarto, deitando-se em cima da cama a soluçar
-convulsa, como quem se despedia d’este mundo.
-
-No dia seguinte, ao almoço, parecia que voltava do cemiterio, Feliciano,
-porém, que se não apercebia facilmente d’estas mudanças, ou que, se as
-conhecia, fingia bem o contrario, repetiu o interrompido assalto.
-
-—É preciso que vás pensando no casamento, estás uma mulher, ouviste?
-
-Bem quizera a pobre da rapariga não ter ouvido; mas era impossivel
-dessimular.
-
-—Eu, meu pae; estou assim bem, eu não quero casar!...
-
-A resposta não se fez esperar muito. Feliciano soltou uma torrente de
-imprecações, acompanhamento estrepitoso de uma bofetada não menos
-estrepitosa, que já cortava os ares ainda bem a rapariga não acabára de
-dizer que não queria casar.
-
-—Grandissima atrevida!... Eu te ensinarei a ter querer! Não queres
-casar, hein! E pensas que engulo essa!... Vossês lá que bebem ares por
-um marido! Mas tu o que não sabes é com quem estás mettida: eu não nasci
-hontem e não has de ser tu, minha seresma, que me faças o ninho atraz da
-orelha. Não queres casar, hein!... Ora mette-me o dedo na bocca a vêr
-se t’o mordo! É volta de festa, é namorico no caso, mas apanhe te eu,
-que verás por uma vez os meninos orphãos a cavallo. Não queres casar!
-Mas quero eu que te cases e é o que basta. O visinho Januario pediu-te
-hontem e eu resolvi que havias de ser sua mulher. E é dar graças a
-Deus, pela pechincha! Onde pódes ir que mais valhas? Andar para deante
-e cara alegre, quero que estejas contente, que mostres ao visinho, que
-tens gosto no casamento, e que lhe agradeces os seus affectos, senão...
-ponho-te fóra de casa depois de te moer esses ossos, e não quero mais que
-me chames teu pae.
-
-Ao passo que ia ouvindo seu pae, Rosa ia successivamente esmorecendo.
-
-Á vermelhidão, que lhe tingira o rosto ao receber a brutal bofetada,
-succedera-se uma pallidez citrina, que augmentára até ficar de puro
-alabastro.
-
-Tinham lhe rebentado as lagrimas dos olhos no primeiro momento; mas não
-correram. Uma constricção terrivel lhe afogou a garganta, pensou que
-ia suffocar-se: pulava-lhe o coração no peito, batiam-lhe as arterias
-na cabeça, semilhando o marulho das ondas, em torno do que mergulha
-rapidamente, um cinto de ferro lhe apertava a fronte, zunidos estranhos
-lhe baqueavam no cerebro.
-
-Cuidou que ia morrer e do intimo d’alma elevou ao Creador, uma prece de
-jubilo, em acção de graças.
-
-Era um desmaio apenas, um d’estes abalos, que passam pelas organisações
-nimiamente nervosas, como o furacão pelos arbustos, extremamente debeis.
-
-Acurvam-os até ao chão, estorcem-os na passagem; mas não os partem.
-
-Rosa quiz segurar-se á mesa, mas estonteou-se-lhe a vista, andou-lhe a
-cabeça á roda, desfalleceram-lhe os braços, correu lhe gelo pelas veias e
-deu redondamente no meio do chão. Parecia morta.
-
-Feliciano largou uma d’estas maldições capazes de espavorir toda a
-milicia celeste e correu á filha; estremeceu-lhe o remorso todas as
-fibras do coração de pae. Não havia maldade nas intenções do velho;
-entendia a seu modo a felicidade da filha, que estimava devéras: não
-se persuadiu que o golpe tivesse tão fundo alcance e trepidou ante as
-consequencias.
-
-Mas ao vêl-a voltar a si, recuperou a confiança e de novo tornou ao seu
-plano favorito. Intentou com aquelle frio calculo de quem já não cuida
-em amores, que a voz do coração era uma impertinente a que se não devia
-dar ouvidos em questões d’esta ordem, e que só o interesse devia tomar a
-palavra e fallar de cadeira: amaciou entretanto a voz, voltou-se menos
-rispido para a rapariga, e disse-lhe quasi enternecido:
-
-—É para teu bem, depois m’o agradecerás...
-
-E saiu, pensando no futuro de Rosa e na conveniencia de arredondar as
-suas terras com a cubiçada courella de Januario.
-
-
-II
-
-Pensem os que têem amado do coração, no que padecera a pobre da rapariga,
-ouvindo seu pae. Desappareceu de repente de ante si aquelle encantado
-futuro, em que se enlevára. N’um momento perdeu a esperança, a alegria, a
-felicidade.
-
-Quando o amor verdadeiro nos domina, só ha em nós uma idéa, um pensamento
-fixo, quasi uma monomania: a posse da que se ama, a existencia a dois,
-participando ambos das mesmas dôres, das mesmas alegrias, dos mesmos
-perigos, dos mesmos triumphos, das mesmas glorias. Reparte-se o coração
-com aquella, a quem tanto se quer, e de tal maneira se alarga e augmenta
-a porção que lhe entregâmos, que por fim nos apercebemos que já de todo
-nos não pertence. E bem longe de nos pezar, enleva-nos, nos mais intimos
-transportes do sentimento, essa doce expoliação do nosso ser.
-
-Se nós sômos então amor e sómente amor!
-
-O universo inteiro resume-se n’uma só creatura, e tão grande nos parece
-esta, que o julgâmos ainda pequeno para a albergar. Todos os affectos
-resumem-se n’um só, de todos os fios que nos prendem ao mundo, traçamos
-uma cadeia só, no remate da qual nos penduramos com a energia, com a
-tenacidade do affogado.
-
-No outro extremo da cadeia acaba o nosso mundo. Se um pavoroso cataclismo
-precipitasse o globo; se as espheras se entrechocassem e confundissem;
-se a creação voltasse ao cahos; se as trévas engulissem a luz; se n’um
-rodopiar incessante o universo, se contorcesse nos extremos paroxismos:
-ficasse a mulher, que amavamos, comnosco, e nem nos aperceberiamos da
-mudança.
-
-A luz, a ordem, a harmonia, o movimento dos ceus, o revolver dos astros,
-o tornear da terra, o não acabar do espaço, parecem-nos puerilidades
-insignificantes, comparados com o infinito do nosso amor. Só ha uma
-occasião, só ha uma phase da existencia, em que o homem se exalta, se
-eleva, se engrandece, se eguala ao Creador. É quando ama.
-
-Satanaz se fôra o demonio do amor e não o demonio do orgulho resistiria
-ao Omnipotente.
-
-Quando se assenhoreia de nós, o amor espalha por tudo quanto nos cerca,
-fulgores que nem a centelha do raio póde offuscar, harmonias que nem os
-córos celestiaes pódem fazer esquecer, encantos, que não os tem assim a
-bemaventurança.
-
-É que a mulher reside para nós em tudo: tanto na florinha, que mal se
-descortina entre a relva dos prados, como na montanha arrojada, que
-parece lacerar os seios do infinito: se queremos colher as flôres para
-com ellas lhe juncarmos o pizo, queremos transformar-lhe a montanha em
-pedestal, para sobre elle a levantarmos.
-
-Da nuvem far-lhe-hiamos um véu, das estrellas um diadema, dos ceus sem
-limites um azulado sendal.
-
-E depois descontentes ainda, pedimos com religioso fervor ao auctor dos
-mundos, que reforme a sua obra, que dilate mais a creação, que a exalte
-mais; porque não nos chega, quanto existe para a mulher por quem vivemos.
-
-E se é assim o homem, o que não será a mulher, toda sentimento, toda
-amor, toda affecto e... senão toda egoismo, toda vaidade e toda
-presumpção.
-
-A mulher, que, quando ama devéras, arranca o homem, das trévas
-descobrindo-lhe novos lumes de paixão, feições novas de sentir,
-delicadezas desconhecidas, mimos e enlevos, que não descortina nunca a
-nossa natural brutalidade. A mulher, que ou ama, como cantam os cysnes,
-amando e morrendo desde logo pelo amor, ou nutre em si o amor, como a
-arvore alimenta a parasita, vivendo só para a nutrir e definhando-se em
-quanto ella medra á custa de sacrificios, de abnegação, e de soffrimentos
-inapreciaveis; ou quando mesmo, presumida em excesso, e vaidosa sem
-termos, se ama a si, amando o homem, que se lhe rendeu, e bem querendo
-a esse rendimento, a essa homenagem, a esse culto, porque lhe desvanece
-a vaidade, porque é uma confissão eloquente das suas perfeições, porque
-finalmente é seu, e veio de si, para de novo voltar para si, como as
-plantas amam a agua, que elevam da terra, entregam aos ares, para que
-estes lh’a restituam depois em amorosas lagrimas.
-
-Rosa amava e amava sincera, piedosa, apaixonadamente. Não havia confeição
-alguma n’aquelle sentimento, que nascera do coração, proviera da alma, e
-que se fortalecera aquecido pelos éstos da natureza. Amára creança ainda,
-amára com força muito maior, quando a puberdade, lhe transformára o ser
-transfundindo-lhe nas arterias faúlhas de desejo.
-
-Quando a vida nova dos dezeseis annos lhe abalou a organisação infantil,
-quando o coração se tornou turgido de sangue, rico de vida e farto de
-estimulos creadores, quando aquella flôr do campo, chegou ao periodo,
-em que as petalas se tingem de mais brilhantes côres para deslumbrarem
-e cahirem breve, o amor de Estevam, que já a possuia transformou-se
-tambem, e dominou a mulher, como dominára a creança.
-
-Foi para elle, que, córando de pudor, elevou os seus pensamentos de mais
-arrojado affecto, quando lhe esvoaçou deante da imaginação deslumbrada
-essa nova perspectiva, que lhe apresentava o mundo, ao conhecer-se outra
-pela inspiração divina, que n’essa quadra da vida, patenteia á mulher os
-desconhecidos horisontes da procreação e da maternidade.
-
-O amor de creança unira-se ao amor de Estevam; e d’este delicado enlace
-nascera o amor—mulher. Não lhe assomava o desejo á mente, sem que esse
-desejo se não transformasse para ella na imagem varonil e fascinante do
-seu apaixonado. A sua nova existencia era de Estevam; era por Estevam:
-e o homem, que tal consegue da mulher, póde chamar-lhe sua, sem que o
-considerem presumido.
-
-Entretanto as palavras de Feliciano operaram em Rosa uma revolução cruel.
-Não se persuadira nunca, que o amor de filha podesse entrar em lucta com
-o amor de mulher: e nem por sombras se preparára para semelhante combate.
-Se o coração fallasse unicamente, se não se tratasse senão de resistir
-á colera e maus tratamentos de seu pae, a escolha não seria duvidosa.
-Matasse-a embora, que morreria contente, se até aos ultimos momentos
-a deixassem amar Estevam; mas a maldição paterna troava-lhe ainda aos
-ouvidos, e todas as fibras d’aquella organisação delicada extremeciam,
-só ao lembrar-se de que elle lhe prohibira o nome de filha. A religião,
-a crença, a educação, tudo lhe fallava em favor de seu pae; em favor de
-Estevam só o muito, que o amava, mas não era o bastante. Amaldiçoada,
-via os tormentos do inferno, o penar de sua alma, a espada de fogo do
-archanjo exterminador, a condemnação eterna, e a memoria da sua infancia,
-e os santos de sua devoção a sumirem-se-lhe para sempre.
-
-Não enlouqueceu, porque não teve forças para tanto; não morreu, porque
-a intensidade propria do soffrimento lhe deu forças para resistir,
-phenomeno bem vulgar nas organisações nervosas; não se matou, porque lhe
-affastavam tal pensamento de si, as idéas com que fôra creada: soffreu
-muito, por fim, pelo embotamento do soffrer, pareceu resignar-se.
-
-Triste resignação, em que amortalhára os mais puros affectos, o mais
-risonho futuro, a mais affagada esperança!
-
-A idéa de que se sacrificava á vontade de seu pae se não lhe deu
-consolação, deu lhe forças; e o persuadir-se que cumpria com o seu dever
-animou-a a persistir: se não ganhou o santo enthusiasmo, com que os
-martyres se encaminhavam para o supplicio, alcançou ao menos aquella
-frieza apathica, da mais entranhada abnegação.
-
-Deixou de se pertencer. Fez-se cadaver, transformou-se em instrumento
-da vontade de seu pae, instrumento inerte, impassivel, sem vida, sem
-pensamento proprio. Não tivera animo para se matar; mas definhava-se
-lentamente n’aquelle doloroso suicidio moral.
-
-Alguns dias depois da scena que se passára entre o pae e a filha, Estevam
-recolhia do trabalho cantando, e todo enlevado na sua Rosa, que julgava
-não vêr, havia tanto tempo. A voz melodiosa corria nas voltas do caminho
-e repetia-se mais affinada pelos echos de um monte proximo.
-
-Ouvira-o Rosa, que abatida, e alheia ao mundo estava mais cahida que
-sentada n’uma cadeira, com os olhos pregados n’uma imagem de Senhora das
-Dores, que tinha perto da cama; palpitou-lhe de novo o coração no peito;
-aquella voz abalou-a como o choque da pilha, e sem se lembrar do que
-fazia, cedendo ao impulso, que tantas vezes a movera, correu à porta, ao
-mesmo tempo em que Estevam se aproximava do limiar.
-
-Ao vêl-o porém fugiram-lhe de todo as forças e caiu-lhe desmaiada nos
-braços. Ao longe parecera-lhe notar na sombra o vulto ameaçador de seu
-pae:
-
-—Rosa da minha vida, que tens tu, que nunca te vi assim? exclamára
-Estevam recebendo-a nos braços, torna a ti, sou eu, é o teu Estevam!
-
-Perto d’ali corria a agua de um boeiro do muro; levantou-a em seus
-braços, poisou-a n’um marco, proximo do jorro, e ás mãos cheias
-lhe espargiu o rosto; depois ao vêl-a tornar-se á vida, curvou-se,
-aproximou-se mais da amante como para lhe transfundir a vida, que lhe
-sobrava, e tão perto lhe afflorou os labios, que dir-se-ia um rapido
-beijo unira por instantes as duas apaixonadas boccas. O osculo chamou á
-vida e á realidade a desgraçada Rosa, que desmaiara enlevada nos gostosos
-sonhos de uma felicidade, que lhe era defeza.
-
-—Ai, Estevam, estâmos perdidos, exclamou a misera acordando de todo,
-quasi nos braços do amante.
-
-—Perdidos, Rosa!... Que dizes!
-
-—Meu pae... quer que eu case com o Januario.
-
-—E tu!
-
-—Eu, Estevam!... meu pae amaldiçoa-me.
-
-Foi então, que elle ia desmaiando tambem. Cambaleou, encostou-se á parede
-para não vergar, e foi-lhe preciso grande força de vontade para resistir.
-
-Resistiu porém, e como se lhe arrancassem esta exclamação do fundo da
-alma:
-
-—Pensei, que me tinhas mais amor!...
-
-—Deus te perdoe, Estevam, por duvidares de mim.
-
-—Duvidar! queres talvez que te agradeça, que te bemdiga, porque ás
-primeiras palavras de teu pae, me atiras a monte, como herva ruim, ou
-foice partida. Eu é que tenho a culpa, não é assim?
-
-Dize, anda, eu é que tenho a culpa: e tenho, porque te queria mais do
-que á propria vida, porque te queria, como homem nenhum poderia querer
-a uma mulher. Anda, não duvides, accusa-me, Rosa, que bem o mereço. E
-entretanto Deus sabe, que thesouros de amor, se guardavam cá dentro, Deus
-sabe quanto eu te estremecia!... Pensei que não houvesse forças no mundo
-que nos separassem, pensei que nem Deus mesmo tivesse poder para tanto!
-Enganei-me. Foi bem feito.—Se tu és mulher!... E não arrebentar eu,
-quando me assomou este amor!—Não ter havido um raio que me partisse!...
-Casa, casa e sê feliz!
-
-Depois, entre soluços, soltou um _adeus_, e deitou a correr como doido,
-fugindo à tentação, que lhe affogueava o pensamento.
-
-Rosa ficou prostrada sobre o marco, até que a agua innundando lhe o
-rosto, a reanimou por um pouco; seguiu, mais por instincto do que por
-vontade, para casa e deitou-se, já com os primeiros symptomas de uma
-febre cerebral agudissima.
-
-Feliciano não soube nunca a rasão da doença de sua filha, Januario
-acompanhou o compadre n’algumas noites perdidas, e Rosa costumou-se
-a vêl-o e a agradecer-lhe o cuidado e a affeição, que lhe mostrára.
-Affeição rude, brutal mesmo; mas por isso tanto mais para apreciar uma ou
-outra delicadeza, que surdia como enfesadinho rebento de tronco cascudo e
-rugoso.
-
-Convalescente ainda, apparecera Rosa no bailarico, e ali encontrára
-Estevam, que durante a doença não se affastou nunca das proximidades
-da casa, empregando astucias incriveis, reccorrendo a subtilezas quasi
-inacreditaveis, para a vêr sem que o visse, ou para se informar, ao
-menos, do estado em que se achava.
-
-Os nossos leitores já assistiram ao dialogo que travaram. No dia seguinte
-Estevam, partia a bordo da—_Joaquina Primeira_—para a Costa d’Africa, e
-um mez depois Rosa casava com Januario, quasi sem perceber, que mudava
-d’estado.
-
-
-III
-
-Tinha decorrido um anno depois do encontro de Rosa com Estevam, que
-ultimamente relatámos. Não haviam chegado noticias d’este ultimo e corria
-pela terra, que morrera das febres d’Africa. Rosa nunca mais proferira o
-nome do seu antigo apaixonado; mas quem lhe devassasse o intimo d’alma
-reconheceria, que a imagem querida não lhe saira nunca do pensamento.
-
-Apparecia-lhe nas horas suaves de melancholia, quando espraiava a vista
-pelos descampados, descançando depois os olhos no filhinho de mez, que se
-lhe pendurava do seio.
-
-Depois que desapparecera, Estevam convertera-se para a imaginação
-apaixonada de Rosa n’uma triste visão, que saudosamente lhe sorria
-d’essas regiões encantadas, que a phantasia povôa de arrobados devaneios.
-
-Aquelle amor depurára-se pela ausencia, e a noiva entregando-se ao
-marido, cumprindo religiosamente os seus deveres de mãe e de esposa,
-persuadia-se que lhe seria licito, ao menos dispôr da sua alma.
-
-E, ainda que o não quizesse, esta pertencia a Estevam. A posse que lhe
-déra, que elle conquistára á força de disvelos, de sollicitude e de
-amor, era inalienavel, ganhára-a com o sacrificio da sua vida, com o
-holocausto da sua existencia, nos altares da dedicação. E que importava
-a Januario, este innocente roubo! Não poderia encontrar mulher que
-mais cuidasse d’elle, que mais o cercasse de carinhos, que mais se
-sacrificasse ao seu bem estar.
-
-Nenhuma seria capaz de dar melhor ordem á vida, de cuidar mais no
-arranjo da casa, de providenciar mais para que coisa alguma faltasse a
-seu marido. Delicadezas de sentimento, não eram para Januario; nem as
-comprehendia, nem se dava de semelhante coisa. O mundo, para elle, era
-uma serie de commodos, e o conforto da casa e da familia a felicidade
-suprema.
-
-Não pensára nunca em fallar ao coração de sua mulher. E andára
-acertadamente não procurando desferir instrumento, que atormentado por
-aquellas mãos rudes apenas poderia soltar gemidos; mas harmonias nunca.
-Onde acabava a materialidade finalisava o mundo. Idealismos, se alguem
-lhe fallára em tal coisa, poderia contar com descompostura certa, em paga
-de semelhante atrevimento.
-
-Tinha com que viver e vivia do que tinha.
-
-O grangeio das fazendas, o amanho das terras, os cuidados da agricultura,
-preoccupavam-lhe o dia. Á noite esperava-o uma boa ceia, uma cama de pau
-santo lusidia com os lençóes alvos de neve a estenderem-lhe os braços, a
-esposa a sorrir-lhe no limiar, sorriso encoberto por um permanente veu de
-tristeza, mas isso não percebia elle, e o filho a dormir tranquillo no
-berço com o bracinho curvado sob a cabeça, a boquinha rosada mussitando
-sonhos de convivencia com os anjos, seus irmãos.
-
-E o aceio a afformosear tudo, e a tranquillidade a alegrar o interior da
-casa, e a arca recheada ao canto, a prometter dilatados dias de descanço
-e de fartura.
-
-E até para lhe alimentar as rabujices da idade, (Januario já rastejava
-pelos cincoenta), o birrento do sogro, que sempre tinha que lhe tornar,
-e que contradizer em todos os trabalhos, que emprehendia seu genro.
-
-Que mais quereria pois.
-
-Rosa costumára-se tambem a esta vida de insensibilidade e sacrificio. A
-ideia de que fizera a felicidade de seu pae, e de seu esposo, consolára-a
-da grande perda, que sentira e vivia transfundindo em seu filho todas as
-delicadezas de sentimento e de amor, de que precisava para poder viver.
-
-Transformação, que facilmente comprehendem os que sentirem devéras,
-o amor de Estevam depurára-se-lhe na alma e fizera-se amor de mãe.
-Quantas vezes lhe parecia emballando seu filho, que estreitava nos
-braços a Estevam!... Então conchegava a creança mais a si; apertava-a
-tremulamente: e duas lagrimas de saudade, ou talvez de amor,
-deslisavam-lhe pelas faces.
-
-O filhinho, disperto com aquelle enlace, abria os olhos, e parecia
-fital-os na mãe, como traduzindo uma admirada reprehensão: ao menos assim
-o julgava ella, que se sentia desfallecer e se accusava então d’aquella
-innocente infidelidade aos seus deveres de esposa. Beijava ferverosamente
-o seu pequeno censor, como para o abrandar, e com aquella imagem
-afugentar a outra que tinha presente sempre.
-
-N’estes rapidos e quasi inapreciaveis movimentos se denunciava apenas a
-intensidade d’aquella violenta e concentrada paixão. Como nas pavorosas
-tormentas submarinas a placida superficie das aguas só n’um ligeiro
-tremer poderia denotar a força das horrendas luctas, que se travavam nas
-remotas profundezas.
-
-Uma tarde ficára absorta no seu scismar contemplativo toda embevecida
-n’aquellas divagações, que tantas vezes a alheavam do mundo em que vivia.
-Os olhos parados e fitos pareciam procurar nos affastados horisontes
-aquelle indefinido ponto em que os espaços se perdem de vista e que a
-phantasia enriquece com suas extranhas creações. Dir-se-ia a estatua do
-desalento poisada sobre a pedra da sepultura a remirar-se nos ceus, na
-sua almejada patria.
-
-A imagem de Estevam adejára-lhe na mente, e enlevada n’aquella paixão,
-que a não deixava, deixou approximar-se a noite sem perceber que as
-trévas baixavam encobrindo os campos.
-
-Já a lua desenhava com os seus pallidos clarões figuras estravagantes,
-que pareciam dançar por entre o arvoredo á feição do vento, e Rosa ainda
-estava no mesmo logar e na mesma posição.
-
-De repente soltou um grito e estendeu diante de si convulsivamente os
-braços, como se pretendesse affastar um phantasma atterrador. A imagem,
-que evocára parecêra tomar corpo, e n’um vulto que se escondia por entre
-as arvores cuidou reconhecer Estevam.
-
-Effectivamente apenas soltára aquelle grito o vulto correu para ella, era
-Estevam.
-
-—Estevam!
-
-—Rosa!
-
-—Tu aqui?!
-
-—Se eu não podia já viver longe de ti! Se morria se te não visse?
-
-—E agora?
-
-—Agora? Vi-te. Disse-te uma vez ainda: amo-te, e posso morrer!
-
-—Sabes, Estevam, que sou mulher de Januario, sabes, que tenho um filho de
-meu marido?
-
-—Para que m’o lembraste? Pensas que não m’o tinha dito já o coração?
-
-—Para que voltaste, então, Estevam?
-
-—Não t’o disse já? Para te vêr.
-
-—Ai! quanto me custa que voltasses!
-
-—Bem sei. Deveria ter morrido, não é assim? um homem como eu, que ninguem
-estima, que não tem affeições n’este mundo, que vive, como o espargo no
-monte, que embora procure lançar raizes na terra lh’as arrancam como o
-escalracho, devia morrer. Não serve de nada, não deve viver, tens razão.
-
-—E quem te diz que assim seja? Quem te diz que não ha quem te ame, quem
-ainda se dedique por ti, quem te não esqueça nunca. Ah! Estevam, os
-homens não comprehendem o coração da mulher!
-
-—Não comprehendem, não. A mulher, santa creatura, na verdade! A mulher,
-que mente ao marido, mente, ao amante, a mulher que se enlaça como a
-hera no coração do homem, cravando-lhe cada vez mais fundos os espinhos,
-roubando-lhe cada vez mais a vida. Não te comprehendi, Rosa, devia
-agradecer-te, porque pertences a outro, porque hontem dormiste ao lado
-d’outro, porque d’aqui a pouco vaes deitar-te no seu leito. Devia
-agradecer-te não é assim? Dize, anda, bem vês, que te vou comprehendendo.
-
-—Que mal te fiz para me tratares com esse desdem?
-
-—Que mal me fizeste? Nenhum! Eu é que fui um louco, eu é que errei,
-quando prendi a minha vida á tua, quando te entreguei a minha sorte,
-quando em ti puz a minha esperança. Eu é que fiz mal, quando me deitei
-a amar esse amor, que tantas vezes me juraste, quando depositei fé nas
-tuas palavras, que pareciam tão sinceras, quando pensei que havias de
-ser minha, porque assim m’o juráras mil vezes, eu é que mereço castigo,
-porque confiei na sinceridade do teu coração, porque loucamente credulo
-não me persuadi nunca de que fingisses tão bem, que houvesse em ti
-dissimulação tão grande.
-
-—Se soubesses quanto tenho padecido, não me fallavas de certo assim!
-
-—E eu! Julgas porventura, que te sumiste um momento sequer da minha
-ideia? Pensas que te não vi sempre diante de mim, nas tribulações da
-vida, nas ondas do mar, nos sertões d’Africa, nas extensões do céo...
-Sempre, sempre! Pensas que não me lembrava sempre, que eras d’outro, tu
-que só poderias ser minha! Pensas, que não me deram por doido; que me
-não arrojei ao mar, por mais d’uma vez, para lá ficar para sempre?... Se
-não fosse terem-me salvo, já hoje te não inquietava!... Pensas...
-
-—Não continues! Estamos a aggravar uma ferida que não póde sarar mais!
-Antes não nos vissemos!
-
-—E assim me despedes! Bem m’o dizia o coração! Falsa!...
-
-Rosa levantou a cabeça cheia de indignação; até esse momento, parecia que
-escutava a sua sentença de morte: quando porém Estevam assim a accusou,
-quando lhe pareceu, que o seu enorme sacrificio não era comprehendido,
-que o seu amor era tão mal julgado, a voz da consciencia, que a defendia
-dos aggravos de seu amante, bradou-lhe lá dentro.
-
-—Ergue te!...
-
-Elevou os olhos para o céo, como para se inspirar n’uma resolução
-suprema, affastou da fronte os cabellos, que a offuscavam, levantou-se
-com um movimento de nobre magestade, travou da mão de Estevam, que a
-olhava surpreso, e exclamando apenas:—Vem!—levou-o comsigo para dentro de
-casa.
-
-Com o sorriso a adejar-lhe sobre a physionomia, estava o filhinho de
-Januario deitado no berço dormindo, os braços torneados descançavam fóra
-da roupa abertos e como estendendo-se para a mãe. No fundo da alcova
-a um canto, que a luz d’uma lamparina illuminava a custo, adivinhava
-se o esposo que dormia: o ressonar compassado e sonoro, n’outro quarto
-proximo, deixava perceber, que Feliciano depois de ter largamente
-discutido com seu genro a conveniencia de uma nova semeadura, descançára
-por fim cançado de rabujar. De resto tudo estava em socego.
-
-Estevam, sem comprehender para que, deixou-se arrastar até junto do
-berço: ahi, Rosa correndo a vista pela casa fitou por ultimo o olhar no
-seu companheiro.
-
-—Ámanhã esta creança acordará, e aquelles dois velhos levantar-se-hão
-sorrindo para mim como sempre, cheios de confiança, e de... amisade. Como
-até hoje julgar-me-hão filha honrada, mãe honesta... esposa fiel!...
-Sacrifico-te, aqui, junto d’este berço... e d’aquelle leito, todo o meu
-passado, todo o meu futuro, tudo!... Aqui me tens, Estevam, vê agora se
-te amo. Sou tua!...
-
-E resignada, nobre, altiva, caminhou para elle, que recuára, como os
-martyres deveriam caminhar para a fogueira... serena, tranquilla,
-orgulhosa pelo seu sacrificio, illuminada pela divina aureola do amor.
-
-Estevam parecia fulminado.
-
-Foi mysterio o que se passou na sua alma; entretanto comprehendeu tudo, e
-soube elevar-se até ás sublimidades d’aquella mulher.
-
-Avaliou qual era a grandeza d’um semelhante amor, e sentiu-se digno
-d’elle. Leu de relance todas as paginas dolorosas d’aquella epopêa
-intima, e elevou no santuario de seu coração, purificado de quaesquer
-resquicios da natureza terrestre e material, um cantico divino de
-admiração, caiu de joelhos aos pés de Rosa e desatou a soluçar.
-
-As lagrimas queimavam-lhe as faces; mas refrigeravam-lhe a alma: quando
-se levantou era outro.
-
-Curvou se sobre o berço infantil, depositou um beijo no rosto do
-innocente, dirigiu-se para Rosa, que ainda o esperava immovel, mal
-lhe approximou da testa os beiços e desviando os olhos do leito, onde
-Januario dormia, saiu dizendo á sua antiga amante:
-
-—Adeus irmã!
-
-Foi tudo obra d’um momento.
-
-Rosa caiu sobre o berço de seu filho cobrindo-o de beijos; Estevam já ía
-longe.
-
-A creança soltára um vagido lastimoso, acordára ao sentir-se innundar
-pelas lagrimas de sua mãe, e estendendo para ella os braços, sorrira.
-
-Januario não déra signal de si.
-
-
-IV
-
-As feridas moraes não se semelham ás physicas. O coração rasga se com a
-dôr, soffre-se por muito; mas o tempo cicatrisa tudo.
-
-O correr dos annos enregela a alma, e acalma os ardores da paixão.
-Estevam ainda foi feliz.
-
-Rosa, essa, ninguem poude saber se se esquecera d’aquella noite. O amor
-de seu filho consumiu-lhe a vida toda.
-
-Nunca se lhe tingiram as faces de côr, nem o mais leve sorriso lhe
-entreabriu os labios: poucos a ouviram fallar, raras vezes proferia
-alguma palavra.
-
-Entretanto foi sempre esposa disvellada e filha extremosa; pouco tempo
-sobreviveu a seu marido.
-
-Aquella hora fôra a ultima em que conhecera que tinha coração; foi tambem
-a ultima em que se avistou com Estevam.
-
-Feliciano, na manhã seguinte a uma noite, em que mais se exaltára
-discutindo com seu genro sobre o melhor modo de alqueivar uma terra, foi
-encontrado morto na cama.
-
-Succumbira a uma congestão cerebral.
-
-A terra sobre que versára a controversia era propriamente a courella, por
-amor da qual contractára o casamento da filha.
-
-
-
-
-VII
-
-A gallinha da minha visinha...
-
-
-Já era o sol posto havia um quarto de hora. Tocára a largar o trabalho,
-e cada qual recolhera para a sua casa: uns sósinhos, pelas azinhagas
-fóra, se mais tresmalhados moravam; outros, em rancho, se poisavam juntos
-n’alguma terra proxima.
-
-André Pimenta, um dos trabalhadores mais fallados dos sitios onde este
-caso aconteceu, deitára a enchada ao hombro, e enfiára-lhe o cesto do
-jantar, de maus modos e sem dizer um _Deus os ajude_ aos companheiros,
-coisa para estranhar n’um homem maneiro e pratico como elle era; entestou
-para as bandas da casa, sem dar palavra e com cara de curtir sezões.
-
-Foi grande fallada na malta por causa d’este passo. Nunca o tinham visto
-tão esquerdo, nem de tão má catadura para os amigos. E d’ahi, andára todo
-o dia a fugir com o corpo ao trabalho, e a resmungar com os seus botões,
-como quem lhe roía alguma coisa lá por dentro.
-
-Ou estava doente o pobre do homem; ou lhe tinham dado quebranto.
-
-Porque até então ninguem lhe pozera o pé adiante no trabalho e ninguem o
-levára á parede em alegrias e cantigas. Andava sempre mais contente do
-que a cigarra e mais esperto do que o pardal.
-
-O que teria o André Pimenta?
-
-N’estes pontos de interrogação viera a gente toda da quinta do _Chibanta_
-ao logar da Rabiça fazer o farnel para a semana, porque era n’um sabbado
-e tinham recebido a féria: em perguntas e conversas deitaram até defronte
-da casita onde elle morava e onde estava ainda, muito bem amezendado n’um
-poial á entrada da porta, e tão pasmado, que parecia ter-lhe um ar mau
-passado por cima, n’aquelle logar mesmo.
-
-—Boas noites, tio André!
-
-—Adeus, tio André, quer alguma coisa da Rabiça?
-
-Estas perguntas, com mais ou menos variantes, lhe dirigiam os pobres
-ganha-pães, sem que obtivessem resposta, além de um resmungar
-inintelligivel, que de má vontade saiu do peito de André, e que se fez
-ouvir sem que abrisse a bocca.
-
-Os maltezes olharam-se, encolheram os hombros, entenderam se pelos olhos:
-e, cada vez mais admirados, seguiram para o logar.
-
-O caso era para dar que fazer até mesmo a um escrivão!
-
-André fôra sempre um bom trabalhador e um honrado chefe de familia.
-Depois de andar um santo dia na sua labutação, não havia para elle maior
-regalo, do que vir de noitinha brincar com os pequenos ou conversar com a
-mulher, emquanto se lhe não apromptava a ceia e não tocava a deitar. Ao
-portal da casa, de verão; de inverno, sentado ao pé da chaminé n’um banco
-que elle arranjára em horas de sesta.
-
-N’aquella casa não se conhecera nunca cirurgião nem boticario, e não
-constava pela visinhança que se lá tivesse ralhado nunca. Pois a lingua
-d’aquella gente não perdoava, nem ao padre prior!
-
-Mas, quando tocava ao André das Furôas, (assim se chamava ao sitio onde
-assistia) ou á Magdalena da tia Ignacia, todos diziam á uma, que era um
-casal em que se não podia pôr bocca, e que viviam tão socegados, como
-Deus com os Anjos.
-
-Entretanto nem só os camaradas haviam extranhado André n’aquelle dia;
-Magdalena e os pequenos tinham ficado passados, quando o haviam visto
-chegar ao pé da porta, atirar com a enchada e o cesto para o meio da
-casa, como quem atirava com o diabo á rua e deitar-se para cima do banco,
-sem dizer nada nem á mulher nem aos filhos.
-
-Pela primeira vez na sua vida um mau pensamento viera torvar a serenidade
-d’aquella alma. André sentira a inveja, e tinha medo d’ella e de si.
-Admirava-se da mudança, que lhe ia lá por dentro e não tinha alma para
-deitar fóra aquella tentação. Não se conhecia, por differente; e não
-sabia como havia de tornar a ser o mesmo.
-
-Parecerá estranho a quem não conhecer a vida apathica e rotineira da
-gente do campo, André não pensára nunca nas differenças d’este mundo, nem
-nas gradações de posição. Parecia-lhe tão natural ser rico o sr. Manoel
-Fernandes e elle trabalhar para o sr. Manoel Fernandes e ser pobre, como
-deitar-se á noitinha e erguer-se de madrugada. Nunca considerára n’essas
-differenças, e ia trabalhando todos os dias com a enchada ou com o podão,
-como já seu pae trabalhára, e o pae de sua mulher, e como esperava que
-seus filhos trabalhassem, quando tivessem edade para isso.
-
-N’aquelle dia, porém, a horas d’almoço, ouvira uma conversa em que andára
-a matutar todo o dia, porque lhe fizera sensação devéras lá por dentro.
-Dois senhores da cidade tinham vindo visitar o sr. Manoel Fernandes e ao
-dar uma volta pela fazenda demoraram-se, com a curiosidade de vadios a
-vêr trabalhar os maltezes, que andavam n’uma cova aos montes.
-
-Admirados de vêr, n’uma hora, trafego, que os cançaria todo um mez,
-começaram em voz alta a fazer commentarios, e a lamentar a sorte
-d’aquelles homens, que suppunham infelizes.
-
-—Pobre gente, dizia um, tanto trabalho e por tão pouco dinheiro!
-
-—Então, respondia-lhe o companheiro, se elles não trabalhassem como
-haviamos de comer, bem vês que nem todos podiamos ser eguaes.
-
-—É verdade mas eu morria se cavasse duas horas!
-
-—Não admira, cada um para o que nasceu.
-
-E mil cousas como estas que é facil imaginar. O effeito que produziram,
-isto é que nem elles nem ninguem poderia imaginar. Não cairam no chão.
-Apanhou-as o ouvido de André a quem abriram um mundo novo. Pois havia
-homens, que não podiam cavar, ou que não queriam; e outros eternamente
-condemnados áquelle trabalho! Era coisa em que não pensára nunca, mas que
-lhe fervilhava agora lá por dentro, azoinando-o todo o dia. André Pimenta
-começava, como o anjo caído, a olhar para cima, e ao vêr outros tão altos
-e a si tão baixo oirou-lhe a cabeça e ficou estonteado.
-
-Era quasi noite e não cuidava em recolher. As creanças, que andavam n’uma
-empreitada de fazer uns castellinhos de barro ao pé da porta, e que,
-mal lobrigaram o pae, tinham deitado a correr a abraçar se lhes com as
-pernas, sacudidos por elle haviam vindo de orelha murcha, com as lagrimas
-nos olhos e corridos de susto para o pé das suas architecturas sentar-se
-amuados sem comprehenderem aquelles termos differentes das festas do
-costume: e mais estranhos ainda continuavam sem se atreverem a fallar
-com a vista pregada no pae, e com a persciencia infantil a advinhar-lhe
-desgraça. A mulher, essa entrava, saia, fallava, dizia mil cousas,
-fazia mil perguntas e sem obter resposta alguma, não sabia a que santo
-se apegasse para lhe fazer o milagre de lhe chamar a ternura antiga,
-tremia de entrar a fundo n’aquelle grande desgosto, por fim animou-se, e
-chegando-se a elle tocou-lhe no hombro e perguntou-lhe a medo:
-
-—Não vens cear, homem, é já tão tarde?
-
-—Não; foi a resposta secca e desabrida como badalada tangida rapida por
-mão inexperiente; e ficou-se.
-
-—Que tens tu, homem, nunca te vi assim?
-
-—Pois tu não sabes, que ha homens que não precisam de andar agarrados a
-uma enchada todo o dia para ganhar o pão de seus filhos?
-
-—Sei, homem, que se lhe ha de fazer; são cousas do mundo!
-
-—E nunca m’o disseste?
-
-—Para quê, André; valha-me a Senhora da Madre de Deus, nunca pensei que
-te dessem cuidado essas cousas!
-
-—Que me não dessem cuidado! Mulher de... não sei que diga! Pois eu, um
-homem como os mais, que nunca fiz mal a ninguem, que me tenho feito em
-postas para os sustentar a vocês; eu, se ámanhã me desse um estupor, ia
-para o hospital; por lá morria ao Deus dará, e vocês ficavam por ahi a
-pedir esmola!
-
-—Mas, que se lhe ha de fazer, se nascemos pobres?
-
-—É em que eu tenho andado todo o dia a matutar, porque hão de uns nascer
-pobres, e outros ricos; porque hei de eu não ter nada, e o sr. Manoel
-Fernandes, ha de ter mais de uma duzia de quintas, cada qual maior, cada
-qual que bastava para vivermos todos descançados:
-
-—Queres reformar o mundo? Tens inveja, André, e inveja do patrão, que nos
-faz tanto bem?
-
-—Quem te falla em inveja! Se eu me lembrasse de que era invejoso dava um
-tiro n’estes miolos. Eu não olho para as mãos do sr. Manoel Fernandes,
-que merece... verdade, verdade, e que é um homem ás direitas; mas eu não
-sou somenos e se tivesse uma d’aquellas quintas, ao menos; trabalhava,
-que não nasci para vadio: mas sem pensar no dia de ámanhã, sem tremer com
-a idéa do que lhes póde acontecer.
-
-—Por amor d’isso não te rales, homem; respondeu-lhe uma voz meio alegre,
-meio reprehensiva ao pé d’elle.
-
-Era o sr. Manoel Fernandes, que saindo a dar uma volta parára perto do
-grupo, e entrára assim na conversa, poisando a mão direita sobre o hombro
-de André.
-
-Este enfiou, Magdalena entrou a tremer, e os pequenos, comprehendendo que
-uma nova scena se ia passar, approximaram se curiosos do logar da acção.
-
-Houve um momento de silencio geral, emquanto os diversos actores se
-entre olhavam e reconheciam. Por fim André, com aquella giria saloia,
-que participa da sagacidade dos selvagens, conhecendo que a defeza era
-difficil, tomou a offensiva.
-
-—Ora, v. s.ª, assim a escutar o que diz cada um á sua mulher, sr. Manoel
-Fernandes!
-
-—Qual escutar, nem meio escutar, tornou este entre serio e risonho
-pois que percebera a manobra, não ouviste nunca, que, palavras leva-as
-o vento? Estavas para ahi a parolar alto e bom som, e não querias que
-ouvisse? Só se viesse pela charneca adeante com as mãos nos ouvidos.
-
-—V. s.ª tem razão, tornou Magdalena interferindo, como o poder moderador
-no systema constitucional, mas v. s.ª bem disse que palavras leva-as
-o vento, e o meu pobre homem apoquentado da sua vida, não admira, que
-desabafe...
-
-—Ninguem lhe diz o contrario, santinha, e d’ahi bem falla o rifão: quem
-escuta...
-
-—Mas o meu André não pôz bocca em v. s.ª para mal.
-
-—E que pozesse! El-rei tambem tem costas, não lhe quizera eu mal por
-isso, e tanto que já lhe disse, por amor da _Chibanta_ não ha de ser a
-duvida.
-
-—V. s.ª tambem!... observou André, como em recriminação, levou a mal, uma
-palavra dita sem maldade nenhuma.
-
-—Como queres que te diga que não, homem? fazes-te André! Já te disse, que
-está na tua mão, ser tua a _Chibanta_.
-
-—Ora!...
-
-—Não ha aqui ora, nem meia ora. Ámanhã começas a tomar conta da fazenda,
-e de caminho descanço eu o meu bocado. Se te avires com ella, e se te
-mostrares tão prompto de braço como de lingua, virá a ser tua.
-
-—V. s.ª tem vagar de rir, mas um pobre homem como eu, é que nem sempre
-está de feição: basta-lhe a sua vida, disse André, que não acreditava em
-tanta generosidade.
-
-—Queres acreditar-me ou não? Bem sabes que não tenho senão uma palavra.
-
-—V. s.ª então!...
-
-—O dito dito, e até ámanhã.
-
-O sr. Manuel Fernandes voltou costas e seguiu no seu passeio: apenas
-desappareceu no atalho, Magdalena e André olharam-se espavoridos e como
-receiosos, e por algum tempo estiveram sem dar palavra; por fim Magdalena
-voltou-se para o marido, para o accusar, segundo o costume das mulheres
-em semelhantes occasiões.
-
-—Para que havias de fallar, André?
-
-—Então nem queres ao menos, que desabafe. Anda um homem ralado de
-trabalho todo o dia, e nem ao menos ha de ser senhor de dizer duas
-palavras em sua casa!
-
-—E se elle te despede?
-
-—Não faltará onde dê cabo do corpo?
-
-—Elle parecia fallar sério!
-
-—Ainda acreditas! Bem me fio eu no que elle disse: esteve a divertir-se
-com a gente. Má raios...
-
-—Cala-te André, atalhou rapidamente Magdalena, cala-te, póde ainda estar
-por ahi, e quem sabe, talvez o homem faça o que disse.
-
-E em duvidas decorreu a noite. A peior, que desde que eram casados tinham
-passado. Ora a esperança lhes surria, ora o receio os amedrontava; ora
-acreditavam, ora descriam. Pela primeira vez nem Magdalena nem André
-provaram da ceia, e só as creanças, que não comprehenderam nada, comeram
-como do costume, e adormeceram com o mesmo descanço.
-
-De madrugada André, com cara de morte de homem, encaminhou se para a
-_Chibanta_. Vergavam-lhe as pernas pelo caminho; não ia contente comsigo,
-nem com a sua consciencia. Parecia outro.
-
-O sr. Manuel Fernandes esperava-o ao portão da quinta. Uns quês de ironia
-transpareciam no rosto alegre do fazendeiro.
-
-—Melhor cara traga o dia da ámanhã, homem, mofina te deu, que tão
-amargurado vens! Parece que não pregaste olho!
-
-—Eu bem sei que v. s.ª me vae despedir; mas não é porque eu faltasse á
-obrigação...
-
-—Que tens tu homem, mordeu-te bixo?
-
-—É que v. s.ª...
-
-—Bem sei o que vaes dizer, mas o que hontem te disse, está dito, hoje
-começas a ser meu feitor e para o deante fallaremos...
-
-André duvidou ainda e só depois do fazendeiro o ter apresentado aos
-trabalhadores, como seu substituto é que começou a entrar em si,
-parecia-lhe tudo um sonho.
-
-Em quanto lhe ia dando as instrucções necessarias, e lhe explicava por
-meudo o grangeio da fazenda, o sr. Manuel Fernandes sorria-se vendo que
-André meneava a cabeça com ares de profundo entendedor, e respondia
-a tudo: já entendi, deixe estar, não tem duvida. O velho lavrador não
-acreditava n’aquella proficiencia, e lá de si para si amolava o caso.
-Tanta confiança mostrava porém o novo caseiro, que, depois de acabada
-a vistoria, mandou o entrar para a casa principal da habitação, que
-accumulava as funcções de casa de jantar, escriptorio e cosinha, e
-disse-lhe:
-
-—Oxalá que me enganasse homem, queria-te dar uma licção e mostrar-te que
-nem tudo é o que parece, que para grande náu, grande tormenta e que cada
-qual sabe as linhas com que se cose. Se a inveja é feio peccado, não é
-culpa menor julgar as coisas pelas apparencias. Comecei, como tu, pobre,
-enriqueci por felicidade, mas sempre honradamente; ainda assim, não
-poucas vezes me têem lembrado, com saudade, as noites, em que, ralado com
-o trabalho, mas sem cuidados, atirava com o corpo para cima da enxerga,
-sem deitar contas á vida porque a féria no fim da semana pagava tudo.
-
-—Ó senhor Manoel Fernandes, mas a mulher e os filhos?
-
-—Tambem se accommodavam como podiam. Olha: uma cava é para o milho, outra
-para a vinha; quanto mais se sóbe, mais cançado se fica. Hoje tenho mais
-dinheiro do que então, lavro muitas geiras de chão, deito um par de moios
-á terra, e não dou pouco que fazer ao lagar; mas, pódes acreditár-me,
-tenho mais vezes falta de dinheiro, do que quando recebia um quartinho
-cada semana; e passo mais dias de amarguras, do que quando era um triste
-trabalhador.
-
-E como André meneava a cabeça, com ares de quem não acreditava muito no
-que elle dizia, o sr. Manuel Fernandes tornou-lhe triste:
-
-—D’aqui a tempos me dirás se tinha rasão.
-
-Não tardou que se não realisasse a prophecia. André, quanto mais entrava
-n’aquella vida nova, mais espinhos lhe achava. Tinha que repartir
-a attenção para mil lados, tinha que cuidar em muitissimas coisas
-differentes ao mesmo tempo.
-
-Não descansava, não dormia mesmo. Lembrava-se de noite, que podiam andar
-ladrões na fazenda, sentia ladrar os cães ou grasnar os patos, saltava
-da cama e corria para fóra, de espingarda carregada. Parecia-lhe que
-se esquecera de dar ordens para o dia seguinte, que não determinára
-trabalho, e eil-o, sem pregar olho, a espreitar a madrugada para ir
-acordar os trabalhadores e marcar-lhes a obrigação; era um supplicio.
-
-Depois a cultura em ponto maior, os processos da lavoura, de debulha, de
-vindima, de sacha, de cava, de poda e de empa, a qualidade das sementes,
-o tempo da sementeira e a escolha dos terrenos, o traçar da horta, e
-a rega das plantas, o decote das arvores e a colheita dos fructos, o
-cuidado do gado e da creação, o fabrico dos instrumentos de lavoura, a
-guarda do pão, e o meio de o conservar, reclamavam conhecimentos que lhe
-faltavam. Quando lhe perguntavam alguma coisa, é que via na resposta as
-difficuldades, que á primeira vista não encontrára. Tinha sempre medo
-de mandar o contrario, e não poucas vezes lhe aconteceu, quando errava,
-ouvir os homens da quinta rirem-se d’elle, e lá, uns com os outros,
-fazerem observações bem desagradaveis. André, por natureza bondoso e
-crente, tornára-se irascivel e desconfiado de todos.
-
-Nos seus mais intimos mesmo se fizera sentir a differença de posição;
-Magdalena e os pequenos tinham-se tornado exigentes, nada os contentava,
-tudo lhes parecia pouco, e André podia contar todos os dias com uma
-contenda, quasi sempre n’este theor:
-
-—D’antes não me recusavas coisa nenhuma...
-
-—Se não póde ser, mulher.
-
-—Estás sovina, para que queres o dinheiro?
-
-—Mas se o não tenho?
-
-—Pois sim, a mim não me enganas tu, ainda hontem vendeste isto ou
-aquillo, é porque o gastas com outras.
-
-E seria um nunca acabar referir todas as desavenças, todas as ralações do
-pobre homem. Nem em casa nem fóra, lhe deixavam um momento de descanço.
-Andava como doido.
-
-Entretanto o sr. Manoel Fernandes tinha ido á provincia; demorára se por
-lá algum tempo e esperava-se de um momento para o outro.
-
-André foi ter com elle ao caminho, apenas o avistou a alcance de voz,
-as suas primeiras palavras foram como o deitar ao chão um peso que o
-opprimisse, e com que não podesse mais.
-
-—Acceite a _Chibanta_, sr. Manoel Fernandes, quero a minha enchada e o
-meu somno descançado; a minha féria e o meu socego.
-
-O fazendeiro sorriu-se.
-
-—Pois já, homem?
-
-—E é demais. O que lá vae lá vae, aprendi devéras, estes dois mezes
-têem-me custado annos de vida.
-
-—Pois não tens as mesmas idéas que tinhas ha seis mezes, já te não
-lembras do hospital?
-
-—Tenho-me agora lembrado mais ainda, mas é do hospital dos doidos, e lá
-não tardaria eu se continuasse n’aquelle inferno. Guarde-a que lhe não
-invejo o vagar.
-
-O sr. Manoel Fernandes viu o pobre André tão amofinado, que não quiz
-abusar. No dia seguinte este começava no trabalho antigo e pela primeira
-vez, havia tanto tempo, dormia de um somno desde o deitar até ao
-amanhecer.
-
-Magdalena reagiu, e queixou-se ao principio, depois costumou-se outra
-vez: e se se lembrava com saudades dos seus antigos explendores,
-não tinha muito tempo para ter pena, porque o trabalho da casa
-preoccupava-lhe a attenção.
-
-Os pequenos esses só tiveram desgosto com a mudança. Uma enchurrada
-havia-lhes desmanchado o seu castellinho de terra.
-
-De novo reinou n’aquella casa o socego antigo: a alegria, que parecia
-ter fugido espavorida das grandezas do rendeiro da _Chibanta_, tornou a
-sorrir no pobre albergue do modesto trabalhador.
-
-O sr. Manoel Fernandes entretanto foi ajudando André, que, com o andar
-dos tempos, conseguiu comprar um quintalejo que, se não era tão grande
-como a _Chibanta_, correspondia ao menos ao seu saber e não lhe dava
-grande cuidado.
-
-Mas tinha-lhe aproveitado a licção, e quando lhe fallavam nos haveres dos
-outros dizia sempre:
-
-—Eu bem sei o que isso é; ninguem está contente com o que Deus lhe deu.
-Por isso diz o rifão: a gallinha da minha visinha...
-
-
-
-
-VIII
-
-O guarda do cemiterio
-
-
-I
-
-Era perto da noite. Voltava em companhia do tio Joaquim d’uma feira,
-que se fazia a duas leguas da quinta, onde estavamos. Tinhamos mettido
-os cavallos a passo, e depois de muito discorrer e matar tempo, a
-conversação, que esmorecera gradualmente, parára de todo.
-
-Não o sei ao certo, mas quero o crêr; a tristeza que tanto se sente no
-campo na hora em que o dia desapparece pouco a pouco, influira para nos
-calar; e aquella doce melancolia, que acompanha o crepusculo da tarde, e
-que tanto nos faz scismar e crêr, obrigára-nos a interromper as fallas,
-que perturbavam aquelle silencio geral.
-
-Só quem tem vivido fóra das cidades é que póde dar conta d’aquelle tempo
-de socego e de mudez, que determina a passagem da noite para o dia, e
-muito particularmente do dia para a noite.
-
-As aves, os animaes, as arvores, as plantas e até a natureza insensivel,
-parece que entristecem n’aquelles momentos e que suspendem a vida, o
-movimento e o ruido: como que permanecem por instantes n’um estado de
-duvida e de receio, e temem vêr desapparecer de todo essa luz, que é
-a sua vida, e que então se some no horisonte, tinto por amor da sua
-ausencia com côres de tristeza e de dó!
-
-Outras vezes, no meio da geral callada, alguns ruídos se apercebem; mas
-esses como a susto, como mais para significarem o esmorecer da vida
-do que a sua animação:—é o breve pio do mocho, é o som afastado dos
-chocalhos, são os timidos balidos dos rebanhos, é o ramalhar das arvores
-com a viração da tarde ou o murmurar longinquo e surdo das ondas do mar.
-
-São essas as horas mais talhadas para a meditação, para a saudade ou para
-o amor; são as horas das aspirações vagas, dos desejos indefinidos, das
-fantasias e das expansões; são as horas em que se eleva em nós, um que
-quer que é estranho e superior a tudo que nos cerca e com que de habito
-lidamos; em que o homem soffre e gosa, sente e crê, folga e padece; em
-que o desalento e a esperança se travam em lucta; em que o amor nos falla
-de prazer, a saudade da dôr e a imaginação do infinito; em que se vive
-muito e se deseja morrer; em que se sonha muito e se receia accordar;
-em que a virgem presente a primeira paixão, o homem o primeiro amor,
-a creança o primeiro momento de viver, o velho a ultima hora; em que
-o passado e o futuro se enlaçam, um descoroçoado e sceptico, o outro
-enthusiasmado e crente; em que o mundo é pequeno para a alma, e a alma
-acanhada para o sentimento.
-
-Em tudo isto eu pensava n’essa hora, e tão absorto ía, que nem dava pelo
-caminho que levava: parecera-me até que se me ía fugindo a vida, como me
-parecia fugir o mundo, se o som compassado das ferraduras dos cavallos
-sobre as pedras da calçada, me não chamasse á realidade, marcando de
-continuo com a regularidade d’uma pendula, a extensão do espaço e o
-correr do tempo.
-
-De repente, n’uma volta que fazia a estrada, os cavallos fitaram as
-orelhas e pararam: sobresaltado, como que acordei, procurando descortinar
-que causa fôra a que os assustára.
-
-Iamos passar pelo cemiterio da terra, separado da estrada por um
-parapeito de pouca altura, e limitado, da banda d’onde vinhamos, pela
-casa do guarda; do lado opposto, por uma egreja antiga, abandonada e em
-ruinas.
-
-Nenhum logar mais adequado, nem accessorios mais accordes podia a morte
-escolher. Tudo alli fallava do seu poder, tudo concorria para a sua
-magestosa severidade.
-
-Ruinas, desamparo e tristeza. A casa do guarda, que primeiro se offerecia
-á vista, ennegrecida pelo tempo, com as portas e janellas carunchosas
-e escavacadas, deixando devassar o interior desguarnecido e miseravel:
-o cemiterio sem aninho nem cultura, sem monumentos, nem flôres, nem
-pedras, nem ruas, nem disticos, nem retabulos; algumas cruzes toscas,
-por entre matagaes de ortigas, algumas arvores esgalhadas de longe a
-longe, umas e outras roidas pelos vermes, enfraquecidas pelos parasitas,
-mutiladas pela podridão: e ao longe a egreja, de tempos remotos, com as
-cantarias de grosso lavor lascadas ou caidas, as paredes esburacadas e
-musgosas, as grades ferrugentas e quebradas, as janellas sem vidros, as
-ogivas interrompidas, as arcadas soturnas a perderem-se na escuridão e a
-adivinharem-se pelos buracos da fachada, frias, nuas, sós e tristes.
-
-Apertava o coração e confrangia a alma; fazia mal aquella vista.
-
-Não havia sido entretanto nem a egreja, nem o cemiterio, nem a casa
-do guarda que tinham feito parar os cavallos, mas o proprio guarda,
-que estendido sobre um poial, deante da porta se levantou para nos
-cumprimentar.
-
-Parecia que a influencia sinistra d’aquellas paragens se estendera tambem
-áquelle homem: condizia com tudo que o cercava.
-
-Era alto e ainda novo; mas o tempo e os pesares tinham-n’o curvado e
-encanecido. As feições eram duras, carregadas e tristes, as faces cavadas
-e cheias de rugas, a pelle tostada e aspera, os cabellos mal tratados e
-grisalhos, as barbas compridas, em desordem e grisalhas tambem; o corpo
-estava coberto de farrapos, a cabeça resguardada por um velho chapeu já
-sem abas e os pés mettidos n’uns tamancos muito usados, que quando se
-levantou repercutiram por um modo estranho batendo nas pedras.
-
-Era como a personificação do desconforto ao pé das ruinas, como a
-desillusão da vida junto á morte.
-
-O tio Joaquim, ao dar com os olhos n’elle, resmungou por entre dentes—até
-os brutos o temem;—correspondeu a um—boas noites,—que nos dirigiu, metteu
-o cavallo a meio trote, eu imitei-o, e dentro em pouco tinhamos perdido
-tudo de vista.
-
-Dias depois vim a saber pelo tio Joaquim quem era o guarda do cemiterio,
-e qual a sua historia.
-
-
-II
-
-Manoel começára de pequeno n’um navio mercante, e em pouco chegára a
-piloto pelo seu bom porte e bravura. Era um rapaz valente como as armas,
-destemido como poucos, desembaraçado como ninguem a bordo e que entendia
-da manobra ás direitas.
-
-Não havia tempo nem mar que lhe mettessem medo: e por mais d’uma vez
-salvára o navio em casos apurados, pela sua presença de espirito.
-
-Sempre alegre, sempre a cantar, parecia que não havia tristezas que com
-elle entrassem, nem penas que se lhe pozessem diante.
-
-Tinham-lhe nascido os dentes no mar, calhára no navio, e fóra d’elle
-andava triste como o peixe fóra da agua; o pobre do rapaz, tambem, era
-engeitado, e vivia cá n’este mundo sem ninguem que lhe quizesse.
-
-Chegou lhe entretanto occasião de deitar ferro em amor e de arranjar
-amarra de má morte, pois quebrou no primeiro temporal e que deixou
-abrir-se e naufragar o barco de encontro aos baixios da vida.
-
-Manoel teria dezoito annos se tanto, quando uma tarde, indo em penitencia
-á egreja de Nossa Senhora da Penha a cumprir uma promessa que fizera em
-hora afflicta, encontrou a um canto da egreja, ajoelhada a rezar tambem,
-uma rapariga nova, bonita e toda coberta de luto.
-
-Seguiu-a, soube onde morava, requestou-a e ajustaram casamento, que só
-dependia d’uma viagem redonda ao Brazil, em que o rapaz contava apurar
-os vintens de que precisava para pôr a casa. E assim, entre promessas
-e esperanças, viveram dois annos, que tanto medeou entre o dia em que
-pela primeira vez se tinham visto e aquelle em que ia partir para a
-malventurada viagem.
-
-Foram os melhores da vida de ambos. Ái! quem tem vivido de illusões e
-de esperanças, sentindo um coração a afinar pelo seu no pulsar e no
-tremer, uma alma unir-se á sua cada vez a mais a mais até se confundir
-de todo; quem tem a registar esses dias em que o tempo vôa nos instantes
-dos colloquios para descançar, e demorar-se nos seculos que os separam;
-quem tem encontrado sempre na dôr e no prazer companhia e affeição, amor
-sempre, dedicação e sentimento, como só a mulher sabe ter, e a mulher que
-ama deve resignar-se para todas as provas, para todos os padecimentos,
-porque já antecipadamente tem gosado o maior quinhão de felicidade que a
-terra lhe póde dispensar.
-
-N’este viver do ceu tinha passado Manoel dois annos, e tão breves lhe
-tinham parecido, que na hora da despedida dava a vida inteira por um dia
-só mais que fosse.
-
-Mas era preciso. O navio partiu e o piloto acompanhou-o em corpo,
-deixando a alma em terra, e com a alma a esperança e a vida.
-
-Nos primeiros tempos esteve como doido. Por mais d’uma vez o navio correu
-perigo sem que elle désse por isso, sem que aquella valentia d’outros
-tempos accordasse nos momentos d’afflicção; parecia barco sem leme ou
-alma penada sem sepultura: de nada dava fé nem a coisa alguma attendia.
-Depois o tempo gastou as maguas, as rugas ficaram no rosto, a saudade no
-coração; mas o marinheiro tornou a ser o que era, menos na animação e na
-alegria, que d’essas só Martha podia dizer o que era feito.
-
-Teve má sina a viagem. Avarias, arribadas, empates de vendas,
-difficuldades de carga demoraram tres annos o _Corsario_ em vez dos seis
-mezes, que deviam de ser. Em Lisboa correu voz de que se perdera, e os
-proprios donos do barco descoroçoaram de o tornar a vêr.
-
-Nos primeiros tempos Martha, sempre que podia, chegava ao escriptorio
-para saber noticias, depois foi-se demorando mais até que por fim deixou
-de apparecer. Bem sabia que Manoel, apenas saltasse em terra, correria
-onde ella morava: para que havia de perder tempo, de que precisava para
-viver e cuidar do enxoval?
-
-Um dia soube que se perdera o _Corsario_ com toda a tripulação. Ficou por
-morta. Por dois mezes padeceu n’uma cama do hospital, depois melhorou
-pouco a pouco, até que saiu tão boa como d’antes e mais formosa ainda,
-porque a pallidez lhe augmentava a belleza.
-
-Perto d’ella morava um rapaz, operario diligente e de bons costumes,
-novo tambem, laborioso e honrado: encontraram-se um dia na escada, e
-cumprimentaram-se. Ella percebeu no visinho semelhanças do Manoel; chorou
-muito, mas pensou no operario toda a noite; de manhã, para espairecer
-saudades, estava na janella ainda de madrugada, e vio o quando ia para
-o trabalho; depois foi continuando a vêl-o, depois... as recordações de
-Manoel começaram a sumir-se-lhe pouco a pouco da lembrança, como o navio,
-em que partira, fôra desapparecendo ao longe, pouco a pouco, nas aguas do
-mar.
-
-
-III
-
-Entretanto o _Corsario_ entrava a barra, de pannos largos em tarde
-de primavera, como cysne nadando em lago de jardim. A marinhagem
-debruçava-se nas amuradas, e com os olhos namorava a terra, a que a
-prendia o coração. O sol baixava, e a cidade estirada por esses montes
-fóra recortava-se sobre o fundo azul da serra de Monsanto, onde se
-reflectiam, já muito obliquos, os raios do poente.
-
-Todos ou quasi todos têem visto Lisboa do mar e todos se tem enlevado
-em suas formosuras; mas nem todos sabem o que é vêr a terra onde se
-nasceu, onde se passou o melhor tempo da vida, onde estão amisades e
-amores, saudades e memorias, depois de mezes passados entre mar e ceu,
-a perderem-se e confundirem-se um no outro: e de vastos, que são, a
-apertarem-nos, a apertarem-nos a mais a mais o coração e a alma.
-
-Para Manoel nem cidade, nem montes, nem rio, nem sol, nem ceu, nem coisa,
-que n’este mundo houvesse, valiam a pena d’um olhar; uma casinha sómente,
-uma mulher e um amor, eram tudo, em que pensava, o que unicamente lhe
-prendia a attenção.
-
-Para que de mais longe podesse vêr, apenas passára as torres, subira a
-uma gavia e d’ali esbugalhava os olhos para terra, como quem por elles
-queria que a alma fosse em procura de Martha. Mal o navio deitara ferro,
-atirou-se a um escaler, e agarrado aos remos, porque a seu vêr ninguem os
-puchava com tanta ancia e tanto d’alma, voára, que não corrêra, até ao
-caes, onde d’um pulo saltou em terra.
-
-Mas dados que foram os primeiros passos com os restos d’aquelle impeto
-que vinha de dentro, Manoel estacou e ficou pregado ao chão. Tremiam-lhe
-as pernas, esmorecia-lhe a vista, estonteava-lhe a cabeça, e o coração,
-esse, batia-lhe no peito, como azas de andorinha em horas de temporal.
-
-Que seria de Martha? Morrera talvez: esquecel-o-ia, o que fôra peior;
-porque nem a poderia chorar. Iria encontral-a casada, perdida!...
-Instantes de incerteza como aquelles envelhecem tanto, como annos sem
-descanço. Fraquejou por um momento, cobrou animo depois, como o navio,
-que resiste a um furacão: e, quasi de corrida, deitou para o sitio em que
-a deixára n’outros tempos.
-
-Tinha-se mudado, era já um mau agouro; as recordações do passado deviam
-prendel-a áquella casa, se a abandonára fôra porque esquecera tambem
-essas recordações.
-
-Manoel sentia apertar-se-lhe o coração ao bater á porta e ao dar com a
-cara d’uma visinha antiga que occupava aquella habitação.
-
-Perguntou por Martha e soube o que succedêra accrescentado ainda em cima
-pelas coscuvilhices de senhoras visinhas.
-
-Disseram-lhe que os amores de Martha estavam mais adiantados do que o
-deviam ser para corresponderem ao seu bom porte d’outro tempo, e que se
-deixára a rua fôra porque todos ali a conheciam e todos murmuravam da
-sua vida; que na nova habitação podia estar mais á vontade, por isso a
-escolhêra; finalmente, e para encurtar razões, tantas coisas que fariam
-perder a paciencia, a quem a tivesse bem callejada, quanto mais a quem
-tinha sangue na guelra e o ciume a ferver-lhe lá por dentro.
-
-Ouviu, como se estivera sonhando, parecia-lhe tudo impossivel. Martha, a
-sua Martha ser-lhe infiel, era para dar em doido. Tanto lh’o affirmaram,
-todavia, que o quiz experimentar, e, como o condemnado que vae para a
-forca, seguiu para a morada nova da sua antiga amante.
-
-Era já noite, elle caminhava encostado ás paredes, e como quem receia
-cair. A dôr tambem embriaga, e o marinheiro, que por tantas vezes
-resistira ao vinho e á aguardente, fraquejára áquelle padecer; era outro
-homem, as palavras da velha tinham no mudado de todo.
-
-Ao voltar da esquina da rua indicada, viu de longe n’uma janella um
-vulto, que o coração conheceu, antes que os olhos o podessem adivinhar.
-Era Martha, dizia-lhe o que sentia em si e os estremecimentos do seu amor.
-
-Mas quando, esquecido de tudo, ia soltar um grito e correr para a que
-tanto amava, um outro vulto que parára debaixo da janella, depois de
-ter fallado para cima e de lhe terem respondido, entrou a porta que lhe
-franqueavam e que pouco depois se cerrava sobre elle.
-
-Martha desapparecera da janella e em breve aquella casa ficára sepultada
-nas trevas, como o pobre Manoel no desalento e desconforto.
-
-Já não tinha que duvidar, não era sonho, estava realmente accordado, os
-seus olhos não o enganavam; esperou entretanto, ora correndo como um
-perdido, ora parando como quem ia desfallecer, ora soltando palavras sem
-sentido, ora rugindo como uma fera, espumando como um possesso.
-
-Perto da meia noite abriu se a janella, Martha appareceu de novo, o
-mesmo vulto saiu e encaminhou-se para onde estava Manoel, este como fóra
-de si, não vendo senão sangue partiu para elle, com a faca de marinheiro
-aberta: ouviram-se dois gritos, um corpo baquear no chão e uma voz de
-mulher, que pedia soccorro.
-
-
-IV
-
-Momentos depois já Manoel estava prezo: tinham acudido aos gritos de
-Martha, e tinham-no encontrado com a faca ainda aberta defronte de um
-corpo caido no chão, e a golphar sangue por duas feridas profundas.
-
-Era mais do que o bastante.
-
-O depoimento da visinhança, o proprio testemunho de Martha, tudo
-concorreu para que o condemnassem.
-
-Levaram-lhe porém em conta o bom passado, os negociantes respeitaveis,
-donos do navio a attestarem o seu bom porte, uma tripulação em pezo de
-honrados e velhos marinheiros encanecidos pelo tempo, e crestados pelos
-soes da linha a dizerem: que elle tambem fôra honrado.
-
-Os jurados, santas creaturas, commoveram-se com aquelle espectaculo;
-o advogado do réo, rapaz de esperanças, vociferou contra as leis de
-sangue, e discorreu como uma bocca de ouro sobre a alienação mental e
-as circumstancias attenuantes; o juiz sensibilisou-se tambem, e todos
-enternecidos condemnaram o réu... a dez annos de grilheta.
-
-Para um homem como Manoel, similhante affronta seria peior do que a
-morte, se no estado em que se achava, elle a podesse apreciar.
-
-Depois que commettera o assassinato tinha ficado como louco, ou peior
-ainda, porque parecia idiota.
-
-Um golpe d’aquelles, uma mudança d’aquella qualidade!
-
-Quando esperava colher o fructo de uma vida trabalhosa e honrada
-nos braços da sua Martha, vêr-se de repente criminoso, assassino e
-deshonrado; toldarem-se-lhe na cerração as estrellas, que o guiavam
-n’esta vida, o astro do amor, e o astro da honra: eram provações de
-sobra para deitarem por terra castellos mais fortes, e almas ainda mais
-valentes.
-
-Manoel não morreu, mas fraquejou para sempre. O mesmo d’outros tempos
-nunca mais tornou a ser. Nunca mais o viram rir, cantar não o ouvio
-mais ninguem: e as rugas, que se lhe cavaram no rosto, tambem se lhe
-entalharam no coração.
-
-O amigo da humanidade, que inventou as prisões em commum e a grilheta,
-foi de certo um grande perverso. Só a um requinte de malvadez se póde
-attribuir um invento que envolve e reune no mesmo castigo, na mesma
-atmosphera de perversão, innocentes e criminosos, pois que assim
-comparados uns com outros se podem chamar: e que não contente com isso
-lhe accrescentou a grilheta, _exposição ambulante_, aperfeiçoamento da
-que, em tempos de barbaridade, se applicava as mais das vezes a victimas
-do que a réus.
-
-A influencia desmoralisadora d’aquelles dez annos não alcançou todavia o
-antigo piloto: quasi que nem os percebeu, tudo era para elle extranho,
-inexplicavel, incomprehensivel; um pesadello que durava muito, e de que
-esperava accordar um dia.
-
-Entrára na cadeia de vinte e um annos; saia sexagenario, eis toda a
-differença. Aquelles dez annos valiam-lhe por quarenta; e, mocidade,
-alegria, sentimento, coração, vida, enthusiasmos d’outro tempo, crenças e
-aspirações, tudo deixara ao sair, com a grilheta que depozera.
-
-Só não perdera um sonho atroz, que quasi todas as noites o perseguia, e
-que, salvo pequenas mudanças, era sempre o seguinte:
-
-Navegava a bordo do _Corsario_. De repente o Oceano transformava-se em
-largo mar de sangue: debruçado na amurada via-se lá em baixo a braços
-com um homem, que lhe ia roubar a sua Martha, innocente como os anjos,
-pura como a estrella da manhã, serena como o alvorecer de estio em alto
-mar, e que d’entre nuvens no céu lhe sorria amor. A lucta continuava
-encarniçada, elle fóra de si puchava pela faca; mas, por mais diligencia
-que fazia, só alcançava Martha, o seu contrario escorregava-se d’entre
-os braços escapando-se-lhe aos golpes. Depois o mar de sangue envolvia-o
-todo, ia já a affogar-se, e a voz de Martha eccoava-lhe aos ouvidos
-clamando; assassino, assassino. As ondas passavam-lhe por cima da cabeça,
-o marulho das aguas, o sussurro do vento casavam-se com uma voz confusa,
-que lhe baqueava nos miolos, dizendo-lhe: _não matarás_.
-
-Nos primeiros tempos, em que saiu, ainda teve esperanças de voltar á
-vida antiga; mas todos, que procurava, se affastavam d’elle com terror.
-Desesperado, momentos houve em que lhe passou pela cabeça vingar-se de
-uma sociedade, que castigava n’elle um crime mais dos outros do que seu,
-e seguir a estrada do mal, já que lh’a lembravam, e já que lhe tornavam
-todas as outras impraticaveis; mas o principio do bem e as idéas que
-recebera com a educação, predominaram sempre.
-
-Custára-lhe muitas noites d’insomnias e de phrenesi, horas de amargura,
-em que chegou a desejar a vida da cadeia, occasiões em que a ideia da
-morte lhe trabalhou muito na cabeça.
-
-Uma noite, pelas onze horas, vagueava pelo caes do Sodré depois d’um dia
-passado em inuteis pesquizas de trabalho, e em repetidas e semelhantes
-recusas. O céo estava carregado, o vento soprava em lufadas da barra,
-o rio estava revolto, as aguas negras, a escuridão negrejava em tudo.
-Debruçado sobre o caes, remontou-se pelo pensamento áquella tarde em que,
-onze annos antes, desembarcára no mesmo sitio. Como tudo tinha mudado.
-Que alegrias então, que tristezas hoje! A agua começou a namoral-o
-debaixo, o desalento a convidal-o em roda, ia a precipitar-se, um
-braço susteve-o, uma voz exclamou: cobarde!—Era o braço de um antigo
-companheiro, a voz d’um velho amigo, marinheiro como elle; mas muito mais
-pobre, muito mais velho, e que pedia esmola encostado ao parapeito do
-caes.
-
-Aquella palavra e aquelle exemplo fizeram-n’o renunciar para sempre ao
-suicidio. Para não ser cobarde muitas vezes em temporal desfeito se
-resolvera a morrer, agora, para que lh’o não chamassem, resignava-se a
-viver. Era maior o sacrificio, mas para o compensar estava a ideia de
-que podia ser util ao velho Estevam: e a companhia d’um amigo que lhe
-apparecia nas proximidades da sepultura.
-
-E... porque não havia de concorrer tambem?
-
-A esperança, que mesmo sem fundamento algum, ainda lhe dizia que vivesse,
-e o acompanhava, como sempre, nos mais atormentados lances?
-
-No dia seguinte, com o peculio que por seu trabalho juntára na cadeia,
-comprava um velho barco de pesca, e ambos tomavam posse da propriedade
-commum não contentes, mas resignados, baptisando-a—_Desgraça_,—pelo muito
-que ambos haviam padecido.
-
-Se o trabalho faz minorar e esquecer as maguas, nenhum modo de vida
-se creou melhor para o esquecimento do que a vida do pescador. A lida
-continua e a lucta permanente com o mar e com o vento, a vigilia, o
-emprego de todos os sentidos, trazem o que n’ella se emprega sempre
-voltado para o seu trafego e sempre estranho ao mundo com o qual só de
-leve trata: e d’ahi para Manoel aquelle labutar tão semelhante ao de
-outros tempos, aquella vida, reflexo da outra, reflexo pallido em que
-o rio substitue o mar, em que o barco substitue o navio, mas que nos
-lances e no trato, tanto lh’a recordava, era um paraiso, depois d’aquelle
-inferno porque passára.
-
-Estevam, que o infortunio lhe offerecera por companheiro, serviu-lhe de
-amigo e de auxilio durante tres annos, em que gradualmente se lhe foram
-esvaecendo da lembrança os desgostos e as desillusões.
-
-Se para Manoel podesse ainda haver felicidade, quasi que aquelles tres
-annos se poderiam dizer felizes.
-
-Desde a tarde em que saltára em terra, entre receios e esperanças, nunca
-mais encontrára alma onde derramasse as amarguras, que trasbordavam
-da sua, nunca tivera ninguem que o comprehendesse, nem que avaliasse
-a sua dôr. O companheiro de grilheta, que lhe haviam jungido, era um
-scelerado, com tantas mortes e tantos crimes, que horrorisava ouvil-o, e
-ainda mais vêl-o rir das maguas de amor. Ás queixas de Manoel, respondia
-com imprecações, e se elle insistia, dava-lhe para que o deixasse com
-semelhantes pieguices.
-
-Depois que o soltaram, nunca nem um só, dos que d’antes o tratavam, lhe
-mostrou boa feição, todos fugiam do _grilheta_, alcunha que lhe tinham
-posto e que lhe recordava a antiga condemnação.
-
-Porque, clamem embora os philosophos, a rehabilitação moral para o
-criminoso pobre é impossivel, para o rico é inutil, ninguem lhe toma
-contas nem do passado nem do presente: o miseravel, porém, traz a
-corrente presa toda a vida, todos lh’a notam, todos lhe apontam para
-ella, e embora elle diga: _vejam o que hoje sou_; todos lhe tornam:
-_vemos o que foste hontem_.
-
-Por isso aquelle companheiro, que o comprehendia, aquella solidão que o
-não accusava, aquelle mar e aquelle ceu, que lhe lembravam o perdão e
-o infinito, foram como um calmante para a sua dôr, como uma estação de
-descanço na sua jornada de padecer.
-
-Estação, que durou pouco e que uma borrasca desfez, n’uma tarde, em
-que já recolhiam da pesca, seguindo pelo Tejo acima, a procurar abrigo
-n’alguma d’aquellas enseadas naturaes, que o rio abre, nas proximidades
-de Sacavem.
-
-A _Desgraça_, apezar do vento á popa, seguia pouco, e arfava muito porque
-havia força de corrente, e a vasante ia com grande rapidez.
-
-Principiava a escurecer e o vento a carregar com a noite, alguns trovões
-ouviam-se ao longe, e um temporal rijo se apparelhava para em pouco. O
-barco já não dava pelo leme, e a cada momento se enchia d’agua;—ir para
-diante era quasi impossivel, e á primeira onda mais rija, o casco já
-velho, podia abrir-se de popa á prôa. Posto que não conhecessem a praia,
-em risco de bater n’alguma pedra, tentaram atravessar, e encalhar quanto
-antes, depois de esforços sobrehumanos para luctar com o temporal; mas
-quando aproavam para terra uma rajada mais forte lhes levou a vella,
-e uma onda apanhando o bote pelo costado, metteu-lhe a borda debaixo
-d’agua, e virou-o logo.
-
-Só os que têem vivido parte da sua vida no mar é que avaliam bem quanto
-custa ao marinheiro deixar as taboas, em que tem navegado, sejam ellas de
-bote catraio ou de navio d’alto bordo. Para Manoel e para Estevam o barco
-era a fortuna, a familia, o mundo inteiro, que as aguas lhes queriam
-roubar.
-
-Agarrados a elle, mal se via já, trabalharam quanto poderam para vêr
-se o salvavam; mas, baldados esforços, o que conseguiam n’um quarto
-de hora, perdia-lh’o n’um segundo uma onda mais valente. E as forças
-a faltarem-lhes, e a respiração a difficultar-se-lhes, e os braços a
-renderem-se-lhes.
-
-—Já de noite—não podendo mais, tiveram de o largar, e por um instincto de
-conservação, que nos não deixa nunca, cuidaram de se salvar nadando para
-terra. Não era cedo: acontecia-lhes o que succedera ao barco, e quando
-mais cresciam para a praia, animando-se e clamando um pelo outro, porque
-não se podiam vêr, mais os affastava a corrente, que seguia com uma
-velocidade de espantar.
-
-Estevam não luctou por muito tempo. Mais velho e mais cançado, uma onda
-abafou-lhe o ultimo grito, e galgou-lhe por cima da cabeça, entrando-lhe
-pela bocca aberta convulsivamente n’um extremo resfolegar. Manoel com
-o desespero de afogado, reuniu todas as forças, e n’um extremo alento
-enterrou um braço no lodo da praia, para que a agua o não levasse,
-procurando já por instincto conservar a cabeça ao cimo d’agua para
-gritar, e tomar a respiração.
-
-Succeder-lhe-ia em pouco o mesmo que a Estevam se da terra o não
-ouvissem; correram em seu soccorro com luzes e cabos, nadaram para onde
-se ouviam os gritos, e agarraram-no pelos cabellos, quando exhausto de
-forças ia mergulhar tambem.
-
-—Quasi que não respirava.
-
-A Providencia velava por elle, era a segunda vez que o salvava.
-
-De manhã quando Manoel deu accordo de si, viu-se deitado n’uma esteira
-perto da chaminé, onde ardia um bom fogo, e ao pé d’elle um rapazito
-de dez a doze annos a vigiar lhe o somno: já não sentia a fadiga da
-vespera, e tinha recuperado as forças com o descanço; ia para se levantar
-e agradecer aos que o tinham salvado, quando a creança, pondo-lhe a mão
-sobre o hombro lhe disse:
-
-—Não se levante, faz-lhe mal, a mãe não quer; e como elle teimasse,
-gritou:—mãe, accuda cá, o homem quer levantar-se, quer ir-se embora.
-
-Á voz da creança abriu-se uma porta, e uma mulher, que teria trinta
-annos, quando muito, e que apesar de cançada pelo trabalho, ainda era
-formosa, appareceu no limiar.
-
-Manoel apenas a entreviu, com o lusco-fusco da madrugada, que illuminava
-fracamente a casa, deu um grito, levantou-se cambaleando e enfiou pela
-porta meia aberta para a estrada.
-
-Ella ao reconhecel-o tambem, encostou-se ao umbral da porta para não cair
-no chão.
-
-Era Martha.
-
-
-V
-
-O céu tinha limpado de noite, o dia amanhecera sereno, e o sol aquecia
-bastante, apesar de ser no outono. E aquella estrada, então, que era um
-descampado!
-
-A meia hora de caminho, andando sabe Deus como, com a cabeça pelos ares e
-a rasão quasi transtornada, Manoel teve de parar, ou, para melhor dizer,
-de cair n’um poial, que estava á beira da estrada debaixo de uma nogueira
-velha.
-
-Se não estivesse já experimentado na infelicidade, o pobre homem, que
-pela sua má sina parecia ter nascido nas horas da desgraça, finava-se
-alli de todo.
-
-Mas a canceira do corpo venceu a labutação do espirito; as horas, que
-levára de volta com o mar, o dia que passára e este que ia correndo
-sem comer; aquella vista e aquelle abalo, tudo junto deitaram-no como
-desmaiado sobre o poial onde ficou a dormir, a pensar, ou a esmorecer,
-que nem elle mesmo soube nunca o modo porque fôra, até que um velho
-visinho e que por mais de uma vez chegára ao humbral da porta a encarar
-com elle, o fez tornar a si batendo-lhe no hombro e perguntando-lhe se
-tencionava ficar para sempre alli estendido.
-
-Manoel para aquellas bandas não sabia caminho nem carreira, e que o
-soubesse não tinha alma de o seguir. O velho compadeceu-se d’elle,
-porque pelo fato e pelo fallar, conheceu logo que era estranho ao logar;
-offereceu-lhe, para passar a noite, um bocado de esteira, para matar
-a fome um pedaço de pão e uma cabeça de sarda, e para companhia a sua
-pessoa e conversação.
-
-Acceitou, e seguiu o seu hospedeiro como por demais: e, sem dar fé do que
-fazia, comeu, deitou-se, e dormiu a noite de um somno.
-
-Só nos romances é que os heroes não dormem depois de fortes abalos; na
-vida vulgar, na vida de todos e de todos os dias, depois dos grandes
-padecimentos, vem o cançasso mesmo da dôr, e depois o somno, ás vezes
-mais profundo, mais descançado, do que nas occasiões triviaes.
-
-Na manhã do dia seguinte Manoel acordava tranquillo e quasi feliz.
-Ao cabo de tanta lucta, de tantos lances, e de tão grandes golpes,
-aquelle remanso, que o velho lhe offerecia, aquelle apartamento do
-mundo, aquelle mesquinho oasis, entre um cemiterio e um ancião que para
-elle se inclinava e se debruçava sobre a cova; entre dois tumulos, mas
-sempre oasis para o seu mundo deserto de affeições e de esperanças, era
-o socego, o esquecimento, quasi a felicidade, felicidade da morte, mas
-ainda assim agradavel para os que nada esperam da vida.
-
-Diz um aphorismo, dictado talvez pela descrença, mas provado pela
-experiencia, que um dia de desgraça estreita mais amisades do que
-annos de ventura; contaram-se a sua vida, communicaram-se as suas
-infelicidades, e deram-se o nome de amigos.
-
-Não eram interesseiros os protestos; e por isso, bem sinceros.
-
-Até á morte do velho, Manoel viveu na sua companhia; enterrou-o, chorou
-sobre a sua sepultura, herdou-lhe a pobre habitação e o descubiçado
-emprego, e n’essa posse estava quando em companhia do tio Joaquim o
-encontrei.
-
-
-VI
-
-Haviam decorrido dois annos depois que viera do campo, e, com toda a
-sinceridade o confesso, nunca mais me lembrou em Lisboa, nem o guarda do
-cemiterio, nem a sua historia, que o bom do tio Joaquim me referira.
-
-Tive de voltar áquelles sitios e seguindo o caminho por onde viera da
-feira, comecei a avivar recordações, a recontar de mim para mim aquellas
-horas tão felizes, tão descuidadas, tão folgazãs, que me tinham corrido
-por aquelles descampados, e a vêr por entre as moitas dos vallados, que a
-primavera perfumava de aromas e esmaltava de flôres, as saudades queridas
-d’aquelles encantados tempos.
-
-Ao voltar da estrada quasi no mesmo ponto, em que os cavallos se haviam
-detido dois annos atraz, deteve-se tambem o que eu montava; obrigando-me
-a abandonar aquellas regiões do idealismo pela realidade de tempo e de
-logar.
-
-Não conhecia os sitios, tive de me orientar, invocando reminescencias
-antigas, e confrontando paragens, para me certificar onde estava.
-
-A egreja, a casa do guarda, o proprio cemiterio, pareciam remoçados
-pelo influxo de alguma divindade bemfazeja. Inspiravam ainda tristeza
-aquelles logares, mas uma doce e placida melancholia succedia-se agora
-ao desconforto e desalento, que ao attentar n’aquellas ruinas, nos
-arrefeciam a alma.
