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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Electra - Drama em cinco actos - -Author: Benito Pérez Galdós - -Translator: José Duarte Ramalho Ortigão - -Release Date: September 7, 2020 [EBook #63145] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELECTRA *** - - - - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net - - - - - - - - - - - PÉREZ GALDÓZ - - ELECTRA - - DRAMA EM CINCO ACTOS - - VERSÃO PORTUGUEZA - DE - RAMALHO ORTIGÃO - - PORTO - LIVRARIA CHARDRON - De Lello & Irmão, editores - 1901 - - Unica traducção portugueza auctorisada pelo auctor - - _Porto—Imprensa Moderna_ - - - - -ACTO PRIMEIRO - - Sala sumptuosa no palacio dos senhores de Garcia Yuste. Á - direita, sahida para o jardim. Ao fundo, communicação para - outras salas do palacio. Á direita, no primeiro plano, porta - dos quartos d’Electra. - - -SCENA I - - MARQUEZ E JOSÉ - -_José_ - -Estão no jardim... Vou dar parte. - -_Marquez_ - -Espera lá. É esta a primeira visita que faço aos senhores de Garcia Yuste -no seu palacio novo... Deixa-me dar uma vista d’olhos... Está n’um grande -pé... Bem hajam os que tão bem empregam o seu dinheiro! Porque não é -sómente o seu estado de casa, é o bem que fazem, o generosos que são em -obras pias... - -_José_ - -Oh! lá isso...! - -_Marquez_ - -E tão mettidos comsigo! tanto da paz e do socego do lar!... Ainda que, -segundo cuido, ha novidade agora na familia... - -_José_ - -Novidade? Ah! já sei... Quer o snr. Marquez referir-se... - -_Marquez_ - -Escuta, José! Promettes fazer o que eu te peça? - -_José_ - -Já o snr. Marquez sabe que eu me não esqueço nunca dos quatorze annos que -servi na sua casa... O snr. Marquez manda, não pergunta. - -_Marquez_ - -Pois venho cá de proposito para conhecer essa interessante senhorita, que -os teus amos trouxeram agora d’um collegio de França... - -_José_ - -A senhorita Electra. - -_Marquez_ - -Podes dizer-me se os senhores estão contentes com essa nova sobrinha? É -pessôa amoravel, agradecida? - -_José_ - -Oh! n’esse particular!... Os senhores morrem por ella... Sómente... - -_Marquez_ - -Quê? - -_José_ - -A menina é travessasita... - -_Marquez_ - -A edade! - -_José_ - -Brincalhôna, oh! mas brincalhôna, que se não faz uma ideia... - -_Marquez_ - -Mas diz que é linda, que é um anjo... - -_José_ - -Um anjo sim, se ha anjos parecidos com mafarricos... É que nos põe o sal -na moleira a todos cá de casa! - -_Marquez_ - -Estou morto por conhecêl-a! - -_José_ - -No jardim a encontra o snr. Marquez. É lá que passa as manhãs pondo em -redemoinho tudo. - -_Marquez_ - -(_olhando para o jardim_) Lindo jardim, bello parque, as velhas arvores -do antigo palacio das Gravelinas... - -_José_ - -É exacto. - -_Marquez_ - -O grande predio, ao fundo da alameda, é tambem dos senhores de Yuste? - -_José_ - -Tambem. Com entrada pelo jardim e pela rua. Em baixo tem o seu -laboratorio o sobrinho dos patrões, o senhorito Maximo, primeiro dos -trunfos de Hispanha nas mathematicas, e... na outra coisa... na... - -_Marquez_ - -Bem sei... Chamam-lhe o _Magico prodigioso_... Conheci-o em Londres... -ainda a mulher d’elle era viva. - -_José_ - -Morreu em fevereiro do anno passado... e deixou-lhe dois filhos, dois -amores! - -_Marquez_ - -Ultimamente renovei com elle o meu antigo conhecimento, e, apesar de nos -não visitarmos, por certos motivos, somos muito amigos. - -_José_ - -Tambem eu gósto d’elle. Optimo sujeito...! - -_Marquez_ - -E outra coisa: não estão arrependidos os teus amos de terem mettido em -casa esse diabretesito? - -_José_ - -(_receoso de que venha gente_) Eu direi a V. Ex.ª... Tenho notado... (_Vê -vir D. Urbano pelo jardim_) Ahi vem o senhor. - -_Marquez_ - -Põe-te a andar. - - -SCENA II - - MARQUEZ E D. URBANO - -_Marquez_ - -(_abrindo-lhe os braços_) Querido Urbano! - -_Urbano_ - -Marquez! ditosos olhos!... - -_Marquez_ - -E Evarista? - -_Urbano_ - -Bem... Sómente extranhando muito as grandes ausencias do marquez de -Ronda... - -_Marquez_ - -Oh! você não imagina o inverno que passámos... - -_Urbano_ - -E Virginia? - -_Marquez_ - -Assim, assim... Sempre achacada, mas reagindo constantemente pela força -de uma vontade tenaz, cabeçuda lhe chamarei. - -_Urbano_ - -Pois ainda bem! ainda bem!... Com quê... quer que desçamos ao jardim? - -_Marquez_ - -Vamos já! Deixe-me tomar assento, pouco a pouco, na sua casa nova... -(_Senta-se_) E conte-me lá, querido, conte-me d’essa menina encantada, -que foram buscar ao collegio. - -_Urbano_ - -Não, não estava já no collegio. Tinha ido para Hendaya, para uns parentes -da mãe. Eu nunca fui muito da opinião de a trazer para cá. Mas Evarista -emprehendeu n’isso... Quer sondar o caracter da pequena, apurar se -d’ella se poderá fazer uma mulher em termos, ou se nos estará destinada -a vergonha de a vêr herdar as tendencias da mãe... Você sabe que era uma -prima irmã de minha mulher; e escuso de lhe lembrar os escandalos que deu -essa Eleuteria desde o anno de 80 a 85. - -_Marquez_ - -Nem me fale n’isso! - -_Urbano_ - -Emfim, foi a ponto de que a familia, vexada, rompeu com ella de todo e -para sempre! Esta menina, agora, cujo pae se não sabe quem seja, criou-se -com a mãe até os cinco annos. Depois levaram-a para as Ursulinas de -Bayona. Lá, ou por abreviar ou pelo que fosse, puzeram-lhe esse nome, -exquisito e novo, de Electra. - -_Marquez_ - -Novo, propriamente, não. Á pobre mãe—coitadita—Eleuteria Dias, todos -nós, os intimos da casa, lhe chamavamos tambem Electra, em parte -talvez por abreviatura, e em parte porque ao pae, militar valente mas -assignaladamente desditoso na vida conjugal, tinham posto a alcunha de -_Agamemnon_. - -_Urbano_ - -D’essa não sabia... Tambem nunca vivi com elles. Eleuteria, pela fama que -tinha, figurava-se-me uma creatura repugnante... - -_Marquez_ - -Por amor de Deus, querido Urbano, não sejamos pharisaicos... Lembre-se -que Eleuteria—a quem chamaremos _Electra I_—mudou de vida, ahi por 88... - -_Urbano_ - -E não deu pouco que falar esse arrependimento tambem. Lá foi morrer -a S. João da Penitencia, em 95, regenerada, abominando a monstruosa -libertinagem da sua vida... - -_Marquez_ - -(_como quem lhe reprehende o rigorismo_) Deus lhe perdoou... - -_Urbano_ - -Sim, sim... perdão, esquecimento... - -_Marquez_ - -E tratam então agora de tentear _Electra II_ a vêr se inclinará para bem -ou se lhe dará para mal... Que resultado vão dando as provas? - -_Urbano_ - -Resultados obscuros, contradictorios, variaveis de dia para dia, de -hora para hora. Ha momentos em que ella nos revela qualidades sublimes, -mal encobertas pela sua innocencia; outros, em que nos apparece como a -creatura mais doida a quem Deus deu licença de vir ao mundo. Tão depressa -encanta pela sua candura angelica como aterra a gente pelas diabolicas -subtilezas que desfia da sua propria ignorancia. - -_Marquez_ - -Natural desequilibrio da edade, excesso de imaginação, talvez. É esperta? - -_Urbano_ - -Como a electricidade em pessoa, mysteriosa, repentista, de grande tino. -Destroe, transtorna, perturba, illumina. - -_Marquez_ - -(_levantando-se_) Fervo em curiosidade. Vamos vêl-a. - - -SCENA III - - MARQUEZ, URBANO, CUESTA, pelo fundo - -_Cuesta_ - -(_entra com mostras de cançaço, tira do bolso a carteira de negocios, e -dirige-se á mesa_) Marquez... Tudo bom por cá? - -_Marquez_ - -Oh! grande Cuesta! que nos conta o nosso incançavel agente? - -_Cuesta_ - -(_senta-se. Revela um padecimento de coração_) O incançavel... começa a -cançar. - -_Urbano_ - -Homem! e que me dizes da alta d’hontem no Amortisavel? - -_Cuesta_ - -Veio de Paris com dois inteiros. - -_Urbano_ - -Fizeste a nossa liquidação? - -_Marquez_ - -E a minha? - -_Cuesta_ - -Estou com isso... (_Tira papeis da carteira e escreve a lapis_) N’um -instante saberão as cifras exactas. Tirou-se todo o partido que se podia -tirar da conversão. - -_Marquez_ - -Naturalmente... Sendo o typo de emissão dos novos valores 79,50... tendo -nós comprado por preço muito baixo o papel recolhido... - -_Urbano_ - -Naturalmente... - -_Cuesta_ - -O resultado foi enorme. - -_Marquez_ - -Querido Urbano, esta facilidade com que se enriquece é positivo que dá o -amor da vida e o enthusiasmo da belleza humana. Vamos para o jardim. - -_Urbano_ - -(_a Cuesta_) Vens? - -_Cuesta_ - -Preciso de dez minutos de silencio para pôr em ordem os meus apontamentos. - -_Urbano_ - -Deixamos-te em socego. Não queres nada? - -_Cuesta_ - -(_abstrahido nas suas contas_) Não... quero dizer... Sim: manda-me vir um -copo de agoa. Estou abrasado. - -_Urbano_ - -Immediatamente. (_Sae com o Marquez para o jardim_) - - -SCENA IV - - CUESTA E PATROS - -_Cuesta_ - -(_corrigindo as suas notas_) Ah! cá está o erro. Aos de Yuste toca... um -milhão e seiscentas mil pezetas. Ao marquez de Ronda, duzentas e vinte -e duas mil... Temos que descontar as doze mil e tanto, equivalentes aos -nove mil francos... (_Entra Patros com copos d’agoa, caramellos e cognac. -Espera que Cuesta termine a sua conta_) - -_Patros_ - -Ponho aqui, D. Leonardo? - -_Cuesta_ - -Põe e espera um instante... Um milhão e oitocentos... com os seiscentos -e dez... fazem... claro! está certo. Bem bom! bem bom!... Com que então, -Patros... (_tira do bolso dinheiro, que lhe dá_) Toma lá! - -_Patros_ - -Muito obrigado! - -_Cuesta_ - -E já te aviso que espero de ti um favôr... - -_Patros_ - -Dirá, D. Leonardo. - -_Cuesta_ - -Pois, minha amiga... (_remechendo um caramello_) Escuta... - -_Patros_ - -Não quer cognac?... Se vem cançado, a agoa só pode fazer-lhe mal. - -_Cuesta_ - -Sim: deita um poucochito... Pois o que eu quereria...—Não vás pôr -malicia no que a não tem: sentido!—o que eu quereria era falar alguns -momentos, a sós, com a senhorita Electra. Conhecendo-me como me conheces, -comprehenderás de certo que o meu fim é o mais honrado e o mais digno... -Mas sempre t’o digo para te tirar todo o escrupulo... (_Recolhe os -papeis_) Antes que venha alguem, poderás dizer-me que occasião e que -logar será melhor? - -_Patros_ - -Para dizer duas palavras á senhorita Electra... (_meditando_) terá de ser -então quando os senhores estiverem com o procurador... Eu verei. - -_Cuesta_ - -Se pudesse ser hoje, melhor. - -_Patros_ - -Ainda cá volta hoje? - -_Cuesta_ - -Volto. Avisa-me. - -_Patros_ - -Esteja certo. (_Recolhe o serviço e sae_) - - -SCENA V - - CUESTA E PANTOJA, que entra em scena meditabundo, abstraído, - todo vestido de preto - -_Cuesta_ - -Amigo Pantoja, salve-o Deus! Como vamos? - -_Pantoja_ - -(_suspira_) Vivendo, amigo, que é o mesmo que dizer: esperando. - -_Cuesta_ - -Esperando melhor vida... - -_Pantoja_ - -Padecendo n’esta o que Deus determine para merecer a outra. - -_Cuesta_ - -E de saude que tal? - -_Pantoja_ - -Mal e bem. Mal, porque me affligem desgostos e achaques; bem, porque me -apraz a dôr, e me regosija o soffrimento. (_Inquieto, e como dominado por -uma ideia fixa, olha para o jardim_) - -_Cuesta_ - -Que ascetico vem hoje! - -_Pantoja_ - -Olhe que cabecinha de vento a d’aquella Electra...! Lá vae ella de -corrida com os pequenos do porteiro, com os dois filhos do Maximo, e -ainda com filhos dos visinhos. Quando a deixam n’aquellas travessuras de -creança é que ella é feliz. - -_Cuesta_ - -Adoravel creaturinha! Que Deus a fade bem, para ser uma mulher como se -quer! - -_Pantoja_ - -D’aquella graciosa boneca, d’aquella voluvel menina facilmente se poderia -tirar um anjo; da mulher que ella ha de ser, não sei. - -_Cuesta_ - -Não o entendo bem, amigo Pantoja. - -_Pantoja_ - -Entendo-me eu... Olhe, olhe como brincam... (_Assustado_) Deus de -misericordia! quem é que vae com ella?... Não é o marquez de Ronda? - -_Cuesta_ - -Elle mesmo. - -_Pantoja_ - -Que corrupto homem! Tenorio da geração passada não se decide a jubilar-se -para não dar um desgosto a Satanaz! - -_Cuesta_ - -Para que mais uma vez se possa dizer que não ha paraizo sem serpente... - -_Pantoja_ - -Para isso não! serpente já tinhamos. (_Passeia nervoso e displicente pela -sala_) - -_Cuesta_ - -E diga-me, passando a outra coisa: teve já noticia do dinheirão que lhes -trouxe? - -_Pantoja_ - -(_sem prestar grande attenção e fixando-se n’outra ideia que não -formúla_) Ah! sim, já... Ganhou-se muito. - -_Cuesta_ - -Evarista completará agora a sua grande obra religiosa. - -_Pantoja_ - -(_maquinalmente_) Sim. - -_Cuesta_ - -E poderá o amigo Pantoja consagrar muito maiores recursos a S. José da -Penitencia. - -_Pantoja_ - -Sim... (_Voltando á sua ideia fixa_) Serpente já tinhamos... Que dizia, -amigo Cuesta? - -_Cuesta_ - -Dizia eu... - -_Pantoja_ - -Desculpe interrompel-o... Sabe se sempre é certo que o nosso visinho -de defronte, o nosso maravilhoso sábio, inventor e quasi thaumaturgo, -projecte mudar de casa? - -_Cuesta_ - -Quem? Maximo? Acho que sim... Parece que em Bilbau e em Barcelona acolhem -com enthusiasmo os seus admiraveis estudos para novas applicações da -electricidade; e lhe offerecem todos os capitaes que elle queira para -proseguir nas experiencias que encetou. - -_Pantoja_ - -(_meditativo_) Oh! capitaes eu lh’os daria tambem, comtanto que... - - -SCENA VI - - PANTOJA, CUESTA, EVARISTA, URBANO E O MARQUEZ, que veem do - jardim - -_Evarista_ - -(_soltando o braço do Marquez_) Bons dias, Cuesta. Pantoja, quanto estimo -vêl-o! (_Cuesta e Pantoja inclinam-se e beijam-lhe respeitosamente a mão. -A senhora de Yuste senta-se á direita; o Marquez em pé ao lado d’ella. Os -outros agrupam-se á esquerda falando de negocios._) - -_Marquez_ - -(_reatando com Evarista uma conversação interrompida_) Por este andar a -minha boa amiga não sómente passa á Historia mas passa a figurar tambem -no _Anno Christão_. - -_Evarista_ - -Não me gabe por coisas em que não ha merecimento nenhum, Marquez... -Não temos filhos: Deus cumula-nos de riqueza. Temos em cada anno uma -herança. Sem trabalho nenhum—nem, sequer o de discorrer—o excesso dos -nossos rendimentos, habilmente manejados pelo amigo Cuesta, capitalisa-se -sem darmos por isso, e cria novas fontes de dinheiro. Se compramos uma -quinta, a subida dos productos triplica n’esse mesmo anno o valor da -terra. Se ficamos senhores de um baldio inteiramente sáfaro, acontece -que no subsolo se descobre um jazigo immenso de carvão, de ferro ou de -chumbo... Que quer dizer tudo isto? - -_Marquez_ - -Quer dizer—acho eu—que quando Deus multiplica tantas riquezas sobre quem -nem as deseja nem as estima, bem claramente elle está indicando que as -concede para que sejam empregadas em servil-o. - -_Evarista_ - -É claro. Interpretando-o tambem assim, eu apresso-me a cumprir a vontade -de Deus. O dinheiro que Cuesta nos veio hoje trazer apenas me passará -pelas mãos, e com elle completarei a somma de sete milhões consagrados -á obra do Santo Patrocinio. E mais farei para que a casa e o collegio -de Madrid tenham o decoro e a magnificencia adequada a um tão grande -instituto. Desenvolveremos tambem as obras do collegio de Valencia e do -de Cadiz... - -_Pantoja_ - -(_passando para o grupo da direita_) Sem esquecer, minha senhora, a casa -dos altos estudos, a sua escola de instrucção superior, que virá a ser o -santuario da verdadeira Sciencia. - -_Evarista_ - -Bem sabe que é esse o meu constante pensamento. - -_Urbano_ - -(_passando tambem para a direita_) N’isso se pensa n’esta casa de noite e -de dia. - -_Marquez_ - -Admiravel, minha querida amiga, admiravel! (_Levanta-se_) - -_Evarista_ - -(_a Cuesta, que igualmente tem passado para a direita_) E agora, amigo -Leonardo, que vamos fazer? - -_Cuesta_ - -(_sentando-se ao lado de Evarista, a quem propõe novas operações_) Por -hoje nos limitaremos a metter algum dinheiro... - -(_Pantoja, em pé, colloca-se á esquerda de Evarista_) - -_Marquez_ - -(_passeando na scena com Urbano_) Ha de permittir, querido Urbano, que, -proclamando os merecimentos sublimes da senhora de Garcia Yuste, eu não -deite em sacco roto os nossos: falo da minha mulher e de mim. Saberá que -Virginia já fez a caridade de transferir para as Escravas de Jesus um bom -terço da nossa fortuna... - -_Urbano_ - -Das mais solidas da Andaluzia. - -_Marquez_ - -E por nosso testamento deixamos tudo a essas senhoras, menos a parte -destinada a certos encargos e aos parentes pobres. - -_Urbano_ - -Ora vejam lá!... Mas, segundo me constou, o Marquez aqui ha annos parece -que não via com enthusiasmo illimitado que a piedade da marqueza, minha -senhora, se tornasse tão angelicamente dispendiosa... - -_Marquez_ - -É certo... mas converti-me. Abjurei todos os meus erros. A minha mulher -catechisou-me. - -_Urbano_ - -Exactissimamente o que me succedeu a mim. Evarista virou-me com o forro -de santo para fóra. - -_Marquez_ - -Para conservar a paz e estabelecer a harmonia conjugal, principiei -por contemporisar, continuei contemporisando... Pois, meu amiguinho, -contemporisação foi ella que, a pouco e pouco, cheguei ao que se vê: Sou -um escravo... das _Escravas de Jesus_! E não me arrependo. Vivo n’uma -placidez beatifica, curado de todas as inquietações da minha vida. E -estou já agora a convencer-me de uma coisa: é que a minha mulher não -sómente salva a sua alma, mas que me salva a minha tambem! - -_Urbano_ - -Pois é o que eu egualmente recommendo cá em casa: que não se esqueçam, -podendo tambem ser, de me salvar a mim! - -_Marquez_ - -Nós, homens, não temos iniciativa para nada. - -_Urbano_ - -Absolutamente para nada! - -_Marquez_ - -Verdade seja que ás vezes até o que se chama respirar nos prohibem! - -_Urbano_ - -Prohibida a respiração... Conheço! - -_Marquez_ - -Mas vivemos em paz. - -_Urbano_ - -E servimos a Deus sem esforço nenhum. Isso é que é. - -_Marquez_ - -As nossas mulheres lá vão adeante de nós, por esse bemdito caminho da -eternidade, pela gloria fóra; e podemos estar socegados, que nos não -deixam na estrada. - -_Urbano_ - -Pois! é a sua obrigação. - -_Evarista_ - -Urbano?... - -_Urbano_ - -(_acudindo pressuroso_) Menina... - -_Evarista_ - -Põe-te á disposição de Cuesta para a liquidação e para a entrega aos -padres. - -_Urbano_ - -Hoje mesmo. (_Cuesta levanta-se_) - -_Evarista_ - -E outra coisa: faze-me favor de chegar ao jardim, e dizer a Electra que -tem já tres horas de brincadeira. - -_Pantoja_ - -(_imperioso_) Que se venha embora. É brincar de mais. - -_Urbano_ - -Vou já. (_Vendo vir Electra_) Ella ahi vem. - - -SCENA VII - - ELECTRA, atraz d’ella MAXIMO - -_Electra_ - -(_Entra a correr e a rir, perseguida por Maximo, a quem ganhou na -corrida. O seu riso é de medo infantil_) Bem feito, que não me pilhas!... -Enraivece-te, brutamontes! - -_Maximo_ - -(_traz em uma das mãos varios objectos que indicará, e na outra um ramo -de choupo, que esgrime como um chicote_) Eu te digo se te pilho ou não, -selvagem! - -_Electra_ - -(_sem fazer caso dos que estão em scena, corre a casa com infantil -ligeiresa e vae refugiar-se no vestido de D. Evarista, ajoelhando-se-lhe -aos pés e abraçando-a pela cinta_) Estou salva!... Tia, ponha-o fóra! - -_Maximo_ - -Ah! já foges! já tens medo, minha menina! - -_Evarista_ - -Mas, filha da minh’alma! quando é que terás modos de senhora? E tu, -Maximo, és tão creança como ella. - -_Maximo_ - -(_mostrando as coisas que traz_) Vejam o que esse demonico me fez. -Quebrou-me estes dois tubos... E olhem o estado em que poz estes papeis, -contendo calculos que representam um trabalho enorme. (_Mostra os papeis -suspendendo-os de alto_) D’este fez uma passarola; este deu-o aos -pequenos para pintarem elephantes, burros e um couraçado a atirar balas a -um castello... - -_Pantoja_ - -Então ella foi ao laboratorio? - -_Maximo_ - -E revolucionou os pequenos... Revolveram-me tudo! - -_Pantoja_ - -(_com severidade_) Isso, menina... - -_Evarista_ - -Electra! - -_Marquez_ - -(_enthusiasmado_) Electra! Encanto de menina grande! Bemditas -travessuras! - -_Electra_ - -Eu não lhe quebrei os tubos. Não ha tal! Foi Pepito que lhe fez esse -obsequio. Os papeis, sim senhor; fui eu que peguei n’elles, imaginando -que não serviam para nada com os hediondos esgaravunhos que tinham. - -_Cuesta_ - -Basta! haja pazes! - -_Maximo_ - -Pois vá lá, por esta vez... (_a Electra_) Perdôo-te. Deves-me a -vida... Toma lá. (_Entrega-lhe a chibata; Electra recebe-a, e bate-lhe -brandamente_) - -_Electra_ - -Toma agora tu! Esta é pelo que me disseste. (_Batendo-lhe com mais -força_) Esta agora pelo que não quizeste dizer-me. - -_Maximo_ - -Disse-te tudo. - -_Pantoja_ - -Moderação! juizo! - -_Evarista_ - -Que te disse elle? - -_Maximo_ - -Disse-lhe verdades uteis... Que aprenda por si mesma o muito que ainda -ignora; que abra bem abertos esses grandes olhos e que os estenda pela -vida humana, para que veja que nem tudo é alegria, que ha tambem no mundo -deveres, desenganos e sacrificios... - -_Electra_ - -Chega o lobishomem! (_Occupa o centro da scena, onde todos a rodeiam, -menos Pantoja, que se colloca ao lado d’Evarista_) - -_Cuesta_ - -Nem tudo applausos! - -_Urbano_ - -A severidade é precisa. - -_Maximo_ - -Em severidade ninguem me ganha... Dize: é ou não é verdade que sou -severo, e que tu m’o agradeces? Confessa que me agradeces! - -_Electra_ - -(_batendo-lhe de leve_) Peste de sábio! Se isto fôsse um açoite -verdadeiro, ainda com mais alma te batia. - -_Marquez_ - -(_risonho e encarinhado_) Electra, veja se me bate em mim tambem... -Faça-me essa esmola! - -_Electra_ - -Em si não, porque não tenho confiança... Só se fôr muito de levesinho... -assim... assim... assim... (_Toca levemente no Marquez, em Cuesta e em -Urbano_) - -_Evarista_ - -Melhor seria que tocasses piano para esses senhores ouvirem. - -_Maximo_ - -Quê, se não estuda nada! Só uma coisa se póde comparar á sua grande -disposição artistica, é o seu espantoso desapego de todas as artes. - -_Cuesta_ - -Que nos mostre as aquarellas e os desenhos. O Marquez vae vêr. -(_Juntam-se todos em volta da meza, menos Evarista e Pantoja, que -conversam áparte_) - -_Electra_ - -Ahi sim senhor! (_Procurando a pasta de desenhos entre os livros e as -revistas que estão na mesa_) Agora se vae vêr se sou ou se não sou uma -artista! - -_Maximo_ - -Forte gabarola! - -_Electra_ - -(_desatando as fitas da pasta_) Pois sim! tu a desfazeres e eu a -augmentar-me veremos quem póde mais. Ora aqui está, e pasmem! (_Mostrando -os desenhos_) Que teem que dizer a estes portentosos esboços de paizagem, -de figura, de animaes? a estas vaccas que parecem pessoas? a estas -naturezas mortas que parecem vivas? a estes rochedos que só lhes falta -fallarem?! (_Todos se extasiam no exame dos desenhos, que passam de mão -em mão_) - -_Evarista_ - -(_tendo desviado a attenção do grupo do centro, entabolou conversa intima -com Pantoja_) Tem razão, Salvador. Quando é que a não tem? Agora, no caso -de Electra, o seu argumento é um clarão que nos illumina a todos. - -_Pantoja_ - -Não vá crêr que seja a minha pobre intelligencia que projecta essa -luz. Ella é apenas o resplendor de um fogo intenso que tenho em mim: a -vontade! Por meio d’esta força, que devo a Deus, esmaguei o meu orgulho e -emendei os meus erros. - -_Evarista_ - -Depois da confidencia que hontem á noite me fez é indiscutivel para mim o -seu direito de intervir na educação d’essa cabeça de vento... - -_Pantoja_ - -Para lhe ensinar o caminho da vida, para lhe mostrar o alto fito da nossa -misera existencia na terra... - -_Evarista_ - -E esse direito que indubitavelmente lhe cabe, implica deveres -inilludiveis... - -_Pantoja_ - -Quanto lhe agradeço que tão perfeitaimente o comprehenda, minha senhora -e amiga da minha alma! Eu receava que a minha confidencia d’hontem, -historia funesta que reveste de negro os melhores annos da minha vida, -me tivesse feito decaír da sua estima! - -_Evarista_ - -Não, meu amigo. Quem é que dentro da humanidade se póde considerar -liberto da fraqueza humana? Em si o peccador regenerou-se, castigando -a vida com as mortificações do arrependimento, e dignificando-a com a -pratica da virtude. - -_Pantoja_ - -A divina tristeza, o amor da solidão, o convicto desprezo de todas as -vaidades do mundo foram a salvação da minha alma. Pois bem: eu não -estaria completamente purificado perante a minha consciencia se n’esta -occasião não interviesse nos negocios da terra para salvar dos seus -perigos a angelica innocencia d’essa menina, fatalmente destinada, se -lhe não acudirmos, a precipitar-se pelo caminho em que se perdeu a sua -desgraçada mãe. - -_Evarista_ - -A minha opinião é que fale com ella... - -_Pantoja_ - -A sós. - -_Evarista_ - -Assim o entendo: a sós. Faça-lhe comprehender, o mais delicadamente que -possa, a especie de auctoridade que tem... - -_Pantoja_ - -É todo o meu desejo esse... (_Continuam em voz baixa_) - -_Electra_ - -(_no grupo do centro disputando com Maximo_) Deixa-te de sentenças, que -tu d’isto não sabes nada! Então não querem vêr com a que elle se sae? -que o passaro parece um velho pensativo, e que a mulher faz lembrar uma -lagosta desmaiada... - -_Marquez_ - -Não senhor... Eu acho que está muito bem feito! - -_Maximo_ - -Ás vezes tambem lhe dá para ahi! Quando menos pensa saem-lhe coisas -prodigiosamente exactas. - -_Cuesta_ - -É certo que estas velhas arvores, atravez das quaes se descobre uma -triste faixa de mar, ao longe... - -_Electra_ - -A minha especialidade aposto que ainda nenhum adivinhou qual é?... Pois -são os troncos velhos, são os carcomidos muros em ruina. É singular que -só pinto bem aquillo que não conheço: a tristeza, o passado, o môrto! A -grande luminosidade radeante da alegria, da mocidade, não me sae! (_Com -pena e assombro_) Sou uma grande artista para tudo que não sou eu! - -_Urbano_ - -Tem graça. - -_Cuesta_ - -Esta menina é optima! - -_Marquez_ - -É scintillante! - -_Maximo_ - -Esperemos que lhe venha a reflexão tambem... a seu tempo... - -_Electra_ - -(_zombando de Maximo_) A reflexão! a gravidade! o tempo que ha de vir!... -É a sombra que sempre me deita este cipreste!... Ora fica sabendo que eu -hei de ter tudo isso quando me dér para ahi... e mais do que tu, meu -sabichão! - -_Maximo_ - -Veremos... veremos isso quando te chegar a vez! - -_Pantoja_ - -(_que não tem dado attenção ao que se passa no grupo_) Não posso -occultar-lhe, minha senhora, que me desagrada muito a familiaridade de -Electra com o sobrinho do seu marido. - -_Evarista_ - -Ha de se lhe corrigir. Mas no emtanto sempre tenha você em conta que este -Maximo, que ahi vê, é um homem perfeitamente de bem e raramente serio... - -_Pantoja_ - -Bem sei, minha amiga... Mas nos desfiladeiros da confiança excessiva -resvalam os mais solidos e os mais firmes; uma triste experiencia m’o -ensinou a mim! - -_Electra_ - -(_no grupo do centro_) Eu hei de tomar todo o juizo que eu quizer quando -elle me fôr preciso. Ninguem se põe serio emquanto Deus não manda. -Ninguem diz ai ai senão quando alguma coisa lhe doe. - -_Marquez_ - -Lá isso é verdade! - -_Cuesta_ - -Um dia aprenderá a ser pratica. - -_Electra_ - -De certo que sim! No dia em que venha Deus e me diga: «Menina: aqui tens -a dôr, a duvida, a responsabilidade, o dever...» - -_Maximo_ - -E breve o dirá!... - -_Electra_ - -Para que eu lhe responda! - -_Evarista_ - -Electra, minha filha, não disparates. - -_Electra_ - -Tia, é este Maximo... (_passa para o lado de Evarista_) - -_Urbano_ - -O Maximo tem razão... - -_Cuesta_ - -Certamente que sim. (_Cuesta e Urbano passam tambem para o lado de -Evarista e de Pantoja, ficando sós á esquerda Maximo e o Marquez_) - -_Maximo_ - -Então, Marquez, qual é o resultado da sua primeira observação? - -_Marquez_ - -Encantou-me a rapariga. Vejo que você não exagerava nada. - -_Maximo_ - -E por baixo do fascinante encanto d’essa innocencia não pôde a sua -penetração descobrir alguma coisa... - -_Marquez_ - -Ah! sim... belleza moral, juizo pratico... Ainda não tive tempo para -isso... Continúo a observar... - -_Maximo_ - -É que eu—você sabe—consagrado ao estudo desde muito moço, mal conheço o -mundo, e os caracteres humanos são para mim uma escripta em que apenas -soletro. - -_Marquez_ - -Pois esse, meu amigo, é o unico dos livros em que eu leio de cadeira. - -_Maximo_ - -Quer vir a minha casa? - -_Marquez_ - -Com muito gosto. É possivel que minha mulher me reprehenda se souber que -eu visito uma officina de electrotechnia, uma escandalosa fabrica de luz. -Mas não será de uma severidade que eu não aguente. Posso aventurar-me... -Voltarei depois aqui, e com o pretexto de admirar a menina ao piano -falarei com ella e proseguirei os meus estudos. - -_Maximo_ - -(_alto_) Vem, Marquez? - -_Urbano_ - -Então assim nos deixam? - -_Marquez_ - -Vamos vêr o laboratorio do nosso amigo. - -_Evarista_ - -Marquez, estou muito sentida, mas muito, pela sua longa ausencia. Quererá -descarregar-se de tantos peccados velhos almoçando hoje comnosco? É o seu -castigo... - -_Marquez_ - -Acceito-o em desconto da minha culpa e beijo a mão que tão docemente me -corrige. - -_Evarista_ - -Maximo, tu vens tambem. - -_Maximo_ - -Se me deixarem livre, virei, de certo. - -_Electra_ - -Não venhas, homem de Deus, não venhas! (_Com alegria que não dissimula_) -Vens? Dize que sim! (_Corrigindo-se_) Não, não: dize que não. - -_Maximo_ - -Descança que te não livras de mim! Á força has de ganhar juizo... - -_Electra_ - -E has de perdêl-o tu, caturra velho! (_Segue-o com a vista até que sae. -Saem Maximo e o Marquez pelo jardim. José entra pelo fundo_) - - -SCENA VIII - - ELECTRA, EVARISTA, URBANO, PANTOJA, CUESTA E JOSÉ - -_José_ - -(_annunciando_) A senhora Superiora de S. José da Penitencia. - -_Pantoja_ - -Ah! a nossa bôa soror Barbara da Cruz... - -_Evarista_ - -Que entre para aqui. (_Levanta-se_) Espera! Iremos recebêl-a ao salão. - -_Pantoja_ - -Feliz opportunidade! escuso de ir ao convento. - -_Evarista_ - -Electra, estudar. (_Indica-lhe a sala proxima_) - -_Cuesta_ - -(_despedindo-se_) Eu saio e volto logo. - -_Evarista_ - -Adeus. - -_Cuesta_ - -(_áparte, referindo-se a Electra_) Deixam-a só? - -_Pantoja_ - -(_a Electra_) Menina! Cultive com esmero a grande arte sagrada. Applique -todo o seu talento ao estudo de Bach... para que se compenetre do -admiravel estylo religioso. (_Saem todos menos Electra_) - - -SCENA IX - - ELECTRA, pouco depois CUESTA - -_Electra_ - -(_entoando uma psalmodia de egreja, reune os desenhos e recolhe-os nas -suas pastas_) Bach... para que me compenetre do estylo religioso... é -bom!... É bom, e é engraçado. (_Canta_) - -_Cuesta_ - -(_entra pelo fundo, recatando-se_) Só...! - -_Electra_ - -(_canta algumas notas liturgicas. Vendo Cuesta_) Oh! D. Leonardo...! -Cuidei que tinha sahido... - -_Cuesta_ - -(_com timidez_) Sahi mas voltei, minha querida menina. Preciso muito de -lhe falar. - -_Electra_ - -(_um poucochinho assustada_) A mim! - -_Cuesta_ - -É um assumpto delicado, extremamente delicado... (_Com fadiga e -difficuldade em respirar_) Perdoe-me. Padeço do coração... não posso -estar de pé. (_Electra chega-lhe uma cadeira. Senta-se_) Tão delicado -este assumpto, que não sei por onde comece... - -_Electra_ - -Deus meu, que é? - -_Cuesta_ - -(_animando-se_) Electra, eu conheci sua mãe. - -_Electra_ - -Ah! a minha mãe foi bem desgraçada... - -_Cuesta_ - -Que entende a menina por ser desgraçada? - -_Electra_ - -Eu... entendo que viveu entre pessoas que a não deixaram ser tão bôa como -ella queria. - -_Cuesta_ - -Ahi está uma profunda verdade que, sem querer, a menina disse... -Lembra-se da sua mãe?... Pensa algumas vezes n’ella?... - -_Electra_ - -A minha mãe é para mim uma recordação, vaga sim, mas de uma doçura -incomparavel... uma querida imagem que nunca me abandona... Guardo-a viva -no meu coração, que não é mais que uma grande memoria, no fundo da qual a -procuram sempre os meus olhos anciosos de vêl-a. Minha pobre mamãsinha! -(_Leva o lenço aos olhos. Cuesta suspira_) Diga-me, D. Leonardo, quando -você conheceu minha mãe era eu muito pequenina... - -_Cuesta_ - -Era um miminho. Faziamos-lhe cócegas para a vêr rir... o seu riso -parecia-me o encanto da natureza, a alegria do universo. - -_Electra_ - -Ahi está, D. Leonardo, ahi está porque eu sahi tão doida, tão travêssa, -tão desparafusada... você alguma vez me teria pegado ao collo... - -_Cuesta_ - -Innumeraveis vezes. - -_Electra_ - -(_sorrindo sem ter acabado de enxugar as lagrimas_) E eu não lhe puxava -pelos bigodes? - -_Cuesta_ - -Ás vezes com tanta força que me fazia doer. - -_Electra_ - -E de certo então me batia nas mãos... - -_Cuesta_ - -Devagarinho, sim. - -_Electra_ - -Pois ha de crêr que talvez que ainda me doam tambem? - -_Cuesta_ - -(_impaciente por entrar em materia_) Mas vamos ao caso... E antes de mais -nada a advirto, minha querida Electra, que é muito reservado o que lhe -vou dizer... para nós ambos unicamente. - -_Electra_ - -Mette-me medo... - -_Cuesta_ - -Não, não é uma coisa que assuste... Veja em mim a menina um amigo, o -melhor de todos os seus amigos; veja n’este acto o interesse mais puro e -o mais elevado sentimento... - -_Electra_ - -(_confusa_) Sim, não duvído, mas... - -_Cuesta_ - -Eis aqui porque dou este passo... Com quanto não seja ainda muito velho, -não me sinto com corda para longo tempo de vida. Viuvo ha vinte annos, -não tenho mais familia que a minha filha Pilar, já casada e longe. -Estou quasi só n’este mundo, tenho o pé no estribo para marchar para o -outro... E a minha solidão, ai! parece empurrar-me e dar-me pressa... -(_Com grande difficuldade de expressão_) Mas antes de partir... (_Pausa_) -Electra, quanto pensei em si antes de a trazerem para Madrid!... E -desde que chegou, Deus meu, senti—como lh’o direi?... Imagine o mais -profundo, o mais puro affecto de um coração, envolvido nos gritos de uma -consciencia... - -_Electra_ - -(_aturdida_) Que grave coisa deve ser essa, a consciencia! A minha é, por -ora, como um menino que dorme no seu berço. - -_Cuesta_ - -(_com tristeza_) A minha é velha e memoriosa. Nem dorme, nem me deixa -dormir, assignalando-me sempre, a grandes brados, os erros graves da -minha vida. - -_Electra_ - -Erros graves na vida... você, tão bom... - -_Cuesta_ - -Bom? Sim... talvez... Bom mas peccador... Emfim deixemos os erros, -tratemos dos seus resultados. Eu não quero de nenhum modo que a menina -se possa achar ao desabrigo. Não tem fortuna propria, e é duvidoso que a -protecção de Urbano e d’Evarista seja persistente e constante. Como havia -de consentir eu que um dia se visse pobre, desamparada? - -_Electra_ - -(_com penosa lucta entre o seu conhecimento e a sua innocencia_) Eu não -sei se o entendo... não sei se devo entendel-o. - -_Cuesta_ - -O mais apropositado será que me entenda, e não o diga; que acceite -a minha protecção, e a não agradeça. Vão juntos o meu dever e o seu -direito. Por culpa minha, Electra, não se quebrará o fio que une cada -creatura na terra, com as creaturas que foram e com as que ainda vivem... -E se hoje me determino a resolver este caso é porque... porque ha uns -tempos me assalta o terror das mortes subitas. Meu pae e meu irmão -morreram como fulminados de raio. A lesão cardiaca, destruidora da -familia, sinto-a bem aqui: (_indicando o coração_) é um triste relogio -que me conta as horas e os dias. Não posso adiar mais... Que me não -colha a morte deixando abandonada no mundo a sua preciosa existencia! E -concluo aqui, pedindo-lhe que tenha como assegurado na vida um bem estar -modesto... - -_Electra_ - -Um bem estar modesto... Eu?... para mim? - -_Cuesta_ - -O sufficiente para viver n’uma decorosa independencia... - -_Electra_ - -(_confusa_) Mas eu, que merecimentos tenho?... Perdôe-me, se não posso -acabar de me convencer... - -_Cuesta_ - -Mais tarde o convencimento virá. - -_Electra_ - -E por que não fala n’isso a meus tios?... - -_Cuesta_ - -(_preoccupado_) Porque... A seu tempo o saberão. Por agora ninguem mais -deve ter conhecimento da resolução que tomei. - -_Electra_ - -Mas... - -_Cuesta_ - -(_commovido, levantando-se_) E agora, Electra, não quererá mal a este -pobre enfermo, que tem contados os seus dias? - -_Electra_ - -Querer-lhe mal!? Se é tão facil e tão doce para mim o querer bem! Mas não -fale em morrer, D. Leonardo. - -_Cuesta_ - -Completamente me consola saber que chorará talvez por mim... - -_Electra_ - -Não faça com que eu chore já... - -_Cuesta_ - -(_apressando a sahida para vencer a sua commoção_) E agora, minha querida -filha, adeus. - -_Electra_ - -Adeus... (_retendo-o_) E que nome lhe devo dar? - -_Cuesta_ - -O de amigo me basta. Adeus. (_Arranca-se para saír pelo fundo. Electra -segue-o com a vista até que desappareça_) - - -SCENA X - - ELECTRA E O MARQUEZ - -_Electra_ - -(_meditativa_) Meu Deus, que devo pensar? Aquellas meias palavras parece -que ainda me dizem mais do que palavras completas. Mãesinha da minha -alma!... (_O marquez entra pelo jardim e adeanta-se devagar_) Ah! O snr. -Marquez! - -_Marquez_ - -Assustei-a? - -_Electra_ - -Não: surprehendeu-me apenas... Se vem para me ouvir tocar, aviso-o de que -perdeu a viagem. Eu não toco hoje. - -_Marquez_ - -Tanto melhor: assim fallaremos... Mal lhe sou apresentado entro em cheio -na admiração das suas prendas, e, conhecida uma parte do seu caracter, -vivamente desejo conhecel-a mais... Vae estranhar esta curiosidade, e -julgar-me importuno... - -_Electra_ - -Não acho. Eu sou curiosa tambem, e tanto que desde já me permitto -fazer-lhe uma pergunta: é amigo de Maximo? - -_Marquez_ - -Estimo-o e admiro-o muito... Coisa rara não é verdade? - -_Electra_ - -Coisa naturalissima, me parece. - -_Marquez_ - -Tão moça como é, talvez que se não dê bem conta das causas da minha -amisade com o _magico prodigioso_... Vamos a vêr se me faço entender. - -_Electra_ - -Explique-m’o bem. - -_Marquez_ - -Senhorita, a sociedade que eu frequento, o circulo da minha propria -familia e os habitos da minha casa produzem em mim um effeito de -asphyxia, de lento ameaço apopletico. Quasi que sem dar por isso, por -simples impulso instinctivo de conservação, lanço-me de vez em quando á -procura de um pouco d’ar respiravel. Os meus olhos, velhos e nostalgicos, -voltam-se então avidamente para a sciencia e para a natureza... Maximo, -para mim, é um sanatorio. - -_Electra_ - -Quer-me parecer que vou começando a entendêl-o, e á sua doença de -confinado, com faltas d’ar e de vida... - -_Marquez_ - -Prova de que raciocina. Devo tambem dizer-lhe que tenho por esse homem um -interesse immenso. - -_Electra_ - -Estima-o devidamente, admira-o pelas suas altas qualidades... - -_Marquez_ - -E lastimo-o pelo seu infortunio. - -_Electra_ - -(_surprehendida_) Maximo, desafortunado? - -_Marquez_ - -Que desdita maior que a da solidão em que elle vive? A viuvez prematura -submergiu-o nos estudos mais profundos e mais absorventes, que podem -comprometter-lhe a saude e a vida. É um dos meus receios. - -_Electra_ - -Tem os filhos, que o acompanham e a consolam... O Marquez viu-os hoje... -Que lindas creaturinhas! O maior, que vae fazer agora cinco annos, é um -prodigio de intelligencia. O pequenito, de dois annos, é o mais engraçado -sujeitinho de todo o mundo. Eu adoro-os, sonho com elles, e gostava, por -elles, de ser creada de meninos. - -_Marquez_ - -O pobre Maximo, aferrado aos seus estudos, não pode attendêl-os como -devia ser. - -_Electra_ - -É o que eu digo tambem. - -_Marquez_ - -Claro! Maximo do que precisa é de uma mulher... Aqui principiam as -difficuldades e as dúvidas. Por mais que olhe e que procure, não vejo, -não encontro a mulher digna de repartir a sua vida com a do grande homem. - -_Electra_ - -Não a encontra, está visto, porque a não ha, não a ha. Para Maximo -deve-se arranjar uma mulher, principalmente, de muito juizo... - -_Marquez_ - -Primeiro que tudo, isso: de muito juizo. - -_Electra_ - -O contrario de mim, que, não tenho nenhum, nenhum, nenhum! - -_Marquez_ - -Não direi eu isso... - -_Electra_ - -Que, ainda assim, quando lhe digo tolices e lhe chamo brutamontes, tonto -e sabichão, não vá o Marquez pensar que o digo a sério. É brincadeira! - -_Marquez_ - -Tambem me queria parecer que não era uma convicção philosophica. - -_Electra_ - -Brincadeira descabida, talvez, porque elle é seriissimo... E sobre esse -ponto gostaria de ouvir o seu conselho: acha que eu deva tornar-me séria? - -_Marquez_ - -Nunca! Cada creatura é como Deus a quiz fazer. Ninguem precisa de ser -serio para ser bom. - -_Electra_ - -Pois veja lá! eu que não sei nada, tinha pensado isso mesmo! - - -SCENA XI - - ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA pelo fundo - -_Pantoja_ - -(_do fundo, áparte_) E atreve-se a pôr os olhos peçonhentos n’uma tal -flôr de candura, este libertino, velho e incorrigivel! (_Adeanta-se -lentamente_) - -_Marquez_ - -(_dando por Pantoja, áparte_) Cae-nos o apagador em cima. Apaguemo-nos! - -_Electra_ - -O snr. Marquez tinha vindo para me ouvir tocar, mas eu estou muito -estupida hoje. Ficou para outra vez. - -_Marquez_ - -O meu caro snr. Pantoja sabe que Beethoven é a minha paixão. Como me -tinham dito que Electra o interpreta bem, esperava ouvir-lhe a _Sonata -pathetica_ ou o _Clair de lune_... Puzemo-nos a conversar, e, visto que -não é occasião agora... - -_Pantoja_ - -(_com desabrimento_) A hora do estudo acabou. - -_Marquez_ - -(_recobrando o seu papel de sociedade_) Outro dia será! Virginia e eu, -meu presado snr. Pantoja, muito estimariamos que quizesse honrar-nos com -os seus conselhos relativamente ao _Recolhimento das Escravas de Jesus_. - -_Pantoja_ - -Sim senhor, hoje irei vêr a marqueza, e fallaremos... - -_Marquez_ - -Nas _Escravas_ a encontrará o meu illustre amigo toda a santissima -tarde... E como creio que sou demais... (_Movimento de retirar-se_) - -_Electra_ - -O snr. Marquez não estorva. - -_Marquez_ - -Vou-me com a musica... até o laboratorio de Maximo. - -_Pantoja_ - -Vá, vá, que ha de gostar! - -_Marquez_ - -Até ao almoço, meu muito respeitavel amigo. - -_Pantoja_ - -Guarde-o Deus. (_Sae o marquez pelo jardim_) - - -SCENA XII - - ELECTRA E PANTOJA - -_Pantoja_ - -(_vivamente_) Que é que elle lhe dizia? que lhe estava contando esse -depravador de innocencias? - -_Electra_ - -Nada: historias vagas, anecdotas para rir... - -_Pantoja_ - -As taes historias! Desconfie sempre das anecdotas jocosas, e dos -narradores amenos, que escondem entre suavidades e fragrancias de jasmins -uma ponta envenenada de estilete... Estou a achal-a perplexa, enleada, -abstrahida, quasi medrosa, como quem acaba de sentir pela macia relva -matisada de lirios um roçagar de reptil. - -_Electra_ - -Ah! não. - -_Pantoja_ - -Essa inquietação resultante das conversações perturbadoras ha de -acalmal-a a minha palavra serena e benefica. - -_Electra_ - -Vejo que é poeta, snr. de Pantoja; e dá-me prazer ouvil-o. - -_Pantoja_ - -(_indica-lhe uma cadeira, e sentam-se ambos_) Minha presada filha, vou -dar-lhe a explicação da intensa ternura que me inspira... Terá dado por -isso? - -_Electra_ - -Tenho. - -_Pantoja_ - -Tal explicação equivale á revelação de um segredo... - -_Electra_ - -(_muito assustada_) Deus do ceu! estou a tremer... - -_Pantoja_ - -Socegue, minha filha... E ouça primeiro a parte d’esta confidencia mais -dolorosa para mim. Fui muito mau, Electra. - -_Electra_ - -Como assim, com a fama de santidade que tem! - -_Pantoja_ - -Fui mau—digo-lh’o eu—em certa occasião da minha vida. (_Suspirando_) Já -lá vão alguns annos. - -_Electra_ - -(_vivamente_) Quantos? Poderei eu lembrar-me ainda do tempo da sua -maldade, snr. de Pantoja? - -_Pantoja_ - -Não pode. Quando eu me depravei, quando me afundi no lodaçal do peccado, -não tinha a menina ainda nascido... - -_Electra_ - -Mas nasci afinal... - -_Pantoja_ - -(_depois de uma pausa_) É certo. - -_Electra_ - -Nasci... e d’ahi? Por quem é, abrevie essa historia... - -_Pantoja_ - -A sua perturbação me indica que devemos desviar os olhos do passado. A -sua condição presente socega-me. - -_Electra_ - -Porquê? - -_Pantoja_ - -Porque ha de ter um amparo, um arrimo para toda a vida. Nada mais -ineffavel para mim do que a fortuna de velar pelo destino de uma creatura -tão bella e tão nobre! Quero consagrar-me a defendel-a de todo o mal, -a guardal-a, a acalental-a, a dirigil-a, para que sempre se conserve -incolume, intemerata e pura; para que nunca lhe toque nem a mais tenue -sombra, nem o mais afastado respiro do mal. É hoje uma menina que parece -um anjo. Não me conformo com que unicamente o pareça; quero que para mim -o seja. - -_Electra_ - -(_friamente_) Que eu seja um anjo de sua composição e propriedade -sua?... E parece-lhe que se deva considerar como um rasgo de caridade -extraordinaria e sublime esse fervoroso desejo que mostra de ter assim, -um anjo de seu? - -_Pantoja_ - -Não é caridade: é obrigação. Tu—entendes?—tens o direito de ser amparada -por mim; eu tenho o dever de amparar-te. - -_Electra_ - -Tamanha confiança... tão severa auctoridade... - -_Pantoja_ - -A minha auctoridade provém do meu entranhado affecto, assim como do calor -do sol provém a força da terra. A minha protecção é um producto da minha -consciencia. - -_Electra_ - -(_levanta-se muito agitada, e afastando-se de Pantoja, áparte_) Virgem -mãe santissima! dois protectores! e um que precisa de opprimir para -proteger! (_alto_) Olhe: eu admiro-o e respeito muito as suas virtudes. -Emquanto á sua auctoridade—perdoe-me o atrevimento de lh’o dizer—não a -comprehendo bem claramente, e parece-me que só a minha tia é que devo -submissão e obediencia. - -_Pantoja_ - -Vem a ser a mesma coisa. Evarista faz-me a honra de me consultar em tudo. -Obedecer-lhe a ella é submetter-te a mim. - -_Electra_ - -Então tambem a tia me quer para anjo d’ella? ainda por cima de eu já -estar para anjo do snr. de Pantoja?! - -_Pantoja_ - -Anjo de todos, de Deus principalmente. Convence-te, filha da minha alma, -que vieste a bôas mãos, e que só te cumpre deixar-te guiar na virtude e -na purificação. - -_Electra_ - -(_com displicencia_) Pois, se querem purificar-me, purifiquem-me... Mas -estão bem certos de que eu seja impura e má? - -_Pantoja_ - -Poderias vir a sel-o. Melhor se vence o mal prevenindo que remediando. - -_Electra_ - -Pobre de mim! (_Levantando os olhos em extase, suspira. Pausa_) - -_Pantoja_ - -Porque suspiras assim? - -_Electra_ - -Deixe-me aliviar o meu triste coração. Pesam-me demais em cima d’elle as -consciencias dos outros. - - -SCENA XIII - - ELECTRA, PANTOJA E EVARISTA, pelo fundo - -_Evarista_ - -Amigo Pantoja, a Madre Barbara da Cruz espera-o para se despedir e -receber as suas ordens. - -_Pantoja_ - -Ah! não me lembrava... Vou immediatamente. (_Áparte a Evarista_) Falamos. -Vigie. Acautelemo-nos! (_Antes de saír Pantoja, pelo fundo, entram o -Marquez e Maximo pela direita_) - - -SCENA XIV - - ELECTRA, EVARISTA, MARQUEZ E MAXIMO - -_Marquez_ - -Tardamos? - -_Evarista_ - -Não. Estiveram no laboratorio?... (_Formam-se dois grupos: Electra e -Maximo á esquerda; Evarista e o Marquez á direita._) - -_Marquez_ - -Lá estivemos. É um prodigio este homem... (_Segue falando no que viu_) - -_Electra_ - -(_suspirando_) Sim, Maximo, preciso de consultar-te sobre um caso grave. - -_Maximo_ - -(_com vivo interesse_) Conta depressa! - -_Electra_ - -(_receosa olhando para o outro grupo_) Impossivel agora. - -_Maximo_ - -Quando então? - -_Electra_ - -Não sei... Não sei quando t’o poderei dizer... Não se resume em quatro -palavras... - -_Maximo_ - -Pobre rapariga!... O que eu te predisse... Chegam as seriedades da vida, -os deveres, as amarguras... - -_Electra_ - -Talvez. - -_Maximo_ - -(_olhando-a fito, com grande interesse_) Na expressão da tua physionomia -ha um veu de tristeza e um estremecimento de susto... Desconheço-te. - -_Electra_ - -Querem annular o que eu sou, e reduzir-me a outra coisa... a uma coisa -angelical e celeste, que não sei o que é! - -_Maximo_ - -(_vivamente_) Por Deus, não consintas isso! Defende-te, Electra. - -_Electra_ - -Que me aconselhas? - -_Maximo_ - -(_sem vacillar_) A independencia. - -_Electra_ - -A independencia! - -_Maximo_ - -Sim, a emancipação... N’uma palavra: Insurge-te! - -_Electra_ - -Queres dizer que faça quanto me vier á cabeça, que danse, que pule, que -corra pelo parque emquanto me appeteça, que entre na tua casa como em -paiz conquistado, que conspire com os teus pequenos, que fuja com elles -para o jardim, para longe, para onde eu quizer?... - -_Maximo_ - -Tudo! - -_Electra_ - -Olha o que dizes!?... - -_Maximo_ - -Digo-te isto. - -_Electra_ - -Mas é o contrario que me tens recommendado sempre! - -_Maximo_ - -(_olhando-a fixamente_) Na tua cara, no vinco dos teus sobrolhos, na -tremura da tua bocca, eu vejo que estão radicalmente transformadas as -condições da tua vida. Tu agora tens medo. - -_Electra_ - -(_medrosa_) Tenho, sim. - -_Maximo_ - -Tu... (_Hesitando no verbo que ha de empregar. Vae a dizer amar, mas não -ousa_) Tu queres ardentemente que alguma coisa succeda... - -_Electra_ - -(_com effusão_) Quero. (_Pausa_) E dizes-me tu que contra o medo... a -insubordinação. - -_Maximo_ - -Sim: solta livremente todos os teus impulsos para que quanto ha em ti se -manifeste, e se saiba quem tu és. - -_Electra_ - -O que eu sou? Queres conhecer... - -_Maximo_ - -A tua alma... - -_Electra_ - -Os meus segredos... - -_Maximo_ - -A tua alma... N’ella se comprehende tudo. - -_Electra_ - -(_notando que Evaristo a observa_) Basta... Olham para nós. - - -SCENA XV - - OS MESMOS, URBANO E PANTOJA, pelo fundo - -_Urbano_ - -Almoça-se? - -_Pantoja_ - -(_a Evarista, suffocado, vendo Electra com Maximo_) Então assim a deixa -só com Mephistopheles? - -_Evarista_ - -Não tenha sustos, Pantoja. - -_Marquez_ - -(_rindo_) Não tem de que os ter. Esse Mephistopheles é um santo. (_Dá o -braço a Evarista_) - -_Pantoja_ - -(_imperiosamente, pegando na mão de Electra para a conduzir_) Commigo! -(_Electra, andando com Pantoja, volta a cabeça para olhar para Maximo_) - -_Maximo_ - -(_olhando para Electra e para Pantoja_) Comtigo?... Havemos de vêr com -quem! (_Maximo e Urbano são os ultimos que saem_) - - FIM DO PRIMEIRO ACTO - - - - -ACTO SEGUNDO - - Scenario do primeiro acto - - -SCENA I - - EVARISTA, URBANO, á banca, despachando negocios, BALBINA, que - serve á snr.