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-The Project Gutenberg EBook of Electra, by Benito Pérez Galdós
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Electra
- Drama em cinco actos
-
-Author: Benito Pérez Galdós
-
-Translator: José Duarte Ramalho Ortigão
-
-Release Date: September 7, 2020 [EBook #63145]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELECTRA ***
-
-
-
-
-Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net
-
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-
- PÉREZ GALDÓZ
-
- ELECTRA
-
- DRAMA EM CINCO ACTOS
-
- VERSÃO PORTUGUEZA
- DE
- RAMALHO ORTIGÃO
-
- PORTO
- LIVRARIA CHARDRON
- De Lello & Irmão, editores
- 1901
-
- Unica traducção portugueza auctorisada pelo auctor
-
- _Porto—Imprensa Moderna_
-
-
-
-
-ACTO PRIMEIRO
-
- Sala sumptuosa no palacio dos senhores de Garcia Yuste. Á
- direita, sahida para o jardim. Ao fundo, communicação para
- outras salas do palacio. Á direita, no primeiro plano, porta
- dos quartos d’Electra.
-
-
-SCENA I
-
- MARQUEZ E JOSÉ
-
-_José_
-
-Estão no jardim... Vou dar parte.
-
-_Marquez_
-
-Espera lá. É esta a primeira visita que faço aos senhores de Garcia Yuste
-no seu palacio novo... Deixa-me dar uma vista d’olhos... Está n’um grande
-pé... Bem hajam os que tão bem empregam o seu dinheiro! Porque não é
-sómente o seu estado de casa, é o bem que fazem, o generosos que são em
-obras pias...
-
-_José_
-
-Oh! lá isso...!
-
-_Marquez_
-
-E tão mettidos comsigo! tanto da paz e do socego do lar!... Ainda que,
-segundo cuido, ha novidade agora na familia...
-
-_José_
-
-Novidade? Ah! já sei... Quer o snr. Marquez referir-se...
-
-_Marquez_
-
-Escuta, José! Promettes fazer o que eu te peça?
-
-_José_
-
-Já o snr. Marquez sabe que eu me não esqueço nunca dos quatorze annos que
-servi na sua casa... O snr. Marquez manda, não pergunta.
-
-_Marquez_
-
-Pois venho cá de proposito para conhecer essa interessante senhorita, que
-os teus amos trouxeram agora d’um collegio de França...
-
-_José_
-
-A senhorita Electra.
-
-_Marquez_
-
-Podes dizer-me se os senhores estão contentes com essa nova sobrinha? É
-pessôa amoravel, agradecida?
-
-_José_
-
-Oh! n’esse particular!... Os senhores morrem por ella... Sómente...
-
-_Marquez_
-
-Quê?
-
-_José_
-
-A menina é travessasita...
-
-_Marquez_
-
-A edade!
-
-_José_
-
-Brincalhôna, oh! mas brincalhôna, que se não faz uma ideia...
-
-_Marquez_
-
-Mas diz que é linda, que é um anjo...
-
-_José_
-
-Um anjo sim, se ha anjos parecidos com mafarricos... É que nos põe o sal
-na moleira a todos cá de casa!
-
-_Marquez_
-
-Estou morto por conhecêl-a!
-
-_José_
-
-No jardim a encontra o snr. Marquez. É lá que passa as manhãs pondo em
-redemoinho tudo.
-
-_Marquez_
-
-(_olhando para o jardim_) Lindo jardim, bello parque, as velhas arvores
-do antigo palacio das Gravelinas...
-
-_José_
-
-É exacto.
-
-_Marquez_
-
-O grande predio, ao fundo da alameda, é tambem dos senhores de Yuste?
-
-_José_
-
-Tambem. Com entrada pelo jardim e pela rua. Em baixo tem o seu
-laboratorio o sobrinho dos patrões, o senhorito Maximo, primeiro dos
-trunfos de Hispanha nas mathematicas, e... na outra coisa... na...
-
-_Marquez_
-
-Bem sei... Chamam-lhe o _Magico prodigioso_... Conheci-o em Londres...
-ainda a mulher d’elle era viva.
-
-_José_
-
-Morreu em fevereiro do anno passado... e deixou-lhe dois filhos, dois
-amores!
-
-_Marquez_
-
-Ultimamente renovei com elle o meu antigo conhecimento, e, apesar de nos
-não visitarmos, por certos motivos, somos muito amigos.
-
-_José_
-
-Tambem eu gósto d’elle. Optimo sujeito...!
-
-_Marquez_
-
-E outra coisa: não estão arrependidos os teus amos de terem mettido em
-casa esse diabretesito?
-
-_José_
-
-(_receoso de que venha gente_) Eu direi a V. Ex.ª... Tenho notado... (_Vê
-vir D. Urbano pelo jardim_) Ahi vem o senhor.
-
-_Marquez_
-
-Põe-te a andar.
-
-
-SCENA II
-
- MARQUEZ E D. URBANO
-
-_Marquez_
-
-(_abrindo-lhe os braços_) Querido Urbano!
-
-_Urbano_
-
-Marquez! ditosos olhos!...
-
-_Marquez_
-
-E Evarista?
-
-_Urbano_
-
-Bem... Sómente extranhando muito as grandes ausencias do marquez de
-Ronda...
-
-_Marquez_
-
-Oh! você não imagina o inverno que passámos...
-
-_Urbano_
-
-E Virginia?
-
-_Marquez_
-
-Assim, assim... Sempre achacada, mas reagindo constantemente pela força
-de uma vontade tenaz, cabeçuda lhe chamarei.
-
-_Urbano_
-
-Pois ainda bem! ainda bem!... Com quê... quer que desçamos ao jardim?
-
-_Marquez_
-
-Vamos já! Deixe-me tomar assento, pouco a pouco, na sua casa nova...
-(_Senta-se_) E conte-me lá, querido, conte-me d’essa menina encantada,
-que foram buscar ao collegio.
-
-_Urbano_
-
-Não, não estava já no collegio. Tinha ido para Hendaya, para uns parentes
-da mãe. Eu nunca fui muito da opinião de a trazer para cá. Mas Evarista
-emprehendeu n’isso... Quer sondar o caracter da pequena, apurar se
-d’ella se poderá fazer uma mulher em termos, ou se nos estará destinada
-a vergonha de a vêr herdar as tendencias da mãe... Você sabe que era uma
-prima irmã de minha mulher; e escuso de lhe lembrar os escandalos que deu
-essa Eleuteria desde o anno de 80 a 85.
-
-_Marquez_
-
-Nem me fale n’isso!
-
-_Urbano_
-
-Emfim, foi a ponto de que a familia, vexada, rompeu com ella de todo e
-para sempre! Esta menina, agora, cujo pae se não sabe quem seja, criou-se
-com a mãe até os cinco annos. Depois levaram-a para as Ursulinas de
-Bayona. Lá, ou por abreviar ou pelo que fosse, puzeram-lhe esse nome,
-exquisito e novo, de Electra.
-
-_Marquez_
-
-Novo, propriamente, não. Á pobre mãe—coitadita—Eleuteria Dias, todos
-nós, os intimos da casa, lhe chamavamos tambem Electra, em parte
-talvez por abreviatura, e em parte porque ao pae, militar valente mas
-assignaladamente desditoso na vida conjugal, tinham posto a alcunha de
-_Agamemnon_.
-
-_Urbano_
-
-D’essa não sabia... Tambem nunca vivi com elles. Eleuteria, pela fama que
-tinha, figurava-se-me uma creatura repugnante...
-
-_Marquez_
-
-Por amor de Deus, querido Urbano, não sejamos pharisaicos... Lembre-se
-que Eleuteria—a quem chamaremos _Electra I_—mudou de vida, ahi por 88...
-
-_Urbano_
-
-E não deu pouco que falar esse arrependimento tambem. Lá foi morrer
-a S. João da Penitencia, em 95, regenerada, abominando a monstruosa
-libertinagem da sua vida...
-
-_Marquez_
-
-(_como quem lhe reprehende o rigorismo_) Deus lhe perdoou...
-
-_Urbano_
-
-Sim, sim... perdão, esquecimento...
-
-_Marquez_
-
-E tratam então agora de tentear _Electra II_ a vêr se inclinará para bem
-ou se lhe dará para mal... Que resultado vão dando as provas?
-
-_Urbano_
-
-Resultados obscuros, contradictorios, variaveis de dia para dia, de
-hora para hora. Ha momentos em que ella nos revela qualidades sublimes,
-mal encobertas pela sua innocencia; outros, em que nos apparece como a
-creatura mais doida a quem Deus deu licença de vir ao mundo. Tão depressa
-encanta pela sua candura angelica como aterra a gente pelas diabolicas
-subtilezas que desfia da sua propria ignorancia.
-
-_Marquez_
-
-Natural desequilibrio da edade, excesso de imaginação, talvez. É esperta?
-
-_Urbano_
-
-Como a electricidade em pessoa, mysteriosa, repentista, de grande tino.
-Destroe, transtorna, perturba, illumina.
-
-_Marquez_
-
-(_levantando-se_) Fervo em curiosidade. Vamos vêl-a.
-
-
-SCENA III
-
- MARQUEZ, URBANO, CUESTA, pelo fundo
-
-_Cuesta_
-
-(_entra com mostras de cançaço, tira do bolso a carteira de negocios, e
-dirige-se á mesa_) Marquez... Tudo bom por cá?
-
-_Marquez_
-
-Oh! grande Cuesta! que nos conta o nosso incançavel agente?
-
-_Cuesta_
-
-(_senta-se. Revela um padecimento de coração_) O incançavel... começa a
-cançar.
-
-_Urbano_
-
-Homem! e que me dizes da alta d’hontem no Amortisavel?
-
-_Cuesta_
-
-Veio de Paris com dois inteiros.
-
-_Urbano_
-
-Fizeste a nossa liquidação?
-
-_Marquez_
-
-E a minha?
-
-_Cuesta_
-
-Estou com isso... (_Tira papeis da carteira e escreve a lapis_) N’um
-instante saberão as cifras exactas. Tirou-se todo o partido que se podia
-tirar da conversão.
-
-_Marquez_
-
-Naturalmente... Sendo o typo de emissão dos novos valores 79,50... tendo
-nós comprado por preço muito baixo o papel recolhido...
-
-_Urbano_
-
-Naturalmente...
-
-_Cuesta_
-
-O resultado foi enorme.
-
-_Marquez_
-
-Querido Urbano, esta facilidade com que se enriquece é positivo que dá o
-amor da vida e o enthusiasmo da belleza humana. Vamos para o jardim.
-
-_Urbano_
-
-(_a Cuesta_) Vens?
-
-_Cuesta_
-
-Preciso de dez minutos de silencio para pôr em ordem os meus apontamentos.
-
-_Urbano_
-
-Deixamos-te em socego. Não queres nada?
-
-_Cuesta_
-
-(_abstrahido nas suas contas_) Não... quero dizer... Sim: manda-me vir um
-copo de agoa. Estou abrasado.
-
-_Urbano_
-
-Immediatamente. (_Sae com o Marquez para o jardim_)
-
-
-SCENA IV
-
- CUESTA E PATROS
-
-_Cuesta_
-
-(_corrigindo as suas notas_) Ah! cá está o erro. Aos de Yuste toca... um
-milhão e seiscentas mil pezetas. Ao marquez de Ronda, duzentas e vinte
-e duas mil... Temos que descontar as doze mil e tanto, equivalentes aos
-nove mil francos... (_Entra Patros com copos d’agoa, caramellos e cognac.
-Espera que Cuesta termine a sua conta_)
-
-_Patros_
-
-Ponho aqui, D. Leonardo?
-
-_Cuesta_
-
-Põe e espera um instante... Um milhão e oitocentos... com os seiscentos
-e dez... fazem... claro! está certo. Bem bom! bem bom!... Com que então,
-Patros... (_tira do bolso dinheiro, que lhe dá_) Toma lá!
-
-_Patros_
-
-Muito obrigado!
-
-_Cuesta_
-
-E já te aviso que espero de ti um favôr...
-
-_Patros_
-
-Dirá, D. Leonardo.
-
-_Cuesta_
-
-Pois, minha amiga... (_remechendo um caramello_) Escuta...
-
-_Patros_
-
-Não quer cognac?... Se vem cançado, a agoa só pode fazer-lhe mal.
-
-_Cuesta_
-
-Sim: deita um poucochito... Pois o que eu quereria...—Não vás pôr
-malicia no que a não tem: sentido!—o que eu quereria era falar alguns
-momentos, a sós, com a senhorita Electra. Conhecendo-me como me conheces,
-comprehenderás de certo que o meu fim é o mais honrado e o mais digno...
-Mas sempre t’o digo para te tirar todo o escrupulo... (_Recolhe os
-papeis_) Antes que venha alguem, poderás dizer-me que occasião e que
-logar será melhor?
-
-_Patros_
-
-Para dizer duas palavras á senhorita Electra... (_meditando_) terá de ser
-então quando os senhores estiverem com o procurador... Eu verei.
-
-_Cuesta_
-
-Se pudesse ser hoje, melhor.
-
-_Patros_
-
-Ainda cá volta hoje?
-
-_Cuesta_
-
-Volto. Avisa-me.
-
-_Patros_
-
-Esteja certo. (_Recolhe o serviço e sae_)
-
-
-SCENA V
-
- CUESTA E PANTOJA, que entra em scena meditabundo, abstraído,
- todo vestido de preto
-
-_Cuesta_
-
-Amigo Pantoja, salve-o Deus! Como vamos?
-
-_Pantoja_
-
-(_suspira_) Vivendo, amigo, que é o mesmo que dizer: esperando.
-
-_Cuesta_
-
-Esperando melhor vida...
-
-_Pantoja_
-
-Padecendo n’esta o que Deus determine para merecer a outra.
-
-_Cuesta_
-
-E de saude que tal?
-
-_Pantoja_
-
-Mal e bem. Mal, porque me affligem desgostos e achaques; bem, porque me
-apraz a dôr, e me regosija o soffrimento. (_Inquieto, e como dominado por
-uma ideia fixa, olha para o jardim_)
-
-_Cuesta_
-
-Que ascetico vem hoje!
-
-_Pantoja_
-
-Olhe que cabecinha de vento a d’aquella Electra...! Lá vae ella de
-corrida com os pequenos do porteiro, com os dois filhos do Maximo, e
-ainda com filhos dos visinhos. Quando a deixam n’aquellas travessuras de
-creança é que ella é feliz.
-
-_Cuesta_
-
-Adoravel creaturinha! Que Deus a fade bem, para ser uma mulher como se
-quer!
-
-_Pantoja_
-
-D’aquella graciosa boneca, d’aquella voluvel menina facilmente se poderia
-tirar um anjo; da mulher que ella ha de ser, não sei.
-
-_Cuesta_
-
-Não o entendo bem, amigo Pantoja.
-
-_Pantoja_
-
-Entendo-me eu... Olhe, olhe como brincam... (_Assustado_) Deus de
-misericordia! quem é que vae com ella?... Não é o marquez de Ronda?
-
-_Cuesta_
-
-Elle mesmo.
-
-_Pantoja_
-
-Que corrupto homem! Tenorio da geração passada não se decide a jubilar-se
-para não dar um desgosto a Satanaz!
-
-_Cuesta_
-
-Para que mais uma vez se possa dizer que não ha paraizo sem serpente...
-
-_Pantoja_
-
-Para isso não! serpente já tinhamos. (_Passeia nervoso e displicente pela
-sala_)
-
-_Cuesta_
-
-E diga-me, passando a outra coisa: teve já noticia do dinheirão que lhes
-trouxe?
-
-_Pantoja_
-
-(_sem prestar grande attenção e fixando-se n’outra ideia que não
-formúla_) Ah! sim, já... Ganhou-se muito.
-
-_Cuesta_
-
-Evarista completará agora a sua grande obra religiosa.
-
-_Pantoja_
-
-(_maquinalmente_) Sim.
-
-_Cuesta_
-
-E poderá o amigo Pantoja consagrar muito maiores recursos a S. José da
-Penitencia.
-
-_Pantoja_
-
-Sim... (_Voltando á sua ideia fixa_) Serpente já tinhamos... Que dizia,
-amigo Cuesta?
-
-_Cuesta_
-
-Dizia eu...
-
-_Pantoja_
-
-Desculpe interrompel-o... Sabe se sempre é certo que o nosso visinho
-de defronte, o nosso maravilhoso sábio, inventor e quasi thaumaturgo,
-projecte mudar de casa?
-
-_Cuesta_
-
-Quem? Maximo? Acho que sim... Parece que em Bilbau e em Barcelona acolhem
-com enthusiasmo os seus admiraveis estudos para novas applicações da
-electricidade; e lhe offerecem todos os capitaes que elle queira para
-proseguir nas experiencias que encetou.
-
-_Pantoja_
-
-(_meditativo_) Oh! capitaes eu lh’os daria tambem, comtanto que...
-
-
-SCENA VI
-
- PANTOJA, CUESTA, EVARISTA, URBANO E O MARQUEZ, que veem do
- jardim
-
-_Evarista_
-
-(_soltando o braço do Marquez_) Bons dias, Cuesta. Pantoja, quanto estimo
-vêl-o! (_Cuesta e Pantoja inclinam-se e beijam-lhe respeitosamente a mão.
-A senhora de Yuste senta-se á direita; o Marquez em pé ao lado d’ella. Os
-outros agrupam-se á esquerda falando de negocios._)
-
-_Marquez_
-
-(_reatando com Evarista uma conversação interrompida_) Por este andar a
-minha boa amiga não sómente passa á Historia mas passa a figurar tambem
-no _Anno Christão_.
-
-_Evarista_
-
-Não me gabe por coisas em que não ha merecimento nenhum, Marquez...
-Não temos filhos: Deus cumula-nos de riqueza. Temos em cada anno uma
-herança. Sem trabalho nenhum—nem, sequer o de discorrer—o excesso dos
-nossos rendimentos, habilmente manejados pelo amigo Cuesta, capitalisa-se
-sem darmos por isso, e cria novas fontes de dinheiro. Se compramos uma
-quinta, a subida dos productos triplica n’esse mesmo anno o valor da
-terra. Se ficamos senhores de um baldio inteiramente sáfaro, acontece
-que no subsolo se descobre um jazigo immenso de carvão, de ferro ou de
-chumbo... Que quer dizer tudo isto?
-
-_Marquez_
-
-Quer dizer—acho eu—que quando Deus multiplica tantas riquezas sobre quem
-nem as deseja nem as estima, bem claramente elle está indicando que as
-concede para que sejam empregadas em servil-o.
-
-_Evarista_
-
-É claro. Interpretando-o tambem assim, eu apresso-me a cumprir a vontade
-de Deus. O dinheiro que Cuesta nos veio hoje trazer apenas me passará
-pelas mãos, e com elle completarei a somma de sete milhões consagrados
-á obra do Santo Patrocinio. E mais farei para que a casa e o collegio
-de Madrid tenham o decoro e a magnificencia adequada a um tão grande
-instituto. Desenvolveremos tambem as obras do collegio de Valencia e do
-de Cadiz...
-
-_Pantoja_
-
-(_passando para o grupo da direita_) Sem esquecer, minha senhora, a casa
-dos altos estudos, a sua escola de instrucção superior, que virá a ser o
-santuario da verdadeira Sciencia.
-
-_Evarista_
-
-Bem sabe que é esse o meu constante pensamento.
-
-_Urbano_
-
-(_passando tambem para a direita_) N’isso se pensa n’esta casa de noite e
-de dia.
-
-_Marquez_
-
-Admiravel, minha querida amiga, admiravel! (_Levanta-se_)
-
-_Evarista_
-
-(_a Cuesta, que igualmente tem passado para a direita_) E agora, amigo
-Leonardo, que vamos fazer?
-
-_Cuesta_
-
-(_sentando-se ao lado de Evarista, a quem propõe novas operações_) Por
-hoje nos limitaremos a metter algum dinheiro...
-
-(_Pantoja, em pé, colloca-se á esquerda de Evarista_)
-
-_Marquez_
-
-(_passeando na scena com Urbano_) Ha de permittir, querido Urbano, que,
-proclamando os merecimentos sublimes da senhora de Garcia Yuste, eu não
-deite em sacco roto os nossos: falo da minha mulher e de mim. Saberá que
-Virginia já fez a caridade de transferir para as Escravas de Jesus um bom
-terço da nossa fortuna...
-
-_Urbano_
-
-Das mais solidas da Andaluzia.
-
-_Marquez_
-
-E por nosso testamento deixamos tudo a essas senhoras, menos a parte
-destinada a certos encargos e aos parentes pobres.
-
-_Urbano_
-
-Ora vejam lá!... Mas, segundo me constou, o Marquez aqui ha annos parece
-que não via com enthusiasmo illimitado que a piedade da marqueza, minha
-senhora, se tornasse tão angelicamente dispendiosa...
-
-_Marquez_
-
-É certo... mas converti-me. Abjurei todos os meus erros. A minha mulher
-catechisou-me.
-
-_Urbano_
-
-Exactissimamente o que me succedeu a mim. Evarista virou-me com o forro
-de santo para fóra.
-
-_Marquez_
-
-Para conservar a paz e estabelecer a harmonia conjugal, principiei
-por contemporisar, continuei contemporisando... Pois, meu amiguinho,
-contemporisação foi ella que, a pouco e pouco, cheguei ao que se vê: Sou
-um escravo... das _Escravas de Jesus_! E não me arrependo. Vivo n’uma
-placidez beatifica, curado de todas as inquietações da minha vida. E
-estou já agora a convencer-me de uma coisa: é que a minha mulher não
-sómente salva a sua alma, mas que me salva a minha tambem!
-
-_Urbano_
-
-Pois é o que eu egualmente recommendo cá em casa: que não se esqueçam,
-podendo tambem ser, de me salvar a mim!
-
-_Marquez_
-
-Nós, homens, não temos iniciativa para nada.
-
-_Urbano_
-
-Absolutamente para nada!
-
-_Marquez_
-
-Verdade seja que ás vezes até o que se chama respirar nos prohibem!
-
-_Urbano_
-
-Prohibida a respiração... Conheço!
-
-_Marquez_
-
-Mas vivemos em paz.
-
-_Urbano_
-
-E servimos a Deus sem esforço nenhum. Isso é que é.
-
-_Marquez_
-
-As nossas mulheres lá vão adeante de nós, por esse bemdito caminho da
-eternidade, pela gloria fóra; e podemos estar socegados, que nos não
-deixam na estrada.
-
-_Urbano_
-
-Pois! é a sua obrigação.
-
-_Evarista_
-
-Urbano?...
-
-_Urbano_
-
-(_acudindo pressuroso_) Menina...
-
-_Evarista_
-
-Põe-te á disposição de Cuesta para a liquidação e para a entrega aos
-padres.
-
-_Urbano_
-
-Hoje mesmo. (_Cuesta levanta-se_)
-
-_Evarista_
-
-E outra coisa: faze-me favor de chegar ao jardim, e dizer a Electra que
-tem já tres horas de brincadeira.
-
-_Pantoja_
-
-(_imperioso_) Que se venha embora. É brincar de mais.
-
-_Urbano_
-
-Vou já. (_Vendo vir Electra_) Ella ahi vem.
-
-
-SCENA VII
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- ELECTRA, atraz d’ella MAXIMO
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-_Electra_
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-(_Entra a correr e a rir, perseguida por Maximo, a quem ganhou na
-corrida. O seu riso é de medo infantil_) Bem feito, que não me pilhas!...
-Enraivece-te, brutamontes!
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-_Maximo_
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-(_traz em uma das mãos varios objectos que indicará, e na outra um ramo
-de choupo, que esgrime como um chicote_) Eu te digo se te pilho ou não,
-selvagem!
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-_Electra_
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-(_sem fazer caso dos que estão em scena, corre a casa com infantil
-ligeiresa e vae refugiar-se no vestido de D. Evarista, ajoelhando-se-lhe
-aos pés e abraçando-a pela cinta_) Estou salva!... Tia, ponha-o fóra!
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-_Maximo_
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-Ah! já foges! já tens medo, minha menina!
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-_Evarista_
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-Mas, filha da minh’alma! quando é que terás modos de senhora? E tu,
-Maximo, és tão creança como ella.
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-_Maximo_
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-(_mostrando as coisas que traz_) Vejam o que esse demonico me fez.
-Quebrou-me estes dois tubos... E olhem o estado em que poz estes papeis,
-contendo calculos que representam um trabalho enorme. (_Mostra os papeis
-suspendendo-os de alto_) D’este fez uma passarola; este deu-o aos
-pequenos para pintarem elephantes, burros e um couraçado a atirar balas a
-um castello...
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-_Pantoja_
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-Então ella foi ao laboratorio?
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-_Maximo_
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-E revolucionou os pequenos... Revolveram-me tudo!
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-_Pantoja_
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-(_com severidade_) Isso, menina...
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-_Evarista_
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-Electra!
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-_Marquez_
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-(_enthusiasmado_) Electra! Encanto de menina grande! Bemditas
-travessuras!
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-_Electra_
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-Eu não lhe quebrei os tubos. Não ha tal! Foi Pepito que lhe fez esse
-obsequio. Os papeis, sim senhor; fui eu que peguei n’elles, imaginando
-que não serviam para nada com os hediondos esgaravunhos que tinham.
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-_Cuesta_
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-Basta! haja pazes!
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-_Maximo_
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-Pois vá lá, por esta vez... (_a Electra_) Perdôo-te. Deves-me a
-vida... Toma lá. (_Entrega-lhe a chibata; Electra recebe-a, e bate-lhe
-brandamente_)
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-_Electra_
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-Toma agora tu! Esta é pelo que me disseste. (_Batendo-lhe com mais
-força_) Esta agora pelo que não quizeste dizer-me.
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-_Maximo_
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-Disse-te tudo.
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-_Pantoja_
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-Moderação! juizo!
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-_Evarista_
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-Que te disse elle?
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-_Maximo_
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-Disse-lhe verdades uteis... Que aprenda por si mesma o muito que ainda
-ignora; que abra bem abertos esses grandes olhos e que os estenda pela
-vida humana, para que veja que nem tudo é alegria, que ha tambem no mundo
-deveres, desenganos e sacrificios...
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-_Electra_
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-Chega o lobishomem! (_Occupa o centro da scena, onde todos a rodeiam,
-menos Pantoja, que se colloca ao lado d’Evarista_)
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-_Cuesta_
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-Nem tudo applausos!
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-_Urbano_
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-A severidade é precisa.
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-_Maximo_
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-Em severidade ninguem me ganha... Dize: é ou não é verdade que sou
-severo, e que tu m’o agradeces? Confessa que me agradeces!
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-_Electra_
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-(_batendo-lhe de leve_) Peste de sábio! Se isto fôsse um açoite
-verdadeiro, ainda com mais alma te batia.
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-_Marquez_
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-(_risonho e encarinhado_) Electra, veja se me bate em mim tambem...
-Faça-me essa esmola!
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-_Electra_
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-Em si não, porque não tenho confiança... Só se fôr muito de levesinho...
-assim... assim... assim... (_Toca levemente no Marquez, em Cuesta e em
-Urbano_)
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-_Evarista_
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-Melhor seria que tocasses piano para esses senhores ouvirem.
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-_Maximo_
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-Quê, se não estuda nada! Só uma coisa se póde comparar á sua grande
-disposição artistica, é o seu espantoso desapego de todas as artes.
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-_Cuesta_
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-Que nos mostre as aquarellas e os desenhos. O Marquez vae vêr.
-(_Juntam-se todos em volta da meza, menos Evarista e Pantoja, que
-conversam áparte_)
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-_Electra_
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-Ahi sim senhor! (_Procurando a pasta de desenhos entre os livros e as
-revistas que estão na mesa_) Agora se vae vêr se sou ou se não sou uma
-artista!
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-_Maximo_
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-Forte gabarola!
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-_Electra_
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-(_desatando as fitas da pasta_) Pois sim! tu a desfazeres e eu a
-augmentar-me veremos quem póde mais. Ora aqui está, e pasmem! (_Mostrando
-os desenhos_) Que teem que dizer a estes portentosos esboços de paizagem,
-de figura, de animaes? a estas vaccas que parecem pessoas? a estas
-naturezas mortas que parecem vivas? a estes rochedos que só lhes falta
-fallarem?! (_Todos se extasiam no exame dos desenhos, que passam de mão
-em mão_)
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-_Evarista_
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-(_tendo desviado a attenção do grupo do centro, entabolou conversa intima
-com Pantoja_) Tem razão, Salvador. Quando é que a não tem? Agora, no caso
-de Electra, o seu argumento é um clarão que nos illumina a todos.
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-_Pantoja_
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-Não vá crêr que seja a minha pobre intelligencia que projecta essa
-luz. Ella é apenas o resplendor de um fogo intenso que tenho em mim: a
-vontade! Por meio d’esta força, que devo a Deus, esmaguei o meu orgulho e
-emendei os meus erros.
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-_Evarista_
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-Depois da confidencia que hontem á noite me fez é indiscutivel para mim o
-seu direito de intervir na educação d’essa cabeça de vento...
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-_Pantoja_
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-Para lhe ensinar o caminho da vida, para lhe mostrar o alto fito da nossa
-misera existencia na terra...
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-_Evarista_
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-E esse direito que indubitavelmente lhe cabe, implica deveres
-inilludiveis...
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-_Pantoja_
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-Quanto lhe agradeço que tão perfeitaimente o comprehenda, minha senhora
-e amiga da minha alma! Eu receava que a minha confidencia d’hontem,
-historia funesta que reveste de negro os melhores annos da minha vida,
-me tivesse feito decaír da sua estima!
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-_Evarista_
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-Não, meu amigo. Quem é que dentro da humanidade se póde considerar
-liberto da fraqueza humana? Em si o peccador regenerou-se, castigando
-a vida com as mortificações do arrependimento, e dignificando-a com a
-pratica da virtude.
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-_Pantoja_
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-A divina tristeza, o amor da solidão, o convicto desprezo de todas as
-vaidades do mundo foram a salvação da minha alma. Pois bem: eu não
-estaria completamente purificado perante a minha consciencia se n’esta
-occasião não interviesse nos negocios da terra para salvar dos seus
-perigos a angelica innocencia d’essa menina, fatalmente destinada, se
-lhe não acudirmos, a precipitar-se pelo caminho em que se perdeu a sua
-desgraçada mãe.
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-_Evarista_
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-A minha opinião é que fale com ella...
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-_Pantoja_
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-A sós.
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-_Evarista_
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-Assim o entendo: a sós. Faça-lhe comprehender, o mais delicadamente que
-possa, a especie de auctoridade que tem...
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-_Pantoja_
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-É todo o meu desejo esse... (_Continuam em voz baixa_)
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-_Electra_
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-(_no grupo do centro disputando com Maximo_) Deixa-te de sentenças, que
-tu d’isto não sabes nada! Então não querem vêr com a que elle se sae?
-que o passaro parece um velho pensativo, e que a mulher faz lembrar uma
-lagosta desmaiada...
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-_Marquez_
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-Não senhor... Eu acho que está muito bem feito!
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-_Maximo_
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-Ás vezes tambem lhe dá para ahi! Quando menos pensa saem-lhe coisas
-prodigiosamente exactas.
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-_Cuesta_
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-É certo que estas velhas arvores, atravez das quaes se descobre uma
-triste faixa de mar, ao longe...
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-_Electra_
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-A minha especialidade aposto que ainda nenhum adivinhou qual é?... Pois
-são os troncos velhos, são os carcomidos muros em ruina. É singular que
-só pinto bem aquillo que não conheço: a tristeza, o passado, o môrto! A
-grande luminosidade radeante da alegria, da mocidade, não me sae! (_Com
-pena e assombro_) Sou uma grande artista para tudo que não sou eu!
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-_Urbano_
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-Tem graça.
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-_Cuesta_
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-Esta menina é optima!
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-_Marquez_
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-É scintillante!
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-_Maximo_
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-Esperemos que lhe venha a reflexão tambem... a seu tempo...
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-_Electra_
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-(_zombando de Maximo_) A reflexão! a gravidade! o tempo que ha de vir!...
-É a sombra que sempre me deita este cipreste!... Ora fica sabendo que eu
-hei de ter tudo isso quando me dér para ahi... e mais do que tu, meu
-sabichão!
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-_Maximo_
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-Veremos... veremos isso quando te chegar a vez!
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-_Pantoja_
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-(_que não tem dado attenção ao que se passa no grupo_) Não posso
-occultar-lhe, minha senhora, que me desagrada muito a familiaridade de
-Electra com o sobrinho do seu marido.
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-_Evarista_
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-Ha de se lhe corrigir. Mas no emtanto sempre tenha você em conta que este
-Maximo, que ahi vê, é um homem perfeitamente de bem e raramente serio...
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-_Pantoja_
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-Bem sei, minha amiga... Mas nos desfiladeiros da confiança excessiva
-resvalam os mais solidos e os mais firmes; uma triste experiencia m’o
-ensinou a mim!
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-_Electra_
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-(_no grupo do centro_) Eu hei de tomar todo o juizo que eu quizer quando
-elle me fôr preciso. Ninguem se põe serio emquanto Deus não manda.
-Ninguem diz ai ai senão quando alguma coisa lhe doe.
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-_Marquez_
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-Lá isso é verdade!
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-_Cuesta_
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-Um dia aprenderá a ser pratica.
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-_Electra_
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-De certo que sim! No dia em que venha Deus e me diga: «Menina: aqui tens
-a dôr, a duvida, a responsabilidade, o dever...»
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-_Maximo_
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-E breve o dirá!...
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-_Electra_
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-Para que eu lhe responda!
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-_Evarista_
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-Electra, minha filha, não disparates.
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-_Electra_
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-Tia, é este Maximo... (_passa para o lado de Evarista_)
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-_Urbano_
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-O Maximo tem razão...
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-_Cuesta_
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-Certamente que sim. (_Cuesta e Urbano passam tambem para o lado de
-Evarista e de Pantoja, ficando sós á esquerda Maximo e o Marquez_)
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-_Maximo_
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-Então, Marquez, qual é o resultado da sua primeira observação?
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-_Marquez_
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-Encantou-me a rapariga. Vejo que você não exagerava nada.
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-_Maximo_
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-E por baixo do fascinante encanto d’essa innocencia não pôde a sua
-penetração descobrir alguma coisa...
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-_Marquez_
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-Ah! sim... belleza moral, juizo pratico... Ainda não tive tempo para
-isso... Continúo a observar...
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-_Maximo_
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-É que eu—você sabe—consagrado ao estudo desde muito moço, mal conheço o
-mundo, e os caracteres humanos são para mim uma escripta em que apenas
-soletro.
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-_Marquez_
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-Pois esse, meu amigo, é o unico dos livros em que eu leio de cadeira.
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-_Maximo_
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-Quer vir a minha casa?
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-_Marquez_
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-Com muito gosto. É possivel que minha mulher me reprehenda se souber que
-eu visito uma officina de electrotechnia, uma escandalosa fabrica de luz.
-Mas não será de uma severidade que eu não aguente. Posso aventurar-me...
-Voltarei depois aqui, e com o pretexto de admirar a menina ao piano
-falarei com ella e proseguirei os meus estudos.
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-_Maximo_
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-(_alto_) Vem, Marquez?
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-_Urbano_
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-Então assim nos deixam?
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-_Marquez_
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-Vamos vêr o laboratorio do nosso amigo.
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-_Evarista_
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-Marquez, estou muito sentida, mas muito, pela sua longa ausencia. Quererá
-descarregar-se de tantos peccados velhos almoçando hoje comnosco? É o seu
-castigo...
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-_Marquez_
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-Acceito-o em desconto da minha culpa e beijo a mão que tão docemente me
-corrige.
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-_Evarista_
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-Maximo, tu vens tambem.
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-_Maximo_
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-Se me deixarem livre, virei, de certo.
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-_Electra_
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-Não venhas, homem de Deus, não venhas! (_Com alegria que não dissimula_)
-Vens? Dize que sim! (_Corrigindo-se_) Não, não: dize que não.
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-_Maximo_
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-Descança que te não livras de mim! Á força has de ganhar juizo...
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-_Electra_
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-E has de perdêl-o tu, caturra velho! (_Segue-o com a vista até que sae.
-Saem Maximo e o Marquez pelo jardim. José entra pelo fundo_)
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-SCENA VIII
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- ELECTRA, EVARISTA, URBANO, PANTOJA, CUESTA E JOSÉ
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-_José_
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-(_annunciando_) A senhora Superiora de S. José da Penitencia.
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-_Pantoja_
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-Ah! a nossa bôa soror Barbara da Cruz...
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-_Evarista_
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-Que entre para aqui. (_Levanta-se_) Espera! Iremos recebêl-a ao salão.
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-_Pantoja_
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-Feliz opportunidade! escuso de ir ao convento.
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-_Evarista_
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-Electra, estudar. (_Indica-lhe a sala proxima_)
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-_Cuesta_
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-(_despedindo-se_) Eu saio e volto logo.
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-_Evarista_
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-Adeus.
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-_Cuesta_
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-(_áparte, referindo-se a Electra_) Deixam-a só?
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-_Pantoja_
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-(_a Electra_) Menina! Cultive com esmero a grande arte sagrada. Applique
-todo o seu talento ao estudo de Bach... para que se compenetre do
-admiravel estylo religioso. (_Saem todos menos Electra_)
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-SCENA IX
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- ELECTRA, pouco depois CUESTA
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-_Electra_
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-(_entoando uma psalmodia de egreja, reune os desenhos e recolhe-os nas
-suas pastas_) Bach... para que me compenetre do estylo religioso... é
-bom!... É bom, e é engraçado. (_Canta_)
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-_Cuesta_
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-(_entra pelo fundo, recatando-se_) Só...!
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-_Electra_
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-(_canta algumas notas liturgicas. Vendo Cuesta_) Oh! D. Leonardo...!
-Cuidei que tinha sahido...
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-_Cuesta_
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-(_com timidez_) Sahi mas voltei, minha querida menina. Preciso muito de
-lhe falar.
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-_Electra_
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-(_um poucochinho assustada_) A mim!
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-_Cuesta_
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-É um assumpto delicado, extremamente delicado... (_Com fadiga e
-difficuldade em respirar_) Perdoe-me. Padeço do coração... não posso
-estar de pé. (_Electra chega-lhe uma cadeira. Senta-se_) Tão delicado
-este assumpto, que não sei por onde comece...
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-_Electra_
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-Deus meu, que é?
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-_Cuesta_
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-(_animando-se_) Electra, eu conheci sua mãe.
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-_Electra_
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-Ah! a minha mãe foi bem desgraçada...
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-_Cuesta_
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-Que entende a menina por ser desgraçada?
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-_Electra_
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-Eu... entendo que viveu entre pessoas que a não deixaram ser tão bôa como
-ella queria.
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-_Cuesta_
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-Ahi está uma profunda verdade que, sem querer, a menina disse...
-Lembra-se da sua mãe?... Pensa algumas vezes n’ella?...
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-_Electra_
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-A minha mãe é para mim uma recordação, vaga sim, mas de uma doçura
-incomparavel... uma querida imagem que nunca me abandona... Guardo-a viva
-no meu coração, que não é mais que uma grande memoria, no fundo da qual a
-procuram sempre os meus olhos anciosos de vêl-a. Minha pobre mamãsinha!
-(_Leva o lenço aos olhos. Cuesta suspira_) Diga-me, D. Leonardo, quando
-você conheceu minha mãe era eu muito pequenina...
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-_Cuesta_
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-Era um miminho. Faziamos-lhe cócegas para a vêr rir... o seu riso
-parecia-me o encanto da natureza, a alegria do universo.
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-_Electra_
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-Ahi está, D. Leonardo, ahi está porque eu sahi tão doida, tão travêssa,
-tão desparafusada... você alguma vez me teria pegado ao collo...
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-_Cuesta_
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-Innumeraveis vezes.
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-_Electra_
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-(_sorrindo sem ter acabado de enxugar as lagrimas_) E eu não lhe puxava
-pelos bigodes?
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-_Cuesta_
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-Ás vezes com tanta força que me fazia doer.
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-_Electra_
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-E de certo então me batia nas mãos...
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-_Cuesta_
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-Devagarinho, sim.
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-_Electra_
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-Pois ha de crêr que talvez que ainda me doam tambem?
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-_Cuesta_
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-(_impaciente por entrar em materia_) Mas vamos ao caso... E antes de mais
-nada a advirto, minha querida Electra, que é muito reservado o que lhe
-vou dizer... para nós ambos unicamente.
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-_Electra_
-
-Mette-me medo...
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-_Cuesta_
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-Não, não é uma coisa que assuste... Veja em mim a menina um amigo, o
-melhor de todos os seus amigos; veja n’este acto o interesse mais puro e
-o mais elevado sentimento...
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-_Electra_
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-(_confusa_) Sim, não duvído, mas...
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-_Cuesta_
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-Eis aqui porque dou este passo... Com quanto não seja ainda muito velho,
-não me sinto com corda para longo tempo de vida. Viuvo ha vinte annos,
-não tenho mais familia que a minha filha Pilar, já casada e longe.
-Estou quasi só n’este mundo, tenho o pé no estribo para marchar para o
-outro... E a minha solidão, ai! parece empurrar-me e dar-me pressa...
-(_Com grande difficuldade de expressão_) Mas antes de partir... (_Pausa_)
-Electra, quanto pensei em si antes de a trazerem para Madrid!... E
-desde que chegou, Deus meu, senti—como lh’o direi?... Imagine o mais
-profundo, o mais puro affecto de um coração, envolvido nos gritos de uma
-consciencia...
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-_Electra_
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-(_aturdida_) Que grave coisa deve ser essa, a consciencia! A minha é, por
-ora, como um menino que dorme no seu berço.
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-_Cuesta_
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-(_com tristeza_) A minha é velha e memoriosa. Nem dorme, nem me deixa
-dormir, assignalando-me sempre, a grandes brados, os erros graves da
-minha vida.
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-_Electra_
-
-Erros graves na vida... você, tão bom...
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-_Cuesta_
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-Bom? Sim... talvez... Bom mas peccador... Emfim deixemos os erros,
-tratemos dos seus resultados. Eu não quero de nenhum modo que a menina
-se possa achar ao desabrigo. Não tem fortuna propria, e é duvidoso que a
-protecção de Urbano e d’Evarista seja persistente e constante. Como havia
-de consentir eu que um dia se visse pobre, desamparada?
-
-_Electra_
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-(_com penosa lucta entre o seu conhecimento e a sua innocencia_) Eu não
-sei se o entendo... não sei se devo entendel-o.
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-_Cuesta_
-
-O mais apropositado será que me entenda, e não o diga; que acceite
-a minha protecção, e a não agradeça. Vão juntos o meu dever e o seu
-direito. Por culpa minha, Electra, não se quebrará o fio que une cada
-creatura na terra, com as creaturas que foram e com as que ainda vivem...
-E se hoje me determino a resolver este caso é porque... porque ha uns
-tempos me assalta o terror das mortes subitas. Meu pae e meu irmão
-morreram como fulminados de raio. A lesão cardiaca, destruidora da
-familia, sinto-a bem aqui: (_indicando o coração_) é um triste relogio
-que me conta as horas e os dias. Não posso adiar mais... Que me não
-colha a morte deixando abandonada no mundo a sua preciosa existencia! E
-concluo aqui, pedindo-lhe que tenha como assegurado na vida um bem estar
-modesto...
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-_Electra_
-
-Um bem estar modesto... Eu?... para mim?
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-_Cuesta_
-
-O sufficiente para viver n’uma decorosa independencia...
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-_Electra_
-
-(_confusa_) Mas eu, que merecimentos tenho?... Perdôe-me, se não posso
-acabar de me convencer...
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-_Cuesta_
-
-Mais tarde o convencimento virá.
-
-_Electra_
-
-E por que não fala n’isso a meus tios?...
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-_Cuesta_
-
-(_preoccupado_) Porque... A seu tempo o saberão. Por agora ninguem mais
-deve ter conhecimento da resolução que tomei.
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-_Electra_
-
-Mas...
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-_Cuesta_
-
-(_commovido, levantando-se_) E agora, Electra, não quererá mal a este
-pobre enfermo, que tem contados os seus dias?
-
-_Electra_
-
-Querer-lhe mal!? Se é tão facil e tão doce para mim o querer bem! Mas não
-fale em morrer, D. Leonardo.
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-_Cuesta_
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-Completamente me consola saber que chorará talvez por mim...
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-_Electra_
-
-Não faça com que eu chore já...
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-_Cuesta_
-
-(_apressando a sahida para vencer a sua commoção_) E agora, minha querida
-filha, adeus.
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-_Electra_
-
-Adeus... (_retendo-o_) E que nome lhe devo dar?
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-_Cuesta_
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-O de amigo me basta. Adeus. (_Arranca-se para saír pelo fundo. Electra
-segue-o com a vista até que desappareça_)
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-SCENA X
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- ELECTRA E O MARQUEZ
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-_Electra_
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-(_meditativa_) Meu Deus, que devo pensar? Aquellas meias palavras parece
-que ainda me dizem mais do que palavras completas. Mãesinha da minha
-alma!... (_O marquez entra pelo jardim e adeanta-se devagar_) Ah! O snr.
-Marquez!
-
-_Marquez_
-
-Assustei-a?
-
-_Electra_
-
-Não: surprehendeu-me apenas... Se vem para me ouvir tocar, aviso-o de que
-perdeu a viagem. Eu não toco hoje.
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-_Marquez_
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-Tanto melhor: assim fallaremos... Mal lhe sou apresentado entro em cheio
-na admiração das suas prendas, e, conhecida uma parte do seu caracter,
-vivamente desejo conhecel-a mais... Vae estranhar esta curiosidade, e
-julgar-me importuno...
-
-_Electra_
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-Não acho. Eu sou curiosa tambem, e tanto que desde já me permitto
-fazer-lhe uma pergunta: é amigo de Maximo?
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-_Marquez_
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-Estimo-o e admiro-o muito... Coisa rara não é verdade?
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-_Electra_
-
-Coisa naturalissima, me parece.
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-_Marquez_
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-Tão moça como é, talvez que se não dê bem conta das causas da minha
-amisade com o _magico prodigioso_... Vamos a vêr se me faço entender.
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-_Electra_
-
-Explique-m’o bem.
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-_Marquez_
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-Senhorita, a sociedade que eu frequento, o circulo da minha propria
-familia e os habitos da minha casa produzem em mim um effeito de
-asphyxia, de lento ameaço apopletico. Quasi que sem dar por isso, por
-simples impulso instinctivo de conservação, lanço-me de vez em quando á
-procura de um pouco d’ar respiravel. Os meus olhos, velhos e nostalgicos,
-voltam-se então avidamente para a sciencia e para a natureza... Maximo,
-para mim, é um sanatorio.
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-_Electra_
-
-Quer-me parecer que vou começando a entendêl-o, e á sua doença de
-confinado, com faltas d’ar e de vida...
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-_Marquez_
-
-Prova de que raciocina. Devo tambem dizer-lhe que tenho por esse homem um
-interesse immenso.
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-_Electra_
-
-Estima-o devidamente, admira-o pelas suas altas qualidades...
-
-_Marquez_
-
-E lastimo-o pelo seu infortunio.
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-_Electra_
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-(_surprehendida_) Maximo, desafortunado?
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-_Marquez_
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-Que desdita maior que a da solidão em que elle vive? A viuvez prematura
-submergiu-o nos estudos mais profundos e mais absorventes, que podem
-comprometter-lhe a saude e a vida. É um dos meus receios.
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-_Electra_
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-Tem os filhos, que o acompanham e a consolam... O Marquez viu-os hoje...
-Que lindas creaturinhas! O maior, que vae fazer agora cinco annos, é um
-prodigio de intelligencia. O pequenito, de dois annos, é o mais engraçado
-sujeitinho de todo o mundo. Eu adoro-os, sonho com elles, e gostava, por
-elles, de ser creada de meninos.
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-_Marquez_
-
-O pobre Maximo, aferrado aos seus estudos, não pode attendêl-os como
-devia ser.
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-_Electra_
-
-É o que eu digo tambem.
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-_Marquez_
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-Claro! Maximo do que precisa é de uma mulher... Aqui principiam as
-difficuldades e as dúvidas. Por mais que olhe e que procure, não vejo,
-não encontro a mulher digna de repartir a sua vida com a do grande homem.
-
-_Electra_
-
-Não a encontra, está visto, porque a não ha, não a ha. Para Maximo
-deve-se arranjar uma mulher, principalmente, de muito juizo...
-
-_Marquez_
-
-Primeiro que tudo, isso: de muito juizo.
-
-_Electra_
-
-O contrario de mim, que, não tenho nenhum, nenhum, nenhum!
-
-_Marquez_
-
-Não direi eu isso...
-
-_Electra_
-
-Que, ainda assim, quando lhe digo tolices e lhe chamo brutamontes, tonto
-e sabichão, não vá o Marquez pensar que o digo a sério. É brincadeira!
-
-_Marquez_
-
-Tambem me queria parecer que não era uma convicção philosophica.
-
-_Electra_
-
-Brincadeira descabida, talvez, porque elle é seriissimo... E sobre esse
-ponto gostaria de ouvir o seu conselho: acha que eu deva tornar-me séria?
-
-_Marquez_
-
-Nunca! Cada creatura é como Deus a quiz fazer. Ninguem precisa de ser
-serio para ser bom.
-
-_Electra_
-
-Pois veja lá! eu que não sei nada, tinha pensado isso mesmo!
-
-
-SCENA XI
-
- ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA pelo fundo
-
-_Pantoja_
-
-(_do fundo, áparte_) E atreve-se a pôr os olhos peçonhentos n’uma tal
-flôr de candura, este libertino, velho e incorrigivel! (_Adeanta-se
-lentamente_)
-
-_Marquez_
-
-(_dando por Pantoja, áparte_) Cae-nos o apagador em cima. Apaguemo-nos!
-
-_Electra_
-
-O snr. Marquez tinha vindo para me ouvir tocar, mas eu estou muito
-estupida hoje. Ficou para outra vez.
-
-_Marquez_
-
-O meu caro snr. Pantoja sabe que Beethoven é a minha paixão. Como me
-tinham dito que Electra o interpreta bem, esperava ouvir-lhe a _Sonata
-pathetica_ ou o _Clair de lune_... Puzemo-nos a conversar, e, visto que
-não é occasião agora...
-
-_Pantoja_
-
-(_com desabrimento_) A hora do estudo acabou.
-
-_Marquez_
-
-(_recobrando o seu papel de sociedade_) Outro dia será! Virginia e eu,
-meu presado snr. Pantoja, muito estimariamos que quizesse honrar-nos com
-os seus conselhos relativamente ao _Recolhimento das Escravas de Jesus_.
-
-_Pantoja_
-
-Sim senhor, hoje irei vêr a marqueza, e fallaremos...
-
-_Marquez_
-
-Nas _Escravas_ a encontrará o meu illustre amigo toda a santissima
-tarde... E como creio que sou demais... (_Movimento de retirar-se_)
-
-_Electra_
-
-O snr. Marquez não estorva.
-
-_Marquez_
-
-Vou-me com a musica... até o laboratorio de Maximo.
-
-_Pantoja_
-
-Vá, vá, que ha de gostar!
-
-_Marquez_
-
-Até ao almoço, meu muito respeitavel amigo.
-
-_Pantoja_
-
-Guarde-o Deus. (_Sae o marquez pelo jardim_)
-
-
-SCENA XII
-
- ELECTRA E PANTOJA
-
-_Pantoja_
-
-(_vivamente_) Que é que elle lhe dizia? que lhe estava contando esse
-depravador de innocencias?
-
-_Electra_
-
-Nada: historias vagas, anecdotas para rir...
-
-_Pantoja_
-
-As taes historias! Desconfie sempre das anecdotas jocosas, e dos
-narradores amenos, que escondem entre suavidades e fragrancias de jasmins
-uma ponta envenenada de estilete... Estou a achal-a perplexa, enleada,
-abstrahida, quasi medrosa, como quem acaba de sentir pela macia relva
-matisada de lirios um roçagar de reptil.
-
-_Electra_
-
-Ah! não.
-
-_Pantoja_
-
-Essa inquietação resultante das conversações perturbadoras ha de
-acalmal-a a minha palavra serena e benefica.
-
-_Electra_
-
-Vejo que é poeta, snr. de Pantoja; e dá-me prazer ouvil-o.
-
-_Pantoja_
-
-(_indica-lhe uma cadeira, e sentam-se ambos_) Minha presada filha, vou
-dar-lhe a explicação da intensa ternura que me inspira... Terá dado por
-isso?
-
-_Electra_
-
-Tenho.
-
-_Pantoja_
-
-Tal explicação equivale á revelação de um segredo...
-
-_Electra_
-
-(_muito assustada_) Deus do ceu! estou a tremer...
-
-_Pantoja_
-
-Socegue, minha filha... E ouça primeiro a parte d’esta confidencia mais
-dolorosa para mim. Fui muito mau, Electra.
-
-_Electra_
-
-Como assim, com a fama de santidade que tem!
-
-_Pantoja_
-
-Fui mau—digo-lh’o eu—em certa occasião da minha vida. (_Suspirando_) Já
-lá vão alguns annos.
-
-_Electra_
-
-(_vivamente_) Quantos? Poderei eu lembrar-me ainda do tempo da sua
-maldade, snr. de Pantoja?
-
-_Pantoja_
-
-Não pode. Quando eu me depravei, quando me afundi no lodaçal do peccado,
-não tinha a menina ainda nascido...
-
-_Electra_
-
-Mas nasci afinal...
-
-_Pantoja_
-
-(_depois de uma pausa_) É certo.
-
-_Electra_
-
-Nasci... e d’ahi? Por quem é, abrevie essa historia...
-
-_Pantoja_
-
-A sua perturbação me indica que devemos desviar os olhos do passado. A
-sua condição presente socega-me.
-
-_Electra_
-
-Porquê?
-
-_Pantoja_
-
-Porque ha de ter um amparo, um arrimo para toda a vida. Nada mais
-ineffavel para mim do que a fortuna de velar pelo destino de uma creatura
-tão bella e tão nobre! Quero consagrar-me a defendel-a de todo o mal,
-a guardal-a, a acalental-a, a dirigil-a, para que sempre se conserve
-incolume, intemerata e pura; para que nunca lhe toque nem a mais tenue
-sombra, nem o mais afastado respiro do mal. É hoje uma menina que parece
-um anjo. Não me conformo com que unicamente o pareça; quero que para mim
-o seja.
-
-_Electra_
-
-(_friamente_) Que eu seja um anjo de sua composição e propriedade
-sua?... E parece-lhe que se deva considerar como um rasgo de caridade
-extraordinaria e sublime esse fervoroso desejo que mostra de ter assim,
-um anjo de seu?
-
-_Pantoja_
-
-Não é caridade: é obrigação. Tu—entendes?—tens o direito de ser amparada
-por mim; eu tenho o dever de amparar-te.
