diff options
Diffstat (limited to 'old/63034-0.txt')
| -rw-r--r-- | old/63034-0.txt | 5136 |
1 files changed, 0 insertions, 5136 deletions
diff --git a/old/63034-0.txt b/old/63034-0.txt deleted file mode 100644 index 23177fd..0000000 --- a/old/63034-0.txt +++ /dev/null @@ -1,5136 +0,0 @@ -The Project Gutenberg EBook of Comedia do Campo volume III, by -Francisco Teixeira de Queiroz and Bento Moreno - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll -have to check the laws of the country where you are located before using -this ebook. - - - -Title: Comedia do Campo volume III - (Scenas do Minho) - -Author: Francisco Teixeira de Queiroz - Bento Moreno - -Release Date: August 24, 2020 [EBook #63034] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMEDIA DO CAMPO VOLUME III *** - - - - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - - - - - -COMEDIA DO CAMPO - - - - - TEIXEIRA DE QUEIROZ - - (BENTO MORENO) - - COMEDIA DO CAMPO - - (SCENAS DO MINHO) - - La plupart des drames sont dans - les idées que nous nous formons - des choses. Les événements qui - nous paraissent dramatiques ne - sont que les sujets que notre - âme convertit en tragédie ou en - comédie, au gré de notre caractère. - - H. DE BALZAC.—_Modeste Mignon._ - - VOLUME III - - Antonio Fogueira.—Morte negra.—Enterro de um cão.—O - embarcadiço.—O rei absoluto. - - [Illustration] - - LISBOA - DAVID CORAZZI—EDITOR - EMPREZA HORAS ROMANTICAS - Premiada com medalha de ouro na exposição do Rio de Janeiro - 40—Rua da Atalaya—52 - 1882 - - - - -ANTONIO FOGUEIRA - - -I - -N’uma excellente manhã de um maio risonho e feliz, duas creanças, que -já eram orphãs de mãe, perderam igualmente seu pae! Além da orphandade, -teriam tambem a negra fome e a sombria miseria indigente, se não fôra o -bom cura, o padre Clemente Carvalhosa, que as foi buscar a casa, levando -uma de cada lado, pela mão, para a _residencia_! O Thomé Barbante, um -tio d’essas creanças, tambem compadecido, ou, talvez, humilhado pelo -caridoso procedimento do ecclesiastico, foi-lhe pedir que lhe désse uma -para sua casa. O Carvalhosa cedeu-lhe a Quina, ficando com o Tone, que -elle, n’um momento egoista, pensou vagamente em ir mettendo pela igreja, -para de futuro ter quem lhe ajudasse á missa. Porém o Bernardo Repolho, -lavrador remediado, que morava n’outra aldeia, a distancia de leguas, não -lhe consentiu realisar esta ambição: sabendo da orphandade dos filhos -de seu irmão André, que tanto eram seus sobrinhos como do Barbante, -condoeu-se e, consultando a sua auctoritaria Engracia, resolveram -_adoptarem_ Tone, visto Deus não os ter favorecido com _um rapaz_, que -tanto haviam desejado!... Para a mulher de Bernardo, era uma consolação -forçada!... Por espaço de annos presenteára generosamente todos os santos -acreditados nas visinhanças, chegando a ir em romaria beber das diversas -aguas milagrosas, tão apregoadas e tão efficazes, que nascem debaixo dos -penedos, onde esses bemaventurados tinham apparecido!... Frequentára, -tambem, com assiduidade, os banhos de mar, indo durante muitos annos, a -Vianna, pelo tempo da Agonia, sempre dominada por um tamanho desespero de -maternidade, que de uma vez chegou a tomar _trinta banhos_ nos tres dias -da festa!... Porém, as esperanças de ter um filho íam desapparecendo, a -esterilidade de Engracia affirmava-se de cada vez mais com a idade! Viveu -muito tempo n’uma constante aspiração, impaciente e nervosa, chegando aos -quarenta e cinco annos—ao momento dos desenganos! —sem descendencia... -A sua intransigencia, o seu mau humor, contra os filhos dos outros, ía -caíndo n’uma melancolia latente, quasi n’um ediotismo, quando seu marido -lhe propoz o trazerem para casa o orphão de seu irmão André, que acabava -de morrer pobre... Engracia abraçou, inesperadamente, com alegria, -esta idéa e adoptou com benevolencia a creança desamparada! Pediu -instantemente a seu marido, que fosse, mesmo n’aquelle dia, buscar o -pequeno... Para a satisfazer, o Repolho não teve remedio senão pedir ao -padre Beiral, a bôa egua lanzuda. O ecclesiastico cedeu-lh’a facilmente, -perguntando com a sua curiosidade de homem idoso: - -—Então é o filho d’esse teu irmão que morava lá para os lados de -Monção?... - -—Sim, senhor, esse mesmo—respondeu o Repolho. Era muito pobre, não deixou -nada... - -—Pois fazes bem, fazes bem—applaudiu o sacerdote. É uma obra de -caridade... Deixal-os ao desamparo, é creal-os para ladrões. Vae homem, -vae, leva a egua da côrte... - -E, no dia seguinte de manhã, Bernardo partiu, chegando ao anoitecer -a casa do Thomé Barbante, dizendo-lhe peremptoriamente, qual a sua -resolução e mais a de Engracia. Foi muito gabado este procedimento. Todas -as pessoas diziam, inclusivamente o Carvalhosa, que o pequeno viria a -ser bem feliz; porque, estes tios que o adoptavam, eram ricos e não -tinham herdeiros necessarios. Porém, quem não entendia as cousas do mesmo -modo enthusiasta, era o proprio Tone. Quando lh’o fizeram comprehender, -principiou a berrar desalmadamente, dizendo que não, que não... que não -queria ir. E, no momento em que o punham ao collo do Bernardo, que já -estava montado, prompto para a partida, principiou a estrebuxar, a morder -nos punhos de seu tio que o segurava amoravelmente, a chamar alto por seu -pae enterrado e porfiando por se atirar abaixo do albardão. A final, como -lhe prometteram que voltaria de tarde, para brincar com sua irmã Quina, -que tambem ficava a chorar em altos gritos pelo Tone, deixou-se levar. -Porém, só quiz ir ao collo do tio Barbante que elle conhecia, e não ao -_d’aquelle home_, que nunca tinha visto. Foi por esse motivo que o padre -Carvalhosa teve de emprestar a _malhada_ para o Barbante ir montado, e lá -partiram ambos, pelos caminhos ensombrados da freguezia, o Thomé com o -pequeno adiante de si, escachado no albardão. - -D’este modo, assim illudido, é que o Tone foi e ficou. O Barbante, para -não ser presentido pelo sobrinho, retirou-se ao amanhecer, quando elle -ainda dormia innocentemente. Desde essa hora, as duas creanças irmãs, que -sempre tinham brincado juntas, na mais simpathica convivencia, ficaram -vivendo a distancia de leguas, separadas por altas montanhas, que no -inverno se costumam cobrir de grossas camadas de geada! - - * * * * * - -A nova paisagem, com a qual o pequeno Tone se tinha de familiarisar, -era de uma sombriedade austera, penetrada de melancolia. É verdade -que em baixo, no coração do povoado, havia campos onde os ribeiros -sussurravam, indo regar os prados, de um verde claro, e os milharaes -alegres. Porém em volta, era uma cinta escura de altas montanhas, com -plantações de pinheiros que tem uma côr energica, mas triste, e com -arrogantes penedias, que ameaçavam desmoronar-se. Lá no alto, onde os -penedos se accumulavam toscamente, uns postos sobre os outros, viam-se -frequentemente, occupados no seu rude trabalho, sob a inclemencia dos -soes e das chuvas, os quebradores de pedra! Estes homens de um aspecto -rude e carregado, com a pelle pergaminhada pelos rigores de todos os -tempos, perfuravam pacientemente com as suas brocas, os penedos, que -depois quebravam a tiro, cujo som ululante e cavernoso echoava pelas -quebradas da montanha! - -Na aldeia onde Tone nascera, o aspecto dos campos, a vegetação, era mais -familiar e intima. Os terrenos mais suavemente accidentados, deixavam -aos seus olhos vivos, mais largo espaço para ambicionar. Havia um rio -largo, que no inverno engrossava arrogantemente com as chuvas copiosas. -Dos silvados impenetraveis, povoados de sombras que lhe mettiam medo, -costumavam saír inesperadamente, quando elle se aproximava, os melros, -voando para longe, com assobios agudos e espantados. A sua memoria tenaz -de creança devia possuir por muito tempo, nitidamente, o vivo quadro da -sua linda igreja caiada e alegre, com uma torre alta, e os tres sinos -que tocavam ao domingo! Era a igreja onde elle ia á missa com sua mãe e -onde os primeiros deslumbramentos produzidos pelos opulentos dourados -dos altares e pelas attitudes senhoris das imagens das santas, se lhe -ergueram na imaginação! Era de um pittoresco mimoso o quadro d’essa -igreja, collocada na encosta, com a sua brancura que se destacava -do souto de velhos castanheiros e carvalhos que a cercavam! Áquella -imaginação infantil de Tone, deviam fazer falta estas cousas amadas pelos -seus olhos vivos e ingenuos! N’estes caminhos pedragosos de agora, não -se podia correr doidamente como n’aquelles outros, pelos quaes andara -atrás de sua irmã Quina, para a agarrar. Por isso, nos primeiros tempos, -fartava-se de chorar, tinha perrices freneticas e chamava em altos -gritos por seu pae, por sua tia Clara, por sua irmã e não queria comer. -Mas a mulher do Bernardo Repolho affeiçoou-se-lhe imprevistamente e -acarinhava-o, procurando consolal-o, promettendo-lhe dôces e santinhos, -que lhe havia de trazer das romarias. E n’um dia, para mostrar a -effectividade das suas promessas, fez-lhe uma dadiva surprehendente, a -qual foi recebida pelo Tone com tal alvoroço, que por si só parecia capaz -de lhe obscurecer todas as lembranças risonhas do seu passado mediocre! -Engracia comprou-lhe um pequeno cabrito, de pello lusidio e negro, um -pequenino cabrito que fazia _mé_, _mé_, com uma voz tremida e saudosa, na -qual talvez quizesse exprimir a saudade de seus companheiros, que deixára -na liberdade incondicional das montanhas! - -Todos os rapazes da visinhança, que já se davam muito com o Tone, lhe -invejaram, desejando-a, a posse d’este animal, e não occultavam que, nos -seus peitos infantis, se guardavam estragados sentimentos de cubiça! -Acercavam-se do possuidor, dizendo-lhe em tom melifluo e condescendente, -palavras agradaveis, de muita e sincera amisade, por meio das quaes -desejavam captar-lhe a benevolencia. Porém, como elle resistia, -afastando-se, altivo e orgulhoso, com o cabrito pelo baraço, que lhe -atara ao pescoço, um dos amigos propoz-lhe de um modo astuto: - -—Olha, se _mo_ deixas levar a comer ali adiante, dou-te esta carapuça -nova... - -O Tone olhou com modo avido para a carapuça offerecida, que era vermelha -e, depois de calcular mentalmente as vantagens, condescendeu: - -—Pois sim, dá cá a carapuça! - -Foram os dois e muitos outros, com o cabrito em grande distincção, -festejando-o com alaridos, como um triumphador romano. Quando chegaram -junto de uma poça, onde encontraram um pasto verde, que julgaram -appetitoso, pararam, porque entendiam que o cabrito deveria comer. -Para conseguirem isto, usaram de subterfugios infantis, escolhendo-lhe -meticulosamente a melhor herva, que profiavam metter-lhe na bôca... -Quando o animal, com os seus dentes finos, mastigava, levantava-se da -parte das creanças uma expressiva satisfação, olhando para o animal -n’um silencio attencioso e meditativo; todos deante d’elle, agachados, -contemplando-o com veneração!... - -Estes e outros factos similhantes, fizeram com que o Tone fosse -esquecendo gradualmente o seu estreito passado. Como tinha os mimos -de Engracia e as lisonjas cavilosas dos seus companhiros, principiou -a desenvolver-se-lhe uma vontade forte, desejos impertinentes, certa -irascibilidade e orgulho. D’entre os rapazes com quem brincava, só -distinguia o Zé do sachristão; porque este lhe consentia o tocar o sino -pequeno, _a bambom_, nas occasiões de enterro! E como o Zé na escola já -_escrevia debuxado_ e o Tone, apesar de ter oito annos ainda nem sabia as -_lettras_, disse-lhe o do sachristão: - -—Ó _coisa_, quando é que tu vaes com a gente p’ro studo? - -O Tone respondeu-lhe com um desdem despresador: - -—Eu não vou... _Isso_ de studo não presta... - -—Presta meu asno... Vae, e tu verás que presta. Começas logo na carreira -do _A_. - -—O que é a carreira do _A_?!—indagou o da Engracia, com modo suspeitoso... - -—É a carta. Ai! tu não sabes! Olha, pede á tua mãe que te merque a carta, -que é muito linda. Tem um gallo... é muito linda. Depois vae ao studo, -que andam lá muitos rapazes. Quando não está o senhor mestre, a gente -brinca ás escondidas, joga o talo na eira... Vae meu asno que é bonito. - -Influido d’este modo pediu, n’esse mesmo dia, á mãe, que o levasse á -escola. Engracia, para o não ouvir chorar, lavou-lhe logo a cara e -conduziu-o a casa do mestre que era o senhor Antoninho Beiral... O -senhor Antoninho Beiral, um rapaz forte, espadaúdo, alentado, era tambem -o melhor caçador de perdizes da redondeza! Andára em Braga a estudar -para padre, com o fim de succeder na _encommendação_ a seu tio; mas não -conseguira presbiterar-se, por ter _desfeitiado_ um velho conego na -pessoa de uma creada massiça e de rosto oval... Depois d’isto, cortada -a carreira, retirou-se definitivamente para a sua aldeia, deixando -crescer grandes barbas, andando pelos montes e por entre os milhos ás -perdizes e _ás moças_... De vez em quando, para se desaborrecer, dava -aula de instrucção primaria, pois era o professor official!... Os seus -discipulos temiam-n’o; porque elle era severo e zurzia-os, com uma -vargasta pelas orelhas ou com duzias de palmatoadas bem puchadas, quando -os suppunha delinquentes! Se emquanto o _senhor professor_ andava ás -perdizes, elles se divertiam na eira, a jogar o talo ou ás escondidas, -logo que persentiam ao longe o ladrar do podengo, arregimentavam-se -pressurosamente para irem ao encontro do senhor Antoninho pedir-lhe a -benção, do que elle os _dispensava_, passando de espingarda ao hombro, -com um modo carregado e negativo. - -No dia em que Engracia lhe levou o Tone, a mulher do Repolho teve de -esperar que o senhor mestre viesse; porque andava no monte... Logo que -chegou, viu Engracia, humilde, com o rapasito ao lado e perguntou-lhe com -indifferença: - -—Queria alguma cousa?... - -—Se me fazia a esmolinha de me deixar entrar este pequeno cá para o -studo—respondeu. - -—Que idade tem? - -—Oito annos. - -—Traz a carta? - -—É isto que comprei lá em baixo na tenda, senhor? - -E mostrou-lhe, com o braço estendido, um pequeno folheto de capa de papel -pintado. O senhor Antoninho, lançando-lhe um olhar infimo e despresador, -concluiu: - -—É isso mesmo, sim senhora. Deixe ficar. Olha rapaz, vae p’rá acolá. - -E apontou-lhe a estremidade de um banco, onde o Tone, amedrontado e -encolhido se foi sentar... Em seguida, o senhor mestre entregou a um -discipulo a espingarda, para lh’a ir pôr na varanda, emquanto elle se -foi sentar, de modo brusco e pesado, na cadeira professoral, onde se -conservou silencioso, durante alguns minutos com a testa apanhada na -mão esquerda!... Por fim, tirando de uma gaveta e collocando em cima da -mesa, n’uma evidencia terrificante, a palmatoria disciplinar, indicou aos -descipulos que n’esse dia, não passariam _sem molho_, como elle costumava -dizer. - - * * * * * - -Mas o Tone da Rosaria não gostou d’aquelle _studo_: o mestre era brusco, -tinha uma voz grossa, que repellia, uma cara rude, com muita barba. Na -mesma tarde em que entrou para a escola, viu, com um semblante cheio -de susto, que, o seu amigo, o Zé do sachristão, a unica veneração que -o Tone tinha n’este mundo, foi severamente castigado com dois murros, -levantando-se do chão a deitar sangue pelo nariz, só por lhe ter caido um -borrão na escripta! O Zé chorou soluçando reprimidamente, desculpando-se, -e ficou muito tempo no seu logar, a olhar para o _manual_, com os seus -olhos vermelhos do chôro, fingindo uma penetração que não tinha. Por um -movimento espontaneo e sympathico, o Tone foi ter com o seu amigo, para o -consolar! Porém, o mestre, disse-lhe com uma voz estrondosa, que se fosse -sentar... Elle obedeceu, encolhido de medo, como um cão escorraçado, e -principiou tambem a chorar, soluçando... - -Quando chegou a casa disse: - -—Ora eu não quero mais aquelle _studo_... - -—Porque?—indagou sua mãe. - -—O mestre bate nos rapazes. O Zé da igreja verteu sangue pelo nariz e -chorou muito... - -—Mas tu has de saber a lição e o senhor mestre ha de ser muito teu -amigo... - -—Não quero ir mais... Elle bate-me e faz-me deitar sangue pelo nariz... - -E não voltou mais. Quiz antes os seus devertimentos:—ir para o campo -com os filhos dos lavradores que andavam com o gado e não estavam para -aprender a ler, jogar o _talo_ com elles, abrir covas á mão para enterrar -pedras que fingissem de mortos, comprar _aos outros_ gaitas, com o pão -que levava de casa... O Tone andava quasi sempre acompanhado do seu -cabrito, que elle mandava com ama voz exigente e imperiosa... Os seus -amigos, para o desgostarem, desmereciam-lhe o animal. Porém, n’um dia, -em que esse cabrito appareceu puxando um carro novo, todos os invejosos -se submetteram. O Zé do sachristão que lh’o viu e lhe cubiçou, carro e -cabrito, disse-lhe: - -—Das-m’o, Tone? - -—Não—respondeu energicamente. - -—Pois tambem, quando quizeres tocar o sino pequeno, a repique nos dias de -festa e a _bambom_ nos enterros, não te hei de deixar... - -—É o mesmo—respondeu com isenção. - -O Zé propoz-lhe: - -—Se me désses o carro e o cabrito, deixava-te tocar o sino e dava-te uma -cousa muito linda que eu tenho... - -—O que é?—indagou com os olhos muito abertos. - -—É um ninho com cinco melrinhos... - -—Isso não presta—desdenhou o Tone, cheio de soberba. - -—Ai, não presta, tomaral-o tu! Os melrinhos já têem pennas, estão quasi a -voar... - -—E onde é o ninho?—indagou o dono do cabrito e do carro. - -—Arreguilal-o—respondeu arregaçando a palpebra inferior do olho esquerdo. -Querias saber; mas não chuchas. É n’um sitio... - -—Vamos lá ver? - -—E das-me o carro? - -—Dou; mas tu has de me deixar tocar o sino no dia da festa, e das-me o -ninho. - -—Pois sim, então dá p’ra cá o carro. Amanhã não ha studo e então vamos -tirar os melrinhos, que já são grandes! - -—Eu quero hoje o ninho...—exigiu o Tone. - -—Hoje vou p’ro studo, não posso!—desculpou-se o Zé, visivelmente infeliz. - -—Não vás hoje ao mestre. Isso de studo não presta!—aconselhou o Tone -desdenhoso. - -—Ai, elle é o _não vás hoje_. E o meu pae? Não, que o meu pae, depois, -bate-me. - -—Elle não sabe. Gazeia hoje Zé... - -E o do sachristão, para obter o carro, resolveu-se a gazear. Com elles -ambos foram outros rapazes que tambem andavam na escola e outros que não -andavam. Desejavam ver o ninho, que estava n’um carvalho, perto de uma -poça, segundo affirmava o Zé. - - * * * * * - -Encaminharam-se por entre uns silvados. Como era no tempo das amoras, -pararam muitas vezes para as colherem. Houve algumas bulhas, porque -todos desejavam apanhar as que estavam mais maduras. Antes de chegarem -ao sitio do ninho, passaram por umas cerejas que tiveram tentações -de comer... Porém, como eram do padre Beiral, reconsideraram, com a -lembrança de que o mestre, que era sobrinho do ecclesiastico, sabendo-o, -os zurziria com a chibata de marmeleiro, que tinha encostada á parede, na -aula. Quando chegaram ao pé do carvalho annunciado, disse o do sachristão: - -—Olha, Tone, o ninho é ali. - -—Deixas-me subir p’r’o tirar? - -—Não senhor, que tu és muito pequeno—respondeu com orgulho, alongando os -beiços. Podes cair e depois a tua mãe vem _com aquellas_... - -—Deixa-me ir Zé, que eu não caio—insistiu o Tone, com voz de pedinte. - -O do sachristão, para conciliar todos os desejos propoz: - -—É melhor tu ires para cima dos penedos. Eu subo e dou-te o ninho para a -mão. Queres? - -—Pois então vá lá—rematou o da Engracia, concordando. Mas não dás a -estes, não? - -—Não, dou a ti... - -Os companheiros, offendidos com esta exclusão, disseram orgulhosamente: - -—Olhem, o diabo do asno! Tem medo que lhe comam a porcaria do ninho!... - -O Zé do sachristão principiou a subir. Primeiro abraçou-se ao carvalho, -depois encolheu as pernas, em seguida fincou o lado interno dos -joelhos para se segurar, e por fim, o lado interno dos pés para se -impellir... Quando se ia chegando ao cimo do carvalho, elevando-se -assim, prudentemente, agarrou-se a um forte galho, segurando-se com -presistencia. E disse para os que, debaixo, o seguiam attentamente com os -olhos: - -—Cá estão, os cinco melrinhos. Já tem penna. - -—Dá-os para cá—disse o Tone de cima de penedo, relanceando um olhar -despresador para os outros rapazes, que se conservaram afastados, n’uma -reserva sensata e orgulhosa... - -—Chega-te mais para cá—observou-lhe o Zé. - -—Não posso mais—respondeu desconsolado, inclinando-se do penedo para o -carvalho. - -—Então levo-os eu para baixo. Se caem no chão morrem e depois tu não me -dás o carro. - -E principiou a descer, tendo previamente mettido no seio, os cinco -melros pequenos. Como precaução, para os não esmagar, descia afastando o -corpo do velho tronco do carvalho, agarrando-se tenazmente com as mãos e -fincando os pés na casca nodosa. Quando chegou a baixo, disse mostrando -os cinco passaros, que ia tirando um a um, de dentro da camisa: - -—Toma. Agora dá cá o carro. - -—Dá tu primeiro os melros—observou-lhe o Tone. - -—Isso arreguilal-o!... Então, mão por mão, como os rapazes. - -Todos os companheiros cercaram o possuidor dos melros, olhando-o com -olhos seccos e avidos!... - -Um pediu-lhe com um tom melodioso e humilde: - -—Dás-me este melrinho, Tone? - -—Não!—respondeu avaramente o da Engracia. - -—Tambem eu te não dou uma cousa... - -—O que é? - -—Quatro botões amarellos de duzia, muito lindos... - -E mostrou-lhe na palma da mão, para lhe causar inveja, quatro botões -com armas reaes, que tinham sido furtados de uma antiga farda meliciana -do avô. O filho da Engracia gostou muito dos botões amarellos de armas -reaes, que valiam cada um, doze fôrmas! Por isso trocaram. O Tone deu-lhe -um melro por todos, por isso ficou sómente com quatro, que metteu sensata -e reservadamente dentro da carapuça, para os não opprimir e para lho’s -não cubiçarem com os olhos. Os outros rapazes, com o fim de captarem a -confiança do Tone, davam-lhe generosos conselhos: - -—Sabes o que deves fazer? Dá aos melrinhos sopas de vinho—dizia um. - -Outro offerecia: - -—Ó aquelle, tu queres pão para elles, que eu dout’o? Olha que hão de ter -fome... - -E n’esta idéa caritativa, afastavam-lhes com os dedos sujos as -mandibulas, introduzindo-lhes na bôca pão esfarellado, que os melros -regeitavam. - -Um dos rapazes teve esta idéa: - -—Sabes o que os passarinhos querem? É beber. - -Passava ali um regato que em baixo ía fertilisar um campo de herva. Na -superficie da corrente, iam folhas verdes e guiços. As tenras plantas que -tinham nascido no logar onde corria a agua, curvavam-se obedientemente, -à sua passagem. Porém, nos momentos em que a força da corrente era menor, -erguiam-se com orgulho, retomando a sua posição habitual. Os rapazes, -quizeram dar de beber aos melros n’este regato. Para isso mettiam-lhe o -bico na agua, empregando um esforço meticuloso e cuidado. Porém elles, -assim, não bebiam bem, e o Zé do sachristão, que tinha onze annos, disse -com voz emphatica: - -—É que os melrinhos não sabem como se bebe, meus asnos? Ensinae primeiro -aos animaes como se bebe!... - -Este alvitre foi adoptado e, para conseguirem o fim desejado, -lembraram-se de imitar, o modo como presumiam que os melros velhos dariam -de beber aos seus filhos. Tomavam a bôca cheia de agua e introduziam o -bico de cada passarito entre os beiços. Porém, como d’este modo ainda -não bebiam, abriam-lhe de novo as mandibulas á força, e com uma palha -molhada na corrente, deixavam lhes cair gotas na garganta. Mas este -processo era demorado, a paciencia infantil esgotou-se e o Tone, para -andar mais rapidamente, metteu debaixo de agua a cabeça de um dos melros, -ao qual se encarregara de dar de beber e afogou-o, principiando depois a -choramingar. O Zé possuidor do carro, disse com desconfiança: - -—Sim, matta-os e vem cá para eu te dar o carro que has de vel-o por um -canudo!... - -Na realidade, o filho da Engracia achava-se descontente com a troca e -principiava a pedir outra vez o seu carro e o seu cabrito. O Zé respondeu -lhe: - -—Isso é que não! Quem dá e torna a tirar ao inferno vae pagar! - -E ao pronunciar estas palavras cabalisticas, fez no ar uma cruz de -maldição, com a mão em gume, afastando-se com o cabrito e com o carro. - -O sol ainda ía alto e os rapazes, para gazearem correctamente, deviam -chegar a casa ás horas a que poderia ter terminado a escola. Para se -entreterem mais algum tempo, lembraram-se de jogar o botão. A sorte -marcou o _rei_ e o _fossa_—o primeiro e ultimo a _atirar á buraca_; -porque foi _este_ o jogo preferido. Era n’uma encruzilhada de dois -caminhos, onde havia um cruzeiro. O Zé do sachristão e os outros -_maiores_, tiravam das saccas que traziam ao pescoço, por dentro da -camisa, as _fôrmas_... O Tone conservava-se triste, a certa distancia; -pois que, antes de principiarem _á buraca_, já lhe tinham ganho os botões -amarellos, _á parede_. Com o fim de obter mais fôrmas para poder jogar, -teve que vender ao Teixugo os melros _por duas duzias_. Porém, no momento -em que estavam verdadeiramente presos n’este entretenimento ambicioso, -ouviram uma voz tremenda que lhes bradou de cima do muro sobranceiro, com -uma ironia terrificante: - -—Sim senhores, lindos meninos! Então uma gazeadella, ein?! - -Era o senhor Antoninho, que ali apparecera casualmente, andando á caça! -Quando o mestre suppunha que _aquelles_ discipulos o estavam esperando na -eira como de costume, vae-os encontrar ali a jogar o botão!... Os rapazes -ao verem-n’o, olharam-se repassados de um terror estupidificante, -ficando n’uma coacção espasmodica! Os musculos faciaes permaneceram -n’uma regidez tetanica, e os olhos, muito abertos, fixaram-se, com uma -insensibilidade apparente, no _senhor professor_! Porém, quando este -se dispunha a descer o muro para os punir a murro, elles seguiram o -instincto salvador!... Fugiram, deixando o carro, o cabrito, os melros, -as fôrmas e... tudo! O sobrinho do padre Beiral ainda lhes gritou de -longe, iracundo: - -—Andae meus grandes marotos, que ámanhã vos ensinarei. Assim é que se vae -á escola?! Ella vos saberá ao alho, a gazeadella! A pelle das vossas mãos -é que o ha de pagar! - -Depois de mais os não ver, pegou nos melros, estorcegou-lhes o pescoço, -metteu-os no bolso, e disse para si, com mais reflexão: - -—Sempre servem para um arroz!... - -E foi indolentemente, pelo caminho adiante, assobiando, com a espingarda -ao hombro. - - -II - -Alguns annos depois, o Antonio da Engracia era tido como o rapaz -mais turbulento d’aquelles sitios:—attribuiam-lhe, a elle e aos seus -companheiros, todos os casos bulhentos que por ali se davam. De todos -os seus amigos da infancia, faltava um, o Zé do sachristão, que tinha -ido para o Brazil, e já escrevera muitas cartas. Na ultima fallava -palavrosamente, com muitas repetições emphaticas, de largos projectos -de fortuna! Affirmava estar muito contente, e promettia, se Deus o -ajudasse, vir d’ahi a annos, fazer o orgulho de seu pae. Um longo periodo -d’essa carta desvirgulada, era destinado especialmente a recommendar -muito o pequeno cão, que deixara na aldeia no dia da partida... Tinha-o -em grande estimação, lembrava-se todos os dias do _Rabicho_, desejava -encontral-o quando voltasse... Esse animal, magro, aleijado, rijo e -bom, representava, para aquelle rapaz, um affecto incondicional, uma -dedicação cheia de provas... Obtivera-as na paciencia com que lhe -soffrera as travessuras infantis. Se lhe batia, em vez de fugir ou de -ladrar, rojava-se-lhe aos pés, com o ventre para o ar, os olhos humidos -e resignados, ganindo humildemente, n’uma obediencia absoluta... Na -manhã de julho, na qual José partira, quando elle, com os olhos rasos -de lagrimas, se despedia das mulheres da visinhança, que lhe atacavam -os bolsos de fructa; quando, pela ultima vez para muitos annos, olhava -para aquellas paredes negras e musgosas da sua aldeia, para os penedos -que estavam no alto do monte, para os pinhaes sombrios... espalhando -sobre essas cousas inanimadas uma vista de saudade; quando se despedia -dos seus amigos que ficavam... o seu cão, aquelle mesmo que recommendava -em todas as cartas, acompanhara-o, indo na frente, a vinte passos, com -uma perna no ar, correndo alegremente, bebendo nos regatos do caminho, -voltando atrás para festejar seu dono, com movimentos expressivos de -cauda, e saltava-lhe ao peito! Fôra com o sachristão e seu filho até meia -legua fóra da freguezia; porém, o _velho_, julgando inconveniente esta -companhia, escorraçou-o para casa, fazendo-lhe gestos de uma fingida -colera theatral, atirando-lhe pedras, e dizia: «_Passa fóra, Rabicho_». -O cão, com a sua perspicacia quasi humana, conhecendo que era importuno, -incommodo, que não devia proseguir, subiu a um muro, e ali permaneceu de -pescoço firme, com o focinho para diante, as orelhas tesas, os olhos -fixos, n’uma attitude observadora, até que elles desappareceram!... -Este rapaz de quatorze annos deixava a sua aldeia e as suas queridas -affeições. Ia muito longe, procurar uma fortuna incerta!... Poderia, no -contacto do mundo indifferente, perder muitas das intimas recordações -da sua terra. Porém, o que elle nunca esqueceria, era o dia em que -partiu, as mulheres que lhe davam a fructa chorando, os rapazes que -ficavam sentados nas pedras do caminho e a firmeza esperta do seu cão -em cima d’aquelle muro! Em todos os quadros da sua vida infantil, que -muitas vezes reproduziria de memoria, para contentar a saudade natural, -appareceria decerto aquelle cão, em cima d’aquelle muro, n’uma posição -intelligente e nervosa, com sol a illuminal-o fortemente de um lado!... -N’esta ultima carta, ainda se lembrava nitidamente de toda a visinhança, -designando cada um com o seu nome por extenso e acrescentando-lhe _o -alcunho_. _Á senhora_ Engracia do Repolho, por exemplo, aconselhava a -que mandasse o seu Antonio para _aquella_, affirmando-lhe de um modo -cathegorico «que ali é que se ganhava dinheiro e _se fazia a gente -homem_». - -O sachristão, tendo soletrado meditadamente, por tres vezes, toda -essa extensa carta, saíu de casa para a levar ao padre Beiral, o mais -circumspecto dos ecclesiasticos visinhos!... Era um homem pacato, com -algumas impaciencias veniaes, com muitas impertinencias de achaques, -lembrando-se, sempre que lhe perguntavam pela saude, que vinha a morrer -da bexiga, pelo que batia com dois dedos no baixo ventre exclamando: - -—Ah! vem a ser d’aqui... D’aqui é que hei de ir para os anjinhos como o -João Thomaz!... - -O João Thomaz era um seu antigo condiscipulo, que morrera parochiando na -freguezia limitrophe!... - -Na sua comprida varanda telhada e soalheira, é que o Beiral reproduzia -as suas queixas, cumprindo, já se entende, regularmente com as suas -resas!... Interrompia-se sómente para deitar _um milhinho_ ás gallinhas, -que esgravatavam no quinteiro e que logo ao verem-n’o passear de lado -para lado, faziam cácárácá... Mas, todos os seus peccados, vinham de que -os porcos, impacientes e gulosos, afugentavam as aves com grunhidos, com -impulsos de focinho, o que, para elle, era mesmo uma damnação... Por isso -o ecclesiastico, com pequenos gestos de frenesi, quando isto succedia, -voltava á cesta do milho, tomava novamente a mão cheia, e espalhava-o -habilidosamente no quinteiro, com um largo gesto de orador que abrange -um auditorio. As gallinhas, já conhecedoras d’esta artimanha, logo -que sentiam o crepitar do grão sobre as pedras do quinteiro, corriam -precipitadamente de todos os lados, com as azas abertas, os pescoços -alongados, as mandibulas promptas, e principiavam a comer soffregamente, -antes que chegassem de novo os porcos. - -No momento em que entrou na varanda o sachristão, remoía, o padre Beiral, -as ultimas palavras da sua resa. O pae do _brazileiro_ disse-lhe do fundo -da escada de pedra, mostrando-lhe um papel azul, com um bom riso de -contentamento: - -—Cá a temos, senhor!... - -O ecclesiastico abriu-se tambem, n’um riso expontaneo e exclamou: - -—Não t’o disse eu?! O rapaz não se esquecia... Lá por não teres na ultima -barca, não é que se não lembrasse. - -—Vae muito bem, com a ajuda de Deus que tudo manda, vae muito bem! - -—Está bom, homem. Entra cá para cima. - -E n’uma voz mais baixa: - -—Que diabos de porcos aquelles! São o vivo demonio. Ó Maria—chamava. Anda -cá rapariga! - -Do lado do quintal respondeu uma voz sadia, n’um tom malcreado e agudo: - -—Que é, senhor? - -—Aquelles porcos que rompem o lençol... Deixa lá Manuel... Vem cá p’ra -cima que a rapariga arranjará isso. Com que então o teu Zé escreveu e dá -bôas noticias!... Muito bem, muito bem... - -—Aqui lh’a trago...