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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Electra - Drama em cinco actos - -Author: Benito Pérez Galdós - -Translator: José Duarte Ramalho Ortigão - -Release Date: September 7, 2020 [EBook #63145] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELECTRA *** - - - - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net - - - - - - - - - - - PÉREZ GALDÓZ - - ELECTRA - - DRAMA EM CINCO ACTOS - - VERSÃO PORTUGUEZA - DE - RAMALHO ORTIGÃO - - PORTO - LIVRARIA CHARDRON - De Lello & Irmão, editores - 1901 - - Unica traducção portugueza auctorisada pelo auctor - - _Porto—Imprensa Moderna_ - - - - -ACTO PRIMEIRO - - Sala sumptuosa no palacio dos senhores de Garcia Yuste. Á - direita, sahida para o jardim. Ao fundo, communicação para - outras salas do palacio. Á direita, no primeiro plano, porta - dos quartos d’Electra. - - -SCENA I - - MARQUEZ E JOSÉ - -_José_ - -Estão no jardim... Vou dar parte. - -_Marquez_ - -Espera lá. É esta a primeira visita que faço aos senhores de Garcia Yuste -no seu palacio novo... Deixa-me dar uma vista d’olhos... Está n’um grande -pé... Bem hajam os que tão bem empregam o seu dinheiro! Porque não é -sómente o seu estado de casa, é o bem que fazem, o generosos que são em -obras pias... - -_José_ - -Oh! lá isso...! - -_Marquez_ - -E tão mettidos comsigo! tanto da paz e do socego do lar!... Ainda que, -segundo cuido, ha novidade agora na familia... - -_José_ - -Novidade? Ah! já sei... Quer o snr. Marquez referir-se... - -_Marquez_ - -Escuta, José! Promettes fazer o que eu te peça? - -_José_ - -Já o snr. Marquez sabe que eu me não esqueço nunca dos quatorze annos que -servi na sua casa... O snr. Marquez manda, não pergunta. - -_Marquez_ - -Pois venho cá de proposito para conhecer essa interessante senhorita, que -os teus amos trouxeram agora d’um collegio de França... - -_José_ - -A senhorita Electra. - -_Marquez_ - -Podes dizer-me se os senhores estão contentes com essa nova sobrinha? É -pessôa amoravel, agradecida? - -_José_ - -Oh! n’esse particular!... Os senhores morrem por ella... Sómente... - -_Marquez_ - -Quê? - -_José_ - -A menina é travessasita... - -_Marquez_ - -A edade! - -_José_ - -Brincalhôna, oh! mas brincalhôna, que se não faz uma ideia... - -_Marquez_ - -Mas diz que é linda, que é um anjo... - -_José_ - -Um anjo sim, se ha anjos parecidos com mafarricos... É que nos põe o sal -na moleira a todos cá de casa! - -_Marquez_ - -Estou morto por conhecêl-a! - -_José_ - -No jardim a encontra o snr. Marquez. É lá que passa as manhãs pondo em -redemoinho tudo. - -_Marquez_ - -(_olhando para o jardim_) Lindo jardim, bello parque, as velhas arvores -do antigo palacio das Gravelinas... - -_José_ - -É exacto. - -_Marquez_ - -O grande predio, ao fundo da alameda, é tambem dos senhores de Yuste? - -_José_ - -Tambem. Com entrada pelo jardim e pela rua. Em baixo tem o seu -laboratorio o sobrinho dos patrões, o senhorito Maximo, primeiro dos -trunfos de Hispanha nas mathematicas, e... na outra coisa... na... - -_Marquez_ - -Bem sei... Chamam-lhe o _Magico prodigioso_... Conheci-o em Londres... -ainda a mulher d’elle era viva. - -_José_ - -Morreu em fevereiro do anno passado... e deixou-lhe dois filhos, dois -amores! - -_Marquez_ - -Ultimamente renovei com elle o meu antigo conhecimento, e, apesar de nos -não visitarmos, por certos motivos, somos muito amigos. - -_José_ - -Tambem eu gósto d’elle. Optimo sujeito...! - -_Marquez_ - -E outra coisa: não estão arrependidos os teus amos de terem mettido em -casa esse diabretesito? - -_José_ - -(_receoso de que venha gente_) Eu direi a V. Ex.ª... Tenho notado... (_Vê -vir D. Urbano pelo jardim_) Ahi vem o senhor. - -_Marquez_ - -Põe-te a andar. - - -SCENA II - - MARQUEZ E D. URBANO - -_Marquez_ - -(_abrindo-lhe os braços_) Querido Urbano! - -_Urbano_ - -Marquez! ditosos olhos!... - -_Marquez_ - -E Evarista? - -_Urbano_ - -Bem... Sómente extranhando muito as grandes ausencias do marquez de -Ronda... - -_Marquez_ - -Oh! você não imagina o inverno que passámos... - -_Urbano_ - -E Virginia? - -_Marquez_ - -Assim, assim... Sempre achacada, mas reagindo constantemente pela força -de uma vontade tenaz, cabeçuda lhe chamarei. - -_Urbano_ - -Pois ainda bem! ainda bem!... Com quê... quer que desçamos ao jardim? - -_Marquez_ - -Vamos já! Deixe-me tomar assento, pouco a pouco, na sua casa nova... -(_Senta-se_) E conte-me lá, querido, conte-me d’essa menina encantada, -que foram buscar ao collegio. - -_Urbano_ - -Não, não estava já no collegio. Tinha ido para Hendaya, para uns parentes -da mãe. Eu nunca fui muito da opinião de a trazer para cá. Mas Evarista -emprehendeu n’isso... Quer sondar o caracter da pequena, apurar se -d’ella se poderá fazer uma mulher em termos, ou se nos estará destinada -a vergonha de a vêr herdar as tendencias da mãe... Você sabe que era uma -prima irmã de minha mulher; e escuso de lhe lembrar os escandalos que deu -essa Eleuteria desde o anno de 80 a 85. - -_Marquez_ - -Nem me fale n’isso! - -_Urbano_ - -Emfim, foi a ponto de que a familia, vexada, rompeu com ella de todo e -para sempre! Esta menina, agora, cujo pae se não sabe quem seja, criou-se -com a mãe até os cinco annos. Depois levaram-a para as Ursulinas de -Bayona. Lá, ou por abreviar ou pelo que fosse, puzeram-lhe esse nome, -exquisito e novo, de Electra. - -_Marquez_ - -Novo, propriamente, não. Á pobre mãe—coitadita—Eleuteria Dias, todos -nós, os intimos da casa, lhe chamavamos tambem Electra, em parte -talvez por abreviatura, e em parte porque ao pae, militar valente mas -assignaladamente desditoso na vida conjugal, tinham posto a alcunha de -_Agamemnon_. - -_Urbano_ - -D’essa não sabia... Tambem nunca vivi com elles. Eleuteria, pela fama que -tinha, figurava-se-me uma creatura repugnante... - -_Marquez_ - -Por amor de Deus, querido Urbano, não sejamos pharisaicos... Lembre-se -que Eleuteria—a quem chamaremos _Electra I_—mudou de vida, ahi por 88... - -_Urbano_ - -E não deu pouco que falar esse arrependimento tambem. Lá foi morrer -a S. João da Penitencia, em 95, regenerada, abominando a monstruosa -libertinagem da sua vida... - -_Marquez_ - -(_como quem lhe reprehende o rigorismo_) Deus lhe perdoou... - -_Urbano_ - -Sim, sim... perdão, esquecimento... - -_Marquez_ - -E tratam então agora de tentear _Electra II_ a vêr se inclinará para bem -ou se lhe dará para mal... Que resultado vão dando as provas? - -_Urbano_ - -Resultados obscuros, contradictorios, variaveis de dia para dia, de -hora para hora. Ha momentos em que ella nos revela qualidades sublimes, -mal encobertas pela sua innocencia; outros, em que nos apparece como a -creatura mais doida a quem Deus deu licença de vir ao mundo. Tão depressa -encanta pela sua candura angelica como aterra a gente pelas diabolicas -subtilezas que desfia da sua propria ignorancia. - -_Marquez_ - -Natural desequilibrio da edade, excesso de imaginação, talvez. É esperta? - -_Urbano_ - -Como a electricidade em pessoa, mysteriosa, repentista, de grande tino. -Destroe, transtorna, perturba, illumina. - -_Marquez_ - -(_levantando-se_) Fervo em curiosidade. Vamos vêl-a. - - -SCENA III - - MARQUEZ, URBANO, CUESTA, pelo fundo - -_Cuesta_ - -(_entra com mostras de cançaço, tira do bolso a carteira de negocios, e -dirige-se á mesa_) Marquez... Tudo bom por cá? - -_Marquez_ - -Oh! grande Cuesta! que nos conta o nosso incançavel agente? - -_Cuesta_ - -(_senta-se. Revela um padecimento de coração_) O incançavel... começa a -cançar. - -_Urbano_ - -Homem! e que me dizes da alta d’hontem no Amortisavel? - -_Cuesta_ - -Veio de Paris com dois inteiros. - -_Urbano_ - -Fizeste a nossa liquidação? - -_Marquez_ - -E a minha? - -_Cuesta_ - -Estou com isso... (_Tira papeis da carteira e escreve a lapis_) N’um -instante saberão as cifras exactas. Tirou-se todo o partido que se podia -tirar da conversão. - -_Marquez_ - -Naturalmente... Sendo o typo de emissão dos novos valores 79,50... tendo -nós comprado por preço muito baixo o papel recolhido... - -_Urbano_ - -Naturalmente... - -_Cuesta_ - -O resultado foi enorme. - -_Marquez_ - -Querido Urbano, esta facilidade com que se enriquece é positivo que dá o -amor da vida e o enthusiasmo da belleza humana. Vamos para o jardim. - -_Urbano_ - -(_a Cuesta_) Vens? - -_Cuesta_ - -Preciso de dez minutos de silencio para pôr em ordem os meus apontamentos. - -_Urbano_ - -Deixamos-te em socego. Não queres nada? - -_Cuesta_ - -(_abstrahido nas suas contas_) Não... quero dizer... Sim: manda-me vir um -copo de agoa. Estou abrasado. - -_Urbano_ - -Immediatamente. (_Sae com o Marquez para o jardim_) - - -SCENA IV - - CUESTA E PATROS - -_Cuesta_ - -(_corrigindo as suas notas_) Ah! cá está o erro. Aos de Yuste toca... um -milhão e seiscentas mil pezetas. Ao marquez de Ronda, duzentas e vinte -e duas mil... Temos que descontar as doze mil e tanto, equivalentes aos -nove mil francos... (_Entra Patros com copos d’agoa, caramellos e cognac. -Espera que Cuesta termine a sua conta_) - -_Patros_ - -Ponho aqui, D. Leonardo? - -_Cuesta_ - -Põe e espera um instante... Um milhão e oitocentos... com os seiscentos -e dez... fazem... claro! está certo. Bem bom! bem bom!... Com que então, -Patros... (_tira do bolso dinheiro, que lhe dá_) Toma lá! - -_Patros_ - -Muito obrigado! - -_Cuesta_ - -E já te aviso que espero de ti um favôr... - -_Patros_ - -Dirá, D. Leonardo. - -_Cuesta_ - -Pois, minha amiga... (_remechendo um caramello_) Escuta... - -_Patros_ - -Não quer cognac?... Se vem cançado, a agoa só pode fazer-lhe mal. - -_Cuesta_ - -Sim: deita um poucochito... Pois o que eu quereria...—Não vás pôr -malicia no que a não tem: sentido!—o que eu quereria era falar alguns -momentos, a sós, com a senhorita Electra. Conhecendo-me como me conheces, -comprehenderás de certo que o meu fim é o mais honrado e o mais digno... -Mas sempre t’o digo para te tirar todo o escrupulo... (_Recolhe os -papeis_) Antes que venha alguem, poderás dizer-me que occasião e que -logar será melhor? - -_Patros_ - -Para dizer duas palavras á senhorita Electra... (_meditando_) terá de ser -então quando os senhores estiverem com o procurador... Eu verei. - -_Cuesta_ - -Se pudesse ser hoje, melhor. - -_Patros_ - -Ainda cá volta hoje? - -_Cuesta_ - -Volto. Avisa-me. - -_Patros_ - -Esteja certo. (_Recolhe o serviço e sae_) - - -SCENA V - - CUESTA E PANTOJA, que entra em scena meditabundo, abstraído, - todo vestido de preto - -_Cuesta_ - -Amigo Pantoja, salve-o Deus! Como vamos? - -_Pantoja_ - -(_suspira_) Vivendo, amigo, que é o mesmo que dizer: esperando. - -_Cuesta_ - -Esperando melhor vida... - -_Pantoja_ - -Padecendo n’esta o que Deus determine para merecer a outra. - -_Cuesta_ - -E de saude que tal? - -_Pantoja_ - -Mal e bem. Mal, porque me affligem desgostos e achaques; bem, porque me -apraz a dôr, e me regosija o soffrimento. (_Inquieto, e como dominado por -uma ideia fixa, olha para o jardim_) - -_Cuesta_ - -Que ascetico vem hoje! - -_Pantoja_ - -Olhe que cabecinha de vento a d’aquella Electra...! Lá vae ella de -corrida com os pequenos do porteiro, com os dois filhos do Maximo, e -ainda com filhos dos visinhos. Quando a deixam n’aquellas travessuras de -creança é que ella é feliz. - -_Cuesta_ - -Adoravel creaturinha! Que Deus a fade bem, para ser uma mulher como se -quer! - -_Pantoja_ - -D’aquella graciosa boneca, d’aquella voluvel menina facilmente se poderia -tirar um anjo; da mulher que ella ha de ser, não sei. - -_Cuesta_ - -Não o entendo bem, amigo Pantoja. - -_Pantoja_ - -Entendo-me eu... Olhe, olhe como brincam... (_Assustado_) Deus de -misericordia! quem é que vae com ella?... Não é o marquez de Ronda? - -_Cuesta_ - -Elle mesmo. - -_Pantoja_ - -Que corrupto homem! Tenorio da geração passada não se decide a jubilar-se -para não dar um desgosto a Satanaz! - -_Cuesta_ - -Para que mais uma vez se possa dizer que não ha paraizo sem serpente... - -_Pantoja_ - -Para isso não! serpente já tinhamos. (_Passeia nervoso e displicente pela -sala_) - -_Cuesta_ - -E diga-me, passando a outra coisa: teve já noticia do dinheirão que lhes -trouxe? - -_Pantoja_ - -(_sem prestar grande attenção e fixando-se n’outra ideia que não -formúla_) Ah! sim, já... Ganhou-se muito. - -_Cuesta_ - -Evarista completará agora a sua grande obra religiosa. - -_Pantoja_ - -(_maquinalmente_) Sim. - -_Cuesta_ - -E poderá o amigo Pantoja consagrar muito maiores recursos a S. José da -Penitencia. - -_Pantoja_ - -Sim... (_Voltando á sua ideia fixa_) Serpente já tinhamos... Que dizia, -amigo Cuesta? - -_Cuesta_ - -Dizia eu... - -_Pantoja_ - -Desculpe interrompel-o... Sabe se sempre é certo que o nosso visinho -de defronte, o nosso maravilhoso sábio, inventor e quasi thaumaturgo, -projecte mudar de casa? - -_Cuesta_ - -Quem? Maximo? Acho que sim... Parece que em Bilbau e em Barcelona acolhem -com enthusiasmo os seus admiraveis estudos para novas applicações da -electricidade; e lhe offerecem todos os capitaes que elle queira para -proseguir nas experiencias que encetou. - -_Pantoja_ - -(_meditativo_) Oh! capitaes eu lh’os daria tambem, comtanto que... - - -SCENA VI - - PANTOJA, CUESTA, EVARISTA, URBANO E O MARQUEZ, que veem do - jardim - -_Evarista_ - -(_soltando o braço do Marquez_) Bons dias, Cuesta. Pantoja, quanto estimo -vêl-o! (_Cuesta e Pantoja inclinam-se e beijam-lhe respeitosamente a mão. -A senhora de Yuste senta-se á direita; o Marquez em pé ao lado d’ella. Os -outros agrupam-se á esquerda falando de negocios._) - -_Marquez_ - -(_reatando com Evarista uma conversação interrompida_) Por este andar a -minha boa amiga não sómente passa á Historia mas passa a figurar tambem -no _Anno Christão_. - -_Evarista_ - -Não me gabe por coisas em que não ha merecimento nenhum, Marquez... -Não temos filhos: Deus cumula-nos de riqueza. Temos em cada anno uma -herança. Sem trabalho nenhum—nem, sequer o de discorrer—o excesso dos -nossos rendimentos, habilmente manejados pelo amigo Cuesta, capitalisa-se -sem darmos por isso, e cria novas fontes de dinheiro. Se compramos uma -quinta, a subida dos productos triplica n’esse mesmo anno o valor da -terra. Se ficamos senhores de um baldio inteiramente sáfaro, acontece -que no subsolo se descobre um jazigo immenso de carvão, de ferro ou de -chumbo... Que quer dizer tudo isto? - -_Marquez_ - -Quer dizer—acho eu—que quando Deus multiplica tantas riquezas sobre quem -nem as deseja nem as estima, bem claramente elle está indicando que as -concede para que sejam empregadas em servil-o. - -_Evarista_ - -É claro. Interpretando-o tambem assim, eu apresso-me a cumprir a vontade -de Deus. O dinheiro que Cuesta nos veio hoje trazer apenas me passará -pelas mãos, e com elle completarei a somma de sete milhões consagrados -á obra do Santo Patrocinio. E mais farei para que a casa e o collegio -de Madrid tenham o decoro e a magnificencia adequada a um tão grande -instituto. Desenvolveremos tambem as obras do collegio de Valencia e do -de Cadiz... - -_Pantoja_ - -(_passando para o grupo da direita_) Sem esquecer, minha senhora, a casa -dos altos estudos, a sua escola de instrucção superior, que virá a ser o -santuario da verdadeira Sciencia. - -_Evarista_ - -Bem sabe que é esse o meu constante pensamento. - -_Urbano_ - -(_passando tambem para a direita_) N’isso se pensa n’esta casa de noite e -de dia. - -_Marquez_ - -Admiravel, minha querida amiga, admiravel! (_Levanta-se_) - -_Evarista_ - -(_a Cuesta, que igualmente tem passado para a direita_) E agora, amigo -Leonardo, que vamos fazer? - -_Cuesta_ - -(_sentando-se ao lado de Evarista, a quem propõe novas operações_) Por -hoje nos limitaremos a metter algum dinheiro... - -(_Pantoja, em pé, colloca-se á esquerda de Evarista_) - -_Marquez_ - -(_passeando na scena com Urbano_) Ha de permittir, querido Urbano, que, -proclamando os merecimentos sublimes da senhora de Garcia Yuste, eu não -deite em sacco roto os nossos: falo da minha mulher e de mim. Saberá que -Virginia já fez a caridade de transferir para as Escravas de Jesus um bom -terço da nossa fortuna... - -_Urbano_ - -Das mais solidas da Andaluzia. - -_Marquez_ - -E por nosso testamento deixamos tudo a essas senhoras, menos a parte -destinada a certos encargos e aos parentes pobres. - -_Urbano_ - -Ora vejam lá!... Mas, segundo me constou, o Marquez aqui ha annos parece -que não via com enthusiasmo illimitado que a piedade da marqueza, minha -senhora, se tornasse tão angelicamente dispendiosa... - -_Marquez_ - -É certo... mas converti-me. Abjurei todos os meus erros. A minha mulher -catechisou-me. - -_Urbano_ - -Exactissimamente o que me succedeu a mim. Evarista virou-me com o forro -de santo para fóra. - -_Marquez_ - -Para conservar a paz e estabelecer a harmonia conjugal, principiei -por contemporisar, continuei contemporisando... Pois, meu amiguinho, -contemporisação foi ella que, a pouco e pouco, cheguei ao que se vê: Sou -um escravo... das _Escravas de Jesus_! E não me arrependo. Vivo n’uma -placidez beatifica, curado de todas as inquietações da minha vida. E -estou já agora a convencer-me de uma coisa: é que a minha mulher não -sómente salva a sua alma, mas que me salva a minha tambem! - -_Urbano_ - -Pois é o que eu egualmente recommendo cá em casa: que não se esqueçam, -podendo tambem ser, de me salvar a mim! - -_Marquez_ - -Nós, homens, não temos iniciativa para nada. - -_Urbano_ - -Absolutamente para nada! - -_Marquez_ - -Verdade seja que ás vezes até o que se chama respirar nos prohibem! - -_Urbano_ - -Prohibida a respiração... Conheço! - -_Marquez_ - -Mas vivemos em paz. - -_Urbano_ - -E servimos a Deus sem esforço nenhum. Isso é que é. - -_Marquez_ - -As nossas mulheres lá vão adeante de nós, por esse bemdito caminho da -eternidade, pela gloria fóra; e podemos estar socegados, que nos não -deixam na estrada. - -_Urbano_ - -Pois! é a sua obrigação. - -_Evarista_ - -Urbano?... - -_Urbano_ - -(_acudindo pressuroso_) Menina... - -_Evarista_ - -Põe-te á disposição de Cuesta para a liquidação e para a entrega aos -padres. - -_Urbano_ - -Hoje mesmo. (_Cuesta levanta-se_) - -_Evarista_ - -E outra coisa: faze-me favor de chegar ao jardim, e dizer a Electra que -tem já tres horas de brincadeira. - -_Pantoja_ - -(_imperioso_) Que se venha embora. É brincar de mais. - -_Urbano_ - -Vou já. (_Vendo vir Electra_) Ella ahi vem. - - -SCENA VII - - ELECTRA, atraz d’ella MAXIMO - -_Electra_ - -(_Entra a correr e a rir, perseguida por Maximo, a quem ganhou na -corrida. O seu riso é de medo infantil_) Bem feito, que não me pilhas!... -Enraivece-te, brutamontes! - -_Maximo_ - -(_traz em uma das mãos varios objectos que indicará, e na outra um ramo -de choupo, que esgrime como um chicote_) Eu te digo se te pilho ou não, -selvagem! - -_Electra_ - -(_sem fazer caso dos que estão em scena, corre a casa com infantil -ligeiresa e vae refugiar-se no vestido de D. Evarista, ajoelhando-se-lhe -aos pés e abraçando-a pela cinta_) Estou salva!... Tia, ponha-o fóra! - -_Maximo_ - -Ah! já foges! já tens medo, minha menina! - -_Evarista_ - -Mas, filha da minh’alma! quando é que terás modos de senhora? E tu, -Maximo, és tão creança como ella. - -_Maximo_ - -(_mostrando as coisas que traz_) Vejam o que esse demonico me fez. -Quebrou-me estes dois tubos... E olhem o estado em que poz estes papeis, -contendo calculos que representam um trabalho enorme. (_Mostra os papeis -suspendendo-os de alto_) D’este fez uma passarola; este deu-o aos -pequenos para pintarem elephantes, burros e um couraçado a atirar balas a -um castello... - -_Pantoja_ - -Então ella foi ao laboratorio? - -_Maximo_ - -E revolucionou os pequenos... Revolveram-me tudo! - -_Pantoja_ - -(_com severidade_) Isso, menina... - -_Evarista_ - -Electra! - -_Marquez_ - -(_enthusiasmado_) Electra! Encanto de menina grande! Bemditas -travessuras! - -_Electra_ - -Eu não lhe quebrei os tubos. Não ha tal! Foi Pepito que lhe fez esse -obsequio. Os papeis, sim senhor; fui eu que peguei n’elles, imaginando -que não serviam para nada com os hediondos esgaravunhos que tinham. - -_Cuesta_ - -Basta! haja pazes! - -_Maximo_ - -Pois vá lá, por esta vez... (_a Electra_) Perdôo-te. Deves-me a -vida... Toma lá. (_Entrega-lhe a chibata; Electra recebe-a, e bate-lhe -brandamente_) - -_Electra_ - -Toma agora tu! Esta é pelo que me disseste. (_Batendo-lhe com mais -força_) Esta agora pelo que não quizeste dizer-me. - -_Maximo_ - -Disse-te tudo. - -_Pantoja_ - -Moderação! juizo! - -_Evarista_ - -Que te disse elle? - -_Maximo_ - -Disse-lhe verdades uteis... Que aprenda por si mesma o muito que ainda -ignora; que abra bem abertos esses grandes olhos e que os estenda pela -vida humana, para que veja que nem tudo é alegria, que ha tambem no mundo -deveres, desenganos e sacrificios... - -_Electra_ - -Chega o lobishomem! (_Occupa o centro da scena, onde todos a rodeiam, -menos Pantoja, que se colloca ao lado d’Evarista_) - -_Cuesta_ - -Nem tudo applausos! - -_Urbano_ - -A severidade é precisa. - -_Maximo_ - -Em severidade ninguem me ganha... Dize: é ou não é verdade que sou -severo, e que tu m’o agradeces? Confessa que me agradeces! - -_Electra_ - -(_batendo-lhe de leve_) Peste de sábio! Se isto fôsse um açoite -verdadeiro, ainda com mais alma te batia. - -_Marquez_ - -(_risonho e encarinhado_) Electra, veja se me bate em mim tambem... -Faça-me essa esmola! - -_Electra_ - -Em si não, porque não tenho confiança... Só se fôr muito de levesinho... -assim... assim... assim... (_Toca levemente no Marquez, em Cuesta e em -Urbano_) - -_Evarista_ - -Melhor seria que tocasses piano para esses senhores ouvirem. - -_Maximo_ - -Quê, se não estuda nada! Só uma coisa se póde comparar á sua grande -disposição artistica, é o seu espantoso desapego de todas as artes. - -_Cuesta_ - -Que nos mostre as aquarellas e os desenhos. O Marquez vae vêr. -(_Juntam-se todos em volta da meza, menos Evarista e Pantoja, que -conversam áparte_) - -_Electra_ - -Ahi sim senhor! (_Procurando a pasta de desenhos entre os livros e as -revistas que estão na mesa_) Agora se vae vêr se sou ou se não sou uma -artista! - -_Maximo_ - -Forte gabarola! - -_Electra_ - -(_desatando as fitas da pasta_) Pois sim! tu a desfazeres e eu a -augmentar-me veremos quem póde mais. Ora aqui está, e pasmem! (_Mostrando -os desenhos_) Que teem que dizer a estes portentosos esboços de paizagem, -de figura, de animaes? a estas vaccas que parecem pessoas? a estas -naturezas mortas que parecem vivas? a estes rochedos que só lhes falta -fallarem?! (_Todos se extasiam no exame dos desenhos, que passam de mão -em mão_) - -_Evarista_ - -(_tendo desviado a attenção do grupo do centro, entabolou conversa intima -com Pantoja_) Tem razão, Salvador. Quando é que a não tem? Agora, no caso -de Electra, o seu argumento é um clarão que nos illumina a todos. - -_Pantoja_ - -Não vá crêr que seja a minha pobre intelligencia que projecta essa -luz. Ella é apenas o resplendor de um fogo intenso que tenho em mim: a -vontade! Por meio d’esta força, que devo a Deus, esmaguei o meu orgulho e -emendei os meus erros. - -_Evarista_ - -Depois da confidencia que hontem á noite me fez é indiscutivel para mim o -seu direito de intervir na educação d’essa