-
-O musgo estendia por partes o seu luxuriante manto de verdura,
-contrastando com o negrejar das cantarias, e dando e ganhando
-esplendores com o realce. Bandos de pombos esvoaçavam em roda das
-escalavradas paredes, casando os arrulhos, beijando-se, perseguindo-se
-em revira-voltas graciosas, cortando os ares em todos os sentidos com
-elegantes curvas, affagando-se e brincando, espalhando sobre aquellas
-ruinas suaves perfumes de alegria e de amor. Perto a casa, alvejando
-por entre as latadas de jasmineiros e madresilvas, o velho poial limpo
-e rebocado sob um caramanchão de heliotropos, e até a nogueira velha
-parecia mais viçosa e risonha.
-
-O cemiterio, que da pequena elevação, onde parára, se avistava todo,
-tinha as ruas limpas e orladas de alecrim e alfazema, as lapides mais
-desafogadas de matto, as cruzinhas mais negras, as arvores mais cuidadas,
-o chão recamado de flôres.
-
-Tudo era novo para mim, mas tudo melhorára com a innovação, e despidas
-as rugas de uma velhice precoce ou de uma mocidade gasta e devassa,
-apresentava-se tudo agora com as louçanias de uma virilidade robusta, de
-uma existencia descançada, serena, quasi festiva.
-
-Aquelle rejuvenescer estendera-se tambem ao antigo habitante, que havia
-visto outr’ora sujo, maltrapilho, alquebrado, velho até; e que via agora
-assomar á porta tão aceiado, tão esbelto, tão remoçado, que foi preciso
-que me cumprimentasse e que eu o ouvisse fallar, para perceber que era o
-mesmo.
-
-Apeei-me e mais curioso de que uma mulher, ou do que qualquer homem
-dos que n’este vicio lhes levam as palmas, procurei indagar o porquê
-d’aquellas mudanças.
-
-Talvez pelo respeito, que todos por aquelles logares me tinham, consegui
-de Manoel a confissão da sua vida na parte que não conhecia, e em que se
-operára aquella transformação.
-
-Em resumo foi o seguinte:
-
-Tempos depois da morte do seu antecessor, Manoel acordára uma noite ao
-bater-lhe á porta o acompanhamento de um enterro, que, como todos sabem,
-costumam no campo, ser fóra de horas.
-
-Atraz do caixão vinham chorando a viuva, o filho do finado, e alguns
-visinhos, que os acompanhavam.
-
-E... para que hei de torturar a curiosidade dos meus leitores, se é que
-a despertei em alguns, a viuva era Martha e o filho, aquella creança que
-vigiára o somno de Manoel.
-
-Encontravam-se pela terceira vez, mas d’esta finalmente para não mais se
-apartarem senão no tempo consagrado ao luto. Martha contou-lhe como o
-Miguel não morrêra das facadas, como se tinham casado depois, e como de
-Lisboa tinham vindo para aquelles sitios viver na companhia de um tio do
-marido, dono da fazenda onde foram depositar o nosso naufrago.
-
-Viram ambos n’aquelle inesperado encontro ao pé de um cadaver, a
-vontade da Providencia que os reunia emfim depois de tantos azares.
-Esta conclusão, que nem por isso depunha muito a favor da sua logica,
-pois que o encontro mais naturalmente provinha da occupação de Manoel,
-recebeu sobejo apoio na mutua affeição, que nunca se sumira de todo e que
-renascia agora mais valente e duradoira.
-
-Martha justificou-se a seu modo, e uma torrente de lagrimas rematou-lhe a
-peroração talvez artificial, mas de grande effeito para o seu auditorio.
-Manoel enterneceu-se, acreditou-a, e chorou tambem. E, regada com as
-lagrimas de ambos, desabrochou rapida a flôr do hymeneu.
-
-Casaram, não tiveram muitos filhos, não tiveram mesmo nenhum, mas o
-Miguelsinho, a quem o padrasto estimava como a si proprio, foi cimento
-mais que bastante para aquelle templo modesto de felicidade conjugal.
-
-Quando Manoel acabava a sua historia, apparecia Martha á janella
-chamando-o e lançando uns punhados de milho a um rancho de gallinhas,
-que andavam pela estrada defronte da porta; e por uma azinhaga proxima
-assomava o Miguel tocando umas vaccas e umas ovelhas, que recolhiam do
-pasto.
-
-—É feliz!... Disse-lhe eu tão senhor de mim e com uns ares tão
-sentenciosos e profundos como se fizera uma grande descoberta.
-
-—Sou, graças a estes, e (levando-me á porta do cemiterio para me indicar
-uma cruz abraçada por uma corôa de perpetuas), graças tambem áquelle que
-me perdoou o meu crime.
-
-—Ainda pensa em semelhante coisa?
-
-—Se penso, quiz matal-o!
-
-Uma hora depois voltava para Lisboa, se não contricto ao menos pensativo.
-Aquelle espectaculo tinha-me valido por duzias de sermões.
-
-É verdade que Manoel dizia o que sabia, por experiencia propria: e a
-maior parte dos nossos padres, não sabem o que dizem.
-
-
-
-
-IX
-
-Como se ganha uma demanda
-
-
-Era pelos fins de novembro, ao approximar da noite. Soprava rijo o vento
-das bandas do sul e as nuvens acastelladas e escuras corriam como cavallo
-á desfilada. Principiavam a cair grossas gottas d’agua, e ao longe já
-rugia a tempestade. Como é vulgar no inverno, no campo, quasi que não
-houvera crepusculo da tarde. Apenas se escondera o sol e já a escuridão
-baixava sobre os campos. No sitio onde começa a acção da historia que se
-vae lêr, não havia noticia de povoado: era a meio de uma azinhaga, que se
-contorcia por entre terras cobertas de restevas, e tristes como a nudez
-mal vestida de farrapos.
-
-Joaquim dos Santos tinha mettido o cavallo a trote para fugir á trovoada
-proxima e ás trévas eminentes; emquanto debalde procurava orientar-se por
-meio dos olivaes.
-
-Joaquim dos Santos fôra um dos mais endiabrados rapazes d’aquelles
-lugares. Deitára fama de si pelas proezas que fizera, e o seu nome não
-era bem fallado n’aquellas visinhanças, como um dos maiores extravagantes
-d’este mundo.
-
-Seu pae, que tinha alguns bens e que estimava devéras os seus dois
-unicos filhos, Joaquim e Raymundo, tratou de lhes dar educação decente,
-mettendo-os no mais acreditado collegio de Lisboa.
-
-Mas, emquanto Raymundo estudava com a melhor vontade, Joaquim fazia em
-agua a cabeça dos professores, e peiorava de dia para dia. Não podendo
-aturar, o director mandou-o para casa do pae, declarando lhe, que assim
-como não teria duvida de ensinar de graça a Raymundo, visto o seu bom
-porte e applicação; por dinheiro algum d’este mundo se resolveria a
-supportar o irmão nem mais um dia.
-
-Foi grande tristeza em casa de José dos Santos. As esperanças todas que
-depuzera em seu filho mais velho desappareciam-lhe de repente. E o velho
-que já pensava em o mandar a Coimbra!
-
-Joaquim, pela sua parte, declarou-se em guerra aberta com a lettra
-redonda. Não nascera para doutor, nem se achava com sabedoria para
-lettradices. Queria amanhar terras e ser lavrador como seu pae. Seu
-irmão, que parecia um menino Jesus de freiras, que se desse a semelhantes
-pieguices: elle era um homem, tinha pulso para guiar a rabiça de um
-arado, e pernas para se segurar n’um cavallo.
-
-José dos Santos só contava um defeito, ser estremoso pelos filhos como
-ninguem. Concordou com a vontade do Joaquim, e metteu-o no trabalho
-debaixo da sua direcção.
-
-Mas, nem mesmo nos primeiros dias, o novo lavrador tomou gosto áquelle
-modo de vida. Aborrecia-se do trabalho e, mal que podia, furtava-lhe
-o corpo para ir procurar a companhia dos peiores rapazes da terra.
-Encontravam-no mais na taberna do que na eira, mais no jogo de bolla do
-que no pomar, e mais nas patuscadas do que na lavoira.
-
-Ao passo que se ia entregando a não fazer nada, iam-lhe medrando os
-defeitos e engordando os vicios. Tinha fama de valentão, e tão mau se
-havia feito, que o proprio pae se temia d’elle.
-
-Ninguem podia ter-lhe mão, não ouvia conselhos, nem fazia caso do que lhe
-diziam para bem. Um dia que seu irmão Raymundo se lembrou de lhe fallar
-a preceito para vêr se o fazia chegar á rasão; Joaquim, que não vinha em
-si, deu-lhe uma sova, que o deixou em lençóes de vinho.
-
-Foi tambem a ultima que seu pae lhe aturou. O bom do velho apenas viu
-chegar seu filho querido, o seu ai Jesus, que fôra sempre uma joia, e do
-qual ninguem dizia senão mil bens, em braços, e que soube quem fôra o
-auctor de tão grande maldade, jurou que nunca mais lhe poria os pés em
-casa homem de tão mau coração.
-
-Deitou luto em signal de o ter perdido e respondia a todos que lhe
-perguntavam porque vestia de preto:—é por meu filho Joaquim, que morreu.
-
-Este jurou que se havia de vingar de seu irmão, ao qual attribuia a má
-vontade do pae, e foi cada vez a peior, passando todo o santo dia na
-taberna ou no jogo.
-
-Entre os seus companheiros de perdição havia um, que sobre elle tinha
-mais poder; mesmo por ser o mais depravado. Era João Simões, capaz de lêr
-de cadeira na patifaria e de passar por doutor na pouca vergonha.
-
-Contribuira mais do que ninguem para estragar o rapaz e fôra quem lhe
-ensinára melhor o mau caminho. Joaquim, tambem, não resava por outro
-breviario, e o que João Simões lhe dizia—era para elle um evangelho.
-
-Andavam por aquelles tempos no lugar alguns homens a desenquietar
-trabalhadores para o Brazil, promettendo-lhes mundos e fundos de
-felicidade, quando lá estivessem, e passagem paga no navio para os que
-quizessem ir. João, que entrava em todos os negocios de má condição,
-travou conhecimento com os taes meliantes, e fez-se dentro em pouco um
-dos mais espertos alliciadores da companhia.
-
-Como estava corrente com tudo que se passava, pois bem sabem que a
-occupação do vadio é entreter-se com as vidas alheias, viéra a ser em
-pouco tempo o perdigueiro de melhor faro para levantar a caça. Conhecia
-os que tinham menos dinheiro, os que mais desejavam ganhal-o com pouco
-trabalho, os que tinham melhor embocadura para o vicio, e os que menos
-duvidavam de abandonar terra e parentes.
-
-Onde deitava a rede tirava peixe, já era sabido. Ninguem como elle
-acertava tão bem.
-
-Apenas José dos Santos pôz seu filho fóra de casa, logo João tencionou
-seduzil-o para embarcar, e sem grande difficuldade conseguiu convencel-o
-de que era o melhor partido que tinha a seguir.
-
-Como elle jurava nas palavras do seu mestre, acreditou em tudo quanto lhe
-dizia, protestando entretanto, que se fosse desgraçado grande vingança
-tiraria de seu irmão Raymundo, o causador de tudo, lá no seu modo de vêr.
-João entretendo-lhe a furia foi acompanhal-o ao embarque, encarregando-se
-não só de tratar de quantos negocios porventura viesse a ter; mas ainda
-de realisar os planos vingativos contra o irmão.
-
-Tornou-se assim depositario de todos os seus odios.
-
-João incumbindo-se d’esta vingança, trabalhava tambem por sua conta, pois
-jurára pela pelle de Raymundo, desde que este o tratou desabridamente, e
-lhe voltou costas n’um arraial.
-
-O desgosto de vêr seu filho tão mal encaminhado levou o pobre pae á cama:
-e Raymundo teve de deixar os estudos em meio para vir junto do velho,
-governar a casa e tratal-o na doença.
-
-Entrementes que estava cuidando em seu pae tomou-se de amores com uma
-rapariga da terra; e como era boa de caracter e boa de reputação, apesar
-de pobre, casou-se em breve, ganhando todos com o casamento. Elle porque
-alcançára uma esposa extremosa, José dos Santos porque ganhava uma
-enfermeira sollicita, tão desvellada e tão carinhosa como a melhor filha.
-
-Porém quando o mal é de morte triste remedio lhe podem dar o saber dos
-medicos, ou o cuidado dos enfermeiros. A ferida do doente era mesmo no
-coração, não tinha cura. Apesar da maneira porque Joaquim para com elle
-se houvera, estimava-o porventura mais ainda do que ao seu obediente e
-bom Raymundo.
-
-Caprichos do sentimento, que mais nos fazem prender a affeição, a quem
-menos nol-a merece; o velho, embora comsigo mesmo o negasse, dera parte
-maior do seu coração ao filho perdido.
-
-Muitas vezes em piedosa e apaixonada analyse se desculpava d’esta
-parcial fraqueza. Era a ovelha desgarrada, que cuidados maiores requeria
-do pastor, era a terra maninha que pedia melhor cultura, era a arvore
-desviada, que chamava mais attenção para lhe emendar o erro.
-
-A lembrança do filho era o tormento, e a enfermidade mais perigosa, que o
-definhavam. O barbeiro-sangrador do logar, e o cirurgião visinho tinham
-feito repetidas juntas sem atinarem com a rasão do mal. Resolveram por
-fim, que padecia do interior, e acertaram sem saber.
-
-José dos Santos ria-se dos entes de rasão dos dois physicos, e
-sujeitava-se resignado ao tratamento que lhe applicavam. Seu filho, sua
-nora, até o netinho de peito, todos se acercavam d’elle inquietos e
-suspeitosos da verdadeira causa do mal. Porém tão callado se conservára o
-doente, que não tinham passado de conjecturas.
-
-Á hora da morte apenas se lhes desvaneceram as duvidas, porque,
-conhecendo como estava, chamou-os a todos, lançou-lhes a benção, e depois
-erguendo os olhos ao céu, exclamou:
-
-—Compadecei-vos tambem d’elle, Senhor, tocae aquella alma perdida, com um
-raio da vossa divina graça... Se algum dia tornares a vêr teu irmão, meu
-Raymundo, dize-lhe, que lhe perdoei tudo, e, que ao despedir-me do mundo,
-lhe deitei, cá de tão longe mesmo, a minha benção de pae.
-
-Casa onde entra doença, não é o dinheiro que a aguenta: a molestia de
-José dos Santos foi a ruina d’aquella familia. Durára perto de dois
-annos o padecer do velho; custára muito áquella organisação robusta
-o desprender-se do mundo, luctára como um homem; o desgosto, porém,
-vencera-o por fim.
-
-Tudo estava empenhado, quando o antigo lavrador falleceu: foi mister
-pedir dinheiro para o enterro, e Raymundo amanheceu um dia sem pae, sem
-haveres, e com o filho e a esposa para sustentar.
-
-Demais a familia promettia-lhe augmentar-lhe, porque Leonor, sua mulher,
-estava gravida de tempo: e tanto que em poucos dias deu á luz uma
-filhinha, formosa como um serafim, e córada como uma rosa de primavera!
-
-Diz-se que os filhos são a riqueza do pobre. Triste ironia!—Para o que
-padece de necessidade a vista das creanças sem pão é tormento mil vezes
-maior do que a propria fome. Quantos não sacrificariam a vida de bom
-grado, se em paga soubessem que garantiam a existencia dos seus!
-
-Supplicio, que se não descreve, é vêr os innocentes, menos soffridos e
-porventura mais sinceros, não disfarçarem a fome e chorarem pedindo pão.
-
-Emquanto a desgraça o perseguia, Raymundo, sem desanimar, ia trabalhando
-sempre, amparado pela força de vontade e pelo sentimento do dever.
-
-Pelo contrario a fortuna, caprichosa como sempre, sorrira para Joaquim
-cujos negocios lá pelo Brazil iam de vento em pôpa.
-
-João Simões, que com elle se correspondia regularmente, não descançava
-de lhe acirrar os odios contra seu irmão, o qual para de tudo o privar,
-até lhe roubára a benção paterna, fazendo com que o velho á hora da morte
-amaldiçoasse o filho mal procedido.
-
-Como já se disse, succedera o contrario; mas o Simões, que era uma alma
-damnada, queria vingar-se de Raymundo, e não recuava, por conseguinte,
-deante de uma mentira, ou duas que fossem.
-
-Ao mesmo tempo encarecia lhe a prosperidade da casa e os grandes
-negocios, que José dos Santos fizera nos ultimos tempos: dizia-lhe, que
-seu irmão ficára disfructando uma grande fortuna, que se fingia pobre
-para não fazer partilhas, e que se Joaquim lhe mandasse procuração para
-tratar d’esse negocio, em breve lhe mostraria, se era ou não verdade, que
-seu irmão queria enganar toda a gente com a sua mentirosa pobreza.
-
-Conseguiu por fim o que desejava: e mal teve a procuração em seu poder,
-começou a perseguir o desgraçado Raymundo a quem já devia bastar o seu
-mal.
-
-A justiça não costuma estar em casa para receber os pobres; João Simões
-dispunha de dinheiro, e entendia de demandas, fazia o que queria. Taes
-artes teve, de taes manhas se soccorreu, que conseguiu em pouco, que
-passassem um mandado de penhora contra Raymundo, como cabeça de casal em
-nome de seu irmão: emquanto este, lembrando-se com saudades da patria ia
-liquidando os seus negocios, para poder regressar quanto antes. Tinha
-ganho algum dinheiro; mas não tinha contrahido amisades: e estava rico;
-mas só e triste.
-
-Mudára de vida completamente: aquelles annos tinham-no amadurecido, mas
-tambem o tinham cançado e gasto. Estava velho antes de tempo, precisava
-descançar e não ha como a terra da patria para alliviar penas de velhice
-e melancholias de coração. Havia bem pouco que chegára, quando nós o
-encontrámos, fugindo da tempestade, e orientando-se por entre campos.
-
-Eram recordações, eram saudades, que o tinham demorado, seguindo por
-aquellas visinhanças, parando diante d’uma arvore, descobrindo-se diante
-d’uma cruz, apeando-se muitas vezes para ir ajoelhar diante d’uma pedra.
-
-Tudo lhe fallava á memoria, tudo lhe fallava ao coração.
-
-Aqui passára tanto tempo espreitando seus companheiros, que o procuravam,
-e elle escondido; ali tivera o primeiro encontro apaixonado; mais em
-baixo estivera com seu pae; mais além descançava este em horas de calor,
-ou esperava os trabalhadores das suas fazendas, ao recolherem, para lhes
-perguntar noticias do trabalho.
-
-E uma pedra para junto da qual viera correndo um dia a fugir do cão
-do tio Fernandes, esconder-se no regaço de sua mãe, toda em sustos de
-principio; tão enfurecida mais tarde apenas soube que fôra elle, quem
-desafiára o cão!
-
-Mundo de melancholicos e piedosos phantasmas, mundo, que o alheava
-á realidade, que o apartava do presente, tão só, tão vasio, tão sem
-significação, para lhe abrir francas, patentes e compassivas as portas do
-passado, tudo ali se transformava para elle, e em cada cousa cuidava vêr
-uma feição querida, uma lembrança, uma alegria ou uma dôr.
-
-Por vezes lhe rebentaram as lagrimas dos olhos, por vezes sentiu-se
-suffocado, por vezes desejou, emballado pela doce harmonia da saudade,
-adormecer de todo no dormir, em que já descançavam seu pae e sua mãe.
-
-E, que o explique quem melhor o pensou, nas occasiões, em que o
-sentimento é em nós mais placido, mas tambem mais profundo; nas horas de
-amor duvidoso, de aspiração indefinida, de descontentamento irremediavel
-e infundado, parece que se levanta entre nós o desejo de outra vida, de
-outro mundo, de outra existencia, não sabemos qual, mas que nos parece
-ter já vivido, e para o qual nos persuadimos, teremos de voltar.
-
-N’essas horas de extranho e amoravel sentir, como desterrados de regiões
-bem diversas d’estas, desejamos vêr terminado o desterro e immediata a
-hora de regressar.
-
-Foi o approximar da tempestade que o distrahiu d’estas melancholicas
-cogitações; deitou os olhos em roda e não conheceu o sitio. Tinha-se
-perdido no caminho. Novas estradas, novas mudanças tinham-lhe
-transformado o mappa, que a memoria lhe estampára no coração, via-se a
-meio de olivaes e as arvores confundiam se já com as sombras da noite.
-
-Seguira, sem dar por isso, o melhor caminho, a estrada nova, e que por
-conseguinte não era do seu tempo. Não podia estar longe o povoado, mas a
-chuva cada vez apertava mais, e o cavallo já não queria andar assombrado
-com o fuzilar continuo dos relampagos, e atturdido com o ribombo temeroso
-dos trovões.
-
-Entretanto estava resolvido a seguir á ventura, certo de que em pouco
-tempo encontraria abrigo; quando deante de si, na quebra de uma azinhaga,
-lhe pareceu vêr uma sombra rasteirinha coser-se com o muro e seguir a
-modos de homem, que fosse agachado, como receando ser visto.
-
-—Quem vae ahi? perguntou Joaquim que costumado ás aventuras do sertão não
-se inquietava muito com um mau encontro.
-
-Mas a sombra seguiu mais apressada, sem dar resposta.
-
-Joaquim chegou esporas ao cavallo e correu sobre o vulto.
-
-Proximo reconheceu duas creancinhas, um rapasito de sete annos, ao
-mais, e uma menina de seis, que de mãos dadas e tremendo de medo ambos,
-ajoelharam quando o viram ao pé de si, exclamando o mais velho, e que
-parecia mais animoso.
-
-—Não nos faça mal, temos o pae doente e vamos levar-lhe este remedio, que
-lhe receitou o mestre Eusebio.
-
-(Eusebio ainda era sangrador-barbeiro approvado pelo proto-medicato, e
-facultativo á falta d’elles).
-
-Depois voltando-se para a irmã, que se fazia bem pequenina para se
-esconder atraz d’elle, disse-lhe, mudando as fraquezas em forças, e n’um
-tom mais seguro, como para lhe incutir valor.
-
-—Não tenhas medo, Isabel, aquelle senhor não nos ha de fazer mal, não vês
-que tem cara de boa pessoa!
-
-O pequeno não podia perceber que tal fosse a physionomia de Joaquim; esta
-amabilidade era pois um argumento _ad benevolentiam_, aprendido quasi
-intuitivamente, na rethorica saloia.
-
-—Não faço mal, não, pobres pequenos, com este tempo, tão mal resguardados!
-
-Isto era dito já a pé junto d’elles e detendo se com verdadeira compaixão
-ao attentar nos farrapitos, que mal os cobriam.
-
-—Nós cá não tem duvida: o pae é que precisa mais, está tão doente.
-
-—Ha tres dias que não come nada.
-
-—E a nossa mãe, coitadinha, ha oito dias que não dorme!
-
-—E o pae, está com uma cara! Nossa Senhora nos valha, parece um defunto.
-
-—Não digas isso, Isabel!... depois approximando-se mais de Joaquim, com
-quem ia já acostumando-se, e como para lhe provar que não era creança, o
-rapasito continuou mais de vagar; o pae está muito mal, que eu bem vi a
-cara que fez hontem o mestre Eusebio, mas a mãe não desconfia e a Isabel
-nada sabe.
-
-—É muito longe a sua casa?
-
-—Não, meu senhor, é logo alli.
-
-—Pois vamos lá, que eu tambem os acompanho. Já agora... Não temos outra
-noite, e d’aqui ao lugar ainda ha uma boa meia legua bem puchada. Quando
-lá chegasse achava tudo fechado.
-
-—Mas o senhor vae ficar muito mal accomodado, exclamou a pequena, que
-ainda se não affizera muito ao seu novo conhecido, a gente é tão pobre!
-
-—Não tem duvida, minha menina, em qualquer canto me arranjo, sou facil de
-contentar.
-
-—Oh José, eu tenho medo do homem, elle vem com a gente? perguntou ao
-ouvido a pequenita a seu irmão.
-
-—Tu tambem, sempre és uma medrosa!... E d’ahi não sabes que lá em casa
-não ha que levar!
-
-—Sim, mas olha eu sempre tenho medo.
-
-Joaquim comprehendêra pelo conchegar assustadiço da creança para seu
-irmão, e pelos modos importantes que este assumira, qual tinha sido o
-dialogo em voz baixa, e sorrindo-se disse á pequena:
-
-—Não tenha medo de mim, não sou nenhum ladrão. Mas bem pelo contrario a
-prevenção mais assustou a creança, que não atinando com o modo porque
-elle ouvira a sua conversação, exclamou apressurada, mas sem olhar para o
-seu interlocutor:
-
-—Eu bem sei que o senhor não é nenhum ladrão; mas... adivinha o que a
-gente diz!
-
-—Então minha menina, julga-me agora feiticeiro?
-
-—Deixe-a fallar, é uma creança, ainda não fez seis annos.
-
-—E o menino é um homem, não tem medo.
-
-—Eu já tenho sete annos, e d’ahi o senhor não havia de fazer mal a duas
-creanças, nem a meu pobre pae. Está tão doente!
-
-—Pois deixem estar que eu verei se sei d’algum remedio, que lhe faça
-bem. Pelas terras, por onde andei, aprende-se muita coisa e eu conheço
-algumas drogas que talvez aproveitem: e d’ahi eu quero pagar-lhes o
-agasalho, tenho com quê.
-
-—O senhor dá cura ao pae?—Que bondade seria a sua!
-
-—Não te dizia eu, Isabel.
-
-—Ora pois então vamos lá. Digam-me seu pae é muito velho?
-
-—Não senhor, tem trinta annos e mais alguma coisa, os desgostos é que o
-acabaram muito.
-
-—Pobre homem!
-
-—Demais a mais um tio, que anda lá por fóra quer tirar-nos tudo. E d’ahi
-o pae, vive tão apoquentado!
-
-—Um tio?
-
-—Sim, senhor, atalhou a pequena, um tio muito mau! Sempre tenho uma raiva
-ao meu tio!...
-
-—Calla-te, mana, tu não sabes que o pae diz que o tio não tem a culpa?
-
-—Então o tio anda ha muito por fóra! Como se chama?
-
-—Ora o senhor não o conhece, replicou o rapaz meio desconfiado; está
-muito longe.
-
-—Quem sabe, ás vezes! Diga-me sempre como elle se chama.
-
-—É o tio Joaquim.
-
-—E está?...
-
-—Lá para o Brazil.
-
-—E seu pae, chama-se?
-
-—Mas o senhor de certo não se importa com a vida da gente, respondeu o
-Josésito, que já não ia gostando de tanto perguntar e que receava, com
-aquella giria que parece acompanhar os saloios desde o berço, que lhe
-podesse porvir algum mal das suas respostas.
-
-—Por amor de Deus diga-me como se chama seu pae.
-
-—Assim, como assim, o senhor sempre o ha de vir a saber, chama-se
-Raymundo.
-
-—Então os meninos são?...
-
-E a commoção embargou-lhe a voz.
-
-—Somos, sim senhor, somos filhos de meu pae, eu chamo-me José, que era
-o nome de meu avô, e minha irmã é Isabel, porque nasceu no dia de Santa
-Isabel.
-
-—Pois eu...
-
-Mas a reflexão cortou-lhe a palavra: queria vêr; queria, antes de se
-declarar, que aprendessem a abençoal-o. Entretanto, agarrou-os bem para
-si e abraçou-os muito enternecido.
-
-—O senhor está a chorar, disse Isabel com aquella perspicacia de mulher
-mesmo pequena, olhe, já vou gostando mais de si!
-
-—Gosta, gosta, minha Isabelinha, que eu tambem gosto muito de ti. E tu
-lá, José, tambem és meu amigo?
-
-—Eu engracei comsigo logo ao principio. Aqui está a nossa casa; e batendo
-á porta:—mãe, mãe, aqui vem um senhor, que sabe d’um remedio para curar o
-pae! Abra a porta, mãe, somos nós.
-
-Effectivamente estavam á porta de Raymundo. A luz que vinha de dentro
-ao abrir, cegou por momentos a Joaquim, que só depois de se costumar á
-claridade é que pôde dar fé do interior d’aquella habitação.
-
-Era uma casa terrea, que accumulava as funcções de cosinha, sala, casa de
-jantar e quarto de dormir dos pequenos. A um canto uma cortina de chita
-muito remendada resguardava-lhes a alcova; do lado direito uma porta meia
-aberta dando para o escuro, d’onde saía o som angustiado e sibilante
-de uma respiração irregular accusava o quarto do enfermo: junto da
-chaminé, onde ardiam em chamma fraca e incerta alguns cavacos apanhados
-na estrada, via-se uma cadeira antiga de espaldar de coiro e pregaria
-amarella. Era o unico movel de algum valor.
-
-Uma meza de pinho, bem tosca e bem pouco segura, umas pratelleiras
-sobre a meza pregadas na parede, onde se viam uns pratos quasi todos
-rachados e alguns tachos bem velhos, tres mochos em roda da meza, uma
-arca carunchosa ao lado da porta de entrada, dois registros por cima da
-arca, uma palma e um rosario crusando-se sobre os registros, constituiam
-toda a mobilia, a que accrescentaremos apenas, para que a descripção seja
-completa, um banquinho proximo á entrada do quarto do doente e junto da
-arca, d’onde Leonor se levantára para abrir a porta aos recem-chegados.
-
-Sobre a arca uma lamparina allumiava os santos e dava claridade para o
-trabalho de Leonor, que ali, ora levantando os olhos de supplica para as
-imagens, ora volvendo-os cuidadosa para o quarto onde jazia o esposo,
-remendava um capote de Raymundo, sobre o qual de vez em quando caiam as
-lagrimas da desgraçada.
-
-A luz incerta do brazeiro, sobre o qual e para o escurecer mais ainda
-estava uma panella de folha, em duas pedras, que suppriam a fornalha;
-e o clarão mais terno ainda da lamparina, luctando com as sombras e
-perdendo-se na escuridão, tornavam a casa mais vasta, mais nua e mais
-triste.
-
-—O pae está descançando, não façam bulha, apressou-se em dizer aos seus
-dois filhos a attribulada mulher. Depois voltando-se para Joaquim:—Vossa
-senhoria ha de perdoar, os pequenos é que tiveram a culpa de o cá trazer,
-bem vê que não temos accommodações para hospedes; depois a doença de meu
-marido...
-
-—Olhe, mãe, segredou-lhe o José como quem queria dar a entender que não
-andára de leve, elle tem dinheiro para pagar á gente, e diz que traz um
-remedio que dá cura ao pae...
-
-—Não venho para encommodar. Estou affêito a tudo, e qualquer coisa me
-satisfaz, uma pouca de palha e uma manta, uma manta só, coisa nenhuma que
-seja; mas licença de descançar ahi sentado, e de adormecer com os braços
-sobre a meza e a cabeça encostada aos braços. Eu sei o que são doenças,
-e talvez mesmo lhe possa servir de algum prestimo. Nas terras por onde
-andei nem sempre havia medico á mão, nem boticario ao pé da porta. Ia-se
-a gente curando conforme podia, e aprendendo á sua custa...
-
-Emquanto Joaquim proseguiu no seu arrasoado, examinava sua cunhada,
-que pela sua parte aproveitava tambem estes proloquios para observar o
-hospede que seus filhos lhe traziam.
-
-Leonor era ainda uma formosa mulher, posto que o desgosto lhe tivesse
-gravado algumas rugas na physionomia e embranquecido alguns cabellos.
-Morena, olhos pretos e rasgados, nariz recto e fino, labios delgados e
-vermelhos, rosto oval, um d’estes typos peninsulares, mescla formosa
-do sarraceno trigueiro e nervoso, como as filhas do norte pallidas e
-lymphaticas.
-
-Era esbelta e da altura propria de mulher. Tinha sentimento na
-physionomia e elegancia no corpo. Mostrava o que devera ter sido, antes
-que as maguas a envelhecessem e os trabalhos a cançassem.
-
-A tristeza espalhava lhe pelo rosto um melancholico mas diaphano véu,
-atravez do qual transparecia a vermelhidão do pejo ao lembrar-se da
-má hospedagem, que com difficuldade podia offerecer. E quanto mais
-olhava para Joaquim mais ia sympathisando com a cara rude mas franca do
-recem-chegado.
-
-Este mostrava tambem ter muito mais edade do que tinha. Valera-lhe por
-dez um dos annos que passára no sertão: mas aquella belleza agreste do
-homem callejado no trabalho, aquella lhaneza não destituida de finura,
-que se adquire no trato licito, mas laborioso e muitas vezes bastante
-complicado, davam-lhe relevo ás feições e imprimiam-lhe um cunho
-particular. Trajava simplesmente e como lavrador abastado.
-
-Apesar da compostura que se notava no traje de Leonor, apesar do cuidado
-com que vestia e do aceio da sua roupa, a mão da miseria denunciava-se
-a todo o momento. Da miseria que não faz alarde de si, que se esconde,
-que se disfarça, que tem pejo do seu estado e receio de que a conheçam.
-Miseria timorata e desconfiada, a que tudo offende, porque tudo a fere;
-que de todos foge, porque, sem quererem mesmo, todos a escandalisam. Uns
-pela ostentação, outros pelo dó, pela indifferença mesmo outros. Miseria
-que sorri por fóra emquanto chora por dentro, que apparenta desapego
-emquanto treme pelas consequencias, que encontra perigos sempre diante de
-si, e que soffre tanto mais, quanto receia que o desabafar seja tido como
-uma supplica e a franqueza como um rodeio para pedir. Miseria que se roça
-por nós sem que a conheçamos, e que por um nobre orgulho denomina doença
-a fome, desleixo o máu vestuario, extravagancia a necessidade.
-
-Tal era entretanto a que se lia no modesto e envergonhado trajar de
-Leonor, e que Joaquim, com a perspicacia que dá tambem a infelicidade,
-conheceu á primeira vista.
-
-—Se não fosse a molestia do meu Raymundo, proseguiu ella, melhor agasalho
-lhe poderiamos offerecer; mas assim... Parece que Deus se esqueceu da
-gente a alguns annos a esta parte! E tudo por causa de um mano de meu
-marido... que elle não quer ouvir tal, e pelo contrario sempre defende o
-irmão, que no seu dizer não tem culpa do que faz um tal João Simões...
-mas o senhor não se interessa com isto. Vou vêr se lhe posso offerecer
-alguma cousa de cear, e perdoará a limitação.
-
-E, emquanto fallando e dando voltas, Leonor ia preparando a ceia, e
-espreitando sempre o quarto de seu esposo, para se certificar se este
-continuava a dormir; Joaquim ficára á porta, de pé, chapéu na mão e como
-pasmado a comparar aquella pobreza, com as informações que recebera.
-
-Leonor reparou na posição do seu hospede, e indicando-lhe a cadeira de
-espaldar, proxima da chaminé:
-
-—Vem molhado, e está ahi em pé, sem se chegar ao menos para o lume,
-sente-se: ainda assim esta cadeira é a predilecta de meu marido, era onde
-se sentava quasi sempre meu sogro.
-
-Joaquim já tinha conhecido a poltrona, mas quando Leonor lh’a indicou
-pedindo-lhe, que se sentasse, não pôde dominar uma visivel commoção. Teve
-duvida, quasi medo de se sentar. Parecia-lhe vêr seu pae apontando-lhe
-para aquella casa, para aquella miseria e expulsando-o. Affigurou-se-lhe
-de repente o quadro, que tantas vezes examinára. O rosto entre severo
-e indulgente de José dos Santos inquieto por amor do filho, que se
-demorava, e preparando um sermão, que levava a cabo raras vezes, porque
-antes de meio lhe desarmava as iras o verdadeiro affecto paternal.
-
-Leonor, que não podia acertar com a causa de semelhante hesitação,
-attribuiu-a a causa bem differente.
-
-—Não faça cerimonia, se meu marido estivesse aqui, elle mesmo lh’a
-cederia, que sempre lhe ouvi dizer, que era dever sagrado fazer bom
-acolhimento aos viajantes. E perdôe vossa senhoria que eu ande no meu
-trafego.
-
-N’este comenos, remechêra na arca, e bem vermelha de vergonha tirára um
-panno muito lavado, é verdade, mas cheio de remendos, e que estendera
-sobre a mesa; desencantára n’um armario velho, que pelo estado em que se
-achava e pelo pouco vulto que fazia nos esqueceu mencionar, duas brôas
-de milho e alguns queijos brancos salgados; escolhêra da pratelleira os
-pratos menos quebrados, a que juntou os talheres, que apesar de serem de
-chumbo, pareciam de prata pelo brilho, tão limpos estavam: e indo buscar
-á chaminé a panella onde fervia um caldo de couves e toucinho, convidou o
-seu hospede a tomar parte d’aquella ceia.
-
-Não era coisa sufficiente, bem o sabia, mas a sua pessoa havia de
-desculpar, pois que não esperava ninguem de fóra nem estava no auge de
-o receber como desejava, pois a doença do seu homem a tinha quebrado de
-pernas e braços.
-
-—E o que diz o facultativo da doença do seu marido?
-
-—Diz, que é uma dôr no interior, que lhe costuma a dar e que é de muito
-perigo se continua, que elle já é attreito a padecer do figado, que
-segundo parece é molestia de familia, e que lhe póde subir o mal ao bofe
-se não puchar abaixo com força. E será assim?
-
-—Não o creio. Deus ha de affastar o agoiro do tal barbeiro.
-
-—Elle tambem diz, que é bom dormir, e o meu Raymundo ha umas quatro horas
-que está descançando tão socegado, que parece mesmo uma creança.
-
-—Isso sim; o dormir é sempre um excellente remedio, restaura as forças e
-faz cobrar saude. D’ahi seu marido deve estar amofinado por lhe correr o
-negocio mal. Não me fallou ha pouco de um irmão?...
-
-—Do Joaquim, fallei, sim senhor.
-
-—Então esse Joaquim?
-
-—É, segundo a minha opinião, a causa de tudo isto. Que o Raymundo diz que
-não, e jura que não era capaz de fazer uma acção d’estas, se soubesse do
-estado a que chegámos...
-
-—Que acção, atalhou precipitadamente Joaquim?
-
-—Uma penhora, á gente, n’isto que o senhor ahi vê. Na verdade vale bem
-a pena de incommodar a justiça, ha de ficar bem rico, não tem duvida
-nenhuma! Mas ainda assim, Deus sabe a falta que nos faz tudo. Ficamos
-a pedir esmola. Até agora ainda tinhamos o nosso buraquinho para uma
-afflicção; mas de hoje em diante...
-
-—Que diz?...
-
-—A verdade. Um tal João Simões, é que tem andado acceso n’este negocio
-todo, porque tomou asca ao meu Raymundo desde que elle um dia, já de
-proposito, por saber que era o Simões que lhe desinquietava o irmão,
-lhe voltou costas no arraial de Nossa Senhora do Rosario. Depois,
-apresentou-se feito procurador do Joaquim, deu testemunhas... se o senhor
-soubesse, que testemunhas!... as caras mais atraiçoadas do logar, em
-como o pae de meu marido tinha deixado muitos bens, que o meu Raymundo
-estragára tudo, e depois tem andado em demandas para puchar pela legitima
-do amigo. Legitima!... Só se foi a benção do pae á hora da morte, porque
-emquanto ao mais! Nem chegou o dinheiro para o enterro, que foi preciso
-ir pedil o fóra.
-
-N’estas alturas do dialogo um gemido do doente chamou a attenção de
-Leonor que correu á alcova de seu marido e por lá se deteve. Cançada de
-lidar, apenas se certificou de que o marido continuava dormindo e que
-o gemido fôra apenas sobresalto de algum sonho angustiado, sentou-se
-aos pés da cama, e passando as contas de um rosario, cedeu por fim ao
-cançasso e adormeceu tambem. Os pequenos logo depois da ceia tinham ido
-aninhar-se para o seu cantinho, e havia muito que resonavam.
-
-Joaquim ficára entregue ás suas reflexões.
-
-Correram as horas, esmoreceu de todo o lume no brazido, apagou-se a
-lamparina, ficou a casa em trevas devassadas apenas pela luz diffusa da
-atmosphera, que passava pelas fendas do tecto: e elle cogitava ainda no
-passado e no presente, nos seus sonhos, nas suas aspirações, nos seus
-erros e nas suas culpas.
-
-A solidão d’aquella casa povoava-se-lhe de vultos, todos elles
-conhecidos, todos eloquentes: alguns severos julgadores, outros saudosos
-e indulgentes amigos. Uma a uma iam-lhe correndo as scenas da sua
-infancia, via, como em lanterna magica, recortarem-se nas trévas do
-aposento as figuras de quantos havia conhecido, de todos com que lidára,
-e superior a todas como absorvendo-as e substituindo as, a figura
-veneranda de seu pae, ora exprobando-lhe terrivel o quanto perseguira seu
-irmão; ora sorrindo-lhe amorosamente na hora derradeira e estendendo-lhe
-sobre a cabeça as tremulas e enrugadas mãos para o abençoar.
-
-Ao assomar da alvorada pendendo-lhe as palpebras adormecia tambem; não
-com o somno socegado e reparador, que se segue ás fadigas do corpo; mas
-com aquella modorra agitada e febril, que é o decair das grandes luctas
-moraes. Cabecear cortado de sobresaltos, dormir carregado de pesadellos,
-descanço, que nos deixa mais cançado ainda.
-
-Entre dormindo e acordando começou a ouvir o seguinte dialogo:
-
-—Como te sentes, Raymundo?...
-
-—Melhor, Leonor, muito melhor. Fez-me bem o somno d’esta noite. Já vieram?
-
-—Quem?
-
-—Os officiaes de justiça, os que hão de fazer a penhora.
-
-—Não cuides n’isso, que te amofinas, talvez não venham; talvez fosse tudo
-palavriado do Simões para assustar a gente. É impossivel que não olhem ao
-teu estado.
-
-—Qual olham, nem meio olham! Bem se conhece, que não entendes d’estas
-coisas. Pois tu não sabes que a justiça é cega? Taparam-lhe os olhos para
-que não visse a desgraça dos pobres.
-
-—Mas teu irmão!
-
-—Não sabe de nada, Leonor, diz-me o coração que não sabe de nada.
-O Joaquim teve sempre a cabeça levantada; mas no fundo não era mau
-rapaz. Se elle soubesse o que o Simões tem feito já lhe tinha tirado a
-procuração.
-
-—Tu tambem sempre o defendes, és a bondade em pessoa, meu pobre Raymundo,
-não ha para ti ninguem mau n’este mundo.
-
-—Olha, o Joaquim se não fossem as más companhias não teria feito o que
-fez: não gostava de se chegar para o trabalho, era o seu senão; mas não
-era capaz de fazer mal a ninguem, nem rapaz de mau interior.
-
-—Foi elle que matou teu pae, e que no fim de contas nos tem levado a este
-estado com as suas demandas.
-
-—Não digas isso, Leonor, que me affliges. Meu pae morreu, porque lhe
-tinha chegado a sua hora, custou-lhe muito a partida de Joaquim; mas
-abençoou-o á hora da morte. Lembras-te, não é assim? Se elle perdoou,
-porque não havemos nós de perdoar...
-
-—Obrigado, irmão!
-
-Era affogada em lagrimas a voz de Joaquim, que estava entre portas do
-quarto. Tinha accordado e escutado cada vez com maior attenção o dialogo,
-que tão de perto lhe dizia respeito. Julgou ao principio que seria sonho,
-conheceu depois que era realidade, e tremendo todo ergueu-se e, para
-melhor ouvir, approximou-se do logar d’onde partiam as vozes.
-
-A gratidão, e talvez o remorso fizeram-lhe soltar aquellas duas palavras,
-que cortaram o dialogo.
-
-Raymundo conheceu a voz, sem que podesse distinguir-lhe o rosto, porque
-o irmão estava de costas para a claridade; pareceu-lhe que invocára um
-phantasma, estendeu para elle os braços, exclamando:
-
-—Joaquim!
-
-E caiu desmaiado com o abalo.
-
-Joaquim precipitou-se chorando para junto da cabeceira do irmão,
-abraçou-o vezes infinitas e teve o indisivel jubilo de o vêr tornar a si
-em seus braços.
-
-—És tu, meu irmão!... Bem me dizia uma voz cá dentro, que havias de
-voltar.
-
-—Perdoas-me, Raymundo?
-
-—Perdoei-te sempre. Tu é que tens que me perdoar.
-
-—O que?
-
-—Não te haver já transmittido a benção do pae. Ajoelha, Joaquim.
-
-—Em nome do nosso bom pae que está nos céus, eu te abençôo, meu irmão: sê
-bom como elle foi, e mais feliz do que eu tenho sido.
-
-—Sel-o hemos todos, Raymundo, porque se me deixas viver comtigo, nunca
-mais saio da tua companhia.
-
-Escusado é dizer agora como terminou esta historia. João Simões não pôz
-mais pés na terra; Joaquim tinha-lhe jurado pelo corpo, e elle bem sabia
-que não era homem de faltar á sua palavra. Declarára que seria a sua
-ultima extravagancia; mas d’essa não desistia nem por Christo. O caso era
-encontrar o seu procurador.
-
-A doença de Raymundo desappareceu breve, e a alegria voltou áquella casa,
-para não a desamparar mais.
-
-Muitas noites, quando se conchegava para o pé do lume, depois de ter
-contado aos sobrinhitos que o não deixavam por contos, uma historia
-do Brazil, Joaquim voltava-se para o irmão e para Leonor e dizia-lhes
-sorrindo:
-
-—Sempre hão de confessar que estes endiabrados pequenos são uns grandes
-doutores! Como elles nos souberam ganhar a demanda!...
-
-
-
-
-X
-
-O sexto mandamento
-
-
-O padre prior, que os nossos leitores conhecem já, era um modelo de
-virtude e um exemplo vivo de caridade christã.
-
-Apenas começára pastoreando aquelle pequeno rebanho, não houvera cuidados
-nem disvellos, que lhe parecessem de mais para encaminhar nos trilhos
-escabrosos do bom porte e da honra as suas ovelhas de monte, que, quando
-se apartavam do bom do parocho, era mais por ignorancia do que por
-maldade.
-
-Conhecera-o elle tambem desde logo, e empenhára as forças do seu corpo
-e o poder da sua intelligencia em esconjurar os peores de todos os
-demonios, a que a natureza humana póde dar albergue; a ignorancia e a
-rudeza.
-
-Não abria mão d’estes piedosos exorcismos: qualquer logar, qualquer
-occasião lhe pareciam proprias para travar combate; e apparelhado, como
-sempre andava para a lucta com as armas da crença e da boa vontade,
-raramente deixava de contar da victoria.
-
-Não quero dizer, todavia, que o meu parocho fosse um segundo Vieira, ou
-outro Macedo Polygrapho.
-
-Bem pelo contrario, Deus perdoe á sua alma, e mais ainda á alma dos
-governos (se é que os governos tem alma), que tão pouco têem cuidado
-na educação do clero, o bom do padre muitas vezes, brigava com armas
-eguaes contra a ignorancia dos seus parochianos; e, quando vencia, era
-substituindo preconceito por preconceito, absurdo por absurdo.
-
-Procediam porém de tão boa origem os erros do velho, fundavam-se em tão
-verdadeira bondade: e tão piedosa uncção revestia os seus disparatados
-conceitos, que por amor da singela magestade, e boa tenção da mentira,
-quasi se malqueria á verdade.
-
-Era falso o arrasoado, bem o sabiam alguns: mas deliciava a alma e
-commovia o coração, encaminhava para o bem, posto que por transviado
-caminho. E o padre dizia-o tão de dentro, tão convencido, que chegava a
-parecer impossivel que não fosse assim.
-
-Mas não era, verdade verdade, não era; que a sciencia fugia espavorida
-diante das legiões barbaras, que appoiavam algumas considerações do velho.
-
-Não era, porque o pobre homem, que sem maldade nem recalcitramento, mas
-por simpleza e costume antigo, encommendava a missa _pro rege nostro
-Michaele_, resumia a sua instrucção á leitura, um tanto embaraçada, seja
-dito aqui particularmente, da Biblia, dos Evangelhos, do breviario e da
-_Nação_, cujo assignante era desde o principio.
-
-Não aprendia porém do seu periodico senão a doutrina tradiccional e
-monarchico-absoluta em que fôra creado. Lia o jornal para saber noticias
-do seu rei e do mais que ia por o mundo: e a maior parte das vezes no
-meio de um façanhoso artigo ou de uma ateada polemica, no ponto mesmo
-em que as iras do jornalista trovejavam mais crebas, e os rancores
-partidarios se desatavam em maiores diatribes; o jornal, como para
-constrastar com tão ardidas furias, escorregava brandamente das mãos
-do desattento leitor, e ia voejar por terra com outras folhas suas
-irmãs, que tendo sido verdes e esperançosas como ella, tinham caído da
-arvore, como ella tambem caíra das mãos do parocho, e haviam seccado no
-esquecimento, como, triste sorte do jornalismo diario, ella havia de
-seccar em breve ao abandono no chão e esquecida tambem.
-
-Ao cabo de meia hora o padre accordava admirado por ter adormecido,
-apanhava o jornal e recomeçava o mesmo artigo.
-
-Já se vê, pois, que não podia ser larga a instrucção colhida em fontes
-tão pouco variadas e demais ainda tão mal seguidas.
-
-Mas onde não chegava a cabeça alcançava o coração, e onde não accudia a
-intelligencia sobejava o sentimento.
-
-Não lhe tomemos conta da sua ignorancia, nem lhe malqueiramos por peccado
-que não era seu.
-
-A revolução social estabeleceu entre a geração, que findava, e a que ia
-apparecendo um largo espaço que não soube ou não poude fazer desapparecer.
-
-Uma ficou, symbolo do passado; outra caminhou, annuncio do futuro. A
-primeira estacionando, conservou os abusos, os erros do seu tempo;
-mas tambem a poesia, a fé sincera, o culto de suas tradicções, o
-respeito pelas suas crenças: a outra caminhou sobre ruinas, e caminha
-ainda, sorrindo, luctando, descrendo, esperando, progredindo sempre,
-conquistando por fim, mas deixando, quantas vezes, a fé pelo caminho, a
-esperança na estrada!
-
-Se ambos se tivessem querido comprehender, se mutuamente se tivessem
-desculpado ou os ardores impacientes, ou as rabujices pertinazes; se
-não quizessem cavar fossos e levantar trincheiras entre uma e outra;
-mas, bem pelo contrario, nivellar o terreno, e apagar odios, rancores e
-desintelligencias, não seria para nós o presente tão cheio de incertezas,
-de hesitações, de duvidas, de desconfortos e desalentos.
-
-O padre, esse, ia seu caminho, combatendo como sabia a falta de educação,
-e de conhecimento da sua grei.
-
-Além das lições de moral que espalhava a esmo, conforme se lhe offereciam
-as occasiões, costumava elle, sempre que podia e que o tempo o deixava,
-reunir os do logar, de tarde perto da egreja, para lhes fazer alguma
-leitura da biblia e interpretar em seguida, a seu modo e como melhor lhe
-parecia, o texto que lhes lêra.
-
-Por vezes assisti a estas leituras, por vezes ouvi as suas explicações, e
-se mais tarde as commentava tirando desagradaveis conclusões a respeito
-da illustração e intelligencia do velho, não deixava sempre de me sentir
-commovido, quando fazia parte d’aquella piedosa reunião.
-
-Sigam-me tambem os meus leitores, que, conforme sei, e segundo me
-recordo, vou procurar descrever-lhes, como se apresentava a scena, na
-ultima vez em que, pouco antes de regressar a Lisboa, assisti á prédica
-do ingenuo parocho.
-
-Estamos no adro da egreja: a parochia é de trezentas almas quando muito.
-O dia vae declinando e está proximo o sol posto.
-
-A egreja não tem o aspecto sumptuoso d’um grande templo; nem a magestade
-altiva de uma cathedral do seculo XIII.
-
-É de hontem apenas.
-
-Uma frontaria sem ornatos, uma torre proxima sem enfeites.
-
-É simples e pobre como o presepio do Redemptor.
-
-Sobre o adro espaçoso e plano um velho platano á esquerda braceja largos
-ramos envolvendo na sua sombra uma cruz musgosa, que se levanta defronte
-da porta da egreja e que deixa perceber em profundas cicatrizes, rudes
-combates com o tempo ou com a impiedade dos homens; perto do platano um
-pequeno regato corre por baixo do parapeito do adro e depois de passar
-sob uma ponte de pedra que dá serventia á estrada, vae espraiar-se ao
-longe n’uma pequena bahia, onde as lavadeiras do logar vem bater a roupa
-ao pé dos choupos e olmeiros, que se debruçam para a corrente.
-
-De um dos lados sóbe a encosta de um pequeno outeiro atapetado de vinhas
-e oliveiras, corôado de moinhos que desprendem as velas a favor da
-viração da tarde; do outro a vista divaga por meio dos pomares e terras
-de vinha, no meio das quaes alvejam as casinhas do logar, e se recortam
-no puro azul dos céos as oliveiras verdenegras.
-
-Os rumores do campo começam a esmorecer com o largar do trabalho
-indicando a proximidade da noite.
-
-A tarde tem corrido serena e a natureza sorri na flôr do prado, como na
-arvore do bosque.
-
-Sentado n’um banco de pedra mal affeiçoado pela mão de rude artista está
-o parocho, junto a si os evangelhos depostos e ainda abertos: as mãos
-pousadas sobre os joelhos, a cabeça um pouco inclinada pelos annos;
-o corpo alquebrado pelos trabalhos. A seus pés, sentadas no chão, em
-rancho, as creancinhas da terra, em roda as raparigas e as mulheres; mais
-ao largo, os homens fechando o circulo e encostados aos varapaus.
-
-Um pouco mais affastado do grupo, sentado n’um dos poiaes do adro, e
-scismando, ao que parece, está o tio Joaquim, commentador e companheiro
-das homilias da tarde. De quando em quando, em pontos mais subidos
-da exposição do pastor levanta a cabeça, fita o narrador com gesto
-expressivo, e com os olhos illuminados por aquelles doces clarões da
-sympathia e da attenção, segue o fio do discurso para descahir breve nas
-habituaes meditações.
-
-O padre tem acabado a leitura de um dos sagrados capitulos, e d’accordo
-com a intelligencia dos ouvintes explica-lhes o texto procurando
-comparações no campo, na lavoura, nos trabalhos que melhor conhecem, nos
-instrumentos com que mais de perto lidam.
-
-Todos o escutam em religioso silencio e a palavra sagrada recebe maior
-uncção na bocca do venerando velho.
-
-Tem apenas acabado de fallar quando no sino proximo começam a bater as
-melancholicas Avé-Marias. O som vae chorando, como uma saudade do dia
-que finda, pelas quebradas do monte e pelos arvoredos dos bosques, para
-voltar amortecido e triste, como recordação de felicidade.
-
-É um momento solemne.
-
-O padre ergue-se, a boa gente do campo ajoelha a seus pés. Por momentos
-as orações murmuram como o esvaecer do som no bronze sagrado e a oração
-ergue-se como um côro de harmonias dos labios dos fieis, do murmurio
-do regato, do ciciar da aragem, do bulir do arvoredo, do tinir dos
-chocalhos, dos balidos do rebanho que ao longe recolhe da pastagem para o
-abrigo do curral.
-
-Depois o padre abençôa seus filhos com as mãos tremulas estendidas e
-a fronte encanecida illuminada pelos reflexos derradeiros do sol já
-escondido: despedindo-se do parocho, retiram pouco a pouco os aldeões
-guiados, como os israelitas no deserto, pela espiral de fumo, que se
-ennovella sobre os tectos de suas casas, o ruido vae pouco a pouco
-diminuindo, recolhe o rebanho ao curral, os pastores deixam de cantar, a
-voz dos ultimos camponezes perde-se na volta da estrada. Mas o rio ainda
-murmura, o vento ainda suspira na rama das arvores, e o padre sósinho,
-com os olhos fitos na pallida lua, que começa a assomar no céu, não
-limpa uma lagrima de saudade e de esperança, que lhe escorrega pela face
-cavada pelos annos, envelhecida pelas maguas. Saudade da terra e dos
-homens, que vae deixar, esperança na vida eterna, que entrevê tranquillo,
-crente na misericordia do Senhor, confiado na sua infinita bondade.
-
-Hoje a boa gente do campo volta ao adro a procurar o padre, o platano e
-a cruz. Tudo tem desapparecido apoz o homem a planta, apoz a planta a
-pedra, tudo volveu ao nada d’onde veiu. Sobre o cadaver do velho caiu a
-pedra do cruzeiro, um arrebento do platano deu sombra á sepultura; mas a
-natureza proseguiu guiada pela civilisação e pelo progresso desfolhando
-uma saudade sobre a campa e colhendo do novo arbusto a planta sempre
-viçosa da arvore da liberdade.
-
-A poesia do passado tem-se perdido. Mas o homem, que ficou meditando
-sobre aquella lapide, disperta das suas meditações ao grito da locomotiva
-do caminho de ferro, ao retenir da campainha do telegrapho electrico, ao
-resfolegar das caldeiras da fabrica proxima, ao estrondo magestoso das
-novas eras, que nas azas do pensamento correm a cumprir a sua missão.
-
-N’aquella tarde fôra a historia de José o texto escolhido; e o velho
-descrevendo o quanto padecera o patriarcha hebreu por amor dos seus
-irmãos, e seus compatriotas, fallára tão de leve no sacrificio, prestado
-á honestidade; como, perdoem-nos a comparação, a raposa discorrera a
-proposito das uvas que não eram para seu dente.
-
-Muitas virtudes encontrava elle no casto José, mas a de resistir com
-tanto denodo á mulher de Putiphar, não foi das que mais encareceu. Nem
-por isso lhe parecia grande façanha. Para o bom do velho nada havia mais
-natural.
-
-Não assim para grande parte de seus ouvintes. Aquelle rasgo foi o que
-maior impressão deixou na intelligencia sensual de muitos. No serão
-d’essa noite não faltaram commentarios e choveram ditos, alguns dos
-quaes, posto que bastante grosseiros na fórma, não deixavam de ter bom
-sal, e grande finura no alcance.
-
-Terminada por fim a discussão foi votado por maioria, que tal caso era
-impossivel; ou pelo menos, se o não era, fôra um grande disparate do
-patriarcha hebreu.
-
-Protestou o tio Joaquim contra a decisão da assembléa, e para fundamentar
-o seu protesto pediu a palavra, que lhe foi concedida com o maior prazer.
-
-—Todos, quantos aqui estão, conhecem ou tem ouvido nomear o Luiz
-Tiburcio, que traz de renda ao Morgado dos Cachorros o Olival grande do
-Brejo, no alto da estrada da Carrejosa. É um homem de bem e lavrador
-abastado; tem hoje um bom par de vintens e uma das melhores lavouras dos
-sitios. Pois vae vinte annos não tinha onde cair morto, nem esperanças de
-mudar de sorte. Um caso bem parecido com o que hoje ouviram ao sr. padre
-prior foi o começo da sua fortuna.
-
-Luiz Tiburcio é do Minho. Veiu por ahi abaixo procurar vida e trabalho,
-quando por morte do pae e da mãe, ficou sósinho na terra, sem ter quem
-lhe valesse, nem casa que lhe abrisse a porta. Era pelo tempo da guerra,
-andava tambem a molestia, e cada um cuidava principalmente de si, ou dos
-seus, e não tinha vagar para saber do mal dos outros.
-
-Curtiu fomes e frios pelo caminho, não poucas vezes estendeu a mão á
-caridade, e não poucos dias pediu esmola a chorar, perdido de fraqueza, e
-sem esperanças de ter um bocado de pão. Ninguem cuidava em dar trabalho
-e era tal a desconfiança, que ninguem queria tomar para casa um rapaz,
-coberto de farrapos e com cara de padecente.
-
-Tinha uns quinze annos, pouco mais, e já começava a saber o que era
-mundo. Entrava na vida pela porta da desgraça e principiava a amargar a
-existencia sem lhe ter provado ainda as doçuras.
-
-Um dia, já sem forças, caiu á porta de uma fazenda, d’onde saíra
-descoroçoado de todo, porque depois de ter passado um dia sem comer,
-acabava de ser despedido pelo cazeiro, dizendo-lhe, que a fazenda do seu
-patrão não era couto de vadios.
-
-Luiz Tiburcio poude, envergonhado e saltando-lhe as lagrimas pelos olhos,
-andar a alameda e sair o portão que do pateo conduzia á estrada; mas, ao
-voltar para o caminho, sentiu-se tão quebrado, tão sem animo, que atirou
-comsigo para o chão, resolvido a não se levantar mais d’alli.
-
-Encommendou-se a Deus e esperou a morte resignado.
-
-O sr. José Matheus, o dono da quinta, que assim se chamava por signal,
-andava por fóra, quando Luiz fôra pedir trabalho a Valle de Figueiras. De
-certo, se tivesse visto a lazeira do rapaz o recolheria por alguns dias
-ao menos, e lhe mandára dar de comer, pois era homem rasgado e de bom
-coração; mas só tarde voltou de uma outra fazenda, onde fôra, e era já
-muito escuro, quando se aproximou de casa.
-
-Luiz estava estirado no caminho. José Matheus entretido com os seus
-pensamentos não deu por semelhante cousa e recolheu passando junto do
-pobre moço.
-
-Caía geada, como não havia memoria, e o frio era de estalar.
-
-De manhã cedo os primeiros, que sairam encontraram-n’o sem apresentar
-signal de vida e accudiram á fazenda a dar rebate.
-
-O sr. José Matheus foi o primeiro, que correu junto da pobre creança,
-viu-a n’aquelle mísero estado e teve dó de tão grande desgraça em tão
-verdes annos. Elle tambem havia provado do pão que o demonio amassou, e
-antes de chegar a ser independente fôra um pobre de Christo.
-
-Mandou carregar com o Luiz para uma cama, e cuidou em vêr se lhe dava
-vida nova.
-
-O rapaz estava enregellado e hirto, os beiços arroxados, os olhos
-mettidos n’umas covas negras, as mãos inteirissadas, o coração quasi sem
-bater.
-
-Dir-se-ia morto.
-
-Ao passo, porém, que ia aquecendo e que o esfregavam com pannos quentes
-e espirito de vinho tornava pouco a pouco a si: e depois de um caldo bem
-forte e bastante substancial parecia outro.
-
-O sr. José Matheus indagou-lhe da vida e soube que a fome e o desamparo
-tinham sido a causa d’aquella doença. Compadeceu-se por vêl-o orphão
-tão moço e sósinho no mundo: era casado havia muito tempo, e não tivera
-filhos nunca, engraçou com a cara do rapaz, que era de boa feição, e
-adoptou-o para si.
-
-Desde esse dia começou para o Luiz, a quem dentro em pouco já todos
-tratavam por sr. Luiz; e a quem o sr. José Matheus chamava—o meu
-Luizinho—uma vida de principe.
-
-Não lhe faltava nada, aprendia, estudava, trabalhava e desenvolvia-se de
-dia para dia.
-
-Em poucos tempos fez-se uma flôr. Parecia que medrava a olhos vistos e
-que cada vez ganhava maiores perfeições.
-
-Perfeito no corpo, e mais perfeito talvez na alma, não havia para elle
-sol nem lua que valessem o sr. Matheus, nem palavras ou acções que lhe
-parecessem demais para lhe agradecer o bem que lhe devia. Luiz tinha
-coração de pomba.
-
-Mas o demonio, que sempre as arma, e que parecia ter tomado o rapaz á sua
-conta, encarregou-se de entornar o caldo, e de deitar por terra aquellas
-felicidades todas.
-
-A esposa do sr. José Matheus, apezar dos seus quarenta puchados, era
-ainda mulher de primor.
-
-Desenxovalhada n’aquelle tempo, devia ter sido linda quando andasse alli
-pelos vinte annos. Tinha dado brado na terra, e mais de um lhe tinha
-arrastado a aza, sem que ella lhe desejasse as pernas quebradas.
-
-Casára-se pela rasão, porque se casa a maior parte das mulheres, para
-mudar de estado; e não conhecera nunca que cousa fosse amor. Extremosa
-pelo marido, não constava que o tivesse sido: e, segundo se rosnava pelos
-sitios, se tivesse pé faria pégada.
-
-Se a amisade de Matheus pelo Luizinho era verdadeira amisade de pae, a de
-Genoveva não se parecia em nada com o amor de mãe. Por mais de uma vez
-lhe havia deitado uns olhos, que queriam dizer muito, mas que no rapaz
-eram tempo perdido. Não por innocencia, mas porque não queria acreditar,
-que fossem o que lhe pareciam.
-
-Genoveva desesperava-se por não ser comprehendida, e tinha jurado que: ou
-Luiz se chegava á rasão, ou havia de pôr os quartos no meio da rua.
-
-Uma noite, chovia a cantaros, e o sr. José Matheus não recolhera de uma
-feira a que fôra comprar quatro juntas de bois.
-
-Tinha-se armado uma trovoada de arrancar pinheiros e uma ventania de
-levar tudo pelos ares. Genoveva estava cosendo junto á mesa de jantar e
-Luiz proximo d’ella lia alto um livro de romances. Era a historia dos
-amores derrancados de dois amantes infelizes, que depois de passarem
-as passas do Algarve, depois do apaixonado ter andado as sete partidas
-do mundo e corrido perigos de todas as castas, se reuniam por fim;
-mas quando iam para gosar de um dedicado affecto, o marido da heroina
-apparecia tanto a proposito, que matava o seductor, se o era, e fazia
-endoudecer a mulher com a vista do ensanguentado cadaver.
-
-Era uma historia de arripiar defunctos, e que por isso mesmo tinha tido
-tanta voga que chegára até Valle de Figueiras.
-
-De repente Genoveva, que seguia a leitura com verdadeiro interesse,
-e que por mais de uma vez sentira calafrios ao ouvir aquella enfiada
-de horrores, interrompeu o leitor, quando enthusiasmado lia o passo do
-encontro dos dois n’um casal deserto no meio das serras entre alcatêas de
-lobos, ao fuzilar dos relampagos, ao estallar dos trovões.
-
-—Gostas d’essa historia, Luiz?
-
-—É triste, senhora Genoveva, gosto muito.
-
-—Andas sempre triste!
-
-—Não é por ser mal agradecido ao bem que me fazem. É genio meu, não está
-mais na minha mão.
-
-—Volta de amores talvez?
-
-E os olhos acompanhavam a pergunta, procurando seguir o pensamento do
-moço, como o galgo segue a lebre por meio dos campos.
-
-—Não, minha senhora, não são amores. Tambem quem me havia de querer,
-orphão, sem fortuna, e só devendo o pão de cada dia á caridade de meus
-bemfeitores?
-
-—Não digas isso, Luiz, bem sabes que o trabalho que fazes, vale o pão que
-comes. Tu és bom rapaz e mereces quanto te fazem.
-
-—Não mereço, não, minha senhora, e eu bem conheço as coisas, e sei
-agradecer tanto favor.
-
-—Creança!
-
-E acompanhando esta palavra, que pelo modo porque fôra proferida, já
-queria dizer muito, Genoveva correu mão protectora pela cara do Luizito.
-
-Porque é preciso que saibam, rapazes: nós os homens muitas vezes chamamos
-creança a uma mulher, sem ser por mal, nem com idéa alguma; mas em a
-mulher chamando _creança_ a um homem, e de um certo feitio, é o mesmo que
-se lhe dissesse: tu ainda não percebeste, que eu gosto muito de ti, e
-tu és muito estupido, porque não entendes o que eu te estou dando bem a
-conhecer.
-
-Pela primeira vez, havia tanto tempo, desconfiou Luiz devéras do caso, e
-áquella caricia fez-se vermelho como um pimentão.
-
-—Então fazes-te vermelho, tens talvez vergonha de mim? Pois já não devias
-ter rasão para isso, tenho idade bastante; não é verdade que pareço muito
-velha, meu Luiz, anda, dize?
-
-E cada vez se aproximava mais d’elle a ponto de o bafejar com o seu
-halito inflammado; e de sorte, que se confundiam os olhos d’ella
-ardentes, significativos, cubiçosos, com os d’elle timidos, assustados,
-quasi envergonhados.
-
-—Não, senhora Genoveva, não tenho vergonha. Desculpe fazer-me córado...
-
-—Dize-me, atalhou violentamente Genoveva, cujo temperamento nervoso e
-sanguineo estava effervescente, querias estar como Paulo (era o heroe do
-romance), assim comigo n’um casal deserto...
-
-—Como estamos hoje...
-
-—Como estamos hoje, sim Luiz, e depois...
-
-Era impossivel deixar de perceber tudo. Genoveva parecia ter a cabeça
-perdida, tudo denotava um desejo desenfreado, e furioso.
-
-Não se riam, rapazes, se vissem uma mulher allucinada pelo amor,
-arrojar-se como uma leôa, feroz, enraivecida, terrivel até,
-comprehenderiam bem quanta foi a virtude do Luizito.
-
-Levantou-se a tremer, e cheio senão de medo, ao menos de pudôr...
-
-—Senhora Genoveva, eu não sei se comprehendi; perdoe-me se a vaidade me
-illude; mas, não me posso esquecer de quanto devo ao sr. José Matheus.
-
-E saiu, sem olhar para traz.
-
-No dia seguinte, de madrugada, com o seu alforge arranjadinho, ia pela
-estrada fóra, sem saber ainda para onde se encaminhava.
-
-Ia começar de novo a vida, mas era indispensavel. Se cedesse, seria o
-ingrato mais vil d’este mundo; se resistisse, a furia de Genoveva não o
-deixaria descançado por muito tempo.
-
-A poucos passos de distancia encontrou a José Matheus, que, tendo feito o
-seu negocio mais breve do que pensava, recolhia cantarolando, como quem
-vinha nas horas do Senhor.
-
-Luiz não esperava semelhante encontro. José Matheus já o tinha visto, e
-não havia remedio. Demais foi o lavrador que encetou a conversação.
-
-—Olá, Luiz, tão cedo, ha por lá alguma novidade?
-
-—Nada, não, sr. José Matheus, não ha novidade nenhuma; eu é que...
-
-—Tu é que... embatucaste? Tens alguma cousa, viste bicho?—Tu não estás em
-ti, desembucha.
-
-—Eu... vou-me embora.
-
-—Bom, homem, e por isso ficaste assim atarantado, bem te entendo; vae,
-rapaz, vae, eu sei o que são essas cousas. Quando voltas?
-
-—Eu... vou de vez.
-
-—Hein, endoideceste?
-
-—Não endoideci, não, sr. José Matheus, preciso ir-me embora, deixe-me ir
-embora, deixa?...
-
-E o rapaz estendia as mãos, convulso como se pedisse a salvação.
-
-—Deixo, deixo. Por onde eu te pegar, te peguem os lobos. Entendo,
-desenquietaram-te, apanhaste-te ensinado; mas anda que tambem me
-ensinaste, ingrato!
-
-—Ingrato!... Serei, sou, mas deixe-me ir embora quanto antes.
-
-José Matheus não era de hoje, nem de hontem; desconfiou do caso, e
-chegando-se mais para o rapaz, deitou-lhe a unha.
-
-—Por mais que me digam, accrescentou elle, tendo-o já seguro, aqui ha o
-que quer que seja, para tu estares assim tão apressado. Deixo-te ir, mas
-não sem me dizeres primeiro porque. Que demonio, parece que tens morte de
-homem!
-
-Vendo-se agarrado, Luiz entrou a clamar para que o deixasse, pedindo-lh’o
-por quantos santos havia no Paraizo. Por mais que buscasse, não lhe
-occorria nem meia mentira. Não admira, a falta de costume...
-
-Por fim conseguiu escorregar-se-lhe das mãos como uma enguia, e deitou a
-correr mais leve que um passaro.
-
-José Matheus voltou ainda o cavallo, para lh’o deitar para cima; depois,
-como se lhe accudisse a reflexão, exclamou:
-
-—A cheia o trouxe, a cheia o levou. Que vá por onde não faça perca!...
-
-E entestou para Valle de Figueiras, scismando no acontecido.
-
-Ainda bem Luiz lhe não tinha saido a porta, Genoveva, percebendo que era
-despresada, e incendida pelos lumes do desejo, caía por terra espumando
-como um damnado, e bracejando como um possesso. Estava com um accidente
-de raiva.
-
-Accudiram ao motim, que fez, e levaram-na para a cama já sem dar accordo
-de si, tinha-lhe subido o sangue á cabeça, estava com uma febre cerebral.
-
-Luiz, escusado é dizer, não soubera de coisa alguma. Recolhera a
-entrouxar o pouco fato, que havia comprado, pois deixou ficar tudo que
-lhe deram; e embebido nos seus pensamentos, poderiam voltar a casa
-debaixo para cima, que não era elle que dava por semelhante coisa.
-
-Demais morava n’um quarto no extremo opposto da casa, com porta que
-deitava para a estrada, e pôde sair por conseguinte, sem saber nada do
-que se passava no resto da habitação.
-
-Pouco depois da chegada de José Matheus appareceu o facultativo do sitio,
-que tinham mandado chamar a toda a pressa. Sangrou-a logo, mas já era
-tarde. O ataque tinha sido tão forte, que a sangria abrandou-lhe um pouco
-as furias e nada mais. D’ali a pouco tornava á mesma, ou a peior ainda,
-porque d’esta vez dizia coisas estranhas em palavras soltas.
-
-Estava tresvariada.
-
-José Matheus percebeu logo que as coisas que a mulher ia dizer, não eram
-para ser ouvidas por toda a gente; mandou sair os que estavam no quarto,
-e apenas ficou sósinho com ella, deu volta á chave e escutou-a.
-
-Soube tudo.
-
-No meio dos seus excessos, Genoveva chamava por Luiz, accusava-o de
-frieza, de indifferença, de ingratidão. Dizia-lhe que pensasse no seu
-marido, porque esse não saberia nada, e depois... haviam de ser tão
-felizes!
-
-E um poder de coisas que tiraram todas as cataractas dos olhos do marido.
-
-Este sentou-se n’uma cadeira, e, abatido, limpou uma lagrima. Ninguem
-soube nunca por quem fôra, se por Luiz, se por Genoveva.
-
-Genoveva durou tres dias. Disse o facultativo, que se lhe tinha rompido
-uma veia na cabeça; rompesse ou não, nos dois ultimos não deu accordo de
-vida.
-
-José apenas se certificou de que sua mulher não diria mais nada,
-recolheu-se ao seu quarto, d’onde não saiu senão para a sepultura.
-Não queria saber de coisa nenhuma, não dava palavra a ninguem, e se
-insistiam, punha todos fóra, fechando-lhes a porta na cara.
-
-Na vespera de morrer, mandou chamar um tabellião e duas testemunhas. Lá
-esteve com todos tres, por espaço de meia hora.
-
-No dia seguinte abria-se o testamento sobre o cadaver de José Matheus, e
-Luiz Tiburcio ficava sendo seu herdeiro universal.
-
-—Acabou, tio Joaquim, atalhou d’ali o João Carriço, que déra provas de
-impaciencia durante a narração, não tem mais nada que dizer?
-
-—Eu não, e tu? Perguntou o narrador.
-
-—Eu, perdoará a sua palavra honrada, parece me que a historia não vem ao
-caso do que a gente dizia; pois se o rapaz não fosse tão arisco, ficava
-com tudo do mesmo feitio; porque eram dois a deixar-lhe... E d’ahi não
-morria, nem a mulher, nem o homem.
-
-—E parecia-te bonito pagar d’esse feitio os beneficios, que tivesses
-recebido de José Matheus?
-
-—Olhe, tio Joaquim, lá o lê, lá o entende, mas d’aquelle mal não morreu
-ninguem; o José Matheus não havia de passar peior por isso.
-
-—Eu te contarei uma historia um dia, e verás se se morre ou não. Sabes
-que mais, João Carriço, tens ainda a cabeça muito levantada, has de
-assentar.
-
-—Então sim, tio Joaquim, quando fôr lá para a edade, o que não podér
-haver, dal-o-hei por amor de Deus.
-
-E como todos soltassem uma gargalhada, o velho suspendeu a sessão, porque
-percebeu, que por aquelle lado não fazia farinha.
-
-
-
-
-XI
-
-O Thomaz dos passarinhos
-
-
-Acabavam de dar dez horas; e ouvia-se ainda o som dos sinos de S.
-Vicente, o que mostrava que o vento estava da barra a prometter mais
-chuva.
-
-Em todo o santo dia não descontinuára de cair agua, e ao cerrar da noite,
-carregou tanto que parecia vir tudo abaixo. Em casa dormiam todos, e
-na malta vigiava apenas, junto da candeia quasi a apagar-se, o tio
-Joaquim, que estava fumando embevecido no que quer que era, que parecia
-preoccupal-o.
-
-Os maltezes dormiam cada um para seu canto, embrulhados em gabões, ou
-cobertos com as mantas em cima das esteiras. Debaixo da cinza ainda
-faiscavam alguns restos de vides, na chaminé, e a meio da tarimba ainda
-se via um baralho em desordem, como a provar que havia pouco descançava
-d’uma bisca de quatro. As cartas poderiam figurar com bastante rasão
-no gabinete d’um antiquario, e tinham direito ao asylo de Runa pelas
-multiplicadas cicatrizes ganhas no combate.
-
-Mas como o jogo era de boa fé, e só para matar tempo, pouco importava,
-que fossem mais conhecidas ainda pelas costas do que pela frente.
-
-Pela minha parte tinha ficado tambem por ali mais um bocado, e
-preparava-me para recolher, quando me pareceu ouvir, por entre o ruido da
-chuva que caía sem cessar, e do vento que não parava, o som da campainha
-do portão.
-
-—Não ouviu tocar á campainha, tio Joaquim?
-
-Este levantou a cabeça e como despertando, respondeu-me:
-
-—A estas horas, não póde ser, foi engano seu, já estão todos recolhidos.
-
-N’isto o cão do pateo começou a ladrar.
-
-—Tocaram, tocaram, repeti eu, e tanto que lá está o Alfageme a dar
-signal. Ora escute, lá tornam.
-
-E effectivamente um segundo toque se fez ouvir, mas tão brando, tanto a
-medo, que mal se ouvia, apesar de escutarmos ambos com toda a attenção.
-
-—É toque de desgraçado, de quem receia incommodar; pobre homem, com este
-tempo! Eu vou vêr, disse-me o tio Joaquim levantando-se e pondo o chapeu.
-D’ahi a pouco senti-o chamar o cão, que se enfurecia a ladrar cada vez
-com mais força, em seguida abrir o portão, e logo depois entrar na casa
-da malta já acompanhado.
-
-O recem vindo entrou timido e denunciando o extremo acanhamento da
-pobreza envergonhada.
-
-Caía-lhe a agua a fio do chapeu, que trazia derrubado para a cara, e
-ensopava-lhe um capote esfrangalhado, que bem a custo lhe resguardava o
-corpo. Ficou á porta mesmo, e como mal se atrevendo a proseguir.
-
-—Entre, patrão, bradou-lhe o tio Joaquim, não está tempo para cerimonias,
-se isto continua lá se vão todas as sementes com a cheia. Parece um
-diluvio. Largue o capote e o chapeu que traz n’uma sôpa, embrulhe-se ahi
-n’uma manta, e chegue-se para o lume, que eu vou deitar-lhe um punhado de
-vides para o espertar.
-
-E seguindo conforme disséra, separou umas poucas de vides d’um mólho, que
-estava perto da chaminé, quebrou-as umas poucas de vezes sobre o joelho,
-deitou-as no brazido, e entrou a assoprar até que pegou labareda.
-
-—Deus lhe pague, tanto incommodo, tio Joaquim, exclamou o desconhecido,
-seguindo á risca as indicações do hospedeiro.
-
-Este, admirado por ouvir o seu nome, attentou no recem-chegado, e como
-procurando avivar recordações:
-
-—Espera, eu já ouvi esta voz, mas não me lembro aonde; olha bem para mim:
-eu conheço-te, já vi a tua cara, isso vi.
-
-—Tão mudado estou que já se não lembra de mim, do Thomaz...
-
-—Do Thomaz da tia Annica, se lembro! Mas quem tal havia de dizer, que
-mudança! Pareces um velho, homem, e eu que te fazia a arrebentar de
-dinheiro, que pensava que estavas pôdre de rico, lá por esses Brazis!
-
-—Pôdre ia estando, ia; mas era de doenças e de fome...
-
-—Então nem tudo que se diz?...
-
-—Ora uma coisa é dizer, outra é vêr, nem o tio Joaquim faz uma idéa!
-
-—Faço, faço, basta olhar para a tua cara e para o teu fato. Mas não se
-trata só de dár á lingua. Que tal de barriga, nem por isso vem muito
-quente não é verdade?
-
-O silencio de Thomaz suppriu bem uma eloquente resposta. O tio Joaquim
-proseguiu:
-
-—Para grandes banquetes não haverá, mas para uma assorda ainda chega
-o pão; fazem-se umas migas de bacalhau, deita-se-lhe um tomate e uma
-cebolla, e verás depois se, comida com boa vontade, não vale o melhor
-petisco do mundo.
-
-—Vem quebrar-me o jejum.
-
-—Que dizes, homem?
-
-—Que salvo os meus peccados, ainda podia commungar, porque até a esta
-hora não entrou hoje comer na minha bocca.
-
-—Pobre Thomaz!
-
-E sem perder mais tempo em conversações, o tio Joaquim principiou a
-temperar as migas.
-
-Entretanto tive eu tempo para examinar bem á minha vontade o Thomaz da
-tia Annica.
-
-Teria uns trinta annos quando muito, o que só com muita difficuldade se
-percebia pela viveza do olhar. No resto da physionomia e no quebrado do
-corpo liam-se sessenta puchados. Não se podia dizer qual fôra a côr do
-rosto. Os sóes, os trabalhos e as febres, tinham-lhe retinto a cara d’um
-castanho esverdeado, que mais simulava medalha antiga que parecer de
-gente.
-
-A barba crescida, as sobrancelhas espessas, e o cabello basto e grenho
-eram ou arruivados pelo sol, ou embranquecidos pelos trabalhos; as rugas
-abriam-lhe talhos profundos na pelle, e algumas cicatrizes imprimiam-lhe
-extravagantes relevos. Até mesmo o branco dos olhos estava amarellecido,
-e os dentes, quando descerrava os beiços rôxos e gretados, pareciam
-prezas de javali aguçadas e ennegrecidas.
-
-O fato eram farrapos, sem fórma, nem côr possivel, restos sobrecosidos,
-retalhos justapostos. Não se lhe percebia camisa.
-
-Fazia horror tão grande miseria.
-
-O tio Joaquim tinha desenvolvido uma actividade pasmosa. N’um abrir
-e fechar d’olhos tinha migado o bacalhau e a cebola, tinha cortado o
-tomate, tinha posto tudo a ferver n’uma pouca d’agua, sem lhe esquecer um
-fio d’azeite para melhor tempero; depois, quando começava a fervura a
-levantar, entrou a partir o pão, e a deital-o no tacho com aquelles ares
-de satisfação, que deve manifestar um artista, quando tem a certeza de
-estar a concluir um primor d’arte.
-
-Thomaz, esse engerido com frio e extenuado de fome, não tinha forças para
-se mecher do banco para onde caira.
-
-No dia seguinte ouvi da bocca do tio Joaquim a historia do Thomaz da tia
-Annica.
-
-Thomaz nascera por aquelles sitios mais rico de preguiça do que de amor
-ao trabalho; parecia feito para morgado, o demonio do rapaz, não queria
-saber de lavoura, nem de estudo. Fugia da escola, fugia do trabalho, e ia
-deitar-se debaixo de uma arvore a olhar para o ceu, ou a acompanhar com a
-vista as nuvens irradias.
-
-Muitas vezes dizia elle quando lhe deitavam na cara o não fazer nada:
-
-—Deus entregou o espaço aos passarinhos, e lançou a semente á terra,
-para que se nutrisse, soltou os animaes no campo, e mandou á herva que
-crescesse para que se alimentassem; deu azas ás borboletas, e polvilhou
-as flôres para que encontrassem sustento sem se affadigarem. A mão que
-impelle o sol, que sacode as nuvens, que arroja a chuva, que dá vigor á
-planta, ramagem ao arvoredo, frescura á terra, e nutrição a todos ha de
-amparar-me tambem, e dar-me de comer quando me falte.
-
-E, a não ser esta preguiça invencivel, não havia que se lhe dizer: era
-comedido no porte e civilisado nas palavras. Não escandalisava ninguem,
-nem procurava descaminho; deixassem-no vaguear e estava contente.
-
-Depois de muitas tentativas descoroçoaram os paes de o fazerem tomar
-rumo. Deixaram-no á lei da natureza, e assim se foi creando, aprendendo
-pelo que via, e desenvolvendo-se com o descanço.
-
-Não era mau rapaz, nem dado a companhias. Bom de coração na verdade, mas
-incapaz de servir para nada. Havia muito tempo, que se não via um paz
-d’alma d’aquelles.
-
-Emquanto o pae foi vivo, bem ia o caso. Elle dava ordem á sua vida, e
-quando lhe perguntavam pelo filho respondia tristemente: deixem-me, foi
-erro da natureza, nasceu para mulher, não tem geito para cousa nenhuma.
-Um dia porém, o pae amanheceu morto na cama, e a mãe achou-se de repente
-com todo o peso da casa, e com um filho que não tinha prestimo que se
-visse.
-
-Thomaz chorou muito nos primeiros dias, e fez mil protestos de trabalhar.
-Assim foi de principio, mas depois... parece que se partiram os braços e
-tornava á mesma. Pasmava ao meio do trabalho, varria se-lhe de memoria
-o que estava fazendo, e deitava a correr para debaixo de uma arvore,
-namorar as nuvens e ouvir os passaros.
-
-—O que te prende tanto, para não fazeres nada e passares todo um dia
-assim a olhar para o ceu, lhe perguntou um dia um velho fazendeiro dos
-melhores amigos, que o pae tinha?
-
-—O tio Simões vae rir-se...
-
-—Dize sempre, anda.
-
-—Olhe, tio Simões, quando ouço os passarinhos, parece-me escutar estas
-palavras que o sr. padre prior disse um dia n’um sermão de festa:
-
-«Portanto vos digo, não andeis cuidadosos da vossa vida, que comereis,
-nem do vosso corpo, que vestireis. Não é mais a alma, que a comida: e o
-corpo mais que o vestido?
-
-«Olhae para as aves do ceu, que não semeam, nem segam, nem fazem
-provimento nos celleiros; e comtudo vosso Pae celestial as sustenta. Por
-ventura não sois vós muito mais do que ellas?[2]»
-
-—Mas isso não quer dizer, que se não deve trabalhar, homem, pelo menos
-eu assim o entendo, quer dizer que por amor do dinheiro se não devem
-praticar acções ruins, e que a confiança em Deus nos não deve desamparar
-nunca.
