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-The Project Gutenberg EBook of Os contos do tio Joaquim, by
-Rodrigo Botelho da Fonseca Paganino
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
-almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
-re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
-with this eBook or online at www.gutenberg.org/license
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-
-Title: Os contos do tio Joaquim
-
-Author: Rodrigo Botelho da Fonseca Paganino
-
-Release Date: September 27, 2020 [EBook #63317]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS CONTOS DO TIO JOAQUIM ***
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-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
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-15.º VOL. DA COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
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-OS CONTOS DO TIO JOAQUIM
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-[Illustration: RODRIGO PAGANINO]
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- COLLECÇAO ANTONIO MARIA PEREIRA
-
- RODRIGO PAGANINO
-
- OS CONTOS DO TIO JOAQUIM
-
- 3.ª EDIÇAO
-
- [Illustration]
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- LISBOA
- PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
- LIVRARIA EDITORA
- _50, 52, Rua Augusta, 52, 54_
- 1900
-
- Typographia da Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
- _11, Beco dos Apostolos, 1.º_
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- Prefacio da 2.ª edição 5
-
- I—O tio Joaquim 13
-
- II—O romance de um sceptico d’aldeia 21
-
- III—A proposito da missa do dia 37
-
- IV—Os domingos de fóra da terra 49
-
- V—Os retratos de familia 59
-
- VI—O fructo prohibido 69
-
- VII—A gallinha da minha visinha 95
-
- VIII—O guarda do cemiterio 107
-
- IX—Como se ganha uma demanda 133
-
- X—O sexto mandamento 155
-
- XI—O Thomaz dos passarinhos 173
-
- XII—A historia do narrador 199
-
-
-
-
-PREFACIO DA 2.ª EDIÇÃO
-
-Rodrigo Paganino e a critica
-
-
-Um livro apparece, ao fugir do anno! Quando o sol está descoberto, quando
-tudo se cala no campo, como se o frio gelasse os menores ruidos, quando
-um somno lethargico se apodera das plantas, e as esperanças, a alegria,
-as flôres desapparecem da terra, um mancebo atira aos destinos o seu
-primeiro livro, atravez dos nevoeiros de dezembro!
-
-Depois, como se fosse ainda pouco esta especie de ironia á sorte, _habent
-sua fata libelli_, declina a gloria de auctor sobre um pobre homem a quem
-conhecera em tempos, e que não tinha de litterato senão saber guiar uma
-junta de bois, conduzir a rabiça de um arado, ser grande menino na poda
-e na empa, e, para fazer um pé de lagar ou erguer uma meda de pão, dar
-conselhos apenas comparaveis aos do _Archivo Rural_!
-
-Tio Joaquim se chamava esse amigo, que, depois de narrar muitas historias
-a Rodrigo Paganino, lhe disse poucos momentos antes de morrer:—«Agora
-acabaram-se os contos. Lembre-se de mim quando se lembrar d’elles; é a
-herança que lhe deixo.» Para outro qualquer, este legado teria algum
-parentesco com o de Rebollo pae, que na hora extrema concedia a seu filho
-a certeza de lhe deixar uma boa cabeça; mas Rodrigo Paganino, para honrar
-a memoria do velho, entendeu que devia dos contos d’elle fazer um bom
-livro, e foi o que fez!
-
-Ha qualidades n’esta obra que bastam por si sós para firmar a reputação
-de um escriptor. Um estylo espontaneo, claro, sem arrebiques nem
-pretenções, mas airoso, facil, cheio de côr, de propriedade, e, o que
-mais é, de razão. Conhece-se apenas que é um mancebo quem escreve, pelos
-dotes de imaginação, pela graça das divagações, pelo tom breve das
-phrases; a idéa é sempre séria, prudente, exacta. Não se deixa levar
-de extravagancias que tendam a affectar excentricidade; é excentrico
-ás vezes sem se sentir, excentrico com chiste, excentrico com feição.
-Não planeia os effeitos, não prepara a phrase final, não hesita ante
-um adverbio por ser commum; concebe a acção, dispõe-a, depois deixa-se
-ir escrevendo, com uma rapidez, com uma veia, com uma facilidade de
-elaboração, que julga sentir-se a penna a conduzil-o, em vez de o sentir
-a conduzir a penna. E isto é o que dá a principal individualidade do
-livro, é este o segredo d’aquella maneira regular e serena, que só
-procura encantos na sua simplicidade. Faz-me lembrar os primeiros
-livros d’Alphonse Karr, em que elle escrevia ao publico como a um amigo
-desconhecido, cheio de familiaridade e de confiança. Rodrigo Paganino é
-d’esta familia de talentos; não procura impôr-se ao leitor; simplesmente
-trata de se identificar com elle. O merecimento dos _Contos do tio
-Joaquim_ não consiste na maior ou menor novidade da fabula, nos effeitos
-de surpreza mais ou menos habilmente preparados, mas na pintura dos
-caracteres e dos costumes. Cada um dos seus personagens é desenhado com
-tanta espontaneidade, que fica vivo, real, palpavel, e toma o seu logar
-n’esta grande familia de seres creados pela arte, mais verdadeiros do
-que a verdade, particulares e geraes, individuaes e humanos, corpos de
-carne transfigurados em estatuas. Ha escriptores para quem a rapidez de
-trabalho é uma condição favoravel, e com o auctor d’este livro julgo
-dar-se este caso; se elle escrevesse com uma pachorra de academico, faria
-talvez um livro indigerivel. O seu estylo é claro, preciso, e franco; e,
-a exceptuarmos algumas raras passagens em que apparece o auctor, cada
-personagem falla perfeitamente a linguagem do seu caracter.
-
-Encontrei-me com o auctor dos _Contos do tio Joaquim_, ao entrarmos na
-vida; fizemos aulas juntos, e juntos fizemos versos; tinhamos quinze
-annos então:—hoje encontramo-nos de novo, cada um de nós, como outr’ora,
-com o seu livro na mão, mas a differença é que do livro que levamos hoje
-somos nós o auctor! Isto é mau, ou, pelo menos, bom não é. Mais valia
-talvez ser estudante ainda. Ao vêr-se no frontespicio de uma obra o nome
-do que a escreveu, qual de vós cogita que foi á força de trabalho, de
-paciencia, de miseria supportada heroicamente, de privações e de luctas
-de toda a especie, que ao fim de alguns annos, ao vencer os ataques da
-critica e as invectivas da inveja, teve um homem o direito de escrever
-o seu nome na primeira pagina de um volume, esquecendo-se de que o
-injuriaram no seu talento, na sua vida, no seu coração, e que o seu peito
-serviu de alvo luminoso ás flechas atiradas de noite por uma cambada de
-archeiros invisiveis?!
-
-Para viver tranquillo e feliz, é melhor fechar hermeticamente a porta, e
-não abrir a quem bater, sobretudo se fôr a gloria. Apesar da sua mascara
-de anjo, não passa do esqueleto vestido de lantejoulas; namora-se uma
-pessoa d’ella, para se arrepender depois centos de vezes; em todo o
-caso, hoje que o barco vae n’agua, como dizem os maritimos, é continuar
-a remar! Que atraz dos _Contos do tio Joaquim_ venha outra obra, na
-certeza de que, digo-o sem cumprimento ao auctor, o despedir-se o anno
-por este livro é o sufficiente para deixar lembranças na litteratura.
-
- Dezembro de 1861.
-
- JULIO CESAR MACHADO.
-
- * * * * *
-
-Appareceu um finalmente, um livro, cujo auctor abençoei com todas as
-veras do meu coração. Infeliz! Morreu já.
-
-A meu vêr, desappareceu com elle um dos mais promettedores talentos de
-romancista popular que teem surgido entre nós. O auctor era _Rodrigo
-Paganino_, o livro _Os contos do tio Joaquim_.
-
-A imprensa havia recommendado pouco este livro.
-
-Tem d’esses descuidos a imprensa. Li-o por isso sem a menor prevenção
-favoravel. Mas era justamente um livro assim, que Reine Garde pedia; é
-d’este genero de litteratura que o povo precisa; é por esta fórma que se
-resolve a importante questão das subsistencias intellectuaes, não menos
-valiosa do que a que occupa as attenções dos economistas.
-
-Pouco tempo antes, discutia-se primazias entre os Lusiadas e o poema
-do sr. Thomaz Ribeiro; tratava-se de tirar a limpo qual dos dois seria
-preferivel como livro para leitura nas aulas de instrucção primaria.
-
-Todos se lembram d’essas renhidas controversias. Eu por mim nunca
-pude tomal-as a sério n’aquelle ponto. Achei sempre muita graça ao
-empenho em que via mettidos os criticos. Quem se podia convencer
-sériamente que qualquer d’aquelles excellentes livros fosse proprio
-para as intelligencias infantis dos pequenos leitores? Um com o seu
-sabor classico e epico e suas comparações mythologicas, o outro com o
-seu pronunciadissimo caracter de lyrismo e suas imagens romanticas e
-arrojadas, e ambos a suscitarem fundamentadas apprehensões nos mestres
-por um ou outro episodio que, baldados os esforços dos criticos, ninguem
-poderá considerar como demasiado edificantes.
-
-Ora, quando eu li o livro de Paganino, pareceu-me encontrar n’elle
-justamente tudo o que debalde os criticos procuravam nos outros. Aquelle
-sim que era um livro verdadeiramente escripto para o povo e para as
-creanças! livro em que a attenção se prende pela verdade, em que o gosto
-se educa pelo estylo, em que o sentimento se cultiva por uma moral sem
-liga, porque é a moral do decalogo e do evangelho; livro escripto segundo
-o programma estabelecido por Lamartine n’aquelle bello prefacio da
-_Genoveva_ e talvez mais fielmente observado ainda por o nosso romancista
-do que por o proprio legislador. Lembra-me bem que o li a um rancho
-de raparigas do campo e pude observar como ellas o comprehendiam sem
-custo. Não havia uma palavra que ignorassem, uma maneira de dizer que
-lhes causasse estranheza, as imagens faziam-as sorrir pela exactidão,
-como sorrimos ao vêr o retrato fiel d’uma pessoa conhecida; não eram
-caracteres extravagantes, paixões excepcionaes, situações inesperadas
-e unicas o que assim lhes absorvia a attenção; pelo contrario, era por
-aquelles personagens pensarem, sentirem e viverem como ellas, que tanto
-lhes interessava o livro.
-
-Foi uma grande perda a de Rodrigo Paganino! E, vejam, aquelle volume,
-escripto para se lêr no campo, como eu o li, junto á fogueira que crepita
-no lar, sobre a ponte rustica que atravessa o ribeiro ou no degrau da
-ermida que, elevando-se no topo do monte, domina a aldeia toda, passou
-quasi desapercebido no mundo das lettras. Não suscitou esse murmurio
-litterario, que acompanha certas obras felizes; murmurio em que se reune
-o louvor á maledicencia, a hyperbole laudatoria á calumnia escandalosa,
-os guindados elogios ás censuras exageradas. Foi um livro annunciado
-apenas, lido por poucos, comprado por menos, livro cujo auctor não tem
-sequer o seu retrato gravado na _Revista Contemporanea_ e que por tanto
-quem quer tem o direito de desconhecer. E apezar de tudo isso, aquelle
-livro, como disse não sei quem a respeito de não sei que obra, era alguma
-coisa mais do que um bom livro: era uma boa acção!
-
-Acceitem-se-me estas palavras, não a titulo de critica litteraria,—Deus
-me defenda de pretenções a esse genero—, mas como um tributo rendido á
-memoria de um escriptor infeliz a quem sou devedor de algumas horas de
-incomparavel prazer, que a sua leitura me proporcionou.
-
- Maio de 1861.
-
- JULIO DINIZ.
-
- * * * * *
-
-Rodrigo Paganino morreu ha pouco menos d’um anno, deixando de si, como
-homem, muita saudade em muitos; e, como escriptor, um livro precioso,
-e não somenos inedito. Morreu, passou, desappareceu d’entre amigos,
-levantou-se aos vinte e oito annos, como Gilbert, do banquete da vida,
-trocou a purpura do genio pela mortalha funebre; e a raça enorme dos
-papagueadores, dos chroniqueiros, dos assopradores encartados de
-reputações e de nomes, quando o via passar para a sua cova tartamudeou
-quatro palavras de _requiem_, como se a terra se tivesse defecado d’algum
-sandeu ou estadista.
-
-Apenas Bulhão Pato n’uma breve noticia cheia d’aquella eloquencia que
-nasce dos mais entranhados affectos, apenas elle espargiu sobre a
-sepultura d’aquelle moço algumas flôres de saudade.
-
-Isto é a verdade, verdade amarga é bem certo, porque attesta a
-deslealdade d’esses applausos que por ahi resoam, o immerecido d’esses
-triumphos que por ahi campeam, o nada d’essas glorias que por ahi
-balzonam, o facticio d’essas proeminencias que por ahi se decretam.
-
-Em 1861 Rodrigo Paganino publicou os seus _Contos do tio Joaquim_. O
-que este livro significa, que o digam com a mão na consciencia todos
-esses criticos, florentissimos e profundos, que entendem por ahi de
-litteratura. Para mim, o que elle importa, é nada menos do que a
-implantação, entre nós, da litteratura popular. O nosso povo, quer dizer,
-a porção menos cultivada e mais numerosa da sociedade, carece de livros
-proprios. Rodrigo Paganino sentia, comprehendia esta falta; e foi no
-intuito, senão de a remediar completamente, ao menos de a attenuar pela
-sua parte, e de chamar a egual trabalho os obreiros do futuro, que elle
-escreveu o seu livro.
-
-Ouçamol-o: «Entre nós, n’estes ultimos tempos sobre tudo, a litteratura
-tem desprezado um tanto o gosto popular. Não acontece, porém, o mesmo em
-França, em Allemanha, e nos demais paizes, em que, segundo nos consta, se
-cura d’estas coisas e se lhes attendem os resultados.»
-
-Mais abaixo continua:
-
-«Os _Contos do tio Joaquim_ pertencem ao genero das obras de Emilio
-Souvestre, e deveriam tomar logar, pela natureza e não pelo merito,
-proximo d’aquella mimosa collecção que elle intitula—_Au coin du feu_.»
-
-Este é que é o valor litterario da obra; este é que é o seu alcance
-philosophico.
-
-Hoje, a primeira condição de quem escreve, é ser essencialmente popular.
-Quando o povo não se eleva, como na Allemanha, á comprehensão do bello, é
-forçoso que o escriptor desça até elle, que lhe desenvolva a razão, que
-lhe eduque o espirito, que lhe vibre a sensibilidade.
-
-Acabaram-se os almotacés da critica; o gosto é livre como a consciencia.
-
-«Os livros para o povo, diz Lamartine na _Genoveva_, devem ser historias
-simples e interessantes; inspiradas dos costumes, das profissões, das
-amarguras, dos contentamentos do lar e da familia, e escriptas quasi
-na linguagem do povo; devem ser como que o espelho onde elle se veja
-em toda a sua simplicidade e candura; mas que em vez de reflectir as
-suas abominações e torpezas, reflicta com preferencia os seus bons
-sentimentos, os seus trabalhos, as suas dedicações e virtudes, para lhe
-dar o amor de si proprio, e ancia do aperfeiçoamento moral e litterario.»
-
-E acaso não são isto mesmo os _Contos do tio Joaquim_?
-
-Não se filiam n’esta escola _Os retratos de familia_, _O sexto
-mandamento_, _O Thomaz dos passarinhos_, e _O romance de um sceptico_?
-
-Creio que me não engano; diz-m’o o coração, pelo menos, que é quem
-decide, em regra, do valor d’estas obras, que são todas coração e
-sentimento.
-
-O livro de Paganino prima, incontestavelmente, pela sublime simplicidade
-do estylo, e purissima verdade de affectos. O primeiro dote era resultado
-da espontaneidade, da fecundidade, da força viva de imaginação, da caudal
-impetuosidade das idéas, do genio, emfim. O segundo refluia-lhe inteiro
-do coração,—do coração que lhe era manancial perenne de amarguras, depois
-de lhe ter sido ludibrio de desenganos crueis, das illusões dobradas, dos
-sorrisos desleaes e das palavras traiçoeiras, com que este mundo costuma
-pagar liberalmente a sinceridade do amor e das affeições mais intimas.
-
-Que Deus perdôe, como elle havia perdoado, a quem pensou que esmagar o
-coração de um homem valia tanto, ou talvez menos que espedaçar o mais
-futil brinco de creança!
-
-Relevem-me o intempestivo da digressão; eu torno ao meu logar de critico.
-
-Publicados os _Contos do tio Joaquim_, Paganino, apesar do mal que
-o definhava a olhos vistos, e que elle, melhor do que ninguem,
-comprehendia, pensou em escrever successivamente algumas obras já
-delineadas. Em Pedrouços começou o romance _Aos vinte e dois annos_,
-romance a que se prendiam muitas saudades e ungido com muitas lagrimas;
-escreveu _Beatriz_, pequena historia affectuosa e apaixonada; e, afóra
-isto, um grande numero de trabalhos de indoles diversas.
-
-Quando o futuro se lhe abria mais esplendido, quando a lição e a
-experiencia lhe amadureciam as prendas naturaes, quando aquelle fecundo
-talento devia produzir fructos mais sasonados, a morte veiu arrancal-o
-aos carinhos de uma familia estremecida, ao affecto de amigos que tanto o
-bem queriam, e á gloria certa que o esperava.
-
-Os seus escriptos inéditos lá jazem na obscuridade, em quanto por ahi
-pompeam radiantes tantos abortos malfadados.
-
-E os governos dos conventiculos, das commissões rendosas, das subvenções
-pingues, das prodigalidades ás mãos cheias, não sabem que ao lado d’esse
-progresso que faz machinas de vapor e telegraphos electricos, deve andar
-sempre, de continuo, emparelhadamente, o progresso que derrama a luz, que
-arrôtea os espiritos, que os educa, que os esclarece, que os distrahe,
-que os moralisa, e que vae desenvolver no coração muitos germens de
-grandiosos instinctos. Não sabem que, na vida dos povos, seis ou dez
-kilometros de linha ferrea não influem mais que a publicação de um bom
-livro.
-
-É que elles cuidam, como diz o sr. Castilho, que nada ha sério, senão o
-coadjuvar ou impecer o bulicio governativo.
-
-Isto disse eu por me lembrar que essas paginas de preço, escriptas por
-Paganino com tanto amor e tanto fogo, é provavel que, cedo ou tarde, se
-percam de todo, quando, dadas a lume, ganhariam mais um louro para elle,
-e mais uma gloria para a patria.
-
- Maio de 1864.
-
- E. A. VIDAL.
-
- * * * * *
-
-Os _Contos do tio Joaquim_, livro de alto merecimento litterario, devido
-ao mallogrado homem de lettras, Rodrigo Paganino, que uma terrivel e
-fatal doença—a tysica pulmonar—arrebatou do mundo na primavera da vida,
-appareceram ha mais de vinte annos, quer dizer, n’uma epocha afastada,
-em que ainda ninguem fallava de processos realistas para a factura de um
-romance.
-
-Pois apesar de não ser ainda conhecida n’esse tempo a escola realista,
-os _Contos do tio Joaquim_, mostram-se já seguidores dos seus preceitos
-pela naturalidade, singeleza e sentimento espontaneo das respectivas
-descripções.
-
-Rodrigo Paganino, antes e depois de concluir em S. José o seu curso de
-medicina, foi um escriptor pujante, floreando na imprensa como jornalista
-notavel e no theatro como dramaturgo distincto.
-
-Á pujança do seu talento não correspondia infelizmente o vigor do seu
-organismo; por isso a morte o derrubou a meio da carreira da vida, quando
-elle punha todo o seu empenho e boa vontade em terminar para o theatro de
-D. Maria uma comedia em 4 actos.
-
-Infeliz Paganino! e duplamente infeliz, porque não gosaste, como homem,
-o lado risonho da vida, nem podeste, como escriptor, deixar apoz ti os
-fructos amadurecidos do teu brilhantissimo engenho.
-
- Abril de 1885.
-
- PINHEIRO CHAGAS.
-
- * * * * *
-
-Ultimo adeus a Rodrigo Paganino
-
-(_A. Francisco Montez de Champalimaud_)
-
-_1867 Agosto, 3._—Amigo do coração:—Hontem de manhã fomos esperar, no
-cemiterio dos Prazeres, os restos mortaes do nosso querido e desventurado
-amigo Rodrigo Paganino. Fomos sete, apenas, os que nos lembrámos de
-cumprir a dolorosa missão: José Elias Garcia, Manuel Roussado, Ricardo
-Cordeiro, Carlos Barreiros, Eduardo Gomes de Barros, José d’Avellar e
-eu. Ninguem mais! O ceu estava alegre; o sol brilhava com o natural
-esplendor do estio. Parecia uma pungente ironia á tristeza que apertava
-os nossos corações, em presença d’aquella sepultura! É porque os jubilos
-são apanagio do ceu, e as lagrimas a triste condição do mundo! A morte,
-meu amigo, phenomeno naturalissimo, trivialissimo, mas que nos espanta
-sempre, quando vem ferir o homem na força da vida, e o arrebata no
-momento em que a sua intelligencia começava a dar luz á humanidade, a
-morte, n’essas circumstancias, parece-nos um impossivel. Olhando para
-a arvore secular que abrigou á sua sombra o viajante, que floresceu em
-centos de primaveras, que produziu abundantissimas colheitas de fructo,
-se a vêmos cair falta de seiva, dizemos: «Cumpriste a tua missão;
-deste-nos sombra; embellezaste-nos com as tuas flôres; saciaste-nos com
-os teus fructos; chegou a tua hora; caiste porque eras da terra», e
-saudamol-a com veneração! Mas vendo a arvore robusta, que abre com as
-flôres do seu primeiro abril, flôres que são prenuncio de magnificos
-fructos, fulminada subitamente pelo raio, enfurece-nos a protervia do
-raio! Assim a morte, quando vem cortar o genio em flôr, nos produz
-muitas vezes o desespero! Rodrigo Paganino saía apenas da adolescencia,
-quando caiu no tumulo. Era medico e escriptor. Restam d’elle algumas
-folhas volantes, perdidas por aqui e por além, e um livro (os _Contos
-do tio Joaquim_), livro que ha de viver ao passo que muitas composições
-laureadas pelo capricho de hoje, morrerão ámanhã. Todavia, isso que
-Paganino nos deixou, não são mais do que as primicias do muito que tinha
-para dar aquelle grande talento. Rapida, brilhante, e, dolorosissima
-foi a carreira de seus dias! Ha quatro annos, n’uma carta que escrevi
-para a imprensa, desenhei o quadro que apresentava a familia de Rodrigo
-Paganino, pouco antes d’elle expirar. O pae, as duas irmãs, modelos
-de raras virtudes, e a mãe, pedindo em secreto, a Deus, um logar na
-mesma cova do filho. Tres annos a fez esperar a Providencia; finalmente
-concedeu-lhe a appetecida graça. Hontem, se Paganino fosse vivo, contava
-trinta e dois annos. Trinta e dois annos que a mãe o déra á luz do mundo;
-que o beijára entre dôres e alegrias, depondo o filho no berço; o filho
-hontem pagava-lhe essa fineza indo repousar ao lado d’ella, no berço
-do eterno descanço, onde para aquelles que padeceram com resignação,
-e que esperaram a morte, arrependidos dos erros mundanos, brilha a
-aurora da bemaventurança! O padre que acompanhou do Alto de S. João
-para os Prazeres os restos mortaes do nosso pobre amigo e que celebrou
-a missa, que nós ouvimos, pelo eterno descanço do nosso finado querido,
-fôra companheiro de estudos de Rodrigo Paganino. Terminada a missa,
-conduzimos o feretro para em frente do jazigo de familia onde havia de
-ser soterrado. Perguntou alguem, se queriam que o caixão se abrisse. José
-Avellar, de todos nós o mais intimo de Paganino, disse com a expressão
-tocante e varonil da sua bella physionomia: quero eu vêl-o. Mas que viu?!
-Quatro ossos e uma caveira a que se adheria uma pouca de terra! Era
-quanto restava do corpo que abrigara aquelle gentil espirito! O caixão
-foi collocado sobre o caixão da mãe, e nós, na extrema despedida, votámos
-á memoria do amigo quanto lhe podiamos votar: um adeus, e uma lagrima!
-Concluo esta carta, meu querido amigo pela verdadeira conclusão da dôr,
-que são as lagrimas. Um aperto de mão; volta quanto antes d’esse ponto do
-Alemtejo onde estás; lembra-te do anno passado!
-
- Teu
-
- BULHÃO PATO.
-
-
-
-
-I
-
-O tio Joaquim
-
-
-Ha de haver dez annos proximamente, fui passar o inverno a uma quinta,
-pouco distante de Lisboa; porque, segundo diziam, corria perigo de vida,
-se não mudasse de ares quanto antes.
-
-O campo é sempre bello. Cada edade do anno imprime-lhe uma feição,
-differente embora, mas formosa sempre: e o inverno, apezar da sua fria
-nudez, tem attractivos, como os que nos fazem amar muitas estatuas
-antigas, em que a falta de roupas mais realça a magestade.
-
-A uma legua apenas, parecia-me estar muito mais afastado de Lisboa. As
-noticias só repercutiam alli com ecco bem tardio; o apartamento do sitio,
-mais augmentado ainda pela quadra do anno em que se estava, parecia
-cortar de todo as relações com a capital: e se a vida latente que girava
-n’aquellas plantas entorpecidas pelo frio, não se deixasse transparecer
-de quando em quando, suppôr-se-hia, que um largo sarcophago nos
-encerrava: tão silenciosa, tão muda, tão melancolica era aquella solidão.
-
-Os dias passavam-se facilmente; mas as horas do crepusculo, essas, é que
-pareciam immensas, insupportaveis. Quando a noite, começando a escurecer
-os campos, nos escurecia a alma com elles; quando as trevas desciam
-sobre a terra, e afastando diante de si alguma vida, que ainda por alli
-havia, nos entristeciam o coração: quando as oliveiras verdenegras, que
-ao longe limitavam o horisonte avultavam com as sombras, estreitando-se,
-e parecendo encerrar-nos n’um circulo sinistro, como deveria ser o das
-bruxas de Macbeth: então partia-se-nos a alma de saudades enlevada no
-viver folgasão e agitado, que n’esses momentos costuma offerecer a
-cidade. Tem-se dito, que nada ha mais triste, do que vêr cerrar-se o
-horisonte em mar alto á chegada da noite; mas dizem-no talvez os que não
-experimentaram ainda o angustiado negrume, que em similhantes momentos,
-no campo, nos confrange muitas vezes. Parece que tudo esmorece, e morre
-em redor: e n’essa hora, se no bater do pulso não encontrassemos provas
-da nossa existencia, chegar-nos-hiamos a convencer mesmo, de que a vida
-se nos esvaecia tambem, como se esvaece em tudo, que nos cerca.
-
-Mas, ainda assim, havia compensação para nós na chegada da noite. Havia,
-porque de ante-mão contavamos passar essas horas, não muitas, que no
-campo precedem o deitar, n’uma conversa singella, e innocente; mas que
-d’essa singelleza e innocencia tirava os encantos que lhe sentiamos.
-
-Á bocca da noite recolhiam os trabalhadores, os _maltezes_ como ali lhe
-chamam, do trabalho e entravam para uma d’essas cosinhas do campo, tão
-nossas, tão conhecidas de todos: e que não faltam em quinta alguma de
-certa ordem.
-
-Esperava-os um bom lume e uma boa ceia, e sobretudo esperava-os, que
-era o que elles mais queriam, as historias do tio Joaquim, e as suas
-narrações cheias de verdade e de moral.
-
-Quem era o tio Joaquim, o que fôra, que papel representava, são
-perguntas, que naturalmente hão de vir á bocca dos nossos leitores,
-se os tivermos, e a que não poderemos responder como desejâmos. Tinha
-apparecido depois de uma das nossas guerras civis, e tinha pedido
-trabalho a um dos fazendeiros mais ricos do logar. D’onde viera, se
-alguem lh’o perguntava podia contar com a seguinte resposta, que não
-poucas vezes lhe ouvimos repetir: importem-se com a sua vida e deixem-me,
-que nada tenho que lhes contar; baste-lhes saber o que sou hoje, e não o
-que fui; agrada-lhes o meu trabalho; estão contentes comigo, que teem com
-o resto. Sempre ouvi dizer, que homem que muito se occupa dos outros, é
-porque se não póde occupar de si.
-
-Todos voltavam sabendo talvez menos do que até então sabiam; mas curados
-da sua curiosidade indiscreta.
-
-E depois, o tio Joaquim era velho, tinha sido honrado sempre, ninguem
-como elle sabia guiar uma junta de bois, conduzir a rabiça d’um arado,
-ou fallar do tempo, olhando para as estrellas; na poda e na empa ninguem
-se lhe punha ao lado, e quando era necessario fazer um pé de lagar,
-ou erguer uma meda de pão, já era sabido que sempre o escutavam e lhe
-seguiam sempre os conselhos. No contar de historias não fallemos. O tio
-Joaquim era um livro aberto, como por ali diziam: e dava sota e az ao
-barbeiro do logar e ao mestre de meninos.
-
-Este, contra as leis constitucionaes do paiz, ás quaes, aqui para nós,
-não era muito affeiçoado, accumulava ao seu mister de educador da
-mocidade, além dos empregos de escrivão de juiz de paz, escanhoador,
-tendeiro, agiota e outros encargos nem por isso muito compativeis, uma
-maledicencia sem egual. Pois cuidam que se atrevia a boquejar do tio
-Joaquim? Nem por sombras. Verdade é tambem, que lhe não fazia elogios,
-mas quando se tratava d’elle mudava logo de conversa, fazendo um tregeito
-desapprovador.
-
-Diziam as velhas d’aquelles sitios, que eu não o sei ao certo pois
-nunca tratei de o averiguar, que o mestre Francisco, tal era o nome do
-professor, tinha tido n’outros tempos seus dares e tomares com o tio
-Joaquim, dos quaes tinha saido de cara a uma banda. Entretanto o silencio
-do mestre de meninos não influia pouco para a reputação favoravel
-do nosso bom velho, porque se dizia:—é tão boa pessoa, que o mestre
-Francisco não diz mal d’elle.
-
-Pobre tio Joaquim! Assisti-lhe aos ultimos momentos e poude fazer idéa
-do que era a morte do justo. Sorria ainda, e já era cadaver. A hora do
-passamento foi para elle tão suave como o desprender da folha secca em
-manhã de outono. Momentos antes de fallecer voltou-se para o meu lado,
-e disse-me affavel e bondoso como sempre: _agora acabaram-se os contos.
-Lembre-se de mim, quando se lembrar d’elles, é a herança que lhe deixo_.
-Levou a mão ao peito, apertou um saquinho, que trazia pendente de um
-cordão, e que mostrava conter uma reliquia, voltou os olhos para o céo,
-pareceu procurar o rumo que a alma ia seguir em breve cortando o espaço,
-e expirou.
-
-Foram as primeiras lagrimas, que derramei na minha vida; até então não
-sabia o que era morrer.
-
-Guardei a herança. Bem ou mal administrada ella ahi vae em parte, tal
-como a memoria a conserva; mas não como me foi doada.
-
-Havia um cunho tal de ingenuidade n’aquellas narrações, uma tal poesia e
-mimo de imagem, uma fluencia de dicção e uma propriedade de termos, que
-embora as procuremos imitar, não o conseguiremos nunca.
-
-E não supponham, entretanto, que fosse buscar a figura ou a comparação a
-coisas de grande altura; ás sciencias, ou á historia: que ornamentasse o
-periodo com flores de rethorica, ou que procurasse guindar e alambicar a
-phrase, como tanta gente que por ahi vemos. Nada d’isso. Mais prudente e
-mais feliz, pois não commettia barbaridades, o tio Joaquim não saía dos
-limites das intelligencias dos seus ouvintes e ia buscar aos campos, ás
-flores, á agricultura, á mesma casa, (quantas vezes!) os _similes_ de que
-se servia. Tudo era comesinho e humilde, sem ser rasteiro, e muitas vezes
-alcançava elle o que não conseguem muitos litteratos de polpa depois de
-terem trabalhado deveras—o sublime na simplicidade.
-
-Mas nem só o estylo tornava recommendaveis os seus contos: se assim
-fôra, não ousariamos nunca encetar similhante tarefa. A idéa moral, que
-d’elles se deprehendia facilmente, a simplicidade dos episodios, e as
-curtas dimensões, que elle lhes dava, faziam com que fossem por mais
-d’um respeito dignos de publicidade. Confiados n’isto mesmo tambem é que
-começâmos esta collecção, de que somos meros reproductores, cabendo toda
-a gloria se a houver, ao tio Joaquim, e o desdoiro todo áquelles, que
-estragando-a talvez, a vêem agora dar ao publico.
-
-Entre nós, n’estes ultimos tempos sobretudo, a litteratura tem despresado
-um tanto o gosto popular.
-
-Não acontece, porém, o mesmo em França, em Allemanha e nos demais paizes,
-em que, segundo nos consta, se cura d’estas coisas e se lhes attendem
-os resultados. Muitos homens de vulto, intelligencias eminentemente
-superiores, tem-se approximado das turbas, e as obras, que se tem
-publicado com este intuito, não são as que menos contribuem para a sua
-gloria.
-
-Dois exemplos bastarão: Lamartine e Emile Souvestre: o auctor da Genoveva
-e Canteiro de Saint-Point, e o auctor de _Coin du feu_ e do _Philosophe
-sous les toits_. Ambos tem vindo por vezes conversar, como amigos e
-parceiros, com as classes rudes; ambos se teem por vezes esforçado
-para lhes fazer comprehender as suas idéas, e, tem conseguido verem-as
-admittidas e bemquistas na officina do operario, e na agua furtada do
-infeliz.
-
-Sacrosanta missão da imprensa, como é admiravel e veneranda, quando
-evangelisa as turbas, dando consolação ao desgraçado e conforto ao que
-desanima! Como nos sentimos enlevar de respeito perante essa instituição
-maravilhosa, quando vemos os seus fructos sem vicio e sem defeito,
-alimentarem o que pede o pão do espirito, e darem refrigerio ao peregrino
-resequido d’este grande Saharah em que vivemos! É então, e não quando a
-vemos maculada pelas viltas e polemicas indecorosas, que devemos bemdizer
-os seus inventores, e pagar o devido tributo ao genio que similhante
-dadiva nos legou.
-
-Mas não é esta a melhor occasião para similhantes dissertações;
-perdoem-nos o divagar intempestivo, e, se nol-o permittem, iremos ligar o
-nosso interrompido assumpto, no ponto em que o deixámos, ha pouco.
-
-Os contos do tio Joaquim pertencem ao genero das obras de Emile Souvestre
-e deveriam tomar logar, pela natureza e não pelo merito, proximo
-d’aquella mimosa collecção que elle intitula—_Au Coin du feu_. Dir-se-hia
-mesmo, que inspirado por este bello livro, se não commettia um plagiato,
-resentia-se muito da leitura do auctor francez; porém o tio Joaquim nunca
-soube ler e por isso nem de longe poude cahir em tão feio peccado.
-
-Não é a primeira vez que a ignorancia se apresenta como pretexto para a
-originalidade de muito escriptor publico. Não é para admirar, que este
-nosso que se estrêa, comece no mesmo ponto, d’onde muitos, que já são
-veteranos, não teem podido passar.
-
-As historias que lhe ouvimos são em grande numero. Não apresentaremos
-n’este livro senão as que mais notaveis nos pareceram e que mais
-profunda impressão nos deixaram, procurando, quanto nos fôr possivel,
-aproximar-nos d’aquella engraçada ingenuidade, que tanto nos encantava,
-quando lhe ouvimos a palavra facil e singela.
-
-Não conseguiremos de certo imprimir-lhes aquelle cunho de originalidade,
-que o narrador lhes dava. Oxalá que possamos ao menos, fazer com que os
-nossos leitores passem algumas horas entretidas n’esta leitura: e que,
-esquecendo-se embora da pessoa que lh’as apresenta, não se esqueçam de
-todo do velho tio Joaquim.
-
-
-
-
-II
-
-O romance d’um sceptico d’aldeia
-
-
-De tantos contos, que ouvi ao tio Joaquim, foi o seguinte, que maior
-impressão me produziu.
-
-Tinha morrido nos sitios um fazendeiro, que não gosava de boa fama, e ao
-lembrarem-se d’elle começaram os homens do trabalho a cortar-lhe um pouco
-na pelle.
-
-O tio Joaquim desde que se fallára no finado, fôra gradualmente
-entristecendo; e pela primeira vez na sua vida caiu-lhe a colher da mão,
-quando ia começar a comer.
-
-Os maltezes, que estimavam devéras o velho narrador começaram a
-preoccupar-se com similhante tristeza, e, antes de acabar a ceia, já
-estavam todos em roda d’elle, a perguntar-lhe o que tinha.
-
-—A morte do Manuel Simões fez lembrar um caso, a que assisti, ha tempos,
-quem sabe se o Manuel padeceria tanto como o outro, que eu vi morrer.
-
-—Conta-nos isso, tio Joaquim?
-
-—Contarei, apesar de não me sentir muito para contos. Entretanto
-servir-lhes-ha de lição para deixarem em paz, quem já deu contas de si.
-
-Callaram-se todos e o narrador começou por estas palavras:
-
-Ha de haver dez annos a esta parte, que succedeu o caso, que lhes vou
-contar. Defronte da egreja estava n’esse tempo uma loja de barbeiro,
-afreguezada como poucas, e concorrida por toda a gente dos arredores.
-Era o pasmatorio do logar e o covil da maledicencia: o mestre Ignacio
-sabia do seu officio como poucos, e cortava nas vidas alheias, como nos
-cabellos e barbas dos freguezes.
-
-Tambem a loja estava sempre cheia: uns que lhe acudiam á obra, acceiada
-na verdade; outros, que para ali iam dar á taramella e saber o que se
-passava pelos sitios.
-
-Nem uns nem outros deixavam de ser servidos: os primeiros saiam com a
-pelle, que nem um setim; os outros levavam medida rasa de novidades e não
-poucas vezes acogulada de mentiras.
-
-De todos os que por ali iam, um freguez havia a quem o mestre não gostava
-muito de vêr na loja. Ninguem o diria, porém, ao vêr as barretadas do
-velho Ignacio e as mesurinhas com que o acatava. Havia de ter que vêr,
-que o não fizesse! Se era o sr. padre prior, o padre mais santo, que
-tenho conhecido e a melhor alma que Deus tem deitado a este mundo de
-Christo.
-
-E sabem porque o mestre não engraçava com o padre prior, e até mesmo
-ardia por vêl-o pelas costas? Era porque, o unico talvez dos freguezes
-todos, não fazia a sua perna á má lingua, nem deixava deitar-lhe muito os
-braços de fóra, quando estava presente.
-
-—Cala-te lá, homem, lhe dizia muitas vezes, sabes por ventura quantos
-annos de trabalho leva uma reputação a crear, quantos cuidados e lidas
-custa o ser honrado, para assim deitares essa obra toda por terra
-sem tir-te nem guar-te? Se fosses fazendeiro e se gastasses cabedal e
-vida a fazer a tua propriedade e a amanhar as terras; se todos os dias
-regando-as com o suor do teu rosto, e ageitando-as com o teu trabalho,
-conseguisses crear as arvores de um pomarsito, por bem pequeno que
-fosse, gostavas, que um alma damnada te deitasse fogo á casa; ou que te
-succedesse dar o mal nas searas e o peco no pomar? Pois olha, pomar,
-casa, e terras são coisas todas, que, uma vez perdidas, se podem tornar a
-ganhar; mas o credito e a fama, esses é que não.
-
-O mestre barbeiro, que se temia do bom pobre ficava sem saber da sua
-freguezia, e este então, que não era de reserva, nem homem, que gostasse
-de pôr as uvas em pisa a outro por muito tempo, tornava-lhe logo mudando
-de modo de fallar.—Ora vamos, sô mestre, não desmanche creditos dos
-outros, pois que não póde vêr entrar o mal por sua casa; que a fama de má
-lingua ninguem lh’a dá nem lh’a tira, e em quanto a obra, ninguem lh’a
-desfaz, por que não a tem feita.
-
-Era n’um domingo de manhã e a loja do mestre Ignacio estava a deitar por
-fóra. O dono da casa tinha acabado de talhar umas poucas de carapuças
-e encaixava-as nas cabeças para que as talhára, quando entrou o padre
-prior. Calou-se logo o velho e deu um ponto na bocca; porém o padre, que
-lhe sabia da balda, e que desconfiou da alhada, começou a fazer-lhe a
-cama, quasi do feitio que acabei de lhes contar, e por modos taes, que
-deixou o pobre do homem em lençoes de vinho.
-
-Os que por ali estavam, que não eram muito affectos ao dono da casa, e
-que por vezes tinham apanhado tambem a sua maquia, começaram a rir, e aos
-ditos, mais ajudando ainda para o deixar em tallas.
-
-Elle já dizia mal á sua vida: para mostrar que não ia muito do vivo
-ao pintado, já tinha assente um formidavel lanho na cara d’um pobre
-trabalhador, que lhe caira nas unhas, e promettia continuar quando um
-novo freguez, que entrou na loja o veiu tirar do aperto em que se via,
-pondo ao mesmo tempo uma rolha na bocca de todos.
-
-Nem mais um abriu bico. Parecia uma mó de creanças, que estando a fazer
-grande algaraviada em casa de escola, vêem chegar o mestre armado
-de palmatoria e com modos de dar a torto e a direito. Ficam logo
-calladinhos, que nem ratos; mas ainda bem o mestre não tem dado costas,
-tornam á mesma, ou ainda a peior, fazendo uma ingresia infernal.
-
-Assim foram os nossos amigos. Alguns d’elles até pareceram que viam lobo,
-e tanto se lhes puzeram os cabellos em pé, que o mestre teve de dar
-mais vezes novo fio ás navalhas, porque já não queriam cortar nem por
-um Christo: elle mesmo, apesar de pouco medroso, sentiu seus calafrios,
-quando deu de rosto com o recem-chegado.
-
-Este não era nenhuma cara de metter medo, mas tambem não mostrava ser de
-muitos amigos. Entre os trinta e os trinta e cinco, os cabellos já se
-lhe começavam a encher de brancas, e a cara de rugas. Parecia triste;
-e sem dar nem uma palavra esteve na loja até que lhe chegou a sua vez,
-barbeou-se e saiu, cumprimentando todos á saída como o tinha feito á
-entrada.
-
-Levou comsigo a callada. Apenas voltou para a azinhaga mais proxima
-começaram todos a desenferrujar a lingua, como se tivessem medo de que
-lhes ficasse lesa com o tempo, que estivera sem bulir. E como de razão,
-foi o mestre Ignacio, quem atirou primeiro a sua bola.
-
-—Excommungado d’uma figa! Cruzes demonio, e embirrou com a minha loja o
-maldito.
-
-—Parece que anda em peccado mortal!
-
-—Podera não, se elle desde que veio para estes sitios não foi ainda á
-missa.
-
-—E que olhos que deita para a gente? Pae do céo! É capaz de nos dar
-quebranto!
-
-—Sim, que o não deu outro dia a uma jumenta da Felicia, que desde que
-elle a viu não teve uma hora de saude.
-
-—Quem a Felicia?
-
-—Não a jumenta; se elle é lobishomem!
-
-—Callem-se lá, leva de má lingua, parece-me que já é de mais; estarão
-vocês tão limpos de consciencia, para assim poderem entrar pela terra
-alheia, como se fosse roupa de francezes?
-
-Era a voz do bom prior. Apenas tinha começado a ladainha, procurára logo
-pôr-lhe cobro, mas foi trabalho de malhar em ferro frio. Era um dize
-tu, direi eu, que promettia não ter fim. Todos queriam molhar a sua
-sopa; porém quando um carreiro velho, que era pessoa acreditada na loja,
-affiançou que o tal estrangeiro tinha embruxado a burra da tia Felicia e
-que era lobishomem, ficaram todos passados em pontos de admiração por um
-instante, e n’essa occasião mesmo, é que o prior poude socegar aquella
-algaravia.
-
-Ninguem se atreveu a retrucar. Todos tinham os seus podresitos mais ou
-menos, que o parocho sabia; e por isso todos metteram a viola no sacco,
-quando lhes foi com as mãos á cara, fallando lhes nas suas culpas. Porém
-o mestre Ignacio, que não era homem de se atrapalhar com qualquer coisa,
-quiz vêr se fazia frente ainda, e se podia continuar amolando o caso.
-
-—Mas perdôe a sua palavra honrada, sua reverendissima bem sabe que desde
-que veio para aqui este homem ainda nem appareceu na egreja, nem em logar
-de reza, ou em festas da freguezia.
-
-—O que tem o mestre com isso? Todos fallam, fallam sem saberem o que
-dizem, o caso é dar á lingua. Esse homem não é nenhum hereje, eu sei quem
-é. Se não vae á egreja, talvez que a egreja vá ter com elle. O mestre bem
-sabe que não é esta a primeira pessoa de quem se duvida; outros havia
-que nem por muito irem á egreja, passavam por christãos de lei.
-
-O padre tinha dado no vinte. O barbeiro ficou sem tugir nem mugir, porque
-se lembrava da fama de judeu que por aquelles sitios tivera, e que lhe
-ia acarretando mais de uma carga de pau; os outros, que viram as barbas
-do visinho a arder, foram deitando as suas de molho, esgueirando-se á
-formiga, apenas acabaram de fazer a barba.
-
-O remedio do parocho não produziu effeito; por que, dias depois, já
-tornavam á mesma: agora se tinham razão julguem-n’o lá pela historia do
-tal homem, que mais tarde vim a saber.
-
-O freguez com que tanto se estomagára o mestre Ignacio, tinha vindo para
-aquelles logares havia dez annos pelos tempos das vindimas. Alugára uma
-casita pequena, que fica mesmo defronte da egreja, onde está agora o
-Manoel Ferrador, e que tem vae por meia duzia de geiras de pertenças:
-para ali se mettera com mulher e filhita que trazia comsigo.
-
-Parecia gente morta, não saiam nunca, salvo a mulher, que de manhã cedo
-ia aos seus arranjos: e não procuravam dar-se com pessoa alguma da
-visinhança. E lá n’isso faziam bem, que a maior parte das vezes estas
-velhas onzeneiras e visinhas palradoras vão ás casas dos outros para
-darem fé do que lá se passa, e para depois á porta da rua, á tarde ou
-pela manhã, cortarem pelas vidas alheias como ferro de arado por terra
-mechida de fresco.
-
-O que é verdade porém, é que este seu systema, não lhe tinha creado
-amigos, nem levantado uma reputação de encher as medidas. Todos
-murmuravam d’aquelle modo de viver, e estavam de alcatêa sempre para vêr
-se achavam fio á meada.
-
-Tinham reparado por vezes que a pobre mulher, que parecia boa pessoa,
-saía quasi sempre com os olhos inchados e como quem acabava de chorar;
-mas por mais que se pozessem á escuta não tinham topado nunca signaes de
-ralhos ou resingas: antes se poderia dizer, se o dono da casa não tivesse
-tão má fama, que viviam como Deus com os anjos.
-
-Uma noite, alta noite, já tinham cantado os gallos, morava eu então ao pé
-da freguezia, ouvi tocar a Nosso Pae fóra, levantei-me e fui acompanhar
-o viatico. Era para casa do mesmo homem, que tinha visto, pela primeira
-vez, na loja do mestre Ignacio, e que estava para dar a alma a Deus.
-
-Como o caso não era para se estar com pannos mornos, o parocho tratou
-de começar a confissão, e nós quizemos sair do quarto, para deixar o
-doente mais á sua vontade, como é costume. Elle porém não o consentiu, e,
-fazendo-nos signal para ficar, disse-nos com modos que me não passaram
-ainda:
-
-—Grandes foram os meus peccados, se esta historia lhes poder aproveitar,
-que a oiçam todos; porque só assim servirei a alguem.
-
-Não havia que dizer, e de mais a mais o demo da curiosidade apertava
-comnosco. Ficámos, e na verdade disse coisas para se ouvirem.
-
-O quarto estava allumiado por uma lamparina a tremelicar e a dizer adeus.
-A luz, que espalhava pela casa tinha um tanto de soturna e de aterradora.
-Á cabeceira estava o padre, a alvejarem-lhe as roupas e cercado por
-um não sei que, mais do céo do que da terra; a seu lado, o moribundo,
-estendido na cama, e estorcendo-se na agonia.
-
-Têem visto lá para o Minho, ao pé dos castanheiros, uma videira que levou
-um córte na cepa, e que em vez de enleiada aos troncos da arvore, se lhe
-roja pelo chão, quasi a morrer, como uma cobra, que leva com uma pedra na
-cabeça? Pois assim me parecia aquella vista, bem triste que ella era!
-
-Mas o que me cortou o coração foi vêr a triste senhora lavada em lagrimas
-aos pés da cama, de joelhos, abraçada a uma creança que teria quando
-muito tres annos, e que, adivinhando o que ali se passava, tambem carpia,
-gritando quasi sem parar:
-
-—Não quero que o pae morra, não quero que o pae vá para o céo!
-
-Era uma dôr d’alma, e tanto me impressionou aquelle espectaculo, que,
-palavra a palavra, me lembra do que ouvi n’aquella casa.