—certificava com rosto satisfeito, apresentando uma -carta de papel azul, pautado, muito fino, que lhe rangia entre os dedos. -Trazia-a cuidadosamente dobrada, tendo rasgado unicamente a parte collada -pela obreia vermelha e quadrangular. Mostrava com orgulho o talho da -letra commercial do sobrescripto, os carimbos de tinta atijolada, os dois -sellos azues, representando a dôce efigie do imperador, com a sua fina -barba-toda. Depois, para que o ecclesiastico visse o que o seu Zé dizia, -abriu melindrosamente a carta, e entregou-lha affirmando em seguida: - -—Leia, senhor, leia que _está-the_ mesmo um _home_. Falla com uma -cabeça!... - -E, ao pronunciar estas simples palavras, tinha lagrimas orgulhosas, por -ter um filho que _não merecia a Deus Nosso Senhor_. - -O Beiral disse-lhe: - -—Confesso-t’o agora Manuel. Nunca pensei que fosse para lá fazer boas -cousas. É bem certo o dictado: «Quem bom é, em toda a parte se salva.» - -E, com a inflexão do homem que conhece muito o mundo, acrescentou com uma -reserva premeditada: - -—Olha que as más companhias por esse universo fóra são muitas. Digo-t’o -eu, Manuel, que são muitas. - -Depois, com os seus bons oculos de aço, que primeiro limpou ao forro da -batina, tomou a carta aberta, pol-a á distancia do comprimento do braço, -e, com signal approvativo de cabeça, disse com voz cantada: - -—Apre! Bonita letra! Meu sobrinho sempre disse que para cousas de -escripta era um dos que tinha mais geito. Do que elle não gostava, -era que o teu filho andasse por esses montes aos ninhos. Lá com isso -damnava-se. Todos os caçadores são assim... Que lhes matem a criação nos -ninhos, não gostam nada!... - -E ria de um modo secco e breve. - -—Saiu-me um rapaz que não mereço ao Altissimo. Leia essa carta, -senhor!—considerou o pae do _brazileiro_, com uma pronuncia sensibilisada -e lacrimosa. - -O clerigo continuou: - -—Está bom, o rapaz sabe da cortezia. «Meu presadissimo pae.» Meu sobrinho -puxou-te bem por elle. - -—Estou-lhe obrigadissimo. Isso ainda que ponha a cara onde elle põe os -pés... - -—Não lhe pagas não, pódes dizer—concluiu convencido. - -E continuou a lêr n’um tom pausado, cheio de cadencia, pronunciando com -inflexão approvativa de elogio... - -—«Desejo ir, muito brevemente a _essa_, para dar alegria a meu pae.» Não -tem duvida, é bom filho. Ha quantos annos foi? - -—Faz seis lá passante o S. João que vem. - -E o ecclesiastico, como recordando-se, confirmou: - -—É verdade. Agora me lembro. Quando me veiu dizer adeus, dei-lhe peras -das que tenho d’esse tempo. - -O sachristão acrescentou melancolicamente. - -—Parece que foi honte, senhor!... - -—E queres vêr o que elle diz aqui abaixo?! «Diga á tia Engracia do -Repolho que mande o Tone para _esta_.» - -—Logo lá hei de ir—affirmou com simplicidade o sachristão. - -O Beiral interrompeu com energia: - -—É malhar em ferro frio! Um grande brejeiro, é que elle é. Não sae ao -teu, que por andar com elle tambem cheguei a pensar que ficasse por ahi -um... - -E remoeu longamente a lingua na bôca, para concluir com os beiços -alongados e as proeminencias malares vermelhas: - -—... um _meliante_. - -O sachristão atalhou com serenidade orgulhosa: - -—Elle tinha um pae! Vossa Senhoria bem sabe, que não punha nada em lhe -atirar os braços a terra, em lhe pôr os ossos n’um feixe!... - -O Beiral respondeu: - -—Deste-lhe a criação. Elle não era dos mais quietos (e sorriu -bondosamente), valha a verdade que não era dos mais quietos; mas soubeste -ser pae. Nunca foi como esse brejeiro, esse grande tratante, que me -escangalhou uma videira o anno passado (enthusiasmava-se gradualmente), e -me roubou as uvas que eu tinha ali para uma necessidade, para uma doença! -Sabes? aquella videira lá do outro lado, ao pé da porta de baixo, e que -seccou depois!... - -O sachristão respondeu intrigado, coçando a cabeça: - -—Valha-nos a Santa Igreja!... Aquillo vae mal, senhor. O rapaz tem feito -muitas; mas ha de encontrar o seu _home_. - -—O que?—diz o clerigo afogueado. O seu homem hei de ser eu! Uma farda ás -costas! Uma farda, entendes tu?! Não descanço emquanto lh’o não fizer. -Tenho muito amigo, _nesse_ Vianna! Olha que lh’a arranjo. - -E ficou com um aspecto apopletico:—concentrava-se-lhe gradualmente o -sangue nas faces, os olhos tomavam uma vivacidade tigrina e a voz era -tremula e humida. Contra o _adoptivo_ de Engracia ainda disse muitas -cousas:—elle é que lhe tinha aleijado um carneiro, attribuia-lhe o -desmoronamento de uma parede que apparecera no chão em certa manhã de -inverno, e affirmava que não fôra a ventania mas sim o Antonio que lhe -destelhara um canastro, com o fim malefico de se lhe estragarem as -espigas com toda a chuva de uma tempestuosa e terrivel noite de inverno. -E concluiu assim: - -—Pódes dar graças a Deus que o teu saiu-te um rapaz chibante. Mas este de -cá!... Este grandissimo maroto que me aleijou o carneiro! Bem se vê que -falta um homem n’aquella casa! O Bernardo é um... um _cebola_. Já disse -á Engracia que mandasse aquelle (não sei como lhe chame, Deus me não -castigue!) para a terra!... Mas qual manda ou qual carapuça! É uma babosa -pelo garotaço, e quer deixar-lhe tudo. Emprega-o bem! - -O sachristão, que era homem de rosto moderado, cheio de conveniencias, -depois de ter escutado respeitosamente as invectivas do sacerdote, -cortou-lhe assim a conversa: - -—Pois sim senhor... Então vou lá ao senhor mestre mostrar-lhe a carta do -_meu_. _Tamem_ lhe manda muitas recommendações e eu quero que elle veja. - -—Talvez o não encontres—disse o Beiral mudando de tom.—Aquillo, a estas -horas, anda lá para o monte á caça. Mas chega lá sempre, a ver se o vês, -que os professores gostam muito d’essas novidades e d’essas attenções. - -E quando o pae do _brazileiro_ já ía no caminho, o padre tornou a -chamal-o de cima, debruçando-se na varanda, para lhe dizer: - -—Mostra tambem a carta á Engracia do Repolho, não te esqueças, para vêr -se manda esse _licante_ por uma barra fóra!... - -—Não tem duvida, senhor. Não me esqueço, logo lá vou. - -E o ecclesiastico recolhendo-se, concluiu para si, com um bondoso gesto -de impaciencia: - -—Mas que diabo ha de ir fazer ao Brazil, aquelle desgraçado, se nem -sequer aprendeu a escrever o seu nome!... - -Por isso o Beiral ficou triste, remoendo intimamente as suas idéas -singelas e sem caracter. Sentindo o cacarejar espantadiço de uma -gallinha, que fugia precipitadamente diante do focinho impetuoso de um -cevado, tomou da cesta a mão direita cheia de milho e espalhou-o na -largura do quinteiro, dizendo: _ó diabo!_ Depois, com o seu olhar fixo, -de pouca penetração, seguiu os movimentos dos porcos e das aves, pensando -nas cousas insignificantes da sua vida baralhada! - -O sachristão, no caminho para casa do senhor Antoninho, levava na mão -esquerda, a carta cuidadosamente dobrada. Todos a viam—era de fino papel -azul, que rangia entre os dedos, um papel bem conhecido. As pessoas -que o encontravam e que haviam recebido noticias dos filhos que tinham -no Brazil, contavam-lhas miudamente. Aquelles a quem faltava carta, -havia muitos annos, mostravam-se tristes, desconsolados, impertinentes -na conversa, quasi invejosos, querendo duvidar das felicidades que se -deprehendiam d’aquelle venturoso papel! - -O Manuel, como não encontrou na aula o senhor professor, desceu a um -caminho para ir a casa da Engracia, com a intensão reservada de lhe ler -a carta, acrescentando-lhe os commentarios favoraveis do padre Beiral. -Porém a mulher do Repolho não estava para o aturar e disse-lhe, com modo -desabrido, que não queria receber conselhos e que «quem lhe encommendára -o sermão que lh’o pagasse». Não admirava este azedume a quem soubesse que -lhe tinha morrido, n’esse dia, um touro que valia oito moedas! A perda -irritara-a, o modo furtuito como acontecera _essa desgraça_ indispozera-a -para ouvir o sachristão, que, offendido pelas respostas aggressivas de -Engracia, respondeu, tambem melindrado: - -—Ó santinha, eu tenho lá nada com as suas cousas, com os seus touros!... - -—Pois tambem eu não me importo com as suas riquezas! O seu filho, se tem -muito, que se levante de noite da cama, para o comer! - -E, com um estrepito insolente, bateu-lhe com a porta na cara. - -O pae do _brazileiro_, que era um homem moderado e bem fallante, -offendeu-se com isto, perdeu a cabeça e, ao retirar-se, ainda disse, -voltado para a porta que se fechára, com uma voz alta e insolente: - -—Ah! minha tronga! O que tu querias era um bom fueiro n’esse costado! -Fosses minha mulher, que te não havia de faltar! - -Engracia, que percebeu este alanzoado, ainda veio fóra para lhe -responder, e disse: - -—Olhe, dê lá _retolicas_ na sua casa! Alguem cá o chamou?! Ora o diabo do -camello! - -O Manuel, na volta para casa do Beiral, repetiu o que se passára com a -mulher do Repolho, acrescentando: - -—Se Vossa Senhoria lhe arranja uma farda para o meliante, ganha o céu! -Era uma bem pregada! Elle anda por ahi a fazel-as gordas; mas ha de -encontrar o _seu homem_! - -O sacerdote, novamente indignado, certificou-lhe: - -—Oh! se encontra! E hei de ser eu, já te disse! Isso, a farda, tem-n’a -elle tão certa como dois e dois serem quatro... - -E depois de um silencio reflectivo, o Beiral concluiu: - -—Que a Engracia não é má mulher; mas anda com a cabeça perdida com o -brejeiro! Lá essas arenegações d’ella, não faças tu caso. Olha que -perder, não faz bom cabello. A gente, quando lhe succede uma desgraça, -não sabe o que diz. - -A proposito, o Beiral narrou pelo miudo o _caso do touro_; porque o -sabia. Tinha-lh’o contado a Feliciana, que presenceara tudo, que vira -caír o demo do bicho da ribanceira abaixo, espapando-se no caminho. -Andava o animal, com outro gado, no campo a pastar. Parecia que trazia -o mafarrico no corpo; porque todo o santo dia o viram n’uma constante -brincadeira, a escornar os outros, a dar corridas em vez de comer -socegado! Parecia mesmo doido, a fugir pelos campos com a cabeça -estendida para diante, o rabo levantado em fórma de pau de bandeira, -e a extremidade felpuda ondeando, como um pennacho! Depois, quando -chegava a uma beira alta, estacava de repente a olhar para o longe -muito tempo e, raspando no chão com um pé, continuava a comer muito de -vagar, como se nada tivesse sido com elle! Passado algum tempo vinham-lhe -novos caprichos, nova maluquice e corria para os bois a escornal-os, a -provocal-os á lucta, á corrida, ao salto... O pastor bem lhe fallava, -bem lhe berrava, mas era o mesmo que nada! Por fim determinou não fazer -caso d’elle e deixal-o lá, chegando mesmo em certos momentos a tomar -interesse, a sorrir-se inconscientemente, quando o touro atravessava -vistosamente, dando pulos, por entre as arvores. O pastor era um rapasito -de doze annos, com a cara manchada de nodoas de terra, o olho vivaz, -vestido com uma camisa de tomentos muito suja, e umas calças remendadas. -Estava a olhar risonho e irreflectidamente para o animal, quando elle -passou de uma vez com mais furia, com as pernas muito abertas, o dorso -arqueado, a cauda horisontal, a cabeça baixa, dando saltos cheios de -capricho... Ia na direcção da estrada, para o lado onde havia um muro -alto! Corria n’uma vertigem, com um impeto louco e, o rapazito, esperava -vel-o parar rapidamente, antes de chegar á extremidade! Porém não -succedeu assim! D’esta feita venceu mais que a largura do campo, saltou o -muro e caiu em baixo, no fundo caminho pedregoso, dando um forte berro, -ao mesmo tempo estridente e lamentoso, que foi echoar nas cavidades dos -montes proximos. Ficou instantaneamente morto e a Engracia teve de o -vender aos marchantes da villa proxima que, no dia seguinte, poderam dar -carne a pataco o arratel! - -Ora, foi por causa d’esta perda de moedas, que Engracia estava azuada e -respondeu mal ao sachristão, que ía lá para lhe dar conselhos, sem lh’os -pedirem!... - -O Beiral terminou conceituosamente: - -—Isto de perder não faz bom cabello... Coitada! Tu bem sabes que não faz -bom cabello... Coitada! - - -III - -Quando o Antonio chegou aos vinte annos feitos, já tinha esquecido -completamente a aldeia risonha onde nascera e o rosto bom de sua irmã -Quina que, por seu lado, se o encontrasse, tambem não seria capaz de -reconhecer o seu amigo de infancia, n’este homem barbado, com modos -bruscos de feirante, com gestos insolentes e desordeiros de troquilha!... -E tanto se habituou a ter vida vagabunda, que nos ultimos tempos, não -dormia em casa de seus paes adoptivos, metade dos dias de cada semana!... -Andava pelas tabernas, de feira em feira, n’uma vida accidentada e -bulhenta, sempre em companhia de outros _feirantes_, e da Marianna -Ripa, sua amasia!... Esta Marianna Ripa era uma mocetona alta, bem -proporcionada, com certa vivacidade vaidosa e impudica!—uma creatura -demoniaca, cheia de tentações malditas, infelismente appetecidas pelos -fracos da carne, pelos numerosos peccadores de todos os tempos!... Nos -seios altos e avolumados, nos quadris largos, a que ella dava geitos -lubricos, quando andava, para fazer assim ondular as saias de côres -vivas e excitantes... residiam as tentações infinitas das lendarias -Magdalenas, antes do santo dia do venturoso arrependimento!... As -feições rasgadas e energicas accentuavam-lhe o caracter dominador, que -melhor se lhe reconhecia no olhar cheio de impudencia e lubricidade! -A sua vida passava-se pelas feiras, entre troquilhas, com os quaes se -entendia nos ajustes de gados, bebendo como elles por copos de meia -canada, interessando-se nas suas vendas e trocas! O predominio que -Marianna exercia sobre o Fogueira, depois que era sua amasia, todos -os companheiros d’elle, o Rio-Tinto, o Fanfarra... o sabiam. Era ella -que muitas vezes o impedia de ir a casa, dando-lhe conselhos malditos, -indusindo-o a que abusasse da affeição que Engracia e Bernardo lhe -tinham, para lhes _pilhar tudo em vida_!... - -—Porque—insinuava-lhe a moça—pode-te acontecer, como lá a um rapaz da -minha freguezia... Ateve-se ao que a madrinha lhe havia de deixar por -morte, não se segurou nas cousas a tempo e, vae a bebeda da velha, -roeu-lhe a corda e lá se foi tudo!... Em vez de lhe testar a elle os -campos, como tinha promettido, metteu-se com a coruja, um tratante de um -padreca, que lhe principiou a contar tantas lonas, que a coira vae deixar -tudo lá a uma confraria e o asno ficou a chuchar no dedo! - -Estas idéas allucinavam o cerebro do adoptivo da Engracia, que depois -de escutar Marianna, ficava mais estonteado do que tivesse bebido, de -uma assenada, uma canada do rascante!... No entanto a verdade é que esta -vida mundana de feirante, na companhia da Marianna e dos seus amigos, -quadrava-lhe, era sympathica áquella organisação impetuosa!... Os seus -modos estouvados, os seus arremeços selvagens e doidos pelos quaes era -notado entre troquilhas, é que já lhe tinham garantido o alcunho de -«_Fogueira_». Alem d’isso, como era franco, generoso—um mãos rotas—os que -o cercavam, a Ripa principalmente, entendia que se o seu amante viesse a -obter qualquer cousa da herança da mãe, era certo que alguma parte lhe -caberia!... Por isso o aconselhava d’aquelle modo, e todos o lisongeavam -com blandicias intencionaes. - -Foi por este tempo, e n’uma das occasiões em que o Antonio andava por -fóra, que succedeu _a desgraça_ de que morreu o Bernardo Repolho: - -Era um dia chuvoso; via-se a cumiada dos montes coberta por densas nevoas -designativas de chuva prolongada! Soprava um vento forte, que produzia -na amplitude dos campos uma ondulação uniforme nos arvoredos. Como se -estava verdadeiramente no coração do inverno, no mez de fevereiro, os -campos e os montes sem flores e sem folhas, tinham um aspecto duro -de severidade! As chuvas, em grossas bategas, acompanhadas de fortes -saraivadas, batiam rijamente nos telhados com uma crepitação ruidosa e -aspera, que se continuava, durante horas! N’um d’estes dias de invernia -teimosa e tristonha é que o Bernardo Repolho teve necessidade de ir -buscar uma carrada de barro, do qual muito precisava para arranjar o seu -forno!... Por isso, na primeira aberta illusoria, mandou o Chico tirar os -bois da côrte, cangou-os, pol-os ao carro e partiram... A barreira era na -encosta de um monte alto e muito ingreme. Bernardo e o Chico, quando íam -pelo caminho, já descortinavam ao longe, essa excavação de um alaranjado -irritante, que sobresaía no terreno circumjacente, melhor do que a mancha -clara de uma eira. Como o barranco estava logo por cima da estrada de -carro e, para chegar lá, bastava subir um estreito carreiro em declive, -Bernardo disse ao rapasito que ficasse á sôga dos bois, que eram novos e -muito espantadiços, emquanto elle ía cavar o barro e acarretal-o. Porém, -quando chegou acima e viu no fundo da barreira uma tamanha accumulação de -agua da chuva que, para a atravessar, tinha de se arregaçar, sentiu uma -impressão desfavoravel, e inconsideradamente disse: - -—Diabo! Que mar!... - -Na realidade a chuva, durante a noite, tinha sido mais copiosa do que -elle pensára! Escorrera em grandes enxurradas pelo monte abaixo e -infiltrara-se, abrindo fundas guellas no terreno, vindo accumular-se -no fundo, formando uma especie de larga poça. O Bernardo reconheceu -perfeitamente, que para tirar o barro, só o podia fazer do logar onde as -fendas estavam ameaçadoras e escancaradas, como guellas de lobo uivando! -Porém, com a ajuda de Deus, o Repolho aventurou-se e, puxando as calças -até ao joelho, metteu-se á agua com o fim de passar... O perigo a que -se foi submetter era evidente, a barreira suprajacente parecia estar -quasi a esboroar-se... porém o marido da Engracia foi para diante, sem -preoccupação nem receio, principiando a dar sacholadas bem puchadas, para -aproveitar aquella _aberta_! N’esse momento é que passava pelo lado de -cima um visinho que lhe disse: - -—Oh! diabo. Com este tempo ao barro, é por força sangria desatada! - -Bernardo, voltando-se para elle, respondeu com a sua cara de bom homem: - -—Ah! Es tu Joaquim? É que tenho lá o forno a caír, precisa a patroa de -coser o pão e, vae por isso, vim buscar esta carrada... - -O outro observou-lhe com penetração: - -—Mas tu ahi não estás bem, home! Esta terra pode-te caír em cima. - -Bernardo considerou despreoccupado: - -—Ora, logo havia de caír, n’um migalhito que eu aqui me demoro! Não cae. - -—Não cae!—insistiu Joaquim. Não era o filho de minha mãe, que se ía -metter ahi. Se se esbarronda, ficas ahi espapado, como um sapo. P’ros -filhos que tens!... Olha, tu lembras-te d’aquelles dois homes, que -ficaram enterrados na barreira lá em baixo?! Foi uma cousa assim, por -causa da chuva. - -Bernardo recordou o facto dizendo: - -—Ah! bem sei. Isso foi n’um domingo. Se te parece, trabalhar ao -domingo!... Foi um castigo. - -—Home, não é domingo, nem meio domingo. A barreira caíu-lhes em cima e -matou-os. Tu ahi não estás bem. Eu cá mandava a cosedura do pão p’rás -profundas do inferno e vinha outro dia buscar o barro! Vê lá no que te -mettes. O diabo arma-as. - -—Á sorte de Deus—rematou Bernardo com resignação. - -E continuou a cavar, com pressa, aproveitando o bocanho, que não durou -muito. Uma chuva pesada e forte, principiou a caír sobre os arvoredos, -produzindo o fremito de muitos enxames de zangões! A atmosphera, densa -e opaca, de uma côr uniforme entre o cinzento e o azul, a côr da agua -_pulverisada_, obscurecia os objectos distantes. O vento impetuoso -impellia a chuva, produzindo no ar ondulações extensas e regulares. Os -ramos delgados das cerdeiras, dobravam-se passivamente. O rapasito, que -ficara no caminho, guardando os bois, aconchegava-se, tiritando, ao -velho corucho de palha, que o cobria. Os seus pés vermelhos, lavados -pela chuva, estavam sobre a lama. As mãos escondia-as nos sovacos para -as aquecer. Com o fim de se abrigar do vento que passava zumbindo, -mettia-se por detrás dos bois, conservando a aguilhada encostada a si. -Os seus cabellos castanhos, de um comprimento desleixado e desigual, -empastavam-se-lhe na testa. O olhar era mortificado e de paciencia; -porque a tia Engracia, nos seus pessimos momentos de genio irrascivel, -batia-lhe; e o Antonio dava-lhe pontapés immerecidos. Por isto, e porque -era engeitado, é que o Bernardo Repolho, um homem compadecido, mais se -lhe affeiçoara... Porém esta amisade, nunca obstou a que sua mulher o -esmurrasse desalmadamente e a que, seu filho adoptivo, lhe désse pontapés -que o atiravam de focinhos!... - -Como a chuva engrossava de cada vez mais, o Repolho chamou o Chico, para -se recolher na cova onde elle se abrigára da chuva, recommendando-lhe, -ao mesmo tempo, que calçasse o carro para os bois não fugirem. Então -o rapaz, pegou n’uma grande pedra, supezando-a contra o peito e foi-a -atravessar diante das rodas do carro. Depois, unindo-se muito ao seu -corucho, para se agasalhar, subiu a ladeira, saltou o portello e, -inclinando instinctivamente o tronco, correu pelo monte acima, entrando -no barranco por um carreiro. Elle e seu amo ficaram ambos abrigados sob -aquella mesma abobada de terra que, na opinião do Joaquim Moita, quanda -fallára a Bernardo, podia esbarrondar-se e matal-os n’um prompto—n’um -abrir e fechar de olhos. Mas elles achavam-se ali bem, n’um silencio -meditativo, diante das montanhas, cuja corpulencia se confundia -no esfumado da chuva copiosa. Como o vento soprava do sul, não os -incommodava. Bernardo estava em pé, com a sachola encostada ao hombro -e o Chico agachado junto d’elle. Conservaram-se algum tempo calados, -olhando distraidamente para o ar, que tinha impulsos ondulatarios como -o das vagas, para os campos subjacentes de um verde esmorecido, para -as arvores proximas que se vergavam á força da ventania. O Repolho -entreteve-se alguns minutos a considerar como as gotas da chuva tornavam -aspera e irregular a superficie da agua barrenta, que se accumulára no -fundo da barreira!... O rapasito, sentado sobre os calcanhares, olhava -para os montes distantes, contando mentalmente o numero de cabeços, nunca -acertando com quantos eram!... Porém a chuva carregava de cada vez, com -mais impeto, e o velho disse com tristeza: - -—Santo nome de Maria, que tempo este! - -O Chico observou: - -—Parece que hoje não podemos carregar, tio Bernardo... - -—Estou-t’e a ver que sim, home! E isso é que é uma da breca! - -—Então vamos já para o lume—aconselhou o rapaz. Estou com um frio, que -nem sinto. - -Bernardo respondeu com voz reprehensiva, mas benevolamente: - -—És maluco! E tua ama? Se apparecemos lá sem o barro para compor o forno, -faz ahi uma pregação de seiscentas pipas! Isso, ainda que se esteja até á -noite, havemos de o levar! - -Calaram-se, conservando-se ambos n’uma taciturnidade ingenua e triste! -Um travesso pardal, dando pios seccos e asperos, saltava nos ramos de um -carvalho proximo, alegremente despreocupado. A chuva caía de cada vez em -maior abundancia! O som gemebundo do vento estendia-se amplamente pelas -quebradas, com o seu ulular maguado, de uma longa plangencia funeraria! - -As enxurradas cresciam, descendo com impeto pelos montes. Este sussurro -aspero e saliente lançava uma discordancia rebelde no assobiar espaçado -do vento na amplidão! O Bernardo Repolho e o Chico escutavam, com -semblantes dependentes d’este ruido das aguas que se aproximavam! O -barulho vinha crescendo para elles, precipitando-se de barranco em -barranco! Ambos calculavam mentalmente, prevenindo-o, sem o menor susto, -sem a menor idéa de perigo, que os enxurros d’aquelle monte, tendo de se -vir reunir nos pontos mais baixos, juntariam as suas aguas áquellas que -ali estavam no fundo da barreira, diante dos seus olhos indifferentes... -Na realidade, pouco depois as largas fendas abertas na terra ao lado -d’elles, principiaram a vomitar as aguas que vinham do alto monte!... -O seu volume crescia de uma maneira incongruente e precipitada!... A -principio tinha-se ouvido sómente um sussurrar brando, um _ou-ou_ de mar -distante... Em seguida esse barulho foi-se engrossando, foi enrouquecendo -de um modo cada vez mais antipathico e aproximava-se rapidamente, como -a voz stertorosa de um trovão, que viesse do lado das montanhas... Por -fim, quasi inesperadamente, sentiu-se um estampido rapido, juntou-se-lhe -um estrondo abafado e terrificador, que pareceu surgir das profundas -entranhas da terra! Durou apenas alguns segundos!... Porém, tanto -Bernardo como o seu pequeno creado, não tiveram tempo de comprehender o -que seria!... A enorme barreira, sob a qual se abrigavam da chuva e do -vento tempestuoso, caíu sobre elles, com a brutalidade inconsciente de um -grande penedo que se tivesse desprendido de um alto pincaro e sepultou-os -de um modo fulminante!... - -Assim morreram estas duas creaturas, indifferentemente, por esta fórma -singela e e pallida! - -O visinho, que predissera ao Bernardo Repolho a desgraça que lhe podia -acontecer, estava a certa distancia, abrigado da chuva sob um velho -carvalho ramudo, e presenciou a catastrophe! Foi elle que a descreveu -nas suas mais insignificantes particularidades, fallando e gesticulando -animadamente, como quem se tinha encontrado, mais ou menos envolvido -n’este acontecimento obscuro da morte de um homem e de um pobre -engeitado, verificado em circumstancias de um tão vigoroso effeito -theatral! E por que os seus conterraneos, que o escutavam com os olhos -abertos e muito pasmados, tiveram a simploria idéa de attribuirem o -successo a artimanhas infernaes, dizendo: «o demonio arma-as», o Joaquim -exclamou com certa intimativa volteriana e vivamente resentido para com o -morto Bernardo Repolho, que despresára os sensatos conselhos que elle lhe -dera: - -—Qual demonio nem meio demonio! Foi a cabeça d’elle que não regulou, é o -que foi! Eu bem lh’o disse: «Home, tu ahi não estás bem». Mas elle que -era muito teimoso, respondeu-me assim com a sua cara de lorpa e de _bom -serás_: «Ora, não ha de ter duvida, se Deus quizer...» Não tinha duvida, -não tinha duvida, mas foi morrendo, espapado! Ficou mesmo como um pato, -sem dar um pio! Assim é que elles se ensinam!... O _não tem duvida_ -foi o que se viu!—rematou com modo triumphante, quasi de uma vingança -satisfeita! - -Uma rapariga nova, uma engeitada de cara sardenta, com os cabellos mal -penteados, e que escutara attentamente a narrativa, tomou a deixa de -Joaquim da Moita e interferiu com esta observação: - -—Ai! não tem duvida não tem duvida! Por causa do não tem duvida, é que -pariu minha mãe! - -Toda esta gente, depois que a chuva passou, se dirigiu ao logar -onde o caso succedera. Pelo caminho íam, conversando, em magotes. -Algumas mulheres, relembravam com voz emphatica, como de quem dá um -esclarecimento, que tinham visto n’esse mesmo dia Bernardo, caminhar -para a morte, de pé, em cima do seu carro, com a aguilhada encostada ao -hombro, na despreoccupação serena de um predistinado! O rapasito que -tambem morrera debaixo da terra, o Chico, ía á soga, todo encolhido, -coberto com o seu corucho, berrando aos touros, que puchavam mal, -encostando-se com teimosia um ao outro... Certas pessoas referiam -insignificancias da vida do Repolho dando-lhe certo valor, fazendo-as -sobresaír, e recordavam as ultimas palavras que lhe tinham ouvido, ainda -mesmo n’aquelle dia, horas antes, quando passára em frente da porta da -Anna Benta!... Bernardo tinha dito, com aquelle seu bom modo triste «que -estava um inverno de se pedir misericordia a Deus Nosso Senhor!...» e a -Rosa Viuva, queria fazer acreditar a todas as pessoas presentes, que taes -palavras significavam que o homem de Engracia tivera uma voz de dentro do -coração, que lhe predissera a morte!... E como alguns homens incredulos -lhe retorquiram: «Isso póde lá ser!» ella recordou tambem outra phrase -saliente, que tinha ouvido ao mesmo Bernardo, no domingo precedente, ao -saír da missa: «Isto não está tempo cá para os velhos, mulher!... Com -esta invernia caímos ahi como tordos!...» E assim tinha succedido, não -chegou a durar oito dias!... Por isso, todos vieram a concordar, que o -pobre homem adivinhara o seu fim, o triste fim que havia de ter de baixo -de uma barreira!... - -Ao logar do sinistro, onde já estava muito povo reunido, chegaram as -auctoridades, para se desenterrarem os cadaveres. Vinha o cirurgião, o -José Pandega,—um rapaz de bigode e pêra como os soldados, que, farto de -andar a estudar latim em Braga durante nove annos, arranjou depois um -emprego no telegrapho, onde tambem se não deu bem, tomando por fim a -resolução de ir receitar cosimentos e mesinhas aos seus conterraneos, -pelos mesmos livros de veterenaria por onde, um velho frade, seu tio, -medicamentára, durante muitos annos, as populações doentes d’aquellas -freguezias!... Este ecclesiastico, a quem ninguem negou as faculdades -do maior philosopho das redondezas, tinha, entre muitos, um notavel -aphorismo, que eu aqui divulgo á sciencia absorta e que o sobrinho -acceitava pelo achar frizante e consolador: «Os burros são do mesmo modo -que a gente, para a medicina, por consequencia—rematava voltando-se para -os seus doentes—paparoca e beberoca, sedênhos para a frente, esfregações -de agua forte, algumas cataplasmas e deixa-te andar que, se morreres, é -só uma vez». Com o Pandega vinha o senhor Agostinho Manco, juiz eleito, -um homem magro que fôra da _bicha_. Logo em seguida appareceu o regedor, -conhecido pela alcunha do Antonio Cápatrás, um individuo vermelho, muito -estupido, que só sabia emborrachar-se, como diziam os visinhos. - -Depois d’estes personagens chegarem é que se principiou a desenterrar os -cadaveres! Com esse fim, quatro jornaleiros começaram a dar sacholadas -auxiliados pelo Joaquim da Moita que vira morrer o Bernardo, e que -limitou o trabalho, indicando-lhes o sitio provavel, onde poderiam -estar os defuntos. Todas as pessoas presentes, principalmente as -mulheres e creanças, tomadas de uma curiosidade invejosa, empurravam-se -reciprocamente, procurando com avidez os sitios que julgavam melhores, -para presenciarem tudo que se passasse. Para isso iam collocar-se nos -pontos mais eminentes, e algumas em logares perigosos!... O cirurgião -Pandega, reconhecendo com a sua prespicacia illustrada, que a filha da -Rosa Trinta não estava bem, disse-lhe de longe, com voz de auctoridade: - -—Ó diabo de rapariga, sae d’ahi que te póde acontecer o mesmo! Se se -esbarronda essa terra ficas espapada!... - -E acrescentou, com um modo ligeiro e superior, repuchando a sua comprida -pêra: - -—Isto de gente estupida não se póde aturar de modo algum!... - -A rapariga obedeceu sem retorquir e mudou-se para cima de um muro, d’onde -reconheceu que tambem podia ver tudo... Porém, pelo lado de baixo estava -o meliante do José Teixugo, espreitando-lhe as pernas com olhadellas -peccaminosas!... A Rosa Trinta, percebendo a immoralidade, advirtiu de -longe sua filha: - -—Ó Tonia, não vês esse maroto do Teixugo a olhar-te p’ras pernas! Tira-te -d’ahi, anda. - -A rapariga, verificando a verdade da asseveração de sua mãe, ficou -irritada e disse offendida, arremettendo com uma pedra ao rapaz: - -—Olhem o diabo do cara de foinha! Vae espreitar as da tua irmã! Não tens -vergonha malandro? Ahhh...