-
-—Ora, tio Simões, o sr. padre prior ainda disse mais:
-
-«E porque andaes vós sollicitos pelo vestido? Considerae como crescem os
-lirios no campo; elles não trabalham, nem fiam.
-
-«Pois se ao feno do campo que hoje é, e ámanhã é lançado ao forno, Deus
-veste assim; quanto mais a vós homens de pouca fé!
-
-«Não vos afflijaes pois, dizendo: que comeremos ou que beberemos, ou com
-que nos cobriremos?
-
-«Porque os Gentios é que se cançam por estas coisas. Por quanto vosso Pae
-sabe, que tendes necessidade de todas ellas.
-
-«Buscae pois primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça: e todas estas
-coisas se vos accrescentarão.
-
-«E assim não andeis inquietos pelo dia de ámanhã. Porque o dia de ámanhã
-a si mesmo trará seu cuidado, ao dia basta a sua propria afflicção.»[3]
-
-—Como aprendeste tanta coisa?
-
-—Olhe, tio Simões, na vespera tinha assistido ao pagamento da féria, o
-que meu pae, que Deus haja, fazia todos os sabbados á noite, e ao vêr
-seguirem-se uns após outros os trabalhadores da fazenda, disse com Deus e
-comigo:—porque não hei de eu trabalhar? Porque não hei de ganhar tambem a
-minha féria? Eu tambem sou homem.
-
-—E disseste bem, Thomaz, era uma boa palavra essa. Mas depois?...
-
-—Depois, fui deitar-me resolvido a pedir tambem que fazer na segunda
-feira seguinte a meu pae; mas no domingo era dia de festa; fui á Egreja
-ouvir a missa, e fiquei para o sermão.
-
-—E...
-
-—Começou o sr. prior a dizer o que eu lhe repeti, ha pouco...
-
-—E como tu não ias de vontade para o trabalho, quadrou-te o sermão, não é
-assim?...
-
-—Não diga tal, tio Simões, sabe Deus se eu tinha ou não feito proposito
-de mudar de vida: tanto que, ao principio, fiquei sobresaltado, e como
-não querendo acreditar... Mas vi a cara do bom padre, dizia tanto, tinha
-uma tal expressão de bondade, um tal não sei quê na physionomia... Era
-impossivel, tio Simões, que não fosse allumiado pelo ceu.
-
-—Mas como aprendeste tudo isso?
-
-—No dia seguinte fui ter com o sr. padre prior para que me ensinasse
-aquellas palavras, disse-me que estavam n’um livro, e d’ahi eu...
-pedi-lhe que me explicasse como as havia de lêr...
-
-—E elle?
-
-—Elle ensinou me, e eu aprendi.
-
-—Então tens lido muito?...
-
-—Nada, não senhor, apenas soube de cór aquellas palavras, esqueci me logo
-de lêr.
-
-—Ora essa!
-
-—As aves do ceu e os lyrios dos campos não sabem lêr, e o nosso Pae
-celestial as sustenta e as veste. Eu tambem não preciso saber lêr.
-
-—Mas teu pae morreu, tua mãe não póde com o encargo da casa, e assim sem
-homem, que tome tento no arranjo, vae tudo por agua abaixo.
-
-—Que hei de eu fazer?
-
-—Homem, és capaz de fazer perder a paciencia a um santo! Que tomes a
-direcção do governo, que occupes o logar de teu pae.
-
-—O tio Simões póde dizer o que quizer, eu estou á conta do Senhor.
-
-E não havia tiral-o d’este dizer, por mais que fizessem, por mais que lhe
-prégassem. Era prégar aos peixinhos.
-
-A pobre da mãe ia dando ordem á vida, conforme podia, mas casa governada
-por mulher, raro toma caminho: o negocio cada vez ia de mal a peior.
-
-Thomaz, esse, parecia não dar por semelhante cousa, chegava a casa,
-fallava á mãe; comia do que lhe apresentavam, porque tudo lhe sabia bem,
-e quando a tia Annica começava em pé de conversa a querer-lhe dar conta
-do que se passava:
-
-—Faça o que quizer, minha mãe, eu não tenho nada com isso.
-
-E deitava a correr, se insistiam com elle, para debaixo da sua querida
-arvore.
-
-Um dia, quando mais embebido estava em seu scismar, ouviu perto d’elle
-voz de mulher, que pedia soccorro. Ergueu-se e accudiu. Era uma rapariga
-de uns dezoito annos, quando muito, que vinha correndo de uma vacca que a
-perseguia.
-
-Já quasi não podia dar passo, e a vacca ia alcançal-a, quando Thomaz
-erguendo-se de um pulo, e tomando um cajadito, que trazia comsigo, atirou
-de lado uma paulada ao focinho do animal, que cego com a dôr, mudou de
-carreira e seguiu aos pulos e aos mugidos pelos campos fóra.
-
-Agueda, assim se chamava a perseguida, parou, tomou a respiração, que lhe
-ia faltando, e, volvendo um olhar reconhecido ao seu salvador, disse lhe:
-
-—Obrigado, Thomaz!
-
-—Agradece ao Senhor, Agueda, e não a mim; a gente anda cá n’este mundo á
-conta de Deus.
-
-Agueda era feia e grosseira de feições como grande parte das raparigas
-do campo. Muito trigueira e mais queimada ainda, crivada de bexigas,
-os beiços grossos, o nariz achatado e largo, as orelhas grandes e mais
-repuchadas ainda por umas enormes arrecadas de ouro, o cabello crestado
-e carapinho. Tinha os olhos pretos rasgados e ramudos como quasi todas as
-saloias e era nova.
-
-Como de uso, trazia côres, que mais destoavam com o semblante. Umas
-roupinhas encarnadas, e uma saia de chita côr de rosa sobre outra de
-baeta verde salsa. Explicado estava pois o furor da vacca.
-
-Entretanto era por extremo vaidosa, e tão presumida como o são todas
-as moças feias; mal tornou a si do susto começou correndo-lhe a mão, a
-alisar o cabello, e quando lhe pareceu ter-se bem composto, proseguiu na
-encetada conversação.
-
-—Quem havia de dizer que a vacca da Angelica!... Parecia tão socegada!...
-
-—Não admira, tornou-lhe Thomaz, que já se deitára debaixo da sua arvore e
-parecia distrahido a olhar para o ceu.
-
-—Não admira, porquê?
-
-—Ora, tu appareceste-lhe assim, tão assanhada!
-
-—Tão assanhada!
-
-—Sim, pareces-me uma papoila vermelha, já com as sementes pretas, no meio
-d’um campo de verde.
-
-—Sempre tens lembranças!
-
-Thomaz não lhe respondeu. Estava entregue ás suas contemplações.
-
-—Thomaz! Thomaz! Que tens tu, estás sempre a scismar?
-
-—E tu que tens com isso? Importa-te a minha vida?
-
-—Lá isso é verdade, não me importa, mas faz-me pena, vêr-te assim, ahi a
-monte, sempre sósinho.
-
-—Faz te pena devéras?
-
-—Faz.
-
-—Ora dize-me, tu tens bom coração?
-
-—Nunca fiz mal a ninguem: nem o desejo.
-
-—Pois bem, um dia te direi em que scismo.
-
-E por mais que a sua companheira lhe puchasse pela lingua, não deu mais
-palavra. Parecia de pedra.
-
-Por fim Agueda perdeu as esperanças de fazer com que fallasse, e ao
-despedir-se d’elle disse-lhe:
-
-—Adeus, Thomaz, até outra occasião em que estejas de melhores humores.
-Olha que me não esqueço do favor, que te devo. Adeus!
-
-Ou fosse curiosidade ou interesse, ou mesmo amor proprio offendido, no
-dia seguinte, pelas mesmas horas, fazia a rapariga caminho pelo sitio
-onde na vespera se encontrára com Thomaz.
-
-Este estava no mesmo logar, e na mesma posição da vespera, parecia que
-não arredára pé. Agueda approximou-se-lhe, quasi sem elle dar pela sua
-presença.
-
-—Adeus Thomaz!
-
-—Adeus Agueda!
-
-—Ainda continuas a estar triste?
-
-—Quem te disse que eu estava triste?
-
-—Não fallas, não cantas, não te meches d’ahi!
-
-—Tambem as flôres do campo não fallam, não cantam e não se mechem.
-Entretanto ninguem diz que ellas são tristes.
-
-—Em que pensas tantas horas a fio, Thomaz?
-
-—Olha, Agueda, tens bom coração?
-
-—Já hontem me fizeste essa mesma pergunta, e o que hontem te respondi, te
-respondo hoje:
-
-—Não fiz nunca mal a ninguem, nem o desejo.
-
-—Pois um dia te direi em que eu penso.
-
-—E porque não ha de ser hoje?
-
-—Ainda não tenho confiança em ti.
-
-Repetiram-se os encontros. Todos os dias, pelas mesmas horas, Agueda se
-encaminhava para aquelles sitios, e quando a sombra lhe dizia que ella
-estava para chegar, Thomaz esperava a com a vista, fitando os olhos no
-atalho por onde havia de apparecer.
-
-Pouco a pouco a indifferença apathica de Thomaz foi desapparecendo.
-Fallava mais, e contava historias de avesinhas e de flôres a Agueda
-maravilhada.
-
-E havia uma tal ingenuidade, o que quer que era de boa e pura simpleza
-nas suas historias, nas suas exclamações, na explicação que lhe dava
-dos enlaces dos animaes e dos amores das plantas, que a pobre rapariga
-parecia levada a mundos novos, e quasi estranhava tudo que não era o
-fallar e a companhia de Thomaz.
-
-Um dia, eram passados tres mezes, depois do primeiro colloquio, voltou-se
-elle repentinamente para a sua companheira depois d’alguns momentos de
-abstracção, e disse-lhe:
-
-—És feia Agueda, muito feia.
-
-—Se o sentes, para que m’o havias de dizer? tornou lhe tristemente a
-rapariga.
-
-—Porque digo sempre o que sinto. Mas o teu coração é formoso e a tua alma
-é boa.
-
-—Obrigado, Thomaz.
-
-—Não me agradeças, porque fallo verdade. O teu coração é bom, e a belleza
-do corpo acaba, emquanto a formosura da alma se conserva. Eu gosto de ti,
-Agueda.
-
-—Tambem eu gosto de ti, e por isso sempre me pareceste formoso.
-
-Era uma especie de recriminação, que Thomaz não percebeu.
-
-—Eu queria casar comtigo.
-
-—Tu!
-
-—Eu, sim, porque te admiras?
-
-—Não cuidei que pensasses em casamento.
-
-—Não casam as arvores, as flôres, os animaes da terra, as avesinhas dos
-ares, os peixes do mar; não casam as aguas dos rios com as torrentes dos
-mares?
-
-—Mas...
-
-—Porque não hei de eu casar tambem?
-
-—Tu bem sabes, Thomaz, que eu nada tenho; tu tambem és pobre, como
-haveriamos de viver?
-
-—Não me tens perguntado tanta vez em que penso durante as horas em que
-estou sósinho?
-
-—Tenho.
-
-—Pois, ámanhã t’o direi; d’hoje até ámanhã pensa tu tambem, e dir-me-has
-depois, se queres ou não casar comigo.
-
-—E porque não dizes agora?
-
-—Agora... preciso estar só.
-
-E calou-se. Agueda já sabia que era tempo perdido teimar. Retirou-se,
-olhando muitas vezes para o seu extraordinario apaixonado.
-
-Este não deu por semelhantes finezas. Com os olhos fitos n’um ponto
-affastado, parecia embevecido em doces contemplações.
-
-No dia seguinte pelas mesmas horas dobrava Agueda o atalho, quando
-Thomaz, que de longe a avistou, se ergueu para a ir esperar.
-
-Extranho era aquelle procedimento, e tanto mais extranho, quanto a pobre
-da rapariga, á força de se querer aprimorar, mais feia parecia ainda.
-Thomaz, porém, nem percebeu a mudança.
-
-Ao approximar-se da arvore, pediu lhe que se sentasse ao seu lado, e com
-taes modos e tal delicadeza, que ella quasi o desconheceu.
-
-—Que tens, Thomaz, pareces me outro?
-
-—Tenho que te fallar muito sério. Pensaste?
-
-—Pensei.
-
-—Queres?
-
-—Quero, Thomaz, conheci que te amava. E tu?
-
-—Eu, não sei. Olha, Agueda, parece-me que nasci para casar comtigo. Tenho
-te visto ha muitos dias, e sempre me tens parecido boa rapariga.
-
-—Tu é que és um santo, meu Thomaz...
-
-—Não digas isso, e ouve-me. Vou contar-te o meu segredo.
-
-—Pois tu tens segredo?
-
-—Não t’o disse hontem?
-
-—Disseste, mas pensei que estavas gracejando.
-
-—Não sei gracejar.
-
-—E d’elle depende a nossa fortuna?
-
-—Depende.
-
-—Então conta, Thomaz, conta depressa.
-
-E a rapariga quizera ser toda ouvidos para satisfazer assim a curiosidade
-que a devorava.
-
-—Olha, Agueda, olha além para o ceu.
-
-—Olho.
-
-—Não vês nada?
-
-—Vejo uma nuvemzinha transparente e branca, que parece voejar como um
-véosinho de cambraia.
-
-—E nada mais?
-
-—Mais nada!
-
-—Pois eu vejo mais do que tu.
-
-—Como assim?
-
-—Ha uns poucos d’annos, que passo manhãs e tardes, deitado debaixo d’esta
-mesma arvore, com os olhos pregados n’aquelle mesmo sitio do ceu.
-
-—E vês?
-
-—Espera. Não ouves o chilrear dos passarinhos, que andam saltitando de
-ramo em ramo?
-
-—Ouço.
-
-—E não percebes o que elles dizem?
-
-—Ora essa!
-
-—Pois desde que aqui descanço, as aves fallam comigo, e eu entendo o que
-ellas dizem.
-
-—Thomaz!
-
-—Bem sei que desconfias de mim, Agueda, que talvez me julgaes doido,
-pateta, como muitos dizem. Não me admira, estou condemnado, e rio-me
-d’isso.
-
-—Não chamo, não, meu Thomaz; continua.
-
-—Tens espalhado os olhos por esses tapetes de verde, por essas vagas de
-pão, que ondulam e marejam á feição do vento como as aguas dos rios?
-
-—Se tenho!
-
-—Mas não escutaste ainda os colloquios que segredam as plantas umas ás
-outras, as espigas ás suas visinhas, quando o vento as encurva, e parece
-approximal-as tão de perto, como se fossem a beijar-se?
-
-—Valha me Deus, Thomaz, que coisas me estás perguntando!
-
-—Tenho dó de ti, Agueda!
-
-—Porquê?
-
-—Porque nem lês no céo, nem aprendes com as aves, nem escutas as plantas.
-Como has de ser infeliz. Tudo pois, que mais significação tem, nada quer
-dizer para ti. Mas descança, minha Agueda, quando casares comigo, has de
-saber o que eu sei.
-
-—E tu sabes?
-
-Thomaz fez-lhe signal para que se callasse por um momento, e pareceu cair
-em extatica contemplação com os olhos fitos no céo.
-
-Seria passado um quarto de hora, quando pareceu voltar a si, dirigiu-se a
-Agueda, e disse-lhe:
-
-—Ouve-me agora. Quando meus paes quizeram que eu estudasse, quando
-tentaram que eu aprendesse ou trabalhasse, senti em mim uma voz que me
-dizia: não trabalhes, não é preciso, has de ser rico, muito rico, espera,
-confia e descança.
-
-—E tu?
-
-—Sempre que me approximava do trabalho sempre esta voz me fallava; se eu
-insistia tornava se mais aspera, reprehendia-me, accusava-me de não ter
-fé. Por fim... não estava mais na minha mão, fugi ao trabalho, não pude
-resistir ás palavras, que ouvia a todo o momento.
-
-—Pobre Thomaz!
-
-—Quando comecei a abandonar a casa, para vir deitar-me para debaixo
-d’esta arvore, parecia-me que as flôres e as plantas se debruçavam para
-mim e diziam umas ás outras: é mais um irmão que chega, bemvindo seja
-entre nós.
-
-E eu sorria-me para as hervinhas e para as arvores e a umas e outras
-dizia: Eis me, queridas irmãs, que saudades eu tinha vossas, como me
-batia o coração com pena! Eis-me, oh irmãs, e não vos deixarei mais.
-
-Depois de pensar muito, quiz n’uma occasião da minha vida mudar o modo de
-viver. Um caso fez, porém, com que eu continuasse a seguir os conselhos
-da voz, que cá bem dentro me dizia: Descança e tem fé.
-
-—Um caso?
-
-—Sim.
-
-E Thomaz contou-lhe como entrára na egreja e o que ahi ouvira ao prior,
-bem como a maneira, porque instando com elle para que lhe ensinasse
-aquellas palavras, chegára a aprender a lêr.
-
-—E sabes lêr, Thomaz?
-
-—Soube, esqueceu-me.
-
-—Pois nem conheces as letras?
-
-—Não.
-
-—E se eu quizesse aprender?
-
-—Talvez me recordasse.
-
-—Has de recordar-te, sou eu que t’o peço, mas continua.
-
-—Embrenhado n’estes pensamentos, um dia que alargava a vista pelos
-campos, e que pretendia mergulhar os olhares no céo, lá bem longe,
-n’aquelle affastado ponto, em que tu divisaste ha pouco uma nuvemzinha,
-vi avultar uma figura branca, tão transparente, tão formosa porém, ai tão
-formosa! que arrebatava olhar para ella... Mas porque estás tão triste,
-borbulham-te as lagrimas nos olhos!
-
-—Lembro-me do que me disseste, Thomaz, que me achaste feia, e tenho pena
-de o ser.
-
-—Não penses em tal. Formosuras d’aquellas não as ha na terra, nem sei
-mesmo, minha Agueda, se as haverá no ceu. Entretanto eu via todas as
-tardes aquelle vulto illuminado no meio de resplendores de fogo, e dos
-raios scintillantes do sol poente. Depois ao cair da noite ia-se sumindo
-pouco a pouco na escuridão até que uma só estrella a substituia no ceu.
-
-Se visses que melancholica luz espalhava aquella estrella! Acreditei
-que o meu anjo da guarda me apparecia, e que a estrella, que de noite
-scintillava, mais resplandescente do que todas as outras, fôra cravada
-nos ceus pela mão do Senhor para me animar quando desanimasse, para me
-esclarecer quando as trévas envolvessem a terra.
-
-—Mas dizias, que te fallára!
-
-—Pouco a pouco comecei a comprehender, que me fazia gestos, como
-indicando me um ponto muito affastado dos ceus. Parecia que lá muito
-longe estava a felicidade, que eu almejava. Um dia ajoelhei e pedi-lhe,
-que me fallasse, que me dissesse o que significava aquelle gesto
-constante a mostrar-me a immensidão.
-
-—E respondeu-te?
-
-—Não é mais harmonioso o som do orgão, quando, depois de tocado, parece
-gemer saudoso na egreja, não é mais suave o canto da viração da tarde
-rumorejando pelo arvoredo, nem o lamentar ao longe do rouxinol em
-madrugadas de maio.
-
-—E disse-te...
-
-—«Pobre de ti, que procuras a felicidade na terra. Está bem longe e tão
-longe que nem teus olhos a alcançam nem tua mente a imagina. Queres ser
-rico, queres ser feliz! Louco! Não ha de ser ahi que encontrarás nem
-riqueza nem felicidade. Chegará um dia em que me sigas, e então verás
-patentes thesouros, que nem suppões, felicidades que nem as sonhas.»
-
-—Era a tua cabeça que desvairava meu Thomaz!
-
-—Não era, Agueda, não era. Levantei-me para seguir direito o caminho
-que me apontava; mas ao calcar as primeiras hervinhas senti entre seus
-gemidos, que me chamavam: ambicioso! louco!
-
-—As hervas?
-
-—Sim as hervas, voltavam-se para mim e apontando-me para os campos onde
-viviam censuravam-me por as deixar: para que partes? Não tens o pão que
-te alimenta, o sol, que te dá calor, o ar, que te nutre a respiração, não
-vês como vivemos contentes no mesmo logar, amando-nos umas às outras,
-bebendo a agua dos ares, e aquecendo-nos o sol?
-
-—E pensaste então em amar?
-
-—Pensei! Depois quando volvia para debaixo da minha arvore as avesinhas
-brincando umas com as outras, diziam: «Não é preciso ir longe para se ser
-feliz. Este pobre rapaz quer deixar-nos, e nós podiamos-lhe ensinar como
-se encontra a felicidade. Uma arvore nos abriga, um ninho serve de berço
-aos nossos amores, uma folha nos resguarda do sol, a semente que cae no
-chão nos sustenta, a agua, que as covasinhas conservam, nos mata a sêde.
-Sabemos amar e viver, amamos e sômos felizes.
-
-—Seguiste o conselho das aves?
-
-—Segui. No dia immediato a visão sorria menos melancholica, e ao
-perguntar-lhe se devia partir, respondeu-me: Não ouviste as hervinhas do
-campo e as avesinhas do bosque. Sê humilde como ellas são, contenta-te
-com o que as satisfaz e serás então como ellas feliz.
-
-—Mas como havemos de viver assim, meu Thomaz, não podemos habitar n’um
-ninho, nem n’uma leira dos campos.
-
-—Ouve-me até ao fim. Quiz amar para ser feliz, mas todas me voltavam
-a cara, ou me apontavam dizendo: olha o Thomaz idiota, o Thomaz dos
-passarinhos.
-
-Só a minha visão me sorria boa nos ceus, emquanto todos na terra se riam
-de mim como uns maus. Perdi as esperanças de encontrar quem me tivesse
-amor, e procurei amar aquella que me queria. E sempre a via, sempre lhe
-fallava no meu querer, e ella sempre se curvava para mim e tristemente me
-dizia: estamos longe, muito longe!
-
-E entretanto as aves e as plantas contavam-me os seus amores, e
-animavam-me tambem.
-
-Vi-te, Agueda, e ao passo, que mais a meudo me appareceste mais fui
-querendo á tua presença. Por fim não podia já passar sem ti e nas horas
-em que devias chegar, mais me palpitava o coração.
-
-—Querer-me-ias, por ventura?
-
-—Não sei. Se o amor é um sentimento, que nos prende a idéa ao ente amado,
-se o amor é o sacrificio da nossa vida á que se ama, se amor é ser todo
-d’uma só mulher, e só d’ella, eu não te amo, porque bemquero áquella
-imagem, e a sua lembrança corta-me os pensamentos, que te consagro.
-Olha, não sei como te explique o que sinto. Quando quero comprehender-me
-julgo-me tambem idiota, como me chamam todos. Não ha mulher para mim que
-te valha, mais rica ou mais formosa que fosse; mas tambem nada ha, que
-seja em mim superior á idéa d’aquella imagem. Quando vou levado pelo
-pensamento para ti, surprehendo-me a meio caminho, arrependo me de me
-esquecer d’ella, e fico em doce contemplação a adoral-a. Quando ella se
-some, appareces-me tu. Sabes?... Creio que amo a ambas, a ella com o amor
-do ceu, a ti com o amor da terra.
-
-Agueda suspirou e limpou uma lagrima, que lhe escorregava pelas faces.
-
-—Porque suspiras?
-
-—Tenho ciumes da tua visão; e depois, bem vês, não poderemos casar nunca.
-
-—Sabes que lá bem longe ha terras, em que as riquezas não faltam?
-
-—Sei.
-
-—Sabes que é para bem longe que o meu bom anjo me chama?
-
-—Assim m’o disseste.
-
-—Pois se tu quizeres casar comigo, irei apoz a minha querida visão,
-seguirei o seu gesto, e tenho por fé que ao voltar serei rico, que o
-esperei sempre; serei feliz, que m’o assegurou ella.
-
-—Enlouqueceste, Thomaz?
-
-—Nunca estive mais em meu juizo.
-
-—Pois queres sósinho, sem meios, sem conhecimentos ir por esse mundo
-de Christo, atravessar os mares, fazer uma viagem tão grande! Dizem que
-d’aqui ao Brazil é um por ahi além de leguas!
-
-—Sei, que importa isso! Tenho pensado muito, comigo, aqui, e com aquella
-boa imagem além. Não tenho palavras para dizer o que vae cá por dentro
-ahi a qualquer. Póde ser que eu seja idiota, mas parece-me que mais são
-os que me chamam por não lhes fallar, nem lhes dar satisfações da minha
-vida.
-
-Humildes são as plantas, mais atrevidas as aves, mais atrevidas ainda
-as nuvens dos ares e as estrellas dos ceus. Quanto maior é o seu
-atrevimento, mais longe se levam.
-
-O homem que vive cá n’este mundo extremo de todos, sem querer deixar
-rasto de si, nem cousa alguma que o lembre, passada a sua hora, é como
-a planta, lançada á terra pela mão de Deus. Nasce, medra e morre;
-deitam-lhe a foice e fica por terra.
-
-Assim era eu. Não tinha para quem o fosse, não queria ser rico. Espera,
-dizia-me a voz; está muito longe a felicidade, repetia-me a visão, e eu
-ia esperando sem tentar os longes.
-
-Mas quando ama, não chegam para o homem alguns torrões apenas, como para
-o pé de trigo: vae longe buscar com que fazer seu ninho, percorre os
-ares como as aves: e, emquanto a esposa o espera cuidando dos filhinhos,
-trabalha elle para sustentar os outros.
-
-Assim poderia eu ser; mas não bastava.
-
-Para ti, Agueda, que vaes repartir comigo a tua vida, que te vaes enlaçar
-comigo, como a videira se enlaça no carvalho, que vaes ser minha mulher,
-sabes o que isto quer dizer, minha mulher?... não basta o bago de trigo,
-que sustenta o pardal, nem o bichinho que nutre a cotovia. Quero ir
-longe, mas tão longe como vão as nuvens e não como as aves; quero correr
-mundo, como correm as estrellas que hoje espalham aqui a sua claridade,
-depois allumiam outras terras: e mais tarde, ao voltar com dinheiro para
-ambos, com o descanço para os que hão de ser nossos, dizer-te:
-
-—Vês? É assim que um homem sabe amar.
-
-E Thomaz transfigurára-se ao dizer estas palavras; a sua belleza
-varonil assumira o que quer que era extraordinario, parecia inspirado.
-Chispavam-lhe centelhas dos olhos, aspirava com as ventas dilatadas os
-aromas da tarde, soltava os cabellos bastos á feição do vento. Erguera-se
-emquanto fallava, a sua figura parecia mais crescida. Cercava-o uma
-aureola de magestade, destacava-se do fundo escuro do tronco a que
-estivera encostado, recortava-se sobre o azul carregado do céo, como um
-d’aquelles sacerdotes das florestas gaulezas, quando colhido o agarico
-sagrado erguiam os olhos, pediam a inspiração aos numes e rasgavam o ar
-com o gesto alargando os braços sobre as multidões curvadas.
-
-Agueda desconhecia-o e pasmava.
-
-—Como és formoso assim, meu Thomaz, e como eu te avaliava tão mal,
-exclamou a pobre rapariga cedendo ao impulso da admiração.
-
-Thomaz caiu em si, e tornou-lhe tristemente:
-
-—Todos me têem julgado como eu não merecia. A solidão tem-me feito
-amadurecer muito, e se não fallo, penso. Dizem que o mocho é prudente
-e assisado, e entretanto nem trina como o rouxinol, nem canta como
-a toutinegra, nem se veste de côres brilhantes como o pintasilgo.
-Emquanto todos dormem vigia elle, emquanto folgam e brincam á luz do
-sol mergulha-se no escuro e recata-se no seu souto. As horas de solidão
-valem mezes de viver em companhia, e os dias de abandono ensinam mais do
-que os annos de carinhos e meiguices. Eu, Agueda, tenho vivido sempre
-desamparado, só e triste. Tenho pensado muito, assim eu tivesse palavras,
-como tenho idéas; mas vou a fallar, não sei, e fico-me...
-
-—Apesar d’isso dizes coisas que não comprehendo.
-
-—Que queres, os fructos quando veem ao chão, ou pedram-se e fazem-se
-ruins; ou amadurecem mais depressa. Não tinha queda para ruim,
-deitaram-me por terra, amadureci. Já foste á cova das rapozas?
-
-—Deus me livre! Apparecem por lá as almas dos defuntos. O João da Josefa
-do tio Domingos, foi lá ter atraz de uma ovelha e viu uma aventesma
-surdir-lhe de um d’aquelles buracos. Pois tu já lá foste, Thomaz!?...
-
-—Fui! Tudo quanto é fóra do commum tem agrados para mim. Procurei saber o
-que era. Entrei, e vi uma cousa que não esperava.
-
-Do tecto da cova desciam pinhas de pedras preciosas até ao chão e
-formavam columnas, como as do altar-mór da egreja; mas quanto bem mais
-formosas! Pareciam feitas de bocadinhos de espelho. A luz que entrava
-pela bocca da cova e a que eu levava do archote, saltavam de columna para
-columna, brincavam n’aquellas laminasinhas, faziam ziguezagues, voltas,
-revira-voltas, como se fossem um cardume de lusilumes. E eram luzes de
-todas as côres, azues, vermelhas, verdes, côr de rosa; como n’aquelle
-fogo de vista que deitaram os homens de Lisboa. Estonteava a vista olhar,
-andava a cabeça á roda.
-
-—Bem dizia eu, Thomaz, era obra de feitiço, para que foste lá?—E
-appareceu-te algum phantasma?
-
-—Não. Perguntei uma tarde ao sr. padre prior o que eram aquellas
-columnas, e como estavam alli em pilha tantas pedras preciosas, sem que
-tomassem conta d’ellas?
-
-—E elle o que te disse?
-
-—Que o que eu julgava serem pedras preciosas era a agua da chuva e nada
-mais.
-
-—Ora!
-
-—Era sim. Gotta a gotta ia filtrando pela rocha e pendurando-se da pedra,
-como o pingo da fonte no cazal das Cortiças, que se baloiça antes de
-caír custando-lhe tanto a despegar-se. Mal uma não caía ainda, vinha
-outra abraçar-se com ella, e prendel-a mais. As que iam ao chão seccavam
-devagarinho e deixavam a fazer altura as terras que traziam comsigo.
-Debaixo foram subindo, de cima foram descendo; e quando se uniram, estava
-a columna prompta. Vieram novas gottas, foram baixando pela columna: e
-parando aqui, detendo-se além, arrendaram-lhe o feitio, e recortaram-lhe
-as fórmas...
-
-—Pois isso póde ser!
-
-—Póde! E este milagre é obra da solidão, do socego, e da meditação bem
-escondida do mundo.
-
-A agua da chuva que cae nas ruas faz-se lama, a que cae nos campos
-secca-a o vento, ou encaminham-na os homens para as regueiras e levadas,
-a que cae com força faz cheia e arrasta tudo, a que cae de manso
-perde-se; mas a que livre do vento, e dos homens, gotteja escondida, e
-escorre devagar entregue só a si, forma columnas maravilhosas, e faz-se
-em pedras de valor. Aqui tens como eu tenho aprendido tambem. Fujo de
-tudo e de todos, escondo me, penso, medito, e aprendo.
-
-Ficaram ambos silenciosos por algum tempo. Agueda não comprehendia mas
-advinhava; Thomaz, esse que havia muito tempo não fallára tanto, parecia
-seguir callado o fio do discurso conversando comsigo. Foi a rapariga, que
-renovou o dialogo.
-
-—Pois sempre queres partir?
-
-—Quero. É tenção feita e não mudo. Espera-me tres mezes, como eu tenho
-esperado annos. Ceifaram os campos ha pouco; por ahi não ha senão
-restevas. Callaram-se os passarinhos, acabaram-se-lhes os amores, e
-somem-se para outros logares. Vou partir, Agueda, de dia seguirei o meu
-anjo, de noite a minha estrella; e, quando a relva vestir esses prados,
-quando as aves cantarem de novo, vêr-me-has regressar d’essas terras, e
-n’esta arvore onde temos passado tantas horas de felicidade, contar-te
-quanto passei por amôr de ti.
-
-Debalde procurou a rapariga despersuadil-o. O caracter de Thomaz, como
-o de todos os espiritos concentrados, era teimoso. Pensava muito em
-qualquer resolução, que devesse tomar; uma vez porém que a adoptasse,
-havia de seguil-a por força. Poucos dias depois abandonava a aldeia.
-Agueda, soluçando, acompanhava-o até duas leguas fóra do logar.
-
-Longo e triste fôra relatar a perigrinação do pobre rapaz. Pedia esmola
-para comer, quando tinha fome; deitava-se pelo caminho, quando se sentia
-cançado, ou abrigava-se em qualquer pousada, onde o deixavam dormir. Ia
-porém seguindo na mesma direcção e para onde lhe parecia acenar a figura,
-que se lhe representava em suas allucinações.
-
-Houve quem, ouvindo-lhe dizer que queria ir longe tentar fortuna, o
-alliciasse para o Brazil. Thomaz perguntou para que lado ficava o Brazil,
-deram-lhe uma direcção. Errada ou verdadeira esta direcção era a mesma
-que trouxera sempre. Acceitou.
-
-Os que já conhecem Thomaz pódem avaliar bem que desgraçado colono
-havia de ser e por quantos tormentos passaria. Entretanto nem doenças,
-nem fomes nem maus tratos, nem trabalhos superiores ás suas forças o
-desanimavam. Uma coisa só o trazia apaixonado. Não via n’aquelles céos a
-sua estrella. Nos horisontes affogueados não descortinava a sua visão.
-
-Passaram annos e Thomaz, apezar de tanto padecer, conservava ainda
-recatada na alma a santidade das suas aspirações. Ha temperas d’esta
-ordem, que como as perolas se conservam limpidas, e puras, no meio das
-correntes e das tempestades.
-
-Houve quem se condoesse da sua sorte e lhe proporcionasse passagem para
-Portugal. Acceitou-a reconhecido; perdêra todas as esperanças de ganhar
-fortuna, voltava quebrado, doente, incapaz de trabalhar, mas vinha de
-novo para terras, onde lhe apparecia o bom anjo, e a boa estrella, onde
-conhecia o cantar dos passaros e o fallar das plantas, e onde tornaria a
-vêr a sua Agueda.
-
-—E a rapariga, perguntei ao tio Joaquim, quando rematou a sua narração,
-ainda está á espera d’elle?
-
-—Olha quem! D’ahi a dois mezes fugia da terra em companhia de um soldado
-do destacamento, o Thomaz vem achar-lhe o logar.
-
-—E já sabia d’isso, hontem á noite, quando lhe contou a sua vida?
-
-—Ainda não, vinha a caminho, quando a chuva o não deixou proseguir e nos
-pediu agasalho. Hoje é que deve saber a verdade toda.
-
-—O tio Joaquim não lhe disse nada?
-
-—Não tive animo para lhe dar a noticia. Pobre homem, fugiu-lhe a noiva,
-morreu-lhe a mãe, está só!
-
-Fôra depois do jantar que o tio Joaquim me contára esta historia, a tarde
-estava muito amena, e o descair do dia ganhava os doces encantos da
-tristeza.
-
-O que ouvira harmonisava-se com o que estava vendo: e a melancholia
-começou a tomar conta de mim. Propuz ao tio Joaquim um passeio até ao
-logar para espairecer. Saimos.
-
-Á porta do boticario estava junta quasi toda a povoação; grande novidade
-ia pela botica. As velhas entravam, saiam, segredavam umas com as outras,
-levantavam os braços ao ar e voltavam para saber e contar novas coisas.
-
-Conseguimos entrar e vêr o que tanto attrahia as attenções. O pobre
-Thomaz jazia banhado em sangue. Fôra encontrado cahido no fundo de uma
-trincheira, que andavam abrindo para o caminho de ferro, e quebrára
-a cabeça e os braços de encontro ás pedras que estavam em baixo.
-Restava-lhe pouco tempo de vida.
-
-O tio Joaquim approximou-se do moribundo, elle reconheceu-o logo e
-sorriu-lhe tristemente.
-
-—O que foi isso, homem? perguntou-lhe o velho narrador.
-
-—Acertei finalmente com a felicidade, não tarda; em pouco vou ser muito
-rico.
-
-Pensaram que já estava tresvariado. O tio Joaquim, disse-lhe que
-socegasse.
-
-—Bem socegado estou, acabou-se-me para sempre a lida. Agueda, tinha-se
-cançado de esperar, nem todos têem paciencia como eu tive... Corri á
-minha arvore, já a não encontrei... tinham-na derrubado... Os campos
-estavam cortados pela estrada, as hervas calcadas pelo pisar dos
-trabalhadores do caminho, as aves tinham fugido espavoridas com os tiros
-das minas na pedreira... Aqui, como lá bem longe, estava só de todo...
-De repente, poude vêr, com os olhos arrasados de lagrimas o meu anjo no
-mesmo logar a olhar para mim como d’antes, a chamar-me como d’antes, mas
-mais triste do que nunca... Caminhei direito a elle, fitando-o sempre...
-Faltaram me os pés... Cahi... Mas sei que me hei de levantar em breve, e
-d’esta vez hei de approximar-me d’elle para não mais o deixar... Até que
-em fim... comprehendi-o... Dizia-me que estava longe... bem longe...
-
-E estava!... Conchegou-nos a morte: a felicidade... a riqueza... debalde
-as procurei na terra;... mas agora... sei que as vou encontrar... no ceu.
-
-Passada meia hora o Thomaz da tia Annica, o Thomaz dos passarinhos, como
-por alli lhe chamavam, era cadaver.
-
-
-
-
-XII
-
-A historia do narrador
-
-
-I
-
-Por mais de um mez procurára tambem saber a historia do tio Joaquim.
-Havia na tristeza, em que o velho descaia tantas vezes, quando parecia
-mais alegre, rasão sobeja para me aguçar a curiosidade. Tentára
-interrogal o; mas debalde sempre.
-
-Não era porque o tio Joaquim deixasse de me estimar devéras.
-
-Conhecêra-me de pequeno e tivera-me sempre por seu companheiro constante
-nos passeios melancholicos, em que, apoz o seu pensamento, caminhava
-horas sem dar palavra.
-
-Ia com elle, calado tambem. Respeitava a grande dôr que n’essas occasiões
-parecia opprimil-o; e não me atrevia a perturbal-o com perguntas
-indiscretas, ou observações futeis.
-
-Presentia, que um padecimento grande o envelhecêra bem cedo, e receava
-tanto mergulhar a vista nas profundezas d’aquella magua, como trepidava
-sempre ao approximar-me de um precipicio. Era o desconhecimento que me
-sobresaltava, o que quer que era extranho, que me impunha respeito.
-
-O tio Joaquim lembrava-me um d’esses livros antigos de bruxedos e
-encantamentos, que fechado poder-se-ia confundir aos olhos de um
-observador qualquer com um ripanço de semana santa; aberto porém
-espavoria a imaginação povoando a com os quadros temerosos de castellos
-encantados, florestas magicas, sortilegios infernaes, feiticeiros,
-trasgos, almas penadas e cemiterios.
-
-Levava-me o desejo a folheal-o; a duvida affastava-me de lhe tocar.
-
-Aventurára perguntas timidas em varias occasiões; mas o velho, sem que
-empregasse na resposta a natural rudeza, com que despedia os importunos
-triviaes, affastava-me brandamente do ponto a que eu desejava chegar.
-
-—Quando no jardim ou no prado colhe uma flôr não cuida das profundezas
-onde as raizes mergulham para a alimentar; quando tira da fonte uma pouca
-d’agua para abrandar a sede, não indaga por que extensões corre a veia
-que alimenta a fonte. Não cuide em devassar segredos, que de pouco lhe
-podem importar; mas que uma vez sabidos lhe hão de trazer desgosto. A
-amendoa de muitos fructos trava, emquanto elles são dôces, aproveite-se
-da polpa e não queira saber do caroço.
-
-E assim, mudando rapidamente de assumpto, evitava sempre que insistisse.
-
-Entretanto iamos muitas tardes para um logar da praia, que de preferencia
-escolhiamos por ser mais recatado e só.
-
-Entre ambos havia como que uma communhão de tristezas. Elle pelo passado,
-eu pelo futuro; elle por o que já experimentára e sentira; eu porque
-receava experimentar e sentir tambem.
-
-Emquanto o velho passava horas silencioso e triste a rever as paginas
-da sua vida, a rememorar dôres, alegrias, saudades, e amores: eu que
-ia conhecer o mundo, eu que deixava de ser creança e não começára
-ainda a ser homem, scismava no futuro para que caminhava, e devaneiava
-conjecturas sobre essa vida nova, que ia encetar. Agradava pois a ambos
-a solidão, e ambos procuravamos de preferencia os sitios, onde menos nos
-podiam inquietar os conhecidos.
-
-A praia da nossa predilecção estendia-se desde Cabo-Ruivo e o
-recolhimento do Moinho. Em frente espraiava-se o Tejo pelos juncaes, que,
-mesmo em preamar, erguiam os cimos arrouxados sobre as aguas; detraz a
-costa subia quasi a prumo para os olivaes do Casal das rolas.
-
-Uma ou outra pedra ennegrecida pelo tempo, pelo quebrar das ondas, pelos
-limos e pelas ostras que a revestiam destacava-se na arêa da praia, ou
-avultava por meio dos juncos. O rio, n’aquellas alturas quasi sempre só,
-parecia não terminar no lado opposto; porque a outra margem se confundia
-com o céo. De cima, como torre de vigia de castello antigo entrava pela
-agua dentro o pavilhão quadrado e de tecto esguio do antigo recolhimento.
-Debaixo o cabo a que pela vermelhidão do terreno tinham dado o nome de
-Ruivo, limitava o horisonte, e tirava a vista da parte do rio mais cheia
-de navios e de animação.
-
-Tudo alli era silencioso, tudo infundia sentimento, tudo convidava para a
-meditação.
-
-Torcendo-se por entre os alcantis da ribanceira, escondendo-se umas
-vezes por detraz de moitas de rosas carrasquinhas e de giestas, outras
-caminhando entre pequenas mattas de congoças, outras descobrindo-se de
-todo n’um terreno escalvado e nu, um caminho de pé posto conduzia dos
-olivaes á praia, e estabelecia communicação entre o mundo e aquelle
-retiro. Avistavamos pois a grande distancia, quando alli estavamos,
-qualquer, que do Casal descesse para a praia, e haveria por conseguinte
-facilidade de mudar de conversação, sem que nos perturbassem d’imprevisto.
-
-A meio do carreiro n’uma lapa gottejava da rocha a agua mais pura
-das visinhanças e demorava-se n’um berço de relva e musgo verde como
-esmeralda, macio como velludo, e que forrava a cova, que a agua havia
-feito. Junto á fonte algumas pedras pulidas pelo roçar continuo dos
-cantaros das raparigas dos sitios, que alli vinham buscar agua,
-offereciam um bom poiso para descançar.
-
-Era tambem alli que mais de habito nos sentavamos. O mar deante de nós,
-o ceu sobre nossas cabeças, as costas dadas ao mundo, e a imaginação a
-perder-se no espaço.
-
-Depois, quando descaia a tarde, aquelle silencio perturbado apenas pelo
-surdo marulhar das aguas, aquellas côres sombrias do mar e do ceu,
-aquelle espectaculo do infinito, que tanto nos confrange e opprime, e a
-indecisão, que nos baloiça no espirito, as duvidas que se apoderam de
-nós, sobre o que seremos, sobre o que nos tornará felizes, a lucta com
-essa terrivel e mysteriosa sphinge que se chama futuro, tudo isso me
-levava a um estado especial que muitos talvez tenham sentido, mas que
-poucos poderão definir, em que desejava sem saber o que, em que soffria e
-agradava-me o soffrimento, em que amava e debalde queria fixar o grande
-amor que sentia, em que lastimava sem que podesse explicar porque, não
-estar assim sempre, não passar d’ahi para outro mundo, outra vida, outro
-que quer que fosse, para mim desconhecido, mas que me parecia fatalmente
-destinado para me dar a verdadeira felicidade apoz a qual voava a minha
-imaginação apaixonada.
-
-Estes ataques de uma nostalgia particular traduzil-os-hia eu, se
-traducção podessem ter, como o chorar da alma infinita dentro da sua tão
-limitada prisão, pelos espaços e pelos mundos infinitos d’onde veio, e
-onde deve ir um dia.
-
-Sei, para em duas palavras me exprimir, que soffria muito, mas que era
-feliz soffrendo assim.
-
-O meu velho companheiro, esse, apenas ali chegava sentava-se n’uma das
-pedras, carregava o cachimbo, feria lume, accendia o tabaco e entrava
-a fumar; depois o pau com que começára a traçar arabescos no chão
-parava gradualmente, os braços caiam-lhe sobre os joelhos, o cachimbo
-apagava-se, e os olhos cerravam-se-lhe como se tivesse adormecido.
-
-Quando, passado tempo, parecia tornar a si, tinha os olhos vermelhos,
-o rosto abatido, o corpo quebrado. Levantava-se com muita difficuldade
-e mal se podia arrastar aos primeiros passos. Depois fazia como que um
-grande esforço sobre si, compunha a physionomia, chamava um sorriso
-bastante rebelde n’essas occasiões, e tornava a ser o tio Joaquim da casa
-da malta e do canto da lareira.
-
-Foi n’uma dessas tardes, e na praia de Cabo Ruivo, que consegui ouvir
-ao velho narrador a sua historia. Andára triste todo o dia, acabára
-de jantar, déra conta da obrigação e convidára-me para sair em sua
-companhia. Não soltára meia palavra pelo caminho e mal chegára perto
-da fonte atirára comsigo para uma d’aquellas pedras tão desalentado,
-que parecia não querer mecher-se mais d’ali. Ficara a scismar, como
-costumava; mas não seria passado ainda um quarto de hora, ao olhar para
-elle vi que lhe escorregavam as lagrimas pelas faces.
-
-—Chora, tio Joaquim?...
-
-—Não repare, atalhou elle rapidamente limpando as lagrimas, como
-envergonhado, eu tambem não reparava.
-
-—Anda sempre triste, e assim sem desabafar, bem pelo contrario
-fingindo-se alegre quasi sempre; ha de padecer muito!
-
-—Muito! Mas não tem duvida.
-
-—Diz-se que as maguas contadas são alliviadas; porque me não dá parte das
-suas tristezas?
-
-—Para quê? Com o andar do tempo não lhe faltarão proprias; deixe as
-alheias.
-
-—Cuida que sou alguma creança, tio Joaquim?
-
-—Bem sei que não é, mas...
-
-—Seria a maior prova de amisade que me podesse dar. Ha tanto tempo que
-desejo saber a sua vida!
-
-—Como deseja ouvir as historias aos serões, não é assim?
-
-—Não. Essas servem para passar o tempo, esta outra para o conhecer bem, e
-para o poder consolar.
-
-—Pois seja para me conhecer, que para me consolar não, porque não póde.
-Hoje tambem, parece-me que rebentava, se não repetisse alto o que tem
-sido a minha vida. Quando conversamos comnosco, a voz faz ecco bem fundo
-na cabeça e no coração, repercute mais e soffre dobrado. Se não tivesse
-vindo comsigo parece-me que entrava a fallar só, para ahi a essas pedras
-e a essas aguas. Oiça-me pois, já que tanto deseja saber a minha vida.
-
-E o tio Joaquim deu começo á sua historia.
-
-
-II
-
-Meus paes viviam n’uma das provincias do norte, e se não eram ricos
-tinham com que passar menos mal. Meu irmão Filippe e eu eramos os dois
-unicos filhos, e o que havia chegava bem para nós. Filippe, porque era
-o mais velho, devia ser lavrador como meu pae; eu, por ser o segundo,
-estava destinado para frade.
-
-Admira-se, porque já lá vão os frades; mas se vivesse no tempo dos
-conventos conheceria então, que de ordinario se destinava para ordens
-sacras o filho segundo em quasi todas as familias.
-
-Accrescia mais que o mestre dos noviços do convento proximo, sr. João da
-Soledade, era muito de nossa casa, e depois de ter convencido minha mãe
-de que me fazia feliz mettendo-me a frade, lhe promettera tomar-me sob
-sua protecção.
-
-Pela minha parte, posto que ninguem me consultasse o querer, parecia me
-tambem que viveria contente n’aquelle socego do convento. Via os frades
-gordos, satisfeitos, córados e risonhos sempre. Traziam-me presentes e
-davam-me dôces, faziam-me festas, e contavam-me historias, não me queria
-pois com outra gente.
-
-Em vendo habito approximava-me logo, e minha boa mãe, que a mais não
-alcançava, lia n’esta inclinação pueril uma verdadeira e pronunciada
-vocação.
-
-Assim fui creando-me n’estas idéas, até que chegou a idade de começar a
-aprender. Fr. João convenceu minha mãe, de que para o meu estudo muito
-melhor seria viver no convento do que em casa, pois que ao passo que ia
-seguindo as disciplinas com maior regularidade, ia costumando-me tambem á
-regra conventual.
-
-Frei João era para meus paes apostolo e propheta ao mesmo tempo. O que
-dizia seguia-se com reflexão. Despedi-me, chorei muito e partimos.
-
-Não tinha tamanho desafogo em casa, que extranhasse muito a vida nova que
-encetava. A companhia dos outros noviços, aquelles costumes extranhos
-para mim, aquella novidade de estudos, e mesmo o bom modo, com que Fr.
-João me tratou sempre, conseguiram que dentro em pouco me afizesse de
-todo ao recolhimento claustral.
-
-Não tinha por fóra coisa alguma, que me attraisse, e a affeição de meus
-paes e irmão, unicas de que a porta do convento me separava, não eram de
-ordem tal, que me fizesse lamentar muito o haver-me apartado do mundo.
-
-N’uma das campanhas em que entrei mais tarde ouvi contar o seguinte caso
-a um veterano, que tinha ido na legião lusitana com os francezes fazer a
-guerra da Russia.
-
-Nas noites frias e claras do norte em que a luz de umas auroras
-particulares ás terras d’aquelle paiz resplandece nos gelos, começava a
-cair neve, e os pobres soldados a cairem com ella inteiriçados e hirtos.
-Alguns cobravam forças, erguiam-se e continuavam. Outros caiam, não
-tinham forças para se mecher e ficavam por uma vez.
-
-Ao tal veterano, se lhe não accodem ainda a tempo ia succedendo este
-mesmo facto.
-
-Dizia elle, que percebia bem que ia morrer, que cada vez se enregellava
-mais, e que dentro em pouco, tinha d’isso a certeza, estaria de todo
-gellado.
-
-Sentia porém um que quer que era agradavel n’aquelle approximar da morte,
-queria evital-a mas não tinha forças, e ia sentindo sumir-se-lhe a vida
-com aquelle prazer com que nos deixamos esvaecer após a embriaguez.
-
-A solidão, tive tempo para o observar, parece-se com os gelos do norte.
-Entristece-nos, mas encanta-nos com a sua tristeza, sentimos que lhe
-devemos fugir, e conservamo-nos entretanto, parece-nos que nos esmorece a
-alma e o sentimento, mas é tão dôce esse esmorecer, como a morte após um
-desmaio, como o adormecer da creança nos braços maternos.
-
-Antes de saber o que era a vida, começava a agradar-me a morte, e sem
-transicção alguma, arrefeciam-me os ardores dos dezoito annos, com os
-frios d’aquellas sepulturas de vivos a que chamavam cellas, claustros e
-conventos.
-
-Estudava, aprendia, e meditava. Meditava sem saber em quê, porquanto o
-mundo, que eu via pelas grades do meu quarto, e o que eu phantasiava pela
-leitura dos livros da bibliotheca, differençava-se tanto do mundo real,
-que mais tarde vim a conhecer, como aquelles sonhos de madrugada, que nos
-accodem quando não dormimos de todo e quando não estamos acordados ainda,
-se distinguem da vida commum e dos acasos de todos os dias.
-
-Passava horas e horas a formar castellos no ar, vagos, indefinidos,
-indeterminaveis, e evocando phantasmas de mundos que eu não conhecia,
-mas que adivinhava. Dentro em pouco de tal fórma me costumei á reflexão
-e ao apartamento, que fugia de todos nas horas que tinha livres, para ir
-sentar-me sósinho a sonhar e a scismar.
-
-Apontavam-me no convento como modelo de bom porte, e diziam os frades aos
-meus companheiros que o amor do estudo e da reflexão me traziam assim
-embevecido.
-
-Não lhe sei dizer, o que me preoccupava, mas não era de certo o amor do
-estudo, nem o desenvolver da vocação monastica, como a vaidade dos frades
-lhes fazia suppôr. Tão entranhado estava em mim o amor da solidão, que
-nas raras vezes, em que ia visitar os meus, pouco me demorava em casa.
-Debalde a sollicitude materna me procurava deter; em vão, meu pae mesmo,
-posto que pouco dado a ternuras, me dizia que era conveniente de quando
-em quando descançar algum tempo; trabalho perdido era o de meu irmão em
-convidar-me para os divertimentos dos outros rapazes; mal saia do meu
-convento, desejava logo recolher, e estava fóra da minha cella, como o
-peixe fóra d’agua. Porque dir-lhe-hei de passagem, a estima de Fr. João
-fizera com que eu residisse n’um quarto junto do seu, e não no dormitorio
-commum com os outros educandos e noviços.
-
-Oxalá tivesse eu ficado por uma vez n’aquella sepultura!
-
-Se não fossem as visitas a minha casa, talvez não tivesse experimentado
-na minha vida o que era amor; mas tambem não teria comprado á custa de
-tormentos indisiveis essas raras e amarguradas horas de sentir apaixonado.
-
-N’estas alturas da sua historia o tio Joaquim limpou o suor que lhe
-corria a fio da testa, curvou-se para a lapasinha proxima, tomou uma
-pouca d’agua nas mãos, bebeu soffregamente; renovou a respiração umas
-poucas de vezes com força; carregou outra vez o cachimbo, accendeu-o e
-passado algum tempo proseguiu na sua narração.
-
-
-III
-
-Estudos que mais me preocupavam tinham feito com que, havia muito, não
-fosse visitar os meus. Devendo em breve tomar ordens de prima tonsura,
-este successo, que fatalmente determinava a minha vida trouxera-me
-entretido, não poucos mezes. Finalmente déra o primeiro passo solemne,
-e por conselho de Fr. João, parti a congratular-me com meus paes, da
-conquista que alcançára: e a viver por algum tempo a vida de familia
-antes que de todo me apartasse do mundo.
-
-Parti; e com a indifferença que de mim se apoderára, desde que me haviam
-destinado para o convento, passei os humbraes d’aquellas portas que então
-já eram minhas, e que não se me poderiam cerrar mais de todo, embora
-quizessem.
-
-Grandes alegrias havia em minha casa. A minha chegada encareceu-as mais
-ainda. Meu irmão estava breve para casar e a sua escolha fôra tanto do
-agrado de meus paes, que os bons velhos não cabendo em si de contentes
-não achavam mimos que lhe parecessem bastantes para com elles cercar a
-esposa futura de seu filho.
-
-Margarida era o que em linguagem commum se chama um bom casamento.
-
-Filha unica devia herdar de seus paes uma fortuna consideravel. Os seus
-haveres juntos aos bens de minha casa formariam a primeira propriedade da
-provincia.
-
-Sorria a opulencia a meus paes e embevecia-os a contemplação de um futuro
-placido e desassombrado de cuidados.
-
-Vi Margarida, e ao vêl-a, ao trocar com ella as primeiras palavras
-conheci, que tinha no peito coração, e que me corria o sangue dos vinte
-annos nas veias tremulas e agitadas.
-
-Margarida aproximava-se tambem dos vinte annos, mas toda a candura
-infantil fulgurava n’aquelle rosto, que não desabrochára ainda. Não
-tornei, por vida minha, a encontrar olhos que mais dissessem ao coração,
-quando mesmo quasi sem querer fallar se volviam serenos entre um denso
-veu de pestanas compridas e encurvadas. Toda a sua formosura estava nos
-olhos, mas esses não cediam em primores a quantos hei visto em mulher
-ou em pinturas. Fazia vontade de chorar olhar para elles, sentia se
-devoção fitando-os muito. Porque não ha como a mulher para nos fallar do
-ceu, de Deus, das coisas sagradas. Se creaturas assim corressem mundo a
-resgatar almas, se para os mais apartados da religião dirigissem um olhar
-d’aquelles dizendo magua, enthusiasmo e amor, e depois d’ahi os volvessem
-ao ceu como rasgar caminho para a alma renitente, não haveria atheu que
-resistisse, nem coração que se não dobrasse.
-
-Vendo Margarida lembrava-me do ceu, lembrando-me do ceu, accudia-me que
-professára votos que me condemnavam a um perpetuo celibato. Um circulo de
-espinhos me apertava a imaginação: e padecia, como nem os condemnados no
-inferno poderiam padecer assim.
-
-Com a candura de creança Margarida reconheceu-me desde logo como seu
-irmão. Não houve segredo que em mim não depositasse, esperança que me
-não dissesse, planos de futuro sobre que me não ouvisse, queixumes de meu
-irmão, que comigo não lastimasse.
-
-Filippe casava porque tinha de casar, estimava Margarida como podia
-estimar uma irmã ou uma parenta, e nada mais. Margarida ao contrario não
-via, não suppunha, que podesse haver homem, que valesse o seu noivo.
-Amava-o com a cegueira, com o arrebatamento, com a loucura de um primeiro
-amor.
-
-Não imagina como padeci com essas confissões arrebatadas, que me
-denunciavam um mundo de felicidades, que nem sequer entrevêra. Não
-imagina que dôr tão funda me ia direita ao coração, quando ella
-animada por aquelle amor que a aquecia e transformava, olhando-me, com
-as suas mãos nas minhas, com o seu halito a confundir-se com o meu,
-transfundia-me a electricidade que irradiava, e descrevia-me o amor que
-lhe chammejava na alma.
-
-Deixava-a como louco e ia, quantas vezes sósinho, de noite, correr por
-aquelles descampados, andar muito sem saber por onde, cançar o corpo para
-descançar o espirito, e para depois, cedendo á fadiga, poder cerrar os
-olhos por algumas horas e tentar um somno mais attribulado mesmo do que
-fôra a propria vigilia.
-
-Envelheci muito n’aquelles dias que duraram até ao casamento de meu
-irmão. Via approximar-se a epocha e não acreditava, não sei que louca
-esperança, não sei que desvario me dizia que tal casamento se não chegava
-a realisar. Parecia-me um sacrilegio, que tanto amor fosse empregado em
-tanta indifferença, parecia-me impossivel que Deus consentisse em tal.
-
-Sacrilegio era o meu amor, sacrilegio duas vezes, por que era de padre e
-porque era por uma irmã.
-
-Pelo modo como o tio Joaquim narrava a sua historia conhecia eu quanto
-elle teria padecido, e bem conforme ao que disséra antes de começar,
-presentia que outros tormentos deveria haver maiores do que as minhas
-duvidas e incertezas sobre o futuro, do que os meus sonhos e aspirações.
-
-Chegou entretanto o dia, proseguiu o velho, e não sem que a estrada
-dolorosa tivesse sido para mim bem cheia de agonias e de provações.
-Margarida não suspeitou nunca quanto eu a amava, nem sob o gelo
-apparente, em que a tanto custo me sepultava, poude perceber os ardentes
-lumes de um amor desvairado. Occasiões houve em que rasgava o peito com
-as unhas até fazer sangue, em que tremia em convulsões para resistir,
-em que me exforçava com sobrehumano impeto para não desatar em suluços;
-outras em que tive de fugir para evitar a sua presença, porque já não
-podia luctar com o impulso que me arrojava para os seus pés a dizer-lhe
-quanto a amava.
-
-E tive de assistir impassivel a todos aquelles pormenores, que me
-fallavam da felicidade futura de ambos, tive de escutar as singellas
-narrações de Margarida sobre todas essas minuciosidades, que me
-retumbavam na cabeça com estridor horrivel, porque em todas ellas
-descortinava, ou pretextos para uma caricia, ou commodos para um
-transporte, ou logar finalmente para aquelles dôces e para mim
-desconhecidos mysterios do thalamo nupcial.
-
-Os primeiros clarões da alvorada no dia do casamento, encontraram-me
-accordado ainda. Na vespera mesmo não acreditava que podesse chegar: via
-raiar a manhã e cuidava estar sonhando. Pois Margarida havia de casar!
-
-Minha familia, sem comprehender nem de leve, porque não recata mais
-cuidadosamente a abelha os seus lavores do que eu escondera de todos
-e de tudo o meu insensato amor, minha familia, digo, só experimentava
-uma pena: não ser eu quem casasse meus irmãos, porque a minha benção,
-cuidavam os credulos paes, havia de forçosamente attrahir felicidades
-sobre os esposos.
-
-Na verdade seria o ultimo sacrificio, depois do qual poderia dizer a
-Christo: tambem sei o que é o Golgotha!
-
-Pareceu-me tudo um pesadello, persuadi-me que acordaria breve de
-tão cruel illusão. Vi, ouvi, fallei, dirigiram-me perguntas, tornei
-respostas, e não soube nem sei ainda o que vi, o que ouvi, o que me
-perguntaram e como respondi. Dizem que pessoas ha que dormindo andam e
-fallam, assim devia ser o estado em que estive todo o dia.
-
-Mal poude fugir á noite, corri, corri, e quando me vi bem longe, desatei
-a chorar como me não lembrava em minha vida de ter chorado assim. Parecia
-que me estallava a alma n’aquelles soluços, mas ao correr das lagrimas um
-grande peso saia de sobre mim. Não sei como, mas chorando sempre achei-me
-de repente deante das janellas do quarto de Filippe. Estavam illuminadas,
-fitei-as com o pavor com que daria de rosto com a entrada do inferno; vi
-passar dois vultos por dentro das vidraças, reconheci-os e com a razão de
-todo perdida atirei comigo a terra, agarrei com ambas as mãos a cabeça, e
-comecei a bater com a testa, como desesperado de encontro ao chão.
-
-Com a força da dôr perdi os sentidos e para alli fiquei banhado em
-sangue, até que os raios do sol, já bem alto, me fizeram tornar em mim.
-Olhei machinalmente para a janella. Estava cerrada ainda; senti nova
-vertigem mas d’essa vez, sem me lembrar que ia banhado em sangue deitei a
-correr, o mais rapido que podia, em direcção do meu convento.
-
-Disse que uma quéda no caminho me fizera o sangue que trazia, e
-facilmente me acreditaram. A verdade, se o dissesse, é que fôra para
-duvidar.
-
-Encerrei-me na minha cella, pretextei uma doença para não sair e pedi ao
-meu bom mestre, que me ouvisse de confissão. Contei-lhe a minha historia,
-tal como se passára n’esses dias e pedi-lhe que me accudisse, pois que
-não sabia de mim. Ouviu-me o santo velho com lagrimas nos olhos, depois:
-
-—«Deus me perdôe se errei, disse-me, e mais ainda se fiz a tua
-infelicidade, Joaquim, chamando-te para o serviço do Senhor. Mas era
-impossivel que assim não fosse. Ha homens condemnados fatalmente pela
-desgraça, e tu és um d’elles. Lê-se no rosto esse infeliz condão,
-adivinhei-t’o eu, que tambem sei o que é padecer.
-
-Para dôres como a tua, para outras bem maiores ainda, se fizeram as
-solidões dos claustros e o gelo d’estes vastos carneiros. Sepulta para
-ahi a tua alma, emquanto não te sepultam o corpo, sob essas lages que
-hoje calcas, e morre já que foste condemnado a não viver. Não julgues
-cruel esta linguagem, é a que te póde fallar um amigo, quasi um pae.—O
-que sômos nós outros, pobres frades, n’este mundo? Fantasmas erradios que
-arrastamos a mortalha em vida, arrebentos solitarios, que medrâmos entre
-pedras. Para nós não ha familia, não ha esposa, não ha filhos, tudo que é
-morre comnosco, nada deixamos n’este mundo, que se lembre de que vivemos.
-
-Mais um numero n’uma pedra, um nome no livro do registro, alguns ossos
-mais n’uma cova. Torna impenetravel o teu tumulo, calafata com o maior
-cuidado qualquer orificio por mais pequeno que seja, que dê para o
-exterior, e já que nada podemos ter com o mundo aparta-te d’elle de todo.
-
-Já que não pódes ser feliz esquece, já que não pódes gosar, não sintas.»
-
-Segui á risca o seu conselho. Graças á sua protecção deixaram me na minha
-cella, mesmo porque, segundo dizia, assim me preparava pelo estudo e pela
-meditação para ordens maiores. Passou um anno. Trabalhei, estudei muito
-e como disse Fr. João da Soledade, se não fui feliz, não senti; não me
-lembrei e não padeci.
-
-
-IV
-
-O reinado de D. Miguel approximava-se da sua terminação, e a tempestade,
-que se formára n’uma pequena ilha no meio do oceano, rebentára já sobre
-todo o paiz.
-
-Armava-se a nação em peso; guerrilhas de um e outro partido percorriam as
-povoações e juntavam aos horrores da guerra civil o assassinato, o roubo,
-o incendio, o forçamento e o sacrilegio.
-
-Bem esmorecido era o ecco, que na minha cella repercutia; mas ainda assim
-por elle avaliava das borrascas, que se desencadeavam fóra. Por quanto
-ainda que procurasse apartar-me das coisas d’este mundo, por tal fórma
-andavam todos preoccupados com os acontecimentos, que se iam succedendo
-uns após outros com rapidez incrivel, que era impossivel deixar de
-perceber, que havia graves casos, a attribularem a humanidade.
-
-Fallaram-me de combates, de mortes, de incendios, de devastações; mas tal
-eu estava, que me era tudo indifferente. Antes, porém, occasiões havia em
-que, confesso-lh’o, desejava que um terremoto subvertesse o mundo para
-que na geral destruição encontrasse vingança correspondente ao que me
-haviam feito padecer.
-
-Acordei das minhas meditações uma noite, ao rebate dos sinos da povoação
-proxima e ao dobrar sinistro e precipitado da campa do nosso convento.
-Ruidos desusados eccoavam por aquellas abobadas, passos de quem fugia,
-vozes de quem pedia soccorro, supplicas, choros, imprecações tudo se
-misturava e confundia.
-
-Estava para me levantar do estudo e para saber a causa de semelhante
-alvoroto; quando a figura magestosa de Fr. João da Soledade me appareceu
-á porta da cella aberta de par em par.
-
-—Ergue-te, Joaquim, disse-me, toma as tuas sandalias e o teu bordão de
-viajante e caminha!
-
-Aquella voz fóra d’horas, aquellas palavras solemnes produziram-me
-effeito não inferior ao que deverá produzir a trombeta final no Valle de
-Josaphat.
-
-—Que quer de mim, meu pae?
-
-—Acabaram-se os dias de paz, chegaram as horas das provações e da lucta.
-Os servos do Senhor são perseguidos de terra em terra como animaes
-ferozes em montaria. Os impios não respeitam nem as abobadas sagradas,
-nem os vasos da eucharistia. Mesmo com a hostia sacrosanta na mão será o
-padre perseguido se assim o encontrarem!
-
-A espada de Malco substitue a palavra de amor. Volta a egreja aos tempos
-da perseguição e do martyrio; segue-nos, Joaquim, as aguas do diluvio
-avançam cada vez mais.
-
-Fr. João estava profundamente impressionado. A paixão politica ateava-lhe
-o zelo religioso, o homem do seculo trazia para junto dos altares as
-suas affeições mundanas, e das crenças fazia evangelhos. Pela minha
-parte, quasi que o não comprehendia. A linguagem emphatica, que
-estava empregando, destoava muito da singelleza em que educára o meu
-espirito reflexivo e concentrado. Fr. João com o olhar chammejante, o
-gesto altivo, o rosto illuminado por um enthusiasmo mais guerreiro do
-que apostolico, lembrava-me um d’aquelles monges prégadores de eras
-affastadas, que a minha imaginação tivesse feito surgir dos livros
-abertos deante de mim, e que de espada na mão direita, e crucifixo na
-esquerda, queriam abrir o caminho da redempção com o ferro destruidor,
-atravez das hostes dos infieis.
-
-—Mas, meu pae, que aconteceu?
-
-—Aconteceu, que os exercitos invasores se approximam talando campos e
-povoações; aconteceu, que na sua marcha amaldiçoada não ha propriedade
-que resista, cabellos brancos que se respeitem, honra de mulher que
-se recate; aconteceu que aos que cedem, espoliam; aos que não cedem,
-assassinam; aconteceu, que fallam em levantar mão sacrilega contra as
-muralhas defesas a profanos d’este venerando templo. Os phariseus em
-motim pedem o sangue dos justos. Deixemos a habitação de paz, d’onde nos
-expulsa a malevolencia dos impios, e vamos, como os apostolos, de terra
-em terra, de monte em monte, de caverna em caverna, onde suas vozes não
-cheguem, onde seu braço não alcance, levantar sobre a pedra tosca e rude
-a cruz do sacrificio, a hostia da redempção. Vem comnosco filho, vem
-percorrer o teu Getsemani.
-
-Entretanto o sino grande continuava a dobrar com som soturno, os
-gritos da povoação disperta em sobresalto, os passos precipitados dos
-frades, que desamparavam, gemendo, as cellas em que haviam vivido por
-tanto tempo, e onde esperavam descançar para sempre, o som ameaçador e
-irregular de um tiroteio ao longe, davam áquella scena um caracter que
-impressionava profundamente. Pela minha parte, parecia-me que um novo
-pesadello me vinha cortar a somnolencia em que demorava havia tanto;
-resistia ao movimento e prostrado de animo e de corpo, preferia que me
-matassem n’aquelles logares a ir tentar nova sorte, n’esse mundo a que
-tinha tão grande horror.
-
-Fr. João, que nos momentos solemnes parecia transformar-se, approximou-se
-de mim, tomou-me por um braço, fez levantar-me contra minha vontade, e
-bradou-me com voz terrivel:
-
-—Serás tão ingrato, que desampares teus irmãos no momento do perigo?
-Aqueceria eu por ventura a serpente no meu seio?—Seria a prova mais
-cruel, porque te quero como filho; mas bem merecido castigo, por ter
-deposto a minha ternura n’essa vil argila. Fica-te para ahi, e fique a
-minha maldição comtigo.
-
-E com tanta força me abalou, que me ia lançando por terra. Firmei-me
-porém, e respondi-lhe:
-
-—Não, meu pae, não sou ingrato. Seguil-o-hei como a sombra segue o corpo,
-como a alma segue o pensamento. Era o aspecto do mundo que me espavoria;
-voltára tão mal ferido do combate, que não seria para extranhar que
-vacillasse agora antes de vestir de novo as armas. Sabe meu pae, que
-me não arreceio nem da morte nem das provações; mas sabe tambem quanto
-me custa ir fitar de novo essa gente, que tão grandes males me causou.
-Eis porque hesitava. Aqui me tem prompto para tudo, e creia que me não
-apartarei do seu lado.
-
-O velho estendeu-me os braços, e com as lagrimas nos olhos:
-
-—Sempre o acreditei assim, meu filho: abracemo-nos, que talvez seja
-esta a ultima vez. Agora a caminho! Vamos reunir-nos a nossos irmãos e
-infundir-lhes a coragem, que nos fallece. Irmão, filho; meu filho, animo.
-
-Como um rebanho de ovelhas, que ao presentir o lobo se reunem em mó, e
-se apertam tanto, como se umas quizessem entrar nas outras; assim os
-frades se apinhavam junto ás portas do convento, espavoridos, tremulos,
-espalhando vistas atterradas para todos os lados, e escutando os
-pavorosos sons d’alarme, que estrugiam os ares.
-
-Fr. João da Soledade assumira na communidade a preponderancia, que
-a intelligencia forte e arrojada exerce sempre n’uma corporação
-naturalmente timida e indecisa. A sua presença serenou por um pouco os
-animos.
-
-Procurando dar á voz uma entoação firme, cuidou o velho em confortar
-os seus companheiros n’aquelle extremo lance, com esperanças de melhor
-futuro; em que elle acreditava menos do que ninguem.
-
-As ultimas palavras porém, foram cobertas pelos clamores de victoria,
-pelos gritos de angustia e pelos tiros de espingarda, cujos sons
-misturados e confundidos pareciam precipitarem-se sobre nós em turbilhões
-e redemoinhos como o vento da tempestade.
-
-Os religiosos estremeceram, e pensaram em fugir cada um por seu lado,
-a voz de Fr. João mais fortalecida e mais segura, tal era o poder da
-vontade n’aquella alma de ferro, alentou-os por momentos; entretanto
-os clarões do incendio tingiam de vermelho o céo e o rasto do fogo
-annunciava a approximação dos guerrilhas.
-
-Em pouco avistaram-se no cimo de um monte proximo os inimigos, deante dos
-quaes fugiam em debandada alguns miliciannos da terra, que por momentos
-tinham pensado em bater-se. Um grito unisono partiu da bocca das creanças
-e das mulheres, ao verem approximar-se aquelles homens sem piedade,
-avidos de sangue e de exterminio; os frades transidos de medo entoaram,
-erguendo os braços aos céos em signal de entranhada angustia, o psalmo
-dos agonisantes.
-
-As primeiras palavras denunciaram aos guerrilheiros a nossa presença;
-ouvimol-os distinctamente clamar:—a elles, aos mandriões dos frades,—e
-apontaram as espingardas.
-
-Ao vêl-os fazer pontaria Fr. João exclamou rapido:
-
-—Por terra, prostemos-nos, irmãos, senão estamos perdidos! Os frades
-obedeceram immediatamente; o susto mesmo deitava-os no chão; os tiros
-partiram; mas as balas silvaram por cima das nossas cabeças, e uma só
-feriu um dos religiosos, que tinha ficado mais distante.
-
-Passada a descarga ergueram-se todos, e como bando de pombas a que atirou
-o caçador, deitaram a fugir em diversas direcções, caindo, erguendo-se,
-de rastos, gritando, gemendo, mas correndo quanto podiam.
-
-Junto ás portas do convento desamparado, só ficavamos, depois da primeira
-descarga dos guerrilheiros, Fr. João da Soledade e eu.
-
-
-V
-
-Entrados apenas na povoação, começaram os guerrilheiros a saquear e a
-devastar tudo. Do logar, em que estavamos, podia-se conhecer de seus
-movimentos pelo vaguear dos archotes, pelo soltar de gritos afflictivos,
-e pelas columnas de fumo, que se ennovellavam aqui e além, sobre os
-telhados das habitações a que lançavam fogo, quando a preza os não
-satisfazia.
-
-A lembrança de Margarida, que não me tinha desamparado nunca,
-confesso-lh’o, nem mesmo quando mais fervorosas supplicas levantava ao
-céo, accudiu-me ao pensamento.
-
-—Meu pae, exclamei, fujamos, antes que caiam sobre o convento e nos
-surprehendam aqui; sigâmos pela estrada, que vae por fóra da povoação,
-e vejamos se podemos, esta noite ainda, chegar a nossa casa, avisaremos
-depois sobre o que temos que fazer.
-
-—Vamos, filho, e o Senhor se compadeça de nós.
-
-Não era o amor á vida que me apartava d’aquelles logares. Por minha
-vontade ficaria sepultado sob as ruinas do convento e fizera da minha
-cella um sepulchro. Mas a essas horas quem sabe o que seria de Margarida!
-Tremia só de o pensar, e o quadro que tinha ante os olhos mais me
-apavorava ainda; porque d’ahi concluia dos horrores, que ella poderia
-ter presenciado, se é que d’elles não tivesse sido victima.
-
-Não imagina nem por sombras o que seja uma guerra civil. Por muito que
-lhe contem, tudo fica muito abaixo da realidade. Aquella porém era guerra
-de exterminio.
-
-Desencadeavam-se odios, que estavam em incubação, havia dezenas de
-annos. Aggrediam-se visinhos, parentes, amigos e irmãos, e aggrediam-se
-tanto mais cruelmente, quanto melhor sabiam, onde haviam de ferir. Não
-poupavam ninguem, não havia recanto que valesse, não havia esconderijo
-que salvasse, não havia nem idade, nem sexo, que pozessem a coberto do
-insulto, da affronta, da violencia, tanto mais crueis quanto partiam dos
-que dois dias antes comiam á mesma mesa, e bebiam no mesmo copo.
-
-Ao romper da manhã estavamos deante da casa de meu pae. Tinham-me
-preparado para terriveis surprezas as scenas, que presenceára pelo
-caminho; o que vi, porém, sobrelevou muito ao que eu esperava.
-
-Tudo em terra, tudo saqueado, tudo roubado, e os cadaveres de meu pobre
-pae e de minha velha mãe a meio da casa, crivados de feridas...
-
-As lagrimas suffocaram o velho narrador, que teve de descançar por
-momentos antes de poder proseguir.
-
-—Descance, tio Joaquim, disse-lhe já quasi arrependido da minha
-indiscreta curiosidade, não continue, custa-lhe tanto... Outra vez me
-contará o resto.
-
-—Não, para quê? Tem de ser. Não é o contar que custa, é lembrar; e raras
-vezes me esqueço. Isto já passa, um momento de descanço e continúo.
-
-Tinham entrado em casa, e dado rigorosa busca para encontrarem os
-thesouros; que, segundo era fama na terra, havia em casa. Desesperados
-por não acharem o que esperavam, voltaram-se contra os dois velhos, que
-por mais que quizessem não os podiam satisfazer; por quanto apenas havia
-começado a guerra tinham escondido n’outra parte o seu dinheiro.
-
-Não lhe acreditaram nos juramentos, e mataram-nos barbaramente para se
-vingarem das suas negativas.
-
-—E Margarida?
-
-—Havia dias que partira para uma fazenda d’ali distante em companhia de
-meu irmão, salvára-se da morte, e da deshonra.
-
-—Pois quê?...
-
-—A tudo se atreviam aquelles homens implacaveis. Não havia barreira que
-se lhe puzesse deante, nem consideração, que os demovesse, pareciam
-furiosos.
-
-Pela convivencia soube o que eram esses desalmados, a quem o amor da
-patria servia de pretexto, e o amor da rapina estimulava unicamente.
-
-—Pois o tio Joaquim?...
-
-—Fui guerrilheiro tambem. A vista dos cadaveres de meus paes operou
-em mim uma revolução pavorosa. Tive sêde de sangue, de destruição, de
-vingança. Enterrei os dois velhos sem derramar uma só lagrima. A febre do
-exterminio requeimava-me por dentro, cravei uma cruz sobre a cova onde
-ficaram, unidos como o haviam sido sempre, e jurei que não descançaria
-emquanto tivesse forças para uma espingarda.
-
-Fr. João, que era perseguido tambem como lobo, porque todos o conheciam,
-juntou-se comigo; reunimos os mais enfurecidos do logar, aggravámos as
-feridas dos que mais haviam padecido, e levantámos uma guerrilha das mais
-afamadas n’aquelles tempos, e bem conhecida pelo nome de—guerrilha do
-frade.—
-
-Luctámos, luctámos com encarniçamento sem egual, e parecia que as forças
-se nos augmentavam com a lucta. Andei n’aquella vida errante perto de um
-mez, sem dormir uma noite somno que aproveitasse, sem ter duas horas de
-descanço, sem ter um momento sequer para pensar no passado, ou no futuro.
-
-Seguiam-se os combates, as embuscadas, as fugas, os ataques, sem
-descontinuarem, sem interrupção alguma. Era preciso homens de ferro para
-aquella vida, e entretanto, de tal fórma o furor nos trazia incendidos,
-que ao cabo do mez parecia que mal haviamos começado.
-
-Um dia ao amanhecer, um dos nossos, que andava por fóra veiu avisar-nos
-de que outra guerrilha se approximava, da qual se contavam proezas
-inauditas.
-
-Esperámol-a e saimos-lhe a caminho, desejosos de nos medir com esses tão
-celebrados inimigos.
-
-Durou quatro horas o fogo, batemo-nos como desesperados de parte a parte,
-até que fugiram em debandada, deixando o campo juncado de cadaveres. Dos
-nossos a perda fôra consideravel tambem, e Fr. João agonisava com uma
-bala nos pulmões. Saia-lhe da bocca sangue e espuma, soluçava que fazia
-horror ouvil-o, e expirou-me nos braços, procurando debalde articular
-algumas palavras.
-
-Corremos a revistar os mortos que os contrarios haviam deixado
-insepultos. Entre os cadaveres reconheci meu irmão!...
-
-
-VI
-
-Estava castigado do que havia feito como guerrilheiro; a minha campanha
-estava concluida. Tinha corrido ás armas para vingar a morte de meus
-paes, e arrojava a espingarda homicida diante do cadaver de meu irmão.
-
-Triste periodo da minha vida, entre duas sepulturas; e sepulturas dos
-meus mais proximos parentes!
-
-A guerra estava a acabar.
-
-Tinha-se assignado a convenção de Evora-Monte, por toda a parte os
-vencidos depunham as armas, e procuravam salvar-se das represalias pela
-fuga, ou pelo homisio.
-
-Caminhei sem saber como, nem por onde, para fugir ao ensanguentado
-espectro de meu irmão, que parecia perseguir-me, trazendo apoz si
-as victimas de quantos haviam perecido aos nossos tiros; os meus
-companheiros tresmalharam-se em diversas direcções. Separámo-nos, como
-nos haviamos reunido, sem pena nem saudades. Apesar de termos vivido
-tanto tempo juntos, quasi que nem nos conheciamos.
-
-Á noite entrei na povoação.
-
-Bati a uma casa, que, semelhante a sentinella perdida, estava mais
-affastada das outras. Abriram-me a porta, soltaram um grito ao vêr-me:
-eu ia dando no chão. Reconheci Margarida.
-
-—E Filippe?
-
-Pareceu-me que assim devera ser a voz do Senhor, quando bradou ao
-primeiro fratricida:
-
-—Cain, que fizeste de teu irmão Abel?
-
-Não tive forças para negar, exclamei-lhe em resposta:
-
-—Morto!
-
-E desatei a soluçar, escondendo o rosto entre as mãos.
-
-Á minha vista parecia ter adivinhado tudo com essa lucidez, que dá o
-sentimento. Eu não podéra resistir á voz da consciencia, que parecia
-accusar-me pela bocca de Margarida.
-
-A desgraçada viuva caiu fulminada. Quando tornou a si tinha enlouquecido.
-
-Aquelle viver de sustos e de inquietações constantes de tal fórma lhe
-haviam excitado o espirito, que um golpe tão profundo assim rapido, quasi
-inesperado, achou-a sem forças para o aguentar. Ao menos deixava de
-padecer.
-
-Durou alguns mezes ainda. E tudo quanto até então eu tinha experimentado,
-poderia dizer se brinco de creanças comparado aos tormentos que aturei
-durante esses mezes.
-
-Não soube nunca onde meus paes tinham escondido os seus bens. Estavamos
-pobres, e Margarida, que se definhava a olhos vistos, reclamava cuidados
-e despezas que me obrigaram a vender quanto possuia, e a trabalhar de
-noite e de dia para acudir á pobre enferma.
-
-Amára Margarida com toda a vehemencia do primeiro e ultimo amor. A
-paixão mais energica do homem, a que o arroja ás maiores emprezas, ou o
-precipita até ás acções mais vis, tinha rebentado em mim com toda a força
-ao vêr aquella santa e boa rapariga.
-
-Aprendera com ella o que era amor, e soffrera tanto mais, quanto via
-que era por outro que ella experimentava sentimento egual ao meu. Agora,
-porém, tinha-a a meu lado sempre; mas como morta ou peor ainda, porque
-horrorisavam e arrefeciam mais aquelles transportes de loucura, do que
-os gelos e o pavor da sepultura. Ouvi-a de noite e de dia chamar por um
-nome que não era o meu, e cada vez que lh’o ouvia, parecia que com elle,
-d’aquella bocca pela qual para que desabrochasse n’algumas palavras de
-amor, eu déra a vida, saía uma accusação, um anathema contra mim.
-
-O nome do meu rival, de quem me não podia vingar porque estava morto,
-esse nome que ouvia a todos os momentos, era o de meu irmão, morto pelos
-meus, talvez por mim; e eu vivia para que Margarida me recordasse a todos
-os momentos: a mesma bala que commettera um fratricidio, enlouquecera a
-unica mulher que havia amado.
-
-Adivinha o resto; nem mesmo eu teria forças para continuar por muito
-tempo.
-
-Margarida morreu. Eu estava só, sem meios, cercado de terriveis
-recordações. Fugi a esse mundo de pavorosos espectros, e vim por ahi
-abaixo procurar no trabalho o esquecimento. Tenho trabalhado; mas não
-poude esquecer ainda!...
-
-
-VII
-
-O tio Joaquim acabára de fallar e parecia ouvil-o ainda. Tinham ficado
-resoando-me as suas palavras, como a pancada do sino depois de tangido,
-e que por muito tempo vae abalando o espaço.
-
-Já de muito anoitecera. Com a noite começára a carregar-se o céo, a
-encapellar-se o mar, a desencadear-se o vento. Rugia a tempestade, quando
-o velho concluiu. O ribombo do trovão abafou-lhe as ultimas palavras. A
-natureza parecera querer accrescentar um côro magestoso áquella eloquente
-manifestação.
-
-Lancei os olhos em roda; levantei-me, dei o braço ao narrador, e
-começámos a descer pela encosta com extrema difficuldade, porque já fazia
-muito escuro.
-
-O tio Joaquim não dava por coisa alguma, deixava conduzir-se como uma
-creança. Não parecia d’este mundo.
-
-Ao voltar para uma azinhaga que no fim da praia cortava para a estrada,
-volvi os olhos para o mar, que cada vez se embravecia mais, e vi á luz de
-um relampago o sitio, onde sentado havia pouco, tinha ouvido a historia
-do velho.
-
-Comparei aquellas duas tempestades: a que ribombava surdamente na alma do
-velho, e a que estalava nos ares levantando em escarceus a agua do mar, e
-varrendo a terra com o furioso soprar do furacão.
-
-Quanto era superior o padecimento do velho!—E entretanto d’ali a poucas
-horas a natureza descançava d’aquella convulsão violenta; mas o tio
-Joaquim continuava a padecer, suspirando pela tardia hora do repouso.
-
-Só a natureza póde descançar porque é immortal; para o homem o descanço
-chega, apenas, quando lhe começa a immortalidade.
-
-Finalmente o tio Joaquim tambem descançou.
-
-
-FIM
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] Na manhã do dia seguinte áquelle, em que este pequeno conto apparecia
-publicado, recebia o auctor uma carta do sr. A. F. de Castilho, em que
-dizia: _amigo, pelos seus retratos de familia receba um bom abraço do
-seu etc., etc._ Estas poucas palavras valeram para a pessoa a quem se
-dirigiam, mais do que largos e empolados juizos criticos. Regista-as
-aqui, não por vaidade, não por desvanecimento; mas só como um testemunho
-da verdadeira estima e profunda gratidão, que tributa ao grande poeta.
-
-[2] S. Lucas—Cap. 6.º—V.º 25 e 26.
-
-[3] S. Matt.º Cap. 6.º V.º 28 30 31 32 33 34.
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Os contos do tio Joaquim, by
-Rodrigo Botelho da Fonseca Paganino
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS CONTOS DO TIO JOAQUIM ***
-
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-Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
-and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
-works. See paragraph 1.E below.
