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-The Project Gutenberg EBook of Comedia do Campo volume III, by
-Francisco Teixeira de Queiroz and Bento Moreno
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll
-have to check the laws of the country where you are located before using
-this ebook.
-
-
-
-Title: Comedia do Campo volume III
- (Scenas do Minho)
-
-Author: Francisco Teixeira de Queiroz
- Bento Moreno
-
-Release Date: August 24, 2020 [EBook #63034]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMEDIA DO CAMPO VOLUME III ***
-
-
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-
-Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
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-
-COMEDIA DO CAMPO
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- TEIXEIRA DE QUEIROZ
-
- (BENTO MORENO)
-
- COMEDIA DO CAMPO
-
- (SCENAS DO MINHO)
-
- La plupart des drames sont dans
- les idées que nous nous formons
- des choses. Les événements qui
- nous paraissent dramatiques ne
- sont que les sujets que notre
- âme convertit en tragédie ou en
- comédie, au gré de notre caractère.
-
- H. DE BALZAC.—_Modeste Mignon._
-
- VOLUME III
-
- Antonio Fogueira.—Morte negra.—Enterro de um cão.—O
- embarcadiço.—O rei absoluto.
-
- [Illustration]
-
- LISBOA
- DAVID CORAZZI—EDITOR
- EMPREZA HORAS ROMANTICAS
- Premiada com medalha de ouro na exposição do Rio de Janeiro
- 40—Rua da Atalaya—52
- 1882
-
-
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-
-ANTONIO FOGUEIRA
-
-
-I
-
-N’uma excellente manhã de um maio risonho e feliz, duas creanças, que
-já eram orphãs de mãe, perderam igualmente seu pae! Além da orphandade,
-teriam tambem a negra fome e a sombria miseria indigente, se não fôra o
-bom cura, o padre Clemente Carvalhosa, que as foi buscar a casa, levando
-uma de cada lado, pela mão, para a _residencia_! O Thomé Barbante, um
-tio d’essas creanças, tambem compadecido, ou, talvez, humilhado pelo
-caridoso procedimento do ecclesiastico, foi-lhe pedir que lhe désse uma
-para sua casa. O Carvalhosa cedeu-lhe a Quina, ficando com o Tone, que
-elle, n’um momento egoista, pensou vagamente em ir mettendo pela igreja,
-para de futuro ter quem lhe ajudasse á missa. Porém o Bernardo Repolho,
-lavrador remediado, que morava n’outra aldeia, a distancia de leguas, não
-lhe consentiu realisar esta ambição: sabendo da orphandade dos filhos
-de seu irmão André, que tanto eram seus sobrinhos como do Barbante,
-condoeu-se e, consultando a sua auctoritaria Engracia, resolveram
-_adoptarem_ Tone, visto Deus não os ter favorecido com _um rapaz_, que
-tanto haviam desejado!... Para a mulher de Bernardo, era uma consolação
-forçada!... Por espaço de annos presenteára generosamente todos os santos
-acreditados nas visinhanças, chegando a ir em romaria beber das diversas
-aguas milagrosas, tão apregoadas e tão efficazes, que nascem debaixo dos
-penedos, onde esses bemaventurados tinham apparecido!... Frequentára,
-tambem, com assiduidade, os banhos de mar, indo durante muitos annos, a
-Vianna, pelo tempo da Agonia, sempre dominada por um tamanho desespero de
-maternidade, que de uma vez chegou a tomar _trinta banhos_ nos tres dias
-da festa!... Porém, as esperanças de ter um filho íam desapparecendo, a
-esterilidade de Engracia affirmava-se de cada vez mais com a idade! Viveu
-muito tempo n’uma constante aspiração, impaciente e nervosa, chegando aos
-quarenta e cinco annos—ao momento dos desenganos! —sem descendencia...
-A sua intransigencia, o seu mau humor, contra os filhos dos outros, ía
-caíndo n’uma melancolia latente, quasi n’um ediotismo, quando seu marido
-lhe propoz o trazerem para casa o orphão de seu irmão André, que acabava
-de morrer pobre... Engracia abraçou, inesperadamente, com alegria,
-esta idéa e adoptou com benevolencia a creança desamparada! Pediu
-instantemente a seu marido, que fosse, mesmo n’aquelle dia, buscar o
-pequeno... Para a satisfazer, o Repolho não teve remedio senão pedir ao
-padre Beiral, a bôa egua lanzuda. O ecclesiastico cedeu-lh’a facilmente,
-perguntando com a sua curiosidade de homem idoso:
-
-—Então é o filho d’esse teu irmão que morava lá para os lados de
-Monção?...
-
-—Sim, senhor, esse mesmo—respondeu o Repolho. Era muito pobre, não deixou
-nada...
-
-—Pois fazes bem, fazes bem—applaudiu o sacerdote. É uma obra de
-caridade... Deixal-os ao desamparo, é creal-os para ladrões. Vae homem,
-vae, leva a egua da côrte...
-
-E, no dia seguinte de manhã, Bernardo partiu, chegando ao anoitecer
-a casa do Thomé Barbante, dizendo-lhe peremptoriamente, qual a sua
-resolução e mais a de Engracia. Foi muito gabado este procedimento. Todas
-as pessoas diziam, inclusivamente o Carvalhosa, que o pequeno viria a
-ser bem feliz; porque, estes tios que o adoptavam, eram ricos e não
-tinham herdeiros necessarios. Porém, quem não entendia as cousas do mesmo
-modo enthusiasta, era o proprio Tone. Quando lh’o fizeram comprehender,
-principiou a berrar desalmadamente, dizendo que não, que não... que não
-queria ir. E, no momento em que o punham ao collo do Bernardo, que já
-estava montado, prompto para a partida, principiou a estrebuxar, a morder
-nos punhos de seu tio que o segurava amoravelmente, a chamar alto por seu
-pae enterrado e porfiando por se atirar abaixo do albardão. A final, como
-lhe prometteram que voltaria de tarde, para brincar com sua irmã Quina,
-que tambem ficava a chorar em altos gritos pelo Tone, deixou-se levar.
-Porém, só quiz ir ao collo do tio Barbante que elle conhecia, e não ao
-_d’aquelle home_, que nunca tinha visto. Foi por esse motivo que o padre
-Carvalhosa teve de emprestar a _malhada_ para o Barbante ir montado, e lá
-partiram ambos, pelos caminhos ensombrados da freguezia, o Thomé com o
-pequeno adiante de si, escachado no albardão.
-
-D’este modo, assim illudido, é que o Tone foi e ficou. O Barbante, para
-não ser presentido pelo sobrinho, retirou-se ao amanhecer, quando elle
-ainda dormia innocentemente. Desde essa hora, as duas creanças irmãs, que
-sempre tinham brincado juntas, na mais simpathica convivencia, ficaram
-vivendo a distancia de leguas, separadas por altas montanhas, que no
-inverno se costumam cobrir de grossas camadas de geada!
-
- * * * * *
-
-A nova paisagem, com a qual o pequeno Tone se tinha de familiarisar,
-era de uma sombriedade austera, penetrada de melancolia. É verdade
-que em baixo, no coração do povoado, havia campos onde os ribeiros
-sussurravam, indo regar os prados, de um verde claro, e os milharaes
-alegres. Porém em volta, era uma cinta escura de altas montanhas, com
-plantações de pinheiros que tem uma côr energica, mas triste, e com
-arrogantes penedias, que ameaçavam desmoronar-se. Lá no alto, onde os
-penedos se accumulavam toscamente, uns postos sobre os outros, viam-se
-frequentemente, occupados no seu rude trabalho, sob a inclemencia dos
-soes e das chuvas, os quebradores de pedra! Estes homens de um aspecto
-rude e carregado, com a pelle pergaminhada pelos rigores de todos os
-tempos, perfuravam pacientemente com as suas brocas, os penedos, que
-depois quebravam a tiro, cujo som ululante e cavernoso echoava pelas
-quebradas da montanha!
-
-Na aldeia onde Tone nascera, o aspecto dos campos, a vegetação, era mais
-familiar e intima. Os terrenos mais suavemente accidentados, deixavam
-aos seus olhos vivos, mais largo espaço para ambicionar. Havia um rio
-largo, que no inverno engrossava arrogantemente com as chuvas copiosas.
-Dos silvados impenetraveis, povoados de sombras que lhe mettiam medo,
-costumavam saír inesperadamente, quando elle se aproximava, os melros,
-voando para longe, com assobios agudos e espantados. A sua memoria tenaz
-de creança devia possuir por muito tempo, nitidamente, o vivo quadro da
-sua linda igreja caiada e alegre, com uma torre alta, e os tres sinos
-que tocavam ao domingo! Era a igreja onde elle ia á missa com sua mãe e
-onde os primeiros deslumbramentos produzidos pelos opulentos dourados
-dos altares e pelas attitudes senhoris das imagens das santas, se lhe
-ergueram na imaginação! Era de um pittoresco mimoso o quadro d’essa
-igreja, collocada na encosta, com a sua brancura que se destacava
-do souto de velhos castanheiros e carvalhos que a cercavam! Áquella
-imaginação infantil de Tone, deviam fazer falta estas cousas amadas pelos
-seus olhos vivos e ingenuos! N’estes caminhos pedragosos de agora, não
-se podia correr doidamente como n’aquelles outros, pelos quaes andara
-atrás de sua irmã Quina, para a agarrar. Por isso, nos primeiros tempos,
-fartava-se de chorar, tinha perrices freneticas e chamava em altos
-gritos por seu pae, por sua tia Clara, por sua irmã e não queria comer.
-Mas a mulher do Bernardo Repolho affeiçoou-se-lhe imprevistamente e
-acarinhava-o, procurando consolal-o, promettendo-lhe dôces e santinhos,
-que lhe havia de trazer das romarias. E n’um dia, para mostrar a
-effectividade das suas promessas, fez-lhe uma dadiva surprehendente, a
-qual foi recebida pelo Tone com tal alvoroço, que por si só parecia capaz
-de lhe obscurecer todas as lembranças risonhas do seu passado mediocre!
-Engracia comprou-lhe um pequeno cabrito, de pello lusidio e negro, um
-pequenino cabrito que fazia _mé_, _mé_, com uma voz tremida e saudosa, na
-qual talvez quizesse exprimir a saudade de seus companheiros, que deixára
-na liberdade incondicional das montanhas!
-
-Todos os rapazes da visinhança, que já se davam muito com o Tone, lhe
-invejaram, desejando-a, a posse d’este animal, e não occultavam que, nos
-seus peitos infantis, se guardavam estragados sentimentos de cubiça!
-Acercavam-se do possuidor, dizendo-lhe em tom melifluo e condescendente,
-palavras agradaveis, de muita e sincera amisade, por meio das quaes
-desejavam captar-lhe a benevolencia. Porém, como elle resistia,
-afastando-se, altivo e orgulhoso, com o cabrito pelo baraço, que lhe
-atara ao pescoço, um dos amigos propoz-lhe de um modo astuto:
-
-—Olha, se _mo_ deixas levar a comer ali adiante, dou-te esta carapuça
-nova...
-
-O Tone olhou com modo avido para a carapuça offerecida, que era vermelha
-e, depois de calcular mentalmente as vantagens, condescendeu:
-
-—Pois sim, dá cá a carapuça!
-
-Foram os dois e muitos outros, com o cabrito em grande distincção,
-festejando-o com alaridos, como um triumphador romano. Quando chegaram
-junto de uma poça, onde encontraram um pasto verde, que julgaram
-appetitoso, pararam, porque entendiam que o cabrito deveria comer.
-Para conseguirem isto, usaram de subterfugios infantis, escolhendo-lhe
-meticulosamente a melhor herva, que profiavam metter-lhe na bôca...
-Quando o animal, com os seus dentes finos, mastigava, levantava-se da
-parte das creanças uma expressiva satisfação, olhando para o animal
-n’um silencio attencioso e meditativo; todos deante d’elle, agachados,
-contemplando-o com veneração!...
-
-Estes e outros factos similhantes, fizeram com que o Tone fosse
-esquecendo gradualmente o seu estreito passado. Como tinha os mimos
-de Engracia e as lisonjas cavilosas dos seus companhiros, principiou
-a desenvolver-se-lhe uma vontade forte, desejos impertinentes, certa
-irascibilidade e orgulho. D’entre os rapazes com quem brincava, só
-distinguia o Zé do sachristão; porque este lhe consentia o tocar o sino
-pequeno, _a bambom_, nas occasiões de enterro! E como o Zé na escola já
-_escrevia debuxado_ e o Tone, apesar de ter oito annos ainda nem sabia as
-_lettras_, disse-lhe o do sachristão:
-
-—Ó _coisa_, quando é que tu vaes com a gente p’ro studo?
-
-O Tone respondeu-lhe com um desdem despresador:
-
-—Eu não vou... _Isso_ de studo não presta...
-
-—Presta meu asno... Vae, e tu verás que presta. Começas logo na carreira
-do _A_.
-
-—O que é a carreira do _A_?!—indagou o da Engracia, com modo suspeitoso...
-
-—É a carta. Ai! tu não sabes! Olha, pede á tua mãe que te merque a carta,
-que é muito linda. Tem um gallo... é muito linda. Depois vae ao studo,
-que andam lá muitos rapazes. Quando não está o senhor mestre, a gente
-brinca ás escondidas, joga o talo na eira... Vae meu asno que é bonito.
-
-Influido d’este modo pediu, n’esse mesmo dia, á mãe, que o levasse á
-escola. Engracia, para o não ouvir chorar, lavou-lhe logo a cara e
-conduziu-o a casa do mestre que era o senhor Antoninho Beiral... O
-senhor Antoninho Beiral, um rapaz forte, espadaúdo, alentado, era tambem
-o melhor caçador de perdizes da redondeza! Andára em Braga a estudar
-para padre, com o fim de succeder na _encommendação_ a seu tio; mas não
-conseguira presbiterar-se, por ter _desfeitiado_ um velho conego na
-pessoa de uma creada massiça e de rosto oval... Depois d’isto, cortada
-a carreira, retirou-se definitivamente para a sua aldeia, deixando
-crescer grandes barbas, andando pelos montes e por entre os milhos ás
-perdizes e _ás moças_... De vez em quando, para se desaborrecer, dava
-aula de instrucção primaria, pois era o professor official!... Os seus
-discipulos temiam-n’o; porque elle era severo e zurzia-os, com uma
-vargasta pelas orelhas ou com duzias de palmatoadas bem puchadas, quando
-os suppunha delinquentes! Se emquanto o _senhor professor_ andava ás
-perdizes, elles se divertiam na eira, a jogar o talo ou ás escondidas,
-logo que persentiam ao longe o ladrar do podengo, arregimentavam-se
-pressurosamente para irem ao encontro do senhor Antoninho pedir-lhe a
-benção, do que elle os _dispensava_, passando de espingarda ao hombro,
-com um modo carregado e negativo.
-
-No dia em que Engracia lhe levou o Tone, a mulher do Repolho teve de
-esperar que o senhor mestre viesse; porque andava no monte... Logo que
-chegou, viu Engracia, humilde, com o rapasito ao lado e perguntou-lhe com
-indifferença:
-
-—Queria alguma cousa?...
-
-—Se me fazia a esmolinha de me deixar entrar este pequeno cá para o
-studo—respondeu.
-
-—Que idade tem?
-
-—Oito annos.
-
-—Traz a carta?
-
-—É isto que comprei lá em baixo na tenda, senhor?
-
-E mostrou-lhe, com o braço estendido, um pequeno folheto de capa de papel
-pintado. O senhor Antoninho, lançando-lhe um olhar infimo e despresador,
-concluiu:
-
-—É isso mesmo, sim senhora. Deixe ficar. Olha rapaz, vae p’rá acolá.
-
-E apontou-lhe a estremidade de um banco, onde o Tone, amedrontado e
-encolhido se foi sentar... Em seguida, o senhor mestre entregou a um
-discipulo a espingarda, para lh’a ir pôr na varanda, emquanto elle se
-foi sentar, de modo brusco e pesado, na cadeira professoral, onde se
-conservou silencioso, durante alguns minutos com a testa apanhada na
-mão esquerda!... Por fim, tirando de uma gaveta e collocando em cima da
-mesa, n’uma evidencia terrificante, a palmatoria disciplinar, indicou aos
-descipulos que n’esse dia, não passariam _sem molho_, como elle costumava
-dizer.
-
- * * * * *
-
-Mas o Tone da Rosaria não gostou d’aquelle _studo_: o mestre era brusco,
-tinha uma voz grossa, que repellia, uma cara rude, com muita barba. Na
-mesma tarde em que entrou para a escola, viu, com um semblante cheio
-de susto, que, o seu amigo, o Zé do sachristão, a unica veneração que
-o Tone tinha n’este mundo, foi severamente castigado com dois murros,
-levantando-se do chão a deitar sangue pelo nariz, só por lhe ter caido um
-borrão na escripta! O Zé chorou soluçando reprimidamente, desculpando-se,
-e ficou muito tempo no seu logar, a olhar para o _manual_, com os seus
-olhos vermelhos do chôro, fingindo uma penetração que não tinha. Por um
-movimento espontaneo e sympathico, o Tone foi ter com o seu amigo, para o
-consolar! Porém, o mestre, disse-lhe com uma voz estrondosa, que se fosse
-sentar... Elle obedeceu, encolhido de medo, como um cão escorraçado, e
-principiou tambem a chorar, soluçando...
-
-Quando chegou a casa disse:
-
-—Ora eu não quero mais aquelle _studo_...
-
-—Porque?—indagou sua mãe.
-
-—O mestre bate nos rapazes. O Zé da igreja verteu sangue pelo nariz e
-chorou muito...
-
-—Mas tu has de saber a lição e o senhor mestre ha de ser muito teu
-amigo...
-
-—Não quero ir mais... Elle bate-me e faz-me deitar sangue pelo nariz...
-
-E não voltou mais. Quiz antes os seus devertimentos:—ir para o campo
-com os filhos dos lavradores que andavam com o gado e não estavam para
-aprender a ler, jogar o _talo_ com elles, abrir covas á mão para enterrar
-pedras que fingissem de mortos, comprar _aos outros_ gaitas, com o pão
-que levava de casa... O Tone andava quasi sempre acompanhado do seu
-cabrito, que elle mandava com ama voz exigente e imperiosa... Os seus
-amigos, para o desgostarem, desmereciam-lhe o animal. Porém, n’um dia,
-em que esse cabrito appareceu puxando um carro novo, todos os invejosos
-se submetteram. O Zé do sachristão que lh’o viu e lhe cubiçou, carro e
-cabrito, disse-lhe:
-
-—Das-m’o, Tone?
-
-—Não—respondeu energicamente.
-
-—Pois tambem, quando quizeres tocar o sino pequeno, a repique nos dias de
-festa e a _bambom_ nos enterros, não te hei de deixar...
-
-—É o mesmo—respondeu com isenção.
-
-O Zé propoz-lhe:
-
-—Se me désses o carro e o cabrito, deixava-te tocar o sino e dava-te uma
-cousa muito linda que eu tenho...
-
-—O que é?—indagou com os olhos muito abertos.
-
-—É um ninho com cinco melrinhos...
-
-—Isso não presta—desdenhou o Tone, cheio de soberba.
-
-—Ai, não presta, tomaral-o tu! Os melrinhos já têem pennas, estão quasi a
-voar...
-
-—E onde é o ninho?—indagou o dono do cabrito e do carro.
-
-—Arreguilal-o—respondeu arregaçando a palpebra inferior do olho esquerdo.
-Querias saber; mas não chuchas. É n’um sitio...
-
-—Vamos lá ver?
-
-—E das-me o carro?
-
-—Dou; mas tu has de me deixar tocar o sino no dia da festa, e das-me o
-ninho.
-
-—Pois sim, então dá p’ra cá o carro. Amanhã não ha studo e então vamos
-tirar os melrinhos, que já são grandes!
-
-—Eu quero hoje o ninho...—exigiu o Tone.
-
-—Hoje vou p’ro studo, não posso!—desculpou-se o Zé, visivelmente infeliz.
-
-—Não vás hoje ao mestre. Isso de studo não presta!—aconselhou o Tone
-desdenhoso.
-
-—Ai, elle é o _não vás hoje_. E o meu pae? Não, que o meu pae, depois,
-bate-me.
-
-—Elle não sabe. Gazeia hoje Zé...
-
-E o do sachristão, para obter o carro, resolveu-se a gazear. Com elles
-ambos foram outros rapazes que tambem andavam na escola e outros que não
-andavam. Desejavam ver o ninho, que estava n’um carvalho, perto de uma
-poça, segundo affirmava o Zé.
-
- * * * * *
-
-Encaminharam-se por entre uns silvados. Como era no tempo das amoras,
-pararam muitas vezes para as colherem. Houve algumas bulhas, porque
-todos desejavam apanhar as que estavam mais maduras. Antes de chegarem
-ao sitio do ninho, passaram por umas cerejas que tiveram tentações
-de comer... Porém, como eram do padre Beiral, reconsideraram, com a
-lembrança de que o mestre, que era sobrinho do ecclesiastico, sabendo-o,
-os zurziria com a chibata de marmeleiro, que tinha encostada á parede, na
-aula. Quando chegaram ao pé do carvalho annunciado, disse o do sachristão:
-
-—Olha, Tone, o ninho é ali.
-
-—Deixas-me subir p’r’o tirar?
-
-—Não senhor, que tu és muito pequeno—respondeu com orgulho, alongando os
-beiços. Podes cair e depois a tua mãe vem _com aquellas_...
-
-—Deixa-me ir Zé, que eu não caio—insistiu o Tone, com voz de pedinte.
-
-O do sachristão, para conciliar todos os desejos propoz:
-
-—É melhor tu ires para cima dos penedos. Eu subo e dou-te o ninho para a
-mão. Queres?
-
-—Pois então vá lá—rematou o da Engracia, concordando. Mas não dás a
-estes, não?
-
-—Não, dou a ti...
-
-Os companheiros, offendidos com esta exclusão, disseram orgulhosamente:
-
-—Olhem, o diabo do asno! Tem medo que lhe comam a porcaria do ninho!...
-
-O Zé do sachristão principiou a subir. Primeiro abraçou-se ao carvalho,
-depois encolheu as pernas, em seguida fincou o lado interno dos
-joelhos para se segurar, e por fim, o lado interno dos pés para se
-impellir... Quando se ia chegando ao cimo do carvalho, elevando-se
-assim, prudentemente, agarrou-se a um forte galho, segurando-se com
-presistencia. E disse para os que, debaixo, o seguiam attentamente com os
-olhos:
-
-—Cá estão, os cinco melrinhos. Já tem penna.
-
-—Dá-os para cá—disse o Tone de cima de penedo, relanceando um olhar
-despresador para os outros rapazes, que se conservaram afastados, n’uma
-reserva sensata e orgulhosa...
-
-—Chega-te mais para cá—observou-lhe o Zé.
-
-—Não posso mais—respondeu desconsolado, inclinando-se do penedo para o
-carvalho.
-
-—Então levo-os eu para baixo. Se caem no chão morrem e depois tu não me
-dás o carro.
-
-E principiou a descer, tendo previamente mettido no seio, os cinco
-melros pequenos. Como precaução, para os não esmagar, descia afastando o
-corpo do velho tronco do carvalho, agarrando-se tenazmente com as mãos e
-fincando os pés na casca nodosa. Quando chegou a baixo, disse mostrando
-os cinco passaros, que ia tirando um a um, de dentro da camisa:
-
-—Toma. Agora dá cá o carro.
-
-—Dá tu primeiro os melros—observou-lhe o Tone.
-
-—Isso arreguilal-o!... Então, mão por mão, como os rapazes.
-
-Todos os companheiros cercaram o possuidor dos melros, olhando-o com
-olhos seccos e avidos!...
-
-Um pediu-lhe com um tom melodioso e humilde:
-
-—Dás-me este melrinho, Tone?
-
-—Não!—respondeu avaramente o da Engracia.
-
-—Tambem eu te não dou uma cousa...
-
-—O que é?
-
-—Quatro botões amarellos de duzia, muito lindos...
-
-E mostrou-lhe na palma da mão, para lhe causar inveja, quatro botões
-com armas reaes, que tinham sido furtados de uma antiga farda meliciana
-do avô. O filho da Engracia gostou muito dos botões amarellos de armas
-reaes, que valiam cada um, doze fôrmas! Por isso trocaram. O Tone deu-lhe
-um melro por todos, por isso ficou sómente com quatro, que metteu sensata
-e reservadamente dentro da carapuça, para os não opprimir e para lho’s
-não cubiçarem com os olhos. Os outros rapazes, com o fim de captarem a
-confiança do Tone, davam-lhe generosos conselhos:
-
-—Sabes o que deves fazer? Dá aos melrinhos sopas de vinho—dizia um.
-
-Outro offerecia:
-
-—Ó aquelle, tu queres pão para elles, que eu dout’o? Olha que hão de ter
-fome...
-
-E n’esta idéa caritativa, afastavam-lhes com os dedos sujos as
-mandibulas, introduzindo-lhes na bôca pão esfarellado, que os melros
-regeitavam.
-
-Um dos rapazes teve esta idéa:
-
-—Sabes o que os passarinhos querem? É beber.
-
-Passava ali um regato que em baixo ía fertilisar um campo de herva. Na
-superficie da corrente, iam folhas verdes e guiços. As tenras plantas que
-tinham nascido no logar onde corria a agua, curvavam-se obedientemente,
-à sua passagem. Porém, nos momentos em que a força da corrente era menor,
-erguiam-se com orgulho, retomando a sua posição habitual. Os rapazes,
-quizeram dar de beber aos melros n’este regato. Para isso mettiam-lhe o
-bico na agua, empregando um esforço meticuloso e cuidado. Porém elles,
-assim, não bebiam bem, e o Zé do sachristão, que tinha onze annos, disse
-com voz emphatica:
-
-—É que os melrinhos não sabem como se bebe, meus asnos? Ensinae primeiro
-aos animaes como se bebe!...
-
-Este alvitre foi adoptado e, para conseguirem o fim desejado,
-lembraram-se de imitar, o modo como presumiam que os melros velhos dariam
-de beber aos seus filhos. Tomavam a bôca cheia de agua e introduziam o
-bico de cada passarito entre os beiços. Porém, como d’este modo ainda
-não bebiam, abriam-lhe de novo as mandibulas á força, e com uma palha
-molhada na corrente, deixavam lhes cair gotas na garganta. Mas este
-processo era demorado, a paciencia infantil esgotou-se e o Tone, para
-andar mais rapidamente, metteu debaixo de agua a cabeça de um dos melros,
-ao qual se encarregara de dar de beber e afogou-o, principiando depois a
-choramingar. O Zé possuidor do carro, disse com desconfiança:
-
-—Sim, matta-os e vem cá para eu te dar o carro que has de vel-o por um
-canudo!...
-
-Na realidade, o filho da Engracia achava-se descontente com a troca e
-principiava a pedir outra vez o seu carro e o seu cabrito. O Zé respondeu
-lhe:
-
-—Isso é que não! Quem dá e torna a tirar ao inferno vae pagar!
-
-E ao pronunciar estas palavras cabalisticas, fez no ar uma cruz de
-maldição, com a mão em gume, afastando-se com o cabrito e com o carro.
-
-O sol ainda ía alto e os rapazes, para gazearem correctamente, deviam
-chegar a casa ás horas a que poderia ter terminado a escola. Para se
-entreterem mais algum tempo, lembraram-se de jogar o botão. A sorte
-marcou o _rei_ e o _fossa_—o primeiro e ultimo a _atirar á buraca_;
-porque foi _este_ o jogo preferido. Era n’uma encruzilhada de dois
-caminhos, onde havia um cruzeiro. O Zé do sachristão e os outros
-_maiores_, tiravam das saccas que traziam ao pescoço, por dentro da
-camisa, as _fôrmas_... O Tone conservava-se triste, a certa distancia;
-pois que, antes de principiarem _á buraca_, já lhe tinham ganho os botões
-amarellos, _á parede_. Com o fim de obter mais fôrmas para poder jogar,
-teve que vender ao Teixugo os melros _por duas duzias_. Porém, no momento
-em que estavam verdadeiramente presos n’este entretenimento ambicioso,
-ouviram uma voz tremenda que lhes bradou de cima do muro sobranceiro, com
-uma ironia terrificante:
-
-—Sim senhores, lindos meninos! Então uma gazeadella, ein?!
-
-Era o senhor Antoninho, que ali apparecera casualmente, andando á caça!
-Quando o mestre suppunha que _aquelles_ discipulos o estavam esperando na
-eira como de costume, vae-os encontrar ali a jogar o botão!... Os rapazes
-ao verem-n’o, olharam-se repassados de um terror estupidificante,
-ficando n’uma coacção espasmodica! Os musculos faciaes permaneceram
-n’uma regidez tetanica, e os olhos, muito abertos, fixaram-se, com uma
-insensibilidade apparente, no _senhor professor_! Porém, quando este
-se dispunha a descer o muro para os punir a murro, elles seguiram o
-instincto salvador!... Fugiram, deixando o carro, o cabrito, os melros,
-as fôrmas e... tudo! O sobrinho do padre Beiral ainda lhes gritou de
-longe, iracundo:
-
-—Andae meus grandes marotos, que ámanhã vos ensinarei. Assim é que se vae
-á escola?! Ella vos saberá ao alho, a gazeadella! A pelle das vossas mãos
-é que o ha de pagar!
-
-Depois de mais os não ver, pegou nos melros, estorcegou-lhes o pescoço,
-metteu-os no bolso, e disse para si, com mais reflexão:
-
-—Sempre servem para um arroz!...
-
-E foi indolentemente, pelo caminho adiante, assobiando, com a espingarda
-ao hombro.
-
-
-II
-
-Alguns annos depois, o Antonio da Engracia era tido como o rapaz
-mais turbulento d’aquelles sitios:—attribuiam-lhe, a elle e aos seus
-companheiros, todos os casos bulhentos que por ali se davam. De todos
-os seus amigos da infancia, faltava um, o Zé do sachristão, que tinha
-ido para o Brazil, e já escrevera muitas cartas. Na ultima fallava
-palavrosamente, com muitas repetições emphaticas, de largos projectos
-de fortuna! Affirmava estar muito contente, e promettia, se Deus o
-ajudasse, vir d’ahi a annos, fazer o orgulho de seu pae. Um longo periodo
-d’essa carta desvirgulada, era destinado especialmente a recommendar
-muito o pequeno cão, que deixara na aldeia no dia da partida... Tinha-o
-em grande estimação, lembrava-se todos os dias do _Rabicho_, desejava
-encontral-o quando voltasse... Esse animal, magro, aleijado, rijo e
-bom, representava, para aquelle rapaz, um affecto incondicional, uma
-dedicação cheia de provas... Obtivera-as na paciencia com que lhe
-soffrera as travessuras infantis. Se lhe batia, em vez de fugir ou de
-ladrar, rojava-se-lhe aos pés, com o ventre para o ar, os olhos humidos
-e resignados, ganindo humildemente, n’uma obediencia absoluta... Na
-manhã de julho, na qual José partira, quando elle, com os olhos rasos
-de lagrimas, se despedia das mulheres da visinhança, que lhe atacavam
-os bolsos de fructa; quando, pela ultima vez para muitos annos, olhava
-para aquellas paredes negras e musgosas da sua aldeia, para os penedos
-que estavam no alto do monte, para os pinhaes sombrios... espalhando
-sobre essas cousas inanimadas uma vista de saudade; quando se despedia
-dos seus amigos que ficavam... o seu cão, aquelle mesmo que recommendava
-em todas as cartas, acompanhara-o, indo na frente, a vinte passos, com
-uma perna no ar, correndo alegremente, bebendo nos regatos do caminho,
-voltando atrás para festejar seu dono, com movimentos expressivos de
-cauda, e saltava-lhe ao peito! Fôra com o sachristão e seu filho até meia
-legua fóra da freguezia; porém, o _velho_, julgando inconveniente esta
-companhia, escorraçou-o para casa, fazendo-lhe gestos de uma fingida
-colera theatral, atirando-lhe pedras, e dizia: «_Passa fóra, Rabicho_».
-O cão, com a sua perspicacia quasi humana, conhecendo que era importuno,
-incommodo, que não devia proseguir, subiu a um muro, e ali permaneceu de
-pescoço firme, com o focinho para diante, as orelhas tesas, os olhos
-fixos, n’uma attitude observadora, até que elles desappareceram!...
-Este rapaz de quatorze annos deixava a sua aldeia e as suas queridas
-affeições. Ia muito longe, procurar uma fortuna incerta!... Poderia, no
-contacto do mundo indifferente, perder muitas das intimas recordações
-da sua terra. Porém, o que elle nunca esqueceria, era o dia em que
-partiu, as mulheres que lhe davam a fructa chorando, os rapazes que
-ficavam sentados nas pedras do caminho e a firmeza esperta do seu cão
-em cima d’aquelle muro! Em todos os quadros da sua vida infantil, que
-muitas vezes reproduziria de memoria, para contentar a saudade natural,
-appareceria decerto aquelle cão, em cima d’aquelle muro, n’uma posição
-intelligente e nervosa, com sol a illuminal-o fortemente de um lado!...
-N’esta ultima carta, ainda se lembrava nitidamente de toda a visinhança,
-designando cada um com o seu nome por extenso e acrescentando-lhe _o
-alcunho_. _Á senhora_ Engracia do Repolho, por exemplo, aconselhava a
-que mandasse o seu Antonio para _aquella_, affirmando-lhe de um modo
-cathegorico «que ali é que se ganhava dinheiro e _se fazia a gente
-homem_».
-
-O sachristão, tendo soletrado meditadamente, por tres vezes, toda
-essa extensa carta, saíu de casa para a levar ao padre Beiral, o mais
-circumspecto dos ecclesiasticos visinhos!... Era um homem pacato, com
-algumas impaciencias veniaes, com muitas impertinencias de achaques,
-lembrando-se, sempre que lhe perguntavam pela saude, que vinha a morrer
-da bexiga, pelo que batia com dois dedos no baixo ventre exclamando:
-
-—Ah! vem a ser d’aqui... D’aqui é que hei de ir para os anjinhos como o
-João Thomaz!...
-
-O João Thomaz era um seu antigo condiscipulo, que morrera parochiando na
-freguezia limitrophe!...
-
-Na sua comprida varanda telhada e soalheira, é que o Beiral reproduzia
-as suas queixas, cumprindo, já se entende, regularmente com as suas
-resas!... Interrompia-se sómente para deitar _um milhinho_ ás gallinhas,
-que esgravatavam no quinteiro e que logo ao verem-n’o passear de lado
-para lado, faziam cácárácá... Mas, todos os seus peccados, vinham de que
-os porcos, impacientes e gulosos, afugentavam as aves com grunhidos, com
-impulsos de focinho, o que, para elle, era mesmo uma damnação... Por isso
-o ecclesiastico, com pequenos gestos de frenesi, quando isto succedia,
-voltava á cesta do milho, tomava novamente a mão cheia, e espalhava-o
-habilidosamente no quinteiro, com um largo gesto de orador que abrange
-um auditorio. As gallinhas, já conhecedoras d’esta artimanha, logo
-que sentiam o crepitar do grão sobre as pedras do quinteiro, corriam
-precipitadamente de todos os lados, com as azas abertas, os pescoços
-alongados, as mandibulas promptas, e principiavam a comer soffregamente,
-antes que chegassem de novo os porcos.
-
-No momento em que entrou na varanda o sachristão, remoía, o padre Beiral,
-as ultimas palavras da sua resa. O pae do _brazileiro_ disse-lhe do fundo
-da escada de pedra, mostrando-lhe um papel azul, com um bom riso de
-contentamento:
-
-—Cá a temos, senhor!...
-
-O ecclesiastico abriu-se tambem, n’um riso expontaneo e exclamou:
-
-—Não t’o disse eu?! O rapaz não se esquecia... Lá por não teres na ultima
-barca, não é que se não lembrasse.
-
-—Vae muito bem, com a ajuda de Deus que tudo manda, vae muito bem!
-
-—Está bom, homem. Entra cá para cima.
-
-E n’uma voz mais baixa:
-
-—Que diabos de porcos aquelles! São o vivo demonio. Ó Maria—chamava. Anda
-cá rapariga!
-
-Do lado do quintal respondeu uma voz sadia, n’um tom malcreado e agudo:
-
-—Que é, senhor?
-
-—Aquelles porcos que rompem o lençol... Deixa lá Manuel... Vem cá p’ra
-cima que a rapariga arranjará isso. Com que então o teu Zé escreveu e dá
-bôas noticias!... Muito bem, muito bem...
-
-—Aqui lh’a trago...—certificava com rosto satisfeito, apresentando uma
-carta de papel azul, pautado, muito fino, que lhe rangia entre os dedos.
-Trazia-a cuidadosamente dobrada, tendo rasgado unicamente a parte collada
-pela obreia vermelha e quadrangular. Mostrava com orgulho o talho da
-letra commercial do sobrescripto, os carimbos de tinta atijolada, os dois
-sellos azues, representando a dôce efigie do imperador, com a sua fina
-barba-toda. Depois, para que o ecclesiastico visse o que o seu Zé dizia,
-abriu melindrosamente a carta, e entregou-lha affirmando em seguida:
-
-—Leia, senhor, leia que _está-the_ mesmo um _home_. Falla com uma
-cabeça!...
-
-E, ao pronunciar estas simples palavras, tinha lagrimas orgulhosas, por
-ter um filho que _não merecia a Deus Nosso Senhor_.
-
-O Beiral disse-lhe:
-
-—Confesso-t’o agora Manuel. Nunca pensei que fosse para lá fazer boas
-cousas. É bem certo o dictado: «Quem bom é, em toda a parte se salva.»
-
-E, com a inflexão do homem que conhece muito o mundo, acrescentou com uma
-reserva premeditada:
-
-—Olha que as más companhias por esse universo fóra são muitas. Digo-t’o
-eu, Manuel, que são muitas.
-
-Depois, com os seus bons oculos de aço, que primeiro limpou ao forro da
-batina, tomou a carta aberta, pol-a á distancia do comprimento do braço,
-e, com signal approvativo de cabeça, disse com voz cantada:
-
-—Apre! Bonita letra! Meu sobrinho sempre disse que para cousas de
-escripta era um dos que tinha mais geito. Do que elle não gostava,
-era que o teu filho andasse por esses montes aos ninhos. Lá com isso
-damnava-se. Todos os caçadores são assim... Que lhes matem a criação nos
-ninhos, não gostam nada!...
-
-E ria de um modo secco e breve.
-
-—Saiu-me um rapaz que não mereço ao Altissimo. Leia essa carta,
-senhor!—considerou o pae do _brazileiro_, com uma pronuncia sensibilisada
-e lacrimosa.
-
-O clerigo continuou:
-
-—Está bom, o rapaz sabe da cortezia. «Meu presadissimo pae.» Meu sobrinho
-puxou-te bem por elle.
-
-—Estou-lhe obrigadissimo. Isso ainda que ponha a cara onde elle põe os
-pés...
-
-—Não lhe pagas não, pódes dizer—concluiu convencido.
-
-E continuou a lêr n’um tom pausado, cheio de cadencia, pronunciando com
-inflexão approvativa de elogio...
-
-—«Desejo ir, muito brevemente a _essa_, para dar alegria a meu pae.» Não
-tem duvida, é bom filho. Ha quantos annos foi?
-
-—Faz seis lá passante o S. João que vem.
-
-E o ecclesiastico, como recordando-se, confirmou:
-
-—É verdade. Agora me lembro. Quando me veiu dizer adeus, dei-lhe peras
-das que tenho d’esse tempo.
-
-O sachristão acrescentou melancolicamente.
-
-—Parece que foi honte, senhor!...
-
-—E queres vêr o que elle diz aqui abaixo?! «Diga á tia Engracia do
-Repolho que mande o Tone para _esta_.»
-
-—Logo lá hei de ir—affirmou com simplicidade o sachristão.
-
-O Beiral interrompeu com energia:
-
-—É malhar em ferro frio! Um grande brejeiro, é que elle é. Não sae ao
-teu, que por andar com elle tambem cheguei a pensar que ficasse por ahi
-um...
-
-E remoeu longamente a lingua na bôca, para concluir com os beiços
-alongados e as proeminencias malares vermelhas:
-
-—... um _meliante_.
-
-O sachristão atalhou com serenidade orgulhosa:
-
-—Elle tinha um pae! Vossa Senhoria bem sabe, que não punha nada em lhe
-atirar os braços a terra, em lhe pôr os ossos n’um feixe!...
-
-O Beiral respondeu:
-
-—Deste-lhe a criação. Elle não era dos mais quietos (e sorriu
-bondosamente), valha a verdade que não era dos mais quietos; mas soubeste
-ser pae. Nunca foi como esse brejeiro, esse grande tratante, que me
-escangalhou uma videira o anno passado (enthusiasmava-se gradualmente), e
-me roubou as uvas que eu tinha ali para uma necessidade, para uma doença!
-Sabes? aquella videira lá do outro lado, ao pé da porta de baixo, e que
-seccou depois!...
-
-O sachristão respondeu intrigado, coçando a cabeça:
-
-—Valha-nos a Santa Igreja!... Aquillo vae mal, senhor. O rapaz tem feito
-muitas; mas ha de encontrar o seu _home_.
-
-—O que?—diz o clerigo afogueado. O seu homem hei de ser eu! Uma farda ás
-costas! Uma farda, entendes tu?! Não descanço emquanto lh’o não fizer.
-Tenho muito amigo, _nesse_ Vianna! Olha que lh’a arranjo.
-
-E ficou com um aspecto apopletico:—concentrava-se-lhe gradualmente o
-sangue nas faces, os olhos tomavam uma vivacidade tigrina e a voz era
-tremula e humida. Contra o _adoptivo_ de Engracia ainda disse muitas
-cousas:—elle é que lhe tinha aleijado um carneiro, attribuia-lhe o
-desmoronamento de uma parede que apparecera no chão em certa manhã de
-inverno, e affirmava que não fôra a ventania mas sim o Antonio que lhe
-destelhara um canastro, com o fim malefico de se lhe estragarem as
-espigas com toda a chuva de uma tempestuosa e terrivel noite de inverno.
-E concluiu assim:
-
-—Pódes dar graças a Deus que o teu saiu-te um rapaz chibante. Mas este de
-cá!... Este grandissimo maroto que me aleijou o carneiro! Bem se vê que
-falta um homem n’aquella casa! O Bernardo é um... um _cebola_. Já disse
-á Engracia que mandasse aquelle (não sei como lhe chame, Deus me não
-castigue!) para a terra!... Mas qual manda ou qual carapuça! É uma babosa
-pelo garotaço, e quer deixar-lhe tudo. Emprega-o bem!
-
-O sachristão, que era homem de rosto moderado, cheio de conveniencias,
-depois de ter escutado respeitosamente as invectivas do sacerdote,
-cortou-lhe assim a conversa:
-
-—Pois sim senhor... Então vou lá ao senhor mestre mostrar-lhe a carta do
-_meu_. _Tamem_ lhe manda muitas recommendações e eu quero que elle veja.
-
-—Talvez o não encontres—disse o Beiral mudando de tom.—Aquillo, a estas
-horas, anda lá para o monte á caça. Mas chega lá sempre, a ver se o vês,
-que os professores gostam muito d’essas novidades e d’essas attenções.
-
-E quando o pae do _brazileiro_ já ía no caminho, o padre tornou a
-chamal-o de cima, debruçando-se na varanda, para lhe dizer:
-
-—Mostra tambem a carta á Engracia do Repolho, não te esqueças, para vêr
-se manda esse _licante_ por uma barra fóra!...
-
-—Não tem duvida, senhor. Não me esqueço, logo lá vou.
-
-E o ecclesiastico recolhendo-se, concluiu para si, com um bondoso gesto
-de impaciencia:
-
-—Mas que diabo ha de ir fazer ao Brazil, aquelle desgraçado, se nem
-sequer aprendeu a escrever o seu nome!...
-
-Por isso o Beiral ficou triste, remoendo intimamente as suas idéas
-singelas e sem caracter. Sentindo o cacarejar espantadiço de uma
-gallinha, que fugia precipitadamente diante do focinho impetuoso de um
-cevado, tomou da cesta a mão direita cheia de milho e espalhou-o na
-largura do quinteiro, dizendo: _ó diabo!_ Depois, com o seu olhar fixo,
-de pouca penetração, seguiu os movimentos dos porcos e das aves, pensando
-nas cousas insignificantes da sua vida baralhada!
-
-O sachristão, no caminho para casa do senhor Antoninho, levava na mão
-esquerda, a carta cuidadosamente dobrada. Todos a viam—era de fino papel
-azul, que rangia entre os dedos, um papel bem conhecido. As pessoas
-que o encontravam e que haviam recebido noticias dos filhos que tinham
-no Brazil, contavam-lhas miudamente. Aquelles a quem faltava carta,
-havia muitos annos, mostravam-se tristes, desconsolados, impertinentes
-na conversa, quasi invejosos, querendo duvidar das felicidades que se
-deprehendiam d’aquelle venturoso papel!
-
-O Manuel, como não encontrou na aula o senhor professor, desceu a um
-caminho para ir a casa da Engracia, com a intensão reservada de lhe ler
-a carta, acrescentando-lhe os commentarios favoraveis do padre Beiral.
-Porém a mulher do Repolho não estava para o aturar e disse-lhe, com modo
-desabrido, que não queria receber conselhos e que «quem lhe encommendára
-o sermão que lh’o pagasse». Não admirava este azedume a quem soubesse que
-lhe tinha morrido, n’esse dia, um touro que valia oito moedas! A perda
-irritara-a, o modo furtuito como acontecera _essa desgraça_ indispozera-a
-para ouvir o sachristão, que, offendido pelas respostas aggressivas de
-Engracia, respondeu, tambem melindrado:
-
-—Ó santinha, eu tenho lá nada com as suas cousas, com os seus touros!...
-
-—Pois tambem eu não me importo com as suas riquezas! O seu filho, se tem
-muito, que se levante de noite da cama, para o comer!
-
-E, com um estrepito insolente, bateu-lhe com a porta na cara.
-
-O pae do _brazileiro_, que era um homem moderado e bem fallante,
-offendeu-se com isto, perdeu a cabeça e, ao retirar-se, ainda disse,
-voltado para a porta que se fechára, com uma voz alta e insolente:
-
-—Ah! minha tronga! O que tu querias era um bom fueiro n’esse costado!
-Fosses minha mulher, que te não havia de faltar!
-
-Engracia, que percebeu este alanzoado, ainda veio fóra para lhe
-responder, e disse:
-
-—Olhe, dê lá _retolicas_ na sua casa! Alguem cá o chamou?! Ora o diabo do
-camello!
-
-O Manuel, na volta para casa do Beiral, repetiu o que se passára com a
-mulher do Repolho, acrescentando:
-
-—Se Vossa Senhoria lhe arranja uma farda para o meliante, ganha o céu!
-Era uma bem pregada! Elle anda por ahi a fazel-as gordas; mas ha de
-encontrar o _seu homem_!
-
-O sacerdote, novamente indignado, certificou-lhe:
-
-—Oh! se encontra! E hei de ser eu, já te disse! Isso, a farda, tem-n’a
-elle tão certa como dois e dois serem quatro...
-
-E depois de um silencio reflectivo, o Beiral concluiu:
-
-—Que a Engracia não é má mulher; mas anda com a cabeça perdida com o
-brejeiro! Lá essas arenegações d’ella, não faças tu caso. Olha que
-perder, não faz bom cabello. A gente, quando lhe succede uma desgraça,
-não sabe o que diz.
-
-A proposito, o Beiral narrou pelo miudo o _caso do touro_; porque o
-sabia. Tinha-lh’o contado a Feliciana, que presenceara tudo, que vira
-caír o demo do bicho da ribanceira abaixo, espapando-se no caminho.
-Andava o animal, com outro gado, no campo a pastar. Parecia que trazia
-o mafarrico no corpo; porque todo o santo dia o viram n’uma constante
-brincadeira, a escornar os outros, a dar corridas em vez de comer
-socegado! Parecia mesmo doido, a fugir pelos campos com a cabeça
-estendida para diante, o rabo levantado em fórma de pau de bandeira,
-e a extremidade felpuda ondeando, como um pennacho! Depois, quando
-chegava a uma beira alta, estacava de repente a olhar para o longe
-muito tempo e, raspando no chão com um pé, continuava a comer muito de
-vagar, como se nada tivesse sido com elle! Passado algum tempo vinham-lhe
-novos caprichos, nova maluquice e corria para os bois a escornal-os, a
-provocal-os á lucta, á corrida, ao salto... O pastor bem lhe fallava,
-bem lhe berrava, mas era o mesmo que nada! Por fim determinou não fazer
-caso d’elle e deixal-o lá, chegando mesmo em certos momentos a tomar
-interesse, a sorrir-se inconscientemente, quando o touro atravessava
-vistosamente, dando pulos, por entre as arvores. O pastor era um rapasito
-de doze annos, com a cara manchada de nodoas de terra, o olho vivaz,
-vestido com uma camisa de tomentos muito suja, e umas calças remendadas.
-Estava a olhar risonho e irreflectidamente para o animal, quando elle
-passou de uma vez com mais furia, com as pernas muito abertas, o dorso
-arqueado, a cauda horisontal, a cabeça baixa, dando saltos cheios de
-capricho... Ia na direcção da estrada, para o lado onde havia um muro
-alto! Corria n’uma vertigem, com um impeto louco e, o rapazito, esperava
-vel-o parar rapidamente, antes de chegar á extremidade! Porém não
-succedeu assim! D’esta feita venceu mais que a largura do campo, saltou o
-muro e caiu em baixo, no fundo caminho pedregoso, dando um forte berro,
-ao mesmo tempo estridente e lamentoso, que foi echoar nas cavidades dos
-montes proximos. Ficou instantaneamente morto e a Engracia teve de o
-vender aos marchantes da villa proxima que, no dia seguinte, poderam dar
-carne a pataco o arratel!
-
-Ora, foi por causa d’esta perda de moedas, que Engracia estava azuada e
-respondeu mal ao sachristão, que ía lá para lhe dar conselhos, sem lh’os
-pedirem!...
-
-O Beiral terminou conceituosamente:
-
-—Isto de perder não faz bom cabello... Coitada! Tu bem sabes que não faz
-bom cabello... Coitada!
-
-
-III
-
-Quando o Antonio chegou aos vinte annos feitos, já tinha esquecido
-completamente a aldeia risonha onde nascera e o rosto bom de sua irmã
-Quina que, por seu lado, se o encontrasse, tambem não seria capaz de
-reconhecer o seu amigo de infancia, n’este homem barbado, com modos
-bruscos de feirante, com gestos insolentes e desordeiros de troquilha!...
-E tanto se habituou a ter vida vagabunda, que nos ultimos tempos, não
-dormia em casa de seus paes adoptivos, metade dos dias de cada semana!...
-Andava pelas tabernas, de feira em feira, n’uma vida accidentada e
-bulhenta, sempre em companhia de outros _feirantes_, e da Marianna
-Ripa, sua amasia!... Esta Marianna Ripa era uma mocetona alta, bem
-proporcionada, com certa vivacidade vaidosa e impudica!—uma creatura
-demoniaca, cheia de tentações malditas, infelismente appetecidas pelos
-fracos da carne, pelos numerosos peccadores de todos os tempos!... Nos
-seios altos e avolumados, nos quadris largos, a que ella dava geitos
-lubricos, quando andava, para fazer assim ondular as saias de côres
-vivas e excitantes... residiam as tentações infinitas das lendarias
-Magdalenas, antes do santo dia do venturoso arrependimento!... As
-feições rasgadas e energicas accentuavam-lhe o caracter dominador, que
-melhor se lhe reconhecia no olhar cheio de impudencia e lubricidade!
-A sua vida passava-se pelas feiras, entre troquilhas, com os quaes se
-entendia nos ajustes de gados, bebendo como elles por copos de meia
-canada, interessando-se nas suas vendas e trocas! O predominio que
-Marianna exercia sobre o Fogueira, depois que era sua amasia, todos
-os companheiros d’elle, o Rio-Tinto, o Fanfarra... o sabiam. Era ella
-que muitas vezes o impedia de ir a casa, dando-lhe conselhos malditos,
-indusindo-o a que abusasse da affeição que Engracia e Bernardo lhe
-tinham, para lhes _pilhar tudo em vida_!...
-
-—Porque—insinuava-lhe a moça—pode-te acontecer, como lá a um rapaz da
-minha freguezia... Ateve-se ao que a madrinha lhe havia de deixar por
-morte, não se segurou nas cousas a tempo e, vae a bebeda da velha,
-roeu-lhe a corda e lá se foi tudo!... Em vez de lhe testar a elle os
-campos, como tinha promettido, metteu-se com a coruja, um tratante de um
-padreca, que lhe principiou a contar tantas lonas, que a coira vae deixar
-tudo lá a uma confraria e o asno ficou a chuchar no dedo!
-
-Estas idéas allucinavam o cerebro do adoptivo da Engracia, que depois
-de escutar Marianna, ficava mais estonteado do que tivesse bebido, de
-uma assenada, uma canada do rascante!... No entanto a verdade é que esta
-vida mundana de feirante, na companhia da Marianna e dos seus amigos,
-quadrava-lhe, era sympathica áquella organisação impetuosa!... Os seus
-modos estouvados, os seus arremeços selvagens e doidos pelos quaes era
-notado entre troquilhas, é que já lhe tinham garantido o alcunho de
-«_Fogueira_». Alem d’isso, como era franco, generoso—um mãos rotas—os que
-o cercavam, a Ripa principalmente, entendia que se o seu amante viesse a
-obter qualquer cousa da herança da mãe, era certo que alguma parte lhe
-caberia!... Por isso o aconselhava d’aquelle modo, e todos o lisongeavam
-com blandicias intencionaes.
-
-Foi por este tempo, e n’uma das occasiões em que o Antonio andava por
-fóra, que succedeu _a desgraça_ de que morreu o Bernardo Repolho:
-
-Era um dia chuvoso; via-se a cumiada dos montes coberta por densas nevoas
-designativas de chuva prolongada! Soprava um vento forte, que produzia
-na amplitude dos campos uma ondulação uniforme nos arvoredos. Como se
-estava verdadeiramente no coração do inverno, no mez de fevereiro, os
-campos e os montes sem flores e sem folhas, tinham um aspecto duro
-de severidade! As chuvas, em grossas bategas, acompanhadas de fortes
-saraivadas, batiam rijamente nos telhados com uma crepitação ruidosa e
-aspera, que se continuava, durante horas! N’um d’estes dias de invernia
-teimosa e tristonha é que o Bernardo Repolho teve necessidade de ir
-buscar uma carrada de barro, do qual muito precisava para arranjar o seu
-forno!... Por isso, na primeira aberta illusoria, mandou o Chico tirar os
-bois da côrte, cangou-os, pol-os ao carro e partiram... A barreira era na
-encosta de um monte alto e muito ingreme. Bernardo e o Chico, quando íam
-pelo caminho, já descortinavam ao longe, essa excavação de um alaranjado
-irritante, que sobresaía no terreno circumjacente, melhor do que a mancha
-clara de uma eira. Como o barranco estava logo por cima da estrada de
-carro e, para chegar lá, bastava subir um estreito carreiro em declive,
-Bernardo disse ao rapasito que ficasse á sôga dos bois, que eram novos e
-muito espantadiços, emquanto elle ía cavar o barro e acarretal-o. Porém,
-quando chegou acima e viu no fundo da barreira uma tamanha accumulação de
-agua da chuva que, para a atravessar, tinha de se arregaçar, sentiu uma
-impressão desfavoravel, e inconsideradamente disse:
-
-—Diabo! Que mar!...
-
-Na realidade a chuva, durante a noite, tinha sido mais copiosa do que
-elle pensára! Escorrera em grandes enxurradas pelo monte abaixo e
-infiltrara-se, abrindo fundas guellas no terreno, vindo accumular-se
-no fundo, formando uma especie de larga poça. O Bernardo reconheceu
-perfeitamente, que para tirar o barro, só o podia fazer do logar onde as
-fendas estavam ameaçadoras e escancaradas, como guellas de lobo uivando!
-Porém, com a ajuda de Deus, o Repolho aventurou-se e, puxando as calças
-até ao joelho, metteu-se á agua com o fim de passar... O perigo a que
-se foi submetter era evidente, a barreira suprajacente parecia estar
-quasi a esboroar-se... porém o marido da Engracia foi para diante, sem
-preoccupação nem receio, principiando a dar sacholadas bem puchadas, para
-aproveitar aquella _aberta_! N’esse momento é que passava pelo lado de
-cima um visinho que lhe disse:
-
-—Oh! diabo. Com este tempo ao barro, é por força sangria desatada!
-
-Bernardo, voltando-se para elle, respondeu com a sua cara de bom homem:
-
-—Ah! Es tu Joaquim? É que tenho lá o forno a caír, precisa a patroa de
-coser o pão e, vae por isso, vim buscar esta carrada...
-
-O outro observou-lhe com penetração:
-
-—Mas tu ahi não estás bem, home! Esta terra pode-te caír em cima.
-
-Bernardo considerou despreoccupado:
-
-—Ora, logo havia de caír, n’um migalhito que eu aqui me demoro! Não cae.
-
-—Não cae!—insistiu Joaquim. Não era o filho de minha mãe, que se ía
-metter ahi. Se se esbarronda, ficas ahi espapado, como um sapo. P’ros
-filhos que tens!... Olha, tu lembras-te d’aquelles dois homes, que
-ficaram enterrados na barreira lá em baixo?! Foi uma cousa assim, por
-causa da chuva.
-
-Bernardo recordou o facto dizendo:
-
-—Ah! bem sei. Isso foi n’um domingo. Se te parece, trabalhar ao
-domingo!... Foi um castigo.
-
-—Home, não é domingo, nem meio domingo. A barreira caíu-lhes em cima e
-matou-os. Tu ahi não estás bem. Eu cá mandava a cosedura do pão p’rás
-profundas do inferno e vinha outro dia buscar o barro! Vê lá no que te
-mettes. O diabo arma-as.
-
-—Á sorte de Deus—rematou Bernardo com resignação.
-
-E continuou a cavar, com pressa, aproveitando o bocanho, que não durou
-muito. Uma chuva pesada e forte, principiou a caír sobre os arvoredos,
-produzindo o fremito de muitos enxames de zangões! A atmosphera, densa
-e opaca, de uma côr uniforme entre o cinzento e o azul, a côr da agua
-_pulverisada_, obscurecia os objectos distantes. O vento impetuoso
-impellia a chuva, produzindo no ar ondulações extensas e regulares. Os
-ramos delgados das cerdeiras, dobravam-se passivamente. O rapasito, que
-ficara no caminho, guardando os bois, aconchegava-se, tiritando, ao
-velho corucho de palha, que o cobria. Os seus pés vermelhos, lavados
-pela chuva, estavam sobre a lama. As mãos escondia-as nos sovacos para
-as aquecer. Com o fim de se abrigar do vento que passava zumbindo,
-mettia-se por detrás dos bois, conservando a aguilhada encostada a si.
-Os seus cabellos castanhos, de um comprimento desleixado e desigual,
-empastavam-se-lhe na testa. O olhar era mortificado e de paciencia;
-porque a tia Engracia, nos seus pessimos momentos de genio irrascivel,
-batia-lhe; e o Antonio dava-lhe pontapés immerecidos. Por isto, e porque
-era engeitado, é que o Bernardo Repolho, um homem compadecido, mais se
-lhe affeiçoara... Porém esta amisade, nunca obstou a que sua mulher o
-esmurrasse desalmadamente e a que, seu filho adoptivo, lhe désse pontapés
-que o atiravam de focinhos!...
-
-Como a chuva engrossava de cada vez mais, o Repolho chamou o Chico, para
-se recolher na cova onde elle se abrigára da chuva, recommendando-lhe,
-ao mesmo tempo, que calçasse o carro para os bois não fugirem. Então
-o rapaz, pegou n’uma grande pedra, supezando-a contra o peito e foi-a
-atravessar diante das rodas do carro. Depois, unindo-se muito ao seu
-corucho, para se agasalhar, subiu a ladeira, saltou o portello e,
-inclinando instinctivamente o tronco, correu pelo monte acima, entrando
-no barranco por um carreiro. Elle e seu amo ficaram ambos abrigados sob
-aquella mesma abobada de terra que, na opinião do Joaquim Moita, quanda
-fallára a Bernardo, podia esbarrondar-se e matal-os n’um prompto—n’um
-abrir e fechar de olhos. Mas elles achavam-se ali bem, n’um silencio
-meditativo, diante das montanhas, cuja corpulencia se confundia
-no esfumado da chuva copiosa. Como o vento soprava do sul, não os
-incommodava. Bernardo estava em pé, com a sachola encostada ao hombro
-e o Chico agachado junto d’elle. Conservaram-se algum tempo calados,
-olhando distraidamente para o ar, que tinha impulsos ondulatarios como
-o das vagas, para os campos subjacentes de um verde esmorecido, para
-as arvores proximas que se vergavam á força da ventania. O Repolho
-entreteve-se alguns minutos a considerar como as gotas da chuva tornavam
-aspera e irregular a superficie da agua barrenta, que se accumulára no
-fundo da barreira!... O rapasito, sentado sobre os calcanhares, olhava
-para os montes distantes, contando mentalmente o numero de cabeços, nunca
-acertando com quantos eram!... Porém a chuva carregava de cada vez, com
-mais impeto, e o velho disse com tristeza:
-
-—Santo nome de Maria, que tempo este!
-
-O Chico observou:
-
-—Parece que hoje não podemos carregar, tio Bernardo...
-
-—Estou-t’e a ver que sim, home! E isso é que é uma da breca!
-
-—Então vamos já para o lume—aconselhou o rapaz. Estou com um frio, que
-nem sinto.
-
-Bernardo respondeu com voz reprehensiva, mas benevolamente:
-
-—És maluco! E tua ama? Se apparecemos lá sem o barro para compor o forno,
-faz ahi uma pregação de seiscentas pipas! Isso, ainda que se esteja até á
-noite, havemos de o levar!
-
-Calaram-se, conservando-se ambos n’uma taciturnidade ingenua e triste!
-Um travesso pardal, dando pios seccos e asperos, saltava nos ramos de um
-carvalho proximo, alegremente despreocupado. A chuva caía de cada vez em
-maior abundancia! O som gemebundo do vento estendia-se amplamente pelas
-quebradas, com o seu ulular maguado, de uma longa plangencia funeraria!
-
-As enxurradas cresciam, descendo com impeto pelos montes. Este sussurro
-aspero e saliente lançava uma discordancia rebelde no assobiar espaçado
-do vento na amplidão! O Bernardo Repolho e o Chico escutavam, com
-semblantes dependentes d’este ruido das aguas que se aproximavam! O
-barulho vinha crescendo para elles, precipitando-se de barranco em
-barranco! Ambos calculavam mentalmente, prevenindo-o, sem o menor susto,
-sem a menor idéa de perigo, que os enxurros d’aquelle monte, tendo de se
-vir reunir nos pontos mais baixos, juntariam as suas aguas áquellas que
-ali estavam no fundo da barreira, diante dos seus olhos indifferentes...
-Na realidade, pouco depois as largas fendas abertas na terra ao lado
-d’elles, principiaram a vomitar as aguas que vinham do alto monte!...
-O seu volume crescia de uma maneira incongruente e precipitada!... A
-principio tinha-se ouvido sómente um sussurrar brando, um _ou-ou_ de mar
-distante... Em seguida esse barulho foi-se engrossando, foi enrouquecendo
-de um modo cada vez mais antipathico e aproximava-se rapidamente, como
-a voz stertorosa de um trovão, que viesse do lado das montanhas... Por
-fim, quasi inesperadamente, sentiu-se um estampido rapido, juntou-se-lhe
-um estrondo abafado e terrificador, que pareceu surgir das profundas
-entranhas da terra! Durou apenas alguns segundos!... Porém, tanto
-Bernardo como o seu pequeno creado, não tiveram tempo de comprehender o
-que seria!... A enorme barreira, sob a qual se abrigavam da chuva e do
-vento tempestuoso, caíu sobre elles, com a brutalidade inconsciente de um
-grande penedo que se tivesse desprendido de um alto pincaro e sepultou-os
-de um modo fulminante!...
-
-Assim morreram estas duas creaturas, indifferentemente, por esta fórma
-singela e e pallida!
-
-O visinho, que predissera ao Bernardo Repolho a desgraça que lhe podia
-acontecer, estava a certa distancia, abrigado da chuva sob um velho
-carvalho ramudo, e presenciou a catastrophe! Foi elle que a descreveu
-nas suas mais insignificantes particularidades, fallando e gesticulando
-animadamente, como quem se tinha encontrado, mais ou menos envolvido
-n’este acontecimento obscuro da morte de um homem e de um pobre
-engeitado, verificado em circumstancias de um tão vigoroso effeito
-theatral! E por que os seus conterraneos, que o escutavam com os olhos
-abertos e muito pasmados, tiveram a simploria idéa de attribuirem o
-successo a artimanhas infernaes, dizendo: «o demonio arma-as», o Joaquim
-exclamou com certa intimativa volteriana e vivamente resentido para com o
-morto Bernardo Repolho, que despresára os sensatos conselhos que elle lhe
-dera:
-
-—Qual demonio nem meio demonio! Foi a cabeça d’elle que não regulou, é o
-que foi! Eu bem lh’o disse: «Home, tu ahi não estás bem». Mas elle que
-era muito teimoso, respondeu-me assim com a sua cara de lorpa e de _bom
-serás_: «Ora, não ha de ter duvida, se Deus quizer...» Não tinha duvida,
-não tinha duvida, mas foi morrendo, espapado! Ficou mesmo como um pato,
-sem dar um pio! Assim é que elles se ensinam!... O _não tem duvida_
-foi o que se viu!—rematou com modo triumphante, quasi de uma vingança
-satisfeita!
-
-Uma rapariga nova, uma engeitada de cara sardenta, com os cabellos mal
-penteados, e que escutara attentamente a narrativa, tomou a deixa de
-Joaquim da Moita e interferiu com esta observação:
-
-—Ai! não tem duvida não tem duvida! Por causa do não tem duvida, é que
-pariu minha mãe!
-
-Toda esta gente, depois que a chuva passou, se dirigiu ao logar
-onde o caso succedera. Pelo caminho íam, conversando, em magotes.
-Algumas mulheres, relembravam com voz emphatica, como de quem dá um
-esclarecimento, que tinham visto n’esse mesmo dia Bernardo, caminhar
-para a morte, de pé, em cima do seu carro, com a aguilhada encostada ao
-hombro, na despreoccupação serena de um predistinado! O rapasito que
-tambem morrera debaixo da terra, o Chico, ía á soga, todo encolhido,
-coberto com o seu corucho, berrando aos touros, que puchavam mal,
-encostando-se com teimosia um ao outro... Certas pessoas referiam
-insignificancias da vida do Repolho dando-lhe certo valor, fazendo-as
-sobresaír, e recordavam as ultimas palavras que lhe tinham ouvido, ainda
-mesmo n’aquelle dia, horas antes, quando passára em frente da porta da
-Anna Benta!... Bernardo tinha dito, com aquelle seu bom modo triste «que
-estava um inverno de se pedir misericordia a Deus Nosso Senhor!...» e a
-Rosa Viuva, queria fazer acreditar a todas as pessoas presentes, que taes
-palavras significavam que o homem de Engracia tivera uma voz de dentro do
-coração, que lhe predissera a morte!... E como alguns homens incredulos
-lhe retorquiram: «Isso póde lá ser!» ella recordou tambem outra phrase
-saliente, que tinha ouvido ao mesmo Bernardo, no domingo precedente, ao
-saír da missa: «Isto não está tempo cá para os velhos, mulher!... Com
-esta invernia caímos ahi como tordos!...» E assim tinha succedido, não
-chegou a durar oito dias!... Por isso, todos vieram a concordar, que o
-pobre homem adivinhara o seu fim, o triste fim que havia de ter de baixo
-de uma barreira!...
-
-Ao logar do sinistro, onde já estava muito povo reunido, chegaram as
-auctoridades, para se desenterrarem os cadaveres. Vinha o cirurgião, o
-José Pandega,—um rapaz de bigode e pêra como os soldados, que, farto de
-andar a estudar latim em Braga durante nove annos, arranjou depois um
-emprego no telegrapho, onde tambem se não deu bem, tomando por fim a
-resolução de ir receitar cosimentos e mesinhas aos seus conterraneos,
-pelos mesmos livros de veterenaria por onde, um velho frade, seu tio,
-medicamentára, durante muitos annos, as populações doentes d’aquellas
-freguezias!... Este ecclesiastico, a quem ninguem negou as faculdades
-do maior philosopho das redondezas, tinha, entre muitos, um notavel
-aphorismo, que eu aqui divulgo á sciencia absorta e que o sobrinho
-acceitava pelo achar frizante e consolador: «Os burros são do mesmo modo
-que a gente, para a medicina, por consequencia—rematava voltando-se para
-os seus doentes—paparoca e beberoca, sedênhos para a frente, esfregações
-de agua forte, algumas cataplasmas e deixa-te andar que, se morreres, é
-só uma vez». Com o Pandega vinha o senhor Agostinho Manco, juiz eleito,
-um homem magro que fôra da _bicha_. Logo em seguida appareceu o regedor,
-conhecido pela alcunha do Antonio Cápatrás, um individuo vermelho, muito
-estupido, que só sabia emborrachar-se, como diziam os visinhos.
-
-Depois d’estes personagens chegarem é que se principiou a desenterrar os
-cadaveres! Com esse fim, quatro jornaleiros começaram a dar sacholadas
-auxiliados pelo Joaquim da Moita que vira morrer o Bernardo, e que
-limitou o trabalho, indicando-lhes o sitio provavel, onde poderiam
-estar os defuntos. Todas as pessoas presentes, principalmente as
-mulheres e creanças, tomadas de uma curiosidade invejosa, empurravam-se
-reciprocamente, procurando com avidez os sitios que julgavam melhores,
-para presenciarem tudo que se passasse. Para isso iam collocar-se nos
-pontos mais eminentes, e algumas em logares perigosos!... O cirurgião
-Pandega, reconhecendo com a sua prespicacia illustrada, que a filha da
-Rosa Trinta não estava bem, disse-lhe de longe, com voz de auctoridade:
-
-—Ó diabo de rapariga, sae d’ahi que te póde acontecer o mesmo! Se se
-esbarronda essa terra ficas espapada!...
-
-E acrescentou, com um modo ligeiro e superior, repuchando a sua comprida
-pêra:
-
-—Isto de gente estupida não se póde aturar de modo algum!...
-
-A rapariga obedeceu sem retorquir e mudou-se para cima de um muro, d’onde
-reconheceu que tambem podia ver tudo... Porém, pelo lado de baixo estava
-o meliante do José Teixugo, espreitando-lhe as pernas com olhadellas
-peccaminosas!... A Rosa Trinta, percebendo a immoralidade, advirtiu de
-longe sua filha:
-
-—Ó Tonia, não vês esse maroto do Teixugo a olhar-te p’ras pernas! Tira-te
-d’ahi, anda.
-
-A rapariga, verificando a verdade da asseveração de sua mãe, ficou
-irritada e disse offendida, arremettendo com uma pedra ao rapaz:
-
-—Olhem o diabo do cara de foinha! Vae espreitar as da tua irmã! Não tens
-vergonha malandro? Ahhh...—rematou voltando-se para elle com a bôca
-escancarada.
-
-O Teixugo, rindo com um riso trocista, respondeu-lhe:
-
-—Olha que minha irmã talvez as não tenha tão borradas como as tuas!
-Vergonha deves ter tu, minha gata pellada, por andares com as pernas tão
-sujas.
