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You may copy it, give it away or -re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included -with this eBook or online at www.gutenberg.org/license - - -Title: Os contos do tio Joaquim - -Author: Rodrigo Botelho da Fonseca Paganino - -Release Date: September 27, 2020 [EBook #63317] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS CONTOS DO TIO JOAQUIM *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - - - - - -15.º VOL. DA COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA - -OS CONTOS DO TIO JOAQUIM - - - - -[Illustration: RODRIGO PAGANINO] - - - - - COLLECÇAO ANTONIO MARIA PEREIRA - - RODRIGO PAGANINO - - OS CONTOS DO TIO JOAQUIM - - 3.ª EDIÇAO - - [Illustration] - - LISBOA - PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA - LIVRARIA EDITORA - _50, 52, Rua Augusta, 52, 54_ - 1900 - - Typographia da Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA - _11, Beco dos Apostolos, 1.º_ - - - - -INDICE - - - Prefacio da 2.ª edição 5 - - I—O tio Joaquim 13 - - II—O romance de um sceptico d’aldeia 21 - - III—A proposito da missa do dia 37 - - IV—Os domingos de fóra da terra 49 - - V—Os retratos de familia 59 - - VI—O fructo prohibido 69 - - VII—A gallinha da minha visinha 95 - - VIII—O guarda do cemiterio 107 - - IX—Como se ganha uma demanda 133 - - X—O sexto mandamento 155 - - XI—O Thomaz dos passarinhos 173 - - XII—A historia do narrador 199 - - - - -PREFACIO DA 2.ª EDIÇÃO - -Rodrigo Paganino e a critica - - -Um livro apparece, ao fugir do anno! Quando o sol está descoberto, quando -tudo se cala no campo, como se o frio gelasse os menores ruidos, quando -um somno lethargico se apodera das plantas, e as esperanças, a alegria, -as flôres desapparecem da terra, um mancebo atira aos destinos o seu -primeiro livro, atravez dos nevoeiros de dezembro! - -Depois, como se fosse ainda pouco esta especie de ironia á sorte, _habent -sua fata libelli_, declina a gloria de auctor sobre um pobre homem a quem -conhecera em tempos, e que não tinha de litterato senão saber guiar uma -junta de bois, conduzir a rabiça de um arado, ser grande menino na poda -e na empa, e, para fazer um pé de lagar ou erguer uma meda de pão, dar -conselhos apenas comparaveis aos do _Archivo Rural_! - -Tio Joaquim se chamava esse amigo, que, depois de narrar muitas historias -a Rodrigo Paganino, lhe disse poucos momentos antes de morrer:—«Agora -acabaram-se os contos. Lembre-se de mim quando se lembrar d’elles; é a -herança que lhe deixo.» Para outro qualquer, este legado teria algum -parentesco com o de Rebollo pae, que na hora extrema concedia a seu filho -a certeza de lhe deixar uma boa cabeça; mas Rodrigo Paganino, para honrar -a memoria do velho, entendeu que devia dos contos d’elle fazer um bom -livro, e foi o que fez! - -Ha qualidades n’esta obra que bastam por si sós para firmar a reputação -de um escriptor. Um estylo espontaneo, claro, sem arrebiques nem -pretenções, mas airoso, facil, cheio de côr, de propriedade, e, o que -mais é, de razão. Conhece-se apenas que é um mancebo quem escreve, pelos -dotes de imaginação, pela graça das divagações, pelo tom breve das -phrases; a idéa é sempre séria, prudente, exacta. Não se deixa levar -de extravagancias que tendam a affectar excentricidade; é excentrico -ás vezes sem se sentir, excentrico com chiste, excentrico com feição. -Não planeia os effeitos, não prepara a phrase final, não hesita ante -um adverbio por ser commum; concebe a acção, dispõe-a, depois deixa-se -ir escrevendo, com uma rapidez, com uma veia, com uma facilidade de -elaboração, que julga sentir-se a penna a conduzil-o, em vez de o sentir -a conduzir a penna. E isto é o que dá a principal individualidade do -livro, é este o segredo d’aquella maneira regular e serena, que só -procura encantos na sua simplicidade. Faz-me lembrar os primeiros -livros d’Alphonse Karr, em que elle escrevia ao publico como a um amigo -desconhecido, cheio de familiaridade e de confiança. Rodrigo Paganino é -d’esta familia de talentos; não procura impôr-se ao leitor; simplesmente -trata de se identificar com elle. O merecimento dos _Contos do tio -Joaquim_ não consiste na maior ou menor novidade da fabula, nos effeitos -de surpreza mais ou menos habilmente preparados, mas na pintura dos -caracteres e dos costumes. Cada um dos seus personagens é desenhado com -tanta espontaneidade, que fica vivo, real, palpavel, e toma o seu logar -n’esta grande familia de seres creados pela arte, mais verdadeiros do -que a verdade, particulares e geraes, individuaes e humanos, corpos de -carne transfigurados em estatuas. Ha escriptores para quem a rapidez de -trabalho é uma condição favoravel, e com o auctor d’este livro julgo -dar-se este caso; se elle escrevesse com uma pachorra de academico, faria -talvez um livro indigerivel. O seu estylo é claro, preciso, e franco; e, -a exceptuarmos algumas raras passagens em que apparece o auctor, cada -personagem falla perfeitamente a linguagem do seu caracter. - -Encontrei-me com o auctor dos _Contos do tio Joaquim_, ao entrarmos na -vida; fizemos aulas juntos, e juntos fizemos versos; tinhamos quinze -annos então:—hoje encontramo-nos de novo, cada um de nós, como outr’ora, -com o seu livro na mão, mas a differença é que do livro que levamos hoje -somos nós o auctor! Isto é mau, ou, pelo menos, bom não é. Mais valia -talvez ser estudante ainda. Ao vêr-se no frontespicio de uma obra o nome -do que a escreveu, qual de vós cogita que foi á força de trabalho, de -paciencia, de miseria supportada heroicamente, de privações e de luctas -de toda a especie, que ao fim de alguns annos, ao vencer os ataques da -critica e as invectivas da inveja, teve um homem o direito de escrever -o seu nome na primeira pagina de um volume, esquecendo-se de que o -injuriaram no seu talento, na sua vida, no seu coração, e que o seu peito -serviu de alvo luminoso ás flechas atiradas de noite por uma cambada de -archeiros invisiveis?! - -Para viver tranquillo e feliz, é melhor fechar hermeticamente a porta, e -não abrir a quem bater, sobretudo se fôr a gloria. Apesar da sua mascara -de anjo, não passa do esqueleto vestido de lantejoulas; namora-se uma -pessoa d’ella, para se arrepender depois centos de vezes; em todo o -caso, hoje que o barco vae n’agua, como dizem os maritimos, é continuar -a remar! Que atraz dos _Contos do tio Joaquim_ venha outra obra, na -certeza de que, digo-o sem cumprimento ao auctor, o despedir-se o anno -por este livro é o sufficiente para deixar lembranças na litteratura. - - Dezembro de 1861. - - JULIO CESAR MACHADO. - - * * * * * - -Appareceu um finalmente, um livro, cujo auctor abençoei com todas as -veras do meu coração. Infeliz! Morreu já. - -A meu vêr, desappareceu com elle um dos mais promettedores talentos de -romancista popular que teem surgido entre nós. O auctor era _Rodrigo -Paganino_, o livro _Os contos do tio Joaquim_. - -A imprensa havia recommendado pouco este livro. - -Tem d’esses descuidos a imprensa. Li-o por isso sem a menor prevenção -favoravel. Mas era justamente um livro assim, que Reine Garde pedia; é -d’este genero de litteratura que o povo precisa; é por esta fórma que se -resolve a importante questão das subsistencias intellectuaes, não menos -valiosa do que a que occupa as attenções dos economistas. - -Pouco tempo antes, discutia-se primazias entre os Lusiadas e o poema -do sr. Thomaz Ribeiro; tratava-se de tirar a limpo qual dos dois seria -preferivel como livro para leitura nas aulas de instrucção primaria. - -Todos se lembram d’essas renhidas controversias. Eu por mim nunca -pude tomal-as a sério n’aquelle ponto. Achei sempre muita graça ao -empenho em que via mettidos os criticos. Quem se podia convencer -sériamente que qualquer d’aquelles excellentes livros fosse proprio -para as intelligencias infantis dos pequenos leitores? Um com o seu -sabor classico e epico e suas comparações mythologicas, o outro com o -seu pronunciadissimo caracter de lyrismo e suas imagens romanticas e -arrojadas, e ambos a suscitarem fundamentadas apprehensões nos mestres -por um ou outro episodio que, baldados os esforços dos criticos, ninguem -poderá considerar como demasiado edificantes. - -Ora, quando eu li o livro de Paganino, pareceu-me encontrar n’elle -justamente tudo o que debalde os criticos procuravam nos outros. Aquelle -sim que era um livro verdadeiramente escripto para o povo e para as -creanças! livro em que a attenção se prende pela verdade, em que o gosto -se educa pelo estylo, em que o sentimento se cultiva por uma moral sem -liga, porque é a moral do decalogo e do evangelho; livro escripto segundo -o programma estabelecido por Lamartine n’aquelle bello prefacio da -_Genoveva_ e talvez mais fielmente observado ainda por o nosso romancista -do que por o proprio legislador. Lembra-me bem que o li a um rancho -de raparigas do campo e pude observar como ellas o comprehendiam sem -custo. Não havia uma palavra que ignorassem, uma maneira de dizer que -lhes causasse estranheza, as imagens faziam-as sorrir pela exactidão, -como sorrimos ao vêr o retrato fiel d’uma pessoa conhecida; não eram -caracteres extravagantes, paixões excepcionaes, situações inesperadas -e unicas o que assim lhes absorvia a attenção; pelo contrario, era por -aquelles personagens pensarem, sentirem e viverem como ellas, que tanto -lhes interessava o livro. - -Foi uma grande perda a de Rodrigo Paganino! E, vejam, aquelle volume, -escripto para se lêr no campo, como eu o li, junto á fogueira que crepita -no lar, sobre a ponte rustica que atravessa o ribeiro ou no degrau da -ermida que, elevando-se no topo do monte, domina a aldeia toda, passou -quasi desapercebido no mundo das lettras. Não suscitou esse murmurio -litterario, que acompanha certas obras felizes; murmurio em que se reune -o louvor á maledicencia, a hyperbole laudatoria á calumnia escandalosa, -os guindados elogios ás censuras exageradas. Foi um livro annunciado -apenas, lido por poucos, comprado por menos, livro cujo auctor não tem -sequer o seu retrato gravado na _Revista Contemporanea_ e que por tanto -quem quer tem o direito de desconhecer. E apezar de tudo isso, aquelle -livro, como disse não sei quem a respeito de não sei que obra, era alguma -coisa mais do que um bom livro: era uma boa acção! - -Acceitem-se-me estas palavras, não a titulo de critica litteraria,—Deus -me defenda de pretenções a esse genero—, mas como um tributo rendido á -memoria de um escriptor infeliz a quem sou devedor de algumas horas de -incomparavel prazer, que a sua leitura me proporcionou. - - Maio de 1861. - - JULIO DINIZ. - - * * * * * - -Rodrigo Paganino morreu ha pouco menos d’um anno, deixando de si, como -homem, muita saudade em muitos; e, como escriptor, um livro precioso, -e não somenos inedito. Morreu, passou, desappareceu d’entre amigos, -levantou-se aos vinte e oito annos, como Gilbert, do banquete da vida, -trocou a purpura do genio pela mortalha funebre; e a raça enorme dos -papagueadores, dos chroniqueiros, dos assopradores encartados de -reputações e de nomes, quando o via passar para a sua cova tartamudeou -quatro palavras de _requiem_, como se a terra se tivesse defecado d’algum -sandeu ou estadista. - -Apenas Bulhão Pato n’uma breve noticia cheia d’aquella eloquencia que -nasce dos mais entranhados affectos, apenas elle espargiu sobre a -sepultura d’aquelle moço algumas flôres de saudade. - -Isto é a verdade, verdade amarga é bem certo, porque attesta a -deslealdade d’esses applausos que por ahi resoam, o immerecido d’esses -triumphos que por ahi campeam, o nada d’essas glorias que por ahi -balzonam, o facticio d’essas proeminencias que por ahi se decretam. - -Em 1861 Rodrigo Paganino publicou os seus _Contos do tio Joaquim_. O -que este livro significa, que o digam com a mão na consciencia todos -esses criticos, florentissimos e profundos, que entendem por ahi de -litteratura. Para mim, o que elle importa, é nada menos do que a -implantação, entre nós, da litteratura popular. O nosso povo, quer dizer, -a porção menos cultivada e mais numerosa da sociedade, carece de livros -proprios. Rodrigo Paganino sentia, comprehendia esta falta; e foi no -intuito, senão de a remediar completamente, ao menos de a attenuar pela -sua parte, e de chamar a egual trabalho os obreiros do futuro, que elle -escreveu o seu livro. - -Ouçamol-o: «Entre nós, n’estes ultimos tempos sobre tudo, a litteratura -tem desprezado um tanto o gosto popular. Não acontece, porém, o mesmo em -França, em Allemanha, e nos demais paizes, em que, segundo nos consta, se -cura d’estas coisas e se lhes attendem os resultados.» - -Mais abaixo continua: - -«Os _Contos do tio Joaquim_ pertencem ao genero das obras de Emilio -Souvestre, e deveriam tomar logar, pela natureza e não pelo merito, -proximo d’aquella mimosa collecção que elle intitula—_Au coin du feu_.» - -Este é que é o valor litterario da obra; este é que é o seu alcance -philosophico. - -Hoje, a primeira condição de quem escreve, é ser essencialmente popular. -Quando o povo não se eleva, como na Allemanha, á comprehensão do bello, é -forçoso que o escriptor desça até elle, que lhe desenvolva a razão, que -lhe eduque o espirito, que lhe vibre a sensibilidade. - -Acabaram-se os almotacés da critica; o gosto é livre como a consciencia. - -«Os livros para o povo, diz Lamartine na _Genoveva_, devem ser historias -simples e interessantes; inspiradas dos costumes, das profissões, das -amarguras, dos contentamentos do lar e da familia, e escriptas quasi -na linguagem do povo; devem ser como que o espelho onde elle se veja -em toda a sua simplicidade e candura; mas que em vez de reflectir as -suas abominações e torpezas, reflicta com preferencia os seus bons -sentimentos, os seus trabalhos, as suas dedicações e virtudes, para lhe -dar o amor de si proprio, e ancia do aperfeiçoamento moral e litterario.» - -E acaso não são isto mesmo os _Contos do tio Joaquim_? - -Não se filiam n’esta escola _Os retratos de familia_, _O sexto -mandamento_, _O Thomaz dos passarinhos_, e _O romance de um sceptico_? - -Creio que me não engano; diz-m’o o coração, pelo menos, que é quem -decide, em regra, do valor d’estas obras, que são todas coração e -sentimento. - -O livro de Paganino prima, incontestavelmente, pela sublime simplicidade -do estylo, e purissima verdade de affectos. O primeiro dote era resultado -da espontaneidade, da fecundidade, da força viva de imaginação, da caudal -impetuosidade das idéas, do genio, emfim. O segundo refluia-lhe inteiro -do coração,—do coração que lhe era manancial perenne de amarguras, depois -de lhe ter sido ludibrio de desenganos crueis, das illusões dobradas, dos -sorrisos desleaes e das palavras traiçoeiras, com que este mundo costuma -pagar liberalmente a sinceridade do amor e das affeições mais intimas. - -Que Deus perdôe, como elle havia perdoado, a quem pensou que esmagar o -coração de um homem valia tanto, ou talvez menos que espedaçar o mais -futil brinco de creança! - -Relevem-me o intempestivo da digressão; eu torno ao meu logar de critico. - -Publicados os _Contos do tio Joaquim_, Paganino, apesar do mal que -o definhava a olhos vistos, e que elle, melhor do que ninguem, -comprehendia, pensou em escrever successivamente algumas obras já -delineadas. Em Pedrouços começou o romance _Aos vinte e dois annos_, -romance a que se prendiam muitas saudades e ungido com muitas lagrimas; -escreveu _Beatriz_, pequena historia affectuosa e apaixonada; e, afóra -isto, um grande numero de trabalhos de indoles diversas. - -Quando o futuro se lhe abria mais esplendido, quando a lição e a -experiencia lhe amadureciam as prendas naturaes, quando aquelle fecundo -talento devia produzir fructos mais sasonados, a morte veiu arrancal-o -aos carinhos de uma familia estremecida, ao affecto de amigos que tanto o -bem queriam, e á gloria certa que o esperava. - -Os seus escriptos inéditos lá jazem na obscuridade, em quanto por ahi -pompeam radiantes tantos abortos malfadados. - -E os governos dos conventiculos, das commissões rendosas, das subvenções -pingues, das prodigalidades ás mãos cheias, não sabem que ao lado d’esse -progresso que faz machinas de vapor e telegraphos electricos, deve andar -sempre, de continuo, emparelhadamente, o progresso que derrama a luz, que -arrôtea os espiritos, que os educa, que os esclarece, que os distrahe, -que os moralisa, e que vae desenvolver no coração muitos germens de -grandiosos instinctos. Não sabem que, na vida dos povos, seis ou dez -kilometros de linha ferrea não influem mais que a publicação de um bom -livro. - -É que elles cuidam, como diz o sr. Castilho, que nada ha sério, senão o -coadjuvar ou impecer o bulicio governativo. - -Isto disse eu por me lembrar que essas paginas de preço, escriptas por -Paganino com tanto amor e tanto fogo, é provavel que, cedo ou tarde, se -percam de todo, quando, dadas a lume, ganhariam mais um louro para elle, -e mais uma gloria para a patria. - - Maio de 1864. - - E. A. VIDAL. - - * * * * * - -Os _Contos do tio Joaquim_, livro de alto merecimento litterario, devido -ao mallogrado homem de lettras, Rodrigo Paganino, que uma terrivel e -fatal doença—a tysica pulmonar—arrebatou do mundo na primavera da vida, -appareceram ha mais de vinte annos, quer dizer, n’uma epocha afastada, -em que ainda ninguem fallava de processos realistas para a factura de um -romance. - -Pois apesar de não ser ainda conhecida n’esse tempo a escola realista, -os _Contos do tio Joaquim_, mostram-se já seguidores dos seus preceitos -pela naturalidade, singeleza e sentimento espontaneo das respectivas -descripções. - -Rodrigo Paganino, antes e depois de concluir em S. José o seu curso de -medicina, foi um escriptor pujante, floreando na imprensa como jornalista -notavel e no theatro como dramaturgo distincto. - -Á pujança do seu talento não correspondia infelizmente o vigor do seu -organismo; por isso a morte o derrubou a meio da carreira da vida, quando -elle punha todo o seu empenho e boa vontade em terminar para o theatro de -D. Maria uma comedia em 4 actos. - -Infeliz Paganino! e duplamente infeliz, porque não gosaste, como homem, -o lado risonho da vida, nem podeste, como escriptor, deixar apoz ti os -fructos amadurecidos do teu brilhantissimo engenho. - - Abril de 1885. - - PINHEIRO CHAGAS. - - * * * * * - -Ultimo adeus a Rodrigo Paganino - -(_A. Francisco Montez de Champalimaud_) - -_1867 Agosto, 3._—Amigo do coração:—Hontem de manhã fomos esperar, no -cemiterio dos Prazeres, os restos mortaes do nosso querido e desventurado -amigo Rodrigo Paganino. Fomos sete, apenas, os que nos lembrámos de -cumprir a dolorosa missão: José Elias Garcia, Manuel Roussado, Ricardo -Cordeiro, Carlos Barreiros, Eduardo Gomes de Barros, José d’Avellar e -eu. Ninguem mais! O ceu estava alegre; o sol brilhava com o natural -esplendor do estio. Parecia uma pungente ironia á tristeza que apertava -os nossos corações, em presença d’aquella sepultura! É porque os jubilos -são apanagio do ceu, e as lagrimas a triste condição do mundo! A morte, -meu amigo, phenomeno naturalissimo, trivialissimo, mas que nos espanta -sempre, quando vem ferir o homem na força da vida, e o arrebata no -momento em que a sua intelligencia começava a dar luz á humanidade, a -morte, n’essas circumstancias, parece-nos um impossivel. Olhando para -a arvore secular que abrigou á sua sombra o viajante, que floresceu em -centos de primaveras, que produziu abundantissimas colheitas de fructo, -se a vêmos cair falta de seiva, dizemos: «Cumpriste a tua missão; -deste-nos sombra; embellezaste-nos com as tuas flôres; saciaste-nos com -os teus fructos; chegou a tua hora; caiste porque eras da terra», e -saudamol-a com veneração! Mas vendo a arvore robusta, que abre com as -flôres do seu primeiro abril, flôres que são prenuncio de magnificos -fructos, fulminada subitamente pelo raio, enfurece-nos a protervia do -raio! Assim a morte, quando vem cortar o genio em flôr, nos produz -muitas vezes o desespero! Rodrigo Paganino saía apenas da adolescencia, -quando caiu no tumulo. Era medico e escriptor. Restam d’elle algumas -folhas volantes, perdidas por aqui e por além, e um livro (os _Contos -do tio Joaquim_), livro que ha de viver ao passo que muitas composições -laureadas pelo capricho de hoje, morrerão ámanhã. Todavia, isso que -Paganino nos deixou, não são mais do que as primicias do muito que tinha -para dar aquelle grande talento. Rapida, brilhante, e, dolorosissima -foi a carreira de seus dias! Ha quatro annos, n’uma carta que escrevi -para a imprensa, desenhei o quadro que apresentava a familia de Rodrigo -Paganino, pouco antes d’elle expirar. O pae, as duas irmãs, modelos -de raras virtudes, e a mãe, pedindo em secreto, a Deus, um logar na -mesma cova do filho. Tres annos a fez esperar a Providencia; finalmente -concedeu-lhe a appetecida graça. Hontem, se Paganino fosse vivo, contava -trinta e dois annos. Trinta e dois annos que a mãe o déra á luz do mundo; -que o beijára entre dôres e alegrias, depondo o filho no berço; o filho -hontem pagava-lhe essa fineza indo repousar ao lado d’ella, no berço -do eterno descanço, onde para aquelles que padeceram com resignação, -e que esperaram a morte, arrependidos dos erros mundanos, brilha a -aurora da bemaventurança! O padre que acompanhou do Alto de S. João -para os Prazeres os restos mortaes do nosso pobre amigo e que celebrou -a missa, que nós ouvimos, pelo eterno descanço do nosso finado querido, -fôra companheiro de estudos de Rodrigo Paganino. Terminada a missa, -conduzimos o feretro para em frente do jazigo de familia onde havia de -ser soterrado. Perguntou alguem, se queriam que o caixão se abrisse. José -Avellar, de todos nós o mais intimo de Paganino, disse com a expressão -tocante e varonil da sua bella physionomia: quero eu vêl-o. Mas que viu?! -Quatro ossos e uma caveira a que se adheria uma pouca de terra! Era -quanto restava do corpo que abrigara aquelle gentil espirito! O caixão -foi collocado sobre o caixão da mãe, e nós, na extrema despedida, votámos -á memoria do amigo quanto lhe podiamos votar: um adeus, e uma lagrima! -Concluo esta carta, meu querido amigo pela verdadeira conclusão da dôr, -que são as lagrimas. Um aperto de mão; volta quanto antes d’esse ponto do -Alemtejo onde estás; lembra-te do anno passado! - - Teu - - BULHÃO PATO. - - - - -I - -O tio Joaquim - - -Ha de haver dez annos proximamente, fui passar o inverno a uma quinta, -pouco distante de Lisboa; porque, segundo diziam, corria perigo de vida, -se não mudasse de ares quanto antes. - -O campo é sempre bello. Cada edade do anno imprime-lhe uma feição, -differente embora, mas formosa sempre: e o inverno, apezar da sua fria -nudez, tem attractivos, como os que nos fazem amar muitas estatuas -antigas, em que a falta de roupas mais realça a magestade. - -A uma legua apenas, parecia-me estar muito mais afastado de Lisboa. As -noticias só repercutiam alli com ecco bem tardio; o apartamento do sitio, -mais augmentado ainda pela quadra do anno em que se estava, parecia -cortar de todo as relações com a capital: e se a vida latente que girava -n’aquellas plantas entorpecidas pelo frio, não se deixasse transparecer -de quando em quando, suppôr-se-hia, que um largo sarcophago nos -encerrava: tão silenciosa, tão muda, tão melancolica era aquella solidão. - -Os dias passavam-se facilmente; mas as horas do crepusculo, essas, é que -pareciam immensas, insupportaveis. Quando a noite, começando a escurecer -os campos, nos escurecia a alma com elles; quando as trevas desciam -sobre a terra, e afastando diante de si alguma vida, que ainda por alli -havia, nos entristeciam o coração: quando as oliveiras verdenegras, que -ao longe limitavam o horisonte avultavam com as sombras, estreitando-se, -e parecendo encerrar-nos n’um circulo sinistro, como deveria ser o das -bruxas de Macbeth: então partia-se-nos a alma de saudades enlevada no -viver folgasão e agitado, que n’esses momentos costuma offerecer a -cidade. Tem-se dito, que nada ha mais triste, do que vêr cerrar-se o -horisonte em mar alto á chegada da noite; mas dizem-no talvez os que não -experimentaram ainda o angustiado negrume, que em similhantes momentos, -no campo, nos confrange muitas vezes. Parece que tudo esmorece, e morre -em redor: e n’essa hora, se no bater do pulso não encontrassemos provas -da nossa existencia, chegar-nos-hiamos a convencer mesmo, de que a vida -se nos esvaecia tambem, como se esvaece em tudo, que nos cerca. - -Mas, ainda assim, havia compensação para nós na chegada da noite. Havia, -porque de ante-mão contavamos passar essas horas, não muitas, que no -campo precedem o deitar, n’uma conversa singella, e innocente; mas que -d’essa singelleza e innocencia tirava os encantos que lhe sentiamos. - -Á bocca da noite recolhiam os trabalhadores, os _maltezes_ como ali lhe -chamam, do trabalho e entravam para uma d’essas cosinhas do campo, tão -nossas, tão conhecidas de todos: e que não faltam em quinta alguma de -certa ordem. - -Esperava-os um bom lume e uma boa ceia, e sobretudo esperava-os, que -era o que elles mais queriam, as historias do tio Joaquim, e as suas -narrações cheias de verdade e de moral. - -Quem era o tio Joaquim, o que fôra, que papel representava, são -perguntas, que naturalmente hão de vir á bocca dos nossos leitores, -se os tivermos, e a que não poderemos responder como desejâmos. Tinha -apparecido depois de uma das nossas guerras civis, e tinha pedido -trabalho a um dos fazendeiros mais ricos do logar. D’onde viera, se -alguem lh’o perguntava podia contar com a seguinte resposta, que não -poucas vezes lhe ouvimos repetir: importem-se com a sua vida e deixem-me, -que nada tenho que lhes contar; baste-lhes saber o que sou hoje, e não o -que fui; agrada-lhes o meu trabalho; estão contentes comigo, que teem com -o resto. Sempre ouvi dizer, que homem que muito se occupa dos outros, é -porque se não póde occupar de si. - -Todos voltavam sabendo talvez menos do que até então sabiam; mas curados -da sua curiosidade indiscreta. - -E depois, o tio Joaquim era velho, tinha sido honrado sempre, ninguem -como elle sabia guiar uma junta de bois, conduzir a rabiça d’um arado, -ou fallar do tempo, olhando para as estrellas; na poda e na empa ninguem -se lhe punha ao lado, e quando era necessario fazer um pé de lagar, -ou erguer uma meda de pão, já era sabido que sempre o escutavam e lhe -seguiam sempre os conselhos. No contar de historias não fallemos. O tio -Joaquim era um livro aberto, como por ali diziam: e dava sota e az ao -barbeiro do logar e ao mestre de meninos. - -Este, contra as leis constitucionaes do paiz, ás quaes, aqui para nós, -não era muito affeiçoado, accumulava ao seu mister de educador da -mocidade, além dos empregos de escrivão de juiz de paz, escanhoador, -tendeiro, agiota e outros encargos nem por isso muito compativeis, uma -maledicencia sem egual. Pois cuidam que se atrevia a boquejar do tio -Joaquim? Nem por sombras. Verdade é tambem, que lhe não fazia elogios, -mas quando se tratava d’elle mudava logo de conversa, fazendo um tregeito -desapprovador. - -Diziam as velhas d’aquelles sitios, que eu não o sei ao certo pois -nunca tratei de o averiguar, que o mestre Francisco, tal era o nome do -professor, tinha tido n’outros tempos seus dares e tomares com o tio -Joaquim, dos quaes tinha saido de cara a uma banda. Entretanto o silencio -do mestre de meninos não influia pouco para a reputação favoravel -do nosso bom velho, porque se dizia:—é tão boa pessoa, que o mestre -Francisco não diz mal d’elle. - -Pobre tio Joaquim! Assisti-lhe aos ultimos momentos e poude fazer idéa -do que era a morte do justo. Sorria ainda, e já era cadaver. A hora do -passamento foi para elle tão suave como o desprender da folha secca em -manhã de outono. Momentos antes de fallecer voltou-se para o meu lado, -e disse-me affavel e bondoso como sempre: _agora acabaram-se os contos. -Lembre-se de mim, quando se lembrar d’elles, é a herança que lhe deixo_. -Levou a mão ao peito, apertou um saquinho, que trazia pendente de um -cordão, e que mostrava conter uma reliquia, voltou os olhos para o céo, -pareceu procurar o rumo que a alma ia seguir em breve cortando o espaço, -e expirou. - -Foram as primeiras lagrimas, que derramei na minha vida; até então não -sabia o que era morrer. - -Guardei a herança. Bem ou mal administrada ella ahi vae em parte, tal -como a memoria a conserva; mas não como me foi doada. - -Havia um cunho tal de ingenuidade n’aquellas narrações, uma tal poesia e -mimo de imagem, uma fluencia de dicção e uma propriedade de termos, que -embora as procuremos imitar, não o conseguiremos nunca. - -E não supponham, entretanto, que fosse buscar a figura ou a comparação a -coisas de grande altura; ás sciencias, ou á historia: que ornamentasse o -periodo com flores de rethorica, ou que procurasse guindar e alambicar a -phrase, como tanta gente que por ahi vemos. Nada d’isso. Mais prudente e -mais feliz, pois não commettia barbaridades, o tio Joaquim não saía dos -limites das intelligencias dos seus ouvintes e ia buscar aos campos, ás -flores, á agricultura, á mesma casa, (quantas vezes!) os _similes_ de que -se servia. Tudo era comesinho e humilde, sem ser rasteiro, e muitas vezes -alcançava elle o que não conseguem muitos litteratos de polpa depois de -terem trabalhado deveras—o sublime na simplicidade. - -Mas nem só o estylo tornava recommendaveis os seus contos: se assim -fôra, não ousariamos nunca encetar similhante tarefa. A idéa moral, que -d’elles se deprehendia facilmente, a simplicidade dos episodios, e as -curtas dimensões, que elle lhes dava, faziam com que fossem por mais -d’um respeito dignos de publicidade. Confiados n’isto mesmo tambem é que -começâmos esta collecção, de que somos meros reproductores, cabendo toda -a gloria se a houver, ao tio Joaquim, e o desdoiro todo áquelles, que -estragando-a talvez, a vêem agora dar ao publico. - -Entre nós, n’estes ultimos tempos sobretudo, a litteratura tem despresado -um tanto o gosto popular. - -Não acontece, porém, o mesmo em França, em Allemanha e nos demais paizes, -em que, segundo nos consta, se cura d’estas coisas e se lhes attendem -os resultados. Muitos homens de vulto, intelligencias eminentemente -superiores, tem-se approximado das turbas, e as obras, que se tem -publicado com este intuito, não são as que menos contribuem para a sua -gloria. - -Dois exemplos bastarão: Lamartine e Emile Souvestre: o auctor da Genoveva -e Canteiro de Saint-Point, e o auctor de _Coin du feu_ e do _Philosophe -sous les toits_. Ambos tem vindo por vezes conversar, como amigos e -parceiros, com as classes rudes; ambos se teem por vezes esforçado -para lhes fazer comprehender as suas idéas, e, tem conseguido verem-as -admittidas e bemquistas na officina do operario, e na agua furtada do -infeliz. - -Sacrosanta missão da imprensa, como é admiravel e veneranda, quando -evangelisa as turbas, dando consolação ao desgraçado e conforto ao que -desanima! Como nos sentimos enlevar de respeito perante essa instituição -maravilhosa, quando vemos os seus fructos sem vicio e sem defeito, -alimentarem o que pede o pão do espirito, e darem refrigerio ao peregrino -resequido d’este grande Saharah em que vivemos! É então, e não quando a -vemos maculada pelas viltas e polemicas indecorosas, que devemos bemdizer -os seus inventores, e pagar o devido tributo ao genio que similhante -dadiva nos legou. - -Mas não é esta a melhor occasião para similhantes dissertações; -perdoem-nos o divagar intempestivo, e, se nol-o permittem, iremos ligar o -nosso interrompido assumpto, no ponto em que o deixámos, ha pouco. - -Os contos do tio Joaquim pertencem ao genero das obras de Emile Souvestre -e deveriam tomar logar, pela natureza e não pelo merito, proximo -d’aquella mimosa collecção que elle intitula—_Au Coin du feu_. Dir-se-hia -mesmo, que inspirado por este bello livro, se não commettia um plagiato, -resentia-se muito da leitura do auctor francez; porém o tio Joaquim nunca -soube ler e por isso nem de longe poude cahir em tão feio peccado. - -Não é a primeira vez que a ignorancia se apresenta como pretexto para a -originalidade de muito escriptor publico. Não é para admirar, que este -nosso que se estrêa, comece no mesmo ponto, d’onde muitos, que já são -veteranos, não teem podido passar. - -As historias que lhe ouvimos são em grande numero. Não apresentaremos -n’este livro senão as que mais notaveis nos pareceram e que mais -profunda impressão nos deixaram, procurando, quanto nos fôr possivel, -aproximar-nos d’aquella engraçada ingenuidade, que tanto nos encantava, -quando lhe ouvimos a palavra facil e singela. - -Não conseguiremos de certo imprimir-lhes aquelle cunho de originalidade, -que o narrador lhes dava. Oxalá que possamos ao menos, fazer com que os -nossos leitores passem algumas horas entretidas n’esta leitura: e que, -esquecendo-se embora da pessoa que lh’as apresenta, não se esqueçam de -todo do velho tio Joaquim. - - - - -II - -O romance d’um sceptico d’aldeia - - -De tantos contos, que ouvi ao tio Joaquim, foi o seguinte, que maior -impressão me produziu. - -Tinha morrido nos sitios um fazendeiro, que não gosava de boa fama, e ao -lembrarem-se d’elle começaram os homens do trabalho a cortar-lhe um pouco -na pelle. - -O tio Joaquim desde que se fallára no finado, fôra gradualmente -entristecendo; e pela primeira vez na sua vida caiu-lhe a colher da mão, -quando ia começar a comer. - -Os maltezes, que estimavam devéras o velho narrador começaram a -preoccupar-se com similhante tristeza, e, antes de acabar a ceia, já -estavam todos em roda d’elle, a perguntar-lhe o que tinha. - -—A morte do Manuel Simões fez lembrar um caso, a que assisti, ha tempos, -quem sabe se o Manuel padeceria tanto como o outro, que eu vi morrer. - -—Conta-nos isso, tio Joaquim? - -—Contarei, apesar de não me sentir muito para contos. Entretanto -servir-lhes-ha de lição para deixarem em paz, quem já deu contas de si. - -Callaram-se todos e o narrador começou por estas palavras: - -Ha de haver dez annos a esta parte, que succedeu o caso, que lhes vou -contar. Defronte da egreja estava n’esse tempo uma loja de barbeiro, -afreguezada como poucas, e concorrida por toda a gente dos arredores. -Era o pasmatorio do logar e o covil da maledicencia: o mestre Ignacio -sabia do seu officio como poucos, e cortava nas vidas alheias, como nos -cabellos e barbas dos freguezes. - -Tambem a loja estava sempre cheia: uns que lhe acudiam á obra, acceiada -na verdade; outros, que para ali iam dar á taramella e saber o que se -passava pelos sitios. - -Nem uns nem outros deixavam de ser servidos: os primeiros saiam com a -pelle, que nem um setim; os outros levavam medida rasa de novidades e não -poucas vezes acogulada de mentiras. - -De todos os que por ali iam, um freguez havia a quem o mestre não gostava -muito de vêr na loja. Ninguem o diria, porém, ao vêr as barretadas do -velho Ignacio e as mesurinhas com que o acatava. Havia de ter que vêr, -que o não fizesse! Se era o sr. padre prior, o padre mais santo, que -tenho conhecido e a melhor alma que Deus tem deitado a este mundo de -Christo. - -E sabem porque o mestre não engraçava com o padre prior, e até mesmo -ardia por vêl-o pelas costas? Era porque, o unico talvez dos freguezes -todos, não fazia a sua perna á má lingua, nem deixava deitar-lhe muito os -braços de fóra, quando estava presente. - -—Cala-te lá, homem, lhe dizia muitas vezes, sabes por ventura quantos -annos de trabalho leva uma reputação a crear, quantos cuidados e lidas -custa o ser honrado, para assim deitares essa obra toda por terra -sem tir-te nem guar-te? Se fosses fazendeiro e se gastasses cabedal e -vida a fazer a tua propriedade e a amanhar as terras; se todos os dias -regando-as com o suor do teu rosto, e ageitando-as com o teu trabalho, -conseguisses crear as arvores de um pomarsito, por bem pequeno que -fosse, gostavas, que um alma damnada te deitasse fogo á casa; ou que te -succedesse dar o mal nas searas e o peco no pomar? Pois olha, pomar, -casa, e terras são coisas todas, que, uma vez perdidas, se podem tornar a -ganhar; mas o credito e a fama, esses é que não. - -O mestre barbeiro, que se temia do bom pobre ficava sem saber da sua -freguezia, e este então, que não era de reserva, nem homem, que gostasse -de pôr as uvas em pisa a outro por muito tempo, tornava-lhe logo mudando -de modo de fallar.—Ora vamos, sô mestre, não desmanche creditos dos -outros, pois que não póde vêr entrar o mal por sua casa; que a fama de má -lingua ninguem lh’a dá nem lh’a tira, e em quanto a obra, ninguem lh’a -desfaz, por que não a tem feita. - -Era n’um domingo de manhã e a loja do mestre Ignacio estava a deitar por -fóra. O dono da casa tinha acabado de talhar umas poucas de carapuças -e encaixava-as nas cabeças para que as talhára, quando entrou o padre -prior. Calou-se logo o velho e deu um ponto na bocca; porém o padre, que -lhe sabia da balda, e que desconfiou da alhada, começou a fazer-lhe a -cama, quasi do feitio que acabei de lhes contar, e por modos taes, que -deixou o pobre do homem em lençoes de vinho. - -Os que por ali estavam, que não eram muito affectos ao dono da casa, e -que por vezes tinham apanhado tambem a sua maquia, começaram a rir, e aos -ditos, mais ajudando ainda para o deixar em tallas. - -Elle já dizia mal á sua vida: para mostrar que não ia muito do vivo -ao pintado, já tinha assente um formidavel lanho na cara d’um pobre -trabalhador, que lhe caira nas unhas, e promettia continuar quando um -novo freguez, que entrou na loja o veiu tirar do aperto em que se via, -pondo ao mesmo tempo uma rolha na bocca de todos. - -Nem mais um abriu bico. Parecia uma mó de creanças, que estando a fazer -grande algaraviada em casa de escola, vêem chegar o mestre armado -de palmatoria e com modos de dar a torto e a direito. Ficam logo -calladinhos, que nem ratos; mas ainda bem o mestre não tem dado costas, -tornam á mesma, ou ainda a peior, fazendo uma ingresia infernal. - -Assim foram os nossos amigos. Alguns d’elles até pareceram que viam lobo, -e tanto se lhes puzeram os cabellos em pé, que o mestre teve de dar -mais vezes novo fio ás navalhas, porque já não queriam cortar nem por -um Christo: elle mesmo, apesar de pouco medroso, sentiu seus calafrios, -quando deu de rosto com o recem-chegado. - -Este não era nenhuma cara de metter medo, mas tambem não mostrava ser de -muitos amigos. Entre os trinta e os trinta e cinco, os cabellos já se -lhe começavam a encher de brancas, e a cara de rugas. Parecia triste; -e sem dar nem uma palavra esteve na loja até que lhe chegou a sua vez, -barbeou-se e saiu, cumprimentando todos á saída como o tinha feito á -entrada. - -Levou comsigo a callada. Apenas voltou para a azinhaga mais proxima -começaram todos a desenferrujar a lingua, como se tivessem medo de que -lhes ficasse lesa com o tempo, que estivera sem bulir. E como de razão, -foi o mestre Ignacio, quem atirou primeiro a sua bola. - -—Excommungado d’uma figa! Cruzes demonio, e embirrou com a minha loja o -maldito. - -—Parece que anda em peccado mortal! - -—Podera não, se elle desde que veio para estes sitios não foi ainda á -missa. - -—E que olhos que deita para a gente? Pae do céo! É capaz de nos dar -quebranto! - -—Sim, que o não deu outro dia a uma jumenta da Felicia, que desde que -elle a viu não teve uma hora de saude. - -—Quem a Felicia? - -—Não a jumenta; se elle é lobishomem! - -—Callem-se lá, leva de má lingua, parece-me que já é de mais; estarão -vocês tão limpos de consciencia, para assim poderem entrar pela terra -alheia, como se fosse roupa de francezes? - -Era a voz do bom prior. Apenas tinha começado a ladainha, procurára logo -pôr-lhe cobro, mas foi trabalho de malhar em ferro frio. Era um dize -tu, direi eu, que promettia não ter fim. Todos queriam molhar a sua -sopa; porém quando um carreiro velho, que era pessoa acreditada na loja, -affiançou que o tal estrangeiro tinha embruxado a burra da tia Felicia e -que era lobishomem, ficaram todos passados em pontos de admiração por um -instante, e n’essa occasião mesmo, é que o prior poude socegar aquella -algaravia. - -Ninguem se atreveu a retrucar. Todos tinham os seus podresitos mais ou -menos, que o parocho sabia; e por isso todos metteram a viola no sacco, -quando lhes foi com as mãos á cara, fallando lhes nas suas culpas. Porém -o mestre Ignacio, que não era homem de se atrapalhar com qualquer coisa, -quiz vêr se fazia frente ainda, e se podia continuar amolando o caso. - -—Mas perdôe a sua palavra honrada, sua reverendissima bem sabe que desde -que veio para aqui este homem ainda nem appareceu na egreja, nem em logar -de reza, ou em festas da freguezia. - -—O que tem o mestre com isso? Todos fallam, fallam sem saberem o que -dizem, o caso é dar á lingua. Esse homem não é nenhum hereje, eu sei quem -é. Se não vae á egreja, talvez que a egreja vá ter com elle. O mestre bem -sabe que não é esta a primeira pessoa de quem se duvida; outros havia -que nem por muito irem á egreja, passavam por christãos de lei. - -O padre tinha dado no vinte. O barbeiro ficou sem tugir nem mugir, porque -se lembrava da fama de judeu que por aquelles sitios tivera, e que lhe -ia acarretando mais de uma carga de pau; os outros, que viram as barbas -do visinho a arder, foram deitando as suas de molho, esgueirando-se á -formiga, apenas acabaram de fazer a barba. - -O remedio do parocho não produziu effeito; por que, dias depois, já -tornavam á mesma: agora se tinham razão julguem-n’o lá pela historia do -tal homem, que mais tarde vim a saber. - -O freguez com que tanto se estomagára o mestre Ignacio, tinha vindo para -aquelles logares havia dez annos pelos tempos das vindimas. Alugára uma -casita pequena, que fica mesmo defronte da egreja, onde está agora o -Manoel Ferrador, e que tem vae por meia duzia de geiras de pertenças: -para ali se mettera com mulher e filhita que trazia comsigo. - -Parecia gente morta, não saiam nunca, salvo a mulher, que de manhã cedo -ia aos seus arranjos: e não procuravam dar-se com pessoa alguma da -visinhança. E lá n’isso faziam bem, que a maior parte das vezes estas -velhas onzeneiras e visinhas palradoras vão ás casas dos outros para -darem fé do que lá se passa, e para depois á porta da rua, á tarde ou -pela manhã, cortarem pelas vidas alheias como ferro de arado por terra -mechida de fresco. - -O que é verdade porém, é que este seu systema, não lhe tinha creado -amigos, nem levantado uma reputação de encher as medidas. Todos -murmuravam d’aquelle modo de viver, e estavam de alcatêa sempre para vêr -se achavam fio á meada. - -Tinham reparado por vezes que a pobre mulher, que parecia boa pessoa, -saía quasi sempre com os olhos inchados e como quem acabava de chorar; -mas por mais que se pozessem á escuta não tinham topado nunca signaes de -ralhos ou resingas: antes se poderia dizer, se o dono da casa não tivesse -tão má fama, que viviam como Deus com os anjos. - -Uma noite, alta noite, já tinham cantado os gallos, morava eu então ao pé -da freguezia, ouvi tocar a Nosso Pae fóra, levantei-me e fui acompanhar -o viatico. Era para casa do mesmo homem, que tinha visto, pela primeira -vez, na loja do mestre Ignacio, e que estava para dar a alma a Deus. - -Como o caso não era para se estar com pannos mornos, o parocho tratou -de começar a confissão, e nós quizemos sair do quarto, para deixar o -doente mais á sua vontade, como é costume. Elle porém não o consentiu, e, -fazendo-nos signal para ficar, disse-nos com modos que me não passaram -ainda: - -—Grandes foram os meus peccados, se esta historia lhes poder aproveitar, -que a oiçam todos; porque só assim servirei a alguem. - -Não havia que dizer, e de mais a mais o demo da curiosidade apertava -comnosco. Ficámos, e na verdade disse coisas para se ouvirem. - -O quarto estava allumiado por uma lamparina a tremelicar e a dizer adeus. -A luz, que espalhava pela casa tinha um tanto de soturna e de aterradora. -Á cabeceira estava o padre, a alvejarem-lhe as roupas e cercado por -um não sei que, mais do céo do que da terra; a seu lado, o moribundo, -estendido na cama, e estorcendo-se na agonia. - -Têem visto lá para o Minho, ao pé dos castanheiros, uma videira que levou -um córte na cepa, e que em vez de enleiada aos troncos da arvore, se lhe -roja pelo chão, quasi a morrer, como uma cobra, que leva com uma pedra na -cabeça? Pois assim me parecia aquella vista, bem triste que ella era! - -Mas o que me cortou o coração foi vêr a triste senhora lavada em lagrimas -aos pés da cama, de