ª de Yuste uma taça de caldo - -_Urbano_ - -(_dispondo-se a escrever_) Que é que se diz ao reitor do Patrocinio? - -_Evarista_ - -O que se combinou: approvamos a planta, e acceitamos o orçamento. Depois -nos entenderemos com o empreiteiro. - -_Urbano_ - -Já sabes a quanto monta a obra... (_Lendo n’um apontamento_) Trezentas e -vinte e duas mil pezetas... - -_Evarista_ - -Bem. Ainda nos sobeja dinheiro para a continuação do Soccorro. (_A -Balbina, que recolhe a taça_) Não te esqueças do que te incumbi. - -_Balbina_ - -Continúo vigiando, como a senhora determinou. Mas este recreio a que -a menina agora se entrega não me parece de cuidado. Tantas cartas de -namorados juntas são carteio de mais. A menina, emquanto a mim, para o -que puxa não é para a tolice, é para a risota. - -_Evarista_ - -Mas quem traz todas essas cartas que ella recebe? - -_Balbina_ - -Isso não sei... Mas ando de pedra no sapato com a Patros. - -_Evarista_ - -Espreita-as, e informa-me. - -_Balbina_ - -Fica ao meu cuidado, deixe estar! (_retira-se Balbina_) - - -SCENA II - - OS MESMOS E MAXIMO, apressado, com plantas e papeis - -_Maximo_ - -Estórvo? - -_Evarista_ - -Não, filho, podes entrar. - -_Maximo_ - -São dois minutos, tia. - -_Urbano_ - -Vens do ministerio? - -_Maximo_ - -Venho da conferencia com os bilbaínos. Tenho hoje um dia de prova -tremenda... Immenso que conferir, immenso que falar, immenso que correr, -e, para me não faltar mais nada, a casa toda revirada com o debaixo para -cima! - -_Evarista_ - -Mas, homem, que foi isso?! Diz a Balbina que despediste as creadas... - -_Maximo_ - -Pessoal infame, tia! Tres ladras! Pul-as na rua. Estou com o ordenança e -com a ama. Que lindo arranjo, hein? - -_Evarista_ - -Vem comer cá. - -_Maximo_ - -Comer cá é bom de dizer. A tia fala bem! E os pequenos com quem ficam? Se -os trago põem-lhe a cabeça em agoa, desarranjam-lhe tudo... - -_Evarista_ - -Não tragas. Eu adoro as creanças. Mas têl-as commigo, não. Revolvem tudo, -sujam tudo! corridas, risadas, cantatas, berratas, guinchos, patadas -medonhas no chão! fazem-me doida. E mêdo que caiam, que se mólhem, que as -arranhem os gatos, que rachem as cabeças, que esburaquem os olhos uns dos -outros. Nada... Não quero responsabilidades. - -_Maximo_ - -Eu o que queria é que a tia me mandasse uma cosinheira. - -_Evarista_ - -Manda-se-te para lá a Henriqueta. Urbano, toma nota. - -_Maximo_ - -Bom. (_Dispondo-se a partir_) - -_Evarista_ - -Olha lá! os teus negocios parece que vão bem... Já sabes o que te tenho -dito: Se o _magico prodigioso_ precisar de dinheiro para a implantação -dos seus inventos, não tem mais do que dizel-o... - -_Maximo_ - -Obrigado, tia... Tenho á minha disposição quanto dinheiro queira... Assim -eu tivesse uma creatura que me soubesse fazer sôpa! - -_Urbano_ - -Esse senhor dentro de poucos annos ha de estar muito mais rico do que nós. - -_Maximo_ - -Isso bem pode ser que sim. - -_Urbano_ - -Obra do seu talento. - -_Maximo_ - -(_com modestia_) Não: do trabalho, da perseverança, da paciencia... - -_Evarista_ - -Nem me digas! Trabalhas monstruosamente. - -_Maximo_ - -Quanto é preciso que trabalhe, por obrigação, por consolação, por prazer, -e, a final, por enthusiasmo adquirido tambem. - -_Urbano_ - -Passa a monomania isso. É uma borracheira de estudo. - -_Evarista_ - -(_grave_) Não: é a ambição, a maldita ambição, que a tantos fascina e a -tantos deita a perder. - -_Maximo_ - -Ambição legitima e indispensavel á humanidade. Imagine a tia... - -_Evarista_ - -(_cortando-lhe a palavra_) É a ancia das riquezas, para saciar com ellas -a avidez do goso. Gosar, gosar, gosar: isso unicamente quereis, e para -isso vos consumis, sacrificando o estomago, o cerebro, o coração e a -propria alma, sem vos lembrardes da inanidade das coisas da terra e da -brevidade da vida. Rapidamente nos vamos, e tudo cá fica. - -_Maximo_ - -(_impaciente por sahir_) Tudo, menos eu, que me safo já. - - -SCENA III - - OS MESMOS E JOSÉ - -_José_ - -(_annunciando_) O snr. marquez de Ronda. - -_Maximo_ - -(_detendo-se_) Esperarei já agora para o vêr. - -_Evarista_ - -(_recolhendo os papeis_) Não manda Deus que trabalhemos hoje. - -_Urbano_ - -Adivinho ao que vem. - -_Evarista_ - -Que entre, José, que entre! (_José sae_) - -_Maximo_ - -Vem convidal-os para a inauguração da nova _Irmandade da Escravidão_ -fundada por Virginia. Disse-m’o hontem á noite. - -_Evarista_ - -Bem sei... Então é hoje? - - -SCENA IV - - EVARISTA, URBANO, MAXIMO E O MARQUEZ - -_Marquez_ - -(_saudando com affabilidade_) Querida amiga... Urbano... (_A Maximo_) -Olá! não esperava encontrar o magico... - -_Maximo_ - -O magico diz-lhe adeus e some-se. - -_Marquez_ - -Um momento. (_Retendo-o_) - -_Evarista_ - -Sim, Marquez: iremos. - -_Marquez_ - -Já sabem? - -_Urbano_ - -A que horas? - -_Marquez_ - -Ás cinco em ponto. (_A Maximo_) A si não lhe digo porque sei que não tem -tempo. - -_Maximo_ - -Desgraçadamente. Segue-se então que o não espero hoje. - -_Marquez_ - -Como, se temos essa festa rija de religião e de mundanismo! mas lá vou á -noite. - -_Evarista_ - -(_levemente zombeteira_) Já cá se tem notado, com muito regosijo é claro, -a frequencia das visitas do Marquez á caverna do nigromante. - -_Maximo_ - -O Marquez dá-me muita honra com a sua amizade e com o interesse que toma -pelos meus estudos. - -_Marquez_ - -Veio-me agora o delirio das maquinas e dos phenomenos electricos... -Caturrices de velho! - -_Urbano_ - -(_a Maximo_) Parabens pelo discipulo. - -_Evarista_ - -Deus sabe... (_Maliciosa_) Deus sabe quem será o mestre e quem o alumno! - -_Marquez_ - -A respeito do mestre, sinto que elle esteja presente porque isso me priva -de applicar aos seus meritos todas as mordeduras que a inveja me inspira. - -_Evarista_ - -Retira-te, Maximo; vamos dizer mal de ti. - -_Maximo_ - -Repaste-se a má lingua! Adeusinho todos. Adeus, tia. - -_Evarista_ - -Vae com Nossa Senhora! - -_Marquez_ - -(_a Maximo que sae_) Até á noite, se me deixarem. (_A Evarista_) -Extraordinario homem! Sempre o admirei muito, mas agora que tenho -apreciado mais de perto todas as suas qualidades, sustento que não ha -outro no mundo como este seu sobrinho. - -_Evarista_ - -No terreno scientifico. - -_Marquez_ - -Em todos os terrenos, senhora de Yuste. Pois quê?!... - -_Evarista_ - -De certo que como intelligencia... - -_Marquez_ - -(_com enthusiasmo_) Como intelligencia, como caracter, como coração, como -tudo... Quem é que é melhor? - -_Evarista_ - -(_sem querer empenhar-se n’uma discussão delicada_) Bem, bem, Marquez... -(_Variando de tom_) É então ás cinco, disse...? - -_Marquez_ - -Em ponto. Contamos tambem com Electra. - -_Evarista_ - -Não sei se a leve... - -_Marquez_ - -Ora essa! Tenho incumbencia especialissima de conseguir a presença da -senhorita Electra n’esta solemnidade, e já prometti que sim. Virginia -deseja muito conhecêl-a. - -_Urbano_ - -Á vista d’isso... - -_Marquez_ - -Não me deixem ficar mal! - -_Evarista_ - -Bem: conte com ella. - -_Marquez_ - -Teremos muita gente, toda a nossa roda... - -_Urbano_ - -Oh! vae estar brilhante com certeza. - -_Marquez_ - -Com que então, até já. Tenho de ir a casa de Otumba, e passarei por cá -na volta. (_Ouve-se a voz de Electra pela esquerda, chalrando e rindo -alegremente. O marquez pára a escutal-a_) - - -SCENA V - - OS MESMOS E ELECTRA - -_Electra_ - -Pois sim, sim... rica, minha riquinha! mais um beijo... Que doida que és! -que doida que sou! mas entendemo-nos ambas. (_Apparece pela esquerda com -uma grande e rica boneca, que beija e que embala. Detem-se envergonhada_) - -_Evarista_ - -Que vem a ser isto, rapariga? - -_Marquez_ - -Não lhe ralhe. - -_Electra_ - -Mademoiselle Lulu e eu damos á lingoa, contamo-nos coisas. - -_Urbano_ - -(_ao Marquez_) Anda desatinada hoje. - -_Electra_ - -(_afastando-se, diz segredinhos á boneca. Os outros olham_) Que linda que -és, Lulu! Mas elle, ainda mais lindo que tu. Que feliz seria o meu amor -com elle e comtigo! - -_Marquez_ - -Sempre folgazã, pelo que vejo... - -_Evarista_ - -Pelo contrario: desde hontem n’uma tristeza que nos dá cuidado. - -_Marquez_ - -Tristeza? idealidade antes. - -_Evarista_ - -E, agora, está vendo... - -_Marquez_ - -(_carinhoso, dirigindo-se para ella_) Rica menina! - -_Electra_ - -(_approximando a cara da boneca da do marquez_) Vamos, Mademoiselle, não -se me faça môna: dê um beijinho a este senhor. (_Antes que o marquez -beije a boneca dá-lhe um leve carolo com a cabeça de Lulu_) - -_Marquez_ - -A Lulu não beija: a Lulu marra. (_Acariciando o queixinho de Electra_) -Por isso gósto mais da sua amiguinha do que d’ella. - -_Electra_ - -De miôlo póde crêr que tanto tem uma como outra. - -_Urbano_ - -Mas que conversas tu com a boneca? - -_Electra_ - -Desafógo com ella, conto-lhe as minhas penas. - -_Evarista_ - -Penas, tu? - -_Electra_ - -Penas eu, sim, pois quê?... E quando nos vê muito caladas ambas é porque -nos estão lembrando as nossas coisas passadas... - -_Marquez_ - -Ah! se a interessa o passado já é um signal de que pensa pela sua -cabecinha. - -_Evarista_ - -E que coisas passadas são essas que dizes? - -_Electra_ - -Digo do tempo em que nasci. (_Com gravidade_) O dia em que eu vim ao -mundo foi um dia muito triste, pois não foi? Lembra-se aqui alguem de -como foi esse dia? - -_Evarista_ - -Filha, que tontices que dizes! E não tens vergonha de que o snr. Marquez -te veja tão adoidada? - -_Electra_ - -Creia, tia, que não ha doidos tão doidos, nem creanças tão creanças, que -não tenham sua razão para dizer o que dizem e para fazer o que fazem. - -_Marquez_ - -Muito bem pensado. - -_Evarista_ - -Qual é então a tua razão para esses brinquedos tão fóra da tua edade? - -_Electra_ - -(_olhando para o marquez, que sorri ao seu lado_) Isso não posso contar -agora. - -_Marquez_ - -Quer dizer que me retire. - -_Evarista_ - -Electra! - -_Marquez_ - -Eu ia já despedir-me... com bem pena de que as minhas occupações me -privem de convivencia tão interessante. Adeus, senhorita; volto ás cinco -para a levar commigo. - -_Electra_ - -A mim! - -_Evarista_ - -Sim; vamos á inauguração das _Escravas_. - -_Electra_ - -E eu tambem? - -_Evarista_ - -Podes-te ir vestindo. - -_Electra_ - -(_assustada_) Ha de estar muita gente... A gente mette-me medo. Gósto -mais de ficar só. - -_Marquez_ - -Estaremos em familia. E com isto me despégo. - -_Evarista_ - -Até logo, Marquez. - -_Marquez_ - -(_a Electra_) Menina, ás cinco; aprendámos a ser pontuaes. (_Sae pelo -fundo com Urbano_) - - -SCENA VI - - EVARISTA E ELECTRA - -_Evarista_ - -Explicarás agora a extranha maluquice em que andas. - -_Electra_ - -Eu lhe digo, tia: tenho uma dúvida... como direi?... um problema... - -_Evarista_ - -Problemas, tu! - -_Electra_ - -Exactamente, no plural, problemas... porque é de mais d’um que se trata. - -_Evarista_ - -Valha-te Nossa Senhora! - -_Electra_ - -E quero vêr se m’os resolve... - -_Evarista_ - -Quem? - -_Electra_ - -Uma pessôa que já não vive. - -_Evarista_ - -Que dizes? - -_Electra_ - -Minha mãe. Não se afflija... Minha mãe pode-me dizer o que eu pretendo... -e aconselhar-me. A tia não acredita que as pessôas do outro mundo podem -vir a este? (_Gesto de incredulidade de Evarista_) Não acredita. Acredito -eu. Acredito porque o tenho visto. Eu tenho visto minha mãe... - -_Evarista_ - -Virgem Maria! como tens essa cabeça! - -_Electra_ - -... Quando era muito pequenina, assim, d’este tamanho... - -_Evarista_ - -Nas Ursulinas de Bayona? - -_Electra_ - -Sim... Minha mãe apparecia-me. - -_Evarista_ - -Em sonhos, naturalmente. - -_Electra_ - -Não, não: estando eu acordada, tão bem acordada como estou agora. -(_Colloca a boneca n’uma cadeira_) - -_Evarista_ - -Pensa no que dizes, Electra... - -_Electra_ - -Quando eu estava só, sósinha, triste ou doente; quando alguem me -lastimava dando-me a perceber a desairosa situação que eu tinha no mundo, -a minha mãe vinha, e consolava-me. Primeiro via-a imperfeitamente, -confusa, como vaporosa, a parecer diluir-se nas coisas distantes, nas -coisas proximas. Adeantava-se, n’uma claridade que tremeluzia... Depois, -não bulia mais; era uma fórma quieta, uma serena imagem triste... E -eu não podia então duvidar de que a tinha ali... Era minha mãe... Das -primeiras vezes via-a em traje elegante de grande dama... Um dia, -por fim, appareceu-me de habito e escapulario de monja. O seu rosto -envolvido nas toucas brancas, e o seu corpo coberto pela estamenha -pendente tinham uma magestade de belleza que não póde imaginar quem a não -viu. - -_Evarista_ - -Tu deliras, minha pobre filha! - -_Electra_ - -Junto de mim abria os braços como se quizesse enlaçar-me. Falava-me n’uma -voz dôce, mas longinqua e recondita... não sei como lh’o explique... Eu -perguntava-lhe coisas, e ella respondia-me... (_maior incredulidade de -Evarista_) A tia não acredita? - -_Evarista_ - -Vae dizendo. - -_Electra_ - -Nas Ursulinas tinha uma bella boneca, a que eu chamava tambem Lulu... -Veja a tia que mysterio este!... Sempre que eu andava pela horta, ao -cahir da tarde, só, levando ao colo a minha boneca—tão melancolica eu -como ella—olhando muito para o ceu, era certa, segura, infallivel, a -visão de minha mãe... primeiro entre as arvores, como enformada no ôco -das folhagens; depois, desenhando-se de luz, e caminhando para mim, -vagarosamente, por entre os troncos escuros... - -_Evarista_ - -E em mais crescida, quando vivias em Hendaya... tambem?... - -_Electra_ - -Nos primeiros tempos não... Então já eu brincava com bonecas vivas: os -dois pequerruchinhos da minha prima Rosalia, menina e menino, que nunca -se separavam de mim, e me adoravam, como eu a elles. De noite, na solidão -do nosso quarto, com os meninos dormidinhos, como elles aqui... e eu -aqui (_indica o logar dos dois leitos parallelos_) por entre as duas -caminhas brancas a minha mãe passava, meiga, silenciosa, aeria, sem pisar -o chão... E debruçava-se para mim... - -_Evarista_ - -Cala-te, por Deus, que até me fazes medo... Mas depois que foste mais -crescida... agora—digamos—acabaram essas visões... - -_Electra_ - -Nunca mais as tive desde que deixei de viver com bonecas e com meninos. -É por isso que eu trato de voltar á edade da innocencia, e de me fazer -creança pequena outra vez, a vêr se, tornando a ser o que fui, voltará -tambem minha mãe a vêr-me, como d’antes... Para que falemos, e me -responda ao que lhe quero perguntar... e me dê conselho... - -_Evarista_ - -E que dúvidas são as tuas, que assim precisas... - -_Electra_ - -(_pondo os olhos no chão_) Dúvidas?... coisas que a gente não sabe, e -quer saber. - -_Evarista_ - -Tolice! Que tão grave caso vem a ser esse para que precises de consulta e -de conselho?... - -_Electra_ - -Cá uma coisa... (_Vacilla, está quasi a dizêl-o_) - -_Evarista_ - -O quê? dize. - -_Electra_ - -Uma coisa... (_Com timidez infantil dando voltas á boneca e sem se -atrever a revelar o seu segredo_) Uma certa coisa... - -_Evarista_ - -(_severa e affectuosa_) Ih! que intoleravel que estás, com tanta -creancice! (_Tira-lhe a boneca_) Que estupida e ao mesmo tempo que -atilada que tu és! Tão depressa te mostras um prodigio de intelligencia -e de graça como parece que não passas de maluca... Andam ás bulhas com a -tua alma cherubins e demonios. Temos que intervir para acabar com essa -lucta e dar em Satanaz muitos açoites, ainda que algum te caia em ti e -te dôa um poucochito... (_Beija-a_) Vamos! juizo. Precisas de te occupar -n’alguma coisa, de distrahir essa cabeça... Não te esqueça de que é ás -cinco a festa... Vae-te arranjar, anda... - -_Electra_ - -Sim, tia. - -_Evarista_ - -Faltam tres quartos. - -_Electra_ - -Vou apromptar-me. - -_Evarista_ - -E poucas brincadeiras... cuidado! (_Sae pelo fundo levando a boneca -pendida, suspensa por um braço_) - - -SCENA VII - - ELECTRA E PATROS - -_Electra_ - -(_olhando para a boneca_) Pobre Lulu! como te levam á dependura! -(_Imitando a postura da boneca e apalpando o seu proprio braço dolorido_) -Que dôr que vaes ter, coitada, no hombro desengonçado! (_Senta-se -meditabunda_) E o outro á minha espera... Como foi triste a separação! -como elle chorava, estendendo-me os bracinhos!... e eu que lhe prometti -voltar... - -_Patros_ - -(_assomando cautelosa pela esquerda_) Senhorita, senhorita... - -_Electra_ - -Entra. - -_Patros_ - -(_avançando com precaução_) Não está ninguem? - -_Electra_ - -Estamos sós. - -_Patros_ - -Não se pilha outra occasião assim, menina! Ou agora ou nunca. - -_Electra_ - -Vens de lá? - -_Patros_ - -Agora mesmo... Muitos senhores que dizem numeros... milhões, _bilhões_ e -_quatrilhões_... E lá dentro, ninguem. - -_Electra_ - -(_vacillando_) Atrevo-me? - -_Patros_ - -(_decidida_) Atreva-se, menina. - -_Electra_ - -Nossa Senhora do Carmo, protegei-me! (_Dirige-se á sahida que dá para -o jardim. Pára assustada_) Espera. Não será melhor sahirmos pelo outro -lado? Pode estar a tia á janella da casa de jantar... - -_Patros_ - -Pode, pode! Demos a volta por aqui. (_Pela esquerda_) - -_Electra_ - -Sim, por aqui... Estou a tremer toda... de valentia! e de medo. Ávante! -(_Saem a correr pela esquerda_) - - -SCENA VIII - - URBANO E JOSÉ, que entram pelo fundo ao tempo a que saem as duas - -_Urbano_ - -Quem vae ali? - -_José_ - -É a Patros. - -_Urbano_ - -Então que temos?... conta lá. - -_José_ - -São já cinco os que fazem olho á menina: cinco vistos por mim. Fóra os -que não vi. - -_Urbano_ - -E quê? rondam a casa? - -_José_ - -Dois pela manhã, dois de tarde, e o mais pequenitate de todos, de sol a -sol. - -_Urbano_ - -Tens notado se ha communicação entre a janella do quarto da senhorita -Electra e a rua por meio de cesto pendente ou de cordão telephonico? - -_José_ - -Não vi nada d’isso. Mas cá eu, se fôsse os senhores, mudava a menina para -os quartos d’acolá. (_Á esquerda_) - -_Urbano_ - -E algum d’esses meninos não se coará para dentro do jardim? - -_José_ - -Isso sim! Não que elles teem espinhaço e querem-o para mais d’uma vez. - -_Urbano_ - -Bem: vae vigiando sempre. (_Entra Cuesta pelo fundo_) - - -SCENA IX - - URBANO E CUESTA, com papeis e cartas - -_Urbano_ - -Ora graças a Deus, Leonardo! - -_Cuesta_ - -Já te tinha dito que não vinha de manhã. (_A José, dando-lhe uma carta_) -Isto para registar. Logo irão mais cartas. (_Sae José_) - -_Urbano_ - -(_pegando n’um papel que Cuesta lhe entrega_) Que vem a ser isto? - -_Cuesta_ - -O recibo das cem mil e tantas pesetas... assigna-me agora um talão de -sessenta e sete mil... - -_Urbano_ - -Para a remessa para Roma... - -_Cuesta_ - -Isso mesmo. E Evarista? - -_Urbano_ - -A vestir-se. - -_Cuesta_ - -Já sei que vaes á inauguração das _Escravas_ e que tambem vae Electra. - -_Urbano_ - -Essa pequena, positivamente, não promette coisa boa. Está cada vez mais -caprichosa e mais leviana... - -_Cuesta_ - -(_vivamente_) Sem maldade! - -_Urbano_ - -Mas com symptomas d’isso. Evarista, que é a cautella e a prudencia em -pessoa, anda a pensar em submettel-a a um regimen sanitario em S. José da -Penitencia. - -_Cuesta_ - -Has de me permittir que discorde inteiramente d’esse alvitre. Tu dirás -que quem me manda a mim... - -_Urbano_ - -Pelo contrario: como amigo da casa muito estimo que dês opinião e -conselho. - -_Cuesta_ - -Isso de arrastar para a vida claustral uma rapariga que não denota -manifesta vocação de piedade, é grave... E não devereis extranhar que -porventura alguem se opponha... - -_Urbano_ - -Quem se ha de oppôr? - -_Cuesta_ - -Que sei eu! alguem... Na vida d’esta menina ha, por emquanto, um factor -desconhecido... Um bello dia poderá succeder... não direi que succeda... -Um bello dia, quando puxeis pela corda com mais força, poderá vir uma voz -que diga: «Alto lá, senhores de Yuste!» - -_Urbano_ - -E nós responderemos: «Querido snr. factor desconhecido, aqui tem a -menina, com o que nos livra d’uma tutella difficil e incommoda.» - -_Cuesta_ - -(_senta-se com muita fadiga_) Isto, Urbano, é apenas uma supposição -minha... é um modo de fallar... - -_Urbano_ - -Não te sentes bem? Queres tomar alguma coisa? - -_Cuesta_ - -Não... Este maldito coração recusa-se a ser dirigido pela vontade... - -_Urbano_ - -Descansa... Queres-te tu deitar? - -_Cuesta_ - -Pois não sabes o que tenho que fazer? (_Tirando papeis do bolso_) Para -já, duas carta urgentes, que teem de partir hoje. - -_Urbano_ - -Escreve-as aqui. (_Fazendo um logar á meza, e retirando livros e papeis_) - -_Cuesta_ - -Está dito... installo-me ahi. - -_Urbano_ - -Eu estou atarefadissimo tambem. Tenho voltas que dar... - -_Cuesta_ - -Não penses mais em mim. (_Escreve_) - -_Urbano_ - -Desculpa. Evarista não tarda ahi. - -_Cuesta_ - -(_sem olhar_) Até logo... (_Sae Urbano pelo fundo_) - - -SCENA X - - CUESTA, ELECTRA E PATROS (Assomam as duas á porta da esquerda - como para reconhecer o terreno) - -_Electra_ - -Cuidado, Patros... Por aqui é difficil trazêl-o. - -_Patros_ - -(_reconhecendo Cuesta, que vê de costas_) D. Leonardo! - -_Electra_ - -Chut!... O mais seguro é deixal-o no teu quarto até á noite. Que massada -a tal inauguração! - -_Cuesta_ - -(_volta-se ao ouvir vozes_) Ah! Electra... - -_Electra_ - -Importunamos, D. Leonardo?... - -_Cuesta_ - -Não, minha amiguinha. Quer fazer-me o favor de esperar um pouquinho... -que termine uma carta? Tenho que lhe dizer. - -_Electra_ - -Aqui me tem. (_Áparte a Patros_) Que sécca! (_Alto_) Vinhamos unicamente -buscar um papel e um lapiz para umas contas. (_Tira da meza um lapiz -e papel. Áparte a Patros_) Cuida bem d’elle... Que amor que elle está -adormecido! Com o seu focinhinho côr de rosa e as mãos sujas, com as -unhitas pretas de andar a escarvar na terra... Dá vontade de o engulir! - -_Patros_ - -Com os lindos pés gordos, e a espessa carapinha d’ouro que elle tem... - -_Electra_ - -(_com effusão de carinho_) Dá volta á cabeça da gente. Olha bem por elle, -Patros; vê lá!... - -_Patros_ - -Levo-lhe agora um bôlo. - -_Electra_ - -Não dou licença. Prohibo rigorosamente os bôlos. Para lhe sujarem o -estomago!... Leva-lhe uma sopinha... - -_Patros_ - -Mas como hei de eu arranjar sopinha? - -_Electra_ - -Tens razão... Ah! pede na cosinha uma taça de leite para mim. - -_Patros_ - -Isso mesmo! E dou-lh’a quando acordar. - -_Electra_ - -Toma lá tambem o papel e o lapiz para elle fazer os seus rabiscos... É a -coisa de que mais gosta... Depois, á noite, na primeira occasião, mette-o -no meu quarto, para dormir comigo. - -_Cuesta_ - -(_fechando a carta_) Acabei. - -_Electra_ - -Perdoe um momento, D. Leonardo. (_Áparte a Patros_) Não o deixes nem um -momento... Muito cuidadinho! Se D. Leonardo me não prender muito, ainda -irei dar-lhe um beijo antes de me vestir. - -_Cuesta_ - -Patros, estas cartas para o correio! - -_Patros_ - -Vão-se levar já. - - -SCENA XI - - CUESTA E ELECTRA - -_Cuesta_ - -(_pegando-lhe nas mãos_) Venha cá, sua grande extravagante... quanto me -alegra vêl-a! - -_Electra_ - -É muito meu amigo, D. Leonardo? Não imagina como eu gosto de que me -estimem! - -_Cuesta_ - -Mas precisamos tambem de ter mais um poucochinho de proposito e d’assento -n’essa cabecinha... É bom que não haja nada que se nos dizer... E a mim -contaram-me—pêtas já se vê!—que fervilham os namorados... - -_Electra_ - -Ah! Sim, eu já lhes perdi a conta! Mas não gosto senão d’um. - -_Cuesta_ - -D’um! E quem é? - -_Electra_ - -Isso... lá me parece perguntar de mais... - -_Cuesta_ - -Eu conheço-o? - -_Electra_ - -Se conhece! - -_Cuesta_ - -Fez-lhe a sua declaração d’uma maneira decente? - -_Electra_ - -Não me fez declaração nenhuma, nem me disse nada... até agora. - -_Cuesta_ - -E a menina ama esse timido donzel, e julga-se correspondida? - -_Electra_ - -Suspeito que me corresponde... Mas não o asseguro... - -_Cuesta_ - -Tenha confiança em mim, e conte-me isso. - -_Electra_ - -Agora não, que vou vestir-me. - -_Cuesta_ - -Falaremos depois. - -_Electra_ - -(_medrosa, olhando para o fundo_) Se não viesse a tia... - -_Cuesta_ - -Vista-se... Ámanhã será. - -_Electra_ - -Sim, ámanhã. Adeus. (_Corre para a direita. Movida de uma ideia repentina -dá meia volta_) Antes de me vestir... (_Áparte_) Não resisto. Vou dar-lhe -um beijo. (_Sae correndo pela esquerda. Cuesta segue-a com a vista e -suspira_) - - -SCENA XII - - CUESTA, URBANO E EVARISTA; depois ELECTRA - -_Cuesta_ - -(_reunindo e recolhendo os papeis_) Que felicidade a minha, se -publicamente a pudesse amar! - -_Evarista_ - -(_vestida para sahir_) Desculpe terem-no deixado para ahi, Leonardo. Já -me disse Urbano que lançamos uma grande operação. - -_Urbano_ - -(_entregando a Cuesta um talão_) Ahi tens. - -_Evarista_ - -Não me espantarei se o vir apparecer-nos com outra carga de dinheiro... -Deus o dá, Deus o recebe... (_Assoma Electra pela porta da esquerda. -Ao vêr a tia hesita, não se atreve a atravessar. Decide-se por fim, -procurando escapulir-se. Evarista segura-a_) Ora não ha! Então ainda te -não vestiste? D’onde vens? - -_Electra_ - -Da casa de engommar. Fui á Patros para me alisar um papo... - -_Evarista_ - -Gabo-te a pachorra! (_Notando que sae a ponta de uma carta de uma das -algibeiras do avental de Electra_) Que tens aqui? (_Pega na carta_) - -_Electra_ - -Uma carta. - -_Cuesta_ - -Creancices. - -_Evarista_ - -Não imagina, Cuesta, o desgosto que esta rapariga me dá com as suas -travessuras, que já não são tão innocentes como isso! (_Dá a carta a -Urbano_) Lê tu. - -_Cuesta_ - -Vamos a vêr isso. - -_Urbano_ - -(_lendo_) Senhorita—Tenho para mim que n’esse rosto feiticeiro... - -_Evarista_ - -(_zombando_) Muito bonito! (_Electra contém difficilmente o riso_) - -_Urbano_ - -(_continúa a ler_) ...que n’esse rosto feiticeiro escreveu o Supremo -artifice o problema do... do... (_Sem entender a palavra seguinte_) - -_Electra_ - -(_apontando_) ...do «cosmos». - -_Urbano_ - -Isso mesmo: do cosmos, symbolisando em seu luminoso olhar, na sua bocca -divina, o poderoso agente physico, que... - -_Evarista_ - -(_arrebatando a carta_) Que indecencias! - -_Urbano_ - -(_descobrindo outra carta em outro bolso_) está outra. (_Pega n’ella_) - -_Cuesta_ - -Vejamos essa! - -_Evarista_ - -Isto, Electra, não é o corpo de uma menina: é um marco postal. - -_Urbano_ - -(_lendo_) Desapiedada Electra, com que palavras exprimirei o meu -desespero, a minha loucura, o meu frenesi...? - -_Evarista_ - -Basta... Isso revolta-me. (_Incommodada revista as algibeiras de -Electra_) Apostaria que ainda ha mais. - -_Cuesta_ - -Indulgencia, Evarista! - -_Electra_ - -Tia, não se amofine mais... - -_Evarista_ - -Que me não amofine!... A amofinação eu t’a contarei... Veste-te -immediatamente. - -_Urbano_ - -(_consultando o relogio_) É quasi a hora. - -_Electra_ - -N’um momento! - -_Evarista_ - -Avia-te, avia-te! (_Electra, contente de se vêr solta, corre para o seu -quarto_) - - -SCENA XIII - - CUESTA, URBANO, EVARISTA E PANTOJA - -_Evarista_ - -(_com tristeza e desalento_) E então, Leonardo, que me diz a isto? - -_Cuesta_ - -O socego com que deixou devassar os seus segredos demonstra bem a pouca -importancia que lhes dá e que elles teem. - -_Evarista_ - -Não, não é tanto assim... - -_Pantoja_ - -(_pelo fundo, anciado_) Está o Cuesta! Já se não pode dizer o que se -quer... - -_Evarista_ - -(_contente de vêl-o_) Até que emfim, Pantoja... (_Formam-se dois grupos: -á esquerda Cuesta sentado, Urbano em pé; á direita, Pantoja e Evarista, -sentados_) - -_Pantoja_ - -Venho contar-lhe coisas da maior gravidade. - -_Evarista_ - -Ai de mim! seja o que Deus quizer. - -_Pantoja_ - -(_repetindo a phrase com reservas_) Seja o que Deus quizer... está muito -bem, mas queiramos tambem nós o que quer Deus, e empenhemos toda a nossa -vontade em produzir o bem, por mais que nos custe! - -_Evarista_ - -A sua energia fortifica a minha... Então... que ha? - -_Pantoja_ - -Ha pouco, em casa de Requesens, falou-se de Electra em termos dissolutos. - -Contavam que, indecorosamente envolvida por um vespeiro de namorados, -ella se divertia a receber e a mandar cartas a toda a hora do dia. - -_Evarista_ - -Infelizmente, Salvador, a frivolidade d’esta menina é tal que, com toda a -minha ternura por ella, nem eu mesma a sei defender! - -_Pantoja_ - -(_angustiado_) Pois saiba mais, e veja que não tem limites a maldade -humana. Hontem á noite o marquez de Ronda, na tertulia da sua casa, na -presença de Virginia, sua santa mulher, e de outras pessoas do maior -respeito, não cessou de exaltar os encantos de Electra com expressões do -mais material e repugnante mundanismo. - -_Evarista_ - -Tenhamos paciencia, meu amigo. - -_Pantoja_ - -Paciencia... Paciencia é uma virtude que vale muito pouco sempre que se -não reforça com a resolução. Não confundamos essa virtude com o vicio -da negligencia, e determinemo-nos com firmeza, minha querida amiga, a -resguardar Electra da infamia do mundo, em logar onde não veja exemplos -de leviandade e onde não ouça uma só palavra do contagioso impudor da -sociedade em que vivemos. - -_Evarista_ - -Onde respire um ambiente de pura virtude... - -_Pantoja_ - -E não a perturbe o zumbido de pretendentes impudicos e infecciosos... -Na critica edade da formação do caracter, em que ella está, temos nós a -obrigação de livral-a do immenso perigo, do maior de todos... - -_Evarista_ - -Que perigo? - -_Pantoja_ - -O homem. Nada na terra peor que o homem... quando não é bom. Por mim o -sei: fui o meu proprio mestre. O meu desvario, de que pela graça de Deus -me curei, e depois d’isso a minha tão longa e entristecida convalescença, -duramente me ensinaram a grave e delicada medicina das almas... -Deixe-me, e eu lhe salvarei essa menina... (_Interrompe-o Urbano, que -passa para o grupo da direita_) - -_Urbano_ - -(_dando importancia á sua revelação_) Sabem o que me disse Cuesta? -Que entre a cafila dos pretendentes ha um preferido. Electra mesma o -confessou. - -_Evarista_ - -E quem é? (_Passa da direita para a esquerda, ficando á direita de -Pantoja e d’Urbano_) - -_Urbano_ - -(_a Pantoja_) Isto poderia modificar os termos do problema. - -_Pantoja_ - -(_mal humorado_) E que significa essa preferencia? É um affecto puro, ou -é uma paixoneta immoderada, febril e ephemera, d’essas que constituem o -mais grave symptoma da loucura do seculo? (_Excitado e levantando a voz_) -É o que é preciso saber-se! que se saiba quem é! - -_Urbano_ - -Saberemos... - -_Pantoja_ - -(_passando para junto de Cuesta_) O snr. Cuesta não a interrogou? - -_Evarista_ - -(_ao centro, a Urbano_) Procura tu certificar-te. - -_Cuesta_ - -(_enfadado, em resposta a Pantoja_) Parece-me que estão os snrs. -desenvolvendo um zelo excessivo e contraproducente. - -_Pantoja_ - -(_com uma suavidade que não encobre a sua altaneria_) O meu zelo, meu -muito querido D. Leonardo, é o zelo que devo ter. - -_Cuesta_ - -(_um tanto ferido_) Eu julguei na minha qualidade de velho amigo da -casa... - -_Pantoja_ - -(_levando Urbano comsigo para a direita_) Cuesta mette-se demais com o -que não é da sua conta. - -_Cuesta_ - -(_a Evarista sem lhe dar cuidado que Pantoja o ouça_) O nosso presado -snr. Pantoja é talvez demasiadamente afouto na facilidade com que penetra -nas attribuições dos outros. - -_Evarista_ - -(_sem saber bem que explicação dar_) Emfim, como nosso amigo muito antigo -e leal... - -_Cuesta_ - -Tambem eu o sou. - -_Urbano_ - -(_olhando para o fundo_) Ahi está já o Marquez. - - -SCENA XIV - - OS MESMOS E O MARQUEZ - -_Marquez_ - -Em boa hora chego! - -_Pantoja_ - -(_áparte_) Em pessima! - -_Marquez_ - -(_depois de saudar Evarista_) E Electra? - -_Evarista_ - -Vem já. - -_Marquez_ - -(_cortejando os outros_) Já não é cêdo. - -_Urbano_ - -É a hora. (_Pantoja, impaciente, espera Electra á porta do seu quarto. -Cuesta fala com Urbano_) - - -SCENA XV - - OS MESMOS E ELECTRA - -_Pantoja_ - -(_com alegria annunciando-a_) Eil-a aqui. (_Electra entra pela direita, -muito elegantemente vestida com singeleza e distincção_) - -_Marquez_ - -(_encomiastico_) Que elegante! - -_Electra_ - -(_satisfeita, voltando-se para que a vejam de todos os lados_) Meus -senhores, que me dizem? - -_Cuesta_ - -Divina! - -_Marquez_ - -Ideal! - -_Evarista_ - -Sim: estás bem. - -_Pantoja_ - -(_fastiento dos elogios tributados a Electra_) Vamo-nos? (_Preparam-se -para sahir_) - - -SCENA XVI - - OS MESMOS E BALBINA, que interrompe bruscamente a scena, - entrando pela esquerda, pressurosa e suffocada - -_Balbina_ - -Minha senhora! Minha senhora! (_Suspensão geral_) - -_Todos_ - -(_menos Electra_) Que é? - -_Balbina_ - -Ai! o que a menina foi fazer! - -_Electra_ - -(_áparte, batendo o pé_) Descobriram-me! - -_Balbina_ - -Santo nome de Jesus!... Do que ella se havia de lembrar!... (_rindo_) -Não, que uma coisa assim!... Em nome do Padre... - -_Evarista_ - -(_impaciente_) Acaba... - -_Electra_ - -Eu confessarei, se me deixam. Foi que... - -_Balbina_ - -Foi a casa do snr. D. Maximo, e roubou-lhe... com muita graça, mas -roubou... - -_Urbano_ - -O quê?... - -_Balbina_ - -O menino mais pequeno! (_Olham todos para Electra, que promptamente se -recompõe do susto e assume uma altitude serena e grave_) - -_Evarista_ - -(_a Electra_) Isto que vem a ser? - -_Pantoja_ - -Electra! - -_Balbina_ - -Estava o menino dormindo muito socegadinho. A senhorita e a maluca da -Patros entraram pela casa dentro, ás escondidas e em bicos de pés... -Embrulharam-o, muito bem embrulhado, e fugiram com elle para cá. - -_Evarista_ - -É inacreditavel. - -_Pantoja_ - -(_reprimindo a sua irritação_) E não é decente. - -_Electra_ - -(_com effusão_) Tia! pois se nos queremos tanto, tanto d’alma!... eu a -elle e elle a mim! - -_Marquez_ - -(_enthusiasmado_) Que exemplar mulher! - -_Cuesta_ - -Merece todo o perdão. - -_Evarista_ - -Maximo estará furioso a estas horas... - -_Balbina_ - -O José já para lá foi a correr... - -_Urbano_ - -E a creança onde está? - -_Balbina_ - -Está no quarto da Patros. A menina escondeu-o lá até que ella de noite -lh’o leve para dormir com a menina. (_Sorrisos dos homens, menos de -Pantoja_) O menino acordou ha um momento, e a Patros quiz dar-lhe um -biscouto para o entreter... Eu, que o ouço, acudo, e vejo-o... Virgem -Maria! Quiz pegar n’elle... Qual! estrebuchou e bateu-me... Tive de lhe -dar uma palmadinha tambem... - -_Electra_ - -(_correndo para a esquerda com um impulso instinctivo_) Oh! meu querido -amorsinho! - -_Pantoja_ - -(_procurando contel-a_) Não. - -_Evarista_ - -(_segurando-a por um braço_) Espera. - -_Balbina_ - -(_á porta da esquerda_) Ainda se ouve chorar. - -_Electra_ - -Pobresinho d’elle! - -_Evarista_ - -Que o levem para a sua casa. - -_Electra_ - -Ninguem lhe toque... Ninguem se atreva a tocar-lhe... É meu. -(_Desprende-se á força de Evarista e de Pantoja, que querem contel-a, e -sae de uma corrida pela esquerda_) - - -SCENA XVII - - OS MESMOS E JOSÉ - -_Pantoja_ - -(_colerico, passando para a direita_) Que falta de dignidade e de juizo! - -_José_ - -(_pressuroso, pelo jardim_) Minha senhora... - -_Evarista_ - -O snr. D. Maximo que disse? - -_José_ - -Não sabia de nada. Está lá com uns senhores. Quando lhe contei poz-se a -rir... Como se nada!... Diz que o menino que está muito bem entregue á -menina. - -_Urbano_ - -Já é pachorra! - -_Evarista_ - -(_a José_) Vaes leval-o a casa. Para que a menina aprenda. - -_Marquez_ - -Voto por que a deixem gosar um pouco mais do seu lindo crime. - - -SCENA XVIII - - OS MESMOS E ELECTRA, pela esquerda, trazendo nos braços o - menino, que tem pouco mais ou menos dois annos - -_Electra_ - -Queridinho da minh’alma! - -_Evarista_ - -Deixa o menino, e vamo-nos. - -_Urbano_ - -São horas. - -_Cuesta_ - -(_ao marquez_) Eu, pela minha parte, acho que é um rasgo de maternidade. -E applaudo-o. - -_Marquez_ - -Eu digo que é um lance angelico. E adoro-o. - -_Evarista_ - -(_querendo pegar no menino_) Então, Electra? - -_Electra_ - -(_em passo ligeiro afasta-se dos que querem tirar-lhe o pequerrucho. Este -abraça-lhe o pescoço_) Não, não posso deixal-o agora. - -_Evarista_ - -Balbina, pega n’esse menino. - -_Electra_ - -(_passa de um lado para o outro, procurando um refugio_) Não! e não! - -_Urbano_ - -Dá-m’o a mim. - -_Electra_ - -Não! - -_Pantoja_ - -(_imperioso, a José_) Pegue n’elle, José. - -_Electra_ - -Não, já disse!... Ninguem lhe toca... É meu. - -_Evarista_ - -Mas, filha, se temos de sahir! - -_Electra_ - -Saiam! vão com Deus. (_Vendo que o chapeu a inhibe de abraçar e beijar -o seu amiguinho, arranca-o rapidamente da cabeça e atira-o para longe. -Continúa a passear o menino, fugindo dos que lh’o querem tirar, e, sem -ouvir, falando com o pequerrucho, que lhe deita os braços ao pescoço e a -beija_) Dorme, dorme, meu amor. Não tenhas medo, filhinho... Dorme, que -não te largo. - -_Evarista_ - -Então vamos ou não vamos? - -_Electra_ - -Eu não vou... Tens fome? tens sede, meu anjo? Eu te acalentarei... Deixa -berrar esses egoistas todos, que se não lembram de que não tens mãe! - -_Pantoja_ - -Mas tem quem olhe por elle. - -_Evarista_ - -Basta! (_Imperiosa, aos creados_) levem-o para a sua casa. - -_Electra_ - -(_resolutamente, sem deixar que toquem na creança_) A casa! a casa! -(_Com passo decidido, sem olhar para ninguem, corre para o jardim e sae. -Seguem-a todos com a vista, indecisos, não ousando dar um passo para -ella_) - -_Pantoja_ - -Que escandalo! - -_Evarista_ - -Que loucura! - -_Marquez_ - -Que juizo! o juizo mais perfeito da mulher! Achou o seu caminho. - - FIM DO SEGUNDO ACTO - - - - -ACTO TERCEIRO - - O laboratorio de Maximo. Ao fundo, occupando grande parte da - parede, divisoria com revestimento de madeira na parte inferior - e envidraçada para cima. Este tapamento separa a scena d’um - vasto local, em que se vêem maquinas e apparelhos para a - producção de energia electrica. A porta praticavel no socco - divisoria communica com a rua. - - Á direita, no primeiro plano, um corredor que dá passagem para - o jardim dos snrs. de Garcia Yuste. No ultimo plano, uma porta - de communicação com a habitação de Maximo e com a cosinha. - Entre a porta e o corredor, uma estante com livros. - - Á esquerda, porta de passagem para as casas em que trabalham os - ajudantes. Junto a esta porta, uma estante com apparelhos de - physica e objectos de uso scientifico. - - Ao fundo, dos dois lados do socco de madeira, prateleiras com - frascos de diversas substancias e livros. No angulo da direita - um pequeno aparador. - - Á esquerda da scena, a mesa do laboratorio com os objectos que - no dialogo se indicam. Fazendo angulo com ella, a balança de - precisão sobre um supporte de fabrica. - - Ao centro pequena mesa de jantar, e quatro cadeiras. - - -SCENA I - - MAXIMO, trabalhando n’um calculo, com grande attenção ao que - está fazendo—ELECTRA em pé, arranjando os multiplos objectos - que estão na meza: livros, capsulas, tubos de ensaio, etc. - Veste com simplicidade caseira, e grande avental branco. - -_Maximo_ - -(_sem levantar os olhos do papel_) Para mim, Electra, a dupla historia -que me contas, esse supposto poder dos dois cavalheiros, é um facto -destituido de valor positivo. - -_Electra_ - -(_suspirando_) Deus te ouça! - -_Maximo_ - -Tudo se reduz a duas paternidades platonicas sem nenhum effeito legal... -até agora. O mais feio do caso é a auctoridade que quer assumir o snr. de -Pantoja... - -_Electra_ - -Auctoridade oppressiva, suffocante, que me tira o ar. Nem me fales -n’isso, se não me queres amargurar a alegria de estar cá em casa! - -_Maximo_ - -Devéras? assim te affliges? - -_Electra_ - -Ainda mais: ponho-me n’esse estado singularissimo de cabeça e de -nervos... Já te contei... Em certas occasiões da minha vida apodera-se de -mim um desejo, fixo, fundo, absorvente, de tornar a vêr a imagem da minha -pobre mãe, como a via na minha meninez... Pois sempre que se aggrava para -mim a tyrannia de Pantoja, renasce o meu doloroso e invencivel anceio; e -sinto a perturbação nervosa e mental que me annuncia... - -_Maximo_ - -A visão da tua mãe? Isso, rapariga, não é d’um espirito rijo e são. -Aprende-me a governar essa imaginação... Trabalha-me para a frente, e á -má cara. O ocio é o peor de todos os perturbadores da intelligencia. - -_Electra_ - -(_muito animada_) Cá estou seguindo á risca o que me mandaste fazer. -(_Pega n’uns frascos de substancias mineraes e leva-os para uma das -estantes_) Estes frascos para o seu logar... Emquanto penso n’isto nem -penso na furia da tia logo que souber... - -_Maximo_ - -(_attento ao trabalho_) A tia até ha de acabar por gostar... Mas -deixa que tu, tambem!... Não te bastou a loucura d’hontem... raptar -insidiosamente o menino... Tornas a trazer-m’o... ficas-te a embalal-o -e adormecel-o, muito mais tempo que o regular... E, não contente ainda -com a saturnal d’hontem, pespegas-te hoje cá em casa, e aqui andas -a sargentear, para uma banda e para outra, muitissimo fresca da tua -vida!... Ainda foi por Deus, que convidados para a distribuição dos -premios e para o almoço em Santa Clara os tios ainda a estas horas -ignorem o pulo medonho que a boneca deu da casa d’elles para a minha! - -_Electra_ - -Tu é que me aconselhaste que me insubordinasse... «_Insubordina-te!_» - -_Maximo_ - -Sim senhor: fui o instigador do delicto... E gabo-me d’isso. - -_Electra_ - -A minha consciencia diz-me que não ha mal nenhum no que faço. - -_Maximo_ - -Pois está bem de vêr que não ha... Foi talvez para casa de um pulha que -tu vieste!... Não faltaria mais nada senão que principiasse agora a haver -mal em estar alguem na minha casa! - -_Electra_ - -(_trabalhando sempre e falando sem se distrahir do que faz_) Eu digo -mais: estando tu esmagado de trabalho, só, sem creados, e estando eu -para ahi, de mãos a abanar, sem ter absolutamente nada que fazer, o que -pareceria mal, o que seria indecente, é que eu não viesse... - -_Maximo_ - -Cuidar de mim e dos pequenos... Effectivamente, se isso não é logica, -digo-te que botemos luto, porque já não ha logica no mundo! - -_Electra_ - -Queridos pequerruchinhos! Toda a gente sabe que os adoro... São a minha -paixão, o meu fraco... (_Maximo, abstrahido n’uma conta, cessa de dar -attenção ao que ouve_) Chega-me a parecer... (_Approxima-se da mesa -levando uns livros que não estavam no seu logar_) - -_Maximo_ - -(_vagamente_) Quê? - -_Electra_ - -Que nem a sua propria mãe lhes quereria tanto como eu! - -_Maximo_ - -(_satisfeito com o resultado do seu calculo, lendo em voz alta uma -cifra_) Zero, trezentos e dezoito... Fazes favor de me dar as _Tabellas -de resistencias_... aquelle livro encarnado... - -_Electra_ - -(_correndo á estante da direita_) Não é este? - -_Maximo_ - -Mais adeante. - -_Electra_ - -É verdade... que tôla! - -_Maximo_ - -Fica-te muito bem,—sabes?—que em tão pouco tempo conheças todos os meus -livros e os seus logares na estante... - -_Electra_ - -Não dirás que te não puz tudo muito arranjadinho. - -_Maximo_ - -Não; e darei graças a Deus, porque entrou finalmente n’este antro, -revolto e poeirento, a limpeza e a ordem! - -_Electra_ - -(_desvanecida_) Confessas então que não sou absolutamente, absolutamente -inutil? - -_Maximo_ - -(_olhando com fixidez para ella_) Não ha nada inutil na creação. Quem te -diz a ti que te não creou Deus para altos destinos? Quem te diz que não -virás a ser... - -_Electra_ - -(_anciosa_) O quê? - -_Maximo_ - -Uma alma grande, formosa e nobre, que está por hora meia afofada ainda na -serradura e na estopa de uma boneca? - -_Electra_ - -(_com alegria_) Pae do ceu, se assim fosse! (_Maximo levanta-se e, na -estante da esquerda, pega n’umas barras de metal, que examina_) Nem me -digas isso que me entonteces de alegria... Pode-se cantar?... - -_Maximo_ - -Podes cantar... (_Electra repete trauteando o andante de uma sonata_) -A boa musica é a espóra das ideias preguiçosas, que não affluem; e -é o gancho que puxa pelas que estão agarradas de mais ao fundo do -entendimento. Canta, companheira, canta... (_Prosegue attento á sua -occupação_) - -_Electra_ - -(_á estante do fundo_) Continúo coordenando isto. Os metaloides para este -lado. Já os conheço pelos rotulos... Como este trabalhito entretem! Era -capaz de ficar aqui todo o santo dia... - -_Maximo_ - -(_jovial_) Camarada! - -_Electra_ - -(_correndo para elle_) Que manda o magico? - -_Maximo_ - -Eu não mando por ora. Proponho. (_Pega n’um frasco que contém um metal em -limalha_) Se a menina magica quer collaborar commigo ha de fazer favor de -me pesar trinta grammas d’este metal. - -_Electra_ - -Péso. - -_Maximo_ - -Sabes já pesar na balança de precisão... - -_Electra_ - -Perfeitamente. Dá cá. (_Alegre, contente, ao deitar o metal na capsula, -admira-lhe a belleza_) É lindo! Que é isto? - -_Maximo_ - -É aluminio. Parece-se comtigo. Pesa pouco... - -_Electra_ - -Ah! eu então?... - -_Maximo_ - -Pesa pouco, mas é extremamente tenaz. (_Olhando-lhe para a cara_) Tu -tambem? - -_Electra_ - -Em coisas que eu cá sei, sou tenaz até á barbaridade, e, chegado o -momento, estou certa de que o seria até ao martyrio. (_Continúa pesando -sem interromper a operação_) - -_Maximo_ - -Que coisas são essas? - -_Electra_ - -Que te importa! Tu és o magico, mas eu é que magíco... commigo, ás vezes. - -_Maximo_ - -(_attento ao trabalho_) Pesas-me depois setenta grammas de cobre. -(_Dá-lhe outro frasco_) - -_Electra_ - -O cobre então serás tu... Não: é tambem feio de mais para se parecer -comtigo. - -_Maximo_ - -É feio, mas util. - -_Electra_ - -Compara-te antes ao ouro, que é o que vale mais. - -_Maximo_ - -Nada de ditos! Estás a desmoralisar-me o laboratorio. - -_Electra_ - -Dá ao menos licença de que me reveja nas qualidades do metal bonito que -se parece commigo... Sou tenaz... Não me quebro... Farás favor de o dizer -á tia e ao tio Urbano, que, no sermão que me prégaram esta manhã, por -umas quarenta vezes me disseram que sou fragil... Fragil, eu! - -_Maximo_ - -Não sabem o que dizem. - -_Electra_ - -Sabem lá elles... nem o que é o aluminio, nem o que eu sou! - -_Maximo_ - -Mas toma sentido, que te não equivoques no peso! - -_Electra_ - -Equivocar-me eu! Pateta! Eu tenho muito mais tino do que ninguem cuida! - -_Maximo_ - -Já vou vendo, já vou vendo! (_Dirige-se a uma das estantes em procura -d’um cadinho_) A tia, quando chegar a casa, é que lhe ha de custar um -pouco mais a compenetrar-se de que tenhas todo o tino que dizes... - -_Electra_ - -Deus, que vê os corações, sabe se eu tenho culpa! Porque é que a tia não -deixa que eu venha para cá? - -_Maximo_ - -(_voltando com o cadinho que escolheu_) Por que tu és uma menina -solteira, e as meninas solteiras não podem ficar assim em casa d’um homem -só, por mais honrado e por mais digno que elle seja. - -_Electra_ - -Pois, senhor, não haja dúvida que, por essa regra, estão divertidas as -pobres meninas solteiras! (_Termina o peso e apresenta os dois metaes -pesados nas suas duas capsulas de porcelana_) Aqui tens o aluminio e o -cobre. - -_Maximo_ - -(_pegando nas capsulas_) Um primor. Que limpeza de mãos... Que firmeza de -pulso, e que serenidade de attenção para não fazer d’isto uma trapalhada! -Estás fina. - -_Electra_ - -Estou contente apenas. Quando se tem a alegria tudo corre bem. - -_Maximo_ - -Ahi disse a collega uma importantissima verdade. (_Verte os dois corpos -no cadinho_) - -_Electra_ - -Isso é um cadinho, não é? - -_Maximo_ - -Sim senhor, para fundirmos os dois metaes. - -_Electra_ - -Para nos fundirmos tu e eu, se não pegarmos á bulha no meio do fogo... -(_Trauteia a sonata_) - -_Maximo_ - -Faze favor de chamar o Ricardo. - -_Electra_ - -(_correndo á porta da esquerda_) Ricardo! - -_Maximo_ - -Que venha tambem o Gil. - -_Electra_ - -Gil! Venham ambos, que manda o mestre... não se demorem! - - -SCENA II - - ELECTRA, MAXIMO, RICARDO E GIL, o primeiro vestido de operario, - com blusa, o segundo em trage burguez, com mangas de alpaca, - pena na orelha - -_Gil_ - -(_mostrando um calculo_) Aqui está o valor obtido. - -_Maximo_ - -(_lê rapidamente a cifra_) 0,158,073... Está errado (_Seguro do que diz -e com certa severidade_) Não é possivel que para um diametro de cabo -menor de quatro millimetros obtenhamos um circuito maior, segundo o teu -calculo. A verdadeira distancia deve ser inferior a duzentos kilometros... - -_Gil_ - -Não sei então... eu... (_Confuso_) - -_Maximo_ - -Está mal. É que te distrahiste. - -_Electra_ - -É que vocês, coitados, não teem... a attenção serena... - -_Maximo_ - -Emquanto fazeis os calculos estaes a pensar em historias da carocha. - -_Electra_ - -E a conversar, a falar de touros, de theatros, da politica... assim não -fazemos nada. - -_Gil_ - -Vou rectificar as operações. - -_Electra_ - -E, sobretudo, muita paciencia, muita contensão, todos os cinco -sentidos!... Senão tornamos á mesma. - -_Gil_ - -Vou vêr isto. - -_Maximo_ - -Anda lá e não te descuides (_Gil sae e Maximo, virando-se para Ricardo, -entrega-lhe o cadinho_) Aqui tens. - -_Ricardo_ - -Para fundir... - -_Maximo_ - -Está preparado o forno? - -_Ricardo_ - -Sim senhor. - -_Maximo_ - -Mette immediatamente, e quando esteja em fusão, avisa. Com esta aleação -vamos fazer um novo ensaio de conductibilidade... Espero chegar aos -duzentos kilometros com perda escassissima. - -_Ricardo_ - -Faz-se o ensaio hoje? - -_Maximo_ - -(_atormentado por uma ideia fixa_) Sim, quanto antes. Não abandono este -problema. (_A Electra_) É a minha ideia fixa, que me não deixa viver. - -_Electra_ - -Ideia fixa tambem eu tenho uma, e por ella vivo. Avante! - -_Maximo_ - -Avante, _Electra_! Avante, _Ricardo_! - -_Ricardo_ - -Não manda mais nada, patrão? - -_Maximo_ - -Que actives a fusão. - -_Electra_ - -Que se fundam bem os metaes! - -_Ricardo_ - -Hão de ficar os dois em um só, senhorita. - -_Electra_ - -Dois n’um. - -_Maximo_ - -(_como preparando-se para outra occupação_) Agora, minha graciosa -discipula... - -_Electra_ - -Agora ha de o mestre perdoar, mas tenho de ir vêr se acordaram os meninos. - -_Maximo_ - -Ha quanto tempo comeram? - -_Electra_ - -Ha trez quartos d’hora. Devem dormir meia hora mais. Está bem regulado -assim? - -_Maximo_ - -Está bem tudo o que determines. - -_Electra_ - -Olha o que dizes, que estarás por tudo... - -_Maximo_ - -(_carinhosamente_) Por tudo. - -_Electra_ - -Que se fique sabendo!... Eu venho já. (_Sae ligeira e cantando pela -esquerda. Entra ao mesmo tempo um operario, pelo fundo_) - - -SCENA III - - MAXIMO E O OPERARIO - -_Maximo_ - -Que ha? - -_Operario_ - -Veio aquelle senhor, o marquez de Ronda... - -_Maximo_ - -Porque não entrou? - -_Operario_ - -Perguntou pelo patrão... Disse-lhe que tinha uma visita... Elle então, -como pessoa da casa, logo disse: «Já sei... ha de ser a senhorita -Electra... Voltarei logo». - -_Maximo_ - -Porque lhe não disseste que entrasse, meu pascacio? - -_Operario_ - -Como me disse que voltava... - -_Maximo_ - -Pois sempre que vier, que entre, esteja que não esteja a senhorita -Electra, e sobretudo estando. - -_Operario_ - -Assim se fará. (_Sae pelo fundo_) - - -SCENA IV - - MAXIMO E ELECTRA - -_Electra_ - -(_voltando do interior da casa_) Dormidinhos como dois anjos... até -d’aqui a meia hora... - -_Maximo_ - -E os adultos não comem? não se almoça hoje n’esta casa? - -_Electra_ - -Quando queiras. Está feito o almoço. (_Dirige-se para o aparador, onde -está a pequena baixella: talheres, toalha, guardanapos, fructeira_) - -_Maximo_ - -É como deve ser... Tudo a horas... assim se chega sempre ao que se quer. - -_Electra_ - -(_estendendo a toalha_) Ao que eu quero não chegarei nunca por mais -pontualidade que ponha... - -_Maximo_ - -Deixa-me ajudar-te... (_Vae-lhe passando os pratos, os talheres, o pão, o -vinho_) Chegas, sim. - -_Electra_ - -Achas? - -_Maximo_ - -Acho. Tão certo que chegas como que tenho uma fome de cincoenta cavallos -de força. - -_Electra_ - -Melhor, para que te agrade o almoço. - -_Maximo_ - -A elle! - -_Electra_ - -N’um minuto. (_Sae_) - - -SCENA V - - MAXIMO E GIL - -_Maximo_ - -Bemdita seja essa mulhersinha preciosa, que tão simples, tão instinctiva, -tão ingenuamente, traz a sua grande alma inquieta, torturada e núa, a -inundar de alegria e de luz este esconderijo da sciencia, transformando -tão estreita aridez em tão vasto paraizo! Bemdita a que com um mero -sorriso de creança vem arrancar da sua abstracção consumidora este pobre -Fausto, envelhecido aos trinta e cinco annos, e dizer-lhe: «Nem só de -verdades se vive!» (_Interrompe-o Gil, que tem entrado um pouco antes e -se approxima sem ser visto_) - -_Gil_ - -(_satisfeito mostrando o calculo_) Pronto. Creio ter achado a cifra -exacta. - -_Maximo_ - -(_pega no papel e olha-o vagamente, sem se fixar_) A exactidão!... E -tambem tu pensarás que só de coisas exactas vive o homem!? Saturada -de certeza, a alma insaciada appetece, mais que tudo, o que é apenas o -sonho, e vôa para elle, avassalada e rendida, sem nem sequer tentar saber -se é para a realidade, se para a illusão, que vôa!... Considerando bem, -Gil, nada mais natural do que um equivoco de calculo. - -_Gil_ - -Sim, senhor, muito facilmente se distrae uma pessoa pensando em... - -_Maximo_ - -Em coisas vagas, indefinidas, aereas, vaporosamente illuminadas de côr de -rosa e d’azul... - -_Gil_ - -Eu, distrahido, confundi a cifra da potencial com a da resistencia... Mas -já rectifiquei... Queira vêr se está bem. - -_Maximo_ - -(_lê_) 0,318,73... (_Com repentina transição para um goso expansivo_) -Homem! e que não estivesse! Se ainda errasses outra vez?... A exactidão -dos mathematicos perdoaria, por hoje, á nossa phantasia de poetas. - -_Gil_ - -Ah! a exactidão não perdôa nunca: é a tyrannia da nossa vida; -opprime-nos, escravisa-nos, não nos deixa respirar. - -_Maximo_ - -Essa mestra implacavel tambem algumas vezes nos sorri, nos acalenta e nos -encanta. Vês essa cifra? - -_Gil_ - -(_contente, dizendo de memoria_) 0,318,73. - -_Maximo_ - -Pois sabe que nunca os maiores poetas do mundo, Virgilio ou Homero, -Dante, Lope de Vega ou Calderon escreveram estrophe mais inspirada e mais -poetica do que é hoje para mim a d’esses miseros numeros! É verdade que a -harmonia, o encanto poetico não é n’elles que está. Está em que... Adeus, -vae almoçar... Deixa-me, deixa-nos... (_Afasta-o com a mão para que saia. -No ponto da scena em que pode olhar para o interior da habitação_) Ali é -que está a imaginação, a poesia, o ideal, no fundo d’essa cosinha, onde -n’este momento ondula a mais altiva e a mais virginal flôr da innocencia, -da candura e da bondade humana. - - -SCENA VI - - MAXIMO E ELECTRA - -_Electra_ - -(_entrando com uma terrina fumegante_) Aqui está o banquete. - -_Maximo_ - -A vêr o que se fez! arroz com menudilhos... O thema é digno de Lucullo. - -_Electra_ - -Elogia-o sem provar: está superfino. (_Senta-se_) Vou-te servir. -(_Servindo-o_) - -_Maximo_ - -Não tanto. - -_Electra_ - -Olha que não tens mais nada... Acho que se não deve ter mais d’uma -coisa... e escolher a melhor. - -_Maximo_ - -Meu Deus! o que diria a tia, se agora nos visse aqui almoçando juntos... - -_Electra_ - -Um almoço feito por mim! - -_Maximo_ - -Sabes que está maravilhoso o teu arroz? - -_Electra_ - -Foi minha mestra, em Hendaya, uma senhora valenciana. Eu fiz um curso de -arrozes. Sei-os fazer de sete maneiras differentes, todos riquissimos. - -_Maximo_ - -Decididamente és todo um mundo novo. - -_Electra_ - -E quem é o meu Colombo? - -_Maximo_ - -Não ha Colombo que ousasse descobrir-te. Tu és um mundo que apparece. - -_Electra_ - -Será talvez por eu ser um mundosito assim desconhecido, que querem -metter-me no convento para me livrar do perigo de que dêem commigo. E é -o que me espera... - -_Maximo_ - -D’essa é bem natural que não escapes. - -_Electra_ - -(_assustada_) Que dizes! - -_Maximo_ - -Quero dizer: escapas... porque te hei de salvar eu. - -_Electra_ - -Prometteste-me o teu amparo. - -_Maximo_ - -E dou-t’o. - -_Electra_ - -Que tencionas fazer? - -_Maximo_ - -Eu te digo: o negocio é grave... - -_Electra_ - -Falas com a tia, já se sabe... - -_Maximo_ - -Falo com a tia... - -_Electra_ - -E que lhe dizes? - -_Maximo_ - -Falo com o tio... - -_Electra_ - -Façamos de conta que se acabaram todos os tios com quem fazes tenção de -falar. E depois? - -_Maximo_ - -Depois, tendo-te provisoriamente abrigado no mais inviolavel sacrario, -procederei minuciosamente ao exame e á sellecção dos noivos. E sobre este -assumpto temos que conversar... - -_Electra_ - -Vaes ralhar-me? - -_Maximo_ - -Não: já me disseste que te enfastia esse brinquedo de bonecos vivos. - -_Electra_ - -Cuidei que me distrahiriam, e cada vez me entristeciam mais! - -_Maximo_ - -Nenhum d’elles te inspirou um sentimento especial, distincto do dos -outros? - -_Electra_ - -Nenhum! - -_Maximo_ - -Declararam-se todos por escripto? - -_Electra_ - -Uns por escripto; outros por meio de olhares espantosos, que nunca -cheguei a comprehender bem o que quizessem exprimir, e por isso não metto -estes em conta... - -_Maximo_ - -Perdão: teem de entrar todos no rol: epistolares e olheiros. E aqui -chegamos ao ponto sobre que devo dar-te, desde já, a minha sincera -opinião: casa-te, Electra; casa-te quanto antes! - -_Electra_ - -(_envergonhada, baixando os olhos_) Assim... tão breve!... - -_Maximo_ - -O mais breve possivel. Precisas de ter a teu lado um homem, um marido. -Tens a alma, a tempera, os instinctos e as virtudes da casa conjugal. É -portanto forçoso que da grande lista dos teus pretendentes se escolha -um, o melhor, o mais digno de te amar e de ser amado por ti, porque, sem -amor, considera bem que não ha familia. - -_Electra_ - -Estou certa. - -_Maximo_ - -E tu nasceste destinada para a vida exemplar e fecunda de um lar feliz... -(_Teem acabado de comer o arroz_) - -_Electra_ - -Queres mais? - -_Maximo_ - -Não: estou satisfeito. - -_Electra_ - -De sobremesa tens fructa, que é do que mais gostas. (_Põe na mesa o -fructeiro_) - -_Maximo_ - -(_pegando n’uma bella maçã_) Gósto, porque esta (_mostrando-lhe a maçã_) -é a verdade em toda a sua pureza. Aqui não interveio a mão do homem senão -para a colher. - -_Electra_ - -É a obra divina, bella, simples, admiravel. - -_Maximo_ - -Faz Deus esta prodigiosa maravilha para a dar ao homem; e nem sempre lh’a -agradece aquelle que foi eleito para em certo dia e a certa hora passar -por baixo da macieira em fructo! - -_Electra_ - -Quantas vezes basta, para colher a felicidade, esquecer-se a gente por um -momento da terra, e levantar os olhos para cima! - -_Maximo_ - -(_contemplando-a_) Pois é o que eu faço, Electra. - - -SCENA VII - - ELECTRA, MAXIMO E RICARDO, pela esquerda - -_Ricardo_ - -Mestre... - -_Maximo_ - -Quê? - -_Ricardo_ - -Chegamos ao rubro. - -_Electra_ - -A fusão! - -_Maximo_ - -Avisa-me ao branco incipiente. - -_Ricardo_ - -Virei dizer. - -_Maximo_ - -Olha. Que preparem na officina a bateria Bunsen. E previne de que hei de -precisar para logo do dinamo grande. - - -SCENA VIII - - ELECTRA E MAXIMO, depois o OPERARIO - -_Electra_ - -(_com tristeza_) D’aqui a um instante vaes tratar da fusão, e eu... - -_Maximo_ - -Tu—está claro—irás para casa. - -_Electra_ - -Nem é bom pensar no que vae ser quando eu chegue! - -_Maximo_ - -Tu ouves, calas-te, e esperas. - -_Electra_ - -Esperar... esperar sempre! (_Acabam de almoçar_) Ai que, se tu me não -vales, não sei o que será de mim, com a tia e com o snr. de Pantoja... -Elles a teimarem que eu vá para anjo, e Deus a desageitar-me cada vez -mais para a carreira angelical! - -_Maximo_ - -(_que se tem levantado e parece disposto a continuar o trabalho_) Não -tenhas cuidado. Confia em mim. Eu te irei requerer como teu protector e -teu mestre... - -_Electra_ - -(_approximando-se supplicante_) Não te demores então, Maximo. Por amor -dos teus filhos, não te demores. Se tu me tomasses tambem como filha, -para estar com os meninos, para viver com elles! - -_Operario_ - -(_pelo fundo_) O snr. marquez de Ronda. - -_Electra_ - -(_assustada_) Vou-me embora? - -_Maximo_ - -Por vir o Marquez? (_Ao creado_) Que entre. (_O operario sae_) -Offerecia-se-lhe café, se houvesse. - -_Electra_ - -Vou buscal-o. (_Sae com pressa_) - - -SCENA IX - - MAXIMO, MARQUEZ E ELECTRA. No fim da scena, RICARDO - -_Maximo_ - -Entre, Marquez. - -_Marquez_ - -Maximo... (_Olhando em redor, desconsolado_) E Electra? - -_Maximo_ - -Na cosinha. Foi buscar-nos café. - -_Marquez_ - -Na cosinha! Continua-se vivendo então n’esta casa como na ilha de -Robinson? Ahi está o que não comprehendo: como tendo você lá em cima -todos os confôrtos d’um palacio... - -_Maximo_ - -É muito simples... O trabalho e o habito do estudo enclausuram-me -aqui. Puz os pequenos ao lado da officina para os ter ao pé de mim; e, -reduzindo o mais que me foi possivel a minha orbita d’acção, para aqui -me fiquei, recluso no dever que me impuz, como um asceta na estreiteza da -sua gruta. - -_Marquez_ - -Sem nem sequer se lembrar de que é rico... - -_Maximo_ - -A minha riqueza é a singeleza, o meu luxo é a sobriedade, o meu repouso é -o trabalho, e assim viverei emquanto viver só... - -_Marquez_ - -Não tardará então muito em mudar de vida... Precisamente lhe venho -contar... (_Entra Electra com a bandeja contendo o serviço e a maquina de -café_) Oh! a deusa do lar! - -_Electra_ - -(_adeanta-se cautelosa de que não caia alguma peça_) Por Deus, Marquez, -não me ralhe. - -_Marquez_ - -Eu ralhar? - -_Electra_ - -Nem me faça rir... para não haver um desastre. Sentido! (_O marquez pega -na bandeja_) - -_Marquez_ - -Aqui me tem para companheiro de infortunios... Ainda então lhe parece que -eu seja dos que ralham? Eu sou dos que explicam. Mas não pertencem a esta -seita os senhores ali do outro lado do jardim... - -_Electra_ - -Os tios. - -_Marquez_ - -A noticia do lindo idyllio, que se está passando aqui como na -inverosimilhança de uma tapeçaria ou de um panno de leque, lá chegou já -á distribuição dos premios em Santa Clara, onde a estas horas estará -deliberando o conclave. As suas resoluções serão terriveis. - -_Electra_ - -A Virgem Maria me valha! - -_Marquez_ - -Socegue... - -_Maximo_ - -Isso tem de ser agora commigo. - -_Marquez_ - -Será comnosco. O seu café, minha menina, está digno de Jupiter, pae dos -deuses: é do que elles tomam no olympo, aos domingos. - -_Maximo_ - -Segue-se, Electra, que em vez de regressar sósinha, teremos de ir ambos -levar-te aos snrs. de Yuste. - -_Ricardo_ - -(_assumando á porta da esquerda_) Snr. D. Maximo, o branco incipiente! - -_Electra_ - -(_com inconsciente alegria infantil_) A fusão! - -_Maximo_ - -(_a Ricardo_) Não posso agora. Chama-me quando chegar o branco -resplandecente. (_Ricardo sae_) - -_Marquez_ - -Peço licença... (_Tendo-se servido de vinho_) Eu brindo o hymeneu dos -metaes, saudando os cadinhos do magico prodigioso. - - -SCENA X - - MAXIMO, ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA - -_Electra_ - -(_aterrada_) D. Salvador! Deus me acuda! - -_Maximo_ - -Queira entrar, snr. de Pantoja. (_Pantoja adeanta-se lentamente_) A que -devo a honra...? - -_Pantoja_ - -Antecipando-me aos meus bons amigos, tios d’esta menina, que d’aqui a um -momento terão voltado a casa, aqui me acho resolvido a cumprir o dever -d’elles e o meu. - -_Maximo_ - -A familia toda consubstanciada no snr. de Pantoja... - -_Marquez_ - -Para metter medo á gente. - -_Maximo_ - -Considera-nos reus d’algum tremendo crime... - -_Pantoja_ - -Não considero senão unicamente que esta menina não pode estar aqui. Venho -buscal-a. Ha de sahir commigo. (_Pega na mão de Electra, insensivel, -immobilisada pelo medo_) Vem. - -_Maximo_ - -Queira perdoar (_Sereno e grave, approxima-se de Pantoja_) Com todo o -respeito que lhe devo, rogo-lhe, snr. de Pantoja, que solte a mão d’esta -senhora. Antes de lhe tocar, teria sido mais opportuno que falasse -commigo, que sou o dono d’esta casa, e o responsavel de tudo o que n’ella -se passa, de tudo o que vê... e de tudo o que não queira vêr. - -_Pantoja_ - -(_depois de uma breve hesitação larga a mão de Electra_) Seja assim. -Deixarei de dirigir-me a esta pobre creatura, desvairada ou trazida aqui -ao engano, e falarei comtigo, a quem quizera dizer apenas muito breves -palavras:—Venho buscar Electra. Dá-me o que não te pertence, o que não te -pertencerá nunca. - -_Maximo_ - -Electra é inteiramente livre. Nem eu a trouxe aqui contra sua vontade, -nem contra sua vontade a levará d’aqui quem quer que seja. - -_Marquez_ - -Se se pudesse, pelo menos, conhecer os fundamentos da auctoridade do snr. -de Pantoja... - -_Pantoja_ - -Eu não preciso de lhes dizer, aos senhores, qual é a proveniencia da -auctoridade de que disponho, e que esta menina me reconhece, prestando-me -a obediencia que lhe peço. Não é verdade, Electra, que basta uma palavra -minha para immediatamente te separar d’estes homens, e levar-te para quem -depositou em ti o seu mais puro amor, e nem vive nem quer viver na terra -senão para ti? (_Electra, immobilisada, olhando para o chão, cala-se_) - -_Maximo_ - -Não, bem vê que não basta essa unica palavra sua. - -_Marquez_ - -Não offerece dúvida que é uma palavra bôa, mas insufficiente. - -_Maximo_ - -Quer permittir que a interrogue eu? Electra, minha querida amiga, -assegura-te o coração e a consciencia que entre todos os homens que -conheces, entre os que vês aqui e os que não estão presentes, é sómente e -exclusivamente ao muito dedicado e ao muito respeitavel snr. de Pantoja -que tu deves submissão e amor? - -_Marquez_ - -Fale abertamente e destemidamente, menina! Diga-nos o que o seu coração e -a sua consciencia lhe dictarem. - -_Maximo_ - -E se este senhor, a quem indubitavelmente deves toda a consideração e -todo o respeito, te ordenar que o sigas, e nós outros te dissermos que -fiques, de tua livre e plena vontade, que determinas? - -_Electra_ - -(_depois de penosa lucta_) Ficar. - -_Marquez_ - -Já vê... - -_Pantoja_ - -Não está em si... Fascinaram-a. - -_Maximo_ - -Parece-me inutil a insistencia... - -_Marquez_ - -Para acabar vencido... - -_Pantoja_ - -(_com fria tenacidade_) Eu não sou dos que os homens vencem. A razão é -vencedora sempre, e eu seria indigno da que Deus me deu, e que defenderei -até o meu derradeiro alento, se a não puzesse continuamente acima de todo -o erro e de todo o extravio. Maximo, os metaes que ardem nos teus fornos -são menos duros do que eu. As tuas mais poderosas maquinas são brinquedos -de vidro comparadas com a minha vontade. Electra pertence-me: basta que -eu o diga. - -_Electra_ - -Que terror, meu Deus! - -_Maximo_ - -Se quer assegurar-se do que póde a sua vontade opponha-a á minha. - -_Pantoja_ - -Dispenso demonstrações comtigo ou com quem quer que seja. Basta-me saber -o que devo fazer, e fazer o que devo. - -_Maximo_ - -Pois toda a minha força é essa: o dever. - -_Pantoja_ - -O teu dever é uma hypothese terrena e accidental. O meu gira em torno de -uma consciencia tão rija e tão forte como o eixo do universo; e os meus -fins são tão altos que nem tu os alcanças nem poderás alcançal-os nunca. - -_Maximo_ - -Por mais incommensuravel que seja a elevação dos seus fins, pelo amor de -Electra eu irei a toda essa altura, para a defender. - -_Marquez_ - -Esta senhora voltará comnosco á sua casa. - -_Maximo_ - -Commigo. E isso bastará para justificação de todos os seus actos, e para -que os tios lhe perdoem, se teem que perdoar-lhe. - -_Pantoja_ - -Os senhores de Yuste não renegarão n’esta conjunctura os sentimentos e -as convicções de toda a sua vida. (_Exaltando-se_) Eu estou no mundo -unicamente para que Electra se não perca. E não se ha de perder. Assim o -quer a vontade divina, de que a minha é um reflexo, e que vós confundis -com um capricho da brutalidade humana, porque não sabeis nada do que são -nas puras regiões espirituaes as emprezas de uma alma... Pobres cegos! -pobres loucos!... - -_Electra_ - -(_consternada_) D. Salvador, não se desgoste—por Nossa Senhora lh’o peço! -Eu não sou má, Maximo é bom... Sabem-o todos... Sabem-o os tios... e o -snr. de Pantoja bem o sabe! Não deveria sublevar-me até o ponto de vir -para aqui sósinha, como determinei vir... Foi um acto de grave rebeldia, -concordo. Voltarei para casa... Maximo e o snr. de Ronda irão commigo, e -os tios hão de perdoar-me... (_A Maximo e ao Marquez_) Não é verdade que -me perdoarão? (_A Pantoja_) Porque é esta má vontade a Maximo, que nunca -lhe fez mal nenhum?... Confessa—pois não é assim?