-
-No entretanto o regedor, Antonio Cápatrás, e o Agostinho Manco, juiz
-eleito, revestidos da sua auctoridade assistiam ao acto solemne, em
-mangas de camisa!... O José Pandega recommendava aos que desenterravam os
-defuntos, que andassem de vagar, para lhe não darem alguma sacholada. Um
-d’elles disse ao cirurgião:
-
-—Sabe o que a gente precisava, seu Zé? Uma boa infusa de vinho, para este
-suor se não recolher p’ra dentro. Você que sabe d’essa cousa de sedênhos
-e medicinas, bem o entende, seu Zé.
-
-Por um acaso feliz chegaram n’esse momento duas canecas do bom rascante
-que a Engracia, viuva recente do Repolho, mandava para os trabalhadores
-que lhe desenterravam o marido. Todas as pessoas lhe applaudiram a
-lembrança inesperada e a mulher que trouxera o vinho, affirmou com modo
-persuasivo, que fôra a propria tia Engracia que o fôra tirar do tonel do
-canto, que era _do bô_ que tinham. Os homens, quando acabaram de beber,
-tiveram um _ahhh_... prolongado e satisfeito, confessando um d’elles:
-
-—É a melhor pinga que ha pelos arredores. O Bernardo queria-o vender lá
-para a villa, e já lhe davam dez moedas.
-
-O regedor considerou:
-
-—Foi bem tolo em o não beber. Se o levasse nas tripas, fazia melhor do
-que estar o poupal-o para quem cá fica...
-
-Depois de escorripicharem as duas canecas, os jornaleiros continuaram a
-cavar com mais cautela, para não tocarem com as sacholas nos cadaveres,
-como os prevenira o cirurgião. A primeira cousa que se descubriu foi o
-chapéu do Bernardo, humedecido e barrento. Todos reconheceram que era
-esse mesmo chapéu, esbeiçado e já roto, que elle costumava usar. O José
-Pandega, affirmou com certa intimativa:
-
-—Na cabeça d’elle é que vós o não tornaes a ver!
-
-Todas as pessoas confirmaram esta opinião sensata. Era verdade! Na cabeça
-do defunto, que estava debaixo d’aquelle barro, elles nunca mais veriam
-aquelle chapéu esbeiçado e roto!
-
-Pouco depois, com mais algumas enchadadas, appareceram os defuntos.
-A ultima camada de barro, foi tirada cuidadosamente com as mãos. Os
-dois cadaveres estavam de bruços, ambos inteiriçados, rigidos. Ao de
-Bernardo, que era mais pesado, metteram-lhe uma tábua por baixo do tronco
-e levantaram-n’o ao ar, ficando o corpo aprumado, severo, com um aspecto
-de phantasma! O cadaver do rapasito do gado, como no momento em que a
-barreira se esboroou estava agachado sobre os calcanhares, encontraram-no
-dobrado sobre si mesmo, com a cabeça debaixo do corpo e a cara
-encostada ao peito, quebrado pela espinha. Ambos estavam inteiramente
-desfigurados, por causa da camada de terra adherente, empastando-lhe
-os cabellos, tapando-lhe os olhos e a bôca. Todas as pessoas presentes
-vieram agrupar-se em volta das duas tábuas, sobre as quaes, os mortos,
-permaneciam deitados de costas. O Chico, para o conservarem bem
-estendido, tiveram de o atar pelo tronco e pelos pés ao seu esquife
-provisorio com uma corda; porque, em virtude da rigidez cadaverica,
-tendia a dobrar-se sobre o ventre. Ali, diante dos corpos exanimes, o
-juiz, o regedor e o cirurgião, fallaram em dar parte d’este acontecimento
-tragico, n’um officio, ao senhor administrador, affirmando-lhe que a
-culpa d’elles morrerem, tinha sido d’elles mesmos, que se tinham ido
-metter na bôca da morte. Depois concluiram, que o que era necessario
-fazer-se-lhe já, era amortalhal-os, para se proceder aos _officios_ e
-enterral-os, quanto antes, para não principiarem a cheirar!... Depois
-d’isto, o Pandega, lembrou-se de tirar o barro dos rostos sujos, e para
-isso foi buscar uma pouca de palha de uma moreia proxima, e fel-o.
-
-Porém, como depois d’esta grosseira limpeza reconheceu que os
-cadaveres tinham nodoas arrouxadas nas faces e na testa, affirmou
-peremptoriamente, com modo decisivo:
-
-—Devem-se enterrar quanto antes... Ámanhã principiam elles a feder, que
-nem mil demonios! Não se ha de poder estar com o nariz ao pé!...
-
-As mulheres presentes fizeram uma momice de enjoadas e, cuspinhando
-para o lado, disseram «cachicha». Os homens, que tinham desenterrado os
-mortos, preparavam-se para pegar ás tábuas, onde os tinham estendido, com
-o fim de os transportarem a casa, quando a Caetana, uma velha beata, lhes
-observou n’uma voz de um ligeiro timbre choroso:
-
-—Esperae rapazes, esperae... Não os leveis assim, que ainda estão muito
-borrados. Deixae, que eu lhes lavo a cara...
-
-E para o conseguir foi buscar _manadas de agua_, que verteu sobre os
-rostos dos cadaveres. Depois limpando-os caridosamente com o seu velho
-avental de riscas concluiu:
-
-—Agora podeis ir. _Bão_ mais bonitos.
-
-Por fim, os quatro jornaleiros, deitando um olhar saudoso ás canecas
-vasias, levaram os corpos para casa da Engracia. Ahi é que foram
-decentemente lavados e amortalhados para os depositarem na varanda, onde
-veio muita gente da freguezia deitar-lhes agua benta sobre as mortalhas e
-recommendal-os para a eternidade, com as suas resas distraídas!...
-
-Na varanda, o esquife de Bernardo ficou ao fundo, e o do Chico logo ao
-pé da porta... O sol entrava francamente, incidindo sobre os rostos dos
-defuntos, tornando-os da pallidez indecisa da cera, com o tom roxo
-das ecchymoses enfraquecido. Ambos elles tinham uma expressão rigida
-e concentrada, propria das mortes afflictivas, o que se lhes conhecia
-nas rugas da testa, no apanhado dos beiços, nas palpebras fechadas com
-energia! As mãos grossas e plebeias, cruzadas sobre o peito, amparando um
-crucifixo, por effeito da humidade do terreno debaixo do qual estiveram
-horas, haviam adquirido uma molesa aristocratica—uma coloração branca de
-mãos estimadas. Bernardo, com a sua barba feita e com o cabello cortado
-rente, tinha, para as mulheres da sua freguezia que lhe cercavam o
-esquife, uma apparencia de mordomo de festa. Por isso recordavam a ultima
-vez em que elle fizera a da Senhora do Carmo, e, tinham bem presente
-diante dos olhos, a sua figura magra e insignificante, no primeiro logar
-da bancada, com as mãos erguidas em face do padre Beiral, quando este o
-incensou as tres vezes do rito, fazendo-lhe uma cortezia ao retirar-se,
-o que todos julgavam de uma polidez e de uma distincção invejaveis. A
-mortalha do marido da Engracia era mais rica do que a do Chico, a qual,
-sendo elle engeitado, lhe tinham esmollado perante a confraria das almas!
-Porém notavam que não differiam muito; porque ambas eram de forte panno
-violeta muito engommado, com cercaduras relusentes de galões metallicos,
-que scintillavam sob a viva luz do sol. As pessoas que contemplavam
-estes cadaveres serenamente deitados, ainda recordaram muitas vezes,
-relatando-o com minuciosidade, o triste modo por que tinham morrido, e
-a beata Caetana, como julgamento, concluiu d’este modo a narrativa que
-acabava de ouvir pela sexta vez ao Joaquim da Moita:
-
-—Foram elles bem asnos em se irem metter n’aquelle perigo! Este Bernardo
-sempre foi um pascacio. Para deixar _a um_ que nem é filho d’elle!...
-
-E trouxeram a pello a vida desregrada do Antonio, que andava sempre de
-feira em feira, sem parança em casa, vivendo no meio de jogadores e de
-troquilhas borrachos! N’esse mesmo dia tinha apparecido na porta da
-igreja a lista dos rapazes para soldados. O nome d’elle lá estava, entre
-o de outros. Havia quem affirmasse, que já havia ordem na villa para o
-prenderem, como _reflatario_. Certas mulheres que se queriam inculcar
-como ao corrente do que se passava, affirmavam que fôra o senhor padre
-Beiral, quem lhe arranjára _aquella farda_. E a este proposito recordaram
-as queixas que o ecclesiastico devia ter do filho da Engracia, que lhe
-roubara de uma vez todas as uvas douradas que elle tinha na sua latada, e
-as melhores peras do natal, furtadas, mesmo nas barbas do sacerdote, da
-pereira do pé da casa!... Por isso, e porque estavam indignados contra
-o rapaz, como tornando-o em parte responsavel d’esta morte do Bernardo,
-applaudiam a resolução, havia tempos manifestada, pelo Beiral de _pôr uma
-farda ás costas ao meliante_!...
-
-
-IV
-
-N’essa mesma tarde foram as confrarias buscar os defuntos. Era uma
-consideração pelo nome de Bernardo que era _irmão remido_! Adiante de
-todas vinha a do _Santissimo Sacramento_, de opas vermelhas e a cruz de
-prata alçada, relusindo ao sol. Em seguida desfilava a de _Nossa Senhora
-do Carmo_, de opas brancas com murças azues, da côr do céu desbotado de
-agosto. Na bandeira que a destinguia estava pintada a Virgem, com a sua
-ridente face menineira, tendo pendente de uma das mãos um rosario, e da
-outra uns bentinhos! Por fim seguia-se a confraria das _Almas_, com a sua
-bandeira dolorosa na frente! Era ali representado o quadro terrificante
-do purgatorio:—um rei de corôa poderosa e de longas barbas patriarchaes,
-apoiava a sua mão sobre o hombro de um bispo mitrado, coberto de uma
-rica capa de ouro, o qual estava mais no fundo das chammas, soffrendo,
-talvez sem bastante resignação, que o monarcha chegasse primeiro á
-bemaventurança! Ao lado d’este augusto personagem, uma peccadora, com
-as longas madeixas de Magdalena, dando a mão a um homem lubricamente
-calvo e de bigode e pera, trepavam por entre linguas de fogo, de uma
-iracundia terrivel, em ôca e vermelhão! Todos estes condemnados, e ainda
-outros _sem distincção_, erguiam olhos supplicantes e estendiam as mãos
-abertas a um anjo, que estava no alto, pesando serenamente as culpas e os
-soffrimentos de cada um, para lhes outorgar a remissão promettida!...
-
-Da confraria da Senhora do Carmo, destacaram-se quatro irmãos para
-tomarem conta do cadaver de Bernardo Repolho, e outros quatro da
-confraria das Almas que, por caridade, se encarregaram de conduzir o do
-engeitado... E, quando tinham tomado sobre os seus hombros valentes os
-dois esquifes, partiram pelo caminho adiante, para a igreja, condusindo
-os defuntos. Atraz, na casa da viuva, ficou o chôro alarmante de
-Engracia, e das visinhas que a acompanhavam, misturando-se, na larga
-amplidão ao triste dobre dos sinos que echoavam de quebrada em quebrada,
-com a sua nota plangente e de uma harmonia rebelde!
-
-No instante em que o funebre acompanhamento subia pela encosta da igreja,
-o Antonio Fogueira entrava na freguezia! Havia mais de oito dias que
-andava por fóra, na sua vida vagabunda de torquilha... D’esta vez trazia
-uma egua nova, muito fugideira, que lhe vendera o Rio Tinto.
-
-O toque funerario dos sinos e o acompanhamento que elle viu logo de
-longe, surprehendeu-o, fazendo-o parar, e teve um baque no coração! O
-primeiro esclarecimento ácerca do occorrido, foi-lhe dado por uma mulher
-velha que vinha pelo caminho para o lado d’elle, vergada sob o peso de
-um grande molho de herva e que, antes de ser interrogada, lhe disse
-encostando-se com o feixe a um muro para descançar:
-
-—Aquelle agora, meu rico, do que precisa, é de muita fartura de missa,
-por aquella alma!—observou-lhe depois de um «ah!» de estafada a velha
-Vicencia.
-
-—Mas quem foi que morreu?—indagou o Fogueira.
-
-—Ah! sim, tu não sabes!—completou a velha depois de expellir o seu
-cançaço asmatico! Andas sempre lá pelas feiras, não admira. Pois toca-te
-pela vestia... Foi teu pae Bernardo, de uma grande desgraça!
-
-O adoptivo do Repolho impallideceu rapidamente, deixando cair as redeas
-no pescoço da egua! Vicencia concluiu:
-
-—... Uma grande desgraça, sim senhor, é como te digo. Caiu-lhe honte
-em cima da cabeça, a elle e ao vosso rapaz, o Chico, o monte da Cham,
-quando lá foram ao barro! Se tu não andasses sempre por essas feiras, em
-jogatina, talvez que o pobre home não fosse lá, com esse tempo!
-
-E depois, voltando-se salientemente para o Fogueira, exclamou de um modo
-reprehensivo:
-
-—Ora tu não mudarás de rumo! Vê se te confessas, que andas n’uma vida de
-home perdido. Tem vergonha n’essa cara! Faz uma confissão _jaral_, que
-vem ahi os missionarios, grande maroto!
-
-O Fogueira, que era naturalmente irritavel, sentiu subir por elle acima
-uma forte ira contra a velha Vicencia. Porém, refreando-se, respondeu-lhe
-com uma indignação latente:
-
-—Você que lhe importa o que eu faço, seu diabo de coruja! Vou-lhe lá
-pedir alguma cousa?! Se não fosse, não sei porque, se não fosse por causa
-d’aquelle que acolá vae (alludia ao enterro que subia a encosta), eu lh’o
-diria, seu grande diabo!...
-
-Uma colera viva apoderou-se rapidamente da velha, que deixando cair o
-feixe da herva no chão, principiou a gesticular, sem encontrar no momento
-as verdadeiras palavras indignadas, com que desejava aggredir o Fogueira!
-Como é que um homem, tão culpado como este maroto, que só andava pelas
-feiras em jogatina e com más mulheres, se atrevia a ter arrogancias
-diante dos que o reprehendiam?! Por isso ella, com uma voz gritada e com
-os punhos ameaçadores, o increpou, com uma pedra na mão:
-
-—Ah! grandissimo ladrão, o que tu precisavas era de uma cadeia. Talvez
-me queiras bater, excomungado! Ora vem p’ra cá, que te prego com esta na
-testa! Cuidas que eu tenho medo, stafermo?! Um ladrão, que não faz senão
-gastar o que aquelle bruto (alludia tambem ao morto que ia no esquife)
-andou por ahi a ganhar no trabalho. Foi elle bem tolo em mourejar p’ra
-ti! Mas deixa, meu condemnado do inferno, que o senhor regedor e o
-senhor padre Beiral te ensinarão! Já está prompta a farda que has de ter
-ás costas!... Eu vou dizer já ao tio Antonio Capatrás, que te vá prender.
-
-Porém esta indignação palavrosa de Vicencia, perdeu-se no ar. O Fogueira
-só lhe percebeu que ia ser preso; mas a este tempo já tinha picado a egua
-pelo atalho acima, para entrar em casa, pela matta, com o fim de ninguem
-o ver. E quando se viu só no caminho, a distancia da velha, cuja voz
-ainda lhe chegava aos ouvidos n’uma gritaria de furia, o filho adoptivo
-do Bernardo Repolho considerou com a reflexão propria dos momentos
-responsaveis:
-
-—Mas para que diabo foi elle buscar o barro, com um dia como esteve
-honte? Para que se foi aquelle maluco metter ao perigo?!—exclamava sem
-comprehender, voltado mentalmente para si mesmo!
-
-E, considerando n’isto alguns segundos, parado, a olhar fixamente para um
-muro musgoso, concluiu:
-
-—É uma de mil diabos! Que grande bucha!
-
-Dispunha-se a dirigir-se á cancella da matta, quando o susteve a voz
-conhecida do João do Rego, que lhe appareceu de cima do muro do caminho:
-
-—Espera ahi, ó Tone! Ó rapaz, espera!
-
-E aproximando-se acrescentou:
-
-—Então teu pae lá ficou arrebentado debaixo do barro e o rapaz tamem!
-
-—O rapaz tamem...—repetiu o Fogueira absorvido, mas sem commoção.
-
-—Tamem. Pois tu não sabes nada?
-
-—Sei, disse-me ali em baixo a Vicencia, aquelle diabo que me metteu cá
-umas cousas por dentro, que...! Valha-a mil demonios!
-
-O do Rego continuou esclarecendo:
-
-—Isso não faz monta. Ella é tola, tu bem sabes. Mas honte foi ahi na
-freguezia o dia de juizo! Juntou-se povo, que povo!—o Capatrás, o Manco,
-o çurgião... o poder do mundo! Desenterraram-n’os; porque elles ficaram
-debaixo de um monte de barro, da altura d’este muro. Depois, quando os
-trouxeram para casa em charola, em cima de duas tabuas, lá a tua velha
-fez ahi uma berraria de deitar a casa abaixo. Fazes lá idéa! Era muita
-gente a querer agarrar n’ella; mas principiou a estrabuchar e a morder,
-por não a deixarem _ir abraçar o seu home_!... Ora tu bem sabes que a
-gente não a devia deixar, e mesmo o senhor padre Beiral e o Pandega
-disseram que não deixassem; porque lhe podia dar algum stupor! Hoje tem
-custado a ter mão n’ella, quer-se ir deitar a afogar; mas a minha mãe,
-que lá está, e outra gente não deixam. Quando a seguram, principia a
-chorar aos gritos, como se tivesse o diabo e chama muito por ti! Já dizem
-que a alma de teu pae lhe entrou por algum sitio... Se é verdade, temos
-que rir; porque ha de custar a por-lha fóra! Isso de entrar uma alma no
-corpo da gente é peior que maleitas. Safa!
-
-O Fogueira ficou mais triste, mais acabrunhado com estas revelações.
-Principiou a apoderar-se d’elle um terror, um medo...—o medo de que a
-alma de seu pae adoptivo tivesse realmente entrado no corpo de sua mãe
-Engracia! E com um ar scismatico, de homem abatido, puchava pela longa
-barba, arrepelando-a, e considerando-se infeliz!
-
-O João do Rego, no mesmo tom de confidencia, rematou:
-
-—É o diabo! Trazes tu por ahi cigarros? Como vens da villa has de trazer.
-Agora foi a feira dos nove. Vens de lá? Trazes uma burra chibante!
-
-O Antonio, passando-lhe automaticamente o cigarro disse: «estive...
-comprei...». Depois perguntou-lhe:
-
-—Mas diz que me querem prender?!
-
-—Qual prender! Deixa fallar! Está um papel na porta da igreja; mas é p’ra
-gente ir a Vianna, por causa d’essa cousa da tropa! Meu pae arranjou
-cartas de fidalgos da villa p’ra me livrarem, cá a mim, em Vianna;
-porque _botou_ com elles no deputado! Eu vou e mais elle, domingo, por
-ahi abaixo, á _speção_. Vem co’a gente, que faremos pandega!? O Capatrás
-disse que tu tamem has de ir. Ainda honte fallou no adro, que se tua mãe
-não vender um campo p’ra te livrar, tens de andar com a muchila ás costas.
-
-E concluiu n’um tom de voz convidativo:
-
-—Mas a tua velha que venda o campo. Ella pr’a que o quer senão p’ra ti?!
-Diz-lhe que venda e vamos todos lá a _essa_ Vianna!
-
-Despediram-se. O Fogueira picou a egua, explicando ao do Rego, que queria
-entrar pelo lado da matta, para se não encontrar com o enterro que ia no
-caminho. Depois, quando chegou á cancella, a egua transpol-a, mas entrou
-desconfiada, reparando em tudo, olhando de travez para os objectos!... O
-Antonio forçou-a a caminhar dizendo-lhe: «Chó diabo, anda p’ra diante!»
-E assentando-lhe duas lambadas nas ancas, esporeou-a com força!...
-
-Porém, logo adiante, o animal estacou com mais teimosia, encarando
-excentricamente com um velho carvalho nodoso. O Fogueira, como a egua
-era nova e como o momento não era proprio para lhe tirar as teimas,
-desceu cordatamente, pensando em a levar á redea. Para isso principiou
-a puchal-a, com brandura, de um modo carinhoso, condescendente,
-fallando-lhe com moderação. Porém ella fincou-se nas mãos, levantou
-a cabeça, encostou-se á retranca e principiou a recuar resfolgando
-estrondosamente pelas ventas dilatadas, olhando esgazeada e com uma
-tremura nervosa nos beiços! O Antonio, conhecendo que á força a não
-faria transpor a matta povoada de carvalhos, que produziam sombras
-amedrontadoras, pensou em redobrar de carinhos e attenções, desejou
-familiarisal-a com a velha arvore nodosa que a espantára!... Para
-isso amimava-a, fallando-lhe n’uma voz de cada vez mais convidativa,
-puchando-a moderadamente pelas redeas, para a aproximar do objecto
-suspeito... Porém ella, entendeu que devia recuar ainda mais e, n’um
-momento, principiou a levantar as mãos, a agitar mais freneticamente
-a cabeça, a espetar com mais desconfiança as orelhas, a curvetear...
-e terminou por atirar duas valentes e corajosas parelhas de couces á
-cancella, partindo-a.
-
-O filho da Engracia teve n’este momento uma enorme colera e veiu-lhe
-rapidamente a idéa de tirar a sua comprida navalha e abrir a barriga da
-egua, como em outra occasião fizera a um cavallo! Porém, a reflexão
-aconselhou-o a não deixar apparecer as suas violencias naturaes... O
-momento não era opportuno—reconhecia-o elle perfeitamente!... Ouvia d’ali
-mesmo sua mãe, gritar com desespero, acompanhada pelo chôro cantado de
-todas as visinhas, que lhe faziam companhia n’este momento doloroso.
-Toda a sua idéa era metter, sem ser presentido, a egua na côrte do gado,
-e depois, quando em casa tudo estivesse mais tranquillo e a choradeira
-acabada, entraria pela porta dentro, inesperadamente e de supito!... «A
-final de contas—considerava—isto tem de ser e tem!» Por isso, para não
-augmentar mais a desordem que havia um quarto de hora se apoderara do seu
-espirito, a desordem que o cercava por todos os lados, optou por amansar
-a egua em vez de a matar, e para isso principiou a cofiar-lhe as crinas,
-passando-lhe pela anca tremula a mão benevolente e prodiga de afagos,
-com a brandura insuspeita da mão de um amigo! Conseguiu d’este modo
-acalmal-a, mostrar-lhe de perto o velho carvalho, chegar-lhe ás ventas,
-ainda tremulas, a casca gretada, que exhalava um forte cheiro de humidade
-e de bolor. Conseguiu o que desejava; mas a egua atravessou o caminho da
-matta, sempre desconfiada, olhando de soslaio, resfolgando e levantando
-a cabeça ao menor ruido. O Antonio chegou a mettel-a na côrte do gado,
-prendendo-a calculadamente a distancia dos toiros, que permaneceram a
-olhar vagamente, com os seus olhos redondos, como bogalhos e relusentes
-como vidro!
-
-Pelo barulho que tudo isto produziu, Engracia que já estava calada,
-ficou advertida da presença de seu filho!... Por isso, tanto ella como
-as visinhas que a acompanhavam, tornaram a desatar a sua dôr recente,
-em altos gritos cheios de mortificação e que se estendiam pelos campos!
-Quando, instantes depois, o Antonio entrou na cosinha, a viuva do
-Bernardo agarrou-se-lhe ao pescoço, dizendo muitas vezes: «Meu rico home
-do meu coração, que te não torno mais a ver! Perdi o meu rico home! Um
-santo como elle era! Uma desgraça assim!»
-
-Esta paixão intensa e desgrenhada era communicante, e por isso o Antonio
-saiu dos braços de sua mãe, para se deitar de barriga sobre a caixa da
-brôa, com o rosto escondido entre as mãos, dando soluços affrontosos e
-dilacerantes!... As mulheres, que acompanhavam Engracia principiaram a
-dizer que elle era muito bom rapaz, muito amigo de Bernardo, tão amigo
-como se fôra filho verdadeiro! Gabavam muito este choro afflictivo de
-Antonio e, acercando-se d’elle, com as mãos escondidas nos aventaes,
-consolavam-n’o, lembrando-lhe que a _desgraça_ acontecera por vontade
-de Deus Nosso Senhor, e confirmavam que todas ellas, que ali estavam a
-chorar pelo Bernardo, tambem haviam de morrer e talvez bem cedo!... E
-depois d’estas palavras sensatas aconselhavam-n’o a fazer uma confissão
-geral com os missionarios; porque era muito bom a gente andar sempre
-preparada para ir á presença do Senhor Todo Poderoso! Antonio parece que
-não gostou d’esta advertencia, em que presumia uma censura á sua vida
-desregrada, e disse-lhes com certo desabrimento, com modo brusco e mal
-creado, sempre deitado de barriga sobre a caixão da brôa:
-
-—Calem-se! Deixem-me cá. Ponham-se agora ahi com lôas e aquellas!...
-
-E desde este momento, o seu choro, foi-se abrandando gradualmente,
-e um silencio, de vez em quando interrompido por um «ai Jesus!»,
-restabeleceu-se na cosinha. Engracia, com os olhos enxutos, mas
-evidentemente abatida e mortificada, foi, como um cão reprehendido,
-sentar-se ao canto da lareira, onde havia uma fogueira crepitante e
-viva, procurando o ponto mais escuro e modesto, d’onde atiçava o lume,
-continuando a dar ais lastimosos e suspiros. Passados alguns minutos,
-quando as brazas estavam bem vivas, bem mordentes, disse ella mesma, com
-uma voz serena e apasiguada, para Genoveva, a mãe do João do Rego:
-
-—Ó mulher, vê se lhe deitas aqui n’este lume uma posta de bacalhau. Esse
-moço ha de vir com fome.
-
-E, como o Antonio ainda de bruços sobre a caixa do pão se remexeu,
-expellindo o ultimo suspiro da sua angustia, ella exclamou n’uma voz mais
-secca, mais sincera:
-
-—Meu rico home que o não torno mais a ver até ao dia de juizo! Tomára eu
-que o dia de juizo fosse já hoje, só para tornar a vêr o meu rico home,
-que foi morrer de uma desgraça!... Uma cousa assim!...
-
-Porém as outras pessoas ficaram caladas... Não tendo já mais lagrimas
-para chorar, as mulheres visinhas principiaram a contar ao Antonio, como
-tudo se tinha passado, como acontecera aquillo! Elle, impellido por uma
-curiosidade inconsciente e com o fim de as escutar com mais attenção
-voltou-se de ilharga e olhava... Depois, como a narrativa, vivamente
-colorida pelos commentarios e pela gesticulação, o interessava, sentou-se
-e escutou até ao fim, com as mãos apertadas entre os joelhos. A Genoveva,
-mãe do João do Rego, era quem o certificava de todo o acontecido, e
-apesar de ser muito difusa e de entremetter observações sem valor e
-rodeios pueris, o Antonio ouvia-a: O Bernardo era um homem sem esperteza
-nenhuma, um molanqueiro, um deixa-te ir... Muito bom homem, muito
-honrado, muito temente a Deus, de muito boas contas... isso sim, senhor.
-Verdade, verdade... não se contava outro na freguesia! Mas prestimo não
-tinha muito, não tinha mesmo nenhum. Todo o mundo o levava para onde
-queria, um grande cebolla é que era! Esta desgraça que lhe succedera
-tinha sido prevista pelo Joaquim da Moita, que lhe disse ao vel-o
-encostado á barreira, que tinha umas bôcas escancaradas, que mettiam
-medo: «Home, tu ahi não estás seguro! Vê lá no que te mettes, Bernardo».
-Elle não quiz fazer caso e respondeu: «Ora não ha de ter duvida...». O
-pago foi o que se viu, ficar esborrachado.
-
-O Fogueira, ouvia tudo isto com uma seriedade inconsciente e bronca.
-Que diabo de toleima, a de seu pae, de se ir metter debaixo da barreira
-que caíu! Realmente sempre era um banasola, que não tinha prestimo para
-nada!... E deixando-se n’esta corrente de pensamentos vagos, impulsionado
-pela palavra quente da tia Genoveva, e, como já lhe haviam posto o
-bacalhau sobre a caixa, principiou a comer de vagar, com uma apparente
-inappetencia... Tinha o olhar vagaroso e a mastigação demorada, apesar de
-ter fome. De vez em quando, Engracia, exclamava pelo «seu rico home», que
-não tornaria mais a ver, até ao dia de juizo!... Genoveva, que durante
-a narrativa se enchera de espirito hostil contra o fallecido Bernardo,
-disse reprehensivamente, para a viuva:
-
-—Cala-te mulher! Tamem já é de mais! Já aborreces com tanto «meu rico
-home!» (E fez um esgar de troça.) Que se não fosse lá metter! Que não
-fosse pascacio!
-
-Depois concluiu voltada para o Antonio:
-
-—Olha, elle se morreu é porque quiz! era um bô home, um bô serás; mas
-teimoso até ali! Deus o tenha no céu, que todo o mal foi d’elle; mas
-verdade, verdade, para onde lhe désse o toutiço, era para lá, como um
-casmurro. Agora que está na outra vida, Deus o tenha em bô logar. Um
-Padre Nosso por sua alma é que devemos resar... Do que Bernardo precisa
-é de muito rosario e de muitas missas, que quantas mais, melhor. «Padre
-Nosso que estaes no céu, santificado seja o vosso nome, etc...»
-
-Todos a acompanhavam n’uma voz ciciada, e com as palpebras meio cerradas.
-N’este momento ouviu-se o dobre funerario e lamentoso dos sinos. Era o
-signal de que os officios tinham acabado e de que o corpo ía ser dado á
-sepultura! Uma das amigas de Engracia observou:
-
-—Elle lá vae pr’a cova, coitado! Olhem que ninguem sabe onde as tem
-armadas!... Ainda honte, ía em cima do carro, muito socegado, e já hoje
-dorme na greja pr’a toda a vida! Ah! morte negra, morte negra que assim
-os vaes levando a um e um!
-
-Engracia tornou a chorar alto e o Antonio atirou-se novamente de bruços
-sobre a caixa do pão, conservando-se muito tempo sem se mexer...
-N’aquella posição adormeceu de fatigado pela jornada!
-
-
-V
-
-Porém, a viuva do Repolho, o que não queria por fórma nenhuma, era que o
-seu Antonio fosse para a tropa.
-
-—Soldado nem de barro!—exclamava. Isso não o ha de elle ser, ainda que eu
-tenha de vender a camisa do corpo! Todos esses invejosos, que lhe querem
-mal, hão de cegar!...
-
-Mas a final—porque é que lhe tinham esta raiva de morte ao rapaz?!
-Engracia bem o sabia: O Antonio não era um _cebola_, não era nenhum
-_maricas_ que se deixasse levar pelo beiço. Tinha tido muitas occasiões
-de amolgar as costas dos visinhos com o seu rijo pau de carvalho, e essa
-era a rasão por que lhe tinham tanta birra. Em qualquer ralhação, que
-a Engracia tivesse na aldeia, atiravam-lhe logo á cara, com a vida de
-homem perdido e sem religião, que o seu filho levava pelas feiras...
-N’essas occasiões, com uma intimativa raivosa de vingança, ameaçavam-lh’o
-com a farda, com a _tal farda_ que o senhor padre Beiral lhe havia de
-arranjar...
-
-«Pois não houvestes de arranjar uma farda!» respondia-lhes Engracia
-indignada. Graças a Deus, ainda tinha algumas terras que vender e,
-acabadas as terras, ainda tinha cordões de ouro e a propria casa em que
-morava, que tambem valiam um bom par de moedas! Quem perdia com estas
-cousas eram os santos da igreja—Nossa Senhora do Carmo e Santo Antonio
-milagroso a quem promettera os dois campos da ribeira se o rapaz se
-livrasse. Assim, arranjando-lhe o padre Beiral a farda, venderia esses
-campos para pagar a um _sustituto_. E por causa d’isto, tambem pensava
-em lhe doar todos os bens, e deixar-lhe, mesmo em vida, gastar tudo, só
-para ter o regalo de ver a visinhança com uma cara de palmo e meio! Ao
-menos desenganava de uma vez todos os que lhe queriam mal ao moço! Elles
-desejavam que Engracia lhe não deixasse nada, por não ser seu filho;
-mas ella, que se tinha na conta de teimosa como uma burra, de cada vez
-estava mais resolvida a dar-lhe em vida quanto possuia! E realmente, n’um
-dia em que a Vicencia lhe disse de cara, «que ella estava no inferno
-vestida e calçada, que talvez não encontrasse um padre que lhe deitasse a
-absolvição, por querer desherdar Nossa Senhora e os santos em beneficio
-do grande meliante e pelo não o mandar para a terra de onde tinha vindo»
-a viuva do Repolho, cheia de colera, partiu para a villa, onde lhe fez a
-doação premeditada e onde, ao mesmo tempo, vendeu os campos da ribeira
-ao brazileiro do Tenrozo, entregando todo o dinheiro ao Antonio, para
-elle se ir livrar a Vianna e para continuar no negocio de burras, em que
-se via envolvido.
-
-Porém, as pessoas que andavam ao corrente da vida do Fogueira, que
-conheciam as suas relações com a Marianna Ripa,—uma chupadeira!—com o
-Rio-Tinto e com o Fanfarra,—dois ladrões!—quando souberam da doação
-incondicional que a Engracia lhe fizera, affirmavam com riso de despeito
-e de consolação ao mesmo tempo:
-
-—Agora é que vae ser o bô e o bonito. Verão como elle espatifa tudo
-emquanto o diabo esfrega um olho. Ai minha tola de Engracia! Cuidas que
-déstes na dos outros, mas déstes na tua cabeça! Os campos que tanto
-custaram áquelle burro do Bernardo, estão ahi estão engolidos n’um
-prompto!
-
-Na realidade, nas feiras que o Fogueira frequentava, principiou elle a
-apparecer mais chibante e cheio de arrogancia, sempre na companhia de
-Marianna Ripa, que tambem andava n’um luxo e n’um estadão de _arreguilar_
-o olho! Ella tudo eram lenços de seda de furta-côres, tudo roupinhas do
-melhor panno azul, chinelas com biqueiras de verniz pispontadas a retrós
-verde... o diabo, um inferno! O Fogueira, sempre com o cinto recheado
-de soberanos que mostrava todo basofia, pedia nas estalagens com voz
-arrogante e desdenhosa, postas de carne assada e copos do rascante,
-com que enchia os coldres á Marianna, ao Rio Tinto, primo d’ella, ao
-Fanfarra e ainda a outros troquilhas. O Rio Tinto encontrou meio de
-lhe impingir uma egua com seis moedas de ganho, quer dizer, por vinte
-moedas, que na opinião de entendidos, não valia dez; porque, pelas
-quatorze, já tinha sido uma encaravilhadella para o primeiro comprador!
-Era um animal vistoso, de pello luzidiu e fino, as orelhas espertas, as
-ventas resfolgantes, o olhar vivo e de uma inquietação nervosa...; mas
-era uma egua com pancada! Tinha um travado meudo, muito igual e firme; a
-cabeça, quando ía vertiginosamente na carreira, apresentava-a com altivez
-soberana; porém, diziam que tinha grande doze de lua. Algumas pessoas
-chegavam a affirmar que era uma egua redondissimamente maluca!...
-
-O Rio Tinto quasi desenganou o Fogueira dizendo-lhe:
-
-—Eu gostei do demonio da burra. Se a queres leva-a; mas o que ella
-precisa é de bons quartos em cima! Olha que eu não sei se tu terás perna
-para a montar!
-
-O Fogueira, mesmo por causa d’esta declaração, como era muito vaidoso,
-comprou-lh’a. Tinha-se na conta de um dos melhores montadores das feiras
-minhotas e não podia levar á paciencia, que houvesse animal, por mais
-bravo, que elle não podesse amansar. Nunca encontrára, nem entre os
-marchantes, nem entre os troquilhas, homem a quem temesse n’um desafio
-de carreira. Portanto, apesar de lhe dizerem _que era brava_, o Fogueira
-quil-a e, o Rio Tinto, recebeu logo em bons soberanos as vinte moedas...
-Muitos feirantes que lh’a viram levar ficaram dizendo com um riso
-velhaco, alludindo á maneira impensada como o Antonio gastava o dinheiro:
-
-—Aquillo é que é derreter arame! É como cebo ao lume. Parece um morgado.
-
-O Domingos Bicudo, o taberneiro á porta do qual foi feita esta
-observação, defendeu o Fogueira n’estes termos:
-
-—E a vós que vos importa?! É do vosso dinheiro que elle gasta? Deixae o
-rapaz com as suas aquellas.
-
-Depois d’isto, oito dias antes de esgotado o praso determinado no papel
-que estava na porta da igreja, o Antonio foi á administração do concelho
-buscar _a guia_ e partiu para Vianna, á _speção_. A Marianna Ripa foi
-com elle. Era pelo tempo da feira da Senhora da Agonia. A rapariga ía
-toda secia, toda preparada, n’um espavento de arromba! Ella, como ouvira
-fallar _da braveza_ da egua, receiou ir a cavallo, e disse ao seu amante,
-que não queria. Porém, o Fogueira, intimou-a terminantemente a montar,
-observando-lhe que indo elle ao pé, não tinha que temer. Por isso ella
-subiu para o albardão. Sentou-se commodamente, espalhando as saias para
-ambos os lados. Por baixo, de entre as dobras do saiote vermelho do
-panno mais fino e de entre os folhos brancos das saias, saíam os seus
-pés calçados em chinellas de biqueiras de verniz pispontadas, e as suas
-pernas grossas, bem feitas, calçadas com meias de linha fina, viam-se-lhe
-impudicamente até acima do tornozello. Marianna tinha um riso vaidoso e
-triumphante, quando olhava para as pessoas que a viam passar!
-
-O Fogueira ía a pé, de vestia ao hombro, com a larga facha vermelha
-apertada sobre o estomago, e armado com o seu pau argolado, proprio
-de homem de feiras!... Acompanhava a cavalgadura, a largas passadas
-de arrieíro, examinando frequentemente a cilha, para que a moça lhe
-não fosse dar um trambolhão... E, com a expansibilidade natural do
-seu temperamento sanguineo e da sua cabeça estouvada, ía fallando á
-egua, para a familiarisar com a sua voz, e dava-lhe fortes palmadas na
-anca, que a faziam estremecer e levantar a cabeça de um modo inquieto,
-continuando depois com passadas mais ligeiras e, ás vezes, com chouto,
-do que Marianna se queixava, por se lhe remexerem as tripas todas lá por
-dentro...
-
-Como estava um dia de grande calor, logo na primeira taberna, fizeram
-uma paragem para provar do rascante. A Ripa, apesar de desembaraçada e
-resolvida, tinha medo da egua, e por isso não se arriscou a descer, sem a
-ajuda do Fogueira, que para a pôr no chão, a agarrou valentemente e com
-vaidade, apanhando-a por baixo dos quadriz:
-
-—Ó diabo! És uma franga. Não pesas nada! Tudo saias. São tudo saias.
-
-E deu duas reviravoltas com ella suspensa, mostrando-lhe que era muito
-leve. Marianna ria-se mostrando os seus dentes brancos, fortes e iguaes.
-O Fogueira, depois de a pôr no chão, ficou mudo, rangendo os dentes,
-a sorrir para ella, n’uma sensualidade bruta, motivada pelo calor das
-saias, pela excitação animal que lhe produzira o proximo contacto da
-carne da Marianna!... Por isso, n’uma incontinencia inconsiderada,
-correu atrás d’ella pela taberna dentro, perseguindo-a até ao fim da
-loja, onde a agarrou, a teve por momentos na sua posse, dando-lhe
-palmadas nos hombros roliços, roçando-lhe a sua forte barba pelo pescoço,
-pela cara, por onde podia... Depois, impellindo-a de si, com a soberania
-orgulhosa de um possuidor, rematou n’uma respiração desafogada:
-
-—Diabo de moça! É o vivo demonio! Ó tia Zefa, deite lá um de meia canada.
-
-Beberam de vagar, sentados n’um banco de pedra, á porta da venda,
-abrigados pela fresca sombra de um antigo carvalho. Em seguida, tendo
-descançado sufficientemente, a Marianna tornou a montar ajudada pelo
-Fogueira e continuaram o caminho.
-
- * * * * *
-
-A estrada nova, ainda não estava concluida. As diligencias não podiam
-ir até Vianna. Dizia-se «que para a outra Senhora da Agonia talvez já
-fossem». Logo adiante da venda, onde tinham parado para beber, andava
-muita gente nos trabalhos. Uma longa fita de cascalho, bem espalhado,
-apresentava uma superficie aspera e eriçada, sobre a qual rolava
-pesadamente um enorme cylindro de pedra. Duas juntas de possantes bois
-barrosãos, vagarosos, firmes e iguaes, puchavam o cylindro. Adiante
-dos bois, á soga, com o corpo muito inclinado, ía um rapaz pequeno, de
-carapuça, com a aguilhada ao hombro, fallando distraídamente ao seu gado.
-Logo depois, um homem novo, cara de militar da reserva, tendo uma ponta
-de cigarro meticulosamente escondida detrás da orelha, arrastando com
-perguiça os tamancos, assobiava distraído, dizendo imperiosamente ao da
-soga:
-
-—É diabo, rapaz, não durmas, falla-me a esse gado.
-
-Por isso o rapasito, aguilhou com mais força os bois, que estenderam
-para diante as suas pesadas cabeças, contraindo fortemente os musculos,
-puchando com mais força.
-
-Logo em seguida, um pouco ao lado do leito da estrada, viam-se os
-britadores, quebrando o seixo a martelladas repetidas, para fazerem o
-cascalho. N’este officio rude, que exige um exagerado esforço dos braços
-e de todos os musculos do tronco, empregavam-se alguns homens aleijados
-das pernas. Porém, alem d’estes, havia mulheres que tinham um aspecto
-grosseiro e masculino, fortes seios entumecidos, e que trabalhando por
-empreitada, podiam ir dar de mamar aos seus filhos, que choravam deitados
-em canastras, á sombra benefica e fresca dos salgueiros, que marginavam a
-estrada antiga.
-
-Tanto estas mulheres como os homens aleijados, trabalhavam sentados
-no chão, cobertos com chapéus de palha baratos, que tinham comprado
-aos presos na cadeia da villa. O sol peninsular de agosto abrasava-os,
-obrigando-os a beber frequentemente tigelas de agua, que iam buscar
-a um ribeiro proximo. As suas conversas grosseiras, eram tocadas de
-palavras obscenas e sem pudor. Tinham um modo insolente de se exprimir,
-porque se julgavam mais livres do que os outros, que trabalhavam a
-jornal. O seu aspecto, pela continuação de se conservarem durante horas
-sentados no chão, com movimentos esforçados dos musculos dos braços
-e do tronco, era carecteristico e singular:—no peito havia uma forte
-depressão correspondente ao abaúlamento da columna vertebral; as linhas
-faciaes tinham uma contracção permanente de soffrimento, originada nos
-esforços potentosos; as narinas eram dilatadas em virtude dos movimentos
-respiratorios entrecortados e pelas largas expirações de compensação;
-o tronco e os braços tinham um desenvolvimento desharmonico em relação
-ás pernas; o semblante, pelo habito de olharem continuadamente para o
-chão, era triste e carregado, como deve ser o dos _casseurs de pierre_ de
-Courbet.
-
-Mais para diante, a estrada, era incompletamente aberta—andava-se n’um
-desaterro. As raparigas que transportavam terra aos cestos para o rio,
-íam e vinham formando um cordão movediço, como o das formigas no caminho
-de celleiro. As suas canções, umas vezes mundanas e que haviam aprendido
-com os cegos que passavam, outras vezes religiosas, ao Santissimo e ao
-Coração de Maria, que tinham aprendido com os missionarios, íam morrer
-n’uma toada monotona e ondeante nas quebradas da encosta fronteira.
-Quasi todas estas raparigas novas tinham, mais ou menos, um aspecto
-esfomeado e miseravel, a pelle grossa e avermelhada dos tempos diversos
-e inclementes que supportavam, os seus pés e os calcanhares gretados, as
-pernas estavam sujas de nodoas de terra, o olhar de algumas era tibio
-e doente, a côr de outras citrina e amenerrhoica, as mucosas dos beiços
-esfoliados e sem lhes transparecer a viva côr do sangue! Havia, porém, um
-certo numero d’ellas mais lavadas, que trabalhavam com mais alegria—eram
-as que passavam por namoros do senhor Alberto—o _apontador_, aquelle
-que as vigiava que as podia despedir, que exercia sobre todas ellas
-um absolutismo tyrannico! Era um rapaz forte, de uma boa corpulencia,
-a pelle tostada, as mãos plebeias, um farto bigode presumpçoso, uma
-cabelleira de terror, os dentes negros e os dedos queimados do fumo.
-Tinha andado a estudar em Braga muitos annos, com o fim de ser padre.
-Depois assentou praça no regimento de infanteria oito, para chegar a
-alferes. D’ali fugiu com a sobrinha de um marchante, com quem desejava
-casar, o que não concluiu, porque a perfida o abandonou para se amancebar
-com um clerigo. Por fim, Alberto, vendo-se desilludido e infeliz,
-ludibriado no seu amor, sem dinheiro, appareceu uma noite em casa de seu
-tio cirurgião, pedindo, como o filho prodigo da lenda, o esquecimento
-para os seus desregramentos desgraçados!... O tio cirurgião estava a
-cear a posta do bacalhau empurrada pelo cangeirão do berde. Era um homem
-sanguineo, e tomou-se de uma colera subita vendo o sobrinho, com quem
-gastara em Braga mais de cem moedas, de chapéu desabado e casaco roto,
-n’uma apparencia de malandro maltrapilho! Quil-o desancar com o estadulho
-das suas valentias que tinha ao canto da cosinha, onde ceava, e só depois
-da intervenção da Clementina, sua creada e amante de quarenta annos,
-a qual tambem ralhou muito com Alberto, é que o tio se tranquillisou,
-mandando-lhe dar uma posta de bacalhau. Mas, antes d’esta pacificação,
-levantando-se da lareira bebado, chegou-se ao pé de Alberto e berrou-lhe
-sobre o nariz, com voz temerosa e avinhada:
-
-—Seu burro e seu ladrão! Eu aqui a ganhal-o, a apanhar molhadellas de
-lobo por esses montes, e você nas pandegas de Braga! Pr’o Brazil é que
-ha de ir. Arre, _bá_ ganhal-o que eu tambem faço o mesmo. Mal aprendi a
-ler, e para arranjar esses campitos que tenho e que te hei de deixar a ti
-Clementina, puchei muito por este toutiço! Vá ganhal-o seu jumento, que
-eu ando ha quarenta annos a puchar pela cachimonia, se quero!
-
-E bateu formidavelmente na testa, significando que só d’ali tinham saído
-todas as idéas, com que medicamentava os conterraneos. Affirmava ter
-muita gabança em não haver estudado, nem no Porto, nem em Coimbra, como
-_os collegas_ que estavam na villa.
-
-Porém, passada esta colera do primeiro momento em que viu o sobrinho,
-veio a pensar mais rasoavelmente, e determinou conserval-o antes por
-ali. Como era influente eleitoral, arranjou-lhe facilmente aquelle logar
-na estrada «que sempre deixava um crusado por dia, sem fazer nada!»
-Ficou, portanto, Alberto, na situação de indicar ao director das obras,
-um nigligente e aborrecido que passava os dias a jogar as damas n’um
-botequim da villa, os homens e as raparigas que deviam ser admittidos
-ou despedidos dos trabalhos na estrada! Isto dava-lhe um incontestavel
-predominio, e por isso eram apontadas com uma intenção reservada _as
-moças_, de que elle mais parecia gostar. Alem d’isto, Alberto, adquiria
-diante dos seus sobordinados que estava incumbido vigiar, a attitude de
-um personagem saliente. Os aborrecimentos da aldeia, tornavam-n’o triste
-e fatal! A sua existencia estava vasia da convivencia dos amigos, que
-adquirira nas batotas de Braga! Passeava a largas pernadas meditativas
-e não fallava aos rapazes lavradores, que tinham andado com elle no
-mestre de primeiras letras! Em vez de se suicidar, atirando-se ao fundo
-de um poço, lançou-se na leitura perigosa de romances de sensação, que
-os mais celebres fabulistas nacionaes e estrangeiros tinham escripto,
-expressamente para lhe fecundar a imaginação irrequieta e sorumbatica!
-Assim vivia n’um mundo incomprehensivel de emboscadas, loucuras, amores
-de redempção, paixões nobres e lagrimijantes, homens que se recolhiam ao
-desespero do sacerdocio, mulheres que fugiam aos maridos para seguirem
-acorbatas, santos eremitas que tinham sido famosos salteadores!... Esta
-illustração inoculou-lhe certas vaidades litterarias, que elle revelou no
-_Bracarense_, timidamente, sobre a epigraphe de _Inspirações do Lima_!...
-N’essas paginas, aquellas verdes e ramorosas paisagens minhotas, eram
-apresentadas cheias de cavernas onde se escondiam donzellas vestidas
-de branco, fugidas dos castellos de seus paes nobres, com amantes
-desconhecidos e mysteriosos. Porém, como nem tudo n’esta vida póde
-ser ideal, Alberto saía por vezes de entre os frescos salgueiros,
-onde se recolhia hostilmente a ler os seus romances, e n’uma excitação
-aphrodisiaca, ía espreguiçar-se entre as raparigas que trabalhavam,
-apalpando impudicamente os braços carnudos e os seios volumosos
-d’aquellas de quem gostava mais!... Os trabalhadores, que observavam de
-longe estes desfastios do senhor Alberto, disseram uns para os outros,
-descançando encostados ás enchadas, applaudindo-o, cheios de inveja.
-
-—Isso, é levado de seiscentos diabos p’ras moças!
-
- * * * * *
-
-Foi ao chegar ao pé dos homens que faziam esta observação, que a egua
-do Fogueira, na qual ía montada a Marianna Ripa, parou subitamente, de
-um modo inesperado, n’uma posição desconfiada—a cabeça alta, as orelhas
-tezas e o olhar fixo! Depois estendeu o pescoço, inclinou para diante
-os pavilhões auriculares para reunir proveitosamente todos os ruidos e,
-dilatando-se-lhe demasiadamente as pupilas, conservou-se alguns segundos
-olhando firmemente para uma bandeirola que fluctuava... Todas as pessoas
-que presenciaram esta paragem repentina se tomaram mais ou menos de uma
-certa irresolução!...—os jornaleiros conservaram attitudes indicisas e
-indagadoras parando de trabalhar; as raparigas, que acarretavam cestos
-de terra, ficaram a distancia um tanto receosas; o Fogueira recuou
-dois passos e berrou «diabo de burra!»; Marianna, apesar de rapariga
-corajosa, lembrou-se que lhe tinham dito que a egua era amalucada e deu
-instinctivamente um grito!... O amante da Ripa, temendo que o animal lhe
-tomasse alguma manha, dirigiu-se-lhe de mão aberta com o fim de _lhe
-fallar_, mais familiarmente... Porém, n’este momento se não lhe furta
-instinctivamente o corpo, ía apanhando, sobre o ventre, uma valente
-parelha de couces!
-
-A esta parelha seguiram-se muitas outras em todas as direcções, dadas com
-desembaraço vertiginoso. A Marianna, agarrava-se tenazmente ao albardão
-para não caír. Os trabalhadores, com o fim louvavel de suster a egua,
-levantaram as enchadas e as picaretas, pondo-se diante d’ella, fazendo
-algazarra. Porém, este procedimento deu em resultado o multiplicarem-se
-prodigiosamente os pinotes e os couces. A Marianna Ripa caíu do albardão,
-de bruços sobre a terra, com as pernas á mostra, e a egua, de cada vez
-mais doida, tomou-se de uma raiva aggressiva contra os que estavam
-diante d’ella, e arremetteu com ousadia para elles, que lhe abriram
-condescendentemente caminho! E, enfurecida, enthusiasta, com o dorso
-arqueado, a barriga baixa, o pescoço estendido, as ancas salientes, as
-pernas abertas, principiou a fugir pelos campos fóra, para os lados do
-rio! O Fogueira permaneceu livido, pasmado, sem desembaraço, a olhar,
-vendo-a saltar paredes, saltar vallados, sebes e barrancos! A sua amante
-já se tinha levantado promptamente, toda vermelha, com medo que os homens
-lhe tivessem visto as pernas! Não se tinha maguado, pois caíra sobre a
-terra molle! Todas as pessoas que presencearam este facto, surprehendidas
-pela rapidez com que elle se passara, estavam sómente interessadas no
-galopar da egua, que viam correr, dando upas vistosas, com a cabeça alta
-e o rabo espalhado ao vento!...
-
-Antes d’ella desapparecer, calculou um jornaleiro com modo reflectivo:
-
-—Aquillo foi o dianho da mosca!...
-
-Os que ouviram esta opinião admittiram-n’a em silencio, continuando a
-olhar para a egua que fugia resolutamente, sem hesitações, sem duvidas,
-dominada por uma idéa infernal!...
-
-Lá no fim dos campos, estava o rio, a grande profundidade, revolvendo-se
-as suas aguas, com um fervor de corrente que se precipita por entre
-penedos! Tinha chovido muito nos dias precedentes e, por isso, o rio
-levava uma bravura excepcional!...
-
-A egua corria sempre, perdida, com os olhos esgazeados, as crinas
-ao vento, o corpo arqueado e foi precipitar-se do alto muro, caíndo
-estrondosamente na agua e fez _cachap_, levantando enorme poeira de
-espuma na amplitude do ar!
-
-Um lavrador, que andava na outra margem trabalhando pacificamente no seu
-campo, vendo isto, exclamou surprehendido:
-
-—Oh! com mil diabos, que lá se _spapou_!
-
-E logo que o Fogueira chegou esbaforido disse-lhe este individuo,
-gritando:
-
-—Ó hominho. Essa burra que caíu ao rio era sua? Ella era maluca por força!
-
-O Antonio Fogueira respondeu-lhe de um modo abstracto, com uma navalha
-aberta na mão:
-
-—É o demonio que a leve!... Se a pilhasse, abria-lhe a barriga de cima a
-baixo, com esta!
-
-Depois, lançando um olhar indagador para os dois lados do rio, perguntou:
-
-—Mas vocemecê viu-a? Onde diabo caíu ella?
-
-—Olhe!...—apontou para os rochedos que estavam mais abaixo.
-
-O Fogueira aproximou-se vagarosamente do logar designado. Uns lavradores
-e umas raparigas, que, ali perto, andavam no trabalho, perguntaram-lhe
-igualmente:
-
-—Você é dono da burra que ahi caíu?
-
-E à affirmativa do troquilha esclareceram:
-
-—Pois o diabo, parecia que trazia o demo no corpo. Atirou-se sobre esses
-penedos como um raio! Depois, o rio levou-a para baixo.
-
-Um dos trabalhadores acrescentou:
-
-—Aquillo era maluca, por força!
-
-O Fogueira repetiu, com rancor, mostrando novamente a navalha.
-
-—Tres mil demonios a arrastem pr’as profundas dos infernos! Se se não
-tivesse _spapado_, punha-lhe as tripas ao sol.
-
-Outro dos jornaleiros ainda esclareceu, apontando com a foicinha:
-
-—Isso é ahi um pôço que nem seiscentas pipas! Você faz lá idéa!...
-
-Um terceiro acrescentou:
-
-—Nunca ninguem lhe viu o fundo. Muita gente antiga, diz que o não tem;
-mas isso parece-me mentira.
-
-Um rapaz esclareceu:
-
-—Ha ahi cobras que é um inferno! O tio Domingos Briteira viu uma de mais
-de vinte varas. Vinte varas! que digo eu! De mais de quarenta. Ora! Se
-ella tinha o rabo de lá do rio e a cabeça de cá, quando elle a viu.
-Talvez essa cobra se enrodilhasse ás pernas da burra!
-
-O Antonio Fogueira despediu-se de um modo triste:
-
-—Com bem passem! Deixal-a ir. Deus os ajude.
-
-E na volta, quando chegou ao pé da Marianna Ripa, que o esperava, disse:
-
-—Então que tal?! O Rio Tinto prega-me uma burra maluca!
-
-A rapariga defendeu o primo:
-
-—Ora! Talvez elle não soubesse!...
-
-—Não sabia o diabo que o leve! Elle m’as pagará!
-
-
-VI
-
-Em Vianna, o Fogueira e o Rio Tinto, encontraram-se hospedados na
-mesma estalagem. Por causa do negocio da _burra_, invectivaram-se
-reciprocamente com injurias e, se não fosse o Fanfarra e a Marianna Ripa,
-que se interposeram, elles chegariam de certo ás do cabo! Por fim, o
-Rio Tinto, com uma viva colera no olhar, tirou da sua sacca de linho os
-soberanos que tinha ganho ao Fogueira e, atirando-os com despreso sobre a
-mesa, disse com altivez:
-
-—Ahi tens e não tornes a dizer que te roubei. _Bê_ lá como fallas p’rá
-outra _bês_. Põe n’esse raio de cara dois _carbões_ accesos, para saberes
-o que compras!...
-
-E ficaram, sem se fallar, olhando-se como dois homens que se odeiam! Á
-noite tiveram occasião de se encontrar, um em frente do outro, a uma mesa
-de _monte_, arranjada ao fundo da taberna, atraz de um tabique, por dois
-braguezes de longas barbas suspeitas e chapéus desabados... Estes homens,
-para attraírem os feirantes que por ali estavam, tinham-se abancado de um
-modo natural e simples, principiando a jogar entre si o _trinta e um_.
-Batiam insolentemente o dinheiro nas mesas, com o fim de se tornarem
-vistos, fallando alto e grosseiramente. Um almocreve, contractador de
-peixe para Traz-os-Montes, estava ali perto, e foi naturalmente attraído!
-Como ceára e se sentia na amplitude beatifica de um homem bem avinhado,
-foi-se aproximando, sorrateiramente, com certo desdem!... Carregando o
-chapéu para os olhos, sentou-se junto dos jogadores, tomando _n’aquillo_
-um interesse puramente mental!... A este curioso, juntaram-se outros,
-attraídos por iguaes motivos, chegando-se todos á formiga, n’um desleixo
-simulado, sem apparencia de proposito difinido, com as mãos nos bolsos e
-o cigarro ao canto da bôca... E, quando a roda era já bastante compacta,
-um dos jogadores, sem dizer palavra e fundando-se de certo n’uma
-convenção anterior, atravessou o baralho no meio da mesa e, tirando mais
-dinheiro do bolso, contou nove corôas em prata! Depois, com outras cartas
-que tinha n’um bolso interno da sua jaqueta de alamares, principiou a
-baralhar demoradamente, lançando em volta um olhar firme e carregado! O
-companheiro, sem lhe dizer palavra, abriu um cinto que trazia afivelado
-sobre o estomago, mostrando-o cheio de libras, e tirou tres, que ajuntou
-ao dinheiro já contado, e disse com um modo esbanjador, n’uma voz
-imperiosa e rouca:
-
-—São quatro _sovranos_ de monte!
-
-Os indiferentes, ao verem isto, sentaram-se logo nos bancos de pau,
-acotovelaram-se contra a mesa, olhando avidamente para as cartas e para
-o dinheiro! Ao longo de todos elles passou o calefrio das sensações
-poderosas e commoventes! O jogador, que se preparava para fazer as
-pagas, collocou sobre o baralho, atravessado na mesa, as tres libras em
-ouro, espalhou a prata diante de si, misturando-a com certo despreso e,
-carregando mais para os olhos o seu chapéu de abas largas disse de um
-modo vago:
-
-—Eram precisas ahi quatro croaças em _covre_...
-
-Então, um rapaz novo, sem barba, muito magro e amarello, com o tronco
-osseo apertado no seu fraque velho muito coçado nos cotovelos e lusidio
-nas costas, pegou nas quatro corôas, que o jogador lhe deu por cima do
-hombro. Com passo ligeiro e leve, dirigiu-se ao taberneiro, que estava
-medindo quartilhos, e pediu-lhe n’uma voz urgente, perturbada, com
-inflexões nervosas:
-
-—Tio Domingos... Estas croaças em _covre_!...
-
-Collocou-lh’as sobre o mostrador humido de vinho.
-
-O tio Domingos, com o seu ar de borrachão pantagruelico, perguntou-lhe
-usurariamente interessado:
-
-—Então elles hoje... ein Marquinhos?!
-
-Marcos, amanuense do governo civil, respondeu com muita pressa, contente,
-encolhendo-se em si mesmo, passando n’um frenesi, o seu dinheiro de uma
-mão para a outra, n’um estado de impaciencia quasi sensual:
-
-—Sim, senhor, _vão fazer_... São aquelles dois de Braga, o Barroso e o
-outro que eu não sei como dianho se chama...
-
-—Timotheo... O Timotheo da Carcova... Quem diabo não conhece o Timotheo?!
-
-—Sim, senhor, um nome assim arrevezado, o Timotheo... Mas ande depressa,
-tio Domingos!—pediu com insistencia, com a sua voz aflautada, de um
-timbre choroso.—De-me esse troco que estão á espera! O Barroso não _se
-volta_, emquanto lhe não levarem _covre_!
-
-O taberneiro disse:
-
-—Olha, vae-te Marquinhos, que eu levo já. Diz-lhe que eu levo já.
-
-E depois de ter contado meticulosamente o dinheiro, escolhendo o mais
-falso, foi elle mesmo pôl-o sobre a mesa do jogo. As suas mãos plebeias
-e sujas íam cheias de patacos esverdeados, de uma côr venenosa, levando
-ao mesmo tempo, de baixo do braço direito, um pequeno mialheiro, que
-collocou em cima da mesa, dizendo n’uma voz chorosa e comica que fez rir:
-
-—_Aqui pr’ás bemditas almas!..._
-
-Esta pequena caixa de folha com uma fenda na tampa superior, era onde os
-jogadores teriam de deitar os baratos!
-
-Só depois d’isto, quando em volta da mesa estavam muitos individuos com
-um olhar desvairado e o dinheiro apertado freneticamente na mão, á espera
-do momento de jogar, é que o Barroso tirou quatro cartas do baralho,
-collocando-as nos respectivos vertices dos angulos de um quadrilatero
-que traçara mentalmente... Em seguida, accendeu um cigarro, piscando os
-olhos com as fumaças e disse:
-
-—Agora, meus homes, é metter-lh’o sem medo!...
-
-Chegára o tetrico momento dos primeiros palpites! A expressão de todos os
-semblantes era mais viva e as respirações abrandaram-se momentaneamente.
-Duas vélas de cebo, em duas bogias de folha, espirravam sobre a mesa,
-alumiando, com fraca luz, aquelles rostos sugados! O fumo espesso e azul,
-o cheiro nauseabundo do peixe que se estava frigindo, envolviam o grupo
-dos jogadores, que se entendiam por uma linguagem breve. Os cigarros
-accesos, collocavam n’aquellas pelles escuras e nas barbas pretas,
-pontos incandescentes! E cá fóra, na loja humida da taberna, o _ou-ou_
-prolongado das vozes dos feirantes pedindo mais vinho e praguejando,
-continuava-se n’um unisono monotono e ondeante, de momento a momento
-cortado pela voz do banqueiro, o Timotheo da Corcova, que dizia com
-arrogancia, «jógo.»
-
-Era quasi manhã, quando _isto_ acabou. O Fogueira _apontou_ durante toda
-a noite, de um modo accintoso, contra o Rio Tinto, e esteve sempre com
-uma sorte de burro! Fartou-se de ganhar dinheiro, os montes de corôas iam
-crescendo diante d’elle e já lhe atulhavam os bolsos. Todos os outros
-_pontos_, embirrados com isto, seguiam o partido do Rio Tinto, que estava
-sem sorte nenhuma, e perdiam com elle! Em virtude d’isto, quando eram
-cinco horas da manhã, estavam _á lisa_, achando-se o dinheiro no cinto
-do Fogueira que os _tinha alimpado a todos_!
-
-Antes da meia noite, a taberna ficara vasia de gente, que tinha saído
-para a romaria, com fim de ver o fogo! Na rua passavam continuadamente
-descantes á viola. Os que perdiam ao jogo, o Rio Tinto, o Fanfarra e
-todos se indignavam pronunciando insultos e obscenidades contra os das
-esturdias... O Fogueira bem comprehendia que eram injurias contra elle,
-por lhes ganhar o dinheiro, e ria-se ás gargalhadas, fazendo chacota
-e guardando com escarneo os soberanos que os outros perdiam. Por fim,
-quando amanheceu, o Barroso e o Timotheo da Carcova, _encontrando-se pela
-primeira vez, no seu dinheiro_, depois de uma noite inteira de jogo,
-durante a qual houve um momento em que a banca perdia mais de vinte
-moedas, disseram com certo desafogo:
-
-—Contra esta sorte não ha que fazer! Estamos desforros...
-
-E levantaram a banca sendo já dia alto.
-
-O Fogueira ganhava um bom par de moedas! Impiedoso e triumpante,
-principiou a contar ostentosamente o dinheiro diante de toda a gente.
-Batia as libras sobre a mesa, fingindo por troça, que desconfiava que
-ellas fossem falsas. Voltando-se para alguns dos que as tinham perdido
-perguntou com modo achincalhador:
-
-—Os sobranos são bôs, ó rapazes? Vocês viriam para a feira com dinheiro
-falso?! Não vinham; porque haviam de ter medo ao _demenistrador_. O
-que alguns são é bem bonitos, de cavallinho. Hei de os guardar para
-lembrança d’esta noite.
-
-Os que tinham perdido, conservavam-se n’uma indifferença fingida, mas
-hostil... Deitados por cima dos bancos, como dormindo, olhavam por baixo
-dos chapéus desabados. O Rio Tinto e o Fanfarra tinham uma expressão
-amarga e vingativa, affastados do Fogueira, fumando cigarros e olhando
-para elle com um rancor intrinseco! Nos seus rostos severos e contraídos
-reconhecia-se-lhes mais ferocidade do que tristeza!
-
-No dia seguinte, o Antonio da Engracia, percorreu com a sua amante todo
-o campo da Agonia, onde era a feira. Sempre que estavam perto d’elle
-o Rio Tinto e o Fanfarra, que o olhavam de travez, com modo ameaçador
-e reservado, puchava por dinheiro com escarneo! N’esse dia satisfez á
-Marianna muito mais do que as suas exigencias de mulher vaidosa pediam!
-Comprou-lhe uns brincos caros e um par de argolas de cabacinhas, na
-barraca do Ferreira, um ourives do Porto. Nos mercadores mandou cortar um
-saiote vermelho do melhor panno e umas roupinhas chibantes. Comprou-lhe
-lenços de seda de furta-côres e chinellas de verniz! Quando pagava,
-affectava sempre gestos esbanjadores, que feriam os que o viam!... Porém,
-esta intenção mostrou-se com verdadeira dureza na feira do gado, onde
-principiou a examinar detidamente _a melhor_ egua, para a comprar! Era
-um animal vistoso, pelo qual um gordo ecclesiastico minhoto pedia vinte
-e cinco moedas! O Fogueira chegou-se á egua, assentou-lhe duas palmadas
-na anca azevichada e fel-a estremecer. Puchou lhe, em seguida, pelo
-rabo, obrigando-a a estacar firmemente... Examinou-a nas mãos e nos pés
-até aos cascos, para ver se estava _puchada_. Observou-a na dentadura,
-levantando-lhe a cabeça e affastando-lhe os beiços polposos com o fim
-de lhe calcular a idade... Passou-lhe os dedos diante dos olhos, para
-lhe experimentar a vista... Finalmente, quiz-se mostrar um troquilha
-experimentado, para que o não enganassem _outra vez_!...
-
-O ecclesiastico, dono da egua, seguia discretamente, com um sorriso
-gabosola e um olhar entendedor, o exame do Fogueira, fungando
-estrondosamente a sua pitada de _meio grosso_. O amante da Marianna
-Ripa, com a faixa vermelha apertada no ventre e o chapéu de abas largas
-inclinado para a nuca, perguntou-lhe em voz alta e com pronuncia
-insolente; pois sabia que era ouvido pelo Rio Tinto que o cocava de perto:
-
-—Ó senhor padre! Ella é maluca?
-
-O sacerdote, João Pitança, á pergunta inesperada, e cuja intensão e
-alcance não podia comprehender, respondeu com uma gargalhada sonoramente
-timbrada:
-
-—Ah! ah! ah!... Maluca! Home essa! Ah! ah! ah!... Como diabo ha de ser
-maluca a melhor egua da feira?! Ah! ah! ah!... Só essa pergunta me faria
-chorar de riso! Se foi por chalaça que o dissestes, fizeste-me rir. Ah!
-Ah! Ah!...
-
-Affastando-se da sobrinha—uma rica moça de bons seios e boas ancas!—que
-se conservou a distancia com o guarda sol pendente das mãos crusadas
-sobre o ventre, aproximou-se do animal, bateu-lhe confiadamente na
-anca e chibatou-a com a sua varinha de marmelleiro para ella dar
-reviravoltas...
-
-—Ora maluca!—continuou. Que demonio de lembrança a tua! Leva-a a contento
-meu rapaz! Pagas-ma p’ra outra feira se quizeres!
-
-O Fogueira respondeu-lhe n’um tom de chacota, sempre com o fim de
-offender o Rio Tinto, que o continuava a escutar n’uma desattenção
-simulada:
-
-—Não, que ha por ahi muito quem queira enganar a gente vendendo burras
-malucas... Ha muito ladrão com cara de gente! O senhor abbade não faz
-idéa!
-
-—Abbade, não—emendou o ecclesiastico. Um simples padre, meu rapaz, um
-simples padre. Mas quanto á egua pódel-a levar, que é trigo limpo. Não
-tem um argueiro, pódes ver á vontade—concluiu o sacerdote, com o seu ar
-de homem bem comido e bem bebido, assoando-se fortemente ao lenço de
-panninho que desdobrára completamente ao ar!
-
-Mas o melhor era montal-a—observou. Montando-se acabavam todas as
-duvidas. Se o Fogueira queria ver, _corria-a_ elle mesmo, padre João
-Pitança, ali n’aquelle campo da Agonia, que era bom para isso. Não
-pensasse o comprador que tinha n’isso a menor duvida. Ou então, se antes
-queria, o Fogueira que arranjasse um picador da sua confiança, e veria
-como a egua se vispava por ali fóra, que nem um corisco! O amante da
-Marianna Ripa gostou d’aquelle desembaraço do ecclesiastico, e com ar
-galhofeiro e atrevido de homem que tem o bolso bem cheio de soberanos,
-disse-lhe:
-
-—Então monte lá v. s.ª primeiro. Tamem quero ver a sua perna.
-
-O padre João não hesitou um momento. Apertou melhor a cilha á egua e as
-correias das suas esporas. Com a mão esquerda nas redeas, repuxou-as
-de certo modo, para o animal enfeitar a cabeça. Alisou-lhe as crinas,
-passou-lhe a mão direita na anca, metteu o pé esquerdo no estribo de pau
-e com um balanço de homem acostumado, caíu no selim de um modo firme e
-airoso, como um lanceiro! Em seguida, com o seu riso aberto, de camponez
-vaidoso, disse para os troquilhas que o observavam com interesse:
-
-—Isto é fino meus homes!...
-
-E esporeou com habilidade a egua, para a obrigar a algumas reviravoltas,
-que abriram um largo circulo no povo circumjacente. Depois deu a primeira
-envestida na carreira, só para obrigar o animal a parar de repente; mas
-voltou ao logar d’onde partira, dizendo para o Fogueira:
-
-—É cousa boa, meu rapaz! Cá não se engana ninguem! Não sou d’essa gente,
-nem a quero na minha companhia—pronunciou com vaidade.