joelhos, abraçada a uma creança que teria quando -muito tres annos, e que, adivinhando o que ali se passava, tambem carpia, -gritando quasi sem parar: - -—Não quero que o pae morra, não quero que o pae vá para o céo! - -Era uma dôr d’alma, e tanto me impressionou aquelle espectaculo, que, -palavra a palavra, me lembra do que ouvi n’aquella casa. - -—Meu padre, dizia o moribundo com voz sumida, conheço que a minha hora -chegou, e preciso partir para essa jornada tremenda, limpo de culpas e -cheio de arrependimento. Grande me vae esta empreza, mas com o perdão de -Deus e vosso auxilio, espero leval-a ao cabo. - -—Descance: a misericordia do Senhor é infinita, e se os meus soccorros -lhe poderem servir, aqui estou d’alma e coração, como é meu dever, para -lh’os ministrar. - -—Ouça-me pois, meu padre, e na historia da minha vida veja a razão da -minha desgraça. - -—Para todo o peccado ha remedio na egreja; falle, e não se arreceie. - -O moribundo começou assim: - -—De ruim semente fraco fructo poderia sair, e meu pae, Deus lhe falle -n’alma, andou n’este mundo, mais cuidando da vida em que vivia, do que da -outra em que devia durar eternamente. - -No seu tempo, d’involta com os livros bons, havia misturadas, como o joio -com o trigo, essas más obras vindas de França, e algumas mesmo d’aqui, -que prégavam a falta de religião e o despreso pela Divindade. - -Pelo menos elle assim o acreditava, e esse effeito lhe tinham produzido. -Mais tarde vim a saber que valiam muito, mas que não era para gente rude, -que não as percebia, que só lhes apanhava o mau, mais facil de colher, -deixando de parte o bom, que andava mais escondido. - -O mesmo acontece ao podador novato, que deita fóra a vara do vinho, -deixando em vez d’ella as outras que devia cortar. - -Mas lá diz o rifão: quem não sabe é como quem não vê; e meu pae, andava -tanto ás escuras, que fugia da luz da graça, como lobo do povoado. - -Assim me creei, e assim vivi tambem até agora, e Deus sabe quantos -desgostos me tem custado esta minha triste cegueira! - -Pobre de mim! Não me lembrava de que o homem anda cá n’este mundo como o -arado em terra de semeadura. Se o lavrador não tem mão na rabiça ou se -descuida do trabalho, eil-o ahi vae corrido com os bois, como o homem com -as paixões por terras e ribanceiras, enterrando-se aqui a mais não poder -andar, resvalando além a não deixar rego. - -Assim me ensinára meu pae, com magua bastante de minha mãe, que se finava -e padecia; e assim ía creando meus filhos, se o lavrador sagrado, que lá -de cima nos vê, me não encaminhasse, lançando mão do arado, que ameaçava -partir-se de encontro aos barrancos d’este mundo. - -Ainda em creança, os rapazes do sitio fugiam, quando procurava brincar -com elles. Chamavam-me o _diabo pequeno_, e temiam-se de mim como do -fogo. Eu em paga escarnecia-os por irem á egreja, ou dava-lhes pancada de -cego quando fugiam de brincar comigo. - -Todavia soffria immenso por me vêr sósinho. - -Os entretenimentos de creança, que tanto agradam nas primeiras edades, -não eram para mim, que vivia como o espargo no monte, á ventura e ao -desamparo. - -É voz do povo: só se veja quem só se deseja, e rifão bem verdadeiro. -Tambem o é que a solidão nos dá maus conselhos e causa os maus -pensamentos. - -A planta lançada á terra sem cultura e sem cuidados, vegetando em mau -torrão, crestada das geadas e dos soes, e sacudida dos ventos; se cria -vigor e robustez, tambem ganha espinhos para os troncos e amargo para os -fructos. - -Entregue só a mim, conhecia que o coração se empedernia e apertava, -ficando de rija tempera, sem se dobrar á compaixão nem ao amor do -proximo. Se eu era assim, a culpa não era minha de todo; mas o castigo, -esse aguentei-o em cheio. - -Muito em creança me faltou minha mãe. E a triste consolação de a -acompanhar á sepultura, de rezar por ella na egreja, de lhe derramar -lagrimas e agua benta sobre a cova, foram coisas que a minha má sina me -prohibiu. - -Entrar na egreja, eu, e provar fraquezas dobrando-me a pedir ao Senhor! -Não o podia, era de vil, e não de um espirito forte e desamparado de -credulidades de velhas. Ir sobre uma pouca de terra, onde alguns ossos -ficavam e a carne se apodrecia, recitar orações, em que não acreditava, -era loucura que não devia praticar! - -E assim, padre, com a morte de minha mãe perdia eu muito mais do que -outros a quem semelhante desgraça succede. Esses ao menos esperam tornar -a vêl-a na outra vida, e a morte sómente lhes é como separação de pouco -tempo. - -Para mim era o apartamento eterno. Aquella cova roubava-me minha mãe para -sempre. Nada ali me podia fallar e a terra ficava muda, como os céus já -de ha muito o eram para mim. - -O que senti então, Deus o sabe, que eu nem o posso dizer nem mesmo sei -o que foi. Era como a planta enfezada, que se lhe vê partir o extremo -esteio, sem encontrar mão amiga que a ampare, e que desde então receia a -menor aragem que a faça encurvar, ou o menor encontro que a derrube. - -Cresci, cresci, e a descrença continuou a crescer em mim. Semelhava-se -aos animaes na dureza; a muitos na ferocidade, a todos no embrutecimento. - -Por estes tempos ainda se me apresentou occasião de emenda; mas regato -que de principio erra o caminho, não é quando se lhe engrossa a corrente -com as cheias que póde tornar ao leito; nem planta que de pequena vae -torcida, póde, quando cria maior tronco, ganhar a direitura que perdeu. - -Uma mulher d’aquelles sitios, que vivia recatada em companhia de sua mãe -e resguardada por ella, como o fructo pelas folhas, reparou em mim uma -vez e tomou-se de amores por quem não a merecia. - -Estas coisas não se explicam. Porque ha de a violeta dar-se e florescer -escondida, quando outras flôres por ahi, que menos merecem ser vistas, -não se querem senão nos jardins a bom recato e bem cuidadas? - -Porque ha de aquelle pedaço de ferro dos relogios de sol aqui do campo -voltar-se sempre para o mesmo lado; ou porque ha de a flôr das boas -noites abrir-se ao pôr do sol e cerrar-se quando elle nasce? - -Porque ha de a mulher perder-se de amores pelo homem que vê pela primeira -vez, e que muitas vezes a esquece depois? - -São mysterios da natureza, que ninguem póde devassar, mas que nem por -isso deixam de existir. - -Joanna, é o nome d’essa infeliz que ahi me chora aos pés da cama, amou -sem que lh’o merecesse, e o seu amor, em vez de me abrir os olhos, mais -m’os cerrou ainda. - -Comecei a querer-lhe tambem. Como foi não o sei: mas desde esse momento -todas as tardes nos procuravamos, e todas as tardes repetiamos juras de -um amor eterno. - -Começaram a estreitar-se as nossas relações como duas plantas que uma á -outra ligadas mais se apertam com o crescer. Já na aldêa se murmurava, -e já se espalhavam rumores contra a pobre Joanna, que se amofinava e -entristecia. - -Um modo facil de remediarmos tudo era o casamento; porém eu que não -acreditava na santidade d’aquella ligação, não queria, nem por sombras, -cair em semelhante fraqueza. - -Ella acreditava em mim como n’um livro aberto. Convenci-a da loucura de -seus desejos, e da fé que me prestava, nasceu a descrença na fé em que se -creara. A minha maldade crestou a innocencia d’aquella virgem, como o mau -vento cresta a relva: e a apaixonada donzella conheceu que era mulher, e -envergonhou-se de o ser. - -Como a flôr que perde as folhas e as bellezas quando se lhe desenvolve -o fructo, tambem ella perdeu as rosas nas faces e as canduras da alma, -quando conheceu que ia ser mãe: e de pejo do que soffrera, encerrou-se na -sua magoa, como certos vermesinhos se involvem no casulo que lhe serve de -protecção. - -Para ninguem podia já ser mysterio o seu estado: a pobre mãe, que via a -perdição da filha, deixou-se finar de magoa. - -E nem uma flôr desfolhámos sobre a sua sepultura; nem uma queixa soltou a -infeliz, porque dôres d’aquellas, não ha palavras que as expressem, como -não ha côres que possam representar o negrume da tormenta. - -Nossas mães, que hoje estão no céu, quantas lagrimas não carpiriam -juntas, ao attentar nos desventurados erros de seus filhos; mas por mais -que sobre nós ellas cahissem, de nada poderiam servir, como nenhuma chuva -póde fertilisar o terreno maninho, ou a charneca esteril. - -Desde então, padre, a minha vida tem sido um penar continuado, um -soffrimento sem cessar. - -O remorso rala-me a alma: a lembrança d’aquellas santas atormenta-me de -dia e de noite: a vista da mulher, que perdi, desvaira-me; e a idéa da -minha filha, a filha querida da minha alma, a quem não posso dar nome -perante Deus, porque não foi ainda purificada pela agua santa do baptismo -dos peccados de seus paes, nem perante os homens, porque seu pae e mãe -não se podem assim chamar á face de mundo, quasi que me enlouquece. - -E a duvida a perseguir-me como um demonio agachado em logar santo, e eu a -abrir-lhe os braços como a seara ao fogo que a vae consumir, e a cerrar -os olhos á fé, como a toupeira á luz do sol. - -A natureza com as suas grandezas todas, a flôr com o seu aroma e côres, -a ave com o seu cantar, o céu com as suas estrellas, e o mar com as suas -ondas de prata, tem sido harmonias perdidas, que só me fallam do acaso e -que nada mais me fazem lembrar. Tenho cerrado os olhos á luz e a alma á -razão. Não tenho procurado coisa alguma no passado nem esperado do futuro. - -Tenho sido o navio sem rumo e sem norte, que navega á tona d’agua; o -viajante perdido, que não encontra fim ao caminho, nem trilho para voltar -a d’onde partira. - -Para que viera a este mundo, quando por acaso m’o perguntava a mim mesmo, -era o que não sabia dizer; e cansado de o perguntar sem resposta, mudo -de pensamento como o mendigo de porta a que tem batido debalde. Tenho-me -supposto feliz e tenho vivido como as feras; tenho-me julgado senhor de -mim porque não tenho conhecido o Senhor de todos. - -Mas ha dias tudo se mudou em mim. Minha pobre filha sahira de manhã, e -esteve lá por fóra mais do que o costume. Perguntei-lhe o que fizera, -porque se demorára: e a sua resposta foi como a luz da madrugada rompendo -em descampado para o viajante perdido. - -«Meu pae, me disse, quando sai, ouvi ali defronte uma musica tão linda, -tão linda como ainda não ouvira em minha vida outra semelhante. Vi uma -porta aberta e entrei para ouvir melhor. Era uma casa muito grande, muito -grande, e onde estava muita gente de joelhos. - -«A musica vinha de uma janella de grades, d’onde saiam tambem vozes de -senhoras; e os que ali estavam pareciam tão entretidos, que nem deram -pela minha entrada. Com medo que me reprehendessem por ter entrado sem -licença, perguntei a uma mulher, que me parecia boa pessoa, quem eram os -donos d’aquella casa tão grande e que tão ricos deviam ser. - -«Admirou-se da pergunta e disse-me se lhe fallava devéras. - -«Devéras, minha senhora, eu não conheço ninguem d’esta terra; vim ha -pouco tempo para aqui com meu pae e minha mãe, e nunca saio de casa. - -«Pois olhe, minha filha, esta casa é uma egreja, e seus donos são -aquelles que além estão, pae e mãe dos homens e do céu. - -«Olhei e vi uma senhora e um homem, que me pareceram tão bons, tão -tristes, que desatei a chorar. - -«Elle estava de braços abertos, como o papá quando me chama para o seu -collo, e ella parecia-me minha mãe, mais bonita ainda, quando está ao pé -da cama olhando para mim com os olhos arrasados em lagrimas, emquanto não -adormeço. - -«Eu queria-lhes fallar, meu pae, conheço que me haviam de dizer muitas -coisas boas, mas como me tem dito que não quer que converse com pessoa -nenhuma de fóra, tive medo que ralhasse comigo, fui-me embora; mas com -tanta pena! Por minha vontade estava ali sempre a olhar para elles até -que olhassem para mim, e me fallassem tambem.» - -Como ella chorára, chorei eu então. Aquella voz infantil veio -despertar-me a fé adormecida, como á mãe extremosa, quando a dormir, os -choros do filho querido. - -Desde esse momento um raio de luz allumiou-me as trevas, em que vivia. -A flôr, a terra, o mar e o céu, tiveram vozes que me fallavam e que eu -percebia. - -A flôr erguendo-se para as alturas; a terra levantando ao romper do sol -os vapores tenues da madrugada como rolos de incenso á Divindade; o mar -erriçando o seu dorso de vagas ao signal da tormenta e coroando-se de -espumas; o céu recamado de estrellas, recordavam-me a existencia de Deus, -creador de tudo que me cercava, e que em tudo tinha estampado o sello de -suas mãos como o artifice nas suas obras. - -Tambem o Senhor, que se parecia ter esquecido de mim, ao vêr-me -arrependido lembrou-se de que existia: quer me chamar á sua presença, -como o pastor, que ao vêr melhorias na rez contaminada, que lançou a -monte, procura, pelos cuidados e disvelos, livral-a das enfermidades e -males. - -Hoje, padre, que avisto a immensidade da morte sem receio, e a eternidade -sem pavor, hoje que tenho fé no meu Deus e esperança na salvação, -peço-vos, padre, a benção para o contricto, e absolvição para o peccador. - -—Eu te absolvo, disse o padre com voz solemne, que por muito tempo me -estrugiu aos ouvidos, e o Senhor de caridade vos perdoa por minha bocca. - -N’este momento em lagrimas chegou-se a pobre Joanna ao leito do -moribundo: e a filhinha, que a acompanhava, ficou debaixo dos jorros -d’agua que corriam em fio dos olhos de seus paes. - -O parocho attentou n’aquella vista, e como levado por idéa do céu, disse, -abençoando a creança: - -Eu te baptiso em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo; as lagrimas -de teu pae e as de tua mãe, peccadores mas arrependidos, essas lagrimas -de contricção, tão gratas a Deus, te sirvam de agua de baptismo. Vae em -paz, és christã. - -Logo em seguida tratou de casar aquelles dois, que pela alma e pelo amor -já estavam casados; e acabada a cerimonia, a alma do agonisante, que nada -mais tinha que a prendesse á terra, começou a soltar-se do corpo para -voar á morada eterna. - -Elle conheceu-o, e com voz difficultada pela agonia disse ao sacerdote: - -—Abri-me essa janella meu padre, vou morrer, quero adorar ainda o Creador -na sua obra. - -Um de nós correu a satisfazer-lhe a vontade. Já era manhã, e o sol vinha -apparecendo fronteiro a romper por entre labaredas de fogo; o padre -estava de costas para a janella; o vulto recortava-se-lhe sobre a luz, e -os seus raios pareciam formar-lhe um resplendor de santo.—E se o era! - -Desviou-se para o lado, e um raio de sol veio bater de chapa na face do -agonisante; parecia um signal mandado por Deus em prova de perdão. - -Foi elle quem chamou de novo á vida o que parecia já um cadaver, e lhe -deixou proferir com grande esforço estas ultimas palavras: - -—Illuminae minha alma com a vossa divina graça, como me allumia agora o -sol, que desponta no firmamento, perdoae-me Senhor! - -Passados momentos, o padre rezava sobre o cadaver as rezas de defunctos, -e no dia seguinte nós todos iamos com os olhos arrasados de lagrimas, -conduzir á sepultura o cadaver d’aquelle a cuja morte tinhamos assistido. - - - - -III - -A proposito da missa do dia - - -Entre os trabalhadores da quinta, havia um chamado Antonio, bom rapaz, é -verdade; mas que tinha um defeito, de que se não corrigia. - -Era mentiroso, como os que o são, e quando o não acreditavam, amontoava -juras, qual mais tremenda ou de mais responsabilidade e respeito para um -homem de bem. - -E era pena; porque poucos havia tão laboriosos como elle. - -Era conhecido pelo—gallo da madrugada—titulo bem justificado em vista -do que se apressava em concorrer ao trabalho: e não poucas vezes os -pobres beneficios, que o seu magro peculio lhe permittia fazer, vinham a -constar, pelos outros e não por elle, muito em seu abono e boa reputação. - -O tio Joaquim, conselheiro honorario d’aquella republica tinha-o -reprehendido muito; mas aquelle maldito sestro não o queria o Antonio -perder nem a bem nem a mal. Era o seu senão, que lhe acarretava não -poucos dissabores e com o que não pouco prejudicava os outros. - -Era n’um domingo, e depois da missa do dia, no adro da egreja estavam -reunidos, em mó, os saloios d’aquelles sitios que tinham concorrido ao -santo sacrificio. De fatos domingueiros, e varapaus ferrados, discorriam -pelas novidades do logar, exactamente como os nossos elegantes á porta do -Marrare, ou nas salas do Gremio. - -Diga se a verdade; as Marias e as Joannas não deixavam de influir -n’aquellas reuniões, porque não poucos eram os que ali compareciam -levando em mira fallar ás suas requestadas, ensaiar requebros, ou ajustar -entretenimentos para as horas de sesta ou para as tardes dos dias santos. - -O nosso Antonio tambem não faltava á reunião, e já por mais de uma vez -fizera das suas, sem consequencias de maior, pelo pouco credito que -tinham n’aquelle mercado campestre as notas do nosso caramboleiro. - -Havia no logar uma rapariga que se podia chamar uma perfeição, e que -fazia tanta differença das suas companheiras, como a rosa de musgo das -rosas carrasqueiras dos vallados. - -Era gentil e mimosa, não tinha as côres de saude, nem aquelle acerejado -do sol, ou fórmas robustas e quasi viris da raparigada do campo; mas era -mais esbelta, mais pallida, mais clara e com uns olhos tão negros, tão -negros, que lhe saiam da alvura do rosto, como dois diamantes negros -engastados em esmalte branco. - -Vivia arredada e em recato, e não apparecia em arraial ou festa, senão de -anno em anno e quasi por milagre. - -Chamavam-lhe—a fidalga,—e o nome casava tanto com a sua distincção de -maneiras e garbo de porte, como o soar das ave-marias com os descampados -das serras. - -Como já se deve suppôr, os fragatas da terra tinham pretendido as -honras de arrojado; mas debalde, porque os rejeitava, e quasi todos -descoroçoados tinham desistido da empreza. - -Digo quasi todos, porque dois ainda lhe arrastavam a aza, um, (aqui em -segredo,) era attendido e bem olhado; o outro, mais feliz, nem fallar -n’isso é bom, mordia-se de raiva pelos desdens que soffria, e pelo pouco -em que eram tidos os seus requebros e paixões. - -A escolha de Emilia tinha sido acertada, porque o José da Avó era o mais -guapo moço d’aquellas duas leguas em redor. Desempenado e direito como -uma vara de abrunheiro, valente como um pau de carrasco, generoso e de -brio, como nenhum: nem o mais pintado lhe levava as lampas em trabalho de -fazenda, em jogos de pau, ou em balharicos de domingo. - -E cantigas! Sabia-as elle cantar, como os que as sabem; entoava uma -desgarrada ou sustentava um desafio, mais afinado e a preceito do que -muitos d’esses italianos em segunda mão, que os empresarios nos impõem -como notabilidades cantantes. - -O outro pretendente não era muito cheio de não presta: mas ao pé do -José da Avó ficava a perder de vista, o que não admira; porque vasados -n’aquelles moldes não havia muitos no logar. Elle porém, como não queria -attender á razão, damnava-se jurando pela pelle do ditoso preferido. - -Este era o estado da questão na manhã do tal domingo, e os dois rivaes -conservavam-se a distancia respeitosa no meio de dois grupos distinctos. - -Tinha saido já quasi toda a gente da egreja, quando Emilia se retirou, -sem que lhe faltassem commentarios, emquanto passava por meio dos grupos. - -—Olha a delambida! soltou d’ali uma das raparigas mais feias da terra, -parece que vae com o rei na barriga, nem olha para a gente. - -—Era o que faltava, a fidalga! - -—Vae toda enlevada no seu José, tem medo que lh’o tirem do lance. - -N’isto o nosso Antonio, que não queria ficar atraz, tambem se intrometteu -na conversa, dizendo com modos de quem estava corrente com os mysterios -d’aquelle circulo: - -—Pois faz elle bem em perder o seu tempo, porque ainda não ha muito que -vi o Miguel de conversa com ella á porta de casa, e pelos geitos que a -coisa levava, não era a primeira vez que se fallavam. - -—Ora tu sempre tens uma lingua! - -—Um raio me parta se minto; tinha-me calado e feito vista grossa, mas -agora ferveu-me o sangue quando a vi assim como quem queria deitar lama -para a cara da gente. - -As palavras de Antonio não tinham caido no chão. José, desconfiado como -todos, estivera de ouvido á escuta e não perdera nem syllaba. N’outra -occasião voltaria de certo as costas ao maldizente, mas d’esta vez mudava -o caso de figura: o ciume acreditava a voz do mentiroso e a tremer -chegou-se ao pé d’elle, perguntando-lhe com voz indecisa: - -—Juras que é verdade o que acabas de dizer? - -—Se é! os diabos me levem se minto; eu por mim não queria causar-te -nenhuma aquella; mas assim como assim mais tarde ou mais cedo havias de -vir a sabel-o; e, verdade verdade, ella não te merece. - -—Basta, lhe retorquiu o pobre José, e foi-se como um raio até onde estava -o supposto arrojado. - -Inutil é dizer que tinha sido tudo isto enredos e obra de Antonio. -Soltára as primeiras palavras como por demais, sustentára o dito por -capricho, mais tarde para que não suppozessem que tornára com a falla ao -bucho por medroso. - -Do outro lado do adro uma floresta de paus se levantava no ar, e já -as navalhas estavam fóra das algibeiras; os dois tinham-se travado de -razões, e como palavra puxa palavra, tinham passado dos ditos a vias de -facto e malhavam um no outro como se fosse um monte de milho. - -Ambos tinham partidarios, e por conseguinte a lucta assumiu proporções -maiores; porém por muito encarniçada que fosse entre os partidos, parecia -um brinco de creanças á vista d’aquella em que os dois se tinham travado. -Davam como quem se despedia do mundo, e como quem desejava vêr estendido -no chão o seu contrario. - -Ao principio arrancaram dos paus e começaram a atirar as primeiras -pancadas, que quasi todas cairam em cheio; até que Miguel, depois de ter -jogado umas poucas de sortes ao seu adversario, e como ambos estavam -_descobertos_ e só queriam dar, dissimulando uma pancada á cabeça, lhe -dirigiu o pau por meia volta no ar ás pernas. Quando lá chegou já o seu -adversario o tinha procurado aparar, porém tanto em mal, e tão puxada -d’alma ia a contraria, que o pau colhido no meio, não o aguentou e -partiu-se; e o outro não encontrando resistencia no corpo de José, porque -elle já lh’o tinha furtado, foi de encontro ás pedras do adro e partiu-se -tambem. - -Vendo-se desarmado, Miguel não perdeu tempo: correu sobre o inimigo com -uma navalha e baldeou-o logo no chão jorrando sangue por uma ferida no -ventre. - -O assassino, apenas commettido o crime, tomou as de Villa Diogo, e a -desordem começou a apaziguar-se com a chegada dos cabos da terra, que -tratavam de remover o ferido e de prender os combatentes. - -O causador de tudo isto tinha, logo que viu tomar ao caso uma feição que -lhe não suppozera, procurando socegar o motim, confessando a sua mentira, -porém já era tarde, n’aquellas alturas qualquer intervenção seria -inutil; teve pois de assistir arrepelando-se, dizendo mal á sua vida, -áquella triste scena, e promettendo, com mil juras que não mentiria nunca -mais; ajudou soluçando a levar o ferido para sua casa na maca, que tinham -ido buscar, e accusando-se todo o caminho de ter sido elle, e só elle, o -culpado de tudo que succedera. - -Nos tres dias, que succederam á catastrophe, não se fallou n’outra -coisa nos serões da quinta. Conhecia-se que o tio Joaquim por vezes -tinha vontade de fallar, porém tão sincero lhe parecia o arrependimento -de Antonio, que sempre desistia do intento. Uma noite, porém, o nosso -mentiroso, já esquecido das juras que fizera, começou, por uma coisa que -nada valia, a invocar os santos todos do Paraizo em seu testemunho, e a -pedir raios e coriscos para castigo se mentisse. - -O velho narrador d’essa vez saltou lhe no gallinheiro, dizendo com -aquella placidez de espirito, que tão habitual lhe era: - -—Este Antonio faz-me lembrar o João da Tenda, que vivia lá em baixo ao pé -das casas do mestre Raymundo e que por dez réis de mel coado fazia juras -e protestos ás carradas. Em mal lhe deu o vicio, coitado! - -—O que lhe aconteceu, tio Joaquim? - -—O que foi, o que foi? - -—Conte, conte; ha tanto tempo que lhe não ouvimos uma historia! - -—Pois bem, soceguem, que lhe não faltarei hoje, e não será por culpa -minha se esta lhes não agradar. - -O pobre do Antonio tinha pedido misericordia com um olhar de supplica: -mas o velho compromettera palavra e não havia de se esquivar á promessa. - -—Diz lá o rifão: «quem compra e mente na bolsa o sente;» como diz tambem: -«homem de boa lei tem palavra como rei», isto era quando os reis tinham -palavra, se alguma vez a tiveram, que d’essas coisas não sei eu, e -quando não faltavam ao que promettiam. - -O que é verdade é, que se o mentir prejudica a honra e o corpo, não menos -prejudica a alma estar, por dá cá aquella palha a fallar no santo nome de -Deus, e no dos santos, que não são pontos com que se brinque. - -Nenhum, dos que aqui estão, vae incommodar o patrão para coisas que não -valem a pena, e muito menos por conseguinte devem ir bater á porta dos -patrões mais subidos, para de mais a mais os tomarem para testemunhas e -parceiros de coisas que não só não valem a pena, mas que são mentiras -ainda em cima. E depois, quando se apanha fama de mentiroso, não ha quem -nos acredite por mais que deitemos os bofes pela bocca fóra, e ainda -mesmo que fallemos a verdade. Mau é dizer-se que o cão é damnado. - -—Mas se fôr para fazer bem, não se deve mentir tio Joaquim? - -—Para tudo ha remedio. Uns homens que perseguiam outro, perguntaram a um -santo, que encontraram no caminho, se tinha visto passar o malfeitor. - -O bom do santo tinha-o visto, não havia muito; mas nem o queria -denunciar, nem mentir tambem: já vêem que elle estava n’esse caso, e que -se devia vêr a perros. - -—É verdade, é verdade, e que respondeu? - -—Que por ali não passára; e como estava com as mãos nas mangas, apontou -para dentro d’uma d’ellas, por onde de certo o tal homem não podia caber. - -—Ora! exclamaram alguns dos circumstantes, como admirados. - -—Parecia santo saloio, tornou d’alli um _ratinho_, ultimamente embaçado -na compra d’uma enchada. - -—Nada que não, respondeu lhe logo o vendedor, que o percebera á legua, -não tinha alma de beirão, que lá diz o dictado: no bom beirão corpo e -alma pequenos são. - -Talvez a questão se azedasse mais se o tio Joaquim os não interrompesse -logo gritando: leva de rumor, vamos á historia do João da Tenda. - -Quando vim para esta terra, já vae n’um par de annos, tinha elle uma -lojasita lá no largo de baixo, mesmo á esquina da estrada real. Era um -pequeno modo de vida, que bem cultivado podia produzir bastante; mas como -havia descuido no amanho a colheita foi infeliz. - -N’estas coisas de negocio a reputação de homem de palavra se não é ouro -de lei vale-o bem; e d’esta riqueza o bom do João era mais pobre do que -Job. - -Ninguem se fiava n’elle e o credito diminuia cada vez mais. Direito -em contas e honrado era: porém aquelle sestro maldito de mentir por -dá cá aquella palha, a mania de fazer juras e protestos, que nunca se -realisavam, fazia com que lhe roessem a corda na maioria dos ajustes, sem -que tivesse direito de se queixar, porque não era mais do que pagar-lhe -na mesma moeda. - -Assim iam os tempos e o negocio corria-lhe por agua abaixo. - -Para maior desgraça, no sitio onde não havia senão a loja do João, veio -estabelecer-se uma outra e tirar-lhe a freguezia. - -Era do José Fernandes, que ainda hoje lá a tem no mesmo logar, e que -sabendo o valor do dictado—cara alegre ganha vontades,—tratou, emquanto -o seu visinho andava de maus modos, porque os tempos iam maus tambem, de -chamar freguezes, tratando-os ás mil maravilhas, e desfazendo-se em bons -serviços. - -João tinha uma filha, a menina dos seus olhos, e uma flôr de enche-mão. -Mais guapa rapariga não havia de certo por aquella meia duzia de leguas -em redor; e se tivesse nascido na cidade, se lhe tivessem debastado as -grossuras dos campos com a plaina das fidalguias, metteria de certo a um -canto essas arrebicadas, que para ahi vem passar os verões e que parece -que se estão mesmo a desfazer. - -É bem certo, que não ha panella sem testo, e para vasilha de tão fina -loiça, é preciso que a tampa lhe não desmereça da qualidade. - -E assim era o arrojado de Joaquina: rapaz bem feito e espigado, forte de -corpo e affeiçoado de rosto, um d’estes de quem não ha nada que deitar -fóra. - -Como é de crêr, entendiam-se que era um regalo, e morriam um pelo outro. -E que bem acertado por elles eram! Joaquina, delicada e fina como uma -rosa de toucar, ou uma flôr de madre-silva: Domingos, forte como um -zambujeiro e direito como um prumo. - -Encostados um ao outro, quando se fallavam ás furtadellas ao descair -da tarde, pareciam, tanto ella se ageitava a elle, e tão erguido elle -estava, contente por a ter comsigo, a haste da cruz de pedra que está -defronte _dos Ouriços_, vestida com as braçadas flexiveis da hera, que -lhe nasceu ao pé. - -Ninguem lhe invejava a felicidade; antes, pelo contrario todos gostavam -de os vêr assim, pois pareciam ter nascido um para o outro. Mas sabem -de certo, que não ha bem que dure sempre, e o d’elles por isso havia de -acabar em pouco tempo. - -O pae de Domingos, Deus lhe falle na alma, era um fazendeiro abastado dos -sitios, que contava para cima de vinte geiras de terra de pão, fóra umas -seis courellas de trincadeira, duas hortas valentes, e um pomar de caroço -de mais de trezentos pés de fructa. Por conseguinte o rapaz era um bom -casamento para a rapariga, e por isso o João fazia a vista grossa. Que de -mais a mais o noivo era moço de honra e incapaz de abusar. - -Mas não assim o tio Fernandes, que não engraçava com o tendeiro por -as suas mentiras, e que nada queria com gentes, que pertencessem ao -caramboleiro. Tinha sido toda a sua vida homem de palavra, as suas -promessas eram mesmo um evangelho, e quem não seguisse este modo de vida -nada tinha feito com elle. - -Domingos, como é de querer, tinha escondido do pae os seus amores com -Joaquina. Uma vez por outra procurou sondal-o a tal respeito, porém, -como visse que era tempo perdido, tinha desistido da empreza, e assim ia -tenteando o namoro com esperanças em que ou o velho cedesse da birra, ou -o outro do vicio. - -Foi por estes tempos que se armou uma das tantas guerras que por ahi -tem havido na nossa desgraçada terra. Era preciso tropa e trataram de -recrutamentos com toda a força. - -Domingos, foi um dos sorteados. Seu pae, rico bastante, podia com -facilidade pagar a um homem para o substituir, o caso era que o quizesse, -e tanto que estava resolvido a sacar uma duzia de loiras da arca, onde -estavam havia um par de annos sem vêr sol nem lua. - -Era um domingo á noite, e o tio Fernandes recolhia-se de uma feira -de gado onde fôra comprar uma junta de bois, de que precisava para a -lavoira. Vinha deitando contas á sua vida, e tão entretido que nem lhe -tinha custado o caminho. - -Ao voltar de uma azinhaga avistou de longe dois vultos, que não parecia -darem pela sua vinda. Reconheceu-os logo, e percebeu tambem qual o fim -com que seu filho tantas vezes lhe tinha desculpado o João da Tenda, e -porque tão desgostoso andava por assentar praça. - -Fez os seus entes de razão, e ajustou com os seus botões, que: désse por -onde désse, não se havia de fazer similhante casamento. - -N’essa noite houve questão até fóra de horas entre Domingos e seu pae. O -rapaz confessou tudo e o velho negou-se a pagar-lhe o homem. - -—Ou deixar o namoro ou assentar praça, disse-lhe o tio Fernandes e -Domingos preferiu a segunda condição. - -Mezes depois chegava á terra a noticia da morte de Domingos. Tinha-se -batido como um homem, tinha sido um dos primeiros a atacar, e pagára o -atrevimento com a vida. - -Figurem-se agora qual seria a pena de Joaquina ao saber de similhante -noticia. A pobre da rapariga, depois que o seu apaixonado partira, não -tivera nunca mais uma hora de consolação. Levava os dias a chorar, que -era uma dôr de alma, e ia-se infesando a olhos vistos. - -João, o culpado de tudo, pelo seu amaldiçoado costume, sem recursos -porque os freguezes lhe tinham fugido, e porque o mal de sua filha lhe -levava o resto, estava que parecia outro: e n’aquella casa, onde todos -viviam contentes, não havia já nem signaes de alegria. - -A apaixonada moça foi esmorecendo cada vez mais, os medicos não lhe -achavam remedio para o mal, e qualquer que lhe receitassem não o queria -ella tomar. - -Acabou a sua cruz, e, em poucos mezes, foi reunir-se a Domingos, n’essa -outra terra onde os amantes vivem unicos eternamente, e onde os justos -gosam da felicidade sem fim. - -Quando entrarem no cemiterio reparem para a esquerda, que hão de vêr -debaixo do terceiro cypreste, a contar da porta, uma cova com duas cruzes -de madeira e uma corôa de perpetuas. Ajoelhem sobre a terra benta, -rapazes, e rezem ao Senhor pelo pae e pela filha, que ahi descançam -juntos como o tinham estado em vida. Lembrem-se do que lhes succedeu, -e reparem, que ás vezes uma mentira póde deitar a terra uma reputação -por mais antiga que seja. Rapazes, quando se apanha um homem que não -falle verdade, e quando se perde o credito, perde-se em pouco dinheiro e -honras. Felizes ainda dos que não pagam com a vida como o pobre João da -Tenda. - -Quando os trabalhadores saíram, chegou-se Antonio ao narrador. - -—Percebi tudo, tio Joaquim, prometto-lhe não mentir nunca mais nem fazer -juras por coisas poucas. - -—Deus te oiça, tornou-lhe o velho, que és bom rapaz; e se perderes esse -mau costume, poucos haverá que te levem a palma. - - - - -IV - -Os domingos de fóra da terra - - -Era n’um domingo de novembro. A agua tinha caido a cantaros todo o santo -dia, e a chuva fôra tanta, que diziam pelos sitios: já os cães a bebem em -pé. - -Grande parte dos trabalhadores da quinta, em que eu vivia, tinha -saido depois do jantar, embrulhados uns em mantas, outros em gabões e -gabinardos em direcção á quinta do tio Joaquim de Mattos, acreditado pelo -bom vinho que vendia, e pelos bons piteos que lá, de quando em quando, -arranjava a sr.ª Josepha, sua respeitavel sobrinha, desenxovalhada moça e -uma das mulheres com menos papas na lingua d’aquelles arredores. - -De tempos a tempos apparecia pela adega do sr. Mattos, Deus lhe falle -n’alma, pois era um honrado homem, um ensebado baralho, que cortava a -monotonia de um sempiterno jogo de bola, e entretinha quando o tempo -estava de peior catadura, os afreguezados frequentadores. Outras vezes -tambem um ou outro especulador lisboeta arribava áquellas paragens -com esperanças de armar trapaças e jogatinas, e esse então premunia-se -antecipadamente com uns dados, de lizura problematica, ou com algumas -cartas de egualdade controversa, que manejadas habilmente lhe serviam de -traiçoeira isca para os agourentados vintens dos pobres maltezes. - -Mas, verdade verdade, era uma excepção da regra. O dono da casa obstava -quanto podia a estes desvios: e já experimentado nas consequencias, -tratava de pôr cobro a semelhantes armadilhas. - -O domingo, porém, a que nos referimos era um dos taes dias aziagos. Os -lisboetas, as cartas e os dados tinham trabalhado muito, acompanhados, -já se vê, de um numero infinito de quartilhos de vinho, que n’uma roda -viva passavam do balcão para a mesa do jogo, e d’esta para o poder da tia -Josepha, que já não tinha mãos a medir. - -Em medidas effectivamente passara ella o tempo todo; mas nem todas -eguaes, porque, por amor do proximo já se entende, quando os via mais -carregados alliviava-lhes a mão, e esvasiava-lhes os copos; até que por -fim de contas, quasi que, em vista da exiguidade da dóse, mal se poderia -reconhecer quanto tinham pedido. - -Mas decretos da Providencia, que sempre são de immenso alcance, -disfarçados mesmo nas tibornias da tia Josepha! Se não se compadecesse -tanto dos miseros bebedores, em que estado não ficariam elles, que mesmo -assim, quasi sempre, ao sair, não sabiam quem era o cura da sua freguezia! - -Os nossos amigos trabalhadores, que não queriam passar por homens de -ficar atraz em coisas d’aquellas, entraram na quinta, á volta da adega -do tio Mattos, que era uma lastima vêl-os. Uns a cair, outros cheios de -escalavradellas, e todos elles sem real da feria da semana. - -Começaram beberricando para não fazer desfeita aos lá da cidade que -os tinham convidado; pouco a pouco foram chegando-se para o jogo, ao -principio sómente para vêr, depois para jogar. Emfim quando não cabiam em -si de contentes, porque iam de cima e tinham alguns vintens diante de si, -viram n’um relance de fortuna varrer-se-lhes tudo da frente, á maneira de -comoro de vallado feito de terra solta, e que uma cheia leva no enxurro. - -D’aqui os ralhos e as desordens; apoz as descomposturas, as vias de -facto, e quem sabe, se não lhe acudissem, onde a coisa iria parar. - -Fazer-lhes prégações n’aquellas alturas era o mesmo que chover no -molhado. O tio Joaquim, que não era de hoje nem de hontem, conheceu -logo que perdia o seu tempo; deu-lhes de mão n’aquella noite, e no dia -seguinte ás horas do costume contou-lhes pouco mais ou menos o que se -segue: - -Poucas coisas ha que tanto custem, para nós, que toda a semana andâmos -agarrados ao cabo da enxada ou rabiça do arado, como é entreter os -domingos e dias santos, que o Senhor nos manda para descanço do corpo e -recobro de forças. - -Depois da missa fica um por ahi além de horas, que é preciso matar sem -quebra do temor de Deus, nem offensa do proximo; mas como nem todos sabem -o que hão de fazer, acontece quasi sempre, que as perdem, e as perdem -muito para mal. - -As velhas onzeneiras, que almejam pelos domingos para bisbilhotarem as -vidas alheias e darem cresta ás colmêas dos outros, dizem que se deve -descançar do trabalho, e passam-n’os na ociosidade, que de todos os -vicios é o peior; os mal comportados destinam-n’os para as tabernas, do -que conseguem, além de ficar moidos e ralados, sem poder fazer obra que -se veja nos dias mais proximos, fazerem-se brutos de todo ao cabo de -pouco tempo. - -E dizem que descançam! Qual descanço nem meio descanço! Como se o homem -não fosse como a terra, e como esta precisasse estar em pouzio para -melhor produzir! - -Muda-se a sementeira como se deve variar o trabalho, e o melhor descanço -não é aquelle que consiste em não fazer nada; ou então, o que é peior -ainda, em armar disturbios e levantar rixas. - -Tres rapazes conheci eu, não ha muitos annos, cada um dos quaes tinha -o seu modo particular de entreter os dias de festa, cada um dos quaes -tambem escolheu fructos correspondentes ao grão que lançára á terra. - -Variavam tanto nos costumes e systemas, como se apartavam nas feições, e -como se vieram a differençar tambem no destino que levaram. - -Tinham nascido na mesma terra, e, bem moços ainda, tinham vindo procurar -trabalho á mesma fazenda; porque, acostumados a viverem juntos desde -pequenos, não se podiam separar nem á mão de Deus Padre. - -Roberto, o mais velho de todos, era feio de cara e de peior catadura. -Zangava-se por dez réis de coisa nenhuma, e quando estava zangado -dava por paus e por pedras. Tinha tanto de robusto, como de mau, e -só respeitava, de toda a gente, os seus dois companheiros, Pedro e -Anastacio. O primeiro d’estes fazia tanta differença de Roberto, como o -dia da noite. Franzino e delgado, parecia que o menor sopro o deitava a -terra, e lembrava mais um alfinete de toucar do que um trabalhador de -enxada. Comedido e de bons termos para todos, em pouco tempo ficou sendo -o ai Jesus da fazenda, onde morriam por elle. - -Anastacio, o ultimo em que lhes fallei, era, por assim dizer, como uma -ponte entre os dois. Fazia lembrar o outono entre o verão e o inverno. Se -era desembaraçado e lesto como Roberto, era bom como Pedro, estimava um -e outro devéras: mas se não podia levar a bem os arremessos e maus modos -de Roberto, não gostava tambem muito de tanto de não presta, de que -estava cheio o outro seu companheiro. Não lh’o deitava á cara para não o -envergonhar; mas muitas vezes lh’o ouvi dizer: - -—Não se ha de fazer nunca d’ali coisa que tenha geito, parece um -Sant’Antoninho onde te porei; nasceu mais para fiar n’uma roca do que -para puxar ao trabalho com substancia. Não é culpa sua, isso é verdade, -mas por mais que me digam, aquillo foi erro da natureza. - -Em pouco tempo teve cada um uma occupação adequada ás suas posses. Pedro, -que mais não podia, foi encarregado de guardar um rebanho de ovelhas -e cabras, que tinha mais de duzentas cabeças; Roberto tomou conta da -abegoaria e das cocheiras; Anastacio ficou de rancho na malta, entre os -trabalhadores de enxada. - -Como é bem de vêr, o peior dos tres começou a fazer das suas: trabalhava -de má vontade, embebedava-se, e tratava do gado á moda de mil demonios. - -O mais fraquito, bem ao contrario, começou a fazer as vontades aos -patrões e a cair lhes em graça. - -Tanto fez, tanto fez, que o filho da casa pegou a ensinar-lhe a lêr, -coisa porque elle morria havia muito tempo, e em que entretinha os -domingos, passando os dias de semana, em quanto o gado pastava, a estudar -as lições e a puxar por si; o Anastacio que não podia aturar a lettra de -imprensa, nem, segundo dizia, tinha cabeça para aprender, começou a fazer -economias para, logo que podesse, tratar de casar com uma rapariga da sua -terra, com quem estava justo desde pequeno. - -Emquanto uns iam para as tabernas e Pedro dava lição, elle, que não -queria gastar o dinheiro em extravagancias, nem atormentar a cabeça com -aquellas tontices dos livros, procurou vêr se aprendia algum officio -ou arte, em que se entretivesse, e em que passasse o tempo com toda a -economia. - -—Porque não estudas tu aos domingos tambem? perguntava eu muitas vezes a -Roberto. - -—Ora, porque não nasci para sachristão, nem para besta de carga. Enfados -bastam os da obrigação, que já não são poucos, quanto mais il-os eu -buscar agora por minhas mãos. Sempre ouvi dizer que era preceito guardar -os domingos e festas de guarda, e que trabalhar n’estes dias era peccado. - -Estavam as coisas n’estas alturas, quando tive de ir á minha terra, -recolher uma herançasita que houvera, e demorar-me por lá algum tempo -para pôr as minhas coisas a direito; quando voltei nenhum d’elles já -estava na mesma quinta. - -Seis annos depois em dia de festa de Corpo de Deus, fui a Lisboa vêr a -procissão e visitar de caminho uns parentes, que ali tinha,—já lá estão -na terra da verdade, pobre gente!