cabeça de vento... - -_Pantoja_ - -Para lhe ensinar o caminho da vida, para lhe mostrar o alto fito da nossa -misera existencia na terra... - -_Evarista_ - -E esse direito que indubitavelmente lhe cabe, implica deveres -inilludiveis... - -_Pantoja_ - -Quanto lhe agradeço que tão perfeitaimente o comprehenda, minha senhora -e amiga da minha alma! Eu receava que a minha confidencia d’hontem, -historia funesta que reveste de negro os melhores annos da minha vida, -me tivesse feito decaír da sua estima! - -_Evarista_ - -Não, meu amigo. Quem é que dentro da humanidade se póde considerar -liberto da fraqueza humana? Em si o peccador regenerou-se, castigando -a vida com as mortificações do arrependimento, e dignificando-a com a -pratica da virtude. - -_Pantoja_ - -A divina tristeza, o amor da solidão, o convicto desprezo de todas as -vaidades do mundo foram a salvação da minha alma. Pois bem: eu não -estaria completamente purificado perante a minha consciencia se n’esta -occasião não interviesse nos negocios da terra para salvar dos seus -perigos a angelica innocencia d’essa menina, fatalmente destinada, se -lhe não acudirmos, a precipitar-se pelo caminho em que se perdeu a sua -desgraçada mãe. - -_Evarista_ - -A minha opinião é que fale com ella... - -_Pantoja_ - -A sós. - -_Evarista_ - -Assim o entendo: a sós. Faça-lhe comprehender, o mais delicadamente que -possa, a especie de auctoridade que tem... - -_Pantoja_ - -É todo o meu desejo esse... (_Continuam em voz baixa_) - -_Electra_ - -(_no grupo do centro disputando com Maximo_) Deixa-te de sentenças, que -tu d’isto não sabes nada! Então não querem vêr com a que elle se sae? -que o passaro parece um velho pensativo, e que a mulher faz lembrar uma -lagosta desmaiada... - -_Marquez_ - -Não senhor... Eu acho que está muito bem feito! - -_Maximo_ - -Ás vezes tambem lhe dá para ahi! Quando menos pensa saem-lhe coisas -prodigiosamente exactas. - -_Cuesta_ - -É certo que estas velhas arvores, atravez das quaes se descobre uma -triste faixa de mar, ao longe... - -_Electra_ - -A minha especialidade aposto que ainda nenhum adivinhou qual é?... Pois -são os troncos velhos, são os carcomidos muros em ruina. É singular que -só pinto bem aquillo que não conheço: a tristeza, o passado, o môrto! A -grande luminosidade radeante da alegria, da mocidade, não me sae! (_Com -pena e assombro_) Sou uma grande artista para tudo que não sou eu! - -_Urbano_ - -Tem graça. - -_Cuesta_ - -Esta menina é optima! - -_Marquez_ - -É scintillante! - -_Maximo_ - -Esperemos que lhe venha a reflexão tambem... a seu tempo... - -_Electra_ - -(_zombando de Maximo_) A reflexão! a gravidade! o tempo que ha de vir!... -É a sombra que sempre me deita este cipreste!... Ora fica sabendo que eu -hei de ter tudo isso quando me dér para ahi... e mais do que tu, meu -sabichão! - -_Maximo_ - -Veremos... veremos isso quando te chegar a vez! - -_Pantoja_ - -(_que não tem dado attenção ao que se passa no grupo_) Não posso -occultar-lhe, minha senhora, que me desagrada muito a familiaridade de -Electra com o sobrinho do seu marido. - -_Evarista_ - -Ha de se lhe corrigir. Mas no emtanto sempre tenha você em conta que este -Maximo, que ahi vê, é um homem perfeitamente de bem e raramente serio... - -_Pantoja_ - -Bem sei, minha amiga... Mas nos desfiladeiros da confiança excessiva -resvalam os mais solidos e os mais firmes; uma triste experiencia m’o -ensinou a mim! - -_Electra_ - -(_no grupo do centro_) Eu hei de tomar todo o juizo que eu quizer quando -elle me fôr preciso. Ninguem se põe serio emquanto Deus não manda. -Ninguem diz ai ai senão quando alguma coisa lhe doe. - -_Marquez_ - -Lá isso é verdade! - -_Cuesta_ - -Um dia aprenderá a ser pratica. - -_Electra_ - -De certo que sim! No dia em que venha Deus e me diga: «Menina: aqui tens -a dôr, a duvida, a responsabilidade, o dever...» - -_Maximo_ - -E breve o dirá!... - -_Electra_ - -Para que eu lhe responda! - -_Evarista_ - -Electra, minha filha, não disparates. - -_Electra_ - -Tia, é este Maximo... (_passa para o lado de Evarista_) - -_Urbano_ - -O Maximo tem razão... - -_Cuesta_ - -Certamente que sim. (_Cuesta e Urbano passam tambem para o lado de -Evarista e de Pantoja, ficando sós á esquerda Maximo e o Marquez_) - -_Maximo_ - -Então, Marquez, qual é o resultado da sua primeira observação? - -_Marquez_ - -Encantou-me a rapariga. Vejo que você não exagerava nada. - -_Maximo_ - -E por baixo do fascinante encanto d’essa innocencia não pôde a sua -penetração descobrir alguma coisa... - -_Marquez_ - -Ah! sim... belleza moral, juizo pratico... Ainda não tive tempo para -isso... Continúo a observar... - -_Maximo_ - -É que eu—você sabe—consagrado ao estudo desde muito moço, mal conheço o -mundo, e os caracteres humanos são para mim uma escripta em que apenas -soletro. - -_Marquez_ - -Pois esse, meu amigo, é o unico dos livros em que eu leio de cadeira. - -_Maximo_ - -Quer vir a minha casa? - -_Marquez_ - -Com muito gosto. É possivel que minha mulher me reprehenda se souber que -eu visito uma officina de electrotechnia, uma escandalosa fabrica de luz. -Mas não será de uma severidade que eu não aguente. Posso aventurar-me... -Voltarei depois aqui, e com o pretexto de admirar a menina ao piano -falarei com ella e proseguirei os meus estudos. - -_Maximo_ - -(_alto_) Vem, Marquez? - -_Urbano_ - -Então assim nos deixam? - -_Marquez_ - -Vamos vêr o laboratorio do nosso amigo. - -_Evarista_ - -Marquez, estou muito sentida, mas muito, pela sua longa ausencia. Quererá -descarregar-se de tantos peccados velhos almoçando hoje comnosco? É o seu -castigo... - -_Marquez_ - -Acceito-o em desconto da minha culpa e beijo a mão que tão docemente me -corrige. - -_Evarista_ - -Maximo, tu vens tambem. - -_Maximo_ - -Se me deixarem livre, virei, de certo. - -_Electra_ - -Não venhas, homem de Deus, não venhas! (_Com alegria que não dissimula_) -Vens? Dize que sim! (_Corrigindo-se_) Não, não: dize que não. - -_Maximo_ - -Descança que te não livras de mim! Á força has de ganhar juizo... - -_Electra_ - -E has de perdêl-o tu, caturra velho! (_Segue-o com a vista até que sae. -Saem Maximo e o Marquez pelo jardim. José entra pelo fundo_) - - -SCENA VIII - - ELECTRA, EVARISTA, URBANO, PANTOJA, CUESTA E JOSÉ - -_José_ - -(_annunciando_) A senhora Superiora de S. José da Penitencia. - -_Pantoja_ - -Ah! a nossa bôa soror Barbara da Cruz... - -_Evarista_ - -Que entre para aqui. (_Levanta-se_) Espera! Iremos recebêl-a ao salão. - -_Pantoja_ - -Feliz opportunidade! escuso de ir ao convento. - -_Evarista_ - -Electra, estudar. (_Indica-lhe a sala proxima_) - -_Cuesta_ - -(_despedindo-se_) Eu saio e volto logo. - -_Evarista_ - -Adeus. - -_Cuesta_ - -(_áparte, referindo-se a Electra_) Deixam-a só? - -_Pantoja_ - -(_a Electra_) Menina! Cultive com esmero a grande arte sagrada. Applique -todo o seu talento ao estudo de Bach... para que se compenetre do -admiravel estylo religioso. (_Saem todos menos Electra_) - - -SCENA IX - - ELECTRA, pouco depois CUESTA - -_Electra_ - -(_entoando uma psalmodia de egreja, reune os desenhos e recolhe-os nas -suas pastas_) Bach... para que me compenetre do estylo religioso... é -bom!... É bom, e é engraçado. (_Canta_) - -_Cuesta_ - -(_entra pelo fundo, recatando-se_) Só...! - -_Electra_ - -(_canta algumas notas liturgicas. Vendo Cuesta_) Oh! D. Leonardo...! -Cuidei que tinha sahido... - -_Cuesta_ - -(_com timidez_) Sahi mas voltei, minha querida menina. Preciso muito de -lhe falar. - -_Electra_ - -(_um poucochinho assustada_) A mim! - -_Cuesta_ - -É um assumpto delicado, extremamente delicado... (_Com fadiga e -difficuldade em respirar_) Perdoe-me. Padeço do coração... não posso -estar de pé. (_Electra chega-lhe uma cadeira. Senta-se_) Tão delicado -este assumpto, que não sei por onde comece... - -_Electra_ - -Deus meu, que é? - -_Cuesta_ - -(_animando-se_) Electra, eu conheci sua mãe. - -_Electra_ - -Ah! a minha mãe foi bem desgraçada... - -_Cuesta_ - -Que entende a menina por ser desgraçada? - -_Electra_ - -Eu... entendo que viveu entre pessoas que a não deixaram ser tão bôa como -ella queria. - -_Cuesta_ - -Ahi está uma profunda verdade que, sem querer, a menina disse... -Lembra-se da sua mãe?... Pensa algumas vezes n’ella?... - -_Electra_ - -A minha mãe é para mim uma recordação, vaga sim, mas de uma doçura -incomparavel... uma querida imagem que nunca me abandona... Guardo-a viva -no meu coração, que não é mais que uma grande memoria, no fundo da qual a -procuram sempre os meus olhos anciosos de vêl-a. Minha pobre mamãsinha! -(_Leva o lenço aos olhos. Cuesta suspira_) Diga-me, D. Leonardo, quando -você conheceu minha mãe era eu muito pequenina... - -_Cuesta_ - -Era um miminho. Faziamos-lhe cócegas para a vêr rir... o seu riso -parecia-me o encanto da natureza, a alegria do universo. - -_Electra_ - -Ahi está, D. Leonardo, ahi está porque eu sahi tão doida, tão travêssa, -tão desparafusada... você alguma vez me teria pegado ao collo... - -_Cuesta_ - -Innumeraveis vezes. - -_Electra_ - -(_sorrindo sem ter acabado de enxugar as lagrimas_) E eu não lhe puxava -pelos bigodes? - -_Cuesta_ - -Ás vezes com tanta força que me fazia doer. - -_Electra_ - -E de certo então me batia nas mãos... - -_Cuesta_ - -Devagarinho, sim. - -_Electra_ - -Pois ha de crêr que talvez que ainda me doam tambem? - -_Cuesta_ - -(_impaciente por entrar em materia_) Mas vamos ao caso... E antes de mais -nada a advirto, minha querida Electra, que é muito reservado o que lhe -vou dizer... para nós ambos unicamente. - -_Electra_ - -Mette-me medo... - -_Cuesta_ - -Não, não é uma coisa que assuste... Veja em mim a menina um amigo, o -melhor de todos os seus amigos; veja n’este acto o interesse mais puro e -o mais elevado sentimento... - -_Electra_ - -(_confusa_) Sim, não duvído, mas... - -_Cuesta_ - -Eis aqui porque dou este passo... Com quanto não seja ainda muito velho, -não me sinto com corda para longo tempo de vida. Viuvo ha vinte annos, -não tenho mais familia que a minha filha Pilar, já casada e longe. -Estou quasi só n’este mundo, tenho o pé no estribo para marchar para o -outro... E a minha solidão, ai! parece empurrar-me e dar-me pressa... -(_Com grande difficuldade de expressão_) Mas antes de partir... (_Pausa_) -Electra, quanto pensei em si antes de a trazerem para Madrid!... E -desde que chegou, Deus meu, senti—como lh’o direi?... Imagine o mais -profundo, o mais puro affecto de um coração, envolvido nos gritos de uma -consciencia... - -_Electra_ - -(_aturdida_) Que grave coisa deve ser essa, a consciencia! A minha é, por -ora, como um menino que dorme no seu berço. - -_Cuesta_ - -(_com tristeza_) A minha é velha e memoriosa. Nem dorme, nem me deixa -dormir, assignalando-me sempre, a grandes brados, os erros graves da -minha vida. - -_Electra_ - -Erros graves na vida... você, tão bom... - -_Cuesta_ - -Bom? Sim... talvez... Bom mas peccador... Emfim deixemos os erros, -tratemos dos seus resultados. Eu não quero de nenhum modo que a menina -se possa achar ao desabrigo. Não tem fortuna propria, e é duvidoso que a -protecção de Urbano e d’Evarista seja persistente e constante. Como havia -de consentir eu que um dia se visse pobre, desamparada? - -_Electra_ - -(_com penosa lucta entre o seu conhecimento e a sua innocencia_) Eu não -sei se o entendo... não sei se devo entendel-o. - -_Cuesta_ - -O mais apropositado será que me entenda, e não o diga; que acceite -a minha protecção, e a não agradeça. Vão juntos o meu dever e o seu -direito. Por culpa minha, Electra, não se quebrará o fio que une cada -creatura na terra, com as creaturas que foram e com as que ainda vivem... -E se hoje me determino a resolver este caso é porque... porque ha uns -tempos me assalta o terror das mortes subitas. Meu pae e meu irmão -morreram como fulminados de raio. A lesão cardiaca, destruidora da -familia, sinto-a bem aqui: (_indicando o coração_) é um triste relogio -que me conta as horas e os dias. Não posso adiar mais... Que me não -colha a morte deixando abandonada no mundo a sua preciosa existencia! E -concluo aqui, pedindo-lhe que tenha como assegurado na vida um bem estar -modesto... - -_Electra_ - -Um bem estar modesto... Eu?... para mim? - -_Cuesta_ - -O sufficiente para viver n’uma decorosa independencia... - -_Electra_ - -(_confusa_) Mas eu, que merecimentos tenho?... Perdôe-me, se não posso -acabar de me convencer... - -_Cuesta_ - -Mais tarde o convencimento virá. - -_Electra_ - -E por que não fala n’isso a meus tios?... - -_Cuesta_ - -(_preoccupado_) Porque... A seu tempo o saberão. Por agora ninguem mais -deve ter conhecimento da resolução que tomei. - -_Electra_ - -Mas... - -_Cuesta_ - -(_commovido, levantando-se_) E agora, Electra, não quererá mal a este -pobre enfermo, que tem contados os seus dias? - -_Electra_ - -Querer-lhe mal!? Se é tão facil e tão doce para mim o querer bem! Mas não -fale em morrer, D. Leonardo. - -_Cuesta_ - -Completamente me consola saber que chorará talvez por mim... - -_Electra_ - -Não faça com que eu chore já... - -_Cuesta_ - -(_apressando a sahida para vencer a sua commoção_) E agora, minha querida -filha, adeus. - -_Electra_ - -Adeus... (_retendo-o_) E que nome lhe devo dar? - -_Cuesta_ - -O de amigo me basta. Adeus. (_Arranca-se para saír pelo fundo. Electra -segue-o com a vista até que desappareça_) - - -SCENA X - - ELECTRA E O MARQUEZ - -_Electra_ - -(_meditativa_) Meu Deus, que devo pensar? Aquellas meias palavras parece -que ainda me dizem mais do que palavras completas. Mãesinha da minha -alma!... (_O marquez entra pelo jardim e adeanta-se devagar_) Ah! O snr. -Marquez! - -_Marquez_ - -Assustei-a? - -_Electra_ - -Não: surprehendeu-me apenas... Se vem para me ouvir tocar, aviso-o de que -perdeu a viagem. Eu não toco hoje. - -_Marquez_ - -Tanto melhor: assim fallaremos... Mal lhe sou apresentado entro em cheio -na admiração das suas prendas, e, conhecida uma parte do seu caracter, -vivamente desejo conhecel-a mais... Vae estranhar esta curiosidade, e -julgar-me importuno... - -_Electra_ - -Não acho. Eu sou curiosa tambem, e tanto que desde já me permitto -fazer-lhe uma pergunta: é amigo de Maximo? - -_Marquez_ - -Estimo-o e admiro-o muito... Coisa rara não é verdade? - -_Electra_ - -Coisa naturalissima, me parece. - -_Marquez_ - -Tão moça como é, talvez que se não dê bem conta das causas da minha -amisade com o _magico prodigioso_... Vamos a vêr se me faço entender. - -_Electra_ - -Explique-m’o bem. - -_Marquez_ - -Senhorita, a sociedade que eu frequento, o circulo da minha propria -familia e os habitos da minha casa produzem em mim um effeito de -asphyxia, de lento ameaço apopletico. Quasi que sem dar por isso, por -simples impulso instinctivo de conservação, lanço-me de vez em quando á -procura de um pouco d’ar respiravel. Os meus olhos, velhos e nostalgicos, -voltam-se então avidamente para a sciencia e para a natureza... Maximo, -para mim, é um sanatorio. - -_Electra_ - -Quer-me parecer que vou começando a entendêl-o, e á sua doença de -confinado, com faltas d’ar e de vida... - -_Marquez_ - -Prova de que raciocina. Devo tambem dizer-lhe que tenho por esse homem um -interesse immenso. - -_Electra_ - -Estima-o devidamente, admira-o pelas suas altas qualidades... - -_Marquez_ - -E lastimo-o pelo seu infortunio. - -_Electra_ - -(_surprehendida_) Maximo, desafortunado? - -_Marquez_ - -Que desdita maior que a da solidão em que elle vive? A viuvez prematura -submergiu-o nos estudos mais profundos e mais absorventes, que podem -comprometter-lhe a saude e a vida. É um dos meus receios. - -_Electra_ - -Tem os filhos, que o acompanham e a consolam... O Marquez viu-os hoje... -Que lindas creaturinhas! O maior, que vae fazer agora cinco annos, é um -prodigio de intelligencia. O pequenito, de dois annos, é o mais engraçado -sujeitinho de todo o mundo. Eu adoro-os, sonho com elles, e gostava, por -elles, de ser creada de meninos. - -_Marquez_ - -O pobre Maximo, aferrado aos seus estudos, não pode attendêl-os como -devia ser. - -_Electra_ - -É o que eu digo tambem. - -_Marquez_ - -Claro! Maximo do que precisa é de uma mulher... Aqui principiam as -difficuldades e as dúvidas. Por mais que olhe e que procure, não vejo, -não encontro a mulher digna de repartir a sua vida com a do grande homem. - -_Electra_ - -Não a encontra, está visto, porque a não ha, não a ha. Para Maximo -deve-se arranjar uma mulher, principalmente, de muito juizo... - -_Marquez_ - -Primeiro que tudo, isso: de muito juizo. - -_Electra_ - -O contrario de mim, que, não tenho nenhum, nenhum, nenhum! - -_Marquez_ - -Não direi eu isso... - -_Electra_ - -Que, ainda assim, quando lhe digo tolices e lhe chamo brutamontes, tonto -e sabichão, não vá o Marquez pensar que o digo a sério. É brincadeira! - -_Marquez_ - -Tambem me queria parecer que não era uma convicção philosophica. - -_Electra_ - -Brincadeira descabida, talvez, porque elle é seriissimo... E sobre esse -ponto gostaria de ouvir o seu conselho: acha que eu deva tornar-me séria? - -_Marquez_ - -Nunca! Cada creatura é como Deus a quiz fazer. Ninguem precisa de ser -serio para ser bom. - -_Electra_ - -Pois veja lá! eu que não sei nada, tinha pensado isso mesmo! - - -SCENA XI - - ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA pelo fundo - -_Pantoja_ - -(_do fundo, áparte_) E atreve-se a pôr os olhos peçonhentos n’uma tal -flôr de candura, este libertino, velho e incorrigivel! (_Adeanta-se -lentamente_) - -_Marquez_ - -(_dando por Pantoja, áparte_) Cae-nos o apagador em cima. Apaguemo-nos! - -_Electra_ - -O snr. Marquez tinha vindo para me ouvir tocar, mas eu estou muito -estupida hoje. Ficou para outra vez. - -_Marquez_ - -O meu caro snr. Pantoja sabe que Beethoven é a minha paixão. Como me -tinham dito que Electra o interpreta bem, esperava ouvir-lhe a _Sonata -pathetica_ ou o _Clair de lune_... Puzemo-nos a conversar, e, visto que -não é occasião agora... - -_Pantoja_ - -(_com desabrimento_) A hora do estudo acabou. - -_Marquez_ - -(_recobrando o seu papel de sociedade_) Outro dia será! Virginia e eu, -meu presado snr. Pantoja, muito estimariamos que quizesse honrar-nos com -os seus conselhos relativamente ao _Recolhimento das Escravas de Jesus_. - -_Pantoja_ - -Sim senhor, hoje irei vêr a marqueza, e fallaremos... - -_Marquez_ - -Nas _Escravas_ a encontrará o meu illustre amigo toda a santissima -tarde... E como creio que sou demais... (_Movimento de retirar-se_) - -_Electra_ - -O snr. Marquez não estorva. - -_Marquez_ - -Vou-me com a musica... até o laboratorio de Maximo. - -_Pantoja_ - -Vá, vá, que ha de gostar! - -_Marquez_ - -Até ao almoço, meu muito respeitavel amigo. - -_Pantoja_ - -Guarde-o Deus. (_Sae o marquez pelo jardim_) - - -SCENA XII - - ELECTRA E PANTOJA - -_Pantoja_ - -(_vivamente_) Que é que elle lhe dizia? que lhe estava contando esse -depravador de innocencias? - -_Electra_ - -Nada: historias vagas, anecdotas para rir... - -_Pantoja_ - -As taes historias! Desconfie sempre das anecdotas jocosas, e dos -narradores amenos, que escondem entre suavidades e fragrancias de jasmins -uma ponta envenenada de estilete... Estou a achal-a perplexa, enleada, -abstrahida, quasi medrosa, como quem acaba de sentir pela macia relva -matisada de lirios um roçagar de reptil. - -_Electra_ - -Ah! não. - -_Pantoja_ - -Essa inquietação resultante das conversações perturbadoras ha de -acalmal-a a minha palavra serena e benefica. - -_Electra_ - -Vejo que é poeta, snr. de Pantoja; e dá-me prazer ouvil-o. - -_Pantoja_ - -(_indica-lhe uma cadeira, e sentam-se ambos_) Minha presada filha, vou -dar-lhe a explicação da intensa ternura que me inspira... Terá dado por -isso? - -_Electra_ - -Tenho. - -_Pantoja_ - -Tal explicação equivale á revelação de um segredo... - -_Electra_ - -(_muito assustada_) Deus do ceu! estou a tremer... - -_Pantoja_ - -Socegue, minha filha... E ouça primeiro a parte d’esta confidencia mais -dolorosa para mim. Fui muito mau, Electra. - -_Electra_ - -Como assim, com a fama de santidade que tem! - -_Pantoja_ - -Fui mau—digo-lh’o eu—em certa occasião da minha vida. (_Suspirando_) Já -lá vão alguns annos. - -_Electra_ - -(_vivamente_) Quantos? Poderei eu lembrar-me ainda do tempo da sua -maldade, snr. de Pantoja? - -_Pantoja_ - -Não pode. Quando eu me depravei, quando me afundi no lodaçal do peccado, -não tinha a menina ainda nascido... - -_Electra_ - -Mas nasci afinal... - -_Pantoja_ - -(_depois de uma pausa_) É certo. - -_Electra_ - -Nasci... e d’ahi? Por quem é, abrevie essa historia... - -_Pantoja_ - -A sua perturbação me indica que devemos desviar os olhos do passado. A -sua condição presente socega-me. - -_Electra_ - -Porquê? - -_Pantoja_ - -Porque ha de ter um amparo, um arrimo para toda a vida. Nada mais -ineffavel para mim do que a fortuna de velar pelo destino de uma creatura -tão bella e tão nobre! Quero consagrar-me a defendel-a de todo o mal, -a guardal-a, a acalental-a, a dirigil-a, para que sempre se conserve -incolume, intemerata e pura; para que nunca lhe toque nem a mais tenue -sombra, nem o mais afastado respiro do mal. É hoje uma menina que parece -um anjo. Não me conformo com que unicamente o pareça; quero que para mim -o seja. - -_Electra_ - -(_friamente_) Que eu seja um anjo de sua composição e propriedade -sua?... E parece-lhe que se deva considerar como um rasgo de caridade -extraordinaria e sublime esse fervoroso desejo que mostra de ter assim, -um anjo de seu? - -_Pantoja_ - -Não é caridade: é obrigação. Tu—entendes?