-
-As abas do seu comprido casaco sacerdotal, caíam dos lados. Com as pernas
-firmes, calculadamente encostadas ao ventre da egua, conservava-a n’uma
-vaidosa impaciencia de partir. Carregou o seu chapéu de abas largas para
-lhe não voar com o vento e foi-se chegando a passo, para o sitio onde se
-devia correr. A cabeça do animal, firme e altiva denotava certa magestade
-e orgulho!... O padre João Pitança retesava-lhe com intelligencia as
-redeas, para a egua se enfeitar, e esperava o momento opportuno de estar
-bem desempedida a _carreira_... Depois, quando esse momento chegou,
-partiu n’um travado meudo e veloz, diante de centenares de espectadores,
-que o viram sumir-se por entre uma atmosphera de poeira dourada pelo sol
-poente, o que lhe dava, tanto a elle como á egua, um volume indiciso e
-esfumado! D’ali a poucos minutos voltou, a galope rasgado, e estacou
-firme e de repente, no mesmo ponto d’onde tinha partido! O Fogueira
-confessou accenando com a cabeça:
-
-—Sim, senhor! Uma boa perna, senhor padre!
-
-Outro feirante disse:
-
-—E rica mão de redea!
-
-O ecclesiastico surriu-se com satisfação. O troquilha montou tambem o
-animal e correu-o. Por fim concordaram no preço de vinte e tres moedas,
-que o Fogueira pagou logo.
-
- * * * * *
-
-Todas as circumstancias impelliam os maus figados do Rio Tinto para um
-rancoroso procedimento de vingança! A pisporrencia do Fogueira ao gastar
-dinheiro, a sorte de burro que tivera ao jogo, as suas provocações com
-palavras e com gargalhadas de chacota, faziam-lhe remoer as entranhas lá
-por dentro, dando-lhe certa gana de o abrir de meio a meio! Principiou a
-conhecer que lhe entrava na organisação um appetite infernal de se vingar
-do amante da Ripa! Conhecia, por uma reflexão interior, que a cabeça se
-lhe estava enchendo de idéas perversas!... O Fanfarra, logo que elle
-lhe disse que tinha vontade de ter uma _aquella_ com o Fogueira, tomou
-abertamente o mesmo partido, e n’uma intimidade infame, urdiram um plano
-para se vingarem das desfeitas que tinham recebido durante o dia!
-
-Poderiam sair-lhe ao encontro, dar-lhe uma grande coça, a ponto de o
-deixarem estendido sem sentidos no meio da estrada, e roubar-lhe o
-dinheiro que levasse, que ainda havia de ser um bom par de moedas. Podiam
-porque eram dois homens destimidos, não tinham escrupulos e, talvez, já
-não fosse a primeira que faziam!... Mas o peor era a Marianna Ripa, que
-de certo acompanharia o seu amante!... Era preciso desembaraçarem-se
-d’ella por qualquer fórma!... O Rio Tinto conhecia bem _sua prima_... Era
-uma rapariga desembaraçada, que tinha tanta coragem e resolução, como
-qualquer d’elles... Dizia-se que envenenara um padre, com quem estivera
-amancebada dois annos! O primo troquilha tanto não acreditava n’este
-boato, que tinha sido a melhor testemunha de defeza da rapariga, o que
-muito concorreu para a livrar da cadeia onde esteve oito mezes, por causa
-d’este negocio!...
-
-—Já tu _bês_ que a conheço muito bem, e que até ella tamem póde _entrar
-na cousa_—concluiu com pronuncia intelligente...
-
-Por isto o Rio Tinto mesmo é que fallou á Marianna, que teve alguma
-difficuldade, alguns escrupulos em atraiçoar o seu amante. Mas elle e o
-Fanfarra logo lhe rebateram todas essas asneiras dizendo:
-
-—Não sejas tola... Que tens a ganhar com isso!?... Elle deixa-te por ahi
-qualquer dia e ficas a chupar no dedo!...
-
-Depois de batalharem algum tempo com ella, convenceram-n’a... Que
-diabo!... O Fanfarra e o Rio Tinto, a final de contas tinham rasão.
-Isto _de amigos_, quando menos se pensa, arrumam para o canto uma pobre
-rapariga, como se faz aos sócos velhos que não prestam. Ella bem tinha
-visto o que acontecera com _outras_... Homens... trazem ás vezes muitos
-trabalhos. Aquelles oito mezes de cadeia, por causa da morte do padre
-João de Pinho, tinham-lhe aberto muito os olhos. Estivera para ir por uma
-barra fóra e, em boa verdade, sem ter tido grande culpa... O resalgar que
-deitára na malga de caldo com que o padre tristemente se envenenára, não
-era para o matar a elle, que até era um raio de home de quem gostava; mas
-para dar cabo da Tonia Salgada, um pedaço de coira, por quem o _ladrão_
-andava baboso, esquecendo-a ingratamente a ella, que tanta borracheira
-lhe aturara, durante dois annos! Não tinha peso nenhum na consciencia por
-esta morte!... O ecclesiastico é que tinha pegado, por sua livre vontade,
-na malga destinada á Tonia... Marianna teria ido degredada, se não
-fosse seu primo, que jurou diante do senhor _demenistrador_, primeiro,
-e, depois, diante do senhor juiz, na casa d’este e no dia da audiencia
-«que na occasião da tal morte, a Marianna, estivera em casa d’elle a
-sedar linho até de noite e lá comera e dormira». Tambem o podia jurar
-sem receio; porque ninguem a tinha visto em todo esse dia, que passára
-escondida no palheiro do padre... á espera.
-
-A Antonia Salgada já vivia de portas a dentro com _o seu amigo_, já lhe
-fazia a comida, chegando ao desaforo e á pouca vergonha de jantarem á
-mesma mesa, como dois casados!—distincção que a Ripa nunca recebera,
-nem nos seus melhores dias, da parte d’aquelle excommungado, que devia,
-por força, estar a arder no inferno! Marianna soube isto; porque os
-espreitára. N’esse instante desesperado, veio-lhe uma impulsiva idéa
-de vingança!—o coração deu-lhe um baque de justiça, um salto dentro do
-peito, como quem diz «dá cabo d’aquelle diabo de lesma!...» Pelo muito
-particular conhecimento que tinha da casa do ecclesiastico, sabia que,
-embrulhado n’um papel azul, entre livros guardados n’uma caixa de pinho,
-estava um pouco de veneno de ratos, que o sacerdote comprára na villa.
-Entrou um dia lá na casa, quando todos estavam para o campo, e tirou
-o papel azul... Depois estabeleceu o seu plano de desforra, que poz
-em pratica d’esta maneira: Escondeu-se, uma manhã cedo, antes do dia
-romper, no palheiro do padre João, que era paredes meias com a cosinha.
-Levou um naco de brôa e uma racha de bacalhau; porque contava passar lá
-o dia inteiro. Durante toda a manhã, divertiu-se, a observar a tronga
-da Antonia, andando no preparo do jantar, para o que até matou a melhor
-gallinha! Uma cousa assim!... era de morrer de riso! Se a quizessem
-ver, como se rebolava por aquella cosinha! Parecia a dona da casa,
-cantarolando o _bemdito_, as _modas do Coração de Maria_ ensinadas pelos
-ultimos missionarios, e o _Afasta janota, arreda_... moda dos cegos
-que tinham estado na ultima romaria do _Soccorro_. Ai que raiva se lhe
-apoderou do coração! Não sabe como se conteve, que se lhe não atirou ali
-mesmo ao gasganete, fazendo-lhe deitar uma lingua de palmo!... Por fim,
-quando no relogio da igreja deram as onze, a bebeda tirou da caixa uma
-toalha lavada, estendeu-a na mesa, sempre cantando com voz esganiçada.
-Depois encheu duas malgas de caldo, poz a gallinha e o presunto n’uma
-torteira de barro e saíu para chamar _senhor padre João_ o seu—rico
-senhor padre João!—que andava na horta, a regar...
-
-Foi durante os minutos d’esta ausencia que Marianna saíu do seu
-esconderijo e deitou todo a resalgar na malga que presumia ser a da sua
-rival! Pouco depois chegou o sacerdote, de tamancos, correndo atraz
-da moça pela cosinha dentro, com muito estrondo! Ella, a delambida, a
-fingir que fugia cheia de medo!... Seguiu-se um momento soturno, em que
-gosou, no meio de uma angustia ciumenta, a sua proxima, cruel e decisiva
-vingança! Pois aquelle alma de damnado, ali mesmo nas suas barbas, não
-se vae pôr a andar atraz da moça, não a agarra pela cintura, dando-lhe
-beijos e abraços, não atira com ella ao chão, com relinchos de cavallo!
-N’este momento, Marianna, achou mais repugnante o padre do que a tronga!
-Emquanto durou esta expansibilidade animal do ecclesiastico, ella soffreu
-os finos acicates do ciume, morderam-n’a até ás entranhas. Sentia-se
-espoliada n’um beneficio que lhe pertencia! Em vez de ser a ella que o
-malvado dava todas aquellas provas de amor, via-se reduzida a espreitar
-por uma frincha da porta e a presenciar enertemente tudo aquillo, Santo
-Nome de Maria! Teve tentações de entrar na cosinha, pegar n’um machado
-que estava ao pé da lareira e dar com elle na cabeça de ambos! Um
-ladrão e uma desvergonhada d’aquellas! A Ripa sentia-se com animo de
-os abrir, a um e a outro, e de lhes trincar o coração!... Mas uma voz
-interior de contentamento e de saciedade, apregoava-lhe o seu proximo
-triumpho e aconselhava-a a conservar-se escondida, como estava!...
-Aquella molengona, que lhe roubava a felicidade, dentro em pouco sentiria
-horriveis dôres nas entranhas e havia de estorcer-se n’aquelle chão
-terreo da cosinha, como um demonio escorraçado pela agua benta!...
-
-Depois, o padre e Antonia, foram para a mesa e o maldito troca de
-proposito as malgas só para dar a melhor,—a de pó de pedra, a que era
-d’elle e que nem ás visitas offerecia!—á lambisgoia, que a acceitou toda
-derretida! N’este momento caíu-lhe a alma aos pés! Teve um movimento
-expontaneo de amor, de generosidade ou de compaixão, e chegou a pôr a
-mão na caravelha, para lhe ir arrancar da mão o veneno! Todo o seu corpo
-estremeceu, desde as unhas dos pés até á raiz dos cabellos, quando o
-padre João disse para a Antonia com ar interrogativo e saboreando o caldo
-com estalidos gulosos de lingua.
-
-—Ó moça, tu deitaste assucar no caldo!...
-
-Ao que ella respondeu, toda chieira:
-
-—É porque ó senhor, parece-lhe dôce tudo que eu façe.
-
-Marianna perdeu parte da consciencia e da vontade, ficando aniquilada,
-entorpecida, desorientada, entre a idéa feroz de uma vingança justa e
-o remorso, ou receio, de um crime que seria descoberto e punido! Não
-teve resolução, nem desembaraço para nada! O ecclesiastico bebeu a
-malga quasi de uma assentada, depois de ter comido a gallinha, com duas
-enfusas de vinho rascante. A Ripa deixou-se caír desfallecida no chão
-terreo! O sacerdote, acabado o jantar, saíu para ir levar _o Senhor_ a
-uma moribunda. A amasia, tambem foi acompanhar Nosso Pae!... Ficou ella,
-só, dentro d’aquella casa, entregue ao proprio cerebro! Um silencio
-tenebroso cercou-a n’este terrivel momento!... N’uma especie de spasmo e
-de embrutecimento cheio de medo, foi-se metter debaixo da palha, tapando
-os ouvidos para nada escutar!
-
-Que medonhas horas ali passou, sob a impressão accusadora de todos os
-factos que n’esse dia a interessaram. Horas depois, d’ali mesmo, ella
-ouviu o alarido da freguezia, correndo em gritos a casa do ecclesiastico,
-quando, quatro homens de béca, o traziam pelos caminhos n’uma padiola,
-com a batina e o roquete todo rasgado! Tinha tido os primeiros engulhos
-do envenenamento, quando ministrava á moribunda a Extrema Uncção, cercado
-do respeito submisso dos fieis ajoelhados em volta! Depois, principiou a
-sentir-se mais afflicto, sentou-se sobre uma caixa com os santos oleos
-na mão, e, como as afflicções cresciam assustadoramente, suspendeu
-com intelligencia a applicação do sacramento! Nem escalda-pés, nem
-mesinhas receitadas pelo cirurgião Manco, poderam produzir o beneficio
-desejado e, mesmo assim vestido sacerdotalmente, os homens que tinham
-acompanhado o _Santissimo_ o trouxeram n’uma padiola para casa e o
-poseram, sobre a cama, já sem falla! Os soluços, as ancias, os vomitos,
-os gritos de dor que elle ainda teve, até ao momento de morrer, eram uma
-eterna condemnação, para a negra alma peccadora de Marianna Ripa, que
-os ouvia, escondida debaixo da palha! Se tivesse comsigo uma navalha,
-durante aquelles instantes infernaes, tinha-a enterrado bem funda no
-proprio coração, para se punir! Tamanho era o seu arrependimento e a
-sua contricção, n’este momento unico, que desejou morrer ali mesmo de
-uma morte repentina, bem medonha e horrenda! Mas depois, alta noite,
-desapavorou-se mais, escutando as conversas vulgares do sachristão com
-os outros homens, que ficaram a vigiar o morto e conversavam, riam e
-escarravam alto, já muito bebados! Então saltou para os campos pelo
-postigo do palheiro e fugiu, indo refugiar-se em casa do Rio Tinto, a
-quem contou tudo, para se accusar. O primo serenou-a dizendo-lhe:
-
-—Mas elles não te viram, não, rapariga?
-
-—Não viram. Ninguem sabe que fui eu—respondeu soffocada.
-
-—Então bem, não tenhas medo.
-
-Mas a justiça sempre a prendeu, por simples desconfianças, fundadas em
-que foi encontrado no chão da cosinha do padre, um tamanco que lhe
-pertencia. Porém, como fôra creada na casa, facil foi explicar este
-achado... O Rio Tinto, com o seu sangue frio é que a livrou da justiça,
-jurando a pé junto, como um cavallo, que Marianna Ripa estivera todo o
-dia em casa d’elle a sedar linho! Nunca poderia esquecer este grande
-serviço que o primo lhe fizera! Sentia-se-lhe presa pela gratidão,
-e quando elle lhe pediu para não ir com o Fogueira prometteu-lh’o,
-promptificando-se ao mesmo tempo a saber ao certo o caminho que o
-troquilha seguiria de Vianna para casa. Mas ainda assim, deve dizer-se:
-impoz como condição, pediu muito ao Fanfarra e ao Rio Tinto, que o
-não matassem, que não fizessem mal ao rapaz. Disculpava-o: era um
-estouvado, um espanta lobos por acaso, mas tinha um bom coração—rapaz
-de franquezas, nada era d’elle, tudo dava! O Rio Tinto serenou-a: não o
-queria matar—sómente desejavam alivial-o da chelpa que lhe havia de fazer
-peso no cinto. Para que queria elle, um rapaz solteiro e sem filhos,
-tanto dinheiro, como o que lhe dera a mãe, da venda dos campos, e como
-o que lhes ganhára ao _monte_?! De mais a mais era um burro tão feliz,
-que até arranjára o _sustituto p’rá tropa_, por quinze moedas, quando,
-todo mundo, gente mais pobre, tinha dado vinte. É bem certo dizer-se que
-a agua corre sempre para o mar e que, quando se é feliz, é-se feliz a
-valer! Aquillo estava mesmo a pedir uma alma de Deus que lhe tirasse a
-_chelpa_!...
-
-A rapariga concordou. Receberia tanto como elles, pelos esclarecimentos
-que obtivesse. Porém, insistiu, ainda uma vez, com afinco e honestidade,
-em que não o matariam, em que o haviam de deixar ir em paz, depois de
-lhe tirarem _o que levasse no cinto_!... O Fanfarra, porém com um rosto
-ingenuo e sério, observou:
-
-—Isso lá, tamem... que não tire elle pela gente!... Quando lhe pedirem
-_o milho_ que o ponha e que não bufe... Se assim quizer que vá com
-seiscentos diabos, que ninguem lhe quer a pelle para tambor.
-
-O Rio Tinto observou sensatamente:
-
-—Ah! elle vendo que são dois resolvidos, não se ha de ir pôr com
-_aquellas_... Olhem que isto de estar assim de noite, no meio de
-um caminho só, onde nem todos os santos lhe podem valer se quizer
-pimponices... faz respeito.
-
-E convieram em que, se elle se quizesse fazer fino, lhe iriam aos
-untos, sem mais _aquellanças_. O melhor era elle deixar-se de asneiras;
-porque lhe tinham uma sêde... lá do fundo. O Rio Tinto confessou ao
-Fanfarra, quando não estava presente a Marianna Ripa, que com o Fogueira
-ainda desejava ajustar _umas contas velhas_ e que talvez fosse esta a
-occasião... E com um sorriso medonho, de copo em punho, observou:
-
-—Isso lá, se não dá os sobranos depressa, leva uma tapona real.
-
-—Melamos-lhe aquelle coiro!—acrescentou o outro com intimativa.
-
-Chegaram a combinar mais detalhadamente no modo como procederiam. Não
-ignoravam que o Fogueira era têso, mas tambem não lhe tinham medo. Eram
-dois. Bem armados, com as choupas dos seus páus argolados e com navalhas
-de ponta e mola, que sempre usaram trazer no bolso interior da jaqueta
-de briche, julgavam-se temiveis. No entanto, para não serem conhecidos,
-cobririam as caras barbadas com lenços esboracados no sitio dos olhos e
-da bôca e fallariam na voz tôrva dos salteadores das lendas! O caminho,
-depois dos esclarecimentos da Ripa, era mesmo a calhar, e o Rio Tinto
-conhecia-o perfeitamente. Por isso elle mesmo é que determinou o sitio
-em que poderiam esperar o Fogueira. Era uma encruzilhada, onde havia uns
-carvalhos que, nas noites sem luar, tinham o volume incomensuravel das
-sombras phantasticas e pavorosas! O amante da Marianna passaria ali pela
-meia noite, pouco menos... A escuridade, o sitio e a hora, concorriam
-para o effeito d’esta scena de romance theatral. Só faltava a capa, o
-_sombréro_ e o bacamarte para ser um quadro de Goya!...
-
-Os salteadores ensaiavam-se com antecedencia: sairiam de repente de entre
-os velhos troncos nodosos e, mandando fazer alto, diriam imponentemente
-com voz soturna: «Seu amigo, ponha ahi o que leva!» Se o desse por bem
-e logo, deixavam-n’o com os demonios; se quizesse fanfar tirar-lhe-íam
-o dinheiro á força e moer-lhe-íam o canastro. Disse-o claramente o Rio
-Tinto com o seu rancor de mau homem:
-
-—Se bufa paga-mas todas juntas. Á gana que lhe tenho, ponho-o molle como
-uma bosteira de gado! O bocado maior, não se ha de ver!
-
-
-VII
-
-O Antonio Fogueira saíu, ao escurecer, de Vianna, com idéa de chegar,
-na manhã seguinte, á sua freguezia, fazendo, assim, todo o caminho de
-noite. Não havia luar e as estrellas, quasi tão vivas como nas limpidas
-noites de inverno, diffundiam na amplidão luz sufficiente para, a
-pequena distancia, se poder apreciar o vulto das pessoas, a grandeza das
-arvores e dos penedos proximos. Quando elle saíu de Vianna, com muita
-gente conhecida, dispediu-se da Marianna Ripa até á proxima feira dos
-nove. Pelo caminho, os seus companheiros, foram dirivando para outros
-destinos e, quando era pela volta da meia noite, o Fogueira caminhava só,
-destacando-se, no silencio ambiente, como uma côr viva se destaca n’um
-fundo escuro, o saliente resfolgar da sua egua, que trotava n’um passo
-moderado e cadente, batendo com as ferraduras nas pedras avulsas do
-caminho. A estrada que seguia era estreita, orlada de arvores copadas,
-o que augmentava a escuridão... O Fogueira, apesar de não ser medroso,
-sentia, em volta de si, um certo vasio que lhe dava uma sensação de
-desamparo... de abandono!... Inconscientemente principiou a pensar n’um
-mau encontro, a lembrar-se que lhe podiam vir ao caminho alguns ladrões,
-se por acaso soubessem que o seu cinto ía tão bem recheado de soberanos!
-Quando se surprehendeu dominado por estas idéas extravagantes, sorriu
-incredulamente... Bem sabia não haver por ali ladrões, e que sómente,
-uma ou outra vez, se roubava uma poçada de agua, para valer a algum
-campo de milho, que se mirrava de secura. Mas dado mesmo o caso que lhe
-apparecesse um ou dois ladrões!? Não era elle um dos melhores jogadores
-de pau das feiras minhotas?! O seu lodam não tinha uma choupa de romper
-um peito?! A sua egua não era bastante impetuosa, para abrir caminho
-por entre um regimento de soldados, e bastante fugideira, para não ser
-pilhada pelo melhor cavallo a toda-a-brida?!... Porém, como lhe veio esta
-idéa esquisita de se lembrar de ladrões?! Como diabo lhe deu a caturrice
-para ali?! Não sabia, mas a verdade é que lhe desagradou o encontrar-se a
-pensar em _taes amigos_, quando era certo, que tinha o cinto atulhado de
-dinheiro... No momento em que elle se sorria destas asneiras, chegava a
-um pequeno largo, onde havia uns carvalhos antigos, cuja ramagem copada
-lhe deu facilmente uma impressão amedrontadora, como a de uma igreja, ou
-de um cemiterio que, n’uma estrada rural, se encontra desprevenidamente!
-O silencio aqui era simplesmente interrompido pelo som metallico de uma
-pequena fonte, que pingava junto de um muro. O Fogueira sentiu-se n’este
-momento mais isolado, e, talvez, em virtude da impressão desagradavel que
-este sentimento de desamparo lhe causou, attendeu com mais intelligencia
-a tudo que o cercava. Um tremor incaracteristico, mas energico,
-irradiou-lhe em todo o corpo; porque dois homens, dando largas passadas
-de tragedia, de paus argolados levantados ao ar, se lhe opposeram com
-arrogancia, dizendo com voz soturna:
-
-—Faça lá alto, ó seu amigo!
-
-A egua susteve-se logo, desconfiada, com um olhar inquieto, a cabeça
-levantada, as orelhas espertas! O Fogueira estremeceu involuntariamente,
-um formigueiro rabiou-lhe ao longo da espinha, ficando n’uma especie
-de spasmo, depois de ouvir aquella voz rouca, avinhada, uma voz de
-timbre seu conhecido, mas que, n’este momento, não podia dizer de quem
-era... Toda esta scena rapida e inesperada, deu-lhe uma idéa pavorosa
-de cousa sinistra, da intervenção do demonio nos successos da sua
-vida, de acontecimento só explicavel em historias de bruxas!... Porém,
-recuperando a serenidade, reconheceu que eram realmente dois homens
-mascarados, que se lhe oppunham no caminho e que deveria por força ser,
-para o roubarem... Seguindo o proprio instincto, tirou o seu pau ferrado
-de entre a perna e o albardão, levantou-o para elles com arrogancia e
-dizendo «qual alto, nem meio alto!» esporeou energicamente a egua,
-para romper com velocidade por entre os dois mascarados. O animal, que
-era fino e sensivel, deu um corcovo, indo esbarrar-se contra uma corda
-que estava intensionalmente atravessada no caminho e, o Fogueira, ficou
-desmontado; mas com tanta felicidade que, quando os aggressores íam a
-caír sobre elle, encontraram-n’o de pé, fazendo-lhes face, com o páu em
-guarda, emquanto que, a distancia, se ouviam as ferraduras da sua egua
-batendo nas lages da calçada.
-
-Este momento de silencio foi tenebroso! Havia dois homens contra um, na
-escuridade indicisa de um caminho orlado de arvores, que se definiam no
-ar com os seus enfolhamentos volumosos e espessos! O Fogueira esperava um
-ataque simultaneo da parte dos salteadores, e já calculava defender-se,
-de costas contra o muro, sustentando-se assim até poder _bimbar_ o
-primeiro, para depois se encontrar com o segundo que accommetteria com
-força. Mas um dos mascarados, baixando o páu com desdem, disse n’uma voz
-trocista de compaixão, para lhe mostrar que o tinha comprehendido:
-
-—Home, não te faças fino, que te enganas. Deita ahi a marmelada que levas
-no cinto e vae-te c’os demonios, se não póde-te saír a cousa torta!
-
-Esta intimação ironica e despresadora offendeu, mais do que tudo, o
-Fogueira, insufflando-lhe uma energia raivosa contra os dois aggressores.
-Não o conheceriam elles?! Não saberiam que era o melhor jogador do pau
-das feiras minhotas?!—disse comsigo este sanguineo estouvado! Pois
-estavam em momento de o experimentarem!—pensou n’um silencio rancoroso
-e indomavel. E logo depois, n’um impeto leonino e sem tatica, cresceu
-aggressivamente para ambos, tomado de um frenesi tão diabolico, que os
-fez recuar alguns passos n’este primeiro ataque. O Rio Tinto disse-lhe
-com uma voz já menos disfarçada, aparando-lhe as pauladas:
-
-—Ah! queres á valentona?!... Vamos então lá a ver!...
-
-Houve um instante de hesitação, um momento instinctivo de pausa, em
-que de parte a parte se pensou rapidamente em accommetter com a maior
-energia. O Fogueira era bastante conhecido, como jogador temivel. O Rio
-Tinto e o Fanfarra sabiam-n’o melhor do que ninguem; porque muitas vezes
-se tinham encontrado emparceirados em desordens e, talvez n’este momento,
-se lembrassem que, um d’elles, devia á presteza e generosidade d’este
-valente rapaz, não ter ficado morto _no S. Sebastião de Villa Nova_!...
-Porém, apesar d’isto, no momento actual, elles eram dois contra um! A
-enorme sêde de vingança, e a natural maldade e valentia incontestada dos
-dois salteadores, davam-lhes reconhecidas vantagens. O Fogueira, ainda
-que fóra de si, já tinha conhecido _pela guarda_ dos adversarios que
-elles _sabiam do negocio_:—reconheceu que eram _jogadores_. Mas o seu
-natural impetuoso e imprevidente levou-o a saír da defeza, com o fim de
-os atacar, e com a idéa de fazer a um d’elles, a sua _finta_ predilecta á
-bôcado estomago; empregando, ainda assim, _muito olho_ para não perder a
-protecção do muro, que lhe guardava as costas. Na soturnidade da noite,
-profunda e cava, por entre os espessos troncos de carvalhos folhosos,
-no meio do silencio imponente das montanhas visinhas que se levantavam
-na amplidão, ouviam-se os estalidos seccos e breves dos paus, batendo
-uns nos outros, por entre as respirações de cançaço cortadas de palavras
-injuriosas e cheias do rancor dos combatentes! No escuro, a que elles já
-tinham habituado os olhos, os seus corpos furtavam-se habilmente _aos
-golpes_, saltando de lado para lado, sempre n’uma incerteza de posição! O
-Fogueira, como era só, precisava empregar maior esforço e tal raiva que,
-no fim de cinco minutos, fez saltar o pau do Rio Tinto, para lhe atirar
-a pontuada ao estomago! Este porém, como lhe conhecia bem o jogo, deu um
-largo salto de recuo e, em vez de ir buscar outra vez a sua arma, metteu
-rapidamente a mão ao bolso interior da vestia, tirando a sua comprida
-navalha que abriu de prompto e disse na voz natural:
-
-—Agora ha de ser com esta. Ataca com força rapaz!—gritou ao companheiro.
-
-Principiou um d’esses momentos terrivelmente sinistros, em que entre
-dois homens se estabelece esta negra idéa—de se matarem um ao outro! O
-Fogueira conheceu immediatamente o perigo, quando viu faiscar a lamina
-da navalha, que mesmo á luz tibia das estrellas brilhára aos seus olhos,
-como um relampago! N’esta lucta obscura, que se passava no silencio
-de uma noite de primavera e na tranquillidade de um caminho rural,
-havia muita ferocidade condensada! O Antonio Fogueira tinha, até ali,
-sustentado os ataques dos adversarios; mas, agora, para se furtar á
-navalha de um assassino, só o poderia conseguir inutilisando o Fanfarra,
-que o ensarilhava de cada vez mais, fazendo-lhe um jogo de mil demonios!
-Por isso, com a ligeireza de um cabrito montez, saltava para a direita,
-para a esquerda, para a frente, para traz... evitando os dois inimigos
-que o procuravam com pertinacia... com furia! O Rio Tinto praguejava,
-ameaçava-o com voz rouca... quasi natural... O Fogueira tel-o-ía
-conhecido em outras circumstancias; mas, em momento tão apertado,
-nem reflexão tinha para isso... As forças eram desiguaes... o filho
-da Engracia enfraquecia-se visivelmente, e a elle, que era corajoso,
-veio-lhe a idéa de um soccorro providencial... Sentia-se já extenuado e
-aggredido de cada vez com mais tenecidade, com mais rancor, com maior
-impeto! Aquelle que o procurava por todos os modos, para o anavalhar,
-pronunciou com voz clara, já sem pretensões de disfarce:
-
-—Agora Fanfarra, deixa-me c’o elle!...
-
-E logo em seguida, o Fogueira, sentiu-se abraçado pelo seu inimigo, a
-quem desmascarou no instante em que a comprida navalha lhe entrava no
-coração, rasgando-lh’o com tal força, que só teve tempo de dizer n’um
-suspiro final:
-
-—Ah! ladrão de Rio Tinto, que me matastes!
-
-Foi este o ultimo grito de angustia e as ultimas palavras que
-proferiu!... O seu corpo deixou-se caír no chão, desfallecido, com os
-braços pendentes e o sangue a golfar-lhe pela ferida e pela bôca! Ainda
-teve alguns movimentos convulsivos, acompanhados de um rouco respirar
-stertoroso, com borbulhões de espuma sanguinea pelo nariz! A sua energia
-ainda manifestou um instante de louca rehabilitação, pertendendo,
-aquelle corpo moribundo, levantar-se sobre os joelhos! Mas a final caíu
-brutamente, ficando exanime, insensivel, de bruços sobre a terra!...
-
- * * * * *
-
-O Rio Tinto e o Fanfarra conservaram-se, durante um longo minuto,
-a olhar para o cadaver, silenciosos, estupidos, n’uma impotencia
-inexplicavel, quasi sem poderem fugir! Sentiam-se agora mais covardes,
-mais irresolutos, depois de consummado o crime! Não tendo uma precisa
-comprehensão das circumstancias, esperavam, um tanto passivamente,
-qualquer castigo que viria do alto, de uma implacavel região de justiça,
-para os punir!... Alguem que, por casualidade, os tivesse visto, poderia
-aproximar-se sem que elles se escondessem; pois que, durante este minuto
-sinistro, conservavam-se sisudos, calados, a olhar um para o outro,
-com os braços pendentes!... Mas, logo depois, o Rio Tinto, que era
-mais preverso e malvado, recuperando com certa promptidão a sua podre
-consciencia, disse, em voz insultante, para o cadaver:
-
-—Ora ahi tens!... É assim que se ensinam os pimpões!...
-
-E permanecendo algum tempo com o ouvido á escuta, para que alguem se
-não aproximasse inesperadamente, observou em seguida ao Fanfarra que,
-dominado por um terror supersticioso, escutava o som metallico da agua da
-fonte:
-
-—Não tenhas medo... Não é ninguem... É ali a pingar...
-
-Porém, como o Fanfarra, ainda se conservava n’esta insensibilidade
-estupida e incomprehensivel, o Rio Tinto dispertou-o dizendo-lhe, com um
-acêno imperativo de cabeça:
-
-—Então?!
-
-O outro troquilha encolheu os hombros, com certo desleixo, indicando que
-fizesse elle o que quizesse, que estava prompto para tudo... O assassino
-do Fogueira, dando movimentos desengonçados ao tronco e á cabeça,
-proferiu com certa ironia feroz e temivel, condemnando aquelle estado de
-arrependimento:
-
-—Ora põe-te com _aquellas_. Talvez ainda lhe tenhas medo. Olha que já se
-não mexe...—concluiu impellindo o cadaver com um pontapé.
-
-E, logo, curvando-se sobre o corpo ainda quente, desafivelou-lhe o cinto
-que suspendeu no ar, tilintando escarnecedoramente com o dinheiro, e
-rematou n’uma voz de contentamento miseravel:
-
-—Ouvel-os? Cá cantam?! Fazem um certo arranjo.
-
-O sangue ensopava a terra, jorrando em borbotões ruidosos pela bôca do
-cadaver e pela ferida! O Rio Tinto, tendo guardado o roubo, observou com
-modo mais familiar, pondo a mão no hombro do companheiro, que permanecia
-na mesma apparente insensibilidade:
-
-—Agora... pernas para que vos queremos. Toca a andar, que póde vir por
-ahi algum patrão!...
-
- * * * * *
-
-Retrocederam pelo mesmo caminho, primeiro n’um passo rapido, depois a
-fugir, o Fanfarra atraz do Rio Tinto. Tomaram á esquerda, por um atalho
-pouco frequentado, que os devia levar, atravez de uns montes, a outra
-estrada...
-
-O Fanfarra, quando já estava mais seguro de si, parou subitamente, para
-considerar:
-
-—Olha lá... Ficaria elle bem morto?!
-
-O Rio Tinto certificou-lh’o do seguinte modo:
-
-—Deus te dê mais vida do que elle tem!
-
-Mas o Fanfarra, visivelmente preoccupado com esta idéa, como estavam
-muito perto disse:
-
-—Home... ainda é escuro... Voltemos a espreitar se elle se mexe!
-
-E voltaram n’um passo rapido, melhor seguros de si, com a alma mais
-desanuviada e perversa. Ficaram a pequena distancia, de traz do muro,
-escutando... O silencio prolongava-se preguiçosamente na profundidade
-do valle. Sómente o pingar monotono da fonte proxima perturbava este
-alvorecer indiciso, que os passaros já principiavam a alegrar. Os
-assassinos, para se certificarem positivamente da morte do Fogueira,
-e como a escuridade ainda os protegia, saíram do logar onde se tinham
-prudentemente escondido e aproximaram-se do cadaver, com certa ousadia e
-confiança. O corpo continuava a jazer exanime, de bruços sobre a terra!
-Não tinha o menor signal de vida—nem sequer perturbava o silencio da
-noite, com a respiração tenue do moribundo!
-
-O Rio Tinto, empurrando outra vez o cadaver despresivelmente com o pé,
-pronunciou com um sorriso cynico:
-
-—Estás bem morto! Pagastel-as todas. Já não comes mais brôa.
-
-O Fanfarra, que era menos animoso, observou-lhe com certo modo urgente:
-
-—Home, deixa-o lá, coitado! Fujamos nós, que já se vae vendo!... Pode vir
-por ahi algum demonio...
-
-O Rio Tinto concluiu com uma intonação trocista:
-
-—Aposto que tens pena d’elle!... Ou é medo?!... Não tenhas medo; nem
-elle, nem os que podem vir te prendem. Se algum pimpão ahi apparecesse
-agora, fazia-se-lhe o mesmo e eram dois que ficavam estendidos.
-
-Depois afastaram-se do cadaver e do caminho que tinham trazido de Vianna,
-por atalhos seus conhecidos. D’ali a poucos minutos, transpunham o cabeço
-sobranceiro á estrada. O Rio Tinto concluiu com serenidade:
-
-—Agora é que é bom dar á perna, que _ella_ vae-se mostrando...
-
- * * * * *
-
-Referiam-se á manhã que rompia, com uma claridade roxa. Era o alvorocer
-de um formoso dia de sol. As cumiadas dos montes circumvisinhos
-ainda se esfumavam indicisamente no azul; porém, o tremulusir das
-estrellas que fôra, durante a noite, vivo e inconstante, como o dos
-brilhantes nos bailes da opulencia mundana, principiava a extinguir-se.
-O ar sadio e oxigenado dos campos, dava ao corpo dos madrugadores a
-sensação macia de uma ligeira humidade refrigerante. Dos pinheiraes e
-das mattas de carvalhos, já saíam os gaios ralhadores, com o seu vôo
-largo, annunciando, por cima das penedias, o dia que chegava. Os braços
-enfolhados das arvores nascidas nas eminencias, recortavam-se no céu,
-tenuemente anillado, manchando-lhe a pureza. A modo que o dia se ía
-illuminando melhor, as arvores e as massas de penedos destacavam-se, com
-mais precisão. Da côr roxa primitiva, o céu, foi insensivelmente passando
-para a côr de rosa, depois para o azul plumbeo, por fim colorindo-se todo
-por igual, quando as estrellas já se não percebiam, adquiriu o verdadeiro
-tom de azul ferrete, uma côr humida e energica, propria das manhãs de
-primavera no clima do Minho. O nevoeiro tenue, como um gaze lançado sobre
-os montes e os campos, foi se pouco a pouco condensando no fundo do
-valle. A vida laboriosa dos trabalhadores ía manifestar-se nos caminhos
-e nas encostas. Seria um dia alegre como todos os dias,—os milhos
-continuariam a crescer, e as poucas cearas de centeio pintar-se-iam com
-o amarello da ganga... Porém, n’este pequeno largo plantado de velhos
-carvalhos annosos e onde uma pobre veia de agua pingava continuadamente,
-estava disposta uma surpreza desagradavel, para o primeiro madrugador da
-aldeia. Era o cadaver de um rapaz de vinte e tantos annos, assassinado
-com uma facada, que lhe entrára no coração! O seu corpo estava de bruços,
-no supremo abandono da morte! O sangue saído da ferida, molhava a terra
-e manchava-lhe a cara. E, a vivificante luz da manhã, o orvalho que
-refrigéra, as côres da paizagem que enebriam pela complexidade de tons...
-essa força omnipotente que vem da natureza, pairava sobre o morto, com um
-scepticismo ironico e dominador!...
-
-
-
-
-A MORTE NEGRA
-
-A ALEXANDRE DA CONCEIÇÃO
-
-
-
-
-A MORTE NEGRA
-
-
-O terceiro marido de Isabel morreu de uma prolongada _queixa de peito_.
-A viuva, que era uma rapariga de vinte e seis annos—saudavel, tentadora,
-appetitosa—de uma forte carnação campesina, com a intensa vitalidade
-das naturezas creadas em liberdade, poderia definhar-se em virtude de
-tão successivas desillusões! Porque ella, que passára os ultimos tempos
-em despezas de casamentos e de enterros, estremecendo com afinco e
-tenacidade, cada marido recente, tinha de o prantear logo depois, com
-um tal apparato de palavras inconsolaveis, que sensibilisava todas as
-pessoas que a ouviam, obrigando-as a tomar parte na sua enorme dôr!
-
-Quando acabou de expirar este ultimo, o José Chibante, Isabel principiou
-a choral-o, com um desespero tão desgrenhado, que até a propria
-natureza austera e muda—as altas arvores, os altos montes e os negros
-penedos—pareciam compungidos!
-
-Estava-se na primavera, mas durante muitos dias caíra um aguaceiro
-copioso e subtil, que dava, ao socego das cousas naturaes, um caracter
-funerario e lugubre! As densas paizagens, envolvidas d’um nevoeiro
-espesso, não se viam cortadas, ao longe, pelas alegres claridades das
-habitações. A linha irregular do horisonte não se riscava no azul das
-tardes serenas e desejadas. O grosso volume das penedias occultava-se nas
-densas nuvens, que se rasgavam, transpondo montes, transpondo valles,
-correndo sempre, com uma impassibilidade gigantesca, como de valentes
-cavallos de posta.
-
-Ora Isabel, viuva pela terceira vez, sentira durante a noite o som
-ululante do trovão, e presenciara os ultimos momentos angustiosos de
-seu marido agonisante, encostado ao catre da cama!... Ella, que era uma
-rapariga forte e com as seducções da belleza e da juventude, sentia-se
-aniquilada! Exprimia-o com gritos angustiosos, com gestos vehementes, com
-palavras de desespero, de amor, de saudade!... As suas boas lagrimas,
-abundantes, sinceras e quentes, tinham attraído, logo de manhã, a
-caridade de algumas visinhas, que lhe trouxeram as melhores consolações,
-excellentes palavras, attenções urgentes... n’aquelle momento doloroso.
-Eram amigas e companheiras nos trabalhos ordinarios da lavoura, e que
-tinham igualmente assistido, ao caminhar implacavel da _consumpção_,
-em que haviam morrido os outros dois maridos de Isabel!... Por isso
-conheciam muito bem o que se passava, e, quando ouviram os primeiros
-gritos alarmantes, fecharam as portas, e pelo caminho para casa da viuva,
-consideravam cheias de tristeza:
-
-—Então sempre se foi o Chibante?...
-
-—Parece que sim, mulher! Ha pouco mais de um anno que se casaram! Quem o
-havia de dizer... um rapagão como um castello!...
-
-Uma disse com um modo indagador:
-
-—Eu não sei o que isto é... mas tanto elle como os outros, passante o
-primeiro mez de viverem com ella, logo arranjaram taes caras de bruxaria
-que mettiam medo!...
-
-Lindoria, com aspecto compadecido, teve esta opinião:
-
-—Olhae que eu _tamem_ tenho pena da rapariga! Digam o que disserem, ha de
-lhe custar... Tão nova, e já com tres mortes...
-
-—Ora!...—duvidou uma terceira, encolhendo os hombros. A culpa de quem
-é?!.. É minha?!
-
-Lindoria, que andava sempre por casa de Isabel, interferiu para não
-deixar concluir:
-
-—Deixae-vos de asneiras... Eu bem sei o que lhe vae lá pelo coração. Ella
-é uma apegada aos homens!...
-
-—Pois sim—disse uma das companheiras; mas isso é o que não devia ser!...
-
-E caminhando juntas, uma rematou esta conversa dizendo com naturalidade:
-
-—Isto assim não tem geito. Isabel não deve casar mais vez nenhuma.
-
-Entraram na casa da viuva do Chibante, que estava sentada na lareira,
-com a cabeça energicamente apertada entre as mãos, chorando com desespero.
-
-As suas amigas, para a socegarem, disseram-lhe com os olhos enxutos
-«que não se affligisse mais, que aquillo foi vontade do Senhor que tudo
-manda». E acrescentavam com fé e confiança na Infinita Misericordia:
-
-—Olha que elle ha de estar em bom logar!...
-
-—Deus vos ouça, Deus vos ouça... Ao menos que Nossa Senhora o tenha no
-reino dos céus!...—repetia muitas vezes Isabel.
-
-As outras certificavam-lhe:
-
-—Ha de ter, ha de, rapariga. Ao que elle penou n’este mundo...
-
-—Não que eu lhe desse má vida! Como vós sabeis trazia-o sempre nas
-palminhas!...
-
-Lindoria concluiu, sorvendo uma pitada:
-
-—Aquem tu o vens dizer, mulher! Era um Santo Antoninho onde te porei.
-
- * * * * *
-
-Depois de conversarem algum tempo familiarmente, foram á cama ver o
-defunto! Estava escondido por um lençol; mas ellas descobriram-n’o
-com certa naturalidade, talvez mesmo com irreverencia... Viram-n’o
-bem, miraram-n’o por todos os lados: o José Chibante, já composto, de
-costas sobre a cama, tinha os punhos atados sobre o peito, e um lenço
-_amarrando-lhe_ as maxillas, para se conservarem n’uma posição decente.
-Essa alvura do panno que lhe enquadrava o rosto augmentava-lhe a lividez;
-as palpebras, cuidadosamente cerradas e presas por um pingo de cêra,
-accentuavam o ar sereno e grave do cadaver, que todas viam n’uma posição
-reflectida, com as pernas estendidas e os pés levantados no fundo da cama.
-
-—Eu não sei como pódes fazer isto... Eu cá se me morresse o _home_ é que
-o não vestia—disse uma para a Isabel.
-
-Ella respondeu com voz commum, interrompendo momentaneamente o chôro:
-
-—Pois então?! Ninguem faz estas cousas melhor que a gente. Nós é que
-sabemos, como elles gostavam de se arranjar...
-
-Porque a camisa de altos collarinhos lavados e as calças de panno azul,
-tinham sido vestidas ao marido, por sua propria mulher, que lhe quiz
-fazer este ultimo asseio, o asseio da eternidade! O defunto estava quasi
-prompto, para a sua festa de enterro. Uma das amigas de Isabel exclamou
-sinceramente:
-
-—Mas vae bonito e asseiado! Olha que te parece mesme vivo!...
-
-Ella esclareceu, com a sua voz usual, limpando as ultimas lagrimas:
-
-—Leva para a cova a roupa da bôda. Já aos outros dois homes, que Deus
-Nosso Senhor teve na Sua Divina Vontade tirar-me, fiz o mesmo. Tenho
-muita _aquella_ em que elles vão sempre para o outro mundo como uns
-cravos!
-
-E concluiu, dizendo que o seu José seria vestido de _terceiro_, porque
-era _irmão d’esta ordem_, e ficava-lhe muito bem o habito, com a sua côr
-parda e o cordão novo em volta da cintura, caíndo-lhe as borlas sobre
-os pés... Lembrava-se muito bem, de quando elle caminhava na ultima
-procissão de Passos, alinhado cuidadosamente com os outros companheiros,
-levando uma tocha na mão, muito sério, já com a sua cara magra e doente,
-amparada nos altos collarinhos da camisa, que agora lhe vestira para o
-enterro. E, indo á caixa grande buscar o _habito de terceiro_, estendeu-o
-para o verem bem, e disse que o defunto estimava muito aquelle rico
-traste, que quando era vivo, muitas vezes dissera, ter desejos de o levar
-para a cova. Por isso Isabel rematou com intimativa:
-
-—Ha de ir á vontade d’elle. Quero-lh’a fazer até á ultima, porque elle
-tambem sempre foi muito bô para mim.
-
-—Fazes tu muito bem—incitavam fortemente as companheiras. A gente, quando
-o seu home é bô, deve-lhe sempre andar ao geito.
-
- * * * * *
-
-Uma das amigas da mulher do Chibante foi procurar o Coruja para vir
-arranjar o habito ao defunto, por que a viuva, attendendo a que sempre
-era uma cousa benzida, n’esse particular mantinha os seus escrupulos...
-O coveiro chegou resmungando, e disse palavras desgostosas e insolentes,
-quando viu o morto quasi prompto. Depois, assobiando canto-chão, e
-bebendo de uma infuza de vinho, acabou de o arranjar ageitando-o dentro
-do esquife cuidadosamente, com esmero, compondo-lhe o lençol _rebicado_,
-e endireitando-lhe a cabeça n’uma posição natural. Logo que isto foi
-concluido, Isabel e as suas amigas, principiaram a gritar mais alto, com
-um chôro ganido e espantado, andando em volta do esquife!... O vesgo e
-cambado Coruja, com os seus arremessos grutescos e irregulares, depois de
-se ter rido ás gargalhadas, disse de um modo brusco e malcreado, fazendo
-carantonhas, com a lingua de fóra:
-
-—Por um olho azeite, por outro vinagre, minha corja de mandrongas!...
-Quem vos não conhecer que vos compre!
-
-E, referindo-se especialmente a Isabel, acrescentou:
-
-—Já trazes outro de olho?...
-
-As mulheres, offendidas, responderam indignadamente:
-
-—Cala-te, bebedo!...
-
-—Olhem o grandissimo borracho!—acrescentou com accento desprezivel a
-beata Lindoria.
-
-Depois, como o chôro de Isabel se continuava de um modo intenso, e, as
-suas amigas, pelo que tinham visto das outras vezes, sabiam que lhe fazia
-mal, produzindo-lhe ataques em que parecia possuida do demonio, uma
-d’ellas principiou a amesquinhar-lhe o acontecimento, a apresentar-lh’o
-como um successo natural e simples...
-
-—Olha que não ficamos cá. Cuidas que alguma de nós fica n’este
-valle-de-lagrimas?!... Estás muito enganada. Tu has de morrer, eu hei de
-morrer... todas nós havemos de morrer... Um dia toca o sino para esta...
-outro dia para aquella... é o mundo!
-
-E Lindoria, com um aspecto vulgar e pouco sensibilisador, para mudar de
-conversa, opinou chegando-se para o esquife, a sorrir:
-
-—Mas o que elle te vae é muito lindo! Pódes ter essa gavança, mulher!
-Faz gosto olhar para elle. Ninguem ahi põe um defunto na igreja, tão bem
-arranjado, como tu.
-
-Isabel respondeu:
-
-—Lá isso, hei de fazer sempre assim, emquanto Deus me der vida e saude...
-
-Passado certo tempo, quando todas as idéas tristes pareciam distantes, á
-Lindoria, que tinha confiança na casa, veio-lhe a lembrança sensatissima,
-de que Isabel precisaria de comer... Por isso lembrou-lhe:
-
-—Tu has de estar por força fraca e esse chorar faz-te mal... póde-te caír
-no coração.
-
-A viuva recusou-se teimosamente, dizendo que não lhe entraria nem uma
-bucha de pão na boca... parecia-lhe que tinha comido o seu ultimo
-bocado... e, fallando em morrer, o seu desespero era enorme e as palavras
-afflictivas!...
-
-Porém, Lindoria, muito prudente, dizia reprehensiva e com auctoridade:
-
-—Estás tola, rapariga! Não querer comer!!... São lá cousas que se digam!
-Olha que até offendes ao Senhor, que te creou!... A gente deve fazer bem
-ao seu corpo, para poder louvar a Deus, e engrandecer a Sua Infinita
-Misericordia...
-
-E acrescentou, depois de se assoar com estrondo:
-
-—... Ouvi estas verdades da bôca d’aquelle santo missionario que ali
-esteve em Refuinho, e que teve artes de levar para o reino da gloria
-a Rosaria do Thomaz do Monte... Sabeis que _ella_ já vos faz tantos
-milagres que, aos domingos, é uma romaria n’aquella igreja?!..
-
-Com esta auctoridade e saber, sem mesmo consultar a viuva, Lindoria
-combinou com as outras mulheres, para arranjarem _alguma cousa_ que
-Isabel podesse comer—alguma cousa que chegasse para ellas tambem, porque
-se sentiam com bastante fraqueira. Como era no tempo da matança dos
-porcos, uma, que morava mais visinha da viuva, foi-lhe arranjar uns
-rojões e trouxe-os, acompanhados de uma boa infuza de vinho... N’uma voz
-convidativa e discreta, pronunciou estas bôas palavras, logo ao entrar da
-porta:
-
-—Vamos a elles, emquanto estão quentes e não vem por ahi alguem á agua
-benta...
-
-—Tens rasão, tens—confirmou a prudente Lindoria, com aspecto guloso.
-
-Isabel, nos primeiros momentos, absteve-se, dizendo com a mão apertada na
-garganta:
-
-—Esta (a morte do Chibante) não me passa d’aqui. Agora é que fico para
-toda a vida... O que eu tenho passado em sete annos!...
-
-Era o tempo que lhe tinham durado os tres maridos.
-
-Uma das mulheres, prudentes e sensatas, que a cercavam, disse-lhe:
-
-—É isso verdade rapariga. Rasão tens tu. Mas se é vontade de Deus, que
-lhe has de fazer?!...—interrogou de cara alta. Sem comer é que não somos
-nada n’este mundo, e, como te disse aquella (referia-se a Lindoria), até
-offendes a Deus com essas palavras desagradecidas!...
-
-A _beata_, confirmou mais uma vez, esta sua opinião, repetindo:
-
-—Ah! isso offendes e muito! Eu que t’o digo é porque o sei.
-Mas—rematou—vamos aos rojões, antes que arrefeçam. Frios não prestam.
-
-E para incitarem a viuva do Chibante, para lhe quebrarem os ultimos
-melindres, principiaram ellas a comer com a mão, e a beber todas pela
-mesma infuza.
-
- * * * * *
-
-O morto estava deitado no esquife, vestido com o seu habito de
-_terceiro_. A côr escura do seu rosto e o pardo da mortalha sobresaía...
-destacava-se da brancura do lençol de panno engommado, que tinha nas
-ourelas recortes vistosos. As pernas do defunto estavam alinhadas, e as
-mãos, sobre o peito, agarravam um ramo de oliveira; e no rosto, pallido
-e soffredor, a dolorosa expressão dos que têem sentido dolorosamente
-fugir-lhe o ultimo alento de vida!... Á cabeceira do esquife, sobre
-uma velha caixa de pinho coberta por uma toalha, estava um crucifixo,
-com duas vélas dos lados; aos pés, a caldeira da agua benta, esperava
-os amigos do finado, que tinham de vir espargil-o com o tosco hyssope,
-depois de lhe terem resado pela alma, que n’aquelle momento já devia
-pairar nas regiões incomprehensiveis!... N’aquelle cadaver livido, todo
-podridão e um proximo repasto de vermes insaciaveis, havia a suprema
-serenidade da morte—impassivel, austera e absorvente!...
-
-Isabel, depois dos reiterados convites das suas amigas, principiou a
-comer com moderação e, ao parecer, com pouco appetite.
-
-—Isto é para vos fazer a vontade; porque não me passa d’aqui—dizia,
-indicando a parte superior do esophago.
-
-Lindoria, com um bom humor descrente, incitava-a:
-
-—Entra-lhe mulher, anda-lhe... Tu não te has de deixar ir assim para a
-cova... _como elle_. Se Deus, na sua infinita misericordia t’o roubou,
-não é rasão para que vás pelo mesmo caminho. Por isso, come-lhe e
-bebe-lhe que é o melhor que tens a fazer.
-
-E, olhando sagazmente para os lados do caminho, acrescentou com voz
-familiar e sem imposturas desnecessarias:
-
-—Por ora não vem ninguem... Pódes engulir o teu bocado sem medo.
-
-Mas, pouco depois, quando mastigavam, silenciosas, resignadas e com
-vontade, sentiram passos de alguem que se aproximava!... Todas deglutiram
-rapidamente o que tinham na bôca!... Uma d’ellas, com mais sangue frio,
-metteu no forno, com precipitação, o prato dos rojões, mas deixou,
-imprevidentemente, a porta aberta. Lindoria, por seu lado, escondeu com
-sagacidade, a infuza do vinho debaixo de um banco, sentando-se logo por
-cima d’ella, para a ter melhor escondida com as saias espalhadas. Por
-fim, como se tivesse havido qualquer convenio anterior, compozeram os
-semblantes n’uma expressão de tristeza, tomaram attitudes chorosas, e,
-fingindo a continuação de uma conversa, fallavam com lagrimas no caso
-presente, lamentando as amigas de Isabel, esta perda do _seu homme_,
-procurando dar-lhe as melhores consolações que em taes momentos se podem
-desejar!...
-
-Os passos que se tinham sentido, eram os do velho Agrella, que vinha
-resar pelo morto. O alfaiate entrou com face respeitosa e compungida!
-Resou cordatamente, com sinceridade, e, em seguida, entrou no circulo das
-creaturas que ensinavam Isabel a resignar-se, trazendo-lhe, elle tambem,
-as suas palavras de coragem...
-
-A mulher do José Chibante ouvia tudo n’um recolhimento sensato,
-com intermittencias de sentimentalidade:—umas vezes chorava alto
-lamentando-se do só que ficava, achando-se enormemente infeliz e
-desgraçada; outras, entrava socegadamente em detalhes, em referencias,
-em particularidades do modo como vivera com José, rememorando as
-circumstancias em que lhe fizera, a ella, as vontades mais exigentes e
-caprichosas... Era doloroso e sympathico ouvil-a exprimir-se d’este modo,
-ácerca do terceiro marido que lhe morria!...
-
- * * * * *
-
-No entretanto, um gato preto da visinhança, entrava pela porta dentro
-sem ser persentido e principiou a observar minuciosamente toda a casa,
-revolvendo com lentidão os seus olhos redondos e luminosos. Parecia
-attraído por algum motivo; porque, n’aquella serenidade do seu olhar
-sagacissimo, conhecia-se-lhe um proposito, um fim... Primeiro attendeu
-minuciosamente para o esquife, andando duas vezes em volta para se
-certificar. Depois, aproximou-se das mulheres que choravam, aproveitou
-do chão uns restos de comida e sentou-se para lamber socegadamente um
-osso despresado. Por fim, sempre devagar e cauteloso, dirigiu-se, com a
-imperceptibilidade de uma sombra, para junto do forno... Levantou com
-mansidão a cabeça e averiguou olfativamente. Sem duvida que foi depois
-de ter chegado a uma conclusão do seu demorado raciocinio, que o gato
-se firmou nas patas trazeiras, arqueou o corpo, estendeu-o, retesou-se,
-e, fazendo um salto, entrou pela porta aberta do forno... onde tinha
-sido escondido o prato da comida. Pouco depois voltou, saltou para o
-chão, trazendo um rojão que pousou socegadamente junto do esquife e ali
-principiou a comel-o, com o sofrego appetite de um golutão...
-
-O Agrella começou por observar este facto com serenidade. O gato preto,
-logo que acabava de comer um rojão, levantava-se lambendo os beiços, e,
-sorrateiramente, ía buscar mais, que vinha mastigar junto da caldeira
-da agua benta. O alfaiate, por este signal, percebeu immediatamente
-tudo quanto se teria passado, antes da sua chegada desagradavel e
-inconveniente!... A infuza que depois lobrigou debaixo do banco, apesar
-de Lindoria procurar escondel-a á sua sagacidade, espalhando as saias,
-completou-lhe o quadro. Porém, o seu rosto foi impenetravel, e, como se
-nada tivesse visto, continuou a seguir a linha das lamentações, fallando
-das qualidades excellentes do homem de Isabel, recordando casos que com
-elle lhe tinham succedido, avivando memorias de tempos passados... E de
-tal modo e com tal compuncção o fazia, que a propria Lindoria—a raposa
-sagaz da aldeia—sentiu-se dominada pelo tom plangente do Agrella...
-
-A velha beata, compungida e lacrimosa, era quem mais salientemente
-reclamava as boas palavras, os elegios e as lagrimas para a memoria
-do defunto, que ali estava, serenamente deitado n’aquelle esquife.
-Ao mesmo tempo que lamentava os incalculaveis estragos da morte, ía
-reparando... percebendo... apopletica de raiva, que o malvado do gato
-preto entrava no forno repetidas vezes, trazendo sempre rojões, que vinha
-comer, impunemente, mesmo junto do esquife. N’um momento, já impaciente
-e nervosa, não lhe soffrendo o animo consentir que o animal vivesse
-momentos tão felizes n’uma impunidade odiosa, lançando olhares furtivos
-ao _ladrão_, pronunciou com voz lamentosa uma d’essas phrases equivocas
-da linguagem popular, por meio da qual desejava denunciar ás companheiras
-imprevidentes, aquelle roubo inqualificavel:
-
-—_Ah! morte negra, morte negra! que assim os vaes levando um e um!_
-
-Queria decerto que o Agrella entendesse que se referia aos homens
-fallecidos; porém o velho, alfaiate, ouvindo isto, levantou-se sereno e
-talvez indignado!... Baixou-se sobre o banco, pegou na infuza de vinho
-escondida, e estendendo-a a Lindoria, disse-lhe n’uma voz compungida e de
-um comico ardente:
-
-—Pega lá mulher... _Aquelles defuntos_ do que precisam é d’esta agua
-benta. Benze-os com esta agua benta, ó Lindoria!...
-
-E dirigindo-se para a porta, disse do limiar com um desdem rancoroso:
-
-—Corja de bebedas! Boa tranca, por essas costas!
-
-E saíu socegado para o caminho. Lindoria veio até á soleira, com o
-fim de o amansar, de o adquirir para o convivio das suas amigas. Por
-isso chamou-o com uma voz convidativa, attraente e cheia de confiança,
-piscando-lhe um olho:
-
-—Ó Agrella!... Agrella!... Anda cá pedaço de tratante... Andá cá
-maroto... comer alguma cousa...
-
-E, como o velho alfaiate se voltou para lhe responder, ella, julgando-o
-dominado, repetiu, mostrando-lhe a infuza:
-
-—Olha que é do da tenda. Boa pinga, verás...
-
-Porém elle, ao riso conciliador e ás boas palavras de Lindoria, respondeu
-simplesmente com _um gesto_ dizendo:
-
-—Olha...
-
-E distanciou-se com passo natural.
-
-
-
-
-O ENTERRO DE UM CÃO
-
-A MACEDO PAPANÇA
-
-
-
-
-O ENTERRO DE UM CÃO
-
-
-I
-
-O velho Coruja, o coveiro, _o bom amigo dos mortos_, tinha pelo seu
-pequeno cão, uma affeição pura e desinteressada.
-
-O _Coisa_ acompanhava-o em toda a parte, com uma fidelidade insistente:
-nos enterros apparecia cansado, reflexivo e de cabeça baixa; no
-palheiro, onde ambos dormiam, deitava-se junto d’elle, corpo a corpo,
-como um companheiro familiar; nas diversas cosinhas das casas ricas da
-visinhança, onde o coveiro apparecia ao meio dia, sempre se mostrou
-submisso, quieto, esperando pacientemente que lhe dessem a sua brôa e as
-rapaduras do pote do caldo de farinha.
-
-O Coruja olhava para elle com ternura, dava-lhe do seu comer,
-interrogava-o com naturalidade, affagava-o dizendo-lhe palavras boas,
-repassadas de carinho e de benevolencia...; porque partia da hypothese
-sensata, de ser comprehendido. O Coisa, pequeno, magro, de pello faminto,
-com as barbas de guloso sempre sujas, escutava-o attenciosamente, sem
-pestanejar e deitando-lhe a cabeça nos quartos, ficava como adormecido
-muito tempo.
-
-O Coveiro comprehendia estas finas delicadezas do seu companheiro...
-Por isso fallava-lhe com polidez, com cuidado, escolhendo as palavras,
-estudando um timbre de voz meigo e delicado. Que dois corações unisonos e
-isochronos! As unicas desavenças que se tinham dado entre elles, eram por
-causa das creanças pobres... O cão perseguia-as insistentemente, se as
-encontrava agglomeradas, a pedir esmola, junto dos portaes ricos! N’este
-ponto era formalmente desobediente á palavra austera de seu amo!... O
-Coruja que, quando tinha vontade d’isso, sabia ser iracundo, figurava
-então uma voz aspera, severa e reprehensiva, ameaçando-o arrogantemente:
-
-—Pedaço de bregeiro! Tenho-te dito muitas vezes que me deixes os rapazes.
-Fizeram-te algum mal? Diz lá: fizeram? Não entendes isto, maroto?!...
-
-E se depois o cão se lhe ía enroscar aos pés, humilde e submisso,
-concluia com energia:
-
-—... Pois devias entender. Elles são como nós ambos e como os outros
-desgraçados—andam na sua vida... Se são pobres, quem lhes ha de dar o
-pão, se não forem os ricos?! Vel-os acolá?—indicava incautamente os
-rapasitos. Andam ás esmolas, como tu e como eu!...
-
-O Coisa olhava fixamente para o seu amigo, escutando-o sem pestanejar, e
-como vira que as ultimas palavras haviam sido acompanhadas de um gesto em
-que eram apontados os pequenos pedintes, que, amedrontados, tinham fugido
-para longe, interpetrando-as mal, arremettia de novo contra as creanças,
-perseguindo-as com mais raiva pelos caminhos.
-
-O Coveiro mostrava-se estupido e confundido... Não comprehendia!...
-ficava scismando, para ver se encontrava o motivo que o animal teria,
-para odiar com tão afincado accinte, as creanças pobres, que via
-encostadas aos portaes ricos!... Não o podia perceber, elle que ignorava
-inteiramente a biographia do Coisa...
-
- * * * * *
-
-Encontrára-o n’uma tarde de chuva, perto de um ribeiro, onde, no dia
-seguinte, appareceu afogado um velho pedinte, de longa barba esqualida.
-O pobre animal tiritava de frio, recolhido humildemente dentro do tronco
-carcomido de uma cerdeira desfolhada. O Coruja, vendo-o assim, teve um ar
-compacido e lastimou-o com um sorriso triste. Lembrou-se que levava n’um
-bolso restos de pão do jantar, e, com um ar de bondade, atirou-lhe um
-pedaço, dizendo:
-
-—Talvez tenhas fome... Pega lá, come.
-
-O cão, saindo do esconderijo, abocou com rapidez e mastigou sofregamente,
-auxiliando a deglutição com movimentos rapidos e impulsivos de cabeça. O
-coveiro observando este facto, disse sorrindo:
-
-—Home... tinhas larica. Toma lá mais um naco!...
-
-E, tirando mais brôa do bolso das calças, deu-lh’a. O animal, enguliu
-com rapidez o pão e aproximou-se do coveiro com obediencia—arqueava a
-espinha dorsal arrastando a barriga na terra, tinha movimentos lateraes e
-cadenciados de cauda, levantava a cabeça para lhe cheirar a mão benefica
-e ouviram-se-lhe latidos de agradecimento. O Coruja, olhou reflexivo para
-elle e, cofiando-lhe a cabeça, observou com sorriso:
-
-—Diabo! sempre és muito feio, ladrão!
-
-Depois atirou para o hombro a enxada de abrir as covas e foi pelo caminho
-adiante... Ia para um atterro.
-
-O cão ficou quieto, humilde, a olhar para o seu bemfeitor. O coveiro,
-olhando para traz, viu-o n’esta posição quasi supplicante e gritou-lhe de
-longe:
-
-—Tó Coisa.
-
-O animal veio para elle depressa, contente, feliz, dando pulos de
-alegria, movendo festivamente a cauda, lambendo os pés do Coruja, que o
-affagava. E para mostrar logo, áquelle seu amigo fortuito, um bom fundo
-de cão agradecido, arrastava o ventre pela terra, gania amoravelmente,
-roçava-se-lhe pelas pernas, e por fim, conservou-se alguns momentos n’um
-aspecto captivante, deitado no chão, olhando para o coveiro, com a cabeça
-firme, a mostrar os dentes e a piscar os olhos...
-
-Foi assim que se tomaram por companheiros inseparaveis!... O coveiro não
-indagou quem era o Coisa, mas eu que o sei, posso dizer que era o cão do
-pedinte, que no dia seguinte appareceu morto na levada do ribeiro! Tinha
-sido amestrado para ladrar ás creanças, para escorraçar os pequenos,
-magros e sujos, que podesse encontrar pedindo esmola junto dos portaes
-ricos. Os perseguidos fugiam assustados e chorosos, gritando muito,
-apertando na mão os saquinhos vasios... e ficavam de longe, a ver quando
-o pobre da barba esqualida saíria de ali com o maldito cão, para elles
-voltarem a implorar a esmola, com as suas vozes finas e plangentes.
-
-Porém, o velho pedinte era experimentado e sceptico. Se alguem,
-casualmente, observava a perseguição injusta que o animal fazia aos
-rapazitos, elle, que fingia de aleijado, chamava-o com modos de homem
-irritado, ralhava-lhe muito, chegava mesmo a bater-lhe. Com este
-procedimento conseguia, muitas vezes, captar a benevolencia de quem o
-observava e obtinha alguma esmola que agradecia, dizendo:
-
-—... Pelas bemditas almas... Por mais que me mate, não posso ensinar este
-ladrão. Um dia como-lhe os figados. Apesar do amor que lhe tenho, sou
-home p’ra isso!
-
-E, com o fim de se mostrar digno de admiração, erguia para o companheiro
-o pau da justiça, tremente de cóleras! O bemfeitor, compadecido,
-entrevinha caridosamente a favor do animal, aconselhando:
-
-—Deixa lá. São brutos, não sabem o que fazem. Se elles não têem alma!...
-
-—É tamem do que me tenho lembrado, meu rico pae da caridade! Se elle
-tivesse uma alma, eu era capaz de lh’a metter n’um inferno, só pelo que
-elle é de mau para as creancinhas... coitadas!
-
-Mas o animal não era responsavel. Tendo sido educado, por seu amo, no
-proposito de perseguir os concorrentes ás esmolas, obedecia-lhe. Mesmo
-quando o velho pedinte lhe ralhava, apontando as creanças que fugiam
-espavoridas e elle continuava a preseguil-as, é porque sabia ser este
-um signal para as escorraçar com mais impeto! Tinham-lhe ensinado que,
-todas as admoestações lhe impunham dever de ladrar com maior energia e
-vivacidade, por isso assim procedia!...
-
-O pobre da barba, depois de obtida a esmola, premio da reprehensão
-infligida ao maleficente, dizia vagamente, de modo a ser ouvido pelo
-bemfeitor que se distanciava:
-
-—Diabo do cão é tolo! Não sei que mal lhe fizeram os rapazinhos!...
-
-E voltando-se para elle, outra vez, com o pau no ar, concluia:
-
-—És mesmo ruim, como as cobras!
-
-Mas, logo que ficavam sós, cofiava amoravelmente a barriga do rafeiro,
-chamando-lhe seu rico cachorrinho, ganindo como elle para o reconciliar
-comsigo, e dando-lhe fartamente brôa da sacola, com o fim de o excitar ao
-crime. Incomprehensivel preversidade!...
-
- * * * * *
-
-Eis aqui estão os motivos, em virtude dos quaes, o coveiro, nunca poderia
-fazer comprehender ao Coisa, que a sua benevolencia era sincera e não
-mentirosa, como a do velho pedinte, que primeiro o educára. O modo
-compassivo como o Coruja entendia deverem ser olhadas as creanças pobres,
-que aos sabbados encontrava junto dos portaes ricos, o cão não o podia
-comprehender facilmente e até o interpretava ao inverso, princialmente
-quando lhe apontavam os rapazitos que se conservavam agrupados e cheios
-de susto a olharem de longe.
-
-Mas, apesar d’esta divergencia, viveram muitos annos em concordante
-familiaridade, dormindo promiscuamente nos mesmos palheiros e comendo da
-mesma ração. Como o Coruja era um bebedo declarado, entendeu que devia
-habituar o Coisa a gostar de vinho, exactamente como elle, e dava-lh’o.
-O cão principiou pelo provar, com evidente repugnancia. Nos dias de
-fome, que o seu antigo amo lhe fizera passar, quando as esmolas não
-corriam para o sacco, tomára habitos de sobriedade. Vinho! Tal guloseima
-nunca provára! O pedinte de barba esqualida era extremamente egoista...
-emborrachava-se só. Mas, passado algum tempo, depois de ter sido preciso
-abrirem-lhe a bôca á força para lhe emburcar o liquido nas guelas, o
-Coisa gostou, e por fim já escorripichava a tijella, por onde o coveiro
-bebia a meia canada habitual... Tão fino bebado se mostrou depois, que
-andava sempre lambendo, com cuidado e esmero, até as deixar enxutas, não
-só a tigella do amo, mas todas as cuncas da sopa de bestas que encontrava
-ás portas das estalagens e tendas minhotas. Então dizia-lhe o seu amigo,
-rindo abertamente, com effusão, piscando os olhos, já muito _torto_:
-
-—Anda grandissimo borrachão, que me pareces um padre!
-
-Esta phrase usual, sincera e inoffensiva, que tantas vezes dissera
-impune, preferiu-a incautamente, uma vez, diante de um ecclesiastico
-que, julgando-se offendido, o reprehendeu severamente, levantando a
-bengala com uma intenção aggressiva! O coveiro que, pelo habito de viver
-entre batinas, não as respeitava, e, considerando mesmo que os padres
-eram homens como os outros e igualmente peccadores, lembrando-se até de
-que elle já tinha enterrado um bom par d’elles, respondeu com desdem e
-indignado:
-
-—Olhe, talvez o seu coração não seja tão bô como o d’elle!...
-
-O padre ficou auctoritario e colerico, e o coveiro retirou-se cheio de
-justiça, por ter pugnado pelo seu camarada.