-
-_Electra_
-
-Tamanha confiança... tão severa auctoridade...
-
-_Pantoja_
-
-A minha auctoridade provém do meu entranhado affecto, assim como do calor
-do sol provém a força da terra. A minha protecção é um producto da minha
-consciencia.
-
-_Electra_
-
-(_levanta-se muito agitada, e afastando-se de Pantoja, áparte_) Virgem
-mãe santissima! dois protectores! e um que precisa de opprimir para
-proteger! (_alto_) Olhe: eu admiro-o e respeito muito as suas virtudes.
-Emquanto á sua auctoridade—perdoe-me o atrevimento de lh’o dizer—não a
-comprehendo bem claramente, e parece-me que só a minha tia é que devo
-submissão e obediencia.
-
-_Pantoja_
-
-Vem a ser a mesma coisa. Evarista faz-me a honra de me consultar em tudo.
-Obedecer-lhe a ella é submetter-te a mim.
-
-_Electra_
-
-Então tambem a tia me quer para anjo d’ella? ainda por cima de eu já
-estar para anjo do snr. de Pantoja?!
-
-_Pantoja_
-
-Anjo de todos, de Deus principalmente. Convence-te, filha da minha alma,
-que vieste a bôas mãos, e que só te cumpre deixar-te guiar na virtude e
-na purificação.
-
-_Electra_
-
-(_com displicencia_) Pois, se querem purificar-me, purifiquem-me... Mas
-estão bem certos de que eu seja impura e má?
-
-_Pantoja_
-
-Poderias vir a sel-o. Melhor se vence o mal prevenindo que remediando.
-
-_Electra_
-
-Pobre de mim! (_Levantando os olhos em extase, suspira. Pausa_)
-
-_Pantoja_
-
-Porque suspiras assim?
-
-_Electra_
-
-Deixe-me aliviar o meu triste coração. Pesam-me demais em cima d’elle as
-consciencias dos outros.
-
-
-SCENA XIII
-
- ELECTRA, PANTOJA E EVARISTA, pelo fundo
-
-_Evarista_
-
-Amigo Pantoja, a Madre Barbara da Cruz espera-o para se despedir e
-receber as suas ordens.
-
-_Pantoja_
-
-Ah! não me lembrava... Vou immediatamente. (_Áparte a Evarista_) Falamos.
-Vigie. Acautelemo-nos! (_Antes de saír Pantoja, pelo fundo, entram o
-Marquez e Maximo pela direita_)
-
-
-SCENA XIV
-
- ELECTRA, EVARISTA, MARQUEZ E MAXIMO
-
-_Marquez_
-
-Tardamos?
-
-_Evarista_
-
-Não. Estiveram no laboratorio?... (_Formam-se dois grupos: Electra e
-Maximo á esquerda; Evarista e o Marquez á direita._)
-
-_Marquez_
-
-Lá estivemos. É um prodigio este homem... (_Segue falando no que viu_)
-
-_Electra_
-
-(_suspirando_) Sim, Maximo, preciso de consultar-te sobre um caso grave.
-
-_Maximo_
-
-(_com vivo interesse_) Conta depressa!
-
-_Electra_
-
-(_receosa olhando para o outro grupo_) Impossivel agora.
-
-_Maximo_
-
-Quando então?
-
-_Electra_
-
-Não sei... Não sei quando t’o poderei dizer... Não se resume em quatro
-palavras...
-
-_Maximo_
-
-Pobre rapariga!... O que eu te predisse... Chegam as seriedades da vida,
-os deveres, as amarguras...
-
-_Electra_
-
-Talvez.
-
-_Maximo_
-
-(_olhando-a fito, com grande interesse_) Na expressão da tua physionomia
-ha um veu de tristeza e um estremecimento de susto... Desconheço-te.
-
-_Electra_
-
-Querem annular o que eu sou, e reduzir-me a outra coisa... a uma coisa
-angelical e celeste, que não sei o que é!
-
-_Maximo_
-
-(_vivamente_) Por Deus, não consintas isso! Defende-te, Electra.
-
-_Electra_
-
-Que me aconselhas?
-
-_Maximo_
-
-(_sem vacillar_) A independencia.
-
-_Electra_
-
-A independencia!
-
-_Maximo_
-
-Sim, a emancipação... N’uma palavra: Insurge-te!
-
-_Electra_
-
-Queres dizer que faça quanto me vier á cabeça, que danse, que pule, que
-corra pelo parque emquanto me appeteça, que entre na tua casa como em
-paiz conquistado, que conspire com os teus pequenos, que fuja com elles
-para o jardim, para longe, para onde eu quizer?...
-
-_Maximo_
-
-Tudo!
-
-_Electra_
-
-Olha o que dizes!?...
-
-_Maximo_
-
-Digo-te isto.
-
-_Electra_
-
-Mas é o contrario que me tens recommendado sempre!
-
-_Maximo_
-
-(_olhando-a fixamente_) Na tua cara, no vinco dos teus sobrolhos, na
-tremura da tua bocca, eu vejo que estão radicalmente transformadas as
-condições da tua vida. Tu agora tens medo.
-
-_Electra_
-
-(_medrosa_) Tenho, sim.
-
-_Maximo_
-
-Tu... (_Hesitando no verbo que ha de empregar. Vae a dizer amar, mas não
-ousa_) Tu queres ardentemente que alguma coisa succeda...
-
-_Electra_
-
-(_com effusão_) Quero. (_Pausa_) E dizes-me tu que contra o medo... a
-insubordinação.
-
-_Maximo_
-
-Sim: solta livremente todos os teus impulsos para que quanto ha em ti se
-manifeste, e se saiba quem tu és.
-
-_Electra_
-
-O que eu sou? Queres conhecer...
-
-_Maximo_
-
-A tua alma...
-
-_Electra_
-
-Os meus segredos...
-
-_Maximo_
-
-A tua alma... N’ella se comprehende tudo.
-
-_Electra_
-
-(_notando que Evaristo a observa_) Basta... Olham para nós.
-
-
-SCENA XV
-
- OS MESMOS, URBANO E PANTOJA, pelo fundo
-
-_Urbano_
-
-Almoça-se?
-
-_Pantoja_
-
-(_a Evarista, suffocado, vendo Electra com Maximo_) Então assim a deixa
-só com Mephistopheles?
-
-_Evarista_
-
-Não tenha sustos, Pantoja.
-
-_Marquez_
-
-(_rindo_) Não tem de que os ter. Esse Mephistopheles é um santo. (_Dá o
-braço a Evarista_)
-
-_Pantoja_
-
-(_imperiosamente, pegando na mão de Electra para a conduzir_) Commigo!
-(_Electra, andando com Pantoja, volta a cabeça para olhar para Maximo_)
-
-_Maximo_
-
-(_olhando para Electra e para Pantoja_) Comtigo?... Havemos de vêr com
-quem! (_Maximo e Urbano são os ultimos que saem_)
-
- FIM DO PRIMEIRO ACTO
-
-
-
-
-ACTO SEGUNDO
-
- Scenario do primeiro acto
-
-
-SCENA I
-
- EVARISTA, URBANO, á banca, despachando negocios, BALBINA, que
- serve á snr.ª de Yuste uma taça de caldo
-
-_Urbano_
-
-(_dispondo-se a escrever_) Que é que se diz ao reitor do Patrocinio?
-
-_Evarista_
-
-O que se combinou: approvamos a planta, e acceitamos o orçamento. Depois
-nos entenderemos com o empreiteiro.
-
-_Urbano_
-
-Já sabes a quanto monta a obra... (_Lendo n’um apontamento_) Trezentas e
-vinte e duas mil pezetas...
-
-_Evarista_
-
-Bem. Ainda nos sobeja dinheiro para a continuação do Soccorro. (_A
-Balbina, que recolhe a taça_) Não te esqueças do que te incumbi.
-
-_Balbina_
-
-Continúo vigiando, como a senhora determinou. Mas este recreio a que
-a menina agora se entrega não me parece de cuidado. Tantas cartas de
-namorados juntas são carteio de mais. A menina, emquanto a mim, para o
-que puxa não é para a tolice, é para a risota.
-
-_Evarista_
-
-Mas quem traz todas essas cartas que ella recebe?
-
-_Balbina_
-
-Isso não sei... Mas ando de pedra no sapato com a Patros.
-
-_Evarista_
-
-Espreita-as, e informa-me.
-
-_Balbina_
-
-Fica ao meu cuidado, deixe estar! (_retira-se Balbina_)
-
-
-SCENA II
-
- OS MESMOS E MAXIMO, apressado, com plantas e papeis
-
-_Maximo_
-
-Estórvo?
-
-_Evarista_
-
-Não, filho, podes entrar.
-
-_Maximo_
-
-São dois minutos, tia.
-
-_Urbano_
-
-Vens do ministerio?
-
-_Maximo_
-
-Venho da conferencia com os bilbaínos. Tenho hoje um dia de prova
-tremenda... Immenso que conferir, immenso que falar, immenso que correr,
-e, para me não faltar mais nada, a casa toda revirada com o debaixo para
-cima!
-
-_Evarista_
-
-Mas, homem, que foi isso?! Diz a Balbina que despediste as creadas...
-
-_Maximo_
-
-Pessoal infame, tia! Tres ladras! Pul-as na rua. Estou com o ordenança e
-com a ama. Que lindo arranjo, hein?
-
-_Evarista_
-
-Vem comer cá.
-
-_Maximo_
-
-Comer cá é bom de dizer. A tia fala bem! E os pequenos com quem ficam? Se
-os trago põem-lhe a cabeça em agoa, desarranjam-lhe tudo...
-
-_Evarista_
-
-Não tragas. Eu adoro as creanças. Mas têl-as commigo, não. Revolvem tudo,
-sujam tudo! corridas, risadas, cantatas, berratas, guinchos, patadas
-medonhas no chão! fazem-me doida. E mêdo que caiam, que se mólhem, que as
-arranhem os gatos, que rachem as cabeças, que esburaquem os olhos uns dos
-outros. Nada... Não quero responsabilidades.
-
-_Maximo_
-
-Eu o que queria é que a tia me mandasse uma cosinheira.
-
-_Evarista_
-
-Manda-se-te para lá a Henriqueta. Urbano, toma nota.
-
-_Maximo_
-
-Bom. (_Dispondo-se a partir_)
-
-_Evarista_
-
-Olha lá! os teus negocios parece que vão bem... Já sabes o que te tenho
-dito: Se o _magico prodigioso_ precisar de dinheiro para a implantação
-dos seus inventos, não tem mais do que dizel-o...
-
-_Maximo_
-
-Obrigado, tia... Tenho á minha disposição quanto dinheiro queira... Assim
-eu tivesse uma creatura que me soubesse fazer sôpa!
-
-_Urbano_
-
-Esse senhor dentro de poucos annos ha de estar muito mais rico do que nós.
-
-_Maximo_
-
-Isso bem pode ser que sim.
-
-_Urbano_
-
-Obra do seu talento.
-
-_Maximo_
-
-(_com modestia_) Não: do trabalho, da perseverança, da paciencia...
-
-_Evarista_
-
-Nem me digas! Trabalhas monstruosamente.
-
-_Maximo_
-
-Quanto é preciso que trabalhe, por obrigação, por consolação, por prazer,
-e, a final, por enthusiasmo adquirido tambem.
-
-_Urbano_
-
-Passa a monomania isso. É uma borracheira de estudo.
-
-_Evarista_
-
-(_grave_) Não: é a ambição, a maldita ambição, que a tantos fascina e a
-tantos deita a perder.
-
-_Maximo_
-
-Ambição legitima e indispensavel á humanidade. Imagine a tia...
-
-_Evarista_
-
-(_cortando-lhe a palavra_) É a ancia das riquezas, para saciar com ellas
-a avidez do goso. Gosar, gosar, gosar: isso unicamente quereis, e para
-isso vos consumis, sacrificando o estomago, o cerebro, o coração e a
-propria alma, sem vos lembrardes da inanidade das coisas da terra e da
-brevidade da vida. Rapidamente nos vamos, e tudo cá fica.
-
-_Maximo_
-
-(_impaciente por sahir_) Tudo, menos eu, que me safo já.
-
-
-SCENA III
-
- OS MESMOS E JOSÉ
-
-_José_
-
-(_annunciando_) O snr. marquez de Ronda.
-
-_Maximo_
-
-(_detendo-se_) Esperarei já agora para o vêr.
-
-_Evarista_
-
-(_recolhendo os papeis_) Não manda Deus que trabalhemos hoje.
-
-_Urbano_
-
-Adivinho ao que vem.
-
-_Evarista_
-
-Que entre, José, que entre! (_José sae_)
-
-_Maximo_
-
-Vem convidal-os para a inauguração da nova _Irmandade da Escravidão_
-fundada por Virginia. Disse-m’o hontem á noite.
-
-_Evarista_
-
-Bem sei... Então é hoje?
-
-
-SCENA IV
-
- EVARISTA, URBANO, MAXIMO E O MARQUEZ
-
-_Marquez_
-
-(_saudando com affabilidade_) Querida amiga... Urbano... (_A Maximo_)
-Olá! não esperava encontrar o magico...
-
-_Maximo_
-
-O magico diz-lhe adeus e some-se.
-
-_Marquez_
-
-Um momento. (_Retendo-o_)
-
-_Evarista_
-
-Sim, Marquez: iremos.
-
-_Marquez_
-
-Já sabem?
-
-_Urbano_
-
-A que horas?
-
-_Marquez_
-
-Ás cinco em ponto. (_A Maximo_) A si não lhe digo porque sei que não tem
-tempo.
-
-_Maximo_
-
-Desgraçadamente. Segue-se então que o não espero hoje.
-
-_Marquez_
-
-Como, se temos essa festa rija de religião e de mundanismo! mas lá vou á
-noite.
-
-_Evarista_
-
-(_levemente zombeteira_) Já cá se tem notado, com muito regosijo é claro,
-a frequencia das visitas do Marquez á caverna do nigromante.
-
-_Maximo_
-
-O Marquez dá-me muita honra com a sua amizade e com o interesse que toma
-pelos meus estudos.
-
-_Marquez_
-
-Veio-me agora o delirio das maquinas e dos phenomenos electricos...
-Caturrices de velho!
-
-_Urbano_
-
-(_a Maximo_) Parabens pelo discipulo.
-
-_Evarista_
-
-Deus sabe... (_Maliciosa_) Deus sabe quem será o mestre e quem o alumno!
-
-_Marquez_
-
-A respeito do mestre, sinto que elle esteja presente porque isso me priva
-de applicar aos seus meritos todas as mordeduras que a inveja me inspira.
-
-_Evarista_
-
-Retira-te, Maximo; vamos dizer mal de ti.
-
-_Maximo_
-
-Repaste-se a má lingua! Adeusinho todos. Adeus, tia.
-
-_Evarista_
-
-Vae com Nossa Senhora!
-
-_Marquez_
-
-(_a Maximo que sae_) Até á noite, se me deixarem. (_A Evarista_)
-Extraordinario homem! Sempre o admirei muito, mas agora que tenho
-apreciado mais de perto todas as suas qualidades, sustento que não ha
-outro no mundo como este seu sobrinho.
-
-_Evarista_
-
-No terreno scientifico.
-
-_Marquez_
-
-Em todos os terrenos, senhora de Yuste. Pois quê?!...
-
-_Evarista_
-
-De certo que como intelligencia...
-
-_Marquez_
-
-(_com enthusiasmo_) Como intelligencia, como caracter, como coração, como
-tudo... Quem é que é melhor?
-
-_Evarista_
-
-(_sem querer empenhar-se n’uma discussão delicada_) Bem, bem, Marquez...
-(_Variando de tom_) É então ás cinco, disse...?
-
-_Marquez_
-
-Em ponto. Contamos tambem com Electra.
-
-_Evarista_
-
-Não sei se a leve...
-
-_Marquez_
-
-Ora essa! Tenho incumbencia especialissima de conseguir a presença da
-senhorita Electra n’esta solemnidade, e já prometti que sim. Virginia
-deseja muito conhecêl-a.
-
-_Urbano_
-
-Á vista d’isso...
-
-_Marquez_
-
-Não me deixem ficar mal!
-
-_Evarista_
-
-Bem: conte com ella.
-
-_Marquez_
-
-Teremos muita gente, toda a nossa roda...
-
-_Urbano_
-
-Oh! vae estar brilhante com certeza.
-
-_Marquez_
-
-Com que então, até já. Tenho de ir a casa de Otumba, e passarei por cá
-na volta. (_Ouve-se a voz de Electra pela esquerda, chalrando e rindo
-alegremente. O marquez pára a escutal-a_)
-
-
-SCENA V
-
- OS MESMOS E ELECTRA
-
-_Electra_
-
-Pois sim, sim... rica, minha riquinha! mais um beijo... Que doida que és!
-que doida que sou! mas entendemo-nos ambas. (_Apparece pela esquerda com
-uma grande e rica boneca, que beija e que embala. Detem-se envergonhada_)
-
-_Evarista_
-
-Que vem a ser isto, rapariga?
-
-_Marquez_
-
-Não lhe ralhe.
-
-_Electra_
-
-Mademoiselle Lulu e eu damos á lingoa, contamo-nos coisas.
-
-_Urbano_
-
-(_ao Marquez_) Anda desatinada hoje.
-
-_Electra_
-
-(_afastando-se, diz segredinhos á boneca. Os outros olham_) Que linda que
-és, Lulu! Mas elle, ainda mais lindo que tu. Que feliz seria o meu amor
-com elle e comtigo!
-
-_Marquez_
-
-Sempre folgazã, pelo que vejo...
-
-_Evarista_
-
-Pelo contrario: desde hontem n’uma tristeza que nos dá cuidado.
-
-_Marquez_
-
-Tristeza? idealidade antes.
-
-_Evarista_
-
-E, agora, está vendo...
-
-_Marquez_
-
-(_carinhoso, dirigindo-se para ella_) Rica menina!
-
-_Electra_
-
-(_approximando a cara da boneca da do marquez_) Vamos, Mademoiselle, não
-se me faça môna: dê um beijinho a este senhor. (_Antes que o marquez
-beije a boneca dá-lhe um leve carolo com a cabeça de Lulu_)
-
-_Marquez_
-
-A Lulu não beija: a Lulu marra. (_Acariciando o queixinho de Electra_)
-Por isso gósto mais da sua amiguinha do que d’ella.
-
-_Electra_
-
-De miôlo póde crêr que tanto tem uma como outra.
-
-_Urbano_
-
-Mas que conversas tu com a boneca?
-
-_Electra_
-
-Desafógo com ella, conto-lhe as minhas penas.
-
-_Evarista_
-
-Penas, tu?
-
-_Electra_
-
-Penas eu, sim, pois quê?... E quando nos vê muito caladas ambas é porque
-nos estão lembrando as nossas coisas passadas...
-
-_Marquez_
-
-Ah! se a interessa o passado já é um signal de que pensa pela sua
-cabecinha.
-
-_Evarista_
-
-E que coisas passadas são essas que dizes?
-
-_Electra_
-
-Digo do tempo em que nasci. (_Com gravidade_) O dia em que eu vim ao
-mundo foi um dia muito triste, pois não foi? Lembra-se aqui alguem de
-como foi esse dia?
-
-_Evarista_
-
-Filha, que tontices que dizes! E não tens vergonha de que o snr. Marquez
-te veja tão adoidada?
-
-_Electra_
-
-Creia, tia, que não ha doidos tão doidos, nem creanças tão creanças, que
-não tenham sua razão para dizer o que dizem e para fazer o que fazem.
-
-_Marquez_
-
-Muito bem pensado.
-
-_Evarista_
-
-Qual é então a tua razão para esses brinquedos tão fóra da tua edade?
-
-_Electra_
-
-(_olhando para o marquez, que sorri ao seu lado_) Isso não posso contar
-agora.
-
-_Marquez_
-
-Quer dizer que me retire.
-
-_Evarista_
-
-Electra!
-
-_Marquez_
-
-Eu ia já despedir-me... com bem pena de que as minhas occupações me
-privem de convivencia tão interessante. Adeus, senhorita; volto ás cinco
-para a levar commigo.
-
-_Electra_
-
-A mim!
-
-_Evarista_
-
-Sim; vamos á inauguração das _Escravas_.
-
-_Electra_
-
-E eu tambem?
-
-_Evarista_
-
-Podes-te ir vestindo.
-
-_Electra_
-
-(_assustada_) Ha de estar muita gente... A gente mette-me medo. Gósto
-mais de ficar só.
-
-_Marquez_
-
-Estaremos em familia. E com isto me despégo.
-
-_Evarista_
-
-Até logo, Marquez.
-
-_Marquez_
-
-(_a Electra_) Menina, ás cinco; aprendámos a ser pontuaes. (_Sae pelo
-fundo com Urbano_)
-
-
-SCENA VI
-
- EVARISTA E ELECTRA
-
-_Evarista_
-
-Explicarás agora a extranha maluquice em que andas.
-
-_Electra_
-
-Eu lhe digo, tia: tenho uma dúvida... como direi?... um problema...
-
-_Evarista_
-
-Problemas, tu!
-
-_Electra_
-
-Exactamente, no plural, problemas... porque é de mais d’um que se trata.
-
-_Evarista_
-
-Valha-te Nossa Senhora!
-
-_Electra_
-
-E quero vêr se m’os resolve...
-
-_Evarista_
-
-Quem?
-
-_Electra_
-
-Uma pessôa que já não vive.
-
-_Evarista_
-
-Que dizes?
-
-_Electra_
-
-Minha mãe. Não se afflija... Minha mãe pode-me dizer o que eu pretendo...
-e aconselhar-me. A tia não acredita que as pessôas do outro mundo podem
-vir a este? (_Gesto de incredulidade de Evarista_) Não acredita. Acredito
-eu. Acredito porque o tenho visto. Eu tenho visto minha mãe...
-
-_Evarista_
-
-Virgem Maria! como tens essa cabeça!
-
-_Electra_
-
-... Quando era muito pequenina, assim, d’este tamanho...
-
-_Evarista_
-
-Nas Ursulinas de Bayona?
-
-_Electra_
-
-Sim... Minha mãe apparecia-me.
-
-_Evarista_
-
-Em sonhos, naturalmente.
-
-_Electra_
-
-Não, não: estando eu acordada, tão bem acordada como estou agora.
-(_Colloca a boneca n’uma cadeira_)
-
-_Evarista_
-
-Pensa no que dizes, Electra...
-
-_Electra_
-
-Quando eu estava só, sósinha, triste ou doente; quando alguem me
-lastimava dando-me a perceber a desairosa situação que eu tinha no mundo,
-a minha mãe vinha, e consolava-me. Primeiro via-a imperfeitamente,
-confusa, como vaporosa, a parecer diluir-se nas coisas distantes, nas
-coisas proximas. Adeantava-se, n’uma claridade que tremeluzia... Depois,
-não bulia mais; era uma fórma quieta, uma serena imagem triste... E
-eu não podia então duvidar de que a tinha ali... Era minha mãe... Das
-primeiras vezes via-a em traje elegante de grande dama... Um dia,
-por fim, appareceu-me de habito e escapulario de monja. O seu rosto
-envolvido nas toucas brancas, e o seu corpo coberto pela estamenha
-pendente tinham uma magestade de belleza que não póde imaginar quem a não
-viu.
-
-_Evarista_
-
-Tu deliras, minha pobre filha!
-
-_Electra_
-
-Junto de mim abria os braços como se quizesse enlaçar-me. Falava-me n’uma
-voz dôce, mas longinqua e recondita... não sei como lh’o explique... Eu
-perguntava-lhe coisas, e ella respondia-me... (_maior incredulidade de
-Evarista_) A tia não acredita?
-
-_Evarista_
-
-Vae dizendo.
-
-_Electra_
-
-Nas Ursulinas tinha uma bella boneca, a que eu chamava tambem Lulu...
-Veja a tia que mysterio este!... Sempre que eu andava pela horta, ao
-cahir da tarde, só, levando ao colo a minha boneca—tão melancolica eu
-como ella—olhando muito para o ceu, era certa, segura, infallivel, a
-visão de minha mãe... primeiro entre as arvores, como enformada no ôco
-das folhagens; depois, desenhando-se de luz, e caminhando para mim,
-vagarosamente, por entre os troncos escuros...
-
-_Evarista_
-
-E em mais crescida, quando vivias em Hendaya... tambem?...
-
-_Electra_
-
-Nos primeiros tempos não... Então já eu brincava com bonecas vivas: os
-dois pequerruchinhos da minha prima Rosalia, menina e menino, que nunca
-se separavam de mim, e me adoravam, como eu a elles. De noite, na solidão
-do nosso quarto, com os meninos dormidinhos, como elles aqui... e eu
-aqui (_indica o logar dos dois leitos parallelos_) por entre as duas
-caminhas brancas a minha mãe passava, meiga, silenciosa, aeria, sem pisar
-o chão... E debruçava-se para mim...
-
-_Evarista_
-
-Cala-te, por Deus, que até me fazes medo... Mas depois que foste mais
-crescida... agora—digamos—acabaram essas visões...
-
-_Electra_
-
-Nunca mais as tive desde que deixei de viver com bonecas e com meninos.
-É por isso que eu trato de voltar á edade da innocencia, e de me fazer
-creança pequena outra vez, a vêr se, tornando a ser o que fui, voltará
-tambem minha mãe a vêr-me, como d’antes... Para que falemos, e me
-responda ao que lhe quero perguntar... e me dê conselho...
-
-_Evarista_
-
-E que dúvidas são as tuas, que assim precisas...
-
-_Electra_
-
-(_pondo os olhos no chão_) Dúvidas?... coisas que a gente não sabe, e
-quer saber.
-
-_Evarista_
-
-Tolice! Que tão grave caso vem a ser esse para que precises de consulta e
-de conselho?...
-
-_Electra_
-
-Cá uma coisa... (_Vacilla, está quasi a dizêl-o_)
-
-_Evarista_
-
-O quê? dize.
-
-_Electra_
-
-Uma coisa... (_Com timidez infantil dando voltas á boneca e sem se
-atrever a revelar o seu segredo_) Uma certa coisa...
-
-_Evarista_
-
-(_severa e affectuosa_) Ih! que intoleravel que estás, com tanta
-creancice! (_Tira-lhe a boneca_) Que estupida e ao mesmo tempo que
-atilada que tu és! Tão depressa te mostras um prodigio de intelligencia
-e de graça como parece que não passas de maluca... Andam ás bulhas com a
-tua alma cherubins e demonios. Temos que intervir para acabar com essa
-lucta e dar em Satanaz muitos açoites, ainda que algum te caia em ti e
-te dôa um poucochito... (_Beija-a_) Vamos! juizo. Precisas de te occupar
-n’alguma coisa, de distrahir essa cabeça... Não te esqueça de que é ás
-cinco a festa... Vae-te arranjar, anda...
-
-_Electra_
-
-Sim, tia.
-
-_Evarista_
-
-Faltam tres quartos.
-
-_Electra_
-
-Vou apromptar-me.
-
-_Evarista_
-
-E poucas brincadeiras... cuidado! (_Sae pelo fundo levando a boneca
-pendida, suspensa por um braço_)
-
-
-SCENA VII
-
- ELECTRA E PATROS
-
-_Electra_
-
-(_olhando para a boneca_) Pobre Lulu! como te levam á dependura!
-(_Imitando a postura da boneca e apalpando o seu proprio braço dolorido_)
-Que dôr que vaes ter, coitada, no hombro desengonçado! (_Senta-se
-meditabunda_) E o outro á minha espera... Como foi triste a separação!
-como elle chorava, estendendo-me os bracinhos!... e eu que lhe prometti
-voltar...
-
-_Patros_
-
-(_assomando cautelosa pela esquerda_) Senhorita, senhorita...
-
-_Electra_
-
-Entra.
-
-_Patros_
-
-(_avançando com precaução_) Não está ninguem?
-
-_Electra_
-
-Estamos sós.
-
-_Patros_
-
-Não se pilha outra occasião assim, menina! Ou agora ou nunca.
-
-_Electra_
-
-Vens de lá?
-
-_Patros_
-
-Agora mesmo... Muitos senhores que dizem numeros... milhões, _bilhões_ e
-_quatrilhões_... E lá dentro, ninguem.
-
-_Electra_
-
-(_vacillando_) Atrevo-me?
-
-_Patros_
-
-(_decidida_) Atreva-se, menina.
-
-_Electra_
-
-Nossa Senhora do Carmo, protegei-me! (_Dirige-se á sahida que dá para
-o jardim. Pára assustada_) Espera. Não será melhor sahirmos pelo outro
-lado? Pode estar a tia á janella da casa de jantar...
-
-_Patros_
-
-Pode, pode! Demos a volta por aqui. (_Pela esquerda_)
-
-_Electra_
-
-Sim, por aqui... Estou a tremer toda... de valentia! e de medo. Ávante!
-(_Saem a correr pela esquerda_)
-
-
-SCENA VIII
-
- URBANO E JOSÉ, que entram pelo fundo ao tempo a que saem as duas
-
-_Urbano_
-
-Quem vae ali?
-
-_José_
-
-É a Patros.
-
-_Urbano_
-
-Então que temos?... conta lá.
-
-_José_
-
-São já cinco os que fazem olho á menina: cinco vistos por mim. Fóra os
-que não vi.
-
-_Urbano_
-
-E quê? rondam a casa?
-
-_José_
-
-Dois pela manhã, dois de tarde, e o mais pequenitate de todos, de sol a
-sol.
-
-_Urbano_
-
-Tens notado se ha communicação entre a janella do quarto da senhorita
-Electra e a rua por meio de cesto pendente ou de cordão telephonico?
-
-_José_
-
-Não vi nada d’isso. Mas cá eu, se fôsse os senhores, mudava a menina para
-os quartos d’acolá. (_Á esquerda_)
-
-_Urbano_
-
-E algum d’esses meninos não se coará para dentro do jardim?
-
-_José_
-
-Isso sim! Não que elles teem espinhaço e querem-o para mais d’uma vez.
-
-_Urbano_
-
-Bem: vae vigiando sempre. (_Entra Cuesta pelo fundo_)
-
-
-SCENA IX
-
- URBANO E CUESTA, com papeis e cartas
-
-_Urbano_
-
-Ora graças a Deus, Leonardo!
-
-_Cuesta_
-
-Já te tinha dito que não vinha de manhã. (_A José, dando-lhe uma carta_)
-Isto para registar. Logo irão mais cartas. (_Sae José_)
-
-_Urbano_
-
-(_pegando n’um papel que Cuesta lhe entrega_) Que vem a ser isto?
-
-_Cuesta_
-
-O recibo das cem mil e tantas pesetas... assigna-me agora um talão de
-sessenta e sete mil...
-
-_Urbano_
-
-Para a remessa para Roma...
-
-_Cuesta_
-
-Isso mesmo. E Evarista?
-
-_Urbano_
-
-A vestir-se.
-
-_Cuesta_
-
-Já sei que vaes á inauguração das _Escravas_ e que tambem vae Electra.
-
-_Urbano_
-
-Essa pequena, positivamente, não promette coisa boa. Está cada vez mais
-caprichosa e mais leviana...
-
-_Cuesta_
-
-(_vivamente_) Sem maldade!
-
-_Urbano_
-
-Mas com symptomas d’isso. Evarista, que é a cautella e a prudencia em
-pessoa, anda a pensar em submettel-a a um regimen sanitario em S. José da
-Penitencia.
-
-_Cuesta_
-
-Has de me permittir que discorde inteiramente d’esse alvitre. Tu dirás
-que quem me manda a mim...
-
-_Urbano_
-
-Pelo contrario: como amigo da casa muito estimo que dês opinião e
-conselho.
-
-_Cuesta_
-
-Isso de arrastar para a vida claustral uma rapariga que não denota
-manifesta vocação de piedade, é grave... E não devereis extranhar que
-porventura alguem se opponha...
-
-_Urbano_
-
-Quem se ha de oppôr?
-
-_Cuesta_
-
-Que sei eu! alguem... Na vida d’esta menina ha, por emquanto, um factor
-desconhecido... Um bello dia poderá succeder... não direi que succeda...
-Um bello dia, quando puxeis pela corda com mais força, poderá vir uma voz
-que diga: «Alto lá, senhores de Yuste!»
-
-_Urbano_
-
-E nós responderemos: «Querido snr. factor desconhecido, aqui tem a
-menina, com o que nos livra d’uma tutella difficil e incommoda.»
-
-_Cuesta_
-
-(_senta-se com muita fadiga_) Isto, Urbano, é apenas uma supposição
-minha... é um modo de fallar...
-
-_Urbano_
-
-Não te sentes bem? Queres tomar alguma coisa?
-
-_Cuesta_
-
-Não... Este maldito coração recusa-se a ser dirigido pela vontade...
-
-_Urbano_
-
-Descansa... Queres-te tu deitar?
-
-_Cuesta_
-
-Pois não sabes o que tenho que fazer? (_Tirando papeis do bolso_) Para
-já, duas carta urgentes, que teem de partir hoje.
-
-_Urbano_
-
-Escreve-as aqui. (_Fazendo um logar á meza, e retirando livros e papeis_)
-
-_Cuesta_
-
-Está dito... installo-me ahi.
-
-_Urbano_
-
-Eu estou atarefadissimo tambem. Tenho voltas que dar...
-
-_Cuesta_
-
-Não penses mais em mim. (_Escreve_)
-
-_Urbano_
-
-Desculpa. Evarista não tarda ahi.
-
-_Cuesta_
-
-(_sem olhar_) Até logo... (_Sae Urbano pelo fundo_)
-
-
-SCENA X
-
- CUESTA, ELECTRA E PATROS (Assomam as duas á porta da esquerda
- como para reconhecer o terreno)
-
-_Electra_
-
-Cuidado, Patros... Por aqui é difficil trazêl-o.
-
-_Patros_
-
-(_reconhecendo Cuesta, que vê de costas_) D. Leonardo!
-
-_Electra_
-
-Chut!... O mais seguro é deixal-o no teu quarto até á noite. Que massada
-a tal inauguração!
-
-_Cuesta_
-
-(_volta-se ao ouvir vozes_) Ah! Electra...
-
-_Electra_
-
-Importunamos, D. Leonardo?...
-
-_Cuesta_
-
-Não, minha amiguinha. Quer fazer-me o favor de esperar um pouquinho...
-que termine uma carta? Tenho que lhe dizer.
-
-_Electra_
-
-Aqui me tem. (_Áparte a Patros_) Que sécca! (_Alto_) Vinhamos unicamente
-buscar um papel e um lapiz para umas contas. (_Tira da meza um lapiz
-e papel. Áparte a Patros_) Cuida bem d’elle... Que amor que elle está
-adormecido! Com o seu focinhinho côr de rosa e as mãos sujas, com as
-unhitas pretas de andar a escarvar na terra... Dá vontade de o engulir!
-
-_Patros_
-
-Com os lindos pés gordos, e a espessa carapinha d’ouro que elle tem...
-
-_Electra_
-
-(_com effusão de carinho_) Dá volta á cabeça da gente. Olha bem por elle,
-Patros; vê lá!...
-
-_Patros_
-
-Levo-lhe agora um bôlo.
-
-_Electra_
-
-Não dou licença. Prohibo rigorosamente os bôlos. Para lhe sujarem o
-estomago!... Leva-lhe uma sopinha...
-
-_Patros_
-
-Mas como hei de eu arranjar sopinha?
-
-_Electra_
-
-Tens razão... Ah! pede na cosinha uma taça de leite para mim.
-
-_Patros_
-
-Isso mesmo! E dou-lh’a quando acordar.
-
-_Electra_
-
-Toma lá tambem o papel e o lapiz para elle fazer os seus rabiscos... É a
-coisa de que mais gosta... Depois, á noite, na primeira occasião, mette-o
-no meu quarto, para dormir comigo.
-
-_Cuesta_
-
-(_fechando a carta_) Acabei.
-
-_Electra_
-
-Perdoe um momento, D. Leonardo. (_Áparte a Patros_) Não o deixes nem um
-momento... Muito cuidadinho! Se D. Leonardo me não prender muito, ainda
-irei dar-lhe um beijo antes de me vestir.
-
-_Cuesta_
-
-Patros, estas cartas para o correio!
-
-_Patros_
-
-Vão-se levar já.
-
-
-SCENA XI
-
- CUESTA E ELECTRA
-
-_Cuesta_
-
-(_pegando-lhe nas mãos_) Venha cá, sua grande extravagante... quanto me
-alegra vêl-a!
-
-_Electra_
-
-É muito meu amigo, D. Leonardo? Não imagina como eu gosto de que me
-estimem!
-
-_Cuesta_
-
-Mas precisamos tambem de ter mais um poucochinho de proposito e d’assento
-n’essa cabecinha... É bom que não haja nada que se nos dizer... E a mim
-contaram-me—pêtas já se vê!—que fervilham os namorados...
-
-_Electra_
-
-Ah! Sim, eu já lhes perdi a conta! Mas não gosto senão d’um.
-
-_Cuesta_
-
-D’um! E quem é?
-
-_Electra_
-
-Isso... lá me parece perguntar de mais...
-
-_Cuesta_
-
-Eu conheço-o?
-
-_Electra_
-
-Se conhece!
-
-_Cuesta_
-
-Fez-lhe a sua declaração d’uma maneira decente?
-
-_Electra_
-
-Não me fez declaração nenhuma, nem me disse nada... até agora.
-
-_Cuesta_
-
-E a menina ama esse timido donzel, e julga-se correspondida?
-
-_Electra_
-
-Suspeito que me corresponde... Mas não o asseguro...
-
-_Cuesta_
-
-Tenha confiança em mim, e conte-me isso.
-
-_Electra_
-
-Agora não, que vou vestir-me.
-
-_Cuesta_
-
-Falaremos depois.
-
-_Electra_
-
-(_medrosa, olhando para o fundo_) Se não viesse a tia...
-
-_Cuesta_
-
-Vista-se... Ámanhã será.
-
-_Electra_
-
-Sim, ámanhã. Adeus. (_Corre para a direita. Movida de uma ideia repentina
-dá meia volta_) Antes de me vestir... (_Áparte_) Não resisto. Vou dar-lhe
-um beijo. (_Sae correndo pela esquerda. Cuesta segue-a com a vista e
-suspira_)
-
-
-SCENA XII
-
- CUESTA, URBANO E EVARISTA; depois ELECTRA
-
-_Cuesta_
-
-(_reunindo e recolhendo os papeis_) Que felicidade a minha, se
-publicamente a pudesse amar!
-
-_Evarista_
-
-(_vestida para sahir_) Desculpe terem-no deixado para ahi, Leonardo. Já
-me disse Urbano que lançamos uma grande operação.
-
-_Urbano_
-
-(_entregando a Cuesta um talão_) Ahi tens.
-
-_Evarista_
-
-Não me espantarei se o vir apparecer-nos com outra carga de dinheiro...
-Deus o dá, Deus o recebe... (_Assoma Electra pela porta da esquerda.
-Ao vêr a tia hesita, não se atreve a atravessar. Decide-se por fim,
-procurando escapulir-se. Evarista segura-a_) Ora não ha! Então ainda te
-não vestiste? D’onde vens?
-
-_Electra_
-
-Da casa de engommar. Fui á Patros para me alisar um papo...
-
-_Evarista_
-
-Gabo-te a pachorra! (_Notando que sae a ponta de uma carta de uma das
-algibeiras do avental de Electra_) Que tens aqui? (_Pega na carta_)
-
-_Electra_
-
-Uma carta.
-
-_Cuesta_
-
-Creancices.
-
-_Evarista_
-
-Não imagina, Cuesta, o desgosto que esta rapariga me dá com as suas
-travessuras, que já não são tão innocentes como isso! (_Dá a carta a
-Urbano_) Lê tu.
-
-_Cuesta_
-
-Vamos a vêr isso.
-
-_Urbano_
-
-(_lendo_) Senhorita—Tenho para mim que n’esse rosto feiticeiro...
-
-_Evarista_
-
-(_zombando_) Muito bonito! (_Electra contém difficilmente o riso_)
-
-_Urbano_
-
-(_continúa a ler_) ...que n’esse rosto feiticeiro escreveu o Supremo
-artifice o problema do... do... (_Sem entender a palavra seguinte_)
-
-_Electra_
-
-(_apontando_) ...do «cosmos».
-
-_Urbano_
-
-Isso mesmo: do cosmos, symbolisando em seu luminoso olhar, na sua bocca
-divina, o poderoso agente physico, que...
-
-_Evarista_
-
-(_arrebatando a carta_) Que indecencias!
-
-_Urbano_
-
-(_descobrindo outra carta em outro bolso_) está outra. (_Pega n’ella_)
-
-_Cuesta_
-
-Vejamos essa!
-
-_Evarista_
-
-Isto, Electra, não é o corpo de uma menina: é um marco postal.
-
-_Urbano_
-
-(_lendo_) Desapiedada Electra, com que palavras exprimirei o meu
-desespero, a minha loucura, o meu frenesi...?
-
-_Evarista_
-
-Basta... Isso revolta-me. (_Incommodada revista as algibeiras de
-Electra_) Apostaria que ainda ha mais.
-
-_Cuesta_
-
-Indulgencia, Evarista!
-
-_Electra_
-
-Tia, não se amofine mais...
-
-_Evarista_
-
-Que me não amofine!... A amofinação eu t’a contarei... Veste-te
-immediatamente.
-
-_Urbano_
-
-(_consultando o relogio_) É quasi a hora.
-
-_Electra_
-
-N’um momento!
-
-_Evarista_
-
-Avia-te, avia-te! (_Electra, contente de se vêr solta, corre para o seu
-quarto_)
-
-
-SCENA XIII
-
- CUESTA, URBANO, EVARISTA E PANTOJA
-
-_Evarista_
-
-(_com tristeza e desalento_) E então, Leonardo, que me diz a isto?
-
-_Cuesta_
-
-O socego com que deixou devassar os seus segredos demonstra bem a pouca
-importancia que lhes dá e que elles teem.
-
-_Evarista_
-
-Não, não é tanto assim...
-
-_Pantoja_
-
-(_pelo fundo, anciado_) Está o Cuesta! Já se não pode dizer o que se
-quer...
-
-_Evarista_
-
-(_contente de vêl-o_) Até que emfim, Pantoja... (_Formam-se dois grupos:
-á esquerda Cuesta sentado, Urbano em pé; á direita, Pantoja e Evarista,
-sentados_)
-
-_Pantoja_
-
-Venho contar-lhe coisas da maior gravidade.
-
-_Evarista_
-
-Ai de mim! seja o que Deus quizer.
-
-_Pantoja_
-
-(_repetindo a phrase com reservas_) Seja o que Deus quizer... está muito
-bem, mas queiramos tambem nós o que quer Deus, e empenhemos toda a nossa
-vontade em produzir o bem, por mais que nos custe!
-
-_Evarista_
-
-A sua energia fortifica a minha... Então... que ha?
-
-_Pantoja_
-
-Ha pouco, em casa de Requesens, falou-se de Electra em termos dissolutos.
-
-Contavam que, indecorosamente envolvida por um vespeiro de namorados,
-ella se divertia a receber e a mandar cartas a toda a hora do dia.
-
-_Evarista_
-
-Infelizmente, Salvador, a frivolidade d’esta menina é tal que, com toda a
-minha ternura por ella, nem eu mesma a sei defender!
-
-_Pantoja_
-
-(_angustiado_) Pois saiba mais, e veja que não tem limites a maldade
-humana. Hontem á noite o marquez de Ronda, na tertulia da sua casa, na
-presença de Virginia, sua santa mulher, e de outras pessoas do maior
-respeito, não cessou de exaltar os encantos de Electra com expressões do
-mais material e repugnante mundanismo.
-
-_Evarista_
-
-Tenhamos paciencia, meu amigo.
-
-_Pantoja_
-
-Paciencia... Paciencia é uma virtude que vale muito pouco sempre que se
-não reforça com a resolução. Não confundamos essa virtude com o vicio
-da negligencia, e determinemo-nos com firmeza, minha querida amiga, a
-resguardar Electra da infamia do mundo, em logar onde não veja exemplos
-de leviandade e onde não ouça uma só palavra do contagioso impudor da
-sociedade em que vivemos.
-
-_Evarista_
-
-Onde respire um ambiente de pura virtude...
-
-_Pantoja_
-
-E não a perturbe o zumbido de pretendentes impudicos e infecciosos...
-Na critica edade da formação do caracter, em que ella está, temos nós a
-obrigação de livral-a do immenso perigo, do maior de todos...
-
-_Evarista_
-
-Que perigo?
-
-_Pantoja_
-
-O homem. Nada na terra peor que o homem... quando não é bom. Por mim o
-sei: fui o meu proprio mestre. O meu desvario, de que pela graça de Deus
-me curei, e depois d’isso a minha tão longa e entristecida convalescença,
-duramente me ensinaram a grave e delicada medicina das almas...
-Deixe-me, e eu lhe salvarei essa menina... (_Interrompe-o Urbano, que
-passa para o grupo da direita_)
-
-_Urbano_
-
-(_dando importancia á sua revelação_) Sabem o que me disse Cuesta?
-Que entre a cafila dos pretendentes ha um preferido. Electra mesma o
-confessou.
-
-_Evarista_
-
-E quem é? (_Passa da direita para a esquerda, ficando á direita de
-Pantoja e d’Urbano_)
-
-_Urbano_
-
-(_a Pantoja_) Isto poderia modificar os termos do problema.
-
-_Pantoja_
-
-(_mal humorado_) E que significa essa preferencia? É um affecto puro, ou
-é uma paixoneta immoderada, febril e ephemera, d’essas que constituem o
-mais grave symptoma da loucura do seculo? (_Excitado e levantando a voz_)
-É o que é preciso saber-se! que se saiba quem é!
-
-_Urbano_
-
-Saberemos...
-
-_Pantoja_
-
-(_passando para junto de Cuesta_) O snr. Cuesta não a interrogou?
-
-_Evarista_
-
-(_ao centro, a Urbano_) Procura tu certificar-te.
-
-_Cuesta_
-
-(_enfadado, em resposta a Pantoja_) Parece-me que estão os snrs.
-desenvolvendo um zelo excessivo e contraproducente.
-
-_Pantoja_
-
-(_com uma suavidade que não encobre a sua altaneria_) O meu zelo, meu
-muito querido D. Leonardo, é o zelo que devo ter.
-
-_Cuesta_
-
-(_um tanto ferido_) Eu julguei na minha qualidade de velho amigo da
-casa...
-
-_Pantoja_
-
-(_levando Urbano comsigo para a direita_) Cuesta mette-se demais com o
-que não é da sua conta.
-
-_Cuesta_
-
-(_a Evarista sem lhe dar cuidado que Pantoja o ouça_) O nosso presado
-snr. Pantoja é talvez demasiadamente afouto na facilidade com que penetra
-nas attribuições dos outros.
-
-_Evarista_
-
-(_sem saber bem que explicação dar_) Emfim, como nosso amigo muito antigo
-e leal...
-
-_Cuesta_
-
-Tambem eu o sou.
-
-_Urbano_
-
-(_olhando para o fundo_) Ahi está já o Marquez.
-
-
-SCENA XIV
-
- OS MESMOS E O MARQUEZ
-
-_Marquez_
-
-Em boa hora chego!
-
-_Pantoja_
-
-(_áparte_) Em pessima!
-
-_Marquez_
-
-(_depois de saudar Evarista_) E Electra?
-
-_Evarista_
-
-Vem já.
-
-_Marquez_
-
-(_cortejando os outros_) Já não é cêdo.
-
-_Urbano_
-
-É a hora. (_Pantoja, impaciente, espera Electra á porta do seu quarto.
-Cuesta fala com Urbano_)
-
-
-SCENA XV
-
- OS MESMOS E ELECTRA
-
-_Pantoja_
-
-(_com alegria annunciando-a_) Eil-a aqui. (_Electra entra pela direita,
-muito elegantemente vestida com singeleza e distincção_)
-
-_Marquez_
-
-(_encomiastico_) Que elegante!
-
-_Electra_
-
-(_satisfeita, voltando-se para que a vejam de todos os lados_) Meus
-senhores, que me dizem?
-
-_Cuesta_
-
-Divina!
-
-_Marquez_
-
-Ideal!
-
-_Evarista_
-
-Sim: estás bem.
-
-_Pantoja_
-
-(_fastiento dos elogios tributados a Electra_) Vamo-nos? (_Preparam-se
-para sahir_)
-
-
-SCENA XVI
-
- OS MESMOS E BALBINA, que interrompe bruscamente a scena,
- entrando pela esquerda, pressurosa e suffocada
-
-_Balbina_
-
-Minha senhora! Minha senhora! (_Suspensão geral_)
-
-_Todos_
-
-(_menos Electra_) Que é?
-
-_Balbina_
-
-Ai! o que a menina foi fazer!
-
-_Electra_
-
-(_áparte, batendo o pé_) Descobriram-me!
-
-_Balbina_
-
-Santo nome de Jesus!... Do que ella se havia de lembrar!... (_rindo_)
-Não, que uma coisa assim!... Em nome do Padre...
-
-_Evarista_
-
-(_impaciente_) Acaba...
-
-_Electra_
-
-Eu confessarei, se me deixam. Foi que...
-
-_Balbina_
-
-Foi a casa do snr. D. Maximo, e roubou-lhe... com muita graça, mas
-roubou...
-
-_Urbano_
-
-O quê?...
-
-_Balbina_
-
-O menino mais pequeno! (_Olham todos para Electra, que promptamente se
-recompõe do susto e assume uma altitude serena e grave_)
-
-_Evarista_
-
-(_a Electra_) Isto que vem a ser?
-
-_Pantoja_
-
-Electra!
-
-_Balbina_
-
-Estava o menino dormindo muito socegadinho. A senhorita e a maluca da
-Patros entraram pela casa dentro, ás escondidas e em bicos de pés...
-Embrulharam-o, muito bem embrulhado, e fugiram com elle para cá.
-
-_Evarista_
-
-É inacreditavel.
-
-_Pantoja_
-
-(_reprimindo a sua irritação_) E não é decente.
-
-_Electra_
-
-(_com effusão_) Tia! pois se nos queremos tanto, tanto d’alma!... eu a
-elle e elle a mim!
-
-_Marquez_
-
-(_enthusiasmado_) Que exemplar mulher!
-
-_Cuesta_
-
-Merece todo o perdão.
-
-_Evarista_
-
-Maximo estará furioso a estas horas...
-
-_Balbina_
-
-O José já para lá foi a correr...
-
-_Urbano_
-
-E a creança onde está?
-
-_Balbina_
-
-Está no quarto da Patros. A menina escondeu-o lá até que ella de noite
-lh’o leve para dormir com a menina. (_Sorrisos dos homens, menos de
-Pantoja_) O menino acordou ha um momento, e a Patros quiz dar-lhe um
-biscouto para o entreter... Eu, que o ouço, acudo, e vejo-o... Virgem
-Maria! Quiz pegar n’elle... Qual! estrebuchou e bateu-me... Tive de lhe
-dar uma palmadinha tambem...
-
-_Electra_
-
-(_correndo para a esquerda com um impulso instinctivo_) Oh! meu querido
-amorsinho!
-
-_Pantoja_
-
-(_procurando contel-a_) Não.
-
-_Evarista_
-
-(_segurando-a por um braço_) Espera.
-
-_Balbina_
-
-(_á porta da esquerda_) Ainda se ouve chorar.
-
-_Electra_
-
-Pobresinho d’elle!
-
-_Evarista_
-
-Que o levem para a sua casa.
-
-_Electra_
-
-Ninguem lhe toque... Ninguem se atreva a tocar-lhe... É meu.
-(_Desprende-se á força de Evarista e de Pantoja, que querem contel-a, e
-sae de uma corrida pela esquerda_)
-
-
-SCENA XVII
-
- OS MESMOS E JOSÉ
-
-_Pantoja_
-
-(_colerico, passando para a direita_) Que falta de dignidade e de juizo!
-
-_José_
-
-(_pressuroso, pelo jardim_) Minha senhora...
-
-_Evarista_
-
-O snr. D. Maximo que disse?
-
-_José_
-
-Não sabia de nada. Está lá com uns senhores. Quando lhe contei poz-se a
-rir... Como se nada!... Diz que o menino que está muito bem entregue á
-menina.
-
-_Urbano_
-
-Já é pachorra!
-
-_Evarista_
-
-(_a José_) Vaes leval-o a casa. Para que a menina aprenda.
-
-_Marquez_
-
-Voto por que a deixem gosar um pouco mais do seu lindo crime.
-
-
-SCENA XVIII
-
- OS MESMOS E ELECTRA, pela esquerda, trazendo nos braços o
- menino, que tem pouco mais ou menos dois annos
-
-_Electra_
-
-Queridinho da minh’alma!
-
-_Evarista_
-
-Deixa o menino, e vamo-nos.
-
-_Urbano_
-
-São horas.
-
-_Cuesta_
-
-(_ao marquez_) Eu, pela minha parte, acho que é um rasgo de maternidade.
-E applaudo-o.
-
-_Marquez_
-
-Eu digo que é um lance angelico. E adoro-o.
-
-_Evarista_
-
-(_querendo pegar no menino_) Então, Electra?
-
-_Electra_
-
-(_em passo ligeiro afasta-se dos que querem tirar-lhe o pequerrucho. Este
-abraça-lhe o pescoço_) Não, não posso deixal-o agora.
-
-_Evarista_
-
-Balbina, pega n’esse menino.
-
-_Electra_
-
-(_passa de um lado para o outro, procurando um refugio_) Não! e não!
-
-_Urbano_
-
-Dá-m’o a mim.
-
-_Electra_
-
-Não!
-
-_Pantoja_
-
-(_imperioso, a José_) Pegue n’elle, José.
-
-_Electra_
-
-Não, já disse!... Ninguem lhe toca... É meu.
-
-_Evarista_
-
-Mas, filha, se temos de sahir!
-
-_Electra_
-
-Saiam! vão com Deus. (_Vendo que o chapeu a inhibe de abraçar e beijar
-o seu amiguinho, arranca-o rapidamente da cabeça e atira-o para longe.
-Continúa a passear o menino, fugindo dos que lh’o querem tirar, e, sem
-ouvir, falando com o pequerrucho, que lhe deita os braços ao pescoço e a
-beija_) Dorme, dorme, meu amor. Não tenhas medo, filhinho... Dorme, que
-não te largo.
-
-_Evarista_
-
-Então vamos ou não vamos?
-
-_Electra_
-
-Eu não vou... Tens fome? tens sede, meu anjo? Eu te acalentarei... Deixa
-berrar esses egoistas todos, que se não lembram de que não tens mãe!
-
-_Pantoja_
-
-Mas tem quem olhe por elle.
-
-_Evarista_
-
-Basta! (_Imperiosa, aos creados_) levem-o para a sua casa.
-
-_Electra_
-
-(_resolutamente, sem deixar que toquem na creança_) A casa! a casa!
-(_Com passo decidido, sem olhar para ninguem, corre para o jardim e sae.