-
-—Meu padre, dizia o moribundo com voz sumida, conheço que a minha hora
-chegou, e preciso partir para essa jornada tremenda, limpo de culpas e
-cheio de arrependimento. Grande me vae esta empreza, mas com o perdão de
-Deus e vosso auxilio, espero leval-a ao cabo.
-
-—Descance: a misericordia do Senhor é infinita, e se os meus soccorros
-lhe poderem servir, aqui estou d’alma e coração, como é meu dever, para
-lh’os ministrar.
-
-—Ouça-me pois, meu padre, e na historia da minha vida veja a razão da
-minha desgraça.
-
-—Para todo o peccado ha remedio na egreja; falle, e não se arreceie.
-
-O moribundo começou assim:
-
-—De ruim semente fraco fructo poderia sair, e meu pae, Deus lhe falle
-n’alma, andou n’este mundo, mais cuidando da vida em que vivia, do que da
-outra em que devia durar eternamente.
-
-No seu tempo, d’involta com os livros bons, havia misturadas, como o joio
-com o trigo, essas más obras vindas de França, e algumas mesmo d’aqui,
-que prégavam a falta de religião e o despreso pela Divindade.
-
-Pelo menos elle assim o acreditava, e esse effeito lhe tinham produzido.
-Mais tarde vim a saber que valiam muito, mas que não era para gente rude,
-que não as percebia, que só lhes apanhava o mau, mais facil de colher,
-deixando de parte o bom, que andava mais escondido.
-
-O mesmo acontece ao podador novato, que deita fóra a vara do vinho,
-deixando em vez d’ella as outras que devia cortar.
-
-Mas lá diz o rifão: quem não sabe é como quem não vê; e meu pae, andava
-tanto ás escuras, que fugia da luz da graça, como lobo do povoado.
-
-Assim me creei, e assim vivi tambem até agora, e Deus sabe quantos
-desgostos me tem custado esta minha triste cegueira!
-
-Pobre de mim! Não me lembrava de que o homem anda cá n’este mundo como o
-arado em terra de semeadura. Se o lavrador não tem mão na rabiça ou se
-descuida do trabalho, eil-o ahi vae corrido com os bois, como o homem com
-as paixões por terras e ribanceiras, enterrando-se aqui a mais não poder
-andar, resvalando além a não deixar rego.
-
-Assim me ensinára meu pae, com magua bastante de minha mãe, que se finava
-e padecia; e assim ía creando meus filhos, se o lavrador sagrado, que lá
-de cima nos vê, me não encaminhasse, lançando mão do arado, que ameaçava
-partir-se de encontro aos barrancos d’este mundo.
-
-Ainda em creança, os rapazes do sitio fugiam, quando procurava brincar
-com elles. Chamavam-me o _diabo pequeno_, e temiam-se de mim como do
-fogo. Eu em paga escarnecia-os por irem á egreja, ou dava-lhes pancada de
-cego quando fugiam de brincar comigo.
-
-Todavia soffria immenso por me vêr sósinho.
-
-Os entretenimentos de creança, que tanto agradam nas primeiras edades,
-não eram para mim, que vivia como o espargo no monte, á ventura e ao
-desamparo.
-
-É voz do povo: só se veja quem só se deseja, e rifão bem verdadeiro.
-Tambem o é que a solidão nos dá maus conselhos e causa os maus
-pensamentos.
-
-A planta lançada á terra sem cultura e sem cuidados, vegetando em mau
-torrão, crestada das geadas e dos soes, e sacudida dos ventos; se cria
-vigor e robustez, tambem ganha espinhos para os troncos e amargo para os
-fructos.
-
-Entregue só a mim, conhecia que o coração se empedernia e apertava,
-ficando de rija tempera, sem se dobrar á compaixão nem ao amor do
-proximo. Se eu era assim, a culpa não era minha de todo; mas o castigo,
-esse aguentei-o em cheio.
-
-Muito em creança me faltou minha mãe. E a triste consolação de a
-acompanhar á sepultura, de rezar por ella na egreja, de lhe derramar
-lagrimas e agua benta sobre a cova, foram coisas que a minha má sina me
-prohibiu.
-
-Entrar na egreja, eu, e provar fraquezas dobrando-me a pedir ao Senhor!
-Não o podia, era de vil, e não de um espirito forte e desamparado de
-credulidades de velhas. Ir sobre uma pouca de terra, onde alguns ossos
-ficavam e a carne se apodrecia, recitar orações, em que não acreditava,
-era loucura que não devia praticar!
-
-E assim, padre, com a morte de minha mãe perdia eu muito mais do que
-outros a quem semelhante desgraça succede. Esses ao menos esperam tornar
-a vêl-a na outra vida, e a morte sómente lhes é como separação de pouco
-tempo.
-
-Para mim era o apartamento eterno. Aquella cova roubava-me minha mãe para
-sempre. Nada ali me podia fallar e a terra ficava muda, como os céus já
-de ha muito o eram para mim.
-
-O que senti então, Deus o sabe, que eu nem o posso dizer nem mesmo sei
-o que foi. Era como a planta enfezada, que se lhe vê partir o extremo
-esteio, sem encontrar mão amiga que a ampare, e que desde então receia a
-menor aragem que a faça encurvar, ou o menor encontro que a derrube.
-
-Cresci, cresci, e a descrença continuou a crescer em mim. Semelhava-se
-aos animaes na dureza; a muitos na ferocidade, a todos no embrutecimento.
-
-Por estes tempos ainda se me apresentou occasião de emenda; mas regato
-que de principio erra o caminho, não é quando se lhe engrossa a corrente
-com as cheias que póde tornar ao leito; nem planta que de pequena vae
-torcida, póde, quando cria maior tronco, ganhar a direitura que perdeu.
-
-Uma mulher d’aquelles sitios, que vivia recatada em companhia de sua mãe
-e resguardada por ella, como o fructo pelas folhas, reparou em mim uma
-vez e tomou-se de amores por quem não a merecia.
-
-Estas coisas não se explicam. Porque ha de a violeta dar-se e florescer
-escondida, quando outras flôres por ahi, que menos merecem ser vistas,
-não se querem senão nos jardins a bom recato e bem cuidadas?
-
-Porque ha de aquelle pedaço de ferro dos relogios de sol aqui do campo
-voltar-se sempre para o mesmo lado; ou porque ha de a flôr das boas
-noites abrir-se ao pôr do sol e cerrar-se quando elle nasce?
-
-Porque ha de a mulher perder-se de amores pelo homem que vê pela primeira
-vez, e que muitas vezes a esquece depois?
-
-São mysterios da natureza, que ninguem póde devassar, mas que nem por
-isso deixam de existir.
-
-Joanna, é o nome d’essa infeliz que ahi me chora aos pés da cama, amou
-sem que lh’o merecesse, e o seu amor, em vez de me abrir os olhos, mais
-m’os cerrou ainda.
-
-Comecei a querer-lhe tambem. Como foi não o sei: mas desde esse momento
-todas as tardes nos procuravamos, e todas as tardes repetiamos juras de
-um amor eterno.
-
-Começaram a estreitar-se as nossas relações como duas plantas que uma á
-outra ligadas mais se apertam com o crescer. Já na aldêa se murmurava,
-e já se espalhavam rumores contra a pobre Joanna, que se amofinava e
-entristecia.
-
-Um modo facil de remediarmos tudo era o casamento; porém eu que não
-acreditava na santidade d’aquella ligação, não queria, nem por sombras,
-cair em semelhante fraqueza.
-
-Ella acreditava em mim como n’um livro aberto. Convenci-a da loucura de
-seus desejos, e da fé que me prestava, nasceu a descrença na fé em que se
-creara. A minha maldade crestou a innocencia d’aquella virgem, como o mau
-vento cresta a relva: e a apaixonada donzella conheceu que era mulher, e
-envergonhou-se de o ser.
-
-Como a flôr que perde as folhas e as bellezas quando se lhe desenvolve
-o fructo, tambem ella perdeu as rosas nas faces e as canduras da alma,
-quando conheceu que ia ser mãe: e de pejo do que soffrera, encerrou-se na
-sua magoa, como certos vermesinhos se involvem no casulo que lhe serve de
-protecção.
-
-Para ninguem podia já ser mysterio o seu estado: a pobre mãe, que via a
-perdição da filha, deixou-se finar de magoa.
-
-E nem uma flôr desfolhámos sobre a sua sepultura; nem uma queixa soltou a
-infeliz, porque dôres d’aquellas, não ha palavras que as expressem, como
-não ha côres que possam representar o negrume da tormenta.
-
-Nossas mães, que hoje estão no céu, quantas lagrimas não carpiriam
-juntas, ao attentar nos desventurados erros de seus filhos; mas por mais
-que sobre nós ellas cahissem, de nada poderiam servir, como nenhuma chuva
-póde fertilisar o terreno maninho, ou a charneca esteril.
-
-Desde então, padre, a minha vida tem sido um penar continuado, um
-soffrimento sem cessar.
-
-O remorso rala-me a alma: a lembrança d’aquellas santas atormenta-me de
-dia e de noite: a vista da mulher, que perdi, desvaira-me; e a idéa da
-minha filha, a filha querida da minha alma, a quem não posso dar nome
-perante Deus, porque não foi ainda purificada pela agua santa do baptismo
-dos peccados de seus paes, nem perante os homens, porque seu pae e mãe
-não se podem assim chamar á face de mundo, quasi que me enlouquece.
-
-E a duvida a perseguir-me como um demonio agachado em logar santo, e eu a
-abrir-lhe os braços como a seara ao fogo que a vae consumir, e a cerrar
-os olhos á fé, como a toupeira á luz do sol.
-
-A natureza com as suas grandezas todas, a flôr com o seu aroma e côres,
-a ave com o seu cantar, o céu com as suas estrellas, e o mar com as suas
-ondas de prata, tem sido harmonias perdidas, que só me fallam do acaso e
-que nada mais me fazem lembrar. Tenho cerrado os olhos á luz e a alma á
-razão. Não tenho procurado coisa alguma no passado nem esperado do futuro.
-
-Tenho sido o navio sem rumo e sem norte, que navega á tona d’agua; o
-viajante perdido, que não encontra fim ao caminho, nem trilho para voltar
-a d’onde partira.
-
-Para que viera a este mundo, quando por acaso m’o perguntava a mim mesmo,
-era o que não sabia dizer; e cansado de o perguntar sem resposta, mudo
-de pensamento como o mendigo de porta a que tem batido debalde. Tenho-me
-supposto feliz e tenho vivido como as feras; tenho-me julgado senhor de
-mim porque não tenho conhecido o Senhor de todos.
-
-Mas ha dias tudo se mudou em mim. Minha pobre filha sahira de manhã, e
-esteve lá por fóra mais do que o costume. Perguntei-lhe o que fizera,
-porque se demorára: e a sua resposta foi como a luz da madrugada rompendo
-em descampado para o viajante perdido.
-
-«Meu pae, me disse, quando sai, ouvi ali defronte uma musica tão linda,
-tão linda como ainda não ouvira em minha vida outra semelhante. Vi uma
-porta aberta e entrei para ouvir melhor. Era uma casa muito grande, muito
-grande, e onde estava muita gente de joelhos.
-
-«A musica vinha de uma janella de grades, d’onde saiam tambem vozes de
-senhoras; e os que ali estavam pareciam tão entretidos, que nem deram
-pela minha entrada. Com medo que me reprehendessem por ter entrado sem
-licença, perguntei a uma mulher, que me parecia boa pessoa, quem eram os
-donos d’aquella casa tão grande e que tão ricos deviam ser.
-
-«Admirou-se da pergunta e disse-me se lhe fallava devéras.
-
-«Devéras, minha senhora, eu não conheço ninguem d’esta terra; vim ha
-pouco tempo para aqui com meu pae e minha mãe, e nunca saio de casa.
-
-«Pois olhe, minha filha, esta casa é uma egreja, e seus donos são
-aquelles que além estão, pae e mãe dos homens e do céu.
-
-«Olhei e vi uma senhora e um homem, que me pareceram tão bons, tão
-tristes, que desatei a chorar.
-
-«Elle estava de braços abertos, como o papá quando me chama para o seu
-collo, e ella parecia-me minha mãe, mais bonita ainda, quando está ao pé
-da cama olhando para mim com os olhos arrasados em lagrimas, emquanto não
-adormeço.
-
-«Eu queria-lhes fallar, meu pae, conheço que me haviam de dizer muitas
-coisas boas, mas como me tem dito que não quer que converse com pessoa
-nenhuma de fóra, tive medo que ralhasse comigo, fui-me embora; mas com
-tanta pena! Por minha vontade estava ali sempre a olhar para elles até
-que olhassem para mim, e me fallassem tambem.»
-
-Como ella chorára, chorei eu então. Aquella voz infantil veio
-despertar-me a fé adormecida, como á mãe extremosa, quando a dormir, os
-choros do filho querido.
-
-Desde esse momento um raio de luz allumiou-me as trevas, em que vivia.
-A flôr, a terra, o mar e o céu, tiveram vozes que me fallavam e que eu
-percebia.
-
-A flôr erguendo-se para as alturas; a terra levantando ao romper do sol
-os vapores tenues da madrugada como rolos de incenso á Divindade; o mar
-erriçando o seu dorso de vagas ao signal da tormenta e coroando-se de
-espumas; o céu recamado de estrellas, recordavam-me a existencia de Deus,
-creador de tudo que me cercava, e que em tudo tinha estampado o sello de
-suas mãos como o artifice nas suas obras.
-
-Tambem o Senhor, que se parecia ter esquecido de mim, ao vêr-me
-arrependido lembrou-se de que existia: quer me chamar á sua presença,
-como o pastor, que ao vêr melhorias na rez contaminada, que lançou a
-monte, procura, pelos cuidados e disvelos, livral-a das enfermidades e
-males.
-
-Hoje, padre, que avisto a immensidade da morte sem receio, e a eternidade
-sem pavor, hoje que tenho fé no meu Deus e esperança na salvação,
-peço-vos, padre, a benção para o contricto, e absolvição para o peccador.
-
-—Eu te absolvo, disse o padre com voz solemne, que por muito tempo me
-estrugiu aos ouvidos, e o Senhor de caridade vos perdoa por minha bocca.
-
-N’este momento em lagrimas chegou-se a pobre Joanna ao leito do
-moribundo: e a filhinha, que a acompanhava, ficou debaixo dos jorros
-d’agua que corriam em fio dos olhos de seus paes.
-
-O parocho attentou n’aquella vista, e como levado por idéa do céu, disse,
-abençoando a creança:
-
-Eu te baptiso em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo; as lagrimas
-de teu pae e as de tua mãe, peccadores mas arrependidos, essas lagrimas
-de contricção, tão gratas a Deus, te sirvam de agua de baptismo. Vae em
-paz, és christã.
-
-Logo em seguida tratou de casar aquelles dois, que pela alma e pelo amor
-já estavam casados; e acabada a cerimonia, a alma do agonisante, que nada
-mais tinha que a prendesse á terra, começou a soltar-se do corpo para
-voar á morada eterna.
-
-Elle conheceu-o, e com voz difficultada pela agonia disse ao sacerdote:
-
-—Abri-me essa janella meu padre, vou morrer, quero adorar ainda o Creador
-na sua obra.
-
-Um de nós correu a satisfazer-lhe a vontade. Já era manhã, e o sol vinha
-apparecendo fronteiro a romper por entre labaredas de fogo; o padre
-estava de costas para a janella; o vulto recortava-se-lhe sobre a luz, e
-os seus raios pareciam formar-lhe um resplendor de santo.—E se o era!
-
-Desviou-se para o lado, e um raio de sol veio bater de chapa na face do
-agonisante; parecia um signal mandado por Deus em prova de perdão.
-
-Foi elle quem chamou de novo á vida o que parecia já um cadaver, e lhe
-deixou proferir com grande esforço estas ultimas palavras:
-
-—Illuminae minha alma com a vossa divina graça, como me allumia agora o
-sol, que desponta no firmamento, perdoae-me Senhor!
-
-Passados momentos, o padre rezava sobre o cadaver as rezas de defunctos,
-e no dia seguinte nós todos iamos com os olhos arrasados de lagrimas,
-conduzir á sepultura o cadaver d’aquelle a cuja morte tinhamos assistido.
-
-
-
-
-III
-
-A proposito da missa do dia
-
-
-Entre os trabalhadores da quinta, havia um chamado Antonio, bom rapaz, é
-verdade; mas que tinha um defeito, de que se não corrigia.
-
-Era mentiroso, como os que o são, e quando o não acreditavam, amontoava
-juras, qual mais tremenda ou de mais responsabilidade e respeito para um
-homem de bem.
-
-E era pena; porque poucos havia tão laboriosos como elle.
-
-Era conhecido pelo—gallo da madrugada—titulo bem justificado em vista
-do que se apressava em concorrer ao trabalho: e não poucas vezes os
-pobres beneficios, que o seu magro peculio lhe permittia fazer, vinham a
-constar, pelos outros e não por elle, muito em seu abono e boa reputação.
-
-O tio Joaquim, conselheiro honorario d’aquella republica tinha-o
-reprehendido muito; mas aquelle maldito sestro não o queria o Antonio
-perder nem a bem nem a mal. Era o seu senão, que lhe acarretava não
-poucos dissabores e com o que não pouco prejudicava os outros.
-
-Era n’um domingo, e depois da missa do dia, no adro da egreja estavam
-reunidos, em mó, os saloios d’aquelles sitios que tinham concorrido ao
-santo sacrificio. De fatos domingueiros, e varapaus ferrados, discorriam
-pelas novidades do logar, exactamente como os nossos elegantes á porta do
-Marrare, ou nas salas do Gremio.
-
-Diga se a verdade; as Marias e as Joannas não deixavam de influir
-n’aquellas reuniões, porque não poucos eram os que ali compareciam
-levando em mira fallar ás suas requestadas, ensaiar requebros, ou ajustar
-entretenimentos para as horas de sesta ou para as tardes dos dias santos.
-
-O nosso Antonio tambem não faltava á reunião, e já por mais de uma vez
-fizera das suas, sem consequencias de maior, pelo pouco credito que
-tinham n’aquelle mercado campestre as notas do nosso caramboleiro.
-
-Havia no logar uma rapariga que se podia chamar uma perfeição, e que
-fazia tanta differença das suas companheiras, como a rosa de musgo das
-rosas carrasqueiras dos vallados.
-
-Era gentil e mimosa, não tinha as côres de saude, nem aquelle acerejado
-do sol, ou fórmas robustas e quasi viris da raparigada do campo; mas era
-mais esbelta, mais pallida, mais clara e com uns olhos tão negros, tão
-negros, que lhe saiam da alvura do rosto, como dois diamantes negros
-engastados em esmalte branco.
-
-Vivia arredada e em recato, e não apparecia em arraial ou festa, senão de
-anno em anno e quasi por milagre.
-
-Chamavam-lhe—a fidalga,—e o nome casava tanto com a sua distincção de
-maneiras e garbo de porte, como o soar das ave-marias com os descampados
-das serras.
-
-Como já se deve suppôr, os fragatas da terra tinham pretendido as
-honras de arrojado; mas debalde, porque os rejeitava, e quasi todos
-descoroçoados tinham desistido da empreza.
-
-Digo quasi todos, porque dois ainda lhe arrastavam a aza, um, (aqui em
-segredo,) era attendido e bem olhado; o outro, mais feliz, nem fallar
-n’isso é bom, mordia-se de raiva pelos desdens que soffria, e pelo pouco
-em que eram tidos os seus requebros e paixões.
-
-A escolha de Emilia tinha sido acertada, porque o José da Avó era o mais
-guapo moço d’aquellas duas leguas em redor. Desempenado e direito como
-uma vara de abrunheiro, valente como um pau de carrasco, generoso e de
-brio, como nenhum: nem o mais pintado lhe levava as lampas em trabalho de
-fazenda, em jogos de pau, ou em balharicos de domingo.
-
-E cantigas! Sabia-as elle cantar, como os que as sabem; entoava uma
-desgarrada ou sustentava um desafio, mais afinado e a preceito do que
-muitos d’esses italianos em segunda mão, que os empresarios nos impõem
-como notabilidades cantantes.
-
-O outro pretendente não era muito cheio de não presta: mas ao pé do
-José da Avó ficava a perder de vista, o que não admira; porque vasados
-n’aquelles moldes não havia muitos no logar. Elle porém, como não queria
-attender á razão, damnava-se jurando pela pelle do ditoso preferido.
-
-Este era o estado da questão na manhã do tal domingo, e os dois rivaes
-conservavam-se a distancia respeitosa no meio de dois grupos distinctos.
-
-Tinha saido já quasi toda a gente da egreja, quando Emilia se retirou,
-sem que lhe faltassem commentarios, emquanto passava por meio dos grupos.
-
-—Olha a delambida! soltou d’ali uma das raparigas mais feias da terra,
-parece que vae com o rei na barriga, nem olha para a gente.
-
-—Era o que faltava, a fidalga!
-
-—Vae toda enlevada no seu José, tem medo que lh’o tirem do lance.
-
-N’isto o nosso Antonio, que não queria ficar atraz, tambem se intrometteu
-na conversa, dizendo com modos de quem estava corrente com os mysterios
-d’aquelle circulo:
-
-—Pois faz elle bem em perder o seu tempo, porque ainda não ha muito que
-vi o Miguel de conversa com ella á porta de casa, e pelos geitos que a
-coisa levava, não era a primeira vez que se fallavam.
-
-—Ora tu sempre tens uma lingua!
-
-—Um raio me parta se minto; tinha-me calado e feito vista grossa, mas
-agora ferveu-me o sangue quando a vi assim como quem queria deitar lama
-para a cara da gente.
-
-As palavras de Antonio não tinham caido no chão. José, desconfiado como
-todos, estivera de ouvido á escuta e não perdera nem syllaba. N’outra
-occasião voltaria de certo as costas ao maldizente, mas d’esta vez mudava
-o caso de figura: o ciume acreditava a voz do mentiroso e a tremer
-chegou-se ao pé d’elle, perguntando-lhe com voz indecisa:
-
-—Juras que é verdade o que acabas de dizer?
-
-—Se é! os diabos me levem se minto; eu por mim não queria causar-te
-nenhuma aquella; mas assim como assim mais tarde ou mais cedo havias de
-vir a sabel-o; e, verdade verdade, ella não te merece.
-
-—Basta, lhe retorquiu o pobre José, e foi-se como um raio até onde estava
-o supposto arrojado.
-
-Inutil é dizer que tinha sido tudo isto enredos e obra de Antonio.
-Soltára as primeiras palavras como por demais, sustentára o dito por
-capricho, mais tarde para que não suppozessem que tornára com a falla ao
-bucho por medroso.
-
-Do outro lado do adro uma floresta de paus se levantava no ar, e já
-as navalhas estavam fóra das algibeiras; os dois tinham-se travado de
-razões, e como palavra puxa palavra, tinham passado dos ditos a vias de
-facto e malhavam um no outro como se fosse um monte de milho.
-
-Ambos tinham partidarios, e por conseguinte a lucta assumiu proporções
-maiores; porém por muito encarniçada que fosse entre os partidos, parecia
-um brinco de creanças á vista d’aquella em que os dois se tinham travado.
-Davam como quem se despedia do mundo, e como quem desejava vêr estendido
-no chão o seu contrario.
-
-Ao principio arrancaram dos paus e começaram a atirar as primeiras
-pancadas, que quasi todas cairam em cheio; até que Miguel, depois de ter
-jogado umas poucas de sortes ao seu adversario, e como ambos estavam
-_descobertos_ e só queriam dar, dissimulando uma pancada á cabeça, lhe
-dirigiu o pau por meia volta no ar ás pernas. Quando lá chegou já o seu
-adversario o tinha procurado aparar, porém tanto em mal, e tão puxada
-d’alma ia a contraria, que o pau colhido no meio, não o aguentou e
-partiu-se; e o outro não encontrando resistencia no corpo de José, porque
-elle já lh’o tinha furtado, foi de encontro ás pedras do adro e partiu-se
-tambem.
-
-Vendo-se desarmado, Miguel não perdeu tempo: correu sobre o inimigo com
-uma navalha e baldeou-o logo no chão jorrando sangue por uma ferida no
-ventre.
-
-O assassino, apenas commettido o crime, tomou as de Villa Diogo, e a
-desordem começou a apaziguar-se com a chegada dos cabos da terra, que
-tratavam de remover o ferido e de prender os combatentes.
-
-O causador de tudo isto tinha, logo que viu tomar ao caso uma feição que
-lhe não suppozera, procurando socegar o motim, confessando a sua mentira,
-porém já era tarde, n’aquellas alturas qualquer intervenção seria
-inutil; teve pois de assistir arrepelando-se, dizendo mal á sua vida,
-áquella triste scena, e promettendo, com mil juras que não mentiria nunca
-mais; ajudou soluçando a levar o ferido para sua casa na maca, que tinham
-ido buscar, e accusando-se todo o caminho de ter sido elle, e só elle, o
-culpado de tudo que succedera.
-
-Nos tres dias, que succederam á catastrophe, não se fallou n’outra
-coisa nos serões da quinta. Conhecia-se que o tio Joaquim por vezes
-tinha vontade de fallar, porém tão sincero lhe parecia o arrependimento
-de Antonio, que sempre desistia do intento. Uma noite, porém, o nosso
-mentiroso, já esquecido das juras que fizera, começou, por uma coisa que
-nada valia, a invocar os santos todos do Paraizo em seu testemunho, e a
-pedir raios e coriscos para castigo se mentisse.
-
-O velho narrador d’essa vez saltou lhe no gallinheiro, dizendo com
-aquella placidez de espirito, que tão habitual lhe era:
-
-—Este Antonio faz-me lembrar o João da Tenda, que vivia lá em baixo ao pé
-das casas do mestre Raymundo e que por dez réis de mel coado fazia juras
-e protestos ás carradas. Em mal lhe deu o vicio, coitado!
-
-—O que lhe aconteceu, tio Joaquim?
-
-—O que foi, o que foi?
-
-—Conte, conte; ha tanto tempo que lhe não ouvimos uma historia!
-
-—Pois bem, soceguem, que lhe não faltarei hoje, e não será por culpa
-minha se esta lhes não agradar.
-
-O pobre do Antonio tinha pedido misericordia com um olhar de supplica:
-mas o velho compromettera palavra e não havia de se esquivar á promessa.
-
-—Diz lá o rifão: «quem compra e mente na bolsa o sente;» como diz tambem:
-«homem de boa lei tem palavra como rei», isto era quando os reis tinham
-palavra, se alguma vez a tiveram, que d’essas coisas não sei eu, e
-quando não faltavam ao que promettiam.
-
-O que é verdade é, que se o mentir prejudica a honra e o corpo, não menos
-prejudica a alma estar, por dá cá aquella palha a fallar no santo nome de
-Deus, e no dos santos, que não são pontos com que se brinque.
-
-Nenhum, dos que aqui estão, vae incommodar o patrão para coisas que não
-valem a pena, e muito menos por conseguinte devem ir bater á porta dos
-patrões mais subidos, para de mais a mais os tomarem para testemunhas e
-parceiros de coisas que não só não valem a pena, mas que são mentiras
-ainda em cima. E depois, quando se apanha fama de mentiroso, não ha quem
-nos acredite por mais que deitemos os bofes pela bocca fóra, e ainda
-mesmo que fallemos a verdade. Mau é dizer-se que o cão é damnado.
-
-—Mas se fôr para fazer bem, não se deve mentir tio Joaquim?
-
-—Para tudo ha remedio. Uns homens que perseguiam outro, perguntaram a um
-santo, que encontraram no caminho, se tinha visto passar o malfeitor.
-
-O bom do santo tinha-o visto, não havia muito; mas nem o queria
-denunciar, nem mentir tambem: já vêem que elle estava n’esse caso, e que
-se devia vêr a perros.
-
-—É verdade, é verdade, e que respondeu?
-
-—Que por ali não passára; e como estava com as mãos nas mangas, apontou
-para dentro d’uma d’ellas, por onde de certo o tal homem não podia caber.
-
-—Ora! exclamaram alguns dos circumstantes, como admirados.
-
-—Parecia santo saloio, tornou d’alli um _ratinho_, ultimamente embaçado
-na compra d’uma enchada.
-
-—Nada que não, respondeu lhe logo o vendedor, que o percebera á legua,
-não tinha alma de beirão, que lá diz o dictado: no bom beirão corpo e
-alma pequenos são.
-
-Talvez a questão se azedasse mais se o tio Joaquim os não interrompesse
-logo gritando: leva de rumor, vamos á historia do João da Tenda.
-
-Quando vim para esta terra, já vae n’um par de annos, tinha elle uma
-lojasita lá no largo de baixo, mesmo á esquina da estrada real. Era um
-pequeno modo de vida, que bem cultivado podia produzir bastante; mas como
-havia descuido no amanho a colheita foi infeliz.
-
-N’estas coisas de negocio a reputação de homem de palavra se não é ouro
-de lei vale-o bem; e d’esta riqueza o bom do João era mais pobre do que
-Job.
-
-Ninguem se fiava n’elle e o credito diminuia cada vez mais. Direito
-em contas e honrado era: porém aquelle sestro maldito de mentir por
-dá cá aquella palha, a mania de fazer juras e protestos, que nunca se
-realisavam, fazia com que lhe roessem a corda na maioria dos ajustes, sem
-que tivesse direito de se queixar, porque não era mais do que pagar-lhe
-na mesma moeda.
-
-Assim iam os tempos e o negocio corria-lhe por agua abaixo.
-
-Para maior desgraça, no sitio onde não havia senão a loja do João, veio
-estabelecer-se uma outra e tirar-lhe a freguezia.
-
-Era do José Fernandes, que ainda hoje lá a tem no mesmo logar, e que
-sabendo o valor do dictado—cara alegre ganha vontades,—tratou, emquanto
-o seu visinho andava de maus modos, porque os tempos iam maus tambem, de
-chamar freguezes, tratando-os ás mil maravilhas, e desfazendo-se em bons
-serviços.
-
-João tinha uma filha, a menina dos seus olhos, e uma flôr de enche-mão.
-Mais guapa rapariga não havia de certo por aquella meia duzia de leguas
-em redor; e se tivesse nascido na cidade, se lhe tivessem debastado as
-grossuras dos campos com a plaina das fidalguias, metteria de certo a um
-canto essas arrebicadas, que para ahi vem passar os verões e que parece
-que se estão mesmo a desfazer.
-
-É bem certo, que não ha panella sem testo, e para vasilha de tão fina
-loiça, é preciso que a tampa lhe não desmereça da qualidade.
-
-E assim era o arrojado de Joaquina: rapaz bem feito e espigado, forte de
-corpo e affeiçoado de rosto, um d’estes de quem não ha nada que deitar
-fóra.
-
-Como é de crêr, entendiam-se que era um regalo, e morriam um pelo outro.
-E que bem acertado por elles eram! Joaquina, delicada e fina como uma
-rosa de toucar, ou uma flôr de madre-silva: Domingos, forte como um
-zambujeiro e direito como um prumo.
-
-Encostados um ao outro, quando se fallavam ás furtadellas ao descair
-da tarde, pareciam, tanto ella se ageitava a elle, e tão erguido elle
-estava, contente por a ter comsigo, a haste da cruz de pedra que está
-defronte _dos Ouriços_, vestida com as braçadas flexiveis da hera, que
-lhe nasceu ao pé.
-
-Ninguem lhe invejava a felicidade; antes, pelo contrario todos gostavam
-de os vêr assim, pois pareciam ter nascido um para o outro. Mas sabem
-de certo, que não ha bem que dure sempre, e o d’elles por isso havia de
-acabar em pouco tempo.
-
-O pae de Domingos, Deus lhe falle na alma, era um fazendeiro abastado dos
-sitios, que contava para cima de vinte geiras de terra de pão, fóra umas
-seis courellas de trincadeira, duas hortas valentes, e um pomar de caroço
-de mais de trezentos pés de fructa. Por conseguinte o rapaz era um bom
-casamento para a rapariga, e por isso o João fazia a vista grossa. Que de
-mais a mais o noivo era moço de honra e incapaz de abusar.
-
-Mas não assim o tio Fernandes, que não engraçava com o tendeiro por
-as suas mentiras, e que nada queria com gentes, que pertencessem ao
-caramboleiro. Tinha sido toda a sua vida homem de palavra, as suas
-promessas eram mesmo um evangelho, e quem não seguisse este modo de vida
-nada tinha feito com elle.
-
-Domingos, como é de querer, tinha escondido do pae os seus amores com
-Joaquina. Uma vez por outra procurou sondal-o a tal respeito, porém,
-como visse que era tempo perdido, tinha desistido da empreza, e assim ia
-tenteando o namoro com esperanças em que ou o velho cedesse da birra, ou
-o outro do vicio.
-
-Foi por estes tempos que se armou uma das tantas guerras que por ahi
-tem havido na nossa desgraçada terra. Era preciso tropa e trataram de
-recrutamentos com toda a força.
-
-Domingos, foi um dos sorteados. Seu pae, rico bastante, podia com
-facilidade pagar a um homem para o substituir, o caso era que o quizesse,
-e tanto que estava resolvido a sacar uma duzia de loiras da arca, onde
-estavam havia um par de annos sem vêr sol nem lua.
-
-Era um domingo á noite, e o tio Fernandes recolhia-se de uma feira
-de gado onde fôra comprar uma junta de bois, de que precisava para a
-lavoira. Vinha deitando contas á sua vida, e tão entretido que nem lhe
-tinha custado o caminho.
-
-Ao voltar de uma azinhaga avistou de longe dois vultos, que não parecia
-darem pela sua vinda. Reconheceu-os logo, e percebeu tambem qual o fim
-com que seu filho tantas vezes lhe tinha desculpado o João da Tenda, e
-porque tão desgostoso andava por assentar praça.
-
-Fez os seus entes de razão, e ajustou com os seus botões, que: désse por
-onde désse, não se havia de fazer similhante casamento.
-
-N’essa noite houve questão até fóra de horas entre Domingos e seu pae. O
-rapaz confessou tudo e o velho negou-se a pagar-lhe o homem.
-
-—Ou deixar o namoro ou assentar praça, disse-lhe o tio Fernandes e
-Domingos preferiu a segunda condição.
-
-Mezes depois chegava á terra a noticia da morte de Domingos. Tinha-se
-batido como um homem, tinha sido um dos primeiros a atacar, e pagára o
-atrevimento com a vida.
-
-Figurem-se agora qual seria a pena de Joaquina ao saber de similhante
-noticia. A pobre da rapariga, depois que o seu apaixonado partira, não
-tivera nunca mais uma hora de consolação. Levava os dias a chorar, que
-era uma dôr de alma, e ia-se infesando a olhos vistos.
-
-João, o culpado de tudo, pelo seu amaldiçoado costume, sem recursos
-porque os freguezes lhe tinham fugido, e porque o mal de sua filha lhe
-levava o resto, estava que parecia outro: e n’aquella casa, onde todos
-viviam contentes, não havia já nem signaes de alegria.
-
-A apaixonada moça foi esmorecendo cada vez mais, os medicos não lhe
-achavam remedio para o mal, e qualquer que lhe receitassem não o queria
-ella tomar.
-
-Acabou a sua cruz, e, em poucos mezes, foi reunir-se a Domingos, n’essa
-outra terra onde os amantes vivem unicos eternamente, e onde os justos
-gosam da felicidade sem fim.
-
-Quando entrarem no cemiterio reparem para a esquerda, que hão de vêr
-debaixo do terceiro cypreste, a contar da porta, uma cova com duas cruzes
-de madeira e uma corôa de perpetuas. Ajoelhem sobre a terra benta,
-rapazes, e rezem ao Senhor pelo pae e pela filha, que ahi descançam
-juntos como o tinham estado em vida. Lembrem-se do que lhes succedeu,
-e reparem, que ás vezes uma mentira póde deitar a terra uma reputação
-por mais antiga que seja. Rapazes, quando se apanha um homem que não
-falle verdade, e quando se perde o credito, perde-se em pouco dinheiro e
-honras. Felizes ainda dos que não pagam com a vida como o pobre João da
-Tenda.
-
-Quando os trabalhadores saíram, chegou-se Antonio ao narrador.
-
-—Percebi tudo, tio Joaquim, prometto-lhe não mentir nunca mais nem fazer
-juras por coisas poucas.
-
-—Deus te oiça, tornou-lhe o velho, que és bom rapaz; e se perderes esse
-mau costume, poucos haverá que te levem a palma.
-
-
-
-
-IV
-
-Os domingos de fóra da terra
-
-
-Era n’um domingo de novembro. A agua tinha caido a cantaros todo o santo
-dia, e a chuva fôra tanta, que diziam pelos sitios: já os cães a bebem em
-pé.
-
-Grande parte dos trabalhadores da quinta, em que eu vivia, tinha
-saido depois do jantar, embrulhados uns em mantas, outros em gabões e
-gabinardos em direcção á quinta do tio Joaquim de Mattos, acreditado pelo
-bom vinho que vendia, e pelos bons piteos que lá, de quando em quando,
-arranjava a sr.ª Josepha, sua respeitavel sobrinha, desenxovalhada moça e
-uma das mulheres com menos papas na lingua d’aquelles arredores.
-
-De tempos a tempos apparecia pela adega do sr. Mattos, Deus lhe falle
-n’alma, pois era um honrado homem, um ensebado baralho, que cortava a
-monotonia de um sempiterno jogo de bola, e entretinha quando o tempo
-estava de peior catadura, os afreguezados frequentadores. Outras vezes
-tambem um ou outro especulador lisboeta arribava áquellas paragens
-com esperanças de armar trapaças e jogatinas, e esse então premunia-se
-antecipadamente com uns dados, de lizura problematica, ou com algumas
-cartas de egualdade controversa, que manejadas habilmente lhe serviam de
-traiçoeira isca para os agourentados vintens dos pobres maltezes.
-
-Mas, verdade verdade, era uma excepção da regra. O dono da casa obstava
-quanto podia a estes desvios: e já experimentado nas consequencias,
-tratava de pôr cobro a semelhantes armadilhas.
-
-O domingo, porém, a que nos referimos era um dos taes dias aziagos. Os
-lisboetas, as cartas e os dados tinham trabalhado muito, acompanhados,
-já se vê, de um numero infinito de quartilhos de vinho, que n’uma roda
-viva passavam do balcão para a mesa do jogo, e d’esta para o poder da tia
-Josepha, que já não tinha mãos a medir.
-
-Em medidas effectivamente passara ella o tempo todo; mas nem todas
-eguaes, porque, por amor do proximo já se entende, quando os via mais
-carregados alliviava-lhes a mão, e esvasiava-lhes os copos; até que por
-fim de contas, quasi que, em vista da exiguidade da dóse, mal se poderia
-reconhecer quanto tinham pedido.
-
-Mas decretos da Providencia, que sempre são de immenso alcance,
-disfarçados mesmo nas tibornias da tia Josepha! Se não se compadecesse
-tanto dos miseros bebedores, em que estado não ficariam elles, que mesmo
-assim, quasi sempre, ao sair, não sabiam quem era o cura da sua freguezia!
-
-Os nossos amigos trabalhadores, que não queriam passar por homens de
-ficar atraz em coisas d’aquellas, entraram na quinta, á volta da adega
-do tio Mattos, que era uma lastima vêl-os. Uns a cair, outros cheios de
-escalavradellas, e todos elles sem real da feria da semana.
-
-Começaram beberricando para não fazer desfeita aos lá da cidade que
-os tinham convidado; pouco a pouco foram chegando-se para o jogo, ao
-principio sómente para vêr, depois para jogar. Emfim quando não cabiam em
-si de contentes, porque iam de cima e tinham alguns vintens diante de si,
-viram n’um relance de fortuna varrer-se-lhes tudo da frente, á maneira de
-comoro de vallado feito de terra solta, e que uma cheia leva no enxurro.
-
-D’aqui os ralhos e as desordens; apoz as descomposturas, as vias de
-facto, e quem sabe, se não lhe acudissem, onde a coisa iria parar.
-
-Fazer-lhes prégações n’aquellas alturas era o mesmo que chover no
-molhado. O tio Joaquim, que não era de hoje nem de hontem, conheceu
-logo que perdia o seu tempo; deu-lhes de mão n’aquella noite, e no dia
-seguinte ás horas do costume contou-lhes pouco mais ou menos o que se
-segue:
-
-Poucas coisas ha que tanto custem, para nós, que toda a semana andâmos
-agarrados ao cabo da enxada ou rabiça do arado, como é entreter os
-domingos e dias santos, que o Senhor nos manda para descanço do corpo e
-recobro de forças.
-
-Depois da missa fica um por ahi além de horas, que é preciso matar sem
-quebra do temor de Deus, nem offensa do proximo; mas como nem todos sabem
-o que hão de fazer, acontece quasi sempre, que as perdem, e as perdem
-muito para mal.
-
-As velhas onzeneiras, que almejam pelos domingos para bisbilhotarem as
-vidas alheias e darem cresta ás colmêas dos outros, dizem que se deve
-descançar do trabalho, e passam-n’os na ociosidade, que de todos os
-vicios é o peior; os mal comportados destinam-n’os para as tabernas, do
-que conseguem, além de ficar moidos e ralados, sem poder fazer obra que
-se veja nos dias mais proximos, fazerem-se brutos de todo ao cabo de
-pouco tempo.
-
-E dizem que descançam! Qual descanço nem meio descanço! Como se o homem
-não fosse como a terra, e como esta precisasse estar em pouzio para
-melhor produzir!
-
-Muda-se a sementeira como se deve variar o trabalho, e o melhor descanço
-não é aquelle que consiste em não fazer nada; ou então, o que é peior
-ainda, em armar disturbios e levantar rixas.
-
-Tres rapazes conheci eu, não ha muitos annos, cada um dos quaes tinha
-o seu modo particular de entreter os dias de festa, cada um dos quaes
-tambem escolheu fructos correspondentes ao grão que lançára á terra.
-
-Variavam tanto nos costumes e systemas, como se apartavam nas feições, e
-como se vieram a differençar tambem no destino que levaram.
-
-Tinham nascido na mesma terra, e, bem moços ainda, tinham vindo procurar
-trabalho á mesma fazenda; porque, acostumados a viverem juntos desde
-pequenos, não se podiam separar nem á mão de Deus Padre.
-
-Roberto, o mais velho de todos, era feio de cara e de peior catadura.
-Zangava-se por dez réis de coisa nenhuma, e quando estava zangado
-dava por paus e por pedras. Tinha tanto de robusto, como de mau, e
-só respeitava, de toda a gente, os seus dois companheiros, Pedro e
-Anastacio. O primeiro d’estes fazia tanta differença de Roberto, como o
-dia da noite. Franzino e delgado, parecia que o menor sopro o deitava a
-terra, e lembrava mais um alfinete de toucar do que um trabalhador de
-enxada. Comedido e de bons termos para todos, em pouco tempo ficou sendo
-o ai Jesus da fazenda, onde morriam por elle.
-
-Anastacio, o ultimo em que lhes fallei, era, por assim dizer, como uma
-ponte entre os dois. Fazia lembrar o outono entre o verão e o inverno. Se
-era desembaraçado e lesto como Roberto, era bom como Pedro, estimava um
-e outro devéras: mas se não podia levar a bem os arremessos e maus modos
-de Roberto, não gostava tambem muito de tanto de não presta, de que
-estava cheio o outro seu companheiro. Não lh’o deitava á cara para não o
-envergonhar; mas muitas vezes lh’o ouvi dizer:
-
-—Não se ha de fazer nunca d’ali coisa que tenha geito, parece um
-Sant’Antoninho onde te porei; nasceu mais para fiar n’uma roca do que
-para puxar ao trabalho com substancia. Não é culpa sua, isso é verdade,
-mas por mais que me digam, aquillo foi erro da natureza.
-
-Em pouco tempo teve cada um uma occupação adequada ás suas posses. Pedro,
-que mais não podia, foi encarregado de guardar um rebanho de ovelhas
-e cabras, que tinha mais de duzentas cabeças; Roberto tomou conta da
-abegoaria e das cocheiras; Anastacio ficou de rancho na malta, entre os
-trabalhadores de enxada.
-
-Como é bem de vêr, o peior dos tres começou a fazer das suas: trabalhava
-de má vontade, embebedava-se, e tratava do gado á moda de mil demonios.
-
-O mais fraquito, bem ao contrario, começou a fazer as vontades aos
-patrões e a cair lhes em graça.
-
-Tanto fez, tanto fez, que o filho da casa pegou a ensinar-lhe a lêr,
-coisa porque elle morria havia muito tempo, e em que entretinha os
-domingos, passando os dias de semana, em quanto o gado pastava, a estudar
-as lições e a puxar por si; o Anastacio que não podia aturar a lettra de
-imprensa, nem, segundo dizia, tinha cabeça para aprender, começou a fazer
-economias para, logo que podesse, tratar de casar com uma rapariga da sua
-terra, com quem estava justo desde pequeno.
-
-Emquanto uns iam para as tabernas e Pedro dava lição, elle, que não
-queria gastar o dinheiro em extravagancias, nem atormentar a cabeça com
-aquellas tontices dos livros, procurou vêr se aprendia algum officio
-ou arte, em que se entretivesse, e em que passasse o tempo com toda a
-economia.
-
-—Porque não estudas tu aos domingos tambem? perguntava eu muitas vezes a
-Roberto.
-
-—Ora, porque não nasci para sachristão, nem para besta de carga. Enfados
-bastam os da obrigação, que já não são poucos, quanto mais il-os eu
-buscar agora por minhas mãos. Sempre ouvi dizer que era preceito guardar
-os domingos e festas de guarda, e que trabalhar n’estes dias era peccado.
-
-Estavam as coisas n’estas alturas, quando tive de ir á minha terra,
-recolher uma herançasita que houvera, e demorar-me por lá algum tempo
-para pôr as minhas coisas a direito; quando voltei nenhum d’elles já
-estava na mesma quinta.
-
-Seis annos depois em dia de festa de Corpo de Deus, fui a Lisboa vêr a
-procissão e visitar de caminho uns parentes, que ali tinha,—já lá estão
-na terra da verdade, pobre gente!—Deus os tenha á sua vista.
-
-Passava pela rua dos Bacalhoeiros quando ouvi que de uma tenda me
-chamavam pelo meu nome. Vejam qual não seria a minha admiração, quando
-dei com duas caras conhecidas, que me faziam muita festa, e que eram nem
-mais nem menos do que os nossos amigos Pedro e Anastacio.
-
-Nem pareciam os mesmos, nos termos e nos trajes lembravam pessoas da
-cidade, mas no coração eram sempre os pobres e bons trabalhadores.
-
-—Ora o tio Joaquim por estes sitios, me disseram, e sem nos conhecer!
-
-—É verdade, rapazes, quem era capaz de pensar, que havia agora de vir
-topar com vocês, assim tão enfeitados e garridos. Com mil demonios, se me
-não chamassem, não era eu que os descobria.
-
-—Mas nós não esquecemos os amigos velhos, e logo que o vimos, não
-quizemos passar sem o abraçar.
-
-—Bem apertado e do coração. Mas pelo que vejo a fortuna fez das suas, e
-lembrou-se de vossês.
-
-—É como diz; alguma felicidade tivemos. Mas não ha de ficar á porta da
-rua, entra e vem conversar um poucochinho comnosco, não é assim?
-
-Fiz-lhes a vontade, e pelo que me contaram vim a saber o que lhes tinha
-acontecido, e que foi o seguinte:
-
-Cada um d’elles tinha seguido o seu modo de vida, conforme se ageitava
-melhor. Pedro estudando nos livros, Anastacio trabalhando nas horas de
-descanso, para juntar algum dinheiro.
-
-Metteu-se-lhe na cabeça aprender um officio e a troco de alguns serviços
-feitos ao mestre Antunes, tanoeiro, alcançou que lhe ensinasse o seu modo
-de vida, em que, com a vontade que tinha, chegou a ser um bom official.
-
-Já avesava um par de vintens, quando se descobriram essas terras lá da
-California, onde segundo diziam os papeis, havia mais oiro em pó, do que
-milho em celleiro rico nos annos de fartura.
-
-Os homens de ganhar começaram a mudar de rumo e a procurar fortuna por
-essas terras. Desinquietaram-n’o; mas elle, despresando o ditado: «muda
-de terra, mudarás de fortuna» como se ia dando bem por onde estava,
-resolveu-se a ficar.
-
-Ora, não sei se sabem, que apesar de haver dinheiro a rôdo pela tal
-California, não havia de comer, nem de beber, e qualquer coisa, que por
-lá se precisava, era comprada a peso de oiro. Fazia frio de cair o nariz,
-a aguardente e o figo, era—de mais a mim, mais a mim—e os tanoeiros por
-conseguinte não tinham occasião de dobrar canella.
-
-Anastacio, que já sabia do officio ás direitas, deitou-se á obra, empatou
-em madeira os pintos que juntára, e conseguiu montar uma tanoaria em
-grande, que em pouco tempo se afreguezou pelos bons modos do dono e bom
-preço das obras.
-
-Quando o encontrei em Lisboa, acabava de casar com a promettida
-desposada, que trouxera da terra. A sua loja, que era uma das melhores
-da cidade, gosava de excellentes creditos: e o negocio corria o melhor
-possivel.
-
-Pedro tambem tinha caminhado e muito; mas por estrada diversa. Pouco a
-pouco fôra lendo cada vez melhor, e escrevendo de fórma que levava as
-lampas ao mestre-escola do logar; parecia um treslado a lettra do rapaz.