—tens o direito de ser amparada -por mim; eu tenho o dever de amparar-te. - -_Electra_ - -Tamanha confiança... tão severa auctoridade... - -_Pantoja_ - -A minha auctoridade provém do meu entranhado affecto, assim como do calor -do sol provém a força da terra. A minha protecção é um producto da minha -consciencia. - -_Electra_ - -(_levanta-se muito agitada, e afastando-se de Pantoja, áparte_) Virgem -mãe santissima! dois protectores! e um que precisa de opprimir para -proteger! (_alto_) Olhe: eu admiro-o e respeito muito as suas virtudes. -Emquanto á sua auctoridade—perdoe-me o atrevimento de lh’o dizer—não a -comprehendo bem claramente, e parece-me que só a minha tia é que devo -submissão e obediencia. - -_Pantoja_ - -Vem a ser a mesma coisa. Evarista faz-me a honra de me consultar em tudo. -Obedecer-lhe a ella é submetter-te a mim. - -_Electra_ - -Então tambem a tia me quer para anjo d’ella? ainda por cima de eu já -estar para anjo do snr. de Pantoja?! - -_Pantoja_ - -Anjo de todos, de Deus principalmente. Convence-te, filha da minha alma, -que vieste a bôas mãos, e que só te cumpre deixar-te guiar na virtude e -na purificação. - -_Electra_ - -(_com displicencia_) Pois, se querem purificar-me, purifiquem-me... Mas -estão bem certos de que eu seja impura e má? - -_Pantoja_ - -Poderias vir a sel-o. Melhor se vence o mal prevenindo que remediando. - -_Electra_ - -Pobre de mim! (_Levantando os olhos em extase, suspira. Pausa_) - -_Pantoja_ - -Porque suspiras assim? - -_Electra_ - -Deixe-me aliviar o meu triste coração. Pesam-me demais em cima d’elle as -consciencias dos outros. - - -SCENA XIII - - ELECTRA, PANTOJA E EVARISTA, pelo fundo - -_Evarista_ - -Amigo Pantoja, a Madre Barbara da Cruz espera-o para se despedir e -receber as suas ordens. - -_Pantoja_ - -Ah! não me lembrava... Vou immediatamente. (_Áparte a Evarista_) Falamos. -Vigie. Acautelemo-nos! (_Antes de saír Pantoja, pelo fundo, entram o -Marquez e Maximo pela direita_) - - -SCENA XIV - - ELECTRA, EVARISTA, MARQUEZ E MAXIMO - -_Marquez_ - -Tardamos? - -_Evarista_ - -Não. Estiveram no laboratorio?... (_Formam-se dois grupos: Electra e -Maximo á esquerda; Evarista e o Marquez á direita._) - -_Marquez_ - -Lá estivemos. É um prodigio este homem... (_Segue falando no que viu_) - -_Electra_ - -(_suspirando_) Sim, Maximo, preciso de consultar-te sobre um caso grave. - -_Maximo_ - -(_com vivo interesse_) Conta depressa! - -_Electra_ - -(_receosa olhando para o outro grupo_) Impossivel agora. - -_Maximo_ - -Quando então? - -_Electra_ - -Não sei... Não sei quando t’o poderei dizer... Não se resume em quatro -palavras... - -_Maximo_ - -Pobre rapariga!... O que eu te predisse... Chegam as seriedades da vida, -os deveres, as amarguras... - -_Electra_ - -Talvez. - -_Maximo_ - -(_olhando-a fito, com grande interesse_) Na expressão da tua physionomia -ha um veu de tristeza e um estremecimento de susto... Desconheço-te. - -_Electra_ - -Querem annular o que eu sou, e reduzir-me a outra coisa... a uma coisa -angelical e celeste, que não sei o que é! - -_Maximo_ - -(_vivamente_) Por Deus, não consintas isso! Defende-te, Electra. - -_Electra_ - -Que me aconselhas? - -_Maximo_ - -(_sem vacillar_) A independencia. - -_Electra_ - -A independencia! - -_Maximo_ - -Sim, a emancipação... N’uma palavra: Insurge-te! - -_Electra_ - -Queres dizer que faça quanto me vier á cabeça, que danse, que pule, que -corra pelo parque emquanto me appeteça, que entre na tua casa como em -paiz conquistado, que conspire com os teus pequenos, que fuja com elles -para o jardim, para longe, para onde eu quizer?... - -_Maximo_ - -Tudo! - -_Electra_ - -Olha o que dizes!?... - -_Maximo_ - -Digo-te isto. - -_Electra_ - -Mas é o contrario que me tens recommendado sempre! - -_Maximo_ - -(_olhando-a fixamente_) Na tua cara, no vinco dos teus sobrolhos, na -tremura da tua bocca, eu vejo que estão radicalmente transformadas as -condições da tua vida. Tu agora tens medo. - -_Electra_ - -(_medrosa_) Tenho, sim. - -_Maximo_ - -Tu... (_Hesitando no verbo que ha de empregar. Vae a dizer amar, mas não -ousa_) Tu queres ardentemente que alguma coisa succeda... - -_Electra_ - -(_com effusão_) Quero. (_Pausa_) E dizes-me tu que contra o medo... a -insubordinação. - -_Maximo_ - -Sim: solta livremente todos os teus impulsos para que quanto ha em ti se -manifeste, e se saiba quem tu és. - -_Electra_ - -O que eu sou? Queres conhecer... - -_Maximo_ - -A tua alma... - -_Electra_ - -Os meus segredos... - -_Maximo_ - -A tua alma... N’ella se comprehende tudo. - -_Electra_ - -(_notando que Evaristo a observa_) Basta... Olham para nós. - - -SCENA XV - - OS MESMOS, URBANO E PANTOJA, pelo fundo - -_Urbano_ - -Almoça-se? - -_Pantoja_ - -(_a Evarista, suffocado, vendo Electra com Maximo_) Então assim a deixa -só com Mephistopheles? - -_Evarista_ - -Não tenha sustos, Pantoja. - -_Marquez_ - -(_rindo_) Não tem de que os ter. Esse Mephistopheles é um santo. (_Dá o -braço a Evarista_) - -_Pantoja_ - -(_imperiosamente, pegando na mão de Electra para a conduzir_) Commigo! -(_Electra, andando com Pantoja, volta a cabeça para olhar para Maximo_) - -_Maximo_ - -(_olhando para Electra e para Pantoja_) Comtigo?... Havemos de vêr com -quem! (_Maximo e Urbano são os ultimos que saem_) - - FIM DO PRIMEIRO ACTO - - - - -ACTO SEGUNDO - - Scenario do primeiro acto - - -SCENA I - - EVARISTA, URBANO, á banca, despachando negocios, BALBINA, que - serve á snr.ª de Yuste uma taça de caldo - -_Urbano_ - -(_dispondo-se a escrever_) Que é que se diz ao reitor do Patrocinio? - -_Evarista_ - -O que se combinou: approvamos a planta, e acceitamos o orçamento. Depois -nos entenderemos com o empreiteiro. - -_Urbano_ - -Já sabes a quanto monta a obra... (_Lendo n’um apontamento_) Trezentas e -vinte e duas mil pezetas... - -_Evarista_ - -Bem. Ainda nos sobeja dinheiro para a continuação do Soccorro. (_A -Balbina, que recolhe a taça_) Não te esqueças do que te incumbi. - -_Balbina_ - -Continúo vigiando, como a senhora determinou. Mas este recreio a que -a menina agora se entrega não me parece de cuidado. Tantas cartas de -namorados juntas são carteio de mais. A menina, emquanto a mim, para o -que puxa não é para a tolice, é para a risota. - -_Evarista_ - -Mas quem traz todas essas cartas que ella recebe? - -_Balbina_ - -Isso não sei... Mas ando de pedra no sapato com a Patros. - -_Evarista_ - -Espreita-as, e informa-me. - -_Balbina_ - -Fica ao meu cuidado, deixe estar! (_retira-se Balbina_) - - -SCENA II - - OS MESMOS E MAXIMO, apressado, com plantas e papeis - -_Maximo_ - -Estórvo? - -_Evarista_ - -Não, filho, podes entrar. - -_Maximo_ - -São dois minutos, tia. - -_Urbano_ - -Vens do ministerio? - -_Maximo_ - -Venho da conferencia com os bilbaínos. Tenho hoje um dia de prova -tremenda... Immenso que conferir, immenso que falar, immenso que correr, -e, para me não faltar mais nada, a casa toda revirada com o debaixo para -cima! - -_Evarista_ - -Mas, homem, que foi isso?! Diz a Balbina que despediste as creadas... - -_Maximo_ - -Pessoal infame, tia! Tres ladras! Pul-as na rua. Estou com o ordenança e -com a ama. Que lindo arranjo, hein? - -_Evarista_ - -Vem comer cá. - -_Maximo_ - -Comer cá é bom de dizer. A tia fala bem! E os pequenos com quem ficam? Se -os trago põem-lhe a cabeça em agoa, desarranjam-lhe tudo... - -_Evarista_ - -Não tragas. Eu adoro as creanças. Mas têl-as commigo, não. Revolvem tudo, -sujam tudo! corridas, risadas, cantatas, berratas, guinchos, patadas -medonhas no chão! fazem-me doida. E mêdo que caiam, que se mólhem, que as -arranhem os gatos, que rachem as cabeças, que esburaquem os olhos uns dos -outros. Nada... Não quero responsabilidades. - -_Maximo_ - -Eu o que queria é que a tia me mandasse uma cosinheira. - -_Evarista_ - -Manda-se-te para lá a Henriqueta. Urbano, toma nota. - -_Maximo_ - -Bom. (_Dispondo-se a partir_) - -_Evarista_ - -Olha lá! os teus negocios parece que vão bem... Já sabes o que te tenho -dito: Se o _magico prodigioso_ precisar de dinheiro para a implantação -dos seus inventos, não tem mais do que dizel-o... - -_Maximo_ - -Obrigado, tia... Tenho á minha disposição quanto dinheiro queira... Assim -eu tivesse uma creatura que me soubesse fazer sôpa! - -_Urbano_ - -Esse senhor dentro de poucos annos ha de estar muito mais rico do que nós. - -_Maximo_ - -Isso bem pode ser que sim. - -_Urbano_ - -Obra do seu talento. - -_Maximo_ - -(_com modestia_) Não: do trabalho, da perseverança, da paciencia... - -_Evarista_ - -Nem me digas! Trabalhas monstruosamente. - -_Maximo_ - -Quanto é preciso que trabalhe, por obrigação, por consolação, por prazer, -e, a final, por enthusiasmo adquirido tambem. - -_Urbano_ - -Passa a monomania isso. É uma borracheira de estudo. - -_Evarista_ - -(_grave_) Não: é a ambição, a maldita ambição, que a tantos fascina e a -tantos deita a perder. - -_Maximo_ - -Ambição legitima e indispensavel á humanidade. Imagine a tia... - -_Evarista_ - -(_cortando-lhe a palavra_) É a ancia das riquezas, para saciar com ellas -a avidez do goso. Gosar, gosar, gosar: isso unicamente quereis, e para -isso vos consumis, sacrificando o estomago, o cerebro, o coração e a -propria alma, sem vos lembrardes da inanidade das coisas da terra e da -brevidade da vida. Rapidamente nos vamos, e tudo cá fica. - -_Maximo_ - -(_impaciente por sahir_) Tudo, menos eu, que me safo já. - - -SCENA III - - OS MESMOS E JOSÉ - -_José_ - -(_annunciando_) O snr. marquez de Ronda. - -_Maximo_ - -(_detendo-se_) Esperarei já agora para o vêr. - -_Evarista_ - -(_recolhendo os papeis_) Não manda Deus que trabalhemos hoje. - -_Urbano_ - -Adivinho ao que vem. - -_Evarista_ - -Que entre, José, que entre! (_José sae_) - -_Maximo_ - -Vem convidal-os para a inauguração da nova _Irmandade da Escravidão_ -fundada por Virginia. Disse-m’o hontem á noite. - -_Evarista_ - -Bem sei... Então é hoje? - - -SCENA IV - - EVARISTA, URBANO, MAXIMO E O MARQUEZ - -_Marquez_ - -(_saudando com affabilidade_) Querida amiga... Urbano... (_A Maximo_) -Olá! não esperava encontrar o magico... - -_Maximo_ - -O magico diz-lhe adeus e some-se. - -_Marquez_ - -Um momento. (_Retendo-o_) - -_Evarista_ - -Sim, Marquez: iremos. - -_Marquez_ - -Já sabem? - -_Urbano_ - -A que horas? - -_Marquez_ - -Ás cinco em ponto. (_A Maximo_) A si não lhe digo porque sei que não tem -tempo. - -_Maximo_ - -Desgraçadamente. Segue-se então que o não espero hoje. - -_Marquez_ - -Como, se temos essa festa rija de religião e de mundanismo! mas lá vou á -noite. - -_Evarista_ - -(_levemente zombeteira_) Já cá se tem notado, com muito regosijo é claro, -a frequencia das visitas do Marquez á caverna do nigromante. - -_Maximo_ - -O Marquez dá-me muita honra com a sua amizade e com o interesse que toma -pelos meus estudos. - -_Marquez_ - -Veio-me agora o delirio das maquinas e dos phenomenos electricos... -Caturrices de velho! - -_Urbano_ - -(_a Maximo_) Parabens pelo discipulo. - -_Evarista_ - -Deus sabe... (_Maliciosa_) Deus sabe quem será o mestre e quem o alumno! - -_Marquez_ - -A respeito do mestre, sinto que elle esteja presente porque isso me priva -de applicar aos seus meritos todas as mordeduras que a inveja me inspira. - -_Evarista_ - -Retira-te, Maximo; vamos dizer mal de ti. - -_Maximo_ - -Repaste-se a má lingua! Adeusinho todos. Adeus, tia. - -_Evarista_ - -Vae com Nossa Senhora! - -_Marquez_ - -(_a Maximo que sae_) Até á noite, se me deixarem. (_A Evarista_) -Extraordinario homem! Sempre o admirei muito, mas agora que tenho -apreciado mais de perto todas as suas qualidades, sustento que não ha -outro no mundo como este seu sobrinho. - -_Evarista_ - -No terreno scientifico. - -_Marquez_ - -Em todos os terrenos, senhora de Yuste. Pois quê?!... - -_Evarista_ - -De certo que como intelligencia... - -_Marquez_ - -(_com enthusiasmo_) Como intelligencia, como caracter, como coração, como -tudo... Quem é que é melhor? - -_Evarista_ - -(_sem querer empenhar-se n’uma discussão delicada_) Bem, bem, Marquez... -(_Variando de tom_) É então ás cinco, disse...? - -_Marquez_ - -Em ponto. Contamos tambem com Electra. - -_Evarista_ - -Não sei se a leve... - -_Marquez_ - -Ora essa! Tenho incumbencia especialissima de conseguir a presença da -senhorita Electra n’esta solemnidade, e já prometti que sim. Virginia -deseja muito conhecêl-a. - -_Urbano_ - -Á vista d’isso... - -_Marquez_ - -Não me deixem ficar mal! - -_Evarista_ - -Bem: conte com ella. - -_Marquez_ - -Teremos muita gente, toda a nossa roda... - -_Urbano_ - -Oh! vae estar brilhante com certeza. - -_Marquez_ - -Com que então, até já. Tenho de ir a casa de Otumba, e passarei por cá -na volta. (_Ouve-se a voz de Electra pela esquerda, chalrando e rindo -alegremente. O marquez pára a escutal-a_) - - -SCENA V - - OS MESMOS E ELECTRA - -_Electra_ - -Pois sim, sim... rica, minha riquinha! mais um beijo... Que doida que és! -que doida que sou! mas entendemo-nos ambas. (_Apparece pela esquerda com -uma grande e rica boneca, que beija e que embala. Detem-se envergonhada_) - -_Evarista_ - -Que vem a ser isto, rapariga? - -_Marquez_ - -Não lhe ralhe. - -_Electra_ - -Mademoiselle Lulu e eu damos á lingoa, contamo-nos coisas. - -_Urbano_ - -(_ao Marquez_) Anda desatinada hoje. - -_Electra_ - -(_afastando-se, diz segredinhos á boneca. Os outros olham_) Que linda que -és, Lulu! Mas elle, ainda mais lindo que tu. Que feliz seria o meu amor -com elle e comtigo! - -_Marquez_ - -Sempre folgazã, pelo que vejo... - -_Evarista_ - -Pelo contrario: desde hontem n’uma tristeza que nos dá cuidado. - -_Marquez_ - -Tristeza? idealidade antes. - -_Evarista_ - -E, agora, está vendo... - -_Marquez_ - -(_carinhoso, dirigindo-se para ella_) Rica menina! - -_Electra_ - -(_approximando a cara da boneca da do marquez_) Vamos, Mademoiselle, não -se me faça môna: dê um beijinho a este senhor. (_Antes que o marquez -beije a boneca dá-lhe um leve carolo com a cabeça de Lulu_) - -_Marquez_ - -A Lulu não beija: a Lulu marra. (_Acariciando o queixinho de Electra_) -Por isso gósto mais da sua amiguinha do que d’ella. - -_Electra_ - -De miôlo póde crêr que tanto tem uma como outra. - -_Urbano_ - -Mas que conversas tu com a boneca? - -_Electra_ - -Desafógo com ella, conto-lhe as minhas penas. - -_Evarista_ - -Penas, tu? - -_Electra_ - -Penas eu, sim, pois quê?... E quando nos vê muito caladas ambas é porque -nos estão lembrando as nossas coisas passadas... - -_Marquez_ - -Ah! se a interessa o passado já é um signal de que pensa pela sua -cabecinha. - -_Evarista_ - -E que coisas passadas são essas que dizes? - -_Electra_ - -Digo do tempo em que nasci. (_Com gravidade_) O dia em que eu vim ao -mundo foi um dia muito triste, pois não foi? Lembra-se aqui alguem de -como foi esse dia? - -_Evarista_ - -Filha, que tontices que dizes! E não tens vergonha de que o snr. Marquez -te veja tão adoidada? - -_Electra_ - -Creia, tia, que não ha doidos tão doidos, nem creanças tão creanças, que -não tenham sua razão para dizer o que dizem e para fazer o que fazem. - -_Marquez_ - -Muito bem pensado. - -_Evarista_ - -Qual é então a tua razão para esses brinquedos tão fóra da tua edade? - -_Electra_ - -(_olhando para o marquez, que sorri ao seu lado_) Isso não posso contar -agora. - -_Marquez_ - -Quer dizer que me retire. - -_Evarista_ - -Electra! - -_Marquez_ - -Eu ia já despedir-me... com bem pena de que as minhas occupações me -privem de convivencia tão interessante. Adeus, senhorita; volto ás cinco -para a levar commigo. - -_Electra_ - -A mim! - -_Evarista_ - -Sim; vamos á inauguração das _Escravas_. - -_Electra_ - -E eu tambem? - -_Evarista_ - -Podes-te ir vestindo. - -_Electra_ - -(_assustada_) Ha de estar muita gente... A gente mette-me medo. Gósto -mais de ficar só. - -_Marquez_ - -Estaremos em familia. E com isto me despégo. - -_Evarista_ - -Até logo, Marquez. - -_Marquez_ - -(_a Electra_) Menina, ás cinco; aprendámos a ser pontuaes. (_Sae pelo -fundo com Urbano_) - - -SCENA VI - - EVARISTA E ELECTRA - -_Evarista_ - -Explicarás agora a extranha maluquice em que andas. - -_Electra_ - -Eu lhe digo, tia: tenho uma dúvida... como direi?... um problema... - -_Evarista_ - -Problemas, tu! - -_Electra_ - -Exactamente, no plural, problemas... porque é de mais d’um que se trata. - -_Evarista_ - -Valha-te Nossa Senhora! - -_Electra_ - -E quero vêr se m’os resolve... - -_Evarista_ - -Quem? - -_Electra_ - -Uma pessôa que já não vive. - -_Evarista_ - -Que dizes? - -_Electra_ - -Minha mãe. Não se afflija... Minha mãe pode-me dizer o que eu pretendo... -e aconselhar-me. A tia não acredita que as pessôas do outro mundo podem -vir a este? (_Gesto de incredulidade de Evarista_) Não acredita. Acredito -eu. Acredito porque o tenho visto. Eu tenho visto minha mãe... - -_Evarista_ - -Virgem Maria! como tens essa cabeça! - -_Electra_ - -... Quando era muito pequenina, assim, d’este tamanho... - -_Evarista_ - -Nas Ursulinas de Bayona? - -_Electra_ - -Sim... Minha mãe apparecia-me. - -_Evarista_ - -Em sonhos, naturalmente. - -_Electra_ - -Não, não: estando eu acordada, tão bem acordada como estou agora. -(_Colloca a boneca n’uma cadeira_) - -_Evarista_ - -Pensa no que dizes, Electra... - -_Electra_ - -Quando eu estava só, sósinha, triste ou doente; quando alguem me -lastimava dando-me a perceber a desairosa situação que eu tinha no mundo, -a minha mãe vinha, e consolava-me. Primeiro via-a imperfeitamente, -confusa, como vaporosa, a parecer diluir-se nas coisas distantes, nas -coisas proximas. Adeantava-se, n’uma claridade que tremeluzia... Depois, -não bulia mais; era uma fórma quieta, uma serena imagem triste... E -eu não podia então duvidar de que a tinha ali... Era minha mãe... Das -primeiras vezes via-a em traje elegante de grande dama... Um dia, -por fim, appareceu-me de habito e escapulario de monja. O seu rosto -envolvido nas toucas brancas, e o seu corpo coberto pela estamenha -pendente tinham uma magestade de belleza que não póde imaginar quem a não -viu. - -_Evarista_ - -Tu deliras, minha pobre filha! - -_Electra_ - -Junto de mim abria os braços como se quizesse enlaçar-me. Falava-me n’uma -voz dôce, mas longinqua e recondita... não sei como lh’o explique... Eu -perguntava-lhe coisas, e ella respondia-me... (_maior incredulidade de -Evarista_) A tia não acredita? - -_Evarista_ - -Vae dizendo. - -_Electra_ - -Nas Ursulinas tinha uma bella boneca, a que eu chamava tambem Lulu... -Veja a tia que mysterio este!... Sempre que eu andava pela horta, ao -cahir da tarde, só, levando ao colo a minha boneca—tão melancolica eu -como ella—olhando muito para o ceu, era certa, segura, infallivel, a -visão de minha mãe... primeiro entre as arvores, como enformada no ôco -das folhagens; depois, desenhando-se de luz, e caminhando para mim, -vagarosamente, por entre os troncos escuros... - -_Evarista_ - -E em mais crescida, quando vivias em Hendaya... tambem?... - -_Electra_ - -Nos primeiros tempos não... Então já eu brincava com bonecas vivas: os -dois pequerruchinhos da minha prima Rosalia, menina e menino, que nunca -se separavam de mim, e me adoravam, como eu a elles. De noite, na solidão -do nosso quarto, com os meninos dormidinhos, como elles aqui... e eu -aqui (_indica o logar dos dois leitos parallelos_) por entre as duas -caminhas brancas a minha mãe passava, meiga, silenciosa, aeria, sem pisar -o chão... E debruçava-se para mim... - -_Evarista_ - -Cala-te, por Deus, que até me fazes medo... Mas depois que foste mais -crescida... agora—digamos—acabaram essas visões... - -_Electra_ - -Nunca mais as tive desde que deixei de viver com bonecas e com meninos. -É por isso que eu trato de voltar á edade da innocencia, e de me fazer -creança pequena outra vez, a vêr se, tornando a ser o que fui, voltará -tambem minha mãe a vêr-me, como d’antes... Para que falemos, e me -responda ao que lhe quero perguntar... e me dê conselho... - -_Evarista_ - -E que dúvidas são as tuas, que assim precisas... - -_Electra_ - -(_pondo os olhos no chão_) Dúvidas?... coisas que a gente não sabe, e -quer saber. - -_Evarista_ - -Tolice! Que tão grave caso vem a ser esse para que precises de consulta e -de conselho?... - -_Electra_ - -Cá uma coisa... (_Vacilla, está quasi a dizêl-o_) - -_Evarista_ - -O quê? dize. - -_Electra_ - -Uma coisa... (_Com timidez infantil dando voltas á boneca e sem se -atrever a revelar o seu segredo_) Uma certa coisa... - -_Evarista_ - -(_severa e affectuosa_) Ih! que intoleravel que estás, com tanta -creancice! (_Tira-lhe a boneca_) Que estupida e ao mesmo tempo que -atilada que tu és! Tão depressa te mostras um prodigio de intelligencia -e de graça como parece que não passas de maluca... Andam ás bulhas com a -tua alma cherubins e demonios. Temos que intervir para acabar com essa -lucta e dar em Satanaz muitos açoites, ainda que algum te caia em ti e -te dôa um poucochito... (_Beija-a_) Vamos! juizo. Precisas de te occupar -n’alguma coisa, de distrahir essa cabeça... Não te esqueça de que é ás -cinco a festa... Vae-te arranjar, anda... - -_Electra_ - -Sim, tia. - -_Evarista_ - -Faltam tres quartos. - -_Electra_ - -Vou apromptar-me. - -_Evarista_ - -E poucas brincadeiras... cuidado! (_Sae pelo fundo levando a boneca -pendida, suspensa por um braço_) - - -SCENA VII - - ELECTRA E PATROS - -_Electra_ - -(_olhando para a boneca_) Pobre Lulu! como te levam á dependura! -(_Imitando a postura da boneca e apalpando o seu proprio braço dolorido_) -Que dôr que vaes ter, coitada, no hombro desengonçado! (_Senta-se -meditabunda_) E o outro á minha espera... Como foi triste a separação! -como elle chorava, estendendo-me os bracinhos!... e eu que lhe prometti -voltar... - -_Patros_ - -(_assomando cautelosa pela esquerda_) Senhorita, senhorita... - -_Electra_ - -Entra. - -_Patros_ - -(_avançando com precaução_) Não está ninguem? - -_Electra_ - -Estamos sós. - -_Patros_ - -Não se pilha outra occasião assim, menina! Ou agora ou nunca. - -_Electra_ - -Vens de lá? - -_Patros_ - -Agora mesmo... Muitos senhores que dizem numeros... milhões, _bilhões_ e -_quatrilhões_... E lá dentro, ninguem. - -_Electra_ - -(_vacillando_) Atrevo-me? - -_Patros_ - -(_decidida_) Atreva-se, menina. - -_Electra_ - -Nossa Senhora do Carmo, protegei-me! (_Dirige-se á sahida que dá para -o jardim. Pára assustada_) Espera. Não será melhor sahirmos pelo outro -lado? Pode estar a tia á janella da casa de jantar... - -_Patros_ - -Pode, pode! Demos a volta por aqui. (_Pela esquerda_) - -_Electra_ - -Sim, por aqui... Estou a tremer toda... de valentia! e de medo. Ávante! -(_Saem a correr pela esquerda_) - - -SCENA VIII - - URBANO E JOSÉ, que entram pelo fundo ao tempo a que saem as duas - -_Urbano_ - -Quem vae ali? - -_José_ - -É a Patros. - -_Urbano_ - -Então que temos?... conta lá. - -_José_ - -São já cinco os que fazem olho á menina: cinco vistos por mim. Fóra os -que não vi. - -_Urbano_ - -E quê? rondam a casa? - -_José_ - -Dois pela manhã, dois de tarde, e o mais pequenitate de todos, de sol a -sol. - -_Urbano_ - -Tens notado se ha communicação entre a janella do quarto da senhorita -Electra e a rua por meio de cesto pendente ou de cordão telephonico? - -_José_ - -Não vi nada d’isso. Mas cá eu, se fôsse os senhores, mudava a menina para -os quartos d’acolá. (_Á esquerda_) - -_Urbano_ - -E algum d’esses meninos não se coará para dentro do jardim? - -_José_ - -Isso sim! Não que elles teem espinhaço e querem-o para mais d’uma vez. - -_Urbano_ - -Bem: vae vigiando sempre. (_Entra Cuesta pelo fundo_) - - -SCENA IX - - URBANO E CUESTA, com papeis e cartas - -_Urbano_ - -Ora graças a Deus, Leonardo! - -_Cuesta_ - -Já te tinha dito que não vinha de manhã. (_A José, dando-lhe uma carta_) -Isto para registar. Logo irão mais cartas. (_Sae José_) - -_Urbano_ - -(_pegando n’um papel que Cuesta lhe entrega_) Que vem a ser isto? - -_Cuesta_ - -O recibo das cem mil e tantas pesetas... assigna-me agora um talão de -sessenta e sete mil... - -_Urbano_ - -Para a remessa para Roma... - -_Cuesta_ - -Isso mesmo. E Evarista? - -_Urbano_ - -A vestir-se. - -_Cuesta_ - -Já sei que vaes á inauguração das _Escravas_ e que tambem vae Electra. - -_Urbano_ - -Essa pequena, positivamente, não promette coisa boa. Está cada vez mais -caprichosa e mais leviana... - -_Cuesta_ - -(_vivamente_) Sem maldade! - -_Urbano_ - -Mas com symptomas d’isso. Evarista, que é a cautella e a prudencia em -pessoa, anda a pensar em submettel-a a um regimen sanitario em S. José da -Penitencia. - -_Cuesta_ - -Has de me permittir que discorde inteiramente d’esse alvitre. Tu dirás -que quem me manda a mim... - -_Urbano_ - -Pelo contrario: como amigo da casa muito estimo que dês opinião e -conselho. - -_Cuesta_ - -Isso de arrastar para a vida claustral uma rapariga que não denota -manifesta vocação de piedade, é grave... E não devereis extranhar que -porventura alguem se opponha... - -_Urbano_ - -Quem se ha de oppôr? - -_Cuesta_ - -Que sei eu! alguem... Na