—que elle nunca lhe fez -nem lhe quiz mal? Em que se funda essa aversão? - -_Maximo_ - -Não é aversão: é odio recondito, inextinguivel. - -_Pantoja_ - -Odiar-te, não. As minhas crenças prohibem-me o odio. De certo que ha -entre nós ambos uma incompatibilidade proveniente da nossa differença de -principios... Teu pae, Lazaro Yuste, e eu, tivemos desavenças profundas, -que é melhor esquecer... Mas a ti, Maximo, nunca te quiz mal... Antes -te quero bem. (_Mudando de tom para mais suave e conciliador_) Perdôa a -severidade com que te falei, e permitte que, fazendo um grande esforço -sobre mim, eu te implore que deixes Electra partir commigo. - -_Maximo_ - -(_inflexivel_) Não posso annuir. - -_Pantoja_ - -(_violentando-se mais_) Por segunda vez, Maximo, esquecendo todos os -resentimentos, profundamente humilhado, eu te supplico... Deixa-a. - -_Maximo_ - -Não. - -_Pantoja_ - -(_devorando o vexame_) Bem... Pela segunda vez m’o negaste... Para -offerecer ás tuas bofetadas não tenho mais de duas faces, por isso te não -peço por terceira vez a mesma coisa. (_Com gravidade e rigidez_) Adeus, -Electra... Maximo, Marquez, adeus. - -_Electra_ - -(_baixo a Maximo_) Por quem és, Maximo, transige um pouco... - -_Maximo_ - -(_redondamente_) Não. - -_Electra_ - -Não disseste que me levarieis, tu e o Marquez? Vamos todos. (_Esta phrase -é ouvida por Pantoja que se detem na sua marcha lenta para a sahida_) - -_Maximo_ - -Não... Ha de ir primeiro elle. Nós iremos quando nos convenha, e sem a -salvaguarda de ninguem. - -_Pantoja_ - -(_friamente da porta_) E a que vaes senão a aggravar a situação d’essa -menina? - -_Maximo_ - -Vou ao que devo ir. - -_Pantoja_ - -Pode-se saber o que é? - -_Maximo_ - -Escusado. - -_Pantoja_ - -Não preciso de que me reveles as tuas intenções. Para quê, se as conheço? -(_Dá alguns passos para o centro da scena, cravando a vista em Maximo_) -Não me fio na expressão dos teus olhos. Penetro na tua mente, e descubro -o que pensas... Interroguei-te, não para saber da tua intenção mas para -ouvir as promessas com que a encobres... Em ti não mora a verdade, nem o -bem... não, não, não... (_Sae repetindo as ultimas palavras_) - - -SCENA XI - - ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ E RICARDO (Principia a escurecer) - -_Electra_ - -(_consternada, procurando um refugio em Maximo_) Maximo, ampara-me! -Livra-me do terror que me inspira este homem. - -_Maximo_ - -Conta commigo. Não tenhas medo. (_Pega-lhe nas mãos_) - -_Marquez_ - -Começa a escurecer. Vamos. - -_Electra_ - -Vamos... (_Incredula e medrosa_) Então, deveras, sempre vou comtigo? - -_Maximo_ - -Juntos n’esta hora, como o seremos para toda a vida... - -_Electra_ - -Comtigo para sempre? (_Augmenta a escuridão_) - -_Ricardo_ - -(_á porta da esquerda_) Snr. D. Maximo, o branco deslumbrante! - -_Marquez_ - -(_a Ricardo_) A fusão está feita. Creio que se podem apagar os fornos. - -_Maximo_ - -(_com effusão beijando as mãos de Electra_) Minha alma, minha consolação, -minha alegria! comtigo para todo sempre... O que vou dizer aos nossos -tios é que te peço, que te faço minha, que serás a minha mulher e a -mamãsinha dos meus filhos. - -_Electra_ - -(_opprimida, como se a alegria a transtornasse_) Não me enganas?... Virei -a viver sempre com os teus meninos? Serei entre elles a menina maior?... -Serei tua mulher? - -_Maximo_ - -(_com voz forte_) Sim. (_Illuminada a casa do fundo, resplandece com viva -claridade toda a scena_) - -_Marquez_ - -Vamo-nos. É noite. - -_Electra_ - -É o dia!... o meu dia eterno! (_Maximo enlaça-a pela cintura e saem. O -marquez segue-os_) - - FIM DO TERCEIRO ACTO - - - - -ACTO QUARTO - - Jardim do palacio de Garcia Yuste. Á direita, a entrada para - o palacio, com escadaria larga de poucos degraus. Á esquerda, - jogando com a entrada, um corpo de architectura grutesca, - ornado com baixos-relevos: junto d’esta construcção, um banco - de pedra, em angulo, de risco elegante. Jarrões ou plantas - exoticas adornam este terraço, com pavimento de mosaico, entre - o edificio e o solo areado do jardim. - - No segundo plano e no fundo, o jardim com grandes arvores e - macissos de flores. Do centro partem trez arruamentos em curva. - O da esquerda leva á rua. Cadeiras de ferro. É de dia. - - -SCENA I - - ELECTRA E PATROS, com um cesto de flores que acabam de colher - -_Electra_ - -(_tirando uma carta da algibeira_) Deixa ficar as flores, e aqui tens a -carta. - -_Patros_ - -(_pousando as flores_) Com esta faz trez desde esta manhã! - -_Electra_ - -(_escolhendo as flores mais pequenas com que fórma tres ramilhetes_) São -tantas as coisas que Maximo tem que me dizer, e eu a elle... - -_Patros_ - -Bemdito seja Deus, que da noite de hontem para hoje tanta felicidade lhe -deu, senhorita Electra! - -_Electra_ - -E que depressa, Patros! que rapidamente! como n’um sonho, que tudo -se fez! Hontem á noite fiquei pedida, e hoje marcam os tios o dia do -casamento... - -_Patros_ - -E no emtanto, carta para lá, carta para cá... de não acabar nunca... - -_Electra_ - -Que queres? Se desde hontem nos não podemos vêr como companheiros, na -fabrica, porque sômos noivos agora... Temos de nos corresponder por -escrito. Na carta das oito horas e um quarto falava-lhe das coisas muito -serias que estou impaciente por dizer-lhe. Na das nove e vinte e cinco -recommendava-lhe que se não esquecesse da colhér de xarope que tem de se -dar a Pepito de duas em duas horas... N’esta agora digo-lhe que a tia foi -para a missa e que tem demora... É natural que elle lhe queira falar... - -_Patros_ - -Até ás onze horas de certo que não volta a senhora da egreja... - -_Electra_ - -E ás onze vou eu para a missa com o tio. (_Atando os tres ramilhetes_) -Pronto! Este para elle, estes para cada um dos meninos... Um a cada um -para que não briguem... (_Dispondo-se a compôr o ramo grande_) E agora -o ramo grande para a Senhora das Dôres... Vae, e volta depressa para me -ajudares... Espera resposta—é claro—uma palavra que seja! - -_Patros_ - -Vou de corrida. (_Sae pelo fundo_) - -_Electra_ - -(_escolhendo as mais lindas flores para o grande ramo_) Hoje, minha -querida Mãe Santissima, ha de ser maior a minha offerenda; e a minha -pena é que não seja tão grande que fique sem uma só flôr o jardim dos -tios... Deante da tua santa imagem queria eu hoje collocar todas as mais -lindas coisas da terra: as rosas, as estrellas e os corações amantes... -Virgem Maria! consolação e esperança nossa! não me desampareis, levae-me -ao bem que te pedi, e que hontem á noite me prometteu a expressão dos -teus divinos olhos quando as minhas lagrimas te disseram a gratidão e a -esperança da minha alma...! - -_Patros_ - -(_pressurosa pelo fundo_) Não trago carta, mas trago um recadinho, que -ainda é melhor... - -_Electra_ - -Que vem cá? - -_Patros_ - -Logo que saiam uns senhores, que estavam já a despedir-se... Que a menina -o espere aqui para lhe falar um momento... Tem de ir a uma conferencia -depois... - -_Electra_ - -(_olhando para o fundo_) Virá já?... - -_Patros_ - -Ahi vem. - -_Electra_ - -(_dando-lhe o ramo_) Toma lá... para Nossa Senhora... Para a Nossa -Senhora do meu quarto, bem entendido! Não é para a do altar do oratorio, -toma sentido: é para a da cabeceira da minha cama. - -_Patros_ - -Pois pudera! (_Entra correndo pela escada_) - - -SCENA II - - ELECTRA, MAXIMO, depois o MARQUEZ - -_Maximo_ - -(_a distancia, abrindo um pouco os braços_) Menina! - -_Electra_ - -(_mesma attitude_) Maximo! - -_Maximo_ - -Aqui estamos embaçados, deante um do outro, sem saber que dizer. - -_Electra_ - -Embaçadissimos. Começa tu. - -_Maximo_ - -Tu... para te desacanhares... Dize-me uma grande mentira: que me não amas. - -_Electra_ - -Dize-me primeiro tu uma grande verdade. - -_Maximo_ - -Que te adoro. (_Approximam-se_) - -_Electra_ - -Em paga d’essa mentira toma esta rosa que te escolhi, sem brilho, -pequena, singela, humilde, como eu quero ser para ti. - -_Maximo_ - -Tu tens um grande coração e um alto espirito... - -_Electra_ - -Não tenho; mas gostava de ser ainda mais tôsca e mais informe do que sou -para que tu me ensinasses tudo, e eu não tivesse nada que não fôsse teu. - -_Maximo_ - -Deus fez de ti a sua obra mais preciosa... - -_Electra_ - -E deu-te essa obra, que é apenas o esboço d’uma creatura humana, para que -tu a completes e aperfeiçôes. - -_Maximo_ - -Para que eu a enthronise e a corôe, deixando desenvolver-se d’ella a -immortal flôr de humanidade, que é a simples mulher da casa, forte, pura, -alegre e compadecida. (_Consulta o relogio_) - -_Electra_ - -Tens essa conferencia... Vae á tua obrigação... Não te demorarás muito? - -_Maximo_ - -Virei encontrar-me com a tia quando ella vier da missa. - -_Electra_ - -E o marquez, desde hontem... voltou como tinha dito? - -_Maximo_ - -Deixei-o agora na fabrica a escrever ao tabellião. Incomparavel amigo!... -Hontem á noite—sabes?—contei-lhe, ao voltar para casa, o teu romance -paterno... esse romance dos dois capitulos... Indignou-o a intervenção -despotica de Pantoja e de Cuesta na tua vida; e essa lamentavel historia -mais ainda o fortaleceu na firme determinação de defender-nos... - -_Electra_ - -(_surprehendida_) Mas então precisamos ainda de que nos defendam? - -_Maximo_ - -No essencial é claro que não... Mas quem nos assegura que esses dois -homens não tentem oppôr-nos alguns obstaculos de jurisdicção theorica? - -_Electra_ - -(_tranquillisando-se_) D’essa jurisdicção nos riremos nós. - -_Maximo_ - -Mas rindo, rindo, teremos de a prevenir e de a annullar. - -_Marquez_ - -(_pressuroso pelo fundo_) Então ainda aqui? - -_Maximo_ - -Falavamos de si, e deliberavamos nomeal-o procurador dos nossos negocios -de familia... - -_Marquez_ - -Acceito a procuração... (_Reprehendendo-o com doçura_) Mas, homem, que se -lhe faz tarde! - -_Maximo_ - -Adeus, adeus! até já. - -_Electra_ - -(_vendo-o partir_) Vae, e vem depressa. - - -SCENA III - - ELECTRA E O MARQUEZ - -_Marquez_ - -Ahi está o que é um galan de categoria scientifica... Parabens pelo -achado d’esta preciosidade rara. A graça e a alegria da sua edade -precisava da alliança de uma razão grave e de um coração firme, como o -d’este homem. É elle, entre quantos eu conheço, o mais perfeitamente -destinado para fazer da minha querida menina uma grande e exemplar mulher. - -_Electra_ - -Fará de mim o que elle quizer que eu seja. (_Com muita curiosidade_) Mas -diga-me, snr. de Ronda, conheceu a primeira mulher de Maximo? Perdôe-me -esta curiosidade, e não extranhe que eu deseje saber da vida toda do -homem que amo. - -_Marquez_ - -Não convivi com ella... Vi-a com Maximo uma ou duas vezes. Era uma -vascongada, sêcca, vulgar, pouco intelligente, bôa esposa para um lar -tranquillo mas sem felicidade... - -_Electra_ - -Os paes d’elle sim, conheceu-os muito? - -_Marquez_ - -A mãe nunca a vi. Era uma senhora franceza, de alto merito. Foi em môça -uma das amigas de minha mulher. O pae, Lazaro de Yuste, conheci-o ha -trinta annos em Hispanha e em França. Era homem muito intelligente, bem -parecido, felicissimo em negocios de minas, e não menos afortunado em -negocios de amor. Era falado. - -_Electra_ - -N’esse ponto não se parece com elle o filho, que é a austeridade em -pessôa. - -_Marquez_ - -De certo que sim. O seu futuro marido, minha querida Electra, é o -modelo dos homens, e a honra de uma geração muito mais perfeita do que -infelizmente foi a minha. Para que nada lhe falte, esse portentoso -magico até é rico... rico pelo que lhe deixou o pae e mais rico ainda -pelo que herdou agora dos tios de França. Que mais quer? Peça por bôca, e -verá como Deus lhe responde: «Menina, não tenho mais que lhe dar.» - -_Electra_ - -(_suspirando_) Ai!... E agora, outra coisa... diga-me, meu querido -Marquez: posso estar socegada? - -_Marquez_ - -Inteiramente. - -_Electra_ - -Escuso de ter medo das pessôas...—já lhe disseram—das pessôas que se -julgam com sufficiente auctoridade... - -_Marquez_ - -Essas pessôas poderão talvez incommodar-nos passageiramente, emquanto nós -não resolvermos encurtar-lhes os vôos. - -_Electra_ - -O snr. de Cuesta... - -_Marquez_ - -Esse não é de cuidado. Ainda hoje lhe falei, e estou certo de que nos -dará o seu mais convicto assentimento. - -_Electra_ - -O snr. de Pantoja... - -_Marquez_ - -Esse ha de resmungar um pouco mais, e pretenderá fazer-nos ouvir as -trombetas biblicas para nos assustar; mas não lhe tenha medo. - -_Electra_ - -Deveras? - -_Marquez_ - -Não vale nada. - -_Electra_ - -Não tenho de que me atterrar quando o encontre? - -_Marquez_ - -Não mais que da importunidade de um mosquito. - -_Electra_ - -Que allivio me dá! (_Com enthusiasmo carinhoso_) Deus lhe pague! Deus o -bemdiga, snr. de Ronda! - -_Marquez_ - -(_muito affectuoso_) Deus será comvosco. - - -SCENA IV - - OS MESMOS E URBANO, vindo de casa, de chapeu na cabeça - -_Urbano_ - -Marquez, bons dias. - -_Marquez_ - -Querido Urbano, posso falar comsigo? - -_Urbano_ - -Não lhe faz differença depois da missa...? (_A Electra_) Então, rapariga, -que vagares são esses? Está a tocar. - -_Electra_ - -Só tenho que pôr o chapeu. Meio minuto, tio. (_Entra correndo em casa_) - - -SCENA V - - MARQUEZ E URBANO - -_Marquez_ - -Temos de pôr dia para o casamento, e de fazer escriptura de consentimento -em regra. - -_Urbano_ - -Será talvez melhor que você trate de tudo directamente com minha mulher. - -_Marquez_ - -Mas, meu amigo, chegou o momento de fazer frente a certas ingerencias que -annullam a sua auctoridade de chefe de familia. - -_Urbano_ - -Meu caro de Ronda, peça-me você que altere, que transtorne todo o systema -planetario, que tire os astros d’aqui assim e que os ponha para acolá; -mas não peça coisa nenhuma que seja contraria ao parecer de minha mulher. - -_Marquez_ - -Homem, isso tambem lá me parece submissão de mais!... Eu pela minha parte -insisto em que devo tratar este negocio particularmente com você e não -com Evarista. - -_Urbano_ - -Vamos á missa e depois falaremos. - -_Marquez_ - -Pois vamos lá, eu tambem vou. - - -SCENA VI - - OS MESMOS, ELECTRA, EVARISTA E PANTOJA - -_Electra_ - -(_de chapeu, luvas, livro de missa_) Pronta. - -_Urbano_ - -Vamos. O Marquez vae comnosco. - -_Evarista_ - -(_pelo fundo, á esquerda, seguida de Pantoja_) Vão ligeiros. - -_Pantoja_ - -Depressa, se querem chegar. - -_Evarista_ - -O marquez volta? - -_Marquez_ - -Infalibillissimamente, minha senhora. - -_Evarista_ - -Até logo. (_Saem Electra, o marquez e Urbano pelo fundo, á esquerda_) - - -SCENA VII - - EVARISTA E PANTOJA, que com mostras de cansaço e desalento se - atira para o banco da esquerda, primeiro plano. - -_Evarista_ - -Entramos? - -_Pantoja_ - -Perdão: deixe-me respirar por um momento. Na egreja abafava-se... com o -calôr, com o apertão de gente... - -_Evarista_ - -Vou-lhe mandar vir alguma coisa fresca... (_chamando_) Balbina! - -_Pantoja_ - -Não, obrigado. - -_Evarista_ - -Uma taça de tilia... - -_Pantoja_ - -Tambem não. (_Na occasião de Balbina sahir, a senhora dá-lhe a mantilha, -que acaba de tirar, e o livro de missa_) - -_Evarista_ - -Não ha motivo, emquanto a mim, para nos affligirmos tanto... - -_Pantoja_ - -Não é, como querem dizer, o meu orgulho; é n’um ponto mais delicado e -mais profundo que eu me sinto ferido. Nega-se-me a consolação e a gloria -de dirigir essa creatura e de a levar commigo pelo caminho do bem. E vejo -com grande magoa que você, tão affecta aos meus principios, e que eu -considerava uma fiel amiga e uma fervorosa alliada, me abandona na hora -critica. - -_Evarista_ - -Perdoe-me, D. Salvador. Eu não o abandono. Estavamos inteiramente de -accordo, com relação a Electra, em guardal-a por algum tempo—nunca se -tratou de a encerrar para sempre—em S. José da Penitencia, attendendo á -disciplina e purificação d’aquella casa... Mas surge agora repentinamente -esta inesperada veneta de Maximo, e eu não posso, realmente, não posso de -modo nenhum recusar o meu consentimento... É uma loucura? será... Mas de -Maximo, como homem de honrado e correcto procedimento, que tem que dizer? - -_Pantoja_ - -Nada. (_corrigindo-se_) Isto é: alguma coisa poderia talvez... Mas, por -agora, o que unicamente digo é que Electra não está preparada para o -casamento, não tem aptidão para eleger marido... Não reprovo em absoluto -que se case, quando seja com um homem cujas ideias a não pervertam... -Mas este ponto é para mais tarde... O essencial n’este momento é que -essa tenra creatura entre quanto antes no sagrado asylo, onde nos cumpre -estudar, com o tacto mais subtil e mais carinhoso, a configuração do seu -caracter, as suas predilecções, as suas tendencias, os seus affectos; -e em vista do que observarmos, fundamentadamente e seguramente depois -d’este prévio exame, resolveremos... (_Altaneiro_) Que ha que dizer a -isto?—pergunto eu agora. - -_Evarista_ - -(_acobardada_) O que digo é que para esse plano... na realidade -perfeito... eu não posso, não ouso offerecer-lhe a minha cooperação. - -_Pantoja_ - -(_com arrogancia, passeando_) De modo que, segundo os seus caridosos -principios, se Electra se quer perder, que se perca!... que importa?... -Se ella quer condemnar a sua alma, que a condemne!... Que temos nós com -isso? - -_Evarista_ - -(_com maior timidez, suggestionada_) Perder-se! condemnar-se! E está -porventura na minha mão evital-o? - -_Pantoja_ - -(_com energia_) Está. - -_Evarista_ - -Oh! não... Não tenho a audacia de intervir... E com que direito?... -Impossivel, Salvador, impossivel... - -_Pantoja_ - -(_affirmando mais a sua auctoridade_) Saiba, minha amiga, que o acto -de apartar Electra de um mundo nefasto, em que por todos os lados a -rodeiam appetites e voracidades ferozes, não é um despotismo: é o amor -na expressão mais alta e mais pura do carinho paternal. Ainda por acaso -ignora, Evarista, que o fim supremo e unico da minha vida não é hoje -outro senão o bem d’esta menina? - -_Evarista_ - -(_acobardando-se mais_) Bem sei que é assim. - -_Pantoja_ - -(_com effusão_) Eu amo Electra com um amor que as grosseiras palavras -do homem não podem definir. Desde que os meus olhos a viram, a voz -do sangue me bradou do mais fundo do meu ser que essa creatura me -pertence... Quero têl-a, e devo têl-a, santamente, debaixo do meu dominio -paternal... Quero que ella me ame como os anjos amam... que seja a pura -imagem da minha crença, o limpido espelho do meu eterno ideal... que -se reconheça obrigada a padecer por aquelles que lhe deram a vida, e -purificando-se pela mortificação, nos ajude a nós, que fômos maus, a -alcançar o perdão de Deus... Não comprehende estas coisas, Evarista? - -_Evarista_ - -(_abatida_) Comprehendo-as e profundamente admiro a elevação do seu -entendimento. - -_Pantoja_ - -Menos admiração e mais eficacia em meu auxilio é o que lhe peço. - -_Evarista_ - -Não posso... (_Senta-se chorosa e abatida_) - -_Pantoja_ - -É bem natural que Electra lhe não mereça o mesmo interesse que tão -profundamente me inspira a mim. (_Empregando suavidades de persuasão_) -Convenho em que n’estes primeiros tempos lhe tenha de pesar algum tanto -o seu brusco apartamento das alegrias mundanas, mas muito rapidamente se -adaptará á dôce paz, á venturosa quietação do claustro... Eu a dotarei -amplissimamente. Tudo quanto tenho será para ella, para o esplendor da -sua santa casa... Será nomeada Superiora, e sob a minha auctoridade, e -pelo meu conselho, governará a congregação... (_Com profunda commoção_) -Que celestial ventura, meu Deus! Que felicidade para ella, e para mim! -(_Fica-se como em extase_) - -_Evarista_ - -Comprehendo que por não acceder ao que deseja de mim eu privo talvez -uma creatura de chegar ao estado mais perfeito da condição humana... -Conhece bem os meus sentimentos, Salvador... Sabe com quanto prazer -eu trocaria sem vacillar toda a opulencia em que vivo pela gloria de -dirigir obscuramente uma modesta casa religiosa do maior trabalho e da -maior humildade! Sempre o admirei pela sua larga protecção a S. José da -Penitencia, e subiu de ponto essa admiração quando soube que redobrou o -seu auxilio desde a occasião em que a minha pobre Eleuteria foi procurar -n’esse instituto o esquecimento, a paz e o perdão dos seus erros de amor, -como os de Magdalena. N’esse acto da vida do rico snr. de Pantoja se me -revelou a espiritualidade mais pura a que se pode elevar um homem. - -_Pantoja_ - -Sim: desde que a sua desventurada prima deu entrada n’aquelle sagrado -asylo, a minha protecção não sómente se tornou mais positiva mas ainda -mais espiritual. Nunca, nunca mais tornei a pôr os meus olhos em -Eleuteria depois de convertida, porque de ninguem—nem de mim!—ella se -tornou a deixar vêr desde que lhe cortaram os cabellos e lhe botaram -o escapulario. Mas eu ia quotidianamente á egreja; e invisivel do -côro, n’um recanto da nave, praticava em espirito com a penitente, -considerando-a tão perfeitamente regenerada como eu proprio o estava. -Morreu a infeliz aos quarenta e cinco annos da sua edade. Então obtive -o consentimento de uma sepultura no interior do edificio. E desde esse -dia não protegi mais a congregação, tornei-a inteiramente minha, porque -n’ella repousavam debaixo da pedra de uma campa os restos d’aquella que -eu amei. Juntára-nos o peccado, reunia-nos o arrependimento, ella na paz -da morte, eu na tempestuosa provação da vida... - -_Evarista_ - -E ainda agora aquelle a que bem podemos chamar o senhor e o reformador -do convento, todos os dias, sem excepção de um unico, visita aquella -santa casa e se ajoelha no cemiterio humilde e docemente poetico, onde as -monjas dormem o somno eterno. - -_Pantoja_ - -(_vivamente_) Sabia isso? - -_Evarista_ - -Sabia... E que no claustro, silencioso e florido, entre loendros e -cyprestes... - -_Pantoja_ - -É certo... quem lh’o disse? - -_Evarista_ - -...vagueia, como um propicio phantasma da saudade, o sombrio fundador -d’aquella casa, implorando de Deus o descanço d’ella e o seu. - -_Pantoja_ - -Sim... Ali repousarão tambem os meus pobres ossos. (_Com vehemencia_) -Quero, além d’isso, que assim como em espirito eu me não aparto por um -só momento d’aquella casa, ahi passe tambem, pelo tempo que fôr preciso, -o espirito de Electra... Não a violentarei á vida claustral; mas se, -experimentando essa existencia, e apreciando o seu incomparavel sabor, -ella deliberasse persistir na clausura, eu acreditaria então que Deus -me destinara para a mais ineffavel graça. Ali as cinzas adoradas da -peccadora redimida; ali, na candida alvura do seu habito de noviça, a -minha filha; ali eu, pedindo a Deus para ellas a gloria eterna. E na -morte, o escondido e imperturbado repouso na mesma terra amada,—todos os -meus amores commigo e todos nós em Deus... - -_Evarista_ - -(_com viva commoção_) Perfeita grandeza, por certo... Idealidade -incomparavel. - -_Pantoja_ - -Duvída ainda de que o meu pensamento seja o mais elevado? De que me não -move nenhuma paixão ruim? - -_Evarista_ - -Como quer que duvíde? - -_Pantoja_ - -Pois se com effeito lhe parece bello o meu plano, porque me não ajuda a -realisal-o? - -_Evarista_ - -Porque me não considero com poderes para isso. - -_Pantoja_ - -Nem assegurando-lhe eu que a reclusão de Electra terá um caracter -provisorio? - -_Evarista_ - -Nem assim. Não, D. Salvador, não conte commigo... (_luctando com a sua -consciencia_) Reconheço toda a elevação, toda a formosura das suas -ideias... D’ellas sinto um ecco suave e acariciador na minha propria -alma. Mas—que quer, meu bom amigo—vivo no mundo em que Deus me collocou: -tenho tambem para com este mundo deveres sagrados. Dêvo-me, com aquelles -que me rodeiam, á vida social; e na vida da sociedade e da familia o seu -projecto é... como lh’o direi, sem o magoar?... é uma anomalia angelica. - -_Pantoja_ - -(_dissimulando o seu enfado_) Bem. Paciencia... (_Passeia caviloso e -sombrio_) - -_Evarista_ - -(_depois de uma pausa_) Em que pensa? Desiste? - -_Pantoja_ - -(_com naturalidade e firmeza_) Não, minha senhora. - -_Evarista_ - -Qual então o seu projecto? - -_Pantoja_ - -Não sei... Ha de acudir-me uma ideia... Pensarei... (_Resolvendo-se_) -Minha cara amiga, quer fazer-me o favor de escrever uma carta á superiora -da Penitencia? - -_Evarista_ - -Dizendo-lhe...? - -_Pantoja_ - -Que venha aqui immediatamente, com duas irmãs, n’uma carruagem. - -_Evarista_ - -Porque lhe não escreve directamente? - -_Pantoja_ - -Porque tenho de acudir a outras coisas. - -_Evarista_ - -Quer já? - -_Pantoja_ - -O mais breve possivel... - -_Evarista_ - -Bem. (_Dirige-se para casa_) - -_Pantoja_ - -Peço-lhe que mande a carta sem perda de tempo. - -_Evarista_ - -(_olhando do alto da escada para o jardim_) Creio que elles ahi vem. - -_Pantoja_ - -Depressa a carta, minha cara amiga. - -_Evarista_ - -Vae já... Deus nos inspire a todos. (_Entra em casa_) - -_Pantoja_ - -Lá vou ter. (_Áparte_) Que me não vejam! (_Esconde-se atraz do macisso da -direita junto da escada_) - - -SCENA VIII - - PANTOJA, occulto; ELECTRA, URBANO, MARQUEZ, que voltam da - missa—PATROS, que desce de casa. - -_Electra_ - -(_adeantando-se encontra-se com Patros junto da escada_) Veio? - -_Patros_ - -Não, senhorita. (_Ouve-se o canto afastado dos meninos que brincam no -jardim_) - -_Electra_ - -Morro de impaciencia. (_Tira o chapeu e as luvas, que entrega a Patros -com o livro de missa_) Vou brincar com os pequenos emquanto espero... -Não... Vou apanhar flôres. (_Colhe algumas no macisso da esquerda_) - -_Urbano_ - -(_a Patros_) A senhora? - -_Patros_ - -Em casa. - -_Marquez_ - -Vamos ter com ella. - -_Urbano_ - -Vamos a isso. (_Entram em casa. Patros segue-os_) - -_Electra_ - -(_admirando as flôres que acaba de cortar_) Que lindos, que graciosos -rainunculos! (_Pantoja apparece e Electra assusta-se ao vêl-o_) Ai! - - -SCENA IX - - ELECTRA E PANTOJA - -_Pantoja_ - -Assim te assusto, minha filha? - -_Electra_ - -É verdade... Não posso evital-o... Que quer? Bem sei que não devia, e que -não tenho de que ter medo... Perdôe-me por quem é, D. Salvador... Vou -jogar ao côrro com os pequenos... - -_Pantoja_ - -Um momento. Vaes aos meninos para que elles te dêem da sua alegria? - -_Electra_ - -Não, hoje não; vou repartir com elles da que trasborda da minha alma. -(_Afasta-se o canto de roda dos meninos_) - -_Pantoja_ - -Já sei a causa d’essa grande alegria, já a sei... - -_Electra_ - -Uma vez que sabe, não tenho então que lhe contar. Até logo snr. de -Pantoja. - -_Pantoja_ - -Ingrata! Concede-me um instante... - -_Electra_ - -Um instantinho só? - -_Pantoja_ - -Unicamente. - -_Electra_ - -Bom. (_Senta-se no banco de pedra. Colloca a um lado as flôres e vae -escolhendo aquellas com que se touca, mettendo-as no cabello_) - -_Pantoja_ - -Não sei porque tens reservas commigo sabendo quanto me interesso pela tua -felicidade e pela tua vida... - -_Electra_ - -(_sem olhar para elle, attenta ás flôres_) Pois, se o interessa a minha -felicidade, alegre-se commigo: sou a creatura feliz. - -_Pantoja_ - -Feliz hoje. E amanhã? - -_Electra_ - -Amanhã mais feliz do que hoje... E sempre mais, sempre o mesmo! - -_Pantoja_ - -A alegria verdadeira e constante, o goso perenne e indestructivel só -existem no amor eterno, superior ás inquietações e ás miserias humanas. - -_Electra_ - -(_adornado o cabello, põe flôres no seio e no cinto_) Toca-me outra vez -no antigo registro de que tenho de ser anjo... Sou uma pobre pessoasinha -summamente terrestre, D. Salvador. Deus fez-me para mulher, e botou-me a -este mundo. Já vê que, se estou aqui, é porque elle não precisava de mim -para o ceu n’esta occasião. - -_Pantoja_ - -Ha tambem anjos na terra, minha filha. Anjos são todos aquelles que no -meio das desordens da materia sabem viver a pura vida do espirito. - -_Electra_ - -(_mostrando o collo e o busto ornados de florinhas. Ouve-se mais perto o -coro dos meninos_) Que tal? não lhe pareço um anjo? - -_Pantoja_ - -Pareces, e quero que o sejas. - -_Electra_ - -Assim me adorno para divertir os meninos. Se visse a graça que elles me -acham! (_Com uma triste ideia subita_) Sabe com que eu me estou parecendo -agora? Com um menino morto. Assim se enfeitam os meninos quando os levam -a enterrar. - -_Pantoja_ - -Para symbolisar a ideal belleza do ceu para onde elles vão. - -_Electra_ - -(_arrancando as flôres_) Não, isso não, não quero parecer menina morta. -Dá-me a ideia de que vem o snr. de Pantoja para me levar á sepultura! - -_Pantoja_ - -Oh! eu não te quero enterrada. Quereria rodear-te de luz. (_Vae -esmorecendo e cessa de todo o côro dos meninos_) - -_Electra_ - -Tambem se põem luzes aos meninos mortos. - -_Pantoja_ - -Não quero a tua morte, quero a tua vida; não a vida inquieta e vulgar, -mas dôce, livre, elevada, amorosa, com um eterno e puro amor divino. - -_Electra_ - -(_Confusa_) E porque é que me deseja tudo isso? - -_Pantoja_ - -Porque te quero muito, com um amor mais excelso que todos os amores -humanos. Melhor comprehenderás a grandeza d’este affecto, dizendo-te que -para evitar-te a mais leve dôr eu tomaria para mim os mais espantosos -tormentos que se possam imaginar. - -_Electra_ - -(_estonteada, sem entender bem_) É o cumulo da abnegação uma coisa -d’essas. - -_Pantoja_ - -Considera agora quanto soffrerei por não poder evitar um desgostosinho, -um dissabor, que te vou dar. - -_Electra_ - -A mim? - -_Pantoja_ - -A ti mesma. - -_Electra_ - -Um desgosto? - -_Pantoja_ - -Desgosto que mais me afflige por ter de ser eu que t’o cause. - -_Electra_ - -(_rebelando-se, levanta-se_) Desgostos! Não os quero. Não os acceito. -Guarde-os. Que ninguem hoje me traga senão alegrias! - -_Pantoja_ - -(_condoído_) Bem quizera dar-t’as, mas não posso. - -_Electra_ - -Que terror que tenho! (_Com subita ideia que a tranquillisa_) Ah! já -sei... Pobre D. Salvador!... É que me quer dizer mal de Maximo... Alguma -coisa que lhe parece mal, mas que a mim me parece bem... Escusa de se -cançar porque nem me convence nem o acredito. (_Precipitando-se na -emissão das palavras sem dar tempo a que Pantoja fale_) Maximo é o maior -e o melhor homem do mundo, é o primeiro, e todo aquelle que me disser -uma palavra contraria a esta verdade, mente, e detesto-o pela mentira, e -detesto-o... - -_Pantoja_ - -Por Deus, minha filha! Não te arrebates assim... Ouve. Eu não digo -mal de ninguem, nem dos que me odeiam. Maximo é bom, é trabalhador, é -intelligentissimo... Que mais queres? - -_Electra_ - -(_satisfeita_) Assim, continue assim... Vae dizendo muito bem. - -_Pantoja_ - -Digo mais ainda: que podes amal-o, que deves amal-o... - -_Electra_ - -(_com alegria_) Ah! - -_Pantoja_ - -Amal-o entranhadamente... (_Pausa_) A culpa não é d’elle, não é... - -_Electra_ - -(_assustada outra vez_) Querem vêr que ainda acaba por lhe attribuir -maldades? - -_Pantoja_ - -A elle não. - -_Electra_ - -Então a quem? (_Recordando-se_) Ah! adivinho: o snr. de Pantoja e o pae -de Maximo foram implacaveis inimigos. Tambem me disseram já que esse -senhor de Yuste, honradissimo nos seus negocios, foi, talvez, um pouco -demais galanteador e mundanario... Mas que me importa isso? - -_Pantoja_ - -Pobre innocente! não sabes o que dizes. - -_Electra_ - -Digo que esse excellente homem... - -_Pantoja_ - -Lazaro Yuste, sim... Ao nomeal-o tenho de associar a sua triste memoria á -de uma pessoa que já não vive... muito querida de ti... - -_Electra_ - -(_comprehendendo e não querendo comprehender_) De mim! - -_Pantoja_ - -Que morreu, e a quem tu muito queres. (_Pausa. Olham um para o outro_) - -_Electra_ - -(_com terror e em voz apenas perceptivel_) Minha mãe! (_Pantoja faz um -signal affirmativo_) Minha mãe! (_Attonita, desejando e temendo uma -explicação_) - -_Pantoja_ - -Chegaram os dias de perdão. Perdoemos. - -_Electra_ - -(_indignada_) Minha mãe, a minha pobre mãe! Não falam d’ella senão para -a deshonrar, para a denegrir... E ultrajam-a aquelles mesmos que a -envilleceram! Pudesse eu tel-os a todos na mão para os desfazer, para os -destruir, para não deixar d’elles nem uma migalha assim! - -_Pantoja_ - -Terias que principiar por Lazaro Yuste. - -_Electra_ - -O pae de Maximo! - -_Pantoja_ - -O primeiro depravador da desgraçada Eleuteria. - -_Electra_ - -Quem é que o diz? - -_Pantoja_ - -Quem o sabe. - -_Electra_ - -E... (_Fixam-se nos olhos. Electra não se atreve a expôr a sua ideia_) - -_Pantoja_ - -Triste de mim!... Não deveria falar-te d’isto. Dera para o esconder todos -os dias que me restam de vida. Comprehenderás que não podia ser... O meu -amor por ti ordena-me que fale. - -_Electra_ - -(_angustiada_) Meu Deus! e ter eu de ouvil-o! - -_Pantoja_ - -Disse eu que foi Lazaro Yuste... - -_Electra_ - -(_tapando os ouvidos_) Não quero, não quero ouvir. - -_Pantoja_ - -Tinha então tua mãe a edade que tens agora: desoito annos... - -_Electra_ - -Não acredito, não acredito... - -_Pantoja_ - -Era uma jovem senhora encantadora, quasi uma creança, que supportou com a -mais corajosa dignidade o horror d’aquella vergonha... - -_Electra_ - -(_rebelando-se com energia_) Cale-se! Cale-se! - -_Pantoja_ - -A vergonha do nascimento de Maximo. - -_Electra_ - -(_apavorada, com o rosto demudado, recua cravando os olhos em Pantoja_) -Ah! - -_Pantoja_ - -Procurando com discrição attenuar a affronta da sua victima, Lazaro -occultou o menino e levou-o misteriosamente comsigo para França. - -_Electra_ - -A mãe de Maximo foi uma senhora franceza: Josephina Perret. - -_Pantoja_ - -Mãe adoptiva. - -_Electra_ - -(_tapando os olhos com ambas as mãos_) Divino Jesus! É o ceu que desaba... - -_Pantoja_ - -(_condoído_) Filha da minha alma, volve para Deus os teus olhos. - -_Electra_ - -(_demudada_) É um sonho... Tudo o que estou vendo é illusão, é mentira. -(_Olhando espantadamente para uma parte e para outra_) Mentira estas -arvores, esta casa, este ceu... Mentira tu! tu! tu, que não existes, -monstro d’um pesadelo horrivel!... (_Com os punhos na cabeça_) Acorda, -desgraçada, acorda! - -_Pantoja_ - -(_tentando socegal-a_) Electra, querida Electra! Pobre innocente! - -_Electra_ - -(_com um grito d’alma_) Mãe, minha mãe!... A verdade, dize-me a -verdade... (_Fóra de si percorre a scena_) Onde estás, mãe?... Quero -a morte ou a verdade... Minha mãe! minha mãe!... (_Sae pelo fundo, -perdendo-se na longinqua espessura das arvores. Ouve-se proximo o canto -dos meninos jogando ao côrro_) - - -SCENA X - - PANTOJA, URBANO, MARQUEZ, vindos de casa, á pressa. Depois - d’elles BALBINA E PATROS - -_Urbano_ - -Que é? - -_Marquez_ - -Ouvimos gritar Electra. - -_Balbina_ - -Foi a correr pelo jardim. - -_Patros_ - -Por aqui. (_As duas creadas assustadas correm e internam-se no jardim_) - -_Marquez_ - -(_olhando por entre as arvores_) Lá vae correndo... Continúa a gritar... -Pobre Electra! (_Adeanta-se para o jardim_) - -_Urbano_ - -Que foi isto? - -_Pantoja_ - -Eu lh’o direi... Um momento... Providenciemos antes de mais nada... - -_Urbano_ - -O quê? - -_Pantoja_ - -(_procurando coordenar as suas ideias_) Deixe-me pensar... Trazel-a para -casa já... Ir buscal-a... Vá! - -_Urbano_ - -(_olhando para o jardim_) Lá está já o meu sobrinho... - -_Pantoja_ - -(_contrariado_) Em que má hora! - -_Urbano_ - -Correm para elle os meninos... Parece que o informam... Electra -foge-lhe... Não o quer vêr... Mette-se na gruta... O Marquez intervem... -Pobre Maximo! - -_Pantoja_ - -Vá! vá ter com elles!... Não deixe que Maximo intervenha... - -_Urbano_ - -Que balburdia! (_Interna-se no jardim_) - -_Pantoja_ - -Se eu podesse... (_hesitante em ir e não ir_) - -_Balbina_ - -(_voltando pressurosa do jardim_) Pobre menina! Chama aos gritos pela sua -mãe... Sentou-se agarrada aos meninos á porta da gruta, e ninguem a tira -d’ali... - -_Pantoja_ - -E Maximo? - -_Balbina_ - -Muito inquieto, sem saber o que ha de fazer, como todos nós... Vou chamar -a senhora... - -_Pantoja_ - -Não, não vá. Já chegaram a senhora superiora e as irmãs de S. José? - -_Balbina_ - -Já, sim senhor, chegaram agora. - -_Pantoja_ - -Não diga nada á senhora. Vá para casa e espere por mim. - -_Balbina_ - -Sim, senhor. (_Sobe para casa_) - -_Pantoja_ - -(_indeciso e como assustado_) Não sei que faça... Pela primeira vez na -minha vida hesito... Irei?... Esperarei aqui? (_resolvendo-se_) Vou. (_A -poucos passos encontra-se com Maximo, agitado e colerico, que vem do -jardim e o detem_) - - -SCENA XI - - PANTOJA E MAXIMO - -_Maximo_ - -(_ardentemente em toda a scena_) Alto!... Diz-me o marquez de Ronda que -d’aqui, depois de uma demorada conversação comsigo, sahiu Electra no -delirio em que está. - -_Pantoja_ - -(_perturbado_) Aqui... de certo... falamos... A senhorita Electra... - -_Maximo_ - -Foi mordida pelo monstro. - -_Pantoja_ - -Talvez... mas o monstro não sou eu. É um mais terrivel, que se alimenta -de factos e que se chama a Historia. (_Querendo ir-se_) Adeus. - -_Maximo_ - -(_agarrando-o fortemente por um braço_) Espere. Primeiro vae repetir -aqui, já, immediatamente, o que foi que disse a Electra esse seu monstro -da Historia... - -_Pantoja_ - -(_sem saber que dizer_) Eu... convém assentar préviamente que... - -_Maximo_ - -Nada de preambulos... Quero aqui a verdade, concreta, exacta, precisa... -Electra foi offendida de um modo tão profundo que lhe alterou a razão... -Com que palavras, com que suggestões? Preciso de sabel-o prontamente. -Trata-se da mulher que é tudo para mim no mundo. - -_Pantoja_ - -Para mim é mais: é o ceu e a terra. - -_Maximo_ - -Quero saber, n’este mesmo instante, que horrivel maquinação foi esta, -urdida por si, contra essa menina, contra mim, contra nós ambos -eternamente unidos pela effusão das nossas almas. Com que baba se -envenenou aquella a quem eu posso e devo chamar desde já a minha legitima -mulher? Que responde? - -_Pantoja_ - -Nada. - -_Maximo_ - -(_acommette-o explodindo em colera_) Pois por esse infame silencio, -mascara impudente e abjecta de um egoismo tão grande que não cabe no -mundo; por essa virtude não sei se falsa, se verdadeira, que da sombra -desfere o raio que nos aniquilla; (_agarra-o pela garganta e derriba-o no -banco_) por essa doçura que envenena, por essa suavidade que estrangula, -Deus te confunda, homem grande ou miseravel reptil, aguia, serpente, ou o -que sejas! - -_Pantoja_ - -(_recobrando alento_) Que brutalidade! que infamia! que demencia! - -_Maximo_ - -Bem sei. Estou doido... (_Recompondo-se_) E quem é que dispõe assim do -poder diabolico de desvirtuar o meu caracter, arrastando-me a esta colera -insensata, fazendo-me o estupido aggressor de um ente debil e mesquinho, -incapaz de responder á força com a força? - -_Pantoja_ - -(_tomando aprumo_) Com a força te respondo. (_Voltando á sua condição -normal, exprimindo-se com serenidade sentenciosa_) Tu és a força do -musculo, eu a força da alma. (_Maximo olha para elle, attonito e -confuso_) Posso mais do que tu, infinitamente mais. Duvídas? - -_Maximo_ - -De que póde mais? - -_Pantoja_ - -A ira suffoca-te, e cega-te o orgulho. Eu, injuriado e escarnecido, -recobro a serenidade. Tu não. Tu tremes. Tu, que te julgas a força, tu, -Maximo, tremes! - -_Maximo_ - -É a ira. Não a provoque. - -_Pantoja_ - -Nem a provoco nem a temo. (_Cada vez mais senhor de si_) Tu maltratas-me. -Eu perdôo-te. - -_Maximo_ - -Que me perdôa a mim! (_iracundo_) Mas é para o homicidio que assim me -empurra! - -_Pantoja_ - -(_com serena e fria gravidade, sem jactancia_) Enfurece-te, grita, -bate-me... Aqui me tens inabalavel e indifferente... Não ha força humana -que me dobre nem poder nenhum da terra que me afaste do meu caminho. -Injuria-me, fere-me, mata-me: não me defendo. O martyrio não me repugna. -Póde a violencia destruir o meu pobre corpo, que nada vale. Mas o que -está aqui (_na sua mente_) é indestructivel. Na minha vontade só um poder -impera: o de Deus. E se a minha vontade se extinguir na morte, a ideia -que sustento lhe sobreviverá, triumphante e eterna. - -_Maximo_ - -Não póde ter ideias grandes quem não tem grandeza, nem piedade, nem -ternura, nem compaixão. - -_Pantoja_ - -O meu fim é mais alto que todos os raciocinios. Para elle me dirijo por -qualquer caminho que se me depare. - -_Maximo_ - -(_aterrado_) Por qualquer caminho!? Para ir para Deus não ha senão um: o -da Bondade Humana. (_Com exaltação_) Deus do ceu! tu não pódes permittir -que ao teu reino se chegue por lobregas e tortuosas alfurjas, nem que -á tua gloria se suba calcando os corações que te amam... Não; Deus não -permitte isso. Vêr tal absurdo seria vêr toda a Natureza em ruina, toda a -maquina do Universo destruida e aniquillada. - -_Pantoja_ - -Estás offendendo Deus com as tuas palavras blasphemas. - -_Maximo_ - -Mais o offendes tu com os teus actos sacrilegos. - -_Pantoja_ - -Basta. Não disputo comtigo. Não tenho mais que dizer-te. - -_Maximo_ - -Não tem mais? Se ainda me não disse nada! (_Segura-o vigorosamente por um -braço_) Vamos d’aqui ter com Electra, e, na presença d’ella, ou esclarece -as minhas dúvidas e me tira da anciedade horrivel em que estou, ou ahi -morre, e morro eu, e morreremos todos trez. Assim lh’o juro pela memoria -de minha mãe. - -_Pantoja_ - -(_depois de o encarar fixamente_) Vamos. (_Ao darem os primeiros passos -sae Evarista de casa_) - - -SCENA XII - - OS MESMOS, EVARISTA E PATROS. Atraz d’Evarista a superiora e as - duas irmãs de S. José - -_Evarista_ - -Que succedeu, Maximo?... Que colera é essa? - -_Maximo_ - -É este homem que me enlouquece... Venha, tia, venha tambem comnosco... -(_Vendo a superiora e as irmãs, amedrontado_) Que mulheres são aquellas? -Que querem essas senhoras? (_Chega Patros do jardim, correndo_) - -_Patros_ - -(_pesarosa, choramigando_) Minha senhora, a senhorita enlouqueceu... -Corre, foge, desapparece, chamando em gritos por sua mãe... Não quer que -a consolem... não ouve, não vê ninguem, não conhece ninguem! - -_Evarista_ - -(_caminhando para o jardim_) Filha da minh’alma! - -_Maximo_ - -(_olhando para o jardim_) Ahi vem. (_Larga Pantoja e dirige-se a ella_) - -_Patros_ - -O senhor e o snr. Marquez conseguiram convencel-a e trazem-a para casa... -(_Apparece Electra conduzida pelo marquez e por Urbano. Junto d’elles, -Maximo. Ao vêr os que estão em scena Electra oppõe alguma resistencia. -Suave e carinhosamente a obrigam a approximar-se. Traz o cabello e o seio -adornado de flôrzinhas_) - - -SCENA XIII - - ELECTRA, MAXIMO, EVARISTA, PANTOJA, URBANO, MARQUEZ E PATROS - (Conservam-se na scena a superiora e as irmãs) - -_Evarista_ - -Deliras, minha pobre filha! - -_Maximo_ - -Ouve, minh’alma, vem, escuta. O meu carinho será a tua razão. - -_Electra_ - -(_afasta-se de Maximo com um movimento de pudor. O seu delirio é sereno, -sem gritos, sem risadas. Manifesta-o com uma accentuação de dôr resignada -e melancolica_) Não te approximes. Não te pertenço. Já não sou tua. - -_Maximo_ - -Porque me foges? para onde vaes sem mim? - -_Pantoja_ - -(_que passou para a direita, junto de Evarista_) Para a eterna verdade, -para a inalteravel paz. - -_Electra_ - -Vou por minha mãe. Sabem onde está minha mãe?... Vi-a no côrro dos -meninos... Foi depois até a mimosa que está á entrada da gruta... E eu a -seguil-a sem a alcançar... Olhava para mim e fugia... (_Ouve-se ao longe -o canto dos meninos_) - -_Marquez_ - -Aqui está Maximo... Olhe... É o seu noivo. - -_Maximo_ - -(_vivamente_) Serei o teu marido... Ninguem se oppõe, e não ha força -nenhuma que o empeça, Electra, minha vida. - -_Electra_ - -(_impondo silencio_) Quem fala aqui de noivos e noivas? Quebradas as -festas do noivado: não ha bôda... Que tristeza a da minha alma!... Só ha -padres com tochas a rezar por defuntos... Que grande é o mundo, e que só -que está! que vazio!... Acima da terra, pelo ceu, passam nuvens negras, -que são illusões, as illusões que foram minhas e não são de ninguem -agora... as illusões sem dôno!... Que solidão!... Tudo escurece, tudo -chora... Vae acabar o mundo... vae acabar. (_Com arrebatamento de medo_) -Quero fugir, quero-me esconder. Não quero padres, não quero tochas, não -quero officios... Quero ir para a minha mãe... Onde m’a enterraram?... -Levem-me á pedra da sua campa, e ali juntas, nós ambas, minha mãe e eu, -lhe direi as penas da minha alma, e ella me dirá verdades... verdades! - -_Pantoja_ - -(_áparte, a Evarista_) É a occasião. Aproveitemol-a. - -_Evarista_ - -Vem, minha filha, nós te levaremos á quietação e á paz. - -_Maximo_ - -Não: o descanso e a razão estão aqui. Electra é minha... (_Evarista -procura leval-a_) Exijo-a. - -_Electra_ - -Adeus, Maximo... Já te não pertenço: pertenço á minha dôr... A minha mãe -chama-me para o seu lado... (_Extactica, anciosa, prestando uma attenção -intensissima_) Ouço-lhe a voz... - -_Maximo_ - -A voz! - -_Electra_ - -Silencio, que me chama! (_delirando de alegria_) que está chamando por -mim! - -_Evarista_ - -Torna a ti, meu amor! - -_Electra_ - -Não ouviram? Não ouvem?... Lá vou, mamãsinha, lá vou! (_Corre para o alto -da escada_) Vamo-nos! (_A Maximo, que quer seguil-a_) Eu só... É por mim -só que chama. Tu não... Para estar sósinha commigo... Não ouves a voz -d’ella dizendo: Eleectra! Eleeeectra!... Vou vêl-a, vou falar-lhe... -(_Vae entrando na casa com Evarista e Pantoja_) - -_Maximo_ - -Que iniquidade e que horror! Para m’a roubarem, enlouqueceram-na. (_Quer -desprender-se dos braços de Urbano e do marquez_) - -_Marquez_ - -(_contendo-o_) Não enlouqueças tambem tu. - -_Urbano_ - -Socega! - -_Marquez_ - -Descansa, que eu te asseguro que a recobraremos! - -_Maximo_ - -Amarrem-me! Levem-me manietado para a solidão, para a sciencia, para a -verdade. Este mundo incerto, mentiroso e iniquo, não é para mim! - - FIM DO QUARTO ACTO - - - - -ACTO QUINTO - - Sala do locutorio em S. José da Penitencia. Portas lateraes. - - Ao fundo uma grande janela d’onde se vê o claustro. - - -SCENA I - - EVARISTA E SOROR DOROTHÊA - -_Evarista_ - -(_entrando com a freira_) D. Salvador...? - -_Dorothêa_ - -Chegou ha um momento: está no escritorio com a superiora e com a madre -escrivã. - -_Evarista_ - -Então Urbano lá irá ter com elle... Emquanto esperamos, dê-me noticias de -Electra... Foi muito feliz a escolha que fizeram de si, irmã Dorothêa—tão -sympathica e tão dôce—para a acompanhar, para viver com ella, para ser a -sua amiga e a sua confidente... - -_Dorothêa_ - -Electra não me quer mal, e é talvez certo que por essa razão algum tanto -contribuirei para a socegar. - -_Evarista_ - -(_aponta para a cabeça_) E como está ella de...? - -_Dorothêa_ - -Bem. Recuperou inteiramente a razão, e não tem nenhum vestigio de -delirio, a não ser ainda aquella ideia fixa de querer vêr a mãe, de lhe -falar, de ter d’ella a solução das suas dúvidas. Todo o tempo que tem -livre das obrigações religiosas, e todo o que póde alcançar, o passa -no pateo do nosso cemiterio, e na horta contigua; e tanto ahi como no -dormitorio, sempre a mesma preoccupação a absorve. - -_Evarista_ - -E lembra-se de Maximo? fala d’elle? - -_Dorothêa_ - -Fala: mas nas suas meditações e nas suas rezas a ideia que mais acaricia -é de poder amal-o como um irmão, e, pelo que ainda hoje me disse, espera -conseguil-o. - -_Evarista_ - -Mas é uma ideia apenas! É preciso que a essa ideia se associe o -coração... E bem poderia ser que assim succedesse se a desgraça de antes -d’hontem não viesse alterar o seguimento dos factos... - -_Dorothêa_ - -Uma desgraça!... - -_Evarista_ - -Morreu o nosso velho amigo D. Leonardo Cuesta... - -_Dorothêa_ - -Não sabia... - -_Evarista_ - -Que immensa tristeza para todos nós! Ha dias que se sentia mal, e -presagiava o seu fim. Sahiu na segunda feira muito cêdo, e na rua perdeu -os sentidos. Levaram-o para casa, e ás tres horas da tarde estava morto. - -_Dorothêa_ - -Pobre senhor! - -_Evarista_ - -No testamento nomeia Electra herdeira de metade da sua grande fortuna... - -_Dorothêa_ - -Ah! - -_Evarista_ - -Mas coma expressa condição de que ella abandone a vida religiosa. Sabe se -D. Salvador já terá conhecimento d’isto? - -_Dorothêa_ - -Supponho que sim, porque elle tem conhecimento de tudo, e adivinha o que -não conhece. - -_Evarista_ - -E é verdade! - -_Dorothêa_ - -(_vendo chegar Urbano_) O snr. D. Urbano. - - -SCENA II - - AS MESMAS E URBANO - -_Evarista_ - -Falaste-lhe? - -_Urbano_ - -Sim. Deixei-o a trabalhar no escritorio, com um tino, com uma fixidez -d’attenção, que me assombram. Que homem! - -_Evarista_ - -Já teve noticia das ultimas disposições do pobre Cuesta? - -_Urbano_ - -Já. - -_Evarista_ - -Está contrariado? - -_Urbano_ - -Se está não o mostra. Bem sabes que nem nos casos mais difficeis elle -deixa transparecer as suas commoções... - -_Evarista_ - -(_interrompendo-o com enthusiasmo_) É um espirito d’aguia, que paira -acima de todas as tempestades da terra. - -_Urbano_ - -Interrogando-o a respeito das esperanças que tinha de conservar Electra -no convento, respondeu-me singelamente com uma serenidade pasmosa: -«Confio em Deus». - -_Evarista_ - -Que grandeza d’alma! E sabe que Maximo e o Marquez são os testamenteiros? - -_Urbano_ - -Sabe mais. Recebeu ao meio dia uma carta d’elles annunciando-lhe que -virão esta tarde, acompanhados d’um tabellião, inquirir a menina, para -que declare se acceita ou se renuncia a herança. - -_Evarista_ - -E á vista d’essa communicação...? - -_Urbano_ - -Nada: imperturbavel, como sempre, repetindo a sua conhecida formula, que -o pinta n’um traço: «Confio em Deus». - - -SCENA III - - OS MESMOS, MAXIMO E O MARQUEZ (pela esquerda) - -_Marquez_ - -Esperaremos aqui. - -_Maximo_ - -(_vendo Evarista_) Adeus, tia. (_Sauda-a com affecto_) - -_Evarista_ - -(_respondendo ao cumprimento do marquez_) Então, Marquez... Ha finalmente -esperanças de ganhar a batalha? - -_Marquez_ - -Não sei... Luctamos com féra de muito ardil. - -_Evarista_ - -E a ti, Maximo, que te parece?... - -_Maximo_ - -Que estamos em frente d’um terrivel mestre consummado no embuste. Mas eu -confio em Deus. - -_Evarista_ - -Tambem tu...? - -_Maximo_ - -Naturalmente: em Deus confia todo aquelle que crê na verdade. Combatemos -pela verdade. Como poderiamos suppôr que Deus nos abandone? Não poderia -ser, querida tia. - -_Urbano_ - -Não viste Electra quando atravessaste os claustros? - -_Maximo_ - -Não vi. - -_Dorothêa_ - -(_approximando-se da janela_) Vae passar agora. Vem do cemiterio. - -_Maximo_ - -(_correndo para a janela com Urbano_) Que triste! e que bella! A brancura -do habito dá-lhe o aspecto aereo de uma apparição. (_chamando-a_) -Electra! - -_Urbano_ - -Cala-te. - -_Maximo_ - -Não posso. (_Volta a olhar_) É então certo que vive... É ella que vae ali -na sua realidade primorosa, ou é uma imagem mystica que se despegou d’um -retabulo d’altar para andar pela terra?... Lá volta para traz... levanta -os olhos para o ceu... Se a visse diluir-se no ar, dissipando-se como uma -sombra, não me admiraria... Põe os olhos no chão... Pára... Em que estará -pensando? (_Continua a contemplar Electra_) - -_Marquez_ - -(_que ficou no proscenio com Evarista_) ...Sim, minha senhora: falso, -falsissimo! - -_Evarista_ - -Olhe o que affirma, marquez... - -_Marquez_ - -Affirmo que ou o veneravel D. Salvador se equivoca, ou que disse, -sabendo-o, o contrario da verdade, movido de razões e fins, que não -penetram as nossas limitadas intelligencias. - -_Evarista_ - -É impossivel, marquez... Faltar á verdade um homem tão justo, de tão pura -consciencia, de ideias tão altas! - -_Marquez_ - -E quem nos diz, minha cara amiga, que nos arcanos d’essas consciencias -exaltadas não ha uma lei moral, cujas subtilezas estão longe do nosso -mesquinho alcance? Ha absurdos na vida do espirito como os ha na -natureza, onde vemos inumeros phenomenos cujas causas não são as que se -figuram. - -_Evarista_ - -Não: não posso crer! Ha talvez casos em que a mentira aplana o caminho do -bem. Mas não estamos n’um caso d’esses... Eu por mim, não acredito. - -_Marquez_ - -Para que possa formar o seu juizo, ouça o que lhe vou dizer. A marqueza, -Virginia, assegura-me que de Josephina Perret—sem que n’isto possa haver -mistificação nem equivoco—nasceu este homem que ahi está... E Evarista, -amiga intima de Josephina Perret, prova e demonstra esse facto da -maneira mais simples, mais clara e mais positiva. Além d’isso, eu mesmo -pude comprovar que Lazaro Yuste viveu longe de Madrid desde 1863 até 1866. - -_Evarista_ - -Com tudo isso, marquez, não posso convencer-me de que... - -_Marquez_ - -(_vendo entrar Pantoja pela direita_) Ahi vem elle. - -_Maximo_ - -(_descendo ao proscenio_) Chega o abutre. - -_Dorothêa_ - -Se me dão licença retiro-me. (_Sae pela esquerda. Pantoja permanece um -instante junto da porta_) - - -SCENA IV - - EVARISTA, MAXIMO, URBANO, MARQUEZ E PANTOJA - -_Pantoja_ - -(_adeantando-se vagarosamente_) Meus senhores, desculpem-me tel-os feito -esperar. - -_Maximo_ - -Prevenido do objecto da nossa visita, creio que será inutil expol-o... - -_Marquez_ - -(_benignamente_) Não o repetiremos para não mortificar o snr. de Pantoja, -que deve a estas horas considerar perdida a sua inutil campanha. - -_Pantoja_ - -(_sereno, sem jactancia_) Eu não perco nunca. - -_Maximo_ - -Será adeantar muito. - -_Pantoja_ - -E asseguro que Electra, tendo aprendido já a desprezar os bens da terra, -não acceitará o legado. - -_Evarista_ - -Já vês que este homem não se rende. - -_Pantoja_ - -Não me rendo... nunca, nunca. - -_Maximo_ - -Estou vendo. (_Sem poder dominar-se_) É então preciso matal-o? - -_Pantoja_ - -Venha a morte. - -_Marquez_ - -Não chegaremos a tanto. - -_Pantoja_ - -Cheguem onde queiram. Hão de encontrar-me sempre impassivel e estavel, no -meu posto. - -_Marquez_ - -Confiamos na lei. - -_Pantoja_ - -Eu em Deus. E digo aos representantes da lei que Electra, adaptando-se -facilmente a esta vida de pureza, libando já as doçuras ineffaveis da -oração e da paz em Deus, não abandonará esta santa casa. - -_Maximo_ - -(_impaciente_) Podemos falar-lhe? - -_Pantoja_ - -N’este momento, precisamente, não. - -_Maximo_ - -(_querendo protestar_) Oh! - -_Pantoja_ - -Socegue. - -_Maximo_ - -Não posso. - -_Evarista_ - -É a hora do côro. Quer D. Salvador dizer, por certo, que depois da hora... - -_Pantoja_ - -Está claro que sim. E para que se convençam de que nada temo, podem -trazer além do tabellião, o snr. delegado do governo. Mandarei abrir -a portaria... Permittirei que falem emquanto queiram com Electra. E se -depois d’isso ella quizer sahir, que sáia... - -_Marquez_ - -Cumprirá o que diz? - -_Pantoja_ - -Como não? se é em Deus unicamente que confio. - -_Marquez_ - -Voltaremos logo. (_Toma o braço de Maximo_) - -_Pantoja_ - -E nós para a egreja. (_Saem Urbano, Evarista e Pantoja_) - - -SCENA V - - MARQUEZ E MAXIMO, que percorre a scena muito agitado, - impaciente, receioso - -_Marquez_ - -Que diz a isto, Maximo? - -_Maximo_ - -Que este homem, de tão superior talento para fascinar os debeis e para -zombar dos fortes, nos enlouquecerá a todos. Eu não sou para isto. -Em luctas de tal ordem, vontade contra vontade, sinto-me arrastado á -violencia. - -_Marquez_ - -E que faz tenção de fazer? - -_Maximo_ - -Leval-a embora. A bem ou a mal. Por vontade ou á força. Se não tiver -bastante poder para isto, adquiril-o, compral-o; trazer amigos, -cumplices, um esquadrão, um exercito... (_Com crescente fervor_) Renascem -em mim os rancores dos antigos bandos, com toda a ferocidade romantica do -feudalismo. - -_Marquez_ - -Assim pensa, e assim o diz, um homem de sciencia! - -_Maximo_ - -Os extremos tocam-se. (_Exaltando-se mais_) Para esse homem, para esse -monstro não ha argumentos, não ha raciocinios... É preciso matal-o. - -_Marquez_ - -Nem tanto, nem tanto, meu querido! Imitemol-o, sejamos como elle astutos, -insidiosos, perseverantes. - -_Maximo_ - -(_com brio e eloquencia_) Não: sejamos como eu... sinceros, claros, -valorosos. Marchemos de cabeça alta e de cara descoberta para o inimigo. -Destruamol-o, ou deixemo-nos destruir por elle... Mas d’uma vez, de uma -só investida, de um só golpe... Ou elle ou nós. - -_Marquez_ - -Não, Maximo. Temos de ir com tento. Temos de respeitar a ordem social em -que vivemos. - -_Maximo_ - -A ordem social em que vivemos envolve-nos em uma rede de mentiras e de -argucias, e n’essa rede morreremos estrangulados, sem defeza alguma... -presos de garganta, e de pés e mãos, nas malhas de milhares e milhares -de leis capciosas, de vontades fraudulentas, aleivosas, subornadas, -corrompidas. - -_Marquez_ - -Socega. Preparemo-nos para o que esta tarde nos espera. Temos de prever -os obstaculos para pensar com tempo no modo de os vencer... Que succederá -quando dissermos a Electra que a mãe do seu noivo é com effeito e fóra de -toda a dúvida Josephina Perret e não Eleuteria Dias? - -_Maximo_ - -Que ha de succeder? Que não o acreditará, porque na sua mente se -petrificou o erro e será já tarde para o desarraigar. Pois não se sabe -o que pode a suggestão contínua? O que póde o insinuante e invasivo -ambiente de uma casa como esta sobre as ideias dos que a habitam? - -_Marquez_ - -Empregaremos meios efficases. - -_Maximo_ - -(_com violencia_) Quaes? Deitar fogo ao convento, deitar fogo a Madrid... - -_Marquez_ - -Não divagues. Se Electra não quizer sahir, leval-a-hemos á força. - -_Maximo_ - -(_muito vivamente até o fim_) Ou uma força triumphante, ou uma -desesperação de vencido... morrer eu, morrer ella, morrermos todos. - -_Marquez_ - -Morrer não. Vivamos todos, e preparemo-nos para a peor solução. Tenho -uma chave para entrar no claustro pela Rua Nova, e a irmã Dorothêa -pertence-me... Caluda! - -_Maximo_ - -Violencia! - -_Marquez_ - -Subtilesa e astucia! - -_Maximo_ - -Adeante, de pronto, e pelo caminho direito! - -_Marquez_ - -Não, homem, de vagar, com geito, e pelo atalho enesgado! (_Tomando-lhe -o braço_) E vamo-nos d’aqui, que estamos a tornar-nos suspeitos... -(_Levando-o_) - -_Maximo_ - -Sim, vamo-nos. - -_Marquez_ - -Confia em mim. - -_Maximo_ - -Confio em Deus. - - -MUTAÇÃO - - Claustro de S. José da Penitencia. Á direita uma asa da egreja, - com frestões envidraçados, pelos quaes transluz a claridade - interior. Á esquerda grande portada por onde se passa a outro - claustro, que se suppõe communicar com a rua. Ao fundo, entre a - egreja e as construcções da esquerda, grande arco abatido, para - lá do qual se vê em ultimo plano o cemiterio da congregação. É - noite escura. - - -SCENA VI - - ELECTRA E SOROR DOROTHÊA - -_Dorothêa_ - -Tão certo como ser noite, vieram dois sujeitos ao convento com proposito -de te arrancar d’aqui e de te levar para o mundo. Não o crês? - -_Electra_ - -Sem que me digas quem são, o meu coração o adivinha: Maximo e o marquez -de Ronda... Se é certo que projectam levar-me é enorme a perturbação que -me causam. Desde que entrei n’esta santa casa emprehendi, como sabes, a -grande batalha do meu espirito. Procuro, humildemente e com a ajuda de -Deus, transformar em amor fraternal o amor de uma natureza bem diversa -que arrebatou a minha alma... Converter o ardente fogo do sol numa fria -claridade da lua... O constante meditar, lento mas progressivo, o desmaio -do coração, e as ideias submissas e dôces que Deus me envia vão-me dando -forças para vencer. - -_Dorothêa_ - -Querida irmã, se em ti sentes a fortaleza d’esse novo amor, porque tens -mêdo de te encontrar com D. Maximo de Yuste? - -_Electra_ - -Porque, vendo-o, sinto que todo o terreno ganho o perderia n’um só -instante. - -_Dorothêa_ - -(_incredula_) E achas, em tua verdade, que tenhas algum terreno ganho?... - -_Electra_ - -Oh! sim, algum... não muito por emquanto. - -_Dorothêa_ - -Talvez, irmã Electra, que o vêr essa pessoa te demonstre se -effectivamente podes... - -_Electra_ - -(_vivamente_) Oh! não m’o digas, que não posso!... No estado em que me -sinto, n’este principio de lucta, se o visse, se o ouvisse, eu perderia -toda a esperança de paz... Não vês que em minha consciencia eu me estou -debatendo contra dois impossiveis: não poder amal-o como esposo; não -poder amal-o como irmão? (_Aterrada_) Que supplicio, meu Jesus!... Para -o mundo não, não... Prefiro estar aqui, n’esta solidão de morte, n’este -laboratorio da minha alma, junto do cadinho divino, em que estou fundindo -um viver novo. - -_Dorothêa_ - -Não esperes que as tuas ideias te deem a paz. Confia em Deus e n’aquelles -que Deus te envia... (_Resolvendo-se a falar mais claramente_) Não te -amedrontes assim perante o que suppões teu irmão. Alguem talvez negará -que o seja. - -_Electra_ - -(_em grande excitação_) Cala-te! Cala-te! Em assumpto de tão grande -melindre toda a palavra que não contenha a certeza é inutil e cruel... -Póde levar-me á loucura. O que eu peço a Deus é a morte, ou a verdade -inteiramente indubitavel e definitiva. - -_Dorothêa_ - -Socega, pobre Electra... - -_Electra_ - -(_exaltando-se cada vez mais_) Todas as confusões que me atormentaram -ao vir para aqui estão renascendo no meu espirito... Atropelam-se-me no -pensamento anjos e demonios... Deixa-me... Eu quero fugir de mim mesma... -(_Corre a scena em grande agitação. Soror Dorothêa segue-a procurando -acalmal-a_) - -_Dorothêa_ - -Tranquillisa-te, por Deus!... Esse tormento vae ter fim. (_Olha com -anciedade para a porta da esquerda_) - -_Electra_ - -(_parecendo-lhe ouvir uma voz longinqua_) Ouve... Minha mãe que me chama. - -_Dorothêa_ - -Não delires... Outras vozes, vozes de pessoas vivas, te chamarão. - -_Electra_ - -É minha mãe... Silencio!... (_Escutando. Entra Pantoja pela direita_) - - -SCENA VII - - ELECTRA, PANTOJA E DOROTHÊA - -_Pantoja_ - -Minha filha, como sahiste da egreja sem que eu te visse? - -_Dorothêa_ - -Sahimos para respirar ao ar livre. Electra asfixiava. (_Áparte_) -Approxima-se a hora... Deus nos ajude! - -_Pantoja_ - -Sentes-te mal, minha filha? - -_Electra_ - -(_com voz assustada e sumida_) A minha mãe chama por mim. - -_Pantoja_ - -(_pegando-lhe carinhosamente na mão_) A dôce voz da tua mãe, falando-te -em espirito te dará conforto, prendendo-te com piedade e amôr a este -sagrado refugio. (_Ouve-se passando na egreja o côro das noviças_) Ouve, -Electra... É a voz dos anjos que te chamam do ceu. - -_Electra_ - -(_delirante_) É o côro dos meninos a brincar. E entre essas vozes ternas, -distingo a de minha mãe chamando-me da sepultura. - -_Pantoja_ - -Estás allucinada. É o divino côro dos anjos. - -_Electra_ - -Não, não ha anjos... Ouço o meu nome, ouço o bulicio dos meninos, que -revolve toda a minha alma. São os filhos dos homens que fazem a alegria -da vida. (_Continua a ouvir-se mais apagado o côro das noviças_) - -_Pantoja_ - -(_inquieto_) Irmã Dorothêa, diga á irmã porteira que vigie a porta da Rua -Nova e a da Ronda. (_Á esquerda e á direita_) - -_Dorothêa_ - -Sim, meu senhor... - -_Pantoja_ - -Mas não; irei eu mesmo... Não me fio de ninguem... Vou eu mesmo vigiar -todo o claustro, todas as passagens, todos os recantos da casa. -(_Assustado, julgando ouvir ruido_) Escute... Não ouvio? - -_Dorothêa_ - -Quê?... Não ouvi nada... É illusão. - -_Pantoja_ - -Pareceu-me ouvir um rumor de vozes... e bater n’uma porta ao longe. -(_Escuta_) - -_Dorothêa_ - -De que lado? (_Olhando para o fundo á direita_) - -_Pantoja_ - -Na direcção da enfermaria... Não estou socegado... Quero vêr eu mesmo... -Electra, volta para a egreja... Leve-a, irmã Dorothêa... Esperem-me lá... -(_Dando-lhes pressa_) Andem... (_Acompanha-as até á porta da egreja. Sae -pressuroso, inquieto, pelo fundo, á direita. Dorothêa vê-o afastar-se, -pega na mão de Electra, e vivamente volta com ella ao centro da scena. -Electra, sem vontade, deixa-se levar_) - - -SCENA VIII - - ELECTRA E SOROR DOROTHÊA - -_Dorothêa_ - -Vem commigo... Para a egreja não. - -_Electra_ - -Aqui... Deixa-me respirar, deixa-me viver. - -_Dorothêa_ - -(_aparte, inquieta_) É a hora dada pelo marquez de Ronda... Aproveitemos -os minutos, os segundos, ou tudo está perdido. (_Olhando para a -esquerda_) Vou dar-lhes entrada para este claustro... (_Alto_) Irmã -Electra, espera-me aqui. - -_Electra_ - -(_assustada_) Onde vaes? (_Pega-lhe no braço_) - -_Dorothêa_ - -(_com decisão, defendendo-se_) Tratar de ti, dar-te a saude e dar-te a -vida... Prepara-te para sahir d’este sepulcro, e leva-me comtigo. - -_Electra_ - -(_tremula_) Irmã Dorothêa... não me deixes. - -_Dorothêa_ - -Este momento decide da tua sorte... Volverás ao mundo... verás Maximo. - -_Electra_ - -Quando? - -_Dorothêa_ - -Já... Vaes vêl-o entrar por ali... (_Esquerda_) Animo!... Não me -estorves... Não te movas d’aqui. (_Sae correndo pela esquerda_) - -_Electra_ - -Meu Deus! Virgem Santissima!... Será certo?... Por aqui... por aqui -virá... (_Julga vêr Maximo na escuridão_) Ah! é elle... Maximo! (_Falando -como em sonhos, desviando-se como d’um ser real_) Pára... Deixa-me... -Não posso amar-te como irmão, não posso... Está no fogo o cadinho em -que quero fundir um coração novo... Não vês que não posso levantar os -olhos para ti?... Para que me fitas d’esse modo, se me não pódes levar -comtigo?... É aqui que eu procuro a verdade. Minha mãe chama por mim... -(_Com accento desesperado_) Mãe! mãe! (_Volta-se de frente para o fundo. -Ao soarem as ultimas palavras de Electra, apparece a sombra de Eleuteria, -formosa figura em habito de monja. Electra de costas para o publico, -contempla-a com os braços cruzados no peito_) Oh! (_Grande pausa_) - - -SCENA IX - - ELECTRA E A SOMBRA DE ELEUTERIA, que vagamente se destaca na - obscuridade do fundo. Electra adeanta-se para ella. Ficam as - duas figuras frente a frente, á menor distancia possivel uma da - outra. - -_A Sombra_ - -Sou a tua mãe, e venho a aplacar a angustia do teu coração amante. A -minha voz dará á tua consciencia a paz. Nenhum vinculo da natureza te -prende ao homem que te escolheu por mulher. O que te disseram foi uma -ficção carinhosa destinada a trazer-te á nossa companhia e á doçura -d’esta santa casa. - -_Electra_ - -Oh! mãe adorada, que consolação me dás! - -_A Sombra_ - -Dou-te a verdade, e com ella a fortaleza e a esperança. Acceita, minha -filha, como provação em que se retemperou a força da tua alma, esta -reclusão transitoria, e não maldigas quem a promoveu... Se o amor -conjugal e as alegrias da familia solicitam a tua alma deixa-te de -boamente levar da suavidade d’essa atracção, e não procures aqui uma -santidade que não é para ti. Deus está em toda a parte... Eu não pude -encontral-o fóra d’este abençoado refugio... Procura-o tu no mundo por -vereda differente d’aquella em que eu me perdi... (_A sombra cala-se e -desapparece no momento em que se ouve a voz de Maximo_) - - -SCENA ULTIMA - - ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ, PANTOJA E SOROR DOROTHÊA - -_Maximo_ - -(_á porta da esquerda_) Electra! - -_Electra_ - -(_correndo para elle_) Ah! - -_Pantoja_ - -(_pela direita_) Minha filha, onde estás? - -_Marquez_ - -Comnôsco. - -_Maximo_ - -Commigo. - -_Pantoja_ - -Foges-me, Electra? - -_Maximo_ - -Não foge... Resuscita. - - FIM - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Electra, by Benito Pérez Galdós - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELECTRA *** - -***** This file should be named 63145-0.txt or 63145-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/1/4/63145/ - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Ramalho Ortigão. - </title> - - <link rel="coverpage" href="images/cover.jpg" /> - -<style type="text/css"> - -a { - text-decoration: none; -} - -body { - margin: auto; - max-width: 35em; -} - -h1,h2,h3 { - text-align: center; - clear: both; -} - -h2,h3 { - margin-top: 3em; -} - -h2.nobreak { - page-break-before: avoid; -} - -hr { - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - clear: both; - width: 65%; - margin-left: 17.5%; - margin-right: 17.5%; -} - -div.chapter { - page-break-before: always; -} - -p { - margin-top: 0.5em; - text-align: justify; - margin-bottom: 0.5em; - text-indent: 1em; -} - -.act { - margin: 1.5em 10%; -} - -.act p.main { - padding-left: 2em; - text-indent: -2em; -} - -.act p.sub { - padding-left: 2em; - text-indent: 1em; -} - -.cast { - text-align: center; - text-indent: 0em; - margin-bottom: 2em; -} - -.direction { - font-size: smaller; - font-style: italic; -} - -.speaker { - text-align: center; - text-indent: 0em; - margin-top: 1.5em; - font-size: smaller; - font-family: sans-serif; - font-weight: bold; -} - -.larger { - font-size: 150%; -} - -.pagenum { - position: absolute; - right: 4%; - font-size: smaller; - text-align: right; - font-style: normal; -} - -.smaller { - font-size: 80%; -} - -.smcap { - font-variant: small-caps; - font-style: normal; -} - -.allsmcap { - font-variant: small-caps; - font-style: normal; - text-transform: lowercase; -} - -.titlepage { - text-align: center; - margin-top: 3em; - text-indent: 0em; -} - -@media handheld { - -.act { - margin: 1.5em 5%; -} -} - </style> - </head> -<body> - - -<pre> - -The Project Gutenberg EBook of Electra, by Benito Pérez Galdós - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most -other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Electra - Drama em cinco actos - -Author: Benito Pérez Galdós - -Translator: José Duarte Ramalho Ortigão - -Release Date: September 7, 2020 [EBook #63145] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELECTRA *** - - - - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net - - - - - - -</pre> - - -<p class="titlepage"><span class="smcap">Pérez Galdóz</span></p> - -<h1>ELECTRA<br /> -<span class="smaller">DRAMA EM CINCO ACTOS</span></h1> - -<p class="titlepage larger"><span class="smaller">VERSÃO PORTUGUEZA<br /> -DE</span><br /> -<span class="smcap">Ramalho Ortigão</span></p> - -<p class="titlepage"><span class="smaller">PORTO</span><br /> -LIVRARIA CHARDRON<br /> -<span class="smaller">De Lello & Irmão, editores<br /> -1901</span></p> - -<p class="titlepage smaller">Unica traducção portugueza auctorisada pelo auctor</p> - -<p class="titlepage smaller"><i>Porto—Imprensa Moderna</i></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_1"></a>[1]</span></p> - -<h2 class="nobreak">ACTO PRIMEIRO</h2> - -</div> - -<div class="act"> - -<p class="main">Sala sumptuosa no palacio dos senhores de Garcia Yuste. -Á direita, sahida para o jardim. Ao fundo, communicação -para outras salas do palacio. Á direita, -no primeiro plano, porta dos quartos d’Electra.</p> - -</div> - -<h3>SCENA I</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">MARQUEZ E JOSÉ</span></p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Estão no jardim... Vou dar parte.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Espera lá. É esta a primeira visita que -faço aos senhores de Garcia Yuste no seu -palacio novo... Deixa-me dar uma vista -d’olhos... Está n’um grande pé... Bem hajam -os que tão bem empregam o seu dinheiro! -Porque não é sómente o seu estado -de casa, é o bem que fazem, o generosos -que são em obras pias...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_2"></a>[2]</span></p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Oh! lá isso...!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>E tão mettidos comsigo! tanto da paz -e do socego do lar!... Ainda que, segundo -cuido, ha novidade agora na familia...</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Novidade? Ah! já sei... Quer o snr. -Marquez referir-se...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Escuta, José! Promettes fazer o que -eu te peça?</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Já o snr. Marquez sabe que eu me não -esqueço nunca dos quatorze annos que -servi na sua casa... O snr. Marquez manda, -não pergunta.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Pois venho cá de proposito para conhecer -essa interessante senhorita, que os -teus amos trouxeram agora d’um collegio -de França...</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>A senhorita Electra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_3"></a>[3]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Podes dizer-me se os senhores estão -contentes com essa nova sobrinha? É -pessôa amoravel, agradecida?</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Oh! n’esse particular!... Os senhores -morrem por ella... Sómente...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Quê?</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>A menina é travessasita...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>A edade!</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Brincalhôna, oh! mas brincalhôna, que -se não faz uma ideia...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Mas diz que é linda, que é um anjo...</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Um anjo sim, se ha anjos parecidos -com mafarricos... É que nos põe o sal -na moleira a todos cá de casa!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_4"></a>[4]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Estou morto por conhecêl-a!</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>No jardim a encontra o snr. Marquez. -É lá que passa as manhãs pondo em -redemoinho tudo.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(olhando para o jardim)</span> Lindo jardim, bello -parque, as velhas arvores do antigo palacio -das Gravelinas...</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>É exacto.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>O grande predio, ao fundo da alameda, -é tambem dos senhores de Yuste?</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Tambem. Com entrada pelo jardim e -pela rua. Em baixo tem o seu laboratorio -o sobrinho dos patrões, o senhorito Maximo, -primeiro dos trunfos de Hispanha nas -mathematicas, e... na outra coisa... -na...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Bem sei... Chamam-lhe o <i>Magico -prodigioso</i>... Conheci-o em Londres... -ainda a mulher d’elle era viva.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_5"></a>[5]</span></p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Morreu em fevereiro do anno passado... -e deixou-lhe dois filhos, dois -amores!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Ultimamente renovei com elle o meu -antigo conhecimento, e, apesar de nos não -visitarmos, por certos motivos, somos -muito amigos.</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Tambem eu gósto d’elle. Optimo sujeito...!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>E outra coisa: não estão arrependidos -os teus amos de terem mettido em casa -esse diabretesito?</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p><span class="direction">(receoso de que venha gente)</span> Eu direi a -V. Ex.ª... Tenho notado... <span class="direction">(Vê vir D. Urbano -pelo jardim)</span> Ahi vem o senhor.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Põe-te a andar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_6"></a>[6]</span></p> - -<h3>SCENA II</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">MARQUEZ E D. URBANO</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(abrindo-lhe os braços)</span> Querido Urbano!</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Marquez! ditosos olhos!...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>E Evarista?</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Bem... Sómente extranhando muito -as grandes ausencias do marquez de Ronda...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Oh! você não imagina o inverno que -passámos...</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>E Virginia?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Assim, assim... Sempre achacada, -mas reagindo constantemente pela força -de uma vontade tenaz, cabeçuda lhe chamarei.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_7"></a>[7]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Pois ainda bem! ainda bem!... Com -quê... quer que desçamos ao jardim?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Vamos já! Deixe-me tomar assento, -pouco a pouco, na sua casa nova... <span class="direction">(Senta-se)</span> -E conte-me lá, querido, conte-me -d’essa menina encantada, que foram -buscar ao collegio.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Não, não estava já no collegio. Tinha -ido para Hendaya, para uns parentes da -mãe. Eu nunca fui muito da opinião de -a trazer para cá. Mas Evarista emprehendeu -n’isso... Quer sondar o caracter da -pequena, apurar se d’ella se poderá fazer -uma mulher em termos, ou se nos estará -destinada a vergonha de a vêr herdar as -tendencias da mãe... Você sabe que era -uma prima irmã de minha mulher; e escuso -de lhe lembrar os escandalos que deu -essa Eleuteria desde o anno de 80 a 85.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Nem me fale n’isso!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_8"></a>[8]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Emfim, foi a ponto de que a familia, -vexada, rompeu com ella de todo e para -sempre! Esta menina, agora, cujo pae se -não sabe quem seja, criou-se com a mãe até -os cinco annos. Depois levaram-a para as -Ursulinas de Bayona. Lá, ou por abreviar -ou pelo que fosse, puzeram-lhe esse nome, -exquisito e novo, de Electra.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Novo, propriamente, não. Á pobre -mãe—coitadita—Eleuteria Dias, todos -nós, os intimos da casa, lhe chamavamos -tambem Electra, em parte talvez por -abreviatura, e em parte porque ao pae, -militar valente mas assignaladamente desditoso -na vida conjugal, tinham posto a -alcunha de <i>Agamemnon</i>.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>D’essa não sabia... Tambem nunca -vivi com elles. Eleuteria, pela fama que -tinha, figurava-se-me uma creatura repugnante...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Por amor de Deus, querido Urbano, -não sejamos pharisaicos... Lembre-se -que Eleuteria—a quem chamaremos <i>Electra -I</i>—mudou de vida, ahi por 88...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_9"></a>[9]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>E não deu pouco que falar esse arrependimento -tambem. Lá foi morrer a -S. João da Penitencia, em 95, regenerada, -abominando a monstruosa libertinagem -da sua vida...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(como quem lhe reprehende o rigorismo)</span> Deus -lhe perdoou...</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Sim, sim... perdão, esquecimento...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>E tratam então agora de tentear <i>Electra -II</i> a vêr se inclinará para bem ou se -lhe dará para mal... Que resultado vão -dando as provas?</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Resultados obscuros, contradictorios, -variaveis de dia para dia, de hora para -hora. Ha momentos em que ella nos revela -qualidades sublimes, mal encobertas -pela sua innocencia; outros, em que nos -apparece como a creatura mais doida a -quem Deus deu licença de vir ao mundo. -Tão depressa encanta pela sua candura -angelica como aterra a gente pelas diabolicas -subtilezas que desfia da sua propria -ignorancia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_10"></a>[10]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Natural desequilibrio da edade, excesso -de imaginação, talvez. É esperta?</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Como a electricidade em pessoa, mysteriosa, -repentista, de grande tino. Destroe, -transtorna, perturba, illumina.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(levantando-se)</span> Fervo em curiosidade. Vamos -vêl-a.</p> - -<h3>SCENA III</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">MARQUEZ, URBANO, CUESTA</span>, pelo fundo</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(entra com mostras de cançaço, tira do bolso a -carteira de negocios, e dirige-se á mesa)</span> Marquez... -Tudo bom por cá?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Oh! grande Cuesta! que nos conta o -nosso incançavel agente?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_11"></a>[11]</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(senta-se. Revela um padecimento de coração)</span> O -incançavel... começa a cançar.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Homem! e que me dizes da alta -d’hontem no Amortisavel?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Veio de Paris com dois inteiros.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Fizeste a nossa liquidação?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>E a minha?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Estou com isso... <span class="direction">(Tira papeis da carteira -e escreve a lapis)</span> N’um instante saberão as cifras -exactas. Tirou-se todo o partido que -se podia tirar da conversão.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Naturalmente... Sendo o typo de -emissão dos novos valores 79,50... tendo -nós comprado por preço muito baixo -o papel recolhido...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_12"></a>[12]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Naturalmente...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>O resultado foi enorme.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Querido Urbano, esta facilidade com -que se enriquece é positivo que dá o amor -da vida e o enthusiasmo da belleza humana. -Vamos para o jardim.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(a Cuesta)</span> Vens?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Preciso de dez minutos de silencio para -pôr em ordem os meus apontamentos.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Deixamos-te em socego. Não queres -nada?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(abstrahido nas suas contas)</span> Não... quero -dizer... Sim: manda-me vir um copo de -agoa. Estou abrasado.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Immediatamente. <span class="direction">(Sae com o Marquez para -o jardim)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_13"></a>[13]</span></p> - -<h3>SCENA IV</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">CUESTA E PATROS</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(corrigindo as suas notas)</span> Ah! cá está o -erro. Aos de Yuste toca... um milhão e -seiscentas mil pezetas. Ao marquez de -Ronda, duzentas e vinte e duas mil... -Temos que descontar as doze mil e tanto, -equivalentes aos nove mil francos... <span class="direction">(Entra -Patros com copos d’agoa, caramellos e cognac. Espera -que Cuesta termine a sua conta)</span></p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Ponho aqui, D. Leonardo?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Põe e espera um instante... Um milhão -e oitocentos... com os seiscentos e -dez... fazem... claro! está certo. Bem -bom! bem bom!... Com que então, Patros... -<span class="direction">(tira do bolso dinheiro, que lhe dá)</span> Toma -lá!</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Muito obrigado!</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>E já te aviso que espero de ti um -favôr...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_14"></a>[14]</span></p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Dirá, D. Leonardo.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Pois, minha amiga... <span class="direction">(remechendo um -caramello)</span> Escuta...</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Não quer cognac?... Se vem cançado, -a agoa só pode fazer-lhe mal.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Sim: deita um poucochito... Pois o -que eu quereria...—Não vás pôr malicia -no que a não tem: sentido!—o que eu -quereria era falar alguns momentos, a sós, -com a senhorita Electra. Conhecendo-me -como me conheces, comprehenderás de -certo que o meu fim é o mais honrado e -o mais digno... Mas sempre t’o digo para -te tirar todo o escrupulo... <span class="direction">(Recolhe os papeis)</span> -Antes que venha alguem, poderás dizer-me -que occasião e que logar será melhor?</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Para dizer duas palavras á senhorita -Electra... <span class="direction">(meditando)</span> terá de ser então -quando os senhores estiverem com o procurador... -Eu verei.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_15"></a>[15]</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Se pudesse ser hoje, melhor.</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Ainda cá volta hoje?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Volto. Avisa-me.</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Esteja certo. <span class="direction">(Recolhe o serviço e sae)</span></p> - -<h3>SCENA V</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">CUESTA E PANTOJA</span>, que entra em scena meditabundo, -abstraído, todo vestido de preto</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Amigo Pantoja, salve-o Deus! Como -vamos?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(suspira)</span> Vivendo, amigo, que é o mesmo -que dizer: esperando.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Esperando melhor vida...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_16"></a>[16]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Padecendo n’esta o que Deus determine -para merecer a outra.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>E de saude que tal?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Mal e bem. Mal, porque me affligem -desgostos e achaques; bem, porque me -apraz a dôr, e me regosija o soffrimento. -<span class="direction">(Inquieto, e como dominado por uma ideia fixa, olha -para o jardim)</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Que ascetico vem hoje!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Olhe que cabecinha de vento a d’aquella -Electra...! Lá vae ella de corrida com -os pequenos do porteiro, com os dois filhos -do Maximo, e ainda com filhos dos visinhos. -Quando a deixam n’aquellas travessuras -de creança é que ella é feliz.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Adoravel creaturinha! Que Deus a -fade bem, para ser uma mulher como se -quer!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_17"></a>[17]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>D’aquella graciosa boneca, d’aquella -voluvel menina facilmente se poderia -tirar um anjo; da mulher que ella ha de -ser, não sei.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Não o entendo bem, amigo Pantoja.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Entendo-me eu... Olhe, olhe como -brincam... <span class="direction">(Assustado)</span> Deus de misericordia! -quem é que vae com ella?... Não é -o marquez de Ronda?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Elle mesmo.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Que corrupto homem! Tenorio da geração -passada não se decide a jubilar-se -para não dar um desgosto a Satanaz!</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Para que mais uma vez se possa dizer -que não ha paraizo sem serpente...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Para isso não! serpente já tinhamos. <span class="direction">(Passeia nervoso e displicente pela sala)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_18"></a>[18]</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>E diga-me, passando a outra coisa: -teve já noticia do dinheirão que lhes -trouxe?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(sem prestar grande attenção e fixando-se n’outra -ideia que não formúla)</span> Ah! sim, já... Ganhou-se -muito.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Evarista completará agora a sua grande -obra religiosa.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(maquinalmente)</span> Sim.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>E poderá o amigo Pantoja consagrar -muito maiores recursos a S. José da Penitencia.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Sim... <span class="direction">(Voltando á sua ideia fixa)</span> Serpente -já tinhamos... Que dizia, amigo Cuesta?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Dizia eu...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_19"></a>[19]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Desculpe interrompel-o... Sabe se -sempre é certo que o nosso visinho de -defronte, o nosso maravilhoso sábio, inventor -e quasi thaumaturgo, projecte mudar -de casa?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Quem? Maximo? Acho que sim... -Parece que em Bilbau e em Barcelona -acolhem com enthusiasmo os seus admiraveis -estudos para novas applicações da -electricidade; e lhe offerecem todos os -capitaes que elle queira para proseguir nas -experiencias que encetou.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(meditativo)</span> Oh! capitaes eu lh’os daria -tambem, comtanto que...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_20"></a>[20]</span></p> - -<h3>SCENA VI</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">PANTOJA, CUESTA, EVARISTA, URBANO E O MARQUEZ</span>, -que veem do jardim</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(soltando o braço do Marquez)</span> Bons dias, -Cuesta. Pantoja, quanto estimo vêl-o! -<span class="direction">(Cuesta e Pantoja inclinam-se e beijam-lhe respeitosamente -a mão. A senhora de Yuste senta-se á direita; -o Marquez em pé ao lado d’ella. Os outros agrupam-se -á esquerda falando de negocios.)</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(reatando com Evarista uma conversação interrompida)</span> -Por este andar a minha boa amiga -não sómente passa á Historia mas passa -a figurar tambem no <i>Anno Christão</i>.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Não me gabe por coisas em que não -ha merecimento nenhum, Marquez... Não -temos filhos: Deus cumula-nos de riqueza. -Temos em cada anno uma herança. Sem -trabalho nenhum—nem, sequer o de discorrer—o -excesso dos nossos rendimentos, -habilmente manejados pelo amigo Cuesta, -capitalisa-se sem darmos por isso, e cria -novas fontes de dinheiro. Se compramos<span class="pagenum"><a id="Page_21"></a>[21]</span> -uma quinta, a subida dos productos triplica -n’esse mesmo anno o valor da terra. Se -ficamos senhores de um baldio inteiramente -sáfaro, acontece que no subsolo se -descobre um jazigo immenso de carvão, -de ferro ou de chumbo... Que quer -dizer tudo isto?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Quer dizer—acho eu—que quando -Deus multiplica tantas riquezas sobre -quem nem as deseja nem as estima, bem -claramente elle está indicando que as -concede para que sejam empregadas em -servil-o.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>É claro. Interpretando-o tambem -assim, eu apresso-me a cumprir a vontade -de Deus. O dinheiro que Cuesta nos veio -hoje trazer apenas me passará pelas mãos, -e com elle completarei a somma de sete -milhões consagrados á obra do Santo Patrocinio. -E mais farei para que a casa e o -collegio de Madrid tenham o decoro e a -magnificencia adequada a um tão grande -instituto. Desenvolveremos tambem as -obras do collegio de Valencia e do de -Cadiz...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_22"></a>[22]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(passando para o grupo da direita)</span> Sem esquecer, -minha senhora, a casa dos altos -estudos, a sua escola de instrucção superior, -que virá a ser o santuario da verdadeira -Sciencia.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Bem sabe que é esse o meu constante -pensamento.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(passando tambem para a direita)</span> N’isso se -pensa n’esta casa de noite e de dia.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Admiravel, minha querida amiga, -admiravel! <span class="direction">(Levanta-se)</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(a Cuesta, que igualmente tem passado para a -direita)</span> E agora, amigo Leonardo, que vamos -fazer?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(sentando-se ao lado de Evarista, a quem propõe -novas operações)</span> Por hoje nos limitaremos a -metter algum dinheiro...</p> - -<p><span class="direction">(Pantoja, em pé, colloca-se á esquerda de Evarista)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_23"></a>[23]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(passeando na scena com Urbano)</span> Ha de permittir, -querido Urbano, que, proclamando -os merecimentos sublimes da senhora de -Garcia Yuste, eu não deite em sacco roto os -nossos: falo da minha mulher e de mim. -Saberá que Virginia já fez a caridade de -transferir para as Escravas de Jesus um -bom terço da nossa fortuna...</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Das mais solidas da Andaluzia.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>E por nosso testamento deixamos tudo -a essas senhoras, menos a parte destinada -a certos encargos e aos parentes pobres.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Ora vejam lá!... Mas, segundo me -constou, o Marquez aqui ha annos parece -que não via com enthusiasmo illimitado -que a piedade da marqueza, minha senhora, -se tornasse tão angelicamente dispendiosa...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>É certo... mas converti-me. Abjurei -todos os meus erros. A minha mulher -catechisou-me.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_24"></a>[24]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Exactissimamente o que me succedeu -a mim. Evarista virou-me com o forro de -santo para fóra.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Para conservar a paz e estabelecer a -harmonia conjugal, principiei por contemporisar, -continuei contemporisando... -Pois, meu amiguinho, contemporisação -foi ella que, a pouco e pouco, cheguei ao -que se vê: Sou um escravo... das <i>Escravas -de Jesus</i>! E não me arrependo. Vivo -n’uma placidez beatifica, curado de todas -as inquietações da minha vida. E estou já -agora a convencer-me de uma coisa: é que -a minha mulher não sómente salva a sua -alma, mas que me salva a minha tambem!</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Pois é o que eu egualmente recommendo -cá em casa: que não se esqueçam, -podendo tambem ser, de me salvar a -mim!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Nós, homens, não temos iniciativa -para nada.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Absolutamente para nada!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Verdade seja que ás vezes até o que se -chama respirar nos prohibem!</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Prohibida a respiração... Conheço!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Mas vivemos em paz.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>E servimos a Deus sem esforço nenhum. -Isso é que é.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>As nossas mulheres lá vão adeante de -nós, por esse bemdito caminho da eternidade, -pela gloria fóra; e podemos estar -socegados, que nos não deixam na estrada.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Pois! é a sua obrigação.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Urbano?...</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(acudindo pressuroso)</span> Menina...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Põe-te á disposição de Cuesta para a -liquidação e para a entrega aos padres.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Hoje mesmo. <span class="direction">(Cuesta levanta-se)</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>E outra coisa: faze-me favor de chegar -ao jardim, e dizer a Electra que tem -já tres horas de brincadeira.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(imperioso)</span> Que se venha embora. É brincar -de mais.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Vou já. <span class="direction">(Vendo vir Electra)</span> Ella ahi vem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span></p> - -<h3>SCENA VII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA</span>, atraz d’ella <span class="allsmcap">MAXIMO</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(Entra a correr e a rir, perseguida por Maximo, -a quem ganhou na corrida. O seu riso é de medo infantil)</span> -Bem feito, que não me pilhas!... -Enraivece-te, brutamontes!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(traz em uma das mãos varios objectos que indicará, -e na outra um ramo de choupo, que esgrime -como um chicote)</span> Eu te digo se te pilho ou não, -selvagem!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(sem fazer caso dos que estão em scena, corre a -casa com infantil ligeiresa e vae refugiar-se no vestido -de D. Evarista, ajoelhando-se-lhe aos pés e -abraçando-a pela cinta)</span> Estou salva!... Tia, -ponha-o fóra!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Ah! já foges! já tens medo, minha -menina!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Mas, filha da minh’alma! quando é que -terás modos de senhora? E tu, Maximo, -és tão creança como ella.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(mostrando as coisas que traz)</span> Vejam o que -esse demonico me fez. Quebrou-me estes -dois tubos... E olhem o estado em que -poz estes papeis, contendo calculos que -representam um trabalho enorme. <span class="direction">(Mostra -os papeis suspendendo-os de alto)</span> D’este fez uma -passarola; este deu-o aos pequenos para -pintarem elephantes, burros e um couraçado -a atirar balas a um castello...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Então ella foi ao laboratorio?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>E revolucionou os pequenos... Revolveram-me -tudo!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(com severidade)</span> Isso, menina...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Electra!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(enthusiasmado)</span> Electra! Encanto de menina -grande! Bemditas travessuras!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Eu não lhe quebrei os tubos. Não ha -tal! Foi Pepito que lhe fez esse obsequio. -Os papeis, sim senhor; fui eu que peguei -n’elles, imaginando que não serviam para -nada com os hediondos esgaravunhos que -tinham.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Basta! haja pazes!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Pois vá lá, por esta vez... <span class="direction">(a Electra)</span> -Perdôo-te. Deves-me a vida... Toma lá. -<span class="direction">(Entrega-lhe a chibata; Electra recebe-a, e bate-lhe -brandamente)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Toma agora tu! Esta é pelo que me -disseste. <span class="direction">(Batendo-lhe com mais força)</span> Esta agora -pelo que não quizeste dizer-me.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Disse-te tudo.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Moderação! juizo!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Que te disse elle?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Disse-lhe verdades uteis... Que aprenda -por si mesma o muito que ainda ignora; -que abra bem abertos esses grandes olhos -e que os estenda pela vida humana, para -que veja que nem tudo é alegria, que ha -tambem no mundo deveres, desenganos -e sacrificios...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Chega o lobishomem! <span class="direction">(Occupa o centro da -scena, onde todos a rodeiam, menos Pantoja, que se -colloca ao lado d’Evarista)</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Nem tudo applausos!</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>A severidade é precisa.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Em severidade ninguem me ganha... -Dize: é ou não é verdade que sou severo, -e que tu m’o agradeces? Confessa que me -agradeces!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(batendo-lhe de leve)</span> Peste de sábio! Se isto -fôsse um açoite verdadeiro, ainda com -mais alma te batia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(risonho e encarinhado)</span> Electra, veja se me -bate em mim tambem... Faça-me essa -esmola!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Em si não, porque não tenho confiança... -Só se fôr muito de levesinho... -assim... assim... assim... <span class="direction">(Toca levemente -no Marquez, em Cuesta e em Urbano)</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Melhor seria que tocasses piano para -esses senhores ouvirem.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Quê, se não estuda nada! Só uma coisa -se póde comparar á sua grande disposição -artistica, é o seu espantoso desapego de -todas as artes.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Que nos mostre as aquarellas e os -desenhos. O Marquez vae vêr. <span class="direction">(Juntam-se -todos em volta da meza, menos Evarista e Pantoja, -que conversam áparte)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Ahi sim senhor! <span class="direction">(Procurando a pasta de -desenhos entre os livros e as revistas que estão na mesa)</span> -Agora se vae vêr se sou ou se não sou uma -artista!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Forte gabarola!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(desatando as fitas da pasta)</span> Pois sim! tu a -desfazeres e eu a augmentar-me veremos -quem póde mais. Ora aqui está, e pasmem! -<span class="direction">(Mostrando os desenhos)</span> Que teem que dizer a -estes portentosos esboços de paizagem, de -figura, de animaes? a estas vaccas que -parecem pessoas? a estas naturezas mortas -que parecem vivas? a estes rochedos -que só lhes falta fallarem?! <span class="direction">(Todos se extasiam -no exame dos desenhos, que passam de mão em mão)</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(tendo desviado a attenção do grupo do centro, -entabolou conversa intima com Pantoja)</span> Tem razão, -Salvador. Quando é que a não tem? -Agora, no caso de Electra, o seu argumento -é um clarão que nos illumina a -todos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não vá crêr que seja a minha pobre -intelligencia que projecta essa luz. Ella -é apenas o resplendor de um fogo intenso -que tenho em mim: a vontade! Por meio -d’esta força, que devo a Deus, esmaguei o -meu orgulho e emendei os meus erros.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Depois da confidencia que hontem á -noite me fez é indiscutivel para mim o -seu direito de intervir na educação d’essa -cabeça de vento...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Para lhe ensinar o caminho da vida, -para lhe mostrar o alto fito da nossa misera -existencia na terra...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>E esse direito que indubitavelmente -lhe cabe, implica deveres inilludiveis...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Quanto lhe agradeço que tão perfeitaimente -o comprehenda, minha senhora e -amiga da minha alma! Eu receava que a -minha confidencia d’hontem, historia funesta -que reveste de negro os melhores<span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span> -annos da minha vida, me tivesse feito decaír -da sua estima!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Não, meu amigo. Quem é que dentro -da humanidade se póde considerar liberto -da fraqueza humana? Em si o peccador -regenerou-se, castigando a vida com as -mortificações do arrependimento, e dignificando-a -com a pratica da virtude.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>A divina tristeza, o amor da solidão, -o convicto desprezo de todas as vaidades -do mundo foram a salvação da minha -alma. Pois bem: eu não estaria completamente -purificado perante a minha consciencia -se n’esta occasião não interviesse -nos negocios da terra para salvar dos seus -perigos a angelica innocencia d’essa menina, -fatalmente destinada, se lhe não -acudirmos, a precipitar-se pelo caminho -em que se perdeu a sua desgraçada mãe.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>A minha opinião é que fale com ella...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>A sós.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Assim o entendo: a sós. Faça-lhe -comprehender, o mais delicadamente que -possa, a especie de auctoridade que -tem...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>É todo o meu desejo esse... <span class="direction">(Continuam -em voz baixa)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(no grupo do centro disputando com Maximo)</span> -Deixa-te de sentenças, que tu d’isto não -sabes nada! Então não querem vêr com -a que elle se sae? que o passaro parece -um velho pensativo, e que a mulher faz -lembrar uma lagosta desmaiada...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não senhor... Eu acho que está muito -bem feito!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Ás vezes tambem lhe dá para ahi! -Quando menos pensa saem-lhe coisas prodigiosamente -exactas.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>É certo que estas velhas arvores, atravez -das quaes se descobre uma triste faixa -de mar, ao longe...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>A minha especialidade aposto que -ainda nenhum adivinhou qual é?... Pois -são os troncos velhos, são os carcomidos -muros em ruina. É singular que só pinto -bem aquillo que não conheço: a tristeza, o -passado, o môrto! A grande luminosidade -radeante da alegria, da mocidade, não me -sae! <span class="direction">(Com pena e assombro)</span> Sou uma grande -artista para tudo que não sou eu!</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Tem graça.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Esta menina é optima!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>É scintillante!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Esperemos que lhe venha a reflexão -tambem... a seu tempo...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(zombando de Maximo)</span> A reflexão! a gravidade! -o tempo que ha de vir!... É a -sombra que sempre me deita este cipreste!... -Ora fica sabendo que eu hei de ter<span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span> -tudo isso quando me dér para ahi... e -mais do que tu, meu sabichão!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Veremos... veremos isso quando te -chegar a vez!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(que não tem dado attenção ao que se passa no -grupo)</span> Não posso occultar-lhe, minha -senhora, que me desagrada muito a familiaridade -de Electra com o sobrinho do -seu marido.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Ha de se lhe corrigir. Mas no emtanto -sempre tenha você em conta que este -Maximo, que ahi vê, é um homem perfeitamente -de bem e raramente serio...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Bem sei, minha amiga... Mas nos -desfiladeiros da confiança excessiva resvalam -os mais solidos e os mais firmes; -uma triste experiencia m’o ensinou a -mim!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(no grupo do centro)</span> Eu hei de tomar todo -o juizo que eu quizer quando elle me fôr -preciso. Ninguem se põe serio emquanto -Deus não manda. Ninguem diz ai ai senão -quando alguma coisa lhe doe.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Lá isso é verdade!</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Um dia aprenderá a ser pratica.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>De certo que sim! No dia em que -venha Deus e me diga: «Menina: aqui -tens a dôr, a duvida, a responsabilidade, -o dever...»</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>E breve o dirá!...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Para que eu lhe responda!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Electra, minha filha, não disparates.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Tia, é este Maximo... <span class="direction">(passa para o lado -de Evarista)</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>O Maximo tem razão...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Certamente que sim. <span class="direction">(Cuesta e Urbano -passam tambem para o lado de Evarista e de Pantoja, -ficando sós á esquerda Maximo e o Marquez)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Então, Marquez, qual é o resultado da -sua primeira observação?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Encantou-me a rapariga. Vejo que -você não exagerava nada.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>E por baixo do fascinante encanto -d’essa innocencia não pôde a sua penetração -descobrir alguma coisa...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Ah! sim... belleza moral, juizo pratico... -Ainda não tive tempo para isso... -Continúo a observar...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>É que eu—você sabe—consagrado ao -estudo desde muito moço, mal conheço -o mundo, e os caracteres humanos são -para mim uma escripta em que apenas -soletro.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Pois esse, meu amigo, é o unico dos -livros em que eu leio de cadeira.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Quer vir a minha casa?