-
- * * * * *
-
-Ás vezes, nos dias de muita chuva, o Coruja não podia saír do palheiro
-onde dormia, por causa das malditas dôres que lhe vinham á perna
-doente. O Coisa, n’essas occasiões, parecendo-lhe que devia prover as
-necessidades communs, saía a procurar comida. N’esses dias não respeitava
-nenhuma casa, fosse ella de quem fosse! Previdente e sagaz, obedecendo
-á sua primeira educação na vida mendicante, ía por ahi fóra... Porta
-que encontrasse aberta e d’onde saísse bom cheiro, entrava com ousadia
-e abocava desceremoniosamente qualquer posta de bacalhau ou qualquer
-salpicão que encontrasse. Mas, em vez de comer o producto da ladroagem,
-como faria qualquer cão vulgar e sem sentimentos, vinha depositar a
-comida intacta nas mãos do seu companheiro, para elle a repartir. O
-coveiro, no proposito de se dar seriedade, reprehendia-o com brandura,
-sorrindo com os seus olhos vesgos:
-
-—Ah! grande ladrão! Home, isso não se faz!... Ir roubar o que não é da
-gente!... Muito mal feito, seu patife!... Come tu, anda, que eu não tenho
-grande fome.
-
-No entanto, para não ser descortez e mal agradecido, acceitava o alimento
-que repartia com rectidão e igualdade, dando muitas vezes ao Coisa,
-qualquer bocado, que julgava mais appetitoso.
-
-
-II
-
-Um dia, porém, o Coisa appareceu morto na beira de um caminho, no velho
-sulco cavado pelas rodas dos carros, que ali tinham passado durante
-muitos annos! Era em janeiro, o coração do inverno, no alto Minho. Fazia
-um frio de lobo, mas a noite era de uma limpidez phantastica. Um luar
-claro dava aos objectos um destaque energico. O ruido das montanhas
-espalhava-se sussurrante nas profundezas dos valles cobertos de uma
-herva miseravel, mirrada pelo frio intenso e prolongado, pelas geadas
-successivas que os soes, quasi primaveraes, não conseguiam descoalhar.
-Os montes altos, cobertos de neve, levantavam as suas enormes carcundas
-de gigantes, ha seculos ali adormecidos!... O dia amanhecera com um sol
-rutilante, que produzia vivos reflexos nos brincos de gelo, pendentes dos
-braços nús das arvores, dos beiraes dos telhados, e das vertentes das
-fontes. Os pequenos passaros, saltando nos galhos das oliveiras, pareciam
-mais volumosos, porque tinham as pennas irriçadas. Os tordos, com os pios
-ingenuos e os melros com os assobios agudos e petulantes, denunciavam-se
-aos caçadores, que os perseguiam, aproximando-se encobertos com os
-troncos das arvores, com os muros e com os penedos, para fazerem
-certeiramente a pontaria.
-
-A paisagem animára-se com o levantar do sol. Principiava a vida dos
-campos—os bois íam soltos para as reles pastagens, ou, cangados,
-puchavam aos toscos carros de duas rodas; as eguas lanzudas e famelicas,
-avistando-se de encosta para encosta, relinchavam; os rapazes, as
-mulheres e os homens trabalhavam nas hortas, na apanha de lenha para o
-lume e nas podas, cantando sempre, para não sentirem o frio. Passavam nos
-caminhos alguns pedintes de capas remendadas e de sacolas a tiracolo,
-cheias de brôa. Tinham o bom ar, alegre e folgasão, dos felizes
-despreoccupados, para quem, o dia de amanhã, será bom como o dia de
-hoje. Iam conversando animadamente em accidentes da sua vida vagabunda e
-caminhavam n’um passo largo, assobiando, cantarolando, batendo nos cães
-vadios com os páus a que se costumavam encostar quando pediam esmola.
-Foram elles os primeiros que encontraram o Coisa morto na estrada,
-tristemente abandonado n’um sulco de carro, como um cão desprezivel que
-não tivesse inspirado um affecto na vida! Junto d’este morto anonymo,
-os pedintes alegres, fizeram uma paragem, dizendo um d’elles, com ar
-trocista e de chacota:
-
-—Olhem este asno onde se foi deitar!...
-
-Acrescentando outro:
-
-—É que tinha calor e não quiz dormir na palha!
-
-Um terceiro, ainda observou, com um compadecimento fingido:
-
-—Coitado!... Já não come mais brôa!
-
-E por ultimo, um mocetão robusto, desertor do tres de Vianna, para
-dispertar a hilaridade na companhia, levantou pelo rabo o magro corpo do
-Coisa, e pronunciou, conservando-o suspenso:
-
-—Eh! diabo! Está teso como minha avó torta!...
-
-Riram-se unisonamente com as bôcas escancaradas, d’este dito excentrico,
-continuando depois o caminhar divertido.
-
- * * * * *
-
-Porém, o cão não estava ali esquecido, como se poderia suppor:—o
-Coruja tinha-o procurado durante a noite. Andou n’isso muitas horas,
-apprehensivo e triste, repassado de maus prenuncios. Chamou-o alto nas
-encruzilhadas, assobiou por elle de cima dos muros dos caminhos, teve
-momentos silenciosos de uma tristeza indefinida!... E, como via o Coisa
-não lhe apparecer, disse com a testa avincada e com uma expressão de quem
-suspeitava um crime:
-
-—Que diabo! por ahi algum maroto...
-
-Suspendeu bruscamente a phrase, concluindo-a depois, mostrando um punho
-cerrado:
-
-—Pois se sei quem foi que o matou, abro-lhe a cabeça com o olho da
-enxada! Ainda que trezentos diabos me levem, p’ras profundas dos
-infernos!
-
-Dirigiu-se para o seu palheiro, tiritando de frio, dando suspiros e com
-lagrimas nos olhos. N’essa triste noite estava só. Não sentia o seu
-companheiro de tantos annos, introduzir-se com o fochinho entre a palha,
-para adormecer mais quente. Apesar dos latidos vagabundos dos outros
-cães da visinhança, o Coisa não se levantava esperto para ir responder
-ao postigo! Em vez d’este, agora era o Coruja, que, ouvindo ladrar,
-levantava a sua cabeça para ver se aquella era a voz do seu amigo...
-Debalde esperou. A noite prolongava-se por seculos, e o coveiro, dando
-voltas entre o colmo, sentia um calor abafante, suspirava com afflicções
-e não podia dormir!
-
-Logo muito cedo, ainda a manhã apontava, saíu do palheiro para continuar
-as suas averiguações. Junto da igreja encontrou umas creanças da
-freguezia visinha, que vinham para a escola, e uma das quaes lhe disse
-expontaneamente:
-
-—Ó tio Cruja, já viu o seu Coisa?
-
-O coveiro respondeu suffocado:
-
-—Não! Onde está?!
-
-—Olhe, tio Cruja, a gente viu-o morto ali no caminho.
-
-—Morto!—pronunciou o velho com aspecto rijo, inteiro e com voz commovida.
-
-—Sim, senhor, lá em baixo, ao pé da cancella—certificaram os rapasitos,
-fallando todos juntos, com a intimativa ingenua das suas vozes finas,
-apontando para longe, no fundo do valle!...
-
- * * * * *
-
-O coveiro foi ver. No andar tinha os movimentos rapidos e incongruentes
-de um côxo desvairado!... No rosto transparecia-lhe a expressão amarga
-e deprimente de uma intensa dôr, sentida com verdade! Os olhares eram
-impetuosos, lampejantes e vingativos; porque continuava a predominar no
-seu cerebro a idéa de que algum malvado lhe tinha morto o Coisa!...
-
-Chegou ao pé da cancella. O pequeno goso estava deitado, immovel,
-composto como se estivesse a dormir. Depois que o pedinte faceto o
-suspendera pelo rabo, tornára a caír casualmente no sulco de carro, onde
-o seu pequeno corpo se ageitára, no ultimo momento da vida. Com o pello
-faminto, irriçado pela geada que caíra durante a noite, reconhecia-se ser
-aquelle mesmo o rafeiro que, nas manhãs de frio costumava correr, doido
-e despreoccupado, adiante do Coruja, quando elle ía para os enterros. A
-rigidez cadaverica, apoderando-se do seu corpo magro, com a fatalidade de
-um acontecimento necessario, dava-lhe uma expressão de insensibilidade
-absoluta, expressão de indifferença pelas preoccupações da vida
-terrestre!...
-
-O coveiro ajoelhou na attitude piedosa de um crente. Tocou, quasi
-instinctivamente, com a mão, aquelle corpo inerte, para ter a indubitavel
-certeza da morte do seu unico amigo! Fel-o com a profunda veneração de
-uma alma rude; mas, n’este contacto do corpo de um cão morto, sentiu
-um longo calefrio de terror!...—elle que tantas vezes experimentára
-despreoccupado, o frio marmoreo dos cadaveres, que os costumava lavar e
-vestir, para depois os metter na cova e cobrir de terra!
-
-O Coruja levantando-se hirto, subjugado, com as feições transtornadas e
-com as lagrimas nos olhos, e disse resignadamente:
-
-—Isto... havia de ser o diabo do frio...
-
-Um pouco depois, como se respondesse a uma pergunta, que fizera a si
-mesmo mentalmente, acrescentou:
-
-—...Fome!? tamem seria fome... Honte não comemos nada!...
-
-Passados momentos ainda considerou:
-
-—Este raio da neve!... Pois elle, com um frio de mil demonios!... A gente
-sempre anda agasalhada; mas os animaes—coitados!—nem uma vestia, nem uns
-sócos!...
-
-A final, tendo estado muito tempo sentado n’uma pedra a contemplar o
-corpo inanimado do Coisa, levantou-se com um impulso generoso e disse:
-
-—Pois tu não és menos que os outros. Tamem has de ter o teu enterro com
-officio.
-
-Dominado por esta idéa generosa, foi d’ali á igreja, buscar a sua enxada
-de coveiro, que costumava ter guardada por detraz do altar-mór! Era para
-abrir a cova ao Coisa. Na sachristia, revestia-se, para dizer missa, o
-padre José Pitança. Ao sentir pela igreja acima as pancadas sonóras e
-de uma intensidade desigual, de uns sócos, sobre o pavimento da igreja,
-observou ligeiramente para o sachristão:
-
-—É o Cruja. Já vem por ahi com alguma carraspana. Eh!... Eh!... Eh!...
-
-Quando o coveiro saía, atravessando a sachristia de enxada ao hombro,
-o ecclesiastico, com as mãos sobre o rins, atando as fitas do amicto,
-suspendeu o murmurar de resa e perguntou em voz alta:
-
-—Quem diabo morreu, ó Cruja?
-
-—O meu cão—respondeu com brevidade.
-
-—E para que levas tu a enxada?
-
-—Para lhe fazer um enterro.
-
-O sacerdote teve uma gargalhada bulhenta de caçador. O coveiro offendido,
-respondeu-lhe com orgulho:
-
-—Olhe que nem eu, nem você somos melhores que elle. Merece-o mais que
-muitos fidalgos.
-
-E saiu bruscamente, coxeando.
-
- * * * * *
-
-O Coruja, com o fim de realisar a idéa generosa de fazer um enterro
-excepcional ao seu cão, procurou primeiro um caixão que lhe podesse
-conter o corpo. Para isso encontrou uma tábua comprida, sobre a qual o
-estendeu, alinhando-o cuidadosamente, para ficar bem composto, n’uma
-posição sensata e natural. Subiu a uma oliveira, da qual cortou uns ramos
-para cobrir o cadaver, para o enfeitar, dizendo n’uma voz socegada e de
-respeito: «esta é a tua mortalha». Depois, no proposito de organisar um
-acompanhamento e dar a isto uma apparencia de cortejo funebre, conseguiu
-que, a troco de uma promessa de pequena recompensa, quatro rapazitos
-que andavam n’um monte á garavalha, _pegassem ao caixão_. O caixão era
-a tábua com o cadaver em cima coberto pelos ramos de oliveira, posta em
-seguida sobre dois fueiros, tirados, pelo Coruja, de um carro que estava
-no caminho!... A cada extremidade de fueiro pegou um dos convidados.
-Depois, quando tudo estava em boa ordem, o coveiro, com a sua voz rouca e
-falhada, no tom faceto de uma alegria mentirosa, disse:
-
-—Toca a andar rapasiada. Levemos este nosso irmão para o _descanço
-eterno_!
-
-As creanças obedeceram com sinceridade infantil, caladas e respeitosas.
-O sahimento foi por um estreito caminho, com direcção a um alto pincaro,
-onde o Coruja determinou abrir a sepultura do seu velho amigo. Atraz do
-feretro ía elle, com a enxada ao hombro, a cabeça descoberta, um aspecto
-de contentamento triste, entoando o _canto-chão_, n’uma voz roufenha,
-pausada e distraída, imitando o phrasear dos sacerdotes nos officios:
-
- Béu, béu, béu,
- Vae p’r’ó céu.
-
-Ao que os rapazes, que conduziam o corpo, respondiam, fingindo vozes
-profundas e graves, espaçando as syllabas:
-
- Engola, engola,
- Vae p’r’a cova.
-
-Depois, todos juntos, communicando uns aos outros certa alegria
-sorumbatica e nervosa, cantavam em côro, n’um tom mais cadenciado, largo
-e solemne:
-
- Quem ’stiver no inferno
- Saia cá p’ra fóra!
-
-As creanças achavam isto divertido, apesar de procurarem adquirir
-semblantes sérios e respeitosos, fingindo attitudes de homens,
-endireitando o tronco, e esforçando-se por acertar o passo. Porém, como
-não sabiam coordenar bem os movimentos, em certo instante, pucharam em
-differentes sentidos e quasi deixaram caír desastradamente o cadaver
-do Coisa!... O coveiro sentiu rasgar-se-lhe o coração e deu um grito
-instinctivo e dilacerante! Os rapazes pararam rapidamente, ficando
-quietos e silenciosos diante d’aquella manifestação inexperada de uma
-dôr humanamente sentida! Continuaram depois o seu caminho, n’um silencio
-meditado e mais triste!...
-
-Quando subiam a encosta do monte, o rosto do Coruja cobriu-se de certa
-melancolia, caminhando devagar, com o corpo inclinado para diante,
-absorvido na idéa da sua perda! Chegando ao cimo, parou junto de uma
-agglomeração de penedos. Esteve alguns segundos meditativo encostado á
-enxada... Mas depois, dando á cabeça um movimento impulsivo e retomando o
-seu tom comico anterior, disse com o chapéu levantado ao ar:
-
-—Alto ahi!... oh! rapaziada!
-
-Os pequenos pararam, pousando no chão o feretro.
-
-O coveiro principiou a abrir ali mesmo a sepultura. O som baço e profundo
-da enxada, batendo cadentemente na terra, dilatava-se, reproduzindo-se
-nos angulos da montanha.
-
-No exercicio da sua triste profissão, o Coruja tinha, n’este momento
-unico, um aspecto maguado... Todo curvo sobre a cova que ía abrindo,
-com uma expressão facial de rigida tristeza, impunha-se austero, digno,
-respeitavel!...
-
-As creanças, graves, silenciosas, olhando absorvidas para elle, obedeciam
-a um sentimento que não saberiam explicar!... Tomavam parte no sentimento
-do coveiro e, d’este modo, com a sensibilidade ingenua e infantil,
-acabavam a tonalidade dolorosa d’este quadro triste!
-
-Em frente das montanhas imponentes e do amplo horisonte, a respiração era
-facil, regular, socegada. Todos sentiam a tranquillidade, o socego, a
-paz silenciosa dos logares ermos! O Coruja, para acabar o seu trabalho,
-desceu ao fundo da sepultura e principiou a cavar com esmero dos lados.
-Desejava que o corpo ficasse cuidadosamente ageitado, como n’um berço!...
-Por fim, disse aos seus companheiros n’uma voz natural:
-
-—Chegae-me para cá esse caixão.
-
-E tirando cuidadosamente os ramos de cima do corpo, sopezou a tábua, para
-a collocar no fundo com o cuidado e com o amor com que collocaria o corpo
-de uma creança morta! Um dos assistentes confessou com naturalidade:
-
-—Parece... como os anjinhos.
-
-O Coruja devolveu a esta expressão singela e amoravel:
-
-—Tens rasão. Olha que tinha uma alma como elles.
-
-E passou a mão na cabeça d’esta creança, que lhe penetrára o pensamento,
-com a amisade com que o poderia fazer a um seu filho... Acrescentou
-depois, com voz comprimida pela dôr, mas esforçando-se por ser alegre:
-
-—Vamos lá a cantar os officios, para ajudar a entrar esta alma no céu da
-bemaventurança!...
-
-Recomeçaram de um modo mais calmo, penetrados de comica circumspecção, o
-funebre _canto-chão_.
-
-Dizia o Coruja de um lado:
-
- Béu, béu, béu,
- Vae p’r’ó céu.
-
-Respondiam as creanças do outro:
-
- Engola, engola,
- Vae p’r’a cova.
-
-Depois entoavam todos em côro:
-
- Quem ’stiver no inferno
- Saia cá p’ra fóra!
-
-Repetindo isto muitas vezes, andavam em volta da sepultura. As creanças
-seguiam o coveiro, como acolytos. O Coruja, com um ramo de oliveira na
-mão, significava espargir o morto, com agua benta hypothetica!
-
-Por fim cobriu-se de terra o defunto. Espetaram-se sobre a cova os
-ramos de oliveira, e todo o mundo se retirou. Os rapazes íam adiante
-do coveiro, contentes e felizes, atirando pedras que rolavam pelo
-monte abaixo. Um d’elles, vendo-lhe lagrimas nos olhos, perguntou a um
-companheiro:
-
-—Porque é que o tio Cruja chora?
-
-Ao que o interrogado respondeu intelligentemente:
-
-—Ora... era amigo do Coisa.
-
- * * * * *
-
-Nos tempos subsequentes ainda viram, algumas vezes, o Coruja subir aos
-penedos sobranceiros á sepultura! Demorava-se ali horas, olhando para o
-largo horisonte, cantarolando sempre, como era seu costume nos momentos
-tristes! N’um dia em que o barbeiro Zé Maximo, com o seu ar importante
-de banalidade, lhe perguntou indiscretamente, sorrindo-se com modos de
-troça, «Ó Cruja, tu, diz que fizestes um grande enterro ao teu Coisa!»,
-elle respondeu com azedume:
-
-—É verdade, meu grandissimo jumento! Merecia-o melhor que tu.
-
-
-
-
-O EMBARCADIÇO
-
-
-
-
-O EMBARCADIÇO
-
-
-Miguel Timão era um homem corpulento, de feições energicas e leaes. Em
-linhas pontilhadas, de um azul indelevel, tinha no braço direito um navio
-com o seu velame e no esquerdo um signo-samão. Partira da sua aldeia
-descalço, por uma crua manhã de geada, com toda a roupa n’uma pequena
-trouxa, enfiada n’um pau!... Seu pae, a este tempo, era um cego que vivia
-da caridade... Na aldeia não havia ganhos... Foi por isto que elle, na
-companhia de outros emigrantes, foi pelo mundo fóra, procurar fortuna...
-Ah! como a sua alma boa e generosa estremecia alegremente com a idéa
-consoladora de ganhar dinheiro para sua irmã Catharina, e para seu velho
-pae cego!...
-
-Andou por lá muitos annos sem dar noticias... Na terra chegaram a
-esquecel-o, suppunham-n’o morto... O padre Beiral, que lia as gazetas,
-vira, entre as victimas de um naufragio, o nome de um Miguel... Não podia
-ser outro. Catharina chorou um dia inteiro e deitou lenço preto... Porém,
-este convencimento foi precipitado; porque, o rapaz, não morrêra, apesar
-de ter passado muitos annos n’uma vida trabalhosa, cheia de incertezas e
-de perigos, no meio dos quaes nunca poude esquecer a sua pequena aldeia,
-risonha e distante.
-
-Durante largo espaço de tempo, correu uma boa parte do mundo e foi todas
-as cousas que um homem rude pôde ser:—acompanhou um inglez no Egypto e
-na India; foi soldado nas republicas hespanholas da America, entrando
-em muitas conspirações; foi carroceiro no Brazil; e, durante os ultimos
-vinte e cinco annos, andou embarcado, percorrendo grande numero de portos
-do mundo, ouvindo todas as linguas e conhecendo homens de todas as
-côres...
-
-Á sua organisação temeraria convinham as incertezas de amplo mar,
-mysterioso e amigo... Uma vida accidentada, com alegrias e desesperos,
-mas sempre com dinheiro no bolso, quando saltava em terra, eralhe
-sympathica! Tambem agora, depois de velho, n’estas noites chuvosas
-da sua aldeia, Miguel tinha sempre que contar aos seus conterraneos,
-que o escutavam absortos e pasmados. No entanto, de tanta aventura
-extraordinaria, aquella que mais os impressionava era a de o maritimo
-ter comida _carne de gente_! Apesar da circumstancia attenuante da fome
-a bordo e da morte irremediavel para todos, as velhas beatas da aldeia
-acreditavam firmemente que, o filho do cego, não poderia ter na outra
-vida um destino bemaventurado...
-
-O que mais os horrorisava era, de certo, a serenidade com que o irmão
-de Catharina descrevia este enorme momento de desespero, tirando longas
-fumaças do seu cachimbo requeimado!... Fôra no alto mar, na soberba
-amplidão infinita, com o céu misericordioso e azul sobre a cabeça... O
-navio, depois de uma tormentosa viagem e quasi sem mantimentos, teve
-uma calmaria no mar das Indias, boiando, monotonamente, como um cetaceo
-morto, durante semanas... Por baixo o mar immenso, sem ondulações
-providenciaes, liso como a superficie de uma poça, guardando, no seu
-amplo ventre poderosos animaes, que poderiam sustentar durante tempos a
-população da Terra... De noite, alguns d’esses peixes vinham á superficie
-da agua, attraídos pelo brilho das estrellas, pelo pharol de bordo e pela
-frescura relativa do ar. Gasta a ultima ração de arroz e de bolacha,
-todos os marinheiros tiveram a heroica firmeza de não comer em tres
-dias, esperando um soccorro fortuito! Em vão clamaram pela Infinita
-Misericordia! Em vão tiveram dedicação e coragem!... A Fome Implacavel,
-como um demonio sinistro, já os fazia estorcerem-se no convez com dôres
-cruciantes nas entranhas! Sentenciaram-se dois, á sorte, para alimentarem
-os restantes! Que valentes e bravos companheiros, esses rapazes de trinta
-annos! Nunca a coragem tomou uma fórma mais sublime e sympathica! Nunca
-a resignação na morte foi mais austera e imponente! Foram elles mesmos
-que, risonhos e conformados, abriram as proprias veias, para morrerem!
-Só quatro dias depois d’este acontecimento horripilante é que, os
-sobreviventes, avistaram um vapor que vinha da China e os rebocou para
-Madagascar!...
-
-Outro navio, dos muitos em que embarcára, naufragou no golpho do Mexico!
-Era de um contrabandista andaluz, que fazia o seu commercio no mar das
-Antilhas. O dono da embarcação ía a bordo, e vendo diante dos olhos as
-guelas medonhas do mar, promettia a quem lhe salvasse a embarcação,
-casal-o com sua unica filha, uma rica herdeira sevilhana!... Porém, o
-mar estava picado que nem um inferno, e tudo se perdeu _morrendo todos_
-n’aquella escuridão tormentosa!... E um rapaz de aldeia, que escutava a
-narrativa, tranzido de susto, observou com voz timida:
-
-—Mas o tio Miguel não morreu...
-
-—Morri, sim, senhor, seu palerma! Quem te disse que não morri!?...
-
-E ficou a olhar para todos que ouviam, com uma viveza estupefaciente!
-
-Por fim, depois de uma vida cheia de aventuras perigosas, teve uma
-prolongada doença, que o deteve por dois mezes n’um hospital americano.
-Foi em S. Francisco, na cidade maravilhosa e quasi phantastica, celebre
-pelas suas ricas minas de metaes preciosos, d’onde, provavelmente,
-foi colhido o ouro com que se fabricou essa gargantilha com que vossa
-excellencia adorna o seu formoso pescoço, minha bella senhora! Aos seus
-quatro districtos aurificos—o da California—a lendaria California!—o
-de Idaho, o da Nevada, e o de Varhoe—concorrem todas as extravagantes
-ambições do mundo moderno, principalmente os ricos judeus e os miseraveis
-chinezes que ali vão trabalhar! S. Francisco, que domina estas regiões
-do sonho, é uma das mais modernas, de entre todas as grandes cidades
-americanas, pois que principiou a povoar-se em 1848, quando appareceu
-aquelle bocado de ouro, no moinho do capitão Sulter. Tem hoje mais
-de duzentos mil habitantes e os seus famosos ladrões, e os incendios
-criminosos que ali houve ainda ha pouco espantaram o mundo inteiro! S.
-Francisco é uma população cosmopolita, que falla inglez e vive n’uma
-cidade com nome hespanhol, tão maravilhosa e incomprehensivel para um
-pacato europeu, que, quando foi da guerra da _Independencia_, o celebre
-doutor Belows, presidente do conselho de saude, convocando um _meeting_ a
-favor dos feridos, fez um discurso e vendeu os apertos de mão a dollar,
-sendo tantos os dollars que lhe caíram para dentro do chapéu que, o
-philantropo medico, teve o braço esquecido por oito dias! É uma cidade
-que não tem nem os pobres immundos e obscenos das ruas de Lisboa, nem os
-garotos vivos e espertos que se encontram em New-York e Londres!... O
-seu luxo é de tal ordem que, a vida ali, é dez vezes mais cara do que em
-Paris!
-
-Miguel Timão, minhoto e sagaz, conservava d’esta cidade nova, levantada
-pelo enorme poder do ouro, uma impressão energica! Depois de ter
-percorrido a maioria das cidades maritimas do mundo, em nenhuma vira
-tanta sumptuosidade e opulencia! Aqui, as vaidades materialistas da
-civilisação moderna, impõem-se com uma soberba que deslumbra! Talvez,
-pelo estonteamento que produzira n’este homem obscuro um mundo tão
-febricitante, elle teve um dia como a reclamação subita de um sentimento
-perdido, e na sua mente appareceu o quadro pacifico da sua pequenina
-aldeia, tão sympathica e inundada de luz.
-
-Foi n’esse tempo que, uma das febres endemicas n’aquellas regiões
-irregularmente humidas, o accommetteu de subito, com um longo calefrio,
-que o prostou n’um estado comatoso!... Recolheram-n’o ao hospital e, até
-terminar a convalescença, passaram-se aproximadamente dois mezes!...
-Durante este periodo de inactividade forçada, a sua memoria principiou
-a resuscitar-lhe o passado!... Era a primeira vez que estava doente!
-Alquebrado e enfraquecido que poderia fazer!? Com os elementos dispersos,
-que o seu pensamento lhe ía trazendo, pouco a pouco formava os quadros
-da sua vida infantil. As figuras dos homens que então conhecera, as
-raparigas com quem brincára, appareciam-lhe com um sorriso feliz e
-benefico, acompanhando-o n’estas distancias... Via-os como os deixára,
-porém, considerava que deviam estar mais velhos... que muitos teriam
-morrido... Não fôra elle tambem novo e forte, e não estava agora
-coberto de cabellos brancos e com rugas serpeando-lhe no rosto?! O
-tempo não corre debalde, e muitas das pessoas em quem pensava, estariam
-enterradas n’aquella pequena igreja caiada, que se lhe representava na
-imaginação!... Tudo isto lhe condensou no espirito o firme desejo de
-voltar á sua terra... Tinha algum dinheiro e, logo que se encontrou
-restabelecido, pensou em tomar o primeiro navio que viesse para as
-costas de Portugal ou de Hespanha. Assim o fez, embarcando com a saudade
-insoffrida de um rapaz de vinte annos!...
-
-Era um domingo de primavera o dia em que entrou na sua aldeia... O céu
-azul, a pureza do ar, a alegria dos campos em flor... lançavam-lhe
-na alma enthusiasta vibrações de uma harmonia complexa e guerreira.
-Do intimo da terra saíam musicas genesiacas no aspecto da paisagem
-enebriante. As flores roxas e brancas das macieiras e das cerdeiras
-abriam-se em leques multiplicados sobre os campos verdes d’onde sobresaia
-o branco virginal dos malmequeres, a côr serena das violas, o vermelho
-sanguineo das papoulas bravas... Os trigaes viçosos palpitavam com o seu
-crescimento gradual, entre as largas manchas escuras das recentes searas
-de milho.
-
-As raparigas cantavam nos campos, atraz dos seus bois de cornos
-retorcidos que pastavam, fiando as estrigas da tarefa. A temperatura
-de um tepido parasidiaco e sensual enlanguescia, produzindo sensações
-dominadoras, fazendo comprehender os movimentos fecundantes da
-seiva universal!... Era um estonteamento de vinho forte o que subia
-á cabeça rija do velho maritimo, que caminhava lento e absorvido,
-reconhecendo todos aquelles logares queridos da sua infancia! Os olhos
-humedeciam-se-lhe de lagrimas, e o contentamento e a felicidade que
-lhe percorria ao longo dos nervos, entorpeciam-n’o... Os homens e as
-raparigas que passavam, interrogavam este desconhecido com olhares
-insistentes...
-
-Quem será este homem, que caminha dando sacudidellas aos hombros e que
-tem o andar de um borracho!?...—pensavam.
-
-Então elle parava para lhes perguntar numa entonação estrangeirada:
-
-—Conheceis a Cathrina, filha do cego da rocha?
-
-Conheciam perfeitamente; mas não era nenhuma rapariga. Muito pelo
-contrario, a mulher que tinha esse nome mostrava-se já muito velha,
-corcovada e doente... A sua vida era esmolar pelas aldeias e dormia
-por caridade n’um palheiro do padre Beiral. Mas espantavam-se que
-o desconhecido principiasse a chorar com estes esclarecimentos e
-perguntavam-lhe compadecidos:
-
-—Quem é você, hominho? Para que quer saber da Cathrina, e chora?
-
-Mas o homem da barba branca, que andava como um desengonçado, não lhes
-respondia e continuava a caminhar para a _residencia_ que se via d’ali,
-na encosta, ao pé da igreja. Levava ao hombro, enfiado n’um pau, uma
-mala de couro e umas botas de canos... Este modo de andar aos solavancos
-impressionava os que o viam... Não podiam saber quem fosse e ficavam
-a olhar uns para os outros!... Mas quem o reconheceu, mesmo antes
-d’elle fallar, foi Catharina, que se lhe agarrou ao pescoço, chorando e
-repetindo muitas vezes:
-
-—Meu rico irmão, como estás velho!
-
-E Miguel, o valente marinheiro temerario, deixou caír ao chão a mala e as
-botas, dizendo por entre soluços:
-
-—E tu como estás acabada, mulher! Como te venho encontrar!
-
-Mas depois, como Miguel trazia algum dinheiro, que juntára cuidadosamente
-para esta eventualidade de voltar á sua aldeia, resolveu-se a comprar
-a mesma casa onde nascera, a qual seu pae tinha vendido por causa da
-longa cegueira em que viveu. O padre Beiral ajudou-o. A casa era velha e
-pequena; mas o campo adjunto era largo e magnifico terreno...
-
-O espirito do maritimo principiou a sentir um renascimento, a remoçar-se,
-a ter os alegres impetos da mocidade. Era aquella a mesma paisagem
-que sempre vira até aos vinte annos. Havia o mesmo musgo nas mesmas
-paredes; a mesma hera segurando as pedras dos muros esbarrigados; os
-mesmos penedos no alto do monte sobranceiro á igreja, manchavam o azul
-intenso das tardes primaveraes; as sebes de silvas, cobertas de folhas
-perpetuas e de amoras, embeiravam os campos e caminhos; e, finalmente,
-na frontaria da igreja ainda estava quebrado o mesmo vidro, como no dia
-em que elle partira! O que encontrava de differente no longo espaço
-de trinta annos? Muito pouco: o cypreste do adro tinha crescido e até
-envelhecêra; a carvalheira do pé da fonte, que tres homens com as mãos
-agarradas não podiam abraçar, estava carcomida, porque fôra queimada por
-um raio; as tres casas novas, caiadas, que se distinguiam de longe com as
-suas claridades vivas, e cujas vidraças scintillavam com o sol poente,
-tinham sido levantadas por uns brazileiros ricos, um dos quaes tambem
-presenteára a Nossa Senhora da igreja, com uma lampada de prata, que
-causára inveja ás outras _Nossas Senhoras_ da visinhança. Mas, de todos
-os factos que permaneciam, e que Miguel tanto estimava, aquelle que o
-chocou de um modo energico, aquelle que o penetrou em todo o seu ser com
-uma força omnipotente, foi o toque do sino grande da igreja, que ainda
-era falhado como d’antes!...
-
-Quando agora o ouviu pela primeira vez, depois de tantos annos, eram
-trindades e estava comendo uma posta de bacalhau á lareira do Beiral.
-Deixou caír o garfo de ferro, ficou a olhar com um modo estupido, e as
-lagrimas corriam-lhe pelo rosto enrugado! Oh! era aquelle o mesmo som,
-que o accordava nos domingos despreoccupados da sua vida passada!...
-
-Por todos estes motivos, o embarcadiço resolveu morrer na sua aldeia!...
-Estava velho, ainda que robusto; as fadigas e os trabalhos por esse mundo
-fóra tinham-no gasto muito. O mar... o mar para elle já não podia ser
-senão uma sepultura!... Uma grande sepultura decerto; mas, sepultura
-por sepultura, tinha ali uma na igreja que era mais perto, ainda que
-mais humilde. Ficava ao pé dos ossos de sua mãe que não conhecera, e de
-seu pae que não tornára a ver!... Resolvido isto de um modo terminante,
-principiou a interessar-se pela historia local, pela monotonia da
-conversa dos visinhos, a quem elle espantava com os successos da sua
-vida curiosa. Vieram-lhe tambem os desejos de grandes emprehendimentos
-agricolas—quiz cultivar o seu campo. Plantava hortaliças que mandava
-vender á villa, semeava batatas, colhia quasi um carro de milho, uma meia
-pipa de vinho e tinha muita fructa. Os seus melões e melancias davam-lhe
-orgulho—mandava-os vender ás romarias, onde já tinham nomeada e eram
-preferidos aos dos outros cultivadores! Tambem não admira, pois que lhes
-dedicava muito tempo e amor—regava a tempo, mondava-os com sagacidade,
-regulava-lhes o sol de um modo conveniente... O padre Beiral disse-lhe um
-dia, que não se fallava nas gazetas de que houvesse, em qualquer parte
-do mundo, outros melões como os d’elle. O Timão, orgulhoso e confundido,
-respondeu:
-
-—Isso, senhor, é da semente e da Senhora da _Bôa-Viage_ a quem os
-encommendo sempre!...
-
- * * * * *
-
-Mas havia na aldeia uma malta de rapazes, que tinham por brazão não
-deixar segura qualquer fructa boa, no quintal de quem a tivesse. Estes
-meliantes, n’esse anno em que o sacerdote gabou os melões, projectaram ir
-_proval-os_ de noite. O Timão já andava com a pedra no sapato e, para os
-prevenir, disse um domingo no adro, ao saír da missa, fallando bem alto
-para ser ouvido, «que se alguem lhe fosse ao meloal _o racharia de meio a
-meio_!»
-
-O Tone da Engracia incitou-se com esta ameaça e propoz um assalto á
-fazenda do embarcadiço... Poderiam ir n’uma noite escura, com cautelas
-premeditadas, para não serem presentidos... Desceriam do muro de vagar,
-por uma corda presa a certo carvalho, para não fazerem baque no chão...
-
-O meloal era muito perto da casa, n’um recanto soalheiro, onde podiam á
-vontade ser meticulosamente vigiados... O Miguel Timão tratava-os com
-tantos cuidados, que até para lhes tirar a sombra baixára uma videira
-antiga, dirigindo-a para uma latada, junto ao muro... De manhã cedo,
-ainda o sol vinha em casa de Deus, já elle, em mangas de camisa, andava
-contando as boas melancias rajadas, que deixára na vespera, e os optimos
-melões apimentados assentes sobre folhas, para não apodrecerem com a
-humidade da terra.
-
-Alegrava o espirito, consolava, vêl-o assim de barba branca, este velho
-robusto e musculoso, trabalhar com amor, assiduamente, no seu campo,
-incluindo n’esta preoccupação toda a sua alma e todo o seu tempo... Oh!
-os rapazes que pensavam em roubar-lhe os melões, decerto se arriscavam
-muito! O velho Timão levado por mal seria um demonio, em convulsões de
-desespero!...
-
-Mas o da Engracia, o Teixugo, o Cambado e o Telhas, não se preoccupavam
-com medos e sómente commentavam com antecipação, a grande risota que
-se produziria em toda a gente, quando soubessem que aquelle papa-gente
-tivera, ao seu tão gabado meloal, um inesperado assalto! A não ser o
-Telhas, os outros, não pensavam em qualquer risco. Sendo alta a noite
-e bem escura, o embarcadiço estaria a dormir profundamente! Se, ainda
-tivesse um cão, podia haver receio; mas, o imprevidente velho, dizia
-muitas vezes _que um bom cão era elle_!
-
-Quando chegou a noite do sabbado combinado, o Telhas, que era cagarola,
-ainda disse... assim com um modo engulhado:
-
-—Home, e se elle nos pilha?!
-
-Esta phrase denunciava quanta impressão, diante da mente espavorida
-d’este rapaz, produzira o quadro terrificante do Timão, n’um canibalismo
-infimo, mastigando os seus companheiros de infortunio, na desesperada
-fome que soffrera no mar das Indias! O Tone irritou-se com esta covardia
-despresivel, chamou fracalhão ao Telhas, que lhe respondeu com um modo
-prophetico e despresador:
-
-—Olhem o valente! Tamem quero ver, quando te vier um balasio pelos
-queixos, se não ficas de cara á banda!...
-
-Mas o da Engracia engulia balas—não tinha medo nenhum d’ellas! N’essa
-mesma noite, estavam resolvidos, foram. Mas, como não queriam ser
-engarampados com alguma arriosca, ao chegarem ao sitio, caminharam
-instinctivamente com certa prudencia... O embarcadiço era um velho rijo,
-que não tinha medo da morte, porque a vira muitas vezes diante de si. Não
-se importava de matar um ladrão, arriscando-se a ir por uma barra fóra;
-pois andar por lá sempre fôra sua vida. Com uma navalha de tres estalos
-e um bacamarte de bôca de sino, costumava fazer ameaças abstractamente,
-dizendo:
-
-—Aquelle que m’as fizer estiro-o. Ainda seis centos mil raios me partam!
-
-A beata Vicencia, quando lhe ouvia esta jura, recuava berrando:
-
-—Abrenuncio! Santo Nome de Maria, que nos póde vir um grande castigo por
-causa d’este excommungado!
-
-O Timão retorquia-lhe com olhar de piedade:
-
-—Calla-te minha papa-hostias. Bons castigos soffri eu por esse mundo.
-
-Porém, o plano de roubar o meloal estava estabelecido, os rapazes não
-trepidaram. O da Engracia é quem saltaria dentro, para encher o sacco.
-O Teixugo e o Cambado ficariam no caminho, de vigias; o Telhas em cima
-do muro. Á meia noite o Tone desceu do muro, cautelosamente ajudado pela
-corda presa ao carvalho, para não ser presentido... Quando assentou os
-pés na terra defendida pela navalha hespanhola e pelo bacamarte de bôca
-de sino, estremeceu involuntariamente!... Sentia, dentro em si mesmo,
-uma opposição, á qual resistiu com toda a força da sua energica vontade.
-Talvez desejasse retroceder; mas atraz de si, em cima do muro, estava o
-Telhas, a quem chamára fracalhão, e que logo que o viu um momento parado
-e apurando o ouvido, lhe disse com uma ironia perceptivel:
-
-—Home, não tenhas medo. O velhote dorme como um porco.
-
-O rapaz encorajou-se subitamente, levantou a cabeça com orgulho e
-começou a andar com certa resolução temeraria. Na profundidade da noite
-tranquilla, serena e sem luar, ouvia-se o cochichar subtil dos vigias,
-o som gemebundo e extenso de dois sapos, o ruido estival, permanente
-e continuado dos ralos!... Um grande morcego manchou a limpidez do
-ar com o seu vôo largo, produzindo um silvo. A pequena casa do Timão
-ainda se percebia ao fundo, por entre as arvores de fructa, como uma
-massa confusa. A escuridade e o silencio augmentam sempre o medo, e no
-cerebro do Tone da Engracia, as idéas principiavam a atropellar-se, a
-confundir-se, a tomar fórmas...—diante dos seus olhos, configuravam-se
-homens aggressivos. Por isso elle tornou a parar no meio do campo!
-Então sentiu-se n’um isolamento mais completo, como o do alto mar!...
-Por cima o céu limpido, as estrellas com movimentos crepitantes de
-luz, a amplidão cheia de uma sombra grandiosa...—um certo palpitar da
-natureza que o subjugava! A pequena distancia, em cima do muro, o Telhas,
-como uma reprehensão sempre viva. Qualquer manifestação de receio, de
-pavor, que sarcasticas censuras não encontraria?! No entretanto, n’este
-instante nervosamente inexplicavel, a figura do velho marujo endurecido
-nos trabalhos e nas difficuldades, appareceu-lhe na imaginação, com
-uma realidade que feria! N’este momento o Telhas tossiu ao longe!
-O Antonio estremeceu e teve um calefrio ao longo da espinha! Estas
-duas circumstancias, bem diversas, deram-lhe o impulso definitivo, e
-o Tone começou a caminhar ousado, direito, altivo e até insolente!
-Passando por entre as hervas e calcando as folhas seccas fazia um
-ruido imprevidente... Que lhe importava a elle que apparecesse o velho
-maritimo! Aquella tosse casual de um dos seus companheiros teve nos seus
-ouvidos uma ressonancia ironica, aguilhoara-lhe a vaidade, restituira-lhe
-a sua coragem e temeridade habituaes.
-
-Entrou no meloal. Principiou a agachar-se muitas vezes, para escolher o
-que havia de melhor. Estava apparentemente sereno, não temia ninguem.
-Levantava os melões para os suppezar, para os levar ao nariz pelo lado
-do pé com o fim de lhes apreciar o adiantamento da maturação. Affastava
-as folhas largas, carnosas, recortadas das melancias...—queria escolher
-as mais sazonadas. O que lhe ía servindo cortava rente pelo pé, e logo
-ía depositar, a dois passos, no carreiro junto do sacco. N’um d’estes
-instantes, o silencio da amplidão foi cortado por um chiar de gonzos
-prudentissimo... O Tone levantou a cabeça á escuta... Não percebeu mais
-nada: talvez fosse a passagem de algum noitibó por entre a ramagem das
-arvores. A escuridade não o deixou ver a cabeça do Timão, que appareceu
-ao postigo, escutando... O da Engracia continuou. Mas, quando tinha
-cortado mais um melão e que o ía levar... sentiu certa difficuldade em
-mover um pé!
-
-Empregou impensadamente um esforço mais energico para vencer esta
-opposição; porém, sem logo perceber porquê, caiu redondamente no chão,
-de bruços, produzindo na quéda o baque de um corpo sem vida!—tinha os
-pés presos n’um laço intelligente, armado pelo marinheiro, para agarrar
-um ladrão presumptivo. O temerario rapaz deu um grito e esforçou-se logo
-por se levantar, colleando como uma cobra ferida na cabeça!... Porém,
-soccorrel-o, era impossivel. Os companheiros, atterrados pelo som do
-bacamarte de bôca de sino que o embarcadiço disparou para o ar, fugiram,
-tendo ainda tempo de ouvir esta phrase temerosa:
-
-—Seus grandissimos ladrões, que os mato!
-
-Taes palavras e aquelle tiro disparado com um fim theatral, produziu o
-effeito previsto. Os companheiros do Tone, julgando-o talvez morto,
-abandonaram-no. O Miguel Timão, que saíra da casa com grande rompante
-para espantar os que estivessem, chegou-se ao que jazia no chão, e
-disse-lhe com ar de troça:
-
-—Então sempre caíste melrinho?! Deixa que eu t’o digo já. Ha-de-te ficar
-de escramenta.
-
-O da Engracia, completamente submettido, pediu:
-
-—Ó tio Miguel, não me faça mal, que eu não torno...
-
-O marinheiro não lhe fez mal. Tambem lh’o estava pedindo sua irmã, que
-era muito obrigada ás esmolinhas, que a tia Engracia lhe fizera em
-tempos precisados. Porém, apesar dos esforços de raiva e das supplicas,
-o velho maritimo não prescindiu de enlear bem enleado o seu preso e
-de o ir collocar no caminho, com o fim de ser solto pelos primeiros
-misericordiosos que passassem para os campos! E ao deixal-o fóra do muro,
-disse-lhe:
-
-—_Prá_ outra vez, se cá voltas, ha de ser peor. Entendes?
-
-Depois retirou-se, não cedendo mesmo á intervenção a favor do adoptivo da
-Engracia, feita por sua irmã Catharina, que lhe pediu para o desamarrar,
-e a quem respondeu:
-
-—Sabes que mais?! _Bae bugiar._ É uma ensinadella.
-
-
-
-
-O REI ABSOLUTO
-
-
-
-
-O REI ABSOLUTO
-
-
-Emilio era uma creança robusta, que tinha as pernas grossas, os braços
-grossos, o pescoço firme, o olho penetrante, travesso, audacioso. As suas
-pestanas finas, grandes, ramudas, sombreavam-lhe as pupillas negras; as
-sobrancelhas espessas, fortes, unidas, aproximavam-se irriçadas, nos
-momentos de colera infantil, como o dorso de uma hyena.
-
-Quando já tinha quatro annos e que sentia o poder intimo dos seus
-musculos; quando principiava a distinguir-se dos outros, a considerar-se
-pessoa, e que reconhecia, como uma energica qualidade que se impõe, a sua
-vontade potente e a sua força capaz de executar, o pequeno Emilio quebrou
-uma jarra de flores, atirando-lhe acintosamente com uma pera, que não
-queria comer, por desejar outra. A mãe, que era severissima, castigou-o.
-Elle que era um rapaz de brio, principiou uma berraria de mil diabos,
-gritando com perrice, com frenesi, deitado de barriga, batendo no chão
-com os pés, com os punhos, com a cara, e mordendo no bibe para o rasgar!
-Convencionaram calculadamente, a mãe e as creadas, não fazer caso d’elle,
-deixal-o chorar quanto quizesse, deixal-o espernear, gritar, morder-se,
-contundir-se. Queriam fatigal-o, vencel-o pelo proprio esforço que fazia,
-para assim lhe darem uma lição moral, para o ensinarem a conhecer que
-as maldades castigam por si mesmas, aquelles que as praticam. Mas, qual
-lição, ou qual diabo!—esta conspiração passiva enraiveceu-o ainda mais,
-e mordia ainda mais nas mãos, batia de cada vez mais na cara, de cada
-vez dava na cabeça com o punho mais cerrado e com mais força! Quando a
-mãe, com a sua paciencia reflectida, lhe disse, do vão da janella onde
-costurava, com voz moderada e firme: «deixa que tu has-de-te calar»,
-elle, berrando com mais força, respondeu-lhe: «não hei, não hei, não e
-não», continuando intencionalmente o seu choro.
-
-Dava uns gritos agudos, estridentes, discordantes, como as vibrações de
-uma rebeca desafinada; mas depois, com o tempo, como a mãe previra, veio
-o cançasso, o desleixo, o esquecimento de que estava chorando, e decaíu
-gradualmente n’uma voz mais branda, mais enfraquecida, monotona como o
-som da ultima badalada de um sino, que se esgota de quebrada em quebrada.
-Houve até um momento em que chegou a calar-se; porque no chão, adiante
-da sua cara, uma _farmiga-operaria_ andava lidando na remoção de uma
-pedra que encontrára no caminho. O pequeno animal, estonteado, perdido
-das suas companheiras, que formavam um longo fio negro, junto da parede,
-adiantava-se para elle, afastava-se para traz, para a esquerda, para a
-direita, procurando com uma intelligencia tenaz, um auxilio, alguem que o
-ajudasse. Por fim vieram mais duas, e então principiou uma lucta obscura,
-mas profiada e imponente, em que tres formigas removiam, com um nobre
-esforço cheio de paciencia, uma pedra mais pesada do que todas ellas
-juntas.
-
-Emilio principiou a interessar-se nos movimentos apparentemente
-caprichosos dos pequenos insectos. Os seus olhos vivos e animados seguiam
-com cuidado, com esmero, aquelle trabalho das formigas-obreiras, que
-tombavam a pedra, levando-a na direcção desejada. Calado, de bruços,
-com o pequeno queixo sobre o punho, observava attenciosamente todos os
-movimentos, tendo as linhas faciaes n’uma contencção rigida, nervosa,
-reveladora de um esforço intimo. A mãe, apreciando incompletamente este
-silencio de seu filho, disse-lhe com ligeiro ar de triumpho:
-
-—Mas sempre te calaste...
-
-Ao que elle respondeu promptamente:
-
-—Mas vou gritar mais.
-
-E retomou o seu choro com nova energia, com mais vigor. Porém, como viu
-que a mãe se rira escarnecendo-o, reconheceu-se vencido, mediocre, e
-cheio de vergonha pela sua imprevidencia, pela falta de tenacidade, fugiu
-d’ali chorando alto com asperos gritos de raiva.
-
-Foi pelo corredor adiante para a varanda, que dava sobre os campos. Era
-uma larga paisagem com o horisonte recortado pelas alturas das arvores
-desiguaes. Os altos castanheiros com as suas folhas lenhosas, rijas
-e de um verde claro, distinguiam-se dos pequenos carvalhos fortes,
-atarracados, folhudos e das cerdeiras vistosas, de ramagem espalhada, e
-de um verde mais suave.
-
-O pequeno Emilio observou, com a serenidade dos seus grandes olhos
-negros, todo este conjuncto. A sua physionomia era meia contemplativa,
-meia raciocinadora. Media, com despeito, a enorme superioridade
-d’aquellas arvores, pela ostentosa corpulencia com que se destacavam ao
-longe. Mas depois, por um movimento natural, com uma reacção instinctiva,
-fez este juizo simples e claro, dando ás suas palavras um tom imperativo,
-com os beiços alongados:
-
-—Tambem eu sou capaz de subir a cima d’ellas, como o Manuel!
-
-E com o seu pequeno rosto de uma auctoridade expressiva, ficou a olhar
-para os campos, fixando soberbamente as arvores, ás quaes se reconheceu
-superior.
-
-Sentia-se forte como o Manuel, o creado da lavoura. Nos seus musculos
-havia uma energia latente, a sua vontade era uma voz de commando, intima,
-secreta, mas absoluta. Elle podia-se mover, andar, ir buscar uma cadeira,
-arrastal-a até á varanda para subir, para ver as arvores que estavam nas
-orlas dos campos, quietas, n’uma immobilidade permanente!...
-
-Ao longe viu duas vaccas que pastavam, com a cabeça baixa e o pescoço
-estendido para a herva. De vez em quando moviam com lentidão, os seus
-corpos volumosos, dando passadas de vagar, mas pousando com segurança os
-seus pés. Outras vezes levantavam a cabeça, espalhando mansamente o seu
-olhar sereno pelas encostas, e, se viam outras vaccas, mugiam com uma voz
-ululante, vaga, de uma expressão triste. Um pequeno rapaz de dez annos,
-forte, sujo e travesso, vigiava as vaccas. Em certos momentos, quando
-ellas se aproximavam das vinhas, era elle que as enxutava, picando-as
-cruelmente com a aguilhada, berrando-lhes alto, com energia, obrigando-as
-a tomarem a direcção que desejava.
-
-O pequeno Emilio apreciou, da sua varanda, estes factos com um olhar
-meditativo, profundo, e conheceu-se intimamente capaz de mandar
-n’aquellas vaccas, de andar n’aquella liberdade dos campos, correndo,
-saltando, subindo ás arvores, dando quédas, dando gritos, picando as
-vaccas...
-
-N’este momento todo o seu ser estava possuido de uma forte necessidade
-de posse, de commando. Desejava ser livre como aquelle rapaz que via ao
-longe, no meio do campo, com um imperio indiscutivel e tyrannico sobre
-a vontade d’aquelles animaes possantes, que obedeciam resignadamente
-á sua aguilhada. Emilio sentia-se tomado de uma grande ambição, de um
-sentimento de energia que o tornava audacioso... Desejava possuir todo
-aquelle mundo que via—as vaccas, os campos, as arvores, as casas, as
-poças de agua, os pombos que passavam no ar com o seu vôo rapido,
-as proprias nuvens que estavam suspensas, como ephemeros frocos de
-espuma. Mas queria possuir _tudo_, mandar em _tudo_ de um modo absoluto,
-incondicional!
-
-—Se morresse toda _essa_ gente... era tudo meu!—raciocinou atrevidamente.
-
-_Essa gente_ eram os outros, os que possuiam aquellas cousas todas, que
-no momento elle ambicionava!...
-
-E com as palpebras immoveis, as pupillas fixas n’um ponto indeterminado,
-as sobrancelhas severamente contraídas, os beiços alongados como os de um
-macaco colerico, o queixo apoiado na mão esquerda, contemplou a grandeza
-_do mundo que via da varanda_!
-
-Por fim, absorvido _na sua idéa de poderio, de auctoridade_, desceu da
-cadeira e, calado, altivo, arrogante, foi por um corredor escuro que se
-abria na sala.
-
- * * * * *
-
-Entrando, observou com intrepidez, com supremacia indiscutivel, os
-retratos e as gravuras que estavam pendentes das paredes. Sustentou
-um olhar de soberba, com a estatueta de porcelana, que representava
-Christovão Colombo com o mundo na mão esquerda. Reparou com desdem altivo
-n’outra de um velho general _do primeiro imperio_, que faiscava coleras
-marciaes dos olhos coruscantes, tendo o seu chapéu napoleonico de travez,
-na direcção dos fartos bigodes, e apoiava a mão esquerda nos punhos da
-sua espada invencivel. O pequeno Emilio, vendo casualmente no espelho da
-parede, que o seu pequeno rosto tinha bastante séveridade, encarou de
-novo o general, ainda com mais intelligencia e sobrecenho, conservando-se
-firme, auctoritario e dominador!
-
-Passados momentos, o semblante coloriu-se-lhe com uma expressão mais
-suave, quando contemplou a cadeira de braços, onde _seu papá_, depois
-de jantar, costumava ler o jornal e adormecia recostado. Tinha-o visto
-n’esta posição muitas vezes:—o seu grave aspecto paternal apresentava uma
-curvatura desleixada, tendo a cabeça caída para o seio, resonando com
-gravidade e com estrondo. Este quadro simples e familiar impressionara-o
-sempre, deixando-lhe o desejo de ler o jornal, recostado na cadeira com
-abandono, como seu pae. O momento era opportuno, estava sósinho na sala,
-ninguem o poderia impedir... Fechou a porta do corredor com todas as
-cautelas de um malvado, de um pequeno facinora consciente, para d’esta
-maneira poder realisar com facilidade esta ambição temeraria, de fingir
-que sabia ler o jornal recostado na cadeira paterna!
-
-N’aquelle momento ouviu tossir a _mamã_ que estava no quarto proximo e
-por isso suspendeu, por instantes, a realisação do seu audacioso plano.
-E, como passado pouco tempo, tudo recaíu n’um socego favoravel, Emilio
-dirigiu-se á cadeira. Subiu para ella, agarrando-se com esforço, lançando
-primeiro a perna esquerda, depois a perna direita, ficando primeiro de
-bruços e chegando a indireitar-se depois de se ter apoiado nos joelhos
-e segurado fortemente com as mãos. Quando chegou a cima e se recostou,
-a sua respiração era larga e profunda, signal de que estava cançado do
-grande esforço que fizera!
-
-Pomposamente recostado na cadeira, Emilio tinha um ar orgulhoso e
-via se que estava bem penetrado da sua importancia fortuita! Fingiu
-admiravelmente que lia o jornal, movendo levemente os beiços como fazia
-seu pae, revirando os olhos com intelligencia e dando á cabeça movimentos
-lateraes apropriados. A final, para completar o quadro, deixou cair com
-desleixo o papel, entrando resolutamente no periodo do somno digestivo,
-fingindo com propriedade, um resonar altivo e cheio de insolencia!
-
-Esteve assim algum tempo... Porém, não lhe consentindo as impaciencias
-naturaes o demorar-se muito, levantou-se em pé na cadeira e desceu para
-o chão, por um processo inverso ao que empregára para subir. A um lado,
-sobre uma pequena mesa, estava a bengala e o chapéu do papá. Dirigiu-se
-intrepidamente a estes objectos respeitados, para os possuir. Poz o
-chapéu na cabeça, pegou na bengala pelo castão de velho marfim defumado
-e desejou passear ao longo da sala com porte altivo, com importancia
-natural. Mas o chapéu enterrou-se-lhe até aos hombros e, quando pretendeu
-dar passadas de um homem encostado á sua bengala, tropeçou e caíu de
-bruços.
-
-Então levantou-se zangado, nervoso, vermelho de colera e retomou um
-aspecto imponente e auctoritario. Principiou a andar no comprimento
-da sala com o corpo direito, a cabeça alta e o braço esforçadamente
-levantado para agarrar no castão da bengala, o que, de certa maneira,
-lhe dava a parecença de um menino dependurado.
-
-Depois, para se rehabilitar diante de si proprio por ter caído de bruços,
-quiz exercer a sua auctoridade incontestada, o poderio absoluto de que se
-achava possuido, sobre todos os objectos que ali estavam—lembrou-se de
-tombar as cadeiras, quebrar os vidros, _atirar abaixo aquelles homes_.
-E os seus grandes olhos energicos fixaram-se com arreganho, com altivez
-sobranceira nas estatuetas que permaneciam em frente da janella sobre a
-pequena mesa. O velho militar do primeiro imperio napoleonico, com todo
-o seu conjuncto marcial—a espada triumphante, os bigodes magestosos, as
-rugas severas, acobardou-o, obrigando-o a baixar ligeiramente os olhos e
-a reflectir durante momentos. Porém, Christovão Colombo, com o seu rosto
-suave de uma bravura serena e consciente, não o intimidou, e por isso,
-Emilio, o fixou com mais confiança, com menos susto. E como o descobridor
-da America tinha na mão esquerda um globo, na qual apontava resolutamente
-com um ligeiro sorriso de inspirado, um ponto com o dedo, o pequeno,
-_para se metter com elle_, fez-lhe este pedido exigente:
-
-—Dás-me essa cousa?
-
-Christovão Colombo não teve logo uma resposta favoravel. Emilio repetiu
-imperiosamente:
-
-—Dás ou não dás? Olha que tu...
-
-E fez-lhe um arremeço significativo com a bengala.
-
-Porém, o silencio do possuidor da bola continuou-se, e o pequeno
-julgando-o um signal desprezador do seu poder, pareceu-lhe provocante.
-Por isso o olhou com mais intimativa, e, para o castigar, como lhe faziam
-a elle proprio ás vezes, repetiu a concisa e habitual phrase de seu pae:
-
-—Então vae lá para dentro.
-
-Imaginou que ía ser obedecido. Para não haver delongas, nem evasivas,
-conservou-se n’uma attitude ameaçadora, com a bengala paternal no ar,
-agarrada pelo castão. Com voz mais alta e decisiva repetiu ao possuidor
-da bola:
-
-—Não vaes? Arrumo-te.
-
-Christovão Colombo não obedeceu. Oppunha a resistencia passiva de um ser
-inanimado. O pequeno Emilio vingou-se d’aquella immobilidade insoffrivel,
-atirando-lhe á cabeça com a bengala irreverente. A estatueta caíu no chão
-quebrando-se com estrondo em mil pedaços!... A cabeça, os braços, a bola,
-separaram-se! O pequeno facinora ficou a olhar para aquelle destroço, com
-um sentimento de vingança satisfeita!
-
-Porém, sua mãe, que estava no quarto proximo, ouvindo este barulho,
-correu á sala para averiguar o que teria sido. Vendo a estatueta quebrada
-e seu filho encostado á bengala n’um aspecto arrogante, exclamou
-instinctivamente:
-
-—Ah! grande maroto que ahi vem o papá.
-
-Emilio respondeu sereno, impertubavel, com segurança:
-
-—Ora!... eu _tamem_ sou papá.
-
-
-FIM
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Comedia do Campo volume III, by
-Francisco Teixeira de Queiroz and Bento Moreno
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMEDIA DO CAMPO VOLUME III ***
-
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- The Project Gutenberg eBook of Comedia do campo, volume III (Scenas do minho), by Teixera de Queiroz (Bento Moreno).
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-
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-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Comedia do Campo volume III, by
-Francisco Teixeira de Queiroz and Bento Moreno
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll
-have to check the laws of the country where you are located before using
-this ebook.
-
-
-
-Title: Comedia do Campo volume III
- (Scenas do Minho)
-
-Author: Francisco Teixeira de Queiroz
- Bento Moreno
-
-Release Date: August 24, 2020 [EBook #63034]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMEDIA DO CAMPO VOLUME III ***
-
-
-
-
-Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<h1>COMEDIA DO CAMPO</h1>
-
-<hr />
-
-<p class="titlepage">TEIXEIRA DE QUEIROZ</p>
-
-<p class="center smaller">(BENTO MORENO)</p>
-
-<p class="titlepage larger">COMEDIA DO CAMPO</p>
-
-<p class="center">(SCENAS DO MINHO)</p>
-
-<div class="tp">
-
-<div class="tp-r">
-
-<p class="hanging">La plupart des drames sont dans les
-idées que nous nous formons des
-choses. Les événements qui nous
-paraissent dramatiques ne sont
-que les sujets que notre âme convertit
-en tragédie ou en comédie,
-au gré de notre caractère.</p>
-
-<p class="tp-r-n"><span class="allsmcap">H. DE BALZAC.</span>—<i>Modeste Mignon.</i></p>
-
-</div>
-
-</div>
-
-<p class="titlepage">VOLUME III</p>
-
-<p class="center smaller">Antonio Fogueira.—Morte negra.—Enterro de um cão.—O
-embarcadiço.—O rei absoluto.</p>
-
-<div class="figcenter titlepage" style="width: 150px;">
-<img src="images/dc.jpg" width="150" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<p class="titlepage">LISBOA<br />
-DAVID CORAZZI—EDITOR<br />
-<span class="smaller">EMPREZA HORAS ROMANTICAS<br />
-Premiada com medalha de ouro na exposição do Rio de Janeiro<br />
-40—Rua da Atalaya—52<br />
-1882</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_1"></a>[1]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">ANTONIO FOGUEIRA</h2>
-
-</div>
-
-<hr />
-
-<h3>I</h3>
-
-<p>N’uma excellente manhã de um maio risonho e feliz,
-duas creanças, que já eram orphãs de mãe, perderam
-igualmente seu pae! Além da orphandade, teriam
-tambem a negra fome e a sombria miseria indigente,
-se não fôra o bom cura, o padre Clemente Carvalhosa,
-que as foi buscar a casa, levando uma de cada lado,
-pela mão, para a <i>residencia</i>! O Thomé Barbante, um
-tio d’essas creanças, tambem compadecido, ou, talvez,
-humilhado pelo caridoso procedimento do ecclesiastico,
-foi-lhe pedir que lhe désse uma para sua casa. O Carvalhosa
-cedeu-lhe a Quina, ficando com o Tone, que
-elle, n’um momento egoista, pensou vagamente em ir
-mettendo pela igreja, para de futuro ter quem lhe ajudasse
-á missa. Porém o Bernardo Repolho, lavrador
-remediado, que morava n’outra aldeia, a distancia de leguas,
-não lhe consentiu realisar esta ambição: sabendo<span class="pagenum"><a id="Page_2"></a>[2]</span>
-da orphandade dos filhos de seu irmão André, que
-tanto eram seus sobrinhos como do Barbante, condoeu-se
-e, consultando a sua auctoritaria Engracia, resolveram
-<i>adoptarem</i> Tone, visto Deus não os ter favorecido
-com <i>um rapaz</i>, que tanto haviam desejado!...
-Para a mulher de Bernardo, era uma consolação forçada!...
-Por espaço de annos presenteára generosamente
-todos os santos acreditados nas visinhanças, chegando
-a ir em romaria beber das diversas aguas milagrosas,
-tão apregoadas e tão efficazes, que nascem debaixo
-dos penedos, onde esses bemaventurados tinham
-apparecido!... Frequentára, tambem, com assiduidade,
-os banhos de mar, indo durante muitos annos, a Vianna,
-pelo tempo da Agonia, sempre dominada por um
-tamanho desespero de maternidade, que de uma vez
-chegou a tomar <i>trinta banhos</i> nos tres dias da festa!...
-Porém, as esperanças de ter um filho íam desapparecendo,
-a esterilidade de Engracia affirmava-se de cada
-vez mais com a idade! Viveu muito tempo n’uma constante
-aspiração, impaciente e nervosa, chegando aos
-quarenta e cinco annos—ao momento dos desenganos!
-—sem descendencia... A sua intransigencia, o seu
-mau humor, contra os filhos dos outros, ía caíndo n’uma
-melancolia latente, quasi n’um ediotismo, quando seu
-marido lhe propoz o trazerem para casa o orphão de
-seu irmão André, que acabava de morrer pobre...
-Engracia abraçou, inesperadamente, com alegria, esta
-idéa e adoptou com benevolencia a creança desamparada!
-Pediu instantemente a seu marido, que fosse,
-mesmo n’aquelle dia, buscar o pequeno... Para a satisfazer,<span class="pagenum"><a id="Page_3"></a>[3]</span>
-o Repolho não teve remedio senão pedir ao padre
-Beiral, a bôa egua lanzuda. O ecclesiastico cedeu-lh’a
-facilmente, perguntando com a sua curiosidade de
-homem idoso:</p>
-
-<p>—Então é o filho d’esse teu irmão que morava lá
-para os lados de Monção?...</p>
-
-<p>—Sim, senhor, esse mesmo—respondeu o Repolho.
-Era muito pobre, não deixou nada...</p>
-
-<p>—Pois fazes bem, fazes bem—applaudiu o sacerdote.
-É uma obra de caridade... Deixal-os ao desamparo,
-é creal-os para ladrões. Vae homem, vae, leva a
-egua da côrte...</p>
-
-<p>E, no dia seguinte de manhã, Bernardo partiu, chegando
-ao anoitecer a casa do Thomé Barbante, dizendo-lhe
-peremptoriamente, qual a sua resolução e mais
-a de Engracia. Foi muito gabado este procedimento.
-Todas as pessoas diziam, inclusivamente o Carvalhosa,
-que o pequeno viria a ser bem feliz; porque, estes tios
-que o adoptavam, eram ricos e não tinham herdeiros
-necessarios. Porém, quem não entendia as cousas do
-mesmo modo enthusiasta, era o proprio Tone. Quando
-lh’o fizeram comprehender, principiou a berrar desalmadamente,
-dizendo que não, que não... que não queria
-ir. E, no momento em que o punham ao collo do
-Bernardo, que já estava montado, prompto para a partida,
-principiou a estrebuxar, a morder nos punhos de
-seu tio que o segurava amoravelmente, a chamar alto
-por seu pae enterrado e porfiando por se atirar abaixo
-do albardão. A final, como lhe prometteram que voltaria
-de tarde, para brincar com sua irmã Quina, que<span class="pagenum"><a id="Page_4"></a>[4]</span>
-tambem ficava a chorar em altos gritos pelo Tone, deixou-se
-levar. Porém, só quiz ir ao collo do tio Barbante
-que elle conhecia, e não ao <i>d’aquelle home</i>, que nunca
-tinha visto. Foi por esse motivo que o padre Carvalhosa
-teve de emprestar a <i>malhada</i> para o Barbante ir montado,
-e lá partiram ambos, pelos caminhos ensombrados
-da freguezia, o Thomé com o pequeno adiante de
-si, escachado no albardão.</p>
-
-<p>D’este modo, assim illudido, é que o Tone foi e ficou.
-O Barbante, para não ser presentido pelo sobrinho,
-retirou-se ao amanhecer, quando elle ainda dormia
-innocentemente. Desde essa hora, as duas creanças
-irmãs, que sempre tinham brincado juntas, na mais
-simpathica convivencia, ficaram vivendo a distancia de
-leguas, separadas por altas montanhas, que no inverno
-se costumam cobrir de grossas camadas de geada!</p>
-
-<p class="tb">A nova paisagem, com a qual o pequeno Tone se tinha
-de familiarisar, era de uma sombriedade austera,
-penetrada de melancolia. É verdade que em baixo, no
-coração do povoado, havia campos onde os ribeiros
-sussurravam, indo regar os prados, de um verde claro,
-e os milharaes alegres. Porém em volta, era uma cinta
-escura de altas montanhas, com plantações de pinheiros
-que tem uma côr energica, mas triste, e com arrogantes
-penedias, que ameaçavam desmoronar-se. Lá
-no alto, onde os penedos se accumulavam toscamente,
-uns postos sobre os outros, viam-se frequentemente,
-occupados no seu rude trabalho, sob a inclemencia dos
-soes e das chuvas, os quebradores de pedra! Estes homens<span class="pagenum"><a id="Page_5"></a>[5]</span>
-de um aspecto rude e carregado, com a pelle pergaminhada
-pelos rigores de todos os tempos, perfuravam
-pacientemente com as suas brocas, os penedos, que
-depois quebravam a tiro, cujo som ululante e cavernoso
-echoava pelas quebradas da montanha!</p>
-
-<p>Na aldeia onde Tone nascera, o aspecto dos campos,
-a vegetação, era mais familiar e intima. Os terrenos
-mais suavemente accidentados, deixavam aos seus olhos
-vivos, mais largo espaço para ambicionar. Havia um
-rio largo, que no inverno engrossava arrogantemente
-com as chuvas copiosas. Dos silvados impenetraveis,
-povoados de sombras que lhe mettiam medo, costumavam
-saír inesperadamente, quando elle se aproximava,
-os melros, voando para longe, com assobios agudos
-e espantados. A sua memoria tenaz de creança devia
-possuir por muito tempo, nitidamente, o vivo quadro
-da sua linda igreja caiada e alegre, com uma torre
-alta, e os tres sinos que tocavam ao domingo! Era
-a igreja onde elle ia á missa com sua mãe e onde os
-primeiros deslumbramentos produzidos pelos opulentos
-dourados dos altares e pelas attitudes senhoris das
-imagens das santas, se lhe ergueram na imaginação!
-Era de um pittoresco mimoso o quadro d’essa igreja,
-collocada na encosta, com a sua brancura que se destacava
-do souto de velhos castanheiros e carvalhos que a
-cercavam! Áquella imaginação infantil de Tone, deviam
-fazer falta estas cousas amadas pelos seus olhos vivos
-e ingenuos! N’estes caminhos pedragosos de agora,
-não se podia correr doidamente como n’aquelles outros,
-pelos quaes andara atrás de sua irmã Quina, para a<span class="pagenum"><a id="Page_6"></a>[6]</span>
-agarrar. Por isso, nos primeiros tempos, fartava-se de
-chorar, tinha perrices freneticas e chamava em altos
-gritos por seu pae, por sua tia Clara, por sua irmã
-e não queria comer. Mas a mulher do Bernardo Repolho
-affeiçoou-se-lhe imprevistamente e acarinhava-o, procurando
-consolal-o, promettendo-lhe dôces e santinhos,
-que lhe havia de trazer das romarias. E n’um dia, para
-mostrar a effectividade das suas promessas, fez-lhe
-uma dadiva surprehendente, a qual foi recebida pelo
-Tone com tal alvoroço, que por si só parecia capaz de
-lhe obscurecer todas as lembranças risonhas do seu
-passado mediocre! Engracia comprou-lhe um pequeno
-cabrito, de pello lusidio e negro, um pequenino cabrito
-que fazia <i>mé</i>, <i>mé</i>, com uma voz tremida e saudosa, na
-qual talvez quizesse exprimir a saudade de seus companheiros,
-que deixára na liberdade incondicional das
-montanhas!</p>
-
-<p>Todos os rapazes da visinhança, que já se davam
-muito com o Tone, lhe invejaram, desejando-a, a posse
-d’este animal, e não occultavam que, nos seus peitos infantis,
-se guardavam estragados sentimentos de cubiça!