-Seguem-a todos com a vista, indecisos, não ousando dar um passo para
-ella_)
-
-_Pantoja_
-
-Que escandalo!
-
-_Evarista_
-
-Que loucura!
-
-_Marquez_
-
-Que juizo! o juizo mais perfeito da mulher! Achou o seu caminho.
-
- FIM DO SEGUNDO ACTO
-
-
-
-
-ACTO TERCEIRO
-
- O laboratorio de Maximo. Ao fundo, occupando grande parte da
- parede, divisoria com revestimento de madeira na parte inferior
- e envidraçada para cima. Este tapamento separa a scena d’um
- vasto local, em que se vêem maquinas e apparelhos para a
- producção de energia electrica. A porta praticavel no socco
- divisoria communica com a rua.
-
- Á direita, no primeiro plano, um corredor que dá passagem para
- o jardim dos snrs. de Garcia Yuste. No ultimo plano, uma porta
- de communicação com a habitação de Maximo e com a cosinha.
- Entre a porta e o corredor, uma estante com livros.
-
- Á esquerda, porta de passagem para as casas em que trabalham os
- ajudantes. Junto a esta porta, uma estante com apparelhos de
- physica e objectos de uso scientifico.
-
- Ao fundo, dos dois lados do socco de madeira, prateleiras com
- frascos de diversas substancias e livros. No angulo da direita
- um pequeno aparador.
-
- Á esquerda da scena, a mesa do laboratorio com os objectos que
- no dialogo se indicam. Fazendo angulo com ella, a balança de
- precisão sobre um supporte de fabrica.
-
- Ao centro pequena mesa de jantar, e quatro cadeiras.
-
-
-SCENA I
-
- MAXIMO, trabalhando n’um calculo, com grande attenção ao que
- está fazendo—ELECTRA em pé, arranjando os multiplos objectos
- que estão na meza: livros, capsulas, tubos de ensaio, etc.
- Veste com simplicidade caseira, e grande avental branco.
-
-_Maximo_
-
-(_sem levantar os olhos do papel_) Para mim, Electra, a dupla historia
-que me contas, esse supposto poder dos dois cavalheiros, é um facto
-destituido de valor positivo.
-
-_Electra_
-
-(_suspirando_) Deus te ouça!
-
-_Maximo_
-
-Tudo se reduz a duas paternidades platonicas sem nenhum effeito legal...
-até agora. O mais feio do caso é a auctoridade que quer assumir o snr. de
-Pantoja...
-
-_Electra_
-
-Auctoridade oppressiva, suffocante, que me tira o ar. Nem me fales
-n’isso, se não me queres amargurar a alegria de estar cá em casa!
-
-_Maximo_
-
-Devéras? assim te affliges?
-
-_Electra_
-
-Ainda mais: ponho-me n’esse estado singularissimo de cabeça e de
-nervos... Já te contei... Em certas occasiões da minha vida apodera-se de
-mim um desejo, fixo, fundo, absorvente, de tornar a vêr a imagem da minha
-pobre mãe, como a via na minha meninez... Pois sempre que se aggrava para
-mim a tyrannia de Pantoja, renasce o meu doloroso e invencivel anceio; e
-sinto a perturbação nervosa e mental que me annuncia...
-
-_Maximo_
-
-A visão da tua mãe? Isso, rapariga, não é d’um espirito rijo e são.
-Aprende-me a governar essa imaginação... Trabalha-me para a frente, e á
-má cara. O ocio é o peor de todos os perturbadores da intelligencia.
-
-_Electra_
-
-(_muito animada_) Cá estou seguindo á risca o que me mandaste fazer.
-(_Pega n’uns frascos de substancias mineraes e leva-os para uma das
-estantes_) Estes frascos para o seu logar... Emquanto penso n’isto nem
-penso na furia da tia logo que souber...
-
-_Maximo_
-
-(_attento ao trabalho_) A tia até ha de acabar por gostar... Mas
-deixa que tu, tambem!... Não te bastou a loucura d’hontem... raptar
-insidiosamente o menino... Tornas a trazer-m’o... ficas-te a embalal-o
-e adormecel-o, muito mais tempo que o regular... E, não contente ainda
-com a saturnal d’hontem, pespegas-te hoje cá em casa, e aqui andas
-a sargentear, para uma banda e para outra, muitissimo fresca da tua
-vida!... Ainda foi por Deus, que convidados para a distribuição dos
-premios e para o almoço em Santa Clara os tios ainda a estas horas
-ignorem o pulo medonho que a boneca deu da casa d’elles para a minha!
-
-_Electra_
-
-Tu é que me aconselhaste que me insubordinasse... «_Insubordina-te!_»
-
-_Maximo_
-
-Sim senhor: fui o instigador do delicto... E gabo-me d’isso.
-
-_Electra_
-
-A minha consciencia diz-me que não ha mal nenhum no que faço.
-
-_Maximo_
-
-Pois está bem de vêr que não ha... Foi talvez para casa de um pulha que
-tu vieste!... Não faltaria mais nada senão que principiasse agora a haver
-mal em estar alguem na minha casa!
-
-_Electra_
-
-(_trabalhando sempre e falando sem se distrahir do que faz_) Eu digo
-mais: estando tu esmagado de trabalho, só, sem creados, e estando eu
-para ahi, de mãos a abanar, sem ter absolutamente nada que fazer, o que
-pareceria mal, o que seria indecente, é que eu não viesse...
-
-_Maximo_
-
-Cuidar de mim e dos pequenos... Effectivamente, se isso não é logica,
-digo-te que botemos luto, porque já não ha logica no mundo!
-
-_Electra_
-
-Queridos pequerruchinhos! Toda a gente sabe que os adoro... São a minha
-paixão, o meu fraco... (_Maximo, abstrahido n’uma conta, cessa de dar
-attenção ao que ouve_) Chega-me a parecer... (_Approxima-se da mesa
-levando uns livros que não estavam no seu logar_)
-
-_Maximo_
-
-(_vagamente_) Quê?
-
-_Electra_
-
-Que nem a sua propria mãe lhes quereria tanto como eu!
-
-_Maximo_
-
-(_satisfeito com o resultado do seu calculo, lendo em voz alta uma
-cifra_) Zero, trezentos e dezoito... Fazes favor de me dar as _Tabellas
-de resistencias_... aquelle livro encarnado...
-
-_Electra_
-
-(_correndo á estante da direita_) Não é este?
-
-_Maximo_
-
-Mais adeante.
-
-_Electra_
-
-É verdade... que tôla!
-
-_Maximo_
-
-Fica-te muito bem,—sabes?—que em tão pouco tempo conheças todos os meus
-livros e os seus logares na estante...
-
-_Electra_
-
-Não dirás que te não puz tudo muito arranjadinho.
-
-_Maximo_
-
-Não; e darei graças a Deus, porque entrou finalmente n’este antro,
-revolto e poeirento, a limpeza e a ordem!
-
-_Electra_
-
-(_desvanecida_) Confessas então que não sou absolutamente, absolutamente
-inutil?
-
-_Maximo_
-
-(_olhando com fixidez para ella_) Não ha nada inutil na creação. Quem te
-diz a ti que te não creou Deus para altos destinos? Quem te diz que não
-virás a ser...
-
-_Electra_
-
-(_anciosa_) O quê?
-
-_Maximo_
-
-Uma alma grande, formosa e nobre, que está por hora meia afofada ainda na
-serradura e na estopa de uma boneca?
-
-_Electra_
-
-(_com alegria_) Pae do ceu, se assim fosse! (_Maximo levanta-se e, na
-estante da esquerda, pega n’umas barras de metal, que examina_) Nem me
-digas isso que me entonteces de alegria... Pode-se cantar?...
-
-_Maximo_
-
-Podes cantar... (_Electra repete trauteando o andante de uma sonata_)
-A boa musica é a espóra das ideias preguiçosas, que não affluem; e
-é o gancho que puxa pelas que estão agarradas de mais ao fundo do
-entendimento. Canta, companheira, canta... (_Prosegue attento á sua
-occupação_)
-
-_Electra_
-
-(_á estante do fundo_) Continúo coordenando isto. Os metaloides para este
-lado. Já os conheço pelos rotulos... Como este trabalhito entretem! Era
-capaz de ficar aqui todo o santo dia...
-
-_Maximo_
-
-(_jovial_) Camarada!
-
-_Electra_
-
-(_correndo para elle_) Que manda o magico?
-
-_Maximo_
-
-Eu não mando por ora. Proponho. (_Pega n’um frasco que contém um metal em
-limalha_) Se a menina magica quer collaborar commigo ha de fazer favor de
-me pesar trinta grammas d’este metal.
-
-_Electra_
-
-Péso.
-
-_Maximo_
-
-Sabes já pesar na balança de precisão...
-
-_Electra_
-
-Perfeitamente. Dá cá. (_Alegre, contente, ao deitar o metal na capsula,
-admira-lhe a belleza_) É lindo! Que é isto?
-
-_Maximo_
-
-É aluminio. Parece-se comtigo. Pesa pouco...
-
-_Electra_
-
-Ah! eu então?...
-
-_Maximo_
-
-Pesa pouco, mas é extremamente tenaz. (_Olhando-lhe para a cara_) Tu
-tambem?
-
-_Electra_
-
-Em coisas que eu cá sei, sou tenaz até á barbaridade, e, chegado o
-momento, estou certa de que o seria até ao martyrio. (_Continúa pesando
-sem interromper a operação_)
-
-_Maximo_
-
-Que coisas são essas?
-
-_Electra_
-
-Que te importa! Tu és o magico, mas eu é que magíco... commigo, ás vezes.
-
-_Maximo_
-
-(_attento ao trabalho_) Pesas-me depois setenta grammas de cobre.
-(_Dá-lhe outro frasco_)
-
-_Electra_
-
-O cobre então serás tu... Não: é tambem feio de mais para se parecer
-comtigo.
-
-_Maximo_
-
-É feio, mas util.
-
-_Electra_
-
-Compara-te antes ao ouro, que é o que vale mais.
-
-_Maximo_
-
-Nada de ditos! Estás a desmoralisar-me o laboratorio.
-
-_Electra_
-
-Dá ao menos licença de que me reveja nas qualidades do metal bonito que
-se parece commigo... Sou tenaz... Não me quebro... Farás favor de o dizer
-á tia e ao tio Urbano, que, no sermão que me prégaram esta manhã, por
-umas quarenta vezes me disseram que sou fragil... Fragil, eu!
-
-_Maximo_
-
-Não sabem o que dizem.
-
-_Electra_
-
-Sabem lá elles... nem o que é o aluminio, nem o que eu sou!
-
-_Maximo_
-
-Mas toma sentido, que te não equivoques no peso!
-
-_Electra_
-
-Equivocar-me eu! Pateta! Eu tenho muito mais tino do que ninguem cuida!
-
-_Maximo_
-
-Já vou vendo, já vou vendo! (_Dirige-se a uma das estantes em procura
-d’um cadinho_) A tia, quando chegar a casa, é que lhe ha de custar um
-pouco mais a compenetrar-se de que tenhas todo o tino que dizes...
-
-_Electra_
-
-Deus, que vê os corações, sabe se eu tenho culpa! Porque é que a tia não
-deixa que eu venha para cá?
-
-_Maximo_
-
-(_voltando com o cadinho que escolheu_) Por que tu és uma menina
-solteira, e as meninas solteiras não podem ficar assim em casa d’um homem
-só, por mais honrado e por mais digno que elle seja.
-
-_Electra_
-
-Pois, senhor, não haja dúvida que, por essa regra, estão divertidas as
-pobres meninas solteiras! (_Termina o peso e apresenta os dois metaes
-pesados nas suas duas capsulas de porcelana_) Aqui tens o aluminio e o
-cobre.
-
-_Maximo_
-
-(_pegando nas capsulas_) Um primor. Que limpeza de mãos... Que firmeza de
-pulso, e que serenidade de attenção para não fazer d’isto uma trapalhada!
-Estás fina.
-
-_Electra_
-
-Estou contente apenas. Quando se tem a alegria tudo corre bem.
-
-_Maximo_
-
-Ahi disse a collega uma importantissima verdade. (_Verte os dois corpos
-no cadinho_)
-
-_Electra_
-
-Isso é um cadinho, não é?
-
-_Maximo_
-
-Sim senhor, para fundirmos os dois metaes.
-
-_Electra_
-
-Para nos fundirmos tu e eu, se não pegarmos á bulha no meio do fogo...
-(_Trauteia a sonata_)
-
-_Maximo_
-
-Faze favor de chamar o Ricardo.
-
-_Electra_
-
-(_correndo á porta da esquerda_) Ricardo!
-
-_Maximo_
-
-Que venha tambem o Gil.
-
-_Electra_
-
-Gil! Venham ambos, que manda o mestre... não se demorem!
-
-
-SCENA II
-
- ELECTRA, MAXIMO, RICARDO E GIL, o primeiro vestido de operario,
- com blusa, o segundo em trage burguez, com mangas de alpaca,
- pena na orelha
-
-_Gil_
-
-(_mostrando um calculo_) Aqui está o valor obtido.
-
-_Maximo_
-
-(_lê rapidamente a cifra_) 0,158,073... Está errado (_Seguro do que diz
-e com certa severidade_) Não é possivel que para um diametro de cabo
-menor de quatro millimetros obtenhamos um circuito maior, segundo o teu
-calculo. A verdadeira distancia deve ser inferior a duzentos kilometros...
-
-_Gil_
-
-Não sei então... eu... (_Confuso_)
-
-_Maximo_
-
-Está mal. É que te distrahiste.
-
-_Electra_
-
-É que vocês, coitados, não teem... a attenção serena...
-
-_Maximo_
-
-Emquanto fazeis os calculos estaes a pensar em historias da carocha.
-
-_Electra_
-
-E a conversar, a falar de touros, de theatros, da politica... assim não
-fazemos nada.
-
-_Gil_
-
-Vou rectificar as operações.
-
-_Electra_
-
-E, sobretudo, muita paciencia, muita contensão, todos os cinco
-sentidos!... Senão tornamos á mesma.
-
-_Gil_
-
-Vou vêr isto.
-
-_Maximo_
-
-Anda lá e não te descuides (_Gil sae e Maximo, virando-se para Ricardo,
-entrega-lhe o cadinho_) Aqui tens.
-
-_Ricardo_
-
-Para fundir...
-
-_Maximo_
-
-Está preparado o forno?
-
-_Ricardo_
-
-Sim senhor.
-
-_Maximo_
-
-Mette immediatamente, e quando esteja em fusão, avisa. Com esta aleação
-vamos fazer um novo ensaio de conductibilidade... Espero chegar aos
-duzentos kilometros com perda escassissima.
-
-_Ricardo_
-
-Faz-se o ensaio hoje?
-
-_Maximo_
-
-(_atormentado por uma ideia fixa_) Sim, quanto antes. Não abandono este
-problema. (_A Electra_) É a minha ideia fixa, que me não deixa viver.
-
-_Electra_
-
-Ideia fixa tambem eu tenho uma, e por ella vivo. Avante!
-
-_Maximo_
-
-Avante, _Electra_! Avante, _Ricardo_!
-
-_Ricardo_
-
-Não manda mais nada, patrão?
-
-_Maximo_
-
-Que actives a fusão.
-
-_Electra_
-
-Que se fundam bem os metaes!
-
-_Ricardo_
-
-Hão de ficar os dois em um só, senhorita.
-
-_Electra_
-
-Dois n’um.
-
-_Maximo_
-
-(_como preparando-se para outra occupação_) Agora, minha graciosa
-discipula...
-
-_Electra_
-
-Agora ha de o mestre perdoar, mas tenho de ir vêr se acordaram os meninos.
-
-_Maximo_
-
-Ha quanto tempo comeram?
-
-_Electra_
-
-Ha trez quartos d’hora. Devem dormir meia hora mais. Está bem regulado
-assim?
-
-_Maximo_
-
-Está bem tudo o que determines.
-
-_Electra_
-
-Olha o que dizes, que estarás por tudo...
-
-_Maximo_
-
-(_carinhosamente_) Por tudo.
-
-_Electra_
-
-Que se fique sabendo!... Eu venho já. (_Sae ligeira e cantando pela
-esquerda. Entra ao mesmo tempo um operario, pelo fundo_)
-
-
-SCENA III
-
- MAXIMO E O OPERARIO
-
-_Maximo_
-
-Que ha?
-
-_Operario_
-
-Veio aquelle senhor, o marquez de Ronda...
-
-_Maximo_
-
-Porque não entrou?
-
-_Operario_
-
-Perguntou pelo patrão... Disse-lhe que tinha uma visita... Elle então,
-como pessoa da casa, logo disse: «Já sei... ha de ser a senhorita
-Electra... Voltarei logo».
-
-_Maximo_
-
-Porque lhe não disseste que entrasse, meu pascacio?
-
-_Operario_
-
-Como me disse que voltava...
-
-_Maximo_
-
-Pois sempre que vier, que entre, esteja que não esteja a senhorita
-Electra, e sobretudo estando.
-
-_Operario_
-
-Assim se fará. (_Sae pelo fundo_)
-
-
-SCENA IV
-
- MAXIMO E ELECTRA
-
-_Electra_
-
-(_voltando do interior da casa_) Dormidinhos como dois anjos... até
-d’aqui a meia hora...
-
-_Maximo_
-
-E os adultos não comem? não se almoça hoje n’esta casa?
-
-_Electra_
-
-Quando queiras. Está feito o almoço. (_Dirige-se para o aparador, onde
-está a pequena baixella: talheres, toalha, guardanapos, fructeira_)
-
-_Maximo_
-
-É como deve ser... Tudo a horas... assim se chega sempre ao que se quer.
-
-_Electra_
-
-(_estendendo a toalha_) Ao que eu quero não chegarei nunca por mais
-pontualidade que ponha...
-
-_Maximo_
-
-Deixa-me ajudar-te... (_Vae-lhe passando os pratos, os talheres, o pão, o
-vinho_) Chegas, sim.
-
-_Electra_
-
-Achas?
-
-_Maximo_
-
-Acho. Tão certo que chegas como que tenho uma fome de cincoenta cavallos
-de força.
-
-_Electra_
-
-Melhor, para que te agrade o almoço.
-
-_Maximo_
-
-A elle!
-
-_Electra_
-
-N’um minuto. (_Sae_)
-
-
-SCENA V
-
- MAXIMO E GIL
-
-_Maximo_
-
-Bemdita seja essa mulhersinha preciosa, que tão simples, tão instinctiva,
-tão ingenuamente, traz a sua grande alma inquieta, torturada e núa, a
-inundar de alegria e de luz este esconderijo da sciencia, transformando
-tão estreita aridez em tão vasto paraizo! Bemdita a que com um mero
-sorriso de creança vem arrancar da sua abstracção consumidora este pobre
-Fausto, envelhecido aos trinta e cinco annos, e dizer-lhe: «Nem só de
-verdades se vive!» (_Interrompe-o Gil, que tem entrado um pouco antes e
-se approxima sem ser visto_)
-
-_Gil_
-
-(_satisfeito mostrando o calculo_) Pronto. Creio ter achado a cifra
-exacta.
-
-_Maximo_
-
-(_pega no papel e olha-o vagamente, sem se fixar_) A exactidão!... E
-tambem tu pensarás que só de coisas exactas vive o homem!? Saturada
-de certeza, a alma insaciada appetece, mais que tudo, o que é apenas o
-sonho, e vôa para elle, avassalada e rendida, sem nem sequer tentar saber
-se é para a realidade, se para a illusão, que vôa!... Considerando bem,
-Gil, nada mais natural do que um equivoco de calculo.
-
-_Gil_
-
-Sim, senhor, muito facilmente se distrae uma pessoa pensando em...
-
-_Maximo_
-
-Em coisas vagas, indefinidas, aereas, vaporosamente illuminadas de côr de
-rosa e d’azul...
-
-_Gil_
-
-Eu, distrahido, confundi a cifra da potencial com a da resistencia... Mas
-já rectifiquei... Queira vêr se está bem.
-
-_Maximo_
-
-(_lê_) 0,318,73... (_Com repentina transição para um goso expansivo_)
-Homem! e que não estivesse! Se ainda errasses outra vez?... A exactidão
-dos mathematicos perdoaria, por hoje, á nossa phantasia de poetas.
-
-_Gil_
-
-Ah! a exactidão não perdôa nunca: é a tyrannia da nossa vida;
-opprime-nos, escravisa-nos, não nos deixa respirar.
-
-_Maximo_
-
-Essa mestra implacavel tambem algumas vezes nos sorri, nos acalenta e nos
-encanta. Vês essa cifra?
-
-_Gil_
-
-(_contente, dizendo de memoria_) 0,318,73.
-
-_Maximo_
-
-Pois sabe que nunca os maiores poetas do mundo, Virgilio ou Homero,
-Dante, Lope de Vega ou Calderon escreveram estrophe mais inspirada e mais
-poetica do que é hoje para mim a d’esses miseros numeros! É verdade que a
-harmonia, o encanto poetico não é n’elles que está. Está em que... Adeus,
-vae almoçar... Deixa-me, deixa-nos... (_Afasta-o com a mão para que saia.
-No ponto da scena em que pode olhar para o interior da habitação_) Ali é
-que está a imaginação, a poesia, o ideal, no fundo d’essa cosinha, onde
-n’este momento ondula a mais altiva e a mais virginal flôr da innocencia,
-da candura e da bondade humana.
-
-
-SCENA VI
-
- MAXIMO E ELECTRA
-
-_Electra_
-
-(_entrando com uma terrina fumegante_) Aqui está o banquete.
-
-_Maximo_
-
-A vêr o que se fez! arroz com menudilhos... O thema é digno de Lucullo.
-
-_Electra_
-
-Elogia-o sem provar: está superfino. (_Senta-se_) Vou-te servir.
-(_Servindo-o_)
-
-_Maximo_
-
-Não tanto.
-
-_Electra_
-
-Olha que não tens mais nada... Acho que se não deve ter mais d’uma
-coisa... e escolher a melhor.
-
-_Maximo_
-
-Meu Deus! o que diria a tia, se agora nos visse aqui almoçando juntos...
-
-_Electra_
-
-Um almoço feito por mim!
-
-_Maximo_
-
-Sabes que está maravilhoso o teu arroz?
-
-_Electra_
-
-Foi minha mestra, em Hendaya, uma senhora valenciana. Eu fiz um curso de
-arrozes. Sei-os fazer de sete maneiras differentes, todos riquissimos.
-
-_Maximo_
-
-Decididamente és todo um mundo novo.
-
-_Electra_
-
-E quem é o meu Colombo?
-
-_Maximo_
-
-Não ha Colombo que ousasse descobrir-te. Tu és um mundo que apparece.
-
-_Electra_
-
-Será talvez por eu ser um mundosito assim desconhecido, que querem
-metter-me no convento para me livrar do perigo de que dêem commigo. E é
-o que me espera...
-
-_Maximo_
-
-D’essa é bem natural que não escapes.
-
-_Electra_
-
-(_assustada_) Que dizes!
-
-_Maximo_
-
-Quero dizer: escapas... porque te hei de salvar eu.
-
-_Electra_
-
-Prometteste-me o teu amparo.
-
-_Maximo_
-
-E dou-t’o.
-
-_Electra_
-
-Que tencionas fazer?
-
-_Maximo_
-
-Eu te digo: o negocio é grave...
-
-_Electra_
-
-Falas com a tia, já se sabe...
-
-_Maximo_
-
-Falo com a tia...
-
-_Electra_
-
-E que lhe dizes?
-
-_Maximo_
-
-Falo com o tio...
-
-_Electra_
-
-Façamos de conta que se acabaram todos os tios com quem fazes tenção de
-falar. E depois?
-
-_Maximo_
-
-Depois, tendo-te provisoriamente abrigado no mais inviolavel sacrario,
-procederei minuciosamente ao exame e á sellecção dos noivos. E sobre este
-assumpto temos que conversar...
-
-_Electra_
-
-Vaes ralhar-me?
-
-_Maximo_
-
-Não: já me disseste que te enfastia esse brinquedo de bonecos vivos.
-
-_Electra_
-
-Cuidei que me distrahiriam, e cada vez me entristeciam mais!
-
-_Maximo_
-
-Nenhum d’elles te inspirou um sentimento especial, distincto do dos
-outros?
-
-_Electra_
-
-Nenhum!
-
-_Maximo_
-
-Declararam-se todos por escripto?
-
-_Electra_
-
-Uns por escripto; outros por meio de olhares espantosos, que nunca
-cheguei a comprehender bem o que quizessem exprimir, e por isso não metto
-estes em conta...
-
-_Maximo_
-
-Perdão: teem de entrar todos no rol: epistolares e olheiros. E aqui
-chegamos ao ponto sobre que devo dar-te, desde já, a minha sincera
-opinião: casa-te, Electra; casa-te quanto antes!
-
-_Electra_
-
-(_envergonhada, baixando os olhos_) Assim... tão breve!...
-
-_Maximo_
-
-O mais breve possivel. Precisas de ter a teu lado um homem, um marido.
-Tens a alma, a tempera, os instinctos e as virtudes da casa conjugal. É
-portanto forçoso que da grande lista dos teus pretendentes se escolha
-um, o melhor, o mais digno de te amar e de ser amado por ti, porque, sem
-amor, considera bem que não ha familia.
-
-_Electra_
-
-Estou certa.
-
-_Maximo_
-
-E tu nasceste destinada para a vida exemplar e fecunda de um lar feliz...
-(_Teem acabado de comer o arroz_)
-
-_Electra_
-
-Queres mais?
-
-_Maximo_
-
-Não: estou satisfeito.
-
-_Electra_
-
-De sobremesa tens fructa, que é do que mais gostas. (_Põe na mesa o
-fructeiro_)
-
-_Maximo_
-
-(_pegando n’uma bella maçã_) Gósto, porque esta (_mostrando-lhe a maçã_)
-é a verdade em toda a sua pureza. Aqui não interveio a mão do homem senão
-para a colher.
-
-_Electra_
-
-É a obra divina, bella, simples, admiravel.
-
-_Maximo_
-
-Faz Deus esta prodigiosa maravilha para a dar ao homem; e nem sempre lh’a
-agradece aquelle que foi eleito para em certo dia e a certa hora passar
-por baixo da macieira em fructo!
-
-_Electra_
-
-Quantas vezes basta, para colher a felicidade, esquecer-se a gente por um
-momento da terra, e levantar os olhos para cima!
-
-_Maximo_
-
-(_contemplando-a_) Pois é o que eu faço, Electra.
-
-
-SCENA VII
-
- ELECTRA, MAXIMO E RICARDO, pela esquerda
-
-_Ricardo_
-
-Mestre...
-
-_Maximo_
-
-Quê?
-
-_Ricardo_
-
-Chegamos ao rubro.
-
-_Electra_
-
-A fusão!
-
-_Maximo_
-
-Avisa-me ao branco incipiente.
-
-_Ricardo_
-
-Virei dizer.
-
-_Maximo_
-
-Olha. Que preparem na officina a bateria Bunsen. E previne de que hei de
-precisar para logo do dinamo grande.
-
-
-SCENA VIII
-
- ELECTRA E MAXIMO, depois o OPERARIO
-
-_Electra_
-
-(_com tristeza_) D’aqui a um instante vaes tratar da fusão, e eu...
-
-_Maximo_
-
-Tu—está claro—irás para casa.
-
-_Electra_
-
-Nem é bom pensar no que vae ser quando eu chegue!
-
-_Maximo_
-
-Tu ouves, calas-te, e esperas.
-
-_Electra_
-
-Esperar... esperar sempre! (_Acabam de almoçar_) Ai que, se tu me não
-vales, não sei o que será de mim, com a tia e com o snr. de Pantoja...
-Elles a teimarem que eu vá para anjo, e Deus a desageitar-me cada vez
-mais para a carreira angelical!
-
-_Maximo_
-
-(_que se tem levantado e parece disposto a continuar o trabalho_) Não
-tenhas cuidado. Confia em mim. Eu te irei requerer como teu protector e
-teu mestre...
-
-_Electra_
-
-(_approximando-se supplicante_) Não te demores então, Maximo. Por amor
-dos teus filhos, não te demores. Se tu me tomasses tambem como filha,
-para estar com os meninos, para viver com elles!
-
-_Operario_
-
-(_pelo fundo_) O snr. marquez de Ronda.
-
-_Electra_
-
-(_assustada_) Vou-me embora?
-
-_Maximo_
-
-Por vir o Marquez? (_Ao creado_) Que entre. (_O operario sae_)
-Offerecia-se-lhe café, se houvesse.
-
-_Electra_
-
-Vou buscal-o. (_Sae com pressa_)
-
-
-SCENA IX
-
- MAXIMO, MARQUEZ E ELECTRA. No fim da scena, RICARDO
-
-_Maximo_
-
-Entre, Marquez.
-
-_Marquez_
-
-Maximo... (_Olhando em redor, desconsolado_) E Electra?
-
-_Maximo_
-
-Na cosinha. Foi buscar-nos café.
-
-_Marquez_
-
-Na cosinha! Continua-se vivendo então n’esta casa como na ilha de
-Robinson? Ahi está o que não comprehendo: como tendo você lá em cima
-todos os confôrtos d’um palacio...
-
-_Maximo_
-
-É muito simples... O trabalho e o habito do estudo enclausuram-me
-aqui. Puz os pequenos ao lado da officina para os ter ao pé de mim; e,
-reduzindo o mais que me foi possivel a minha orbita d’acção, para aqui
-me fiquei, recluso no dever que me impuz, como um asceta na estreiteza da
-sua gruta.
-
-_Marquez_
-
-Sem nem sequer se lembrar de que é rico...
-
-_Maximo_
-
-A minha riqueza é a singeleza, o meu luxo é a sobriedade, o meu repouso é
-o trabalho, e assim viverei emquanto viver só...
-
-_Marquez_
-
-Não tardará então muito em mudar de vida... Precisamente lhe venho
-contar... (_Entra Electra com a bandeja contendo o serviço e a maquina de
-café_) Oh! a deusa do lar!
-
-_Electra_
-
-(_adeanta-se cautelosa de que não caia alguma peça_) Por Deus, Marquez,
-não me ralhe.
-
-_Marquez_
-
-Eu ralhar?
-
-_Electra_
-
-Nem me faça rir... para não haver um desastre. Sentido! (_O marquez pega
-na bandeja_)
-
-_Marquez_
-
-Aqui me tem para companheiro de infortunios... Ainda então lhe parece que
-eu seja dos que ralham? Eu sou dos que explicam. Mas não pertencem a esta
-seita os senhores ali do outro lado do jardim...
-
-_Electra_
-
-Os tios.
-
-_Marquez_
-
-A noticia do lindo idyllio, que se está passando aqui como na
-inverosimilhança de uma tapeçaria ou de um panno de leque, lá chegou já
-á distribuição dos premios em Santa Clara, onde a estas horas estará
-deliberando o conclave. As suas resoluções serão terriveis.
-
-_Electra_
-
-A Virgem Maria me valha!
-
-_Marquez_
-
-Socegue...
-
-_Maximo_
-
-Isso tem de ser agora commigo.
-
-_Marquez_
-
-Será comnosco. O seu café, minha menina, está digno de Jupiter, pae dos
-deuses: é do que elles tomam no olympo, aos domingos.
-
-_Maximo_
-
-Segue-se, Electra, que em vez de regressar sósinha, teremos de ir ambos
-levar-te aos snrs. de Yuste.
-
-_Ricardo_
-
-(_assumando á porta da esquerda_) Snr. D. Maximo, o branco incipiente!
-
-_Electra_
-
-(_com inconsciente alegria infantil_) A fusão!
-
-_Maximo_
-
-(_a Ricardo_) Não posso agora. Chama-me quando chegar o branco
-resplandecente. (_Ricardo sae_)
-
-_Marquez_
-
-Peço licença... (_Tendo-se servido de vinho_) Eu brindo o hymeneu dos
-metaes, saudando os cadinhos do magico prodigioso.
-
-
-SCENA X
-
- MAXIMO, ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA
-
-_Electra_
-
-(_aterrada_) D. Salvador! Deus me acuda!
-
-_Maximo_
-
-Queira entrar, snr. de Pantoja. (_Pantoja adeanta-se lentamente_) A que
-devo a honra...?
-
-_Pantoja_
-
-Antecipando-me aos meus bons amigos, tios d’esta menina, que d’aqui a um
-momento terão voltado a casa, aqui me acho resolvido a cumprir o dever
-d’elles e o meu.
-
-_Maximo_
-
-A familia toda consubstanciada no snr. de Pantoja...
-
-_Marquez_
-
-Para metter medo á gente.
-
-_Maximo_
-
-Considera-nos reus d’algum tremendo crime...
-
-_Pantoja_
-
-Não considero senão unicamente que esta menina não pode estar aqui. Venho
-buscal-a. Ha de sahir commigo. (_Pega na mão de Electra, insensivel,
-immobilisada pelo medo_) Vem.
-
-_Maximo_
-
-Queira perdoar (_Sereno e grave, approxima-se de Pantoja_) Com todo o
-respeito que lhe devo, rogo-lhe, snr. de Pantoja, que solte a mão d’esta
-senhora. Antes de lhe tocar, teria sido mais opportuno que falasse
-commigo, que sou o dono d’esta casa, e o responsavel de tudo o que n’ella
-se passa, de tudo o que vê... e de tudo o que não queira vêr.
-
-_Pantoja_
-
-(_depois de uma breve hesitação larga a mão de Electra_) Seja assim.
-Deixarei de dirigir-me a esta pobre creatura, desvairada ou trazida aqui
-ao engano, e falarei comtigo, a quem quizera dizer apenas muito breves
-palavras:—Venho buscar Electra. Dá-me o que não te pertence, o que não te
-pertencerá nunca.
-
-_Maximo_
-
-Electra é inteiramente livre. Nem eu a trouxe aqui contra sua vontade,
-nem contra sua vontade a levará d’aqui quem quer que seja.
-
-_Marquez_
-
-Se se pudesse, pelo menos, conhecer os fundamentos da auctoridade do snr.
-de Pantoja...
-
-_Pantoja_
-
-Eu não preciso de lhes dizer, aos senhores, qual é a proveniencia da
-auctoridade de que disponho, e que esta menina me reconhece, prestando-me
-a obediencia que lhe peço. Não é verdade, Electra, que basta uma palavra
-minha para immediatamente te separar d’estes homens, e levar-te para quem
-depositou em ti o seu mais puro amor, e nem vive nem quer viver na terra
-senão para ti? (_Electra, immobilisada, olhando para o chão, cala-se_)
-
-_Maximo_
-
-Não, bem vê que não basta essa unica palavra sua.
-
-_Marquez_
-
-Não offerece dúvida que é uma palavra bôa, mas insufficiente.
-
-_Maximo_
-
-Quer permittir que a interrogue eu? Electra, minha querida amiga,
-assegura-te o coração e a consciencia que entre todos os homens que
-conheces, entre os que vês aqui e os que não estão presentes, é sómente e
-exclusivamente ao muito dedicado e ao muito respeitavel snr. de Pantoja
-que tu deves submissão e amor?
-
-_Marquez_
-
-Fale abertamente e destemidamente, menina! Diga-nos o que o seu coração e
-a sua consciencia lhe dictarem.
-
-_Maximo_
-
-E se este senhor, a quem indubitavelmente deves toda a consideração e
-todo o respeito, te ordenar que o sigas, e nós outros te dissermos que
-fiques, de tua livre e plena vontade, que determinas?
-
-_Electra_
-
-(_depois de penosa lucta_) Ficar.
-
-_Marquez_
-
-Já vê...
-
-_Pantoja_
-
-Não está em si... Fascinaram-a.
-
-_Maximo_
-
-Parece-me inutil a insistencia...
-
-_Marquez_
-
-Para acabar vencido...
-
-_Pantoja_
-
-(_com fria tenacidade_) Eu não sou dos que os homens vencem. A razão é
-vencedora sempre, e eu seria indigno da que Deus me deu, e que defenderei
-até o meu derradeiro alento, se a não puzesse continuamente acima de todo
-o erro e de todo o extravio. Maximo, os metaes que ardem nos teus fornos
-são menos duros do que eu. As tuas mais poderosas maquinas são brinquedos
-de vidro comparadas com a minha vontade. Electra pertence-me: basta que
-eu o diga.
-
-_Electra_
-
-Que terror, meu Deus!
-
-_Maximo_
-
-Se quer assegurar-se do que póde a sua vontade opponha-a á minha.
-
-_Pantoja_
-
-Dispenso demonstrações comtigo ou com quem quer que seja. Basta-me saber
-o que devo fazer, e fazer o que devo.
-
-_Maximo_
-
-Pois toda a minha força é essa: o dever.
-
-_Pantoja_
-
-O teu dever é uma hypothese terrena e accidental. O meu gira em torno de
-uma consciencia tão rija e tão forte como o eixo do universo; e os meus
-fins são tão altos que nem tu os alcanças nem poderás alcançal-os nunca.
-
-_Maximo_
-
-Por mais incommensuravel que seja a elevação dos seus fins, pelo amor de
-Electra eu irei a toda essa altura, para a defender.
-
-_Marquez_
-
-Esta senhora voltará comnosco á sua casa.
-
-_Maximo_
-
-Commigo. E isso bastará para justificação de todos os seus actos, e para
-que os tios lhe perdoem, se teem que perdoar-lhe.
-
-_Pantoja_
-
-Os senhores de Yuste não renegarão n’esta conjunctura os sentimentos e
-as convicções de toda a sua vida. (_Exaltando-se_) Eu estou no mundo
-unicamente para que Electra se não perca. E não se ha de perder. Assim o
-quer a vontade divina, de que a minha é um reflexo, e que vós confundis
-com um capricho da brutalidade humana, porque não sabeis nada do que são
-nas puras regiões espirituaes as emprezas de uma alma... Pobres cegos!
-pobres loucos!...
-
-_Electra_
-
-(_consternada_) D. Salvador, não se desgoste—por Nossa Senhora lh’o peço!
-Eu não sou má, Maximo é bom... Sabem-o todos... Sabem-o os tios... e o
-snr. de Pantoja bem o sabe! Não deveria sublevar-me até o ponto de vir
-para aqui sósinha, como determinei vir... Foi um acto de grave rebeldia,
-concordo. Voltarei para casa... Maximo e o snr. de Ronda irão commigo, e
-os tios hão de perdoar-me... (_A Maximo e ao Marquez_) Não é verdade que
-me perdoarão? (_A Pantoja_) Porque é esta má vontade a Maximo, que nunca
-lhe fez mal nenhum?... Confessa—pois não é assim?—que elle nunca lhe fez
-nem lhe quiz mal? Em que se funda essa aversão?
-
-_Maximo_
-
-Não é aversão: é odio recondito, inextinguivel.
-
-_Pantoja_
-
-Odiar-te, não. As minhas crenças prohibem-me o odio. De certo que ha
-entre nós ambos uma incompatibilidade proveniente da nossa differença de
-principios... Teu pae, Lazaro Yuste, e eu, tivemos desavenças profundas,
-que é melhor esquecer... Mas a ti, Maximo, nunca te quiz mal... Antes
-te quero bem. (_Mudando de tom para mais suave e conciliador_) Perdôa a
-severidade com que te falei, e permitte que, fazendo um grande esforço
-sobre mim, eu te implore que deixes Electra partir commigo.
-
-_Maximo_
-
-(_inflexivel_) Não posso annuir.
-
-_Pantoja_
-
-(_violentando-se mais_) Por segunda vez, Maximo, esquecendo todos os
-resentimentos, profundamente humilhado, eu te supplico... Deixa-a.
-
-_Maximo_
-
-Não.
-
-_Pantoja_
-
-(_devorando o vexame_) Bem... Pela segunda vez m’o negaste... Para
-offerecer ás tuas bofetadas não tenho mais de duas faces, por isso te não
-peço por terceira vez a mesma coisa. (_Com gravidade e rigidez_) Adeus,
-Electra... Maximo, Marquez, adeus.
-
-_Electra_
-
-(_baixo a Maximo_) Por quem és, Maximo, transige um pouco...
-
-_Maximo_
-
-(_redondamente_) Não.
-
-_Electra_
-
-Não disseste que me levarieis, tu e o Marquez? Vamos todos. (_Esta phrase
-é ouvida por Pantoja que se detem na sua marcha lenta para a sahida_)
-
-_Maximo_
-
-Não... Ha de ir primeiro elle. Nós iremos quando nos convenha, e sem a
-salvaguarda de ninguem.
-
-_Pantoja_
-
-(_friamente da porta_) E a que vaes senão a aggravar a situação d’essa
-menina?
-
-_Maximo_
-
-Vou ao que devo ir.
-
-_Pantoja_
-
-Pode-se saber o que é?
-
-_Maximo_
-
-Escusado.
-
-_Pantoja_
-
-Não preciso de que me reveles as tuas intenções. Para quê, se as conheço?
-(_Dá alguns passos para o centro da scena, cravando a vista em Maximo_)
-Não me fio na expressão dos teus olhos. Penetro na tua mente, e descubro
-o que pensas... Interroguei-te, não para saber da tua intenção mas para
-ouvir as promessas com que a encobres... Em ti não mora a verdade, nem o
-bem... não, não, não... (_Sae repetindo as ultimas palavras_)
-
-
-SCENA XI
-
- ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ E RICARDO (Principia a escurecer)
-
-_Electra_
-
-(_consternada, procurando um refugio em Maximo_) Maximo, ampara-me!
-Livra-me do terror que me inspira este homem.
-
-_Maximo_
-
-Conta commigo. Não tenhas medo. (_Pega-lhe nas mãos_)
-
-_Marquez_
-
-Começa a escurecer. Vamos.
-
-_Electra_
-
-Vamos... (_Incredula e medrosa_) Então, deveras, sempre vou comtigo?
-
-_Maximo_
-
-Juntos n’esta hora, como o seremos para toda a vida...
-
-_Electra_
-
-Comtigo para sempre? (_Augmenta a escuridão_)
-
-_Ricardo_
-
-(_á porta da esquerda_) Snr. D. Maximo, o branco deslumbrante!
-
-_Marquez_
-
-(_a Ricardo_) A fusão está feita. Creio que se podem apagar os fornos.
-
-_Maximo_
-
-(_com effusão beijando as mãos de Electra_) Minha alma, minha consolação,
-minha alegria! comtigo para todo sempre... O que vou dizer aos nossos
-tios é que te peço, que te faço minha, que serás a minha mulher e a
-mamãsinha dos meus filhos.
-
-_Electra_
-
-(_opprimida, como se a alegria a transtornasse_) Não me enganas?... Virei
-a viver sempre com os teus meninos? Serei entre elles a menina maior?...
-Serei tua mulher?
-
-_Maximo_
-
-(_com voz forte_) Sim. (_Illuminada a casa do fundo, resplandece com viva
-claridade toda a scena_)
-
-_Marquez_
-
-Vamo-nos. É noite.
-
-_Electra_
-
-É o dia!... o meu dia eterno! (_Maximo enlaça-a pela cintura e saem. O
-marquez segue-os_)
-
- FIM DO TERCEIRO ACTO
-
-
-
-
-ACTO QUARTO
-
- Jardim do palacio de Garcia Yuste. Á direita, a entrada para
- o palacio, com escadaria larga de poucos degraus. Á esquerda,
- jogando com a entrada, um corpo de architectura grutesca,
- ornado com baixos-relevos: junto d’esta construcção, um banco
- de pedra, em angulo, de risco elegante. Jarrões ou plantas
- exoticas adornam este terraço, com pavimento de mosaico, entre
- o edificio e o solo areado do jardim.
-
- No segundo plano e no fundo, o jardim com grandes arvores e
- macissos de flores. Do centro partem trez arruamentos em curva.
- O da esquerda leva á rua. Cadeiras de ferro. É de dia.
-
-
-SCENA I
-
- ELECTRA E PATROS, com um cesto de flores que acabam de colher
-
-_Electra_
-
-(_tirando uma carta da algibeira_) Deixa ficar as flores, e aqui tens a
-carta.
-
-_Patros_
-
-(_pousando as flores_) Com esta faz trez desde esta manhã!
-
-_Electra_
-
-(_escolhendo as flores mais pequenas com que fórma tres ramilhetes_) São
-tantas as coisas que Maximo tem que me dizer, e eu a elle...
-
-_Patros_
-
-Bemdito seja Deus, que da noite de hontem para hoje tanta felicidade lhe
-deu, senhorita Electra!
-
-_Electra_
-
-E que depressa, Patros! que rapidamente! como n’um sonho, que tudo
-se fez! Hontem á noite fiquei pedida, e hoje marcam os tios o dia do
-casamento...
-
-_Patros_
-
-E no emtanto, carta para lá, carta para cá... de não acabar nunca...
-
-_Electra_
-
-Que queres? Se desde hontem nos não podemos vêr como companheiros, na
-fabrica, porque sômos noivos agora... Temos de nos corresponder por
-escrito. Na carta das oito horas e um quarto falava-lhe das coisas muito
-serias que estou impaciente por dizer-lhe. Na das nove e vinte e cinco
-recommendava-lhe que se não esquecesse da colhér de xarope que tem de se
-dar a Pepito de duas em duas horas... N’esta agora digo-lhe que a tia foi
-para a missa e que tem demora... É natural que elle lhe queira falar...
-
-_Patros_
-
-Até ás onze horas de certo que não volta a senhora da egreja...
-
-_Electra_
-
-E ás onze vou eu para a missa com o tio. (_Atando os tres ramilhetes_)
-Pronto! Este para elle, estes para cada um dos meninos... Um a cada um
-para que não briguem... (_Dispondo-se a compôr o ramo grande_) E agora
-o ramo grande para a Senhora das Dôres... Vae, e volta depressa para me
-ajudares... Espera resposta—é claro—uma palavra que seja!
-
-_Patros_
-
-Vou de corrida. (_Sae pelo fundo_)
-
-_Electra_
-
-(_escolhendo as mais lindas flores para o grande ramo_) Hoje, minha
-querida Mãe Santissima, ha de ser maior a minha offerenda; e a minha
-pena é que não seja tão grande que fique sem uma só flôr o jardim dos
-tios... Deante da tua santa imagem queria eu hoje collocar todas as mais
-lindas coisas da terra: as rosas, as estrellas e os corações amantes...
-Virgem Maria! consolação e esperança nossa! não me desampareis, levae-me
-ao bem que te pedi, e que hontem á noite me prometteu a expressão dos
-teus divinos olhos quando as minhas lagrimas te disseram a gratidão e a
-esperança da minha alma...!
-
-_Patros_
-
-(_pressurosa pelo fundo_) Não trago carta, mas trago um recadinho, que
-ainda é melhor...
-
-_Electra_
-
-Que vem cá?
-
-_Patros_
-
-Logo que saiam uns senhores, que estavam já a despedir-se... Que a menina
-o espere aqui para lhe falar um momento... Tem de ir a uma conferencia
-depois...
-
-_Electra_
-
-(_olhando para o fundo_) Virá já?...
-
-_Patros_
-
-Ahi vem.
-
-_Electra_
-
-(_dando-lhe o ramo_) Toma lá... para Nossa Senhora... Para a Nossa
-Senhora do meu quarto, bem entendido! Não é para a do altar do oratorio,
-toma sentido: é para a da cabeceira da minha cama.
-
-_Patros_
-
-Pois pudera! (_Entra correndo pela escada_)
-
-
-SCENA II
-
- ELECTRA, MAXIMO, depois o MARQUEZ
-
-_Maximo_
-
-(_a distancia, abrindo um pouco os braços_) Menina!
-
-_Electra_
-
-(_mesma attitude_) Maximo!
-
-_Maximo_
-
-Aqui estamos embaçados, deante um do outro, sem saber que dizer.
-
-_Electra_
-
-Embaçadissimos. Começa tu.
-
-_Maximo_
-
-Tu... para te desacanhares... Dize-me uma grande mentira: que me não amas.
-
-_Electra_
-
-Dize-me primeiro tu uma grande verdade.
-
-_Maximo_
-
-Que te adoro. (_Approximam-se_)
-
-_Electra_
-
-Em paga d’essa mentira toma esta rosa que te escolhi, sem brilho,
-pequena, singela, humilde, como eu quero ser para ti.
-
-_Maximo_
-
-Tu tens um grande coração e um alto espirito...
-
-_Electra_
-
-Não tenho; mas gostava de ser ainda mais tôsca e mais informe do que sou
-para que tu me ensinasses tudo, e eu não tivesse nada que não fôsse teu.
-
-_Maximo_
-
-Deus fez de ti a sua obra mais preciosa...
-
-_Electra_
-
-E deu-te essa obra, que é apenas o esboço d’uma creatura humana, para que
-tu a completes e aperfeiçôes.
-
-_Maximo_
-
-Para que eu a enthronise e a corôe, deixando desenvolver-se d’ella a
-immortal flôr de humanidade, que é a simples mulher da casa, forte, pura,
-alegre e compadecida. (_Consulta o relogio_)
-
-_Electra_
-
-Tens essa conferencia... Vae á tua obrigação... Não te demorarás muito?
-
-_Maximo_
-
-Virei encontrar-me com a tia quando ella vier da missa.
-
-_Electra_
-
-E o marquez, desde hontem... voltou como tinha dito?
-
-_Maximo_
-
-Deixei-o agora na fabrica a escrever ao tabellião. Incomparavel amigo!...
-Hontem á noite—sabes?—contei-lhe, ao voltar para casa, o teu romance
-paterno... esse romance dos dois capitulos... Indignou-o a intervenção
-despotica de Pantoja e de Cuesta na tua vida; e essa lamentavel historia
-mais ainda o fortaleceu na firme determinação de defender-nos...
-
-_Electra_
-
-(_surprehendida_) Mas então precisamos ainda de que nos defendam?
-
-_Maximo_
-
-No essencial é claro que não... Mas quem nos assegura que esses dois
-homens não tentem oppôr-nos alguns obstaculos de jurisdicção theorica?
-
-_Electra_
-
-(_tranquillisando-se_) D’essa jurisdicção nos riremos nós.
-
-_Maximo_
-
-Mas rindo, rindo, teremos de a prevenir e de a annullar.
-
-_Marquez_
-
-(_pressuroso pelo fundo_) Então ainda aqui?
-
-_Maximo_
-
-Falavamos de si, e deliberavamos nomeal-o procurador dos nossos negocios
-de familia...
-
-_Marquez_
-
-Acceito a procuração... (_Reprehendendo-o com doçura_) Mas, homem, que se
-lhe faz tarde!
-
-_Maximo_
-
-Adeus, adeus! até já.
-
-_Electra_
-
-(_vendo-o partir_) Vae, e vem depressa.
-
-
-SCENA III
-
- ELECTRA E O MARQUEZ
-
-_Marquez_
-
-Ahi está o que é um galan de categoria scientifica... Parabens pelo
-achado d’esta preciosidade rara. A graça e a alegria da sua edade
-precisava da alliança de uma razão grave e de um coração firme, como o
-d’este homem. É elle, entre quantos eu conheço, o mais perfeitamente
-destinado para fazer da minha querida menina uma grande e exemplar mulher.
-
-_Electra_
-
-Fará de mim o que elle quizer que eu seja. (_Com muita curiosidade_) Mas
-diga-me, snr. de Ronda, conheceu a primeira mulher de Maximo? Perdôe-me
-esta curiosidade, e não extranhe que eu deseje saber da vida toda do
-homem que amo.
-
-_Marquez_
-
-Não convivi com ella... Vi-a com Maximo uma ou duas vezes. Era uma
-vascongada, sêcca, vulgar, pouco intelligente, bôa esposa para um lar
-tranquillo mas sem felicidade...
-
-_Electra_
-
-Os paes d’elle sim, conheceu-os muito?
-
-_Marquez_
-
-A mãe nunca a vi. Era uma senhora franceza, de alto merito. Foi em môça
-uma das amigas de minha mulher. O pae, Lazaro de Yuste, conheci-o ha
-trinta annos em Hispanha e em França. Era homem muito intelligente, bem
-parecido, felicissimo em negocios de minas, e não menos afortunado em
-negocios de amor. Era falado.
-
-_Electra_
-
-N’esse ponto não se parece com elle o filho, que é a austeridade em
-pessôa.
-
-_Marquez_
-
-De certo que sim. O seu futuro marido, minha querida Electra, é o
-modelo dos homens, e a honra de uma geração muito mais perfeita do que
-infelizmente foi a minha. Para que nada lhe falte, esse portentoso
-magico até é rico... rico pelo que lhe deixou o pae e mais rico ainda
-pelo que herdou agora dos tios de França. Que mais quer? Peça por bôca, e
-verá como Deus lhe responde: «Menina, não tenho mais que lhe dar.»
-
-_Electra_
-
-(_suspirando_) Ai!... E agora, outra coisa... diga-me, meu querido
-Marquez: posso estar socegada?
-
-_Marquez_
-
-Inteiramente.
-
-_Electra_
-
-Escuso de ter medo das pessôas...—já lhe disseram—das pessôas que se
-julgam com sufficiente auctoridade...
-
-_Marquez_
-
-Essas pessôas poderão talvez incommodar-nos passageiramente, emquanto nós
-não resolvermos encurtar-lhes os vôos.
-
-_Electra_
-
-O snr. de Cuesta...
-
-_Marquez_
-
-Esse não é de cuidado. Ainda hoje lhe falei, e estou certo de que nos
-dará o seu mais convicto assentimento.
-
-_Electra_
-
-O snr. de Pantoja...
-
-_Marquez_
-
-Esse ha de resmungar um pouco mais, e pretenderá fazer-nos ouvir as
-trombetas biblicas para nos assustar; mas não lhe tenha medo.
-
-_Electra_
-
-Deveras?
-
-_Marquez_
-
-Não vale nada.
-
-_Electra_
-
-Não tenho de que me atterrar quando o encontre?
-
-_Marquez_
-
-Não mais que da importunidade de um mosquito.
-
-_Electra_
-
-Que allivio me dá! (_Com enthusiasmo carinhoso_) Deus lhe pague! Deus o
-bemdiga, snr. de Ronda!
-
-_Marquez_
-
-(_muito affectuoso_) Deus será comvosco.
-
-
-SCENA IV
-
- OS MESMOS E URBANO, vindo de casa, de chapeu na cabeça
-
-_Urbano_
-
-Marquez, bons dias.
-
-_Marquez_
-
-Querido Urbano, posso falar comsigo?
-
-_Urbano_
-
-Não lhe faz differença depois da missa...? (_A Electra_) Então, rapariga,
-que vagares são esses? Está a tocar.
-
-_Electra_
-
-Só tenho que pôr o chapeu. Meio minuto, tio. (_Entra correndo em casa_)
-
-
-SCENA V
-
- MARQUEZ E URBANO
-
-_Marquez_
-
-Temos de pôr dia para o casamento, e de fazer escriptura de consentimento
-em regra.
-
-_Urbano_
-
-Será talvez melhor que você trate de tudo directamente com minha mulher.