vida d’esta menina ha, por emquanto, um factor -desconhecido... Um bello dia poderá succeder... não direi que succeda... -Um bello dia, quando puxeis pela corda com mais força, poderá vir uma voz -que diga: «Alto lá, senhores de Yuste!» - -_Urbano_ - -E nós responderemos: «Querido snr. factor desconhecido, aqui tem a -menina, com o que nos livra d’uma tutella difficil e incommoda.» - -_Cuesta_ - -(_senta-se com muita fadiga_) Isto, Urbano, é apenas uma supposição -minha... é um modo de fallar... - -_Urbano_ - -Não te sentes bem? Queres tomar alguma coisa? - -_Cuesta_ - -Não... Este maldito coração recusa-se a ser dirigido pela vontade... - -_Urbano_ - -Descansa... Queres-te tu deitar? - -_Cuesta_ - -Pois não sabes o que tenho que fazer? (_Tirando papeis do bolso_) Para -já, duas carta urgentes, que teem de partir hoje. - -_Urbano_ - -Escreve-as aqui. (_Fazendo um logar á meza, e retirando livros e papeis_) - -_Cuesta_ - -Está dito... installo-me ahi. - -_Urbano_ - -Eu estou atarefadissimo tambem. Tenho voltas que dar... - -_Cuesta_ - -Não penses mais em mim. (_Escreve_) - -_Urbano_ - -Desculpa. Evarista não tarda ahi. - -_Cuesta_ - -(_sem olhar_) Até logo... (_Sae Urbano pelo fundo_) - - -SCENA X - - CUESTA, ELECTRA E PATROS (Assomam as duas á porta da esquerda - como para reconhecer o terreno) - -_Electra_ - -Cuidado, Patros... Por aqui é difficil trazêl-o. - -_Patros_ - -(_reconhecendo Cuesta, que vê de costas_) D. Leonardo! - -_Electra_ - -Chut!... O mais seguro é deixal-o no teu quarto até á noite. Que massada -a tal inauguração! - -_Cuesta_ - -(_volta-se ao ouvir vozes_) Ah! Electra... - -_Electra_ - -Importunamos, D. Leonardo?... - -_Cuesta_ - -Não, minha amiguinha. Quer fazer-me o favor de esperar um pouquinho... -que termine uma carta? Tenho que lhe dizer. - -_Electra_ - -Aqui me tem. (_Áparte a Patros_) Que sécca! (_Alto_) Vinhamos unicamente -buscar um papel e um lapiz para umas contas. (_Tira da meza um lapiz -e papel. Áparte a Patros_) Cuida bem d’elle... Que amor que elle está -adormecido! Com o seu focinhinho côr de rosa e as mãos sujas, com as -unhitas pretas de andar a escarvar na terra... Dá vontade de o engulir! - -_Patros_ - -Com os lindos pés gordos, e a espessa carapinha d’ouro que elle tem... - -_Electra_ - -(_com effusão de carinho_) Dá volta á cabeça da gente. Olha bem por elle, -Patros; vê lá!... - -_Patros_ - -Levo-lhe agora um bôlo. - -_Electra_ - -Não dou licença. Prohibo rigorosamente os bôlos. Para lhe sujarem o -estomago!... Leva-lhe uma sopinha... - -_Patros_ - -Mas como hei de eu arranjar sopinha? - -_Electra_ - -Tens razão... Ah! pede na cosinha uma taça de leite para mim. - -_Patros_ - -Isso mesmo! E dou-lh’a quando acordar. - -_Electra_ - -Toma lá tambem o papel e o lapiz para elle fazer os seus rabiscos... É a -coisa de que mais gosta... Depois, á noite, na primeira occasião, mette-o -no meu quarto, para dormir comigo. - -_Cuesta_ - -(_fechando a carta_) Acabei. - -_Electra_ - -Perdoe um momento, D. Leonardo. (_Áparte a Patros_) Não o deixes nem um -momento... Muito cuidadinho! Se D. Leonardo me não prender muito, ainda -irei dar-lhe um beijo antes de me vestir. - -_Cuesta_ - -Patros, estas cartas para o correio! - -_Patros_ - -Vão-se levar já. - - -SCENA XI - - CUESTA E ELECTRA - -_Cuesta_ - -(_pegando-lhe nas mãos_) Venha cá, sua grande extravagante... quanto me -alegra vêl-a! - -_Electra_ - -É muito meu amigo, D. Leonardo? Não imagina como eu gosto de que me -estimem! - -_Cuesta_ - -Mas precisamos tambem de ter mais um poucochinho de proposito e d’assento -n’essa cabecinha... É bom que não haja nada que se nos dizer... E a mim -contaram-me—pêtas já se vê!—que fervilham os namorados... - -_Electra_ - -Ah! Sim, eu já lhes perdi a conta! Mas não gosto senão d’um. - -_Cuesta_ - -D’um! E quem é? - -_Electra_ - -Isso... lá me parece perguntar de mais... - -_Cuesta_ - -Eu conheço-o? - -_Electra_ - -Se conhece! - -_Cuesta_ - -Fez-lhe a sua declaração d’uma maneira decente? - -_Electra_ - -Não me fez declaração nenhuma, nem me disse nada... até agora. - -_Cuesta_ - -E a menina ama esse timido donzel, e julga-se correspondida? - -_Electra_ - -Suspeito que me corresponde... Mas não o asseguro... - -_Cuesta_ - -Tenha confiança em mim, e conte-me isso. - -_Electra_ - -Agora não, que vou vestir-me. - -_Cuesta_ - -Falaremos depois. - -_Electra_ - -(_medrosa, olhando para o fundo_) Se não viesse a tia... - -_Cuesta_ - -Vista-se... Ámanhã será. - -_Electra_ - -Sim, ámanhã. Adeus. (_Corre para a direita. Movida de uma ideia repentina -dá meia volta_) Antes de me vestir... (_Áparte_) Não resisto. Vou dar-lhe -um beijo. (_Sae correndo pela esquerda. Cuesta segue-a com a vista e -suspira_) - - -SCENA XII - - CUESTA, URBANO E EVARISTA; depois ELECTRA - -_Cuesta_ - -(_reunindo e recolhendo os papeis_) Que felicidade a minha, se -publicamente a pudesse amar! - -_Evarista_ - -(_vestida para sahir_) Desculpe terem-no deixado para ahi, Leonardo. Já -me disse Urbano que lançamos uma grande operação. - -_Urbano_ - -(_entregando a Cuesta um talão_) Ahi tens. - -_Evarista_ - -Não me espantarei se o vir apparecer-nos com outra carga de dinheiro... -Deus o dá, Deus o recebe... (_Assoma Electra pela porta da esquerda. -Ao vêr a tia hesita, não se atreve a atravessar. Decide-se por fim, -procurando escapulir-se. Evarista segura-a_) Ora não ha! Então ainda te -não vestiste? D’onde vens? - -_Electra_ - -Da casa de engommar. Fui á Patros para me alisar um papo... - -_Evarista_ - -Gabo-te a pachorra! (_Notando que sae a ponta de uma carta de uma das -algibeiras do avental de Electra_) Que tens aqui? (_Pega na carta_) - -_Electra_ - -Uma carta. - -_Cuesta_ - -Creancices. - -_Evarista_ - -Não imagina, Cuesta, o desgosto que esta rapariga me dá com as suas -travessuras, que já não são tão innocentes como isso! (_Dá a carta a -Urbano_) Lê tu. - -_Cuesta_ - -Vamos a vêr isso. - -_Urbano_ - -(_lendo_) Senhorita—Tenho para mim que n’esse rosto feiticeiro... - -_Evarista_ - -(_zombando_) Muito bonito! (_Electra contém difficilmente o riso_) - -_Urbano_ - -(_continúa a ler_) ...que n’esse rosto feiticeiro escreveu o Supremo -artifice o problema do... do... (_Sem entender a palavra seguinte_) - -_Electra_ - -(_apontando_) ...do «cosmos». - -_Urbano_ - -Isso mesmo: do cosmos, symbolisando em seu luminoso olhar, na sua bocca -divina, o poderoso agente physico, que... - -_Evarista_ - -(_arrebatando a carta_) Que indecencias! - -_Urbano_ - -(_descobrindo outra carta em outro bolso_) está outra. (_Pega n’ella_) - -_Cuesta_ - -Vejamos essa! - -_Evarista_ - -Isto, Electra, não é o corpo de uma menina: é um marco postal. - -_Urbano_ - -(_lendo_) Desapiedada Electra, com que palavras exprimirei o meu -desespero, a minha loucura, o meu frenesi...? - -_Evarista_ - -Basta... Isso revolta-me. (_Incommodada revista as algibeiras de -Electra_) Apostaria que ainda ha mais. - -_Cuesta_ - -Indulgencia, Evarista! - -_Electra_ - -Tia, não se amofine mais... - -_Evarista_ - -Que me não amofine!... A amofinação eu t’a contarei... Veste-te -immediatamente. - -_Urbano_ - -(_consultando o relogio_) É quasi a hora. - -_Electra_ - -N’um momento! - -_Evarista_ - -Avia-te, avia-te! (_Electra, contente de se vêr solta, corre para o seu -quarto_) - - -SCENA XIII - - CUESTA, URBANO, EVARISTA E PANTOJA - -_Evarista_ - -(_com tristeza e desalento_) E então, Leonardo, que me diz a isto? - -_Cuesta_ - -O socego com que deixou devassar os seus segredos demonstra bem a pouca -importancia que lhes dá e que elles teem. - -_Evarista_ - -Não, não é tanto assim... - -_Pantoja_ - -(_pelo fundo, anciado_) Está o Cuesta! Já se não pode dizer o que se -quer... - -_Evarista_ - -(_contente de vêl-o_) Até que emfim, Pantoja... (_Formam-se dois grupos: -á esquerda Cuesta sentado, Urbano em pé; á direita, Pantoja e Evarista, -sentados_) - -_Pantoja_ - -Venho contar-lhe coisas da maior gravidade. - -_Evarista_ - -Ai de mim! seja o que Deus quizer. - -_Pantoja_ - -(_repetindo a phrase com reservas_) Seja o que Deus quizer... está muito -bem, mas queiramos tambem nós o que quer Deus, e empenhemos toda a nossa -vontade em produzir o bem, por mais que nos custe! - -_Evarista_ - -A sua energia fortifica a minha... Então... que ha? - -_Pantoja_ - -Ha pouco, em casa de Requesens, falou-se de Electra em termos dissolutos. - -Contavam que, indecorosamente envolvida por um vespeiro de namorados, -ella se divertia a receber e a mandar cartas a toda a hora do dia. - -_Evarista_ - -Infelizmente, Salvador, a frivolidade d’esta menina é tal que, com toda a -minha ternura por ella, nem eu mesma a sei defender! - -_Pantoja_ - -(_angustiado_) Pois saiba mais, e veja que não tem limites a maldade -humana. Hontem á noite o marquez de Ronda, na tertulia da sua casa, na -presença de Virginia, sua santa mulher, e de outras pessoas do maior -respeito, não cessou de exaltar os encantos de Electra com expressões do -mais material e repugnante mundanismo. - -_Evarista_ - -Tenhamos paciencia, meu amigo. - -_Pantoja_ - -Paciencia... Paciencia é uma virtude que vale muito pouco sempre que se -não reforça com a resolução. Não confundamos essa virtude com o vicio -da negligencia, e determinemo-nos com firmeza, minha querida amiga, a -resguardar Electra da infamia do mundo, em logar onde não veja exemplos -de leviandade e onde não ouça uma só palavra do contagioso impudor da -sociedade em que vivemos. - -_Evarista_ - -Onde respire um ambiente de pura virtude... - -_Pantoja_ - -E não a perturbe o zumbido de pretendentes impudicos e infecciosos... -Na critica edade da formação do caracter, em que ella está, temos nós a -obrigação de livral-a do immenso perigo, do maior de todos... - -_Evarista_ - -Que perigo? - -_Pantoja_ - -O homem. Nada na terra peor que o homem... quando não é bom. Por mim o -sei: fui o meu proprio mestre. O meu desvario, de que pela graça de Deus -me curei, e depois d’isso a minha tão longa e entristecida convalescença, -duramente me ensinaram a grave e delicada medicina das almas... -Deixe-me, e eu lhe salvarei essa menina... (_Interrompe-o Urbano, que -passa para o grupo da direita_) - -_Urbano_ - -(_dando importancia á sua revelação_) Sabem o que me disse Cuesta? -Que entre a cafila dos pretendentes ha um preferido. Electra mesma o -confessou. - -_Evarista_ - -E quem é? (_Passa da direita para a esquerda, ficando á direita de -Pantoja e d’Urbano_) - -_Urbano_ - -(_a Pantoja_) Isto poderia modificar os termos do problema. - -_Pantoja_ - -(_mal humorado_) E que significa essa preferencia? É um affecto puro, ou -é uma paixoneta immoderada, febril e ephemera, d’essas que constituem o -mais grave symptoma da loucura do seculo? (_Excitado e levantando a voz_) -É o que é preciso saber-se! que se saiba quem é! - -_Urbano_ - -Saberemos... - -_Pantoja_ - -(_passando para junto de Cuesta_) O snr. Cuesta não a interrogou? - -_Evarista_ - -(_ao centro, a Urbano_) Procura tu certificar-te. - -_Cuesta_ - -(_enfadado, em resposta a Pantoja_) Parece-me que estão os snrs. -desenvolvendo um zelo excessivo e contraproducente. - -_Pantoja_ - -(_com uma suavidade que não encobre a sua altaneria_) O meu zelo, meu -muito querido D. Leonardo, é o zelo que devo ter. - -_Cuesta_ - -(_um tanto ferido_) Eu julguei na minha qualidade de velho amigo da -casa... - -_Pantoja_ - -(_levando Urbano comsigo para a direita_) Cuesta mette-se demais com o -que não é da sua conta. - -_Cuesta_ - -(_a Evarista sem lhe dar cuidado que Pantoja o ouça_) O nosso presado -snr. Pantoja é talvez demasiadamente afouto na facilidade com que penetra -nas attribuições dos outros. - -_Evarista_ - -(_sem saber bem que explicação dar_) Emfim, como nosso amigo muito antigo -e leal... - -_Cuesta_ - -Tambem eu o sou. - -_Urbano_ - -(_olhando para o fundo_) Ahi está já o Marquez. - - -SCENA XIV - - OS MESMOS E O MARQUEZ - -_Marquez_ - -Em boa hora chego! - -_Pantoja_ - -(_áparte_) Em pessima! - -_Marquez_ - -(_depois de saudar Evarista_) E Electra? - -_Evarista_ - -Vem já. - -_Marquez_ - -(_cortejando os outros_) Já não é cêdo. - -_Urbano_ - -É a hora. (_Pantoja, impaciente, espera Electra á porta do seu quarto. -Cuesta fala com Urbano_) - - -SCENA XV - - OS MESMOS E ELECTRA - -_Pantoja_ - -(_com alegria annunciando-a_) Eil-a aqui. (_Electra entra pela direita, -muito elegantemente vestida com singeleza e distincção_) - -_Marquez_ - -(_encomiastico_) Que elegante! - -_Electra_ - -(_satisfeita, voltando-se para que a vejam de todos os lados_) Meus -senhores, que me dizem? - -_Cuesta_ - -Divina! - -_Marquez_ - -Ideal! - -_Evarista_ - -Sim: estás bem. - -_Pantoja_ - -(_fastiento dos elogios tributados a Electra_) Vamo-nos? (_Preparam-se -para sahir_) - - -SCENA XVI - - OS MESMOS E BALBINA, que interrompe bruscamente a scena, - entrando pela esquerda, pressurosa e suffocada - -_Balbina_ - -Minha senhora! Minha senhora! (_Suspensão geral_) - -_Todos_ - -(_menos Electra_) Que é? - -_Balbina_ - -Ai! o que a menina foi fazer! - -_Electra_ - -(_áparte, batendo o pé_) Descobriram-me! - -_Balbina_ - -Santo nome de Jesus!... Do que ella se havia de lembrar!... (_rindo_) -Não, que uma coisa assim!... Em nome do Padre... - -_Evarista_ - -(_impaciente_) Acaba... - -_Electra_ - -Eu confessarei, se me deixam. Foi que... - -_Balbina_ - -Foi a casa do snr. D. Maximo, e roubou-lhe... com muita graça, mas -roubou... - -_Urbano_ - -O quê?... - -_Balbina_ - -O menino mais pequeno! (_Olham todos para Electra, que promptamente se -recompõe do susto e assume uma altitude serena e grave_) - -_Evarista_ - -(_a Electra_) Isto que vem a ser? - -_Pantoja_ - -Electra! - -_Balbina_ - -Estava o menino dormindo muito socegadinho. A senhorita e a maluca da -Patros entraram pela casa dentro, ás escondidas e em bicos de pés... -Embrulharam-o, muito bem embrulhado, e fugiram com elle para cá. - -_Evarista_ - -É inacreditavel. - -_Pantoja_ - -(_reprimindo a sua irritação_) E não é decente. - -_Electra_ - -(_com effusão_) Tia! pois se nos queremos tanto, tanto d’alma!... eu a -elle e elle a mim! - -_Marquez_ - -(_enthusiasmado_) Que exemplar mulher! - -_Cuesta_ - -Merece todo o perdão. - -_Evarista_ - -Maximo estará furioso a estas horas... - -_Balbina_ - -O José já para lá foi a correr... - -_Urbano_ - -E a creança onde está? - -_Balbina_ - -Está no quarto da Patros. A menina escondeu-o lá até que ella de noite -lh’o leve para dormir com a menina. (_Sorrisos dos homens, menos de -Pantoja_) O menino acordou ha um momento, e a Patros quiz dar-lhe um -biscouto para o entreter... Eu, que o ouço, acudo, e vejo-o... Virgem -Maria! Quiz pegar n’elle... Qual! estrebuchou e bateu-me... Tive de lhe -dar uma palmadinha tambem... - -_Electra_ - -(_correndo para a esquerda com um impulso instinctivo_) Oh! meu querido -amorsinho! - -_Pantoja_ - -(_procurando contel-a_) Não. - -_Evarista_ - -(_segurando-a por um braço_) Espera. - -_Balbina_ - -(_á porta da esquerda_) Ainda se ouve chorar. - -_Electra_ - -Pobresinho d’elle! - -_Evarista_ - -Que o levem para a sua casa. - -_Electra_ - -Ninguem lhe toque... Ninguem se atreva a tocar-lhe... É meu. -(_Desprende-se á força de Evarista e de Pantoja, que querem contel-a, e -sae de uma corrida pela esquerda_) - - -SCENA XVII - - OS MESMOS E JOSÉ - -_Pantoja_ - -(_colerico, passando para a direita_) Que falta de dignidade e de juizo! - -_José_ - -(_pressuroso, pelo jardim_) Minha senhora... - -_Evarista_ - -O snr. D. Maximo que disse? - -_José_ - -Não sabia de nada. Está lá com uns senhores. Quando lhe contei poz-se a -rir... Como se nada!... Diz que o menino que está muito bem entregue á -menina. - -_Urbano_ - -Já é pachorra! - -_Evarista_ - -(_a José_) Vaes leval-o a casa. Para que a menina aprenda. - -_Marquez_ - -Voto por que a deixem gosar um pouco mais do seu lindo crime. - - -SCENA XVIII - - OS MESMOS E ELECTRA, pela esquerda, trazendo nos braços o - menino, que tem pouco mais ou menos dois annos - -_Electra_ - -Queridinho da minh’alma! - -_Evarista_ - -Deixa o menino, e vamo-nos. - -_Urbano_ - -São horas. - -_Cuesta_ - -(_ao marquez_) Eu, pela minha parte, acho que é um rasgo de maternidade. -E applaudo-o. - -_Marquez_ - -Eu digo que é um lance angelico. E adoro-o. - -_Evarista_ - -(_querendo pegar no menino_) Então, Electra? - -_Electra_ - -(_em passo ligeiro afasta-se dos que querem tirar-lhe o pequerrucho. Este -abraça-lhe o pescoço_) Não, não posso deixal-o agora. - -_Evarista_ - -Balbina, pega n’esse menino. - -_Electra_ - -(_passa de um lado para o outro, procurando um refugio_) Não! e não! - -_Urbano_ - -Dá-m’o a mim. - -_Electra_ - -Não! - -_Pantoja_ - -(_imperioso, a José_) Pegue n’elle, José. - -_Electra_ - -Não, já disse!... Ninguem lhe toca... É meu. - -_Evarista_ - -Mas, filha, se temos de sahir! - -_Electra_ - -Saiam! vão com Deus. (_Vendo que o chapeu a inhibe de abraçar e beijar -o seu amiguinho, arranca-o rapidamente da cabeça e atira-o para longe. -Continúa a passear o menino, fugindo dos que lh’o querem tirar, e, sem -ouvir, falando com o pequerrucho, que lhe deita os braços ao pescoço e a -beija_) Dorme, dorme, meu amor. Não tenhas medo, filhinho... Dorme, que -não te largo. - -_Evarista_ - -Então vamos ou não vamos? - -_Electra_ - -Eu não vou... Tens fome? tens sede, meu anjo? Eu te acalentarei... Deixa -berrar esses egoistas todos, que se não lembram de que não tens mãe! - -_Pantoja_ - -Mas tem quem olhe por elle. - -_Evarista_ - -Basta! (_Imperiosa, aos creados_) levem-o para a sua casa. - -_Electra_ - -(_resolutamente, sem deixar que toquem na creança_) A casa! a casa! -(_Com passo decidido, sem olhar para ninguem, corre para o jardim e sae. -Seguem-a todos com a vista, indecisos, não ousando dar um passo para -ella_) - -_Pantoja_ - -Que escandalo! - -_Evarista_ - -Que loucura! - -_Marquez_ - -Que juizo! o juizo mais perfeito da mulher! Achou o seu caminho. - - FIM DO SEGUNDO ACTO - - - - -ACTO TERCEIRO - - O laboratorio de Maximo. Ao fundo, occupando grande parte da - parede, divisoria com revestimento de madeira na parte inferior - e envidraçada para cima. Este tapamento separa a scena d’um - vasto local, em que se vêem maquinas e apparelhos para a - producção de energia electrica. A porta praticavel no socco - divisoria communica com a rua. - - Á direita, no primeiro plano, um corredor que dá passagem para - o jardim dos snrs. de Garcia Yuste. No ultimo plano, uma porta - de communicação com a habitação de Maximo e com a cosinha. - Entre a porta e o corredor, uma estante com livros. - - Á esquerda, porta de passagem para as casas em que trabalham os - ajudantes. Junto a esta porta, uma estante com apparelhos de - physica e objectos de uso scientifico. - - Ao fundo, dos dois lados do socco de madeira, prateleiras com - frascos de diversas substancias e livros. No angulo da direita - um pequeno aparador. - - Á esquerda da scena, a mesa do laboratorio com os objectos que - no dialogo se indicam. Fazendo angulo com ella, a balança de - precisão sobre um supporte de fabrica. - - Ao centro pequena mesa de jantar, e quatro cadeiras. - - -SCENA I - - MAXIMO, trabalhando n’um calculo, com grande attenção ao que - está fazendo—ELECTRA em pé, arranjando os multiplos objectos - que estão na meza: livros, capsulas, tubos de ensaio, etc. - Veste com simplicidade caseira, e grande avental branco. - -_Maximo_ - -(_sem levantar os olhos do papel_) Para mim, Electra, a dupla historia -que me contas, esse supposto poder dos dois cavalheiros, é um facto -destituido de valor positivo. - -_Electra_ - -(_suspirando_) Deus te ouça! - -_Maximo_ - -Tudo se reduz a duas paternidades platonicas sem nenhum effeito legal... -até agora. O mais feio do caso é a auctoridade que quer assumir o snr. de -Pantoja... - -_Electra_ - -Auctoridade oppressiva, suffocante, que me tira o ar. Nem me fales -n’isso, se não me queres amargurar a alegria de estar cá em casa! - -_Maximo_ - -Devéras? assim te affliges? - -_Electra_ - -Ainda mais: ponho-me n’esse estado singularissimo de cabeça e de -nervos... Já te contei... Em certas occasiões da minha vida apodera-se de -mim um desejo, fixo, fundo, absorvente, de tornar a vêr a imagem da minha -pobre mãe, como a via na minha meninez... Pois sempre que se aggrava para -mim a tyrannia de Pantoja, renasce o meu doloroso e invencivel anceio; e -sinto a perturbação nervosa e mental que me annuncia... - -_Maximo_ - -A visão da tua mãe? Isso, rapariga, não é d’um espirito rijo e são. -Aprende-me a governar essa imaginação... Trabalha-me para a frente, e á -má cara. O ocio é o peor de todos os perturbadores da intelligencia. - -_Electra_ - -(_muito animada_) Cá estou seguindo á risca o que me mandaste fazer. -(_Pega n’uns frascos de substancias mineraes e leva-os para uma das -estantes_) Estes frascos para o seu logar... Emquanto penso n’isto nem -penso na furia da tia logo que souber... - -_Maximo_ - -(_attento ao trabalho_) A tia até ha de acabar por gostar... Mas -deixa que tu, tambem!... Não te bastou a loucura d’hontem... raptar -insidiosamente o menino... Tornas a trazer-m’o... ficas-te a embalal-o -e adormecel-o, muito mais tempo que o regular... E, não contente ainda -com a saturnal d’hontem, pespegas-te hoje cá em casa, e aqui andas -a sargentear, para uma banda e para outra, muitissimo fresca da tua -vida!... Ainda foi por Deus, que convidados para a distribuição dos -premios e para o almoço em Santa Clara os tios ainda a estas horas -ignorem o pulo medonho que a boneca deu da casa d’elles para a minha! - -_Electra_ - -Tu é que me aconselhaste que me insubordinasse... «_Insubordina-te!_» - -_Maximo_ - -Sim senhor: fui o instigador do delicto... E gabo-me d’isso. - -_Electra_ - -A minha consciencia diz-me que não ha mal nenhum no que faço. - -_Maximo_ - -Pois está bem de vêr que não ha... Foi talvez para casa de um pulha que -tu vieste!... Não faltaria mais nada senão que principiasse agora a haver -mal em estar alguem na minha casa! - -_Electra_ - -(_trabalhando sempre e falando sem se distrahir do que faz_) Eu digo -mais: estando tu esmagado de trabalho, só, sem creados, e estando eu -para ahi, de mãos a abanar, sem ter absolutamente nada que fazer, o que -pareceria mal, o que seria indecente, é que eu não viesse... - -_Maximo_ - -Cuidar de mim e dos pequenos... Effectivamente, se isso não é logica, -digo-te que botemos luto, porque já não ha logica no mundo! - -_Electra_ - -Queridos pequerruchinhos! Toda a gente sabe que os adoro... São a minha -paixão, o meu fraco... (_Maximo, abstrahido n’uma conta, cessa de dar -attenção ao que ouve_) Chega-me a parecer... (_Approxima-se da mesa -levando uns livros que não estavam no seu logar_) - -_Maximo_ - -(_vagamente_) Quê? - -_Electra_ - -Que nem a sua propria mãe lhes quereria tanto como eu! - -_Maximo_ - -(_satisfeito com o resultado do seu calculo, lendo em voz alta uma -cifra_) Zero, trezentos e dezoito... Fazes favor de me dar as _Tabellas -de resistencias_... aquelle livro encarnado... - -_Electra_ - -(_correndo á estante da direita_) Não é este? - -_Maximo_ - -Mais adeante. - -_Electra_ - -É verdade... que tôla! - -_Maximo_ - -Fica-te muito bem,—sabes?