-
-O dono da quinta, a quem elle caira em graça pelos seus termos comedidos
-e vontade de saber, tirou-o d’aquelle labutar e mandou-o para uma
-mercearia sua em Lisboa, a servir de caixeiro. Era o que elle queria e
-em que melhor calhava, tanto que em pouco tempo se fez um merceeiro de
-enche-mão.
-
-O patrão trazia-o nas palminhas, e dizia á bocca cheia: que não tivera
-nunca outro, que lhe chegasse tanto ás medidas.
-
-Nem só o sr. José Esteves era d’esta opinião: a senhora sua filha, que
-se derretia para o rapasito, achava ao pae carradas de razão e fazia-se
-com terra de lhe chamar seu marido. Atrever-se a pedil-a, não era o Pedro
-capaz d’isso; mas o pae da rapariga, que deu na ferida, e que não era
-de soberbas, antes pelo contrario muito dado e maneiro, reconheceu que
-lhe convinha para genro um bom rapaz socegado e amigo de dar ordem á sua
-vida, e em poucos tempos tratou de os pôr a caminho do setimo sacramento.
-
-Tambem vivia de grande quando lhe fallei, e a loja onde estavamos era do
-sogro; ou d’elle, que vinha a dar na mesma coisa.
-
-Tinham acabado de me contar as suas historias, e ia-lhes perguntar, que
-norte tinha tomado Roberto, quando ao chegarmos á porta para vêr a gente
-que passava para a procissão, desembocaram de uma d’aquellas ruas uns
-poucos de grilhetas, que de barril ás costas, desciam lá das bandas do
-Castello e iam para o chafariz de Dentro. Não tive que perguntar, porque
-reconheci-o logo entre elles quando passaram diante da porta.
-
-Vim depois a saber por que fôra ali parar. O vinho, e as patuscadas dos
-domingos, tinham sido a causa d’aquella desgraça.
-
-Não deitava Nosso Senhor um dia santo a esta terra, que elle não fosse
-para a taberna, e que não sahisse de lá a não ser em miseravel estado. Em
-breve pozeram-no fóra do trabalho, porque não dava conta de si, nem se
-podia olhar para elle, de desmaselado que andava. Vendo-se sem trabalho,
-e sem ninguem o querer, ajuntou-se a uns poucos de vadios da terra, que
-passavam pelas peores firmas do logar.
-
-Ao principio eram comesainas e bebedices: depois como não havia dinheiro,
-nem gente que lhes fiasse, nem vontade de trabalhar, começaram a pregar
-calotes, a commetter roubos, e quem sabe se mortes tambem.
-
-Ao menos assim por lá se rosnava, e bem se diz: que n’estas coisas: «voz
-do povo, é voz de Deus.»
-
-Um dia a justiça, que andava com os olhos n’elles, deitou-lhes a unha. Um
-dos que resistiu foi Roberto, e ao fugir á prisão, feriu de morte um dos
-cabos, que o queriam prender.
-
-Foi condemnado ás galés por toda a vida: e a cumprir esta sentença o vi
-eu em Lisboa, no tal dia de festa do Corpo de Deus.
-
-Agora vocês lá rapazes, que perceberam aonde eu ia dar na minha: pensem
-na historia que lhes contei, e vejam de que modo deverão passar melhor os
-domingos e dias santos.
-
-Os bons dos maltezes não deram resposta ao narrador n’essa occasião; os
-resultados futuros deixaram vêr, porém, que as palavras do conto do tio
-Joaquim, não tinham sido deitadas ao vento.
-
-
-
-
-V
-
-Os retratos de familia[1]
-
-
-Faz para as vindimas dez annos, que eu ouvi ao tio Joaquim esta historia.
-
-Havia pouco que sahira da quinta, onde eu estava, o sr. Antonio Tavares,
-que passava por um dos fazendeiros mais ricos dos arredores.
-
-Amanhava para cima de sessenta geiras de terra: e só de uva mandava perto
-de quinhentas caixas para embarque.
-
-Era franco, alegre, e homem de boas petas; tinha pilhas de graça e
-parecia vender saude; emquanto a modos e linguagem, sabia o nome aos
-bois, e quando fallava de lavoira podia-se ouvir, discorria como um livro
-aberto.
-
-Todos gostavam d’elle, por não ser de contos, nem de arcas encoiradas;
-só cuidava da sua vida, andando lizo no negocio como poucos. Ninguem lhe
-acceitava signal, porque em dando a sua palavra era como se apresentasse
-o dinheiro contado na palma da mão. Não constava que faltasse, nem se
-dava fé, de quem tivesse duvida em fiar d’elle fosse o que fosse.
-
-Tinha vindo a comprar uns trigos, assistira ao carregar dos carros e
-sahira depois do trabalho acabado, n’uma vaca de cinco annos, esperta
-como um azougue e preta como um azeviche. Rira muito, contára muita
-coisa, e fizera bom negocio; porque lhe tinham dado o pão em conta por
-ser a venda redonda.
-
-O tio Joaquim, que não era dos mais falladores, nem dos que se abria
-muito com os extranhos, conversára com o sr. Antonio Tavares, como
-quem de ha muito o conhecia: apertára-lhe a mão na despedida com ares
-affectuosos, e seguira-o com a vista até desapparecer na volta da
-alameda, fazendo feitios com o pau na terra do pateo, e resmungando entre
-dentes palavras que não entendi.
-
-Esta excepção nos habitos do velho, aguçou-me a curiosidade, e
-perguntei-lhe se conhecia de ha muito o homem que d’ali saira.
-
-—Se conheço!...—respondeu-me inclinando a cabeça de alto a baixo,
-compassadamente, duas ou tres vezes.
-
-Havia tantas coisas n’aquella reticencia do tio Joaquim, que não pude
-resistir, e instei com elle para que me contasse a historia do sr.
-Antonio Tavares.
-
-Tanto fiz, tanto fiz, que sentou-se ao meu lado n’um poial de tijolo,
-carregou um cachimbo de madeira, enfeitado com virolas de latão, como os
-que usam os campinos do Ribatejo, petiscou, accendeu-o e começou.
-
-Mais palavra menos palavra disse o seguinte:
-
-—Vae tanta differença d’este Antonio, ao de outros tempos, como vae da
-noite ao dia, e tanto que se eu não presenciasse esta mudança, não podia
-acredital-a ainda que m’a contassem.
-
-Lá embaixo, ao pé do Joaquim Boleta, no recanto da azinhaga, morou por
-muito tempo o pae em companhia da mulher que veio a morrer de parto,
-quando este Antonio nasceu. Ali esteve, até que por causa da guerra com
-os francezes chamaram as baixas antigas e elle, como tinha sido soldado
-n’outros tempos, teve de partir deixando o rapaz entregue a uma visinha,
-boa mulher na verdade e que promettera tomar conta d’elle. Mas é mais
-facil ter um pouco d’azougue quieto em cima d’uma pedra, do que era
-conseguir, que o rapaz não fizesse por ahi obras de cabeça.
-
-Não deitava Deus nosso Senhor um dia a este mundo, em que se não
-dissesse: lá apanhou o Antonio engeitado, (assim é que lhe chamavam), uma
-escamoucadella na cabeça, lá o aleijaram n’uma brincadeira, lá lhe deram
-uma cossa quando andava aos figos.
-
-Era um rosario de coisas, que até fazia admiração como elle resistia; mas
-se o carrasco e o zambujeiro crescem, medram e enrijam ao desamparo por
-esses vallados, e não ha madeira como a d’elles para aguentar dura; não
-admira tambem que o rapaz enrijasse assim ao Deus dará e se fizesse um
-mocetão de mão cheia, esperto e guapo que era um regalo vêl-o.
-
-Emquanto a velha Thereza foi viva ainda elle trabalhou alguma coisa para
-a sustentar, não muito, que lá no seu dizer, o trabalho era para os cães
-e não para as almas christãs; mas apenas a velha fechou o olho, adeus
-minha vida, foi um vadiar, que não é para dizer.
-
-N’este comenos tinha um soldado, que viera da campanha passado pela
-terra, e entregára ao Antonio umas lembranças do pae, morto n’um ataque
-contra os francezes, recommendando-lhe o filho á hora da morte.
-
-Minguada herança, que ella era. A farda do soldado, meia duzia de peças,
-se tanto, e o retrato do pae, que um seu companheiro tinha feito n’uma
-hora de vagar. Muito parecido, por tal signal; era elle por uma pena, só
-lhe faltava fallar.
-
-Antonio chorou devéras, pouco se lembrava de seu pae; mas custou-lhe
-muito aquelle lance. E n’essa occasião mesmo deu mostras de boa alma que
-tinha, e que depois deixou vêr melhor lá para o diante, quando mudou de
-vida. Apesar de falto de dinheiro, não gastou comsigo nem um real da
-herança que recebera; uma parte empregou-a em mandar fazer um caixilho
-muito bonito para o retrato de seu pae, e o resto deu-o de esmolas aos
-pobres, pedindo-lhe que rezassem por alma do finado. Andou uns dias, que
-não parecia o mesmo, triste e regular no trabalho, depois tornou á antiga
-ou ainda peor se era possivel.
-
-Quando tinha algum vintem de seu não paravam as patuscadas, as festas e
-os divertimentos; depois trabalhava pouco e de má vontade até arranjar
-dinheiro, e, mal o conseguia, eil-o que voltava á boa vida.
-
-Mas, manda a verdade que se diga, esteve por vezes doente no hospital,
-viu-se em talas quando por ahi faltou o trabalho, vendeu, empenhou tudo,
-só não tocou, em occasião nenhuma, nem na fardeta, nem no retrato, que
-conservava á cabeceira da rabeca, onde dormia, como se fossem imagens do
-Senhor dos Passos ou orações do Justo Juiz.
-
-Uma vez, vim a sabel-o ao depois, tinha-se-lhe acabado todo o dinheiro e
-não havia que fazer; o jantar havia de vir; mas d’onde, é que elle ainda
-o não sabia. Antonio foi procurar um ferro velho do logar e propôz-lhe a
-venda da enxerga: era o resto dos trastes, que tinha, e estava tão velha
-e tão suja, que nem uma de doze valia.
-
-O ferro velho entrou, e mal deu com os olhos nas duas reliquias do pobre
-rapaz offereceu-se para lh’as comprar; mas inda bem o não tinha dito, já
-estava arrependido de o dizer, porque Antonio punha-o immediatamente no
-meio da rua com promessa de lhe fazer os ossos n’um feixe, se tivesse
-outra vez semelhante lembrança.
-
-Assim passou algum tempo com a barriga ora em lua cheia ora em quarto
-minguante, até que uma gente, que para aqui veio lhe fez mudar o modo de
-viver.
-
-Um velho tinha arrendado a quinta dos Fusis, para onde viera presistir em
-companhia de sua filha.
-
-Elle andava pelos seus cincoenta annos: parecia homem de bem; mas casca
-grossa e pouco de graças; ella, mais bonita que uma imagem e mais bem
-posta que uma fidalga.
-
-Quando íam no domingo á missa ou de tarde a espairecer por essas
-azinhagas, o velho de cabeça branca, corpo um tanto curvado, bigodes
-grandes, sobrancelhas espessas, parecer carregado e faces enrugadas;
-ella alta, esbelta, de olhos pretos e vivos, cabello castanho, faces
-córadas, feições alegres e cara de riso para todos, pareciam a noite e
-a madrugada, ou o inverno e a primavera que se combinassem para melhor
-parecer unidos um á outra.
-
-Os rapazes todos derretiam-se para ella, mas o pae que não tinha cara de
-muitos amigos, impunha-lhes respeito e conservava-os de largo; e d’ahi
-ella assim mesmo sempre alegre, mas toda senhora, dava tambem a entender,
-que não estava resolvida a acceitar a côrte a qualquer badameco.
-
-Antonio vio-a um dia e ficou perdido de cabeça; desde essa occasião
-começou vida nova: e o rapaz extravagante e vadio, começou a ser homem.
-
-Era tempo, tinha quasi vinte e cinco annos.
-
-Mas a vida que seguiu, foi tão differente da antiga, que não parecia o
-mesmo.
-
-Os dias passava-os a trabalhar, as noites a aprender a lêr, porque o
-mestre do logar lh’o ensinava a troco dos domingos, em que lhe trabalhava
-no quintal, e as horas de sesta ou de jantar passeando pela frente
-da casa da menina Maria, que o enfeitiçára: mas para bem, que são os
-melhores feitiços.
-
-E o caso é que o maganão do Antonio tinha bom gosto, por que mocetona
-mais perfeita não a havia n’estas tres leguas ao deredor. Ia-se
-desenvolvendo e medrando, que era um louvar a Deus, e não seria por sua
-parte, que podesse resultar má fama aos ares do logar.
-
-Bonita já ella o era, mas enfezada e doentia por amor d’aquelle mau
-respirar que as cidades fazem; apenas porém desatou por ahi a passear
-e a espairecer, entrou a córar, que nem uma pera de Santo Antonio, e a
-encorpar que nem uma maçã bemposta.
-
-Se ella reparava no rapaz, nem o sei eu, nem ha quem o jure, porque isto
-de mulheres, nem o demo as entende; mas que o não visse com maus olhos é
-de crêr, porque o Antonio, não tinha nada que se deitasse fóra e era um
-rapaz perfeito a mais não poder ser.
-
-Cá por a terra não se fallava n’outra coisa e não havia tenda nem
-barbeiro, onde se não désse á taramella a tal respeito. Tudo em bem, que
-em mal não havia rasão, nem atrevimento para tanto, por que com Antonio
-ninguem brincava, e todos se pellavam de medo de um certo marmelleiro
-ferrado, que elle trazia e que não era palito para dentes, nem vime de
-passar creanças.
-
-Tanto fallaram, tanto fallaram, que o caso foi aos ouvidos do pae, que já
-andava com a pedra no sapato por tanto rondar de porta e tanto encontrar
-o Antonio nas visinhanças da quinta.
-
-Um dia, que acabava de fazer a barba, dois maltezes que estavam no
-barbeiro, e que o não conheciam, entraram com pé de conversa a respeito
-do tal namoro e deram a entender, lá por meias palavras que o Antonio se
-fazia com terra de casar com a menina Maria.
-
-O sr. José Alves, assim se chamava o pae, não quiz ouvir mais nada;
-atirou com uma de trez para cima da mesa do barbeiro, e foi se como um
-raio a casa do Antonio.
-
-Boas tenções não tinha elle. Ia fumando, e vermelho como um pimentão,
-saccudia um camolete que levava, que mais parecia um bastão de
-tambor-mór, do que uma vara de encosto. Se encontrasse o rapaz no meio
-do caminho, atirava-se a elle, e não o deixava em quanto lhe encontrasse
-osso inteiro.
-
-Era um sabbado e quasi ao sol posto: o quarto estava escuro e Antonio,
-que voltára mais cedo do trabalho, tinha-se atirado para cima da cama,
-farto de lidar e sem poder comsigo.
-
-Apenas por uma claraboia, que havia no telhado, entrava alguma luz, e
-essa ia bater de chapa no retrato, que estava á cabeceira; parecia pessoa
-viva, e até mettia respeito olhar para elle.
-
-É de crêr que o sr. José Alves se não demorasse a bater á porta,
-atirou-lhe um encontrão e deitou-a dentro ás primeiras rasões.
-
-Antonio ia a agarrar no pau, que tinha ao pé de si, e saltar na visita,
-quando reconheceu o pae de Maria e ficou varado; este ia para fallar,
-quando deu com os olhos no retrato e pasmou. As lagrimas saltaram-lhe dos
-olhos, e, sem mais satisfações, perguntou a Antonio, apontando-lhe para o
-painel:
-
-—De quem é aquelle retrato?
-
-—De meu pae, respondeu o rapaz.
-
-—De Antonio, do meu velho amigo!—e em vez de se atirar á paulada ao
-namorado da filha, atirou-se a abraçal-o que parecia querer metter-lhe as
-costellas dentro.
-
-O que causára aquella mudança, já o senhor adivinha o que foi, continuou
-o tio Joaquim concluindo a sua narração, o sr. José Alves era o tal
-camarada de Antonio, que trouxera o retrato, quando o rapaz ainda
-era um fedelho, e a quem o pae o recommendára á hora da morte. Tinha
-continuado a servir depois que passára pela terra a cumprir o testamento
-do moribundo: e de batalha, em batalha, esquecera-se do companheiro, do
-filho, e da promessa.
-
-Antonio foi para casa do velho, entrou a administrar-lhe o que elle tinha
-e augmental-o com o trabalho e a boa vontade; o casamento que já era de
-gosto do sr. José Alves e a que a rapariga não dizia que não, fez-se
-d’alli a pouco... e lá tem vivido como Deus com os anjos até que o velho
-morreu, deixando a filha e o genro de posse da fortuna que o senhor sabe.
-
-No dia seguinte, áquelle em que o tio Joaquim me contára esta historia
-fui aos _Fusis_ procurar o sr. Antonio Tavares e receber o dinheiro dos
-trigos.
-
-Havia muito que não entrava n’uma quinta tão bem cultivada, nem via em
-fazenda alguma, n’aquelles sitios, tanta ordem, nem tão bom gosto.
-
-Os systemas mais modernos, os instrumentos mais appropriados, as
-descobertas de maior importancia pratica, tudo ali estava aproveitado,
-com uma tal arte, que bem mostrava ter sido, coisa rara entre nós, a
-theoria unida á experiencia com muito criterio e bom resultado. A _dos
-Fusis_ poderia servir de _quinta modelo_, se os fazendeiros da terra,
-afferrados á rutina, cuidassem de modernismos ou tratassem de innovações.
-
-Apenas soube, que eu ali chegára o sr. Antonio Tavares, mandou-me entrar
-para a casa de jantar, onde estava com a sua familia; Maria, que devera
-ter sido tão formosa, como o tio Joaquim o dissera: e duas creanças, que
-se tinham levantado da mesa e que brincavam ali para um canto.
-
-A casa, posto que conservasse aquelle aspecto severo, que ainda se
-denota n’algumas fóra de Lisboa, que fosse de ladrilho, com as paredes
-revestidas d’azulejo até meio, e o tecto _em osso_, com as grossas vigas
-de castanho do emmadeiramento á mostra, era alegre, porque recebia muita
-luz de tres rasgadas janellas, que deitavam sobre uma horta. A mobilia
-era de pau santo torneado, e n’um grande armario meio aberto via-se
-boa louça da India, e algumas peças d’uma baixella de prata. No logar
-de honra dava-se com o retrato a lapis de Antonio e com um outro mais
-moderno, a oleo, que devia ser do sogro: uma santa, que não sei ao certo
-qual era e dois quadros de fructas ornavam as paredes.
-
-Tudo reunido dava á casa de jantar um certo ar patriarchal, que infundia
-respeito e inspirava felicidade.
-
-Antonio depois de me pedir que me sentasse, e de me offerecer um copo
-de vinho da lavra, levantou-se e foi a um contador buscar o dinheiro da
-compra, que já estava embrulhado e prompto desde a vespera; conversámos
-um pouco, e quando me despedia, pediu-me que o visitasse a meudo, porque
-estimaria vêr-me em sua casa.
-
-—Voltarei, lhe prometti, e voltarei em breve: o tio Joaquim contou me a
-sua vida, e apenas o conheci, comecei a respeital o.
-
-—Bondades suas e do tio Joaquim, que é muito velho, não ha razão para o
-que diz. Fui rapaz, fiz o que todos fazem, emendei-me a tempo, se é que
-não foi tarde: se alguma virtude tive, e essa mesma bem m’a têem pago
-aquelles,—disse-me olhando para Maria e para os pequenos,—foi não me
-esquecer no meio de todas as minhas doidices, que me tinham ensinado a
-_Honrar pae e mãe_.
-
-
-
-
-VI
-
-O fructo prohibido
-
-
-I
-
-Adeus, Rosa! Adeus! E adeus para sempre!
-
-—Ai! para sempre, meu Estevam?
-
-—Que queres que eu faça, dize?
-
-—Sei-o eu, por ventura? Mas partir... e o mar?... É tão bravo!
-
-—Não só no mar ha bravezas, na terra corre-se risco de maior: se eu
-ficasse!...
-
-—O que fazias?
-
-—Ou mettia uma navalha no Januario ou dava um tiro n’estes miolos.
-
-—Jesus, homem, tentação do demonio é essa, cruzes! Parte, parte, meu
-Estevam, mas não te esqueças de mim.
-
-—E tu?
-
-—Eu! Sempre.
-
-—Adeus!
-
-—Não te verei ainda ámanhã?!... Antes do embarque?...
-
-—Não, o que ha de ser seja, quanto mais estiver com demoras, mais me
-faltará o animo. Adeus Rosa, sê feliz.
-
-—Adeus, Estevam, volta breve.
-
-—Voltar para que? Para te vêr entregue a outrem, que virás a amar, se é
-que o não amas agora?... Para presencear essa vida de felicidade, que é
-a minha desgraça, o meu tormento; para comprehender que me illudiste,
-quando me juraste um amor eterno! Amores eternos de mulher, como as
-flôres d’este nome, que duram mezes, e que os primeiros sopros do inverno
-derrubam!...
-
-—Deus te perdôe a injustiça que me fazes!
-
-—Para que casas?
-
-—E a maldição de meu pae?... Meu pae amaldiçoava me Estevam.
-
-—E o nosso amor!
-
-—Fica-me no coração, ha de me matar, descança.
-
-—Antes tu morresses...
-
-—Oh! Quem dera!
-
-—Não fallemos mais em semelhante coisa. Para que has de dessimular ainda?
-
-—Se eu pudesse rasgar este peito, que me opprime, se pudesse arrancar-lhe
-este coração que é teu, e o ha de ser sempre, se te podesse mostrar como
-elle padece, não duvidarias de mim.
-
-—Queres que te agradeça talvez, queres que te bemdiga não é assim, queres
-que estime saber, que pertences a outro, não é verdade?
-
-—Não, Estevam, quero que tenhas dó de mim, e que me esqueças!
-
-—Esquecer-te, eu! E a minha existencia de até hoje, que foi sempre tua,
-e a minha fé no futuro, que estava em ti, e a minha vida toda, que te
-pertence; queres que esqueça tudo?... Se não fôra minha mãe!...
-
-—Tua mãe!
-
-—Sim, minha mãe, pobre e santa velhinha, que não tem no mundo mais do
-que eu, que lhe queira e que a ampare. Minha mãe, que eu mataria se
-morresse; minha mãe, a unica que me tem tido amor na terra!...
-
-—A unica! Talvez...
-
-—Olha, Rosa, escusas de fingir, para quê? Não vale a pena. Ámanhã por
-estas horas já estarei d’aqui bem longe. Só o que te peço, como um ultimo
-favor, como uma esmola, é que te lembres de minha mãe, que lhe enxugues
-as lagrimas, que chores com ella,—não te ha de custar muito, sabes tão
-bem illudir!—e que depois uma e outra vez te lembres de que te amei... e
-muito.
-
-—Pela alma da minha te juro, ha de ser minha mãe.
-
-—Obrigado, Rosa. Adeus!
-
-—Não me queiras mal.
-
-—Não poderia, ainda que quizesse.
-
-—Não queiras, Estevam, não, que t’o não mereço, perdôa-me e... não te
-esqueças de mim!... Meu pae, que nos vê, foge Estevam, elle encaminha-se
-para este lado.
-
-—Adeus!
-
-Passava-se este dialogo no pateo da quinta de _Valle do Freixo_ no dia de
-S. João, ao amanhecer.
-
-Houvera um bailarico de primor, a que tinham concorrido os rapazes e as
-raparigas das visinhanças e com elles os paes, as mães e os tios.
-
-Era um poder de gente, que passára a noite a cantar, a dançar, a pular, a
-rir, a comer, a beber, a respirar alegria: a provar que os cuidados lhes
-não pesavam na consciencia, nem o mau humor no espirito.
-
-Fôra um dos mais brilhantes bailaricos de que havia memoria.
-
-O dono da quinta pozera uma grande meda de vides á disposição da
-fogueira, e uma pipa de vinho ás ordens dos concorrentes; mandára cozer
-varias amassaduras de pão, frigir um por ahi além de peixe; transplantára
-dois alfobres de alface para quatro alguidares, juntando-lhes tambem
-quatro cestos vindimos com a fructa do tempo, e sobre tudo a boa vontade
-e o contentamento a resplandecerem-lhe na physionomia, convidando todos a
-divertirem se.
-
-Infelizmente, porém, nem todos podiam estar alegres. N’aquella multidão
-buliçosa duas creaturas havia tão tristes, tão attribuladas, que cortava
-o coração olhar para ellas: parecia que tinham vindo assistir, não a uma
-festa, mas a um enterro.
-
-E na verdade, ali enterravam vinte annos de esperança e de amor:
-n’aquella noite se viam em despedida, e só Deus poderia saber se essa
-despedida seria eterna.
-
-Rosa e Estevam tinham vivido juntos desde creanças e tinham-se acostumado
-a amar, antes, ainda antes de saberem o que era amor. Conheceram o
-que era quando começaram a padecer; porque é no soffrimento que elle
-desabrocha, como as rosas de mais apreço nos seus berços de espinhos.
-
-Juntos balbuciaram as primeiras palavras, juntos aprenderam a lêr,
-juntos iam á escóla, juntos voltavam ás tardes, e juntos passavam as
-noites brincando no campo e discorrendo alegremente, como duas avesinhas
-chilrando proximas na mesma arvore.
-
-E encontra-se o que quer que seja de gorgear de passaros no palrar
-infantil, que borboleteia de assumpto em assumpto, soltando de quando em
-quando notas agudas de admiração, ou modulando trilos narrativos de tanta
-viveza e simplicidade.
-
-Disseram em commum as primeiras orações, e muitas vezes os surprehendia
-o passeante enternecido, de joelhos e mãosinhas erguidas para o céo,
-repetindo em côro:—«Perdoae-nos, Senhor, as nossas dividas...» dividas,
-de um ninho surprehendido entre as giestas, ou de uma innocente mentira a
-denunciar-se logo pelo rubor da candura e pelo borbulhar de duas lagrimas
-de arrependimento, se por ventura os interrogavam.
-
-E que lindo grupo, quando estudavam juntos a lição do mestre, ou a reza
-que a mãe lhes ensinára, sentadinhos no limiar da porta, um repetindo
-entre incertezas e duvidas; outro escutando com toda a attenção e com
-ares concentrados, como quem comprehendia a gravidade da sua posição de
-professor: mas ambos a reverem-se um no outro e a casarem torrentes de
-luz, que lhes chispavam d’aquelles olhos brilhantes, vivos, buliçosos,
-humidos de alegria e languidos de sentimento.
-
-Com o decorrer dos annos não houve remedio senão ir gradualmente rareando
-aquelles doces encontros. Demais, tendo morrido a mãe de Rosa, esta
-ficára governando a casa e em companhia de seu pae, que não era para
-graças. Continuaram a vêr-se, a fallar-se; mas ás furtadellas, e quasi
-que ás escondidas.
-
-Rosa crescera, e ao desenvolver-se tinha ganho cada vez maiores
-perfeições. Fizera-se mulher, mas mulher tão formosa, tão delicadamente
-formosa, que confortava a alma admiral-a.
-
-Não parecia do campo, nem mesmo da terra.
-
-Devem ser assim aquellas phantasticas visões, que, aljofradas por
-milhares de perolas do orvalho da manhã, se esboçam na atmosphera ao
-romper do sol por entre as nevoas da aurora.
-
-Delicada flôr, que a mais terna aragem encurvava, parecia quebrar-se
-no andar. Resvallava pelo chão, deixando apenas uma suave fragancia a
-denunciar a sua rapida passagem, e uma indefinida sensação na mente dos
-que a viam.
-
-Por aquellas visinhanças não havia noticia de creança tão mimosa.
-
-Era branca; mas branca como o alabastro e como os lyrios, e na suave
-pallidez da physionomia lia-se o sentimento d’aquella organisação
-franzina e nervosa. Os cabellos negros como o azeviche, assetinados
-e brilhantes, poder-lhe hiam servir de manto, quando os desatasse
-ondeando pelas costas abaixo e dobrando ainda no chão; os olhos como dois
-diamantes negros, sempre velados por uma doce melancholia rasgavam-se-lhe
-no meio de duas palpebras escurecidas pelas sobrancelhas finamente
-desenhadas, e orladas d’umas pestanas compridas e densas, que davam ao
-olhar, já de si bem triste, mais tristeza ainda amortecendo-lhe o brilho,
-quando raramente o illuminava.
-
-Quem attentasse n’aquelle rosto sempre sentido, sempre scismando como
-que n’outro mundo, sempre voltado para o céo, sentiria, se de todo não
-tivesse a alma cerrada á compaixão, uma lagrima de sincera piedade
-cair dos olhos extaticos. Rosa era uma creatura que lembrava aquelles
-mysterios, os enlaces dos anjos com as formosas filhas dos homens, nas
-primeiras eras do mundo.
-
-Estevam tambem se desenvolvera, e se formára um guapo e gentil rapaz.
-
-Nas bem proporcionadas fórmas lia-se-lhes a força; no rosto franco e
-expansivo, a lealdade e o valor. Não havia idéa de que nunca em sua vida
-tivesse abusado da força: mas não constava tambem que tivesse recuado
-nunca. Não procurava o perigo, mas não se temia d’elle; era dotado de
-verdadeira coragem, fria, reflexiva, inabalavel.
-
-Estes dotes, porém, não eram de tal natureza, que podessem captivar o pae
-de Rosa, homem de lettras gordas, e mais para o dinheiro do que para o
-sentimento.
-
-Tinha casado com a senhora Placida, depois de lhe namorar os pintos e não
-a physionomia.
-
-Vivera feliz a seu modo, porque tivera os commodos da vida, e não
-comprehendia felicidade possivel, sem dinheiro ao canto do bahú, pão na
-arca, vinho na adega e azeite na talha. Todo esse palavreado de amor e
-paixão era engrimanço, que espremido não deitava nada; nem julgava que
-boas razões pagassem dividas ou enchessem barriga.
-
-Um seu visinho e compadre, homem dos seus quarenta puxados, casca grossa
-como elle, pé de boi, mas abastado, e com fama de entender do negocio e
-da lavoira, tinha conversado com o sr. Feliciano Gomes, assim se chamava
-o pae de Rosa, a respeito d’esta, affirmando-lhe que se não dava de tomar
-estado se encontrasse mulher tão perfeita como a filha. Feliciano, que ha
-muito andava com o olho n’uma courella do compadre Januario, e que por
-mais d’uma vez futurára comprar-lh’a, alegrou-se com a idéa de arredondar
-a sua propriedade, á custa de tão pouco.
-
-Tratou pois de desvanecer algumas duvidas, que ainda esvoaçavam no
-espirito modesto do sr. Januario, convencendo-o de que lhe sobravam
-perfeições para captivar o coração mais rebelde, que por ventura
-palpitasse em peito de mulher.
-
-—Mas, eu sei lá, homem?... Já não estou muito rapaz...
-
-—Melhor é isso, não tem edade para loucuras.
-
-—E se a rapariga me não quizer?
-
-—Era o que faltava, compadre, deitava-lhe os braços abaixo e nunca mais
-lhe punha a vista em cima!
-
-—N’isso é que eu não consentia!... Pobre Rosita!
-
-—Então quem ha de mandar em minha filha se não fôr eu? Quem póde saber o
-que lhe convém?
-
-—Olhe, compadre, se a pequena tiver alguma inclinação...
-
-—Sem minha licença? Não faltava mais que vêr! Ensinava-a por uma vez.
-
-—Veja lá o que faz, homem, não quero que a rapariga padeça por minha
-causa!
-
-—Qual padecer, nem meio padecer. Estou vendo-a já saltando de contente,
-quando lhe disser: não sabes, o visinho Januario quer casar comtigo.
-Foste feliz...
-
-—Isso ha de ser. Não lhe hei de faltar com coisa nenhuma.
-
-—Pois para as mulheres é o que é preciso: dinheiro para gastarem nos
-trapos, e andam satisfeitas.
-
-—Parece-lhe por conseguinte que serei seu genro?
-
-—Se me parece! Já o é desde hoje, toque lá e deixe tudo por minha conta.
-
-—Lembre-se de que eu não quero ir contra a vontade d’ella...
-
-—Qual vontade, nem meia vontade, compádre Januario; o dito dito, e até
-ámanhã.
-
-Esta conversação foi o começo das tristes aventuras dos dois amantes, que
-apresentei aos meus leitores, e cuja historia, n’uma noite bem invernosa,
-ouvi ao tio Joaquim.
-
-Emquanto Januario ficava scismando na sua vida futura e saboreando
-d’ante-mão a posse da rapariga mais guapa d’aquelles sitios, Feliciano
-recolhia rindo-se e esfregando as mãos, o que n’elle denotava o maior
-signal de contentamento.
-
-Acabava de fazer um excellente negocio. Trocára a filha por uma courella
-de dez alqueires de semeadura: isto é, uma mulher que tinha que sustentar
-por uma terra que dava de comer.
-
-E o olival das _queimadas_, e a quinta da _cortiça_, e o casal do
-_petisco_, e as terras do _Penetra_, e a horta da _allamôa_, e tantos
-outros bens e haveres, que constituiam a fortuna de Januario!
-
-Claro estava que tinha tido uma tarde feliz.
-
-Rosa ficou surprehendida ao vêr entrar seu pae em casa risonho e
-cantarolando, coisa de que não havia memoria; e sem lhe passar pela
-cabeça qual era o motivo de semelhante transformação, sentiu-se alegre
-tambem.
-
-Havia muitos annos que seu pae lhe não mostrava physionomia tão
-prasenteira, nem lhe fallava com tanto agrado.
-
-De repente deu-lhe uma pancada o coração, quando Feliciano, voltando-se
-para ella, lhe perguntou com certos modos em que transpareciam alegria e
-finura mal contidas:
-
-—Que te parece o compadre Januario?
-
-—Que me ha de parecer, meu pae, dizem que é tão boa pessoa!...
-
-—Sim, sim, bem se sabe isso, boa pessoa, assim como quem diz pedaço
-d’asno; não é pelas bondades, que eu te pergunto.
-
-—Então meu pae?...
-
-—Não olhaste para elle nunca com os teus olhos... de vêr?
-
-—Eu não senhor.
-
-—Pois é preciso que olhes, entendes-me? disse-lhe Feliciano derrubando
-as sobrancelhas e deixando cair a viseira: talvez te agradem mais esses
-alfenins lambidos, que por ahi se andam a desfazer? Pois estás muito
-enganada comigo, percebes?...
-
-E ao passo que ia fallando engrossava a voz e fazia cara de arremetter.
-Rosa tremia como varas verdes, e, com os olhos arrasados de lagrimas,
-encommendava se mentalmente a todos os santos do seu calendario.
-
-Mal teve forças para balbuciar um:—sim senhor, meu pae,—e, cambaleando,
-foi fechar-se no seu quarto, deitando-se em cima da cama a soluçar
-convulsa, como quem se despedia d’este mundo.
-
-No dia seguinte, ao almoço, parecia que voltava do cemiterio, Feliciano,
-porém, que se não apercebia facilmente d’estas mudanças, ou que, se as
-conhecia, fingia bem o contrario, repetiu o interrompido assalto.
-
-—É preciso que vás pensando no casamento, estás uma mulher, ouviste?
-
-Bem quizera a pobre da rapariga não ter ouvido; mas era impossivel
-dessimular.
-
-—Eu, meu pae; estou assim bem, eu não quero casar!...
-
-A resposta não se fez esperar muito. Feliciano soltou uma torrente de
-imprecações, acompanhamento estrepitoso de uma bofetada não menos
-estrepitosa, que já cortava os ares ainda bem a rapariga não acabára de
-dizer que não queria casar.
-
-—Grandissima atrevida!... Eu te ensinarei a ter querer! Não queres
-casar, hein! E pensas que engulo essa!... Vossês lá que bebem ares por
-um marido! Mas tu o que não sabes é com quem estás mettida: eu não nasci
-hontem e não has de ser tu, minha seresma, que me faças o ninho atraz da
-orelha. Não queres casar, hein!... Ora mette-me o dedo na bocca a vêr
-se t’o mordo! É volta de festa, é namorico no caso, mas apanhe te eu,
-que verás por uma vez os meninos orphãos a cavallo. Não queres casar!
-Mas quero eu que te cases e é o que basta. O visinho Januario pediu-te
-hontem e eu resolvi que havias de ser sua mulher. E é dar graças a
-Deus, pela pechincha! Onde pódes ir que mais valhas? Andar para deante
-e cara alegre, quero que estejas contente, que mostres ao visinho, que
-tens gosto no casamento, e que lhe agradeces os seus affectos, senão...
-ponho-te fóra de casa depois de te moer esses ossos, e não quero mais que
-me chames teu pae.
-
-Ao passo que ia ouvindo seu pae, Rosa ia successivamente esmorecendo.
-
-Á vermelhidão, que lhe tingira o rosto ao receber a brutal bofetada,
-succedera-se uma pallidez citrina, que augmentára até ficar de puro
-alabastro.
-
-Tinham lhe rebentado as lagrimas dos olhos no primeiro momento; mas não
-correram. Uma constricção terrivel lhe afogou a garganta, pensou que
-ia suffocar-se: pulava-lhe o coração no peito, batiam-lhe as arterias
-na cabeça, semilhando o marulho das ondas, em torno do que mergulha
-rapidamente, um cinto de ferro lhe apertava a fronte, zunidos estranhos
-lhe baqueavam no cerebro.
-
-Cuidou que ia morrer e do intimo d’alma elevou ao Creador, uma prece de
-jubilo, em acção de graças.
-
-Era um desmaio apenas, um d’estes abalos, que passam pelas organisações
-nimiamente nervosas, como o furacão pelos arbustos, extremamente debeis.
-
-Acurvam-os até ao chão, estorcem-os na passagem; mas não os partem.
-
-Rosa quiz segurar-se á mesa, mas estonteou-se-lhe a vista, andou-lhe a
-cabeça á roda, desfalleceram-lhe os braços, correu lhe gelo pelas veias e
-deu redondamente no meio do chão. Parecia morta.
-
-Feliciano largou uma d’estas maldições capazes de espavorir toda a
-milicia celeste e correu á filha; estremeceu-lhe o remorso todas as
-fibras do coração de pae. Não havia maldade nas intenções do velho;
-entendia a seu modo a felicidade da filha, que estimava devéras: não
-se persuadiu que o golpe tivesse tão fundo alcance e trepidou ante as
-consequencias.
-
-Mas ao vêl-a voltar a si, recuperou a confiança e de novo tornou ao seu
-plano favorito. Intentou com aquelle frio calculo de quem já não cuida
-em amores, que a voz do coração era uma impertinente a que se não devia
-dar ouvidos em questões d’esta ordem, e que só o interesse devia tomar a
-palavra e fallar de cadeira: amaciou entretanto a voz, voltou-se menos
-rispido para a rapariga, e disse-lhe quasi enternecido:
-
-—É para teu bem, depois m’o agradecerás...
-
-E saiu, pensando no futuro de Rosa e na conveniencia de arredondar as
-suas terras com a cubiçada courella de Januario.
-
-
-II
-
-Pensem os que têem amado do coração, no que padecera a pobre da rapariga,
-ouvindo seu pae. Desappareceu de repente de ante si aquelle encantado
-futuro, em que se enlevára. N’um momento perdeu a esperança, a alegria, a
-felicidade.
-
-Quando o amor verdadeiro nos domina, só ha em nós uma idéa, um pensamento
-fixo, quasi uma monomania: a posse da que se ama, a existencia a dois,
-participando ambos das mesmas dôres, das mesmas alegrias, dos mesmos
-perigos, dos mesmos triumphos, das mesmas glorias. Reparte-se o coração
-com aquella, a quem tanto se quer, e de tal maneira se alarga e augmenta
-a porção que lhe entregâmos, que por fim nos apercebemos que já de todo
-nos não pertence. E bem longe de nos pezar, enleva-nos, nos mais intimos
-transportes do sentimento, essa doce expoliação do nosso ser.
-
-Se nós sômos então amor e sómente amor!
-
-O universo inteiro resume-se n’uma só creatura, e tão grande nos parece
-esta, que o julgâmos ainda pequeno para a albergar. Todos os affectos
-resumem-se n’um só, de todos os fios que nos prendem ao mundo, traçamos
-uma cadeia só, no remate da qual nos penduramos com a energia, com a
-tenacidade do affogado.
-
-No outro extremo da cadeia acaba o nosso mundo. Se um pavoroso cataclismo
-precipitasse o globo; se as espheras se entrechocassem e confundissem;
-se a creação voltasse ao cahos; se as trévas engulissem a luz; se n’um
-rodopiar incessante o universo, se contorcesse nos extremos paroxismos:
-ficasse a mulher, que amavamos, comnosco, e nem nos aperceberiamos da
-mudança.
-
-A luz, a ordem, a harmonia, o movimento dos ceus, o revolver dos astros,
-o tornear da terra, o não acabar do espaço, parecem-nos puerilidades
-insignificantes, comparados com o infinito do nosso amor. Só ha uma
-occasião, só ha uma phase da existencia, em que o homem se exalta, se
-eleva, se engrandece, se eguala ao Creador. É quando ama.
-
-Satanaz se fôra o demonio do amor e não o demonio do orgulho resistiria
-ao Omnipotente.
-
-Quando se assenhoreia de nós, o amor espalha por tudo quanto nos cerca,
-fulgores que nem a centelha do raio póde offuscar, harmonias que nem os
-córos celestiaes pódem fazer esquecer, encantos, que não os tem assim a
-bemaventurança.
-
-É que a mulher reside para nós em tudo: tanto na florinha, que mal se
-descortina entre a relva dos prados, como na montanha arrojada, que
-parece lacerar os seios do infinito: se queremos colher as flôres para
-com ellas lhe juncarmos o pizo, queremos transformar-lhe a montanha em
-pedestal, para sobre elle a levantarmos.
-
-Da nuvem far-lhe-hiamos um véu, das estrellas um diadema, dos ceus sem
-limites um azulado sendal.
-
-E depois descontentes ainda, pedimos com religioso fervor ao auctor dos
-mundos, que reforme a sua obra, que dilate mais a creação, que a exalte
-mais; porque não nos chega, quanto existe para a mulher por quem vivemos.
-
-E se é assim o homem, o que não será a mulher, toda sentimento, toda
-amor, toda affecto e... senão toda egoismo, toda vaidade e toda
-presumpção.
-
-A mulher, que, quando ama devéras, arranca o homem, das trévas
-descobrindo-lhe novos lumes de paixão, feições novas de sentir,
-delicadezas desconhecidas, mimos e enlevos, que não descortina nunca a
-nossa natural brutalidade. A mulher, que ou ama, como cantam os cysnes,
-amando e morrendo desde logo pelo amor, ou nutre em si o amor, como a
-arvore alimenta a parasita, vivendo só para a nutrir e definhando-se em
-quanto ella medra á custa de sacrificios, de abnegação, e de soffrimentos
-inapreciaveis; ou quando mesmo, presumida em excesso, e vaidosa sem
-termos, se ama a si, amando o homem, que se lhe rendeu, e bem querendo
-a esse rendimento, a essa homenagem, a esse culto, porque lhe desvanece
-a vaidade, porque é uma confissão eloquente das suas perfeições, porque
-finalmente é seu, e veio de si, para de novo voltar para si, como as
-plantas amam a agua, que elevam da terra, entregam aos ares, para que
-estes lh’a restituam depois em amorosas lagrimas.
-
-Rosa amava e amava sincera, piedosa, apaixonadamente. Não havia confeição
-alguma n’aquelle sentimento, que nascera do coração, proviera da alma, e
-que se fortalecera aquecido pelos éstos da natureza. Amára creança ainda,
-amára com força muito maior, quando a puberdade, lhe transformára o ser
-transfundindo-lhe nas arterias faúlhas de desejo.
-
-Quando a vida nova dos dezeseis annos lhe abalou a organisação infantil,
-quando o coração se tornou turgido de sangue, rico de vida e farto de
-estimulos creadores, quando aquella flôr do campo, chegou ao periodo,
-em que as petalas se tingem de mais brilhantes côres para deslumbrarem
-e cahirem breve, o amor de Estevam, que já a possuia transformou-se
-tambem, e dominou a mulher, como dominára a creança.
-
-Foi para elle, que, córando de pudor, elevou os seus pensamentos de mais
-arrojado affecto, quando lhe esvoaçou deante da imaginação deslumbrada
-essa nova perspectiva, que lhe apresentava o mundo, ao conhecer-se outra
-pela inspiração divina, que n’essa quadra da vida, patenteia á mulher os
-desconhecidos horisontes da procreação e da maternidade.
-
-O amor de creança unira-se ao amor de Estevam; e d’este delicado enlace
-nascera o amor—mulher. Não lhe assomava o desejo á mente, sem que esse
-desejo se não transformasse para ella na imagem varonil e fascinante do
-seu apaixonado. A sua nova existencia era de Estevam; era por Estevam:
-e o homem, que tal consegue da mulher, póde chamar-lhe sua, sem que o
-considerem presumido.
-
-Entretanto as palavras de Feliciano operaram em Rosa uma revolução cruel.
-Não se persuadira nunca, que o amor de filha podesse entrar em lucta com
-o amor de mulher: e nem por sombras se preparára para semelhante combate.
-Se o coração fallasse unicamente, se não se tratasse senão de resistir
-á colera e maus tratamentos de seu pae, a escolha não seria duvidosa.
-Matasse-a embora, que morreria contente, se até aos ultimos momentos
-a deixassem amar Estevam; mas a maldição paterna troava-lhe ainda aos
-ouvidos, e todas as fibras d’aquella organisação delicada extremeciam,
-só ao lembrar-se de que elle lhe prohibira o nome de filha. A religião,
-a crença, a educação, tudo lhe fallava em favor de seu pae; em favor de
-Estevam só o muito, que o amava, mas não era o bastante. Amaldiçoada,
-via os tormentos do inferno, o penar de sua alma, a espada de fogo do
-archanjo exterminador, a condemnação eterna, e a memoria da sua infancia,
-e os santos de sua devoção a sumirem-se-lhe para sempre.
-
-Não enlouqueceu, porque não teve forças para tanto; não morreu, porque
-a intensidade propria do soffrimento lhe deu forças para resistir,
-phenomeno bem vulgar nas organisações nervosas; não se matou, porque lhe
-affastavam tal pensamento de si, as idéas com que fôra creada: soffreu
-muito, por fim, pelo embotamento do soffrer, pareceu resignar-se.
-
-Triste resignação, em que amortalhára os mais puros affectos, o mais
-risonho futuro, a mais affagada esperança!
-
-A idéa de que se sacrificava á vontade de seu pae se não lhe deu
-consolação, deu lhe forças; e o persuadir-se que cumpria com o seu dever
-animou-a a persistir: se não ganhou o santo enthusiasmo, com que os
-martyres se encaminhavam para o supplicio, alcançou ao menos aquella
-frieza apathica, da mais entranhada abnegação.
-
-Deixou de se pertencer. Fez-se cadaver, transformou-se em instrumento
-da vontade de seu pae, instrumento inerte, impassivel, sem vida, sem
-pensamento proprio. Não tivera animo para se matar; mas definhava-se
-lentamente n’aquelle doloroso suicidio moral.
-
-Alguns dias depois da scena que se passára entre o pae e a filha, Estevam
-recolhia do trabalho cantando, e todo enlevado na sua Rosa, que julgava
-não vêr, havia tanto tempo. A voz melodiosa corria nas voltas do caminho
-e repetia-se mais affinada pelos echos de um monte proximo.
-
-Ouvira-o Rosa, que abatida, e alheia ao mundo estava mais cahida que
-sentada n’uma cadeira, com os olhos pregados n’uma imagem de Senhora das
-Dores, que tinha perto da cama; palpitou-lhe de novo o coração no peito;
-aquella voz abalou-a como o choque da pilha, e sem se lembrar do que
-fazia, cedendo ao impulso, que tantas vezes a movera, correu à porta, ao
-mesmo tempo em que Estevam se aproximava do limiar.
-
-Ao vêl-o porém fugiram-lhe de todo as forças e caiu-lhe desmaiada nos
-braços. Ao longe parecera-lhe notar na sombra o vulto ameaçador de seu
-pae:
-
-—Rosa da minha vida, que tens tu, que nunca te vi assim? exclamára
-Estevam recebendo-a nos braços, torna a ti, sou eu, é o teu Estevam!
-
-Perto d’ali corria a agua de um boeiro do muro; levantou-a em seus
-braços, poisou-a n’um marco, proximo do jorro, e ás mãos cheias
-lhe espargiu o rosto; depois ao vêl-a tornar-se á vida, curvou-se,
-aproximou-se mais da amante como para lhe transfundir a vida, que lhe
-sobrava, e tão perto lhe afflorou os labios, que dir-se-ia um rapido
-beijo unira por instantes as duas apaixonadas boccas. O osculo chamou á
-vida e á realidade a desgraçada Rosa, que desmaiara enlevada nos gostosos
-sonhos de uma felicidade, que lhe era defeza.
-
-—Ai, Estevam, estâmos perdidos, exclamou a misera acordando de todo,
-quasi nos braços do amante.
-
-—Perdidos, Rosa!... Que dizes!
-
-—Meu pae... quer que eu case com o Januario.
-
-—E tu!
-
-—Eu, Estevam!... meu pae amaldiçoa-me.