—Deus os tenha á sua vista. - -Passava pela rua dos Bacalhoeiros quando ouvi que de uma tenda me -chamavam pelo meu nome. Vejam qual não seria a minha admiração, quando -dei com duas caras conhecidas, que me faziam muita festa, e que eram nem -mais nem menos do que os nossos amigos Pedro e Anastacio. - -Nem pareciam os mesmos, nos termos e nos trajes lembravam pessoas da -cidade, mas no coração eram sempre os pobres e bons trabalhadores. - -—Ora o tio Joaquim por estes sitios, me disseram, e sem nos conhecer! - -—É verdade, rapazes, quem era capaz de pensar, que havia agora de vir -topar com vocês, assim tão enfeitados e garridos. Com mil demonios, se me -não chamassem, não era eu que os descobria. - -—Mas nós não esquecemos os amigos velhos, e logo que o vimos, não -quizemos passar sem o abraçar. - -—Bem apertado e do coração. Mas pelo que vejo a fortuna fez das suas, e -lembrou-se de vossês. - -—É como diz; alguma felicidade tivemos. Mas não ha de ficar á porta da -rua, entra e vem conversar um poucochinho comnosco, não é assim? - -Fiz-lhes a vontade, e pelo que me contaram vim a saber o que lhes tinha -acontecido, e que foi o seguinte: - -Cada um d’elles tinha seguido o seu modo de vida, conforme se ageitava -melhor. Pedro estudando nos livros, Anastacio trabalhando nas horas de -descanso, para juntar algum dinheiro. - -Metteu-se-lhe na cabeça aprender um officio e a troco de alguns serviços -feitos ao mestre Antunes, tanoeiro, alcançou que lhe ensinasse o seu modo -de vida, em que, com a vontade que tinha, chegou a ser um bom official. - -Já avesava um par de vintens, quando se descobriram essas terras lá da -California, onde segundo diziam os papeis, havia mais oiro em pó, do que -milho em celleiro rico nos annos de fartura. - -Os homens de ganhar começaram a mudar de rumo e a procurar fortuna por -essas terras. Desinquietaram-n’o; mas elle, despresando o ditado: «muda -de terra, mudarás de fortuna» como se ia dando bem por onde estava, -resolveu-se a ficar. - -Ora, não sei se sabem, que apesar de haver dinheiro a rôdo pela tal -California, não havia de comer, nem de beber, e qualquer coisa, que por -lá se precisava, era comprada a peso de oiro. Fazia frio de cair o nariz, -a aguardente e o figo, era—de mais a mim, mais a mim—e os tanoeiros por -conseguinte não tinham occasião de dobrar canella. - -Anastacio, que já sabia do officio ás direitas, deitou-se á obra, empatou -em madeira os pintos que juntára, e conseguiu montar uma tanoaria em -grande, que em pouco tempo se afreguezou pelos bons modos do dono e bom -preço das obras. - -Quando o encontrei em Lisboa, acabava de casar com a promettida -desposada, que trouxera da terra. A sua loja, que era uma das melhores -da cidade, gosava de excellentes creditos: e o negocio corria o melhor -possivel. - -Pedro tambem tinha caminhado e muito; mas por estrada diversa. Pouco a -pouco fôra lendo cada vez melhor, e escrevendo de fórma que levava as -lampas ao mestre-escola do logar; parecia um treslado a lettra do rapaz. - -O dono da quinta, a quem elle caira em graça pelos seus termos comedidos -e vontade de saber, tirou-o d’aquelle labutar e mandou-o para uma -mercearia sua em Lisboa, a servir de caixeiro. Era o que elle queria e -em que melhor calhava, tanto que em pouco tempo se fez um merceeiro de -enche-mão. - -O patrão trazia-o nas palminhas, e dizia á bocca cheia: que não tivera -nunca outro, que lhe chegasse tanto ás medidas. - -Nem só o sr. José Esteves era d’esta opinião: a senhora sua filha, que -se derretia para o rapasito, achava ao pae carradas de razão e fazia-se -com terra de lhe chamar seu marido. Atrever-se a pedil-a, não era o Pedro -capaz d’isso; mas o pae da rapariga, que deu na ferida, e que não era -de soberbas, antes pelo contrario muito dado e maneiro, reconheceu que -lhe convinha para genro um bom rapaz socegado e amigo de dar ordem á sua -vida, e em poucos tempos tratou de os pôr a caminho do setimo sacramento. - -Tambem vivia de grande quando lhe fallei, e a loja onde estavamos era do -sogro; ou d’elle, que vinha a dar na mesma coisa. - -Tinham acabado de me contar as suas historias, e ia-lhes perguntar, que -norte tinha tomado Roberto, quando ao chegarmos á porta para vêr a gente -que passava para a procissão, desembocaram de uma d’aquellas ruas uns -poucos de grilhetas, que de barril ás costas, desciam lá das bandas do -Castello e iam para o chafariz de Dentro. Não tive que perguntar, porque -reconheci-o logo entre elles quando passaram diante da porta. - -Vim depois a saber por que fôra ali parar. O vinho, e as patuscadas dos -domingos, tinham sido a causa d’aquella desgraça. - -Não deitava Nosso Senhor um dia santo a esta terra, que elle não fosse -para a taberna, e que não sahisse de lá a não ser em miseravel estado. Em -breve pozeram-no fóra do trabalho, porque não dava conta de si, nem se -podia olhar para elle, de desmaselado que andava. Vendo-se sem trabalho, -e sem ninguem o querer, ajuntou-se a uns poucos de vadios da terra, que -passavam pelas peores firmas do logar. - -Ao principio eram comesainas e bebedices: depois como não havia dinheiro, -nem gente que lhes fiasse, nem vontade de trabalhar, começaram a pregar -calotes, a commetter roubos, e quem sabe se mortes tambem. - -Ao menos assim por lá se rosnava, e bem se diz: que n’estas coisas: «voz -do povo, é voz de Deus.» - -Um dia a justiça, que andava com os olhos n’elles, deitou-lhes a unha. Um -dos que resistiu foi Roberto, e ao fugir á prisão, feriu de morte um dos -cabos, que o queriam prender. - -Foi condemnado ás galés por toda a vida: e a cumprir esta sentença o vi -eu em Lisboa, no tal dia de festa do Corpo de Deus. - -Agora vocês lá rapazes, que perceberam aonde eu ia dar na minha: pensem -na historia que lhes contei, e vejam de que modo deverão passar melhor os -domingos e dias santos. - -Os bons dos maltezes não deram resposta ao narrador n’essa occasião; os -resultados futuros deixaram vêr, porém, que as palavras do conto do tio -Joaquim, não tinham sido deitadas ao vento. - - - - -V - -Os retratos de familia[1] - - -Faz para as vindimas dez annos, que eu ouvi ao tio Joaquim esta historia. - -Havia pouco que sahira da quinta, onde eu estava, o sr. Antonio Tavares, -que passava por um dos fazendeiros mais ricos dos arredores. - -Amanhava para cima de sessenta geiras de terra: e só de uva mandava perto -de quinhentas caixas para embarque. - -Era franco, alegre, e homem de boas petas; tinha pilhas de graça e -parecia vender saude; emquanto a modos e linguagem, sabia o nome aos -bois, e quando fallava de lavoira podia-se ouvir, discorria como um livro -aberto. - -Todos gostavam d’elle, por não ser de contos, nem de arcas encoiradas; -só cuidava da sua vida, andando lizo no negocio como poucos. Ninguem lhe -acceitava signal, porque em dando a sua palavra era como se apresentasse -o dinheiro contado na palma da mão. Não constava que faltasse, nem se -dava fé, de quem tivesse duvida em fiar d’elle fosse o que fosse. - -Tinha vindo a comprar uns trigos, assistira ao carregar dos carros e -sahira depois do trabalho acabado, n’uma vaca de cinco annos, esperta -como um azougue e preta como um azeviche. Rira muito, contára muita -coisa, e fizera bom negocio; porque lhe tinham dado o pão em conta por -ser a venda redonda. - -O tio Joaquim, que não era dos mais falladores, nem dos que se abria -muito com os extranhos, conversára com o sr. Antonio Tavares, como -quem de ha muito o conhecia: apertára-lhe a mão na despedida com ares -affectuosos, e seguira-o com a vista até desapparecer na volta da -alameda, fazendo feitios com o pau na terra do pateo, e resmungando entre -dentes palavras que não entendi. - -Esta excepção nos habitos do velho, aguçou-me a curiosidade, e -perguntei-lhe se conhecia de ha muito o homem que d’ali saira. - -—Se conheço!...—respondeu-me inclinando a cabeça de alto a baixo, -compassadamente, duas ou tres vezes. - -Havia tantas coisas n’aquella reticencia do tio Joaquim, que não pude -resistir, e instei com elle para que me contasse a historia do sr. -Antonio Tavares. - -Tanto fiz, tanto fiz, que sentou-se ao meu lado n’um poial de tijolo, -carregou um cachimbo de madeira, enfeitado com virolas de latão, como os -que usam os campinos do Ribatejo, petiscou, accendeu-o e começou. - -Mais palavra menos palavra disse o seguinte: - -—Vae tanta differença d’este Antonio, ao de outros tempos, como vae da -noite ao dia, e tanto que se eu não presenciasse esta mudança, não podia -acredital-a ainda que m’a contassem. - -Lá embaixo, ao pé do Joaquim Boleta, no recanto da azinhaga, morou por -muito tempo o pae em companhia da mulher que veio a morrer de parto, -quando este Antonio nasceu. Ali esteve, até que por causa da guerra com -os francezes chamaram as baixas antigas e elle, como tinha sido soldado -n’outros tempos, teve de partir deixando o rapaz entregue a uma visinha, -boa mulher na verdade e que promettera tomar conta d’elle. Mas é mais -facil ter um pouco d’azougue quieto em cima d’uma pedra, do que era -conseguir, que o rapaz não fizesse por ahi obras de cabeça. - -Não deitava Deus nosso Senhor um dia a este mundo, em que se não -dissesse: lá apanhou o Antonio engeitado, (assim é que lhe chamavam), uma -escamoucadella na cabeça, lá o aleijaram n’uma brincadeira, lá lhe deram -uma cossa quando andava aos figos. - -Era um rosario de coisas, que até fazia admiração como elle resistia; mas -se o carrasco e o zambujeiro crescem, medram e enrijam ao desamparo por -esses vallados, e não ha madeira como a d’elles para aguentar dura; não -admira tambem que o rapaz enrijasse assim ao Deus dará e se fizesse um -mocetão de mão cheia, esperto e guapo que era um regalo vêl-o. - -Emquanto a velha Thereza foi viva ainda elle trabalhou alguma coisa para -a sustentar, não muito, que lá no seu dizer, o trabalho era para os cães -e não para as almas christãs; mas apenas a velha fechou o olho, adeus -minha vida, foi um vadiar, que não é para dizer. - -N’este comenos tinha um soldado, que viera da campanha passado pela -terra, e entregára ao Antonio umas lembranças do pae, morto n’um ataque -contra os francezes, recommendando-lhe o filho á hora da morte. - -Minguada herança, que ella era. A farda do soldado, meia duzia de peças, -se tanto, e o retrato do pae, que um seu companheiro tinha feito n’uma -hora de vagar. Muito parecido, por tal signal; era elle por uma pena, só -lhe faltava fallar. - -Antonio chorou devéras, pouco se lembrava de seu pae; mas custou-lhe -muito aquelle lance. E n’essa occasião mesmo deu mostras de boa alma que -tinha, e que depois deixou vêr melhor lá para o diante, quando mudou de -vida. Apesar de falto de dinheiro, não gastou comsigo nem um real da -herança que recebera; uma parte empregou-a em mandar fazer um caixilho -muito bonito para o retrato de seu pae, e o resto deu-o de esmolas aos -pobres, pedindo-lhe que rezassem por alma do finado. Andou uns dias, que -não parecia o mesmo, triste e regular no trabalho, depois tornou á antiga -ou ainda peor se era possivel. - -Quando tinha algum vintem de seu não paravam as patuscadas, as festas e -os divertimentos; depois trabalhava pouco e de má vontade até arranjar -dinheiro, e, mal o conseguia, eil-o que voltava á boa vida. - -Mas, manda a verdade que se diga, esteve por vezes doente no hospital, -viu-se em talas quando por ahi faltou o trabalho, vendeu, empenhou tudo, -só não tocou, em occasião nenhuma, nem na fardeta, nem no retrato, que -conservava á cabeceira da rabeca, onde dormia, como se fossem imagens do -Senhor dos Passos ou orações do Justo Juiz. - -Uma vez, vim a sabel-o ao depois, tinha-se-lhe acabado todo o dinheiro e -não havia que fazer; o jantar havia de vir; mas d’onde, é que elle ainda -o não sabia. Antonio foi procurar um ferro velho do logar e propôz-lhe a -venda da enxerga: era o resto dos trastes, que tinha, e estava tão velha -e tão suja, que nem uma de doze valia. - -O ferro velho entrou, e mal deu com os olhos nas duas reliquias do pobre -rapaz offereceu-se para lh’as comprar; mas inda bem o não tinha dito, já -estava arrependido de o dizer, porque Antonio punha-o immediatamente no -meio da rua com promessa de lhe fazer os ossos n’um feixe, se tivesse -outra vez semelhante lembrança. - -Assim passou algum tempo com a barriga ora em lua cheia ora em quarto -minguante, até que uma gente, que para aqui veio lhe fez mudar o modo de -viver. - -Um velho tinha arrendado a quinta dos Fusis, para onde viera presistir em -companhia de sua filha. - -Elle andava pelos seus cincoenta annos: parecia homem de bem; mas casca -grossa e pouco de graças; ella, mais bonita que uma imagem e mais bem -posta que uma fidalga. - -Quando íam no domingo á missa ou de tarde a espairecer por essas -azinhagas, o velho de cabeça branca, corpo um tanto curvado, bigodes -grandes, sobrancelhas espessas, parecer carregado e faces enrugadas; -ella alta, esbelta, de olhos pretos e vivos, cabello castanho, faces -córadas, feições alegres e cara de riso para todos, pareciam a noite e -a madrugada, ou o inverno e a primavera que se combinassem para melhor -parecer unidos um á outra. - -Os rapazes todos derretiam-se para ella, mas o pae que não tinha cara de -muitos amigos, impunha-lhes respeito e conservava-os de largo; e d’ahi -ella assim mesmo sempre alegre, mas toda senhora, dava tambem a entender, -que não estava resolvida a acceitar a côrte a qualquer badameco. - -Antonio vio-a um dia e ficou perdido de cabeça; desde essa occasião -começou vida nova: e o rapaz extravagante e vadio, começou a ser homem. - -Era tempo, tinha quasi vinte e cinco annos. - -Mas a vida que seguiu, foi tão differente da antiga, que não parecia o -mesmo. - -Os dias passava-os a trabalhar, as noites a aprender a lêr, porque o -mestre do logar lh’o ensinava a troco dos domingos, em que lhe trabalhava -no quintal, e as horas de sesta ou de jantar passeando pela frente -da casa da menina Maria, que o enfeitiçára: mas para bem, que são os -melhores feitiços. - -E o caso é que o maganão do Antonio tinha bom gosto, por que mocetona -mais perfeita não a havia n’estas tres leguas ao deredor. Ia-se -desenvolvendo e medrando, que era um louvar a Deus, e não seria por sua -parte, que podesse resultar má fama aos ares do logar. - -Bonita já ella o era, mas enfezada e doentia por amor d’aquelle mau -respirar que as cidades fazem; apenas porém desatou por ahi a passear -e a espairecer, entrou a córar, que nem uma pera de Santo Antonio, e a -encorpar que nem uma maçã bemposta. - -Se ella reparava no rapaz, nem o sei eu, nem ha quem o jure, porque isto -de mulheres, nem o demo as entende; mas que o não visse com maus olhos é -de crêr, porque o Antonio, não tinha nada que se deitasse fóra e era um -rapaz perfeito a mais não poder ser. - -Cá por a terra não se fallava n’outra coisa e não havia tenda nem -barbeiro, onde se não désse á taramella a tal respeito. Tudo em bem, que -em mal não havia rasão, nem atrevimento para tanto, por que com Antonio -ninguem brincava, e todos se pellavam de medo de um certo marmelleiro -ferrado, que elle trazia e que não era palito para dentes, nem vime de -passar creanças. - -Tanto fallaram, tanto fallaram, que o caso foi aos ouvidos do pae, que já -andava com a pedra no sapato por tanto rondar de porta e tanto encontrar -o Antonio nas visinhanças da quinta. - -Um dia, que acabava de fazer a barba, dois maltezes que estavam no -barbeiro, e que o não conheciam, entraram com pé de conversa a respeito -do tal namoro e deram a entender, lá por meias palavras que o Antonio se -fazia com terra de casar com a menina Maria. - -O sr. José Alves, assim se chamava o pae, não quiz ouvir mais nada; -atirou com uma de trez para cima da mesa do barbeiro, e foi se como um -raio a casa do Antonio. - -Boas tenções não tinha elle. Ia fumando, e vermelho como um pimentão, -saccudia um camolete que levava, que mais parecia um bastão de -tambor-mór, do que uma vara de encosto. Se encontrasse o rapaz no meio -do caminho, atirava-se a elle, e não o deixava em quanto lhe encontrasse -osso inteiro. - -Era um sabbado e quasi ao sol posto: o quarto estava escuro e Antonio, -que voltára mais cedo do trabalho, tinha-se atirado para cima da cama, -farto de lidar e sem poder comsigo. - -Apenas por uma claraboia, que havia no telhado, entrava alguma luz, e -essa ia bater de chapa no retrato, que estava á cabeceira; parecia pessoa -viva, e até mettia respeito olhar para elle. - -É de crêr que o sr. José Alves se não demorasse a bater á porta, -atirou-lhe um encontrão e deitou-a dentro ás primeiras rasões. - -Antonio ia a agarrar no pau, que tinha ao pé de si, e saltar na visita, -quando reconheceu o pae de Maria e ficou varado; este ia para fallar, -quando deu com os olhos no retrato e pasmou. As lagrimas saltaram-lhe dos -olhos, e, sem mais satisfações, perguntou a Antonio, apontando-lhe para o -painel: - -—De quem é aquelle retrato? - -—De meu pae, respondeu o rapaz. - -—De Antonio, do meu velho amigo!—e em vez de se atirar á paulada ao -namorado da filha, atirou-se a abraçal-o que parecia querer metter-lhe as -costellas dentro. - -O que causára aquella mudança, já o senhor adivinha o que foi, continuou -o tio Joaquim concluindo a sua narração, o sr. José Alves era o tal -camarada de Antonio, que trouxera o retrato, quando o rapaz ainda -era um fedelho, e a quem o pae o recommendára á hora da morte. Tinha -continuado a servir depois que passára pela terra a cumprir o testamento -do moribundo: e de batalha, em batalha, esquecera-se do companheiro, do -filho, e da promessa. - -Antonio foi para casa do velho, entrou a administrar-lhe o que elle tinha -e augmental-o com o trabalho e a boa vontade; o casamento que já era de -gosto do sr. José Alves e a que a rapariga não dizia que não, fez-se -d’alli a pouco... e lá tem vivido como Deus com os anjos até que o velho -morreu, deixando a filha e o genro de posse da fortuna que o senhor sabe. - -No dia seguinte, áquelle em que o tio Joaquim me contára esta historia -fui aos _Fusis_ procurar o sr. Antonio Tavares e receber o dinheiro dos -trigos. - -Havia muito que não entrava n’uma quinta tão bem cultivada, nem via em -fazenda alguma, n’aquelles sitios, tanta ordem, nem tão bom gosto. - -Os systemas mais modernos, os instrumentos mais appropriados, as -descobertas de maior importancia pratica, tudo ali estava aproveitado, -com uma tal arte, que bem mostrava ter sido, coisa rara entre nós, a -theoria unida á experiencia com muito criterio e bom resultado. A _dos -Fusis_ poderia servir de _quinta modelo_, se os fazendeiros da terra, -afferrados á rutina, cuidassem de modernismos ou tratassem de innovações. - -Apenas soube, que eu ali chegára o sr. Antonio Tavares, mandou-me entrar -para a casa de jantar, onde estava com a sua familia; Maria, que devera -ter sido tão formosa, como o tio Joaquim o dissera: e duas creanças, que -se tinham levantado da mesa e que brincavam ali para um canto. - -A casa, posto que conservasse aquelle aspecto severo, que ainda se -denota n’algumas fóra de Lisboa, que fosse de ladrilho, com as paredes -revestidas d’azulejo até meio, e o tecto _em osso_, com as grossas vigas -de castanho do emmadeiramento á mostra, era alegre, porque recebia muita -luz de tres rasgadas janellas, que deitavam sobre uma horta. A mobilia -era de pau santo torneado, e n’um grande armario meio aberto via-se -boa louça da India, e algumas peças d’uma baixella de prata. No logar -de honra dava-se com o retrato a lapis de Antonio e com um outro mais -moderno, a oleo, que devia ser do sogro: uma santa, que não sei ao certo -qual era e dois quadros de fructas ornavam as paredes. - -Tudo reunido dava á casa de jantar um certo ar patriarchal, que infundia -respeito e inspirava felicidade. - -Antonio depois de me pedir que me sentasse, e de me offerecer um copo -de vinho da lavra, levantou-se e foi a um contador buscar o dinheiro da -compra, que já estava embrulhado e prompto desde a vespera; conversámos -um pouco, e quando me despedia, pediu-me que o visitasse a meudo, porque -estimaria vêr-me em sua casa. - -—Voltarei, lhe prometti, e voltarei em breve: o tio Joaquim contou me a -sua vida, e apenas o conheci, comecei a respeital o. - -—Bondades suas e do tio Joaquim, que é muito velho, não ha razão para o -que diz. Fui rapaz, fiz o que todos fazem, emendei-me a tempo, se é que -não foi tarde: se alguma virtude tive, e essa mesma bem m’a têem pago -aquelles,—disse-me olhando para Maria e para os pequenos,—foi não me -esquecer no meio de todas as minhas doidices, que me tinham ensinado a -_Honrar pae e mãe_. - - - - -VI - -O fructo prohibido - - -I - -Adeus, Rosa! Adeus! E adeus para sempre! - -—Ai! para sempre, meu Estevam? - -—Que queres que eu faça, dize? - -—Sei-o eu, por ventura? Mas partir... e o mar?... É tão bravo! - -—Não só no mar ha bravezas, na terra corre-se risco de maior: se eu -ficasse!... - -—O que fazias? - -—Ou mettia uma navalha no Januario ou dava um tiro n’estes miolos. - -—Jesus, homem, tentação do demonio é essa, cruzes! Parte, parte, meu -Estevam, mas não te esqueças de mim. - -—E tu? - -—Eu! Sempre. - -—Adeus! - -—Não te verei ainda ámanhã?!... Antes do embarque?... - -—Não, o que ha de ser seja, quanto mais estiver com demoras, mais me -faltará o animo. Adeus Rosa, sê feliz. - -—Adeus, Estevam, volta breve. - -—Voltar para que? Para te vêr entregue a outrem, que virás a amar, se é -que o não amas agora?... Para presencear essa vida de felicidade, que é -a minha desgraça, o meu tormento; para comprehender que me illudiste, -quando me juraste um amor eterno! Amores eternos de mulher, como as -flôres d’este nome, que duram mezes, e que os primeiros sopros do inverno -derrubam!... - -—Deus te perdôe a injustiça que me fazes! - -—Para que casas? - -—E a maldição de meu pae?... Meu pae amaldiçoava me Estevam. - -—E o nosso amor! - -—Fica-me no coração, ha de me matar, descança. - -—Antes tu morresses... - -—Oh! Quem dera! - -—Não fallemos mais em semelhante coisa. Para que has de dessimular ainda? - -—Se eu pudesse rasgar este peito, que me opprime, se pudesse arrancar-lhe -este coração que é teu, e o ha de ser sempre, se te podesse mostrar como -elle padece, não duvidarias de mim. - -—Queres que te agradeça talvez, queres que te bemdiga não é assim, queres -que estime saber, que pertences a outro, não é verdade? - -—Não, Estevam, quero que tenhas dó de mim, e que me esqueças! - -—Esquecer-te, eu! E a minha existencia de até hoje, que foi sempre tua, -e a minha fé no futuro, que estava em ti, e a minha vida toda, que te -pertence; queres que esqueça tudo?... Se não fôra minha mãe!... - -—Tua mãe! - -—Sim, minha mãe, pobre e santa velhinha, que não tem no mundo mais do -que eu, que lhe queira e que a ampare. Minha mãe, que eu mataria se -morresse; minha mãe, a unica que me tem tido amor na terra!... - -—A unica! Talvez... - -—Olha, Rosa, escusas de fingir, para quê? Não vale a pena. Ámanhã por -estas horas já estarei d’aqui bem longe. Só o que te peço, como um ultimo -favor, como uma esmola, é que te lembres de minha mãe, que lhe enxugues -as lagrimas, que chores com ella,—não te ha de custar muito, sabes tão -bem illudir!—e que depois uma e outra vez te lembres de que te amei... e -muito. - -—Pela alma da minha te juro, ha de ser minha mãe. - -—Obrigado, Rosa. Adeus! - -—Não me queiras mal. - -—Não poderia, ainda que quizesse. - -—Não queiras, Estevam, não, que t’o não mereço, perdôa-me e... não te -esqueças de mim!... Meu pae, que nos vê, foge Estevam, elle encaminha-se -para este lado. - -—Adeus! - -Passava-se este dialogo no pateo da quinta de _Valle do Freixo_ no dia de -S. João, ao amanhecer. - -Houvera um bailarico de primor, a que tinham concorrido os rapazes e as -raparigas das visinhanças e com elles os paes, as mães e os tios. - -Era um poder de gente, que passára a noite a cantar, a dançar, a pular, a -rir, a comer, a beber, a respirar alegria: a provar que os cuidados lhes -não pesavam na consciencia, nem o mau humor no espirito. - -Fôra um dos mais brilhantes bailaricos de que havia memoria. - -O dono da quinta pozera uma grande meda de vides á disposição da -fogueira, e uma pipa de vinho ás ordens dos concorrentes; mandára cozer -varias amassaduras de pão, frigir um por ahi além de peixe; transplantára -dois alfobres de alface para quatro alguidares, juntando-lhes tambem -quatro cestos vindimos com a fructa do tempo, e sobre tudo a boa vontade -e o contentamento a resplandecerem-lhe na physionomia, convidando todos a -divertirem se. - -Infelizmente, porém, nem todos podiam estar alegres. N’aquella multidão -buliçosa duas creaturas havia tão tristes, tão attribuladas, que cortava -o coração olhar para ellas: parecia que tinham vindo assistir, não a uma -festa, mas a um enterro. - -E na verdade, ali enterravam vinte annos de esperança e de amor: -n’aquella noite se viam em despedida, e só Deus poderia saber se essa -despedida seria eterna. - -Rosa e Estevam tinham vivido juntos desde creanças e tinham-se acostumado -a amar, antes, ainda antes de saberem o que era amor. Conheceram o -que era quando começaram a padecer; porque é no soffrimento que elle -desabrocha, como as rosas de mais apreço nos seus berços de espinhos. - -Juntos balbuciaram as primeiras palavras, juntos aprenderam a lêr, -juntos iam á escóla, juntos voltavam ás tardes, e juntos passavam as -noites brincando no campo e discorrendo alegremente, como duas avesinhas -chilrando proximas na mesma arvore. - -E encontra-se o que quer que seja de gorgear de passaros no palrar -infantil, que borboleteia de assumpto em assumpto, soltando de quando em -quando notas agudas de admiração, ou modulando trilos narrativos de tanta -viveza e simplicidade. - -Disseram em commum as primeiras orações, e muitas vezes os surprehendia -o passeante enternecido, de joelhos e mãosinhas erguidas para o céo, -repetindo em côro:—«Perdoae-nos, Senhor, as nossas dividas...» dividas, -de um ninho surprehendido entre as giestas, ou de uma innocente mentira a -denunciar-se logo pelo rubor da candura e pelo borbulhar de duas lagrimas -de arrependimento, se por ventura os interrogavam. - -E que lindo grupo, quando estudavam juntos a lição do mestre, ou a reza -que a mãe lhes ensinára, sentadinhos no limiar da porta, um repetindo -entre incertezas e duvidas; outro escutando com toda a attenção e com -ares concentrados, como quem comprehendia a gravidade da sua posição de -professor: mas ambos a reverem-se um no outro e a casarem torrentes de -luz, que lhes chispavam d’aquelles olhos brilhantes, vivos, buliçosos, -humidos de alegria e languidos de sentimento. - -Com o decorrer dos annos não houve remedio senão ir gradualmente rareando -aquelles doces encontros. Demais, tendo morrido a mãe de Rosa, esta -ficára governando a casa e em companhia de seu pae, que não era para -graças. Continuaram a vêr-se, a fallar-se; mas ás furtadellas, e quasi -que ás escondidas. - -Rosa crescera, e ao desenvolver-se tinha ganho cada vez maiores -perfeições. Fizera-se mulher, mas mulher tão formosa, tão delicadamente -formosa, que confortava a alma admiral-a. - -Não parecia do campo, nem mesmo da terra. - -Devem ser assim aquellas phantasticas visões, que, aljofradas por -milhares de perolas do orvalho da manhã, se esboçam na atmosphera ao -romper do sol por entre as nevoas da aurora. - -Delicada flôr, que a mais terna aragem encurvava, parecia quebrar-se -no andar. Resvallava pelo chão, deixando apenas uma suave fragancia a -denunciar a sua rapida passagem, e uma indefinida sensação na mente dos -que a viam. - -Por aquellas visinhanças não havia noticia de creança tão mimosa. - -Era branca; mas branca como o alabastro e como os lyrios, e na suave -pallidez da physionomia lia-se o sentimento d’aquella organisação -franzina e nervosa. Os cabellos negros como o azeviche, assetinados -e brilhantes, poder-lhe hiam servir de manto, quando os desatasse -ondeando pelas costas abaixo e dobrando ainda no chão; os olhos como dois -diamantes negros, sempre velados por uma doce melancholia rasgavam-se-lhe -no meio de duas palpebras escurecidas pelas sobrancelhas finamente -desenhadas, e orladas d’umas pestanas compridas e densas, que davam ao -olhar, já de si bem triste, mais tristeza ainda amortecendo-lhe o brilho, -quando raramente o illuminava. - -Quem attentasse n’aquelle rosto sempre sentido, sempre scismando como -que n’outro mundo, sempre voltado para o céo, sentiria, se de todo não -tivesse a alma cerrada á compaixão, uma lagrima de sincera piedade -cair dos olhos extaticos. Rosa era uma creatura que lembrava aquelles -mysterios, os enlaces dos anjos com as formosas filhas dos homens, nas -primeiras eras do mundo. - -Estevam tambem se desenvolvera, e se formára um guapo e gentil rapaz. - -Nas bem proporcionadas fórmas lia-se-lhes a força; no rosto franco e -expansivo, a lealdade e o valor. Não havia idéa de que nunca em sua vida -tivesse abusado da força: mas não constava tambem que tivesse recuado -nunca. Não procurava o perigo, mas não se temia d’elle; era dotado de -verdadeira coragem, fria, reflexiva, inabalavel. - -Estes dotes, porém, não eram de tal natureza, que podessem captivar o pae -de Rosa, homem de lettras gordas, e mais para o dinheiro do que para o -sentimento. - -Tinha casado com a senhora Placida, depois de lhe namorar os pintos e não -a physionomia. - -Vivera feliz a seu modo, porque tivera os commodos da vida, e não -comprehendia felicidade possivel, sem dinheiro ao canto do bahú, pão na -arca, vinho na adega e azeite na talha. Todo esse palavreado de amor e -paixão era engrimanço, que espremido não deitava nada; nem julgava que -boas razões pagassem dividas ou enchessem barriga. - -Um seu visinho e compadre, homem dos seus quarenta puxados, casca grossa -como elle, pé de boi, mas abastado, e com fama de entender do negocio e -da lavoira, tinha conversado com o sr. Feliciano Gomes, assim se chamava -o pae de Rosa, a respeito d’esta, affirmando-lhe que se não dava de tomar -estado se encontrasse mulher tão perfeita como a filha. Feliciano, que ha -muito andava com o olho n’uma courella do compadre Januario, e que por -mais d’uma vez futurára comprar-lh’a, alegrou-se com a idéa de arredondar -a sua propriedade, á custa de tão pouco. - -Tratou pois de desvanecer algumas duvidas, que ainda esvoaçavam no -espirito modesto do sr. Januario, convencendo-o de que lhe sobravam -perfeições para captivar o coração mais rebelde, que por ventura -palpitasse em peito de mulher. - -—Mas, eu sei lá, homem?... Já não estou muito rapaz... - -—Melhor é isso, não tem edade para loucuras. - -—E se a rapariga me não quizer? - -—Era o que faltava, compadre, deitava-lhe os braços abaixo e nunca mais -lhe punha a vista em cima! - -—N’isso é que eu não consentia!... Pobre Rosita! - -—Então quem ha de mandar em minha filha se não fôr eu? Quem póde saber o -que lhe convém? - -—Olhe, compadre, se a pequena tiver alguma inclinação... - -—Sem minha licença? Não faltava mais que vêr! Ensinava-a por uma vez. - -—Veja lá o que faz, homem, não quero que a rapariga padeça por minha -causa! - -—Qual padecer, nem meio padecer. Estou vendo-a já saltando de contente, -quando lhe disser: não sabes, o visinho Januario quer casar comtigo. -Foste feliz... - -—Isso ha de ser. Não lhe hei de faltar com coisa nenhuma. - -—Pois para as mulheres é o que é preciso: dinheiro para gastarem nos -trapos, e andam satisfeitas. - -—Parece-lhe por conseguinte que serei seu genro? - -—Se me parece! Já o é desde hoje, toque lá e deixe tudo por minha conta. - -—Lembre-se de que eu não quero ir contra a vontade d’ella... - -—Qual vontade, nem meia vontade, compádre Januario; o dito dito, e até -ámanhã. - -Esta conversação foi o começo das tristes aventuras dos dois amantes, que -apresentei aos meus leitores, e cuja historia, n’uma noite bem invernosa, -ouvi ao tio Joaquim. - -Emquanto Januario ficava scismando na sua vida futura e saboreando -d’ante-mão a posse da rapariga mais guapa d’aquelles sitios, Feliciano -recolhia rindo-se e esfregando as mãos, o que n’elle denotava o maior -signal de contentamento. - -Acabava de fazer um excellente negocio. Trocára a filha por uma courella -de dez alqueires de semeadura: isto é, uma mulher que tinha que sustentar -por uma terra que dava de comer. - -E o olival das _queimadas_, e a quinta da _cortiça_, e o casal do -_petisco_, e as terras do _Penetra_, e a horta da _allamôa_, e tantos -outros bens e haveres, que constituiam a fortuna de Januario! - -Claro estava que tinha tido uma tarde feliz. - -Rosa ficou surprehendida ao vêr entrar seu pae em casa risonho e -cantarolando, coisa de que não havia memoria; e sem lhe passar pela -cabeça qual era o motivo de semelhante transformação, sentiu-se alegre -tambem. - -Havia muitos annos que seu pae lhe não mostrava physionomia tão -prasenteira, nem lhe fallava com tanto agrado. - -De repente deu-lhe uma pancada o coração, quando Feliciano, voltando-se -para ella, lhe perguntou com certos modos em que transpareciam alegria e -finura mal contidas: - -—Que te parece o compadre Januario? - -—Que me ha de parecer, meu pae, dizem que é tão boa pessoa!... - -—Sim, sim, bem se sabe isso, boa pessoa, assim como quem diz pedaço -d’asno; não é pelas bondades, que eu te pergunto. - -—Então meu pae?... - -—Não olhaste para elle nunca com os teus olhos... de vêr? - -—Eu não senhor. - -—Pois é preciso que olhes, entendes-me? disse-lhe Feliciano derrubando -as sobrancelhas e deixando cair a viseira: talvez te agradem mais esses -alfenins lambidos, que por ahi se andam a desfazer? Pois estás muito -enganada comigo, percebes?... - -E ao passo que ia fallando engrossava a voz e fazia cara de arremetter. -Rosa tremia como varas verdes, e, com os olhos arrasados de lagrimas, -encommendava se mentalmente a todos os santos do seu calendario. - -Mal teve forças para balbuciar um:—sim senhor, meu pae,—e, cambaleando, -foi fechar-se no seu quarto, deitando-se em cima da cama a soluçar -convulsa, como quem se despedia d’este mundo. - -No dia seguinte, ao almoço, parecia que voltava do cemiterio, Feliciano, -porém, que se não apercebia facilmente d’estas mudanças, ou que, se as -conhecia, fingia bem o contrario, repetiu o interrompido assalto. - -—É preciso que vás pensando no casamento, estás uma mulher, ouviste? - -Bem quizera a pobre da rapariga não ter ouvido; mas era impossivel -dessimular. - -—Eu, meu pae; estou assim bem, eu não quero casar!... - -A resposta não se fez esperar muito. Feliciano soltou uma torrente de -imprecações, acompanhamento estrepitoso de uma bofetada não menos -estrepitosa, que já cortava os ares ainda bem a rapariga não acabára de -dizer que não queria casar. - -—Grandissima atrevida!... Eu te ensinarei a ter querer! Não queres -casar, hein! E pensas que engulo essa!... Vossês lá que bebem ares por -um marido! Mas tu o que não sabes é com quem estás mettida: eu não nasci -hontem e não has de ser tu, minha seresma, que me faças o ninho atraz da -orelha. Não queres casar, hein!... Ora mette-me o dedo na bocca a vêr -se t’o mordo! É volta de festa, é namorico no caso, mas apanhe te eu, -que verás por uma vez os meninos orphãos a cavallo. Não queres casar! -Mas quero eu que te cases e é o que basta. O visinho Januario pediu-te -hontem e eu resolvi que havias de ser sua mulher. E é dar graças a -Deus, pela pechincha! Onde pódes ir que mais valhas? Andar para deante -e cara alegre, quero que estejas contente, que mostres ao visinho, que -tens gosto no casamento, e que lhe agradeces os seus affectos, senão... -ponho-te fóra de casa depois de te moer esses ossos, e não quero mais que -me chames teu pae. - -Ao passo que ia ouvindo seu pae, Rosa ia successivamente esmorecendo. - -Á vermelhidão, que lhe tingira o rosto ao receber a brutal bofetada, -succedera-se uma pallidez citrina, que augmentára até ficar de puro -alabastro. - -Tinham lhe rebentado as lagrimas dos olhos no primeiro momento; mas não -correram. Uma constricção terrivel lhe afogou a garganta, pensou que -ia suffocar-se: pulava-lhe o coração no peito, batiam-lhe as arterias -na cabeça, semilhando o marulho das ondas, em torno do que mergulha -rapidamente, um cinto de ferro lhe apertava a fronte, zunidos estranhos -lhe baqueavam no cerebro. - -Cuidou que ia morrer e do intimo d’alma elevou ao Creador, uma prece de -jubilo, em acção de graças. - -Era um desmaio apenas, um d’estes abalos, que passam pelas organisações -nimiamente nervosas, como o furacão pelos arbustos, extremamente debeis. - -Acurvam-os até ao chão, estorcem-os na passagem; mas não os partem. - -Rosa quiz segurar-se á mesa, mas estonteou-se-lhe a vista, andou-lhe a -cabeça á roda, desfalleceram-lhe os braços, correu lhe gelo pelas veias e -deu redondamente no meio do chão. Parecia morta. - -Feliciano largou uma d’estas maldições capazes de espavorir toda a -milicia celeste e correu á filha; estremeceu-lhe o remorso todas as -fibras do coração de pae. Não havia maldade nas intenções do velho; -entendia a seu modo a felicidade da filha, que estimava devéras: não -se persuadiu que o golpe tivesse tão fundo alcance e trepidou ante as -consequencias. - -Mas ao vêl-a voltar a si, recuperou a confiança e de novo tornou ao seu -plano favorito. Intentou com aquelle frio calculo de quem já não cuida -em amores, que a voz do coração era uma impertinente a que se não devia -dar ouvidos em questões d’esta ordem, e que só o interesse devia tomar a -palavra e fallar de cadeira: amaciou entretanto a voz, voltou-se menos -rispido para a rapariga, e disse-lhe quasi enternecido: - -—É para teu bem, depois m’o agradecerás... - -E saiu, pensando no futuro de Rosa e na conveniencia de arredondar as -suas terras com a cubiçada courella de Januario. - - -II - -Pensem os que têem amado do coração, no que padecera a pobre da rapariga, -ouvindo seu pae. Desappareceu de repente de ante si aquelle encantado -futuro, em que se enlevára. N’um momento perdeu a esperança, a alegria, a -felicidade. - -Quando o amor verdadeiro nos domina, só ha em nós uma idéa, um pensamento -fixo, quasi uma monomania: a posse da que se ama, a existencia a dois, -participando ambos das mesmas dôres, das mesmas alegrias, dos mesmos -perigos, dos mesmos triumphos, das mesmas glorias. Reparte-se o coração -com aquella, a quem tanto se quer, e de tal maneira se alarga e augmenta -a porção que lhe entregâmos, que por fim nos apercebemos que já de todo -nos não pertence. E bem longe de nos pezar, enleva-nos, nos mais intimos -transportes do sentimento, essa doce expoliação do nosso ser. - -Se nós sômos então amor e sómente amor! - -O universo inteiro resume-se n’uma só creatura, e tão grande nos parece -esta, que o julgâmos ainda pequeno para a albergar. Todos os affectos -resumem-se n’um só, de todos os fios que nos prendem ao mundo, traçamos -uma cadeia só, no remate da qual nos penduramos com a energia, com a -tenacidade do affogado. - -No outro extremo da cadeia acaba o nosso mundo. Se um pavoroso cataclismo -precipitasse o globo; se as espheras se entrechocassem e confundissem; -se a creação voltasse ao cahos; se as trévas engulissem a luz; se n’um -rodopiar incessante o universo, se contorcesse nos extremos paroxismos: -ficasse a mulher, que amavamos, comnosco, e nem nos aperceberiamos da -mudança. - -A luz, a ordem, a harmonia, o movimento dos ceus, o revolver dos astros, -o tornear da terra, o não acabar do espaço, parecem-nos puerilidades -insignificantes, comparados com o infinito do nosso amor. Só ha uma -occasião, só ha uma phase da existencia, em que o homem se exalta, se -eleva, se engrandece, se eguala ao Creador. É quando ama. - -Satanaz se fôra o demonio do amor e não o demonio do orgulho resistiria -ao Omnipotente. - -Quando se assenhoreia de nós, o amor espalha por tudo quanto nos cerca, -fulgores que nem a centelha do raio póde offuscar, harmonias que nem os -córos celestiaes pódem fazer esquecer, encantos, que não os tem assim a -bemaventurança. - -É que a mulher reside para nós em tudo: tanto na florinha, que mal se -descortina entre a relva dos prados, como na montanha arrojada, que -parece lacerar os seios do infinito: se queremos colher as flôres para -com ellas lhe juncarmos o pizo, queremos transformar-lhe a montanha em -pedestal, para sobre elle a levantarmos. - -Da nuvem far-lhe-hiamos um véu, das estrellas um diadema, dos ceus sem -limites um azulado sendal. - -E depois descontentes ainda, pedimos com religioso fervor ao auctor dos -mundos, que reforme a sua obra, que dilate mais a creação, que a exalte -mais; porque não nos chega, quanto existe para a mulher por quem vivemos. - -E se é assim o homem, o que não será a mulher, toda sentimento, toda -amor, toda affecto e... senão toda egoismo, toda vaidade e toda -presumpção. - -A mulher, que, quando ama devéras, arranca o homem, das trévas -descobrindo-lhe novos lumes de paixão, feições novas de sentir, -delicadezas desconhecidas, mimos e enlevos, que não descortina nunca a -nossa natural brutalidade. A mulher, que ou ama, como cantam os cysnes, -amando e morrendo desde logo pelo amor, ou nutre em si o amor, como a -arvore alimenta a parasita, vivendo só para a nutrir e definhando-se em -quanto ella medra á custa de sacrificios, de abnegação, e de soffrimentos -inapreciaveis; ou quando mesmo, presumida em excesso, e vaidosa sem -termos, se ama a si, amando o homem, que se lhe rendeu, e bem querendo -a esse rendimento, a essa homenagem, a esse culto, porque lhe desvanece -a vaidade, porque é uma confissão eloquente das suas perfeições, porque -finalmente é seu, e veio de si, para de novo voltar para si, como as -plantas amam a agua, que elevam da terra, entregam aos ares, para que -estes lh’a restituam depois em amorosas lagrimas. - -Rosa amava e amava sincera, piedosa, apaixonadamente. Não havia confeição -alguma n’aquelle sentimento, que nascera do coração, proviera da alma, e -que se fortalecera aquecido pelos éstos da natureza. Amára creança ainda, -amára com força muito maior, quando a puberdade, lhe transformára o ser -transfundindo-lhe nas arterias faúlhas de desejo. - -Quando a vida nova dos dezeseis annos lhe abalou a organisação infantil, -quando o coração se tornou turgido de sangue, rico de vida e farto de -estimulos creadores, quando aquella flôr do campo, chegou ao periodo, -em que as petalas se tingem de mais brilhantes côres para deslumbrarem -e cahirem breve, o amor de Estevam, que já a possuia transformou-se -tambem, e dominou a mulher, como dominára a creança. - -Foi para elle, que, córando de pudor, elevou os seus pensamentos de mais -arrojado affecto, quando lhe esvoaçou deante da imaginação deslumbrada -essa nova perspectiva, que lhe apresentava o mundo, ao conhecer-se outra -pela inspiração divina, que n’essa quadra da vida, patenteia á mulher os -desconhecidos horisontes da procreação e da maternidade. - -O amor de creança unira-se ao amor de Estevam; e d’este delicado enlace -nascera o amor—mulher. Não lhe assomava o desejo á mente, sem que esse -desejo se não transformasse para ella na imagem varonil e fascinante do -seu apaixonado. A sua nova existencia era de Estevam; era por Estevam: -e o homem, que tal consegue da mulher, póde chamar-lhe sua, sem que o -considerem presumido. - -Entretanto as palavras de Feliciano operaram em Rosa uma revolução cruel. -Não se persuadira nunca, que o amor de filha podesse entrar em lucta com -o amor de mulher: e nem por sombras se preparára para semelhante combate. -Se o coração fallasse unicamente, se não se tratasse senão de resistir -á colera e maus tratamentos de seu pae, a escolha não seria duvidosa. -Matasse-a embora, que morreria contente, se até aos ultimos momentos -a deixassem amar Estevam; mas a maldição paterna troava-lhe ainda aos -ouvidos, e todas as fibras d’aquella organisação delicada extremeciam, -só ao lembrar-se de que elle lhe prohibira o nome de filha. A religião, -a crença, a educação, tudo lhe fallava em favor de seu pae; em favor de -Estevam só o muito, que o amava, mas não era o bastante. Amaldiçoada, -via os tormentos do inferno, o penar de sua alma, a espada de fogo do -archanjo exterminador, a condemnação eterna, e a memoria da sua infancia, -e os santos de sua devoção a sumirem-se-lhe para sempre. - -Não enlouqueceu, porque não teve forças para tanto; não morreu, porque -a intensidade propria do soffrimento lhe deu forças para resistir, -phenomeno bem vulgar nas organisações nervosas; não se matou, porque lhe -affastavam tal pensamento de si, as idéas com que fôra creada: soffreu -muito, por fim, pelo embotamento do soffrer, pareceu resignar-se. - -Triste resignação, em que amortalhára os mais puros affectos, o mais -risonho futuro, a mais affagada esperança! - -A idéa de que se sacrificava á vontade de seu pae se não lhe deu -consolação, deu lhe forças; e o persuadir-se que cumpria com o seu dever -animou-a a persistir: se não ganhou o santo enthusiasmo, com que os -martyres se encaminhavam para o supplicio, alcançou ao menos aquella -frieza apathica, da mais entranhada abnegação. - -Deixou de se pertencer. Fez-se cadaver, transformou-se em instrumento -da vontade de seu pae, instrumento inerte, impassivel, sem vida, sem -pensamento proprio. Não tivera animo para se matar; mas definhava-se -lentamente n’aquelle doloroso suicidio moral. - -Alguns dias depois da scena que se passára entre o pae e a filha, Estevam -recolhia do trabalho cantando, e todo enlevado na sua Rosa, que julgava -não vêr, havia tanto tempo. A voz melodiosa corria nas voltas do caminho -e repetia-se mais affinada pelos echos de um monte proximo. - -Ouvira-o Rosa, que abatida, e alheia ao mundo estava mais cahida que -sentada n’uma cadeira, com os olhos pregados n’uma imagem de Senhora das -Dores, que tinha perto da cama; palpitou-lhe de novo o coração no peito; -aquella voz abalou-a como o choque da pilha, e sem se lembrar do que -fazia, cedendo ao impulso, que tantas vezes a movera, correu à porta, ao -mesmo tempo em que Estevam se aproximava do limiar. - -Ao vêl-o porém fugiram-lhe de todo as forças e caiu-lhe desmaiada nos -braços. Ao longe parecera-lhe notar na sombra o vulto ameaçador de seu -pae: - -—Rosa da minha vida, que tens tu, que nunca te vi assim? exclamára -Estevam recebendo-a nos braços, torna a ti, sou eu, é o teu Estevam! - -Perto d’ali corria a agua de um boeiro do muro; levantou-a em seus -braços, poisou-a n’um marco, proximo do jorro, e ás mãos cheias -lhe espargiu o rosto; depois ao vêl-a tornar-se á vida, curvou-se, -aproximou-se mais da amante como para lhe transfundir a vida, que lhe -sobrava, e tão perto lhe afflorou os labios, que dir-se-ia um rapido -beijo unira por instantes as duas apaixonadas boccas. O osculo chamou á -vida e á realidade a desgraçada Rosa, que desmaiara enlevada nos gostosos -sonhos de uma felicidade, que lhe era defeza. - -—Ai, Estevam, estâmos perdidos, exclamou a misera acordando de todo, -quasi nos braços do amante. - -—Perdidos, Rosa!... Que dizes! - -—Meu pae... quer que eu case com o Januario. - -—E tu! - -—Eu, Estevam!... meu pae amaldiçoa-me. - -Foi então, que elle ia desmaiando tambem. Cambaleou, encostou-se á parede -para não vergar, e foi-lhe preciso grande força de vontade para resistir. - -Resistiu porém, e como se lhe arrancassem esta exclamação do fundo da -alma: - -—Pensei, que me tinhas mais amor!... - -—Deus te perdoe, Estevam, por duvidares de mim. - -—Duvidar! queres talvez que te agradeça, que te bemdiga, porque ás -primeiras palavras de teu pae, me atiras a monte, como herva ruim, ou -foice partida. Eu é que tenho a culpa, não é assim? - -Dize, anda, eu é que tenho a culpa: e tenho, porque te queria mais do -que á propria vida, porque te queria, como homem nenhum poderia querer -a uma mulher. Anda, não duvides, accusa-me, Rosa, que bem o mereço. E -entretanto Deus sabe, que thesouros de amor, se guardavam cá dentro, Deus -sabe quanto eu te estremecia!... Pensei que não houvesse forças no mundo -que nos separassem, pensei que nem Deus mesmo tivesse poder para tanto! -Enganei-me. Foi bem feito.