-
-_Marquez_
-
-Mas, meu amigo, chegou o momento de fazer frente a certas ingerencias que
-annullam a sua auctoridade de chefe de familia.
-
-_Urbano_
-
-Meu caro de Ronda, peça-me você que altere, que transtorne todo o systema
-planetario, que tire os astros d’aqui assim e que os ponha para acolá;
-mas não peça coisa nenhuma que seja contraria ao parecer de minha mulher.
-
-_Marquez_
-
-Homem, isso tambem lá me parece submissão de mais!... Eu pela minha parte
-insisto em que devo tratar este negocio particularmente com você e não
-com Evarista.
-
-_Urbano_
-
-Vamos á missa e depois falaremos.
-
-_Marquez_
-
-Pois vamos lá, eu tambem vou.
-
-
-SCENA VI
-
- OS MESMOS, ELECTRA, EVARISTA E PANTOJA
-
-_Electra_
-
-(_de chapeu, luvas, livro de missa_) Pronta.
-
-_Urbano_
-
-Vamos. O Marquez vae comnosco.
-
-_Evarista_
-
-(_pelo fundo, á esquerda, seguida de Pantoja_) Vão ligeiros.
-
-_Pantoja_
-
-Depressa, se querem chegar.
-
-_Evarista_
-
-O marquez volta?
-
-_Marquez_
-
-Infalibillissimamente, minha senhora.
-
-_Evarista_
-
-Até logo. (_Saem Electra, o marquez e Urbano pelo fundo, á esquerda_)
-
-
-SCENA VII
-
- EVARISTA E PANTOJA, que com mostras de cansaço e desalento se
- atira para o banco da esquerda, primeiro plano.
-
-_Evarista_
-
-Entramos?
-
-_Pantoja_
-
-Perdão: deixe-me respirar por um momento. Na egreja abafava-se... com o
-calôr, com o apertão de gente...
-
-_Evarista_
-
-Vou-lhe mandar vir alguma coisa fresca... (_chamando_) Balbina!
-
-_Pantoja_
-
-Não, obrigado.
-
-_Evarista_
-
-Uma taça de tilia...
-
-_Pantoja_
-
-Tambem não. (_Na occasião de Balbina sahir, a senhora dá-lhe a mantilha,
-que acaba de tirar, e o livro de missa_)
-
-_Evarista_
-
-Não ha motivo, emquanto a mim, para nos affligirmos tanto...
-
-_Pantoja_
-
-Não é, como querem dizer, o meu orgulho; é n’um ponto mais delicado e
-mais profundo que eu me sinto ferido. Nega-se-me a consolação e a gloria
-de dirigir essa creatura e de a levar commigo pelo caminho do bem. E vejo
-com grande magoa que você, tão affecta aos meus principios, e que eu
-considerava uma fiel amiga e uma fervorosa alliada, me abandona na hora
-critica.
-
-_Evarista_
-
-Perdoe-me, D. Salvador. Eu não o abandono. Estavamos inteiramente de
-accordo, com relação a Electra, em guardal-a por algum tempo—nunca se
-tratou de a encerrar para sempre—em S. José da Penitencia, attendendo á
-disciplina e purificação d’aquella casa... Mas surge agora repentinamente
-esta inesperada veneta de Maximo, e eu não posso, realmente, não posso de
-modo nenhum recusar o meu consentimento... É uma loucura? será... Mas de
-Maximo, como homem de honrado e correcto procedimento, que tem que dizer?
-
-_Pantoja_
-
-Nada. (_corrigindo-se_) Isto é: alguma coisa poderia talvez... Mas, por
-agora, o que unicamente digo é que Electra não está preparada para o
-casamento, não tem aptidão para eleger marido... Não reprovo em absoluto
-que se case, quando seja com um homem cujas ideias a não pervertam...
-Mas este ponto é para mais tarde... O essencial n’este momento é que
-essa tenra creatura entre quanto antes no sagrado asylo, onde nos cumpre
-estudar, com o tacto mais subtil e mais carinhoso, a configuração do seu
-caracter, as suas predilecções, as suas tendencias, os seus affectos;
-e em vista do que observarmos, fundamentadamente e seguramente depois
-d’este prévio exame, resolveremos... (_Altaneiro_) Que ha que dizer a
-isto?—pergunto eu agora.
-
-_Evarista_
-
-(_acobardada_) O que digo é que para esse plano... na realidade
-perfeito... eu não posso, não ouso offerecer-lhe a minha cooperação.
-
-_Pantoja_
-
-(_com arrogancia, passeando_) De modo que, segundo os seus caridosos
-principios, se Electra se quer perder, que se perca!... que importa?...
-Se ella quer condemnar a sua alma, que a condemne!... Que temos nós com
-isso?
-
-_Evarista_
-
-(_com maior timidez, suggestionada_) Perder-se! condemnar-se! E está
-porventura na minha mão evital-o?
-
-_Pantoja_
-
-(_com energia_) Está.
-
-_Evarista_
-
-Oh! não... Não tenho a audacia de intervir... E com que direito?...
-Impossivel, Salvador, impossivel...
-
-_Pantoja_
-
-(_affirmando mais a sua auctoridade_) Saiba, minha amiga, que o acto
-de apartar Electra de um mundo nefasto, em que por todos os lados a
-rodeiam appetites e voracidades ferozes, não é um despotismo: é o amor
-na expressão mais alta e mais pura do carinho paternal. Ainda por acaso
-ignora, Evarista, que o fim supremo e unico da minha vida não é hoje
-outro senão o bem d’esta menina?
-
-_Evarista_
-
-(_acobardando-se mais_) Bem sei que é assim.
-
-_Pantoja_
-
-(_com effusão_) Eu amo Electra com um amor que as grosseiras palavras
-do homem não podem definir. Desde que os meus olhos a viram, a voz
-do sangue me bradou do mais fundo do meu ser que essa creatura me
-pertence... Quero têl-a, e devo têl-a, santamente, debaixo do meu dominio
-paternal... Quero que ella me ame como os anjos amam... que seja a pura
-imagem da minha crença, o limpido espelho do meu eterno ideal... que
-se reconheça obrigada a padecer por aquelles que lhe deram a vida, e
-purificando-se pela mortificação, nos ajude a nós, que fômos maus, a
-alcançar o perdão de Deus... Não comprehende estas coisas, Evarista?
-
-_Evarista_
-
-(_abatida_) Comprehendo-as e profundamente admiro a elevação do seu
-entendimento.
-
-_Pantoja_
-
-Menos admiração e mais eficacia em meu auxilio é o que lhe peço.
-
-_Evarista_
-
-Não posso... (_Senta-se chorosa e abatida_)
-
-_Pantoja_
-
-É bem natural que Electra lhe não mereça o mesmo interesse que tão
-profundamente me inspira a mim. (_Empregando suavidades de persuasão_)
-Convenho em que n’estes primeiros tempos lhe tenha de pesar algum tanto
-o seu brusco apartamento das alegrias mundanas, mas muito rapidamente se
-adaptará á dôce paz, á venturosa quietação do claustro... Eu a dotarei
-amplissimamente. Tudo quanto tenho será para ella, para o esplendor da
-sua santa casa... Será nomeada Superiora, e sob a minha auctoridade, e
-pelo meu conselho, governará a congregação... (_Com profunda commoção_)
-Que celestial ventura, meu Deus! Que felicidade para ella, e para mim!
-(_Fica-se como em extase_)
-
-_Evarista_
-
-Comprehendo que por não acceder ao que deseja de mim eu privo talvez
-uma creatura de chegar ao estado mais perfeito da condição humana...
-Conhece bem os meus sentimentos, Salvador... Sabe com quanto prazer
-eu trocaria sem vacillar toda a opulencia em que vivo pela gloria de
-dirigir obscuramente uma modesta casa religiosa do maior trabalho e da
-maior humildade! Sempre o admirei pela sua larga protecção a S. José da
-Penitencia, e subiu de ponto essa admiração quando soube que redobrou o
-seu auxilio desde a occasião em que a minha pobre Eleuteria foi procurar
-n’esse instituto o esquecimento, a paz e o perdão dos seus erros de amor,
-como os de Magdalena. N’esse acto da vida do rico snr. de Pantoja se me
-revelou a espiritualidade mais pura a que se pode elevar um homem.
-
-_Pantoja_
-
-Sim: desde que a sua desventurada prima deu entrada n’aquelle sagrado
-asylo, a minha protecção não sómente se tornou mais positiva mas ainda
-mais espiritual. Nunca, nunca mais tornei a pôr os meus olhos em
-Eleuteria depois de convertida, porque de ninguem—nem de mim!—ella se
-tornou a deixar vêr desde que lhe cortaram os cabellos e lhe botaram
-o escapulario. Mas eu ia quotidianamente á egreja; e invisivel do
-côro, n’um recanto da nave, praticava em espirito com a penitente,
-considerando-a tão perfeitamente regenerada como eu proprio o estava.
-Morreu a infeliz aos quarenta e cinco annos da sua edade. Então obtive
-o consentimento de uma sepultura no interior do edificio. E desde esse
-dia não protegi mais a congregação, tornei-a inteiramente minha, porque
-n’ella repousavam debaixo da pedra de uma campa os restos d’aquella que
-eu amei. Juntára-nos o peccado, reunia-nos o arrependimento, ella na paz
-da morte, eu na tempestuosa provação da vida...
-
-_Evarista_
-
-E ainda agora aquelle a que bem podemos chamar o senhor e o reformador
-do convento, todos os dias, sem excepção de um unico, visita aquella
-santa casa e se ajoelha no cemiterio humilde e docemente poetico, onde as
-monjas dormem o somno eterno.
-
-_Pantoja_
-
-(_vivamente_) Sabia isso?
-
-_Evarista_
-
-Sabia... E que no claustro, silencioso e florido, entre loendros e
-cyprestes...
-
-_Pantoja_
-
-É certo... quem lh’o disse?
-
-_Evarista_
-
-...vagueia, como um propicio phantasma da saudade, o sombrio fundador
-d’aquella casa, implorando de Deus o descanço d’ella e o seu.
-
-_Pantoja_
-
-Sim... Ali repousarão tambem os meus pobres ossos. (_Com vehemencia_)
-Quero, além d’isso, que assim como em espirito eu me não aparto por um
-só momento d’aquella casa, ahi passe tambem, pelo tempo que fôr preciso,
-o espirito de Electra... Não a violentarei á vida claustral; mas se,
-experimentando essa existencia, e apreciando o seu incomparavel sabor,
-ella deliberasse persistir na clausura, eu acreditaria então que Deus
-me destinara para a mais ineffavel graça. Ali as cinzas adoradas da
-peccadora redimida; ali, na candida alvura do seu habito de noviça, a
-minha filha; ali eu, pedindo a Deus para ellas a gloria eterna. E na
-morte, o escondido e imperturbado repouso na mesma terra amada,—todos os
-meus amores commigo e todos nós em Deus...
-
-_Evarista_
-
-(_com viva commoção_) Perfeita grandeza, por certo... Idealidade
-incomparavel.
-
-_Pantoja_
-
-Duvída ainda de que o meu pensamento seja o mais elevado? De que me não
-move nenhuma paixão ruim?
-
-_Evarista_
-
-Como quer que duvíde?
-
-_Pantoja_
-
-Pois se com effeito lhe parece bello o meu plano, porque me não ajuda a
-realisal-o?
-
-_Evarista_
-
-Porque me não considero com poderes para isso.
-
-_Pantoja_
-
-Nem assegurando-lhe eu que a reclusão de Electra terá um caracter
-provisorio?
-
-_Evarista_
-
-Nem assim. Não, D. Salvador, não conte commigo... (_luctando com a sua
-consciencia_) Reconheço toda a elevação, toda a formosura das suas
-ideias... D’ellas sinto um ecco suave e acariciador na minha propria
-alma. Mas—que quer, meu bom amigo—vivo no mundo em que Deus me collocou:
-tenho tambem para com este mundo deveres sagrados. Dêvo-me, com aquelles
-que me rodeiam, á vida social; e na vida da sociedade e da familia o seu
-projecto é... como lh’o direi, sem o magoar?... é uma anomalia angelica.
-
-_Pantoja_
-
-(_dissimulando o seu enfado_) Bem. Paciencia... (_Passeia caviloso e
-sombrio_)
-
-_Evarista_
-
-(_depois de uma pausa_) Em que pensa? Desiste?
-
-_Pantoja_
-
-(_com naturalidade e firmeza_) Não, minha senhora.
-
-_Evarista_
-
-Qual então o seu projecto?
-
-_Pantoja_
-
-Não sei... Ha de acudir-me uma ideia... Pensarei... (_Resolvendo-se_)
-Minha cara amiga, quer fazer-me o favor de escrever uma carta á superiora
-da Penitencia?
-
-_Evarista_
-
-Dizendo-lhe...?
-
-_Pantoja_
-
-Que venha aqui immediatamente, com duas irmãs, n’uma carruagem.
-
-_Evarista_
-
-Porque lhe não escreve directamente?
-
-_Pantoja_
-
-Porque tenho de acudir a outras coisas.
-
-_Evarista_
-
-Quer já?
-
-_Pantoja_
-
-O mais breve possivel...
-
-_Evarista_
-
-Bem. (_Dirige-se para casa_)
-
-_Pantoja_
-
-Peço-lhe que mande a carta sem perda de tempo.
-
-_Evarista_
-
-(_olhando do alto da escada para o jardim_) Creio que elles ahi vem.
-
-_Pantoja_
-
-Depressa a carta, minha cara amiga.
-
-_Evarista_
-
-Vae já... Deus nos inspire a todos. (_Entra em casa_)
-
-_Pantoja_
-
-Lá vou ter. (_Áparte_) Que me não vejam! (_Esconde-se atraz do macisso da
-direita junto da escada_)
-
-
-SCENA VIII
-
- PANTOJA, occulto; ELECTRA, URBANO, MARQUEZ, que voltam da
- missa—PATROS, que desce de casa.
-
-_Electra_
-
-(_adeantando-se encontra-se com Patros junto da escada_) Veio?
-
-_Patros_
-
-Não, senhorita. (_Ouve-se o canto afastado dos meninos que brincam no
-jardim_)
-
-_Electra_
-
-Morro de impaciencia. (_Tira o chapeu e as luvas, que entrega a Patros
-com o livro de missa_) Vou brincar com os pequenos emquanto espero...
-Não... Vou apanhar flôres. (_Colhe algumas no macisso da esquerda_)
-
-_Urbano_
-
-(_a Patros_) A senhora?
-
-_Patros_
-
-Em casa.
-
-_Marquez_
-
-Vamos ter com ella.
-
-_Urbano_
-
-Vamos a isso. (_Entram em casa. Patros segue-os_)
-
-_Electra_
-
-(_admirando as flôres que acaba de cortar_) Que lindos, que graciosos
-rainunculos! (_Pantoja apparece e Electra assusta-se ao vêl-o_) Ai!
-
-
-SCENA IX
-
- ELECTRA E PANTOJA
-
-_Pantoja_
-
-Assim te assusto, minha filha?
-
-_Electra_
-
-É verdade... Não posso evital-o... Que quer? Bem sei que não devia, e que
-não tenho de que ter medo... Perdôe-me por quem é, D. Salvador... Vou
-jogar ao côrro com os pequenos...
-
-_Pantoja_
-
-Um momento. Vaes aos meninos para que elles te dêem da sua alegria?
-
-_Electra_
-
-Não, hoje não; vou repartir com elles da que trasborda da minha alma.
-(_Afasta-se o canto de roda dos meninos_)
-
-_Pantoja_
-
-Já sei a causa d’essa grande alegria, já a sei...
-
-_Electra_
-
-Uma vez que sabe, não tenho então que lhe contar. Até logo snr. de
-Pantoja.
-
-_Pantoja_
-
-Ingrata! Concede-me um instante...
-
-_Electra_
-
-Um instantinho só?
-
-_Pantoja_
-
-Unicamente.
-
-_Electra_
-
-Bom. (_Senta-se no banco de pedra. Colloca a um lado as flôres e vae
-escolhendo aquellas com que se touca, mettendo-as no cabello_)
-
-_Pantoja_
-
-Não sei porque tens reservas commigo sabendo quanto me interesso pela tua
-felicidade e pela tua vida...
-
-_Electra_
-
-(_sem olhar para elle, attenta ás flôres_) Pois, se o interessa a minha
-felicidade, alegre-se commigo: sou a creatura feliz.
-
-_Pantoja_
-
-Feliz hoje. E amanhã?
-
-_Electra_
-
-Amanhã mais feliz do que hoje... E sempre mais, sempre o mesmo!
-
-_Pantoja_
-
-A alegria verdadeira e constante, o goso perenne e indestructivel só
-existem no amor eterno, superior ás inquietações e ás miserias humanas.
-
-_Electra_
-
-(_adornado o cabello, põe flôres no seio e no cinto_) Toca-me outra vez
-no antigo registro de que tenho de ser anjo... Sou uma pobre pessoasinha
-summamente terrestre, D. Salvador. Deus fez-me para mulher, e botou-me a
-este mundo. Já vê que, se estou aqui, é porque elle não precisava de mim
-para o ceu n’esta occasião.
-
-_Pantoja_
-
-Ha tambem anjos na terra, minha filha. Anjos são todos aquelles que no
-meio das desordens da materia sabem viver a pura vida do espirito.
-
-_Electra_
-
-(_mostrando o collo e o busto ornados de florinhas. Ouve-se mais perto o
-coro dos meninos_) Que tal? não lhe pareço um anjo?
-
-_Pantoja_
-
-Pareces, e quero que o sejas.
-
-_Electra_
-
-Assim me adorno para divertir os meninos. Se visse a graça que elles me
-acham! (_Com uma triste ideia subita_) Sabe com que eu me estou parecendo
-agora? Com um menino morto. Assim se enfeitam os meninos quando os levam
-a enterrar.
-
-_Pantoja_
-
-Para symbolisar a ideal belleza do ceu para onde elles vão.
-
-_Electra_
-
-(_arrancando as flôres_) Não, isso não, não quero parecer menina morta.
-Dá-me a ideia de que vem o snr. de Pantoja para me levar á sepultura!
-
-_Pantoja_
-
-Oh! eu não te quero enterrada. Quereria rodear-te de luz. (_Vae
-esmorecendo e cessa de todo o côro dos meninos_)
-
-_Electra_
-
-Tambem se põem luzes aos meninos mortos.
-
-_Pantoja_
-
-Não quero a tua morte, quero a tua vida; não a vida inquieta e vulgar,
-mas dôce, livre, elevada, amorosa, com um eterno e puro amor divino.
-
-_Electra_
-
-(_Confusa_) E porque é que me deseja tudo isso?
-
-_Pantoja_
-
-Porque te quero muito, com um amor mais excelso que todos os amores
-humanos. Melhor comprehenderás a grandeza d’este affecto, dizendo-te que
-para evitar-te a mais leve dôr eu tomaria para mim os mais espantosos
-tormentos que se possam imaginar.
-
-_Electra_
-
-(_estonteada, sem entender bem_) É o cumulo da abnegação uma coisa
-d’essas.
-
-_Pantoja_
-
-Considera agora quanto soffrerei por não poder evitar um desgostosinho,
-um dissabor, que te vou dar.
-
-_Electra_
-
-A mim?
-
-_Pantoja_
-
-A ti mesma.
-
-_Electra_
-
-Um desgosto?
-
-_Pantoja_
-
-Desgosto que mais me afflige por ter de ser eu que t’o cause.
-
-_Electra_
-
-(_rebelando-se, levanta-se_) Desgostos! Não os quero. Não os acceito.
-Guarde-os. Que ninguem hoje me traga senão alegrias!
-
-_Pantoja_
-
-(_condoído_) Bem quizera dar-t’as, mas não posso.
-
-_Electra_
-
-Que terror que tenho! (_Com subita ideia que a tranquillisa_) Ah! já
-sei... Pobre D. Salvador!... É que me quer dizer mal de Maximo... Alguma
-coisa que lhe parece mal, mas que a mim me parece bem... Escusa de se
-cançar porque nem me convence nem o acredito. (_Precipitando-se na
-emissão das palavras sem dar tempo a que Pantoja fale_) Maximo é o maior
-e o melhor homem do mundo, é o primeiro, e todo aquelle que me disser
-uma palavra contraria a esta verdade, mente, e detesto-o pela mentira, e
-detesto-o...
-
-_Pantoja_
-
-Por Deus, minha filha! Não te arrebates assim... Ouve. Eu não digo
-mal de ninguem, nem dos que me odeiam. Maximo é bom, é trabalhador, é
-intelligentissimo... Que mais queres?
-
-_Electra_
-
-(_satisfeita_) Assim, continue assim... Vae dizendo muito bem.
-
-_Pantoja_
-
-Digo mais ainda: que podes amal-o, que deves amal-o...
-
-_Electra_
-
-(_com alegria_) Ah!
-
-_Pantoja_
-
-Amal-o entranhadamente... (_Pausa_) A culpa não é d’elle, não é...
-
-_Electra_
-
-(_assustada outra vez_) Querem vêr que ainda acaba por lhe attribuir
-maldades?
-
-_Pantoja_
-
-A elle não.
-
-_Electra_
-
-Então a quem? (_Recordando-se_) Ah! adivinho: o snr. de Pantoja e o pae
-de Maximo foram implacaveis inimigos. Tambem me disseram já que esse
-senhor de Yuste, honradissimo nos seus negocios, foi, talvez, um pouco
-demais galanteador e mundanario... Mas que me importa isso?
-
-_Pantoja_
-
-Pobre innocente! não sabes o que dizes.
-
-_Electra_
-
-Digo que esse excellente homem...
-
-_Pantoja_
-
-Lazaro Yuste, sim... Ao nomeal-o tenho de associar a sua triste memoria á
-de uma pessoa que já não vive... muito querida de ti...
-
-_Electra_
-
-(_comprehendendo e não querendo comprehender_) De mim!
-
-_Pantoja_
-
-Que morreu, e a quem tu muito queres. (_Pausa. Olham um para o outro_)
-
-_Electra_
-
-(_com terror e em voz apenas perceptivel_) Minha mãe! (_Pantoja faz um
-signal affirmativo_) Minha mãe! (_Attonita, desejando e temendo uma
-explicação_)
-
-_Pantoja_
-
-Chegaram os dias de perdão. Perdoemos.
-
-_Electra_
-
-(_indignada_) Minha mãe, a minha pobre mãe! Não falam d’ella senão para
-a deshonrar, para a denegrir... E ultrajam-a aquelles mesmos que a
-envilleceram! Pudesse eu tel-os a todos na mão para os desfazer, para os
-destruir, para não deixar d’elles nem uma migalha assim!
-
-_Pantoja_
-
-Terias que principiar por Lazaro Yuste.
-
-_Electra_
-
-O pae de Maximo!
-
-_Pantoja_
-
-O primeiro depravador da desgraçada Eleuteria.
-
-_Electra_
-
-Quem é que o diz?
-
-_Pantoja_
-
-Quem o sabe.
-
-_Electra_
-
-E... (_Fixam-se nos olhos. Electra não se atreve a expôr a sua ideia_)
-
-_Pantoja_
-
-Triste de mim!... Não deveria falar-te d’isto. Dera para o esconder todos
-os dias que me restam de vida. Comprehenderás que não podia ser... O meu
-amor por ti ordena-me que fale.
-
-_Electra_
-
-(_angustiada_) Meu Deus! e ter eu de ouvil-o!
-
-_Pantoja_
-
-Disse eu que foi Lazaro Yuste...
-
-_Electra_
-
-(_tapando os ouvidos_) Não quero, não quero ouvir.
-
-_Pantoja_
-
-Tinha então tua mãe a edade que tens agora: desoito annos...
-
-_Electra_
-
-Não acredito, não acredito...
-
-_Pantoja_
-
-Era uma jovem senhora encantadora, quasi uma creança, que supportou com a
-mais corajosa dignidade o horror d’aquella vergonha...
-
-_Electra_
-
-(_rebelando-se com energia_) Cale-se! Cale-se!
-
-_Pantoja_
-
-A vergonha do nascimento de Maximo.
-
-_Electra_
-
-(_apavorada, com o rosto demudado, recua cravando os olhos em Pantoja_)
-Ah!
-
-_Pantoja_
-
-Procurando com discrição attenuar a affronta da sua victima, Lazaro
-occultou o menino e levou-o misteriosamente comsigo para França.
-
-_Electra_
-
-A mãe de Maximo foi uma senhora franceza: Josephina Perret.
-
-_Pantoja_
-
-Mãe adoptiva.
-
-_Electra_
-
-(_tapando os olhos com ambas as mãos_) Divino Jesus! É o ceu que desaba...
-
-_Pantoja_
-
-(_condoído_) Filha da minha alma, volve para Deus os teus olhos.
-
-_Electra_
-
-(_demudada_) É um sonho... Tudo o que estou vendo é illusão, é mentira.
-(_Olhando espantadamente para uma parte e para outra_) Mentira estas
-arvores, esta casa, este ceu... Mentira tu! tu! tu, que não existes,
-monstro d’um pesadelo horrivel!... (_Com os punhos na cabeça_) Acorda,
-desgraçada, acorda!
-
-_Pantoja_
-
-(_tentando socegal-a_) Electra, querida Electra! Pobre innocente!
-
-_Electra_
-
-(_com um grito d’alma_) Mãe, minha mãe!... A verdade, dize-me a
-verdade... (_Fóra de si percorre a scena_) Onde estás, mãe?... Quero
-a morte ou a verdade... Minha mãe! minha mãe!... (_Sae pelo fundo,
-perdendo-se na longinqua espessura das arvores. Ouve-se proximo o canto
-dos meninos jogando ao côrro_)
-
-
-SCENA X
-
- PANTOJA, URBANO, MARQUEZ, vindos de casa, á pressa. Depois
- d’elles BALBINA E PATROS
-
-_Urbano_
-
-Que é?
-
-_Marquez_
-
-Ouvimos gritar Electra.
-
-_Balbina_
-
-Foi a correr pelo jardim.
-
-_Patros_
-
-Por aqui. (_As duas creadas assustadas correm e internam-se no jardim_)
-
-_Marquez_
-
-(_olhando por entre as arvores_) Lá vae correndo... Continúa a gritar...
-Pobre Electra! (_Adeanta-se para o jardim_)
-
-_Urbano_
-
-Que foi isto?
-
-_Pantoja_
-
-Eu lh’o direi... Um momento... Providenciemos antes de mais nada...
-
-_Urbano_
-
-O quê?
-
-_Pantoja_
-
-(_procurando coordenar as suas ideias_) Deixe-me pensar... Trazel-a para
-casa já... Ir buscal-a... Vá!
-
-_Urbano_
-
-(_olhando para o jardim_) Lá está já o meu sobrinho...
-
-_Pantoja_
-
-(_contrariado_) Em que má hora!
-
-_Urbano_
-
-Correm para elle os meninos... Parece que o informam... Electra
-foge-lhe... Não o quer vêr... Mette-se na gruta... O Marquez intervem...
-Pobre Maximo!
-
-_Pantoja_
-
-Vá! vá ter com elles!... Não deixe que Maximo intervenha...
-
-_Urbano_
-
-Que balburdia! (_Interna-se no jardim_)
-
-_Pantoja_
-
-Se eu podesse... (_hesitante em ir e não ir_)
-
-_Balbina_
-
-(_voltando pressurosa do jardim_) Pobre menina! Chama aos gritos pela sua
-mãe... Sentou-se agarrada aos meninos á porta da gruta, e ninguem a tira
-d’ali...
-
-_Pantoja_
-
-E Maximo?
-
-_Balbina_
-
-Muito inquieto, sem saber o que ha de fazer, como todos nós... Vou chamar
-a senhora...
-
-_Pantoja_
-
-Não, não vá. Já chegaram a senhora superiora e as irmãs de S. José?
-
-_Balbina_
-
-Já, sim senhor, chegaram agora.
-
-_Pantoja_
-
-Não diga nada á senhora. Vá para casa e espere por mim.
-
-_Balbina_
-
-Sim, senhor. (_Sobe para casa_)
-
-_Pantoja_
-
-(_indeciso e como assustado_) Não sei que faça... Pela primeira vez na
-minha vida hesito... Irei?... Esperarei aqui? (_resolvendo-se_) Vou. (_A
-poucos passos encontra-se com Maximo, agitado e colerico, que vem do
-jardim e o detem_)
-
-
-SCENA XI
-
- PANTOJA E MAXIMO
-
-_Maximo_
-
-(_ardentemente em toda a scena_) Alto!... Diz-me o marquez de Ronda que
-d’aqui, depois de uma demorada conversação comsigo, sahiu Electra no
-delirio em que está.
-
-_Pantoja_
-
-(_perturbado_) Aqui... de certo... falamos... A senhorita Electra...
-
-_Maximo_
-
-Foi mordida pelo monstro.
-
-_Pantoja_
-
-Talvez... mas o monstro não sou eu. É um mais terrivel, que se alimenta
-de factos e que se chama a Historia. (_Querendo ir-se_) Adeus.
-
-_Maximo_
-
-(_agarrando-o fortemente por um braço_) Espere. Primeiro vae repetir
-aqui, já, immediatamente, o que foi que disse a Electra esse seu monstro
-da Historia...
-
-_Pantoja_
-
-(_sem saber que dizer_) Eu... convém assentar préviamente que...
-
-_Maximo_
-
-Nada de preambulos... Quero aqui a verdade, concreta, exacta, precisa...
-Electra foi offendida de um modo tão profundo que lhe alterou a razão...
-Com que palavras, com que suggestões? Preciso de sabel-o prontamente.
-Trata-se da mulher que é tudo para mim no mundo.
-
-_Pantoja_
-
-Para mim é mais: é o ceu e a terra.
-
-_Maximo_
-
-Quero saber, n’este mesmo instante, que horrivel maquinação foi esta,
-urdida por si, contra essa menina, contra mim, contra nós ambos
-eternamente unidos pela effusão das nossas almas. Com que baba se
-envenenou aquella a quem eu posso e devo chamar desde já a minha legitima
-mulher? Que responde?
-
-_Pantoja_
-
-Nada.
-
-_Maximo_
-
-(_acommette-o explodindo em colera_) Pois por esse infame silencio,
-mascara impudente e abjecta de um egoismo tão grande que não cabe no
-mundo; por essa virtude não sei se falsa, se verdadeira, que da sombra
-desfere o raio que nos aniquilla; (_agarra-o pela garganta e derriba-o no
-banco_) por essa doçura que envenena, por essa suavidade que estrangula,
-Deus te confunda, homem grande ou miseravel reptil, aguia, serpente, ou o
-que sejas!
-
-_Pantoja_
-
-(_recobrando alento_) Que brutalidade! que infamia! que demencia!
-
-_Maximo_
-
-Bem sei. Estou doido... (_Recompondo-se_) E quem é que dispõe assim do
-poder diabolico de desvirtuar o meu caracter, arrastando-me a esta colera
-insensata, fazendo-me o estupido aggressor de um ente debil e mesquinho,
-incapaz de responder á força com a força?
-
-_Pantoja_
-
-(_tomando aprumo_) Com a força te respondo. (_Voltando á sua condição
-normal, exprimindo-se com serenidade sentenciosa_) Tu és a força do
-musculo, eu a força da alma. (_Maximo olha para elle, attonito e
-confuso_) Posso mais do que tu, infinitamente mais. Duvídas?
-
-_Maximo_
-
-De que póde mais?
-
-_Pantoja_
-
-A ira suffoca-te, e cega-te o orgulho. Eu, injuriado e escarnecido,
-recobro a serenidade. Tu não. Tu tremes. Tu, que te julgas a força, tu,
-Maximo, tremes!
-
-_Maximo_
-
-É a ira. Não a provoque.
-
-_Pantoja_
-
-Nem a provoco nem a temo. (_Cada vez mais senhor de si_) Tu maltratas-me.
-Eu perdôo-te.
-
-_Maximo_
-
-Que me perdôa a mim! (_iracundo_) Mas é para o homicidio que assim me
-empurra!
-
-_Pantoja_
-
-(_com serena e fria gravidade, sem jactancia_) Enfurece-te, grita,
-bate-me... Aqui me tens inabalavel e indifferente... Não ha força humana
-que me dobre nem poder nenhum da terra que me afaste do meu caminho.
-Injuria-me, fere-me, mata-me: não me defendo. O martyrio não me repugna.
-Póde a violencia destruir o meu pobre corpo, que nada vale. Mas o que
-está aqui (_na sua mente_) é indestructivel. Na minha vontade só um poder
-impera: o de Deus. E se a minha vontade se extinguir na morte, a ideia
-que sustento lhe sobreviverá, triumphante e eterna.
-
-_Maximo_
-
-Não póde ter ideias grandes quem não tem grandeza, nem piedade, nem
-ternura, nem compaixão.
-
-_Pantoja_
-
-O meu fim é mais alto que todos os raciocinios. Para elle me dirijo por
-qualquer caminho que se me depare.
-
-_Maximo_
-
-(_aterrado_) Por qualquer caminho!? Para ir para Deus não ha senão um: o
-da Bondade Humana. (_Com exaltação_) Deus do ceu! tu não pódes permittir
-que ao teu reino se chegue por lobregas e tortuosas alfurjas, nem que
-á tua gloria se suba calcando os corações que te amam... Não; Deus não
-permitte isso. Vêr tal absurdo seria vêr toda a Natureza em ruina, toda a
-maquina do Universo destruida e aniquillada.
-
-_Pantoja_
-
-Estás offendendo Deus com as tuas palavras blasphemas.
-
-_Maximo_
-
-Mais o offendes tu com os teus actos sacrilegos.
-
-_Pantoja_
-
-Basta. Não disputo comtigo. Não tenho mais que dizer-te.
-
-_Maximo_
-
-Não tem mais? Se ainda me não disse nada! (_Segura-o vigorosamente por um
-braço_) Vamos d’aqui ter com Electra, e, na presença d’ella, ou esclarece
-as minhas dúvidas e me tira da anciedade horrivel em que estou, ou ahi
-morre, e morro eu, e morreremos todos trez. Assim lh’o juro pela memoria
-de minha mãe.
-
-_Pantoja_
-
-(_depois de o encarar fixamente_) Vamos. (_Ao darem os primeiros passos
-sae Evarista de casa_)
-
-
-SCENA XII
-
- OS MESMOS, EVARISTA E PATROS. Atraz d’Evarista a superiora e as
- duas irmãs de S. José
-
-_Evarista_
-
-Que succedeu, Maximo?... Que colera é essa?
-
-_Maximo_
-
-É este homem que me enlouquece... Venha, tia, venha tambem comnosco...
-(_Vendo a superiora e as irmãs, amedrontado_) Que mulheres são aquellas?
-Que querem essas senhoras? (_Chega Patros do jardim, correndo_)
-
-_Patros_
-
-(_pesarosa, choramigando_) Minha senhora, a senhorita enlouqueceu...
-Corre, foge, desapparece, chamando em gritos por sua mãe... Não quer que
-a consolem... não ouve, não vê ninguem, não conhece ninguem!
-
-_Evarista_
-
-(_caminhando para o jardim_) Filha da minh’alma!
-
-_Maximo_
-
-(_olhando para o jardim_) Ahi vem. (_Larga Pantoja e dirige-se a ella_)
-
-_Patros_
-
-O senhor e o snr. Marquez conseguiram convencel-a e trazem-a para casa...
-(_Apparece Electra conduzida pelo marquez e por Urbano. Junto d’elles,
-Maximo. Ao vêr os que estão em scena Electra oppõe alguma resistencia.
-Suave e carinhosamente a obrigam a approximar-se. Traz o cabello e o seio
-adornado de flôrzinhas_)
-
-
-SCENA XIII
-
- ELECTRA, MAXIMO, EVARISTA, PANTOJA, URBANO, MARQUEZ E PATROS
- (Conservam-se na scena a superiora e as irmãs)
-
-_Evarista_
-
-Deliras, minha pobre filha!
-
-_Maximo_
-
-Ouve, minh’alma, vem, escuta. O meu carinho será a tua razão.
-
-_Electra_
-
-(_afasta-se de Maximo com um movimento de pudor. O seu delirio é sereno,
-sem gritos, sem risadas. Manifesta-o com uma accentuação de dôr resignada
-e melancolica_) Não te approximes. Não te pertenço. Já não sou tua.
-
-_Maximo_
-
-Porque me foges? para onde vaes sem mim?
-
-_Pantoja_
-
-(_que passou para a direita, junto de Evarista_) Para a eterna verdade,
-para a inalteravel paz.
-
-_Electra_
-
-Vou por minha mãe. Sabem onde está minha mãe?... Vi-a no côrro dos
-meninos... Foi depois até a mimosa que está á entrada da gruta... E eu a
-seguil-a sem a alcançar... Olhava para mim e fugia... (_Ouve-se ao longe
-o canto dos meninos_)
-
-_Marquez_
-
-Aqui está Maximo... Olhe... É o seu noivo.
-
-_Maximo_
-
-(_vivamente_) Serei o teu marido... Ninguem se oppõe, e não ha força
-nenhuma que o empeça, Electra, minha vida.
-
-_Electra_
-
-(_impondo silencio_) Quem fala aqui de noivos e noivas? Quebradas as
-festas do noivado: não ha bôda... Que tristeza a da minha alma!... Só ha
-padres com tochas a rezar por defuntos... Que grande é o mundo, e que só
-que está! que vazio!... Acima da terra, pelo ceu, passam nuvens negras,
-que são illusões, as illusões que foram minhas e não são de ninguem
-agora... as illusões sem dôno!... Que solidão!... Tudo escurece, tudo
-chora... Vae acabar o mundo... vae acabar. (_Com arrebatamento de medo_)
-Quero fugir, quero-me esconder. Não quero padres, não quero tochas, não
-quero officios... Quero ir para a minha mãe... Onde m’a enterraram?...
-Levem-me á pedra da sua campa, e ali juntas, nós ambas, minha mãe e eu,
-lhe direi as penas da minha alma, e ella me dirá verdades... verdades!
-
-_Pantoja_
-
-(_áparte, a Evarista_) É a occasião. Aproveitemol-a.
-
-_Evarista_
-
-Vem, minha filha, nós te levaremos á quietação e á paz.
-
-_Maximo_
-
-Não: o descanso e a razão estão aqui. Electra é minha... (_Evarista
-procura leval-a_) Exijo-a.
-
-_Electra_
-
-Adeus, Maximo... Já te não pertenço: pertenço á minha dôr... A minha mãe
-chama-me para o seu lado... (_Extactica, anciosa, prestando uma attenção
-intensissima_) Ouço-lhe a voz...
-
-_Maximo_
-
-A voz!
-
-_Electra_
-
-Silencio, que me chama! (_delirando de alegria_) que está chamando por
-mim!
-
-_Evarista_
-
-Torna a ti, meu amor!
-
-_Electra_
-
-Não ouviram? Não ouvem?... Lá vou, mamãsinha, lá vou! (_Corre para o alto
-da escada_) Vamo-nos! (_A Maximo, que quer seguil-a_) Eu só... É por mim
-só que chama. Tu não... Para estar sósinha commigo... Não ouves a voz
-d’ella dizendo: Eleectra! Eleeeectra!... Vou vêl-a, vou falar-lhe...
-(_Vae entrando na casa com Evarista e Pantoja_)
-
-_Maximo_
-
-Que iniquidade e que horror! Para m’a roubarem, enlouqueceram-na. (_Quer
-desprender-se dos braços de Urbano e do marquez_)
-
-_Marquez_
-
-(_contendo-o_) Não enlouqueças tambem tu.
-
-_Urbano_
-
-Socega!
-
-_Marquez_
-
-Descansa, que eu te asseguro que a recobraremos!
-
-_Maximo_
-
-Amarrem-me! Levem-me manietado para a solidão, para a sciencia, para a
-verdade. Este mundo incerto, mentiroso e iniquo, não é para mim!
-
- FIM DO QUARTO ACTO
-
-
-
-
-ACTO QUINTO
-
- Sala do locutorio em S. José da Penitencia. Portas lateraes.
-
- Ao fundo uma grande janela d’onde se vê o claustro.
-
-
-SCENA I
-
- EVARISTA E SOROR DOROTHÊA
-
-_Evarista_
-
-(_entrando com a freira_) D. Salvador...?
-
-_Dorothêa_
-
-Chegou ha um momento: está no escritorio com a superiora e com a madre
-escrivã.
-
-_Evarista_
-
-Então Urbano lá irá ter com elle... Emquanto esperamos, dê-me noticias de
-Electra... Foi muito feliz a escolha que fizeram de si, irmã Dorothêa—tão
-sympathica e tão dôce—para a acompanhar, para viver com ella, para ser a
-sua amiga e a sua confidente...
-
-_Dorothêa_
-
-Electra não me quer mal, e é talvez certo que por essa razão algum tanto
-contribuirei para a socegar.
-
-_Evarista_
-
-(_aponta para a cabeça_) E como está ella de...?
-
-_Dorothêa_
-
-Bem. Recuperou inteiramente a razão, e não tem nenhum vestigio de
-delirio, a não ser ainda aquella ideia fixa de querer vêr a mãe, de lhe
-falar, de ter d’ella a solução das suas dúvidas. Todo o tempo que tem
-livre das obrigações religiosas, e todo o que póde alcançar, o passa
-no pateo do nosso cemiterio, e na horta contigua; e tanto ahi como no
-dormitorio, sempre a mesma preoccupação a absorve.
-
-_Evarista_
-
-E lembra-se de Maximo? fala d’elle?
-
-_Dorothêa_
-
-Fala: mas nas suas meditações e nas suas rezas a ideia que mais acaricia
-é de poder amal-o como um irmão, e, pelo que ainda hoje me disse, espera
-conseguil-o.
-
-_Evarista_
-
-Mas é uma ideia apenas! É preciso que a essa ideia se associe o
-coração... E bem poderia ser que assim succedesse se a desgraça de antes
-d’hontem não viesse alterar o seguimento dos factos...
-
-_Dorothêa_
-
-Uma desgraça!...
-
-_Evarista_
-
-Morreu o nosso velho amigo D. Leonardo Cuesta...
-
-_Dorothêa_
-
-Não sabia...
-
-_Evarista_
-
-Que immensa tristeza para todos nós! Ha dias que se sentia mal, e
-presagiava o seu fim. Sahiu na segunda feira muito cêdo, e na rua perdeu
-os sentidos. Levaram-o para casa, e ás tres horas da tarde estava morto.
-
-_Dorothêa_
-
-Pobre senhor!
-
-_Evarista_
-
-No testamento nomeia Electra herdeira de metade da sua grande fortuna...
-
-_Dorothêa_
-
-Ah!
-
-_Evarista_
-
-Mas coma expressa condição de que ella abandone a vida religiosa. Sabe se
-D. Salvador já terá conhecimento d’isto?
-
-_Dorothêa_
-
-Supponho que sim, porque elle tem conhecimento de tudo, e adivinha o que
-não conhece.
-
-_Evarista_
-
-E é verdade!
-
-_Dorothêa_
-
-(_vendo chegar Urbano_) O snr. D. Urbano.
-
-
-SCENA II
-
- AS MESMAS E URBANO
-
-_Evarista_
-
-Falaste-lhe?
-
-_Urbano_
-
-Sim. Deixei-o a trabalhar no escritorio, com um tino, com uma fixidez
-d’attenção, que me assombram. Que homem!
-
-_Evarista_
-
-Já teve noticia das ultimas disposições do pobre Cuesta?
-
-_Urbano_
-
-Já.
-
-_Evarista_
-
-Está contrariado?
-
-_Urbano_
-
-Se está não o mostra. Bem sabes que nem nos casos mais difficeis elle
-deixa transparecer as suas commoções...
-
-_Evarista_
-
-(_interrompendo-o com enthusiasmo_) É um espirito d’aguia, que paira
-acima de todas as tempestades da terra.
-
-_Urbano_
-
-Interrogando-o a respeito das esperanças que tinha de conservar Electra
-no convento, respondeu-me singelamente com uma serenidade pasmosa:
-«Confio em Deus».
-
-_Evarista_
-
-Que grandeza d’alma! E sabe que Maximo e o Marquez são os testamenteiros?
-
-_Urbano_
-
-Sabe mais. Recebeu ao meio dia uma carta d’elles annunciando-lhe que
-virão esta tarde, acompanhados d’um tabellião, inquirir a menina, para
-que declare se acceita ou se renuncia a herança.
-
-_Evarista_
-
-E á vista d’essa communicação...?
-
-_Urbano_
-
-Nada: imperturbavel, como sempre, repetindo a sua conhecida formula, que
-o pinta n’um traço: «Confio em Deus».
-
-
-SCENA III
-
- OS MESMOS, MAXIMO E O MARQUEZ (pela esquerda)
-
-_Marquez_
-
-Esperaremos aqui.
-
-_Maximo_
-
-(_vendo Evarista_) Adeus, tia. (_Sauda-a com affecto_)
-
-_Evarista_
-
-(_respondendo ao cumprimento do marquez_) Então, Marquez... Ha finalmente
-esperanças de ganhar a batalha?
-
-_Marquez_
-
-Não sei... Luctamos com féra de muito ardil.
-
-_Evarista_
-
-E a ti, Maximo, que te parece?...
-
-_Maximo_
-
-Que estamos em frente d’um terrivel mestre consummado no embuste. Mas eu
-confio em Deus.
-
-_Evarista_
-
-Tambem tu...?
-
-_Maximo_
-
-Naturalmente: em Deus confia todo aquelle que crê na verdade. Combatemos
-pela verdade. Como poderiamos suppôr que Deus nos abandone? Não poderia
-ser, querida tia.
-
-_Urbano_
-
-Não viste Electra quando atravessaste os claustros?
-
-_Maximo_
-
-Não vi.
-
-_Dorothêa_
-
-(_approximando-se da janela_) Vae passar agora. Vem do cemiterio.
-
-_Maximo_
-
-(_correndo para a janela com Urbano_) Que triste! e que bella! A brancura
-do habito dá-lhe o aspecto aereo de uma apparição. (_chamando-a_)
-Electra!
-
-_Urbano_
-
-Cala-te.
-
-_Maximo_
-
-Não posso. (_Volta a olhar_) É então certo que vive... É ella que vae ali
-na sua realidade primorosa, ou é uma imagem mystica que se despegou d’um
-retabulo d’altar para andar pela terra?... Lá volta para traz... levanta
-os olhos para o ceu... Se a visse diluir-se no ar, dissipando-se como uma
-sombra, não me admiraria... Põe os olhos no chão... Pára... Em que estará
-pensando? (_Continua a contemplar Electra_)
-
-_Marquez_
-
-(_que ficou no proscenio com Evarista_) ...Sim, minha senhora: falso,
-falsissimo!
-
-_Evarista_
-
-Olhe o que affirma, marquez...
-
-_Marquez_
-
-Affirmo que ou o veneravel D. Salvador se equivoca, ou que disse,
-sabendo-o, o contrario da verdade, movido de razões e fins, que não
-penetram as nossas limitadas intelligencias.
-
-_Evarista_
-
-É impossivel, marquez... Faltar á verdade um homem tão justo, de tão pura
-consciencia, de ideias tão altas!
-
-_Marquez_
-
-E quem nos diz, minha cara amiga, que nos arcanos d’essas consciencias
-exaltadas não ha uma lei moral, cujas subtilezas estão longe do nosso
-mesquinho alcance? Ha absurdos na vida do espirito como os ha na
-natureza, onde vemos inumeros phenomenos cujas causas não são as que se
-figuram.
-
-_Evarista_
-
-Não: não posso crer! Ha talvez casos em que a mentira aplana o caminho do
-bem. Mas não estamos n’um caso d’esses... Eu por mim, não acredito.
-
-_Marquez_
-
-Para que possa formar o seu juizo, ouça o que lhe vou dizer. A marqueza,
-Virginia, assegura-me que de Josephina Perret—sem que n’isto possa haver
-mistificação nem equivoco—nasceu este homem que ahi está... E Evarista,
-amiga intima de Josephina Perret, prova e demonstra esse facto da
-maneira mais simples, mais clara e mais positiva. Além d’isso, eu mesmo
-pude comprovar que Lazaro Yuste viveu longe de Madrid desde 1863 até 1866.
-
-_Evarista_
-
-Com tudo isso, marquez, não posso convencer-me de que...
-
-_Marquez_
-
-(_vendo entrar Pantoja pela direita_) Ahi vem elle.
-
-_Maximo_
-
-(_descendo ao proscenio_) Chega o abutre.
-
-_Dorothêa_
-
-Se me dão licença retiro-me. (_Sae pela esquerda. Pantoja permanece um
-instante junto da porta_)
-
-
-SCENA IV
-
- EVARISTA, MAXIMO, URBANO, MARQUEZ E PANTOJA
-
-_Pantoja_
-
-(_adeantando-se vagarosamente_) Meus senhores, desculpem-me tel-os feito
-esperar.
-
-_Maximo_
-
-Prevenido do objecto da nossa visita, creio que será inutil expol-o...
-
-_Marquez_
-
-(_benignamente_) Não o repetiremos para não mortificar o snr. de Pantoja,
-que deve a estas horas considerar perdida a sua inutil campanha.
-
-_Pantoja_
-
-(_sereno, sem jactancia_) Eu não perco nunca.
-
-_Maximo_
-
-Será adeantar muito.
-
-_Pantoja_
-
-E asseguro que Electra, tendo aprendido já a desprezar os bens da terra,
-não acceitará o legado.
-
-_Evarista_
-
-Já vês que este homem não se rende.
-
-_Pantoja_
-
-Não me rendo... nunca, nunca.
-
-_Maximo_
-
-Estou vendo. (_Sem poder dominar-se_) É então preciso matal-o?
-
-_Pantoja_
-
-Venha a morte.
-
-_Marquez_
-
-Não chegaremos a tanto.
-
-_Pantoja_
-
-Cheguem onde queiram. Hão de encontrar-me sempre impassivel e estavel, no
-meu posto.
-
-_Marquez_
-
-Confiamos na lei.
-
-_Pantoja_
-
-Eu em Deus. E digo aos representantes da lei que Electra, adaptando-se
-facilmente a esta vida de pureza, libando já as doçuras ineffaveis da
-oração e da paz em Deus, não abandonará esta santa casa.
-
-_Maximo_
-
-(_impaciente_) Podemos falar-lhe?
-
-_Pantoja_
-
-N’este momento, precisamente, não.
-
-_Maximo_
-
-(_querendo protestar_) Oh!
-
-_Pantoja_
-
-Socegue.
-
-_Maximo_
-
-Não posso.
-
-_Evarista_
-
-É a hora do côro. Quer D. Salvador dizer, por certo, que depois da hora...
-
-_Pantoja_
-
-Está claro que sim. E para que se convençam de que nada temo, podem
-trazer além do tabellião, o snr. delegado do governo. Mandarei abrir
-a portaria... Permittirei que falem emquanto queiram com Electra. E se
-depois d’isso ella quizer sahir, que sáia...
-
-_Marquez_
-
-Cumprirá o que diz?
-
-_Pantoja_
-
-Como não? se é em Deus unicamente que confio.
-
-_Marquez_
-
-Voltaremos logo. (_Toma o braço de Maximo_)
-
-_Pantoja_
-
-E nós para a egreja. (_Saem Urbano, Evarista e Pantoja_)
-
-
-SCENA V
-
- MARQUEZ E MAXIMO, que percorre a scena muito agitado,
- impaciente, receioso
-
-_Marquez_
-
-Que diz a isto, Maximo?
-
-_Maximo_
-
-Que este homem, de tão superior talento para fascinar os debeis e para
-zombar dos fortes, nos enlouquecerá a todos. Eu não sou para isto.
-Em luctas de tal ordem, vontade contra vontade, sinto-me arrastado á
-violencia.
-
-_Marquez_
-
-E que faz tenção de fazer?
-
-_Maximo_
-
-Leval-a embora. A bem ou a mal. Por vontade ou á força. Se não tiver
-bastante poder para isto, adquiril-o, compral-o; trazer amigos,
-cumplices, um esquadrão, um exercito... (_Com crescente fervor_) Renascem
-em mim os rancores dos antigos bandos, com toda a ferocidade romantica do
-feudalismo.
-
-_Marquez_
-
-Assim pensa, e assim o diz, um homem de sciencia!
-
-_Maximo_
-
-Os extremos tocam-se. (_Exaltando-se mais_) Para esse homem, para esse
-monstro não ha argumentos, não ha raciocinios... É preciso matal-o.
-
-_Marquez_
-
-Nem tanto, nem tanto, meu querido! Imitemol-o, sejamos como elle astutos,
-insidiosos, perseverantes.
-
-_Maximo_
-
-(_com brio e eloquencia_) Não: sejamos como eu... sinceros, claros,
-valorosos. Marchemos de cabeça alta e de cara descoberta para o inimigo.
-Destruamol-o, ou deixemo-nos destruir por elle... Mas d’uma vez, de uma
-só investida, de um só golpe... Ou elle ou nós.
-
-_Marquez_
-
-Não, Maximo. Temos de ir com tento. Temos de respeitar a ordem social em
-que vivemos.
-
-_Maximo_
-
-A ordem social em que vivemos envolve-nos em uma rede de mentiras e de
-argucias, e n’essa rede morreremos estrangulados, sem defeza alguma...
-presos de garganta, e de pés e mãos, nas malhas de milhares e milhares
-de leis capciosas, de vontades fraudulentas, aleivosas, subornadas,
-corrompidas.
-
-_Marquez_
-
-Socega. Preparemo-nos para o que esta tarde nos espera. Temos de prever
-os obstaculos para pensar com tempo no modo de os vencer... Que succederá
-quando dissermos a Electra que a mãe do seu noivo é com effeito e fóra de
-toda a dúvida Josephina Perret e não Eleuteria Dias?
-
-_Maximo_
-
-Que ha de succeder? Que não o acreditará, porque na sua mente se
-petrificou o erro e será já tarde para o desarraigar. Pois não se sabe
-o que pode a suggestão contínua? O que póde o insinuante e invasivo
-ambiente de uma casa como esta sobre as ideias dos que a habitam?
-
-_Marquez_
-
-Empregaremos meios efficases.
-
-_Maximo_
-
-(_com violencia_) Quaes? Deitar fogo ao convento, deitar fogo a Madrid...
-
-_Marquez_
-
-Não divagues. Se Electra não quizer sahir, leval-a-hemos á força.
-
-_Maximo_
-
-(_muito vivamente até o fim_) Ou uma força triumphante, ou uma
-desesperação de vencido... morrer eu, morrer ella, morrermos todos.
-
-_Marquez_
-
-Morrer não. Vivamos todos, e preparemo-nos para a peor solução. Tenho
-uma chave para entrar no claustro pela Rua Nova, e a irmã Dorothêa
-pertence-me... Caluda!
-
-_Maximo_
-
-Violencia!
-
-_Marquez_
-
-Subtilesa e astucia!
-
-_Maximo_
-
-Adeante, de pronto, e pelo caminho direito!