—que em tão pouco tempo conheças todos os meus -livros e os seus logares na estante... - -_Electra_ - -Não dirás que te não puz tudo muito arranjadinho. - -_Maximo_ - -Não; e darei graças a Deus, porque entrou finalmente n’este antro, -revolto e poeirento, a limpeza e a ordem! - -_Electra_ - -(_desvanecida_) Confessas então que não sou absolutamente, absolutamente -inutil? - -_Maximo_ - -(_olhando com fixidez para ella_) Não ha nada inutil na creação. Quem te -diz a ti que te não creou Deus para altos destinos? Quem te diz que não -virás a ser... - -_Electra_ - -(_anciosa_) O quê? - -_Maximo_ - -Uma alma grande, formosa e nobre, que está por hora meia afofada ainda na -serradura e na estopa de uma boneca? - -_Electra_ - -(_com alegria_) Pae do ceu, se assim fosse! (_Maximo levanta-se e, na -estante da esquerda, pega n’umas barras de metal, que examina_) Nem me -digas isso que me entonteces de alegria... Pode-se cantar?... - -_Maximo_ - -Podes cantar... (_Electra repete trauteando o andante de uma sonata_) -A boa musica é a espóra das ideias preguiçosas, que não affluem; e -é o gancho que puxa pelas que estão agarradas de mais ao fundo do -entendimento. Canta, companheira, canta... (_Prosegue attento á sua -occupação_) - -_Electra_ - -(_á estante do fundo_) Continúo coordenando isto. Os metaloides para este -lado. Já os conheço pelos rotulos... Como este trabalhito entretem! Era -capaz de ficar aqui todo o santo dia... - -_Maximo_ - -(_jovial_) Camarada! - -_Electra_ - -(_correndo para elle_) Que manda o magico? - -_Maximo_ - -Eu não mando por ora. Proponho. (_Pega n’um frasco que contém um metal em -limalha_) Se a menina magica quer collaborar commigo ha de fazer favor de -me pesar trinta grammas d’este metal. - -_Electra_ - -Péso. - -_Maximo_ - -Sabes já pesar na balança de precisão... - -_Electra_ - -Perfeitamente. Dá cá. (_Alegre, contente, ao deitar o metal na capsula, -admira-lhe a belleza_) É lindo! Que é isto? - -_Maximo_ - -É aluminio. Parece-se comtigo. Pesa pouco... - -_Electra_ - -Ah! eu então?... - -_Maximo_ - -Pesa pouco, mas é extremamente tenaz. (_Olhando-lhe para a cara_) Tu -tambem? - -_Electra_ - -Em coisas que eu cá sei, sou tenaz até á barbaridade, e, chegado o -momento, estou certa de que o seria até ao martyrio. (_Continúa pesando -sem interromper a operação_) - -_Maximo_ - -Que coisas são essas? - -_Electra_ - -Que te importa! Tu és o magico, mas eu é que magíco... commigo, ás vezes. - -_Maximo_ - -(_attento ao trabalho_) Pesas-me depois setenta grammas de cobre. -(_Dá-lhe outro frasco_) - -_Electra_ - -O cobre então serás tu... Não: é tambem feio de mais para se parecer -comtigo. - -_Maximo_ - -É feio, mas util. - -_Electra_ - -Compara-te antes ao ouro, que é o que vale mais. - -_Maximo_ - -Nada de ditos! Estás a desmoralisar-me o laboratorio. - -_Electra_ - -Dá ao menos licença de que me reveja nas qualidades do metal bonito que -se parece commigo... Sou tenaz... Não me quebro... Farás favor de o dizer -á tia e ao tio Urbano, que, no sermão que me prégaram esta manhã, por -umas quarenta vezes me disseram que sou fragil... Fragil, eu! - -_Maximo_ - -Não sabem o que dizem. - -_Electra_ - -Sabem lá elles... nem o que é o aluminio, nem o que eu sou! - -_Maximo_ - -Mas toma sentido, que te não equivoques no peso! - -_Electra_ - -Equivocar-me eu! Pateta! Eu tenho muito mais tino do que ninguem cuida! - -_Maximo_ - -Já vou vendo, já vou vendo! (_Dirige-se a uma das estantes em procura -d’um cadinho_) A tia, quando chegar a casa, é que lhe ha de custar um -pouco mais a compenetrar-se de que tenhas todo o tino que dizes... - -_Electra_ - -Deus, que vê os corações, sabe se eu tenho culpa! Porque é que a tia não -deixa que eu venha para cá? - -_Maximo_ - -(_voltando com o cadinho que escolheu_) Por que tu és uma menina -solteira, e as meninas solteiras não podem ficar assim em casa d’um homem -só, por mais honrado e por mais digno que elle seja. - -_Electra_ - -Pois, senhor, não haja dúvida que, por essa regra, estão divertidas as -pobres meninas solteiras! (_Termina o peso e apresenta os dois metaes -pesados nas suas duas capsulas de porcelana_) Aqui tens o aluminio e o -cobre. - -_Maximo_ - -(_pegando nas capsulas_) Um primor. Que limpeza de mãos... Que firmeza de -pulso, e que serenidade de attenção para não fazer d’isto uma trapalhada! -Estás fina. - -_Electra_ - -Estou contente apenas. Quando se tem a alegria tudo corre bem. - -_Maximo_ - -Ahi disse a collega uma importantissima verdade. (_Verte os dois corpos -no cadinho_) - -_Electra_ - -Isso é um cadinho, não é? - -_Maximo_ - -Sim senhor, para fundirmos os dois metaes. - -_Electra_ - -Para nos fundirmos tu e eu, se não pegarmos á bulha no meio do fogo... -(_Trauteia a sonata_) - -_Maximo_ - -Faze favor de chamar o Ricardo. - -_Electra_ - -(_correndo á porta da esquerda_) Ricardo! - -_Maximo_ - -Que venha tambem o Gil. - -_Electra_ - -Gil! Venham ambos, que manda o mestre... não se demorem! - - -SCENA II - - ELECTRA, MAXIMO, RICARDO E GIL, o primeiro vestido de operario, - com blusa, o segundo em trage burguez, com mangas de alpaca, - pena na orelha - -_Gil_ - -(_mostrando um calculo_) Aqui está o valor obtido. - -_Maximo_ - -(_lê rapidamente a cifra_) 0,158,073... Está errado (_Seguro do que diz -e com certa severidade_) Não é possivel que para um diametro de cabo -menor de quatro millimetros obtenhamos um circuito maior, segundo o teu -calculo. A verdadeira distancia deve ser inferior a duzentos kilometros... - -_Gil_ - -Não sei então... eu... (_Confuso_) - -_Maximo_ - -Está mal. É que te distrahiste. - -_Electra_ - -É que vocês, coitados, não teem... a attenção serena... - -_Maximo_ - -Emquanto fazeis os calculos estaes a pensar em historias da carocha. - -_Electra_ - -E a conversar, a falar de touros, de theatros, da politica... assim não -fazemos nada. - -_Gil_ - -Vou rectificar as operações. - -_Electra_ - -E, sobretudo, muita paciencia, muita contensão, todos os cinco -sentidos!... Senão tornamos á mesma. - -_Gil_ - -Vou vêr isto. - -_Maximo_ - -Anda lá e não te descuides (_Gil sae e Maximo, virando-se para Ricardo, -entrega-lhe o cadinho_) Aqui tens. - -_Ricardo_ - -Para fundir... - -_Maximo_ - -Está preparado o forno? - -_Ricardo_ - -Sim senhor. - -_Maximo_ - -Mette immediatamente, e quando esteja em fusão, avisa. Com esta aleação -vamos fazer um novo ensaio de conductibilidade... Espero chegar aos -duzentos kilometros com perda escassissima. - -_Ricardo_ - -Faz-se o ensaio hoje? - -_Maximo_ - -(_atormentado por uma ideia fixa_) Sim, quanto antes. Não abandono este -problema. (_A Electra_) É a minha ideia fixa, que me não deixa viver. - -_Electra_ - -Ideia fixa tambem eu tenho uma, e por ella vivo. Avante! - -_Maximo_ - -Avante, _Electra_! Avante, _Ricardo_! - -_Ricardo_ - -Não manda mais nada, patrão? - -_Maximo_ - -Que actives a fusão. - -_Electra_ - -Que se fundam bem os metaes! - -_Ricardo_ - -Hão de ficar os dois em um só, senhorita. - -_Electra_ - -Dois n’um. - -_Maximo_ - -(_como preparando-se para outra occupação_) Agora, minha graciosa -discipula... - -_Electra_ - -Agora ha de o mestre perdoar, mas tenho de ir vêr se acordaram os meninos. - -_Maximo_ - -Ha quanto tempo comeram? - -_Electra_ - -Ha trez quartos d’hora. Devem dormir meia hora mais. Está bem regulado -assim? - -_Maximo_ - -Está bem tudo o que determines. - -_Electra_ - -Olha o que dizes, que estarás por tudo... - -_Maximo_ - -(_carinhosamente_) Por tudo. - -_Electra_ - -Que se fique sabendo!... Eu venho já. (_Sae ligeira e cantando pela -esquerda. Entra ao mesmo tempo um operario, pelo fundo_) - - -SCENA III - - MAXIMO E O OPERARIO - -_Maximo_ - -Que ha? - -_Operario_ - -Veio aquelle senhor, o marquez de Ronda... - -_Maximo_ - -Porque não entrou? - -_Operario_ - -Perguntou pelo patrão... Disse-lhe que tinha uma visita... Elle então, -como pessoa da casa, logo disse: «Já sei... ha de ser a senhorita -Electra... Voltarei logo». - -_Maximo_ - -Porque lhe não disseste que entrasse, meu pascacio? - -_Operario_ - -Como me disse que voltava... - -_Maximo_ - -Pois sempre que vier, que entre, esteja que não esteja a senhorita -Electra, e sobretudo estando. - -_Operario_ - -Assim se fará. (_Sae pelo fundo_) - - -SCENA IV - - MAXIMO E ELECTRA - -_Electra_ - -(_voltando do interior da casa_) Dormidinhos como dois anjos... até -d’aqui a meia hora... - -_Maximo_ - -E os adultos não comem? não se almoça hoje n’esta casa? - -_Electra_ - -Quando queiras. Está feito o almoço. (_Dirige-se para o aparador, onde -está a pequena baixella: talheres, toalha, guardanapos, fructeira_) - -_Maximo_ - -É como deve ser... Tudo a horas... assim se chega sempre ao que se quer. - -_Electra_ - -(_estendendo a toalha_) Ao que eu quero não chegarei nunca por mais -pontualidade que ponha... - -_Maximo_ - -Deixa-me ajudar-te... (_Vae-lhe passando os pratos, os talheres, o pão, o -vinho_) Chegas, sim. - -_Electra_ - -Achas? - -_Maximo_ - -Acho. Tão certo que chegas como que tenho uma fome de cincoenta cavallos -de força. - -_Electra_ - -Melhor, para que te agrade o almoço. - -_Maximo_ - -A elle! - -_Electra_ - -N’um minuto. (_Sae_) - - -SCENA V - - MAXIMO E GIL - -_Maximo_ - -Bemdita seja essa mulhersinha preciosa, que tão simples, tão instinctiva, -tão ingenuamente, traz a sua grande alma inquieta, torturada e núa, a -inundar de alegria e de luz este esconderijo da sciencia, transformando -tão estreita aridez em tão vasto paraizo! Bemdita a que com um mero -sorriso de creança vem arrancar da sua abstracção consumidora este pobre -Fausto, envelhecido aos trinta e cinco annos, e dizer-lhe: «Nem só de -verdades se vive!» (_Interrompe-o Gil, que tem entrado um pouco antes e -se approxima sem ser visto_) - -_Gil_ - -(_satisfeito mostrando o calculo_) Pronto. Creio ter achado a cifra -exacta. - -_Maximo_ - -(_pega no papel e olha-o vagamente, sem se fixar_) A exactidão!... E -tambem tu pensarás que só de coisas exactas vive o homem!? Saturada -de certeza, a alma insaciada appetece, mais que tudo, o que é apenas o -sonho, e vôa para elle, avassalada e rendida, sem nem sequer tentar saber -se é para a realidade, se para a illusão, que vôa!... Considerando bem, -Gil, nada mais natural do que um equivoco de calculo. - -_Gil_ - -Sim, senhor, muito facilmente se distrae uma pessoa pensando em... - -_Maximo_ - -Em coisas vagas, indefinidas, aereas, vaporosamente illuminadas de côr de -rosa e d’azul... - -_Gil_ - -Eu, distrahido, confundi a cifra da potencial com a da resistencia... Mas -já rectifiquei... Queira vêr se está bem. - -_Maximo_ - -(_lê_) 0,318,73... (_Com repentina transição para um goso expansivo_) -Homem! e que não estivesse! Se ainda errasses outra vez?... A exactidão -dos mathematicos perdoaria, por hoje, á nossa phantasia de poetas. - -_Gil_ - -Ah! a exactidão não perdôa nunca: é a tyrannia da nossa vida; -opprime-nos, escravisa-nos, não nos deixa respirar. - -_Maximo_ - -Essa mestra implacavel tambem algumas vezes nos sorri, nos acalenta e nos -encanta. Vês essa cifra? - -_Gil_ - -(_contente, dizendo de memoria_) 0,318,73. - -_Maximo_ - -Pois sabe que nunca os maiores poetas do mundo, Virgilio ou Homero, -Dante, Lope de Vega ou Calderon escreveram estrophe mais inspirada e mais -poetica do que é hoje para mim a d’esses miseros numeros! É verdade que a -harmonia, o encanto poetico não é n’elles que está. Está em que... Adeus, -vae almoçar... Deixa-me, deixa-nos... (_Afasta-o com a mão para que saia. -No ponto da scena em que pode olhar para o interior da habitação_) Ali é -que está a imaginação, a poesia, o ideal, no fundo d’essa cosinha, onde -n’este momento ondula a mais altiva e a mais virginal flôr da innocencia, -da candura e da bondade humana. - - -SCENA VI - - MAXIMO E ELECTRA - -_Electra_ - -(_entrando com uma terrina fumegante_) Aqui está o banquete. - -_Maximo_ - -A vêr o que se fez! arroz com menudilhos... O thema é digno de Lucullo. - -_Electra_ - -Elogia-o sem provar: está superfino. (_Senta-se_) Vou-te servir. -(_Servindo-o_) - -_Maximo_ - -Não tanto. - -_Electra_ - -Olha que não tens mais nada... Acho que se não deve ter mais d’uma -coisa... e escolher a melhor. - -_Maximo_ - -Meu Deus! o que diria a tia, se agora nos visse aqui almoçando juntos... - -_Electra_ - -Um almoço feito por mim! - -_Maximo_ - -Sabes que está maravilhoso o teu arroz? - -_Electra_ - -Foi minha mestra, em Hendaya, uma senhora valenciana. Eu fiz um curso de -arrozes. Sei-os fazer de sete maneiras differentes, todos riquissimos. - -_Maximo_ - -Decididamente és todo um mundo novo. - -_Electra_ - -E quem é o meu Colombo? - -_Maximo_ - -Não ha Colombo que ousasse descobrir-te. Tu és um mundo que apparece. - -_Electra_ - -Será talvez por eu ser um mundosito assim desconhecido, que querem -metter-me no convento para me livrar do perigo de que dêem commigo. E é -o que me espera... - -_Maximo_ - -D’essa é bem natural que não escapes. - -_Electra_ - -(_assustada_) Que dizes! - -_Maximo_ - -Quero dizer: escapas... porque te hei de salvar eu. - -_Electra_ - -Prometteste-me o teu amparo. - -_Maximo_ - -E dou-t’o. - -_Electra_ - -Que tencionas fazer? - -_Maximo_ - -Eu te digo: o negocio é grave... - -_Electra_ - -Falas com a tia, já se sabe... - -_Maximo_ - -Falo com a tia... - -_Electra_ - -E que lhe dizes? - -_Maximo_ - -Falo com o tio... - -_Electra_ - -Façamos de conta que se acabaram todos os tios com quem fazes tenção de -falar. E depois? - -_Maximo_ - -Depois, tendo-te provisoriamente abrigado no mais inviolavel sacrario, -procederei minuciosamente ao exame e á sellecção dos noivos. E sobre este -assumpto temos que conversar... - -_Electra_ - -Vaes ralhar-me? - -_Maximo_ - -Não: já me disseste que te enfastia esse brinquedo de bonecos vivos. - -_Electra_ - -Cuidei que me distrahiriam, e cada vez me entristeciam mais! - -_Maximo_ - -Nenhum d’elles te inspirou um sentimento especial, distincto do dos -outros? - -_Electra_ - -Nenhum! - -_Maximo_ - -Declararam-se todos por escripto? - -_Electra_ - -Uns por escripto; outros por meio de olhares espantosos, que nunca -cheguei a comprehender bem o que quizessem exprimir, e por isso não metto -estes em conta... - -_Maximo_ - -Perdão: teem de entrar todos no rol: epistolares e olheiros. E aqui -chegamos ao ponto sobre que devo dar-te, desde já, a minha sincera -opinião: casa-te, Electra; casa-te quanto antes! - -_Electra_ - -(_envergonhada, baixando os olhos_) Assim... tão breve!... - -_Maximo_ - -O mais breve possivel. Precisas de ter a teu lado um homem, um marido. -Tens a alma, a tempera, os instinctos e as virtudes da casa conjugal. É -portanto forçoso que da grande lista dos teus pretendentes se escolha -um, o melhor, o mais digno de te amar e de ser amado por ti, porque, sem -amor, considera bem que não ha familia. - -_Electra_ - -Estou certa. - -_Maximo_ - -E tu nasceste destinada para a vida exemplar e fecunda de um lar feliz... -(_Teem acabado de comer o arroz_) - -_Electra_ - -Queres mais? - -_Maximo_ - -Não: estou satisfeito. - -_Electra_ - -De sobremesa tens fructa, que é do que mais gostas. (_Põe na mesa o -fructeiro_) - -_Maximo_ - -(_pegando n’uma bella maçã_) Gósto, porque esta (_mostrando-lhe a maçã_) -é a verdade em toda a sua pureza. Aqui não interveio a mão do homem senão -para a colher. - -_Electra_ - -É a obra divina, bella, simples, admiravel. - -_Maximo_ - -Faz Deus esta prodigiosa maravilha para a dar ao homem; e nem sempre lh’a -agradece aquelle que foi eleito para em certo dia e a certa hora passar -por baixo da macieira em fructo! - -_Electra_ - -Quantas vezes basta, para colher a felicidade, esquecer-se a gente por um -momento da terra, e levantar os olhos para cima! - -_Maximo_ - -(_contemplando-a_) Pois é o que eu faço, Electra. - - -SCENA VII - - ELECTRA, MAXIMO E RICARDO, pela esquerda - -_Ricardo_ - -Mestre... - -_Maximo_ - -Quê? - -_Ricardo_ - -Chegamos ao rubro. - -_Electra_ - -A fusão! - -_Maximo_ - -Avisa-me ao branco incipiente. - -_Ricardo_ - -Virei dizer. - -_Maximo_ - -Olha. Que preparem na officina a bateria Bunsen. E previne de que hei de -precisar para logo do dinamo grande. - - -SCENA VIII - - ELECTRA E MAXIMO, depois o OPERARIO - -_Electra_ - -(_com tristeza_) D’aqui a um instante vaes tratar da fusão, e eu... - -_Maximo_ - -Tu—está claro—irás para casa. - -_Electra_ - -Nem é bom pensar no que vae ser quando eu chegue! - -_Maximo_ - -Tu ouves, calas-te, e esperas. - -_Electra_ - -Esperar... esperar sempre! (_Acabam de almoçar_) Ai que, se tu me não -vales, não sei o que será de mim, com a tia e com o snr. de Pantoja... -Elles a teimarem que eu vá para anjo, e Deus a desageitar-me cada vez -mais para a carreira angelical! - -_Maximo_ - -(_que se tem levantado e parece disposto a continuar o trabalho_) Não -tenhas cuidado. Confia em mim. Eu te irei requerer como teu protector e -teu mestre... - -_Electra_ - -(_approximando-se supplicante_) Não te demores então, Maximo. Por amor -dos teus filhos, não te demores. Se tu me tomasses tambem como filha, -para estar com os meninos, para viver com elles! - -_Operario_ - -(_pelo fundo_) O snr. marquez de Ronda. - -_Electra_ - -(_assustada_) Vou-me embora? - -_Maximo_ - -Por vir o Marquez? (_Ao creado_) Que entre. (_O operario sae_) -Offerecia-se-lhe café, se houvesse. - -_Electra_ - -Vou buscal-o. (_Sae com pressa_) - - -SCENA IX - - MAXIMO, MARQUEZ E ELECTRA. No fim da scena, RICARDO - -_Maximo_ - -Entre, Marquez. - -_Marquez_ - -Maximo... (_Olhando em redor, desconsolado_) E Electra? - -_Maximo_ - -Na cosinha. Foi buscar-nos café. - -_Marquez_ - -Na cosinha! Continua-se vivendo então n’esta casa como na ilha de -Robinson? Ahi está o que não comprehendo: como tendo você lá em cima -todos os confôrtos d’um palacio... - -_Maximo_ - -É muito simples... O trabalho e o habito do estudo enclausuram-me -aqui. Puz os pequenos ao lado da officina para os ter ao pé de mim; e, -reduzindo o mais que me foi possivel a minha orbita d’acção, para aqui -me fiquei, recluso no dever que me impuz, como um asceta na estreiteza da -sua gruta. - -_Marquez_ - -Sem nem sequer se lembrar de que é rico... - -_Maximo_ - -A minha riqueza é a singeleza, o meu luxo é a sobriedade, o meu repouso é -o trabalho, e assim viverei emquanto viver só... - -_Marquez_ - -Não tardará então muito em mudar de vida... Precisamente lhe venho -contar... (_Entra Electra com a bandeja contendo o serviço e a maquina de -café_) Oh! a deusa do lar! - -_Electra_ - -(_adeanta-se cautelosa de que não caia alguma peça_) Por Deus, Marquez, -não me ralhe. - -_Marquez_ - -Eu ralhar? - -_Electra_ - -Nem me faça rir... para não haver um desastre. Sentido! (_O marquez pega -na bandeja_) - -_Marquez_ - -Aqui me tem para companheiro de infortunios... Ainda então lhe parece que -eu seja dos que ralham? Eu sou dos que explicam. Mas não pertencem a esta -seita os senhores ali do outro lado do jardim... - -_Electra_ - -Os tios. - -_Marquez_ - -A noticia do lindo idyllio, que se está passando aqui como na -inverosimilhança de uma tapeçaria ou de um panno de leque, lá chegou já -á distribuição dos premios em Santa Clara, onde a estas horas estará -deliberando o conclave. As suas resoluções serão terriveis. - -_Electra_ - -A Virgem Maria me valha! - -_Marquez_ - -Socegue... - -_Maximo_ - -Isso tem de ser agora commigo. - -_Marquez_ - -Será comnosco. O seu café, minha menina, está digno de Jupiter, pae dos -deuses: é do que elles tomam no olympo, aos domingos. - -_Maximo_ - -Segue-se, Electra, que em vez de regressar sósinha, teremos de ir ambos -levar-te aos snrs. de Yuste. - -_Ricardo_ - -(_assumando á porta da esquerda_) Snr. D. Maximo, o branco incipiente! - -_Electra_ - -(_com inconsciente alegria infantil_) A fusão! - -_Maximo_ - -(_a Ricardo_) Não posso agora. Chama-me quando chegar o branco -resplandecente. (_Ricardo sae_) - -_Marquez_ - -Peço licença... (_Tendo-se servido de vinho_) Eu brindo o hymeneu dos -metaes, saudando os cadinhos do magico prodigioso. - - -SCENA X - - MAXIMO, ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA - -_Electra_ - -(_aterrada_) D. Salvador! Deus me acuda! - -_Maximo_ - -Queira entrar, snr. de Pantoja. (_Pantoja adeanta-se lentamente_) A que -devo a honra...? - -_Pantoja_ - -Antecipando-me aos meus bons amigos, tios d’esta menina, que d’aqui a um -momento terão voltado a casa, aqui me acho resolvido a cumprir o dever -d’elles e o meu. - -_Maximo_ - -A familia toda consubstanciada no snr. de Pantoja... - -_Marquez_ - -Para metter medo á gente. - -_Maximo_ - -Considera-nos reus d’algum tremendo crime... - -_Pantoja_ - -Não considero senão unicamente que esta menina não pode estar aqui. Venho -buscal-a. Ha de sahir commigo. (_Pega na mão de Electra, insensivel, -immobilisada pelo medo_) Vem. - -_Maximo_ - -Queira perdoar (_Sereno e grave, approxima-se de Pantoja_) Com todo o -respeito que lhe devo, rogo-lhe, snr. de Pantoja, que solte a mão d’esta -senhora. Antes de lhe tocar, teria sido mais opportuno que falasse -commigo, que sou o dono d’esta casa, e o responsavel de tudo o que n’ella -se passa, de tudo o que vê... e de tudo o que não queira vêr. - -_Pantoja_ - -(_depois de uma breve hesitação larga a mão de Electra_) Seja assim. -Deixarei de dirigir-me a esta pobre creatura, desvairada ou trazida aqui -ao engano, e falarei comtigo, a quem quizera dizer apenas muito breves -palavras:—Venho buscar Electra. Dá-me o que não te pertence, o que não te -pertencerá nunca. - -_Maximo_ - -Electra é inteiramente livre. Nem eu a trouxe aqui contra sua vontade, -nem contra sua vontade a levará d’aqui quem quer que seja. - -_Marquez_ - -Se se pudesse, pelo menos, conhecer os fundamentos da auctoridade do snr. -de Pantoja... - -_Pantoja_ - -Eu não preciso de lhes dizer, aos senhores, qual é a proveniencia da -auctoridade de que disponho, e que esta menina me reconhece, prestando-me -a obediencia que lhe peço. Não é verdade, Electra, que basta uma palavra -minha para immediatamente te separar d’estes homens, e levar-te para quem -depositou em ti o seu mais puro amor, e nem vive nem quer viver na terra -senão para ti? (_Electra, immobilisada, olhando para o chão, cala-se_) - -_Maximo_ - -Não, bem vê que não basta essa unica palavra sua. - -_Marquez_ - -Não offerece dúvida que é uma palavra bôa, mas insufficiente. - -_Maximo_ - -Quer permittir que a interrogue eu? Electra, minha querida amiga, -assegura-te o coração e a consciencia que entre todos os homens que -conheces, entre os que vês aqui e os que não estão presentes, é sómente e -exclusivamente ao muito dedicado e ao muito respeitavel snr. de Pantoja -que tu deves submissão e amor? - -_Marquez_ - -Fale abertamente e destemidamente, menina! Diga-nos o que o seu coração e -a sua consciencia lhe dictarem. - -_Maximo_ - -E se este senhor, a quem indubitavelmente deves toda a consideração e -todo o respeito, te ordenar que o sigas, e nós outros te dissermos que -fiques, de tua livre e plena vontade, que determinas? - -_Electra_ - -(_depois de penosa lucta_) Ficar. - -_Marquez_ - -Já vê... - -_Pantoja_ - -Não está em si... Fascinaram-a. - -_Maximo_ - -Parece-me inutil a insistencia... - -_Marquez_ - -Para acabar vencido... - -_Pantoja_ - -(_com fria tenacidade_) Eu não sou dos que os homens vencem. A razão é -vencedora sempre, e eu seria indigno da que Deus me deu, e que defenderei -até o meu derradeiro alento, se a não puzesse continuamente acima de todo -o erro e de todo o extravio. Maximo, os metaes que ardem nos teus fornos -são menos duros do que eu. As tuas mais poderosas maquinas são brinquedos -de vidro comparadas com a minha vontade. Electra pertence-me: basta que -eu o diga. - -_Electra_ - -Que terror, meu Deus! - -_Maximo_ - -Se quer assegurar-se do que póde a sua vontade opponha-a á minha. - -_Pantoja_ - -Dispenso demonstrações comtigo ou com quem quer que seja. Basta-me saber -o que devo fazer, e fazer o que devo. - -_Maximo_ - -Pois toda a minha força é essa: o dever. - -_Pantoja_ - -O teu dever é uma hypothese terrena e accidental. O meu gira em torno de -uma consciencia tão rija e tão forte como o eixo do universo; e os meus -fins são tão altos que nem tu os alcanças nem poderás alcançal-os nunca. - -_Maximo_ - -Por mais incommensuravel que seja a elevação dos seus fins, pelo amor de -Electra eu irei a toda essa altura, para a defender. - -_Marquez_ - -Esta senhora voltará comnosco á sua casa. - -_Maximo_ - -Commigo. E isso bastará para justificação de todos os seus actos, e para -que os tios lhe perdoem, se teem que perdoar-lhe. - -_Pantoja_ - -Os senhores de Yuste não renegarão n’esta conjunctura os sentimentos e -as convicções de toda a sua vida. (_Exaltando-se_) Eu estou no mundo -unicamente para que Electra se não perca. E não se ha de perder. Assim o -quer a vontade divina, de que a minha é um reflexo, e que vós confundis -com um capricho da brutalidade humana, porque não sabeis nada do que são -nas puras regiões espirituaes as emprezas de uma alma... Pobres cegos! -pobres loucos!... - -_Electra_ - -(_consternada_) D. Salvador, não se desgoste—por Nossa Senhora lh’o peço! -Eu não sou má, Maximo é bom... Sabem-o todos... Sabem-o os tios... e o -snr. de Pantoja bem o sabe! Não deveria sublevar-me até o ponto de vir -para aqui sósinha, como determinei vir... Foi um acto de grave rebeldia, -concordo. Voltarei para casa... Maximo e o snr. de Ronda irão commigo, e -os tios hão de perdoar-me... (_A Maximo e ao Marquez_) Não é verdade que -me perdoarão? (_A Pantoja_) Porque é esta má vontade a Maximo, que nunca -lhe fez mal nenhum?... Confessa—pois não é assim?