-
-1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
-or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
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- The Project Gutenberg eBook of Os contos do tio Joaquim, by Roderigo Paganino.
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-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Os contos do tio Joaquim, by
-Rodrigo Botelho da Fonseca Paganino
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
-almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
-re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
-with this eBook or online at www.gutenberg.org/license
-
-
-Title: Os contos do tio Joaquim
-
-Author: Rodrigo Botelho da Fonseca Paganino
-
-Release Date: September 27, 2020 [EBook #63317]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS CONTOS DO TIO JOAQUIM ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<p class="titlepage">15.º VOL. DA COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA</p>
-
-<h1>OS CONTOS DO TIO JOAQUIM</h1>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_1"></a>[1]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 420px;">
-<img src="images/frontispiece.jpg" width="420" height="600" alt="" />
-<p class="caption">RODRIGO PAGANINO</p>
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p class="titlepage">COLLECÇAO ANTONIO MARIA PEREIRA</p>
-
-<p class="titlepage">RODRIGO PAGANINO</p>
-
-<p class="titlepage larger">OS CONTOS DO TIO JOAQUIM</p>
-
-<p class="titlepage smaller">3.ª EDIÇAO</p>
-
-<div class="figcenter titlepage" style="width: 150px;">
-<img src="images/amp.jpg" width="150" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="titlepage">LISBOA<br />
-<span class="smaller">PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA<br />
-LIVRARIA EDITORA<br />
-<i>50, 52, Rua Augusta, 52, 54</i></span><br />
-1900</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_2"></a>[2]</span></p>
-
-<p class="titlepage smaller">Typographia da Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA<br />
-<i>11, Beco dos Apostolos, 1.º</i></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_3"></a>[3]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">INDICE</h2>
-
-</div>
-
-<table summary="Indice">
- <tr>
- <td colspan="2">Prefacio da 2.ª edição</td>
- <td class="tdpg"><a href="#PREFACIO">5</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr">I</td>
- <td>—O tio Joaquim</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I">13</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr">II</td>
- <td>—O romance de um sceptico d’aldeia</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II">21</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr">III</td>
- <td>—A proposito da missa do dia</td>
- <td class="tdpg"><a href="#III">37</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr">IV</td>
- <td>—Os domingos de fóra da terra</td>
- <td class="tdpg"><a href="#IV">49</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr">V</td>
- <td>—Os retratos de familia</td>
- <td class="tdpg"><a href="#V">59</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr">VI</td>
- <td>—O fructo prohibido</td>
- <td class="tdpg"><a href="#VI">69</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr">VII</td>
- <td>—A gallinha da minha visinha</td>
- <td class="tdpg"><a href="#VII">95</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr">VIII</td>
- <td>—O guarda do cemiterio</td>
- <td class="tdpg"><a href="#VIII">107</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr">IX</td>
- <td>—Como se ganha uma demanda</td>
- <td class="tdpg"><a href="#IX">133</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr">X</td>
- <td>—O sexto mandamento</td>
- <td class="tdpg"><a href="#X">155</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr">XI</td>
- <td>—O Thomaz dos passarinhos</td>
- <td class="tdpg"><a href="#XI">173</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td class="tdr">XII</td>
- <td>—A historia do narrador</td>
- <td class="tdpg"><a href="#XII">199</a></td>
- </tr>
-</table>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_4"></a>[4]</span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_5"></a>[5]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="PREFACIO"><span class="smcap">PREFACIO DA 2.ª EDIÇÃO</span><br />
-<span class="smaller">Rodrigo Paganino e a critica</span></h2>
-
-</div>
-
-<p>Um livro apparece, ao fugir do anno! Quando o sol está descoberto,
-quando tudo se cala no campo, como se o frio gelasse
-os menores ruidos, quando um somno lethargico se apodera das
-plantas, e as esperanças, a alegria, as flôres desapparecem da
-terra, um mancebo atira aos destinos o seu primeiro livro, atravez
-dos nevoeiros de dezembro!</p>
-
-<p>Depois, como se fosse ainda pouco esta especie de ironia á
-sorte, <i>habent sua fata libelli</i>, declina a gloria de auctor sobre
-um pobre homem a quem conhecera em tempos, e que não tinha
-de litterato senão saber guiar uma junta de bois, conduzir a rabiça
-de um arado, ser grande menino na poda e na empa, e,
-para fazer um pé de lagar ou erguer uma meda de pão, dar conselhos
-apenas comparaveis aos do <i>Archivo Rural</i>!</p>
-
-<p>Tio Joaquim se chamava esse amigo, que, depois de narrar
-muitas historias a Rodrigo Paganino, lhe disse poucos momentos
-antes de morrer:—«Agora acabaram-se os contos. Lembre-se
-de mim quando se lembrar d’elles; é a herança que lhe deixo.»
-Para outro qualquer, este legado teria algum parentesco
-com o de Rebollo pae, que na hora extrema concedia a seu filho
-a certeza de lhe deixar uma boa cabeça; mas Rodrigo Paganino,
-para honrar a memoria do velho, entendeu que devia dos contos
-d’elle fazer um bom livro, e foi o que fez!</p>
-
-<p>Ha qualidades n’esta obra que bastam por si sós para firmar
-a reputação de um escriptor. Um estylo espontaneo, claro,
-sem arrebiques nem pretenções, mas airoso, facil, cheio de côr,
-de propriedade, e, o que mais é, de razão. Conhece-se apenas
-que é um mancebo quem escreve, pelos dotes de imaginação,<span class="pagenum"><a id="Page_6"></a>[6]</span>
-pela graça das divagações, pelo tom breve das phrases; a idéa
-é sempre séria, prudente, exacta. Não se deixa levar de extravagancias
-que tendam a affectar excentricidade; é excentrico
-ás vezes sem se sentir, excentrico com chiste, excentrico com
-feição. Não planeia os effeitos, não prepara a phrase final, não
-hesita ante um adverbio por ser commum; concebe a acção, dispõe-a,
-depois deixa-se ir escrevendo, com uma rapidez, com
-uma veia, com uma facilidade de elaboração, que julga sentir-se
-a penna a conduzil-o, em vez de o sentir a conduzir a penna.
-E isto é o que dá a principal individualidade do livro, é este o
-segredo d’aquella maneira regular e serena, que só procura encantos
-na sua simplicidade. Faz-me lembrar os primeiros livros
-d’Alphonse Karr, em que elle escrevia ao publico como a um
-amigo desconhecido, cheio de familiaridade e de confiança. Rodrigo
-Paganino é d’esta familia de talentos; não procura impôr-se
-ao leitor; simplesmente trata de se identificar com elle.
-O merecimento dos <i>Contos do tio Joaquim</i> não consiste na maior
-ou menor novidade da fabula, nos effeitos de surpreza mais ou
-menos habilmente preparados, mas na pintura dos caracteres e
-dos costumes. Cada um dos seus personagens é desenhado com
-tanta espontaneidade, que fica vivo, real, palpavel, e toma o
-seu logar n’esta grande familia de seres creados pela arte, mais
-verdadeiros do que a verdade, particulares e geraes, individuaes
-e humanos, corpos de carne transfigurados em estatuas. Ha escriptores
-para quem a rapidez de trabalho é uma condição favoravel,
-e com o auctor d’este livro julgo dar-se este caso; se
-elle escrevesse com uma pachorra de academico, faria talvez
-um livro indigerivel. O seu estylo é claro, preciso, e franco; e,
-a exceptuarmos algumas raras passagens em que apparece o
-auctor, cada personagem falla perfeitamente a linguagem do
-seu caracter.</p>
-
-<p>Encontrei-me com o auctor dos <i>Contos do tio Joaquim</i>, ao entrarmos
-na vida; fizemos aulas juntos, e juntos fizemos versos;
-tinhamos quinze annos então:—hoje encontramo-nos de novo,
-cada um de nós, como outr’ora, com o seu livro na mão, mas a
-differença é que do livro que levamos hoje somos nós o auctor!
-Isto é mau, ou, pelo menos, bom não é. Mais valia talvez ser
-estudante ainda. Ao vêr-se no frontespicio de uma obra o nome
-do que a escreveu, qual de vós cogita que foi á força de trabalho,
-de paciencia, de miseria supportada heroicamente, de privações
-e de luctas de toda a especie, que ao fim de alguns annos,
-ao vencer os ataques da critica e as invectivas da inveja,
-teve um homem o direito de escrever o seu nome na primeira
-pagina de um volume, esquecendo-se de que o injuriaram no
-seu talento, na sua vida, no seu coração, e que o seu peito serviu
-de alvo luminoso ás flechas atiradas de noite por uma cambada
-de archeiros invisiveis?!</p>
-
-<p>Para viver tranquillo e feliz, é melhor fechar hermeticamente
-a porta, e não abrir a quem bater, sobretudo se fôr a gloria.
-Apesar da sua mascara de anjo, não passa do esqueleto vestido
-de lantejoulas; namora-se uma pessoa d’ella, para se arrepender
-depois centos de vezes; em todo o caso, hoje que o barco
-vae n’agua, como dizem os maritimos, é continuar a remar! Que<span class="pagenum"><a id="Page_7"></a>[7]</span>
-atraz dos <i>Contos do tio Joaquim</i> venha outra obra, na certeza
-de que, digo-o sem cumprimento ao auctor, o despedir-se o anno
-por este livro é o sufficiente para deixar lembranças na litteratura.</p>
-
-<p class="smaller">Dezembro de 1861.</p>
-
-<p class="right"><span class="smcap">Julio Cesar Machado.</span></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Appareceu um finalmente, um livro, cujo auctor abençoei com
-todas as veras do meu coração. Infeliz! Morreu já.</p>
-
-<p>A meu vêr, desappareceu com elle um dos mais promettedores
-talentos de romancista popular que teem surgido entre nós.
-O auctor era <i>Rodrigo Paganino</i>, o livro <i>Os contos do tio Joaquim</i>.</p>
-
-<p>A imprensa havia recommendado pouco este livro.</p>
-
-<p>Tem d’esses descuidos a imprensa. Li-o por isso sem a menor
-prevenção favoravel. Mas era justamente um livro assim,
-que Reine Garde pedia; é d’este genero de litteratura que o
-povo precisa; é por esta fórma que se resolve a importante
-questão das subsistencias intellectuaes, não menos valiosa do
-que a que occupa as attenções dos economistas.</p>
-
-<p>Pouco tempo antes, discutia-se primazias entre os Lusiadas
-e o poema do sr. Thomaz Ribeiro; tratava-se de tirar a limpo
-qual dos dois seria preferivel como livro para leitura nas aulas
-de instrucção primaria.</p>
-
-<p>Todos se lembram d’essas renhidas controversias. Eu por
-mim nunca pude tomal-as a sério n’aquelle ponto. Achei sempre
-muita graça ao empenho em que via mettidos os criticos.
-Quem se podia convencer sériamente que qualquer d’aquelles
-excellentes livros fosse proprio para as intelligencias infantis
-dos pequenos leitores? Um com o seu sabor classico e epico e
-suas comparações mythologicas, o outro com o seu pronunciadissimo
-caracter de lyrismo e suas imagens romanticas e arrojadas,
-e ambos a suscitarem fundamentadas apprehensões nos
-mestres por um ou outro episodio que, baldados os esforços dos
-criticos, ninguem poderá considerar como demasiado edificantes.</p>
-
-<p>Ora, quando eu li o livro de Paganino, pareceu-me encontrar
-n’elle justamente tudo o que debalde os criticos procuravam
-nos outros. Aquelle sim que era um livro verdadeiramente escripto
-para o povo e para as creanças! livro em que a attenção
-se prende pela verdade, em que o gosto se educa pelo estylo,
-em que o sentimento se cultiva por uma moral sem liga, porque
-é a moral do decalogo e do evangelho; livro escripto segundo
-o programma estabelecido por Lamartine n’aquelle bello
-prefacio da <i>Genoveva</i> e talvez mais fielmente observado ainda
-por o nosso romancista do que por o proprio legislador. Lembra-me
-bem que o li a um rancho de raparigas do campo e
-pude observar como ellas o comprehendiam sem custo. Não havia
-uma palavra que ignorassem, uma maneira de dizer que
-lhes causasse estranheza, as imagens faziam-as sorrir pela exactidão,<span class="pagenum"><a id="Page_8"></a>[8]</span>
-como sorrimos ao vêr o retrato fiel d’uma pessoa conhecida;
-não eram caracteres extravagantes, paixões excepcionaes,
-situações inesperadas e unicas o que assim lhes absorvia
-a attenção; pelo contrario, era por aquelles personagens pensarem,
-sentirem e viverem como ellas, que tanto lhes interessava
-o livro.</p>
-
-<p>Foi uma grande perda a de Rodrigo Paganino! E, vejam,
-aquelle volume, escripto para se lêr no campo, como eu o li,
-junto á fogueira que crepita no lar, sobre a ponte rustica que
-atravessa o ribeiro ou no degrau da ermida que, elevando-se
-no topo do monte, domina a aldeia toda, passou quasi desapercebido
-no mundo das lettras. Não suscitou esse murmurio litterario,
-que acompanha certas obras felizes; murmurio em que
-se reune o louvor á maledicencia, a hyperbole laudatoria á calumnia
-escandalosa, os guindados elogios ás censuras exageradas.
-Foi um livro annunciado apenas, lido por poucos, comprado
-por menos, livro cujo auctor não tem sequer o seu retrato
-gravado na <i>Revista Contemporanea</i> e que por tanto quem quer
-tem o direito de desconhecer. E apezar de tudo isso, aquelle
-livro, como disse não sei quem a respeito de não sei que obra,
-era alguma coisa mais do que um bom livro: era uma boa acção!</p>
-
-<p>Acceitem-se-me estas palavras, não a titulo de critica litteraria,—Deus
-me defenda de pretenções a esse genero—, mas
-como um tributo rendido á memoria de um escriptor infeliz a
-quem sou devedor de algumas horas de incomparavel prazer,
-que a sua leitura me proporcionou.</p>
-
-<p class="smaller">Maio de 1861.</p>
-
-<p class="right"><span class="smcap">Julio Diniz.</span></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Rodrigo Paganino morreu ha pouco menos d’um anno, deixando
-de si, como homem, muita saudade em muitos; e, como escriptor,
-um livro precioso, e não somenos inedito. Morreu, passou,
-desappareceu d’entre amigos, levantou-se aos vinte e oito
-annos, como Gilbert, do banquete da vida, trocou a purpura do
-genio pela mortalha funebre; e a raça enorme dos papagueadores,
-dos chroniqueiros, dos assopradores encartados de reputações
-e de nomes, quando o via passar para a sua cova tartamudeou
-quatro palavras de <i>requiem</i>, como se a terra se tivesse
-defecado d’algum sandeu ou estadista.</p>
-
-<p>Apenas Bulhão Pato n’uma breve noticia cheia d’aquella eloquencia
-que nasce dos mais entranhados affectos, apenas elle
-espargiu sobre a sepultura d’aquelle moço algumas flôres de
-saudade.</p>
-
-<p>Isto é a verdade, verdade amarga é bem certo, porque attesta
-a deslealdade d’esses applausos que por ahi resoam, o immerecido
-d’esses triumphos que por ahi campeam, o nada d’essas
-glorias que por ahi balzonam, o facticio d’essas proeminencias
-que por ahi se decretam.</p>
-
-<p>Em 1861 Rodrigo Paganino publicou os seus <i>Contos do tio
-Joaquim</i>. O que este livro significa, que o digam com a mão na<span class="pagenum"><a id="Page_9"></a>[9]</span>
-consciencia todos esses criticos, florentissimos e profundos, que
-entendem por ahi de litteratura. Para mim, o que elle importa,
-é nada menos do que a implantação, entre nós, da litteratura
-popular. O nosso povo, quer dizer, a porção menos cultivada e
-mais numerosa da sociedade, carece de livros proprios. Rodrigo
-Paganino sentia, comprehendia esta falta; e foi no intuito, senão
-de a remediar completamente, ao menos de a attenuar pela
-sua parte, e de chamar a egual trabalho os obreiros do futuro,
-que elle escreveu o seu livro.</p>
-
-<p>Ouçamol-o: «Entre nós, n’estes ultimos tempos sobre tudo,
-a litteratura tem desprezado um tanto o gosto popular. Não
-acontece, porém, o mesmo em França, em Allemanha, e nos demais
-paizes, em que, segundo nos consta, se cura d’estas coisas
-e se lhes attendem os resultados.»</p>
-
-<p>Mais abaixo continua:</p>
-
-<p>«Os <i>Contos do tio Joaquim</i> pertencem ao genero das obras de
-Emilio Souvestre, e deveriam tomar logar, pela natureza e não
-pelo merito, proximo d’aquella mimosa collecção que elle intitula—<i>Au
-coin du feu</i>.»</p>
-
-<p>Este é que é o valor litterario da obra; este é que é o seu
-alcance philosophico.</p>
-
-<p>Hoje, a primeira condição de quem escreve, é ser essencialmente
-popular. Quando o povo não se eleva, como na Allemanha,
-á comprehensão do bello, é forçoso que o escriptor desça
-até elle, que lhe desenvolva a razão, que lhe eduque o espirito,
-que lhe vibre a sensibilidade.</p>
-
-<p>Acabaram-se os almotacés da critica; o gosto é livre como a
-consciencia.</p>
-
-<p>«Os livros para o povo, diz Lamartine na <i>Genoveva</i>, devem
-ser historias simples e interessantes; inspiradas dos costumes,
-das profissões, das amarguras, dos contentamentos do lar e da
-familia, e escriptas quasi na linguagem do povo; devem ser
-como que o espelho onde elle se veja em toda a sua simplicidade
-e candura; mas que em vez de reflectir as suas abominações e
-torpezas, reflicta com preferencia os seus bons sentimentos,
-os seus trabalhos, as suas dedicações e virtudes, para lhe dar
-o amor de si proprio, e ancia do aperfeiçoamento moral e litterario.»</p>
-
-<p>E acaso não são isto mesmo os <i>Contos do tio Joaquim</i>?</p>
-
-<p>Não se filiam n’esta escola <i>Os retratos de familia</i>, <i>O sexto
-mandamento</i>, <i>O Thomaz dos passarinhos</i>, e <i>O romance de um
-sceptico</i>?</p>
-
-<p>Creio que me não engano; diz-m’o o coração, pelo menos, que
-é quem decide, em regra, do valor d’estas obras, que são todas
-coração e sentimento.</p>
-
-<p>O livro de Paganino prima, incontestavelmente, pela sublime
-simplicidade do estylo, e purissima verdade de affectos. O primeiro
-dote era resultado da espontaneidade, da fecundidade,
-da força viva de imaginação, da caudal impetuosidade das idéas,
-do genio, emfim. O segundo refluia-lhe inteiro do coração,—do
-coração que lhe era manancial perenne de amarguras, depois
-de lhe ter sido ludibrio de desenganos crueis, das illusões dobradas,
-dos sorrisos desleaes e das palavras traiçoeiras, com<span class="pagenum"><a id="Page_10"></a>[10]</span>
-que este mundo costuma pagar liberalmente a sinceridade do
-amor e das affeições mais intimas.</p>
-
-<p>Que Deus perdôe, como elle havia perdoado, a quem pensou
-que esmagar o coração de um homem valia tanto, ou talvez menos
-que espedaçar o mais futil brinco de creança!</p>
-
-<p>Relevem-me o intempestivo da digressão; eu torno ao meu
-logar de critico.</p>
-
-<p>Publicados os <i>Contos do tio Joaquim</i>, Paganino, apesar do
-mal que o definhava a olhos vistos, e que elle, melhor do que
-ninguem, comprehendia, pensou em escrever successivamente
-algumas obras já delineadas. Em Pedrouços começou o romance
-<i>Aos vinte e dois annos</i>, romance a que se prendiam muitas saudades
-e ungido com muitas lagrimas; escreveu <i>Beatriz</i>, pequena
-historia affectuosa e apaixonada; e, afóra isto, um grande numero
-de trabalhos de indoles diversas.</p>
-
-<p>Quando o futuro se lhe abria mais esplendido, quando a lição
-e a experiencia lhe amadureciam as prendas naturaes, quando
-aquelle fecundo talento devia produzir fructos mais sasonados,
-a morte veiu arrancal-o aos carinhos de uma familia estremecida,
-ao affecto de amigos que tanto o bem queriam, e á gloria certa
-que o esperava.</p>
-
-<p>Os seus escriptos inéditos lá jazem na obscuridade, em quanto
-por ahi pompeam radiantes tantos abortos malfadados.</p>
-
-<p>E os governos dos conventiculos, das commissões rendosas,
-das subvenções pingues, das prodigalidades ás mãos cheias, não
-sabem que ao lado d’esse progresso que faz machinas de vapor
-e telegraphos electricos, deve andar sempre, de continuo, emparelhadamente,
-o progresso que derrama a luz, que arrôtea os
-espiritos, que os educa, que os esclarece, que os distrahe, que
-os moralisa, e que vae desenvolver no coração muitos germens
-de grandiosos instinctos. Não sabem que, na vida dos povos,
-seis ou dez kilometros de linha ferrea não influem mais que a
-publicação de um bom livro.</p>
-
-<p>É que elles cuidam, como diz o sr. Castilho, que nada ha sério,
-senão o coadjuvar ou impecer o bulicio governativo.</p>
-
-<p>Isto disse eu por me lembrar que essas paginas de preço,
-escriptas por Paganino com tanto amor e tanto fogo, é provavel
-que, cedo ou tarde, se percam de todo, quando, dadas a
-lume, ganhariam mais um louro para elle, e mais uma gloria
-para a patria.</p>
-
-<p class="smaller">Maio de 1864.</p>
-
-<p class="right"><span class="smcap">E. A. Vidal.</span></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Os <i>Contos do tio Joaquim</i>, livro de alto merecimento litterario,
-devido ao mallogrado homem de lettras, Rodrigo Paganino, que
-uma terrivel e fatal doença—a tysica pulmonar—arrebatou
-do mundo na primavera da vida, appareceram ha mais de vinte
-annos, quer dizer, n’uma epocha afastada, em que ainda ninguem
-fallava de processos realistas para a factura de um romance.</p>
-
-<p>Pois apesar de não ser ainda conhecida n’esse tempo a escola<span class="pagenum"><a id="Page_11"></a>[11]</span>
-realista, os <i>Contos do tio Joaquim</i>, mostram-se já seguidores dos
-seus preceitos pela naturalidade, singeleza e sentimento espontaneo
-das respectivas descripções.</p>
-
-<p>Rodrigo Paganino, antes e depois de concluir em S. José o
-seu curso de medicina, foi um escriptor pujante, floreando na
-imprensa como jornalista notavel e no theatro como dramaturgo
-distincto.</p>
-
-<p>Á pujança do seu talento não correspondia infelizmente o vigor
-do seu organismo; por isso a morte o derrubou a meio da
-carreira da vida, quando elle punha todo o seu empenho e boa
-vontade em terminar para o theatro de D. Maria uma comedia
-em 4 actos.</p>
-
-<p>Infeliz Paganino! e duplamente infeliz, porque não gosaste,
-como homem, o lado risonho da vida, nem podeste, como escriptor,
-deixar apoz ti os fructos amadurecidos do teu brilhantissimo
-engenho.</p>
-
-<p class="smaller">Abril de 1885.</p>
-
-<p class="right"><span class="smcap">Pinheiro Chagas.</span></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<h3>Ultimo adeus a Rodrigo Paganino</h3>
-
-<p class="center">(<i>A. Francisco Montez de Champalimaud</i>)</p>
-
-<p><i>1867 Agosto, 3.</i>—Amigo do coração:—Hontem de manhã fomos
-esperar, no cemiterio dos Prazeres, os restos mortaes do nosso
-querido e desventurado amigo Rodrigo Paganino. Fomos sete,
-apenas, os que nos lembrámos de cumprir a dolorosa missão:
-José Elias Garcia, Manuel Roussado, Ricardo Cordeiro, Carlos
-Barreiros, Eduardo Gomes de Barros, José d’Avellar e eu. Ninguem
-mais! O ceu estava alegre; o sol brilhava com o natural
-esplendor do estio. Parecia uma pungente ironia á tristeza que
-apertava os nossos corações, em presença d’aquella sepultura!
-É porque os jubilos são apanagio do ceu, e as lagrimas a triste
-condição do mundo! A morte, meu amigo, phenomeno naturalissimo,
-trivialissimo, mas que nos espanta sempre, quando vem
-ferir o homem na força da vida, e o arrebata no momento em
-que a sua intelligencia começava a dar luz á humanidade, a
-morte, n’essas circumstancias, parece-nos um impossivel. Olhando
-para a arvore secular que abrigou á sua sombra o viajante,
-que floresceu em centos de primaveras, que produziu abundantissimas
-colheitas de fructo, se a vêmos cair falta de seiva, dizemos:
-«Cumpriste a tua missão; deste-nos sombra; embellezaste-nos
-com as tuas flôres; saciaste-nos com os teus fructos;
-chegou a tua hora; caiste porque eras da terra», e saudamol-a
-com veneração! Mas vendo a arvore robusta, que abre com as
-flôres do seu primeiro abril, flôres que são prenuncio de magnificos
-fructos, fulminada subitamente pelo raio, enfurece-nos
-a protervia do raio! Assim a morte, quando vem cortar o genio
-em flôr, nos produz muitas vezes o desespero! Rodrigo Paganino
-saía apenas da adolescencia, quando caiu no tumulo.
-Era medico e escriptor. Restam d’elle algumas folhas volantes,<span class="pagenum"><a id="Page_12"></a>[12]</span>
-perdidas por aqui e por além, e um livro (os <i>Contos do tio Joaquim</i>),
-livro que ha de viver ao passo que muitas composições
-laureadas pelo capricho de hoje, morrerão ámanhã. Todavia,
-isso que Paganino nos deixou, não são mais do que as primicias
-do muito que tinha para dar aquelle grande talento. Rapida,
-brilhante, e, dolorosissima foi a carreira de seus dias! Ha quatro
-annos, n’uma carta que escrevi para a imprensa, desenhei
-o quadro que apresentava a familia de Rodrigo Paganino, pouco
-antes d’elle expirar. O pae, as duas irmãs, modelos de raras
-virtudes, e a mãe, pedindo em secreto, a Deus, um logar na
-mesma cova do filho. Tres annos a fez esperar a Providencia;
-finalmente concedeu-lhe a appetecida graça. Hontem, se Paganino
-fosse vivo, contava trinta e dois annos. Trinta e dois annos
-que a mãe o déra á luz do mundo; que o beijára entre dôres
-e alegrias, depondo o filho no berço; o filho hontem pagava-lhe
-essa fineza indo repousar ao lado d’ella, no berço do
-eterno descanço, onde para aquelles que padeceram com resignação,
-e que esperaram a morte, arrependidos dos erros mundanos,
-brilha a aurora da bemaventurança! O padre que acompanhou
-do Alto de S. João para os Prazeres os restos mortaes
-do nosso pobre amigo e que celebrou a missa, que nós ouvimos,
-pelo eterno descanço do nosso finado querido, fôra companheiro
-de estudos de Rodrigo Paganino. Terminada a missa,
-conduzimos o feretro para em frente do jazigo de familia onde
-havia de ser soterrado. Perguntou alguem, se queriam que o
-caixão se abrisse. José Avellar, de todos nós o mais intimo de
-Paganino, disse com a expressão tocante e varonil da sua bella
-physionomia: quero eu vêl-o. Mas que viu?! Quatro ossos e
-uma caveira a que se adheria uma pouca de terra! Era quanto
-restava do corpo que abrigara aquelle gentil espirito! O caixão
-foi collocado sobre o caixão da mãe, e nós, na extrema despedida,
-votámos á memoria do amigo quanto lhe podiamos votar:
-um adeus, e uma lagrima! Concluo esta carta, meu querido
-amigo pela verdadeira conclusão da dôr, que são as lagrimas.
-Um aperto de mão; volta quanto antes d’esse ponto do Alemtejo
-onde estás; lembra-te do anno passado!</p>
-
-<p class="center">Teu</p>
-
-<p class="right"><span class="smcap">Bulhão Pato.</span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_13"></a>[13]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header1.jpg" width="500" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="I">I<br />
-<span class="smaller">O tio Joaquim</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-h.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Ha de haver dez annos proximamente, fui
-passar o inverno a uma quinta, pouco distante
-de Lisboa; porque, segundo diziam,
-corria perigo de vida, se não mudasse de
-ares quanto antes.</p>
-
-<p>O campo é sempre bello. Cada edade do anno imprime-lhe
-uma feição, differente embora, mas formosa
-sempre: e o inverno, apezar da sua fria nudez, tem
-attractivos, como os que nos fazem amar muitas estatuas
-antigas, em que a falta de roupas mais realça a
-magestade.</p>
-
-<p>A uma legua apenas, parecia-me estar muito mais
-afastado de Lisboa. As noticias só repercutiam alli com
-ecco bem tardio; o apartamento do sitio, mais augmentado
-ainda pela quadra do anno em que se estava, parecia
-cortar de todo as relações com a capital: e se a
-vida latente que girava n’aquellas plantas entorpecidas
-pelo frio, não se deixasse transparecer de quando em<span class="pagenum"><a id="Page_14"></a>[14]</span>
-quando, suppôr-se-hia, que um largo sarcophago nos
-encerrava: tão silenciosa, tão muda, tão melancolica
-era aquella solidão.</p>
-
-<p>Os dias passavam-se facilmente; mas as horas do
-crepusculo, essas, é que pareciam immensas, insupportaveis.
-Quando a noite, começando a escurecer os
-campos, nos escurecia a alma com elles; quando as
-trevas desciam sobre a terra, e afastando diante de
-si alguma vida, que ainda por alli havia, nos entristeciam
-o coração: quando as oliveiras verdenegras,
-que ao longe limitavam o horisonte avultavam
-com as sombras, estreitando-se, e parecendo encerrar-nos
-n’um circulo sinistro, como deveria ser o das
-bruxas de Macbeth: então partia-se-nos a alma de
-saudades enlevada no viver folgasão e agitado, que
-n’esses momentos costuma offerecer a cidade. Tem-se
-dito, que nada ha mais triste, do que vêr cerrar-se
-o horisonte em mar alto á chegada da noite; mas
-dizem-no talvez os que não experimentaram ainda
-o angustiado negrume, que em similhantes momentos,
-no campo, nos confrange muitas vezes. Parece que tudo
-esmorece, e morre em redor: e n’essa hora, se no
-bater do pulso não encontrassemos provas da nossa
-existencia, chegar-nos-hiamos a convencer mesmo, de
-que a vida se nos esvaecia tambem, como se esvaece
-em tudo, que nos cerca.</p>
-
-<p>Mas, ainda assim, havia compensação para nós na
-chegada da noite. Havia, porque de ante-mão contavamos
-passar essas horas, não muitas, que no campo
-precedem o deitar, n’uma conversa singella, e innocente;
-mas que d’essa singelleza e innocencia tirava os encantos
-que lhe sentiamos.</p>
-
-<p>Á bocca da noite recolhiam os trabalhadores, os
-<i>maltezes</i> como ali lhe chamam, do trabalho e entravam
-para uma d’essas cosinhas do campo, tão nossas, tão
-conhecidas de todos: e que não faltam em quinta alguma
-de certa ordem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_15"></a>[15]</span></p>
-
-<p>Esperava-os um bom lume e uma boa ceia, e sobretudo
-esperava-os, que era o que elles mais queriam,
-as historias do tio Joaquim, e as suas narrações cheias
-de verdade e de moral.</p>
-
-<p>Quem era o tio Joaquim, o que fôra, que papel representava,
-são perguntas, que naturalmente hão de
-vir á bocca dos nossos leitores, se os tivermos, e a que
-não poderemos responder como desejâmos. Tinha apparecido
-depois de uma das nossas guerras civis, e tinha
-pedido trabalho a um dos fazendeiros mais ricos
-do logar. D’onde viera, se alguem lh’o perguntava podia
-contar com a seguinte resposta, que não poucas
-vezes lhe ouvimos repetir: importem-se com a sua vida
-e deixem-me, que nada tenho que lhes contar; baste-lhes
-saber o que sou hoje, e não o que fui; agrada-lhes
-o meu trabalho; estão contentes comigo, que teem
-com o resto. Sempre ouvi dizer, que homem que muito
-se occupa dos outros, é porque se não póde occupar
-de si.</p>
-
-<p>Todos voltavam sabendo talvez menos do que até
-então sabiam; mas curados da sua curiosidade indiscreta.</p>
-
-<p>E depois, o tio Joaquim era velho, tinha sido honrado
-sempre, ninguem como elle sabia guiar uma junta
-de bois, conduzir a rabiça d’um arado, ou fallar do
-tempo, olhando para as estrellas; na poda e na empa
-ninguem se lhe punha ao lado, e quando era necessario
-fazer um pé de lagar, ou erguer uma meda de pão,
-já era sabido que sempre o escutavam e lhe seguiam
-sempre os conselhos. No contar de historias não fallemos.
-O tio Joaquim era um livro aberto, como por ali
-diziam: e dava sota e az ao barbeiro do logar e ao mestre
-de meninos.</p>
-
-<p>Este, contra as leis constitucionaes do paiz, ás quaes,
-aqui para nós, não era muito affeiçoado, accumulava
-ao seu mister de educador da mocidade, além dos empregos
-de escrivão de juiz de paz, escanhoador, tendeiro,<span class="pagenum"><a id="Page_16"></a>[16]</span>
-agiota e outros encargos nem por isso muito
-compativeis, uma maledicencia sem egual. Pois cuidam
-que se atrevia a boquejar do tio Joaquim? Nem por
-sombras. Verdade é tambem, que lhe não fazia elogios,
-mas quando se tratava d’elle mudava logo de conversa,
-fazendo um tregeito desapprovador.</p>
-
-<p>Diziam as velhas d’aquelles sitios, que eu não o sei
-ao certo pois nunca tratei de o averiguar, que o mestre
-Francisco, tal era o nome do professor, tinha tido
-n’outros tempos seus dares e tomares com o tio Joaquim,
-dos quaes tinha saido de cara a uma banda. Entretanto
-o silencio do mestre de meninos não influia
-pouco para a reputação favoravel do nosso bom velho,
-porque se dizia:—é tão boa pessoa, que o mestre
-Francisco não diz mal d’elle.</p>
-
-<p>Pobre tio Joaquim! Assisti-lhe aos ultimos momentos
-e poude fazer idéa do que era a morte do justo.
-Sorria ainda, e já era cadaver. A hora do passamento
-foi para elle tão suave como o desprender da folha
-secca em manhã de outono. Momentos antes de fallecer
-voltou-se para o meu lado, e disse-me affavel e
-bondoso como sempre: <i>agora acabaram-se os contos.
-Lembre-se de mim, quando se lembrar d’elles, é a herança
-que lhe deixo</i>. Levou a mão ao peito, apertou um
-saquinho, que trazia pendente de um cordão, e que
-mostrava conter uma reliquia, voltou os olhos para o
-céo, pareceu procurar o rumo que a alma ia seguir em
-breve cortando o espaço, e expirou.</p>
-
-<p>Foram as primeiras lagrimas, que derramei na minha
-vida; até então não sabia o que era morrer.</p>
-
-<p>Guardei a herança. Bem ou mal administrada ella
-ahi vae em parte, tal como a memoria a conserva;
-mas não como me foi doada.</p>
-
-<p>Havia um cunho tal de ingenuidade n’aquellas narrações,
-uma tal poesia e mimo de imagem, uma fluencia
-de dicção e uma propriedade de termos, que embora
-as procuremos imitar, não o conseguiremos nunca.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_17"></a>[17]</span></p>
-
-<p>E não supponham, entretanto, que fosse buscar a
-figura ou a comparação a coisas de grande altura; ás
-sciencias, ou á historia: que ornamentasse o periodo
-com flores de rethorica, ou que procurasse guindar e
-alambicar a phrase, como tanta gente que por ahi vemos.
-Nada d’isso. Mais prudente e mais feliz, pois não
-commettia barbaridades, o tio Joaquim não saía dos
-limites das intelligencias dos seus ouvintes e ia buscar
-aos campos, ás flores, á agricultura, á mesma casa,
-(quantas vezes!) os <i>similes</i> de que se servia. Tudo era
-comesinho e humilde, sem ser rasteiro, e muitas vezes
-alcançava elle o que não conseguem muitos litteratos
-de polpa depois de terem trabalhado deveras—o sublime
-na simplicidade.</p>
-
-<p>Mas nem só o estylo tornava recommendaveis os seus
-contos: se assim fôra, não ousariamos nunca encetar
-similhante tarefa. A idéa moral, que d’elles se deprehendia
-facilmente, a simplicidade dos episodios, e as
-curtas dimensões, que elle lhes dava, faziam com que
-fossem por mais d’um respeito dignos de publicidade.
-Confiados n’isto mesmo tambem é que começâmos esta
-collecção, de que somos meros reproductores, cabendo
-toda a gloria se a houver, ao tio Joaquim, e o desdoiro
-todo áquelles, que estragando-a talvez, a vêem agora
-dar ao publico.</p>
-
-<p>Entre nós, n’estes ultimos tempos sobretudo, a litteratura
-tem despresado um tanto o gosto popular.</p>
-
-<p>Não acontece, porém, o mesmo em França, em Allemanha
-e nos demais paizes, em que, segundo nos
-consta, se cura d’estas coisas e se lhes attendem os
-resultados. Muitos homens de vulto, intelligencias eminentemente
-superiores, tem-se approximado das turbas,
-e as obras, que se tem publicado com este intuito,
-não são as que menos contribuem para a sua
-gloria.</p>
-
-<p>Dois exemplos bastarão: Lamartine e Emile Souvestre:
-o auctor da Genoveva e Canteiro de Saint-Point,<span class="pagenum"><a id="Page_18"></a>[18]</span>
-e o auctor de <i>Coin du feu</i> e do <i>Philosophe sous les toits</i>.
-Ambos tem vindo por vezes conversar, como amigos e
-parceiros, com as classes rudes; ambos se teem por
-vezes esforçado para lhes fazer comprehender as suas
-idéas, e, tem conseguido verem-as admittidas e bemquistas
-na officina do operario, e na agua furtada do
-infeliz.</p>
-
-<p>Sacrosanta missão da imprensa, como é admiravel e
-veneranda, quando evangelisa as turbas, dando consolação
-ao desgraçado e conforto ao que desanima!
-Como nos sentimos enlevar de respeito perante essa
-instituição maravilhosa, quando vemos os seus fructos
-sem vicio e sem defeito, alimentarem o que pede o
-pão do espirito, e darem refrigerio ao peregrino resequido
-d’este grande Saharah em que vivemos! É então,
-e não quando a vemos maculada pelas viltas e polemicas
-indecorosas, que devemos bemdizer os seus inventores,
-e pagar o devido tributo ao genio que similhante
-dadiva nos legou.</p>
-
-<p>Mas não é esta a melhor occasião para similhantes
-dissertações; perdoem-nos o divagar intempestivo, e,
-se nol-o permittem, iremos ligar o nosso interrompido
-assumpto, no ponto em que o deixámos, ha pouco.</p>
-
-<p>Os contos do tio Joaquim pertencem ao genero das
-obras de Emile Souvestre e deveriam tomar logar, pela
-natureza e não pelo merito, proximo d’aquella mimosa
-collecção que elle intitula—<i>Au Coin du feu</i>. Dir-se-hia
-mesmo, que inspirado por este bello livro, se não
-commettia um plagiato, resentia-se muito da leitura
-do auctor francez; porém o tio Joaquim nunca soube
-ler e por isso nem de longe poude cahir em tão feio
-peccado.</p>
-
-<p>Não é a primeira vez que a ignorancia se apresenta
-como pretexto para a originalidade de muito escriptor
-publico. Não é para admirar, que este nosso que se
-estrêa, comece no mesmo ponto, d’onde muitos, que
-já são veteranos, não teem podido passar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_19"></a>[19]</span></p>
-
-<p>As historias que lhe ouvimos são em grande numero.
-Não apresentaremos n’este livro senão as que mais
-notaveis nos pareceram e que mais profunda impressão
-nos deixaram, procurando, quanto nos fôr possivel,
-aproximar-nos d’aquella engraçada ingenuidade, que
-tanto nos encantava, quando lhe ouvimos a palavra facil
-e singela.</p>
-
-<p>Não conseguiremos de certo imprimir-lhes aquelle
-cunho de originalidade, que o narrador lhes dava.
-Oxalá que possamos ao menos, fazer com que os nossos
-leitores passem algumas horas entretidas n’esta leitura:
-e que, esquecendo-se embora da pessoa que lh’as
-apresenta, não se esqueçam de todo do velho tio Joaquim.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_20"></a>[20]</span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_21"></a>[21]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header2.jpg" width="500" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="II">II<br />
-<span class="smaller">O romance d’um sceptico d’aldeia</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">De tantos contos, que ouvi ao tio Joaquim,
-foi o seguinte, que maior impressão me
-produziu.</p>
-
-<p>Tinha morrido nos sitios um fazendeiro,
-que não gosava de boa fama, e ao lembrarem-se
-d’elle começaram os homens do trabalho a cortar-lhe
-um pouco na pelle.</p>
-
-<p>O tio Joaquim desde que se fallára no finado, fôra
-gradualmente entristecendo; e pela primeira vez na sua
-vida caiu-lhe a colher da mão, quando ia começar a comer.</p>
-
-<p>Os maltezes, que estimavam devéras o velho narrador
-começaram a preoccupar-se com similhante tristeza,
-e, antes de acabar a ceia, já estavam todos em roda
-d’elle, a perguntar-lhe o que tinha.</p>
-
-<p>—A morte do Manuel Simões fez lembrar um caso,
-a que assisti, ha tempos, quem sabe se o Manuel padeceria
-tanto como o outro, que eu vi morrer.</p>
-
-<p>—Conta-nos isso, tio Joaquim?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_22"></a>[22]</span></p>
-
-<p>—Contarei, apesar de não me sentir muito para contos.
-Entretanto servir-lhes-ha de lição para deixarem
-em paz, quem já deu contas de si.</p>
-
-<p>Callaram-se todos e o narrador começou por estas
-palavras:</p>
-
-<p>Ha de haver dez annos a esta parte, que succedeu o
-caso, que lhes vou contar. Defronte da egreja estava
-n’esse tempo uma loja de barbeiro, afreguezada como
-poucas, e concorrida por toda a gente dos arredores.
-Era o pasmatorio do logar e o covil da maledicencia:
-o mestre Ignacio sabia do seu officio como poucos, e
-cortava nas vidas alheias, como nos cabellos e barbas
-dos freguezes.</p>
-
-<p>Tambem a loja estava sempre cheia: uns que lhe
-acudiam á obra, acceiada na verdade; outros, que para
-ali iam dar á taramella e saber o que se passava pelos
-sitios.</p>
-
-<p>Nem uns nem outros deixavam de ser servidos: os
-primeiros saiam com a pelle, que nem um setim; os
-outros levavam medida rasa de novidades e não poucas
-vezes acogulada de mentiras.</p>
-
-<p>De todos os que por ali iam, um freguez havia a
-quem o mestre não gostava muito de vêr na loja. Ninguem
-o diria, porém, ao vêr as barretadas do velho
-Ignacio e as mesurinhas com que o acatava. Havia de
-ter que vêr, que o não fizesse! Se era o sr. padre
-prior, o padre mais santo, que tenho conhecido e a melhor
-alma que Deus tem deitado a este mundo de
-Christo.</p>
-
-<p>E sabem porque o mestre não engraçava com o padre
-prior, e até mesmo ardia por vêl-o pelas costas?
-Era porque, o unico talvez dos freguezes todos, não
-fazia a sua perna á má lingua, nem deixava deitar-lhe
-muito os braços de fóra, quando estava presente.</p>
-
-<p>—Cala-te lá, homem, lhe dizia muitas vezes, sabes
-por ventura quantos annos de trabalho leva uma reputação
-a crear, quantos cuidados e lidas custa o ser honrado,<span class="pagenum"><a id="Page_23"></a>[23]</span>
-para assim deitares essa obra toda por terra sem
-tir-te nem guar-te? Se fosses fazendeiro e se gastasses
-cabedal e vida a fazer a tua propriedade e a amanhar
-as terras; se todos os dias regando-as com o suor
-do teu rosto, e ageitando-as com o teu trabalho, conseguisses
-crear as arvores de um pomarsito, por bem
-pequeno que fosse, gostavas, que um alma damnada
-te deitasse fogo á casa; ou que te succedesse dar o
-mal nas searas e o peco no pomar? Pois olha, pomar,
-casa, e terras são coisas todas, que, uma vez perdidas,
-se podem tornar a ganhar; mas o credito e a fama,
-esses é que não.</p>
-
-<p>O mestre barbeiro, que se temia do bom pobre ficava
-sem saber da sua freguezia, e este então, que não
-era de reserva, nem homem, que gostasse de pôr as
-uvas em pisa a outro por muito tempo, tornava-lhe
-logo mudando de modo de fallar.—Ora vamos, sô mestre,
-não desmanche creditos dos outros, pois que não
-póde vêr entrar o mal por sua casa; que a fama de
-má lingua ninguem lh’a dá nem lh’a tira, e em quanto
-a obra, ninguem lh’a desfaz, por que não a tem feita.</p>
-
-<p>Era n’um domingo de manhã e a loja do mestre Ignacio
-estava a deitar por fóra. O dono da casa tinha acabado
-de talhar umas poucas de carapuças e encaixava-as
-nas cabeças para que as talhára, quando entrou
-o padre prior. Calou-se logo o velho e deu um ponto
-na bocca; porém o padre, que lhe sabia da balda, e
-que desconfiou da alhada, começou a fazer-lhe a cama,
-quasi do feitio que acabei de lhes contar, e por modos
-taes, que deixou o pobre do homem em lençoes de
-vinho.</p>
-
-<p>Os que por ali estavam, que não eram muito affectos
-ao dono da casa, e que por vezes tinham apanhado
-tambem a sua maquia, começaram a rir, e aos ditos,
-mais ajudando ainda para o deixar em tallas.</p>
-
-<p>Elle já dizia mal á sua vida: para mostrar que não
-ia muito do vivo ao pintado, já tinha assente um formidavel<span class="pagenum"><a id="Page_24"></a>[24]</span>
-lanho na cara d’um pobre trabalhador, que lhe
-caira nas unhas, e promettia continuar quando um
-novo freguez, que entrou na loja o veiu tirar do aperto
-em que se via, pondo ao mesmo tempo uma rolha na
-bocca de todos.</p>
-
-<p>Nem mais um abriu bico. Parecia uma mó de creanças,
-que estando a fazer grande algaraviada em casa de
-escola, vêem chegar o mestre armado de palmatoria e
-com modos de dar a torto e a direito. Ficam logo calladinhos,
-que nem ratos; mas ainda bem o mestre não
-tem dado costas, tornam á mesma, ou ainda a peior,
-fazendo uma ingresia infernal.</p>
-
-<p>Assim foram os nossos amigos. Alguns d’elles até
-pareceram que viam lobo, e tanto se lhes puzeram os
-cabellos em pé, que o mestre teve de dar mais vezes
-novo fio ás navalhas, porque já não queriam cortar nem
-por um Christo: elle mesmo, apesar de pouco medroso,
-sentiu seus calafrios, quando deu de rosto com o
-recem-chegado.</p>
-
-<p>Este não era nenhuma cara de metter medo, mas tambem
-não mostrava ser de muitos amigos. Entre os
-trinta e os trinta e cinco, os cabellos já se lhe começavam
-a encher de brancas, e a cara de rugas. Parecia
-triste; e sem dar nem uma palavra esteve na loja
-até que lhe chegou a sua vez, barbeou-se e saiu, cumprimentando
-todos á saída como o tinha feito á entrada.</p>
-
-<p>Levou comsigo a callada. Apenas voltou para a azinhaga
-mais proxima começaram todos a desenferrujar
-a lingua, como se tivessem medo de que lhes ficasse
-lesa com o tempo, que estivera sem bulir. E como de
-razão, foi o mestre Ignacio, quem atirou primeiro a
-sua bola.</p>
-
-<p>—Excommungado d’uma figa! Cruzes demonio, e
-embirrou com a minha loja o maldito.</p>
-
-<p>—Parece que anda em peccado mortal!</p>
-
-<p>—Podera não, se elle desde que veio para estes sitios
-não foi ainda á missa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span></p>
-
-<p>—E que olhos que deita para a gente? Pae do céo!
-É capaz de nos dar quebranto!</p>
-
-<p>—Sim, que o não deu outro dia a uma jumenta da
-Felicia, que desde que elle a viu não teve uma hora
-de saude.</p>
-
-<p>—Quem a Felicia?</p>
-
-<p>—Não a jumenta; se elle é lobishomem!</p>
-
-<p>—Callem-se lá, leva de má lingua, parece-me que já
-é de mais; estarão vocês tão limpos de consciencia, para
-assim poderem entrar pela terra alheia, como se fosse
-roupa de francezes?</p>
-
-<p>Era a voz do bom prior. Apenas tinha começado a
-ladainha, procurára logo pôr-lhe cobro, mas foi trabalho
-de malhar em ferro frio. Era um dize tu, direi eu,
-que promettia não ter fim. Todos queriam molhar a
-sua sopa; porém quando um carreiro velho, que era
-pessoa acreditada na loja, affiançou que o tal estrangeiro
-tinha embruxado a burra da tia Felicia e que era
-lobishomem, ficaram todos passados em pontos de admiração
-por um instante, e n’essa occasião mesmo, é
-que o prior poude socegar aquella algaravia.</p>
-
-<p>Ninguem se atreveu a retrucar. Todos tinham os seus
-podresitos mais ou menos, que o parocho sabia; e por
-isso todos metteram a viola no sacco, quando lhes foi
-com as mãos á cara, fallando lhes nas suas culpas. Porém
-o mestre Ignacio, que não era homem de se atrapalhar
-com qualquer coisa, quiz vêr se fazia frente
-ainda, e se podia continuar amolando o caso.</p>
-
-<p>—Mas perdôe a sua palavra honrada, sua reverendissima
-bem sabe que desde que veio para aqui este
-homem ainda nem appareceu na egreja, nem em logar
-de reza, ou em festas da freguezia.</p>
-
-<p>—O que tem o mestre com isso? Todos fallam, fallam
-sem saberem o que dizem, o caso é dar á lingua.
-Esse homem não é nenhum hereje, eu sei quem é. Se
-não vae á egreja, talvez que a egreja vá ter com elle.
-O mestre bem sabe que não é esta a primeira pessoa<span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span>
-de quem se duvida; outros havia que nem por muito
-irem á egreja, passavam por christãos de lei.</p>
-
-<p>O padre tinha dado no vinte. O barbeiro ficou sem
-tugir nem mugir, porque se lembrava da fama de judeu
-que por aquelles sitios tivera, e que lhe ia acarretando
-mais de uma carga de pau; os outros, que
-viram as barbas do visinho a arder, foram deitando as
-suas de molho, esgueirando-se á formiga, apenas acabaram
-de fazer a barba.</p>
-
-<p>O remedio do parocho não produziu effeito; por que,
-dias depois, já tornavam á mesma: agora se tinham razão
-julguem-n’o lá pela historia do tal homem, que
-mais tarde vim a saber.</p>
-
-<p>O freguez com que tanto se estomagára o mestre
-Ignacio, tinha vindo para aquelles logares havia dez
-annos pelos tempos das vindimas. Alugára uma casita
-pequena, que fica mesmo defronte da egreja, onde está
-agora o Manoel Ferrador, e que tem vae por meia duzia
-de geiras de pertenças: para ali se mettera com
-mulher e filhita que trazia comsigo.</p>
-
-<p>Parecia gente morta, não saiam nunca, salvo a mulher,
-que de manhã cedo ia aos seus arranjos: e não
-procuravam dar-se com pessoa alguma da visinhança.
-E lá n’isso faziam bem, que a maior parte das vezes
-estas velhas onzeneiras e visinhas palradoras vão ás
-casas dos outros para darem fé do que lá se passa, e
-para depois á porta da rua, á tarde ou pela manhã,
-cortarem pelas vidas alheias como ferro de arado por
-terra mechida de fresco.</p>
-
-<p>O que é verdade porém, é que este seu systema,
-não lhe tinha creado amigos, nem levantado uma reputação
-de encher as medidas. Todos murmuravam d’aquelle
-modo de viver, e estavam de alcatêa sempre para
-vêr se achavam fio á meada.</p>
-
-<p>Tinham reparado por vezes que a pobre mulher,
-que parecia boa pessoa, saía quasi sempre com os
-olhos inchados e como quem acabava de chorar; mas<span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span>
-por mais que se pozessem á escuta não tinham topado
-nunca signaes de ralhos ou resingas: antes se poderia
-dizer, se o dono da casa não tivesse tão má fama, que
-viviam como Deus com os anjos.</p>
-
-<p>Uma noite, alta noite, já tinham cantado os gallos,
-morava eu então ao pé da freguezia, ouvi tocar a Nosso
-Pae fóra, levantei-me e fui acompanhar o viatico.
-Era para casa do mesmo homem, que tinha visto, pela
-primeira vez, na loja do mestre Ignacio, e que estava
-para dar a alma a Deus.</p>
-
-<p>Como o caso não era para se estar com pannos mornos,
-o parocho tratou de começar a confissão, e nós
-quizemos sair do quarto, para deixar o doente mais
-á sua vontade, como é costume. Elle porém não o
-consentiu, e, fazendo-nos signal para ficar, disse-nos
-com modos que me não passaram ainda:</p>
-
-<p>—Grandes foram os meus peccados, se esta historia
-lhes poder aproveitar, que a oiçam todos; porque
-só assim servirei a alguem.</p>
-
-<p>Não havia que dizer, e de mais a mais o demo da
-curiosidade apertava comnosco. Ficámos, e na verdade
-disse coisas para se ouvirem.</p>
-
-<p>O quarto estava allumiado por uma lamparina a tremelicar
-e a dizer adeus. A luz, que espalhava pela
-casa tinha um tanto de soturna e de aterradora. Á cabeceira
-estava o padre, a alvejarem-lhe as roupas e
-cercado por um não sei que, mais do céo do que da
-terra; a seu lado, o moribundo, estendido na cama, e
-estorcendo-se na agonia.</p>
-
-<p>Têem visto lá para o Minho, ao pé dos castanheiros,
-uma videira que levou um córte na cepa, e que em
-vez de enleiada aos troncos da arvore, se lhe roja pelo
-chão, quasi a morrer, como uma cobra, que leva com
-uma pedra na cabeça? Pois assim me parecia aquella
-vista, bem triste que ella era!</p>
-
-<p>Mas o que me cortou o coração foi vêr a triste senhora
-lavada em lagrimas aos pés da cama, de joelhos,<span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span>
-abraçada a uma creança que teria quando muito tres
-annos, e que, adivinhando o que ali se passava, tambem
-carpia, gritando quasi sem parar:</p>
-
-<p>—Não quero que o pae morra, não quero que o
-pae vá para o céo!</p>
-
-<p>Era uma dôr d’alma, e tanto me impressionou aquelle
-espectaculo, que, palavra a palavra, me lembra do
-que ouvi n’aquella casa.</p>
-
-<p>—Meu padre, dizia o moribundo com voz sumida,
-conheço que a minha hora chegou, e preciso partir
-para essa jornada tremenda, limpo de culpas e cheio
-de arrependimento. Grande me vae esta empreza, mas
-com o perdão de Deus e vosso auxilio, espero leval-a
-ao cabo.</p>
-
-<p>—Descance: a misericordia do Senhor é infinita, e
-se os meus soccorros lhe poderem servir, aqui estou
-d’alma e coração, como é meu dever, para lh’os ministrar.</p>
-
-<p>—Ouça-me pois, meu padre, e na historia da minha
-vida veja a razão da minha desgraça.</p>
-
-<p>—Para todo o peccado ha remedio na egreja; falle,
-e não se arreceie.</p>
-
-<p>O moribundo começou assim:</p>
-
-<p>—De ruim semente fraco fructo poderia sair, e meu
-pae, Deus lhe falle n’alma, andou n’este mundo, mais
-cuidando da vida em que vivia, do que da outra em
-que devia durar eternamente.</p>
-
-<p>No seu tempo, d’involta com os livros bons, havia
-misturadas, como o joio com o trigo, essas más obras
-vindas de França, e algumas mesmo d’aqui, que prégavam
-a falta de religião e o despreso pela Divindade.</p>
-
-<p>Pelo menos elle assim o acreditava, e esse effeito
-lhe tinham produzido. Mais tarde vim a saber que valiam
-muito, mas que não era para gente rude, que não
-as percebia, que só lhes apanhava o mau, mais facil
-de colher, deixando de parte o bom, que andava mais
-escondido.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span></p>
-
-<p>O mesmo acontece ao podador novato, que deita fóra
-a vara do vinho, deixando em vez d’ella as outras que
-devia cortar.</p>
-
-<p>Mas lá diz o rifão: quem não sabe é como quem
-não vê; e meu pae, andava tanto ás escuras, que fugia
-da luz da graça, como lobo do povoado.</p>
-
-<p>Assim me creei, e assim vivi tambem até agora, e
-Deus sabe quantos desgostos me tem custado esta minha
-triste cegueira!</p>
-
-<p>Pobre de mim! Não me lembrava de que o homem
-anda cá n’este mundo como o arado em terra de semeadura.
-Se o lavrador não tem mão na rabiça ou se
-descuida do trabalho, eil-o ahi vae corrido com os bois,
-como o homem com as paixões por terras e ribanceiras,
-enterrando-se aqui a mais não poder andar, resvalando
-além a não deixar rego.</p>
-
-<p>Assim me ensinára meu pae, com magua bastante
-de minha mãe, que se finava e padecia; e assim ía
-creando meus filhos, se o lavrador sagrado, que lá de
-cima nos vê, me não encaminhasse, lançando mão do
-arado, que ameaçava partir-se de encontro aos barrancos
-d’este mundo.</p>
-
-<p>Ainda em creança, os rapazes do sitio fugiam, quando
-procurava brincar com elles. Chamavam-me o <i>diabo
-pequeno</i>, e temiam-se de mim como do fogo. Eu em
-paga escarnecia-os por irem á egreja, ou dava-lhes
-pancada de cego quando fugiam de brincar comigo.</p>
-
-<p>Todavia soffria immenso por me vêr sósinho.</p>
-
-<p>Os entretenimentos de creança, que tanto agradam
-nas primeiras edades, não eram para mim, que vivia
-como o espargo no monte, á ventura e ao desamparo.</p>
-
-<p>É voz do povo: só se veja quem só se deseja, e rifão
-bem verdadeiro. Tambem o é que a solidão nos dá
-maus conselhos e causa os maus pensamentos.</p>
-
-<p>A planta lançada á terra sem cultura e sem cuidados,
-vegetando em mau torrão, crestada das geadas e
-dos soes, e sacudida dos ventos; se cria vigor e robustez,<span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span>
-tambem ganha espinhos para os troncos e amargo
-para os fructos.</p>
-
-<p>Entregue só a mim, conhecia que o coração se empedernia
-e apertava, ficando de rija tempera, sem se
-dobrar á compaixão nem ao amor do proximo. Se eu
-era assim, a culpa não era minha de todo; mas o castigo,
-esse aguentei-o em cheio.</p>
-
-<p>Muito em creança me faltou minha mãe. E a triste
-consolação de a acompanhar á sepultura, de rezar por
-ella na egreja, de lhe derramar lagrimas e agua benta
-sobre a cova, foram coisas que a minha má sina me
-prohibiu.</p>
-
-<p>Entrar na egreja, eu, e provar fraquezas dobrando-me
-a pedir ao Senhor! Não o podia, era de vil, e não
-de um espirito forte e desamparado de credulidades
-de velhas. Ir sobre uma pouca de terra, onde alguns
-ossos ficavam e a carne se apodrecia, recitar orações,
-em que não acreditava, era loucura que não devia praticar!</p>
-
-<p>E assim, padre, com a morte de minha mãe perdia
-eu muito mais do que outros a quem semelhante desgraça
-succede. Esses ao menos esperam tornar a vêl-a
-na outra vida, e a morte sómente lhes é como separação
-de pouco tempo.</p>
-
-<p>Para mim era o apartamento eterno. Aquella cova
-roubava-me minha mãe para sempre. Nada ali me podia
-fallar e a terra ficava muda, como os céus já de ha
-muito o eram para mim.</p>
-
-<p>O que senti então, Deus o sabe, que eu nem o posso
-dizer nem mesmo sei o que foi. Era como a planta enfezada,
-que se lhe vê partir o extremo esteio, sem encontrar
-mão amiga que a ampare, e que desde então
-receia a menor aragem que a faça encurvar, ou o menor
-encontro que a derrube.</p>
-
-<p>Cresci, cresci, e a descrença continuou a crescer em
-mim. Semelhava-se aos animaes na dureza; a muitos
-na ferocidade, a todos no embrutecimento.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span></p>
-
-<p>Por estes tempos ainda se me apresentou occasião
-de emenda; mas regato que de principio erra o caminho,
-não é quando se lhe engrossa a corrente com as
-cheias que póde tornar ao leito; nem planta que de
-pequena vae torcida, póde, quando cria maior tronco,
-ganhar a direitura que perdeu.</p>
-
-<p>Uma mulher d’aquelles sitios, que vivia recatada em
-companhia de sua mãe e resguardada por ella, como
-o fructo pelas folhas, reparou em mim uma vez e tomou-se
-de amores por quem não a merecia.</p>
-
-<p>Estas coisas não se explicam. Porque ha de a violeta
-dar-se e florescer escondida, quando outras flôres
-por ahi, que menos merecem ser vistas, não se querem
-senão nos jardins a bom recato e bem cuidadas?</p>
-
-<p>Porque ha de aquelle pedaço de ferro dos relogios
-de sol aqui do campo voltar-se sempre para o mesmo
-lado; ou porque ha de a flôr das boas noites abrir-se
-ao pôr do sol e cerrar-se quando elle nasce?</p>
-
-<p>Porque ha de a mulher perder-se de amores pelo
-homem que vê pela primeira vez, e que muitas vezes
-a esquece depois?</p>
-
-<p>São mysterios da natureza, que ninguem póde devassar,
-mas que nem por isso deixam de existir.</p>
-
-<p>Joanna, é o nome d’essa infeliz que ahi me chora
-aos pés da cama, amou sem que lh’o merecesse, e o
-seu amor, em vez de me abrir os olhos, mais m’os cerrou
-ainda.</p>
-
-<p>Comecei a querer-lhe tambem. Como foi não o sei:
-mas desde esse momento todas as tardes nos procuravamos,
-e todas as tardes repetiamos juras de um
-amor eterno.</p>
-
-<p>Começaram a estreitar-se as nossas relações como
-duas plantas que uma á outra ligadas mais se apertam
-com o crescer. Já na aldêa se murmurava, e já se espalhavam
-rumores contra a pobre Joanna, que se amofinava
-e entristecia.</p>
-
-<p>Um modo facil de remediarmos tudo era o casamento;<span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span>
-porém eu que não acreditava na santidade d’aquella
-ligação, não queria, nem por sombras, cair em semelhante
-fraqueza.</p>
-
-<p>Ella acreditava em mim como n’um livro aberto.
-Convenci-a da loucura de seus desejos, e da fé que me
-prestava, nasceu a descrença na fé em que se creara.
-A minha maldade crestou a innocencia d’aquella virgem,
-como o mau vento cresta a relva: e a apaixonada donzella
-conheceu que era mulher, e envergonhou-se de
-o ser.</p>
-
-<p>Como a flôr que perde as folhas e as bellezas quando
-se lhe desenvolve o fructo, tambem ella perdeu as rosas
-nas faces e as canduras da alma, quando conheceu
-que ia ser mãe: e de pejo do que soffrera, encerrou-se
-na sua magoa, como certos vermesinhos se involvem
-no casulo que lhe serve de protecção.</p>
-
-<p>Para ninguem podia já ser mysterio o seu estado:
-a pobre mãe, que via a perdição da filha, deixou-se
-finar de magoa.</p>
-
-<p>E nem uma flôr desfolhámos sobre a sua sepultura;
-nem uma queixa soltou a infeliz, porque dôres d’aquellas,
-não ha palavras que as expressem, como não ha
-côres que possam representar o negrume da tormenta.</p>
-
-<p>Nossas mães, que hoje estão no céu, quantas lagrimas
-não carpiriam juntas, ao attentar nos desventurados
-erros de seus filhos; mas por mais que sobre nós
-ellas cahissem, de nada poderiam servir, como nenhuma
-chuva póde fertilisar o terreno maninho, ou a charneca
-esteril.</p>
-
-<p>Desde então, padre, a minha vida tem sido um penar
-continuado, um soffrimento sem cessar.</p>
-
-<p>O remorso rala-me a alma: a lembrança d’aquellas
-santas atormenta-me de dia e de noite: a vista da mulher,
-que perdi, desvaira-me; e a idéa da minha filha,
-a filha querida da minha alma, a quem não posso dar
-nome perante Deus, porque não foi ainda purificada
-pela agua santa do baptismo dos peccados de seus paes,<span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span>
-nem perante os homens, porque seu pae e mãe não se
-podem assim chamar á face de mundo, quasi que me
-enlouquece.</p>
-
-<p>E a duvida a perseguir-me como um demonio agachado
-em logar santo, e eu a abrir-lhe os braços como
-a seara ao fogo que a vae consumir, e a cerrar os olhos
-á fé, como a toupeira á luz do sol.</p>
-
-<p>A natureza com as suas grandezas todas, a flôr com
-o seu aroma e côres, a ave com o seu cantar, o céu
-com as suas estrellas, e o mar com as suas ondas de
-prata, tem sido harmonias perdidas, que só me fallam
-do acaso e que nada mais me fazem lembrar. Tenho
-cerrado os olhos á luz e a alma á razão. Não tenho
-procurado coisa alguma no passado nem esperado do
-futuro.</p>
-
-<p>Tenho sido o navio sem rumo e sem norte, que navega
-á tona d’agua; o viajante perdido, que não encontra
-fim ao caminho, nem trilho para voltar a d’onde
-partira.</p>
-
-<p>Para que viera a este mundo, quando por acaso m’o
-perguntava a mim mesmo, era o que não sabia dizer;
-e cansado de o perguntar sem resposta, mudo de pensamento
-como o mendigo de porta a que tem batido
-debalde. Tenho-me supposto feliz e tenho vivido como
-as feras; tenho-me julgado senhor de mim porque não
-tenho conhecido o Senhor de todos.</p>
-
-<p>Mas ha dias tudo se mudou em mim. Minha pobre
-filha sahira de manhã, e esteve lá por fóra mais do que
-o costume. Perguntei-lhe o que fizera, porque se demorára:
-e a sua resposta foi como a luz da madrugada
-rompendo em descampado para o viajante perdido.</p>
-
-<p>«Meu pae, me disse, quando sai, ouvi ali defronte
-uma musica tão linda, tão linda como ainda não ouvira
-em minha vida outra semelhante. Vi uma porta aberta
-e entrei para ouvir melhor. Era uma casa muito grande,
-muito grande, e onde estava muita gente de joelhos.</p>
-
-<p>«A musica vinha de uma janella de grades, d’onde<span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span>
-saiam tambem vozes de senhoras; e os que ali estavam
-pareciam tão entretidos, que nem deram pela minha
-entrada. Com medo que me reprehendessem por ter
-entrado sem licença, perguntei a uma mulher, que me
-parecia boa pessoa, quem eram os donos d’aquella casa
-tão grande e que tão ricos deviam ser.</p>
-
-<p>«Admirou-se da pergunta e disse-me se lhe fallava
-devéras.</p>
-
-<p>«Devéras, minha senhora, eu não conheço ninguem
-d’esta terra; vim ha pouco tempo para aqui com meu
-pae e minha mãe, e nunca saio de casa.</p>
-
-<p>«Pois olhe, minha filha, esta casa é uma egreja, e
-seus donos são aquelles que além estão, pae e mãe dos
-homens e do céu.</p>
-
-<p>«Olhei e vi uma senhora e um homem, que me pareceram
-tão bons, tão tristes, que desatei a chorar.</p>
-
-<p>«Elle estava de braços abertos, como o papá quando
-me chama para o seu collo, e ella parecia-me minha
-mãe, mais bonita ainda, quando está ao pé da cama
-olhando para mim com os olhos arrasados em lagrimas,
-emquanto não adormeço.</p>
-
-<p>«Eu queria-lhes fallar, meu pae, conheço que me
-haviam de dizer muitas coisas boas, mas como me tem
-dito que não quer que converse com pessoa nenhuma
-de fóra, tive medo que ralhasse comigo, fui-me embora;
-mas com tanta pena! Por minha vontade estava ali
-sempre a olhar para elles até que olhassem para mim,
-e me fallassem tambem.»</p>
-
-<p>Como ella chorára, chorei eu então. Aquella voz infantil
-veio despertar-me a fé adormecida, como á mãe
-extremosa, quando a dormir, os choros do filho querido.</p>
-
-<p>Desde esse momento um raio de luz allumiou-me as
-trevas, em que vivia. A flôr, a terra, o mar e o céu,
-tiveram vozes que me fallavam e que eu percebia.</p>
-
-<p>A flôr erguendo-se para as alturas; a terra levantando
-ao romper do sol os vapores tenues da madrugada<span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span>
-como rolos de incenso á Divindade; o mar erriçando
-o seu dorso de vagas ao signal da tormenta e
-coroando-se de espumas; o céu recamado de estrellas,
-recordavam-me a existencia de Deus, creador de tudo
-que me cercava, e que em tudo tinha estampado o sello
-de suas mãos como o artifice nas suas obras.</p>
-
-<p>Tambem o Senhor, que se parecia ter esquecido de
-mim, ao vêr-me arrependido lembrou-se de que existia:
-quer me chamar á sua presença, como o pastor,
-que ao vêr melhorias na rez contaminada, que lançou
-a monte, procura, pelos cuidados e disvelos, livral-a
-das enfermidades e males.</p>
-
-<p>Hoje, padre, que avisto a immensidade da morte sem
-receio, e a eternidade sem pavor, hoje que tenho fé no
-meu Deus e esperança na salvação, peço-vos, padre,
-a benção para o contricto, e absolvição para o peccador.</p>
-
-<p>—Eu te absolvo, disse o padre com voz solemne,
-que por muito tempo me estrugiu aos ouvidos, e o
-Senhor de caridade vos perdoa por minha bocca.</p>
-
-<p>N’este momento em lagrimas chegou-se a pobre Joanna
-ao leito do moribundo: e a filhinha, que a acompanhava,
-ficou debaixo dos jorros d’agua que corriam em
-fio dos olhos de seus paes.</p>
-
-<p>O parocho attentou n’aquella vista, e como levado
-por idéa do céu, disse, abençoando a creança:</p>
-
-<p>Eu te baptiso em nome do Padre, do Filho e do Espirito
-Santo; as lagrimas de teu pae e as de tua mãe,
-peccadores mas arrependidos, essas lagrimas de contricção,
-tão gratas a Deus, te sirvam de agua de baptismo.
-Vae em paz, és christã.</p>
-
-<p>Logo em seguida tratou de casar aquelles dois, que
-pela alma e pelo amor já estavam casados; e acabada
-a cerimonia, a alma do agonisante, que nada mais tinha
-que a prendesse á terra, começou a soltar-se do
-corpo para voar á morada eterna.</p>
-
-<p>Elle conheceu-o, e com voz difficultada pela agonia
-disse ao sacerdote:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span></p>
-
-<p>—Abri-me essa janella meu padre, vou morrer, quero
-adorar ainda o Creador na sua obra.</p>
-
-<p>Um de nós correu a satisfazer-lhe a vontade. Já era
-manhã, e o sol vinha apparecendo fronteiro a romper
-por entre labaredas de fogo; o padre estava de costas
-para a janella; o vulto recortava-se-lhe sobre a luz, e
-os seus raios pareciam formar-lhe um resplendor de
-santo.—E se o era!</p>
-
-<p>Desviou-se para o lado, e um raio de sol veio bater
-de chapa na face do agonisante; parecia um signal
-mandado por Deus em prova de perdão.</p>
-
-<p>Foi elle quem chamou de novo á vida o que parecia
-já um cadaver, e lhe deixou proferir com grande esforço
-estas ultimas palavras:</p>
-
-<p>—Illuminae minha alma com a vossa divina graça,
-como me allumia agora o sol, que desponta no firmamento,
-perdoae-me Senhor!</p>
-
-<p>Passados momentos, o padre rezava sobre o cadaver
-as rezas de defunctos, e no dia seguinte nós todos iamos
-com os olhos arrasados de lagrimas, conduzir á sepultura
-o cadaver d’aquelle a cuja morte tinhamos assistido.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 100px;">
-<img src="images/footer1.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header3.jpg" width="500" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="III">III<br />
-<span class="smaller">A proposito da missa do dia</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Entre os trabalhadores da quinta, havia um
-chamado Antonio, bom rapaz, é verdade;
-mas que tinha um defeito, de que se não
-corrigia.</p>
-
-<p>Era mentiroso, como os que o são, e
-quando o não acreditavam, amontoava juras, qual mais
-tremenda ou de mais responsabilidade e respeito para
-um homem de bem.</p>
-
-<p>E era pena; porque poucos havia tão laboriosos
-como elle.</p>
-
-<p>Era conhecido pelo—gallo da madrugada—titulo bem
-justificado em vista do que se apressava em concorrer
-ao trabalho: e não poucas vezes os pobres beneficios,
-que o seu magro peculio lhe permittia fazer, vinham a
-constar, pelos outros e não por elle, muito em seu
-abono e boa reputação.</p>
-
-<p>O tio Joaquim, conselheiro honorario d’aquella republica
-tinha-o reprehendido muito; mas aquelle maldito<span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span>
-sestro não o queria o Antonio perder nem a bem nem
-a mal. Era o seu senão, que lhe acarretava não poucos
-dissabores e com o que não pouco prejudicava os outros.</p>
-
-<p>Era n’um domingo, e depois da missa do dia, no
-adro da egreja estavam reunidos, em mó, os saloios
-d’aquelles sitios que tinham concorrido ao santo sacrificio.
-De fatos domingueiros, e varapaus ferrados, discorriam
-pelas novidades do logar, exactamente como os
-nossos elegantes á porta do Marrare, ou nas salas do
-Gremio.</p>
-
-<p>Diga se a verdade; as Marias e as Joannas não deixavam
-de influir n’aquellas reuniões, porque não poucos
-eram os que ali compareciam levando em mira fallar
-ás suas requestadas, ensaiar requebros, ou ajustar
-entretenimentos para as horas de sesta ou para as tardes
-dos dias santos.</p>
-
-<p>O nosso Antonio tambem não faltava á reunião, e já
-por mais de uma vez fizera das suas, sem consequencias
-de maior, pelo pouco credito que tinham n’aquelle
-mercado campestre as notas do nosso caramboleiro.</p>
-
-<p>Havia no logar uma rapariga que se podia chamar
-uma perfeição, e que fazia tanta differença das suas
-companheiras, como a rosa de musgo das rosas carrasqueiras
-dos vallados.</p>
-
-<p>Era gentil e mimosa, não tinha as côres de saude,
-nem aquelle acerejado do sol, ou fórmas robustas e
-quasi viris da raparigada do campo; mas era mais esbelta,
-mais pallida, mais clara e com uns olhos tão negros,
-tão negros, que lhe saiam da alvura do rosto,
-como dois diamantes negros engastados em esmalte
-branco.</p>
-
-<p>Vivia arredada e em recato, e não apparecia em arraial
-ou festa, senão de anno em anno e quasi por milagre.</p>
-
-<p>Chamavam-lhe—a fidalga,—e o nome casava tanto
-com a sua distincção de maneiras e garbo de porte,<span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span>
-como o soar das ave-marias com os descampados das
-serras.</p>
-
-<p>Como já se deve suppôr, os fragatas da terra tinham
-pretendido as honras de arrojado; mas debalde, porque
-os rejeitava, e quasi todos descoroçoados tinham desistido
-da empreza.</p>
-
-<p>Digo quasi todos, porque dois ainda lhe arrastavam
-a aza, um, (aqui em segredo,) era attendido e bem
-olhado; o outro, mais feliz, nem fallar n’isso é bom,
-mordia-se de raiva pelos desdens que soffria, e pelo
-pouco em que eram tidos os seus requebros e paixões.</p>
-
-<p>A escolha de Emilia tinha sido acertada, porque o
-José da Avó era o mais guapo moço d’aquellas duas
-leguas em redor. Desempenado e direito como uma
-vara de abrunheiro, valente como um pau de carrasco,
-generoso e de brio, como nenhum: nem o mais pintado
-lhe levava as lampas em trabalho de fazenda, em
-jogos de pau, ou em balharicos de domingo.</p>
-
-<p>E cantigas! Sabia-as elle cantar, como os que as sabem;
-entoava uma desgarrada ou sustentava um desafio,
-mais afinado e a preceito do que muitos d’esses
-italianos em segunda mão, que os empresarios nos impõem
-como notabilidades cantantes.</p>
-
-<p>O outro pretendente não era muito cheio de não
-presta: mas ao pé do José da Avó ficava a perder de
-vista, o que não admira; porque vasados n’aquelles
-moldes não havia muitos no logar. Elle porém, como
-não queria attender á razão, damnava-se jurando pela
-pelle do ditoso preferido.</p>
-
-<p>Este era o estado da questão na manhã do tal domingo,
-e os dois rivaes conservavam-se a distancia respeitosa
-no meio de dois grupos distinctos.</p>
-
-<p>Tinha saido já quasi toda a gente da egreja, quando
-Emilia se retirou, sem que lhe faltassem commentarios,
-emquanto passava por meio dos grupos.</p>
-
-<p>—Olha a delambida! soltou d’ali uma das raparigas<span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span>
-mais feias da terra, parece que vae com o rei na
-barriga, nem olha para a gente.</p>
-
-<p>—Era o que faltava, a fidalga!</p>
-
-<p>—Vae toda enlevada no seu José, tem medo que
-lh’o tirem do lance.</p>
-
-<p>N’isto o nosso Antonio, que não queria ficar atraz,
-tambem se intrometteu na conversa, dizendo com modos
-de quem estava corrente com os mysterios d’aquelle
-circulo:</p>
-
-<p>—Pois faz elle bem em perder o seu tempo, porque
-ainda não ha muito que vi o Miguel de conversa
-com ella á porta de casa, e pelos geitos que a coisa
-levava, não era a primeira vez que se fallavam.</p>
-
-<p>—Ora tu sempre tens uma lingua!</p>
-
-<p>—Um raio me parta se minto; tinha-me calado e
-feito vista grossa, mas agora ferveu-me o sangue quando
-a vi assim como quem queria deitar lama para a
-cara da gente.</p>
-
-<p>As palavras de Antonio não tinham caido no chão.
-José, desconfiado como todos, estivera de ouvido á escuta
-e não perdera nem syllaba. N’outra occasião voltaria
-de certo as costas ao maldizente, mas d’esta vez
-mudava o caso de figura: o ciume acreditava a voz do
-mentiroso e a tremer chegou-se ao pé d’elle, perguntando-lhe
-com voz indecisa:</p>
-
-<p>—Juras que é verdade o que acabas de dizer?</p>
-
-<p>—Se é! os diabos me levem se minto; eu por mim
-não queria causar-te nenhuma aquella; mas assim como
-assim mais tarde ou mais cedo havias de vir a sabel-o;
-e, verdade verdade, ella não te merece.</p>
-
-<p>—Basta, lhe retorquiu o pobre José, e foi-se como
-um raio até onde estava o supposto arrojado.</p>
-
-<p>Inutil é dizer que tinha sido tudo isto enredos e obra
-de Antonio. Soltára as primeiras palavras como por demais,
-sustentára o dito por capricho, mais tarde para
-que não suppozessem que tornára com a falla ao bucho
-por medroso.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span></p>
-
-<p>Do outro lado do adro uma floresta de paus se levantava
-no ar, e já as navalhas estavam fóra das algibeiras;
-os dois tinham-se travado de razões, e como
-palavra puxa palavra, tinham passado dos ditos a vias
-de facto e malhavam um no outro como se fosse um
-monte de milho.</p>
-
-<p>Ambos tinham partidarios, e por conseguinte a lucta
-assumiu proporções maiores; porém por muito encarniçada
-que fosse entre os partidos, parecia um brinco
-de creanças á vista d’aquella em que os dois se tinham
-travado. Davam como quem se despedia do mundo, e
-como quem desejava vêr estendido no chão o seu contrario.</p>
-
-<p>Ao principio arrancaram dos paus e começaram a
-atirar as primeiras pancadas, que quasi todas cairam
-em cheio; até que Miguel, depois de ter jogado umas
-poucas de sortes ao seu adversario, e como ambos estavam
-<i>descobertos</i> e só queriam dar, dissimulando uma
-pancada á cabeça, lhe dirigiu o pau por meia volta no
-ar ás pernas. Quando lá chegou já o seu adversario o
-tinha procurado aparar, porém tanto em mal, e tão puxada
-d’alma ia a contraria, que o pau colhido no meio,
-não o aguentou e partiu-se; e o outro não encontrando
-resistencia no corpo de José, porque elle já lh’o tinha
-furtado, foi de encontro ás pedras do adro e partiu-se
-tambem.</p>
-
-<p>Vendo-se desarmado, Miguel não perdeu tempo:
-correu sobre o inimigo com uma navalha e baldeou-o
-logo no chão jorrando sangue por uma ferida no ventre.</p>
-
-<p>O assassino, apenas commettido o crime, tomou as
-de Villa Diogo, e a desordem começou a apaziguar-se
-com a chegada dos cabos da terra, que tratavam de remover
-o ferido e de prender os combatentes.</p>
-
-<p>O causador de tudo isto tinha, logo que viu tomar
-ao caso uma feição que lhe não suppozera, procurando
-socegar o motim, confessando a sua mentira, porém já<span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span>
-era tarde, n’aquellas alturas qualquer intervenção seria
-inutil; teve pois de assistir arrepelando-se, dizendo
-mal á sua vida, áquella triste scena, e promettendo,
-com mil juras que não mentiria nunca mais; ajudou
-soluçando a levar o ferido para sua casa na maca, que
-tinham ido buscar, e accusando-se todo o caminho de
-ter sido elle, e só elle, o culpado de tudo que succedera.</p>
-
-<p>Nos tres dias, que succederam á catastrophe, não
-se fallou n’outra coisa nos serões da quinta. Conhecia-se
-que o tio Joaquim por vezes tinha vontade de
-fallar, porém tão sincero lhe parecia o arrependimento
-de Antonio, que sempre desistia do intento. Uma noite,
-porém, o nosso mentiroso, já esquecido das juras que
-fizera, começou, por uma coisa que nada valia, a invocar
-os santos todos do Paraizo em seu testemunho,
-e a pedir raios e coriscos para castigo se mentisse.</p>
-
-<p>O velho narrador d’essa vez saltou lhe no gallinheiro,
-dizendo com aquella placidez de espirito, que tão
-habitual lhe era:</p>
-
-<p>—Este Antonio faz-me lembrar o João da Tenda,
-que vivia lá em baixo ao pé das casas do mestre Raymundo
-e que por dez réis de mel coado fazia juras e
-protestos ás carradas. Em mal lhe deu o vicio, coitado!</p>
-
-<p>—O que lhe aconteceu, tio Joaquim?</p>
-
-<p>—O que foi, o que foi?</p>
-
-<p>—Conte, conte; ha tanto tempo que lhe não ouvimos
-uma historia!</p>
-
-<p>—Pois bem, soceguem, que lhe não faltarei hoje, e
-não será por culpa minha se esta lhes não agradar.</p>
-
-<p>O pobre do Antonio tinha pedido misericordia com
-um olhar de supplica: mas o velho compromettera palavra
-e não havia de se esquivar á promessa.</p>
-
-<p>—Diz lá o rifão: «quem compra e mente na bolsa
-o sente;» como diz tambem: «homem de boa lei tem
-palavra como rei», isto era quando os reis tinham palavra,<span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span>
-se alguma vez a tiveram, que d’essas coisas não
-sei eu, e quando não faltavam ao que promettiam.</p>
-
-<p>O que é verdade é, que se o mentir prejudica a honra
-e o corpo, não menos prejudica a alma estar, por
-dá cá aquella palha a fallar no santo nome de Deus, e
-no dos santos, que não são pontos com que se brinque.</p>
-
-<p>Nenhum, dos que aqui estão, vae incommodar o patrão
-para coisas que não valem a pena, e muito menos
-por conseguinte devem ir bater á porta dos patrões
-mais subidos, para de mais a mais os tomarem para
-testemunhas e parceiros de coisas que não só não valem
-a pena, mas que são mentiras ainda em cima. E
-depois, quando se apanha fama de mentiroso, não ha
-quem nos acredite por mais que deitemos os bofes pela
-bocca fóra, e ainda mesmo que fallemos a verdade.