—Se tu és mulher!... E não arrebentar eu, -quando me assomou este amor!—Não ter havido um raio que me partisse!... -Casa, casa e sê feliz! - -Depois, entre soluços, soltou um _adeus_, e deitou a correr como doido, -fugindo à tentação, que lhe affogueava o pensamento. - -Rosa ficou prostrada sobre o marco, até que a agua innundando lhe o -rosto, a reanimou por um pouco; seguiu, mais por instincto do que por -vontade, para casa e deitou-se, já com os primeiros symptomas de uma -febre cerebral agudissima. - -Feliciano não soube nunca a rasão da doença de sua filha, Januario -acompanhou o compadre n’algumas noites perdidas, e Rosa costumou-se -a vêl-o e a agradecer-lhe o cuidado e a affeição, que lhe mostrára. -Affeição rude, brutal mesmo; mas por isso tanto mais para apreciar uma ou -outra delicadeza, que surdia como enfesadinho rebento de tronco cascudo e -rugoso. - -Convalescente ainda, apparecera Rosa no bailarico, e ali encontrára -Estevam, que durante a doença não se affastou nunca das proximidades -da casa, empregando astucias incriveis, reccorrendo a subtilezas quasi -inacreditaveis, para a vêr sem que o visse, ou para se informar, ao -menos, do estado em que se achava. - -Os nossos leitores já assistiram ao dialogo que travaram. No dia seguinte -Estevam, partia a bordo da—_Joaquina Primeira_—para a Costa d’Africa, e -um mez depois Rosa casava com Januario, quasi sem perceber, que mudava -d’estado. - - -III - -Tinha decorrido um anno depois do encontro de Rosa com Estevam, que -ultimamente relatámos. Não haviam chegado noticias d’este ultimo e corria -pela terra, que morrera das febres d’Africa. Rosa nunca mais proferira o -nome do seu antigo apaixonado; mas quem lhe devassasse o intimo d’alma -reconheceria, que a imagem querida não lhe saira nunca do pensamento. - -Apparecia-lhe nas horas suaves de melancholia, quando espraiava a vista -pelos descampados, descançando depois os olhos no filhinho de mez, que se -lhe pendurava do seio. - -Depois que desapparecera, Estevam convertera-se para a imaginação -apaixonada de Rosa n’uma triste visão, que saudosamente lhe sorria -d’essas regiões encantadas, que a phantasia povôa de arrobados devaneios. - -Aquelle amor depurára-se pela ausencia, e a noiva entregando-se ao -marido, cumprindo religiosamente os seus deveres de mãe e de esposa, -persuadia-se que lhe seria licito, ao menos dispôr da sua alma. - -E, ainda que o não quizesse, esta pertencia a Estevam. A posse que lhe -déra, que elle conquistára á força de disvelos, de sollicitude e de -amor, era inalienavel, ganhára-a com o sacrificio da sua vida, com o -holocausto da sua existencia, nos altares da dedicação. E que importava -a Januario, este innocente roubo! Não poderia encontrar mulher que -mais cuidasse d’elle, que mais o cercasse de carinhos, que mais se -sacrificasse ao seu bem estar. - -Nenhuma seria capaz de dar melhor ordem á vida, de cuidar mais no -arranjo da casa, de providenciar mais para que coisa alguma faltasse a -seu marido. Delicadezas de sentimento, não eram para Januario; nem as -comprehendia, nem se dava de semelhante coisa. O mundo, para elle, era -uma serie de commodos, e o conforto da casa e da familia a felicidade -suprema. - -Não pensára nunca em fallar ao coração de sua mulher. E andára -acertadamente não procurando desferir instrumento, que atormentado por -aquellas mãos rudes apenas poderia soltar gemidos; mas harmonias nunca. -Onde acabava a materialidade finalisava o mundo. Idealismos, se alguem -lhe fallára em tal coisa, poderia contar com descompostura certa, em paga -de semelhante atrevimento. - -Tinha com que viver e vivia do que tinha. - -O grangeio das fazendas, o amanho das terras, os cuidados da agricultura, -preoccupavam-lhe o dia. Á noite esperava-o uma boa ceia, uma cama de pau -santo lusidia com os lençóes alvos de neve a estenderem-lhe os braços, a -esposa a sorrir-lhe no limiar, sorriso encoberto por um permanente veu de -tristeza, mas isso não percebia elle, e o filho a dormir tranquillo no -berço com o bracinho curvado sob a cabeça, a boquinha rosada mussitando -sonhos de convivencia com os anjos, seus irmãos. - -E o aceio a afformosear tudo, e a tranquillidade a alegrar o interior da -casa, e a arca recheada ao canto, a prometter dilatados dias de descanço -e de fartura. - -E até para lhe alimentar as rabujices da idade, (Januario já rastejava -pelos cincoenta), o birrento do sogro, que sempre tinha que lhe tornar, -e que contradizer em todos os trabalhos, que emprehendia seu genro. - -Que mais quereria pois. - -Rosa costumára-se tambem a esta vida de insensibilidade e sacrificio. A -ideia de que fizera a felicidade de seu pae, e de seu esposo, consolára-a -da grande perda, que sentira e vivia transfundindo em seu filho todas as -delicadezas de sentimento e de amor, de que precisava para poder viver. - -Transformação, que facilmente comprehendem os que sentirem devéras, -o amor de Estevam depurára-se-lhe na alma e fizera-se amor de mãe. -Quantas vezes lhe parecia emballando seu filho, que estreitava nos -braços a Estevam!... Então conchegava a creança mais a si; apertava-a -tremulamente: e duas lagrimas de saudade, ou talvez de amor, -deslisavam-lhe pelas faces. - -O filhinho, disperto com aquelle enlace, abria os olhos, e parecia -fital-os na mãe, como traduzindo uma admirada reprehensão: ao menos assim -o julgava ella, que se sentia desfallecer e se accusava então d’aquella -innocente infidelidade aos seus deveres de esposa. Beijava ferverosamente -o seu pequeno censor, como para o abrandar, e com aquella imagem -afugentar a outra que tinha presente sempre. - -N’estes rapidos e quasi inapreciaveis movimentos se denunciava apenas a -intensidade d’aquella violenta e concentrada paixão. Como nas pavorosas -tormentas submarinas a placida superficie das aguas só n’um ligeiro -tremer poderia denotar a força das horrendas luctas, que se travavam nas -remotas profundezas. - -Uma tarde ficára absorta no seu scismar contemplativo toda embevecida -n’aquellas divagações, que tantas vezes a alheavam do mundo em que vivia. -Os olhos parados e fitos pareciam procurar nos affastados horisontes -aquelle indefinido ponto em que os espaços se perdem de vista e que a -phantasia enriquece com suas extranhas creações. Dir-se-ia a estatua do -desalento poisada sobre a pedra da sepultura a remirar-se nos ceus, na -sua almejada patria. - -A imagem de Estevam adejára-lhe na mente, e enlevada n’aquella paixão, -que a não deixava, deixou approximar-se a noite sem perceber que as -trévas baixavam encobrindo os campos. - -Já a lua desenhava com os seus pallidos clarões figuras estravagantes, -que pareciam dançar por entre o arvoredo á feição do vento, e Rosa ainda -estava no mesmo logar e na mesma posição. - -De repente soltou um grito e estendeu diante de si convulsivamente os -braços, como se pretendesse affastar um phantasma atterrador. A imagem, -que evocára parecêra tomar corpo, e n’um vulto que se escondia por entre -as arvores cuidou reconhecer Estevam. - -Effectivamente apenas soltára aquelle grito o vulto correu para ella, era -Estevam. - -—Estevam! - -—Rosa! - -—Tu aqui?! - -—Se eu não podia já viver longe de ti! Se morria se te não visse? - -—E agora? - -—Agora? Vi-te. Disse-te uma vez ainda: amo-te, e posso morrer! - -—Sabes, Estevam, que sou mulher de Januario, sabes, que tenho um filho de -meu marido? - -—Para que m’o lembraste? Pensas que não m’o tinha dito já o coração? - -—Para que voltaste, então, Estevam? - -—Não t’o disse já? Para te vêr. - -—Ai! quanto me custa que voltasses! - -—Bem sei. Deveria ter morrido, não é assim? um homem como eu, que ninguem -estima, que não tem affeições n’este mundo, que vive, como o espargo no -monte, que embora procure lançar raizes na terra lh’as arrancam como o -escalracho, devia morrer. Não serve de nada, não deve viver, tens razão. - -—E quem te diz que assim seja? Quem te diz que não ha quem te ame, quem -ainda se dedique por ti, quem te não esqueça nunca. Ah! Estevam, os -homens não comprehendem o coração da mulher! - -—Não comprehendem, não. A mulher, santa creatura, na verdade! A mulher, -que mente ao marido, mente, ao amante, a mulher que se enlaça como a -hera no coração do homem, cravando-lhe cada vez mais fundos os espinhos, -roubando-lhe cada vez mais a vida. Não te comprehendi, Rosa, devia -agradecer-te, porque pertences a outro, porque hontem dormiste ao lado -d’outro, porque d’aqui a pouco vaes deitar-te no seu leito. Devia -agradecer-te não é assim? Dize, anda, bem vês, que te vou comprehendendo. - -—Que mal te fiz para me tratares com esse desdem? - -—Que mal me fizeste? Nenhum! Eu é que fui um louco, eu é que errei, -quando prendi a minha vida á tua, quando te entreguei a minha sorte, -quando em ti puz a minha esperança. Eu é que fiz mal, quando me deitei -a amar esse amor, que tantas vezes me juraste, quando depositei fé nas -tuas palavras, que pareciam tão sinceras, quando pensei que havias de -ser minha, porque assim m’o juráras mil vezes, eu é que mereço castigo, -porque confiei na sinceridade do teu coração, porque loucamente credulo -não me persuadi nunca de que fingisses tão bem, que houvesse em ti -dissimulação tão grande. - -—Se soubesses quanto tenho padecido, não me fallavas de certo assim! - -—E eu! Julgas porventura, que te sumiste um momento sequer da minha -ideia? Pensas que te não vi sempre diante de mim, nas tribulações da -vida, nas ondas do mar, nos sertões d’Africa, nas extensões do céo... -Sempre, sempre! Pensas que não me lembrava sempre, que eras d’outro, tu -que só poderias ser minha! Pensas, que não me deram por doido; que me -não arrojei ao mar, por mais d’uma vez, para lá ficar para sempre?... Se -não fosse terem-me salvo, já hoje te não inquietava!... Pensas... - -—Não continues! Estamos a aggravar uma ferida que não póde sarar mais! -Antes não nos vissemos! - -—E assim me despedes! Bem m’o dizia o coração! Falsa!... - -Rosa levantou a cabeça cheia de indignação; até esse momento, parecia que -escutava a sua sentença de morte: quando porém Estevam assim a accusou, -quando lhe pareceu, que o seu enorme sacrificio não era comprehendido, -que o seu amor era tão mal julgado, a voz da consciencia, que a defendia -dos aggravos de seu amante, bradou-lhe lá dentro. - -—Ergue te!... - -Elevou os olhos para o céo, como para se inspirar n’uma resolução -suprema, affastou da fronte os cabellos, que a offuscavam, levantou-se -com um movimento de nobre magestade, travou da mão de Estevam, que a -olhava surpreso, e exclamando apenas:—Vem!—levou-o comsigo para dentro de -casa. - -Com o sorriso a adejar-lhe sobre a physionomia, estava o filhinho de -Januario deitado no berço dormindo, os braços torneados descançavam fóra -da roupa abertos e como estendendo-se para a mãe. No fundo da alcova -a um canto, que a luz d’uma lamparina illuminava a custo, adivinhava -se o esposo que dormia: o ressonar compassado e sonoro, n’outro quarto -proximo, deixava perceber, que Feliciano depois de ter largamente -discutido com seu genro a conveniencia de uma nova semeadura, descançára -por fim cançado de rabujar. De resto tudo estava em socego. - -Estevam, sem comprehender para que, deixou-se arrastar até junto do -berço: ahi, Rosa correndo a vista pela casa fitou por ultimo o olhar no -seu companheiro. - -—Ámanhã esta creança acordará, e aquelles dois velhos levantar-se-hão -sorrindo para mim como sempre, cheios de confiança, e de... amisade. Como -até hoje julgar-me-hão filha honrada, mãe honesta... esposa fiel!... -Sacrifico-te, aqui, junto d’este berço... e d’aquelle leito, todo o meu -passado, todo o meu futuro, tudo!... Aqui me tens, Estevam, vê agora se -te amo. Sou tua!... - -E resignada, nobre, altiva, caminhou para elle, que recuára, como os -martyres deveriam caminhar para a fogueira... serena, tranquilla, -orgulhosa pelo seu sacrificio, illuminada pela divina aureola do amor. - -Estevam parecia fulminado. - -Foi mysterio o que se passou na sua alma; entretanto comprehendeu tudo, e -soube elevar-se até ás sublimidades d’aquella mulher. - -Avaliou qual era a grandeza d’um semelhante amor, e sentiu-se digno -d’elle. Leu de relance todas as paginas dolorosas d’aquella epopêa -intima, e elevou no santuario de seu coração, purificado de quaesquer -resquicios da natureza terrestre e material, um cantico divino de -admiração, caiu de joelhos aos pés de Rosa e desatou a soluçar. - -As lagrimas queimavam-lhe as faces; mas refrigeravam-lhe a alma: quando -se levantou era outro. - -Curvou se sobre o berço infantil, depositou um beijo no rosto do -innocente, dirigiu-se para Rosa, que ainda o esperava immovel, mal -lhe approximou da testa os beiços e desviando os olhos do leito, onde -Januario dormia, saiu dizendo á sua antiga amante: - -—Adeus irmã! - -Foi tudo obra d’um momento. - -Rosa caiu sobre o berço de seu filho cobrindo-o de beijos; Estevam já ía -longe. - -A creança soltára um vagido lastimoso, acordára ao sentir-se innundar -pelas lagrimas de sua mãe, e estendendo para ella os braços, sorrira. - -Januario não déra signal de si. - - -IV - -As feridas moraes não se semelham ás physicas. O coração rasga se com a -dôr, soffre-se por muito; mas o tempo cicatrisa tudo. - -O correr dos annos enregela a alma, e acalma os ardores da paixão. -Estevam ainda foi feliz. - -Rosa, essa, ninguem poude saber se se esquecera d’aquella noite. O amor -de seu filho consumiu-lhe a vida toda. - -Nunca se lhe tingiram as faces de côr, nem o mais leve sorriso lhe -entreabriu os labios: poucos a ouviram fallar, raras vezes proferia -alguma palavra. - -Entretanto foi sempre esposa disvellada e filha extremosa; pouco tempo -sobreviveu a seu marido. - -Aquella hora fôra a ultima em que conhecera que tinha coração; foi tambem -a ultima em que se avistou com Estevam. - -Feliciano, na manhã seguinte a uma noite, em que mais se exaltára -discutindo com seu genro sobre o melhor modo de alqueivar uma terra, foi -encontrado morto na cama. - -Succumbira a uma congestão cerebral. - -A terra sobre que versára a controversia era propriamente a courella, por -amor da qual contractára o casamento da filha. - - - - -VII - -A gallinha da minha visinha... - - -Já era o sol posto havia um quarto de hora. Tocára a largar o trabalho, -e cada qual recolhera para a sua casa: uns sósinhos, pelas azinhagas -fóra, se mais tresmalhados moravam; outros, em rancho, se poisavam juntos -n’alguma terra proxima. - -André Pimenta, um dos trabalhadores mais fallados dos sitios onde este -caso aconteceu, deitára a enchada ao hombro, e enfiára-lhe o cesto do -jantar, de maus modos e sem dizer um _Deus os ajude_ aos companheiros, -coisa para estranhar n’um homem maneiro e pratico como elle era; entestou -para as bandas da casa, sem dar palavra e com cara de curtir sezões. - -Foi grande fallada na malta por causa d’este passo. Nunca o tinham visto -tão esquerdo, nem de tão má catadura para os amigos. E d’ahi, andára todo -o dia a fugir com o corpo ao trabalho, e a resmungar com os seus botões, -como quem lhe roía alguma coisa lá por dentro. - -Ou estava doente o pobre do homem; ou lhe tinham dado quebranto. - -Porque até então ninguem lhe pozera o pé adiante no trabalho e ninguem o -levára á parede em alegrias e cantigas. Andava sempre mais contente do -que a cigarra e mais esperto do que o pardal. - -O que teria o André Pimenta? - -N’estes pontos de interrogação viera a gente toda da quinta do _Chibanta_ -ao logar da Rabiça fazer o farnel para a semana, porque era n’um sabbado -e tinham recebido a féria: em perguntas e conversas deitaram até defronte -da casita onde elle morava e onde estava ainda, muito bem amezendado n’um -poial á entrada da porta, e tão pasmado, que parecia ter-lhe um ar mau -passado por cima, n’aquelle logar mesmo. - -—Boas noites, tio André! - -—Adeus, tio André, quer alguma coisa da Rabiça? - -Estas perguntas, com mais ou menos variantes, lhe dirigiam os pobres -ganha-pães, sem que obtivessem resposta, além de um resmungar -inintelligivel, que de má vontade saiu do peito de André, e que se fez -ouvir sem que abrisse a bocca. - -Os maltezes olharam-se, encolheram os hombros, entenderam se pelos olhos: -e, cada vez mais admirados, seguiram para o logar. - -O caso era para dar que fazer até mesmo a um escrivão! - -André fôra sempre um bom trabalhador e um honrado chefe de familia. -Depois de andar um santo dia na sua labutação, não havia para elle maior -regalo, do que vir de noitinha brincar com os pequenos ou conversar com a -mulher, emquanto se lhe não apromptava a ceia e não tocava a deitar. Ao -portal da casa, de verão; de inverno, sentado ao pé da chaminé n’um banco -que elle arranjára em horas de sesta. - -N’aquella casa não se conhecera nunca cirurgião nem boticario, e não -constava pela visinhança que se lá tivesse ralhado nunca. Pois a lingua -d’aquella gente não perdoava, nem ao padre prior! - -Mas, quando tocava ao André das Furôas, (assim se chamava ao sitio onde -assistia) ou á Magdalena da tia Ignacia, todos diziam á uma, que era um -casal em que se não podia pôr bocca, e que viviam tão socegados, como -Deus com os Anjos. - -Entretanto nem só os camaradas haviam extranhado André n’aquelle dia; -Magdalena e os pequenos tinham ficado passados, quando o haviam visto -chegar ao pé da porta, atirar com a enchada e o cesto para o meio da -casa, como quem atirava com o diabo á rua e deitar-se para cima do banco, -sem dizer nada nem á mulher nem aos filhos. - -Pela primeira vez na sua vida um mau pensamento viera torvar a serenidade -d’aquella alma. André sentira a inveja, e tinha medo d’ella e de si. -Admirava-se da mudança, que lhe ia lá por dentro e não tinha alma para -deitar fóra aquella tentação. Não se conhecia, por differente; e não -sabia como havia de tornar a ser o mesmo. - -Parecerá estranho a quem não conhecer a vida apathica e rotineira da -gente do campo, André não pensára nunca nas differenças d’este mundo, nem -nas gradações de posição. Parecia-lhe tão natural ser rico o sr. Manoel -Fernandes e elle trabalhar para o sr. Manoel Fernandes e ser pobre, como -deitar-se á noitinha e erguer-se de madrugada. Nunca considerára n’essas -differenças, e ia trabalhando todos os dias com a enchada ou com o podão, -como já seu pae trabalhára, e o pae de sua mulher, e como esperava que -seus filhos trabalhassem, quando tivessem edade para isso. - -N’aquelle dia, porém, a horas d’almoço, ouvira uma conversa em que andára -a matutar todo o dia, porque lhe fizera sensação devéras lá por dentro. -Dois senhores da cidade tinham vindo visitar o sr. Manoel Fernandes e ao -dar uma volta pela fazenda demoraram-se, com a curiosidade de vadios a -vêr trabalhar os maltezes, que andavam n’uma cova aos montes. - -Admirados de vêr, n’uma hora, trafego, que os cançaria todo um mez, -começaram em voz alta a fazer commentarios, e a lamentar a sorte -d’aquelles homens, que suppunham infelizes. - -—Pobre gente, dizia um, tanto trabalho e por tão pouco dinheiro! - -—Então, respondia-lhe o companheiro, se elles não trabalhassem como -haviamos de comer, bem vês que nem todos podiamos ser eguaes. - -—É verdade mas eu morria se cavasse duas horas! - -—Não admira, cada um para o que nasceu. - -E mil cousas como estas que é facil imaginar. O effeito que produziram, -isto é que nem elles nem ninguem poderia imaginar. Não cairam no chão. -Apanhou-as o ouvido de André a quem abriram um mundo novo. Pois havia -homens, que não podiam cavar, ou que não queriam; e outros eternamente -condemnados áquelle trabalho! Era coisa em que não pensára nunca, mas que -lhe fervilhava agora lá por dentro, azoinando-o todo o dia. André Pimenta -começava, como o anjo caído, a olhar para cima, e ao vêr outros tão altos -e a si tão baixo oirou-lhe a cabeça e ficou estonteado. - -Era quasi noite e não cuidava em recolher. As creanças, que andavam n’uma -empreitada de fazer uns castellinhos de barro ao pé da porta, e que, -mal lobrigaram o pae, tinham deitado a correr a abraçar se lhes com as -pernas, sacudidos por elle haviam vindo de orelha murcha, com as lagrimas -nos olhos e corridos de susto para o pé das suas architecturas sentar-se -amuados sem comprehenderem aquelles termos differentes das festas do -costume: e mais estranhos ainda continuavam sem se atreverem a fallar -com a vista pregada no pae, e com a persciencia infantil a advinhar-lhe -desgraça. A mulher, essa entrava, saia, fallava, dizia mil cousas, -fazia mil perguntas e sem obter resposta alguma, não sabia a que santo -se apegasse para lhe fazer o milagre de lhe chamar a ternura antiga, -tremia de entrar a fundo n’aquelle grande desgosto, por fim animou-se, e -chegando-se a elle tocou-lhe no hombro e perguntou-lhe a medo: - -—Não vens cear, homem, é já tão tarde? - -—Não; foi a resposta secca e desabrida como badalada tangida rapida por -mão inexperiente; e ficou-se. - -—Que tens tu, homem, nunca te vi assim? - -—Pois tu não sabes, que ha homens que não precisam de andar agarrados a -uma enchada todo o dia para ganhar o pão de seus filhos? - -—Sei, homem, que se lhe ha de fazer; são cousas do mundo! - -—E nunca m’o disseste? - -—Para quê, André; valha-me a Senhora da Madre de Deus, nunca pensei que -te dessem cuidado essas cousas! - -—Que me não dessem cuidado! Mulher de... não sei que diga! Pois eu, um -homem como os mais, que nunca fiz mal a ninguem, que me tenho feito em -postas para os sustentar a vocês; eu, se ámanhã me desse um estupor, ia -para o hospital; por lá morria ao Deus dará, e vocês ficavam por ahi a -pedir esmola! - -—Mas, que se lhe ha de fazer, se nascemos pobres? - -—É em que eu tenho andado todo o dia a matutar, porque hão de uns nascer -pobres, e outros ricos; porque hei de eu não ter nada, e o sr. Manoel -Fernandes, ha de ter mais de uma duzia de quintas, cada qual maior, cada -qual que bastava para vivermos todos descançados: - -—Queres reformar o mundo? Tens inveja, André, e inveja do patrão, que nos -faz tanto bem? - -—Quem te falla em inveja! Se eu me lembrasse de que era invejoso dava um -tiro n’estes miolos. Eu não olho para as mãos do sr. Manoel Fernandes, -que merece... verdade, verdade, e que é um homem ás direitas; mas eu não -sou somenos e se tivesse uma d’aquellas quintas, ao menos; trabalhava, -que não nasci para vadio: mas sem pensar no dia de ámanhã, sem tremer com -a idéa do que lhes póde acontecer. - -—Por amor d’isso não te rales, homem; respondeu-lhe uma voz meio alegre, -meio reprehensiva ao pé d’elle. - -Era o sr. Manoel Fernandes, que saindo a dar uma volta parára perto do -grupo, e entrára assim na conversa, poisando a mão direita sobre o hombro -de André. - -Este enfiou, Magdalena entrou a tremer, e os pequenos, comprehendendo que -uma nova scena se ia passar, approximaram se curiosos do logar da acção. - -Houve um momento de silencio geral, emquanto os diversos actores se -entre olhavam e reconheciam. Por fim André, com aquella giria saloia, -que participa da sagacidade dos selvagens, conhecendo que a defeza era -difficil, tomou a offensiva. - -—Ora, v. s.ª, assim a escutar o que diz cada um á sua mulher, sr. Manoel -Fernandes! - -—Qual escutar, nem meio escutar, tornou este entre serio e risonho -pois que percebera a manobra, não ouviste nunca, que, palavras leva-as -o vento? Estavas para ahi a parolar alto e bom som, e não querias que -ouvisse? Só se viesse pela charneca adeante com as mãos nos ouvidos. - -—V. s.ª tem razão, tornou Magdalena interferindo, como o poder moderador -no systema constitucional, mas v. s.ª bem disse que palavras leva-as -o vento, e o meu pobre homem apoquentado da sua vida, não admira, que -desabafe... - -—Ninguem lhe diz o contrario, santinha, e d’ahi bem falla o rifão: quem -escuta... - -—Mas o meu André não pôz bocca em v. s.ª para mal. - -—E que pozesse! El-rei tambem tem costas, não lhe quizera eu mal por -isso, e tanto que já lhe disse, por amor da _Chibanta_ não ha de ser a -duvida. - -—V. s.ª tambem!... observou André, como em recriminação, levou a mal, uma -palavra dita sem maldade nenhuma. - -—Como queres que te diga que não, homem? fazes-te André! Já te disse, que -está na tua mão, ser tua a _Chibanta_. - -—Ora!... - -—Não ha aqui ora, nem meia ora. Ámanhã começas a tomar conta da fazenda, -e de caminho descanço eu o meu bocado. Se te avires com ella, e se te -mostrares tão prompto de braço como de lingua, virá a ser tua. - -—V. s.ª tem vagar de rir, mas um pobre homem como eu, é que nem sempre -está de feição: basta-lhe a sua vida, disse André, que não acreditava em -tanta generosidade. - -—Queres acreditar-me ou não? Bem sabes que não tenho senão uma palavra. - -—V. s.ª então!... - -—O dito dito, e até ámanhã. - -O sr. Manuel Fernandes voltou costas e seguiu no seu passeio: apenas -desappareceu no atalho, Magdalena e André olharam-se espavoridos e como -receiosos, e por algum tempo estiveram sem dar palavra; por fim Magdalena -voltou-se para o marido, para o accusar, segundo o costume das mulheres -em semelhantes occasiões. - -—Para que havias de fallar, André? - -—Então nem queres ao menos, que desabafe. Anda um homem ralado de -trabalho todo o dia, e nem ao menos ha de ser senhor de dizer duas -palavras em sua casa! - -—E se elle te despede? - -—Não faltará onde dê cabo do corpo? - -—Elle parecia fallar sério! - -—Ainda acreditas! Bem me fio eu no que elle disse: esteve a divertir-se -com a gente. Má raios... - -—Cala-te André, atalhou rapidamente Magdalena, cala-te, póde ainda estar -por ahi, e quem sabe, talvez o homem faça o que disse. - -E em duvidas decorreu a noite. A peior, que desde que eram casados tinham -passado. Ora a esperança lhes surria, ora o receio os amedrontava; ora -acreditavam, ora descriam. Pela primeira vez nem Magdalena nem André -provaram da ceia, e só as creanças, que não comprehenderam nada, comeram -como do costume, e adormeceram com o mesmo descanço. - -De madrugada André, com cara de morte de homem, encaminhou se para a -_Chibanta_. Vergavam-lhe as pernas pelo caminho; não ia contente comsigo, -nem com a sua consciencia. Parecia outro. - -O sr. Manuel Fernandes esperava-o ao portão da quinta. Uns quês de ironia -transpareciam no rosto alegre do fazendeiro. - -—Melhor cara traga o dia da ámanhã, homem, mofina te deu, que tão -amargurado vens! Parece que não pregaste olho! - -—Eu bem sei que v. s.ª me vae despedir; mas não é porque eu faltasse á -obrigação... - -—Que tens tu homem, mordeu-te bixo? - -—É que v. s.ª... - -—Bem sei o que vaes dizer, mas o que hontem te disse, está dito, hoje -começas a ser meu feitor e para o deante fallaremos... - -André duvidou ainda e só depois do fazendeiro o ter apresentado aos -trabalhadores, como seu substituto é que começou a entrar em si, -parecia-lhe tudo um sonho. - -Em quanto lhe ia dando as instrucções necessarias, e lhe explicava por -meudo o grangeio da fazenda, o sr. Manuel Fernandes sorria-se vendo que -André meneava a cabeça com ares de profundo entendedor, e respondia -a tudo: já entendi, deixe estar, não tem duvida. O velho lavrador não -acreditava n’aquella proficiencia, e lá de si para si amolava o caso. -Tanta confiança mostrava porém o novo caseiro, que, depois de acabada -a vistoria, mandou o entrar para a casa principal da habitação, que -accumulava as funcções de casa de jantar, escriptorio e cosinha, e -disse-lhe: - -—Oxalá que me enganasse homem, queria-te dar uma licção e mostrar-te que -nem tudo é o que parece, que para grande náu, grande tormenta e que cada -qual sabe as linhas com que se cose. Se a inveja é feio peccado, não é -culpa menor julgar as coisas pelas apparencias. Comecei, como tu, pobre, -enriqueci por felicidade, mas sempre honradamente; ainda assim, não -poucas vezes me têem lembrado, com saudade, as noites, em que, ralado com -o trabalho, mas sem cuidados, atirava com o corpo para cima da enxerga, -sem deitar contas á vida porque a féria no fim da semana pagava tudo. - -—Ó senhor Manoel Fernandes, mas a mulher e os filhos? - -—Tambem se accommodavam como podiam. Olha: uma cava é para o milho, outra -para a vinha; quanto mais se sóbe, mais cançado se fica. Hoje tenho mais -dinheiro do que então, lavro muitas geiras de chão, deito um par de moios -á terra, e não dou pouco que fazer ao lagar; mas, pódes acreditár-me, -tenho mais vezes falta de dinheiro, do que quando recebia um quartinho -cada semana; e passo mais dias de amarguras, do que quando era um triste -trabalhador. - -E como André meneava a cabeça, com ares de quem não acreditava muito no -que elle dizia, o sr. Manuel Fernandes tornou-lhe triste: - -—D’aqui a tempos me dirás se tinha rasão. - -Não tardou que se não realisasse a prophecia. André, quanto mais entrava -n’aquella vida nova, mais espinhos lhe achava. Tinha que repartir -a attenção para mil lados, tinha que cuidar em muitissimas coisas -differentes ao mesmo tempo. - -Não descansava, não dormia mesmo. Lembrava-se de noite, que podiam andar -ladrões na fazenda, sentia ladrar os cães ou grasnar os patos, saltava -da cama e corria para fóra, de espingarda carregada. Parecia-lhe que -se esquecera de dar ordens para o dia seguinte, que não determinára -trabalho, e eil-o, sem pregar olho, a espreitar a madrugada para ir -acordar os trabalhadores e marcar-lhes a obrigação; era um supplicio. - -Depois a cultura em ponto maior, os processos da lavoura, de debulha, de -vindima, de sacha, de cava, de poda e de empa, a qualidade das sementes, -o tempo da sementeira e a escolha dos terrenos, o traçar da horta, e -a rega das plantas, o decote das arvores e a colheita dos fructos, o -cuidado do gado e da creação, o fabrico dos instrumentos de lavoura, a -guarda do pão, e o meio de o conservar, reclamavam conhecimentos que lhe -faltavam. Quando lhe perguntavam alguma coisa, é que via na resposta as -difficuldades, que á primeira vista não encontrára. Tinha sempre medo -de mandar o contrario, e não poucas vezes lhe aconteceu, quando errava, -ouvir os homens da quinta rirem-se d’elle, e lá, uns com os outros, -fazerem observações bem desagradaveis. André, por natureza bondoso e -crente, tornára-se irascivel e desconfiado de todos. - -Nos seus mais intimos mesmo se fizera sentir a differença de posição; -Magdalena e os pequenos tinham-se tornado exigentes, nada os contentava, -tudo lhes parecia pouco, e André podia contar todos os dias com uma -contenda, quasi sempre n’este theor: - -—D’antes não me recusavas coisa nenhuma... - -—Se não póde ser, mulher. - -—Estás sovina, para que queres o dinheiro? - -—Mas se o não tenho? - -—Pois sim, a mim não me enganas tu, ainda hontem vendeste isto ou -aquillo, é porque o gastas com outras. - -E seria um nunca acabar referir todas as desavenças, todas as ralações do -pobre homem. Nem em casa nem fóra, lhe deixavam um momento de descanço. -Andava como doido. - -Entretanto o sr. Manoel Fernandes tinha ido á provincia; demorára se por -lá algum tempo e esperava-se de um momento para o outro. - -André foi ter com elle ao caminho, apenas o avistou a alcance de voz, -as suas primeiras palavras foram como o deitar ao chão um peso que o -opprimisse, e com que não podesse mais. - -—Acceite a _Chibanta_, sr. Manoel Fernandes, quero a minha enchada e o -meu somno descançado; a minha féria e o meu socego. - -O fazendeiro sorriu-se. - -—Pois já, homem? - -—E é demais. O que lá vae lá vae, aprendi devéras, estes dois mezes -têem-me custado annos de vida. - -—Pois não tens as mesmas idéas que tinhas ha seis mezes, já te não -lembras do hospital? - -—Tenho-me agora lembrado mais ainda, mas é do hospital dos doidos, e lá -não tardaria eu se continuasse n’aquelle inferno. Guarde-a que lhe não -invejo o vagar. - -O sr. Manoel Fernandes viu o pobre André tão amofinado, que não quiz -abusar. No dia seguinte este começava no trabalho antigo e pela primeira -vez, havia tanto tempo, dormia de um somno desde o deitar até ao -amanhecer. - -Magdalena reagiu, e queixou-se ao principio, depois costumou-se outra -vez: e se se lembrava com saudades dos seus antigos explendores, -não tinha muito tempo para ter pena, porque o trabalho da casa -preoccupava-lhe a attenção. - -Os pequenos esses só tiveram desgosto com a mudança. Uma enchurrada -havia-lhes desmanchado o seu castellinho de terra. - -De novo reinou n’aquella casa o socego antigo: a alegria, que parecia -ter fugido espavorida das grandezas do rendeiro da _Chibanta_, tornou a -sorrir no pobre albergue do modesto trabalhador. - -O sr. Manoel Fernandes entretanto foi ajudando André, que, com o andar -dos tempos, conseguiu comprar um quintalejo que, se não era tão grande -como a _Chibanta_, correspondia ao menos ao seu saber e não lhe dava -grande cuidado. - -Mas tinha-lhe aproveitado a licção, e quando lhe fallavam nos haveres dos -outros dizia sempre: - -—Eu bem sei o que isso é; ninguem está contente com o que Deus lhe deu. -Por isso diz o rifão: a gallinha da minha visinha... - - - - -VIII - -O guarda do cemiterio - - -I - -Era perto da noite. Voltava em companhia do tio Joaquim d’uma feira, -que se fazia a duas leguas da quinta, onde estavamos. Tinhamos mettido -os cavallos a passo, e depois de muito discorrer e matar tempo, a -conversação, que esmorecera gradualmente, parára de todo. - -Não o sei ao certo, mas quero o crêr; a tristeza que tanto se sente no -campo na hora em que o dia desapparece pouco a pouco, influira para nos -calar; e aquella doce melancolia, que acompanha o crepusculo da tarde, e -que tanto nos faz scismar e crêr, obrigára-nos a interromper as fallas, -que perturbavam aquelle silencio geral. - -Só quem tem vivido fóra das cidades é que póde dar conta d’aquelle tempo -de socego e de mudez, que determina a passagem da noite para o dia, e -muito particularmente do dia para a noite. - -As aves, os animaes, as arvores, as plantas e até a natureza insensivel, -parece que entristecem n’aquelles momentos e que suspendem a vida, o -movimento e o ruido: como que permanecem por instantes n’um estado de -duvida e de receio, e temem vêr desapparecer de todo essa luz, que é -a sua vida, e que então se some no horisonte, tinto por amor da sua -ausencia com côres de tristeza e de dó! - -Outras vezes, no meio da geral callada, alguns ruídos se apercebem; mas -esses como a susto, como mais para significarem o esmorecer da vida -do que a sua animação:—é o breve pio do mocho, é o som afastado dos -chocalhos, são os timidos balidos dos rebanhos, é o ramalhar das arvores -com a viração da tarde ou o murmurar longinquo e surdo das ondas do mar. - -São essas as horas mais talhadas para a meditação, para a saudade ou para -o amor; são as horas das aspirações vagas, dos desejos indefinidos, das -fantasias e das expansões; são as horas em que se eleva em nós, um que -quer que é estranho e superior a tudo que nos cerca e com que de habito -lidamos; em que o homem soffre e gosa, sente e crê, folga e padece; em -que o desalento e a esperança se travam em lucta; em que o amor nos falla -de prazer, a saudade da dôr e a imaginação do infinito; em que se vive -muito e se deseja morrer; em que se sonha muito e se receia accordar; -em que a virgem presente a primeira paixão, o homem o primeiro amor, -a creança o primeiro momento de viver, o velho a ultima hora; em que -o passado e o futuro se enlaçam, um descoroçoado e sceptico, o outro -enthusiasmado e crente; em que o mundo é pequeno para a alma, e a alma -acanhada para o sentimento. - -Em tudo isto eu pensava n’essa hora, e tão absorto ía, que nem dava pelo -caminho que levava: parecera-me até que se me ía fugindo a vida, como me -parecia fugir o mundo, se o som compassado das ferraduras dos cavallos -sobre as pedras da calçada, me não chamasse á realidade, marcando de -continuo com a regularidade d’uma pendula, a extensão do espaço e o -correr do tempo. - -De repente, n’uma volta que fazia a estrada, os cavallos fitaram as -orelhas e pararam: sobresaltado, como que acordei, procurando descortinar -que causa fôra a que os assustára. - -Iamos passar pelo cemiterio da terra, separado da estrada por um -parapeito de pouca altura, e limitado, da banda d’onde vinhamos, pela -casa do guarda; do lado opposto, por uma egreja antiga, abandonada e em -ruinas. - -Nenhum logar mais adequado, nem accessorios mais accordes podia a morte -escolher. Tudo alli fallava do seu poder, tudo concorria para a sua -magestosa severidade. - -Ruinas, desamparo e tristeza. A casa do guarda, que primeiro se offerecia -á vista, ennegrecida pelo tempo, com as portas e janellas carunchosas -e escavacadas, deixando devassar o interior desguarnecido e miseravel: -o cemiterio sem aninho nem cultura, sem monumentos, nem flôres, nem -pedras, nem ruas, nem disticos, nem retabulos; algumas cruzes toscas, -por entre matagaes de ortigas, algumas arvores esgalhadas de longe a -longe, umas e outras roidas pelos vermes, enfraquecidas pelos parasitas, -mutiladas pela podridão: e ao longe a egreja, de tempos remotos, com as -cantarias de grosso lavor lascadas ou caidas, as paredes esburacadas e -musgosas, as grades ferrugentas e quebradas, as janellas sem vidros, as -ogivas interrompidas, as arcadas soturnas a perderem-se na escuridão e a -adivinharem-se pelos buracos da fachada, frias, nuas, sós e tristes. - -Apertava o coração e confrangia a alma; fazia mal aquella vista. - -Não havia sido entretanto nem a egreja, nem o cemiterio, nem a casa -do guarda que tinham feito parar os cavallos, mas o proprio guarda, -que estendido sobre um poial, deante da porta se levantou para nos -cumprimentar. - -Parecia que a influencia sinistra d’aquellas paragens se estendera tambem -áquelle homem: condizia com tudo que o cercava. - -Era alto e ainda novo; mas o tempo e os pesares tinham-n’o curvado e -encanecido. As feições eram duras, carregadas e tristes, as faces cavadas -e cheias de rugas, a pelle tostada e aspera, os cabellos mal tratados e -grisalhos, as barbas compridas, em desordem e grisalhas tambem; o corpo -estava coberto de farrapos, a cabeça resguardada por um velho chapeu já -sem abas e os pés mettidos n’uns tamancos muito usados, que quando se -levantou repercutiram por um modo estranho batendo nas pedras. - -Era como a personificação do desconforto ao pé das ruinas, como a -desillusão da vida junto á morte. - -O tio Joaquim, ao dar com os olhos n’elle, resmungou por entre dentes—até -os brutos o temem;—correspondeu a um—boas noites,—que nos dirigiu, metteu -o cavallo a meio trote, eu imitei-o, e dentro em pouco tinhamos perdido -tudo de vista. - -Dias depois vim a saber pelo tio Joaquim quem era o guarda do cemiterio, -e qual a sua historia. - - -II - -Manoel começára de pequeno n’um navio mercante, e em pouco chegára a -piloto pelo seu bom porte e bravura. Era um rapaz valente como as armas, -destemido como poucos, desembaraçado como ninguem a bordo e que entendia -da manobra ás direitas. - -Não havia tempo nem mar que lhe mettessem medo: e por mais d’uma vez -salvára o navio em casos apurados, pela sua presença de espirito. - -Sempre alegre, sempre a cantar, parecia que não havia tristezas que com -elle entrassem, nem penas que se lhe pozessem diante. - -Tinham-lhe nascido os dentes no mar, calhára no navio, e fóra d’elle -andava triste como o peixe fóra da agua; o pobre do rapaz, tambem, era -engeitado, e vivia cá n’este mundo sem ninguem que lhe quizesse. - -Chegou lhe entretanto occasião de deitar ferro em amor e de arranjar -amarra de má morte, pois quebrou no primeiro temporal e que deixou -abrir-se e naufragar o barco de encontro aos baixios da vida. - -Manoel teria dezoito annos se tanto, quando uma tarde, indo em penitencia -á egreja de Nossa Senhora da Penha a cumprir uma promessa que fizera em -hora afflicta, encontrou a um canto da egreja, ajoelhada a rezar tambem, -uma rapariga nova, bonita e toda coberta de luto. - -Seguiu-a, soube onde morava, requestou-a e ajustaram casamento, que só -dependia d’uma viagem redonda ao Brazil, em que o rapaz contava apurar -os vintens de que precisava para pôr a casa. E assim, entre promessas -e esperanças, viveram dois annos, que tanto medeou entre o dia em que -pela primeira vez se tinham visto e aquelle em que ia partir para a -malventurada viagem. - -Foram os melhores da vida de ambos. Ái! quem tem vivido de illusões e -de esperanças, sentindo um coração a afinar pelo seu no pulsar e no -tremer, uma alma unir-se á sua cada vez a mais a mais até se confundir -de todo; quem tem a registar esses dias em que o tempo vôa nos instantes -dos colloquios para descançar, e demorar-se nos seculos que os separam; -quem tem encontrado sempre na dôr e no prazer companhia e affeição, amor -sempre, dedicação e sentimento, como só a mulher sabe ter, e a mulher que -ama deve resignar-se para todas as provas, para todos os padecimentos, -porque já antecipadamente tem gosado o maior quinhão de felicidade que a -terra lhe póde dispensar. - -N’este viver do ceu tinha passado Manoel dois annos, e tão breves lhe -tinham parecido, que na hora da despedida dava a vida inteira por um dia -só mais que fosse. - -Mas era preciso. O navio partiu e o piloto acompanhou-o em corpo, -deixando a alma em terra, e com a alma a esperança e a vida. - -Nos primeiros tempos esteve como doido. Por mais d’uma vez o navio correu -perigo sem que elle désse por isso, sem que aquella valentia d’outros -tempos accordasse nos momentos d’afflicção; parecia barco sem leme ou -alma penada sem sepultura: de nada dava fé nem a coisa alguma attendia. -Depois o tempo gastou as maguas, as rugas ficaram no rosto, a saudade no -coração; mas o marinheiro tornou a ser o que era, menos na animação e na -alegria, que d’essas só Martha podia dizer o que era feito. - -Teve má sina a viagem. Avarias, arribadas, empates de vendas, -difficuldades de carga demoraram tres annos o _Corsario_ em vez dos seis -mezes, que deviam de ser. Em Lisboa correu voz de que se perdera, e os -proprios donos do barco descoroçoaram de o tornar a vêr. - -Nos primeiros tempos Martha, sempre que podia, chegava ao escriptorio -para saber noticias, depois foi-se demorando mais até que por fim deixou -de apparecer. Bem sabia que Manoel, apenas saltasse em terra, correria -onde ella morava: para que havia de perder tempo, de que precisava para -viver e cuidar do enxoval? - -Um dia soube que se perdera o _Corsario_ com toda a tripulação. Ficou por -morta. Por dois mezes padeceu n’uma cama do hospital, depois melhorou -pouco a pouco, até que saiu tão boa como d’antes e mais formosa ainda, -porque a pallidez lhe augmentava a belleza. - -Perto d’ella morava um rapaz, operario diligente e de bons costumes, -novo tambem, laborioso e honrado: encontraram-se um dia na escada, e -cumprimentaram-se. Ella percebeu no visinho semelhanças do Manoel; chorou -muito, mas pensou no operario toda a noite; de manhã, para espairecer -saudades, estava na janella ainda de madrugada, e vio o quando ia para -o trabalho; depois foi continuando a vêl-o, depois... as recordações de -Manoel começaram a sumir-se-lhe pouco a pouco da lembrança, como o navio, -em que partira, fôra desapparecendo ao longe, pouco a pouco, nas aguas do -mar. - - -III - -Entretanto o _Corsario_ entrava a barra, de pannos largos em tarde -de primavera, como cysne nadando em lago de jardim. A marinhagem -debruçava-se nas amuradas, e com os olhos namorava a terra, a que a -prendia o coração. O sol baixava, e