—que elle nunca lhe fez -nem lhe quiz mal? Em que se funda essa aversão? - -_Maximo_ - -Não é aversão: é odio recondito, inextinguivel. - -_Pantoja_ - -Odiar-te, não. As minhas crenças prohibem-me o odio. De certo que ha -entre nós ambos uma incompatibilidade proveniente da nossa differença de -principios... Teu pae, Lazaro Yuste, e eu, tivemos desavenças profundas, -que é melhor esquecer... Mas a ti, Maximo, nunca te quiz mal... Antes -te quero bem. (_Mudando de tom para mais suave e conciliador_) Perdôa a -severidade com que te falei, e permitte que, fazendo um grande esforço -sobre mim, eu te implore que deixes Electra partir commigo. - -_Maximo_ - -(_inflexivel_) Não posso annuir. - -_Pantoja_ - -(_violentando-se mais_) Por segunda vez, Maximo, esquecendo todos os -resentimentos, profundamente humilhado, eu te supplico... Deixa-a. - -_Maximo_ - -Não. - -_Pantoja_ - -(_devorando o vexame_) Bem... Pela segunda vez m’o negaste... Para -offerecer ás tuas bofetadas não tenho mais de duas faces, por isso te não -peço por terceira vez a mesma coisa. (_Com gravidade e rigidez_) Adeus, -Electra... Maximo, Marquez, adeus. - -_Electra_ - -(_baixo a Maximo_) Por quem és, Maximo, transige um pouco... - -_Maximo_ - -(_redondamente_) Não. - -_Electra_ - -Não disseste que me levarieis, tu e o Marquez? Vamos todos. (_Esta phrase -é ouvida por Pantoja que se detem na sua marcha lenta para a sahida_) - -_Maximo_ - -Não... Ha de ir primeiro elle. Nós iremos quando nos convenha, e sem a -salvaguarda de ninguem. - -_Pantoja_ - -(_friamente da porta_) E a que vaes senão a aggravar a situação d’essa -menina? - -_Maximo_ - -Vou ao que devo ir. - -_Pantoja_ - -Pode-se saber o que é? - -_Maximo_ - -Escusado. - -_Pantoja_ - -Não preciso de que me reveles as tuas intenções. Para quê, se as conheço? -(_Dá alguns passos para o centro da scena, cravando a vista em Maximo_) -Não me fio na expressão dos teus olhos. Penetro na tua mente, e descubro -o que pensas... Interroguei-te, não para saber da tua intenção mas para -ouvir as promessas com que a encobres... Em ti não mora a verdade, nem o -bem... não, não, não... (_Sae repetindo as ultimas palavras_) - - -SCENA XI - - ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ E RICARDO (Principia a escurecer) - -_Electra_ - -(_consternada, procurando um refugio em Maximo_) Maximo, ampara-me! -Livra-me do terror que me inspira este homem. - -_Maximo_ - -Conta commigo. Não tenhas medo. (_Pega-lhe nas mãos_) - -_Marquez_ - -Começa a escurecer. Vamos. - -_Electra_ - -Vamos... (_Incredula e medrosa_) Então, deveras, sempre vou comtigo? - -_Maximo_ - -Juntos n’esta hora, como o seremos para toda a vida... - -_Electra_ - -Comtigo para sempre? (_Augmenta a escuridão_) - -_Ricardo_ - -(_á porta da esquerda_) Snr. D. Maximo, o branco deslumbrante! - -_Marquez_ - -(_a Ricardo_) A fusão está feita. Creio que se podem apagar os fornos. - -_Maximo_ - -(_com effusão beijando as mãos de Electra_) Minha alma, minha consolação, -minha alegria! comtigo para todo sempre... O que vou dizer aos nossos -tios é que te peço, que te faço minha, que serás a minha mulher e a -mamãsinha dos meus filhos. - -_Electra_ - -(_opprimida, como se a alegria a transtornasse_) Não me enganas?... Virei -a viver sempre com os teus meninos? Serei entre elles a menina maior?... -Serei tua mulher? - -_Maximo_ - -(_com voz forte_) Sim. (_Illuminada a casa do fundo, resplandece com viva -claridade toda a scena_) - -_Marquez_ - -Vamo-nos. É noite. - -_Electra_ - -É o dia!... o meu dia eterno! (_Maximo enlaça-a pela cintura e saem. O -marquez segue-os_) - - FIM DO TERCEIRO ACTO - - - - -ACTO QUARTO - - Jardim do palacio de Garcia Yuste. Á direita, a entrada para - o palacio, com escadaria larga de poucos degraus. Á esquerda, - jogando com a entrada, um corpo de architectura grutesca, - ornado com baixos-relevos: junto d’esta construcção, um banco - de pedra, em angulo, de risco elegante. Jarrões ou plantas - exoticas adornam este terraço, com pavimento de mosaico, entre - o edificio e o solo areado do jardim. - - No segundo plano e no fundo, o jardim com grandes arvores e - macissos de flores. Do centro partem trez arruamentos em curva. - O da esquerda leva á rua. Cadeiras de ferro. É de dia. - - -SCENA I - - ELECTRA E PATROS, com um cesto de flores que acabam de colher - -_Electra_ - -(_tirando uma carta da algibeira_) Deixa ficar as flores, e aqui tens a -carta. - -_Patros_ - -(_pousando as flores_) Com esta faz trez desde esta manhã! - -_Electra_ - -(_escolhendo as flores mais pequenas com que fórma tres ramilhetes_) São -tantas as coisas que Maximo tem que me dizer, e eu a elle... - -_Patros_ - -Bemdito seja Deus, que da noite de hontem para hoje tanta felicidade lhe -deu, senhorita Electra! - -_Electra_ - -E que depressa, Patros! que rapidamente! como n’um sonho, que tudo -se fez! Hontem á noite fiquei pedida, e hoje marcam os tios o dia do -casamento... - -_Patros_ - -E no emtanto, carta para lá, carta para cá... de não acabar nunca... - -_Electra_ - -Que queres? Se desde hontem nos não podemos vêr como companheiros, na -fabrica, porque sômos noivos agora... Temos de nos corresponder por -escrito. Na carta das oito horas e um quarto falava-lhe das coisas muito -serias que estou impaciente por dizer-lhe. Na das nove e vinte e cinco -recommendava-lhe que se não esquecesse da colhér de xarope que tem de se -dar a Pepito de duas em duas horas... N’esta agora digo-lhe que a tia foi -para a missa e que tem demora... É natural que elle lhe queira falar... - -_Patros_ - -Até ás onze horas de certo que não volta a senhora da egreja... - -_Electra_ - -E ás onze vou eu para a missa com o tio. (_Atando os tres ramilhetes_) -Pronto! Este para elle, estes para cada um dos meninos... Um a cada um -para que não briguem... (_Dispondo-se a compôr o ramo grande_) E agora -o ramo grande para a Senhora das Dôres... Vae, e volta depressa para me -ajudares... Espera resposta—é claro—uma palavra que seja! - -_Patros_ - -Vou de corrida. (_Sae pelo fundo_) - -_Electra_ - -(_escolhendo as mais lindas flores para o grande ramo_) Hoje, minha -querida Mãe Santissima, ha de ser maior a minha offerenda; e a minha -pena é que não seja tão grande que fique sem uma só flôr o jardim dos -tios... Deante da tua santa imagem queria eu hoje collocar todas as mais -lindas coisas da terra: as rosas, as estrellas e os corações amantes... -Virgem Maria! consolação e esperança nossa! não me desampareis, levae-me -ao bem que te pedi, e que hontem á noite me prometteu a expressão dos -teus divinos olhos quando as minhas lagrimas te disseram a gratidão e a -esperança da minha alma...! - -_Patros_ - -(_pressurosa pelo fundo_) Não trago carta, mas trago um recadinho, que -ainda é melhor... - -_Electra_ - -Que vem cá? - -_Patros_ - -Logo que saiam uns senhores, que estavam já a despedir-se... Que a menina -o espere aqui para lhe falar um momento... Tem de ir a uma conferencia -depois... - -_Electra_ - -(_olhando para o fundo_) Virá já?... - -_Patros_ - -Ahi vem. - -_Electra_ - -(_dando-lhe o ramo_) Toma lá... para Nossa Senhora... Para a Nossa -Senhora do meu quarto, bem entendido! Não é para a do altar do oratorio, -toma sentido: é para a da cabeceira da minha cama. - -_Patros_ - -Pois pudera! (_Entra correndo pela escada_) - - -SCENA II - - ELECTRA, MAXIMO, depois o MARQUEZ - -_Maximo_ - -(_a distancia, abrindo um pouco os braços_) Menina! - -_Electra_ - -(_mesma attitude_) Maximo! - -_Maximo_ - -Aqui estamos embaçados, deante um do outro, sem saber que dizer. - -_Electra_ - -Embaçadissimos. Começa tu. - -_Maximo_ - -Tu... para te desacanhares... Dize-me uma grande mentira: que me não amas. - -_Electra_ - -Dize-me primeiro tu uma grande verdade. - -_Maximo_ - -Que te adoro. (_Approximam-se_) - -_Electra_ - -Em paga d’essa mentira toma esta rosa que te escolhi, sem brilho, -pequena, singela, humilde, como eu quero ser para ti. - -_Maximo_ - -Tu tens um grande coração e um alto espirito... - -_Electra_ - -Não tenho; mas gostava de ser ainda mais tôsca e mais informe do que sou -para que tu me ensinasses tudo, e eu não tivesse nada que não fôsse teu. - -_Maximo_ - -Deus fez de ti a sua obra mais preciosa... - -_Electra_ - -E deu-te essa obra, que é apenas o esboço d’uma creatura humana, para que -tu a completes e aperfeiçôes. - -_Maximo_ - -Para que eu a enthronise e a corôe, deixando desenvolver-se d’ella a -immortal flôr de humanidade, que é a simples mulher da casa, forte, pura, -alegre e compadecida. (_Consulta o relogio_) - -_Electra_ - -Tens essa conferencia... Vae á tua obrigação... Não te demorarás muito? - -_Maximo_ - -Virei encontrar-me com a tia quando ella vier da missa. - -_Electra_ - -E o marquez, desde hontem... voltou como tinha dito? - -_Maximo_ - -Deixei-o agora na fabrica a escrever ao tabellião. Incomparavel amigo!... -Hontem á noite—sabes?—contei-lhe, ao voltar para casa, o teu romance -paterno... esse romance dos dois capitulos... Indignou-o a intervenção -despotica de Pantoja e de Cuesta na tua vida; e essa lamentavel historia -mais ainda o fortaleceu na firme determinação de defender-nos... - -_Electra_ - -(_surprehendida_) Mas então precisamos ainda de que nos defendam? - -_Maximo_ - -No essencial é claro que não... Mas quem nos assegura que esses dois -homens não tentem oppôr-nos alguns obstaculos de jurisdicção theorica? - -_Electra_ - -(_tranquillisando-se_) D’essa jurisdicção nos riremos nós. - -_Maximo_ - -Mas rindo, rindo, teremos de a prevenir e de a annullar. - -_Marquez_ - -(_pressuroso pelo fundo_) Então ainda aqui? - -_Maximo_ - -Falavamos de si, e deliberavamos nomeal-o procurador dos nossos negocios -de familia... - -_Marquez_ - -Acceito a procuração... (_Reprehendendo-o com doçura_) Mas, homem, que se -lhe faz tarde! - -_Maximo_ - -Adeus, adeus! até já. - -_Electra_ - -(_vendo-o partir_) Vae, e vem depressa. - - -SCENA III - - ELECTRA E O MARQUEZ - -_Marquez_ - -Ahi está o que é um galan de categoria scientifica... Parabens pelo -achado d’esta preciosidade rara. A graça e a alegria da sua edade -precisava da alliança de uma razão grave e de um coração firme, como o -d’este homem. É elle, entre quantos eu conheço, o mais perfeitamente -destinado para fazer da minha querida menina uma grande e exemplar mulher. - -_Electra_ - -Fará de mim o que elle quizer que eu seja. (_Com muita curiosidade_) Mas -diga-me, snr. de Ronda, conheceu a primeira mulher de Maximo? Perdôe-me -esta curiosidade, e não extranhe que eu deseje saber da vida toda do -homem que amo. - -_Marquez_ - -Não convivi com ella... Vi-a com Maximo uma ou duas vezes. Era uma -vascongada, sêcca, vulgar, pouco intelligente, bôa esposa para um lar -tranquillo mas sem felicidade... - -_Electra_ - -Os paes d’elle sim, conheceu-os muito? - -_Marquez_ - -A mãe nunca a vi. Era uma senhora franceza, de alto merito. Foi em môça -uma das amigas de minha mulher. O pae, Lazaro de Yuste, conheci-o ha -trinta annos em Hispanha e em França. Era homem muito intelligente, bem -parecido, felicissimo em negocios de minas, e não menos afortunado em -negocios de amor. Era falado. - -_Electra_ - -N’esse ponto não se parece com elle o filho, que é a austeridade em -pessôa. - -_Marquez_ - -De certo que sim. O seu futuro marido, minha querida Electra, é o -modelo dos homens, e a honra de uma geração muito mais perfeita do que -infelizmente foi a minha. Para que nada lhe falte, esse portentoso -magico até é rico... rico pelo que lhe deixou o pae e mais rico ainda -pelo que herdou agora dos tios de França. Que mais quer? Peça por bôca, e -verá como Deus lhe responde: «Menina, não tenho mais que lhe dar.» - -_Electra_ - -(_suspirando_) Ai!... E agora, outra coisa... diga-me, meu querido -Marquez: posso estar socegada? - -_Marquez_ - -Inteiramente. - -_Electra_ - -Escuso de ter medo das pessôas...—já lhe disseram—das pessôas que se -julgam com sufficiente auctoridade... - -_Marquez_ - -Essas pessôas poderão talvez incommodar-nos passageiramente, emquanto nós -não resolvermos encurtar-lhes os vôos. - -_Electra_ - -O snr. de Cuesta... - -_Marquez_ - -Esse não é de cuidado. Ainda hoje lhe falei, e estou certo de que nos -dará o seu mais convicto assentimento. - -_Electra_ - -O snr. de Pantoja... - -_Marquez_ - -Esse ha de resmungar um pouco mais, e pretenderá fazer-nos ouvir as -trombetas biblicas para nos assustar; mas não lhe tenha medo. - -_Electra_ - -Deveras? - -_Marquez_ - -Não vale nada. - -_Electra_ - -Não tenho de que me atterrar quando o encontre? - -_Marquez_ - -Não mais que da importunidade de um mosquito. - -_Electra_ - -Que allivio me dá! (_Com enthusiasmo carinhoso_) Deus lhe pague! Deus o -bemdiga, snr. de Ronda! - -_Marquez_ - -(_muito affectuoso_) Deus será comvosco. - - -SCENA IV - - OS MESMOS E URBANO, vindo de casa, de chapeu na cabeça - -_Urbano_ - -Marquez, bons dias. - -_Marquez_ - -Querido Urbano, posso falar comsigo? - -_Urbano_ - -Não lhe faz differença depois da missa...? (_A Electra_) Então, rapariga, -que vagares são esses? Está a tocar. - -_Electra_ - -Só tenho que pôr o chapeu. Meio minuto, tio. (_Entra correndo em casa_) - - -SCENA V - - MARQUEZ E URBANO - -_Marquez_ - -Temos de pôr dia para o casamento, e de fazer escriptura de consentimento -em regra. - -_Urbano_ - -Será talvez melhor que você trate de tudo directamente com minha mulher. - -_Marquez_ - -Mas, meu amigo, chegou o momento de fazer frente a certas ingerencias que -annullam a sua auctoridade de chefe de familia. - -_Urbano_ - -Meu caro de Ronda, peça-me você que altere, que transtorne todo o systema -planetario, que tire os astros d’aqui assim e que os ponha para acolá; -mas não peça coisa nenhuma que seja contraria ao parecer de minha mulher. - -_Marquez_ - -Homem, isso tambem lá me parece submissão de mais!... Eu pela minha parte -insisto em que devo tratar este negocio particularmente com você e não -com Evarista. - -_Urbano_ - -Vamos á missa e depois falaremos. - -_Marquez_ - -Pois vamos lá, eu tambem vou. - - -SCENA VI - - OS MESMOS, ELECTRA, EVARISTA E PANTOJA - -_Electra_ - -(_de chapeu, luvas, livro de missa_) Pronta. - -_Urbano_ - -Vamos. O Marquez vae comnosco. - -_Evarista_ - -(_pelo fundo, á esquerda, seguida de Pantoja_) Vão ligeiros. - -_Pantoja_ - -Depressa, se querem chegar. - -_Evarista_ - -O marquez volta? - -_Marquez_ - -Infalibillissimamente, minha senhora. - -_Evarista_ - -Até logo. (_Saem Electra, o marquez e Urbano pelo fundo, á esquerda_) - - -SCENA VII - - EVARISTA E PANTOJA, que com mostras de cansaço e desalento se - atira para o banco da esquerda, primeiro plano. - -_Evarista_ - -Entramos? - -_Pantoja_ - -Perdão: deixe-me respirar por um momento. Na egreja abafava-se... com o -calôr, com o apertão de gente... - -_Evarista_ - -Vou-lhe mandar vir alguma coisa fresca... (_chamando_) Balbina! - -_Pantoja_ - -Não, obrigado. - -_Evarista_ - -Uma taça de tilia... - -_Pantoja_ - -Tambem não. (_Na occasião de Balbina sahir, a senhora dá-lhe a mantilha, -que acaba de tirar, e o livro de missa_) - -_Evarista_ - -Não ha motivo, emquanto a mim, para nos affligirmos tanto... - -_Pantoja_ - -Não é, como querem dizer, o meu orgulho; é n’um ponto mais delicado e -mais profundo que eu me sinto ferido. Nega-se-me a consolação e a gloria -de dirigir essa creatura e de a levar commigo pelo caminho do bem. E vejo -com grande magoa que você, tão affecta aos meus principios, e que eu -considerava uma fiel amiga e uma fervorosa alliada, me abandona na hora -critica. - -_Evarista_ - -Perdoe-me, D. Salvador. Eu não o abandono. Estavamos inteiramente de -accordo, com relação a Electra, em guardal-a por algum tempo—nunca se -tratou de a encerrar para sempre—em S. José da Penitencia, attendendo á -disciplina e purificação d’aquella casa... Mas surge agora repentinamente -esta inesperada veneta de Maximo, e eu não posso, realmente, não posso de -modo nenhum recusar o meu consentimento... É uma loucura? será... Mas de -Maximo, como homem de honrado e correcto procedimento, que tem que dizer? - -_Pantoja_ - -Nada. (_corrigindo-se_) Isto é: alguma coisa poderia talvez... Mas, por -agora, o que unicamente digo é que Electra não está preparada para o -casamento, não tem aptidão para eleger marido... Não reprovo em absoluto -que se case, quando seja com um homem cujas ideias a não pervertam... -Mas este ponto é para mais tarde... O essencial n’este momento é que -essa tenra creatura entre quanto antes no sagrado asylo, onde nos cumpre -estudar, com o tacto mais subtil e mais carinhoso, a configuração do seu -caracter, as suas predilecções, as suas tendencias, os seus affectos; -e em vista do que observarmos, fundamentadamente e seguramente depois -d’este prévio exame, resolveremos... (_Altaneiro_) Que ha que dizer a -isto?—pergunto eu agora. - -_Evarista_ - -(_acobardada_) O que digo é que para esse plano... na realidade -perfeito... eu não posso, não ouso offerecer-lhe a minha cooperação. - -_Pantoja_ - -(_com arrogancia, passeando_) De modo que, segundo os seus caridosos -principios, se Electra se quer perder, que se perca!... que importa?... -Se ella quer condemnar a sua alma, que a condemne!... Que temos nós com -isso? - -_Evarista_ - -(_com maior timidez, suggestionada_) Perder-se! condemnar-se! E está -porventura na minha mão evital-o? - -_Pantoja_ - -(_com energia_) Está. - -_Evarista_ - -Oh! não... Não tenho a audacia de intervir... E com que direito?... -Impossivel, Salvador, impossivel... - -_Pantoja_ - -(_affirmando mais a sua auctoridade_) Saiba, minha amiga, que o acto -de apartar Electra de um mundo nefasto, em que por todos os lados a -rodeiam appetites e voracidades ferozes, não é um despotismo: é o amor -na expressão mais alta e mais pura do carinho paternal. Ainda por acaso -ignora, Evarista, que o fim supremo e unico da minha vida não é hoje -outro senão o bem d’esta menina? - -_Evarista_ - -(_acobardando-se mais_) Bem sei que é assim. - -_Pantoja_ - -(_com effusão_) Eu amo Electra com um amor que as grosseiras palavras -do homem não podem definir. Desde que os meus olhos a viram, a voz -do sangue me bradou do mais fundo do meu ser que essa creatura me -pertence... Quero têl-a, e devo têl-a, santamente, debaixo do meu dominio -paternal... Quero que ella me ame como os anjos amam... que seja a pura -imagem da minha crença, o limpido espelho do meu eterno ideal... que -se reconheça obrigada a padecer por aquelles que lhe deram a vida, e -purificando-se pela mortificação, nos ajude a nós, que fômos maus, a -alcançar o perdão de Deus... Não comprehende estas coisas, Evarista? - -_Evarista_ - -(_abatida_) Comprehendo-as e profundamente admiro a elevação do seu -entendimento. - -_Pantoja_ - -Menos admiração e mais eficacia em meu auxilio é o que lhe peço. - -_Evarista_ - -Não posso... (_Senta-se chorosa e abatida_) - -_Pantoja_ - -É bem natural que Electra lhe não mereça o mesmo interesse que tão -profundamente me inspira a mim. (_Empregando suavidades de persuasão_) -Convenho em que n’estes primeiros tempos lhe tenha de pesar algum tanto -o seu brusco apartamento das alegrias mundanas, mas muito rapidamente se -adaptará á dôce paz, á venturosa quietação do claustro... Eu a dotarei -amplissimamente. Tudo quanto tenho será para ella, para o esplendor da -sua santa casa... Será nomeada Superiora, e sob a minha auctoridade, e -pelo meu conselho, governará a congregação... (_Com profunda commoção_) -Que celestial ventura, meu Deus! Que felicidade para ella, e para mim! -(_Fica-se como em extase_) - -_Evarista_ - -Comprehendo que por não acceder ao que deseja de mim eu privo talvez -uma creatura de chegar ao estado mais perfeito da condição humana... -Conhece bem os meus sentimentos, Salvador... Sabe com quanto prazer -eu trocaria sem vacillar toda a opulencia em que vivo pela gloria de -dirigir obscuramente uma modesta casa religiosa do maior trabalho e da -maior humildade! Sempre o admirei pela sua larga protecção a S. José da -Penitencia, e subiu de ponto essa admiração quando soube que redobrou o -seu auxilio desde a occasião em que a minha pobre Eleuteria foi procurar -n’esse instituto o esquecimento, a paz e o perdão dos seus erros de amor, -como os de Magdalena. N’esse acto da vida do rico snr. de Pantoja se me -revelou a espiritualidade mais pura a que se pode elevar um homem. - -_Pantoja_ - -Sim: desde que a sua desventurada prima deu entrada n’aquelle sagrado -asylo, a minha protecção não sómente se tornou mais positiva mas ainda -mais espiritual. Nunca, nunca mais tornei a pôr os meus olhos em -Eleuteria depois de convertida, porque de ninguem—nem de mim!