-Mau é dizer-se que o cão é damnado.</p>
-
-<p>—Mas se fôr para fazer bem, não se deve mentir
-tio Joaquim?</p>
-
-<p>—Para tudo ha remedio. Uns homens que perseguiam
-outro, perguntaram a um santo, que encontraram
-no caminho, se tinha visto passar o malfeitor.</p>
-
-<p>O bom do santo tinha-o visto, não havia muito; mas
-nem o queria denunciar, nem mentir tambem: já vêem
-que elle estava n’esse caso, e que se devia vêr a perros.</p>
-
-<p>—É verdade, é verdade, e que respondeu?</p>
-
-<p>—Que por ali não passára; e como estava com as
-mãos nas mangas, apontou para dentro d’uma d’ellas,
-por onde de certo o tal homem não podia caber.</p>
-
-<p>—Ora! exclamaram alguns dos circumstantes, como
-admirados.</p>
-
-<p>—Parecia santo saloio, tornou d’alli um <i>ratinho</i>, ultimamente
-embaçado na compra d’uma enchada.</p>
-
-<p>—Nada que não, respondeu lhe logo o vendedor,
-que o percebera á legua, não tinha alma de beirão, que
-lá diz o dictado: no bom beirão corpo e alma pequenos
-são.</p>
-
-<p>Talvez a questão se azedasse mais se o tio Joaquim<span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span>
-os não interrompesse logo gritando: leva de rumor,
-vamos á historia do João da Tenda.</p>
-
-<p>Quando vim para esta terra, já vae n’um par de annos,
-tinha elle uma lojasita lá no largo de baixo, mesmo
-á esquina da estrada real. Era um pequeno modo de
-vida, que bem cultivado podia produzir bastante; mas
-como havia descuido no amanho a colheita foi infeliz.</p>
-
-<p>N’estas coisas de negocio a reputação de homem de
-palavra se não é ouro de lei vale-o bem; e d’esta riqueza
-o bom do João era mais pobre do que Job.</p>
-
-<p>Ninguem se fiava n’elle e o credito diminuia cada
-vez mais. Direito em contas e honrado era: porém
-aquelle sestro maldito de mentir por dá cá aquella palha,
-a mania de fazer juras e protestos, que nunca se
-realisavam, fazia com que lhe roessem a corda na maioria
-dos ajustes, sem que tivesse direito de se queixar,
-porque não era mais do que pagar-lhe na mesma
-moeda.</p>
-
-<p>Assim iam os tempos e o negocio corria-lhe por agua
-abaixo.</p>
-
-<p>Para maior desgraça, no sitio onde não havia senão
-a loja do João, veio estabelecer-se uma outra e tirar-lhe
-a freguezia.</p>
-
-<p>Era do José Fernandes, que ainda hoje lá a tem no
-mesmo logar, e que sabendo o valor do dictado—cara
-alegre ganha vontades,—tratou, emquanto o seu visinho
-andava de maus modos, porque os tempos iam
-maus tambem, de chamar freguezes, tratando-os ás
-mil maravilhas, e desfazendo-se em bons serviços.</p>
-
-<p>João tinha uma filha, a menina dos seus olhos, e uma
-flôr de enche-mão. Mais guapa rapariga não havia de
-certo por aquella meia duzia de leguas em redor; e se
-tivesse nascido na cidade, se lhe tivessem debastado
-as grossuras dos campos com a plaina das fidalguias,
-metteria de certo a um canto essas arrebicadas, que
-para ahi vem passar os verões e que parece que se estão
-mesmo a desfazer.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span></p>
-
-<p>É bem certo, que não ha panella sem testo, e para
-vasilha de tão fina loiça, é preciso que a tampa lhe não
-desmereça da qualidade.</p>
-
-<p>E assim era o arrojado de Joaquina: rapaz bem feito
-e espigado, forte de corpo e affeiçoado de rosto, um
-d’estes de quem não ha nada que deitar fóra.</p>
-
-<p>Como é de crêr, entendiam-se que era um regalo, e
-morriam um pelo outro. E que bem acertado por elles
-eram! Joaquina, delicada e fina como uma rosa de toucar,
-ou uma flôr de madre-silva: Domingos, forte como
-um zambujeiro e direito como um prumo.</p>
-
-<p>Encostados um ao outro, quando se fallavam ás furtadellas
-ao descair da tarde, pareciam, tanto ella se
-ageitava a elle, e tão erguido elle estava, contente por a
-ter comsigo, a haste da cruz de pedra que está defronte
-<i>dos Ouriços</i>, vestida com as braçadas flexiveis da hera,
-que lhe nasceu ao pé.</p>
-
-<p>Ninguem lhe invejava a felicidade; antes, pelo contrario
-todos gostavam de os vêr assim, pois pareciam
-ter nascido um para o outro. Mas sabem de certo, que
-não ha bem que dure sempre, e o d’elles por isso havia
-de acabar em pouco tempo.</p>
-
-<p>O pae de Domingos, Deus lhe falle na alma, era um
-fazendeiro abastado dos sitios, que contava para cima
-de vinte geiras de terra de pão, fóra umas seis courellas
-de trincadeira, duas hortas valentes, e um pomar
-de caroço de mais de trezentos pés de fructa. Por conseguinte
-o rapaz era um bom casamento para a rapariga,
-e por isso o João fazia a vista grossa. Que de
-mais a mais o noivo era moço de honra e incapaz de
-abusar.</p>
-
-<p>Mas não assim o tio Fernandes, que não engraçava
-com o tendeiro por as suas mentiras, e que nada queria
-com gentes, que pertencessem ao caramboleiro. Tinha
-sido toda a sua vida homem de palavra, as suas
-promessas eram mesmo um evangelho, e quem não seguisse
-este modo de vida nada tinha feito com elle.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span></p>
-
-<p>Domingos, como é de querer, tinha escondido do
-pae os seus amores com Joaquina. Uma vez por outra
-procurou sondal-o a tal respeito, porém, como visse
-que era tempo perdido, tinha desistido da empreza, e
-assim ia tenteando o namoro com esperanças em que
-ou o velho cedesse da birra, ou o outro do vicio.</p>
-
-<p>Foi por estes tempos que se armou uma das tantas
-guerras que por ahi tem havido na nossa desgraçada
-terra. Era preciso tropa e trataram de recrutamentos
-com toda a força.</p>
-
-<p>Domingos, foi um dos sorteados. Seu pae, rico bastante,
-podia com facilidade pagar a um homem para o
-substituir, o caso era que o quizesse, e tanto que estava
-resolvido a sacar uma duzia de loiras da arca,
-onde estavam havia um par de annos sem vêr sol nem
-lua.</p>
-
-<p>Era um domingo á noite, e o tio Fernandes recolhia-se
-de uma feira de gado onde fôra comprar uma
-junta de bois, de que precisava para a lavoira. Vinha
-deitando contas á sua vida, e tão entretido que nem
-lhe tinha custado o caminho.</p>
-
-<p>Ao voltar de uma azinhaga avistou de longe dois vultos,
-que não parecia darem pela sua vinda. Reconheceu-os
-logo, e percebeu tambem qual o fim com que
-seu filho tantas vezes lhe tinha desculpado o João da
-Tenda, e porque tão desgostoso andava por assentar
-praça.</p>
-
-<p>Fez os seus entes de razão, e ajustou com os seus
-botões, que: désse por onde désse, não se havia de
-fazer similhante casamento.</p>
-
-<p>N’essa noite houve questão até fóra de horas entre
-Domingos e seu pae. O rapaz confessou tudo e o velho
-negou-se a pagar-lhe o homem.</p>
-
-<p>—Ou deixar o namoro ou assentar praça, disse-lhe
-o tio Fernandes e Domingos preferiu a segunda condição.</p>
-
-<p>Mezes depois chegava á terra a noticia da morte de<span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span>
-Domingos. Tinha-se batido como um homem, tinha sido
-um dos primeiros a atacar, e pagára o atrevimento
-com a vida.</p>
-
-<p>Figurem-se agora qual seria a pena de Joaquina ao
-saber de similhante noticia. A pobre da rapariga, depois
-que o seu apaixonado partira, não tivera nunca
-mais uma hora de consolação. Levava os dias a chorar,
-que era uma dôr de alma, e ia-se infesando a olhos
-vistos.</p>
-
-<p>João, o culpado de tudo, pelo seu amaldiçoado costume,
-sem recursos porque os freguezes lhe tinham
-fugido, e porque o mal de sua filha lhe levava o resto,
-estava que parecia outro: e n’aquella casa, onde todos
-viviam contentes, não havia já nem signaes de alegria.</p>
-
-<p>A apaixonada moça foi esmorecendo cada vez mais,
-os medicos não lhe achavam remedio para o mal, e
-qualquer que lhe receitassem não o queria ella tomar.</p>
-
-<p>Acabou a sua cruz, e, em poucos mezes, foi reunir-se
-a Domingos, n’essa outra terra onde os amantes
-vivem unicos eternamente, e onde os justos gosam da
-felicidade sem fim.</p>
-
-<p>Quando entrarem no cemiterio reparem para a esquerda,
-que hão de vêr debaixo do terceiro cypreste,
-a contar da porta, uma cova com duas cruzes de madeira
-e uma corôa de perpetuas. Ajoelhem sobre a
-terra benta, rapazes, e rezem ao Senhor pelo pae e
-pela filha, que ahi descançam juntos como o tinham
-estado em vida. Lembrem-se do que lhes succedeu, e
-reparem, que ás vezes uma mentira póde deitar a terra
-uma reputação por mais antiga que seja. Rapazes,
-quando se apanha um homem que não falle verdade,
-e quando se perde o credito, perde-se em pouco dinheiro
-e honras. Felizes ainda dos que não pagam com
-a vida como o pobre João da Tenda.</p>
-
-<p>Quando os trabalhadores saíram, chegou-se Antonio
-ao narrador.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span></p>
-
-<p>—Percebi tudo, tio Joaquim, prometto-lhe não mentir
-nunca mais nem fazer juras por coisas poucas.</p>
-
-<p>—Deus te oiça, tornou-lhe o velho, que és bom rapaz;
-e se perderes esse mau costume, poucos haverá
-que te levem a palma.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/footer2.jpg" width="200" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header4.jpg" width="500" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="IV">IV<br />
-<span class="smaller">Os domingos de fóra da terra</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Era n’um domingo de novembro. A agua tinha
-caido a cantaros todo o santo dia, e
-a chuva fôra tanta, que diziam pelos sitios:
-já os cães a bebem em pé.</p>
-
-<p>Grande parte dos trabalhadores da quinta,
-em que eu vivia, tinha saido depois do jantar, embrulhados
-uns em mantas, outros em gabões e gabinardos
-em direcção á quinta do tio Joaquim de Mattos,
-acreditado pelo bom vinho que vendia, e pelos bons
-piteos que lá, de quando em quando, arranjava a sr.ª
-Josepha, sua respeitavel sobrinha, desenxovalhada moça
-e uma das mulheres com menos papas na lingua d’aquelles
-arredores.</p>
-
-<p>De tempos a tempos apparecia pela adega do sr.
-Mattos, Deus lhe falle n’alma, pois era um honrado homem,
-um ensebado baralho, que cortava a monotonia
-de um sempiterno jogo de bola, e entretinha quando
-o tempo estava de peior catadura, os afreguezados frequentadores.
-Outras vezes tambem um ou outro especulador<span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span>
-lisboeta arribava áquellas paragens com esperanças
-de armar trapaças e jogatinas, e esse então premunia-se
-antecipadamente com uns dados, de lizura
-problematica, ou com algumas cartas de egualdade controversa,
-que manejadas habilmente lhe serviam de
-traiçoeira isca para os agourentados vintens dos pobres
-maltezes.</p>
-
-<p>Mas, verdade verdade, era uma excepção da regra.
-O dono da casa obstava quanto podia a estes desvios:
-e já experimentado nas consequencias, tratava de pôr
-cobro a semelhantes armadilhas.</p>
-
-<p>O domingo, porém, a que nos referimos era um dos
-taes dias aziagos. Os lisboetas, as cartas e os dados tinham
-trabalhado muito, acompanhados, já se vê, de
-um numero infinito de quartilhos de vinho, que n’uma
-roda viva passavam do balcão para a mesa do jogo, e
-d’esta para o poder da tia Josepha, que já não tinha
-mãos a medir.</p>
-
-<p>Em medidas effectivamente passara ella o tempo todo;
-mas nem todas eguaes, porque, por amor do proximo
-já se entende, quando os via mais carregados alliviava-lhes
-a mão, e esvasiava-lhes os copos; até que
-por fim de contas, quasi que, em vista da exiguidade
-da dóse, mal se poderia reconhecer quanto tinham pedido.</p>
-
-<p>Mas decretos da Providencia, que sempre são de immenso
-alcance, disfarçados mesmo nas tibornias da tia
-Josepha! Se não se compadecesse tanto dos miseros
-bebedores, em que estado não ficariam elles, que mesmo
-assim, quasi sempre, ao sair, não sabiam quem era
-o cura da sua freguezia!</p>
-
-<p>Os nossos amigos trabalhadores, que não queriam
-passar por homens de ficar atraz em coisas d’aquellas,
-entraram na quinta, á volta da adega do tio Mattos,
-que era uma lastima vêl-os. Uns a cair, outros cheios
-de escalavradellas, e todos elles sem real da feria da
-semana.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span></p>
-
-<p>Começaram beberricando para não fazer desfeita aos
-lá da cidade que os tinham convidado; pouco a pouco
-foram chegando-se para o jogo, ao principio sómente
-para vêr, depois para jogar. Emfim quando não cabiam
-em si de contentes, porque iam de cima e tinham alguns
-vintens diante de si, viram n’um relance de fortuna
-varrer-se-lhes tudo da frente, á maneira de comoro
-de vallado feito de terra solta, e que uma cheia
-leva no enxurro.</p>
-
-<p>D’aqui os ralhos e as desordens; apoz as descomposturas,
-as vias de facto, e quem sabe, se não lhe
-acudissem, onde a coisa iria parar.</p>
-
-<p>Fazer-lhes prégações n’aquellas alturas era o mesmo
-que chover no molhado. O tio Joaquim, que não era de
-hoje nem de hontem, conheceu logo que perdia o seu
-tempo; deu-lhes de mão n’aquella noite, e no dia seguinte
-ás horas do costume contou-lhes pouco mais ou
-menos o que se segue:</p>
-
-<p>Poucas coisas ha que tanto custem, para nós, que
-toda a semana andâmos agarrados ao cabo da enxada
-ou rabiça do arado, como é entreter os domingos e
-dias santos, que o Senhor nos manda para descanço do
-corpo e recobro de forças.</p>
-
-<p>Depois da missa fica um por ahi além de horas, que
-é preciso matar sem quebra do temor de Deus, nem
-offensa do proximo; mas como nem todos sabem o que
-hão de fazer, acontece quasi sempre, que as perdem,
-e as perdem muito para mal.</p>
-
-<p>As velhas onzeneiras, que almejam pelos domingos
-para bisbilhotarem as vidas alheias e darem cresta ás
-colmêas dos outros, dizem que se deve descançar do
-trabalho, e passam-n’os na ociosidade, que de todos os
-vicios é o peior; os mal comportados destinam-n’os para
-as tabernas, do que conseguem, além de ficar moidos
-e ralados, sem poder fazer obra que se veja nos dias
-mais proximos, fazerem-se brutos de todo ao cabo de
-pouco tempo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span></p>
-
-<p>E dizem que descançam! Qual descanço nem meio
-descanço! Como se o homem não fosse como a terra,
-e como esta precisasse estar em pouzio para melhor
-produzir!</p>
-
-<p>Muda-se a sementeira como se deve variar o trabalho,
-e o melhor descanço não é aquelle que consiste
-em não fazer nada; ou então, o que é peior ainda, em
-armar disturbios e levantar rixas.</p>
-
-<p>Tres rapazes conheci eu, não ha muitos annos, cada
-um dos quaes tinha o seu modo particular de entreter
-os dias de festa, cada um dos quaes tambem escolheu
-fructos correspondentes ao grão que lançára á terra.</p>
-
-<p>Variavam tanto nos costumes e systemas, como se
-apartavam nas feições, e como se vieram a differençar
-tambem no destino que levaram.</p>
-
-<p>Tinham nascido na mesma terra, e, bem moços ainda,
-tinham vindo procurar trabalho á mesma fazenda; porque,
-acostumados a viverem juntos desde pequenos, não
-se podiam separar nem á mão de Deus Padre.</p>
-
-<p>Roberto, o mais velho de todos, era feio de cara e
-de peior catadura. Zangava-se por dez réis de coisa
-nenhuma, e quando estava zangado dava por paus e
-por pedras. Tinha tanto de robusto, como de mau, e
-só respeitava, de toda a gente, os seus dois companheiros,
-Pedro e Anastacio. O primeiro d’estes fazia
-tanta differença de Roberto, como o dia da noite. Franzino
-e delgado, parecia que o menor sopro o deitava
-a terra, e lembrava mais um alfinete de toucar do que
-um trabalhador de enxada. Comedido e de bons termos
-para todos, em pouco tempo ficou sendo o ai Jesus da
-fazenda, onde morriam por elle.</p>
-
-<p>Anastacio, o ultimo em que lhes fallei, era, por assim
-dizer, como uma ponte entre os dois. Fazia lembrar
-o outono entre o verão e o inverno. Se era desembaraçado
-e lesto como Roberto, era bom como Pedro,
-estimava um e outro devéras: mas se não podia
-levar a bem os arremessos e maus modos de Roberto,<span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span>
-não gostava tambem muito de tanto de não presta, de
-que estava cheio o outro seu companheiro. Não lh’o
-deitava á cara para não o envergonhar; mas muitas
-vezes lh’o ouvi dizer:</p>
-
-<p>—Não se ha de fazer nunca d’ali coisa que tenha
-geito, parece um Sant’Antoninho onde te porei; nasceu
-mais para fiar n’uma roca do que para puxar ao trabalho
-com substancia. Não é culpa sua, isso é verdade,
-mas por mais que me digam, aquillo foi erro da natureza.</p>
-
-<p>Em pouco tempo teve cada um uma occupação adequada
-ás suas posses. Pedro, que mais não podia, foi
-encarregado de guardar um rebanho de ovelhas e cabras,
-que tinha mais de duzentas cabeças; Roberto
-tomou conta da abegoaria e das cocheiras; Anastacio
-ficou de rancho na malta, entre os trabalhadores de
-enxada.</p>
-
-<p>Como é bem de vêr, o peior dos tres começou a fazer
-das suas: trabalhava de má vontade, embebedava-se,
-e tratava do gado á moda de mil demonios.</p>
-
-<p>O mais fraquito, bem ao contrario, começou a fazer
-as vontades aos patrões e a cair lhes em graça.</p>
-
-<p>Tanto fez, tanto fez, que o filho da casa pegou a ensinar-lhe
-a lêr, coisa porque elle morria havia muito
-tempo, e em que entretinha os domingos, passando os
-dias de semana, em quanto o gado pastava, a estudar
-as lições e a puxar por si; o Anastacio que não podia
-aturar a lettra de imprensa, nem, segundo dizia, tinha
-cabeça para aprender, começou a fazer economias para,
-logo que podesse, tratar de casar com uma rapariga
-da sua terra, com quem estava justo desde pequeno.</p>
-
-<p>Emquanto uns iam para as tabernas e Pedro dava
-lição, elle, que não queria gastar o dinheiro em extravagancias,
-nem atormentar a cabeça com aquellas tontices
-dos livros, procurou vêr se aprendia algum officio
-ou arte, em que se entretivesse, e em que passasse o
-tempo com toda a economia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span></p>
-
-<p>—Porque não estudas tu aos domingos tambem?
-perguntava eu muitas vezes a Roberto.</p>
-
-<p>—Ora, porque não nasci para sachristão, nem para
-besta de carga. Enfados bastam os da obrigação, que
-já não são poucos, quanto mais il-os eu buscar agora
-por minhas mãos. Sempre ouvi dizer que era preceito
-guardar os domingos e festas de guarda, e que trabalhar
-n’estes dias era peccado.</p>
-
-<p>Estavam as coisas n’estas alturas, quando tive de ir
-á minha terra, recolher uma herançasita que houvera,
-e demorar-me por lá algum tempo para pôr as minhas
-coisas a direito; quando voltei nenhum d’elles já estava
-na mesma quinta.</p>
-
-<p>Seis annos depois em dia de festa de Corpo de Deus,
-fui a Lisboa vêr a procissão e visitar de caminho uns
-parentes, que ali tinha,—já lá estão na terra da verdade,
-pobre gente!—Deus os tenha á sua vista.</p>
-
-<p>Passava pela rua dos Bacalhoeiros quando ouvi que
-de uma tenda me chamavam pelo meu nome. Vejam
-qual não seria a minha admiração, quando dei com duas
-caras conhecidas, que me faziam muita festa, e que
-eram nem mais nem menos do que os nossos amigos
-Pedro e Anastacio.</p>
-
-<p>Nem pareciam os mesmos, nos termos e nos trajes
-lembravam pessoas da cidade, mas no coração eram
-sempre os pobres e bons trabalhadores.</p>
-
-<p>—Ora o tio Joaquim por estes sitios, me disseram,
-e sem nos conhecer!</p>
-
-<p>—É verdade, rapazes, quem era capaz de pensar,
-que havia agora de vir topar com vocês, assim tão enfeitados
-e garridos. Com mil demonios, se me não chamassem,
-não era eu que os descobria.</p>
-
-<p>—Mas nós não esquecemos os amigos velhos, e logo
-que o vimos, não quizemos passar sem o abraçar.</p>
-
-<p>—Bem apertado e do coração. Mas pelo que vejo a
-fortuna fez das suas, e lembrou-se de vossês.</p>
-
-<p>—É como diz; alguma felicidade tivemos. Mas não<span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span>
-ha de ficar á porta da rua, entra e vem conversar um
-poucochinho comnosco, não é assim?</p>
-
-<p>Fiz-lhes a vontade, e pelo que me contaram vim a
-saber o que lhes tinha acontecido, e que foi o seguinte:</p>
-
-<p>Cada um d’elles tinha seguido o seu modo de vida,
-conforme se ageitava melhor. Pedro estudando nos livros,
-Anastacio trabalhando nas horas de descanso,
-para juntar algum dinheiro.</p>
-
-<p>Metteu-se-lhe na cabeça aprender um officio e a
-troco de alguns serviços feitos ao mestre Antunes, tanoeiro,
-alcançou que lhe ensinasse o seu modo de vida,
-em que, com a vontade que tinha, chegou a ser um
-bom official.</p>
-
-<p>Já avesava um par de vintens, quando se descobriram
-essas terras lá da California, onde segundo diziam
-os papeis, havia mais oiro em pó, do que milho em
-celleiro rico nos annos de fartura.</p>
-
-<p>Os homens de ganhar começaram a mudar de rumo
-e a procurar fortuna por essas terras. Desinquietaram-n’o;
-mas elle, despresando o ditado: «muda de
-terra, mudarás de fortuna» como se ia dando bem por
-onde estava, resolveu-se a ficar.</p>
-
-<p>Ora, não sei se sabem, que apesar de haver dinheiro
-a rôdo pela tal California, não havia de comer,
-nem de beber, e qualquer coisa, que por lá se precisava,
-era comprada a peso de oiro. Fazia frio de cair
-o nariz, a aguardente e o figo, era—de mais a mim,
-mais a mim—e os tanoeiros por conseguinte não tinham
-occasião de dobrar canella.</p>
-
-<p>Anastacio, que já sabia do officio ás direitas, deitou-se
-á obra, empatou em madeira os pintos que juntára,
-e conseguiu montar uma tanoaria em grande, que
-em pouco tempo se afreguezou pelos bons modos do
-dono e bom preço das obras.</p>
-
-<p>Quando o encontrei em Lisboa, acabava de casar
-com a promettida desposada, que trouxera da terra.
-A sua loja, que era uma das melhores da cidade, gosava<span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span>
-de excellentes creditos: e o negocio corria o melhor
-possivel.</p>
-
-<p>Pedro tambem tinha caminhado e muito; mas por
-estrada diversa. Pouco a pouco fôra lendo cada vez
-melhor, e escrevendo de fórma que levava as lampas
-ao mestre-escola do logar; parecia um treslado a lettra
-do rapaz.</p>
-
-<p>O dono da quinta, a quem elle caira em graça pelos
-seus termos comedidos e vontade de saber, tirou-o
-d’aquelle labutar e mandou-o para uma mercearia sua
-em Lisboa, a servir de caixeiro. Era o que elle queria
-e em que melhor calhava, tanto que em pouco tempo
-se fez um merceeiro de enche-mão.</p>
-
-<p>O patrão trazia-o nas palminhas, e dizia á bocca
-cheia: que não tivera nunca outro, que lhe chegasse
-tanto ás medidas.</p>
-
-<p>Nem só o sr. José Esteves era d’esta opinião: a senhora
-sua filha, que se derretia para o rapasito, achava
-ao pae carradas de razão e fazia-se com terra de lhe
-chamar seu marido. Atrever-se a pedil-a, não era o
-Pedro capaz d’isso; mas o pae da rapariga, que deu
-na ferida, e que não era de soberbas, antes pelo
-contrario muito dado e maneiro, reconheceu que lhe
-convinha para genro um bom rapaz socegado e amigo
-de dar ordem á sua vida, e em poucos tempos tratou
-de os pôr a caminho do setimo sacramento.</p>
-
-<p>Tambem vivia de grande quando lhe fallei, e a loja
-onde estavamos era do sogro; ou d’elle, que vinha a
-dar na mesma coisa.</p>
-
-<p>Tinham acabado de me contar as suas historias, e ia-lhes
-perguntar, que norte tinha tomado Roberto, quando
-ao chegarmos á porta para vêr a gente que passava
-para a procissão, desembocaram de uma d’aquellas ruas
-uns poucos de grilhetas, que de barril ás costas, desciam
-lá das bandas do Castello e iam para o chafariz
-de Dentro. Não tive que perguntar, porque reconheci-o
-logo entre elles quando passaram diante da porta.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span></p>
-
-<p>Vim depois a saber por que fôra ali parar. O vinho,
-e as patuscadas dos domingos, tinham sido a causa
-d’aquella desgraça.</p>
-
-<p>Não deitava Nosso Senhor um dia santo a esta terra,
-que elle não fosse para a taberna, e que não sahisse
-de lá a não ser em miseravel estado. Em breve pozeram-no
-fóra do trabalho, porque não dava conta de si,
-nem se podia olhar para elle, de desmaselado que andava.
-Vendo-se sem trabalho, e sem ninguem o querer,
-ajuntou-se a uns poucos de vadios da terra, que passavam
-pelas peores firmas do logar.</p>
-
-<p>Ao principio eram comesainas e bebedices: depois
-como não havia dinheiro, nem gente que lhes fiasse,
-nem vontade de trabalhar, começaram a pregar calotes,
-a commetter roubos, e quem sabe se mortes tambem.</p>
-
-<p>Ao menos assim por lá se rosnava, e bem se diz:
-que n’estas coisas: «voz do povo, é voz de Deus.»</p>
-
-<p>Um dia a justiça, que andava com os olhos n’elles,
-deitou-lhes a unha. Um dos que resistiu foi Roberto,
-e ao fugir á prisão, feriu de morte um dos cabos, que
-o queriam prender.</p>
-
-<p>Foi condemnado ás galés por toda a vida: e a cumprir
-esta sentença o vi eu em Lisboa, no tal dia de
-festa do Corpo de Deus.</p>
-
-<p>Agora vocês lá rapazes, que perceberam aonde eu
-ia dar na minha: pensem na historia que lhes contei,
-e vejam de que modo deverão passar melhor os
-domingos e dias santos.</p>
-
-<p>Os bons dos maltezes não deram resposta ao narrador
-n’essa occasião; os resultados futuros deixaram
-vêr, porém, que as palavras do conto do tio Joaquim,
-não tinham sido deitadas ao vento.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header1.jpg" width="500" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="V">V<br />
-<span class="smaller">Os retratos de familia<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a></span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-f.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Faz para as vindimas dez annos, que eu ouvi
-ao tio Joaquim esta historia.</p>
-
-<p>Havia pouco que sahira da quinta, onde
-eu estava, o sr. Antonio Tavares, que passava
-por um dos fazendeiros mais ricos
-dos arredores.</p>
-
-<p>Amanhava para cima de sessenta geiras de terra:
-e só de uva mandava perto de quinhentas caixas para
-embarque.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span></p>
-
-<p>Era franco, alegre, e homem de boas petas; tinha
-pilhas de graça e parecia vender saude; emquanto a
-modos e linguagem, sabia o nome aos bois, e quando
-fallava de lavoira podia-se ouvir, discorria como um livro
-aberto.</p>
-
-<p>Todos gostavam d’elle, por não ser de contos, nem
-de arcas encoiradas; só cuidava da sua vida, andando
-lizo no negocio como poucos. Ninguem lhe acceitava
-signal, porque em dando a sua palavra era como se
-apresentasse o dinheiro contado na palma da mão. Não
-constava que faltasse, nem se dava fé, de quem tivesse
-duvida em fiar d’elle fosse o que fosse.</p>
-
-<p>Tinha vindo a comprar uns trigos, assistira ao carregar
-dos carros e sahira depois do trabalho acabado,
-n’uma vaca de cinco annos, esperta como um azougue
-e preta como um azeviche. Rira muito, contára muita
-coisa, e fizera bom negocio; porque lhe tinham dado o
-pão em conta por ser a venda redonda.</p>
-
-<p>O tio Joaquim, que não era dos mais falladores, nem
-dos que se abria muito com os extranhos, conversára
-com o sr. Antonio Tavares, como quem de ha muito o
-conhecia: apertára-lhe a mão na despedida com ares
-affectuosos, e seguira-o com a vista até desapparecer
-na volta da alameda, fazendo feitios com o pau na terra
-do pateo, e resmungando entre dentes palavras que não
-entendi.</p>
-
-<p>Esta excepção nos habitos do velho, aguçou-me a
-curiosidade, e perguntei-lhe se conhecia de ha muito
-o homem que d’ali saira.</p>
-
-<p>—Se conheço!...—respondeu-me inclinando a cabeça
-de alto a baixo, compassadamente, duas ou tres
-vezes.</p>
-
-<p>Havia tantas coisas n’aquella reticencia do tio Joaquim,
-que não pude resistir, e instei com elle para
-que me contasse a historia do sr. Antonio Tavares.</p>
-
-<p>Tanto fiz, tanto fiz, que sentou-se ao meu lado n’um
-poial de tijolo, carregou um cachimbo de madeira, enfeitado<span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span>
-com virolas de latão, como os que usam os campinos
-do Ribatejo, petiscou, accendeu-o e começou.</p>
-
-<p>Mais palavra menos palavra disse o seguinte:</p>
-
-<p>—Vae tanta differença d’este Antonio, ao de outros
-tempos, como vae da noite ao dia, e tanto que se eu
-não presenciasse esta mudança, não podia acredital-a
-ainda que m’a contassem.</p>
-
-<p>Lá embaixo, ao pé do Joaquim Boleta, no recanto da
-azinhaga, morou por muito tempo o pae em companhia
-da mulher que veio a morrer de parto, quando este
-Antonio nasceu. Ali esteve, até que por causa da guerra
-com os francezes chamaram as baixas antigas e elle,
-como tinha sido soldado n’outros tempos, teve de partir
-deixando o rapaz entregue a uma visinha, boa mulher
-na verdade e que promettera tomar conta d’elle.
-Mas é mais facil ter um pouco d’azougue quieto em
-cima d’uma pedra, do que era conseguir, que o rapaz
-não fizesse por ahi obras de cabeça.</p>
-
-<p>Não deitava Deus nosso Senhor um dia a este mundo,
-em que se não dissesse: lá apanhou o Antonio engeitado,
-(assim é que lhe chamavam), uma escamoucadella
-na cabeça, lá o aleijaram n’uma brincadeira, lá
-lhe deram uma cossa quando andava aos figos.</p>
-
-<p>Era um rosario de coisas, que até fazia admiração
-como elle resistia; mas se o carrasco e o zambujeiro
-crescem, medram e enrijam ao desamparo por esses
-vallados, e não ha madeira como a d’elles para aguentar
-dura; não admira tambem que o rapaz enrijasse
-assim ao Deus dará e se fizesse um mocetão de mão
-cheia, esperto e guapo que era um regalo vêl-o.</p>
-
-<p>Emquanto a velha Thereza foi viva ainda elle trabalhou
-alguma coisa para a sustentar, não muito, que lá
-no seu dizer, o trabalho era para os cães e não para
-as almas christãs; mas apenas a velha fechou o olho,
-adeus minha vida, foi um vadiar, que não é para dizer.</p>
-
-<p>N’este comenos tinha um soldado, que viera da campanha
-passado pela terra, e entregára ao Antonio<span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span>
-umas lembranças do pae, morto n’um ataque contra os
-francezes, recommendando-lhe o filho á hora da morte.</p>
-
-<p>Minguada herança, que ella era. A farda do soldado,
-meia duzia de peças, se tanto, e o retrato do pae, que
-um seu companheiro tinha feito n’uma hora de vagar.
-Muito parecido, por tal signal; era elle por uma pena,
-só lhe faltava fallar.</p>
-
-<p>Antonio chorou devéras, pouco se lembrava de seu
-pae; mas custou-lhe muito aquelle lance. E n’essa occasião
-mesmo deu mostras de boa alma que tinha, e
-que depois deixou vêr melhor lá para o diante, quando
-mudou de vida. Apesar de falto de dinheiro, não gastou
-comsigo nem um real da herança que recebera;
-uma parte empregou-a em mandar fazer um caixilho
-muito bonito para o retrato de seu pae, e o resto deu-o
-de esmolas aos pobres, pedindo-lhe que rezassem por
-alma do finado. Andou uns dias, que não parecia o
-mesmo, triste e regular no trabalho, depois tornou á
-antiga ou ainda peor se era possivel.</p>
-
-<p>Quando tinha algum vintem de seu não paravam as
-patuscadas, as festas e os divertimentos; depois trabalhava
-pouco e de má vontade até arranjar dinheiro, e,
-mal o conseguia, eil-o que voltava á boa vida.</p>
-
-<p>Mas, manda a verdade que se diga, esteve por vezes
-doente no hospital, viu-se em talas quando por ahi
-faltou o trabalho, vendeu, empenhou tudo, só não tocou,
-em occasião nenhuma, nem na fardeta, nem no retrato,
-que conservava á cabeceira da rabeca, onde dormia,
-como se fossem imagens do Senhor dos Passos ou
-orações do Justo Juiz.</p>
-
-<p>Uma vez, vim a sabel-o ao depois, tinha-se-lhe acabado
-todo o dinheiro e não havia que fazer; o jantar
-havia de vir; mas d’onde, é que elle ainda o não sabia.
-Antonio foi procurar um ferro velho do logar e propôz-lhe
-a venda da enxerga: era o resto dos trastes,
-que tinha, e estava tão velha e tão suja, que nem uma
-de doze valia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span></p>
-
-<p>O ferro velho entrou, e mal deu com os olhos nas
-duas reliquias do pobre rapaz offereceu-se para lh’as
-comprar; mas inda bem o não tinha dito, já estava arrependido
-de o dizer, porque Antonio punha-o immediatamente
-no meio da rua com promessa de lhe fazer
-os ossos n’um feixe, se tivesse outra vez semelhante
-lembrança.</p>
-
-<p>Assim passou algum tempo com a barriga ora em
-lua cheia ora em quarto minguante, até que uma gente,
-que para aqui veio lhe fez mudar o modo de viver.</p>
-
-<p>Um velho tinha arrendado a quinta dos Fusis, para
-onde viera presistir em companhia de sua filha.</p>
-
-<p>Elle andava pelos seus cincoenta annos: parecia homem
-de bem; mas casca grossa e pouco de graças;
-ella, mais bonita que uma imagem e mais bem posta
-que uma fidalga.</p>
-
-<p>Quando íam no domingo á missa ou de tarde a espairecer
-por essas azinhagas, o velho de cabeça branca,
-corpo um tanto curvado, bigodes grandes, sobrancelhas
-espessas, parecer carregado e faces enrugadas;
-ella alta, esbelta, de olhos pretos e vivos, cabello castanho,
-faces córadas, feições alegres e cara de riso para
-todos, pareciam a noite e a madrugada, ou o inverno
-e a primavera que se combinassem para melhor parecer
-unidos um á outra.</p>
-
-<p>Os rapazes todos derretiam-se para ella, mas o pae
-que não tinha cara de muitos amigos, impunha-lhes
-respeito e conservava-os de largo; e d’ahi ella assim
-mesmo sempre alegre, mas toda senhora, dava tambem
-a entender, que não estava resolvida a acceitar a
-côrte a qualquer badameco.</p>
-
-<p>Antonio vio-a um dia e ficou perdido de cabeça;
-desde essa occasião começou vida nova: e o rapaz extravagante
-e vadio, começou a ser homem.</p>
-
-<p>Era tempo, tinha quasi vinte e cinco annos.</p>
-
-<p>Mas a vida que seguiu, foi tão differente da antiga,
-que não parecia o mesmo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span></p>
-
-<p>Os dias passava-os a trabalhar, as noites a aprender
-a lêr, porque o mestre do logar lh’o ensinava a troco
-dos domingos, em que lhe trabalhava no quintal, e as
-horas de sesta ou de jantar passeando pela frente da
-casa da menina Maria, que o enfeitiçára: mas para
-bem, que são os melhores feitiços.</p>
-
-<p>E o caso é que o maganão do Antonio tinha bom
-gosto, por que mocetona mais perfeita não a havia n’estas
-tres leguas ao deredor. Ia-se desenvolvendo e medrando,
-que era um louvar a Deus, e não seria por
-sua parte, que podesse resultar má fama aos ares do
-logar.</p>
-
-<p>Bonita já ella o era, mas enfezada e doentia por
-amor d’aquelle mau respirar que as cidades fazem;
-apenas porém desatou por ahi a passear e a espairecer,
-entrou a córar, que nem uma pera de Santo Antonio,
-e a encorpar que nem uma maçã bemposta.</p>
-
-<p>Se ella reparava no rapaz, nem o sei eu, nem ha
-quem o jure, porque isto de mulheres, nem o demo as
-entende; mas que o não visse com maus olhos é de
-crêr, porque o Antonio, não tinha nada que se deitasse
-fóra e era um rapaz perfeito a mais não poder ser.</p>
-
-<p>Cá por a terra não se fallava n’outra coisa e não havia
-tenda nem barbeiro, onde se não désse á taramella
-a tal respeito. Tudo em bem, que em mal não havia
-rasão, nem atrevimento para tanto, por que com Antonio
-ninguem brincava, e todos se pellavam de medo
-de um certo marmelleiro ferrado, que elle trazia e que
-não era palito para dentes, nem vime de passar creanças.</p>
-
-<p>Tanto fallaram, tanto fallaram, que o caso foi aos
-ouvidos do pae, que já andava com a pedra no sapato
-por tanto rondar de porta e tanto encontrar o Antonio
-nas visinhanças da quinta.</p>
-
-<p>Um dia, que acabava de fazer a barba, dois maltezes
-que estavam no barbeiro, e que o não conheciam,
-entraram com pé de conversa a respeito do tal namoro<span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span>
-e deram a entender, lá por meias palavras que
-o Antonio se fazia com terra de casar com a menina
-Maria.</p>
-
-<p>O sr. José Alves, assim se chamava o pae, não quiz
-ouvir mais nada; atirou com uma de trez para cima
-da mesa do barbeiro, e foi se como um raio a casa do
-Antonio.</p>
-
-<p>Boas tenções não tinha elle. Ia fumando, e vermelho
-como um pimentão, saccudia um camolete que levava,
-que mais parecia um bastão de tambor-mór, do que
-uma vara de encosto. Se encontrasse o rapaz no meio
-do caminho, atirava-se a elle, e não o deixava em
-quanto lhe encontrasse osso inteiro.</p>
-
-<p>Era um sabbado e quasi ao sol posto: o quarto estava
-escuro e Antonio, que voltára mais cedo do trabalho,
-tinha-se atirado para cima da cama, farto de lidar
-e sem poder comsigo.</p>
-
-<p>Apenas por uma claraboia, que havia no telhado, entrava
-alguma luz, e essa ia bater de chapa no retrato,
-que estava á cabeceira; parecia pessoa viva, e até mettia
-respeito olhar para elle.</p>
-
-<p>É de crêr que o sr. José Alves se não demorasse a
-bater á porta, atirou-lhe um encontrão e deitou-a dentro
-ás primeiras rasões.</p>
-
-<p>Antonio ia a agarrar no pau, que tinha ao pé de si,
-e saltar na visita, quando reconheceu o pae de Maria e
-ficou varado; este ia para fallar, quando deu com os
-olhos no retrato e pasmou. As lagrimas saltaram-lhe
-dos olhos, e, sem mais satisfações, perguntou a Antonio,
-apontando-lhe para o painel:</p>
-
-<p>—De quem é aquelle retrato?</p>
-
-<p>—De meu pae, respondeu o rapaz.</p>
-
-<p>—De Antonio, do meu velho amigo!—e em vez de
-se atirar á paulada ao namorado da filha, atirou-se a
-abraçal-o que parecia querer metter-lhe as costellas
-dentro.</p>
-
-<p>O que causára aquella mudança, já o senhor adivinha<span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span>
-o que foi, continuou o tio Joaquim concluindo a
-sua narração, o sr. José Alves era o tal camarada de
-Antonio, que trouxera o retrato, quando o rapaz ainda
-era um fedelho, e a quem o pae o recommendára á
-hora da morte. Tinha continuado a servir depois que
-passára pela terra a cumprir o testamento do moribundo:
-e de batalha, em batalha, esquecera-se do companheiro,
-do filho, e da promessa.</p>
-
-<p>Antonio foi para casa do velho, entrou a administrar-lhe
-o que elle tinha e augmental-o com o trabalho
-e a boa vontade; o casamento que já era de gosto
-do sr. José Alves e a que a rapariga não dizia que não,
-fez-se d’alli a pouco... e lá tem vivido como Deus com
-os anjos até que o velho morreu, deixando a filha e o
-genro de posse da fortuna que o senhor sabe.</p>
-
-<p>No dia seguinte, áquelle em que o tio Joaquim me
-contára esta historia fui aos <i>Fusis</i> procurar o sr. Antonio
-Tavares e receber o dinheiro dos trigos.</p>
-
-<p>Havia muito que não entrava n’uma quinta tão bem
-cultivada, nem via em fazenda alguma, n’aquelles sitios,
-tanta ordem, nem tão bom gosto.</p>
-
-<p>Os systemas mais modernos, os instrumentos mais
-appropriados, as descobertas de maior importancia pratica,
-tudo ali estava aproveitado, com uma tal arte, que
-bem mostrava ter sido, coisa rara entre nós, a theoria
-unida á experiencia com muito criterio e bom resultado.
-A <i>dos Fusis</i> poderia servir de <i>quinta modelo</i>, se os fazendeiros
-da terra, afferrados á rutina, cuidassem de
-modernismos ou tratassem de innovações.</p>
-
-<p>Apenas soube, que eu ali chegára o sr. Antonio Tavares,
-mandou-me entrar para a casa de jantar, onde
-estava com a sua familia; Maria, que devera ter sido
-tão formosa, como o tio Joaquim o dissera: e duas
-creanças, que se tinham levantado da mesa e que brincavam
-ali para um canto.</p>
-
-<p>A casa, posto que conservasse aquelle aspecto severo,
-que ainda se denota n’algumas fóra de Lisboa, que<span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span>
-fosse de ladrilho, com as paredes revestidas d’azulejo
-até meio, e o tecto <i>em osso</i>, com as grossas vigas de
-castanho do emmadeiramento á mostra, era alegre,
-porque recebia muita luz de tres rasgadas janellas, que
-deitavam sobre uma horta. A mobilia era de pau santo
-torneado, e n’um grande armario meio aberto via-se
-boa louça da India, e algumas peças d’uma baixella de
-prata. No logar de honra dava-se com o retrato a lapis
-de Antonio e com um outro mais moderno, a oleo, que
-devia ser do sogro: uma santa, que não sei ao certo
-qual era e dois quadros de fructas ornavam as paredes.</p>
-
-<p>Tudo reunido dava á casa de jantar um certo ar patriarchal,
-que infundia respeito e inspirava felicidade.</p>
-
-<p>Antonio depois de me pedir que me sentasse, e de
-me offerecer um copo de vinho da lavra, levantou-se e
-foi a um contador buscar o dinheiro da compra, que já
-estava embrulhado e prompto desde a vespera; conversámos
-um pouco, e quando me despedia, pediu-me
-que o visitasse a meudo, porque estimaria vêr-me em
-sua casa.</p>
-
-<p>—Voltarei, lhe prometti, e voltarei em breve: o tio
-Joaquim contou me a sua vida, e apenas o conheci,
-comecei a respeital o.</p>
-
-<p>—Bondades suas e do tio Joaquim, que é muito
-velho, não ha razão para o que diz. Fui rapaz, fiz o
-que todos fazem, emendei-me a tempo, se é que não
-foi tarde: se alguma virtude tive, e essa mesma bem
-m’a têem pago aquelles,—disse-me olhando para Maria
-e para os pequenos,—foi não me esquecer no meio
-de todas as minhas doidices, que me tinham ensinado
-a <i>Honrar pae e mãe</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header2.jpg" width="500" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="VI">VI<br />
-<span class="smaller">O fructo prohibido</span></h2>
-
-</div>
-
-<h3>I</h3>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Adeus, Rosa! Adeus! E adeus para sempre!</p>
-
-<p>—Ai! para sempre, meu Estevam?</p>
-
-<p>—Que queres que eu faça, dize?</p>
-
-<p>—Sei-o eu, por ventura? Mas partir...
-e o mar?... É tão bravo!</p>
-
-<p>—Não só no mar ha bravezas, na terra corre-se risco
-de maior: se eu ficasse!...</p>
-
-<p>—O que fazias?</p>
-
-<p>—Ou mettia uma navalha no Januario ou dava um
-tiro n’estes miolos.</p>
-
-<p>—Jesus, homem, tentação do demonio é essa, cruzes!
-Parte, parte, meu Estevam, mas não te esqueças
-de mim.</p>
-
-<p>—E tu?</p>
-
-<p>—Eu! Sempre.</p>
-
-<p>—Adeus!</p>
-
-<p>—Não te verei ainda ámanhã?!... Antes do embarque?...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span></p>
-
-<p>—Não, o que ha de ser seja, quanto mais estiver com
-demoras, mais me faltará o animo. Adeus Rosa, sê
-feliz.</p>
-
-<p>—Adeus, Estevam, volta breve.</p>
-
-<p>—Voltar para que? Para te vêr entregue a outrem,
-que virás a amar, se é que o não amas agora?...
-Para presencear essa vida de felicidade, que é a minha
-desgraça, o meu tormento; para comprehender que
-me illudiste, quando me juraste um amor eterno! Amores
-eternos de mulher, como as flôres d’este nome,
-que duram mezes, e que os primeiros sopros do inverno
-derrubam!...</p>
-
-<p>—Deus te perdôe a injustiça que me fazes!</p>
-
-<p>—Para que casas?</p>
-
-<p>—E a maldição de meu pae?... Meu pae amaldiçoava
-me Estevam.</p>
-
-<p>—E o nosso amor!</p>
-
-<p>—Fica-me no coração, ha de me matar, descança.</p>
-
-<p>—Antes tu morresses...</p>
-
-<p>—Oh! Quem dera!</p>
-
-<p>—Não fallemos mais em semelhante coisa. Para que
-has de dessimular ainda?</p>
-
-<p>—Se eu pudesse rasgar este peito, que me opprime,
-se pudesse arrancar-lhe este coração que é teu, e
-o ha de ser sempre, se te podesse mostrar como elle
-padece, não duvidarias de mim.</p>
-
-<p>—Queres que te agradeça talvez, queres que te bemdiga
-não é assim, queres que estime saber, que pertences
-a outro, não é verdade?</p>
-
-<p>—Não, Estevam, quero que tenhas dó de mim, e
-que me esqueças!</p>
-
-<p>—Esquecer-te, eu! E a minha existencia de até hoje,
-que foi sempre tua, e a minha fé no futuro, que estava
-em ti, e a minha vida toda, que te pertence; queres
-que esqueça tudo?... Se não fôra minha mãe!...</p>
-
-<p>—Tua mãe!</p>
-
-<p>—Sim, minha mãe, pobre e santa velhinha, que não<span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span>
-tem no mundo mais do que eu, que lhe queira e que
-a ampare. Minha mãe, que eu mataria se morresse;
-minha mãe, a unica que me tem tido amor na terra!...</p>
-
-<p>—A unica! Talvez...</p>
-
-<p>—Olha, Rosa, escusas de fingir, para quê? Não vale
-a pena. Ámanhã por estas horas já estarei d’aqui bem
-longe. Só o que te peço, como um ultimo favor, como
-uma esmola, é que te lembres de minha mãe, que lhe
-enxugues as lagrimas, que chores com ella,—não te
-ha de custar muito, sabes tão bem illudir!—e que depois
-uma e outra vez te lembres de que te amei... e
-muito.</p>
-
-<p>—Pela alma da minha te juro, ha de ser minha mãe.</p>
-
-<p>—Obrigado, Rosa. Adeus!</p>
-
-<p>—Não me queiras mal.</p>
-
-<p>—Não poderia, ainda que quizesse.</p>
-
-<p>—Não queiras, Estevam, não, que t’o não mereço,
-perdôa-me e... não te esqueças de mim!... Meu pae,
-que nos vê, foge Estevam, elle encaminha-se para este
-lado.</p>
-
-<p>—Adeus!</p>
-
-<p>Passava-se este dialogo no pateo da quinta de <i>Valle
-do Freixo</i> no dia de S. João, ao amanhecer.</p>
-
-<p>Houvera um bailarico de primor, a que tinham concorrido
-os rapazes e as raparigas das visinhanças e com
-elles os paes, as mães e os tios.</p>
-
-<p>Era um poder de gente, que passára a noite a cantar,
-a dançar, a pular, a rir, a comer, a beber, a respirar
-alegria: a provar que os cuidados lhes não pesavam
-na consciencia, nem o mau humor no espirito.</p>
-
-<p>Fôra um dos mais brilhantes bailaricos de que havia
-memoria.</p>
-
-<p>O dono da quinta pozera uma grande meda de vides
-á disposição da fogueira, e uma pipa de vinho ás ordens
-dos concorrentes; mandára cozer varias amassaduras
-de pão, frigir um por ahi além de peixe; transplantára
-dois alfobres de alface para quatro alguidares,<span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span>
-juntando-lhes tambem quatro cestos vindimos com a
-fructa do tempo, e sobre tudo a boa vontade e o contentamento
-a resplandecerem-lhe na physionomia, convidando
-todos a divertirem se.</p>
-
-<p>Infelizmente, porém, nem todos podiam estar alegres.
-N’aquella multidão buliçosa duas creaturas havia
-tão tristes, tão attribuladas, que cortava o coração olhar
-para ellas: parecia que tinham vindo assistir, não a
-uma festa, mas a um enterro.</p>
-
-<p>E na verdade, ali enterravam vinte annos de esperança
-e de amor: n’aquella noite se viam em despedida,
-e só Deus poderia saber se essa despedida seria
-eterna.</p>
-
-<p>Rosa e Estevam tinham vivido juntos desde creanças
-e tinham-se acostumado a amar, antes, ainda antes
-de saberem o que era amor. Conheceram o que era
-quando começaram a padecer; porque é no soffrimento
-que elle desabrocha, como as rosas de mais apreço
-nos seus berços de espinhos.</p>
-
-<p>Juntos balbuciaram as primeiras palavras, juntos
-aprenderam a lêr, juntos iam á escóla, juntos voltavam
-ás tardes, e juntos passavam as noites brincando no
-campo e discorrendo alegremente, como duas avesinhas
-chilrando proximas na mesma arvore.</p>
-
-<p>E encontra-se o que quer que seja de gorgear de
-passaros no palrar infantil, que borboleteia de assumpto
-em assumpto, soltando de quando em quando notas
-agudas de admiração, ou modulando trilos narrativos
-de tanta viveza e simplicidade.</p>
-
-<p>Disseram em commum as primeiras orações, e muitas
-vezes os surprehendia o passeante enternecido, de
-joelhos e mãosinhas erguidas para o céo, repetindo em
-côro:—«Perdoae-nos, Senhor, as nossas dividas...»
-dividas, de um ninho surprehendido entre as giestas,
-ou de uma innocente mentira a denunciar-se logo pelo
-rubor da candura e pelo borbulhar de duas lagrimas
-de arrependimento, se por ventura os interrogavam.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span></p>
-
-<p>E que lindo grupo, quando estudavam juntos a lição
-do mestre, ou a reza que a mãe lhes ensinára, sentadinhos
-no limiar da porta, um repetindo entre incertezas
-e duvidas; outro escutando com toda a attenção
-e com ares concentrados, como quem comprehendia a
-gravidade da sua posição de professor: mas ambos a
-reverem-se um no outro e a casarem torrentes de luz,
-que lhes chispavam d’aquelles olhos brilhantes, vivos,
-buliçosos, humidos de alegria e languidos de sentimento.</p>
-
-<p>Com o decorrer dos annos não houve remedio senão
-ir gradualmente rareando aquelles doces encontros.
-Demais, tendo morrido a mãe de Rosa, esta ficára governando
-a casa e em companhia de seu pae, que não
-era para graças. Continuaram a vêr-se, a fallar-se;
-mas ás furtadellas, e quasi que ás escondidas.</p>
-
-<p>Rosa crescera, e ao desenvolver-se tinha ganho cada
-vez maiores perfeições. Fizera-se mulher, mas mulher
-tão formosa, tão delicadamente formosa, que confortava
-a alma admiral-a.</p>
-
-<p>Não parecia do campo, nem mesmo da terra.</p>
-
-<p>Devem ser assim aquellas phantasticas visões, que,
-aljofradas por milhares de perolas do orvalho da manhã,
-se esboçam na atmosphera ao romper do sol por
-entre as nevoas da aurora.</p>
-
-<p>Delicada flôr, que a mais terna aragem encurvava,
-parecia quebrar-se no andar. Resvallava pelo chão, deixando
-apenas uma suave fragancia a denunciar a sua
-rapida passagem, e uma indefinida sensação na mente
-dos que a viam.</p>
-
-<p>Por aquellas visinhanças não havia noticia de creança
-tão mimosa.</p>
-
-<p>Era branca; mas branca como o alabastro e como os
-lyrios, e na suave pallidez da physionomia lia-se o sentimento
-d’aquella organisação franzina e nervosa. Os
-cabellos negros como o azeviche, assetinados e brilhantes,
-poder-lhe hiam servir de manto, quando os desatasse<span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span>
-ondeando pelas costas abaixo e dobrando ainda
-no chão; os olhos como dois diamantes negros, sempre
-velados por uma doce melancholia rasgavam-se-lhe
-no meio de duas palpebras escurecidas pelas sobrancelhas
-finamente desenhadas, e orladas d’umas pestanas
-compridas e densas, que davam ao olhar, já de si bem
-triste, mais tristeza ainda amortecendo-lhe o brilho,
-quando raramente o illuminava.</p>
-
-<p>Quem attentasse n’aquelle rosto sempre sentido,
-sempre scismando como que n’outro mundo, sempre
-voltado para o céo, sentiria, se de todo não tivesse a
-alma cerrada á compaixão, uma lagrima de sincera
-piedade cair dos olhos extaticos. Rosa era uma creatura
-que lembrava aquelles mysterios, os enlaces dos
-anjos com as formosas filhas dos homens, nas primeiras
-eras do mundo.</p>
-
-<p>Estevam tambem se desenvolvera, e se formára um
-guapo e gentil rapaz.</p>
-
-<p>Nas bem proporcionadas fórmas lia-se-lhes a força;
-no rosto franco e expansivo, a lealdade e o valor. Não
-havia idéa de que nunca em sua vida tivesse abusado
-da força: mas não constava tambem que tivesse recuado
-nunca. Não procurava o perigo, mas não se temia
-d’elle; era dotado de verdadeira coragem, fria,
-reflexiva, inabalavel.</p>
-
-<p>Estes dotes, porém, não eram de tal natureza, que
-podessem captivar o pae de Rosa, homem de lettras
-gordas, e mais para o dinheiro do que para o sentimento.</p>
-
-<p>Tinha casado com a senhora Placida, depois de lhe
-namorar os pintos e não a physionomia.</p>
-
-<p>Vivera feliz a seu modo, porque tivera os commodos
-da vida, e não comprehendia felicidade possivel, sem
-dinheiro ao canto do bahú, pão na arca, vinho na adega
-e azeite na talha. Todo esse palavreado de amor e
-paixão era engrimanço, que espremido não deitava
-nada; nem julgava que boas razões pagassem dividas
-ou enchessem barriga.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span></p>
-
-<p>Um seu visinho e compadre, homem dos seus quarenta
-puxados, casca grossa como elle, pé de boi, mas
-abastado, e com fama de entender do negocio e da lavoira,
-tinha conversado com o sr. Feliciano Gomes, assim
-se chamava o pae de Rosa, a respeito d’esta, affirmando-lhe
-que se não dava de tomar estado se encontrasse
-mulher tão perfeita como a filha. Feliciano, que
-ha muito andava com o olho n’uma courella do compadre
-Januario, e que por mais d’uma vez futurára
-comprar-lh’a, alegrou-se com a idéa de arredondar a
-sua propriedade, á custa de tão pouco.</p>
-
-<p>Tratou pois de desvanecer algumas duvidas, que
-ainda esvoaçavam no espirito modesto do sr. Januario,
-convencendo-o de que lhe sobravam perfeições para
-captivar o coração mais rebelde, que por ventura palpitasse
-em peito de mulher.</p>
-
-<p>—Mas, eu sei lá, homem?... Já não estou muito
-rapaz...</p>
-
-<p>—Melhor é isso, não tem edade para loucuras.</p>
-
-<p>—E se a rapariga me não quizer?</p>
-
-<p>—Era o que faltava, compadre, deitava-lhe os braços
-abaixo e nunca mais lhe punha a vista em cima!</p>
-
-<p>—N’isso é que eu não consentia!... Pobre Rosita!</p>
-
-<p>—Então quem ha de mandar em minha filha se não
-fôr eu? Quem póde saber o que lhe convém?</p>
-
-<p>—Olhe, compadre, se a pequena tiver alguma inclinação...</p>
-
-<p>—Sem minha licença? Não faltava mais que vêr!
-Ensinava-a por uma vez.</p>
-
-<p>—Veja lá o que faz, homem, não quero que a rapariga
-padeça por minha causa!</p>
-
-<p>—Qual padecer, nem meio padecer. Estou vendo-a
-já saltando de contente, quando lhe disser: não sabes,
-o visinho Januario quer casar comtigo. Foste feliz...</p>
-
-<p>—Isso ha de ser. Não lhe hei de faltar com coisa
-nenhuma.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span></p>
-
-<p>—Pois para as mulheres é o que é preciso: dinheiro
-para gastarem nos trapos, e andam satisfeitas.</p>
-
-<p>—Parece-lhe por conseguinte que serei seu genro?</p>
-
-<p>—Se me parece! Já o é desde hoje, toque lá e deixe
-tudo por minha conta.</p>
-
-<p>—Lembre-se de que eu não quero ir contra a vontade
-d’ella...</p>
-
-<p>—Qual vontade, nem meia vontade, compádre Januario;
-o dito dito, e até ámanhã.</p>
-
-<p>Esta conversação foi o começo das tristes aventuras
-dos dois amantes, que apresentei aos meus leitores, e
-cuja historia, n’uma noite bem invernosa, ouvi ao tio
-Joaquim.</p>
-
-<p>Emquanto Januario ficava scismando na sua vida futura
-e saboreando d’ante-mão a posse da rapariga mais
-guapa d’aquelles sitios, Feliciano recolhia rindo-se e
-esfregando as mãos, o que n’elle denotava o maior signal
-de contentamento.</p>
-
-<p>Acabava de fazer um excellente negocio. Trocára a
-filha por uma courella de dez alqueires de semeadura:
-isto é, uma mulher que tinha que sustentar por uma
-terra que dava de comer.</p>
-
-<p>E o olival das <i>queimadas</i>, e a quinta da <i>cortiça</i>, e o
-casal do <i>petisco</i>, e as terras do <i>Penetra</i>, e a horta da
-<i>allamôa</i>, e tantos outros bens e haveres, que constituiam
-a fortuna de Januario!</p>
-
-<p>Claro estava que tinha tido uma tarde feliz.</p>
-
-<p>Rosa ficou surprehendida ao vêr entrar seu pae em
-casa risonho e cantarolando, coisa de que não havia
-memoria; e sem lhe passar pela cabeça qual era o motivo
-de semelhante transformação, sentiu-se alegre tambem.</p>
-
-<p>Havia muitos annos que seu pae lhe não mostrava
-physionomia tão prasenteira, nem lhe fallava com tanto
-agrado.</p>
-
-<p>De repente deu-lhe uma pancada o coração, quando
-Feliciano, voltando-se para ella, lhe perguntou com certos<span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span>
-modos em que transpareciam alegria e finura mal
-contidas:</p>
-
-<p>—Que te parece o compadre Januario?</p>
-
-<p>—Que me ha de parecer, meu pae, dizem que é tão
-boa pessoa!...</p>
-
-<p>—Sim, sim, bem se sabe isso, boa pessoa, assim
-como quem diz pedaço d’asno; não é pelas bondades,
-que eu te pergunto.</p>
-
-<p>—Então meu pae?...</p>
-
-<p>—Não olhaste para elle nunca com os teus olhos...
-de vêr?</p>
-
-<p>—Eu não senhor.</p>
-
-<p>—Pois é preciso que olhes, entendes-me? disse-lhe
-Feliciano derrubando as sobrancelhas e deixando cair a
-viseira: talvez te agradem mais esses alfenins lambidos,
-que por ahi se andam a desfazer? Pois estás muito
-enganada comigo, percebes?...</p>
-
-<p>E ao passo que ia fallando engrossava a voz e fazia
-cara de arremetter. Rosa tremia como varas verdes, e,
-com os olhos arrasados de lagrimas, encommendava se
-mentalmente a todos os santos do seu calendario.</p>
-
-<p>Mal teve forças para balbuciar um:—sim senhor,
-meu pae,—e, cambaleando, foi fechar-se no seu quarto,
-deitando-se em cima da cama a soluçar convulsa, como
-quem se despedia d’este mundo.</p>
-
-<p>No dia seguinte, ao almoço, parecia que voltava do
-cemiterio, Feliciano, porém, que se não apercebia facilmente
-d’estas mudanças, ou que, se as conhecia,
-fingia bem o contrario, repetiu o interrompido assalto.</p>
-
-<p>—É preciso que vás pensando no casamento, estás
-uma mulher, ouviste?</p>
-
-<p>Bem quizera a pobre da rapariga não ter ouvido;
-mas era impossivel dessimular.</p>
-
-<p>—Eu, meu pae; estou assim bem, eu não quero
-casar!...</p>
-
-<p>A resposta não se fez esperar muito. Feliciano soltou
-uma torrente de imprecações, acompanhamento estrepitoso<span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span>
-de uma bofetada não menos estrepitosa, que
-já cortava os ares ainda bem a rapariga não acabára
-de dizer que não queria casar.</p>
-
-<p>—Grandissima atrevida!... Eu te ensinarei a ter
-querer! Não queres casar, hein! E pensas que engulo
-essa!... Vossês lá que bebem ares por um marido!
-Mas tu o que não sabes é com quem estás mettida:
-eu não nasci hontem e não has de ser tu, minha seresma,
-que me faças o ninho atraz da orelha. Não queres
-casar, hein!... Ora mette-me o dedo na bocca a
-vêr se t’o mordo! É volta de festa, é namorico no
-caso, mas apanhe te eu, que verás por uma vez os meninos
-orphãos a cavallo. Não queres casar! Mas quero
-eu que te cases e é o que basta. O visinho Januario
-pediu-te hontem e eu resolvi que havias de ser sua
-mulher. E é dar graças a Deus, pela pechincha! Onde
-pódes ir que mais valhas? Andar para deante e cara
-alegre, quero que estejas contente, que mostres ao visinho,
-que tens gosto no casamento, e que lhe agradeces
-os seus affectos, senão... ponho-te fóra de casa
-depois de te moer esses ossos, e não quero mais que
-me chames teu pae.</p>
-
-<p>Ao passo que ia ouvindo seu pae, Rosa ia successivamente
-esmorecendo.</p>
-
-<p>Á vermelhidão, que lhe tingira o rosto ao receber a
-brutal bofetada, succedera-se uma pallidez citrina, que
-augmentára até ficar de puro alabastro.</p>
-
-<p>Tinham lhe rebentado as lagrimas dos olhos no primeiro
-momento; mas não correram. Uma constricção
-terrivel lhe afogou a garganta, pensou que ia suffocar-se:
-pulava-lhe o coração no peito, batiam-lhe as arterias
-na cabeça, semilhando o marulho das ondas, em
-torno do que mergulha rapidamente, um cinto de ferro
-lhe apertava a fronte, zunidos estranhos lhe baqueavam
-no cerebro.</p>
-
-<p>Cuidou que ia morrer e do intimo d’alma elevou ao
-Creador, uma prece de jubilo, em acção de graças.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span></p>
-
-<p>Era um desmaio apenas, um d’estes abalos, que
-passam pelas organisações nimiamente nervosas, como
-o furacão pelos arbustos, extremamente debeis.</p>
-
-<p>Acurvam-os até ao chão, estorcem-os na passagem;
-mas não os partem.</p>
-
-<p>Rosa quiz segurar-se á mesa, mas estonteou-se-lhe
-a vista, andou-lhe a cabeça á roda, desfalleceram-lhe
-os braços, correu lhe gelo pelas veias e deu redondamente
-no meio do chão. Parecia morta.</p>
-
-<p>Feliciano largou uma d’estas maldições capazes de
-espavorir toda a milicia celeste e correu á filha; estremeceu-lhe
-o remorso todas as fibras do coração de
-pae. Não havia maldade nas intenções do velho; entendia
-a seu modo a felicidade da filha, que estimava
-devéras: não se persuadiu que o golpe tivesse tão
-fundo alcance e trepidou ante as consequencias.</p>
-
-<p>Mas ao vêl-a voltar a si, recuperou a confiança e de
-novo tornou ao seu plano favorito. Intentou com aquelle
-frio calculo de quem já não cuida em amores, que a
-voz do coração era uma impertinente a que se não devia
-dar ouvidos em questões d’esta ordem, e que só o
-interesse devia tomar a palavra e fallar de cadeira:
-amaciou entretanto a voz, voltou-se menos rispido para
-a rapariga, e disse-lhe quasi enternecido:</p>
-
-<p>—É para teu bem, depois m’o agradecerás...</p>
-
-<p>E saiu, pensando no futuro de Rosa e na conveniencia
-de arredondar as suas terras com a cubiçada
-courella de Januario.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span></p>
-
-<h3>II</h3>
-
-<p>Pensem os que têem amado do coração, no que padecera
-a pobre da rapariga, ouvindo seu pae. Desappareceu
-de repente de ante si aquelle encantado
-futuro, em que se enlevára. N’um momento perdeu
-a esperança, a alegria, a felicidade.</p>
-
-<p>Quando o amor verdadeiro nos domina, só ha em
-nós uma idéa, um pensamento fixo, quasi uma monomania:
-a posse da que se ama, a existencia a dois,
-participando ambos das mesmas dôres, das mesmas
-alegrias, dos mesmos perigos, dos mesmos triumphos,
-das mesmas glorias. Reparte-se o coração com aquella,
-a quem tanto se quer, e de tal maneira se alarga e
-augmenta a porção que lhe entregâmos, que por fim
-nos apercebemos que já de todo nos não pertence. E
-bem longe de nos pezar, enleva-nos, nos mais intimos
-transportes do sentimento, essa doce expoliação do
-nosso ser.</p>
-
-<p>Se nós sômos então amor e sómente amor!</p>
-
-<p>O universo inteiro resume-se n’uma só creatura, e
-tão grande nos parece esta, que o julgâmos ainda pequeno
-para a albergar. Todos os affectos resumem-se<span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span>
-n’um só, de todos os fios que nos prendem ao mundo,
-traçamos uma cadeia só, no remate da qual nos penduramos
-com a energia, com a tenacidade do affogado.</p>
-
-<p>No outro extremo da cadeia acaba o nosso mundo.
-Se um pavoroso cataclismo precipitasse o globo; se as
-espheras se entrechocassem e confundissem; se a creação
-voltasse ao cahos; se as trévas engulissem a luz;
-se n’um rodopiar incessante o universo, se contorcesse
-nos extremos paroxismos: ficasse a mulher, que amavamos,
-comnosco, e nem nos aperceberiamos da mudança.</p>
-
-<p>A luz, a ordem, a harmonia, o movimento dos ceus,
-o revolver dos astros, o tornear da terra, o não acabar
-do espaço, parecem-nos puerilidades insignificantes,
-comparados com o infinito do nosso amor. Só ha uma
-occasião, só ha uma phase da existencia, em que o homem
-se exalta, se eleva, se engrandece, se eguala ao
-Creador. É quando ama.</p>
-
-<p>Satanaz se fôra o demonio do amor e não o demonio
-do orgulho resistiria ao Omnipotente.</p>
-
-<p>Quando se assenhoreia de nós, o amor espalha por
-tudo quanto nos cerca, fulgores que nem a centelha
-do raio póde offuscar, harmonias que nem os córos celestiaes
-pódem fazer esquecer, encantos, que não os
-tem assim a bemaventurança.</p>
-
-<p>É que a mulher reside para nós em tudo: tanto na
-florinha, que mal se descortina entre a relva dos prados,
-como na montanha arrojada, que parece lacerar
-os seios do infinito: se queremos colher as flôres para
-com ellas lhe juncarmos o pizo, queremos transformar-lhe
-a montanha em pedestal, para sobre elle a levantarmos.</p>
-
-<p>Da nuvem far-lhe-hiamos um véu, das estrellas um
-diadema, dos ceus sem limites um azulado sendal.</p>
-
-<p>E depois descontentes ainda, pedimos com religioso
-fervor ao auctor dos mundos, que reforme a sua obra,
-que dilate mais a creação, que a exalte mais; porque<span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span>
-não nos chega, quanto existe para a mulher por quem
-vivemos.</p>
-
-<p>E se é assim o homem, o que não será a mulher,
-toda sentimento, toda amor, toda affecto e... senão
-toda egoismo, toda vaidade e toda presumpção.</p>
-
-<p>A mulher, que, quando ama devéras, arranca o homem,
-das trévas descobrindo-lhe novos lumes de paixão,
-feições novas de sentir, delicadezas desconhecidas,
-mimos e enlevos, que não descortina nunca a nossa natural
-brutalidade. A mulher, que ou ama, como cantam
-os cysnes, amando e morrendo desde logo pelo
-amor, ou nutre em si o amor, como a arvore alimenta
-a parasita, vivendo só para a nutrir e definhando-se
-em quanto ella medra á custa de sacrificios, de abnegação,
-e de soffrimentos inapreciaveis; ou quando mesmo,
-presumida em excesso, e vaidosa sem termos, se
-ama a si, amando o homem, que se lhe rendeu, e bem
-querendo a esse rendimento, a essa homenagem, a
-esse culto, porque lhe desvanece a vaidade, porque é
-uma confissão eloquente das suas perfeições, porque
-finalmente é seu, e veio de si, para de novo voltar
-para si, como as plantas amam a agua, que elevam da
-terra, entregam aos ares, para que estes lh’a restituam
-depois em amorosas lagrimas.</p>
-
-<p>Rosa amava e amava sincera, piedosa, apaixonadamente.
-Não havia confeição alguma n’aquelle sentimento,
-que nascera do coração, proviera da alma, e que
-se fortalecera aquecido pelos éstos da natureza. Amára
-creança ainda, amára com força muito maior, quando
-a puberdade, lhe transformára o ser transfundindo-lhe
-nas arterias faúlhas de desejo.</p>
-
-<p>Quando a vida nova dos dezeseis annos lhe abalou
-a organisação infantil, quando o coração se tornou turgido
-de sangue, rico de vida e farto de estimulos creadores,
-quando aquella flôr do campo, chegou ao periodo,
-em que as petalas se tingem de mais brilhantes
-côres para deslumbrarem e cahirem breve, o amor de<span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span>
-Estevam, que já a possuia transformou-se tambem, e
-dominou a mulher, como dominára a creança.</p>
-
-<p>Foi para elle, que, córando de pudor, elevou os seus
-pensamentos de mais arrojado affecto, quando lhe esvoaçou
-deante da imaginação deslumbrada essa nova
-perspectiva, que lhe apresentava o mundo, ao conhecer-se
-outra pela inspiração divina, que n’essa quadra
-da vida, patenteia á mulher os desconhecidos horisontes
-da procreação e da maternidade.</p>
-
-<p>O amor de creança unira-se ao amor de Estevam;
-e d’este delicado enlace nascera o amor—mulher. Não
-lhe assomava o desejo á mente, sem que esse desejo
-se não transformasse para ella na imagem varonil e
-fascinante do seu apaixonado. A sua nova existencia
-era de Estevam; era por Estevam: e o homem, que
-tal consegue da mulher, póde chamar-lhe sua, sem que
-o considerem presumido.</p>
-
-<p>Entretanto as palavras de Feliciano operaram em
-Rosa uma revolução cruel. Não se persuadira nunca,
-que o amor de filha podesse entrar em lucta com o
-amor de mulher: e nem por sombras se preparára para
-semelhante combate. Se o coração fallasse unicamente,
-se não se tratasse senão de resistir á colera e maus
-tratamentos de seu pae, a escolha não seria duvidosa.
-Matasse-a embora, que morreria contente, se até aos
-ultimos momentos a deixassem amar Estevam; mas a
-maldição paterna troava-lhe ainda aos ouvidos, e todas
-as fibras d’aquella organisação delicada extremeciam,
-só ao lembrar-se de que elle lhe prohibira o nome de
-filha. A religião, a crença, a educação, tudo lhe fallava
-em favor de seu pae; em favor de Estevam só o muito,
-que o amava, mas não era o bastante. Amaldiçoada,
-via os tormentos do inferno, o penar de sua alma, a
-espada de fogo do archanjo exterminador, a condemnação
-eterna, e a memoria da sua infancia, e os santos
-de sua devoção a sumirem-se-lhe para sempre.</p>
-
-<p>Não enlouqueceu, porque não teve forças para tanto;<span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span>
-não morreu, porque a intensidade propria do soffrimento
-lhe deu forças para resistir, phenomeno bem
-vulgar nas organisações nervosas; não se matou, porque
-lhe affastavam tal pensamento de si, as idéas com
-que fôra creada: soffreu muito, por fim, pelo embotamento
-do soffrer, pareceu resignar-se.</p>
-
-<p>Triste resignação, em que amortalhára os mais puros
-affectos, o mais risonho futuro, a mais affagada esperança!</p>
-
-<p>A idéa de que se sacrificava á vontade de seu pae se
-não lhe deu consolação, deu lhe forças; e o persuadir-se
-que cumpria com o seu dever animou-a a persistir:
-se não ganhou o santo enthusiasmo, com que os martyres
-se encaminhavam para o supplicio, alcançou ao
-menos aquella frieza apathica, da mais entranhada abnegação.</p>
-
-<p>Deixou de se pertencer. Fez-se cadaver, transformou-se
-em instrumento da vontade de seu pae, instrumento
-inerte, impassivel, sem vida, sem pensamento
-proprio. Não tivera animo para se matar; mas definhava-se
-lentamente n’aquelle doloroso suicidio moral.</p>
-
-<p>Alguns dias depois da scena que se passára entre o
-pae e a filha, Estevam recolhia do trabalho cantando,
-e todo enlevado na sua Rosa, que julgava não vêr, havia
-tanto tempo. A voz melodiosa corria nas voltas do
-caminho e repetia-se mais affinada pelos echos de um
-monte proximo.</p>
-
-<p>Ouvira-o Rosa, que abatida, e alheia ao mundo estava
-mais cahida que sentada n’uma cadeira, com os
-olhos pregados n’uma imagem de Senhora das Dores,
-que tinha perto da cama; palpitou-lhe de novo o coração
-no peito; aquella voz abalou-a como o choque da
-pilha, e sem se lembrar do que fazia, cedendo ao impulso,
-que tantas vezes a movera, correu à porta, ao
-mesmo tempo em que Estevam se aproximava do limiar.</p>
-
-<p>Ao vêl-o porém fugiram-lhe de todo as forças e caiu-lhe<span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span>
-desmaiada nos braços. Ao longe parecera-lhe notar
-na sombra o vulto ameaçador de seu pae:</p>
-
-<p>—Rosa da minha vida, que tens tu, que nunca te
-vi assim? exclamára Estevam recebendo-a nos braços,
-torna a ti, sou eu, é o teu Estevam!</p>
-
-<p>Perto d’ali corria a agua de um boeiro do muro; levantou-a
-em seus braços, poisou-a n’um marco, proximo
-do jorro, e ás mãos cheias lhe espargiu o rosto;
-depois ao vêl-a tornar-se á vida, curvou-se, aproximou-se
-mais da amante como para lhe transfundir a
-vida, que lhe sobrava, e tão perto lhe afflorou os labios,
-que dir-se-ia um rapido beijo unira por instantes as
-duas apaixonadas boccas. O osculo chamou á vida e á
-realidade a desgraçada Rosa, que desmaiara enlevada
-nos gostosos sonhos de uma felicidade, que lhe era defeza.</p>
-
-<p>—Ai, Estevam, estâmos perdidos, exclamou a misera
-acordando de todo, quasi nos braços do amante.</p>
-
-<p>—Perdidos, Rosa!... Que dizes!</p>
-
-<p>—Meu pae... quer que eu case com o Januario.</p>
-
-<p>—E tu!</p>
-
-<p>—Eu, Estevam!... meu pae amaldiçoa-me.</p>
-
-<p>Foi então, que elle ia desmaiando tambem. Cambaleou,
-encostou-se á parede para não vergar, e foi-lhe
-preciso grande força de vontade para resistir.</p>
-
-<p>Resistiu porém, e como se lhe arrancassem esta exclamação
-do fundo da alma:</p>
-
-<p>—Pensei, que me tinhas mais amor!...</p>
-
-<p>—Deus te perdoe, Estevam, por duvidares de mim.</p>
-
-<p>—Duvidar! queres talvez que te agradeça, que te
-bemdiga, porque ás primeiras palavras de teu pae, me
-atiras a monte, como herva ruim, ou foice partida. Eu
-é que tenho a culpa, não é assim?</p>
-
-<p>Dize, anda, eu é que tenho a culpa: e tenho, porque
-te queria mais do que á propria vida, porque te
-queria, como homem nenhum poderia querer a uma
-mulher. Anda, não duvides, accusa-me, Rosa, que bem<span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span>
-o mereço. E entretanto Deus sabe, que thesouros de
-amor, se guardavam cá dentro, Deus sabe quanto eu
-te estremecia!... Pensei que não houvesse forças no
-mundo que nos separassem, pensei que nem Deus
-mesmo tivesse poder para tanto! Enganei-me. Foi bem
-feito.—Se tu és mulher!... E não arrebentar eu, quando
-me assomou este amor!—Não ter havido um raio
-que me partisse!... Casa, casa e sê feliz!</p>
-
-<p>Depois, entre soluços, soltou um <i>adeus</i>, e deitou a
-correr como doido, fugindo à tentação, que lhe affogueava
-o pensamento.</p>
-
-<p>Rosa ficou prostrada sobre o marco, até que a agua
-innundando lhe o rosto, a reanimou por um pouco; seguiu,
-mais por instincto do que por vontade, para casa
-e deitou-se, já com os primeiros symptomas de uma
-febre cerebral agudissima.</p>
-
-<p>Feliciano não soube nunca a rasão da doença de
-sua filha, Januario acompanhou o compadre n’algumas
-noites perdidas, e Rosa costumou-se a vêl-o e a agradecer-lhe
-o cuidado e a affeição, que lhe mostrára.
-Affeição rude, brutal mesmo; mas por isso tanto mais
-para apreciar uma ou outra delicadeza, que surdia como
-enfesadinho rebento de tronco cascudo e rugoso.</p>
-
-<p>Convalescente ainda, apparecera Rosa no bailarico,
-e ali encontrára Estevam, que durante a doença não se
-affastou nunca das proximidades da casa, empregando
-astucias incriveis, reccorrendo a subtilezas quasi inacreditaveis,
-para a vêr sem que o visse, ou para se informar,
-ao menos, do estado em que se achava.</p>
-
-<p>Os nossos leitores já assistiram ao dialogo que travaram.
-No dia seguinte Estevam, partia a bordo da—<i>Joaquina
-Primeira</i>—para a Costa d’Africa, e um mez
-depois Rosa casava com Januario, quasi sem perceber,
-que mudava d’estado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span></p>
-
-<h3>III</h3>
-
-<p>Tinha decorrido um anno depois do encontro de Rosa
-com Estevam, que ultimamente relatámos. Não haviam
-chegado noticias d’este ultimo e corria pela terra, que
-morrera das febres d’Africa. Rosa nunca mais proferira
-o nome do seu antigo apaixonado; mas quem lhe devassasse
-o intimo d’alma reconheceria, que a imagem
-querida não lhe saira nunca do pensamento.</p>
-
-<p>Apparecia-lhe nas horas suaves de melancholia, quando
-espraiava a vista pelos descampados, descançando
-depois os olhos no filhinho de mez, que se lhe pendurava
-do seio.</p>
-
-<p>Depois que desapparecera, Estevam convertera-se
-para a imaginação apaixonada de Rosa n’uma triste visão,
-que saudosamente lhe sorria d’essas regiões encantadas,
-que a phantasia povôa de arrobados devaneios.</p>
-
-<p>Aquelle amor depurára-se pela ausencia, e a noiva
-entregando-se ao marido, cumprindo religiosamente os
-seus deveres de mãe e de esposa, persuadia-se que
-lhe seria licito, ao menos dispôr da sua alma.</p>
-
-<p>E, ainda que o não quizesse, esta pertencia a Estevam.
-A posse que lhe déra, que elle conquistára á
-força de disvelos, de sollicitude e de amor, era inalienavel,<span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span>
-ganhára-a com o sacrificio da sua vida, com o
-holocausto da sua existencia, nos altares da dedicação.
-E que importava a Januario, este innocente roubo!
-Não poderia encontrar mulher que mais cuidasse d’elle,
-que mais o cercasse de carinhos, que mais se sacrificasse
-ao seu bem estar.</p>
-
-<p>Nenhuma seria capaz de dar melhor ordem á vida,
-de cuidar mais no arranjo da casa, de providenciar
-mais para que coisa alguma faltasse a seu marido. Delicadezas
-de sentimento, não eram para Januario; nem
-as comprehendia, nem se dava de semelhante coisa. O
-mundo, para elle, era uma serie de commodos, e o
-conforto da casa e da familia a felicidade suprema.</p>
-
-<p>Não pensára nunca em fallar ao coração de sua mulher.
-E andára acertadamente não procurando desferir
-instrumento, que atormentado por aquellas mãos rudes
-apenas poderia soltar gemidos; mas harmonias nunca.
-Onde acabava a materialidade finalisava o mundo. Idealismos,
-se alguem lhe fallára em tal coisa, poderia contar
-com descompostura certa, em paga de semelhante
-atrevimento.</p>
-
-<p>Tinha com que viver e vivia do que tinha.</p>
-
-<p>O grangeio das fazendas, o amanho das terras, os
-cuidados da agricultura, preoccupavam-lhe o dia. Á
-noite esperava-o uma boa ceia, uma cama de pau santo
-lusidia com os lençóes alvos de neve a estenderem-lhe
-os braços, a esposa a sorrir-lhe no limiar, sorriso encoberto
-por um permanente veu de tristeza, mas isso
-não percebia elle, e o filho a dormir tranquillo no berço
-com o bracinho curvado sob a cabeça, a boquinha rosada
-mussitando sonhos de convivencia com os anjos,
-seus irmãos.</p>
-
-<p>E o aceio a afformosear tudo, e a tranquillidade a
-alegrar o interior da casa, e a arca recheada ao canto,
-a prometter dilatados dias de descanço e de fartura.</p>
-
-<p>E até para lhe alimentar as rabujices da idade, (Januario
-já rastejava pelos cincoenta), o birrento do sogro,<span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span>
-que sempre tinha que lhe tornar, e que contradizer
-em todos os trabalhos, que emprehendia seu
-genro.</p>
-
-<p>Que mais quereria pois.</p>
-
-<p>Rosa costumára-se tambem a esta vida de insensibilidade
-e sacrificio. A ideia de que fizera a felicidade de
-seu pae, e de seu esposo, consolára-a da grande perda,
-que sentira e vivia transfundindo em seu filho todas
-as delicadezas de sentimento e de amor, de que
-precisava para poder viver.</p>
-
-<p>Transformação, que facilmente comprehendem os que
-sentirem devéras, o amor de Estevam depurára-se-lhe
-na alma e fizera-se amor de mãe. Quantas vezes lhe
-parecia emballando seu filho, que estreitava nos braços
-a Estevam!... Então conchegava a creança mais
-a si; apertava-a tremulamente: e duas lagrimas de saudade,
-ou talvez de amor, deslisavam-lhe pelas faces.</p>
-
-<p>O filhinho, disperto com aquelle enlace, abria os
-olhos, e parecia fital-os na mãe, como traduzindo uma
-admirada reprehensão: ao menos assim o julgava ella,
-que se sentia desfallecer e se accusava então d’aquella
-innocente infidelidade aos seus deveres de esposa. Beijava
-ferverosamente o seu pequeno censor, como para
-o abrandar, e com aquella imagem afugentar a outra
-que tinha presente sempre.</p>
-
-<p>N’estes rapidos e quasi inapreciaveis movimentos se
-denunciava apenas a intensidade d’aquella violenta e
-concentrada paixão. Como nas pavorosas tormentas submarinas
-a placida superficie das aguas só n’um ligeiro
-tremer poderia denotar a força das horrendas luctas,
-que se travavam nas remotas profundezas.</p>
-
-<p>Uma tarde ficára absorta no seu scismar contemplativo
-toda embevecida n’aquellas divagações, que tantas
-vezes a alheavam do mundo em que vivia. Os olhos
-parados e fitos pareciam procurar nos affastados horisontes
-aquelle indefinido ponto em que os espaços se
-perdem de vista e que a phantasia enriquece com suas<span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span>
-extranhas creações. Dir-se-ia a estatua do desalento
-poisada sobre a pedra da sepultura a remirar-se nos
-ceus, na sua almejada patria.</p>
-
-<p>A imagem de Estevam adejára-lhe na mente, e enlevada
-n’aquella paixão, que a não deixava, deixou
-approximar-se a noite sem perceber que as trévas baixavam
-encobrindo os campos.</p>
-
-<p>Já a lua desenhava com os seus pallidos clarões figuras
-estravagantes, que pareciam dançar por entre o arvoredo
-á feição do vento, e Rosa ainda estava no mesmo
-logar e na mesma posição.</p>
-
-<p>De repente soltou um grito e estendeu diante de si
-convulsivamente os braços, como se pretendesse affastar
-um phantasma atterrador. A imagem, que evocára
-parecêra tomar corpo, e n’um vulto que se escondia
-por entre as arvores cuidou reconhecer Estevam.</p>
-
-<p>Effectivamente apenas soltára aquelle grito o vulto
-correu para ella, era Estevam.</p>
-
-<p>—Estevam!</p>
-
-<p>—Rosa!</p>
-
-<p>—Tu aqui?!</p>
-
-<p>—Se eu não podia já viver longe de ti! Se morria
-se te não visse?</p>
-
-<p>—E agora?</p>
-
-<p>—Agora? Vi-te. Disse-te uma vez ainda: amo-te, e
-posso morrer!</p>
-
-<p>—Sabes, Estevam, que sou mulher de Januario, sabes,
-que tenho um filho de meu marido?</p>
-
-<p>—Para que m’o lembraste? Pensas que não m’o tinha
-dito já o coração?</p>
-
-<p>—Para que voltaste, então, Estevam?</p>
-
-<p>—Não t’o disse já? Para te vêr.</p>
-
-<p>—Ai! quanto me custa que voltasses!</p>
-
-<p>—Bem sei. Deveria ter morrido, não é assim? um
-homem como eu, que ninguem estima, que não tem affeições
-n’este mundo, que vive, como o espargo no
-monte, que embora procure lançar raizes na terra lh’as<span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span>
-arrancam como o escalracho, devia morrer. Não serve
-de nada, não deve viver, tens razão.</p>
-
-<p>—E quem te diz que assim seja? Quem te diz que
-não ha quem te ame, quem ainda se dedique por ti,
-quem te não esqueça nunca. Ah! Estevam, os homens
-não comprehendem o coração da mulher!</p>
-
-<p>—Não comprehendem, não. A mulher, santa creatura,
-na verdade! A mulher, que mente ao marido, mente,
-ao amante, a mulher que se enlaça como a hera no coração
-do homem, cravando-lhe cada vez mais fundos
-os espinhos, roubando-lhe cada vez mais a vida. Não
-te comprehendi, Rosa, devia agradecer-te, porque pertences
-a outro, porque hontem dormiste ao lado d’outro,
-porque d’aqui a pouco vaes deitar-te no seu leito.