a cidade estirada por esses montes -fóra recortava-se sobre o fundo azul da serra de Monsanto, onde se -reflectiam, já muito obliquos, os raios do poente. - -Todos ou quasi todos têem visto Lisboa do mar e todos se tem enlevado -em suas formosuras; mas nem todos sabem o que é vêr a terra onde se -nasceu, onde se passou o melhor tempo da vida, onde estão amisades e -amores, saudades e memorias, depois de mezes passados entre mar e ceu, -a perderem-se e confundirem-se um no outro: e de vastos, que são, a -apertarem-nos, a apertarem-nos a mais a mais o coração e a alma. - -Para Manoel nem cidade, nem montes, nem rio, nem sol, nem ceu, nem coisa, -que n’este mundo houvesse, valiam a pena d’um olhar; uma casinha sómente, -uma mulher e um amor, eram tudo, em que pensava, o que unicamente lhe -prendia a attenção. - -Para que de mais longe podesse vêr, apenas passára as torres, subira a -uma gavia e d’ali esbugalhava os olhos para terra, como quem por elles -queria que a alma fosse em procura de Martha. Mal o navio deitara ferro, -atirou-se a um escaler, e agarrado aos remos, porque a seu vêr ninguem os -puchava com tanta ancia e tanto d’alma, voára, que não corrêra, até ao -caes, onde d’um pulo saltou em terra. - -Mas dados que foram os primeiros passos com os restos d’aquelle impeto -que vinha de dentro, Manoel estacou e ficou pregado ao chão. Tremiam-lhe -as pernas, esmorecia-lhe a vista, estonteava-lhe a cabeça, e o coração, -esse, batia-lhe no peito, como azas de andorinha em horas de temporal. - -Que seria de Martha? Morrera talvez: esquecel-o-ia, o que fôra peior; -porque nem a poderia chorar. Iria encontral-a casada, perdida!... -Instantes de incerteza como aquelles envelhecem tanto, como annos sem -descanço. Fraquejou por um momento, cobrou animo depois, como o navio, -que resiste a um furacão: e, quasi de corrida, deitou para o sitio em que -a deixára n’outros tempos. - -Tinha-se mudado, era já um mau agouro; as recordações do passado deviam -prendel-a áquella casa, se a abandonára fôra porque esquecera tambem -essas recordações. - -Manoel sentia apertar-se-lhe o coração ao bater á porta e ao dar com a -cara d’uma visinha antiga que occupava aquella habitação. - -Perguntou por Martha e soube o que succedêra accrescentado ainda em cima -pelas coscuvilhices de senhoras visinhas. - -Disseram-lhe que os amores de Martha estavam mais adiantados do que o -deviam ser para corresponderem ao seu bom porte d’outro tempo, e que se -deixára a rua fôra porque todos ali a conheciam e todos murmuravam da -sua vida; que na nova habitação podia estar mais á vontade, por isso a -escolhêra; finalmente, e para encurtar razões, tantas coisas que fariam -perder a paciencia, a quem a tivesse bem callejada, quanto mais a quem -tinha sangue na guelra e o ciume a ferver-lhe lá por dentro. - -Ouviu, como se estivera sonhando, parecia-lhe tudo impossivel. Martha, a -sua Martha ser-lhe infiel, era para dar em doido. Tanto lh’o affirmaram, -todavia, que o quiz experimentar, e, como o condemnado que vae para a -forca, seguiu para a morada nova da sua antiga amante. - -Era já noite, elle caminhava encostado ás paredes, e como quem receia -cair. A dôr tambem embriaga, e o marinheiro, que por tantas vezes -resistira ao vinho e á aguardente, fraquejára áquelle padecer; era outro -homem, as palavras da velha tinham no mudado de todo. - -Ao voltar da esquina da rua indicada, viu de longe n’uma janella um -vulto, que o coração conheceu, antes que os olhos o podessem adivinhar. -Era Martha, dizia-lhe o que sentia em si e os estremecimentos do seu amor. - -Mas quando, esquecido de tudo, ia soltar um grito e correr para a que -tanto amava, um outro vulto que parára debaixo da janella, depois de -ter fallado para cima e de lhe terem respondido, entrou a porta que lhe -franqueavam e que pouco depois se cerrava sobre elle. - -Martha desapparecera da janella e em breve aquella casa ficára sepultada -nas trevas, como o pobre Manoel no desalento e desconforto. - -Já não tinha que duvidar, não era sonho, estava realmente accordado, os -seus olhos não o enganavam; esperou entretanto, ora correndo como um -perdido, ora parando como quem ia desfallecer, ora soltando palavras sem -sentido, ora rugindo como uma fera, espumando como um possesso. - -Perto da meia noite abriu se a janella, Martha appareceu de novo, o -mesmo vulto saiu e encaminhou-se para onde estava Manoel, este como fóra -de si, não vendo senão sangue partiu para elle, com a faca de marinheiro -aberta: ouviram-se dois gritos, um corpo baquear no chão e uma voz de -mulher, que pedia soccorro. - - -IV - -Momentos depois já Manoel estava prezo: tinham acudido aos gritos de -Martha, e tinham-no encontrado com a faca ainda aberta defronte de um -corpo caido no chão, e a golphar sangue por duas feridas profundas. - -Era mais do que o bastante. - -O depoimento da visinhança, o proprio testemunho de Martha, tudo -concorreu para que o condemnassem. - -Levaram-lhe porém em conta o bom passado, os negociantes respeitaveis, -donos do navio a attestarem o seu bom porte, uma tripulação em pezo de -honrados e velhos marinheiros encanecidos pelo tempo, e crestados pelos -soes da linha a dizerem: que elle tambem fôra honrado. - -Os jurados, santas creaturas, commoveram-se com aquelle espectaculo; -o advogado do réo, rapaz de esperanças, vociferou contra as leis de -sangue, e discorreu como uma bocca de ouro sobre a alienação mental e -as circumstancias attenuantes; o juiz sensibilisou-se tambem, e todos -enternecidos condemnaram o réu... a dez annos de grilheta. - -Para um homem como Manoel, similhante affronta seria peior do que a -morte, se no estado em que se achava, elle a podesse apreciar. - -Depois que commettera o assassinato tinha ficado como louco, ou peior -ainda, porque parecia idiota. - -Um golpe d’aquelles, uma mudança d’aquella qualidade! - -Quando esperava colher o fructo de uma vida trabalhosa e honrada -nos braços da sua Martha, vêr-se de repente criminoso, assassino e -deshonrado; toldarem-se-lhe na cerração as estrellas, que o guiavam -n’esta vida, o astro do amor, e o astro da honra: eram provações de -sobra para deitarem por terra castellos mais fortes, e almas ainda mais -valentes. - -Manoel não morreu, mas fraquejou para sempre. O mesmo d’outros tempos -nunca mais tornou a ser. Nunca mais o viram rir, cantar não o ouvio -mais ninguem: e as rugas, que se lhe cavaram no rosto, tambem se lhe -entalharam no coração. - -O amigo da humanidade, que inventou as prisões em commum e a grilheta, -foi de certo um grande perverso. Só a um requinte de malvadez se póde -attribuir um invento que envolve e reune no mesmo castigo, na mesma -atmosphera de perversão, innocentes e criminosos, pois que assim -comparados uns com outros se podem chamar: e que não contente com isso -lhe accrescentou a grilheta, _exposição ambulante_, aperfeiçoamento da -que, em tempos de barbaridade, se applicava as mais das vezes a victimas -do que a réus. - -A influencia desmoralisadora d’aquelles dez annos não alcançou todavia o -antigo piloto: quasi que nem os percebeu, tudo era para elle extranho, -inexplicavel, incomprehensivel; um pesadello que durava muito, e de que -esperava accordar um dia. - -Entrára na cadeia de vinte e um annos; saia sexagenario, eis toda a -differença. Aquelles dez annos valiam-lhe por quarenta; e, mocidade, -alegria, sentimento, coração, vida, enthusiasmos d’outro tempo, crenças e -aspirações, tudo deixara ao sair, com a grilheta que depozera. - -Só não perdera um sonho atroz, que quasi todas as noites o perseguia, e -que, salvo pequenas mudanças, era sempre o seguinte: - -Navegava a bordo do _Corsario_. De repente o Oceano transformava-se em -largo mar de sangue: debruçado na amurada via-se lá em baixo a braços -com um homem, que lhe ia roubar a sua Martha, innocente como os anjos, -pura como a estrella da manhã, serena como o alvorecer de estio em alto -mar, e que d’entre nuvens no céu lhe sorria amor. A lucta continuava -encarniçada, elle fóra de si puchava pela faca; mas, por mais diligencia -que fazia, só alcançava Martha, o seu contrario escorregava-se d’entre -os braços escapando-se-lhe aos golpes. Depois o mar de sangue envolvia-o -todo, ia já a affogar-se, e a voz de Martha eccoava-lhe aos ouvidos -clamando; assassino, assassino. As ondas passavam-lhe por cima da cabeça, -o marulho das aguas, o sussurro do vento casavam-se com uma voz confusa, -que lhe baqueava nos miolos, dizendo-lhe: _não matarás_. - -Nos primeiros tempos, em que saiu, ainda teve esperanças de voltar á -vida antiga; mas todos, que procurava, se affastavam d’elle com terror. -Desesperado, momentos houve em que lhe passou pela cabeça vingar-se de -uma sociedade, que castigava n’elle um crime mais dos outros do que seu, -e seguir a estrada do mal, já que lh’a lembravam, e já que lhe tornavam -todas as outras impraticaveis; mas o principio do bem e as idéas que -recebera com a educação, predominaram sempre. - -Custára-lhe muitas noites d’insomnias e de phrenesi, horas de amargura, -em que chegou a desejar a vida da cadeia, occasiões em que a ideia da -morte lhe trabalhou muito na cabeça. - -Uma noite, pelas onze horas, vagueava pelo caes do Sodré depois d’um dia -passado em inuteis pesquizas de trabalho, e em repetidas e semelhantes -recusas. O céo estava carregado, o vento soprava em lufadas da barra, -o rio estava revolto, as aguas negras, a escuridão negrejava em tudo. -Debruçado sobre o caes, remontou-se pelo pensamento áquella tarde em que, -onze annos antes, desembarcára no mesmo sitio. Como tudo tinha mudado. -Que alegrias então, que tristezas hoje! A agua começou a namoral-o -debaixo, o desalento a convidal-o em roda, ia a precipitar-se, um -braço susteve-o, uma voz exclamou: cobarde!—Era o braço de um antigo -companheiro, a voz d’um velho amigo, marinheiro como elle; mas muito mais -pobre, muito mais velho, e que pedia esmola encostado ao parapeito do -caes. - -Aquella palavra e aquelle exemplo fizeram-n’o renunciar para sempre ao -suicidio. Para não ser cobarde muitas vezes em temporal desfeito se -resolvera a morrer, agora, para que lh’o não chamassem, resignava-se a -viver. Era maior o sacrificio, mas para o compensar estava a ideia de -que podia ser util ao velho Estevam: e a companhia d’um amigo que lhe -apparecia nas proximidades da sepultura. - -E... porque não havia de concorrer tambem? - -A esperança, que mesmo sem fundamento algum, ainda lhe dizia que vivesse, -e o acompanhava, como sempre, nos mais atormentados lances? - -No dia seguinte, com o peculio que por seu trabalho juntára na cadeia, -comprava um velho barco de pesca, e ambos tomavam posse da propriedade -commum não contentes, mas resignados, baptisando-a—_Desgraça_,—pelo muito -que ambos haviam padecido. - -Se o trabalho faz minorar e esquecer as maguas, nenhum modo de vida -se creou melhor para o esquecimento do que a vida do pescador. A lida -continua e a lucta permanente com o mar e com o vento, a vigilia, o -emprego de todos os sentidos, trazem o que n’ella se emprega sempre -voltado para o seu trafego e sempre estranho ao mundo com o qual só de -leve trata: e d’ahi para Manoel aquelle labutar tão semelhante ao de -outros tempos, aquella vida, reflexo da outra, reflexo pallido em que -o rio substitue o mar, em que o barco substitue o navio, mas que nos -lances e no trato, tanto lh’a recordava, era um paraiso, depois d’aquelle -inferno porque passára. - -Estevam, que o infortunio lhe offerecera por companheiro, serviu-lhe de -amigo e de auxilio durante tres annos, em que gradualmente se lhe foram -esvaecendo da lembrança os desgostos e as desillusões. - -Se para Manoel podesse ainda haver felicidade, quasi que aquelles tres -annos se poderiam dizer felizes. - -Desde a tarde em que saltára em terra, entre receios e esperanças, nunca -mais encontrára alma onde derramasse as amarguras, que trasbordavam -da sua, nunca tivera ninguem que o comprehendesse, nem que avaliasse -a sua dôr. O companheiro de grilheta, que lhe haviam jungido, era um -scelerado, com tantas mortes e tantos crimes, que horrorisava ouvil-o, e -ainda mais vêl-o rir das maguas de amor. Ás queixas de Manoel, respondia -com imprecações, e se elle insistia, dava-lhe para que o deixasse com -semelhantes pieguices. - -Depois que o soltaram, nunca nem um só, dos que d’antes o tratavam, lhe -mostrou boa feição, todos fugiam do _grilheta_, alcunha que lhe tinham -posto e que lhe recordava a antiga condemnação. - -Porque, clamem embora os philosophos, a rehabilitação moral para o -criminoso pobre é impossivel, para o rico é inutil, ninguem lhe toma -contas nem do passado nem do presente: o miseravel, porém, traz a -corrente presa toda a vida, todos lh’a notam, todos lhe apontam para -ella, e embora elle diga: _vejam o que hoje sou_; todos lhe tornam: -_vemos o que foste hontem_. - -Por isso aquelle companheiro, que o comprehendia, aquella solidão que o -não accusava, aquelle mar e aquelle ceu, que lhe lembravam o perdão e -o infinito, foram como um calmante para a sua dôr, como uma estação de -descanço na sua jornada de padecer. - -Estação, que durou pouco e que uma borrasca desfez, n’uma tarde, em -que já recolhiam da pesca, seguindo pelo Tejo acima, a procurar abrigo -n’alguma d’aquellas enseadas naturaes, que o rio abre, nas proximidades -de Sacavem. - -A _Desgraça_, apezar do vento á popa, seguia pouco, e arfava muito porque -havia força de corrente, e a vasante ia com grande rapidez. - -Principiava a escurecer e o vento a carregar com a noite, alguns trovões -ouviam-se ao longe, e um temporal rijo se apparelhava para em pouco. O -barco já não dava pelo leme, e a cada momento se enchia d’agua;—ir para -diante era quasi impossivel, e á primeira onda mais rija, o casco já -velho, podia abrir-se de popa á prôa. Posto que não conhecessem a praia, -em risco de bater n’alguma pedra, tentaram atravessar, e encalhar quanto -antes, depois de esforços sobrehumanos para luctar com o temporal; mas -quando aproavam para terra uma rajada mais forte lhes levou a vella, -e uma onda apanhando o bote pelo costado, metteu-lhe a borda debaixo -d’agua, e virou-o logo. - -Só os que têem vivido parte da sua vida no mar é que avaliam bem quanto -custa ao marinheiro deixar as taboas, em que tem navegado, sejam ellas de -bote catraio ou de navio d’alto bordo. Para Manoel e para Estevam o barco -era a fortuna, a familia, o mundo inteiro, que as aguas lhes queriam -roubar. - -Agarrados a elle, mal se via já, trabalharam quanto poderam para vêr -se o salvavam; mas, baldados esforços, o que conseguiam n’um quarto -de hora, perdia-lh’o n’um segundo uma onda mais valente. E as forças -a faltarem-lhes, e a respiração a difficultar-se-lhes, e os braços a -renderem-se-lhes. - -—Já de noite—não podendo mais, tiveram de o largar, e por um instincto de -conservação, que nos não deixa nunca, cuidaram de se salvar nadando para -terra. Não era cedo: acontecia-lhes o que succedera ao barco, e quando -mais cresciam para a praia, animando-se e clamando um pelo outro, porque -não se podiam vêr, mais os affastava a corrente, que seguia com uma -velocidade de espantar. - -Estevam não luctou por muito tempo. Mais velho e mais cançado, uma onda -abafou-lhe o ultimo grito, e galgou-lhe por cima da cabeça, entrando-lhe -pela bocca aberta convulsivamente n’um extremo resfolegar. Manoel com -o desespero de afogado, reuniu todas as forças, e n’um extremo alento -enterrou um braço no lodo da praia, para que a agua o não levasse, -procurando já por instincto conservar a cabeça ao cimo d’agua para -gritar, e tomar a respiração. - -Succeder-lhe-ia em pouco o mesmo que a Estevam se da terra o não -ouvissem; correram em seu soccorro com luzes e cabos, nadaram para onde -se ouviam os gritos, e agarraram-no pelos cabellos, quando exhausto de -forças ia mergulhar tambem. - -—Quasi que não respirava. - -A Providencia velava por elle, era a segunda vez que o salvava. - -De manhã quando Manoel deu accordo de si, viu-se deitado n’uma esteira -perto da chaminé, onde ardia um bom fogo, e ao pé d’elle um rapazito -de dez a doze annos a vigiar lhe o somno: já não sentia a fadiga da -vespera, e tinha recuperado as forças com o descanço; ia para se levantar -e agradecer aos que o tinham salvado, quando a creança, pondo-lhe a mão -sobre o hombro lhe disse: - -—Não se levante, faz-lhe mal, a mãe não quer; e como elle teimasse, -gritou:—mãe, accuda cá, o homem quer levantar-se, quer ir-se embora. - -Á voz da creança abriu-se uma porta, e uma mulher, que teria trinta -annos, quando muito, e que apesar de cançada pelo trabalho, ainda era -formosa, appareceu no limiar. - -Manoel apenas a entreviu, com o lusco-fusco da madrugada, que illuminava -fracamente a casa, deu um grito, levantou-se cambaleando e enfiou pela -porta meia aberta para a estrada. - -Ella ao reconhecel-o tambem, encostou-se ao umbral da porta para não cair -no chão. - -Era Martha. - - -V - -O céu tinha limpado de noite, o dia amanhecera sereno, e o sol aquecia -bastante, apesar de ser no outono. E aquella estrada, então, que era um -descampado! - -A meia hora de caminho, andando sabe Deus como, com a cabeça pelos ares e -a rasão quasi transtornada, Manoel teve de parar, ou, para melhor dizer, -de cair n’um poial, que estava á beira da estrada debaixo de uma nogueira -velha. - -Se não estivesse já experimentado na infelicidade, o pobre homem, que -pela sua má sina parecia ter nascido nas horas da desgraça, finava-se -alli de todo. - -Mas a canceira do corpo venceu a labutação do espirito; as horas, que -levára de volta com o mar, o dia que passára e este que ia correndo -sem comer; aquella vista e aquelle abalo, tudo junto deitaram-no como -desmaiado sobre o poial onde ficou a dormir, a pensar, ou a esmorecer, -que nem elle mesmo soube nunca o modo porque fôra, até que um velho -visinho e que por mais de uma vez chegára ao humbral da porta a encarar -com elle, o fez tornar a si batendo-lhe no hombro e perguntando-lhe se -tencionava ficar para sempre alli estendido. - -Manoel para aquellas bandas não sabia caminho nem carreira, e que o -soubesse não tinha alma de o seguir. O velho compadeceu-se d’elle, -porque pelo fato e pelo fallar, conheceu logo que era estranho ao logar; -offereceu-lhe, para passar a noite, um bocado de esteira, para matar -a fome um pedaço de pão e uma cabeça de sarda, e para companhia a sua -pessoa e conversação. - -Acceitou, e seguiu o seu hospedeiro como por demais: e, sem dar fé do que -fazia, comeu, deitou-se, e dormiu a noite de um somno. - -Só nos romances é que os heroes não dormem depois de fortes abalos; na -vida vulgar, na vida de todos e de todos os dias, depois dos grandes -padecimentos, vem o cançasso mesmo da dôr, e depois o somno, ás vezes -mais profundo, mais descançado, do que nas occasiões triviaes. - -Na manhã do dia seguinte Manoel acordava tranquillo e quasi feliz. -Ao cabo de tanta lucta, de tantos lances, e de tão grandes golpes, -aquelle remanso, que o velho lhe offerecia, aquelle apartamento do -mundo, aquelle mesquinho oasis, entre um cemiterio e um ancião que para -elle se inclinava e se debruçava sobre a cova; entre dois tumulos, mas -sempre oasis para o seu mundo deserto de affeições e de esperanças, era -o socego, o esquecimento, quasi a felicidade, felicidade da morte, mas -ainda assim agradavel para os que nada esperam da vida. - -Diz um aphorismo, dictado talvez pela descrença, mas provado pela -experiencia, que um dia de desgraça estreita mais amisades do que -annos de ventura; contaram-se a sua vida, communicaram-se as suas -infelicidades, e deram-se o nome de amigos. - -Não eram interesseiros os protestos; e por isso, bem sinceros. - -Até á morte do velho, Manoel viveu na sua companhia; enterrou-o, chorou -sobre a sua sepultura, herdou-lhe a pobre habitação e o descubiçado -emprego, e n’essa posse estava quando em companhia do tio Joaquim o -encontrei. - - -VI - -Haviam decorrido dois annos depois que viera do campo, e, com toda a -sinceridade o confesso, nunca mais me lembrou em Lisboa, nem o guarda do -cemiterio, nem a sua historia, que o bom do tio Joaquim me referira. - -Tive de voltar áquelles sitios e seguindo o caminho por onde viera da -feira, comecei a avivar recordações, a recontar de mim para mim aquellas -horas tão felizes, tão descuidadas, tão folgazãs, que me tinham corrido -por aquelles descampados, e a vêr por entre as moitas dos vallados, que a -primavera perfumava de aromas e esmaltava de flôres, as saudades queridas -d’aquelles encantados tempos. - -Ao voltar da estrada quasi no mesmo ponto, em que os cavallos se haviam -detido dois annos atraz, deteve-se tambem o que eu montava; obrigando-me -a abandonar aquellas regiões do idealismo pela realidade de tempo e de -logar. - -Não conhecia os sitios, tive de me orientar, invocando reminescencias -antigas, e confrontando paragens, para me certificar onde estava. - -A egreja, a casa do guarda, o proprio cemiterio, pareciam remoçados -pelo influxo de alguma divindade bemfazeja. Inspiravam ainda tristeza -aquelles logares, mas uma doce e placida melancholia succedia-se agora -ao desconforto e desalento, que ao attentar n’aquellas ruinas, nos -arrefeciam a alma. - -O musgo estendia por partes o seu luxuriante manto de verdura, -contrastando com o negrejar das cantarias, e dando e ganhando -esplendores com o realce. Bandos de pombos esvoaçavam em roda das -escalavradas paredes, casando os arrulhos, beijando-se, perseguindo-se -em revira-voltas graciosas, cortando os ares em todos os sentidos com -elegantes curvas, affagando-se e brincando, espalhando sobre aquellas -ruinas suaves perfumes de alegria e de amor. Perto a casa, alvejando -por entre as latadas de jasmineiros e madresilvas, o velho poial limpo -e rebocado sob um caramanchão de heliotropos, e até a nogueira velha -parecia mais viçosa e risonha. - -O cemiterio, que da pequena elevação, onde parára, se avistava todo, -tinha as ruas limpas e orladas de alecrim e alfazema, as lapides mais -desafogadas de matto, as cruzinhas mais negras, as arvores mais cuidadas, -o chão recamado de flôres. - -Tudo era novo para mim, mas tudo melhorára com a innovação, e despidas -as rugas de uma velhice precoce ou de uma mocidade gasta e devassa, -apresentava-se tudo agora com as louçanias de uma virilidade robusta, de -uma existencia descançada, serena, quasi festiva. - -Aquelle rejuvenescer estendera-se tambem ao antigo habitante, que havia -visto outr’ora sujo, maltrapilho, alquebrado, velho até; e que via agora -assomar á porta tão aceiado, tão esbelto, tão remoçado, que foi preciso -que me cumprimentasse e que eu o ouvisse fallar, para perceber que era o -mesmo. - -Apeei-me e mais curioso de que uma mulher, ou do que qualquer homem -dos que n’este vicio lhes levam as palmas, procurei indagar o porquê -d’aquellas mudanças. - -Talvez pelo respeito, que todos por aquelles logares me tinham, consegui -de Manoel a confissão da sua vida na parte que não conhecia, e em que se -operára aquella transformação. - -Em resumo foi o seguinte: - -Tempos depois da morte do seu antecessor, Manoel acordára uma noite ao -bater-lhe á porta o acompanhamento de um enterro, que, como todos sabem, -costumam no campo, ser fóra de horas. - -Atraz do caixão vinham chorando a viuva, o filho do finado, e alguns -visinhos, que os acompanhavam. - -E... para que hei de torturar a curiosidade dos meus leitores, se é que -a despertei em alguns, a viuva era Martha e o filho, aquella creança que -vigiára o somno de Manoel. - -Encontravam-se pela terceira vez, mas d’esta finalmente para não mais se -apartarem senão no tempo consagrado ao luto. Martha contou-lhe como o -Miguel não morrêra das facadas, como se tinham casado depois, e como de -Lisboa tinham vindo para aquelles sitios viver na companhia de um tio do -marido, dono da fazenda onde foram depositar o nosso naufrago. - -Viram ambos n’aquelle inesperado encontro ao pé de um cadaver, a -vontade da Providencia que os reunia emfim depois de tantos azares. -Esta conclusão, que nem por isso depunha muito a favor da sua logica, -pois que o encontro mais naturalmente provinha da occupação de Manoel, -recebeu sobejo apoio na mutua affeição, que nunca se sumira de todo e que -renascia agora mais valente e duradoira. - -Martha justificou-se a seu modo, e uma torrente de lagrimas rematou-lhe a -peroração talvez artificial, mas de grande effeito para o seu auditorio. -Manoel enterneceu-se, acreditou-a, e chorou tambem. E, regada com as -lagrimas de ambos, desabrochou rapida a flôr do hymeneu. - -Casaram, não tiveram muitos filhos, não tiveram mesmo nenhum, mas o -Miguelsinho, a quem o padrasto estimava como a si proprio, foi cimento -mais que bastante para aquelle templo modesto de felicidade conjugal. - -Quando Manoel acabava a sua historia, apparecia Martha á janella -chamando-o e lançando uns punhados de milho a um rancho de gallinhas, -que andavam pela estrada defronte da porta; e por uma azinhaga proxima -assomava o Miguel tocando umas vaccas e umas ovelhas, que recolhiam do -pasto. - -—É feliz!... Disse-lhe eu tão senhor de mim e com uns ares tão -sentenciosos e profundos como se fizera uma grande descoberta. - -—Sou, graças a estes, e (levando-me á porta do cemiterio para me indicar -uma cruz abraçada por uma corôa de perpetuas), graças tambem áquelle que -me perdoou o meu crime. - -—Ainda pensa em semelhante coisa? - -—Se penso, quiz matal-o! - -Uma hora depois voltava para Lisboa, se não contricto ao menos pensativo. -Aquelle espectaculo tinha-me valido por duzias de sermões. - -É verdade que Manoel dizia o que sabia, por experiencia propria: e a -maior parte dos nossos padres, não sabem o que dizem. - - - - -IX - -Como se ganha uma demanda - - -Era pelos fins de novembro, ao approximar da noite. Soprava rijo o vento -das bandas do sul e as nuvens acastelladas e escuras corriam como cavallo -á desfilada. Principiavam a cair grossas gottas d’agua, e ao longe já -rugia a tempestade. Como é vulgar no inverno, no campo, quasi que não -houvera crepusculo da tarde. Apenas se escondera o sol e já a escuridão -baixava sobre os campos. No sitio onde começa a acção da historia que se -vae lêr, não havia noticia de povoado: era a meio de uma azinhaga, que se -contorcia por entre terras cobertas de restevas, e tristes como a nudez -mal vestida de farrapos. - -Joaquim dos Santos tinha mettido o cavallo a trote para fugir á trovoada -proxima e ás trévas eminentes; emquanto debalde procurava orientar-se por -meio dos olivaes. - -Joaquim dos Santos fôra um dos mais endiabrados rapazes d’aquelles -lugares. Deitára fama de si pelas proezas que fizera, e o seu nome não -era bem fallado n’aquellas visinhanças, como um dos maiores extravagantes -d’este mundo. - -Seu pae, que tinha alguns bens e que estimava devéras os seus dois -unicos filhos, Joaquim e Raymundo, tratou de lhes dar educação decente, -mettendo-os no mais acreditado collegio de Lisboa. - -Mas, emquanto Raymundo estudava com a melhor vontade, Joaquim fazia em -agua a cabeça dos professores, e peiorava de dia para dia. Não podendo -aturar, o director mandou-o para casa do pae, declarando lhe, que assim -como não teria duvida de ensinar de graça a Raymundo, visto o seu bom -porte e applicação; por dinheiro algum d’este mundo se resolveria a -supportar o irmão nem mais um dia. - -Foi grande tristeza em casa de José dos Santos. As esperanças todas que -depuzera em seu filho mais velho desappareciam-lhe de repente. E o velho -que já pensava em o mandar a Coimbra! - -Joaquim, pela sua parte, declarou-se em guerra aberta com a lettra -redonda. Não nascera para doutor, nem se achava com sabedoria para -lettradices. Queria amanhar terras e ser lavrador como seu pae. Seu -irmão, que parecia um menino Jesus de freiras, que se desse a semelhantes -pieguices: elle era um homem, tinha pulso para guiar a rabiça de um -arado, e pernas para se segurar n’um cavallo. - -José dos Santos só contava um defeito, ser estremoso pelos filhos como -ninguem. Concordou com a vontade do Joaquim, e metteu-o no trabalho -debaixo da sua direcção. - -Mas, nem mesmo nos primeiros dias, o novo lavrador tomou gosto áquelle -modo de vida. Aborrecia-se do trabalho e, mal que podia, furtava-lhe -o corpo para ir procurar a companhia dos peiores rapazes da terra. -Encontravam-no mais na taberna do que na eira, mais no jogo de bolla do -que no pomar, e mais nas patuscadas do que na lavoira. - -Ao passo que se ia entregando a não fazer nada, iam-lhe medrando os -defeitos e engordando os vicios. Tinha fama de valentão, e tão mau se -havia feito, que o proprio pae se temia d’elle. - -Ninguem podia ter-lhe mão, não ouvia conselhos, nem fazia caso do que lhe -diziam para bem. Um dia que seu irmão Raymundo se lembrou de lhe fallar -a preceito para vêr se o fazia chegar á rasão; Joaquim, que não vinha em -si, deu-lhe uma sova, que o deixou em lençóes de vinho. - -Foi tambem a ultima que seu pae lhe aturou. O bom do velho apenas viu -chegar seu filho querido, o seu ai Jesus, que fôra sempre uma joia, e do -qual ninguem dizia senão mil bens, em braços, e que soube quem fôra o -auctor de tão grande maldade, jurou que nunca mais lhe poria os pés em -casa homem de tão mau coração. - -Deitou luto em signal de o ter perdido e respondia a todos que lhe -perguntavam porque vestia de preto:—é por meu filho Joaquim, que morreu. - -Este jurou que se havia de vingar de seu irmão, ao qual attribuia a má -vontade do pae, e foi cada vez a peior, passando todo o santo dia na -taberna ou no jogo. - -Entre os seus companheiros de perdição havia um, que sobre elle tinha -mais poder; mesmo por ser o mais depravado. Era João Simões, capaz de lêr -de cadeira na patifaria e de passar por doutor na pouca vergonha. - -Contribuira mais do que ninguem para estragar o rapaz e fôra quem lhe -ensinára melhor o mau caminho. Joaquim, tambem, não resava por outro -breviario, e o que João Simões lhe dizia—era para elle um evangelho. - -Andavam por aquelles tempos no lugar alguns homens a desenquietar -trabalhadores para o Brazil, promettendo-lhes mundos e fundos de -felicidade, quando lá estivessem, e passagem paga no navio para os que -quizessem ir. João, que entrava em todos os negocios de má condição, -travou conhecimento com os taes meliantes, e fez-se dentro em pouco um -dos mais espertos alliciadores da companhia. - -Como estava corrente com tudo que se passava, pois bem sabem que a -occupação do vadio é entreter-se com as vidas alheias, viéra a ser em -pouco tempo o perdigueiro de melhor faro para levantar a caça. Conhecia -os que tinham menos dinheiro, os que mais desejavam ganhal-o com pouco -trabalho, os que tinham melhor embocadura para o vicio, e os que menos -duvidavam de abandonar terra e parentes. - -Onde deitava a rede tirava peixe, já era sabido. Ninguem como elle -acertava tão bem. - -Apenas José dos Santos pôz seu filho fóra de casa, logo João tencionou -seduzil-o para embarcar, e sem grande difficuldade conseguiu convencel-o -de que era o melhor partido que tinha a seguir. - -Como elle jurava nas palavras do seu mestre, acreditou em tudo quanto lhe -dizia, protestando entretanto, que se fosse desgraçado grande vingança -tiraria de seu irmão Raymundo, o causador de tudo, lá no seu modo de vêr. -João entretendo-lhe a furia foi acompanhal-o ao embarque, encarregando-se -não só de tratar de quantos negocios porventura viesse a ter; mas ainda -de realisar os planos vingativos contra o irmão. - -Tornou-se assim depositario de todos os seus odios. - -João incumbindo-se d’esta vingança, trabalhava tambem por sua conta, pois -jurára pela pelle de Raymundo, desde que este o tratou desabridamente, e -lhe voltou costas n’um arraial. - -O desgosto de vêr seu filho tão mal encaminhado levou o pobre pae á cama: -e Raymundo teve de deixar os estudos em meio para vir junto do velho, -governar a casa e tratal-o na doença. - -Entrementes que estava cuidando em seu pae tomou-se de amores com uma -rapariga da terra; e como era boa de caracter e boa de reputação, apesar -de pobre, casou-se em breve, ganhando todos com o casamento. Elle porque -alcançára uma esposa extremosa, José dos Santos porque ganhava uma -enfermeira sollicita, tão desvellada e tão carinhosa como a melhor filha. - -Porém quando o mal é de morte triste remedio lhe podem dar o saber dos -medicos, ou o cuidado dos enfermeiros. A ferida do doente era mesmo no -coração, não tinha cura. Apesar da maneira porque Joaquim para com elle -se houvera, estimava-o porventura mais ainda do que ao seu obediente e -bom Raymundo. - -Caprichos do sentimento, que mais nos fazem prender a affeição, a quem -menos nol-a merece; o velho, embora comsigo mesmo o negasse, dera parte -maior do seu coração ao filho perdido. - -Muitas vezes em piedosa e apaixonada analyse se desculpava d’esta -parcial fraqueza. Era a ovelha desgarrada, que cuidados maiores requeria -do pastor, era a terra maninha que pedia melhor cultura, era a arvore -desviada, que chamava mais attenção para lhe emendar o erro. - -A lembrança do filho era o tormento, e a enfermidade mais perigosa, que o -definhavam. O barbeiro-sangrador do logar, e o cirurgião visinho tinham -feito repetidas juntas sem atinarem com a rasão do mal. Resolveram por -fim, que padecia do interior, e acertaram sem saber. - -José dos Santos ria-se dos entes de rasão dos dois physicos, e -sujeitava-se resignado ao tratamento que lhe applicavam. Seu filho, sua -nora, até o netinho de peito, todos se acercavam d’elle inquietos e -suspeitosos da verdadeira causa do mal. Porém tão callado se conservára o -doente, que não tinham passado de conjecturas. - -Á hora da morte apenas se lhes desvaneceram as duvidas, porque, -conhecendo como estava, chamou-os a todos, lançou-lhes a benção, e depois -erguendo os olhos ao céu, exclamou: - -—Compadecei-vos tambem d’elle, Senhor, tocae aquella alma perdida, com um -raio da vossa divina graça... Se algum dia tornares a vêr teu irmão, meu -Raymundo, dize-lhe, que lhe perdoei tudo, e, que ao despedir-me do mundo, -lhe deitei, cá de tão longe mesmo, a minha benção de pae. - -Casa onde entra doença, não é o dinheiro que a aguenta: a molestia de -José dos Santos foi a ruina d’aquella familia. Durára perto de dois -annos o padecer do velho; custára muito áquella organisação robusta -o desprender-se do mundo, luctára como um homem; o desgosto, porém, -vencera-o por fim. - -Tudo estava empenhado, quando o antigo lavrador falleceu: foi mister -pedir dinheiro para o enterro, e Raymundo amanheceu um dia sem pae, sem -haveres, e com o filho e a esposa para sustentar. - -Demais a familia promettia-lhe augmentar-lhe, porque Leonor, sua mulher, -estava gravida de tempo: e tanto que em poucos dias deu á luz uma -filhinha, formosa como um serafim, e córada como uma rosa de primavera! - -Diz-se que os filhos são a riqueza do pobre. Triste ironia!—Para o que -padece de necessidade a vista das creanças sem pão é tormento mil vezes -maior do que a propria fome. Quantos não sacrificariam a vida de bom -grado, se em paga soubessem que garantiam a existencia dos seus! - -Supplicio, que se não descreve, é vêr os innocentes, menos soffridos e -porventura mais sinceros, não disfarçarem a fome e chorarem pedindo pão. - -Emquanto a desgraça o perseguia, Raymundo, sem desanimar, ia trabalhando -sempre, amparado pela força de vontade e pelo sentimento do dever. - -Pelo contrario a fortuna, caprichosa como sempre, sorrira para Joaquim -cujos negocios lá pelo Brazil iam de vento em pôpa. - -João Simões, que com elle se correspondia regularmente, não descançava -de lhe acirrar os odios contra seu irmão, o qual para de tudo o privar, -até lhe roubára a benção paterna, fazendo com que o velho á hora da morte -amaldiçoasse o filho mal procedido. - -Como já se disse, succedera o contrario; mas o Simões, que era uma alma -damnada, queria vingar-se de Raymundo, e não recuava, por conseguinte, -deante de uma mentira, ou duas que fossem. - -Ao mesmo tempo encarecia lhe a prosperidade da casa e os grandes -negocios, que José dos Santos fizera nos ultimos tempos: dizia-lhe, que -seu irmão ficára disfructando uma grande fortuna, que se fingia pobre -para não fazer partilhas, e que se Joaquim lhe mandasse procuração para -tratar d’esse negocio, em breve lhe mostraria, se era ou não verdade, que -seu irmão queria enganar toda a gente com a sua mentirosa pobreza. - -Conseguiu por fim o que desejava: e mal teve a procuração em seu poder, -começou a perseguir o desgraçado Raymundo a quem já devia bastar o seu -mal. - -A justiça não costuma estar em casa para receber os pobres; João Simões -dispunha de dinheiro, e entendia de demandas, fazia o que queria. Taes -artes teve, de taes manhas se soccorreu, que conseguiu em pouco, que -passassem um mandado de penhora contra Raymundo, como cabeça de casal em -nome de seu irmão: emquanto este, lembrando-se com saudades da patria ia -liquidando os seus negocios, para poder regressar quanto antes. Tinha -ganho algum dinheiro; mas não tinha contrahido amisades: e estava rico; -mas só e triste. - -Mudára de vida completamente: aquelles annos tinham-no amadurecido, mas -tambem o tinham cançado e gasto. Estava velho antes de tempo, precisava -descançar e não ha como a terra da patria para alliviar penas de velhice -e melancholias de coração. Havia bem pouco que chegára, quando nós o -encontrámos, fugindo da tempestade, e orientando-se por entre campos. - -Eram recordações, eram saudades, que o tinham demorado, seguindo por -aquellas visinhanças, parando diante d’uma arvore, descobrindo-se diante -d’uma cruz, apeando-se muitas vezes para ir ajoelhar diante d’uma pedra. - -Tudo lhe fallava á memoria, tudo lhe fallava ao coração. - -Aqui passára tanto tempo espreitando seus companheiros, que o procuravam, -e elle escondido; ali tivera o primeiro encontro apaixonado; mais em -baixo estivera com seu pae; mais além descançava este em horas de calor, -ou esperava os trabalhadores das suas fazendas, ao recolherem, para lhes -perguntar noticias do trabalho. - -E uma pedra para junto da qual viera correndo um dia a fugir do cão -do tio Fernandes, esconder-se no regaço de sua mãe, toda em sustos de -principio; tão enfurecida mais tarde apenas soube que fôra elle, quem -desafiára o cão! - -Mundo de melancholicos e piedosos phantasmas, mundo, que o alheava -á realidade, que o apartava do presente, tão só, tão vasio, tão sem -significação, para lhe abrir francas, patentes e compassivas as portas do -passado, tudo ali se transformava para elle, e em cada cousa cuidava vêr -uma feição querida, uma lembrança, uma alegria ou uma dôr. - -Por vezes lhe rebentaram as lagrimas dos olhos, por vezes sentiu-se -suffocado, por vezes desejou, emballado pela doce harmonia da saudade, -adormecer de todo no dormir, em que já descançavam seu pae e sua mãe. - -E, que o explique quem melhor o pensou, nas occasiões, em que o -sentimento é em nós mais placido, mas tambem mais profundo; nas horas de -amor duvidoso, de aspiração indefinida, de descontentamento irremediavel -e infundado, parece que se levanta entre nós o desejo de outra vida, de -outro mundo, de outra existencia, não sabemos qual, mas que nos parece -ter já vivido, e para o qual nos persuadimos, teremos de voltar. - -N’essas horas de extranho e amoravel sentir, como desterrados de regiões -bem diversas d’estas, desejamos vêr terminado o desterro e immediata a -hora de regressar. - -Foi o approximar da tempestade que o distrahiu d’estas melancholicas -cogitações; deitou os olhos em roda e não conheceu o sitio. Tinha-se -perdido no caminho. Novas estradas, novas mudanças tinham-lhe -transformado o mappa, que a memoria lhe estampára no coração, via-se a -meio de olivaes e as arvores confundiam se já com as sombras da noite. - -Seguira, sem dar por isso, o melhor caminho, a estrada nova, e que por -conseguinte não era do seu tempo. Não podia estar longe o povoado, mas a -chuva cada vez apertava mais, e o cavallo já não queria andar assombrado -com o fuzilar continuo dos relampagos, e atturdido com o ribombo temeroso -dos trovões. - -Entretanto estava resolvido a seguir á ventura, certo de que em pouco -tempo encontraria abrigo; quando deante de si, na quebra de uma azinhaga, -lhe pareceu vêr uma sombra rasteirinha coser-se com o muro e seguir a -modos de homem, que fosse agachado, como receando ser visto. - -—Quem vae ahi? perguntou Joaquim que costumado ás aventuras do sertão não -se inquietava muito com um mau encontro. - -Mas a sombra seguiu mais apressada, sem dar resposta. - -Joaquim chegou esporas ao cavallo e correu sobre o vulto. - -Proximo reconheceu duas creancinhas, um rapasito de sete annos, ao -mais, e uma menina de seis, que de mãos dadas e tremendo de medo ambos, -ajoelharam quando o viram ao pé de si, exclamando o mais velho, e que -parecia mais animoso. - -—Não nos faça mal, temos o pae doente e vamos levar-lhe este remedio, que -lhe receitou o mestre Eusebio. - -(Eusebio ainda era sangrador-barbeiro approvado pelo proto-medicato, e -facultativo á falta d’elles). - -Depois voltando-se para a irmã, que se fazia bem pequenina para se -esconder atraz d’elle, disse-lhe, mudando as fraquezas em forças, e n’um -tom mais seguro, como para lhe incutir valor. - -—Não tenhas medo, Isabel, aquelle senhor não nos ha de fazer mal, não vês -que tem cara de boa pessoa! - -O pequeno não podia perceber que tal fosse a physionomia de Joaquim; esta -amabilidade era pois um argumento _ad benevolentiam_, aprendido quasi -intuitivamente, na rethorica saloia. - -—Não faço mal, não, pobres pequenos, com este tempo, tão mal resguardados! - -Isto era dito já a pé junto d’elles e detendo se com verdadeira compaixão -ao attentar nos farrapitos, que mal os cobriam. - -—Nós cá não tem duvida: o pae é que precisa mais, está tão doente. - -—Ha tres dias que não come nada. - -—E a nossa mãe, coitadinha, ha oito dias que não dorme! - -—E o pae, está com uma cara! Nossa Senhora nos valha, parece um defunto. - -—Não digas isso, Isabel!... depois approximando-se mais de Joaquim, com -quem ia já acostumando-se, e como para lhe provar que não era creança, o -rapasito continuou mais de vagar; o pae está muito mal, que eu bem vi a -cara que fez hontem o mestre Eusebio, mas a mãe não desconfia e a Isabel -nada sabe. - -—É muito longe a sua casa? - -—Não, meu senhor, é logo alli. - -—Pois vamos lá, que eu tambem os acompanho. Já agora... Não temos outra -noite, e d’aqui ao lugar ainda ha uma boa meia legua bem puchada. Quando -lá chegasse achava tudo fechado. - -—Mas o senhor vae ficar muito mal accomodado, exclamou a pequena, que -ainda se não affizera muito ao seu novo conhecido, a gente é tão pobre! - -—Não tem duvida, minha menina, em qualquer canto me arranjo, sou facil de -contentar. - -—Oh José, eu tenho medo do homem, elle vem com a gente? perguntou ao -ouvido a pequenita a seu irmão. - -—Tu tambem, sempre és uma medrosa!... E d’ahi não sabes que lá em casa -não ha que levar! - -—Sim, mas olha eu sempre tenho medo. - -Joaquim comprehendêra pelo conchegar assustadiço da creança para seu -irmão, e pelos modos importantes que este assumira, qual tinha sido o -dialogo em voz baixa, e sorrindo-se disse á pequena: - -—Não tenha medo de mim, não sou nenhum ladrão. Mas bem pelo contrario a -prevenção mais assustou a creança, que não atinando com o modo porque -elle ouvira a sua conversação, exclamou apressurada, mas sem olhar para o -seu interlocutor: - -—Eu bem sei que o senhor não é nenhum ladrão; mas... adivinha o que a -gente diz! - -—Então minha menina, julga-me agora feiticeiro? - -—Deixe-a fallar, é uma creança, ainda não fez seis annos. - -—E o menino é um homem, não tem medo. - -—Eu já tenho sete annos, e d’ahi o senhor não havia de fazer mal a duas -creanças, nem a meu pobre pae. Está tão doente! - -—Pois deixem estar que eu verei se sei d’algum remedio, que lhe faça -bem. Pelas terras, por onde andei, aprende-se muita coisa e eu conheço -algumas drogas que talvez aproveitem: e d’ahi eu quero pagar-lhes o -agasalho, tenho com quê. - -—O senhor dá cura ao pae?