-Acercavam-se do possuidor, dizendo-lhe em tom
-melifluo e condescendente, palavras agradaveis, de muita
-e sincera amisade, por meio das quaes desejavam
-captar-lhe a benevolencia. Porém, como elle resistia,
-afastando-se, altivo e orgulhoso, com o cabrito pelo baraço,
-que lhe atara ao pescoço, um dos amigos propoz-lhe
-de um modo astuto:</p>
-
-<p>—Olha, se <i>mo</i> deixas levar a comer ali adiante,
-dou-te esta carapuça nova...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_7"></a>[7]</span></p>
-
-<p>O Tone olhou com modo avido para a carapuça offerecida,
-que era vermelha e, depois de calcular mentalmente
-as vantagens, condescendeu:</p>
-
-<p>—Pois sim, dá cá a carapuça!</p>
-
-<p>Foram os dois e muitos outros, com o cabrito em
-grande distincção, festejando-o com alaridos, como um
-triumphador romano. Quando chegaram junto de uma
-poça, onde encontraram um pasto verde, que julgaram
-appetitoso, pararam, porque entendiam que o cabrito
-deveria comer. Para conseguirem isto, usaram de
-subterfugios infantis, escolhendo-lhe meticulosamente a
-melhor herva, que profiavam metter-lhe na bôca... Quando
-o animal, com os seus dentes finos, mastigava, levantava-se
-da parte das creanças uma expressiva satisfação,
-olhando para o animal n’um silencio attencioso e meditativo;
-todos deante d’elle, agachados, contemplando-o
-com veneração!...</p>
-
-<p>Estes e outros factos similhantes, fizeram com que
-o Tone fosse esquecendo gradualmente o seu estreito
-passado. Como tinha os mimos de Engracia e as lisonjas
-cavilosas dos seus companhiros, principiou a desenvolver-se-lhe
-uma vontade forte, desejos impertinentes,
-certa irascibilidade e orgulho. D’entre os rapazes
-com quem brincava, só distinguia o Zé do sachristão;
-porque este lhe consentia o tocar o sino pequeno,
-<i>a bambom</i>, nas occasiões de enterro! E como o Zé na escola
-já <i>escrevia debuxado</i> e o Tone, apesar de ter oito annos
-ainda nem sabia as <i>lettras</i>, disse-lhe o do sachristão:</p>
-
-<p>—Ó <i>coisa</i>, quando é que tu vaes com a gente p’ro
-studo?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_8"></a>[8]</span></p>
-
-<p>O Tone respondeu-lhe com um desdem despresador:</p>
-
-<p>—Eu não vou... <i>Isso</i> de studo não presta...</p>
-
-<p>—Presta meu asno... Vae, e tu verás que presta.
-Começas logo na carreira do <i>A</i>.</p>
-
-<p>—O que é a carreira do <i>A</i>?!—indagou o da Engracia,
-com modo suspeitoso...</p>
-
-<p>—É a carta. Ai! tu não sabes! Olha, pede á tua mãe
-que te merque a carta, que é muito linda. Tem um
-gallo... é muito linda. Depois vae ao studo, que andam
-lá muitos rapazes. Quando não está o senhor mestre,
-a gente brinca ás escondidas, joga o talo na eira...
-Vae meu asno que é bonito.</p>
-
-<p>Influido d’este modo pediu, n’esse mesmo dia, á mãe,
-que o levasse á escola. Engracia, para o não ouvir
-chorar, lavou-lhe logo a cara e conduziu-o a casa do
-mestre que era o senhor Antoninho Beiral... O senhor
-Antoninho Beiral, um rapaz forte, espadaúdo, alentado,
-era tambem o melhor caçador de perdizes da
-redondeza! Andára em Braga a estudar para padre,
-com o fim de succeder na <i>encommendação</i> a seu tio; mas
-não conseguira presbiterar-se, por ter <i>desfeitiado</i> um
-velho conego na pessoa de uma creada massiça e de
-rosto oval... Depois d’isto, cortada a carreira, retirou-se
-definitivamente para a sua aldeia, deixando crescer
-grandes barbas, andando pelos montes e por entre
-os milhos ás perdizes e <i>ás moças</i>... De vez em quando,
-para se desaborrecer, dava aula de instrucção primaria,
-pois era o professor official!... Os seus discipulos
-temiam-n’o; porque elle era severo e zurzia-os, com
-uma vargasta pelas orelhas ou com duzias de palmatoadas<span class="pagenum"><a id="Page_9"></a>[9]</span>
-bem puchadas, quando os suppunha delinquentes!
-Se emquanto o <i>senhor professor</i> andava ás perdizes, elles
-se divertiam na eira, a jogar o talo ou ás escondidas,
-logo que persentiam ao longe o ladrar do podengo, arregimentavam-se
-pressurosamente para irem ao encontro
-do senhor Antoninho pedir-lhe a benção, do
-que elle os <i>dispensava</i>, passando de espingarda ao hombro,
-com um modo carregado e negativo.</p>
-
-<p>No dia em que Engracia lhe levou o Tone, a mulher
-do Repolho teve de esperar que o senhor mestre viesse;
-porque andava no monte... Logo que chegou, viu Engracia,
-humilde, com o rapasito ao lado e perguntou-lhe
-com indifferença:</p>
-
-<p>—Queria alguma cousa?...</p>
-
-<p>—Se me fazia a esmolinha de me deixar entrar este
-pequeno cá para o studo—respondeu.</p>
-
-<p>—Que idade tem?</p>
-
-<p>—Oito annos.</p>
-
-<p>—Traz a carta?</p>
-
-<p>—É isto que comprei lá em baixo na tenda, senhor?</p>
-
-<p>E mostrou-lhe, com o braço estendido, um pequeno
-folheto de capa de papel pintado. O senhor Antoninho,
-lançando-lhe um olhar infimo e despresador, concluiu:</p>
-
-<p>—É isso mesmo, sim senhora. Deixe ficar. Olha rapaz,
-vae p’rá acolá.</p>
-
-<p>E apontou-lhe a estremidade de um banco, onde o
-Tone, amedrontado e encolhido se foi sentar... Em seguida,
-o senhor mestre entregou a um discipulo a espingarda,
-para lh’a ir pôr na varanda, emquanto elle
-se foi sentar, de modo brusco e pesado, na cadeira<span class="pagenum"><a id="Page_10"></a>[10]</span>
-professoral, onde se conservou silencioso, durante alguns
-minutos com a testa apanhada na mão esquerda!...
-Por fim, tirando de uma gaveta e collocando em cima
-da mesa, n’uma evidencia terrificante, a palmatoria disciplinar,
-indicou aos descipulos que n’esse dia, não passariam
-<i>sem molho</i>, como elle costumava dizer.</p>
-
-<p class="tb">Mas o Tone da Rosaria não gostou d’aquelle <i>studo</i>:
-o mestre era brusco, tinha uma voz grossa, que repellia,
-uma cara rude, com muita barba. Na mesma
-tarde em que entrou para a escola, viu, com um semblante
-cheio de susto, que, o seu amigo, o Zé do sachristão,
-a unica veneração que o Tone tinha n’este
-mundo, foi severamente castigado com dois murros,
-levantando-se do chão a deitar sangue pelo nariz, só
-por lhe ter caido um borrão na escripta! O Zé chorou
-soluçando reprimidamente, desculpando-se, e ficou muito
-tempo no seu logar, a olhar para o <i>manual</i>, com os
-seus olhos vermelhos do chôro, fingindo uma penetração
-que não tinha. Por um movimento espontaneo e
-sympathico, o Tone foi ter com o seu amigo, para o
-consolar! Porém, o mestre, disse-lhe com uma voz estrondosa,
-que se fosse sentar... Elle obedeceu, encolhido
-de medo, como um cão escorraçado, e principiou
-tambem a chorar, soluçando...</p>
-
-<p>Quando chegou a casa disse:</p>
-
-<p>—Ora eu não quero mais aquelle <i>studo</i>...</p>
-
-<p>—Porque?—indagou sua mãe.</p>
-
-<p>—O mestre bate nos rapazes. O Zé da igreja verteu
-sangue pelo nariz e chorou muito...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_11"></a>[11]</span></p>
-
-<p>—Mas tu has de saber a lição e o senhor mestre
-ha de ser muito teu amigo...</p>
-
-<p>—Não quero ir mais... Elle bate-me e faz-me deitar
-sangue pelo nariz...</p>
-
-<p>E não voltou mais. Quiz antes os seus devertimentos:—ir
-para o campo com os filhos dos lavradores
-que andavam com o gado e não estavam para aprender
-a ler, jogar o <i>talo</i> com elles, abrir covas á mão
-para enterrar pedras que fingissem de mortos, comprar
-<i>aos outros</i> gaitas, com o pão que levava de casa...
-O Tone andava quasi sempre acompanhado do
-seu cabrito, que elle mandava com ama voz exigente e
-imperiosa... Os seus amigos, para o desgostarem,
-desmereciam-lhe o animal. Porém, n’um dia, em que esse
-cabrito appareceu puxando um carro novo, todos os
-invejosos se submetteram. O Zé do sachristão que lh’o
-viu e lhe cubiçou, carro e cabrito, disse-lhe:</p>
-
-<p>—Das-m’o, Tone?</p>
-
-<p>—Não—respondeu energicamente.</p>
-
-<p>—Pois tambem, quando quizeres tocar o sino pequeno,
-a repique nos dias de festa e a <i>bambom</i> nos enterros,
-não te hei de deixar...</p>
-
-<p>—É o mesmo—respondeu com isenção.</p>
-
-<p>O Zé propoz-lhe:</p>
-
-<p>—Se me désses o carro e o cabrito, deixava-te tocar
-o sino e dava-te uma cousa muito linda que eu tenho...</p>
-
-<p>—O que é?—indagou com os olhos muito abertos.</p>
-
-<p>—É um ninho com cinco melrinhos...</p>
-
-<p>—Isso não presta—desdenhou o Tone, cheio de soberba.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_12"></a>[12]</span></p>
-
-<p>—Ai, não presta, tomaral-o tu! Os melrinhos já
-têem pennas, estão quasi a voar...</p>
-
-<p>—E onde é o ninho?—indagou o dono do cabrito e
-do carro.</p>
-
-<p>—Arreguilal-o—respondeu arregaçando a palpebra
-inferior do olho esquerdo. Querias saber; mas não chuchas.
-É n’um sitio...</p>
-
-<p>—Vamos lá ver?</p>
-
-<p>—E das-me o carro?</p>
-
-<p>—Dou; mas tu has de me deixar tocar o sino no
-dia da festa, e das-me o ninho.</p>
-
-<p>—Pois sim, então dá p’ra cá o carro. Amanhã não
-ha studo e então vamos tirar os melrinhos, que já
-são grandes!</p>
-
-<p>—Eu quero hoje o ninho...—exigiu o Tone.</p>
-
-<p>—Hoje vou p’ro studo, não posso!—desculpou-se
-o Zé, visivelmente infeliz.</p>
-
-<p>—Não vás hoje ao mestre. Isso de studo não presta!—aconselhou
-o Tone desdenhoso.</p>
-
-<p>—Ai, elle é o <i>não vás hoje</i>. E o meu pae? Não, que
-o meu pae, depois, bate-me.</p>
-
-<p>—Elle não sabe. Gazeia hoje Zé...</p>
-
-<p>E o do sachristão, para obter o carro, resolveu-se a
-gazear. Com elles ambos foram outros rapazes que
-tambem andavam na escola e outros que não andavam.
-Desejavam ver o ninho, que estava n’um carvalho, perto
-de uma poça, segundo affirmava o Zé.</p>
-
-<p class="tb">Encaminharam-se por entre uns silvados. Como era
-no tempo das amoras, pararam muitas vezes para as<span class="pagenum"><a id="Page_13"></a>[13]</span>
-colherem. Houve algumas bulhas, porque todos desejavam
-apanhar as que estavam mais maduras. Antes de
-chegarem ao sitio do ninho, passaram por umas cerejas
-que tiveram tentações de comer... Porém, como eram
-do padre Beiral, reconsideraram, com a lembrança de
-que o mestre, que era sobrinho do ecclesiastico, sabendo-o,
-os zurziria com a chibata de marmeleiro, que
-tinha encostada á parede, na aula. Quando chegaram
-ao pé do carvalho annunciado, disse o do sachristão:</p>
-
-<p>—Olha, Tone, o ninho é ali.</p>
-
-<p>—Deixas-me subir p’r’o tirar?</p>
-
-<p>—Não senhor, que tu és muito pequeno—respondeu
-com orgulho, alongando os beiços. Podes cair e depois
-a tua mãe vem <i>com aquellas</i>...</p>
-
-<p>—Deixa-me ir Zé, que eu não caio—insistiu o Tone,
-com voz de pedinte.</p>
-
-<p>O do sachristão, para conciliar todos os desejos propoz:</p>
-
-<p>—É melhor tu ires para cima dos penedos. Eu subo
-e dou-te o ninho para a mão. Queres?</p>
-
-<p>—Pois então vá lá—rematou o da Engracia, concordando.
-Mas não dás a estes, não?</p>
-
-<p>—Não, dou a ti...</p>
-
-<p>Os companheiros, offendidos com esta exclusão, disseram
-orgulhosamente:</p>
-
-<p>—Olhem, o diabo do asno! Tem medo que lhe comam
-a porcaria do ninho!...</p>
-
-<p>O Zé do sachristão principiou a subir. Primeiro abraçou-se
-ao carvalho, depois encolheu as pernas, em seguida
-fincou o lado interno dos joelhos para se segurar,<span class="pagenum"><a id="Page_14"></a>[14]</span>
-e por fim, o lado interno dos pés para se impellir...
-Quando se ia chegando ao cimo do carvalho,
-elevando-se assim, prudentemente, agarrou-se a um
-forte galho, segurando-se com presistencia. E disse
-para os que, debaixo, o seguiam attentamente com os
-olhos:</p>
-
-<p>—Cá estão, os cinco melrinhos. Já tem penna.</p>
-
-<p>—Dá-os para cá—disse o Tone de cima de penedo,
-relanceando um olhar despresador para os outros rapazes,
-que se conservaram afastados, n’uma reserva sensata
-e orgulhosa...</p>
-
-<p>—Chega-te mais para cá—observou-lhe o Zé.</p>
-
-<p>—Não posso mais—respondeu desconsolado, inclinando-se
-do penedo para o carvalho.</p>
-
-<p>—Então levo-os eu para baixo. Se caem no chão
-morrem e depois tu não me dás o carro.</p>
-
-<p>E principiou a descer, tendo previamente mettido no
-seio, os cinco melros pequenos. Como precaução, para os
-não esmagar, descia afastando o corpo do velho tronco
-do carvalho, agarrando-se tenazmente com as mãos
-e fincando os pés na casca nodosa. Quando chegou a
-baixo, disse mostrando os cinco passaros, que ia tirando
-um a um, de dentro da camisa:</p>
-
-<p>—Toma. Agora dá cá o carro.</p>
-
-<p>—Dá tu primeiro os melros—observou-lhe o Tone.</p>
-
-<p>—Isso arreguilal-o!... Então, mão por mão, como
-os rapazes.</p>
-
-<p>Todos os companheiros cercaram o possuidor dos
-melros, olhando-o com olhos seccos e avidos!...</p>
-
-<p>Um pediu-lhe com um tom melodioso e humilde:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_15"></a>[15]</span></p>
-
-<p>—Dás-me este melrinho, Tone?</p>
-
-<p>—Não!—respondeu avaramente o da Engracia.</p>
-
-<p>—Tambem eu te não dou uma cousa...</p>
-
-<p>—O que é?</p>
-
-<p>—Quatro botões amarellos de duzia, muito lindos...</p>
-
-<p>E mostrou-lhe na palma da mão, para lhe causar inveja,
-quatro botões com armas reaes, que tinham sido
-furtados de uma antiga farda meliciana do avô. O filho
-da Engracia gostou muito dos botões amarellos de armas
-reaes, que valiam cada um, doze fôrmas! Por isso
-trocaram. O Tone deu-lhe um melro por todos, por
-isso ficou sómente com quatro, que metteu sensata e
-reservadamente dentro da carapuça, para os não opprimir
-e para lho’s não cubiçarem com os olhos. Os outros
-rapazes, com o fim de captarem a confiança do
-Tone, davam-lhe generosos conselhos:</p>
-
-<p>—Sabes o que deves fazer? Dá aos melrinhos sopas
-de vinho—dizia um.</p>
-
-<p>Outro offerecia:</p>
-
-<p>—Ó aquelle, tu queres pão para elles, que eu dout’o?
-Olha que hão de ter fome...</p>
-
-<p>E n’esta idéa caritativa, afastavam-lhes com os dedos
-sujos as mandibulas, introduzindo-lhes na bôca pão esfarellado,
-que os melros regeitavam.</p>
-
-<p>Um dos rapazes teve esta idéa:</p>
-
-<p>—Sabes o que os passarinhos querem? É beber.</p>
-
-<p>Passava ali um regato que em baixo ía fertilisar um
-campo de herva. Na superficie da corrente, iam folhas
-verdes e guiços. As tenras plantas que tinham nascido
-no logar onde corria a agua, curvavam-se obedientemente,<span class="pagenum"><a id="Page_16"></a>[16]</span>
-à sua passagem. Porém, nos momentos em que
-a força da corrente era menor, erguiam-se com orgulho,
-retomando a sua posição habitual. Os rapazes,
-quizeram dar de beber aos melros n’este regato. Para
-isso mettiam-lhe o bico na agua, empregando um esforço
-meticuloso e cuidado. Porém elles, assim, não bebiam
-bem, e o Zé do sachristão, que tinha onze annos,
-disse com voz emphatica:</p>
-
-<p>—É que os melrinhos não sabem como se bebe,
-meus asnos? Ensinae primeiro aos animaes como se
-bebe!...</p>
-
-<p>Este alvitre foi adoptado e, para conseguirem o fim
-desejado, lembraram-se de imitar, o modo como presumiam
-que os melros velhos dariam de beber aos
-seus filhos. Tomavam a bôca cheia de agua e introduziam
-o bico de cada passarito entre os beiços. Porém,
-como d’este modo ainda não bebiam, abriam-lhe
-de novo as mandibulas á força, e com uma palha molhada
-na corrente, deixavam lhes cair gotas na garganta.
-Mas este processo era demorado, a paciencia infantil
-esgotou-se e o Tone, para andar mais rapidamente,
-metteu debaixo de agua a cabeça de um dos melros, ao
-qual se encarregara de dar de beber e afogou-o, principiando
-depois a choramingar. O Zé possuidor do carro,
-disse com desconfiança:</p>
-
-<p>—Sim, matta-os e vem cá para eu te dar o carro
-que has de vel-o por um canudo!...</p>
-
-<p>Na realidade, o filho da Engracia achava-se descontente
-com a troca e principiava a pedir outra vez o seu
-carro e o seu cabrito. O Zé respondeu lhe:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_17"></a>[17]</span></p>
-
-<p>—Isso é que não! Quem dá e torna a tirar ao inferno
-vae pagar!</p>
-
-<p>E ao pronunciar estas palavras cabalisticas, fez no
-ar uma cruz de maldição, com a mão em gume, afastando-se
-com o cabrito e com o carro.</p>
-
-<p>O sol ainda ía alto e os rapazes, para gazearem correctamente,
-deviam chegar a casa ás horas a que poderia
-ter terminado a escola. Para se entreterem mais
-algum tempo, lembraram-se de jogar o botão. A sorte
-marcou o <i>rei</i> e o <i>fossa</i>—o primeiro e ultimo a <i>atirar
-á buraca</i>; porque foi <i>este</i> o jogo preferido. Era n’uma
-encruzilhada de dois caminhos, onde havia um cruzeiro.
-O Zé do sachristão e os outros <i>maiores</i>, tiravam
-das saccas que traziam ao pescoço, por dentro da camisa,
-as <i>fôrmas</i>... O Tone conservava-se triste, a
-certa distancia; pois que, antes de principiarem <i>á buraca</i>,
-já lhe tinham ganho os botões amarellos, <i>á parede</i>.
-Com o fim de obter mais fôrmas para poder jogar, teve
-que vender ao Teixugo os melros <i>por duas duzias</i>.
-Porém, no momento em que estavam verdadeiramente
-presos n’este entretenimento ambicioso, ouviram uma
-voz tremenda que lhes bradou de cima do muro sobranceiro,
-com uma ironia terrificante:</p>
-
-<p>—Sim senhores, lindos meninos! Então uma gazeadella,
-ein?!</p>
-
-<p>Era o senhor Antoninho, que ali apparecera casualmente,
-andando á caça! Quando o mestre suppunha
-que <i>aquelles</i> discipulos o estavam esperando na eira como
-de costume, vae-os encontrar ali a jogar o botão!...
-Os rapazes ao verem-n’o, olharam-se repassados de um<span class="pagenum"><a id="Page_18"></a>[18]</span>
-terror estupidificante, ficando n’uma coacção espasmodica!
-Os musculos faciaes permaneceram n’uma regidez
-tetanica, e os olhos, muito abertos, fixaram-se, com uma
-insensibilidade apparente, no <i>senhor professor</i>! Porém,
-quando este se dispunha a descer o muro para os punir
-a murro, elles seguiram o instincto salvador!... Fugiram,
-deixando o carro, o cabrito, os melros, as fôrmas
-e... tudo! O sobrinho do padre Beiral ainda lhes
-gritou de longe, iracundo:</p>
-
-<p>—Andae meus grandes marotos, que ámanhã vos
-ensinarei. Assim é que se vae á escola?! Ella vos saberá
-ao alho, a gazeadella! A pelle das vossas mãos é
-que o ha de pagar!</p>
-
-<p>Depois de mais os não ver, pegou nos melros, estorcegou-lhes
-o pescoço, metteu-os no bolso, e disse para
-si, com mais reflexão:</p>
-
-<p>—Sempre servem para um arroz!...</p>
-
-<p>E foi indolentemente, pelo caminho adiante, assobiando,
-com a espingarda ao hombro.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_19"></a>[19]</span></p>
-
-<h3>II</h3>
-
-<p>Alguns annos depois, o Antonio da Engracia era tido
-como o rapaz mais turbulento d’aquelles sitios:—attribuiam-lhe,
-a elle e aos seus companheiros, todos
-os casos bulhentos que por ali se davam. De todos os
-seus amigos da infancia, faltava um, o Zé do sachristão,
-que tinha ido para o Brazil, e já escrevera muitas
-cartas. Na ultima fallava palavrosamente, com muitas
-repetições emphaticas, de largos projectos de fortuna!
-Affirmava estar muito contente, e promettia, se Deus
-o ajudasse, vir d’ahi a annos, fazer o orgulho de seu
-pae. Um longo periodo d’essa carta desvirgulada, era
-destinado especialmente a recommendar muito o pequeno
-cão, que deixara na aldeia no dia da partida...
-Tinha-o em grande estimação, lembrava-se todos os
-dias do <i>Rabicho</i>, desejava encontral-o quando voltasse...<span class="pagenum"><a id="Page_20"></a>[20]</span>
-Esse animal, magro, aleijado, rijo e bom, representava,
-para aquelle rapaz, um affecto incondicional, uma dedicação
-cheia de provas... Obtivera-as na paciencia com
-que lhe soffrera as travessuras infantis. Se lhe batia,
-em vez de fugir ou de ladrar, rojava-se-lhe aos pés,
-com o ventre para o ar, os olhos humidos e resignados,
-ganindo humildemente, n’uma obediencia absoluta...
-Na manhã de julho, na qual José partira, quando
-elle, com os olhos rasos de lagrimas, se despedia
-das mulheres da visinhança, que lhe atacavam os bolsos
-de fructa; quando, pela ultima vez para muitos
-annos, olhava para aquellas paredes negras e musgosas
-da sua aldeia, para os penedos que estavam no alto
-do monte, para os pinhaes sombrios... espalhando
-sobre essas cousas inanimadas uma vista de saudade;
-quando se despedia dos seus amigos que ficavam...
-o seu cão, aquelle mesmo que recommendava em todas
-as cartas, acompanhara-o, indo na frente, a vinte
-passos, com uma perna no ar, correndo alegremente,
-bebendo nos regatos do caminho, voltando atrás para
-festejar seu dono, com movimentos expressivos de cauda,
-e saltava-lhe ao peito! Fôra com o sachristão e seu
-filho até meia legua fóra da freguezia; porém, o <i>velho</i>,
-julgando inconveniente esta companhia, escorraçou-o para
-casa, fazendo-lhe gestos de uma fingida colera theatral,
-atirando-lhe pedras, e dizia: «<i>Passa fóra, Rabicho</i>».
-O cão, com a sua perspicacia quasi humana, conhecendo
-que era importuno, incommodo, que não devia
-proseguir, subiu a um muro, e ali permaneceu de
-pescoço firme, com o focinho para diante, as orelhas<span class="pagenum"><a id="Page_21"></a>[21]</span>
-tesas, os olhos fixos, n’uma attitude observadora, até
-que elles desappareceram!... Este rapaz de quatorze
-annos deixava a sua aldeia e as suas queridas affeições.
-Ia muito longe, procurar uma fortuna incerta!...
-Poderia, no contacto do mundo indifferente,
-perder muitas das intimas recordações da sua terra.
-Porém, o que elle nunca esqueceria, era o dia em que
-partiu, as mulheres que lhe davam a fructa chorando,
-os rapazes que ficavam sentados nas pedras do caminho
-e a firmeza esperta do seu cão em cima d’aquelle
-muro! Em todos os quadros da sua vida infantil, que
-muitas vezes reproduziria de memoria, para contentar
-a saudade natural, appareceria decerto aquelle cão, em
-cima d’aquelle muro, n’uma posição intelligente e nervosa,
-com sol a illuminal-o fortemente de um lado!...
-N’esta ultima carta, ainda se lembrava nitidamente de
-toda a visinhança, designando cada um com o seu nome
-por extenso e acrescentando-lhe <i>o alcunho</i>. <i>Á senhora</i>
-Engracia do Repolho, por exemplo, aconselhava
-a que mandasse o seu Antonio para <i>aquella</i>, affirmando-lhe
-de um modo cathegorico «que ali é que se ganhava
-dinheiro e <i>se fazia a gente homem</i>».</p>
-
-<p>O sachristão, tendo soletrado meditadamente, por
-tres vezes, toda essa extensa carta, saíu de casa para
-a levar ao padre Beiral, o mais circumspecto dos ecclesiasticos
-visinhos!... Era um homem pacato, com
-algumas impaciencias veniaes, com muitas impertinencias
-de achaques, lembrando-se, sempre que lhe perguntavam
-pela saude, que vinha a morrer da bexiga, pelo
-que batia com dois dedos no baixo ventre exclamando:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_22"></a>[22]</span></p>
-
-<p>—Ah! vem a ser d’aqui... D’aqui é que hei de ir
-para os anjinhos como o João Thomaz!...</p>
-
-<p>O João Thomaz era um seu antigo condiscipulo, que
-morrera parochiando na freguezia limitrophe!...</p>
-
-<p>Na sua comprida varanda telhada e soalheira, é que
-o Beiral reproduzia as suas queixas, cumprindo, já se
-entende, regularmente com as suas resas!... Interrompia-se
-sómente para deitar <i>um milhinho</i> ás gallinhas, que
-esgravatavam no quinteiro e que logo ao verem-n’o passear
-de lado para lado, faziam cácárácá... Mas, todos
-os seus peccados, vinham de que os porcos, impacientes
-e gulosos, afugentavam as aves com grunhidos, com
-impulsos de focinho, o que, para elle, era mesmo uma
-damnação... Por isso o ecclesiastico, com pequenos
-gestos de frenesi, quando isto succedia, voltava á cesta
-do milho, tomava novamente a mão cheia, e espalhava-o
-habilidosamente no quinteiro, com um largo gesto
-de orador que abrange um auditorio. As gallinhas,
-já conhecedoras d’esta artimanha, logo que sentiam o
-crepitar do grão sobre as pedras do quinteiro, corriam
-precipitadamente de todos os lados, com as azas abertas,
-os pescoços alongados, as mandibulas promptas,
-e principiavam a comer soffregamente, antes que chegassem
-de novo os porcos.</p>
-
-<p>No momento em que entrou na varanda o sachristão,
-remoía, o padre Beiral, as ultimas palavras da sua
-resa. O pae do <i>brazileiro</i> disse-lhe do fundo da escada
-de pedra, mostrando-lhe um papel azul, com um bom
-riso de contentamento:</p>
-
-<p>—Cá a temos, senhor!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_23"></a>[23]</span></p>
-
-<p>O ecclesiastico abriu-se tambem, n’um riso expontaneo
-e exclamou:</p>
-
-<p>—Não t’o disse eu?! O rapaz não se esquecia...
-Lá por não teres na ultima barca, não é que se não
-lembrasse.</p>
-
-<p>—Vae muito bem, com a ajuda de Deus que tudo
-manda, vae muito bem!</p>
-
-<p>—Está bom, homem. Entra cá para cima.</p>
-
-<p>E n’uma voz mais baixa:</p>
-
-<p>—Que diabos de porcos aquelles! São o vivo demonio.
-Ó Maria—chamava. Anda cá rapariga!</p>
-
-<p>Do lado do quintal respondeu uma voz sadia, n’um
-tom malcreado e agudo:</p>
-
-<p>—Que é, senhor?</p>
-
-<p>—Aquelles porcos que rompem o lençol... Deixa
-lá Manuel... Vem cá p’ra cima que a rapariga arranjará
-isso. Com que então o teu Zé escreveu e dá bôas
-noticias!... Muito bem, muito bem...</p>
-
-<p>—Aqui lh’a trago...—certificava com rosto satisfeito,
-apresentando uma carta de papel azul, pautado,
-muito fino, que lhe rangia entre os dedos. Trazia-a
-cuidadosamente dobrada, tendo rasgado unicamente a
-parte collada pela obreia vermelha e quadrangular.
-Mostrava com orgulho o talho da letra commercial do
-sobrescripto, os carimbos de tinta atijolada, os dois
-sellos azues, representando a dôce efigie do imperador,
-com a sua fina barba-toda. Depois, para que o
-ecclesiastico visse o que o seu Zé dizia, abriu melindrosamente
-a carta, e entregou-lha affirmando em seguida:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_24"></a>[24]</span></p>
-
-<p>—Leia, senhor, leia que <i>está-the</i> mesmo um <i>home</i>.
-Falla com uma cabeça!...</p>
-
-<p>E, ao pronunciar estas simples palavras, tinha lagrimas
-orgulhosas, por ter um filho que <i>não merecia a
-Deus Nosso Senhor</i>.</p>
-
-<p>O Beiral disse-lhe:</p>
-
-<p>—Confesso-t’o agora Manuel. Nunca pensei que fosse
-para lá fazer boas cousas. É bem certo o dictado:
-«Quem bom é, em toda a parte se salva.»</p>
-
-<p>E, com a inflexão do homem que conhece muito o
-mundo, acrescentou com uma reserva premeditada:</p>
-
-<p>—Olha que as más companhias por esse universo fóra
-são muitas. Digo-t’o eu, Manuel, que são muitas.</p>
-
-<p>Depois, com os seus bons oculos de aço, que primeiro
-limpou ao forro da batina, tomou a carta aberta,
-pol-a á distancia do comprimento do braço, e, com signal
-approvativo de cabeça, disse com voz cantada:</p>
-
-<p>—Apre! Bonita letra! Meu sobrinho sempre disse
-que para cousas de escripta era um dos que tinha mais
-geito. Do que elle não gostava, era que o teu filho andasse
-por esses montes aos ninhos. Lá com isso damnava-se.
-Todos os caçadores são assim... Que lhes matem
-a criação nos ninhos, não gostam nada!...</p>
-
-<p>E ria de um modo secco e breve.</p>
-
-<p>—Saiu-me um rapaz que não mereço ao Altissimo.
-Leia essa carta, senhor!—considerou o pae do <i>brazileiro</i>,
-com uma pronuncia sensibilisada e lacrimosa.</p>
-
-<p>O clerigo continuou:</p>
-
-<p>—Está bom, o rapaz sabe da cortezia. «Meu presadissimo
-pae.» Meu sobrinho puxou-te bem por elle.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span></p>
-
-<p>—Estou-lhe obrigadissimo. Isso ainda que ponha a
-cara onde elle põe os pés...</p>
-
-<p>—Não lhe pagas não, pódes dizer—concluiu convencido.</p>
-
-<p>E continuou a lêr n’um tom pausado, cheio de cadencia,
-pronunciando com inflexão approvativa de elogio...</p>
-
-<p>—«Desejo ir, muito brevemente a <i>essa</i>, para dar
-alegria a meu pae.» Não tem duvida, é bom filho. Ha
-quantos annos foi?</p>
-
-<p>—Faz seis lá passante o S. João que vem.</p>
-
-<p>E o ecclesiastico, como recordando-se, confirmou:</p>
-
-<p>—É verdade. Agora me lembro. Quando me veiu
-dizer adeus, dei-lhe peras das que tenho d’esse tempo.</p>
-
-<p>O sachristão acrescentou melancolicamente.</p>
-
-<p>—Parece que foi honte, senhor!...</p>
-
-<p>—E queres vêr o que elle diz aqui abaixo?! «Diga
-á tia Engracia do Repolho que mande o Tone para
-<i>esta</i>.»</p>
-
-<p>—Logo lá hei de ir—affirmou com simplicidade o
-sachristão.</p>
-
-<p>O Beiral interrompeu com energia:</p>
-
-<p>—É malhar em ferro frio! Um grande brejeiro, é
-que elle é. Não sae ao teu, que por andar com elle tambem
-cheguei a pensar que ficasse por ahi um...</p>
-
-<p>E remoeu longamente a lingua na bôca, para concluir
-com os beiços alongados e as proeminencias malares
-vermelhas:</p>
-
-<p>—... um <i>meliante</i>.</p>
-
-<p>O sachristão atalhou com serenidade orgulhosa:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span></p>
-
-<p>—Elle tinha um pae! Vossa Senhoria bem sabe, que
-não punha nada em lhe atirar os braços a terra, em
-lhe pôr os ossos n’um feixe!...</p>
-
-<p>O Beiral respondeu:</p>
-
-<p>—Deste-lhe a criação. Elle não era dos mais quietos
-(e sorriu bondosamente), valha a verdade que não
-era dos mais quietos; mas soubeste ser pae. Nunca foi
-como esse brejeiro, esse grande tratante, que me escangalhou
-uma videira o anno passado (enthusiasmava-se
-gradualmente), e me roubou as uvas que eu tinha
-ali para uma necessidade, para uma doença! Sabes?
-aquella videira lá do outro lado, ao pé da porta de
-baixo, e que seccou depois!...</p>
-
-<p>O sachristão respondeu intrigado, coçando a cabeça:</p>
-
-<p>—Valha-nos a Santa Igreja!... Aquillo vae mal, senhor.
-O rapaz tem feito muitas; mas ha de encontrar
-o seu <i>home</i>.</p>
-
-<p>—O que?—diz o clerigo afogueado. O seu homem
-hei de ser eu! Uma farda ás costas! Uma farda, entendes
-tu?! Não descanço emquanto lh’o não fizer. Tenho
-muito amigo, <i>nesse</i> Vianna! Olha que lh’a arranjo.</p>
-
-<p>E ficou com um aspecto apopletico:—concentrava-se-lhe
-gradualmente o sangue nas faces, os olhos tomavam
-uma vivacidade tigrina e a voz era tremula e humida.
-Contra o <i>adoptivo</i> de Engracia ainda disse muitas
-cousas:—elle é que lhe tinha aleijado um carneiro,
-attribuia-lhe o desmoronamento de uma parede que apparecera
-no chão em certa manhã de inverno, e affirmava
-que não fôra a ventania mas sim o Antonio que lhe
-destelhara um canastro, com o fim malefico de se lhe<span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span>
-estragarem as espigas com toda a chuva de uma tempestuosa
-e terrivel noite de inverno. E concluiu assim:</p>
-
-<p>—Pódes dar graças a Deus que o teu saiu-te um
-rapaz chibante. Mas este de cá!... Este grandissimo
-maroto que me aleijou o carneiro! Bem se vê que falta
-um homem n’aquella casa! O Bernardo é um...
-um <i>cebola</i>. Já disse á Engracia que mandasse aquelle
-(não sei como lhe chame, Deus me não castigue!) para
-a terra!... Mas qual manda ou qual carapuça! É uma
-babosa pelo garotaço, e quer deixar-lhe tudo. Emprega-o
-bem!</p>
-
-<p>O sachristão, que era homem de rosto moderado,
-cheio de conveniencias, depois de ter escutado respeitosamente
-as invectivas do sacerdote, cortou-lhe assim
-a conversa:</p>
-
-<p>—Pois sim senhor... Então vou lá ao senhor mestre
-mostrar-lhe a carta do <i>meu</i>. <i>Tamem</i> lhe manda
-muitas recommendações e eu quero que elle veja.</p>
-
-<p>—Talvez o não encontres—disse o Beiral mudando
-de tom.—Aquillo, a estas horas, anda lá para o monte
-á caça. Mas chega lá sempre, a ver se o vês, que os
-professores gostam muito d’essas novidades e d’essas
-attenções.</p>
-
-<p>E quando o pae do <i>brazileiro</i> já ía no caminho, o
-padre tornou a chamal-o de cima, debruçando-se na
-varanda, para lhe dizer:</p>
-
-<p>—Mostra tambem a carta á Engracia do Repolho,
-não te esqueças, para vêr se manda esse <i>licante</i> por
-uma barra fóra!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span></p>
-
-<p>—Não tem duvida, senhor. Não me esqueço, logo
-lá vou.</p>
-
-<p>E o ecclesiastico recolhendo-se, concluiu para si, com
-um bondoso gesto de impaciencia:</p>
-
-<p>—Mas que diabo ha de ir fazer ao Brazil, aquelle
-desgraçado, se nem sequer aprendeu a escrever o seu
-nome!...</p>
-
-<p>Por isso o Beiral ficou triste, remoendo intimamente
-as suas idéas singelas e sem caracter. Sentindo o cacarejar
-espantadiço de uma gallinha, que fugia precipitadamente
-diante do focinho impetuoso de um cevado,
-tomou da cesta a mão direita cheia de milho e espalhou-o
-na largura do quinteiro, dizendo: <i>ó diabo!</i> Depois,
-com o seu olhar fixo, de pouca penetração, seguiu
-os movimentos dos porcos e das aves, pensando
-nas cousas insignificantes da sua vida baralhada!</p>
-
-<p>O sachristão, no caminho para casa do senhor Antoninho,
-levava na mão esquerda, a carta cuidadosamente
-dobrada. Todos a viam—era de fino papel azul, que
-rangia entre os dedos, um papel bem conhecido. As
-pessoas que o encontravam e que haviam recebido noticias
-dos filhos que tinham no Brazil, contavam-lhas
-miudamente. Aquelles a quem faltava carta, havia muitos
-annos, mostravam-se tristes, desconsolados, impertinentes
-na conversa, quasi invejosos, querendo duvidar
-das felicidades que se deprehendiam d’aquelle venturoso
-papel!</p>
-
-<p>O Manuel, como não encontrou na aula o senhor
-professor, desceu a um caminho para ir a casa da Engracia,
-com a intensão reservada de lhe ler a carta,<span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span>
-acrescentando-lhe os commentarios favoraveis do padre
-Beiral. Porém a mulher do Repolho não estava para o
-aturar e disse-lhe, com modo desabrido, que não queria
-receber conselhos e que «quem lhe encommendára o
-sermão que lh’o pagasse». Não admirava este azedume
-a quem soubesse que lhe tinha morrido, n’esse dia, um
-touro que valia oito moedas! A perda irritara-a, o modo
-furtuito como acontecera <i>essa desgraça</i> indispozera-a
-para ouvir o sachristão, que, offendido pelas respostas
-aggressivas de Engracia, respondeu, tambem melindrado:</p>
-
-<p>—Ó santinha, eu tenho lá nada com as suas cousas,
-com os seus touros!...</p>
-
-<p>—Pois tambem eu não me importo com as suas riquezas!
-O seu filho, se tem muito, que se levante de
-noite da cama, para o comer!</p>
-
-<p>E, com um estrepito insolente, bateu-lhe com a porta
-na cara.</p>
-
-<p>O pae do <i>brazileiro</i>, que era um homem moderado
-e bem fallante, offendeu-se com isto, perdeu a cabeça
-e, ao retirar-se, ainda disse, voltado para a porta que
-se fechára, com uma voz alta e insolente:</p>
-
-<p>—Ah! minha tronga! O que tu querias era um bom
-fueiro n’esse costado! Fosses minha mulher, que te
-não havia de faltar!</p>
-
-<p>Engracia, que percebeu este alanzoado, ainda veio
-fóra para lhe responder, e disse:</p>
-
-<p>—Olhe, dê lá <i>retolicas</i> na sua casa! Alguem cá o
-chamou?! Ora o diabo do camello!</p>
-
-<p>O Manuel, na volta para casa do Beiral, repetiu o<span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span>
-que se passára com a mulher do Repolho, acrescentando:</p>
-
-<p>—Se Vossa Senhoria lhe arranja uma farda para o
-meliante, ganha o céu! Era uma bem pregada! Elle
-anda por ahi a fazel-as gordas; mas ha de encontrar o
-<i>seu homem</i>!</p>
-
-<p>O sacerdote, novamente indignado, certificou-lhe:</p>
-
-<p>—Oh! se encontra! E hei de ser eu, já te disse! Isso,
-a farda, tem-n’a elle tão certa como dois e dois serem
-quatro...</p>
-
-<p>E depois de um silencio reflectivo, o Beiral concluiu:</p>
-
-<p>—Que a Engracia não é má mulher; mas anda com
-a cabeça perdida com o brejeiro! Lá essas arenegações
-d’ella, não faças tu caso. Olha que perder, não
-faz bom cabello. A gente, quando lhe succede uma desgraça,
-não sabe o que diz.</p>
-
-<p>A proposito, o Beiral narrou pelo miudo o <i>caso do
-touro</i>; porque o sabia. Tinha-lh’o contado a Feliciana,
-que presenceara tudo, que vira caír o demo do bicho
-da ribanceira abaixo, espapando-se no caminho. Andava
-o animal, com outro gado, no campo a pastar. Parecia
-que trazia o mafarrico no corpo; porque todo o
-santo dia o viram n’uma constante brincadeira, a escornar
-os outros, a dar corridas em vez de comer socegado!
-Parecia mesmo doido, a fugir pelos campos
-com a cabeça estendida para diante, o rabo levantado
-em fórma de pau de bandeira, e a extremidade felpuda
-ondeando, como um pennacho! Depois, quando chegava
-a uma beira alta, estacava de repente a olhar para<span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span>
-o longe muito tempo e, raspando no chão com um
-pé, continuava a comer muito de vagar, como se nada
-tivesse sido com elle! Passado algum tempo vinham-lhe
-novos caprichos, nova maluquice e corria para os
-bois a escornal-os, a provocal-os á lucta, á corrida, ao
-salto... O pastor bem lhe fallava, bem lhe berrava,
-mas era o mesmo que nada! Por fim determinou não
-fazer caso d’elle e deixal-o lá, chegando mesmo em
-certos momentos a tomar interesse, a sorrir-se inconscientemente,
-quando o touro atravessava vistosamente,
-dando pulos, por entre as arvores. O pastor era um
-rapasito de doze annos, com a cara manchada de nodoas
-de terra, o olho vivaz, vestido com uma camisa
-de tomentos muito suja, e umas calças remendadas.
-Estava a olhar risonho e irreflectidamente para o animal,
-quando elle passou de uma vez com mais furia, com
-as pernas muito abertas, o dorso arqueado, a cauda
-horisontal, a cabeça baixa, dando saltos cheios de capricho...
-Ia na direcção da estrada, para o lado onde
-havia um muro alto! Corria n’uma vertigem, com um
-impeto louco e, o rapazito, esperava vel-o parar rapidamente,
-antes de chegar á extremidade! Porém não
-succedeu assim! D’esta feita venceu mais que a largura
-do campo, saltou o muro e caiu em baixo, no fundo
-caminho pedregoso, dando um forte berro, ao mesmo
-tempo estridente e lamentoso, que foi echoar nas
-cavidades dos montes proximos. Ficou instantaneamente
-morto e a Engracia teve de o vender aos marchantes
-da villa proxima que, no dia seguinte, poderam dar
-carne a pataco o arratel!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span></p>
-
-<p>Ora, foi por causa d’esta perda de moedas, que Engracia
-estava azuada e respondeu mal ao sachristão,
-que ía lá para lhe dar conselhos, sem lh’os pedirem!...</p>
-
-<p>O Beiral terminou conceituosamente:</p>
-
-<p>—Isto de perder não faz bom cabello... Coitada!
-Tu bem sabes que não faz bom cabello... Coitada!</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span></p>
-
-<h3>III</h3>
-
-<p>Quando o Antonio chegou aos vinte annos feitos, já
-tinha esquecido completamente a aldeia risonha onde
-nascera e o rosto bom de sua irmã Quina que, por
-seu lado, se o encontrasse, tambem não seria capaz de
-reconhecer o seu amigo de infancia, n’este homem barbado,
-com modos bruscos de feirante, com gestos insolentes
-e desordeiros de troquilha!... E tanto se habituou
-a ter vida vagabunda, que nos ultimos tempos,
-não dormia em casa de seus paes adoptivos, metade
-dos dias de cada semana!... Andava pelas tabernas,
-de feira em feira, n’uma vida accidentada e bulhenta,
-sempre em companhia de outros <i>feirantes</i>, e da Marianna
-Ripa, sua amasia!... Esta Marianna Ripa era
-uma mocetona alta, bem proporcionada, com certa vivacidade
-vaidosa e impudica!—uma creatura demoniaca,<span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span>
-cheia de tentações malditas, infelismente appetecidas
-pelos fracos da carne, pelos numerosos peccadores
-de todos os tempos!... Nos seios altos e avolumados,
-nos quadris largos, a que ella dava geitos lubricos,
-quando andava, para fazer assim ondular as saias de
-côres vivas e excitantes... residiam as tentações infinitas
-das lendarias Magdalenas, antes do santo dia do venturoso
-arrependimento!... As feições rasgadas e energicas
-accentuavam-lhe o caracter dominador, que melhor se
-lhe reconhecia no olhar cheio de impudencia e lubricidade!
-A sua vida passava-se pelas feiras, entre troquilhas,
-com os quaes se entendia nos ajustes de gados,
-bebendo como elles por copos de meia canada, interessando-se
-nas suas vendas e trocas! O predominio que
-Marianna exercia sobre o Fogueira, depois que era sua
-amasia, todos os companheiros d’elle, o Rio-Tinto, o
-Fanfarra... o sabiam. Era ella que muitas vezes o impedia
-de ir a casa, dando-lhe conselhos malditos, indusindo-o
-a que abusasse da affeição que Engracia e
-Bernardo lhe tinham, para lhes <i>pilhar tudo em vida</i>!...</p>
-
-<p>—Porque—insinuava-lhe a moça—pode-te acontecer,
-como lá a um rapaz da minha freguezia... Ateve-se
-ao que a madrinha lhe havia de deixar por morte,
-não se segurou nas cousas a tempo e, vae a bebeda
-da velha, roeu-lhe a corda e lá se foi tudo!... Em
-vez de lhe testar a elle os campos, como tinha promettido,
-metteu-se com a coruja, um tratante de um padreca,
-que lhe principiou a contar tantas lonas, que a coira
-vae deixar tudo lá a uma confraria e o asno ficou a
-chuchar no dedo!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span></p>
-
-<p>Estas idéas allucinavam o cerebro do adoptivo da
-Engracia, que depois de escutar Marianna, ficava mais
-estonteado do que tivesse bebido, de uma assenada,
-uma canada do rascante!... No entanto a verdade é
-que esta vida mundana de feirante, na companhia da
-Marianna e dos seus amigos, quadrava-lhe, era sympathica
-áquella organisação impetuosa!... Os seus modos
-estouvados, os seus arremeços selvagens e doidos
-pelos quaes era notado entre troquilhas, é que já lhe
-tinham garantido o alcunho de «<i>Fogueira</i>». Alem d’isso,
-como era franco, generoso—um mãos rotas—os que o
-cercavam, a Ripa principalmente, entendia que se o
-seu amante viesse a obter qualquer cousa da herança
-da mãe, era certo que alguma parte lhe caberia!...
-Por isso o aconselhava d’aquelle modo, e todos o lisongeavam
-com blandicias intencionaes.</p>
-
-<p>Foi por este tempo, e n’uma das occasiões em que
-o Antonio andava por fóra, que succedeu <i>a desgraça</i>
-de que morreu o Bernardo Repolho:</p>
-
-<p>Era um dia chuvoso; via-se a cumiada dos montes
-coberta por densas nevoas designativas de chuva prolongada!
-Soprava um vento forte, que produzia na amplitude
-dos campos uma ondulação uniforme nos arvoredos.
-Como se estava verdadeiramente no coração do
-inverno, no mez de fevereiro, os campos e os montes
-sem flores e sem folhas, tinham um aspecto duro de
-severidade! As chuvas, em grossas bategas, acompanhadas
-de fortes saraivadas, batiam rijamente nos telhados
-com uma crepitação ruidosa e aspera, que se continuava,
-durante horas! N’um d’estes dias de invernia<span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span>
-teimosa e tristonha é que o Bernardo Repolho teve
-necessidade de ir buscar uma carrada de barro, do
-qual muito precisava para arranjar o seu forno!...
-Por isso, na primeira aberta illusoria, mandou o Chico
-tirar os bois da côrte, cangou-os, pol-os ao carro e
-partiram... A barreira era na encosta de um monte alto
-e muito ingreme. Bernardo e o Chico, quando íam pelo
-caminho, já descortinavam ao longe, essa excavação de
-um alaranjado irritante, que sobresaía no terreno circumjacente,
-melhor do que a mancha clara de uma eira.
-Como o barranco estava logo por cima da estrada de
-carro e, para chegar lá, bastava subir um estreito carreiro
-em declive, Bernardo disse ao rapasito que ficasse
-á sôga dos bois, que eram novos e muito espantadiços,
-emquanto elle ía cavar o barro e acarretal-o. Porém,
-quando chegou acima e viu no fundo da barreira
-uma tamanha accumulação de agua da chuva que, para
-a atravessar, tinha de se arregaçar, sentiu uma impressão
-desfavoravel, e inconsideradamente disse:</p>
-
-<p>—Diabo! Que mar!...</p>
-
-<p>Na realidade a chuva, durante a noite, tinha sido mais
-copiosa do que elle pensára! Escorrera em grandes
-enxurradas pelo monte abaixo e infiltrara-se, abrindo
-fundas guellas no terreno, vindo accumular-se no fundo,
-formando uma especie de larga poça. O Bernardo
-reconheceu perfeitamente, que para tirar o barro, só
-o podia fazer do logar onde as fendas estavam ameaçadoras
-e escancaradas, como guellas de lobo uivando!
-Porém, com a ajuda de Deus, o Repolho aventurou-se
-e, puxando as calças até ao joelho, metteu-se<span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span>
-á agua com o fim de passar... O perigo a que se foi submetter
-era evidente, a barreira suprajacente parecia
-estar quasi a esboroar-se... porém o marido da Engracia
-foi para diante, sem preoccupação nem receio,
-principiando a dar sacholadas bem puchadas, para aproveitar
-aquella <i>aberta</i>! N’esse momento é que passava
-pelo lado de cima um visinho que lhe disse:</p>
-
-<p>—Oh! diabo. Com este tempo ao barro, é por força
-sangria desatada!</p>
-
-<p>Bernardo, voltando-se para elle, respondeu com a sua
-cara de bom homem:</p>
-
-<p>—Ah! Es tu Joaquim? É que tenho lá o forno a caír,
-precisa a patroa de coser o pão e, vae por isso, vim
-buscar esta carrada...</p>
-
-<p>O outro observou-lhe com penetração:</p>
-
-<p>—Mas tu ahi não estás bem, home! Esta terra pode-te
-caír em cima.</p>
-
-<p>Bernardo considerou despreoccupado:</p>
-
-<p>—Ora, logo havia de caír, n’um migalhito que eu
-aqui me demoro! Não cae.</p>
-
-<p>—Não cae!—insistiu Joaquim. Não era o filho de
-minha mãe, que se ía metter ahi. Se se esbarronda,
-ficas ahi espapado, como um sapo. P’ros filhos que
-tens!... Olha, tu lembras-te d’aquelles dois homes,
-que ficaram enterrados na barreira lá em baixo?! Foi
-uma cousa assim, por causa da chuva.</p>
-
-<p>Bernardo recordou o facto dizendo:</p>
-
-<p>—Ah! bem sei. Isso foi n’um domingo. Se te parece,
-trabalhar ao domingo!... Foi um castigo.</p>
-
-<p>—Home, não é domingo, nem meio domingo. A barreira<span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span>
-caíu-lhes em cima e matou-os. Tu ahi não estás
-bem. Eu cá mandava a cosedura do pão p’rás profundas
-do inferno e vinha outro dia buscar o barro! Vê
-lá no que te mettes. O diabo arma-as.</p>
-
-<p>—Á sorte de Deus—rematou Bernardo com resignação.</p>
-
-<p>E continuou a cavar, com pressa, aproveitando o bocanho,
-que não durou muito. Uma chuva pesada e forte,
-principiou a caír sobre os arvoredos, produzindo
-o fremito de muitos enxames de zangões! A atmosphera,
-densa e opaca, de uma côr uniforme entre o
-cinzento e o azul, a côr da agua <i>pulverisada</i>, obscurecia
-os objectos distantes. O vento impetuoso impellia
-a chuva, produzindo no ar ondulações extensas e regulares.
-Os ramos delgados das cerdeiras, dobravam-se
-passivamente. O rapasito, que ficara no caminho,
-guardando os bois, aconchegava-se, tiritando, ao velho
-corucho de palha, que o cobria. Os seus pés vermelhos,
-lavados pela chuva, estavam sobre a lama. As mãos escondia-as
-nos sovacos para as aquecer. Com o fim de
-se abrigar do vento que passava zumbindo, mettia-se
-por detrás dos bois, conservando a aguilhada encostada
-a si. Os seus cabellos castanhos, de um comprimento
-desleixado e desigual, empastavam-se-lhe na testa.
-O olhar era mortificado e de paciencia; porque a tia
-Engracia, nos seus pessimos momentos de genio irrascivel,
-batia-lhe; e o Antonio dava-lhe pontapés immerecidos.
-Por isto, e porque era engeitado, é que o
-Bernardo Repolho, um homem compadecido, mais se
-lhe affeiçoara... Porém esta amisade, nunca obstou a que<span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span>
-sua mulher o esmurrasse desalmadamente e a que,
-seu filho adoptivo, lhe désse pontapés que o atiravam
-de focinhos!...</p>
-
-<p>Como a chuva engrossava de cada vez mais, o Repolho
-chamou o Chico, para se recolher na cova onde
-elle se abrigára da chuva, recommendando-lhe, ao mesmo
-tempo, que calçasse o carro para os bois não fugirem.
-Então o rapaz, pegou n’uma grande pedra, supezando-a
-contra o peito e foi-a atravessar diante das
-rodas do carro. Depois, unindo-se muito ao seu corucho,
-para se agasalhar, subiu a ladeira, saltou o portello
-e, inclinando instinctivamente o tronco, correu pelo
-monte acima, entrando no barranco por um carreiro.
-Elle e seu amo ficaram ambos abrigados sob aquella
-mesma abobada de terra que, na opinião do Joaquim
-Moita, quanda fallára a Bernardo, podia esbarrondar-se
-e matal-os n’um prompto—n’um abrir e fechar de
-olhos. Mas elles achavam-se ali bem, n’um silencio
-meditativo, diante das montanhas, cuja corpulencia se
-confundia no esfumado da chuva copiosa. Como o vento
-soprava do sul, não os incommodava. Bernardo estava
-em pé, com a sachola encostada ao hombro e
-o Chico agachado junto d’elle. Conservaram-se algum
-tempo calados, olhando distraidamente para o ar, que
-tinha impulsos ondulatarios como o das vagas, para
-os campos subjacentes de um verde esmorecido, para
-as arvores proximas que se vergavam á força da
-ventania. O Repolho entreteve-se alguns minutos a considerar
-como as gotas da chuva tornavam aspera e
-irregular a superficie da agua barrenta, que se accumulára<span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span>
-no fundo da barreira!... O rapasito, sentado
-sobre os calcanhares, olhava para os montes distantes,
-contando mentalmente o numero de cabeços, nunca
-acertando com quantos eram!... Porém a chuva carregava
-de cada vez, com mais impeto, e o velho disse
-com tristeza:</p>
-
-<p>—Santo nome de Maria, que tempo este!</p>
-
-<p>O Chico observou:</p>
-
-<p>—Parece que hoje não podemos carregar, tio Bernardo...</p>
-
-<p>—Estou-t’e a ver que sim, home! E isso é que é
-uma da breca!</p>
-
-<p>—Então vamos já para o lume—aconselhou o rapaz.
-Estou com um frio, que nem sinto.</p>
-
-<p>Bernardo respondeu com voz reprehensiva, mas benevolamente:</p>
-
-<p>—És maluco! E tua ama? Se apparecemos lá sem
-o barro para compor o forno, faz ahi uma pregação de
-seiscentas pipas! Isso, ainda que se esteja até á noite,
-havemos de o levar!</p>
-
-<p>Calaram-se, conservando-se ambos n’uma taciturnidade
-ingenua e triste! Um travesso pardal, dando pios seccos
-e asperos, saltava nos ramos de um carvalho proximo,
-alegremente despreocupado. A chuva caía de cada vez
-em maior abundancia! O som gemebundo do vento estendia-se
-amplamente pelas quebradas, com o seu ulular
-maguado, de uma longa plangencia funeraria!</p>
-
-<p>As enxurradas cresciam, descendo com impeto pelos
-montes. Este sussurro aspero e saliente lançava
-uma discordancia rebelde no assobiar espaçado do vento<span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span>
-na amplidão! O Bernardo Repolho e o Chico escutavam,
-com semblantes dependentes d’este ruido das
-aguas que se aproximavam! O barulho vinha crescendo
-para elles, precipitando-se de barranco em barranco!
-Ambos calculavam mentalmente, prevenindo-o, sem
-o menor susto, sem a menor idéa de perigo, que os
-enxurros d’aquelle monte, tendo de se vir reunir nos
-pontos mais baixos, juntariam as suas aguas áquellas
-que ali estavam no fundo da barreira, diante dos seus
-olhos indifferentes... Na realidade, pouco depois as
-largas fendas abertas na terra ao lado d’elles, principiaram
-a vomitar as aguas que vinham do alto monte!...
-O seu volume crescia de uma maneira incongruente e
-precipitada!... A principio tinha-se ouvido sómente um
-sussurrar brando, um <i>ou-ou</i> de mar distante... Em seguida
-esse barulho foi-se engrossando, foi enrouquecendo
-de um modo cada vez mais antipathico e aproximava-se
-rapidamente, como a voz stertorosa de um
-trovão, que viesse do lado das montanhas... Por fim,
-quasi inesperadamente, sentiu-se um estampido rapido,
-juntou-se-lhe um estrondo abafado e terrificador,
-que pareceu surgir das profundas entranhas da terra!
-Durou apenas alguns segundos!... Porém, tanto
-Bernardo como o seu pequeno creado, não tiveram
-tempo de comprehender o que seria!... A enorme
-barreira, sob a qual se abrigavam da chuva e do vento
-tempestuoso, caíu sobre elles, com a brutalidade
-inconsciente de um grande penedo que se tivesse desprendido
-de um alto pincaro e sepultou-os de um modo
-fulminante!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span></p>
-
-<p>Assim morreram estas duas creaturas, indifferentemente,
-por esta fórma singela e e pallida!</p>
-
-<p>O visinho, que predissera ao Bernardo Repolho a
-desgraça que lhe podia acontecer, estava a certa distancia,
-abrigado da chuva sob um velho carvalho ramudo,
-e presenciou a catastrophe! Foi elle que a descreveu
-nas suas mais insignificantes particularidades,
-fallando e gesticulando animadamente, como quem se
-tinha encontrado, mais ou menos envolvido n’este acontecimento
-obscuro da morte de um homem e de um
-pobre engeitado, verificado em circumstancias de um
-tão vigoroso effeito theatral! E por que os seus conterraneos,
-que o escutavam com os olhos abertos e muito
-pasmados, tiveram a simploria idéa de attribuirem o
-successo a artimanhas infernaes, dizendo: «o demonio
-arma-as», o Joaquim exclamou com certa intimativa volteriana
-e vivamente resentido para com o morto Bernardo
-Repolho, que despresára os sensatos conselhos
-que elle lhe dera:</p>
-
-<p>—Qual demonio nem meio demonio! Foi a cabeça
-d’elle que não regulou, é o que foi! Eu bem lh’o disse:
-«Home, tu ahi não estás bem». Mas elle que era
-muito teimoso, respondeu-me assim com a sua cara
-de lorpa e de <i>bom serás</i>: «Ora, não ha de ter duvida,
-se Deus quizer...» Não tinha duvida, não tinha duvida,
-mas foi morrendo, espapado! Ficou mesmo como
-um pato, sem dar um pio! Assim é que elles se ensinam!...
-O <i>não tem duvida</i> foi o que se viu!—rematou
-com modo triumphante, quasi de uma vingança satisfeita!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span></p>
-
-<p>Uma rapariga nova, uma engeitada de cara sardenta,
-com os cabellos mal penteados, e que escutara attentamente
-a narrativa, tomou a deixa de Joaquim da
-Moita e interferiu com esta observação:</p>
-
-<p>—Ai! não tem duvida não tem duvida! Por causa
-do não tem duvida, é que pariu minha mãe!</p>
-
-<p>Toda esta gente, depois que a chuva passou, se dirigiu
-ao logar onde o caso succedera. Pelo caminho íam,
-conversando, em magotes. Algumas mulheres, relembravam
-com voz emphatica, como de quem dá um esclarecimento,
-que tinham visto n’esse mesmo dia Bernardo,
-caminhar para a morte, de pé, em cima do seu
-carro, com a aguilhada encostada ao hombro, na despreoccupação
-serena de um predistinado! O rapasito que
-tambem morrera debaixo da terra, o Chico, ía á soga,
-todo encolhido, coberto com o seu corucho, berrando
-aos touros, que puchavam mal, encostando-se com teimosia
-um ao outro... Certas pessoas referiam insignificancias
-da vida do Repolho dando-lhe certo valor, fazendo-as
-sobresaír, e recordavam as ultimas palavras que
-lhe tinham ouvido, ainda mesmo n’aquelle dia, horas antes,
-quando passára em frente da porta da Anna Benta!...
-Bernardo tinha dito, com aquelle seu bom modo
-triste «que estava um inverno de se pedir misericordia
-a Deus Nosso Senhor!...» e a Rosa Viuva, queria
-fazer acreditar a todas as pessoas presentes, que taes
-palavras significavam que o homem de Engracia tivera
-uma voz de dentro do coração, que lhe predissera a
-morte!... E como alguns homens incredulos lhe retorquiram:
-«Isso póde lá ser!» ella recordou tambem outra<span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span>
-phrase saliente, que tinha ouvido ao mesmo Bernardo,
-no domingo precedente, ao saír da missa: «Isto
-não está tempo cá para os velhos, mulher!... Com
-esta invernia caímos ahi como tordos!...» E assim
-tinha succedido, não chegou a durar oito dias!... Por
-isso, todos vieram a concordar, que o pobre homem
-adivinhara o seu fim, o triste fim que havia de ter de
-baixo de uma barreira!...</p>
-
-<p>Ao logar do sinistro, onde já estava muito povo reunido,
-chegaram as auctoridades, para se desenterrarem
-os cadaveres. Vinha o cirurgião, o José Pandega,—um
-rapaz de bigode e pêra como os soldados, que,
-farto de andar a estudar latim em Braga durante nove
-annos, arranjou depois um emprego no telegrapho,
-onde tambem se não deu bem, tomando por fim a resolução
-de ir receitar cosimentos e mesinhas aos seus
-conterraneos, pelos mesmos livros de veterenaria por
-onde, um velho frade, seu tio, medicamentára, durante
-muitos annos, as populações doentes d’aquellas freguezias!...
-Este ecclesiastico, a quem ninguem negou
-as faculdades do maior philosopho das redondezas, tinha,
-entre muitos, um notavel aphorismo, que eu aqui
-divulgo á sciencia absorta e que o sobrinho acceitava
-pelo achar frizante e consolador: «Os burros são do mesmo
-modo que a gente, para a medicina, por consequencia—rematava
-voltando-se para os seus doentes—paparoca
-e beberoca, sedênhos para a frente, esfregações
-de agua forte, algumas cataplasmas e deixa-te andar
-que, se morreres, é só uma vez». Com o Pandega vinha
-o senhor Agostinho Manco, juiz eleito, um homem<span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span>
-magro que fôra da <i>bicha</i>. Logo em seguida appareceu
-o regedor, conhecido pela alcunha do Antonio Cápatrás,
-um individuo vermelho, muito estupido, que só sabia
-emborrachar-se, como diziam os visinhos.</p>
-
-<p>Depois d’estes personagens chegarem é que se principiou
-a desenterrar os cadaveres! Com esse fim, quatro
-jornaleiros começaram a dar sacholadas auxiliados
-pelo Joaquim da Moita que vira morrer o Bernardo,
-e que limitou o trabalho, indicando-lhes o sitio provavel,
-onde poderiam estar os defuntos. Todas as pessoas
-presentes, principalmente as mulheres e creanças, tomadas
-de uma curiosidade invejosa, empurravam-se
-reciprocamente, procurando com avidez os sitios que julgavam
-melhores, para presenciarem tudo que se passasse.
-Para isso iam collocar-se nos pontos mais eminentes,
-e algumas em logares perigosos!... O cirurgião
-Pandega, reconhecendo com a sua prespicacia illustrada,
-que a filha da Rosa Trinta não estava bem, disse-lhe
-de longe, com voz de auctoridade:</p>
-
-<p>—Ó diabo de rapariga, sae d’ahi que te póde acontecer
-o mesmo! Se se esbarronda essa terra ficas espapada!...</p>
-
-<p>E acrescentou, com um modo ligeiro e superior, repuchando
-a sua comprida pêra:</p>
-
-<p>—Isto de gente estupida não se póde aturar de modo
-algum!...</p>
-
-<p>A rapariga obedeceu sem retorquir e mudou-se para
-cima de um muro, d’onde reconheceu que tambem
-podia ver tudo... Porém, pelo lado de baixo estava o
-meliante do José Teixugo, espreitando-lhe as pernas<span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span>
-com olhadellas peccaminosas!... A Rosa Trinta, percebendo
-a immoralidade, advirtiu de longe sua filha:</p>
-
-<p>—Ó Tonia, não vês esse maroto do Teixugo a olhar-te
-p’ras pernas! Tira-te d’ahi, anda.</p>
-
-<p>A rapariga, verificando a verdade da asseveração de
-sua mãe, ficou irritada e disse offendida, arremettendo
-com uma pedra ao rapaz:</p>
-
-<p>—Olhem o diabo do cara de foinha! Vae espreitar
-as da tua irmã! Não tens vergonha malandro? Ahhh...—rematou
-voltando-se para elle com a bôca escancarada.</p>
-
-<p>O Teixugo, rindo com um riso trocista, respondeu-lhe:</p>
-
-<p>—Olha que minha irmã talvez as não tenha tão borradas
-como as tuas! Vergonha deves ter tu, minha gata
-pellada, por andares com as pernas tão sujas.</p>
-
-<p>No entretanto o regedor, Antonio Cápatrás, e o Agostinho
-Manco, juiz eleito, revestidos da sua auctoridade
-assistiam ao acto solemne, em mangas de camisa!...
-O José Pandega recommendava aos que desenterravam
-os defuntos, que andassem de vagar, para lhe não darem
-alguma sacholada. Um d’elles disse ao cirurgião:</p>
-
-<p>—Sabe o que a gente precisava, seu Zé? Uma boa
-infusa de vinho, para este suor se não recolher p’ra
-dentro. Você que sabe d’essa cousa de sedênhos e medicinas,
-bem o entende, seu Zé.</p>
-
-<p>Por um acaso feliz chegaram n’esse momento duas
-canecas do bom rascante que a Engracia, viuva recente
-do Repolho, mandava para os trabalhadores que lhe
-desenterravam o marido. Todas as pessoas lhe applaudiram<span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span>
-a lembrança inesperada e a mulher que trouxera
-o vinho, affirmou com modo persuasivo, que fôra
-a propria tia Engracia que o fôra tirar do tonel do
-canto, que era <i>do bô</i> que tinham. Os homens, quando
-acabaram de beber, tiveram um <i>ahhh</i>... prolongado e
-satisfeito, confessando um d’elles:</p>
-
-<p>—É a melhor pinga que ha pelos arredores. O Bernardo
-queria-o vender lá para a villa, e já lhe davam
-dez moedas.</p>
-
-<p>O regedor considerou:</p>
-
-<p>—Foi bem tolo em o não beber. Se o levasse nas
-tripas, fazia melhor do que estar o poupal-o para quem
-cá fica...</p>
-
-<p>Depois de escorripicharem as duas canecas, os jornaleiros
-continuaram a cavar com mais cautela, para
-não tocarem com as sacholas nos cadaveres, como os
-prevenira o cirurgião. A primeira cousa que se descubriu
-foi o chapéu do Bernardo, humedecido e barrento. Todos
-reconheceram que era esse mesmo chapéu, esbeiçado
-e já roto, que elle costumava usar. O José Pandega,
-affirmou com certa intimativa:</p>
-
-<p>—Na cabeça d’elle é que vós o não tornaes a ver!</p>
-
-<p>Todas as pessoas confirmaram esta opinião sensata.
-Era verdade! Na cabeça do defunto, que estava debaixo
-d’aquelle barro, elles nunca mais veriam aquelle chapéu
-esbeiçado e roto!</p>
-
-<p>Pouco depois, com mais algumas enchadadas, appareceram
-os defuntos. A ultima camada de barro, foi
-tirada cuidadosamente com as mãos. Os dois cadaveres
-estavam de bruços, ambos inteiriçados, rigidos. Ao de<span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span>
-Bernardo, que era mais pesado, metteram-lhe uma tábua
-por baixo do tronco e levantaram-n’o ao ar, ficando
-o corpo aprumado, severo, com um aspecto de phantasma!
-O cadaver do rapasito do gado, como no momento
-em que a barreira se esboroou estava agachado
-sobre os calcanhares, encontraram-no dobrado sobre si
-mesmo, com a cabeça debaixo do corpo e a cara encostada
-ao peito, quebrado pela espinha. Ambos estavam
-inteiramente desfigurados, por causa da camada de
-terra adherente, empastando-lhe os cabellos, tapando-lhe
-os olhos e a bôca. Todas as pessoas presentes vieram
-agrupar-se em volta das duas tábuas, sobre as
-quaes, os mortos, permaneciam deitados de costas.
-O Chico, para o conservarem bem estendido, tiveram
-de o atar pelo tronco e pelos pés ao seu esquife provisorio
-com uma corda; porque, em virtude da rigidez
-cadaverica, tendia a dobrar-se sobre o ventre.
-Ali, diante dos corpos exanimes, o juiz, o regedor e o
-cirurgião, fallaram em dar parte d’este acontecimento
-tragico, n’um officio, ao senhor administrador, affirmando-lhe
-que a culpa d’elles morrerem, tinha sido d’elles
-mesmos, que se tinham ido metter na bôca da morte.