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Com muito gosto. É possivel que minha -mulher me reprehenda se souber que -eu visito uma officina de electrotechnia, -uma escandalosa fabrica de luz. Mas não -será de uma severidade que eu não aguente. -Posso aventurar-me... Voltarei depois<span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span> -aqui, e com o pretexto de admirar a menina -ao piano falarei com ella e proseguirei -os meus estudos.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(alto)</span> Vem, Marquez?</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Então assim nos deixam?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Vamos vêr o laboratorio do nosso -amigo.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Marquez, estou muito sentida, mas -muito, pela sua longa ausencia. Quererá -descarregar-se de tantos peccados velhos -almoçando hoje comnosco? É o seu castigo...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Acceito-o em desconto da minha -culpa e beijo a mão que tão docemente -me corrige.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Maximo, tu vens tambem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Se me deixarem livre, virei, de certo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não venhas, homem de Deus, não venhas! -<span class="direction">(Com alegria que não dissimula)</span> Vens? -Dize que sim! <span class="direction">(Corrigindo-se)</span> Não, não: dize -que não.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Descança que te não livras de mim! -Á força has de ganhar juizo...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E has de perdêl-o tu, caturra velho! -<span class="direction">(Segue-o com a vista até que sae. Saem Maximo e o -Marquez pelo jardim. José entra pelo fundo)</span></p> - -<h3>SCENA VIII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, EVARISTA, URBANO, PANTOJA, -CUESTA E JOSÉ</span></p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p><span class="direction">(annunciando)</span> A senhora Superiora de -S. José da Penitencia.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Ah! a nossa bôa soror Barbara da -Cruz...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Que entre para aqui. <span class="direction">(Levanta-se)</span> Espera! -Iremos recebêl-a ao salão.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Feliz opportunidade! escuso de ir ao -convento.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Electra, estudar. <span class="direction">(Indica-lhe a sala proxima)</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(despedindo-se)</span> Eu saio e volto logo.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Adeus.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(áparte, referindo-se a Electra)</span> Deixam-a só?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(a Electra)</span> Menina! Cultive com esmero -a grande arte sagrada. Applique todo o -seu talento ao estudo de Bach... para -que se compenetre do admiravel estylo -religioso. <span class="direction">(Saem todos menos Electra)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span></p> - -<h3>SCENA IX</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA</span>, pouco depois <span class="allsmcap">CUESTA</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(entoando uma psalmodia de egreja, reune os desenhos -e recolhe-os nas suas pastas)</span> Bach... para -que me compenetre do estylo religioso... -é bom!... É bom, e é engraçado. <span class="direction">(Canta)</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(entra pelo fundo, recatando-se)</span> Só...!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(canta algumas notas liturgicas. Vendo Cuesta)</span> -Oh! D. Leonardo...! Cuidei que tinha -sahido...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(com timidez)</span> Sahi mas voltei, minha -querida menina. Preciso muito de lhe -falar.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(um poucochinho assustada)</span> A mim!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>É um assumpto delicado, extremamente -delicado... <span class="direction">(Com fadiga e difficuldade -em respirar)</span> Perdoe-me. Padeço do coração... -não posso estar de pé. <span class="direction">(Electra chega-lhe -uma cadeira. Senta-se)</span> Tão delicado este -assumpto, que não sei por onde comece...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Deus meu, que é?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(animando-se)</span> Electra, eu conheci sua -mãe.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Ah! a minha mãe foi bem desgraçada...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Que entende a menina por ser desgraçada?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Eu... entendo que viveu entre pessoas -que a não deixaram ser tão bôa como -ella queria.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Ahi está uma profunda verdade que, -sem querer, a menina disse... Lembra-se -da sua mãe?... Pensa algumas vezes -n’ella?...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>A minha mãe é para mim uma recordação, -vaga sim, mas de uma doçura -incomparavel... uma querida imagem -que nunca me abandona... Guardo-a -viva no meu coração, que não é mais que -uma grande memoria, no fundo da qual -a procuram sempre os meus olhos anciosos -de vêl-a. Minha pobre mamãsinha! -<span class="direction">(Leva o lenço aos olhos. Cuesta suspira)</span> Diga-me, -D. Leonardo, quando você conheceu minha -mãe era eu muito pequenina...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Era um miminho. Faziamos-lhe cócegas -para a vêr rir... o seu riso parecia-me -o encanto da natureza, a alegria do -universo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Ahi está, D. Leonardo, ahi está porque -eu sahi tão doida, tão travêssa, tão desparafusada... -você alguma vez me teria -pegado ao collo...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Innumeraveis vezes.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(sorrindo sem ter acabado de enxugar as lagrimas)</span> -E eu não lhe puxava pelos bigodes?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Ás vezes com tanta força que me fazia -doer.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E de certo então me batia nas mãos...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Devagarinho, sim.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Pois ha de crêr que talvez que ainda -me doam tambem?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(impaciente por entrar em materia)</span> Mas vamos -ao caso... E antes de mais nada a -advirto, minha querida Electra, que é -muito reservado o que lhe vou dizer... -para nós ambos unicamente.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Mette-me medo...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Não, não é uma coisa que assuste... -Veja em mim a menina um amigo, o melhor -de todos os seus amigos; veja n’este -acto o interesse mais puro e o mais elevado -sentimento...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(confusa)</span> Sim, não duvído, mas...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Eis aqui porque dou este passo... Com -quanto não seja ainda muito velho, não -me sinto com corda para longo tempo de -vida. Viuvo ha vinte annos, não tenho -mais familia que a minha filha Pilar, já -casada e longe. Estou quasi só n’este mundo, -tenho o pé no estribo para marchar -para o outro... E a minha solidão, ai! -parece empurrar-me e dar-me pressa... -<span class="direction">(Com grande difficuldade de expressão)</span> Mas antes -de partir... <span class="direction">(Pausa)</span> Electra, quanto pensei -em si antes de a trazerem para Madrid!... -E desde que chegou, Deus meu, -senti—como lh’o direi?... Imagine o<span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span> -mais profundo, o mais puro affecto de um -coração, envolvido nos gritos de uma consciencia...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(aturdida)</span> Que grave coisa deve ser essa, -a consciencia! A minha é, por ora, como -um menino que dorme no seu berço.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(com tristeza)</span> A minha é velha e memoriosa. -Nem dorme, nem me deixa dormir, -assignalando-me sempre, a grandes brados, -os erros graves da minha vida.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Erros graves na vida... você, tão -bom...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Bom? Sim... talvez... Bom mas peccador... -Emfim deixemos os erros, tratemos -dos seus resultados. Eu não quero -de nenhum modo que a menina se possa -achar ao desabrigo. Não tem fortuna -propria, e é duvidoso que a protecção de -Urbano e d’Evarista seja persistente e -constante. Como havia de consentir eu -que um dia se visse pobre, desamparada?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(com penosa lucta entre o seu conhecimento e a -sua innocencia)</span> Eu não sei se o entendo... -não sei se devo entendel-o.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>O mais apropositado será que me entenda, -e não o diga; que acceite a minha -protecção, e a não agradeça. Vão juntos -o meu dever e o seu direito. Por culpa minha, -Electra, não se quebrará o fio que une -cada creatura na terra, com as creaturas -que foram e com as que ainda vivem... -E se hoje me determino a resolver este -caso é porque... porque ha uns tempos -me assalta o terror das mortes subitas. -Meu pae e meu irmão morreram como -fulminados de raio. A lesão cardiaca, destruidora -da familia, sinto-a bem aqui: -<span class="direction">(indicando o coração)</span> é um triste relogio que -me conta as horas e os dias. Não posso -adiar mais... Que me não colha a morte -deixando abandonada no mundo a sua -preciosa existencia! E concluo aqui, pedindo-lhe -que tenha como assegurado na -vida um bem estar modesto...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Um bem estar modesto... Eu?... -para mim?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>O sufficiente para viver n’uma decorosa -independencia...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(confusa)</span> Mas eu, que merecimentos tenho?... -Perdôe-me, se não posso acabar -de me convencer...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Mais tarde o convencimento virá.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E por que não fala n’isso a meus -tios?...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(preoccupado)</span> Porque... A seu tempo o -saberão. Por agora ninguem mais deve -ter conhecimento da resolução que tomei.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Mas...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(commovido, levantando-se)</span> E agora, Electra, -não quererá mal a este pobre enfermo, -que tem contados os seus dias?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Querer-lhe mal!? Se é tão facil e tão -doce para mim o querer bem! Mas não -fale em morrer, D. Leonardo.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Completamente me consola saber que -chorará talvez por mim...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não faça com que eu chore já...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(apressando a sahida para vencer a sua commoção)</span> -E agora, minha querida filha, adeus.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Adeus... <span class="direction">(retendo-o)</span> E que nome lhe -devo dar?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>O de amigo me basta. Adeus. <span class="direction">(Arranca-se -para saír pelo fundo. Electra segue-o com a vista -até que desappareça)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span></p> - -<h3>SCENA X</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E O MARQUEZ</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(meditativa)</span> Meu Deus, que devo pensar? -Aquellas meias palavras parece que ainda -me dizem mais do que palavras completas. -Mãesinha da minha alma!... <span class="direction">(O marquez -entra pelo jardim e adeanta-se devagar)</span> Ah! O -snr. Marquez!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Assustei-a?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não: surprehendeu-me apenas... Se -vem para me ouvir tocar, aviso-o de que -perdeu a viagem. Eu não toco hoje.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Tanto melhor: assim fallaremos... -Mal lhe sou apresentado entro em cheio -na admiração das suas prendas, e, conhecida -uma parte do seu caracter, vivamente -desejo conhecel-a mais... Vae estranhar -esta curiosidade, e julgar-me importuno...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não acho. Eu sou curiosa tambem, e -tanto que desde já me permitto fazer-lhe -uma pergunta: é amigo de Maximo?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Estimo-o e admiro-o muito... Coisa -rara não é verdade?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Coisa naturalissima, me parece.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Tão moça como é, talvez que se não -dê bem conta das causas da minha amisade -com o <i>magico prodigioso</i>... Vamos -a vêr se me faço entender.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Explique-m’o bem.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Senhorita, a sociedade que eu frequento, -o circulo da minha propria familia -e os habitos da minha casa produzem em -mim um effeito de asphyxia, de lento -ameaço apopletico. Quasi que sem dar<span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span> -por isso, por simples impulso instinctivo -de conservação, lanço-me de vez em quando -á procura de um pouco d’ar respiravel. -Os meus olhos, velhos e nostalgicos, voltam-se -então avidamente para a sciencia -e para a natureza... Maximo, para mim, -é um sanatorio.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Quer-me parecer que vou começando -a entendêl-o, e á sua doença de confinado, -com faltas d’ar e de vida...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Prova de que raciocina. Devo tambem -dizer-lhe que tenho por esse homem um -interesse immenso.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Estima-o devidamente, admira-o pelas -suas altas qualidades...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>E lastimo-o pelo seu infortunio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(surprehendida)</span> Maximo, desafortunado?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Que desdita maior que a da solidão -em que elle vive? A viuvez prematura -submergiu-o nos estudos mais profundos -e mais absorventes, que podem comprometter-lhe -a saude e a vida. É um dos -meus receios.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Tem os filhos, que o acompanham e a -consolam... O Marquez viu-os hoje... Que -lindas creaturinhas! O maior, que vae fazer -agora cinco annos, é um prodigio de intelligencia. -O pequenito, de dois annos, é o -mais engraçado sujeitinho de todo o mundo. -Eu adoro-os, sonho com elles, e gostava, -por elles, de ser creada de meninos.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>O pobre Maximo, aferrado aos seus -estudos, não pode attendêl-os como devia -ser.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>É o que eu digo tambem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Claro! Maximo do que precisa é de -uma mulher... Aqui principiam as difficuldades -e as dúvidas. Por mais que olhe -e que procure, não vejo, não encontro a -mulher digna de repartir a sua vida com -a do grande homem.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não a encontra, está visto, porque a -não ha, não a ha. Para Maximo deve-se -arranjar uma mulher, principalmente, de -muito juizo...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Primeiro que tudo, isso: de muito juizo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>O contrario de mim, que, não tenho -nenhum, nenhum, nenhum!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não direi eu isso...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Que, ainda assim, quando lhe digo tolices -e lhe chamo brutamontes, tonto e sabichão, -não vá o Marquez pensar que o -digo a sério. É brincadeira!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Tambem me queria parecer que não -era uma convicção philosophica.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Brincadeira descabida, talvez, porque -elle é seriissimo... E sobre esse ponto -gostaria de ouvir o seu conselho: acha que -eu deva tornar-me séria?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Nunca! Cada creatura é como Deus a -quiz fazer. Ninguem precisa de ser serio -para ser bom.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Pois veja lá! eu que não sei nada, tinha -pensado isso mesmo!</p> - -<h3>SCENA XI</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA</span> pelo fundo</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(do fundo, áparte)</span> E atreve-se a pôr os -olhos peçonhentos n’uma tal flôr de candura, -este libertino, velho e incorrigivel! -<span class="direction">(Adeanta-se lentamente)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(dando por Pantoja, áparte)</span> Cae-nos o apagador -em cima. Apaguemo-nos!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>O snr. Marquez tinha vindo para me -ouvir tocar, mas eu estou muito estupida -hoje. Ficou para outra vez.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>O meu caro snr. Pantoja sabe que Beethoven -é a minha paixão. Como me tinham -dito que Electra o interpreta bem, esperava -ouvir-lhe a <i>Sonata pathetica</i> ou o -<i>Clair de lune</i>... Puzemo-nos a conversar, -e, visto que não é occasião agora...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(com desabrimento)</span> A hora do estudo acabou.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(recobrando o seu papel de sociedade)</span> Outro -dia será! Virginia e eu, meu presado -snr. Pantoja, muito estimariamos que quizesse -honrar-nos com os seus conselhos -relativamente ao <i>Recolhimento das Escravas -de Jesus</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Sim senhor, hoje irei vêr a marqueza, -e fallaremos...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Nas <i>Escravas</i> a encontrará o meu -illustre amigo toda a santissima tarde... -E como creio que sou demais... <span class="direction">(Movimento -de retirar-se)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>O snr. Marquez não estorva.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Vou-me com a musica... até o laboratorio -de Maximo.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Vá, vá, que ha de gostar!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Até ao almoço, meu muito respeitavel -amigo.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Guarde-o Deus. <span class="direction">(Sae o marquez pelo jardim)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span></p> - -<h3>SCENA XII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E PANTOJA</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(vivamente)</span> Que é que elle lhe dizia? que -lhe estava contando esse depravador de -innocencias?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Nada: historias vagas, anecdotas para -rir...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>As taes historias! Desconfie sempre -das anecdotas jocosas, e dos narradores -amenos, que escondem entre suavidades e -fragrancias de jasmins uma ponta envenenada -de estilete... Estou a achal-a perplexa, -enleada, abstrahida, quasi medrosa, -como quem acaba de sentir pela macia -relva matisada de lirios um roçagar de -reptil.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Ah! não.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Essa inquietação resultante das conversações -perturbadoras ha de acalmal-a -a minha palavra serena e benefica.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Vejo que é poeta, snr. de Pantoja; e -dá-me prazer ouvil-o.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(indica-lhe uma cadeira, e sentam-se ambos)</span> -Minha presada filha, vou dar-lhe a explicação -da intensa ternura que me inspira... -Terá dado por isso?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Tenho.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Tal explicação equivale á revelação -de um segredo...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(muito assustada)</span> Deus do ceu! estou a -tremer...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Socegue, minha filha... E ouça primeiro -a parte d’esta confidencia mais dolorosa -para mim. Fui muito mau, Electra.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Como assim, com a fama de santidade -que tem!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Fui mau—digo-lh’o eu—em certa -occasião da minha vida. <span class="direction">(Suspirando)</span> Já lá -vão alguns annos.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(vivamente)</span> Quantos? Poderei eu lembrar-me -ainda do tempo da sua maldade, -snr. de Pantoja?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não pode. Quando eu me depravei, -quando me afundi no lodaçal do peccado, -não tinha a menina ainda nascido...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Mas nasci afinal...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(depois de uma pausa)</span> É certo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Nasci... e d’ahi? Por quem é, abrevie -essa historia...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>A sua perturbação me indica que devemos -desviar os olhos do passado. A sua -condição presente socega-me.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Porquê?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Porque ha de ter um amparo, um arrimo -para toda a vida. Nada mais ineffavel -para mim do que a fortuna de velar pelo -destino de uma creatura tão bella e tão -nobre! Quero consagrar-me a defendel-a -de todo o mal, a guardal-a, a acalental-a, -a dirigil-a, para que sempre se conserve -incolume, intemerata e pura; para que -nunca lhe toque nem a mais tenue sombra, -nem o mais afastado respiro do mal. É -hoje uma menina que parece um anjo. -Não me conformo com que unicamente o -pareça; quero que para mim o seja.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(friamente)</span> Que eu seja um anjo de sua -composição e propriedade sua?... E parece-lhe -que se deva considerar como -um rasgo de caridade extraordinaria e -sublime esse fervoroso desejo que mostra -de ter assim, um anjo de seu?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não é caridade: é obrigação. Tu—entendes?—tens -o direito de ser amparada -por mim; eu tenho o dever de amparar-te.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Tamanha confiança... tão severa auctoridade...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>A minha auctoridade provém do meu -entranhado affecto, assim como do calor -do sol provém a força da terra. A minha -protecção é um producto da minha consciencia.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(levanta-se muito agitada, e afastando-se de Pantoja, -áparte)</span> Virgem mãe santissima! dois -protectores! e um que precisa de opprimir -para proteger! <span class="direction">(alto)</span> Olhe: eu admiro-o -e respeito muito as suas virtudes. Emquanto -á sua auctoridade—perdoe-me o -atrevimento de lh’o dizer—não a comprehendo -bem claramente, e parece-me -que só a minha tia é que devo submissão e -obediencia.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Vem a ser a mesma coisa. Evarista -faz-me a honra de me consultar em -tudo. Obedecer-lhe a ella é submetter-te -a mim.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Então tambem a tia me quer para -anjo d’ella? ainda por cima de eu já estar -para anjo do snr. de Pantoja?!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Anjo de todos, de Deus principalmente. -Convence-te, filha da minha alma, que -vieste a bôas mãos, e que só te cumpre -deixar-te guiar na virtude e na purificação.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(com displicencia)</span> Pois, se querem purificar-me, -purifiquem-me... Mas estão bem -certos de que eu seja impura e má?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Poderias vir a sel-o. Melhor se vence -o mal prevenindo que remediando.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Pobre de mim! <span class="direction">(Levantando os olhos em extase, -suspira. Pausa)</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Porque suspiras assim?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Deixe-me aliviar o meu triste coração. -Pesam-me demais em cima d’elle as consciencias -dos outros.</p> - -<h3>SCENA XIII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, PANTOJA E EVARISTA</span>, pelo fundo</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Amigo Pantoja, a Madre Barbara da -Cruz espera-o para se despedir e receber -as suas ordens.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Ah! não me lembrava... Vou immediatamente. -<span class="direction">(Áparte a Evarista)</span> Falamos. -Vigie. Acautelemo-nos! <span class="direction">(Antes de saír Pantoja, -pelo fundo, entram o Marquez e Maximo pela -direita)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span></p> - -<h3>SCENA XIV</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, EVARISTA, MARQUEZ E MAXIMO</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Tardamos?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Não. Estiveram no laboratorio?... -<span class="direction">(Formam-se dois grupos: Electra e Maximo á esquerda; -Evarista e o Marquez á direita.)</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Lá estivemos. É um prodigio este -homem... <span class="direction">(Segue falando no que viu)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(suspirando)</span> Sim, Maximo, preciso de -consultar-te sobre um caso grave.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(com vivo interesse)</span> Conta depressa!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(receosa olhando para o outro grupo)</span> Impossivel -agora.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Quando então?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não sei... Não sei quando t’o poderei -dizer... Não se resume em quatro -palavras...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Pobre rapariga!... O que eu te predisse... -Chegam as seriedades da vida, -os deveres, as amarguras...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Talvez.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(olhando-a fito, com grande interesse)</span> Na expressão -da tua physionomia ha um veu de -tristeza e um estremecimento de susto... -Desconheço-te.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Querem annular o que eu sou, e reduzir-me -a outra coisa... a uma coisa angelical -e celeste, que não sei o que é!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(vivamente)</span> Por Deus, não consintas isso! -Defende-te, Electra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Que me aconselhas?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(sem vacillar)</span> A independencia.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>A independencia!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Sim, a emancipação... N’uma palavra: -Insurge-te!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Queres dizer que faça quanto me vier -á cabeça, que danse, que pule, que corra -pelo parque emquanto me appeteça, que -entre na tua casa como em paiz conquistado, -que conspire com os teus pequenos, -que fuja com elles para o jardim, para -longe, para onde eu quizer?...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Tudo!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Olha o que dizes!?...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Digo-te isto.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Mas é o contrario que me tens recommendado -sempre!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(olhando-a fixamente)</span> Na tua cara, no vinco -dos teus sobrolhos, na tremura da tua -bocca, eu vejo que estão radicalmente -transformadas as condições da tua vida. -Tu agora tens medo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(medrosa)</span> Tenho, sim.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Tu... <span class="direction">(Hesitando no verbo que ha de empregar. -Vae a dizer amar, mas não ousa)</span> Tu queres -ardentemente que alguma coisa succeda...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(com effusão)</span> Quero. <span class="direction">(Pausa)</span> E dizes-me -tu que contra o medo... a insubordinação.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Sim: solta livremente todos os teus -impulsos para que quanto ha em ti se manifeste, -e se saiba quem tu és.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>O que eu sou? Queres conhecer...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>A tua alma...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Os meus segredos...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>A tua alma... N’ella se comprehende -tudo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(notando que Evaristo a observa)</span> Basta... -Olham para nós.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span></p> - -<h3>SCENA XV</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS, URBANO E PANTOJA</span>, pelo fundo</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Almoça-se?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(a Evarista, suffocado, vendo Electra com Maximo)</span> -Então assim a deixa só com Mephistopheles?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Não tenha sustos, Pantoja.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(rindo)</span> Não tem de que os ter. Esse -Mephistopheles é um santo. <span class="direction">(Dá o braço a -Evarista)</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(imperiosamente, pegando na mão de Electra para -a conduzir)</span> Commigo! <span class="direction">(Electra, andando com -Pantoja, volta a cabeça para olhar para Maximo)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(olhando para Electra e para Pantoja)</span> Comtigo?... -Havemos de vêr com quem! -<span class="direction">(Maximo e Urbano são os ultimos que saem)</span></p> - -<p class="titlepage smaller">FIM DO PRIMEIRO ACTO</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span></p> - -<h2 class="nobreak">ACTO SEGUNDO</h2> - -</div> - -<div class="act"> - -<p class="main">Scenario do primeiro acto</p> - -</div> - -<h3>SCENA I</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">EVARISTA, URBANO</span>, á banca, despachando negocios, -<span class="allsmcap">BALBINA</span>, que serve á snr.ª de Yuste uma taça de caldo</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(dispondo-se a escrever)</span> Que é que se diz -ao reitor do Patrocinio?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>O que se combinou: approvamos a -planta, e acceitamos o orçamento. Depois -nos entenderemos com o empreiteiro.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Já sabes a quanto monta a obra... -<span class="direction">(Lendo n’um apontamento)</span> Trezentas e vinte e -duas mil pezetas...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Bem. Ainda nos sobeja dinheiro para -a continuação do Soccorro. <span class="direction">(A Balbina, que -recolhe a taça)</span> Não te esqueças do que te -incumbi.</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>Continúo vigiando, como a senhora -determinou. Mas este recreio a que a menina -agora se entrega não me parece de -cuidado. Tantas cartas de namorados juntas -são carteio de mais. A menina, emquanto -a mim, para o que puxa não é -para a tolice, é para a risota.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Mas quem traz todas essas cartas que -ella recebe?</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>Isso não sei... Mas ando de pedra no -sapato com a Patros.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Espreita-as, e informa-me.</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>Fica ao meu cuidado, deixe estar! <span class="direction">(retira-se -Balbina)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span></p> - -<h3>SCENA II</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E MAXIMO</span>, apressado, com plantas e papeis</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Estórvo?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Não, filho, podes entrar.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>São dois minutos, tia.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Vens do ministerio?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Venho da conferencia com os bilbaínos. -Tenho hoje um dia de prova tremenda... -Immenso que conferir, immenso -que falar, immenso que correr, e, para me -não faltar mais nada, a casa toda revirada -com o debaixo para cima!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Mas, homem, que foi isso?! Diz a Balbina -que despediste as creadas...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Pessoal infame, tia! Tres ladras! Pul-as -na rua. Estou com o ordenança e com a -ama. Que lindo arranjo, hein?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Vem comer cá.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Comer cá é bom de dizer. A tia fala -bem! E os pequenos com quem ficam? -Se os trago põem-lhe a cabeça em agoa, -desarranjam-lhe tudo...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Não tragas. Eu adoro as creanças. -Mas têl-as commigo, não. Revolvem -tudo, sujam tudo! corridas, risadas, cantatas, -berratas, guinchos, patadas medonhas -no chão! fazem-me doida. E mêdo -que caiam, que se mólhem, que as arranhem -os gatos, que rachem as cabeças, -que esburaquem os olhos uns dos outros. -Nada... Não quero responsabilidades.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Eu o que queria é que a tia me mandasse -uma cosinheira.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Manda-se-te para lá a Henriqueta. -Urbano, toma nota.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Bom. <span class="direction">(Dispondo-se a partir)</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Olha lá! os teus negocios parece que -vão bem... Já sabes o que te tenho dito: -Se o <i>magico prodigioso</i> precisar de dinheiro -para a implantação dos seus inventos, -não tem mais do que dizel-o...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Obrigado, tia... Tenho á minha disposição -quanto dinheiro queira... Assim -eu tivesse uma creatura que me soubesse -fazer sôpa!</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Esse senhor dentro de poucos annos -ha de estar muito mais rico do que nós.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Isso bem pode ser que sim.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Obra do seu talento.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(com modestia)</span> Não: do trabalho, da perseverança, -da paciencia...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Nem me digas! Trabalhas monstruosamente.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Quanto é preciso que trabalhe, por -obrigação, por consolação, por prazer, e, -a final, por enthusiasmo adquirido tambem.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Passa a monomania isso. É uma borracheira -de estudo.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(grave)</span> Não: é a ambição, a maldita -ambição, que a tantos fascina e a tantos -deita a perder.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Ambição legitima e indispensavel á -humanidade. Imagine a tia...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(cortando-lhe a palavra)</span> É a ancia das riquezas, -para saciar com ellas a avidez do -goso. Gosar, gosar, gosar: isso unicamente -quereis, e para isso vos consumis, sacrificando -o estomago, o cerebro, o coração e -a propria alma, sem vos lembrardes da -inanidade das coisas da terra e da brevidade -da vida. Rapidamente nos vamos, e -tudo cá fica.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(impaciente por sahir)</span> Tudo, menos eu, que -me safo já.</p> - -<h3>SCENA III</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E JOSÉ</span></p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p><span class="direction">(annunciando)</span> O snr. marquez de Ronda.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(detendo-se)</span> Esperarei já agora para o -vêr.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(recolhendo os papeis)</span> Não manda Deus -que trabalhemos hoje.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Adivinho ao que vem.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Que entre, José, que entre! <span class="direction">(José sae)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Vem convidal-os para a inauguração -da nova <i>Irmandade da Escravidão</i> fundada -por Virginia. Disse-m’o hontem á -noite.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Bem sei... Então é hoje?</p> - -<h3>SCENA IV</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">EVARISTA, URBANO, MAXIMO E O MARQUEZ</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(saudando com affabilidade)</span> Querida amiga... -Urbano... <span class="direction">(A Maximo)</span> Olá! não -esperava encontrar o magico...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>O magico diz-lhe adeus e some-se.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Um momento. <span class="direction">(Retendo-o)</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Sim, Marquez: iremos.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Já sabem?</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>A que horas?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Ás cinco em ponto. <span class="direction">(A Maximo)</span> A si -não lhe digo porque sei que não tem -tempo.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Desgraçadamente. Segue-se então que -o não espero hoje.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Como, se temos essa festa rija de religião -e de mundanismo! mas lá vou á -noite.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(levemente zombeteira)</span> Já cá se tem notado, -com muito regosijo é claro, a frequencia -das visitas do Marquez á caverna do nigromante.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>O Marquez dá-me muita honra com a -sua amizade e com o interesse que toma -pelos meus estudos.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Veio-me agora o delirio das maquinas -e dos phenomenos electricos... Caturrices -de velho!</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(a Maximo)</span> Parabens pelo discipulo.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Deus sabe... <span class="direction">(Maliciosa)</span> Deus sabe -quem será o mestre e quem o alumno!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>A respeito do mestre, sinto que elle -esteja presente porque isso me priva de -applicar aos seus meritos todas as mordeduras -que a inveja me inspira.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Retira-te, Maximo; vamos dizer mal -de ti.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Repaste-se a má lingua! Adeusinho -todos. Adeus, tia.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Vae com Nossa Senhora!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(a Maximo que sae)</span> Até á noite, se me -deixarem. <span class="direction">(A Evarista)</span> Extraordinario homem! -Sempre o admirei muito, mas agora -que tenho apreciado mais de perto todas -as suas qualidades, sustento que não ha -outro no mundo como este seu sobrinho.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>No terreno scientifico.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Em todos os terrenos, senhora de -Yuste. Pois quê?!...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>De certo que como intelligencia...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(com enthusiasmo)</span> Como intelligencia, -como caracter, como coração, como tudo... -Quem é que é melhor?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(sem querer empenhar-se n’uma discussão delicada)</span> -Bem, bem, Marquez... <span class="direction">(Variando de tom)</span> É -então ás cinco, disse...?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Em ponto. Contamos tambem com -Electra.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Não sei se a leve...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Ora essa! Tenho incumbencia especialissima -de conseguir a presença da senhorita -Electra n’esta solemnidade, e já -prometti que sim. Virginia deseja muito -conhecêl-a.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Á vista d’isso...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não me deixem ficar mal!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Bem: conte com ella.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Teremos muita gente, toda a nossa -roda...</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Oh! vae estar brilhante com certeza.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Com que então, até já. Tenho de ir a -casa de Otumba, e passarei por cá na volta. -<span class="direction">(Ouve-se a voz de Electra pela esquerda, chalrando e -rindo alegremente. O marquez pára a escutal-a)</span></p> - -<h3>SCENA V</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E ELECTRA</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Pois sim, sim... rica, minha riquinha! -mais um beijo... Que doida que és! -que doida que sou! mas entendemo-nos -ambas. <span class="direction">(Apparece pela esquerda com uma grande -e rica boneca, que beija e que embala. Detem-se envergonhada)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Que vem a ser isto, rapariga?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não lhe ralhe.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Mademoiselle Lulu e eu damos á lingoa, -contamo-nos coisas.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(ao Marquez)</span> Anda desatinada hoje.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(afastando-se, diz segredinhos á boneca. Os outros -olham)</span> Que linda que és, Lulu! Mas -elle, ainda mais lindo que tu. Que feliz -seria o meu amor com elle e comtigo!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Sempre folgazã, pelo que vejo...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Pelo contrario: desde hontem n’uma -tristeza que nos dá cuidado.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Tristeza? idealidade antes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>E, agora, está vendo...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(carinhoso, dirigindo-se para ella)</span> Rica menina!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(approximando a cara da boneca da do marquez)</span> -Vamos, Mademoiselle, não se me faça -môna: dê um beijinho a este senhor. <span class="direction">(Antes -que o marquez beije a boneca dá-lhe um leve carolo -com a cabeça de Lulu)</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>A Lulu não beija: a Lulu marra. <span class="direction">(Acariciando -o queixinho de Electra)</span> Por isso gósto -mais da sua amiguinha do que d’ella.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>De miôlo póde crêr que tanto tem uma -como outra.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Mas que conversas tu com a boneca?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Desafógo com ella, conto-lhe as minhas -penas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Penas, tu?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Penas eu, sim, pois quê?... E quando -nos vê muito caladas ambas é porque -nos estão lembrando as nossas coisas passadas...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Ah! se a interessa o passado já é um -signal de que pensa pela sua cabecinha.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>E que coisas passadas são essas que -dizes?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Digo do tempo em que nasci. <span class="direction">(Com gravidade)</span> -O dia em que eu vim ao mundo foi -um dia muito triste, pois não foi? Lembra-se -aqui alguem de como foi esse dia?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Filha, que tontices que dizes! E não -tens vergonha de que o snr. Marquez te -veja tão adoidada?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Creia, tia, que não ha doidos tão doidos, -nem creanças tão creanças, que não -tenham sua razão para dizer o que dizem -e para fazer o que fazem.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Muito bem pensado.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Qual é então a tua razão para esses -brinquedos tão fóra da tua edade?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(olhando para o marquez, que sorri ao seu lado)</span> -Isso não posso contar agora.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Quer dizer que me retire.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Electra!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Eu ia já despedir-me... com bem -pena de que as minhas occupações me -privem de convivencia tão interessante. -Adeus, senhorita; volto ás cinco para a -levar commigo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>A mim!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Sim; vamos á inauguração das <i>Escravas</i>.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E eu tambem?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Podes-te ir vestindo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(assustada)</span> Ha de estar muita gente... -A gente mette-me medo. Gósto mais de -ficar só.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Estaremos em familia. E com isto me -despégo.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Até logo, Marquez.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(a Electra)</span> Menina, ás cinco; aprendámos -a ser pontuaes. <span class="direction">(Sae pelo fundo com Urbano)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span></p> - -<h3>SCENA VI</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">EVARISTA E ELECTRA</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Explicarás agora a extranha maluquice -em que andas.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Eu lhe digo, tia: tenho uma dúvida... -como direi?... um problema...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Problemas, tu!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Exactamente, no plural, problemas... -porque é de mais d’um que se trata.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Valha-te Nossa Senhora!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E quero vêr se m’os resolve...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Quem?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Uma pessôa que já não vive.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Que dizes?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Minha mãe. Não se afflija... Minha -mãe pode-me dizer o que eu pretendo... -e aconselhar-me. A tia não acredita que -as pessôas do outro mundo podem vir a -este? <span class="direction">(Gesto de incredulidade de Evarista)</span> Não -acredita. Acredito eu. Acredito porque o -tenho visto. Eu tenho visto minha mãe...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Virgem Maria! como tens essa cabeça!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>... Quando era muito pequenina, assim, -d’este tamanho...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Nas Ursulinas de Bayona?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Sim... Minha mãe apparecia-me.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Em sonhos, naturalmente.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não, não: estando eu acordada, tão -bem acordada como estou agora. <span class="direction">(Colloca -a boneca n’uma cadeira)</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Pensa no que dizes, Electra...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Quando eu estava só, sósinha, triste ou -doente; quando alguem me lastimava -dando-me a perceber a desairosa situação -que eu tinha no mundo, a minha mãe -vinha, e consolava-me. Primeiro via-a -imperfeitamente, confusa, como vaporosa, -a parecer diluir-se nas coisas distantes, -nas coisas proximas. Adeantava-se, n’uma -claridade que tremeluzia... Depois, não -bulia mais; era uma fórma quieta, uma -serena imagem triste... E eu não podia -então duvidar de que a tinha ali... Era -minha mãe... Das primeiras vezes via-a -em traje elegante de grande dama... -Um dia, por fim, appareceu-me de habito -e escapulario de monja. O seu rosto envolvido<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span> -nas toucas brancas, e o seu corpo -coberto pela estamenha pendente tinham -uma magestade de belleza que não póde -imaginar quem a não viu.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Tu deliras, minha pobre filha!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Junto de mim abria os braços como -se quizesse enlaçar-me. Falava-me n’uma -voz dôce, mas longinqua e recondita... -não sei como lh’o explique... Eu perguntava-lhe -coisas, e ella respondia-me... -<span class="direction">(maior incredulidade de Evarista)</span> A tia não -acredita?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Vae dizendo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Nas Ursulinas tinha uma bella boneca, -a que eu chamava tambem Lulu... Veja -a tia que mysterio este!... Sempre que -eu andava pela horta, ao cahir da tarde, -só, levando ao colo a minha boneca—tão -melancolica eu como ella—olhando muito -para o ceu, era certa, segura, infallivel, a -visão de minha mãe... primeiro entre as -arvores, como enformada no ôco das folhagens;<span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span> -depois, desenhando-se de luz, e -caminhando para mim, vagarosamente, -por entre os troncos escuros...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>E em mais crescida, quando vivias em -Hendaya... tambem?...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Nos primeiros tempos não... Então -já eu brincava com bonecas vivas: os dois -pequerruchinhos da minha prima Rosalia, -menina e menino, que nunca se separavam -de mim, e me adoravam, como eu a elles. -De noite, na solidão do nosso quarto, com -os meninos dormidinhos, como elles aqui... -e eu aqui <span class="direction">(indica o logar dos dois leitos parallelos)</span> -por entre as duas caminhas brancas a -minha mãe passava, meiga, silenciosa, -aeria, sem pisar o chão... E debruçava-se -para mim...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Cala-te, por Deus, que até me fazes -medo... Mas depois que foste mais -crescida... agora—digamos—acabaram -essas visões...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Nunca mais as tive desde que deixei -de viver com bonecas e com meninos. É -por isso que eu trato de voltar á edade -da innocencia, e de me fazer creança pequena -outra vez, a vêr se, tornando a ser -o que fui, voltará tambem minha mãe a -vêr-me, como d’antes... Para que falemos, -e me responda ao que lhe quero perguntar... -e me dê conselho...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>E que dúvidas são as tuas, que assim -precisas...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(pondo os olhos no chão)</span> Dúvidas?... coisas -que a gente não sabe, e quer saber.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Tolice! Que tão grave caso vem a ser -esse para que precises de consulta e de -conselho?...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Cá uma coisa... <span class="direction">(Vacilla, está quasi a -dizêl-o)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>O quê? dize.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Uma coisa... <span class="direction">(Com timidez infantil dando -voltas á boneca e sem se atrever a revelar o seu segredo)</span> -Uma certa coisa...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(severa e affectuosa)</span> Ih! que intoleravel -que estás, com tanta creancice! <span class="direction">(Tira-lhe a -boneca)</span> Que estupida e ao mesmo tempo -que atilada que tu és! Tão depressa te -mostras um prodigio de intelligencia e de -graça como parece que não passas de -maluca... Andam ás bulhas com a tua -alma cherubins e demonios. Temos que -intervir para acabar com essa lucta e -dar em Satanaz muitos açoites, ainda que -algum te caia em ti e te dôa um poucochito... -<span class="direction">(Beija-a)</span> Vamos! juizo. Precisas -de te occupar n’alguma coisa, de distrahir -essa cabeça... Não te esqueça de que é -ás cinco a festa... Vae-te arranjar, anda...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Sim, tia.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Faltam tres quartos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Vou apromptar-me.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>E poucas brincadeiras... cuidado! -<span class="direction">(Sae pelo fundo levando a boneca pendida, suspensa -por um braço)</span></p> - -<h3>SCENA VII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E PATROS</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(olhando para a boneca)</span> Pobre Lulu! como -te levam á dependura! <span class="direction">(Imitando a postura da -boneca e apalpando o seu proprio braço dolorido)</span> -Que dôr que vaes ter, coitada, no hombro -desengonçado! <span class="direction">(Senta-se meditabunda)</span> E o outro -á minha espera... Como foi triste a -separação! como elle chorava, estendendo-me -os bracinhos!... e eu que lhe prometti -voltar...</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p><span class="direction">(assomando cautelosa pela esquerda)</span> Senhorita, -senhorita...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Entra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span></p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p><span class="direction">(avançando com precaução)</span> Não está ninguem?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Estamos sós.</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Não se pilha outra occasião assim, -menina! Ou agora ou nunca.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Vens de lá?</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Agora mesmo... Muitos senhores que -dizem numeros... milhões, <i>bilhões</i> e -<i>quatrilhões</i>... E lá dentro, ninguem.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(vacillando)</span> Atrevo-me?</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p><span class="direction">(decidida)</span> Atreva-se, menina.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Nossa Senhora do Carmo, protegei-me! -<span class="direction">(Dirige-se á sahida que dá para o jardim. -Pára assustada)</span> Espera. Não será melhor -sahirmos pelo outro lado? Pode estar a -tia á janella da casa de jantar...</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Pode, pode! Demos a volta por aqui. -<span class="direction">(Pela esquerda)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Sim, por aqui... Estou a tremer -toda... de valentia! e de medo. Ávante! -<span class="direction">(Saem a correr pela esquerda)</span></p> - -<h3>SCENA VIII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">URBANO E JOSÉ</span>, que entram pelo fundo ao tempo -a que saem as duas</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Quem vae ali?</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>É a Patros.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Então que temos?... conta lá.</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>São já cinco os que fazem olho á menina: -cinco vistos por mim. Fóra os que -não vi.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>E quê? rondam a casa?</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Dois pela manhã, dois de tarde, e o -mais pequenitate de todos, de sol a sol.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Tens notado se ha communicação entre -a janella do quarto da senhorita Electra -e a rua por meio de cesto pendente -ou de cordão telephonico?</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Não vi nada d’isso. Mas cá eu, se fôsse -os senhores, mudava a menina para os -quartos d’acolá. <span class="direction">(Á esquerda)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>E algum d’esses meninos não se coará -para dentro do jardim?