-
-_Marquez_
-
-Não, homem, de vagar, com geito, e pelo atalho enesgado! (_Tomando-lhe
-o braço_) E vamo-nos d’aqui, que estamos a tornar-nos suspeitos...
-(_Levando-o_)
-
-_Maximo_
-
-Sim, vamo-nos.
-
-_Marquez_
-
-Confia em mim.
-
-_Maximo_
-
-Confio em Deus.
-
-
-MUTAÇÃO
-
- Claustro de S. José da Penitencia. Á direita uma asa da egreja,
- com frestões envidraçados, pelos quaes transluz a claridade
- interior. Á esquerda grande portada por onde se passa a outro
- claustro, que se suppõe communicar com a rua. Ao fundo, entre a
- egreja e as construcções da esquerda, grande arco abatido, para
- lá do qual se vê em ultimo plano o cemiterio da congregação. É
- noite escura.
-
-
-SCENA VI
-
- ELECTRA E SOROR DOROTHÊA
-
-_Dorothêa_
-
-Tão certo como ser noite, vieram dois sujeitos ao convento com proposito
-de te arrancar d’aqui e de te levar para o mundo. Não o crês?
-
-_Electra_
-
-Sem que me digas quem são, o meu coração o adivinha: Maximo e o marquez
-de Ronda... Se é certo que projectam levar-me é enorme a perturbação que
-me causam. Desde que entrei n’esta santa casa emprehendi, como sabes, a
-grande batalha do meu espirito. Procuro, humildemente e com a ajuda de
-Deus, transformar em amor fraternal o amor de uma natureza bem diversa
-que arrebatou a minha alma... Converter o ardente fogo do sol numa fria
-claridade da lua... O constante meditar, lento mas progressivo, o desmaio
-do coração, e as ideias submissas e dôces que Deus me envia vão-me dando
-forças para vencer.
-
-_Dorothêa_
-
-Querida irmã, se em ti sentes a fortaleza d’esse novo amor, porque tens
-mêdo de te encontrar com D. Maximo de Yuste?
-
-_Electra_
-
-Porque, vendo-o, sinto que todo o terreno ganho o perderia n’um só
-instante.
-
-_Dorothêa_
-
-(_incredula_) E achas, em tua verdade, que tenhas algum terreno ganho?...
-
-_Electra_
-
-Oh! sim, algum... não muito por emquanto.
-
-_Dorothêa_
-
-Talvez, irmã Electra, que o vêr essa pessoa te demonstre se
-effectivamente podes...
-
-_Electra_
-
-(_vivamente_) Oh! não m’o digas, que não posso!... No estado em que me
-sinto, n’este principio de lucta, se o visse, se o ouvisse, eu perderia
-toda a esperança de paz... Não vês que em minha consciencia eu me estou
-debatendo contra dois impossiveis: não poder amal-o como esposo; não
-poder amal-o como irmão? (_Aterrada_) Que supplicio, meu Jesus!... Para
-o mundo não, não... Prefiro estar aqui, n’esta solidão de morte, n’este
-laboratorio da minha alma, junto do cadinho divino, em que estou fundindo
-um viver novo.
-
-_Dorothêa_
-
-Não esperes que as tuas ideias te deem a paz. Confia em Deus e n’aquelles
-que Deus te envia... (_Resolvendo-se a falar mais claramente_) Não te
-amedrontes assim perante o que suppões teu irmão. Alguem talvez negará
-que o seja.
-
-_Electra_
-
-(_em grande excitação_) Cala-te! Cala-te! Em assumpto de tão grande
-melindre toda a palavra que não contenha a certeza é inutil e cruel...
-Póde levar-me á loucura. O que eu peço a Deus é a morte, ou a verdade
-inteiramente indubitavel e definitiva.
-
-_Dorothêa_
-
-Socega, pobre Electra...
-
-_Electra_
-
-(_exaltando-se cada vez mais_) Todas as confusões que me atormentaram
-ao vir para aqui estão renascendo no meu espirito... Atropelam-se-me no
-pensamento anjos e demonios... Deixa-me... Eu quero fugir de mim mesma...
-(_Corre a scena em grande agitação. Soror Dorothêa segue-a procurando
-acalmal-a_)
-
-_Dorothêa_
-
-Tranquillisa-te, por Deus!... Esse tormento vae ter fim. (_Olha com
-anciedade para a porta da esquerda_)
-
-_Electra_
-
-(_parecendo-lhe ouvir uma voz longinqua_) Ouve... Minha mãe que me chama.
-
-_Dorothêa_
-
-Não delires... Outras vozes, vozes de pessoas vivas, te chamarão.
-
-_Electra_
-
-É minha mãe... Silencio!... (_Escutando. Entra Pantoja pela direita_)
-
-
-SCENA VII
-
- ELECTRA, PANTOJA E DOROTHÊA
-
-_Pantoja_
-
-Minha filha, como sahiste da egreja sem que eu te visse?
-
-_Dorothêa_
-
-Sahimos para respirar ao ar livre. Electra asfixiava. (_Áparte_)
-Approxima-se a hora... Deus nos ajude!
-
-_Pantoja_
-
-Sentes-te mal, minha filha?
-
-_Electra_
-
-(_com voz assustada e sumida_) A minha mãe chama por mim.
-
-_Pantoja_
-
-(_pegando-lhe carinhosamente na mão_) A dôce voz da tua mãe, falando-te
-em espirito te dará conforto, prendendo-te com piedade e amôr a este
-sagrado refugio. (_Ouve-se passando na egreja o côro das noviças_) Ouve,
-Electra... É a voz dos anjos que te chamam do ceu.
-
-_Electra_
-
-(_delirante_) É o côro dos meninos a brincar. E entre essas vozes ternas,
-distingo a de minha mãe chamando-me da sepultura.
-
-_Pantoja_
-
-Estás allucinada. É o divino côro dos anjos.
-
-_Electra_
-
-Não, não ha anjos... Ouço o meu nome, ouço o bulicio dos meninos, que
-revolve toda a minha alma. São os filhos dos homens que fazem a alegria
-da vida. (_Continua a ouvir-se mais apagado o côro das noviças_)
-
-_Pantoja_
-
-(_inquieto_) Irmã Dorothêa, diga á irmã porteira que vigie a porta da Rua
-Nova e a da Ronda. (_Á esquerda e á direita_)
-
-_Dorothêa_
-
-Sim, meu senhor...
-
-_Pantoja_
-
-Mas não; irei eu mesmo... Não me fio de ninguem... Vou eu mesmo vigiar
-todo o claustro, todas as passagens, todos os recantos da casa.
-(_Assustado, julgando ouvir ruido_) Escute... Não ouvio?
-
-_Dorothêa_
-
-Quê?... Não ouvi nada... É illusão.
-
-_Pantoja_
-
-Pareceu-me ouvir um rumor de vozes... e bater n’uma porta ao longe.
-(_Escuta_)
-
-_Dorothêa_
-
-De que lado? (_Olhando para o fundo á direita_)
-
-_Pantoja_
-
-Na direcção da enfermaria... Não estou socegado... Quero vêr eu mesmo...
-Electra, volta para a egreja... Leve-a, irmã Dorothêa... Esperem-me lá...
-(_Dando-lhes pressa_) Andem... (_Acompanha-as até á porta da egreja. Sae
-pressuroso, inquieto, pelo fundo, á direita. Dorothêa vê-o afastar-se,
-pega na mão de Electra, e vivamente volta com ella ao centro da scena.
-Electra, sem vontade, deixa-se levar_)
-
-
-SCENA VIII
-
- ELECTRA E SOROR DOROTHÊA
-
-_Dorothêa_
-
-Vem commigo... Para a egreja não.
-
-_Electra_
-
-Aqui... Deixa-me respirar, deixa-me viver.
-
-_Dorothêa_
-
-(_aparte, inquieta_) É a hora dada pelo marquez de Ronda... Aproveitemos
-os minutos, os segundos, ou tudo está perdido. (_Olhando para a
-esquerda_) Vou dar-lhes entrada para este claustro... (_Alto_) Irmã
-Electra, espera-me aqui.
-
-_Electra_
-
-(_assustada_) Onde vaes? (_Pega-lhe no braço_)
-
-_Dorothêa_
-
-(_com decisão, defendendo-se_) Tratar de ti, dar-te a saude e dar-te a
-vida... Prepara-te para sahir d’este sepulcro, e leva-me comtigo.
-
-_Electra_
-
-(_tremula_) Irmã Dorothêa... não me deixes.
-
-_Dorothêa_
-
-Este momento decide da tua sorte... Volverás ao mundo... verás Maximo.
-
-_Electra_
-
-Quando?
-
-_Dorothêa_
-
-Já... Vaes vêl-o entrar por ali... (_Esquerda_) Animo!... Não me
-estorves... Não te movas d’aqui. (_Sae correndo pela esquerda_)
-
-_Electra_
-
-Meu Deus! Virgem Santissima!... Será certo?... Por aqui... por aqui
-virá... (_Julga vêr Maximo na escuridão_) Ah! é elle... Maximo! (_Falando
-como em sonhos, desviando-se como d’um ser real_) Pára... Deixa-me...
-Não posso amar-te como irmão, não posso... Está no fogo o cadinho em
-que quero fundir um coração novo... Não vês que não posso levantar os
-olhos para ti?... Para que me fitas d’esse modo, se me não pódes levar
-comtigo?... É aqui que eu procuro a verdade. Minha mãe chama por mim...
-(_Com accento desesperado_) Mãe! mãe! (_Volta-se de frente para o fundo.
-Ao soarem as ultimas palavras de Electra, apparece a sombra de Eleuteria,
-formosa figura em habito de monja. Electra de costas para o publico,
-contempla-a com os braços cruzados no peito_) Oh! (_Grande pausa_)
-
-
-SCENA IX
-
- ELECTRA E A SOMBRA DE ELEUTERIA, que vagamente se destaca na
- obscuridade do fundo. Electra adeanta-se para ella. Ficam as
- duas figuras frente a frente, á menor distancia possivel uma da
- outra.
-
-_A Sombra_
-
-Sou a tua mãe, e venho a aplacar a angustia do teu coração amante. A
-minha voz dará á tua consciencia a paz. Nenhum vinculo da natureza te
-prende ao homem que te escolheu por mulher. O que te disseram foi uma
-ficção carinhosa destinada a trazer-te á nossa companhia e á doçura
-d’esta santa casa.
-
-_Electra_
-
-Oh! mãe adorada, que consolação me dás!
-
-_A Sombra_
-
-Dou-te a verdade, e com ella a fortaleza e a esperança. Acceita, minha
-filha, como provação em que se retemperou a força da tua alma, esta
-reclusão transitoria, e não maldigas quem a promoveu... Se o amor
-conjugal e as alegrias da familia solicitam a tua alma deixa-te de
-boamente levar da suavidade d’essa atracção, e não procures aqui uma
-santidade que não é para ti. Deus está em toda a parte... Eu não pude
-encontral-o fóra d’este abençoado refugio... Procura-o tu no mundo por
-vereda differente d’aquella em que eu me perdi... (_A sombra cala-se e
-desapparece no momento em que se ouve a voz de Maximo_)
-
-
-SCENA ULTIMA
-
- ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ, PANTOJA E SOROR DOROTHÊA
-
-_Maximo_
-
-(_á porta da esquerda_) Electra!
-
-_Electra_
-
-(_correndo para elle_) Ah!
-
-_Pantoja_
-
-(_pela direita_) Minha filha, onde estás?
-
-_Marquez_
-
-Comnôsco.
-
-_Maximo_
-
-Commigo.
-
-_Pantoja_
-
-Foges-me, Electra?
-
-_Maximo_
-
-Não foge... Resuscita.
-
- FIM
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Electra, by Benito Pérez Galdós
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELECTRA ***
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- The Project Gutenberg eBook of Electra: drama em cinco actos, by Pérez Galdóz, tr. Ramalho Ortigão.
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-The Project Gutenberg EBook of Electra, by Benito Pérez Galdós
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-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Electra
- Drama em cinco actos
-
-Author: Benito Pérez Galdós
-
-Translator: José Duarte Ramalho Ortigão
-
-Release Date: September 7, 2020 [EBook #63145]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELECTRA ***
-
-
-
-
-Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net
-
-
-
-
-
-
-</pre>
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-
-<p class="titlepage"><span class="smcap">Pérez Galdóz</span></p>
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-<h1>ELECTRA<br />
-<span class="smaller">DRAMA EM CINCO ACTOS</span></h1>
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-<p class="titlepage larger"><span class="smaller">VERSÃO PORTUGUEZA<br />
-DE</span><br />
-<span class="smcap">Ramalho Ortigão</span></p>
-
-<p class="titlepage"><span class="smaller">PORTO</span><br />
-LIVRARIA CHARDRON<br />
-<span class="smaller">De Lello &amp; Irmão, editores<br />
-1901</span></p>
-
-<p class="titlepage smaller">Unica traducção portugueza auctorisada pelo auctor</p>
-
-<p class="titlepage smaller"><i>Porto—Imprensa Moderna</i></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_1"></a>[1]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">ACTO PRIMEIRO</h2>
-
-</div>
-
-<div class="act">
-
-<p class="main">Sala sumptuosa no palacio dos senhores de Garcia Yuste.
-Á direita, sahida para o jardim. Ao fundo, communicação
-para outras salas do palacio. Á direita,
-no primeiro plano, porta dos quartos d’Electra.</p>
-
-</div>
-
-<h3>SCENA I</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">MARQUEZ E JOSÉ</span></p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Estão no jardim... Vou dar parte.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Espera lá. É esta a primeira visita que
-faço aos senhores de Garcia Yuste no seu
-palacio novo... Deixa-me dar uma vista
-d’olhos... Está n’um grande pé... Bem hajam
-os que tão bem empregam o seu dinheiro!
-Porque não é sómente o seu estado
-de casa, é o bem que fazem, o generosos
-que são em obras pias...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_2"></a>[2]</span></p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Oh! lá isso...!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>E tão mettidos comsigo! tanto da paz
-e do socego do lar!... Ainda que, segundo
-cuido, ha novidade agora na familia...</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Novidade? Ah! já sei... Quer o snr.
-Marquez referir-se...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Escuta, José! Promettes fazer o que
-eu te peça?</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Já o snr. Marquez sabe que eu me não
-esqueço nunca dos quatorze annos que
-servi na sua casa... O snr. Marquez manda,
-não pergunta.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Pois venho cá de proposito para conhecer
-essa interessante senhorita, que os
-teus amos trouxeram agora d’um collegio
-de França...</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>A senhorita Electra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_3"></a>[3]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Podes dizer-me se os senhores estão
-contentes com essa nova sobrinha? É
-pessôa amoravel, agradecida?</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Oh! n’esse particular!... Os senhores
-morrem por ella... Sómente...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Quê?</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>A menina é travessasita...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>A edade!</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Brincalhôna, oh! mas brincalhôna, que
-se não faz uma ideia...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Mas diz que é linda, que é um anjo...</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Um anjo sim, se ha anjos parecidos
-com mafarricos... É que nos põe o sal
-na moleira a todos cá de casa!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_4"></a>[4]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Estou morto por conhecêl-a!</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>No jardim a encontra o snr. Marquez.
-É lá que passa as manhãs pondo em
-redemoinho tudo.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(olhando para o jardim)</span> Lindo jardim, bello
-parque, as velhas arvores do antigo palacio
-das Gravelinas...</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>É exacto.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>O grande predio, ao fundo da alameda,
-é tambem dos senhores de Yuste?</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Tambem. Com entrada pelo jardim e
-pela rua. Em baixo tem o seu laboratorio
-o sobrinho dos patrões, o senhorito Maximo,
-primeiro dos trunfos de Hispanha nas
-mathematicas, e... na outra coisa...
-na...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Bem sei... Chamam-lhe o <i>Magico
-prodigioso</i>... Conheci-o em Londres...
-ainda a mulher d’elle era viva.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_5"></a>[5]</span></p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Morreu em fevereiro do anno passado...
-e deixou-lhe dois filhos, dois
-amores!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Ultimamente renovei com elle o meu
-antigo conhecimento, e, apesar de nos não
-visitarmos, por certos motivos, somos
-muito amigos.</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Tambem eu gósto d’elle. Optimo sujeito...!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>E outra coisa: não estão arrependidos
-os teus amos de terem mettido em casa
-esse diabretesito?</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p><span class="direction">(receoso de que venha gente)</span> Eu direi a
-V. Ex.ª... Tenho notado... <span class="direction">(Vê vir D. Urbano
-pelo jardim)</span> Ahi vem o senhor.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Põe-te a andar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_6"></a>[6]</span></p>
-
-<h3>SCENA II</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">MARQUEZ E D. URBANO</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(abrindo-lhe os braços)</span> Querido Urbano!</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Marquez! ditosos olhos!...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>E Evarista?</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Bem... Sómente extranhando muito
-as grandes ausencias do marquez de Ronda...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Oh! você não imagina o inverno que
-passámos...</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>E Virginia?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Assim, assim... Sempre achacada,
-mas reagindo constantemente pela força
-de uma vontade tenaz, cabeçuda lhe chamarei.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_7"></a>[7]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Pois ainda bem! ainda bem!... Com
-quê... quer que desçamos ao jardim?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Vamos já! Deixe-me tomar assento,
-pouco a pouco, na sua casa nova... <span class="direction">(Senta-se)</span>
-E conte-me lá, querido, conte-me
-d’essa menina encantada, que foram
-buscar ao collegio.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Não, não estava já no collegio. Tinha
-ido para Hendaya, para uns parentes da
-mãe. Eu nunca fui muito da opinião de
-a trazer para cá. Mas Evarista emprehendeu
-n’isso... Quer sondar o caracter da
-pequena, apurar se d’ella se poderá fazer
-uma mulher em termos, ou se nos estará
-destinada a vergonha de a vêr herdar as
-tendencias da mãe... Você sabe que era
-uma prima irmã de minha mulher; e escuso
-de lhe lembrar os escandalos que deu
-essa Eleuteria desde o anno de 80 a 85.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Nem me fale n’isso!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_8"></a>[8]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Emfim, foi a ponto de que a familia,
-vexada, rompeu com ella de todo e para
-sempre! Esta menina, agora, cujo pae se
-não sabe quem seja, criou-se com a mãe até
-os cinco annos. Depois levaram-a para as
-Ursulinas de Bayona. Lá, ou por abreviar
-ou pelo que fosse, puzeram-lhe esse nome,
-exquisito e novo, de Electra.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Novo, propriamente, não. Á pobre
-mãe—coitadita—Eleuteria Dias, todos
-nós, os intimos da casa, lhe chamavamos
-tambem Electra, em parte talvez por
-abreviatura, e em parte porque ao pae,
-militar valente mas assignaladamente desditoso
-na vida conjugal, tinham posto a
-alcunha de <i>Agamemnon</i>.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>D’essa não sabia... Tambem nunca
-vivi com elles. Eleuteria, pela fama que
-tinha, figurava-se-me uma creatura repugnante...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Por amor de Deus, querido Urbano,
-não sejamos pharisaicos... Lembre-se
-que Eleuteria—a quem chamaremos <i>Electra
-I</i>—mudou de vida, ahi por 88...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_9"></a>[9]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>E não deu pouco que falar esse arrependimento
-tambem. Lá foi morrer a
-S. João da Penitencia, em 95, regenerada,
-abominando a monstruosa libertinagem
-da sua vida...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(como quem lhe reprehende o rigorismo)</span> Deus
-lhe perdoou...</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Sim, sim... perdão, esquecimento...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>E tratam então agora de tentear <i>Electra
-II</i> a vêr se inclinará para bem ou se
-lhe dará para mal... Que resultado vão
-dando as provas?</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Resultados obscuros, contradictorios,
-variaveis de dia para dia, de hora para
-hora. Ha momentos em que ella nos revela
-qualidades sublimes, mal encobertas
-pela sua innocencia; outros, em que nos
-apparece como a creatura mais doida a
-quem Deus deu licença de vir ao mundo.
-Tão depressa encanta pela sua candura
-angelica como aterra a gente pelas diabolicas
-subtilezas que desfia da sua propria
-ignorancia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_10"></a>[10]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Natural desequilibrio da edade, excesso
-de imaginação, talvez. É esperta?</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Como a electricidade em pessoa, mysteriosa,
-repentista, de grande tino. Destroe,
-transtorna, perturba, illumina.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(levantando-se)</span> Fervo em curiosidade. Vamos
-vêl-a.</p>
-
-<h3>SCENA III</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">MARQUEZ, URBANO, CUESTA</span>, pelo fundo</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(entra com mostras de cançaço, tira do bolso a
-carteira de negocios, e dirige-se á mesa)</span> Marquez...
-Tudo bom por cá?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Oh! grande Cuesta! que nos conta o
-nosso incançavel agente?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_11"></a>[11]</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(senta-se. Revela um padecimento de coração)</span> O
-incançavel... começa a cançar.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Homem! e que me dizes da alta
-d’hontem no Amortisavel?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Veio de Paris com dois inteiros.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Fizeste a nossa liquidação?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>E a minha?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Estou com isso... <span class="direction">(Tira papeis da carteira
-e escreve a lapis)</span> N’um instante saberão as cifras
-exactas. Tirou-se todo o partido que
-se podia tirar da conversão.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Naturalmente... Sendo o typo de
-emissão dos novos valores 79,50... tendo
-nós comprado por preço muito baixo
-o papel recolhido...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_12"></a>[12]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Naturalmente...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>O resultado foi enorme.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Querido Urbano, esta facilidade com
-que se enriquece é positivo que dá o amor
-da vida e o enthusiasmo da belleza humana.
-Vamos para o jardim.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(a Cuesta)</span> Vens?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Preciso de dez minutos de silencio para
-pôr em ordem os meus apontamentos.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Deixamos-te em socego. Não queres
-nada?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(abstrahido nas suas contas)</span> Não... quero
-dizer... Sim: manda-me vir um copo de
-agoa. Estou abrasado.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Immediatamente. <span class="direction">(Sae com o Marquez para
-o jardim)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_13"></a>[13]</span></p>
-
-<h3>SCENA IV</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">CUESTA E PATROS</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(corrigindo as suas notas)</span> Ah! cá está o
-erro. Aos de Yuste toca... um milhão e
-seiscentas mil pezetas. Ao marquez de
-Ronda, duzentas e vinte e duas mil...
-Temos que descontar as doze mil e tanto,
-equivalentes aos nove mil francos... <span class="direction">(Entra
-Patros com copos d’agoa, caramellos e cognac. Espera
-que Cuesta termine a sua conta)</span></p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Ponho aqui, D. Leonardo?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Põe e espera um instante... Um milhão
-e oitocentos... com os seiscentos e
-dez... fazem... claro! está certo. Bem
-bom! bem bom!... Com que então, Patros...
-<span class="direction">(tira do bolso dinheiro, que lhe dá)</span> Toma
-lá!</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Muito obrigado!</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>E já te aviso que espero de ti um
-favôr...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_14"></a>[14]</span></p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Dirá, D. Leonardo.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Pois, minha amiga... <span class="direction">(remechendo um
-caramello)</span> Escuta...</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Não quer cognac?... Se vem cançado,
-a agoa só pode fazer-lhe mal.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Sim: deita um poucochito... Pois o
-que eu quereria...—Não vás pôr malicia
-no que a não tem: sentido!—o que eu
-quereria era falar alguns momentos, a sós,
-com a senhorita Electra. Conhecendo-me
-como me conheces, comprehenderás de
-certo que o meu fim é o mais honrado e
-o mais digno... Mas sempre t’o digo para
-te tirar todo o escrupulo... <span class="direction">(Recolhe os papeis)</span>
-Antes que venha alguem, poderás dizer-me
-que occasião e que logar será melhor?</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Para dizer duas palavras á senhorita
-Electra... <span class="direction">(meditando)</span> terá de ser então
-quando os senhores estiverem com o procurador...
-Eu verei.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_15"></a>[15]</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Se pudesse ser hoje, melhor.</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Ainda cá volta hoje?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Volto. Avisa-me.</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Esteja certo. <span class="direction">(Recolhe o serviço e sae)</span></p>
-
-<h3>SCENA V</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">CUESTA E PANTOJA</span>, que entra em scena meditabundo,
-abstraído, todo vestido de preto</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Amigo Pantoja, salve-o Deus! Como
-vamos?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(suspira)</span> Vivendo, amigo, que é o mesmo
-que dizer: esperando.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Esperando melhor vida...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_16"></a>[16]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Padecendo n’esta o que Deus determine
-para merecer a outra.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>E de saude que tal?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Mal e bem. Mal, porque me affligem
-desgostos e achaques; bem, porque me
-apraz a dôr, e me regosija o soffrimento.
-<span class="direction">(Inquieto, e como dominado por uma ideia fixa, olha
-para o jardim)</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Que ascetico vem hoje!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Olhe que cabecinha de vento a d’aquella
-Electra...! Lá vae ella de corrida com
-os pequenos do porteiro, com os dois filhos
-do Maximo, e ainda com filhos dos visinhos.
-Quando a deixam n’aquellas travessuras
-de creança é que ella é feliz.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Adoravel creaturinha! Que Deus a
-fade bem, para ser uma mulher como se
-quer!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_17"></a>[17]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>D’aquella graciosa boneca, d’aquella
-voluvel menina facilmente se poderia
-tirar um anjo; da mulher que ella ha de
-ser, não sei.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Não o entendo bem, amigo Pantoja.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Entendo-me eu... Olhe, olhe como
-brincam... <span class="direction">(Assustado)</span> Deus de misericordia!
-quem é que vae com ella?... Não é
-o marquez de Ronda?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Elle mesmo.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Que corrupto homem! Tenorio da geração
-passada não se decide a jubilar-se
-para não dar um desgosto a Satanaz!</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Para que mais uma vez se possa dizer
-que não ha paraizo sem serpente...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Para isso não! serpente já tinhamos. <span class="direction">(Passeia nervoso e displicente pela sala)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_18"></a>[18]</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>E diga-me, passando a outra coisa:
-teve já noticia do dinheirão que lhes
-trouxe?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(sem prestar grande attenção e fixando-se n’outra
-ideia que não formúla)</span> Ah! sim, já... Ganhou-se
-muito.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Evarista completará agora a sua grande
-obra religiosa.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(maquinalmente)</span> Sim.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>E poderá o amigo Pantoja consagrar
-muito maiores recursos a S. José da Penitencia.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Sim... <span class="direction">(Voltando á sua ideia fixa)</span> Serpente
-já tinhamos... Que dizia, amigo Cuesta?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Dizia eu...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_19"></a>[19]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Desculpe interrompel-o... Sabe se
-sempre é certo que o nosso visinho de
-defronte, o nosso maravilhoso sábio, inventor
-e quasi thaumaturgo, projecte mudar
-de casa?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Quem? Maximo? Acho que sim...
-Parece que em Bilbau e em Barcelona
-acolhem com enthusiasmo os seus admiraveis
-estudos para novas applicações da
-electricidade; e lhe offerecem todos os
-capitaes que elle queira para proseguir nas
-experiencias que encetou.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(meditativo)</span> Oh! capitaes eu lh’os daria
-tambem, comtanto que...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_20"></a>[20]</span></p>
-
-<h3>SCENA VI</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">PANTOJA, CUESTA, EVARISTA, URBANO E O MARQUEZ</span>,
-que veem do jardim</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(soltando o braço do Marquez)</span> Bons dias,
-Cuesta. Pantoja, quanto estimo vêl-o!
-<span class="direction">(Cuesta e Pantoja inclinam-se e beijam-lhe respeitosamente
-a mão. A senhora de Yuste senta-se á direita;
-o Marquez em pé ao lado d’ella. Os outros agrupam-se
-á esquerda falando de negocios.)</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(reatando com Evarista uma conversação interrompida)</span>
-Por este andar a minha boa amiga
-não sómente passa á Historia mas passa
-a figurar tambem no <i>Anno Christão</i>.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Não me gabe por coisas em que não
-ha merecimento nenhum, Marquez... Não
-temos filhos: Deus cumula-nos de riqueza.
-Temos em cada anno uma herança. Sem
-trabalho nenhum—nem, sequer o de discorrer—o
-excesso dos nossos rendimentos,
-habilmente manejados pelo amigo Cuesta,
-capitalisa-se sem darmos por isso, e cria
-novas fontes de dinheiro. Se compramos<span class="pagenum"><a id="Page_21"></a>[21]</span>
-uma quinta, a subida dos productos triplica
-n’esse mesmo anno o valor da terra. Se
-ficamos senhores de um baldio inteiramente
-sáfaro, acontece que no subsolo se
-descobre um jazigo immenso de carvão,
-de ferro ou de chumbo... Que quer
-dizer tudo isto?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Quer dizer—acho eu—que quando
-Deus multiplica tantas riquezas sobre
-quem nem as deseja nem as estima, bem
-claramente elle está indicando que as
-concede para que sejam empregadas em
-servil-o.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>É claro. Interpretando-o tambem
-assim, eu apresso-me a cumprir a vontade
-de Deus. O dinheiro que Cuesta nos veio
-hoje trazer apenas me passará pelas mãos,
-e com elle completarei a somma de sete
-milhões consagrados á obra do Santo Patrocinio.
-E mais farei para que a casa e o
-collegio de Madrid tenham o decoro e a
-magnificencia adequada a um tão grande
-instituto. Desenvolveremos tambem as
-obras do collegio de Valencia e do de
-Cadiz...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_22"></a>[22]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(passando para o grupo da direita)</span> Sem esquecer,
-minha senhora, a casa dos altos
-estudos, a sua escola de instrucção superior,
-que virá a ser o santuario da verdadeira
-Sciencia.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Bem sabe que é esse o meu constante
-pensamento.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(passando tambem para a direita)</span> N’isso se
-pensa n’esta casa de noite e de dia.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Admiravel, minha querida amiga,
-admiravel! <span class="direction">(Levanta-se)</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(a Cuesta, que igualmente tem passado para a
-direita)</span> E agora, amigo Leonardo, que vamos
-fazer?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(sentando-se ao lado de Evarista, a quem propõe
-novas operações)</span> Por hoje nos limitaremos a
-metter algum dinheiro...</p>
-
-<p><span class="direction">(Pantoja, em pé, colloca-se á esquerda de Evarista)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_23"></a>[23]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(passeando na scena com Urbano)</span> Ha de permittir,
-querido Urbano, que, proclamando
-os merecimentos sublimes da senhora de
-Garcia Yuste, eu não deite em sacco roto os
-nossos: falo da minha mulher e de mim.
-Saberá que Virginia já fez a caridade de
-transferir para as Escravas de Jesus um
-bom terço da nossa fortuna...</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Das mais solidas da Andaluzia.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>E por nosso testamento deixamos tudo
-a essas senhoras, menos a parte destinada
-a certos encargos e aos parentes pobres.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Ora vejam lá!... Mas, segundo me
-constou, o Marquez aqui ha annos parece
-que não via com enthusiasmo illimitado
-que a piedade da marqueza, minha senhora,
-se tornasse tão angelicamente dispendiosa...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>É certo... mas converti-me. Abjurei
-todos os meus erros. A minha mulher
-catechisou-me.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_24"></a>[24]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Exactissimamente o que me succedeu
-a mim. Evarista virou-me com o forro de
-santo para fóra.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Para conservar a paz e estabelecer a
-harmonia conjugal, principiei por contemporisar,
-continuei contemporisando...
-Pois, meu amiguinho, contemporisação
-foi ella que, a pouco e pouco, cheguei ao
-que se vê: Sou um escravo... das <i>Escravas
-de Jesus</i>! E não me arrependo. Vivo
-n’uma placidez beatifica, curado de todas
-as inquietações da minha vida. E estou já
-agora a convencer-me de uma coisa: é que
-a minha mulher não sómente salva a sua
-alma, mas que me salva a minha tambem!</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Pois é o que eu egualmente recommendo
-cá em casa: que não se esqueçam,
-podendo tambem ser, de me salvar a
-mim!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Nós, homens, não temos iniciativa
-para nada.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Absolutamente para nada!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Verdade seja que ás vezes até o que se
-chama respirar nos prohibem!</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Prohibida a respiração... Conheço!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Mas vivemos em paz.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>E servimos a Deus sem esforço nenhum.
-Isso é que é.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>As nossas mulheres lá vão adeante de
-nós, por esse bemdito caminho da eternidade,
-pela gloria fóra; e podemos estar
-socegados, que nos não deixam na estrada.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Pois! é a sua obrigação.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Urbano?...</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(acudindo pressuroso)</span> Menina...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Põe-te á disposição de Cuesta para a
-liquidação e para a entrega aos padres.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Hoje mesmo. <span class="direction">(Cuesta levanta-se)</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>E outra coisa: faze-me favor de chegar
-ao jardim, e dizer a Electra que tem
-já tres horas de brincadeira.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(imperioso)</span> Que se venha embora. É brincar
-de mais.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Vou já. <span class="direction">(Vendo vir Electra)</span> Ella ahi vem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span></p>
-
-<h3>SCENA VII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA</span>, atraz d’ella <span class="allsmcap">MAXIMO</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(Entra a correr e a rir, perseguida por Maximo,
-a quem ganhou na corrida. O seu riso é de medo infantil)</span>
-Bem feito, que não me pilhas!...
-Enraivece-te, brutamontes!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(traz em uma das mãos varios objectos que indicará,
-e na outra um ramo de choupo, que esgrime
-como um chicote)</span> Eu te digo se te pilho ou não,
-selvagem!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(sem fazer caso dos que estão em scena, corre a
-casa com infantil ligeiresa e vae refugiar-se no vestido
-de D. Evarista, ajoelhando-se-lhe aos pés e
-abraçando-a pela cinta)</span> Estou salva!... Tia,
-ponha-o fóra!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Ah! já foges! já tens medo, minha
-menina!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Mas, filha da minh’alma! quando é que
-terás modos de senhora? E tu, Maximo,
-és tão creança como ella.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(mostrando as coisas que traz)</span> Vejam o que
-esse demonico me fez. Quebrou-me estes
-dois tubos... E olhem o estado em que
-poz estes papeis, contendo calculos que
-representam um trabalho enorme. <span class="direction">(Mostra
-os papeis suspendendo-os de alto)</span> D’este fez uma
-passarola; este deu-o aos pequenos para
-pintarem elephantes, burros e um couraçado
-a atirar balas a um castello...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Então ella foi ao laboratorio?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>E revolucionou os pequenos... Revolveram-me
-tudo!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(com severidade)</span> Isso, menina...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Electra!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(enthusiasmado)</span> Electra! Encanto de menina
-grande! Bemditas travessuras!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Eu não lhe quebrei os tubos. Não ha
-tal! Foi Pepito que lhe fez esse obsequio.
-Os papeis, sim senhor; fui eu que peguei
-n’elles, imaginando que não serviam para
-nada com os hediondos esgaravunhos que
-tinham.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Basta! haja pazes!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Pois vá lá, por esta vez... <span class="direction">(a Electra)</span>
-Perdôo-te. Deves-me a vida... Toma lá.
-<span class="direction">(Entrega-lhe a chibata; Electra recebe-a, e bate-lhe
-brandamente)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Toma agora tu! Esta é pelo que me
-disseste. <span class="direction">(Batendo-lhe com mais força)</span> Esta agora
-pelo que não quizeste dizer-me.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Disse-te tudo.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Moderação! juizo!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Que te disse elle?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Disse-lhe verdades uteis... Que aprenda
-por si mesma o muito que ainda ignora;
-que abra bem abertos esses grandes olhos
-e que os estenda pela vida humana, para
-que veja que nem tudo é alegria, que ha
-tambem no mundo deveres, desenganos
-e sacrificios...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Chega o lobishomem! <span class="direction">(Occupa o centro da
-scena, onde todos a rodeiam, menos Pantoja, que se
-colloca ao lado d’Evarista)</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Nem tudo applausos!</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>A severidade é precisa.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Em severidade ninguem me ganha...
-Dize: é ou não é verdade que sou severo,
-e que tu m’o agradeces? Confessa que me
-agradeces!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(batendo-lhe de leve)</span> Peste de sábio! Se isto
-fôsse um açoite verdadeiro, ainda com
-mais alma te batia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(risonho e encarinhado)</span> Electra, veja se me
-bate em mim tambem... Faça-me essa
-esmola!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Em si não, porque não tenho confiança...
-Só se fôr muito de levesinho...
-assim... assim... assim... <span class="direction">(Toca levemente
-no Marquez, em Cuesta e em Urbano)</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Melhor seria que tocasses piano para
-esses senhores ouvirem.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Quê, se não estuda nada! Só uma coisa
-se póde comparar á sua grande disposição
-artistica, é o seu espantoso desapego de
-todas as artes.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Que nos mostre as aquarellas e os
-desenhos. O Marquez vae vêr. <span class="direction">(Juntam-se
-todos em volta da meza, menos Evarista e Pantoja,
-que conversam áparte)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Ahi sim senhor! <span class="direction">(Procurando a pasta de
-desenhos entre os livros e as revistas que estão na mesa)</span>
-Agora se vae vêr se sou ou se não sou uma
-artista!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Forte gabarola!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(desatando as fitas da pasta)</span> Pois sim! tu a
-desfazeres e eu a augmentar-me veremos
-quem póde mais. Ora aqui está, e pasmem!
-<span class="direction">(Mostrando os desenhos)</span> Que teem que dizer a
-estes portentosos esboços de paizagem, de
-figura, de animaes? a estas vaccas que
-parecem pessoas? a estas naturezas mortas
-que parecem vivas? a estes rochedos
-que só lhes falta fallarem?! <span class="direction">(Todos se extasiam
-no exame dos desenhos, que passam de mão em mão)</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(tendo desviado a attenção do grupo do centro,
-entabolou conversa intima com Pantoja)</span> Tem razão,
-Salvador. Quando é que a não tem?
-Agora, no caso de Electra, o seu argumento
-é um clarão que nos illumina a
-todos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não vá crêr que seja a minha pobre
-intelligencia que projecta essa luz. Ella
-é apenas o resplendor de um fogo intenso
-que tenho em mim: a vontade! Por meio
-d’esta força, que devo a Deus, esmaguei o
-meu orgulho e emendei os meus erros.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Depois da confidencia que hontem á
-noite me fez é indiscutivel para mim o
-seu direito de intervir na educação d’essa
-cabeça de vento...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Para lhe ensinar o caminho da vida,
-para lhe mostrar o alto fito da nossa misera
-existencia na terra...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>E esse direito que indubitavelmente
-lhe cabe, implica deveres inilludiveis...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Quanto lhe agradeço que tão perfeitaimente
-o comprehenda, minha senhora e
-amiga da minha alma! Eu receava que a
-minha confidencia d’hontem, historia funesta
-que reveste de negro os melhores<span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span>
-annos da minha vida, me tivesse feito decaír
-da sua estima!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Não, meu amigo. Quem é que dentro
-da humanidade se póde considerar liberto
-da fraqueza humana? Em si o peccador
-regenerou-se, castigando a vida com as
-mortificações do arrependimento, e dignificando-a
-com a pratica da virtude.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>A divina tristeza, o amor da solidão,
-o convicto desprezo de todas as vaidades
-do mundo foram a salvação da minha
-alma. Pois bem: eu não estaria completamente
-purificado perante a minha consciencia
-se n’esta occasião não interviesse
-nos negocios da terra para salvar dos seus
-perigos a angelica innocencia d’essa menina,
-fatalmente destinada, se lhe não
-acudirmos, a precipitar-se pelo caminho
-em que se perdeu a sua desgraçada mãe.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>A minha opinião é que fale com ella...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>A sós.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Assim o entendo: a sós. Faça-lhe
-comprehender, o mais delicadamente que
-possa, a especie de auctoridade que
-tem...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>É todo o meu desejo esse... <span class="direction">(Continuam
-em voz baixa)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(no grupo do centro disputando com Maximo)</span>
-Deixa-te de sentenças, que tu d’isto não
-sabes nada! Então não querem vêr com
-a que elle se sae? que o passaro parece
-um velho pensativo, e que a mulher faz
-lembrar uma lagosta desmaiada...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não senhor... Eu acho que está muito
-bem feito!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Ás vezes tambem lhe dá para ahi!
-Quando menos pensa saem-lhe coisas prodigiosamente
-exactas.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>É certo que estas velhas arvores, atravez
-das quaes se descobre uma triste faixa
-de mar, ao longe...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>A minha especialidade aposto que
-ainda nenhum adivinhou qual é?... Pois
-são os troncos velhos, são os carcomidos
-muros em ruina. É singular que só pinto
-bem aquillo que não conheço: a tristeza, o
-passado, o môrto! A grande luminosidade
-radeante da alegria, da mocidade, não me
-sae! <span class="direction">(Com pena e assombro)</span> Sou uma grande
-artista para tudo que não sou eu!</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Tem graça.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Esta menina é optima!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>É scintillante!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Esperemos que lhe venha a reflexão
-tambem... a seu tempo...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(zombando de Maximo)</span> A reflexão! a gravidade!
-o tempo que ha de vir!... É a
-sombra que sempre me deita este cipreste!...
-Ora fica sabendo que eu hei de ter<span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span>
-tudo isso quando me dér para ahi... e
-mais do que tu, meu sabichão!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Veremos... veremos isso quando te
-chegar a vez!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(que não tem dado attenção ao que se passa no
-grupo)</span> Não posso occultar-lhe, minha
-senhora, que me desagrada muito a familiaridade
-de Electra com o sobrinho do
-seu marido.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Ha de se lhe corrigir. Mas no emtanto
-sempre tenha você em conta que este
-Maximo, que ahi vê, é um homem perfeitamente
-de bem e raramente serio...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Bem sei, minha amiga... Mas nos
-desfiladeiros da confiança excessiva resvalam
-os mais solidos e os mais firmes;
-uma triste experiencia m’o ensinou a
-mim!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(no grupo do centro)</span> Eu hei de tomar todo
-o juizo que eu quizer quando elle me fôr
-preciso. Ninguem se põe serio emquanto
-Deus não manda. Ninguem diz ai ai senão
-quando alguma coisa lhe doe.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Lá isso é verdade!</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Um dia aprenderá a ser pratica.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>De certo que sim! No dia em que
-venha Deus e me diga: «Menina: aqui
-tens a dôr, a duvida, a responsabilidade,
-o dever...»</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>E breve o dirá!...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Para que eu lhe responda!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Electra, minha filha, não disparates.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Tia, é este Maximo... <span class="direction">(passa para o lado
-de Evarista)</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>O Maximo tem razão...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Certamente que sim. <span class="direction">(Cuesta e Urbano
-passam tambem para o lado de Evarista e de Pantoja,
-ficando sós á esquerda Maximo e o Marquez)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Então, Marquez, qual é o resultado da
-sua primeira observação?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Encantou-me a rapariga. Vejo que
-você não exagerava nada.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>E por baixo do fascinante encanto
-d’essa innocencia não pôde a sua penetração
-descobrir alguma coisa...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Ah! sim... belleza moral, juizo pratico...
-Ainda não tive tempo para isso...
-Continúo a observar...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>É que eu—você sabe—consagrado ao
-estudo desde muito moço, mal conheço
-o mundo, e os caracteres humanos são
-para mim uma escripta em que apenas
-soletro.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Pois esse, meu amigo, é o unico dos
-livros em que eu leio de cadeira.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Quer vir a minha casa?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Com muito gosto. É possivel que minha
-mulher me reprehenda se souber que
-eu visito uma officina de electrotechnia,
-uma escandalosa fabrica de luz. Mas não
-será de uma severidade que eu não aguente.
-Posso aventurar-me... Voltarei depois<span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span>
-aqui, e com o pretexto de admirar a menina
-ao piano falarei com ella e proseguirei
-os meus estudos.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(alto)</span> Vem, Marquez?</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Então assim nos deixam?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Vamos vêr o laboratorio do nosso
-amigo.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Marquez, estou muito sentida, mas
-muito, pela sua longa ausencia. Quererá
-descarregar-se de tantos peccados velhos
-almoçando hoje comnosco? É o seu castigo...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Acceito-o em desconto da minha
-culpa e beijo a mão que tão docemente
-me corrige.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Maximo, tu vens tambem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Se me deixarem livre, virei, de certo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não venhas, homem de Deus, não venhas!
-<span class="direction">(Com alegria que não dissimula)</span> Vens?
-Dize que sim! <span class="direction">(Corrigindo-se)</span> Não, não: dize
-que não.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Descança que te não livras de mim!
-Á força has de ganhar juizo...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E has de perdêl-o tu, caturra velho!
-<span class="direction">(Segue-o com a vista até que sae. Saem Maximo e o
-Marquez pelo jardim. José entra pelo fundo)</span></p>
-
-<h3>SCENA VIII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, EVARISTA, URBANO, PANTOJA,
-CUESTA E JOSÉ</span></p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p><span class="direction">(annunciando)</span> A senhora Superiora de
-S. José da Penitencia.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Ah! a nossa bôa soror Barbara da
-Cruz...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Que entre para aqui. <span class="direction">(Levanta-se)</span> Espera!
-Iremos recebêl-a ao salão.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Feliz opportunidade! escuso de ir ao
-convento.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Electra, estudar. <span class="direction">(Indica-lhe a sala proxima)</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(despedindo-se)</span> Eu saio e volto logo.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Adeus.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(áparte, referindo-se a Electra)</span> Deixam-a só?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(a Electra)</span> Menina! Cultive com esmero
-a grande arte sagrada. Applique todo o
-seu talento ao estudo de Bach... para
-que se compenetre do admiravel estylo
-religioso. <span class="direction">(Saem todos menos Electra)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span></p>
-
-<h3>SCENA IX</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA</span>, pouco depois <span class="allsmcap">CUESTA</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(entoando uma psalmodia de egreja, reune os desenhos
-e recolhe-os nas suas pastas)</span> Bach... para
-que me compenetre do estylo religioso...
-é bom!... É bom, e é engraçado. <span class="direction">(Canta)</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(entra pelo fundo, recatando-se)</span> Só...!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(canta algumas notas liturgicas. Vendo Cuesta)</span>
-Oh! D. Leonardo...! Cuidei que tinha
-sahido...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(com timidez)</span> Sahi mas voltei, minha
-querida menina. Preciso muito de lhe
-falar.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(um poucochinho assustada)</span> A mim!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>É um assumpto delicado, extremamente
-delicado... <span class="direction">(Com fadiga e difficuldade
-em respirar)</span> Perdoe-me. Padeço do coração...
-não posso estar de pé. <span class="direction">(Electra chega-lhe
-uma cadeira. Senta-se)</span> Tão delicado este
-assumpto, que não sei por onde comece...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Deus meu, que é?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(animando-se)</span> Electra, eu conheci sua
-mãe.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Ah! a minha mãe foi bem desgraçada...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Que entende a menina por ser desgraçada?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Eu... entendo que viveu entre pessoas
-que a não deixaram ser tão bôa como
-ella queria.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Ahi está uma profunda verdade que,
-sem querer, a menina disse... Lembra-se
-da sua mãe?... Pensa algumas vezes
-n’ella?...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>A minha mãe é para mim uma recordação,
-vaga sim, mas de uma doçura
-incomparavel... uma querida imagem
-que nunca me abandona... Guardo-a
-viva no meu coração, que não é mais que
-uma grande memoria, no fundo da qual
-a procuram sempre os meus olhos anciosos
-de vêl-a. Minha pobre mamãsinha!
-<span class="direction">(Leva o lenço aos olhos. Cuesta suspira)</span> Diga-me,
-D. Leonardo, quando você conheceu minha
-mãe era eu muito pequenina...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Era um miminho. Faziamos-lhe cócegas
-para a vêr rir... o seu riso parecia-me
-o encanto da natureza, a alegria do
-universo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Ahi está, D. Leonardo, ahi está porque
-eu sahi tão doida, tão travêssa, tão desparafusada...
-você alguma vez me teria
-pegado ao collo...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Innumeraveis vezes.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(sorrindo sem ter acabado de enxugar as lagrimas)</span>
-E eu não lhe puxava pelos bigodes?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Ás vezes com tanta força que me fazia
-doer.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E de certo então me batia nas mãos...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Devagarinho, sim.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Pois ha de crêr que talvez que ainda
-me doam tambem?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(impaciente por entrar em materia)</span> Mas vamos
-ao caso... E antes de mais nada a
-advirto, minha querida Electra, que é
-muito reservado o que lhe vou dizer...
-para nós ambos unicamente.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Mette-me medo...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Não, não é uma coisa que assuste...
-Veja em mim a menina um amigo, o melhor
-de todos os seus amigos; veja n’este
-acto o interesse mais puro e o mais elevado
-sentimento...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(confusa)</span> Sim, não duvído, mas...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Eis aqui porque dou este passo... Com
-quanto não seja ainda muito velho, não
-me sinto com corda para longo tempo de
-vida. Viuvo ha vinte annos, não tenho
-mais familia que a minha filha Pilar, já
-casada e longe. Estou quasi só n’este mundo,
-tenho o pé no estribo para marchar
-para o outro... E a minha solidão, ai!
-parece empurrar-me e dar-me pressa...
-<span class="direction">(Com grande difficuldade de expressão)</span> Mas antes
-de partir... <span class="direction">(Pausa)</span> Electra, quanto pensei
-em si antes de a trazerem para Madrid!...
-E desde que chegou, Deus meu,
-senti—como lh’o direi?... Imagine o<span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span>
-mais profundo, o mais puro affecto de um
-coração, envolvido nos gritos de uma consciencia...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(aturdida)</span> Que grave coisa deve ser essa,
-a consciencia! A minha é, por ora, como
-um menino que dorme no seu berço.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(com tristeza)</span> A minha é velha e memoriosa.
-Nem dorme, nem me deixa dormir,
-assignalando-me sempre, a grandes brados,
-os erros graves da minha vida.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Erros graves na vida... você, tão
-bom...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Bom? Sim... talvez... Bom mas peccador...
-Emfim deixemos os erros, tratemos
-dos seus resultados. Eu não quero
-de nenhum modo que a menina se possa
-achar ao desabrigo. Não tem fortuna
-propria, e é duvidoso que a protecção de
-Urbano e d’Evarista seja persistente e
-constante. Como havia de consentir eu
-que um dia se visse pobre, desamparada?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(com penosa lucta entre o seu conhecimento e a
-sua innocencia)</span> Eu não sei se o entendo...
-não sei se devo entendel-o.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>O mais apropositado será que me entenda,
-e não o diga; que acceite a minha
-protecção, e a não agradeça. Vão juntos
-o meu dever e o seu direito. Por culpa minha,
-Electra, não se quebrará o fio que une
-cada creatura na terra, com as creaturas
-que foram e com as que ainda vivem...
-E se hoje me determino a resolver este
-caso é porque... porque ha uns tempos
-me assalta o terror das mortes subitas.
-Meu pae e meu irmão morreram como
-fulminados de raio. A lesão cardiaca, destruidora
-da familia, sinto-a bem aqui:
-<span class="direction">(indicando o coração)</span> é um triste relogio que
-me conta as horas e os dias. Não posso
-adiar mais... Que me não colha a morte
-deixando abandonada no mundo a sua
-preciosa existencia! E concluo aqui, pedindo-lhe
-que tenha como assegurado na
-vida um bem estar modesto...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Um bem estar modesto... Eu?...
-para mim?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>O sufficiente para viver n’uma decorosa
-independencia...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(confusa)</span> Mas eu, que merecimentos tenho?...
-Perdôe-me, se não posso acabar
-de me convencer...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Mais tarde o convencimento virá.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E por que não fala n’isso a meus
-tios?...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(preoccupado)</span> Porque... A seu tempo o
-saberão. Por agora ninguem mais deve
-ter conhecimento da resolução que tomei.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Mas...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(commovido, levantando-se)</span> E agora, Electra,
-não quererá mal a este pobre enfermo,
-que tem contados os seus dias?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Querer-lhe mal!? Se é tão facil e tão
-doce para mim o querer bem! Mas não
-fale em morrer, D. Leonardo.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Completamente me consola saber que
-chorará talvez por mim...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não faça com que eu chore já...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(apressando a sahida para vencer a sua commoção)</span>
-E agora, minha querida filha, adeus.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Adeus... <span class="direction">(retendo-o)</span> E que nome lhe
-devo dar?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>O de amigo me basta. Adeus. <span class="direction">(Arranca-se
-para saír pelo fundo. Electra segue-o com a vista
-até que desappareça)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span></p>
-
-<h3>SCENA X</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E O MARQUEZ</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(meditativa)</span> Meu Deus, que devo pensar?
-Aquellas meias palavras parece que ainda
-me dizem mais do que palavras completas.
-Mãesinha da minha alma!... <span class="direction">(O marquez
-entra pelo jardim e adeanta-se devagar)</span> Ah! O
-snr. Marquez!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Assustei-a?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não: surprehendeu-me apenas... Se
-vem para me ouvir tocar, aviso-o de que
-perdeu a viagem. Eu não toco hoje.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Tanto melhor: assim fallaremos...
-Mal lhe sou apresentado entro em cheio
-na admiração das suas prendas, e, conhecida
-uma parte do seu caracter, vivamente
-desejo conhecel-a mais... Vae estranhar
-esta curiosidade, e julgar-me importuno...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não acho. Eu sou curiosa tambem, e
-tanto que desde já me permitto fazer-lhe
-uma pergunta: é amigo de Maximo?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Estimo-o e admiro-o muito... Coisa
-rara não é verdade?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Coisa naturalissima, me parece.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Tão moça como é, talvez que se não
-dê bem conta das causas da minha amisade
-com o <i>magico prodigioso</i>... Vamos
-a vêr se me faço entender.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Explique-m’o bem.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Senhorita, a sociedade que eu frequento,
-o circulo da minha propria familia
-e os habitos da minha casa produzem em
-mim um effeito de asphyxia, de lento
-ameaço apopletico. Quasi que sem dar<span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span>
-por isso, por simples impulso instinctivo
-de conservação, lanço-me de vez em quando
-á procura de um pouco d’ar respiravel.
-Os meus olhos, velhos e nostalgicos, voltam-se
-então avidamente para a sciencia
-e para a natureza... Maximo, para mim,
-é um sanatorio.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Quer-me parecer que vou começando
-a entendêl-o, e á sua doença de confinado,
-com faltas d’ar e de vida...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Prova de que raciocina. Devo tambem
-dizer-lhe que tenho por esse homem um
-interesse immenso.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Estima-o devidamente, admira-o pelas
-suas altas qualidades...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>E lastimo-o pelo seu infortunio.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(surprehendida)</span> Maximo, desafortunado?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Que desdita maior que a da solidão
-em que elle vive? A viuvez prematura
-submergiu-o nos estudos mais profundos
-e mais absorventes, que podem comprometter-lhe
-a saude e a vida. É um dos
-meus receios.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Tem os filhos, que o acompanham e a
-consolam... O Marquez viu-os hoje... Que
-lindas creaturinhas! O maior, que vae fazer
-agora cinco annos, é um prodigio de intelligencia.