—ella se -tornou a deixar vêr desde que lhe cortaram os cabellos e lhe botaram -o escapulario. Mas eu ia quotidianamente á egreja; e invisivel do -côro, n’um recanto da nave, praticava em espirito com a penitente, -considerando-a tão perfeitamente regenerada como eu proprio o estava. -Morreu a infeliz aos quarenta e cinco annos da sua edade. Então obtive -o consentimento de uma sepultura no interior do edificio. E desde esse -dia não protegi mais a congregação, tornei-a inteiramente minha, porque -n’ella repousavam debaixo da pedra de uma campa os restos d’aquella que -eu amei. Juntára-nos o peccado, reunia-nos o arrependimento, ella na paz -da morte, eu na tempestuosa provação da vida... - -_Evarista_ - -E ainda agora aquelle a que bem podemos chamar o senhor e o reformador -do convento, todos os dias, sem excepção de um unico, visita aquella -santa casa e se ajoelha no cemiterio humilde e docemente poetico, onde as -monjas dormem o somno eterno. - -_Pantoja_ - -(_vivamente_) Sabia isso? - -_Evarista_ - -Sabia... E que no claustro, silencioso e florido, entre loendros e -cyprestes... - -_Pantoja_ - -É certo... quem lh’o disse? - -_Evarista_ - -...vagueia, como um propicio phantasma da saudade, o sombrio fundador -d’aquella casa, implorando de Deus o descanço d’ella e o seu. - -_Pantoja_ - -Sim... Ali repousarão tambem os meus pobres ossos. (_Com vehemencia_) -Quero, além d’isso, que assim como em espirito eu me não aparto por um -só momento d’aquella casa, ahi passe tambem, pelo tempo que fôr preciso, -o espirito de Electra... Não a violentarei á vida claustral; mas se, -experimentando essa existencia, e apreciando o seu incomparavel sabor, -ella deliberasse persistir na clausura, eu acreditaria então que Deus -me destinara para a mais ineffavel graça. Ali as cinzas adoradas da -peccadora redimida; ali, na candida alvura do seu habito de noviça, a -minha filha; ali eu, pedindo a Deus para ellas a gloria eterna. E na -morte, o escondido e imperturbado repouso na mesma terra amada,—todos os -meus amores commigo e todos nós em Deus... - -_Evarista_ - -(_com viva commoção_) Perfeita grandeza, por certo... Idealidade -incomparavel. - -_Pantoja_ - -Duvída ainda de que o meu pensamento seja o mais elevado? De que me não -move nenhuma paixão ruim? - -_Evarista_ - -Como quer que duvíde? - -_Pantoja_ - -Pois se com effeito lhe parece bello o meu plano, porque me não ajuda a -realisal-o? - -_Evarista_ - -Porque me não considero com poderes para isso. - -_Pantoja_ - -Nem assegurando-lhe eu que a reclusão de Electra terá um caracter -provisorio? - -_Evarista_ - -Nem assim. Não, D. Salvador, não conte commigo... (_luctando com a sua -consciencia_) Reconheço toda a elevação, toda a formosura das suas -ideias... D’ellas sinto um ecco suave e acariciador na minha propria -alma. Mas—que quer, meu bom amigo—vivo no mundo em que Deus me collocou: -tenho tambem para com este mundo deveres sagrados. Dêvo-me, com aquelles -que me rodeiam, á vida social; e na vida da sociedade e da familia o seu -projecto é... como lh’o direi, sem o magoar?... é uma anomalia angelica. - -_Pantoja_ - -(_dissimulando o seu enfado_) Bem. Paciencia... (_Passeia caviloso e -sombrio_) - -_Evarista_ - -(_depois de uma pausa_) Em que pensa? Desiste? - -_Pantoja_ - -(_com naturalidade e firmeza_) Não, minha senhora. - -_Evarista_ - -Qual então o seu projecto? - -_Pantoja_ - -Não sei... Ha de acudir-me uma ideia... Pensarei... (_Resolvendo-se_) -Minha cara amiga, quer fazer-me o favor de escrever uma carta á superiora -da Penitencia? - -_Evarista_ - -Dizendo-lhe...? - -_Pantoja_ - -Que venha aqui immediatamente, com duas irmãs, n’uma carruagem. - -_Evarista_ - -Porque lhe não escreve directamente? - -_Pantoja_ - -Porque tenho de acudir a outras coisas. - -_Evarista_ - -Quer já? - -_Pantoja_ - -O mais breve possivel... - -_Evarista_ - -Bem. (_Dirige-se para casa_) - -_Pantoja_ - -Peço-lhe que mande a carta sem perda de tempo. - -_Evarista_ - -(_olhando do alto da escada para o jardim_) Creio que elles ahi vem. - -_Pantoja_ - -Depressa a carta, minha cara amiga. - -_Evarista_ - -Vae já... Deus nos inspire a todos. (_Entra em casa_) - -_Pantoja_ - -Lá vou ter. (_Áparte_) Que me não vejam! (_Esconde-se atraz do macisso da -direita junto da escada_) - - -SCENA VIII - - PANTOJA, occulto; ELECTRA, URBANO, MARQUEZ, que voltam da - missa—PATROS, que desce de casa. - -_Electra_ - -(_adeantando-se encontra-se com Patros junto da escada_) Veio? - -_Patros_ - -Não, senhorita. (_Ouve-se o canto afastado dos meninos que brincam no -jardim_) - -_Electra_ - -Morro de impaciencia. (_Tira o chapeu e as luvas, que entrega a Patros -com o livro de missa_) Vou brincar com os pequenos emquanto espero... -Não... Vou apanhar flôres. (_Colhe algumas no macisso da esquerda_) - -_Urbano_ - -(_a Patros_) A senhora? - -_Patros_ - -Em casa. - -_Marquez_ - -Vamos ter com ella. - -_Urbano_ - -Vamos a isso. (_Entram em casa. Patros segue-os_) - -_Electra_ - -(_admirando as flôres que acaba de cortar_) Que lindos, que graciosos -rainunculos! (_Pantoja apparece e Electra assusta-se ao vêl-o_) Ai! - - -SCENA IX - - ELECTRA E PANTOJA - -_Pantoja_ - -Assim te assusto, minha filha? - -_Electra_ - -É verdade... Não posso evital-o... Que quer? Bem sei que não devia, e que -não tenho de que ter medo... Perdôe-me por quem é, D. Salvador... Vou -jogar ao côrro com os pequenos... - -_Pantoja_ - -Um momento. Vaes aos meninos para que elles te dêem da sua alegria? - -_Electra_ - -Não, hoje não; vou repartir com elles da que trasborda da minha alma. -(_Afasta-se o canto de roda dos meninos_) - -_Pantoja_ - -Já sei a causa d’essa grande alegria, já a sei... - -_Electra_ - -Uma vez que sabe, não tenho então que lhe contar. Até logo snr. de -Pantoja. - -_Pantoja_ - -Ingrata! Concede-me um instante... - -_Electra_ - -Um instantinho só? - -_Pantoja_ - -Unicamente. - -_Electra_ - -Bom. (_Senta-se no banco de pedra. Colloca a um lado as flôres e vae -escolhendo aquellas com que se touca, mettendo-as no cabello_) - -_Pantoja_ - -Não sei porque tens reservas commigo sabendo quanto me interesso pela tua -felicidade e pela tua vida... - -_Electra_ - -(_sem olhar para elle, attenta ás flôres_) Pois, se o interessa a minha -felicidade, alegre-se commigo: sou a creatura feliz. - -_Pantoja_ - -Feliz hoje. E amanhã? - -_Electra_ - -Amanhã mais feliz do que hoje... E sempre mais, sempre o mesmo! - -_Pantoja_ - -A alegria verdadeira e constante, o goso perenne e indestructivel só -existem no amor eterno, superior ás inquietações e ás miserias humanas. - -_Electra_ - -(_adornado o cabello, põe flôres no seio e no cinto_) Toca-me outra vez -no antigo registro de que tenho de ser anjo... Sou uma pobre pessoasinha -summamente terrestre, D. Salvador. Deus fez-me para mulher, e botou-me a -este mundo. Já vê que, se estou aqui, é porque elle não precisava de mim -para o ceu n’esta occasião. - -_Pantoja_ - -Ha tambem anjos na terra, minha filha. Anjos são todos aquelles que no -meio das desordens da materia sabem viver a pura vida do espirito. - -_Electra_ - -(_mostrando o collo e o busto ornados de florinhas. Ouve-se mais perto o -coro dos meninos_) Que tal? não lhe pareço um anjo? - -_Pantoja_ - -Pareces, e quero que o sejas. - -_Electra_ - -Assim me adorno para divertir os meninos. Se visse a graça que elles me -acham! (_Com uma triste ideia subita_) Sabe com que eu me estou parecendo -agora? Com um menino morto. Assim se enfeitam os meninos quando os levam -a enterrar. - -_Pantoja_ - -Para symbolisar a ideal belleza do ceu para onde elles vão. - -_Electra_ - -(_arrancando as flôres_) Não, isso não, não quero parecer menina morta. -Dá-me a ideia de que vem o snr. de Pantoja para me levar á sepultura! - -_Pantoja_ - -Oh! eu não te quero enterrada. Quereria rodear-te de luz. (_Vae -esmorecendo e cessa de todo o côro dos meninos_) - -_Electra_ - -Tambem se põem luzes aos meninos mortos. - -_Pantoja_ - -Não quero a tua morte, quero a tua vida; não a vida inquieta e vulgar, -mas dôce, livre, elevada, amorosa, com um eterno e puro amor divino. - -_Electra_ - -(_Confusa_) E porque é que me deseja tudo isso? - -_Pantoja_ - -Porque te quero muito, com um amor mais excelso que todos os amores -humanos. Melhor comprehenderás a grandeza d’este affecto, dizendo-te que -para evitar-te a mais leve dôr eu tomaria para mim os mais espantosos -tormentos que se possam imaginar. - -_Electra_ - -(_estonteada, sem entender bem_) É o cumulo da abnegação uma coisa -d’essas. - -_Pantoja_ - -Considera agora quanto soffrerei por não poder evitar um desgostosinho, -um dissabor, que te vou dar. - -_Electra_ - -A mim? - -_Pantoja_ - -A ti mesma. - -_Electra_ - -Um desgosto? - -_Pantoja_ - -Desgosto que mais me afflige por ter de ser eu que t’o cause. - -_Electra_ - -(_rebelando-se, levanta-se_) Desgostos! Não os quero. Não os acceito. -Guarde-os. Que ninguem hoje me traga senão alegrias! - -_Pantoja_ - -(_condoído_) Bem quizera dar-t’as, mas não posso. - -_Electra_ - -Que terror que tenho! (_Com subita ideia que a tranquillisa_) Ah! já -sei... Pobre D. Salvador!... É que me quer dizer mal de Maximo... Alguma -coisa que lhe parece mal, mas que a mim me parece bem... Escusa de se -cançar porque nem me convence nem o acredito. (_Precipitando-se na -emissão das palavras sem dar tempo a que Pantoja fale_) Maximo é o maior -e o melhor homem do mundo, é o primeiro, e todo aquelle que me disser -uma palavra contraria a esta verdade, mente, e detesto-o pela mentira, e -detesto-o... - -_Pantoja_ - -Por Deus, minha filha! Não te arrebates assim... Ouve. Eu não digo -mal de ninguem, nem dos que me odeiam. Maximo é bom, é trabalhador, é -intelligentissimo... Que mais queres? - -_Electra_ - -(_satisfeita_) Assim, continue assim... Vae dizendo muito bem. - -_Pantoja_ - -Digo mais ainda: que podes amal-o, que deves amal-o... - -_Electra_ - -(_com alegria_) Ah! - -_Pantoja_ - -Amal-o entranhadamente... (_Pausa_) A culpa não é d’elle, não é... - -_Electra_ - -(_assustada outra vez_) Querem vêr que ainda acaba por lhe attribuir -maldades? - -_Pantoja_ - -A elle não. - -_Electra_ - -Então a quem? (_Recordando-se_) Ah! adivinho: o snr. de Pantoja e o pae -de Maximo foram implacaveis inimigos. Tambem me disseram já que esse -senhor de Yuste, honradissimo nos seus negocios, foi, talvez, um pouco -demais galanteador e mundanario... Mas que me importa isso? - -_Pantoja_ - -Pobre innocente! não sabes o que dizes. - -_Electra_ - -Digo que esse excellente homem... - -_Pantoja_ - -Lazaro Yuste, sim... Ao nomeal-o tenho de associar a sua triste memoria á -de uma pessoa que já não vive... muito querida de ti... - -_Electra_ - -(_comprehendendo e não querendo comprehender_) De mim! - -_Pantoja_ - -Que morreu, e a quem tu muito queres. (_Pausa. Olham um para o outro_) - -_Electra_ - -(_com terror e em voz apenas perceptivel_) Minha mãe! (_Pantoja faz um -signal affirmativo_) Minha mãe! (_Attonita, desejando e temendo uma -explicação_) - -_Pantoja_ - -Chegaram os dias de perdão. Perdoemos. - -_Electra_ - -(_indignada_) Minha mãe, a minha pobre mãe! Não falam d’ella senão para -a deshonrar, para a denegrir... E ultrajam-a aquelles mesmos que a -envilleceram! Pudesse eu tel-os a todos na mão para os desfazer, para os -destruir, para não deixar d’elles nem uma migalha assim! - -_Pantoja_ - -Terias que principiar por Lazaro Yuste. - -_Electra_ - -O pae de Maximo! - -_Pantoja_ - -O primeiro depravador da desgraçada Eleuteria. - -_Electra_ - -Quem é que o diz? - -_Pantoja_ - -Quem o sabe. - -_Electra_ - -E... (_Fixam-se nos olhos. Electra não se atreve a expôr a sua ideia_) - -_Pantoja_ - -Triste de mim!... Não deveria falar-te d’isto. Dera para o esconder todos -os dias que me restam de vida. Comprehenderás que não podia ser... O meu -amor por ti ordena-me que fale. - -_Electra_ - -(_angustiada_) Meu Deus! e ter eu de ouvil-o! - -_Pantoja_ - -Disse eu que foi Lazaro Yuste... - -_Electra_ - -(_tapando os ouvidos_) Não quero, não quero ouvir. - -_Pantoja_ - -Tinha então tua mãe a edade que tens agora: desoito annos... - -_Electra_ - -Não acredito, não acredito... - -_Pantoja_ - -Era uma jovem senhora encantadora, quasi uma creança, que supportou com a -mais corajosa dignidade o horror d’aquella vergonha... - -_Electra_ - -(_rebelando-se com energia_) Cale-se! Cale-se! - -_Pantoja_ - -A vergonha do nascimento de Maximo. - -_Electra_ - -(_apavorada, com o rosto demudado, recua cravando os olhos em Pantoja_) -Ah! - -_Pantoja_ - -Procurando com discrição attenuar a affronta da sua victima, Lazaro -occultou o menino e levou-o misteriosamente comsigo para França. - -_Electra_ - -A mãe de Maximo foi uma senhora franceza: Josephina Perret. - -_Pantoja_ - -Mãe adoptiva. - -_Electra_ - -(_tapando os olhos com ambas as mãos_) Divino Jesus! É o ceu que desaba... - -_Pantoja_ - -(_condoído_) Filha da minha alma, volve para Deus os teus olhos. - -_Electra_ - -(_demudada_) É um sonho... Tudo o que estou vendo é illusão, é mentira. -(_Olhando espantadamente para uma parte e para outra_) Mentira estas -arvores, esta casa, este ceu... Mentira tu! tu! tu, que não existes, -monstro d’um pesadelo horrivel!... (_Com os punhos na cabeça_) Acorda, -desgraçada, acorda! - -_Pantoja_ - -(_tentando socegal-a_) Electra, querida Electra! Pobre innocente! - -_Electra_ - -(_com um grito d’alma_) Mãe, minha mãe!... A verdade, dize-me a -verdade... (_Fóra de si percorre a scena_) Onde estás, mãe?... Quero -a morte ou a verdade... Minha mãe! minha mãe!... (_Sae pelo fundo, -perdendo-se na longinqua espessura das arvores. Ouve-se proximo o canto -dos meninos jogando ao côrro_) - - -SCENA X - - PANTOJA, URBANO, MARQUEZ, vindos de casa, á pressa. Depois - d’elles BALBINA E PATROS - -_Urbano_ - -Que é? - -_Marquez_ - -Ouvimos gritar Electra. - -_Balbina_ - -Foi a correr pelo jardim. - -_Patros_ - -Por aqui. (_As duas creadas assustadas correm e internam-se no jardim_) - -_Marquez_ - -(_olhando por entre as arvores_) Lá vae correndo... Continúa a gritar... -Pobre Electra! (_Adeanta-se para o jardim_) - -_Urbano_ - -Que foi isto? - -_Pantoja_ - -Eu lh’o direi... Um momento... Providenciemos antes de mais nada... - -_Urbano_ - -O quê? - -_Pantoja_ - -(_procurando coordenar as suas ideias_) Deixe-me pensar... Trazel-a para -casa já... Ir buscal-a... Vá! - -_Urbano_ - -(_olhando para o jardim_) Lá está já o meu sobrinho... - -_Pantoja_ - -(_contrariado_) Em que má hora! - -_Urbano_ - -Correm para elle os meninos... Parece que o informam... Electra -foge-lhe... Não o quer vêr... Mette-se na gruta... O Marquez intervem... -Pobre Maximo! - -_Pantoja_ - -Vá! vá ter com elles!... Não deixe que Maximo intervenha... - -_Urbano_ - -Que balburdia! (_Interna-se no jardim_) - -_Pantoja_ - -Se eu podesse... (_hesitante em ir e não ir_) - -_Balbina_ - -(_voltando pressurosa do jardim_) Pobre menina! Chama aos gritos pela sua -mãe... Sentou-se agarrada aos meninos á porta da gruta, e ninguem a tira -d’ali... - -_Pantoja_ - -E Maximo? - -_Balbina_ - -Muito inquieto, sem saber o que ha de fazer, como todos nós... Vou chamar -a senhora... - -_Pantoja_ - -Não, não vá. Já chegaram a senhora superiora e as irmãs de S. José? - -_Balbina_ - -Já, sim senhor, chegaram agora. - -_Pantoja_ - -Não diga nada á senhora. Vá para casa e espere por mim. - -_Balbina_ - -Sim, senhor. (_Sobe para casa_) - -_Pantoja_ - -(_indeciso e como assustado_) Não sei que faça... Pela primeira vez na -minha vida hesito... Irei?... Esperarei aqui? (_resolvendo-se_) Vou. (_A -poucos passos encontra-se com Maximo, agitado e colerico, que vem do -jardim e o detem_) - - -SCENA XI - - PANTOJA E MAXIMO - -_Maximo_ - -(_ardentemente em toda a scena_) Alto!... Diz-me o marquez de Ronda que -d’aqui, depois de uma demorada conversação comsigo, sahiu Electra no -delirio em que está. - -_Pantoja_ - -(_perturbado_) Aqui... de certo... falamos... A senhorita Electra... - -_Maximo_ - -Foi mordida pelo monstro. - -_Pantoja_ - -Talvez... mas o monstro não sou eu. É um mais terrivel, que se alimenta -de factos e que se chama a Historia. (_Querendo ir-se_) Adeus. - -_Maximo_ - -(_agarrando-o fortemente por um braço_) Espere. Primeiro vae repetir -aqui, já, immediatamente, o que foi que disse a Electra esse seu monstro -da Historia... - -_Pantoja_ - -(_sem saber que dizer_) Eu... convém assentar préviamente que... - -_Maximo_ - -Nada de preambulos... Quero aqui a verdade, concreta, exacta, precisa... -Electra foi offendida de um modo tão profundo que lhe alterou a razão... -Com que palavras, com que suggestões? Preciso de sabel-o prontamente. -Trata-se da mulher que é tudo para mim no mundo. - -_Pantoja_ - -Para mim é mais: é o ceu e a terra. - -_Maximo_ - -Quero saber, n’este mesmo instante, que horrivel maquinação foi esta, -urdida por si, contra essa menina, contra mim, contra nós ambos -eternamente unidos pela effusão das nossas almas. Com que baba se -envenenou aquella a quem eu posso e devo chamar desde já a minha legitima -mulher? Que responde? - -_Pantoja_ - -Nada. - -_Maximo_ - -(_acommette-o explodindo em colera_) Pois por esse infame silencio, -mascara impudente e abjecta de um egoismo tão grande que não cabe no -mundo; por essa virtude não sei se falsa, se verdadeira, que da sombra -desfere o raio que nos aniquilla; (_agarra-o pela garganta e derriba-o no -banco_) por essa doçura que envenena, por essa suavidade que estrangula, -Deus te confunda, homem grande ou miseravel reptil, aguia, serpente, ou o -que sejas! - -_Pantoja_ - -(_recobrando alento_) Que brutalidade! que infamia! que demencia! - -_Maximo_ - -Bem sei. Estou doido... (_Recompondo-se_) E quem é que dispõe assim do -poder diabolico de desvirtuar o meu caracter, arrastando-me a esta colera -insensata, fazendo-me o estupido aggressor de um ente debil e mesquinho, -incapaz de responder á força com a força? - -_Pantoja_ - -(_tomando aprumo_) Com a força te respondo. (_Voltando á sua condição -normal, exprimindo-se com serenidade sentenciosa_) Tu és a força do -musculo, eu a força da alma. (_Maximo olha para elle, attonito e -confuso_) Posso mais do que tu, infinitamente mais. Duvídas? - -_Maximo_ - -De que póde mais? - -_Pantoja_ - -A ira suffoca-te, e cega-te o orgulho. Eu, injuriado e escarnecido, -recobro a serenidade. Tu não. Tu tremes. Tu, que te julgas a força, tu, -Maximo, tremes! - -_Maximo_ - -É a ira. Não a provoque. - -_Pantoja_ - -Nem a provoco nem a temo. (_Cada vez mais senhor de si_) Tu maltratas-me. -Eu perdôo-te. - -_Maximo_ - -Que me perdôa a mim! (_iracundo_) Mas é para o homicidio que assim me -empurra! - -_Pantoja_ - -(_com serena e fria gravidade, sem jactancia_) Enfurece-te, grita, -bate-me... Aqui me tens inabalavel e indifferente... Não ha força humana -que me dobre nem poder nenhum da terra que me afaste do meu caminho. -Injuria-me, fere-me, mata-me: não me defendo. O martyrio não me repugna. -Póde a violencia destruir o meu pobre corpo, que nada vale. Mas o que -está aqui (_na sua mente_) é indestructivel. Na minha vontade só um poder -impera: o de Deus. E se a minha vontade se extinguir na morte, a ideia -que sustento lhe sobreviverá, triumphante e eterna. - -_Maximo_ - -Não póde ter ideias grandes quem não tem grandeza, nem piedade, nem -ternura, nem compaixão. - -_Pantoja_ - -O meu fim é mais alto que todos os raciocinios. Para elle me dirijo por -qualquer caminho que se me depare. - -_Maximo_ - -(_aterrado_) Por qualquer caminho!? Para ir para Deus não ha senão um: o -da Bondade Humana. (_Com exaltação_) Deus do ceu! tu não pódes permittir -que ao teu reino se chegue por lobregas e tortuosas alfurjas, nem que -á tua gloria se suba calcando os corações que te amam... Não; Deus não -permitte isso. Vêr tal absurdo seria vêr toda a Natureza em ruina, toda a -maquina do Universo destruida e aniquillada. - -_Pantoja_ - -Estás offendendo Deus com as tuas palavras blasphemas. - -_Maximo_ - -Mais o offendes tu com os teus actos sacrilegos. - -_Pantoja_ - -Basta. Não disputo comtigo. Não tenho mais que dizer-te. - -_Maximo_ - -Não tem mais? Se ainda me não disse nada! (_Segura-o vigorosamente por um -braço_) Vamos d’aqui ter com Electra, e, na presença d’ella, ou esclarece -as minhas dúvidas e me tira da anciedade horrivel em que estou, ou ahi -morre, e morro eu, e morreremos todos trez. Assim lh’o juro pela memoria -de minha mãe. - -_Pantoja_ - -(_depois de o encarar fixamente_) Vamos. (_Ao darem os primeiros passos -sae Evarista de casa_) - - -SCENA XII - - OS MESMOS, EVARISTA E PATROS. Atraz d’Evarista a superiora e as - duas irmãs de S. José - -_Evarista_ - -Que succedeu, Maximo?... Que colera é essa? - -_Maximo_ - -É este homem que me enlouquece... Venha, tia, venha tambem comnosco... -(_Vendo a superiora e as irmãs, amedrontado_) Que mulheres são aquellas? -Que querem essas senhoras? (_Chega Patros do jardim, correndo_) - -_Patros_ - -(_pesarosa, choramigando_) Minha senhora, a senhorita enlouqueceu... -Corre, foge, desapparece, chamando em gritos por sua mãe... Não quer que -a consolem... não ouve, não vê ninguem, não conhece ninguem! - -_Evarista_ - -(_caminhando para o jardim_) Filha da minh’alma! - -_Maximo_ - -(_olhando para o jardim_) Ahi vem. (_Larga Pantoja e dirige-se a ella_) - -_Patros_ - -O senhor e o snr. Marquez conseguiram convencel-a e trazem-a para casa... -(_Apparece Electra conduzida pelo marquez e por Urbano. Junto d’elles, -Maximo. Ao vêr os que estão em scena Electra oppõe alguma resistencia. -Suave e carinhosamente a obrigam a approximar-se. Traz o cabello e o seio -adornado de flôrzinhas_) - - -SCENA XIII - - ELECTRA, MAXIMO, EVARISTA, PANTOJA, URBANO, MARQUEZ E PATROS - (Conservam-se na scena a superiora e as irmãs) - -_Evarista_ - -Deliras, minha pobre filha! - -_Maximo_ - -Ouve, minh’alma, vem, escuta. O meu carinho será a tua razão. - -_Electra_ - -(_afasta-se de Maximo com um movimento de pudor. O seu delirio é sereno, -sem gritos, sem risadas. Manifesta-o com uma accentuação de dôr resignada -e melancolica_) Não te approximes. Não te pertenço. Já não sou tua. - -_Maximo_ - -Porque me foges? para onde vaes sem mim? - -_Pantoja_ - -(_que passou para a direita, junto de Evarista_) Para a eterna verdade, -para a inalteravel paz. - -_Electra_ - -Vou por minha mãe. Sabem onde está minha mãe?... Vi-a no côrro dos -meninos... Foi depois até a mimosa que está á entrada da gruta... E eu a -seguil-a sem a alcançar... Olhava para mim e fugia... (_Ouve-se ao longe -o canto dos meninos_) - -_Marquez_ - -Aqui está Maximo... Olhe... É o seu noivo. - -_Maximo_ - -(_vivamente_) Serei o teu marido... Ninguem se oppõe, e não ha força -nenhuma que o empeça, Electra, minha vida. - -_Electra_ - -(_impondo silencio_) Quem fala aqui de noivos e noivas? Quebradas as -festas do noivado: não ha bôda... Que tristeza a da minha alma!... Só ha -padres com tochas a rezar por defuntos... Que grande é o mundo, e que só -que está! que vazio!... Acima da terra, pelo ceu, passam nuvens negras, -que são illusões, as illusões que foram minhas e não são de ninguem -agora... as illusões sem dôno!... Que solidão!... Tudo escurece, tudo -chora... Vae acabar o mundo... vae acabar. (_Com arrebatamento de medo_) -Quero fugir, quero-me esconder. Não quero padres, não quero tochas, não -quero officios... Quero ir para a minha mãe... Onde m’a enterraram?... -Levem-me