</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Isso sim! Não que elles teem espinhaço -e querem-o para mais d’uma vez.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Bem: vae vigiando sempre. <span class="direction">(Entra Cuesta -pelo fundo)</span></p> - -<h3>SCENA IX</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">URBANO E CUESTA</span>, com papeis e cartas</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Ora graças a Deus, Leonardo!</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Já te tinha dito que não vinha de manhã. -<span class="direction">(A José, dando-lhe uma carta)</span> Isto para -registar. Logo irão mais cartas. <span class="direction">(Sae José)</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(pegando n’um papel que Cuesta lhe entrega)</span> -Que vem a ser isto?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>O recibo das cem mil e tantas pesetas... -assigna-me agora um talão de -sessenta e sete mil...</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Para a remessa para Roma...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Isso mesmo. E Evarista?</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>A vestir-se.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Já sei que vaes á inauguração das <i>Escravas</i> -e que tambem vae Electra.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Essa pequena, positivamente, não promette -coisa boa. Está cada vez mais caprichosa -e mais leviana...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(vivamente)</span> Sem maldade!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Mas com symptomas d’isso. Evarista, -que é a cautella e a prudencia em pessoa, -anda a pensar em submettel-a a um regimen -sanitario em S. José da Penitencia.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Has de me permittir que discorde inteiramente -d’esse alvitre. Tu dirás que -quem me manda a mim...</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Pelo contrario: como amigo da casa -muito estimo que dês opinião e conselho.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Isso de arrastar para a vida claustral -uma rapariga que não denota manifesta -vocação de piedade, é grave... E não -devereis extranhar que porventura alguem -se opponha...</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Quem se ha de oppôr?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Que sei eu! alguem... Na vida d’esta -menina ha, por emquanto, um factor desconhecido... -Um bello dia poderá succeder... -não direi que succeda... Um -bello dia, quando puxeis pela corda com -mais força, poderá vir uma voz que diga: -«Alto lá, senhores de Yuste!»</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>E nós responderemos: «Querido snr. -factor desconhecido, aqui tem a menina, -com o que nos livra d’uma tutella difficil -e incommoda.»</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(senta-se com muita fadiga)</span> Isto, Urbano, é -apenas uma supposição minha... é um -modo de fallar...</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Não te sentes bem? Queres tomar alguma -coisa?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Não... Este maldito coração recusa-se -a ser dirigido pela vontade...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Descansa... Queres-te tu deitar?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Pois não sabes o que tenho que fazer? -<span class="direction">(Tirando papeis do bolso)</span> Para já, duas carta -urgentes, que teem de partir hoje.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Escreve-as aqui. <span class="direction">(Fazendo um logar á meza, -e retirando livros e papeis)</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Está dito... installo-me ahi.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Eu estou atarefadissimo tambem. Tenho -voltas que dar...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Não penses mais em mim. <span class="direction">(Escreve)</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Desculpa. Evarista não tarda ahi.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(sem olhar)</span> Até logo... <span class="direction">(Sae Urbano pelo -fundo)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span></p> - -<h3>SCENA X</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">CUESTA, ELECTRA E PATROS</span> (Assomam as duas á porta -da esquerda como para reconhecer o terreno)</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Cuidado, Patros... Por aqui é difficil -trazêl-o.</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p><span class="direction">(reconhecendo Cuesta, que vê de costas)</span> D. Leonardo!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Chut!... O mais seguro é deixal-o -no teu quarto até á noite. Que massada a -tal inauguração!</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(volta-se ao ouvir vozes)</span> Ah! Electra...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Importunamos, D. Leonardo?...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Não, minha amiguinha. Quer fazer-me -o favor de esperar um pouquinho... que -termine uma carta? Tenho que lhe dizer.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Aqui me tem. <span class="direction">(Áparte a Patros)</span> Que -sécca! <span class="direction">(Alto)</span> Vinhamos unicamente buscar -um papel e um lapiz para umas contas. -<span class="direction">(Tira da meza um lapiz e papel. Áparte a -Patros)</span> Cuida bem d’elle... Que amor -que elle está adormecido! Com o seu focinhinho -côr de rosa e as mãos sujas, com -as unhitas pretas de andar a escarvar na -terra... Dá vontade de o engulir!</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Com os lindos pés gordos, e a espessa -carapinha d’ouro que elle tem...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(com effusão de carinho)</span> Dá volta á cabeça -da gente. Olha bem por elle, Patros; vê -lá!...</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Levo-lhe agora um bôlo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não dou licença. Prohibo rigorosamente -os bôlos. Para lhe sujarem o estomago!... -Leva-lhe uma sopinha...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span></p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Mas como hei de eu arranjar sopinha?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Tens razão... Ah! pede na cosinha -uma taça de leite para mim.</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Isso mesmo! E dou-lh’a quando acordar.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Toma lá tambem o papel e o lapiz -para elle fazer os seus rabiscos... É a -coisa de que mais gosta... Depois, á noite, -na primeira occasião, mette-o no meu -quarto, para dormir comigo.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(fechando a carta)</span> Acabei.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Perdoe um momento, D. Leonardo. -<span class="direction">(Áparte a Patros)</span> Não o deixes nem um momento... -Muito cuidadinho! Se D. Leonardo -me não prender muito, ainda irei -dar-lhe um beijo antes de me vestir.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Patros, estas cartas para o correio!</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Vão-se levar já.</p> - -<h3>SCENA XI</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">CUESTA E ELECTRA</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(pegando-lhe nas mãos)</span> Venha cá, sua grande -extravagante... quanto me alegra -vêl-a!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>É muito meu amigo, D. Leonardo? -Não imagina como eu gosto de que me -estimem!</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Mas precisamos tambem de ter mais -um poucochinho de proposito e d’assento -n’essa cabecinha... É bom que não haja -nada que se nos dizer... E a mim contaram-me—pêtas -já se vê!—que fervilham -os namorados...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Ah! Sim, eu já lhes perdi a conta! -Mas não gosto senão d’um.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>D’um! E quem é?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Isso... lá me parece perguntar de -mais...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Eu conheço-o?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Se conhece!</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Fez-lhe a sua declaração d’uma maneira -decente?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não me fez declaração nenhuma, nem -me disse nada... até agora.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>E a menina ama esse timido donzel, e -julga-se correspondida?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Suspeito que me corresponde... Mas -não o asseguro...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Tenha confiança em mim, e conte-me -isso.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Agora não, que vou vestir-me.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Falaremos depois.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(medrosa, olhando para o fundo)</span> Se não -viesse a tia...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Vista-se... Ámanhã será.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Sim, ámanhã. Adeus. <span class="direction">(Corre para a direita. -Movida de uma ideia repentina dá meia volta)</span> Antes -de me vestir... <span class="direction">(Áparte)</span> Não resisto. -Vou dar-lhe um beijo. <span class="direction">(Sae correndo pela esquerda. -Cuesta segue-a com a vista e suspira)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span></p> - -<h3>SCENA XII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">CUESTA, URBANO E EVARISTA</span>; depois <span class="allsmcap">ELECTRA</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(reunindo e recolhendo os papeis)</span> Que felicidade -a minha, se publicamente a pudesse -amar!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(vestida para sahir)</span> Desculpe terem-no deixado -para ahi, Leonardo. Já me disse -Urbano que lançamos uma grande operação.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(entregando a Cuesta um talão)</span> Ahi tens.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Não me espantarei se o vir apparecer-nos -com outra carga de dinheiro... Deus -o dá, Deus o recebe... <span class="direction">(Assoma Electra pela -porta da esquerda. Ao vêr a tia hesita, não se atreve -a atravessar. Decide-se por fim, procurando escapulir-se. -Evarista segura-a)</span> Ora não ha! Então -ainda te não vestiste? D’onde vens?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Da casa de engommar. Fui á Patros -para me alisar um papo...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Gabo-te a pachorra! <span class="direction">(Notando que sae a -ponta de uma carta de uma das algibeiras do avental -de Electra)</span> Que tens aqui? <span class="direction">(Pega na carta)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Uma carta.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Creancices.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Não imagina, Cuesta, o desgosto que -esta rapariga me dá com as suas travessuras, -que já não são tão innocentes como -isso! <span class="direction">(Dá a carta a Urbano)</span> Lê tu.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Vamos a vêr isso.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(lendo)</span> Senhorita—Tenho para mim -que n’esse rosto feiticeiro...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(zombando)</span> Muito bonito! <span class="direction">(Electra contém -difficilmente o riso)</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(continúa a ler)</span> ...que n’esse rosto feiticeiro -escreveu o Supremo artifice o problema -do... do... <span class="direction">(Sem entender a palavra seguinte)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(apontando)</span> ...do «cosmos».</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Isso mesmo: do cosmos, symbolisando -em seu luminoso olhar, na sua bocca divina, -o poderoso agente physico, que...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(arrebatando a carta)</span> Que indecencias!</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(descobrindo outra carta em outro bolso)</span> -está outra. <span class="direction">(Pega n’ella)</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Vejamos essa!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Isto, Electra, não é o corpo de uma -menina: é um marco postal.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(lendo)</span> Desapiedada Electra, com que -palavras exprimirei o meu desespero, a -minha loucura, o meu frenesi...?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Basta... Isso revolta-me. <span class="direction">(Incommodada -revista as algibeiras de Electra)</span> Apostaria que -ainda ha mais.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Indulgencia, Evarista!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Tia, não se amofine mais...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Que me não amofine!... A amofinação -eu t’a contarei... Veste-te immediatamente.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(consultando o relogio)</span> É quasi a hora.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>N’um momento!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Avia-te, avia-te! <span class="direction">(Electra, contente de se -vêr solta, corre para o seu quarto)</span></p> - -<h3>SCENA XIII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">CUESTA, URBANO, EVARISTA E PANTOJA</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(com tristeza e desalento)</span> E então, Leonardo, -que me diz a isto?</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>O socego com que deixou devassar os -seus segredos demonstra bem a pouca -importancia que lhes dá e que elles teem.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Não, não é tanto assim...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(pelo fundo, anciado)</span> Está o Cuesta! Já -se não pode dizer o que se quer...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(contente de vêl-o)</span> Até que emfim, Pantoja... -<span class="direction">(Formam-se dois grupos: á esquerda Cuesta -sentado, Urbano em pé; á direita, Pantoja e Evarista, -sentados)</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Venho contar-lhe coisas da maior gravidade.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Ai de mim! seja o que Deus quizer.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(repetindo a phrase com reservas)</span> Seja o que -Deus quizer... está muito bem, mas queiramos -tambem nós o que quer Deus, e -empenhemos toda a nossa vontade em -produzir o bem, por mais que nos custe!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>A sua energia fortifica a minha... -Então... que ha?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Ha pouco, em casa de Requesens, falou-se -de Electra em termos dissolutos.</p> - -<p>Contavam que, indecorosamente envolvida<span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span> -por um vespeiro de namorados, -ella se divertia a receber e a mandar cartas -a toda a hora do dia.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Infelizmente, Salvador, a frivolidade -d’esta menina é tal que, com toda a minha -ternura por ella, nem eu mesma a sei defender!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(angustiado)</span> Pois saiba mais, e veja que -não tem limites a maldade humana. Hontem -á noite o marquez de Ronda, na tertulia -da sua casa, na presença de Virginia, -sua santa mulher, e de outras pessoas -do maior respeito, não cessou de exaltar -os encantos de Electra com expressões do -mais material e repugnante mundanismo.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Tenhamos paciencia, meu amigo.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Paciencia... Paciencia é uma virtude -que vale muito pouco sempre que se não -reforça com a resolução. Não confundamos -essa virtude com o vicio da negligencia, -e determinemo-nos com firmeza, minha<span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span> -querida amiga, a resguardar Electra -da infamia do mundo, em logar onde não -veja exemplos de leviandade e onde não -ouça uma só palavra do contagioso impudor -da sociedade em que vivemos.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Onde respire um ambiente de pura virtude...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>E não a perturbe o zumbido de pretendentes -impudicos e infecciosos... Na -critica edade da formação do caracter, em -que ella está, temos nós a obrigação de -livral-a do immenso perigo, do maior de -todos...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Que perigo?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>O homem. Nada na terra peor que o -homem... quando não é bom. Por mim -o sei: fui o meu proprio mestre. O meu -desvario, de que pela graça de Deus me -curei, e depois d’isso a minha tão longa e -entristecida convalescença, duramente me -ensinaram a grave e delicada medicina<span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span> -das almas... Deixe-me, e eu lhe salvarei -essa menina... <span class="direction">(Interrompe-o Urbano, que passa -para o grupo da direita)</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(dando importancia á sua revelação)</span> Sabem o -que me disse Cuesta? Que entre a cafila -dos pretendentes ha um preferido. Electra -mesma o confessou.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>E quem é? <span class="direction">(Passa da direita para a esquerda, -ficando á direita de Pantoja e d’Urbano)</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(a Pantoja)</span> Isto poderia modificar os -termos do problema.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(mal humorado)</span> E que significa essa preferencia? -É um affecto puro, ou é uma -paixoneta immoderada, febril e ephemera, -d’essas que constituem o mais grave symptoma -da loucura do seculo? <span class="direction">(Excitado e levantando -a voz)</span> É o que é preciso saber-se! -que se saiba quem é!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Saberemos...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(passando para junto de Cuesta)</span> O snr. Cuesta -não a interrogou?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(ao centro, a Urbano)</span> Procura tu certificar-te.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(enfadado, em resposta a Pantoja)</span> Parece-me -que estão os snrs. desenvolvendo um -zelo excessivo e contraproducente.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(com uma suavidade que não encobre a sua altaneria)</span> -O meu zelo, meu muito querido -D. Leonardo, é o zelo que devo ter.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(um tanto ferido)</span> Eu julguei na minha -qualidade de velho amigo da casa...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(levando Urbano comsigo para a direita)</span> Cuesta -mette-se demais com o que não é da -sua conta.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(a Evarista sem lhe dar cuidado que Pantoja o -ouça)</span> O nosso presado snr. Pantoja é talvez -demasiadamente afouto na facilidade -com que penetra nas attribuições dos outros.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(sem saber bem que explicação dar)</span> Emfim, -como nosso amigo muito antigo e leal...</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Tambem eu o sou.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(olhando para o fundo)</span> Ahi está já o Marquez.</p> - -<h3>SCENA XIV</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E O MARQUEZ</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Em boa hora chego!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(áparte)</span> Em pessima!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(depois de saudar Evarista)</span> E Electra?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Vem já.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(cortejando os outros)</span> Já não é cêdo.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>É a hora. <span class="direction">(Pantoja, impaciente, espera Electra -á porta do seu quarto. Cuesta fala com Urbano)</span></p> - -<h3>SCENA XV</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E ELECTRA</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(com alegria annunciando-a)</span> Eil-a aqui. <span class="direction">(Electra -entra pela direita, muito elegantemente vestida -com singeleza e distincção)</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(encomiastico)</span> Que elegante!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(satisfeita, voltando-se para que a vejam de todos -os lados)</span> Meus senhores, que me dizem?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Divina!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Ideal!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Sim: estás bem.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(fastiento dos elogios tributados a Electra)</span> -Vamo-nos? <span class="direction">(Preparam-se para sahir)</span></p> - -<h3>SCENA XVI</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E BALBINA</span>, que interrompe bruscamente a scena, -entrando pela esquerda, pressurosa e suffocada</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>Minha senhora! Minha senhora! <span class="direction">(Suspensão -geral)</span></p> - -<p class="speaker">Todos</p> - -<p><span class="direction">(menos Electra)</span> Que é?</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>Ai! o que a menina foi fazer!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(áparte, batendo o pé)</span> Descobriram-me!</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>Santo nome de Jesus!... Do que ella -se havia de lembrar!... <span class="direction">(rindo)</span> Não, que -uma coisa assim!... Em nome do Padre...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(impaciente)</span> Acaba...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Eu confessarei, se me deixam. Foi -que...</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>Foi a casa do snr. D. Maximo, e roubou-lhe... -com muita graça, mas roubou...</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>O quê?...</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>O menino mais pequeno! <span class="direction">(Olham todos -para Electra, que promptamente se recompõe do susto -e assume uma altitude serena e grave)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(a Electra)</span> Isto que vem a ser?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Electra!</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>Estava o menino dormindo muito socegadinho. -A senhorita e a maluca da -Patros entraram pela casa dentro, ás escondidas -e em bicos de pés... Embrulharam-o, -muito bem embrulhado, e fugiram -com elle para cá.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>É inacreditavel.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(reprimindo a sua irritação)</span> E não é decente.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(com effusão)</span> Tia! pois se nos queremos -tanto, tanto d’alma!... eu a elle e elle a -mim!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(enthusiasmado)</span> Que exemplar mulher!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span></p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p>Merece todo o perdão.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Maximo estará furioso a estas horas...</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>O José já para lá foi a correr...</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>E a creança onde está?</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>Está no quarto da Patros. A menina -escondeu-o lá até que ella de noite lh’o -leve para dormir com a menina. <span class="direction">(Sorrisos -dos homens, menos de Pantoja)</span> O menino acordou -ha um momento, e a Patros quiz dar-lhe -um biscouto para o entreter... Eu, -que o ouço, acudo, e vejo-o... Virgem -Maria! Quiz pegar n’elle... Qual! estrebuchou -e bateu-me... Tive de lhe dar -uma palmadinha tambem...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(correndo para a esquerda com um impulso instinctivo)</span> -Oh! meu querido amorsinho!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(procurando contel-a)</span> Não.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(segurando-a por um braço)</span> Espera.</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p><span class="direction">(á porta da esquerda)</span> Ainda se ouve chorar.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Pobresinho d’elle!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Que o levem para a sua casa.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Ninguem lhe toque... Ninguem se -atreva a tocar-lhe... É meu. <span class="direction">(Desprende-se -á força de Evarista e de Pantoja, que querem -contel-a, e sae de uma corrida pela esquerda)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span></p> - -<h3>SCENA XVII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E JOSÉ</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(colerico, passando para a direita)</span> Que falta -de dignidade e de juizo!</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p><span class="direction">(pressuroso, pelo jardim)</span> Minha senhora...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>O snr. D. Maximo que disse?</p> - -<p class="speaker">José</p> - -<p>Não sabia de nada. Está lá com uns -senhores. Quando lhe contei poz-se a -rir... Como se nada!... Diz que o menino -que está muito bem entregue á menina.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Já é pachorra!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(a José)</span> Vaes leval-o a casa. Para que -a menina aprenda.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Voto por que a deixem gosar um pouco -mais do seu lindo crime.</p> - -<h3>SCENA XVIII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E ELECTRA</span>, pela esquerda, trazendo nos braços -o menino, que tem pouco mais ou menos dois annos</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Queridinho da minh’alma!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Deixa o menino, e vamo-nos.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>São horas.</p> - -<p class="speaker">Cuesta</p> - -<p><span class="direction">(ao marquez)</span> Eu, pela minha parte, acho -que é um rasgo de maternidade. E -applaudo-o.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Eu digo que é um lance angelico. E -adoro-o.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(querendo pegar no menino)</span> Então, Electra?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(em passo ligeiro afasta-se dos que querem tirar-lhe -o pequerrucho. Este abraça-lhe o pescoço)</span> Não, -não posso deixal-o agora.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Balbina, pega n’esse menino.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(passa de um lado para o outro, procurando um -refugio)</span> Não! e não!</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Dá-m’o a mim.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(imperioso, a José)</span> Pegue n’elle, José.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não, já disse!... Ninguem lhe toca... -É meu.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Mas, filha, se temos de sahir!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Saiam! vão com Deus. <span class="direction">(Vendo que o chapeu -a inhibe de abraçar e beijar o seu amiguinho, arranca-o -rapidamente da cabeça e atira-o para longe. -Continúa a passear o menino, fugindo dos que lh’o querem -tirar, e, sem ouvir, falando com o pequerrucho, que -lhe deita os braços ao pescoço e a beija)</span> Dorme, -dorme, meu amor. Não tenhas medo, filhinho... -Dorme, que não te largo.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Então vamos ou não vamos?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Eu não vou... Tens fome? tens sede, -meu anjo? Eu te acalentarei... Deixa -berrar esses egoistas todos, que se não -lembram de que não tens mãe!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Mas tem quem olhe por elle.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Basta! <span class="direction">(Imperiosa, aos creados)</span> levem-o -para a sua casa.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(resolutamente, sem deixar que toquem na creança)</span> -A casa! a casa! <span class="direction">(Com passo decidido, sem olhar -para ninguem, corre para o jardim e sae. Seguem-a -todos com a vista, indecisos, não ousando dar um -passo para ella)</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Que escandalo!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Que loucura!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Que juizo! o juizo mais perfeito da -mulher! Achou o seu caminho.</p> - -<p class="titlepage smaller">FIM DO SEGUNDO ACTO</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span></p> - -<h2 class="nobreak">ACTO TERCEIRO</h2> - -</div> - -<div class="act"> - -<p class="main">O laboratorio de Maximo. Ao fundo, occupando grande parte -da parede, divisoria com revestimento de madeira na -parte inferior e envidraçada para cima. Este tapamento -separa a scena d’um vasto local, em que se vêem maquinas -e apparelhos para a producção de energia electrica. -A porta praticavel no socco divisoria communica -com a rua.</p> - -<p class="sub">Á direita, no primeiro plano, um corredor que dá -passagem para o jardim dos snrs. de Garcia Yuste. No -ultimo plano, uma porta de communicação com a habitação -de Maximo e com a cosinha. Entre a porta e o corredor, -uma estante com livros.</p> - -<p class="sub">Á esquerda, porta de passagem para as casas em que -trabalham os ajudantes. Junto a esta porta, uma estante -com apparelhos de physica e objectos de uso scientifico.</p> - -<p class="sub">Ao fundo, dos dois lados do socco de madeira, prateleiras -com frascos de diversas substancias e livros. -No angulo da direita um pequeno aparador.</p> - -<p class="sub">Á esquerda da scena, a mesa do laboratorio com os -objectos que no dialogo se indicam. Fazendo angulo -com ella, a balança de precisão sobre um supporte de -fabrica.</p> - -<p class="sub">Ao centro pequena mesa de jantar, e quatro cadeiras.</p> - -</div> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span></p> - -<h3>SCENA I</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO</span>, trabalhando n’um calculo, com grande attenção ao -que está fazendo—<span class="allsmcap">ELECTRA</span> em pé, arranjando os multiplos -objectos que estão na meza: livros, capsulas, tubos -de ensaio, etc. Veste com simplicidade caseira, e -grande avental branco.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(sem levantar os olhos do papel)</span> Para mim, -Electra, a dupla historia que me contas, -esse supposto poder dos dois cavalheiros, -é um facto destituido de valor positivo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(suspirando)</span> Deus te ouça!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Tudo se reduz a duas paternidades -platonicas sem nenhum effeito legal... -até agora. O mais feio do caso é a auctoridade -que quer assumir o snr. de Pantoja...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Auctoridade oppressiva, suffocante, -que me tira o ar. Nem me fales n’isso, se -não me queres amargurar a alegria de estar -cá em casa!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Devéras? assim te affliges?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Ainda mais: ponho-me n’esse estado -singularissimo de cabeça e de nervos... -Já te contei... Em certas occasiões da -minha vida apodera-se de mim um desejo, -fixo, fundo, absorvente, de tornar a vêr a -imagem da minha pobre mãe, como a via -na minha meninez... Pois sempre que se -aggrava para mim a tyrannia de Pantoja, -renasce o meu doloroso e invencivel anceio; -e sinto a perturbação nervosa e mental -que me annuncia...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>A visão da tua mãe? Isso, rapariga, -não é d’um espirito rijo e são. Aprende-me -a governar essa imaginação... Trabalha-me -para a frente, e á má cara. O -ocio é o peor de todos os perturbadores da -intelligencia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(muito animada)</span> Cá estou seguindo á risca -o que me mandaste fazer. <span class="direction">(Pega n’uns frascos -de substancias mineraes e leva-os para uma das -estantes)</span> Estes frascos para o seu logar... -Emquanto penso n’isto nem penso na furia -da tia logo que souber...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(attento ao trabalho)</span> A tia até ha de acabar -por gostar... Mas deixa que tu, tambem!... -Não te bastou a loucura d’hontem... -raptar insidiosamente o menino... -Tornas a trazer-m’o... ficas-te a embalal-o -e adormecel-o, muito mais tempo -que o regular... E, não contente ainda -com a saturnal d’hontem, pespegas-te -hoje cá em casa, e aqui andas a sargentear, -para uma banda e para outra, muitissimo -fresca da tua vida!... Ainda foi -por Deus, que convidados para a distribuição -dos premios e para o almoço em -Santa Clara os tios ainda a estas horas -ignorem o pulo medonho que a boneca -deu da casa d’elles para a minha!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Tu é que me aconselhaste que me -insubordinasse... «<i>Insubordina-te!</i>»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Sim senhor: fui o instigador do delicto... -E gabo-me d’isso.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>A minha consciencia diz-me que não -ha mal nenhum no que faço.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Pois está bem de vêr que não ha... -Foi talvez para casa de um pulha que tu -vieste!... Não faltaria mais nada senão -que principiasse agora a haver mal em -estar alguem na minha casa!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(trabalhando sempre e falando sem se distrahir -do que faz)</span> Eu digo mais: estando tu esmagado -de trabalho, só, sem creados, e -estando eu para ahi, de mãos a abanar, sem -ter absolutamente nada que fazer, o que -pareceria mal, o que seria indecente, é que -eu não viesse...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Cuidar de mim e dos pequenos... -Effectivamente, se isso não é logica, digo-te<span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span> -que botemos luto, porque já não ha -logica no mundo!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Queridos pequerruchinhos! Toda a -gente sabe que os adoro... São a minha -paixão, o meu fraco... <span class="direction">(Maximo, abstrahido -n’uma conta, cessa de dar attenção ao que ouve)</span> -Chega-me a parecer... <span class="direction">(Approxima-se da -mesa levando uns livros que não estavam no seu logar)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(vagamente)</span> Quê?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Que nem a sua propria mãe lhes quereria -tanto como eu!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(satisfeito com o resultado do seu calculo, lendo -em voz alta uma cifra)</span> Zero, trezentos e dezoito... -Fazes favor de me dar as <i>Tabellas -de resistencias</i>... aquelle livro encarnado...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(correndo á estante da direita)</span> Não é este?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Mais adeante.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>É verdade... que tôla!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Fica-te muito bem,—sabes?—que em -tão pouco tempo conheças todos os meus -livros e os seus logares na estante...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não dirás que te não puz tudo muito -arranjadinho.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não; e darei graças a Deus, porque -entrou finalmente n’este antro, revolto e -poeirento, a limpeza e a ordem!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(desvanecida)</span> Confessas então que não -sou absolutamente, absolutamente inutil?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(olhando com fixidez para ella)</span> Não ha nada -inutil na creação. Quem te diz a ti que te<span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span> -não creou Deus para altos destinos? Quem -te diz que não virás a ser...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(anciosa)</span> O quê?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Uma alma grande, formosa e nobre, -que está por hora meia afofada ainda na -serradura e na estopa de uma boneca?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(com alegria)</span> Pae do ceu, se assim fosse! -<span class="direction">(Maximo levanta-se e, na estante da esquerda, pega -n’umas barras de metal, que examina)</span> Nem me -digas isso que me entonteces de alegria... -Pode-se cantar?...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Podes cantar... <span class="direction">(Electra repete trauteando -o andante de uma sonata)</span> A boa musica é a -espóra das ideias preguiçosas, que não -affluem; e é o gancho que puxa pelas que -estão agarradas de mais ao fundo do entendimento. -Canta, companheira, canta... -<span class="direction">(Prosegue attento á sua occupação)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(á estante do fundo)</span> Continúo coordenando -isto. Os metaloides para este lado. Já -os conheço pelos rotulos... Como este -trabalhito entretem! Era capaz de ficar -aqui todo o santo dia...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(jovial)</span> Camarada!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(correndo para elle)</span> Que manda o magico?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Eu não mando por ora. Proponho. -<span class="direction">(Pega n’um frasco que contém um metal em limalha)</span> -Se a menina magica quer collaborar commigo -ha de fazer favor de me pesar trinta -grammas d’este metal.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Péso.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Sabes já pesar na balança de precisão...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Perfeitamente. Dá cá. <span class="direction">(Alegre, contente, -ao deitar o metal na capsula, admira-lhe a belleza)</span> -É lindo! Que é isto?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>É aluminio. Parece-se comtigo. Pesa -pouco...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Ah! eu então?...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Pesa pouco, mas é extremamente tenaz. -<span class="direction">(Olhando-lhe para a cara)</span> Tu tambem?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Em coisas que eu cá sei, sou tenaz -até á barbaridade, e, chegado o momento, -estou certa de que o seria até ao martyrio. -<span class="direction">(Continúa pesando sem interromper a operação)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Que coisas são essas?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Que te importa! Tu és o magico, mas -eu é que magíco... commigo, ás vezes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(attento ao trabalho)</span> Pesas-me depois setenta -grammas de cobre. <span class="direction">(Dá-lhe outro frasco)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>O cobre então serás tu... Não: é tambem -feio de mais para se parecer comtigo.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>É feio, mas util.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Compara-te antes ao ouro, que é o -que vale mais.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Nada de ditos! Estás a desmoralisar-me -o laboratorio.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Dá ao menos licença de que me reveja -nas qualidades do metal bonito que se parece -commigo... Sou tenaz... Não me -quebro... Farás favor de o dizer á tia e -ao tio Urbano, que, no sermão que me -prégaram esta manhã, por umas quarenta -vezes me disseram que sou fragil... Fragil, -eu!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não sabem o que dizem.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Sabem lá elles... nem o que é o aluminio, -nem o que eu sou!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Mas toma sentido, que te não equivoques -no peso!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Equivocar-me eu! Pateta! Eu tenho -muito mais tino do que ninguem cuida!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Já vou vendo, já vou vendo! <span class="direction">(Dirige-se -a uma das estantes em procura d’um cadinho)</span> A -tia, quando chegar a casa, é que lhe ha de -custar um pouco mais a compenetrar-se -de que tenhas todo o tino que dizes...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Deus, que vê os corações, sabe se eu tenho -culpa! Porque é que a tia não deixa -que eu venha para cá?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(voltando com o cadinho que escolheu)</span> Por que -tu és uma menina solteira, e as meninas -solteiras não podem ficar assim em casa -d’um homem só, por mais honrado e por -mais digno que elle seja.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Pois, senhor, não haja dúvida que, por -essa regra, estão divertidas as pobres meninas -solteiras! <span class="direction">(Termina o peso e apresenta os -dois metaes pesados nas suas duas capsulas de porcelana)</span> -Aqui tens o aluminio e o cobre.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(pegando nas capsulas)</span> Um primor. Que -limpeza de mãos... Que firmeza de pulso, -e que serenidade de attenção para não -fazer d’isto uma trapalhada! Estás fina.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Estou contente apenas. Quando se tem -a alegria tudo corre bem.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Ahi disse a collega uma importantissima -verdade. <span class="direction">(Verte os dois corpos no cadinho)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Isso é um cadinho, não é?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Sim senhor, para fundirmos os dois -metaes.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Para nos fundirmos tu e eu, se não -pegarmos á bulha no meio do fogo... -<span class="direction">(Trauteia a sonata)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Faze favor de chamar o Ricardo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(correndo á porta da esquerda)</span> Ricardo!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Que venha tambem o Gil.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Gil! Venham ambos, que manda o -mestre... não se demorem!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span></p> - -<h3>SCENA II</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MAXIMO, RICARDO E GIL</span>, o primeiro vestido -de operario, com blusa, o segundo em trage burguez, com -mangas de alpaca, pena na orelha</p> - -<p class="speaker">Gil</p> - -<p><span class="direction">(mostrando um calculo)</span> Aqui está o valor -obtido.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(lê rapidamente a cifra)</span> 0,158,073... Está -errado <span class="direction">(Seguro do que diz e com certa severidade)</span> -Não é possivel que para um diametro de -cabo menor de quatro millimetros obtenhamos -um circuito maior, segundo o teu -calculo. A verdadeira distancia deve ser -inferior a duzentos kilometros...</p> - -<p class="speaker">Gil</p> - -<p>Não sei então... eu... <span class="direction">(Confuso)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Está mal. É que te distrahiste.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>É que vocês, coitados, não teem... -a attenção serena...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Emquanto fazeis os calculos estaes a -pensar em historias da carocha.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E a conversar, a falar de touros, de -theatros, da politica... assim não fazemos -nada.</p> - -<p class="speaker">Gil</p> - -<p>Vou rectificar as operações.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E, sobretudo, muita paciencia, muita -contensão, todos os cinco sentidos!... Senão -tornamos á mesma.</p> - -<p class="speaker">Gil</p> - -<p>Vou vêr isto.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Anda lá e não te descuides <span class="direction">(Gil sae e -Maximo, virando-se para Ricardo, entrega-lhe o cadinho)</span> -Aqui tens.</p> - -<p class="speaker">Ricardo</p> - -<p>Para fundir...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Está preparado o forno?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span></p> - -<p class="speaker">Ricardo</p> - -<p>Sim senhor.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Mette immediatamente, e quando esteja -em fusão, avisa. Com esta aleação -vamos fazer um novo ensaio de conductibilidade... -Espero chegar aos duzentos -kilometros com perda escassissima.</p> - -<p class="speaker">Ricardo</p> - -<p>Faz-se o ensaio hoje?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(atormentado por uma ideia fixa)</span> Sim, quanto -antes. Não abandono este problema. <span class="direction">(A -Electra)</span> É a minha ideia fixa, que me não -deixa viver.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Ideia fixa tambem eu tenho uma, e por -ella vivo. Avante!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Avante, Electra! Avante, Ricardo!</p> - -<p class="speaker">Ricardo</p> - -<p>Não manda mais nada, patrão?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Que actives a fusão.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Que se fundam bem os metaes!</p> - -<p class="speaker">Ricardo</p> - -<p>Hão de ficar os dois em um só, senhorita.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Dois n’um.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(como preparando-se para outra occupação)</span> -Agora, minha graciosa discipula...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Agora ha de o mestre perdoar, mas -tenho de ir vêr se acordaram os meninos.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Ha quanto tempo comeram?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Ha trez quartos d’hora. Devem dormir -meia hora mais. Está bem regulado -assim?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Está bem tudo o que determines.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Olha o que dizes, que estarás por -tudo...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(carinhosamente)</span> Por tudo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Que se fique sabendo!... Eu venho já. -<span class="direction">(Sae ligeira e cantando pela esquerda. Entra ao -mesmo tempo um operario, pelo fundo)</span></p> - -<h3>SCENA III</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO E O OPERARIO</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Que ha?</p> - -<p class="speaker">Operario</p> - -<p>Veio aquelle senhor, o marquez de -Ronda...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Porque não entrou?</p> - -<p class="speaker">Operario</p> - -<p>Perguntou pelo patrão... Disse-lhe -que tinha uma visita... Elle então, como -pessoa da casa, logo disse: «Já sei... ha -de ser a senhorita Electra... Voltarei -logo».</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Porque lhe não disseste que entrasse, -meu pascacio?</p> - -<p class="speaker">Operario</p> - -<p>Como me disse que voltava...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Pois sempre que vier, que entre, esteja -que não esteja a senhorita Electra, e sobretudo -estando.</p> - -<p class="speaker">Operario</p> - -<p>Assim se fará. <span class="direction">(Sae pelo fundo)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span></p> - -<h3>SCENA IV</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO E ELECTRA</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(voltando do interior da casa)</span> Dormidinhos -como dois anjos... até d’aqui a meia -hora...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>E os adultos não comem? não se almoça -hoje n’esta casa?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Quando queiras. Está feito o almoço. -<span class="direction">(Dirige-se para o aparador, onde está a pequena -baixella: talheres, toalha, guardanapos, fructeira)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>É como deve ser... Tudo a horas... -assim se chega sempre ao que se quer.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(estendendo a toalha)</span> Ao que eu quero não -chegarei nunca por mais pontualidade -que ponha...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Deixa-me ajudar-te... <span class="direction">(Vae-lhe passando -os pratos, os talheres, o pão, o vinho)</span> Chegas, -sim.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Achas?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Acho. Tão certo que chegas como que -tenho uma fome de cincoenta cavallos de -força.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Melhor, para que te agrade o almoço.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>A elle!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>N’um minuto. <span class="direction">(Sae)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span></p> - -<h3>SCENA V</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO E GIL</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Bemdita seja essa mulhersinha preciosa, -que tão simples, tão instinctiva, tão ingenuamente, -traz a sua grande alma inquieta, -torturada e núa, a inundar de alegria -e de luz este esconderijo da sciencia, -transformando tão estreita aridez em tão -vasto paraizo! Bemdita a que com um -mero sorriso de creança vem arrancar da -sua abstracção consumidora este pobre -Fausto, envelhecido aos trinta e cinco -annos, e dizer-lhe: «Nem só de verdades -se vive!» <span class="direction">(Interrompe-o Gil, que tem entrado um -pouco antes e se approxima sem ser visto)</span></p> - -<p class="speaker">Gil</p> - -<p><span class="direction">(satisfeito mostrando o calculo)</span> Pronto. Creio -ter achado a cifra exacta.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(pega no papel e olha-o vagamente, sem se fixar)</span> -A exactidão!... E tambem tu pensarás<span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span> -que só de coisas exactas vive o homem!? -Saturada de certeza, a alma insaciada -appetece, mais que tudo, o que é apenas o -sonho, e vôa para elle, avassalada e rendida, -sem nem sequer tentar saber se é -para a realidade, se para a illusão, que -vôa!... Considerando bem, Gil, nada -mais natural do que um equivoco de calculo.</p> - -<p class="speaker">Gil</p> - -<p>Sim, senhor, muito facilmente se distrae -uma pessoa pensando em...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Em coisas vagas, indefinidas, aereas, -vaporosamente illuminadas de côr de rosa -e d’azul...</p> - -<p class="speaker">Gil</p> - -<p>Eu, distrahido, confundi a cifra da potencial -com a da resistencia... Mas já -rectifiquei... Queira vêr se está bem.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(lê)</span> 0,318,73... <span class="direction">(Com repentina transição -para um goso expansivo)</span> Homem! e que não -estivesse! Se ainda errasses outra vez?... -A exactidão dos mathematicos perdoaria, -por hoje, á nossa phantasia de poetas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span></p> - -<p class="speaker">Gil</p> - -<p>Ah! a exactidão não perdôa nunca: é -a tyrannia da nossa vida; opprime-nos, -escravisa-nos, não nos deixa respirar.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Essa mestra implacavel tambem algumas -vezes nos sorri, nos acalenta e nos -encanta. Vês essa cifra?</p> - -<p class="speaker">Gil</p> - -<p><span class="direction">(contente, dizendo de memoria)</span> 0,318,73.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Pois sabe que nunca os maiores poetas -do mundo, Virgilio ou Homero, Dante, -Lope de Vega ou Calderon escreveram -estrophe mais inspirada e mais poetica do -que é hoje para mim a d’esses miseros -numeros! É verdade que a harmonia, o -encanto poetico não é n’elles que está. -Está em que... Adeus, vae almoçar... -Deixa-me, deixa-nos... <span class="direction">(Afasta-o com a mão -para que saia. No ponto da scena em que pode olhar -para o interior da habitação)</span> Ali é que está a -imaginação, a poesia, o ideal, no fundo -d’essa cosinha, onde n’este momento ondula -a mais altiva e a mais virginal flôr -da innocencia, da candura e da bondade -humana.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span></p> - -<h3>SCENA VI</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO E ELECTRA</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(entrando com uma terrina fumegante)</span> Aqui -está o banquete.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>A vêr o que se fez! arroz com menudilhos... -O thema é digno de Lucullo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Elogia-o sem provar: está superfino. -<span class="direction">(Senta-se)</span> Vou-te servir. <span class="direction">(Servindo-o)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não tanto.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Olha que não tens mais nada... Acho -que se não deve ter mais d’uma coisa... -e escolher a melhor.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Meu Deus! o que diria a tia, se agora -nos visse aqui almoçando juntos...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Um almoço feito por mim!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Sabes que está maravilhoso o teu -arroz?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Foi minha mestra, em Hendaya, uma -senhora valenciana. Eu fiz um curso de -arrozes. Sei-os fazer de sete maneiras -differentes, todos riquissimos.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Decididamente és todo um mundo -novo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E quem é o meu Colombo?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não ha Colombo que ousasse descobrir-te. -Tu és um mundo que apparece.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Será talvez por eu ser um mundosito -assim desconhecido, que querem metter-me -no convento para me livrar do perigo<span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span> -de que dêem commigo. E é o que me espera...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>D’essa é bem natural que não escapes.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(assustada)</span> Que dizes!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Quero dizer: escapas... porque te hei -de salvar eu.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Prometteste-me o teu amparo.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>E dou-t’o.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Que tencionas fazer?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Eu te digo: o negocio é grave...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Falas com a tia, já se sabe...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Falo com a tia...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E que lhe dizes?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Falo com o tio...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Façamos de conta que se acabaram -todos os tios com quem fazes tenção de -falar. E depois?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Depois, tendo-te provisoriamente abrigado -no mais inviolavel sacrario, procederei -minuciosamente ao exame e á sellecção -dos noivos. E sobre este assumpto -temos que conversar...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Vaes ralhar-me?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não: já me disseste que te enfastia -esse brinquedo de bonecos vivos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Cuidei que me distrahiriam, e cada -vez me entristeciam mais!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Nenhum d’elles te inspirou um sentimento -especial, distincto do dos outros?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Nenhum!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Declararam-se todos por escripto?