-O pequenito, de dois annos, é o
-mais engraçado sujeitinho de todo o mundo.
-Eu adoro-os, sonho com elles, e gostava,
-por elles, de ser creada de meninos.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>O pobre Maximo, aferrado aos seus
-estudos, não pode attendêl-os como devia
-ser.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>É o que eu digo tambem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Claro! Maximo do que precisa é de
-uma mulher... Aqui principiam as difficuldades
-e as dúvidas. Por mais que olhe
-e que procure, não vejo, não encontro a
-mulher digna de repartir a sua vida com
-a do grande homem.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não a encontra, está visto, porque a
-não ha, não a ha. Para Maximo deve-se
-arranjar uma mulher, principalmente, de
-muito juizo...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Primeiro que tudo, isso: de muito juizo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>O contrario de mim, que, não tenho
-nenhum, nenhum, nenhum!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não direi eu isso...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Que, ainda assim, quando lhe digo tolices
-e lhe chamo brutamontes, tonto e sabichão,
-não vá o Marquez pensar que o
-digo a sério. É brincadeira!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Tambem me queria parecer que não
-era uma convicção philosophica.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Brincadeira descabida, talvez, porque
-elle é seriissimo... E sobre esse ponto
-gostaria de ouvir o seu conselho: acha que
-eu deva tornar-me séria?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Nunca! Cada creatura é como Deus a
-quiz fazer. Ninguem precisa de ser serio
-para ser bom.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Pois veja lá! eu que não sei nada, tinha
-pensado isso mesmo!</p>
-
-<h3>SCENA XI</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA</span> pelo fundo</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(do fundo, áparte)</span> E atreve-se a pôr os
-olhos peçonhentos n’uma tal flôr de candura,
-este libertino, velho e incorrigivel!
-<span class="direction">(Adeanta-se lentamente)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(dando por Pantoja, áparte)</span> Cae-nos o apagador
-em cima. Apaguemo-nos!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>O snr. Marquez tinha vindo para me
-ouvir tocar, mas eu estou muito estupida
-hoje. Ficou para outra vez.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>O meu caro snr. Pantoja sabe que Beethoven
-é a minha paixão. Como me tinham
-dito que Electra o interpreta bem, esperava
-ouvir-lhe a <i>Sonata pathetica</i> ou o
-<i>Clair de lune</i>... Puzemo-nos a conversar,
-e, visto que não é occasião agora...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(com desabrimento)</span> A hora do estudo acabou.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(recobrando o seu papel de sociedade)</span> Outro
-dia será! Virginia e eu, meu presado
-snr. Pantoja, muito estimariamos que quizesse
-honrar-nos com os seus conselhos
-relativamente ao <i>Recolhimento das Escravas
-de Jesus</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Sim senhor, hoje irei vêr a marqueza,
-e fallaremos...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Nas <i>Escravas</i> a encontrará o meu
-illustre amigo toda a santissima tarde...
-E como creio que sou demais... <span class="direction">(Movimento
-de retirar-se)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>O snr. Marquez não estorva.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Vou-me com a musica... até o laboratorio
-de Maximo.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Vá, vá, que ha de gostar!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Até ao almoço, meu muito respeitavel
-amigo.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Guarde-o Deus. <span class="direction">(Sae o marquez pelo jardim)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span></p>
-
-<h3>SCENA XII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E PANTOJA</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(vivamente)</span> Que é que elle lhe dizia? que
-lhe estava contando esse depravador de
-innocencias?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Nada: historias vagas, anecdotas para
-rir...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>As taes historias! Desconfie sempre
-das anecdotas jocosas, e dos narradores
-amenos, que escondem entre suavidades e
-fragrancias de jasmins uma ponta envenenada
-de estilete... Estou a achal-a perplexa,
-enleada, abstrahida, quasi medrosa,
-como quem acaba de sentir pela macia
-relva matisada de lirios um roçagar de
-reptil.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Ah! não.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Essa inquietação resultante das conversações
-perturbadoras ha de acalmal-a
-a minha palavra serena e benefica.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Vejo que é poeta, snr. de Pantoja; e
-dá-me prazer ouvil-o.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(indica-lhe uma cadeira, e sentam-se ambos)</span>
-Minha presada filha, vou dar-lhe a explicação
-da intensa ternura que me inspira...
-Terá dado por isso?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Tenho.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Tal explicação equivale á revelação
-de um segredo...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(muito assustada)</span> Deus do ceu! estou a
-tremer...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Socegue, minha filha... E ouça primeiro
-a parte d’esta confidencia mais dolorosa
-para mim. Fui muito mau, Electra.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Como assim, com a fama de santidade
-que tem!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Fui mau—digo-lh’o eu—em certa
-occasião da minha vida. <span class="direction">(Suspirando)</span> Já lá
-vão alguns annos.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(vivamente)</span> Quantos? Poderei eu lembrar-me
-ainda do tempo da sua maldade,
-snr. de Pantoja?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não pode. Quando eu me depravei,
-quando me afundi no lodaçal do peccado,
-não tinha a menina ainda nascido...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Mas nasci afinal...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(depois de uma pausa)</span> É certo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Nasci... e d’ahi? Por quem é, abrevie
-essa historia...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>A sua perturbação me indica que devemos
-desviar os olhos do passado. A sua
-condição presente socega-me.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Porquê?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Porque ha de ter um amparo, um arrimo
-para toda a vida. Nada mais ineffavel
-para mim do que a fortuna de velar pelo
-destino de uma creatura tão bella e tão
-nobre! Quero consagrar-me a defendel-a
-de todo o mal, a guardal-a, a acalental-a,
-a dirigil-a, para que sempre se conserve
-incolume, intemerata e pura; para que
-nunca lhe toque nem a mais tenue sombra,
-nem o mais afastado respiro do mal. É
-hoje uma menina que parece um anjo.
-Não me conformo com que unicamente o
-pareça; quero que para mim o seja.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(friamente)</span> Que eu seja um anjo de sua
-composição e propriedade sua?... E parece-lhe
-que se deva considerar como
-um rasgo de caridade extraordinaria e
-sublime esse fervoroso desejo que mostra
-de ter assim, um anjo de seu?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não é caridade: é obrigação. Tu—entendes?—tens
-o direito de ser amparada
-por mim; eu tenho o dever de amparar-te.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Tamanha confiança... tão severa auctoridade...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>A minha auctoridade provém do meu
-entranhado affecto, assim como do calor
-do sol provém a força da terra. A minha
-protecção é um producto da minha consciencia.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(levanta-se muito agitada, e afastando-se de Pantoja,
-áparte)</span> Virgem mãe santissima! dois
-protectores! e um que precisa de opprimir
-para proteger! <span class="direction">(alto)</span> Olhe: eu admiro-o
-e respeito muito as suas virtudes. Emquanto
-á sua auctoridade—perdoe-me o
-atrevimento de lh’o dizer—não a comprehendo
-bem claramente, e parece-me
-que só a minha tia é que devo submissão e
-obediencia.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Vem a ser a mesma coisa. Evarista
-faz-me a honra de me consultar em
-tudo. Obedecer-lhe a ella é submetter-te
-a mim.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Então tambem a tia me quer para
-anjo d’ella? ainda por cima de eu já estar
-para anjo do snr. de Pantoja?!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Anjo de todos, de Deus principalmente.
-Convence-te, filha da minha alma, que
-vieste a bôas mãos, e que só te cumpre
-deixar-te guiar na virtude e na purificação.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(com displicencia)</span> Pois, se querem purificar-me,
-purifiquem-me... Mas estão bem
-certos de que eu seja impura e má?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Poderias vir a sel-o. Melhor se vence
-o mal prevenindo que remediando.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Pobre de mim! <span class="direction">(Levantando os olhos em extase,
-suspira. Pausa)</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Porque suspiras assim?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Deixe-me aliviar o meu triste coração.
-Pesam-me demais em cima d’elle as consciencias
-dos outros.</p>
-
-<h3>SCENA XIII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, PANTOJA E EVARISTA</span>, pelo fundo</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Amigo Pantoja, a Madre Barbara da
-Cruz espera-o para se despedir e receber
-as suas ordens.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Ah! não me lembrava... Vou immediatamente.
-<span class="direction">(Áparte a Evarista)</span> Falamos.
-Vigie. Acautelemo-nos! <span class="direction">(Antes de saír Pantoja,
-pelo fundo, entram o Marquez e Maximo pela
-direita)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span></p>
-
-<h3>SCENA XIV</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, EVARISTA, MARQUEZ E MAXIMO</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Tardamos?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Não. Estiveram no laboratorio?...
-<span class="direction">(Formam-se dois grupos: Electra e Maximo á esquerda;
-Evarista e o Marquez á direita.)</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Lá estivemos. É um prodigio este
-homem... <span class="direction">(Segue falando no que viu)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(suspirando)</span> Sim, Maximo, preciso de
-consultar-te sobre um caso grave.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(com vivo interesse)</span> Conta depressa!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(receosa olhando para o outro grupo)</span> Impossivel
-agora.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Quando então?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não sei... Não sei quando t’o poderei
-dizer... Não se resume em quatro
-palavras...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Pobre rapariga!... O que eu te predisse...
-Chegam as seriedades da vida,
-os deveres, as amarguras...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Talvez.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(olhando-a fito, com grande interesse)</span> Na expressão
-da tua physionomia ha um veu de
-tristeza e um estremecimento de susto...
-Desconheço-te.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Querem annular o que eu sou, e reduzir-me
-a outra coisa... a uma coisa angelical
-e celeste, que não sei o que é!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(vivamente)</span> Por Deus, não consintas isso!
-Defende-te, Electra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Que me aconselhas?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(sem vacillar)</span> A independencia.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>A independencia!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Sim, a emancipação... N’uma palavra:
-Insurge-te!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Queres dizer que faça quanto me vier
-á cabeça, que danse, que pule, que corra
-pelo parque emquanto me appeteça, que
-entre na tua casa como em paiz conquistado,
-que conspire com os teus pequenos,
-que fuja com elles para o jardim, para
-longe, para onde eu quizer?...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Tudo!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Olha o que dizes!?...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Digo-te isto.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Mas é o contrario que me tens recommendado
-sempre!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(olhando-a fixamente)</span> Na tua cara, no vinco
-dos teus sobrolhos, na tremura da tua
-bocca, eu vejo que estão radicalmente
-transformadas as condições da tua vida.
-Tu agora tens medo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(medrosa)</span> Tenho, sim.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Tu... <span class="direction">(Hesitando no verbo que ha de empregar.
-Vae a dizer amar, mas não ousa)</span> Tu queres
-ardentemente que alguma coisa succeda...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(com effusão)</span> Quero. <span class="direction">(Pausa)</span> E dizes-me
-tu que contra o medo... a insubordinação.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Sim: solta livremente todos os teus
-impulsos para que quanto ha em ti se manifeste,
-e se saiba quem tu és.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>O que eu sou? Queres conhecer...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>A tua alma...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Os meus segredos...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>A tua alma... N’ella se comprehende
-tudo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(notando que Evaristo a observa)</span> Basta...
-Olham para nós.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span></p>
-
-<h3>SCENA XV</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS, URBANO E PANTOJA</span>, pelo fundo</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Almoça-se?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(a Evarista, suffocado, vendo Electra com Maximo)</span>
-Então assim a deixa só com Mephistopheles?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Não tenha sustos, Pantoja.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(rindo)</span> Não tem de que os ter. Esse
-Mephistopheles é um santo. <span class="direction">(Dá o braço a
-Evarista)</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(imperiosamente, pegando na mão de Electra para
-a conduzir)</span> Commigo! <span class="direction">(Electra, andando com
-Pantoja, volta a cabeça para olhar para Maximo)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(olhando para Electra e para Pantoja)</span> Comtigo?...
-Havemos de vêr com quem!
-<span class="direction">(Maximo e Urbano são os ultimos que saem)</span></p>
-
-<p class="titlepage smaller">FIM DO PRIMEIRO ACTO</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">ACTO SEGUNDO</h2>
-
-</div>
-
-<div class="act">
-
-<p class="main">Scenario do primeiro acto</p>
-
-</div>
-
-<h3>SCENA I</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">EVARISTA, URBANO</span>, á banca, despachando negocios,
-<span class="allsmcap">BALBINA</span>, que serve á snr.ª de Yuste uma taça de caldo</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(dispondo-se a escrever)</span> Que é que se diz
-ao reitor do Patrocinio?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>O que se combinou: approvamos a
-planta, e acceitamos o orçamento. Depois
-nos entenderemos com o empreiteiro.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Já sabes a quanto monta a obra...
-<span class="direction">(Lendo n’um apontamento)</span> Trezentas e vinte e
-duas mil pezetas...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Bem. Ainda nos sobeja dinheiro para
-a continuação do Soccorro. <span class="direction">(A Balbina, que
-recolhe a taça)</span> Não te esqueças do que te
-incumbi.</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>Continúo vigiando, como a senhora
-determinou. Mas este recreio a que a menina
-agora se entrega não me parece de
-cuidado. Tantas cartas de namorados juntas
-são carteio de mais. A menina, emquanto
-a mim, para o que puxa não é
-para a tolice, é para a risota.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Mas quem traz todas essas cartas que
-ella recebe?</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>Isso não sei... Mas ando de pedra no
-sapato com a Patros.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Espreita-as, e informa-me.</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>Fica ao meu cuidado, deixe estar! <span class="direction">(retira-se
-Balbina)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span></p>
-
-<h3>SCENA II</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E MAXIMO</span>, apressado, com plantas e papeis</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Estórvo?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Não, filho, podes entrar.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>São dois minutos, tia.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Vens do ministerio?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Venho da conferencia com os bilbaínos.
-Tenho hoje um dia de prova tremenda...
-Immenso que conferir, immenso
-que falar, immenso que correr, e, para me
-não faltar mais nada, a casa toda revirada
-com o debaixo para cima!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Mas, homem, que foi isso?! Diz a Balbina
-que despediste as creadas...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Pessoal infame, tia! Tres ladras! Pul-as
-na rua. Estou com o ordenança e com a
-ama. Que lindo arranjo, hein?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Vem comer cá.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Comer cá é bom de dizer. A tia fala
-bem! E os pequenos com quem ficam?
-Se os trago põem-lhe a cabeça em agoa,
-desarranjam-lhe tudo...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Não tragas. Eu adoro as creanças.
-Mas têl-as commigo, não. Revolvem
-tudo, sujam tudo! corridas, risadas, cantatas,
-berratas, guinchos, patadas medonhas
-no chão! fazem-me doida. E mêdo
-que caiam, que se mólhem, que as arranhem
-os gatos, que rachem as cabeças,
-que esburaquem os olhos uns dos outros.
-Nada... Não quero responsabilidades.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Eu o que queria é que a tia me mandasse
-uma cosinheira.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Manda-se-te para lá a Henriqueta.
-Urbano, toma nota.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Bom. <span class="direction">(Dispondo-se a partir)</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Olha lá! os teus negocios parece que
-vão bem... Já sabes o que te tenho dito:
-Se o <i>magico prodigioso</i> precisar de dinheiro
-para a implantação dos seus inventos,
-não tem mais do que dizel-o...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Obrigado, tia... Tenho á minha disposição
-quanto dinheiro queira... Assim
-eu tivesse uma creatura que me soubesse
-fazer sôpa!</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Esse senhor dentro de poucos annos
-ha de estar muito mais rico do que nós.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Isso bem pode ser que sim.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Obra do seu talento.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(com modestia)</span> Não: do trabalho, da perseverança,
-da paciencia...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Nem me digas! Trabalhas monstruosamente.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Quanto é preciso que trabalhe, por
-obrigação, por consolação, por prazer, e,
-a final, por enthusiasmo adquirido tambem.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Passa a monomania isso. É uma borracheira
-de estudo.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(grave)</span> Não: é a ambição, a maldita
-ambição, que a tantos fascina e a tantos
-deita a perder.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Ambição legitima e indispensavel á
-humanidade. Imagine a tia...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(cortando-lhe a palavra)</span> É a ancia das riquezas,
-para saciar com ellas a avidez do
-goso. Gosar, gosar, gosar: isso unicamente
-quereis, e para isso vos consumis, sacrificando
-o estomago, o cerebro, o coração e
-a propria alma, sem vos lembrardes da
-inanidade das coisas da terra e da brevidade
-da vida. Rapidamente nos vamos, e
-tudo cá fica.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(impaciente por sahir)</span> Tudo, menos eu, que
-me safo já.</p>
-
-<h3>SCENA III</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E JOSÉ</span></p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p><span class="direction">(annunciando)</span> O snr. marquez de Ronda.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(detendo-se)</span> Esperarei já agora para o
-vêr.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(recolhendo os papeis)</span> Não manda Deus
-que trabalhemos hoje.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Adivinho ao que vem.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Que entre, José, que entre! <span class="direction">(José sae)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Vem convidal-os para a inauguração
-da nova <i>Irmandade da Escravidão</i> fundada
-por Virginia. Disse-m’o hontem á
-noite.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Bem sei... Então é hoje?</p>
-
-<h3>SCENA IV</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">EVARISTA, URBANO, MAXIMO E O MARQUEZ</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(saudando com affabilidade)</span> Querida amiga...
-Urbano... <span class="direction">(A Maximo)</span> Olá! não
-esperava encontrar o magico...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>O magico diz-lhe adeus e some-se.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Um momento. <span class="direction">(Retendo-o)</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Sim, Marquez: iremos.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Já sabem?</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>A que horas?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Ás cinco em ponto. <span class="direction">(A Maximo)</span> A si
-não lhe digo porque sei que não tem
-tempo.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Desgraçadamente. Segue-se então que
-o não espero hoje.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Como, se temos essa festa rija de religião
-e de mundanismo! mas lá vou á
-noite.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(levemente zombeteira)</span> Já cá se tem notado,
-com muito regosijo é claro, a frequencia
-das visitas do Marquez á caverna do nigromante.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>O Marquez dá-me muita honra com a
-sua amizade e com o interesse que toma
-pelos meus estudos.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Veio-me agora o delirio das maquinas
-e dos phenomenos electricos... Caturrices
-de velho!</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(a Maximo)</span> Parabens pelo discipulo.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Deus sabe... <span class="direction">(Maliciosa)</span> Deus sabe
-quem será o mestre e quem o alumno!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>A respeito do mestre, sinto que elle
-esteja presente porque isso me priva de
-applicar aos seus meritos todas as mordeduras
-que a inveja me inspira.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Retira-te, Maximo; vamos dizer mal
-de ti.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Repaste-se a má lingua! Adeusinho
-todos. Adeus, tia.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Vae com Nossa Senhora!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(a Maximo que sae)</span> Até á noite, se me
-deixarem. <span class="direction">(A Evarista)</span> Extraordinario homem!
-Sempre o admirei muito, mas agora
-que tenho apreciado mais de perto todas
-as suas qualidades, sustento que não ha
-outro no mundo como este seu sobrinho.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>No terreno scientifico.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Em todos os terrenos, senhora de
-Yuste. Pois quê?!...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>De certo que como intelligencia...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(com enthusiasmo)</span> Como intelligencia,
-como caracter, como coração, como tudo...
-Quem é que é melhor?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(sem querer empenhar-se n’uma discussão delicada)</span>
-Bem, bem, Marquez... <span class="direction">(Variando de tom)</span> É
-então ás cinco, disse...?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Em ponto. Contamos tambem com
-Electra.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Não sei se a leve...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Ora essa! Tenho incumbencia especialissima
-de conseguir a presença da senhorita
-Electra n’esta solemnidade, e já
-prometti que sim. Virginia deseja muito
-conhecêl-a.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Á vista d’isso...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não me deixem ficar mal!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Bem: conte com ella.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Teremos muita gente, toda a nossa
-roda...</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Oh! vae estar brilhante com certeza.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Com que então, até já. Tenho de ir a
-casa de Otumba, e passarei por cá na volta.
-<span class="direction">(Ouve-se a voz de Electra pela esquerda, chalrando e
-rindo alegremente. O marquez pára a escutal-a)</span></p>
-
-<h3>SCENA V</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E ELECTRA</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Pois sim, sim... rica, minha riquinha!
-mais um beijo... Que doida que és!
-que doida que sou! mas entendemo-nos
-ambas. <span class="direction">(Apparece pela esquerda com uma grande
-e rica boneca, que beija e que embala. Detem-se envergonhada)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Que vem a ser isto, rapariga?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não lhe ralhe.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Mademoiselle Lulu e eu damos á lingoa,
-contamo-nos coisas.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(ao Marquez)</span> Anda desatinada hoje.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(afastando-se, diz segredinhos á boneca. Os outros
-olham)</span> Que linda que és, Lulu! Mas
-elle, ainda mais lindo que tu. Que feliz
-seria o meu amor com elle e comtigo!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Sempre folgazã, pelo que vejo...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Pelo contrario: desde hontem n’uma
-tristeza que nos dá cuidado.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Tristeza? idealidade antes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>E, agora, está vendo...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(carinhoso, dirigindo-se para ella)</span> Rica menina!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(approximando a cara da boneca da do marquez)</span>
-Vamos, Mademoiselle, não se me faça
-môna: dê um beijinho a este senhor. <span class="direction">(Antes
-que o marquez beije a boneca dá-lhe um leve carolo
-com a cabeça de Lulu)</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>A Lulu não beija: a Lulu marra. <span class="direction">(Acariciando
-o queixinho de Electra)</span> Por isso gósto
-mais da sua amiguinha do que d’ella.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>De miôlo póde crêr que tanto tem uma
-como outra.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Mas que conversas tu com a boneca?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Desafógo com ella, conto-lhe as minhas
-penas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Penas, tu?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Penas eu, sim, pois quê?... E quando
-nos vê muito caladas ambas é porque
-nos estão lembrando as nossas coisas passadas...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Ah! se a interessa o passado já é um
-signal de que pensa pela sua cabecinha.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>E que coisas passadas são essas que
-dizes?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Digo do tempo em que nasci. <span class="direction">(Com gravidade)</span>
-O dia em que eu vim ao mundo foi
-um dia muito triste, pois não foi? Lembra-se
-aqui alguem de como foi esse dia?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Filha, que tontices que dizes! E não
-tens vergonha de que o snr. Marquez te
-veja tão adoidada?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Creia, tia, que não ha doidos tão doidos,
-nem creanças tão creanças, que não
-tenham sua razão para dizer o que dizem
-e para fazer o que fazem.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Muito bem pensado.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Qual é então a tua razão para esses
-brinquedos tão fóra da tua edade?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(olhando para o marquez, que sorri ao seu lado)</span>
-Isso não posso contar agora.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Quer dizer que me retire.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Electra!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Eu ia já despedir-me... com bem
-pena de que as minhas occupações me
-privem de convivencia tão interessante.
-Adeus, senhorita; volto ás cinco para a
-levar commigo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>A mim!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Sim; vamos á inauguração das <i>Escravas</i>.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E eu tambem?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Podes-te ir vestindo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(assustada)</span> Ha de estar muita gente...
-A gente mette-me medo. Gósto mais de
-ficar só.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Estaremos em familia. E com isto me
-despégo.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Até logo, Marquez.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(a Electra)</span> Menina, ás cinco; aprendámos
-a ser pontuaes. <span class="direction">(Sae pelo fundo com Urbano)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span></p>
-
-<h3>SCENA VI</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">EVARISTA E ELECTRA</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Explicarás agora a extranha maluquice
-em que andas.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Eu lhe digo, tia: tenho uma dúvida...
-como direi?... um problema...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Problemas, tu!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Exactamente, no plural, problemas...
-porque é de mais d’um que se trata.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Valha-te Nossa Senhora!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E quero vêr se m’os resolve...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Quem?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Uma pessôa que já não vive.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Que dizes?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Minha mãe. Não se afflija... Minha
-mãe pode-me dizer o que eu pretendo...
-e aconselhar-me. A tia não acredita que
-as pessôas do outro mundo podem vir a
-este? <span class="direction">(Gesto de incredulidade de Evarista)</span> Não
-acredita. Acredito eu. Acredito porque o
-tenho visto. Eu tenho visto minha mãe...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Virgem Maria! como tens essa cabeça!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>... Quando era muito pequenina, assim,
-d’este tamanho...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Nas Ursulinas de Bayona?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Sim... Minha mãe apparecia-me.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Em sonhos, naturalmente.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não, não: estando eu acordada, tão
-bem acordada como estou agora. <span class="direction">(Colloca
-a boneca n’uma cadeira)</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Pensa no que dizes, Electra...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Quando eu estava só, sósinha, triste ou
-doente; quando alguem me lastimava
-dando-me a perceber a desairosa situação
-que eu tinha no mundo, a minha mãe
-vinha, e consolava-me. Primeiro via-a
-imperfeitamente, confusa, como vaporosa,
-a parecer diluir-se nas coisas distantes,
-nas coisas proximas. Adeantava-se, n’uma
-claridade que tremeluzia... Depois, não
-bulia mais; era uma fórma quieta, uma
-serena imagem triste... E eu não podia
-então duvidar de que a tinha ali... Era
-minha mãe... Das primeiras vezes via-a
-em traje elegante de grande dama...
-Um dia, por fim, appareceu-me de habito
-e escapulario de monja. O seu rosto envolvido<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span>
-nas toucas brancas, e o seu corpo
-coberto pela estamenha pendente tinham
-uma magestade de belleza que não póde
-imaginar quem a não viu.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Tu deliras, minha pobre filha!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Junto de mim abria os braços como
-se quizesse enlaçar-me. Falava-me n’uma
-voz dôce, mas longinqua e recondita...
-não sei como lh’o explique... Eu perguntava-lhe
-coisas, e ella respondia-me...
-<span class="direction">(maior incredulidade de Evarista)</span> A tia não
-acredita?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Vae dizendo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Nas Ursulinas tinha uma bella boneca,
-a que eu chamava tambem Lulu... Veja
-a tia que mysterio este!... Sempre que
-eu andava pela horta, ao cahir da tarde,
-só, levando ao colo a minha boneca—tão
-melancolica eu como ella—olhando muito
-para o ceu, era certa, segura, infallivel, a
-visão de minha mãe... primeiro entre as
-arvores, como enformada no ôco das folhagens;<span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span>
-depois, desenhando-se de luz, e
-caminhando para mim, vagarosamente,
-por entre os troncos escuros...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>E em mais crescida, quando vivias em
-Hendaya... tambem?...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Nos primeiros tempos não... Então
-já eu brincava com bonecas vivas: os dois
-pequerruchinhos da minha prima Rosalia,
-menina e menino, que nunca se separavam
-de mim, e me adoravam, como eu a elles.
-De noite, na solidão do nosso quarto, com
-os meninos dormidinhos, como elles aqui...
-e eu aqui <span class="direction">(indica o logar dos dois leitos parallelos)</span>
-por entre as duas caminhas brancas a
-minha mãe passava, meiga, silenciosa,
-aeria, sem pisar o chão... E debruçava-se
-para mim...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Cala-te, por Deus, que até me fazes
-medo... Mas depois que foste mais
-crescida... agora—digamos—acabaram
-essas visões...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Nunca mais as tive desde que deixei
-de viver com bonecas e com meninos. É
-por isso que eu trato de voltar á edade
-da innocencia, e de me fazer creança pequena
-outra vez, a vêr se, tornando a ser
-o que fui, voltará tambem minha mãe a
-vêr-me, como d’antes... Para que falemos,
-e me responda ao que lhe quero perguntar...
-e me dê conselho...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>E que dúvidas são as tuas, que assim
-precisas...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(pondo os olhos no chão)</span> Dúvidas?... coisas
-que a gente não sabe, e quer saber.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Tolice! Que tão grave caso vem a ser
-esse para que precises de consulta e de
-conselho?...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Cá uma coisa... <span class="direction">(Vacilla, está quasi a
-dizêl-o)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>O quê? dize.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Uma coisa... <span class="direction">(Com timidez infantil dando
-voltas á boneca e sem se atrever a revelar o seu segredo)</span>
-Uma certa coisa...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(severa e affectuosa)</span> Ih! que intoleravel
-que estás, com tanta creancice! <span class="direction">(Tira-lhe a
-boneca)</span> Que estupida e ao mesmo tempo
-que atilada que tu és! Tão depressa te
-mostras um prodigio de intelligencia e de
-graça como parece que não passas de
-maluca... Andam ás bulhas com a tua
-alma cherubins e demonios. Temos que
-intervir para acabar com essa lucta e
-dar em Satanaz muitos açoites, ainda que
-algum te caia em ti e te dôa um poucochito...
-<span class="direction">(Beija-a)</span> Vamos! juizo. Precisas
-de te occupar n’alguma coisa, de distrahir
-essa cabeça... Não te esqueça de que é
-ás cinco a festa... Vae-te arranjar, anda...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Sim, tia.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Faltam tres quartos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Vou apromptar-me.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>E poucas brincadeiras... cuidado!
-<span class="direction">(Sae pelo fundo levando a boneca pendida, suspensa
-por um braço)</span></p>
-
-<h3>SCENA VII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E PATROS</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(olhando para a boneca)</span> Pobre Lulu! como
-te levam á dependura! <span class="direction">(Imitando a postura da
-boneca e apalpando o seu proprio braço dolorido)</span>
-Que dôr que vaes ter, coitada, no hombro
-desengonçado! <span class="direction">(Senta-se meditabunda)</span> E o outro
-á minha espera... Como foi triste a
-separação! como elle chorava, estendendo-me
-os bracinhos!... e eu que lhe prometti
-voltar...</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p><span class="direction">(assomando cautelosa pela esquerda)</span> Senhorita,
-senhorita...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Entra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span></p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p><span class="direction">(avançando com precaução)</span> Não está ninguem?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Estamos sós.</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Não se pilha outra occasião assim,
-menina! Ou agora ou nunca.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Vens de lá?</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Agora mesmo... Muitos senhores que
-dizem numeros... milhões, <i>bilhões</i> e
-<i>quatrilhões</i>... E lá dentro, ninguem.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(vacillando)</span> Atrevo-me?</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p><span class="direction">(decidida)</span> Atreva-se, menina.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Nossa Senhora do Carmo, protegei-me!
-<span class="direction">(Dirige-se á sahida que dá para o jardim.
-Pára assustada)</span> Espera. Não será melhor
-sahirmos pelo outro lado? Pode estar a
-tia á janella da casa de jantar...</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Pode, pode! Demos a volta por aqui.
-<span class="direction">(Pela esquerda)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Sim, por aqui... Estou a tremer
-toda... de valentia! e de medo. Ávante!
-<span class="direction">(Saem a correr pela esquerda)</span></p>
-
-<h3>SCENA VIII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">URBANO E JOSÉ</span>, que entram pelo fundo ao tempo
-a que saem as duas</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Quem vae ali?</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>É a Patros.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Então que temos?... conta lá.</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>São já cinco os que fazem olho á menina:
-cinco vistos por mim. Fóra os que
-não vi.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>E quê? rondam a casa?</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Dois pela manhã, dois de tarde, e o
-mais pequenitate de todos, de sol a sol.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Tens notado se ha communicação entre
-a janella do quarto da senhorita Electra
-e a rua por meio de cesto pendente
-ou de cordão telephonico?</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Não vi nada d’isso. Mas cá eu, se fôsse
-os senhores, mudava a menina para os
-quartos d’acolá. <span class="direction">(Á esquerda)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>E algum d’esses meninos não se coará
-para dentro do jardim?</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Isso sim! Não que elles teem espinhaço
-e querem-o para mais d’uma vez.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Bem: vae vigiando sempre. <span class="direction">(Entra Cuesta
-pelo fundo)</span></p>
-
-<h3>SCENA IX</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">URBANO E CUESTA</span>, com papeis e cartas</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Ora graças a Deus, Leonardo!</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Já te tinha dito que não vinha de manhã.
-<span class="direction">(A José, dando-lhe uma carta)</span> Isto para
-registar. Logo irão mais cartas. <span class="direction">(Sae José)</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(pegando n’um papel que Cuesta lhe entrega)</span>
-Que vem a ser isto?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>O recibo das cem mil e tantas pesetas...
-assigna-me agora um talão de
-sessenta e sete mil...</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Para a remessa para Roma...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Isso mesmo. E Evarista?</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>A vestir-se.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Já sei que vaes á inauguração das <i>Escravas</i>
-e que tambem vae Electra.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Essa pequena, positivamente, não promette
-coisa boa. Está cada vez mais caprichosa
-e mais leviana...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(vivamente)</span> Sem maldade!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Mas com symptomas d’isso. Evarista,
-que é a cautella e a prudencia em pessoa,
-anda a pensar em submettel-a a um regimen
-sanitario em S. José da Penitencia.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Has de me permittir que discorde inteiramente
-d’esse alvitre. Tu dirás que
-quem me manda a mim...</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Pelo contrario: como amigo da casa
-muito estimo que dês opinião e conselho.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Isso de arrastar para a vida claustral
-uma rapariga que não denota manifesta
-vocação de piedade, é grave... E não
-devereis extranhar que porventura alguem
-se opponha...</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Quem se ha de oppôr?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Que sei eu! alguem... Na vida d’esta
-menina ha, por emquanto, um factor desconhecido...
-Um bello dia poderá succeder...
-não direi que succeda... Um
-bello dia, quando puxeis pela corda com
-mais força, poderá vir uma voz que diga:
-«Alto lá, senhores de Yuste!»</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>E nós responderemos: «Querido snr.
-factor desconhecido, aqui tem a menina,
-com o que nos livra d’uma tutella difficil
-e incommoda.»</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(senta-se com muita fadiga)</span> Isto, Urbano, é
-apenas uma supposição minha... é um
-modo de fallar...</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Não te sentes bem? Queres tomar alguma
-coisa?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Não... Este maldito coração recusa-se
-a ser dirigido pela vontade...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Descansa... Queres-te tu deitar?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Pois não sabes o que tenho que fazer?
-<span class="direction">(Tirando papeis do bolso)</span> Para já, duas carta
-urgentes, que teem de partir hoje.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Escreve-as aqui. <span class="direction">(Fazendo um logar á meza,
-e retirando livros e papeis)</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Está dito... installo-me ahi.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Eu estou atarefadissimo tambem. Tenho
-voltas que dar...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Não penses mais em mim. <span class="direction">(Escreve)</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Desculpa. Evarista não tarda ahi.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(sem olhar)</span> Até logo... <span class="direction">(Sae Urbano pelo
-fundo)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span></p>
-
-<h3>SCENA X</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">CUESTA, ELECTRA E PATROS</span> (Assomam as duas á porta
-da esquerda como para reconhecer o terreno)</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Cuidado, Patros... Por aqui é difficil
-trazêl-o.</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p><span class="direction">(reconhecendo Cuesta, que vê de costas)</span> D. Leonardo!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Chut!... O mais seguro é deixal-o
-no teu quarto até á noite. Que massada a
-tal inauguração!</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(volta-se ao ouvir vozes)</span> Ah! Electra...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Importunamos, D. Leonardo?...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Não, minha amiguinha. Quer fazer-me
-o favor de esperar um pouquinho... que
-termine uma carta? Tenho que lhe dizer.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Aqui me tem. <span class="direction">(Áparte a Patros)</span> Que
-sécca! <span class="direction">(Alto)</span> Vinhamos unicamente buscar
-um papel e um lapiz para umas contas.
-<span class="direction">(Tira da meza um lapiz e papel. Áparte a
-Patros)</span> Cuida bem d’elle... Que amor
-que elle está adormecido! Com o seu focinhinho
-côr de rosa e as mãos sujas, com
-as unhitas pretas de andar a escarvar na
-terra... Dá vontade de o engulir!</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Com os lindos pés gordos, e a espessa
-carapinha d’ouro que elle tem...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(com effusão de carinho)</span> Dá volta á cabeça
-da gente. Olha bem por elle, Patros; vê
-lá!...</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Levo-lhe agora um bôlo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não dou licença. Prohibo rigorosamente
-os bôlos. Para lhe sujarem o estomago!...
-Leva-lhe uma sopinha...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span></p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Mas como hei de eu arranjar sopinha?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Tens razão... Ah! pede na cosinha
-uma taça de leite para mim.</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Isso mesmo! E dou-lh’a quando acordar.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Toma lá tambem o papel e o lapiz
-para elle fazer os seus rabiscos... É a
-coisa de que mais gosta... Depois, á noite,
-na primeira occasião, mette-o no meu
-quarto, para dormir comigo.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(fechando a carta)</span> Acabei.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Perdoe um momento, D. Leonardo.
-<span class="direction">(Áparte a Patros)</span> Não o deixes nem um momento...
-Muito cuidadinho! Se D. Leonardo
-me não prender muito, ainda irei
-dar-lhe um beijo antes de me vestir.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Patros, estas cartas para o correio!</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Vão-se levar já.</p>
-
-<h3>SCENA XI</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">CUESTA E ELECTRA</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(pegando-lhe nas mãos)</span> Venha cá, sua grande
-extravagante... quanto me alegra
-vêl-a!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>É muito meu amigo, D. Leonardo?
-Não imagina como eu gosto de que me
-estimem!</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Mas precisamos tambem de ter mais
-um poucochinho de proposito e d’assento
-n’essa cabecinha... É bom que não haja
-nada que se nos dizer... E a mim contaram-me—pêtas
-já se vê!—que fervilham
-os namorados...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Ah! Sim, eu já lhes perdi a conta!
-Mas não gosto senão d’um.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>D’um! E quem é?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Isso... lá me parece perguntar de
-mais...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Eu conheço-o?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Se conhece!</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Fez-lhe a sua declaração d’uma maneira
-decente?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não me fez declaração nenhuma, nem
-me disse nada... até agora.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>E a menina ama esse timido donzel, e
-julga-se correspondida?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Suspeito que me corresponde... Mas
-não o asseguro...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Tenha confiança em mim, e conte-me
-isso.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Agora não, que vou vestir-me.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Falaremos depois.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(medrosa, olhando para o fundo)</span> Se não
-viesse a tia...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Vista-se... Ámanhã será.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Sim, ámanhã. Adeus. <span class="direction">(Corre para a direita.
-Movida de uma ideia repentina dá meia volta)</span> Antes
-de me vestir... <span class="direction">(Áparte)</span> Não resisto.
-Vou dar-lhe um beijo. <span class="direction">(Sae correndo pela esquerda.
-Cuesta segue-a com a vista e suspira)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span></p>
-
-<h3>SCENA XII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">CUESTA, URBANO E EVARISTA</span>; depois <span class="allsmcap">ELECTRA</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(reunindo e recolhendo os papeis)</span> Que felicidade
-a minha, se publicamente a pudesse
-amar!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(vestida para sahir)</span> Desculpe terem-no deixado
-para ahi, Leonardo. Já me disse
-Urbano que lançamos uma grande operação.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(entregando a Cuesta um talão)</span> Ahi tens.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Não me espantarei se o vir apparecer-nos
-com outra carga de dinheiro... Deus
-o dá, Deus o recebe... <span class="direction">(Assoma Electra pela
-porta da esquerda. Ao vêr a tia hesita, não se atreve
-a atravessar. Decide-se por fim, procurando escapulir-se.
-Evarista segura-a)</span> Ora não ha! Então
-ainda te não vestiste? D’onde vens?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Da casa de engommar. Fui á Patros
-para me alisar um papo...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Gabo-te a pachorra! <span class="direction">(Notando que sae a
-ponta de uma carta de uma das algibeiras do avental
-de Electra)</span> Que tens aqui? <span class="direction">(Pega na carta)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Uma carta.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Creancices.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Não imagina, Cuesta, o desgosto que
-esta rapariga me dá com as suas travessuras,
-que já não são tão innocentes como
-isso! <span class="direction">(Dá a carta a Urbano)</span> Lê tu.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Vamos a vêr isso.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(lendo)</span> Senhorita—Tenho para mim
-que n’esse rosto feiticeiro...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(zombando)</span> Muito bonito! <span class="direction">(Electra contém
-difficilmente o riso)</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(continúa a ler)</span> ...que n’esse rosto feiticeiro
-escreveu o Supremo artifice o problema
-do... do... <span class="direction">(Sem entender a palavra seguinte)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(apontando)</span> ...do «cosmos».</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Isso mesmo: do cosmos, symbolisando
-em seu luminoso olhar, na sua bocca divina,
-o poderoso agente physico, que...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(arrebatando a carta)</span> Que indecencias!</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(descobrindo outra carta em outro bolso)</span>
-está outra. <span class="direction">(Pega n’ella)</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Vejamos essa!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Isto, Electra, não é o corpo de uma
-menina: é um marco postal.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(lendo)</span> Desapiedada Electra, com que
-palavras exprimirei o meu desespero, a
-minha loucura, o meu frenesi...?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Basta... Isso revolta-me. <span class="direction">(Incommodada
-revista as algibeiras de Electra)</span> Apostaria que
-ainda ha mais.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Indulgencia, Evarista!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Tia, não se amofine mais...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Que me não amofine!... A amofinação
-eu t’a contarei... Veste-te immediatamente.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(consultando o relogio)</span> É quasi a hora.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>N’um momento!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Avia-te, avia-te! <span class="direction">(Electra, contente de se
-vêr solta, corre para o seu quarto)</span></p>
-
-<h3>SCENA XIII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">CUESTA, URBANO, EVARISTA E PANTOJA</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(com tristeza e desalento)</span> E então, Leonardo,
-que me diz a isto?</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>O socego com que deixou devassar os
-seus segredos demonstra bem a pouca
-importancia que lhes dá e que elles teem.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Não, não é tanto assim...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(pelo fundo, anciado)</span> Está o Cuesta! Já
-se não pode dizer o que se quer...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(contente de vêl-o)</span> Até que emfim, Pantoja...
-<span class="direction">(Formam-se dois grupos: á esquerda Cuesta
-sentado, Urbano em pé; á direita, Pantoja e Evarista,
-sentados)</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Venho contar-lhe coisas da maior gravidade.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Ai de mim! seja o que Deus quizer.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(repetindo a phrase com reservas)</span> Seja o que
-Deus quizer... está muito bem, mas queiramos
-tambem nós o que quer Deus, e
-empenhemos toda a nossa vontade em
-produzir o bem, por mais que nos custe!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>A sua energia fortifica a minha...
-Então... que ha?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Ha pouco, em casa de Requesens, falou-se
-de Electra em termos dissolutos.</p>
-
-<p>Contavam que, indecorosamente envolvida<span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span>
-por um vespeiro de namorados,
-ella se divertia a receber e a mandar cartas
-a toda a hora do dia.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Infelizmente, Salvador, a frivolidade
-d’esta menina é tal que, com toda a minha
-ternura por ella, nem eu mesma a sei defender!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(angustiado)</span> Pois saiba mais, e veja que
-não tem limites a maldade humana. Hontem
-á noite o marquez de Ronda, na tertulia
-da sua casa, na presença de Virginia,
-sua santa mulher, e de outras pessoas
-do maior respeito, não cessou de exaltar
-os encantos de Electra com expressões do
-mais material e repugnante mundanismo.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Tenhamos paciencia, meu amigo.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Paciencia... Paciencia é uma virtude
-que vale muito pouco sempre que se não
-reforça com a resolução. Não confundamos
-essa virtude com o vicio da negligencia,
-e determinemo-nos com firmeza, minha<span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span>
-querida amiga, a resguardar Electra
-da infamia do mundo, em logar onde não
-veja exemplos de leviandade e onde não
-ouça uma só palavra do contagioso impudor
-da sociedade em que vivemos.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Onde respire um ambiente de pura virtude...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>E não a perturbe o zumbido de pretendentes
-impudicos e infecciosos... Na
-critica edade da formação do caracter, em
-que ella está, temos nós a obrigação de
-livral-a do immenso perigo, do maior de
-todos...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Que perigo?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>O homem. Nada na terra peor que o
-homem... quando não é bom. Por mim
-o sei: fui o meu proprio mestre. O meu
-desvario, de que pela graça de Deus me
-curei, e depois d’isso a minha tão longa e
-entristecida convalescença, duramente me
-ensinaram a grave e delicada medicina<span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span>
-das almas... Deixe-me, e eu lhe salvarei
-essa menina... <span class="direction">(Interrompe-o Urbano, que passa
-para o grupo da direita)</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(dando importancia á sua revelação)</span> Sabem o
-que me disse Cuesta? Que entre a cafila
-dos pretendentes ha um preferido. Electra
-mesma o confessou.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>E quem é? <span class="direction">(Passa da direita para a esquerda,
-ficando á direita de Pantoja e d’Urbano)</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(a Pantoja)</span> Isto poderia modificar os
-termos do problema.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(mal humorado)</span> E que significa essa preferencia?
-É um affecto puro, ou é uma
-paixoneta immoderada, febril e ephemera,
-d’essas que constituem o mais grave symptoma
-da loucura do seculo? <span class="direction">(Excitado e levantando
-a voz)</span> É o que é preciso saber-se!
-que se saiba quem é!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Saberemos...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(passando para junto de Cuesta)</span> O snr. Cuesta
-não a interrogou?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(ao centro, a Urbano)</span> Procura tu certificar-te.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(enfadado, em resposta a Pantoja)</span> Parece-me
-que estão os snrs. desenvolvendo um
-zelo excessivo e contraproducente.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(com uma suavidade que não encobre a sua altaneria)</span>
-O meu zelo, meu muito querido
-D. Leonardo, é o zelo que devo ter.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(um tanto ferido)</span> Eu julguei na minha
-qualidade de velho amigo da casa...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(levando Urbano comsigo para a direita)</span> Cuesta
-mette-se demais com o que não é da
-sua conta.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(a Evarista sem lhe dar cuidado que Pantoja o
-ouça)</span> O nosso presado snr. Pantoja é talvez
-demasiadamente afouto na facilidade
-com que penetra nas attribuições dos outros.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(sem saber bem que explicação dar)</span> Emfim,
-como nosso amigo muito antigo e leal...</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Tambem eu o sou.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(olhando para o fundo)</span> Ahi está já o Marquez.</p>
-
-<h3>SCENA XIV</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E O MARQUEZ</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Em boa hora chego!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(áparte)</span> Em pessima!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(depois de saudar Evarista)</span> E Electra?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Vem já.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(cortejando os outros)</span> Já não é cêdo.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>É a hora. <span class="direction">(Pantoja, impaciente, espera Electra
-á porta do seu quarto. Cuesta fala com Urbano)</span></p>
-
-<h3>SCENA XV</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E ELECTRA</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(com alegria annunciando-a)</span> Eil-a aqui. <span class="direction">(Electra
-entra pela direita, muito elegantemente vestida
-com singeleza e distincção)</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(encomiastico)</span> Que elegante!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(satisfeita, voltando-se para que a vejam de todos
-os lados)</span> Meus senhores, que me dizem?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Divina!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Ideal!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Sim: estás bem.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(fastiento dos elogios tributados a Electra)</span>
-Vamo-nos? <span class="direction">(Preparam-se para sahir)</span></p>
-
-<h3>SCENA XVI</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E BALBINA</span>, que interrompe bruscamente a scena,
-entrando pela esquerda, pressurosa e suffocada</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>Minha senhora! Minha senhora! <span class="direction">(Suspensão
-geral)</span></p>
-
-<p class="speaker">Todos</p>
-
-<p><span class="direction">(menos Electra)</span> Que é?</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>Ai! o que a menina foi fazer!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(áparte, batendo o pé)</span> Descobriram-me!</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>Santo nome de Jesus!... Do que ella
-se havia de lembrar!... <span class="direction">(rindo)</span> Não, que
-uma coisa assim!... Em nome do Padre...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(impaciente)</span> Acaba...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Eu confessarei, se me deixam. Foi
-que...</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>Foi a casa do snr. D. Maximo, e roubou-lhe...
-com muita graça, mas roubou...</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>O quê?...</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>O menino mais pequeno! <span class="direction">(Olham todos
-para Electra, que promptamente se recompõe do susto
-e assume uma altitude serena e grave)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(a Electra)</span> Isto que vem a ser?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Electra!</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>Estava o menino dormindo muito socegadinho.
-A senhorita e a maluca da
-Patros entraram pela casa dentro, ás escondidas
-e em bicos de pés... Embrulharam-o,
-muito bem embrulhado, e fugiram
-com elle para cá.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>É inacreditavel.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(reprimindo a sua irritação)</span> E não é decente.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(com effusão)</span> Tia! pois se nos queremos
-tanto, tanto d’alma!... eu a elle e elle a
-mim!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(enthusiasmado)</span> Que exemplar mulher!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span></p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p>Merece todo o perdão.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Maximo estará furioso a estas horas...</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>O José já para lá foi a correr...</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>E a creança onde está?</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>Está no quarto da Patros. A menina
-escondeu-o lá até que ella de noite lh’o
-leve para dormir com a menina. <span class="direction">(Sorrisos
-dos homens, menos de Pantoja)</span> O menino acordou
-ha um momento, e a Patros quiz dar-lhe
-um biscouto para o entreter... Eu,
-que o ouço, acudo, e vejo-o... Virgem
-Maria! Quiz pegar n’elle... Qual! estrebuchou
-e bateu-me... Tive de lhe dar
-uma palmadinha tambem...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(correndo para a esquerda com um impulso instinctivo)</span>
-Oh! meu querido amorsinho!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(procurando contel-a)</span> Não.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(segurando-a por um braço)</span> Espera.</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p><span class="direction">(á porta da esquerda)</span> Ainda se ouve chorar.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Pobresinho d’elle!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Que o levem para a sua casa.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Ninguem lhe toque... Ninguem se
-atreva a tocar-lhe... É meu. <span class="direction">(Desprende-se
-á força de Evarista e de Pantoja, que querem
-contel-a, e sae de uma corrida pela esquerda)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span></p>
-
-<h3>SCENA XVII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E JOSÉ</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(colerico, passando para a direita)</span> Que falta
-de dignidade e de juizo!</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p><span class="direction">(pressuroso, pelo jardim)</span> Minha senhora...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>O snr. D. Maximo que disse?</p>
-
-<p class="speaker">José</p>
-
-<p>Não sabia de nada. Está lá com uns
-senhores. Quando lhe contei poz-se a
-rir... Como se nada!... Diz que o menino
-que está muito bem entregue á menina.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Já é pachorra!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(a José)</span> Vaes leval-o a casa. Para que
-a menina aprenda.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Voto por que a deixem gosar um pouco
-mais do seu lindo crime.</p>
-
-<h3>SCENA XVIII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E ELECTRA</span>, pela esquerda, trazendo nos braços
-o menino, que tem pouco mais ou menos dois annos</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Queridinho da minh’alma!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Deixa o menino, e vamo-nos.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>São horas.</p>
-
-<p class="speaker">Cuesta</p>
-
-<p><span class="direction">(ao marquez)</span> Eu, pela minha parte, acho
-que é um rasgo de maternidade. E
-applaudo-o.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Eu digo que é um lance angelico. E
-adoro-o.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(querendo pegar no menino)</span> Então, Electra?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(em passo ligeiro afasta-se dos que querem tirar-lhe
-o pequerrucho. Este abraça-lhe o pescoço)</span> Não,
-não posso deixal-o agora.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Balbina, pega n’esse menino.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(passa de um lado para o outro, procurando um
-refugio)</span> Não! e não!</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Dá-m’o a mim.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(imperioso, a José)</span> Pegue n’elle, José.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não, já disse!... Ninguem lhe toca...
-É meu.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Mas, filha, se temos de sahir!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Saiam! vão com Deus. <span class="direction">(Vendo que o chapeu
-a inhibe de abraçar e beijar o seu amiguinho, arranca-o
-rapidamente da cabeça e atira-o para longe.
-Continúa a passear o menino, fugindo dos que lh’o querem
-tirar, e, sem ouvir, falando com o pequerrucho, que
-lhe deita os braços ao pescoço e a beija)</span> Dorme,
-dorme, meu amor. Não tenhas medo, filhinho...
-Dorme, que não te largo.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Então vamos ou não vamos?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Eu não vou... Tens fome? tens sede,
-meu anjo? Eu te acalentarei... Deixa
-berrar esses egoistas todos, que se não
-lembram de que não tens mãe!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Mas tem quem olhe por elle.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Basta! <span class="direction">(Imperiosa, aos creados)</span> levem-o
-para a sua casa.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(resolutamente, sem deixar que toquem na creança)</span>
-A casa! a casa! <span class="direction">(Com passo decidido, sem olhar
-para ninguem, corre para o jardim e sae. Seguem-a
-todos com a vista, indecisos, não ousando dar um
-passo para ella)</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Que escandalo!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Que loucura!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Que juizo! o juizo mais perfeito da
-mulher! Achou o seu caminho.</p>
-
-<p class="titlepage smaller">FIM DO SEGUNDO ACTO</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">ACTO TERCEIRO</h2>
-
-</div>
-
-<div class="act">
-
-<p class="main">O laboratorio de Maximo. Ao fundo, occupando grande parte
-da parede, divisoria com revestimento de madeira na
-parte inferior e envidraçada para cima. Este tapamento
-separa a scena d’um vasto local, em que se vêem maquinas
-e apparelhos para a producção de energia electrica.
-A porta praticavel no socco divisoria communica
-com a rua.</p>
-
-<p class="sub">Á direita, no primeiro plano, um corredor que dá
-passagem para o jardim dos snrs. de Garcia Yuste. No
-ultimo plano, uma porta de communicação com a habitação
-de Maximo e com a cosinha. Entre a porta e o corredor,
-uma estante com livros.</p>
-
-<p class="sub">Á esquerda, porta de passagem para as casas em que
-trabalham os ajudantes. Junto a esta porta, uma estante
-com apparelhos de physica e objectos de uso scientifico.</p>
-
-<p class="sub">Ao fundo, dos dois lados do socco de madeira, prateleiras
-com frascos de diversas substancias e livros.
-No angulo da direita um pequeno aparador.</p>
-
-<p class="sub">Á esquerda da scena, a mesa do laboratorio com os
-objectos que no dialogo se indicam. Fazendo angulo
-com ella, a balança de precisão sobre um supporte de
-fabrica.</p>
-
-<p class="sub">Ao centro pequena mesa de jantar, e quatro cadeiras.</p>
-
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span></p>
-
-<h3>SCENA I</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO</span>, trabalhando n’um calculo, com grande attenção ao
-que está fazendo—<span class="allsmcap">ELECTRA</span> em pé, arranjando os multiplos
-objectos que estão na meza: livros, capsulas, tubos
-de ensaio, etc. Veste com simplicidade caseira, e
-grande avental branco.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(sem levantar os olhos do papel)</span> Para mim,
-Electra, a dupla historia que me contas,
-esse supposto poder dos dois cavalheiros,
-é um facto destituido de valor positivo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(suspirando)</span> Deus te ouça!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Tudo se reduz a duas paternidades
-platonicas sem nenhum effeito legal...
-até agora. O mais feio do caso é a auctoridade
-que quer assumir o snr. de Pantoja...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Auctoridade oppressiva, suffocante,
-que me tira o ar. Nem me fales n’isso, se
-não me queres amargurar a alegria de estar
-cá em casa!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Devéras? assim te affliges?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Ainda mais: ponho-me n’esse estado
-singularissimo de cabeça e de nervos...