—rematou voltando-se para elle com a bôca -escancarada. - -O Teixugo, rindo com um riso trocista, respondeu-lhe: - -—Olha que minha irmã talvez as não tenha tão borradas como as tuas! -Vergonha deves ter tu, minha gata pellada, por andares com as pernas tão -sujas. - -No entretanto o regedor, Antonio Cápatrás, e o Agostinho Manco, juiz -eleito, revestidos da sua auctoridade assistiam ao acto solemne, em -mangas de camisa!... O José Pandega recommendava aos que desenterravam os -defuntos, que andassem de vagar, para lhe não darem alguma sacholada. Um -d’elles disse ao cirurgião: - -—Sabe o que a gente precisava, seu Zé? Uma boa infusa de vinho, para este -suor se não recolher p’ra dentro. Você que sabe d’essa cousa de sedênhos -e medicinas, bem o entende, seu Zé. - -Por um acaso feliz chegaram n’esse momento duas canecas do bom rascante -que a Engracia, viuva recente do Repolho, mandava para os trabalhadores -que lhe desenterravam o marido. Todas as pessoas lhe applaudiram a -lembrança inesperada e a mulher que trouxera o vinho, affirmou com modo -persuasivo, que fôra a propria tia Engracia que o fôra tirar do tonel do -canto, que era _do bô_ que tinham. Os homens, quando acabaram de beber, -tiveram um _ahhh_... prolongado e satisfeito, confessando um d’elles: - -—É a melhor pinga que ha pelos arredores. O Bernardo queria-o vender lá -para a villa, e já lhe davam dez moedas. - -O regedor considerou: - -—Foi bem tolo em o não beber. Se o levasse nas tripas, fazia melhor do -que estar o poupal-o para quem cá fica... - -Depois de escorripicharem as duas canecas, os jornaleiros continuaram a -cavar com mais cautela, para não tocarem com as sacholas nos cadaveres, -como os prevenira o cirurgião. A primeira cousa que se descubriu foi o -chapéu do Bernardo, humedecido e barrento. Todos reconheceram que era -esse mesmo chapéu, esbeiçado e já roto, que elle costumava usar. O José -Pandega, affirmou com certa intimativa: - -—Na cabeça d’elle é que vós o não tornaes a ver! - -Todas as pessoas confirmaram esta opinião sensata. Era verdade! Na cabeça -do defunto, que estava debaixo d’aquelle barro, elles nunca mais veriam -aquelle chapéu esbeiçado e roto! - -Pouco depois, com mais algumas enchadadas, appareceram os defuntos. -A ultima camada de barro, foi tirada cuidadosamente com as mãos. Os -dois cadaveres estavam de bruços, ambos inteiriçados, rigidos. Ao de -Bernardo, que era mais pesado, metteram-lhe uma tábua por baixo do tronco -e levantaram-n’o ao ar, ficando o corpo aprumado, severo, com um aspecto -de phantasma! O cadaver do rapasito do gado, como no momento em que a -barreira se esboroou estava agachado sobre os calcanhares, encontraram-no -dobrado sobre si mesmo, com a cabeça debaixo do corpo e a cara -encostada ao peito, quebrado pela espinha. Ambos estavam inteiramente -desfigurados, por causa da camada de terra adherente, empastando-lhe -os cabellos, tapando-lhe os olhos e a bôca. Todas as pessoas presentes -vieram agrupar-se em volta das duas tábuas, sobre as quaes, os mortos, -permaneciam deitados de costas. O Chico, para o conservarem bem -estendido, tiveram de o atar pelo tronco e pelos pés ao seu esquife -provisorio com uma corda; porque, em virtude da rigidez cadaverica, -tendia a dobrar-se sobre o ventre. Ali, diante dos corpos exanimes, o -juiz, o regedor e o cirurgião, fallaram em dar parte d’este acontecimento -tragico, n’um officio, ao senhor administrador, affirmando-lhe que a -culpa d’elles morrerem, tinha sido d’elles mesmos, que se tinham ido -metter na bôca da morte. Depois concluiram, que o que era necessario -fazer-se-lhe já, era amortalhal-os, para se proceder aos _officios_ e -enterral-os, quanto antes, para não principiarem a cheirar!... Depois -d’isto, o Pandega, lembrou-se de tirar o barro dos rostos sujos, e para -isso foi buscar uma pouca de palha de uma moreia proxima, e fel-o. - -Porém, como depois d’esta grosseira limpeza reconheceu que os -cadaveres tinham nodoas arrouxadas nas faces e na testa, affirmou -peremptoriamente, com modo decisivo: - -—Devem-se enterrar quanto antes... Ámanhã principiam elles a feder, que -nem mil demonios! Não se ha de poder estar com o nariz ao pé!... - -As mulheres presentes fizeram uma momice de enjoadas e, cuspinhando -para o lado, disseram «cachicha». Os homens, que tinham desenterrado os -mortos, preparavam-se para pegar ás tábuas, onde os tinham estendido, com -o fim de os transportarem a casa, quando a Caetana, uma velha beata, lhes -observou n’uma voz de um ligeiro timbre choroso: - -—Esperae rapazes, esperae... Não os leveis assim, que ainda estão muito -borrados. Deixae, que eu lhes lavo a cara... - -E para o conseguir foi buscar _manadas de agua_, que verteu sobre os -rostos dos cadaveres. Depois limpando-os caridosamente com o seu velho -avental de riscas concluiu: - -—Agora podeis ir. _Bão_ mais bonitos. - -Por fim, os quatro jornaleiros, deitando um olhar saudoso ás canecas -vasias, levaram os corpos para casa da Engracia. Ahi é que foram -decentemente lavados e amortalhados para os depositarem na varanda, onde -veio muita gente da freguezia deitar-lhes agua benta sobre as mortalhas e -recommendal-os para a eternidade, com as suas resas distraídas!... - -Na varanda, o esquife de Bernardo ficou ao fundo, e o do Chico logo ao -pé da porta... O sol entrava francamente, incidindo sobre os rostos dos -defuntos, tornando-os da pallidez indecisa da cera, com o tom roxo -das ecchymoses enfraquecido. Ambos elles tinham uma expressão rigida -e concentrada, propria das mortes afflictivas, o que se lhes conhecia -nas rugas da testa, no apanhado dos beiços, nas palpebras fechadas com -energia! As mãos grossas e plebeias, cruzadas sobre o peito, amparando um -crucifixo, por effeito da humidade do terreno debaixo do qual estiveram -horas, haviam adquirido uma molesa aristocratica—uma coloração branca de -mãos estimadas. Bernardo, com a sua barba feita e com o cabello cortado -rente, tinha, para as mulheres da sua freguezia que lhe cercavam o -esquife, uma apparencia de mordomo de festa. Por isso recordavam a ultima -vez em que elle fizera a da Senhora do Carmo, e, tinham bem presente -diante dos olhos, a sua figura magra e insignificante, no primeiro logar -da bancada, com as mãos erguidas em face do padre Beiral, quando este o -incensou as tres vezes do rito, fazendo-lhe uma cortezia ao retirar-se, -o que todos julgavam de uma polidez e de uma distincção invejaveis. A -mortalha do marido da Engracia era mais rica do que a do Chico, a qual, -sendo elle engeitado, lhe tinham esmollado perante a confraria das almas! -Porém notavam que não differiam muito; porque ambas eram de forte panno -violeta muito engommado, com cercaduras relusentes de galões metallicos, -que scintillavam sob a viva luz do sol. As pessoas que contemplavam -estes cadaveres serenamente deitados, ainda recordaram muitas vezes, -relatando-o com minuciosidade, o triste modo por que tinham morrido, e -a beata Caetana, como julgamento, concluiu d’este modo a narrativa que -acabava de ouvir pela sexta vez ao Joaquim da Moita: - -—Foram elles bem asnos em se irem metter n’aquelle perigo! Este Bernardo -sempre foi um pascacio. Para deixar _a um_ que nem é filho d’elle!... - -E trouxeram a pello a vida desregrada do Antonio, que andava sempre de -feira em feira, sem parança em casa, vivendo no meio de jogadores e de -troquilhas borrachos! N’esse mesmo dia tinha apparecido na porta da -igreja a lista dos rapazes para soldados. O nome d’elle lá estava, entre -o de outros. Havia quem affirmasse, que já havia ordem na villa para o -prenderem, como _reflatario_. Certas mulheres que se queriam inculcar -como ao corrente do que se passava, affirmavam que fôra o senhor padre -Beiral, quem lhe arranjára _aquella farda_. E a este proposito recordaram -as queixas que o ecclesiastico devia ter do filho da Engracia, que lhe -roubara de uma vez todas as uvas douradas que elle tinha na sua latada, e -as melhores peras do natal, furtadas, mesmo nas barbas do sacerdote, da -pereira do pé da casa!... Por isso, e porque estavam indignados contra -o rapaz, como tornando-o em parte responsavel d’esta morte do Bernardo, -applaudiam a resolução, havia tempos manifestada, pelo Beiral de _pôr uma -farda ás costas ao meliante_!... - - -IV - -N’essa mesma tarde foram as confrarias buscar os defuntos. Era uma -consideração pelo nome de Bernardo que era _irmão remido_! Adiante de -todas vinha a do _Santissimo Sacramento_, de opas vermelhas e a cruz de -prata alçada, relusindo ao sol. Em seguida desfilava a de _Nossa Senhora -do Carmo_, de opas brancas com murças azues, da côr do céu desbotado de -agosto. Na bandeira que a destinguia estava pintada a Virgem, com a sua -ridente face menineira, tendo pendente de uma das mãos um rosario, e da -outra uns bentinhos! Por fim seguia-se a confraria das _Almas_, com a sua -bandeira dolorosa na frente! Era ali representado o quadro terrificante -do purgatorio:—um rei de corôa poderosa e de longas barbas patriarchaes, -apoiava a sua mão sobre o hombro de um bispo mitrado, coberto de uma -rica capa de ouro, o qual estava mais no fundo das chammas, soffrendo, -talvez sem bastante resignação, que o monarcha chegasse primeiro á -bemaventurança! Ao lado d’este augusto personagem, uma peccadora, com -as longas madeixas de Magdalena, dando a mão a um homem lubricamente -calvo e de bigode e pera, trepavam por entre linguas de fogo, de uma -iracundia terrivel, em ôca e vermelhão! Todos estes condemnados, e ainda -outros _sem distincção_, erguiam olhos supplicantes e estendiam as mãos -abertas a um anjo, que estava no alto, pesando serenamente as culpas e os -soffrimentos de cada um, para lhes outorgar a remissão promettida!... - -Da confraria da Senhora do Carmo, destacaram-se quatro irmãos para -tomarem conta do cadaver de Bernardo Repolho, e outros quatro da -confraria das Almas que, por caridade, se encarregaram de conduzir o do -engeitado... E, quando tinham tomado sobre os seus hombros valentes os -dois esquifes, partiram pelo caminho adiante, para a igreja, condusindo -os defuntos. Atraz, na casa da viuva, ficou o chôro alarmante de -Engracia, e das visinhas que a acompanhavam, misturando-se, na larga -amplidão ao triste dobre dos sinos que echoavam de quebrada em quebrada, -com a sua nota plangente e de uma harmonia rebelde! - -No instante em que o funebre acompanhamento subia pela encosta da igreja, -o Antonio Fogueira entrava na freguezia! Havia mais de oito dias que -andava por fóra, na sua vida vagabunda de torquilha... D’esta vez trazia -uma egua nova, muito fugideira, que lhe vendera o Rio Tinto. - -O toque funerario dos sinos e o acompanhamento que elle viu logo de -longe, surprehendeu-o, fazendo-o parar, e teve um baque no coração! O -primeiro esclarecimento ácerca do occorrido, foi-lhe dado por uma mulher -velha que vinha pelo caminho para o lado d’elle, vergada sob o peso de -um grande molho de herva e que, antes de ser interrogada, lhe disse -encostando-se com o feixe a um muro para descançar: - -—Aquelle agora, meu rico, do que precisa, é de muita fartura de missa, -por aquella alma!—observou-lhe depois de um «ah!» de estafada a velha -Vicencia. - -—Mas quem foi que morreu?—indagou o Fogueira. - -—Ah! sim, tu não sabes!—completou a velha depois de expellir o seu -cançaço asmatico! Andas sempre lá pelas feiras, não admira. Pois toca-te -pela vestia... Foi teu pae Bernardo, de uma grande desgraça! - -O adoptivo do Repolho impallideceu rapidamente, deixando cair as redeas -no pescoço da egua! Vicencia concluiu: - -—... Uma grande desgraça, sim senhor, é como te digo. Caiu-lhe honte -em cima da cabeça, a elle e ao vosso rapaz, o Chico, o monte da Cham, -quando lá foram ao barro! Se tu não andasses sempre por essas feiras, em -jogatina, talvez que o pobre home não fosse lá, com esse tempo! - -E depois, voltando-se salientemente para o Fogueira, exclamou de um modo -reprehensivo: - -—Ora tu não mudarás de rumo! Vê se te confessas, que andas n’uma vida de -home perdido. Tem vergonha n’essa cara! Faz uma confissão _jaral_, que -vem ahi os missionarios, grande maroto! - -O Fogueira, que era naturalmente irritavel, sentiu subir por elle acima -uma forte ira contra a velha Vicencia. Porém, refreando-se, respondeu-lhe -com uma indignação latente: - -—Você que lhe importa o que eu faço, seu diabo de coruja! Vou-lhe lá -pedir alguma cousa?! Se não fosse, não sei porque, se não fosse por causa -d’aquelle que acolá vae (alludia ao enterro que subia a encosta), eu lh’o -diria, seu grande diabo!... - -Uma colera viva apoderou-se rapidamente da velha, que deixando cair o -feixe da herva no chão, principiou a gesticular, sem encontrar no momento -as verdadeiras palavras indignadas, com que desejava aggredir o Fogueira! -Como é que um homem, tão culpado como este maroto, que só andava pelas -feiras em jogatina e com más mulheres, se atrevia a ter arrogancias -diante dos que o reprehendiam?! Por isso ella, com uma voz gritada e com -os punhos ameaçadores, o increpou, com uma pedra na mão: - -—Ah! grandissimo ladrão, o que tu precisavas era de uma cadeia. Talvez -me queiras bater, excomungado! Ora vem p’ra cá, que te prego com esta na -testa! Cuidas que eu tenho medo, stafermo?! Um ladrão, que não faz senão -gastar o que aquelle bruto (alludia tambem ao morto que ia no esquife) -andou por ahi a ganhar no trabalho. Foi elle bem tolo em mourejar p’ra -ti! Mas deixa, meu condemnado do inferno, que o senhor regedor e o -senhor padre Beiral te ensinarão! Já está prompta a farda que has de ter -ás costas!... Eu vou dizer já ao tio Antonio Capatrás, que te vá prender. - -Porém esta indignação palavrosa de Vicencia, perdeu-se no ar. O Fogueira -só lhe percebeu que ia ser preso; mas a este tempo já tinha picado a egua -pelo atalho acima, para entrar em casa, pela matta, com o fim de ninguem -o ver. E quando se viu só no caminho, a distancia da velha, cuja voz -ainda lhe chegava aos ouvidos n’uma gritaria de furia, o filho adoptivo -do Bernardo Repolho considerou com a reflexão propria dos momentos -responsaveis: - -—Mas para que diabo foi elle buscar o barro, com um dia como esteve -honte? Para que se foi aquelle maluco metter ao perigo?!—exclamava sem -comprehender, voltado mentalmente para si mesmo! - -E, considerando n’isto alguns segundos, parado, a olhar fixamente para um -muro musgoso, concluiu: - -—É uma de mil diabos! Que grande bucha! - -Dispunha-se a dirigir-se á cancella da matta, quando o susteve a voz -conhecida do João do Rego, que lhe appareceu de cima do muro do caminho: - -—Espera ahi, ó Tone! Ó rapaz, espera! - -E aproximando-se acrescentou: - -—Então teu pae lá ficou arrebentado debaixo do barro e o rapaz tamem! - -—O rapaz tamem...—repetiu o Fogueira absorvido, mas sem commoção. - -—Tamem. Pois tu não sabes nada? - -—Sei, disse-me ali em baixo a Vicencia, aquelle diabo que me metteu cá -umas cousas por dentro, que...! Valha-a mil demonios! - -O do Rego continuou esclarecendo: - -—Isso não faz monta. Ella é tola, tu bem sabes. Mas honte foi ahi na -freguezia o dia de juizo! Juntou-se povo, que povo!—o Capatrás, o Manco, -o çurgião... o poder do mundo! Desenterraram-n’os; porque elles ficaram -debaixo de um monte de barro, da altura d’este muro. Depois, quando os -trouxeram para casa em charola, em cima de duas tabuas, lá a tua velha -fez ahi uma berraria de deitar a casa abaixo. Fazes lá idéa! Era muita -gente a querer agarrar n’ella; mas principiou a estrabuchar e a morder, -por não a deixarem _ir abraçar o seu home_!... Ora tu bem sabes que a -gente não a devia deixar, e mesmo o senhor padre Beiral e o Pandega -disseram que não deixassem; porque lhe podia dar algum stupor! Hoje tem -custado a ter mão n’ella, quer-se ir deitar a afogar; mas a minha mãe, -que lá está, e outra gente não deixam. Quando a seguram, principia a -chorar aos gritos, como se tivesse o diabo e chama muito por ti! Já dizem -que a alma de teu pae lhe entrou por algum sitio... Se é verdade, temos -que rir; porque ha de custar a por-lha fóra! Isso de entrar uma alma no -corpo da gente é peior que maleitas. Safa! - -O Fogueira ficou mais triste, mais acabrunhado com estas revelações. -Principiou a apoderar-se d’elle um terror, um medo...—o medo de que a -alma de seu pae adoptivo tivesse realmente entrado no corpo de sua mãe -Engracia! E com um ar scismatico, de homem abatido, puchava pela longa -barba, arrepelando-a, e considerando-se infeliz! - -O João do Rego, no mesmo tom de confidencia, rematou: - -—É o diabo! Trazes tu por ahi cigarros? Como vens da villa has de trazer. -Agora foi a feira dos nove. Vens de lá? Trazes uma burra chibante! - -O Antonio, passando-lhe automaticamente o cigarro disse: «estive... -comprei...». Depois perguntou-lhe: - -—Mas diz que me querem prender?! - -—Qual prender! Deixa fallar! Está um papel na porta da igreja; mas é p’ra -gente ir a Vianna, por causa d’essa cousa da tropa! Meu pae arranjou -cartas de fidalgos da villa p’ra me livrarem, cá a mim, em Vianna; -porque _botou_ com elles no deputado! Eu vou e mais elle, domingo, por -ahi abaixo, á _speção_. Vem co’a gente, que faremos pandega!? O Capatrás -disse que tu tamem has de ir. Ainda honte fallou no adro, que se tua mãe -não vender um campo p’ra te livrar, tens de andar com a muchila ás costas. - -E concluiu n’um tom de voz convidativo: - -—Mas a tua velha que venda o campo. Ella pr’a que o quer senão p’ra ti?! -Diz-lhe que venda e vamos todos lá a _essa_ Vianna! - -Despediram-se. O Fogueira picou a egua, explicando ao do Rego, que queria -entrar pelo lado da matta, para se não encontrar com o enterro que ia no -caminho. Depois, quando chegou á cancella, a egua transpol-a, mas entrou -desconfiada, reparando em tudo, olhando de travez para os objectos!... O -Antonio forçou-a a caminhar dizendo-lhe: «Chó diabo, anda p’ra diante!» -E assentando-lhe duas lambadas nas ancas, esporeou-a com força!... - -Porém, logo adiante, o animal estacou com mais teimosia, encarando -excentricamente com um velho carvalho nodoso. O Fogueira, como a egua -era nova e como o momento não era proprio para lhe tirar as teimas, -desceu cordatamente, pensando em a levar á redea. Para isso principiou -a puchal-a, com brandura, de um modo carinhoso, condescendente, -fallando-lhe com moderação. Porém ella fincou-se nas mãos, levantou -a cabeça, encostou-se á retranca e principiou a recuar resfolgando -estrondosamente pelas ventas dilatadas, olhando esgazeada e com uma -tremura nervosa nos beiços! O Antonio, conhecendo que á força a não -faria transpor a matta povoada de carvalhos, que produziam sombras -amedrontadoras, pensou em redobrar de carinhos e attenções, desejou -familiarisal-a com a velha arvore nodosa que a espantára!... Para -isso amimava-a, fallando-lhe n’uma voz de cada vez mais convidativa, -puchando-a moderadamente pelas redeas, para a aproximar do objecto -suspeito... Porém ella, entendeu que devia recuar ainda mais e, n’um -momento, principiou a levantar as mãos, a agitar mais freneticamente -a cabeça, a espetar com mais desconfiança as orelhas, a curvetear... -e terminou por atirar duas valentes e corajosas parelhas de couces á -cancella, partindo-a. - -O filho da Engracia teve n’este momento uma enorme colera e veiu-lhe -rapidamente a idéa de tirar a sua comprida navalha e abrir a barriga da -egua, como em outra occasião fizera a um cavallo! Porém, a reflexão -aconselhou-o a não deixar apparecer as suas violencias naturaes... O -momento não era opportuno—reconhecia-o elle perfeitamente!... Ouvia d’ali -mesmo sua mãe, gritar com desespero, acompanhada pelo chôro cantado de -todas as visinhas, que lhe faziam companhia n’este momento doloroso. -Toda a sua idéa era metter, sem ser presentido, a egua na côrte do gado, -e depois, quando em casa tudo estivesse mais tranquillo e a choradeira -acabada, entraria pela porta dentro, inesperadamente e de supito!... «A -final de contas—considerava—isto tem de ser e tem!» Por isso, para não -augmentar mais a desordem que havia um quarto de hora se apoderara do seu -espirito, a desordem que o cercava por todos os lados, optou por amansar -a egua em vez de a matar, e para isso principiou a cofiar-lhe as crinas, -passando-lhe pela anca tremula a mão benevolente e prodiga de afagos, -com a brandura insuspeita da mão de um amigo! Conseguiu d’este modo -acalmal-a, mostrar-lhe de perto o velho carvalho, chegar-lhe ás ventas, -ainda tremulas, a casca gretada, que exhalava um forte cheiro de humidade -e de bolor. Conseguiu o que desejava; mas a egua atravessou o caminho da -matta, sempre desconfiada, olhando de soslaio, resfolgando e levantando -a cabeça ao menor ruido. O Antonio chegou a mettel-a na côrte do gado, -prendendo-a calculadamente a distancia dos toiros, que permaneceram a -olhar vagamente, com os seus olhos redondos, como bogalhos e relusentes -como vidro! - -Pelo barulho que tudo isto produziu, Engracia que já estava calada, -ficou advertida da presença de seu filho!... Por isso, tanto ella como -as visinhas que a acompanhavam, tornaram a desatar a sua dôr recente, -em altos gritos cheios de mortificação e que se estendiam pelos campos! -Quando, instantes depois, o Antonio entrou na cosinha, a viuva do -Bernardo agarrou-se-lhe ao pescoço, dizendo muitas vezes: «Meu rico home -do meu coração, que te não torno mais a ver! Perdi o meu rico home! Um -santo como elle era! Uma desgraça assim!» - -Esta paixão intensa e desgrenhada era communicante, e por isso o Antonio -saiu dos braços de sua mãe, para se deitar de barriga sobre a caixa da -brôa, com o rosto escondido entre as mãos, dando soluços affrontosos e -dilacerantes!... As mulheres, que acompanhavam Engracia principiaram a -dizer que elle era muito bom rapaz, muito amigo de Bernardo, tão amigo -como se fôra filho verdadeiro! Gabavam muito este choro afflictivo de -Antonio e, acercando-se d’elle, com as mãos escondidas nos aventaes, -consolavam-n’o, lembrando-lhe que a _desgraça_ acontecera por vontade -de Deus Nosso Senhor, e confirmavam que todas ellas, que ali estavam a -chorar pelo Bernardo, tambem haviam de morrer e talvez bem cedo!... E -depois d’estas palavras sensatas aconselhavam-n’o a fazer uma confissão -geral com os missionarios; porque era muito bom a gente andar sempre -preparada para ir á presença do Senhor Todo Poderoso! Antonio parece que -não gostou d’esta advertencia, em que presumia uma censura á sua vida -desregrada, e disse-lhes com certo desabrimento, com modo brusco e mal -creado, sempre deitado de barriga sobre a caixão da brôa: - -—Calem-se! Deixem-me cá. Ponham-se agora ahi com lôas e aquellas!... - -E desde este momento, o seu choro, foi-se abrandando gradualmente, -e um silencio, de vez em quando interrompido por um «ai Jesus!», -restabeleceu-se na cosinha. Engracia, com os olhos enxutos, mas -evidentemente abatida e mortificada, foi, como um cão reprehendido, -sentar-se ao canto da lareira, onde havia uma fogueira crepitante e -viva, procurando o ponto mais escuro e modesto, d’onde atiçava o lume, -continuando a dar ais lastimosos e suspiros. Passados alguns minutos, -quando as brazas estavam bem vivas, bem mordentes, disse ella mesma, com -uma voz serena e apasiguada, para Genoveva, a mãe do João do Rego: - -—Ó mulher, vê se lhe deitas aqui n’este lume uma posta de bacalhau. Esse -moço ha de vir com fome. - -E, como o Antonio ainda de bruços sobre a caixa do pão se remexeu, -expellindo o ultimo suspiro da sua angustia, ella exclamou n’uma voz mais -secca, mais sincera: - -—Meu rico home que o não torno mais a ver até ao dia de juizo! Tomára eu -que o dia de juizo fosse já hoje, só para tornar a vêr o meu rico home, -que foi morrer de uma desgraça!... Uma cousa assim!... - -Porém as outras pessoas ficaram caladas... Não tendo já mais lagrimas -para chorar, as mulheres visinhas principiaram a contar ao Antonio, como -tudo se tinha passado, como acontecera aquillo! Elle, impellido por uma -curiosidade inconsciente e com o fim de as escutar com mais attenção -voltou-se de ilharga e olhava... Depois, como a narrativa, vivamente -colorida pelos commentarios e pela gesticulação, o interessava, sentou-se -e escutou até ao fim, com as mãos apertadas entre os joelhos. A Genoveva, -mãe do João do Rego, era quem o certificava de todo o acontecido, e -apesar de ser muito difusa e de entremetter observações sem valor e -rodeios pueris, o Antonio ouvia-a: O Bernardo era um homem sem esperteza -nenhuma, um molanqueiro, um deixa-te ir... Muito bom homem, muito -honrado, muito temente a Deus, de muito boas contas... isso sim, senhor. -Verdade, verdade... não se contava outro na freguesia! Mas prestimo não -tinha muito, não tinha mesmo nenhum. Todo o mundo o levava para onde -queria, um grande cebolla é que era! Esta desgraça que lhe succedera -tinha sido prevista pelo Joaquim da Moita, que lhe disse ao vel-o -encostado á barreira, que tinha umas bôcas escancaradas, que mettiam -medo: «Home, tu ahi não estás seguro! Vê lá no que te mettes, Bernardo». -Elle não quiz fazer caso e respondeu: «Ora não ha de ter duvida...». O -pago foi o que se viu, ficar esborrachado. - -O Fogueira, ouvia tudo isto com uma seriedade inconsciente e bronca. -Que diabo de toleima, a de seu pae, de se ir metter debaixo da barreira -que caíu! Realmente sempre era um banasola, que não tinha prestimo para -nada!... E deixando-se n’esta corrente de pensamentos vagos, impulsionado -pela palavra quente da tia Genoveva, e, como já lhe haviam posto o -bacalhau sobre a caixa, principiou a comer de vagar, com uma apparente -inappetencia... Tinha o olhar vagaroso e a mastigação demorada, apesar de -ter fome. De vez em quando, Engracia, exclamava pelo «seu rico home», que -não tornaria mais a ver, até ao dia de juizo!... Genoveva, que durante -a narrativa se enchera de espirito hostil contra o fallecido Bernardo, -disse reprehensivamente, para a viuva: - -—Cala-te mulher! Tamem já é de mais! Já aborreces com tanto «meu rico -home!» (E fez um esgar de troça.) Que se não fosse lá metter! Que não -fosse pascacio! - -Depois concluiu voltada para o Antonio: - -—Olha, elle se morreu é porque quiz! era um bô home, um bô serás; mas -teimoso até ali! Deus o tenha no céu, que todo o mal foi d’elle; mas -verdade, verdade, para onde lhe désse o toutiço, era para lá, como um -casmurro. Agora que está na outra vida, Deus o tenha em bô logar. Um -Padre Nosso por sua alma é que devemos resar... Do que Bernardo precisa -é de muito rosario e de muitas missas, que quantas mais, melhor. «Padre -Nosso que estaes no céu, santificado seja o vosso nome, etc...» - -Todos a acompanhavam n’uma voz ciciada, e com as palpebras meio cerradas. -N’este momento ouviu-se o dobre funerario e lamentoso dos sinos. Era o -signal de que os officios tinham acabado e de que o corpo ía ser dado á -sepultura! Uma das amigas de Engracia observou: - -—Elle lá vae pr’a cova, coitado! Olhem que ninguem sabe onde as tem -armadas!... Ainda honte, ía em cima do carro, muito socegado, e já hoje -dorme na greja pr’a toda a vida! Ah! morte negra, morte negra que assim -os vaes levando a um e um! - -Engracia tornou a chorar alto e o Antonio atirou-se novamente de bruços -sobre a caixa do pão, conservando-se muito tempo sem se mexer... -N’aquella posição adormeceu de fatigado pela jornada! - - -V - -Porém, a viuva do Repolho, o que não queria por fórma nenhuma, era que o -seu Antonio fosse para a tropa. - -—Soldado nem de barro!—exclamava. Isso não o ha de elle ser, ainda que eu -tenha de vender a camisa do corpo! Todos esses invejosos, que lhe querem -mal, hão de cegar!... - -Mas a final—porque é que lhe tinham esta raiva de morte ao rapaz?! -Engracia bem o sabia: O Antonio não era um _cebola_, não era nenhum -_maricas_ que se deixasse levar pelo beiço. Tinha tido muitas occasiões -de amolgar as costas dos visinhos com o seu rijo pau de carvalho, e essa -era a rasão por que lhe tinham tanta birra. Em qualquer ralhação, que -a Engracia tivesse na aldeia, atiravam-lhe logo á cara, com a vida de -homem perdido e sem religião, que o seu filho levava pelas feiras... -N’essas occasiões, com uma intimativa raivosa de vingança, ameaçavam-lh’o -com a farda, com a _tal farda_ que o senhor padre Beiral lhe havia de -arranjar... - -«Pois não houvestes de arranjar uma farda!» respondia-lhes Engracia -indignada. Graças a Deus, ainda tinha algumas terras que vender e, -acabadas as terras, ainda tinha cordões de ouro e a propria casa em que -morava, que tambem valiam um bom par de moedas! Quem perdia com estas -cousas eram os santos da igreja—Nossa Senhora do Carmo e Santo Antonio -milagroso a quem promettera os dois campos da ribeira se o rapaz se -livrasse. Assim, arranjando-lhe o padre Beiral a farda, venderia esses -campos para pagar a um _sustituto_. E por causa d’isto, tambem pensava -em lhe doar todos os bens, e deixar-lhe, mesmo em vida, gastar tudo, só -para ter o regalo de ver a visinhança com uma cara de palmo e meio! Ao -menos desenganava de uma vez todos os que lhe queriam mal ao moço! Elles -desejavam que Engracia lhe não deixasse nada, por não ser seu filho; -mas ella, que se tinha na conta de teimosa como uma burra, de cada vez -estava mais resolvida a dar-lhe em vida quanto possuia! E realmente, n’um -dia em que a Vicencia lhe disse de cara, «que ella estava no inferno -vestida e calçada, que talvez não encontrasse um padre que lhe deitasse a -absolvição, por querer desherdar Nossa Senhora e os santos em beneficio -do grande meliante e pelo não o mandar para a terra de onde tinha vindo» -a viuva do Repolho, cheia de colera, partiu para a villa, onde lhe fez a -doação premeditada e onde, ao mesmo tempo, vendeu os campos da ribeira -ao brazileiro do Tenrozo, entregando todo o dinheiro ao Antonio, para -elle se ir livrar a Vianna e para continuar no negocio de burras, em que -se via envolvido. - -Porém, as pessoas que andavam ao corrente da vida do Fogueira, que -conheciam as suas relações com a Marianna Ripa,—uma chupadeira!—com o -Rio-Tinto e com o Fanfarra,—dois ladrões!