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Uns por escripto; outros por meio de -olhares espantosos, que nunca cheguei a -comprehender bem o que quizessem exprimir, -e por isso não metto estes em -conta...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Perdão: teem de entrar todos no rol: -epistolares e olheiros. E aqui chegamos ao -ponto sobre que devo dar-te, desde já, -a minha sincera opinião: casa-te, Electra; -casa-te quanto antes!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(envergonhada, baixando os olhos)</span> Assim... -tão breve!...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>O mais breve possivel. Precisas de ter -a teu lado um homem, um marido. Tens -a alma, a tempera, os instinctos e as virtudes -da casa conjugal. É portanto forçoso -que da grande lista dos teus pretendentes -se escolha um, o melhor, o mais -digno de te amar e de ser amado por ti, -porque, sem amor, considera bem que não -ha familia.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Estou certa.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>E tu nasceste destinada para a vida -exemplar e fecunda de um lar feliz... -<span class="direction">(Teem acabado de comer o arroz)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Queres mais?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não: estou satisfeito.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>De sobremesa tens fructa, que é do -que mais gostas. <span class="direction">(Põe na mesa o fructeiro)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(pegando n’uma bella maçã)</span> Gósto, porque -esta <span class="direction">(mostrando-lhe a maçã)</span> é a verdade em -toda a sua pureza. Aqui não interveio a -mão do homem senão para a colher.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>É a obra divina, bella, simples, admiravel.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Faz Deus esta prodigiosa maravilha -para a dar ao homem; e nem sempre lh’a -agradece aquelle que foi eleito para em -certo dia e a certa hora passar por baixo -da macieira em fructo!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Quantas vezes basta, para colher a felicidade, -esquecer-se a gente por um momento -da terra, e levantar os olhos para -cima!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(contemplando-a)</span> Pois é o que eu faço, -Electra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span></p> - -<h3>SCENA VII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MAXIMO E RICARDO</span>, pela esquerda</p> - -<p class="speaker">Ricardo</p> - -<p>Mestre...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Quê?</p> - -<p class="speaker">Ricardo</p> - -<p>Chegamos ao rubro.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>A fusão!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Avisa-me ao branco incipiente.</p> - -<p class="speaker">Ricardo</p> - -<p>Virei dizer.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Olha. Que preparem na officina a bateria -Bunsen. E previne de que hei de -precisar para logo do dinamo grande.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span></p> - -<h3>SCENA VIII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E MAXIMO</span>, depois o <span class="allsmcap">OPERARIO</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(com tristeza)</span> D’aqui a um instante vaes -tratar da fusão, e eu...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Tu—está claro—irás para casa.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Nem é bom pensar no que vae ser -quando eu chegue!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Tu ouves, calas-te, e esperas.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Esperar... esperar sempre! <span class="direction">(Acabam de -almoçar)</span> Ai que, se tu me não vales, não -sei o que será de mim, com a tia e com o -snr. de Pantoja... Elles a teimarem que -eu vá para anjo, e Deus a desageitar-me -cada vez mais para a carreira angelical!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(que se tem levantado e parece disposto a continuar -o trabalho)</span> Não tenhas cuidado. Confia em -mim. Eu te irei requerer como teu protector -e teu mestre...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(approximando-se supplicante)</span> Não te demores -então, Maximo. Por amor dos teus -filhos, não te demores. Se tu me tomasses -tambem como filha, para estar com os -meninos, para viver com elles!</p> - -<p class="speaker">Operario</p> - -<p><span class="direction">(pelo fundo)</span> O snr. marquez de Ronda.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(assustada)</span> Vou-me embora?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Por vir o Marquez? <span class="direction">(Ao creado)</span> Que entre. -<span class="direction">(O operario sae)</span> Offerecia-se-lhe café, -se houvesse.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Vou buscal-o. <span class="direction">(Sae com pressa)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span></p> - -<h3>SCENA IX</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO, MARQUEZ E ELECTRA.</span> No fim -da scena, <span class="allsmcap">RICARDO</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Entre, Marquez.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Maximo... <span class="direction">(Olhando em redor, desconsolado)</span> -E Electra?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Na cosinha. Foi buscar-nos café.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Na cosinha! Continua-se vivendo então -n’esta casa como na ilha de Robinson? -Ahi está o que não comprehendo: como -tendo você lá em cima todos os confôrtos -d’um palacio...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>É muito simples... O trabalho e o -habito do estudo enclausuram-me aqui. -Puz os pequenos ao lado da officina -para os ter ao pé de mim; e, reduzindo o<span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span> -mais que me foi possivel a minha orbita -d’acção, para aqui me fiquei, recluso no -dever que me impuz, como um asceta na -estreiteza da sua gruta.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Sem nem sequer se lembrar de que é -rico...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>A minha riqueza é a singeleza, o meu -luxo é a sobriedade, o meu repouso é o -trabalho, e assim viverei emquanto viver -só...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não tardará então muito em mudar -de vida... Precisamente lhe venho contar... -<span class="direction">(Entra Electra com a bandeja contendo o -serviço e a maquina de café)</span> Oh! a deusa do -lar!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(adeanta-se cautelosa de que não caia alguma -peça)</span> Por Deus, Marquez, não me ralhe.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Eu ralhar?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Nem me faça rir... para não haver -um desastre. Sentido! <span class="direction">(O marquez pega na -bandeja)</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Aqui me tem para companheiro de -infortunios... Ainda então lhe parece -que eu seja dos que ralham? Eu sou dos -que explicam. Mas não pertencem a esta -seita os senhores ali do outro lado do jardim...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Os tios.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>A noticia do lindo idyllio, que se está -passando aqui como na inverosimilhança -de uma tapeçaria ou de um panno de leque, -lá chegou já á distribuição dos premios -em Santa Clara, onde a estas horas -estará deliberando o conclave. As suas -resoluções serão terriveis.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>A Virgem Maria me valha!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Socegue...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Isso tem de ser agora commigo.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Será comnosco. O seu café, minha menina, -está digno de Jupiter, pae dos deuses: -é do que elles tomam no olympo, aos -domingos.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Segue-se, Electra, que em vez de regressar -sósinha, teremos de ir ambos levar-te -aos snrs. de Yuste.</p> - -<p class="speaker">Ricardo</p> - -<p><span class="direction">(assumando á porta da esquerda)</span> Snr. D. Maximo, -o branco incipiente!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(com inconsciente alegria infantil)</span> A fusão!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(a Ricardo)</span> Não posso agora. Chama-me -quando chegar o branco resplandecente. -<span class="direction">(Ricardo sae)</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Peço licença... <span class="direction">(Tendo-se servido de vinho)</span> -Eu brindo o hymeneu dos metaes, saudando -os cadinhos do magico prodigioso.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span></p> - -<h3>SCENA X</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">MAXIMO, ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(aterrada)</span> D. Salvador! Deus me acuda!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Queira entrar, snr. de Pantoja. <span class="direction">(Pantoja -adeanta-se lentamente)</span> A que devo a honra...?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Antecipando-me aos meus bons amigos, -tios d’esta menina, que d’aqui a um -momento terão voltado a casa, aqui me -acho resolvido a cumprir o dever d’elles e -o meu.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>A familia toda consubstanciada no -snr. de Pantoja...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Para metter medo á gente.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Considera-nos reus d’algum tremendo -crime...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não considero senão unicamente que -esta menina não pode estar aqui. Venho -buscal-a. Ha de sahir commigo. <span class="direction">(Pega na -mão de Electra, insensivel, immobilisada pelo medo)</span> -Vem.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Queira perdoar <span class="direction">(Sereno e grave, approxima-se -de Pantoja)</span> Com todo o respeito que lhe -devo, rogo-lhe, snr. de Pantoja, que solte -a mão d’esta senhora. Antes de lhe tocar, -teria sido mais opportuno que falasse commigo, -que sou o dono d’esta casa, e o responsavel -de tudo o que n’ella se passa, de -tudo o que vê... e de tudo o que não -queira vêr.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(depois de uma breve hesitação larga a mão de -Electra)</span> Seja assim. Deixarei de dirigir-me -a esta pobre creatura, desvairada ou -trazida aqui ao engano, e falarei comtigo, -a quem quizera dizer apenas muito breves -palavras:—Venho buscar Electra. Dá-me -o que não te pertence, o que não te -pertencerá nunca.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Electra é inteiramente livre. Nem eu -a trouxe aqui contra sua vontade, nem -contra sua vontade a levará d’aqui quem -quer que seja.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Se se pudesse, pelo menos, conhecer -os fundamentos da auctoridade do snr. de -Pantoja...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Eu não preciso de lhes dizer, aos senhores, -qual é a proveniencia da auctoridade -de que disponho, e que esta menina -me reconhece, prestando-me a obediencia -que lhe peço. Não é verdade, Electra, que -basta uma palavra minha para immediatamente -te separar d’estes homens, e levar-te -para quem depositou em ti o seu -mais puro amor, e nem vive nem quer viver -na terra senão para ti? <span class="direction">(Electra, immobilisada, -olhando para o chão, cala-se)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não, bem vê que não basta essa unica -palavra sua.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não offerece dúvida que é uma palavra -bôa, mas insufficiente.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Quer permittir que a interrogue eu? -Electra, minha querida amiga, assegura-te -o coração e a consciencia que entre todos -os homens que conheces, entre os que vês -aqui e os que não estão presentes, é sómente -e exclusivamente ao muito dedicado -e ao muito respeitavel snr. de Pantoja -que tu deves submissão e amor?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Fale abertamente e destemidamente, -menina! Diga-nos o que o seu coração e -a sua consciencia lhe dictarem.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>E se este senhor, a quem indubitavelmente -deves toda a consideração e todo -o respeito, te ordenar que o sigas, e nós -outros te dissermos que fiques, de tua livre -e plena vontade, que determinas?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(depois de penosa lucta)</span> Ficar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Já vê...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não está em si... Fascinaram-a.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Parece-me inutil a insistencia...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Para acabar vencido...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(com fria tenacidade)</span> Eu não sou dos que -os homens vencem. A razão é vencedora -sempre, e eu seria indigno da que Deus -me deu, e que defenderei até o meu derradeiro -alento, se a não puzesse continuamente -acima de todo o erro e de todo o -extravio. Maximo, os metaes que ardem -nos teus fornos são menos duros do que -eu. As tuas mais poderosas maquinas são -brinquedos de vidro comparadas com a -minha vontade. Electra pertence-me: -basta que eu o diga.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Que terror, meu Deus!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Se quer assegurar-se do que póde a -sua vontade opponha-a á minha.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Dispenso demonstrações comtigo ou -com quem quer que seja. Basta-me saber -o que devo fazer, e fazer o que devo.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Pois toda a minha força é essa: o dever.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>O teu dever é uma hypothese terrena -e accidental. O meu gira em torno de -uma consciencia tão rija e tão forte como -o eixo do universo; e os meus fins são tão -altos que nem tu os alcanças nem poderás -alcançal-os nunca.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Por mais incommensuravel que seja a -elevação dos seus fins, pelo amor de Electra -eu irei a toda essa altura, para a defender.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Esta senhora voltará comnosco á sua -casa.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Commigo. E isso bastará para justificação -de todos os seus actos, e para que -os tios lhe perdoem, se teem que perdoar-lhe.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Os senhores de Yuste não renegarão -n’esta conjunctura os sentimentos e as -convicções de toda a sua vida. <span class="direction">(Exaltando-se)</span> -Eu estou no mundo unicamente para que -Electra se não perca. E não se ha de perder. -Assim o quer a vontade divina, de -que a minha é um reflexo, e que vós confundis -com um capricho da brutalidade -humana, porque não sabeis nada do que -são nas puras regiões espirituaes as emprezas -de uma alma... Pobres cegos! -pobres loucos!...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(consternada)</span> D. Salvador, não se desgoste—por -Nossa Senhora lh’o peço! Eu -não sou má, Maximo é bom... Sabem-o -todos... Sabem-o os tios... e o snr. de<span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span> -Pantoja bem o sabe! Não deveria sublevar-me -até o ponto de vir para aqui sósinha, -como determinei vir... Foi um acto -de grave rebeldia, concordo. Voltarei para -casa... Maximo e o snr. de Ronda irão -commigo, e os tios hão de perdoar-me... -<span class="direction">(A Maximo e ao Marquez)</span> Não é verdade que -me perdoarão? <span class="direction">(A Pantoja)</span> Porque é esta -má vontade a Maximo, que nunca lhe fez -mal nenhum?... Confessa—pois não é -assim?—que elle nunca lhe fez nem lhe -quiz mal? Em que se funda essa aversão?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não é aversão: é odio recondito, inextinguivel.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Odiar-te, não. As minhas crenças prohibem-me -o odio. De certo que ha entre -nós ambos uma incompatibilidade proveniente -da nossa differença de principios... -Teu pae, Lazaro Yuste, e eu, tivemos desavenças -profundas, que é melhor esquecer... -Mas a ti, Maximo, nunca te quiz -mal... Antes te quero bem. <span class="direction">(Mudando de -tom para mais suave e conciliador)</span> Perdôa a severidade -com que te falei, e permitte que,<span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span> -fazendo um grande esforço sobre mim, eu -te implore que deixes Electra partir commigo.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(inflexivel)</span> Não posso annuir.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(violentando-se mais)</span> Por segunda vez, Maximo, -esquecendo todos os resentimentos, -profundamente humilhado, eu te supplico... -Deixa-a.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(devorando o vexame)</span> Bem... Pela segunda -vez m’o negaste... Para offerecer -ás tuas bofetadas não tenho mais de duas -faces, por isso te não peço por terceira vez -a mesma coisa. <span class="direction">(Com gravidade e rigidez)</span> -Adeus, Electra... Maximo, Marquez, -adeus.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(baixo a Maximo)</span> Por quem és, Maximo, -transige um pouco...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(redondamente)</span> Não.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não disseste que me levarieis, tu e o -Marquez? Vamos todos. <span class="direction">(Esta phrase é ouvida -por Pantoja que se detem na sua marcha lenta -para a sahida)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não... Ha de ir primeiro elle. Nós -iremos quando nos convenha, e sem a -salvaguarda de ninguem.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(friamente da porta)</span> E a que vaes senão a -aggravar a situação d’essa menina?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Vou ao que devo ir.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Pode-se saber o que é?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Escusado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não preciso de que me reveles as tuas -intenções. Para quê, se as conheço? <span class="direction">(Dá -alguns passos para o centro da scena, cravando a -vista em Maximo)</span> Não me fio na expressão -dos teus olhos. Penetro na tua mente, e -descubro o que pensas... Interroguei-te, -não para saber da tua intenção mas para -ouvir as promessas com que a encobres... -Em ti não mora a verdade, nem o bem... -não, não, não... <span class="direction">(Sae repetindo as ultimas palavras)</span></p> - -<h3>SCENA XI</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ E RICARDO</span> -(Principia a escurecer)</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(consternada, procurando um refugio em Maximo)</span> -Maximo, ampara-me! Livra-me do terror -que me inspira este homem.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Conta commigo. Não tenhas medo. -<span class="direction">(Pega-lhe nas mãos)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Começa a escurecer. Vamos.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Vamos... <span class="direction">(Incredula e medrosa)</span> Então, -deveras, sempre vou comtigo?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Juntos n’esta hora, como o seremos -para toda a vida...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Comtigo para sempre? <span class="direction">(Augmenta a escuridão)</span></p> - -<p class="speaker">Ricardo</p> - -<p><span class="direction">(á porta da esquerda)</span> Snr. D. Maximo, o -branco deslumbrante!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(a Ricardo)</span> A fusão está feita. Creio -que se podem apagar os fornos.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(com effusão beijando as mãos de Electra)</span> Minha -alma, minha consolação, minha alegria! -comtigo para todo sempre... O que<span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span> -vou dizer aos nossos tios é que te peço, -que te faço minha, que serás a minha mulher -e a mamãsinha dos meus filhos.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(opprimida, como se a alegria a transtornasse)</span> -Não me enganas?... Virei a viver sempre -com os teus meninos? Serei entre elles -a menina maior?... Serei tua mulher?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(com voz forte)</span> Sim. <span class="direction">(Illuminada a casa do -fundo, resplandece com viva claridade toda a scena)</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Vamo-nos. É noite.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>É o dia!... o meu dia eterno! <span class="direction">(Maximo -enlaça-a pela cintura e saem. O marquez segue-os)</span></p> - -<p class="titlepage smaller">FIM DO TERCEIRO ACTO</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span></p> - -<h2 class="nobreak">ACTO QUARTO</h2> - -</div> - -<div class="act"> - -<p class="main">Jardim do palacio de Garcia Yuste. Á direita, a entrada para -o palacio, com escadaria larga de poucos degraus. Á esquerda, -jogando com a entrada, um corpo de architectura -grutesca, ornado com baixos-relevos: junto d’esta construcção, -um banco de pedra, em angulo, de risco elegante. -Jarrões ou plantas exoticas adornam este terraço, com pavimento -de mosaico, entre o edificio e o solo areado do -jardim.</p> - -<p class="sub">No segundo plano e no fundo, o jardim com grandes arvores -e macissos de flores. Do centro partem trez arruamentos -em curva. O da esquerda leva á rua. Cadeiras de -ferro. É de dia.</p> - -</div> - -<h3>SCENA I</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E PATROS</span>, com um cesto de flores -que acabam de colher</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(tirando uma carta da algibeira)</span> Deixa ficar -as flores, e aqui tens a carta.</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p><span class="direction">(pousando as flores)</span> Com esta faz trez -desde esta manhã!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(escolhendo as flores mais pequenas com que fórma -tres ramilhetes)</span> São tantas as coisas que -Maximo tem que me dizer, e eu a elle...</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Bemdito seja Deus, que da noite de -hontem para hoje tanta felicidade lhe deu, -senhorita Electra!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E que depressa, Patros! que rapidamente! -como n’um sonho, que tudo se fez! -Hontem á noite fiquei pedida, e hoje marcam -os tios o dia do casamento...</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>E no emtanto, carta para lá, carta -para cá... de não acabar nunca...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Que queres? Se desde hontem nos não -podemos vêr como companheiros, na -fabrica, porque sômos noivos agora... -Temos de nos corresponder por escrito. -Na carta das oito horas e um quarto falava-lhe -das coisas muito serias que estou -impaciente por dizer-lhe. Na das nove e<span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span> -vinte e cinco recommendava-lhe que se -não esquecesse da colhér de xarope que -tem de se dar a Pepito de duas em duas -horas... N’esta agora digo-lhe que a tia -foi para a missa e que tem demora... É -natural que elle lhe queira falar...</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Até ás onze horas de certo que não -volta a senhora da egreja...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E ás onze vou eu para a missa com o -tio. <span class="direction">(Atando os tres ramilhetes)</span> Pronto! Este -para elle, estes para cada um dos meninos... -Um a cada um para que não briguem... -<span class="direction">(Dispondo-se a compôr o ramo grande)</span> -E agora o ramo grande para a Senhora -das Dôres... Vae, e volta depressa para -me ajudares... Espera resposta—é claro—uma -palavra que seja!</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Vou de corrida. <span class="direction">(Sae pelo fundo)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(escolhendo as mais lindas flores para o grande -ramo)</span> Hoje, minha querida Mãe Santissima, -ha de ser maior a minha offerenda; -e a minha pena é que não seja tão grande -que fique sem uma só flôr o jardim dos -tios... Deante da tua santa imagem -queria eu hoje collocar todas as mais lindas -coisas da terra: as rosas, as estrellas e -os corações amantes... Virgem Maria! -consolação e esperança nossa! não me -desampareis, levae-me ao bem que te -pedi, e que hontem á noite me prometteu -a expressão dos teus divinos olhos quando -as minhas lagrimas te disseram a gratidão -e a esperança da minha alma...!</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p><span class="direction">(pressurosa pelo fundo)</span> Não trago carta, -mas trago um recadinho, que ainda é melhor...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Que vem cá?</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Logo que saiam uns senhores, que estavam -já a despedir-se... Que a menina o -espere aqui para lhe falar um momento... -Tem de ir a uma conferencia depois...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(olhando para o fundo)</span> Virá já?...</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Ahi vem.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(dando-lhe o ramo)</span> Toma lá... para Nossa -Senhora... Para a Nossa Senhora do -meu quarto, bem entendido! Não é para -a do altar do oratorio, toma sentido: é -para a da cabeceira da minha cama.</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Pois pudera! <span class="direction">(Entra correndo pela escada)</span></p> - -<h3>SCENA II</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MAXIMO</span>, depois o <span class="allsmcap">MARQUEZ</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(a distancia, abrindo um pouco os braços)</span> Menina!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(mesma attitude)</span> Maximo!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Aqui estamos embaçados, deante um -do outro, sem saber que dizer.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Embaçadissimos. Começa tu.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Tu... para te desacanhares... Dize-me -uma grande mentira: que me não -amas.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Dize-me primeiro tu uma grande verdade.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Que te adoro. <span class="direction">(Approximam-se)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Em paga d’essa mentira toma esta -rosa que te escolhi, sem brilho, pequena, -singela, humilde, como eu quero ser -para ti.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Tu tens um grande coração e um alto -espirito...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_195"></a>[195]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não tenho; mas gostava de ser ainda -mais tôsca e mais informe do que sou para -que tu me ensinasses tudo, e eu não tivesse -nada que não fôsse teu.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Deus fez de ti a sua obra mais preciosa...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E deu-te essa obra, que é apenas o -esboço d’uma creatura humana, para que -tu a completes e aperfeiçôes.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Para que eu a enthronise e a corôe, -deixando desenvolver-se d’ella a immortal -flôr de humanidade, que é a simples -mulher da casa, forte, pura, alegre e compadecida. -<span class="direction">(Consulta o relogio)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Tens essa conferencia... Vae á tua -obrigação... Não te demorarás muito?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_196"></a>[196]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Virei encontrar-me com a tia quando -ella vier da missa.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E o marquez, desde hontem... voltou -como tinha dito?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Deixei-o agora na fabrica a escrever -ao tabellião. Incomparavel amigo!... -Hontem á noite—sabes?—contei-lhe, ao -voltar para casa, o teu romance paterno... -esse romance dos dois capitulos... -Indignou-o a intervenção despotica -de Pantoja e de Cuesta na tua vida; -e essa lamentavel historia mais ainda o -fortaleceu na firme determinação de defender-nos...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(surprehendida)</span> Mas então precisamos -ainda de que nos defendam?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>No essencial é claro que não... Mas -quem nos assegura que esses dois homens -não tentem oppôr-nos alguns obstaculos -de jurisdicção theorica?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_197"></a>[197]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(tranquillisando-se)</span> D’essa jurisdicção nos -riremos nós.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Mas rindo, rindo, teremos de a prevenir -e de a annullar.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(pressuroso pelo fundo)</span> Então ainda aqui?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Falavamos de si, e deliberavamos nomeal-o -procurador dos nossos negocios de -familia...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Acceito a procuração... <span class="direction">(Reprehendendo-o -com doçura)</span> Mas, homem, que se lhe faz -tarde!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Adeus, adeus! até já.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(vendo-o partir)</span> Vae, e vem depressa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_198"></a>[198]</span></p> - -<h3>SCENA III</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E O MARQUEZ</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Ahi está o que é um galan de categoria -scientifica... Parabens pelo achado -d’esta preciosidade rara. A graça e a alegria -da sua edade precisava da alliança -de uma razão grave e de um coração firme, -como o d’este homem. É elle, entre -quantos eu conheço, o mais perfeitamente -destinado para fazer da minha querida -menina uma grande e exemplar mulher.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Fará de mim o que elle quizer que eu -seja. <span class="direction">(Com muita curiosidade)</span> Mas diga-me, snr. -de Ronda, conheceu a primeira mulher de -Maximo? Perdôe-me esta curiosidade, e -não extranhe que eu deseje saber da vida -toda do homem que amo.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não convivi com ella... Vi-a com -Maximo uma ou duas vezes. Era uma<span class="pagenum"><a id="Page_199"></a>[199]</span> -vascongada, sêcca, vulgar, pouco intelligente, -bôa esposa para um lar tranquillo -mas sem felicidade...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Os paes d’elle sim, conheceu-os muito?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>A mãe nunca a vi. Era uma senhora -franceza, de alto merito. Foi em môça -uma das amigas de minha mulher. O pae, -Lazaro de Yuste, conheci-o ha trinta -annos em Hispanha e em França. Era -homem muito intelligente, bem parecido, -felicissimo em negocios de minas, e não -menos afortunado em negocios de amor. -Era falado.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>N’esse ponto não se parece com elle o -filho, que é a austeridade em pessôa.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>De certo que sim. O seu futuro marido, -minha querida Electra, é o modelo dos -homens, e a honra de uma geração muito -mais perfeita do que infelizmente foi a -minha. Para que nada lhe falte, esse portentoso<span class="pagenum"><a id="Page_200"></a>[200]</span> -magico até é rico... rico pelo que -lhe deixou o pae e mais rico ainda pelo -que herdou agora dos tios de França. Que -mais quer? Peça por bôca, e verá como -Deus lhe responde: «Menina, não tenho -mais que lhe dar.»</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(suspirando)</span> Ai!... E agora, outra coisa... -diga-me, meu querido Marquez: -posso estar socegada?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Inteiramente.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Escuso de ter medo das pessôas...—já lhe disseram—das -pessôas que se -julgam com sufficiente auctoridade...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Essas pessôas poderão talvez incommodar-nos -passageiramente, emquanto -nós não resolvermos encurtar-lhes os vôos.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>O snr. de Cuesta...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_201"></a>[201]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Esse não é de cuidado. Ainda hoje lhe -falei, e estou certo de que nos dará o seu -mais convicto assentimento.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>O snr. de Pantoja...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Esse ha de resmungar um pouco mais, -e pretenderá fazer-nos ouvir as trombetas -biblicas para nos assustar; mas não lhe -tenha medo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Deveras?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não vale nada.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não tenho de que me atterrar quando -o encontre?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não mais que da importunidade de -um mosquito.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_202"></a>[202]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Que allivio me dá! <span class="direction">(Com enthusiasmo carinhoso)</span> -Deus lhe pague! Deus o bemdiga, -snr. de Ronda!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(muito affectuoso)</span> Deus será comvosco.</p> - -<h3>SCENA IV</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS E URBANO</span>, vindo de casa, de chapeu na cabeça</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Marquez, bons dias.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Querido Urbano, posso falar comsigo?</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Não lhe faz differença depois da missa...? -<span class="direction">(A Electra)</span> Então, rapariga, que vagares -são esses? Está a tocar.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Só tenho que pôr o chapeu. Meio minuto, -tio. <span class="direction">(Entra correndo em casa)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_203"></a>[203]</span></p> - -<h3>SCENA V</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">MARQUEZ E URBANO</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Temos de pôr dia para o casamento, -e de fazer escriptura de consentimento -em regra.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Será talvez melhor que você trate de -tudo directamente com minha mulher.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Mas, meu amigo, chegou o momento -de fazer frente a certas ingerencias que -annullam a sua auctoridade de chefe de -familia.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Meu caro de Ronda, peça-me você que -altere, que transtorne todo o systema planetario, -que tire os astros d’aqui assim e -que os ponha para acolá; mas não peça -coisa nenhuma que seja contraria ao parecer -de minha mulher.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_204"></a>[204]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Homem, isso tambem lá me parece -submissão de mais!... Eu pela minha -parte insisto em que devo tratar este negocio -particularmente com você e não -com Evarista.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Vamos á missa e depois falaremos.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Pois vamos lá, eu tambem vou.</p> - -<h3>SCENA VI</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS, ELECTRA, EVARISTA E PANTOJA</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(de chapeu, luvas, livro de missa)</span> Pronta.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Vamos. O Marquez vae comnosco.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(pelo fundo, á esquerda, seguida de Pantoja)</span> -Vão ligeiros.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_205"></a>[205]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Depressa, se querem chegar.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>O marquez volta?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Infalibillissimamente, minha senhora.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Até logo. <span class="direction">(Saem Electra, o marquez e Urbano -pelo fundo, á esquerda)</span></p> - -<h3>SCENA VII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">EVARISTA E PANTOJA</span>, que com mostras de cansaço e -desalento se atira para o banco da esquerda, primeiro -plano.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Entramos?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Perdão: deixe-me respirar por um -momento. Na egreja abafava-se... com -o calôr, com o apertão de gente...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_206"></a>[206]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Vou-lhe mandar vir alguma coisa fresca... -<span class="direction">(chamando)</span> Balbina!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não, obrigado.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Uma taça de tilia...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Tambem não. <span class="direction">(Na occasião de Balbina sahir, -a senhora dá-lhe a mantilha, que acaba de tirar, e o -livro de missa)</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Não ha motivo, emquanto a mim, para -nos affligirmos tanto...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não é, como querem dizer, o meu orgulho; -é n’um ponto mais delicado e mais -profundo que eu me sinto ferido. Nega-se-me -a consolação e a gloria de dirigir -essa creatura e de a levar commigo pelo -caminho do bem. E vejo com grande magoa -que você, tão affecta aos meus principios,<span class="pagenum"><a id="Page_207"></a>[207]</span> -e que eu considerava uma fiel amiga -e uma fervorosa alliada, me abandona na -hora critica.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Perdoe-me, D. Salvador. Eu não o -abandono. Estavamos inteiramente de -accordo, com relação a Electra, em guardal-a -por algum tempo—nunca se tratou -de a encerrar para sempre—em S. José -da Penitencia, attendendo á disciplina e -purificação d’aquella casa... Mas surge -agora repentinamente esta inesperada -veneta de Maximo, e eu não posso, realmente, -não posso de modo nenhum recusar -o meu consentimento... É uma -loucura? será... Mas de Maximo, como -homem de honrado e correcto procedimento, -que tem que dizer?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Nada. <span class="direction">(corrigindo-se)</span> Isto é: alguma coisa -poderia talvez... Mas, por agora, o -que unicamente digo é que Electra não -está preparada para o casamento, não -tem aptidão para eleger marido... Não -reprovo em absoluto que se case, quando -seja com um homem cujas ideias a não -pervertam... Mas este ponto é para mais -tarde... O essencial n’este momento é<span class="pagenum"><a id="Page_208"></a>[208]</span> -que essa tenra creatura entre quanto antes -no sagrado asylo, onde nos cumpre -estudar, com o tacto mais subtil e mais -carinhoso, a configuração do seu caracter, -as suas predilecções, as suas tendencias, -os seus affectos; e em vista do -que observarmos, fundamentadamente e -seguramente depois d’este prévio exame, -resolveremos... <span class="direction">(Altaneiro)</span> Que ha que dizer -a isto?—pergunto eu agora.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(acobardada)</span> O que digo é que para esse -plano... na realidade perfeito... eu não -posso, não ouso offerecer-lhe a minha -cooperação.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(com arrogancia, passeando)</span> De modo que, -segundo os seus caridosos principios, se -Electra se quer perder, que se perca!... -que importa?... Se ella quer condemnar -a sua alma, que a condemne!... Que temos -nós com isso?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(com maior timidez, suggestionada)</span> Perder-se! -condemnar-se! E está porventura na minha -mão evital-o?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_209"></a>[209]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(com energia)</span> Está.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Oh! não... Não tenho a audacia de -intervir... E com que direito?... Impossivel, -Salvador, impossivel...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(affirmando mais a sua auctoridade)</span> Saiba, -minha amiga, que o acto de apartar Electra -de um mundo nefasto, em que por -todos os lados a rodeiam appetites e voracidades -ferozes, não é um despotismo: -é o amor na expressão mais alta e mais -pura do carinho paternal. Ainda por acaso -ignora, Evarista, que o fim supremo e -unico da minha vida não é hoje outro senão -o bem d’esta menina?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(acobardando-se mais)</span> Bem sei que é assim.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(com effusão)</span> Eu amo Electra com um -amor que as grosseiras palavras do homem -não podem definir. Desde que os meus<span class="pagenum"><a id="Page_210"></a>[210]</span> -olhos a viram, a voz do sangue me bradou -do mais fundo do meu ser que essa -creatura me pertence... Quero têl-a, -e devo têl-a, santamente, debaixo do meu -dominio paternal... Quero que ella me -ame como os anjos amam... que seja a -pura imagem da minha crença, o limpido -espelho do meu eterno ideal... que se reconheça -obrigada a padecer por aquelles -que lhe deram a vida, e purificando-se -pela mortificação, nos ajude a nós, que -fômos maus, a alcançar o perdão de -Deus... Não comprehende estas coisas, -Evarista?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(abatida)</span> Comprehendo-as e profundamente -admiro a elevação do seu entendimento.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Menos admiração e mais eficacia em -meu auxilio é o que lhe peço.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Não posso... <span class="direction">(Senta-se chorosa e abatida)</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>É bem natural que Electra lhe não -mereça o mesmo interesse que tão profundamente<span class="pagenum"><a id="Page_211"></a>[211]</span> -me inspira a mim. <span class="direction">(Empregando -suavidades de persuasão)</span> Convenho em que -n’estes primeiros tempos lhe tenha de pesar -algum tanto o seu brusco apartamento -das alegrias mundanas, mas muito rapidamente -se adaptará á dôce paz, á venturosa -quietação do claustro... Eu a dotarei -amplissimamente. Tudo quanto tenho -será para ella, para o esplendor da sua -santa casa... Será nomeada Superiora, e -sob a minha auctoridade, e pelo meu conselho, -governará a congregação... <span class="direction">(Com -profunda commoção)</span> Que celestial ventura, -meu Deus! Que felicidade para ella, e para -mim! <span class="direction">(Fica-se como em extase)</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Comprehendo que por não acceder ao -que deseja de mim eu privo talvez uma -creatura de chegar ao estado mais perfeito -da condição humana... Conhece bem os -meus sentimentos, Salvador... Sabe com -quanto prazer eu trocaria sem vacillar -toda a opulencia em que vivo pela gloria -de dirigir obscuramente uma modesta casa -religiosa do maior trabalho e da maior -humildade! Sempre o admirei pela sua -larga protecção a S. José da Penitencia, -e subiu de ponto essa admiração quando<span class="pagenum"><a id="Page_212"></a>[212]</span> -soube que redobrou o seu auxilio desde a -occasião em que a minha pobre Eleuteria -foi procurar n’esse instituto o esquecimento, -a paz e o perdão dos seus erros de -amor, como os de Magdalena. N’esse acto -da vida do rico snr. de Pantoja se me revelou -a espiritualidade mais pura a que -se pode elevar um homem.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Sim: desde que a sua desventurada -prima deu entrada n’aquelle sagrado asylo, -a minha protecção não sómente se tornou -mais positiva mas ainda mais espiritual. -Nunca, nunca mais tornei a pôr os meus -olhos em Eleuteria depois de convertida, -porque de ninguem—nem de mim!—ella -se tornou a deixar vêr desde que lhe cortaram -os cabellos e lhe botaram o escapulario. -Mas eu ia quotidianamente á egreja; -e invisivel do côro, n’um recanto da nave, -praticava em espirito com a penitente, -considerando-a tão perfeitamente regenerada -como eu proprio o estava. Morreu a -infeliz aos quarenta e cinco annos da sua -edade. Então obtive o consentimento de -uma sepultura no interior do edificio. E -desde esse dia não protegi mais a congregação, -tornei-a inteiramente minha, porque<span class="pagenum"><a id="Page_213"></a>[213]</span> -n’ella repousavam debaixo da pedra -de uma campa os restos d’aquella que eu -amei. Juntára-nos o peccado, reunia-nos -o arrependimento, ella na paz da morte, -eu na tempestuosa provação da vida...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>E ainda agora aquelle a que bem podemos -chamar o senhor e o reformador do -convento, todos os dias, sem excepção de -um unico, visita aquella santa casa e se -ajoelha no cemiterio humilde e docemente -poetico, onde as monjas dormem o somno -eterno.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(vivamente)</span> Sabia isso?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Sabia... E que no claustro, silencioso -e florido, entre loendros e cyprestes...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>É certo... quem lh’o disse?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_214"></a>[214]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>...vagueia, como um propicio phantasma -da saudade, o sombrio fundador -d’aquella casa, implorando de Deus o descanço -d’ella e o seu.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Sim... Ali repousarão tambem os -meus pobres ossos. <span class="direction">(Com vehemencia)</span> Quero, -além d’isso, que assim como em espirito eu -me não aparto por um só momento d’aquella -casa, ahi passe tambem, pelo tempo -que fôr preciso, o espirito de Electra... -Não a violentarei á vida claustral; mas se, -experimentando essa existencia, e apreciando -o seu incomparavel sabor, ella deliberasse -persistir na clausura, eu acreditaria -então que Deus me destinara para a -mais ineffavel graça. Ali as cinzas adoradas -da peccadora redimida; ali, na candida -alvura do seu habito de noviça, a minha -filha; ali eu, pedindo a Deus para -ellas a gloria eterna. E na morte, o escondido -e imperturbado repouso na mesma -terra amada,—todos os meus amores -commigo e todos nós em Deus...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_215"></a>[215]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(com viva commoção)</span> Perfeita grandeza, -por certo... Idealidade incomparavel.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Duvída ainda de que o meu pensamento -seja o mais elevado? De que me -não move nenhuma paixão ruim?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Como quer que duvíde?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Pois se com effeito lhe parece bello o -meu plano, porque me não ajuda a realisal-o?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Porque me não considero com poderes -para isso.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Nem assegurando-lhe eu que a reclusão -de Electra terá um caracter provisorio?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_216"></a>[216]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Nem assim. Não, D. Salvador, não -conte commigo... <span class="direction">(luctando com a sua consciencia)</span> -Reconheço toda a elevação, toda -a formosura das suas ideias... D’ellas -sinto um ecco suave e acariciador na minha -propria alma. Mas—que quer, meu -bom amigo—vivo no mundo em que -Deus me collocou: tenho tambem para -com este mundo deveres sagrados. Dêvo-me, -com aquelles que me rodeiam, á vida -social; e na vida da sociedade e da familia -o seu projecto é... como lh’o direi, -sem o magoar?... é uma anomalia angelica.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(dissimulando o seu enfado)</span> Bem. Paciencia... -<span class="direction">(Passeia caviloso e sombrio)</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(depois de uma pausa)</span> Em que pensa? -Desiste?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(com naturalidade e firmeza)</span> Não, minha senhora.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Qual então o seu projecto?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_217"></a>[217]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não sei... Ha de acudir-me uma -ideia... Pensarei... <span class="direction">(Resolvendo-se)</span> Minha -cara amiga, quer fazer-me o favor de escrever -uma carta á superiora da Penitencia?</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Dizendo-lhe...?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Que venha aqui immediatamente, com -duas irmãs, n’uma carruagem.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Porque lhe não escreve directamente?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Porque tenho de acudir a outras coisas.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Quer já?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>O mais breve possivel...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Bem. <span class="direction">(Dirige-se para casa)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_218"></a>[218]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Peço-lhe que mande a carta sem perda -de tempo.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(olhando do alto da escada para o jardim)</span> Creio -que elles ahi vem.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Depressa a carta, minha cara amiga.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Vae já... Deus nos inspire a todos. -<span class="direction">(Entra em casa)</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Lá vou ter. <span class="direction">(Áparte)</span> Que me não vejam! -<span class="direction">(Esconde-se atraz do macisso da direita junto -da escada)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_219"></a>[219]</span></p> - -<h3>SCENA VIII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">PANTOJA</span>, occulto; <span class="allsmcap">ELECTRA, URBANO, MARQUEZ</span>, -que voltam da missa—<span class="allsmcap">PATROS</span>, que desce de casa.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(adeantando-se encontra-se com Patros junto da -escada)</span> Veio?</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Não, senhorita. <span class="direction">(Ouve-se o canto afastado -dos meninos que brincam no jardim)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Morro de impaciencia. <span class="direction">(Tira o chapeu e as -luvas, que entrega a Patros com o livro de missa)</span> -Vou brincar com os pequenos emquanto -espero... Não... Vou apanhar flôres. -<span class="direction">(Colhe algumas no macisso da esquerda)</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(a Patros)</span> A senhora?</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Em casa.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Vamos ter com ella.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_220"></a>[220]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Vamos a isso. <span class="direction">(Entram em casa. Patros -segue-os)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(admirando as flôres que acaba de cortar)</span> Que -lindos, que graciosos rainunculos! <span class="direction">(Pantoja -apparece e Electra assusta-se ao vêl-o)</span> Ai!</p> - -<h3>SCENA IX</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E PANTOJA</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Assim te assusto, minha filha?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>É verdade... Não posso evital-o... -Que quer? Bem sei que não devia, e que -não tenho de que ter medo... Perdôe-me -por quem é, D. Salvador... Vou jogar -ao côrro com os pequenos...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Um momento. Vaes aos meninos para -que elles te dêem da sua alegria?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_221"></a>[221]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não, hoje não; vou repartir com elles -da que trasborda da minha alma. <span class="direction">(Afasta-se -o canto de roda dos meninos)</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Já sei a causa d’essa grande alegria, -já a sei...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Uma vez que sabe, não tenho então -que lhe contar. Até logo snr. de Pantoja.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Ingrata! Concede-me um instante...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Um instantinho só?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Unicamente.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Bom. <span class="direction">(Senta-se no banco de pedra. Colloca a -um lado as flôres e vae escolhendo aquellas com que -se touca, mettendo-as no cabello)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_222"></a>[222]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não sei porque tens reservas commigo -sabendo quanto me interesso pela tua felicidade -e pela tua vida...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(sem olhar para elle, attenta ás flôres)</span> Pois, se -o interessa a minha felicidade, alegre-se -commigo: sou a creatura feliz.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Feliz hoje. E amanhã?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Amanhã mais feliz do que hoje... E -sempre mais, sempre o mesmo!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>A alegria verdadeira e constante, o -goso perenne e indestructivel só existem -no amor eterno, superior ás inquietações -e ás miserias humanas.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(adornado o cabello, põe flôres no seio e no cinto)</span> -Toca-me outra vez no antigo registro de -que tenho de ser anjo... Sou uma pobre -pessoasinha summamente terrestre, D. Salvador.<span class="pagenum"><a id="Page_223"></a>[223]</span> -Deus fez-me para mulher, e botou-me -a este mundo. Já vê que, se estou -aqui, é porque elle não precisava de mim -para o ceu n’esta occasião.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Ha tambem anjos na terra, minha filha. -Anjos são todos aquelles que no meio -das desordens da materia sabem viver a -pura vida do espirito.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(mostrando o collo e o busto ornados de florinhas. -Ouve-se mais perto o coro dos meninos)</span> Que tal? -não lhe pareço um anjo?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Pareces, e quero que o sejas.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Assim me adorno para divertir os meninos. -Se visse a graça que elles me acham! -<span class="direction">(Com uma triste ideia subita)</span> Sabe com que eu -me estou parecendo agora? Com um menino -morto. Assim se enfeitam os meninos -quando os levam a enterrar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_224"></a>[224]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Para symbolisar a ideal belleza do ceu -para onde elles vão.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(arrancando as flôres)</span> Não, isso não, não -quero parecer menina morta. Dá-me a -ideia de que vem o snr. de Pantoja para -me levar á sepultura!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Oh! eu não te quero enterrada. Quereria -rodear-te de luz. <span class="direction">(Vae esmorecendo e cessa -de todo o côro dos meninos)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Tambem se põem luzes aos meninos -mortos.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não quero a tua morte, quero a tua -vida; não a vida inquieta e vulgar, mas -dôce, livre, elevada, amorosa, com um -eterno e puro amor divino.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(Confusa)</span> E porque é que me deseja -tudo isso?