-Já te contei... Em certas occasiões da
-minha vida apodera-se de mim um desejo,
-fixo, fundo, absorvente, de tornar a vêr a
-imagem da minha pobre mãe, como a via
-na minha meninez... Pois sempre que se
-aggrava para mim a tyrannia de Pantoja,
-renasce o meu doloroso e invencivel anceio;
-e sinto a perturbação nervosa e mental
-que me annuncia...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>A visão da tua mãe? Isso, rapariga,
-não é d’um espirito rijo e são. Aprende-me
-a governar essa imaginação... Trabalha-me
-para a frente, e á má cara. O
-ocio é o peor de todos os perturbadores da
-intelligencia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(muito animada)</span> Cá estou seguindo á risca
-o que me mandaste fazer. <span class="direction">(Pega n’uns frascos
-de substancias mineraes e leva-os para uma das
-estantes)</span> Estes frascos para o seu logar...
-Emquanto penso n’isto nem penso na furia
-da tia logo que souber...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(attento ao trabalho)</span> A tia até ha de acabar
-por gostar... Mas deixa que tu, tambem!...
-Não te bastou a loucura d’hontem...
-raptar insidiosamente o menino...
-Tornas a trazer-m’o... ficas-te a embalal-o
-e adormecel-o, muito mais tempo
-que o regular... E, não contente ainda
-com a saturnal d’hontem, pespegas-te
-hoje cá em casa, e aqui andas a sargentear,
-para uma banda e para outra, muitissimo
-fresca da tua vida!... Ainda foi
-por Deus, que convidados para a distribuição
-dos premios e para o almoço em
-Santa Clara os tios ainda a estas horas
-ignorem o pulo medonho que a boneca
-deu da casa d’elles para a minha!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Tu é que me aconselhaste que me
-insubordinasse... «<i>Insubordina-te!</i>»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Sim senhor: fui o instigador do delicto...
-E gabo-me d’isso.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>A minha consciencia diz-me que não
-ha mal nenhum no que faço.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Pois está bem de vêr que não ha...
-Foi talvez para casa de um pulha que tu
-vieste!... Não faltaria mais nada senão
-que principiasse agora a haver mal em
-estar alguem na minha casa!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(trabalhando sempre e falando sem se distrahir
-do que faz)</span> Eu digo mais: estando tu esmagado
-de trabalho, só, sem creados, e
-estando eu para ahi, de mãos a abanar, sem
-ter absolutamente nada que fazer, o que
-pareceria mal, o que seria indecente, é que
-eu não viesse...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Cuidar de mim e dos pequenos...
-Effectivamente, se isso não é logica, digo-te<span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span>
-que botemos luto, porque já não ha
-logica no mundo!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Queridos pequerruchinhos! Toda a
-gente sabe que os adoro... São a minha
-paixão, o meu fraco... <span class="direction">(Maximo, abstrahido
-n’uma conta, cessa de dar attenção ao que ouve)</span>
-Chega-me a parecer... <span class="direction">(Approxima-se da
-mesa levando uns livros que não estavam no seu logar)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(vagamente)</span> Quê?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Que nem a sua propria mãe lhes quereria
-tanto como eu!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(satisfeito com o resultado do seu calculo, lendo
-em voz alta uma cifra)</span> Zero, trezentos e dezoito...
-Fazes favor de me dar as <i>Tabellas
-de resistencias</i>... aquelle livro encarnado...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(correndo á estante da direita)</span> Não é este?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Mais adeante.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>É verdade... que tôla!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Fica-te muito bem,—sabes?—que em
-tão pouco tempo conheças todos os meus
-livros e os seus logares na estante...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não dirás que te não puz tudo muito
-arranjadinho.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não; e darei graças a Deus, porque
-entrou finalmente n’este antro, revolto e
-poeirento, a limpeza e a ordem!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(desvanecida)</span> Confessas então que não
-sou absolutamente, absolutamente inutil?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(olhando com fixidez para ella)</span> Não ha nada
-inutil na creação. Quem te diz a ti que te<span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span>
-não creou Deus para altos destinos? Quem
-te diz que não virás a ser...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(anciosa)</span> O quê?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Uma alma grande, formosa e nobre,
-que está por hora meia afofada ainda na
-serradura e na estopa de uma boneca?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(com alegria)</span> Pae do ceu, se assim fosse!
-<span class="direction">(Maximo levanta-se e, na estante da esquerda, pega
-n’umas barras de metal, que examina)</span> Nem me
-digas isso que me entonteces de alegria...
-Pode-se cantar?...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Podes cantar... <span class="direction">(Electra repete trauteando
-o andante de uma sonata)</span> A boa musica é a
-espóra das ideias preguiçosas, que não
-affluem; e é o gancho que puxa pelas que
-estão agarradas de mais ao fundo do entendimento.
-Canta, companheira, canta...
-<span class="direction">(Prosegue attento á sua occupação)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(á estante do fundo)</span> Continúo coordenando
-isto. Os metaloides para este lado. Já
-os conheço pelos rotulos... Como este
-trabalhito entretem! Era capaz de ficar
-aqui todo o santo dia...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(jovial)</span> Camarada!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(correndo para elle)</span> Que manda o magico?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Eu não mando por ora. Proponho.
-<span class="direction">(Pega n’um frasco que contém um metal em limalha)</span>
-Se a menina magica quer collaborar commigo
-ha de fazer favor de me pesar trinta
-grammas d’este metal.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Péso.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Sabes já pesar na balança de precisão...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Perfeitamente. Dá cá. <span class="direction">(Alegre, contente,
-ao deitar o metal na capsula, admira-lhe a belleza)</span>
-É lindo! Que é isto?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>É aluminio. Parece-se comtigo. Pesa
-pouco...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Ah! eu então?...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Pesa pouco, mas é extremamente tenaz.
-<span class="direction">(Olhando-lhe para a cara)</span> Tu tambem?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Em coisas que eu cá sei, sou tenaz
-até á barbaridade, e, chegado o momento,
-estou certa de que o seria até ao martyrio.
-<span class="direction">(Continúa pesando sem interromper a operação)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Que coisas são essas?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Que te importa! Tu és o magico, mas
-eu é que magíco... commigo, ás vezes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(attento ao trabalho)</span> Pesas-me depois setenta
-grammas de cobre. <span class="direction">(Dá-lhe outro frasco)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>O cobre então serás tu... Não: é tambem
-feio de mais para se parecer comtigo.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>É feio, mas util.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Compara-te antes ao ouro, que é o
-que vale mais.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Nada de ditos! Estás a desmoralisar-me
-o laboratorio.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Dá ao menos licença de que me reveja
-nas qualidades do metal bonito que se parece
-commigo... Sou tenaz... Não me
-quebro... Farás favor de o dizer á tia e
-ao tio Urbano, que, no sermão que me
-prégaram esta manhã, por umas quarenta
-vezes me disseram que sou fragil... Fragil,
-eu!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não sabem o que dizem.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Sabem lá elles... nem o que é o aluminio,
-nem o que eu sou!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Mas toma sentido, que te não equivoques
-no peso!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Equivocar-me eu! Pateta! Eu tenho
-muito mais tino do que ninguem cuida!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Já vou vendo, já vou vendo! <span class="direction">(Dirige-se
-a uma das estantes em procura d’um cadinho)</span> A
-tia, quando chegar a casa, é que lhe ha de
-custar um pouco mais a compenetrar-se
-de que tenhas todo o tino que dizes...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Deus, que vê os corações, sabe se eu tenho
-culpa! Porque é que a tia não deixa
-que eu venha para cá?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(voltando com o cadinho que escolheu)</span> Por que
-tu és uma menina solteira, e as meninas
-solteiras não podem ficar assim em casa
-d’um homem só, por mais honrado e por
-mais digno que elle seja.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Pois, senhor, não haja dúvida que, por
-essa regra, estão divertidas as pobres meninas
-solteiras! <span class="direction">(Termina o peso e apresenta os
-dois metaes pesados nas suas duas capsulas de porcelana)</span>
-Aqui tens o aluminio e o cobre.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(pegando nas capsulas)</span> Um primor. Que
-limpeza de mãos... Que firmeza de pulso,
-e que serenidade de attenção para não
-fazer d’isto uma trapalhada! Estás fina.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Estou contente apenas. Quando se tem
-a alegria tudo corre bem.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Ahi disse a collega uma importantissima
-verdade. <span class="direction">(Verte os dois corpos no cadinho)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Isso é um cadinho, não é?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Sim senhor, para fundirmos os dois
-metaes.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Para nos fundirmos tu e eu, se não
-pegarmos á bulha no meio do fogo...
-<span class="direction">(Trauteia a sonata)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Faze favor de chamar o Ricardo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(correndo á porta da esquerda)</span> Ricardo!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Que venha tambem o Gil.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Gil! Venham ambos, que manda o
-mestre... não se demorem!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span></p>
-
-<h3>SCENA II</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MAXIMO, RICARDO E GIL</span>, o primeiro vestido
-de operario, com blusa, o segundo em trage burguez, com
-mangas de alpaca, pena na orelha</p>
-
-<p class="speaker">Gil</p>
-
-<p><span class="direction">(mostrando um calculo)</span> Aqui está o valor
-obtido.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(lê rapidamente a cifra)</span> 0,158,073... Está
-errado <span class="direction">(Seguro do que diz e com certa severidade)</span>
-Não é possivel que para um diametro de
-cabo menor de quatro millimetros obtenhamos
-um circuito maior, segundo o teu
-calculo. A verdadeira distancia deve ser
-inferior a duzentos kilometros...</p>
-
-<p class="speaker">Gil</p>
-
-<p>Não sei então... eu... <span class="direction">(Confuso)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Está mal. É que te distrahiste.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>É que vocês, coitados, não teem...
-a attenção serena...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Emquanto fazeis os calculos estaes a
-pensar em historias da carocha.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E a conversar, a falar de touros, de
-theatros, da politica... assim não fazemos
-nada.</p>
-
-<p class="speaker">Gil</p>
-
-<p>Vou rectificar as operações.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E, sobretudo, muita paciencia, muita
-contensão, todos os cinco sentidos!... Senão
-tornamos á mesma.</p>
-
-<p class="speaker">Gil</p>
-
-<p>Vou vêr isto.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Anda lá e não te descuides <span class="direction">(Gil sae e
-Maximo, virando-se para Ricardo, entrega-lhe o cadinho)</span>
-Aqui tens.</p>
-
-<p class="speaker">Ricardo</p>
-
-<p>Para fundir...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Está preparado o forno?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span></p>
-
-<p class="speaker">Ricardo</p>
-
-<p>Sim senhor.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Mette immediatamente, e quando esteja
-em fusão, avisa. Com esta aleação
-vamos fazer um novo ensaio de conductibilidade...
-Espero chegar aos duzentos
-kilometros com perda escassissima.</p>
-
-<p class="speaker">Ricardo</p>
-
-<p>Faz-se o ensaio hoje?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(atormentado por uma ideia fixa)</span> Sim, quanto
-antes. Não abandono este problema. <span class="direction">(A
-Electra)</span> É a minha ideia fixa, que me não
-deixa viver.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Ideia fixa tambem eu tenho uma, e por
-ella vivo. Avante!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Avante, Electra! Avante, Ricardo!</p>
-
-<p class="speaker">Ricardo</p>
-
-<p>Não manda mais nada, patrão?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Que actives a fusão.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Que se fundam bem os metaes!</p>
-
-<p class="speaker">Ricardo</p>
-
-<p>Hão de ficar os dois em um só, senhorita.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Dois n’um.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(como preparando-se para outra occupação)</span>
-Agora, minha graciosa discipula...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Agora ha de o mestre perdoar, mas
-tenho de ir vêr se acordaram os meninos.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Ha quanto tempo comeram?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Ha trez quartos d’hora. Devem dormir
-meia hora mais. Está bem regulado
-assim?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Está bem tudo o que determines.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Olha o que dizes, que estarás por
-tudo...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(carinhosamente)</span> Por tudo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Que se fique sabendo!... Eu venho já.
-<span class="direction">(Sae ligeira e cantando pela esquerda. Entra ao
-mesmo tempo um operario, pelo fundo)</span></p>
-
-<h3>SCENA III</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO E O OPERARIO</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Que ha?</p>
-
-<p class="speaker">Operario</p>
-
-<p>Veio aquelle senhor, o marquez de
-Ronda...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Porque não entrou?</p>
-
-<p class="speaker">Operario</p>
-
-<p>Perguntou pelo patrão... Disse-lhe
-que tinha uma visita... Elle então, como
-pessoa da casa, logo disse: «Já sei... ha
-de ser a senhorita Electra... Voltarei
-logo».</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Porque lhe não disseste que entrasse,
-meu pascacio?</p>
-
-<p class="speaker">Operario</p>
-
-<p>Como me disse que voltava...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Pois sempre que vier, que entre, esteja
-que não esteja a senhorita Electra, e sobretudo
-estando.</p>
-
-<p class="speaker">Operario</p>
-
-<p>Assim se fará. <span class="direction">(Sae pelo fundo)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span></p>
-
-<h3>SCENA IV</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO E ELECTRA</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(voltando do interior da casa)</span> Dormidinhos
-como dois anjos... até d’aqui a meia
-hora...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>E os adultos não comem? não se almoça
-hoje n’esta casa?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Quando queiras. Está feito o almoço.
-<span class="direction">(Dirige-se para o aparador, onde está a pequena
-baixella: talheres, toalha, guardanapos, fructeira)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>É como deve ser... Tudo a horas...
-assim se chega sempre ao que se quer.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(estendendo a toalha)</span> Ao que eu quero não
-chegarei nunca por mais pontualidade
-que ponha...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Deixa-me ajudar-te... <span class="direction">(Vae-lhe passando
-os pratos, os talheres, o pão, o vinho)</span> Chegas,
-sim.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Achas?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Acho. Tão certo que chegas como que
-tenho uma fome de cincoenta cavallos de
-força.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Melhor, para que te agrade o almoço.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>A elle!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>N’um minuto. <span class="direction">(Sae)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span></p>
-
-<h3>SCENA V</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO E GIL</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Bemdita seja essa mulhersinha preciosa,
-que tão simples, tão instinctiva, tão ingenuamente,
-traz a sua grande alma inquieta,
-torturada e núa, a inundar de alegria
-e de luz este esconderijo da sciencia,
-transformando tão estreita aridez em tão
-vasto paraizo! Bemdita a que com um
-mero sorriso de creança vem arrancar da
-sua abstracção consumidora este pobre
-Fausto, envelhecido aos trinta e cinco
-annos, e dizer-lhe: «Nem só de verdades
-se vive!» <span class="direction">(Interrompe-o Gil, que tem entrado um
-pouco antes e se approxima sem ser visto)</span></p>
-
-<p class="speaker">Gil</p>
-
-<p><span class="direction">(satisfeito mostrando o calculo)</span> Pronto. Creio
-ter achado a cifra exacta.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(pega no papel e olha-o vagamente, sem se fixar)</span>
-A exactidão!... E tambem tu pensarás<span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span>
-que só de coisas exactas vive o homem!?
-Saturada de certeza, a alma insaciada
-appetece, mais que tudo, o que é apenas o
-sonho, e vôa para elle, avassalada e rendida,
-sem nem sequer tentar saber se é
-para a realidade, se para a illusão, que
-vôa!... Considerando bem, Gil, nada
-mais natural do que um equivoco de calculo.</p>
-
-<p class="speaker">Gil</p>
-
-<p>Sim, senhor, muito facilmente se distrae
-uma pessoa pensando em...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Em coisas vagas, indefinidas, aereas,
-vaporosamente illuminadas de côr de rosa
-e d’azul...</p>
-
-<p class="speaker">Gil</p>
-
-<p>Eu, distrahido, confundi a cifra da potencial
-com a da resistencia... Mas já
-rectifiquei... Queira vêr se está bem.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(lê)</span> 0,318,73... <span class="direction">(Com repentina transição
-para um goso expansivo)</span> Homem! e que não
-estivesse! Se ainda errasses outra vez?...
-A exactidão dos mathematicos perdoaria,
-por hoje, á nossa phantasia de poetas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span></p>
-
-<p class="speaker">Gil</p>
-
-<p>Ah! a exactidão não perdôa nunca: é
-a tyrannia da nossa vida; opprime-nos,
-escravisa-nos, não nos deixa respirar.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Essa mestra implacavel tambem algumas
-vezes nos sorri, nos acalenta e nos
-encanta. Vês essa cifra?</p>
-
-<p class="speaker">Gil</p>
-
-<p><span class="direction">(contente, dizendo de memoria)</span> 0,318,73.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Pois sabe que nunca os maiores poetas
-do mundo, Virgilio ou Homero, Dante,
-Lope de Vega ou Calderon escreveram
-estrophe mais inspirada e mais poetica do
-que é hoje para mim a d’esses miseros
-numeros! É verdade que a harmonia, o
-encanto poetico não é n’elles que está.
-Está em que... Adeus, vae almoçar...
-Deixa-me, deixa-nos... <span class="direction">(Afasta-o com a mão
-para que saia. No ponto da scena em que pode olhar
-para o interior da habitação)</span> Ali é que está a
-imaginação, a poesia, o ideal, no fundo
-d’essa cosinha, onde n’este momento ondula
-a mais altiva e a mais virginal flôr
-da innocencia, da candura e da bondade
-humana.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span></p>
-
-<h3>SCENA VI</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO E ELECTRA</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(entrando com uma terrina fumegante)</span> Aqui
-está o banquete.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>A vêr o que se fez! arroz com menudilhos...
-O thema é digno de Lucullo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Elogia-o sem provar: está superfino.
-<span class="direction">(Senta-se)</span> Vou-te servir. <span class="direction">(Servindo-o)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não tanto.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Olha que não tens mais nada... Acho
-que se não deve ter mais d’uma coisa...
-e escolher a melhor.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Meu Deus! o que diria a tia, se agora
-nos visse aqui almoçando juntos...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Um almoço feito por mim!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Sabes que está maravilhoso o teu
-arroz?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Foi minha mestra, em Hendaya, uma
-senhora valenciana. Eu fiz um curso de
-arrozes. Sei-os fazer de sete maneiras
-differentes, todos riquissimos.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Decididamente és todo um mundo
-novo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E quem é o meu Colombo?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não ha Colombo que ousasse descobrir-te.
-Tu és um mundo que apparece.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Será talvez por eu ser um mundosito
-assim desconhecido, que querem metter-me
-no convento para me livrar do perigo<span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span>
-de que dêem commigo. E é o que me espera...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>D’essa é bem natural que não escapes.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(assustada)</span> Que dizes!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Quero dizer: escapas... porque te hei
-de salvar eu.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Prometteste-me o teu amparo.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>E dou-t’o.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Que tencionas fazer?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Eu te digo: o negocio é grave...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Falas com a tia, já se sabe...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Falo com a tia...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E que lhe dizes?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Falo com o tio...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Façamos de conta que se acabaram
-todos os tios com quem fazes tenção de
-falar. E depois?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Depois, tendo-te provisoriamente abrigado
-no mais inviolavel sacrario, procederei
-minuciosamente ao exame e á sellecção
-dos noivos. E sobre este assumpto
-temos que conversar...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Vaes ralhar-me?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não: já me disseste que te enfastia
-esse brinquedo de bonecos vivos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Cuidei que me distrahiriam, e cada
-vez me entristeciam mais!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Nenhum d’elles te inspirou um sentimento
-especial, distincto do dos outros?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Nenhum!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Declararam-se todos por escripto?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Uns por escripto; outros por meio de
-olhares espantosos, que nunca cheguei a
-comprehender bem o que quizessem exprimir,
-e por isso não metto estes em
-conta...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Perdão: teem de entrar todos no rol:
-epistolares e olheiros. E aqui chegamos ao
-ponto sobre que devo dar-te, desde já,
-a minha sincera opinião: casa-te, Electra;
-casa-te quanto antes!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(envergonhada, baixando os olhos)</span> Assim...
-tão breve!...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>O mais breve possivel. Precisas de ter
-a teu lado um homem, um marido. Tens
-a alma, a tempera, os instinctos e as virtudes
-da casa conjugal. É portanto forçoso
-que da grande lista dos teus pretendentes
-se escolha um, o melhor, o mais
-digno de te amar e de ser amado por ti,
-porque, sem amor, considera bem que não
-ha familia.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Estou certa.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>E tu nasceste destinada para a vida
-exemplar e fecunda de um lar feliz...
-<span class="direction">(Teem acabado de comer o arroz)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Queres mais?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não: estou satisfeito.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>De sobremesa tens fructa, que é do
-que mais gostas. <span class="direction">(Põe na mesa o fructeiro)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(pegando n’uma bella maçã)</span> Gósto, porque
-esta <span class="direction">(mostrando-lhe a maçã)</span> é a verdade em
-toda a sua pureza. Aqui não interveio a
-mão do homem senão para a colher.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>É a obra divina, bella, simples, admiravel.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Faz Deus esta prodigiosa maravilha
-para a dar ao homem; e nem sempre lh’a
-agradece aquelle que foi eleito para em
-certo dia e a certa hora passar por baixo
-da macieira em fructo!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Quantas vezes basta, para colher a felicidade,
-esquecer-se a gente por um momento
-da terra, e levantar os olhos para
-cima!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(contemplando-a)</span> Pois é o que eu faço,
-Electra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span></p>
-
-<h3>SCENA VII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MAXIMO E RICARDO</span>, pela esquerda</p>
-
-<p class="speaker">Ricardo</p>
-
-<p>Mestre...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Quê?</p>
-
-<p class="speaker">Ricardo</p>
-
-<p>Chegamos ao rubro.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>A fusão!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Avisa-me ao branco incipiente.</p>
-
-<p class="speaker">Ricardo</p>
-
-<p>Virei dizer.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Olha. Que preparem na officina a bateria
-Bunsen. E previne de que hei de
-precisar para logo do dinamo grande.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span></p>
-
-<h3>SCENA VIII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E MAXIMO</span>, depois o <span class="allsmcap">OPERARIO</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(com tristeza)</span> D’aqui a um instante vaes
-tratar da fusão, e eu...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Tu—está claro—irás para casa.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Nem é bom pensar no que vae ser
-quando eu chegue!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Tu ouves, calas-te, e esperas.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Esperar... esperar sempre! <span class="direction">(Acabam de
-almoçar)</span> Ai que, se tu me não vales, não
-sei o que será de mim, com a tia e com o
-snr. de Pantoja... Elles a teimarem que
-eu vá para anjo, e Deus a desageitar-me
-cada vez mais para a carreira angelical!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(que se tem levantado e parece disposto a continuar
-o trabalho)</span> Não tenhas cuidado. Confia em
-mim. Eu te irei requerer como teu protector
-e teu mestre...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(approximando-se supplicante)</span> Não te demores
-então, Maximo. Por amor dos teus
-filhos, não te demores. Se tu me tomasses
-tambem como filha, para estar com os
-meninos, para viver com elles!</p>
-
-<p class="speaker">Operario</p>
-
-<p><span class="direction">(pelo fundo)</span> O snr. marquez de Ronda.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(assustada)</span> Vou-me embora?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Por vir o Marquez? <span class="direction">(Ao creado)</span> Que entre.
-<span class="direction">(O operario sae)</span> Offerecia-se-lhe café,
-se houvesse.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Vou buscal-o. <span class="direction">(Sae com pressa)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span></p>
-
-<h3>SCENA IX</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO, MARQUEZ E ELECTRA.</span> No fim
-da scena, <span class="allsmcap">RICARDO</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Entre, Marquez.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Maximo... <span class="direction">(Olhando em redor, desconsolado)</span>
-E Electra?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Na cosinha. Foi buscar-nos café.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Na cosinha! Continua-se vivendo então
-n’esta casa como na ilha de Robinson?
-Ahi está o que não comprehendo: como
-tendo você lá em cima todos os confôrtos
-d’um palacio...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>É muito simples... O trabalho e o
-habito do estudo enclausuram-me aqui.
-Puz os pequenos ao lado da officina
-para os ter ao pé de mim; e, reduzindo o<span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span>
-mais que me foi possivel a minha orbita
-d’acção, para aqui me fiquei, recluso no
-dever que me impuz, como um asceta na
-estreiteza da sua gruta.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Sem nem sequer se lembrar de que é
-rico...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>A minha riqueza é a singeleza, o meu
-luxo é a sobriedade, o meu repouso é o
-trabalho, e assim viverei emquanto viver
-só...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não tardará então muito em mudar
-de vida... Precisamente lhe venho contar...
-<span class="direction">(Entra Electra com a bandeja contendo o
-serviço e a maquina de café)</span> Oh! a deusa do
-lar!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(adeanta-se cautelosa de que não caia alguma
-peça)</span> Por Deus, Marquez, não me ralhe.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Eu ralhar?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Nem me faça rir... para não haver
-um desastre. Sentido! <span class="direction">(O marquez pega na
-bandeja)</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Aqui me tem para companheiro de
-infortunios... Ainda então lhe parece
-que eu seja dos que ralham? Eu sou dos
-que explicam. Mas não pertencem a esta
-seita os senhores ali do outro lado do jardim...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Os tios.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>A noticia do lindo idyllio, que se está
-passando aqui como na inverosimilhança
-de uma tapeçaria ou de um panno de leque,
-lá chegou já á distribuição dos premios
-em Santa Clara, onde a estas horas
-estará deliberando o conclave. As suas
-resoluções serão terriveis.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>A Virgem Maria me valha!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Socegue...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Isso tem de ser agora commigo.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Será comnosco. O seu café, minha menina,
-está digno de Jupiter, pae dos deuses:
-é do que elles tomam no olympo, aos
-domingos.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Segue-se, Electra, que em vez de regressar
-sósinha, teremos de ir ambos levar-te
-aos snrs. de Yuste.</p>
-
-<p class="speaker">Ricardo</p>
-
-<p><span class="direction">(assumando á porta da esquerda)</span> Snr. D. Maximo,
-o branco incipiente!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(com inconsciente alegria infantil)</span> A fusão!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(a Ricardo)</span> Não posso agora. Chama-me
-quando chegar o branco resplandecente.
-<span class="direction">(Ricardo sae)</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Peço licença... <span class="direction">(Tendo-se servido de vinho)</span>
-Eu brindo o hymeneu dos metaes, saudando
-os cadinhos do magico prodigioso.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span></p>
-
-<h3>SCENA X</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO, ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(aterrada)</span> D. Salvador! Deus me acuda!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Queira entrar, snr. de Pantoja. <span class="direction">(Pantoja
-adeanta-se lentamente)</span> A que devo a honra...?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Antecipando-me aos meus bons amigos,
-tios d’esta menina, que d’aqui a um
-momento terão voltado a casa, aqui me
-acho resolvido a cumprir o dever d’elles e
-o meu.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>A familia toda consubstanciada no
-snr. de Pantoja...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Para metter medo á gente.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Considera-nos reus d’algum tremendo
-crime...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não considero senão unicamente que
-esta menina não pode estar aqui. Venho
-buscal-a. Ha de sahir commigo. <span class="direction">(Pega na
-mão de Electra, insensivel, immobilisada pelo medo)</span>
-Vem.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Queira perdoar <span class="direction">(Sereno e grave, approxima-se
-de Pantoja)</span> Com todo o respeito que lhe
-devo, rogo-lhe, snr. de Pantoja, que solte
-a mão d’esta senhora. Antes de lhe tocar,
-teria sido mais opportuno que falasse commigo,
-que sou o dono d’esta casa, e o responsavel
-de tudo o que n’ella se passa, de
-tudo o que vê... e de tudo o que não
-queira vêr.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(depois de uma breve hesitação larga a mão de
-Electra)</span> Seja assim. Deixarei de dirigir-me
-a esta pobre creatura, desvairada ou
-trazida aqui ao engano, e falarei comtigo,
-a quem quizera dizer apenas muito breves
-palavras:—Venho buscar Electra. Dá-me
-o que não te pertence, o que não te
-pertencerá nunca.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Electra é inteiramente livre. Nem eu
-a trouxe aqui contra sua vontade, nem
-contra sua vontade a levará d’aqui quem
-quer que seja.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Se se pudesse, pelo menos, conhecer
-os fundamentos da auctoridade do snr. de
-Pantoja...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Eu não preciso de lhes dizer, aos senhores,
-qual é a proveniencia da auctoridade
-de que disponho, e que esta menina
-me reconhece, prestando-me a obediencia
-que lhe peço. Não é verdade, Electra, que
-basta uma palavra minha para immediatamente
-te separar d’estes homens, e levar-te
-para quem depositou em ti o seu
-mais puro amor, e nem vive nem quer viver
-na terra senão para ti? <span class="direction">(Electra, immobilisada,
-olhando para o chão, cala-se)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não, bem vê que não basta essa unica
-palavra sua.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não offerece dúvida que é uma palavra
-bôa, mas insufficiente.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Quer permittir que a interrogue eu?
-Electra, minha querida amiga, assegura-te
-o coração e a consciencia que entre todos
-os homens que conheces, entre os que vês
-aqui e os que não estão presentes, é sómente
-e exclusivamente ao muito dedicado
-e ao muito respeitavel snr. de Pantoja
-que tu deves submissão e amor?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Fale abertamente e destemidamente,
-menina! Diga-nos o que o seu coração e
-a sua consciencia lhe dictarem.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>E se este senhor, a quem indubitavelmente
-deves toda a consideração e todo
-o respeito, te ordenar que o sigas, e nós
-outros te dissermos que fiques, de tua livre
-e plena vontade, que determinas?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(depois de penosa lucta)</span> Ficar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Já vê...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não está em si... Fascinaram-a.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Parece-me inutil a insistencia...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Para acabar vencido...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(com fria tenacidade)</span> Eu não sou dos que
-os homens vencem. A razão é vencedora
-sempre, e eu seria indigno da que Deus
-me deu, e que defenderei até o meu derradeiro
-alento, se a não puzesse continuamente
-acima de todo o erro e de todo o
-extravio. Maximo, os metaes que ardem
-nos teus fornos são menos duros do que
-eu. As tuas mais poderosas maquinas são
-brinquedos de vidro comparadas com a
-minha vontade. Electra pertence-me:
-basta que eu o diga.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Que terror, meu Deus!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Se quer assegurar-se do que póde a
-sua vontade opponha-a á minha.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Dispenso demonstrações comtigo ou
-com quem quer que seja. Basta-me saber
-o que devo fazer, e fazer o que devo.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Pois toda a minha força é essa: o dever.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>O teu dever é uma hypothese terrena
-e accidental. O meu gira em torno de
-uma consciencia tão rija e tão forte como
-o eixo do universo; e os meus fins são tão
-altos que nem tu os alcanças nem poderás
-alcançal-os nunca.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Por mais incommensuravel que seja a
-elevação dos seus fins, pelo amor de Electra
-eu irei a toda essa altura, para a defender.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Esta senhora voltará comnosco á sua
-casa.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Commigo. E isso bastará para justificação
-de todos os seus actos, e para que
-os tios lhe perdoem, se teem que perdoar-lhe.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Os senhores de Yuste não renegarão
-n’esta conjunctura os sentimentos e as
-convicções de toda a sua vida. <span class="direction">(Exaltando-se)</span>
-Eu estou no mundo unicamente para que
-Electra se não perca. E não se ha de perder.
-Assim o quer a vontade divina, de
-que a minha é um reflexo, e que vós confundis
-com um capricho da brutalidade
-humana, porque não sabeis nada do que
-são nas puras regiões espirituaes as emprezas
-de uma alma... Pobres cegos!
-pobres loucos!...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(consternada)</span> D. Salvador, não se desgoste—por
-Nossa Senhora lh’o peço! Eu
-não sou má, Maximo é bom... Sabem-o
-todos... Sabem-o os tios... e o snr. de<span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span>
-Pantoja bem o sabe! Não deveria sublevar-me
-até o ponto de vir para aqui sósinha,
-como determinei vir... Foi um acto
-de grave rebeldia, concordo. Voltarei para
-casa... Maximo e o snr. de Ronda irão
-commigo, e os tios hão de perdoar-me...
-<span class="direction">(A Maximo e ao Marquez)</span> Não é verdade que
-me perdoarão? <span class="direction">(A Pantoja)</span> Porque é esta
-má vontade a Maximo, que nunca lhe fez
-mal nenhum?... Confessa—pois não é
-assim?—que elle nunca lhe fez nem lhe
-quiz mal? Em que se funda essa aversão?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não é aversão: é odio recondito, inextinguivel.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Odiar-te, não. As minhas crenças prohibem-me
-o odio. De certo que ha entre
-nós ambos uma incompatibilidade proveniente
-da nossa differença de principios...
-Teu pae, Lazaro Yuste, e eu, tivemos desavenças
-profundas, que é melhor esquecer...
-Mas a ti, Maximo, nunca te quiz
-mal... Antes te quero bem. <span class="direction">(Mudando de
-tom para mais suave e conciliador)</span> Perdôa a severidade
-com que te falei, e permitte que,<span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span>
-fazendo um grande esforço sobre mim, eu
-te implore que deixes Electra partir commigo.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(inflexivel)</span> Não posso annuir.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(violentando-se mais)</span> Por segunda vez, Maximo,
-esquecendo todos os resentimentos,
-profundamente humilhado, eu te supplico...
-Deixa-a.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(devorando o vexame)</span> Bem... Pela segunda
-vez m’o negaste... Para offerecer
-ás tuas bofetadas não tenho mais de duas
-faces, por isso te não peço por terceira vez
-a mesma coisa. <span class="direction">(Com gravidade e rigidez)</span>
-Adeus, Electra... Maximo, Marquez,
-adeus.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(baixo a Maximo)</span> Por quem és, Maximo,
-transige um pouco...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(redondamente)</span> Não.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não disseste que me levarieis, tu e o
-Marquez? Vamos todos. <span class="direction">(Esta phrase é ouvida
-por Pantoja que se detem na sua marcha lenta
-para a sahida)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não... Ha de ir primeiro elle. Nós
-iremos quando nos convenha, e sem a
-salvaguarda de ninguem.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(friamente da porta)</span> E a que vaes senão a
-aggravar a situação d’essa menina?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Vou ao que devo ir.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Pode-se saber o que é?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Escusado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não preciso de que me reveles as tuas
-intenções. Para quê, se as conheço? <span class="direction">(Dá
-alguns passos para o centro da scena, cravando a
-vista em Maximo)</span> Não me fio na expressão
-dos teus olhos. Penetro na tua mente, e
-descubro o que pensas... Interroguei-te,
-não para saber da tua intenção mas para
-ouvir as promessas com que a encobres...
-Em ti não mora a verdade, nem o bem...
-não, não, não... <span class="direction">(Sae repetindo as ultimas palavras)</span></p>
-
-<h3>SCENA XI</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ E RICARDO</span>
-(Principia a escurecer)</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(consternada, procurando um refugio em Maximo)</span>
-Maximo, ampara-me! Livra-me do terror
-que me inspira este homem.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Conta commigo. Não tenhas medo.
-<span class="direction">(Pega-lhe nas mãos)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Começa a escurecer. Vamos.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Vamos... <span class="direction">(Incredula e medrosa)</span> Então,
-deveras, sempre vou comtigo?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Juntos n’esta hora, como o seremos
-para toda a vida...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Comtigo para sempre? <span class="direction">(Augmenta a escuridão)</span></p>
-
-<p class="speaker">Ricardo</p>
-
-<p><span class="direction">(á porta da esquerda)</span> Snr. D. Maximo, o
-branco deslumbrante!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(a Ricardo)</span> A fusão está feita. Creio
-que se podem apagar os fornos.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(com effusão beijando as mãos de Electra)</span> Minha
-alma, minha consolação, minha alegria!
-comtigo para todo sempre... O que<span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span>
-vou dizer aos nossos tios é que te peço,
-que te faço minha, que serás a minha mulher
-e a mamãsinha dos meus filhos.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(opprimida, como se a alegria a transtornasse)</span>
-Não me enganas?... Virei a viver sempre
-com os teus meninos? Serei entre elles
-a menina maior?... Serei tua mulher?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(com voz forte)</span> Sim. <span class="direction">(Illuminada a casa do
-fundo, resplandece com viva claridade toda a scena)</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Vamo-nos. É noite.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>É o dia!... o meu dia eterno! <span class="direction">(Maximo
-enlaça-a pela cintura e saem. O marquez segue-os)</span></p>
-
-<p class="titlepage smaller">FIM DO TERCEIRO ACTO</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">ACTO QUARTO</h2>
-
-</div>
-
-<div class="act">
-
-<p class="main">Jardim do palacio de Garcia Yuste. Á direita, a entrada para
-o palacio, com escadaria larga de poucos degraus. Á esquerda,
-jogando com a entrada, um corpo de architectura
-grutesca, ornado com baixos-relevos: junto d’esta construcção,
-um banco de pedra, em angulo, de risco elegante.
-Jarrões ou plantas exoticas adornam este terraço, com pavimento
-de mosaico, entre o edificio e o solo areado do
-jardim.</p>
-
-<p class="sub">No segundo plano e no fundo, o jardim com grandes arvores
-e macissos de flores. Do centro partem trez arruamentos
-em curva. O da esquerda leva á rua. Cadeiras de
-ferro. É de dia.</p>
-
-</div>
-
-<h3>SCENA I</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E PATROS</span>, com um cesto de flores
-que acabam de colher</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(tirando uma carta da algibeira)</span> Deixa ficar
-as flores, e aqui tens a carta.</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p><span class="direction">(pousando as flores)</span> Com esta faz trez
-desde esta manhã!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(escolhendo as flores mais pequenas com que fórma
-tres ramilhetes)</span> São tantas as coisas que
-Maximo tem que me dizer, e eu a elle...</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Bemdito seja Deus, que da noite de
-hontem para hoje tanta felicidade lhe deu,
-senhorita Electra!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E que depressa, Patros! que rapidamente!
-como n’um sonho, que tudo se fez!
-Hontem á noite fiquei pedida, e hoje marcam
-os tios o dia do casamento...</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>E no emtanto, carta para lá, carta
-para cá... de não acabar nunca...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Que queres? Se desde hontem nos não
-podemos vêr como companheiros, na
-fabrica, porque sômos noivos agora...
-Temos de nos corresponder por escrito.
-Na carta das oito horas e um quarto falava-lhe
-das coisas muito serias que estou
-impaciente por dizer-lhe. Na das nove e<span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span>
-vinte e cinco recommendava-lhe que se
-não esquecesse da colhér de xarope que
-tem de se dar a Pepito de duas em duas
-horas... N’esta agora digo-lhe que a tia
-foi para a missa e que tem demora... É
-natural que elle lhe queira falar...</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Até ás onze horas de certo que não
-volta a senhora da egreja...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E ás onze vou eu para a missa com o
-tio. <span class="direction">(Atando os tres ramilhetes)</span> Pronto! Este
-para elle, estes para cada um dos meninos...
-Um a cada um para que não briguem...
-<span class="direction">(Dispondo-se a compôr o ramo grande)</span>
-E agora o ramo grande para a Senhora
-das Dôres... Vae, e volta depressa para
-me ajudares... Espera resposta—é claro—uma
-palavra que seja!</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Vou de corrida. <span class="direction">(Sae pelo fundo)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(escolhendo as mais lindas flores para o grande
-ramo)</span> Hoje, minha querida Mãe Santissima,
-ha de ser maior a minha offerenda;
-e a minha pena é que não seja tão grande
-que fique sem uma só flôr o jardim dos
-tios... Deante da tua santa imagem
-queria eu hoje collocar todas as mais lindas
-coisas da terra: as rosas, as estrellas e
-os corações amantes... Virgem Maria!
-consolação e esperança nossa! não me
-desampareis, levae-me ao bem que te
-pedi, e que hontem á noite me prometteu
-a expressão dos teus divinos olhos quando
-as minhas lagrimas te disseram a gratidão
-e a esperança da minha alma...!</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p><span class="direction">(pressurosa pelo fundo)</span> Não trago carta,
-mas trago um recadinho, que ainda é melhor...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Que vem cá?</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Logo que saiam uns senhores, que estavam
-já a despedir-se... Que a menina o
-espere aqui para lhe falar um momento...
-Tem de ir a uma conferencia depois...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(olhando para o fundo)</span> Virá já?...</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Ahi vem.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(dando-lhe o ramo)</span> Toma lá... para Nossa
-Senhora... Para a Nossa Senhora do
-meu quarto, bem entendido! Não é para
-a do altar do oratorio, toma sentido: é
-para a da cabeceira da minha cama.</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Pois pudera! <span class="direction">(Entra correndo pela escada)</span></p>
-
-<h3>SCENA II</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MAXIMO</span>, depois o <span class="allsmcap">MARQUEZ</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(a distancia, abrindo um pouco os braços)</span> Menina!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(mesma attitude)</span> Maximo!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Aqui estamos embaçados, deante um
-do outro, sem saber que dizer.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Embaçadissimos. Começa tu.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Tu... para te desacanhares... Dize-me
-uma grande mentira: que me não
-amas.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Dize-me primeiro tu uma grande verdade.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Que te adoro. <span class="direction">(Approximam-se)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Em paga d’essa mentira toma esta
-rosa que te escolhi, sem brilho, pequena,
-singela, humilde, como eu quero ser
-para ti.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Tu tens um grande coração e um alto
-espirito...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_195"></a>[195]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não tenho; mas gostava de ser ainda
-mais tôsca e mais informe do que sou para
-que tu me ensinasses tudo, e eu não tivesse
-nada que não fôsse teu.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Deus fez de ti a sua obra mais preciosa...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E deu-te essa obra, que é apenas o
-esboço d’uma creatura humana, para que
-tu a completes e aperfeiçôes.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Para que eu a enthronise e a corôe,
-deixando desenvolver-se d’ella a immortal
-flôr de humanidade, que é a simples
-mulher da casa, forte, pura, alegre e compadecida.
-<span class="direction">(Consulta o relogio)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Tens essa conferencia... Vae á tua
-obrigação... Não te demorarás muito?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_196"></a>[196]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Virei encontrar-me com a tia quando
-ella vier da missa.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E o marquez, desde hontem... voltou
-como tinha dito?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Deixei-o agora na fabrica a escrever
-ao tabellião. Incomparavel amigo!...
-Hontem á noite—sabes?—contei-lhe, ao
-voltar para casa, o teu romance paterno...
-esse romance dos dois capitulos...
-Indignou-o a intervenção despotica
-de Pantoja e de Cuesta na tua vida;
-e essa lamentavel historia mais ainda o
-fortaleceu na firme determinação de defender-nos...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(surprehendida)</span> Mas então precisamos
-ainda de que nos defendam?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>No essencial é claro que não... Mas
-quem nos assegura que esses dois homens
-não tentem oppôr-nos alguns obstaculos
-de jurisdicção theorica?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_197"></a>[197]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(tranquillisando-se)</span> D’essa jurisdicção nos
-riremos nós.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Mas rindo, rindo, teremos de a prevenir
-e de a annullar.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(pressuroso pelo fundo)</span> Então ainda aqui?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Falavamos de si, e deliberavamos nomeal-o
-procurador dos nossos negocios de
-familia...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Acceito a procuração... <span class="direction">(Reprehendendo-o
-com doçura)</span> Mas, homem, que se lhe faz
-tarde!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Adeus, adeus! até já.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(vendo-o partir)</span> Vae, e vem depressa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_198"></a>[198]</span></p>
-
-<h3>SCENA III</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E O MARQUEZ</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Ahi está o que é um galan de categoria
-scientifica... Parabens pelo achado
-d’esta preciosidade rara. A graça e a alegria
-da sua edade precisava da alliança
-de uma razão grave e de um coração firme,
-como o d’este homem. É elle, entre
-quantos eu conheço, o mais perfeitamente
-destinado para fazer da minha querida
-menina uma grande e exemplar mulher.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Fará de mim o que elle quizer que eu
-seja. <span class="direction">(Com muita curiosidade)</span> Mas diga-me, snr.
-de Ronda, conheceu a primeira mulher de
-Maximo? Perdôe-me esta curiosidade, e
-não extranhe que eu deseje saber da vida
-toda do homem que amo.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não convivi com ella... Vi-a com
-Maximo uma ou duas vezes. Era uma<span class="pagenum"><a id="Page_199"></a>[199]</span>
-vascongada, sêcca, vulgar, pouco intelligente,
-bôa esposa para um lar tranquillo
-mas sem felicidade...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Os paes d’elle sim, conheceu-os muito?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>A mãe nunca a vi. Era uma senhora
-franceza, de alto merito. Foi em môça
-uma das amigas de minha mulher. O pae,
-Lazaro de Yuste, conheci-o ha trinta
-annos em Hispanha e em França. Era
-homem muito intelligente, bem parecido,
-felicissimo em negocios de minas, e não
-menos afortunado em negocios de amor.
-Era falado.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>N’esse ponto não se parece com elle o
-filho, que é a austeridade em pessôa.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>De certo que sim. O seu futuro marido,
-minha querida Electra, é o modelo dos
-homens, e a honra de uma geração muito
-mais perfeita do que infelizmente foi a
-minha. Para que nada lhe falte, esse portentoso<span class="pagenum"><a id="Page_200"></a>[200]</span>
-magico até é rico... rico pelo que
-lhe deixou o pae e mais rico ainda pelo
-que herdou agora dos tios de França. Que
-mais quer? Peça por bôca, e verá como
-Deus lhe responde: «Menina, não tenho
-mais que lhe dar.»</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(suspirando)</span> Ai!... E agora, outra coisa...
-diga-me, meu querido Marquez:
-posso estar socegada?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Inteiramente.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Escuso de ter medo das pessôas...—já lhe disseram—das
-pessôas que se
-julgam com sufficiente auctoridade...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Essas pessôas poderão talvez incommodar-nos
-passageiramente, emquanto
-nós não resolvermos encurtar-lhes os vôos.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>O snr. de Cuesta...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_201"></a>[201]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Esse não é de cuidado. Ainda hoje lhe
-falei, e estou certo de que nos dará o seu
-mais convicto assentimento.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>O snr. de Pantoja...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Esse ha de resmungar um pouco mais,
-e pretenderá fazer-nos ouvir as trombetas
-biblicas para nos assustar; mas não lhe
-tenha medo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Deveras?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não vale nada.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não tenho de que me atterrar quando
-o encontre?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não mais que da importunidade de
-um mosquito.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_202"></a>[202]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Que allivio me dá! <span class="direction">(Com enthusiasmo carinhoso)</span>
-Deus lhe pague! Deus o bemdiga,
-snr. de Ronda!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(muito affectuoso)</span> Deus será comvosco.</p>
-
-<h3>SCENA IV</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E URBANO</span>, vindo de casa, de chapeu na cabeça</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Marquez, bons dias.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Querido Urbano, posso falar comsigo?</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Não lhe faz differença depois da missa...?
-<span class="direction">(A Electra)</span> Então, rapariga, que vagares
-são esses? Está a tocar.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Só tenho que pôr o chapeu. Meio minuto,
-tio. <span class="direction">(Entra correndo em casa)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_203"></a>[203]</span></p>
-
-<h3>SCENA V</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">MARQUEZ E URBANO</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Temos de pôr dia para o casamento,
-e de fazer escriptura de consentimento
-em regra.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Será talvez melhor que você trate de
-tudo directamente com minha mulher.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Mas, meu amigo, chegou o momento
-de fazer frente a certas ingerencias que
-annullam a sua auctoridade de chefe de
-familia.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Meu caro de Ronda, peça-me você que
-altere, que transtorne todo o systema planetario,
-que tire os astros d’aqui assim e
-que os ponha para acolá; mas não peça
-coisa nenhuma que seja contraria ao parecer
-de minha mulher.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_204"></a>[204]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Homem, isso tambem lá me parece
-submissão de mais!... Eu pela minha
-parte insisto em que devo tratar este negocio
-particularmente com você e não
-com Evarista.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Vamos á missa e depois falaremos.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Pois vamos lá, eu tambem vou.</p>
-
-<h3>SCENA VI</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS, ELECTRA, EVARISTA E PANTOJA</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(de chapeu, luvas, livro de missa)</span> Pronta.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Vamos. O Marquez vae comnosco.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(pelo fundo, á esquerda, seguida de Pantoja)</span>
-Vão ligeiros.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_205"></a>[205]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Depressa, se querem chegar.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>O marquez volta?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Infalibillissimamente, minha senhora.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Até logo. <span class="direction">(Saem Electra, o marquez e Urbano
-pelo fundo, á esquerda)</span></p>
-
-<h3>SCENA VII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">EVARISTA E PANTOJA</span>, que com mostras de cansaço e
-desalento se atira para o banco da esquerda, primeiro
-plano.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Entramos?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Perdão: deixe-me respirar por um
-momento. Na egreja abafava-se... com
-o calôr, com o apertão de gente...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_206"></a>[206]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Vou-lhe mandar vir alguma coisa fresca...
-<span class="direction">(chamando)</span> Balbina!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não, obrigado.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Uma taça de tilia...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Tambem não. <span class="direction">(Na occasião de Balbina sahir,
-a senhora dá-lhe a mantilha, que acaba de tirar, e o
-livro de missa)</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Não ha motivo, emquanto a mim, para
-nos affligirmos tanto...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não é, como querem dizer, o meu orgulho;
-é n’um ponto mais delicado e mais
-profundo que eu me sinto ferido. Nega-se-me
-a consolação e a gloria de dirigir
-essa creatura e de a levar commigo pelo
-caminho do bem. E vejo com grande magoa
-que você, tão affecta aos meus principios,<span class="pagenum"><a id="Page_207"></a>[207]</span>
-e que eu considerava uma fiel amiga
-e uma fervorosa alliada, me abandona na
-hora critica.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Perdoe-me, D. Salvador. Eu não o
-abandono. Estavamos inteiramente de
-accordo, com relação a Electra, em guardal-a
-por algum tempo—nunca se tratou
-de a encerrar para sempre—em S. José
-da Penitencia, attendendo á disciplina e
-purificação d’aquella casa... Mas surge
-agora repentinamente esta inesperada
-veneta de Maximo, e eu não posso, realmente,
-não posso de modo nenhum recusar
-o meu consentimento... É uma
-loucura? será... Mas de Maximo, como
-homem de honrado e correcto procedimento,
-que tem que dizer?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Nada. <span class="direction">(corrigindo-se)</span> Isto é: alguma coisa
-poderia talvez... Mas, por agora, o
-que unicamente digo é que Electra não
-está preparada para o casamento, não
-tem aptidão para eleger marido... Não
-reprovo em absoluto que se case, quando
-seja com um homem cujas ideias a não
-pervertam... Mas este ponto é para mais
-tarde... O essencial n’este momento é<span class="pagenum"><a id="Page_208"></a>[208]</span>
-que essa tenra creatura entre quanto antes
-no sagrado asylo, onde nos cumpre
-estudar, com o tacto mais subtil e mais
-carinhoso, a configuração do seu caracter,
-as suas predilecções, as suas tendencias,
-os seus affectos; e em vista do
-que observarmos, fundamentadamente e
-seguramente depois d’este prévio exame,
-resolveremos... <span class="direction">(Altaneiro)</span> Que ha que dizer
-a isto?—pergunto eu agora.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(acobardada)</span> O que digo é que para esse
-plano... na realidade perfeito... eu não
-posso, não ouso offerecer-lhe a minha
-cooperação.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(com arrogancia, passeando)</span> De modo que,
-segundo os seus caridosos principios, se
-Electra se quer perder, que se perca!...
-que importa?... Se ella quer condemnar
-a sua alma, que a condemne!... Que temos
-nós com isso?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(com maior timidez, suggestionada)</span> Perder-se!
-condemnar-se! E está porventura na minha
-mão evital-o?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_209"></a>[209]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(com energia)</span> Está.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Oh! não... Não tenho a audacia de
-intervir... E com que direito?... Impossivel,
-Salvador, impossivel...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(affirmando mais a sua auctoridade)</span> Saiba,
-minha amiga, que o acto de apartar Electra
-de um mundo nefasto, em que por
-todos os lados a rodeiam appetites e voracidades
-ferozes, não é um despotismo:
-é o amor na expressão mais alta e mais
-pura do carinho paternal. Ainda por acaso
-ignora, Evarista, que o fim supremo e
-unico da minha vida não é hoje outro senão
-o bem d’esta menina?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(acobardando-se mais)</span> Bem sei que é assim.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(com effusão)</span> Eu amo Electra com um
-amor que as grosseiras palavras do homem
-não podem definir. Desde que os meus<span class="pagenum"><a id="Page_210"></a>[210]</span>
-olhos a viram, a voz do sangue me bradou
-do mais fundo do meu ser que essa
-creatura me pertence... Quero têl-a,
-e devo têl-a, santamente, debaixo do meu
-dominio paternal... Quero que ella me
-ame como os anjos amam... que seja a
-pura imagem da minha crença, o limpido
-espelho do meu eterno ideal... que se reconheça
-obrigada a padecer por aquelles
-que lhe deram a vida, e purificando-se
-pela mortificação, nos ajude a nós, que
-fômos maus, a alcançar o perdão de
-Deus... Não comprehende estas coisas,
-Evarista?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(abatida)</span> Comprehendo-as e profundamente
-admiro a elevação do seu entendimento.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Menos admiração e mais eficacia em
-meu auxilio é o que lhe peço.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Não posso... <span class="direction">(Senta-se chorosa e abatida)</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>É bem natural que Electra lhe não
-mereça o mesmo interesse que tão profundamente<span class="pagenum"><a id="Page_211"></a>[211]</span>
-me inspira a mim. <span class="direction">(Empregando
-suavidades de persuasão)</span> Convenho em que
-n’estes primeiros tempos lhe tenha de pesar
-algum tanto o seu brusco apartamento
-das alegrias mundanas, mas muito rapidamente
-se adaptará á dôce paz, á venturosa
-quietação do claustro... Eu a dotarei
-amplissimamente. Tudo quanto tenho
-será para ella, para o esplendor da sua
-santa casa... Será nomeada Superiora, e
-sob a minha auctoridade, e pelo meu conselho,
-governará a congregação... <span class="direction">(Com
-profunda commoção)</span> Que celestial ventura,
-meu Deus! Que felicidade para ella, e para
-mim! <span class="direction">(Fica-se como em extase)</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Comprehendo que por não acceder ao
-que deseja de mim eu privo talvez uma
-creatura de chegar ao estado mais perfeito
-da condição humana... Conhece bem os
-meus sentimentos, Salvador... Sabe com
-quanto prazer eu trocaria sem vacillar
-toda a opulencia em que vivo pela gloria
-de dirigir obscuramente uma modesta casa
-religiosa do maior trabalho e da maior
-humildade! Sempre o admirei pela sua
-larga protecção a S. José da Penitencia,
-e subiu de ponto essa admiração quando<span class="pagenum"><a id="Page_212"></a>[212]</span>
-soube que redobrou o seu auxilio desde a
-occasião em que a minha pobre Eleuteria
-foi procurar n’esse instituto o esquecimento,
-a paz e o perdão dos seus erros de
-amor, como os de Magdalena. N’esse acto
-da vida do rico snr. de Pantoja se me revelou
-a espiritualidade mais pura a que
-se pode elevar um homem.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Sim: desde que a sua desventurada
-prima deu entrada n’aquelle sagrado asylo,
-a minha protecção não sómente se tornou
-mais positiva mas ainda mais espiritual.