-Devia agradecer-te não é assim? Dize, anda, bem vês,
-que te vou comprehendendo.</p>
-
-<p>—Que mal te fiz para me tratares com esse desdem?</p>
-
-<p>—Que mal me fizeste? Nenhum! Eu é que fui um
-louco, eu é que errei, quando prendi a minha vida á
-tua, quando te entreguei a minha sorte, quando em ti
-puz a minha esperança. Eu é que fiz mal, quando me
-deitei a amar esse amor, que tantas vezes me juraste,
-quando depositei fé nas tuas palavras, que pareciam
-tão sinceras, quando pensei que havias de ser minha,
-porque assim m’o juráras mil vezes, eu é que mereço
-castigo, porque confiei na sinceridade do teu coração,
-porque loucamente credulo não me persuadi nunca de
-que fingisses tão bem, que houvesse em ti dissimulação
-tão grande.</p>
-
-<p>—Se soubesses quanto tenho padecido, não me fallavas
-de certo assim!</p>
-
-<p>—E eu! Julgas porventura, que te sumiste um momento
-sequer da minha ideia? Pensas que te não vi
-sempre diante de mim, nas tribulações da vida, nas
-ondas do mar, nos sertões d’Africa, nas extensões do
-céo... Sempre, sempre! Pensas que não me lembrava
-sempre, que eras d’outro, tu que só poderias ser minha!<span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span>
-Pensas, que não me deram por doido; que me
-não arrojei ao mar, por mais d’uma vez, para lá ficar
-para sempre?... Se não fosse terem-me salvo, já hoje
-te não inquietava!... Pensas...</p>
-
-<p>—Não continues! Estamos a aggravar uma ferida
-que não póde sarar mais! Antes não nos vissemos!</p>
-
-<p>—E assim me despedes! Bem m’o dizia o coração!
-Falsa!...</p>
-
-<p>Rosa levantou a cabeça cheia de indignação; até esse
-momento, parecia que escutava a sua sentença de morte:
-quando porém Estevam assim a accusou, quando
-lhe pareceu, que o seu enorme sacrificio não era comprehendido,
-que o seu amor era tão mal julgado, a voz
-da consciencia, que a defendia dos aggravos de seu
-amante, bradou-lhe lá dentro.</p>
-
-<p>—Ergue te!...</p>
-
-<p>Elevou os olhos para o céo, como para se inspirar
-n’uma resolução suprema, affastou da fronte os cabellos,
-que a offuscavam, levantou-se com um movimento
-de nobre magestade, travou da mão de Estevam, que
-a olhava surpreso, e exclamando apenas:—Vem!—levou-o
-comsigo para dentro de casa.</p>
-
-<p>Com o sorriso a adejar-lhe sobre a physionomia, estava
-o filhinho de Januario deitado no berço dormindo,
-os braços torneados descançavam fóra da roupa abertos
-e como estendendo-se para a mãe. No fundo da alcova
-a um canto, que a luz d’uma lamparina illuminava
-a custo, adivinhava se o esposo que dormia: o ressonar
-compassado e sonoro, n’outro quarto proximo,
-deixava perceber, que Feliciano depois de ter largamente
-discutido com seu genro a conveniencia de uma
-nova semeadura, descançára por fim cançado de rabujar.
-De resto tudo estava em socego.</p>
-
-<p>Estevam, sem comprehender para que, deixou-se arrastar
-até junto do berço: ahi, Rosa correndo a vista
-pela casa fitou por ultimo o olhar no seu companheiro.</p>
-
-<p>—Ámanhã esta creança acordará, e aquelles dois<span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span>
-velhos levantar-se-hão sorrindo para mim como sempre,
-cheios de confiança, e de... amisade. Como até
-hoje julgar-me-hão filha honrada, mãe honesta... esposa
-fiel!... Sacrifico-te, aqui, junto d’este berço...
-e d’aquelle leito, todo o meu passado, todo o meu futuro,
-tudo!... Aqui me tens, Estevam, vê agora se te
-amo. Sou tua!...</p>
-
-<p>E resignada, nobre, altiva, caminhou para elle, que
-recuára, como os martyres deveriam caminhar para a
-fogueira... serena, tranquilla, orgulhosa pelo seu sacrificio,
-illuminada pela divina aureola do amor.</p>
-
-<p>Estevam parecia fulminado.</p>
-
-<p>Foi mysterio o que se passou na sua alma; entretanto
-comprehendeu tudo, e soube elevar-se até ás sublimidades
-d’aquella mulher.</p>
-
-<p>Avaliou qual era a grandeza d’um semelhante amor,
-e sentiu-se digno d’elle. Leu de relance todas as paginas
-dolorosas d’aquella epopêa intima, e elevou no santuario
-de seu coração, purificado de quaesquer resquicios
-da natureza terrestre e material, um cantico divino
-de admiração, caiu de joelhos aos pés de Rosa e desatou
-a soluçar.</p>
-
-<p>As lagrimas queimavam-lhe as faces; mas refrigeravam-lhe
-a alma: quando se levantou era outro.</p>
-
-<p>Curvou se sobre o berço infantil, depositou um beijo
-no rosto do innocente, dirigiu-se para Rosa, que ainda
-o esperava immovel, mal lhe approximou da testa os
-beiços e desviando os olhos do leito, onde Januario
-dormia, saiu dizendo á sua antiga amante:</p>
-
-<p>—Adeus irmã!</p>
-
-<p>Foi tudo obra d’um momento.</p>
-
-<p>Rosa caiu sobre o berço de seu filho cobrindo-o de
-beijos; Estevam já ía longe.</p>
-
-<p>A creança soltára um vagido lastimoso, acordára ao
-sentir-se innundar pelas lagrimas de sua mãe, e estendendo
-para ella os braços, sorrira.</p>
-
-<p>Januario não déra signal de si.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span></p>
-
-<h3>IV</h3>
-
-<p>As feridas moraes não se semelham ás physicas. O
-coração rasga se com a dôr, soffre-se por muito; mas
-o tempo cicatrisa tudo.</p>
-
-<p>O correr dos annos enregela a alma, e acalma os
-ardores da paixão. Estevam ainda foi feliz.</p>
-
-<p>Rosa, essa, ninguem poude saber se se esquecera
-d’aquella noite. O amor de seu filho consumiu-lhe a
-vida toda.</p>
-
-<p>Nunca se lhe tingiram as faces de côr, nem o mais
-leve sorriso lhe entreabriu os labios: poucos a ouviram
-fallar, raras vezes proferia alguma palavra.</p>
-
-<p>Entretanto foi sempre esposa disvellada e filha extremosa;
-pouco tempo sobreviveu a seu marido.</p>
-
-<p>Aquella hora fôra a ultima em que conhecera que
-tinha coração; foi tambem a ultima em que se avistou
-com Estevam.</p>
-
-<p>Feliciano, na manhã seguinte a uma noite, em que
-mais se exaltára discutindo com seu genro sobre o melhor
-modo de alqueivar uma terra, foi encontrado morto
-na cama.</p>
-
-<p>Succumbira a uma congestão cerebral.</p>
-
-<p>A terra sobre que versára a controversia era propriamente
-a courella, por amor da qual contractára o
-casamento da filha.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header2.jpg" width="500" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="VII">VII<br />
-<span class="smaller">A gallinha da minha visinha...</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-j.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Já era o sol posto havia um quarto de hora.
-Tocára a largar o trabalho, e cada qual
-recolhera para a sua casa: uns sósinhos,
-pelas azinhagas fóra, se mais tresmalhados
-moravam; outros, em rancho, se poisavam
-juntos n’alguma terra proxima.</p>
-
-<p>André Pimenta, um dos trabalhadores mais fallados
-dos sitios onde este caso aconteceu, deitára a enchada
-ao hombro, e enfiára-lhe o cesto do jantar, de maus
-modos e sem dizer um <i>Deus os ajude</i> aos companheiros,
-coisa para estranhar n’um homem maneiro e pratico
-como elle era; entestou para as bandas da casa,
-sem dar palavra e com cara de curtir sezões.</p>
-
-<p>Foi grande fallada na malta por causa d’este passo.
-Nunca o tinham visto tão esquerdo, nem de tão má
-catadura para os amigos. E d’ahi, andára todo o dia a
-fugir com o corpo ao trabalho, e a resmungar com os<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span>
-seus botões, como quem lhe roía alguma coisa lá por
-dentro.</p>
-
-<p>Ou estava doente o pobre do homem; ou lhe tinham
-dado quebranto.</p>
-
-<p>Porque até então ninguem lhe pozera o pé adiante
-no trabalho e ninguem o levára á parede em alegrias e
-cantigas. Andava sempre mais contente do que a cigarra
-e mais esperto do que o pardal.</p>
-
-<p>O que teria o André Pimenta?</p>
-
-<p>N’estes pontos de interrogação viera a gente toda da
-quinta do <i>Chibanta</i> ao logar da Rabiça fazer o farnel
-para a semana, porque era n’um sabbado e tinham recebido
-a féria: em perguntas e conversas deitaram até
-defronte da casita onde elle morava e onde estava
-ainda, muito bem amezendado n’um poial á entrada da
-porta, e tão pasmado, que parecia ter-lhe um ar mau
-passado por cima, n’aquelle logar mesmo.</p>
-
-<p>—Boas noites, tio André!</p>
-
-<p>—Adeus, tio André, quer alguma coisa da Rabiça?</p>
-
-<p>Estas perguntas, com mais ou menos variantes, lhe
-dirigiam os pobres ganha-pães, sem que obtivessem
-resposta, além de um resmungar inintelligivel, que de
-má vontade saiu do peito de André, e que se fez ouvir
-sem que abrisse a bocca.</p>
-
-<p>Os maltezes olharam-se, encolheram os hombros, entenderam
-se pelos olhos: e, cada vez mais admirados,
-seguiram para o logar.</p>
-
-<p>O caso era para dar que fazer até mesmo a um escrivão!</p>
-
-<p>André fôra sempre um bom trabalhador e um honrado
-chefe de familia. Depois de andar um santo dia
-na sua labutação, não havia para elle maior regalo, do
-que vir de noitinha brincar com os pequenos ou conversar
-com a mulher, emquanto se lhe não apromptava
-a ceia e não tocava a deitar. Ao portal da casa, de
-verão; de inverno, sentado ao pé da chaminé n’um
-banco que elle arranjára em horas de sesta.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span></p>
-
-<p>N’aquella casa não se conhecera nunca cirurgião
-nem boticario, e não constava pela visinhança que se
-lá tivesse ralhado nunca. Pois a lingua d’aquella gente
-não perdoava, nem ao padre prior!</p>
-
-<p>Mas, quando tocava ao André das Furôas, (assim se
-chamava ao sitio onde assistia) ou á Magdalena da tia
-Ignacia, todos diziam á uma, que era um casal em que
-se não podia pôr bocca, e que viviam tão socegados,
-como Deus com os Anjos.</p>
-
-<p>Entretanto nem só os camaradas haviam extranhado
-André n’aquelle dia; Magdalena e os pequenos tinham
-ficado passados, quando o haviam visto chegar ao pé
-da porta, atirar com a enchada e o cesto para o meio
-da casa, como quem atirava com o diabo á rua e deitar-se
-para cima do banco, sem dizer nada nem á mulher
-nem aos filhos.</p>
-
-<p>Pela primeira vez na sua vida um mau pensamento
-viera torvar a serenidade d’aquella alma. André sentira
-a inveja, e tinha medo d’ella e de si. Admirava-se
-da mudança, que lhe ia lá por dentro e não tinha alma
-para deitar fóra aquella tentação. Não se conhecia, por
-differente; e não sabia como havia de tornar a ser o
-mesmo.</p>
-
-<p>Parecerá estranho a quem não conhecer a vida apathica
-e rotineira da gente do campo, André não pensára
-nunca nas differenças d’este mundo, nem nas gradações
-de posição. Parecia-lhe tão natural ser rico o
-sr. Manoel Fernandes e elle trabalhar para o sr. Manoel
-Fernandes e ser pobre, como deitar-se á noitinha
-e erguer-se de madrugada. Nunca considerára n’essas
-differenças, e ia trabalhando todos os dias com a enchada
-ou com o podão, como já seu pae trabalhára, e
-o pae de sua mulher, e como esperava que seus filhos
-trabalhassem, quando tivessem edade para isso.</p>
-
-<p>N’aquelle dia, porém, a horas d’almoço, ouvira uma
-conversa em que andára a matutar todo o dia, porque
-lhe fizera sensação devéras lá por dentro. Dois senhores<span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span>
-da cidade tinham vindo visitar o sr. Manoel Fernandes
-e ao dar uma volta pela fazenda demoraram-se,
-com a curiosidade de vadios a vêr trabalhar os maltezes,
-que andavam n’uma cova aos montes.</p>
-
-<p>Admirados de vêr, n’uma hora, trafego, que os cançaria
-todo um mez, começaram em voz alta a fazer
-commentarios, e a lamentar a sorte d’aquelles homens,
-que suppunham infelizes.</p>
-
-<p>—Pobre gente, dizia um, tanto trabalho e por tão
-pouco dinheiro!</p>
-
-<p>—Então, respondia-lhe o companheiro, se elles não
-trabalhassem como haviamos de comer, bem vês que
-nem todos podiamos ser eguaes.</p>
-
-<p>—É verdade mas eu morria se cavasse duas horas!</p>
-
-<p>—Não admira, cada um para o que nasceu.</p>
-
-<p>E mil cousas como estas que é facil imaginar. O
-effeito que produziram, isto é que nem elles nem ninguem
-poderia imaginar. Não cairam no chão. Apanhou-as
-o ouvido de André a quem abriram um mundo
-novo. Pois havia homens, que não podiam cavar, ou que
-não queriam; e outros eternamente condemnados áquelle
-trabalho! Era coisa em que não pensára nunca, mas
-que lhe fervilhava agora lá por dentro, azoinando-o
-todo o dia. André Pimenta começava, como o anjo caído,
-a olhar para cima, e ao vêr outros tão altos e a
-si tão baixo oirou-lhe a cabeça e ficou estonteado.</p>
-
-<p>Era quasi noite e não cuidava em recolher. As creanças,
-que andavam n’uma empreitada de fazer uns castellinhos
-de barro ao pé da porta, e que, mal lobrigaram
-o pae, tinham deitado a correr a abraçar se lhes
-com as pernas, sacudidos por elle haviam vindo de
-orelha murcha, com as lagrimas nos olhos e corridos
-de susto para o pé das suas architecturas sentar-se
-amuados sem comprehenderem aquelles termos differentes
-das festas do costume: e mais estranhos ainda
-continuavam sem se atreverem a fallar com a vista pregada
-no pae, e com a persciencia infantil a advinhar-lhe<span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span>
-desgraça. A mulher, essa entrava, saia, fallava,
-dizia mil cousas, fazia mil perguntas e sem obter resposta
-alguma, não sabia a que santo se apegasse para
-lhe fazer o milagre de lhe chamar a ternura antiga, tremia
-de entrar a fundo n’aquelle grande desgosto, por
-fim animou-se, e chegando-se a elle tocou-lhe no hombro
-e perguntou-lhe a medo:</p>
-
-<p>—Não vens cear, homem, é já tão tarde?</p>
-
-<p>—Não; foi a resposta secca e desabrida como badalada
-tangida rapida por mão inexperiente; e ficou-se.</p>
-
-<p>—Que tens tu, homem, nunca te vi assim?</p>
-
-<p>—Pois tu não sabes, que ha homens que não precisam
-de andar agarrados a uma enchada todo o dia
-para ganhar o pão de seus filhos?</p>
-
-<p>—Sei, homem, que se lhe ha de fazer; são cousas
-do mundo!</p>
-
-<p>—E nunca m’o disseste?</p>
-
-<p>—Para quê, André; valha-me a Senhora da Madre
-de Deus, nunca pensei que te dessem cuidado essas
-cousas!</p>
-
-<p>—Que me não dessem cuidado! Mulher de... não
-sei que diga! Pois eu, um homem como os mais, que
-nunca fiz mal a ninguem, que me tenho feito em postas
-para os sustentar a vocês; eu, se ámanhã me desse
-um estupor, ia para o hospital; por lá morria ao Deus
-dará, e vocês ficavam por ahi a pedir esmola!</p>
-
-<p>—Mas, que se lhe ha de fazer, se nascemos pobres?</p>
-
-<p>—É em que eu tenho andado todo o dia a matutar,
-porque hão de uns nascer pobres, e outros ricos; porque
-hei de eu não ter nada, e o sr. Manoel Fernandes,
-ha de ter mais de uma duzia de quintas, cada qual
-maior, cada qual que bastava para vivermos todos
-descançados:</p>
-
-<p>—Queres reformar o mundo? Tens inveja, André, e
-inveja do patrão, que nos faz tanto bem?</p>
-
-<p>—Quem te falla em inveja! Se eu me lembrasse de
-que era invejoso dava um tiro n’estes miolos. Eu não<span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span>
-olho para as mãos do sr. Manoel Fernandes, que merece...
-verdade, verdade, e que é um homem ás direitas;
-mas eu não sou somenos e se tivesse uma d’aquellas
-quintas, ao menos; trabalhava, que não nasci para
-vadio: mas sem pensar no dia de ámanhã, sem tremer
-com a idéa do que lhes póde acontecer.</p>
-
-<p>—Por amor d’isso não te rales, homem; respondeu-lhe
-uma voz meio alegre, meio reprehensiva ao pé d’elle.</p>
-
-<p>Era o sr. Manoel Fernandes, que saindo a dar uma
-volta parára perto do grupo, e entrára assim na conversa,
-poisando a mão direita sobre o hombro de André.</p>
-
-<p>Este enfiou, Magdalena entrou a tremer, e os pequenos,
-comprehendendo que uma nova scena se ia passar,
-approximaram se curiosos do logar da acção.</p>
-
-<p>Houve um momento de silencio geral, emquanto os
-diversos actores se entre olhavam e reconheciam. Por
-fim André, com aquella giria saloia, que participa da
-sagacidade dos selvagens, conhecendo que a defeza
-era difficil, tomou a offensiva.</p>
-
-<p>—Ora, v. s.ª, assim a escutar o que diz cada um
-á sua mulher, sr. Manoel Fernandes!</p>
-
-<p>—Qual escutar, nem meio escutar, tornou este entre
-serio e risonho pois que percebera a manobra, não
-ouviste nunca, que, palavras leva-as o vento? Estavas
-para ahi a parolar alto e bom som, e não querias que
-ouvisse? Só se viesse pela charneca adeante com as
-mãos nos ouvidos.</p>
-
-<p>—V. s.ª tem razão, tornou Magdalena interferindo,
-como o poder moderador no systema constitucional,
-mas v. s.ª bem disse que palavras leva-as o vento, e o
-meu pobre homem apoquentado da sua vida, não admira,
-que desabafe...</p>
-
-<p>—Ninguem lhe diz o contrario, santinha, e d’ahi
-bem falla o rifão: quem escuta...</p>
-
-<p>—Mas o meu André não pôz bocca em v. s.ª para
-mal.</p>
-
-<p>—E que pozesse! El-rei tambem tem costas, não<span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span>
-lhe quizera eu mal por isso, e tanto que já lhe disse,
-por amor da <i>Chibanta</i> não ha de ser a duvida.</p>
-
-<p>—V. s.ª tambem!... observou André, como em recriminação,
-levou a mal, uma palavra dita sem maldade
-nenhuma.</p>
-
-<p>—Como queres que te diga que não, homem? fazes-te
-André! Já te disse, que está na tua mão, ser
-tua a <i>Chibanta</i>.</p>
-
-<p>—Ora!...</p>
-
-<p>—Não ha aqui ora, nem meia ora. Ámanhã começas
-a tomar conta da fazenda, e de caminho descanço
-eu o meu bocado. Se te avires com ella, e se te mostrares
-tão prompto de braço como de lingua, virá a ser
-tua.</p>
-
-<p>—V. s.ª tem vagar de rir, mas um pobre homem
-como eu, é que nem sempre está de feição: basta-lhe
-a sua vida, disse André, que não acreditava em tanta
-generosidade.</p>
-
-<p>—Queres acreditar-me ou não? Bem sabes que não
-tenho senão uma palavra.</p>
-
-<p>—V. s.ª então!...</p>
-
-<p>—O dito dito, e até ámanhã.</p>
-
-<p>O sr. Manuel Fernandes voltou costas e seguiu no
-seu passeio: apenas desappareceu no atalho, Magdalena
-e André olharam-se espavoridos e como receiosos, e
-por algum tempo estiveram sem dar palavra; por fim
-Magdalena voltou-se para o marido, para o accusar,
-segundo o costume das mulheres em semelhantes occasiões.</p>
-
-<p>—Para que havias de fallar, André?</p>
-
-<p>—Então nem queres ao menos, que desabafe. Anda
-um homem ralado de trabalho todo o dia, e nem ao
-menos ha de ser senhor de dizer duas palavras em sua
-casa!</p>
-
-<p>—E se elle te despede?</p>
-
-<p>—Não faltará onde dê cabo do corpo?</p>
-
-<p>—Elle parecia fallar sério!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span></p>
-
-<p>—Ainda acreditas! Bem me fio eu no que elle disse:
-esteve a divertir-se com a gente. Má raios...</p>
-
-<p>—Cala-te André, atalhou rapidamente Magdalena,
-cala-te, póde ainda estar por ahi, e quem sabe, talvez
-o homem faça o que disse.</p>
-
-<p>E em duvidas decorreu a noite. A peior, que desde
-que eram casados tinham passado. Ora a esperança
-lhes surria, ora o receio os amedrontava; ora acreditavam,
-ora descriam. Pela primeira vez nem Magdalena
-nem André provaram da ceia, e só as creanças,
-que não comprehenderam nada, comeram como do costume,
-e adormeceram com o mesmo descanço.</p>
-
-<p>De madrugada André, com cara de morte de homem,
-encaminhou se para a <i>Chibanta</i>. Vergavam-lhe as pernas
-pelo caminho; não ia contente comsigo, nem com
-a sua consciencia. Parecia outro.</p>
-
-<p>O sr. Manuel Fernandes esperava-o ao portão da
-quinta. Uns quês de ironia transpareciam no rosto alegre
-do fazendeiro.</p>
-
-<p>—Melhor cara traga o dia da ámanhã, homem, mofina
-te deu, que tão amargurado vens! Parece que não pregaste
-olho!</p>
-
-<p>—Eu bem sei que v. s.ª me vae despedir; mas
-não é porque eu faltasse á obrigação...</p>
-
-<p>—Que tens tu homem, mordeu-te bixo?</p>
-
-<p>—É que v. s.ª...</p>
-
-<p>—Bem sei o que vaes dizer, mas o que hontem te
-disse, está dito, hoje começas a ser meu feitor e para
-o deante fallaremos...</p>
-
-<p>André duvidou ainda e só depois do fazendeiro o ter
-apresentado aos trabalhadores, como seu substituto é
-que começou a entrar em si, parecia-lhe tudo um sonho.</p>
-
-<p>Em quanto lhe ia dando as instrucções necessarias,
-e lhe explicava por meudo o grangeio da fazenda, o
-sr. Manuel Fernandes sorria-se vendo que André meneava
-a cabeça com ares de profundo entendedor, e<span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span>
-respondia a tudo: já entendi, deixe estar, não tem duvida.
-O velho lavrador não acreditava n’aquella proficiencia,
-e lá de si para si amolava o caso. Tanta confiança
-mostrava porém o novo caseiro, que, depois de
-acabada a vistoria, mandou o entrar para a casa principal
-da habitação, que accumulava as funcções de casa
-de jantar, escriptorio e cosinha, e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Oxalá que me enganasse homem, queria-te dar
-uma licção e mostrar-te que nem tudo é o que parece,
-que para grande náu, grande tormenta e que cada qual
-sabe as linhas com que se cose. Se a inveja é feio peccado,
-não é culpa menor julgar as coisas pelas apparencias.
-Comecei, como tu, pobre, enriqueci por felicidade,
-mas sempre honradamente; ainda assim, não
-poucas vezes me têem lembrado, com saudade, as noites,
-em que, ralado com o trabalho, mas sem cuidados,
-atirava com o corpo para cima da enxerga, sem deitar
-contas á vida porque a féria no fim da semana pagava
-tudo.</p>
-
-<p>—Ó senhor Manoel Fernandes, mas a mulher e os
-filhos?</p>
-
-<p>—Tambem se accommodavam como podiam. Olha:
-uma cava é para o milho, outra para a vinha; quanto
-mais se sóbe, mais cançado se fica. Hoje tenho mais
-dinheiro do que então, lavro muitas geiras de chão,
-deito um par de moios á terra, e não dou pouco que
-fazer ao lagar; mas, pódes acreditár-me, tenho mais
-vezes falta de dinheiro, do que quando recebia um
-quartinho cada semana; e passo mais dias de amarguras,
-do que quando era um triste trabalhador.</p>
-
-<p>E como André meneava a cabeça, com ares de quem
-não acreditava muito no que elle dizia, o sr. Manuel
-Fernandes tornou-lhe triste:</p>
-
-<p>—D’aqui a tempos me dirás se tinha rasão.</p>
-
-<p>Não tardou que se não realisasse a prophecia. André,
-quanto mais entrava n’aquella vida nova, mais espinhos
-lhe achava. Tinha que repartir a attenção para<span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span>
-mil lados, tinha que cuidar em muitissimas coisas differentes
-ao mesmo tempo.</p>
-
-<p>Não descansava, não dormia mesmo. Lembrava-se
-de noite, que podiam andar ladrões na fazenda, sentia
-ladrar os cães ou grasnar os patos, saltava da cama e
-corria para fóra, de espingarda carregada. Parecia-lhe
-que se esquecera de dar ordens para o dia seguinte,
-que não determinára trabalho, e eil-o, sem pregar olho,
-a espreitar a madrugada para ir acordar os trabalhadores
-e marcar-lhes a obrigação; era um supplicio.</p>
-
-<p>Depois a cultura em ponto maior, os processos da
-lavoura, de debulha, de vindima, de sacha, de cava,
-de poda e de empa, a qualidade das sementes, o tempo
-da sementeira e a escolha dos terrenos, o traçar
-da horta, e a rega das plantas, o decote das arvores e
-a colheita dos fructos, o cuidado do gado e da creação,
-o fabrico dos instrumentos de lavoura, a guarda
-do pão, e o meio de o conservar, reclamavam conhecimentos
-que lhe faltavam. Quando lhe perguntavam
-alguma coisa, é que via na resposta as difficuldades,
-que á primeira vista não encontrára. Tinha sempre
-medo de mandar o contrario, e não poucas vezes lhe
-aconteceu, quando errava, ouvir os homens da quinta
-rirem-se d’elle, e lá, uns com os outros, fazerem observações
-bem desagradaveis. André, por natureza bondoso
-e crente, tornára-se irascivel e desconfiado de
-todos.</p>
-
-<p>Nos seus mais intimos mesmo se fizera sentir a differença
-de posição; Magdalena e os pequenos tinham-se
-tornado exigentes, nada os contentava, tudo lhes
-parecia pouco, e André podia contar todos os dias
-com uma contenda, quasi sempre n’este theor:</p>
-
-<p>—D’antes não me recusavas coisa nenhuma...</p>
-
-<p>—Se não póde ser, mulher.</p>
-
-<p>—Estás sovina, para que queres o dinheiro?</p>
-
-<p>—Mas se o não tenho?</p>
-
-<p>—Pois sim, a mim não me enganas tu, ainda hontem<span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span>
-vendeste isto ou aquillo, é porque o gastas com outras.</p>
-
-<p>E seria um nunca acabar referir todas as desavenças,
-todas as ralações do pobre homem. Nem em casa
-nem fóra, lhe deixavam um momento de descanço. Andava
-como doido.</p>
-
-<p>Entretanto o sr. Manoel Fernandes tinha ido á provincia;
-demorára se por lá algum tempo e esperava-se
-de um momento para o outro.</p>
-
-<p>André foi ter com elle ao caminho, apenas o avistou
-a alcance de voz, as suas primeiras palavras foram
-como o deitar ao chão um peso que o opprimisse, e
-com que não podesse mais.</p>
-
-<p>—Acceite a <i>Chibanta</i>, sr. Manoel Fernandes, quero
-a minha enchada e o meu somno descançado; a minha
-féria e o meu socego.</p>
-
-<p>O fazendeiro sorriu-se.</p>
-
-<p>—Pois já, homem?</p>
-
-<p>—E é demais. O que lá vae lá vae, aprendi devéras,
-estes dois mezes têem-me custado annos de vida.</p>
-
-<p>—Pois não tens as mesmas idéas que tinhas ha seis
-mezes, já te não lembras do hospital?</p>
-
-<p>—Tenho-me agora lembrado mais ainda, mas é do
-hospital dos doidos, e lá não tardaria eu se continuasse
-n’aquelle inferno. Guarde-a que lhe não invejo o
-vagar.</p>
-
-<p>O sr. Manoel Fernandes viu o pobre André tão amofinado,
-que não quiz abusar. No dia seguinte este começava
-no trabalho antigo e pela primeira vez, havia
-tanto tempo, dormia de um somno desde o deitar até
-ao amanhecer.</p>
-
-<p>Magdalena reagiu, e queixou-se ao principio, depois
-costumou-se outra vez: e se se lembrava com saudades
-dos seus antigos explendores, não tinha muito
-tempo para ter pena, porque o trabalho da casa preoccupava-lhe
-a attenção.</p>
-
-<p>Os pequenos esses só tiveram desgosto com a mudança.<span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span>
-Uma enchurrada havia-lhes desmanchado o seu
-castellinho de terra.</p>
-
-<p>De novo reinou n’aquella casa o socego antigo: a
-alegria, que parecia ter fugido espavorida das grandezas
-do rendeiro da <i>Chibanta</i>, tornou a sorrir no pobre
-albergue do modesto trabalhador.</p>
-
-<p>O sr. Manoel Fernandes entretanto foi ajudando André,
-que, com o andar dos tempos, conseguiu comprar
-um quintalejo que, se não era tão grande como a <i>Chibanta</i>,
-correspondia ao menos ao seu saber e não lhe
-dava grande cuidado.</p>
-
-<p>Mas tinha-lhe aproveitado a licção, e quando lhe fallavam
-nos haveres dos outros dizia sempre:</p>
-
-<p>—Eu bem sei o que isso é; ninguem está contente
-com o que Deus lhe deu. Por isso diz o rifão: a gallinha
-da minha visinha...</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer3.jpg" width="150" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header4.jpg" width="500" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="VIII">VIII<br />
-<span class="smaller">O guarda do cemiterio</span></h2>
-
-</div>
-
-<h3>I</h3>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Era perto da noite. Voltava em companhia
-do tio Joaquim d’uma feira, que se fazia
-a duas leguas da quinta, onde estavamos.
-Tinhamos mettido os cavallos a passo, e
-depois de muito discorrer e matar tempo,
-a conversação, que esmorecera gradualmente, parára
-de todo.</p>
-
-<p>Não o sei ao certo, mas quero o crêr; a tristeza que
-tanto se sente no campo na hora em que o dia desapparece
-pouco a pouco, influira para nos calar; e aquella
-doce melancolia, que acompanha o crepusculo da tarde,
-e que tanto nos faz scismar e crêr, obrigára-nos a interromper
-as fallas, que perturbavam aquelle silencio
-geral.</p>
-
-<p>Só quem tem vivido fóra das cidades é que póde dar
-conta d’aquelle tempo de socego e de mudez, que determina
-a passagem da noite para o dia, e muito particularmente
-do dia para a noite.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span></p>
-
-<p>As aves, os animaes, as arvores, as plantas e até a
-natureza insensivel, parece que entristecem n’aquelles
-momentos e que suspendem a vida, o movimento e o
-ruido: como que permanecem por instantes n’um estado
-de duvida e de receio, e temem vêr desapparecer
-de todo essa luz, que é a sua vida, e que então se
-some no horisonte, tinto por amor da sua ausencia com
-côres de tristeza e de dó!</p>
-
-<p>Outras vezes, no meio da geral callada, alguns ruídos
-se apercebem; mas esses como a susto, como mais
-para significarem o esmorecer da vida do que a sua
-animação:—é o breve pio do mocho, é o som afastado
-dos chocalhos, são os timidos balidos dos rebanhos, é
-o ramalhar das arvores com a viração da tarde ou o
-murmurar longinquo e surdo das ondas do mar.</p>
-
-<p>São essas as horas mais talhadas para a meditação,
-para a saudade ou para o amor; são as horas das aspirações
-vagas, dos desejos indefinidos, das fantasias e
-das expansões; são as horas em que se eleva em nós,
-um que quer que é estranho e superior a tudo que
-nos cerca e com que de habito lidamos; em que o homem
-soffre e gosa, sente e crê, folga e padece; em que
-o desalento e a esperança se travam em lucta; em que
-o amor nos falla de prazer, a saudade da dôr e a imaginação
-do infinito; em que se vive muito e se deseja
-morrer; em que se sonha muito e se receia accordar;
-em que a virgem presente a primeira paixão, o homem
-o primeiro amor, a creança o primeiro momento de
-viver, o velho a ultima hora; em que o passado e o futuro
-se enlaçam, um descoroçoado e sceptico, o outro
-enthusiasmado e crente; em que o mundo é pequeno
-para a alma, e a alma acanhada para o sentimento.</p>
-
-<p>Em tudo isto eu pensava n’essa hora, e tão absorto
-ía, que nem dava pelo caminho que levava: parecera-me
-até que se me ía fugindo a vida, como me parecia
-fugir o mundo, se o som compassado das ferraduras<span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span>
-dos cavallos sobre as pedras da calçada, me não chamasse
-á realidade, marcando de continuo com a regularidade
-d’uma pendula, a extensão do espaço e o correr
-do tempo.</p>
-
-<p>De repente, n’uma volta que fazia a estrada, os cavallos
-fitaram as orelhas e pararam: sobresaltado, como
-que acordei, procurando descortinar que causa fôra a
-que os assustára.</p>
-
-<p>Iamos passar pelo cemiterio da terra, separado da
-estrada por um parapeito de pouca altura, e limitado,
-da banda d’onde vinhamos, pela casa do guarda; do
-lado opposto, por uma egreja antiga, abandonada e
-em ruinas.</p>
-
-<p>Nenhum logar mais adequado, nem accessorios mais
-accordes podia a morte escolher. Tudo alli fallava do
-seu poder, tudo concorria para a sua magestosa severidade.</p>
-
-<p>Ruinas, desamparo e tristeza. A casa do guarda,
-que primeiro se offerecia á vista, ennegrecida pelo
-tempo, com as portas e janellas carunchosas e escavacadas,
-deixando devassar o interior desguarnecido e
-miseravel: o cemiterio sem aninho nem cultura, sem
-monumentos, nem flôres, nem pedras, nem ruas, nem
-disticos, nem retabulos; algumas cruzes toscas, por
-entre matagaes de ortigas, algumas arvores esgalhadas
-de longe a longe, umas e outras roidas pelos vermes,
-enfraquecidas pelos parasitas, mutiladas pela podridão:
-e ao longe a egreja, de tempos remotos, com
-as cantarias de grosso lavor lascadas ou caidas, as paredes
-esburacadas e musgosas, as grades ferrugentas
-e quebradas, as janellas sem vidros, as ogivas interrompidas,
-as arcadas soturnas a perderem-se na escuridão
-e a adivinharem-se pelos buracos da fachada,
-frias, nuas, sós e tristes.</p>
-
-<p>Apertava o coração e confrangia a alma; fazia mal
-aquella vista.</p>
-
-<p>Não havia sido entretanto nem a egreja, nem o cemiterio,<span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span>
-nem a casa do guarda que tinham feito parar
-os cavallos, mas o proprio guarda, que estendido sobre
-um poial, deante da porta se levantou para nos
-cumprimentar.</p>
-
-<p>Parecia que a influencia sinistra d’aquellas paragens
-se estendera tambem áquelle homem: condizia com
-tudo que o cercava.</p>
-
-<p>Era alto e ainda novo; mas o tempo e os pesares
-tinham-n’o curvado e encanecido. As feições eram duras,
-carregadas e tristes, as faces cavadas e cheias de
-rugas, a pelle tostada e aspera, os cabellos mal tratados
-e grisalhos, as barbas compridas, em desordem e
-grisalhas tambem; o corpo estava coberto de farrapos,
-a cabeça resguardada por um velho chapeu já sem
-abas e os pés mettidos n’uns tamancos muito usados,
-que quando se levantou repercutiram por um modo
-estranho batendo nas pedras.</p>
-
-<p>Era como a personificação do desconforto ao pé das
-ruinas, como a desillusão da vida junto á morte.</p>
-
-<p>O tio Joaquim, ao dar com os olhos n’elle, resmungou
-por entre dentes—até os brutos o temem;—correspondeu
-a um—boas noites,—que nos dirigiu, metteu
-o cavallo a meio trote, eu imitei-o, e dentro em
-pouco tinhamos perdido tudo de vista.</p>
-
-<p>Dias depois vim a saber pelo tio Joaquim quem era
-o guarda do cemiterio, e qual a sua historia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span></p>
-
-<h3>II</h3>
-
-<p>Manoel começára de pequeno n’um navio mercante,
-e em pouco chegára a piloto pelo seu bom porte e bravura.
-Era um rapaz valente como as armas, destemido
-como poucos, desembaraçado como ninguem a bordo
-e que entendia da manobra ás direitas.</p>
-
-<p>Não havia tempo nem mar que lhe mettessem medo:
-e por mais d’uma vez salvára o navio em casos apurados,
-pela sua presença de espirito.</p>
-
-<p>Sempre alegre, sempre a cantar, parecia que não
-havia tristezas que com elle entrassem, nem penas que
-se lhe pozessem diante.</p>
-
-<p>Tinham-lhe nascido os dentes no mar, calhára no
-navio, e fóra d’elle andava triste como o peixe fóra da
-agua; o pobre do rapaz, tambem, era engeitado, e vivia
-cá n’este mundo sem ninguem que lhe quizesse.</p>
-
-<p>Chegou lhe entretanto occasião de deitar ferro em
-amor e de arranjar amarra de má morte, pois quebrou
-no primeiro temporal e que deixou abrir-se e
-naufragar o barco de encontro aos baixios da vida.</p>
-
-<p>Manoel teria dezoito annos se tanto, quando uma
-tarde, indo em penitencia á egreja de Nossa Senhora
-da Penha a cumprir uma promessa que fizera em hora
-afflicta, encontrou a um canto da egreja, ajoelhada a<span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span>
-rezar tambem, uma rapariga nova, bonita e toda coberta
-de luto.</p>
-
-<p>Seguiu-a, soube onde morava, requestou-a e ajustaram
-casamento, que só dependia d’uma viagem redonda
-ao Brazil, em que o rapaz contava apurar os vintens
-de que precisava para pôr a casa. E assim, entre
-promessas e esperanças, viveram dois annos, que tanto
-medeou entre o dia em que pela primeira vez se tinham
-visto e aquelle em que ia partir para a malventurada
-viagem.</p>
-
-<p>Foram os melhores da vida de ambos. Ái! quem tem
-vivido de illusões e de esperanças, sentindo um coração
-a afinar pelo seu no pulsar e no tremer, uma alma
-unir-se á sua cada vez a mais a mais até se confundir
-de todo; quem tem a registar esses dias em que o
-tempo vôa nos instantes dos colloquios para descançar,
-e demorar-se nos seculos que os separam; quem tem
-encontrado sempre na dôr e no prazer companhia e
-affeição, amor sempre, dedicação e sentimento, como
-só a mulher sabe ter, e a mulher que ama deve resignar-se
-para todas as provas, para todos os padecimentos,
-porque já antecipadamente tem gosado o maior
-quinhão de felicidade que a terra lhe póde dispensar.</p>
-
-<p>N’este viver do ceu tinha passado Manoel dois annos,
-e tão breves lhe tinham parecido, que na hora da
-despedida dava a vida inteira por um dia só mais que
-fosse.</p>
-
-<p>Mas era preciso. O navio partiu e o piloto acompanhou-o
-em corpo, deixando a alma em terra, e com a
-alma a esperança e a vida.</p>
-
-<p>Nos primeiros tempos esteve como doido. Por mais
-d’uma vez o navio correu perigo sem que elle désse
-por isso, sem que aquella valentia d’outros tempos
-accordasse nos momentos d’afflicção; parecia barco sem
-leme ou alma penada sem sepultura: de nada dava fé
-nem a coisa alguma attendia. Depois o tempo gastou
-as maguas, as rugas ficaram no rosto, a saudade no coração;<span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span>
-mas o marinheiro tornou a ser o que era, menos
-na animação e na alegria, que d’essas só Martha
-podia dizer o que era feito.</p>
-
-<p>Teve má sina a viagem. Avarias, arribadas, empates
-de vendas, difficuldades de carga demoraram tres annos
-o <i>Corsario</i> em vez dos seis mezes, que deviam de
-ser. Em Lisboa correu voz de que se perdera, e os
-proprios donos do barco descoroçoaram de o tornar a
-vêr.</p>
-
-<p>Nos primeiros tempos Martha, sempre que podia,
-chegava ao escriptorio para saber noticias, depois foi-se
-demorando mais até que por fim deixou de apparecer.
-Bem sabia que Manoel, apenas saltasse em terra, correria
-onde ella morava: para que havia de perder
-tempo, de que precisava para viver e cuidar do enxoval?</p>
-
-<p>Um dia soube que se perdera o <i>Corsario</i> com toda
-a tripulação. Ficou por morta. Por dois mezes padeceu
-n’uma cama do hospital, depois melhorou pouco a
-pouco, até que saiu tão boa como d’antes e mais formosa
-ainda, porque a pallidez lhe augmentava a belleza.</p>
-
-<p>Perto d’ella morava um rapaz, operario diligente e
-de bons costumes, novo tambem, laborioso e honrado:
-encontraram-se um dia na escada, e cumprimentaram-se.
-Ella percebeu no visinho semelhanças do Manoel;
-chorou muito, mas pensou no operario toda a noite;
-de manhã, para espairecer saudades, estava na janella
-ainda de madrugada, e vio o quando ia para o trabalho;
-depois foi continuando a vêl-o, depois... as recordações
-de Manoel começaram a sumir-se-lhe pouco
-a pouco da lembrança, como o navio, em que partira,
-fôra desapparecendo ao longe, pouco a pouco, nas
-aguas do mar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span></p>
-
-<h3>III</h3>
-
-<p>Entretanto o <i>Corsario</i> entrava a barra, de pannos
-largos em tarde de primavera, como cysne nadando em
-lago de jardim. A marinhagem debruçava-se nas amuradas,
-e com os olhos namorava a terra, a que a prendia
-o coração. O sol baixava, e a cidade estirada por
-esses montes fóra recortava-se sobre o fundo azul da
-serra de Monsanto, onde se reflectiam, já muito obliquos,
-os raios do poente.</p>
-
-<p>Todos ou quasi todos têem visto Lisboa do mar e
-todos se tem enlevado em suas formosuras; mas nem
-todos sabem o que é vêr a terra onde se nasceu, onde
-se passou o melhor tempo da vida, onde estão amisades
-e amores, saudades e memorias, depois de mezes
-passados entre mar e ceu, a perderem-se e confundirem-se
-um no outro: e de vastos, que são, a apertarem-nos,
-a apertarem-nos a mais a mais o coração e a
-alma.</p>
-
-<p>Para Manoel nem cidade, nem montes, nem rio, nem
-sol, nem ceu, nem coisa, que n’este mundo houvesse,
-valiam a pena d’um olhar; uma casinha sómente, uma
-mulher e um amor, eram tudo, em que pensava, o que
-unicamente lhe prendia a attenção.</p>
-
-<p>Para que de mais longe podesse vêr, apenas passára<span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span>
-as torres, subira a uma gavia e d’ali esbugalhava os
-olhos para terra, como quem por elles queria que a
-alma fosse em procura de Martha. Mal o navio deitara
-ferro, atirou-se a um escaler, e agarrado aos remos,
-porque a seu vêr ninguem os puchava com tanta ancia
-e tanto d’alma, voára, que não corrêra, até ao caes,
-onde d’um pulo saltou em terra.</p>
-
-<p>Mas dados que foram os primeiros passos com os restos
-d’aquelle impeto que vinha de dentro, Manoel estacou
-e ficou pregado ao chão. Tremiam-lhe as pernas,
-esmorecia-lhe a vista, estonteava-lhe a cabeça, e o coração,
-esse, batia-lhe no peito, como azas de andorinha
-em horas de temporal.</p>
-
-<p>Que seria de Martha? Morrera talvez: esquecel-o-ia,
-o que fôra peior; porque nem a poderia chorar. Iria
-encontral-a casada, perdida!... Instantes de incerteza
-como aquelles envelhecem tanto, como annos sem descanço.
-Fraquejou por um momento, cobrou animo depois,
-como o navio, que resiste a um furacão: e, quasi
-de corrida, deitou para o sitio em que a deixára n’outros
-tempos.</p>
-
-<p>Tinha-se mudado, era já um mau agouro; as recordações
-do passado deviam prendel-a áquella casa, se a
-abandonára fôra porque esquecera tambem essas recordações.</p>
-
-<p>Manoel sentia apertar-se-lhe o coração ao bater á
-porta e ao dar com a cara d’uma visinha antiga que
-occupava aquella habitação.</p>
-
-<p>Perguntou por Martha e soube o que succedêra accrescentado
-ainda em cima pelas coscuvilhices de senhoras
-visinhas.</p>
-
-<p>Disseram-lhe que os amores de Martha estavam mais
-adiantados do que o deviam ser para corresponderem
-ao seu bom porte d’outro tempo, e que se deixára a
-rua fôra porque todos ali a conheciam e todos murmuravam
-da sua vida; que na nova habitação podia estar
-mais á vontade, por isso a escolhêra; finalmente, e para<span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span>
-encurtar razões, tantas coisas que fariam perder a paciencia,
-a quem a tivesse bem callejada, quanto mais a
-quem tinha sangue na guelra e o ciume a ferver-lhe lá
-por dentro.</p>
-
-<p>Ouviu, como se estivera sonhando, parecia-lhe tudo
-impossivel. Martha, a sua Martha ser-lhe infiel, era para
-dar em doido. Tanto lh’o affirmaram, todavia, que o
-quiz experimentar, e, como o condemnado que vae para
-a forca, seguiu para a morada nova da sua antiga
-amante.</p>
-
-<p>Era já noite, elle caminhava encostado ás paredes,
-e como quem receia cair. A dôr tambem embriaga, e
-o marinheiro, que por tantas vezes resistira ao vinho
-e á aguardente, fraquejára áquelle padecer; era outro
-homem, as palavras da velha tinham no mudado de
-todo.</p>
-
-<p>Ao voltar da esquina da rua indicada, viu de longe
-n’uma janella um vulto, que o coração conheceu, antes
-que os olhos o podessem adivinhar. Era Martha, dizia-lhe
-o que sentia em si e os estremecimentos do seu
-amor.</p>
-
-<p>Mas quando, esquecido de tudo, ia soltar um grito
-e correr para a que tanto amava, um outro vulto que
-parára debaixo da janella, depois de ter fallado para
-cima e de lhe terem respondido, entrou a porta que
-lhe franqueavam e que pouco depois se cerrava sobre
-elle.</p>
-
-<p>Martha desapparecera da janella e em breve aquella
-casa ficára sepultada nas trevas, como o pobre Manoel
-no desalento e desconforto.</p>
-
-<p>Já não tinha que duvidar, não era sonho, estava realmente
-accordado, os seus olhos não o enganavam; esperou
-entretanto, ora correndo como um perdido, ora
-parando como quem ia desfallecer, ora soltando palavras
-sem sentido, ora rugindo como uma fera, espumando
-como um possesso.</p>
-
-<p>Perto da meia noite abriu se a janella, Martha appareceu<span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span>
-de novo, o mesmo vulto saiu e encaminhou-se
-para onde estava Manoel, este como fóra de si, não vendo
-senão sangue partiu para elle, com a faca de marinheiro
-aberta: ouviram-se dois gritos, um corpo baquear no
-chão e uma voz de mulher, que pedia soccorro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span></p>
-
-<h3>IV</h3>
-
-<p>Momentos depois já Manoel estava prezo: tinham
-acudido aos gritos de Martha, e tinham-no encontrado
-com a faca ainda aberta defronte de um corpo caido
-no chão, e a golphar sangue por duas feridas profundas.</p>
-
-<p>Era mais do que o bastante.</p>
-
-<p>O depoimento da visinhança, o proprio testemunho
-de Martha, tudo concorreu para que o condemnassem.</p>
-
-<p>Levaram-lhe porém em conta o bom passado, os negociantes
-respeitaveis, donos do navio a attestarem o
-seu bom porte, uma tripulação em pezo de honrados e
-velhos marinheiros encanecidos pelo tempo, e crestados
-pelos soes da linha a dizerem: que elle tambem fôra
-honrado.</p>
-
-<p>Os jurados, santas creaturas, commoveram-se com
-aquelle espectaculo; o advogado do réo, rapaz de esperanças,
-vociferou contra as leis de sangue, e discorreu
-como uma bocca de ouro sobre a alienação mental
-e as circumstancias attenuantes; o juiz sensibilisou-se
-tambem, e todos enternecidos condemnaram o réu...
-a dez annos de grilheta.</p>
-
-<p>Para um homem como Manoel, similhante affronta
-seria peior do que a morte, se no estado em que se
-achava, elle a podesse apreciar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span></p>
-
-<p>Depois que commettera o assassinato tinha ficado
-como louco, ou peior ainda, porque parecia idiota.</p>
-
-<p>Um golpe d’aquelles, uma mudança d’aquella qualidade!</p>
-
-<p>Quando esperava colher o fructo de uma vida trabalhosa
-e honrada nos braços da sua Martha, vêr-se de
-repente criminoso, assassino e deshonrado; toldarem-se-lhe
-na cerração as estrellas, que o guiavam n’esta
-vida, o astro do amor, e o astro da honra: eram provações
-de sobra para deitarem por terra castellos mais
-fortes, e almas ainda mais valentes.</p>
-
-<p>Manoel não morreu, mas fraquejou para sempre. O
-mesmo d’outros tempos nunca mais tornou a ser. Nunca
-mais o viram rir, cantar não o ouvio mais ninguem: e
-as rugas, que se lhe cavaram no rosto, tambem se lhe
-entalharam no coração.</p>
-
-<p>O amigo da humanidade, que inventou as prisões em
-commum e a grilheta, foi de certo um grande perverso.
-Só a um requinte de malvadez se póde attribuir
-um invento que envolve e reune no mesmo castigo, na
-mesma atmosphera de perversão, innocentes e criminosos,
-pois que assim comparados uns com outros se
-podem chamar: e que não contente com isso lhe accrescentou
-a grilheta, <i>exposição ambulante</i>, aperfeiçoamento
-da que, em tempos de barbaridade, se applicava as
-mais das vezes a victimas do que a réus.</p>
-
-<p>A influencia desmoralisadora d’aquelles dez annos
-não alcançou todavia o antigo piloto: quasi que nem os
-percebeu, tudo era para elle extranho, inexplicavel, incomprehensivel;
-um pesadello que durava muito, e de
-que esperava accordar um dia.</p>
-
-<p>Entrára na cadeia de vinte e um annos; saia sexagenario,
-eis toda a differença. Aquelles dez annos valiam-lhe
-por quarenta; e, mocidade, alegria, sentimento,
-coração, vida, enthusiasmos d’outro tempo, crenças e
-aspirações, tudo deixara ao sair, com a grilheta que
-depozera.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span></p>
-
-<p>Só não perdera um sonho atroz, que quasi todas as
-noites o perseguia, e que, salvo pequenas mudanças,
-era sempre o seguinte:</p>
-
-<p>Navegava a bordo do <i>Corsario</i>. De repente o Oceano
-transformava-se em largo mar de sangue: debruçado
-na amurada via-se lá em baixo a braços com um homem,
-que lhe ia roubar a sua Martha, innocente como
-os anjos, pura como a estrella da manhã, serena como
-o alvorecer de estio em alto mar, e que d’entre nuvens
-no céu lhe sorria amor. A lucta continuava encarniçada,
-elle fóra de si puchava pela faca; mas, por mais diligencia
-que fazia, só alcançava Martha, o seu contrario
-escorregava-se d’entre os braços escapando-se-lhe aos
-golpes. Depois o mar de sangue envolvia-o todo, ia já
-a affogar-se, e a voz de Martha eccoava-lhe aos ouvidos
-clamando; assassino, assassino. As ondas passavam-lhe
-por cima da cabeça, o marulho das aguas, o sussurro
-do vento casavam-se com uma voz confusa, que lhe
-baqueava nos miolos, dizendo-lhe: <i>não matarás</i>.</p>
-
-<p>Nos primeiros tempos, em que saiu, ainda teve esperanças
-de voltar á vida antiga; mas todos, que procurava,
-se affastavam d’elle com terror. Desesperado,
-momentos houve em que lhe passou pela cabeça vingar-se
-de uma sociedade, que castigava n’elle um crime
-mais dos outros do que seu, e seguir a estrada do
-mal, já que lh’a lembravam, e já que lhe tornavam todas
-as outras impraticaveis; mas o principio do bem
-e as idéas que recebera com a educação, predominaram
-sempre.</p>
-
-<p>Custára-lhe muitas noites d’insomnias e de phrenesi,
-horas de amargura, em que chegou a desejar a vida
-da cadeia, occasiões em que a ideia da morte lhe trabalhou
-muito na cabeça.</p>
-
-<p>Uma noite, pelas onze horas, vagueava pelo caes do
-Sodré depois d’um dia passado em inuteis pesquizas de
-trabalho, e em repetidas e semelhantes recusas. O céo
-estava carregado, o vento soprava em lufadas da barra,<span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span>
-o rio estava revolto, as aguas negras, a escuridão
-negrejava em tudo. Debruçado sobre o caes, remontou-se
-pelo pensamento áquella tarde em que, onze
-annos antes, desembarcára no mesmo sitio. Como
-tudo tinha mudado. Que alegrias então, que tristezas
-hoje! A agua começou a namoral-o debaixo, o desalento
-a convidal-o em roda, ia a precipitar-se, um braço susteve-o,
-uma voz exclamou: cobarde!—Era o braço de
-um antigo companheiro, a voz d’um velho amigo, marinheiro
-como elle; mas muito mais pobre, muito mais
-velho, e que pedia esmola encostado ao parapeito do
-caes.</p>
-
-<p>Aquella palavra e aquelle exemplo fizeram-n’o renunciar
-para sempre ao suicidio. Para não ser cobarde
-muitas vezes em temporal desfeito se resolvera a morrer,
-agora, para que lh’o não chamassem, resignava-se
-a viver. Era maior o sacrificio, mas para o compensar
-estava a ideia de que podia ser util ao velho Estevam:
-e a companhia d’um amigo que lhe apparecia nas proximidades
-da sepultura.</p>
-
-<p>E... porque não havia de concorrer tambem?</p>
-
-<p>A esperança, que mesmo sem fundamento algum,
-ainda lhe dizia que vivesse, e o acompanhava, como
-sempre, nos mais atormentados lances?</p>
-
-<p>No dia seguinte, com o peculio que por seu trabalho
-juntára na cadeia, comprava um velho barco de
-pesca, e ambos tomavam posse da propriedade commum
-não contentes, mas resignados, baptisando-a—<i>Desgraça</i>,—pelo
-muito que ambos haviam padecido.</p>
-
-<p>Se o trabalho faz minorar e esquecer as maguas,
-nenhum modo de vida se creou melhor para o esquecimento
-do que a vida do pescador. A lida continua e
-a lucta permanente com o mar e com o vento, a vigilia,
-o emprego de todos os sentidos, trazem o que
-n’ella se emprega sempre voltado para o seu trafego
-e sempre estranho ao mundo com o qual só de leve
-trata: e d’ahi para Manoel aquelle labutar tão semelhante<span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span>
-ao de outros tempos, aquella vida, reflexo da
-outra, reflexo pallido em que o rio substitue o mar,
-em que o barco substitue o navio, mas que nos lances
-e no trato, tanto lh’a recordava, era um paraiso, depois
-d’aquelle inferno porque passára.</p>
-
-<p>Estevam, que o infortunio lhe offerecera por companheiro,
-serviu-lhe de amigo e de auxilio durante tres
-annos, em que gradualmente se lhe foram esvaecendo
-da lembrança os desgostos e as desillusões.</p>
-
-<p>Se para Manoel podesse ainda haver felicidade, quasi
-que aquelles tres annos se poderiam dizer felizes.</p>
-
-<p>Desde a tarde em que saltára em terra, entre receios
-e esperanças, nunca mais encontrára alma onde derramasse
-as amarguras, que trasbordavam da sua, nunca
-tivera ninguem que o comprehendesse, nem que avaliasse
-a sua dôr. O companheiro de grilheta, que lhe
-haviam jungido, era um scelerado, com tantas mortes e
-tantos crimes, que horrorisava ouvil-o, e ainda mais
-vêl-o rir das maguas de amor. Ás queixas de Manoel,
-respondia com imprecações, e se elle insistia, dava-lhe
-para que o deixasse com semelhantes pieguices.</p>
-
-<p>Depois que o soltaram, nunca nem um só, dos que
-d’antes o tratavam, lhe mostrou boa feição, todos fugiam
-do <i>grilheta</i>, alcunha que lhe tinham posto e que lhe
-recordava a antiga condemnação.</p>
-
-<p>Porque, clamem embora os philosophos, a rehabilitação
-moral para o criminoso pobre é impossivel, para
-o rico é inutil, ninguem lhe toma contas nem do passado
-nem do presente: o miseravel, porém, traz a corrente
-presa toda a vida, todos lh’a notam, todos lhe
-apontam para ella, e embora elle diga: <i>vejam o que
-hoje sou</i>; todos lhe tornam: <i>vemos o que foste hontem</i>.</p>
-
-<p>Por isso aquelle companheiro, que o comprehendia,
-aquella solidão que o não accusava, aquelle mar e
-aquelle ceu, que lhe lembravam o perdão e o infinito,
-foram como um calmante para a sua dôr, como uma
-estação de descanço na sua jornada de padecer.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span></p>
-
-<p>Estação, que durou pouco e que uma borrasca desfez,
-n’uma tarde, em que já recolhiam da pesca, seguindo
-pelo Tejo acima, a procurar abrigo n’alguma
-d’aquellas enseadas naturaes, que o rio abre, nas proximidades
-de Sacavem.</p>
-
-<p>A <i>Desgraça</i>, apezar do vento á popa, seguia pouco,
-e arfava muito porque havia força de corrente, e a vasante
-ia com grande rapidez.</p>
-
-<p>Principiava a escurecer e o vento a carregar com a
-noite, alguns trovões ouviam-se ao longe, e um temporal
-rijo se apparelhava para em pouco. O barco já
-não dava pelo leme, e a cada momento se enchia d’agua;—ir
-para diante era quasi impossivel, e á primeira
-onda mais rija, o casco já velho, podia abrir-se de popa
-á prôa. Posto que não conhecessem a praia, em risco
-de bater n’alguma pedra, tentaram atravessar, e encalhar
-quanto antes, depois de esforços sobrehumanos
-para luctar com o temporal; mas quando aproavam
-para terra uma rajada mais forte lhes levou a vella, e
-uma onda apanhando o bote pelo costado, metteu-lhe
-a borda debaixo d’agua, e virou-o logo.</p>
-
-<p>Só os que têem vivido parte da sua vida no mar é
-que avaliam bem quanto custa ao marinheiro deixar as
-taboas, em que tem navegado, sejam ellas de bote catraio
-ou de navio d’alto bordo. Para Manoel e para Estevam
-o barco era a fortuna, a familia, o mundo inteiro,
-que as aguas lhes queriam roubar.</p>
-
-<p>Agarrados a elle, mal se via já, trabalharam quanto
-poderam para vêr se o salvavam; mas, baldados esforços,
-o que conseguiam n’um quarto de hora, perdia-lh’o
-n’um segundo uma onda mais valente. E as
-forças a faltarem-lhes, e a respiração a difficultar-se-lhes,
-e os braços a renderem-se-lhes.</p>
-
-<p>—Já de noite—não podendo mais, tiveram de o largar,
-e por um instincto de conservação, que nos não
-deixa nunca, cuidaram de se salvar nadando para terra.
-Não era cedo: acontecia-lhes o que succedera ao barco,<span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span>
-e quando mais cresciam para a praia, animando-se e
-clamando um pelo outro, porque não se podiam vêr,
-mais os affastava a corrente, que seguia com uma velocidade
-de espantar.</p>
-
-<p>Estevam não luctou por muito tempo. Mais velho e
-mais cançado, uma onda abafou-lhe o ultimo grito, e
-galgou-lhe por cima da cabeça, entrando-lhe pela bocca
-aberta convulsivamente n’um extremo resfolegar. Manoel
-com o desespero de afogado, reuniu todas as forças,
-e n’um extremo alento enterrou um braço no lodo
-da praia, para que a agua o não levasse, procurando
-já por instincto conservar a cabeça ao cimo d’agua
-para gritar, e tomar a respiração.</p>
-
-<p>Succeder-lhe-ia em pouco o mesmo que a Estevam
-se da terra o não ouvissem; correram em seu soccorro
-com luzes e cabos, nadaram para onde se ouviam os
-gritos, e agarraram-no pelos cabellos, quando exhausto
-de forças ia mergulhar tambem.</p>
-
-<p>—Quasi que não respirava.</p>
-
-<p>A Providencia velava por elle, era a segunda vez
-que o salvava.</p>
-
-<p>De manhã quando Manoel deu accordo de si, viu-se
-deitado n’uma esteira perto da chaminé, onde ardia um
-bom fogo, e ao pé d’elle um rapazito de dez a doze
-annos a vigiar lhe o somno: já não sentia a fadiga da
-vespera, e tinha recuperado as forças com o descanço;
-ia para se levantar e agradecer aos que o tinham salvado,
-quando a creança, pondo-lhe a mão sobre o hombro
-lhe disse:</p>
-
-<p>—Não se levante, faz-lhe mal, a mãe não quer; e
-como elle teimasse, gritou:—mãe, accuda cá, o homem
-quer levantar-se, quer ir-se embora.</p>
-
-<p>Á voz da creança abriu-se uma porta, e uma mulher,
-que teria trinta annos, quando muito, e que apesar
-de cançada pelo trabalho, ainda era formosa, appareceu
-no limiar.</p>
-
-<p>Manoel apenas a entreviu, com o lusco-fusco da madrugada,<span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span>
-que illuminava fracamente a casa, deu um
-grito, levantou-se cambaleando e enfiou pela porta meia
-aberta para a estrada.</p>
-
-<p>Ella ao reconhecel-o tambem, encostou-se ao umbral
-da porta para não cair no chão.</p>
-
-<p>Era Martha.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span></p>
-
-<h3>V</h3>
-
-<p>O céu tinha limpado de noite, o dia amanhecera sereno,
-e o sol aquecia bastante, apesar de ser no outono.
-E aquella estrada, então, que era um descampado!</p>
-
-<p>A meia hora de caminho, andando sabe Deus como,
-com a cabeça pelos ares e a rasão quasi transtornada,
-Manoel teve de parar, ou, para melhor dizer, de cair
-n’um poial, que estava á beira da estrada debaixo de
-uma nogueira velha.</p>
-
-<p>Se não estivesse já experimentado na infelicidade, o
-pobre homem, que pela sua má sina parecia ter nascido
-nas horas da desgraça, finava-se alli de todo.</p>
-
-<p>Mas a canceira do corpo venceu a labutação do espirito;
-as horas, que levára de volta com o mar, o dia
-que passára e este que ia correndo sem comer; aquella
-vista e aquelle abalo, tudo junto deitaram-no como desmaiado
-sobre o poial onde ficou a dormir, a pensar, ou
-a esmorecer, que nem elle mesmo soube nunca o modo
-porque fôra, até que um velho visinho e que por mais
-de uma vez chegára ao humbral da porta a encarar
-com elle, o fez tornar a si batendo-lhe no hombro e
-perguntando-lhe se tencionava ficar para sempre alli
-estendido.</p>
-
-<p>Manoel para aquellas bandas não sabia caminho nem
-carreira, e que o soubesse não tinha alma de o seguir.<span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span>
-O velho compadeceu-se d’elle, porque pelo fato e pelo
-fallar, conheceu logo que era estranho ao logar; offereceu-lhe,
-para passar a noite, um bocado de esteira,
-para matar a fome um pedaço de pão e uma cabeça de
-sarda, e para companhia a sua pessoa e conversação.</p>
-
-<p>Acceitou, e seguiu o seu hospedeiro como por demais:
-e, sem dar fé do que fazia, comeu, deitou-se, e
-dormiu a noite de um somno.</p>
-
-<p>Só nos romances é que os heroes não dormem depois
-de fortes abalos; na vida vulgar, na vida de todos
-e de todos os dias, depois dos grandes padecimentos,
-vem o cançasso mesmo da dôr, e depois o somno, ás
-vezes mais profundo, mais descançado, do que nas
-occasiões triviaes.</p>
-
-<p>Na manhã do dia seguinte Manoel acordava tranquillo
-e quasi feliz. Ao cabo de tanta lucta, de tantos
-lances, e de tão grandes golpes, aquelle remanso, que
-o velho lhe offerecia, aquelle apartamento do mundo,
-aquelle mesquinho oasis, entre um cemiterio e um ancião
-que para elle se inclinava e se debruçava sobre a
-cova; entre dois tumulos, mas sempre oasis para o
-seu mundo deserto de affeições e de esperanças, era
-o socego, o esquecimento, quasi a felicidade, felicidade
-da morte, mas ainda assim agradavel para os que nada
-esperam da vida.</p>
-
-<p>Diz um aphorismo, dictado talvez pela descrença,
-mas provado pela experiencia, que um dia de desgraça
-estreita mais amisades do que annos de ventura; contaram-se
-a sua vida, communicaram-se as suas infelicidades,
-e deram-se o nome de amigos.</p>
-
-<p>Não eram interesseiros os protestos; e por isso, bem
-sinceros.</p>
-
-<p>Até á morte do velho, Manoel viveu na sua companhia;
-enterrou-o, chorou sobre a sua sepultura, herdou-lhe
-a pobre habitação e o descubiçado emprego, e
-n’essa posse estava quando em companhia do tio Joaquim
-o encontrei.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span></p>
-
-<h3>VI</h3>
-
-<p>Haviam decorrido dois annos depois que viera do
-campo, e, com toda a sinceridade o confesso, nunca
-mais me lembrou em Lisboa, nem o guarda do cemiterio,
-nem a sua historia, que o bom do tio Joaquim
-me referira.</p>
-
-<p>Tive de voltar áquelles sitios e seguindo o caminho
-por onde viera da feira, comecei a avivar recordações,
-a recontar de mim para mim aquellas horas tão felizes,
-tão descuidadas, tão folgazãs, que me tinham corrido
-por aquelles descampados, e a vêr por entre as moitas
-dos vallados, que a primavera perfumava de aromas
-e esmaltava de flôres, as saudades queridas d’aquelles
-encantados tempos.</p>
-
-<p>Ao voltar da estrada quasi no mesmo ponto, em que
-os cavallos se haviam detido dois annos atraz, deteve-se
-tambem o que eu montava; obrigando-me a abandonar
-aquellas regiões do idealismo pela realidade de
-tempo e de logar.</p>
-
-<p>Não conhecia os sitios, tive de me orientar, invocando
-reminescencias antigas, e confrontando paragens,
-para me certificar onde estava.</p>
-
-<p>A egreja, a casa do guarda, o proprio cemiterio, pareciam
-remoçados pelo influxo de alguma divindade
-bemfazeja. Inspiravam ainda tristeza aquelles logares,<span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span>
-mas uma doce e placida melancholia succedia-se agora
-ao desconforto e desalento, que ao attentar n’aquellas
-ruinas, nos arrefeciam a alma.</p>
-
-<p>O musgo estendia por partes o seu luxuriante manto
-de verdura, contrastando com o negrejar das cantarias,
-e dando e ganhando esplendores com o realce.
-Bandos de pombos esvoaçavam em roda das escalavradas
-paredes, casando os arrulhos, beijando-se, perseguindo-se
-em revira-voltas graciosas, cortando os ares
-em todos os sentidos com elegantes curvas, affagando-se
-e brincando, espalhando sobre aquellas ruinas suaves
-perfumes de alegria e de amor. Perto a casa, alvejando
-por entre as latadas de jasmineiros e madresilvas,
-o velho poial limpo e rebocado sob um caramanchão
-de heliotropos, e até a nogueira velha parecia
-mais viçosa e risonha.</p>
-
-<p>O cemiterio, que da pequena elevação, onde parára,
-se avistava todo, tinha as ruas limpas e orladas de alecrim
-e alfazema, as lapides mais desafogadas de matto,
-as cruzinhas mais negras, as arvores mais cuidadas,
-o chão recamado de flôres.</p>
-
-<p>Tudo era novo para mim, mas tudo melhorára com
-a innovação, e despidas as rugas de uma velhice precoce
-ou de uma mocidade gasta e devassa, apresentava-se
-tudo agora com as louçanias de uma virilidade
-robusta, de uma existencia descançada, serena, quasi
-festiva.</p>
-
-<p>Aquelle rejuvenescer estendera-se tambem ao antigo
-habitante, que havia visto outr’ora sujo, maltrapilho,
-alquebrado, velho até; e que via agora assomar á
-porta tão aceiado, tão esbelto, tão remoçado, que foi
-preciso que me cumprimentasse e que eu o ouvisse
-fallar, para perceber que era o mesmo.</p>
-
-<p>Apeei-me e mais curioso de que uma mulher, ou do
-que qualquer homem dos que n’este vicio lhes levam
-as palmas, procurei indagar o porquê d’aquellas mudanças.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span></p>
-
-<p>Talvez pelo respeito, que todos por aquelles logares
-me tinham, consegui de Manoel a confissão da sua
-vida na parte que não conhecia, e em que se operára
-aquella transformação.</p>
-
-<p>Em resumo foi o seguinte:</p>
-
-<p>Tempos depois da morte do seu antecessor, Manoel
-acordára uma noite ao bater-lhe á porta o acompanhamento
-de um enterro, que, como todos sabem, costumam
-no campo, ser fóra de horas.</p>
-
-<p>Atraz do caixão vinham chorando a viuva, o filho do
-finado, e alguns visinhos, que os acompanhavam.</p>
-
-<p>E... para que hei de torturar a curiosidade dos
-meus leitores, se é que a despertei em alguns, a viuva
-era Martha e o filho, aquella creança que vigiára o
-somno de Manoel.</p>
-
-<p>Encontravam-se pela terceira vez, mas d’esta finalmente
-para não mais se apartarem senão no tempo
-consagrado ao luto. Martha contou-lhe como o Miguel
-não morrêra das facadas, como se tinham casado depois,
-e como de Lisboa tinham vindo para aquelles sitios viver
-na companhia de um tio do marido, dono da fazenda
-onde foram depositar o nosso naufrago.</p>
-
-<p>Viram ambos n’aquelle inesperado encontro ao pé
-de um cadaver, a vontade da Providencia que os reunia
-emfim depois de tantos azares. Esta conclusão, que
-nem por isso depunha muito a favor da sua logica,
-pois que o encontro mais naturalmente provinha da
-occupação de Manoel, recebeu sobejo apoio na mutua
-affeição, que nunca se sumira de todo e que renascia
-agora mais valente e duradoira.</p>
-
-<p>Martha justificou-se a seu modo, e uma torrente de
-lagrimas rematou-lhe a peroração talvez artificial, mas
-de grande effeito para o seu auditorio. Manoel enterneceu-se,
-acreditou-a, e chorou tambem. E, regada
-com as lagrimas de ambos, desabrochou rapida a flôr
-do hymeneu.</p>
-
-<p>Casaram, não tiveram muitos filhos, não tiveram<span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span>
-mesmo nenhum, mas o Miguelsinho, a quem o padrasto
-estimava como a si proprio, foi cimento mais que bastante
-para aquelle templo modesto de felicidade conjugal.</p>
-
-<p>Quando Manoel acabava a sua historia, apparecia
-Martha á janella chamando-o e lançando uns punhados
-de milho a um rancho de gallinhas, que andavam pela
-estrada defronte da porta; e por uma azinhaga proxima
-assomava o Miguel tocando umas vaccas e umas
-ovelhas, que recolhiam do pasto.</p>
-
-<p>—É feliz!... Disse-lhe eu tão senhor de mim e
-com uns ares tão sentenciosos e profundos como se fizera
-uma grande descoberta.</p>
-
-<p>—Sou, graças a estes, e (levando-me á porta do cemiterio
-para me indicar uma cruz abraçada por uma
-corôa de perpetuas), graças tambem áquelle que me
-perdoou o meu crime.</p>
-
-<p>—Ainda pensa em semelhante coisa?</p>
-
-<p>—Se penso, quiz matal-o!</p>
-
-<p>Uma hora depois voltava para Lisboa, se não contricto
-ao menos pensativo. Aquelle espectaculo tinha-me
-valido por duzias de sermões.</p>
-
-<p>É verdade que Manoel dizia o que sabia, por experiencia
-propria: e a maior parte dos nossos padres, não
-sabem o que dizem.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 100px;">
-<img src="images/footer1.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header2.jpg" width="500" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="IX">IX<br />
-<span class="smaller">Como se ganha uma demanda</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Era pelos fins de novembro, ao approximar
-da noite. Soprava rijo o vento das bandas
-do sul e as nuvens acastelladas e escuras
-corriam como cavallo á desfilada. Principiavam
-a cair grossas gottas d’agua, e ao
-longe já rugia a tempestade. Como é vulgar no inverno,
-no campo, quasi que não houvera crepusculo
-da tarde. Apenas se escondera o sol e já a escuridão
-baixava sobre os campos. No sitio onde começa a acção
-da historia que se vae lêr, não havia noticia de povoado:
-era a meio de uma azinhaga, que se contorcia
-por entre terras cobertas de restevas, e tristes como
-a nudez mal vestida de farrapos.</p>
-
-<p>Joaquim dos Santos tinha mettido o cavallo a trote
-para fugir á trovoada proxima e ás trévas eminentes;
-emquanto debalde procurava orientar-se por meio dos
-olivaes.</p>
-
-<p>Joaquim dos Santos fôra um dos mais endiabrados<span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span>
-rapazes d’aquelles lugares. Deitára fama de si pelas
-proezas que fizera, e o seu nome não era bem fallado
-n’aquellas visinhanças, como um dos maiores extravagantes
-d’este mundo.</p>
-
-<p>Seu pae, que tinha alguns bens e que estimava devéras
-os seus dois unicos filhos, Joaquim e Raymundo,
-tratou de lhes dar educação decente, mettendo-os no
-mais acreditado collegio de Lisboa.</p>
-
-<p>Mas, emquanto Raymundo estudava com a melhor
-vontade, Joaquim fazia em agua a cabeça dos professores,
-e peiorava de dia para dia. Não podendo aturar,
-o director mandou-o para casa do pae, declarando
-lhe, que assim como não teria duvida de ensinar
-de graça a Raymundo, visto o seu bom porte e applicação;
-por dinheiro algum d’este mundo se resolveria
-a supportar o irmão nem mais um dia.</p>
-
-<p>Foi grande tristeza em casa de José dos Santos. As
-esperanças todas que depuzera em seu filho mais velho
-desappareciam-lhe de repente. E o velho que já
-pensava em o mandar a Coimbra!</p>
-
-<p>Joaquim, pela sua parte, declarou-se em guerra
-aberta com a lettra redonda. Não nascera para doutor,
-nem se achava com sabedoria para lettradices. Queria
-amanhar terras e ser lavrador como seu pae. Seu irmão,
-que parecia um menino Jesus de freiras, que se
-desse a semelhantes pieguices: elle era um homem,
-tinha pulso para guiar a rabiça de um arado, e pernas
-para se segurar n’um cavallo.</p>
-
-<p>José dos Santos só contava um defeito, ser estremoso
-pelos filhos como ninguem. Concordou com a
-vontade do Joaquim, e metteu-o no trabalho debaixo
-da sua direcção.</p>
-
-<p>Mas, nem mesmo nos primeiros dias, o novo lavrador
-tomou gosto áquelle modo de vida. Aborrecia-se
-do trabalho e, mal que podia, furtava-lhe o corpo para
-ir procurar a companhia dos peiores rapazes da terra.
-Encontravam-no mais na taberna do que na eira, mais<span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span>
-no jogo de bolla do que no pomar, e mais nas patuscadas
-do que na lavoira.</p>
-
-<p>Ao passo que se ia entregando a não fazer nada,
-iam-lhe medrando os defeitos e engordando os vicios.
-Tinha fama de valentão, e tão mau se havia feito, que
-o proprio pae se temia d’elle.</p>
-
-<p>Ninguem podia ter-lhe mão, não ouvia conselhos,
-nem fazia caso do que lhe diziam para bem. Um dia
-que seu irmão Raymundo se lembrou de lhe fallar a
-preceito para vêr se o fazia chegar á rasão; Joaquim,
-que não vinha em si, deu-lhe uma sova, que o deixou
-em lençóes de vinho.</p>
-
-<p>Foi tambem a ultima que seu pae lhe aturou. O bom
-do velho apenas viu chegar seu filho querido, o seu ai
-Jesus, que fôra sempre uma joia, e do qual ninguem
-dizia senão mil bens, em braços, e que soube quem
-fôra o auctor de tão grande maldade, jurou que nunca
-mais lhe poria os pés em casa homem de tão mau coração.</p>
-
-<p>Deitou luto em signal de o ter perdido e respondia
-a todos que lhe perguntavam porque vestia de preto:—é
-por meu filho Joaquim, que morreu.</p>
-
-<p>Este jurou que se havia de vingar de seu irmão, ao
-qual attribuia a má vontade do pae, e foi cada vez a
-peior, passando todo o santo dia na taberna ou no jogo.</p>
-
-<p>Entre os seus companheiros de perdição havia um,
-que sobre elle tinha mais poder; mesmo por ser o
-mais depravado. Era João Simões, capaz de lêr de cadeira
-na patifaria e de passar por doutor na pouca vergonha.</p>
-
-<p>Contribuira mais do que ninguem para estragar o
-rapaz e fôra quem lhe ensinára melhor o mau caminho.
-Joaquim, tambem, não resava por outro breviario,
-e o que João Simões lhe dizia—era para elle um evangelho.</p>
-
-<p>Andavam por aquelles tempos no lugar alguns homens
-a desenquietar trabalhadores para o Brazil,<span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span>
-promettendo-lhes mundos e fundos de felicidade, quando
-lá estivessem, e passagem paga no navio para os que
-quizessem ir. João, que entrava em todos os negocios
-de má condição, travou conhecimento com os taes meliantes,
-e fez-se dentro em pouco um dos mais espertos
-alliciadores da companhia.</p>
-
-<p>Como estava corrente com tudo que se passava, pois
-bem sabem que a occupação do vadio é entreter-se
-com as vidas alheias, viéra a ser em pouco tempo o
-perdigueiro de melhor faro para levantar a caça. Conhecia
-os que tinham menos dinheiro, os que mais desejavam
-ganhal-o com pouco trabalho, os que tinham
-melhor embocadura para o vicio, e os que menos duvidavam
-de abandonar terra e parentes.</p>
-
-<p>Onde deitava a rede tirava peixe, já era sabido. Ninguem
-como elle acertava tão bem.</p>
-
-<p>Apenas José dos Santos pôz seu filho fóra de casa,
-logo João tencionou seduzil-o para embarcar, e sem
-grande difficuldade conseguiu convencel-o de que era
-o melhor partido que tinha a seguir.</p>
-
-<p>Como elle jurava nas palavras do seu mestre, acreditou
-em tudo quanto lhe dizia, protestando entretanto,
-que se fosse desgraçado grande vingança tiraria de seu
-irmão Raymundo, o causador de tudo, lá no seu modo
-de vêr. João entretendo-lhe a furia foi acompanhal-o
-ao embarque, encarregando-se não só de tratar de
-quantos negocios porventura viesse a ter; mas ainda
-de realisar os planos vingativos contra o irmão.</p>
-
-<p>Tornou-se assim depositario de todos os seus odios.</p>
-
-<p>João incumbindo-se d’esta vingança, trabalhava tambem
-por sua conta, pois jurára pela pelle de Raymundo,
-desde que este o tratou desabridamente, e lhe voltou
-costas n’um arraial.</p>
-
-<p>O desgosto de vêr seu filho tão mal encaminhado
-levou o pobre pae á cama: e Raymundo teve de deixar
-os estudos em meio para vir junto do velho, governar
-a casa e tratal-o na doença.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span></p>
-
-<p>Entrementes que estava cuidando em seu pae tomou-se
-de amores com uma rapariga da terra; e como
-era boa de caracter e boa de reputação, apesar de pobre,
-casou-se em breve, ganhando todos com o casamento.
-Elle porque alcançára uma esposa extremosa,
-José dos Santos porque ganhava uma enfermeira sollicita,
-tão desvellada e tão carinhosa como a melhor filha.</p>
-
-<p>Porém quando o mal é de morte triste remedio lhe
-podem dar o saber dos medicos, ou o cuidado dos enfermeiros.
-A ferida do doente era mesmo no coração,
-não tinha cura. Apesar da maneira porque Joaquim
-para com elle se houvera, estimava-o porventura mais
-ainda do que ao seu obediente e bom Raymundo.</p>
-
-<p>Caprichos do sentimento, que mais nos fazem prender
-a affeição, a quem menos nol-a merece; o velho,
-embora comsigo mesmo o negasse, dera parte maior do
-seu coração ao filho perdido.</p>
-
-<p>Muitas vezes em piedosa e apaixonada analyse se
-desculpava d’esta parcial fraqueza. Era a ovelha desgarrada,
-que cuidados maiores requeria do pastor, era
-a terra maninha que pedia melhor cultura, era a arvore
-desviada, que chamava mais attenção para lhe
-emendar o erro.</p>
-
-<p>A lembrança do filho era o tormento, e a enfermidade
-mais perigosa, que o definhavam. O barbeiro-sangrador
-do logar, e o cirurgião visinho tinham feito repetidas
-juntas sem atinarem com a rasão do mal. Resolveram
-por fim, que padecia do interior, e acertaram
-sem saber.</p>
-
-<p>José dos Santos ria-se dos entes de rasão dos dois
-physicos, e sujeitava-se resignado ao tratamento que
-lhe applicavam. Seu filho, sua nora, até o netinho de
-peito, todos se acercavam d’elle inquietos e suspeitosos
-da verdadeira causa do mal. Porém tão callado se
-conservára o doente, que não tinham passado de conjecturas.</p>
-
-<p>Á hora da morte apenas se lhes desvaneceram as<span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span>
-duvidas, porque, conhecendo como estava, chamou-os
-a todos, lançou-lhes a benção, e depois erguendo os
-olhos ao céu, exclamou:</p>
-
-<p>—Compadecei-vos tambem d’elle, Senhor, tocae
-aquella alma perdida, com um raio da vossa divina
-graça... Se algum dia tornares a vêr teu irmão, meu
-Raymundo, dize-lhe, que lhe perdoei tudo, e, que ao
-despedir-me do mundo, lhe deitei, cá de tão longe
-mesmo, a minha benção de pae.</p>
-
-<p>Casa onde entra doença, não é o dinheiro que a
-aguenta: a molestia de José dos Santos foi a ruina
-d’aquella familia. Durára perto de dois annos o padecer
-do velho; custára muito áquella organisação robusta
-o desprender-se do mundo, luctára como um homem;
-o desgosto, porém, vencera-o por fim.</p>
-
-<p>Tudo estava empenhado, quando o antigo lavrador
-falleceu: foi mister pedir dinheiro para o enterro, e
-Raymundo amanheceu um dia sem pae, sem haveres,
-e com o filho e a esposa para sustentar.</p>
-
-<p>Demais a familia promettia-lhe augmentar-lhe, porque
-Leonor, sua mulher, estava gravida de tempo: e
-tanto que em poucos dias deu á luz uma filhinha, formosa
-como um serafim, e córada como uma rosa de
-primavera!</p>
-
-<p>Diz-se que os filhos são a riqueza do pobre. Triste
-ironia!—Para o que padece de necessidade a vista das
-creanças sem pão é tormento mil vezes maior do que
-a propria fome. Quantos não sacrificariam a vida de
-bom grado, se em paga soubessem que garantiam a
-existencia dos seus!</p>
-
-<p>Supplicio, que se não descreve, é vêr os innocentes,
-menos soffridos e porventura mais sinceros, não disfarçarem
-a fome e chorarem pedindo pão.</p>
-
-<p>Emquanto a desgraça o perseguia, Raymundo, sem
-desanimar, ia trabalhando sempre, amparado pela força
-de vontade e pelo sentimento do dever.</p>
-
-<p>Pelo contrario a fortuna, caprichosa como sempre,<span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span>
-sorrira para Joaquim cujos negocios lá pelo Brazil iam
-de vento em pôpa.</p>
-
-<p>João Simões, que com elle se correspondia regularmente,
-não descançava de lhe acirrar os odios contra
-seu irmão, o qual para de tudo o privar, até lhe roubára
-a benção paterna, fazendo com que o velho á hora
-da morte amaldiçoasse o filho mal procedido.</p>
-
-<p>Como já se disse, succedera o contrario; mas o Simões,
-que era uma alma damnada, queria vingar-se de
-Raymundo, e não recuava, por conseguinte, deante de
-uma mentira, ou duas que fossem.</p>
-
-<p>Ao mesmo tempo encarecia lhe a prosperidade da
-casa e os grandes negocios, que José dos Santos fizera
-nos ultimos tempos: dizia-lhe, que seu irmão ficára
-disfructando uma grande fortuna, que se fingia pobre
-para não fazer partilhas, e que se Joaquim lhe mandasse
-procuração para tratar d’esse negocio, em breve
-lhe mostraria, se era ou não verdade, que seu irmão
-queria enganar toda a gente com a sua mentirosa pobreza.</p>
-
-<p>Conseguiu por fim o que desejava: e mal teve a procuração
-em seu poder, começou a perseguir o desgraçado
-Raymundo a quem já devia bastar o seu mal.</p>
-
-<p>A justiça não costuma estar em casa para receber os
-pobres; João Simões dispunha de dinheiro, e entendia
-de demandas, fazia o que queria. Taes artes teve, de
-taes manhas se soccorreu, que conseguiu em pouco,
-que passassem um mandado de penhora contra Raymundo,
-como cabeça de casal em nome de seu irmão:
-emquanto este, lembrando-se com saudades da patria
-ia liquidando os seus negocios, para poder regressar
-quanto antes. Tinha ganho algum dinheiro; mas não
-tinha contrahido amisades: e estava rico; mas só e
-triste.</p>
-
-<p>Mudára de vida completamente: aquelles annos tinham-no
-amadurecido, mas tambem o tinham cançado
-e gasto. Estava velho antes de tempo, precisava descançar<span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span>
-e não ha como a terra da patria para alliviar
-penas de velhice e melancholias de coração. Havia bem
-pouco que chegára, quando nós o encontrámos, fugindo
-da tempestade, e orientando-se por entre campos.</p>
-
-<p>Eram recordações, eram saudades, que o tinham demorado,
-seguindo por aquellas visinhanças, parando
-diante d’uma arvore, descobrindo-se diante d’uma cruz,
-apeando-se muitas vezes para ir ajoelhar diante d’uma
-pedra.</p>
-
-<p>Tudo lhe fallava á memoria, tudo lhe fallava ao coração.</p>
-
-<p>Aqui passára tanto tempo espreitando seus companheiros,
-que o procuravam, e elle escondido; ali tivera
-o primeiro encontro apaixonado; mais em baixo estivera
-com seu pae; mais além descançava este em horas
-de calor, ou esperava os trabalhadores das suas fazendas,
-ao recolherem, para lhes perguntar noticias do
-trabalho.</p>
-
-<p>E uma pedra para junto da qual viera correndo um
-dia a fugir do cão do tio Fernandes, esconder-se no regaço
-de sua mãe, toda em sustos de principio; tão enfurecida
-mais tarde apenas soube que fôra elle, quem
-desafiára o cão!</p>
-
-<p>Mundo de melancholicos e piedosos phantasmas,
-mundo, que o alheava á realidade, que o apartava do
-presente, tão só, tão vasio, tão sem significação, para
-lhe abrir francas, patentes e compassivas as portas do
-passado, tudo ali se transformava para elle, e em cada
-cousa cuidava vêr uma feição querida, uma lembrança,
-uma alegria ou uma dôr.</p>
-
-<p>Por vezes lhe rebentaram as lagrimas dos olhos, por
-vezes sentiu-se suffocado, por vezes desejou, emballado
-pela doce harmonia da saudade, adormecer de todo no
-dormir, em que já descançavam seu pae e sua mãe.</p>
-
-<p>E, que o explique quem melhor o pensou, nas occasiões,
-em que o sentimento é em nós mais placido, mas<span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span>
-tambem mais profundo; nas horas de amor duvidoso,
-de aspiração indefinida, de descontentamento irremediavel
-e infundado, parece que se levanta entre nós o
-desejo de outra vida, de outro mundo, de outra existencia,
-não sabemos qual, mas que nos parece ter já
-vivido, e para o qual nos persuadimos, teremos de voltar.</p>
-
-<p>N’essas horas de extranho e amoravel sentir, como
-desterrados de regiões bem diversas d’estas, desejamos
-vêr terminado o desterro e immediata a hora de regressar.</p>
-
-<p>Foi o approximar da tempestade que o distrahiu
-d’estas melancholicas cogitações; deitou os olhos em
-roda e não conheceu o sitio. Tinha-se perdido no caminho.