-Depois concluiram, que o que era necessario fazer-se-lhe
-já, era amortalhal-os, para se proceder aos <i>officios</i>
-e enterral-os, quanto antes, para não principiarem a
-cheirar!... Depois d’isto, o Pandega, lembrou-se de tirar
-o barro dos rostos sujos, e para isso foi buscar
-uma pouca de palha de uma moreia proxima, e fel-o.</p>
-
-<p>Porém, como depois d’esta grosseira limpeza reconheceu
-que os cadaveres tinham nodoas arrouxadas nas<span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span>
-faces e na testa, affirmou peremptoriamente, com modo
-decisivo:</p>
-
-<p>—Devem-se enterrar quanto antes... Ámanhã principiam
-elles a feder, que nem mil demonios! Não se
-ha de poder estar com o nariz ao pé!...</p>
-
-<p>As mulheres presentes fizeram uma momice de enjoadas
-e, cuspinhando para o lado, disseram «cachicha».
-Os homens, que tinham desenterrado os mortos, preparavam-se
-para pegar ás tábuas, onde os tinham estendido,
-com o fim de os transportarem a casa, quando
-a Caetana, uma velha beata, lhes observou n’uma voz
-de um ligeiro timbre choroso:</p>
-
-<p>—Esperae rapazes, esperae... Não os leveis assim,
-que ainda estão muito borrados. Deixae, que eu lhes
-lavo a cara...</p>
-
-<p>E para o conseguir foi buscar <i>manadas de agua</i>, que
-verteu sobre os rostos dos cadaveres. Depois limpando-os
-caridosamente com o seu velho avental de riscas
-concluiu:</p>
-
-<p>—Agora podeis ir. <i>Bão</i> mais bonitos.</p>
-
-<p>Por fim, os quatro jornaleiros, deitando um olhar
-saudoso ás canecas vasias, levaram os corpos para casa
-da Engracia. Ahi é que foram decentemente lavados
-e amortalhados para os depositarem na varanda,
-onde veio muita gente da freguezia deitar-lhes agua
-benta sobre as mortalhas e recommendal-os para a
-eternidade, com as suas resas distraídas!...</p>
-
-<p>Na varanda, o esquife de Bernardo ficou ao fundo, e
-o do Chico logo ao pé da porta... O sol entrava francamente,
-incidindo sobre os rostos dos defuntos, tornando-os<span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span>
-da pallidez indecisa da cera, com o tom roxo das
-ecchymoses enfraquecido. Ambos elles tinham uma expressão
-rigida e concentrada, propria das mortes afflictivas,
-o que se lhes conhecia nas rugas da testa, no
-apanhado dos beiços, nas palpebras fechadas com energia!
-As mãos grossas e plebeias, cruzadas sobre o peito,
-amparando um crucifixo, por effeito da humidade do
-terreno debaixo do qual estiveram horas, haviam adquirido
-uma molesa aristocratica—uma coloração branca
-de mãos estimadas. Bernardo, com a sua barba feita
-e com o cabello cortado rente, tinha, para as mulheres
-da sua freguezia que lhe cercavam o esquife, uma
-apparencia de mordomo de festa. Por isso recordavam a
-ultima vez em que elle fizera a da Senhora do Carmo,
-e, tinham bem presente diante dos olhos, a sua figura
-magra e insignificante, no primeiro logar da bancada,
-com as mãos erguidas em face do padre Beiral, quando
-este o incensou as tres vezes do rito, fazendo-lhe
-uma cortezia ao retirar-se, o que todos julgavam de
-uma polidez e de uma distincção invejaveis. A mortalha
-do marido da Engracia era mais rica do que a do Chico,
-a qual, sendo elle engeitado, lhe tinham esmollado perante
-a confraria das almas! Porém notavam que não
-differiam muito; porque ambas eram de forte panno
-violeta muito engommado, com cercaduras relusentes
-de galões metallicos, que scintillavam sob a viva luz do
-sol. As pessoas que contemplavam estes cadaveres serenamente
-deitados, ainda recordaram muitas vezes,
-relatando-o com minuciosidade, o triste modo por que
-tinham morrido, e a beata Caetana, como julgamento,<span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span>
-concluiu d’este modo a narrativa que acabava de ouvir
-pela sexta vez ao Joaquim da Moita:</p>
-
-<p>—Foram elles bem asnos em se irem metter n’aquelle
-perigo! Este Bernardo sempre foi um pascacio.
-Para deixar <i>a um</i> que nem é filho d’elle!...</p>
-
-<p>E trouxeram a pello a vida desregrada do Antonio,
-que andava sempre de feira em feira, sem parança em
-casa, vivendo no meio de jogadores e de troquilhas
-borrachos! N’esse mesmo dia tinha apparecido na porta
-da igreja a lista dos rapazes para soldados. O nome
-d’elle lá estava, entre o de outros. Havia quem affirmasse,
-que já havia ordem na villa para o prenderem,
-como <i>reflatario</i>. Certas mulheres que se queriam inculcar
-como ao corrente do que se passava, affirmavam
-que fôra o senhor padre Beiral, quem lhe arranjára
-<i>aquella farda</i>. E a este proposito recordaram as
-queixas que o ecclesiastico devia ter do filho da Engracia,
-que lhe roubara de uma vez todas as uvas douradas
-que elle tinha na sua latada, e as melhores peras
-do natal, furtadas, mesmo nas barbas do sacerdote, da
-pereira do pé da casa!... Por isso, e porque estavam
-indignados contra o rapaz, como tornando-o em parte
-responsavel d’esta morte do Bernardo, applaudiam a
-resolução, havia tempos manifestada, pelo Beiral de
-<i>pôr uma farda ás costas ao meliante</i>!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span></p>
-
-<h3>IV</h3>
-
-<p>N’essa mesma tarde foram as confrarias buscar os
-defuntos. Era uma consideração pelo nome de Bernardo
-que era <i>irmão remido</i>! Adiante de todas vinha
-a do <i>Santissimo Sacramento</i>, de opas vermelhas
-e a cruz de prata alçada, relusindo ao sol. Em seguida
-desfilava a de <i>Nossa Senhora do Carmo</i>, de opas
-brancas com murças azues, da côr do céu desbotado de
-agosto. Na bandeira que a destinguia estava pintada a
-Virgem, com a sua ridente face menineira, tendo pendente
-de uma das mãos um rosario, e da outra uns
-bentinhos! Por fim seguia-se a confraria das <i>Almas</i>, com
-a sua bandeira dolorosa na frente! Era ali representado
-o quadro terrificante do purgatorio:—um rei de
-corôa poderosa e de longas barbas patriarchaes, apoiava<span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span>
-a sua mão sobre o hombro de um bispo mitrado,
-coberto de uma rica capa de ouro, o qual estava mais
-no fundo das chammas, soffrendo, talvez sem bastante
-resignação, que o monarcha chegasse primeiro á bemaventurança!
-Ao lado d’este augusto personagem, uma
-peccadora, com as longas madeixas de Magdalena, dando
-a mão a um homem lubricamente calvo e de bigode
-e pera, trepavam por entre linguas de fogo, de
-uma iracundia terrivel, em ôca e vermelhão! Todos estes
-condemnados, e ainda outros <i>sem distincção</i>, erguiam
-olhos supplicantes e estendiam as mãos abertas a um
-anjo, que estava no alto, pesando serenamente as culpas
-e os soffrimentos de cada um, para lhes outorgar
-a remissão promettida!...</p>
-
-<p>Da confraria da Senhora do Carmo, destacaram-se
-quatro irmãos para tomarem conta do cadaver de Bernardo
-Repolho, e outros quatro da confraria das Almas
-que, por caridade, se encarregaram de conduzir o do
-engeitado... E, quando tinham tomado sobre os seus
-hombros valentes os dois esquifes, partiram pelo caminho
-adiante, para a igreja, condusindo os defuntos.
-Atraz, na casa da viuva, ficou o chôro alarmante de
-Engracia, e das visinhas que a acompanhavam, misturando-se,
-na larga amplidão ao triste dobre dos sinos
-que echoavam de quebrada em quebrada, com a sua
-nota plangente e de uma harmonia rebelde!</p>
-
-<p>No instante em que o funebre acompanhamento subia
-pela encosta da igreja, o Antonio Fogueira entrava
-na freguezia! Havia mais de oito dias que andava
-por fóra, na sua vida vagabunda de torquilha... D’esta<span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span>
-vez trazia uma egua nova, muito fugideira, que lhe
-vendera o Rio Tinto.</p>
-
-<p>O toque funerario dos sinos e o acompanhamento
-que elle viu logo de longe, surprehendeu-o, fazendo-o
-parar, e teve um baque no coração! O primeiro esclarecimento
-ácerca do occorrido, foi-lhe dado por uma mulher
-velha que vinha pelo caminho para o lado d’elle,
-vergada sob o peso de um grande molho de herva e
-que, antes de ser interrogada, lhe disse encostando-se
-com o feixe a um muro para descançar:</p>
-
-<p>—Aquelle agora, meu rico, do que precisa, é de
-muita fartura de missa, por aquella alma!—observou-lhe
-depois de um «ah!» de estafada a velha Vicencia.</p>
-
-<p>—Mas quem foi que morreu?—indagou o Fogueira.</p>
-
-<p>—Ah! sim, tu não sabes!—completou a velha depois
-de expellir o seu cançaço asmatico! Andas sempre
-lá pelas feiras, não admira. Pois toca-te pela vestia...
-Foi teu pae Bernardo, de uma grande desgraça!</p>
-
-<p>O adoptivo do Repolho impallideceu rapidamente,
-deixando cair as redeas no pescoço da egua! Vicencia
-concluiu:</p>
-
-<p>—... Uma grande desgraça, sim senhor, é como
-te digo. Caiu-lhe honte em cima da cabeça, a elle
-e ao vosso rapaz, o Chico, o monte da Cham, quando
-lá foram ao barro! Se tu não andasses sempre por essas
-feiras, em jogatina, talvez que o pobre home não fosse
-lá, com esse tempo!</p>
-
-<p>E depois, voltando-se salientemente para o Fogueira,
-exclamou de um modo reprehensivo:</p>
-
-<p>—Ora tu não mudarás de rumo! Vê se te confessas,<span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span>
-que andas n’uma vida de home perdido. Tem vergonha
-n’essa cara! Faz uma confissão <i>jaral</i>, que vem
-ahi os missionarios, grande maroto!</p>
-
-<p>O Fogueira, que era naturalmente irritavel, sentiu
-subir por elle acima uma forte ira contra a velha Vicencia.
-Porém, refreando-se, respondeu-lhe com uma
-indignação latente:</p>
-
-<p>—Você que lhe importa o que eu faço, seu diabo
-de coruja! Vou-lhe lá pedir alguma cousa?! Se não fosse,
-não sei porque, se não fosse por causa d’aquelle
-que acolá vae (alludia ao enterro que subia a encosta),
-eu lh’o diria, seu grande diabo!...</p>
-
-<p>Uma colera viva apoderou-se rapidamente da velha,
-que deixando cair o feixe da herva no chão, principiou
-a gesticular, sem encontrar no momento as verdadeiras
-palavras indignadas, com que desejava aggredir
-o Fogueira! Como é que um homem, tão culpado
-como este maroto, que só andava pelas feiras em jogatina
-e com más mulheres, se atrevia a ter arrogancias
-diante dos que o reprehendiam?! Por isso ella,
-com uma voz gritada e com os punhos ameaçadores, o
-increpou, com uma pedra na mão:</p>
-
-<p>—Ah! grandissimo ladrão, o que tu precisavas era
-de uma cadeia. Talvez me queiras bater, excomungado!
-Ora vem p’ra cá, que te prego com esta na testa! Cuidas
-que eu tenho medo, stafermo?! Um ladrão, que
-não faz senão gastar o que aquelle bruto (alludia tambem
-ao morto que ia no esquife) andou por ahi a ganhar
-no trabalho. Foi elle bem tolo em mourejar p’ra ti! Mas
-deixa, meu condemnado do inferno, que o senhor regedor<span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span>
-e o senhor padre Beiral te ensinarão! Já está
-prompta a farda que has de ter ás costas!... Eu vou
-dizer já ao tio Antonio Capatrás, que te vá prender.</p>
-
-<p>Porém esta indignação palavrosa de Vicencia, perdeu-se
-no ar. O Fogueira só lhe percebeu que ia ser preso;
-mas a este tempo já tinha picado a egua pelo atalho
-acima, para entrar em casa, pela matta, com o fim de
-ninguem o ver. E quando se viu só no caminho, a distancia
-da velha, cuja voz ainda lhe chegava aos ouvidos
-n’uma gritaria de furia, o filho adoptivo do Bernardo
-Repolho considerou com a reflexão propria dos
-momentos responsaveis:</p>
-
-<p>—Mas para que diabo foi elle buscar o barro, com
-um dia como esteve honte? Para que se foi aquelle
-maluco metter ao perigo?!—exclamava sem comprehender,
-voltado mentalmente para si mesmo!</p>
-
-<p>E, considerando n’isto alguns segundos, parado, a
-olhar fixamente para um muro musgoso, concluiu:</p>
-
-<p>—É uma de mil diabos! Que grande bucha!</p>
-
-<p>Dispunha-se a dirigir-se á cancella da matta, quando
-o susteve a voz conhecida do João do Rego, que lhe
-appareceu de cima do muro do caminho:</p>
-
-<p>—Espera ahi, ó Tone! Ó rapaz, espera!</p>
-
-<p>E aproximando-se acrescentou:</p>
-
-<p>—Então teu pae lá ficou arrebentado debaixo do
-barro e o rapaz tamem!</p>
-
-<p>—O rapaz tamem...—repetiu o Fogueira absorvido,
-mas sem commoção.</p>
-
-<p>—Tamem. Pois tu não sabes nada?</p>
-
-<p>—Sei, disse-me ali em baixo a Vicencia, aquelle<span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span>
-diabo que me metteu cá umas cousas por dentro, que...!
-Valha-a mil demonios!</p>
-
-<p>O do Rego continuou esclarecendo:</p>
-
-<p>—Isso não faz monta. Ella é tola, tu bem sabes.
-Mas honte foi ahi na freguezia o dia de juizo! Juntou-se
-povo, que povo!—o Capatrás, o Manco, o çurgião...
-o poder do mundo! Desenterraram-n’os; porque
-elles ficaram debaixo de um monte de barro, da
-altura d’este muro. Depois, quando os trouxeram para
-casa em charola, em cima de duas tabuas, lá a
-tua velha fez ahi uma berraria de deitar a casa abaixo.
-Fazes lá idéa! Era muita gente a querer agarrar
-n’ella; mas principiou a estrabuchar e a morder, por
-não a deixarem <i>ir abraçar o seu home</i>!... Ora tu bem
-sabes que a gente não a devia deixar, e mesmo o senhor
-padre Beiral e o Pandega disseram que não deixassem;
-porque lhe podia dar algum stupor! Hoje tem custado
-a ter mão n’ella, quer-se ir deitar a afogar; mas a
-minha mãe, que lá está, e outra gente não deixam.
-Quando a seguram, principia a chorar aos gritos, como
-se tivesse o diabo e chama muito por ti! Já dizem
-que a alma de teu pae lhe entrou por algum sitio...
-Se é verdade, temos que rir; porque ha de
-custar a por-lha fóra! Isso de entrar uma alma no corpo
-da gente é peior que maleitas. Safa!</p>
-
-<p>O Fogueira ficou mais triste, mais acabrunhado com
-estas revelações. Principiou a apoderar-se d’elle um
-terror, um medo...—o medo de que a alma de seu pae
-adoptivo tivesse realmente entrado no corpo de sua
-mãe Engracia! E com um ar scismatico, de homem<span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span>
-abatido, puchava pela longa barba, arrepelando-a, e considerando-se
-infeliz!</p>
-
-<p>O João do Rego, no mesmo tom de confidencia, rematou:</p>
-
-<p>—É o diabo! Trazes tu por ahi cigarros? Como
-vens da villa has de trazer. Agora foi a feira dos nove.
-Vens de lá? Trazes uma burra chibante!</p>
-
-<p>O Antonio, passando-lhe automaticamente o cigarro
-disse: «estive... comprei...». Depois perguntou-lhe:</p>
-
-<p>—Mas diz que me querem prender?!</p>
-
-<p>—Qual prender! Deixa fallar! Está um papel na
-porta da igreja; mas é p’ra gente ir a Vianna, por
-causa d’essa cousa da tropa! Meu pae arranjou cartas
-de fidalgos da villa p’ra me livrarem, cá a mim, em
-Vianna; porque <i>botou</i> com elles no deputado! Eu vou
-e mais elle, domingo, por ahi abaixo, á <i>speção</i>. Vem
-co’a gente, que faremos pandega!? O Capatrás disse
-que tu tamem has de ir. Ainda honte fallou no adro,
-que se tua mãe não vender um campo p’ra te livrar,
-tens de andar com a muchila ás costas.</p>
-
-<p>E concluiu n’um tom de voz convidativo:</p>
-
-<p>—Mas a tua velha que venda o campo. Ella pr’a que
-o quer senão p’ra ti?! Diz-lhe que venda e vamos todos
-lá a <i>essa</i> Vianna!</p>
-
-<p>Despediram-se. O Fogueira picou a egua, explicando
-ao do Rego, que queria entrar pelo lado da matta,
-para se não encontrar com o enterro que ia no caminho.
-Depois, quando chegou á cancella, a egua transpol-a,
-mas entrou desconfiada, reparando em tudo, olhando
-de travez para os objectos!... O Antonio forçou-a a<span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span>
-caminhar dizendo-lhe: «Chó diabo, anda p’ra diante!»
-E assentando-lhe duas lambadas nas ancas, esporeou-a
-com força!...</p>
-
-<p>Porém, logo adiante, o animal estacou com mais teimosia,
-encarando excentricamente com um velho carvalho
-nodoso. O Fogueira, como a egua era nova e
-como o momento não era proprio para lhe tirar as
-teimas, desceu cordatamente, pensando em a levar á
-redea. Para isso principiou a puchal-a, com brandura,
-de um modo carinhoso, condescendente, fallando-lhe
-com moderação. Porém ella fincou-se nas mãos, levantou
-a cabeça, encostou-se á retranca e principiou a recuar
-resfolgando estrondosamente pelas ventas dilatadas,
-olhando esgazeada e com uma tremura nervosa
-nos beiços! O Antonio, conhecendo que á força a não
-faria transpor a matta povoada de carvalhos, que produziam
-sombras amedrontadoras, pensou em redobrar
-de carinhos e attenções, desejou familiarisal-a com a
-velha arvore nodosa que a espantára!... Para isso
-amimava-a, fallando-lhe n’uma voz de cada vez mais
-convidativa, puchando-a moderadamente pelas redeas,
-para a aproximar do objecto suspeito... Porém ella,
-entendeu que devia recuar ainda mais e, n’um momento,
-principiou a levantar as mãos, a agitar mais freneticamente
-a cabeça, a espetar com mais desconfiança as
-orelhas, a curvetear... e terminou por atirar duas valentes
-e corajosas parelhas de couces á cancella, partindo-a.</p>
-
-<p>O filho da Engracia teve n’este momento uma enorme
-colera e veiu-lhe rapidamente a idéa de tirar a sua
-comprida navalha e abrir a barriga da egua, como em outra<span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span>
-occasião fizera a um cavallo! Porém, a reflexão aconselhou-o
-a não deixar apparecer as suas violencias naturaes...
-O momento não era opportuno—reconhecia-o
-elle perfeitamente!... Ouvia d’ali mesmo sua mãe, gritar
-com desespero, acompanhada pelo chôro cantado de
-todas as visinhas, que lhe faziam companhia n’este momento
-doloroso. Toda a sua idéa era metter, sem ser
-presentido, a egua na côrte do gado, e depois, quando
-em casa tudo estivesse mais tranquillo e a choradeira
-acabada, entraria pela porta dentro, inesperadamente
-e de supito!... «A final de contas—considerava—isto
-tem de ser e tem!» Por isso, para não augmentar
-mais a desordem que havia um quarto de hora se apoderara
-do seu espirito, a desordem que o cercava por
-todos os lados, optou por amansar a egua em vez de
-a matar, e para isso principiou a cofiar-lhe as crinas,
-passando-lhe pela anca tremula a mão benevolente e
-prodiga de afagos, com a brandura insuspeita da mão
-de um amigo! Conseguiu d’este modo acalmal-a, mostrar-lhe
-de perto o velho carvalho, chegar-lhe ás ventas,
-ainda tremulas, a casca gretada, que exhalava um
-forte cheiro de humidade e de bolor. Conseguiu o que
-desejava; mas a egua atravessou o caminho da matta,
-sempre desconfiada, olhando de soslaio, resfolgando e
-levantando a cabeça ao menor ruido. O Antonio chegou
-a mettel-a na côrte do gado, prendendo-a calculadamente
-a distancia dos toiros, que permaneceram a
-olhar vagamente, com os seus olhos redondos, como
-bogalhos e relusentes como vidro!</p>
-
-<p>Pelo barulho que tudo isto produziu, Engracia que<span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span>
-já estava calada, ficou advertida da presença de seu filho!...
-Por isso, tanto ella como as visinhas que a
-acompanhavam, tornaram a desatar a sua dôr recente,
-em altos gritos cheios de mortificação e que se estendiam
-pelos campos! Quando, instantes depois, o Antonio
-entrou na cosinha, a viuva do Bernardo agarrou-se-lhe
-ao pescoço, dizendo muitas vezes: «Meu rico home do
-meu coração, que te não torno mais a ver! Perdi o meu
-rico home! Um santo como elle era! Uma desgraça assim!»</p>
-
-<p>Esta paixão intensa e desgrenhada era communicante,
-e por isso o Antonio saiu dos braços de sua mãe,
-para se deitar de barriga sobre a caixa da brôa, com
-o rosto escondido entre as mãos, dando soluços affrontosos
-e dilacerantes!... As mulheres, que acompanhavam
-Engracia principiaram a dizer que elle era muito
-bom rapaz, muito amigo de Bernardo, tão amigo como
-se fôra filho verdadeiro! Gabavam muito este choro
-afflictivo de Antonio e, acercando-se d’elle, com as mãos
-escondidas nos aventaes, consolavam-n’o, lembrando-lhe
-que a <i>desgraça</i> acontecera por vontade de Deus Nosso
-Senhor, e confirmavam que todas ellas, que ali estavam
-a chorar pelo Bernardo, tambem haviam de morrer e talvez
-bem cedo!... E depois d’estas palavras sensatas aconselhavam-n’o
-a fazer uma confissão geral com os missionarios;
-porque era muito bom a gente andar sempre
-preparada para ir á presença do Senhor Todo Poderoso!
-Antonio parece que não gostou d’esta advertencia,
-em que presumia uma censura á sua vida desregrada,
-e disse-lhes com certo desabrimento, com modo<span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span>
-brusco e mal creado, sempre deitado de barriga
-sobre a caixão da brôa:</p>
-
-<p>—Calem-se! Deixem-me cá. Ponham-se agora ahi
-com lôas e aquellas!...</p>
-
-<p>E desde este momento, o seu choro, foi-se abrandando
-gradualmente, e um silencio, de vez em quando interrompido
-por um «ai Jesus!», restabeleceu-se na cosinha.
-Engracia, com os olhos enxutos, mas evidentemente
-abatida e mortificada, foi, como um cão reprehendido,
-sentar-se ao canto da lareira, onde havia uma fogueira
-crepitante e viva, procurando o ponto mais escuro e
-modesto, d’onde atiçava o lume, continuando a dar ais
-lastimosos e suspiros. Passados alguns minutos, quando
-as brazas estavam bem vivas, bem mordentes, disse
-ella mesma, com uma voz serena e apasiguada, para
-Genoveva, a mãe do João do Rego:</p>
-
-<p>—Ó mulher, vê se lhe deitas aqui n’este lume
-uma posta de bacalhau. Esse moço ha de vir com
-fome.</p>
-
-<p>E, como o Antonio ainda de bruços sobre a caixa do
-pão se remexeu, expellindo o ultimo suspiro da sua angustia,
-ella exclamou n’uma voz mais secca, mais sincera:</p>
-
-<p>—Meu rico home que o não torno mais a ver até
-ao dia de juizo! Tomára eu que o dia de juizo fosse já
-hoje, só para tornar a vêr o meu rico home, que foi
-morrer de uma desgraça!... Uma cousa assim!...</p>
-
-<p>Porém as outras pessoas ficaram caladas... Não
-tendo já mais lagrimas para chorar, as mulheres visinhas
-principiaram a contar ao Antonio, como tudo se<span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span>
-tinha passado, como acontecera aquillo! Elle, impellido
-por uma curiosidade inconsciente e com o fim de as escutar
-com mais attenção voltou-se de ilharga e olhava...
-Depois, como a narrativa, vivamente colorida pelos commentarios
-e pela gesticulação, o interessava, sentou-se
-e escutou até ao fim, com as mãos apertadas entre os
-joelhos. A Genoveva, mãe do João do Rego, era quem o
-certificava de todo o acontecido, e apesar de ser muito
-difusa e de entremetter observações sem valor e rodeios
-pueris, o Antonio ouvia-a: O Bernardo era um homem
-sem esperteza nenhuma, um molanqueiro, um
-deixa-te ir... Muito bom homem, muito honrado, muito
-temente a Deus, de muito boas contas... isso sim, senhor.
-Verdade, verdade... não se contava outro na freguesia!
-Mas prestimo não tinha muito, não tinha mesmo
-nenhum. Todo o mundo o levava para onde queria,
-um grande cebolla é que era! Esta desgraça que
-lhe succedera tinha sido prevista pelo Joaquim da Moita,
-que lhe disse ao vel-o encostado á barreira, que
-tinha umas bôcas escancaradas, que mettiam medo:
-«Home, tu ahi não estás seguro! Vê lá no que te mettes,
-Bernardo». Elle não quiz fazer caso e respondeu:
-«Ora não ha de ter duvida...». O pago foi o que se viu,
-ficar esborrachado.</p>
-
-<p>O Fogueira, ouvia tudo isto com uma seriedade inconsciente
-e bronca. Que diabo de toleima, a de seu pae,
-de se ir metter debaixo da barreira que caíu! Realmente
-sempre era um banasola, que não tinha prestimo para
-nada!... E deixando-se n’esta corrente de pensamentos
-vagos, impulsionado pela palavra quente da tia Genoveva,<span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span>
-e, como já lhe haviam posto o bacalhau sobre a
-caixa, principiou a comer de vagar, com uma apparente
-inappetencia... Tinha o olhar vagaroso e a mastigação
-demorada, apesar de ter fome. De vez em quando, Engracia,
-exclamava pelo «seu rico home», que não tornaria
-mais a ver, até ao dia de juizo!... Genoveva, que
-durante a narrativa se enchera de espirito hostil contra
-o fallecido Bernardo, disse reprehensivamente, para
-a viuva:</p>
-
-<p>—Cala-te mulher! Tamem já é de mais! Já aborreces
-com tanto «meu rico home!» (E fez um esgar de
-troça.) Que se não fosse lá metter! Que não fosse pascacio!</p>
-
-<p>Depois concluiu voltada para o Antonio:</p>
-
-<p>—Olha, elle se morreu é porque quiz! era um bô
-home, um bô serás; mas teimoso até ali! Deus o tenha
-no céu, que todo o mal foi d’elle; mas verdade,
-verdade, para onde lhe désse o toutiço, era para lá, como
-um casmurro. Agora que está na outra vida, Deus
-o tenha em bô logar. Um Padre Nosso por sua alma é
-que devemos resar... Do que Bernardo precisa é de
-muito rosario e de muitas missas, que quantas mais,
-melhor. «Padre Nosso que estaes no céu, santificado
-seja o vosso nome, etc...»</p>
-
-<p>Todos a acompanhavam n’uma voz ciciada, e com as
-palpebras meio cerradas. N’este momento ouviu-se o
-dobre funerario e lamentoso dos sinos. Era o signal
-de que os officios tinham acabado e de que o corpo ía
-ser dado á sepultura! Uma das amigas de Engracia
-observou:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span></p>
-
-<p>—Elle lá vae pr’a cova, coitado! Olhem que ninguem
-sabe onde as tem armadas!... Ainda honte, ía
-em cima do carro, muito socegado, e já hoje dorme na
-greja pr’a toda a vida! Ah! morte negra, morte negra
-que assim os vaes levando a um e um!</p>
-
-<p>Engracia tornou a chorar alto e o Antonio atirou-se
-novamente de bruços sobre a caixa do pão, conservando-se
-muito tempo sem se mexer... N’aquella posição
-adormeceu de fatigado pela jornada!</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span></p>
-
-<h3>V</h3>
-
-<p>Porém, a viuva do Repolho, o que não queria por fórma
-nenhuma, era que o seu Antonio fosse para a tropa.</p>
-
-<p>—Soldado nem de barro!—exclamava. Isso não o
-ha de elle ser, ainda que eu tenha de vender a camisa
-do corpo! Todos esses invejosos, que lhe querem mal,
-hão de cegar!...</p>
-
-<p>Mas a final—porque é que lhe tinham esta raiva de
-morte ao rapaz?! Engracia bem o sabia: O Antonio
-não era um <i>cebola</i>, não era nenhum <i>maricas</i> que se
-deixasse levar pelo beiço. Tinha tido muitas occasiões
-de amolgar as costas dos visinhos com o seu rijo pau
-de carvalho, e essa era a rasão por que lhe tinham tanta
-birra. Em qualquer ralhação, que a Engracia tivesse
-na aldeia, atiravam-lhe logo á cara, com a vida de homem
-perdido e sem religião, que o seu filho levava<span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span>
-pelas feiras... N’essas occasiões, com uma intimativa
-raivosa de vingança, ameaçavam-lh’o com a farda, com
-a <i>tal farda</i> que o senhor padre Beiral lhe havia de
-arranjar...</p>
-
-<p>«Pois não houvestes de arranjar uma farda!» respondia-lhes
-Engracia indignada. Graças a Deus, ainda tinha
-algumas terras que vender e, acabadas as terras, ainda
-tinha cordões de ouro e a propria casa em que morava,
-que tambem valiam um bom par de moedas! Quem
-perdia com estas cousas eram os santos da igreja—Nossa
-Senhora do Carmo e Santo Antonio milagroso
-a quem promettera os dois campos da ribeira se o rapaz
-se livrasse. Assim, arranjando-lhe o padre Beiral a
-farda, venderia esses campos para pagar a um <i>sustituto</i>.
-E por causa d’isto, tambem pensava em lhe doar
-todos os bens, e deixar-lhe, mesmo em vida, gastar tudo,
-só para ter o regalo de ver a visinhança com uma
-cara de palmo e meio! Ao menos desenganava de uma
-vez todos os que lhe queriam mal ao moço! Elles desejavam
-que Engracia lhe não deixasse nada, por não ser
-seu filho; mas ella, que se tinha na conta de teimosa como
-uma burra, de cada vez estava mais resolvida a dar-lhe
-em vida quanto possuia! E realmente, n’um dia em que a
-Vicencia lhe disse de cara, «que ella estava no inferno
-vestida e calçada, que talvez não encontrasse um padre
-que lhe deitasse a absolvição, por querer desherdar
-Nossa Senhora e os santos em beneficio do grande
-meliante e pelo não o mandar para a terra de onde tinha
-vindo» a viuva do Repolho, cheia de colera, partiu
-para a villa, onde lhe fez a doação premeditada e onde,<span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span>
-ao mesmo tempo, vendeu os campos da ribeira ao
-brazileiro do Tenrozo, entregando todo o dinheiro ao
-Antonio, para elle se ir livrar a Vianna e para continuar
-no negocio de burras, em que se via envolvido.</p>
-
-<p>Porém, as pessoas que andavam ao corrente da vida
-do Fogueira, que conheciam as suas relações com a
-Marianna Ripa,—uma chupadeira!—com o Rio-Tinto e
-com o Fanfarra,—dois ladrões!—quando souberam da
-doação incondicional que a Engracia lhe fizera, affirmavam
-com riso de despeito e de consolação ao mesmo
-tempo:</p>
-
-<p>—Agora é que vae ser o bô e o bonito. Verão como
-elle espatifa tudo emquanto o diabo esfrega um olho.
-Ai minha tola de Engracia! Cuidas que déstes na dos
-outros, mas déstes na tua cabeça! Os campos que tanto
-custaram áquelle burro do Bernardo, estão ahi estão
-engolidos n’um prompto!</p>
-
-<p>Na realidade, nas feiras que o Fogueira frequentava,
-principiou elle a apparecer mais chibante e cheio de
-arrogancia, sempre na companhia de Marianna Ripa,
-que tambem andava n’um luxo e n’um estadão de <i>arreguilar</i>
-o olho! Ella tudo eram lenços de seda de furta-côres,
-tudo roupinhas do melhor panno azul, chinelas
-com biqueiras de verniz pispontadas a retrós verde...
-o diabo, um inferno! O Fogueira, sempre com o cinto
-recheado de soberanos que mostrava todo basofia, pedia
-nas estalagens com voz arrogante e desdenhosa,
-postas de carne assada e copos do rascante, com que
-enchia os coldres á Marianna, ao Rio Tinto, primo
-d’ella, ao Fanfarra e ainda a outros troquilhas. O Rio<span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span>
-Tinto encontrou meio de lhe impingir uma egua com
-seis moedas de ganho, quer dizer, por vinte moedas,
-que na opinião de entendidos, não valia dez; porque,
-pelas quatorze, já tinha sido uma encaravilhadella para
-o primeiro comprador! Era um animal vistoso, de pello
-luzidiu e fino, as orelhas espertas, as ventas resfolgantes,
-o olhar vivo e de uma inquietação nervosa...;
-mas era uma egua com pancada! Tinha um travado
-meudo, muito igual e firme; a cabeça, quando ía vertiginosamente
-na carreira, apresentava-a com altivez
-soberana; porém, diziam que tinha grande doze de lua.
-Algumas pessoas chegavam a affirmar que era uma
-egua redondissimamente maluca!...</p>
-
-<p>O Rio Tinto quasi desenganou o Fogueira dizendo-lhe:</p>
-
-<p>—Eu gostei do demonio da burra. Se a queres leva-a;
-mas o que ella precisa é de bons quartos em cima!
-Olha que eu não sei se tu terás perna para a
-montar!</p>
-
-<p>O Fogueira, mesmo por causa d’esta declaração, como
-era muito vaidoso, comprou-lh’a. Tinha-se na conta
-de um dos melhores montadores das feiras minhotas
-e não podia levar á paciencia, que houvesse animal,
-por mais bravo, que elle não podesse amansar. Nunca
-encontrára, nem entre os marchantes, nem entre os troquilhas,
-homem a quem temesse n’um desafio de carreira.
-Portanto, apesar de lhe dizerem <i>que era brava</i>, o
-Fogueira quil-a e, o Rio Tinto, recebeu logo em bons
-soberanos as vinte moedas... Muitos feirantes que lh’a
-viram levar ficaram dizendo com um riso velhaco, alludindo<span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span>
-á maneira impensada como o Antonio gastava
-o dinheiro:</p>
-
-<p>—Aquillo é que é derreter arame! É como cebo ao
-lume. Parece um morgado.</p>
-
-<p>O Domingos Bicudo, o taberneiro á porta do qual
-foi feita esta observação, defendeu o Fogueira n’estes termos:</p>
-
-<p>—E a vós que vos importa?! É do vosso dinheiro
-que elle gasta? Deixae o rapaz com as suas aquellas.</p>
-
-<p>Depois d’isto, oito dias antes de esgotado o praso
-determinado no papel que estava na porta da igreja,
-o Antonio foi á administração do concelho buscar <i>a guia</i>
-e partiu para Vianna, á <i>speção</i>. A Marianna Ripa foi
-com elle. Era pelo tempo da feira da Senhora da Agonia.
-A rapariga ía toda secia, toda preparada, n’um
-espavento de arromba! Ella, como ouvira fallar <i>da braveza</i>
-da egua, receiou ir a cavallo, e disse ao seu
-amante, que não queria. Porém, o Fogueira, intimou-a
-terminantemente a montar, observando-lhe que indo
-elle ao pé, não tinha que temer. Por isso ella subiu
-para o albardão. Sentou-se commodamente, espalhando
-as saias para ambos os lados. Por baixo, de entre
-as dobras do saiote vermelho do panno mais fino
-e de entre os folhos brancos das saias, saíam os seus
-pés calçados em chinellas de biqueiras de verniz pispontadas,
-e as suas pernas grossas, bem feitas, calçadas com
-meias de linha fina, viam-se-lhe impudicamente até
-acima do tornozello. Marianna tinha um riso vaidoso e
-triumphante, quando olhava para as pessoas que a
-viam passar!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span></p>
-
-<p>O Fogueira ía a pé, de vestia ao hombro, com a
-larga facha vermelha apertada sobre o estomago, e armado
-com o seu pau argolado, proprio de homem de
-feiras!... Acompanhava a cavalgadura, a largas passadas
-de arrieíro, examinando frequentemente a cilha,
-para que a moça lhe não fosse dar um trambolhão...
-E, com a expansibilidade natural do seu temperamento
-sanguineo e da sua cabeça estouvada, ía fallando á egua,
-para a familiarisar com a sua voz, e dava-lhe fortes palmadas
-na anca, que a faziam estremecer e levantar a
-cabeça de um modo inquieto, continuando depois com
-passadas mais ligeiras e, ás vezes, com chouto, do que
-Marianna se queixava, por se lhe remexerem as tripas
-todas lá por dentro...</p>
-
-<p>Como estava um dia de grande calor, logo na primeira
-taberna, fizeram uma paragem para provar do
-rascante. A Ripa, apesar de desembaraçada e resolvida,
-tinha medo da egua, e por isso não se arriscou a
-descer, sem a ajuda do Fogueira, que para a pôr no
-chão, a agarrou valentemente e com vaidade, apanhando-a
-por baixo dos quadriz:</p>
-
-<p>—Ó diabo! És uma franga. Não pesas nada! Tudo
-saias. São tudo saias.</p>
-
-<p>E deu duas reviravoltas com ella suspensa, mostrando-lhe
-que era muito leve. Marianna ria-se mostrando
-os seus dentes brancos, fortes e iguaes. O Fogueira,
-depois de a pôr no chão, ficou mudo, rangendo os dentes,
-a sorrir para ella, n’uma sensualidade bruta, motivada
-pelo calor das saias, pela excitação animal que
-lhe produzira o proximo contacto da carne da Marianna!...<span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span>
-Por isso, n’uma incontinencia inconsiderada, correu
-atrás d’ella pela taberna dentro, perseguindo-a até ao
-fim da loja, onde a agarrou, a teve por momentos na
-sua posse, dando-lhe palmadas nos hombros roliços,
-roçando-lhe a sua forte barba pelo pescoço, pela cara,
-por onde podia... Depois, impellindo-a de si, com a
-soberania orgulhosa de um possuidor, rematou n’uma
-respiração desafogada:</p>
-
-<p>—Diabo de moça! É o vivo demonio! Ó tia Zefa,
-deite lá um de meia canada.</p>
-
-<p>Beberam de vagar, sentados n’um banco de pedra,
-á porta da venda, abrigados pela fresca sombra de
-um antigo carvalho. Em seguida, tendo descançado
-sufficientemente, a Marianna tornou a montar ajudada
-pelo Fogueira e continuaram o caminho.</p>
-
-<p class="tb">A estrada nova, ainda não estava concluida. As diligencias
-não podiam ir até Vianna. Dizia-se «que para
-a outra Senhora da Agonia talvez já fossem». Logo
-adiante da venda, onde tinham parado para beber, andava
-muita gente nos trabalhos. Uma longa fita de cascalho,
-bem espalhado, apresentava uma superficie aspera
-e eriçada, sobre a qual rolava pesadamente um
-enorme cylindro de pedra. Duas juntas de possantes
-bois barrosãos, vagarosos, firmes e iguaes, puchavam
-o cylindro. Adiante dos bois, á soga, com o corpo muito
-inclinado, ía um rapaz pequeno, de carapuça, com
-a aguilhada ao hombro, fallando distraídamente ao seu
-gado. Logo depois, um homem novo, cara de militar da<span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span>
-reserva, tendo uma ponta de cigarro meticulosamente
-escondida detrás da orelha, arrastando com perguiça
-os tamancos, assobiava distraído, dizendo imperiosamente
-ao da soga:</p>
-
-<p>—É diabo, rapaz, não durmas, falla-me a esse gado.</p>
-
-<p>Por isso o rapasito, aguilhou com mais força os bois,
-que estenderam para diante as suas pesadas cabeças,
-contraindo fortemente os musculos, puchando com mais
-força.</p>
-
-<p>Logo em seguida, um pouco ao lado do leito da estrada,
-viam-se os britadores, quebrando o seixo a martelladas
-repetidas, para fazerem o cascalho. N’este officio
-rude, que exige um exagerado esforço dos braços
-e de todos os musculos do tronco, empregavam-se alguns
-homens aleijados das pernas. Porém, alem d’estes,
-havia mulheres que tinham um aspecto grosseiro
-e masculino, fortes seios entumecidos, e que trabalhando
-por empreitada, podiam ir dar de mamar aos
-seus filhos, que choravam deitados em canastras, á
-sombra benefica e fresca dos salgueiros, que marginavam
-a estrada antiga.</p>
-
-<p>Tanto estas mulheres como os homens aleijados, trabalhavam
-sentados no chão, cobertos com chapéus de
-palha baratos, que tinham comprado aos presos na cadeia
-da villa. O sol peninsular de agosto abrasava-os,
-obrigando-os a beber frequentemente tigelas de agua,
-que iam buscar a um ribeiro proximo. As suas conversas
-grosseiras, eram tocadas de palavras obscenas
-e sem pudor. Tinham um modo insolente de se exprimir,
-porque se julgavam mais livres do que os outros,<span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span>
-que trabalhavam a jornal. O seu aspecto, pela
-continuação de se conservarem durante horas sentados
-no chão, com movimentos esforçados dos musculos
-dos braços e do tronco, era carecteristico e singular:—no
-peito havia uma forte depressão correspondente ao
-abaúlamento da columna vertebral; as linhas faciaes
-tinham uma contracção permanente de soffrimento, originada
-nos esforços potentosos; as narinas eram dilatadas
-em virtude dos movimentos respiratorios entrecortados
-e pelas largas expirações de compensação; o
-tronco e os braços tinham um desenvolvimento desharmonico
-em relação ás pernas; o semblante, pelo habito
-de olharem continuadamente para o chão, era triste e
-carregado, como deve ser o dos <i>casseurs de pierre</i> de
-Courbet.</p>
-
-<p>Mais para diante, a estrada, era incompletamente
-aberta—andava-se n’um desaterro. As raparigas que
-transportavam terra aos cestos para o rio, íam e vinham
-formando um cordão movediço, como o das formigas
-no caminho de celleiro. As suas canções, umas vezes
-mundanas e que haviam aprendido com os cegos
-que passavam, outras vezes religiosas, ao Santissimo
-e ao Coração de Maria, que tinham aprendido com os
-missionarios, íam morrer n’uma toada monotona e ondeante
-nas quebradas da encosta fronteira. Quasi todas
-estas raparigas novas tinham, mais ou menos, um aspecto
-esfomeado e miseravel, a pelle grossa e avermelhada
-dos tempos diversos e inclementes que supportavam,
-os seus pés e os calcanhares gretados, as pernas
-estavam sujas de nodoas de terra, o olhar de algumas<span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span>
-era tibio e doente, a côr de outras citrina e
-amenerrhoica, as mucosas dos beiços esfoliados e sem
-lhes transparecer a viva côr do sangue! Havia, porém,
-um certo numero d’ellas mais lavadas, que trabalhavam
-com mais alegria—eram as que passavam por
-namoros do senhor Alberto—o <i>apontador</i>, aquelle que
-as vigiava que as podia despedir, que exercia sobre todas
-ellas um absolutismo tyrannico! Era um rapaz forte,
-de uma boa corpulencia, a pelle tostada, as mãos plebeias,
-um farto bigode presumpçoso, uma cabelleira de
-terror, os dentes negros e os dedos queimados do fumo.
-Tinha andado a estudar em Braga muitos annos, com
-o fim de ser padre. Depois assentou praça no regimento
-de infanteria oito, para chegar a alferes. D’ali fugiu
-com a sobrinha de um marchante, com quem
-desejava casar, o que não concluiu, porque a perfida
-o abandonou para se amancebar com um clerigo.
-Por fim, Alberto, vendo-se desilludido e infeliz, ludibriado
-no seu amor, sem dinheiro, appareceu uma
-noite em casa de seu tio cirurgião, pedindo, como o
-filho prodigo da lenda, o esquecimento para os seus
-desregramentos desgraçados!... O tio cirurgião estava a
-cear a posta do bacalhau empurrada pelo cangeirão do
-berde. Era um homem sanguineo, e tomou-se de uma
-colera subita vendo o sobrinho, com quem gastara em
-Braga mais de cem moedas, de chapéu desabado e casaco
-roto, n’uma apparencia de malandro maltrapilho!
-Quil-o desancar com o estadulho das suas valentias que
-tinha ao canto da cosinha, onde ceava, e só depois da
-intervenção da Clementina, sua creada e amante de<span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span>
-quarenta annos, a qual tambem ralhou muito com Alberto,
-é que o tio se tranquillisou, mandando-lhe dar
-uma posta de bacalhau. Mas, antes d’esta pacificação,
-levantando-se da lareira bebado, chegou-se ao pé de
-Alberto e berrou-lhe sobre o nariz, com voz temerosa
-e avinhada:</p>
-
-<p>—Seu burro e seu ladrão! Eu aqui a ganhal-o, a
-apanhar molhadellas de lobo por esses montes, e você
-nas pandegas de Braga! Pr’o Brazil é que ha de ir.
-Arre, <i>bá</i> ganhal-o que eu tambem faço o mesmo. Mal
-aprendi a ler, e para arranjar esses campitos que
-tenho e que te hei de deixar a ti Clementina, puchei
-muito por este toutiço! Vá ganhal-o seu jumento, que
-eu ando ha quarenta annos a puchar pela cachimonia,
-se quero!</p>
-
-<p>E bateu formidavelmente na testa, significando que
-só d’ali tinham saído todas as idéas, com que medicamentava
-os conterraneos. Affirmava ter muita gabança
-em não haver estudado, nem no Porto, nem em Coimbra,
-como <i>os collegas</i> que estavam na villa.</p>
-
-<p>Porém, passada esta colera do primeiro momento
-em que viu o sobrinho, veio a pensar mais rasoavelmente,
-e determinou conserval-o antes por ali. Como
-era influente eleitoral, arranjou-lhe facilmente aquelle
-logar na estrada «que sempre deixava um crusado por
-dia, sem fazer nada!» Ficou, portanto, Alberto, na situação
-de indicar ao director das obras, um nigligente
-e aborrecido que passava os dias a jogar as damas
-n’um botequim da villa, os homens e as raparigas que
-deviam ser admittidos ou despedidos dos trabalhos na estrada!<span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span>
-Isto dava-lhe um incontestavel predominio, e por
-isso eram apontadas com uma intenção reservada <i>as
-moças</i>, de que elle mais parecia gostar. Alem d’isto,
-Alberto, adquiria diante dos seus sobordinados que
-estava incumbido vigiar, a attitude de um personagem
-saliente. Os aborrecimentos da aldeia, tornavam-n’o
-triste e fatal! A sua existencia estava vasia da convivencia
-dos amigos, que adquirira nas batotas de Braga!
-Passeava a largas pernadas meditativas e não fallava
-aos rapazes lavradores, que tinham andado com
-elle no mestre de primeiras letras! Em vez de se suicidar,
-atirando-se ao fundo de um poço, lançou-se na
-leitura perigosa de romances de sensação, que os mais
-celebres fabulistas nacionaes e estrangeiros tinham escripto,
-expressamente para lhe fecundar a imaginação
-irrequieta e sorumbatica! Assim vivia n’um mundo incomprehensivel
-de emboscadas, loucuras, amores de
-redempção, paixões nobres e lagrimijantes, homens
-que se recolhiam ao desespero do sacerdocio, mulheres
-que fugiam aos maridos para seguirem acorbatas,
-santos eremitas que tinham sido famosos salteadores!...
-Esta illustração inoculou-lhe certas vaidades
-litterarias, que elle revelou no <i>Bracarense</i>, timidamente,
-sobre a epigraphe de <i>Inspirações do Lima</i>!... N’essas
-paginas, aquellas verdes e ramorosas paisagens minhotas,
-eram apresentadas cheias de cavernas onde se escondiam
-donzellas vestidas de branco, fugidas dos castellos
-de seus paes nobres, com amantes desconhecidos
-e mysteriosos. Porém, como nem tudo n’esta vida
-póde ser ideal, Alberto saía por vezes de entre os frescos<span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span>
-salgueiros, onde se recolhia hostilmente a ler os
-seus romances, e n’uma excitação aphrodisiaca, ía espreguiçar-se
-entre as raparigas que trabalhavam, apalpando
-impudicamente os braços carnudos e os seios
-volumosos d’aquellas de quem gostava mais!... Os trabalhadores,
-que observavam de longe estes desfastios
-do senhor Alberto, disseram uns para os outros, descançando
-encostados ás enchadas, applaudindo-o, cheios
-de inveja.</p>
-
-<p>—Isso, é levado de seiscentos diabos p’ras moças!</p>
-
-<p class="tb">Foi ao chegar ao pé dos homens que faziam esta
-observação, que a egua do Fogueira, na qual ía montada
-a Marianna Ripa, parou subitamente, de um modo
-inesperado, n’uma posição desconfiada—a cabeça
-alta, as orelhas tezas e o olhar fixo! Depois estendeu
-o pescoço, inclinou para diante os pavilhões auriculares
-para reunir proveitosamente todos os ruidos e, dilatando-se-lhe
-demasiadamente as pupilas, conservou-se
-alguns segundos olhando firmemente para uma bandeirola
-que fluctuava... Todas as pessoas que presenciaram
-esta paragem repentina se tomaram mais
-ou menos de uma certa irresolução!...—os jornaleiros
-conservaram attitudes indicisas e indagadoras parando
-de trabalhar; as raparigas, que acarretavam cestos
-de terra, ficaram a distancia um tanto receosas;
-o Fogueira recuou dois passos e berrou «diabo de
-burra!»; Marianna, apesar de rapariga corajosa, lembrou-se
-que lhe tinham dito que a egua era amalucada<span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span>
-e deu instinctivamente um grito!... O amante da Ripa,
-temendo que o animal lhe tomasse alguma manha, dirigiu-se-lhe
-de mão aberta com o fim de <i>lhe fallar</i>,
-mais familiarmente... Porém, n’este momento se não
-lhe furta instinctivamente o corpo, ía apanhando, sobre
-o ventre, uma valente parelha de couces!</p>
-
-<p>A esta parelha seguiram-se muitas outras em todas
-as direcções, dadas com desembaraço vertiginoso. A
-Marianna, agarrava-se tenazmente ao albardão para não
-caír. Os trabalhadores, com o fim louvavel de suster a
-egua, levantaram as enchadas e as picaretas, pondo-se
-diante d’ella, fazendo algazarra. Porém, este procedimento
-deu em resultado o multiplicarem-se prodigiosamente
-os pinotes e os couces. A Marianna Ripa caíu
-do albardão, de bruços sobre a terra, com as pernas á
-mostra, e a egua, de cada vez mais doida, tomou-se de
-uma raiva aggressiva contra os que estavam diante
-d’ella, e arremetteu com ousadia para elles, que lhe
-abriram condescendentemente caminho! E, enfurecida,
-enthusiasta, com o dorso arqueado, a barriga baixa,
-o pescoço estendido, as ancas salientes, as pernas abertas,
-principiou a fugir pelos campos fóra, para os lados
-do rio! O Fogueira permaneceu livido, pasmado,
-sem desembaraço, a olhar, vendo-a saltar paredes, saltar
-vallados, sebes e barrancos! A sua amante já se
-tinha levantado promptamente, toda vermelha, com medo
-que os homens lhe tivessem visto as pernas! Não
-se tinha maguado, pois caíra sobre a terra molle! Todas
-as pessoas que presencearam este facto, surprehendidas
-pela rapidez com que elle se passara, estavam<span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span>
-sómente interessadas no galopar da egua, que viam correr,
-dando upas vistosas, com a cabeça alta e o rabo
-espalhado ao vento!...</p>
-
-<p>Antes d’ella desapparecer, calculou um jornaleiro
-com modo reflectivo:</p>
-
-<p>—Aquillo foi o dianho da mosca!...</p>
-
-<p>Os que ouviram esta opinião admittiram-n’a em silencio,
-continuando a olhar para a egua que fugia
-resolutamente, sem hesitações, sem duvidas, dominada
-por uma idéa infernal!...</p>
-
-<p>Lá no fim dos campos, estava o rio, a grande profundidade,
-revolvendo-se as suas aguas, com um fervor
-de corrente que se precipita por entre penedos! Tinha
-chovido muito nos dias precedentes e, por isso, o
-rio levava uma bravura excepcional!...</p>
-
-<p>A egua corria sempre, perdida, com os olhos esgazeados,
-as crinas ao vento, o corpo arqueado e foi
-precipitar-se do alto muro, caíndo estrondosamente na
-agua e fez <i>cachap</i>, levantando enorme poeira de espuma
-na amplitude do ar!</p>
-
-<p>Um lavrador, que andava na outra margem trabalhando
-pacificamente no seu campo, vendo isto, exclamou
-surprehendido:</p>
-
-<p>—Oh! com mil diabos, que lá se <i>spapou</i>!</p>
-
-<p>E logo que o Fogueira chegou esbaforido disse-lhe
-este individuo, gritando:</p>
-
-<p>—Ó hominho. Essa burra que caíu ao rio era sua?
-Ella era maluca por força!</p>
-
-<p>O Antonio Fogueira respondeu-lhe de um modo abstracto,
-com uma navalha aberta na mão:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span></p>
-
-<p>—É o demonio que a leve!... Se a pilhasse, abria-lhe
-a barriga de cima a baixo, com esta!</p>
-
-<p>Depois, lançando um olhar indagador para os dois
-lados do rio, perguntou:</p>
-
-<p>—Mas vocemecê viu-a? Onde diabo caíu ella?</p>
-
-<p>—Olhe!...—apontou para os rochedos que estavam
-mais abaixo.</p>
-
-<p>O Fogueira aproximou-se vagarosamente do logar designado.
-Uns lavradores e umas raparigas, que, ali perto,
-andavam no trabalho, perguntaram-lhe igualmente:</p>
-
-<p>—Você é dono da burra que ahi caíu?</p>
-
-<p>E à affirmativa do troquilha esclareceram:</p>
-
-<p>—Pois o diabo, parecia que trazia o demo no corpo.
-Atirou-se sobre esses penedos como um raio! Depois,
-o rio levou-a para baixo.</p>
-
-<p>Um dos trabalhadores acrescentou:</p>
-
-<p>—Aquillo era maluca, por força!</p>
-
-<p>O Fogueira repetiu, com rancor, mostrando novamente
-a navalha.</p>
-
-<p>—Tres mil demonios a arrastem pr’as profundas
-dos infernos! Se se não tivesse <i>spapado</i>, punha-lhe as
-tripas ao sol.</p>
-
-<p>Outro dos jornaleiros ainda esclareceu, apontando com
-a foicinha:</p>
-
-<p>—Isso é ahi um pôço que nem seiscentas pipas! Você
-faz lá idéa!...</p>
-
-<p>Um terceiro acrescentou:</p>
-
-<p>—Nunca ninguem lhe viu o fundo. Muita gente antiga,
-diz que o não tem; mas isso parece-me mentira.</p>
-
-<p>Um rapaz esclareceu:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span></p>
-
-<p>—Ha ahi cobras que é um inferno! O tio Domingos
-Briteira viu uma de mais de vinte varas. Vinte varas!
-que digo eu! De mais de quarenta. Ora! Se ella tinha
-o rabo de lá do rio e a cabeça de cá, quando elle a
-viu. Talvez essa cobra se enrodilhasse ás pernas da
-burra!</p>
-
-<p>O Antonio Fogueira despediu-se de um modo triste:</p>
-
-<p>—Com bem passem! Deixal-a ir. Deus os ajude.</p>
-
-<p>E na volta, quando chegou ao pé da Marianna Ripa,
-que o esperava, disse:</p>
-
-<p>—Então que tal?! O Rio Tinto prega-me uma burra
-maluca!</p>
-
-<p>A rapariga defendeu o primo:</p>
-
-<p>—Ora! Talvez elle não soubesse!...</p>
-
-<p>—Não sabia o diabo que o leve! Elle m’as pagará!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span></p>
-
-<h3>VI</h3>
-
-<p>Em Vianna, o Fogueira e o Rio Tinto, encontraram-se
-hospedados na mesma estalagem. Por causa do negocio
-da <i>burra</i>, invectivaram-se reciprocamente com injurias
-e, se não fosse o Fanfarra e a Marianna Ripa, que se
-interposeram, elles chegariam de certo ás do cabo! Por
-fim, o Rio Tinto, com uma viva colera no olhar, tirou
-da sua sacca de linho os soberanos que tinha ganho
-ao Fogueira e, atirando-os com despreso sobre a mesa,
-disse com altivez:</p>
-
-<p>—Ahi tens e não tornes a dizer que te roubei. <i>Bê</i>
-lá como fallas p’rá outra <i>bês</i>. Põe n’esse raio de cara
-dois <i>carbões</i> accesos, para saberes o que compras!...</p>
-
-<p>E ficaram, sem se fallar, olhando-se como dois homens
-que se odeiam! Á noite tiveram occasião de se
-encontrar, um em frente do outro, a uma mesa de
-<i>monte</i>, arranjada ao fundo da taberna, atraz de um<span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span>
-tabique, por dois braguezes de longas barbas suspeitas
-e chapéus desabados... Estes homens, para attraírem
-os feirantes que por ali estavam, tinham-se
-abancado de um modo natural e simples, principiando
-a jogar entre si o <i>trinta e um</i>. Batiam insolentemente
-o dinheiro nas mesas, com o fim de se tornarem vistos,
-fallando alto e grosseiramente. Um almocreve, contractador
-de peixe para Traz-os-Montes, estava ali perto,
-e foi naturalmente attraído! Como ceára e se sentia na
-amplitude beatifica de um homem bem avinhado, foi-se
-aproximando, sorrateiramente, com certo desdem!...
-Carregando o chapéu para os olhos, sentou-se junto
-dos jogadores, tomando <i>n’aquillo</i> um interesse puramente
-mental!... A este curioso, juntaram-se outros,
-attraídos por iguaes motivos, chegando-se todos á formiga,
-n’um desleixo simulado, sem apparencia de proposito
-difinido, com as mãos nos bolsos e o cigarro ao
-canto da bôca... E, quando a roda era já bastante
-compacta, um dos jogadores, sem dizer palavra e fundando-se
-de certo n’uma convenção anterior, atravessou
-o baralho no meio da mesa e, tirando mais dinheiro
-do bolso, contou nove corôas em prata! Depois,
-com outras cartas que tinha n’um bolso interno
-da sua jaqueta de alamares, principiou a baralhar demoradamente,
-lançando em volta um olhar firme e carregado!
-O companheiro, sem lhe dizer palavra, abriu
-um cinto que trazia afivelado sobre o estomago, mostrando-o
-cheio de libras, e tirou tres, que ajuntou ao
-dinheiro já contado, e disse com um modo esbanjador,
-n’uma voz imperiosa e rouca:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span></p>
-
-<p>—São quatro <i>sovranos</i> de monte!</p>
-
-<p>Os indiferentes, ao verem isto, sentaram-se logo
-nos bancos de pau, acotovelaram-se contra a mesa, olhando
-avidamente para as cartas e para o dinheiro! Ao
-longo de todos elles passou o calefrio das sensações
-poderosas e commoventes! O jogador, que se preparava
-para fazer as pagas, collocou sobre o baralho, atravessado
-na mesa, as tres libras em ouro, espalhou a
-prata diante de si, misturando-a com certo despreso
-e, carregando mais para os olhos o seu chapéu de abas
-largas disse de um modo vago:</p>
-
-<p>—Eram precisas ahi quatro croaças em <i>covre</i>...</p>
-
-<p>Então, um rapaz novo, sem barba, muito magro e
-amarello, com o tronco osseo apertado no seu fraque
-velho muito coçado nos cotovelos e lusidio nas costas,
-pegou nas quatro corôas, que o jogador lhe deu por
-cima do hombro. Com passo ligeiro e leve, dirigiu-se
-ao taberneiro, que estava medindo quartilhos, e pediu-lhe
-n’uma voz urgente, perturbada, com inflexões
-nervosas:</p>
-
-<p>—Tio Domingos... Estas croaças em <i>covre</i>!...</p>
-
-<p>Collocou-lh’as sobre o mostrador humido de vinho.</p>
-
-<p>O tio Domingos, com o seu ar de borrachão pantagruelico,
-perguntou-lhe usurariamente interessado:</p>
-
-<p>—Então elles hoje... ein Marquinhos?!</p>
-
-<p>Marcos, amanuense do governo civil, respondeu com
-muita pressa, contente, encolhendo-se em si mesmo,
-passando n’um frenesi, o seu dinheiro de uma mão
-para a outra, n’um estado de impaciencia quasi sensual:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span></p>
-
-<p>—Sim, senhor, <i>vão fazer</i>... São aquelles dois de
-Braga, o Barroso e o outro que eu não sei como dianho
-se chama...</p>
-
-<p>—Timotheo... O Timotheo da Carcova... Quem
-diabo não conhece o Timotheo?!</p>
-
-<p>—Sim, senhor, um nome assim arrevezado, o Timotheo...
-Mas ande depressa, tio Domingos!—pediu com
-insistencia, com a sua voz aflautada, de um timbre
-choroso.—De-me esse troco que estão á espera! O
-Barroso não <i>se volta</i>, emquanto lhe não levarem <i>covre</i>!</p>
-
-<p>O taberneiro disse:</p>
-
-<p>—Olha, vae-te Marquinhos, que eu levo já. Diz-lhe
-que eu levo já.</p>
-
-<p>E depois de ter contado meticulosamente o dinheiro,
-escolhendo o mais falso, foi elle mesmo pôl-o sobre a
-mesa do jogo. As suas mãos plebeias e sujas íam cheias
-de patacos esverdeados, de uma côr venenosa, levando
-ao mesmo tempo, de baixo do braço direito, um pequeno
-mialheiro, que collocou em cima da mesa, dizendo
-n’uma voz chorosa e comica que fez rir:</p>
-
-<p>—<i>Aqui pr’ás bemditas almas!...</i></p>
-
-<p>Esta pequena caixa de folha com uma fenda na tampa
-superior, era onde os jogadores teriam de deitar os
-baratos!</p>
-
-<p>Só depois d’isto, quando em volta da mesa estavam
-muitos individuos com um olhar desvairado e
-o dinheiro apertado freneticamente na mão, á espera
-do momento de jogar, é que o Barroso tirou quatro
-cartas do baralho, collocando-as nos respectivos vertices
-dos angulos de um quadrilatero que traçara mentalmente...<span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span>
-Em seguida, accendeu um cigarro, piscando
-os olhos com as fumaças e disse:</p>
-
-<p>—Agora, meus homes, é metter-lh’o sem medo!...</p>
-
-<p>Chegára o tetrico momento dos primeiros palpites!
-A expressão de todos os semblantes era mais viva e
-as respirações abrandaram-se momentaneamente. Duas
-vélas de cebo, em duas bogias de folha, espirravam
-sobre a mesa, alumiando, com fraca luz, aquelles rostos
-sugados! O fumo espesso e azul, o cheiro nauseabundo
-do peixe que se estava frigindo, envolviam o
-grupo dos jogadores, que se entendiam por uma linguagem
-breve. Os cigarros accesos, collocavam n’aquellas
-pelles escuras e nas barbas pretas, pontos incandescentes!
-E cá fóra, na loja humida da taberna, o
-<i>ou-ou</i> prolongado das vozes dos feirantes pedindo mais
-vinho e praguejando, continuava-se n’um unisono monotono
-e ondeante, de momento a momento cortado
-pela voz do banqueiro, o Timotheo da Corcova, que
-dizia com arrogancia, «jógo.»</p>
-
-<p>Era quasi manhã, quando <i>isto</i> acabou. O Fogueira
-<i>apontou</i> durante toda a noite, de um modo accintoso,
-contra o Rio Tinto, e esteve sempre com uma sorte de
-burro! Fartou-se de ganhar dinheiro, os montes de
-corôas iam crescendo diante d’elle e já lhe atulhavam
-os bolsos. Todos os outros <i>pontos</i>, embirrados com isto,
-seguiam o partido do Rio Tinto, que estava sem
-sorte nenhuma, e perdiam com elle! Em virtude d’isto,
-quando eram cinco horas da manhã, estavam <i>á lisa</i>,<span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span>
-achando-se o dinheiro no cinto do Fogueira que os
-<i>tinha alimpado a todos</i>!</p>
-
-<p>Antes da meia noite, a taberna ficara vasia de gente,
-que tinha saído para a romaria, com fim de ver o
-fogo! Na rua passavam continuadamente descantes á
-viola. Os que perdiam ao jogo, o Rio Tinto, o Fanfarra
-e todos se indignavam pronunciando insultos e obscenidades
-contra os das esturdias... O Fogueira bem
-comprehendia que eram injurias contra elle, por lhes
-ganhar o dinheiro, e ria-se ás gargalhadas, fazendo
-chacota e guardando com escarneo os soberanos que
-os outros perdiam. Por fim, quando amanheceu, o Barroso
-e o Timotheo da Carcova, <i>encontrando-se pela primeira
-vez, no seu dinheiro</i>, depois de uma noite inteira
-de jogo, durante a qual houve um momento em que a
-banca perdia mais de vinte moedas, disseram com certo
-desafogo:</p>
-
-<p>—Contra esta sorte não ha que fazer! Estamos desforros...</p>
-
-<p>E levantaram a banca sendo já dia alto.</p>
-
-<p>O Fogueira ganhava um bom par de moedas! Impiedoso
-e triumpante, principiou a contar ostentosamente
-o dinheiro diante de toda a gente. Batia as libras
-sobre a mesa, fingindo por troça, que desconfiava
-que ellas fossem falsas. Voltando-se para alguns dos
-que as tinham perdido perguntou com modo achincalhador:</p>
-
-<p>—Os sobranos são bôs, ó rapazes? Vocês viriam
-para a feira com dinheiro falso?! Não vinham; porque
-haviam de ter medo ao <i>demenistrador</i>. O que alguns<span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span>
-são é bem bonitos, de cavallinho. Hei de os guardar
-para lembrança d’esta noite.</p>
-
-<p>Os que tinham perdido, conservavam-se n’uma indifferença
-fingida, mas hostil... Deitados por cima dos
-bancos, como dormindo, olhavam por baixo dos chapéus
-desabados. O Rio Tinto e o Fanfarra tinham
-uma expressão amarga e vingativa, affastados do Fogueira,
-fumando cigarros e olhando para elle com um
-rancor intrinseco! Nos seus rostos severos e contraídos
-reconhecia-se-lhes mais ferocidade do que tristeza!</p>
-
-<p>No dia seguinte, o Antonio da Engracia, percorreu
-com a sua amante todo o campo da Agonia, onde era a
-feira. Sempre que estavam perto d’elle o Rio Tinto e
-o Fanfarra, que o olhavam de travez, com modo ameaçador
-e reservado, puchava por dinheiro com escarneo!
-N’esse dia satisfez á Marianna muito mais do que
-as suas exigencias de mulher vaidosa pediam! Comprou-lhe
-uns brincos caros e um par de argolas de cabacinhas,
-na barraca do Ferreira, um ourives do Porto.
-Nos mercadores mandou cortar um saiote vermelho
-do melhor panno e umas roupinhas chibantes. Comprou-lhe
-lenços de seda de furta-côres e chinellas de
-verniz! Quando pagava, affectava sempre gestos esbanjadores,
-que feriam os que o viam!... Porém, esta
-intenção mostrou-se com verdadeira dureza na feira
-do gado, onde principiou a examinar detidamente <i>a
-melhor</i> egua, para a comprar! Era um animal vistoso,
-pelo qual um gordo ecclesiastico minhoto pedia vinte
-e cinco moedas! O Fogueira chegou-se á egua, assentou-lhe
-duas palmadas na anca azevichada e fel-a<span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span>
-estremecer. Puchou lhe, em seguida, pelo rabo, obrigando-a
-a estacar firmemente... Examinou-a nas mãos
-e nos pés até aos cascos, para ver se estava <i>puchada</i>.
-Observou-a na dentadura, levantando-lhe a cabeça e
-affastando-lhe os beiços polposos com o fim de lhe calcular
-a idade... Passou-lhe os dedos diante dos olhos,
-para lhe experimentar a vista... Finalmente, quiz-se
-mostrar um troquilha experimentado, para que o não
-enganassem <i>outra vez</i>!...</p>
-
-<p>O ecclesiastico, dono da egua, seguia discretamente,
-com um sorriso gabosola e um olhar entendedor, o
-exame do Fogueira, fungando estrondosamente a sua
-pitada de <i>meio grosso</i>. O amante da Marianna Ripa,
-com a faixa vermelha apertada no ventre e o chapéu
-de abas largas inclinado para a nuca, perguntou-lhe
-em voz alta e com pronuncia insolente; pois sabia
-que era ouvido pelo Rio Tinto que o cocava de perto:</p>
-
-<p>—Ó senhor padre! Ella é maluca?</p>
-
-<p>O sacerdote, João Pitança, á pergunta inesperada, e
-cuja intensão e alcance não podia comprehender, respondeu
-com uma gargalhada sonoramente timbrada:</p>
-
-<p>—Ah! ah! ah!... Maluca! Home essa! Ah! ah!
-ah!... Como diabo ha de ser maluca a melhor egua
-da feira?! Ah! ah! ah!... Só essa pergunta me faria
-chorar de riso! Se foi por chalaça que o dissestes, fizeste-me
-rir. Ah! Ah! Ah!...</p>
-
-<p>Affastando-se da sobrinha—uma rica moça de bons
-seios e boas ancas!—que se conservou a distancia com
-o guarda sol pendente das mãos crusadas sobre o ventre,
-aproximou-se do animal, bateu-lhe confiadamente<span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span>
-na anca e chibatou-a com a sua varinha de marmelleiro
-para ella dar reviravoltas...</p>
-
-<p>—Ora maluca!—continuou. Que demonio de lembrança
-a tua! Leva-a a contento meu rapaz! Pagas-ma
-p’ra outra feira se quizeres!</p>
-
-<p>O Fogueira respondeu-lhe n’um tom de chacota,
-sempre com o fim de offender o Rio Tinto, que o continuava
-a escutar n’uma desattenção simulada:</p>
-
-<p>—Não, que ha por ahi muito quem queira enganar
-a gente vendendo burras malucas... Ha muito ladrão
-com cara de gente! O senhor abbade não faz idéa!</p>
-
-<p>—Abbade, não—emendou o ecclesiastico. Um simples
-padre, meu rapaz, um simples padre. Mas quanto
-á egua pódel-a levar, que é trigo limpo. Não tem
-um argueiro, pódes ver á vontade—concluiu o sacerdote,
-com o seu ar de homem bem comido e bem
-bebido, assoando-se fortemente ao lenço de panninho
-que desdobrára completamente ao ar!</p>
-
-<p>Mas o melhor era montal-a—observou. Montando-se
-acabavam todas as duvidas. Se o Fogueira queria
-ver, <i>corria-a</i> elle mesmo, padre João Pitança, ali
-n’aquelle campo da Agonia, que era bom para isso.