-Nunca, nunca mais tornei a pôr os meus
-olhos em Eleuteria depois de convertida,
-porque de ninguem—nem de mim!—ella
-se tornou a deixar vêr desde que lhe cortaram
-os cabellos e lhe botaram o escapulario.
-Mas eu ia quotidianamente á egreja;
-e invisivel do côro, n’um recanto da nave,
-praticava em espirito com a penitente,
-considerando-a tão perfeitamente regenerada
-como eu proprio o estava. Morreu a
-infeliz aos quarenta e cinco annos da sua
-edade. Então obtive o consentimento de
-uma sepultura no interior do edificio. E
-desde esse dia não protegi mais a congregação,
-tornei-a inteiramente minha, porque<span class="pagenum"><a id="Page_213"></a>[213]</span>
-n’ella repousavam debaixo da pedra
-de uma campa os restos d’aquella que eu
-amei. Juntára-nos o peccado, reunia-nos
-o arrependimento, ella na paz da morte,
-eu na tempestuosa provação da vida...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>E ainda agora aquelle a que bem podemos
-chamar o senhor e o reformador do
-convento, todos os dias, sem excepção de
-um unico, visita aquella santa casa e se
-ajoelha no cemiterio humilde e docemente
-poetico, onde as monjas dormem o somno
-eterno.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(vivamente)</span> Sabia isso?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Sabia... E que no claustro, silencioso
-e florido, entre loendros e cyprestes...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>É certo... quem lh’o disse?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_214"></a>[214]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>...vagueia, como um propicio phantasma
-da saudade, o sombrio fundador
-d’aquella casa, implorando de Deus o descanço
-d’ella e o seu.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Sim... Ali repousarão tambem os
-meus pobres ossos. <span class="direction">(Com vehemencia)</span> Quero,
-além d’isso, que assim como em espirito eu
-me não aparto por um só momento d’aquella
-casa, ahi passe tambem, pelo tempo
-que fôr preciso, o espirito de Electra...
-Não a violentarei á vida claustral; mas se,
-experimentando essa existencia, e apreciando
-o seu incomparavel sabor, ella deliberasse
-persistir na clausura, eu acreditaria
-então que Deus me destinara para a
-mais ineffavel graça. Ali as cinzas adoradas
-da peccadora redimida; ali, na candida
-alvura do seu habito de noviça, a minha
-filha; ali eu, pedindo a Deus para
-ellas a gloria eterna. E na morte, o escondido
-e imperturbado repouso na mesma
-terra amada,—todos os meus amores
-commigo e todos nós em Deus...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_215"></a>[215]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(com viva commoção)</span> Perfeita grandeza,
-por certo... Idealidade incomparavel.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Duvída ainda de que o meu pensamento
-seja o mais elevado? De que me
-não move nenhuma paixão ruim?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Como quer que duvíde?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Pois se com effeito lhe parece bello o
-meu plano, porque me não ajuda a realisal-o?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Porque me não considero com poderes
-para isso.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Nem assegurando-lhe eu que a reclusão
-de Electra terá um caracter provisorio?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_216"></a>[216]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Nem assim. Não, D. Salvador, não
-conte commigo... <span class="direction">(luctando com a sua consciencia)</span>
-Reconheço toda a elevação, toda
-a formosura das suas ideias... D’ellas
-sinto um ecco suave e acariciador na minha
-propria alma. Mas—que quer, meu
-bom amigo—vivo no mundo em que
-Deus me collocou: tenho tambem para
-com este mundo deveres sagrados. Dêvo-me,
-com aquelles que me rodeiam, á vida
-social; e na vida da sociedade e da familia
-o seu projecto é... como lh’o direi,
-sem o magoar?... é uma anomalia angelica.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(dissimulando o seu enfado)</span> Bem. Paciencia...
-<span class="direction">(Passeia caviloso e sombrio)</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(depois de uma pausa)</span> Em que pensa?
-Desiste?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(com naturalidade e firmeza)</span> Não, minha senhora.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Qual então o seu projecto?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_217"></a>[217]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não sei... Ha de acudir-me uma
-ideia... Pensarei... <span class="direction">(Resolvendo-se)</span> Minha
-cara amiga, quer fazer-me o favor de escrever
-uma carta á superiora da Penitencia?</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Dizendo-lhe...?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Que venha aqui immediatamente, com
-duas irmãs, n’uma carruagem.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Porque lhe não escreve directamente?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Porque tenho de acudir a outras coisas.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Quer já?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>O mais breve possivel...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Bem. <span class="direction">(Dirige-se para casa)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_218"></a>[218]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Peço-lhe que mande a carta sem perda
-de tempo.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(olhando do alto da escada para o jardim)</span> Creio
-que elles ahi vem.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Depressa a carta, minha cara amiga.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Vae já... Deus nos inspire a todos.
-<span class="direction">(Entra em casa)</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Lá vou ter. <span class="direction">(Áparte)</span> Que me não vejam!
-<span class="direction">(Esconde-se atraz do macisso da direita junto
-da escada)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_219"></a>[219]</span></p>
-
-<h3>SCENA VIII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">PANTOJA</span>, occulto; <span class="allsmcap">ELECTRA, URBANO, MARQUEZ</span>,
-que voltam da missa—<span class="allsmcap">PATROS</span>, que desce de casa.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(adeantando-se encontra-se com Patros junto da
-escada)</span> Veio?</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Não, senhorita. <span class="direction">(Ouve-se o canto afastado
-dos meninos que brincam no jardim)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Morro de impaciencia. <span class="direction">(Tira o chapeu e as
-luvas, que entrega a Patros com o livro de missa)</span>
-Vou brincar com os pequenos emquanto
-espero... Não... Vou apanhar flôres.
-<span class="direction">(Colhe algumas no macisso da esquerda)</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(a Patros)</span> A senhora?</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Em casa.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Vamos ter com ella.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_220"></a>[220]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Vamos a isso. <span class="direction">(Entram em casa. Patros
-segue-os)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(admirando as flôres que acaba de cortar)</span> Que
-lindos, que graciosos rainunculos! <span class="direction">(Pantoja
-apparece e Electra assusta-se ao vêl-o)</span> Ai!</p>
-
-<h3>SCENA IX</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E PANTOJA</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Assim te assusto, minha filha?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>É verdade... Não posso evital-o...
-Que quer? Bem sei que não devia, e que
-não tenho de que ter medo... Perdôe-me
-por quem é, D. Salvador... Vou jogar
-ao côrro com os pequenos...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Um momento. Vaes aos meninos para
-que elles te dêem da sua alegria?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_221"></a>[221]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não, hoje não; vou repartir com elles
-da que trasborda da minha alma. <span class="direction">(Afasta-se
-o canto de roda dos meninos)</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Já sei a causa d’essa grande alegria,
-já a sei...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Uma vez que sabe, não tenho então
-que lhe contar. Até logo snr. de Pantoja.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Ingrata! Concede-me um instante...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Um instantinho só?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Unicamente.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Bom. <span class="direction">(Senta-se no banco de pedra. Colloca a
-um lado as flôres e vae escolhendo aquellas com que
-se touca, mettendo-as no cabello)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_222"></a>[222]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não sei porque tens reservas commigo
-sabendo quanto me interesso pela tua felicidade
-e pela tua vida...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(sem olhar para elle, attenta ás flôres)</span> Pois, se
-o interessa a minha felicidade, alegre-se
-commigo: sou a creatura feliz.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Feliz hoje. E amanhã?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Amanhã mais feliz do que hoje... E
-sempre mais, sempre o mesmo!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>A alegria verdadeira e constante, o
-goso perenne e indestructivel só existem
-no amor eterno, superior ás inquietações
-e ás miserias humanas.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(adornado o cabello, põe flôres no seio e no cinto)</span>
-Toca-me outra vez no antigo registro de
-que tenho de ser anjo... Sou uma pobre
-pessoasinha summamente terrestre, D. Salvador.<span class="pagenum"><a id="Page_223"></a>[223]</span>
-Deus fez-me para mulher, e botou-me
-a este mundo. Já vê que, se estou
-aqui, é porque elle não precisava de mim
-para o ceu n’esta occasião.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Ha tambem anjos na terra, minha filha.
-Anjos são todos aquelles que no meio
-das desordens da materia sabem viver a
-pura vida do espirito.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(mostrando o collo e o busto ornados de florinhas.
-Ouve-se mais perto o coro dos meninos)</span> Que tal?
-não lhe pareço um anjo?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Pareces, e quero que o sejas.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Assim me adorno para divertir os meninos.
-Se visse a graça que elles me acham!
-<span class="direction">(Com uma triste ideia subita)</span> Sabe com que eu
-me estou parecendo agora? Com um menino
-morto. Assim se enfeitam os meninos
-quando os levam a enterrar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_224"></a>[224]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Para symbolisar a ideal belleza do ceu
-para onde elles vão.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(arrancando as flôres)</span> Não, isso não, não
-quero parecer menina morta. Dá-me a
-ideia de que vem o snr. de Pantoja para
-me levar á sepultura!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Oh! eu não te quero enterrada. Quereria
-rodear-te de luz. <span class="direction">(Vae esmorecendo e cessa
-de todo o côro dos meninos)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Tambem se põem luzes aos meninos
-mortos.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não quero a tua morte, quero a tua
-vida; não a vida inquieta e vulgar, mas
-dôce, livre, elevada, amorosa, com um
-eterno e puro amor divino.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(Confusa)</span> E porque é que me deseja
-tudo isso?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_225"></a>[225]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Porque te quero muito, com um amor
-mais excelso que todos os amores humanos.
-Melhor comprehenderás a grandeza
-d’este affecto, dizendo-te que para evitar-te
-a mais leve dôr eu tomaria para mim
-os mais espantosos tormentos que se possam
-imaginar.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(estonteada, sem entender bem)</span> É o cumulo
-da abnegação uma coisa d’essas.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Considera agora quanto soffrerei por
-não poder evitar um desgostosinho, um
-dissabor, que te vou dar.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>A mim?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>A ti mesma.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Um desgosto?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Desgosto que mais me afflige por ter
-de ser eu que t’o cause.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_226"></a>[226]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(rebelando-se, levanta-se)</span> Desgostos! Não
-os quero. Não os acceito. Guarde-os. Que
-ninguem hoje me traga senão alegrias!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(condoído)</span> Bem quizera dar-t’as, mas
-não posso.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Que terror que tenho! <span class="direction">(Com subita ideia
-que a tranquillisa)</span> Ah! já sei... Pobre D. Salvador!...
-É que me quer dizer mal de
-Maximo... Alguma coisa que lhe parece
-mal, mas que a mim me parece bem...
-Escusa de se cançar porque nem me convence
-nem o acredito. <span class="direction">(Precipitando-se na
-emissão das palavras sem dar tempo a que Pantoja
-fale)</span> Maximo é o maior e o melhor homem
-do mundo, é o primeiro, e todo aquelle
-que me disser uma palavra contraria a
-esta verdade, mente, e detesto-o pela mentira,
-e detesto-o...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Por Deus, minha filha! Não te arrebates
-assim... Ouve. Eu não digo mal
-de ninguem, nem dos que me odeiam.
-Maximo é bom, é trabalhador, é intelligentissimo...
-Que mais queres?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_227"></a>[227]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(satisfeita)</span> Assim, continue assim...
-Vae dizendo muito bem.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Digo mais ainda: que podes amal-o,
-que deves amal-o...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(com alegria)</span> Ah!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Amal-o entranhadamente... <span class="direction">(Pausa)</span>
-A culpa não é d’elle, não é...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(assustada outra vez)</span> Querem vêr que ainda
-acaba por lhe attribuir maldades?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>A elle não.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Então a quem? <span class="direction">(Recordando-se)</span> Ah!
-adivinho: o snr. de Pantoja e o pae de
-Maximo foram implacaveis inimigos. Tambem
-me disseram já que esse senhor de
-Yuste, honradissimo nos seus negocios,<span class="pagenum"><a id="Page_228"></a>[228]</span>
-foi, talvez, um pouco demais galanteador
-e mundanario... Mas que me importa
-isso?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Pobre innocente! não sabes o que dizes.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Digo que esse excellente homem...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Lazaro Yuste, sim... Ao nomeal-o
-tenho de associar a sua triste memoria á
-de uma pessoa que já não vive... muito
-querida de ti...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(comprehendendo e não querendo comprehender)</span>
-De mim!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Que morreu, e a quem tu muito queres.
-<span class="direction">(Pausa. Olham um para o outro)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(com terror e em voz apenas perceptivel)</span> Minha
-mãe! <span class="direction">(Pantoja faz um signal affirmativo)</span> Minha
-mãe! <span class="direction">(Attonita, desejando e temendo uma explicação)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_229"></a>[229]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Chegaram os dias de perdão. Perdoemos.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(indignada)</span> Minha mãe, a minha pobre
-mãe! Não falam d’ella senão para a deshonrar,
-para a denegrir... E ultrajam-a
-aquelles mesmos que a envilleceram! Pudesse
-eu tel-os a todos na mão para os desfazer,
-para os destruir, para não deixar
-d’elles nem uma migalha assim!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Terias que principiar por Lazaro Yuste.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>O pae de Maximo!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>O primeiro depravador da desgraçada
-Eleuteria.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Quem é que o diz?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Quem o sabe.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_230"></a>[230]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>E... <span class="direction">(Fixam-se nos olhos. Electra não se atreve
-a expôr a sua ideia)</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Triste de mim!... Não deveria falar-te
-d’isto. Dera para o esconder todos os
-dias que me restam de vida. Comprehenderás
-que não podia ser... O meu amor
-por ti ordena-me que fale.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(angustiada)</span> Meu Deus! e ter eu de
-ouvil-o!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Disse eu que foi Lazaro Yuste...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(tapando os ouvidos)</span> Não quero, não quero
-ouvir.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Tinha então tua mãe a edade que tens
-agora: desoito annos...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não acredito, não acredito...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_231"></a>[231]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Era uma jovem senhora encantadora,
-quasi uma creança, que supportou com a
-mais corajosa dignidade o horror d’aquella
-vergonha...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(rebelando-se com energia)</span> Cale-se! Cale-se!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>A vergonha do nascimento de Maximo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(apavorada, com o rosto demudado, recua cravando
-os olhos em Pantoja)</span> Ah!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Procurando com discrição attenuar a
-affronta da sua victima, Lazaro occultou o
-menino e levou-o misteriosamente comsigo
-para França.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>A mãe de Maximo foi uma senhora
-franceza: Josephina Perret.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Mãe adoptiva.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_232"></a>[232]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(tapando os olhos com ambas as mãos)</span> Divino
-Jesus! É o ceu que desaba...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(condoído)</span> Filha da minha alma, volve
-para Deus os teus olhos.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(demudada)</span> É um sonho... Tudo o que
-estou vendo é illusão, é mentira. <span class="direction">(Olhando
-espantadamente para uma parte e para outra)</span> Mentira
-estas arvores, esta casa, este ceu...
-Mentira tu! tu! tu, que não existes, monstro
-d’um pesadelo horrivel!... <span class="direction">(Com os punhos
-na cabeça)</span> Acorda, desgraçada, acorda!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(tentando socegal-a)</span> Electra, querida Electra!
-Pobre innocente!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(com um grito d’alma)</span> Mãe, minha mãe!...
-A verdade, dize-me a verdade... <span class="direction">(Fóra de
-si percorre a scena)</span> Onde estás, mãe?...
-Quero a morte ou a verdade... Minha
-mãe! minha mãe!... <span class="direction">(Sae pelo fundo, perdendo-se
-na longinqua espessura das arvores. Ouve-se
-proximo o canto dos meninos jogando ao côrro)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_233"></a>[233]</span></p>
-
-<h3>SCENA X</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">PANTOJA, URBANO, MARQUEZ</span>, vindos de casa, á pressa.
-Depois d’elles <span class="allsmcap">BALBINA E PATROS</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Que é?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Ouvimos gritar Electra.</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>Foi a correr pelo jardim.</p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>Por aqui. <span class="direction">(As duas creadas assustadas correm
-e internam-se no jardim)</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(olhando por entre as arvores)</span> Lá vae correndo...
-Continúa a gritar... Pobre Electra!
-<span class="direction">(Adeanta-se para o jardim)</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Que foi isto?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_234"></a>[234]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Eu lh’o direi... Um momento...
-Providenciemos antes de mais nada...</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>O quê?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(procurando coordenar as suas ideias)</span> Deixe-me
-pensar... Trazel-a para casa já...
-Ir buscal-a... Vá!</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p><span class="direction">(olhando para o jardim)</span> Lá está já o meu
-sobrinho...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(contrariado)</span> Em que má hora!</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Correm para elle os meninos... Parece
-que o informam... Electra foge-lhe...
-Não o quer vêr... Mette-se na gruta...
-O Marquez intervem... Pobre Maximo!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Vá! vá ter com elles!... Não deixe
-que Maximo intervenha...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_235"></a>[235]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Que balburdia! <span class="direction">(Interna-se no jardim)</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Se eu podesse... <span class="direction">(hesitante em ir e não ir)</span></p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p><span class="direction">(voltando pressurosa do jardim)</span> Pobre menina!
-Chama aos gritos pela sua mãe...
-Sentou-se agarrada aos meninos á porta
-da gruta, e ninguem a tira d’ali...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>E Maximo?</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>Muito inquieto, sem saber o que ha de
-fazer, como todos nós... Vou chamar a
-senhora...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não, não vá. Já chegaram a senhora
-superiora e as irmãs de S. José?</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>Já, sim senhor, chegaram agora.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_236"></a>[236]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não diga nada á senhora. Vá para
-casa e espere por mim.</p>
-
-<p class="speaker">Balbina</p>
-
-<p>Sim, senhor. <span class="direction">(Sobe para casa)</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(indeciso e como assustado)</span> Não sei que
-faça... Pela primeira vez na minha vida
-hesito... Irei?... Esperarei aqui? <span class="direction">(resolvendo-se)</span>
-Vou. <span class="direction">(A poucos passos encontra-se com
-Maximo, agitado e colerico, que vem do jardim e o
-detem)</span></p>
-
-<h3>SCENA XI</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">PANTOJA E MAXIMO</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(ardentemente em toda a scena)</span> Alto!... Diz-me
-o marquez de Ronda que d’aqui, depois
-de uma demorada conversação comsigo,
-sahiu Electra no delirio em que está.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(perturbado)</span> Aqui... de certo... falamos...
-A senhorita Electra...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_237"></a>[237]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Foi mordida pelo monstro.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Talvez... mas o monstro não sou eu.
-É um mais terrivel, que se alimenta de
-factos e que se chama a Historia. <span class="direction">(Querendo
-ir-se)</span> Adeus.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(agarrando-o fortemente por um braço)</span> Espere.
-Primeiro vae repetir aqui, já, immediatamente,
-o que foi que disse a Electra esse
-seu monstro da Historia...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(sem saber que dizer)</span> Eu... convém assentar
-préviamente que...</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Nada de preambulos... Quero aqui a
-verdade, concreta, exacta, precisa... Electra
-foi offendida de um modo tão profundo
-que lhe alterou a razão... Com que
-palavras, com que suggestões? Preciso de
-sabel-o prontamente. Trata-se da mulher
-que é tudo para mim no mundo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_238"></a>[238]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Para mim é mais: é o ceu e a terra.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Quero saber, n’este mesmo instante,
-que horrivel maquinação foi esta, urdida
-por si, contra essa menina, contra mim,
-contra nós ambos eternamente unidos pela
-effusão das nossas almas. Com que baba
-se envenenou aquella a quem eu posso e
-devo chamar desde já a minha legitima
-mulher? Que responde?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Nada.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(acommette-o explodindo em colera)</span> Pois por
-esse infame silencio, mascara impudente
-e abjecta de um egoismo tão grande que
-não cabe no mundo; por essa virtude não
-sei se falsa, se verdadeira, que da sombra
-desfere o raio que nos aniquilla; <span class="direction">(agarra-o
-pela garganta e derriba-o no banco)</span> por essa doçura
-que envenena, por essa suavidade que
-estrangula, Deus te confunda, homem
-grande ou miseravel reptil, aguia, serpente,
-ou o que sejas!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_239"></a>[239]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(recobrando alento)</span> Que brutalidade! que
-infamia! que demencia!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Bem sei. Estou doido... <span class="direction">(Recompondo-se)</span>
-E quem é que dispõe assim do poder diabolico
-de desvirtuar o meu caracter, arrastando-me
-a esta colera insensata, fazendo-me
-o estupido aggressor de um ente debil
-e mesquinho, incapaz de responder á força
-com a força?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(tomando aprumo)</span> Com a força te respondo.
-<span class="direction">(Voltando á sua condição normal, exprimindo-se
-com serenidade sentenciosa)</span> Tu és a força do
-musculo, eu a força da alma. <span class="direction">(Maximo olha
-para elle, attonito e confuso)</span> Posso mais do que
-tu, infinitamente mais. Duvídas?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>De que póde mais?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>A ira suffoca-te, e cega-te o orgulho.
-Eu, injuriado e escarnecido, recobro a serenidade.
-Tu não. Tu tremes. Tu, que te
-julgas a força, tu, Maximo, tremes!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_240"></a>[240]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>É a ira. Não a provoque.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Nem a provoco nem a temo. <span class="direction">(Cada vez
-mais senhor de si)</span> Tu maltratas-me. Eu perdôo-te.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Que me perdôa a mim! <span class="direction">(iracundo)</span> Mas
-é para o homicidio que assim me empurra!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(com serena e fria gravidade, sem jactancia)</span>
-Enfurece-te, grita, bate-me... Aqui me
-tens inabalavel e indifferente... Não ha
-força humana que me dobre nem poder
-nenhum da terra que me afaste do meu
-caminho. Injuria-me, fere-me, mata-me:
-não me defendo. O martyrio não me repugna.
-Póde a violencia destruir o meu pobre
-corpo, que nada vale. Mas o que está
-aqui <span class="direction">(na sua mente)</span> é indestructivel. Na minha
-vontade só um poder impera: o de
-Deus. E se a minha vontade se extinguir
-na morte, a ideia que sustento lhe sobreviverá,
-triumphante e eterna.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_241"></a>[241]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não póde ter ideias grandes quem não
-tem grandeza, nem piedade, nem ternura,
-nem compaixão.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>O meu fim é mais alto que todos os
-raciocinios. Para elle me dirijo por qualquer
-caminho que se me depare.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(aterrado)</span> Por qualquer caminho!? Para
-ir para Deus não ha senão um: o da Bondade
-Humana. <span class="direction">(Com exaltação)</span> Deus do
-ceu! tu não pódes permittir que ao teu
-reino se chegue por lobregas e tortuosas
-alfurjas, nem que á tua gloria se suba calcando
-os corações que te amam... Não;
-Deus não permitte isso. Vêr tal absurdo
-seria vêr toda a Natureza em ruina, toda
-a maquina do Universo destruida e aniquillada.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Estás offendendo Deus com as tuas
-palavras blasphemas.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Mais o offendes tu com os teus actos
-sacrilegos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_242"></a>[242]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Basta. Não disputo comtigo. Não tenho
-mais que dizer-te.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não tem mais? Se ainda me não disse
-nada! <span class="direction">(Segura-o vigorosamente por um braço)</span> Vamos
-d’aqui ter com Electra, e, na presença
-d’ella, ou esclarece as minhas dúvidas e
-me tira da anciedade horrivel em que estou,
-ou ahi morre, e morro eu, e morreremos
-todos trez. Assim lh’o juro pela memoria
-de minha mãe.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(depois de o encarar fixamente)</span> Vamos. <span class="direction">(Ao
-darem os primeiros passos sae Evarista de casa)</span></p>
-
-<h3>SCENA XII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS, EVARISTA E PATROS.</span> Atraz d’Evarista
-a superiora e as duas irmãs de S. José</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Que succedeu, Maximo?... Que colera
-é essa?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_243"></a>[243]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>É este homem que me enlouquece...
-Venha, tia, venha tambem comnosco...
-<span class="direction">(Vendo a superiora e as irmãs, amedrontado)</span> Que
-mulheres são aquellas? Que querem essas
-senhoras? <span class="direction">(Chega Patros do jardim, correndo)</span></p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p><span class="direction">(pesarosa, choramigando)</span> Minha senhora,
-a senhorita enlouqueceu... Corre, foge,
-desapparece, chamando em gritos por sua
-mãe... Não quer que a consolem... não
-ouve, não vê ninguem, não conhece ninguem!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(caminhando para o jardim)</span> Filha da minh’alma!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(olhando para o jardim)</span> Ahi vem. <span class="direction">(Larga
-Pantoja e dirige-se a ella)</span></p>
-
-<p class="speaker">Patros</p>
-
-<p>O senhor e o snr. Marquez conseguiram
-convencel-a e trazem-a para casa...
-<span class="direction">(Apparece Electra conduzida pelo marquez e por Urbano.
-Junto d’elles, Maximo. Ao vêr os que estão em
-scena Electra oppõe alguma resistencia. Suave e carinhosamente
-a obrigam a approximar-se. Traz o
-cabello e o seio adornado de flôrzinhas)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_244"></a>[244]</span></p>
-
-<h3>SCENA XIII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MAXIMO, EVARISTA, PANTOJA, URBANO,
-MARQUEZ E PATROS</span> (Conservam-se na scena a superiora e as irmãs)</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Deliras, minha pobre filha!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Ouve, minh’alma, vem, escuta. O meu
-carinho será a tua razão.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(afasta-se de Maximo com um movimento de pudor.
-O seu delirio é sereno, sem gritos, sem risadas.
-Manifesta-o com uma accentuação de dôr resignada e
-melancolica)</span> Não te approximes. Não te
-pertenço. Já não sou tua.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Porque me foges? para onde vaes sem
-mim?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(que passou para a direita, junto de Evarista)</span>
-Para a eterna verdade, para a inalteravel
-paz.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_245"></a>[245]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Vou por minha mãe. Sabem onde está
-minha mãe?... Vi-a no côrro dos meninos...
-Foi depois até a mimosa que está
-á entrada da gruta... E eu a seguil-a
-sem a alcançar... Olhava para mim e
-fugia... <span class="direction">(Ouve-se ao longe o canto dos meninos)</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Aqui está Maximo... Olhe... É o
-seu noivo.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(vivamente)</span> Serei o teu marido... Ninguem
-se oppõe, e não ha força nenhuma
-que o empeça, Electra, minha vida.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(impondo silencio)</span> Quem fala aqui de noivos
-e noivas? Quebradas as festas do noivado:
-não ha bôda... Que tristeza a da
-minha alma!... Só ha padres com tochas
-a rezar por defuntos... Que grande é o
-mundo, e que só que está! que vazio!...
-Acima da terra, pelo ceu, passam nuvens
-negras, que são illusões, as illusões que
-foram minhas e não são de ninguem agora...
-as illusões sem dôno!... Que solidão!...
-Tudo escurece, tudo chora...<span class="pagenum"><a id="Page_246"></a>[246]</span>
-Vae acabar o mundo... vae acabar. <span class="direction">(Com
-arrebatamento de medo)</span> Quero fugir, quero-me
-esconder. Não quero padres, não quero
-tochas, não quero officios... Quero ir
-para a minha mãe... Onde m’a enterraram?...
-Levem-me á pedra da sua campa,
-e ali juntas, nós ambas, minha mãe
-e eu, lhe direi as penas da minha alma,
-e ella me dirá verdades... verdades!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(áparte, a Evarista)</span> É a occasião. Aproveitemol-a.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Vem, minha filha, nós te levaremos á
-quietação e á paz.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não: o descanso e a razão estão aqui.
-Electra é minha... <span class="direction">(Evarista procura leval-a)</span>
-Exijo-a.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Adeus, Maximo... Já te não pertenço:
-pertenço á minha dôr... A minha
-mãe chama-me para o seu lado... <span class="direction">(Extactica,
-anciosa, prestando uma attenção intensissima)</span>
-Ouço-lhe a voz...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_247"></a>[247]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>A voz!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Silencio, que me chama! <span class="direction">(delirando de
-alegria)</span> que está chamando por mim!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Torna a ti, meu amor!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não ouviram? Não ouvem?... Lá
-vou, mamãsinha, lá vou! <span class="direction">(Corre para o alto
-da escada)</span> Vamo-nos! <span class="direction">(A Maximo, que quer seguil-a)</span>
-Eu só... É por mim só que chama.
-Tu não... Para estar sósinha commigo...
-Não ouves a voz d’ella dizendo:
-Eleectra! Eleeeectra!... Vou vêl-a, vou
-falar-lhe... <span class="direction">(Vae entrando na casa com Evarista
-e Pantoja)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Que iniquidade e que horror! Para m’a
-roubarem, enlouqueceram-na. <span class="direction">(Quer desprender-se
-dos braços de Urbano e do marquez)</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(contendo-o)</span> Não enlouqueças tambem tu.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_248"></a>[248]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Socega!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Descansa, que eu te asseguro que a recobraremos!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Amarrem-me! Levem-me manietado
-para a solidão, para a sciencia, para a
-verdade. Este mundo incerto, mentiroso
-e iniquo, não é para mim!</p>
-
-<p class="titlepage smaller">FIM DO QUARTO ACTO</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_249"></a>[249]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">ACTO QUINTO</h2>
-
-</div>
-
-<div class="act">
-
-<p class="main">Sala do locutorio em S. José da Penitencia. Portas lateraes.</p>
-
-<p class="sub">Ao fundo uma grande janela d’onde se vê o claustro.</p>
-
-</div>
-
-<h3>SCENA I</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">EVARISTA E SOROR DOROTHÊA</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(entrando com a freira)</span> D. Salvador...?</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Chegou ha um momento: está no escritorio
-com a superiora e com a madre
-escrivã.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Então Urbano lá irá ter com elle...
-Emquanto esperamos, dê-me noticias de
-Electra... Foi muito feliz a escolha que
-fizeram de si, irmã Dorothêa—tão sympathica<span class="pagenum"><a id="Page_250"></a>[250]</span>
-e tão dôce—para a acompanhar,
-para viver com ella, para ser a sua amiga
-e a sua confidente...</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Electra não me quer mal, e é talvez
-certo que por essa razão algum tanto contribuirei
-para a socegar.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(aponta para a cabeça)</span> E como está ella
-de...?</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Bem. Recuperou inteiramente a razão,
-e não tem nenhum vestigio de delirio, a
-não ser ainda aquella ideia fixa de querer
-vêr a mãe, de lhe falar, de ter d’ella a solução
-das suas dúvidas. Todo o tempo
-que tem livre das obrigações religiosas, e
-todo o que póde alcançar, o passa no pateo
-do nosso cemiterio, e na horta contigua;
-e tanto ahi como no dormitorio, sempre
-a mesma preoccupação a absorve.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>E lembra-se de Maximo? fala d’elle?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_251"></a>[251]</span></p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Fala: mas nas suas meditações e nas
-suas rezas a ideia que mais acaricia é de
-poder amal-o como um irmão, e, pelo que
-ainda hoje me disse, espera conseguil-o.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Mas é uma ideia apenas! É preciso
-que a essa ideia se associe o coração...
-E bem poderia ser que assim succedesse
-se a desgraça de antes d’hontem não viesse
-alterar o seguimento dos factos...</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Uma desgraça!...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Morreu o nosso velho amigo D. Leonardo
-Cuesta...</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Não sabia...</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Que immensa tristeza para todos nós!
-Ha dias que se sentia mal, e presagiava
-o seu fim. Sahiu na segunda feira muito
-cêdo, e na rua perdeu os sentidos. Levaram-o
-para casa, e ás tres horas da tarde
-estava morto.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_252"></a>[252]</span></p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Pobre senhor!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>No testamento nomeia Electra herdeira
-de metade da sua grande fortuna...</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Ah!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Mas coma expressa condição de que
-ella abandone a vida religiosa. Sabe se
-D. Salvador já terá conhecimento d’isto?</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Supponho que sim, porque elle tem
-conhecimento de tudo, e adivinha o que
-não conhece.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>E é verdade!</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p><span class="direction">(vendo chegar Urbano)</span> O snr. D. Urbano.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_253"></a>[253]</span></p>
-
-<h3>SCENA II</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">AS MESMAS E URBANO</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Falaste-lhe?</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Sim. Deixei-o a trabalhar no escritorio,
-com um tino, com uma fixidez d’attenção,
-que me assombram. Que homem!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Já teve noticia das ultimas disposições
-do pobre Cuesta?</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Já.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Está contrariado?</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Se está não o mostra. Bem sabes
-que nem nos casos mais difficeis elle
-deixa transparecer as suas commoções...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_254"></a>[254]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(interrompendo-o com enthusiasmo)</span> É um espirito
-d’aguia, que paira acima de todas
-as tempestades da terra.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Interrogando-o a respeito das esperanças
-que tinha de conservar Electra no convento,
-respondeu-me singelamente com
-uma serenidade pasmosa: «Confio em
-Deus».</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Que grandeza d’alma! E sabe que
-Maximo e o Marquez são os testamenteiros?</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Sabe mais. Recebeu ao meio dia uma
-carta d’elles annunciando-lhe que virão
-esta tarde, acompanhados d’um tabellião,
-inquirir a menina, para que declare se
-acceita ou se renuncia a herança.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>E á vista d’essa communicação...?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_255"></a>[255]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Nada: imperturbavel, como sempre,
-repetindo a sua conhecida formula, que o
-pinta n’um traço: «Confio em Deus».</p>
-
-<h3>SCENA III</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS, MAXIMO E O MARQUEZ</span> (pela esquerda)</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Esperaremos aqui.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(vendo Evarista)</span> Adeus, tia. <span class="direction">(Sauda-a com
-affecto)</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p><span class="direction">(respondendo ao cumprimento do marquez)</span> Então,
-Marquez... Ha finalmente esperanças
-de ganhar a batalha?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não sei... Luctamos com féra de
-muito ardil.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>E a ti, Maximo, que te parece?...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_256"></a>[256]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Que estamos em frente d’um terrivel
-mestre consummado no embuste. Mas eu
-confio em Deus.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Tambem tu...?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Naturalmente: em Deus confia todo
-aquelle que crê na verdade. Combatemos
-pela verdade. Como poderiamos suppôr
-que Deus nos abandone? Não poderia ser,
-querida tia.</p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Não viste Electra quando atravessaste
-os claustros?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não vi.</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p><span class="direction">(approximando-se da janela)</span> Vae passar
-agora. Vem do cemiterio.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(correndo para a janela com Urbano)</span> Que
-triste! e que bella! A brancura do habito
-dá-lhe o aspecto aereo de uma apparição.
-<span class="direction">(chamando-a)</span> Electra!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_257"></a>[257]</span></p>
-
-<p class="speaker">Urbano</p>
-
-<p>Cala-te.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não posso. <span class="direction">(Volta a olhar)</span> É então certo
-que vive... É ella que vae ali na sua
-realidade primorosa, ou é uma imagem
-mystica que se despegou d’um retabulo
-d’altar para andar pela terra?... Lá volta
-para traz... levanta os olhos para o
-ceu... Se a visse diluir-se no ar, dissipando-se
-como uma sombra, não me admiraria...
-Põe os olhos no chão... Pára...
-Em que estará pensando? <span class="direction">(Continua a contemplar
-Electra)</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(que ficou no proscenio com Evarista)</span> ...Sim,
-minha senhora: falso, falsissimo!</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Olhe o que affirma, marquez...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Affirmo que ou o veneravel D. Salvador
-se equivoca, ou que disse, sabendo-o,
-o contrario da verdade, movido de razões
-e fins, que não penetram as nossas limitadas
-intelligencias.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_258"></a>[258]</span></p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>É impossivel, marquez... Faltar á verdade
-um homem tão justo, de tão pura
-consciencia, de ideias tão altas!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>E quem nos diz, minha cara amiga,
-que nos arcanos d’essas consciencias exaltadas
-não ha uma lei moral, cujas subtilezas
-estão longe do nosso mesquinho alcance?
-Ha absurdos na vida do espirito
-como os ha na natureza, onde vemos inumeros
-phenomenos cujas causas não são
-as que se figuram.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Não: não posso crer! Ha talvez casos
-em que a mentira aplana o caminho do
-bem. Mas não estamos n’um caso d’esses...
-Eu por mim, não acredito.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Para que possa formar o seu juizo,
-ouça o que lhe vou dizer. A marqueza,
-Virginia, assegura-me que de Josephina
-Perret—sem que n’isto possa haver mistificação
-nem equivoco—nasceu este homem
-que ahi está... E Evarista, amiga<span class="pagenum"><a id="Page_259"></a>[259]</span>
-intima de Josephina Perret, prova e demonstra
-esse facto da maneira mais simples,
-mais clara e mais positiva. Além
-d’isso, eu mesmo pude comprovar que
-Lazaro Yuste viveu longe de Madrid
-desde 1863 até 1866.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Com tudo isso, marquez, não posso
-convencer-me de que...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(vendo entrar Pantoja pela direita)</span> Ahi vem
-elle.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(descendo ao proscenio)</span> Chega o abutre.</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Se me dão licença retiro-me. <span class="direction">(Sae pela
-esquerda. Pantoja permanece um instante junto da
-porta)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_260"></a>[260]</span></p>
-
-<h3>SCENA IV</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">EVARISTA, MAXIMO, URBANO, MARQUEZ E PANTOJA</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(adeantando-se vagarosamente)</span> Meus senhores,
-desculpem-me tel-os feito esperar.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Prevenido do objecto da nossa visita,
-creio que será inutil expol-o...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p><span class="direction">(benignamente)</span> Não o repetiremos para
-não mortificar o snr. de Pantoja, que deve
-a estas horas considerar perdida a sua
-inutil campanha.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(sereno, sem jactancia)</span> Eu não perco nunca.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Será adeantar muito.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_261"></a>[261]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>E asseguro que Electra, tendo aprendido
-já a desprezar os bens da terra, não
-acceitará o legado.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>Já vês que este homem não se rende.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Não me rendo... nunca, nunca.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Estou vendo. <span class="direction">(Sem poder dominar-se)</span> É
-então preciso matal-o?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Venha a morte.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não chegaremos a tanto.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Cheguem onde queiram. Hão de encontrar-me
-sempre impassivel e estavel,
-no meu posto.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Confiamos na lei.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_262"></a>[262]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Eu em Deus. E digo aos representantes
-da lei que Electra, adaptando-se facilmente
-a esta vida de pureza, libando já as
-doçuras ineffaveis da oração e da paz em
-Deus, não abandonará esta santa casa.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(impaciente)</span> Podemos falar-lhe?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>N’este momento, precisamente, não.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(querendo protestar)</span> Oh!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Socegue.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não posso.</p>
-
-<p class="speaker">Evarista</p>
-
-<p>É a hora do côro. Quer D. Salvador
-dizer, por certo, que depois da hora...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Está claro que sim. E para que se
-convençam de que nada temo, podem trazer<span class="pagenum"><a id="Page_263"></a>[263]</span>
-além do tabellião, o snr. delegado do
-governo. Mandarei abrir a portaria...
-Permittirei que falem emquanto queiram
-com Electra. E se depois d’isso ella quizer
-sahir, que sáia...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Cumprirá o que diz?</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Como não? se é em Deus unicamente
-que confio.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Voltaremos logo. <span class="direction">(Toma o braço de Maximo)</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>E nós para a egreja. <span class="direction">(Saem Urbano, Evarista
-e Pantoja)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_264"></a>[264]</span></p>
-
-<h3>SCENA V</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">MARQUEZ E MAXIMO</span>, que percorre a scena muito agitado,
-impaciente, receioso</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Que diz a isto, Maximo?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Que este homem, de tão superior talento
-para fascinar os debeis e para zombar
-dos fortes, nos enlouquecerá a todos.
-Eu não sou para isto. Em luctas de tal
-ordem, vontade contra vontade, sinto-me
-arrastado á violencia.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>E que faz tenção de fazer?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Leval-a embora. A bem ou a mal.
-Por vontade ou á força. Se não tiver bastante
-poder para isto, adquiril-o, compral-o;
-trazer amigos, cumplices, um esquadrão,
-um exercito... <span class="direction">(Com crescente fervor)</span>
-Renascem em mim os rancores
-dos antigos bandos, com toda a ferocidade
-romantica do feudalismo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_265"></a>[265]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Assim pensa, e assim o diz, um homem
-de sciencia!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Os extremos tocam-se. <span class="direction">(Exaltando-se mais)</span>
-Para esse homem, para esse monstro não
-ha argumentos, não ha raciocinios... É
-preciso matal-o.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Nem tanto, nem tanto, meu querido!
-Imitemol-o, sejamos como elle astutos,
-insidiosos, perseverantes.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(com brio e eloquencia)</span> Não: sejamos como
-eu... sinceros, claros, valorosos. Marchemos
-de cabeça alta e de cara descoberta
-para o inimigo. Destruamol-o, ou deixemo-nos
-destruir por elle... Mas d’uma
-vez, de uma só investida, de um só
-golpe... Ou elle ou nós.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não, Maximo. Temos de ir com tento.
-Temos de respeitar a ordem social em
-que vivemos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_266"></a>[266]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>A ordem social em que vivemos envolve-nos
-em uma rede de mentiras e de
-argucias, e n’essa rede morreremos estrangulados,
-sem defeza alguma... presos de
-garganta, e de pés e mãos, nas malhas de
-milhares e milhares de leis capciosas, de
-vontades fraudulentas, aleivosas, subornadas,
-corrompidas.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Socega. Preparemo-nos para o que
-esta tarde nos espera. Temos de prever
-os obstaculos para pensar com tempo no
-modo de os vencer... Que succederá
-quando dissermos a Electra que a mãe do
-seu noivo é com effeito e fóra de toda a
-dúvida Josephina Perret e não Eleuteria
-Dias?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Que ha de succeder? Que não o acreditará,
-porque na sua mente se petrificou o
-erro e será já tarde para o desarraigar. Pois
-não se sabe o que pode a suggestão contínua?
-O que póde o insinuante e invasivo
-ambiente de uma casa como esta sobre
-as ideias dos que a habitam?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_267"></a>[267]</span></p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Empregaremos meios efficases.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(com violencia)</span> Quaes? Deitar fogo ao
-convento, deitar fogo a Madrid...</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não divagues. Se Electra não quizer
-sahir, leval-a-hemos á força.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(muito vivamente até o fim)</span> Ou uma força
-triumphante, ou uma desesperação de vencido...
-morrer eu, morrer ella, morrermos
-todos.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Morrer não. Vivamos todos, e preparemo-nos
-para a peor solução. Tenho
-uma chave para entrar no claustro pela
-Rua Nova, e a irmã Dorothêa pertence-me...
-Caluda!</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Violencia!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Subtilesa e astucia!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_268"></a>[268]</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Adeante, de pronto, e pelo caminho
-direito!</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Não, homem, de vagar, com geito, e
-pelo atalho enesgado! <span class="direction">(Tomando-lhe o braço)</span>
-E vamo-nos d’aqui, que estamos a tornar-nos
-suspeitos... <span class="direction">(Levando-o)</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Sim, vamo-nos.</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Confia em mim.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Confio em Deus.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_269"></a>[269]</span></p>
-
-<h3>MUTAÇÃO</h3>
-
-<div class="act">
-
-<p class="main">Claustro de S. José da Penitencia. Á direita uma asa da egreja,
-com frestões envidraçados, pelos quaes transluz a claridade
-interior. Á esquerda grande portada por onde se
-passa a outro claustro, que se suppõe communicar com
-a rua. Ao fundo, entre a egreja e as construcções da esquerda,
-grande arco abatido, para lá do qual se vê em
-ultimo plano o cemiterio da congregação. É noite escura.</p>
-
-</div>
-
-<h3>SCENA VI</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E SOROR DOROTHÊA</span></p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Tão certo como ser noite, vieram dois
-sujeitos ao convento com proposito de te
-arrancar d’aqui e de te levar para o mundo.
-Não o crês?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Sem que me digas quem são, o meu
-coração o adivinha: Maximo e o marquez
-de Ronda... Se é certo que projectam
-levar-me é enorme a perturbação que
-me causam. Desde que entrei n’esta
-santa casa emprehendi, como sabes, a<span class="pagenum"><a id="Page_270"></a>[270]</span>
-grande batalha do meu espirito. Procuro,
-humildemente e com a ajuda de Deus,
-transformar em amor fraternal o amor de
-uma natureza bem diversa que arrebatou
-a minha alma... Converter o ardente
-fogo do sol numa fria claridade da lua...
-O constante meditar, lento mas progressivo,
-o desmaio do coração, e as ideias
-submissas e dôces que Deus me envia
-vão-me dando forças para vencer.</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Querida irmã, se em ti sentes a fortaleza
-d’esse novo amor, porque tens mêdo
-de te encontrar com D. Maximo de Yuste?</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Porque, vendo-o, sinto que todo o terreno
-ganho o perderia n’um só instante.</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p><span class="direction">(incredula)</span> E achas, em tua verdade, que
-tenhas algum terreno ganho?...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Oh! sim, algum... não muito por
-emquanto.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_271"></a>[271]</span></p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Talvez, irmã Electra, que o vêr essa
-pessoa te demonstre se effectivamente podes...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(vivamente)</span> Oh! não m’o digas, que não
-posso!... No estado em que me sinto,
-n’este principio de lucta, se o visse, se o
-ouvisse, eu perderia toda a esperança de
-paz... Não vês que em minha consciencia
-eu me estou debatendo contra dois impossiveis:
-não poder amal-o como esposo;
-não poder amal-o como irmão? <span class="direction">(Aterrada)</span>
-Que supplicio, meu Jesus!... Para
-o mundo não, não... Prefiro estar aqui,
-n’esta solidão de morte, n’este laboratorio
-da minha alma, junto do cadinho divino,
-em que estou fundindo um viver
-novo.</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Não esperes que as tuas ideias te deem
-a paz. Confia em Deus e n’aquelles que
-Deus te envia... <span class="direction">(Resolvendo-se a falar mais claramente)</span>
-Não te amedrontes assim perante
-o que suppões teu irmão. Alguem talvez
-negará que o seja.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_272"></a>[272]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(em grande excitação)</span> Cala-te! Cala-te! Em
-assumpto de tão grande melindre toda a
-palavra que não contenha a certeza é inutil
-e cruel... Póde levar-me á loucura.
-O que eu peço a Deus é a morte, ou a
-verdade inteiramente indubitavel e definitiva.</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Socega, pobre Electra...</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(exaltando-se cada vez mais)</span> Todas as confusões
-que me atormentaram ao vir para
-aqui estão renascendo no meu espirito...
-Atropelam-se-me no pensamento anjos
-e demonios... Deixa-me... Eu quero
-fugir de mim mesma... <span class="direction">(Corre a scena em
-grande agitação. Soror Dorothêa segue-a procurando
-acalmal-a)</span></p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Tranquillisa-te, por Deus!... Esse tormento
-vae ter fim. <span class="direction">(Olha com anciedade para a
-porta da esquerda)</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(parecendo-lhe ouvir uma voz longinqua)</span> Ouve...
-Minha mãe que me chama.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_273"></a>[273]</span></p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Não delires... Outras vozes, vozes de
-pessoas vivas, te chamarão.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>É minha mãe... Silencio!... <span class="direction">(Escutando.
-Entra Pantoja pela direita)</span></p>
-
-<h3>SCENA VII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, PANTOJA E DOROTHÊA</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Minha filha, como sahiste da egreja
-sem que eu te visse?</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Sahimos para respirar ao ar livre. Electra
-asfixiava. <span class="direction">(Áparte)</span> Approxima-se a
-hora... Deus nos ajude!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Sentes-te mal, minha filha?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_274"></a>[274]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(com voz assustada e sumida)</span> A minha mãe
-chama por mim.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(pegando-lhe carinhosamente na mão)</span> A dôce
-voz da tua mãe, falando-te em espirito
-te dará conforto, prendendo-te com piedade
-e amôr a este sagrado refugio. <span class="direction">(Ouve-se
-passando na egreja o côro das noviças)</span> Ouve,
-Electra... É a voz dos anjos que te chamam
-do ceu.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(delirante)</span> É o côro dos meninos a brincar.
-E entre essas vozes ternas, distingo a
-de minha mãe chamando-me da sepultura.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Estás allucinada. É o divino côro dos
-anjos.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Não, não ha anjos... Ouço o meu nome,
-ouço o bulicio dos meninos, que revolve
-toda a minha alma. São os filhos
-dos homens que fazem a alegria da vida.
-<span class="direction">(Continua a ouvir-se mais apagado o côro das noviças)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_275"></a>[275]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(inquieto)</span> Irmã Dorothêa, diga á irmã
-porteira que vigie a porta da Rua Nova e
-a da Ronda. <span class="direction">(Á esquerda e á direita)</span></p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Sim, meu senhor...</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Mas não; irei eu mesmo... Não me
-fio de ninguem... Vou eu mesmo vigiar
-todo o claustro, todas as passagens, todos
-os recantos da casa. <span class="direction">(Assustado, julgando ouvir
-ruido)</span> Escute... Não ouvio?</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Quê?... Não ouvi nada... É illusão.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Pareceu-me ouvir um rumor de vozes...
-e bater n’uma porta ao longe.
-<span class="direction">(Escuta)</span></p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>De que lado? <span class="direction">(Olhando para o fundo á
-direita)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_276"></a>[276]</span></p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Na direcção da enfermaria... Não estou
-socegado... Quero vêr eu mesmo...
-Electra, volta para a egreja... Leve-a,
-irmã Dorothêa... Esperem-me lá... <span class="direction">(Dando-lhes
-pressa)</span> Andem... <span class="direction">(Acompanha-as até á
-porta da egreja. Sae pressuroso, inquieto, pelo fundo,
-á direita. Dorothêa vê-o afastar-se, pega na mão de
-Electra, e vivamente volta com ella ao centro da scena.
-Electra, sem vontade, deixa-se levar)</span></p>
-
-<h3>SCENA VIII</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E SOROR DOROTHÊA</span></p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Vem commigo... Para a egreja não.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Aqui... Deixa-me respirar, deixa-me
-viver.</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p><span class="direction">(aparte, inquieta)</span> É a hora dada pelo
-marquez de Ronda... Aproveitemos os
-minutos, os segundos, ou tudo está perdido.<span class="pagenum"><a id="Page_277"></a>[277]</span>
-<span class="direction">(Olhando para a esquerda)</span> Vou dar-lhes
-entrada para este claustro... <span class="direction">(Alto)</span> Irmã
-Electra, espera-me aqui.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(assustada)</span> Onde vaes? <span class="direction">(Pega-lhe no braço)</span></p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p><span class="direction">(com decisão, defendendo-se)</span> Tratar de ti,
-dar-te a saude e dar-te a vida... Prepara-te
-para sahir d’este sepulcro, e leva-me
-comtigo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(tremula)</span> Irmã Dorothêa... não me
-deixes.</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Este momento decide da tua sorte...
-Volverás ao mundo... verás Maximo.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Quando?</p>
-
-<p class="speaker">Dorothêa</p>
-
-<p>Já... Vaes vêl-o entrar por ali...
-<span class="direction">(Esquerda)</span> Animo!... Não me estorves...
-Não te movas d’aqui. <span class="direction">(Sae correndo pela esquerda)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_278"></a>[278]</span></p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Meu Deus! Virgem Santissima!...
-Será certo?... Por aqui... por aqui virá...
-<span class="direction">(Julga vêr Maximo na escuridão)</span> Ah! é elle...
-Maximo! <span class="direction">(Falando como em sonhos, desviando-se
-como d’um ser real)</span> Pára... Deixa-me...
-Não posso amar-te como irmão, não posso...
-Está no fogo o cadinho em que
-quero fundir um coração novo... Não
-vês que não posso levantar os olhos para
-ti?... Para que me fitas d’esse modo, se
-me não pódes levar comtigo?... É aqui
-que eu procuro a verdade. Minha mãe
-chama por mim... <span class="direction">(Com accento desesperado)</span>
-Mãe! mãe! <span class="direction">(Volta-se de frente para o fundo. Ao
-soarem as ultimas palavras de Electra, apparece a
-sombra de Eleuteria, formosa figura em habito de
-monja. Electra de costas para o publico, contempla-a
-com os braços cruzados no peito)</span> Oh! <span class="direction">(Grande
-pausa)</span></p>
-
-<h3>SCENA IX</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E A SOMBRA DE ELEUTERIA</span>, que vagamente
-se destaca na obscuridade do fundo. Electra adeanta-se
-para ella. Ficam as duas figuras frente a frente, á menor
-distancia possivel uma da outra.</p>
-
-<p class="speaker">A Sombra</p>
-
-<p>Sou a tua mãe, e venho a aplacar a
-angustia do teu coração amante. A minha<span class="pagenum"><a id="Page_279"></a>[279]</span>
-voz dará á tua consciencia a paz. Nenhum
-vinculo da natureza te prende ao homem
-que te escolheu por mulher. O que te disseram
-foi uma ficção carinhosa destinada
-a trazer-te á nossa companhia e á doçura
-d’esta santa casa.</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p>Oh! mãe adorada, que consolação me
-dás!</p>
-
-<p class="speaker">A Sombra</p>
-
-<p>Dou-te a verdade, e com ella a fortaleza
-e a esperança. Acceita, minha filha,
-como provação em que se retemperou a
-força da tua alma, esta reclusão transitoria,
-e não maldigas quem a promoveu...
-Se o amor conjugal e as alegrias da familia
-solicitam a tua alma deixa-te de boamente
-levar da suavidade d’essa atracção,
-e não procures aqui uma santidade que
-não é para ti. Deus está em toda a parte...
-Eu não pude encontral-o fóra d’este
-abençoado refugio... Procura-o tu no
-mundo por vereda differente d’aquella em
-que eu me perdi... <span class="direction">(A sombra cala-se e desapparece
-no momento em que se ouve a voz de Maximo)</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_280"></a>[280]</span></p>
-
-<h3>SCENA ULTIMA</h3>
-
-<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ, PANTOJA
-E SOROR DOROTHÊA</span></p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p><span class="direction">(á porta da esquerda)</span> Electra!</p>
-
-<p class="speaker">Electra</p>
-
-<p><span class="direction">(correndo para elle)</span> Ah!</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p><span class="direction">(pela direita)</span> Minha filha, onde estás?</p>
-
-<p class="speaker">Marquez</p>
-
-<p>Comnôsco.</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Commigo.</p>
-
-<p class="speaker">Pantoja</p>
-
-<p>Foges-me, Electra?</p>
-
-<p class="speaker">Maximo</p>
-
-<p>Não foge... Resuscita.</p>
-
-<p class="titlepage smaller">FIM</p>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Electra, by Benito Pérez Galdós
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELECTRA ***
-
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