-Novas estradas, novas mudanças tinham-lhe
-transformado o mappa, que a memoria lhe estampára
-no coração, via-se a meio de olivaes e as arvores confundiam
-se já com as sombras da noite.</p>
-
-<p>Seguira, sem dar por isso, o melhor caminho, a estrada
-nova, e que por conseguinte não era do seu tempo.
-Não podia estar longe o povoado, mas a chuva cada
-vez apertava mais, e o cavallo já não queria andar assombrado
-com o fuzilar continuo dos relampagos, e
-atturdido com o ribombo temeroso dos trovões.</p>
-
-<p>Entretanto estava resolvido a seguir á ventura, certo
-de que em pouco tempo encontraria abrigo; quando
-deante de si, na quebra de uma azinhaga, lhe pareceu
-vêr uma sombra rasteirinha coser-se com o muro e seguir
-a modos de homem, que fosse agachado, como receando
-ser visto.</p>
-
-<p>—Quem vae ahi? perguntou Joaquim que costumado
-ás aventuras do sertão não se inquietava muito com
-um mau encontro.</p>
-
-<p>Mas a sombra seguiu mais apressada, sem dar resposta.</p>
-
-<p>Joaquim chegou esporas ao cavallo e correu sobre o
-vulto.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span></p>
-
-<p>Proximo reconheceu duas creancinhas, um rapasito
-de sete annos, ao mais, e uma menina de seis, que de
-mãos dadas e tremendo de medo ambos, ajoelharam
-quando o viram ao pé de si, exclamando o mais velho,
-e que parecia mais animoso.</p>
-
-<p>—Não nos faça mal, temos o pae doente e vamos levar-lhe
-este remedio, que lhe receitou o mestre Eusebio.</p>
-
-<p>(Eusebio ainda era sangrador-barbeiro approvado
-pelo proto-medicato, e facultativo á falta d’elles).</p>
-
-<p>Depois voltando-se para a irmã, que se fazia bem
-pequenina para se esconder atraz d’elle, disse-lhe, mudando
-as fraquezas em forças, e n’um tom mais seguro,
-como para lhe incutir valor.</p>
-
-<p>—Não tenhas medo, Isabel, aquelle senhor não nos
-ha de fazer mal, não vês que tem cara de boa pessoa!</p>
-
-<p>O pequeno não podia perceber que tal fosse a physionomia
-de Joaquim; esta amabilidade era pois um argumento
-<i>ad benevolentiam</i>, aprendido quasi intuitivamente,
-na rethorica saloia.</p>
-
-<p>—Não faço mal, não, pobres pequenos, com este
-tempo, tão mal resguardados!</p>
-
-<p>Isto era dito já a pé junto d’elles e detendo se com
-verdadeira compaixão ao attentar nos farrapitos, que
-mal os cobriam.</p>
-
-<p>—Nós cá não tem duvida: o pae é que precisa mais,
-está tão doente.</p>
-
-<p>—Ha tres dias que não come nada.</p>
-
-<p>—E a nossa mãe, coitadinha, ha oito dias que não
-dorme!</p>
-
-<p>—E o pae, está com uma cara! Nossa Senhora nos
-valha, parece um defunto.</p>
-
-<p>—Não digas isso, Isabel!... depois approximando-se
-mais de Joaquim, com quem ia já acostumando-se, e
-como para lhe provar que não era creança, o rapasito
-continuou mais de vagar; o pae está muito mal, que eu
-bem vi a cara que fez hontem o mestre Eusebio, mas
-a mãe não desconfia e a Isabel nada sabe.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span></p>
-
-<p>—É muito longe a sua casa?</p>
-
-<p>—Não, meu senhor, é logo alli.</p>
-
-<p>—Pois vamos lá, que eu tambem os acompanho. Já
-agora... Não temos outra noite, e d’aqui ao lugar ainda
-ha uma boa meia legua bem puchada. Quando lá chegasse
-achava tudo fechado.</p>
-
-<p>—Mas o senhor vae ficar muito mal accomodado,
-exclamou a pequena, que ainda se não affizera muito
-ao seu novo conhecido, a gente é tão pobre!</p>
-
-<p>—Não tem duvida, minha menina, em qualquer canto
-me arranjo, sou facil de contentar.</p>
-
-<p>—Oh José, eu tenho medo do homem, elle vem com
-a gente? perguntou ao ouvido a pequenita a seu irmão.</p>
-
-<p>—Tu tambem, sempre és uma medrosa!... E d’ahi
-não sabes que lá em casa não ha que levar!</p>
-
-<p>—Sim, mas olha eu sempre tenho medo.</p>
-
-<p>Joaquim comprehendêra pelo conchegar assustadiço
-da creança para seu irmão, e pelos modos importantes
-que este assumira, qual tinha sido o dialogo em voz
-baixa, e sorrindo-se disse á pequena:</p>
-
-<p>—Não tenha medo de mim, não sou nenhum ladrão.
-Mas bem pelo contrario a prevenção mais assustou
-a creança, que não atinando com o modo porque elle
-ouvira a sua conversação, exclamou apressurada, mas
-sem olhar para o seu interlocutor:</p>
-
-<p>—Eu bem sei que o senhor não é nenhum ladrão;
-mas... adivinha o que a gente diz!</p>
-
-<p>—Então minha menina, julga-me agora feiticeiro?</p>
-
-<p>—Deixe-a fallar, é uma creança, ainda não fez seis
-annos.</p>
-
-<p>—E o menino é um homem, não tem medo.</p>
-
-<p>—Eu já tenho sete annos, e d’ahi o senhor não havia
-de fazer mal a duas creanças, nem a meu pobre
-pae. Está tão doente!</p>
-
-<p>—Pois deixem estar que eu verei se sei d’algum remedio,
-que lhe faça bem. Pelas terras, por onde andei,<span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span>
-aprende-se muita coisa e eu conheço algumas drogas
-que talvez aproveitem: e d’ahi eu quero pagar-lhes o
-agasalho, tenho com quê.</p>
-
-<p>—O senhor dá cura ao pae?—Que bondade seria a
-sua!</p>
-
-<p>—Não te dizia eu, Isabel.</p>
-
-<p>—Ora pois então vamos lá. Digam-me seu pae é
-muito velho?</p>
-
-<p>—Não senhor, tem trinta annos e mais alguma coisa,
-os desgostos é que o acabaram muito.</p>
-
-<p>—Pobre homem!</p>
-
-<p>—Demais a mais um tio, que anda lá por fóra quer
-tirar-nos tudo. E d’ahi o pae, vive tão apoquentado!</p>
-
-<p>—Um tio?</p>
-
-<p>—Sim, senhor, atalhou a pequena, um tio muito
-mau! Sempre tenho uma raiva ao meu tio!...</p>
-
-<p>—Calla-te, mana, tu não sabes que o pae diz que o
-tio não tem a culpa?</p>
-
-<p>—Então o tio anda ha muito por fóra! Como se
-chama?</p>
-
-<p>—Ora o senhor não o conhece, replicou o rapaz
-meio desconfiado; está muito longe.</p>
-
-<p>—Quem sabe, ás vezes! Diga-me sempre como elle
-se chama.</p>
-
-<p>—É o tio Joaquim.</p>
-
-<p>—E está?...</p>
-
-<p>—Lá para o Brazil.</p>
-
-<p>—E seu pae, chama-se?</p>
-
-<p>—Mas o senhor de certo não se importa com a vida
-da gente, respondeu o Josésito, que já não ia gostando
-de tanto perguntar e que receava, com aquella giria
-que parece acompanhar os saloios desde o berço, que
-lhe podesse porvir algum mal das suas respostas.</p>
-
-<p>—Por amor de Deus diga-me como se chama seu
-pae.</p>
-
-<p>—Assim, como assim, o senhor sempre o ha de vir
-a saber, chama-se Raymundo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span></p>
-
-<p>—Então os meninos são?...</p>
-
-<p>E a commoção embargou-lhe a voz.</p>
-
-<p>—Somos, sim senhor, somos filhos de meu pae, eu
-chamo-me José, que era o nome de meu avô, e minha
-irmã é Isabel, porque nasceu no dia de Santa Isabel.</p>
-
-<p>—Pois eu...</p>
-
-<p>Mas a reflexão cortou-lhe a palavra: queria vêr; queria,
-antes de se declarar, que aprendessem a abençoal-o.
-Entretanto, agarrou-os bem para si e abraçou-os muito
-enternecido.</p>
-
-<p>—O senhor está a chorar, disse Isabel com aquella
-perspicacia de mulher mesmo pequena, olhe, já vou
-gostando mais de si!</p>
-
-<p>—Gosta, gosta, minha Isabelinha, que eu tambem
-gosto muito de ti. E tu lá, José, tambem és meu
-amigo?</p>
-
-<p>—Eu engracei comsigo logo ao principio. Aqui está
-a nossa casa; e batendo á porta:—mãe, mãe, aqui
-vem um senhor, que sabe d’um remedio para curar o
-pae! Abra a porta, mãe, somos nós.</p>
-
-<p>Effectivamente estavam á porta de Raymundo. A luz
-que vinha de dentro ao abrir, cegou por momentos a
-Joaquim, que só depois de se costumar á claridade é
-que pôde dar fé do interior d’aquella habitação.</p>
-
-<p>Era uma casa terrea, que accumulava as funcções de
-cosinha, sala, casa de jantar e quarto de dormir dos
-pequenos. A um canto uma cortina de chita muito remendada
-resguardava-lhes a alcova; do lado direito
-uma porta meia aberta dando para o escuro, d’onde
-saía o som angustiado e sibilante de uma respiração
-irregular accusava o quarto do enfermo: junto da chaminé,
-onde ardiam em chamma fraca e incerta alguns
-cavacos apanhados na estrada, via-se uma cadeira antiga
-de espaldar de coiro e pregaria amarella. Era o
-unico movel de algum valor.</p>
-
-<p>Uma meza de pinho, bem tosca e bem pouco segura,
-umas pratelleiras sobre a meza pregadas na parede,<span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span>
-onde se viam uns pratos quasi todos rachados e
-alguns tachos bem velhos, tres mochos em roda da
-meza, uma arca carunchosa ao lado da porta de entrada,
-dois registros por cima da arca, uma palma e
-um rosario crusando-se sobre os registros, constituiam
-toda a mobilia, a que accrescentaremos apenas, para
-que a descripção seja completa, um banquinho proximo
-á entrada do quarto do doente e junto da arca,
-d’onde Leonor se levantára para abrir a porta aos recem-chegados.</p>
-
-<p>Sobre a arca uma lamparina allumiava os santos e
-dava claridade para o trabalho de Leonor, que ali, ora
-levantando os olhos de supplica para as imagens, ora
-volvendo-os cuidadosa para o quarto onde jazia o esposo,
-remendava um capote de Raymundo, sobre o
-qual de vez em quando caiam as lagrimas da desgraçada.</p>
-
-<p>A luz incerta do brazeiro, sobre o qual e para o escurecer
-mais ainda estava uma panella de folha, em
-duas pedras, que suppriam a fornalha; e o clarão mais
-terno ainda da lamparina, luctando com as sombras e
-perdendo-se na escuridão, tornavam a casa mais vasta,
-mais nua e mais triste.</p>
-
-<p>—O pae está descançando, não façam bulha, apressou-se
-em dizer aos seus dois filhos a attribulada mulher.
-Depois voltando-se para Joaquim:—Vossa senhoria
-ha de perdoar, os pequenos é que tiveram a culpa
-de o cá trazer, bem vê que não temos accommodações
-para hospedes; depois a doença de meu marido...</p>
-
-<p>—Olhe, mãe, segredou-lhe o José como quem queria
-dar a entender que não andára de leve, elle tem dinheiro
-para pagar á gente, e diz que traz um remedio
-que dá cura ao pae...</p>
-
-<p>—Não venho para encommodar. Estou affêito a tudo,
-e qualquer coisa me satisfaz, uma pouca de palha
-e uma manta, uma manta só, coisa nenhuma que seja;
-mas licença de descançar ahi sentado, e de adormecer<span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span>
-com os braços sobre a meza e a cabeça encostada aos
-braços. Eu sei o que são doenças, e talvez mesmo lhe
-possa servir de algum prestimo. Nas terras por onde
-andei nem sempre havia medico á mão, nem boticario
-ao pé da porta. Ia-se a gente curando conforme podia,
-e aprendendo á sua custa...</p>
-
-<p>Emquanto Joaquim proseguiu no seu arrasoado, examinava
-sua cunhada, que pela sua parte aproveitava
-tambem estes proloquios para observar o hospede que
-seus filhos lhe traziam.</p>
-
-<p>Leonor era ainda uma formosa mulher, posto que o
-desgosto lhe tivesse gravado algumas rugas na physionomia
-e embranquecido alguns cabellos. Morena,
-olhos pretos e rasgados, nariz recto e fino, labios delgados
-e vermelhos, rosto oval, um d’estes typos peninsulares,
-mescla formosa do sarraceno trigueiro e
-nervoso, como as filhas do norte pallidas e lymphaticas.</p>
-
-<p>Era esbelta e da altura propria de mulher. Tinha
-sentimento na physionomia e elegancia no corpo. Mostrava
-o que devera ter sido, antes que as maguas a
-envelhecessem e os trabalhos a cançassem.</p>
-
-<p>A tristeza espalhava lhe pelo rosto um melancholico
-mas diaphano véu, atravez do qual transparecia a vermelhidão
-do pejo ao lembrar-se da má hospedagem,
-que com difficuldade podia offerecer. E quanto mais
-olhava para Joaquim mais ia sympathisando com a cara
-rude mas franca do recem-chegado.</p>
-
-<p>Este mostrava tambem ter muito mais edade do que
-tinha. Valera-lhe por dez um dos annos que passára
-no sertão: mas aquella belleza agreste do homem callejado
-no trabalho, aquella lhaneza não destituida de
-finura, que se adquire no trato licito, mas laborioso e
-muitas vezes bastante complicado, davam-lhe relevo ás
-feições e imprimiam-lhe um cunho particular. Trajava
-simplesmente e como lavrador abastado.</p>
-
-<p>Apesar da compostura que se notava no traje de<span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span>
-Leonor, apesar do cuidado com que vestia e do aceio
-da sua roupa, a mão da miseria denunciava-se a todo
-o momento. Da miseria que não faz alarde de si, que
-se esconde, que se disfarça, que tem pejo do seu estado
-e receio de que a conheçam. Miseria timorata e
-desconfiada, a que tudo offende, porque tudo a fere;
-que de todos foge, porque, sem quererem mesmo, todos
-a escandalisam. Uns pela ostentação, outros pelo
-dó, pela indifferença mesmo outros. Miseria que sorri
-por fóra emquanto chora por dentro, que apparenta desapego
-emquanto treme pelas consequencias, que encontra
-perigos sempre diante de si, e que soffre tanto mais,
-quanto receia que o desabafar seja tido como uma supplica
-e a franqueza como um rodeio para pedir. Miseria
-que se roça por nós sem que a conheçamos, e que
-por um nobre orgulho denomina doença a fome, desleixo
-o máu vestuario, extravagancia a necessidade.</p>
-
-<p>Tal era entretanto a que se lia no modesto e envergonhado
-trajar de Leonor, e que Joaquim, com a perspicacia
-que dá tambem a infelicidade, conheceu á primeira
-vista.</p>
-
-<p>—Se não fosse a molestia do meu Raymundo, proseguiu
-ella, melhor agasalho lhe poderiamos offerecer;
-mas assim... Parece que Deus se esqueceu da gente
-a alguns annos a esta parte! E tudo por causa de um
-mano de meu marido... que elle não quer ouvir tal,
-e pelo contrario sempre defende o irmão, que no seu
-dizer não tem culpa do que faz um tal João Simões...
-mas o senhor não se interessa com isto. Vou vêr se
-lhe posso offerecer alguma cousa de cear, e perdoará
-a limitação.</p>
-
-<p>E, emquanto fallando e dando voltas, Leonor ia preparando
-a ceia, e espreitando sempre o quarto de seu
-esposo, para se certificar se este continuava a dormir;
-Joaquim ficára á porta, de pé, chapéu na mão e como
-pasmado a comparar aquella pobreza, com as informações
-que recebera.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span></p>
-
-<p>Leonor reparou na posição do seu hospede, e indicando-lhe
-a cadeira de espaldar, proxima da chaminé:</p>
-
-<p>—Vem molhado, e está ahi em pé, sem se chegar
-ao menos para o lume, sente-se: ainda assim esta cadeira
-é a predilecta de meu marido, era onde se sentava
-quasi sempre meu sogro.</p>
-
-<p>Joaquim já tinha conhecido a poltrona, mas quando
-Leonor lh’a indicou pedindo-lhe, que se sentasse, não
-pôde dominar uma visivel commoção. Teve duvida, quasi
-medo de se sentar. Parecia-lhe vêr seu pae apontando-lhe
-para aquella casa, para aquella miseria e expulsando-o.
-Affigurou-se-lhe de repente o quadro, que tantas
-vezes examinára. O rosto entre severo e indulgente
-de José dos Santos inquieto por amor do filho,
-que se demorava, e preparando um sermão, que levava
-a cabo raras vezes, porque antes de meio lhe
-desarmava as iras o verdadeiro affecto paternal.</p>
-
-<p>Leonor, que não podia acertar com a causa de semelhante
-hesitação, attribuiu-a a causa bem differente.</p>
-
-<p>—Não faça cerimonia, se meu marido estivesse aqui,
-elle mesmo lh’a cederia, que sempre lhe ouvi dizer,
-que era dever sagrado fazer bom acolhimento aos viajantes.
-E perdôe vossa senhoria que eu ande no meu
-trafego.</p>
-
-<p>N’este comenos, remechêra na arca, e bem vermelha
-de vergonha tirára um panno muito lavado, é verdade,
-mas cheio de remendos, e que estendera sobre a mesa;
-desencantára n’um armario velho, que pelo estado em
-que se achava e pelo pouco vulto que fazia nos esqueceu
-mencionar, duas brôas de milho e alguns queijos
-brancos salgados; escolhêra da pratelleira os pratos
-menos quebrados, a que juntou os talheres, que apesar
-de serem de chumbo, pareciam de prata pelo brilho,
-tão limpos estavam: e indo buscar á chaminé a
-panella onde fervia um caldo de couves e toucinho,
-convidou o seu hospede a tomar parte d’aquella ceia.</p>
-
-<p>Não era coisa sufficiente, bem o sabia, mas a sua<span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span>
-pessoa havia de desculpar, pois que não esperava ninguem
-de fóra nem estava no auge de o receber como
-desejava, pois a doença do seu homem a tinha quebrado
-de pernas e braços.</p>
-
-<p>—E o que diz o facultativo da doença do seu marido?</p>
-
-<p>—Diz, que é uma dôr no interior, que lhe costuma
-a dar e que é de muito perigo se continua, que elle
-já é attreito a padecer do figado, que segundo parece
-é molestia de familia, e que lhe póde subir o mal ao
-bofe se não puchar abaixo com força. E será assim?</p>
-
-<p>—Não o creio. Deus ha de affastar o agoiro do tal
-barbeiro.</p>
-
-<p>—Elle tambem diz, que é bom dormir, e o meu
-Raymundo ha umas quatro horas que está descançando
-tão socegado, que parece mesmo uma creança.</p>
-
-<p>—Isso sim; o dormir é sempre um excellente remedio,
-restaura as forças e faz cobrar saude. D’ahi seu
-marido deve estar amofinado por lhe correr o negocio
-mal. Não me fallou ha pouco de um irmão?...</p>
-
-<p>—Do Joaquim, fallei, sim senhor.</p>
-
-<p>—Então esse Joaquim?</p>
-
-<p>—É, segundo a minha opinião, a causa de tudo isto.
-Que o Raymundo diz que não, e jura que não era capaz
-de fazer uma acção d’estas, se soubesse do estado
-a que chegámos...</p>
-
-<p>—Que acção, atalhou precipitadamente Joaquim?</p>
-
-<p>—Uma penhora, á gente, n’isto que o senhor ahi
-vê. Na verdade vale bem a pena de incommodar a justiça,
-ha de ficar bem rico, não tem duvida nenhuma!
-Mas ainda assim, Deus sabe a falta que nos faz tudo.
-Ficamos a pedir esmola. Até agora ainda tinhamos o
-nosso buraquinho para uma afflicção; mas de hoje em
-diante...</p>
-
-<p>—Que diz?...</p>
-
-<p>—A verdade. Um tal João Simões, é que tem andado
-acceso n’este negocio todo, porque tomou asca ao<span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span>
-meu Raymundo desde que elle um dia, já de proposito,
-por saber que era o Simões que lhe desinquietava o
-irmão, lhe voltou costas no arraial de Nossa Senhora
-do Rosario. Depois, apresentou-se feito procurador do
-Joaquim, deu testemunhas... se o senhor soubesse,
-que testemunhas!... as caras mais atraiçoadas do logar,
-em como o pae de meu marido tinha deixado muitos
-bens, que o meu Raymundo estragára tudo, e depois
-tem andado em demandas para puchar pela legitima
-do amigo. Legitima!... Só se foi a benção do
-pae á hora da morte, porque emquanto ao mais! Nem
-chegou o dinheiro para o enterro, que foi preciso ir
-pedil o fóra.</p>
-
-<p>N’estas alturas do dialogo um gemido do doente chamou
-a attenção de Leonor que correu á alcova de seu
-marido e por lá se deteve. Cançada de lidar, apenas se
-certificou de que o marido continuava dormindo e que
-o gemido fôra apenas sobresalto de algum sonho angustiado,
-sentou-se aos pés da cama, e passando as
-contas de um rosario, cedeu por fim ao cançasso e
-adormeceu tambem. Os pequenos logo depois da ceia
-tinham ido aninhar-se para o seu cantinho, e havia
-muito que resonavam.</p>
-
-<p>Joaquim ficára entregue ás suas reflexões.</p>
-
-<p>Correram as horas, esmoreceu de todo o lume no
-brazido, apagou-se a lamparina, ficou a casa em trevas
-devassadas apenas pela luz diffusa da atmosphera, que
-passava pelas fendas do tecto: e elle cogitava ainda
-no passado e no presente, nos seus sonhos, nas suas
-aspirações, nos seus erros e nas suas culpas.</p>
-
-<p>A solidão d’aquella casa povoava-se-lhe de vultos, todos
-elles conhecidos, todos eloquentes: alguns severos
-julgadores, outros saudosos e indulgentes amigos. Uma
-a uma iam-lhe correndo as scenas da sua infancia, via,
-como em lanterna magica, recortarem-se nas trévas do
-aposento as figuras de quantos havia conhecido, de todos
-com que lidára, e superior a todas como absorvendo-as<span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span>
-e substituindo as, a figura veneranda de seu pae,
-ora exprobando-lhe terrivel o quanto perseguira seu
-irmão; ora sorrindo-lhe amorosamente na hora derradeira
-e estendendo-lhe sobre a cabeça as tremulas e
-enrugadas mãos para o abençoar.</p>
-
-<p>Ao assomar da alvorada pendendo-lhe as palpebras
-adormecia tambem; não com o somno socegado e reparador,
-que se segue ás fadigas do corpo; mas com
-aquella modorra agitada e febril, que é o decair das
-grandes luctas moraes. Cabecear cortado de sobresaltos,
-dormir carregado de pesadellos, descanço, que nos
-deixa mais cançado ainda.</p>
-
-<p>Entre dormindo e acordando começou a ouvir o seguinte
-dialogo:</p>
-
-<p>—Como te sentes, Raymundo?...</p>
-
-<p>—Melhor, Leonor, muito melhor. Fez-me bem o
-somno d’esta noite. Já vieram?</p>
-
-<p>—Quem?</p>
-
-<p>—Os officiaes de justiça, os que hão de fazer a penhora.</p>
-
-<p>—Não cuides n’isso, que te amofinas, talvez não
-venham; talvez fosse tudo palavriado do Simões para
-assustar a gente. É impossivel que não olhem ao teu
-estado.</p>
-
-<p>—Qual olham, nem meio olham! Bem se conhece,
-que não entendes d’estas coisas. Pois tu não sabes que
-a justiça é cega? Taparam-lhe os olhos para que não
-visse a desgraça dos pobres.</p>
-
-<p>—Mas teu irmão!</p>
-
-<p>—Não sabe de nada, Leonor, diz-me o coração que
-não sabe de nada. O Joaquim teve sempre a cabeça
-levantada; mas no fundo não era mau rapaz. Se elle
-soubesse o que o Simões tem feito já lhe tinha tirado
-a procuração.</p>
-
-<p>—Tu tambem sempre o defendes, és a bondade em
-pessoa, meu pobre Raymundo, não ha para ti ninguem
-mau n’este mundo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span></p>
-
-<p>—Olha, o Joaquim se não fossem as más companhias
-não teria feito o que fez: não gostava de se chegar
-para o trabalho, era o seu senão; mas não era capaz
-de fazer mal a ninguem, nem rapaz de mau interior.</p>
-
-<p>—Foi elle que matou teu pae, e que no fim de contas
-nos tem levado a este estado com as suas demandas.</p>
-
-<p>—Não digas isso, Leonor, que me affliges. Meu pae
-morreu, porque lhe tinha chegado a sua hora, custou-lhe
-muito a partida de Joaquim; mas abençoou-o á hora
-da morte. Lembras-te, não é assim? Se elle perdoou,
-porque não havemos nós de perdoar...</p>
-
-<p>—Obrigado, irmão!</p>
-
-<p>Era affogada em lagrimas a voz de Joaquim, que estava
-entre portas do quarto. Tinha accordado e escutado
-cada vez com maior attenção o dialogo, que tão
-de perto lhe dizia respeito. Julgou ao principio que seria
-sonho, conheceu depois que era realidade, e tremendo
-todo ergueu-se e, para melhor ouvir, approximou-se
-do logar d’onde partiam as vozes.</p>
-
-<p>A gratidão, e talvez o remorso fizeram-lhe soltar
-aquellas duas palavras, que cortaram o dialogo.</p>
-
-<p>Raymundo conheceu a voz, sem que podesse distinguir-lhe
-o rosto, porque o irmão estava de costas para
-a claridade; pareceu-lhe que invocára um phantasma,
-estendeu para elle os braços, exclamando:</p>
-
-<p>—Joaquim!</p>
-
-<p>E caiu desmaiado com o abalo.</p>
-
-<p>Joaquim precipitou-se chorando para junto da cabeceira
-do irmão, abraçou-o vezes infinitas e teve o indisivel
-jubilo de o vêr tornar a si em seus braços.</p>
-
-<p>—És tu, meu irmão!... Bem me dizia uma voz cá
-dentro, que havias de voltar.</p>
-
-<p>—Perdoas-me, Raymundo?</p>
-
-<p>—Perdoei-te sempre. Tu é que tens que me perdoar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span></p>
-
-<p>—O que?</p>
-
-<p>—Não te haver já transmittido a benção do pae.
-Ajoelha, Joaquim.</p>
-
-<p>—Em nome do nosso bom pae que está nos céus,
-eu te abençôo, meu irmão: sê bom como elle foi, e
-mais feliz do que eu tenho sido.</p>
-
-<p>—Sel-o hemos todos, Raymundo, porque se me deixas
-viver comtigo, nunca mais saio da tua companhia.</p>
-
-<p>Escusado é dizer agora como terminou esta historia.
-João Simões não pôz mais pés na terra; Joaquim tinha-lhe
-jurado pelo corpo, e elle bem sabia que não era
-homem de faltar á sua palavra. Declarára que seria a
-sua ultima extravagancia; mas d’essa não desistia nem
-por Christo. O caso era encontrar o seu procurador.</p>
-
-<p>A doença de Raymundo desappareceu breve, e a alegria
-voltou áquella casa, para não a desamparar mais.</p>
-
-<p>Muitas noites, quando se conchegava para o pé do
-lume, depois de ter contado aos sobrinhitos que o não
-deixavam por contos, uma historia do Brazil, Joaquim
-voltava-se para o irmão e para Leonor e dizia-lhes sorrindo:</p>
-
-<p>—Sempre hão de confessar que estes endiabrados
-pequenos são uns grandes doutores! Como elles nos
-souberam ganhar a demanda!...</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 150px;">
-<img src="images/footer4.jpg" width="150" height="140" alt="" />
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header1.jpg" width="500" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="X">X<br />
-<span class="smaller">O sexto mandamento</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-o.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">O padre prior, que os nossos leitores conhecem
-já, era um modelo de virtude e um
-exemplo vivo de caridade christã.</p>
-
-<p>Apenas começára pastoreando aquelle
-pequeno rebanho, não houvera cuidados
-nem disvellos, que lhe parecessem de mais para encaminhar
-nos trilhos escabrosos do bom porte e da honra
-as suas ovelhas de monte, que, quando se apartavam
-do bom do parocho, era mais por ignorancia do que
-por maldade.</p>
-
-<p>Conhecera-o elle tambem desde logo, e empenhára
-as forças do seu corpo e o poder da sua intelligencia
-em esconjurar os peores de todos os demonios, a que
-a natureza humana póde dar albergue; a ignorancia e
-a rudeza.</p>
-
-<p>Não abria mão d’estes piedosos exorcismos: qualquer
-logar, qualquer occasião lhe pareciam proprias
-para travar combate; e apparelhado, como sempre andava<span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span>
-para a lucta com as armas da crença e da boa vontade,
-raramente deixava de contar da victoria.</p>
-
-<p>Não quero dizer, todavia, que o meu parocho fosse
-um segundo Vieira, ou outro Macedo Polygrapho.</p>
-
-<p>Bem pelo contrario, Deus perdoe á sua alma, e mais
-ainda á alma dos governos (se é que os governos tem
-alma), que tão pouco têem cuidado na educação do clero,
-o bom do padre muitas vezes, brigava com armas
-eguaes contra a ignorancia dos seus parochianos; e,
-quando vencia, era substituindo preconceito por preconceito,
-absurdo por absurdo.</p>
-
-<p>Procediam porém de tão boa origem os erros do velho,
-fundavam-se em tão verdadeira bondade: e tão
-piedosa uncção revestia os seus disparatados conceitos,
-que por amor da singela magestade, e boa tenção da
-mentira, quasi se malqueria á verdade.</p>
-
-<p>Era falso o arrasoado, bem o sabiam alguns: mas
-deliciava a alma e commovia o coração, encaminhava
-para o bem, posto que por transviado caminho. E o
-padre dizia-o tão de dentro, tão convencido, que chegava
-a parecer impossivel que não fosse assim.</p>
-
-<p>Mas não era, verdade verdade, não era; que a sciencia
-fugia espavorida diante das legiões barbaras, que
-appoiavam algumas considerações do velho.</p>
-
-<p>Não era, porque o pobre homem, que sem maldade
-nem recalcitramento, mas por simpleza e costume antigo,
-encommendava a missa <i>pro rege nostro Michaele</i>,
-resumia a sua instrucção á leitura, um tanto embaraçada,
-seja dito aqui particularmente, da Biblia, dos
-Evangelhos, do breviario e da <i>Nação</i>, cujo assignante
-era desde o principio.</p>
-
-<p>Não aprendia porém do seu periodico senão a doutrina
-tradiccional e monarchico-absoluta em que fôra creado.
-Lia o jornal para saber noticias do seu rei e do
-mais que ia por o mundo: e a maior parte das vezes
-no meio de um façanhoso artigo ou de uma ateada polemica,
-no ponto mesmo em que as iras do jornalista<span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span>
-trovejavam mais crebas, e os rancores partidarios se
-desatavam em maiores diatribes; o jornal, como para
-constrastar com tão ardidas furias, escorregava brandamente
-das mãos do desattento leitor, e ia voejar por
-terra com outras folhas suas irmãs, que tendo sido
-verdes e esperançosas como ella, tinham caído da arvore,
-como ella tambem caíra das mãos do parocho, e
-haviam seccado no esquecimento, como, triste sorte do
-jornalismo diario, ella havia de seccar em breve ao
-abandono no chão e esquecida tambem.</p>
-
-<p>Ao cabo de meia hora o padre accordava admirado
-por ter adormecido, apanhava o jornal e recomeçava o
-mesmo artigo.</p>
-
-<p>Já se vê, pois, que não podia ser larga a instrucção
-colhida em fontes tão pouco variadas e demais ainda
-tão mal seguidas.</p>
-
-<p>Mas onde não chegava a cabeça alcançava o coração,
-e onde não accudia a intelligencia sobejava o sentimento.</p>
-
-<p>Não lhe tomemos conta da sua ignorancia, nem lhe
-malqueiramos por peccado que não era seu.</p>
-
-<p>A revolução social estabeleceu entre a geração, que
-findava, e a que ia apparecendo um largo espaço que
-não soube ou não poude fazer desapparecer.</p>
-
-<p>Uma ficou, symbolo do passado; outra caminhou,
-annuncio do futuro. A primeira estacionando, conservou
-os abusos, os erros do seu tempo; mas tambem
-a poesia, a fé sincera, o culto de suas tradicções, o
-respeito pelas suas crenças: a outra caminhou sobre
-ruinas, e caminha ainda, sorrindo, luctando, descrendo,
-esperando, progredindo sempre, conquistando por
-fim, mas deixando, quantas vezes, a fé pelo caminho,
-a esperança na estrada!</p>
-
-<p>Se ambos se tivessem querido comprehender, se
-mutuamente se tivessem desculpado ou os ardores impacientes,
-ou as rabujices pertinazes; se não quizessem
-cavar fossos e levantar trincheiras entre uma e<span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span>
-outra; mas, bem pelo contrario, nivellar o terreno, e
-apagar odios, rancores e desintelligencias, não seria
-para nós o presente tão cheio de incertezas, de hesitações,
-de duvidas, de desconfortos e desalentos.</p>
-
-<p>O padre, esse, ia seu caminho, combatendo como
-sabia a falta de educação, e de conhecimento da sua
-grei.</p>
-
-<p>Além das lições de moral que espalhava a esmo,
-conforme se lhe offereciam as occasiões, costumava
-elle, sempre que podia e que o tempo o deixava, reunir
-os do logar, de tarde perto da egreja, para lhes
-fazer alguma leitura da biblia e interpretar em seguida,
-a seu modo e como melhor lhe parecia, o texto que
-lhes lêra.</p>
-
-<p>Por vezes assisti a estas leituras, por vezes ouvi as
-suas explicações, e se mais tarde as commentava tirando
-desagradaveis conclusões a respeito da illustração
-e intelligencia do velho, não deixava sempre de me
-sentir commovido, quando fazia parte d’aquella piedosa
-reunião.</p>
-
-<p>Sigam-me tambem os meus leitores, que, conforme
-sei, e segundo me recordo, vou procurar descrever-lhes,
-como se apresentava a scena, na ultima vez em
-que, pouco antes de regressar a Lisboa, assisti á prédica
-do ingenuo parocho.</p>
-
-<p>Estamos no adro da egreja: a parochia é de trezentas
-almas quando muito. O dia vae declinando e está
-proximo o sol posto.</p>
-
-<p>A egreja não tem o aspecto sumptuoso d’um grande
-templo; nem a magestade altiva de uma cathedral do
-seculo XIII.</p>
-
-<p>É de hontem apenas.</p>
-
-<p>Uma frontaria sem ornatos, uma torre proxima sem
-enfeites.</p>
-
-<p>É simples e pobre como o presepio do Redemptor.</p>
-
-<p>Sobre o adro espaçoso e plano um velho platano á
-esquerda braceja largos ramos envolvendo na sua sombra<span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span>
-uma cruz musgosa, que se levanta defronte da
-porta da egreja e que deixa perceber em profundas
-cicatrizes, rudes combates com o tempo ou com a impiedade
-dos homens; perto do platano um pequeno
-regato corre por baixo do parapeito do adro e depois
-de passar sob uma ponte de pedra que dá serventia á
-estrada, vae espraiar-se ao longe n’uma pequena bahia,
-onde as lavadeiras do logar vem bater a roupa ao pé
-dos choupos e olmeiros, que se debruçam para a corrente.</p>
-
-<p>De um dos lados sóbe a encosta de um pequeno outeiro
-atapetado de vinhas e oliveiras, corôado de moinhos
-que desprendem as velas a favor da viração da
-tarde; do outro a vista divaga por meio dos pomares
-e terras de vinha, no meio das quaes alvejam as casinhas
-do logar, e se recortam no puro azul dos céos as
-oliveiras verdenegras.</p>
-
-<p>Os rumores do campo começam a esmorecer com o
-largar do trabalho indicando a proximidade da noite.</p>
-
-<p>A tarde tem corrido serena e a natureza sorri na
-flôr do prado, como na arvore do bosque.</p>
-
-<p>Sentado n’um banco de pedra mal affeiçoado pela
-mão de rude artista está o parocho, junto a si os evangelhos
-depostos e ainda abertos: as mãos pousadas
-sobre os joelhos, a cabeça um pouco inclinada pelos
-annos; o corpo alquebrado pelos trabalhos. A seus pés,
-sentadas no chão, em rancho, as creancinhas da terra,
-em roda as raparigas e as mulheres; mais ao largo,
-os homens fechando o circulo e encostados aos varapaus.</p>
-
-<p>Um pouco mais affastado do grupo, sentado n’um
-dos poiaes do adro, e scismando, ao que parece, está
-o tio Joaquim, commentador e companheiro das homilias
-da tarde. De quando em quando, em pontos mais
-subidos da exposição do pastor levanta a cabeça, fita
-o narrador com gesto expressivo, e com os olhos illuminados
-por aquelles doces clarões da sympathia e da<span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span>
-attenção, segue o fio do discurso para descahir breve
-nas habituaes meditações.</p>
-
-<p>O padre tem acabado a leitura de um dos sagrados
-capitulos, e d’accordo com a intelligencia dos ouvintes
-explica-lhes o texto procurando comparações no campo,
-na lavoura, nos trabalhos que melhor conhecem, nos
-instrumentos com que mais de perto lidam.</p>
-
-<p>Todos o escutam em religioso silencio e a palavra
-sagrada recebe maior uncção na bocca do venerando
-velho.</p>
-
-<p>Tem apenas acabado de fallar quando no sino proximo
-começam a bater as melancholicas Avé-Marias. O
-som vae chorando, como uma saudade do dia que finda,
-pelas quebradas do monte e pelos arvoredos dos
-bosques, para voltar amortecido e triste, como recordação
-de felicidade.</p>
-
-<p>É um momento solemne.</p>
-
-<p>O padre ergue-se, a boa gente do campo ajoelha a
-seus pés. Por momentos as orações murmuram como
-o esvaecer do som no bronze sagrado e a oração ergue-se
-como um côro de harmonias dos labios dos
-fieis, do murmurio do regato, do ciciar da aragem, do
-bulir do arvoredo, do tinir dos chocalhos, dos balidos
-do rebanho que ao longe recolhe da pastagem para o
-abrigo do curral.</p>
-
-<p>Depois o padre abençôa seus filhos com as mãos tremulas
-estendidas e a fronte encanecida illuminada pelos
-reflexos derradeiros do sol já escondido: despedindo-se
-do parocho, retiram pouco a pouco os aldeões
-guiados, como os israelitas no deserto, pela espiral de
-fumo, que se ennovella sobre os tectos de suas casas,
-o ruido vae pouco a pouco diminuindo, recolhe o rebanho
-ao curral, os pastores deixam de cantar, a voz
-dos ultimos camponezes perde-se na volta da estrada.
-Mas o rio ainda murmura, o vento ainda suspira na
-rama das arvores, e o padre sósinho, com os olhos fitos
-na pallida lua, que começa a assomar no céu, não<span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span>
-limpa uma lagrima de saudade e de esperança, que
-lhe escorrega pela face cavada pelos annos, envelhecida
-pelas maguas. Saudade da terra e dos homens, que
-vae deixar, esperança na vida eterna, que entrevê tranquillo,
-crente na misericordia do Senhor, confiado na
-sua infinita bondade.</p>
-
-<p>Hoje a boa gente do campo volta ao adro a procurar
-o padre, o platano e a cruz. Tudo tem desapparecido
-apoz o homem a planta, apoz a planta a pedra,
-tudo volveu ao nada d’onde veiu. Sobre o cadaver do
-velho caiu a pedra do cruzeiro, um arrebento do platano
-deu sombra á sepultura; mas a natureza proseguiu
-guiada pela civilisação e pelo progresso desfolhando
-uma saudade sobre a campa e colhendo do novo arbusto
-a planta sempre viçosa da arvore da liberdade.</p>
-
-<p>A poesia do passado tem-se perdido. Mas o homem,
-que ficou meditando sobre aquella lapide, disperta das
-suas meditações ao grito da locomotiva do caminho de
-ferro, ao retenir da campainha do telegrapho electrico,
-ao resfolegar das caldeiras da fabrica proxima, ao estrondo
-magestoso das novas eras, que nas azas do pensamento
-correm a cumprir a sua missão.</p>
-
-<p>N’aquella tarde fôra a historia de José o texto escolhido;
-e o velho descrevendo o quanto padecera o patriarcha
-hebreu por amor dos seus irmãos, e seus compatriotas,
-fallára tão de leve no sacrificio, prestado á
-honestidade; como, perdoem-nos a comparação, a raposa
-discorrera a proposito das uvas que não eram
-para seu dente.</p>
-
-<p>Muitas virtudes encontrava elle no casto José, mas
-a de resistir com tanto denodo á mulher de Putiphar,
-não foi das que mais encareceu. Nem por isso lhe parecia
-grande façanha. Para o bom do velho nada havia
-mais natural.</p>
-
-<p>Não assim para grande parte de seus ouvintes.
-Aquelle rasgo foi o que maior impressão deixou na
-intelligencia sensual de muitos. No serão d’essa noite<span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span>
-não faltaram commentarios e choveram ditos, alguns
-dos quaes, posto que bastante grosseiros na fórma,
-não deixavam de ter bom sal, e grande finura no alcance.</p>
-
-<p>Terminada por fim a discussão foi votado por maioria,
-que tal caso era impossivel; ou pelo menos, se o
-não era, fôra um grande disparate do patriarcha hebreu.</p>
-
-<p>Protestou o tio Joaquim contra a decisão da assembléa,
-e para fundamentar o seu protesto pediu a palavra,
-que lhe foi concedida com o maior prazer.</p>
-
-<p>—Todos, quantos aqui estão, conhecem ou tem ouvido
-nomear o Luiz Tiburcio, que traz de renda ao
-Morgado dos Cachorros o Olival grande do Brejo, no
-alto da estrada da Carrejosa. É um homem de bem e
-lavrador abastado; tem hoje um bom par de vintens e
-uma das melhores lavouras dos sitios. Pois vae vinte
-annos não tinha onde cair morto, nem esperanças de
-mudar de sorte. Um caso bem parecido com o que
-hoje ouviram ao sr. padre prior foi o começo da sua
-fortuna.</p>
-
-<p>Luiz Tiburcio é do Minho. Veiu por ahi abaixo procurar
-vida e trabalho, quando por morte do pae e da
-mãe, ficou sósinho na terra, sem ter quem lhe valesse,
-nem casa que lhe abrisse a porta. Era pelo tempo da
-guerra, andava tambem a molestia, e cada um cuidava
-principalmente de si, ou dos seus, e não tinha vagar
-para saber do mal dos outros.</p>
-
-<p>Curtiu fomes e frios pelo caminho, não poucas vezes
-estendeu a mão á caridade, e não poucos dias pediu
-esmola a chorar, perdido de fraqueza, e sem esperanças
-de ter um bocado de pão. Ninguem cuidava em
-dar trabalho e era tal a desconfiança, que ninguem
-queria tomar para casa um rapaz, coberto de farrapos
-e com cara de padecente.</p>
-
-<p>Tinha uns quinze annos, pouco mais, e já começava
-a saber o que era mundo. Entrava na vida pela porta da<span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span>
-desgraça e principiava a amargar a existencia sem lhe
-ter provado ainda as doçuras.</p>
-
-<p>Um dia, já sem forças, caiu á porta de uma fazenda,
-d’onde saíra descoroçoado de todo, porque depois de
-ter passado um dia sem comer, acabava de ser despedido
-pelo cazeiro, dizendo-lhe, que a fazenda do seu
-patrão não era couto de vadios.</p>
-
-<p>Luiz Tiburcio poude, envergonhado e saltando-lhe as
-lagrimas pelos olhos, andar a alameda e sair o portão
-que do pateo conduzia á estrada; mas, ao voltar para
-o caminho, sentiu-se tão quebrado, tão sem animo,
-que atirou comsigo para o chão, resolvido a não se
-levantar mais d’alli.</p>
-
-<p>Encommendou-se a Deus e esperou a morte resignado.</p>
-
-<p>O sr. José Matheus, o dono da quinta, que assim se
-chamava por signal, andava por fóra, quando Luiz fôra
-pedir trabalho a Valle de Figueiras. De certo, se tivesse
-visto a lazeira do rapaz o recolheria por alguns
-dias ao menos, e lhe mandára dar de comer, pois era
-homem rasgado e de bom coração; mas só tarde voltou
-de uma outra fazenda, onde fôra, e era já muito
-escuro, quando se aproximou de casa.</p>
-
-<p>Luiz estava estirado no caminho. José Matheus entretido
-com os seus pensamentos não deu por semelhante
-cousa e recolheu passando junto do pobre moço.</p>
-
-<p>Caía geada, como não havia memoria, e o frio era
-de estalar.</p>
-
-<p>De manhã cedo os primeiros, que sairam encontraram-n’o
-sem apresentar signal de vida e accudiram á
-fazenda a dar rebate.</p>
-
-<p>O sr. José Matheus foi o primeiro, que correu junto
-da pobre creança, viu-a n’aquelle mísero estado e teve
-dó de tão grande desgraça em tão verdes annos. Elle
-tambem havia provado do pão que o demonio amassou,
-e antes de chegar a ser independente fôra um
-pobre de Christo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span></p>
-
-<p>Mandou carregar com o Luiz para uma cama, e cuidou
-em vêr se lhe dava vida nova.</p>
-
-<p>O rapaz estava enregellado e hirto, os beiços arroxados,
-os olhos mettidos n’umas covas negras, as mãos
-inteirissadas, o coração quasi sem bater.</p>
-
-<p>Dir-se-ia morto.</p>
-
-<p>Ao passo, porém, que ia aquecendo e que o esfregavam
-com pannos quentes e espirito de vinho tornava
-pouco a pouco a si: e depois de um caldo bem forte
-e bastante substancial parecia outro.</p>
-
-<p>O sr. José Matheus indagou-lhe da vida e soube que
-a fome e o desamparo tinham sido a causa d’aquella
-doença. Compadeceu-se por vêl-o orphão tão moço e
-sósinho no mundo: era casado havia muito tempo, e
-não tivera filhos nunca, engraçou com a cara do rapaz,
-que era de boa feição, e adoptou-o para si.</p>
-
-<p>Desde esse dia começou para o Luiz, a quem dentro
-em pouco já todos tratavam por sr. Luiz; e a quem o
-sr. José Matheus chamava—o meu Luizinho—uma
-vida de principe.</p>
-
-<p>Não lhe faltava nada, aprendia, estudava, trabalhava
-e desenvolvia-se de dia para dia.</p>
-
-<p>Em poucos tempos fez-se uma flôr. Parecia que medrava
-a olhos vistos e que cada vez ganhava maiores
-perfeições.</p>
-
-<p>Perfeito no corpo, e mais perfeito talvez na alma,
-não havia para elle sol nem lua que valessem o sr.
-Matheus, nem palavras ou acções que lhe parecessem
-demais para lhe agradecer o bem que lhe devia. Luiz
-tinha coração de pomba.</p>
-
-<p>Mas o demonio, que sempre as arma, e que parecia
-ter tomado o rapaz á sua conta, encarregou-se de
-entornar o caldo, e de deitar por terra aquellas felicidades
-todas.</p>
-
-<p>A esposa do sr. José Matheus, apezar dos seus quarenta
-puchados, era ainda mulher de primor.</p>
-
-<p>Desenxovalhada n’aquelle tempo, devia ter sido linda<span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span>
-quando andasse alli pelos vinte annos. Tinha dado
-brado na terra, e mais de um lhe tinha arrastado a
-aza, sem que ella lhe desejasse as pernas quebradas.</p>
-
-<p>Casára-se pela rasão, porque se casa a maior parte
-das mulheres, para mudar de estado; e não conhecera
-nunca que cousa fosse amor. Extremosa pelo marido,
-não constava que o tivesse sido: e, segundo se rosnava
-pelos sitios, se tivesse pé faria pégada.</p>
-
-<p>Se a amisade de Matheus pelo Luizinho era verdadeira
-amisade de pae, a de Genoveva não se parecia
-em nada com o amor de mãe. Por mais de uma vez
-lhe havia deitado uns olhos, que queriam dizer muito,
-mas que no rapaz eram tempo perdido. Não por innocencia,
-mas porque não queria acreditar, que fossem
-o que lhe pareciam.</p>
-
-<p>Genoveva desesperava-se por não ser comprehendida,
-e tinha jurado que: ou Luiz se chegava á rasão,
-ou havia de pôr os quartos no meio da rua.</p>
-
-<p>Uma noite, chovia a cantaros, e o sr. José Matheus
-não recolhera de uma feira a que fôra comprar quatro
-juntas de bois.</p>
-
-<p>Tinha-se armado uma trovoada de arrancar pinheiros
-e uma ventania de levar tudo pelos ares. Genoveva
-estava cosendo junto á mesa de jantar e Luiz proximo
-d’ella lia alto um livro de romances. Era a historia dos
-amores derrancados de dois amantes infelizes, que depois
-de passarem as passas do Algarve, depois do apaixonado
-ter andado as sete partidas do mundo e corrido
-perigos de todas as castas, se reuniam por fim;
-mas quando iam para gosar de um dedicado affecto, o
-marido da heroina apparecia tanto a proposito, que matava
-o seductor, se o era, e fazia endoudecer a mulher
-com a vista do ensanguentado cadaver.</p>
-
-<p>Era uma historia de arripiar defunctos, e que por
-isso mesmo tinha tido tanta voga que chegára até Valle
-de Figueiras.</p>
-
-<p>De repente Genoveva, que seguia a leitura com verdadeiro<span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span>
-interesse, e que por mais de uma vez sentira
-calafrios ao ouvir aquella enfiada de horrores, interrompeu
-o leitor, quando enthusiasmado lia o passo do
-encontro dos dois n’um casal deserto no meio das serras
-entre alcatêas de lobos, ao fuzilar dos relampagos,
-ao estallar dos trovões.</p>
-
-<p>—Gostas d’essa historia, Luiz?</p>
-
-<p>—É triste, senhora Genoveva, gosto muito.</p>
-
-<p>—Andas sempre triste!</p>
-
-<p>—Não é por ser mal agradecido ao bem que me fazem.
-É genio meu, não está mais na minha mão.</p>
-
-<p>—Volta de amores talvez?</p>
-
-<p>E os olhos acompanhavam a pergunta, procurando
-seguir o pensamento do moço, como o galgo segue a
-lebre por meio dos campos.</p>
-
-<p>—Não, minha senhora, não são amores. Tambem
-quem me havia de querer, orphão, sem fortuna, e só
-devendo o pão de cada dia á caridade de meus bemfeitores?</p>
-
-<p>—Não digas isso, Luiz, bem sabes que o trabalho
-que fazes, vale o pão que comes. Tu és bom rapaz e
-mereces quanto te fazem.</p>
-
-<p>—Não mereço, não, minha senhora, e eu bem conheço
-as coisas, e sei agradecer tanto favor.</p>
-
-<p>—Creança!</p>
-
-<p>E acompanhando esta palavra, que pelo modo porque
-fôra proferida, já queria dizer muito, Genoveva
-correu mão protectora pela cara do Luizito.</p>
-
-<p>Porque é preciso que saibam, rapazes: nós os homens
-muitas vezes chamamos creança a uma mulher,
-sem ser por mal, nem com idéa alguma; mas em a
-mulher chamando <i>creança</i> a um homem, e de um certo
-feitio, é o mesmo que se lhe dissesse: tu ainda não
-percebeste, que eu gosto muito de ti, e tu és muito
-estupido, porque não entendes o que eu te estou dando
-bem a conhecer.</p>
-
-<p>Pela primeira vez, havia tanto tempo, desconfiou<span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span>
-Luiz devéras do caso, e áquella caricia fez-se vermelho
-como um pimentão.</p>
-
-<p>—Então fazes-te vermelho, tens talvez vergonha de
-mim? Pois já não devias ter rasão para isso, tenho
-idade bastante; não é verdade que pareço muito velha,
-meu Luiz, anda, dize?</p>
-
-<p>E cada vez se aproximava mais d’elle a ponto de o
-bafejar com o seu halito inflammado; e de sorte, que
-se confundiam os olhos d’ella ardentes, significativos,
-cubiçosos, com os d’elle timidos, assustados, quasi envergonhados.</p>
-
-<p>—Não, senhora Genoveva, não tenho vergonha. Desculpe
-fazer-me córado...</p>
-
-<p>—Dize-me, atalhou violentamente Genoveva, cujo
-temperamento nervoso e sanguineo estava effervescente,
-querias estar como Paulo (era o heroe do romance),
-assim comigo n’um casal deserto...</p>
-
-<p>—Como estamos hoje...</p>
-
-<p>—Como estamos hoje, sim Luiz, e depois...</p>
-
-<p>Era impossivel deixar de perceber tudo. Genoveva
-parecia ter a cabeça perdida, tudo denotava um desejo
-desenfreado, e furioso.</p>
-
-<p>Não se riam, rapazes, se vissem uma mulher allucinada
-pelo amor, arrojar-se como uma leôa, feroz, enraivecida,
-terrivel até, comprehenderiam bem quanta
-foi a virtude do Luizito.</p>
-
-<p>Levantou-se a tremer, e cheio senão de medo, ao
-menos de pudôr...</p>
-
-<p>—Senhora Genoveva, eu não sei se comprehendi;
-perdoe-me se a vaidade me illude; mas, não me posso
-esquecer de quanto devo ao sr. José Matheus.</p>
-
-<p>E saiu, sem olhar para traz.</p>
-
-<p>No dia seguinte, de madrugada, com o seu alforge
-arranjadinho, ia pela estrada fóra, sem saber ainda
-para onde se encaminhava.</p>
-
-<p>Ia começar de novo a vida, mas era indispensavel.
-Se cedesse, seria o ingrato mais vil d’este mundo; se<span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span>
-resistisse, a furia de Genoveva não o deixaria descançado
-por muito tempo.</p>
-
-<p>A poucos passos de distancia encontrou a José Matheus,
-que, tendo feito o seu negocio mais breve do
-que pensava, recolhia cantarolando, como quem vinha
-nas horas do Senhor.</p>
-
-<p>Luiz não esperava semelhante encontro. José Matheus
-já o tinha visto, e não havia remedio. Demais
-foi o lavrador que encetou a conversação.</p>
-
-<p>—Olá, Luiz, tão cedo, ha por lá alguma novidade?</p>
-
-<p>—Nada, não, sr. José Matheus, não ha novidade nenhuma;
-eu é que...</p>
-
-<p>—Tu é que... embatucaste? Tens alguma cousa,
-viste bicho?—Tu não estás em ti, desembucha.</p>
-
-<p>—Eu... vou-me embora.</p>
-
-<p>—Bom, homem, e por isso ficaste assim atarantado,
-bem te entendo; vae, rapaz, vae, eu sei o que são
-essas cousas. Quando voltas?</p>
-
-<p>—Eu... vou de vez.</p>
-
-<p>—Hein, endoideceste?</p>
-
-<p>—Não endoideci, não, sr. José Matheus, preciso ir-me
-embora, deixe-me ir embora, deixa?...</p>
-
-<p>E o rapaz estendia as mãos, convulso como se pedisse
-a salvação.</p>
-
-<p>—Deixo, deixo. Por onde eu te pegar, te peguem
-os lobos. Entendo, desenquietaram-te, apanhaste-te ensinado;
-mas anda que tambem me ensinaste, ingrato!</p>
-
-<p>—Ingrato!... Serei, sou, mas deixe-me ir embora
-quanto antes.</p>
-
-<p>José Matheus não era de hoje, nem de hontem; desconfiou
-do caso, e chegando-se mais para o rapaz, deitou-lhe
-a unha.</p>
-
-<p>—Por mais que me digam, accrescentou elle, tendo-o
-já seguro, aqui ha o que quer que seja, para tu
-estares assim tão apressado. Deixo-te ir, mas não sem
-me dizeres primeiro porque. Que demonio, parece que
-tens morte de homem!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span></p>
-
-<p>Vendo-se agarrado, Luiz entrou a clamar para que
-o deixasse, pedindo-lh’o por quantos santos havia no
-Paraizo. Por mais que buscasse, não lhe occorria nem
-meia mentira. Não admira, a falta de costume...</p>
-
-<p>Por fim conseguiu escorregar-se-lhe das mãos como
-uma enguia, e deitou a correr mais leve que um passaro.</p>
-
-<p>José Matheus voltou ainda o cavallo, para lh’o deitar
-para cima; depois, como se lhe accudisse a reflexão,
-exclamou:</p>
-
-<p>—A cheia o trouxe, a cheia o levou. Que vá por
-onde não faça perca!...</p>
-
-<p>E entestou para Valle de Figueiras, scismando no
-acontecido.</p>
-
-<p>Ainda bem Luiz lhe não tinha saido a porta, Genoveva,
-percebendo que era despresada, e incendida pelos
-lumes do desejo, caía por terra espumando como
-um damnado, e bracejando como um possesso. Estava
-com um accidente de raiva.</p>
-
-<p>Accudiram ao motim, que fez, e levaram-na para a
-cama já sem dar accordo de si, tinha-lhe subido o sangue
-á cabeça, estava com uma febre cerebral.</p>
-
-<p>Luiz, escusado é dizer, não soubera de coisa alguma.
-Recolhera a entrouxar o pouco fato, que havia
-comprado, pois deixou ficar tudo que lhe deram; e embebido
-nos seus pensamentos, poderiam voltar a casa
-debaixo para cima, que não era elle que dava por semelhante
-coisa.</p>
-
-<p>Demais morava n’um quarto no extremo opposto da
-casa, com porta que deitava para a estrada, e pôde
-sair por conseguinte, sem saber nada do que se passava
-no resto da habitação.</p>
-
-<p>Pouco depois da chegada de José Matheus appareceu
-o facultativo do sitio, que tinham mandado chamar
-a toda a pressa. Sangrou-a logo, mas já era tarde. O
-ataque tinha sido tão forte, que a sangria abrandou-lhe
-um pouco as furias e nada mais. D’ali a pouco tornava<span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span>
-á mesma, ou a peior ainda, porque d’esta vez dizia
-coisas estranhas em palavras soltas.</p>
-
-<p>Estava tresvariada.</p>
-
-<p>José Matheus percebeu logo que as coisas que a mulher
-ia dizer, não eram para ser ouvidas por toda a
-gente; mandou sair os que estavam no quarto, e apenas
-ficou sósinho com ella, deu volta á chave e escutou-a.</p>
-
-<p>Soube tudo.</p>
-
-<p>No meio dos seus excessos, Genoveva chamava por
-Luiz, accusava-o de frieza, de indifferença, de ingratidão.
-Dizia-lhe que pensasse no seu marido, porque
-esse não saberia nada, e depois... haviam de ser tão
-felizes!</p>
-
-<p>E um poder de coisas que tiraram todas as cataractas
-dos olhos do marido.</p>
-
-<p>Este sentou-se n’uma cadeira, e, abatido, limpou uma
-lagrima. Ninguem soube nunca por quem fôra, se por
-Luiz, se por Genoveva.</p>
-
-<p>Genoveva durou tres dias. Disse o facultativo, que
-se lhe tinha rompido uma veia na cabeça; rompesse
-ou não, nos dois ultimos não deu accordo de vida.</p>
-
-<p>José apenas se certificou de que sua mulher não diria
-mais nada, recolheu-se ao seu quarto, d’onde não
-saiu senão para a sepultura. Não queria saber de coisa
-nenhuma, não dava palavra a ninguem, e se insistiam,
-punha todos fóra, fechando-lhes a porta na cara.</p>
-
-<p>Na vespera de morrer, mandou chamar um tabellião
-e duas testemunhas. Lá esteve com todos tres, por
-espaço de meia hora.</p>
-
-<p>No dia seguinte abria-se o testamento sobre o cadaver
-de José Matheus, e Luiz Tiburcio ficava sendo seu
-herdeiro universal.</p>
-
-<p>—Acabou, tio Joaquim, atalhou d’ali o João Carriço,
-que déra provas de impaciencia durante a narração,
-não tem mais nada que dizer?</p>
-
-<p>—Eu não, e tu? Perguntou o narrador.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span></p>
-
-<p>—Eu, perdoará a sua palavra honrada, parece me
-que a historia não vem ao caso do que a gente dizia;
-pois se o rapaz não fosse tão arisco, ficava com tudo
-do mesmo feitio; porque eram dois a deixar-lhe... E
-d’ahi não morria, nem a mulher, nem o homem.</p>
-
-<p>—E parecia-te bonito pagar d’esse feitio os beneficios,
-que tivesses recebido de José Matheus?</p>
-
-<p>—Olhe, tio Joaquim, lá o lê, lá o entende, mas
-d’aquelle mal não morreu ninguem; o José Matheus não
-havia de passar peior por isso.</p>
-
-<p>—Eu te contarei uma historia um dia, e verás se
-se morre ou não. Sabes que mais, João Carriço, tens
-ainda a cabeça muito levantada, has de assentar.</p>
-
-<p>—Então sim, tio Joaquim, quando fôr lá para a
-edade, o que não podér haver, dal-o-hei por amor de
-Deus.</p>
-
-<p>E como todos soltassem uma gargalhada, o velho
-suspendeu a sessão, porque percebeu, que por aquelle
-lado não fazia farinha.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/footer2.jpg" width="200" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header2.jpg" width="500" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="XI">XI<br />
-<span class="smaller">O Thomaz dos passarinhos</span></h2>
-
-</div>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Acabavam de dar dez horas; e ouvia-se ainda
-o som dos sinos de S. Vicente, o que mostrava
-que o vento estava da barra a prometter
-mais chuva.</p>
-
-<p>Em todo o santo dia não descontinuára
-de cair agua, e ao cerrar da noite, carregou tanto que
-parecia vir tudo abaixo. Em casa dormiam todos, e na
-malta vigiava apenas, junto da candeia quasi a apagar-se,
-o tio Joaquim, que estava fumando embevecido no
-que quer que era, que parecia preoccupal-o.</p>
-
-<p>Os maltezes dormiam cada um para seu canto, embrulhados
-em gabões, ou cobertos com as mantas em
-cima das esteiras. Debaixo da cinza ainda faiscavam
-alguns restos de vides, na chaminé, e a meio da tarimba
-ainda se via um baralho em desordem, como a provar
-que havia pouco descançava d’uma bisca de quatro. As
-cartas poderiam figurar com bastante rasão no gabinete<span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span>
-d’um antiquario, e tinham direito ao asylo de Runa pelas
-multiplicadas cicatrizes ganhas no combate.</p>
-
-<p>Mas como o jogo era de boa fé, e só para matar tempo,
-pouco importava, que fossem mais conhecidas ainda
-pelas costas do que pela frente.</p>
-
-<p>Pela minha parte tinha ficado tambem por ali mais
-um bocado, e preparava-me para recolher, quando me
-pareceu ouvir, por entre o ruido da chuva que caía sem
-cessar, e do vento que não parava, o som da campainha
-do portão.</p>
-
-<p>—Não ouviu tocar á campainha, tio Joaquim?</p>
-
-<p>Este levantou a cabeça e como despertando, respondeu-me:</p>
-
-<p>—A estas horas, não póde ser, foi engano seu, já
-estão todos recolhidos.</p>
-
-<p>N’isto o cão do pateo começou a ladrar.</p>
-
-<p>—Tocaram, tocaram, repeti eu, e tanto que lá está
-o Alfageme a dar signal. Ora escute, lá tornam.</p>
-
-<p>E effectivamente um segundo toque se fez ouvir, mas
-tão brando, tanto a medo, que mal se ouvia, apesar de
-escutarmos ambos com toda a attenção.</p>
-
-<p>—É toque de desgraçado, de quem receia incommodar;
-pobre homem, com este tempo! Eu vou vêr, disse-me
-o tio Joaquim levantando-se e pondo o chapeu.
-D’ahi a pouco senti-o chamar o cão, que se enfurecia
-a ladrar cada vez com mais força, em seguida abrir o
-portão, e logo depois entrar na casa da malta já acompanhado.</p>
-
-<p>O recem vindo entrou timido e denunciando o extremo
-acanhamento da pobreza envergonhada.</p>
-
-<p>Caía-lhe a agua a fio do chapeu, que trazia derrubado
-para a cara, e ensopava-lhe um capote esfrangalhado,
-que bem a custo lhe resguardava o corpo. Ficou
-á porta mesmo, e como mal se atrevendo a proseguir.</p>
-
-<p>—Entre, patrão, bradou-lhe o tio Joaquim, não está
-tempo para cerimonias, se isto continua lá se vão todas<span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span>
-as sementes com a cheia. Parece um diluvio. Largue
-o capote e o chapeu que traz n’uma sôpa, embrulhe-se
-ahi n’uma manta, e chegue-se para o lume, que
-eu vou deitar-lhe um punhado de vides para o espertar.</p>
-
-<p>E seguindo conforme disséra, separou umas poucas
-de vides d’um mólho, que estava perto da chaminé,
-quebrou-as umas poucas de vezes sobre o joelho, deitou-as
-no brazido, e entrou a assoprar até que pegou
-labareda.</p>
-
-<p>—Deus lhe pague, tanto incommodo, tio Joaquim,
-exclamou o desconhecido, seguindo á risca as indicações
-do hospedeiro.</p>
-
-<p>Este, admirado por ouvir o seu nome, attentou no
-recem-chegado, e como procurando avivar recordações:</p>
-
-<p>—Espera, eu já ouvi esta voz, mas não me lembro
-aonde; olha bem para mim: eu conheço-te, já vi a tua
-cara, isso vi.</p>
-
-<p>—Tão mudado estou que já se não lembra de mim,
-do Thomaz...</p>
-
-<p>—Do Thomaz da tia Annica, se lembro! Mas quem
-tal havia de dizer, que mudança! Pareces um velho,
-homem, e eu que te fazia a arrebentar de dinheiro, que
-pensava que estavas pôdre de rico, lá por esses Brazis!</p>
-
-<p>—Pôdre ia estando, ia; mas era de doenças e de
-fome...</p>
-
-<p>—Então nem tudo que se diz?...</p>
-
-<p>—Ora uma coisa é dizer, outra é vêr, nem o tio
-Joaquim faz uma idéa!</p>
-
-<p>—Faço, faço, basta olhar para a tua cara e para o
-teu fato. Mas não se trata só de dár á lingua. Que tal
-de barriga, nem por isso vem muito quente não é verdade?</p>
-
-<p>O silencio de Thomaz suppriu bem uma eloquente
-resposta. O tio Joaquim proseguiu:</p>
-
-<p>—Para grandes banquetes não haverá, mas para
-uma assorda ainda chega o pão; fazem-se umas migas<span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span>
-de bacalhau, deita-se-lhe um tomate e uma cebolla, e
-verás depois se, comida com boa vontade, não vale o
-melhor petisco do mundo.</p>
-
-<p>—Vem quebrar-me o jejum.</p>
-
-<p>—Que dizes, homem?</p>
-
-<p>—Que salvo os meus peccados, ainda podia commungar,
-porque até a esta hora não entrou hoje comer na
-minha bocca.</p>
-
-<p>—Pobre Thomaz!</p>
-
-<p>E sem perder mais tempo em conversações, o tio Joaquim
-principiou a temperar as migas.</p>
-
-<p>Entretanto tive eu tempo para examinar bem á minha
-vontade o Thomaz da tia Annica.</p>
-
-<p>Teria uns trinta annos quando muito, o que só com
-muita difficuldade se percebia pela viveza do olhar. No
-resto da physionomia e no quebrado do corpo liam-se
-sessenta puchados. Não se podia dizer qual fôra a côr
-do rosto. Os sóes, os trabalhos e as febres, tinham-lhe
-retinto a cara d’um castanho esverdeado, que mais
-simulava medalha antiga que parecer de gente.</p>
-
-<p>A barba crescida, as sobrancelhas espessas, e o cabello
-basto e grenho eram ou arruivados pelo sol, ou
-embranquecidos pelos trabalhos; as rugas abriam-lhe
-talhos profundos na pelle, e algumas cicatrizes imprimiam-lhe
-extravagantes relevos. Até mesmo o branco
-dos olhos estava amarellecido, e os dentes, quando descerrava
-os beiços rôxos e gretados, pareciam prezas de
-javali aguçadas e ennegrecidas.</p>
-
-<p>O fato eram farrapos, sem fórma, nem côr possivel,
-restos sobrecosidos, retalhos justapostos. Não se lhe
-percebia camisa.</p>
-
-<p>Fazia horror tão grande miseria.</p>
-
-<p>O tio Joaquim tinha desenvolvido uma actividade pasmosa.
-N’um abrir e fechar d’olhos tinha migado o bacalhau
-e a cebola, tinha cortado o tomate, tinha posto
-tudo a ferver n’uma pouca d’agua, sem lhe esquecer
-um fio d’azeite para melhor tempero; depois, quando<span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span>
-começava a fervura a levantar, entrou a partir o pão,
-e a deital-o no tacho com aquelles ares de satisfação,
-que deve manifestar um artista, quando tem a certeza
-de estar a concluir um primor d’arte.</p>
-
-<p>Thomaz, esse engerido com frio e extenuado de fome,
-não tinha forças para se mecher do banco para
-onde caira.</p>
-
-<p>No dia seguinte ouvi da bocca do tio Joaquim a historia
-do Thomaz da tia Annica.</p>
-
-<p>Thomaz nascera por aquelles sitios mais rico de preguiça
-do que de amor ao trabalho; parecia feito para
-morgado, o demonio do rapaz, não queria saber de
-lavoura, nem de estudo. Fugia da escola, fugia do
-trabalho, e ia deitar-se debaixo de uma arvore a olhar
-para o ceu, ou a acompanhar com a vista as nuvens
-irradias.</p>
-
-<p>Muitas vezes dizia elle quando lhe deitavam na cara
-o não fazer nada:</p>
-
-<p>—Deus entregou o espaço aos passarinhos, e lançou
-a semente á terra, para que se nutrisse, soltou
-os animaes no campo, e mandou á herva que crescesse
-para que se alimentassem; deu azas ás borboletas, e
-polvilhou as flôres para que encontrassem sustento sem
-se affadigarem. A mão que impelle o sol, que sacode
-as nuvens, que arroja a chuva, que dá vigor á planta,
-ramagem ao arvoredo, frescura á terra, e nutrição a
-todos ha de amparar-me tambem, e dar-me de comer
-quando me falte.</p>
-
-<p>E, a não ser esta preguiça invencivel, não havia que
-se lhe dizer: era comedido no porte e civilisado nas
-palavras. Não escandalisava ninguem, nem procurava
-descaminho; deixassem-no vaguear e estava contente.</p>
-
-<p>Depois de muitas tentativas descoroçoaram os paes
-de o fazerem tomar rumo. Deixaram-no á lei da natureza,
-e assim se foi creando, aprendendo pelo que via,
-e desenvolvendo-se com o descanço.</p>
-
-<p>Não era mau rapaz, nem dado a companhias. Bom<span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span>
-de coração na verdade, mas incapaz de servir para
-nada. Havia muito tempo, que se não via um paz d’alma
-d’aquelles.</p>
-
-<p>Emquanto o pae foi vivo, bem ia o caso. Elle dava
-ordem á sua vida, e quando lhe perguntavam pelo filho
-respondia tristemente: deixem-me, foi erro da natureza,
-nasceu para mulher, não tem geito para cousa
-nenhuma. Um dia porém, o pae amanheceu morto na
-cama, e a mãe achou-se de repente com todo o peso
-da casa, e com um filho que não tinha prestimo que
-se visse.</p>
-
-<p>Thomaz chorou muito nos primeiros dias, e fez mil
-protestos de trabalhar. Assim foi de principio, mas depois...
-parece que se partiram os braços e tornava á
-mesma. Pasmava ao meio do trabalho, varria se-lhe de
-memoria o que estava fazendo, e deitava a correr para
-debaixo de uma arvore, namorar as nuvens e ouvir os
-passaros.</p>
-
-<p>—O que te prende tanto, para não fazeres nada e
-passares todo um dia assim a olhar para o ceu, lhe
-perguntou um dia um velho fazendeiro dos melhores
-amigos, que o pae tinha?</p>
-
-<p>—O tio Simões vae rir-se...</p>
-
-<p>—Dize sempre, anda.</p>
-
-<p>—Olhe, tio Simões, quando ouço os passarinhos, parece-me
-escutar estas palavras que o sr. padre prior
-disse um dia n’um sermão de festa:</p>
-
-<p>«Portanto vos digo, não andeis cuidadosos da vossa
-vida, que comereis, nem do vosso corpo, que vestireis.
-Não é mais a alma, que a comida: e o corpo mais que
-o vestido?</p>
-
-<p>«Olhae para as aves do ceu, que não semeam, nem
-segam, nem fazem provimento nos celleiros; e comtudo
-vosso Pae celestial as sustenta. Por ventura não
-sois vós muito mais do que ellas?<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a>»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span></p>
-
-<p>—Mas isso não quer dizer, que se não deve trabalhar,
-homem, pelo menos eu assim o entendo, quer
-dizer que por amor do dinheiro se não devem praticar
-acções ruins, e que a confiança em Deus nos não
-deve desamparar nunca.</p>
-
-<p>—Ora, tio Simões, o sr. padre prior ainda disse
-mais:</p>
-
-<p>«E porque andaes vós sollicitos pelo vestido? Considerae
-como crescem os lirios no campo; elles não
-trabalham, nem fiam.</p>
-
-<p>«Pois se ao feno do campo que hoje é, e ámanhã é
-lançado ao forno, Deus veste assim; quanto mais a
-vós homens de pouca fé!</p>
-
-<p>«Não vos afflijaes pois, dizendo: que comeremos ou
-que beberemos, ou com que nos cobriremos?</p>
-
-<p>«Porque os Gentios é que se cançam por estas coisas.
-Por quanto vosso Pae sabe, que tendes necessidade
-de todas ellas.</p>
-
-<p>«Buscae pois primeiramente o Reino de Deus e a sua
-justiça: e todas estas coisas se vos accrescentarão.</p>
-
-<p>«E assim não andeis inquietos pelo dia de ámanhã.
-Porque o dia de ámanhã a si mesmo trará seu cuidado,
-ao dia basta a sua propria afflicção.»<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a></p>
-
-<p>—Como aprendeste tanta coisa?</p>
-
-<p>—Olhe, tio Simões, na vespera tinha assistido ao
-pagamento da féria, o que meu pae, que Deus haja,
-fazia todos os sabbados á noite, e ao vêr seguirem-se
-uns após outros os trabalhadores da fazenda, disse com
-Deus e comigo:—porque não hei de eu trabalhar?
-Porque não hei de ganhar tambem a minha féria? Eu
-tambem sou homem.</p>
-
-<p>—E disseste bem, Thomaz, era uma boa palavra
-essa. Mas depois?...</p>
-
-<p>—Depois, fui deitar-me resolvido a pedir tambem
-que fazer na segunda feira seguinte a meu pae; mas<span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span>
-no domingo era dia de festa; fui á Egreja ouvir a
-missa, e fiquei para o sermão.</p>
-
-<p>—E...</p>
-
-<p>—Começou o sr. prior a dizer o que eu lhe repeti,
-ha pouco...</p>
-
-<p>—E como tu não ias de vontade para o trabalho,
-quadrou-te o sermão, não é assim?...</p>
-
-<p>—Não diga tal, tio Simões, sabe Deus se eu tinha
-ou não feito proposito de mudar de vida: tanto que,
-ao principio, fiquei sobresaltado, e como não querendo
-acreditar... Mas vi a cara do bom padre, dizia tanto,
-tinha uma tal expressão de bondade, um tal não sei
-quê na physionomia... Era impossivel, tio Simões, que
-não fosse allumiado pelo ceu.</p>
-
-<p>—Mas como aprendeste tudo isso?</p>
-
-<p>—No dia seguinte fui ter com o sr. padre prior para
-que me ensinasse aquellas palavras, disse-me que estavam
-n’um livro, e d’ahi eu... pedi-lhe que me explicasse
-como as havia de lêr...</p>
-
-<p>—E elle?</p>
-
-<p>—Elle ensinou me, e eu aprendi.</p>
-
-<p>—Então tens lido muito?...</p>
-
-<p>—Nada, não senhor, apenas soube de cór aquellas
-palavras, esqueci me logo de lêr.</p>
-
-<p>—Ora essa!</p>
-
-<p>—As aves do ceu e os lyrios dos campos não sabem
-lêr, e o nosso Pae celestial as sustenta e as veste.
-Eu tambem não preciso saber lêr.</p>
-
-<p>—Mas teu pae morreu, tua mãe não póde com o
-encargo da casa, e assim sem homem, que tome tento
-no arranjo, vae tudo por agua abaixo.</p>
-
-<p>—Que hei de eu fazer?</p>
-
-<p>—Homem, és capaz de fazer perder a paciencia a
-um santo! Que tomes a direcção do governo, que occupes
-o logar de teu pae.</p>
-
-<p>—O tio Simões póde dizer o que quizer, eu estou
-á conta do Senhor.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span></p>
-
-<p>E não havia tiral-o d’este dizer, por mais que fizessem,
-por mais que lhe prégassem. Era prégar aos peixinhos.</p>
-
-<p>A pobre da mãe ia dando ordem á vida, conforme
-podia, mas casa governada por mulher, raro toma caminho:
-o negocio cada vez ia de mal a peior.</p>
-
-<p>Thomaz, esse, parecia não dar por semelhante cousa,
-chegava a casa, fallava á mãe; comia do que lhe apresentavam,
-porque tudo lhe sabia bem, e quando a tia
-Annica começava em pé de conversa a querer-lhe dar
-conta do que se passava:</p>
-
-<p>—Faça o que quizer, minha mãe, eu não tenho nada
-com isso.</p>
-
-<p>E deitava a correr, se insistiam com elle, para debaixo
-da sua querida arvore.</p>
-
-<p>Um dia, quando mais embebido estava em seu scismar,
-ouviu perto d’elle voz de mulher, que pedia soccorro.
-Ergueu-se e accudiu. Era uma rapariga de uns
-dezoito annos, quando muito, que vinha correndo de
-uma vacca que a perseguia.</p>
-
-<p>Já quasi não podia dar passo, e a vacca ia alcançal-a,
-quando Thomaz erguendo-se de um pulo, e tomando
-um cajadito, que trazia comsigo, atirou de lado
-uma paulada ao focinho do animal, que cego com a
-dôr, mudou de carreira e seguiu aos pulos e aos mugidos
-pelos campos fóra.</p>
-
-<p>Agueda, assim se chamava a perseguida, parou, tomou
-a respiração, que lhe ia faltando, e, volvendo um
-olhar reconhecido ao seu salvador, disse lhe:</p>
-
-<p>—Obrigado, Thomaz!</p>
-
-<p>—Agradece ao Senhor, Agueda, e não a mim; a
-gente anda cá n’este mundo á conta de Deus.</p>
-
-<p>Agueda era feia e grosseira de feições como grande
-parte das raparigas do campo. Muito trigueira e mais
-queimada ainda, crivada de bexigas, os beiços grossos,
-o nariz achatado e largo, as orelhas grandes e mais
-repuchadas ainda por umas enormes arrecadas de ouro,<span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span>
-o cabello crestado e carapinho. Tinha os olhos pretos
-rasgados e ramudos como quasi todas as saloias e era
-nova.</p>
-
-<p>Como de uso, trazia côres, que mais destoavam com
-o semblante. Umas roupinhas encarnadas, e uma saia
-de chita côr de rosa sobre outra de baeta verde salsa.
-Explicado estava pois o furor da vacca.</p>
-
-<p>Entretanto era por extremo vaidosa, e tão presumida
-como o são todas as moças feias; mal tornou a
-si do susto começou correndo-lhe a mão, a alisar o
-cabello, e quando lhe pareceu ter-se bem composto,
-proseguiu na encetada conversação.</p>
-
-<p>—Quem havia de dizer que a vacca da Angelica!...