—Que bondade seria a sua! - -—Não te dizia eu, Isabel. - -—Ora pois então vamos lá. Digam-me seu pae é muito velho? - -—Não senhor, tem trinta annos e mais alguma coisa, os desgostos é que o -acabaram muito. - -—Pobre homem! - -—Demais a mais um tio, que anda lá por fóra quer tirar-nos tudo. E d’ahi -o pae, vive tão apoquentado! - -—Um tio? - -—Sim, senhor, atalhou a pequena, um tio muito mau! Sempre tenho uma raiva -ao meu tio!... - -—Calla-te, mana, tu não sabes que o pae diz que o tio não tem a culpa? - -—Então o tio anda ha muito por fóra! Como se chama? - -—Ora o senhor não o conhece, replicou o rapaz meio desconfiado; está -muito longe. - -—Quem sabe, ás vezes! Diga-me sempre como elle se chama. - -—É o tio Joaquim. - -—E está?... - -—Lá para o Brazil. - -—E seu pae, chama-se? - -—Mas o senhor de certo não se importa com a vida da gente, respondeu o -Josésito, que já não ia gostando de tanto perguntar e que receava, com -aquella giria que parece acompanhar os saloios desde o berço, que lhe -podesse porvir algum mal das suas respostas. - -—Por amor de Deus diga-me como se chama seu pae. - -—Assim, como assim, o senhor sempre o ha de vir a saber, chama-se -Raymundo. - -—Então os meninos são?... - -E a commoção embargou-lhe a voz. - -—Somos, sim senhor, somos filhos de meu pae, eu chamo-me José, que era -o nome de meu avô, e minha irmã é Isabel, porque nasceu no dia de Santa -Isabel. - -—Pois eu... - -Mas a reflexão cortou-lhe a palavra: queria vêr; queria, antes de se -declarar, que aprendessem a abençoal-o. Entretanto, agarrou-os bem para -si e abraçou-os muito enternecido. - -—O senhor está a chorar, disse Isabel com aquella perspicacia de mulher -mesmo pequena, olhe, já vou gostando mais de si! - -—Gosta, gosta, minha Isabelinha, que eu tambem gosto muito de ti. E tu -lá, José, tambem és meu amigo? - -—Eu engracei comsigo logo ao principio. Aqui está a nossa casa; e batendo -á porta:—mãe, mãe, aqui vem um senhor, que sabe d’um remedio para curar o -pae! Abra a porta, mãe, somos nós. - -Effectivamente estavam á porta de Raymundo. A luz que vinha de dentro -ao abrir, cegou por momentos a Joaquim, que só depois de se costumar á -claridade é que pôde dar fé do interior d’aquella habitação. - -Era uma casa terrea, que accumulava as funcções de cosinha, sala, casa de -jantar e quarto de dormir dos pequenos. A um canto uma cortina de chita -muito remendada resguardava-lhes a alcova; do lado direito uma porta meia -aberta dando para o escuro, d’onde saía o som angustiado e sibilante -de uma respiração irregular accusava o quarto do enfermo: junto da -chaminé, onde ardiam em chamma fraca e incerta alguns cavacos apanhados -na estrada, via-se uma cadeira antiga de espaldar de coiro e pregaria -amarella. Era o unico movel de algum valor. - -Uma meza de pinho, bem tosca e bem pouco segura, umas pratelleiras -sobre a meza pregadas na parede, onde se viam uns pratos quasi todos -rachados e alguns tachos bem velhos, tres mochos em roda da meza, uma -arca carunchosa ao lado da porta de entrada, dois registros por cima da -arca, uma palma e um rosario crusando-se sobre os registros, constituiam -toda a mobilia, a que accrescentaremos apenas, para que a descripção seja -completa, um banquinho proximo á entrada do quarto do doente e junto da -arca, d’onde Leonor se levantára para abrir a porta aos recem-chegados. - -Sobre a arca uma lamparina allumiava os santos e dava claridade para o -trabalho de Leonor, que ali, ora levantando os olhos de supplica para as -imagens, ora volvendo-os cuidadosa para o quarto onde jazia o esposo, -remendava um capote de Raymundo, sobre o qual de vez em quando caiam as -lagrimas da desgraçada. - -A luz incerta do brazeiro, sobre o qual e para o escurecer mais ainda -estava uma panella de folha, em duas pedras, que suppriam a fornalha; -e o clarão mais terno ainda da lamparina, luctando com as sombras e -perdendo-se na escuridão, tornavam a casa mais vasta, mais nua e mais -triste. - -—O pae está descançando, não façam bulha, apressou-se em dizer aos seus -dois filhos a attribulada mulher. Depois voltando-se para Joaquim:—Vossa -senhoria ha de perdoar, os pequenos é que tiveram a culpa de o cá trazer, -bem vê que não temos accommodações para hospedes; depois a doença de meu -marido... - -—Olhe, mãe, segredou-lhe o José como quem queria dar a entender que não -andára de leve, elle tem dinheiro para pagar á gente, e diz que traz um -remedio que dá cura ao pae... - -—Não venho para encommodar. Estou affêito a tudo, e qualquer coisa me -satisfaz, uma pouca de palha e uma manta, uma manta só, coisa nenhuma que -seja; mas licença de descançar ahi sentado, e de adormecer com os braços -sobre a meza e a cabeça encostada aos braços. Eu sei o que são doenças, -e talvez mesmo lhe possa servir de algum prestimo. Nas terras por onde -andei nem sempre havia medico á mão, nem boticario ao pé da porta. Ia-se -a gente curando conforme podia, e aprendendo á sua custa... - -Emquanto Joaquim proseguiu no seu arrasoado, examinava sua cunhada, -que pela sua parte aproveitava tambem estes proloquios para observar o -hospede que seus filhos lhe traziam. - -Leonor era ainda uma formosa mulher, posto que o desgosto lhe tivesse -gravado algumas rugas na physionomia e embranquecido alguns cabellos. -Morena, olhos pretos e rasgados, nariz recto e fino, labios delgados e -vermelhos, rosto oval, um d’estes typos peninsulares, mescla formosa -do sarraceno trigueiro e nervoso, como as filhas do norte pallidas e -lymphaticas. - -Era esbelta e da altura propria de mulher. Tinha sentimento na -physionomia e elegancia no corpo. Mostrava o que devera ter sido, antes -que as maguas a envelhecessem e os trabalhos a cançassem. - -A tristeza espalhava lhe pelo rosto um melancholico mas diaphano véu, -atravez do qual transparecia a vermelhidão do pejo ao lembrar-se da -má hospedagem, que com difficuldade podia offerecer. E quanto mais -olhava para Joaquim mais ia sympathisando com a cara rude mas franca do -recem-chegado. - -Este mostrava tambem ter muito mais edade do que tinha. Valera-lhe por -dez um dos annos que passára no sertão: mas aquella belleza agreste do -homem callejado no trabalho, aquella lhaneza não destituida de finura, -que se adquire no trato licito, mas laborioso e muitas vezes bastante -complicado, davam-lhe relevo ás feições e imprimiam-lhe um cunho -particular. Trajava simplesmente e como lavrador abastado. - -Apesar da compostura que se notava no traje de Leonor, apesar do cuidado -com que vestia e do aceio da sua roupa, a mão da miseria denunciava-se -a todo o momento. Da miseria que não faz alarde de si, que se esconde, -que se disfarça, que tem pejo do seu estado e receio de que a conheçam. -Miseria timorata e desconfiada, a que tudo offende, porque tudo a fere; -que de todos foge, porque, sem quererem mesmo, todos a escandalisam. Uns -pela ostentação, outros pelo dó, pela indifferença mesmo outros. Miseria -que sorri por fóra emquanto chora por dentro, que apparenta desapego -emquanto treme pelas consequencias, que encontra perigos sempre diante de -si, e que soffre tanto mais, quanto receia que o desabafar seja tido como -uma supplica e a franqueza como um rodeio para pedir. Miseria que se roça -por nós sem que a conheçamos, e que por um nobre orgulho denomina doença -a fome, desleixo o máu vestuario, extravagancia a necessidade. - -Tal era entretanto a que se lia no modesto e envergonhado trajar de -Leonor, e que Joaquim, com a perspicacia que dá tambem a infelicidade, -conheceu á primeira vista. - -—Se não fosse a molestia do meu Raymundo, proseguiu ella, melhor agasalho -lhe poderiamos offerecer; mas assim... Parece que Deus se esqueceu da -gente a alguns annos a esta parte! E tudo por causa de um mano de meu -marido... que elle não quer ouvir tal, e pelo contrario sempre defende o -irmão, que no seu dizer não tem culpa do que faz um tal João Simões... -mas o senhor não se interessa com isto. Vou vêr se lhe posso offerecer -alguma cousa de cear, e perdoará a limitação. - -E, emquanto fallando e dando voltas, Leonor ia preparando a ceia, e -espreitando sempre o quarto de seu esposo, para se certificar se este -continuava a dormir; Joaquim ficára á porta, de pé, chapéu na mão e como -pasmado a comparar aquella pobreza, com as informações que recebera. - -Leonor reparou na posição do seu hospede, e indicando-lhe a cadeira de -espaldar, proxima da chaminé: - -—Vem molhado, e está ahi em pé, sem se chegar ao menos para o lume, -sente-se: ainda assim esta cadeira é a predilecta de meu marido, era onde -se sentava quasi sempre meu sogro. - -Joaquim já tinha conhecido a poltrona, mas quando Leonor lh’a indicou -pedindo-lhe, que se sentasse, não pôde dominar uma visivel commoção. Teve -duvida, quasi medo de se sentar. Parecia-lhe vêr seu pae apontando-lhe -para aquella casa, para aquella miseria e expulsando-o. Affigurou-se-lhe -de repente o quadro, que tantas vezes examinára. O rosto entre severo -e indulgente de José dos Santos inquieto por amor do filho, que se -demorava, e preparando um sermão, que levava a cabo raras vezes, porque -antes de meio lhe desarmava as iras o verdadeiro affecto paternal. - -Leonor, que não podia acertar com a causa de semelhante hesitação, -attribuiu-a a causa bem differente. - -—Não faça cerimonia, se meu marido estivesse aqui, elle mesmo lh’a -cederia, que sempre lhe ouvi dizer, que era dever sagrado fazer bom -acolhimento aos viajantes. E perdôe vossa senhoria que eu ande no meu -trafego. - -N’este comenos, remechêra na arca, e bem vermelha de vergonha tirára um -panno muito lavado, é verdade, mas cheio de remendos, e que estendera -sobre a mesa; desencantára n’um armario velho, que pelo estado em que se -achava e pelo pouco vulto que fazia nos esqueceu mencionar, duas brôas -de milho e alguns queijos brancos salgados; escolhêra da pratelleira os -pratos menos quebrados, a que juntou os talheres, que apesar de serem de -chumbo, pareciam de prata pelo brilho, tão limpos estavam: e indo buscar -á chaminé a panella onde fervia um caldo de couves e toucinho, convidou o -seu hospede a tomar parte d’aquella ceia. - -Não era coisa sufficiente, bem o sabia, mas a sua pessoa havia de -desculpar, pois que não esperava ninguem de fóra nem estava no auge de -o receber como desejava, pois a doença do seu homem a tinha quebrado de -pernas e braços. - -—E o que diz o facultativo da doença do seu marido? - -—Diz, que é uma dôr no interior, que lhe costuma a dar e que é de muito -perigo se continua, que elle já é attreito a padecer do figado, que -segundo parece é molestia de familia, e que lhe póde subir o mal ao bofe -se não puchar abaixo com força. E será assim? - -—Não o creio. Deus ha de affastar o agoiro do tal barbeiro. - -—Elle tambem diz, que é bom dormir, e o meu Raymundo ha umas quatro horas -que está descançando tão socegado, que parece mesmo uma creança. - -—Isso sim; o dormir é sempre um excellente remedio, restaura as forças e -faz cobrar saude. D’ahi seu marido deve estar amofinado por lhe correr o -negocio mal. Não me fallou ha pouco de um irmão?... - -—Do Joaquim, fallei, sim senhor. - -—Então esse Joaquim? - -—É, segundo a minha opinião, a causa de tudo isto. Que o Raymundo diz que -não, e jura que não era capaz de fazer uma acção d’estas, se soubesse do -estado a que chegámos... - -—Que acção, atalhou precipitadamente Joaquim? - -—Uma penhora, á gente, n’isto que o senhor ahi vê. Na verdade vale bem -a pena de incommodar a justiça, ha de ficar bem rico, não tem duvida -nenhuma! Mas ainda assim, Deus sabe a falta que nos faz tudo. Ficamos -a pedir esmola. Até agora ainda tinhamos o nosso buraquinho para uma -afflicção; mas de hoje em diante... - -—Que diz?... - -—A verdade. Um tal João Simões, é que tem andado acceso n’este negocio -todo, porque tomou asca ao meu Raymundo desde que elle um dia, já de -proposito, por saber que era o Simões que lhe desinquietava o irmão, -lhe voltou costas no arraial de Nossa Senhora do Rosario. Depois, -apresentou-se feito procurador do Joaquim, deu testemunhas... se o senhor -soubesse, que testemunhas!... as caras mais atraiçoadas do logar, em -como o pae de meu marido tinha deixado muitos bens, que o meu Raymundo -estragára tudo, e depois tem andado em demandas para puchar pela legitima -do amigo. Legitima!... Só se foi a benção do pae á hora da morte, porque -emquanto ao mais! Nem chegou o dinheiro para o enterro, que foi preciso -ir pedil o fóra. - -N’estas alturas do dialogo um gemido do doente chamou a attenção de -Leonor que correu á alcova de seu marido e por lá se deteve. Cançada de -lidar, apenas se certificou de que o marido continuava dormindo e que -o gemido fôra apenas sobresalto de algum sonho angustiado, sentou-se -aos pés da cama, e passando as contas de um rosario, cedeu por fim ao -cançasso e adormeceu tambem. Os pequenos logo depois da ceia tinham ido -aninhar-se para o seu cantinho, e havia muito que resonavam. - -Joaquim ficára entregue ás suas reflexões. - -Correram as horas, esmoreceu de todo o lume no brazido, apagou-se a -lamparina, ficou a casa em trevas devassadas apenas pela luz diffusa da -atmosphera, que passava pelas fendas do tecto: e elle cogitava ainda no -passado e no presente, nos seus sonhos, nas suas aspirações, nos seus -erros e nas suas culpas. - -A solidão d’aquella casa povoava-se-lhe de vultos, todos elles -conhecidos, todos eloquentes: alguns severos julgadores, outros saudosos -e indulgentes amigos. Uma a uma iam-lhe correndo as scenas da sua -infancia, via, como em lanterna magica, recortarem-se nas trévas do -aposento as figuras de quantos havia conhecido, de todos com que lidára, -e superior a todas como absorvendo-as e substituindo as, a figura -veneranda de seu pae, ora exprobando-lhe terrivel o quanto perseguira seu -irmão; ora sorrindo-lhe amorosamente na hora derradeira e estendendo-lhe -sobre a cabeça as tremulas e enrugadas mãos para o abençoar. - -Ao assomar da alvorada pendendo-lhe as palpebras adormecia tambem; não -com o somno socegado e reparador, que se segue ás fadigas do corpo; mas -com aquella modorra agitada e febril, que é o decair das grandes luctas -moraes. Cabecear cortado de sobresaltos, dormir carregado de pesadellos, -descanço, que nos deixa mais cançado ainda. - -Entre dormindo e acordando começou a ouvir o seguinte dialogo: - -—Como te sentes, Raymundo?... - -—Melhor, Leonor, muito melhor. Fez-me bem o somno d’esta noite. Já vieram? - -—Quem? - -—Os officiaes de justiça, os que hão de fazer a penhora. - -—Não cuides n’isso, que te amofinas, talvez não venham; talvez fosse tudo -palavriado do Simões para assustar a gente. É impossivel que não olhem ao -teu estado. - -—Qual olham, nem meio olham! Bem se conhece, que não entendes d’estas -coisas. Pois tu não sabes que a justiça é cega? Taparam-lhe os olhos para -que não visse a desgraça dos pobres. - -—Mas teu irmão! - -—Não sabe de nada, Leonor, diz-me o coração que não sabe de nada. -O Joaquim teve sempre a cabeça levantada; mas no fundo não era mau -rapaz. Se elle soubesse o que o Simões tem feito já lhe tinha tirado a -procuração. - -—Tu tambem sempre o defendes, és a bondade em pessoa, meu pobre Raymundo, -não ha para ti ninguem mau n’este mundo. - -—Olha, o Joaquim se não fossem as más companhias não teria feito o que -fez: não gostava de se chegar para o trabalho, era o seu senão; mas não -era capaz de fazer mal a ninguem, nem rapaz de mau interior. - -—Foi elle que matou teu pae, e que no fim de contas nos tem levado a este -estado com as suas demandas. - -—Não digas isso, Leonor, que me affliges. Meu pae morreu, porque lhe -tinha chegado a sua hora, custou-lhe muito a partida de Joaquim; mas -abençoou-o á hora da morte. Lembras-te, não é assim? Se elle perdoou, -porque não havemos nós de perdoar... - -—Obrigado, irmão! - -Era affogada em lagrimas a voz de Joaquim, que estava entre portas do -quarto. Tinha accordado e escutado cada vez com maior attenção o dialogo, -que tão de perto lhe dizia respeito. Julgou ao principio que seria sonho, -conheceu depois que era realidade, e tremendo todo ergueu-se e, para -melhor ouvir, approximou-se do logar d’onde partiam as vozes. - -A gratidão, e talvez o remorso fizeram-lhe soltar aquellas duas palavras, -que cortaram o dialogo. - -Raymundo conheceu a voz, sem que podesse distinguir-lhe o rosto, porque -o irmão estava de costas para a claridade; pareceu-lhe que invocára um -phantasma, estendeu para elle os braços, exclamando: - -—Joaquim! - -E caiu desmaiado com o abalo. - -Joaquim precipitou-se chorando para junto da cabeceira do irmão, -abraçou-o vezes infinitas e teve o indisivel jubilo de o vêr tornar a si -em seus braços. - -—És tu, meu irmão!... Bem me dizia uma voz cá dentro, que havias de -voltar. - -—Perdoas-me, Raymundo? - -—Perdoei-te sempre. Tu é que tens que me perdoar. - -—O que? - -—Não te haver já transmittido a benção do pae. Ajoelha, Joaquim. - -—Em nome do nosso bom pae que está nos céus, eu te abençôo, meu irmão: sê -bom como elle foi, e mais feliz do que eu tenho sido. - -—Sel-o hemos todos, Raymundo, porque se me deixas viver comtigo, nunca -mais saio da tua companhia. - -Escusado é dizer agora como terminou esta historia. João Simões não pôz -mais pés na terra; Joaquim tinha-lhe jurado pelo corpo, e elle bem sabia -que não era homem de faltar á sua palavra. Declarára que seria a sua -ultima extravagancia; mas d’essa não desistia nem por Christo. O caso era -encontrar o seu procurador. - -A doença de Raymundo desappareceu breve, e a alegria voltou áquella casa, -para não a desamparar mais. - -Muitas noites, quando se conchegava para o pé do lume, depois de ter -contado aos sobrinhitos que o não deixavam por contos, uma historia -do Brazil, Joaquim voltava-se para o irmão e para Leonor e dizia-lhes -sorrindo: - -—Sempre hão de confessar que estes endiabrados pequenos são uns grandes -doutores! Como elles nos souberam ganhar a demanda!... - - - - -X - -O sexto mandamento - - -O padre prior, que os nossos leitores conhecem já, era um modelo de -virtude e um exemplo vivo de caridade christã. - -Apenas começára pastoreando aquelle pequeno rebanho, não houvera cuidados -nem disvellos, que lhe parecessem de mais para encaminhar nos trilhos -escabrosos do bom porte e da honra as suas ovelhas de monte, que, quando -se apartavam do bom do parocho, era mais por ignorancia do que por -maldade. - -Conhecera-o elle tambem desde logo, e empenhára as forças do seu corpo -e o poder da sua intelligencia em esconjurar os peores de todos os -demonios, a que a natureza humana póde dar albergue; a ignorancia e a -rudeza. - -Não abria mão d’estes piedosos exorcismos: qualquer logar, qualquer -occasião lhe pareciam proprias para travar combate; e apparelhado, como -sempre andava para a lucta com as armas da crença e da boa vontade, -raramente deixava de contar da victoria. - -Não quero dizer, todavia, que o meu parocho fosse um segundo Vieira, ou -outro Macedo Polygrapho. - -Bem pelo contrario, Deus perdoe á sua alma, e mais ainda á alma dos -governos (se é que os governos tem alma), que tão pouco têem cuidado -na educação do clero, o bom do padre muitas vezes, brigava com armas -eguaes contra a ignorancia dos seus parochianos; e, quando vencia, era -substituindo preconceito por preconceito, absurdo por absurdo. - -Procediam porém de tão boa origem os erros do velho, fundavam-se em tão -verdadeira bondade: e tão piedosa uncção revestia os seus disparatados -conceitos, que por amor da singela magestade, e boa tenção da mentira, -quasi se malqueria á verdade. - -Era falso o arrasoado, bem o sabiam alguns: mas deliciava a alma e -commovia o coração, encaminhava para o bem, posto que por transviado -caminho. E o padre dizia-o tão de dentro, tão convencido, que chegava a -parecer impossivel que não fosse assim. - -Mas não era, verdade verdade, não era; que a sciencia fugia espavorida -diante das legiões barbaras, que appoiavam algumas considerações do velho. - -Não era, porque o pobre homem, que sem maldade nem recalcitramento, mas -por simpleza e costume antigo, encommendava a missa _pro rege nostro -Michaele_, resumia a sua instrucção á leitura, um tanto embaraçada, seja -dito aqui particularmente, da Biblia, dos Evangelhos, do breviario e da -_Nação_, cujo assignante era desde o principio. - -Não aprendia porém do seu periodico senão a doutrina tradiccional e -monarchico-absoluta em que fôra creado. Lia o jornal para saber noticias -do seu rei e do mais que ia por o mundo: e a maior parte das vezes no -meio de um façanhoso artigo ou de uma ateada polemica, no ponto mesmo -em que as iras do jornalista trovejavam mais crebas, e os rancores -partidarios se desatavam em maiores diatribes; o jornal, como para -constrastar com tão ardidas furias, escorregava brandamente das mãos -do desattento leitor, e ia voejar por terra com outras folhas suas -irmãs, que tendo sido verdes e esperançosas como ella, tinham caído da -arvore, como ella tambem caíra das mãos do parocho, e haviam seccado no -esquecimento, como, triste sorte do jornalismo diario, ella havia de -seccar em breve ao abandono no chão e esquecida tambem. - -Ao cabo de meia hora o padre accordava admirado por ter adormecido, -apanhava o jornal e recomeçava o mesmo artigo. - -Já se vê, pois, que não podia ser larga a instrucção colhida em fontes -tão pouco variadas e demais ainda tão mal seguidas. - -Mas onde não chegava a cabeça alcançava o coração, e onde não accudia a -intelligencia sobejava o sentimento. - -Não lhe tomemos conta da sua ignorancia, nem lhe malqueiramos por peccado -que não era seu. - -A revolução social estabeleceu entre a geração, que findava, e a que ia -apparecendo um largo espaço que não soube ou não poude fazer desapparecer. - -Uma ficou, symbolo do passado; outra caminhou, annuncio do futuro. A -primeira estacionando, conservou os abusos, os erros do seu tempo; -mas tambem a poesia, a fé sincera, o culto de suas tradicções, o -respeito pelas suas crenças: a outra caminhou sobre ruinas, e caminha -ainda, sorrindo, luctando, descrendo, esperando, progredindo sempre, -conquistando por fim, mas deixando, quantas vezes, a fé pelo caminho, a -esperança na estrada! - -Se ambos se tivessem querido comprehender, se mutuamente se tivessem -desculpado ou os ardores impacientes, ou as rabujices pertinazes; se -não quizessem cavar fossos e levantar trincheiras entre uma e outra; -mas, bem pelo contrario, nivellar o terreno, e apagar odios, rancores e -desintelligencias, não seria para nós o presente tão cheio de incertezas, -de hesitações, de duvidas, de desconfortos e desalentos. - -O padre, esse, ia seu caminho, combatendo como sabia a falta de educação, -e de conhecimento da sua grei. - -Além das lições de moral que espalhava a esmo, conforme se lhe offereciam -as occasiões, costumava elle, sempre que podia e que o tempo o deixava, -reunir os do logar, de tarde perto da egreja, para lhes fazer alguma -leitura da biblia e interpretar em seguida, a seu modo e como melhor lhe -parecia, o texto que lhes lêra. - -Por vezes assisti a estas leituras, por vezes ouvi as suas explicações, e -se mais tarde as commentava tirando desagradaveis conclusões a respeito -da illustração e intelligencia do velho, não deixava sempre de me sentir -commovido, quando fazia parte d’aquella piedosa reunião. - -Sigam-me tambem os meus leitores, que, conforme sei, e segundo me -recordo, vou procurar descrever-lhes, como se apresentava a scena, na -ultima vez em que, pouco antes de regressar a Lisboa, assisti á prédica -do ingenuo parocho. - -Estamos no adro da egreja: a parochia é de trezentas almas quando muito. -O dia vae declinando e está proximo o sol posto. - -A egreja não tem o aspecto sumptuoso d’um grande templo; nem a magestade -altiva de uma cathedral do seculo XIII. - -É de hontem apenas. - -Uma frontaria sem ornatos, uma torre proxima sem enfeites. - -É simples e pobre como o presepio do Redemptor. - -Sobre o adro espaçoso e plano um velho platano á esquerda braceja largos -ramos envolvendo na sua sombra uma cruz musgosa, que se levanta defronte -da porta da egreja e que deixa perceber em profundas cicatrizes, rudes -combates com o tempo ou com a impiedade dos homens; perto do platano um -pequeno regato corre por baixo do parapeito do adro e depois de passar -sob uma ponte de pedra que dá serventia á estrada, vae espraiar-se ao -longe n’uma pequena bahia, onde as lavadeiras do logar vem bater a roupa -ao pé dos choupos e olmeiros, que se debruçam para a corrente. - -De um dos lados sóbe a encosta de um pequeno outeiro atapetado de vinhas -e oliveiras, corôado de moinhos que desprendem as velas a favor da -viração da tarde; do outro a vista divaga por meio dos pomares e terras -de vinha, no meio das quaes alvejam as casinhas do logar, e se recortam -no puro azul dos céos as oliveiras verdenegras. - -Os rumores do campo começam a esmorecer com o largar do trabalho -indicando a proximidade da noite. - -A tarde tem corrido serena e a natureza sorri na flôr do prado, como na -arvore do bosque. - -Sentado n’um banco de pedra mal affeiçoado pela mão de rude artista está -o parocho, junto a si os evangelhos depostos e ainda abertos: as mãos -pousadas sobre os joelhos, a cabeça um pouco inclinada pelos annos; -o corpo alquebrado pelos trabalhos. A seus pés, sentadas no chão, em -rancho, as creancinhas da terra, em roda as raparigas e as mulheres; mais -ao largo, os homens fechando o circulo e encostados aos varapaus. - -Um pouco mais affastado do grupo, sentado n’um dos poiaes do adro, e -scismando, ao que parece, está o tio Joaquim, commentador e companheiro -das homilias da tarde. De quando em quando, em pontos mais subidos -da exposição do pastor levanta a cabeça, fita o narrador com gesto -expressivo, e com os olhos illuminados por aquelles doces clarões da -sympathia e da attenção, segue o fio do discurso para descahir breve nas -habituaes meditações. - -O padre tem acabado a leitura de um dos sagrados capitulos, e d’accordo -com a intelligencia dos ouvintes explica-lhes o texto procurando -comparações no campo, na lavoura, nos trabalhos que melhor conhecem, nos -instrumentos com que mais de perto lidam. - -Todos o escutam em religioso silencio e a palavra sagrada recebe maior -uncção na bocca do venerando velho. - -Tem apenas acabado de fallar quando no sino proximo começam a bater as -melancholicas Avé-Marias. O som vae chorando, como uma saudade do dia -que finda, pelas quebradas do monte e pelos arvoredos dos bosques, para -voltar amortecido e triste, como recordação de felicidade. - -É um momento solemne. - -O padre ergue-se, a boa gente do campo ajoelha a seus pés. Por momentos -as orações murmuram como o esvaecer do som no bronze sagrado e a oração -ergue-se como um côro de harmonias dos labios dos fieis, do murmurio -do regato, do ciciar da aragem, do bulir do arvoredo, do tinir dos -chocalhos, dos balidos do rebanho que ao longe recolhe da pastagem para o -abrigo do curral. - -Depois o padre abençôa seus filhos com as mãos tremulas estendidas e -a fronte encanecida illuminada pelos reflexos derradeiros do sol já -escondido: despedindo-se do parocho, retiram pouco a pouco os aldeões -guiados, como os israelitas no deserto, pela espiral de fumo, que se -ennovella sobre os tectos de suas casas, o ruido vae pouco a pouco -diminuindo, recolhe o rebanho ao curral, os pastores deixam de cantar, a -voz dos ultimos camponezes perde-se na volta da estrada. Mas o rio ainda -murmura, o vento ainda suspira na rama das arvores, e o padre sósinho, -com os olhos fitos na pallida lua, que começa a assomar no céu, não -limpa uma lagrima de saudade e de esperança, que lhe escorrega pela face -cavada pelos annos, envelhecida pelas maguas. Saudade da terra e dos -homens, que vae deixar, esperança na vida eterna, que entrevê tranquillo, -crente na misericordia do Senhor, confiado na sua infinita bondade. - -Hoje a boa gente do campo volta ao adro a procurar o padre, o platano e -a cruz. Tudo tem desapparecido apoz o homem a planta, apoz a planta a -pedra, tudo volveu ao nada d’onde veiu. Sobre o cadaver do velho caiu a -pedra do cruzeiro, um arrebento do platano deu sombra á sepultura; mas a -natureza proseguiu guiada pela civilisação e pelo progresso desfolhando -uma saudade sobre a campa e colhendo do novo arbusto a planta sempre -viçosa da arvore da liberdade. - -A poesia do passado tem-se perdido. Mas o homem, que ficou meditando -sobre aquella lapide, disperta das suas meditações ao grito da locomotiva -do caminho de ferro, ao retenir da campainha do telegrapho electrico, ao -resfolegar das caldeiras da fabrica proxima, ao estrondo magestoso das -novas eras, que nas azas do pensamento correm a cumprir a sua missão. - -N’aquella tarde fôra a historia de José o texto escolhido; e o velho -descrevendo o quanto padecera o patriarcha hebreu por amor dos seus -irmãos, e seus compatriotas, fallára tão de leve no sacrificio, prestado -á honestidade; como, perdoem-nos a comparação, a raposa discorrera a -proposito das uvas que não eram para seu dente. - -Muitas virtudes encontrava elle no casto José, mas a de resistir com -tanto denodo á mulher de Putiphar, não foi das que mais encareceu. Nem -por isso lhe parecia grande façanha. Para o bom do velho nada havia mais -natural. - -Não assim para grande parte de seus ouvintes. Aquelle rasgo foi o que -maior impressão deixou na intelligencia sensual de muitos. No serão -d’essa noite não faltaram commentarios e choveram ditos, alguns dos -quaes, posto que bastante grosseiros na fórma, não deixavam de ter bom -sal, e grande finura no alcance. - -Terminada por fim a discussão foi votado por maioria, que tal caso era -impossivel; ou pelo menos, se o não era, fôra um grande disparate do -patriarcha hebreu. - -Protestou o tio Joaquim contra a decisão da assembléa, e para fundamentar -o seu protesto pediu a palavra, que lhe foi concedida com o maior prazer. - -—Todos, quantos aqui estão, conhecem ou tem ouvido nomear o Luiz -Tiburcio, que traz de renda ao Morgado dos Cachorros o Olival grande do -Brejo, no alto da estrada da Carrejosa. É um homem de bem e lavrador -abastado; tem hoje um bom par de vintens e uma das melhores lavouras dos -sitios. Pois vae vinte annos não tinha onde cair morto, nem esperanças de -mudar de sorte. Um caso bem parecido com o que hoje ouviram ao sr. padre -prior foi o começo da sua fortuna. - -Luiz Tiburcio é do Minho. Veiu por ahi abaixo procurar vida e trabalho, -quando por morte do pae e da mãe, ficou sósinho na terra, sem ter quem -lhe valesse, nem casa que lhe abrisse a porta. Era pelo tempo da guerra, -andava tambem a molestia, e cada um cuidava principalmente de si, ou dos -seus, e não tinha vagar para saber do mal dos outros. - -Curtiu fomes e frios pelo caminho, não poucas vezes estendeu a mão á -caridade, e não poucos dias pediu esmola a chorar, perdido de fraqueza, e -sem esperanças de ter um bocado de pão. Ninguem cuidava em dar trabalho -e era tal a desconfiança, que ninguem queria tomar para casa um rapaz, -coberto de farrapos e com cara de padecente. - -Tinha uns quinze annos, pouco mais, e já começava a saber o que era -mundo. Entrava na vida pela porta da desgraça e principiava a amargar a -existencia sem lhe ter provado ainda as doçuras. - -Um dia, já sem forças, caiu á porta de uma fazenda, d’onde saíra -descoroçoado de todo, porque depois de ter passado um dia sem comer, -acabava de ser despedido pelo cazeiro, dizendo-lhe, que a fazenda do seu -patrão não era couto de vadios. - -Luiz Tiburcio poude, envergonhado e saltando-lhe as lagrimas pelos olhos, -andar a alameda e sair o portão que do pateo conduzia á estrada; mas, ao -voltar para o caminho, sentiu-se tão quebrado, tão sem animo, que atirou -comsigo para o chão, resolvido a não se levantar mais d’alli. - -Encommendou-se a Deus e esperou a morte resignado. - -O sr. José Matheus, o dono da quinta, que assim se chamava por signal, -andava por fóra, quando Luiz fôra pedir trabalho a Valle de Figueiras. De -certo, se tivesse visto a lazeira do rapaz o recolheria por alguns dias -ao menos, e lhe mandára dar de comer, pois era homem rasgado e de bom -coração; mas só tarde voltou de uma outra fazenda, onde fôra, e era já -muito escuro, quando se aproximou de casa. - -Luiz estava estirado no caminho. José Matheus entretido com os seus -pensamentos não deu por semelhante cousa e recolheu passando junto do -pobre moço. - -Caía geada, como não havia memoria, e o frio era de estalar. - -De manhã cedo os primeiros, que sairam encontraram-n’o sem apresentar -signal de vida e accudiram á fazenda a dar rebate. - -O sr. José Matheus foi o primeiro, que correu junto da pobre creança, -viu-a n’aquelle mísero estado e teve dó de tão grande desgraça em tão -verdes annos. Elle tambem havia provado do pão que o demonio amassou, e -antes de chegar a ser independente fôra um pobre de Christo. - -Mandou carregar com o Luiz para uma cama, e cuidou em vêr se lhe dava -vida nova. - -O rapaz estava enregellado e hirto, os beiços arroxados, os olhos -mettidos n’umas covas negras, as mãos inteirissadas, o coração quasi sem -bater. - -Dir-se-ia morto. - -Ao passo, porém, que ia aquecendo e que o esfregavam com pannos quentes -e espirito de vinho tornava pouco a pouco a si: e depois de um caldo bem -forte e bastante substancial parecia outro. - -O sr. José Matheus indagou-lhe da vida e soube que a fome e o desamparo -tinham sido a causa d’aquella doença. Compadeceu-se por vêl-o orphão -tão moço e sósinho no mundo: era casado havia muito tempo, e não tivera -filhos nunca, engraçou com a cara do rapaz, que era de boa feição, e -adoptou-o para si. - -Desde esse dia começou para o Luiz, a quem dentro em pouco já todos -tratavam por sr. Luiz; e a quem o sr. José Matheus chamava—o meu -Luizinho—uma vida de principe. - -Não lhe faltava nada, aprendia, estudava, trabalhava e desenvolvia-se de -dia para dia. - -Em poucos tempos fez-se uma flôr. Parecia que medrava a olhos vistos e -que cada vez ganhava maiores perfeições. - -Perfeito no corpo, e mais perfeito talvez na alma, não havia para elle -sol nem lua que valessem o sr. Matheus, nem palavras ou acções que lhe -parecessem demais para lhe agradecer o bem que lhe devia. Luiz tinha -coração de pomba. - -Mas o demonio, que sempre as arma, e que parecia ter tomado o rapaz á sua -conta, encarregou-se de entornar o caldo, e de deitar por terra aquellas -felicidades todas. - -A esposa do sr. José Matheus, apezar dos seus quarenta puchados, era -ainda mulher de primor. - -Desenxovalhada n’aquelle tempo, devia ter sido linda quando andasse alli -pelos vinte annos. Tinha dado brado na terra, e mais de um lhe tinha -arrastado a aza, sem que ella lhe desejasse as pernas quebradas. - -Casára-se pela rasão, porque se casa a maior parte das mulheres, para -mudar de estado; e não conhecera nunca que cousa fosse amor. Extremosa -pelo marido, não constava que o tivesse sido: e, segundo se rosnava pelos -sitios, se tivesse pé faria pégada. - -Se a amisade de Matheus pelo Luizinho era verdadeira amisade de pae, a de -Genoveva não se parecia em nada com o amor de mãe. Por mais de uma vez -lhe havia deitado uns olhos, que queriam dizer muito, mas que no rapaz -eram tempo perdido. Não por innocencia, mas porque não queria acreditar, -que fossem o que lhe pareciam. - -Genoveva desesperava-se por não ser comprehendida, e tinha jurado que: ou -Luiz se chegava á rasão, ou havia de pôr os quartos no meio da rua. - -Uma noite, chovia a cantaros, e o sr. José Matheus não recolhera de uma -feira a que fôra comprar quatro juntas de bois. - -Tinha-se armado uma trovoada de arrancar pinheiros e uma ventania de -levar tudo pelos ares. Genoveva estava cosendo junto á mesa de jantar e -Luiz proximo d’ella lia alto um livro de romances. Era a historia dos -amores derrancados de dois amantes infelizes, que depois de passarem -as passas do Algarve, depois do apaixonado ter andado as sete partidas -do mundo e corrido perigos de todas as castas, se reuniam por fim; -mas quando iam para gosar de um dedicado affecto, o marido da heroina -apparecia tanto a proposito, que matava o seductor, se o era, e fazia -endoudecer a mulher com a vista do ensanguentado cadaver. - -Era uma historia de arripiar defunctos, e que por isso mesmo tinha tido -tanta voga que chegára até Valle de Figueiras. - -De repente Genoveva, que seguia a leitura com verdadeiro interesse, -e que por mais de uma vez sentira calafrios ao ouvir aquella enfiada -de horrores, interrompeu o leitor, quando enthusiasmado lia o passo do -encontro dos dois n’um casal deserto no meio das serras entre alcatêas de -lobos, ao fuzilar dos relampagos, ao estallar dos trovões. - -—Gostas d’essa historia, Luiz? - -—É triste, senhora Genoveva, gosto muito. - -—Andas sempre triste! - -—Não é por ser mal agradecido ao bem que me fazem. É genio meu, não está -mais na minha mão. - -—Volta de amores talvez? - -E os olhos acompanhavam a pergunta, procurando seguir o pensamento do -moço, como o galgo segue a lebre por meio dos campos. - -—Não, minha senhora, não são amores. Tambem quem me havia de querer, -orphão, sem fortuna, e só devendo o pão de cada dia á caridade de meus -bemfeitores? - -—Não digas isso, Luiz, bem sabes que o trabalho que fazes, vale o pão que -comes. Tu és bom rapaz e mereces quanto te fazem. - -—Não mereço, não, minha senhora, e eu bem conheço as coisas, e sei -agradecer tanto favor. - -—Creança! - -E acompanhando esta palavra, que pelo modo porque fôra proferida, já -queria dizer muito, Genoveva correu mão protectora pela cara do Luizito. - -Porque é preciso que saibam, rapazes: nós os homens muitas vezes chamamos -creança a uma mulher, sem ser por mal, nem com idéa alguma; mas em a -mulher chamando _creança_ a um homem, e de um certo feitio, é o mesmo que -se lhe dissesse: tu ainda não percebeste, que eu gosto muito de ti, e -tu és muito estupido, porque não entendes o que eu te estou dando bem a -conhecer. - -Pela primeira vez, havia tanto tempo, desconfiou Luiz devéras do caso, e -áquella caricia fez-se vermelho como um pimentão. - -—Então fazes-te vermelho, tens talvez vergonha de mim? Pois já não devias -ter rasão para isso, tenho idade bastante; não é verdade que pareço muito -velha, meu Luiz, anda, dize? - -E cada vez se aproximava mais d’elle a ponto de o bafejar com o seu -halito inflammado; e de sorte, que se confundiam os olhos d’ella -ardentes, significativos, cubiçosos, com os d’elle timidos, assustados, -quasi envergonhados. - -—Não, senhora Genoveva, não tenho vergonha. Desculpe fazer-me córado... - -—Dize-me, atalhou violentamente Genoveva, cujo temperamento nervoso e -sanguineo estava effervescente, querias estar como Paulo (era o heroe do -romance), assim comigo n’um casal deserto... - -—Como estamos hoje... - -—Como estamos hoje, sim Luiz, e depois... - -Era impossivel deixar de perceber tudo. Genoveva parecia ter a cabeça -perdida, tudo denotava um desejo desenfreado, e furioso. - -Não se riam, rapazes, se vissem uma mulher allucinada pelo amor, -arrojar-se como uma leôa, feroz, enraivecida, terrivel até, -comprehenderiam bem quanta foi a virtude do Luizito. - -Levantou-se a tremer, e cheio senão de medo, ao menos de pudôr... - -—Senhora Genoveva, eu não sei se comprehendi; perdoe-me se a vaidade me -illude; mas, não me posso esquecer de quanto devo ao sr. José Matheus. - -E saiu, sem olhar para traz. - -No dia seguinte, de madrugada, com o seu alforge arranjadinho, ia pela -estrada fóra, sem saber ainda para onde se encaminhava. - -Ia começar de novo a vida, mas era indispensavel. Se cedesse, seria o -ingrato mais vil d’este mundo; se resistisse, a furia de Genoveva não o -deixaria descançado por muito tempo. - -A poucos passos de distancia encontrou a José Matheus, que, tendo feito o -seu negocio mais breve do que pensava, recolhia cantarolando, como quem -vinha nas horas do Senhor. - -Luiz não esperava semelhante encontro. José Matheus já o tinha visto, e -não havia remedio. Demais foi o lavrador que encetou a conversação. - -—Olá, Luiz, tão cedo, ha por lá alguma novidade? - -—Nada, não, sr. José Matheus, não ha novidade nenhuma; eu é que... - -—Tu é que... embatucaste? Tens alguma cousa, viste bicho?