—quando souberam da doação -incondicional que a Engracia lhe fizera, affirmavam com riso de despeito -e de consolação ao mesmo tempo: - -—Agora é que vae ser o bô e o bonito. Verão como elle espatifa tudo -emquanto o diabo esfrega um olho. Ai minha tola de Engracia! Cuidas que -déstes na dos outros, mas déstes na tua cabeça! Os campos que tanto -custaram áquelle burro do Bernardo, estão ahi estão engolidos n’um -prompto! - -Na realidade, nas feiras que o Fogueira frequentava, principiou elle a -apparecer mais chibante e cheio de arrogancia, sempre na companhia de -Marianna Ripa, que tambem andava n’um luxo e n’um estadão de _arreguilar_ -o olho! Ella tudo eram lenços de seda de furta-côres, tudo roupinhas do -melhor panno azul, chinelas com biqueiras de verniz pispontadas a retrós -verde... o diabo, um inferno! O Fogueira, sempre com o cinto recheado -de soberanos que mostrava todo basofia, pedia nas estalagens com voz -arrogante e desdenhosa, postas de carne assada e copos do rascante, -com que enchia os coldres á Marianna, ao Rio Tinto, primo d’ella, ao -Fanfarra e ainda a outros troquilhas. O Rio Tinto encontrou meio de -lhe impingir uma egua com seis moedas de ganho, quer dizer, por vinte -moedas, que na opinião de entendidos, não valia dez; porque, pelas -quatorze, já tinha sido uma encaravilhadella para o primeiro comprador! -Era um animal vistoso, de pello luzidiu e fino, as orelhas espertas, as -ventas resfolgantes, o olhar vivo e de uma inquietação nervosa...; mas -era uma egua com pancada! Tinha um travado meudo, muito igual e firme; a -cabeça, quando ía vertiginosamente na carreira, apresentava-a com altivez -soberana; porém, diziam que tinha grande doze de lua. Algumas pessoas -chegavam a affirmar que era uma egua redondissimamente maluca!... - -O Rio Tinto quasi desenganou o Fogueira dizendo-lhe: - -—Eu gostei do demonio da burra. Se a queres leva-a; mas o que ella -precisa é de bons quartos em cima! Olha que eu não sei se tu terás perna -para a montar! - -O Fogueira, mesmo por causa d’esta declaração, como era muito vaidoso, -comprou-lh’a. Tinha-se na conta de um dos melhores montadores das feiras -minhotas e não podia levar á paciencia, que houvesse animal, por mais -bravo, que elle não podesse amansar. Nunca encontrára, nem entre os -marchantes, nem entre os troquilhas, homem a quem temesse n’um desafio -de carreira. Portanto, apesar de lhe dizerem _que era brava_, o Fogueira -quil-a e, o Rio Tinto, recebeu logo em bons soberanos as vinte moedas... -Muitos feirantes que lh’a viram levar ficaram dizendo com um riso -velhaco, alludindo á maneira impensada como o Antonio gastava o dinheiro: - -—Aquillo é que é derreter arame! É como cebo ao lume. Parece um morgado. - -O Domingos Bicudo, o taberneiro á porta do qual foi feita esta -observação, defendeu o Fogueira n’estes termos: - -—E a vós que vos importa?! É do vosso dinheiro que elle gasta? Deixae o -rapaz com as suas aquellas. - -Depois d’isto, oito dias antes de esgotado o praso determinado no papel -que estava na porta da igreja, o Antonio foi á administração do concelho -buscar _a guia_ e partiu para Vianna, á _speção_. A Marianna Ripa foi -com elle. Era pelo tempo da feira da Senhora da Agonia. A rapariga ía -toda secia, toda preparada, n’um espavento de arromba! Ella, como ouvira -fallar _da braveza_ da egua, receiou ir a cavallo, e disse ao seu amante, -que não queria. Porém, o Fogueira, intimou-a terminantemente a montar, -observando-lhe que indo elle ao pé, não tinha que temer. Por isso ella -subiu para o albardão. Sentou-se commodamente, espalhando as saias para -ambos os lados. Por baixo, de entre as dobras do saiote vermelho do -panno mais fino e de entre os folhos brancos das saias, saíam os seus -pés calçados em chinellas de biqueiras de verniz pispontadas, e as suas -pernas grossas, bem feitas, calçadas com meias de linha fina, viam-se-lhe -impudicamente até acima do tornozello. Marianna tinha um riso vaidoso e -triumphante, quando olhava para as pessoas que a viam passar! - -O Fogueira ía a pé, de vestia ao hombro, com a larga facha vermelha -apertada sobre o estomago, e armado com o seu pau argolado, proprio -de homem de feiras!... Acompanhava a cavalgadura, a largas passadas -de arrieíro, examinando frequentemente a cilha, para que a moça lhe -não fosse dar um trambolhão... E, com a expansibilidade natural do -seu temperamento sanguineo e da sua cabeça estouvada, ía fallando á -egua, para a familiarisar com a sua voz, e dava-lhe fortes palmadas na -anca, que a faziam estremecer e levantar a cabeça de um modo inquieto, -continuando depois com passadas mais ligeiras e, ás vezes, com chouto, -do que Marianna se queixava, por se lhe remexerem as tripas todas lá por -dentro... - -Como estava um dia de grande calor, logo na primeira taberna, fizeram -uma paragem para provar do rascante. A Ripa, apesar de desembaraçada e -resolvida, tinha medo da egua, e por isso não se arriscou a descer, sem a -ajuda do Fogueira, que para a pôr no chão, a agarrou valentemente e com -vaidade, apanhando-a por baixo dos quadriz: - -—Ó diabo! És uma franga. Não pesas nada! Tudo saias. São tudo saias. - -E deu duas reviravoltas com ella suspensa, mostrando-lhe que era muito -leve. Marianna ria-se mostrando os seus dentes brancos, fortes e iguaes. -O Fogueira, depois de a pôr no chão, ficou mudo, rangendo os dentes, -a sorrir para ella, n’uma sensualidade bruta, motivada pelo calor das -saias, pela excitação animal que lhe produzira o proximo contacto da -carne da Marianna!... Por isso, n’uma incontinencia inconsiderada, -correu atrás d’ella pela taberna dentro, perseguindo-a até ao fim da -loja, onde a agarrou, a teve por momentos na sua posse, dando-lhe -palmadas nos hombros roliços, roçando-lhe a sua forte barba pelo pescoço, -pela cara, por onde podia... Depois, impellindo-a de si, com a soberania -orgulhosa de um possuidor, rematou n’uma respiração desafogada: - -—Diabo de moça! É o vivo demonio! Ó tia Zefa, deite lá um de meia canada. - -Beberam de vagar, sentados n’um banco de pedra, á porta da venda, -abrigados pela fresca sombra de um antigo carvalho. Em seguida, tendo -descançado sufficientemente, a Marianna tornou a montar ajudada pelo -Fogueira e continuaram o caminho. - - * * * * * - -A estrada nova, ainda não estava concluida. As diligencias não podiam -ir até Vianna. Dizia-se «que para a outra Senhora da Agonia talvez já -fossem». Logo adiante da venda, onde tinham parado para beber, andava -muita gente nos trabalhos. Uma longa fita de cascalho, bem espalhado, -apresentava uma superficie aspera e eriçada, sobre a qual rolava -pesadamente um enorme cylindro de pedra. Duas juntas de possantes bois -barrosãos, vagarosos, firmes e iguaes, puchavam o cylindro. Adiante -dos bois, á soga, com o corpo muito inclinado, ía um rapaz pequeno, de -carapuça, com a aguilhada ao hombro, fallando distraídamente ao seu gado. -Logo depois, um homem novo, cara de militar da reserva, tendo uma ponta -de cigarro meticulosamente escondida detrás da orelha, arrastando com -perguiça os tamancos, assobiava distraído, dizendo imperiosamente ao da -soga: - -—É diabo, rapaz, não durmas, falla-me a esse gado. - -Por isso o rapasito, aguilhou com mais força os bois, que estenderam -para diante as suas pesadas cabeças, contraindo fortemente os musculos, -puchando com mais força. - -Logo em seguida, um pouco ao lado do leito da estrada, viam-se os -britadores, quebrando o seixo a martelladas repetidas, para fazerem o -cascalho. N’este officio rude, que exige um exagerado esforço dos braços -e de todos os musculos do tronco, empregavam-se alguns homens aleijados -das pernas. Porém, alem d’estes, havia mulheres que tinham um aspecto -grosseiro e masculino, fortes seios entumecidos, e que trabalhando por -empreitada, podiam ir dar de mamar aos seus filhos, que choravam deitados -em canastras, á sombra benefica e fresca dos salgueiros, que marginavam a -estrada antiga. - -Tanto estas mulheres como os homens aleijados, trabalhavam sentados -no chão, cobertos com chapéus de palha baratos, que tinham comprado -aos presos na cadeia da villa. O sol peninsular de agosto abrasava-os, -obrigando-os a beber frequentemente tigelas de agua, que iam buscar -a um ribeiro proximo. As suas conversas grosseiras, eram tocadas de -palavras obscenas e sem pudor. Tinham um modo insolente de se exprimir, -porque se julgavam mais livres do que os outros, que trabalhavam a -jornal. O seu aspecto, pela continuação de se conservarem durante horas -sentados no chão, com movimentos esforçados dos musculos dos braços -e do tronco, era carecteristico e singular:—no peito havia uma forte -depressão correspondente ao abaúlamento da columna vertebral; as linhas -faciaes tinham uma contracção permanente de soffrimento, originada nos -esforços potentosos; as narinas eram dilatadas em virtude dos movimentos -respiratorios entrecortados e pelas largas expirações de compensação; -o tronco e os braços tinham um desenvolvimento desharmonico em relação -ás pernas; o semblante, pelo habito de olharem continuadamente para o -chão, era triste e carregado, como deve ser o dos _casseurs de pierre_ de -Courbet. - -Mais para diante, a estrada, era incompletamente aberta—andava-se n’um -desaterro. As raparigas que transportavam terra aos cestos para o rio, -íam e vinham formando um cordão movediço, como o das formigas no caminho -de celleiro. As suas canções, umas vezes mundanas e que haviam aprendido -com os cegos que passavam, outras vezes religiosas, ao Santissimo e ao -Coração de Maria, que tinham aprendido com os missionarios, íam morrer -n’uma toada monotona e ondeante nas quebradas da encosta fronteira. -Quasi todas estas raparigas novas tinham, mais ou menos, um aspecto -esfomeado e miseravel, a pelle grossa e avermelhada dos tempos diversos -e inclementes que supportavam, os seus pés e os calcanhares gretados, as -pernas estavam sujas de nodoas de terra, o olhar de algumas era tibio -e doente, a côr de outras citrina e amenerrhoica, as mucosas dos beiços -esfoliados e sem lhes transparecer a viva côr do sangue! Havia, porém, um -certo numero d’ellas mais lavadas, que trabalhavam com mais alegria—eram -as que passavam por namoros do senhor Alberto—o _apontador_, aquelle -que as vigiava que as podia despedir, que exercia sobre todas ellas -um absolutismo tyrannico! Era um rapaz forte, de uma boa corpulencia, -a pelle tostada, as mãos plebeias, um farto bigode presumpçoso, uma -cabelleira de terror, os dentes negros e os dedos queimados do fumo. -Tinha andado a estudar em Braga muitos annos, com o fim de ser padre. -Depois assentou praça no regimento de infanteria oito, para chegar a -alferes. D’ali fugiu com a sobrinha de um marchante, com quem desejava -casar, o que não concluiu, porque a perfida o abandonou para se amancebar -com um clerigo. Por fim, Alberto, vendo-se desilludido e infeliz, -ludibriado no seu amor, sem dinheiro, appareceu uma noite em casa de seu -tio cirurgião, pedindo, como o filho prodigo da lenda, o esquecimento -para os seus desregramentos desgraçados!... O tio cirurgião estava a -cear a posta do bacalhau empurrada pelo cangeirão do berde. Era um homem -sanguineo, e tomou-se de uma colera subita vendo o sobrinho, com quem -gastara em Braga mais de cem moedas, de chapéu desabado e casaco roto, -n’uma apparencia de malandro maltrapilho! Quil-o desancar com o estadulho -das suas valentias que tinha ao canto da cosinha, onde ceava, e só depois -da intervenção da Clementina, sua creada e amante de quarenta annos, -a qual tambem ralhou muito com Alberto, é que o tio se tranquillisou, -mandando-lhe dar uma posta de bacalhau. Mas, antes d’esta pacificação, -levantando-se da lareira bebado, chegou-se ao pé de Alberto e berrou-lhe -sobre o nariz, com voz temerosa e avinhada: - -—Seu burro e seu ladrão! Eu aqui a ganhal-o, a apanhar molhadellas de -lobo por esses montes, e você nas pandegas de Braga! Pr’o Brazil é que -ha de ir. Arre, _bá_ ganhal-o que eu tambem faço o mesmo. Mal aprendi a -ler, e para arranjar esses campitos que tenho e que te hei de deixar a ti -Clementina, puchei muito por este toutiço! Vá ganhal-o seu jumento, que -eu ando ha quarenta annos a puchar pela cachimonia, se quero! - -E bateu formidavelmente na testa, significando que só d’ali tinham saído -todas as idéas, com que medicamentava os conterraneos. Affirmava ter -muita gabança em não haver estudado, nem no Porto, nem em Coimbra, como -_os collegas_ que estavam na villa. - -Porém, passada esta colera do primeiro momento em que viu o sobrinho, -veio a pensar mais rasoavelmente, e determinou conserval-o antes por -ali. Como era influente eleitoral, arranjou-lhe facilmente aquelle logar -na estrada «que sempre deixava um crusado por dia, sem fazer nada!» -Ficou, portanto, Alberto, na situação de indicar ao director das obras, -um nigligente e aborrecido que passava os dias a jogar as damas n’um -botequim da villa, os homens e as raparigas que deviam ser admittidos -ou despedidos dos trabalhos na estrada! Isto dava-lhe um incontestavel -predominio, e por isso eram apontadas com uma intenção reservada _as -moças_, de que elle mais parecia gostar. Alem d’isto, Alberto, adquiria -diante dos seus sobordinados que estava incumbido vigiar, a attitude de -um personagem saliente. Os aborrecimentos da aldeia, tornavam-n’o triste -e fatal! A sua existencia estava vasia da convivencia dos amigos, que -adquirira nas batotas de Braga! Passeava a largas pernadas meditativas -e não fallava aos rapazes lavradores, que tinham andado com elle no -mestre de primeiras letras! Em vez de se suicidar, atirando-se ao fundo -de um poço, lançou-se na leitura perigosa de romances de sensação, que -os mais celebres fabulistas nacionaes e estrangeiros tinham escripto, -expressamente para lhe fecundar a imaginação irrequieta e sorumbatica! -Assim vivia n’um mundo incomprehensivel de emboscadas, loucuras, amores -de redempção, paixões nobres e lagrimijantes, homens que se recolhiam ao -desespero do sacerdocio, mulheres que fugiam aos maridos para seguirem -acorbatas, santos eremitas que tinham sido famosos salteadores!... Esta -illustração inoculou-lhe certas vaidades litterarias, que elle revelou no -_Bracarense_, timidamente, sobre a epigraphe de _Inspirações do Lima_!... -N’essas paginas, aquellas verdes e ramorosas paisagens minhotas, eram -apresentadas cheias de cavernas onde se escondiam donzellas vestidas -de branco, fugidas dos castellos de seus paes nobres, com amantes -desconhecidos e mysteriosos. Porém, como nem tudo n’esta vida póde -ser ideal, Alberto saía por vezes de entre os frescos salgueiros, -onde se recolhia hostilmente a ler os seus romances, e n’uma excitação -aphrodisiaca, ía espreguiçar-se entre as raparigas que trabalhavam, -apalpando impudicamente os braços carnudos e os seios volumosos -d’aquellas de quem gostava mais!... Os trabalhadores, que observavam de -longe estes desfastios do senhor Alberto, disseram uns para os outros, -descançando encostados ás enchadas, applaudindo-o, cheios de inveja. - -—Isso, é levado de seiscentos diabos p’ras moças! - - * * * * * - -Foi ao chegar ao pé dos homens que faziam esta observação, que a egua -do Fogueira, na qual ía montada a Marianna Ripa, parou subitamente, de -um modo inesperado, n’uma posição desconfiada—a cabeça alta, as orelhas -tezas e o olhar fixo! Depois estendeu o pescoço, inclinou para diante -os pavilhões auriculares para reunir proveitosamente todos os ruidos e, -dilatando-se-lhe demasiadamente as pupilas, conservou-se alguns segundos -olhando firmemente para uma bandeirola que fluctuava... Todas as pessoas -que presenciaram esta paragem repentina se tomaram mais ou menos de uma -certa irresolução!...—os jornaleiros conservaram attitudes indicisas e -indagadoras parando de trabalhar; as raparigas, que acarretavam cestos -de terra, ficaram a distancia um tanto receosas; o Fogueira recuou -dois passos e berrou «diabo de burra!»; Marianna, apesar de rapariga -corajosa, lembrou-se que lhe tinham dito que a egua era amalucada e deu -instinctivamente um grito!... O amante da Ripa, temendo que o animal lhe -tomasse alguma manha, dirigiu-se-lhe de mão aberta com o fim de _lhe -fallar_, mais familiarmente... Porém, n’este momento se não lhe furta -instinctivamente o corpo, ía apanhando, sobre o ventre, uma valente -parelha de couces! - -A esta parelha seguiram-se muitas outras em todas as direcções, dadas com -desembaraço vertiginoso. A Marianna, agarrava-se tenazmente ao albardão -para não caír. Os trabalhadores, com o fim louvavel de suster a egua, -levantaram as enchadas e as picaretas, pondo-se diante d’ella, fazendo -algazarra. Porém, este procedimento deu em resultado o multiplicarem-se -prodigiosamente os pinotes e os couces. A Marianna Ripa caíu do albardão, -de bruços sobre a terra, com as pernas á mostra, e a egua, de cada vez -mais doida, tomou-se de uma raiva aggressiva contra os que estavam -diante d’ella, e arremetteu com ousadia para elles, que lhe abriram -condescendentemente caminho! E, enfurecida, enthusiasta, com o dorso -arqueado, a barriga baixa, o pescoço estendido, as ancas salientes, as -pernas abertas, principiou a fugir pelos campos fóra, para os lados do -rio! O Fogueira permaneceu livido, pasmado, sem desembaraço, a olhar, -vendo-a saltar paredes, saltar vallados, sebes e barrancos! A sua amante -já se tinha levantado promptamente, toda vermelha, com medo que os homens -lhe tivessem visto as pernas! Não se tinha maguado, pois caíra sobre a -terra molle! Todas as pessoas que presencearam este facto, surprehendidas -pela rapidez com que elle se passara, estavam sómente interessadas no -galopar da egua, que viam correr, dando upas vistosas, com a cabeça alta -e o rabo espalhado ao vento!... - -Antes d’ella desapparecer, calculou um jornaleiro com modo reflectivo: - -—Aquillo foi o dianho da mosca!... - -Os que ouviram esta opinião admittiram-n’a em silencio, continuando a -olhar para a egua que fugia resolutamente, sem hesitações, sem duvidas, -dominada por uma idéa infernal!... - -Lá no fim dos campos, estava o rio, a grande profundidade, revolvendo-se -as suas aguas, com um fervor de corrente que se precipita por entre -penedos! Tinha chovido muito nos dias precedentes e, por isso, o rio -levava uma bravura excepcional!... - -A egua corria sempre, perdida, com os olhos esgazeados, as crinas -ao vento, o corpo arqueado e foi precipitar-se do alto muro, caíndo -estrondosamente na agua e fez _cachap_, levantando enorme poeira de -espuma na amplitude do ar! - -Um lavrador, que andava na outra margem trabalhando pacificamente no seu -campo, vendo isto, exclamou surprehendido: - -—Oh! com mil diabos, que lá se _spapou_! - -E logo que o Fogueira chegou esbaforido disse-lhe este individuo, -gritando: - -—Ó hominho. Essa burra que caíu ao rio era sua? Ella era maluca por força! - -O Antonio Fogueira respondeu-lhe de um modo abstracto, com uma navalha -aberta na mão: - -—É o demonio que a leve!... Se a pilhasse, abria-lhe a barriga de cima a -baixo, com esta! - -Depois, lançando um olhar indagador para os dois lados do rio, perguntou: - -—Mas vocemecê viu-a? Onde diabo caíu ella? - -—Olhe!...—apontou para os rochedos que estavam mais abaixo. - -O Fogueira aproximou-se vagarosamente do logar designado. Uns lavradores -e umas raparigas, que, ali perto, andavam no trabalho, perguntaram-lhe -igualmente: - -—Você é dono da burra que ahi caíu? - -E à affirmativa do troquilha esclareceram: - -—Pois o diabo, parecia que trazia o demo no corpo. Atirou-se sobre esses -penedos como um raio! Depois, o rio levou-a para baixo. - -Um dos trabalhadores acrescentou: - -—Aquillo era maluca, por força! - -O Fogueira repetiu, com rancor, mostrando novamente a navalha. - -—Tres mil demonios a arrastem pr’as profundas dos infernos! Se se não -tivesse _spapado_, punha-lhe as tripas ao sol. - -Outro dos jornaleiros ainda esclareceu, apontando com a foicinha: - -—Isso é ahi um pôço que nem seiscentas pipas! Você faz lá idéa!... - -Um terceiro acrescentou: - -—Nunca ninguem lhe viu o fundo. Muita gente antiga, diz que o não tem; -mas isso parece-me mentira. - -Um rapaz esclareceu: - -—Ha ahi cobras que é um inferno! O tio Domingos Briteira viu uma de mais -de vinte varas. Vinte varas! que digo eu! De mais de quarenta. Ora! Se -ella tinha o rabo de lá do rio e a cabeça de cá, quando elle a viu. -Talvez essa cobra se enrodilhasse ás pernas da burra! - -O Antonio Fogueira despediu-se de um modo triste: - -—Com bem passem! Deixal-a ir. Deus os ajude. - -E na volta, quando chegou ao pé da Marianna Ripa, que o esperava, disse: - -—Então que tal?! O Rio Tinto prega-me uma burra maluca! - -A rapariga defendeu o primo: - -—Ora! Talvez elle não soubesse!... - -—Não sabia o diabo que o leve! Elle m’as pagará! - - -VI - -Em Vianna, o Fogueira e o Rio Tinto, encontraram-se hospedados na -mesma estalagem. Por causa do negocio da _burra_, invectivaram-se -reciprocamente com injurias e, se não fosse o Fanfarra e a Marianna Ripa, -que se interposeram, elles chegariam de certo ás do cabo! Por fim, o -Rio Tinto, com uma viva colera no olhar, tirou da sua sacca de linho os -soberanos que tinha ganho ao Fogueira e, atirando-os com despreso sobre a -mesa, disse com altivez: - -—Ahi tens e não tornes a dizer que te roubei. _Bê_ lá como fallas p’rá -outra _bês_. Põe n’esse raio de cara dois _carbões_ accesos, para saberes -o que compras!... - -E ficaram, sem se fallar, olhando-se como dois homens que se odeiam! Á -noite tiveram occasião de se encontrar, um em frente do outro, a uma mesa -de _monte_, arranjada ao fundo da taberna, atraz de um tabique, por dois -braguezes de longas barbas suspeitas e chapéus desabados... Estes homens, -para attraírem os feirantes que por ali estavam, tinham-se abancado de um -modo natural e simples, principiando a jogar entre si o _trinta e um_. -Batiam insolentemente o dinheiro nas mesas, com o fim de se tornarem -vistos, fallando alto e grosseiramente. Um almocreve, contractador de -peixe para Traz-os-Montes, estava ali perto, e foi naturalmente attraído! -Como ceára e se sentia na amplitude beatifica de um homem bem avinhado, -foi-se aproximando, sorrateiramente, com certo desdem!... Carregando o -chapéu para os olhos, sentou-se junto dos jogadores, tomando _n’aquillo_ -um interesse puramente mental!... A este curioso, juntaram-se outros, -attraídos por iguaes motivos, chegando-se todos á formiga, n’um desleixo -simulado, sem apparencia de proposito difinido, com as mãos nos bolsos e -o cigarro ao canto da bôca... E, quando a roda era já bastante compacta, -um dos jogadores, sem dizer palavra e fundando-se de certo n’uma -convenção anterior, atravessou o baralho no meio da mesa e, tirando mais -dinheiro do bolso, contou nove corôas em prata! Depois, com outras cartas -que tinha n’um bolso interno da sua jaqueta de alamares, principiou a -baralhar demoradamente, lançando em volta um olhar firme e carregado! O -companheiro, sem lhe dizer palavra, abriu um cinto que trazia afivelado -sobre o estomago, mostrando-o cheio de libras, e tirou tres, que ajuntou -ao dinheiro já contado, e disse com um modo esbanjador, n’uma voz -imperiosa e rouca: - -—São quatro _sovranos_ de monte! - -Os indiferentes, ao verem isto, sentaram-se logo nos bancos de pau, -acotovelaram-se contra a mesa, olhando avidamente para as cartas e para -o dinheiro! Ao longo de todos elles passou o calefrio das sensações -poderosas e commoventes! O jogador, que se preparava para fazer as -pagas, collocou sobre o baralho, atravessado na mesa, as tres libras em -ouro, espalhou a prata diante de si, misturando-a com certo despreso e, -carregando mais para os olhos o seu chapéu de abas largas disse de um -modo vago: - -—Eram precisas ahi quatro croaças em _covre_... - -Então, um rapaz novo, sem barba, muito magro e amarello, com o tronco -osseo apertado no seu fraque velho muito coçado nos cotovelos e lusidio -nas costas, pegou nas quatro corôas, que o jogador lhe deu por cima do -hombro. Com passo ligeiro e leve, dirigiu-se ao taberneiro, que estava -medindo quartilhos, e pediu-lhe n’uma voz urgente, perturbada, com -inflexões nervosas: - -—Tio Domingos... Estas croaças em _covre_!... - -Collocou-lh’as sobre o mostrador humido de vinho. - -O tio Domingos, com o seu ar de borrachão pantagruelico, perguntou-lhe -usurariamente interessado: - -—Então elles hoje... ein Marquinhos?! - -Marcos, amanuense do governo civil, respondeu com muita pressa, contente, -encolhendo-se em si mesmo, passando n’um frenesi, o seu dinheiro de uma -mão para a outra, n’um estado de impaciencia quasi sensual: - -—Sim, senhor, _vão fazer_... São aquelles dois de Braga, o Barroso e o -outro que eu não sei como dianho se chama... - -—Timotheo... O Timotheo da Carcova... Quem diabo não conhece o Timotheo?! - -—Sim, senhor, um nome assim arrevezado, o Timotheo... Mas ande depressa, -tio Domingos!—pediu com insistencia, com a sua voz aflautada, de um -timbre choroso.—De-me esse troco que estão á espera! O Barroso não _se -volta_, emquanto lhe não levarem _covre_! - -O taberneiro disse: - -—Olha, vae-te Marquinhos, que eu levo já. Diz-lhe que eu levo já. - -E depois de ter contado meticulosamente o dinheiro, escolhendo o mais -falso, foi elle mesmo pôl-o sobre a mesa do jogo. As suas mãos plebeias -e sujas íam cheias de patacos esverdeados, de uma côr venenosa, levando -ao mesmo tempo, de baixo do braço direito, um pequeno mialheiro, que -collocou em cima da mesa, dizendo n’uma voz chorosa e comica que fez rir: - -—_Aqui pr’ás bemditas almas!..._ - -Esta pequena caixa de folha com uma fenda na tampa superior, era onde os -jogadores teriam de deitar os baratos! - -Só depois d’isto, quando em volta da mesa estavam muitos individuos com -um olhar desvairado e o dinheiro apertado freneticamente na mão, á espera -do momento de jogar, é que o Barroso tirou quatro cartas do baralho, -collocando-as nos respectivos vertices dos angulos de um quadrilatero -que traçara mentalmente... Em seguida, accendeu um cigarro, piscando os -olhos com as fumaças e disse: - -—Agora, meus homes, é metter-lh’o sem medo!... - -Chegára o tetrico momento dos primeiros palpites! A expressão de todos os -semblantes era mais viva e as respirações abrandaram-se momentaneamente. -Duas vélas de cebo, em duas bogias de folha, espirravam sobre a mesa, -alumiando, com fraca luz, aquelles rostos sugados! O fumo espesso e azul, -o cheiro nauseabundo do peixe que se estava frigindo, envolviam o grupo -dos jogadores, que se entendiam por uma linguagem breve. Os cigarros -accesos, collocavam n’aquellas pelles escuras e nas barbas pretas, -pontos incandescentes! E cá fóra, na loja humida da taberna, o _ou-ou_ -prolongado das vozes dos feirantes pedindo mais vinho e praguejando, -continuava-se n’um unisono monotono e ondeante, de momento a momento -cortado pela voz do banqueiro, o Timotheo da Corcova, que dizia com -arrogancia, «jógo.» - -Era quasi manhã, quando _isto_ acabou. O Fogueira _apontou_ durante toda -a noite, de um modo accintoso, contra o Rio Tinto, e esteve sempre com -uma sorte de burro! Fartou-se de ganhar dinheiro, os montes de corôas iam -crescendo diante d’elle e já lhe atulhavam os bolsos. Todos os outros -_pontos_, embirrados com isto, seguiam o partido do Rio Tinto, que estava -sem sorte nenhuma, e perdiam com elle! Em virtude d’isto, quando eram -cinco horas da manhã, estavam _á lisa_, achando-se o dinheiro no cinto -do Fogueira que os _tinha alimpado a todos_! - -Antes da meia noite, a taberna ficara vasia de gente, que tinha saído -para a romaria, com fim de ver o fogo! Na rua passavam continuadamente -descantes á viola. Os que perdiam ao jogo, o Rio Tinto, o Fanfarra e -todos se indignavam pronunciando insultos e obscenidades contra os das -esturdias... O Fogueira bem comprehendia que eram injurias contra elle, -por lhes ganhar o dinheiro, e ria-se ás gargalhadas, fazendo chacota -e guardando com escarneo os soberanos que os outros perdiam. Por fim, -quando amanheceu, o Barroso e o Timotheo da Carcova, _encontrando-se pela -primeira vez, no seu dinheiro_, depois de uma noite inteira de jogo, -durante a qual houve um momento em que a banca perdia mais de vinte -moedas, disseram com certo desafogo: - -—Contra esta sorte não ha que fazer! Estamos desforros... - -E levantaram a banca sendo já dia alto. - -O Fogueira ganhava um bom par de moedas! Impiedoso e triumpante, -principiou a contar ostentosamente o dinheiro diante de toda a gente. -Batia as libras sobre a mesa, fingindo por troça, que desconfiava que -ellas fossem falsas. Voltando-se para alguns dos que as tinham perdido -perguntou com modo achincalhador: - -—Os sobranos são bôs, ó rapazes? Vocês viriam para a feira com dinheiro -falso?! Não vinham; porque haviam de ter medo ao _demenistrador_. O -que alguns são é bem bonitos, de cavallinho. Hei de os guardar para -lembrança d’esta noite. - -Os que tinham perdido, conservavam-se n’uma indifferença fingida, mas -hostil... Deitados por cima dos bancos, como dormindo, olhavam por baixo -dos chapéus desabados. O Rio Tinto e o Fanfarra tinham uma expressão -amarga e vingativa, affastados do Fogueira, fumando cigarros e olhando -para elle com um rancor intrinseco! Nos seus rostos severos e contraídos -reconhecia-se-lhes mais ferocidade do que tristeza! - -No dia seguinte, o Antonio da Engracia, percorreu com a sua amante todo -o campo da Agonia, onde era a feira. Sempre que estavam perto d’elle -o Rio Tinto e o Fanfarra, que o olhavam de travez, com modo ameaçador -e reservado, puchava por dinheiro com escarneo! N’esse dia satisfez á -Marianna muito mais do que as suas exigencias de mulher vaidosa pediam! -Comprou-lhe uns brincos caros e um par de argolas de cabacinhas, na -barraca do Ferreira, um ourives do Porto. Nos mercadores mandou cortar um -saiote vermelho do melhor panno e umas roupinhas chibantes. Comprou-lhe -lenços de seda de furta-côres e chinellas de verniz! Quando pagava, -affectava sempre gestos esbanjadores, que feriam os que o viam!... Porém, -esta intenção mostrou-se com verdadeira dureza na feira do gado, onde -principiou a examinar detidamente _a melhor_ egua, para a comprar! Era -um animal vistoso, pelo qual um gordo ecclesiastico minhoto pedia vinte -e cinco moedas! O Fogueira chegou-se á egua, assentou-lhe duas palmadas -na anca azevichada e fel-a estremecer. Puchou lhe, em seguida, pelo -rabo, obrigando-a a estacar firmemente... Examinou-a nas mãos e nos pés -até aos cascos, para ver se estava _puchada_. Observou-a na dentadura, -levantando-lhe a cabeça e affastando-lhe os beiços polposos com o fim -de lhe calcular a idade... Passou-lhe os dedos diante dos olhos, para -lhe experimentar a vista... Finalmente, quiz-se mostrar um troquilha -experimentado, para que o não enganassem _outra vez_!... - -O ecclesiastico, dono da egua, seguia discretamente, com um sorriso -gabosola e um olhar entendedor, o exame do Fogueira, fungando -estrondosamente a sua pitada de _meio grosso_. O amante da Marianna -Ripa, com a faixa vermelha apertada no ventre e o chapéu de abas largas -inclinado para a nuca, perguntou-lhe em voz alta e com pronuncia -insolente; pois sabia que era ouvido pelo Rio Tinto que o cocava de perto: - -—Ó senhor padre! Ella é maluca? - -O sacerdote, João Pitança, á pergunta inesperada, e cuja intensão e -alcance não podia comprehender, respondeu com uma gargalhada sonoramente -timbrada: - -—Ah! ah! ah!... Maluca! Home essa! Ah! ah! ah!... Como diabo ha de ser -maluca a melhor egua da feira?! Ah! ah! ah!... Só essa pergunta me faria -chorar de riso! Se foi por chalaça que o dissestes, fizeste-me rir. Ah! -Ah! Ah!... - -Affastando-se da sobrinha—uma rica moça de bons seios e boas ancas!