-Parecia tão socegada!...</p>
-
-<p>—Não admira, tornou-lhe Thomaz, que já se deitára
-debaixo da sua arvore e parecia distrahido a olhar para
-o ceu.</p>
-
-<p>—Não admira, porquê?</p>
-
-<p>—Ora, tu appareceste-lhe assim, tão assanhada!</p>
-
-<p>—Tão assanhada!</p>
-
-<p>—Sim, pareces-me uma papoila vermelha, já com as
-sementes pretas, no meio d’um campo de verde.</p>
-
-<p>—Sempre tens lembranças!</p>
-
-<p>Thomaz não lhe respondeu. Estava entregue ás suas
-contemplações.</p>
-
-<p>—Thomaz! Thomaz! Que tens tu, estás sempre a
-scismar?</p>
-
-<p>—E tu que tens com isso? Importa-te a minha vida?</p>
-
-<p>—Lá isso é verdade, não me importa, mas faz-me
-pena, vêr-te assim, ahi a monte, sempre sósinho.</p>
-
-<p>—Faz te pena devéras?</p>
-
-<p>—Faz.</p>
-
-<p>—Ora dize-me, tu tens bom coração?</p>
-
-<p>—Nunca fiz mal a ninguem: nem o desejo.</p>
-
-<p>—Pois bem, um dia te direi em que scismo.</p>
-
-<p>E por mais que a sua companheira lhe puchasse pela
-lingua, não deu mais palavra. Parecia de pedra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span></p>
-
-<p>Por fim Agueda perdeu as esperanças de fazer com
-que fallasse, e ao despedir-se d’elle disse-lhe:</p>
-
-<p>—Adeus, Thomaz, até outra occasião em que estejas
-de melhores humores. Olha que me não esqueço
-do favor, que te devo. Adeus!</p>
-
-<p>Ou fosse curiosidade ou interesse, ou mesmo amor
-proprio offendido, no dia seguinte, pelas mesmas horas,
-fazia a rapariga caminho pelo sitio onde na vespera
-se encontrára com Thomaz.</p>
-
-<p>Este estava no mesmo logar, e na mesma posição da
-vespera, parecia que não arredára pé. Agueda approximou-se-lhe,
-quasi sem elle dar pela sua presença.</p>
-
-<p>—Adeus Thomaz!</p>
-
-<p>—Adeus Agueda!</p>
-
-<p>—Ainda continuas a estar triste?</p>
-
-<p>—Quem te disse que eu estava triste?</p>
-
-<p>—Não fallas, não cantas, não te meches d’ahi!</p>
-
-<p>—Tambem as flôres do campo não fallam, não cantam
-e não se mechem. Entretanto ninguem diz que ellas
-são tristes.</p>
-
-<p>—Em que pensas tantas horas a fio, Thomaz?</p>
-
-<p>—Olha, Agueda, tens bom coração?</p>
-
-<p>—Já hontem me fizeste essa mesma pergunta, e o
-que hontem te respondi, te respondo hoje:</p>
-
-<p>—Não fiz nunca mal a ninguem, nem o desejo.</p>
-
-<p>—Pois um dia te direi em que eu penso.</p>
-
-<p>—E porque não ha de ser hoje?</p>
-
-<p>—Ainda não tenho confiança em ti.</p>
-
-<p>Repetiram-se os encontros. Todos os dias, pelas mesmas
-horas, Agueda se encaminhava para aquelles sitios,
-e quando a sombra lhe dizia que ella estava para chegar,
-Thomaz esperava a com a vista, fitando os olhos
-no atalho por onde havia de apparecer.</p>
-
-<p>Pouco a pouco a indifferença apathica de Thomaz foi
-desapparecendo. Fallava mais, e contava historias de
-avesinhas e de flôres a Agueda maravilhada.</p>
-
-<p>E havia uma tal ingenuidade, o que quer que era de<span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span>
-boa e pura simpleza nas suas historias, nas suas exclamações,
-na explicação que lhe dava dos enlaces dos
-animaes e dos amores das plantas, que a pobre rapariga
-parecia levada a mundos novos, e quasi estranhava
-tudo que não era o fallar e a companhia de Thomaz.</p>
-
-<p>Um dia, eram passados tres mezes, depois do primeiro
-colloquio, voltou-se elle repentinamente para a
-sua companheira depois d’alguns momentos de abstracção,
-e disse-lhe:</p>
-
-<p>—És feia Agueda, muito feia.</p>
-
-<p>—Se o sentes, para que m’o havias de dizer? tornou
-lhe tristemente a rapariga.</p>
-
-<p>—Porque digo sempre o que sinto. Mas o teu coração
-é formoso e a tua alma é boa.</p>
-
-<p>—Obrigado, Thomaz.</p>
-
-<p>—Não me agradeças, porque fallo verdade. O teu
-coração é bom, e a belleza do corpo acaba, emquanto
-a formosura da alma se conserva. Eu gosto de ti,
-Agueda.</p>
-
-<p>—Tambem eu gosto de ti, e por isso sempre me
-pareceste formoso.</p>
-
-<p>Era uma especie de recriminação, que Thomaz não
-percebeu.</p>
-
-<p>—Eu queria casar comtigo.</p>
-
-<p>—Tu!</p>
-
-<p>—Eu, sim, porque te admiras?</p>
-
-<p>—Não cuidei que pensasses em casamento.</p>
-
-<p>—Não casam as arvores, as flôres, os animaes da
-terra, as avesinhas dos ares, os peixes do mar; não
-casam as aguas dos rios com as torrentes dos mares?</p>
-
-<p>—Mas...</p>
-
-<p>—Porque não hei de eu casar tambem?</p>
-
-<p>—Tu bem sabes, Thomaz, que eu nada tenho; tu
-tambem és pobre, como haveriamos de viver?</p>
-
-<p>—Não me tens perguntado tanta vez em que penso
-durante as horas em que estou sósinho?</p>
-
-<p>—Tenho.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span></p>
-
-<p>—Pois, ámanhã t’o direi; d’hoje até ámanhã pensa
-tu tambem, e dir-me-has depois, se queres ou não casar
-comigo.</p>
-
-<p>—E porque não dizes agora?</p>
-
-<p>—Agora... preciso estar só.</p>
-
-<p>E calou-se. Agueda já sabia que era tempo perdido
-teimar. Retirou-se, olhando muitas vezes para o seu
-extraordinario apaixonado.</p>
-
-<p>Este não deu por semelhantes finezas. Com os olhos
-fitos n’um ponto affastado, parecia embevecido em doces
-contemplações.</p>
-
-<p>No dia seguinte pelas mesmas horas dobrava Agueda
-o atalho, quando Thomaz, que de longe a avistou, se
-ergueu para a ir esperar.</p>
-
-<p>Extranho era aquelle procedimento, e tanto mais extranho,
-quanto a pobre da rapariga, á força de se querer
-aprimorar, mais feia parecia ainda. Thomaz, porém,
-nem percebeu a mudança.</p>
-
-<p>Ao approximar-se da arvore, pediu lhe que se sentasse
-ao seu lado, e com taes modos e tal delicadeza,
-que ella quasi o desconheceu.</p>
-
-<p>—Que tens, Thomaz, pareces me outro?</p>
-
-<p>—Tenho que te fallar muito sério. Pensaste?</p>
-
-<p>—Pensei.</p>
-
-<p>—Queres?</p>
-
-<p>—Quero, Thomaz, conheci que te amava. E tu?</p>
-
-<p>—Eu, não sei. Olha, Agueda, parece-me que nasci
-para casar comtigo. Tenho te visto ha muitos dias, e
-sempre me tens parecido boa rapariga.</p>
-
-<p>—Tu é que és um santo, meu Thomaz...</p>
-
-<p>—Não digas isso, e ouve-me. Vou contar-te o meu
-segredo.</p>
-
-<p>—Pois tu tens segredo?</p>
-
-<p>—Não t’o disse hontem?</p>
-
-<p>—Disseste, mas pensei que estavas gracejando.</p>
-
-<p>—Não sei gracejar.</p>
-
-<p>—E d’elle depende a nossa fortuna?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span></p>
-
-<p>—Depende.</p>
-
-<p>—Então conta, Thomaz, conta depressa.</p>
-
-<p>E a rapariga quizera ser toda ouvidos para satisfazer
-assim a curiosidade que a devorava.</p>
-
-<p>—Olha, Agueda, olha além para o ceu.</p>
-
-<p>—Olho.</p>
-
-<p>—Não vês nada?</p>
-
-<p>—Vejo uma nuvemzinha transparente e branca, que
-parece voejar como um véosinho de cambraia.</p>
-
-<p>—E nada mais?</p>
-
-<p>—Mais nada!</p>
-
-<p>—Pois eu vejo mais do que tu.</p>
-
-<p>—Como assim?</p>
-
-<p>—Ha uns poucos d’annos, que passo manhãs e tardes,
-deitado debaixo d’esta mesma arvore, com os
-olhos pregados n’aquelle mesmo sitio do ceu.</p>
-
-<p>—E vês?</p>
-
-<p>—Espera. Não ouves o chilrear dos passarinhos, que
-andam saltitando de ramo em ramo?</p>
-
-<p>—Ouço.</p>
-
-<p>—E não percebes o que elles dizem?</p>
-
-<p>—Ora essa!</p>
-
-<p>—Pois desde que aqui descanço, as aves fallam comigo,
-e eu entendo o que ellas dizem.</p>
-
-<p>—Thomaz!</p>
-
-<p>—Bem sei que desconfias de mim, Agueda, que talvez
-me julgaes doido, pateta, como muitos dizem. Não
-me admira, estou condemnado, e rio-me d’isso.</p>
-
-<p>—Não chamo, não, meu Thomaz; continua.</p>
-
-<p>—Tens espalhado os olhos por esses tapetes de verde,
-por essas vagas de pão, que ondulam e marejam
-á feição do vento como as aguas dos rios?</p>
-
-<p>—Se tenho!</p>
-
-<p>—Mas não escutaste ainda os colloquios que segredam
-as plantas umas ás outras, as espigas ás suas visinhas,
-quando o vento as encurva, e parece approximal-as
-tão de perto, como se fossem a beijar-se?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span></p>
-
-<p>—Valha me Deus, Thomaz, que coisas me estás
-perguntando!</p>
-
-<p>—Tenho dó de ti, Agueda!</p>
-
-<p>—Porquê?</p>
-
-<p>—Porque nem lês no céo, nem aprendes com as
-aves, nem escutas as plantas. Como has de ser infeliz.
-Tudo pois, que mais significação tem, nada quer dizer
-para ti. Mas descança, minha Agueda, quando casares
-comigo, has de saber o que eu sei.</p>
-
-<p>—E tu sabes?</p>
-
-<p>Thomaz fez-lhe signal para que se callasse por um
-momento, e pareceu cair em extatica contemplação
-com os olhos fitos no céo.</p>
-
-<p>Seria passado um quarto de hora, quando pareceu
-voltar a si, dirigiu-se a Agueda, e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Ouve-me agora. Quando meus paes quizeram que
-eu estudasse, quando tentaram que eu aprendesse ou
-trabalhasse, senti em mim uma voz que me dizia: não
-trabalhes, não é preciso, has de ser rico, muito rico,
-espera, confia e descança.</p>
-
-<p>—E tu?</p>
-
-<p>—Sempre que me approximava do trabalho sempre
-esta voz me fallava; se eu insistia tornava se mais
-aspera, reprehendia-me, accusava-me de não ter fé.
-Por fim... não estava mais na minha mão, fugi ao trabalho,
-não pude resistir ás palavras, que ouvia a todo
-o momento.</p>
-
-<p>—Pobre Thomaz!</p>
-
-<p>—Quando comecei a abandonar a casa, para vir deitar-me
-para debaixo d’esta arvore, parecia-me que as
-flôres e as plantas se debruçavam para mim e diziam
-umas ás outras: é mais um irmão que chega, bemvindo
-seja entre nós.</p>
-
-<p>E eu sorria-me para as hervinhas e para as arvores
-e a umas e outras dizia: Eis me, queridas irmãs, que
-saudades eu tinha vossas, como me batia o coração
-com pena! Eis-me, oh irmãs, e não vos deixarei mais.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span></p>
-
-<p>Depois de pensar muito, quiz n’uma occasião da minha
-vida mudar o modo de viver. Um caso fez, porém,
-com que eu continuasse a seguir os conselhos da voz,
-que cá bem dentro me dizia: Descança e tem fé.</p>
-
-<p>—Um caso?</p>
-
-<p>—Sim.</p>
-
-<p>E Thomaz contou-lhe como entrára na egreja e o que
-ahi ouvira ao prior, bem como a maneira, porque instando
-com elle para que lhe ensinasse aquellas palavras,
-chegára a aprender a lêr.</p>
-
-<p>—E sabes lêr, Thomaz?</p>
-
-<p>—Soube, esqueceu-me.</p>
-
-<p>—Pois nem conheces as letras?</p>
-
-<p>—Não.</p>
-
-<p>—E se eu quizesse aprender?</p>
-
-<p>—Talvez me recordasse.</p>
-
-<p>—Has de recordar-te, sou eu que t’o peço, mas continua.</p>
-
-<p>—Embrenhado n’estes pensamentos, um dia que alargava
-a vista pelos campos, e que pretendia mergulhar
-os olhares no céo, lá bem longe, n’aquelle affastado
-ponto, em que tu divisaste ha pouco uma nuvemzinha,
-vi avultar uma figura branca, tão transparente, tão formosa
-porém, ai tão formosa! que arrebatava olhar para
-ella... Mas porque estás tão triste, borbulham-te as
-lagrimas nos olhos!</p>
-
-<p>—Lembro-me do que me disseste, Thomaz, que me
-achaste feia, e tenho pena de o ser.</p>
-
-<p>—Não penses em tal. Formosuras d’aquellas não as
-ha na terra, nem sei mesmo, minha Agueda, se as haverá
-no ceu. Entretanto eu via todas as tardes aquelle
-vulto illuminado no meio de resplendores de fogo, e
-dos raios scintillantes do sol poente. Depois ao cair da
-noite ia-se sumindo pouco a pouco na escuridão até
-que uma só estrella a substituia no ceu.</p>
-
-<p>Se visses que melancholica luz espalhava aquella estrella!
-Acreditei que o meu anjo da guarda me apparecia,<span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span>
-e que a estrella, que de noite scintillava, mais
-resplandescente do que todas as outras, fôra cravada
-nos ceus pela mão do Senhor para me animar quando
-desanimasse, para me esclarecer quando as trévas envolvessem
-a terra.</p>
-
-<p>—Mas dizias, que te fallára!</p>
-
-<p>—Pouco a pouco comecei a comprehender, que me
-fazia gestos, como indicando me um ponto muito affastado
-dos ceus. Parecia que lá muito longe estava a felicidade,
-que eu almejava. Um dia ajoelhei e pedi-lhe,
-que me fallasse, que me dissesse o que significava
-aquelle gesto constante a mostrar-me a immensidão.</p>
-
-<p>—E respondeu-te?</p>
-
-<p>—Não é mais harmonioso o som do orgão, quando,
-depois de tocado, parece gemer saudoso na egreja,
-não é mais suave o canto da viração da tarde rumorejando
-pelo arvoredo, nem o lamentar ao longe do
-rouxinol em madrugadas de maio.</p>
-
-<p>—E disse-te...</p>
-
-<p>—«Pobre de ti, que procuras a felicidade na terra.
-Está bem longe e tão longe que nem teus olhos a alcançam
-nem tua mente a imagina. Queres ser rico, queres
-ser feliz! Louco! Não ha de ser ahi que encontrarás
-nem riqueza nem felicidade. Chegará um dia em
-que me sigas, e então verás patentes thesouros, que
-nem suppões, felicidades que nem as sonhas.»</p>
-
-<p>—Era a tua cabeça que desvairava meu Thomaz!</p>
-
-<p>—Não era, Agueda, não era. Levantei-me para seguir
-direito o caminho que me apontava; mas ao calcar
-as primeiras hervinhas senti entre seus gemidos,
-que me chamavam: ambicioso! louco!</p>
-
-<p>—As hervas?</p>
-
-<p>—Sim as hervas, voltavam-se para mim e apontando-me
-para os campos onde viviam censuravam-me por
-as deixar: para que partes? Não tens o pão que te
-alimenta, o sol, que te dá calor, o ar, que te nutre a
-respiração, não vês como vivemos contentes no mesmo<span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span>
-logar, amando-nos umas às outras, bebendo a agua
-dos ares, e aquecendo-nos o sol?</p>
-
-<p>—E pensaste então em amar?</p>
-
-<p>—Pensei! Depois quando volvia para debaixo da minha
-arvore as avesinhas brincando umas com as outras,
-diziam: «Não é preciso ir longe para se ser feliz.
-Este pobre rapaz quer deixar-nos, e nós podiamos-lhe
-ensinar como se encontra a felicidade. Uma arvore nos
-abriga, um ninho serve de berço aos nossos amores,
-uma folha nos resguarda do sol, a semente que cae
-no chão nos sustenta, a agua, que as covasinhas conservam,
-nos mata a sêde. Sabemos amar e viver, amamos
-e sômos felizes.</p>
-
-<p>—Seguiste o conselho das aves?</p>
-
-<p>—Segui. No dia immediato a visão sorria menos
-melancholica, e ao perguntar-lhe se devia partir, respondeu-me:
-Não ouviste as hervinhas do campo e as
-avesinhas do bosque. Sê humilde como ellas são, contenta-te
-com o que as satisfaz e serás então como ellas
-feliz.</p>
-
-<p>—Mas como havemos de viver assim, meu Thomaz,
-não podemos habitar n’um ninho, nem n’uma leira dos
-campos.</p>
-
-<p>—Ouve-me até ao fim. Quiz amar para ser feliz, mas
-todas me voltavam a cara, ou me apontavam dizendo:
-olha o Thomaz idiota, o Thomaz dos passarinhos.</p>
-
-<p>Só a minha visão me sorria boa nos ceus, emquanto
-todos na terra se riam de mim como uns maus. Perdi
-as esperanças de encontrar quem me tivesse amor, e
-procurei amar aquella que me queria. E sempre a via,
-sempre lhe fallava no meu querer, e ella sempre se
-curvava para mim e tristemente me dizia: estamos
-longe, muito longe!</p>
-
-<p>E entretanto as aves e as plantas contavam-me os
-seus amores, e animavam-me tambem.</p>
-
-<p>Vi-te, Agueda, e ao passo, que mais a meudo me appareceste
-mais fui querendo á tua presença. Por fim<span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span>
-não podia já passar sem ti e nas horas em que devias
-chegar, mais me palpitava o coração.</p>
-
-<p>—Querer-me-ias, por ventura?</p>
-
-<p>—Não sei. Se o amor é um sentimento, que nos
-prende a idéa ao ente amado, se o amor é o sacrificio
-da nossa vida á que se ama, se amor é ser todo d’uma
-só mulher, e só d’ella, eu não te amo, porque bemquero
-áquella imagem, e a sua lembrança corta-me os
-pensamentos, que te consagro. Olha, não sei como te
-explique o que sinto. Quando quero comprehender-me
-julgo-me tambem idiota, como me chamam todos. Não
-ha mulher para mim que te valha, mais rica ou mais
-formosa que fosse; mas tambem nada ha, que seja em
-mim superior á idéa d’aquella imagem. Quando vou levado
-pelo pensamento para ti, surprehendo-me a meio
-caminho, arrependo me de me esquecer d’ella, e fico
-em doce contemplação a adoral-a. Quando ella se some,
-appareces-me tu. Sabes?... Creio que amo a ambas,
-a ella com o amor do ceu, a ti com o amor da terra.</p>
-
-<p>Agueda suspirou e limpou uma lagrima, que lhe escorregava
-pelas faces.</p>
-
-<p>—Porque suspiras?</p>
-
-<p>—Tenho ciumes da tua visão; e depois, bem vês,
-não poderemos casar nunca.</p>
-
-<p>—Sabes que lá bem longe ha terras, em que as riquezas
-não faltam?</p>
-
-<p>—Sei.</p>
-
-<p>—Sabes que é para bem longe que o meu bom
-anjo me chama?</p>
-
-<p>—Assim m’o disseste.</p>
-
-<p>—Pois se tu quizeres casar comigo, irei apoz a minha
-querida visão, seguirei o seu gesto, e tenho por
-fé que ao voltar serei rico, que o esperei sempre; serei
-feliz, que m’o assegurou ella.</p>
-
-<p>—Enlouqueceste, Thomaz?</p>
-
-<p>—Nunca estive mais em meu juizo.</p>
-
-<p>—Pois queres sósinho, sem meios, sem conhecimentos<span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span>
-ir por esse mundo de Christo, atravessar os mares,
-fazer uma viagem tão grande! Dizem que d’aqui
-ao Brazil é um por ahi além de leguas!</p>
-
-<p>—Sei, que importa isso! Tenho pensado muito, comigo,
-aqui, e com aquella boa imagem além. Não tenho
-palavras para dizer o que vae cá por dentro ahi a
-qualquer. Póde ser que eu seja idiota, mas parece-me
-que mais são os que me chamam por não lhes fallar,
-nem lhes dar satisfações da minha vida.</p>
-
-<p>Humildes são as plantas, mais atrevidas as aves,
-mais atrevidas ainda as nuvens dos ares e as estrellas
-dos ceus. Quanto maior é o seu atrevimento, mais
-longe se levam.</p>
-
-<p>O homem que vive cá n’este mundo extremo de todos,
-sem querer deixar rasto de si, nem cousa alguma
-que o lembre, passada a sua hora, é como a planta,
-lançada á terra pela mão de Deus. Nasce, medra e
-morre; deitam-lhe a foice e fica por terra.</p>
-
-<p>Assim era eu. Não tinha para quem o fosse, não
-queria ser rico. Espera, dizia-me a voz; está muito
-longe a felicidade, repetia-me a visão, e eu ia esperando
-sem tentar os longes.</p>
-
-<p>Mas quando ama, não chegam para o homem alguns
-torrões apenas, como para o pé de trigo: vae longe
-buscar com que fazer seu ninho, percorre os ares
-como as aves: e, emquanto a esposa o espera cuidando
-dos filhinhos, trabalha elle para sustentar os outros.</p>
-
-<p>Assim poderia eu ser; mas não bastava.</p>
-
-<p>Para ti, Agueda, que vaes repartir comigo a tua
-vida, que te vaes enlaçar comigo, como a videira se
-enlaça no carvalho, que vaes ser minha mulher, sabes
-o que isto quer dizer, minha mulher?... não basta o
-bago de trigo, que sustenta o pardal, nem o bichinho
-que nutre a cotovia. Quero ir longe, mas tão longe
-como vão as nuvens e não como as aves; quero correr
-mundo, como correm as estrellas que hoje espalham
-aqui a sua claridade, depois allumiam outras terras: e<span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span>
-mais tarde, ao voltar com dinheiro para ambos, com
-o descanço para os que hão de ser nossos, dizer-te:</p>
-
-<p>—Vês? É assim que um homem sabe amar.</p>
-
-<p>E Thomaz transfigurára-se ao dizer estas palavras;
-a sua belleza varonil assumira o que quer que era extraordinario,
-parecia inspirado. Chispavam-lhe centelhas
-dos olhos, aspirava com as ventas dilatadas os
-aromas da tarde, soltava os cabellos bastos á feição do
-vento. Erguera-se emquanto fallava, a sua figura parecia
-mais crescida. Cercava-o uma aureola de magestade,
-destacava-se do fundo escuro do tronco a que
-estivera encostado, recortava-se sobre o azul carregado
-do céo, como um d’aquelles sacerdotes das florestas
-gaulezas, quando colhido o agarico sagrado erguiam
-os olhos, pediam a inspiração aos numes e rasgavam
-o ar com o gesto alargando os braços sobre as multidões
-curvadas.</p>
-
-<p>Agueda desconhecia-o e pasmava.</p>
-
-<p>—Como és formoso assim, meu Thomaz, e como
-eu te avaliava tão mal, exclamou a pobre rapariga cedendo
-ao impulso da admiração.</p>
-
-<p>Thomaz caiu em si, e tornou-lhe tristemente:</p>
-
-<p>—Todos me têem julgado como eu não merecia. A
-solidão tem-me feito amadurecer muito, e se não fallo,
-penso. Dizem que o mocho é prudente e assisado, e
-entretanto nem trina como o rouxinol, nem canta como
-a toutinegra, nem se veste de côres brilhantes como o
-pintasilgo. Emquanto todos dormem vigia elle, emquanto
-folgam e brincam á luz do sol mergulha-se no escuro
-e recata-se no seu souto. As horas de solidão valem
-mezes de viver em companhia, e os dias de abandono
-ensinam mais do que os annos de carinhos e
-meiguices. Eu, Agueda, tenho vivido sempre desamparado,
-só e triste. Tenho pensado muito, assim eu tivesse
-palavras, como tenho idéas; mas vou a fallar,
-não sei, e fico-me...</p>
-
-<p>—Apesar d’isso dizes coisas que não comprehendo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span></p>
-
-<p>—Que queres, os fructos quando veem ao chão,
-ou pedram-se e fazem-se ruins; ou amadurecem mais
-depressa. Não tinha queda para ruim, deitaram-me por
-terra, amadureci. Já foste á cova das rapozas?</p>
-
-<p>—Deus me livre! Apparecem por lá as almas dos
-defuntos. O João da Josefa do tio Domingos, foi lá ter
-atraz de uma ovelha e viu uma aventesma surdir-lhe
-de um d’aquelles buracos. Pois tu já lá foste, Thomaz!?...</p>
-
-<p>—Fui! Tudo quanto é fóra do commum tem agrados
-para mim. Procurei saber o que era. Entrei, e vi
-uma cousa que não esperava.</p>
-
-<p>Do tecto da cova desciam pinhas de pedras preciosas
-até ao chão e formavam columnas, como as do altar-mór
-da egreja; mas quanto bem mais formosas! Pareciam
-feitas de bocadinhos de espelho. A luz que entrava
-pela bocca da cova e a que eu levava do archote,
-saltavam de columna para columna, brincavam n’aquellas
-laminasinhas, faziam ziguezagues, voltas, revira-voltas,
-como se fossem um cardume de lusilumes. E eram
-luzes de todas as côres, azues, vermelhas, verdes, côr
-de rosa; como n’aquelle fogo de vista que deitaram os
-homens de Lisboa. Estonteava a vista olhar, andava a
-cabeça á roda.</p>
-
-<p>—Bem dizia eu, Thomaz, era obra de feitiço, para
-que foste lá?—E appareceu-te algum phantasma?</p>
-
-<p>—Não. Perguntei uma tarde ao sr. padre prior o
-que eram aquellas columnas, e como estavam alli em
-pilha tantas pedras preciosas, sem que tomassem conta
-d’ellas?</p>
-
-<p>—E elle o que te disse?</p>
-
-<p>—Que o que eu julgava serem pedras preciosas era
-a agua da chuva e nada mais.</p>
-
-<p>—Ora!</p>
-
-<p>—Era sim. Gotta a gotta ia filtrando pela rocha e
-pendurando-se da pedra, como o pingo da fonte no cazal
-das Cortiças, que se baloiça antes de caír custando-lhe<span class="pagenum"><a id="Page_195"></a>[195]</span>
-tanto a despegar-se. Mal uma não caía ainda,
-vinha outra abraçar-se com ella, e prendel-a mais. As
-que iam ao chão seccavam devagarinho e deixavam a
-fazer altura as terras que traziam comsigo. Debaixo
-foram subindo, de cima foram descendo; e quando se
-uniram, estava a columna prompta. Vieram novas gottas,
-foram baixando pela columna: e parando aqui, detendo-se
-além, arrendaram-lhe o feitio, e recortaram-lhe
-as fórmas...</p>
-
-<p>—Pois isso póde ser!</p>
-
-<p>—Póde! E este milagre é obra da solidão, do socego,
-e da meditação bem escondida do mundo.</p>
-
-<p>A agua da chuva que cae nas ruas faz-se lama, a
-que cae nos campos secca-a o vento, ou encaminham-na
-os homens para as regueiras e levadas, a que cae com
-força faz cheia e arrasta tudo, a que cae de manso
-perde-se; mas a que livre do vento, e dos homens,
-gotteja escondida, e escorre devagar entregue só a si,
-forma columnas maravilhosas, e faz-se em pedras de
-valor. Aqui tens como eu tenho aprendido tambem.
-Fujo de tudo e de todos, escondo me, penso, medito,
-e aprendo.</p>
-
-<p>Ficaram ambos silenciosos por algum tempo. Agueda
-não comprehendia mas advinhava; Thomaz, esse que
-havia muito tempo não fallára tanto, parecia seguir
-callado o fio do discurso conversando comsigo. Foi a
-rapariga, que renovou o dialogo.</p>
-
-<p>—Pois sempre queres partir?</p>
-
-<p>—Quero. É tenção feita e não mudo. Espera-me
-tres mezes, como eu tenho esperado annos. Ceifaram
-os campos ha pouco; por ahi não ha senão restevas.
-Callaram-se os passarinhos, acabaram-se-lhes os amores,
-e somem-se para outros logares. Vou partir, Agueda,
-de dia seguirei o meu anjo, de noite a minha estrella;
-e, quando a relva vestir esses prados, quando
-as aves cantarem de novo, vêr-me-has regressar d’essas
-terras, e n’esta arvore onde temos passado tantas<span class="pagenum"><a id="Page_196"></a>[196]</span>
-horas de felicidade, contar-te quanto passei por amôr
-de ti.</p>
-
-<p>Debalde procurou a rapariga despersuadil-o. O caracter
-de Thomaz, como o de todos os espiritos concentrados,
-era teimoso. Pensava muito em qualquer
-resolução, que devesse tomar; uma vez porém que a
-adoptasse, havia de seguil-a por força. Poucos dias depois
-abandonava a aldeia. Agueda, soluçando, acompanhava-o
-até duas leguas fóra do logar.</p>
-
-<p>Longo e triste fôra relatar a perigrinação do pobre
-rapaz. Pedia esmola para comer, quando tinha fome;
-deitava-se pelo caminho, quando se sentia cançado, ou
-abrigava-se em qualquer pousada, onde o deixavam
-dormir. Ia porém seguindo na mesma direcção e para
-onde lhe parecia acenar a figura, que se lhe representava
-em suas allucinações.</p>
-
-<p>Houve quem, ouvindo-lhe dizer que queria ir longe
-tentar fortuna, o alliciasse para o Brazil. Thomaz perguntou
-para que lado ficava o Brazil, deram-lhe uma
-direcção. Errada ou verdadeira esta direcção era a
-mesma que trouxera sempre. Acceitou.</p>
-
-<p>Os que já conhecem Thomaz pódem avaliar bem que
-desgraçado colono havia de ser e por quantos tormentos
-passaria. Entretanto nem doenças, nem fomes nem
-maus tratos, nem trabalhos superiores ás suas forças
-o desanimavam. Uma coisa só o trazia apaixonado.
-Não via n’aquelles céos a sua estrella. Nos horisontes
-affogueados não descortinava a sua visão.</p>
-
-<p>Passaram annos e Thomaz, apezar de tanto padecer,
-conservava ainda recatada na alma a santidade das suas
-aspirações. Ha temperas d’esta ordem, que como as
-perolas se conservam limpidas, e puras, no meio das
-correntes e das tempestades.</p>
-
-<p>Houve quem se condoesse da sua sorte e lhe proporcionasse
-passagem para Portugal. Acceitou-a reconhecido;
-perdêra todas as esperanças de ganhar fortuna,
-voltava quebrado, doente, incapaz de trabalhar,<span class="pagenum"><a id="Page_197"></a>[197]</span>
-mas vinha de novo para terras, onde lhe apparecia o
-bom anjo, e a boa estrella, onde conhecia o cantar dos
-passaros e o fallar das plantas, e onde tornaria a vêr
-a sua Agueda.</p>
-
-<p>—E a rapariga, perguntei ao tio Joaquim, quando
-rematou a sua narração, ainda está á espera d’elle?</p>
-
-<p>—Olha quem! D’ahi a dois mezes fugia da terra em
-companhia de um soldado do destacamento, o Thomaz
-vem achar-lhe o logar.</p>
-
-<p>—E já sabia d’isso, hontem á noite, quando lhe
-contou a sua vida?</p>
-
-<p>—Ainda não, vinha a caminho, quando a chuva o
-não deixou proseguir e nos pediu agasalho. Hoje é que
-deve saber a verdade toda.</p>
-
-<p>—O tio Joaquim não lhe disse nada?</p>
-
-<p>—Não tive animo para lhe dar a noticia. Pobre homem,
-fugiu-lhe a noiva, morreu-lhe a mãe, está só!</p>
-
-<p>Fôra depois do jantar que o tio Joaquim me contára
-esta historia, a tarde estava muito amena, e o descair
-do dia ganhava os doces encantos da tristeza.</p>
-
-<p>O que ouvira harmonisava-se com o que estava vendo:
-e a melancholia começou a tomar conta de mim.
-Propuz ao tio Joaquim um passeio até ao logar para
-espairecer. Saimos.</p>
-
-<p>Á porta do boticario estava junta quasi toda a povoação;
-grande novidade ia pela botica. As velhas entravam,
-saiam, segredavam umas com as outras, levantavam
-os braços ao ar e voltavam para saber e contar
-novas coisas.</p>
-
-<p>Conseguimos entrar e vêr o que tanto attrahia as
-attenções. O pobre Thomaz jazia banhado em sangue.
-Fôra encontrado cahido no fundo de uma trincheira,
-que andavam abrindo para o caminho de ferro, e quebrára
-a cabeça e os braços de encontro ás pedras que
-estavam em baixo. Restava-lhe pouco tempo de vida.</p>
-
-<p>O tio Joaquim approximou-se do moribundo, elle reconheceu-o
-logo e sorriu-lhe tristemente.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_198"></a>[198]</span></p>
-
-<p>—O que foi isso, homem? perguntou-lhe o velho
-narrador.</p>
-
-<p>—Acertei finalmente com a felicidade, não tarda;
-em pouco vou ser muito rico.</p>
-
-<p>Pensaram que já estava tresvariado. O tio Joaquim,
-disse-lhe que socegasse.</p>
-
-<p>—Bem socegado estou, acabou-se-me para sempre
-a lida. Agueda, tinha-se cançado de esperar, nem todos
-têem paciencia como eu tive... Corri á minha arvore,
-já a não encontrei... tinham-na derrubado... Os
-campos estavam cortados pela estrada, as hervas calcadas
-pelo pisar dos trabalhadores do caminho, as aves
-tinham fugido espavoridas com os tiros das minas na
-pedreira... Aqui, como lá bem longe, estava só de todo...
-De repente, poude vêr, com os olhos arrasados
-de lagrimas o meu anjo no mesmo logar a olhar para
-mim como d’antes, a chamar-me como d’antes, mas
-mais triste do que nunca... Caminhei direito a elle,
-fitando-o sempre... Faltaram me os pés... Cahi...
-Mas sei que me hei de levantar em breve, e d’esta vez
-hei de approximar-me d’elle para não mais o deixar...
-Até que em fim... comprehendi-o... Dizia-me que
-estava longe... bem longe...</p>
-
-<p>E estava!... Conchegou-nos a morte: a felicidade...
-a riqueza... debalde as procurei na terra;...
-mas agora... sei que as vou encontrar... no ceu.</p>
-
-<p>Passada meia hora o Thomaz da tia Annica, o Thomaz
-dos passarinhos, como por alli lhe chamavam, era
-cadaver.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_199"></a>[199]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header4.jpg" width="500" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="XII">XII<br />
-<span class="smaller">A historia do narrador</span></h2>
-
-</div>
-
-<h3>I</h3>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-p.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Por mais de um mez procurára tambem saber
-a historia do tio Joaquim. Havia na
-tristeza, em que o velho descaia tantas
-vezes, quando parecia mais alegre, rasão
-sobeja para me aguçar a curiosidade. Tentára
-interrogal o; mas debalde sempre.</p>
-
-<p>Não era porque o tio Joaquim deixasse de me estimar
-devéras.</p>
-
-<p>Conhecêra-me de pequeno e tivera-me sempre por
-seu companheiro constante nos passeios melancholicos,
-em que, apoz o seu pensamento, caminhava horas sem
-dar palavra.</p>
-
-<p>Ia com elle, calado tambem. Respeitava a grande
-dôr que n’essas occasiões parecia opprimil-o; e não
-me atrevia a perturbal-o com perguntas indiscretas, ou
-observações futeis.</p>
-
-<p>Presentia, que um padecimento grande o envelhecêra
-bem cedo, e receava tanto mergulhar a vista nas
-profundezas d’aquella magua, como trepidava sempre<span class="pagenum"><a id="Page_200"></a>[200]</span>
-ao approximar-me de um precipicio. Era o desconhecimento
-que me sobresaltava, o que quer que era extranho,
-que me impunha respeito.</p>
-
-<p>O tio Joaquim lembrava-me um d’esses livros antigos
-de bruxedos e encantamentos, que fechado poder-se-ia
-confundir aos olhos de um observador qualquer
-com um ripanço de semana santa; aberto porém espavoria
-a imaginação povoando a com os quadros temerosos
-de castellos encantados, florestas magicas, sortilegios
-infernaes, feiticeiros, trasgos, almas penadas e
-cemiterios.</p>
-
-<p>Levava-me o desejo a folheal-o; a duvida affastava-me
-de lhe tocar.</p>
-
-<p>Aventurára perguntas timidas em varias occasiões;
-mas o velho, sem que empregasse na resposta a natural
-rudeza, com que despedia os importunos triviaes,
-affastava-me brandamente do ponto a que eu desejava
-chegar.</p>
-
-<p>—Quando no jardim ou no prado colhe uma flôr não
-cuida das profundezas onde as raizes mergulham para
-a alimentar; quando tira da fonte uma pouca d’agua
-para abrandar a sede, não indaga por que extensões
-corre a veia que alimenta a fonte. Não cuide em devassar
-segredos, que de pouco lhe podem importar; mas
-que uma vez sabidos lhe hão de trazer desgosto. A
-amendoa de muitos fructos trava, emquanto elles são
-dôces, aproveite-se da polpa e não queira saber do caroço.</p>
-
-<p>E assim, mudando rapidamente de assumpto, evitava
-sempre que insistisse.</p>
-
-<p>Entretanto iamos muitas tardes para um logar da
-praia, que de preferencia escolhiamos por ser mais recatado
-e só.</p>
-
-<p>Entre ambos havia como que uma communhão de
-tristezas. Elle pelo passado, eu pelo futuro; elle por o
-que já experimentára e sentira; eu porque receava
-experimentar e sentir tambem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_201"></a>[201]</span></p>
-
-<p>Emquanto o velho passava horas silencioso e triste a
-rever as paginas da sua vida, a rememorar dôres, alegrias,
-saudades, e amores: eu que ia conhecer o mundo,
-eu que deixava de ser creança e não começára ainda a
-ser homem, scismava no futuro para que caminhava, e
-devaneiava conjecturas sobre essa vida nova, que ia
-encetar. Agradava pois a ambos a solidão, e ambos
-procuravamos de preferencia os sitios, onde menos nos
-podiam inquietar os conhecidos.</p>
-
-<p>A praia da nossa predilecção estendia-se desde Cabo-Ruivo
-e o recolhimento do Moinho. Em frente espraiava-se
-o Tejo pelos juncaes, que, mesmo em preamar,
-erguiam os cimos arrouxados sobre as aguas; detraz
-a costa subia quasi a prumo para os olivaes do Casal
-das rolas.</p>
-
-<p>Uma ou outra pedra ennegrecida pelo tempo, pelo
-quebrar das ondas, pelos limos e pelas ostras que a
-revestiam destacava-se na arêa da praia, ou avultava
-por meio dos juncos. O rio, n’aquellas alturas quasi
-sempre só, parecia não terminar no lado opposto; porque
-a outra margem se confundia com o céo. De cima,
-como torre de vigia de castello antigo entrava pela agua
-dentro o pavilhão quadrado e de tecto esguio do antigo
-recolhimento. Debaixo o cabo a que pela vermelhidão
-do terreno tinham dado o nome de Ruivo, limitava
-o horisonte, e tirava a vista da parte do rio mais
-cheia de navios e de animação.</p>
-
-<p>Tudo alli era silencioso, tudo infundia sentimento,
-tudo convidava para a meditação.</p>
-
-<p>Torcendo-se por entre os alcantis da ribanceira, escondendo-se
-umas vezes por detraz de moitas de rosas
-carrasquinhas e de giestas, outras caminhando entre
-pequenas mattas de congoças, outras descobrindo-se de
-todo n’um terreno escalvado e nu, um caminho de pé
-posto conduzia dos olivaes á praia, e estabelecia communicação
-entre o mundo e aquelle retiro. Avistavamos
-pois a grande distancia, quando alli estavamos, qualquer,<span class="pagenum"><a id="Page_202"></a>[202]</span>
-que do Casal descesse para a praia, e haveria
-por conseguinte facilidade de mudar de conversação,
-sem que nos perturbassem d’imprevisto.</p>
-
-<p>A meio do carreiro n’uma lapa gottejava da rocha a
-agua mais pura das visinhanças e demorava-se n’um
-berço de relva e musgo verde como esmeralda, macio
-como velludo, e que forrava a cova, que a agua havia
-feito. Junto á fonte algumas pedras pulidas pelo roçar
-continuo dos cantaros das raparigas dos sitios, que alli
-vinham buscar agua, offereciam um bom poiso para
-descançar.</p>
-
-<p>Era tambem alli que mais de habito nos sentavamos.
-O mar deante de nós, o ceu sobre nossas cabeças,
-as costas dadas ao mundo, e a imaginação a perder-se
-no espaço.</p>
-
-<p>Depois, quando descaia a tarde, aquelle silencio
-perturbado apenas pelo surdo marulhar das aguas,
-aquellas côres sombrias do mar e do ceu, aquelle espectaculo
-do infinito, que tanto nos confrange e opprime,
-e a indecisão, que nos baloiça no espirito, as duvidas
-que se apoderam de nós, sobre o que seremos,
-sobre o que nos tornará felizes, a lucta com essa terrivel
-e mysteriosa sphinge que se chama futuro, tudo
-isso me levava a um estado especial que muitos talvez
-tenham sentido, mas que poucos poderão definir, em
-que desejava sem saber o que, em que soffria e agradava-me
-o soffrimento, em que amava e debalde queria
-fixar o grande amor que sentia, em que lastimava
-sem que podesse explicar porque, não estar assim
-sempre, não passar d’ahi para outro mundo, outra vida,
-outro que quer que fosse, para mim desconhecido,
-mas que me parecia fatalmente destinado para me dar
-a verdadeira felicidade apoz a qual voava a minha imaginação
-apaixonada.</p>
-
-<p>Estes ataques de uma nostalgia particular traduzil-os-hia
-eu, se traducção podessem ter, como o chorar
-da alma infinita dentro da sua tão limitada prisão,<span class="pagenum"><a id="Page_203"></a>[203]</span>
-pelos espaços e pelos mundos infinitos d’onde veio, e
-onde deve ir um dia.</p>
-
-<p>Sei, para em duas palavras me exprimir, que soffria
-muito, mas que era feliz soffrendo assim.</p>
-
-<p>O meu velho companheiro, esse, apenas ali chegava
-sentava-se n’uma das pedras, carregava o cachimbo,
-feria lume, accendia o tabaco e entrava a fumar; depois
-o pau com que começára a traçar arabescos no
-chão parava gradualmente, os braços caiam-lhe sobre
-os joelhos, o cachimbo apagava-se, e os olhos cerravam-se-lhe
-como se tivesse adormecido.</p>
-
-<p>Quando, passado tempo, parecia tornar a si, tinha
-os olhos vermelhos, o rosto abatido, o corpo quebrado.
-Levantava-se com muita difficuldade e mal se podia arrastar
-aos primeiros passos. Depois fazia como que um
-grande esforço sobre si, compunha a physionomia, chamava
-um sorriso bastante rebelde n’essas occasiões, e
-tornava a ser o tio Joaquim da casa da malta e do canto
-da lareira.</p>
-
-<p>Foi n’uma dessas tardes, e na praia de Cabo Ruivo,
-que consegui ouvir ao velho narrador a sua historia.
-Andára triste todo o dia, acabára de jantar, déra conta
-da obrigação e convidára-me para sair em sua companhia.
-Não soltára meia palavra pelo caminho e mal chegára
-perto da fonte atirára comsigo para uma d’aquellas
-pedras tão desalentado, que parecia não querer
-mecher-se mais d’ali. Ficara a scismar, como costumava;
-mas não seria passado ainda um quarto de hora,
-ao olhar para elle vi que lhe escorregavam as lagrimas
-pelas faces.</p>
-
-<p>—Chora, tio Joaquim?...</p>
-
-<p>—Não repare, atalhou elle rapidamente limpando as
-lagrimas, como envergonhado, eu tambem não reparava.</p>
-
-<p>—Anda sempre triste, e assim sem desabafar, bem
-pelo contrario fingindo-se alegre quasi sempre; ha de
-padecer muito!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_204"></a>[204]</span></p>
-
-<p>—Muito! Mas não tem duvida.</p>
-
-<p>—Diz-se que as maguas contadas são alliviadas;
-porque me não dá parte das suas tristezas?</p>
-
-<p>—Para quê? Com o andar do tempo não lhe faltarão
-proprias; deixe as alheias.</p>
-
-<p>—Cuida que sou alguma creança, tio Joaquim?</p>
-
-<p>—Bem sei que não é, mas...</p>
-
-<p>—Seria a maior prova de amisade que me podesse
-dar. Ha tanto tempo que desejo saber a sua vida!</p>
-
-<p>—Como deseja ouvir as historias aos serões, não é
-assim?</p>
-
-<p>—Não. Essas servem para passar o tempo, esta
-outra para o conhecer bem, e para o poder consolar.</p>
-
-<p>—Pois seja para me conhecer, que para me consolar
-não, porque não póde. Hoje tambem, parece-me
-que rebentava, se não repetisse alto o que tem sido a
-minha vida. Quando conversamos comnosco, a voz faz
-ecco bem fundo na cabeça e no coração, repercute mais
-e soffre dobrado. Se não tivesse vindo comsigo parece-me
-que entrava a fallar só, para ahi a essas pedras
-e a essas aguas. Oiça-me pois, já que tanto deseja
-saber a minha vida.</p>
-
-<p>E o tio Joaquim deu começo á sua historia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_205"></a>[205]</span></p>
-
-<h3>II</h3>
-
-<p>Meus paes viviam n’uma das provincias do norte, e
-se não eram ricos tinham com que passar menos mal.
-Meu irmão Filippe e eu eramos os dois unicos filhos,
-e o que havia chegava bem para nós. Filippe, porque
-era o mais velho, devia ser lavrador como meu pae;
-eu, por ser o segundo, estava destinado para frade.</p>
-
-<p>Admira-se, porque já lá vão os frades; mas se vivesse
-no tempo dos conventos conheceria então, que
-de ordinario se destinava para ordens sacras o filho
-segundo em quasi todas as familias.</p>
-
-<p>Accrescia mais que o mestre dos noviços do convento
-proximo, sr. João da Soledade, era muito de
-nossa casa, e depois de ter convencido minha mãe de
-que me fazia feliz mettendo-me a frade, lhe promettera
-tomar-me sob sua protecção.</p>
-
-<p>Pela minha parte, posto que ninguem me consultasse
-o querer, parecia me tambem que viveria contente
-n’aquelle socego do convento. Via os frades gordos,
-satisfeitos, córados e risonhos sempre. Traziam-me
-presentes e davam-me dôces, faziam-me festas, e contavam-me
-historias, não me queria pois com outra
-gente.</p>
-
-<p>Em vendo habito approximava-me logo, e minha boa<span class="pagenum"><a id="Page_206"></a>[206]</span>
-mãe, que a mais não alcançava, lia n’esta inclinação
-pueril uma verdadeira e pronunciada vocação.</p>
-
-<p>Assim fui creando-me n’estas idéas, até que chegou
-a idade de começar a aprender. Fr. João convenceu
-minha mãe, de que para o meu estudo muito melhor
-seria viver no convento do que em casa, pois que ao
-passo que ia seguindo as disciplinas com maior regularidade,
-ia costumando-me tambem á regra conventual.</p>
-
-<p>Frei João era para meus paes apostolo e propheta
-ao mesmo tempo. O que dizia seguia-se com reflexão.
-Despedi-me, chorei muito e partimos.</p>
-
-<p>Não tinha tamanho desafogo em casa, que extranhasse
-muito a vida nova que encetava. A companhia
-dos outros noviços, aquelles costumes extranhos para
-mim, aquella novidade de estudos, e mesmo o bom
-modo, com que Fr. João me tratou sempre, conseguiram
-que dentro em pouco me afizesse de todo ao recolhimento
-claustral.</p>
-
-<p>Não tinha por fóra coisa alguma, que me attraisse,
-e a affeição de meus paes e irmão, unicas de que a
-porta do convento me separava, não eram de ordem
-tal, que me fizesse lamentar muito o haver-me apartado
-do mundo.</p>
-
-<p>N’uma das campanhas em que entrei mais tarde ouvi
-contar o seguinte caso a um veterano, que tinha ido
-na legião lusitana com os francezes fazer a guerra da
-Russia.</p>
-
-<p>Nas noites frias e claras do norte em que a luz de
-umas auroras particulares ás terras d’aquelle paiz resplandece
-nos gelos, começava a cair neve, e os pobres
-soldados a cairem com ella inteiriçados e hirtos. Alguns
-cobravam forças, erguiam-se e continuavam. Outros
-caiam, não tinham forças para se mecher e ficavam
-por uma vez.</p>
-
-<p>Ao tal veterano, se lhe não accodem ainda a tempo
-ia succedendo este mesmo facto.</p>
-
-<p>Dizia elle, que percebia bem que ia morrer, que<span class="pagenum"><a id="Page_207"></a>[207]</span>
-cada vez se enregellava mais, e que dentro em pouco,
-tinha d’isso a certeza, estaria de todo gellado.</p>
-
-<p>Sentia porém um que quer que era agradavel n’aquelle
-approximar da morte, queria evital-a mas não tinha
-forças, e ia sentindo sumir-se-lhe a vida com aquelle
-prazer com que nos deixamos esvaecer após a embriaguez.</p>
-
-<p>A solidão, tive tempo para o observar, parece-se com
-os gelos do norte. Entristece-nos, mas encanta-nos com
-a sua tristeza, sentimos que lhe devemos fugir, e conservamo-nos
-entretanto, parece-nos que nos esmorece
-a alma e o sentimento, mas é tão dôce esse esmorecer,
-como a morte após um desmaio, como o adormecer da
-creança nos braços maternos.</p>
-
-<p>Antes de saber o que era a vida, começava a agradar-me
-a morte, e sem transicção alguma, arrefeciam-me
-os ardores dos dezoito annos, com os frios d’aquellas
-sepulturas de vivos a que chamavam cellas, claustros
-e conventos.</p>
-
-<p>Estudava, aprendia, e meditava. Meditava sem saber
-em quê, porquanto o mundo, que eu via pelas grades
-do meu quarto, e o que eu phantasiava pela leitura dos
-livros da bibliotheca, differençava-se tanto do mundo
-real, que mais tarde vim a conhecer, como aquelles sonhos
-de madrugada, que nos accodem quando não dormimos
-de todo e quando não estamos acordados ainda,
-se distinguem da vida commum e dos acasos de todos
-os dias.</p>
-
-<p>Passava horas e horas a formar castellos no ar, vagos,
-indefinidos, indeterminaveis, e evocando phantasmas
-de mundos que eu não conhecia, mas que adivinhava.
-Dentro em pouco de tal fórma me costumei á
-reflexão e ao apartamento, que fugia de todos nas horas
-que tinha livres, para ir sentar-me sósinho a sonhar e
-a scismar.</p>
-
-<p>Apontavam-me no convento como modelo de bom
-porte, e diziam os frades aos meus companheiros que<span class="pagenum"><a id="Page_208"></a>[208]</span>
-o amor do estudo e da reflexão me traziam assim embevecido.</p>
-
-<p>Não lhe sei dizer, o que me preoccupava, mas não era
-de certo o amor do estudo, nem o desenvolver da vocação
-monastica, como a vaidade dos frades lhes fazia
-suppôr. Tão entranhado estava em mim o amor da solidão,
-que nas raras vezes, em que ia visitar os meus,
-pouco me demorava em casa. Debalde a sollicitude materna
-me procurava deter; em vão, meu pae mesmo,
-posto que pouco dado a ternuras, me dizia que era conveniente
-de quando em quando descançar algum tempo;
-trabalho perdido era o de meu irmão em convidar-me
-para os divertimentos dos outros rapazes; mal saia
-do meu convento, desejava logo recolher, e estava fóra
-da minha cella, como o peixe fóra d’agua. Porque dir-lhe-hei
-de passagem, a estima de Fr. João fizera com
-que eu residisse n’um quarto junto do seu, e não no
-dormitorio commum com os outros educandos e noviços.</p>
-
-<p>Oxalá tivesse eu ficado por uma vez n’aquella sepultura!</p>
-
-<p>Se não fossem as visitas a minha casa, talvez não
-tivesse experimentado na minha vida o que era amor;
-mas tambem não teria comprado á custa de tormentos
-indisiveis essas raras e amarguradas horas de sentir
-apaixonado.</p>
-
-<p>N’estas alturas da sua historia o tio Joaquim limpou
-o suor que lhe corria a fio da testa, curvou-se para a
-lapasinha proxima, tomou uma pouca d’agua nas mãos,
-bebeu soffregamente; renovou a respiração umas poucas
-de vezes com força; carregou outra vez o cachimbo,
-accendeu-o e passado algum tempo proseguiu na
-sua narração.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_209"></a>[209]</span></p>
-
-<h3>III</h3>
-
-<p>Estudos que mais me preocupavam tinham feito com
-que, havia muito, não fosse visitar os meus. Devendo
-em breve tomar ordens de prima tonsura, este successo,
-que fatalmente determinava a minha vida trouxera-me
-entretido, não poucos mezes. Finalmente déra o primeiro
-passo solemne, e por conselho de Fr. João, parti
-a congratular-me com meus paes, da conquista que alcançára:
-e a viver por algum tempo a vida de familia
-antes que de todo me apartasse do mundo.</p>
-
-<p>Parti; e com a indifferença que de mim se apoderára,
-desde que me haviam destinado para o convento, passei
-os humbraes d’aquellas portas que então já eram minhas,
-e que não se me poderiam cerrar mais de todo,
-embora quizessem.</p>
-
-<p>Grandes alegrias havia em minha casa. A minha chegada
-encareceu-as mais ainda. Meu irmão estava breve
-para casar e a sua escolha fôra tanto do agrado de
-meus paes, que os bons velhos não cabendo em si de
-contentes não achavam mimos que lhe parecessem bastantes
-para com elles cercar a esposa futura de seu
-filho.</p>
-
-<p>Margarida era o que em linguagem commum se chama
-um bom casamento.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_210"></a>[210]</span></p>
-
-<p>Filha unica devia herdar de seus paes uma fortuna
-consideravel. Os seus haveres juntos aos bens de minha
-casa formariam a primeira propriedade da provincia.</p>
-
-<p>Sorria a opulencia a meus paes e embevecia-os a
-contemplação de um futuro placido e desassombrado de
-cuidados.</p>
-
-<p>Vi Margarida, e ao vêl-a, ao trocar com ella as primeiras
-palavras conheci, que tinha no peito coração, e
-que me corria o sangue dos vinte annos nas veias tremulas
-e agitadas.</p>
-
-<p>Margarida aproximava-se tambem dos vinte annos,
-mas toda a candura infantil fulgurava n’aquelle rosto,
-que não desabrochára ainda. Não tornei, por vida minha,
-a encontrar olhos que mais dissessem ao coração,
-quando mesmo quasi sem querer fallar se volviam serenos
-entre um denso veu de pestanas compridas e encurvadas.
-Toda a sua formosura estava nos olhos, mas
-esses não cediam em primores a quantos hei visto em
-mulher ou em pinturas. Fazia vontade de chorar olhar
-para elles, sentia se devoção fitando-os muito. Porque
-não ha como a mulher para nos fallar do ceu, de Deus,
-das coisas sagradas. Se creaturas assim corressem
-mundo a resgatar almas, se para os mais apartados da
-religião dirigissem um olhar d’aquelles dizendo magua,
-enthusiasmo e amor, e depois d’ahi os volvessem ao
-ceu como rasgar caminho para a alma renitente, não
-haveria atheu que resistisse, nem coração que se não
-dobrasse.</p>
-
-<p>Vendo Margarida lembrava-me do ceu, lembrando-me
-do ceu, accudia-me que professára votos que me
-condemnavam a um perpetuo celibato. Um circulo de
-espinhos me apertava a imaginação: e padecia, como
-nem os condemnados no inferno poderiam padecer assim.</p>
-
-<p>Com a candura de creança Margarida reconheceu-me
-desde logo como seu irmão. Não houve segredo que em<span class="pagenum"><a id="Page_211"></a>[211]</span>
-mim não depositasse, esperança que me não dissesse,
-planos de futuro sobre que me não ouvisse, queixumes
-de meu irmão, que comigo não lastimasse.</p>
-
-<p>Filippe casava porque tinha de casar, estimava Margarida
-como podia estimar uma irmã ou uma parenta,
-e nada mais. Margarida ao contrario não via, não suppunha,
-que podesse haver homem, que valesse o seu
-noivo. Amava-o com a cegueira, com o arrebatamento,
-com a loucura de um primeiro amor.</p>
-
-<p>Não imagina como padeci com essas confissões arrebatadas,
-que me denunciavam um mundo de felicidades,
-que nem sequer entrevêra. Não imagina que dôr
-tão funda me ia direita ao coração, quando ella animada
-por aquelle amor que a aquecia e transformava, olhando-me,
-com as suas mãos nas minhas, com o seu halito
-a confundir-se com o meu, transfundia-me a electricidade
-que irradiava, e descrevia-me o amor que lhe
-chammejava na alma.</p>
-
-<p>Deixava-a como louco e ia, quantas vezes sósinho,
-de noite, correr por aquelles descampados, andar muito
-sem saber por onde, cançar o corpo para descançar o
-espirito, e para depois, cedendo á fadiga, poder cerrar
-os olhos por algumas horas e tentar um somno mais
-attribulado mesmo do que fôra a propria vigilia.</p>
-
-<p>Envelheci muito n’aquelles dias que duraram até ao
-casamento de meu irmão. Via approximar-se a epocha
-e não acreditava, não sei que louca esperança, não sei
-que desvario me dizia que tal casamento se não chegava
-a realisar. Parecia-me um sacrilegio, que tanto
-amor fosse empregado em tanta indifferença, parecia-me
-impossivel que Deus consentisse em tal.</p>
-
-<p>Sacrilegio era o meu amor, sacrilegio duas vezes,
-por que era de padre e porque era por uma irmã.</p>
-
-<p>Pelo modo como o tio Joaquim narrava a sua historia
-conhecia eu quanto elle teria padecido, e bem conforme
-ao que disséra antes de começar, presentia que
-outros tormentos deveria haver maiores do que as minhas<span class="pagenum"><a id="Page_212"></a>[212]</span>
-duvidas e incertezas sobre o futuro, do que os
-meus sonhos e aspirações.</p>
-
-<p>Chegou entretanto o dia, proseguiu o velho, e não
-sem que a estrada dolorosa tivesse sido para mim bem
-cheia de agonias e de provações. Margarida não suspeitou
-nunca quanto eu a amava, nem sob o gelo apparente,
-em que a tanto custo me sepultava, poude
-perceber os ardentes lumes de um amor desvairado.
-Occasiões houve em que rasgava o peito com as unhas
-até fazer sangue, em que tremia em convulsões para
-resistir, em que me exforçava com sobrehumano impeto
-para não desatar em suluços; outras em que tive
-de fugir para evitar a sua presença, porque já não podia
-luctar com o impulso que me arrojava para os seus
-pés a dizer-lhe quanto a amava.</p>
-
-<p>E tive de assistir impassivel a todos aquelles pormenores,
-que me fallavam da felicidade futura de ambos,
-tive de escutar as singellas narrações de Margarida
-sobre todas essas minuciosidades, que me retumbavam
-na cabeça com estridor horrivel, porque em todas
-ellas descortinava, ou pretextos para uma caricia,
-ou commodos para um transporte, ou logar finalmente
-para aquelles dôces e para mim desconhecidos mysterios
-do thalamo nupcial.</p>
-
-<p>Os primeiros clarões da alvorada no dia do casamento,
-encontraram-me accordado ainda. Na vespera
-mesmo não acreditava que podesse chegar: via raiar
-a manhã e cuidava estar sonhando. Pois Margarida havia
-de casar!</p>
-
-<p>Minha familia, sem comprehender nem de leve, porque
-não recata mais cuidadosamente a abelha os seus
-lavores do que eu escondera de todos e de tudo o meu
-insensato amor, minha familia, digo, só experimentava
-uma pena: não ser eu quem casasse meus irmãos,
-porque a minha benção, cuidavam os credulos paes,
-havia de forçosamente attrahir felicidades sobre os esposos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_213"></a>[213]</span></p>
-
-<p>Na verdade seria o ultimo sacrificio, depois do qual
-poderia dizer a Christo: tambem sei o que é o Golgotha!</p>
-
-<p>Pareceu-me tudo um pesadello, persuadi-me que
-acordaria breve de tão cruel illusão. Vi, ouvi, fallei, dirigiram-me
-perguntas, tornei respostas, e não soube
-nem sei ainda o que vi, o que ouvi, o que me perguntaram
-e como respondi. Dizem que pessoas ha que
-dormindo andam e fallam, assim devia ser o estado em
-que estive todo o dia.</p>
-
-<p>Mal poude fugir á noite, corri, corri, e quando me
-vi bem longe, desatei a chorar como me não lembrava
-em minha vida de ter chorado assim. Parecia que me
-estallava a alma n’aquelles soluços, mas ao correr das
-lagrimas um grande peso saia de sobre mim. Não sei
-como, mas chorando sempre achei-me de repente deante
-das janellas do quarto de Filippe. Estavam illuminadas,
-fitei-as com o pavor com que daria de rosto com a entrada
-do inferno; vi passar dois vultos por dentro das
-vidraças, reconheci-os e com a razão de todo perdida
-atirei comigo a terra, agarrei com ambas as mãos a
-cabeça, e comecei a bater com a testa, como desesperado
-de encontro ao chão.</p>
-
-<p>Com a força da dôr perdi os sentidos e para alli fiquei
-banhado em sangue, até que os raios do sol, já
-bem alto, me fizeram tornar em mim. Olhei machinalmente
-para a janella. Estava cerrada ainda; senti nova
-vertigem mas d’essa vez, sem me lembrar que ia banhado
-em sangue deitei a correr, o mais rapido que
-podia, em direcção do meu convento.</p>
-
-<p>Disse que uma quéda no caminho me fizera o sangue
-que trazia, e facilmente me acreditaram. A verdade,
-se o dissesse, é que fôra para duvidar.</p>
-
-<p>Encerrei-me na minha cella, pretextei uma doença
-para não sair e pedi ao meu bom mestre, que me
-ouvisse de confissão. Contei-lhe a minha historia, tal
-como se passára n’esses dias e pedi-lhe que me accudisse,<span class="pagenum"><a id="Page_214"></a>[214]</span>
-pois que não sabia de mim. Ouviu-me o santo
-velho com lagrimas nos olhos, depois:</p>
-
-<p>—«Deus me perdôe se errei, disse-me, e mais ainda
-se fiz a tua infelicidade, Joaquim, chamando-te para o
-serviço do Senhor. Mas era impossivel que assim não
-fosse. Ha homens condemnados fatalmente pela desgraça,
-e tu és um d’elles. Lê-se no rosto esse infeliz
-condão, adivinhei-t’o eu, que tambem sei o que é padecer.</p>
-
-<p>Para dôres como a tua, para outras bem maiores
-ainda, se fizeram as solidões dos claustros e o gelo
-d’estes vastos carneiros. Sepulta para ahi a tua alma,
-emquanto não te sepultam o corpo, sob essas lages que
-hoje calcas, e morre já que foste condemnado a não
-viver. Não julgues cruel esta linguagem, é a que te
-póde fallar um amigo, quasi um pae.—O que sômos
-nós outros, pobres frades, n’este mundo? Fantasmas
-erradios que arrastamos a mortalha em vida, arrebentos
-solitarios, que medrâmos entre pedras. Para nós
-não ha familia, não ha esposa, não ha filhos, tudo que é
-morre comnosco, nada deixamos n’este mundo, que se
-lembre de que vivemos.</p>
-
-<p>Mais um numero n’uma pedra, um nome no livro do
-registro, alguns ossos mais n’uma cova. Torna impenetravel
-o teu tumulo, calafata com o maior cuidado qualquer
-orificio por mais pequeno que seja, que dê para
-o exterior, e já que nada podemos ter com o mundo
-aparta-te d’elle de todo.</p>
-
-<p>Já que não pódes ser feliz esquece, já que não pódes
-gosar, não sintas.»</p>
-
-<p>Segui á risca o seu conselho. Graças á sua protecção
-deixaram me na minha cella, mesmo porque, segundo
-dizia, assim me preparava pelo estudo e pela meditação
-para ordens maiores. Passou um anno. Trabalhei,
-estudei muito e como disse Fr. João da Soledade, se
-não fui feliz, não senti; não me lembrei e não padeci.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_215"></a>[215]</span></p>
-
-<h3>IV</h3>
-
-<p>O reinado de D. Miguel approximava-se da sua terminação,
-e a tempestade, que se formára n’uma pequena
-ilha no meio do oceano, rebentára já sobre todo
-o paiz.</p>
-
-<p>Armava-se a nação em peso; guerrilhas de um e
-outro partido percorriam as povoações e juntavam aos
-horrores da guerra civil o assassinato, o roubo, o incendio,
-o forçamento e o sacrilegio.</p>
-
-<p>Bem esmorecido era o ecco, que na minha cella repercutia;
-mas ainda assim por elle avaliava das borrascas,
-que se desencadeavam fóra. Por quanto ainda
-que procurasse apartar-me das coisas d’este mundo,
-por tal fórma andavam todos preoccupados com os acontecimentos,
-que se iam succedendo uns após outros
-com rapidez incrivel, que era impossivel deixar de perceber,
-que havia graves casos, a attribularem a humanidade.</p>
-
-<p>Fallaram-me de combates, de mortes, de incendios,
-de devastações; mas tal eu estava, que me era tudo
-indifferente. Antes, porém, occasiões havia em que, confesso-lh’o,
-desejava que um terremoto subvertesse o
-mundo para que na geral destruição encontrasse vingança
-correspondente ao que me haviam feito padecer.</p>
-
-<p>Acordei das minhas meditações uma noite, ao rebate<span class="pagenum"><a id="Page_216"></a>[216]</span>
-dos sinos da povoação proxima e ao dobrar sinistro
-e precipitado da campa do nosso convento. Ruidos
-desusados eccoavam por aquellas abobadas, passos de
-quem fugia, vozes de quem pedia soccorro, supplicas,
-choros, imprecações tudo se misturava e confundia.</p>
-
-<p>Estava para me levantar do estudo e para saber a
-causa de semelhante alvoroto; quando a figura magestosa
-de Fr. João da Soledade me appareceu á porta da
-cella aberta de par em par.</p>
-
-<p>—Ergue-te, Joaquim, disse-me, toma as tuas sandalias
-e o teu bordão de viajante e caminha!</p>
-
-<p>Aquella voz fóra d’horas, aquellas palavras solemnes
-produziram-me effeito não inferior ao que deverá produzir
-a trombeta final no Valle de Josaphat.</p>
-
-<p>—Que quer de mim, meu pae?</p>
-
-<p>—Acabaram-se os dias de paz, chegaram as horas
-das provações e da lucta. Os servos do Senhor são perseguidos
-de terra em terra como animaes ferozes em
-montaria. Os impios não respeitam nem as abobadas
-sagradas, nem os vasos da eucharistia. Mesmo com a
-hostia sacrosanta na mão será o padre perseguido se
-assim o encontrarem!</p>
-
-<p>A espada de Malco substitue a palavra de amor.
-Volta a egreja aos tempos da perseguição e do martyrio;
-segue-nos, Joaquim, as aguas do diluvio avançam
-cada vez mais.</p>
-
-<p>Fr. João estava profundamente impressionado. A paixão
-politica ateava-lhe o zelo religioso, o homem do
-seculo trazia para junto dos altares as suas affeições
-mundanas, e das crenças fazia evangelhos. Pela minha
-parte, quasi que o não comprehendia. A linguagem
-emphatica, que estava empregando, destoava muito da
-singelleza em que educára o meu espirito reflexivo e
-concentrado. Fr. João com o olhar chammejante, o
-gesto altivo, o rosto illuminado por um enthusiasmo
-mais guerreiro do que apostolico, lembrava-me um
-d’aquelles monges prégadores de eras affastadas, que<span class="pagenum"><a id="Page_217"></a>[217]</span>
-a minha imaginação tivesse feito surgir dos livros abertos
-deante de mim, e que de espada na mão direita,
-e crucifixo na esquerda, queriam abrir o caminho da
-redempção com o ferro destruidor, atravez das hostes
-dos infieis.</p>
-
-<p>—Mas, meu pae, que aconteceu?</p>
-
-<p>—Aconteceu, que os exercitos invasores se approximam
-talando campos e povoações; aconteceu, que na
-sua marcha amaldiçoada não ha propriedade que resista,
-cabellos brancos que se respeitem, honra de
-mulher que se recate; aconteceu que aos que cedem,
-espoliam; aos que não cedem, assassinam; aconteceu,
-que fallam em levantar mão sacrilega contra as muralhas
-defesas a profanos d’este venerando templo. Os
-phariseus em motim pedem o sangue dos justos. Deixemos
-a habitação de paz, d’onde nos expulsa a malevolencia
-dos impios, e vamos, como os apostolos, de
-terra em terra, de monte em monte, de caverna em
-caverna, onde suas vozes não cheguem, onde seu braço
-não alcance, levantar sobre a pedra tosca e rude a cruz
-do sacrificio, a hostia da redempção. Vem comnosco
-filho, vem percorrer o teu Getsemani.</p>
-
-<p>Entretanto o sino grande continuava a dobrar com
-som soturno, os gritos da povoação disperta em sobresalto,
-os passos precipitados dos frades, que desamparavam,
-gemendo, as cellas em que haviam vivido por
-tanto tempo, e onde esperavam descançar para sempre,
-o som ameaçador e irregular de um tiroteio ao longe,
-davam áquella scena um caracter que impressionava
-profundamente. Pela minha parte, parecia-me que um
-novo pesadello me vinha cortar a somnolencia em que
-demorava havia tanto; resistia ao movimento e prostrado
-de animo e de corpo, preferia que me matassem
-n’aquelles logares a ir tentar nova sorte, n’esse mundo
-a que tinha tão grande horror.</p>
-
-<p>Fr. João, que nos momentos solemnes parecia transformar-se,
-approximou-se de mim, tomou-me por um<span class="pagenum"><a id="Page_218"></a>[218]</span>
-braço, fez levantar-me contra minha vontade, e bradou-me
-com voz terrivel:</p>
-
-<p>—Serás tão ingrato, que desampares teus irmãos
-no momento do perigo? Aqueceria eu por ventura a
-serpente no meu seio?—Seria a prova mais cruel,
-porque te quero como filho; mas bem merecido castigo,
-por ter deposto a minha ternura n’essa vil argila.
-Fica-te para ahi, e fique a minha maldição comtigo.</p>
-
-<p>E com tanta força me abalou, que me ia lançando
-por terra. Firmei-me porém, e respondi-lhe:</p>
-
-<p>—Não, meu pae, não sou ingrato. Seguil-o-hei como
-a sombra segue o corpo, como a alma segue o pensamento.
-Era o aspecto do mundo que me espavoria;
-voltára tão mal ferido do combate, que não seria para
-extranhar que vacillasse agora antes de vestir de novo
-as armas. Sabe meu pae, que me não arreceio nem da
-morte nem das provações; mas sabe tambem quanto
-me custa ir fitar de novo essa gente, que tão grandes
-males me causou. Eis porque hesitava. Aqui me tem
-prompto para tudo, e creia que me não apartarei do
-seu lado.</p>
-
-<p>O velho estendeu-me os braços, e com as lagrimas
-nos olhos:</p>
-
-<p>—Sempre o acreditei assim, meu filho: abracemo-nos,
-que talvez seja esta a ultima vez. Agora a caminho!
-Vamos reunir-nos a nossos irmãos e infundir-lhes
-a coragem, que nos fallece. Irmão, filho; meu filho,
-animo.</p>
-
-<p>Como um rebanho de ovelhas, que ao presentir o
-lobo se reunem em mó, e se apertam tanto, como se
-umas quizessem entrar nas outras; assim os frades se
-apinhavam junto ás portas do convento, espavoridos,
-tremulos, espalhando vistas atterradas para todos os
-lados, e escutando os pavorosos sons d’alarme, que estrugiam
-os ares.</p>
-
-<p>Fr. João da Soledade assumira na communidade a
-preponderancia, que a intelligencia forte e arrojada<span class="pagenum"><a id="Page_219"></a>[219]</span>
-exerce sempre n’uma corporação naturalmente timida
-e indecisa. A sua presença serenou por um pouco os
-animos.</p>
-
-<p>Procurando dar á voz uma entoação firme, cuidou o
-velho em confortar os seus companheiros n’aquelle extremo
-lance, com esperanças de melhor futuro; em que
-elle acreditava menos do que ninguem.</p>
-
-<p>As ultimas palavras porém, foram cobertas pelos clamores
-de victoria, pelos gritos de angustia e pelos tiros
-de espingarda, cujos sons misturados e confundidos
-pareciam precipitarem-se sobre nós em turbilhões e
-redemoinhos como o vento da tempestade.</p>
-
-<p>Os religiosos estremeceram, e pensaram em fugir
-cada um por seu lado, a voz de Fr. João mais fortalecida
-e mais segura, tal era o poder da vontade n’aquella
-alma de ferro, alentou-os por momentos; entretanto os
-clarões do incendio tingiam de vermelho o céo e o rasto
-do fogo annunciava a approximação dos guerrilhas.</p>
-
-<p>Em pouco avistaram-se no cimo de um monte proximo
-os inimigos, deante dos quaes fugiam em debandada
-alguns miliciannos da terra, que por momentos
-tinham pensado em bater-se. Um grito unisono partiu
-da bocca das creanças e das mulheres, ao verem approximar-se
-aquelles homens sem piedade, avidos de
-sangue e de exterminio; os frades transidos de medo
-entoaram, erguendo os braços aos céos em signal de
-entranhada angustia, o psalmo dos agonisantes.</p>
-
-<p>As primeiras palavras denunciaram aos guerrilheiros
-a nossa presença; ouvimol-os distinctamente clamar:—a
-elles, aos mandriões dos frades,—e apontaram as
-espingardas.</p>
-
-<p>Ao vêl-os fazer pontaria Fr. João exclamou rapido:</p>
-
-<p>—Por terra, prostemos-nos, irmãos, senão estamos perdidos!
-Os frades obedeceram immediatamente; o susto
-mesmo deitava-os no chão; os tiros partiram; mas as
-balas silvaram por cima das nossas cabeças, e uma só
-feriu um dos religiosos, que tinha ficado mais distante.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_220"></a>[220]</span></p>
-
-<p>Passada a descarga ergueram-se todos, e como bando
-de pombas a que atirou o caçador, deitaram a fugir
-em diversas direcções, caindo, erguendo-se, de rastos,
-gritando, gemendo, mas correndo quanto podiam.</p>
-
-<p>Junto ás portas do convento desamparado, só ficavamos,
-depois da primeira descarga dos guerrilheiros,
-Fr. João da Soledade e eu.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_221"></a>[221]</span></p>
-
-<h3>V</h3>
-
-<p>Entrados apenas na povoação, começaram os guerrilheiros
-a saquear e a devastar tudo. Do logar, em
-que estavamos, podia-se conhecer de seus movimentos
-pelo vaguear dos archotes, pelo soltar de gritos afflictivos,
-e pelas columnas de fumo, que se ennovellavam
-aqui e além, sobre os telhados das habitações a que
-lançavam fogo, quando a preza os não satisfazia.</p>
-
-<p>A lembrança de Margarida, que não me tinha desamparado
-nunca, confesso-lh’o, nem mesmo quando
-mais fervorosas supplicas levantava ao céo, accudiu-me
-ao pensamento.</p>
-
-<p>—Meu pae, exclamei, fujamos, antes que caiam sobre
-o convento e nos surprehendam aqui; sigâmos pela
-estrada, que vae por fóra da povoação, e vejamos se
-podemos, esta noite ainda, chegar a nossa casa, avisaremos
-depois sobre o que temos que fazer.</p>
-
-<p>—Vamos, filho, e o Senhor se compadeça de nós.</p>
-
-<p>Não era o amor á vida que me apartava d’aquelles
-logares. Por minha vontade ficaria sepultado sob as
-ruinas do convento e fizera da minha cella um sepulchro.
-Mas a essas horas quem sabe o que seria de
-Margarida! Tremia só de o pensar, e o quadro que tinha
-ante os olhos mais me apavorava ainda; porque<span class="pagenum"><a id="Page_222"></a>[222]</span>
-d’ahi concluia dos horrores, que ella poderia ter presenciado,
-se é que d’elles não tivesse sido victima.</p>
-
-<p>Não imagina nem por sombras o que seja uma guerra
-civil. Por muito que lhe contem, tudo fica muito abaixo
-da realidade. Aquella porém era guerra de exterminio.</p>
-
-<p>Desencadeavam-se odios, que estavam em incubação,
-havia dezenas de annos. Aggrediam-se visinhos, parentes,
-amigos e irmãos, e aggrediam-se tanto mais cruelmente,
-quanto melhor sabiam, onde haviam de ferir.
-Não poupavam ninguem, não havia recanto que valesse,
-não havia esconderijo que salvasse, não havia nem
-idade, nem sexo, que pozessem a coberto do insulto,
-da affronta, da violencia, tanto mais crueis quanto partiam
-dos que dois dias antes comiam á mesma mesa,
-e bebiam no mesmo copo.</p>
-
-<p>Ao romper da manhã estavamos deante da casa de
-meu pae. Tinham-me preparado para terriveis surprezas
-as scenas, que presenceára pelo caminho; o que
-vi, porém, sobrelevou muito ao que eu esperava.</p>
-
-<p>Tudo em terra, tudo saqueado, tudo roubado, e os
-cadaveres de meu pobre pae e de minha velha mãe a
-meio da casa, crivados de feridas...</p>
-
-<p>As lagrimas suffocaram o velho narrador, que teve
-de descançar por momentos antes de poder proseguir.</p>
-
-<p>—Descance, tio Joaquim, disse-lhe já quasi arrependido
-da minha indiscreta curiosidade, não continue,
-custa-lhe tanto... Outra vez me contará o resto.</p>
-
-<p>—Não, para quê? Tem de ser. Não é o contar que
-custa, é lembrar; e raras vezes me esqueço. Isto já
-passa, um momento de descanço e continúo.</p>
-
-<p>Tinham entrado em casa, e dado rigorosa busca para
-encontrarem os thesouros; que, segundo era fama na
-terra, havia em casa. Desesperados por não acharem
-o que esperavam, voltaram-se contra os dois velhos,
-que por mais que quizessem não os podiam satisfazer;
-por quanto apenas havia começado a guerra tinham escondido
-n’outra parte o seu dinheiro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_223"></a>[223]</span></p>
-
-<p>Não lhe acreditaram nos juramentos, e mataram-nos
-barbaramente para se vingarem das suas negativas.</p>
-
-<p>—E Margarida?</p>
-
-<p>—Havia dias que partira para uma fazenda d’ali
-distante em companhia de meu irmão, salvára-se da
-morte, e da deshonra.</p>
-
-<p>—Pois quê?...</p>
-
-<p>—A tudo se atreviam aquelles homens implacaveis.
-Não havia barreira que se lhe puzesse deante, nem consideração,
-que os demovesse, pareciam furiosos.</p>
-
-<p>Pela convivencia soube o que eram esses desalmados,
-a quem o amor da patria servia de pretexto, e o
-amor da rapina estimulava unicamente.</p>
-
-<p>—Pois o tio Joaquim?...</p>
-
-<p>—Fui guerrilheiro tambem. A vista dos cadaveres
-de meus paes operou em mim uma revolução pavorosa.
-Tive sêde de sangue, de destruição, de vingança.
-Enterrei os dois velhos sem derramar uma só lagrima.
-A febre do exterminio requeimava-me por dentro, cravei
-uma cruz sobre a cova onde ficaram, unidos como
-o haviam sido sempre, e jurei que não descançaria emquanto
-tivesse forças para uma espingarda.</p>
-
-<p>Fr. João, que era perseguido tambem como lobo,
-porque todos o conheciam, juntou-se comigo; reunimos
-os mais enfurecidos do logar, aggravámos as feridas
-dos que mais haviam padecido, e levantámos uma guerrilha
-das mais afamadas n’aquelles tempos, e bem conhecida
-pelo nome de—guerrilha do frade.—</p>
-
-<p>Luctámos, luctámos com encarniçamento sem egual,
-e parecia que as forças se nos augmentavam com a
-lucta. Andei n’aquella vida errante perto de um mez,
-sem dormir uma noite somno que aproveitasse, sem
-ter duas horas de descanço, sem ter um momento sequer
-para pensar no passado, ou no futuro.</p>
-
-<p>Seguiam-se os combates, as embuscadas, as fugas,
-os ataques, sem descontinuarem, sem interrupção alguma.
-Era preciso homens de ferro para aquella vida,<span class="pagenum"><a id="Page_224"></a>[224]</span>
-e entretanto, de tal fórma o furor nos trazia incendidos,
-que ao cabo do mez parecia que mal haviamos começado.</p>
-
-<p>Um dia ao amanhecer, um dos nossos, que andava
-por fóra veiu avisar-nos de que outra guerrilha se approximava,
-da qual se contavam proezas inauditas.</p>
-
-<p>Esperámol-a e saimos-lhe a caminho, desejosos de
-nos medir com esses tão celebrados inimigos.</p>
-
-<p>Durou quatro horas o fogo, batemo-nos como desesperados
-de parte a parte, até que fugiram em debandada,
-deixando o campo juncado de cadaveres. Dos
-nossos a perda fôra consideravel tambem, e Fr. João
-agonisava com uma bala nos pulmões. Saia-lhe da bocca
-sangue e espuma, soluçava que fazia horror ouvil-o, e
-expirou-me nos braços, procurando debalde articular algumas
-palavras.</p>
-
-<p>Corremos a revistar os mortos que os contrarios haviam
-deixado insepultos. Entre os cadaveres reconheci
-meu irmão!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_225"></a>[225]</span></p>
-
-<h3>VI</h3>
-
-<p>Estava castigado do que havia feito como guerrilheiro;
-a minha campanha estava concluida. Tinha corrido
-ás armas para vingar a morte de meus paes, e
-arrojava a espingarda homicida diante do cadaver de
-meu irmão.</p>
-
-<p>Triste periodo da minha vida, entre duas sepulturas;
-e sepulturas dos meus mais proximos parentes!</p>
-
-<p>A guerra estava a acabar.</p>
-
-<p>Tinha-se assignado a convenção de Evora-Monte, por
-toda a parte os vencidos depunham as armas, e procuravam
-salvar-se das represalias pela fuga, ou pelo
-homisio.</p>
-
-<p>Caminhei sem saber como, nem por onde, para fugir
-ao ensanguentado espectro de meu irmão, que parecia
-perseguir-me, trazendo apoz si as victimas de
-quantos haviam perecido aos nossos tiros; os meus
-companheiros tresmalharam-se em diversas direcções.
-Separámo-nos, como nos haviamos reunido, sem pena
-nem saudades. Apesar de termos vivido tanto tempo
-juntos, quasi que nem nos conheciamos.</p>
-
-<p>Á noite entrei na povoação.</p>
-
-<p>Bati a uma casa, que, semelhante a sentinella perdida,
-estava mais affastada das outras. Abriram-me a<span class="pagenum"><a id="Page_226"></a>[226]</span>
-porta, soltaram um grito ao vêr-me: eu ia dando no
-chão. Reconheci Margarida.</p>
-
-<p>—E Filippe?</p>
-
-<p>Pareceu-me que assim devera ser a voz do Senhor,
-quando bradou ao primeiro fratricida:</p>
-
-<p>—Cain, que fizeste de teu irmão Abel?</p>
-
-<p>Não tive forças para negar, exclamei-lhe em resposta:</p>
-
-<p>—Morto!</p>
-
-<p>E desatei a soluçar, escondendo o rosto entre as
-mãos.</p>
-
-<p>Á minha vista parecia ter adivinhado tudo com essa
-lucidez, que dá o sentimento. Eu não podéra resistir á
-voz da consciencia, que parecia accusar-me pela bocca
-de Margarida.</p>
-
-<p>A desgraçada viuva caiu fulminada. Quando tornou
-a si tinha enlouquecido.</p>
-
-<p>Aquelle viver de sustos e de inquietações constantes
-de tal fórma lhe haviam excitado o espirito, que um
-golpe tão profundo assim rapido, quasi inesperado,
-achou-a sem forças para o aguentar. Ao menos deixava
-de padecer.</p>
-
-<p>Durou alguns mezes ainda. E tudo quanto até então
-eu tinha experimentado, poderia dizer se brinco de
-creanças comparado aos tormentos que aturei durante
-esses mezes.</p>
-
-<p>Não soube nunca onde meus paes tinham escondido
-os seus bens. Estavamos pobres, e Margarida, que se
-definhava a olhos vistos, reclamava cuidados e despezas
-que me obrigaram a vender quanto possuia, e a trabalhar
-de noite e de dia para acudir á pobre enferma.</p>
-
-<p>Amára Margarida com toda a vehemencia do primeiro
-e ultimo amor. A paixão mais energica do homem,
-a que o arroja ás maiores emprezas, ou o precipita
-até ás acções mais vis, tinha rebentado em mim
-com toda a força ao vêr aquella santa e boa rapariga.</p>
-
-<p>Aprendera com ella o que era amor, e soffrera tanto<span class="pagenum"><a id="Page_227"></a>[227]</span>
-mais, quanto via que era por outro que ella experimentava
-sentimento egual ao meu. Agora, porém, tinha-a
-a meu lado sempre; mas como morta ou peor
-ainda, porque horrorisavam e arrefeciam mais aquelles
-transportes de loucura, do que os gelos e o pavor
-da sepultura. Ouvi-a de noite e de dia chamar por um
-nome que não era o meu, e cada vez que lh’o ouvia,
-parecia que com elle, d’aquella bocca pela qual para
-que desabrochasse n’algumas palavras de amor, eu
-déra a vida, saía uma accusação, um anathema contra
-mim.</p>
-
-<p>O nome do meu rival, de quem me não podia vingar
-porque estava morto, esse nome que ouvia a todos
-os momentos, era o de meu irmão, morto pelos
-meus, talvez por mim; e eu vivia para que Margarida
-me recordasse a todos os momentos: a mesma bala
-que commettera um fratricidio, enlouquecera a unica
-mulher que havia amado.</p>
-
-<p>Adivinha o resto; nem mesmo eu teria forças para
-continuar por muito tempo.</p>
-
-<p>Margarida morreu. Eu estava só, sem meios, cercado
-de terriveis recordações. Fugi a esse mundo de
-pavorosos espectros, e vim por ahi abaixo procurar no
-trabalho o esquecimento. Tenho trabalhado; mas não
-poude esquecer ainda!...</p>
-
-<h3>VII</h3>
-
-<p>O tio Joaquim acabára de fallar e parecia ouvil-o
-ainda. Tinham ficado resoando-me as suas palavras,<span class="pagenum"><a id="Page_228"></a>[228]</span>
-como a pancada do sino depois de tangido, e que por
-muito tempo vae abalando o espaço.</p>
-
-<p>Já de muito anoitecera. Com a noite começára a carregar-se
-o céo, a encapellar-se o mar, a desencadear-se
-o vento. Rugia a tempestade, quando o velho concluiu.
-O ribombo do trovão abafou-lhe as ultimas palavras.
-A natureza parecera querer accrescentar um
-côro magestoso áquella eloquente manifestação.</p>
-
-<p>Lancei os olhos em roda; levantei-me, dei o braço
-ao narrador, e começámos a descer pela encosta com
-extrema difficuldade, porque já fazia muito escuro.</p>
-
-<p>O tio Joaquim não dava por coisa alguma, deixava
-conduzir-se como uma creança. Não parecia d’este
-mundo.</p>
-
-<p>Ao voltar para uma azinhaga que no fim da praia
-cortava para a estrada, volvi os olhos para o mar, que
-cada vez se embravecia mais, e vi á luz de um relampago
-o sitio, onde sentado havia pouco, tinha ouvido a
-historia do velho.</p>
-
-<p>Comparei aquellas duas tempestades: a que ribombava
-surdamente na alma do velho, e a que estalava
-nos ares levantando em escarceus a agua do mar, e
-varrendo a terra com o furioso soprar do furacão.</p>
-
-<p>Quanto era superior o padecimento do velho!—E
-entretanto d’ali a poucas horas a natureza descançava
-d’aquella convulsão violenta; mas o tio Joaquim continuava
-a padecer, suspirando pela tardia hora do repouso.</p>
-
-<p>Só a natureza póde descançar porque é immortal;
-para o homem o descanço chega, apenas, quando lhe
-começa a immortalidade.</p>
-
-<p>Finalmente o tio Joaquim tambem descançou.</p>
-
-<p class="titlepage">FIM</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="footnotes">
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 class="nobreak">NOTAS</h2>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> Na manhã do dia seguinte áquelle, em que este pequeno
-conto apparecia publicado, recebia o auctor uma
-carta do sr. A. F. de Castilho, em que dizia: <i>amigo, pelos
-seus retratos de familia receba um bom abraço do seu
-etc., etc.</i> Estas poucas palavras valeram para a pessoa a
-quem se dirigiam, mais do que largos e empolados juizos
-criticos. Regista-as aqui, não por vaidade, não por desvanecimento;
-mas só como um testemunho da verdadeira
-estima e profunda gratidão, que tributa ao grande poeta.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> S. Lucas—Cap. 6.º—V.º 25 e 26.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> S. Matt.º Cap. 6.º V.º 28 30 31 32 33 34.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Os contos do tio Joaquim, by
-Rodrigo Botelho da Fonseca Paganino
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS CONTOS DO TIO JOAQUIM ***
-
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-because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
-people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
-To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
-and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
-Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
-http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
-permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
-Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
-throughout numerous locations. Its business office is located at
-809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
-business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
-information can be found at the Foundation's web site and official
-page at http://pglaf.org
-
-For additional contact information:
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To
-SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
-particular state visit http://pglaf.org
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations.
-To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
-
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
-works.
-
-Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
-concept of a library of electronic works that could be freely shared
-with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
-Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
-
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
-unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
-keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
-
-
-Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
-
- http://www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-
-
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-
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