-
-Foi então, que elle ia desmaiando tambem. Cambaleou, encostou-se á parede
-para não vergar, e foi-lhe preciso grande força de vontade para resistir.
-
-Resistiu porém, e como se lhe arrancassem esta exclamação do fundo da
-alma:
-
-—Pensei, que me tinhas mais amor!...
-
-—Deus te perdoe, Estevam, por duvidares de mim.
-
-—Duvidar! queres talvez que te agradeça, que te bemdiga, porque ás
-primeiras palavras de teu pae, me atiras a monte, como herva ruim, ou
-foice partida. Eu é que tenho a culpa, não é assim?
-
-Dize, anda, eu é que tenho a culpa: e tenho, porque te queria mais do
-que á propria vida, porque te queria, como homem nenhum poderia querer
-a uma mulher. Anda, não duvides, accusa-me, Rosa, que bem o mereço. E
-entretanto Deus sabe, que thesouros de amor, se guardavam cá dentro, Deus
-sabe quanto eu te estremecia!... Pensei que não houvesse forças no mundo
-que nos separassem, pensei que nem Deus mesmo tivesse poder para tanto!
-Enganei-me. Foi bem feito.—Se tu és mulher!... E não arrebentar eu,
-quando me assomou este amor!—Não ter havido um raio que me partisse!...
-Casa, casa e sê feliz!
-
-Depois, entre soluços, soltou um _adeus_, e deitou a correr como doido,
-fugindo à tentação, que lhe affogueava o pensamento.
-
-Rosa ficou prostrada sobre o marco, até que a agua innundando lhe o
-rosto, a reanimou por um pouco; seguiu, mais por instincto do que por
-vontade, para casa e deitou-se, já com os primeiros symptomas de uma
-febre cerebral agudissima.
-
-Feliciano não soube nunca a rasão da doença de sua filha, Januario
-acompanhou o compadre n’algumas noites perdidas, e Rosa costumou-se
-a vêl-o e a agradecer-lhe o cuidado e a affeição, que lhe mostrára.
-Affeição rude, brutal mesmo; mas por isso tanto mais para apreciar uma ou
-outra delicadeza, que surdia como enfesadinho rebento de tronco cascudo e
-rugoso.
-
-Convalescente ainda, apparecera Rosa no bailarico, e ali encontrára
-Estevam, que durante a doença não se affastou nunca das proximidades
-da casa, empregando astucias incriveis, reccorrendo a subtilezas quasi
-inacreditaveis, para a vêr sem que o visse, ou para se informar, ao
-menos, do estado em que se achava.
-
-Os nossos leitores já assistiram ao dialogo que travaram. No dia seguinte
-Estevam, partia a bordo da—_Joaquina Primeira_—para a Costa d’Africa, e
-um mez depois Rosa casava com Januario, quasi sem perceber, que mudava
-d’estado.
-
-
-III
-
-Tinha decorrido um anno depois do encontro de Rosa com Estevam, que
-ultimamente relatámos. Não haviam chegado noticias d’este ultimo e corria
-pela terra, que morrera das febres d’Africa. Rosa nunca mais proferira o
-nome do seu antigo apaixonado; mas quem lhe devassasse o intimo d’alma
-reconheceria, que a imagem querida não lhe saira nunca do pensamento.
-
-Apparecia-lhe nas horas suaves de melancholia, quando espraiava a vista
-pelos descampados, descançando depois os olhos no filhinho de mez, que se
-lhe pendurava do seio.
-
-Depois que desapparecera, Estevam convertera-se para a imaginação
-apaixonada de Rosa n’uma triste visão, que saudosamente lhe sorria
-d’essas regiões encantadas, que a phantasia povôa de arrobados devaneios.
-
-Aquelle amor depurára-se pela ausencia, e a noiva entregando-se ao
-marido, cumprindo religiosamente os seus deveres de mãe e de esposa,
-persuadia-se que lhe seria licito, ao menos dispôr da sua alma.
-
-E, ainda que o não quizesse, esta pertencia a Estevam. A posse que lhe
-déra, que elle conquistára á força de disvelos, de sollicitude e de
-amor, era inalienavel, ganhára-a com o sacrificio da sua vida, com o
-holocausto da sua existencia, nos altares da dedicação. E que importava
-a Januario, este innocente roubo! Não poderia encontrar mulher que
-mais cuidasse d’elle, que mais o cercasse de carinhos, que mais se
-sacrificasse ao seu bem estar.
-
-Nenhuma seria capaz de dar melhor ordem á vida, de cuidar mais no
-arranjo da casa, de providenciar mais para que coisa alguma faltasse a
-seu marido. Delicadezas de sentimento, não eram para Januario; nem as
-comprehendia, nem se dava de semelhante coisa. O mundo, para elle, era
-uma serie de commodos, e o conforto da casa e da familia a felicidade
-suprema.
-
-Não pensára nunca em fallar ao coração de sua mulher. E andára
-acertadamente não procurando desferir instrumento, que atormentado por
-aquellas mãos rudes apenas poderia soltar gemidos; mas harmonias nunca.
-Onde acabava a materialidade finalisava o mundo. Idealismos, se alguem
-lhe fallára em tal coisa, poderia contar com descompostura certa, em paga
-de semelhante atrevimento.
-
-Tinha com que viver e vivia do que tinha.
-
-O grangeio das fazendas, o amanho das terras, os cuidados da agricultura,
-preoccupavam-lhe o dia. Á noite esperava-o uma boa ceia, uma cama de pau
-santo lusidia com os lençóes alvos de neve a estenderem-lhe os braços, a
-esposa a sorrir-lhe no limiar, sorriso encoberto por um permanente veu de
-tristeza, mas isso não percebia elle, e o filho a dormir tranquillo no
-berço com o bracinho curvado sob a cabeça, a boquinha rosada mussitando
-sonhos de convivencia com os anjos, seus irmãos.
-
-E o aceio a afformosear tudo, e a tranquillidade a alegrar o interior da
-casa, e a arca recheada ao canto, a prometter dilatados dias de descanço
-e de fartura.
-
-E até para lhe alimentar as rabujices da idade, (Januario já rastejava
-pelos cincoenta), o birrento do sogro, que sempre tinha que lhe tornar,
-e que contradizer em todos os trabalhos, que emprehendia seu genro.
-
-Que mais quereria pois.
-
-Rosa costumára-se tambem a esta vida de insensibilidade e sacrificio. A
-ideia de que fizera a felicidade de seu pae, e de seu esposo, consolára-a
-da grande perda, que sentira e vivia transfundindo em seu filho todas as
-delicadezas de sentimento e de amor, de que precisava para poder viver.
-
-Transformação, que facilmente comprehendem os que sentirem devéras,
-o amor de Estevam depurára-se-lhe na alma e fizera-se amor de mãe.
-Quantas vezes lhe parecia emballando seu filho, que estreitava nos
-braços a Estevam!... Então conchegava a creança mais a si; apertava-a
-tremulamente: e duas lagrimas de saudade, ou talvez de amor,
-deslisavam-lhe pelas faces.
-
-O filhinho, disperto com aquelle enlace, abria os olhos, e parecia
-fital-os na mãe, como traduzindo uma admirada reprehensão: ao menos assim
-o julgava ella, que se sentia desfallecer e se accusava então d’aquella
-innocente infidelidade aos seus deveres de esposa. Beijava ferverosamente
-o seu pequeno censor, como para o abrandar, e com aquella imagem
-afugentar a outra que tinha presente sempre.
-
-N’estes rapidos e quasi inapreciaveis movimentos se denunciava apenas a
-intensidade d’aquella violenta e concentrada paixão. Como nas pavorosas
-tormentas submarinas a placida superficie das aguas só n’um ligeiro
-tremer poderia denotar a força das horrendas luctas, que se travavam nas
-remotas profundezas.
-
-Uma tarde ficára absorta no seu scismar contemplativo toda embevecida
-n’aquellas divagações, que tantas vezes a alheavam do mundo em que vivia.
-Os olhos parados e fitos pareciam procurar nos affastados horisontes
-aquelle indefinido ponto em que os espaços se perdem de vista e que a
-phantasia enriquece com suas extranhas creações. Dir-se-ia a estatua do
-desalento poisada sobre a pedra da sepultura a remirar-se nos ceus, na
-sua almejada patria.
-
-A imagem de Estevam adejára-lhe na mente, e enlevada n’aquella paixão,
-que a não deixava, deixou approximar-se a noite sem perceber que as
-trévas baixavam encobrindo os campos.
-
-Já a lua desenhava com os seus pallidos clarões figuras estravagantes,
-que pareciam dançar por entre o arvoredo á feição do vento, e Rosa ainda
-estava no mesmo logar e na mesma posição.
-
-De repente soltou um grito e estendeu diante de si convulsivamente os
-braços, como se pretendesse affastar um phantasma atterrador. A imagem,
-que evocára parecêra tomar corpo, e n’um vulto que se escondia por entre
-as arvores cuidou reconhecer Estevam.
-
-Effectivamente apenas soltára aquelle grito o vulto correu para ella, era
-Estevam.
-
-—Estevam!
-
-—Rosa!
-
-—Tu aqui?!
-
-—Se eu não podia já viver longe de ti! Se morria se te não visse?
-
-—E agora?
-
-—Agora? Vi-te. Disse-te uma vez ainda: amo-te, e posso morrer!
-
-—Sabes, Estevam, que sou mulher de Januario, sabes, que tenho um filho de
-meu marido?
-
-—Para que m’o lembraste? Pensas que não m’o tinha dito já o coração?
-
-—Para que voltaste, então, Estevam?
-
-—Não t’o disse já? Para te vêr.
-
-—Ai! quanto me custa que voltasses!
-
-—Bem sei. Deveria ter morrido, não é assim? um homem como eu, que ninguem
-estima, que não tem affeições n’este mundo, que vive, como o espargo no
-monte, que embora procure lançar raizes na terra lh’as arrancam como o
-escalracho, devia morrer. Não serve de nada, não deve viver, tens razão.
-
-—E quem te diz que assim seja? Quem te diz que não ha quem te ame, quem
-ainda se dedique por ti, quem te não esqueça nunca. Ah! Estevam, os
-homens não comprehendem o coração da mulher!
-
-—Não comprehendem, não. A mulher, santa creatura, na verdade! A mulher,
-que mente ao marido, mente, ao amante, a mulher que se enlaça como a
-hera no coração do homem, cravando-lhe cada vez mais fundos os espinhos,
-roubando-lhe cada vez mais a vida. Não te comprehendi, Rosa, devia
-agradecer-te, porque pertences a outro, porque hontem dormiste ao lado
-d’outro, porque d’aqui a pouco vaes deitar-te no seu leito. Devia
-agradecer-te não é assim? Dize, anda, bem vês, que te vou comprehendendo.
-
-—Que mal te fiz para me tratares com esse desdem?
-
-—Que mal me fizeste? Nenhum! Eu é que fui um louco, eu é que errei,
-quando prendi a minha vida á tua, quando te entreguei a minha sorte,
-quando em ti puz a minha esperança. Eu é que fiz mal, quando me deitei
-a amar esse amor, que tantas vezes me juraste, quando depositei fé nas
-tuas palavras, que pareciam tão sinceras, quando pensei que havias de
-ser minha, porque assim m’o juráras mil vezes, eu é que mereço castigo,
-porque confiei na sinceridade do teu coração, porque loucamente credulo
-não me persuadi nunca de que fingisses tão bem, que houvesse em ti
-dissimulação tão grande.
-
-—Se soubesses quanto tenho padecido, não me fallavas de certo assim!
-
-—E eu! Julgas porventura, que te sumiste um momento sequer da minha
-ideia? Pensas que te não vi sempre diante de mim, nas tribulações da
-vida, nas ondas do mar, nos sertões d’Africa, nas extensões do céo...
-Sempre, sempre! Pensas que não me lembrava sempre, que eras d’outro, tu
-que só poderias ser minha! Pensas, que não me deram por doido; que me
-não arrojei ao mar, por mais d’uma vez, para lá ficar para sempre?... Se
-não fosse terem-me salvo, já hoje te não inquietava!... Pensas...
-
-—Não continues! Estamos a aggravar uma ferida que não póde sarar mais!
-Antes não nos vissemos!
-
-—E assim me despedes! Bem m’o dizia o coração! Falsa!...
-
-Rosa levantou a cabeça cheia de indignação; até esse momento, parecia que
-escutava a sua sentença de morte: quando porém Estevam assim a accusou,
-quando lhe pareceu, que o seu enorme sacrificio não era comprehendido,
-que o seu amor era tão mal julgado, a voz da consciencia, que a defendia
-dos aggravos de seu amante, bradou-lhe lá dentro.
-
-—Ergue te!...
-
-Elevou os olhos para o céo, como para se inspirar n’uma resolução
-suprema, affastou da fronte os cabellos, que a offuscavam, levantou-se
-com um movimento de nobre magestade, travou da mão de Estevam, que a
-olhava surpreso, e exclamando apenas:—Vem!—levou-o comsigo para dentro de
-casa.
-
-Com o sorriso a adejar-lhe sobre a physionomia, estava o filhinho de
-Januario deitado no berço dormindo, os braços torneados descançavam fóra
-da roupa abertos e como estendendo-se para a mãe. No fundo da alcova
-a um canto, que a luz d’uma lamparina illuminava a custo, adivinhava
-se o esposo que dormia: o ressonar compassado e sonoro, n’outro quarto
-proximo, deixava perceber, que Feliciano depois de ter largamente
-discutido com seu genro a conveniencia de uma nova semeadura, descançára
-por fim cançado de rabujar. De resto tudo estava em socego.
-
-Estevam, sem comprehender para que, deixou-se arrastar até junto do
-berço: ahi, Rosa correndo a vista pela casa fitou por ultimo o olhar no
-seu companheiro.
-
-—Ámanhã esta creança acordará, e aquelles dois velhos levantar-se-hão
-sorrindo para mim como sempre, cheios de confiança, e de... amisade. Como
-até hoje julgar-me-hão filha honrada, mãe honesta... esposa fiel!...
-Sacrifico-te, aqui, junto d’este berço... e d’aquelle leito, todo o meu
-passado, todo o meu futuro, tudo!... Aqui me tens, Estevam, vê agora se
-te amo. Sou tua!...
-
-E resignada, nobre, altiva, caminhou para elle, que recuára, como os
-martyres deveriam caminhar para a fogueira... serena, tranquilla,
-orgulhosa pelo seu sacrificio, illuminada pela divina aureola do amor.
-
-Estevam parecia fulminado.
-
-Foi mysterio o que se passou na sua alma; entretanto comprehendeu tudo, e
-soube elevar-se até ás sublimidades d’aquella mulher.
-
-Avaliou qual era a grandeza d’um semelhante amor, e sentiu-se digno
-d’elle. Leu de relance todas as paginas dolorosas d’aquella epopêa
-intima, e elevou no santuario de seu coração, purificado de quaesquer
-resquicios da natureza terrestre e material, um cantico divino de
-admiração, caiu de joelhos aos pés de Rosa e desatou a soluçar.
-
-As lagrimas queimavam-lhe as faces; mas refrigeravam-lhe a alma: quando
-se levantou era outro.
-
-Curvou se sobre o berço infantil, depositou um beijo no rosto do
-innocente, dirigiu-se para Rosa, que ainda o esperava immovel, mal
-lhe approximou da testa os beiços e desviando os olhos do leito, onde
-Januario dormia, saiu dizendo á sua antiga amante:
-
-—Adeus irmã!
-
-Foi tudo obra d’um momento.
-
-Rosa caiu sobre o berço de seu filho cobrindo-o de beijos; Estevam já ía
-longe.
-
-A creança soltára um vagido lastimoso, acordára ao sentir-se innundar
-pelas lagrimas de sua mãe, e estendendo para ella os braços, sorrira.
-
-Januario não déra signal de si.
-
-
-IV
-
-As feridas moraes não se semelham ás physicas. O coração rasga se com a
-dôr, soffre-se por muito; mas o tempo cicatrisa tudo.
-
-O correr dos annos enregela a alma, e acalma os ardores da paixão.
-Estevam ainda foi feliz.
-
-Rosa, essa, ninguem poude saber se se esquecera d’aquella noite. O amor
-de seu filho consumiu-lhe a vida toda.
-
-Nunca se lhe tingiram as faces de côr, nem o mais leve sorriso lhe
-entreabriu os labios: poucos a ouviram fallar, raras vezes proferia
-alguma palavra.
-
-Entretanto foi sempre esposa disvellada e filha extremosa; pouco tempo
-sobreviveu a seu marido.
-
-Aquella hora fôra a ultima em que conhecera que tinha coração; foi tambem
-a ultima em que se avistou com Estevam.
-
-Feliciano, na manhã seguinte a uma noite, em que mais se exaltára
-discutindo com seu genro sobre o melhor modo de alqueivar uma terra, foi
-encontrado morto na cama.
-
-Succumbira a uma congestão cerebral.
-
-A terra sobre que versára a controversia era propriamente a courella, por
-amor da qual contractára o casamento da filha.
-
-
-
-
-VII
-
-A gallinha da minha visinha...
-
-
-Já era o sol posto havia um quarto de hora. Tocára a largar o trabalho,
-e cada qual recolhera para a sua casa: uns sósinhos, pelas azinhagas
-fóra, se mais tresmalhados moravam; outros, em rancho, se poisavam juntos
-n’alguma terra proxima.
-
-André Pimenta, um dos trabalhadores mais fallados dos sitios onde este
-caso aconteceu, deitára a enchada ao hombro, e enfiára-lhe o cesto do
-jantar, de maus modos e sem dizer um _Deus os ajude_ aos companheiros,
-coisa para estranhar n’um homem maneiro e pratico como elle era; entestou
-para as bandas da casa, sem dar palavra e com cara de curtir sezões.
-
-Foi grande fallada na malta por causa d’este passo. Nunca o tinham visto
-tão esquerdo, nem de tão má catadura para os amigos. E d’ahi, andára todo
-o dia a fugir com o corpo ao trabalho, e a resmungar com os seus botões,
-como quem lhe roía alguma coisa lá por dentro.
-
-Ou estava doente o pobre do homem; ou lhe tinham dado quebranto.
-
-Porque até então ninguem lhe pozera o pé adiante no trabalho e ninguem o
-levára á parede em alegrias e cantigas. Andava sempre mais contente do
-que a cigarra e mais esperto do que o pardal.
-
-O que teria o André Pimenta?
-
-N’estes pontos de interrogação viera a gente toda da quinta do _Chibanta_
-ao logar da Rabiça fazer o farnel para a semana, porque era n’um sabbado
-e tinham recebido a féria: em perguntas e conversas deitaram até defronte
-da casita onde elle morava e onde estava ainda, muito bem amezendado n’um
-poial á entrada da porta, e tão pasmado, que parecia ter-lhe um ar mau
-passado por cima, n’aquelle logar mesmo.
-
-—Boas noites, tio André!
-
-—Adeus, tio André, quer alguma coisa da Rabiça?
-
-Estas perguntas, com mais ou menos variantes, lhe dirigiam os pobres
-ganha-pães, sem que obtivessem resposta, além de um resmungar
-inintelligivel, que de má vontade saiu do peito de André, e que se fez
-ouvir sem que abrisse a bocca.
-
-Os maltezes olharam-se, encolheram os hombros, entenderam se pelos olhos:
-e, cada vez mais admirados, seguiram para o logar.
-
-O caso era para dar que fazer até mesmo a um escrivão!
-
-André fôra sempre um bom trabalhador e um honrado chefe de familia.
-Depois de andar um santo dia na sua labutação, não havia para elle maior
-regalo, do que vir de noitinha brincar com os pequenos ou conversar com a
-mulher, emquanto se lhe não apromptava a ceia e não tocava a deitar. Ao
-portal da casa, de verão; de inverno, sentado ao pé da chaminé n’um banco
-que elle arranjára em horas de sesta.
-
-N’aquella casa não se conhecera nunca cirurgião nem boticario, e não
-constava pela visinhança que se lá tivesse ralhado nunca. Pois a lingua
-d’aquella gente não perdoava, nem ao padre prior!
-
-Mas, quando tocava ao André das Furôas, (assim se chamava ao sitio onde
-assistia) ou á Magdalena da tia Ignacia, todos diziam á uma, que era um
-casal em que se não podia pôr bocca, e que viviam tão socegados, como
-Deus com os Anjos.
-
-Entretanto nem só os camaradas haviam extranhado André n’aquelle dia;
-Magdalena e os pequenos tinham ficado passados, quando o haviam visto
-chegar ao pé da porta, atirar com a enchada e o cesto para o meio da
-casa, como quem atirava com o diabo á rua e deitar-se para cima do banco,
-sem dizer nada nem á mulher nem aos filhos.
-
-Pela primeira vez na sua vida um mau pensamento viera torvar a serenidade
-d’aquella alma. André sentira a inveja, e tinha medo d’ella e de si.
-Admirava-se da mudança, que lhe ia lá por dentro e não tinha alma para
-deitar fóra aquella tentação. Não se conhecia, por differente; e não
-sabia como havia de tornar a ser o mesmo.
-
-Parecerá estranho a quem não conhecer a vida apathica e rotineira da
-gente do campo, André não pensára nunca nas differenças d’este mundo, nem
-nas gradações de posição. Parecia-lhe tão natural ser rico o sr. Manoel
-Fernandes e elle trabalhar para o sr. Manoel Fernandes e ser pobre, como
-deitar-se á noitinha e erguer-se de madrugada. Nunca considerára n’essas
-differenças, e ia trabalhando todos os dias com a enchada ou com o podão,
-como já seu pae trabalhára, e o pae de sua mulher, e como esperava que
-seus filhos trabalhassem, quando tivessem edade para isso.
-
-N’aquelle dia, porém, a horas d’almoço, ouvira uma conversa em que andára
-a matutar todo o dia, porque lhe fizera sensação devéras lá por dentro.
-Dois senhores da cidade tinham vindo visitar o sr. Manoel Fernandes e ao
-dar uma volta pela fazenda demoraram-se, com a curiosidade de vadios a
-vêr trabalhar os maltezes, que andavam n’uma cova aos montes.
-
-Admirados de vêr, n’uma hora, trafego, que os cançaria todo um mez,
-começaram em voz alta a fazer commentarios, e a lamentar a sorte
-d’aquelles homens, que suppunham infelizes.
-
-—Pobre gente, dizia um, tanto trabalho e por tão pouco dinheiro!
-
-—Então, respondia-lhe o companheiro, se elles não trabalhassem como
-haviamos de comer, bem vês que nem todos podiamos ser eguaes.
-
-—É verdade mas eu morria se cavasse duas horas!
-
-—Não admira, cada um para o que nasceu.
-
-E mil cousas como estas que é facil imaginar. O effeito que produziram,
-isto é que nem elles nem ninguem poderia imaginar. Não cairam no chão.
-Apanhou-as o ouvido de André a quem abriram um mundo novo. Pois havia
-homens, que não podiam cavar, ou que não queriam; e outros eternamente
-condemnados áquelle trabalho! Era coisa em que não pensára nunca, mas que
-lhe fervilhava agora lá por dentro, azoinando-o todo o dia. André Pimenta
-começava, como o anjo caído, a olhar para cima, e ao vêr outros tão altos
-e a si tão baixo oirou-lhe a cabeça e ficou estonteado.
-
-Era quasi noite e não cuidava em recolher. As creanças, que andavam n’uma
-empreitada de fazer uns castellinhos de barro ao pé da porta, e que,
-mal lobrigaram o pae, tinham deitado a correr a abraçar se lhes com as
-pernas, sacudidos por elle haviam vindo de orelha murcha, com as lagrimas
-nos olhos e corridos de susto para o pé das suas architecturas sentar-se
-amuados sem comprehenderem aquelles termos differentes das festas do
-costume: e mais estranhos ainda continuavam sem se atreverem a fallar
-com a vista pregada no pae, e com a persciencia infantil a advinhar-lhe
-desgraça. A mulher, essa entrava, saia, fallava, dizia mil cousas,
-fazia mil perguntas e sem obter resposta alguma, não sabia a que santo
-se apegasse para lhe fazer o milagre de lhe chamar a ternura antiga,
-tremia de entrar a fundo n’aquelle grande desgosto, por fim animou-se, e
-chegando-se a elle tocou-lhe no hombro e perguntou-lhe a medo:
-
-—Não vens cear, homem, é já tão tarde?
-
-—Não; foi a resposta secca e desabrida como badalada tangida rapida por
-mão inexperiente; e ficou-se.
-
-—Que tens tu, homem, nunca te vi assim?
-
-—Pois tu não sabes, que ha homens que não precisam de andar agarrados a
-uma enchada todo o dia para ganhar o pão de seus filhos?
-
-—Sei, homem, que se lhe ha de fazer; são cousas do mundo!
-
-—E nunca m’o disseste?
-
-—Para quê, André; valha-me a Senhora da Madre de Deus, nunca pensei que
-te dessem cuidado essas cousas!
-
-—Que me não dessem cuidado! Mulher de... não sei que diga! Pois eu, um
-homem como os mais, que nunca fiz mal a ninguem, que me tenho feito em
-postas para os sustentar a vocês; eu, se ámanhã me desse um estupor, ia
-para o hospital; por lá morria ao Deus dará, e vocês ficavam por ahi a
-pedir esmola!
-
-—Mas, que se lhe ha de fazer, se nascemos pobres?
-
-—É em que eu tenho andado todo o dia a matutar, porque hão de uns nascer
-pobres, e outros ricos; porque hei de eu não ter nada, e o sr. Manoel
-Fernandes, ha de ter mais de uma duzia de quintas, cada qual maior, cada
-qual que bastava para vivermos todos descançados:
-
-—Queres reformar o mundo? Tens inveja, André, e inveja do patrão, que nos
-faz tanto bem?
-
-—Quem te falla em inveja! Se eu me lembrasse de que era invejoso dava um
-tiro n’estes miolos. Eu não olho para as mãos do sr. Manoel Fernandes,
-que merece... verdade, verdade, e que é um homem ás direitas; mas eu não
-sou somenos e se tivesse uma d’aquellas quintas, ao menos; trabalhava,
-que não nasci para vadio: mas sem pensar no dia de ámanhã, sem tremer com
-a idéa do que lhes póde acontecer.
-
-—Por amor d’isso não te rales, homem; respondeu-lhe uma voz meio alegre,
-meio reprehensiva ao pé d’elle.
-
-Era o sr. Manoel Fernandes, que saindo a dar uma volta parára perto do
-grupo, e entrára assim na conversa, poisando a mão direita sobre o hombro
-de André.
-
-Este enfiou, Magdalena entrou a tremer, e os pequenos, comprehendendo que
-uma nova scena se ia passar, approximaram se curiosos do logar da acção.
-
-Houve um momento de silencio geral, emquanto os diversos actores se
-entre olhavam e reconheciam. Por fim André, com aquella giria saloia,
-que participa da sagacidade dos selvagens, conhecendo que a defeza era
-difficil, tomou a offensiva.
-
-—Ora, v. s.ª, assim a escutar o que diz cada um á sua mulher, sr. Manoel
-Fernandes!
-
-—Qual escutar, nem meio escutar, tornou este entre serio e risonho
-pois que percebera a manobra, não ouviste nunca, que, palavras leva-as
-o vento? Estavas para ahi a parolar alto e bom som, e não querias que
-ouvisse? Só se viesse pela charneca adeante com as mãos nos ouvidos.
-
-—V. s.ª tem razão, tornou Magdalena interferindo, como o poder moderador
-no systema constitucional, mas v. s.ª bem disse que palavras leva-as
-o vento, e o meu pobre homem apoquentado da sua vida, não admira, que
-desabafe...
-
-—Ninguem lhe diz o contrario, santinha, e d’ahi bem falla o rifão: quem
-escuta...
-
-—Mas o meu André não pôz bocca em v. s.ª para mal.
-
-—E que pozesse! El-rei tambem tem costas, não lhe quizera eu mal por
-isso, e tanto que já lhe disse, por amor da _Chibanta_ não ha de ser a
-duvida.
-
-—V. s.ª tambem!... observou André, como em recriminação, levou a mal, uma
-palavra dita sem maldade nenhuma.
-
-—Como queres que te diga que não, homem? fazes-te André! Já te disse, que
-está na tua mão, ser tua a _Chibanta_.
-
-—Ora!...
-
-—Não ha aqui ora, nem meia ora. Ámanhã começas a tomar conta da fazenda,
-e de caminho descanço eu o meu bocado. Se te avires com ella, e se te
-mostrares tão prompto de braço como de lingua, virá a ser tua.
-
-—V. s.ª tem vagar de rir, mas um pobre homem como eu, é que nem sempre
-está de feição: basta-lhe a sua vida, disse André, que não acreditava em
-tanta generosidade.
-
-—Queres acreditar-me ou não? Bem sabes que não tenho senão uma palavra.
-
-—V. s.ª então!...
-
-—O dito dito, e até ámanhã.
-
-O sr. Manuel Fernandes voltou costas e seguiu no seu passeio: apenas
-desappareceu no atalho, Magdalena e André olharam-se espavoridos e como
-receiosos, e por algum tempo estiveram sem dar palavra; por fim Magdalena
-voltou-se para o marido, para o accusar, segundo o costume das mulheres
-em semelhantes occasiões.
-
-—Para que havias de fallar, André?
-
-—Então nem queres ao menos, que desabafe. Anda um homem ralado de
-trabalho todo o dia, e nem ao menos ha de ser senhor de dizer duas
-palavras em sua casa!
-
-—E se elle te despede?
-
-—Não faltará onde dê cabo do corpo?
-
-—Elle parecia fallar sério!
-
-—Ainda acreditas! Bem me fio eu no que elle disse: esteve a divertir-se
-com a gente. Má raios...
-
-—Cala-te André, atalhou rapidamente Magdalena, cala-te, póde ainda estar
-por ahi, e quem sabe, talvez o homem faça o que disse.
-
-E em duvidas decorreu a noite. A peior, que desde que eram casados tinham
-passado. Ora a esperança lhes surria, ora o receio os amedrontava; ora
-acreditavam, ora descriam. Pela primeira vez nem Magdalena nem André
-provaram da ceia, e só as creanças, que não comprehenderam nada, comeram
-como do costume, e adormeceram com o mesmo descanço.
-
-De madrugada André, com cara de morte de homem, encaminhou se para a
-_Chibanta_. Vergavam-lhe as pernas pelo caminho; não ia contente comsigo,
-nem com a sua consciencia. Parecia outro.
-
-O sr. Manuel Fernandes esperava-o ao portão da quinta. Uns quês de ironia
-transpareciam no rosto alegre do fazendeiro.
-
-—Melhor cara traga o dia da ámanhã, homem, mofina te deu, que tão
-amargurado vens! Parece que não pregaste olho!
-
-—Eu bem sei que v. s.ª me vae despedir; mas não é porque eu faltasse á
-obrigação...
-
-—Que tens tu homem, mordeu-te bixo?
-
-—É que v. s.ª...
-
-—Bem sei o que vaes dizer, mas o que hontem te disse, está dito, hoje
-começas a ser meu feitor e para o deante fallaremos...
-
-André duvidou ainda e só depois do fazendeiro o ter apresentado aos
-trabalhadores, como seu substituto é que começou a entrar em si,
-parecia-lhe tudo um sonho.
-
-Em quanto lhe ia dando as instrucções necessarias, e lhe explicava por
-meudo o grangeio da fazenda, o sr. Manuel Fernandes sorria-se vendo que
-André meneava a cabeça com ares de profundo entendedor, e respondia
-a tudo: já entendi, deixe estar, não tem duvida. O velho lavrador não
-acreditava n’aquella proficiencia, e lá de si para si amolava o caso.
-Tanta confiança mostrava porém o novo caseiro, que, depois de acabada
-a vistoria, mandou o entrar para a casa principal da habitação, que
-accumulava as funcções de casa de jantar, escriptorio e cosinha, e
-disse-lhe:
-
-—Oxalá que me enganasse homem, queria-te dar uma licção e mostrar-te que
-nem tudo é o que parece, que para grande náu, grande tormenta e que cada
-qual sabe as linhas com que se cose. Se a inveja é feio peccado, não é
-culpa menor julgar as coisas pelas apparencias. Comecei, como tu, pobre,
-enriqueci por felicidade, mas sempre honradamente; ainda assim, não
-poucas vezes me têem lembrado, com saudade, as noites, em que, ralado com
-o trabalho, mas sem cuidados, atirava com o corpo para cima da enxerga,
-sem deitar contas á vida porque a féria no fim da semana pagava tudo.
-
-—Ó senhor Manoel Fernandes, mas a mulher e os filhos?
-
-—Tambem se accommodavam como podiam. Olha: uma cava é para o milho, outra
-para a vinha; quanto mais se sóbe, mais cançado se fica. Hoje tenho mais
-dinheiro do que então, lavro muitas geiras de chão, deito um par de moios
-á terra, e não dou pouco que fazer ao lagar; mas, pódes acreditár-me,
-tenho mais vezes falta de dinheiro, do que quando recebia um quartinho
-cada semana; e passo mais dias de amarguras, do que quando era um triste
-trabalhador.
-
-E como André meneava a cabeça, com ares de quem não acreditava muito no
-que elle dizia, o sr. Manuel Fernandes tornou-lhe triste:
-
-—D’aqui a tempos me dirás se tinha rasão.
-
-Não tardou que se não realisasse a prophecia. André, quanto mais entrava
-n’aquella vida nova, mais espinhos lhe achava. Tinha que repartir
-a attenção para mil lados, tinha que cuidar em muitissimas coisas
-differentes ao mesmo tempo.
-
-Não descansava, não dormia mesmo. Lembrava-se de noite, que podiam andar
-ladrões na fazenda, sentia ladrar os cães ou grasnar os patos, saltava
-da cama e corria para fóra, de espingarda carregada. Parecia-lhe que
-se esquecera de dar ordens para o dia seguinte, que não determinára
-trabalho, e eil-o, sem pregar olho, a espreitar a madrugada para ir
-acordar os trabalhadores e marcar-lhes a obrigação; era um supplicio.
-
-Depois a cultura em ponto maior, os processos da lavoura, de debulha, de
-vindima, de sacha, de cava, de poda e de empa, a qualidade das sementes,
-o tempo da sementeira e a escolha dos terrenos, o traçar da horta, e
-a rega das plantas, o decote das arvores e a colheita dos fructos, o
-cuidado do gado e da creação, o fabrico dos instrumentos de lavoura, a
-guarda do pão, e o meio de o conservar, reclamavam conhecimentos que lhe
-faltavam. Quando lhe perguntavam alguma coisa, é que via na resposta as
-difficuldades, que á primeira vista não encontrára. Tinha sempre medo
-de mandar o contrario, e não poucas vezes lhe aconteceu, quando errava,
-ouvir os homens da quinta rirem-se d’elle, e lá, uns com os outros,
-fazerem observações bem desagradaveis. André, por natureza bondoso e
-crente, tornára-se irascivel e desconfiado de todos.
-
-Nos seus mais intimos mesmo se fizera sentir a differença de posição;
-Magdalena e os pequenos tinham-se tornado exigentes, nada os contentava,
-tudo lhes parecia pouco, e André podia contar todos os dias com uma
-contenda, quasi sempre n’este theor:
-
-—D’antes não me recusavas coisa nenhuma...
-
-—Se não póde ser, mulher.
-
-—Estás sovina, para que queres o dinheiro?
-
-—Mas se o não tenho?
-
-—Pois sim, a mim não me enganas tu, ainda hontem vendeste isto ou
-aquillo, é porque o gastas com outras.
-
-E seria um nunca acabar referir todas as desavenças, todas as ralações do
-pobre homem. Nem em casa nem fóra, lhe deixavam um momento de descanço.
-Andava como doido.
-
-Entretanto o sr. Manoel Fernandes tinha ido á provincia; demorára se por
-lá algum tempo e esperava-se de um momento para o outro.
-
-André foi ter com elle ao caminho, apenas o avistou a alcance de voz,
-as suas primeiras palavras foram como o deitar ao chão um peso que o
-opprimisse, e com que não podesse mais.
-
-—Acceite a _Chibanta_, sr. Manoel Fernandes, quero a minha enchada e o
-meu somno descançado; a minha féria e o meu socego.
-
-O fazendeiro sorriu-se.
-
-—Pois já, homem?
-
-—E é demais. O que lá vae lá vae, aprendi devéras, estes dois mezes
-têem-me custado annos de vida.
-
-—Pois não tens as mesmas idéas que tinhas ha seis mezes, já te não
-lembras do hospital?
-
-—Tenho-me agora lembrado mais ainda, mas é do hospital dos doidos, e lá
-não tardaria eu se continuasse n’aquelle inferno. Guarde-a que lhe não
-invejo o vagar.
-
-O sr. Manoel Fernandes viu o pobre André tão amofinado, que não quiz
-abusar. No dia seguinte este começava no trabalho antigo e pela primeira
-vez, havia tanto tempo, dormia de um somno desde o deitar até ao
-amanhecer.
-
-Magdalena reagiu, e queixou-se ao principio, depois costumou-se outra
-vez: e se se lembrava com saudades dos seus antigos explendores,
-não tinha muito tempo para ter pena, porque o trabalho da casa
-preoccupava-lhe a attenção.
-
-Os pequenos esses só tiveram desgosto com a mudança. Uma enchurrada
-havia-lhes desmanchado o seu castellinho de terra.
-
-De novo reinou n’aquella casa o socego antigo: a alegria, que parecia
-ter fugido espavorida das grandezas do rendeiro da _Chibanta_, tornou a
-sorrir no pobre albergue do modesto trabalhador.
-
-O sr. Manoel Fernandes entretanto foi ajudando André, que, com o andar
-dos tempos, conseguiu comprar um quintalejo que, se não era tão grande
-como a _Chibanta_, correspondia ao menos ao seu saber e não lhe dava
-grande cuidado.
-
-Mas tinha-lhe aproveitado a licção, e quando lhe fallavam nos haveres dos
-outros dizia sempre:
-
-—Eu bem sei o que isso é; ninguem está contente com o que Deus lhe deu.
-Por isso diz o rifão: a gallinha da minha visinha...
-
-
-
-
-VIII
-
-O guarda do cemiterio
-
-
-I
-
-Era perto da noite. Voltava em companhia do tio Joaquim d’uma feira,
-que se fazia a duas leguas da quinta, onde estavamos. Tinhamos mettido
-os cavallos a passo, e depois de muito discorrer e matar tempo, a
-conversação, que esmorecera gradualmente, parára de todo.
-
-Não o sei ao certo, mas quero o crêr; a tristeza que tanto se sente no
-campo na hora em que o dia desapparece pouco a pouco, influira para nos
-calar; e aquella doce melancolia, que acompanha o crepusculo da tarde, e
-que tanto nos faz scismar e crêr, obrigára-nos a interromper as fallas,
-que perturbavam aquelle silencio geral.
-
-Só quem tem vivido fóra das cidades é que póde dar conta d’aquelle tempo
-de socego e de mudez, que determina a passagem da noite para o dia, e
-muito particularmente do dia para a noite.
-
-As aves, os animaes, as arvores, as plantas e até a natureza insensivel,
-parece que entristecem n’aquelles momentos e que suspendem a vida, o
-movimento e o ruido: como que permanecem por instantes n’um estado de
-duvida e de receio, e temem vêr desapparecer de todo essa luz, que é
-a sua vida, e que então se some no horisonte, tinto por amor da sua
-ausencia com côres de tristeza e de dó!
-
-Outras vezes, no meio da geral callada, alguns ruídos se apercebem; mas
-esses como a susto, como mais para significarem o esmorecer da vida
-do que a sua animação:—é o breve pio do mocho, é o som afastado dos
-chocalhos, são os timidos balidos dos rebanhos, é o ramalhar das arvores
-com a viração da tarde ou o murmurar longinquo e surdo das ondas do mar.
-
-São essas as horas mais talhadas para a meditação, para a saudade ou para
-o amor; são as horas das aspirações vagas, dos desejos indefinidos, das
-fantasias e das expansões; são as horas em que se eleva em nós, um que
-quer que é estranho e superior a tudo que nos cerca e com que de habito
-lidamos; em que o homem soffre e gosa, sente e crê, folga e padece; em
-que o desalento e a esperança se travam em lucta; em que o amor nos falla
-de prazer, a saudade da dôr e a imaginação do infinito; em que se vive
-muito e se deseja morrer; em que se sonha muito e se receia accordar;
-em que a virgem presente a primeira paixão, o homem o primeiro amor,
-a creança o primeiro momento de viver, o velho a ultima hora; em que
-o passado e o futuro se enlaçam, um descoroçoado e sceptico, o outro
-enthusiasmado e crente; em que o mundo é pequeno para a alma, e a alma
-acanhada para o sentimento.
-
-Em tudo isto eu pensava n’essa hora, e tão absorto ía, que nem dava pelo
-caminho que levava: parecera-me até que se me ía fugindo a vida, como me
-parecia fugir o mundo, se o som compassado das ferraduras dos cavallos
-sobre as pedras da calçada, me não chamasse á realidade, marcando de
-continuo com a regularidade d’uma pendula, a extensão do espaço e o
-correr do tempo.
-
-De repente, n’uma volta que fazia a estrada, os cavallos fitaram as
-orelhas e pararam: sobresaltado, como que acordei, procurando descortinar
-que causa fôra a que os assustára.
-
-Iamos passar pelo cemiterio da terra, separado da estrada por um
-parapeito de pouca altura, e limitado, da banda d’onde vinhamos, pela
-casa do guarda; do lado opposto, por uma egreja antiga, abandonada e em
-ruinas.
-
-Nenhum logar mais adequado, nem accessorios mais accordes podia a morte
-escolher. Tudo alli fallava do seu poder, tudo concorria para a sua
-magestosa severidade.
-
-Ruinas, desamparo e tristeza. A casa do guarda, que primeiro se offerecia
-á vista, ennegrecida pelo tempo, com as portas e janellas carunchosas
-e escavacadas, deixando devassar o interior desguarnecido e miseravel:
-o cemiterio sem aninho nem cultura, sem monumentos, nem flôres, nem
-pedras, nem ruas, nem disticos, nem retabulos; algumas cruzes toscas,
-por entre matagaes de ortigas, algumas arvores esgalhadas de longe a
-longe, umas e outras roidas pelos vermes, enfraquecidas pelos parasitas,
-mutiladas pela podridão: e ao longe a egreja, de tempos remotos, com as
-cantarias de grosso lavor lascadas ou caidas, as paredes esburacadas e
-musgosas, as grades ferrugentas e quebradas, as janellas sem vidros, as
-ogivas interrompidas, as arcadas soturnas a perderem-se na escuridão e a
-adivinharem-se pelos buracos da fachada, frias, nuas, sós e tristes.
-
-Apertava o coração e confrangia a alma; fazia mal aquella vista.
-
-Não havia sido entretanto nem a egreja, nem o cemiterio, nem a casa
-do guarda que tinham feito parar os cavallos, mas o proprio guarda,
-que estendido sobre um poial, deante da porta se levantou para nos
-cumprimentar.
-
-Parecia que a influencia sinistra d’aquellas paragens se estendera tambem
-áquelle homem: condizia com tudo que o cercava.
-
-Era alto e ainda novo; mas o tempo e os pesares tinham-n’o curvado e
-encanecido. As feições eram duras, carregadas e tristes, as faces cavadas
-e cheias de rugas, a pelle tostada e aspera, os cabellos mal tratados e
-grisalhos, as barbas compridas, em desordem e grisalhas tambem; o corpo
-estava coberto de farrapos, a cabeça resguardada por um velho chapeu já
-sem abas e os pés mettidos n’uns tamancos muito usados, que quando se
-levantou repercutiram por um modo estranho batendo nas pedras.
-
-Era como a personificação do desconforto ao pé das ruinas, como a
-desillusão da vida junto á morte.
-
-O tio Joaquim, ao dar com os olhos n’elle, resmungou por entre dentes—até
-os brutos o temem;—correspondeu a um—boas noites,—que nos dirigiu, metteu
-o cavallo a meio trote, eu imitei-o, e dentro em pouco tinhamos perdido
-tudo de vista.
-
-Dias depois vim a saber pelo tio Joaquim quem era o guarda do cemiterio,
-e qual a sua historia.
-
-
-II
-
-Manoel começára de pequeno n’um navio mercante, e em pouco chegára a
-piloto pelo seu bom porte e bravura. Era um rapaz valente como as armas,
-destemido como poucos, desembaraçado como ninguem a bordo e que entendia
-da manobra ás direitas.
-
-Não havia tempo nem mar que lhe mettessem medo: e por mais d’uma vez
-salvára o navio em casos apurados, pela sua presença de espirito.
-
-Sempre alegre, sempre a cantar, parecia que não havia tristezas que com
-elle entrassem, nem penas que se lhe pozessem diante.
-
-Tinham-lhe nascido os dentes no mar, calhára no navio, e fóra d’elle
-andava triste como o peixe fóra da agua; o pobre do rapaz, tambem, era
-engeitado, e vivia cá n’este mundo sem ninguem que lhe quizesse.
-
-Chegou lhe entretanto occasião de deitar ferro em amor e de arranjar
-amarra de má morte, pois quebrou no primeiro temporal e que deixou
-abrir-se e naufragar o barco de encontro aos baixios da vida.
-
-Manoel teria dezoito annos se tanto, quando uma tarde, indo em penitencia
-á egreja de Nossa Senhora da Penha a cumprir uma promessa que fizera em
-hora afflicta, encontrou a um canto da egreja, ajoelhada a rezar tambem,
-uma rapariga nova, bonita e toda coberta de luto.
-
-Seguiu-a, soube onde morava, requestou-a e ajustaram casamento, que só
-dependia d’uma viagem redonda ao Brazil, em que o rapaz contava apurar
-os vintens de que precisava para pôr a casa. E assim, entre promessas
-e esperanças, viveram dois annos, que tanto medeou entre o dia em que
-pela primeira vez se tinham visto e aquelle em que ia partir para a
-malventurada viagem.
-
-Foram os melhores da vida de ambos. Ái! quem tem vivido de illusões e
-de esperanças, sentindo um coração a afinar pelo seu no pulsar e no
-tremer, uma alma unir-se á sua cada vez a mais a mais até se confundir
-de todo; quem tem a registar esses dias em que o tempo vôa nos instantes
-dos colloquios para descançar, e demorar-se nos seculos que os separam;
-quem tem encontrado sempre na dôr e no prazer companhia e affeição, amor
-sempre, dedicação e sentimento, como só a mulher sabe ter, e a mulher que
-ama deve resignar-se para todas as provas, para todos os padecimentos,
-porque já antecipadamente tem gosado o maior quinhão de felicidade que a
-terra lhe póde dispensar.
-
-N’este viver do ceu tinha passado Manoel dois annos, e tão breves lhe
-tinham parecido, que na hora da despedida dava a vida inteira por um dia
-só mais que fosse.
-
-Mas era preciso. O navio partiu e o piloto acompanhou-o em corpo,
-deixando a alma em terra, e com a alma a esperança e a vida.
-
-Nos primeiros tempos esteve como doido. Por mais d’uma vez o navio correu
-perigo sem que elle désse por isso, sem que aquella valentia d’outros
-tempos accordasse nos momentos d’afflicção; parecia barco sem leme ou
-alma penada sem sepultura: de nada dava fé nem a coisa alguma attendia.
-Depois o tempo gastou as maguas, as rugas ficaram no rosto, a saudade no
-coração; mas o marinheiro tornou a ser o que era, menos na animação e na
-alegria, que d’essas só Martha podia dizer o que era feito.
-
-Teve má sina a viagem. Avarias, arribadas, empates de vendas,
-difficuldades de carga demoraram tres annos o _Corsario_ em vez dos seis
-mezes, que deviam de ser. Em Lisboa correu voz de que se perdera, e os
-proprios donos do barco descoroçoaram de o tornar a vêr.
-
-Nos primeiros tempos Martha, sempre que podia, chegava ao escriptorio
-para saber noticias, depois foi-se demorando mais até que por fim deixou
-de apparecer. Bem sabia que Manoel, apenas saltasse em terra, correria
-onde ella morava: para que havia de perder tempo, de que precisava para
-viver e cuidar do enxoval?
-
-Um dia soube que se perdera o _Corsario_ com toda a tripulação. Ficou por
-morta. Por dois mezes padeceu n’uma cama do hospital, depois melhorou
-pouco a pouco, até que saiu tão boa como d’antes e mais formosa ainda,
-porque a pallidez lhe augmentava a belleza.
-
-Perto d’ella morava um rapaz, operario diligente e de bons costumes,
-novo tambem, laborioso e honrado: encontraram-se um dia na escada, e
-cumprimentaram-se. Ella percebeu no visinho semelhanças do Manoel; chorou
-muito, mas pensou no operario toda a noite; de manhã, para espairecer
-saudades, estava na janella ainda de madrugada, e vio o quando ia para
-o trabalho; depois foi continuando a vêl-o, depois... as recordações de
-Manoel começaram a sumir-se-lhe pouco a pouco da lembrança, como o navio,
-em que partira, fôra desapparecendo ao longe, pouco a pouco, nas aguas do
-mar.
-
-
-III
-
-Entretanto o _Corsario_ entrava a barra, de pannos largos em tarde
-de primavera, como cysne nadando em lago de jardim. A marinhagem
-debruçava-se nas amuradas, e com os olhos namorava a terra, a que a
-prendia o coração. O sol baixava, e a cidade estirada por esses montes
-fóra recortava-se sobre o fundo azul da serra de Monsanto, onde se
-reflectiam, já muito obliquos, os raios do poente.