—que -se conservou a distancia com o guarda sol pendente das mãos crusadas -sobre o ventre, aproximou-se do animal, bateu-lhe confiadamente na -anca e chibatou-a com a sua varinha de marmelleiro para ella dar -reviravoltas... - -—Ora maluca!—continuou. Que demonio de lembrança a tua! Leva-a a contento -meu rapaz! Pagas-ma p’ra outra feira se quizeres! - -O Fogueira respondeu-lhe n’um tom de chacota, sempre com o fim de -offender o Rio Tinto, que o continuava a escutar n’uma desattenção -simulada: - -—Não, que ha por ahi muito quem queira enganar a gente vendendo burras -malucas... Ha muito ladrão com cara de gente! O senhor abbade não faz -idéa! - -—Abbade, não—emendou o ecclesiastico. Um simples padre, meu rapaz, um -simples padre. Mas quanto á egua pódel-a levar, que é trigo limpo. Não -tem um argueiro, pódes ver á vontade—concluiu o sacerdote, com o seu ar -de homem bem comido e bem bebido, assoando-se fortemente ao lenço de -panninho que desdobrára completamente ao ar! - -Mas o melhor era montal-a—observou. Montando-se acabavam todas as -duvidas. Se o Fogueira queria ver, _corria-a_ elle mesmo, padre João -Pitança, ali n’aquelle campo da Agonia, que era bom para isso. Não -pensasse o comprador que tinha n’isso a menor duvida. Ou então, se antes -queria, o Fogueira que arranjasse um picador da sua confiança, e veria -como a egua se vispava por ali fóra, que nem um corisco! O amante da -Marianna Ripa gostou d’aquelle desembaraço do ecclesiastico, e com ar -galhofeiro e atrevido de homem que tem o bolso bem cheio de soberanos, -disse-lhe: - -—Então monte lá v. s.ª primeiro. Tamem quero ver a sua perna. - -O padre João não hesitou um momento. Apertou melhor a cilha á egua e as -correias das suas esporas. Com a mão esquerda nas redeas, repuxou-as -de certo modo, para o animal enfeitar a cabeça. Alisou-lhe as crinas, -passou-lhe a mão direita na anca, metteu o pé esquerdo no estribo de pau -e com um balanço de homem acostumado, caíu no selim de um modo firme e -airoso, como um lanceiro! Em seguida, com o seu riso aberto, de camponez -vaidoso, disse para os troquilhas que o observavam com interesse: - -—Isto é fino meus homes!... - -E esporeou com habilidade a egua, para a obrigar a algumas reviravoltas, -que abriram um largo circulo no povo circumjacente. Depois deu a primeira -envestida na carreira, só para obrigar o animal a parar de repente; mas -voltou ao logar d’onde partira, dizendo para o Fogueira: - -—É cousa boa, meu rapaz! Cá não se engana ninguem! Não sou d’essa gente, -nem a quero na minha companhia—pronunciou com vaidade. - -As abas do seu comprido casaco sacerdotal, caíam dos lados. Com as pernas -firmes, calculadamente encostadas ao ventre da egua, conservava-a n’uma -vaidosa impaciencia de partir. Carregou o seu chapéu de abas largas para -lhe não voar com o vento e foi-se chegando a passo, para o sitio onde se -devia correr. A cabeça do animal, firme e altiva denotava certa magestade -e orgulho!... O padre João Pitança retesava-lhe com intelligencia as -redeas, para a egua se enfeitar, e esperava o momento opportuno de estar -bem desempedida a _carreira_... Depois, quando esse momento chegou, -partiu n’um travado meudo e veloz, diante de centenares de espectadores, -que o viram sumir-se por entre uma atmosphera de poeira dourada pelo sol -poente, o que lhe dava, tanto a elle como á egua, um volume indiciso e -esfumado! D’ali a poucos minutos voltou, a galope rasgado, e estacou -firme e de repente, no mesmo ponto d’onde tinha partido! O Fogueira -confessou accenando com a cabeça: - -—Sim, senhor! Uma boa perna, senhor padre! - -Outro feirante disse: - -—E rica mão de redea! - -O ecclesiastico surriu-se com satisfação. O troquilha montou tambem o -animal e correu-o. Por fim concordaram no preço de vinte e tres moedas, -que o Fogueira pagou logo. - - * * * * * - -Todas as circumstancias impelliam os maus figados do Rio Tinto para um -rancoroso procedimento de vingança! A pisporrencia do Fogueira ao gastar -dinheiro, a sorte de burro que tivera ao jogo, as suas provocações com -palavras e com gargalhadas de chacota, faziam-lhe remoer as entranhas lá -por dentro, dando-lhe certa gana de o abrir de meio a meio! Principiou a -conhecer que lhe entrava na organisação um appetite infernal de se vingar -do amante da Ripa! Conhecia, por uma reflexão interior, que a cabeça se -lhe estava enchendo de idéas perversas!... O Fanfarra, logo que elle -lhe disse que tinha vontade de ter uma _aquella_ com o Fogueira, tomou -abertamente o mesmo partido, e n’uma intimidade infame, urdiram um plano -para se vingarem das desfeitas que tinham recebido durante o dia! - -Poderiam sair-lhe ao encontro, dar-lhe uma grande coça, a ponto de o -deixarem estendido sem sentidos no meio da estrada, e roubar-lhe o -dinheiro que levasse, que ainda havia de ser um bom par de moedas. Podiam -porque eram dois homens destimidos, não tinham escrupulos e, talvez, já -não fosse a primeira que faziam!... Mas o peor era a Marianna Ripa, que -de certo acompanharia o seu amante!... Era preciso desembaraçarem-se -d’ella por qualquer fórma!... O Rio Tinto conhecia bem _sua prima_... Era -uma rapariga desembaraçada, que tinha tanta coragem e resolução, como -qualquer d’elles... Dizia-se que envenenara um padre, com quem estivera -amancebada dois annos! O primo troquilha tanto não acreditava n’este -boato, que tinha sido a melhor testemunha de defeza da rapariga, o que -muito concorreu para a livrar da cadeia onde esteve oito mezes, por causa -d’este negocio!... - -—Já tu _bês_ que a conheço muito bem, e que até ella tamem póde _entrar -na cousa_—concluiu com pronuncia intelligente... - -Por isto o Rio Tinto mesmo é que fallou á Marianna, que teve alguma -difficuldade, alguns escrupulos em atraiçoar o seu amante. Mas elle e o -Fanfarra logo lhe rebateram todas essas asneiras dizendo: - -—Não sejas tola... Que tens a ganhar com isso!?... Elle deixa-te por ahi -qualquer dia e ficas a chupar no dedo!... - -Depois de batalharem algum tempo com ella, convenceram-n’a... Que -diabo!... O Fanfarra e o Rio Tinto, a final de contas tinham rasão. -Isto _de amigos_, quando menos se pensa, arrumam para o canto uma pobre -rapariga, como se faz aos sócos velhos que não prestam. Ella bem tinha -visto o que acontecera com _outras_... Homens... trazem ás vezes muitos -trabalhos. Aquelles oito mezes de cadeia, por causa da morte do padre -João de Pinho, tinham-lhe aberto muito os olhos. Estivera para ir por uma -barra fóra e, em boa verdade, sem ter tido grande culpa... O resalgar que -deitára na malga de caldo com que o padre tristemente se envenenára, não -era para o matar a elle, que até era um raio de home de quem gostava; mas -para dar cabo da Tonia Salgada, um pedaço de coira, por quem o _ladrão_ -andava baboso, esquecendo-a ingratamente a ella, que tanta borracheira -lhe aturara, durante dois annos! Não tinha peso nenhum na consciencia por -esta morte!... O ecclesiastico é que tinha pegado, por sua livre vontade, -na malga destinada á Tonia... Marianna teria ido degredada, se não -fosse seu primo, que jurou diante do senhor _demenistrador_, primeiro, -e, depois, diante do senhor juiz, na casa d’este e no dia da audiencia -«que na occasião da tal morte, a Marianna, estivera em casa d’elle a -sedar linho até de noite e lá comera e dormira». Tambem o podia jurar -sem receio; porque ninguem a tinha visto em todo esse dia, que passára -escondida no palheiro do padre... á espera. - -A Antonia Salgada já vivia de portas a dentro com _o seu amigo_, já lhe -fazia a comida, chegando ao desaforo e á pouca vergonha de jantarem á -mesma mesa, como dois casados!—distincção que a Ripa nunca recebera, -nem nos seus melhores dias, da parte d’aquelle excommungado, que devia, -por força, estar a arder no inferno! Marianna soube isto; porque os -espreitára. N’esse instante desesperado, veio-lhe uma impulsiva idéa -de vingança!—o coração deu-lhe um baque de justiça, um salto dentro do -peito, como quem diz «dá cabo d’aquelle diabo de lesma!...» Pelo muito -particular conhecimento que tinha da casa do ecclesiastico, sabia que, -embrulhado n’um papel azul, entre livros guardados n’uma caixa de pinho, -estava um pouco de veneno de ratos, que o sacerdote comprára na villa. -Entrou um dia lá na casa, quando todos estavam para o campo, e tirou -o papel azul... Depois estabeleceu o seu plano de desforra, que poz -em pratica d’esta maneira: Escondeu-se, uma manhã cedo, antes do dia -romper, no palheiro do padre João, que era paredes meias com a cosinha. -Levou um naco de brôa e uma racha de bacalhau; porque contava passar lá -o dia inteiro. Durante toda a manhã, divertiu-se, a observar a tronga -da Antonia, andando no preparo do jantar, para o que até matou a melhor -gallinha! Uma cousa assim!... era de morrer de riso! Se a quizessem -ver, como se rebolava por aquella cosinha! Parecia a dona da casa, -cantarolando o _bemdito_, as _modas do Coração de Maria_ ensinadas pelos -ultimos missionarios, e o _Afasta janota, arreda_... moda dos cegos -que tinham estado na ultima romaria do _Soccorro_. Ai que raiva se lhe -apoderou do coração! Não sabe como se conteve, que se lhe não atirou ali -mesmo ao gasganete, fazendo-lhe deitar uma lingua de palmo!... Por fim, -quando no relogio da igreja deram as onze, a bebeda tirou da caixa uma -toalha lavada, estendeu-a na mesa, sempre cantando com voz esganiçada. -Depois encheu duas malgas de caldo, poz a gallinha e o presunto n’uma -torteira de barro e saíu para chamar _senhor padre João_ o seu—rico -senhor padre João!—que andava na horta, a regar... - -Foi durante os minutos d’esta ausencia que Marianna saíu do seu -esconderijo e deitou todo a resalgar na malga que presumia ser a da sua -rival! Pouco depois chegou o sacerdote, de tamancos, correndo atraz -da moça pela cosinha dentro, com muito estrondo! Ella, a delambida, a -fingir que fugia cheia de medo!... Seguiu-se um momento soturno, em que -gosou, no meio de uma angustia ciumenta, a sua proxima, cruel e decisiva -vingança! Pois aquelle alma de damnado, ali mesmo nas suas barbas, não -se vae pôr a andar atraz da moça, não a agarra pela cintura, dando-lhe -beijos e abraços, não atira com ella ao chão, com relinchos de cavallo! -N’este momento, Marianna, achou mais repugnante o padre do que a tronga! -Emquanto durou esta expansibilidade animal do ecclesiastico, ella soffreu -os finos acicates do ciume, morderam-n’a até ás entranhas. Sentia-se -espoliada n’um beneficio que lhe pertencia! Em vez de ser a ella que o -malvado dava todas aquellas provas de amor, via-se reduzida a espreitar -por uma frincha da porta e a presenciar enertemente tudo aquillo, Santo -Nome de Maria! Teve tentações de entrar na cosinha, pegar n’um machado -que estava ao pé da lareira e dar com elle na cabeça de ambos! Um -ladrão e uma desvergonhada d’aquellas! A Ripa sentia-se com animo de -os abrir, a um e a outro, e de lhes trincar o coração!... Mas uma voz -interior de contentamento e de saciedade, apregoava-lhe o seu proximo -triumpho e aconselhava-a a conservar-se escondida, como estava!... -Aquella molengona, que lhe roubava a felicidade, dentro em pouco sentiria -horriveis dôres nas entranhas e havia de estorcer-se n’aquelle chão -terreo da cosinha, como um demonio escorraçado pela agua benta!... - -Depois, o padre e Antonia, foram para a mesa e o maldito troca de -proposito as malgas só para dar a melhor,—a de pó de pedra, a que era -d’elle e que nem ás visitas offerecia!—á lambisgoia, que a acceitou toda -derretida! N’este momento caíu-lhe a alma aos pés! Teve um movimento -expontaneo de amor, de generosidade ou de compaixão, e chegou a pôr a -mão na caravelha, para lhe ir arrancar da mão o veneno! Todo o seu corpo -estremeceu, desde as unhas dos pés até á raiz dos cabellos, quando o -padre João disse para a Antonia com ar interrogativo e saboreando o caldo -com estalidos gulosos de lingua. - -—Ó moça, tu deitaste assucar no caldo!... - -Ao que ella respondeu, toda chieira: - -—É porque ó senhor, parece-lhe dôce tudo que eu façe. - -Marianna perdeu parte da consciencia e da vontade, ficando aniquilada, -entorpecida, desorientada, entre a idéa feroz de uma vingança justa e -o remorso, ou receio, de um crime que seria descoberto e punido! Não -teve resolução, nem desembaraço para nada! O ecclesiastico bebeu a -malga quasi de uma assentada, depois de ter comido a gallinha, com duas -enfusas de vinho rascante. A Ripa deixou-se caír desfallecida no chão -terreo! O sacerdote, acabado o jantar, saíu para ir levar _o Senhor_ a -uma moribunda. A amasia, tambem foi acompanhar Nosso Pae!... Ficou ella, -só, dentro d’aquella casa, entregue ao proprio cerebro! Um silencio -tenebroso cercou-a n’este terrivel momento!... N’uma especie de spasmo e -de embrutecimento cheio de medo, foi-se metter debaixo da palha, tapando -os ouvidos para nada escutar! - -Que medonhas horas ali passou, sob a impressão accusadora de todos os -factos que n’esse dia a interessaram. Horas depois, d’ali mesmo, ella -ouviu o alarido da freguezia, correndo em gritos a casa do ecclesiastico, -quando, quatro homens de béca, o traziam pelos caminhos n’uma padiola, -com a batina e o roquete todo rasgado! Tinha tido os primeiros engulhos -do envenenamento, quando ministrava á moribunda a Extrema Uncção, cercado -do respeito submisso dos fieis ajoelhados em volta! Depois, principiou a -sentir-se mais afflicto, sentou-se sobre uma caixa com os santos oleos -na mão, e, como as afflicções cresciam assustadoramente, suspendeu -com intelligencia a applicação do sacramento! Nem escalda-pés, nem -mesinhas receitadas pelo cirurgião Manco, poderam produzir o beneficio -desejado e, mesmo assim vestido sacerdotalmente, os homens que tinham -acompanhado o _Santissimo_ o trouxeram n’uma padiola para casa e o -poseram, sobre a cama, já sem falla! Os soluços, as ancias, os vomitos, -os gritos de dor que elle ainda teve, até ao momento de morrer, eram uma -eterna condemnação, para a negra alma peccadora de Marianna Ripa, que -os ouvia, escondida debaixo da palha! Se tivesse comsigo uma navalha, -durante aquelles instantes infernaes, tinha-a enterrado bem funda no -proprio coração, para se punir! Tamanho era o seu arrependimento e a -sua contricção, n’este momento unico, que desejou morrer ali mesmo de -uma morte repentina, bem medonha e horrenda! Mas depois, alta noite, -desapavorou-se mais, escutando as conversas vulgares do sachristão com -os outros homens, que ficaram a vigiar o morto e conversavam, riam e -escarravam alto, já muito bebados! Então saltou para os campos pelo -postigo do palheiro e fugiu, indo refugiar-se em casa do Rio Tinto, a -quem contou tudo, para se accusar. O primo serenou-a dizendo-lhe: - -—Mas elles não te viram, não, rapariga? - -—Não viram. Ninguem sabe que fui eu—respondeu soffocada. - -—Então bem, não tenhas medo. - -Mas a justiça sempre a prendeu, por simples desconfianças, fundadas em -que foi encontrado no chão da cosinha do padre, um tamanco que lhe -pertencia. Porém, como fôra creada na casa, facil foi explicar este -achado... O Rio Tinto, com o seu sangue frio é que a livrou da justiça, -jurando a pé junto, como um cavallo, que Marianna Ripa estivera todo o -dia em casa d’elle a sedar linho! Nunca poderia esquecer este grande -serviço que o primo lhe fizera! Sentia-se-lhe presa pela gratidão, -e quando elle lhe pediu para não ir com o Fogueira prometteu-lh’o, -promptificando-se ao mesmo tempo a saber ao certo o caminho que o -troquilha seguiria de Vianna para casa. Mas ainda assim, deve dizer-se: -impoz como condição, pediu muito ao Fanfarra e ao Rio Tinto, que o -não matassem, que não fizessem mal ao rapaz. Disculpava-o: era um -estouvado, um espanta lobos por acaso, mas tinha um bom coração—rapaz -de franquezas, nada era d’elle, tudo dava! O Rio Tinto serenou-a: não o -queria matar—sómente desejavam alivial-o da chelpa que lhe havia de fazer -peso no cinto. Para que queria elle, um rapaz solteiro e sem filhos, -tanto dinheiro, como o que lhe dera a mãe, da venda dos campos, e como -o que lhes ganhára ao _monte_?! De mais a mais era um burro tão feliz, -que até arranjára o _sustituto p’rá tropa_, por quinze moedas, quando, -todo mundo, gente mais pobre, tinha dado vinte. É bem certo dizer-se que -a agua corre sempre para o mar e que, quando se é feliz, é-se feliz a -valer! Aquillo estava mesmo a pedir uma alma de Deus que lhe tirasse a -_chelpa_!... - -A rapariga concordou. Receberia tanto como elles, pelos esclarecimentos -que obtivesse. Porém, insistiu, ainda uma vez, com afinco e honestidade, -em que não o matariam, em que o haviam de deixar ir em paz, depois de -lhe tirarem _o que levasse no cinto_!... O Fanfarra, porém com um rosto -ingenuo e sério, observou: - -—Isso lá, tamem... que não tire elle pela gente!... Quando lhe pedirem -_o milho_ que o ponha e que não bufe... Se assim quizer que vá com -seiscentos diabos, que ninguem lhe quer a pelle para tambor. - -O Rio Tinto observou sensatamente: - -—Ah! elle vendo que são dois resolvidos, não se ha de ir pôr com -_aquellas_... Olhem que isto de estar assim de noite, no meio de -um caminho só, onde nem todos os santos lhe podem valer se quizer -pimponices... faz respeito. - -E convieram em que, se elle se quizesse fazer fino, lhe iriam aos -untos, sem mais _aquellanças_. O melhor era elle deixar-se de asneiras; -porque lhe tinham uma sêde... lá do fundo. O Rio Tinto confessou ao -Fanfarra, quando não estava presente a Marianna Ripa, que com o Fogueira -ainda desejava ajustar _umas contas velhas_ e que talvez fosse esta a -occasião... E com um sorriso medonho, de copo em punho, observou: - -—Isso lá, se não dá os sobranos depressa, leva uma tapona real. - -—Melamos-lhe aquelle coiro!—acrescentou o outro com intimativa. - -Chegaram a combinar mais detalhadamente no modo como procederiam. Não -ignoravam que o Fogueira era têso, mas tambem não lhe tinham medo. Eram -dois. Bem armados, com as choupas dos seus páus argolados e com navalhas -de ponta e mola, que sempre usaram trazer no bolso interior da jaqueta -de briche, julgavam-se temiveis. No entanto, para não serem conhecidos, -cobririam as caras barbadas com lenços esboracados no sitio dos olhos e -da bôca e fallariam na voz tôrva dos salteadores das lendas! O caminho, -depois dos esclarecimentos da Ripa, era mesmo a calhar, e o Rio Tinto -conhecia-o perfeitamente. Por isso elle mesmo é que determinou o sitio -em que poderiam esperar o Fogueira. Era uma encruzilhada, onde havia uns -carvalhos que, nas noites sem luar, tinham o volume incomensuravel das -sombras phantasticas e pavorosas! O amante da Marianna passaria ali pela -meia noite, pouco menos... A escuridade, o sitio e a hora, concorriam -para o effeito d’esta scena de romance theatral. Só faltava a capa, o -_sombréro_ e o bacamarte para ser um quadro de Goya!... - -Os salteadores ensaiavam-se com antecedencia: sairiam de repente de entre -os velhos troncos nodosos e, mandando fazer alto, diriam imponentemente -com voz soturna: «Seu amigo, ponha ahi o que leva!» Se o desse por bem -e logo, deixavam-n’o com os demonios; se quizesse fanfar tirar-lhe-íam -o dinheiro á força e moer-lhe-íam o canastro. Disse-o claramente o Rio -Tinto com o seu rancor de mau homem: - -—Se bufa paga-mas todas juntas. Á gana que lhe tenho, ponho-o molle como -uma bosteira de gado! O bocado maior, não se ha de ver! - - -VII - -O Antonio Fogueira saíu, ao escurecer, de Vianna, com idéa de chegar, -na manhã seguinte, á sua freguezia, fazendo, assim, todo o caminho de -noite. Não havia luar e as estrellas, quasi tão vivas como nas limpidas -noites de inverno, diffundiam na amplidão luz sufficiente para, a -pequena distancia, se poder apreciar o vulto das pessoas, a grandeza das -arvores e dos penedos proximos. Quando elle saíu de Vianna, com muita -gente conhecida, dispediu-se da Marianna Ripa até á proxima feira dos -nove. Pelo caminho, os seus companheiros, foram dirivando para outros -destinos e, quando era pela volta da meia noite, o Fogueira caminhava só, -destacando-se, no silencio ambiente, como uma côr viva se destaca n’um -fundo escuro, o saliente resfolgar da sua egua, que trotava n’um passo -moderado e cadente, batendo com as ferraduras nas pedras avulsas do -caminho. A estrada que seguia era estreita, orlada de arvores copadas, -o que augmentava a escuridão... O Fogueira, apesar de não ser medroso, -sentia, em volta de si, um certo vasio que lhe dava uma sensação de -desamparo... de abandono!... Inconscientemente principiou a pensar n’um -mau encontro, a lembrar-se que lhe podiam vir ao caminho alguns ladrões, -se por acaso soubessem que o seu cinto ía tão bem recheado de soberanos! -Quando se surprehendeu dominado por estas idéas extravagantes, sorriu -incredulamente... Bem sabia não haver por ali ladrões, e que sómente, -uma ou outra vez, se roubava uma poçada de agua, para valer a algum -campo de milho, que se mirrava de secura. Mas dado mesmo o caso que lhe -apparecesse um ou dois ladrões!? Não era elle um dos melhores jogadores -de pau das feiras minhotas?! O seu lodam não tinha uma choupa de romper -um peito?! A sua egua não era bastante impetuosa, para abrir caminho -por entre um regimento de soldados, e bastante fugideira, para não ser -pilhada pelo melhor cavallo a toda-a-brida?!... Porém, como lhe veio esta -idéa esquisita de se lembrar de ladrões?! Como diabo lhe deu a caturrice -para ali?! Não sabia, mas a verdade é que lhe desagradou o encontrar-se a -pensar em _taes amigos_, quando era certo, que tinha o cinto atulhado de -dinheiro... No momento em que elle se sorria destas asneiras, chegava a -um pequeno largo, onde havia uns carvalhos antigos, cuja ramagem copada -lhe deu facilmente uma impressão amedrontadora, como a de uma igreja, ou -de um cemiterio que, n’uma estrada rural, se encontra desprevenidamente! -O silencio aqui era simplesmente interrompido pelo som metallico de uma -pequena fonte, que pingava junto de um muro. O Fogueira sentiu-se n’este -momento mais isolado, e, talvez, em virtude da impressão desagradavel que -este sentimento de desamparo lhe causou, attendeu com mais intelligencia -a tudo que o cercava. Um tremor incaracteristico, mas energico, -irradiou-lhe em todo o corpo; porque dois homens, dando largas passadas -de tragedia, de paus argolados levantados ao ar, se lhe opposeram com -arrogancia, dizendo com voz soturna: - -—Faça lá alto, ó seu amigo! - -A egua susteve-se logo, desconfiada, com um olhar inquieto, a cabeça -levantada, as orelhas espertas! O Fogueira estremeceu involuntariamente, -um formigueiro rabiou-lhe ao longo da espinha, ficando n’uma especie -de spasmo, depois de ouvir aquella voz rouca, avinhada, uma voz de -timbre seu conhecido, mas que, n’este momento, não podia dizer de quem -era... Toda esta scena rapida e inesperada, deu-lhe uma idéa pavorosa -de cousa sinistra, da intervenção do demonio nos successos da sua -vida, de acontecimento só explicavel em historias de bruxas!... Porém, -recuperando a serenidade, reconheceu que eram realmente dois homens -mascarados, que se lhe oppunham no caminho e que deveria por força ser, -para o roubarem... Seguindo o proprio instincto, tirou o seu pau ferrado -de entre a perna e o albardão, levantou-o para elles com arrogancia e -dizendo «qual alto, nem meio alto!» esporeou energicamente a egua, -para romper com velocidade por entre os dois mascarados. O animal, que -era fino e sensivel, deu um corcovo, indo esbarrar-se contra uma corda -que estava intensionalmente atravessada no caminho e, o Fogueira, ficou -desmontado; mas com tanta felicidade que, quando os aggressores íam a -caír sobre elle, encontraram-n’o de pé, fazendo-lhes face, com o páu em -guarda, emquanto que, a distancia, se ouviam as ferraduras da sua egua -batendo nas lages da calçada. - -Este momento de silencio foi tenebroso! Havia dois homens contra um, na -escuridade indicisa de um caminho orlado de arvores, que se definiam no -ar com os seus enfolhamentos volumosos e espessos! O Fogueira esperava um -ataque simultaneo da parte dos salteadores, e já calculava defender-se, -de costas contra o muro, sustentando-se assim até poder _bimbar_ o -primeiro, para depois se encontrar com o segundo que accommetteria com -força. Mas um dos mascarados, baixando o páu com desdem, disse n’uma voz -trocista de compaixão, para lhe mostrar que o tinha comprehendido: - -—Home, não te faças fino, que te enganas. Deita ahi a marmelada que levas -no cinto e vae-te c’os demonios, se não póde-te saír a cousa torta! - -Esta intimação ironica e despresadora offendeu, mais do que tudo, o -Fogueira, insufflando-lhe uma energia raivosa contra os dois aggressores. -Não o conheceriam elles?! Não saberiam que era o melhor jogador do pau -das feiras minhotas?!—disse comsigo este sanguineo estouvado! Pois -estavam em momento de o experimentarem!—pensou n’um silencio rancoroso -e indomavel. E logo depois, n’um impeto leonino e sem tatica, cresceu -aggressivamente para ambos, tomado de um frenesi tão diabolico, que os -fez recuar alguns passos n’este primeiro ataque. O Rio Tinto disse-lhe -com uma voz já menos disfarçada, aparando-lhe as pauladas: - -—Ah! queres á valentona?!... Vamos então lá a ver!... - -Houve um instante de hesitação, um momento instinctivo de pausa, em -que de parte a parte se pensou rapidamente em accommetter com a maior -energia. O Fogueira era bastante conhecido, como jogador temivel. O Rio -Tinto e o Fanfarra sabiam-n’o melhor do que ninguem; porque muitas vezes -se tinham encontrado emparceirados em desordens e, talvez n’este momento, -se lembrassem que, um d’elles, devia á presteza e generosidade d’este -valente rapaz, não ter ficado morto _no S. Sebastião de Villa Nova_!... -Porém, apesar d’isto, no momento actual, elles eram dois contra um! A -enorme sêde de vingança, e a natural maldade e valentia incontestada dos -dois salteadores, davam-lhes reconhecidas vantagens. O Fogueira, ainda -que fóra de si, já tinha conhecido _pela guarda_ dos adversarios que -elles _sabiam do negocio_:—reconheceu que eram _jogadores_. Mas o seu -natural impetuoso e imprevidente levou-o a saír da defeza, com o fim de -os atacar, e com a idéa de fazer a um d’elles, a sua _finta_ predilecta á -bôcado estomago; empregando, ainda assim, _muito olho_ para não perder a -protecção do muro, que lhe guardava as costas. Na soturnidade da noite, -profunda e cava, por entre os espessos troncos de carvalhos folhosos, -no meio do silencio imponente das montanhas visinhas que se levantavam -na amplidão, ouviam-se os estalidos seccos e breves dos paus, batendo -uns nos outros, por entre as respirações de cançaço cortadas de palavras -injuriosas e cheias do rancor dos combatentes! No escuro, a que elles já -tinham habituado os olhos, os seus corpos furtavam-se habilmente _aos -golpes_, saltando de lado para lado, sempre n’uma incerteza de posição! O -Fogueira, como era só, precisava empregar maior esforço e tal raiva que, -no fim de cinco minutos, fez saltar o pau do Rio Tinto, para lhe atirar -a pontuada ao estomago! Este porém, como lhe conhecia bem o jogo, deu um -largo salto de recuo e, em vez de ir buscar outra vez a sua arma, metteu -rapidamente a mão ao bolso interior da vestia, tirando a sua comprida -navalha que abriu de prompto e disse na voz natural: - -—Agora ha de ser com esta. Ataca com força rapaz!—gritou ao companheiro. - -Principiou um d’esses momentos terrivelmente sinistros, em que entre -dois homens se estabelece esta negra idéa—de se matarem um ao outro! O -Fogueira conheceu immediatamente o perigo, quando viu faiscar a lamina -da navalha, que mesmo á luz tibia das estrellas brilhára aos seus olhos, -como um relampago! N’esta lucta obscura, que se passava no silencio -de uma noite de primavera e na tranquillidade de um caminho rural, -havia muita ferocidade condensada! O Antonio Fogueira tinha, até ali, -sustentado os ataques dos adversarios; mas, agora, para se furtar á -navalha de um assassino, só o poderia conseguir inutilisando o Fanfarra, -que o ensarilhava de cada vez mais, fazendo-lhe um jogo de mil demonios! -Por isso, com a ligeireza de um cabrito montez, saltava para a direita, -para a esquerda, para a frente, para traz... evitando os dois inimigos -que o procuravam com pertinacia... com furia! O Rio Tinto praguejava, -ameaçava-o com voz rouca... quasi natural... O Fogueira tel-o-ía -conhecido em outras circumstancias; mas, em momento tão apertado, -nem reflexão tinha para isso... As forças eram desiguaes... o filho -da Engracia enfraquecia-se visivelmente, e a elle, que era corajoso, -veio-lhe a idéa de um soccorro providencial... Sentia-se já extenuado e -aggredido de cada vez com mais tenecidade, com mais rancor, com maior -impeto! Aquelle que o procurava por todos os modos, para o anavalhar, -pronunciou com voz clara, já sem pretensões de disfarce: - -—Agora Fanfarra, deixa-me c’o elle!... - -E logo em seguida, o Fogueira, sentiu-se abraçado pelo seu inimigo, a -quem desmascarou no instante em que a comprida navalha lhe entrava no -coração, rasgando-lh’o com tal força, que só teve tempo de dizer n’um -suspiro final: - -—Ah! ladrão de Rio Tinto, que me matastes! - -Foi este o ultimo grito de angustia e as ultimas palavras que -proferiu!... O seu corpo deixou-se caír no chão, desfallecido, com os -braços pendentes e o sangue a golfar-lhe pela ferida e pela bôca! Ainda -teve alguns movimentos convulsivos, acompanhados de um rouco respirar -stertoroso, com borbulhões de espuma sanguinea pelo nariz! A sua energia -ainda manifestou um instante de louca rehabilitação, pertendendo, -aquelle corpo moribundo, levantar-se sobre os joelhos! Mas a final caíu -brutamente, ficando exanime, insensivel, de bruços sobre a terra!... - - * * * * * - -O Rio Tinto e o Fanfarra conservaram-se, durante um longo minuto, -a olhar para o cadaver, silenciosos, estupidos, n’uma impotencia -inexplicavel, quasi sem poderem fugir! Sentiam-se agora mais covardes, -mais irresolutos, depois de consummado o crime! Não tendo uma precisa -comprehensão das circumstancias, esperavam, um tanto passivamente, -qualquer castigo que viria do alto, de uma implacavel região de justiça, -para os punir!... Alguem que, por casualidade, os tivesse visto, poderia -aproximar-se sem que elles se escondessem; pois que, durante este minuto -sinistro, conservavam-se sisudos, calados, a olhar um para o outro, -com os braços pendentes!... Mas, logo depois, o Rio Tinto, que era -mais preverso e malvado, recuperando com certa promptidão a sua podre -consciencia, disse, em voz insultante, para o cadaver: - -—Ora ahi tens!... É assim que se ensinam os pimpões!... - -E permanecendo algum tempo com o ouvido á escuta, para que alguem se -não aproximasse inesperadamente, observou em seguida ao Fanfarra que, -dominado por um terror supersticioso, escutava o som metallico da agua da -fonte: - -—Não tenhas medo... Não é ninguem... É ali a pingar... - -Porém, como o Fanfarra, ainda se conservava n’esta insensibilidade -estupida e incomprehensivel, o Rio Tinto dispertou-o dizendo-lhe, com um -acêno imperativo de cabeça: - -—Então?! - -O outro troquilha encolheu os hombros, com certo desleixo, indicando que -fizesse elle o que quizesse, que estava prompto para tudo... O assassino -do Fogueira, dando movimentos desengonçados ao tronco e á cabeça, -proferiu com certa ironia feroz e temivel, condemnando aquelle estado de -arrependimento: - -—Ora põe-te com _aquellas_. Talvez ainda lhe tenhas medo. Olha que já se -não mexe...