á pedra da sua campa, e ali juntas, nós ambas, minha mãe e eu, -lhe direi as penas da minha alma, e ella me dirá verdades... verdades! - -_Pantoja_ - -(_áparte, a Evarista_) É a occasião. Aproveitemol-a. - -_Evarista_ - -Vem, minha filha, nós te levaremos á quietação e á paz. - -_Maximo_ - -Não: o descanso e a razão estão aqui. Electra é minha... (_Evarista -procura leval-a_) Exijo-a. - -_Electra_ - -Adeus, Maximo... Já te não pertenço: pertenço á minha dôr... A minha mãe -chama-me para o seu lado... (_Extactica, anciosa, prestando uma attenção -intensissima_) Ouço-lhe a voz... - -_Maximo_ - -A voz! - -_Electra_ - -Silencio, que me chama! (_delirando de alegria_) que está chamando por -mim! - -_Evarista_ - -Torna a ti, meu amor! - -_Electra_ - -Não ouviram? Não ouvem?... Lá vou, mamãsinha, lá vou! (_Corre para o alto -da escada_) Vamo-nos! (_A Maximo, que quer seguil-a_) Eu só... É por mim -só que chama. Tu não... Para estar sósinha commigo... Não ouves a voz -d’ella dizendo: Eleectra! Eleeeectra!... Vou vêl-a, vou falar-lhe... -(_Vae entrando na casa com Evarista e Pantoja_) - -_Maximo_ - -Que iniquidade e que horror! Para m’a roubarem, enlouqueceram-na. (_Quer -desprender-se dos braços de Urbano e do marquez_) - -_Marquez_ - -(_contendo-o_) Não enlouqueças tambem tu. - -_Urbano_ - -Socega! - -_Marquez_ - -Descansa, que eu te asseguro que a recobraremos! - -_Maximo_ - -Amarrem-me! Levem-me manietado para a solidão, para a sciencia, para a -verdade. Este mundo incerto, mentiroso e iniquo, não é para mim! - - FIM DO QUARTO ACTO - - - - -ACTO QUINTO - - Sala do locutorio em S. José da Penitencia. Portas lateraes. - - Ao fundo uma grande janela d’onde se vê o claustro. - - -SCENA I - - EVARISTA E SOROR DOROTHÊA - -_Evarista_ - -(_entrando com a freira_) D. Salvador...? - -_Dorothêa_ - -Chegou ha um momento: está no escritorio com a superiora e com a madre -escrivã. - -_Evarista_ - -Então Urbano lá irá ter com elle... Emquanto esperamos, dê-me noticias de -Electra... Foi muito feliz a escolha que fizeram de si, irmã Dorothêa—tão -sympathica e tão dôce—para a acompanhar, para viver com ella, para ser a -sua amiga e a sua confidente... - -_Dorothêa_ - -Electra não me quer mal, e é talvez certo que por essa razão algum tanto -contribuirei para a socegar. - -_Evarista_ - -(_aponta para a cabeça_) E como está ella de...? - -_Dorothêa_ - -Bem. Recuperou inteiramente a razão, e não tem nenhum vestigio de -delirio, a não ser ainda aquella ideia fixa de querer vêr a mãe, de lhe -falar, de ter d’ella a solução das suas dúvidas. Todo o tempo que tem -livre das obrigações religiosas, e todo o que póde alcançar, o passa -no pateo do nosso cemiterio, e na horta contigua; e tanto ahi como no -dormitorio, sempre a mesma preoccupação a absorve. - -_Evarista_ - -E lembra-se de Maximo? fala d’elle? - -_Dorothêa_ - -Fala: mas nas suas meditações e nas suas rezas a ideia que mais acaricia -é de poder amal-o como um irmão, e, pelo que ainda hoje me disse, espera -conseguil-o. - -_Evarista_ - -Mas é uma ideia apenas! É preciso que a essa ideia se associe o -coração... E bem poderia ser que assim succedesse se a desgraça de antes -d’hontem não viesse alterar o seguimento dos factos... - -_Dorothêa_ - -Uma desgraça!... - -_Evarista_ - -Morreu o nosso velho amigo D. Leonardo Cuesta... - -_Dorothêa_ - -Não sabia... - -_Evarista_ - -Que immensa tristeza para todos nós! Ha dias que se sentia mal, e -presagiava o seu fim. Sahiu na segunda feira muito cêdo, e na rua perdeu -os sentidos. Levaram-o para casa, e ás tres horas da tarde estava morto. - -_Dorothêa_ - -Pobre senhor! - -_Evarista_ - -No testamento nomeia Electra herdeira de metade da sua grande fortuna... - -_Dorothêa_ - -Ah! - -_Evarista_ - -Mas coma expressa condição de que ella abandone a vida religiosa. Sabe se -D. Salvador já terá conhecimento d’isto? - -_Dorothêa_ - -Supponho que sim, porque elle tem conhecimento de tudo, e adivinha o que -não conhece. - -_Evarista_ - -E é verdade! - -_Dorothêa_ - -(_vendo chegar Urbano_) O snr. D. Urbano. - - -SCENA II - - AS MESMAS E URBANO - -_Evarista_ - -Falaste-lhe? - -_Urbano_ - -Sim. Deixei-o a trabalhar no escritorio, com um tino, com uma fixidez -d’attenção, que me assombram. Que homem! - -_Evarista_ - -Já teve noticia das ultimas disposições do pobre Cuesta? - -_Urbano_ - -Já. - -_Evarista_ - -Está contrariado? - -_Urbano_ - -Se está não o mostra. Bem sabes que nem nos casos mais difficeis elle -deixa transparecer as suas commoções... - -_Evarista_ - -(_interrompendo-o com enthusiasmo_) É um espirito d’aguia, que paira -acima de todas as tempestades da terra. - -_Urbano_ - -Interrogando-o a respeito das esperanças que tinha de conservar Electra -no convento, respondeu-me singelamente com uma serenidade pasmosa: -«Confio em Deus». - -_Evarista_ - -Que grandeza d’alma! E sabe que Maximo e o Marquez são os testamenteiros? - -_Urbano_ - -Sabe mais. Recebeu ao meio dia uma carta d’elles annunciando-lhe que -virão esta tarde, acompanhados d’um tabellião, inquirir a menina, para -que declare se acceita ou se renuncia a herança. - -_Evarista_ - -E á vista d’essa communicação...? - -_Urbano_ - -Nada: imperturbavel, como sempre, repetindo a sua conhecida formula, que -o pinta n’um traço: «Confio em Deus». - - -SCENA III - - OS MESMOS, MAXIMO E O MARQUEZ (pela esquerda) - -_Marquez_ - -Esperaremos aqui. - -_Maximo_ - -(_vendo Evarista_) Adeus, tia. (_Sauda-a com affecto_) - -_Evarista_ - -(_respondendo ao cumprimento do marquez_) Então, Marquez... Ha finalmente -esperanças de ganhar a batalha? - -_Marquez_ - -Não sei... Luctamos com féra de muito ardil. - -_Evarista_ - -E a ti, Maximo, que te parece?... - -_Maximo_ - -Que estamos em frente d’um terrivel mestre consummado no embuste. Mas eu -confio em Deus. - -_Evarista_ - -Tambem tu...? - -_Maximo_ - -Naturalmente: em Deus confia todo aquelle que crê na verdade. Combatemos -pela verdade. Como poderiamos suppôr que Deus nos abandone? Não poderia -ser, querida tia. - -_Urbano_ - -Não viste Electra quando atravessaste os claustros? - -_Maximo_ - -Não vi. - -_Dorothêa_ - -(_approximando-se da janela_) Vae passar agora. Vem do cemiterio. - -_Maximo_ - -(_correndo para a janela com Urbano_) Que triste! e que bella! A brancura -do habito dá-lhe o aspecto aereo de uma apparição. (_chamando-a_) -Electra! - -_Urbano_ - -Cala-te. - -_Maximo_ - -Não posso. (_Volta a olhar_) É então certo que vive... É ella que vae ali -na sua realidade primorosa, ou é uma imagem mystica que se despegou d’um -retabulo d’altar para andar pela terra?... Lá volta para traz... levanta -os olhos para o ceu... Se a visse diluir-se no ar, dissipando-se como uma -sombra, não me admiraria... Põe os olhos no chão... Pára... Em que estará -pensando? (_Continua a contemplar Electra_) - -_Marquez_ - -(_que ficou no proscenio com Evarista_) ...Sim, minha senhora: falso, -falsissimo! - -_Evarista_ - -Olhe o que affirma, marquez... - -_Marquez_ - -Affirmo que ou o veneravel D. Salvador se equivoca, ou que disse, -sabendo-o, o contrario da verdade, movido de razões e fins, que não -penetram as nossas limitadas intelligencias. - -_Evarista_ - -É impossivel, marquez... Faltar á verdade um homem tão justo, de tão pura -consciencia, de ideias tão altas! - -_Marquez_ - -E quem nos diz, minha cara amiga, que nos arcanos d’essas consciencias -exaltadas não ha uma lei moral, cujas subtilezas estão longe do nosso -mesquinho alcance? Ha absurdos na vida do espirito como os ha na -natureza, onde vemos inumeros phenomenos cujas causas não são as que se -figuram. - -_Evarista_ - -Não: não posso crer! Ha talvez casos em que a mentira aplana o caminho do -bem. Mas não estamos n’um caso d’esses... Eu por mim, não acredito. - -_Marquez_ - -Para que possa formar o seu juizo, ouça o que lhe vou dizer. A marqueza, -Virginia, assegura-me que de Josephina Perret—sem que n’isto possa haver -mistificação nem equivoco—nasceu este homem que ahi está... E Evarista, -amiga intima de Josephina Perret, prova e demonstra esse facto da -maneira mais simples, mais clara e mais positiva. Além d’isso, eu mesmo -pude comprovar que Lazaro Yuste viveu longe de Madrid desde 1863 até 1866. - -_Evarista_ - -Com tudo isso, marquez, não posso convencer-me de que... - -_Marquez_ - -(_vendo entrar Pantoja pela direita_) Ahi vem elle. - -_Maximo_ - -(_descendo ao proscenio_) Chega o abutre. - -_Dorothêa_ - -Se me dão licença retiro-me. (_Sae pela esquerda. Pantoja permanece um -instante junto da porta_) - - -SCENA IV - - EVARISTA, MAXIMO, URBANO, MARQUEZ E PANTOJA - -_Pantoja_ - -(_adeantando-se vagarosamente_) Meus senhores, desculpem-me tel-os feito -esperar. - -_Maximo_ - -Prevenido do objecto da nossa visita, creio que será inutil expol-o... - -_Marquez_ - -(_benignamente_) Não o repetiremos para não mortificar o snr. de Pantoja, -que deve a estas horas considerar perdida a sua inutil campanha. - -_Pantoja_ - -(_sereno, sem jactancia_) Eu não perco nunca. - -_Maximo_ - -Será adeantar muito. - -_Pantoja_ - -E asseguro que Electra, tendo aprendido já a desprezar os bens da terra, -não acceitará o legado. - -_Evarista_ - -Já vês que este homem não se rende. - -_Pantoja_ - -Não me rendo... nunca, nunca. - -_Maximo_ - -Estou vendo. (_Sem poder dominar-se_) É então preciso matal-o? - -_Pantoja_ - -Venha a morte. - -_Marquez_ - -Não chegaremos a tanto. - -_Pantoja_ - -Cheguem onde queiram. Hão de encontrar-me sempre impassivel e estavel, no -meu posto. - -_Marquez_ - -Confiamos na lei. - -_Pantoja_ - -Eu em Deus. E digo aos representantes da lei que Electra, adaptando-se -facilmente a esta vida de pureza, libando já as doçuras ineffaveis da -oração e da paz em Deus, não abandonará esta santa casa. - -_Maximo_ - -(_impaciente_) Podemos falar-lhe? - -_Pantoja_ - -N’este momento, precisamente, não. - -_Maximo_ - -(_querendo protestar_) Oh! - -_Pantoja_ - -Socegue. - -_Maximo_ - -Não posso. - -_Evarista_ - -É a hora do côro. Quer D. Salvador dizer, por certo, que depois da hora... - -_Pantoja_ - -Está claro que sim. E para que se convençam de que nada temo, podem -trazer além do tabellião, o snr. delegado do governo. Mandarei abrir -a portaria... Permittirei que falem emquanto queiram com Electra. E se -depois d’isso ella quizer sahir, que sáia... - -_Marquez_ - -Cumprirá o que diz? - -_Pantoja_ - -Como não? se é em Deus unicamente que confio. - -_Marquez_ - -Voltaremos logo. (_Toma o braço de Maximo_) - -_Pantoja_ - -E nós para a egreja. (_Saem Urbano, Evarista e Pantoja_) - - -SCENA V - - MARQUEZ E MAXIMO, que percorre a scena muito agitado, - impaciente, receioso - -_Marquez_ - -Que diz a isto, Maximo? - -_Maximo_ - -Que este homem, de tão superior talento para fascinar os debeis e para -zombar dos fortes, nos enlouquecerá a todos. Eu não sou para isto. -Em luctas de tal ordem, vontade contra vontade, sinto-me arrastado á -violencia. - -_Marquez_ - -E que faz tenção de fazer? - -_Maximo_ - -Leval-a embora. A bem ou a mal. Por vontade ou á força. Se não tiver -bastante poder para isto, adquiril-o, compral-o; trazer amigos, -cumplices, um esquadrão, um exercito... (_Com crescente fervor_) Renascem -em mim os rancores dos antigos bandos, com toda a ferocidade romantica do -feudalismo. - -_Marquez_ - -Assim pensa, e assim o diz, um homem de sciencia! - -_Maximo_ - -Os extremos tocam-se. (_Exaltando-se mais_) Para esse homem, para esse -monstro não ha argumentos, não ha raciocinios... É preciso matal-o. - -_Marquez_ - -Nem tanto, nem tanto, meu querido! Imitemol-o, sejamos como elle astutos, -insidiosos, perseverantes. - -_Maximo_ - -(_com brio e eloquencia_) Não: sejamos como eu... sinceros, claros, -valorosos. Marchemos de cabeça alta e de cara descoberta para o inimigo. -Destruamol-o, ou deixemo-nos destruir por elle... Mas d’uma vez, de uma -só investida, de um só golpe... Ou elle ou nós. - -_Marquez_ - -Não, Maximo. Temos de ir com tento. Temos de respeitar a ordem social em -que vivemos. - -_Maximo_ - -A ordem social em que vivemos envolve-nos em uma rede de mentiras e de -argucias, e n’essa rede morreremos estrangulados, sem defeza alguma... -presos de garganta, e de pés e mãos, nas malhas de milhares e milhares -de leis capciosas, de vontades fraudulentas, aleivosas, subornadas, -corrompidas. - -_Marquez_ - -Socega. Preparemo-nos para o que esta tarde nos espera. Temos de prever -os obstaculos para pensar com tempo no modo de os vencer... Que succederá -quando dissermos a Electra que a mãe do seu noivo é com effeito e fóra de -toda a dúvida Josephina Perret e não Eleuteria Dias? - -_Maximo_ - -Que ha de succeder? Que não o acreditará, porque na sua mente se -petrificou o erro e será já tarde para o desarraigar. Pois não se sabe -o que pode a suggestão contínua? O que póde o insinuante e invasivo -ambiente de uma casa como esta sobre as ideias dos que a habitam? - -_Marquez_ - -Empregaremos meios efficases. - -_Maximo_ - -(_com violencia_) Quaes? Deitar fogo ao convento, deitar fogo a Madrid... - -_Marquez_ - -Não divagues. Se Electra não quizer sahir, leval-a-hemos á força. - -_Maximo_ - -(_muito vivamente até o fim_) Ou uma força triumphante, ou uma -desesperação de vencido... morrer eu, morrer ella, morrermos todos. - -_Marquez_ - -Morrer não. Vivamos todos, e preparemo-nos para a peor solução. Tenho -uma chave para entrar no claustro pela Rua Nova, e a irmã Dorothêa -pertence-me... Caluda! - -_Maximo_ - -Violencia! - -_Marquez_ - -Subtilesa e astucia! - -_Maximo_ - -Adeante, de pronto, e pelo caminho direito! - -_Marquez_ - -Não, homem, de vagar, com geito, e pelo atalho enesgado! (_Tomando-lhe -o braço_) E vamo-nos d’aqui, que estamos a tornar-nos suspeitos... -(_Levando-o_) - -_Maximo_ - -Sim, vamo-nos. - -_Marquez_ - -Confia em mim. - -_Maximo_ - -Confio em Deus. - - -MUTAÇÃO - - Claustro de S. José da Penitencia. Á direita uma asa da egreja, - com frestões envidraçados, pelos quaes transluz a claridade - interior. Á esquerda grande portada por onde se passa a outro - claustro, que se suppõe communicar com a rua. Ao fundo, entre a - egreja e as construcções da esquerda, grande arco abatido, para - lá do qual se vê em ultimo plano o cemiterio da congregação. É - noite escura. - - -SCENA VI - - ELECTRA E SOROR DOROTHÊA - -_Dorothêa_ - -Tão certo como ser noite, vieram dois sujeitos ao convento com proposito -de te arrancar d’aqui e de te levar para o mundo. Não o crês? - -_Electra_ - -Sem que me digas quem são, o meu coração o adivinha: Maximo e o marquez -de Ronda... Se é certo que projectam levar-me é enorme a perturbação que -me causam. Desde que entrei n’esta santa casa emprehendi, como sabes, a -grande batalha do meu espirito. Procuro, humildemente e com a ajuda de -Deus, transformar em amor fraternal o amor de uma natureza bem diversa -que arrebatou a minha alma... Converter o ardente fogo do sol numa fria -claridade da lua... O constante meditar, lento mas progressivo, o desmaio -do coração, e as ideias submissas e dôces que Deus me envia vão-me dando -forças para vencer. - -_Dorothêa_ - -Querida irmã, se em ti sentes a fortaleza d’esse novo amor, porque tens -mêdo de te encontrar com D. Maximo de Yuste? - -_Electra_ - -Porque, vendo-o, sinto que todo o terreno ganho o perderia n’um só -instante. - -_Dorothêa_ - -(_incredula_) E achas, em tua verdade, que tenhas algum terreno ganho?... - -_Electra_ - -Oh! sim, algum... não muito por emquanto. - -_Dorothêa_ - -Talvez, irmã Electra, que o vêr essa pessoa te demonstre se -effectivamente podes... - -_Electra_ - -(_vivamente_) Oh! não m’o digas, que não posso!... No estado em que me -sinto, n’este principio de lucta, se o visse, se o ouvisse, eu perderia -toda a esperança de paz... Não vês que em minha consciencia eu me estou -debatendo contra dois impossiveis: não poder amal-o como esposo; não -poder amal-o como irmão? (_Aterrada_) Que supplicio, meu Jesus!... Para -o mundo não, não... Prefiro estar aqui, n’esta solidão de morte, n’este -laboratorio da minha alma, junto do cadinho divino, em que estou fundindo -um viver novo. - -_Dorothêa_ - -Não esperes que as tuas ideias te deem a paz. Confia em Deus e n’aquelles -que Deus te envia... (_Resolvendo-se a falar mais claramente_) Não te -amedrontes assim perante o que suppões teu irmão. Alguem talvez negará -que o seja. - -_Electra_ - -(_em grande excitação_) Cala-te! Cala-te! Em assumpto de tão grande -melindre toda a palavra que não contenha a certeza é inutil e cruel... -Póde levar-me á loucura. O que eu peço a Deus é a morte, ou a verdade -inteiramente indubitavel e definitiva. - -_Dorothêa_ - -Socega, pobre Electra... - -_Electra_ - -(_exaltando-se cada vez mais_) Todas as confusões que me atormentaram -ao vir para aqui estão renascendo no meu espirito... Atropelam-se-me no -pensamento anjos e demonios... Deixa-me... Eu quero fugir de mim mesma... -(_Corre a scena em grande agitação. Soror Dorothêa segue-a procurando -acalmal-a_) - -_Dorothêa_ - -Tranquillisa-te, por Deus!... Esse tormento vae ter fim. (_Olha com -anciedade para a porta da esquerda_) - -_Electra_ - -(_parecendo-lhe ouvir uma voz longinqua_) Ouve... Minha mãe que me chama. - -_Dorothêa_ - -Não delires... Outras vozes, vozes de pessoas vivas, te chamarão. - -_Electra_ - -É minha mãe... Silencio!... (_Escutando. Entra Pantoja pela direita_) - - -SCENA VII - - ELECTRA, PANTOJA E DOROTHÊA - -_Pantoja_ - -Minha filha, como sahiste da egreja sem que eu te visse? - -_Dorothêa_ - -Sahimos para respirar ao ar livre. Electra asfixiava. (_Áparte_) -Approxima-se a hora... Deus nos ajude! - -_Pantoja_ - -Sentes-te mal, minha filha? - -_Electra_ - -(_com voz assustada e sumida_) A minha mãe chama por mim. - -_Pantoja_ - -(_pegando-lhe carinhosamente na mão_) A dôce voz da tua mãe, falando-te -em espirito te dará conforto, prendendo-te com piedade e amôr a este -sagrado refugio. (_Ouve-se passando na egreja o côro das noviças_) Ouve, -Electra... É a voz dos anjos que te chamam do ceu. - -_Electra_ - -(_delirante_) É o côro dos meninos a brincar. E entre essas vozes ternas, -distingo a de minha mãe chamando-me da sepultura. - -_Pantoja_ - -Estás allucinada. É o divino côro dos anjos. - -_Electra_ - -Não, não ha anjos... Ouço o meu nome, ouço o bulicio dos meninos, que -revolve toda a minha alma. São os filhos dos homens que fazem a alegria -da vida. (_Continua a ouvir-se mais apagado o côro das noviças_) - -_Pantoja_ - -(_inquieto_) Irmã Dorothêa, diga á irmã porteira que vigie a porta da Rua -Nova e a da Ronda. (_Á esquerda e á direita_) - -_Dorothêa_ - -Sim, meu senhor... - -_Pantoja_ - -Mas não; irei eu mesmo... Não me fio de ninguem... Vou eu mesmo vigiar -todo o claustro, todas as passagens, todos os recantos da casa. -(_Assustado, julgando ouvir ruido_) Escute... Não ouvio? - -_Dorothêa_ - -Quê?... Não ouvi nada... É illusão. - -_Pantoja_ - -Pareceu-me ouvir um rumor de vozes... e bater n’uma porta ao longe. -(_Escuta_) - -_Dorothêa_ - -De que lado? (_Olhando para o fundo á direita_) - -_Pantoja_ - -Na direcção da enfermaria... Não estou socegado... Quero vêr eu mesmo... -Electra, volta para a egreja... Leve-a, irmã Dorothêa... Esperem-me lá... -(_Dando-lhes pressa_) Andem... (_Acompanha-as até á porta da egreja. Sae -pressuroso, inquieto, pelo fundo, á direita. Dorothêa vê-o afastar-se, -pega na mão de Electra, e vivamente volta com ella ao centro da scena. -Electra, sem vontade, deixa-se levar_) - - -SCENA VIII - - ELECTRA E SOROR DOROTHÊA - -_Dorothêa_ - -Vem commigo... Para a egreja não. - -_Electra_ - -Aqui... Deixa-me respirar, deixa-me viver. - -_Dorothêa_ - -(_aparte, inquieta_) É a hora dada pelo marquez de Ronda... Aproveitemos -os minutos, os segundos, ou tudo está perdido. (_Olhando para a -esquerda_) Vou dar-lhes entrada para este claustro... (_Alto_) Irmã -Electra, espera-me aqui. - -_Electra_ - -(_assustada_) Onde vaes? (_Pega-lhe no braço_) - -_Dorothêa_ - -(_com decisão, defendendo-se_) Tratar de ti, dar-te a saude e dar-te a -vida... Prepara-te para sahir d’este sepulcro, e leva-me comtigo. - -_Electra_ - -(_tremula_) Irmã Dorothêa... não me deixes. - -_Dorothêa_ - -Este momento decide da tua sorte... Volverás ao mundo... verás Maximo. - -_Electra_ - -Quando? - -_Dorothêa_ - -Já... Vaes vêl-o entrar por ali... (_Esquerda_) Animo!... Não me -estorves... Não te movas d’aqui. (_Sae correndo pela esquerda_) - -_Electra_ - -Meu Deus! Virgem Santissima!... Será certo?... Por aqui... por aqui -virá... (_Julga vêr Maximo na escuridão_) Ah! é elle... Maximo! (_Falando -como em sonhos, desviando-se como d’um ser real_) Pára... Deixa-me... -Não posso amar-te como irmão, não posso... Está no fogo o cadinho em -que quero fundir um coração novo... Não vês que não posso levantar os -olhos para ti?... Para que me fitas d’esse modo, se me não pódes levar -comtigo?... É aqui que eu procuro a verdade. Minha mãe chama por mim... -(_Com accento desesperado_) Mãe! mãe! (_Volta-se de frente para o fundo. -Ao soarem as ultimas palavras de Electra, apparece a sombra de Eleuteria, -formosa figura em habito de monja. Electra de costas para o publico, -contempla-a com os braços cruzados no peito_) Oh! (_Grande pausa_) - - -SCENA IX - - ELECTRA E A SOMBRA DE ELEUTERIA, que vagamente se destaca na - obscuridade do fundo. Electra adeanta-se para ella. Ficam as - duas figuras frente a frente, á menor distancia possivel uma da - outra. - -_A Sombra_ - -Sou a tua mãe, e venho a aplacar a angustia do teu coração amante. A -minha voz dará á tua consciencia a paz. Nenhum vinculo da natureza te -prende ao homem que te escolheu por mulher. O que te disseram foi uma -ficção carinhosa destinada a trazer-te á nossa companhia e á doçura -d’esta santa casa. - -_Electra_ - -Oh! mãe adorada, que consolação me dás! - -_A Sombra_ - -Dou-te a verdade, e com ella a fortaleza e a esperança. Acceita, minha -filha, como provação em que se retemperou a força da tua alma, esta -reclusão transitoria, e não maldigas quem a promoveu... Se o amor -conjugal e as alegrias da familia solicitam a tua alma deixa-te de -boamente levar da suavidade d’essa atracção, e não procures aqui uma -santidade que não é para ti. Deus está em toda a parte... Eu não pude -encontral-o fóra d’este abençoado refugio... Procura-o tu no mundo por -vereda differente d’aquella em que eu me perdi... (_A sombra cala-se e -desapparece no momento em que se ouve a voz de Maximo_) - - -SCENA ULTIMA - - ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ, PANTOJA E SOROR DOROTHÊA - -_Maximo_ - -(_á porta da esquerda_) Electra! - -_Electra_ - -(_correndo para elle_) Ah! - -_Pantoja_ - -(_pela direita_) Minha filha, onde estás? - -_Marquez_ - -Comnôsco. - -_Maximo_ - -Commigo. - -_Pantoja_ - -Foges-me, Electra? - -_Maximo_ - -Não foge... Resuscita. - - FIM - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Electra, by Benito Pérez Galdós - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELECTRA *** - -***** This file should be named 63145-0.txt or 63145-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/1/4/63145/ - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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