-
-Todos ou quasi todos têem visto Lisboa do mar e todos se tem enlevado
-em suas formosuras; mas nem todos sabem o que é vêr a terra onde se
-nasceu, onde se passou o melhor tempo da vida, onde estão amisades e
-amores, saudades e memorias, depois de mezes passados entre mar e ceu,
-a perderem-se e confundirem-se um no outro: e de vastos, que são, a
-apertarem-nos, a apertarem-nos a mais a mais o coração e a alma.
-
-Para Manoel nem cidade, nem montes, nem rio, nem sol, nem ceu, nem coisa,
-que n’este mundo houvesse, valiam a pena d’um olhar; uma casinha sómente,
-uma mulher e um amor, eram tudo, em que pensava, o que unicamente lhe
-prendia a attenção.
-
-Para que de mais longe podesse vêr, apenas passára as torres, subira a
-uma gavia e d’ali esbugalhava os olhos para terra, como quem por elles
-queria que a alma fosse em procura de Martha. Mal o navio deitara ferro,
-atirou-se a um escaler, e agarrado aos remos, porque a seu vêr ninguem os
-puchava com tanta ancia e tanto d’alma, voára, que não corrêra, até ao
-caes, onde d’um pulo saltou em terra.
-
-Mas dados que foram os primeiros passos com os restos d’aquelle impeto
-que vinha de dentro, Manoel estacou e ficou pregado ao chão. Tremiam-lhe
-as pernas, esmorecia-lhe a vista, estonteava-lhe a cabeça, e o coração,
-esse, batia-lhe no peito, como azas de andorinha em horas de temporal.
-
-Que seria de Martha? Morrera talvez: esquecel-o-ia, o que fôra peior;
-porque nem a poderia chorar. Iria encontral-a casada, perdida!...
-Instantes de incerteza como aquelles envelhecem tanto, como annos sem
-descanço. Fraquejou por um momento, cobrou animo depois, como o navio,
-que resiste a um furacão: e, quasi de corrida, deitou para o sitio em que
-a deixára n’outros tempos.
-
-Tinha-se mudado, era já um mau agouro; as recordações do passado deviam
-prendel-a áquella casa, se a abandonára fôra porque esquecera tambem
-essas recordações.
-
-Manoel sentia apertar-se-lhe o coração ao bater á porta e ao dar com a
-cara d’uma visinha antiga que occupava aquella habitação.
-
-Perguntou por Martha e soube o que succedêra accrescentado ainda em cima
-pelas coscuvilhices de senhoras visinhas.
-
-Disseram-lhe que os amores de Martha estavam mais adiantados do que o
-deviam ser para corresponderem ao seu bom porte d’outro tempo, e que se
-deixára a rua fôra porque todos ali a conheciam e todos murmuravam da
-sua vida; que na nova habitação podia estar mais á vontade, por isso a
-escolhêra; finalmente, e para encurtar razões, tantas coisas que fariam
-perder a paciencia, a quem a tivesse bem callejada, quanto mais a quem
-tinha sangue na guelra e o ciume a ferver-lhe lá por dentro.
-
-Ouviu, como se estivera sonhando, parecia-lhe tudo impossivel. Martha, a
-sua Martha ser-lhe infiel, era para dar em doido. Tanto lh’o affirmaram,
-todavia, que o quiz experimentar, e, como o condemnado que vae para a
-forca, seguiu para a morada nova da sua antiga amante.
-
-Era já noite, elle caminhava encostado ás paredes, e como quem receia
-cair. A dôr tambem embriaga, e o marinheiro, que por tantas vezes
-resistira ao vinho e á aguardente, fraquejára áquelle padecer; era outro
-homem, as palavras da velha tinham no mudado de todo.
-
-Ao voltar da esquina da rua indicada, viu de longe n’uma janella um
-vulto, que o coração conheceu, antes que os olhos o podessem adivinhar.
-Era Martha, dizia-lhe o que sentia em si e os estremecimentos do seu amor.
-
-Mas quando, esquecido de tudo, ia soltar um grito e correr para a que
-tanto amava, um outro vulto que parára debaixo da janella, depois de
-ter fallado para cima e de lhe terem respondido, entrou a porta que lhe
-franqueavam e que pouco depois se cerrava sobre elle.
-
-Martha desapparecera da janella e em breve aquella casa ficára sepultada
-nas trevas, como o pobre Manoel no desalento e desconforto.
-
-Já não tinha que duvidar, não era sonho, estava realmente accordado, os
-seus olhos não o enganavam; esperou entretanto, ora correndo como um
-perdido, ora parando como quem ia desfallecer, ora soltando palavras sem
-sentido, ora rugindo como uma fera, espumando como um possesso.
-
-Perto da meia noite abriu se a janella, Martha appareceu de novo, o
-mesmo vulto saiu e encaminhou-se para onde estava Manoel, este como fóra
-de si, não vendo senão sangue partiu para elle, com a faca de marinheiro
-aberta: ouviram-se dois gritos, um corpo baquear no chão e uma voz de
-mulher, que pedia soccorro.
-
-
-IV
-
-Momentos depois já Manoel estava prezo: tinham acudido aos gritos de
-Martha, e tinham-no encontrado com a faca ainda aberta defronte de um
-corpo caido no chão, e a golphar sangue por duas feridas profundas.
-
-Era mais do que o bastante.
-
-O depoimento da visinhança, o proprio testemunho de Martha, tudo
-concorreu para que o condemnassem.
-
-Levaram-lhe porém em conta o bom passado, os negociantes respeitaveis,
-donos do navio a attestarem o seu bom porte, uma tripulação em pezo de
-honrados e velhos marinheiros encanecidos pelo tempo, e crestados pelos
-soes da linha a dizerem: que elle tambem fôra honrado.
-
-Os jurados, santas creaturas, commoveram-se com aquelle espectaculo;
-o advogado do réo, rapaz de esperanças, vociferou contra as leis de
-sangue, e discorreu como uma bocca de ouro sobre a alienação mental e
-as circumstancias attenuantes; o juiz sensibilisou-se tambem, e todos
-enternecidos condemnaram o réu... a dez annos de grilheta.
-
-Para um homem como Manoel, similhante affronta seria peior do que a
-morte, se no estado em que se achava, elle a podesse apreciar.
-
-Depois que commettera o assassinato tinha ficado como louco, ou peior
-ainda, porque parecia idiota.
-
-Um golpe d’aquelles, uma mudança d’aquella qualidade!
-
-Quando esperava colher o fructo de uma vida trabalhosa e honrada
-nos braços da sua Martha, vêr-se de repente criminoso, assassino e
-deshonrado; toldarem-se-lhe na cerração as estrellas, que o guiavam
-n’esta vida, o astro do amor, e o astro da honra: eram provações de
-sobra para deitarem por terra castellos mais fortes, e almas ainda mais
-valentes.
-
-Manoel não morreu, mas fraquejou para sempre. O mesmo d’outros tempos
-nunca mais tornou a ser. Nunca mais o viram rir, cantar não o ouvio
-mais ninguem: e as rugas, que se lhe cavaram no rosto, tambem se lhe
-entalharam no coração.
-
-O amigo da humanidade, que inventou as prisões em commum e a grilheta,
-foi de certo um grande perverso. Só a um requinte de malvadez se póde
-attribuir um invento que envolve e reune no mesmo castigo, na mesma
-atmosphera de perversão, innocentes e criminosos, pois que assim
-comparados uns com outros se podem chamar: e que não contente com isso
-lhe accrescentou a grilheta, _exposição ambulante_, aperfeiçoamento da
-que, em tempos de barbaridade, se applicava as mais das vezes a victimas
-do que a réus.
-
-A influencia desmoralisadora d’aquelles dez annos não alcançou todavia o
-antigo piloto: quasi que nem os percebeu, tudo era para elle extranho,
-inexplicavel, incomprehensivel; um pesadello que durava muito, e de que
-esperava accordar um dia.
-
-Entrára na cadeia de vinte e um annos; saia sexagenario, eis toda a
-differença. Aquelles dez annos valiam-lhe por quarenta; e, mocidade,
-alegria, sentimento, coração, vida, enthusiasmos d’outro tempo, crenças e
-aspirações, tudo deixara ao sair, com a grilheta que depozera.
-
-Só não perdera um sonho atroz, que quasi todas as noites o perseguia, e
-que, salvo pequenas mudanças, era sempre o seguinte:
-
-Navegava a bordo do _Corsario_. De repente o Oceano transformava-se em
-largo mar de sangue: debruçado na amurada via-se lá em baixo a braços
-com um homem, que lhe ia roubar a sua Martha, innocente como os anjos,
-pura como a estrella da manhã, serena como o alvorecer de estio em alto
-mar, e que d’entre nuvens no céu lhe sorria amor. A lucta continuava
-encarniçada, elle fóra de si puchava pela faca; mas, por mais diligencia
-que fazia, só alcançava Martha, o seu contrario escorregava-se d’entre
-os braços escapando-se-lhe aos golpes. Depois o mar de sangue envolvia-o
-todo, ia já a affogar-se, e a voz de Martha eccoava-lhe aos ouvidos
-clamando; assassino, assassino. As ondas passavam-lhe por cima da cabeça,
-o marulho das aguas, o sussurro do vento casavam-se com uma voz confusa,
-que lhe baqueava nos miolos, dizendo-lhe: _não matarás_.
-
-Nos primeiros tempos, em que saiu, ainda teve esperanças de voltar á
-vida antiga; mas todos, que procurava, se affastavam d’elle com terror.
-Desesperado, momentos houve em que lhe passou pela cabeça vingar-se de
-uma sociedade, que castigava n’elle um crime mais dos outros do que seu,
-e seguir a estrada do mal, já que lh’a lembravam, e já que lhe tornavam
-todas as outras impraticaveis; mas o principio do bem e as idéas que
-recebera com a educação, predominaram sempre.
-
-Custára-lhe muitas noites d’insomnias e de phrenesi, horas de amargura,
-em que chegou a desejar a vida da cadeia, occasiões em que a ideia da
-morte lhe trabalhou muito na cabeça.
-
-Uma noite, pelas onze horas, vagueava pelo caes do Sodré depois d’um dia
-passado em inuteis pesquizas de trabalho, e em repetidas e semelhantes
-recusas. O céo estava carregado, o vento soprava em lufadas da barra,
-o rio estava revolto, as aguas negras, a escuridão negrejava em tudo.
-Debruçado sobre o caes, remontou-se pelo pensamento áquella tarde em que,
-onze annos antes, desembarcára no mesmo sitio. Como tudo tinha mudado.
-Que alegrias então, que tristezas hoje! A agua começou a namoral-o
-debaixo, o desalento a convidal-o em roda, ia a precipitar-se, um
-braço susteve-o, uma voz exclamou: cobarde!—Era o braço de um antigo
-companheiro, a voz d’um velho amigo, marinheiro como elle; mas muito mais
-pobre, muito mais velho, e que pedia esmola encostado ao parapeito do
-caes.
-
-Aquella palavra e aquelle exemplo fizeram-n’o renunciar para sempre ao
-suicidio. Para não ser cobarde muitas vezes em temporal desfeito se
-resolvera a morrer, agora, para que lh’o não chamassem, resignava-se a
-viver. Era maior o sacrificio, mas para o compensar estava a ideia de
-que podia ser util ao velho Estevam: e a companhia d’um amigo que lhe
-apparecia nas proximidades da sepultura.
-
-E... porque não havia de concorrer tambem?
-
-A esperança, que mesmo sem fundamento algum, ainda lhe dizia que vivesse,
-e o acompanhava, como sempre, nos mais atormentados lances?
-
-No dia seguinte, com o peculio que por seu trabalho juntára na cadeia,
-comprava um velho barco de pesca, e ambos tomavam posse da propriedade
-commum não contentes, mas resignados, baptisando-a—_Desgraça_,—pelo muito
-que ambos haviam padecido.
-
-Se o trabalho faz minorar e esquecer as maguas, nenhum modo de vida
-se creou melhor para o esquecimento do que a vida do pescador. A lida
-continua e a lucta permanente com o mar e com o vento, a vigilia, o
-emprego de todos os sentidos, trazem o que n’ella se emprega sempre
-voltado para o seu trafego e sempre estranho ao mundo com o qual só de
-leve trata: e d’ahi para Manoel aquelle labutar tão semelhante ao de
-outros tempos, aquella vida, reflexo da outra, reflexo pallido em que
-o rio substitue o mar, em que o barco substitue o navio, mas que nos
-lances e no trato, tanto lh’a recordava, era um paraiso, depois d’aquelle
-inferno porque passára.
-
-Estevam, que o infortunio lhe offerecera por companheiro, serviu-lhe de
-amigo e de auxilio durante tres annos, em que gradualmente se lhe foram
-esvaecendo da lembrança os desgostos e as desillusões.
-
-Se para Manoel podesse ainda haver felicidade, quasi que aquelles tres
-annos se poderiam dizer felizes.
-
-Desde a tarde em que saltára em terra, entre receios e esperanças, nunca
-mais encontrára alma onde derramasse as amarguras, que trasbordavam
-da sua, nunca tivera ninguem que o comprehendesse, nem que avaliasse
-a sua dôr. O companheiro de grilheta, que lhe haviam jungido, era um
-scelerado, com tantas mortes e tantos crimes, que horrorisava ouvil-o, e
-ainda mais vêl-o rir das maguas de amor. Ás queixas de Manoel, respondia
-com imprecações, e se elle insistia, dava-lhe para que o deixasse com
-semelhantes pieguices.
-
-Depois que o soltaram, nunca nem um só, dos que d’antes o tratavam, lhe
-mostrou boa feição, todos fugiam do _grilheta_, alcunha que lhe tinham
-posto e que lhe recordava a antiga condemnação.
-
-Porque, clamem embora os philosophos, a rehabilitação moral para o
-criminoso pobre é impossivel, para o rico é inutil, ninguem lhe toma
-contas nem do passado nem do presente: o miseravel, porém, traz a
-corrente presa toda a vida, todos lh’a notam, todos lhe apontam para
-ella, e embora elle diga: _vejam o que hoje sou_; todos lhe tornam:
-_vemos o que foste hontem_.
-
-Por isso aquelle companheiro, que o comprehendia, aquella solidão que o
-não accusava, aquelle mar e aquelle ceu, que lhe lembravam o perdão e
-o infinito, foram como um calmante para a sua dôr, como uma estação de
-descanço na sua jornada de padecer.
-
-Estação, que durou pouco e que uma borrasca desfez, n’uma tarde, em
-que já recolhiam da pesca, seguindo pelo Tejo acima, a procurar abrigo
-n’alguma d’aquellas enseadas naturaes, que o rio abre, nas proximidades
-de Sacavem.
-
-A _Desgraça_, apezar do vento á popa, seguia pouco, e arfava muito porque
-havia força de corrente, e a vasante ia com grande rapidez.
-
-Principiava a escurecer e o vento a carregar com a noite, alguns trovões
-ouviam-se ao longe, e um temporal rijo se apparelhava para em pouco. O
-barco já não dava pelo leme, e a cada momento se enchia d’agua;—ir para
-diante era quasi impossivel, e á primeira onda mais rija, o casco já
-velho, podia abrir-se de popa á prôa. Posto que não conhecessem a praia,
-em risco de bater n’alguma pedra, tentaram atravessar, e encalhar quanto
-antes, depois de esforços sobrehumanos para luctar com o temporal; mas
-quando aproavam para terra uma rajada mais forte lhes levou a vella,
-e uma onda apanhando o bote pelo costado, metteu-lhe a borda debaixo
-d’agua, e virou-o logo.
-
-Só os que têem vivido parte da sua vida no mar é que avaliam bem quanto
-custa ao marinheiro deixar as taboas, em que tem navegado, sejam ellas de
-bote catraio ou de navio d’alto bordo. Para Manoel e para Estevam o barco
-era a fortuna, a familia, o mundo inteiro, que as aguas lhes queriam
-roubar.
-
-Agarrados a elle, mal se via já, trabalharam quanto poderam para vêr
-se o salvavam; mas, baldados esforços, o que conseguiam n’um quarto
-de hora, perdia-lh’o n’um segundo uma onda mais valente. E as forças
-a faltarem-lhes, e a respiração a difficultar-se-lhes, e os braços a
-renderem-se-lhes.
-
-—Já de noite—não podendo mais, tiveram de o largar, e por um instincto de
-conservação, que nos não deixa nunca, cuidaram de se salvar nadando para
-terra. Não era cedo: acontecia-lhes o que succedera ao barco, e quando
-mais cresciam para a praia, animando-se e clamando um pelo outro, porque
-não se podiam vêr, mais os affastava a corrente, que seguia com uma
-velocidade de espantar.
-
-Estevam não luctou por muito tempo. Mais velho e mais cançado, uma onda
-abafou-lhe o ultimo grito, e galgou-lhe por cima da cabeça, entrando-lhe
-pela bocca aberta convulsivamente n’um extremo resfolegar. Manoel com
-o desespero de afogado, reuniu todas as forças, e n’um extremo alento
-enterrou um braço no lodo da praia, para que a agua o não levasse,
-procurando já por instincto conservar a cabeça ao cimo d’agua para
-gritar, e tomar a respiração.
-
-Succeder-lhe-ia em pouco o mesmo que a Estevam se da terra o não
-ouvissem; correram em seu soccorro com luzes e cabos, nadaram para onde
-se ouviam os gritos, e agarraram-no pelos cabellos, quando exhausto de
-forças ia mergulhar tambem.
-
-—Quasi que não respirava.
-
-A Providencia velava por elle, era a segunda vez que o salvava.
-
-De manhã quando Manoel deu accordo de si, viu-se deitado n’uma esteira
-perto da chaminé, onde ardia um bom fogo, e ao pé d’elle um rapazito
-de dez a doze annos a vigiar lhe o somno: já não sentia a fadiga da
-vespera, e tinha recuperado as forças com o descanço; ia para se levantar
-e agradecer aos que o tinham salvado, quando a creança, pondo-lhe a mão
-sobre o hombro lhe disse:
-
-—Não se levante, faz-lhe mal, a mãe não quer; e como elle teimasse,
-gritou:—mãe, accuda cá, o homem quer levantar-se, quer ir-se embora.
-
-Á voz da creança abriu-se uma porta, e uma mulher, que teria trinta
-annos, quando muito, e que apesar de cançada pelo trabalho, ainda era
-formosa, appareceu no limiar.
-
-Manoel apenas a entreviu, com o lusco-fusco da madrugada, que illuminava
-fracamente a casa, deu um grito, levantou-se cambaleando e enfiou pela
-porta meia aberta para a estrada.
-
-Ella ao reconhecel-o tambem, encostou-se ao umbral da porta para não cair
-no chão.
-
-Era Martha.
-
-
-V
-
-O céu tinha limpado de noite, o dia amanhecera sereno, e o sol aquecia
-bastante, apesar de ser no outono. E aquella estrada, então, que era um
-descampado!
-
-A meia hora de caminho, andando sabe Deus como, com a cabeça pelos ares e
-a rasão quasi transtornada, Manoel teve de parar, ou, para melhor dizer,
-de cair n’um poial, que estava á beira da estrada debaixo de uma nogueira
-velha.
-
-Se não estivesse já experimentado na infelicidade, o pobre homem, que
-pela sua má sina parecia ter nascido nas horas da desgraça, finava-se
-alli de todo.
-
-Mas a canceira do corpo venceu a labutação do espirito; as horas, que
-levára de volta com o mar, o dia que passára e este que ia correndo
-sem comer; aquella vista e aquelle abalo, tudo junto deitaram-no como
-desmaiado sobre o poial onde ficou a dormir, a pensar, ou a esmorecer,
-que nem elle mesmo soube nunca o modo porque fôra, até que um velho
-visinho e que por mais de uma vez chegára ao humbral da porta a encarar
-com elle, o fez tornar a si batendo-lhe no hombro e perguntando-lhe se
-tencionava ficar para sempre alli estendido.
-
-Manoel para aquellas bandas não sabia caminho nem carreira, e que o
-soubesse não tinha alma de o seguir. O velho compadeceu-se d’elle,
-porque pelo fato e pelo fallar, conheceu logo que era estranho ao logar;
-offereceu-lhe, para passar a noite, um bocado de esteira, para matar
-a fome um pedaço de pão e uma cabeça de sarda, e para companhia a sua
-pessoa e conversação.
-
-Acceitou, e seguiu o seu hospedeiro como por demais: e, sem dar fé do que
-fazia, comeu, deitou-se, e dormiu a noite de um somno.
-
-Só nos romances é que os heroes não dormem depois de fortes abalos; na
-vida vulgar, na vida de todos e de todos os dias, depois dos grandes
-padecimentos, vem o cançasso mesmo da dôr, e depois o somno, ás vezes
-mais profundo, mais descançado, do que nas occasiões triviaes.
-
-Na manhã do dia seguinte Manoel acordava tranquillo e quasi feliz.
-Ao cabo de tanta lucta, de tantos lances, e de tão grandes golpes,
-aquelle remanso, que o velho lhe offerecia, aquelle apartamento do
-mundo, aquelle mesquinho oasis, entre um cemiterio e um ancião que para
-elle se inclinava e se debruçava sobre a cova; entre dois tumulos, mas
-sempre oasis para o seu mundo deserto de affeições e de esperanças, era
-o socego, o esquecimento, quasi a felicidade, felicidade da morte, mas
-ainda assim agradavel para os que nada esperam da vida.
-
-Diz um aphorismo, dictado talvez pela descrença, mas provado pela
-experiencia, que um dia de desgraça estreita mais amisades do que
-annos de ventura; contaram-se a sua vida, communicaram-se as suas
-infelicidades, e deram-se o nome de amigos.
-
-Não eram interesseiros os protestos; e por isso, bem sinceros.
-
-Até á morte do velho, Manoel viveu na sua companhia; enterrou-o, chorou
-sobre a sua sepultura, herdou-lhe a pobre habitação e o descubiçado
-emprego, e n’essa posse estava quando em companhia do tio Joaquim o
-encontrei.
-
-
-VI
-
-Haviam decorrido dois annos depois que viera do campo, e, com toda a
-sinceridade o confesso, nunca mais me lembrou em Lisboa, nem o guarda do
-cemiterio, nem a sua historia, que o bom do tio Joaquim me referira.
-
-Tive de voltar áquelles sitios e seguindo o caminho por onde viera da
-feira, comecei a avivar recordações, a recontar de mim para mim aquellas
-horas tão felizes, tão descuidadas, tão folgazãs, que me tinham corrido
-por aquelles descampados, e a vêr por entre as moitas dos vallados, que a
-primavera perfumava de aromas e esmaltava de flôres, as saudades queridas
-d’aquelles encantados tempos.
-
-Ao voltar da estrada quasi no mesmo ponto, em que os cavallos se haviam
-detido dois annos atraz, deteve-se tambem o que eu montava; obrigando-me
-a abandonar aquellas regiões do idealismo pela realidade de tempo e de
-logar.
-
-Não conhecia os sitios, tive de me orientar, invocando reminescencias
-antigas, e confrontando paragens, para me certificar onde estava.
-
-A egreja, a casa do guarda, o proprio cemiterio, pareciam remoçados
-pelo influxo de alguma divindade bemfazeja. Inspiravam ainda tristeza
-aquelles logares, mas uma doce e placida melancholia succedia-se agora
-ao desconforto e desalento, que ao attentar n’aquellas ruinas, nos
-arrefeciam a alma.
-
-O musgo estendia por partes o seu luxuriante manto de verdura,
-contrastando com o negrejar das cantarias, e dando e ganhando
-esplendores com o realce. Bandos de pombos esvoaçavam em roda das
-escalavradas paredes, casando os arrulhos, beijando-se, perseguindo-se
-em revira-voltas graciosas, cortando os ares em todos os sentidos com
-elegantes curvas, affagando-se e brincando, espalhando sobre aquellas
-ruinas suaves perfumes de alegria e de amor. Perto a casa, alvejando
-por entre as latadas de jasmineiros e madresilvas, o velho poial limpo
-e rebocado sob um caramanchão de heliotropos, e até a nogueira velha
-parecia mais viçosa e risonha.
-
-O cemiterio, que da pequena elevação, onde parára, se avistava todo,
-tinha as ruas limpas e orladas de alecrim e alfazema, as lapides mais
-desafogadas de matto, as cruzinhas mais negras, as arvores mais cuidadas,
-o chão recamado de flôres.
-
-Tudo era novo para mim, mas tudo melhorára com a innovação, e despidas
-as rugas de uma velhice precoce ou de uma mocidade gasta e devassa,
-apresentava-se tudo agora com as louçanias de uma virilidade robusta, de
-uma existencia descançada, serena, quasi festiva.
-
-Aquelle rejuvenescer estendera-se tambem ao antigo habitante, que havia
-visto outr’ora sujo, maltrapilho, alquebrado, velho até; e que via agora
-assomar á porta tão aceiado, tão esbelto, tão remoçado, que foi preciso
-que me cumprimentasse e que eu o ouvisse fallar, para perceber que era o
-mesmo.
-
-Apeei-me e mais curioso de que uma mulher, ou do que qualquer homem
-dos que n’este vicio lhes levam as palmas, procurei indagar o porquê
-d’aquellas mudanças.
-
-Talvez pelo respeito, que todos por aquelles logares me tinham, consegui
-de Manoel a confissão da sua vida na parte que não conhecia, e em que se
-operára aquella transformação.
-
-Em resumo foi o seguinte:
-
-Tempos depois da morte do seu antecessor, Manoel acordára uma noite ao
-bater-lhe á porta o acompanhamento de um enterro, que, como todos sabem,
-costumam no campo, ser fóra de horas.
-
-Atraz do caixão vinham chorando a viuva, o filho do finado, e alguns
-visinhos, que os acompanhavam.
-
-E... para que hei de torturar a curiosidade dos meus leitores, se é que
-a despertei em alguns, a viuva era Martha e o filho, aquella creança que
-vigiára o somno de Manoel.
-
-Encontravam-se pela terceira vez, mas d’esta finalmente para não mais se
-apartarem senão no tempo consagrado ao luto. Martha contou-lhe como o
-Miguel não morrêra das facadas, como se tinham casado depois, e como de
-Lisboa tinham vindo para aquelles sitios viver na companhia de um tio do
-marido, dono da fazenda onde foram depositar o nosso naufrago.
-
-Viram ambos n’aquelle inesperado encontro ao pé de um cadaver, a
-vontade da Providencia que os reunia emfim depois de tantos azares.
-Esta conclusão, que nem por isso depunha muito a favor da sua logica,
-pois que o encontro mais naturalmente provinha da occupação de Manoel,
-recebeu sobejo apoio na mutua affeição, que nunca se sumira de todo e que
-renascia agora mais valente e duradoira.
-
-Martha justificou-se a seu modo, e uma torrente de lagrimas rematou-lhe a
-peroração talvez artificial, mas de grande effeito para o seu auditorio.
-Manoel enterneceu-se, acreditou-a, e chorou tambem. E, regada com as
-lagrimas de ambos, desabrochou rapida a flôr do hymeneu.
-
-Casaram, não tiveram muitos filhos, não tiveram mesmo nenhum, mas o
-Miguelsinho, a quem o padrasto estimava como a si proprio, foi cimento
-mais que bastante para aquelle templo modesto de felicidade conjugal.
-
-Quando Manoel acabava a sua historia, apparecia Martha á janella
-chamando-o e lançando uns punhados de milho a um rancho de gallinhas,
-que andavam pela estrada defronte da porta; e por uma azinhaga proxima
-assomava o Miguel tocando umas vaccas e umas ovelhas, que recolhiam do
-pasto.
-
-—É feliz!... Disse-lhe eu tão senhor de mim e com uns ares tão
-sentenciosos e profundos como se fizera uma grande descoberta.
-
-—Sou, graças a estes, e (levando-me á porta do cemiterio para me indicar
-uma cruz abraçada por uma corôa de perpetuas), graças tambem áquelle que
-me perdoou o meu crime.
-
-—Ainda pensa em semelhante coisa?
-
-—Se penso, quiz matal-o!
-
-Uma hora depois voltava para Lisboa, se não contricto ao menos pensativo.
-Aquelle espectaculo tinha-me valido por duzias de sermões.
-
-É verdade que Manoel dizia o que sabia, por experiencia propria: e a
-maior parte dos nossos padres, não sabem o que dizem.
-
-
-
-
-IX
-
-Como se ganha uma demanda
-
-
-Era pelos fins de novembro, ao approximar da noite. Soprava rijo o vento
-das bandas do sul e as nuvens acastelladas e escuras corriam como cavallo
-á desfilada. Principiavam a cair grossas gottas d’agua, e ao longe já
-rugia a tempestade. Como é vulgar no inverno, no campo, quasi que não
-houvera crepusculo da tarde. Apenas se escondera o sol e já a escuridão
-baixava sobre os campos. No sitio onde começa a acção da historia que se
-vae lêr, não havia noticia de povoado: era a meio de uma azinhaga, que se
-contorcia por entre terras cobertas de restevas, e tristes como a nudez
-mal vestida de farrapos.
-
-Joaquim dos Santos tinha mettido o cavallo a trote para fugir á trovoada
-proxima e ás trévas eminentes; emquanto debalde procurava orientar-se por
-meio dos olivaes.
-
-Joaquim dos Santos fôra um dos mais endiabrados rapazes d’aquelles
-lugares. Deitára fama de si pelas proezas que fizera, e o seu nome não
-era bem fallado n’aquellas visinhanças, como um dos maiores extravagantes
-d’este mundo.
-
-Seu pae, que tinha alguns bens e que estimava devéras os seus dois
-unicos filhos, Joaquim e Raymundo, tratou de lhes dar educação decente,
-mettendo-os no mais acreditado collegio de Lisboa.
-
-Mas, emquanto Raymundo estudava com a melhor vontade, Joaquim fazia em
-agua a cabeça dos professores, e peiorava de dia para dia. Não podendo
-aturar, o director mandou-o para casa do pae, declarando lhe, que assim
-como não teria duvida de ensinar de graça a Raymundo, visto o seu bom
-porte e applicação; por dinheiro algum d’este mundo se resolveria a
-supportar o irmão nem mais um dia.
-
-Foi grande tristeza em casa de José dos Santos. As esperanças todas que
-depuzera em seu filho mais velho desappareciam-lhe de repente. E o velho
-que já pensava em o mandar a Coimbra!
-
-Joaquim, pela sua parte, declarou-se em guerra aberta com a lettra
-redonda. Não nascera para doutor, nem se achava com sabedoria para
-lettradices. Queria amanhar terras e ser lavrador como seu pae. Seu
-irmão, que parecia um menino Jesus de freiras, que se desse a semelhantes
-pieguices: elle era um homem, tinha pulso para guiar a rabiça de um
-arado, e pernas para se segurar n’um cavallo.
-
-José dos Santos só contava um defeito, ser estremoso pelos filhos como
-ninguem. Concordou com a vontade do Joaquim, e metteu-o no trabalho
-debaixo da sua direcção.
-
-Mas, nem mesmo nos primeiros dias, o novo lavrador tomou gosto áquelle
-modo de vida. Aborrecia-se do trabalho e, mal que podia, furtava-lhe
-o corpo para ir procurar a companhia dos peiores rapazes da terra.
-Encontravam-no mais na taberna do que na eira, mais no jogo de bolla do
-que no pomar, e mais nas patuscadas do que na lavoira.
-
-Ao passo que se ia entregando a não fazer nada, iam-lhe medrando os
-defeitos e engordando os vicios. Tinha fama de valentão, e tão mau se
-havia feito, que o proprio pae se temia d’elle.
-
-Ninguem podia ter-lhe mão, não ouvia conselhos, nem fazia caso do que lhe
-diziam para bem. Um dia que seu irmão Raymundo se lembrou de lhe fallar
-a preceito para vêr se o fazia chegar á rasão; Joaquim, que não vinha em
-si, deu-lhe uma sova, que o deixou em lençóes de vinho.
-
-Foi tambem a ultima que seu pae lhe aturou. O bom do velho apenas viu
-chegar seu filho querido, o seu ai Jesus, que fôra sempre uma joia, e do
-qual ninguem dizia senão mil bens, em braços, e que soube quem fôra o
-auctor de tão grande maldade, jurou que nunca mais lhe poria os pés em
-casa homem de tão mau coração.
-
-Deitou luto em signal de o ter perdido e respondia a todos que lhe
-perguntavam porque vestia de preto:—é por meu filho Joaquim, que morreu.
-
-Este jurou que se havia de vingar de seu irmão, ao qual attribuia a má
-vontade do pae, e foi cada vez a peior, passando todo o santo dia na
-taberna ou no jogo.
-
-Entre os seus companheiros de perdição havia um, que sobre elle tinha
-mais poder; mesmo por ser o mais depravado. Era João Simões, capaz de lêr
-de cadeira na patifaria e de passar por doutor na pouca vergonha.
-
-Contribuira mais do que ninguem para estragar o rapaz e fôra quem lhe
-ensinára melhor o mau caminho. Joaquim, tambem, não resava por outro
-breviario, e o que João Simões lhe dizia—era para elle um evangelho.
-
-Andavam por aquelles tempos no lugar alguns homens a desenquietar
-trabalhadores para o Brazil, promettendo-lhes mundos e fundos de
-felicidade, quando lá estivessem, e passagem paga no navio para os que
-quizessem ir. João, que entrava em todos os negocios de má condição,
-travou conhecimento com os taes meliantes, e fez-se dentro em pouco um
-dos mais espertos alliciadores da companhia.
-
-Como estava corrente com tudo que se passava, pois bem sabem que a
-occupação do vadio é entreter-se com as vidas alheias, viéra a ser em
-pouco tempo o perdigueiro de melhor faro para levantar a caça. Conhecia
-os que tinham menos dinheiro, os que mais desejavam ganhal-o com pouco
-trabalho, os que tinham melhor embocadura para o vicio, e os que menos
-duvidavam de abandonar terra e parentes.
-
-Onde deitava a rede tirava peixe, já era sabido. Ninguem como elle
-acertava tão bem.
-
-Apenas José dos Santos pôz seu filho fóra de casa, logo João tencionou
-seduzil-o para embarcar, e sem grande difficuldade conseguiu convencel-o
-de que era o melhor partido que tinha a seguir.
-
-Como elle jurava nas palavras do seu mestre, acreditou em tudo quanto lhe
-dizia, protestando entretanto, que se fosse desgraçado grande vingança
-tiraria de seu irmão Raymundo, o causador de tudo, lá no seu modo de vêr.
-João entretendo-lhe a furia foi acompanhal-o ao embarque, encarregando-se
-não só de tratar de quantos negocios porventura viesse a ter; mas ainda
-de realisar os planos vingativos contra o irmão.
-
-Tornou-se assim depositario de todos os seus odios.
-
-João incumbindo-se d’esta vingança, trabalhava tambem por sua conta, pois
-jurára pela pelle de Raymundo, desde que este o tratou desabridamente, e
-lhe voltou costas n’um arraial.
-
-O desgosto de vêr seu filho tão mal encaminhado levou o pobre pae á cama:
-e Raymundo teve de deixar os estudos em meio para vir junto do velho,
-governar a casa e tratal-o na doença.
-
-Entrementes que estava cuidando em seu pae tomou-se de amores com uma
-rapariga da terra; e como era boa de caracter e boa de reputação, apesar
-de pobre, casou-se em breve, ganhando todos com o casamento. Elle porque
-alcançára uma esposa extremosa, José dos Santos porque ganhava uma
-enfermeira sollicita, tão desvellada e tão carinhosa como a melhor filha.
-
-Porém quando o mal é de morte triste remedio lhe podem dar o saber dos
-medicos, ou o cuidado dos enfermeiros. A ferida do doente era mesmo no
-coração, não tinha cura. Apesar da maneira porque Joaquim para com elle
-se houvera, estimava-o porventura mais ainda do que ao seu obediente e
-bom Raymundo.
-
-Caprichos do sentimento, que mais nos fazem prender a affeição, a quem
-menos nol-a merece; o velho, embora comsigo mesmo o negasse, dera parte
-maior do seu coração ao filho perdido.
-
-Muitas vezes em piedosa e apaixonada analyse se desculpava d’esta
-parcial fraqueza. Era a ovelha desgarrada, que cuidados maiores requeria
-do pastor, era a terra maninha que pedia melhor cultura, era a arvore
-desviada, que chamava mais attenção para lhe emendar o erro.
-
-A lembrança do filho era o tormento, e a enfermidade mais perigosa, que o
-definhavam. O barbeiro-sangrador do logar, e o cirurgião visinho tinham
-feito repetidas juntas sem atinarem com a rasão do mal. Resolveram por
-fim, que padecia do interior, e acertaram sem saber.
-
-José dos Santos ria-se dos entes de rasão dos dois physicos, e
-sujeitava-se resignado ao tratamento que lhe applicavam. Seu filho, sua
-nora, até o netinho de peito, todos se acercavam d’elle inquietos e
-suspeitosos da verdadeira causa do mal. Porém tão callado se conservára o
-doente, que não tinham passado de conjecturas.
-
-Á hora da morte apenas se lhes desvaneceram as duvidas, porque,
-conhecendo como estava, chamou-os a todos, lançou-lhes a benção, e depois
-erguendo os olhos ao céu, exclamou:
-
-—Compadecei-vos tambem d’elle, Senhor, tocae aquella alma perdida, com um
-raio da vossa divina graça... Se algum dia tornares a vêr teu irmão, meu
-Raymundo, dize-lhe, que lhe perdoei tudo, e, que ao despedir-me do mundo,
-lhe deitei, cá de tão longe mesmo, a minha benção de pae.
-
-Casa onde entra doença, não é o dinheiro que a aguenta: a molestia de
-José dos Santos foi a ruina d’aquella familia. Durára perto de dois
-annos o padecer do velho; custára muito áquella organisação robusta
-o desprender-se do mundo, luctára como um homem; o desgosto, porém,
-vencera-o por fim.
-
-Tudo estava empenhado, quando o antigo lavrador falleceu: foi mister
-pedir dinheiro para o enterro, e Raymundo amanheceu um dia sem pae, sem
-haveres, e com o filho e a esposa para sustentar.
-
-Demais a familia promettia-lhe augmentar-lhe, porque Leonor, sua mulher,
-estava gravida de tempo: e tanto que em poucos dias deu á luz uma
-filhinha, formosa como um serafim, e córada como uma rosa de primavera!
-
-Diz-se que os filhos são a riqueza do pobre. Triste ironia!—Para o que
-padece de necessidade a vista das creanças sem pão é tormento mil vezes
-maior do que a propria fome. Quantos não sacrificariam a vida de bom
-grado, se em paga soubessem que garantiam a existencia dos seus!
-
-Supplicio, que se não descreve, é vêr os innocentes, menos soffridos e
-porventura mais sinceros, não disfarçarem a fome e chorarem pedindo pão.
-
-Emquanto a desgraça o perseguia, Raymundo, sem desanimar, ia trabalhando
-sempre, amparado pela força de vontade e pelo sentimento do dever.
-
-Pelo contrario a fortuna, caprichosa como sempre, sorrira para Joaquim
-cujos negocios lá pelo Brazil iam de vento em pôpa.
-
-João Simões, que com elle se correspondia regularmente, não descançava
-de lhe acirrar os odios contra seu irmão, o qual para de tudo o privar,
-até lhe roubára a benção paterna, fazendo com que o velho á hora da morte
-amaldiçoasse o filho mal procedido.
-
-Como já se disse, succedera o contrario; mas o Simões, que era uma alma
-damnada, queria vingar-se de Raymundo, e não recuava, por conseguinte,
-deante de uma mentira, ou duas que fossem.
-
-Ao mesmo tempo encarecia lhe a prosperidade da casa e os grandes
-negocios, que José dos Santos fizera nos ultimos tempos: dizia-lhe, que
-seu irmão ficára disfructando uma grande fortuna, que se fingia pobre
-para não fazer partilhas, e que se Joaquim lhe mandasse procuração para
-tratar d’esse negocio, em breve lhe mostraria, se era ou não verdade, que
-seu irmão queria enganar toda a gente com a sua mentirosa pobreza.
-
-Conseguiu por fim o que desejava: e mal teve a procuração em seu poder,
-começou a perseguir o desgraçado Raymundo a quem já devia bastar o seu
-mal.
-
-A justiça não costuma estar em casa para receber os pobres; João Simões
-dispunha de dinheiro, e entendia de demandas, fazia o que queria. Taes
-artes teve, de taes manhas se soccorreu, que conseguiu em pouco, que
-passassem um mandado de penhora contra Raymundo, como cabeça de casal em
-nome de seu irmão: emquanto este, lembrando-se com saudades da patria ia
-liquidando os seus negocios, para poder regressar quanto antes. Tinha
-ganho algum dinheiro; mas não tinha contrahido amisades: e estava rico;
-mas só e triste.
-
-Mudára de vida completamente: aquelles annos tinham-no amadurecido, mas
-tambem o tinham cançado e gasto. Estava velho antes de tempo, precisava
-descançar e não ha como a terra da patria para alliviar penas de velhice
-e melancholias de coração. Havia bem pouco que chegára, quando nós o
-encontrámos, fugindo da tempestade, e orientando-se por entre campos.
-
-Eram recordações, eram saudades, que o tinham demorado, seguindo por
-aquellas visinhanças, parando diante d’uma arvore, descobrindo-se diante
-d’uma cruz, apeando-se muitas vezes para ir ajoelhar diante d’uma pedra.
-
-Tudo lhe fallava á memoria, tudo lhe fallava ao coração.
-
-Aqui passára tanto tempo espreitando seus companheiros, que o procuravam,
-e elle escondido; ali tivera o primeiro encontro apaixonado; mais em
-baixo estivera com seu pae; mais além descançava este em horas de calor,
-ou esperava os trabalhadores das suas fazendas, ao recolherem, para lhes
-perguntar noticias do trabalho.
-
-E uma pedra para junto da qual viera correndo um dia a fugir do cão
-do tio Fernandes, esconder-se no regaço de sua mãe, toda em sustos de
-principio; tão enfurecida mais tarde apenas soube que fôra elle, quem
-desafiára o cão!
-
-Mundo de melancholicos e piedosos phantasmas, mundo, que o alheava
-á realidade, que o apartava do presente, tão só, tão vasio, tão sem
-significação, para lhe abrir francas, patentes e compassivas as portas do
-passado, tudo ali se transformava para elle, e em cada cousa cuidava vêr
-uma feição querida, uma lembrança, uma alegria ou uma dôr.
-
-Por vezes lhe rebentaram as lagrimas dos olhos, por vezes sentiu-se
-suffocado, por vezes desejou, emballado pela doce harmonia da saudade,
-adormecer de todo no dormir, em que já descançavam seu pae e sua mãe.
-
-E, que o explique quem melhor o pensou, nas occasiões, em que o
-sentimento é em nós mais placido, mas tambem mais profundo; nas horas de
-amor duvidoso, de aspiração indefinida, de descontentamento irremediavel
-e infundado, parece que se levanta entre nós o desejo de outra vida, de
-outro mundo, de outra existencia, não sabemos qual, mas que nos parece
-ter já vivido, e para o qual nos persuadimos, teremos de voltar.
-
-N’essas horas de extranho e amoravel sentir, como desterrados de regiões
-bem diversas d’estas, desejamos vêr terminado o desterro e immediata a
-hora de regressar.
-
-Foi o approximar da tempestade que o distrahiu d’estas melancholicas
-cogitações; deitou os olhos em roda e não conheceu o sitio. Tinha-se
-perdido no caminho. Novas estradas, novas mudanças tinham-lhe
-transformado o mappa, que a memoria lhe estampára no coração, via-se a
-meio de olivaes e as arvores confundiam se já com as sombras da noite.
-
-Seguira, sem dar por isso, o melhor caminho, a estrada nova, e que por
-conseguinte não era do seu tempo. Não podia estar longe o povoado, mas a
-chuva cada vez apertava mais, e o cavallo já não queria andar assombrado
-com o fuzilar continuo dos relampagos, e atturdido com o ribombo temeroso
-dos trovões.
-
-Entretanto estava resolvido a seguir á ventura, certo de que em pouco
-tempo encontraria abrigo; quando deante de si, na quebra de uma azinhaga,
-lhe pareceu vêr uma sombra rasteirinha coser-se com o muro e seguir a
-modos de homem, que fosse agachado, como receando ser visto.
-
-—Quem vae ahi? perguntou Joaquim que costumado ás aventuras do sertão não
-se inquietava muito com um mau encontro.
-
-Mas a sombra seguiu mais apressada, sem dar resposta.
-
-Joaquim chegou esporas ao cavallo e correu sobre o vulto.
-
-Proximo reconheceu duas creancinhas, um rapasito de sete annos, ao
-mais, e uma menina de seis, que de mãos dadas e tremendo de medo ambos,
-ajoelharam quando o viram ao pé de si, exclamando o mais velho, e que
-parecia mais animoso.
-
-—Não nos faça mal, temos o pae doente e vamos levar-lhe este remedio, que
-lhe receitou o mestre Eusebio.
-
-(Eusebio ainda era sangrador-barbeiro approvado pelo proto-medicato, e
-facultativo á falta d’elles).
-
-Depois voltando-se para a irmã, que se fazia bem pequenina para se
-esconder atraz d’elle, disse-lhe, mudando as fraquezas em forças, e n’um
-tom mais seguro, como para lhe incutir valor.
-
-—Não tenhas medo, Isabel, aquelle senhor não nos ha de fazer mal, não vês
-que tem cara de boa pessoa!
-
-O pequeno não podia perceber que tal fosse a physionomia de Joaquim; esta
-amabilidade era pois um argumento _ad benevolentiam_, aprendido quasi
-intuitivamente, na rethorica saloia.
-
-—Não faço mal, não, pobres pequenos, com este tempo, tão mal resguardados!
-
-Isto era dito já a pé junto d’elles e detendo se com verdadeira compaixão
-ao attentar nos farrapitos, que mal os cobriam.
-
-—Nós cá não tem duvida: o pae é que precisa mais, está tão doente.
-
-—Ha tres dias que não come nada.
-
-—E a nossa mãe, coitadinha, ha oito dias que não dorme!
-
-—E o pae, está com uma cara! Nossa Senhora nos valha, parece um defunto.
-
-—Não digas isso, Isabel!... depois approximando-se mais de Joaquim, com
-quem ia já acostumando-se, e como para lhe provar que não era creança, o
-rapasito continuou mais de vagar; o pae está muito mal, que eu bem vi a
-cara que fez hontem o mestre Eusebio, mas a mãe não desconfia e a Isabel
-nada sabe.
-
-—É muito longe a sua casa?
-
-—Não, meu senhor, é logo alli.
-
-—Pois vamos lá, que eu tambem os acompanho. Já agora... Não temos outra
-noite, e d’aqui ao lugar ainda ha uma boa meia legua bem puchada. Quando
-lá chegasse achava tudo fechado.
-
-—Mas o senhor vae ficar muito mal accomodado, exclamou a pequena, que
-ainda se não affizera muito ao seu novo conhecido, a gente é tão pobre!
-
-—Não tem duvida, minha menina, em qualquer canto me arranjo, sou facil de
-contentar.
-
-—Oh José, eu tenho medo do homem, elle vem com a gente? perguntou ao
-ouvido a pequenita a seu irmão.
-
-—Tu tambem, sempre és uma medrosa!... E d’ahi não sabes que lá em casa
-não ha que levar!
-
-—Sim, mas olha eu sempre tenho medo.
-
-Joaquim comprehendêra pelo conchegar assustadiço da creança para seu
-irmão, e pelos modos importantes que este assumira, qual tinha sido o
-dialogo em voz baixa, e sorrindo-se disse á pequena:
-
-—Não tenha medo de mim, não sou nenhum ladrão. Mas bem pelo contrario a
-prevenção mais assustou a creança, que não atinando com o modo porque
-elle ouvira a sua conversação, exclamou apressurada, mas sem olhar para o
-seu interlocutor:
-
-—Eu bem sei que o senhor não é nenhum ladrão; mas... adivinha o que a
-gente diz!
-
-—Então minha menina, julga-me agora feiticeiro?
-
-—Deixe-a fallar, é uma creança, ainda não fez seis annos.
-
-—E o menino é um homem, não tem medo.
-
-—Eu já tenho sete annos, e d’ahi o senhor não havia de fazer mal a duas
-creanças, nem a meu pobre pae. Está tão doente!
-
-—Pois deixem estar que eu verei se sei d’algum remedio, que lhe faça
-bem. Pelas terras, por onde andei, aprende-se muita coisa e eu conheço
-algumas drogas que talvez aproveitem: e d’ahi eu quero pagar-lhes o
-agasalho, tenho com quê.
-
-—O senhor dá cura ao pae?—Que bondade seria a sua!
-
-—Não te dizia eu, Isabel.
-
-—Ora pois então vamos lá. Digam-me seu pae é muito velho?
-
-—Não senhor, tem trinta annos e mais alguma coisa, os desgostos é que o
-acabaram muito.
-
-—Pobre homem!
-
-—Demais a mais um tio, que anda lá por fóra quer tirar-nos tudo. E d’ahi
-o pae, vive tão apoquentado!
-
-—Um tio?
-
-—Sim, senhor, atalhou a pequena, um tio muito mau! Sempre tenho uma raiva
-ao meu tio!...
-
-—Calla-te, mana, tu não sabes que o pae diz que o tio não tem a culpa?