-Não pensasse o comprador que tinha n’isso a menor
-duvida. Ou então, se antes queria, o Fogueira que arranjasse
-um picador da sua confiança, e veria como a
-egua se vispava por ali fóra, que nem um corisco! O
-amante da Marianna Ripa gostou d’aquelle desembaraço
-do ecclesiastico, e com ar galhofeiro e atrevido de homem
-que tem o bolso bem cheio de soberanos, disse-lhe:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span></p>
-
-<p>—Então monte lá v. s.ª primeiro. Tamem quero
-ver a sua perna.</p>
-
-<p>O padre João não hesitou um momento. Apertou melhor
-a cilha á egua e as correias das suas esporas.
-Com a mão esquerda nas redeas, repuxou-as de certo
-modo, para o animal enfeitar a cabeça. Alisou-lhe as
-crinas, passou-lhe a mão direita na anca, metteu o pé
-esquerdo no estribo de pau e com um balanço de homem
-acostumado, caíu no selim de um modo firme e
-airoso, como um lanceiro! Em seguida, com o seu riso
-aberto, de camponez vaidoso, disse para os troquilhas
-que o observavam com interesse:</p>
-
-<p>—Isto é fino meus homes!...</p>
-
-<p>E esporeou com habilidade a egua, para a obrigar a
-algumas reviravoltas, que abriram um largo circulo no
-povo circumjacente. Depois deu a primeira envestida
-na carreira, só para obrigar o animal a parar de repente;
-mas voltou ao logar d’onde partira, dizendo para
-o Fogueira:</p>
-
-<p>—É cousa boa, meu rapaz! Cá não se engana ninguem!
-Não sou d’essa gente, nem a quero na minha
-companhia—pronunciou com vaidade.</p>
-
-<p>As abas do seu comprido casaco sacerdotal, caíam
-dos lados. Com as pernas firmes, calculadamente encostadas
-ao ventre da egua, conservava-a n’uma vaidosa
-impaciencia de partir. Carregou o seu chapéu de abas
-largas para lhe não voar com o vento e foi-se chegando
-a passo, para o sitio onde se devia correr. A
-cabeça do animal, firme e altiva denotava certa magestade
-e orgulho!... O padre João Pitança retesava-lhe<span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span>
-com intelligencia as redeas, para a egua se enfeitar, e
-esperava o momento opportuno de estar bem desempedida
-a <i>carreira</i>... Depois, quando esse momento
-chegou, partiu n’um travado meudo e veloz, diante de
-centenares de espectadores, que o viram sumir-se por
-entre uma atmosphera de poeira dourada pelo sol
-poente, o que lhe dava, tanto a elle como á egua, um
-volume indiciso e esfumado! D’ali a poucos minutos voltou,
-a galope rasgado, e estacou firme e de repente,
-no mesmo ponto d’onde tinha partido! O Fogueira confessou
-accenando com a cabeça:</p>
-
-<p>—Sim, senhor! Uma boa perna, senhor padre!</p>
-
-<p>Outro feirante disse:</p>
-
-<p>—E rica mão de redea!</p>
-
-<p>O ecclesiastico surriu-se com satisfação. O troquilha
-montou tambem o animal e correu-o. Por fim concordaram
-no preço de vinte e tres moedas, que o Fogueira
-pagou logo.</p>
-
-<p class="tb">Todas as circumstancias impelliam os maus figados
-do Rio Tinto para um rancoroso procedimento de vingança!
-A pisporrencia do Fogueira ao gastar dinheiro,
-a sorte de burro que tivera ao jogo, as suas provocações
-com palavras e com gargalhadas de chacota, faziam-lhe
-remoer as entranhas lá por dentro, dando-lhe
-certa gana de o abrir de meio a meio! Principiou a conhecer
-que lhe entrava na organisação um appetite infernal
-de se vingar do amante da Ripa! Conhecia, por
-uma reflexão interior, que a cabeça se lhe estava enchendo<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span>
-de idéas perversas!... O Fanfarra, logo que
-elle lhe disse que tinha vontade de ter uma <i>aquella</i>
-com o Fogueira, tomou abertamente o mesmo partido, e
-n’uma intimidade infame, urdiram um plano para se
-vingarem das desfeitas que tinham recebido durante o
-dia!</p>
-
-<p>Poderiam sair-lhe ao encontro, dar-lhe uma grande
-coça, a ponto de o deixarem estendido sem sentidos
-no meio da estrada, e roubar-lhe o dinheiro que levasse,
-que ainda havia de ser um bom par de moedas.
-Podiam porque eram dois homens destimidos, não tinham
-escrupulos e, talvez, já não fosse a primeira que
-faziam!... Mas o peor era a Marianna Ripa, que de
-certo acompanharia o seu amante!... Era preciso desembaraçarem-se
-d’ella por qualquer fórma!... O Rio
-Tinto conhecia bem <i>sua prima</i>... Era uma rapariga desembaraçada,
-que tinha tanta coragem e resolução, como
-qualquer d’elles... Dizia-se que envenenara um
-padre, com quem estivera amancebada dois annos! O
-primo troquilha tanto não acreditava n’este boato, que
-tinha sido a melhor testemunha de defeza da rapariga,
-o que muito concorreu para a livrar da cadeia
-onde esteve oito mezes, por causa d’este negocio!...</p>
-
-<p>—Já tu <i>bês</i> que a conheço muito bem, e que até
-ella tamem póde <i>entrar na cousa</i>—concluiu com pronuncia
-intelligente...</p>
-
-<p>Por isto o Rio Tinto mesmo é que fallou á Marianna,
-que teve alguma difficuldade, alguns escrupulos em
-atraiçoar o seu amante. Mas elle e o Fanfarra logo lhe
-rebateram todas essas asneiras dizendo:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span></p>
-
-<p>—Não sejas tola... Que tens a ganhar com isso!?...
-Elle deixa-te por ahi qualquer dia e ficas a chupar no
-dedo!...</p>
-
-<p>Depois de batalharem algum tempo com ella, convenceram-n’a...
-Que diabo!... O Fanfarra e o Rio
-Tinto, a final de contas tinham rasão. Isto <i>de amigos</i>,
-quando menos se pensa, arrumam para o canto uma
-pobre rapariga, como se faz aos sócos velhos que não
-prestam. Ella bem tinha visto o que acontecera com
-<i>outras</i>... Homens... trazem ás vezes muitos trabalhos.
-Aquelles oito mezes de cadeia, por causa da
-morte do padre João de Pinho, tinham-lhe aberto muito
-os olhos. Estivera para ir por uma barra fóra e,
-em boa verdade, sem ter tido grande culpa... O resalgar
-que deitára na malga de caldo com que o padre
-tristemente se envenenára, não era para o matar a
-elle, que até era um raio de home de quem gostava;
-mas para dar cabo da Tonia Salgada, um pedaço de
-coira, por quem o <i>ladrão</i> andava baboso, esquecendo-a
-ingratamente a ella, que tanta borracheira lhe
-aturara, durante dois annos! Não tinha peso nenhum
-na consciencia por esta morte!... O ecclesiastico é
-que tinha pegado, por sua livre vontade, na malga destinada
-á Tonia... Marianna teria ido degredada, se não
-fosse seu primo, que jurou diante do senhor <i>demenistrador</i>,
-primeiro, e, depois, diante do senhor juiz, na
-casa d’este e no dia da audiencia «que na occasião da
-tal morte, a Marianna, estivera em casa d’elle a sedar
-linho até de noite e lá comera e dormira». Tambem o
-podia jurar sem receio; porque ninguem a tinha visto<span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span>
-em todo esse dia, que passára escondida no palheiro
-do padre... á espera.</p>
-
-<p>A Antonia Salgada já vivia de portas a dentro com
-<i>o seu amigo</i>, já lhe fazia a comida, chegando ao desaforo
-e á pouca vergonha de jantarem á mesma mesa,
-como dois casados!—distincção que a Ripa nunca recebera,
-nem nos seus melhores dias, da parte d’aquelle
-excommungado, que devia, por força, estar a arder no
-inferno! Marianna soube isto; porque os espreitára.
-N’esse instante desesperado, veio-lhe uma impulsiva
-idéa de vingança!—o coração deu-lhe um baque de justiça,
-um salto dentro do peito, como quem diz «dá cabo
-d’aquelle diabo de lesma!...» Pelo muito particular
-conhecimento que tinha da casa do ecclesiastico, sabia
-que, embrulhado n’um papel azul, entre livros guardados
-n’uma caixa de pinho, estava um pouco de veneno
-de ratos, que o sacerdote comprára na villa. Entrou
-um dia lá na casa, quando todos estavam para o campo, e
-tirou o papel azul... Depois estabeleceu o seu plano
-de desforra, que poz em pratica d’esta maneira: Escondeu-se,
-uma manhã cedo, antes do dia romper, no
-palheiro do padre João, que era paredes meias com a
-cosinha. Levou um naco de brôa e uma racha de bacalhau;
-porque contava passar lá o dia inteiro. Durante
-toda a manhã, divertiu-se, a observar a tronga da
-Antonia, andando no preparo do jantar, para o que até
-matou a melhor gallinha! Uma cousa assim!... era
-de morrer de riso! Se a quizessem ver, como se rebolava
-por aquella cosinha! Parecia a dona da casa,
-cantarolando o <i>bemdito</i>, as <i>modas do Coração de Maria</i><span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span>
-ensinadas pelos ultimos missionarios, e o <i>Afasta janota,
-arreda</i>... moda dos cegos que tinham estado na
-ultima romaria do <i>Soccorro</i>. Ai que raiva se lhe apoderou
-do coração! Não sabe como se conteve, que se
-lhe não atirou ali mesmo ao gasganete, fazendo-lhe
-deitar uma lingua de palmo!... Por fim, quando no
-relogio da igreja deram as onze, a bebeda tirou da
-caixa uma toalha lavada, estendeu-a na mesa, sempre
-cantando com voz esganiçada. Depois encheu duas
-malgas de caldo, poz a gallinha e o presunto n’uma
-torteira de barro e saíu para chamar <i>senhor padre João</i>
-o seu—rico senhor padre João!—que andava na horta,
-a regar...</p>
-
-<p>Foi durante os minutos d’esta ausencia que Marianna
-saíu do seu esconderijo e deitou todo a resalgar
-na malga que presumia ser a da sua rival! Pouco depois
-chegou o sacerdote, de tamancos, correndo atraz
-da moça pela cosinha dentro, com muito estrondo! Ella,
-a delambida, a fingir que fugia cheia de medo!... Seguiu-se
-um momento soturno, em que gosou, no meio
-de uma angustia ciumenta, a sua proxima, cruel e decisiva
-vingança! Pois aquelle alma de damnado, ali
-mesmo nas suas barbas, não se vae pôr a andar atraz
-da moça, não a agarra pela cintura, dando-lhe beijos e
-abraços, não atira com ella ao chão, com relinchos
-de cavallo! N’este momento, Marianna, achou mais repugnante
-o padre do que a tronga! Emquanto durou
-esta expansibilidade animal do ecclesiastico, ella soffreu
-os finos acicates do ciume, morderam-n’a até ás entranhas.
-Sentia-se espoliada n’um beneficio que lhe pertencia!<span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span>
-Em vez de ser a ella que o malvado dava todas
-aquellas provas de amor, via-se reduzida a espreitar
-por uma frincha da porta e a presenciar enertemente
-tudo aquillo, Santo Nome de Maria! Teve tentações
-de entrar na cosinha, pegar n’um machado que estava
-ao pé da lareira e dar com elle na cabeça de ambos!
-Um ladrão e uma desvergonhada d’aquellas! A Ripa
-sentia-se com animo de os abrir, a um e a outro, e de
-lhes trincar o coração!... Mas uma voz interior de
-contentamento e de saciedade, apregoava-lhe o seu
-proximo triumpho e aconselhava-a a conservar-se escondida,
-como estava!... Aquella molengona, que lhe roubava
-a felicidade, dentro em pouco sentiria horriveis
-dôres nas entranhas e havia de estorcer-se n’aquelle
-chão terreo da cosinha, como um demonio escorraçado
-pela agua benta!...</p>
-
-<p>Depois, o padre e Antonia, foram para a mesa e o
-maldito troca de proposito as malgas só para dar a
-melhor,—a de pó de pedra, a que era d’elle e que
-nem ás visitas offerecia!—á lambisgoia, que a acceitou
-toda derretida! N’este momento caíu-lhe a alma aos pés!
-Teve um movimento expontaneo de amor, de generosidade
-ou de compaixão, e chegou a pôr a mão na
-caravelha, para lhe ir arrancar da mão o veneno! Todo
-o seu corpo estremeceu, desde as unhas dos pés até á
-raiz dos cabellos, quando o padre João disse para a
-Antonia com ar interrogativo e saboreando o caldo com
-estalidos gulosos de lingua.</p>
-
-<p>—Ó moça, tu deitaste assucar no caldo!...</p>
-
-<p>Ao que ella respondeu, toda chieira:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span></p>
-
-<p>—É porque ó senhor, parece-lhe dôce tudo que eu
-façe.</p>
-
-<p>Marianna perdeu parte da consciencia e da vontade,
-ficando aniquilada, entorpecida, desorientada, entre a
-idéa feroz de uma vingança justa e o remorso, ou receio,
-de um crime que seria descoberto e punido! Não
-teve resolução, nem desembaraço para nada! O ecclesiastico
-bebeu a malga quasi de uma assentada, depois
-de ter comido a gallinha, com duas enfusas de
-vinho rascante. A Ripa deixou-se caír desfallecida no
-chão terreo! O sacerdote, acabado o jantar, saíu para
-ir levar <i>o Senhor</i> a uma moribunda. A amasia, tambem
-foi acompanhar Nosso Pae!... Ficou ella, só, dentro
-d’aquella casa, entregue ao proprio cerebro! Um silencio
-tenebroso cercou-a n’este terrivel momento!... N’uma
-especie de spasmo e de embrutecimento cheio de
-medo, foi-se metter debaixo da palha, tapando os ouvidos
-para nada escutar!</p>
-
-<p>Que medonhas horas ali passou, sob a impressão
-accusadora de todos os factos que n’esse dia a interessaram.
-Horas depois, d’ali mesmo, ella ouviu o alarido
-da freguezia, correndo em gritos a casa do ecclesiastico,
-quando, quatro homens de béca, o traziam pelos
-caminhos n’uma padiola, com a batina e o roquete todo
-rasgado! Tinha tido os primeiros engulhos do envenenamento,
-quando ministrava á moribunda a Extrema
-Uncção, cercado do respeito submisso dos fieis
-ajoelhados em volta! Depois, principiou a sentir-se
-mais afflicto, sentou-se sobre uma caixa com os santos
-oleos na mão, e, como as afflicções cresciam<span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span>
-assustadoramente, suspendeu com intelligencia a applicação
-do sacramento! Nem escalda-pés, nem mesinhas
-receitadas pelo cirurgião Manco, poderam produzir o
-beneficio desejado e, mesmo assim vestido sacerdotalmente,
-os homens que tinham acompanhado o <i>Santissimo</i>
-o trouxeram n’uma padiola para casa e o poseram,
-sobre a cama, já sem falla! Os soluços, as ancias,
-os vomitos, os gritos de dor que elle ainda teve,
-até ao momento de morrer, eram uma eterna condemnação,
-para a negra alma peccadora de Marianna Ripa,
-que os ouvia, escondida debaixo da palha! Se tivesse
-comsigo uma navalha, durante aquelles instantes infernaes,
-tinha-a enterrado bem funda no proprio coração,
-para se punir! Tamanho era o seu arrependimento
-e a sua contricção, n’este momento unico, que
-desejou morrer ali mesmo de uma morte repentina,
-bem medonha e horrenda! Mas depois, alta noite, desapavorou-se
-mais, escutando as conversas vulgares do
-sachristão com os outros homens, que ficaram a vigiar o
-morto e conversavam, riam e escarravam alto, já muito
-bebados! Então saltou para os campos pelo postigo
-do palheiro e fugiu, indo refugiar-se em casa do Rio
-Tinto, a quem contou tudo, para se accusar. O primo
-serenou-a dizendo-lhe:</p>
-
-<p>—Mas elles não te viram, não, rapariga?</p>
-
-<p>—Não viram. Ninguem sabe que fui eu—respondeu
-soffocada.</p>
-
-<p>—Então bem, não tenhas medo.</p>
-
-<p>Mas a justiça sempre a prendeu, por simples desconfianças,
-fundadas em que foi encontrado no chão<span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span>
-da cosinha do padre, um tamanco que lhe pertencia.
-Porém, como fôra creada na casa, facil foi explicar este
-achado... O Rio Tinto, com o seu sangue frio é que
-a livrou da justiça, jurando a pé junto, como um cavallo,
-que Marianna Ripa estivera todo o dia em casa
-d’elle a sedar linho! Nunca poderia esquecer este grande
-serviço que o primo lhe fizera! Sentia-se-lhe presa
-pela gratidão, e quando elle lhe pediu para não ir com
-o Fogueira prometteu-lh’o, promptificando-se ao mesmo
-tempo a saber ao certo o caminho que o troquilha
-seguiria de Vianna para casa. Mas ainda assim,
-deve dizer-se: impoz como condição, pediu muito ao
-Fanfarra e ao Rio Tinto, que o não matassem, que
-não fizessem mal ao rapaz. Disculpava-o: era um estouvado,
-um espanta lobos por acaso, mas tinha um bom
-coração—rapaz de franquezas, nada era d’elle, tudo
-dava! O Rio Tinto serenou-a: não o queria matar—sómente
-desejavam alivial-o da chelpa que lhe havia de
-fazer peso no cinto. Para que queria elle, um rapaz
-solteiro e sem filhos, tanto dinheiro, como o que lhe
-dera a mãe, da venda dos campos, e como o que lhes
-ganhára ao <i>monte</i>?! De mais a mais era um burro tão
-feliz, que até arranjára o <i>sustituto p’rá tropa</i>, por quinze
-moedas, quando, todo mundo, gente mais pobre, tinha
-dado vinte. É bem certo dizer-se que a agua corre
-sempre para o mar e que, quando se é feliz, é-se
-feliz a valer! Aquillo estava mesmo a pedir uma alma
-de Deus que lhe tirasse a <i>chelpa</i>!...</p>
-
-<p>A rapariga concordou. Receberia tanto como elles,
-pelos esclarecimentos que obtivesse. Porém, insistiu,<span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span>
-ainda uma vez, com afinco e honestidade, em que não
-o matariam, em que o haviam de deixar ir em paz,
-depois de lhe tirarem <i>o que levasse no cinto</i>!... O
-Fanfarra, porém com um rosto ingenuo e sério, observou:</p>
-
-<p>—Isso lá, tamem... que não tire elle pela gente!...
-Quando lhe pedirem <i>o milho</i> que o ponha e que não
-bufe... Se assim quizer que vá com seiscentos diabos,
-que ninguem lhe quer a pelle para tambor.</p>
-
-<p>O Rio Tinto observou sensatamente:</p>
-
-<p>—Ah! elle vendo que são dois resolvidos, não se
-ha de ir pôr com <i>aquellas</i>... Olhem que isto de estar
-assim de noite, no meio de um caminho só, onde nem
-todos os santos lhe podem valer se quizer pimponices...
-faz respeito.</p>
-
-<p>E convieram em que, se elle se quizesse fazer fino,
-lhe iriam aos untos, sem mais <i>aquellanças</i>. O melhor
-era elle deixar-se de asneiras; porque lhe tinham uma
-sêde... lá do fundo. O Rio Tinto confessou ao Fanfarra,
-quando não estava presente a Marianna Ripa,
-que com o Fogueira ainda desejava ajustar <i>umas contas
-velhas</i> e que talvez fosse esta a occasião... E com
-um sorriso medonho, de copo em punho, observou:</p>
-
-<p>—Isso lá, se não dá os sobranos depressa, leva
-uma tapona real.</p>
-
-<p>—Melamos-lhe aquelle coiro!—acrescentou o outro
-com intimativa.</p>
-
-<p>Chegaram a combinar mais detalhadamente no modo
-como procederiam. Não ignoravam que o Fogueira
-era têso, mas tambem não lhe tinham medo. Eram<span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span>
-dois. Bem armados, com as choupas dos seus páus
-argolados e com navalhas de ponta e mola, que sempre
-usaram trazer no bolso interior da jaqueta de briche,
-julgavam-se temiveis. No entanto, para não serem
-conhecidos, cobririam as caras barbadas com lenços
-esboracados no sitio dos olhos e da bôca e fallariam
-na voz tôrva dos salteadores das lendas! O caminho,
-depois dos esclarecimentos da Ripa, era mesmo
-a calhar, e o Rio Tinto conhecia-o perfeitamente. Por
-isso elle mesmo é que determinou o sitio em que poderiam
-esperar o Fogueira. Era uma encruzilhada, onde
-havia uns carvalhos que, nas noites sem luar, tinham
-o volume incomensuravel das sombras phantasticas
-e pavorosas! O amante da Marianna passaria ali
-pela meia noite, pouco menos... A escuridade, o sitio
-e a hora, concorriam para o effeito d’esta scena de romance
-theatral. Só faltava a capa, o <i>sombréro</i> e o bacamarte
-para ser um quadro de Goya!...</p>
-
-<p>Os salteadores ensaiavam-se com antecedencia: sairiam
-de repente de entre os velhos troncos nodosos e,
-mandando fazer alto, diriam imponentemente com voz
-soturna: «Seu amigo, ponha ahi o que leva!» Se o
-desse por bem e logo, deixavam-n’o com os demonios;
-se quizesse fanfar tirar-lhe-íam o dinheiro á força e
-moer-lhe-íam o canastro. Disse-o claramente o Rio Tinto
-com o seu rancor de mau homem:</p>
-
-<p>—Se bufa paga-mas todas juntas. Á gana que lhe
-tenho, ponho-o molle como uma bosteira de gado! O
-bocado maior, não se ha de ver!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span></p>
-
-<h3>VII</h3>
-
-<p>O Antonio Fogueira saíu, ao escurecer, de Vianna,
-com idéa de chegar, na manhã seguinte, á sua freguezia,
-fazendo, assim, todo o caminho de noite. Não havia
-luar e as estrellas, quasi tão vivas como nas limpidas
-noites de inverno, diffundiam na amplidão luz sufficiente
-para, a pequena distancia, se poder apreciar o
-vulto das pessoas, a grandeza das arvores e dos penedos
-proximos. Quando elle saíu de Vianna, com muita gente
-conhecida, dispediu-se da Marianna Ripa até á proxima
-feira dos nove. Pelo caminho, os seus companheiros,
-foram dirivando para outros destinos e, quando
-era pela volta da meia noite, o Fogueira caminhava só,
-destacando-se, no silencio ambiente, como uma côr viva
-se destaca n’um fundo escuro, o saliente resfolgar
-da sua egua, que trotava n’um passo moderado e cadente,<span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span>
-batendo com as ferraduras nas pedras avulsas
-do caminho. A estrada que seguia era estreita, orlada
-de arvores copadas, o que augmentava a escuridão...
-O Fogueira, apesar de não ser medroso, sentia, em
-volta de si, um certo vasio que lhe dava uma sensação
-de desamparo... de abandono!... Inconscientemente
-principiou a pensar n’um mau encontro, a lembrar-se
-que lhe podiam vir ao caminho alguns ladrões, se
-por acaso soubessem que o seu cinto ía tão bem recheado
-de soberanos! Quando se surprehendeu dominado
-por estas idéas extravagantes, sorriu incredulamente...
-Bem sabia não haver por ali ladrões, e que
-sómente, uma ou outra vez, se roubava uma poçada de
-agua, para valer a algum campo de milho, que se mirrava
-de secura. Mas dado mesmo o caso que lhe apparecesse
-um ou dois ladrões!? Não era elle um dos melhores
-jogadores de pau das feiras minhotas?! O seu lodam
-não tinha uma choupa de romper um peito?! A sua
-egua não era bastante impetuosa, para abrir caminho
-por entre um regimento de soldados, e bastante fugideira,
-para não ser pilhada pelo melhor cavallo a toda-a-brida?!...
-Porém, como lhe veio esta idéa esquisita
-de se lembrar de ladrões?! Como diabo lhe deu a caturrice
-para ali?! Não sabia, mas a verdade é que lhe
-desagradou o encontrar-se a pensar em <i>taes amigos</i>,
-quando era certo, que tinha o cinto atulhado de dinheiro...
-No momento em que elle se sorria destas asneiras,
-chegava a um pequeno largo, onde havia uns
-carvalhos antigos, cuja ramagem copada lhe deu facilmente
-uma impressão amedrontadora, como a de uma<span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span>
-igreja, ou de um cemiterio que, n’uma estrada rural,
-se encontra desprevenidamente! O silencio aqui era
-simplesmente interrompido pelo som metallico de uma
-pequena fonte, que pingava junto de um muro. O Fogueira
-sentiu-se n’este momento mais isolado, e, talvez,
-em virtude da impressão desagradavel que este
-sentimento de desamparo lhe causou, attendeu com
-mais intelligencia a tudo que o cercava. Um tremor
-incaracteristico, mas energico, irradiou-lhe em todo
-o corpo; porque dois homens, dando largas passadas
-de tragedia, de paus argolados levantados ao ar, se lhe
-opposeram com arrogancia, dizendo com voz soturna:</p>
-
-<p>—Faça lá alto, ó seu amigo!</p>
-
-<p>A egua susteve-se logo, desconfiada, com um olhar
-inquieto, a cabeça levantada, as orelhas espertas! O
-Fogueira estremeceu involuntariamente, um formigueiro
-rabiou-lhe ao longo da espinha, ficando n’uma especie
-de spasmo, depois de ouvir aquella voz rouca,
-avinhada, uma voz de timbre seu conhecido, mas que,
-n’este momento, não podia dizer de quem era... Toda esta
-scena rapida e inesperada, deu-lhe uma idéa pavorosa
-de cousa sinistra, da intervenção do demonio nos
-successos da sua vida, de acontecimento só explicavel
-em historias de bruxas!... Porém, recuperando a serenidade,
-reconheceu que eram realmente dois homens
-mascarados, que se lhe oppunham no caminho e que
-deveria por força ser, para o roubarem... Seguindo o
-proprio instincto, tirou o seu pau ferrado de entre a
-perna e o albardão, levantou-o para elles com arrogancia
-e dizendo «qual alto, nem meio alto!» esporeou<span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span>
-energicamente a egua, para romper com velocidade por
-entre os dois mascarados. O animal, que era fino e
-sensivel, deu um corcovo, indo esbarrar-se contra uma
-corda que estava intensionalmente atravessada no caminho
-e, o Fogueira, ficou desmontado; mas com tanta
-felicidade que, quando os aggressores íam a caír sobre
-elle, encontraram-n’o de pé, fazendo-lhes face,
-com o páu em guarda, emquanto que, a distancia, se
-ouviam as ferraduras da sua egua batendo nas lages
-da calçada.</p>
-
-<p>Este momento de silencio foi tenebroso! Havia dois
-homens contra um, na escuridade indicisa de um caminho
-orlado de arvores, que se definiam no ar com
-os seus enfolhamentos volumosos e espessos! O Fogueira
-esperava um ataque simultaneo da parte dos
-salteadores, e já calculava defender-se, de costas contra
-o muro, sustentando-se assim até poder <i>bimbar</i> o
-primeiro, para depois se encontrar com o segundo que
-accommetteria com força. Mas um dos mascarados, baixando
-o páu com desdem, disse n’uma voz trocista de
-compaixão, para lhe mostrar que o tinha comprehendido:</p>
-
-<p>—Home, não te faças fino, que te enganas. Deita
-ahi a marmelada que levas no cinto e vae-te c’os demonios,
-se não póde-te saír a cousa torta!</p>
-
-<p>Esta intimação ironica e despresadora offendeu, mais
-do que tudo, o Fogueira, insufflando-lhe uma energia
-raivosa contra os dois aggressores. Não o conheceriam
-elles?! Não saberiam que era o melhor jogador do pau
-das feiras minhotas?!—disse comsigo este sanguineo<span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span>
-estouvado! Pois estavam em momento de o experimentarem!—pensou
-n’um silencio rancoroso e indomavel.
-E logo depois, n’um impeto leonino e sem tatica,
-cresceu aggressivamente para ambos, tomado de
-um frenesi tão diabolico, que os fez recuar alguns passos
-n’este primeiro ataque. O Rio Tinto disse-lhe com
-uma voz já menos disfarçada, aparando-lhe as pauladas:</p>
-
-<p>—Ah! queres á valentona?!... Vamos então lá a
-ver!...</p>
-
-<p>Houve um instante de hesitação, um momento instinctivo
-de pausa, em que de parte a parte se pensou
-rapidamente em accommetter com a maior energia. O
-Fogueira era bastante conhecido, como jogador temivel.
-O Rio Tinto e o Fanfarra sabiam-n’o melhor do
-que ninguem; porque muitas vezes se tinham encontrado
-emparceirados em desordens e, talvez n’este momento,
-se lembrassem que, um d’elles, devia á presteza
-e generosidade d’este valente rapaz, não ter ficado morto
-<i>no S. Sebastião de Villa Nova</i>!... Porém, apesar
-d’isto, no momento actual, elles eram dois contra um!
-A enorme sêde de vingança, e a natural maldade e
-valentia incontestada dos dois salteadores, davam-lhes
-reconhecidas vantagens. O Fogueira, ainda que fóra
-de si, já tinha conhecido <i>pela guarda</i> dos adversarios
-que elles <i>sabiam do negocio</i>:—reconheceu que eram <i>jogadores</i>.
-Mas o seu natural impetuoso e imprevidente
-levou-o a saír da defeza, com o fim de os atacar, e
-com a idéa de fazer a um d’elles, a sua <i>finta</i> predilecta
-á bôcado estomago; empregando, ainda assim, <i>muito olho</i><span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span>
-para não perder a protecção do muro, que lhe guardava
-as costas. Na soturnidade da noite, profunda e
-cava, por entre os espessos troncos de carvalhos folhosos,
-no meio do silencio imponente das montanhas
-visinhas que se levantavam na amplidão, ouviam-se os
-estalidos seccos e breves dos paus, batendo uns nos
-outros, por entre as respirações de cançaço cortadas de
-palavras injuriosas e cheias do rancor dos combatentes!
-No escuro, a que elles já tinham habituado os
-olhos, os seus corpos furtavam-se habilmente <i>aos golpes</i>,
-saltando de lado para lado, sempre n’uma incerteza
-de posição! O Fogueira, como era só, precisava empregar
-maior esforço e tal raiva que, no fim de cinco minutos,
-fez saltar o pau do Rio Tinto, para lhe atirar a
-pontuada ao estomago! Este porém, como lhe conhecia
-bem o jogo, deu um largo salto de recuo e, em vez de
-ir buscar outra vez a sua arma, metteu rapidamente
-a mão ao bolso interior da vestia, tirando a sua comprida
-navalha que abriu de prompto e disse na voz
-natural:</p>
-
-<p>—Agora ha de ser com esta. Ataca com força rapaz!—gritou
-ao companheiro.</p>
-
-<p>Principiou um d’esses momentos terrivelmente sinistros,
-em que entre dois homens se estabelece esta
-negra idéa—de se matarem um ao outro! O Fogueira
-conheceu immediatamente o perigo, quando viu faiscar
-a lamina da navalha, que mesmo á luz tibia das
-estrellas brilhára aos seus olhos, como um relampago!
-N’esta lucta obscura, que se passava no silencio de uma
-noite de primavera e na tranquillidade de um caminho<span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span>
-rural, havia muita ferocidade condensada! O Antonio
-Fogueira tinha, até ali, sustentado os ataques dos adversarios;
-mas, agora, para se furtar á navalha de um
-assassino, só o poderia conseguir inutilisando o Fanfarra,
-que o ensarilhava de cada vez mais, fazendo-lhe
-um jogo de mil demonios! Por isso, com a ligeireza
-de um cabrito montez, saltava para a direita, para
-a esquerda, para a frente, para traz... evitando os
-dois inimigos que o procuravam com pertinacia... com
-furia! O Rio Tinto praguejava, ameaçava-o com voz rouca...
-quasi natural... O Fogueira tel-o-ía conhecido em
-outras circumstancias; mas, em momento tão apertado,
-nem reflexão tinha para isso... As forças eram desiguaes...
-o filho da Engracia enfraquecia-se visivelmente,
-e a elle, que era corajoso, veio-lhe a idéa de um
-soccorro providencial... Sentia-se já extenuado e aggredido
-de cada vez com mais tenecidade, com mais
-rancor, com maior impeto! Aquelle que o procurava
-por todos os modos, para o anavalhar, pronunciou com
-voz clara, já sem pretensões de disfarce:</p>
-
-<p>—Agora Fanfarra, deixa-me c’o elle!...</p>
-
-<p>E logo em seguida, o Fogueira, sentiu-se abraçado
-pelo seu inimigo, a quem desmascarou no instante em
-que a comprida navalha lhe entrava no coração, rasgando-lh’o
-com tal força, que só teve tempo de dizer
-n’um suspiro final:</p>
-
-<p>—Ah! ladrão de Rio Tinto, que me matastes!</p>
-
-<p>Foi este o ultimo grito de angustia e as ultimas palavras
-que proferiu!... O seu corpo deixou-se caír no
-chão, desfallecido, com os braços pendentes e o sangue<span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span>
-a golfar-lhe pela ferida e pela bôca! Ainda teve alguns
-movimentos convulsivos, acompanhados de um rouco
-respirar stertoroso, com borbulhões de espuma sanguinea
-pelo nariz! A sua energia ainda manifestou um instante
-de louca rehabilitação, pertendendo, aquelle corpo
-moribundo, levantar-se sobre os joelhos! Mas a final
-caíu brutamente, ficando exanime, insensivel, de bruços
-sobre a terra!...</p>
-
-<p class="tb">O Rio Tinto e o Fanfarra conservaram-se, durante
-um longo minuto, a olhar para o cadaver, silenciosos,
-estupidos, n’uma impotencia inexplicavel, quasi sem poderem
-fugir! Sentiam-se agora mais covardes, mais
-irresolutos, depois de consummado o crime! Não tendo
-uma precisa comprehensão das circumstancias, esperavam,
-um tanto passivamente, qualquer castigo que viria
-do alto, de uma implacavel região de justiça, para
-os punir!... Alguem que, por casualidade, os tivesse
-visto, poderia aproximar-se sem que elles se escondessem;
-pois que, durante este minuto sinistro, conservavam-se
-sisudos, calados, a olhar um para o outro,
-com os braços pendentes!... Mas, logo depois, o Rio
-Tinto, que era mais preverso e malvado, recuperando
-com certa promptidão a sua podre consciencia, disse,
-em voz insultante, para o cadaver:</p>
-
-<p>—Ora ahi tens!... É assim que se ensinam os pimpões!...</p>
-
-<p>E permanecendo algum tempo com o ouvido á escuta,
-para que alguem se não aproximasse inesperadamente,<span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span>
-observou em seguida ao Fanfarra que, dominado
-por um terror supersticioso, escutava o som metallico
-da agua da fonte:</p>
-
-<p>—Não tenhas medo... Não é ninguem... É ali a
-pingar...</p>
-
-<p>Porém, como o Fanfarra, ainda se conservava n’esta
-insensibilidade estupida e incomprehensivel, o Rio Tinto
-dispertou-o dizendo-lhe, com um acêno imperativo de
-cabeça:</p>
-
-<p>—Então?!</p>
-
-<p>O outro troquilha encolheu os hombros, com certo
-desleixo, indicando que fizesse elle o que quizesse, que
-estava prompto para tudo... O assassino do Fogueira,
-dando movimentos desengonçados ao tronco e á cabeça,
-proferiu com certa ironia feroz e temivel, condemnando
-aquelle estado de arrependimento:</p>
-
-<p>—Ora põe-te com <i>aquellas</i>. Talvez ainda lhe tenhas
-medo. Olha que já se não mexe...—concluiu impellindo
-o cadaver com um pontapé.</p>
-
-<p>E, logo, curvando-se sobre o corpo ainda quente,
-desafivelou-lhe o cinto que suspendeu no ar, tilintando
-escarnecedoramente com o dinheiro, e rematou n’uma
-voz de contentamento miseravel:</p>
-
-<p>—Ouvel-os? Cá cantam?! Fazem um certo arranjo.</p>
-
-<p>O sangue ensopava a terra, jorrando em borbotões
-ruidosos pela bôca do cadaver e pela ferida! O Rio
-Tinto, tendo guardado o roubo, observou com modo
-mais familiar, pondo a mão no hombro do companheiro,
-que permanecia na mesma apparente insensibilidade:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span></p>
-
-<p>—Agora... pernas para que vos queremos. Toca a
-andar, que póde vir por ahi algum patrão!...</p>
-
-<p class="tb">Retrocederam pelo mesmo caminho, primeiro n’um
-passo rapido, depois a fugir, o Fanfarra atraz do Rio
-Tinto. Tomaram á esquerda, por um atalho pouco frequentado,
-que os devia levar, atravez de uns montes,
-a outra estrada...</p>
-
-<p>O Fanfarra, quando já estava mais seguro de si, parou
-subitamente, para considerar:</p>
-
-<p>—Olha lá... Ficaria elle bem morto?!</p>
-
-<p>O Rio Tinto certificou-lh’o do seguinte modo:</p>
-
-<p>—Deus te dê mais vida do que elle tem!</p>
-
-<p>Mas o Fanfarra, visivelmente preoccupado com esta
-idéa, como estavam muito perto disse:</p>
-
-<p>—Home... ainda é escuro... Voltemos a espreitar
-se elle se mexe!</p>
-
-<p>E voltaram n’um passo rapido, melhor seguros de si,
-com a alma mais desanuviada e perversa. Ficaram a
-pequena distancia, de traz do muro, escutando... O
-silencio prolongava-se preguiçosamente na profundidade
-do valle. Sómente o pingar monotono da fonte proxima
-perturbava este alvorecer indiciso, que os passaros
-já principiavam a alegrar. Os assassinos, para se
-certificarem positivamente da morte do Fogueira, e como
-a escuridade ainda os protegia, saíram do logar onde
-se tinham prudentemente escondido e aproximaram-se
-do cadaver, com certa ousadia e confiança. O corpo continuava
-a jazer exanime, de bruços sobre a terra! Não<span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span>
-tinha o menor signal de vida—nem sequer perturbava
-o silencio da noite, com a respiração tenue do moribundo!</p>
-
-<p>O Rio Tinto, empurrando outra vez o cadaver despresivelmente
-com o pé, pronunciou com um sorriso
-cynico:</p>
-
-<p>—Estás bem morto! Pagastel-as todas. Já não comes
-mais brôa.</p>
-
-<p>O Fanfarra, que era menos animoso, observou-lhe
-com certo modo urgente:</p>
-
-<p>—Home, deixa-o lá, coitado! Fujamos nós, que já se
-vae vendo!... Pode vir por ahi algum demonio...</p>
-
-<p>O Rio Tinto concluiu com uma intonação trocista:</p>
-
-<p>—Aposto que tens pena d’elle!... Ou é medo?!...
-Não tenhas medo; nem elle, nem os que podem vir te
-prendem. Se algum pimpão ahi apparecesse agora, fazia-se-lhe
-o mesmo e eram dois que ficavam estendidos.</p>
-
-<p>Depois afastaram-se do cadaver e do caminho que
-tinham trazido de Vianna, por atalhos seus conhecidos.
-D’ali a poucos minutos, transpunham o cabeço sobranceiro
-á estrada. O Rio Tinto concluiu com serenidade:</p>
-
-<p>—Agora é que é bom dar á perna, que <i>ella</i> vae-se
-mostrando...</p>
-
-<p class="tb">Referiam-se á manhã que rompia, com uma claridade
-roxa. Era o alvorocer de um formoso dia de sol.
-As cumiadas dos montes circumvisinhos ainda se esfumavam
-indicisamente no azul; porém, o tremulusir<span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span>
-das estrellas que fôra, durante a noite, vivo e inconstante,
-como o dos brilhantes nos bailes da opulencia
-mundana, principiava a extinguir-se. O ar sadio e oxigenado
-dos campos, dava ao corpo dos madrugadores
-a sensação macia de uma ligeira humidade refrigerante.
-Dos pinheiraes e das mattas de carvalhos, já
-saíam os gaios ralhadores, com o seu vôo largo, annunciando,
-por cima das penedias, o dia que chegava. Os
-braços enfolhados das arvores nascidas nas eminencias,
-recortavam-se no céu, tenuemente anillado, manchando-lhe
-a pureza. A modo que o dia se ía illuminando
-melhor, as arvores e as massas de penedos destacavam-se,
-com mais precisão. Da côr roxa primitiva,
-o céu, foi insensivelmente passando para a côr de rosa,
-depois para o azul plumbeo, por fim colorindo-se todo
-por igual, quando as estrellas já se não percebiam, adquiriu
-o verdadeiro tom de azul ferrete, uma côr humida
-e energica, propria das manhãs de primavera no
-clima do Minho. O nevoeiro tenue, como um gaze lançado
-sobre os montes e os campos, foi se pouco a
-pouco condensando no fundo do valle. A vida laboriosa
-dos trabalhadores ía manifestar-se nos caminhos e nas
-encostas. Seria um dia alegre como todos os dias,—os
-milhos continuariam a crescer, e as poucas cearas
-de centeio pintar-se-iam com o amarello da ganga...
-Porém, n’este pequeno largo plantado de velhos carvalhos
-annosos e onde uma pobre veia de agua pingava
-continuadamente, estava disposta uma surpreza desagradavel,
-para o primeiro madrugador da aldeia. Era
-o cadaver de um rapaz de vinte e tantos annos, assassinado<span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span>
-com uma facada, que lhe entrára no coração! O
-seu corpo estava de bruços, no supremo abandono da
-morte! O sangue saído da ferida, molhava a terra e
-manchava-lhe a cara. E, a vivificante luz da manhã, o
-orvalho que refrigéra, as côres da paizagem que enebriam
-pela complexidade de tons... essa força omnipotente
-que vem da natureza, pairava sobre o morto,
-com um scepticismo ironico e dominador!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">A MORTE NEGRA<br />
-<span class="smaller">A ALEXANDRE DA CONCEIÇÃO</span></h2>
-
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak">A MORTE NEGRA</h3>
-
-</div>
-
-<p>O terceiro marido de Isabel morreu de uma prolongada
-<i>queixa de peito</i>. A viuva, que era uma rapariga de
-vinte e seis annos—saudavel, tentadora, appetitosa—de
-uma forte carnação campesina, com a intensa vitalidade
-das naturezas creadas em liberdade, poderia definhar-se
-em virtude de tão successivas desillusões!
-Porque ella, que passára os ultimos tempos em despezas
-de casamentos e de enterros, estremecendo com
-afinco e tenacidade, cada marido recente, tinha de o
-prantear logo depois, com um tal apparato de palavras
-inconsolaveis, que sensibilisava todas as pessoas que
-a ouviam, obrigando-as a tomar parte na sua enorme
-dôr!</p>
-
-<p>Quando acabou de expirar este ultimo, o José Chibante,
-Isabel principiou a choral-o, com um desespero
-tão desgrenhado, que até a propria natureza austera e<span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span>
-muda—as altas arvores, os altos montes e os negros
-penedos—pareciam compungidos!</p>
-
-<p>Estava-se na primavera, mas durante muitos dias
-caíra um aguaceiro copioso e subtil, que dava, ao socego
-das cousas naturaes, um caracter funerario e lugubre!
-As densas paizagens, envolvidas d’um nevoeiro
-espesso, não se viam cortadas, ao longe, pelas alegres
-claridades das habitações. A linha irregular do
-horisonte não se riscava no azul das tardes serenas e
-desejadas. O grosso volume das penedias occultava-se
-nas densas nuvens, que se rasgavam, transpondo montes,
-transpondo valles, correndo sempre, com uma impassibilidade
-gigantesca, como de valentes cavallos de
-posta.</p>
-
-<p>Ora Isabel, viuva pela terceira vez, sentira durante
-a noite o som ululante do trovão, e presenciara os ultimos
-momentos angustiosos de seu marido agonisante,
-encostado ao catre da cama!... Ella, que era uma
-rapariga forte e com as seducções da belleza e da juventude,
-sentia-se aniquilada! Exprimia-o com gritos
-angustiosos, com gestos vehementes, com palavras de
-desespero, de amor, de saudade!... As suas boas lagrimas,
-abundantes, sinceras e quentes, tinham attraído,
-logo de manhã, a caridade de algumas visinhas, que lhe
-trouxeram as melhores consolações, excellentes palavras,
-attenções urgentes... n’aquelle momento doloroso. Eram
-amigas e companheiras nos trabalhos ordinarios da lavoura,
-e que tinham igualmente assistido, ao caminhar
-implacavel da <i>consumpção</i>, em que haviam morrido
-os outros dois maridos de Isabel!... Por isso conheciam<span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span>
-muito bem o que se passava, e, quando ouviram
-os primeiros gritos alarmantes, fecharam as portas, e
-pelo caminho para casa da viuva, consideravam cheias
-de tristeza:</p>
-
-<p>—Então sempre se foi o Chibante?...</p>
-
-<p>—Parece que sim, mulher! Ha pouco mais de um
-anno que se casaram! Quem o havia de dizer... um
-rapagão como um castello!...</p>
-
-<p>Uma disse com um modo indagador:</p>
-
-<p>—Eu não sei o que isto é... mas tanto elle como
-os outros, passante o primeiro mez de viverem com
-ella, logo arranjaram taes caras de bruxaria que mettiam
-medo!...</p>
-
-<p>Lindoria, com aspecto compadecido, teve esta opinião:</p>
-
-<p>—Olhae que eu <i>tamem</i> tenho pena da rapariga! Digam
-o que disserem, ha de lhe custar... Tão nova,
-e já com tres mortes...</p>
-
-<p>—Ora!...—duvidou uma terceira, encolhendo os
-hombros. A culpa de quem é?!.. É minha?!</p>
-
-<p>Lindoria, que andava sempre por casa de Isabel, interferiu
-para não deixar concluir:</p>
-
-<p>—Deixae-vos de asneiras... Eu bem sei o que lhe
-vae lá pelo coração. Ella é uma apegada aos homens!...</p>
-
-<p>—Pois sim—disse uma das companheiras; mas isso
-é o que não devia ser!...</p>
-
-<p>E caminhando juntas, uma rematou esta conversa
-dizendo com naturalidade:</p>
-
-<p>—Isto assim não tem geito. Isabel não deve casar
-mais vez nenhuma.</p>
-
-<p>Entraram na casa da viuva do Chibante, que estava<span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span>
-sentada na lareira, com a cabeça energicamente apertada
-entre as mãos, chorando com desespero.</p>
-
-<p>As suas amigas, para a socegarem, disseram-lhe com
-os olhos enxutos «que não se affligisse mais, que aquillo
-foi vontade do Senhor que tudo manda». E acrescentavam
-com fé e confiança na Infinita Misericordia:</p>
-
-<p>—Olha que elle ha de estar em bom logar!...</p>
-
-<p>—Deus vos ouça, Deus vos ouça... Ao menos que
-Nossa Senhora o tenha no reino dos céus!...—repetia
-muitas vezes Isabel.</p>
-
-<p>As outras certificavam-lhe:</p>
-
-<p>—Ha de ter, ha de, rapariga. Ao que elle penou
-n’este mundo...</p>
-
-<p>—Não que eu lhe desse má vida! Como vós sabeis
-trazia-o sempre nas palminhas!...</p>
-
-<p>Lindoria concluiu, sorvendo uma pitada:</p>
-
-<p>—Aquem tu o vens dizer, mulher! Era um Santo
-Antoninho onde te porei.</p>
-
-<p class="tb">Depois de conversarem algum tempo familiarmente,
-foram á cama ver o defunto! Estava escondido por um
-lençol; mas ellas descobriram-n’o com certa naturalidade,
-talvez mesmo com irreverencia... Viram-n’o bem,
-miraram-n’o por todos os lados: o José Chibante, já
-composto, de costas sobre a cama, tinha os punhos
-atados sobre o peito, e um lenço <i>amarrando-lhe</i> as maxillas,
-para se conservarem n’uma posição decente. Essa
-alvura do panno que lhe enquadrava o rosto augmentava-lhe
-a lividez; as palpebras, cuidadosamente<span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span>
-cerradas e presas por um pingo de cêra, accentuavam
-o ar sereno e grave do cadaver, que todas viam n’uma
-posição reflectida, com as pernas estendidas e os pés
-levantados no fundo da cama.</p>
-
-<p>—Eu não sei como pódes fazer isto... Eu cá se me
-morresse o <i>home</i> é que o não vestia—disse uma para
-a Isabel.</p>
-
-<p>Ella respondeu com voz commum, interrompendo
-momentaneamente o chôro:</p>
-
-<p>—Pois então?! Ninguem faz estas cousas melhor que
-a gente. Nós é que sabemos, como elles gostavam de
-se arranjar...</p>
-
-<p>Porque a camisa de altos collarinhos lavados e as
-calças de panno azul, tinham sido vestidas ao marido,
-por sua propria mulher, que lhe quiz fazer este ultimo
-asseio, o asseio da eternidade! O defunto estava quasi
-prompto, para a sua festa de enterro. Uma das amigas
-de Isabel exclamou sinceramente:</p>
-
-<p>—Mas vae bonito e asseiado! Olha que te parece
-mesme vivo!...</p>
-
-<p>Ella esclareceu, com a sua voz usual, limpando as
-ultimas lagrimas:</p>
-
-<p>—Leva para a cova a roupa da bôda. Já aos outros
-dois homes, que Deus Nosso Senhor teve na Sua Divina
-Vontade tirar-me, fiz o mesmo. Tenho muita <i>aquella</i>
-em que elles vão sempre para o outro mundo como uns
-cravos!</p>
-
-<p>E concluiu, dizendo que o seu José seria vestido de <i>terceiro</i>,
-porque era <i>irmão d’esta ordem</i>, e ficava-lhe muito
-bem o habito, com a sua côr parda e o cordão novo<span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span>
-em volta da cintura, caíndo-lhe as borlas sobre os pés...
-Lembrava-se muito bem, de quando elle caminhava na
-ultima procissão de Passos, alinhado cuidadosamente
-com os outros companheiros, levando uma tocha na
-mão, muito sério, já com a sua cara magra e doente,
-amparada nos altos collarinhos da camisa, que agora lhe
-vestira para o enterro. E, indo á caixa grande buscar
-o <i>habito de terceiro</i>, estendeu-o para o verem bem,
-e disse que o defunto estimava muito aquelle rico traste,
-que quando era vivo, muitas vezes dissera, ter desejos
-de o levar para a cova. Por isso Isabel rematou
-com intimativa:</p>
-
-<p>—Ha de ir á vontade d’elle. Quero-lh’a fazer até á
-ultima, porque elle tambem sempre foi muito bô para
-mim.</p>
-
-<p>—Fazes tu muito bem—incitavam fortemente as
-companheiras. A gente, quando o seu home é bô, deve-lhe
-sempre andar ao geito.</p>
-
-<p class="tb">Uma das amigas da mulher do Chibante foi procurar
-o Coruja para vir arranjar o habito ao defunto, por
-que a viuva, attendendo a que sempre era uma cousa
-benzida, n’esse particular mantinha os seus escrupulos...
-O coveiro chegou resmungando, e disse palavras
-desgostosas e insolentes, quando viu o morto quasi
-prompto. Depois, assobiando canto-chão, e bebendo
-de uma infuza de vinho, acabou de o arranjar
-ageitando-o dentro do esquife cuidadosamente, com esmero,
-compondo-lhe o lençol <i>rebicado</i>, e endireitando-lhe<span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span>
-a cabeça n’uma posição natural. Logo que isto foi
-concluido, Isabel e as suas amigas, principiaram a gritar
-mais alto, com um chôro ganido e espantado, andando
-em volta do esquife!... O vesgo e cambado Coruja,
-com os seus arremessos grutescos e irregulares,
-depois de se ter rido ás gargalhadas, disse de um modo
-brusco e malcreado, fazendo carantonhas, com a lingua
-de fóra:</p>
-
-<p>—Por um olho azeite, por outro vinagre, minha
-corja de mandrongas!... Quem vos não conhecer que
-vos compre!</p>
-
-<p>E, referindo-se especialmente a Isabel, acrescentou:</p>
-
-<p>—Já trazes outro de olho?...</p>
-
-<p>As mulheres, offendidas, responderam indignadamente:</p>
-
-<p>—Cala-te, bebedo!...</p>
-
-<p>—Olhem o grandissimo borracho!—acrescentou com
-accento desprezivel a beata Lindoria.</p>
-
-<p>Depois, como o chôro de Isabel se continuava de um
-modo intenso, e, as suas amigas, pelo que tinham visto
-das outras vezes, sabiam que lhe fazia mal, produzindo-lhe
-ataques em que parecia possuida do demonio,
-uma d’ellas principiou a amesquinhar-lhe o acontecimento,
-a apresentar-lh’o como um successo natural
-e simples...</p>
-
-<p>—Olha que não ficamos cá. Cuidas que alguma de
-nós fica n’este valle-de-lagrimas?!... Estás muito enganada.
-Tu has de morrer, eu hei de morrer... todas
-nós havemos de morrer... Um dia toca o sino para
-esta... outro dia para aquella... é o mundo!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span></p>
-
-<p>E Lindoria, com um aspecto vulgar e pouco sensibilisador,
-para mudar de conversa, opinou chegando-se
-para o esquife, a sorrir:</p>
-
-<p>—Mas o que elle te vae é muito lindo! Pódes ter
-essa gavança, mulher! Faz gosto olhar para elle. Ninguem
-ahi põe um defunto na igreja, tão bem arranjado,
-como tu.</p>
-
-<p>Isabel respondeu:</p>
-
-<p>—Lá isso, hei de fazer sempre assim, emquanto
-Deus me der vida e saude...</p>
-
-<p>Passado certo tempo, quando todas as idéas tristes
-pareciam distantes, á Lindoria, que tinha confiança na
-casa, veio-lhe a lembrança sensatissima, de que Isabel
-precisaria de comer... Por isso lembrou-lhe:</p>
-
-<p>—Tu has de estar por força fraca e esse chorar
-faz-te mal... póde-te caír no coração.</p>
-
-<p>A viuva recusou-se teimosamente, dizendo que não
-lhe entraria nem uma bucha de pão na boca... parecia-lhe
-que tinha comido o seu ultimo bocado... e,
-fallando em morrer, o seu desespero era enorme e as
-palavras afflictivas!...</p>
-
-<p>Porém, Lindoria, muito prudente, dizia reprehensiva
-e com auctoridade:</p>
-
-<p>—Estás tola, rapariga! Não querer comer!!... São
-lá cousas que se digam! Olha que até offendes ao Senhor,
-que te creou!... A gente deve fazer bem ao seu
-corpo, para poder louvar a Deus, e engrandecer a Sua
-Infinita Misericordia...</p>
-
-<p>E acrescentou, depois de se assoar com estrondo:</p>
-
-<p>—... Ouvi estas verdades da bôca d’aquelle santo<span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span>
-missionario que ali esteve em Refuinho, e que teve artes
-de levar para o reino da gloria a Rosaria do Thomaz do
-Monte... Sabeis que <i>ella</i> já vos faz tantos milagres
-que, aos domingos, é uma romaria n’aquella igreja?!..</p>
-
-<p>Com esta auctoridade e saber, sem mesmo consultar
-a viuva, Lindoria combinou com as outras mulheres,
-para arranjarem <i>alguma cousa</i> que Isabel podesse
-comer—alguma cousa que chegasse para ellas tambem,
-porque se sentiam com bastante fraqueira. Como era
-no tempo da matança dos porcos, uma, que morava mais
-visinha da viuva, foi-lhe arranjar uns rojões e trouxe-os,
-acompanhados de uma boa infuza de vinho... N’uma
-voz convidativa e discreta, pronunciou estas bôas palavras,
-logo ao entrar da porta:</p>
-
-<p>—Vamos a elles, emquanto estão quentes e não vem
-por ahi alguem á agua benta...</p>
-
-<p>—Tens rasão, tens—confirmou a prudente Lindoria,
-com aspecto guloso.</p>
-
-<p>Isabel, nos primeiros momentos, absteve-se, dizendo
-com a mão apertada na garganta:</p>
-
-<p>—Esta (a morte do Chibante) não me passa d’aqui.
-Agora é que fico para toda a vida... O que eu tenho
-passado em sete annos!...</p>
-
-<p>Era o tempo que lhe tinham durado os tres maridos.</p>
-
-<p>Uma das mulheres, prudentes e sensatas, que a cercavam,
-disse-lhe:</p>
-
-<p>—É isso verdade rapariga. Rasão tens tu. Mas se é
-vontade de Deus, que lhe has de fazer?!...—interrogou
-de cara alta. Sem comer é que não somos nada
-n’este mundo, e, como te disse aquella (referia-se a Lindoria),<span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span>
-até offendes a Deus com essas palavras desagradecidas!...</p>
-
-<p>A <i>beata</i>, confirmou mais uma vez, esta sua opinião,
-repetindo:</p>
-
-<p>—Ah! isso offendes e muito! Eu que t’o digo é porque
-o sei. Mas—rematou—vamos aos rojões, antes
-que arrefeçam. Frios não prestam.</p>
-
-<p>E para incitarem a viuva do Chibante, para lhe quebrarem
-os ultimos melindres, principiaram ellas a comer
-com a mão, e a beber todas pela mesma infuza.</p>
-
-<p class="tb">O morto estava deitado no esquife, vestido com o
-seu habito de <i>terceiro</i>. A côr escura do seu rosto e o
-pardo da mortalha sobresaía... destacava-se da brancura
-do lençol de panno engommado, que tinha nas ourelas
-recortes vistosos. As pernas do defunto estavam alinhadas,
-e as mãos, sobre o peito, agarravam um ramo
-de oliveira; e no rosto, pallido e soffredor, a dolorosa
-expressão dos que têem sentido dolorosamente fugir-lhe
-o ultimo alento de vida!... Á cabeceira do esquife,
-sobre uma velha caixa de pinho coberta por uma
-toalha, estava um crucifixo, com duas vélas dos lados;
-aos pés, a caldeira da agua benta, esperava os amigos
-do finado, que tinham de vir espargil-o com o tosco
-hyssope, depois de lhe terem resado pela alma, que n’aquelle
-momento já devia pairar nas regiões incomprehensiveis!...
-N’aquelle cadaver livido, todo podridão e
-um proximo repasto de vermes insaciaveis, havia a suprema
-serenidade da morte—impassivel, austera e absorvente!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span></p>
-
-<p>Isabel, depois dos reiterados convites das suas amigas,
-principiou a comer com moderação e, ao parecer,
-com pouco appetite.</p>
-
-<p>—Isto é para vos fazer a vontade; porque não me
-passa d’aqui—dizia, indicando a parte superior do esophago.</p>
-
-<p>Lindoria, com um bom humor descrente, incitava-a:</p>
-
-<p>—Entra-lhe mulher, anda-lhe... Tu não te has de
-deixar ir assim para a cova... <i>como elle</i>. Se Deus, na
-sua infinita misericordia t’o roubou, não é rasão para
-que vás pelo mesmo caminho. Por isso, come-lhe e bebe-lhe
-que é o melhor que tens a fazer.</p>
-
-<p>E, olhando sagazmente para os lados do caminho,
-acrescentou com voz familiar e sem imposturas desnecessarias:</p>
-
-<p>—Por ora não vem ninguem... Pódes engulir o teu
-bocado sem medo.</p>
-
-<p>Mas, pouco depois, quando mastigavam, silenciosas,
-resignadas e com vontade, sentiram passos de alguem
-que se aproximava!... Todas deglutiram rapidamente
-o que tinham na bôca!... Uma d’ellas, com mais sangue
-frio, metteu no forno, com precipitação, o prato dos rojões,
-mas deixou, imprevidentemente, a porta aberta.
-Lindoria, por seu lado, escondeu com sagacidade, a infuza
-do vinho debaixo de um banco, sentando-se logo
-por cima d’ella, para a ter melhor escondida com as saias
-espalhadas. Por fim, como se tivesse havido qualquer
-convenio anterior, compozeram os semblantes n’uma
-expressão de tristeza, tomaram attitudes chorosas, e,
-fingindo a continuação de uma conversa, fallavam com<span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span>
-lagrimas no caso presente, lamentando as amigas de
-Isabel, esta perda do <i>seu homme</i>, procurando dar-lhe
-as melhores consolações que em taes momentos se podem
-desejar!...</p>
-
-<p>Os passos que se tinham sentido, eram os do velho
-Agrella, que vinha resar pelo morto. O alfaiate entrou
-com face respeitosa e compungida! Resou cordatamente,
-com sinceridade, e, em seguida, entrou no circulo
-das creaturas que ensinavam Isabel a resignar-se, trazendo-lhe,
-elle tambem, as suas palavras de coragem...</p>
-
-<p>A mulher do José Chibante ouvia tudo n’um recolhimento
-sensato, com intermittencias de sentimentalidade:—umas
-vezes chorava alto lamentando-se do só
-que ficava, achando-se enormemente infeliz e desgraçada;
-outras, entrava socegadamente em detalhes, em
-referencias, em particularidades do modo como vivera
-com José, rememorando as circumstancias em que lhe
-fizera, a ella, as vontades mais exigentes e caprichosas...
-Era doloroso e sympathico ouvil-a exprimir-se
-d’este modo, ácerca do terceiro marido que lhe morria!...</p>
-
-<p class="tb">No entretanto, um gato preto da visinhança, entrava
-pela porta dentro sem ser persentido e principiou a
-observar minuciosamente toda a casa, revolvendo com
-lentidão os seus olhos redondos e luminosos. Parecia
-attraído por algum motivo; porque, n’aquella serenidade
-do seu olhar sagacissimo, conhecia-se-lhe um proposito,
-um fim... Primeiro attendeu minuciosamente para o<span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span>
-esquife, andando duas vezes em volta para se certificar.
-Depois, aproximou-se das mulheres que choravam, aproveitou
-do chão uns restos de comida e sentou-se para
-lamber socegadamente um osso despresado. Por fim, sempre
-devagar e cauteloso, dirigiu-se, com a imperceptibilidade
-de uma sombra, para junto do forno... Levantou
-com mansidão a cabeça e averiguou olfativamente. Sem
-duvida que foi depois de ter chegado a uma conclusão do
-seu demorado raciocinio, que o gato se firmou nas patas
-trazeiras, arqueou o corpo, estendeu-o, retesou-se,
-e, fazendo um salto, entrou pela porta aberta do forno...
-onde tinha sido escondido o prato da comida. Pouco
-depois voltou, saltou para o chão, trazendo um rojão
-que pousou socegadamente junto do esquife e ali principiou
-a comel-o, com o sofrego appetite de um golutão...</p>
-
-<p>O Agrella começou por observar este facto com serenidade.
-O gato preto, logo que acabava de comer um rojão,
-levantava-se lambendo os beiços, e, sorrateiramente,
-ía buscar mais, que vinha mastigar junto da caldeira da
-agua benta. O alfaiate, por este signal, percebeu immediatamente
-tudo quanto se teria passado, antes da sua chegada
-desagradavel e inconveniente!... A infuza que depois
-lobrigou debaixo do banco, apesar de Lindoria procurar
-escondel-a á sua sagacidade, espalhando as saias,
-completou-lhe o quadro. Porém, o seu rosto foi impenetravel,
-e, como se nada tivesse visto, continuou a seguir
-a linha das lamentações, fallando das qualidades
-excellentes do homem de Isabel, recordando casos que
-com elle lhe tinham succedido, avivando memorias de
-tempos passados... E de tal modo e com tal compuncção<span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span>
-o fazia, que a propria Lindoria—a raposa sagaz
-da aldeia—sentiu-se dominada pelo tom plangente do
-Agrella...</p>
-
-<p>A velha beata, compungida e lacrimosa, era quem
-mais salientemente reclamava as boas palavras, os elegios
-e as lagrimas para a memoria do defunto, que ali
-estava, serenamente deitado n’aquelle esquife. Ao mesmo
-tempo que lamentava os incalculaveis estragos da
-morte, ía reparando... percebendo... apopletica de raiva,
-que o malvado do gato preto entrava no forno repetidas
-vezes, trazendo sempre rojões, que vinha comer,
-impunemente, mesmo junto do esquife. N’um momento,
-já impaciente e nervosa, não lhe soffrendo o animo consentir
-que o animal vivesse momentos tão felizes n’uma
-impunidade odiosa, lançando olhares furtivos ao <i>ladrão</i>,
-pronunciou com voz lamentosa uma d’essas phrases
-equivocas da linguagem popular, por meio da qual
-desejava denunciar ás companheiras imprevidentes,
-aquelle roubo inqualificavel:</p>
-
-<p>—<i>Ah! morte negra, morte negra! que assim os vaes
-levando um e um!</i></p>
-
-<p>Queria decerto que o Agrella entendesse que se referia
-aos homens fallecidos; porém o velho, alfaiate, ouvindo
-isto, levantou-se sereno e talvez indignado!...
-Baixou-se sobre o banco, pegou na infuza de vinho
-escondida, e estendendo-a a Lindoria, disse-lhe n’uma
-voz compungida e de um comico ardente:</p>
-
-<p>—Pega lá mulher... <i>Aquelles defuntos</i> do que precisam
-é d’esta agua benta. Benze-os com esta agua benta,
-ó Lindoria!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span></p>
-
-<p>E dirigindo-se para a porta, disse do limiar com um
-desdem rancoroso:</p>
-
-<p>—Corja de bebedas! Boa tranca, por essas costas!</p>
-
-<p>E saíu socegado para o caminho. Lindoria veio até á
-soleira, com o fim de o amansar, de o adquirir para o
-convivio das suas amigas. Por isso chamou-o com uma
-voz convidativa, attraente e cheia de confiança, piscando-lhe
-um olho:</p>
-
-<p>—Ó Agrella!... Agrella!... Anda cá pedaço de
-tratante... Andá cá maroto... comer alguma cousa...</p>
-
-<p>E, como o velho alfaiate se voltou para lhe responder,
-ella, julgando-o dominado, repetiu, mostrando-lhe a infuza:</p>
-
-<p>—Olha que é do da tenda. Boa pinga, verás...</p>
-
-<p>Porém elle, ao riso conciliador e ás boas palavras
-de Lindoria, respondeu simplesmente com <i>um gesto</i> dizendo:</p>
-
-<p>—Olha...</p>
-
-<p>E distanciou-se com passo natural.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">O ENTERRO DE UM CÃO<br />
-<span class="smaller">A MACEDO PAPANÇA</span></h2>
-
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak">O ENTERRO DE UM CÃO</h3>
-
-</div>
-
-<h4>I</h4>
-
-<p>O velho Coruja, o coveiro, <i>o bom amigo dos mortos</i>,
-tinha pelo seu pequeno cão, uma affeição pura e desinteressada.</p>
-
-<p>O <i>Coisa</i> acompanhava-o em toda a parte, com uma
-fidelidade insistente: nos enterros apparecia cansado,
-reflexivo e de cabeça baixa; no palheiro, onde ambos
-dormiam, deitava-se junto d’elle, corpo a corpo, como
-um companheiro familiar; nas diversas cosinhas das
-casas ricas da visinhança, onde o coveiro apparecia
-ao meio dia, sempre se mostrou submisso, quieto, esperando
-pacientemente que lhe dessem a sua brôa e as
-rapaduras do pote do caldo de farinha.</p>
-
-<p>O Coruja olhava para elle com ternura, dava-lhe do
-seu comer, interrogava-o com naturalidade, affagava-o<span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span>
-dizendo-lhe palavras boas, repassadas de carinho e de
-benevolencia...; porque partia da hypothese sensata, de
-ser comprehendido. O Coisa, pequeno, magro, de pello
-faminto, com as barbas de guloso sempre sujas, escutava-o
-attenciosamente, sem pestanejar e deitando-lhe a
-cabeça nos quartos, ficava como adormecido muito tempo.</p>
-
-<p>O Coveiro comprehendia estas finas delicadezas do
-seu companheiro... Por isso fallava-lhe com polidez,
-com cuidado, escolhendo as palavras, estudando um timbre
-de voz meigo e delicado. Que dois corações unisonos
-e isochronos! As unicas desavenças que se tinham
-dado entre elles, eram por causa das creanças pobres...
-O cão perseguia-as insistentemente, se as encontrava
-agglomeradas, a pedir esmola, junto dos portaes ricos!
-N’este ponto era formalmente desobediente á palavra
-austera de seu amo!... O Coruja que, quando tinha vontade
-d’isso, sabia ser iracundo, figurava então uma voz
-aspera, severa e reprehensiva, ameaçando-o arrogantemente:</p>
-
-<p>—Pedaço de bregeiro! Tenho-te dito muitas vezes
-que me deixes os rapazes. Fizeram-te algum mal? Diz
-lá: fizeram? Não entendes isto, maroto?!...</p>
-
-<p>E se depois o cão se lhe ía enroscar aos pés, humilde
-e submisso, concluia com energia:</p>
-
-<p>—... Pois devias entender. Elles são como nós ambos
-e como os outros desgraçados—andam na sua vida...
-Se são pobres, quem lhes ha de dar o pão, se não
-forem os ricos?! Vel-os acolá?—indicava incautamente
-os rapasitos. Andam ás esmolas, como tu e como eu!...</p>
-
-<p>O Coisa olhava fixamente para o seu amigo, escutando-o<span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span>
-sem pestanejar, e como vira que as ultimas palavras
-haviam sido acompanhadas de um gesto em que
-eram apontados os pequenos pedintes, que, amedrontados,
-tinham fugido para longe, interpetrando-as mal,
-arremettia de novo contra as creanças, perseguindo-as
-com mais raiva pelos caminhos.</p>
-
-<p>O Coveiro mostrava-se estupido e confundido... Não
-comprehendia!... ficava scismando, para ver se encontrava
-o motivo que o animal teria, para odiar com tão
-afincado accinte, as creanças pobres, que via encostadas
-aos portaes ricos!... Não o podia perceber, elle que
-ignorava inteiramente a biographia do Coisa...</p>
-
-<p class="tb">Encontrára-o n’uma tarde de chuva, perto de um
-ribeiro, onde, no dia seguinte, appareceu afogado um
-velho pedinte, de longa barba esqualida. O pobre animal
-tiritava de frio, recolhido humildemente dentro do
-tronco carcomido de uma cerdeira desfolhada. O Coruja,
-vendo-o assim, teve um ar compacido e lastimou-o
-com um sorriso triste. Lembrou-se que levava n’um
-bolso restos de pão do jantar, e, com um ar de bondade,
-atirou-lhe um pedaço, dizendo:</p>
-
-<p>—Talvez tenhas fome... Pega lá, come.</p>
-
-<p>O cão, saindo do esconderijo, abocou com rapidez e
-mastigou sofregamente, auxiliando a deglutição com movimentos
-rapidos e impulsivos de cabeça. O coveiro observando
-este facto, disse sorrindo:</p>
-
-<p>—Home... tinhas larica. Toma lá mais um naco!...</p>
-
-<p>E, tirando mais brôa do bolso das calças, deu-lh’a. O
-animal, enguliu com rapidez o pão e aproximou-se do<span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span>
-coveiro com obediencia—arqueava a espinha dorsal arrastando
-a barriga na terra, tinha movimentos lateraes
-e cadenciados de cauda, levantava a cabeça para lhe
-cheirar a mão benefica e ouviram-se-lhe latidos de
-agradecimento. O Coruja, olhou reflexivo para elle e,
-cofiando-lhe a cabeça, observou com sorriso:</p>
-
-<p>—Diabo! sempre és muito feio, ladrão!</p>
-
-<p>Depois atirou para o hombro a enxada de abrir as
-covas e foi pelo caminho adiante... Ia para um atterro.</p>
-
-<p>O cão ficou quieto, humilde, a olhar para o seu bemfeitor.