—Tu não estás em -ti, desembucha. - -—Eu... vou-me embora. - -—Bom, homem, e por isso ficaste assim atarantado, bem te entendo; vae, -rapaz, vae, eu sei o que são essas cousas. Quando voltas? - -—Eu... vou de vez. - -—Hein, endoideceste? - -—Não endoideci, não, sr. José Matheus, preciso ir-me embora, deixe-me ir -embora, deixa?... - -E o rapaz estendia as mãos, convulso como se pedisse a salvação. - -—Deixo, deixo. Por onde eu te pegar, te peguem os lobos. Entendo, -desenquietaram-te, apanhaste-te ensinado; mas anda que tambem me -ensinaste, ingrato! - -—Ingrato!... Serei, sou, mas deixe-me ir embora quanto antes. - -José Matheus não era de hoje, nem de hontem; desconfiou do caso, e -chegando-se mais para o rapaz, deitou-lhe a unha. - -—Por mais que me digam, accrescentou elle, tendo-o já seguro, aqui ha o -que quer que seja, para tu estares assim tão apressado. Deixo-te ir, mas -não sem me dizeres primeiro porque. Que demonio, parece que tens morte de -homem! - -Vendo-se agarrado, Luiz entrou a clamar para que o deixasse, pedindo-lh’o -por quantos santos havia no Paraizo. Por mais que buscasse, não lhe -occorria nem meia mentira. Não admira, a falta de costume... - -Por fim conseguiu escorregar-se-lhe das mãos como uma enguia, e deitou a -correr mais leve que um passaro. - -José Matheus voltou ainda o cavallo, para lh’o deitar para cima; depois, -como se lhe accudisse a reflexão, exclamou: - -—A cheia o trouxe, a cheia o levou. Que vá por onde não faça perca!... - -E entestou para Valle de Figueiras, scismando no acontecido. - -Ainda bem Luiz lhe não tinha saido a porta, Genoveva, percebendo que era -despresada, e incendida pelos lumes do desejo, caía por terra espumando -como um damnado, e bracejando como um possesso. Estava com um accidente -de raiva. - -Accudiram ao motim, que fez, e levaram-na para a cama já sem dar accordo -de si, tinha-lhe subido o sangue á cabeça, estava com uma febre cerebral. - -Luiz, escusado é dizer, não soubera de coisa alguma. Recolhera a -entrouxar o pouco fato, que havia comprado, pois deixou ficar tudo que -lhe deram; e embebido nos seus pensamentos, poderiam voltar a casa -debaixo para cima, que não era elle que dava por semelhante coisa. - -Demais morava n’um quarto no extremo opposto da casa, com porta que -deitava para a estrada, e pôde sair por conseguinte, sem saber nada do -que se passava no resto da habitação. - -Pouco depois da chegada de José Matheus appareceu o facultativo do sitio, -que tinham mandado chamar a toda a pressa. Sangrou-a logo, mas já era -tarde. O ataque tinha sido tão forte, que a sangria abrandou-lhe um pouco -as furias e nada mais. D’ali a pouco tornava á mesma, ou a peior ainda, -porque d’esta vez dizia coisas estranhas em palavras soltas. - -Estava tresvariada. - -José Matheus percebeu logo que as coisas que a mulher ia dizer, não eram -para ser ouvidas por toda a gente; mandou sair os que estavam no quarto, -e apenas ficou sósinho com ella, deu volta á chave e escutou-a. - -Soube tudo. - -No meio dos seus excessos, Genoveva chamava por Luiz, accusava-o de -frieza, de indifferença, de ingratidão. Dizia-lhe que pensasse no seu -marido, porque esse não saberia nada, e depois... haviam de ser tão -felizes! - -E um poder de coisas que tiraram todas as cataractas dos olhos do marido. - -Este sentou-se n’uma cadeira, e, abatido, limpou uma lagrima. Ninguem -soube nunca por quem fôra, se por Luiz, se por Genoveva. - -Genoveva durou tres dias. Disse o facultativo, que se lhe tinha rompido -uma veia na cabeça; rompesse ou não, nos dois ultimos não deu accordo de -vida. - -José apenas se certificou de que sua mulher não diria mais nada, -recolheu-se ao seu quarto, d’onde não saiu senão para a sepultura. -Não queria saber de coisa nenhuma, não dava palavra a ninguem, e se -insistiam, punha todos fóra, fechando-lhes a porta na cara. - -Na vespera de morrer, mandou chamar um tabellião e duas testemunhas. Lá -esteve com todos tres, por espaço de meia hora. - -No dia seguinte abria-se o testamento sobre o cadaver de José Matheus, e -Luiz Tiburcio ficava sendo seu herdeiro universal. - -—Acabou, tio Joaquim, atalhou d’ali o João Carriço, que déra provas de -impaciencia durante a narração, não tem mais nada que dizer? - -—Eu não, e tu? Perguntou o narrador. - -—Eu, perdoará a sua palavra honrada, parece me que a historia não vem ao -caso do que a gente dizia; pois se o rapaz não fosse tão arisco, ficava -com tudo do mesmo feitio; porque eram dois a deixar-lhe... E d’ahi não -morria, nem a mulher, nem o homem. - -—E parecia-te bonito pagar d’esse feitio os beneficios, que tivesses -recebido de José Matheus? - -—Olhe, tio Joaquim, lá o lê, lá o entende, mas d’aquelle mal não morreu -ninguem; o José Matheus não havia de passar peior por isso. - -—Eu te contarei uma historia um dia, e verás se se morre ou não. Sabes -que mais, João Carriço, tens ainda a cabeça muito levantada, has de -assentar. - -—Então sim, tio Joaquim, quando fôr lá para a edade, o que não podér -haver, dal-o-hei por amor de Deus. - -E como todos soltassem uma gargalhada, o velho suspendeu a sessão, porque -percebeu, que por aquelle lado não fazia farinha. - - - - -XI - -O Thomaz dos passarinhos - - -Acabavam de dar dez horas; e ouvia-se ainda o som dos sinos de S. -Vicente, o que mostrava que o vento estava da barra a prometter mais -chuva. - -Em todo o santo dia não descontinuára de cair agua, e ao cerrar da noite, -carregou tanto que parecia vir tudo abaixo. Em casa dormiam todos, e -na malta vigiava apenas, junto da candeia quasi a apagar-se, o tio -Joaquim, que estava fumando embevecido no que quer que era, que parecia -preoccupal-o. - -Os maltezes dormiam cada um para seu canto, embrulhados em gabões, ou -cobertos com as mantas em cima das esteiras. Debaixo da cinza ainda -faiscavam alguns restos de vides, na chaminé, e a meio da tarimba ainda -se via um baralho em desordem, como a provar que havia pouco descançava -d’uma bisca de quatro. As cartas poderiam figurar com bastante rasão -no gabinete d’um antiquario, e tinham direito ao asylo de Runa pelas -multiplicadas cicatrizes ganhas no combate. - -Mas como o jogo era de boa fé, e só para matar tempo, pouco importava, -que fossem mais conhecidas ainda pelas costas do que pela frente. - -Pela minha parte tinha ficado tambem por ali mais um bocado, e -preparava-me para recolher, quando me pareceu ouvir, por entre o ruido da -chuva que caía sem cessar, e do vento que não parava, o som da campainha -do portão. - -—Não ouviu tocar á campainha, tio Joaquim? - -Este levantou a cabeça e como despertando, respondeu-me: - -—A estas horas, não póde ser, foi engano seu, já estão todos recolhidos. - -N’isto o cão do pateo começou a ladrar. - -—Tocaram, tocaram, repeti eu, e tanto que lá está o Alfageme a dar -signal. Ora escute, lá tornam. - -E effectivamente um segundo toque se fez ouvir, mas tão brando, tanto a -medo, que mal se ouvia, apesar de escutarmos ambos com toda a attenção. - -—É toque de desgraçado, de quem receia incommodar; pobre homem, com este -tempo! Eu vou vêr, disse-me o tio Joaquim levantando-se e pondo o chapeu. -D’ahi a pouco senti-o chamar o cão, que se enfurecia a ladrar cada vez -com mais força, em seguida abrir o portão, e logo depois entrar na casa -da malta já acompanhado. - -O recem vindo entrou timido e denunciando o extremo acanhamento da -pobreza envergonhada. - -Caía-lhe a agua a fio do chapeu, que trazia derrubado para a cara, e -ensopava-lhe um capote esfrangalhado, que bem a custo lhe resguardava o -corpo. Ficou á porta mesmo, e como mal se atrevendo a proseguir. - -—Entre, patrão, bradou-lhe o tio Joaquim, não está tempo para cerimonias, -se isto continua lá se vão todas as sementes com a cheia. Parece um -diluvio. Largue o capote e o chapeu que traz n’uma sôpa, embrulhe-se ahi -n’uma manta, e chegue-se para o lume, que eu vou deitar-lhe um punhado de -vides para o espertar. - -E seguindo conforme disséra, separou umas poucas de vides d’um mólho, que -estava perto da chaminé, quebrou-as umas poucas de vezes sobre o joelho, -deitou-as no brazido, e entrou a assoprar até que pegou labareda. - -—Deus lhe pague, tanto incommodo, tio Joaquim, exclamou o desconhecido, -seguindo á risca as indicações do hospedeiro. - -Este, admirado por ouvir o seu nome, attentou no recem-chegado, e como -procurando avivar recordações: - -—Espera, eu já ouvi esta voz, mas não me lembro aonde; olha bem para mim: -eu conheço-te, já vi a tua cara, isso vi. - -—Tão mudado estou que já se não lembra de mim, do Thomaz... - -—Do Thomaz da tia Annica, se lembro! Mas quem tal havia de dizer, que -mudança! Pareces um velho, homem, e eu que te fazia a arrebentar de -dinheiro, que pensava que estavas pôdre de rico, lá por esses Brazis! - -—Pôdre ia estando, ia; mas era de doenças e de fome... - -—Então nem tudo que se diz?... - -—Ora uma coisa é dizer, outra é vêr, nem o tio Joaquim faz uma idéa! - -—Faço, faço, basta olhar para a tua cara e para o teu fato. Mas não se -trata só de dár á lingua. Que tal de barriga, nem por isso vem muito -quente não é verdade? - -O silencio de Thomaz suppriu bem uma eloquente resposta. O tio Joaquim -proseguiu: - -—Para grandes banquetes não haverá, mas para uma assorda ainda chega -o pão; fazem-se umas migas de bacalhau, deita-se-lhe um tomate e uma -cebolla, e verás depois se, comida com boa vontade, não vale o melhor -petisco do mundo. - -—Vem quebrar-me o jejum. - -—Que dizes, homem? - -—Que salvo os meus peccados, ainda podia commungar, porque até a esta -hora não entrou hoje comer na minha bocca. - -—Pobre Thomaz! - -E sem perder mais tempo em conversações, o tio Joaquim principiou a -temperar as migas. - -Entretanto tive eu tempo para examinar bem á minha vontade o Thomaz da -tia Annica. - -Teria uns trinta annos quando muito, o que só com muita difficuldade se -percebia pela viveza do olhar. No resto da physionomia e no quebrado do -corpo liam-se sessenta puchados. Não se podia dizer qual fôra a côr do -rosto. Os sóes, os trabalhos e as febres, tinham-lhe retinto a cara d’um -castanho esverdeado, que mais simulava medalha antiga que parecer de -gente. - -A barba crescida, as sobrancelhas espessas, e o cabello basto e grenho -eram ou arruivados pelo sol, ou embranquecidos pelos trabalhos; as rugas -abriam-lhe talhos profundos na pelle, e algumas cicatrizes imprimiam-lhe -extravagantes relevos. Até mesmo o branco dos olhos estava amarellecido, -e os dentes, quando descerrava os beiços rôxos e gretados, pareciam -prezas de javali aguçadas e ennegrecidas. - -O fato eram farrapos, sem fórma, nem côr possivel, restos sobrecosidos, -retalhos justapostos. Não se lhe percebia camisa. - -Fazia horror tão grande miseria. - -O tio Joaquim tinha desenvolvido uma actividade pasmosa. N’um abrir -e fechar d’olhos tinha migado o bacalhau e a cebola, tinha cortado o -tomate, tinha posto tudo a ferver n’uma pouca d’agua, sem lhe esquecer um -fio d’azeite para melhor tempero; depois, quando começava a fervura a -levantar, entrou a partir o pão, e a deital-o no tacho com aquelles ares -de satisfação, que deve manifestar um artista, quando tem a certeza de -estar a concluir um primor d’arte. - -Thomaz, esse engerido com frio e extenuado de fome, não tinha forças para -se mecher do banco para onde caira. - -No dia seguinte ouvi da bocca do tio Joaquim a historia do Thomaz da tia -Annica. - -Thomaz nascera por aquelles sitios mais rico de preguiça do que de amor -ao trabalho; parecia feito para morgado, o demonio do rapaz, não queria -saber de lavoura, nem de estudo. Fugia da escola, fugia do trabalho, e ia -deitar-se debaixo de uma arvore a olhar para o ceu, ou a acompanhar com a -vista as nuvens irradias. - -Muitas vezes dizia elle quando lhe deitavam na cara o não fazer nada: - -—Deus entregou o espaço aos passarinhos, e lançou a semente á terra, -para que se nutrisse, soltou os animaes no campo, e mandou á herva que -crescesse para que se alimentassem; deu azas ás borboletas, e polvilhou -as flôres para que encontrassem sustento sem se affadigarem. A mão que -impelle o sol, que sacode as nuvens, que arroja a chuva, que dá vigor á -planta, ramagem ao arvoredo, frescura á terra, e nutrição a todos ha de -amparar-me tambem, e dar-me de comer quando me falte. - -E, a não ser esta preguiça invencivel, não havia que se lhe dizer: era -comedido no porte e civilisado nas palavras. Não escandalisava ninguem, -nem procurava descaminho; deixassem-no vaguear e estava contente. - -Depois de muitas tentativas descoroçoaram os paes de o fazerem tomar -rumo. Deixaram-no á lei da natureza, e assim se foi creando, aprendendo -pelo que via, e desenvolvendo-se com o descanço. - -Não era mau rapaz, nem dado a companhias. Bom de coração na verdade, mas -incapaz de servir para nada. Havia muito tempo, que se não via um paz -d’alma d’aquelles. - -Emquanto o pae foi vivo, bem ia o caso. Elle dava ordem á sua vida, e -quando lhe perguntavam pelo filho respondia tristemente: deixem-me, foi -erro da natureza, nasceu para mulher, não tem geito para cousa nenhuma. -Um dia porém, o pae amanheceu morto na cama, e a mãe achou-se de repente -com todo o peso da casa, e com um filho que não tinha prestimo que se -visse. - -Thomaz chorou muito nos primeiros dias, e fez mil protestos de trabalhar. -Assim foi de principio, mas depois... parece que se partiram os braços e -tornava á mesma. Pasmava ao meio do trabalho, varria se-lhe de memoria -o que estava fazendo, e deitava a correr para debaixo de uma arvore, -namorar as nuvens e ouvir os passaros. - -—O que te prende tanto, para não fazeres nada e passares todo um dia -assim a olhar para o ceu, lhe perguntou um dia um velho fazendeiro dos -melhores amigos, que o pae tinha? - -—O tio Simões vae rir-se... - -—Dize sempre, anda. - -—Olhe, tio Simões, quando ouço os passarinhos, parece-me escutar estas -palavras que o sr. padre prior disse um dia n’um sermão de festa: - -«Portanto vos digo, não andeis cuidadosos da vossa vida, que comereis, -nem do vosso corpo, que vestireis. Não é mais a alma, que a comida: e o -corpo mais que o vestido? - -«Olhae para as aves do ceu, que não semeam, nem segam, nem fazem -provimento nos celleiros; e comtudo vosso Pae celestial as sustenta. Por -ventura não sois vós muito mais do que ellas?[2]» - -—Mas isso não quer dizer, que se não deve trabalhar, homem, pelo menos -eu assim o entendo, quer dizer que por amor do dinheiro se não devem -praticar acções ruins, e que a confiança em Deus nos não deve desamparar -nunca. - -—Ora, tio Simões, o sr. padre prior ainda disse mais: - -«E porque andaes vós sollicitos pelo vestido? Considerae como crescem os -lirios no campo; elles não trabalham, nem fiam. - -«Pois se ao feno do campo que hoje é, e ámanhã é lançado ao forno, Deus -veste assim; quanto mais a vós homens de pouca fé! - -«Não vos afflijaes pois, dizendo: que comeremos ou que beberemos, ou com -que nos cobriremos? - -«Porque os Gentios é que se cançam por estas coisas. Por quanto vosso Pae -sabe, que tendes necessidade de todas ellas. - -«Buscae pois primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça: e todas estas -coisas se vos accrescentarão. - -«E assim não andeis inquietos pelo dia de ámanhã. Porque o dia de ámanhã -a si mesmo trará seu cuidado, ao dia basta a sua propria afflicção.»[3] - -—Como aprendeste tanta coisa? - -—Olhe, tio Simões, na vespera tinha assistido ao pagamento da féria, o -que meu pae, que Deus haja, fazia todos os sabbados á noite, e ao vêr -seguirem-se uns após outros os trabalhadores da fazenda, disse com Deus e -comigo:—porque não hei de eu trabalhar? Porque não hei de ganhar tambem a -minha féria? Eu tambem sou homem. - -—E disseste bem, Thomaz, era uma boa palavra essa. Mas depois?... - -—Depois, fui deitar-me resolvido a pedir tambem que fazer na segunda -feira seguinte a meu pae; mas no domingo era dia de festa; fui á Egreja -ouvir a missa, e fiquei para o sermão. - -—E... - -—Começou o sr. prior a dizer o que eu lhe repeti, ha pouco... - -—E como tu não ias de vontade para o trabalho, quadrou-te o sermão, não é -assim?... - -—Não diga tal, tio Simões, sabe Deus se eu tinha ou não feito proposito -de mudar de vida: tanto que, ao principio, fiquei sobresaltado, e como -não querendo acreditar... Mas vi a cara do bom padre, dizia tanto, tinha -uma tal expressão de bondade, um tal não sei quê na physionomia... Era -impossivel, tio Simões, que não fosse allumiado pelo ceu. - -—Mas como aprendeste tudo isso? - -—No dia seguinte fui ter com o sr. padre prior para que me ensinasse -aquellas palavras, disse-me que estavam n’um livro, e d’ahi eu... -pedi-lhe que me explicasse como as havia de lêr... - -—E elle? - -—Elle ensinou me, e eu aprendi. - -—Então tens lido muito?... - -—Nada, não senhor, apenas soube de cór aquellas palavras, esqueci me logo -de lêr. - -—Ora essa! - -—As aves do ceu e os lyrios dos campos não sabem lêr, e o nosso Pae -celestial as sustenta e as veste. Eu tambem não preciso saber lêr. - -—Mas teu pae morreu, tua mãe não póde com o encargo da casa, e assim sem -homem, que tome tento no arranjo, vae tudo por agua abaixo. - -—Que hei de eu fazer? - -—Homem, és capaz de fazer perder a paciencia a um santo! Que tomes a -direcção do governo, que occupes o logar de teu pae. - -—O tio Simões póde dizer o que quizer, eu estou á conta do Senhor. - -E não havia tiral-o d’este dizer, por mais que fizessem, por mais que lhe -prégassem. Era prégar aos peixinhos. - -A pobre da mãe ia dando ordem á vida, conforme podia, mas casa governada -por mulher, raro toma caminho: o negocio cada vez ia de mal a peior. - -Thomaz, esse, parecia não dar por semelhante cousa, chegava a casa, -fallava á mãe; comia do que lhe apresentavam, porque tudo lhe sabia bem, -e quando a tia Annica começava em pé de conversa a querer-lhe dar conta -do que se passava: - -—Faça o que quizer, minha mãe, eu não tenho nada com isso. - -E deitava a correr, se insistiam com elle, para debaixo da sua querida -arvore. - -Um dia, quando mais embebido estava em seu scismar, ouviu perto d’elle -voz de mulher, que pedia soccorro. Ergueu-se e accudiu. Era uma rapariga -de uns dezoito annos, quando muito, que vinha correndo de uma vacca que a -perseguia. - -Já quasi não podia dar passo, e a vacca ia alcançal-a, quando Thomaz -erguendo-se de um pulo, e tomando um cajadito, que trazia comsigo, atirou -de lado uma paulada ao focinho do animal, que cego com a dôr, mudou de -carreira e seguiu aos pulos e aos mugidos pelos campos fóra. - -Agueda, assim se chamava a perseguida, parou, tomou a respiração, que lhe -ia faltando, e, volvendo um olhar reconhecido ao seu salvador, disse lhe: - -—Obrigado, Thomaz! - -—Agradece ao Senhor, Agueda, e não a mim; a gente anda cá n’este mundo á -conta de Deus. - -Agueda era feia e grosseira de feições como grande parte das raparigas -do campo. Muito trigueira e mais queimada ainda, crivada de bexigas, -os beiços grossos, o nariz achatado e largo, as orelhas grandes e mais -repuchadas ainda por umas enormes arrecadas de ouro, o cabello crestado -e carapinho. Tinha os olhos pretos rasgados e ramudos como quasi todas as -saloias e era nova. - -Como de uso, trazia côres, que mais destoavam com o semblante. Umas -roupinhas encarnadas, e uma saia de chita côr de rosa sobre outra de -baeta verde salsa. Explicado estava pois o furor da vacca. - -Entretanto era por extremo vaidosa, e tão presumida como o são todas -as moças feias; mal tornou a si do susto começou correndo-lhe a mão, a -alisar o cabello, e quando lhe pareceu ter-se bem composto, proseguiu na -encetada conversação. - -—Quem havia de dizer que a vacca da Angelica!... Parecia tão socegada!... - -—Não admira, tornou-lhe Thomaz, que já se deitára debaixo da sua arvore e -parecia distrahido a olhar para o ceu. - -—Não admira, porquê? - -—Ora, tu appareceste-lhe assim, tão assanhada! - -—Tão assanhada! - -—Sim, pareces-me uma papoila vermelha, já com as sementes pretas, no meio -d’um campo de verde. - -—Sempre tens lembranças! - -Thomaz não lhe respondeu. Estava entregue ás suas contemplações. - -—Thomaz! Thomaz! Que tens tu, estás sempre a scismar? - -—E tu que tens com isso? Importa-te a minha vida? - -—Lá isso é verdade, não me importa, mas faz-me pena, vêr-te assim, ahi a -monte, sempre sósinho. - -—Faz te pena devéras? - -—Faz. - -—Ora dize-me, tu tens bom coração? - -—Nunca fiz mal a ninguem: nem o desejo. - -—Pois bem, um dia te direi em que scismo. - -E por mais que a sua companheira lhe puchasse pela lingua, não deu mais -palavra. Parecia de pedra. - -Por fim Agueda perdeu as esperanças de fazer com que fallasse, e ao -despedir-se d’elle disse-lhe: - -—Adeus, Thomaz, até outra occasião em que estejas de melhores humores. -Olha que me não esqueço do favor, que te devo. Adeus! - -Ou fosse curiosidade ou interesse, ou mesmo amor proprio offendido, no -dia seguinte, pelas mesmas horas, fazia a rapariga caminho pelo sitio -onde na vespera se encontrára com Thomaz. - -Este estava no mesmo logar, e na mesma posição da vespera, parecia que -não arredára pé. Agueda approximou-se-lhe, quasi sem elle dar pela sua -presença. - -—Adeus Thomaz! - -—Adeus Agueda! - -—Ainda continuas a estar triste? - -—Quem te disse que eu estava triste? - -—Não fallas, não cantas, não te meches d’ahi! - -—Tambem as flôres do campo não fallam, não cantam e não se mechem. -Entretanto ninguem diz que ellas são tristes. - -—Em que pensas tantas horas a fio, Thomaz? - -—Olha, Agueda, tens bom coração? - -—Já hontem me fizeste essa mesma pergunta, e o que hontem te respondi, te -respondo hoje: - -—Não fiz nunca mal a ninguem, nem o desejo. - -—Pois um dia te direi em que eu penso. - -—E porque não ha de ser hoje? - -—Ainda não tenho confiança em ti. - -Repetiram-se os encontros. Todos os dias, pelas mesmas horas, Agueda se -encaminhava para aquelles sitios, e quando a sombra lhe dizia que ella -estava para chegar, Thomaz esperava a com a vista, fitando os olhos no -atalho por onde havia de apparecer. - -Pouco a pouco a indifferença apathica de Thomaz foi desapparecendo. -Fallava mais, e contava historias de avesinhas e de flôres a Agueda -maravilhada. - -E havia uma tal ingenuidade, o que quer que era de boa e pura simpleza -nas suas historias, nas suas exclamações, na explicação que lhe dava -dos enlaces dos animaes e dos amores das plantas, que a pobre rapariga -parecia levada a mundos novos, e quasi estranhava tudo que não era o -fallar e a companhia de Thomaz. - -Um dia, eram passados tres mezes, depois do primeiro colloquio, voltou-se -elle repentinamente para a sua companheira depois d’alguns momentos de -abstracção, e disse-lhe: - -—És feia Agueda, muito feia. - -—Se o sentes, para que m’o havias de dizer? tornou lhe tristemente a -rapariga. - -—Porque digo sempre o que sinto. Mas o teu coração é formoso e a tua alma -é boa. - -—Obrigado, Thomaz. - -—Não me agradeças, porque fallo verdade. O teu coração é bom, e a belleza -do corpo acaba, emquanto a formosura da alma se conserva. Eu gosto de ti, -Agueda. - -—Tambem eu gosto de ti, e por isso sempre me pareceste formoso. - -Era uma especie de recriminação, que Thomaz não percebeu. - -—Eu queria casar comtigo. - -—Tu! - -—Eu, sim, porque te admiras? - -—Não cuidei que pensasses em casamento. - -—Não casam as arvores, as flôres, os animaes da terra, as avesinhas dos -ares, os peixes do mar; não casam as aguas dos rios com as torrentes dos -mares? - -—Mas... - -—Porque não hei de eu casar tambem? - -—Tu bem sabes, Thomaz, que eu nada tenho; tu tambem és pobre, como -haveriamos de viver? - -—Não me tens perguntado tanta vez em que penso durante as horas em que -estou sósinho? - -—Tenho. - -—Pois, ámanhã t’o direi; d’hoje até ámanhã pensa tu tambem, e dir-me-has -depois, se queres ou não casar comigo. - -—E porque não dizes agora? - -—Agora... preciso estar só. - -E calou-se. Agueda já sabia que era tempo perdido teimar. Retirou-se, -olhando muitas vezes para o seu extraordinario apaixonado. - -Este não deu por semelhantes finezas. Com os olhos fitos n’um ponto -affastado, parecia embevecido em doces contemplações. - -No dia seguinte pelas mesmas horas dobrava Agueda o atalho, quando -Thomaz, que de longe a avistou, se ergueu para a ir esperar. - -Extranho era aquelle procedimento, e tanto mais extranho, quanto a pobre -da rapariga, á força de se querer aprimorar, mais feia parecia ainda. -Thomaz, porém, nem percebeu a mudança. - -Ao approximar-se da arvore, pediu lhe que se sentasse ao seu lado, e com -taes modos e tal delicadeza, que ella quasi o desconheceu. - -—Que tens, Thomaz, pareces me outro? - -—Tenho que te fallar muito sério. Pensaste? - -—Pensei. - -—Queres? - -—Quero, Thomaz, conheci que te amava. E tu? - -—Eu, não sei. Olha, Agueda, parece-me que nasci para casar comtigo. Tenho -te visto ha muitos dias, e sempre me tens parecido boa rapariga. - -—Tu é que és um santo, meu Thomaz... - -—Não digas isso, e ouve-me. Vou contar-te o meu segredo. - -—Pois tu tens segredo? - -—Não t’o disse hontem? - -—Disseste, mas pensei que estavas gracejando. - -—Não sei gracejar. - -—E d’elle depende a nossa fortuna? - -—Depende. - -—Então conta, Thomaz, conta depressa. - -E a rapariga quizera ser toda ouvidos para satisfazer assim a curiosidade -que a devorava. - -—Olha, Agueda, olha além para o ceu. - -—Olho. - -—Não vês nada? - -—Vejo uma nuvemzinha transparente e branca, que parece voejar como um -véosinho de cambraia. - -—E nada mais? - -—Mais nada! - -—Pois eu vejo mais do que tu. - -—Como assim? - -—Ha uns poucos d’annos, que passo manhãs e tardes, deitado debaixo d’esta -mesma arvore, com os olhos pregados n’aquelle mesmo sitio do ceu. - -—E vês? - -—Espera. Não ouves o chilrear dos passarinhos, que andam saltitando de -ramo em ramo? - -—Ouço. - -—E não percebes o que elles dizem? - -—Ora essa! - -—Pois desde que aqui descanço, as aves fallam comigo, e eu entendo o que -ellas dizem. - -—Thomaz! - -—Bem sei que desconfias de mim, Agueda, que talvez me julgaes doido, -pateta, como muitos dizem. Não me admira, estou condemnado, e rio-me -d’isso. - -—Não chamo, não, meu Thomaz; continua. - -—Tens espalhado os olhos por esses tapetes de verde, por essas vagas de -pão, que ondulam e marejam á feição do vento como as aguas dos rios? - -—Se tenho! - -—Mas não escutaste ainda os colloquios que segredam as plantas umas ás -outras, as espigas ás suas visinhas, quando o vento as encurva, e parece -approximal-as tão de perto, como se fossem a beijar-se? - -—Valha me Deus, Thomaz, que coisas me estás perguntando! - -—Tenho dó de ti, Agueda! - -—Porquê? - -—Porque nem lês no céo, nem aprendes com as aves, nem escutas as plantas. -Como has de ser infeliz. Tudo pois, que mais significação tem, nada quer -dizer para ti. Mas descança, minha Agueda, quando casares comigo, has de -saber o que eu sei. - -—E tu sabes? - -Thomaz fez-lhe signal para que se callasse por um momento, e pareceu cair -em extatica contemplação com os olhos fitos no céo. - -Seria passado um quarto de hora, quando pareceu voltar a si, dirigiu-se a -Agueda, e disse-lhe: - -—Ouve-me agora. Quando meus paes quizeram que eu estudasse, quando -tentaram que eu aprendesse ou trabalhasse, senti em mim uma voz que me -dizia: não trabalhes, não é preciso, has de ser rico, muito rico, espera, -confia e descança. - -—E tu? - -—Sempre que me approximava do trabalho sempre esta voz me fallava; se eu -insistia tornava se mais aspera, reprehendia-me, accusava-me de não ter -fé. Por fim... não estava mais na minha mão, fugi ao trabalho, não pude -resistir ás palavras, que ouvia a todo o momento. - -—Pobre Thomaz! - -—Quando comecei a abandonar a casa, para vir deitar-me para debaixo -d’esta arvore, parecia-me que as flôres e as plantas se debruçavam para -mim e diziam umas ás outras: é mais um irmão que chega, bemvindo seja -entre nós. - -E eu sorria-me para as hervinhas e para as arvores e a umas e outras -dizia: Eis me, queridas irmãs, que saudades eu tinha vossas, como me -batia o coração com pena! Eis-me, oh irmãs, e não vos deixarei mais. - -Depois de pensar muito, quiz n’uma occasião da minha vida mudar o modo de -viver. Um caso fez, porém, com que eu continuasse a seguir os conselhos -da voz, que cá bem dentro me dizia: Descança e tem fé. - -—Um caso? - -—Sim. - -E Thomaz contou-lhe como entrára na egreja e o que ahi ouvira ao prior, -bem como a maneira, porque instando com elle para que lhe ensinasse -aquellas palavras, chegára a aprender a lêr. - -—E sabes lêr, Thomaz? - -—Soube, esqueceu-me. - -—Pois nem conheces as letras? - -—Não. - -—E se eu quizesse aprender? - -—Talvez me recordasse. - -—Has de recordar-te, sou eu que t’o peço, mas continua. - -—Embrenhado n’estes pensamentos, um dia que alargava a vista pelos -campos, e que pretendia mergulhar os olhares no céo, lá bem longe, -n’aquelle affastado ponto, em que tu divisaste ha pouco uma nuvemzinha, -vi avultar uma figura branca, tão transparente, tão formosa porém, ai tão -formosa! que arrebatava olhar para ella... Mas porque estás tão triste, -borbulham-te as lagrimas nos olhos! - -—Lembro-me do que me disseste, Thomaz, que me achaste feia, e tenho pena -de o ser. - -—Não penses em tal. Formosuras d’aquellas não as ha na terra, nem sei -mesmo, minha Agueda, se as haverá no ceu. Entretanto eu via todas as -tardes aquelle vulto illuminado no meio de resplendores de fogo, e dos -raios scintillantes do sol poente. Depois ao cair da noite ia-se sumindo -pouco a pouco na escuridão até que uma só estrella a substituia no ceu. - -Se visses que melancholica luz espalhava aquella estrella! Acreditei -que o meu anjo da guarda me apparecia, e que a estrella, que de noite -scintillava, mais resplandescente do que todas as outras, fôra cravada -nos ceus pela mão do Senhor para me animar quando desanimasse, para me -esclarecer quando as trévas envolvessem a terra. - -—Mas dizias, que te fallára! - -—Pouco a pouco comecei a comprehender, que me fazia gestos, como -indicando me um ponto muito affastado dos ceus. Parecia que lá muito -longe estava a felicidade, que eu almejava. Um dia ajoelhei e pedi-lhe, -que me fallasse, que me dissesse o que significava aquelle gesto -constante a mostrar-me a immensidão. - -—E respondeu-te? - -—Não é mais harmonioso o som do orgão, quando, depois de tocado, parece -gemer saudoso na egreja, não é mais suave o canto da viração da tarde -rumorejando pelo arvoredo, nem o lamentar ao longe do rouxinol em -madrugadas de maio. - -—E disse-te... - -—«Pobre de ti, que procuras a felicidade na terra. Está bem longe e tão -longe que nem teus olhos a alcançam nem tua mente a imagina. Queres ser -rico, queres ser feliz! Louco! Não ha de ser ahi que encontrarás nem -riqueza nem felicidade. Chegará um dia em que me sigas, e então verás -patentes thesouros, que nem suppões, felicidades que nem as sonhas.» - -—Era a tua cabeça que desvairava meu Thomaz! - -—Não era, Agueda, não era. Levantei-me para seguir direito o caminho -que me apontava; mas ao calcar as primeiras hervinhas senti entre seus -gemidos, que me chamavam: ambicioso! louco! - -—As hervas? - -—Sim as hervas, voltavam-se para mim e apontando-me para os campos onde -viviam censuravam-me por as deixar: para que partes? Não tens o pão que -te alimenta, o sol, que te dá calor, o ar, que te nutre a respiração, não -vês como vivemos contentes no mesmo logar, amando-nos umas às outras, -bebendo a agua dos ares, e aquecendo-nos o sol? - -—E pensaste então em amar? - -—Pensei! Depois quando volvia para debaixo da minha arvore as avesinhas -brincando umas com as outras, diziam: «Não é preciso ir longe para se ser -feliz. Este pobre rapaz quer deixar-nos, e nós podiamos-lhe ensinar como -se encontra a felicidade. Uma arvore nos abriga, um ninho serve de berço -aos nossos amores, uma folha nos resguarda do sol, a semente que cae no -chão nos sustenta, a agua, que as covasinhas conservam, nos mata a sêde. -Sabemos amar e viver, amamos e sômos felizes. - -—Seguiste o conselho das aves? - -—Segui. No dia immediato a visão sorria menos melancholica, e ao -perguntar-lhe se devia partir, respondeu-me: Não ouviste as hervinhas do -campo e as avesinhas do bosque. Sê humilde como ellas são, contenta-te -com o que as satisfaz e serás então como ellas feliz. - -—Mas como havemos de viver assim, meu Thomaz, não podemos habitar n’um -ninho, nem n’uma leira dos campos. - -—Ouve-me até ao fim. Quiz amar para ser feliz, mas todas me voltavam -a cara, ou me apontavam dizendo: olha o Thomaz idiota, o Thomaz dos -passarinhos. - -Só a minha visão me sorria boa nos ceus, emquanto todos na terra se riam -de mim como uns maus. Perdi as esperanças de encontrar quem me tivesse -amor, e procurei amar aquella que me queria. E sempre a via, sempre lhe -fallava no meu querer, e ella sempre se curvava para mim e tristemente me -dizia: estamos longe, muito longe! - -E entretanto as aves e as plantas contavam-me os seus amores, e -animavam-me tambem. - -Vi-te, Agueda, e ao passo, que mais a meudo me appareceste mais fui -querendo á tua presença. Por fim não podia já passar sem ti e nas horas -em que devias chegar, mais me palpitava o coração. - -—Querer-me-ias, por ventura? - -—Não sei. Se o amor é um sentimento, que nos prende a idéa ao ente amado, -se o amor é o sacrificio da nossa vida á que se ama, se amor é ser todo -d’uma só mulher, e só d’ella, eu não te amo, porque bemquero áquella -imagem, e a sua lembrança corta-me os pensamentos, que te consagro. -Olha, não sei como te explique o que sinto. Quando quero comprehender-me -julgo-me tambem idiota, como me chamam todos. Não ha mulher para mim que -te valha, mais rica ou mais formosa que fosse; mas tambem nada ha, que -seja em mim superior á idéa d’aquella imagem. Quando vou levado pelo -pensamento para ti, surprehendo-me a meio caminho, arrependo me de me -esquecer d’ella, e fico em doce contemplação a adoral-a. Quando ella se -some, appareces-me tu. Sabes?... Creio que amo a ambas, a ella com o amor -do ceu, a ti com o amor da terra. - -Agueda suspirou e limpou uma lagrima, que lhe escorregava pelas faces. - -—Porque suspiras? - -—Tenho ciumes da tua visão; e depois, bem vês, não poderemos casar nunca. - -—Sabes que lá bem longe ha terras, em que as riquezas não faltam? - -—Sei. - -—Sabes que é para bem longe que o meu bom anjo me chama? - -—Assim m’o disseste. - -—Pois se tu quizeres casar comigo, irei apoz a minha querida visão, -seguirei o seu gesto, e tenho por fé que ao voltar serei rico, que o -esperei sempre; serei feliz, que m’o assegurou ella. - -—Enlouqueceste, Thomaz? - -—Nunca estive mais em meu juizo. - -—Pois queres sósinho, sem meios, sem conhecimentos ir por esse mundo -de Christo, atravessar os mares, fazer uma viagem tão grande! Dizem que -d’aqui ao Brazil é um por ahi além de leguas! - -—Sei, que importa isso! Tenho pensado muito, comigo, aqui, e com aquella -boa imagem além. Não tenho palavras para dizer o que vae cá por dentro -ahi a qualquer. Póde ser que eu seja idiota, mas parece-me que mais são -os que me chamam por não lhes fallar, nem lhes dar satisfações da minha -vida. - -Humildes são as plantas, mais atrevidas as aves, mais atrevidas ainda -as nuvens dos ares e as estrellas dos ceus. Quanto maior é o seu -atrevimento, mais longe se levam. - -O homem que vive cá n’este mundo extremo de todos, sem querer deixar -rasto de si, nem cousa alguma que o lembre, passada a sua hora, é como -a planta, lançada á terra pela mão de Deus. Nasce, medra e morre; -deitam-lhe a foice e fica por terra. - -Assim era eu. Não tinha para quem o fosse, não queria ser rico. Espera, -dizia-me a voz; está muito longe a felicidade, repetia-me a visão, e eu -ia esperando sem tentar os longes. - -Mas quando ama, não chegam para o homem alguns torrões apenas, como para -o pé de trigo: vae longe buscar com que fazer seu ninho, percorre os -ares como as aves: e, emquanto a esposa o espera cuidando dos filhinhos, -trabalha elle para sustentar os outros. - -Assim poderia eu ser; mas não bastava. - -Para ti, Agueda, que vaes repartir comigo a tua vida, que te vaes enlaçar -comigo, como a videira se enlaça no carvalho, que vaes ser minha mulher, -sabes o que isto quer dizer, minha mulher?... não basta o bago de trigo, -que sustenta o pardal, nem o bichinho que nutre a cotovia. Quero ir -longe, mas tão longe como vão as nuvens e não como as aves; quero correr -mundo, como correm as estrellas que hoje espalham aqui a sua claridade, -depois allumiam outras terras: e mais tarde, ao voltar com dinheiro para -ambos, com o descanço para os que hão de ser nossos, dizer-te: - -—Vês? É assim que um homem sabe amar. - -E Thomaz transfigurára-se ao dizer estas palavras; a sua belleza -varonil assumira o que quer que era extraordinario, parecia inspirado. -Chispavam-lhe centelhas dos olhos, aspirava com as ventas dilatadas os -aromas da tarde, soltava os cabellos bastos á feição do vento. Erguera-se -emquanto fallava, a sua figura parecia mais crescida. Cercava-o uma -aureola de magestade, destacava-se do fundo escuro do tronco a que -estivera encostado, recortava-se sobre o azul carregado do céo, como um -d’aquelles sacerdotes das florestas gaulezas, quando colhido o agarico -sagrado erguiam os olhos, pediam a inspiração aos numes e rasgavam o ar -com o gesto alargando os braços sobre as multidões curvadas. - -Agueda desconhecia-o e pasmava. - -—Como és formoso assim, meu Thomaz, e como eu te avaliava tão mal, -exclamou a pobre rapariga cedendo ao impulso da admiração. - -Thomaz caiu em si, e tornou-lhe tristemente: - -—Todos me têem julgado como eu não merecia. A solidão tem-me feito -amadurecer muito, e se não fallo, penso. Dizem que o mocho é prudente -e assisado, e entretanto nem trina como o rouxinol, nem canta como -a toutinegra, nem se veste de côres brilhantes como o pintasilgo. -Emquanto todos dormem vigia elle, emquanto folgam e brincam á luz do -sol mergulha-se no escuro e recata-se no seu souto. As horas de solidão -valem mezes de viver em companhia, e os dias de abandono ensinam mais do -que os annos de carinhos e meiguices. Eu, Agueda, tenho vivido sempre -desamparado, só e triste. Tenho pensado muito, assim eu tivesse palavras, -como tenho idéas; mas vou a fallar, não sei, e fico-me... - -—Apesar d’isso dizes coisas que não comprehendo. - -—Que queres, os fructos quando veem ao chão, ou pedram-se e fazem-se -ruins; ou amadurecem mais depressa. Não tinha queda para ruim, -deitaram-me por terra, amadureci. Já foste á cova das rapozas? - -—Deus me livre! Apparecem por lá as almas dos defuntos. O João da Josefa -do tio Domingos, foi lá ter atraz de uma ovelha e viu uma aventesma -surdir-lhe de um d’aquelles buracos. Pois tu já lá foste, Thomaz!?... - -—Fui! Tudo quanto é fóra do commum tem agrados para mim. Procurei saber o -que era. Entrei, e vi uma cousa que não esperava. - -Do tecto da cova desciam pinhas de pedras preciosas até ao chão e -formavam columnas, como as do altar-mór da egreja; mas quanto bem mais -formosas! Pareciam feitas de bocadinhos de espelho. A luz que entrava -pela bocca da cova e a que eu levava do archote, saltavam de columna para -columna, brincavam n’aquellas laminasinhas, faziam ziguezagues, voltas, -revira-voltas, como se fossem um cardume de lusilumes. E eram luzes de -todas as côres, azues, vermelhas, verdes, côr de rosa; como n’aquelle -fogo de vista que deitaram os homens de Lisboa. Estonteava a vista olhar, -andava a cabeça á roda. - -—Bem dizia eu, Thomaz, era obra de feitiço, para que foste lá?—E -appareceu-te algum phantasma? - -—Não. Perguntei uma tarde ao sr. padre prior o que eram aquellas -columnas, e como estavam alli em pilha tantas pedras preciosas, sem que -tomassem conta d’ellas? - -—E elle o que te disse? - -—Que o que eu julgava serem pedras preciosas era a agua da chuva e nada -mais. - -—Ora! - -—Era sim. Gotta a gotta ia filtrando pela rocha e pendurando-se da pedra, -como o pingo da fonte no cazal das Cortiças, que se baloiça antes de -caír custando-lhe tanto a despegar-se. Mal uma não caía ainda, vinha -outra abraçar-se com ella, e prendel-a mais. As que iam ao chão seccavam -devagarinho e deixavam a fazer altura as terras que traziam comsigo. -Debaixo foram subindo, de cima foram descendo; e quando se uniram, estava -a columna prompta. Vieram novas gottas, foram baixando pela columna: e -parando aqui, detendo-se além, arrendaram-lhe o feitio, e recortaram-lhe -as fórmas... - -—Pois isso póde ser! - -—Póde! E este milagre é obra da solidão, do socego, e da meditação bem -escondida do mundo. - -A agua da chuva que cae nas ruas faz-se lama, a que cae nos campos -secca-a o vento, ou encaminham-na os homens para as regueiras e levadas, -a que cae com força faz cheia e arrasta tudo, a que cae de manso -perde-se; mas a que livre do vento, e dos homens, gotteja escondida, e -escorre devagar entregue só a si, forma columnas maravilhosas, e faz-se -em pedras de valor. Aqui tens como eu tenho aprendido tambem. Fujo de -tudo e de todos, escondo me, penso, medito, e aprendo. - -Ficaram ambos silenciosos por algum tempo. Agueda não comprehendia mas -advinhava; Thomaz, esse que havia muito tempo não fallára tanto, parecia -seguir callado o fio do discurso conversando comsigo. Foi a rapariga, que -renovou o dialogo. - -—Pois sempre queres partir? - -—Quero. É tenção feita e não mudo. Espera-me tres mezes, como eu tenho -esperado annos. Ceifaram os campos ha pouco; por ahi não ha senão -restevas. Callaram-se os passarinhos, acabaram-se-lhes os amores, e -somem-se para outros logares. Vou partir, Agueda, de dia seguirei o meu -anjo, de noite a minha estrella; e, quando a relva vestir esses prados, -quando as aves cantarem de novo, vêr-me-has regressar d’essas terras, e -n’esta arvore onde temos passado tantas horas de felicidade, contar-te -quanto passei por amôr de ti. - -Debalde procurou a rapariga despersuadil-o. O caracter de Thomaz, como -o de todos os espiritos concentrados, era teimoso. Pensava muito em -qualquer resolução, que devesse tomar; uma vez porém que a adoptasse, -havia de seguil-a por força. Poucos dias depois abandonava a aldeia. -Agueda, soluçando, acompanhava-o até duas leguas fóra do logar. - -Longo e triste fôra relatar a perigrinação do pobre rapaz. Pedia esmola -para comer, quando tinha fome; deitava-se pelo caminho, quando se sentia -cançado, ou abrigava-se em qualquer pousada, onde o deixavam dormir. Ia -porém seguindo na mesma direcção e para onde lhe parecia acenar a figura, -que se lhe representava em suas allucinações. - -Houve quem, ouvindo-lhe dizer que queria ir longe tentar fortuna, o -alliciasse para o Brazil. Thomaz perguntou para que lado ficava o Brazil, -deram-lhe uma direcção. Errada ou verdadeira esta direcção era a mesma -que trouxera sempre. Acceitou. - -Os que já conhecem Thomaz pódem avaliar bem que desgraçado colono -havia de ser e por quantos tormentos passaria. Entretanto nem doenças, -nem fomes nem maus tratos, nem trabalhos superiores ás suas forças o -desanimavam. Uma coisa só o trazia apaixonado. Não via n’aquelles céos a -sua estrella. Nos horisontes affogueados não descortinava a sua visão. - -Passaram annos e Thomaz, apezar de tanto padecer, conservava ainda -recatada na alma a santidade das suas aspirações. Ha temperas d’esta -ordem, que como as perolas se conservam limpidas, e puras, no meio das -correntes e das tempestades. - -Houve quem se condoesse da sua sorte e lhe proporcionasse passagem para -Portugal. Acceitou-a reconhecido; perdêra todas as esperanças de ganhar -fortuna, voltava quebrado, doente, incapaz de trabalhar, mas vinha de -novo para terras, onde lhe apparecia o bom anjo, e a boa estrella, onde -conhecia o cantar dos passaros e o fallar das plantas, e onde tornaria a -vêr a sua Agueda. - -—E a rapariga, perguntei ao tio Joaquim, quando rematou a sua narração, -ainda está á espera d’elle? - -—Olha quem! D’ahi a dois mezes fugia da terra em companhia de um soldado -do destacamento, o Thomaz vem achar-lhe o logar. - -—E já sabia d’isso, hontem á noite, quando lhe contou a sua vida? - -—Ainda não, vinha a caminho, quando a chuva o não deixou proseguir e nos -pediu agasalho. Hoje é que deve saber a verdade toda. - -—O tio Joaquim não lhe disse nada? - -—Não tive animo para lhe dar a noticia. Pobre homem, fugiu-lhe a noiva, -morreu-lhe a mãe, está só! - -Fôra depois do jantar que o tio Joaquim me contára esta historia, a tarde -estava muito amena, e o descair do dia ganhava os doces encantos da -tristeza. - -O que ouvira harmonisava-se com o que estava vendo: e a melancholia -começou a tomar conta de mim. Propuz ao tio Joaquim um passeio até ao -logar para espairecer. Saimos. - -Á porta do boticario estava junta quasi toda a povoação; grande novidade -ia pela botica. As velhas entravam, saiam, segredavam umas com as outras, -levantavam os braços ao ar e voltavam para saber e contar novas coisas. - -Conseguimos entrar e vêr o que tanto attrahia as attenções. O pobre -Thomaz jazia banhado em sangue. Fôra encontrado cahido no fundo de uma -trincheira, que andavam abrindo para o caminho de ferro, e quebrára -a cabeça e os braços de encontro ás pedras que estavam em baixo. -Restava-lhe pouco tempo de vida. - -O tio Joaquim approximou-se do moribundo, elle reconheceu-o logo e -sorriu-lhe tristemente. - -—O que foi isso, homem? perguntou-lhe o velho narrador. - -—Acertei finalmente com a felicidade, não tarda; em pouco vou ser muito -rico. - -Pensaram que já estava tresvariado. O tio Joaquim, disse-lhe que -socegasse. - -—Bem socegado estou, acabou-se-me para sempre a lida. Agueda, tinha-se -cançado de esperar, nem todos têem paciencia como eu tive... Corri á -minha arvore, já a não encontrei... tinham-na derrubado... Os campos -estavam cortados pela estrada, as hervas calcadas pelo pisar dos -trabalhadores do caminho, as aves tinham fugido espavoridas com os tiros -das minas na pedreira... Aqui, como lá bem longe, estava só de todo... -De repente, poude vêr, com os olhos arrasados de lagrimas o meu anjo no -mesmo logar a olhar para mim como d’antes, a chamar-me como d’antes, mas -mais triste do que nunca... Caminhei direito a elle, fitando-o sempre... -Faltaram me os pés... Cahi... Mas sei que me hei de levantar em breve, e -d’esta vez hei de approximar-me d’elle para não mais o deixar... Até que -em fim... comprehendi-o... Dizia-me que estava longe... bem longe... - -E estava!... Conchegou-nos a morte: a felicidade... a riqueza... debalde -as procurei na terra;... mas agora... sei que as vou encontrar... no ceu. - -Passada meia hora o Thomaz da tia Annica, o Thomaz dos passarinhos, como -por alli lhe chamavam, era cadaver. - - - - -XII - -A historia do narrador - - -I - -Por mais de um mez procurára tambem saber a historia do tio Joaquim. -Havia na tristeza, em que o velho descaia tantas vezes, quando parecia -mais alegre, rasão sobeja para me aguçar a curiosidade. Tentára -interrogal o; mas debalde sempre. - -Não era porque o tio Joaquim deixasse de me estimar devéras. - -Conhecêra-me de pequeno e tivera-me sempre por seu companheiro constante -nos passeios melancholicos, em que, apoz o seu pensamento, caminhava -horas sem dar palavra. - -Ia com elle, calado tambem. Respeitava a grande dôr que n’essas occasiões -parecia opprimil-o; e não me atrevia a perturbal-o com perguntas -indiscretas, ou observações futeis. - -Presentia, que um padecimento grande o envelhecêra bem cedo, e receava -tanto mergulhar a vista nas profundezas d’aquella magua, como trepidava -sempre ao approximar-me de um precipicio. Era o desconhecimento que me -sobresaltava, o que quer que era extranho, que me impunha respeito. - -O tio Joaquim lembrava-me um d’esses livros antigos de bruxedos e -encantamentos, que fechado poder-se-ia confundir aos olhos de um -observador qualquer com um ripanço de semana santa; aberto porém -espavoria a imaginação povoando a com os quadros temerosos de castellos -encantados, florestas magicas, sortilegios infernaes, feiticeiros, -trasgos, almas penadas e cemiterios. - -Levava-me o desejo a folheal-o; a duvida affastava-me de lhe tocar. - -Aventurára perguntas timidas em varias occasiões; mas o velho, sem que -empregasse na resposta a natural rudeza, com que despedia os importunos -triviaes, affastava-me brandamente do ponto a que eu desejava chegar. - -—Quando no jardim ou no prado colhe uma flôr não cuida das profundezas -onde as raizes mergulham para a alimentar; quando tira da fonte uma pouca -d’agua para abrandar a sede, não indaga por que extensões corre a veia -que alimenta a fonte. Não cuide em devassar segredos, que de pouco lhe -podem importar; mas que uma vez sabidos lhe hão de trazer desgosto. A -amendoa de muitos fructos trava, emquanto elles são dôces, aproveite-se -da polpa e não queira saber do caroço. - -E assim, mudando rapidamente de assumpto, evitava sempre que insistisse. - -Entretanto iamos muitas tardes para um logar da praia, que de preferencia -escolhiamos por ser mais recatado e só. - -Entre ambos havia como que uma communhão de tristezas. Elle pelo passado, -eu pelo futuro; elle por o que já experimentára e sentira; eu porque -receava experimentar e sentir tambem. - -Emquanto o velho passava horas silencioso e triste a rever as paginas -da sua vida, a rememorar dôres, alegrias, saudades, e amores: eu que -ia conhecer o mundo, eu que deixava de ser creança e não começára -ainda