-
-—Então o tio anda ha muito por fóra! Como se chama?
-
-—Ora o senhor não o conhece, replicou o rapaz meio desconfiado; está
-muito longe.
-
-—Quem sabe, ás vezes! Diga-me sempre como elle se chama.
-
-—É o tio Joaquim.
-
-—E está?...
-
-—Lá para o Brazil.
-
-—E seu pae, chama-se?
-
-—Mas o senhor de certo não se importa com a vida da gente, respondeu o
-Josésito, que já não ia gostando de tanto perguntar e que receava, com
-aquella giria que parece acompanhar os saloios desde o berço, que lhe
-podesse porvir algum mal das suas respostas.
-
-—Por amor de Deus diga-me como se chama seu pae.
-
-—Assim, como assim, o senhor sempre o ha de vir a saber, chama-se
-Raymundo.
-
-—Então os meninos são?...
-
-E a commoção embargou-lhe a voz.
-
-—Somos, sim senhor, somos filhos de meu pae, eu chamo-me José, que era
-o nome de meu avô, e minha irmã é Isabel, porque nasceu no dia de Santa
-Isabel.
-
-—Pois eu...
-
-Mas a reflexão cortou-lhe a palavra: queria vêr; queria, antes de se
-declarar, que aprendessem a abençoal-o. Entretanto, agarrou-os bem para
-si e abraçou-os muito enternecido.
-
-—O senhor está a chorar, disse Isabel com aquella perspicacia de mulher
-mesmo pequena, olhe, já vou gostando mais de si!
-
-—Gosta, gosta, minha Isabelinha, que eu tambem gosto muito de ti. E tu
-lá, José, tambem és meu amigo?
-
-—Eu engracei comsigo logo ao principio. Aqui está a nossa casa; e batendo
-á porta:—mãe, mãe, aqui vem um senhor, que sabe d’um remedio para curar o
-pae! Abra a porta, mãe, somos nós.
-
-Effectivamente estavam á porta de Raymundo. A luz que vinha de dentro
-ao abrir, cegou por momentos a Joaquim, que só depois de se costumar á
-claridade é que pôde dar fé do interior d’aquella habitação.
-
-Era uma casa terrea, que accumulava as funcções de cosinha, sala, casa de
-jantar e quarto de dormir dos pequenos. A um canto uma cortina de chita
-muito remendada resguardava-lhes a alcova; do lado direito uma porta meia
-aberta dando para o escuro, d’onde saía o som angustiado e sibilante
-de uma respiração irregular accusava o quarto do enfermo: junto da
-chaminé, onde ardiam em chamma fraca e incerta alguns cavacos apanhados
-na estrada, via-se uma cadeira antiga de espaldar de coiro e pregaria
-amarella. Era o unico movel de algum valor.
-
-Uma meza de pinho, bem tosca e bem pouco segura, umas pratelleiras
-sobre a meza pregadas na parede, onde se viam uns pratos quasi todos
-rachados e alguns tachos bem velhos, tres mochos em roda da meza, uma
-arca carunchosa ao lado da porta de entrada, dois registros por cima da
-arca, uma palma e um rosario crusando-se sobre os registros, constituiam
-toda a mobilia, a que accrescentaremos apenas, para que a descripção seja
-completa, um banquinho proximo á entrada do quarto do doente e junto da
-arca, d’onde Leonor se levantára para abrir a porta aos recem-chegados.
-
-Sobre a arca uma lamparina allumiava os santos e dava claridade para o
-trabalho de Leonor, que ali, ora levantando os olhos de supplica para as
-imagens, ora volvendo-os cuidadosa para o quarto onde jazia o esposo,
-remendava um capote de Raymundo, sobre o qual de vez em quando caiam as
-lagrimas da desgraçada.
-
-A luz incerta do brazeiro, sobre o qual e para o escurecer mais ainda
-estava uma panella de folha, em duas pedras, que suppriam a fornalha;
-e o clarão mais terno ainda da lamparina, luctando com as sombras e
-perdendo-se na escuridão, tornavam a casa mais vasta, mais nua e mais
-triste.
-
-—O pae está descançando, não façam bulha, apressou-se em dizer aos seus
-dois filhos a attribulada mulher. Depois voltando-se para Joaquim:—Vossa
-senhoria ha de perdoar, os pequenos é que tiveram a culpa de o cá trazer,
-bem vê que não temos accommodações para hospedes; depois a doença de meu
-marido...
-
-—Olhe, mãe, segredou-lhe o José como quem queria dar a entender que não
-andára de leve, elle tem dinheiro para pagar á gente, e diz que traz um
-remedio que dá cura ao pae...
-
-—Não venho para encommodar. Estou affêito a tudo, e qualquer coisa me
-satisfaz, uma pouca de palha e uma manta, uma manta só, coisa nenhuma que
-seja; mas licença de descançar ahi sentado, e de adormecer com os braços
-sobre a meza e a cabeça encostada aos braços. Eu sei o que são doenças,
-e talvez mesmo lhe possa servir de algum prestimo. Nas terras por onde
-andei nem sempre havia medico á mão, nem boticario ao pé da porta. Ia-se
-a gente curando conforme podia, e aprendendo á sua custa...
-
-Emquanto Joaquim proseguiu no seu arrasoado, examinava sua cunhada,
-que pela sua parte aproveitava tambem estes proloquios para observar o
-hospede que seus filhos lhe traziam.
-
-Leonor era ainda uma formosa mulher, posto que o desgosto lhe tivesse
-gravado algumas rugas na physionomia e embranquecido alguns cabellos.
-Morena, olhos pretos e rasgados, nariz recto e fino, labios delgados e
-vermelhos, rosto oval, um d’estes typos peninsulares, mescla formosa
-do sarraceno trigueiro e nervoso, como as filhas do norte pallidas e
-lymphaticas.
-
-Era esbelta e da altura propria de mulher. Tinha sentimento na
-physionomia e elegancia no corpo. Mostrava o que devera ter sido, antes
-que as maguas a envelhecessem e os trabalhos a cançassem.
-
-A tristeza espalhava lhe pelo rosto um melancholico mas diaphano véu,
-atravez do qual transparecia a vermelhidão do pejo ao lembrar-se da
-má hospedagem, que com difficuldade podia offerecer. E quanto mais
-olhava para Joaquim mais ia sympathisando com a cara rude mas franca do
-recem-chegado.
-
-Este mostrava tambem ter muito mais edade do que tinha. Valera-lhe por
-dez um dos annos que passára no sertão: mas aquella belleza agreste do
-homem callejado no trabalho, aquella lhaneza não destituida de finura,
-que se adquire no trato licito, mas laborioso e muitas vezes bastante
-complicado, davam-lhe relevo ás feições e imprimiam-lhe um cunho
-particular. Trajava simplesmente e como lavrador abastado.
-
-Apesar da compostura que se notava no traje de Leonor, apesar do cuidado
-com que vestia e do aceio da sua roupa, a mão da miseria denunciava-se
-a todo o momento. Da miseria que não faz alarde de si, que se esconde,
-que se disfarça, que tem pejo do seu estado e receio de que a conheçam.
-Miseria timorata e desconfiada, a que tudo offende, porque tudo a fere;
-que de todos foge, porque, sem quererem mesmo, todos a escandalisam. Uns
-pela ostentação, outros pelo dó, pela indifferença mesmo outros. Miseria
-que sorri por fóra emquanto chora por dentro, que apparenta desapego
-emquanto treme pelas consequencias, que encontra perigos sempre diante de
-si, e que soffre tanto mais, quanto receia que o desabafar seja tido como
-uma supplica e a franqueza como um rodeio para pedir. Miseria que se roça
-por nós sem que a conheçamos, e que por um nobre orgulho denomina doença
-a fome, desleixo o máu vestuario, extravagancia a necessidade.
-
-Tal era entretanto a que se lia no modesto e envergonhado trajar de
-Leonor, e que Joaquim, com a perspicacia que dá tambem a infelicidade,
-conheceu á primeira vista.
-
-—Se não fosse a molestia do meu Raymundo, proseguiu ella, melhor agasalho
-lhe poderiamos offerecer; mas assim... Parece que Deus se esqueceu da
-gente a alguns annos a esta parte! E tudo por causa de um mano de meu
-marido... que elle não quer ouvir tal, e pelo contrario sempre defende o
-irmão, que no seu dizer não tem culpa do que faz um tal João Simões...
-mas o senhor não se interessa com isto. Vou vêr se lhe posso offerecer
-alguma cousa de cear, e perdoará a limitação.
-
-E, emquanto fallando e dando voltas, Leonor ia preparando a ceia, e
-espreitando sempre o quarto de seu esposo, para se certificar se este
-continuava a dormir; Joaquim ficára á porta, de pé, chapéu na mão e como
-pasmado a comparar aquella pobreza, com as informações que recebera.
-
-Leonor reparou na posição do seu hospede, e indicando-lhe a cadeira de
-espaldar, proxima da chaminé:
-
-—Vem molhado, e está ahi em pé, sem se chegar ao menos para o lume,
-sente-se: ainda assim esta cadeira é a predilecta de meu marido, era onde
-se sentava quasi sempre meu sogro.
-
-Joaquim já tinha conhecido a poltrona, mas quando Leonor lh’a indicou
-pedindo-lhe, que se sentasse, não pôde dominar uma visivel commoção. Teve
-duvida, quasi medo de se sentar. Parecia-lhe vêr seu pae apontando-lhe
-para aquella casa, para aquella miseria e expulsando-o. Affigurou-se-lhe
-de repente o quadro, que tantas vezes examinára. O rosto entre severo
-e indulgente de José dos Santos inquieto por amor do filho, que se
-demorava, e preparando um sermão, que levava a cabo raras vezes, porque
-antes de meio lhe desarmava as iras o verdadeiro affecto paternal.
-
-Leonor, que não podia acertar com a causa de semelhante hesitação,
-attribuiu-a a causa bem differente.
-
-—Não faça cerimonia, se meu marido estivesse aqui, elle mesmo lh’a
-cederia, que sempre lhe ouvi dizer, que era dever sagrado fazer bom
-acolhimento aos viajantes. E perdôe vossa senhoria que eu ande no meu
-trafego.
-
-N’este comenos, remechêra na arca, e bem vermelha de vergonha tirára um
-panno muito lavado, é verdade, mas cheio de remendos, e que estendera
-sobre a mesa; desencantára n’um armario velho, que pelo estado em que se
-achava e pelo pouco vulto que fazia nos esqueceu mencionar, duas brôas
-de milho e alguns queijos brancos salgados; escolhêra da pratelleira os
-pratos menos quebrados, a que juntou os talheres, que apesar de serem de
-chumbo, pareciam de prata pelo brilho, tão limpos estavam: e indo buscar
-á chaminé a panella onde fervia um caldo de couves e toucinho, convidou o
-seu hospede a tomar parte d’aquella ceia.
-
-Não era coisa sufficiente, bem o sabia, mas a sua pessoa havia de
-desculpar, pois que não esperava ninguem de fóra nem estava no auge de
-o receber como desejava, pois a doença do seu homem a tinha quebrado de
-pernas e braços.
-
-—E o que diz o facultativo da doença do seu marido?
-
-—Diz, que é uma dôr no interior, que lhe costuma a dar e que é de muito
-perigo se continua, que elle já é attreito a padecer do figado, que
-segundo parece é molestia de familia, e que lhe póde subir o mal ao bofe
-se não puchar abaixo com força. E será assim?
-
-—Não o creio. Deus ha de affastar o agoiro do tal barbeiro.
-
-—Elle tambem diz, que é bom dormir, e o meu Raymundo ha umas quatro horas
-que está descançando tão socegado, que parece mesmo uma creança.
-
-—Isso sim; o dormir é sempre um excellente remedio, restaura as forças e
-faz cobrar saude. D’ahi seu marido deve estar amofinado por lhe correr o
-negocio mal. Não me fallou ha pouco de um irmão?...
-
-—Do Joaquim, fallei, sim senhor.
-
-—Então esse Joaquim?
-
-—É, segundo a minha opinião, a causa de tudo isto. Que o Raymundo diz que
-não, e jura que não era capaz de fazer uma acção d’estas, se soubesse do
-estado a que chegámos...
-
-—Que acção, atalhou precipitadamente Joaquim?
-
-—Uma penhora, á gente, n’isto que o senhor ahi vê. Na verdade vale bem
-a pena de incommodar a justiça, ha de ficar bem rico, não tem duvida
-nenhuma! Mas ainda assim, Deus sabe a falta que nos faz tudo. Ficamos
-a pedir esmola. Até agora ainda tinhamos o nosso buraquinho para uma
-afflicção; mas de hoje em diante...
-
-—Que diz?...
-
-—A verdade. Um tal João Simões, é que tem andado acceso n’este negocio
-todo, porque tomou asca ao meu Raymundo desde que elle um dia, já de
-proposito, por saber que era o Simões que lhe desinquietava o irmão,
-lhe voltou costas no arraial de Nossa Senhora do Rosario. Depois,
-apresentou-se feito procurador do Joaquim, deu testemunhas... se o senhor
-soubesse, que testemunhas!... as caras mais atraiçoadas do logar, em
-como o pae de meu marido tinha deixado muitos bens, que o meu Raymundo
-estragára tudo, e depois tem andado em demandas para puchar pela legitima
-do amigo. Legitima!... Só se foi a benção do pae á hora da morte, porque
-emquanto ao mais! Nem chegou o dinheiro para o enterro, que foi preciso
-ir pedil o fóra.
-
-N’estas alturas do dialogo um gemido do doente chamou a attenção de
-Leonor que correu á alcova de seu marido e por lá se deteve. Cançada de
-lidar, apenas se certificou de que o marido continuava dormindo e que
-o gemido fôra apenas sobresalto de algum sonho angustiado, sentou-se
-aos pés da cama, e passando as contas de um rosario, cedeu por fim ao
-cançasso e adormeceu tambem. Os pequenos logo depois da ceia tinham ido
-aninhar-se para o seu cantinho, e havia muito que resonavam.
-
-Joaquim ficára entregue ás suas reflexões.
-
-Correram as horas, esmoreceu de todo o lume no brazido, apagou-se a
-lamparina, ficou a casa em trevas devassadas apenas pela luz diffusa da
-atmosphera, que passava pelas fendas do tecto: e elle cogitava ainda no
-passado e no presente, nos seus sonhos, nas suas aspirações, nos seus
-erros e nas suas culpas.
-
-A solidão d’aquella casa povoava-se-lhe de vultos, todos elles
-conhecidos, todos eloquentes: alguns severos julgadores, outros saudosos
-e indulgentes amigos. Uma a uma iam-lhe correndo as scenas da sua
-infancia, via, como em lanterna magica, recortarem-se nas trévas do
-aposento as figuras de quantos havia conhecido, de todos com que lidára,
-e superior a todas como absorvendo-as e substituindo as, a figura
-veneranda de seu pae, ora exprobando-lhe terrivel o quanto perseguira seu
-irmão; ora sorrindo-lhe amorosamente na hora derradeira e estendendo-lhe
-sobre a cabeça as tremulas e enrugadas mãos para o abençoar.
-
-Ao assomar da alvorada pendendo-lhe as palpebras adormecia tambem; não
-com o somno socegado e reparador, que se segue ás fadigas do corpo; mas
-com aquella modorra agitada e febril, que é o decair das grandes luctas
-moraes. Cabecear cortado de sobresaltos, dormir carregado de pesadellos,
-descanço, que nos deixa mais cançado ainda.
-
-Entre dormindo e acordando começou a ouvir o seguinte dialogo:
-
-—Como te sentes, Raymundo?...
-
-—Melhor, Leonor, muito melhor. Fez-me bem o somno d’esta noite. Já vieram?
-
-—Quem?
-
-—Os officiaes de justiça, os que hão de fazer a penhora.
-
-—Não cuides n’isso, que te amofinas, talvez não venham; talvez fosse tudo
-palavriado do Simões para assustar a gente. É impossivel que não olhem ao
-teu estado.
-
-—Qual olham, nem meio olham! Bem se conhece, que não entendes d’estas
-coisas. Pois tu não sabes que a justiça é cega? Taparam-lhe os olhos para
-que não visse a desgraça dos pobres.
-
-—Mas teu irmão!
-
-—Não sabe de nada, Leonor, diz-me o coração que não sabe de nada.
-O Joaquim teve sempre a cabeça levantada; mas no fundo não era mau
-rapaz. Se elle soubesse o que o Simões tem feito já lhe tinha tirado a
-procuração.
-
-—Tu tambem sempre o defendes, és a bondade em pessoa, meu pobre Raymundo,
-não ha para ti ninguem mau n’este mundo.
-
-—Olha, o Joaquim se não fossem as más companhias não teria feito o que
-fez: não gostava de se chegar para o trabalho, era o seu senão; mas não
-era capaz de fazer mal a ninguem, nem rapaz de mau interior.
-
-—Foi elle que matou teu pae, e que no fim de contas nos tem levado a este
-estado com as suas demandas.
-
-—Não digas isso, Leonor, que me affliges. Meu pae morreu, porque lhe
-tinha chegado a sua hora, custou-lhe muito a partida de Joaquim; mas
-abençoou-o á hora da morte. Lembras-te, não é assim? Se elle perdoou,
-porque não havemos nós de perdoar...
-
-—Obrigado, irmão!
-
-Era affogada em lagrimas a voz de Joaquim, que estava entre portas do
-quarto. Tinha accordado e escutado cada vez com maior attenção o dialogo,
-que tão de perto lhe dizia respeito. Julgou ao principio que seria sonho,
-conheceu depois que era realidade, e tremendo todo ergueu-se e, para
-melhor ouvir, approximou-se do logar d’onde partiam as vozes.
-
-A gratidão, e talvez o remorso fizeram-lhe soltar aquellas duas palavras,
-que cortaram o dialogo.
-
-Raymundo conheceu a voz, sem que podesse distinguir-lhe o rosto, porque
-o irmão estava de costas para a claridade; pareceu-lhe que invocára um
-phantasma, estendeu para elle os braços, exclamando:
-
-—Joaquim!
-
-E caiu desmaiado com o abalo.
-
-Joaquim precipitou-se chorando para junto da cabeceira do irmão,
-abraçou-o vezes infinitas e teve o indisivel jubilo de o vêr tornar a si
-em seus braços.
-
-—És tu, meu irmão!... Bem me dizia uma voz cá dentro, que havias de
-voltar.
-
-—Perdoas-me, Raymundo?
-
-—Perdoei-te sempre. Tu é que tens que me perdoar.
-
-—O que?
-
-—Não te haver já transmittido a benção do pae. Ajoelha, Joaquim.
-
-—Em nome do nosso bom pae que está nos céus, eu te abençôo, meu irmão: sê
-bom como elle foi, e mais feliz do que eu tenho sido.
-
-—Sel-o hemos todos, Raymundo, porque se me deixas viver comtigo, nunca
-mais saio da tua companhia.
-
-Escusado é dizer agora como terminou esta historia. João Simões não pôz
-mais pés na terra; Joaquim tinha-lhe jurado pelo corpo, e elle bem sabia
-que não era homem de faltar á sua palavra. Declarára que seria a sua
-ultima extravagancia; mas d’essa não desistia nem por Christo. O caso era
-encontrar o seu procurador.
-
-A doença de Raymundo desappareceu breve, e a alegria voltou áquella casa,
-para não a desamparar mais.
-
-Muitas noites, quando se conchegava para o pé do lume, depois de ter
-contado aos sobrinhitos que o não deixavam por contos, uma historia
-do Brazil, Joaquim voltava-se para o irmão e para Leonor e dizia-lhes
-sorrindo:
-
-—Sempre hão de confessar que estes endiabrados pequenos são uns grandes
-doutores! Como elles nos souberam ganhar a demanda!...
-
-
-
-
-X
-
-O sexto mandamento
-
-
-O padre prior, que os nossos leitores conhecem já, era um modelo de
-virtude e um exemplo vivo de caridade christã.
-
-Apenas começára pastoreando aquelle pequeno rebanho, não houvera cuidados
-nem disvellos, que lhe parecessem de mais para encaminhar nos trilhos
-escabrosos do bom porte e da honra as suas ovelhas de monte, que, quando
-se apartavam do bom do parocho, era mais por ignorancia do que por
-maldade.
-
-Conhecera-o elle tambem desde logo, e empenhára as forças do seu corpo
-e o poder da sua intelligencia em esconjurar os peores de todos os
-demonios, a que a natureza humana póde dar albergue; a ignorancia e a
-rudeza.
-
-Não abria mão d’estes piedosos exorcismos: qualquer logar, qualquer
-occasião lhe pareciam proprias para travar combate; e apparelhado, como
-sempre andava para a lucta com as armas da crença e da boa vontade,
-raramente deixava de contar da victoria.
-
-Não quero dizer, todavia, que o meu parocho fosse um segundo Vieira, ou
-outro Macedo Polygrapho.
-
-Bem pelo contrario, Deus perdoe á sua alma, e mais ainda á alma dos
-governos (se é que os governos tem alma), que tão pouco têem cuidado
-na educação do clero, o bom do padre muitas vezes, brigava com armas
-eguaes contra a ignorancia dos seus parochianos; e, quando vencia, era
-substituindo preconceito por preconceito, absurdo por absurdo.
-
-Procediam porém de tão boa origem os erros do velho, fundavam-se em tão
-verdadeira bondade: e tão piedosa uncção revestia os seus disparatados
-conceitos, que por amor da singela magestade, e boa tenção da mentira,
-quasi se malqueria á verdade.
-
-Era falso o arrasoado, bem o sabiam alguns: mas deliciava a alma e
-commovia o coração, encaminhava para o bem, posto que por transviado
-caminho. E o padre dizia-o tão de dentro, tão convencido, que chegava a
-parecer impossivel que não fosse assim.
-
-Mas não era, verdade verdade, não era; que a sciencia fugia espavorida
-diante das legiões barbaras, que appoiavam algumas considerações do velho.
-
-Não era, porque o pobre homem, que sem maldade nem recalcitramento, mas
-por simpleza e costume antigo, encommendava a missa _pro rege nostro
-Michaele_, resumia a sua instrucção á leitura, um tanto embaraçada, seja
-dito aqui particularmente, da Biblia, dos Evangelhos, do breviario e da
-_Nação_, cujo assignante era desde o principio.
-
-Não aprendia porém do seu periodico senão a doutrina tradiccional e
-monarchico-absoluta em que fôra creado. Lia o jornal para saber noticias
-do seu rei e do mais que ia por o mundo: e a maior parte das vezes no
-meio de um façanhoso artigo ou de uma ateada polemica, no ponto mesmo
-em que as iras do jornalista trovejavam mais crebas, e os rancores
-partidarios se desatavam em maiores diatribes; o jornal, como para
-constrastar com tão ardidas furias, escorregava brandamente das mãos
-do desattento leitor, e ia voejar por terra com outras folhas suas
-irmãs, que tendo sido verdes e esperançosas como ella, tinham caído da
-arvore, como ella tambem caíra das mãos do parocho, e haviam seccado no
-esquecimento, como, triste sorte do jornalismo diario, ella havia de
-seccar em breve ao abandono no chão e esquecida tambem.
-
-Ao cabo de meia hora o padre accordava admirado por ter adormecido,
-apanhava o jornal e recomeçava o mesmo artigo.
-
-Já se vê, pois, que não podia ser larga a instrucção colhida em fontes
-tão pouco variadas e demais ainda tão mal seguidas.
-
-Mas onde não chegava a cabeça alcançava o coração, e onde não accudia a
-intelligencia sobejava o sentimento.
-
-Não lhe tomemos conta da sua ignorancia, nem lhe malqueiramos por peccado
-que não era seu.
-
-A revolução social estabeleceu entre a geração, que findava, e a que ia
-apparecendo um largo espaço que não soube ou não poude fazer desapparecer.
-
-Uma ficou, symbolo do passado; outra caminhou, annuncio do futuro. A
-primeira estacionando, conservou os abusos, os erros do seu tempo;
-mas tambem a poesia, a fé sincera, o culto de suas tradicções, o
-respeito pelas suas crenças: a outra caminhou sobre ruinas, e caminha
-ainda, sorrindo, luctando, descrendo, esperando, progredindo sempre,
-conquistando por fim, mas deixando, quantas vezes, a fé pelo caminho, a
-esperança na estrada!
-
-Se ambos se tivessem querido comprehender, se mutuamente se tivessem
-desculpado ou os ardores impacientes, ou as rabujices pertinazes; se
-não quizessem cavar fossos e levantar trincheiras entre uma e outra;
-mas, bem pelo contrario, nivellar o terreno, e apagar odios, rancores e
-desintelligencias, não seria para nós o presente tão cheio de incertezas,
-de hesitações, de duvidas, de desconfortos e desalentos.
-
-O padre, esse, ia seu caminho, combatendo como sabia a falta de educação,
-e de conhecimento da sua grei.
-
-Além das lições de moral que espalhava a esmo, conforme se lhe offereciam
-as occasiões, costumava elle, sempre que podia e que o tempo o deixava,
-reunir os do logar, de tarde perto da egreja, para lhes fazer alguma
-leitura da biblia e interpretar em seguida, a seu modo e como melhor lhe
-parecia, o texto que lhes lêra.
-
-Por vezes assisti a estas leituras, por vezes ouvi as suas explicações, e
-se mais tarde as commentava tirando desagradaveis conclusões a respeito
-da illustração e intelligencia do velho, não deixava sempre de me sentir
-commovido, quando fazia parte d’aquella piedosa reunião.
-
-Sigam-me tambem os meus leitores, que, conforme sei, e segundo me
-recordo, vou procurar descrever-lhes, como se apresentava a scena, na
-ultima vez em que, pouco antes de regressar a Lisboa, assisti á prédica
-do ingenuo parocho.
-
-Estamos no adro da egreja: a parochia é de trezentas almas quando muito.
-O dia vae declinando e está proximo o sol posto.
-
-A egreja não tem o aspecto sumptuoso d’um grande templo; nem a magestade
-altiva de uma cathedral do seculo XIII.
-
-É de hontem apenas.
-
-Uma frontaria sem ornatos, uma torre proxima sem enfeites.
-
-É simples e pobre como o presepio do Redemptor.
-
-Sobre o adro espaçoso e plano um velho platano á esquerda braceja largos
-ramos envolvendo na sua sombra uma cruz musgosa, que se levanta defronte
-da porta da egreja e que deixa perceber em profundas cicatrizes, rudes
-combates com o tempo ou com a impiedade dos homens; perto do platano um
-pequeno regato corre por baixo do parapeito do adro e depois de passar
-sob uma ponte de pedra que dá serventia á estrada, vae espraiar-se ao
-longe n’uma pequena bahia, onde as lavadeiras do logar vem bater a roupa
-ao pé dos choupos e olmeiros, que se debruçam para a corrente.
-
-De um dos lados sóbe a encosta de um pequeno outeiro atapetado de vinhas
-e oliveiras, corôado de moinhos que desprendem as velas a favor da
-viração da tarde; do outro a vista divaga por meio dos pomares e terras
-de vinha, no meio das quaes alvejam as casinhas do logar, e se recortam
-no puro azul dos céos as oliveiras verdenegras.
-
-Os rumores do campo começam a esmorecer com o largar do trabalho
-indicando a proximidade da noite.
-
-A tarde tem corrido serena e a natureza sorri na flôr do prado, como na
-arvore do bosque.
-
-Sentado n’um banco de pedra mal affeiçoado pela mão de rude artista está
-o parocho, junto a si os evangelhos depostos e ainda abertos: as mãos
-pousadas sobre os joelhos, a cabeça um pouco inclinada pelos annos;
-o corpo alquebrado pelos trabalhos. A seus pés, sentadas no chão, em
-rancho, as creancinhas da terra, em roda as raparigas e as mulheres; mais
-ao largo, os homens fechando o circulo e encostados aos varapaus.
-
-Um pouco mais affastado do grupo, sentado n’um dos poiaes do adro, e
-scismando, ao que parece, está o tio Joaquim, commentador e companheiro
-das homilias da tarde. De quando em quando, em pontos mais subidos
-da exposição do pastor levanta a cabeça, fita o narrador com gesto
-expressivo, e com os olhos illuminados por aquelles doces clarões da
-sympathia e da attenção, segue o fio do discurso para descahir breve nas
-habituaes meditações.
-
-O padre tem acabado a leitura de um dos sagrados capitulos, e d’accordo
-com a intelligencia dos ouvintes explica-lhes o texto procurando
-comparações no campo, na lavoura, nos trabalhos que melhor conhecem, nos
-instrumentos com que mais de perto lidam.
-
-Todos o escutam em religioso silencio e a palavra sagrada recebe maior
-uncção na bocca do venerando velho.
-
-Tem apenas acabado de fallar quando no sino proximo começam a bater as
-melancholicas Avé-Marias. O som vae chorando, como uma saudade do dia
-que finda, pelas quebradas do monte e pelos arvoredos dos bosques, para
-voltar amortecido e triste, como recordação de felicidade.
-
-É um momento solemne.
-
-O padre ergue-se, a boa gente do campo ajoelha a seus pés. Por momentos
-as orações murmuram como o esvaecer do som no bronze sagrado e a oração
-ergue-se como um côro de harmonias dos labios dos fieis, do murmurio
-do regato, do ciciar da aragem, do bulir do arvoredo, do tinir dos
-chocalhos, dos balidos do rebanho que ao longe recolhe da pastagem para o
-abrigo do curral.
-
-Depois o padre abençôa seus filhos com as mãos tremulas estendidas e
-a fronte encanecida illuminada pelos reflexos derradeiros do sol já
-escondido: despedindo-se do parocho, retiram pouco a pouco os aldeões
-guiados, como os israelitas no deserto, pela espiral de fumo, que se
-ennovella sobre os tectos de suas casas, o ruido vae pouco a pouco
-diminuindo, recolhe o rebanho ao curral, os pastores deixam de cantar, a
-voz dos ultimos camponezes perde-se na volta da estrada. Mas o rio ainda
-murmura, o vento ainda suspira na rama das arvores, e o padre sósinho,
-com os olhos fitos na pallida lua, que começa a assomar no céu, não
-limpa uma lagrima de saudade e de esperança, que lhe escorrega pela face
-cavada pelos annos, envelhecida pelas maguas. Saudade da terra e dos
-homens, que vae deixar, esperança na vida eterna, que entrevê tranquillo,
-crente na misericordia do Senhor, confiado na sua infinita bondade.
-
-Hoje a boa gente do campo volta ao adro a procurar o padre, o platano e
-a cruz. Tudo tem desapparecido apoz o homem a planta, apoz a planta a
-pedra, tudo volveu ao nada d’onde veiu. Sobre o cadaver do velho caiu a
-pedra do cruzeiro, um arrebento do platano deu sombra á sepultura; mas a
-natureza proseguiu guiada pela civilisação e pelo progresso desfolhando
-uma saudade sobre a campa e colhendo do novo arbusto a planta sempre
-viçosa da arvore da liberdade.
-
-A poesia do passado tem-se perdido. Mas o homem, que ficou meditando
-sobre aquella lapide, disperta das suas meditações ao grito da locomotiva
-do caminho de ferro, ao retenir da campainha do telegrapho electrico, ao
-resfolegar das caldeiras da fabrica proxima, ao estrondo magestoso das
-novas eras, que nas azas do pensamento correm a cumprir a sua missão.
-
-N’aquella tarde fôra a historia de José o texto escolhido; e o velho
-descrevendo o quanto padecera o patriarcha hebreu por amor dos seus
-irmãos, e seus compatriotas, fallára tão de leve no sacrificio, prestado
-á honestidade; como, perdoem-nos a comparação, a raposa discorrera a
-proposito das uvas que não eram para seu dente.
-
-Muitas virtudes encontrava elle no casto José, mas a de resistir com
-tanto denodo á mulher de Putiphar, não foi das que mais encareceu. Nem
-por isso lhe parecia grande façanha. Para o bom do velho nada havia mais
-natural.
-
-Não assim para grande parte de seus ouvintes. Aquelle rasgo foi o que
-maior impressão deixou na intelligencia sensual de muitos. No serão
-d’essa noite não faltaram commentarios e choveram ditos, alguns dos
-quaes, posto que bastante grosseiros na fórma, não deixavam de ter bom
-sal, e grande finura no alcance.
-
-Terminada por fim a discussão foi votado por maioria, que tal caso era
-impossivel; ou pelo menos, se o não era, fôra um grande disparate do
-patriarcha hebreu.
-
-Protestou o tio Joaquim contra a decisão da assembléa, e para fundamentar
-o seu protesto pediu a palavra, que lhe foi concedida com o maior prazer.
-
-—Todos, quantos aqui estão, conhecem ou tem ouvido nomear o Luiz
-Tiburcio, que traz de renda ao Morgado dos Cachorros o Olival grande do
-Brejo, no alto da estrada da Carrejosa. É um homem de bem e lavrador
-abastado; tem hoje um bom par de vintens e uma das melhores lavouras dos
-sitios. Pois vae vinte annos não tinha onde cair morto, nem esperanças de
-mudar de sorte. Um caso bem parecido com o que hoje ouviram ao sr. padre
-prior foi o começo da sua fortuna.
-
-Luiz Tiburcio é do Minho. Veiu por ahi abaixo procurar vida e trabalho,
-quando por morte do pae e da mãe, ficou sósinho na terra, sem ter quem
-lhe valesse, nem casa que lhe abrisse a porta. Era pelo tempo da guerra,
-andava tambem a molestia, e cada um cuidava principalmente de si, ou dos
-seus, e não tinha vagar para saber do mal dos outros.
-
-Curtiu fomes e frios pelo caminho, não poucas vezes estendeu a mão á
-caridade, e não poucos dias pediu esmola a chorar, perdido de fraqueza, e
-sem esperanças de ter um bocado de pão. Ninguem cuidava em dar trabalho
-e era tal a desconfiança, que ninguem queria tomar para casa um rapaz,
-coberto de farrapos e com cara de padecente.
-
-Tinha uns quinze annos, pouco mais, e já começava a saber o que era
-mundo. Entrava na vida pela porta da desgraça e principiava a amargar a
-existencia sem lhe ter provado ainda as doçuras.
-
-Um dia, já sem forças, caiu á porta de uma fazenda, d’onde saíra
-descoroçoado de todo, porque depois de ter passado um dia sem comer,
-acabava de ser despedido pelo cazeiro, dizendo-lhe, que a fazenda do seu
-patrão não era couto de vadios.
-
-Luiz Tiburcio poude, envergonhado e saltando-lhe as lagrimas pelos olhos,
-andar a alameda e sair o portão que do pateo conduzia á estrada; mas, ao
-voltar para o caminho, sentiu-se tão quebrado, tão sem animo, que atirou
-comsigo para o chão, resolvido a não se levantar mais d’alli.
-
-Encommendou-se a Deus e esperou a morte resignado.
-
-O sr. José Matheus, o dono da quinta, que assim se chamava por signal,
-andava por fóra, quando Luiz fôra pedir trabalho a Valle de Figueiras. De
-certo, se tivesse visto a lazeira do rapaz o recolheria por alguns dias
-ao menos, e lhe mandára dar de comer, pois era homem rasgado e de bom
-coração; mas só tarde voltou de uma outra fazenda, onde fôra, e era já
-muito escuro, quando se aproximou de casa.
-
-Luiz estava estirado no caminho. José Matheus entretido com os seus
-pensamentos não deu por semelhante cousa e recolheu passando junto do
-pobre moço.
-
-Caía geada, como não havia memoria, e o frio era de estalar.
-
-De manhã cedo os primeiros, que sairam encontraram-n’o sem apresentar
-signal de vida e accudiram á fazenda a dar rebate.
-
-O sr. José Matheus foi o primeiro, que correu junto da pobre creança,
-viu-a n’aquelle mísero estado e teve dó de tão grande desgraça em tão
-verdes annos. Elle tambem havia provado do pão que o demonio amassou, e
-antes de chegar a ser independente fôra um pobre de Christo.
-
-Mandou carregar com o Luiz para uma cama, e cuidou em vêr se lhe dava
-vida nova.
-
-O rapaz estava enregellado e hirto, os beiços arroxados, os olhos
-mettidos n’umas covas negras, as mãos inteirissadas, o coração quasi sem
-bater.
-
-Dir-se-ia morto.
-
-Ao passo, porém, que ia aquecendo e que o esfregavam com pannos quentes
-e espirito de vinho tornava pouco a pouco a si: e depois de um caldo bem
-forte e bastante substancial parecia outro.
-
-O sr. José Matheus indagou-lhe da vida e soube que a fome e o desamparo
-tinham sido a causa d’aquella doença. Compadeceu-se por vêl-o orphão
-tão moço e sósinho no mundo: era casado havia muito tempo, e não tivera
-filhos nunca, engraçou com a cara do rapaz, que era de boa feição, e
-adoptou-o para si.
-
-Desde esse dia começou para o Luiz, a quem dentro em pouco já todos
-tratavam por sr. Luiz; e a quem o sr. José Matheus chamava—o meu
-Luizinho—uma vida de principe.
-
-Não lhe faltava nada, aprendia, estudava, trabalhava e desenvolvia-se de
-dia para dia.
-
-Em poucos tempos fez-se uma flôr. Parecia que medrava a olhos vistos e
-que cada vez ganhava maiores perfeições.
-
-Perfeito no corpo, e mais perfeito talvez na alma, não havia para elle
-sol nem lua que valessem o sr. Matheus, nem palavras ou acções que lhe
-parecessem demais para lhe agradecer o bem que lhe devia. Luiz tinha
-coração de pomba.
-
-Mas o demonio, que sempre as arma, e que parecia ter tomado o rapaz á sua
-conta, encarregou-se de entornar o caldo, e de deitar por terra aquellas
-felicidades todas.
-
-A esposa do sr. José Matheus, apezar dos seus quarenta puchados, era
-ainda mulher de primor.
-
-Desenxovalhada n’aquelle tempo, devia ter sido linda quando andasse alli
-pelos vinte annos. Tinha dado brado na terra, e mais de um lhe tinha
-arrastado a aza, sem que ella lhe desejasse as pernas quebradas.
-
-Casára-se pela rasão, porque se casa a maior parte das mulheres, para
-mudar de estado; e não conhecera nunca que cousa fosse amor. Extremosa
-pelo marido, não constava que o tivesse sido: e, segundo se rosnava pelos
-sitios, se tivesse pé faria pégada.
-
-Se a amisade de Matheus pelo Luizinho era verdadeira amisade de pae, a de
-Genoveva não se parecia em nada com o amor de mãe. Por mais de uma vez
-lhe havia deitado uns olhos, que queriam dizer muito, mas que no rapaz
-eram tempo perdido. Não por innocencia, mas porque não queria acreditar,
-que fossem o que lhe pareciam.
-
-Genoveva desesperava-se por não ser comprehendida, e tinha jurado que: ou
-Luiz se chegava á rasão, ou havia de pôr os quartos no meio da rua.
-
-Uma noite, chovia a cantaros, e o sr. José Matheus não recolhera de uma
-feira a que fôra comprar quatro juntas de bois.
-
-Tinha-se armado uma trovoada de arrancar pinheiros e uma ventania de
-levar tudo pelos ares. Genoveva estava cosendo junto á mesa de jantar e
-Luiz proximo d’ella lia alto um livro de romances. Era a historia dos
-amores derrancados de dois amantes infelizes, que depois de passarem
-as passas do Algarve, depois do apaixonado ter andado as sete partidas
-do mundo e corrido perigos de todas as castas, se reuniam por fim;
-mas quando iam para gosar de um dedicado affecto, o marido da heroina
-apparecia tanto a proposito, que matava o seductor, se o era, e fazia
-endoudecer a mulher com a vista do ensanguentado cadaver.
-
-Era uma historia de arripiar defunctos, e que por isso mesmo tinha tido
-tanta voga que chegára até Valle de Figueiras.
-
-De repente Genoveva, que seguia a leitura com verdadeiro interesse,
-e que por mais de uma vez sentira calafrios ao ouvir aquella enfiada
-de horrores, interrompeu o leitor, quando enthusiasmado lia o passo do
-encontro dos dois n’um casal deserto no meio das serras entre alcatêas de
-lobos, ao fuzilar dos relampagos, ao estallar dos trovões.
-
-—Gostas d’essa historia, Luiz?
-
-—É triste, senhora Genoveva, gosto muito.
-
-—Andas sempre triste!
-
-—Não é por ser mal agradecido ao bem que me fazem. É genio meu, não está
-mais na minha mão.
-
-—Volta de amores talvez?
-
-E os olhos acompanhavam a pergunta, procurando seguir o pensamento do
-moço, como o galgo segue a lebre por meio dos campos.
-
-—Não, minha senhora, não são amores. Tambem quem me havia de querer,
-orphão, sem fortuna, e só devendo o pão de cada dia á caridade de meus
-bemfeitores?
-
-—Não digas isso, Luiz, bem sabes que o trabalho que fazes, vale o pão que
-comes. Tu és bom rapaz e mereces quanto te fazem.
-
-—Não mereço, não, minha senhora, e eu bem conheço as coisas, e sei
-agradecer tanto favor.
-
-—Creança!
-
-E acompanhando esta palavra, que pelo modo porque fôra proferida, já
-queria dizer muito, Genoveva correu mão protectora pela cara do Luizito.
-
-Porque é preciso que saibam, rapazes: nós os homens muitas vezes chamamos
-creança a uma mulher, sem ser por mal, nem com idéa alguma; mas em a
-mulher chamando _creança_ a um homem, e de um certo feitio, é o mesmo que
-se lhe dissesse: tu ainda não percebeste, que eu gosto muito de ti, e
-tu és muito estupido, porque não entendes o que eu te estou dando bem a
-conhecer.
-
-Pela primeira vez, havia tanto tempo, desconfiou Luiz devéras do caso, e
-áquella caricia fez-se vermelho como um pimentão.
-
-—Então fazes-te vermelho, tens talvez vergonha de mim? Pois já não devias
-ter rasão para isso, tenho idade bastante; não é verdade que pareço muito
-velha, meu Luiz, anda, dize?
-
-E cada vez se aproximava mais d’elle a ponto de o bafejar com o seu
-halito inflammado; e de sorte, que se confundiam os olhos d’ella
-ardentes, significativos, cubiçosos, com os d’elle timidos, assustados,
-quasi envergonhados.
-
-—Não, senhora Genoveva, não tenho vergonha. Desculpe fazer-me córado...
-
-—Dize-me, atalhou violentamente Genoveva, cujo temperamento nervoso e
-sanguineo estava effervescente, querias estar como Paulo (era o heroe do
-romance), assim comigo n’um casal deserto...
-
-—Como estamos hoje...
-
-—Como estamos hoje, sim Luiz, e depois...
-
-Era impossivel deixar de perceber tudo. Genoveva parecia ter a cabeça
-perdida, tudo denotava um desejo desenfreado, e furioso.
-
-Não se riam, rapazes, se vissem uma mulher allucinada pelo amor,
-arrojar-se como uma leôa, feroz, enraivecida, terrivel até,
-comprehenderiam bem quanta foi a virtude do Luizito.
-
-Levantou-se a tremer, e cheio senão de medo, ao menos de pudôr...
-
-—Senhora Genoveva, eu não sei se comprehendi; perdoe-me se a vaidade me
-illude; mas, não me posso esquecer de quanto devo ao sr. José Matheus.
-
-E saiu, sem olhar para traz.
-
-No dia seguinte, de madrugada, com o seu alforge arranjadinho, ia pela
-estrada fóra, sem saber ainda para onde se encaminhava.
-
-Ia começar de novo a vida, mas era indispensavel. Se cedesse, seria o
-ingrato mais vil d’este mundo; se resistisse, a furia de Genoveva não o
-deixaria descançado por muito tempo.
-
-A poucos passos de distancia encontrou a José Matheus, que, tendo feito o
-seu negocio mais breve do que pensava, recolhia cantarolando, como quem
-vinha nas horas do Senhor.
-
-Luiz não esperava semelhante encontro. José Matheus já o tinha visto, e
-não havia remedio. Demais foi o lavrador que encetou a conversação.
-
-—Olá, Luiz, tão cedo, ha por lá alguma novidade?
-
-—Nada, não, sr. José Matheus, não ha novidade nenhuma; eu é que...
-
-—Tu é que... embatucaste? Tens alguma cousa, viste bicho?—Tu não estás em
-ti, desembucha.
-
-—Eu... vou-me embora.
-
-—Bom, homem, e por isso ficaste assim atarantado, bem te entendo; vae,
-rapaz, vae, eu sei o que são essas cousas. Quando voltas?
-
-—Eu... vou de vez.
-
-—Hein, endoideceste?
-
-—Não endoideci, não, sr. José Matheus, preciso ir-me embora, deixe-me ir
-embora, deixa?...
-
-E o rapaz estendia as mãos, convulso como se pedisse a salvação.
-
-—Deixo, deixo. Por onde eu te pegar, te peguem os lobos. Entendo,
-desenquietaram-te, apanhaste-te ensinado; mas anda que tambem me
-ensinaste, ingrato!
-
-—Ingrato!... Serei, sou, mas deixe-me ir embora quanto antes.
-
-José Matheus não era de hoje, nem de hontem; desconfiou do caso, e
-chegando-se mais para o rapaz, deitou-lhe a unha.
-
-—Por mais que me digam, accrescentou elle, tendo-o já seguro, aqui ha o
-que quer que seja, para tu estares assim tão apressado. Deixo-te ir, mas
-não sem me dizeres primeiro porque. Que demonio, parece que tens morte de
-homem!
-
-Vendo-se agarrado, Luiz entrou a clamar para que o deixasse, pedindo-lh’o
-por quantos santos havia no Paraizo. Por mais que buscasse, não lhe
-occorria nem meia mentira. Não admira, a falta de costume...
-
-Por fim conseguiu escorregar-se-lhe das mãos como uma enguia, e deitou a
-correr mais leve que um passaro.
-
-José Matheus voltou ainda o cavallo, para lh’o deitar para cima; depois,
-como se lhe accudisse a reflexão, exclamou:
-
-—A cheia o trouxe, a cheia o levou. Que vá por onde não faça perca!...
-
-E entestou para Valle de Figueiras, scismando no acontecido.
-
-Ainda bem Luiz lhe não tinha saido a porta, Genoveva, percebendo que era
-despresada, e incendida pelos lumes do desejo, caía por terra espumando
-como um damnado, e bracejando como um possesso. Estava com um accidente
-de raiva.
-
-Accudiram ao motim, que fez, e levaram-na para a cama já sem dar accordo
-de si, tinha-lhe subido o sangue á cabeça, estava com uma febre cerebral.
-
-Luiz, escusado é dizer, não soubera de coisa alguma. Recolhera a
-entrouxar o pouco fato, que havia comprado, pois deixou ficar tudo que
-lhe deram; e embebido nos seus pensamentos, poderiam voltar a casa
-debaixo para cima, que não era elle que dava por semelhante coisa.
-
-Demais morava n’um quarto no extremo opposto da casa, com porta que
-deitava para a estrada, e pôde sair por conseguinte, sem saber nada do
-que se passava no resto da habitação.
-
-Pouco depois da chegada de José Matheus appareceu o facultativo do sitio,
-que tinham mandado chamar a toda a pressa. Sangrou-a logo, mas já era
-tarde. O ataque tinha sido tão forte, que a sangria abrandou-lhe um pouco
-as furias e nada mais. D’ali a pouco tornava á mesma, ou a peior ainda,
-porque d’esta vez dizia coisas estranhas em palavras soltas.
-
-Estava tresvariada.
-
-José Matheus percebeu logo que as coisas que a mulher ia dizer, não eram
-para ser ouvidas por toda a gente; mandou sair os que estavam no quarto,
-e apenas ficou sósinho com ella, deu volta á chave e escutou-a.
-
-Soube tudo.
-
-No meio dos seus excessos, Genoveva chamava por Luiz, accusava-o de
-frieza, de indifferença, de ingratidão. Dizia-lhe que pensasse no seu
-marido, porque esse não saberia nada, e depois... haviam de ser tão
-felizes!
-
-E um poder de coisas que tiraram todas as cataractas dos olhos do marido.
-
-Este sentou-se n’uma cadeira, e, abatido, limpou uma lagrima. Ninguem
-soube nunca por quem fôra, se por Luiz, se por Genoveva.
-
-Genoveva durou tres dias. Disse o facultativo, que se lhe tinha rompido
-uma veia na cabeça; rompesse ou não, nos dois ultimos não deu accordo de
-vida.
-
-José apenas se certificou de que sua mulher não diria mais nada,
-recolheu-se ao seu quarto, d’onde não saiu senão para a sepultura.
-Não queria saber de coisa nenhuma, não dava palavra a ninguem, e se
-insistiam, punha todos fóra, fechando-lhes a porta na cara.
-
-Na vespera de morrer, mandou chamar um tabellião e duas testemunhas. Lá
-esteve com todos tres, por espaço de meia hora.
-
-No dia seguinte abria-se o testamento sobre o cadaver de José Matheus, e
-Luiz Tiburcio ficava sendo seu herdeiro universal.
-
-—Acabou, tio Joaquim, atalhou d’ali o João Carriço, que déra provas de
-impaciencia durante a narração, não tem mais nada que dizer?
-
-—Eu não, e tu? Perguntou o narrador.
-
-—Eu, perdoará a sua palavra honrada, parece me que a historia não vem ao
-caso do que a gente dizia; pois se o rapaz não fosse tão arisco, ficava
-com tudo do mesmo feitio; porque eram dois a deixar-lhe... E d’ahi não
-morria, nem a mulher, nem o homem.