—concluiu impellindo o cadaver com um pontapé. - -E, logo, curvando-se sobre o corpo ainda quente, desafivelou-lhe o cinto -que suspendeu no ar, tilintando escarnecedoramente com o dinheiro, e -rematou n’uma voz de contentamento miseravel: - -—Ouvel-os? Cá cantam?! Fazem um certo arranjo. - -O sangue ensopava a terra, jorrando em borbotões ruidosos pela bôca do -cadaver e pela ferida! O Rio Tinto, tendo guardado o roubo, observou com -modo mais familiar, pondo a mão no hombro do companheiro, que permanecia -na mesma apparente insensibilidade: - -—Agora... pernas para que vos queremos. Toca a andar, que póde vir por -ahi algum patrão!... - - * * * * * - -Retrocederam pelo mesmo caminho, primeiro n’um passo rapido, depois a -fugir, o Fanfarra atraz do Rio Tinto. Tomaram á esquerda, por um atalho -pouco frequentado, que os devia levar, atravez de uns montes, a outra -estrada... - -O Fanfarra, quando já estava mais seguro de si, parou subitamente, para -considerar: - -—Olha lá... Ficaria elle bem morto?! - -O Rio Tinto certificou-lh’o do seguinte modo: - -—Deus te dê mais vida do que elle tem! - -Mas o Fanfarra, visivelmente preoccupado com esta idéa, como estavam -muito perto disse: - -—Home... ainda é escuro... Voltemos a espreitar se elle se mexe! - -E voltaram n’um passo rapido, melhor seguros de si, com a alma mais -desanuviada e perversa. Ficaram a pequena distancia, de traz do muro, -escutando... O silencio prolongava-se preguiçosamente na profundidade -do valle. Sómente o pingar monotono da fonte proxima perturbava este -alvorecer indiciso, que os passaros já principiavam a alegrar. Os -assassinos, para se certificarem positivamente da morte do Fogueira, -e como a escuridade ainda os protegia, saíram do logar onde se tinham -prudentemente escondido e aproximaram-se do cadaver, com certa ousadia e -confiança. O corpo continuava a jazer exanime, de bruços sobre a terra! -Não tinha o menor signal de vida—nem sequer perturbava o silencio da -noite, com a respiração tenue do moribundo! - -O Rio Tinto, empurrando outra vez o cadaver despresivelmente com o pé, -pronunciou com um sorriso cynico: - -—Estás bem morto! Pagastel-as todas. Já não comes mais brôa. - -O Fanfarra, que era menos animoso, observou-lhe com certo modo urgente: - -—Home, deixa-o lá, coitado! Fujamos nós, que já se vae vendo!... Pode vir -por ahi algum demonio... - -O Rio Tinto concluiu com uma intonação trocista: - -—Aposto que tens pena d’elle!... Ou é medo?!... Não tenhas medo; nem -elle, nem os que podem vir te prendem. Se algum pimpão ahi apparecesse -agora, fazia-se-lhe o mesmo e eram dois que ficavam estendidos. - -Depois afastaram-se do cadaver e do caminho que tinham trazido de Vianna, -por atalhos seus conhecidos. D’ali a poucos minutos, transpunham o cabeço -sobranceiro á estrada. O Rio Tinto concluiu com serenidade: - -—Agora é que é bom dar á perna, que _ella_ vae-se mostrando... - - * * * * * - -Referiam-se á manhã que rompia, com uma claridade roxa. Era o alvorocer -de um formoso dia de sol. As cumiadas dos montes circumvisinhos -ainda se esfumavam indicisamente no azul; porém, o tremulusir das -estrellas que fôra, durante a noite, vivo e inconstante, como o dos -brilhantes nos bailes da opulencia mundana, principiava a extinguir-se. -O ar sadio e oxigenado dos campos, dava ao corpo dos madrugadores a -sensação macia de uma ligeira humidade refrigerante. Dos pinheiraes e -das mattas de carvalhos, já saíam os gaios ralhadores, com o seu vôo -largo, annunciando, por cima das penedias, o dia que chegava. Os braços -enfolhados das arvores nascidas nas eminencias, recortavam-se no céu, -tenuemente anillado, manchando-lhe a pureza. A modo que o dia se ía -illuminando melhor, as arvores e as massas de penedos destacavam-se, com -mais precisão. Da côr roxa primitiva, o céu, foi insensivelmente passando -para a côr de rosa, depois para o azul plumbeo, por fim colorindo-se todo -por igual, quando as estrellas já se não percebiam, adquiriu o verdadeiro -tom de azul ferrete, uma côr humida e energica, propria das manhãs de -primavera no clima do Minho. O nevoeiro tenue, como um gaze lançado sobre -os montes e os campos, foi se pouco a pouco condensando no fundo do -valle. A vida laboriosa dos trabalhadores ía manifestar-se nos caminhos -e nas encostas. Seria um dia alegre como todos os dias,—os milhos -continuariam a crescer, e as poucas cearas de centeio pintar-se-iam com -o amarello da ganga... Porém, n’este pequeno largo plantado de velhos -carvalhos annosos e onde uma pobre veia de agua pingava continuadamente, -estava disposta uma surpreza desagradavel, para o primeiro madrugador da -aldeia. Era o cadaver de um rapaz de vinte e tantos annos, assassinado -com uma facada, que lhe entrára no coração! O seu corpo estava de bruços, -no supremo abandono da morte! O sangue saído da ferida, molhava a terra -e manchava-lhe a cara. E, a vivificante luz da manhã, o orvalho que -refrigéra, as côres da paizagem que enebriam pela complexidade de tons... -essa força omnipotente que vem da natureza, pairava sobre o morto, com um -scepticismo ironico e dominador!... - - - - -A MORTE NEGRA - -A ALEXANDRE DA CONCEIÇÃO - - - - -A MORTE NEGRA - - -O terceiro marido de Isabel morreu de uma prolongada _queixa de peito_. -A viuva, que era uma rapariga de vinte e seis annos—saudavel, tentadora, -appetitosa—de uma forte carnação campesina, com a intensa vitalidade -das naturezas creadas em liberdade, poderia definhar-se em virtude de -tão successivas desillusões! Porque ella, que passára os ultimos tempos -em despezas de casamentos e de enterros, estremecendo com afinco e -tenacidade, cada marido recente, tinha de o prantear logo depois, com -um tal apparato de palavras inconsolaveis, que sensibilisava todas as -pessoas que a ouviam, obrigando-as a tomar parte na sua enorme dôr! - -Quando acabou de expirar este ultimo, o José Chibante, Isabel principiou -a choral-o, com um desespero tão desgrenhado, que até a propria -natureza austera e muda—as altas arvores, os altos montes e os negros -penedos—pareciam compungidos! - -Estava-se na primavera, mas durante muitos dias caíra um aguaceiro -copioso e subtil, que dava, ao socego das cousas naturaes, um caracter -funerario e lugubre! As densas paizagens, envolvidas d’um nevoeiro -espesso, não se viam cortadas, ao longe, pelas alegres claridades das -habitações. A linha irregular do horisonte não se riscava no azul das -tardes serenas e desejadas. O grosso volume das penedias occultava-se nas -densas nuvens, que se rasgavam, transpondo montes, transpondo valles, -correndo sempre, com uma impassibilidade gigantesca, como de valentes -cavallos de posta. - -Ora Isabel, viuva pela terceira vez, sentira durante a noite o som -ululante do trovão, e presenciara os ultimos momentos angustiosos de -seu marido agonisante, encostado ao catre da cama!... Ella, que era uma -rapariga forte e com as seducções da belleza e da juventude, sentia-se -aniquilada! Exprimia-o com gritos angustiosos, com gestos vehementes, com -palavras de desespero, de amor, de saudade!... As suas boas lagrimas, -abundantes, sinceras e quentes, tinham attraído, logo de manhã, a -caridade de algumas visinhas, que lhe trouxeram as melhores consolações, -excellentes palavras, attenções urgentes... n’aquelle momento doloroso. -Eram amigas e companheiras nos trabalhos ordinarios da lavoura, e que -tinham igualmente assistido, ao caminhar implacavel da _consumpção_, -em que haviam morrido os outros dois maridos de Isabel!... Por isso -conheciam muito bem o que se passava, e, quando ouviram os primeiros -gritos alarmantes, fecharam as portas, e pelo caminho para casa da viuva, -consideravam cheias de tristeza: - -—Então sempre se foi o Chibante?... - -—Parece que sim, mulher! Ha pouco mais de um anno que se casaram! Quem o -havia de dizer... um rapagão como um castello!... - -Uma disse com um modo indagador: - -—Eu não sei o que isto é... mas tanto elle como os outros, passante o -primeiro mez de viverem com ella, logo arranjaram taes caras de bruxaria -que mettiam medo!... - -Lindoria, com aspecto compadecido, teve esta opinião: - -—Olhae que eu _tamem_ tenho pena da rapariga! Digam o que disserem, ha de -lhe custar... Tão nova, e já com tres mortes... - -—Ora!...—duvidou uma terceira, encolhendo os hombros. A culpa de quem -é?!.. É minha?! - -Lindoria, que andava sempre por casa de Isabel, interferiu para não -deixar concluir: - -—Deixae-vos de asneiras... Eu bem sei o que lhe vae lá pelo coração. Ella -é uma apegada aos homens!... - -—Pois sim—disse uma das companheiras; mas isso é o que não devia ser!... - -E caminhando juntas, uma rematou esta conversa dizendo com naturalidade: - -—Isto assim não tem geito. Isabel não deve casar mais vez nenhuma. - -Entraram na casa da viuva do Chibante, que estava sentada na lareira, -com a cabeça energicamente apertada entre as mãos, chorando com desespero. - -As suas amigas, para a socegarem, disseram-lhe com os olhos enxutos -«que não se affligisse mais, que aquillo foi vontade do Senhor que tudo -manda». E acrescentavam com fé e confiança na Infinita Misericordia: - -—Olha que elle ha de estar em bom logar!... - -—Deus vos ouça, Deus vos ouça... Ao menos que Nossa Senhora o tenha no -reino dos céus!...—repetia muitas vezes Isabel. - -As outras certificavam-lhe: - -—Ha de ter, ha de, rapariga. Ao que elle penou n’este mundo... - -—Não que eu lhe desse má vida! Como vós sabeis trazia-o sempre nas -palminhas!... - -Lindoria concluiu, sorvendo uma pitada: - -—Aquem tu o vens dizer, mulher! Era um Santo Antoninho onde te porei. - - * * * * * - -Depois de conversarem algum tempo familiarmente, foram á cama ver o -defunto! Estava escondido por um lençol; mas ellas descobriram-n’o -com certa naturalidade, talvez mesmo com irreverencia... Viram-n’o -bem, miraram-n’o por todos os lados: o José Chibante, já composto, de -costas sobre a cama, tinha os punhos atados sobre o peito, e um lenço -_amarrando-lhe_ as maxillas, para se conservarem n’uma posição decente. -Essa alvura do panno que lhe enquadrava o rosto augmentava-lhe a lividez; -as palpebras, cuidadosamente cerradas e presas por um pingo de cêra, -accentuavam o ar sereno e grave do cadaver, que todas viam n’uma posição -reflectida, com as pernas estendidas e os pés levantados no fundo da cama. - -—Eu não sei como pódes fazer isto... Eu cá se me morresse o _home_ é que -o não vestia—disse uma para a Isabel. - -Ella respondeu com voz commum, interrompendo momentaneamente o chôro: - -—Pois então?! Ninguem faz estas cousas melhor que a gente. Nós é que -sabemos, como elles gostavam de se arranjar... - -Porque a camisa de altos collarinhos lavados e as calças de panno azul, -tinham sido vestidas ao marido, por sua propria mulher, que lhe quiz -fazer este ultimo asseio, o asseio da eternidade! O defunto estava quasi -prompto, para a sua festa de enterro. Uma das amigas de Isabel exclamou -sinceramente: - -—Mas vae bonito e asseiado! Olha que te parece mesme vivo!... - -Ella esclareceu, com a sua voz usual, limpando as ultimas lagrimas: - -—Leva para a cova a roupa da bôda. Já aos outros dois homes, que Deus -Nosso Senhor teve na Sua Divina Vontade tirar-me, fiz o mesmo. Tenho -muita _aquella_ em que elles vão sempre para o outro mundo como uns -cravos! - -E concluiu, dizendo que o seu José seria vestido de _terceiro_, porque -era _irmão d’esta ordem_, e ficava-lhe muito bem o habito, com a sua côr -parda e o cordão novo em volta da cintura, caíndo-lhe as borlas sobre -os pés... Lembrava-se muito bem, de quando elle caminhava na ultima -procissão de Passos, alinhado cuidadosamente com os outros companheiros, -levando uma tocha na mão, muito sério, já com a sua cara magra e doente, -amparada nos altos collarinhos da camisa, que agora lhe vestira para o -enterro. E, indo á caixa grande buscar o _habito de terceiro_, estendeu-o -para o verem bem, e disse que o defunto estimava muito aquelle rico -traste, que quando era vivo, muitas vezes dissera, ter desejos de o levar -para a cova. Por isso Isabel rematou com intimativa: - -—Ha de ir á vontade d’elle. Quero-lh’a fazer até á ultima, porque elle -tambem sempre foi muito bô para mim. - -—Fazes tu muito bem—incitavam fortemente as companheiras. A gente, quando -o seu home é bô, deve-lhe sempre andar ao geito. - - * * * * * - -Uma das amigas da mulher do Chibante foi procurar o Coruja para vir -arranjar o habito ao defunto, por que a viuva, attendendo a que sempre -era uma cousa benzida, n’esse particular mantinha os seus escrupulos... -O coveiro chegou resmungando, e disse palavras desgostosas e insolentes, -quando viu o morto quasi prompto. Depois, assobiando canto-chão, e -bebendo de uma infuza de vinho, acabou de o arranjar ageitando-o dentro -do esquife cuidadosamente, com esmero, compondo-lhe o lençol _rebicado_, -e endireitando-lhe a cabeça n’uma posição natural. Logo que isto foi -concluido, Isabel e as suas amigas, principiaram a gritar mais alto, com -um chôro ganido e espantado, andando em volta do esquife!... O vesgo e -cambado Coruja, com os seus arremessos grutescos e irregulares, depois de -se ter rido ás gargalhadas, disse de um modo brusco e malcreado, fazendo -carantonhas, com a lingua de fóra: - -—Por um olho azeite, por outro vinagre, minha corja de mandrongas!... -Quem vos não conhecer que vos compre! - -E, referindo-se especialmente a Isabel, acrescentou: - -—Já trazes outro de olho?... - -As mulheres, offendidas, responderam indignadamente: - -—Cala-te, bebedo!... - -—Olhem o grandissimo borracho!—acrescentou com accento desprezivel a -beata Lindoria. - -Depois, como o chôro de Isabel se continuava de um modo intenso, e, as -suas amigas, pelo que tinham visto das outras vezes, sabiam que lhe fazia -mal, produzindo-lhe ataques em que parecia possuida do demonio, uma -d’ellas principiou a amesquinhar-lhe o acontecimento, a apresentar-lh’o -como um successo natural e simples... - -—Olha que não ficamos cá. Cuidas que alguma de nós fica n’este -valle-de-lagrimas?!... Estás muito enganada. Tu has de morrer, eu hei de -morrer... todas nós havemos de morrer... Um dia toca o sino para esta... -outro dia para aquella... é o mundo! - -E Lindoria, com um aspecto vulgar e pouco sensibilisador, para mudar de -conversa, opinou chegando-se para o esquife, a sorrir: - -—Mas o que elle te vae é muito lindo! Pódes ter essa gavança, mulher! -Faz gosto olhar para elle. Ninguem ahi põe um defunto na igreja, tão bem -arranjado, como tu. - -Isabel respondeu: - -—Lá isso, hei de fazer sempre assim, emquanto Deus me der vida e saude... - -Passado certo tempo, quando todas as idéas tristes pareciam distantes, á -Lindoria, que tinha confiança na casa, veio-lhe a lembrança sensatissima, -de que Isabel precisaria de comer... Por isso lembrou-lhe: - -—Tu has de estar por força fraca e esse chorar faz-te mal... póde-te caír -no coração. - -A viuva recusou-se teimosamente, dizendo que não lhe entraria nem uma -bucha de pão na boca... parecia-lhe que tinha comido o seu ultimo -bocado... e, fallando em morrer, o seu desespero era enorme e as palavras -afflictivas!... - -Porém, Lindoria, muito prudente, dizia reprehensiva e com auctoridade: - -—Estás tola, rapariga! Não querer comer!!... São lá cousas que se digam! -Olha que até offendes ao Senhor, que te creou!... A gente deve fazer bem -ao seu corpo, para poder louvar a Deus, e engrandecer a Sua Infinita -Misericordia... - -E acrescentou, depois de se assoar com estrondo: - -—... Ouvi estas verdades da bôca d’aquelle santo missionario que ali -esteve em Refuinho, e que teve artes de levar para o reino da gloria -a Rosaria do Thomaz do Monte... Sabeis que _ella_ já vos faz tantos -milagres que, aos domingos, é uma romaria n’aquella igreja?!.. - -Com esta auctoridade e saber, sem mesmo consultar a viuva, Lindoria -combinou com as outras mulheres, para arranjarem _alguma cousa_ que -Isabel podesse comer—alguma cousa que chegasse para ellas tambem, porque -se sentiam com bastante fraqueira. Como era no tempo da matança dos -porcos, uma, que morava mais visinha da viuva, foi-lhe arranjar uns -rojões e trouxe-os, acompanhados de uma boa infuza de vinho... N’uma voz -convidativa e discreta, pronunciou estas bôas palavras, logo ao entrar da -porta: - -—Vamos a elles, emquanto estão quentes e não vem por ahi alguem á agua -benta... - -—Tens rasão, tens—confirmou a prudente Lindoria, com aspecto guloso. - -Isabel, nos primeiros momentos, absteve-se, dizendo com a mão apertada na -garganta: - -—Esta (a morte do Chibante) não me passa d’aqui. Agora é que fico para -toda a vida... O que eu tenho passado em sete annos!... - -Era o tempo que lhe tinham durado os tres maridos. - -Uma das mulheres, prudentes e sensatas, que a cercavam, disse-lhe: - -—É isso verdade rapariga. Rasão tens tu. Mas se é vontade de Deus, que -lhe has de fazer?!...—interrogou de cara alta. Sem comer é que não somos -nada n’este mundo, e, como te disse aquella (referia-se a Lindoria), até -offendes a Deus com essas palavras desagradecidas!... - -A _beata_, confirmou mais uma vez, esta sua opinião, repetindo: - -—Ah! isso offendes e muito! Eu que t’o digo é porque o sei. -Mas—rematou—vamos aos rojões, antes que arrefeçam. Frios não prestam. - -E para incitarem a viuva do Chibante, para lhe quebrarem os ultimos -melindres, principiaram ellas a comer com a mão, e a beber todas pela -mesma infuza. - - * * * * * - -O morto estava deitado no esquife, vestido com o seu habito de -_terceiro_. A côr escura do seu rosto e o pardo da mortalha sobresaía... -destacava-se da brancura do lençol de panno engommado, que tinha nas -ourelas recortes vistosos. As pernas do defunto estavam alinhadas, e as -mãos, sobre o peito, agarravam um ramo de oliveira; e no rosto, pallido -e soffredor, a dolorosa expressão dos que têem sentido dolorosamente -fugir-lhe o ultimo alento de vida!... Á cabeceira do esquife, sobre -uma velha caixa de pinho coberta por uma toalha, estava um crucifixo, -com duas vélas dos lados; aos pés, a caldeira da agua benta, esperava -os amigos do finado, que tinham de vir espargil-o com o tosco hyssope, -depois de lhe terem resado pela alma, que n’aquelle momento já devia -pairar nas regiões incomprehensiveis!... N’aquelle cadaver livido, todo -podridão e um proximo repasto de vermes insaciaveis, havia a suprema -serenidade da morte—impassivel, austera e absorvente!... - -Isabel, depois dos reiterados convites das suas amigas, principiou a -comer com moderação e, ao parecer, com pouco appetite. - -—Isto é para vos fazer a vontade; porque não me passa d’aqui—dizia, -indicando a parte superior do esophago. - -Lindoria, com um bom humor descrente, incitava-a: - -—Entra-lhe mulher, anda-lhe... Tu não te has de deixar ir assim para a -cova... _como elle_. Se Deus, na sua infinita misericordia t’o roubou, -não é rasão para que vás pelo mesmo caminho. Por isso, come-lhe e -bebe-lhe que é o melhor que tens a fazer. - -E, olhando sagazmente para os lados do caminho, acrescentou com voz -familiar e sem imposturas desnecessarias: - -—Por ora não vem ninguem... Pódes engulir o teu bocado sem medo. - -Mas, pouco depois, quando mastigavam, silenciosas, resignadas e com -vontade, sentiram passos de alguem que se aproximava!... Todas deglutiram -rapidamente o que tinham na bôca!... Uma d’ellas, com mais sangue frio, -metteu no forno, com precipitação, o prato dos rojões, mas deixou, -imprevidentemente, a porta aberta. Lindoria, por seu lado, escondeu com -sagacidade, a infuza do vinho debaixo de um banco, sentando-se logo por -cima d’ella, para a ter melhor escondida com as saias espalhadas. Por -fim, como se tivesse havido qualquer convenio anterior, compozeram os -semblantes n’uma expressão de tristeza, tomaram attitudes chorosas, e, -fingindo a continuação de uma conversa, fallavam com lagrimas no caso -presente, lamentando as amigas de Isabel, esta perda do _seu homme_, -procurando dar-lhe as melhores consolações que em taes momentos se podem -desejar!... - -Os passos que se tinham sentido, eram os do velho Agrella, que vinha -resar pelo morto. O alfaiate entrou com face respeitosa e compungida! -Resou cordatamente, com sinceridade, e, em seguida, entrou no circulo das -creaturas que ensinavam Isabel a resignar-se, trazendo-lhe, elle tambem, -as suas palavras de coragem... - -A mulher do José Chibante ouvia tudo n’um recolhimento sensato, -com intermittencias de sentimentalidade:—umas vezes chorava alto -lamentando-se do só que ficava, achando-se enormemente infeliz e -desgraçada; outras, entrava socegadamente em detalhes, em referencias, -em particularidades do modo como vivera com José, rememorando as -circumstancias em que lhe fizera, a ella, as vontades mais exigentes e -caprichosas... Era doloroso e sympathico ouvil-a exprimir-se d’este modo, -ácerca do terceiro marido que lhe morria!... - - * * * * * - -No entretanto, um gato preto da visinhança, entrava pela porta dentro -sem ser persentido e principiou a observar minuciosamente toda a casa, -revolvendo com lentidão os seus olhos redondos e luminosos. Parecia -attraído por algum motivo; porque, n’aquella serenidade do seu olhar -sagacissimo, conhecia-se-lhe um proposito, um fim... Primeiro attendeu -minuciosamente para o esquife, andando duas vezes em volta para se -certificar. Depois, aproximou-se das mulheres que choravam, aproveitou -do chão uns restos de comida e sentou-se para lamber socegadamente um -osso despresado. Por fim, sempre devagar e cauteloso, dirigiu-se, com a -imperceptibilidade de uma sombra, para junto do forno... Levantou com -mansidão a cabeça e averiguou olfativamente. Sem duvida que foi depois -de ter chegado a uma conclusão do seu demorado raciocinio, que o gato -se firmou nas patas trazeiras, arqueou o corpo, estendeu-o, retesou-se, -e, fazendo um salto, entrou pela porta aberta do forno... onde tinha -sido escondido o prato da comida. Pouco depois voltou, saltou para o -chão, trazendo um rojão que pousou socegadamente junto do esquife e ali -principiou a comel-o, com o sofrego appetite de um golutão... - -O Agrella começou por observar este facto com serenidade. O gato preto, -logo que acabava de comer um rojão, levantava-se lambendo os beiços, e, -sorrateiramente, ía buscar mais, que vinha mastigar junto da caldeira -da agua benta. O alfaiate, por este signal, percebeu immediatamente -tudo quanto se teria passado, antes da sua chegada desagradavel e -inconveniente!... A infuza que depois lobrigou debaixo do banco, apesar -de Lindoria procurar escondel-a á sua sagacidade, espalhando as saias, -completou-lhe o quadro. Porém, o seu rosto foi impenetravel, e, como se -nada tivesse visto, continuou a seguir a linha das lamentações, fallando -das qualidades excellentes do homem de Isabel, recordando casos que com -elle lhe tinham succedido, avivando memorias de tempos passados... E de -tal modo e com tal compuncção o fazia, que a propria Lindoria—a raposa -sagaz da aldeia—sentiu-se dominada pelo tom plangente do Agrella... - -A velha beata, compungida e lacrimosa, era quem mais salientemente -reclamava as boas palavras, os elegios e as lagrimas para a memoria -do defunto, que ali estava, serenamente deitado n’aquelle esquife. -Ao mesmo tempo que lamentava os incalculaveis estragos da morte, ía -reparando... percebendo... apopletica de raiva, que o malvado do gato -preto entrava no forno repetidas vezes, trazendo sempre rojões, que vinha -comer, impunemente, mesmo junto do esquife. N’um momento, já impaciente -e nervosa, não lhe soffrendo o animo consentir que o animal vivesse -momentos tão felizes n’uma impunidade odiosa, lançando olhares furtivos -ao _ladrão_, pronunciou com voz lamentosa uma d’essas phrases equivocas -da linguagem popular, por meio da qual desejava denunciar ás companheiras -imprevidentes, aquelle roubo inqualificavel: - -—_Ah! morte negra, morte negra! que assim os vaes levando um e um!_ - -Queria decerto que o Agrella entendesse que se referia aos homens -fallecidos; porém o velho, alfaiate, ouvindo isto, levantou-se sereno e -talvez indignado!... Baixou-se sobre o banco, pegou na infuza de vinho -escondida, e estendendo-a a Lindoria, disse-lhe n’uma voz compungida e de -um comico ardente: - -—Pega lá mulher... _Aquelles defuntos_ do que precisam é d’esta agua -benta. Benze-os com esta agua benta, ó Lindoria!... - -E dirigindo-se para a porta, disse do limiar com um desdem rancoroso: - -—Corja de bebedas! Boa tranca, por essas costas! - -E saíu socegado para o caminho. Lindoria veio até á soleira, com o -fim de o amansar, de o adquirir para o convivio das suas amigas. Por -isso chamou-o com uma voz convidativa, attraente e cheia de confiança, -piscando-lhe um olho: - -—Ó Agrella!... Agrella!... Anda cá pedaço de tratante... Andá cá -maroto... comer alguma cousa... - -E, como o velho alfaiate se voltou para lhe responder, ella, julgando-o -dominado, repetiu, mostrando-lhe a infuza: - -—Olha que é do da tenda. Boa pinga, verás... - -Porém elle, ao riso conciliador e ás boas palavras de Lindoria, respondeu -simplesmente com _um gesto_ dizendo: - -—Olha... - -E distanciou-se com passo natural. - - - - -O ENTERRO DE UM CÃO - -A MACEDO PAPANÇA - - - - -O ENTERRO DE UM CÃO - - -I - -O velho Coruja, o coveiro, _o bom amigo dos mortos_, tinha pelo seu -pequeno cão, uma affeição pura e desinteressada. - -O _Coisa_ acompanhava-o em toda a parte, com uma fidelidade insistente: -nos enterros apparecia cansado, reflexivo e de cabeça baixa; no -palheiro, onde ambos dormiam, deitava-se junto d’elle, corpo a corpo, -como um companheiro familiar; nas diversas cosinhas das casas ricas da -visinhança, onde o coveiro apparecia ao meio dia, sempre se mostrou -submisso, quieto, esperando pacientemente que lhe dessem a sua brôa e as -rapaduras do pote do caldo de farinha. - -O Coruja olhava para elle com ternura, dava-lhe do seu comer, -interrogava-o com naturalidade, affagava-o dizendo-lhe palavras boas, -repassadas de carinho e de benevolencia...; porque partia da hypothese -sensata, de ser comprehendido. O Coisa, pequeno, magro, de pello faminto, -com as barbas de guloso sempre sujas, escutava-o attenciosamente, sem -pestanejar e deitando-lhe a cabeça nos quartos, ficava como adormecido -muito tempo. - -O Coveiro comprehendia estas finas delicadezas do seu companheiro... -Por isso fallava-lhe com polidez, com cuidado, escolhendo as palavras, -estudando um timbre de voz meigo e delicado. Que dois corações unisonos e -isochronos! As unicas desavenças que se tinham dado entre elles, eram por -causa das creanças pobres... O cão perseguia-as insistentemente, se as -encontrava agglomeradas, a pedir esmola, junto dos portaes ricos! N’este -ponto era formalmente desobediente á palavra austera de seu amo!... O -Coruja que, quando tinha vontade d’isso, sabia ser iracundo, figurava -então uma voz aspera, severa e reprehensiva, ameaçando-o arrogantemente: - -—Pedaço de bregeiro! Tenho-te dito muitas vezes que me deixes os rapazes. -Fizeram-te algum mal? Diz lá: fizeram? Não entendes isto, maroto?!... - -E se depois o cão se lhe ía enroscar aos pés, humilde e submisso, -concluia com energia: - -—... Pois devias entender. Elles são como nós ambos e como os outros -desgraçados—andam na sua vida... Se são pobres, quem lhes ha de dar o -pão, se não forem os ricos?! Vel-os acolá?