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_225"></a>[225]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Porque te quero muito, com um amor -mais excelso que todos os amores humanos. -Melhor comprehenderás a grandeza -d’este affecto, dizendo-te que para evitar-te -a mais leve dôr eu tomaria para mim -os mais espantosos tormentos que se possam -imaginar.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(estonteada, sem entender bem)</span> É o cumulo -da abnegação uma coisa d’essas.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Considera agora quanto soffrerei por -não poder evitar um desgostosinho, um -dissabor, que te vou dar.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>A mim?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>A ti mesma.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Um desgosto?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Desgosto que mais me afflige por ter -de ser eu que t’o cause.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_226"></a>[226]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(rebelando-se, levanta-se)</span> Desgostos! Não -os quero. Não os acceito. Guarde-os. Que -ninguem hoje me traga senão alegrias!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(condoído)</span> Bem quizera dar-t’as, mas -não posso.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Que terror que tenho! <span class="direction">(Com subita ideia -que a tranquillisa)</span> Ah! já sei... Pobre D. Salvador!... -É que me quer dizer mal de -Maximo... Alguma coisa que lhe parece -mal, mas que a mim me parece bem... -Escusa de se cançar porque nem me convence -nem o acredito. <span class="direction">(Precipitando-se na -emissão das palavras sem dar tempo a que Pantoja -fale)</span> Maximo é o maior e o melhor homem -do mundo, é o primeiro, e todo aquelle -que me disser uma palavra contraria a -esta verdade, mente, e detesto-o pela mentira, -e detesto-o...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Por Deus, minha filha! Não te arrebates -assim... Ouve. Eu não digo mal -de ninguem, nem dos que me odeiam. -Maximo é bom, é trabalhador, é intelligentissimo... -Que mais queres?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_227"></a>[227]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(satisfeita)</span> Assim, continue assim... -Vae dizendo muito bem.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Digo mais ainda: que podes amal-o, -que deves amal-o...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(com alegria)</span> Ah!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Amal-o entranhadamente... <span class="direction">(Pausa)</span> -A culpa não é d’elle, não é...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(assustada outra vez)</span> Querem vêr que ainda -acaba por lhe attribuir maldades?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>A elle não.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Então a quem? <span class="direction">(Recordando-se)</span> Ah! -adivinho: o snr. de Pantoja e o pae de -Maximo foram implacaveis inimigos. Tambem -me disseram já que esse senhor de -Yuste, honradissimo nos seus negocios,<span class="pagenum"><a id="Page_228"></a>[228]</span> -foi, talvez, um pouco demais galanteador -e mundanario... Mas que me importa -isso?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Pobre innocente! não sabes o que dizes.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Digo que esse excellente homem...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Lazaro Yuste, sim... Ao nomeal-o -tenho de associar a sua triste memoria á -de uma pessoa que já não vive... muito -querida de ti...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(comprehendendo e não querendo comprehender)</span> -De mim!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Que morreu, e a quem tu muito queres. -<span class="direction">(Pausa. Olham um para o outro)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(com terror e em voz apenas perceptivel)</span> Minha -mãe! <span class="direction">(Pantoja faz um signal affirmativo)</span> Minha -mãe! <span class="direction">(Attonita, desejando e temendo uma explicação)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_229"></a>[229]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Chegaram os dias de perdão. Perdoemos.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(indignada)</span> Minha mãe, a minha pobre -mãe! Não falam d’ella senão para a deshonrar, -para a denegrir... E ultrajam-a -aquelles mesmos que a envilleceram! Pudesse -eu tel-os a todos na mão para os desfazer, -para os destruir, para não deixar -d’elles nem uma migalha assim!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Terias que principiar por Lazaro Yuste.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>O pae de Maximo!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>O primeiro depravador da desgraçada -Eleuteria.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Quem é que o diz?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Quem o sabe.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_230"></a>[230]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>E... <span class="direction">(Fixam-se nos olhos. Electra não se atreve -a expôr a sua ideia)</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Triste de mim!... Não deveria falar-te -d’isto. Dera para o esconder todos os -dias que me restam de vida. Comprehenderás -que não podia ser... O meu amor -por ti ordena-me que fale.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(angustiada)</span> Meu Deus! e ter eu de -ouvil-o!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Disse eu que foi Lazaro Yuste...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(tapando os ouvidos)</span> Não quero, não quero -ouvir.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Tinha então tua mãe a edade que tens -agora: desoito annos...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não acredito, não acredito...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_231"></a>[231]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Era uma jovem senhora encantadora, -quasi uma creança, que supportou com a -mais corajosa dignidade o horror d’aquella -vergonha...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(rebelando-se com energia)</span> Cale-se! Cale-se!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>A vergonha do nascimento de Maximo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(apavorada, com o rosto demudado, recua cravando -os olhos em Pantoja)</span> Ah!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Procurando com discrição attenuar a -affronta da sua victima, Lazaro occultou o -menino e levou-o misteriosamente comsigo -para França.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>A mãe de Maximo foi uma senhora -franceza: Josephina Perret.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Mãe adoptiva.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_232"></a>[232]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(tapando os olhos com ambas as mãos)</span> Divino -Jesus! É o ceu que desaba...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(condoído)</span> Filha da minha alma, volve -para Deus os teus olhos.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(demudada)</span> É um sonho... Tudo o que -estou vendo é illusão, é mentira. <span class="direction">(Olhando -espantadamente para uma parte e para outra)</span> Mentira -estas arvores, esta casa, este ceu... -Mentira tu! tu! tu, que não existes, monstro -d’um pesadelo horrivel!... <span class="direction">(Com os punhos -na cabeça)</span> Acorda, desgraçada, acorda!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(tentando socegal-a)</span> Electra, querida Electra! -Pobre innocente!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(com um grito d’alma)</span> Mãe, minha mãe!... -A verdade, dize-me a verdade... <span class="direction">(Fóra de -si percorre a scena)</span> Onde estás, mãe?... -Quero a morte ou a verdade... Minha -mãe! minha mãe!... <span class="direction">(Sae pelo fundo, perdendo-se -na longinqua espessura das arvores. Ouve-se -proximo o canto dos meninos jogando ao côrro)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_233"></a>[233]</span></p> - -<h3>SCENA X</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">PANTOJA, URBANO, MARQUEZ</span>, vindos de casa, á pressa. -Depois d’elles <span class="allsmcap">BALBINA E PATROS</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Que é?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Ouvimos gritar Electra.</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>Foi a correr pelo jardim.</p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>Por aqui. <span class="direction">(As duas creadas assustadas correm -e internam-se no jardim)</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(olhando por entre as arvores)</span> Lá vae correndo... -Continúa a gritar... Pobre Electra! -<span class="direction">(Adeanta-se para o jardim)</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Que foi isto?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_234"></a>[234]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Eu lh’o direi... Um momento... -Providenciemos antes de mais nada...</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>O quê?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(procurando coordenar as suas ideias)</span> Deixe-me -pensar... Trazel-a para casa já... -Ir buscal-a... Vá!</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p><span class="direction">(olhando para o jardim)</span> Lá está já o meu -sobrinho...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(contrariado)</span> Em que má hora!</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Correm para elle os meninos... Parece -que o informam... Electra foge-lhe... -Não o quer vêr... Mette-se na gruta... -O Marquez intervem... Pobre Maximo!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Vá! vá ter com elles!... Não deixe -que Maximo intervenha...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_235"></a>[235]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Que balburdia! <span class="direction">(Interna-se no jardim)</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Se eu podesse... <span class="direction">(hesitante em ir e não ir)</span></p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p><span class="direction">(voltando pressurosa do jardim)</span> Pobre menina! -Chama aos gritos pela sua mãe... -Sentou-se agarrada aos meninos á porta -da gruta, e ninguem a tira d’ali...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>E Maximo?</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>Muito inquieto, sem saber o que ha de -fazer, como todos nós... Vou chamar a -senhora...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não, não vá. Já chegaram a senhora -superiora e as irmãs de S. José?</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>Já, sim senhor, chegaram agora.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_236"></a>[236]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não diga nada á senhora. Vá para -casa e espere por mim.</p> - -<p class="speaker">Balbina</p> - -<p>Sim, senhor. <span class="direction">(Sobe para casa)</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(indeciso e como assustado)</span> Não sei que -faça... Pela primeira vez na minha vida -hesito... Irei?... Esperarei aqui? <span class="direction">(resolvendo-se)</span> -Vou. <span class="direction">(A poucos passos encontra-se com -Maximo, agitado e colerico, que vem do jardim e o -detem)</span></p> - -<h3>SCENA XI</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">PANTOJA E MAXIMO</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(ardentemente em toda a scena)</span> Alto!... Diz-me -o marquez de Ronda que d’aqui, depois -de uma demorada conversação comsigo, -sahiu Electra no delirio em que está.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(perturbado)</span> Aqui... de certo... falamos... -A senhorita Electra...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_237"></a>[237]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Foi mordida pelo monstro.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Talvez... mas o monstro não sou eu. -É um mais terrivel, que se alimenta de -factos e que se chama a Historia. <span class="direction">(Querendo -ir-se)</span> Adeus.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(agarrando-o fortemente por um braço)</span> Espere. -Primeiro vae repetir aqui, já, immediatamente, -o que foi que disse a Electra esse -seu monstro da Historia...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(sem saber que dizer)</span> Eu... convém assentar -préviamente que...</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Nada de preambulos... Quero aqui a -verdade, concreta, exacta, precisa... Electra -foi offendida de um modo tão profundo -que lhe alterou a razão... Com que -palavras, com que suggestões? Preciso de -sabel-o prontamente. Trata-se da mulher -que é tudo para mim no mundo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_238"></a>[238]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Para mim é mais: é o ceu e a terra.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Quero saber, n’este mesmo instante, -que horrivel maquinação foi esta, urdida -por si, contra essa menina, contra mim, -contra nós ambos eternamente unidos pela -effusão das nossas almas. Com que baba -se envenenou aquella a quem eu posso e -devo chamar desde já a minha legitima -mulher? Que responde?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Nada.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(acommette-o explodindo em colera)</span> Pois por -esse infame silencio, mascara impudente -e abjecta de um egoismo tão grande que -não cabe no mundo; por essa virtude não -sei se falsa, se verdadeira, que da sombra -desfere o raio que nos aniquilla; <span class="direction">(agarra-o -pela garganta e derriba-o no banco)</span> por essa doçura -que envenena, por essa suavidade que -estrangula, Deus te confunda, homem -grande ou miseravel reptil, aguia, serpente, -ou o que sejas!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_239"></a>[239]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(recobrando alento)</span> Que brutalidade! que -infamia! que demencia!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Bem sei. Estou doido... <span class="direction">(Recompondo-se)</span> -E quem é que dispõe assim do poder diabolico -de desvirtuar o meu caracter, arrastando-me -a esta colera insensata, fazendo-me -o estupido aggressor de um ente debil -e mesquinho, incapaz de responder á força -com a força?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(tomando aprumo)</span> Com a força te respondo. -<span class="direction">(Voltando á sua condição normal, exprimindo-se -com serenidade sentenciosa)</span> Tu és a força do -musculo, eu a força da alma. <span class="direction">(Maximo olha -para elle, attonito e confuso)</span> Posso mais do que -tu, infinitamente mais. Duvídas?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>De que póde mais?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>A ira suffoca-te, e cega-te o orgulho. -Eu, injuriado e escarnecido, recobro a serenidade. -Tu não. Tu tremes. Tu, que te -julgas a força, tu, Maximo, tremes!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_240"></a>[240]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>É a ira. Não a provoque.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Nem a provoco nem a temo. <span class="direction">(Cada vez -mais senhor de si)</span> Tu maltratas-me. Eu perdôo-te.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Que me perdôa a mim! <span class="direction">(iracundo)</span> Mas -é para o homicidio que assim me empurra!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(com serena e fria gravidade, sem jactancia)</span> -Enfurece-te, grita, bate-me... Aqui me -tens inabalavel e indifferente... Não ha -força humana que me dobre nem poder -nenhum da terra que me afaste do meu -caminho. Injuria-me, fere-me, mata-me: -não me defendo. O martyrio não me repugna. -Póde a violencia destruir o meu pobre -corpo, que nada vale. Mas o que está -aqui <span class="direction">(na sua mente)</span> é indestructivel. Na minha -vontade só um poder impera: o de -Deus. E se a minha vontade se extinguir -na morte, a ideia que sustento lhe sobreviverá, -triumphante e eterna.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_241"></a>[241]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não póde ter ideias grandes quem não -tem grandeza, nem piedade, nem ternura, -nem compaixão.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>O meu fim é mais alto que todos os -raciocinios. Para elle me dirijo por qualquer -caminho que se me depare.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(aterrado)</span> Por qualquer caminho!? Para -ir para Deus não ha senão um: o da Bondade -Humana. <span class="direction">(Com exaltação)</span> Deus do -ceu! tu não pódes permittir que ao teu -reino se chegue por lobregas e tortuosas -alfurjas, nem que á tua gloria se suba calcando -os corações que te amam... Não; -Deus não permitte isso. Vêr tal absurdo -seria vêr toda a Natureza em ruina, toda -a maquina do Universo destruida e aniquillada.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Estás offendendo Deus com as tuas -palavras blasphemas.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Mais o offendes tu com os teus actos -sacrilegos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_242"></a>[242]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Basta. Não disputo comtigo. Não tenho -mais que dizer-te.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não tem mais? Se ainda me não disse -nada! <span class="direction">(Segura-o vigorosamente por um braço)</span> Vamos -d’aqui ter com Electra, e, na presença -d’ella, ou esclarece as minhas dúvidas e -me tira da anciedade horrivel em que estou, -ou ahi morre, e morro eu, e morreremos -todos trez. Assim lh’o juro pela memoria -de minha mãe.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(depois de o encarar fixamente)</span> Vamos. <span class="direction">(Ao -darem os primeiros passos sae Evarista de casa)</span></p> - -<h3>SCENA XII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS, EVARISTA E PATROS.</span> Atraz d’Evarista -a superiora e as duas irmãs de S. José</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Que succedeu, Maximo?... Que colera -é essa?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_243"></a>[243]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>É este homem que me enlouquece... -Venha, tia, venha tambem comnosco... -<span class="direction">(Vendo a superiora e as irmãs, amedrontado)</span> Que -mulheres são aquellas? Que querem essas -senhoras? <span class="direction">(Chega Patros do jardim, correndo)</span></p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p><span class="direction">(pesarosa, choramigando)</span> Minha senhora, -a senhorita enlouqueceu... Corre, foge, -desapparece, chamando em gritos por sua -mãe... Não quer que a consolem... não -ouve, não vê ninguem, não conhece ninguem!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(caminhando para o jardim)</span> Filha da minh’alma!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(olhando para o jardim)</span> Ahi vem. <span class="direction">(Larga -Pantoja e dirige-se a ella)</span></p> - -<p class="speaker">Patros</p> - -<p>O senhor e o snr. Marquez conseguiram -convencel-a e trazem-a para casa... -<span class="direction">(Apparece Electra conduzida pelo marquez e por Urbano. -Junto d’elles, Maximo. Ao vêr os que estão em -scena Electra oppõe alguma resistencia. Suave e carinhosamente -a obrigam a approximar-se. Traz o -cabello e o seio adornado de flôrzinhas)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_244"></a>[244]</span></p> - -<h3>SCENA XIII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MAXIMO, EVARISTA, PANTOJA, URBANO, -MARQUEZ E PATROS</span> (Conservam-se na scena a superiora e as irmãs)</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Deliras, minha pobre filha!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Ouve, minh’alma, vem, escuta. O meu -carinho será a tua razão.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(afasta-se de Maximo com um movimento de pudor. -O seu delirio é sereno, sem gritos, sem risadas. -Manifesta-o com uma accentuação de dôr resignada e -melancolica)</span> Não te approximes. Não te -pertenço. Já não sou tua.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Porque me foges? para onde vaes sem -mim?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(que passou para a direita, junto de Evarista)</span> -Para a eterna verdade, para a inalteravel -paz.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_245"></a>[245]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Vou por minha mãe. Sabem onde está -minha mãe?... Vi-a no côrro dos meninos... -Foi depois até a mimosa que está -á entrada da gruta... E eu a seguil-a -sem a alcançar... Olhava para mim e -fugia... <span class="direction">(Ouve-se ao longe o canto dos meninos)</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Aqui está Maximo... Olhe... É o -seu noivo.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(vivamente)</span> Serei o teu marido... Ninguem -se oppõe, e não ha força nenhuma -que o empeça, Electra, minha vida.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(impondo silencio)</span> Quem fala aqui de noivos -e noivas? Quebradas as festas do noivado: -não ha bôda... Que tristeza a da -minha alma!... Só ha padres com tochas -a rezar por defuntos... Que grande é o -mundo, e que só que está! que vazio!... -Acima da terra, pelo ceu, passam nuvens -negras, que são illusões, as illusões que -foram minhas e não são de ninguem agora... -as illusões sem dôno!... Que solidão!... -Tudo escurece, tudo chora...<span class="pagenum"><a id="Page_246"></a>[246]</span> -Vae acabar o mundo... vae acabar. <span class="direction">(Com -arrebatamento de medo)</span> Quero fugir, quero-me -esconder. Não quero padres, não quero -tochas, não quero officios... Quero ir -para a minha mãe... Onde m’a enterraram?... -Levem-me á pedra da sua campa, -e ali juntas, nós ambas, minha mãe -e eu, lhe direi as penas da minha alma, -e ella me dirá verdades... verdades!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(áparte, a Evarista)</span> É a occasião. Aproveitemol-a.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Vem, minha filha, nós te levaremos á -quietação e á paz.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não: o descanso e a razão estão aqui. -Electra é minha... <span class="direction">(Evarista procura leval-a)</span> -Exijo-a.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Adeus, Maximo... Já te não pertenço: -pertenço á minha dôr... A minha -mãe chama-me para o seu lado... <span class="direction">(Extactica, -anciosa, prestando uma attenção intensissima)</span> -Ouço-lhe a voz...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_247"></a>[247]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>A voz!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Silencio, que me chama! <span class="direction">(delirando de -alegria)</span> que está chamando por mim!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Torna a ti, meu amor!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não ouviram? Não ouvem?... Lá -vou, mamãsinha, lá vou! <span class="direction">(Corre para o alto -da escada)</span> Vamo-nos! <span class="direction">(A Maximo, que quer seguil-a)</span> -Eu só... É por mim só que chama. -Tu não... Para estar sósinha commigo... -Não ouves a voz d’ella dizendo: -Eleectra! Eleeeectra!... Vou vêl-a, vou -falar-lhe... <span class="direction">(Vae entrando na casa com Evarista -e Pantoja)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Que iniquidade e que horror! Para m’a -roubarem, enlouqueceram-na. <span class="direction">(Quer desprender-se -dos braços de Urbano e do marquez)</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(contendo-o)</span> Não enlouqueças tambem tu.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_248"></a>[248]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Socega!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Descansa, que eu te asseguro que a recobraremos!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Amarrem-me! Levem-me manietado -para a solidão, para a sciencia, para a -verdade. Este mundo incerto, mentiroso -e iniquo, não é para mim!</p> - -<p class="titlepage smaller">FIM DO QUARTO ACTO</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_249"></a>[249]</span></p> - -<h2 class="nobreak">ACTO QUINTO</h2> - -</div> - -<div class="act"> - -<p class="main">Sala do locutorio em S. José da Penitencia. Portas lateraes.</p> - -<p class="sub">Ao fundo uma grande janela d’onde se vê o claustro.</p> - -</div> - -<h3>SCENA I</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">EVARISTA E SOROR DOROTHÊA</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(entrando com a freira)</span> D. Salvador...?</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Chegou ha um momento: está no escritorio -com a superiora e com a madre -escrivã.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Então Urbano lá irá ter com elle... -Emquanto esperamos, dê-me noticias de -Electra... Foi muito feliz a escolha que -fizeram de si, irmã Dorothêa—tão sympathica<span class="pagenum"><a id="Page_250"></a>[250]</span> -e tão dôce—para a acompanhar, -para viver com ella, para ser a sua amiga -e a sua confidente...</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Electra não me quer mal, e é talvez -certo que por essa razão algum tanto contribuirei -para a socegar.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(aponta para a cabeça)</span> E como está ella -de...?</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Bem. Recuperou inteiramente a razão, -e não tem nenhum vestigio de delirio, a -não ser ainda aquella ideia fixa de querer -vêr a mãe, de lhe falar, de ter d’ella a solução -das suas dúvidas. Todo o tempo -que tem livre das obrigações religiosas, e -todo o que póde alcançar, o passa no pateo -do nosso cemiterio, e na horta contigua; -e tanto ahi como no dormitorio, sempre -a mesma preoccupação a absorve.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>E lembra-se de Maximo? fala d’elle?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_251"></a>[251]</span></p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Fala: mas nas suas meditações e nas -suas rezas a ideia que mais acaricia é de -poder amal-o como um irmão, e, pelo que -ainda hoje me disse, espera conseguil-o.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Mas é uma ideia apenas! É preciso -que a essa ideia se associe o coração... -E bem poderia ser que assim succedesse -se a desgraça de antes d’hontem não viesse -alterar o seguimento dos factos...</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Uma desgraça!...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Morreu o nosso velho amigo D. Leonardo -Cuesta...</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Não sabia...</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Que immensa tristeza para todos nós! -Ha dias que se sentia mal, e presagiava -o seu fim. Sahiu na segunda feira muito -cêdo, e na rua perdeu os sentidos. Levaram-o -para casa, e ás tres horas da tarde -estava morto.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_252"></a>[252]</span></p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Pobre senhor!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>No testamento nomeia Electra herdeira -de metade da sua grande fortuna...</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Ah!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Mas coma expressa condição de que -ella abandone a vida religiosa. Sabe se -D. Salvador já terá conhecimento d’isto?</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Supponho que sim, porque elle tem -conhecimento de tudo, e adivinha o que -não conhece.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>E é verdade!</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p><span class="direction">(vendo chegar Urbano)</span> O snr. D. Urbano.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_253"></a>[253]</span></p> - -<h3>SCENA II</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">AS MESMAS E URBANO</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Falaste-lhe?</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Sim. Deixei-o a trabalhar no escritorio, -com um tino, com uma fixidez d’attenção, -que me assombram. Que homem!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Já teve noticia das ultimas disposições -do pobre Cuesta?</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Já.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Está contrariado?</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Se está não o mostra. Bem sabes -que nem nos casos mais difficeis elle -deixa transparecer as suas commoções...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_254"></a>[254]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(interrompendo-o com enthusiasmo)</span> É um espirito -d’aguia, que paira acima de todas -as tempestades da terra.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Interrogando-o a respeito das esperanças -que tinha de conservar Electra no convento, -respondeu-me singelamente com -uma serenidade pasmosa: «Confio em -Deus».</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Que grandeza d’alma! E sabe que -Maximo e o Marquez são os testamenteiros?</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Sabe mais. Recebeu ao meio dia uma -carta d’elles annunciando-lhe que virão -esta tarde, acompanhados d’um tabellião, -inquirir a menina, para que declare se -acceita ou se renuncia a herança.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>E á vista d’essa communicação...?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_255"></a>[255]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Nada: imperturbavel, como sempre, -repetindo a sua conhecida formula, que o -pinta n’um traço: «Confio em Deus».</p> - -<h3>SCENA III</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">OS MESMOS, MAXIMO E O MARQUEZ</span> (pela esquerda)</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Esperaremos aqui.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(vendo Evarista)</span> Adeus, tia. <span class="direction">(Sauda-a com -affecto)</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p><span class="direction">(respondendo ao cumprimento do marquez)</span> Então, -Marquez... Ha finalmente esperanças -de ganhar a batalha?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não sei... Luctamos com féra de -muito ardil.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>E a ti, Maximo, que te parece?...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_256"></a>[256]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Que estamos em frente d’um terrivel -mestre consummado no embuste. Mas eu -confio em Deus.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Tambem tu...?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Naturalmente: em Deus confia todo -aquelle que crê na verdade. Combatemos -pela verdade. Como poderiamos suppôr -que Deus nos abandone? Não poderia ser, -querida tia.</p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Não viste Electra quando atravessaste -os claustros?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não vi.</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p><span class="direction">(approximando-se da janela)</span> Vae passar -agora. Vem do cemiterio.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(correndo para a janela com Urbano)</span> Que -triste! e que bella! A brancura do habito -dá-lhe o aspecto aereo de uma apparição. -<span class="direction">(chamando-a)</span> Electra!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_257"></a>[257]</span></p> - -<p class="speaker">Urbano</p> - -<p>Cala-te.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não posso. <span class="direction">(Volta a olhar)</span> É então certo -que vive... É ella que vae ali na sua -realidade primorosa, ou é uma imagem -mystica que se despegou d’um retabulo -d’altar para andar pela terra?... Lá volta -para traz... levanta os olhos para o -ceu... Se a visse diluir-se no ar, dissipando-se -como uma sombra, não me admiraria... -Põe os olhos no chão... Pára... -Em que estará pensando? <span class="direction">(Continua a contemplar -Electra)</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(que ficou no proscenio com Evarista)</span> ...Sim, -minha senhora: falso, falsissimo!</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Olhe o que affirma, marquez...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Affirmo que ou o veneravel D. Salvador -se equivoca, ou que disse, sabendo-o, -o contrario da verdade, movido de razões -e fins, que não penetram as nossas limitadas -intelligencias.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_258"></a>[258]</span></p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>É impossivel, marquez... Faltar á verdade -um homem tão justo, de tão pura -consciencia, de ideias tão altas!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>E quem nos diz, minha cara amiga, -que nos arcanos d’essas consciencias exaltadas -não ha uma lei moral, cujas subtilezas -estão longe do nosso mesquinho alcance? -Ha absurdos na vida do espirito -como os ha na natureza, onde vemos inumeros -phenomenos cujas causas não são -as que se figuram.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Não: não posso crer! Ha talvez casos -em que a mentira aplana o caminho do -bem. Mas não estamos n’um caso d’esses... -Eu por mim, não acredito.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Para que possa formar o seu juizo, -ouça o que lhe vou dizer. A marqueza, -Virginia, assegura-me que de Josephina -Perret—sem que n’isto possa haver mistificação -nem equivoco—nasceu este homem -que ahi está... E Evarista, amiga<span class="pagenum"><a id="Page_259"></a>[259]</span> -intima de Josephina Perret, prova e demonstra -esse facto da maneira mais simples, -mais clara e mais positiva. Além -d’isso, eu mesmo pude comprovar que -Lazaro Yuste viveu longe de Madrid -desde 1863 até 1866.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Com tudo isso, marquez, não posso -convencer-me de que...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(vendo entrar Pantoja pela direita)</span> Ahi vem -elle.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(descendo ao proscenio)</span> Chega o abutre.</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Se me dão licença retiro-me. <span class="direction">(Sae pela -esquerda. Pantoja permanece um instante junto da -porta)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_260"></a>[260]</span></p> - -<h3>SCENA IV</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">EVARISTA, MAXIMO, URBANO, MARQUEZ E PANTOJA</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(adeantando-se vagarosamente)</span> Meus senhores, -desculpem-me tel-os feito esperar.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Prevenido do objecto da nossa visita, -creio que será inutil expol-o...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p><span class="direction">(benignamente)</span> Não o repetiremos para -não mortificar o snr. de Pantoja, que deve -a estas horas considerar perdida a sua -inutil campanha.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(sereno, sem jactancia)</span> Eu não perco nunca.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Será adeantar muito.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_261"></a>[261]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>E asseguro que Electra, tendo aprendido -já a desprezar os bens da terra, não -acceitará o legado.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>Já vês que este homem não se rende.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Não me rendo... nunca, nunca.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Estou vendo. <span class="direction">(Sem poder dominar-se)</span> É -então preciso matal-o?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Venha a morte.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não chegaremos a tanto.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Cheguem onde queiram. Hão de encontrar-me -sempre impassivel e estavel, -no meu posto.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Confiamos na lei.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_262"></a>[262]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Eu em Deus. E digo aos representantes -da lei que Electra, adaptando-se facilmente -a esta vida de pureza, libando já as -doçuras ineffaveis da oração e da paz em -Deus, não abandonará esta santa casa.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(impaciente)</span> Podemos falar-lhe?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>N’este momento, precisamente, não.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(querendo protestar)</span> Oh!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Socegue.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não posso.</p> - -<p class="speaker">Evarista</p> - -<p>É a hora do côro. Quer D. Salvador -dizer, por certo, que depois da hora...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Está claro que sim. E para que se -convençam de que nada temo, podem trazer<span class="pagenum"><a id="Page_263"></a>[263]</span> -além do tabellião, o snr. delegado do -governo. Mandarei abrir a portaria... -Permittirei que falem emquanto queiram -com Electra. E se depois d’isso ella quizer -sahir, que sáia...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Cumprirá o que diz?</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Como não? se é em Deus unicamente -que confio.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Voltaremos logo. <span class="direction">(Toma o braço de Maximo)</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>E nós para a egreja. <span class="direction">(Saem Urbano, Evarista -e Pantoja)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_264"></a>[264]</span></p> - -<h3>SCENA V</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">MARQUEZ E MAXIMO</span>, que percorre a scena muito agitado, -impaciente, receioso</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Que diz a isto, Maximo?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Que este homem, de tão superior talento -para fascinar os debeis e para zombar -dos fortes, nos enlouquecerá a todos. -Eu não sou para isto. Em luctas de tal -ordem, vontade contra vontade, sinto-me -arrastado á violencia.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>E que faz tenção de fazer?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Leval-a embora. A bem ou a mal. -Por vontade ou á força. Se não tiver bastante -poder para isto, adquiril-o, compral-o; -trazer amigos, cumplices, um esquadrão, -um exercito... <span class="direction">(Com crescente fervor)</span> -Renascem em mim os rancores -dos antigos bandos, com toda a ferocidade -romantica do feudalismo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_265"></a>[265]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Assim pensa, e assim o diz, um homem -de sciencia!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Os extremos tocam-se. <span class="direction">(Exaltando-se mais)</span> -Para esse homem, para esse monstro não -ha argumentos, não ha raciocinios... É -preciso matal-o.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Nem tanto, nem tanto, meu querido! -Imitemol-o, sejamos como elle astutos, -insidiosos, perseverantes.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(com brio e eloquencia)</span> Não: sejamos como -eu... sinceros, claros, valorosos. Marchemos -de cabeça alta e de cara descoberta -para o inimigo. Destruamol-o, ou deixemo-nos -destruir por elle... Mas d’uma -vez, de uma só investida, de um só -golpe... Ou elle ou nós.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não, Maximo. Temos de ir com tento. -Temos de respeitar a ordem social em -que vivemos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_266"></a>[266]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>A ordem social em que vivemos envolve-nos -em uma rede de mentiras e de -argucias, e n’essa rede morreremos estrangulados, -sem defeza alguma... presos de -garganta, e de pés e mãos, nas malhas de -milhares e milhares de leis capciosas, de -vontades fraudulentas, aleivosas, subornadas, -corrompidas.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Socega. Preparemo-nos para o que -esta tarde nos espera. Temos de prever -os obstaculos para pensar com tempo no -modo de os vencer... Que succederá -quando dissermos a Electra que a mãe do -seu noivo é com effeito e fóra de toda a -dúvida Josephina Perret e não Eleuteria -Dias?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Que ha de succeder? Que não o acreditará, -porque na sua mente se petrificou o -erro e será já tarde para o desarraigar. Pois -não se sabe o que pode a suggestão contínua? -O que póde o insinuante e invasivo -ambiente de uma casa como esta sobre -as ideias dos que a habitam?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_267"></a>[267]</span></p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Empregaremos meios efficases.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(com violencia)</span> Quaes? Deitar fogo ao -convento, deitar fogo a Madrid...</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não divagues. Se Electra não quizer -sahir, leval-a-hemos á força.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(muito vivamente até o fim)</span> Ou uma força -triumphante, ou uma desesperação de vencido... -morrer eu, morrer ella, morrermos -todos.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Morrer não. Vivamos todos, e preparemo-nos -para a peor solução. Tenho -uma chave para entrar no claustro pela -Rua Nova, e a irmã Dorothêa pertence-me... -Caluda!</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Violencia!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Subtilesa e astucia!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_268"></a>[268]</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Adeante, de pronto, e pelo caminho -direito!</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Não, homem, de vagar, com geito, e -pelo atalho enesgado! <span class="direction">(Tomando-lhe o braço)</span> -E vamo-nos d’aqui, que estamos a tornar-nos -suspeitos... <span class="direction">(Levando-o)</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Sim, vamo-nos.</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Confia em mim.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Confio em Deus.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_269"></a>[269]</span></p> - -<h3>MUTAÇÃO</h3> - -<div class="act"> - -<p class="main">Claustro de S. José da Penitencia. Á direita uma asa da egreja, -com frestões envidraçados, pelos quaes transluz a claridade -interior. Á esquerda grande portada por onde se -passa a outro claustro, que se suppõe communicar com -a rua. Ao fundo, entre a egreja e as construcções da esquerda, -grande arco abatido, para lá do qual se vê em -ultimo plano o cemiterio da congregação. É noite escura.</p> - -</div> - -<h3>SCENA VI</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E SOROR DOROTHÊA</span></p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Tão certo como ser noite, vieram dois -sujeitos ao convento com proposito de te -arrancar d’aqui e de te levar para o mundo. -Não o crês?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Sem que me digas quem são, o meu -coração o adivinha: Maximo e o marquez -de Ronda... Se é certo que projectam -levar-me é enorme a perturbação que -me causam. Desde que entrei n’esta -santa casa emprehendi, como sabes, a<span class="pagenum"><a id="Page_270"></a>[270]</span> -grande batalha do meu espirito. Procuro, -humildemente e com a ajuda de Deus, -transformar em amor fraternal o amor de -uma natureza bem diversa que arrebatou -a minha alma... Converter o ardente -fogo do sol numa fria claridade da lua... -O constante meditar, lento mas progressivo, -o desmaio do coração, e as ideias -submissas e dôces que Deus me envia -vão-me dando forças para vencer.</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Querida irmã, se em ti sentes a fortaleza -d’esse novo amor, porque tens mêdo -de te encontrar com D. Maximo de Yuste?</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Porque, vendo-o, sinto que todo o terreno -ganho o perderia n’um só instante.</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p><span class="direction">(incredula)</span> E achas, em tua verdade, que -tenhas algum terreno ganho?...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Oh! sim, algum... não muito por -emquanto.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_271"></a>[271]</span></p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Talvez, irmã Electra, que o vêr essa -pessoa te demonstre se effectivamente podes...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(vivamente)</span> Oh! não m’o digas, que não -posso!... No estado em que me sinto, -n’este principio de lucta, se o visse, se o -ouvisse, eu perderia toda a esperança de -paz... Não vês que em minha consciencia -eu me estou debatendo contra dois impossiveis: -não poder amal-o como esposo; -não poder amal-o como irmão? <span class="direction">(Aterrada)</span> -Que supplicio, meu Jesus!... Para -o mundo não, não... Prefiro estar aqui, -n’esta solidão de morte, n’este laboratorio -da minha alma, junto do cadinho divino, -em que estou fundindo um viver -novo.</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Não esperes que as tuas ideias te deem -a paz. Confia em Deus e n’aquelles que -Deus te envia... <span class="direction">(Resolvendo-se a falar mais claramente)</span> -Não te amedrontes assim perante -o que suppões teu irmão. Alguem talvez -negará que o seja.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_272"></a>[272]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(em grande excitação)</span> Cala-te! Cala-te! Em -assumpto de tão grande melindre toda a -palavra que não contenha a certeza é inutil -e cruel... Póde levar-me á loucura. -O que eu peço a Deus é a morte, ou a -verdade inteiramente indubitavel e definitiva.</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Socega, pobre Electra...</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(exaltando-se cada vez mais)</span> Todas as confusões -que me atormentaram ao vir para -aqui estão renascendo no meu espirito... -Atropelam-se-me no pensamento anjos -e demonios... Deixa-me... Eu quero -fugir de mim mesma... <span class="direction">(Corre a scena em -grande agitação. Soror Dorothêa segue-a procurando -acalmal-a)</span></p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Tranquillisa-te, por Deus!... Esse tormento -vae ter fim. <span class="direction">(Olha com anciedade para a -porta da esquerda)</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(parecendo-lhe ouvir uma voz longinqua)</span> Ouve... -Minha mãe que me chama.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_273"></a>[273]</span></p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Não delires... Outras vozes, vozes de -pessoas vivas, te chamarão.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>É minha mãe... Silencio!... <span class="direction">(Escutando. -Entra Pantoja pela direita)</span></p> - -<h3>SCENA VII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, PANTOJA E DOROTHÊA</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Minha filha, como sahiste da egreja -sem que eu te visse?</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Sahimos para respirar ao ar livre. Electra -asfixiava. <span class="direction">(Áparte)</span> Approxima-se a -hora... Deus nos ajude!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Sentes-te mal, minha filha?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_274"></a>[274]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(com voz assustada e sumida)</span> A minha mãe -chama por mim.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(pegando-lhe carinhosamente na mão)</span> A dôce -voz da tua mãe, falando-te em espirito -te dará conforto, prendendo-te com piedade -e amôr a este sagrado refugio. <span class="direction">(Ouve-se -passando na egreja o côro das noviças)</span> Ouve, -Electra... É a voz dos anjos que te chamam -do ceu.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(delirante)</span> É o côro dos meninos a brincar. -E entre essas vozes ternas, distingo a -de minha mãe chamando-me da sepultura.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Estás allucinada. É o divino côro dos -anjos.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Não, não ha anjos... Ouço o meu nome, -ouço o bulicio dos meninos, que revolve -toda a minha alma. São os filhos -dos homens que fazem a alegria da vida. -<span class="direction">(Continua a ouvir-se mais apagado o côro das noviças)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_275"></a>[275]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(inquieto)</span> Irmã Dorothêa, diga á irmã -porteira que vigie a porta da Rua Nova e -a da Ronda. <span class="direction">(Á esquerda e á direita)</span></p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Sim, meu senhor...</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Mas não; irei eu mesmo... Não me -fio de ninguem... Vou eu mesmo vigiar -todo o claustro, todas as passagens, todos -os recantos da casa. <span class="direction">(Assustado, julgando ouvir -ruido)</span> Escute... Não ouvio?</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Quê?... Não ouvi nada... É illusão.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Pareceu-me ouvir um rumor de vozes... -e bater n’uma porta ao longe. -<span class="direction">(Escuta)</span></p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>De que lado? <span class="direction">(Olhando para o fundo á -direita)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_276"></a>[276]</span></p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Na direcção da enfermaria... Não estou -socegado... Quero vêr eu mesmo... -Electra, volta para a egreja... Leve-a, -irmã Dorothêa... Esperem-me lá... <span class="direction">(Dando-lhes -pressa)</span> Andem... <span class="direction">(Acompanha-as até á -porta da egreja. Sae pressuroso, inquieto, pelo fundo, -á direita. Dorothêa vê-o afastar-se, pega na mão de -Electra, e vivamente volta com ella ao centro da scena. -Electra, sem vontade, deixa-se levar)</span></p> - -<h3>SCENA VIII</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E SOROR DOROTHÊA</span></p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Vem commigo... Para a egreja não.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Aqui... Deixa-me respirar, deixa-me -viver.</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p><span class="direction">(aparte, inquieta)</span> É a hora dada pelo -marquez de Ronda... Aproveitemos os -minutos, os segundos, ou tudo está perdido.<span class="pagenum"><a id="Page_277"></a>[277]</span> -<span class="direction">(Olhando para a esquerda)</span> Vou dar-lhes -entrada para este claustro... <span class="direction">(Alto)</span> Irmã -Electra, espera-me aqui.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(assustada)</span> Onde vaes? <span class="direction">(Pega-lhe no braço)</span></p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p><span class="direction">(com decisão, defendendo-se)</span> Tratar de ti, -dar-te a saude e dar-te a vida... Prepara-te -para sahir d’este sepulcro, e leva-me -comtigo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(tremula)</span> Irmã Dorothêa... não me -deixes.</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Este momento decide da tua sorte... -Volverás ao mundo... verás Maximo.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Quando?</p> - -<p class="speaker">Dorothêa</p> - -<p>Já... Vaes vêl-o entrar por ali... -<span class="direction">(Esquerda)</span> Animo!... Não me estorves... -Não te movas d’aqui. <span class="direction">(Sae correndo pela esquerda)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_278"></a>[278]</span></p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Meu Deus! Virgem Santissima!... -Será certo?... Por aqui... por aqui virá... -<span class="direction">(Julga vêr Maximo na escuridão)</span> Ah! é elle... -Maximo! <span class="direction">(Falando como em sonhos, desviando-se -como d’um ser real)</span> Pára... Deixa-me... -Não posso amar-te como irmão, não posso... -Está no fogo o cadinho em que -quero fundir um coração novo... Não -vês que não posso levantar os olhos para -ti?... Para que me fitas d’esse modo, se -me não pódes levar comtigo?... É aqui -que eu procuro a verdade. Minha mãe -chama por mim... <span class="direction">(Com accento desesperado)</span> -Mãe! mãe! <span class="direction">(Volta-se de frente para o fundo. Ao -soarem as ultimas palavras de Electra, apparece a -sombra de Eleuteria, formosa figura em habito de -monja. Electra de costas para o publico, contempla-a -com os braços cruzados no peito)</span> Oh! <span class="direction">(Grande -pausa)</span></p> - -<h3>SCENA IX</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA E A SOMBRA DE ELEUTERIA</span>, que vagamente -se destaca na obscuridade do fundo. Electra adeanta-se -para ella. Ficam as duas figuras frente a frente, á menor -distancia possivel uma da outra.</p> - -<p class="speaker">A Sombra</p> - -<p>Sou a tua mãe, e venho a aplacar a -angustia do teu coração amante. A minha<span class="pagenum"><a id="Page_279"></a>[279]</span> -voz dará á tua consciencia a paz. Nenhum -vinculo da natureza te prende ao homem -que te escolheu por mulher. O que te disseram -foi uma ficção carinhosa destinada -a trazer-te á nossa companhia e á doçura -d’esta santa casa.</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p>Oh! mãe adorada, que consolação me -dás!</p> - -<p class="speaker">A Sombra</p> - -<p>Dou-te a verdade, e com ella a fortaleza -e a esperança. Acceita, minha filha, -como provação em que se retemperou a -força da tua alma, esta reclusão transitoria, -e não maldigas quem a promoveu... -Se o amor conjugal e as alegrias da familia -solicitam a tua alma deixa-te de boamente -levar da suavidade d’essa atracção, -e não procures aqui uma santidade que -não é para ti. Deus está em toda a parte... -Eu não pude encontral-o fóra d’este -abençoado refugio... Procura-o tu no -mundo por vereda differente d’aquella em -que eu me perdi... <span class="direction">(A sombra cala-se e desapparece -no momento em que se ouve a voz de Maximo)</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_280"></a>[280]</span></p> - -<h3>SCENA ULTIMA</h3> - -<p class="cast"><span class="allsmcap">ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ, PANTOJA -E SOROR DOROTHÊA</span></p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p><span class="direction">(á porta da esquerda)</span> Electra!</p> - -<p class="speaker">Electra</p> - -<p><span class="direction">(correndo para elle)</span> Ah!</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p><span class="direction">(pela direita)</span> Minha filha, onde estás?</p> - -<p class="speaker">Marquez</p> - -<p>Comnôsco.</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Commigo.</p> - -<p class="speaker">Pantoja</p> - -<p>Foges-me, Electra?</p> - -<p class="speaker">Maximo</p> - -<p>Não foge... Resuscita.</p> - -<p class="titlepage smaller">FIM</p> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Electra, by Benito Pérez Galdós - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELECTRA *** - -***** This file should be named 63145-h.htm or 63145-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/1/4/63145/ - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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