-
-—E parecia-te bonito pagar d’esse feitio os beneficios, que tivesses
-recebido de José Matheus?
-
-—Olhe, tio Joaquim, lá o lê, lá o entende, mas d’aquelle mal não morreu
-ninguem; o José Matheus não havia de passar peior por isso.
-
-—Eu te contarei uma historia um dia, e verás se se morre ou não. Sabes
-que mais, João Carriço, tens ainda a cabeça muito levantada, has de
-assentar.
-
-—Então sim, tio Joaquim, quando fôr lá para a edade, o que não podér
-haver, dal-o-hei por amor de Deus.
-
-E como todos soltassem uma gargalhada, o velho suspendeu a sessão, porque
-percebeu, que por aquelle lado não fazia farinha.
-
-
-
-
-XI
-
-O Thomaz dos passarinhos
-
-
-Acabavam de dar dez horas; e ouvia-se ainda o som dos sinos de S.
-Vicente, o que mostrava que o vento estava da barra a prometter mais
-chuva.
-
-Em todo o santo dia não descontinuára de cair agua, e ao cerrar da noite,
-carregou tanto que parecia vir tudo abaixo. Em casa dormiam todos, e
-na malta vigiava apenas, junto da candeia quasi a apagar-se, o tio
-Joaquim, que estava fumando embevecido no que quer que era, que parecia
-preoccupal-o.
-
-Os maltezes dormiam cada um para seu canto, embrulhados em gabões, ou
-cobertos com as mantas em cima das esteiras. Debaixo da cinza ainda
-faiscavam alguns restos de vides, na chaminé, e a meio da tarimba ainda
-se via um baralho em desordem, como a provar que havia pouco descançava
-d’uma bisca de quatro. As cartas poderiam figurar com bastante rasão
-no gabinete d’um antiquario, e tinham direito ao asylo de Runa pelas
-multiplicadas cicatrizes ganhas no combate.
-
-Mas como o jogo era de boa fé, e só para matar tempo, pouco importava,
-que fossem mais conhecidas ainda pelas costas do que pela frente.
-
-Pela minha parte tinha ficado tambem por ali mais um bocado, e
-preparava-me para recolher, quando me pareceu ouvir, por entre o ruido da
-chuva que caía sem cessar, e do vento que não parava, o som da campainha
-do portão.
-
-—Não ouviu tocar á campainha, tio Joaquim?
-
-Este levantou a cabeça e como despertando, respondeu-me:
-
-—A estas horas, não póde ser, foi engano seu, já estão todos recolhidos.
-
-N’isto o cão do pateo começou a ladrar.
-
-—Tocaram, tocaram, repeti eu, e tanto que lá está o Alfageme a dar
-signal. Ora escute, lá tornam.
-
-E effectivamente um segundo toque se fez ouvir, mas tão brando, tanto a
-medo, que mal se ouvia, apesar de escutarmos ambos com toda a attenção.
-
-—É toque de desgraçado, de quem receia incommodar; pobre homem, com este
-tempo! Eu vou vêr, disse-me o tio Joaquim levantando-se e pondo o chapeu.
-D’ahi a pouco senti-o chamar o cão, que se enfurecia a ladrar cada vez
-com mais força, em seguida abrir o portão, e logo depois entrar na casa
-da malta já acompanhado.
-
-O recem vindo entrou timido e denunciando o extremo acanhamento da
-pobreza envergonhada.
-
-Caía-lhe a agua a fio do chapeu, que trazia derrubado para a cara, e
-ensopava-lhe um capote esfrangalhado, que bem a custo lhe resguardava o
-corpo. Ficou á porta mesmo, e como mal se atrevendo a proseguir.
-
-—Entre, patrão, bradou-lhe o tio Joaquim, não está tempo para cerimonias,
-se isto continua lá se vão todas as sementes com a cheia. Parece um
-diluvio. Largue o capote e o chapeu que traz n’uma sôpa, embrulhe-se ahi
-n’uma manta, e chegue-se para o lume, que eu vou deitar-lhe um punhado de
-vides para o espertar.
-
-E seguindo conforme disséra, separou umas poucas de vides d’um mólho, que
-estava perto da chaminé, quebrou-as umas poucas de vezes sobre o joelho,
-deitou-as no brazido, e entrou a assoprar até que pegou labareda.
-
-—Deus lhe pague, tanto incommodo, tio Joaquim, exclamou o desconhecido,
-seguindo á risca as indicações do hospedeiro.
-
-Este, admirado por ouvir o seu nome, attentou no recem-chegado, e como
-procurando avivar recordações:
-
-—Espera, eu já ouvi esta voz, mas não me lembro aonde; olha bem para mim:
-eu conheço-te, já vi a tua cara, isso vi.
-
-—Tão mudado estou que já se não lembra de mim, do Thomaz...
-
-—Do Thomaz da tia Annica, se lembro! Mas quem tal havia de dizer, que
-mudança! Pareces um velho, homem, e eu que te fazia a arrebentar de
-dinheiro, que pensava que estavas pôdre de rico, lá por esses Brazis!
-
-—Pôdre ia estando, ia; mas era de doenças e de fome...
-
-—Então nem tudo que se diz?...
-
-—Ora uma coisa é dizer, outra é vêr, nem o tio Joaquim faz uma idéa!
-
-—Faço, faço, basta olhar para a tua cara e para o teu fato. Mas não se
-trata só de dár á lingua. Que tal de barriga, nem por isso vem muito
-quente não é verdade?
-
-O silencio de Thomaz suppriu bem uma eloquente resposta. O tio Joaquim
-proseguiu:
-
-—Para grandes banquetes não haverá, mas para uma assorda ainda chega
-o pão; fazem-se umas migas de bacalhau, deita-se-lhe um tomate e uma
-cebolla, e verás depois se, comida com boa vontade, não vale o melhor
-petisco do mundo.
-
-—Vem quebrar-me o jejum.
-
-—Que dizes, homem?
-
-—Que salvo os meus peccados, ainda podia commungar, porque até a esta
-hora não entrou hoje comer na minha bocca.
-
-—Pobre Thomaz!
-
-E sem perder mais tempo em conversações, o tio Joaquim principiou a
-temperar as migas.
-
-Entretanto tive eu tempo para examinar bem á minha vontade o Thomaz da
-tia Annica.
-
-Teria uns trinta annos quando muito, o que só com muita difficuldade se
-percebia pela viveza do olhar. No resto da physionomia e no quebrado do
-corpo liam-se sessenta puchados. Não se podia dizer qual fôra a côr do
-rosto. Os sóes, os trabalhos e as febres, tinham-lhe retinto a cara d’um
-castanho esverdeado, que mais simulava medalha antiga que parecer de
-gente.
-
-A barba crescida, as sobrancelhas espessas, e o cabello basto e grenho
-eram ou arruivados pelo sol, ou embranquecidos pelos trabalhos; as rugas
-abriam-lhe talhos profundos na pelle, e algumas cicatrizes imprimiam-lhe
-extravagantes relevos. Até mesmo o branco dos olhos estava amarellecido,
-e os dentes, quando descerrava os beiços rôxos e gretados, pareciam
-prezas de javali aguçadas e ennegrecidas.
-
-O fato eram farrapos, sem fórma, nem côr possivel, restos sobrecosidos,
-retalhos justapostos. Não se lhe percebia camisa.
-
-Fazia horror tão grande miseria.
-
-O tio Joaquim tinha desenvolvido uma actividade pasmosa. N’um abrir
-e fechar d’olhos tinha migado o bacalhau e a cebola, tinha cortado o
-tomate, tinha posto tudo a ferver n’uma pouca d’agua, sem lhe esquecer um
-fio d’azeite para melhor tempero; depois, quando começava a fervura a
-levantar, entrou a partir o pão, e a deital-o no tacho com aquelles ares
-de satisfação, que deve manifestar um artista, quando tem a certeza de
-estar a concluir um primor d’arte.
-
-Thomaz, esse engerido com frio e extenuado de fome, não tinha forças para
-se mecher do banco para onde caira.
-
-No dia seguinte ouvi da bocca do tio Joaquim a historia do Thomaz da tia
-Annica.
-
-Thomaz nascera por aquelles sitios mais rico de preguiça do que de amor
-ao trabalho; parecia feito para morgado, o demonio do rapaz, não queria
-saber de lavoura, nem de estudo. Fugia da escola, fugia do trabalho, e ia
-deitar-se debaixo de uma arvore a olhar para o ceu, ou a acompanhar com a
-vista as nuvens irradias.
-
-Muitas vezes dizia elle quando lhe deitavam na cara o não fazer nada:
-
-—Deus entregou o espaço aos passarinhos, e lançou a semente á terra,
-para que se nutrisse, soltou os animaes no campo, e mandou á herva que
-crescesse para que se alimentassem; deu azas ás borboletas, e polvilhou
-as flôres para que encontrassem sustento sem se affadigarem. A mão que
-impelle o sol, que sacode as nuvens, que arroja a chuva, que dá vigor á
-planta, ramagem ao arvoredo, frescura á terra, e nutrição a todos ha de
-amparar-me tambem, e dar-me de comer quando me falte.
-
-E, a não ser esta preguiça invencivel, não havia que se lhe dizer: era
-comedido no porte e civilisado nas palavras. Não escandalisava ninguem,
-nem procurava descaminho; deixassem-no vaguear e estava contente.
-
-Depois de muitas tentativas descoroçoaram os paes de o fazerem tomar
-rumo. Deixaram-no á lei da natureza, e assim se foi creando, aprendendo
-pelo que via, e desenvolvendo-se com o descanço.
-
-Não era mau rapaz, nem dado a companhias. Bom de coração na verdade, mas
-incapaz de servir para nada. Havia muito tempo, que se não via um paz
-d’alma d’aquelles.
-
-Emquanto o pae foi vivo, bem ia o caso. Elle dava ordem á sua vida, e
-quando lhe perguntavam pelo filho respondia tristemente: deixem-me, foi
-erro da natureza, nasceu para mulher, não tem geito para cousa nenhuma.
-Um dia porém, o pae amanheceu morto na cama, e a mãe achou-se de repente
-com todo o peso da casa, e com um filho que não tinha prestimo que se
-visse.
-
-Thomaz chorou muito nos primeiros dias, e fez mil protestos de trabalhar.
-Assim foi de principio, mas depois... parece que se partiram os braços e
-tornava á mesma. Pasmava ao meio do trabalho, varria se-lhe de memoria
-o que estava fazendo, e deitava a correr para debaixo de uma arvore,
-namorar as nuvens e ouvir os passaros.
-
-—O que te prende tanto, para não fazeres nada e passares todo um dia
-assim a olhar para o ceu, lhe perguntou um dia um velho fazendeiro dos
-melhores amigos, que o pae tinha?
-
-—O tio Simões vae rir-se...
-
-—Dize sempre, anda.
-
-—Olhe, tio Simões, quando ouço os passarinhos, parece-me escutar estas
-palavras que o sr. padre prior disse um dia n’um sermão de festa:
-
-«Portanto vos digo, não andeis cuidadosos da vossa vida, que comereis,
-nem do vosso corpo, que vestireis. Não é mais a alma, que a comida: e o
-corpo mais que o vestido?
-
-«Olhae para as aves do ceu, que não semeam, nem segam, nem fazem
-provimento nos celleiros; e comtudo vosso Pae celestial as sustenta. Por
-ventura não sois vós muito mais do que ellas?[2]»
-
-—Mas isso não quer dizer, que se não deve trabalhar, homem, pelo menos
-eu assim o entendo, quer dizer que por amor do dinheiro se não devem
-praticar acções ruins, e que a confiança em Deus nos não deve desamparar
-nunca.
-
-—Ora, tio Simões, o sr. padre prior ainda disse mais:
-
-«E porque andaes vós sollicitos pelo vestido? Considerae como crescem os
-lirios no campo; elles não trabalham, nem fiam.
-
-«Pois se ao feno do campo que hoje é, e ámanhã é lançado ao forno, Deus
-veste assim; quanto mais a vós homens de pouca fé!
-
-«Não vos afflijaes pois, dizendo: que comeremos ou que beberemos, ou com
-que nos cobriremos?
-
-«Porque os Gentios é que se cançam por estas coisas. Por quanto vosso Pae
-sabe, que tendes necessidade de todas ellas.
-
-«Buscae pois primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça: e todas estas
-coisas se vos accrescentarão.
-
-«E assim não andeis inquietos pelo dia de ámanhã. Porque o dia de ámanhã
-a si mesmo trará seu cuidado, ao dia basta a sua propria afflicção.»[3]
-
-—Como aprendeste tanta coisa?
-
-—Olhe, tio Simões, na vespera tinha assistido ao pagamento da féria, o
-que meu pae, que Deus haja, fazia todos os sabbados á noite, e ao vêr
-seguirem-se uns após outros os trabalhadores da fazenda, disse com Deus e
-comigo:—porque não hei de eu trabalhar? Porque não hei de ganhar tambem a
-minha féria? Eu tambem sou homem.
-
-—E disseste bem, Thomaz, era uma boa palavra essa. Mas depois?...
-
-—Depois, fui deitar-me resolvido a pedir tambem que fazer na segunda
-feira seguinte a meu pae; mas no domingo era dia de festa; fui á Egreja
-ouvir a missa, e fiquei para o sermão.
-
-—E...
-
-—Começou o sr. prior a dizer o que eu lhe repeti, ha pouco...
-
-—E como tu não ias de vontade para o trabalho, quadrou-te o sermão, não é
-assim?...
-
-—Não diga tal, tio Simões, sabe Deus se eu tinha ou não feito proposito
-de mudar de vida: tanto que, ao principio, fiquei sobresaltado, e como
-não querendo acreditar... Mas vi a cara do bom padre, dizia tanto, tinha
-uma tal expressão de bondade, um tal não sei quê na physionomia... Era
-impossivel, tio Simões, que não fosse allumiado pelo ceu.
-
-—Mas como aprendeste tudo isso?
-
-—No dia seguinte fui ter com o sr. padre prior para que me ensinasse
-aquellas palavras, disse-me que estavam n’um livro, e d’ahi eu...
-pedi-lhe que me explicasse como as havia de lêr...
-
-—E elle?
-
-—Elle ensinou me, e eu aprendi.
-
-—Então tens lido muito?...
-
-—Nada, não senhor, apenas soube de cór aquellas palavras, esqueci me logo
-de lêr.
-
-—Ora essa!
-
-—As aves do ceu e os lyrios dos campos não sabem lêr, e o nosso Pae
-celestial as sustenta e as veste. Eu tambem não preciso saber lêr.
-
-—Mas teu pae morreu, tua mãe não póde com o encargo da casa, e assim sem
-homem, que tome tento no arranjo, vae tudo por agua abaixo.
-
-—Que hei de eu fazer?
-
-—Homem, és capaz de fazer perder a paciencia a um santo! Que tomes a
-direcção do governo, que occupes o logar de teu pae.
-
-—O tio Simões póde dizer o que quizer, eu estou á conta do Senhor.
-
-E não havia tiral-o d’este dizer, por mais que fizessem, por mais que lhe
-prégassem. Era prégar aos peixinhos.
-
-A pobre da mãe ia dando ordem á vida, conforme podia, mas casa governada
-por mulher, raro toma caminho: o negocio cada vez ia de mal a peior.
-
-Thomaz, esse, parecia não dar por semelhante cousa, chegava a casa,
-fallava á mãe; comia do que lhe apresentavam, porque tudo lhe sabia bem,
-e quando a tia Annica começava em pé de conversa a querer-lhe dar conta
-do que se passava:
-
-—Faça o que quizer, minha mãe, eu não tenho nada com isso.
-
-E deitava a correr, se insistiam com elle, para debaixo da sua querida
-arvore.
-
-Um dia, quando mais embebido estava em seu scismar, ouviu perto d’elle
-voz de mulher, que pedia soccorro. Ergueu-se e accudiu. Era uma rapariga
-de uns dezoito annos, quando muito, que vinha correndo de uma vacca que a
-perseguia.
-
-Já quasi não podia dar passo, e a vacca ia alcançal-a, quando Thomaz
-erguendo-se de um pulo, e tomando um cajadito, que trazia comsigo, atirou
-de lado uma paulada ao focinho do animal, que cego com a dôr, mudou de
-carreira e seguiu aos pulos e aos mugidos pelos campos fóra.
-
-Agueda, assim se chamava a perseguida, parou, tomou a respiração, que lhe
-ia faltando, e, volvendo um olhar reconhecido ao seu salvador, disse lhe:
-
-—Obrigado, Thomaz!
-
-—Agradece ao Senhor, Agueda, e não a mim; a gente anda cá n’este mundo á
-conta de Deus.
-
-Agueda era feia e grosseira de feições como grande parte das raparigas
-do campo. Muito trigueira e mais queimada ainda, crivada de bexigas,
-os beiços grossos, o nariz achatado e largo, as orelhas grandes e mais
-repuchadas ainda por umas enormes arrecadas de ouro, o cabello crestado
-e carapinho. Tinha os olhos pretos rasgados e ramudos como quasi todas as
-saloias e era nova.
-
-Como de uso, trazia côres, que mais destoavam com o semblante. Umas
-roupinhas encarnadas, e uma saia de chita côr de rosa sobre outra de
-baeta verde salsa. Explicado estava pois o furor da vacca.
-
-Entretanto era por extremo vaidosa, e tão presumida como o são todas
-as moças feias; mal tornou a si do susto começou correndo-lhe a mão, a
-alisar o cabello, e quando lhe pareceu ter-se bem composto, proseguiu na
-encetada conversação.
-
-—Quem havia de dizer que a vacca da Angelica!... Parecia tão socegada!...
-
-—Não admira, tornou-lhe Thomaz, que já se deitára debaixo da sua arvore e
-parecia distrahido a olhar para o ceu.
-
-—Não admira, porquê?
-
-—Ora, tu appareceste-lhe assim, tão assanhada!
-
-—Tão assanhada!
-
-—Sim, pareces-me uma papoila vermelha, já com as sementes pretas, no meio
-d’um campo de verde.
-
-—Sempre tens lembranças!
-
-Thomaz não lhe respondeu. Estava entregue ás suas contemplações.
-
-—Thomaz! Thomaz! Que tens tu, estás sempre a scismar?
-
-—E tu que tens com isso? Importa-te a minha vida?
-
-—Lá isso é verdade, não me importa, mas faz-me pena, vêr-te assim, ahi a
-monte, sempre sósinho.
-
-—Faz te pena devéras?
-
-—Faz.
-
-—Ora dize-me, tu tens bom coração?
-
-—Nunca fiz mal a ninguem: nem o desejo.
-
-—Pois bem, um dia te direi em que scismo.
-
-E por mais que a sua companheira lhe puchasse pela lingua, não deu mais
-palavra. Parecia de pedra.
-
-Por fim Agueda perdeu as esperanças de fazer com que fallasse, e ao
-despedir-se d’elle disse-lhe:
-
-—Adeus, Thomaz, até outra occasião em que estejas de melhores humores.
-Olha que me não esqueço do favor, que te devo. Adeus!
-
-Ou fosse curiosidade ou interesse, ou mesmo amor proprio offendido, no
-dia seguinte, pelas mesmas horas, fazia a rapariga caminho pelo sitio
-onde na vespera se encontrára com Thomaz.
-
-Este estava no mesmo logar, e na mesma posição da vespera, parecia que
-não arredára pé. Agueda approximou-se-lhe, quasi sem elle dar pela sua
-presença.
-
-—Adeus Thomaz!
-
-—Adeus Agueda!
-
-—Ainda continuas a estar triste?
-
-—Quem te disse que eu estava triste?
-
-—Não fallas, não cantas, não te meches d’ahi!
-
-—Tambem as flôres do campo não fallam, não cantam e não se mechem.
-Entretanto ninguem diz que ellas são tristes.
-
-—Em que pensas tantas horas a fio, Thomaz?
-
-—Olha, Agueda, tens bom coração?
-
-—Já hontem me fizeste essa mesma pergunta, e o que hontem te respondi, te
-respondo hoje:
-
-—Não fiz nunca mal a ninguem, nem o desejo.
-
-—Pois um dia te direi em que eu penso.
-
-—E porque não ha de ser hoje?
-
-—Ainda não tenho confiança em ti.
-
-Repetiram-se os encontros. Todos os dias, pelas mesmas horas, Agueda se
-encaminhava para aquelles sitios, e quando a sombra lhe dizia que ella
-estava para chegar, Thomaz esperava a com a vista, fitando os olhos no
-atalho por onde havia de apparecer.
-
-Pouco a pouco a indifferença apathica de Thomaz foi desapparecendo.
-Fallava mais, e contava historias de avesinhas e de flôres a Agueda
-maravilhada.
-
-E havia uma tal ingenuidade, o que quer que era de boa e pura simpleza
-nas suas historias, nas suas exclamações, na explicação que lhe dava
-dos enlaces dos animaes e dos amores das plantas, que a pobre rapariga
-parecia levada a mundos novos, e quasi estranhava tudo que não era o
-fallar e a companhia de Thomaz.
-
-Um dia, eram passados tres mezes, depois do primeiro colloquio, voltou-se
-elle repentinamente para a sua companheira depois d’alguns momentos de
-abstracção, e disse-lhe:
-
-—És feia Agueda, muito feia.
-
-—Se o sentes, para que m’o havias de dizer? tornou lhe tristemente a
-rapariga.
-
-—Porque digo sempre o que sinto. Mas o teu coração é formoso e a tua alma
-é boa.
-
-—Obrigado, Thomaz.
-
-—Não me agradeças, porque fallo verdade. O teu coração é bom, e a belleza
-do corpo acaba, emquanto a formosura da alma se conserva. Eu gosto de ti,
-Agueda.
-
-—Tambem eu gosto de ti, e por isso sempre me pareceste formoso.
-
-Era uma especie de recriminação, que Thomaz não percebeu.
-
-—Eu queria casar comtigo.
-
-—Tu!
-
-—Eu, sim, porque te admiras?
-
-—Não cuidei que pensasses em casamento.
-
-—Não casam as arvores, as flôres, os animaes da terra, as avesinhas dos
-ares, os peixes do mar; não casam as aguas dos rios com as torrentes dos
-mares?
-
-—Mas...
-
-—Porque não hei de eu casar tambem?
-
-—Tu bem sabes, Thomaz, que eu nada tenho; tu tambem és pobre, como
-haveriamos de viver?
-
-—Não me tens perguntado tanta vez em que penso durante as horas em que
-estou sósinho?
-
-—Tenho.
-
-—Pois, ámanhã t’o direi; d’hoje até ámanhã pensa tu tambem, e dir-me-has
-depois, se queres ou não casar comigo.
-
-—E porque não dizes agora?
-
-—Agora... preciso estar só.
-
-E calou-se. Agueda já sabia que era tempo perdido teimar. Retirou-se,
-olhando muitas vezes para o seu extraordinario apaixonado.
-
-Este não deu por semelhantes finezas. Com os olhos fitos n’um ponto
-affastado, parecia embevecido em doces contemplações.
-
-No dia seguinte pelas mesmas horas dobrava Agueda o atalho, quando
-Thomaz, que de longe a avistou, se ergueu para a ir esperar.
-
-Extranho era aquelle procedimento, e tanto mais extranho, quanto a pobre
-da rapariga, á força de se querer aprimorar, mais feia parecia ainda.
-Thomaz, porém, nem percebeu a mudança.
-
-Ao approximar-se da arvore, pediu lhe que se sentasse ao seu lado, e com
-taes modos e tal delicadeza, que ella quasi o desconheceu.
-
-—Que tens, Thomaz, pareces me outro?
-
-—Tenho que te fallar muito sério. Pensaste?
-
-—Pensei.
-
-—Queres?
-
-—Quero, Thomaz, conheci que te amava. E tu?
-
-—Eu, não sei. Olha, Agueda, parece-me que nasci para casar comtigo. Tenho
-te visto ha muitos dias, e sempre me tens parecido boa rapariga.
-
-—Tu é que és um santo, meu Thomaz...
-
-—Não digas isso, e ouve-me. Vou contar-te o meu segredo.
-
-—Pois tu tens segredo?
-
-—Não t’o disse hontem?
-
-—Disseste, mas pensei que estavas gracejando.
-
-—Não sei gracejar.
-
-—E d’elle depende a nossa fortuna?
-
-—Depende.
-
-—Então conta, Thomaz, conta depressa.
-
-E a rapariga quizera ser toda ouvidos para satisfazer assim a curiosidade
-que a devorava.
-
-—Olha, Agueda, olha além para o ceu.
-
-—Olho.
-
-—Não vês nada?
-
-—Vejo uma nuvemzinha transparente e branca, que parece voejar como um
-véosinho de cambraia.
-
-—E nada mais?
-
-—Mais nada!
-
-—Pois eu vejo mais do que tu.
-
-—Como assim?
-
-—Ha uns poucos d’annos, que passo manhãs e tardes, deitado debaixo d’esta
-mesma arvore, com os olhos pregados n’aquelle mesmo sitio do ceu.
-
-—E vês?
-
-—Espera. Não ouves o chilrear dos passarinhos, que andam saltitando de
-ramo em ramo?
-
-—Ouço.
-
-—E não percebes o que elles dizem?
-
-—Ora essa!
-
-—Pois desde que aqui descanço, as aves fallam comigo, e eu entendo o que
-ellas dizem.
-
-—Thomaz!
-
-—Bem sei que desconfias de mim, Agueda, que talvez me julgaes doido,
-pateta, como muitos dizem. Não me admira, estou condemnado, e rio-me
-d’isso.
-
-—Não chamo, não, meu Thomaz; continua.
-
-—Tens espalhado os olhos por esses tapetes de verde, por essas vagas de
-pão, que ondulam e marejam á feição do vento como as aguas dos rios?
-
-—Se tenho!
-
-—Mas não escutaste ainda os colloquios que segredam as plantas umas ás
-outras, as espigas ás suas visinhas, quando o vento as encurva, e parece
-approximal-as tão de perto, como se fossem a beijar-se?
-
-—Valha me Deus, Thomaz, que coisas me estás perguntando!
-
-—Tenho dó de ti, Agueda!
-
-—Porquê?
-
-—Porque nem lês no céo, nem aprendes com as aves, nem escutas as plantas.
-Como has de ser infeliz. Tudo pois, que mais significação tem, nada quer
-dizer para ti. Mas descança, minha Agueda, quando casares comigo, has de
-saber o que eu sei.
-
-—E tu sabes?
-
-Thomaz fez-lhe signal para que se callasse por um momento, e pareceu cair
-em extatica contemplação com os olhos fitos no céo.
-
-Seria passado um quarto de hora, quando pareceu voltar a si, dirigiu-se a
-Agueda, e disse-lhe:
-
-—Ouve-me agora. Quando meus paes quizeram que eu estudasse, quando
-tentaram que eu aprendesse ou trabalhasse, senti em mim uma voz que me
-dizia: não trabalhes, não é preciso, has de ser rico, muito rico, espera,
-confia e descança.
-
-—E tu?
-
-—Sempre que me approximava do trabalho sempre esta voz me fallava; se eu
-insistia tornava se mais aspera, reprehendia-me, accusava-me de não ter
-fé. Por fim... não estava mais na minha mão, fugi ao trabalho, não pude
-resistir ás palavras, que ouvia a todo o momento.
-
-—Pobre Thomaz!
-
-—Quando comecei a abandonar a casa, para vir deitar-me para debaixo
-d’esta arvore, parecia-me que as flôres e as plantas se debruçavam para
-mim e diziam umas ás outras: é mais um irmão que chega, bemvindo seja
-entre nós.
-
-E eu sorria-me para as hervinhas e para as arvores e a umas e outras
-dizia: Eis me, queridas irmãs, que saudades eu tinha vossas, como me
-batia o coração com pena! Eis-me, oh irmãs, e não vos deixarei mais.
-
-Depois de pensar muito, quiz n’uma occasião da minha vida mudar o modo de
-viver. Um caso fez, porém, com que eu continuasse a seguir os conselhos
-da voz, que cá bem dentro me dizia: Descança e tem fé.
-
-—Um caso?
-
-—Sim.
-
-E Thomaz contou-lhe como entrára na egreja e o que ahi ouvira ao prior,
-bem como a maneira, porque instando com elle para que lhe ensinasse
-aquellas palavras, chegára a aprender a lêr.
-
-—E sabes lêr, Thomaz?
-
-—Soube, esqueceu-me.
-
-—Pois nem conheces as letras?
-
-—Não.
-
-—E se eu quizesse aprender?
-
-—Talvez me recordasse.
-
-—Has de recordar-te, sou eu que t’o peço, mas continua.
-
-—Embrenhado n’estes pensamentos, um dia que alargava a vista pelos
-campos, e que pretendia mergulhar os olhares no céo, lá bem longe,
-n’aquelle affastado ponto, em que tu divisaste ha pouco uma nuvemzinha,
-vi avultar uma figura branca, tão transparente, tão formosa porém, ai tão
-formosa! que arrebatava olhar para ella... Mas porque estás tão triste,
-borbulham-te as lagrimas nos olhos!
-
-—Lembro-me do que me disseste, Thomaz, que me achaste feia, e tenho pena
-de o ser.
-
-—Não penses em tal. Formosuras d’aquellas não as ha na terra, nem sei
-mesmo, minha Agueda, se as haverá no ceu. Entretanto eu via todas as
-tardes aquelle vulto illuminado no meio de resplendores de fogo, e dos
-raios scintillantes do sol poente. Depois ao cair da noite ia-se sumindo
-pouco a pouco na escuridão até que uma só estrella a substituia no ceu.
-
-Se visses que melancholica luz espalhava aquella estrella! Acreditei
-que o meu anjo da guarda me apparecia, e que a estrella, que de noite
-scintillava, mais resplandescente do que todas as outras, fôra cravada
-nos ceus pela mão do Senhor para me animar quando desanimasse, para me
-esclarecer quando as trévas envolvessem a terra.
-
-—Mas dizias, que te fallára!
-
-—Pouco a pouco comecei a comprehender, que me fazia gestos, como
-indicando me um ponto muito affastado dos ceus. Parecia que lá muito
-longe estava a felicidade, que eu almejava. Um dia ajoelhei e pedi-lhe,
-que me fallasse, que me dissesse o que significava aquelle gesto
-constante a mostrar-me a immensidão.
-
-—E respondeu-te?
-
-—Não é mais harmonioso o som do orgão, quando, depois de tocado, parece
-gemer saudoso na egreja, não é mais suave o canto da viração da tarde
-rumorejando pelo arvoredo, nem o lamentar ao longe do rouxinol em
-madrugadas de maio.
-
-—E disse-te...
-
-—«Pobre de ti, que procuras a felicidade na terra. Está bem longe e tão
-longe que nem teus olhos a alcançam nem tua mente a imagina. Queres ser
-rico, queres ser feliz! Louco! Não ha de ser ahi que encontrarás nem
-riqueza nem felicidade. Chegará um dia em que me sigas, e então verás
-patentes thesouros, que nem suppões, felicidades que nem as sonhas.»
-
-—Era a tua cabeça que desvairava meu Thomaz!
-
-—Não era, Agueda, não era. Levantei-me para seguir direito o caminho
-que me apontava; mas ao calcar as primeiras hervinhas senti entre seus
-gemidos, que me chamavam: ambicioso! louco!
-
-—As hervas?
-
-—Sim as hervas, voltavam-se para mim e apontando-me para os campos onde
-viviam censuravam-me por as deixar: para que partes? Não tens o pão que
-te alimenta, o sol, que te dá calor, o ar, que te nutre a respiração, não
-vês como vivemos contentes no mesmo logar, amando-nos umas às outras,
-bebendo a agua dos ares, e aquecendo-nos o sol?
-
-—E pensaste então em amar?
-
-—Pensei! Depois quando volvia para debaixo da minha arvore as avesinhas
-brincando umas com as outras, diziam: «Não é preciso ir longe para se ser
-feliz. Este pobre rapaz quer deixar-nos, e nós podiamos-lhe ensinar como
-se encontra a felicidade. Uma arvore nos abriga, um ninho serve de berço
-aos nossos amores, uma folha nos resguarda do sol, a semente que cae no
-chão nos sustenta, a agua, que as covasinhas conservam, nos mata a sêde.
-Sabemos amar e viver, amamos e sômos felizes.
-
-—Seguiste o conselho das aves?
-
-—Segui. No dia immediato a visão sorria menos melancholica, e ao
-perguntar-lhe se devia partir, respondeu-me: Não ouviste as hervinhas do
-campo e as avesinhas do bosque. Sê humilde como ellas são, contenta-te
-com o que as satisfaz e serás então como ellas feliz.
-
-—Mas como havemos de viver assim, meu Thomaz, não podemos habitar n’um
-ninho, nem n’uma leira dos campos.
-
-—Ouve-me até ao fim. Quiz amar para ser feliz, mas todas me voltavam
-a cara, ou me apontavam dizendo: olha o Thomaz idiota, o Thomaz dos
-passarinhos.
-
-Só a minha visão me sorria boa nos ceus, emquanto todos na terra se riam
-de mim como uns maus. Perdi as esperanças de encontrar quem me tivesse
-amor, e procurei amar aquella que me queria. E sempre a via, sempre lhe
-fallava no meu querer, e ella sempre se curvava para mim e tristemente me
-dizia: estamos longe, muito longe!
-
-E entretanto as aves e as plantas contavam-me os seus amores, e
-animavam-me tambem.
-
-Vi-te, Agueda, e ao passo, que mais a meudo me appareceste mais fui
-querendo á tua presença. Por fim não podia já passar sem ti e nas horas
-em que devias chegar, mais me palpitava o coração.
-
-—Querer-me-ias, por ventura?
-
-—Não sei. Se o amor é um sentimento, que nos prende a idéa ao ente amado,
-se o amor é o sacrificio da nossa vida á que se ama, se amor é ser todo
-d’uma só mulher, e só d’ella, eu não te amo, porque bemquero áquella
-imagem, e a sua lembrança corta-me os pensamentos, que te consagro.
-Olha, não sei como te explique o que sinto. Quando quero comprehender-me
-julgo-me tambem idiota, como me chamam todos. Não ha mulher para mim que
-te valha, mais rica ou mais formosa que fosse; mas tambem nada ha, que
-seja em mim superior á idéa d’aquella imagem. Quando vou levado pelo
-pensamento para ti, surprehendo-me a meio caminho, arrependo me de me
-esquecer d’ella, e fico em doce contemplação a adoral-a. Quando ella se
-some, appareces-me tu. Sabes?... Creio que amo a ambas, a ella com o amor
-do ceu, a ti com o amor da terra.
-
-Agueda suspirou e limpou uma lagrima, que lhe escorregava pelas faces.
-
-—Porque suspiras?
-
-—Tenho ciumes da tua visão; e depois, bem vês, não poderemos casar nunca.
-
-—Sabes que lá bem longe ha terras, em que as riquezas não faltam?
-
-—Sei.
-
-—Sabes que é para bem longe que o meu bom anjo me chama?
-
-—Assim m’o disseste.
-
-—Pois se tu quizeres casar comigo, irei apoz a minha querida visão,
-seguirei o seu gesto, e tenho por fé que ao voltar serei rico, que o
-esperei sempre; serei feliz, que m’o assegurou ella.
-
-—Enlouqueceste, Thomaz?
-
-—Nunca estive mais em meu juizo.
-
-—Pois queres sósinho, sem meios, sem conhecimentos ir por esse mundo
-de Christo, atravessar os mares, fazer uma viagem tão grande! Dizem que
-d’aqui ao Brazil é um por ahi além de leguas!
-
-—Sei, que importa isso! Tenho pensado muito, comigo, aqui, e com aquella
-boa imagem além. Não tenho palavras para dizer o que vae cá por dentro
-ahi a qualquer. Póde ser que eu seja idiota, mas parece-me que mais são
-os que me chamam por não lhes fallar, nem lhes dar satisfações da minha
-vida.
-
-Humildes são as plantas, mais atrevidas as aves, mais atrevidas ainda
-as nuvens dos ares e as estrellas dos ceus. Quanto maior é o seu
-atrevimento, mais longe se levam.
-
-O homem que vive cá n’este mundo extremo de todos, sem querer deixar
-rasto de si, nem cousa alguma que o lembre, passada a sua hora, é como
-a planta, lançada á terra pela mão de Deus. Nasce, medra e morre;
-deitam-lhe a foice e fica por terra.
-
-Assim era eu. Não tinha para quem o fosse, não queria ser rico. Espera,
-dizia-me a voz; está muito longe a felicidade, repetia-me a visão, e eu
-ia esperando sem tentar os longes.
-
-Mas quando ama, não chegam para o homem alguns torrões apenas, como para
-o pé de trigo: vae longe buscar com que fazer seu ninho, percorre os
-ares como as aves: e, emquanto a esposa o espera cuidando dos filhinhos,
-trabalha elle para sustentar os outros.
-
-Assim poderia eu ser; mas não bastava.
-
-Para ti, Agueda, que vaes repartir comigo a tua vida, que te vaes enlaçar
-comigo, como a videira se enlaça no carvalho, que vaes ser minha mulher,
-sabes o que isto quer dizer, minha mulher?... não basta o bago de trigo,
-que sustenta o pardal, nem o bichinho que nutre a cotovia. Quero ir
-longe, mas tão longe como vão as nuvens e não como as aves; quero correr
-mundo, como correm as estrellas que hoje espalham aqui a sua claridade,
-depois allumiam outras terras: e mais tarde, ao voltar com dinheiro para
-ambos, com o descanço para os que hão de ser nossos, dizer-te:
-
-—Vês? É assim que um homem sabe amar.
-
-E Thomaz transfigurára-se ao dizer estas palavras; a sua belleza
-varonil assumira o que quer que era extraordinario, parecia inspirado.
-Chispavam-lhe centelhas dos olhos, aspirava com as ventas dilatadas os
-aromas da tarde, soltava os cabellos bastos á feição do vento. Erguera-se
-emquanto fallava, a sua figura parecia mais crescida. Cercava-o uma
-aureola de magestade, destacava-se do fundo escuro do tronco a que
-estivera encostado, recortava-se sobre o azul carregado do céo, como um
-d’aquelles sacerdotes das florestas gaulezas, quando colhido o agarico
-sagrado erguiam os olhos, pediam a inspiração aos numes e rasgavam o ar
-com o gesto alargando os braços sobre as multidões curvadas.
-
-Agueda desconhecia-o e pasmava.
-
-—Como és formoso assim, meu Thomaz, e como eu te avaliava tão mal,
-exclamou a pobre rapariga cedendo ao impulso da admiração.
-
-Thomaz caiu em si, e tornou-lhe tristemente:
-
-—Todos me têem julgado como eu não merecia. A solidão tem-me feito
-amadurecer muito, e se não fallo, penso. Dizem que o mocho é prudente
-e assisado, e entretanto nem trina como o rouxinol, nem canta como
-a toutinegra, nem se veste de côres brilhantes como o pintasilgo.
-Emquanto todos dormem vigia elle, emquanto folgam e brincam á luz do
-sol mergulha-se no escuro e recata-se no seu souto. As horas de solidão
-valem mezes de viver em companhia, e os dias de abandono ensinam mais do
-que os annos de carinhos e meiguices. Eu, Agueda, tenho vivido sempre
-desamparado, só e triste. Tenho pensado muito, assim eu tivesse palavras,
-como tenho idéas; mas vou a fallar, não sei, e fico-me...
-
-—Apesar d’isso dizes coisas que não comprehendo.
-
-—Que queres, os fructos quando veem ao chão, ou pedram-se e fazem-se
-ruins; ou amadurecem mais depressa. Não tinha queda para ruim,
-deitaram-me por terra, amadureci. Já foste á cova das rapozas?
-
-—Deus me livre! Apparecem por lá as almas dos defuntos. O João da Josefa
-do tio Domingos, foi lá ter atraz de uma ovelha e viu uma aventesma
-surdir-lhe de um d’aquelles buracos. Pois tu já lá foste, Thomaz!?...
-
-—Fui! Tudo quanto é fóra do commum tem agrados para mim. Procurei saber o
-que era. Entrei, e vi uma cousa que não esperava.
-
-Do tecto da cova desciam pinhas de pedras preciosas até ao chão e
-formavam columnas, como as do altar-mór da egreja; mas quanto bem mais
-formosas! Pareciam feitas de bocadinhos de espelho. A luz que entrava
-pela bocca da cova e a que eu levava do archote, saltavam de columna para
-columna, brincavam n’aquellas laminasinhas, faziam ziguezagues, voltas,
-revira-voltas, como se fossem um cardume de lusilumes. E eram luzes de
-todas as côres, azues, vermelhas, verdes, côr de rosa; como n’aquelle
-fogo de vista que deitaram os homens de Lisboa. Estonteava a vista olhar,
-andava a cabeça á roda.
-
-—Bem dizia eu, Thomaz, era obra de feitiço, para que foste lá?—E
-appareceu-te algum phantasma?
-
-—Não. Perguntei uma tarde ao sr. padre prior o que eram aquellas
-columnas, e como estavam alli em pilha tantas pedras preciosas, sem que
-tomassem conta d’ellas?
-
-—E elle o que te disse?
-
-—Que o que eu julgava serem pedras preciosas era a agua da chuva e nada
-mais.
-
-—Ora!
-
-—Era sim. Gotta a gotta ia filtrando pela rocha e pendurando-se da pedra,
-como o pingo da fonte no cazal das Cortiças, que se baloiça antes de
-caír custando-lhe tanto a despegar-se. Mal uma não caía ainda, vinha
-outra abraçar-se com ella, e prendel-a mais. As que iam ao chão seccavam
-devagarinho e deixavam a fazer altura as terras que traziam comsigo.
-Debaixo foram subindo, de cima foram descendo; e quando se uniram, estava
-a columna prompta. Vieram novas gottas, foram baixando pela columna: e
-parando aqui, detendo-se além, arrendaram-lhe o feitio, e recortaram-lhe
-as fórmas...
-
-—Pois isso póde ser!
-
-—Póde! E este milagre é obra da solidão, do socego, e da meditação bem
-escondida do mundo.
-
-A agua da chuva que cae nas ruas faz-se lama, a que cae nos campos
-secca-a o vento, ou encaminham-na os homens para as regueiras e levadas,
-a que cae com força faz cheia e arrasta tudo, a que cae de manso
-perde-se; mas a que livre do vento, e dos homens, gotteja escondida, e
-escorre devagar entregue só a si, forma columnas maravilhosas, e faz-se
-em pedras de valor. Aqui tens como eu tenho aprendido tambem. Fujo de
-tudo e de todos, escondo me, penso, medito, e aprendo.
-
-Ficaram ambos silenciosos por algum tempo. Agueda não comprehendia mas
-advinhava; Thomaz, esse que havia muito tempo não fallára tanto, parecia
-seguir callado o fio do discurso conversando comsigo. Foi a rapariga, que
-renovou o dialogo.
-
-—Pois sempre queres partir?
-
-—Quero. É tenção feita e não mudo. Espera-me tres mezes, como eu tenho
-esperado annos. Ceifaram os campos ha pouco; por ahi não ha senão
-restevas. Callaram-se os passarinhos, acabaram-se-lhes os amores, e
-somem-se para outros logares. Vou partir, Agueda, de dia seguirei o meu
-anjo, de noite a minha estrella; e, quando a relva vestir esses prados,
-quando as aves cantarem de novo, vêr-me-has regressar d’essas terras, e
-n’esta arvore onde temos passado tantas horas de felicidade, contar-te
-quanto passei por amôr de ti.
-
-Debalde procurou a rapariga despersuadil-o. O caracter de Thomaz, como
-o de todos os espiritos concentrados, era teimoso. Pensava muito em
-qualquer resolução, que devesse tomar; uma vez porém que a adoptasse,
-havia de seguil-a por força. Poucos dias depois abandonava a aldeia.
-Agueda, soluçando, acompanhava-o até duas leguas fóra do logar.
-
-Longo e triste fôra relatar a perigrinação do pobre rapaz. Pedia esmola
-para comer, quando tinha fome; deitava-se pelo caminho, quando se sentia
-cançado, ou abrigava-se em qualquer pousada, onde o deixavam dormir. Ia
-porém seguindo na mesma direcção e para onde lhe parecia acenar a figura,
-que se lhe representava em suas allucinações.
-
-Houve quem, ouvindo-lhe dizer que queria ir longe tentar fortuna, o
-alliciasse para o Brazil. Thomaz perguntou para que lado ficava o Brazil,
-deram-lhe uma direcção. Errada ou verdadeira esta direcção era a mesma
-que trouxera sempre. Acceitou.
-
-Os que já conhecem Thomaz pódem avaliar bem que desgraçado colono
-havia de ser e por quantos tormentos passaria. Entretanto nem doenças,
-nem fomes nem maus tratos, nem trabalhos superiores ás suas forças o
-desanimavam. Uma coisa só o trazia apaixonado. Não via n’aquelles céos a
-sua estrella. Nos horisontes affogueados não descortinava a sua visão.
-
-Passaram annos e Thomaz, apezar de tanto padecer, conservava ainda
-recatada na alma a santidade das suas aspirações. Ha temperas d’esta
-ordem, que como as perolas se conservam limpidas, e puras, no meio das
-correntes e das tempestades.
-
-Houve quem se condoesse da sua sorte e lhe proporcionasse passagem para
-Portugal. Acceitou-a reconhecido; perdêra todas as esperanças de ganhar
-fortuna, voltava quebrado, doente, incapaz de trabalhar, mas vinha de
-novo para terras, onde lhe apparecia o bom anjo, e a boa estrella, onde
-conhecia o cantar dos passaros e o fallar das plantas, e onde tornaria a
-vêr a sua Agueda.
-
-—E a rapariga, perguntei ao tio Joaquim, quando rematou a sua narração,
-ainda está á espera d’elle?
-
-—Olha quem! D’ahi a dois mezes fugia da terra em companhia de um soldado
-do destacamento, o Thomaz vem achar-lhe o logar.
-
-—E já sabia d’isso, hontem á noite, quando lhe contou a sua vida?
-
-—Ainda não, vinha a caminho, quando a chuva o não deixou proseguir e nos
-pediu agasalho. Hoje é que deve saber a verdade toda.
-
-—O tio Joaquim não lhe disse nada?
-
-—Não tive animo para lhe dar a noticia. Pobre homem, fugiu-lhe a noiva,
-morreu-lhe a mãe, está só!
-
-Fôra depois do jantar que o tio Joaquim me contára esta historia, a tarde
-estava muito amena, e o descair do dia ganhava os doces encantos da
-tristeza.
-
-O que ouvira harmonisava-se com o que estava vendo: e a melancholia
-começou a tomar conta de mim. Propuz ao tio Joaquim um passeio até ao
-logar para espairecer. Saimos.
-
-Á porta do boticario estava junta quasi toda a povoação; grande novidade
-ia pela botica. As velhas entravam, saiam, segredavam umas com as outras,
-levantavam os braços ao ar e voltavam para saber e contar novas coisas.
-
-Conseguimos entrar e vêr o que tanto attrahia as attenções. O pobre
-Thomaz jazia banhado em sangue. Fôra encontrado cahido no fundo de uma
-trincheira, que andavam abrindo para o caminho de ferro, e quebrára
-a cabeça e os braços de encontro ás pedras que estavam em baixo.
-Restava-lhe pouco tempo de vida.
-
-O tio Joaquim approximou-se do moribundo, elle reconheceu-o logo e
-sorriu-lhe tristemente.
-
-—O que foi isso, homem? perguntou-lhe o velho narrador.
-
-—Acertei finalmente com a felicidade, não tarda; em pouco vou ser muito
-rico.
-
-Pensaram que já estava tresvariado. O tio Joaquim, disse-lhe que
-socegasse.
-
-—Bem socegado estou, acabou-se-me para sempre a lida. Agueda, tinha-se
-cançado de esperar, nem todos têem paciencia como eu tive... Corri á
-minha arvore, já a não encontrei... tinham-na derrubado... Os campos
-estavam cortados pela estrada, as hervas calcadas pelo pisar dos
-trabalhadores do caminho, as aves tinham fugido espavoridas com os tiros
-das minas na pedreira... Aqui, como lá bem longe, estava só de todo...
-De repente, poude vêr, com os olhos arrasados de lagrimas o meu anjo no
-mesmo logar a olhar para mim como d’antes, a chamar-me como d’antes, mas
-mais triste do que nunca... Caminhei direito a elle, fitando-o sempre...
-Faltaram me os pés... Cahi... Mas sei que me hei de levantar em breve, e
-d’esta vez hei de approximar-me d’elle para não mais o deixar... Até que
-em fim... comprehendi-o... Dizia-me que estava longe... bem longe...
-
-E estava!... Conchegou-nos a morte: a felicidade... a riqueza... debalde
-as procurei na terra;... mas agora... sei que as vou encontrar... no ceu.
-
-Passada meia hora o Thomaz da tia Annica, o Thomaz dos passarinhos, como
-por alli lhe chamavam, era cadaver.
-
-
-
-
-XII
-
-A historia do narrador
-
-
-I
-
-Por mais de um mez procurára tambem saber a historia do tio Joaquim.
-Havia na tristeza, em que o velho descaia tantas vezes, quando parecia
-mais alegre, rasão sobeja para me aguçar a curiosidade. Tentára
-interrogal o; mas debalde sempre.
-
-Não era porque o tio Joaquim deixasse de me estimar devéras.