-O coveiro, olhando para traz, viu-o n’esta posição
-quasi supplicante e gritou-lhe de longe:</p>
-
-<p>—Tó Coisa.</p>
-
-<p>O animal veio para elle depressa, contente, feliz,
-dando pulos de alegria, movendo festivamente a cauda,
-lambendo os pés do Coruja, que o affagava. E para mostrar
-logo, áquelle seu amigo fortuito, um bom fundo de
-cão agradecido, arrastava o ventre pela terra, gania amoravelmente,
-roçava-se-lhe pelas pernas, e por fim, conservou-se
-alguns momentos n’um aspecto captivante,
-deitado no chão, olhando para o coveiro, com a cabeça
-firme, a mostrar os dentes e a piscar os olhos...</p>
-
-<p>Foi assim que se tomaram por companheiros inseparaveis!...
-O coveiro não indagou quem era o Coisa, mas
-eu que o sei, posso dizer que era o cão do pedinte, que
-no dia seguinte appareceu morto na levada do ribeiro!
-Tinha sido amestrado para ladrar ás creanças, para escorraçar
-os pequenos, magros e sujos, que podesse encontrar
-pedindo esmola junto dos portaes ricos. Os perseguidos
-fugiam assustados e chorosos, gritando muito,<span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span>
-apertando na mão os saquinhos vasios... e ficavam de
-longe, a ver quando o pobre da barba esqualida saíria
-de ali com o maldito cão, para elles voltarem a implorar
-a esmola, com as suas vozes finas e plangentes.</p>
-
-<p>Porém, o velho pedinte era experimentado e sceptico.
-Se alguem, casualmente, observava a perseguição
-injusta que o animal fazia aos rapazitos, elle, que fingia
-de aleijado, chamava-o com modos de homem irritado,
-ralhava-lhe muito, chegava mesmo a bater-lhe. Com este
-procedimento conseguia, muitas vezes, captar a benevolencia
-de quem o observava e obtinha alguma esmola
-que agradecia, dizendo:</p>
-
-<p>—... Pelas bemditas almas... Por mais que me mate,
-não posso ensinar este ladrão. Um dia como-lhe os
-figados. Apesar do amor que lhe tenho, sou home p’ra
-isso!</p>
-
-<p>E, com o fim de se mostrar digno de admiração, erguia
-para o companheiro o pau da justiça, tremente de
-cóleras! O bemfeitor, compadecido, entrevinha caridosamente
-a favor do animal, aconselhando:</p>
-
-<p>—Deixa lá. São brutos, não sabem o que fazem.
-Se elles não têem alma!...</p>
-
-<p>—É tamem do que me tenho lembrado, meu rico
-pae da caridade! Se elle tivesse uma alma, eu era capaz
-de lh’a metter n’um inferno, só pelo que elle é de mau
-para as creancinhas... coitadas!</p>
-
-<p>Mas o animal não era responsavel. Tendo sido educado,
-por seu amo, no proposito de perseguir os concorrentes
-ás esmolas, obedecia-lhe. Mesmo quando o velho
-pedinte lhe ralhava, apontando as creanças que fugiam<span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span>
-espavoridas e elle continuava a preseguil-as, é porque
-sabia ser este um signal para as escorraçar com mais
-impeto! Tinham-lhe ensinado que, todas as admoestações
-lhe impunham dever de ladrar com maior energia
-e vivacidade, por isso assim procedia!...</p>
-
-<p>O pobre da barba, depois de obtida a esmola, premio
-da reprehensão infligida ao maleficente, dizia vagamente,
-de modo a ser ouvido pelo bemfeitor que se distanciava:</p>
-
-<p>—Diabo do cão é tolo! Não sei que mal lhe fizeram
-os rapazinhos!...</p>
-
-<p>E voltando-se para elle, outra vez, com o pau no ar,
-concluia:</p>
-
-<p>—És mesmo ruim, como as cobras!</p>
-
-<p>Mas, logo que ficavam sós, cofiava amoravelmente a
-barriga do rafeiro, chamando-lhe seu rico cachorrinho,
-ganindo como elle para o reconciliar comsigo, e dando-lhe
-fartamente brôa da sacola, com o fim de o excitar
-ao crime. Incomprehensivel preversidade!...</p>
-
-<p class="tb">Eis aqui estão os motivos, em virtude dos quaes, o
-coveiro, nunca poderia fazer comprehender ao Coisa,
-que a sua benevolencia era sincera e não mentirosa,
-como a do velho pedinte, que primeiro o educára. O
-modo compassivo como o Coruja entendia deverem ser
-olhadas as creanças pobres, que aos sabbados encontrava
-junto dos portaes ricos, o cão não o podia comprehender
-facilmente e até o interpretava ao inverso,
-princialmente quando lhe apontavam os rapazitos que<span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span>
-se conservavam agrupados e cheios de susto a olharem
-de longe.</p>
-
-<p>Mas, apesar d’esta divergencia, viveram muitos annos
-em concordante familiaridade, dormindo promiscuamente
-nos mesmos palheiros e comendo da mesma ração.
-Como o Coruja era um bebedo declarado, entendeu
-que devia habituar o Coisa a gostar de vinho, exactamente
-como elle, e dava-lh’o. O cão principiou pelo
-provar, com evidente repugnancia. Nos dias de fome, que
-o seu antigo amo lhe fizera passar, quando as esmolas
-não corriam para o sacco, tomára habitos de sobriedade.
-Vinho! Tal guloseima nunca provára! O pedinte
-de barba esqualida era extremamente egoista... emborrachava-se
-só. Mas, passado algum tempo, depois
-de ter sido preciso abrirem-lhe a bôca á força para lhe
-emburcar o liquido nas guelas, o Coisa gostou, e por
-fim já escorripichava a tijella, por onde o coveiro bebia
-a meia canada habitual... Tão fino bebado se mostrou
-depois, que andava sempre lambendo, com cuidado e esmero,
-até as deixar enxutas, não só a tigella do amo,
-mas todas as cuncas da sopa de bestas que encontrava
-ás portas das estalagens e tendas minhotas. Então dizia-lhe
-o seu amigo, rindo abertamente, com effusão,
-piscando os olhos, já muito <i>torto</i>:</p>
-
-<p>—Anda grandissimo borrachão, que me pareces um
-padre!</p>
-
-<p>Esta phrase usual, sincera e inoffensiva, que tantas
-vezes dissera impune, preferiu-a incautamente, uma vez,
-diante de um ecclesiastico que, julgando-se offendido,
-o reprehendeu severamente, levantando a bengala com<span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span>
-uma intenção aggressiva! O coveiro que, pelo habito de
-viver entre batinas, não as respeitava, e, considerando
-mesmo que os padres eram homens como os outros e
-igualmente peccadores, lembrando-se até de que elle já
-tinha enterrado um bom par d’elles, respondeu com
-desdem e indignado:</p>
-
-<p>—Olhe, talvez o seu coração não seja tão bô como
-o d’elle!...</p>
-
-<p>O padre ficou auctoritario e colerico, e o coveiro retirou-se
-cheio de justiça, por ter pugnado pelo seu camarada.</p>
-
-<p class="tb">Ás vezes, nos dias de muita chuva, o Coruja não podia
-saír do palheiro onde dormia, por causa das malditas
-dôres que lhe vinham á perna doente. O Coisa,
-n’essas occasiões, parecendo-lhe que devia prover as
-necessidades communs, saía a procurar comida. N’esses
-dias não respeitava nenhuma casa, fosse ella de quem
-fosse! Previdente e sagaz, obedecendo á sua primeira
-educação na vida mendicante, ía por ahi fóra... Porta
-que encontrasse aberta e d’onde saísse bom cheiro, entrava
-com ousadia e abocava desceremoniosamente qualquer
-posta de bacalhau ou qualquer salpicão que encontrasse.
-Mas, em vez de comer o producto da ladroagem,
-como faria qualquer cão vulgar e sem sentimentos, vinha
-depositar a comida intacta nas mãos do seu companheiro,
-para elle a repartir. O coveiro, no proposito de
-se dar seriedade, reprehendia-o com brandura, sorrindo
-com os seus olhos vesgos:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span></p>
-
-<p>—Ah! grande ladrão! Home, isso não se faz!...
-Ir roubar o que não é da gente!... Muito mal feito, seu
-patife!... Come tu, anda, que eu não tenho grande
-fome.</p>
-
-<p>No entanto, para não ser descortez e mal agradecido,
-acceitava o alimento que repartia com rectidão e igualdade,
-dando muitas vezes ao Coisa, qualquer bocado,
-que julgava mais appetitoso.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span></p>
-
-<h4>II</h4>
-
-<p>Um dia, porém, o Coisa appareceu morto na beira
-de um caminho, no velho sulco cavado pelas rodas dos
-carros, que ali tinham passado durante muitos annos!
-Era em janeiro, o coração do inverno, no alto Minho.
-Fazia um frio de lobo, mas a noite era de uma limpidez
-phantastica. Um luar claro dava aos objectos um
-destaque energico. O ruido das montanhas espalhava-se
-sussurrante nas profundezas dos valles cobertos de
-uma herva miseravel, mirrada pelo frio intenso e prolongado,
-pelas geadas successivas que os soes, quasi
-primaveraes, não conseguiam descoalhar. Os montes altos,
-cobertos de neve, levantavam as suas enormes carcundas
-de gigantes, ha seculos ali adormecidos!... O
-dia amanhecera com um sol rutilante, que produzia vivos
-reflexos nos brincos de gelo, pendentes dos braços
-nús das arvores, dos beiraes dos telhados, e das vertentes<span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span>
-das fontes. Os pequenos passaros, saltando nos galhos
-das oliveiras, pareciam mais volumosos, porque
-tinham as pennas irriçadas. Os tordos, com os pios ingenuos
-e os melros com os assobios agudos e petulantes,
-denunciavam-se aos caçadores, que os perseguiam, aproximando-se
-encobertos com os troncos das arvores, com
-os muros e com os penedos, para fazerem certeiramente
-a pontaria.</p>
-
-<p>A paisagem animára-se com o levantar do sol. Principiava
-a vida dos campos—os bois íam soltos para as
-reles pastagens, ou, cangados, puchavam aos toscos carros
-de duas rodas; as eguas lanzudas e famelicas, avistando-se
-de encosta para encosta, relinchavam; os rapazes,
-as mulheres e os homens trabalhavam nas hortas,
-na apanha de lenha para o lume e nas podas, cantando
-sempre, para não sentirem o frio. Passavam nos
-caminhos alguns pedintes de capas remendadas e de
-sacolas a tiracolo, cheias de brôa. Tinham o bom ar, alegre
-e folgasão, dos felizes despreoccupados, para quem, o
-dia de amanhã, será bom como o dia de hoje. Iam conversando
-animadamente em accidentes da sua vida vagabunda
-e caminhavam n’um passo largo, assobiando, cantarolando,
-batendo nos cães vadios com os páus a que
-se costumavam encostar quando pediam esmola. Foram
-elles os primeiros que encontraram o Coisa morto na
-estrada, tristemente abandonado n’um sulco de carro,
-como um cão desprezivel que não tivesse inspirado um
-affecto na vida! Junto d’este morto anonymo, os pedintes
-alegres, fizeram uma paragem, dizendo um d’elles,
-com ar trocista e de chacota:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span></p>
-
-<p>—Olhem este asno onde se foi deitar!...</p>
-
-<p>Acrescentando outro:</p>
-
-<p>—É que tinha calor e não quiz dormir na palha!</p>
-
-<p>Um terceiro, ainda observou, com um compadecimento
-fingido:</p>
-
-<p>—Coitado!... Já não come mais brôa!</p>
-
-<p>E por ultimo, um mocetão robusto, desertor do tres
-de Vianna, para dispertar a hilaridade na companhia,
-levantou pelo rabo o magro corpo do Coisa, e pronunciou,
-conservando-o suspenso:</p>
-
-<p>—Eh! diabo! Está teso como minha avó torta!...</p>
-
-<p>Riram-se unisonamente com as bôcas escancaradas,
-d’este dito excentrico, continuando depois o caminhar
-divertido.</p>
-
-<p class="tb">Porém, o cão não estava ali esquecido, como se poderia
-suppor:—o Coruja tinha-o procurado durante
-a noite. Andou n’isso muitas horas, apprehensivo e
-triste, repassado de maus prenuncios. Chamou-o alto
-nas encruzilhadas, assobiou por elle de cima dos muros
-dos caminhos, teve momentos silenciosos de uma tristeza
-indefinida!... E, como via o Coisa não lhe apparecer,
-disse com a testa avincada e com uma expressão
-de quem suspeitava um crime:</p>
-
-<p>—Que diabo! por ahi algum maroto...</p>
-
-<p>Suspendeu bruscamente a phrase, concluindo-a depois,
-mostrando um punho cerrado:</p>
-
-<p>—Pois se sei quem foi que o matou, abro-lhe a cabeça
-com o olho da enxada! Ainda que trezentos diabos
-me levem, p’ras profundas dos infernos!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span></p>
-
-<p>Dirigiu-se para o seu palheiro, tiritando de frio, dando
-suspiros e com lagrimas nos olhos. N’essa triste noite
-estava só. Não sentia o seu companheiro de tantos annos,
-introduzir-se com o fochinho entre a palha, para
-adormecer mais quente. Apesar dos latidos vagabundos
-dos outros cães da visinhança, o Coisa não se levantava
-esperto para ir responder ao postigo! Em vez d’este,
-agora era o Coruja, que, ouvindo ladrar, levantava a sua
-cabeça para ver se aquella era a voz do seu amigo...
-Debalde esperou. A noite prolongava-se por seculos, e
-o coveiro, dando voltas entre o colmo, sentia um calor
-abafante, suspirava com afflicções e não podia dormir!</p>
-
-<p>Logo muito cedo, ainda a manhã apontava, saíu do
-palheiro para continuar as suas averiguações. Junto da
-igreja encontrou umas creanças da freguezia visinha,
-que vinham para a escola, e uma das quaes lhe disse
-expontaneamente:</p>
-
-<p>—Ó tio Cruja, já viu o seu Coisa?</p>
-
-<p>O coveiro respondeu suffocado:</p>
-
-<p>—Não! Onde está?!</p>
-
-<p>—Olhe, tio Cruja, a gente viu-o morto ali no caminho.</p>
-
-<p>—Morto!—pronunciou o velho com aspecto rijo,
-inteiro e com voz commovida.</p>
-
-<p>—Sim, senhor, lá em baixo, ao pé da cancella—certificaram
-os rapasitos, fallando todos juntos, com a
-intimativa ingenua das suas vozes finas, apontando para
-longe, no fundo do valle!...</p>
-
-<p class="tb">O coveiro foi ver. No andar tinha os movimentos rapidos<span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span>
-e incongruentes de um côxo desvairado!... No
-rosto transparecia-lhe a expressão amarga e deprimente
-de uma intensa dôr, sentida com verdade! Os olhares
-eram impetuosos, lampejantes e vingativos; porque
-continuava a predominar no seu cerebro a idéa de que
-algum malvado lhe tinha morto o Coisa!...</p>
-
-<p>Chegou ao pé da cancella. O pequeno goso estava
-deitado, immovel, composto como se estivesse a dormir.
-Depois que o pedinte faceto o suspendera pelo rabo,
-tornára a caír casualmente no sulco de carro, onde o
-seu pequeno corpo se ageitára, no ultimo momento da
-vida. Com o pello faminto, irriçado pela geada que caíra
-durante a noite, reconhecia-se ser aquelle mesmo o
-rafeiro que, nas manhãs de frio costumava correr, doido
-e despreoccupado, adiante do Coruja, quando elle
-ía para os enterros. A rigidez cadaverica, apoderando-se
-do seu corpo magro, com a fatalidade de um acontecimento
-necessario, dava-lhe uma expressão de insensibilidade
-absoluta, expressão de indifferença pelas preoccupações
-da vida terrestre!...</p>
-
-<p>O coveiro ajoelhou na attitude piedosa de um crente.
-Tocou, quasi instinctivamente, com a mão, aquelle
-corpo inerte, para ter a indubitavel certeza da morte
-do seu unico amigo! Fel-o com a profunda veneração
-de uma alma rude; mas, n’este contacto do corpo de um
-cão morto, sentiu um longo calefrio de terror!...—elle
-que tantas vezes experimentára despreoccupado, o frio
-marmoreo dos cadaveres, que os costumava lavar e vestir,
-para depois os metter na cova e cobrir de terra!</p>
-
-<p>O Coruja levantando-se hirto, subjugado, com as feições<span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span>
-transtornadas e com as lagrimas nos olhos, e disse
-resignadamente:</p>
-
-<p>—Isto... havia de ser o diabo do frio...</p>
-
-<p>Um pouco depois, como se respondesse a uma pergunta,
-que fizera a si mesmo mentalmente, acrescentou:</p>
-
-<p>—...Fome!? tamem seria fome... Honte não comemos
-nada!...</p>
-
-<p>Passados momentos ainda considerou:</p>
-
-<p>—Este raio da neve!... Pois elle, com um frio de
-mil demonios!... A gente sempre anda agasalhada;
-mas os animaes—coitados!—nem uma vestia, nem uns
-sócos!...</p>
-
-<p>A final, tendo estado muito tempo sentado n’uma pedra
-a contemplar o corpo inanimado do Coisa, levantou-se
-com um impulso generoso e disse:</p>
-
-<p>—Pois tu não és menos que os outros. Tamem has
-de ter o teu enterro com officio.</p>
-
-<p>Dominado por esta idéa generosa, foi d’ali á igreja,
-buscar a sua enxada de coveiro, que costumava ter
-guardada por detraz do altar-mór! Era para abrir a cova
-ao Coisa. Na sachristia, revestia-se, para dizer missa,
-o padre José Pitança. Ao sentir pela igreja acima
-as pancadas sonóras e de uma intensidade desigual, de
-uns sócos, sobre o pavimento da igreja, observou ligeiramente
-para o sachristão:</p>
-
-<p>—É o Cruja. Já vem por ahi com alguma carraspana.
-Eh!... Eh!... Eh!...</p>
-
-<p>Quando o coveiro saía, atravessando a sachristia de
-enxada ao hombro, o ecclesiastico, com as mãos sobre<span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span>
-o rins, atando as fitas do amicto, suspendeu o murmurar
-de resa e perguntou em voz alta:</p>
-
-<p>—Quem diabo morreu, ó Cruja?</p>
-
-<p>—O meu cão—respondeu com brevidade.</p>
-
-<p>—E para que levas tu a enxada?</p>
-
-<p>—Para lhe fazer um enterro.</p>
-
-<p>O sacerdote teve uma gargalhada bulhenta de caçador.
-O coveiro offendido, respondeu-lhe com orgulho:</p>
-
-<p>—Olhe que nem eu, nem você somos melhores que
-elle. Merece-o mais que muitos fidalgos.</p>
-
-<p>E saiu bruscamente, coxeando.</p>
-
-<p class="tb">O Coruja, com o fim de realisar a idéa generosa de
-fazer um enterro excepcional ao seu cão, procurou primeiro
-um caixão que lhe podesse conter o corpo. Para
-isso encontrou uma tábua comprida, sobre a qual o estendeu,
-alinhando-o cuidadosamente, para ficar bem
-composto, n’uma posição sensata e natural. Subiu a
-uma oliveira, da qual cortou uns ramos para cobrir o
-cadaver, para o enfeitar, dizendo n’uma voz socegada
-e de respeito: «esta é a tua mortalha». Depois, no proposito
-de organisar um acompanhamento e dar a isto
-uma apparencia de cortejo funebre, conseguiu que, a
-troco de uma promessa de pequena recompensa, quatro
-rapazitos que andavam n’um monte á garavalha,
-<i>pegassem ao caixão</i>. O caixão era a tábua com o cadaver
-em cima coberto pelos ramos de oliveira, posta em
-seguida sobre dois fueiros, tirados, pelo Coruja, de um
-carro que estava no caminho!... A cada extremidade<span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span>
-de fueiro pegou um dos convidados. Depois, quando
-tudo estava em boa ordem, o coveiro, com a sua voz rouca
-e falhada, no tom faceto de uma alegria mentirosa,
-disse:</p>
-
-<p>—Toca a andar rapasiada. Levemos este nosso irmão
-para o <i>descanço eterno</i>!</p>
-
-<p>As creanças obedeceram com sinceridade infantil, caladas
-e respeitosas. O sahimento foi por um estreito
-caminho, com direcção a um alto pincaro, onde o Coruja
-determinou abrir a sepultura do seu velho amigo.
-Atraz do feretro ía elle, com a enxada ao hombro,
-a cabeça descoberta, um aspecto de contentamento triste,
-entoando o <i>canto-chão</i>, n’uma voz roufenha, pausada
-e distraída, imitando o phrasear dos sacerdotes nos
-officios:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Béu, béu, béu,</div>
- <div class="verse indent0">Vae p’r’ó céu.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Ao que os rapazes, que conduziam o corpo, respondiam,
-fingindo vozes profundas e graves, espaçando as
-syllabas:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Engola, engola,</div>
- <div class="verse indent0">Vae p’r’a cova.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Depois, todos juntos, communicando uns aos outros
-certa alegria sorumbatica e nervosa, cantavam em côro,
-n’um tom mais cadenciado, largo e solemne:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Quem ’stiver no inferno</div>
- <div class="verse indent0">Saia cá p’ra fóra!</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>As creanças achavam isto divertido, apesar de procurarem<span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span>
-adquirir semblantes sérios e respeitosos, fingindo
-attitudes de homens, endireitando o tronco, e esforçando-se
-por acertar o passo. Porém, como não sabiam
-coordenar bem os movimentos, em certo instante,
-pucharam em differentes sentidos e quasi deixaram
-caír desastradamente o cadaver do Coisa!... O coveiro
-sentiu rasgar-se-lhe o coração e deu um grito instinctivo
-e dilacerante! Os rapazes pararam rapidamente, ficando
-quietos e silenciosos diante d’aquella manifestação
-inexperada de uma dôr humanamente sentida! Continuaram
-depois o seu caminho, n’um silencio meditado
-e mais triste!...</p>
-
-<p>Quando subiam a encosta do monte, o rosto do Coruja
-cobriu-se de certa melancolia, caminhando devagar, com
-o corpo inclinado para diante, absorvido na idéa da sua
-perda! Chegando ao cimo, parou junto de uma agglomeração
-de penedos. Esteve alguns segundos meditativo encostado
-á enxada... Mas depois, dando á cabeça um
-movimento impulsivo e retomando o seu tom comico
-anterior, disse com o chapéu levantado ao ar:</p>
-
-<p>—Alto ahi!... oh! rapaziada!</p>
-
-<p>Os pequenos pararam, pousando no chão o feretro.</p>
-
-<p>O coveiro principiou a abrir ali mesmo a sepultura.
-O som baço e profundo da enxada, batendo cadentemente
-na terra, dilatava-se, reproduzindo-se nos angulos
-da montanha.</p>
-
-<p>No exercicio da sua triste profissão, o Coruja tinha, n’este
-momento unico, um aspecto maguado... Todo curvo sobre
-a cova que ía abrindo, com uma expressão facial de rigida
-tristeza, impunha-se austero, digno, respeitavel!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span></p>
-
-<p>As creanças, graves, silenciosas, olhando absorvidas
-para elle, obedeciam a um sentimento que não saberiam
-explicar!... Tomavam parte no sentimento do coveiro
-e, d’este modo, com a sensibilidade ingenua e infantil,
-acabavam a tonalidade dolorosa d’este quadro
-triste!</p>
-
-<p>Em frente das montanhas imponentes e do amplo horisonte,
-a respiração era facil, regular, socegada. Todos
-sentiam a tranquillidade, o socego, a paz silenciosa dos
-logares ermos! O Coruja, para acabar o seu trabalho,
-desceu ao fundo da sepultura e principiou a cavar com
-esmero dos lados. Desejava que o corpo ficasse cuidadosamente
-ageitado, como n’um berço!... Por fim, disse
-aos seus companheiros n’uma voz natural:</p>
-
-<p>—Chegae-me para cá esse caixão.</p>
-
-<p>E tirando cuidadosamente os ramos de cima do corpo,
-sopezou a tábua, para a collocar no fundo com o
-cuidado e com o amor com que collocaria o corpo de
-uma creança morta! Um dos assistentes confessou com
-naturalidade:</p>
-
-<p>—Parece... como os anjinhos.</p>
-
-<p>O Coruja devolveu a esta expressão singela e amoravel:</p>
-
-<p>—Tens rasão. Olha que tinha uma alma como elles.</p>
-
-<p>E passou a mão na cabeça d’esta creança, que lhe
-penetrára o pensamento, com a amisade com que o poderia
-fazer a um seu filho... Acrescentou depois, com
-voz comprimida pela dôr, mas esforçando-se por ser
-alegre:</p>
-
-<p>—Vamos lá a cantar os officios, para ajudar a entrar
-esta alma no céu da bemaventurança!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span></p>
-
-<p>Recomeçaram de um modo mais calmo, penetrados
-de comica circumspecção, o funebre <i>canto-chão</i>.</p>
-
-<p>Dizia o Coruja de um lado:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Béu, béu, béu,</div>
- <div class="verse indent0">Vae p’r’ó céu.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Respondiam as creanças do outro:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Engola, engola,</div>
- <div class="verse indent0">Vae p’r’a cova.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Depois entoavam todos em côro:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Quem ’stiver no inferno</div>
- <div class="verse indent0">Saia cá p’ra fóra!</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Repetindo isto muitas vezes, andavam em volta da
-sepultura. As creanças seguiam o coveiro, como acolytos.
-O Coruja, com um ramo de oliveira na mão, significava
-espargir o morto, com agua benta hypothetica!</p>
-
-<p>Por fim cobriu-se de terra o defunto. Espetaram-se
-sobre a cova os ramos de oliveira, e todo o mundo se
-retirou. Os rapazes íam adiante do coveiro, contentes
-e felizes, atirando pedras que rolavam pelo monte abaixo.
-Um d’elles, vendo-lhe lagrimas nos olhos, perguntou
-a um companheiro:</p>
-
-<p>—Porque é que o tio Cruja chora?</p>
-
-<p>Ao que o interrogado respondeu intelligentemente:</p>
-
-<p>—Ora... era amigo do Coisa.</p>
-
-<p class="tb">Nos tempos subsequentes ainda viram, algumas vezes,
-o Coruja subir aos penedos sobranceiros á sepultura!<span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span>
-Demorava-se ali horas, olhando para o largo horisonte,
-cantarolando sempre, como era seu costume
-nos momentos tristes! N’um dia em que o barbeiro
-Zé Maximo, com o seu ar importante de banalidade,
-lhe perguntou indiscretamente, sorrindo-se com modos
-de troça, «Ó Cruja, tu, diz que fizestes um grande enterro
-ao teu Coisa!», elle respondeu com azedume:</p>
-
-<p>—É verdade, meu grandissimo jumento! Merecia-o
-melhor que tu.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">O EMBARCADIÇO</h2>
-
-</div>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak">O EMBARCADIÇO</h3>
-
-</div>
-
-<p>Miguel Timão era um homem corpulento, de feições
-energicas e leaes. Em linhas pontilhadas, de um azul
-indelevel, tinha no braço direito um navio com o seu
-velame e no esquerdo um signo-samão. Partira da sua
-aldeia descalço, por uma crua manhã de geada, com toda
-a roupa n’uma pequena trouxa, enfiada n’um pau!...
-Seu pae, a este tempo, era um cego que vivia da caridade...
-Na aldeia não havia ganhos... Foi por isto
-que elle, na companhia de outros emigrantes, foi pelo
-mundo fóra, procurar fortuna... Ah! como a sua alma
-boa e generosa estremecia alegremente com a idéa consoladora
-de ganhar dinheiro para sua irmã Catharina,
-e para seu velho pae cego!...</p>
-
-<p>Andou por lá muitos annos sem dar noticias... Na
-terra chegaram a esquecel-o, suppunham-n’o morto...<span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span>
-O padre Beiral, que lia as gazetas, vira, entre as victimas
-de um naufragio, o nome de um Miguel... Não
-podia ser outro. Catharina chorou um dia inteiro e deitou
-lenço preto... Porém, este convencimento foi precipitado;
-porque, o rapaz, não morrêra, apesar de ter
-passado muitos annos n’uma vida trabalhosa, cheia
-de incertezas e de perigos, no meio dos quaes nunca
-poude esquecer a sua pequena aldeia, risonha e distante.</p>
-
-<p>Durante largo espaço de tempo, correu uma boa
-parte do mundo e foi todas as cousas que um homem
-rude pôde ser:—acompanhou um inglez no Egypto
-e na India; foi soldado nas republicas hespanholas
-da America, entrando em muitas conspirações; foi carroceiro
-no Brazil; e, durante os ultimos vinte e cinco annos,
-andou embarcado, percorrendo grande numero de
-portos do mundo, ouvindo todas as linguas e conhecendo
-homens de todas as côres...</p>
-
-<p>Á sua organisação temeraria convinham as incertezas
-de amplo mar, mysterioso e amigo... Uma vida
-accidentada, com alegrias e desesperos, mas sempre
-com dinheiro no bolso, quando saltava em terra, eralhe
-sympathica! Tambem agora, depois de velho, n’estas
-noites chuvosas da sua aldeia, Miguel tinha sempre que
-contar aos seus conterraneos, que o escutavam absortos
-e pasmados. No entanto, de tanta aventura extraordinaria,
-aquella que mais os impressionava era a de o
-maritimo ter comida <i>carne de gente</i>! Apesar da circumstancia
-attenuante da fome a bordo e da morte irremediavel
-para todos, as velhas beatas da aldeia acreditavam<span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span>
-firmemente que, o filho do cego, não poderia ter
-na outra vida um destino bemaventurado...</p>
-
-<p>O que mais os horrorisava era, de certo, a serenidade
-com que o irmão de Catharina descrevia este enorme
-momento de desespero, tirando longas fumaças do seu
-cachimbo requeimado!... Fôra no alto mar, na soberba
-amplidão infinita, com o céu misericordioso e azul
-sobre a cabeça... O navio, depois de uma tormentosa
-viagem e quasi sem mantimentos, teve uma calmaria no
-mar das Indias, boiando, monotonamente, como um cetaceo
-morto, durante semanas... Por baixo o mar immenso,
-sem ondulações providenciaes, liso como a superficie
-de uma poça, guardando, no seu amplo ventre
-poderosos animaes, que poderiam sustentar durante
-tempos a população da Terra... De noite, alguns
-d’esses peixes vinham á superficie da agua, attraídos
-pelo brilho das estrellas, pelo pharol de bordo e pela
-frescura relativa do ar. Gasta a ultima ração de arroz
-e de bolacha, todos os marinheiros tiveram a heroica
-firmeza de não comer em tres dias, esperando um soccorro
-fortuito! Em vão clamaram pela Infinita Misericordia!
-Em vão tiveram dedicação e coragem!... A
-Fome Implacavel, como um demonio sinistro, já os fazia
-estorcerem-se no convez com dôres cruciantes nas
-entranhas! Sentenciaram-se dois, á sorte, para alimentarem
-os restantes! Que valentes e bravos companheiros,
-esses rapazes de trinta annos! Nunca a coragem
-tomou uma fórma mais sublime e sympathica! Nunca
-a resignação na morte foi mais austera e imponente!
-Foram elles mesmos que, risonhos e conformados, abriram<span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span>
-as proprias veias, para morrerem! Só quatro dias
-depois d’este acontecimento horripilante é que, os sobreviventes,
-avistaram um vapor que vinha da China e
-os rebocou para Madagascar!...</p>
-
-<p>Outro navio, dos muitos em que embarcára, naufragou
-no golpho do Mexico! Era de um contrabandista andaluz,
-que fazia o seu commercio no mar das Antilhas.
-O dono da embarcação ía a bordo, e vendo diante dos
-olhos as guelas medonhas do mar, promettia a quem
-lhe salvasse a embarcação, casal-o com sua unica filha,
-uma rica herdeira sevilhana!... Porém, o mar estava
-picado que nem um inferno, e tudo se perdeu <i>morrendo
-todos</i> n’aquella escuridão tormentosa!... E um rapaz
-de aldeia, que escutava a narrativa, tranzido de susto,
-observou com voz timida:</p>
-
-<p>—Mas o tio Miguel não morreu...</p>
-
-<p>—Morri, sim, senhor, seu palerma! Quem te disse
-que não morri!?...</p>
-
-<p>E ficou a olhar para todos que ouviam, com uma viveza
-estupefaciente!</p>
-
-<p>Por fim, depois de uma vida cheia de aventuras perigosas,
-teve uma prolongada doença, que o deteve por
-dois mezes n’um hospital americano. Foi em S. Francisco,
-na cidade maravilhosa e quasi phantastica, celebre
-pelas suas ricas minas de metaes preciosos, d’onde,
-provavelmente, foi colhido o ouro com que se fabricou
-essa gargantilha com que vossa excellencia adorna o
-seu formoso pescoço, minha bella senhora! Aos seus
-quatro districtos aurificos—o da California—a lendaria
-California!—o de Idaho, o da Nevada, e o de Varhoe—concorrem<span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span>
-todas as extravagantes ambições do mundo
-moderno, principalmente os ricos judeus e os miseraveis
-chinezes que ali vão trabalhar! S. Francisco,
-que domina estas regiões do sonho, é uma das mais modernas,
-de entre todas as grandes cidades americanas, pois
-que principiou a povoar-se em 1848, quando appareceu
-aquelle bocado de ouro, no moinho do capitão Sulter. Tem
-hoje mais de duzentos mil habitantes e os seus famosos
-ladrões, e os incendios criminosos que ali houve ainda ha
-pouco espantaram o mundo inteiro! S. Francisco é uma
-população cosmopolita, que falla inglez e vive n’uma
-cidade com nome hespanhol, tão maravilhosa e incomprehensivel
-para um pacato europeu, que, quando foi
-da guerra da <i>Independencia</i>, o celebre doutor Belows,
-presidente do conselho de saude, convocando um <i>meeting</i>
-a favor dos feridos, fez um discurso e vendeu os
-apertos de mão a dollar, sendo tantos os dollars que
-lhe caíram para dentro do chapéu que, o philantropo
-medico, teve o braço esquecido por oito dias! É uma
-cidade que não tem nem os pobres immundos e obscenos
-das ruas de Lisboa, nem os garotos vivos e espertos
-que se encontram em New-York e Londres!... O
-seu luxo é de tal ordem que, a vida ali, é dez vezes mais
-cara do que em Paris!</p>
-
-<p>Miguel Timão, minhoto e sagaz, conservava d’esta
-cidade nova, levantada pelo enorme poder do ouro, uma
-impressão energica! Depois de ter percorrido a maioria
-das cidades maritimas do mundo, em nenhuma vira
-tanta sumptuosidade e opulencia! Aqui, as vaidades
-materialistas da civilisação moderna, impõem-se com uma<span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span>
-soberba que deslumbra! Talvez, pelo estonteamento que
-produzira n’este homem obscuro um mundo tão febricitante,
-elle teve um dia como a reclamação subita de
-um sentimento perdido, e na sua mente appareceu o
-quadro pacifico da sua pequenina aldeia, tão sympathica
-e inundada de luz.</p>
-
-<p>Foi n’esse tempo que, uma das febres endemicas n’aquellas
-regiões irregularmente humidas, o accommetteu
-de subito, com um longo calefrio, que o prostou
-n’um estado comatoso!... Recolheram-n’o ao hospital
-e, até terminar a convalescença, passaram-se aproximadamente
-dois mezes!... Durante este periodo de inactividade
-forçada, a sua memoria principiou a resuscitar-lhe
-o passado!... Era a primeira vez que estava
-doente! Alquebrado e enfraquecido que poderia fazer!?
-Com os elementos dispersos, que o seu pensamento lhe
-ía trazendo, pouco a pouco formava os quadros da sua
-vida infantil. As figuras dos homens que então conhecera,
-as raparigas com quem brincára, appareciam-lhe
-com um sorriso feliz e benefico, acompanhando-o n’estas
-distancias... Via-os como os deixára, porém, considerava
-que deviam estar mais velhos... que muitos
-teriam morrido... Não fôra elle tambem novo e forte,
-e não estava agora coberto de cabellos brancos e com
-rugas serpeando-lhe no rosto?! O tempo não corre debalde,
-e muitas das pessoas em quem pensava, estariam
-enterradas n’aquella pequena igreja caiada, que
-se lhe representava na imaginação!... Tudo isto lhe
-condensou no espirito o firme desejo de voltar á sua
-terra... Tinha algum dinheiro e, logo que se encontrou<span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span>
-restabelecido, pensou em tomar o primeiro navio que
-viesse para as costas de Portugal ou de Hespanha. Assim
-o fez, embarcando com a saudade insoffrida de um
-rapaz de vinte annos!...</p>
-
-<p>Era um domingo de primavera o dia em que entrou na
-sua aldeia... O céu azul, a pureza do ar, a alegria dos
-campos em flor... lançavam-lhe na alma enthusiasta vibrações
-de uma harmonia complexa e guerreira. Do intimo
-da terra saíam musicas genesiacas no aspecto da
-paisagem enebriante. As flores roxas e brancas das macieiras
-e das cerdeiras abriam-se em leques multiplicados
-sobre os campos verdes d’onde sobresaia o branco
-virginal dos malmequeres, a côr serena das violas, o
-vermelho sanguineo das papoulas bravas... Os trigaes
-viçosos palpitavam com o seu crescimento gradual, entre
-as largas manchas escuras das recentes searas de milho.</p>
-
-<p>As raparigas cantavam nos campos, atraz dos seus
-bois de cornos retorcidos que pastavam, fiando as estrigas
-da tarefa. A temperatura de um tepido parasidiaco
-e sensual enlanguescia, produzindo sensações dominadoras,
-fazendo comprehender os movimentos fecundantes
-da seiva universal!... Era um estonteamento
-de vinho forte o que subia á cabeça rija do velho
-maritimo, que caminhava lento e absorvido, reconhecendo
-todos aquelles logares queridos da sua infancia!
-Os olhos humedeciam-se-lhe de lagrimas, e o contentamento
-e a felicidade que lhe percorria ao longo dos nervos,
-entorpeciam-n’o... Os homens e as raparigas que
-passavam, interrogavam este desconhecido com olhares
-insistentes...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span></p>
-
-<p>Quem será este homem, que caminha dando sacudidellas
-aos hombros e que tem o andar de um borracho!?...—pensavam.</p>
-
-<p>Então elle parava para lhes perguntar numa entonação
-estrangeirada:</p>
-
-<p>—Conheceis a Cathrina, filha do cego da rocha?</p>
-
-<p>Conheciam perfeitamente; mas não era nenhuma rapariga.
-Muito pelo contrario, a mulher que tinha esse
-nome mostrava-se já muito velha, corcovada e doente...
-A sua vida era esmolar pelas aldeias e dormia por caridade
-n’um palheiro do padre Beiral. Mas espantavam-se
-que o desconhecido principiasse a chorar com estes esclarecimentos
-e perguntavam-lhe compadecidos:</p>
-
-<p>—Quem é você, hominho? Para que quer saber da
-Cathrina, e chora?</p>
-
-<p>Mas o homem da barba branca, que andava como
-um desengonçado, não lhes respondia e continuava a caminhar
-para a <i>residencia</i> que se via d’ali, na encosta, ao
-pé da igreja. Levava ao hombro, enfiado n’um pau, uma
-mala de couro e umas botas de canos... Este modo
-de andar aos solavancos impressionava os que o viam...
-Não podiam saber quem fosse e ficavam a olhar uns
-para os outros!... Mas quem o reconheceu, mesmo antes
-d’elle fallar, foi Catharina, que se lhe agarrou ao pescoço,
-chorando e repetindo muitas vezes:</p>
-
-<p>—Meu rico irmão, como estás velho!</p>
-
-<p>E Miguel, o valente marinheiro temerario, deixou caír
-ao chão a mala e as botas, dizendo por entre soluços:</p>
-
-<p>—E tu como estás acabada, mulher! Como te venho
-encontrar!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span></p>
-
-<p>Mas depois, como Miguel trazia algum dinheiro, que
-juntára cuidadosamente para esta eventualidade de voltar
-á sua aldeia, resolveu-se a comprar a mesma casa
-onde nascera, a qual seu pae tinha vendido por causa
-da longa cegueira em que viveu. O padre Beiral ajudou-o.
-A casa era velha e pequena; mas o campo adjunto
-era largo e magnifico terreno...</p>
-
-<p>O espirito do maritimo principiou a sentir um renascimento,
-a remoçar-se, a ter os alegres impetos da mocidade.
-Era aquella a mesma paisagem que sempre vira
-até aos vinte annos. Havia o mesmo musgo nas mesmas
-paredes; a mesma hera segurando as pedras dos
-muros esbarrigados; os mesmos penedos no alto do
-monte sobranceiro á igreja, manchavam o azul intenso
-das tardes primaveraes; as sebes de silvas, cobertas de
-folhas perpetuas e de amoras, embeiravam os campos e
-caminhos; e, finalmente, na frontaria da igreja ainda
-estava quebrado o mesmo vidro, como no dia em que
-elle partira! O que encontrava de differente no longo espaço
-de trinta annos? Muito pouco: o cypreste do adro
-tinha crescido e até envelhecêra; a carvalheira do pé da
-fonte, que tres homens com as mãos agarradas não podiam
-abraçar, estava carcomida, porque fôra queimada
-por um raio; as tres casas novas, caiadas, que se distinguiam
-de longe com as suas claridades vivas, e cujas
-vidraças scintillavam com o sol poente, tinham sido
-levantadas por uns brazileiros ricos, um dos quaes tambem
-presenteára a Nossa Senhora da igreja, com uma
-lampada de prata, que causára inveja ás outras <i>Nossas
-Senhoras</i> da visinhança. Mas, de todos os factos que<span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span>
-permaneciam, e que Miguel tanto estimava, aquelle que
-o chocou de um modo energico, aquelle que o penetrou
-em todo o seu ser com uma força omnipotente, foi o
-toque do sino grande da igreja, que ainda era falhado
-como d’antes!...</p>
-
-<p>Quando agora o ouviu pela primeira vez, depois de
-tantos annos, eram trindades e estava comendo uma
-posta de bacalhau á lareira do Beiral. Deixou caír o
-garfo de ferro, ficou a olhar com um modo estupido, e
-as lagrimas corriam-lhe pelo rosto enrugado! Oh! era
-aquelle o mesmo som, que o accordava nos domingos
-despreoccupados da sua vida passada!...</p>
-
-<p>Por todos estes motivos, o embarcadiço resolveu morrer
-na sua aldeia!... Estava velho, ainda que robusto;
-as fadigas e os trabalhos por esse mundo fóra tinham-no
-gasto muito. O mar... o mar para elle já não podia
-ser senão uma sepultura!... Uma grande sepultura decerto;
-mas, sepultura por sepultura, tinha ali uma na igreja
-que era mais perto, ainda que mais humilde. Ficava
-ao pé dos ossos de sua mãe que não conhecera, e de
-seu pae que não tornára a ver!... Resolvido isto de
-um modo terminante, principiou a interessar-se pela historia
-local, pela monotonia da conversa dos visinhos, a
-quem elle espantava com os successos da sua vida curiosa.
-Vieram-lhe tambem os desejos de grandes emprehendimentos
-agricolas—quiz cultivar o seu campo.
-Plantava hortaliças que mandava vender á villa, semeava
-batatas, colhia quasi um carro de milho, uma meia
-pipa de vinho e tinha muita fructa. Os seus melões e
-melancias davam-lhe orgulho—mandava-os vender ás<span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span>
-romarias, onde já tinham nomeada e eram preferidos aos
-dos outros cultivadores! Tambem não admira, pois que
-lhes dedicava muito tempo e amor—regava a tempo,
-mondava-os com sagacidade, regulava-lhes o sol de um
-modo conveniente... O padre Beiral disse-lhe um dia,
-que não se fallava nas gazetas de que houvesse, em
-qualquer parte do mundo, outros melões como os d’elle.
-O Timão, orgulhoso e confundido, respondeu:</p>
-
-<p>—Isso, senhor, é da semente e da Senhora da <i>Bôa-Viage</i>
-a quem os encommendo sempre!...</p>
-
-<p class="tb">Mas havia na aldeia uma malta de rapazes, que tinham
-por brazão não deixar segura qualquer fructa boa,
-no quintal de quem a tivesse. Estes meliantes, n’esse
-anno em que o sacerdote gabou os melões, projectaram
-ir <i>proval-os</i> de noite. O Timão já andava com a pedra
-no sapato e, para os prevenir, disse um domingo no adro,
-ao saír da missa, fallando bem alto para ser ouvido,
-«que se alguem lhe fosse ao meloal <i>o racharia de meio
-a meio</i>!»</p>
-
-<p>O Tone da Engracia incitou-se com esta ameaça e
-propoz um assalto á fazenda do embarcadiço... Poderiam
-ir n’uma noite escura, com cautelas premeditadas,
-para não serem presentidos... Desceriam do muro de
-vagar, por uma corda presa a certo carvalho, para não
-fazerem baque no chão...</p>
-
-<p>O meloal era muito perto da casa, n’um recanto soalheiro,
-onde podiam á vontade ser meticulosamente
-vigiados... O Miguel Timão tratava-os com tantos<span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span>
-cuidados, que até para lhes tirar a sombra baixára uma
-videira antiga, dirigindo-a para uma latada, junto ao
-muro... De manhã cedo, ainda o sol vinha em casa de
-Deus, já elle, em mangas de camisa, andava contando
-as boas melancias rajadas, que deixára na vespera, e
-os optimos melões apimentados assentes sobre folhas,
-para não apodrecerem com a humidade da terra.</p>
-
-<p>Alegrava o espirito, consolava, vêl-o assim de barba
-branca, este velho robusto e musculoso, trabalhar com
-amor, assiduamente, no seu campo, incluindo n’esta
-preoccupação toda a sua alma e todo o seu tempo...
-Oh! os rapazes que pensavam em roubar-lhe os melões,
-decerto se arriscavam muito! O velho Timão levado por
-mal seria um demonio, em convulsões de desespero!...</p>
-
-<p>Mas o da Engracia, o Teixugo, o Cambado e o Telhas,
-não se preoccupavam com medos e sómente commentavam
-com antecipação, a grande risota que se produziria
-em toda a gente, quando soubessem que aquelle
-papa-gente tivera, ao seu tão gabado meloal, um inesperado
-assalto! A não ser o Telhas, os outros, não pensavam
-em qualquer risco. Sendo alta a noite e bem escura,
-o embarcadiço estaria a dormir profundamente!
-Se, ainda tivesse um cão, podia haver receio; mas, o
-imprevidente velho, dizia muitas vezes <i>que um bom cão
-era elle</i>!</p>
-
-<p>Quando chegou a noite do sabbado combinado, o
-Telhas, que era cagarola, ainda disse... assim com um
-modo engulhado:</p>
-
-<p>—Home, e se elle nos pilha?!</p>
-
-<p>Esta phrase denunciava quanta impressão, diante da<span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span>
-mente espavorida d’este rapaz, produzira o quadro terrificante
-do Timão, n’um canibalismo infimo, mastigando
-os seus companheiros de infortunio, na desesperada
-fome que soffrera no mar das Indias! O Tone irritou-se
-com esta covardia despresivel, chamou fracalhão ao
-Telhas, que lhe respondeu com um modo prophetico
-e despresador:</p>
-
-<p>—Olhem o valente! Tamem quero ver, quando te
-vier um balasio pelos queixos, se não ficas de cara á
-banda!...</p>
-
-<p>Mas o da Engracia engulia balas—não tinha medo
-nenhum d’ellas! N’essa mesma noite, estavam resolvidos,
-foram. Mas, como não queriam ser engarampados
-com alguma arriosca, ao chegarem ao sitio, caminharam
-instinctivamente com certa prudencia... O embarcadiço
-era um velho rijo, que não tinha medo da
-morte, porque a vira muitas vezes diante de si. Não
-se importava de matar um ladrão, arriscando-se a ir
-por uma barra fóra; pois andar por lá sempre fôra sua
-vida. Com uma navalha de tres estalos e um bacamarte
-de bôca de sino, costumava fazer ameaças abstractamente,
-dizendo:</p>
-
-<p>—Aquelle que m’as fizer estiro-o. Ainda seis centos
-mil raios me partam!</p>
-
-<p>A beata Vicencia, quando lhe ouvia esta jura, recuava
-berrando:</p>
-
-<p>—Abrenuncio! Santo Nome de Maria, que nos póde
-vir um grande castigo por causa d’este excommungado!</p>
-
-<p>O Timão retorquia-lhe com olhar de piedade:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span></p>
-
-<p>—Calla-te minha papa-hostias. Bons castigos soffri
-eu por esse mundo.</p>
-
-<p>Porém, o plano de roubar o meloal estava estabelecido,
-os rapazes não trepidaram. O da Engracia é
-quem saltaria dentro, para encher o sacco. O Teixugo
-e o Cambado ficariam no caminho, de vigias; o Telhas
-em cima do muro. Á meia noite o Tone desceu do muro,
-cautelosamente ajudado pela corda presa ao carvalho,
-para não ser presentido... Quando assentou os
-pés na terra defendida pela navalha hespanhola e pelo
-bacamarte de bôca de sino, estremeceu involuntariamente!...
-Sentia, dentro em si mesmo, uma opposição,
-á qual resistiu com toda a força da sua energica
-vontade. Talvez desejasse retroceder; mas atraz de si,
-em cima do muro, estava o Telhas, a quem chamára
-fracalhão, e que logo que o viu um momento parado e
-apurando o ouvido, lhe disse com uma ironia perceptivel:</p>
-
-<p>—Home, não tenhas medo. O velhote dorme como
-um porco.</p>
-
-<p>O rapaz encorajou-se subitamente, levantou a cabeça
-com orgulho e começou a andar com certa resolução
-temeraria. Na profundidade da noite tranquilla, serena
-e sem luar, ouvia-se o cochichar subtil dos vigias, o
-som gemebundo e extenso de dois sapos, o ruido estival,
-permanente e continuado dos ralos!... Um grande
-morcego manchou a limpidez do ar com o seu vôo largo,
-produzindo um silvo. A pequena casa do Timão ainda
-se percebia ao fundo, por entre as arvores de fructa,
-como uma massa confusa. A escuridade e o silencio augmentam<span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span>
-sempre o medo, e no cerebro do Tone da Engracia,
-as idéas principiavam a atropellar-se, a confundir-se,
-a tomar fórmas...—diante dos seus olhos, configuravam-se
-homens aggressivos. Por isso elle tornou a
-parar no meio do campo! Então sentiu-se n’um isolamento
-mais completo, como o do alto mar!... Por cima
-o céu limpido, as estrellas com movimentos crepitantes
-de luz, a amplidão cheia de uma sombra grandiosa...—um
-certo palpitar da natureza que o subjugava! A
-pequena distancia, em cima do muro, o Telhas, como
-uma reprehensão sempre viva. Qualquer manifestação
-de receio, de pavor, que sarcasticas censuras não encontraria?!
-No entretanto, n’este instante nervosamente
-inexplicavel, a figura do velho marujo endurecido nos
-trabalhos e nas difficuldades, appareceu-lhe na imaginação,
-com uma realidade que feria! N’este momento o
-Telhas tossiu ao longe! O Antonio estremeceu e teve
-um calefrio ao longo da espinha! Estas duas circumstancias,
-bem diversas, deram-lhe o impulso definitivo, e
-o Tone começou a caminhar ousado, direito, altivo e
-até insolente! Passando por entre as hervas e calcando
-as folhas seccas fazia um ruido imprevidente... Que
-lhe importava a elle que apparecesse o velho maritimo!
-Aquella tosse casual de um dos seus companheiros teve
-nos seus ouvidos uma ressonancia ironica, aguilhoara-lhe
-a vaidade, restituira-lhe a sua coragem e temeridade
-habituaes.</p>
-
-<p>Entrou no meloal. Principiou a agachar-se muitas vezes,
-para escolher o que havia de melhor. Estava apparentemente
-sereno, não temia ninguem. Levantava os<span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span>
-melões para os suppezar, para os levar ao nariz pelo
-lado do pé com o fim de lhes apreciar o adiantamento
-da maturação. Affastava as folhas largas, carnosas, recortadas
-das melancias...—queria escolher as mais
-sazonadas. O que lhe ía servindo cortava rente pelo pé,
-e logo ía depositar, a dois passos, no carreiro junto do
-sacco. N’um d’estes instantes, o silencio da amplidão
-foi cortado por um chiar de gonzos prudentissimo...
-O Tone levantou a cabeça á escuta... Não percebeu
-mais nada: talvez fosse a passagem de algum noitibó
-por entre a ramagem das arvores. A escuridade não o
-deixou ver a cabeça do Timão, que appareceu ao postigo,
-escutando... O da Engracia continuou. Mas, quando
-tinha cortado mais um melão e que o ía levar... sentiu
-certa difficuldade em mover um pé!</p>
-
-<p>Empregou impensadamente um esforço mais energico
-para vencer esta opposição; porém, sem logo perceber
-porquê, caiu redondamente no chão, de bruços, produzindo
-na quéda o baque de um corpo sem vida!—tinha
-os pés presos n’um laço intelligente, armado pelo
-marinheiro, para agarrar um ladrão presumptivo. O temerario
-rapaz deu um grito e esforçou-se logo por se
-levantar, colleando como uma cobra ferida na cabeça!...
-Porém, soccorrel-o, era impossivel. Os companheiros,
-atterrados pelo som do bacamarte de bôca
-de sino que o embarcadiço disparou para o ar, fugiram,
-tendo ainda tempo de ouvir esta phrase temerosa:</p>
-
-<p>—Seus grandissimos ladrões, que os mato!</p>
-
-<p>Taes palavras e aquelle tiro disparado com um fim
-theatral, produziu o effeito previsto. Os companheiros do<span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span>
-Tone, julgando-o talvez morto, abandonaram-no. O Miguel
-Timão, que saíra da casa com grande rompante
-para espantar os que estivessem, chegou-se ao que
-jazia no chão, e disse-lhe com ar de troça:</p>
-
-<p>—Então sempre caíste melrinho?! Deixa que eu t’o
-digo já. Ha-de-te ficar de escramenta.</p>
-
-<p>O da Engracia, completamente submettido, pediu:</p>
-
-<p>—Ó tio Miguel, não me faça mal, que eu não torno...</p>
-
-<p>O marinheiro não lhe fez mal. Tambem lh’o estava
-pedindo sua irmã, que era muito obrigada ás esmolinhas,
-que a tia Engracia lhe fizera em tempos precisados.
-Porém, apesar dos esforços de raiva e das supplicas,
-o velho maritimo não prescindiu de enlear bem enleado
-o seu preso e de o ir collocar no caminho, com
-o fim de ser solto pelos primeiros misericordiosos que
-passassem para os campos! E ao deixal-o fóra do muro,
-disse-lhe:</p>
-
-<p>—<i>Prá</i> outra vez, se cá voltas, ha de ser peor. Entendes?</p>
-
-<p>Depois retirou-se, não cedendo mesmo á intervenção
-a favor do adoptivo da Engracia, feita por sua irmã Catharina,
-que lhe pediu para o desamarrar, e a quem
-respondeu:</p>
-
-<p>—Sabes que mais?! <i>Bae bugiar.</i> É uma ensinadella.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak">O REI ABSOLUTO</h2>
-
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak">O REI ABSOLUTO</h3>
-
-</div>
-
-<p>Emilio era uma creança robusta, que tinha as pernas
-grossas, os braços grossos, o pescoço firme, o olho
-penetrante, travesso, audacioso. As suas pestanas finas,
-grandes, ramudas, sombreavam-lhe as pupillas negras;
-as sobrancelhas espessas, fortes, unidas, aproximavam-se
-irriçadas, nos momentos de colera infantil, como o
-dorso de uma hyena.</p>
-
-<p>Quando já tinha quatro annos e que sentia o poder
-intimo dos seus musculos; quando principiava a distinguir-se
-dos outros, a considerar-se pessoa, e que reconhecia,
-como uma energica qualidade que se impõe, a
-sua vontade potente e a sua força capaz de executar,
-o pequeno Emilio quebrou uma jarra de flores, atirando-lhe
-acintosamente com uma pera, que não queria
-comer, por desejar outra. A mãe, que era severissima,<span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span>
-castigou-o. Elle que era um rapaz de brio, principiou
-uma berraria de mil diabos, gritando com perrice, com
-frenesi, deitado de barriga, batendo no chão com os
-pés, com os punhos, com a cara, e mordendo no bibe
-para o rasgar! Convencionaram calculadamente, a mãe
-e as creadas, não fazer caso d’elle, deixal-o chorar quanto
-quizesse, deixal-o espernear, gritar, morder-se, contundir-se.
-Queriam fatigal-o, vencel-o pelo proprio esforço
-que fazia, para assim lhe darem uma lição moral,
-para o ensinarem a conhecer que as maldades castigam
-por si mesmas, aquelles que as praticam. Mas,
-qual lição, ou qual diabo!—esta conspiração passiva enraiveceu-o
-ainda mais, e mordia ainda mais nas mãos,
-batia de cada vez mais na cara, de cada vez dava na
-cabeça com o punho mais cerrado e com mais força!
-Quando a mãe, com a sua paciencia reflectida, lhe disse,
-do vão da janella onde costurava, com voz moderada
-e firme: «deixa que tu has-de-te calar», elle,
-berrando com mais força, respondeu-lhe: «não hei, não
-hei, não e não», continuando intencionalmente o seu
-choro.</p>
-
-<p>Dava uns gritos agudos, estridentes, discordantes,
-como as vibrações de uma rebeca desafinada; mas depois,
-com o tempo, como a mãe previra, veio o cançasso,
-o desleixo, o esquecimento de que estava chorando,
-e decaíu gradualmente n’uma voz mais branda,
-mais enfraquecida, monotona como o som da ultima badalada
-de um sino, que se esgota de quebrada em quebrada.
-Houve até um momento em que chegou a calar-se;
-porque no chão, adiante da sua cara, uma <i>farmiga-operaria</i><span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span>
-andava lidando na remoção de uma pedra que
-encontrára no caminho. O pequeno animal, estonteado,
-perdido das suas companheiras, que formavam um longo
-fio negro, junto da parede, adiantava-se para elle,
-afastava-se para traz, para a esquerda, para a direita,
-procurando com uma intelligencia tenaz, um auxilio,
-alguem que o ajudasse. Por fim vieram mais duas, e
-então principiou uma lucta obscura, mas profiada e imponente,
-em que tres formigas removiam, com um nobre
-esforço cheio de paciencia, uma pedra mais pesada
-do que todas ellas juntas.</p>
-
-<p>Emilio principiou a interessar-se nos movimentos apparentemente
-caprichosos dos pequenos insectos. Os
-seus olhos vivos e animados seguiam com cuidado, com
-esmero, aquelle trabalho das formigas-obreiras, que tombavam
-a pedra, levando-a na direcção desejada. Calado,
-de bruços, com o pequeno queixo sobre o punho,
-observava attenciosamente todos os movimentos, tendo
-as linhas faciaes n’uma contencção rigida, nervosa, reveladora
-de um esforço intimo. A mãe, apreciando incompletamente
-este silencio de seu filho, disse-lhe com
-ligeiro ar de triumpho:</p>
-
-<p>—Mas sempre te calaste...</p>
-
-<p>Ao que elle respondeu promptamente:</p>
-
-<p>—Mas vou gritar mais.</p>
-
-<p>E retomou o seu choro com nova energia, com mais
-vigor. Porém, como viu que a mãe se rira escarnecendo-o,
-reconheceu-se vencido, mediocre, e cheio de vergonha
-pela sua imprevidencia, pela falta de tenacidade,
-fugiu d’ali chorando alto com asperos gritos de raiva.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span></p>
-
-<p>Foi pelo corredor adiante para a varanda, que dava
-sobre os campos. Era uma larga paisagem com o horisonte
-recortado pelas alturas das arvores desiguaes.
-Os altos castanheiros com as suas folhas lenhosas, rijas
-e de um verde claro, distinguiam-se dos pequenos carvalhos
-fortes, atarracados, folhudos e das cerdeiras vistosas,
-de ramagem espalhada, e de um verde mais
-suave.</p>
-
-<p>O pequeno Emilio observou, com a serenidade dos
-seus grandes olhos negros, todo este conjuncto. A sua
-physionomia era meia contemplativa, meia raciocinadora.
-Media, com despeito, a enorme superioridade d’aquellas
-arvores, pela ostentosa corpulencia com que se
-destacavam ao longe. Mas depois, por um movimento
-natural, com uma reacção instinctiva, fez este juizo
-simples e claro, dando ás suas palavras um tom imperativo,
-com os beiços alongados:</p>
-
-<p>—Tambem eu sou capaz de subir a cima d’ellas, como
-o Manuel!</p>
-
-<p>E com o seu pequeno rosto de uma auctoridade expressiva,
-ficou a olhar para os campos, fixando soberbamente
-as arvores, ás quaes se reconheceu superior.</p>
-
-<p>Sentia-se forte como o Manuel, o creado da lavoura.
-Nos seus musculos havia uma energia latente, a sua
-vontade era uma voz de commando, intima, secreta,
-mas absoluta. Elle podia-se mover, andar, ir buscar
-uma cadeira, arrastal-a até á varanda para subir, para
-ver as arvores que estavam nas orlas dos campos, quietas,
-n’uma immobilidade permanente!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span></p>
-
-<p>Ao longe viu duas vaccas que pastavam, com a cabeça
-baixa e o pescoço estendido para a herva. De vez
-em quando moviam com lentidão, os seus corpos volumosos,
-dando passadas de vagar, mas pousando com
-segurança os seus pés. Outras vezes levantavam a
-cabeça, espalhando mansamente o seu olhar sereno
-pelas encostas, e, se viam outras vaccas, mugiam
-com uma voz ululante, vaga, de uma expressão triste.
-Um pequeno rapaz de dez annos, forte, sujo e travesso,
-vigiava as vaccas. Em certos momentos, quando ellas
-se aproximavam das vinhas, era elle que as enxutava,
-picando-as cruelmente com a aguilhada, berrando-lhes
-alto, com energia, obrigando-as a tomarem a direcção
-que desejava.</p>
-
-<p>O pequeno Emilio apreciou, da sua varanda, estes
-factos com um olhar meditativo, profundo, e conheceu-se
-intimamente capaz de mandar n’aquellas vaccas, de
-andar n’aquella liberdade dos campos, correndo, saltando,
-subindo ás arvores, dando quédas, dando gritos, picando
-as vaccas...</p>
-
-<p>N’este momento todo o seu ser estava possuido de
-uma forte necessidade de posse, de commando. Desejava
-ser livre como aquelle rapaz que via ao longe, no meio
-do campo, com um imperio indiscutivel e tyrannico sobre
-a vontade d’aquelles animaes possantes, que obedeciam
-resignadamente á sua aguilhada. Emilio sentia-se
-tomado de uma grande ambição, de um sentimento
-de energia que o tornava audacioso... Desejava possuir
-todo aquelle mundo que via—as vaccas, os campos,
-as arvores, as casas, as poças de agua, os pombos<span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span>
-que passavam no ar com o seu vôo rapido, as proprias
-nuvens que estavam suspensas, como ephemeros frocos
-de espuma. Mas queria possuir <i>tudo</i>, mandar em
-<i>tudo</i> de um modo absoluto, incondicional!</p>
-
-<p>—Se morresse toda <i>essa</i> gente... era tudo meu!—raciocinou
-atrevidamente.</p>
-
-<p><i>Essa gente</i> eram os outros, os que possuiam aquellas
-cousas todas, que no momento elle ambicionava!...</p>
-
-<p>E com as palpebras immoveis, as pupillas fixas n’um
-ponto indeterminado, as sobrancelhas severamente contraídas,
-os beiços alongados como os de um macaco
-colerico, o queixo apoiado na mão esquerda, contemplou
-a grandeza <i>do mundo que via da varanda</i>!</p>
-
-<p>Por fim, absorvido <i>na sua idéa de poderio, de auctoridade</i>,
-desceu da cadeira e, calado, altivo, arrogante,
-foi por um corredor escuro que se abria na sala.</p>
-
-<p class="tb">Entrando, observou com intrepidez, com supremacia
-indiscutivel, os retratos e as gravuras que estavam pendentes
-das paredes. Sustentou um olhar de soberba,
-com a estatueta de porcelana, que representava Christovão
-Colombo com o mundo na mão esquerda. Reparou
-com desdem altivo n’outra de um velho general <i>do primeiro
-imperio</i>, que faiscava coleras marciaes dos olhos
-coruscantes, tendo o seu chapéu napoleonico de travez,
-na direcção dos fartos bigodes, e apoiava a mão esquerda
-nos punhos da sua espada invencivel. O pequeno
-Emilio, vendo casualmente no espelho da parede,
-que o seu pequeno rosto tinha bastante séveridade, encarou<span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span>
-de novo o general, ainda com mais intelligencia
-e sobrecenho, conservando-se firme, auctoritario e dominador!</p>
-
-<p>Passados momentos, o semblante coloriu-se-lhe com
-uma expressão mais suave, quando contemplou a cadeira
-de braços, onde <i>seu papá</i>, depois de jantar, costumava
-ler o jornal e adormecia recostado. Tinha-o
-visto n’esta posição muitas vezes:—o seu grave aspecto
-paternal apresentava uma curvatura desleixada,
-tendo a cabeça caída para o seio, resonando com gravidade
-e com estrondo. Este quadro simples e familiar
-impressionara-o sempre, deixando-lhe o desejo
-de ler o jornal, recostado na cadeira com abandono,
-como seu pae. O momento era opportuno, estava sósinho
-na sala, ninguem o poderia impedir... Fechou a
-porta do corredor com todas as cautelas de um malvado,
-de um pequeno facinora consciente, para d’esta
-maneira poder realisar com facilidade esta ambição temeraria,
-de fingir que sabia ler o jornal recostado na
-cadeira paterna!</p>
-
-<p>N’aquelle momento ouviu tossir a <i>mamã</i> que estava
-no quarto proximo e por isso suspendeu, por instantes,
-a realisação do seu audacioso plano. E, como passado
-pouco tempo, tudo recaíu n’um socego favoravel,
-Emilio dirigiu-se á cadeira. Subiu para ella, agarrando-se
-com esforço, lançando primeiro a perna esquerda,
-depois a perna direita, ficando primeiro de bruços e
-chegando a indireitar-se depois de se ter apoiado nos
-joelhos e segurado fortemente com as mãos. Quando
-chegou a cima e se recostou, a sua respiração era larga<span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span>
-e profunda, signal de que estava cançado do grande
-esforço que fizera!</p>
-
-<p>Pomposamente recostado na cadeira, Emilio tinha um
-ar orgulhoso e via se que estava bem penetrado da sua
-importancia fortuita! Fingiu admiravelmente que lia o
-jornal, movendo levemente os beiços como fazia seu pae,
-revirando os olhos com intelligencia e dando á cabeça
-movimentos lateraes apropriados. A final, para completar
-o quadro, deixou cair com desleixo o papel, entrando
-resolutamente no periodo do somno digestivo, fingindo
-com propriedade, um resonar altivo e cheio de
-insolencia!</p>
-
-<p>Esteve assim algum tempo... Porém, não lhe consentindo
-as impaciencias naturaes o demorar-se muito, levantou-se
-em pé na cadeira e desceu para o chão,
-por um processo inverso ao que empregára para subir.
-A um lado, sobre uma pequena mesa, estava a bengala
-e o chapéu do papá. Dirigiu-se intrepidamente a estes
-objectos respeitados, para os possuir. Poz o chapéu na
-cabeça, pegou na bengala pelo castão de velho marfim
-defumado e desejou passear ao longo da sala com porte
-altivo, com importancia natural. Mas o chapéu enterrou-se-lhe
-até aos hombros e, quando pretendeu dar
-passadas de um homem encostado á sua bengala, tropeçou
-e caíu de bruços.</p>
-
-<p>Então levantou-se zangado, nervoso, vermelho de colera
-e retomou um aspecto imponente e auctoritario.
-Principiou a andar no comprimento da sala com o corpo
-direito, a cabeça alta e o braço esforçadamente levantado
-para agarrar no castão da bengala, o que, de<span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span>
-certa maneira, lhe dava a parecença de um menino dependurado.</p>
-
-<p>Depois, para se rehabilitar diante de si proprio por
-ter caído de bruços, quiz exercer a sua auctoridade incontestada,
-o poderio absoluto de que se achava possuido,
-sobre todos os objectos que ali estavam—lembrou-se
-de tombar as cadeiras, quebrar os vidros, <i>atirar abaixo
-aquelles homes</i>. E os seus grandes olhos energicos
-fixaram-se com arreganho, com altivez sobranceira nas
-estatuetas que permaneciam em frente da janella sobre
-a pequena mesa. O velho militar do primeiro imperio
-napoleonico, com todo o seu conjuncto marcial—a espada
-triumphante, os bigodes magestosos, as rugas
-severas, acobardou-o, obrigando-o a baixar ligeiramente
-os olhos e a reflectir durante momentos. Porém, Christovão
-Colombo, com o seu rosto suave de uma bravura
-serena e consciente, não o intimidou, e por isso, Emilio,
-o fixou com mais confiança, com menos susto. E como
-o descobridor da America tinha na mão esquerda
-um globo, na qual apontava resolutamente com um ligeiro
-sorriso de inspirado, um ponto com o dedo, o
-pequeno, <i>para se metter com elle</i>, fez-lhe este pedido
-exigente:</p>
-
-<p>—Dás-me essa cousa?</p>
-
-<p>Christovão Colombo não teve logo uma resposta favoravel.
-Emilio repetiu imperiosamente:</p>
-
-<p>—Dás ou não dás? Olha que tu...</p>
-
-<p>E fez-lhe um arremeço significativo com a bengala.</p>
-
-<p>Porém, o silencio do possuidor da bola continuou-se,
-e o pequeno julgando-o um signal desprezador do seu<span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span>
-poder, pareceu-lhe provocante. Por isso o olhou com
-mais intimativa, e, para o castigar, como lhe faziam
-a elle proprio ás vezes, repetiu a concisa e habitual
-phrase de seu pae:</p>
-
-<p>—Então vae lá para dentro.</p>
-
-<p>Imaginou que ía ser obedecido. Para não haver delongas,
-nem evasivas, conservou-se n’uma attitude ameaçadora,
-com a bengala paternal no ar, agarrada pelo
-castão. Com voz mais alta e decisiva repetiu ao possuidor
-da bola:</p>
-
-<p>—Não vaes? Arrumo-te.</p>
-
-<p>Christovão Colombo não obedeceu. Oppunha a resistencia
-passiva de um ser inanimado. O pequeno Emilio
-vingou-se d’aquella immobilidade insoffrivel, atirando-lhe
-á cabeça com a bengala irreverente. A estatueta caíu no
-chão quebrando-se com estrondo em mil pedaços!...
-A cabeça, os braços, a bola, separaram-se! O pequeno
-facinora ficou a olhar para aquelle destroço, com um
-sentimento de vingança satisfeita!</p>
-
-<p>Porém, sua mãe, que estava no quarto proximo, ouvindo
-este barulho, correu á sala para averiguar o que
-teria sido. Vendo a estatueta quebrada e seu filho encostado
-á bengala n’um aspecto arrogante, exclamou
-instinctivamente:</p>
-
-<p>—Ah! grande maroto que ahi vem o papá.</p>
-
-<p>Emilio respondeu sereno, impertubavel, com segurança:</p>
-
-<p>—Ora!... eu <i>tamem</i> sou papá.</p>
-
-<p class="titlepage">FIM</p>
-
-
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-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Comedia do Campo volume III, by
-Francisco Teixeira de Queiroz and Bento Moreno
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMEDIA DO CAMPO VOLUME III ***
-
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