a ser homem, scismava no futuro para que caminhava, e devaneiava -conjecturas sobre essa vida nova, que ia encetar. Agradava pois a ambos -a solidão, e ambos procuravamos de preferencia os sitios, onde menos nos -podiam inquietar os conhecidos. - -A praia da nossa predilecção estendia-se desde Cabo-Ruivo e o -recolhimento do Moinho. Em frente espraiava-se o Tejo pelos juncaes, que, -mesmo em preamar, erguiam os cimos arrouxados sobre as aguas; detraz a -costa subia quasi a prumo para os olivaes do Casal das rolas. - -Uma ou outra pedra ennegrecida pelo tempo, pelo quebrar das ondas, pelos -limos e pelas ostras que a revestiam destacava-se na arêa da praia, ou -avultava por meio dos juncos. O rio, n’aquellas alturas quasi sempre só, -parecia não terminar no lado opposto; porque a outra margem se confundia -com o céo. De cima, como torre de vigia de castello antigo entrava pela -agua dentro o pavilhão quadrado e de tecto esguio do antigo recolhimento. -Debaixo o cabo a que pela vermelhidão do terreno tinham dado o nome de -Ruivo, limitava o horisonte, e tirava a vista da parte do rio mais cheia -de navios e de animação. - -Tudo alli era silencioso, tudo infundia sentimento, tudo convidava para a -meditação. - -Torcendo-se por entre os alcantis da ribanceira, escondendo-se umas -vezes por detraz de moitas de rosas carrasquinhas e de giestas, outras -caminhando entre pequenas mattas de congoças, outras descobrindo-se de -todo n’um terreno escalvado e nu, um caminho de pé posto conduzia dos -olivaes á praia, e estabelecia communicação entre o mundo e aquelle -retiro. Avistavamos pois a grande distancia, quando alli estavamos, -qualquer, que do Casal descesse para a praia, e haveria por conseguinte -facilidade de mudar de conversação, sem que nos perturbassem d’imprevisto. - -A meio do carreiro n’uma lapa gottejava da rocha a agua mais pura -das visinhanças e demorava-se n’um berço de relva e musgo verde como -esmeralda, macio como velludo, e que forrava a cova, que a agua havia -feito. Junto á fonte algumas pedras pulidas pelo roçar continuo dos -cantaros das raparigas dos sitios, que alli vinham buscar agua, -offereciam um bom poiso para descançar. - -Era tambem alli que mais de habito nos sentavamos. O mar deante de nós, -o ceu sobre nossas cabeças, as costas dadas ao mundo, e a imaginação a -perder-se no espaço. - -Depois, quando descaia a tarde, aquelle silencio perturbado apenas pelo -surdo marulhar das aguas, aquellas côres sombrias do mar e do ceu, -aquelle espectaculo do infinito, que tanto nos confrange e opprime, e a -indecisão, que nos baloiça no espirito, as duvidas que se apoderam de -nós, sobre o que seremos, sobre o que nos tornará felizes, a lucta com -essa terrivel e mysteriosa sphinge que se chama futuro, tudo isso me -levava a um estado especial que muitos talvez tenham sentido, mas que -poucos poderão definir, em que desejava sem saber o que, em que soffria e -agradava-me o soffrimento, em que amava e debalde queria fixar o grande -amor que sentia, em que lastimava sem que podesse explicar porque, não -estar assim sempre, não passar d’ahi para outro mundo, outra vida, outro -que quer que fosse, para mim desconhecido, mas que me parecia fatalmente -destinado para me dar a verdadeira felicidade apoz a qual voava a minha -imaginação apaixonada. - -Estes ataques de uma nostalgia particular traduzil-os-hia eu, se -traducção podessem ter, como o chorar da alma infinita dentro da sua tão -limitada prisão, pelos espaços e pelos mundos infinitos d’onde veio, e -onde deve ir um dia. - -Sei, para em duas palavras me exprimir, que soffria muito, mas que era -feliz soffrendo assim. - -O meu velho companheiro, esse, apenas ali chegava sentava-se n’uma das -pedras, carregava o cachimbo, feria lume, accendia o tabaco e entrava -a fumar; depois o pau com que começára a traçar arabescos no chão -parava gradualmente, os braços caiam-lhe sobre os joelhos, o cachimbo -apagava-se, e os olhos cerravam-se-lhe como se tivesse adormecido. - -Quando, passado tempo, parecia tornar a si, tinha os olhos vermelhos, -o rosto abatido, o corpo quebrado. Levantava-se com muita difficuldade -e mal se podia arrastar aos primeiros passos. Depois fazia como que um -grande esforço sobre si, compunha a physionomia, chamava um sorriso -bastante rebelde n’essas occasiões, e tornava a ser o tio Joaquim da casa -da malta e do canto da lareira. - -Foi n’uma dessas tardes, e na praia de Cabo Ruivo, que consegui ouvir -ao velho narrador a sua historia. Andára triste todo o dia, acabára -de jantar, déra conta da obrigação e convidára-me para sair em sua -companhia. Não soltára meia palavra pelo caminho e mal chegára perto -da fonte atirára comsigo para uma d’aquellas pedras tão desalentado, -que parecia não querer mecher-se mais d’ali. Ficara a scismar, como -costumava; mas não seria passado ainda um quarto de hora, ao olhar para -elle vi que lhe escorregavam as lagrimas pelas faces. - -—Chora, tio Joaquim?... - -—Não repare, atalhou elle rapidamente limpando as lagrimas, como -envergonhado, eu tambem não reparava. - -—Anda sempre triste, e assim sem desabafar, bem pelo contrario -fingindo-se alegre quasi sempre; ha de padecer muito! - -—Muito! Mas não tem duvida. - -—Diz-se que as maguas contadas são alliviadas; porque me não dá parte das -suas tristezas? - -—Para quê? Com o andar do tempo não lhe faltarão proprias; deixe as -alheias. - -—Cuida que sou alguma creança, tio Joaquim? - -—Bem sei que não é, mas... - -—Seria a maior prova de amisade que me podesse dar. Ha tanto tempo que -desejo saber a sua vida! - -—Como deseja ouvir as historias aos serões, não é assim? - -—Não. Essas servem para passar o tempo, esta outra para o conhecer bem, e -para o poder consolar. - -—Pois seja para me conhecer, que para me consolar não, porque não póde. -Hoje tambem, parece-me que rebentava, se não repetisse alto o que tem -sido a minha vida. Quando conversamos comnosco, a voz faz ecco bem fundo -na cabeça e no coração, repercute mais e soffre dobrado. Se não tivesse -vindo comsigo parece-me que entrava a fallar só, para ahi a essas pedras -e a essas aguas. Oiça-me pois, já que tanto deseja saber a minha vida. - -E o tio Joaquim deu começo á sua historia. - - -II - -Meus paes viviam n’uma das provincias do norte, e se não eram ricos -tinham com que passar menos mal. Meu irmão Filippe e eu eramos os dois -unicos filhos, e o que havia chegava bem para nós. Filippe, porque era -o mais velho, devia ser lavrador como meu pae; eu, por ser o segundo, -estava destinado para frade. - -Admira-se, porque já lá vão os frades; mas se vivesse no tempo dos -conventos conheceria então, que de ordinario se destinava para ordens -sacras o filho segundo em quasi todas as familias. - -Accrescia mais que o mestre dos noviços do convento proximo, sr. João da -Soledade, era muito de nossa casa, e depois de ter convencido minha mãe -de que me fazia feliz mettendo-me a frade, lhe promettera tomar-me sob -sua protecção. - -Pela minha parte, posto que ninguem me consultasse o querer, parecia me -tambem que viveria contente n’aquelle socego do convento. Via os frades -gordos, satisfeitos, córados e risonhos sempre. Traziam-me presentes e -davam-me dôces, faziam-me festas, e contavam-me historias, não me queria -pois com outra gente. - -Em vendo habito approximava-me logo, e minha boa mãe, que a mais não -alcançava, lia n’esta inclinação pueril uma verdadeira e pronunciada -vocação. - -Assim fui creando-me n’estas idéas, até que chegou a idade de começar a -aprender. Fr. João convenceu minha mãe, de que para o meu estudo muito -melhor seria viver no convento do que em casa, pois que ao passo que ia -seguindo as disciplinas com maior regularidade, ia costumando-me tambem á -regra conventual. - -Frei João era para meus paes apostolo e propheta ao mesmo tempo. O que -dizia seguia-se com reflexão. Despedi-me, chorei muito e partimos. - -Não tinha tamanho desafogo em casa, que extranhasse muito a vida nova que -encetava. A companhia dos outros noviços, aquelles costumes extranhos -para mim, aquella novidade de estudos, e mesmo o bom modo, com que Fr. -João me tratou sempre, conseguiram que dentro em pouco me afizesse de -todo ao recolhimento claustral. - -Não tinha por fóra coisa alguma, que me attraisse, e a affeição de meus -paes e irmão, unicas de que a porta do convento me separava, não eram de -ordem tal, que me fizesse lamentar muito o haver-me apartado do mundo. - -N’uma das campanhas em que entrei mais tarde ouvi contar o seguinte caso -a um veterano, que tinha ido na legião lusitana com os francezes fazer a -guerra da Russia. - -Nas noites frias e claras do norte em que a luz de umas auroras -particulares ás terras d’aquelle paiz resplandece nos gelos, começava a -cair neve, e os pobres soldados a cairem com ella inteiriçados e hirtos. -Alguns cobravam forças, erguiam-se e continuavam. Outros caiam, não -tinham forças para se mecher e ficavam por uma vez. - -Ao tal veterano, se lhe não accodem ainda a tempo ia succedendo este -mesmo facto. - -Dizia elle, que percebia bem que ia morrer, que cada vez se enregellava -mais, e que dentro em pouco, tinha d’isso a certeza, estaria de todo -gellado. - -Sentia porém um que quer que era agradavel n’aquelle approximar da morte, -queria evital-a mas não tinha forças, e ia sentindo sumir-se-lhe a vida -com aquelle prazer com que nos deixamos esvaecer após a embriaguez. - -A solidão, tive tempo para o observar, parece-se com os gelos do norte. -Entristece-nos, mas encanta-nos com a sua tristeza, sentimos que lhe -devemos fugir, e conservamo-nos entretanto, parece-nos que nos esmorece a -alma e o sentimento, mas é tão dôce esse esmorecer, como a morte após um -desmaio, como o adormecer da creança nos braços maternos. - -Antes de saber o que era a vida, começava a agradar-me a morte, e sem -transicção alguma, arrefeciam-me os ardores dos dezoito annos, com os -frios d’aquellas sepulturas de vivos a que chamavam cellas, claustros e -conventos. - -Estudava, aprendia, e meditava. Meditava sem saber em quê, porquanto o -mundo, que eu via pelas grades do meu quarto, e o que eu phantasiava pela -leitura dos livros da bibliotheca, differençava-se tanto do mundo real, -que mais tarde vim a conhecer, como aquelles sonhos de madrugada, que nos -accodem quando não dormimos de todo e quando não estamos acordados ainda, -se distinguem da vida commum e dos acasos de todos os dias. - -Passava horas e horas a formar castellos no ar, vagos, indefinidos, -indeterminaveis, e evocando phantasmas de mundos que eu não conhecia, -mas que adivinhava. Dentro em pouco de tal fórma me costumei á reflexão -e ao apartamento, que fugia de todos nas horas que tinha livres, para ir -sentar-me sósinho a sonhar e a scismar. - -Apontavam-me no convento como modelo de bom porte, e diziam os frades aos -meus companheiros que o amor do estudo e da reflexão me traziam assim -embevecido. - -Não lhe sei dizer, o que me preoccupava, mas não era de certo o amor do -estudo, nem o desenvolver da vocação monastica, como a vaidade dos frades -lhes fazia suppôr. Tão entranhado estava em mim o amor da solidão, que -nas raras vezes, em que ia visitar os meus, pouco me demorava em casa. -Debalde a sollicitude materna me procurava deter; em vão, meu pae mesmo, -posto que pouco dado a ternuras, me dizia que era conveniente de quando -em quando descançar algum tempo; trabalho perdido era o de meu irmão em -convidar-me para os divertimentos dos outros rapazes; mal saia do meu -convento, desejava logo recolher, e estava fóra da minha cella, como o -peixe fóra d’agua. Porque dir-lhe-hei de passagem, a estima de Fr. João -fizera com que eu residisse n’um quarto junto do seu, e não no dormitorio -commum com os outros educandos e noviços. - -Oxalá tivesse eu ficado por uma vez n’aquella sepultura! - -Se não fossem as visitas a minha casa, talvez não tivesse experimentado -na minha vida o que era amor; mas tambem não teria comprado á custa de -tormentos indisiveis essas raras e amarguradas horas de sentir apaixonado. - -N’estas alturas da sua historia o tio Joaquim limpou o suor que lhe -corria a fio da testa, curvou-se para a lapasinha proxima, tomou uma -pouca d’agua nas mãos, bebeu soffregamente; renovou a respiração umas -poucas de vezes com força; carregou outra vez o cachimbo, accendeu-o e -passado algum tempo proseguiu na sua narração. - - -III - -Estudos que mais me preocupavam tinham feito com que, havia muito, não -fosse visitar os meus. Devendo em breve tomar ordens de prima tonsura, -este successo, que fatalmente determinava a minha vida trouxera-me -entretido, não poucos mezes. Finalmente déra o primeiro passo solemne, -e por conselho de Fr. João, parti a congratular-me com meus paes, da -conquista que alcançára: e a viver por algum tempo a vida de familia -antes que de todo me apartasse do mundo. - -Parti; e com a indifferença que de mim se apoderára, desde que me haviam -destinado para o convento, passei os humbraes d’aquellas portas que então -já eram minhas, e que não se me poderiam cerrar mais de todo, embora -quizessem. - -Grandes alegrias havia em minha casa. A minha chegada encareceu-as mais -ainda. Meu irmão estava breve para casar e a sua escolha fôra tanto do -agrado de meus paes, que os bons velhos não cabendo em si de contentes -não achavam mimos que lhe parecessem bastantes para com elles cercar a -esposa futura de seu filho. - -Margarida era o que em linguagem commum se chama um bom casamento. - -Filha unica devia herdar de seus paes uma fortuna consideravel. Os seus -haveres juntos aos bens de minha casa formariam a primeira propriedade da -provincia. - -Sorria a opulencia a meus paes e embevecia-os a contemplação de um futuro -placido e desassombrado de cuidados. - -Vi Margarida, e ao vêl-a, ao trocar com ella as primeiras palavras -conheci, que tinha no peito coração, e que me corria o sangue dos vinte -annos nas veias tremulas e agitadas. - -Margarida aproximava-se tambem dos vinte annos, mas toda a candura -infantil fulgurava n’aquelle rosto, que não desabrochára ainda. Não -tornei, por vida minha, a encontrar olhos que mais dissessem ao coração, -quando mesmo quasi sem querer fallar se volviam serenos entre um denso -veu de pestanas compridas e encurvadas. Toda a sua formosura estava nos -olhos, mas esses não cediam em primores a quantos hei visto em mulher -ou em pinturas. Fazia vontade de chorar olhar para elles, sentia se -devoção fitando-os muito. Porque não ha como a mulher para nos fallar do -ceu, de Deus, das coisas sagradas. Se creaturas assim corressem mundo a -resgatar almas, se para os mais apartados da religião dirigissem um olhar -d’aquelles dizendo magua, enthusiasmo e amor, e depois d’ahi os volvessem -ao ceu como rasgar caminho para a alma renitente, não haveria atheu que -resistisse, nem coração que se não dobrasse. - -Vendo Margarida lembrava-me do ceu, lembrando-me do ceu, accudia-me que -professára votos que me condemnavam a um perpetuo celibato. Um circulo de -espinhos me apertava a imaginação: e padecia, como nem os condemnados no -inferno poderiam padecer assim. - -Com a candura de creança Margarida reconheceu-me desde logo como seu -irmão. Não houve segredo que em mim não depositasse, esperança que me -não dissesse, planos de futuro sobre que me não ouvisse, queixumes de meu -irmão, que comigo não lastimasse. - -Filippe casava porque tinha de casar, estimava Margarida como podia -estimar uma irmã ou uma parenta, e nada mais. Margarida ao contrario não -via, não suppunha, que podesse haver homem, que valesse o seu noivo. -Amava-o com a cegueira, com o arrebatamento, com a loucura de um primeiro -amor. - -Não imagina como padeci com essas confissões arrebatadas, que me -denunciavam um mundo de felicidades, que nem sequer entrevêra. Não -imagina que dôr tão funda me ia direita ao coração, quando ella -animada por aquelle amor que a aquecia e transformava, olhando-me, com -as suas mãos nas minhas, com o seu halito a confundir-se com o meu, -transfundia-me a electricidade que irradiava, e descrevia-me o amor que -lhe chammejava na alma. - -Deixava-a como louco e ia, quantas vezes sósinho, de noite, correr por -aquelles descampados, andar muito sem saber por onde, cançar o corpo para -descançar o espirito, e para depois, cedendo á fadiga, poder cerrar os -olhos por algumas horas e tentar um somno mais attribulado mesmo do que -fôra a propria vigilia. - -Envelheci muito n’aquelles dias que duraram até ao casamento de meu -irmão. Via approximar-se a epocha e não acreditava, não sei que louca -esperança, não sei que desvario me dizia que tal casamento se não chegava -a realisar. Parecia-me um sacrilegio, que tanto amor fosse empregado em -tanta indifferença, parecia-me impossivel que Deus consentisse em tal. - -Sacrilegio era o meu amor, sacrilegio duas vezes, por que era de padre e -porque era por uma irmã. - -Pelo modo como o tio Joaquim narrava a sua historia conhecia eu quanto -elle teria padecido, e bem conforme ao que disséra antes de começar, -presentia que outros tormentos deveria haver maiores do que as minhas -duvidas e incertezas sobre o futuro, do que os meus sonhos e aspirações. - -Chegou entretanto o dia, proseguiu o velho, e não sem que a estrada -dolorosa tivesse sido para mim bem cheia de agonias e de provações. -Margarida não suspeitou nunca quanto eu a amava, nem sob o gelo -apparente, em que a tanto custo me sepultava, poude perceber os ardentes -lumes de um amor desvairado. Occasiões houve em que rasgava o peito com -as unhas até fazer sangue, em que tremia em convulsões para resistir, -em que me exforçava com sobrehumano impeto para não desatar em suluços; -outras em que tive de fugir para evitar a sua presença, porque já não -podia luctar com o impulso que me arrojava para os seus pés a dizer-lhe -quanto a amava. - -E tive de assistir impassivel a todos aquelles pormenores, que me -fallavam da felicidade futura de ambos, tive de escutar as singellas -narrações de Margarida sobre todas essas minuciosidades, que me -retumbavam na cabeça com estridor horrivel, porque em todas ellas -descortinava, ou pretextos para uma caricia, ou commodos para um -transporte, ou logar finalmente para aquelles dôces e para mim -desconhecidos mysterios do thalamo nupcial. - -Os primeiros clarões da alvorada no dia do casamento, encontraram-me -accordado ainda. Na vespera mesmo não acreditava que podesse chegar: via -raiar a manhã e cuidava estar sonhando. Pois Margarida havia de casar! - -Minha familia, sem comprehender nem de leve, porque não recata mais -cuidadosamente a abelha os seus lavores do que eu escondera de todos -e de tudo o meu insensato amor, minha familia, digo, só experimentava -uma pena: não ser eu quem casasse meus irmãos, porque a minha benção, -cuidavam os credulos paes, havia de forçosamente attrahir felicidades -sobre os esposos. - -Na verdade seria o ultimo sacrificio, depois do qual poderia dizer a -Christo: tambem sei o que é o Golgotha! - -Pareceu-me tudo um pesadello, persuadi-me que acordaria breve de -tão cruel illusão. Vi, ouvi, fallei, dirigiram-me perguntas, tornei -respostas, e não soube nem sei ainda o que vi, o que ouvi, o que me -perguntaram e como respondi. Dizem que pessoas ha que dormindo andam e -fallam, assim devia ser o estado em que estive todo o dia. - -Mal poude fugir á noite, corri, corri, e quando me vi bem longe, desatei -a chorar como me não lembrava em minha vida de ter chorado assim. Parecia -que me estallava a alma n’aquelles soluços, mas ao correr das lagrimas um -grande peso saia de sobre mim. Não sei como, mas chorando sempre achei-me -de repente deante das janellas do quarto de Filippe. Estavam illuminadas, -fitei-as com o pavor com que daria de rosto com a entrada do inferno; vi -passar dois vultos por dentro das vidraças, reconheci-os e com a razão de -todo perdida atirei comigo a terra, agarrei com ambas as mãos a cabeça, e -comecei a bater com a testa, como desesperado de encontro ao chão. - -Com a força da dôr perdi os sentidos e para alli fiquei banhado em -sangue, até que os raios do sol, já bem alto, me fizeram tornar em mim. -Olhei machinalmente para a janella. Estava cerrada ainda; senti nova -vertigem mas d’essa vez, sem me lembrar que ia banhado em sangue deitei a -correr, o mais rapido que podia, em direcção do meu convento. - -Disse que uma quéda no caminho me fizera o sangue que trazia, e -facilmente me acreditaram. A verdade, se o dissesse, é que fôra para -duvidar. - -Encerrei-me na minha cella, pretextei uma doença para não sair e pedi ao -meu bom mestre, que me ouvisse de confissão. Contei-lhe a minha historia, -tal como se passára n’esses dias e pedi-lhe que me accudisse, pois que -não sabia de mim. Ouviu-me o santo velho com lagrimas nos olhos, depois: - -—«Deus me perdôe se errei, disse-me, e mais ainda se fiz a tua -infelicidade, Joaquim, chamando-te para o serviço do Senhor. Mas era -impossivel que assim não fosse. Ha homens condemnados fatalmente pela -desgraça, e tu és um d’elles. Lê-se no rosto esse infeliz condão, -adivinhei-t’o eu, que tambem sei o que é padecer. - -Para dôres como a tua, para outras bem maiores ainda, se fizeram as -solidões dos claustros e o gelo d’estes vastos carneiros. Sepulta para -ahi a tua alma, emquanto não te sepultam o corpo, sob essas lages que -hoje calcas, e morre já que foste condemnado a não viver. Não julgues -cruel esta linguagem, é a que te póde fallar um amigo, quasi um pae.—O -que sômos nós outros, pobres frades, n’este mundo? Fantasmas erradios que -arrastamos a mortalha em vida, arrebentos solitarios, que medrâmos entre -pedras. Para nós não ha familia, não ha esposa, não ha filhos, tudo que é -morre comnosco, nada deixamos n’este mundo, que se lembre de que vivemos. - -Mais um numero n’uma pedra, um nome no livro do registro, alguns ossos -mais n’uma cova. Torna impenetravel o teu tumulo, calafata com o maior -cuidado qualquer orificio por mais pequeno que seja, que dê para o -exterior, e já que nada podemos ter com o mundo aparta-te d’elle de todo. - -Já que não pódes ser feliz esquece, já que não pódes gosar, não sintas.» - -Segui á risca o seu conselho. Graças á sua protecção deixaram me na minha -cella, mesmo porque, segundo dizia, assim me preparava pelo estudo e pela -meditação para ordens maiores. Passou um anno. Trabalhei, estudei muito -e como disse Fr. João da Soledade, se não fui feliz, não senti; não me -lembrei e não padeci. - - -IV - -O reinado de D. Miguel approximava-se da sua terminação, e a tempestade, -que se formára n’uma pequena ilha no meio do oceano, rebentára já sobre -todo o paiz. - -Armava-se a nação em peso; guerrilhas de um e outro partido percorriam as -povoações e juntavam aos horrores da guerra civil o assassinato, o roubo, -o incendio, o forçamento e o sacrilegio. - -Bem esmorecido era o ecco, que na minha cella repercutia; mas ainda assim -por elle avaliava das borrascas, que se desencadeavam fóra. Por quanto -ainda que procurasse apartar-me das coisas d’este mundo, por tal fórma -andavam todos preoccupados com os acontecimentos, que se iam succedendo -uns após outros com rapidez incrivel, que era impossivel deixar de -perceber, que havia graves casos, a attribularem a humanidade. - -Fallaram-me de combates, de mortes, de incendios, de devastações; mas tal -eu estava, que me era tudo indifferente. Antes, porém, occasiões havia em -que, confesso-lh’o, desejava que um terremoto subvertesse o mundo para -que na geral destruição encontrasse vingança correspondente ao que me -haviam feito padecer. - -Acordei das minhas meditações uma noite, ao rebate dos sinos da povoação -proxima e ao dobrar sinistro e precipitado da campa do nosso convento. -Ruidos desusados eccoavam por aquellas abobadas, passos de quem fugia, -vozes de quem pedia soccorro, supplicas, choros, imprecações tudo se -misturava e confundia. - -Estava para me levantar do estudo e para saber a causa de semelhante -alvoroto; quando a figura magestosa de Fr. João da Soledade me appareceu -á porta da cella aberta de par em par. - -—Ergue-te, Joaquim, disse-me, toma as tuas sandalias e o teu bordão de -viajante e caminha! - -Aquella voz fóra d’horas, aquellas palavras solemnes produziram-me -effeito não inferior ao que deverá produzir a trombeta final no Valle de -Josaphat. - -—Que quer de mim, meu pae? - -—Acabaram-se os dias de paz, chegaram as horas das provações e da lucta. -Os servos do Senhor são perseguidos de terra em terra como animaes -ferozes em montaria. Os impios não respeitam nem as abobadas sagradas, -nem os vasos da eucharistia. Mesmo com a hostia sacrosanta na mão será o -padre perseguido se assim o encontrarem! - -A espada de Malco substitue a palavra de amor. Volta a egreja aos tempos -da perseguição e do martyrio; segue-nos, Joaquim, as aguas do diluvio -avançam cada vez mais. - -Fr. João estava profundamente impressionado. A paixão politica ateava-lhe -o zelo religioso, o homem do seculo trazia para junto dos altares as -suas affeições mundanas, e das crenças fazia evangelhos. Pela minha -parte, quasi que o não comprehendia. A linguagem emphatica, que -estava empregando, destoava muito da singelleza em que educára o meu -espirito reflexivo e concentrado. Fr. João com o olhar chammejante, o -gesto altivo, o rosto illuminado por um enthusiasmo mais guerreiro do -que apostolico, lembrava-me um d’aquelles monges prégadores de eras -affastadas, que a minha imaginação tivesse feito surgir dos livros -abertos deante de mim, e que de espada na mão direita, e crucifixo na -esquerda, queriam abrir o caminho da redempção com o ferro destruidor, -atravez das hostes dos infieis. - -—Mas, meu pae, que aconteceu? - -—Aconteceu, que os exercitos invasores se approximam talando campos e -povoações; aconteceu, que na sua marcha amaldiçoada não ha propriedade -que resista, cabellos brancos que se respeitem, honra de mulher que -se recate; aconteceu que aos que cedem, espoliam; aos que não cedem, -assassinam; aconteceu, que fallam em levantar mão sacrilega contra as -muralhas defesas a profanos d’este venerando templo. Os phariseus em -motim pedem o sangue dos justos. Deixemos a habitação de paz, d’onde nos -expulsa a malevolencia dos impios, e vamos, como os apostolos, de terra -em terra, de monte em monte, de caverna em caverna, onde suas vozes não -cheguem, onde seu braço não alcance, levantar sobre a pedra tosca e rude -a cruz do sacrificio, a hostia da redempção. Vem comnosco filho, vem -percorrer o teu Getsemani. - -Entretanto o sino grande continuava a dobrar com som soturno, os -gritos da povoação disperta em sobresalto, os passos precipitados dos -frades, que desamparavam, gemendo, as cellas em que haviam vivido por -tanto tempo, e onde esperavam descançar para sempre, o som ameaçador e -irregular de um tiroteio ao longe, davam áquella scena um caracter que -impressionava profundamente. Pela minha parte, parecia-me que um novo -pesadello me vinha cortar a somnolencia em que demorava havia tanto; -resistia ao movimento e prostrado de animo e de corpo, preferia que me -matassem n’aquelles logares a ir tentar nova sorte, n’esse mundo a que -tinha tão grande horror. - -Fr. João, que nos momentos solemnes parecia transformar-se, approximou-se -de mim, tomou-me por um braço, fez levantar-me contra minha vontade, e -bradou-me com voz terrivel: - -—Serás tão ingrato, que desampares teus irmãos no momento do perigo? -Aqueceria eu por ventura a serpente no meu seio?—Seria a prova mais -cruel, porque te quero como filho; mas bem merecido castigo, por ter -deposto a minha ternura n’essa vil argila. Fica-te para ahi, e fique a -minha maldição comtigo. - -E com tanta força me abalou, que me ia lançando por terra. Firmei-me -porém, e respondi-lhe: - -—Não, meu pae, não sou ingrato. Seguil-o-hei como a sombra segue o corpo, -como a alma segue o pensamento. Era o aspecto do mundo que me espavoria; -voltára tão mal ferido do combate, que não seria para extranhar que -vacillasse agora antes de vestir de novo as armas. Sabe meu pae, que -me não arreceio nem da morte nem das provações; mas sabe tambem quanto -me custa ir fitar de novo essa gente, que tão grandes males me causou. -Eis porque hesitava. Aqui me tem prompto para tudo, e creia que me não -apartarei do seu lado. - -O velho estendeu-me os braços, e com as lagrimas nos olhos: - -—Sempre o acreditei assim, meu filho: abracemo-nos, que talvez seja -esta a ultima vez. Agora a caminho! Vamos reunir-nos a nossos irmãos e -infundir-lhes a coragem, que nos fallece. Irmão, filho; meu filho, animo. - -Como um rebanho de ovelhas, que ao presentir o lobo se reunem em mó, e -se apertam tanto, como se umas quizessem entrar nas outras; assim os -frades se apinhavam junto ás portas do convento, espavoridos, tremulos, -espalhando vistas atterradas para todos os lados, e escutando os -pavorosos sons d’alarme, que estrugiam os ares. - -Fr. João da Soledade assumira na communidade a preponderancia, que -a intelligencia forte e arrojada exerce sempre n’uma corporação -naturalmente timida e indecisa. A sua presença serenou por um pouco os -animos. - -Procurando dar á voz uma entoação firme, cuidou o velho em confortar -os seus companheiros n’aquelle extremo lance, com esperanças de melhor -futuro; em que elle acreditava menos do que ninguem. - -As ultimas palavras porém, foram cobertas pelos clamores de victoria, -pelos gritos de angustia e pelos tiros de espingarda, cujos sons -misturados e confundidos pareciam precipitarem-se sobre nós em turbilhões -e redemoinhos como o vento da tempestade. - -Os religiosos estremeceram, e pensaram em fugir cada um por seu lado, -a voz de Fr. João mais fortalecida e mais segura, tal era o poder da -vontade n’aquella alma de ferro, alentou-os por momentos; entretanto -os clarões do incendio tingiam de vermelho o céo e o rasto do fogo -annunciava a approximação dos guerrilhas. - -Em pouco avistaram-se no cimo de um monte proximo os inimigos, deante dos -quaes fugiam em debandada alguns miliciannos da terra, que por momentos -tinham pensado em bater-se. Um grito unisono partiu da bocca das creanças -e das mulheres, ao verem approximar-se aquelles homens sem piedade, -avidos de sangue e de exterminio; os frades transidos de medo entoaram, -erguendo os braços aos céos em signal de entranhada angustia, o psalmo -dos agonisantes. - -As primeiras palavras denunciaram aos guerrilheiros a nossa presença; -ouvimol-os distinctamente clamar:—a elles, aos mandriões dos frades,—e -apontaram as espingardas. - -Ao vêl-os fazer pontaria Fr. João exclamou rapido: - -—Por terra, prostemos-nos, irmãos, senão estamos perdidos! Os frades -obedeceram immediatamente; o susto mesmo deitava-os no chão; os tiros -partiram; mas as balas silvaram por cima das nossas cabeças, e uma só -feriu um dos religiosos, que tinha ficado mais distante. - -Passada a descarga ergueram-se todos, e como bando de pombas a que atirou -o caçador, deitaram a fugir em diversas direcções, caindo, erguendo-se, -de rastos, gritando, gemendo, mas correndo quanto podiam. - -Junto ás portas do convento desamparado, só ficavamos, depois da primeira -descarga dos guerrilheiros, Fr. João da Soledade e eu. - - -V - -Entrados apenas na povoação, começaram os guerrilheiros a saquear e a -devastar tudo. Do logar, em que estavamos, podia-se conhecer de seus -movimentos pelo vaguear dos archotes, pelo soltar de gritos afflictivos, -e pelas columnas de fumo, que se ennovellavam aqui e além, sobre os -telhados das habitações a que lançavam fogo, quando a preza os não -satisfazia. - -A lembrança de Margarida, que não me tinha desamparado nunca, -confesso-lh’o, nem mesmo quando mais fervorosas supplicas levantava ao -céo, accudiu-me ao pensamento. - -—Meu pae, exclamei, fujamos, antes que caiam sobre o convento e nos -surprehendam aqui; sigâmos pela estrada, que vae por fóra da povoação, -e vejamos se podemos, esta noite ainda, chegar a nossa casa, avisaremos -depois sobre o que temos que fazer. - -—Vamos, filho, e o Senhor se compadeça de nós. - -Não era o amor á vida que me apartava d’aquelles logares. Por minha -vontade ficaria sepultado sob as ruinas do convento e fizera da minha -cella um sepulchro. Mas a essas horas quem sabe o que seria de Margarida! -Tremia só de o pensar, e o quadro que tinha ante os olhos mais me -apavorava ainda; porque d’ahi concluia dos horrores, que ella poderia -ter presenciado, se é que d’elles não tivesse sido victima. - -Não imagina nem por sombras o que seja uma guerra civil. Por muito que -lhe contem, tudo fica muito abaixo da realidade. Aquella porém era guerra -de exterminio. - -Desencadeavam-se odios, que estavam em incubação, havia dezenas de -annos. Aggrediam-se visinhos, parentes, amigos e irmãos, e aggrediam-se -tanto mais cruelmente, quanto melhor sabiam, onde haviam de ferir. Não -poupavam ninguem, não havia recanto que valesse, não havia esconderijo -que salvasse, não havia nem idade, nem sexo, que pozessem a coberto do -insulto, da affronta, da violencia, tanto mais crueis quanto partiam dos -que dois dias antes comiam á mesma mesa, e bebiam no mesmo copo. - -Ao romper da manhã estavamos deante da casa de meu pae. Tinham-me -preparado para terriveis surprezas as scenas, que presenceára pelo -caminho; o que vi, porém, sobrelevou muito ao que eu esperava. - -Tudo em terra, tudo saqueado, tudo roubado, e os cadaveres de meu pobre -pae e de minha velha mãe a meio da casa, crivados de feridas... - -As lagrimas suffocaram o velho narrador, que teve de descançar por -momentos antes de poder proseguir. - -—Descance, tio Joaquim, disse-lhe já quasi arrependido da minha -indiscreta curiosidade, não continue, custa-lhe tanto... Outra vez me -contará o resto. - -—Não, para quê? Tem de ser. Não é o contar que custa, é lembrar; e raras -vezes me esqueço. Isto já passa, um momento de descanço e continúo. - -Tinham entrado em casa, e dado rigorosa busca para encontrarem os -thesouros; que, segundo era fama na terra, havia em casa. Desesperados -por não acharem o que esperavam, voltaram-se contra os dois velhos, que -por mais que quizessem não os podiam satisfazer; por quanto apenas havia -começado a guerra tinham escondido n’outra parte o seu dinheiro. - -Não lhe acreditaram nos juramentos, e mataram-nos barbaramente para se -vingarem das suas negativas. - -—E Margarida? - -—Havia dias que partira para uma fazenda d’ali distante em companhia de -meu irmão, salvára-se da morte, e da deshonra. - -—Pois quê?... - -—A tudo se atreviam aquelles homens implacaveis. Não havia barreira que -se lhe puzesse deante, nem consideração, que os demovesse, pareciam -furiosos. - -Pela convivencia soube o que eram esses desalmados, a quem o amor da -patria servia de pretexto, e o amor da rapina estimulava unicamente. - -—Pois o tio Joaquim?... - -—Fui guerrilheiro tambem. A vista dos cadaveres de meus paes operou -em mim uma revolução pavorosa. Tive sêde de sangue, de destruição, de -vingança. Enterrei os dois velhos sem derramar uma só lagrima. A febre do -exterminio requeimava-me por dentro, cravei uma cruz sobre a cova onde -ficaram, unidos como o haviam sido sempre, e jurei que não descançaria -emquanto tivesse forças para uma espingarda. - -Fr. João, que era perseguido tambem como lobo, porque todos o conheciam, -juntou-se comigo; reunimos os mais enfurecidos do logar, aggravámos as -feridas dos que mais haviam padecido, e levantámos uma guerrilha das mais -afamadas n’aquelles tempos, e bem conhecida pelo nome de—guerrilha do -frade.— - -Luctámos, luctámos com encarniçamento sem egual, e parecia que as forças -se nos augmentavam com a lucta. Andei n’aquella vida errante perto de um -mez, sem dormir uma noite somno que aproveitasse, sem ter duas horas de -descanço, sem ter um momento sequer para pensar no passado, ou no futuro. - -Seguiam-se os combates, as embuscadas, as fugas, os ataques, sem -descontinuarem, sem interrupção alguma. Era preciso homens de ferro para -aquella vida, e entretanto, de tal fórma o furor nos trazia incendidos, -que ao cabo do mez parecia que mal haviamos começado. - -Um dia ao amanhecer, um dos nossos, que andava por fóra veiu avisar-nos -de que outra guerrilha se approximava, da qual se contavam proezas -inauditas. - -Esperámol-a e saimos-lhe a caminho, desejosos de nos medir com esses tão -celebrados inimigos. - -Durou quatro horas o fogo, batemo-nos como desesperados de parte a parte, -até que fugiram em debandada, deixando o campo juncado de cadaveres. Dos -nossos a perda fôra consideravel tambem, e Fr. João agonisava com uma -bala nos pulmões. Saia-lhe da bocca sangue e espuma, soluçava que fazia -horror ouvil-o, e expirou-me nos braços, procurando debalde articular -algumas palavras. - -Corremos a revistar os mortos que os contrarios haviam deixado -insepultos. Entre os cadaveres reconheci meu irmão!... - - -VI - -Estava castigado do que havia feito como guerrilheiro; a minha campanha -estava concluida. Tinha corrido ás armas para vingar a morte de meus -paes, e arrojava a espingarda homicida diante do cadaver de meu irmão. - -Triste periodo da minha vida, entre duas sepulturas; e sepulturas dos -meus mais proximos parentes! - -A guerra estava a acabar. - -Tinha-se assignado a convenção de Evora-Monte, por toda a parte os -vencidos depunham as armas, e procuravam salvar-se das represalias pela -fuga, ou pelo homisio. - -Caminhei sem saber como, nem por onde, para fugir ao ensanguentado -espectro de meu irmão, que parecia perseguir-me, trazendo apoz si -as victimas de quantos haviam perecido aos nossos tiros; os meus -companheiros tresmalharam-se em diversas direcções. Separámo-nos, como -nos haviamos reunido, sem pena nem saudades. Apesar de termos vivido -tanto tempo juntos, quasi que nem nos conheciamos. - -Á noite entrei na povoação. - -Bati a uma casa, que, semelhante a sentinella perdida, estava mais -affastada das outras. Abriram-me a porta, soltaram um grito ao vêr-me: -eu ia dando no chão. Reconheci Margarida. - -—E Filippe? - -Pareceu-me que assim devera ser a voz do Senhor, quando bradou ao -primeiro fratricida: - -—Cain, que fizeste de teu irmão Abel? - -Não tive forças para negar, exclamei-lhe em resposta: - -—Morto! - -E desatei a soluçar, escondendo o rosto entre as mãos. - -Á minha vista parecia ter adivinhado tudo com essa lucidez, que dá o -sentimento. Eu não podéra resistir á voz da consciencia, que parecia -accusar-me pela bocca de Margarida. - -A desgraçada viuva caiu fulminada. Quando tornou a si tinha enlouquecido. - -Aquelle viver de sustos e de inquietações constantes de tal fórma lhe -haviam excitado o espirito, que um golpe tão profundo assim rapido, quasi -inesperado, achou-a sem forças para o aguentar. Ao menos deixava de -padecer. - -Durou alguns mezes ainda. E tudo quanto até então eu tinha experimentado, -poderia dizer se brinco de creanças comparado aos tormentos que aturei -durante esses mezes. - -Não soube nunca onde meus paes tinham escondido os seus bens. Estavamos -pobres, e Margarida, que se definhava a olhos vistos, reclamava cuidados -e despezas que me obrigaram a vender quanto possuia, e a trabalhar de -noite e de dia para acudir á pobre enferma. - -Amára Margarida com toda a vehemencia do primeiro e ultimo amor. A -paixão mais energica do homem, a que o arroja ás maiores emprezas, ou o -precipita até ás acções mais vis, tinha rebentado em mim com toda a força -ao vêr aquella santa e boa rapariga. - -Aprendera com ella o que era amor, e soffrera tanto mais, quanto via -que era por outro que ella experimentava sentimento egual ao meu. Agora, -porém, tinha-a a meu lado sempre; mas como morta ou peor ainda, porque -horrorisavam e arrefeciam mais aquelles transportes de loucura, do que -os gelos e o pavor da sepultura. Ouvi-a de noite e de dia chamar por um -nome que não era o meu, e cada vez que lh’o ouvia, parecia que com elle, -d’aquella bocca pela qual para que desabrochasse n’algumas palavras de -amor, eu déra a vida, saía uma accusação, um anathema contra mim. - -O nome do meu rival, de quem me não podia vingar porque estava morto, -esse nome que ouvia a todos os momentos, era o de meu irmão, morto pelos -meus, talvez por mim; e eu vivia para que Margarida me recordasse a todos -os momentos: a mesma bala que commettera um fratricidio, enlouquecera a -unica mulher que havia amado. - -Adivinha o resto; nem mesmo eu teria forças para continuar por muito -tempo. - -Margarida morreu. Eu estava só, sem meios, cercado de terriveis -recordações. Fugi a esse mundo de pavorosos espectros, e vim por ahi -abaixo procurar no trabalho o esquecimento. Tenho trabalhado; mas não -poude esquecer ainda!... - - -VII - -O tio Joaquim acabára de fallar e parecia ouvil-o ainda. Tinham ficado -resoando-me as suas palavras, como a pancada do sino depois de tangido, -e que por muito tempo vae abalando o espaço. - -Já de muito anoitecera. Com a noite começára a carregar-se o céo, a -encapellar-se o mar, a desencadear-se o vento. Rugia a tempestade, quando -o velho concluiu. O ribombo do trovão abafou-lhe as ultimas palavras. A -natureza parecera querer accrescentar um côro magestoso áquella eloquente -manifestação. - -Lancei os olhos em roda; levantei-me, dei o braço ao narrador, e -começámos a descer pela encosta com extrema difficuldade, porque já fazia -muito escuro. - -O tio Joaquim não dava por coisa alguma, deixava conduzir-se como uma -creança. Não parecia d’este mundo. - -Ao voltar para uma azinhaga que no fim da praia cortava para a estrada, -volvi os olhos para o mar, que cada vez se embravecia mais, e vi á luz de -um relampago o sitio, onde sentado havia pouco, tinha ouvido a historia -do velho. - -Comparei aquellas duas tempestades: a que ribombava surdamente na alma do -velho, e a que estalava nos ares levantando em escarceus a agua do mar, e -varrendo a terra com o furioso soprar do furacão. - -Quanto era superior o padecimento do velho!—E entretanto d’ali a poucas -horas a natureza descançava d’aquella convulsão violenta; mas o tio -Joaquim continuava a padecer, suspirando pela tardia hora do repouso. - -Só a natureza póde descançar porque é immortal; para o homem o descanço -chega, apenas, quando lhe começa a immortalidade. - -Finalmente o tio Joaquim tambem descançou. - - -FIM - - - - -NOTAS - - -[1] Na manhã do dia seguinte áquelle, em que este pequeno conto apparecia -publicado, recebia o auctor uma carta do sr. A. F. de Castilho, em que -dizia: _amigo, pelos seus retratos de familia receba um bom abraço do -seu etc., etc._ Estas poucas palavras valeram para a pessoa a quem se -dirigiam, mais do que largos e empolados juizos criticos. Regista-as -aqui, não por vaidade, não por desvanecimento; mas só como um testemunho -da verdadeira estima e profunda gratidão, que tributa ao grande poeta. - -[2] S. Lucas—Cap. 6.º—V.º 25 e 26. - -[3] S. Matt.º Cap. 6.º V.º 28 30 31 32 33 34. - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Os contos do tio Joaquim, by -Rodrigo Botelho da Fonseca Paganino - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS CONTOS DO TIO JOAQUIM *** - -***** This file should be named 63317-0.txt or 63317-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/3/1/63317/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions -will be renamed. - -Creating the works from public domain print editions means that no -one owns a United States copyright in these works, so the Foundation -(and you!) can copy and distribute it in the United States without -permission and without paying copyright royalties. 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It exists -because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from -people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. -To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 -and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. - - -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive -Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at -http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent -permitted by U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. -Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered -throughout numerous locations. Its business office is located at -809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email -business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact -information can be found at the Foundation's web site and official -page at http://pglaf.org - -For additional contact information: - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. 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