-
-Conhecêra-me de pequeno e tivera-me sempre por seu companheiro constante
-nos passeios melancholicos, em que, apoz o seu pensamento, caminhava
-horas sem dar palavra.
-
-Ia com elle, calado tambem. Respeitava a grande dôr que n’essas occasiões
-parecia opprimil-o; e não me atrevia a perturbal-o com perguntas
-indiscretas, ou observações futeis.
-
-Presentia, que um padecimento grande o envelhecêra bem cedo, e receava
-tanto mergulhar a vista nas profundezas d’aquella magua, como trepidava
-sempre ao approximar-me de um precipicio. Era o desconhecimento que me
-sobresaltava, o que quer que era extranho, que me impunha respeito.
-
-O tio Joaquim lembrava-me um d’esses livros antigos de bruxedos e
-encantamentos, que fechado poder-se-ia confundir aos olhos de um
-observador qualquer com um ripanço de semana santa; aberto porém
-espavoria a imaginação povoando a com os quadros temerosos de castellos
-encantados, florestas magicas, sortilegios infernaes, feiticeiros,
-trasgos, almas penadas e cemiterios.
-
-Levava-me o desejo a folheal-o; a duvida affastava-me de lhe tocar.
-
-Aventurára perguntas timidas em varias occasiões; mas o velho, sem que
-empregasse na resposta a natural rudeza, com que despedia os importunos
-triviaes, affastava-me brandamente do ponto a que eu desejava chegar.
-
-—Quando no jardim ou no prado colhe uma flôr não cuida das profundezas
-onde as raizes mergulham para a alimentar; quando tira da fonte uma pouca
-d’agua para abrandar a sede, não indaga por que extensões corre a veia
-que alimenta a fonte. Não cuide em devassar segredos, que de pouco lhe
-podem importar; mas que uma vez sabidos lhe hão de trazer desgosto. A
-amendoa de muitos fructos trava, emquanto elles são dôces, aproveite-se
-da polpa e não queira saber do caroço.
-
-E assim, mudando rapidamente de assumpto, evitava sempre que insistisse.
-
-Entretanto iamos muitas tardes para um logar da praia, que de preferencia
-escolhiamos por ser mais recatado e só.
-
-Entre ambos havia como que uma communhão de tristezas. Elle pelo passado,
-eu pelo futuro; elle por o que já experimentára e sentira; eu porque
-receava experimentar e sentir tambem.
-
-Emquanto o velho passava horas silencioso e triste a rever as paginas
-da sua vida, a rememorar dôres, alegrias, saudades, e amores: eu que
-ia conhecer o mundo, eu que deixava de ser creança e não começára
-ainda a ser homem, scismava no futuro para que caminhava, e devaneiava
-conjecturas sobre essa vida nova, que ia encetar. Agradava pois a ambos
-a solidão, e ambos procuravamos de preferencia os sitios, onde menos nos
-podiam inquietar os conhecidos.
-
-A praia da nossa predilecção estendia-se desde Cabo-Ruivo e o
-recolhimento do Moinho. Em frente espraiava-se o Tejo pelos juncaes, que,
-mesmo em preamar, erguiam os cimos arrouxados sobre as aguas; detraz a
-costa subia quasi a prumo para os olivaes do Casal das rolas.
-
-Uma ou outra pedra ennegrecida pelo tempo, pelo quebrar das ondas, pelos
-limos e pelas ostras que a revestiam destacava-se na arêa da praia, ou
-avultava por meio dos juncos. O rio, n’aquellas alturas quasi sempre só,
-parecia não terminar no lado opposto; porque a outra margem se confundia
-com o céo. De cima, como torre de vigia de castello antigo entrava pela
-agua dentro o pavilhão quadrado e de tecto esguio do antigo recolhimento.
-Debaixo o cabo a que pela vermelhidão do terreno tinham dado o nome de
-Ruivo, limitava o horisonte, e tirava a vista da parte do rio mais cheia
-de navios e de animação.
-
-Tudo alli era silencioso, tudo infundia sentimento, tudo convidava para a
-meditação.
-
-Torcendo-se por entre os alcantis da ribanceira, escondendo-se umas
-vezes por detraz de moitas de rosas carrasquinhas e de giestas, outras
-caminhando entre pequenas mattas de congoças, outras descobrindo-se de
-todo n’um terreno escalvado e nu, um caminho de pé posto conduzia dos
-olivaes á praia, e estabelecia communicação entre o mundo e aquelle
-retiro. Avistavamos pois a grande distancia, quando alli estavamos,
-qualquer, que do Casal descesse para a praia, e haveria por conseguinte
-facilidade de mudar de conversação, sem que nos perturbassem d’imprevisto.
-
-A meio do carreiro n’uma lapa gottejava da rocha a agua mais pura
-das visinhanças e demorava-se n’um berço de relva e musgo verde como
-esmeralda, macio como velludo, e que forrava a cova, que a agua havia
-feito. Junto á fonte algumas pedras pulidas pelo roçar continuo dos
-cantaros das raparigas dos sitios, que alli vinham buscar agua,
-offereciam um bom poiso para descançar.
-
-Era tambem alli que mais de habito nos sentavamos. O mar deante de nós,
-o ceu sobre nossas cabeças, as costas dadas ao mundo, e a imaginação a
-perder-se no espaço.
-
-Depois, quando descaia a tarde, aquelle silencio perturbado apenas pelo
-surdo marulhar das aguas, aquellas côres sombrias do mar e do ceu,
-aquelle espectaculo do infinito, que tanto nos confrange e opprime, e a
-indecisão, que nos baloiça no espirito, as duvidas que se apoderam de
-nós, sobre o que seremos, sobre o que nos tornará felizes, a lucta com
-essa terrivel e mysteriosa sphinge que se chama futuro, tudo isso me
-levava a um estado especial que muitos talvez tenham sentido, mas que
-poucos poderão definir, em que desejava sem saber o que, em que soffria e
-agradava-me o soffrimento, em que amava e debalde queria fixar o grande
-amor que sentia, em que lastimava sem que podesse explicar porque, não
-estar assim sempre, não passar d’ahi para outro mundo, outra vida, outro
-que quer que fosse, para mim desconhecido, mas que me parecia fatalmente
-destinado para me dar a verdadeira felicidade apoz a qual voava a minha
-imaginação apaixonada.
-
-Estes ataques de uma nostalgia particular traduzil-os-hia eu, se
-traducção podessem ter, como o chorar da alma infinita dentro da sua tão
-limitada prisão, pelos espaços e pelos mundos infinitos d’onde veio, e
-onde deve ir um dia.
-
-Sei, para em duas palavras me exprimir, que soffria muito, mas que era
-feliz soffrendo assim.
-
-O meu velho companheiro, esse, apenas ali chegava sentava-se n’uma das
-pedras, carregava o cachimbo, feria lume, accendia o tabaco e entrava
-a fumar; depois o pau com que começára a traçar arabescos no chão
-parava gradualmente, os braços caiam-lhe sobre os joelhos, o cachimbo
-apagava-se, e os olhos cerravam-se-lhe como se tivesse adormecido.
-
-Quando, passado tempo, parecia tornar a si, tinha os olhos vermelhos,
-o rosto abatido, o corpo quebrado. Levantava-se com muita difficuldade
-e mal se podia arrastar aos primeiros passos. Depois fazia como que um
-grande esforço sobre si, compunha a physionomia, chamava um sorriso
-bastante rebelde n’essas occasiões, e tornava a ser o tio Joaquim da casa
-da malta e do canto da lareira.
-
-Foi n’uma dessas tardes, e na praia de Cabo Ruivo, que consegui ouvir
-ao velho narrador a sua historia. Andára triste todo o dia, acabára
-de jantar, déra conta da obrigação e convidára-me para sair em sua
-companhia. Não soltára meia palavra pelo caminho e mal chegára perto
-da fonte atirára comsigo para uma d’aquellas pedras tão desalentado,
-que parecia não querer mecher-se mais d’ali. Ficara a scismar, como
-costumava; mas não seria passado ainda um quarto de hora, ao olhar para
-elle vi que lhe escorregavam as lagrimas pelas faces.
-
-—Chora, tio Joaquim?...
-
-—Não repare, atalhou elle rapidamente limpando as lagrimas, como
-envergonhado, eu tambem não reparava.
-
-—Anda sempre triste, e assim sem desabafar, bem pelo contrario
-fingindo-se alegre quasi sempre; ha de padecer muito!
-
-—Muito! Mas não tem duvida.
-
-—Diz-se que as maguas contadas são alliviadas; porque me não dá parte das
-suas tristezas?
-
-—Para quê? Com o andar do tempo não lhe faltarão proprias; deixe as
-alheias.
-
-—Cuida que sou alguma creança, tio Joaquim?
-
-—Bem sei que não é, mas...
-
-—Seria a maior prova de amisade que me podesse dar. Ha tanto tempo que
-desejo saber a sua vida!
-
-—Como deseja ouvir as historias aos serões, não é assim?
-
-—Não. Essas servem para passar o tempo, esta outra para o conhecer bem, e
-para o poder consolar.
-
-—Pois seja para me conhecer, que para me consolar não, porque não póde.
-Hoje tambem, parece-me que rebentava, se não repetisse alto o que tem
-sido a minha vida. Quando conversamos comnosco, a voz faz ecco bem fundo
-na cabeça e no coração, repercute mais e soffre dobrado. Se não tivesse
-vindo comsigo parece-me que entrava a fallar só, para ahi a essas pedras
-e a essas aguas. Oiça-me pois, já que tanto deseja saber a minha vida.
-
-E o tio Joaquim deu começo á sua historia.
-
-
-II
-
-Meus paes viviam n’uma das provincias do norte, e se não eram ricos
-tinham com que passar menos mal. Meu irmão Filippe e eu eramos os dois
-unicos filhos, e o que havia chegava bem para nós. Filippe, porque era
-o mais velho, devia ser lavrador como meu pae; eu, por ser o segundo,
-estava destinado para frade.
-
-Admira-se, porque já lá vão os frades; mas se vivesse no tempo dos
-conventos conheceria então, que de ordinario se destinava para ordens
-sacras o filho segundo em quasi todas as familias.
-
-Accrescia mais que o mestre dos noviços do convento proximo, sr. João da
-Soledade, era muito de nossa casa, e depois de ter convencido minha mãe
-de que me fazia feliz mettendo-me a frade, lhe promettera tomar-me sob
-sua protecção.
-
-Pela minha parte, posto que ninguem me consultasse o querer, parecia me
-tambem que viveria contente n’aquelle socego do convento. Via os frades
-gordos, satisfeitos, córados e risonhos sempre. Traziam-me presentes e
-davam-me dôces, faziam-me festas, e contavam-me historias, não me queria
-pois com outra gente.
-
-Em vendo habito approximava-me logo, e minha boa mãe, que a mais não
-alcançava, lia n’esta inclinação pueril uma verdadeira e pronunciada
-vocação.
-
-Assim fui creando-me n’estas idéas, até que chegou a idade de começar a
-aprender. Fr. João convenceu minha mãe, de que para o meu estudo muito
-melhor seria viver no convento do que em casa, pois que ao passo que ia
-seguindo as disciplinas com maior regularidade, ia costumando-me tambem á
-regra conventual.
-
-Frei João era para meus paes apostolo e propheta ao mesmo tempo. O que
-dizia seguia-se com reflexão. Despedi-me, chorei muito e partimos.
-
-Não tinha tamanho desafogo em casa, que extranhasse muito a vida nova que
-encetava. A companhia dos outros noviços, aquelles costumes extranhos
-para mim, aquella novidade de estudos, e mesmo o bom modo, com que Fr.
-João me tratou sempre, conseguiram que dentro em pouco me afizesse de
-todo ao recolhimento claustral.
-
-Não tinha por fóra coisa alguma, que me attraisse, e a affeição de meus
-paes e irmão, unicas de que a porta do convento me separava, não eram de
-ordem tal, que me fizesse lamentar muito o haver-me apartado do mundo.
-
-N’uma das campanhas em que entrei mais tarde ouvi contar o seguinte caso
-a um veterano, que tinha ido na legião lusitana com os francezes fazer a
-guerra da Russia.
-
-Nas noites frias e claras do norte em que a luz de umas auroras
-particulares ás terras d’aquelle paiz resplandece nos gelos, começava a
-cair neve, e os pobres soldados a cairem com ella inteiriçados e hirtos.
-Alguns cobravam forças, erguiam-se e continuavam. Outros caiam, não
-tinham forças para se mecher e ficavam por uma vez.
-
-Ao tal veterano, se lhe não accodem ainda a tempo ia succedendo este
-mesmo facto.
-
-Dizia elle, que percebia bem que ia morrer, que cada vez se enregellava
-mais, e que dentro em pouco, tinha d’isso a certeza, estaria de todo
-gellado.
-
-Sentia porém um que quer que era agradavel n’aquelle approximar da morte,
-queria evital-a mas não tinha forças, e ia sentindo sumir-se-lhe a vida
-com aquelle prazer com que nos deixamos esvaecer após a embriaguez.
-
-A solidão, tive tempo para o observar, parece-se com os gelos do norte.
-Entristece-nos, mas encanta-nos com a sua tristeza, sentimos que lhe
-devemos fugir, e conservamo-nos entretanto, parece-nos que nos esmorece a
-alma e o sentimento, mas é tão dôce esse esmorecer, como a morte após um
-desmaio, como o adormecer da creança nos braços maternos.
-
-Antes de saber o que era a vida, começava a agradar-me a morte, e sem
-transicção alguma, arrefeciam-me os ardores dos dezoito annos, com os
-frios d’aquellas sepulturas de vivos a que chamavam cellas, claustros e
-conventos.
-
-Estudava, aprendia, e meditava. Meditava sem saber em quê, porquanto o
-mundo, que eu via pelas grades do meu quarto, e o que eu phantasiava pela
-leitura dos livros da bibliotheca, differençava-se tanto do mundo real,
-que mais tarde vim a conhecer, como aquelles sonhos de madrugada, que nos
-accodem quando não dormimos de todo e quando não estamos acordados ainda,
-se distinguem da vida commum e dos acasos de todos os dias.
-
-Passava horas e horas a formar castellos no ar, vagos, indefinidos,
-indeterminaveis, e evocando phantasmas de mundos que eu não conhecia,
-mas que adivinhava. Dentro em pouco de tal fórma me costumei á reflexão
-e ao apartamento, que fugia de todos nas horas que tinha livres, para ir
-sentar-me sósinho a sonhar e a scismar.
-
-Apontavam-me no convento como modelo de bom porte, e diziam os frades aos
-meus companheiros que o amor do estudo e da reflexão me traziam assim
-embevecido.
-
-Não lhe sei dizer, o que me preoccupava, mas não era de certo o amor do
-estudo, nem o desenvolver da vocação monastica, como a vaidade dos frades
-lhes fazia suppôr. Tão entranhado estava em mim o amor da solidão, que
-nas raras vezes, em que ia visitar os meus, pouco me demorava em casa.
-Debalde a sollicitude materna me procurava deter; em vão, meu pae mesmo,
-posto que pouco dado a ternuras, me dizia que era conveniente de quando
-em quando descançar algum tempo; trabalho perdido era o de meu irmão em
-convidar-me para os divertimentos dos outros rapazes; mal saia do meu
-convento, desejava logo recolher, e estava fóra da minha cella, como o
-peixe fóra d’agua. Porque dir-lhe-hei de passagem, a estima de Fr. João
-fizera com que eu residisse n’um quarto junto do seu, e não no dormitorio
-commum com os outros educandos e noviços.
-
-Oxalá tivesse eu ficado por uma vez n’aquella sepultura!
-
-Se não fossem as visitas a minha casa, talvez não tivesse experimentado
-na minha vida o que era amor; mas tambem não teria comprado á custa de
-tormentos indisiveis essas raras e amarguradas horas de sentir apaixonado.
-
-N’estas alturas da sua historia o tio Joaquim limpou o suor que lhe
-corria a fio da testa, curvou-se para a lapasinha proxima, tomou uma
-pouca d’agua nas mãos, bebeu soffregamente; renovou a respiração umas
-poucas de vezes com força; carregou outra vez o cachimbo, accendeu-o e
-passado algum tempo proseguiu na sua narração.
-
-
-III
-
-Estudos que mais me preocupavam tinham feito com que, havia muito, não
-fosse visitar os meus. Devendo em breve tomar ordens de prima tonsura,
-este successo, que fatalmente determinava a minha vida trouxera-me
-entretido, não poucos mezes. Finalmente déra o primeiro passo solemne,
-e por conselho de Fr. João, parti a congratular-me com meus paes, da
-conquista que alcançára: e a viver por algum tempo a vida de familia
-antes que de todo me apartasse do mundo.
-
-Parti; e com a indifferença que de mim se apoderára, desde que me haviam
-destinado para o convento, passei os humbraes d’aquellas portas que então
-já eram minhas, e que não se me poderiam cerrar mais de todo, embora
-quizessem.
-
-Grandes alegrias havia em minha casa. A minha chegada encareceu-as mais
-ainda. Meu irmão estava breve para casar e a sua escolha fôra tanto do
-agrado de meus paes, que os bons velhos não cabendo em si de contentes
-não achavam mimos que lhe parecessem bastantes para com elles cercar a
-esposa futura de seu filho.
-
-Margarida era o que em linguagem commum se chama um bom casamento.
-
-Filha unica devia herdar de seus paes uma fortuna consideravel. Os seus
-haveres juntos aos bens de minha casa formariam a primeira propriedade da
-provincia.
-
-Sorria a opulencia a meus paes e embevecia-os a contemplação de um futuro
-placido e desassombrado de cuidados.
-
-Vi Margarida, e ao vêl-a, ao trocar com ella as primeiras palavras
-conheci, que tinha no peito coração, e que me corria o sangue dos vinte
-annos nas veias tremulas e agitadas.
-
-Margarida aproximava-se tambem dos vinte annos, mas toda a candura
-infantil fulgurava n’aquelle rosto, que não desabrochára ainda. Não
-tornei, por vida minha, a encontrar olhos que mais dissessem ao coração,
-quando mesmo quasi sem querer fallar se volviam serenos entre um denso
-veu de pestanas compridas e encurvadas. Toda a sua formosura estava nos
-olhos, mas esses não cediam em primores a quantos hei visto em mulher
-ou em pinturas. Fazia vontade de chorar olhar para elles, sentia se
-devoção fitando-os muito. Porque não ha como a mulher para nos fallar do
-ceu, de Deus, das coisas sagradas. Se creaturas assim corressem mundo a
-resgatar almas, se para os mais apartados da religião dirigissem um olhar
-d’aquelles dizendo magua, enthusiasmo e amor, e depois d’ahi os volvessem
-ao ceu como rasgar caminho para a alma renitente, não haveria atheu que
-resistisse, nem coração que se não dobrasse.
-
-Vendo Margarida lembrava-me do ceu, lembrando-me do ceu, accudia-me que
-professára votos que me condemnavam a um perpetuo celibato. Um circulo de
-espinhos me apertava a imaginação: e padecia, como nem os condemnados no
-inferno poderiam padecer assim.
-
-Com a candura de creança Margarida reconheceu-me desde logo como seu
-irmão. Não houve segredo que em mim não depositasse, esperança que me
-não dissesse, planos de futuro sobre que me não ouvisse, queixumes de meu
-irmão, que comigo não lastimasse.
-
-Filippe casava porque tinha de casar, estimava Margarida como podia
-estimar uma irmã ou uma parenta, e nada mais. Margarida ao contrario não
-via, não suppunha, que podesse haver homem, que valesse o seu noivo.
-Amava-o com a cegueira, com o arrebatamento, com a loucura de um primeiro
-amor.
-
-Não imagina como padeci com essas confissões arrebatadas, que me
-denunciavam um mundo de felicidades, que nem sequer entrevêra. Não
-imagina que dôr tão funda me ia direita ao coração, quando ella
-animada por aquelle amor que a aquecia e transformava, olhando-me, com
-as suas mãos nas minhas, com o seu halito a confundir-se com o meu,
-transfundia-me a electricidade que irradiava, e descrevia-me o amor que
-lhe chammejava na alma.
-
-Deixava-a como louco e ia, quantas vezes sósinho, de noite, correr por
-aquelles descampados, andar muito sem saber por onde, cançar o corpo para
-descançar o espirito, e para depois, cedendo á fadiga, poder cerrar os
-olhos por algumas horas e tentar um somno mais attribulado mesmo do que
-fôra a propria vigilia.
-
-Envelheci muito n’aquelles dias que duraram até ao casamento de meu
-irmão. Via approximar-se a epocha e não acreditava, não sei que louca
-esperança, não sei que desvario me dizia que tal casamento se não chegava
-a realisar. Parecia-me um sacrilegio, que tanto amor fosse empregado em
-tanta indifferença, parecia-me impossivel que Deus consentisse em tal.
-
-Sacrilegio era o meu amor, sacrilegio duas vezes, por que era de padre e
-porque era por uma irmã.
-
-Pelo modo como o tio Joaquim narrava a sua historia conhecia eu quanto
-elle teria padecido, e bem conforme ao que disséra antes de começar,
-presentia que outros tormentos deveria haver maiores do que as minhas
-duvidas e incertezas sobre o futuro, do que os meus sonhos e aspirações.
-
-Chegou entretanto o dia, proseguiu o velho, e não sem que a estrada
-dolorosa tivesse sido para mim bem cheia de agonias e de provações.
-Margarida não suspeitou nunca quanto eu a amava, nem sob o gelo
-apparente, em que a tanto custo me sepultava, poude perceber os ardentes
-lumes de um amor desvairado. Occasiões houve em que rasgava o peito com
-as unhas até fazer sangue, em que tremia em convulsões para resistir,
-em que me exforçava com sobrehumano impeto para não desatar em suluços;
-outras em que tive de fugir para evitar a sua presença, porque já não
-podia luctar com o impulso que me arrojava para os seus pés a dizer-lhe
-quanto a amava.
-
-E tive de assistir impassivel a todos aquelles pormenores, que me
-fallavam da felicidade futura de ambos, tive de escutar as singellas
-narrações de Margarida sobre todas essas minuciosidades, que me
-retumbavam na cabeça com estridor horrivel, porque em todas ellas
-descortinava, ou pretextos para uma caricia, ou commodos para um
-transporte, ou logar finalmente para aquelles dôces e para mim
-desconhecidos mysterios do thalamo nupcial.
-
-Os primeiros clarões da alvorada no dia do casamento, encontraram-me
-accordado ainda. Na vespera mesmo não acreditava que podesse chegar: via
-raiar a manhã e cuidava estar sonhando. Pois Margarida havia de casar!
-
-Minha familia, sem comprehender nem de leve, porque não recata mais
-cuidadosamente a abelha os seus lavores do que eu escondera de todos
-e de tudo o meu insensato amor, minha familia, digo, só experimentava
-uma pena: não ser eu quem casasse meus irmãos, porque a minha benção,
-cuidavam os credulos paes, havia de forçosamente attrahir felicidades
-sobre os esposos.
-
-Na verdade seria o ultimo sacrificio, depois do qual poderia dizer a
-Christo: tambem sei o que é o Golgotha!
-
-Pareceu-me tudo um pesadello, persuadi-me que acordaria breve de
-tão cruel illusão. Vi, ouvi, fallei, dirigiram-me perguntas, tornei
-respostas, e não soube nem sei ainda o que vi, o que ouvi, o que me
-perguntaram e como respondi. Dizem que pessoas ha que dormindo andam e
-fallam, assim devia ser o estado em que estive todo o dia.
-
-Mal poude fugir á noite, corri, corri, e quando me vi bem longe, desatei
-a chorar como me não lembrava em minha vida de ter chorado assim. Parecia
-que me estallava a alma n’aquelles soluços, mas ao correr das lagrimas um
-grande peso saia de sobre mim. Não sei como, mas chorando sempre achei-me
-de repente deante das janellas do quarto de Filippe. Estavam illuminadas,
-fitei-as com o pavor com que daria de rosto com a entrada do inferno; vi
-passar dois vultos por dentro das vidraças, reconheci-os e com a razão de
-todo perdida atirei comigo a terra, agarrei com ambas as mãos a cabeça, e
-comecei a bater com a testa, como desesperado de encontro ao chão.
-
-Com a força da dôr perdi os sentidos e para alli fiquei banhado em
-sangue, até que os raios do sol, já bem alto, me fizeram tornar em mim.
-Olhei machinalmente para a janella. Estava cerrada ainda; senti nova
-vertigem mas d’essa vez, sem me lembrar que ia banhado em sangue deitei a
-correr, o mais rapido que podia, em direcção do meu convento.
-
-Disse que uma quéda no caminho me fizera o sangue que trazia, e
-facilmente me acreditaram. A verdade, se o dissesse, é que fôra para
-duvidar.
-
-Encerrei-me na minha cella, pretextei uma doença para não sair e pedi ao
-meu bom mestre, que me ouvisse de confissão. Contei-lhe a minha historia,
-tal como se passára n’esses dias e pedi-lhe que me accudisse, pois que
-não sabia de mim. Ouviu-me o santo velho com lagrimas nos olhos, depois:
-
-—«Deus me perdôe se errei, disse-me, e mais ainda se fiz a tua
-infelicidade, Joaquim, chamando-te para o serviço do Senhor. Mas era
-impossivel que assim não fosse. Ha homens condemnados fatalmente pela
-desgraça, e tu és um d’elles. Lê-se no rosto esse infeliz condão,
-adivinhei-t’o eu, que tambem sei o que é padecer.
-
-Para dôres como a tua, para outras bem maiores ainda, se fizeram as
-solidões dos claustros e o gelo d’estes vastos carneiros. Sepulta para
-ahi a tua alma, emquanto não te sepultam o corpo, sob essas lages que
-hoje calcas, e morre já que foste condemnado a não viver. Não julgues
-cruel esta linguagem, é a que te póde fallar um amigo, quasi um pae.—O
-que sômos nós outros, pobres frades, n’este mundo? Fantasmas erradios que
-arrastamos a mortalha em vida, arrebentos solitarios, que medrâmos entre
-pedras. Para nós não ha familia, não ha esposa, não ha filhos, tudo que é
-morre comnosco, nada deixamos n’este mundo, que se lembre de que vivemos.
-
-Mais um numero n’uma pedra, um nome no livro do registro, alguns ossos
-mais n’uma cova. Torna impenetravel o teu tumulo, calafata com o maior
-cuidado qualquer orificio por mais pequeno que seja, que dê para o
-exterior, e já que nada podemos ter com o mundo aparta-te d’elle de todo.
-
-Já que não pódes ser feliz esquece, já que não pódes gosar, não sintas.»
-
-Segui á risca o seu conselho. Graças á sua protecção deixaram me na minha
-cella, mesmo porque, segundo dizia, assim me preparava pelo estudo e pela
-meditação para ordens maiores. Passou um anno. Trabalhei, estudei muito
-e como disse Fr. João da Soledade, se não fui feliz, não senti; não me
-lembrei e não padeci.
-
-
-IV
-
-O reinado de D. Miguel approximava-se da sua terminação, e a tempestade,
-que se formára n’uma pequena ilha no meio do oceano, rebentára já sobre
-todo o paiz.
-
-Armava-se a nação em peso; guerrilhas de um e outro partido percorriam as
-povoações e juntavam aos horrores da guerra civil o assassinato, o roubo,
-o incendio, o forçamento e o sacrilegio.
-
-Bem esmorecido era o ecco, que na minha cella repercutia; mas ainda assim
-por elle avaliava das borrascas, que se desencadeavam fóra. Por quanto
-ainda que procurasse apartar-me das coisas d’este mundo, por tal fórma
-andavam todos preoccupados com os acontecimentos, que se iam succedendo
-uns após outros com rapidez incrivel, que era impossivel deixar de
-perceber, que havia graves casos, a attribularem a humanidade.
-
-Fallaram-me de combates, de mortes, de incendios, de devastações; mas tal
-eu estava, que me era tudo indifferente. Antes, porém, occasiões havia em
-que, confesso-lh’o, desejava que um terremoto subvertesse o mundo para
-que na geral destruição encontrasse vingança correspondente ao que me
-haviam feito padecer.
-
-Acordei das minhas meditações uma noite, ao rebate dos sinos da povoação
-proxima e ao dobrar sinistro e precipitado da campa do nosso convento.
-Ruidos desusados eccoavam por aquellas abobadas, passos de quem fugia,
-vozes de quem pedia soccorro, supplicas, choros, imprecações tudo se
-misturava e confundia.
-
-Estava para me levantar do estudo e para saber a causa de semelhante
-alvoroto; quando a figura magestosa de Fr. João da Soledade me appareceu
-á porta da cella aberta de par em par.
-
-—Ergue-te, Joaquim, disse-me, toma as tuas sandalias e o teu bordão de
-viajante e caminha!
-
-Aquella voz fóra d’horas, aquellas palavras solemnes produziram-me
-effeito não inferior ao que deverá produzir a trombeta final no Valle de
-Josaphat.
-
-—Que quer de mim, meu pae?
-
-—Acabaram-se os dias de paz, chegaram as horas das provações e da lucta.
-Os servos do Senhor são perseguidos de terra em terra como animaes
-ferozes em montaria. Os impios não respeitam nem as abobadas sagradas,
-nem os vasos da eucharistia. Mesmo com a hostia sacrosanta na mão será o
-padre perseguido se assim o encontrarem!
-
-A espada de Malco substitue a palavra de amor. Volta a egreja aos tempos
-da perseguição e do martyrio; segue-nos, Joaquim, as aguas do diluvio
-avançam cada vez mais.
-
-Fr. João estava profundamente impressionado. A paixão politica ateava-lhe
-o zelo religioso, o homem do seculo trazia para junto dos altares as
-suas affeições mundanas, e das crenças fazia evangelhos. Pela minha
-parte, quasi que o não comprehendia. A linguagem emphatica, que
-estava empregando, destoava muito da singelleza em que educára o meu
-espirito reflexivo e concentrado. Fr. João com o olhar chammejante, o
-gesto altivo, o rosto illuminado por um enthusiasmo mais guerreiro do
-que apostolico, lembrava-me um d’aquelles monges prégadores de eras
-affastadas, que a minha imaginação tivesse feito surgir dos livros
-abertos deante de mim, e que de espada na mão direita, e crucifixo na
-esquerda, queriam abrir o caminho da redempção com o ferro destruidor,
-atravez das hostes dos infieis.
-
-—Mas, meu pae, que aconteceu?
-
-—Aconteceu, que os exercitos invasores se approximam talando campos e
-povoações; aconteceu, que na sua marcha amaldiçoada não ha propriedade
-que resista, cabellos brancos que se respeitem, honra de mulher que
-se recate; aconteceu que aos que cedem, espoliam; aos que não cedem,
-assassinam; aconteceu, que fallam em levantar mão sacrilega contra as
-muralhas defesas a profanos d’este venerando templo. Os phariseus em
-motim pedem o sangue dos justos. Deixemos a habitação de paz, d’onde nos
-expulsa a malevolencia dos impios, e vamos, como os apostolos, de terra
-em terra, de monte em monte, de caverna em caverna, onde suas vozes não
-cheguem, onde seu braço não alcance, levantar sobre a pedra tosca e rude
-a cruz do sacrificio, a hostia da redempção. Vem comnosco filho, vem
-percorrer o teu Getsemani.
-
-Entretanto o sino grande continuava a dobrar com som soturno, os
-gritos da povoação disperta em sobresalto, os passos precipitados dos
-frades, que desamparavam, gemendo, as cellas em que haviam vivido por
-tanto tempo, e onde esperavam descançar para sempre, o som ameaçador e
-irregular de um tiroteio ao longe, davam áquella scena um caracter que
-impressionava profundamente. Pela minha parte, parecia-me que um novo
-pesadello me vinha cortar a somnolencia em que demorava havia tanto;
-resistia ao movimento e prostrado de animo e de corpo, preferia que me
-matassem n’aquelles logares a ir tentar nova sorte, n’esse mundo a que
-tinha tão grande horror.
-
-Fr. João, que nos momentos solemnes parecia transformar-se, approximou-se
-de mim, tomou-me por um braço, fez levantar-me contra minha vontade, e
-bradou-me com voz terrivel:
-
-—Serás tão ingrato, que desampares teus irmãos no momento do perigo?
-Aqueceria eu por ventura a serpente no meu seio?—Seria a prova mais
-cruel, porque te quero como filho; mas bem merecido castigo, por ter
-deposto a minha ternura n’essa vil argila. Fica-te para ahi, e fique a
-minha maldição comtigo.
-
-E com tanta força me abalou, que me ia lançando por terra. Firmei-me
-porém, e respondi-lhe:
-
-—Não, meu pae, não sou ingrato. Seguil-o-hei como a sombra segue o corpo,
-como a alma segue o pensamento. Era o aspecto do mundo que me espavoria;
-voltára tão mal ferido do combate, que não seria para extranhar que
-vacillasse agora antes de vestir de novo as armas. Sabe meu pae, que
-me não arreceio nem da morte nem das provações; mas sabe tambem quanto
-me custa ir fitar de novo essa gente, que tão grandes males me causou.
-Eis porque hesitava. Aqui me tem prompto para tudo, e creia que me não
-apartarei do seu lado.
-
-O velho estendeu-me os braços, e com as lagrimas nos olhos:
-
-—Sempre o acreditei assim, meu filho: abracemo-nos, que talvez seja
-esta a ultima vez. Agora a caminho! Vamos reunir-nos a nossos irmãos e
-infundir-lhes a coragem, que nos fallece. Irmão, filho; meu filho, animo.
-
-Como um rebanho de ovelhas, que ao presentir o lobo se reunem em mó, e
-se apertam tanto, como se umas quizessem entrar nas outras; assim os
-frades se apinhavam junto ás portas do convento, espavoridos, tremulos,
-espalhando vistas atterradas para todos os lados, e escutando os
-pavorosos sons d’alarme, que estrugiam os ares.
-
-Fr. João da Soledade assumira na communidade a preponderancia, que
-a intelligencia forte e arrojada exerce sempre n’uma corporação
-naturalmente timida e indecisa. A sua presença serenou por um pouco os
-animos.
-
-Procurando dar á voz uma entoação firme, cuidou o velho em confortar
-os seus companheiros n’aquelle extremo lance, com esperanças de melhor
-futuro; em que elle acreditava menos do que ninguem.
-
-As ultimas palavras porém, foram cobertas pelos clamores de victoria,
-pelos gritos de angustia e pelos tiros de espingarda, cujos sons
-misturados e confundidos pareciam precipitarem-se sobre nós em turbilhões
-e redemoinhos como o vento da tempestade.
-
-Os religiosos estremeceram, e pensaram em fugir cada um por seu lado,
-a voz de Fr. João mais fortalecida e mais segura, tal era o poder da
-vontade n’aquella alma de ferro, alentou-os por momentos; entretanto
-os clarões do incendio tingiam de vermelho o céo e o rasto do fogo
-annunciava a approximação dos guerrilhas.
-
-Em pouco avistaram-se no cimo de um monte proximo os inimigos, deante dos
-quaes fugiam em debandada alguns miliciannos da terra, que por momentos
-tinham pensado em bater-se. Um grito unisono partiu da bocca das creanças
-e das mulheres, ao verem approximar-se aquelles homens sem piedade,
-avidos de sangue e de exterminio; os frades transidos de medo entoaram,
-erguendo os braços aos céos em signal de entranhada angustia, o psalmo
-dos agonisantes.
-
-As primeiras palavras denunciaram aos guerrilheiros a nossa presença;
-ouvimol-os distinctamente clamar:—a elles, aos mandriões dos frades,—e
-apontaram as espingardas.
-
-Ao vêl-os fazer pontaria Fr. João exclamou rapido:
-
-—Por terra, prostemos-nos, irmãos, senão estamos perdidos! Os frades
-obedeceram immediatamente; o susto mesmo deitava-os no chão; os tiros
-partiram; mas as balas silvaram por cima das nossas cabeças, e uma só
-feriu um dos religiosos, que tinha ficado mais distante.
-
-Passada a descarga ergueram-se todos, e como bando de pombas a que atirou
-o caçador, deitaram a fugir em diversas direcções, caindo, erguendo-se,
-de rastos, gritando, gemendo, mas correndo quanto podiam.
-
-Junto ás portas do convento desamparado, só ficavamos, depois da primeira
-descarga dos guerrilheiros, Fr. João da Soledade e eu.
-
-
-V
-
-Entrados apenas na povoação, começaram os guerrilheiros a saquear e a
-devastar tudo. Do logar, em que estavamos, podia-se conhecer de seus
-movimentos pelo vaguear dos archotes, pelo soltar de gritos afflictivos,
-e pelas columnas de fumo, que se ennovellavam aqui e além, sobre os
-telhados das habitações a que lançavam fogo, quando a preza os não
-satisfazia.
-
-A lembrança de Margarida, que não me tinha desamparado nunca,
-confesso-lh’o, nem mesmo quando mais fervorosas supplicas levantava ao
-céo, accudiu-me ao pensamento.
-
-—Meu pae, exclamei, fujamos, antes que caiam sobre o convento e nos
-surprehendam aqui; sigâmos pela estrada, que vae por fóra da povoação,
-e vejamos se podemos, esta noite ainda, chegar a nossa casa, avisaremos
-depois sobre o que temos que fazer.
-
-—Vamos, filho, e o Senhor se compadeça de nós.
-
-Não era o amor á vida que me apartava d’aquelles logares. Por minha
-vontade ficaria sepultado sob as ruinas do convento e fizera da minha
-cella um sepulchro. Mas a essas horas quem sabe o que seria de Margarida!
-Tremia só de o pensar, e o quadro que tinha ante os olhos mais me
-apavorava ainda; porque d’ahi concluia dos horrores, que ella poderia
-ter presenciado, se é que d’elles não tivesse sido victima.
-
-Não imagina nem por sombras o que seja uma guerra civil. Por muito que
-lhe contem, tudo fica muito abaixo da realidade. Aquella porém era guerra
-de exterminio.
-
-Desencadeavam-se odios, que estavam em incubação, havia dezenas de
-annos. Aggrediam-se visinhos, parentes, amigos e irmãos, e aggrediam-se
-tanto mais cruelmente, quanto melhor sabiam, onde haviam de ferir. Não
-poupavam ninguem, não havia recanto que valesse, não havia esconderijo
-que salvasse, não havia nem idade, nem sexo, que pozessem a coberto do
-insulto, da affronta, da violencia, tanto mais crueis quanto partiam dos
-que dois dias antes comiam á mesma mesa, e bebiam no mesmo copo.
-
-Ao romper da manhã estavamos deante da casa de meu pae. Tinham-me
-preparado para terriveis surprezas as scenas, que presenceára pelo
-caminho; o que vi, porém, sobrelevou muito ao que eu esperava.
-
-Tudo em terra, tudo saqueado, tudo roubado, e os cadaveres de meu pobre
-pae e de minha velha mãe a meio da casa, crivados de feridas...
-
-As lagrimas suffocaram o velho narrador, que teve de descançar por
-momentos antes de poder proseguir.
-
-—Descance, tio Joaquim, disse-lhe já quasi arrependido da minha
-indiscreta curiosidade, não continue, custa-lhe tanto... Outra vez me
-contará o resto.
-
-—Não, para quê? Tem de ser. Não é o contar que custa, é lembrar; e raras
-vezes me esqueço. Isto já passa, um momento de descanço e continúo.
-
-Tinham entrado em casa, e dado rigorosa busca para encontrarem os
-thesouros; que, segundo era fama na terra, havia em casa. Desesperados
-por não acharem o que esperavam, voltaram-se contra os dois velhos, que
-por mais que quizessem não os podiam satisfazer; por quanto apenas havia
-começado a guerra tinham escondido n’outra parte o seu dinheiro.
-
-Não lhe acreditaram nos juramentos, e mataram-nos barbaramente para se
-vingarem das suas negativas.
-
-—E Margarida?
-
-—Havia dias que partira para uma fazenda d’ali distante em companhia de
-meu irmão, salvára-se da morte, e da deshonra.
-
-—Pois quê?...
-
-—A tudo se atreviam aquelles homens implacaveis. Não havia barreira que
-se lhe puzesse deante, nem consideração, que os demovesse, pareciam
-furiosos.
-
-Pela convivencia soube o que eram esses desalmados, a quem o amor da
-patria servia de pretexto, e o amor da rapina estimulava unicamente.
-
-—Pois o tio Joaquim?...
-
-—Fui guerrilheiro tambem. A vista dos cadaveres de meus paes operou
-em mim uma revolução pavorosa. Tive sêde de sangue, de destruição, de
-vingança. Enterrei os dois velhos sem derramar uma só lagrima. A febre do
-exterminio requeimava-me por dentro, cravei uma cruz sobre a cova onde
-ficaram, unidos como o haviam sido sempre, e jurei que não descançaria
-emquanto tivesse forças para uma espingarda.
-
-Fr. João, que era perseguido tambem como lobo, porque todos o conheciam,
-juntou-se comigo; reunimos os mais enfurecidos do logar, aggravámos as
-feridas dos que mais haviam padecido, e levantámos uma guerrilha das mais
-afamadas n’aquelles tempos, e bem conhecida pelo nome de—guerrilha do
-frade.—
-
-Luctámos, luctámos com encarniçamento sem egual, e parecia que as forças
-se nos augmentavam com a lucta. Andei n’aquella vida errante perto de um
-mez, sem dormir uma noite somno que aproveitasse, sem ter duas horas de
-descanço, sem ter um momento sequer para pensar no passado, ou no futuro.
-
-Seguiam-se os combates, as embuscadas, as fugas, os ataques, sem
-descontinuarem, sem interrupção alguma. Era preciso homens de ferro para
-aquella vida, e entretanto, de tal fórma o furor nos trazia incendidos,
-que ao cabo do mez parecia que mal haviamos começado.
-
-Um dia ao amanhecer, um dos nossos, que andava por fóra veiu avisar-nos
-de que outra guerrilha se approximava, da qual se contavam proezas
-inauditas.
-
-Esperámol-a e saimos-lhe a caminho, desejosos de nos medir com esses tão
-celebrados inimigos.
-
-Durou quatro horas o fogo, batemo-nos como desesperados de parte a parte,
-até que fugiram em debandada, deixando o campo juncado de cadaveres. Dos
-nossos a perda fôra consideravel tambem, e Fr. João agonisava com uma
-bala nos pulmões. Saia-lhe da bocca sangue e espuma, soluçava que fazia
-horror ouvil-o, e expirou-me nos braços, procurando debalde articular
-algumas palavras.
-
-Corremos a revistar os mortos que os contrarios haviam deixado
-insepultos. Entre os cadaveres reconheci meu irmão!...
-
-
-VI
-
-Estava castigado do que havia feito como guerrilheiro; a minha campanha
-estava concluida. Tinha corrido ás armas para vingar a morte de meus
-paes, e arrojava a espingarda homicida diante do cadaver de meu irmão.
-
-Triste periodo da minha vida, entre duas sepulturas; e sepulturas dos
-meus mais proximos parentes!
-
-A guerra estava a acabar.
-
-Tinha-se assignado a convenção de Evora-Monte, por toda a parte os
-vencidos depunham as armas, e procuravam salvar-se das represalias pela
-fuga, ou pelo homisio.
-
-Caminhei sem saber como, nem por onde, para fugir ao ensanguentado
-espectro de meu irmão, que parecia perseguir-me, trazendo apoz si
-as victimas de quantos haviam perecido aos nossos tiros; os meus
-companheiros tresmalharam-se em diversas direcções. Separámo-nos, como
-nos haviamos reunido, sem pena nem saudades. Apesar de termos vivido
-tanto tempo juntos, quasi que nem nos conheciamos.
-
-Á noite entrei na povoação.
-
-Bati a uma casa, que, semelhante a sentinella perdida, estava mais
-affastada das outras. Abriram-me a porta, soltaram um grito ao vêr-me:
-eu ia dando no chão. Reconheci Margarida.
-
-—E Filippe?
-
-Pareceu-me que assim devera ser a voz do Senhor, quando bradou ao
-primeiro fratricida:
-
-—Cain, que fizeste de teu irmão Abel?
-
-Não tive forças para negar, exclamei-lhe em resposta:
-
-—Morto!
-
-E desatei a soluçar, escondendo o rosto entre as mãos.
-
-Á minha vista parecia ter adivinhado tudo com essa lucidez, que dá o
-sentimento. Eu não podéra resistir á voz da consciencia, que parecia
-accusar-me pela bocca de Margarida.
-
-A desgraçada viuva caiu fulminada. Quando tornou a si tinha enlouquecido.
-
-Aquelle viver de sustos e de inquietações constantes de tal fórma lhe
-haviam excitado o espirito, que um golpe tão profundo assim rapido, quasi
-inesperado, achou-a sem forças para o aguentar. Ao menos deixava de
-padecer.
-
-Durou alguns mezes ainda. E tudo quanto até então eu tinha experimentado,
-poderia dizer se brinco de creanças comparado aos tormentos que aturei
-durante esses mezes.
-
-Não soube nunca onde meus paes tinham escondido os seus bens. Estavamos
-pobres, e Margarida, que se definhava a olhos vistos, reclamava cuidados
-e despezas que me obrigaram a vender quanto possuia, e a trabalhar de
-noite e de dia para acudir á pobre enferma.
-
-Amára Margarida com toda a vehemencia do primeiro e ultimo amor. A
-paixão mais energica do homem, a que o arroja ás maiores emprezas, ou o
-precipita até ás acções mais vis, tinha rebentado em mim com toda a força
-ao vêr aquella santa e boa rapariga.
-
-Aprendera com ella o que era amor, e soffrera tanto mais, quanto via
-que era por outro que ella experimentava sentimento egual ao meu. Agora,
-porém, tinha-a a meu lado sempre; mas como morta ou peor ainda, porque
-horrorisavam e arrefeciam mais aquelles transportes de loucura, do que
-os gelos e o pavor da sepultura. Ouvi-a de noite e de dia chamar por um
-nome que não era o meu, e cada vez que lh’o ouvia, parecia que com elle,
-d’aquella bocca pela qual para que desabrochasse n’algumas palavras de
-amor, eu déra a vida, saía uma accusação, um anathema contra mim.
-
-O nome do meu rival, de quem me não podia vingar porque estava morto,
-esse nome que ouvia a todos os momentos, era o de meu irmão, morto pelos
-meus, talvez por mim; e eu vivia para que Margarida me recordasse a todos
-os momentos: a mesma bala que commettera um fratricidio, enlouquecera a
-unica mulher que havia amado.
-
-Adivinha o resto; nem mesmo eu teria forças para continuar por muito
-tempo.
-
-Margarida morreu. Eu estava só, sem meios, cercado de terriveis
-recordações. Fugi a esse mundo de pavorosos espectros, e vim por ahi
-abaixo procurar no trabalho o esquecimento. Tenho trabalhado; mas não
-poude esquecer ainda!...
-
-
-VII
-
-O tio Joaquim acabára de fallar e parecia ouvil-o ainda. Tinham ficado
-resoando-me as suas palavras, como a pancada do sino depois de tangido,
-e que por muito tempo vae abalando o espaço.
-
-Já de muito anoitecera. Com a noite começára a carregar-se o céo, a
-encapellar-se o mar, a desencadear-se o vento. Rugia a tempestade, quando
-o velho concluiu. O ribombo do trovão abafou-lhe as ultimas palavras. A
-natureza parecera querer accrescentar um côro magestoso áquella eloquente
-manifestação.
-
-Lancei os olhos em roda; levantei-me, dei o braço ao narrador, e
-começámos a descer pela encosta com extrema difficuldade, porque já fazia
-muito escuro.
-
-O tio Joaquim não dava por coisa alguma, deixava conduzir-se como uma
-creança. Não parecia d’este mundo.
-
-Ao voltar para uma azinhaga que no fim da praia cortava para a estrada,
-volvi os olhos para o mar, que cada vez se embravecia mais, e vi á luz de
-um relampago o sitio, onde sentado havia pouco, tinha ouvido a historia
-do velho.
-
-Comparei aquellas duas tempestades: a que ribombava surdamente na alma do
-velho, e a que estalava nos ares levantando em escarceus a agua do mar, e
-varrendo a terra com o furioso soprar do furacão.
-
-Quanto era superior o padecimento do velho!—E entretanto d’ali a poucas
-horas a natureza descançava d’aquella convulsão violenta; mas o tio
-Joaquim continuava a padecer, suspirando pela tardia hora do repouso.
-
-Só a natureza póde descançar porque é immortal; para o homem o descanço
-chega, apenas, quando lhe começa a immortalidade.
-
-Finalmente o tio Joaquim tambem descançou.
-
-
-FIM
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] Na manhã do dia seguinte áquelle, em que este pequeno conto apparecia
-publicado, recebia o auctor uma carta do sr. A. F. de Castilho, em que
-dizia: _amigo, pelos seus retratos de familia receba um bom abraço do
-seu etc., etc._ Estas poucas palavras valeram para a pessoa a quem se
-dirigiam, mais do que largos e empolados juizos criticos. Regista-as
-aqui, não por vaidade, não por desvanecimento; mas só como um testemunho
-da verdadeira estima e profunda gratidão, que tributa ao grande poeta.
-
-[2] S. Lucas—Cap. 6.º—V.º 25 e 26.
-
-[3] S. Matt.º Cap. 6.º V.º 28 30 31 32 33 34.
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Os contos do tio Joaquim, by
-Rodrigo Botelho da Fonseca Paganino
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS CONTOS DO TIO JOAQUIM ***
-
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