—indicava incautamente os -rapasitos. Andam ás esmolas, como tu e como eu!... - -O Coisa olhava fixamente para o seu amigo, escutando-o sem pestanejar, e -como vira que as ultimas palavras haviam sido acompanhadas de um gesto em -que eram apontados os pequenos pedintes, que, amedrontados, tinham fugido -para longe, interpetrando-as mal, arremettia de novo contra as creanças, -perseguindo-as com mais raiva pelos caminhos. - -O Coveiro mostrava-se estupido e confundido... Não comprehendia!... -ficava scismando, para ver se encontrava o motivo que o animal teria, -para odiar com tão afincado accinte, as creanças pobres, que via -encostadas aos portaes ricos!... Não o podia perceber, elle que ignorava -inteiramente a biographia do Coisa... - - * * * * * - -Encontrára-o n’uma tarde de chuva, perto de um ribeiro, onde, no dia -seguinte, appareceu afogado um velho pedinte, de longa barba esqualida. -O pobre animal tiritava de frio, recolhido humildemente dentro do tronco -carcomido de uma cerdeira desfolhada. O Coruja, vendo-o assim, teve um ar -compacido e lastimou-o com um sorriso triste. Lembrou-se que levava n’um -bolso restos de pão do jantar, e, com um ar de bondade, atirou-lhe um -pedaço, dizendo: - -—Talvez tenhas fome... Pega lá, come. - -O cão, saindo do esconderijo, abocou com rapidez e mastigou sofregamente, -auxiliando a deglutição com movimentos rapidos e impulsivos de cabeça. O -coveiro observando este facto, disse sorrindo: - -—Home... tinhas larica. Toma lá mais um naco!... - -E, tirando mais brôa do bolso das calças, deu-lh’a. O animal, enguliu -com rapidez o pão e aproximou-se do coveiro com obediencia—arqueava a -espinha dorsal arrastando a barriga na terra, tinha movimentos lateraes e -cadenciados de cauda, levantava a cabeça para lhe cheirar a mão benefica -e ouviram-se-lhe latidos de agradecimento. O Coruja, olhou reflexivo para -elle e, cofiando-lhe a cabeça, observou com sorriso: - -—Diabo! sempre és muito feio, ladrão! - -Depois atirou para o hombro a enxada de abrir as covas e foi pelo caminho -adiante... Ia para um atterro. - -O cão ficou quieto, humilde, a olhar para o seu bemfeitor. O coveiro, -olhando para traz, viu-o n’esta posição quasi supplicante e gritou-lhe de -longe: - -—Tó Coisa. - -O animal veio para elle depressa, contente, feliz, dando pulos de -alegria, movendo festivamente a cauda, lambendo os pés do Coruja, que o -affagava. E para mostrar logo, áquelle seu amigo fortuito, um bom fundo -de cão agradecido, arrastava o ventre pela terra, gania amoravelmente, -roçava-se-lhe pelas pernas, e por fim, conservou-se alguns momentos n’um -aspecto captivante, deitado no chão, olhando para o coveiro, com a cabeça -firme, a mostrar os dentes e a piscar os olhos... - -Foi assim que se tomaram por companheiros inseparaveis!... O coveiro não -indagou quem era o Coisa, mas eu que o sei, posso dizer que era o cão do -pedinte, que no dia seguinte appareceu morto na levada do ribeiro! Tinha -sido amestrado para ladrar ás creanças, para escorraçar os pequenos, -magros e sujos, que podesse encontrar pedindo esmola junto dos portaes -ricos. Os perseguidos fugiam assustados e chorosos, gritando muito, -apertando na mão os saquinhos vasios... e ficavam de longe, a ver quando -o pobre da barba esqualida saíria de ali com o maldito cão, para elles -voltarem a implorar a esmola, com as suas vozes finas e plangentes. - -Porém, o velho pedinte era experimentado e sceptico. Se alguem, -casualmente, observava a perseguição injusta que o animal fazia aos -rapazitos, elle, que fingia de aleijado, chamava-o com modos de homem -irritado, ralhava-lhe muito, chegava mesmo a bater-lhe. Com este -procedimento conseguia, muitas vezes, captar a benevolencia de quem o -observava e obtinha alguma esmola que agradecia, dizendo: - -—... Pelas bemditas almas... Por mais que me mate, não posso ensinar este -ladrão. Um dia como-lhe os figados. Apesar do amor que lhe tenho, sou -home p’ra isso! - -E, com o fim de se mostrar digno de admiração, erguia para o companheiro -o pau da justiça, tremente de cóleras! O bemfeitor, compadecido, -entrevinha caridosamente a favor do animal, aconselhando: - -—Deixa lá. São brutos, não sabem o que fazem. Se elles não têem alma!... - -—É tamem do que me tenho lembrado, meu rico pae da caridade! Se elle -tivesse uma alma, eu era capaz de lh’a metter n’um inferno, só pelo que -elle é de mau para as creancinhas... coitadas! - -Mas o animal não era responsavel. Tendo sido educado, por seu amo, no -proposito de perseguir os concorrentes ás esmolas, obedecia-lhe. Mesmo -quando o velho pedinte lhe ralhava, apontando as creanças que fugiam -espavoridas e elle continuava a preseguil-as, é porque sabia ser este -um signal para as escorraçar com mais impeto! Tinham-lhe ensinado que, -todas as admoestações lhe impunham dever de ladrar com maior energia e -vivacidade, por isso assim procedia!... - -O pobre da barba, depois de obtida a esmola, premio da reprehensão -infligida ao maleficente, dizia vagamente, de modo a ser ouvido pelo -bemfeitor que se distanciava: - -—Diabo do cão é tolo! Não sei que mal lhe fizeram os rapazinhos!... - -E voltando-se para elle, outra vez, com o pau no ar, concluia: - -—És mesmo ruim, como as cobras! - -Mas, logo que ficavam sós, cofiava amoravelmente a barriga do rafeiro, -chamando-lhe seu rico cachorrinho, ganindo como elle para o reconciliar -comsigo, e dando-lhe fartamente brôa da sacola, com o fim de o excitar ao -crime. Incomprehensivel preversidade!... - - * * * * * - -Eis aqui estão os motivos, em virtude dos quaes, o coveiro, nunca poderia -fazer comprehender ao Coisa, que a sua benevolencia era sincera e não -mentirosa, como a do velho pedinte, que primeiro o educára. O modo -compassivo como o Coruja entendia deverem ser olhadas as creanças pobres, -que aos sabbados encontrava junto dos portaes ricos, o cão não o podia -comprehender facilmente e até o interpretava ao inverso, princialmente -quando lhe apontavam os rapazitos que se conservavam agrupados e cheios -de susto a olharem de longe. - -Mas, apesar d’esta divergencia, viveram muitos annos em concordante -familiaridade, dormindo promiscuamente nos mesmos palheiros e comendo da -mesma ração. Como o Coruja era um bebedo declarado, entendeu que devia -habituar o Coisa a gostar de vinho, exactamente como elle, e dava-lh’o. -O cão principiou pelo provar, com evidente repugnancia. Nos dias de -fome, que o seu antigo amo lhe fizera passar, quando as esmolas não -corriam para o sacco, tomára habitos de sobriedade. Vinho! Tal guloseima -nunca provára! O pedinte de barba esqualida era extremamente egoista... -emborrachava-se só. Mas, passado algum tempo, depois de ter sido preciso -abrirem-lhe a bôca á força para lhe emburcar o liquido nas guelas, o -Coisa gostou, e por fim já escorripichava a tijella, por onde o coveiro -bebia a meia canada habitual... Tão fino bebado se mostrou depois, que -andava sempre lambendo, com cuidado e esmero, até as deixar enxutas, não -só a tigella do amo, mas todas as cuncas da sopa de bestas que encontrava -ás portas das estalagens e tendas minhotas. Então dizia-lhe o seu amigo, -rindo abertamente, com effusão, piscando os olhos, já muito _torto_: - -—Anda grandissimo borrachão, que me pareces um padre! - -Esta phrase usual, sincera e inoffensiva, que tantas vezes dissera -impune, preferiu-a incautamente, uma vez, diante de um ecclesiastico -que, julgando-se offendido, o reprehendeu severamente, levantando a -bengala com uma intenção aggressiva! O coveiro que, pelo habito de viver -entre batinas, não as respeitava, e, considerando mesmo que os padres -eram homens como os outros e igualmente peccadores, lembrando-se até de -que elle já tinha enterrado um bom par d’elles, respondeu com desdem e -indignado: - -—Olhe, talvez o seu coração não seja tão bô como o d’elle!... - -O padre ficou auctoritario e colerico, e o coveiro retirou-se cheio de -justiça, por ter pugnado pelo seu camarada. - - * * * * * - -Ás vezes, nos dias de muita chuva, o Coruja não podia saír do palheiro -onde dormia, por causa das malditas dôres que lhe vinham á perna -doente. O Coisa, n’essas occasiões, parecendo-lhe que devia prover as -necessidades communs, saía a procurar comida. N’esses dias não respeitava -nenhuma casa, fosse ella de quem fosse! Previdente e sagaz, obedecendo -á sua primeira educação na vida mendicante, ía por ahi fóra... Porta -que encontrasse aberta e d’onde saísse bom cheiro, entrava com ousadia -e abocava desceremoniosamente qualquer posta de bacalhau ou qualquer -salpicão que encontrasse. Mas, em vez de comer o producto da ladroagem, -como faria qualquer cão vulgar e sem sentimentos, vinha depositar a -comida intacta nas mãos do seu companheiro, para elle a repartir. O -coveiro, no proposito de se dar seriedade, reprehendia-o com brandura, -sorrindo com os seus olhos vesgos: - -—Ah! grande ladrão! Home, isso não se faz!... Ir roubar o que não é da -gente!... Muito mal feito, seu patife!... Come tu, anda, que eu não tenho -grande fome. - -No entanto, para não ser descortez e mal agradecido, acceitava o alimento -que repartia com rectidão e igualdade, dando muitas vezes ao Coisa, -qualquer bocado, que julgava mais appetitoso. - - -II - -Um dia, porém, o Coisa appareceu morto na beira de um caminho, no velho -sulco cavado pelas rodas dos carros, que ali tinham passado durante -muitos annos! Era em janeiro, o coração do inverno, no alto Minho. Fazia -um frio de lobo, mas a noite era de uma limpidez phantastica. Um luar -claro dava aos objectos um destaque energico. O ruido das montanhas -espalhava-se sussurrante nas profundezas dos valles cobertos de uma -herva miseravel, mirrada pelo frio intenso e prolongado, pelas geadas -successivas que os soes, quasi primaveraes, não conseguiam descoalhar. -Os montes altos, cobertos de neve, levantavam as suas enormes carcundas -de gigantes, ha seculos ali adormecidos!... O dia amanhecera com um sol -rutilante, que produzia vivos reflexos nos brincos de gelo, pendentes dos -braços nús das arvores, dos beiraes dos telhados, e das vertentes das -fontes. Os pequenos passaros, saltando nos galhos das oliveiras, pareciam -mais volumosos, porque tinham as pennas irriçadas. Os tordos, com os pios -ingenuos e os melros com os assobios agudos e petulantes, denunciavam-se -aos caçadores, que os perseguiam, aproximando-se encobertos com os -troncos das arvores, com os muros e com os penedos, para fazerem -certeiramente a pontaria. - -A paisagem animára-se com o levantar do sol. Principiava a vida dos -campos—os bois íam soltos para as reles pastagens, ou, cangados, -puchavam aos toscos carros de duas rodas; as eguas lanzudas e famelicas, -avistando-se de encosta para encosta, relinchavam; os rapazes, as -mulheres e os homens trabalhavam nas hortas, na apanha de lenha para o -lume e nas podas, cantando sempre, para não sentirem o frio. Passavam nos -caminhos alguns pedintes de capas remendadas e de sacolas a tiracolo, -cheias de brôa. Tinham o bom ar, alegre e folgasão, dos felizes -despreoccupados, para quem, o dia de amanhã, será bom como o dia de -hoje. Iam conversando animadamente em accidentes da sua vida vagabunda e -caminhavam n’um passo largo, assobiando, cantarolando, batendo nos cães -vadios com os páus a que se costumavam encostar quando pediam esmola. -Foram elles os primeiros que encontraram o Coisa morto na estrada, -tristemente abandonado n’um sulco de carro, como um cão desprezivel que -não tivesse inspirado um affecto na vida! Junto d’este morto anonymo, -os pedintes alegres, fizeram uma paragem, dizendo um d’elles, com ar -trocista e de chacota: - -—Olhem este asno onde se foi deitar!... - -Acrescentando outro: - -—É que tinha calor e não quiz dormir na palha! - -Um terceiro, ainda observou, com um compadecimento fingido: - -—Coitado!... Já não come mais brôa! - -E por ultimo, um mocetão robusto, desertor do tres de Vianna, para -dispertar a hilaridade na companhia, levantou pelo rabo o magro corpo do -Coisa, e pronunciou, conservando-o suspenso: - -—Eh! diabo! Está teso como minha avó torta!... - -Riram-se unisonamente com as bôcas escancaradas, d’este dito excentrico, -continuando depois o caminhar divertido. - - * * * * * - -Porém, o cão não estava ali esquecido, como se poderia suppor:—o -Coruja tinha-o procurado durante a noite. Andou n’isso muitas horas, -apprehensivo e triste, repassado de maus prenuncios. Chamou-o alto nas -encruzilhadas, assobiou por elle de cima dos muros dos caminhos, teve -momentos silenciosos de uma tristeza indefinida!... E, como via o Coisa -não lhe apparecer, disse com a testa avincada e com uma expressão de quem -suspeitava um crime: - -—Que diabo! por ahi algum maroto... - -Suspendeu bruscamente a phrase, concluindo-a depois, mostrando um punho -cerrado: - -—Pois se sei quem foi que o matou, abro-lhe a cabeça com o olho da -enxada! Ainda que trezentos diabos me levem, p’ras profundas dos -infernos! - -Dirigiu-se para o seu palheiro, tiritando de frio, dando suspiros e com -lagrimas nos olhos. N’essa triste noite estava só. Não sentia o seu -companheiro de tantos annos, introduzir-se com o fochinho entre a palha, -para adormecer mais quente. Apesar dos latidos vagabundos dos outros -cães da visinhança, o Coisa não se levantava esperto para ir responder -ao postigo! Em vez d’este, agora era o Coruja, que, ouvindo ladrar, -levantava a sua cabeça para ver se aquella era a voz do seu amigo... -Debalde esperou. A noite prolongava-se por seculos, e o coveiro, dando -voltas entre o colmo, sentia um calor abafante, suspirava com afflicções -e não podia dormir! - -Logo muito cedo, ainda a manhã apontava, saíu do palheiro para continuar -as suas averiguações. Junto da igreja encontrou umas creanças da -freguezia visinha, que vinham para a escola, e uma das quaes lhe disse -expontaneamente: - -—Ó tio Cruja, já viu o seu Coisa? - -O coveiro respondeu suffocado: - -—Não! Onde está?! - -—Olhe, tio Cruja, a gente viu-o morto ali no caminho. - -—Morto!—pronunciou o velho com aspecto rijo, inteiro e com voz commovida. - -—Sim, senhor, lá em baixo, ao pé da cancella—certificaram os rapasitos, -fallando todos juntos, com a intimativa ingenua das suas vozes finas, -apontando para longe, no fundo do valle!... - - * * * * * - -O coveiro foi ver. No andar tinha os movimentos rapidos e incongruentes -de um côxo desvairado!... No rosto transparecia-lhe a expressão amarga -e deprimente de uma intensa dôr, sentida com verdade! Os olhares eram -impetuosos, lampejantes e vingativos; porque continuava a predominar no -seu cerebro a idéa de que algum malvado lhe tinha morto o Coisa!... - -Chegou ao pé da cancella. O pequeno goso estava deitado, immovel, -composto como se estivesse a dormir. Depois que o pedinte faceto o -suspendera pelo rabo, tornára a caír casualmente no sulco de carro, onde -o seu pequeno corpo se ageitára, no ultimo momento da vida. Com o pello -faminto, irriçado pela geada que caíra durante a noite, reconhecia-se ser -aquelle mesmo o rafeiro que, nas manhãs de frio costumava correr, doido -e despreoccupado, adiante do Coruja, quando elle ía para os enterros. A -rigidez cadaverica, apoderando-se do seu corpo magro, com a fatalidade de -um acontecimento necessario, dava-lhe uma expressão de insensibilidade -absoluta, expressão de indifferença pelas preoccupações da vida -terrestre!... - -O coveiro ajoelhou na attitude piedosa de um crente. Tocou, quasi -instinctivamente, com a mão, aquelle corpo inerte, para ter a indubitavel -certeza da morte do seu unico amigo! Fel-o com a profunda veneração de -uma alma rude; mas, n’este contacto do corpo de um cão morto, sentiu -um longo calefrio de terror!...—elle que tantas vezes experimentára -despreoccupado, o frio marmoreo dos cadaveres, que os costumava lavar e -vestir, para depois os metter na cova e cobrir de terra! - -O Coruja levantando-se hirto, subjugado, com as feições transtornadas e -com as lagrimas nos olhos, e disse resignadamente: - -—Isto... havia de ser o diabo do frio... - -Um pouco depois, como se respondesse a uma pergunta, que fizera a si -mesmo mentalmente, acrescentou: - -—...Fome!? tamem seria fome... Honte não comemos nada!... - -Passados momentos ainda considerou: - -—Este raio da neve!... Pois elle, com um frio de mil demonios!... A gente -sempre anda agasalhada; mas os animaes—coitados!—nem uma vestia, nem uns -sócos!... - -A final, tendo estado muito tempo sentado n’uma pedra a contemplar o -corpo inanimado do Coisa, levantou-se com um impulso generoso e disse: - -—Pois tu não és menos que os outros. Tamem has de ter o teu enterro com -officio. - -Dominado por esta idéa generosa, foi d’ali á igreja, buscar a sua enxada -de coveiro, que costumava ter guardada por detraz do altar-mór! Era para -abrir a cova ao Coisa. Na sachristia, revestia-se, para dizer missa, o -padre José Pitança. Ao sentir pela igreja acima as pancadas sonóras e -de uma intensidade desigual, de uns sócos, sobre o pavimento da igreja, -observou ligeiramente para o sachristão: - -—É o Cruja. Já vem por ahi com alguma carraspana. Eh!... Eh!... Eh!... - -Quando o coveiro saía, atravessando a sachristia de enxada ao hombro, -o ecclesiastico, com as mãos sobre o rins, atando as fitas do amicto, -suspendeu o murmurar de resa e perguntou em voz alta: - -—Quem diabo morreu, ó Cruja? - -—O meu cão—respondeu com brevidade. - -—E para que levas tu a enxada? - -—Para lhe fazer um enterro. - -O sacerdote teve uma gargalhada bulhenta de caçador. O coveiro offendido, -respondeu-lhe com orgulho: - -—Olhe que nem eu, nem você somos melhores que elle. Merece-o mais que -muitos fidalgos. - -E saiu bruscamente, coxeando. - - * * * * * - -O Coruja, com o fim de realisar a idéa generosa de fazer um enterro -excepcional ao seu cão, procurou primeiro um caixão que lhe podesse -conter o corpo. Para isso encontrou uma tábua comprida, sobre a qual o -estendeu, alinhando-o cuidadosamente, para ficar bem composto, n’uma -posição sensata e natural. Subiu a uma oliveira, da qual cortou uns ramos -para cobrir o cadaver, para o enfeitar, dizendo n’uma voz socegada e de -respeito: «esta é a tua mortalha». Depois, no proposito de organisar um -acompanhamento e dar a isto uma apparencia de cortejo funebre, conseguiu -que, a troco de uma promessa de pequena recompensa, quatro rapazitos -que andavam n’um monte á garavalha, _pegassem ao caixão_. O caixão era -a tábua com o cadaver em cima coberto pelos ramos de oliveira, posta em -seguida sobre dois fueiros, tirados, pelo Coruja, de um carro que estava -no caminho!... A cada extremidade de fueiro pegou um dos convidados. -Depois, quando tudo estava em boa ordem, o coveiro, com a sua voz rouca e -falhada, no tom faceto de uma alegria mentirosa, disse: - -—Toca a andar rapasiada. Levemos este nosso irmão para o _descanço -eterno_! - -As creanças obedeceram com sinceridade infantil, caladas e respeitosas. -O sahimento foi por um estreito caminho, com direcção a um alto pincaro, -onde o Coruja determinou abrir a sepultura do seu velho amigo. Atraz do -feretro ía elle, com a enxada ao hombro, a cabeça descoberta, um aspecto -de contentamento triste, entoando o _canto-chão_, n’uma voz roufenha, -pausada e distraída, imitando o phrasear dos sacerdotes nos officios: - - Béu, béu, béu, - Vae p’r’ó céu. - -Ao que os rapazes, que conduziam o corpo, respondiam, fingindo vozes -profundas e graves, espaçando as syllabas: - - Engola, engola, - Vae p’r’a cova. - -Depois, todos juntos, communicando uns aos outros certa alegria -sorumbatica e nervosa, cantavam em côro, n’um tom mais cadenciado, largo -e solemne: - - Quem ’stiver no inferno - Saia cá p’ra fóra! - -As creanças achavam isto divertido, apesar de procurarem adquirir -semblantes sérios e respeitosos, fingindo attitudes de homens, -endireitando o tronco, e esforçando-se por acertar o passo. Porém, como -não sabiam coordenar bem os movimentos, em certo instante, pucharam em -differentes sentidos e quasi deixaram caír desastradamente o cadaver -do Coisa!... O coveiro sentiu rasgar-se-lhe o coração e deu um grito -instinctivo e dilacerante! Os rapazes pararam rapidamente, ficando -quietos e silenciosos diante d’aquella manifestação inexperada de uma -dôr humanamente sentida! Continuaram depois o seu caminho, n’um silencio -meditado e mais triste!... - -Quando subiam a encosta do monte, o rosto do Coruja cobriu-se de certa -melancolia, caminhando devagar, com o corpo inclinado para diante, -absorvido na idéa da sua perda! Chegando ao cimo, parou junto de uma -agglomeração de penedos. Esteve alguns segundos meditativo encostado á -enxada... Mas depois, dando á cabeça um movimento impulsivo e retomando o -seu tom comico anterior, disse com o chapéu levantado ao ar: - -—Alto ahi!... oh! rapaziada! - -Os pequenos pararam, pousando no chão o feretro. - -O coveiro principiou a abrir ali mesmo a sepultura. O som baço e profundo -da enxada, batendo cadentemente na terra, dilatava-se, reproduzindo-se -nos angulos da montanha. - -No exercicio da sua triste profissão, o Coruja tinha, n’este momento -unico, um aspecto maguado... Todo curvo sobre a cova que ía abrindo, -com uma expressão facial de rigida tristeza, impunha-se austero, digno, -respeitavel!... - -As creanças, graves, silenciosas, olhando absorvidas para elle, obedeciam -a um sentimento que não saberiam explicar!... Tomavam parte no sentimento -do coveiro e, d’este modo, com a sensibilidade ingenua e infantil, -acabavam a tonalidade dolorosa d’este quadro triste! - -Em frente das montanhas imponentes e do amplo horisonte, a respiração era -facil, regular, socegada. Todos sentiam a tranquillidade, o socego, a -paz silenciosa dos logares ermos! O Coruja, para acabar o seu trabalho, -desceu ao fundo da sepultura e principiou a cavar com esmero dos lados. -Desejava que o corpo ficasse cuidadosamente ageitado, como n’um berço!... -Por fim, disse aos seus companheiros n’uma voz natural: - -—Chegae-me para cá esse caixão. - -E tirando cuidadosamente os ramos de cima do corpo, sopezou a tábua, para -a collocar no fundo com o cuidado e com o amor com que collocaria o corpo -de uma creança morta! Um dos assistentes confessou com naturalidade: - -—Parece... como os anjinhos. - -O Coruja devolveu a esta expressão singela e amoravel: - -—Tens rasão. Olha que tinha uma alma como elles. - -E passou a mão na cabeça d’esta creança, que lhe penetrára o pensamento, -com a amisade com que o poderia fazer a um seu filho... Acrescentou -depois, com voz comprimida pela dôr, mas esforçando-se por ser alegre: - -—Vamos lá a cantar os officios, para ajudar a entrar esta alma no céu da -bemaventurança!... - -Recomeçaram de um modo mais calmo, penetrados de comica circumspecção, o -funebre _canto-chão_. - -Dizia o Coruja de um lado: - - Béu, béu, béu, - Vae p’r’ó céu. - -Respondiam as creanças do outro: - - Engola, engola, - Vae p’r’a cova. - -Depois entoavam todos em côro: - - Quem ’stiver no inferno - Saia cá p’ra fóra! - -Repetindo isto muitas vezes, andavam em volta da sepultura. As creanças -seguiam o coveiro, como acolytos. O Coruja, com um ramo de oliveira na -mão, significava espargir o morto, com agua benta hypothetica! - -Por fim cobriu-se de terra o defunto. Espetaram-se sobre a cova os -ramos de oliveira, e todo o mundo se retirou. Os rapazes íam adiante -do coveiro, contentes e felizes, atirando pedras que rolavam pelo -monte abaixo. Um d’elles, vendo-lhe lagrimas nos olhos, perguntou a um -companheiro: - -—Porque é que o tio Cruja chora? - -Ao que o interrogado respondeu intelligentemente: - -—Ora... era amigo do Coisa. - - * * * * * - -Nos tempos subsequentes ainda viram, algumas vezes, o Coruja subir aos -penedos sobranceiros á sepultura! Demorava-se ali horas, olhando para o -largo horisonte, cantarolando sempre, como era seu costume nos momentos -tristes! N’um dia em que o barbeiro Zé Maximo, com o seu ar importante -de banalidade, lhe perguntou indiscretamente, sorrindo-se com modos de -troça, «Ó Cruja, tu, diz que fizestes um grande enterro ao teu Coisa!», -elle respondeu com azedume: - -—É verdade, meu grandissimo jumento! Merecia-o melhor que tu. - - - - -O EMBARCADIÇO - - - - -O EMBARCADIÇO - - -Miguel Timão era um homem corpulento, de feições energicas e leaes. Em -linhas pontilhadas, de um azul indelevel, tinha no braço direito um navio -com o seu velame e no esquerdo um signo-samão. Partira da sua aldeia -descalço, por uma crua manhã de geada, com toda a roupa n’uma pequena -trouxa, enfiada n’um pau!... Seu pae, a este tempo, era um cego que vivia -da caridade... Na aldeia não havia ganhos... Foi por isto que elle, na -companhia de outros emigrantes, foi pelo mundo fóra, procurar fortuna... -Ah! como a sua alma boa e generosa estremecia alegremente com a idéa -consoladora de ganhar dinheiro para sua irmã Catharina, e para seu velho -pae cego!... - -Andou por lá muitos annos sem dar noticias... Na terra chegaram a -esquecel-o, suppunham-n’o morto... O padre Beiral, que lia as gazetas, -vira, entre as victimas de um naufragio, o nome de um Miguel... Não podia -ser outro. Catharina chorou um dia inteiro e deitou lenço preto... Porém, -este convencimento foi precipitado; porque, o rapaz, não morrêra, apesar -de ter passado muitos annos n’uma vida trabalhosa, cheia de incertezas e -de perigos, no meio dos quaes nunca poude esquecer a sua pequena aldeia, -risonha e distante. - -Durante largo espaço de tempo, correu uma boa parte do mundo e foi todas -as cousas que um homem rude pôde ser:—acompanhou um inglez no Egypto e -na India; foi soldado nas republicas hespanholas da America, entrando -em muitas conspirações; foi carroceiro no Brazil; e, durante os ultimos -vinte e cinco annos, andou embarcado, percorrendo grande numero de portos -do mundo, ouvindo todas as linguas e conhecendo homens de todas as -côres... - -Á sua organisação temeraria convinham as incertezas de amplo mar, -mysterioso e amigo... Uma vida accidentada, com alegrias e desesperos, -mas sempre com dinheiro no bolso, quando saltava em terra, eralhe -sympathica! Tambem agora, depois de velho, n’estas noites chuvosas -da sua aldeia, Miguel tinha sempre que contar aos seus conterraneos, -que o escutavam absortos e pasmados. No entanto, de tanta aventura -extraordinaria, aquella que mais os impressionava era a de o maritimo -ter comida _carne de gente_! Apesar da circumstancia attenuante da fome -a bordo e da morte irremediavel para todos, as velhas beatas da aldeia -acreditavam firmemente que, o filho do cego, não poderia ter na outra -vida um destino bemaventurado... - -O que mais os horrorisava era, de certo, a serenidade com que o irmão -de Catharina descrevia este enorme momento de desespero, tirando longas -fumaças do seu cachimbo requeimado!... Fôra no alto mar, na soberba -amplidão infinita, com o céu misericordioso e azul sobre a cabeça... O -navio, depois de uma tormentosa viagem e quasi sem mantimentos, teve -uma calmaria no mar das Indias, boiando, monotonamente, como um cetaceo -morto, durante semanas... Por baixo o mar immenso, sem ondulações -providenciaes, liso como a superficie de uma poça, guardando, no seu -amplo ventre poderosos animaes, que poderiam sustentar durante tempos a -população da Terra... De noite, alguns d’esses peixes vinham á superficie -da agua, attraídos pelo brilho das estrellas, pelo pharol de bordo e pela -frescura relativa do ar. Gasta a ultima ração de arroz e de bolacha, -todos os marinheiros tiveram a heroica firmeza de não comer em tres -dias, esperando um soccorro fortuito! Em vão clamaram pela Infinita -Misericordia! Em vão tiveram dedicação e coragem!... A Fome Implacavel, -como um demonio sinistro, já os fazia estorcerem-se no convez com dôres -cruciantes nas entranhas! Sentenciaram-se dois, á sorte, para alimentarem -os restantes! Que valentes e bravos companheiros, esses rapazes de trinta -annos! Nunca a coragem tomou uma fórma mais sublime e sympathica! Nunca -a resignação na morte foi mais austera e imponente! Foram elles mesmos -que, risonhos e conformados, abriram as proprias veias, para morrerem! -Só quatro dias depois d’este acontecimento horripilante é que, os -sobreviventes, avistaram um vapor que vinha da China e os rebocou para -Madagascar!... - -Outro navio, dos muitos em que embarcára, naufragou no golpho do Mexico! -Era de um contrabandista andaluz, que fazia o seu commercio no mar das -Antilhas. O dono da embarcação ía a bordo, e vendo diante dos olhos as -guelas medonhas do mar, promettia a quem lhe salvasse a embarcação, -casal-o com sua unica filha, uma rica herdeira sevilhana!... Porém, o -mar estava picado que nem um inferno, e tudo se perdeu _morrendo todos_ -n’aquella escuridão tormentosa!... E um rapaz de aldeia, que escutava a -narrativa, tranzido de susto, observou com voz timida: - -—Mas o tio Miguel não morreu... - -—Morri, sim, senhor, seu palerma! Quem te disse que não morri!?... - -E ficou a olhar para todos que ouviam, com uma viveza estupefaciente! - -Por fim, depois de uma vida cheia de aventuras perigosas, teve uma -prolongada doença, que o deteve por dois mezes n’um hospital americano. -Foi em S. Francisco, na cidade maravilhosa e quasi phantastica, celebre -pelas suas ricas minas de metaes preciosos, d’onde, provavelmente, -foi colhido o ouro com que se fabricou essa gargantilha com que vossa -excellencia adorna o seu formoso pescoço, minha bella senhora! Aos seus -quatro districtos aurificos—o da California—a lendaria California!—o -de Idaho, o da Nevada, e o de Varhoe—concorrem todas as extravagantes -ambições do mundo moderno, principalmente os ricos judeus e os miseraveis -chinezes que ali vão trabalhar! S. Francisco, que domina estas regiões -do sonho, é uma das mais modernas, de entre todas as grandes cidades -americanas, pois que principiou a povoar-se em 1848, quando appareceu -aquelle bocado de ouro, no moinho do capitão Sulter. Tem hoje mais -de duzentos mil habitantes e os seus famosos ladrões, e os incendios -criminosos que ali houve ainda ha pouco espantaram o mundo inteiro! S. -Francisco é uma população cosmopolita, que falla inglez e vive n’uma -cidade com nome hespanhol, tão maravilhosa e incomprehensivel para um -pacato europeu, que, quando foi da guerra da _Independencia_, o celebre -doutor Belows, presidente do conselho de saude, convocando um _meeting_ a -favor dos feridos, fez um discurso e vendeu os apertos de mão a dollar, -sendo tantos os dollars que lhe caíram para dentro do chapéu que, o -philantropo medico, teve o braço esquecido por oito dias! É uma cidade -que não tem nem os pobres immundos e obscenos das ruas de Lisboa, nem os -garotos vivos e espertos que se encontram em New-York e Londres!... O -seu luxo é de tal ordem que, a vida ali, é dez vezes mais cara do que em -Paris! - -Miguel Timão, minhoto e sagaz, conservava d’esta cidade nova, levantada -pelo enorme poder do ouro, uma impressão energica! Depois de ter -percorrido a maioria das cidades maritimas do mundo, em nenhuma vira -tanta sumptuosidade e opulencia! Aqui, as vaidades materialistas da -civilisação moderna, impõem-se com uma soberba que deslumbra! Talvez, -pelo estonteamento que produzira n’este homem obscuro um mundo tão -febricitante, elle teve um dia como a reclamação subita de um sentimento -perdido, e na sua mente appareceu o quadro pacifico da sua pequenina -aldeia, tão sympathica e inundada de luz. - -Foi n’esse tempo que, uma das febres endemicas n’aquellas regiões -irregularmente humidas, o accommetteu de subito, com um longo calefrio, -que o prostou n’um estado comatoso!... Recolheram-n’o ao hospital e, até -terminar a convalescença, passaram-se aproximadamente dois mezes!... -Durante este periodo de inactividade forçada, a sua memoria principiou -a resuscitar-lhe o passado!... Era a primeira vez que estava doente! -Alquebrado e enfraquecido que poderia fazer!? Com os elementos dispersos, -que o seu pensamento lhe ía trazendo, pouco a pouco formava os quadros -da sua vida infantil. As figuras dos homens que então conhecera, as -raparigas com quem brincára, appareciam-lhe com um sorriso feliz e -benefico, acompanhando-o n’estas distancias... Via-os como os deixára, -porém, considerava que deviam estar mais velhos... que muitos teriam -morrido... Não fôra elle tambem novo e forte, e não estava agora -coberto de cabellos brancos e com rugas serpeando-lhe no rosto?! O -tempo não corre debalde, e muitas das pessoas em quem pensava, estariam -enterradas n’aquella pequena igreja caiada, que se lhe representava na -imaginação!... Tudo isto lhe condensou no espirito o firme desejo de -voltar á sua terra... Tinha algum dinheiro e, logo que se encontrou -restabelecido, pensou em tomar o primeiro navio que viesse para as -costas de Portugal ou de Hespanha. Assim o fez, embarcando com a saudade -insoffrida de um rapaz de vinte annos!... - -Era um domingo de primavera o dia em que entrou na sua aldeia... O céu -azul, a pureza do ar, a alegria dos campos em flor... lançavam-lhe -na alma enthusiasta vibrações de uma harmonia complexa e guerreira. -Do intimo da terra saíam musicas genesiacas no aspecto da paisagem -enebriante. As flores roxas e brancas das macieiras e das cerdeiras -abriam-se em leques multiplicados sobre os campos verdes d’onde sobresaia -o branco virginal dos malmequeres, a côr serena das violas, o vermelho -sanguineo das papoulas bravas... Os trigaes viçosos palpitavam com o seu -crescimento gradual, entre as largas manchas escuras das recentes searas -de milho. - -As raparigas cantavam nos campos, atraz dos seus bois de cornos -retorcidos que pastavam, fiando as estrigas da tarefa. A temperatura -de um tepido parasidiaco e sensual enlanguescia, produzindo sensações -dominadoras, fazendo comprehender os movimentos fecundantes da -seiva universal!... Era um estonteamento de vinho forte o que subia -á cabeça rija do velho maritimo, que caminhava lento e absorvido, -reconhecendo todos aquelles logares queridos da sua infancia! Os olhos -humedeciam-se-lhe de lagrimas, e o contentamento e a felicidade que -lhe percorria ao longo dos nervos, entorpeciam-n’o... Os homens e as -raparigas que passavam, interrogavam este desconhecido com olhares -insistentes... - -Quem será este homem, que caminha dando sacudidellas aos hombros e que -tem o andar de um borracho!?...—pensavam. - -Então elle parava para lhes perguntar numa entonação estrangeirada: - -—Conheceis a Cathrina, filha do cego da rocha? - -Conheciam perfeitamente; mas não era nenhuma rapariga. Muito pelo -contrario, a mulher que tinha esse nome mostrava-se já muito velha, -corcovada e doente... A sua vida era esmolar pelas aldeias e dormia -por caridade n’um palheiro do padre Beiral. Mas espantavam-se que -o desconhecido principiasse a chorar com estes esclarecimentos e -perguntavam-lhe compadecidos: - -—Quem é você, hominho? Para que quer saber da Cathrina, e chora? - -Mas o homem da barba branca, que andava como um desengonçado, não lhes -respondia e continuava a caminhar para a _residencia_ que se via d’ali, -na encosta, ao pé da igreja. Levava ao hombro, enfiado n’um pau, uma -mala de couro e umas botas de canos... Este modo de andar aos solavancos -impressionava os que o viam... Não podiam saber quem fosse e ficavam -a olhar uns para os outros!... Mas quem o reconheceu, mesmo antes -d’elle fallar, foi Catharina, que se lhe agarrou ao pescoço, chorando e -repetindo muitas vezes: - -—Meu rico irmão, como estás velho! - -E Miguel, o valente marinheiro temerario, deixou caír ao chão a mala e as -botas, dizendo por entre soluços: - -—E tu como estás acabada, mulher! Como te venho encontrar! - -Mas depois, como Miguel trazia algum dinheiro, que juntára cuidadosamente -para esta eventualidade de voltar á sua aldeia, resolveu-se a comprar -a mesma casa onde nascera, a qual seu pae tinha vendido por causa da -longa cegueira em que viveu. O padre Beiral ajudou-o. A casa era velha e -pequena; mas o campo adjunto era largo e magnifico terreno... - -O espirito do maritimo principiou a sentir um renascimento, a remoçar-se, -a ter os alegres impetos da mocidade. Era aquella a mesma paisagem -que sempre vira até aos vinte annos. Havia o mesmo musgo nas mesmas -paredes; a mesma hera segurando as pedras dos muros esbarrigados; os -mesmos penedos no alto do monte sobranceiro á igreja, manchavam o azul -intenso das tardes primaveraes; as sebes de silvas, cobertas de folhas -perpetuas e de amoras, embeiravam os campos e caminhos; e, finalmente, -na frontaria da igreja ainda estava quebrado o mesmo vidro, como no dia -em que elle partira! O que encontrava de differente no longo espaço -de trinta annos? Muito pouco: o cypreste do adro tinha crescido e até -envelhecêra; a carvalheira do pé da fonte, que tres homens com as mãos -agarradas não podiam abraçar, estava carcomida, porque fôra queimada por -um raio; as tres casas novas, caiadas, que se distinguiam de longe com as -suas claridades vivas, e cujas vidraças scintillavam com o sol poente, -tinham sido levantadas por uns brazileiros ricos, um dos quaes tambem -presenteára a Nossa Senhora da igreja, com uma lampada de prata, que -causára inveja ás outras _Nossas Senhoras_ da visinhança. Mas, de todos -os factos que permaneciam, e que Miguel tanto estimava, aquelle que o -chocou de um modo energico, aquelle que o penetrou em todo o seu ser com -uma força omnipotente, foi o toque do sino grande da igreja, que ainda -era falhado como d’antes!... - -Quando agora o ouviu pela primeira vez, depois de tantos annos, eram -trindades e estava comendo uma posta de bacalhau á lareira do Beiral. -Deixou caír o garfo de ferro, ficou a olhar com um modo estupido, e as -lagrimas corriam-lhe pelo rosto enrugado! Oh! era aquelle o mesmo som, -que o accordava nos domingos despreoccupados da sua vida passada!... - -Por todos estes motivos, o embarcadiço resolveu morrer na sua aldeia!... -Estava velho, ainda que robusto; as fadigas e os trabalhos por esse mundo -fóra tinham-no gasto muito. O mar... o mar para elle já não podia ser -senão uma sepultura!... Uma grande sepultura decerto; mas, sepultura -por sepultura, tinha ali uma na igreja que era mais perto, ainda que -mais humilde. Ficava ao pé dos ossos de sua mãe que não conhecera, e de -seu pae que não tornára a ver!... Resolvido isto de um modo terminante, -principiou a interessar-se pela historia local, pela monotonia da -conversa dos visinhos, a quem elle espantava com os successos da sua -vida curiosa. Vieram-lhe tambem os desejos de grandes emprehendimentos -agricolas—quiz cultivar o seu campo. Plantava hortaliças que mandava -vender á villa, semeava batatas, colhia quasi um carro de milho, uma meia -pipa de vinho e tinha muita fructa. Os seus melões e melancias davam-lhe -orgulho—mandava-os vender ás romarias, onde já tinham nomeada e eram -preferidos aos dos outros cultivadores! Tambem não admira, pois que lhes -dedicava muito tempo e amor—regava a tempo, mondava-os com sagacidade, -regulava-lhes o sol de um modo conveniente... O padre Beiral disse-lhe um -dia, que não se fallava nas gazetas de que houvesse, em qualquer parte -do mundo, outros melões como os d’elle. O Timão, orgulhoso e confundido, -respondeu: - -—Isso, senhor, é da semente e da Senhora da _Bôa-Viage_ a quem os -encommendo sempre!... - - * * * * * - -Mas havia na aldeia uma malta de rapazes, que tinham por brazão não -deixar segura qualquer fructa boa, no quintal de quem a tivesse. Estes -meliantes, n’esse anno em que o sacerdote gabou os melões, projectaram ir -_proval-os_ de noite. O Timão já andava com a pedra no sapato e, para os -prevenir, disse um domingo no adro, ao saír da missa, fallando bem alto -para ser ouvido, «que se alguem lhe fosse ao meloal _o racharia de meio a -meio_!» - -O Tone da Engracia incitou-se com esta ameaça e propoz um assalto á -fazenda do embarcadiço... Poderiam ir n’uma noite escura, com cautelas -premeditadas, para não serem presentidos... Desceriam do muro de vagar, -por uma corda presa a certo carvalho, para não fazerem baque no chão... - -O meloal era muito perto da casa, n’um recanto soalheiro, onde podiam á -vontade ser meticulosamente vigiados... O Miguel Timão tratava-os com -tantos cuidados, que até para lhes tirar a sombra baixára uma videira -antiga, dirigindo-a para uma latada, junto ao muro... De manhã cedo, -ainda o sol vinha em casa de Deus, já elle, em mangas de camisa, andava -contando as boas melancias rajadas, que deixára na vespera, e os optimos -melões apimentados assentes sobre folhas, para não apodrecerem com a -humidade da terra. - -Alegrava o espirito, consolava, vêl-o assim de barba branca, este velho -robusto e musculoso, trabalhar com amor, assiduamente, no seu campo, -incluindo n’esta preoccupação toda a sua alma e todo o seu tempo... Oh! -os rapazes que pensavam em roubar-lhe os melões, decerto se arriscavam -muito! O velho Timão levado por mal seria um demonio, em convulsões de -desespero!... - -Mas o da Engracia, o Teixugo, o Cambado e o Telhas, não se preoccupavam -com medos e sómente commentavam com antecipação, a grande risota que -se produziria em toda a gente, quando soubessem que aquelle papa-gente -tivera, ao seu tão gabado meloal, um inesperado assalto! A não ser o -Telhas, os outros, não pensavam em qualquer risco. Sendo alta a noite -e bem escura, o embarcadiço estaria a dormir profundamente! Se, ainda -tivesse um cão, podia haver receio; mas, o imprevidente velho, dizia -muitas vezes _que um bom cão era elle_! - -Quando chegou a noite do sabbado combinado, o Telhas, que era cagarola, -ainda disse... assim com um modo engulhado: - -—Home, e se elle nos pilha?! - -Esta phrase denunciava quanta impressão, diante da mente espavorida -d’este rapaz, produzira o quadro terrificante do Timão, n’um canibalismo -infimo, mastigando os seus companheiros de infortunio, na desesperada -fome que soffrera no mar das Indias! O Tone irritou-se com esta covardia -despresivel, chamou fracalhão ao Telhas, que lhe respondeu com um modo -prophetico e despresador: - -—Olhem o valente! Tamem quero ver, quando te vier um balasio pelos -queixos, se não ficas de cara á banda!... - -Mas o da Engracia engulia balas—não tinha medo nenhum d’ellas! N’essa -mesma noite, estavam resolvidos, foram. Mas, como não queriam ser -engarampados com alguma arriosca, ao chegarem ao sitio, caminharam -instinctivamente com certa prudencia... O embarcadiço era um velho rijo, -que não tinha medo da morte, porque a vira muitas vezes diante de si. Não -se importava de matar um ladrão, arriscando-se a ir por uma barra fóra; -pois andar por lá sempre fôra sua vida. Com uma navalha de tres estalos -e um bacamarte de bôca de sino, costumava fazer ameaças abstractamente, -dizendo: - -—Aquelle que m’as fizer estiro-o. Ainda seis centos mil raios me partam! - -A beata Vicencia, quando lhe ouvia esta jura, recuava berrando: - -—Abrenuncio! Santo Nome de Maria, que nos póde vir um grande castigo por -causa d’este excommungado! - -O Timão retorquia-lhe com olhar de piedade: - -—Calla-te minha papa-hostias. Bons castigos soffri eu por esse mundo. - -Porém, o plano de roubar o meloal estava estabelecido, os rapazes não -trepidaram. O da Engracia é quem saltaria dentro, para encher o sacco. -O Teixugo e o Cambado ficariam no caminho, de vigias; o Telhas em cima -do muro. Á meia noite o Tone desceu do muro, cautelosamente ajudado pela -corda presa ao carvalho, para não ser presentido... Quando assentou os -pés na terra defendida pela navalha hespanhola e pelo bacamarte de bôca -de sino, estremeceu involuntariamente!... Sentia, dentro em si mesmo, -uma opposição, á qual resistiu com toda a força da sua energica vontade. -Talvez desejasse retroceder; mas atraz de si, em cima do muro, estava o -Telhas, a quem chamára fracalhão, e que logo que o viu um momento parado -e apurando o ouvido, lhe disse com uma ironia perceptivel: - -—Home, não tenhas medo. O velhote dorme como um porco. - -O rapaz encorajou-se subitamente, levantou a cabeça com orgulho e -começou a andar com certa resolução temeraria. Na profundidade da noite -tranquilla, serena e sem luar, ouvia-se o cochichar subtil dos vigias, -o som gemebundo e extenso de dois sapos, o ruido estival, permanente -e continuado dos ralos!... Um grande morcego manchou a limpidez do -ar com o seu vôo largo, produzindo um silvo. A pequena casa do Timão -ainda se percebia ao fundo, por entre as arvores de fructa, como uma -massa confusa. A escuridade e o silencio augmentam sempre o medo, e no -cerebro do Tone da Engracia, as idéas principiavam a atropellar-se, a -confundir-se, a tomar fórmas...—diante dos seus olhos, configuravam-se -homens aggressivos. Por isso elle tornou a parar no meio do campo! -Então sentiu-se n’um isolamento mais completo, como o do alto mar!... -Por cima o céu limpido, as estrellas com movimentos crepitantes de -luz, a amplidão cheia de uma sombra grandiosa...—um certo palpitar da -natureza que o subjugava! A pequena distancia, em cima do muro, o Telhas, -como uma reprehensão sempre viva. Qualquer manifestação de receio, de -pavor, que sarcasticas censuras não encontraria?! No entretanto, n’este -instante nervosamente inexplicavel, a figura do velho marujo endurecido -nos trabalhos e nas difficuldades, appareceu-lhe na imaginação, com -uma realidade que feria! N’este momento o Telhas tossiu ao longe! -O Antonio estremeceu e teve um calefrio ao longo da espinha! Estas -duas circumstancias, bem diversas, deram-lhe o impulso definitivo, e -o Tone começou a caminhar ousado, direito, altivo e até insolente! -Passando por entre as hervas e calcando as folhas seccas fazia um -ruido imprevidente... Que lhe importava a elle que apparecesse o velho -maritimo! Aquella tosse casual de um dos seus companheiros teve nos seus -ouvidos uma ressonancia ironica, aguilhoara-lhe a vaidade, restituira-lhe -a sua coragem e temeridade habituaes. - -Entrou no meloal. Principiou a agachar-se muitas vezes, para escolher o -que havia de melhor. Estava apparentemente sereno, não temia ninguem. -Levantava os melões para os suppezar, para os levar ao nariz pelo lado -do pé com o fim de lhes apreciar o adiantamento da maturação. Affastava -as folhas largas, carnosas, recortadas das melancias...—queria escolher -as mais sazonadas. O que lhe ía servindo cortava rente pelo pé, e logo -ía depositar, a dois passos, no carreiro junto do sacco. N’um d’estes -instantes, o silencio da amplidão foi cortado por um chiar de gonzos -prudentissimo... O Tone levantou a cabeça á escuta... Não percebeu mais -nada: talvez fosse a passagem de algum noitibó por entre a ramagem das -arvores. A escuridade não o deixou ver a cabeça do Timão, que appareceu -ao postigo, escutando... O da Engracia continuou. Mas, quando tinha -cortado mais um melão e que o ía levar... sentiu certa difficuldade em -mover um pé! - -Empregou impensadamente um esforço mais energico para vencer esta -opposição; porém, sem logo perceber porquê, caiu redondamente no chão, -de bruços, produzindo na quéda o baque de um corpo sem vida!—tinha os -pés presos n’um laço intelligente, armado pelo marinheiro, para agarrar -um ladrão presumptivo. O temerario rapaz deu um grito e esforçou-se logo -por se levantar, colleando como uma cobra ferida na cabeça!... Porém, -soccorrel-o, era impossivel. Os companheiros, atterrados pelo som do -bacamarte de bôca de sino que o embarcadiço disparou para o ar, fugiram, -tendo ainda tempo de ouvir esta phrase temerosa: - -—Seus grandissimos ladrões, que os mato! - -Taes palavras e aquelle tiro disparado com um fim theatral, produziu o -effeito previsto. Os companheiros do Tone, julgando-o talvez morto, -abandonaram-no. O Miguel Timão, que saíra da casa com grande rompante -para espantar os que estivessem, chegou-se ao que jazia no chão, e -disse-lhe com ar de troça: - -—Então sempre caíste melrinho?! Deixa que eu t’o digo já. Ha-de-te ficar -de escramenta. - -O da Engracia, completamente submettido, pediu: - -—Ó tio Miguel, não me faça mal, que eu não torno... - -O marinheiro não lhe fez mal. Tambem lh’o estava pedindo sua irmã, que -era muito obrigada ás esmolinhas, que a tia Engracia lhe fizera em -tempos precisados. Porém, apesar dos esforços de raiva e das supplicas, -o velho maritimo não prescindiu de enlear bem enleado o seu preso e -de o ir collocar no caminho, com o fim de ser solto pelos primeiros -misericordiosos que passassem para os campos! E ao deixal-o fóra do muro, -disse-lhe: - -—_Prá_ outra vez, se cá voltas, ha de ser peor. Entendes? - -Depois retirou-se, não cedendo mesmo á intervenção a favor do adoptivo da -Engracia, feita por sua irmã Catharina, que lhe pediu para o desamarrar, -e a quem respondeu: - -—Sabes que mais?! _Bae bugiar._ É uma ensinadella. - - - - -O REI ABSOLUTO - - - - -O REI ABSOLUTO - - -Emilio era uma creança robusta, que tinha as pernas grossas, os braços -grossos, o pescoço firme, o olho penetrante, travesso, audacioso. As suas -pestanas finas, grandes, ramudas, sombreavam-lhe as pupillas negras; as -sobrancelhas espessas, fortes, unidas, aproximavam-se irriçadas, nos -momentos de colera infantil, como o dorso de uma hyena. - -Quando já tinha quatro annos e que sentia o poder intimo dos seus -musculos; quando principiava a distinguir-se dos outros, a considerar-se -pessoa, e que reconhecia, como uma energica qualidade que se impõe, a sua -vontade potente e a sua força capaz de executar, o pequeno Emilio quebrou -uma jarra de flores, atirando-lhe acintosamente com uma pera, que não -queria comer, por desejar outra. A mãe, que era severissima, castigou-o. -Elle que era um rapaz de brio, principiou uma berraria de mil diabos, -gritando com perrice, com frenesi, deitado de barriga, batendo no chão -com os pés, com os punhos, com a cara, e mordendo no bibe para o rasgar! -Convencionaram calculadamente, a mãe e as creadas, não fazer caso d’elle, -deixal-o chorar quanto quizesse, deixal-o espernear, gritar, morder-se, -contundir-se. Queriam fatigal-o, vencel-o pelo proprio esforço que fazia, -para assim lhe darem uma lição moral, para o ensinarem a conhecer que -as maldades castigam por si mesmas, aquelles que as praticam. Mas, qual -lição, ou qual diabo!—esta conspiração passiva enraiveceu-o ainda mais, -e mordia ainda mais nas mãos, batia de cada vez mais na cara, de cada -vez dava na cabeça com o punho mais cerrado e com mais força! Quando a -mãe, com a sua paciencia reflectida, lhe disse, do vão da janella onde -costurava, com voz moderada e firme: «deixa que tu has-de-te calar», -elle, berrando com mais força, respondeu-lhe: «não hei, não hei, não e -não», continuando intencionalmente o seu choro. - -Dava uns gritos agudos, estridentes, discordantes, como as vibrações de -uma rebeca desafinada; mas depois, com o tempo, como a mãe previra, veio -o cançasso, o desleixo, o esquecimento de que estava chorando, e decaíu -gradualmente n’uma voz mais branda, mais enfraquecida, monotona como o -som da ultima badalada de um sino, que se esgota de quebrada em quebrada. -Houve até um momento em que chegou a calar-se; porque no chão, adiante -da sua cara, uma _farmiga-operaria_ andava lidando na remoção de uma -pedra que encontrára no caminho. O pequeno animal, estonteado, perdido -das suas companheiras, que formavam um longo fio negro, junto da parede, -adiantava-se para elle, afastava-se para traz, para a esquerda, para a -direita, procurando com uma intelligencia tenaz, um auxilio, alguem que o -ajudasse. Por fim vieram mais duas, e então principiou uma lucta obscura, -mas profiada e imponente, em que tres formigas removiam, com um nobre -esforço cheio de paciencia, uma pedra mais pesada do que todas ellas -juntas. - -Emilio principiou a interessar-se nos movimentos apparentemente -caprichosos dos pequenos insectos. Os seus olhos vivos e animados seguiam -com cuidado, com esmero, aquelle trabalho das formigas-obreiras, que -tombavam a pedra, levando-a na direcção desejada. Calado, de bruços, -com o pequeno queixo sobre o punho, observava attenciosamente todos os -movimentos, tendo as linhas faciaes n’uma contencção rigida, nervosa, -reveladora de um esforço intimo. A mãe, apreciando incompletamente este -silencio de seu filho, disse-lhe com ligeiro ar de triumpho: - -—Mas sempre te calaste... - -Ao que elle respondeu promptamente: - -—Mas vou gritar mais. - -E retomou o seu choro com nova energia, com mais vigor. Porém, como viu -que a mãe se rira escarnecendo-o, reconheceu-se vencido, mediocre, e -cheio de vergonha pela sua imprevidencia, pela falta de tenacidade, fugiu -d’ali chorando alto com asperos gritos de raiva. - -Foi pelo corredor adiante para a varanda, que dava sobre os campos. Era -uma larga paisagem com o horisonte recortado pelas alturas das arvores -desiguaes. Os altos castanheiros com as suas folhas lenhosas, rijas -e de um verde claro, distinguiam-se dos pequenos carvalhos fortes, -atarracados, folhudos e das cerdeiras vistosas, de ramagem espalhada, e -de um verde mais suave. - -O pequeno Emilio observou, com a serenidade dos seus grandes olhos -negros, todo este conjuncto. A sua physionomia era meia contemplativa, -meia raciocinadora. Media, com despeito, a enorme superioridade -d’aquellas arvores, pela ostentosa corpulencia com que se destacavam ao -longe. Mas depois, por um movimento natural, com uma reacção instinctiva, -fez este juizo simples e claro, dando ás suas palavras um tom imperativo, -com os beiços alongados: - -—Tambem eu sou capaz de subir a cima d’ellas, como o Manuel! - -E com o seu pequeno rosto de uma auctoridade expressiva, ficou a olhar -para os campos, fixando soberbamente as arvores, ás quaes se reconheceu -superior. - -Sentia-se forte como o Manuel, o creado da lavoura. Nos seus musculos -havia uma energia latente, a sua vontade era uma voz de commando, intima, -secreta, mas absoluta. Elle podia-se mover, andar, ir buscar uma cadeira, -arrastal-a até á varanda para subir, para ver as arvores que estavam nas -orlas dos campos, quietas, n’uma immobilidade permanente!... - -Ao longe viu duas vaccas que pastavam, com a cabeça baixa e o pescoço -estendido para a herva. De vez em quando moviam com lentidão, os seus -corpos volumosos, dando passadas de vagar, mas pousando com segurança os -seus pés. Outras vezes levantavam a cabeça, espalhando mansamente o seu -olhar sereno pelas encostas, e, se viam outras vaccas, mugiam com uma voz -ululante, vaga, de uma expressão triste. Um pequeno rapaz de dez annos, -forte, sujo e travesso, vigiava as vaccas. Em certos momentos, quando -ellas se aproximavam das vinhas, era elle que as enxutava, picando-as -cruelmente com a aguilhada, berrando-lhes alto, com energia, obrigando-as -a tomarem a direcção que desejava. - -O pequeno Emilio apreciou, da sua varanda, estes factos com um olhar -meditativo, profundo, e conheceu-se intimamente capaz de mandar -n’aquellas vaccas, de andar n’aquella liberdade dos campos, correndo, -saltando, subindo ás arvores, dando quédas, dando gritos, picando as -vaccas... - -N’este momento todo o seu ser estava possuido de uma forte necessidade -de posse, de commando. Desejava ser livre como aquelle rapaz que via ao -longe, no meio do campo, com um imperio indiscutivel e tyrannico sobre -a vontade d’aquelles animaes possantes, que obedeciam resignadamente -á sua aguilhada. Emilio sentia-se tomado de uma grande ambição, de um -sentimento de energia que o tornava audacioso... Desejava possuir todo -aquelle mundo que via—as vaccas, os campos, as arvores, as casas, as -poças de agua, os pombos que passavam no ar com o seu vôo rapido, -as proprias nuvens que estavam suspensas, como ephemeros frocos de -espuma. Mas queria possuir _tudo_, mandar em _tudo_ de um modo absoluto, -incondicional! - -—Se morresse toda _essa_ gente... era tudo meu!—raciocinou atrevidamente. - -_Essa gente_ eram os outros, os que possuiam aquellas cousas todas, que -no momento elle ambicionava!... - -E com as palpebras immoveis, as pupillas fixas n’um ponto indeterminado, -as sobrancelhas severamente contraídas, os beiços alongados como os de um -macaco colerico, o queixo apoiado na mão esquerda, contemplou a grandeza -_do mundo que via da varanda_! - -Por fim, absorvido _na sua idéa de poderio, de auctoridade_, desceu da -cadeira e, calado, altivo, arrogante, foi por um corredor escuro que se -abria na sala. - - * * * * * - -Entrando, observou com intrepidez, com supremacia indiscutivel, os -retratos e as gravuras que estavam pendentes das paredes. Sustentou -um olhar de soberba, com a estatueta de porcelana, que representava -Christovão Colombo com o mundo na mão esquerda. Reparou com desdem altivo -n’outra de um velho general _do primeiro imperio_, que faiscava coleras -marciaes dos olhos coruscantes, tendo o seu chapéu napoleonico de travez, -na direcção dos fartos bigodes, e apoiava a mão esquerda nos punhos da -sua espada invencivel. O pequeno Emilio, vendo casualmente no espelho da -parede, que o seu pequeno rosto tinha bastante séveridade, encarou de -novo o general, ainda com mais intelligencia e sobrecenho, conservando-se -firme, auctoritario e dominador! - -Passados momentos, o semblante coloriu-se-lhe com uma expressão mais -suave, quando contemplou a cadeira de braços, onde _seu papá_, depois -de jantar, costumava ler o jornal e adormecia recostado. Tinha-o visto -n’esta posição muitas vezes:—o seu grave aspecto paternal apresentava uma -curvatura desleixada, tendo a cabeça caída para o seio, resonando com -gravidade e com estrondo. Este quadro simples e familiar impressionara-o -sempre, deixando-lhe o desejo de ler o jornal, recostado na cadeira com -abandono, como seu pae. O momento era opportuno, estava sósinho na sala, -ninguem o poderia impedir... Fechou a porta do corredor com todas as -cautelas de um malvado, de um pequeno facinora consciente, para d’esta -maneira poder realisar com facilidade esta ambição temeraria, de fingir -que sabia ler o jornal recostado na cadeira paterna! - -N’aquelle momento ouviu tossir a _mamã_ que estava no quarto proximo e -por isso suspendeu, por instantes, a realisação do seu audacioso plano. -E, como passado pouco tempo, tudo recaíu n’um socego favoravel, Emilio -dirigiu-se á cadeira. Subiu para ella, agarrando-se com esforço, lançando -primeiro a perna esquerda, depois a perna direita, ficando primeiro de -bruços e chegando a indireitar-se depois de se ter apoiado nos joelhos -e segurado fortemente com as mãos. Quando chegou a cima e se recostou, -a sua respiração era larga e profunda, signal de que estava cançado do -grande esforço que fizera! - -Pomposamente recostado na cadeira, Emilio tinha um ar orgulhoso e -via se que estava bem penetrado da sua importancia fortuita! Fingiu -admiravelmente que lia o jornal, movendo levemente os beiços como fazia -seu pae, revirando os olhos com intelligencia e dando á cabeça movimentos -lateraes apropriados. A final, para completar o quadro, deixou cair com -desleixo o papel, entrando resolutamente no periodo do somno digestivo, -fingindo com propriedade, um resonar altivo e cheio de insolencia! - -Esteve assim algum tempo... Porém, não lhe consentindo as impaciencias -naturaes o demorar-se muito, levantou-se em pé na cadeira e desceu para -o chão, por um processo inverso ao que empregára para subir. A um lado, -sobre uma pequena mesa, estava a bengala e o chapéu do papá. Dirigiu-se -intrepidamente a estes objectos respeitados, para os possuir. Poz o -chapéu na cabeça, pegou na bengala pelo castão de velho marfim defumado -e desejou passear ao longo da sala com porte altivo, com importancia -natural. Mas o chapéu enterrou-se-lhe até aos hombros e, quando pretendeu -dar passadas de um homem encostado á sua bengala, tropeçou e caíu de -bruços. - -Então levantou-se zangado, nervoso, vermelho de colera e retomou um -aspecto imponente e auctoritario. Principiou a andar no comprimento -da sala com o corpo direito, a cabeça alta e o braço esforçadamente -levantado para agarrar no castão da bengala, o que, de certa maneira, -lhe dava a parecença de um menino dependurado. - -Depois, para se rehabilitar diante de si proprio por ter caído de bruços, -quiz exercer a sua auctoridade incontestada, o poderio absoluto de que se -achava possuido, sobre todos os objectos que ali estavam—lembrou-se de -tombar as cadeiras, quebrar os vidros, _atirar abaixo aquelles homes_. -E os seus grandes olhos energicos fixaram-se com arreganho, com altivez -sobranceira nas estatuetas que permaneciam em frente da janella sobre a -pequena mesa. O velho militar do primeiro imperio napoleonico, com todo -o seu conjuncto marcial—a espada triumphante, os bigodes magestosos, as -rugas severas, acobardou-o, obrigando-o a baixar ligeiramente os olhos e -a reflectir durante momentos. Porém, Christovão Colombo, com o seu rosto -suave de uma bravura serena e consciente, não o intimidou, e por isso, -Emilio, o fixou com mais confiança, com menos susto. E como o descobridor -da America tinha na mão esquerda um globo, na qual apontava resolutamente -com um ligeiro sorriso de inspirado, um ponto com o dedo, o pequeno, -_para se metter com elle_, fez-lhe este pedido exigente: - -—Dás-me essa cousa? - -Christovão Colombo não teve logo uma resposta favoravel. Emilio repetiu -imperiosamente: - -—Dás ou não dás? Olha que tu... - -E fez-lhe um arremeço significativo com a bengala. - -Porém, o silencio do possuidor da bola continuou-se, e o pequeno -julgando-o um signal desprezador do seu poder, pareceu-lhe provocante. -Por isso o olhou com mais intimativa, e, para o castigar, como lhe faziam -a elle proprio ás vezes, repetiu a concisa e habitual phrase de seu pae: - -—Então vae lá para dentro. - -Imaginou que ía ser obedecido. Para não haver delongas, nem evasivas, -conservou-se n’uma attitude ameaçadora, com a bengala paternal no ar, -agarrada pelo castão. Com voz mais alta e decisiva repetiu ao possuidor -da bola: - -—Não vaes? Arrumo-te. - -Christovão Colombo não obedeceu. Oppunha a resistencia passiva de um ser -inanimado. O pequeno Emilio vingou-se d’aquella immobilidade insoffrivel, -atirando-lhe á cabeça com a bengala irreverente. A estatueta caíu no chão -quebrando-se com estrondo em mil pedaços!... A cabeça, os braços, a bola, -separaram-se! O pequeno facinora ficou a olhar para aquelle destroço, com -um sentimento de vingança satisfeita! - -Porém, sua mãe, que estava no quarto proximo, ouvindo este barulho, -correu á sala para averiguar o que teria sido. Vendo a estatueta quebrada -e seu filho encostado á bengala n’um aspecto arrogante, exclamou -instinctivamente: - -—Ah! grande maroto que ahi vem o papá. - -Emilio respondeu sereno, impertubavel, com segurança: - -—Ora!... eu _tamem_ sou papá. - - -FIM - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Comedia do Campo volume III, by -Francisco Teixeira de Queiroz and Bento Moreno - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMEDIA DO CAMPO VOLUME III *** - -***** This file should be named 63034-0.txt or 63034-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/0/3/63034/ - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive -specific permission. If you do not charge anything for copies of this -eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook -for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports, -performances and research. They may be modified and printed and given -away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks -not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm -electronic works. See paragraph 1.E below. - -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the -Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when -you share it without charge with others. - -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country outside the United States. - -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: - -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work -on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the -phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: - - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and - most other parts of the world at no cost and with almost no - restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it - under the terms of the Project Gutenberg License included with this - eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the - United States, you'll have to check the laws of the country where you - are located before using this ebook. - -1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase "Project -Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. - -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. - -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg-tm License. - -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format -other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg-tm web site -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain -Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1. - -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works -provided that - -* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation." - -* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm - works. - -* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - -* You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg-tm works. - -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The -Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm -trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below. - -1.F. - -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. - -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right -of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. - -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. - -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. - -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. - -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any -Defect you cause. - -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm - -Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org Section 3. Information about the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the -mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its -volunteers and employees are scattered throughout numerous -locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt -Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works. - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our Web site which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. - |
