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If you are not located in the United States, you'll -have to check the laws of the country where you are located before using -this ebook. - - - -Title: Comedia do Campo volume III - (Scenas do Minho) - -Author: Francisco Teixeira de Queiroz - Bento Moreno - -Release Date: August 24, 2020 [EBook #63034] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMEDIA DO CAMPO VOLUME III *** - - - - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - - - - - -COMEDIA DO CAMPO - - - - - TEIXEIRA DE QUEIROZ - - (BENTO MORENO) - - COMEDIA DO CAMPO - - (SCENAS DO MINHO) - - La plupart des drames sont dans - les idées que nous nous formons - des choses. Les événements qui - nous paraissent dramatiques ne - sont que les sujets que notre - âme convertit en tragédie ou en - comédie, au gré de notre caractère. - - H. DE BALZAC.—_Modeste Mignon._ - - VOLUME III - - Antonio Fogueira.—Morte negra.—Enterro de um cão.—O - embarcadiço.—O rei absoluto. - - [Illustration] - - LISBOA - DAVID CORAZZI—EDITOR - EMPREZA HORAS ROMANTICAS - Premiada com medalha de ouro na exposição do Rio de Janeiro - 40—Rua da Atalaya—52 - 1882 - - - - -ANTONIO FOGUEIRA - - -I - -N’uma excellente manhã de um maio risonho e feliz, duas creanças, que -já eram orphãs de mãe, perderam igualmente seu pae! Além da orphandade, -teriam tambem a negra fome e a sombria miseria indigente, se não fôra o -bom cura, o padre Clemente Carvalhosa, que as foi buscar a casa, levando -uma de cada lado, pela mão, para a _residencia_! O Thomé Barbante, um -tio d’essas creanças, tambem compadecido, ou, talvez, humilhado pelo -caridoso procedimento do ecclesiastico, foi-lhe pedir que lhe désse uma -para sua casa. O Carvalhosa cedeu-lhe a Quina, ficando com o Tone, que -elle, n’um momento egoista, pensou vagamente em ir mettendo pela igreja, -para de futuro ter quem lhe ajudasse á missa. Porém o Bernardo Repolho, -lavrador remediado, que morava n’outra aldeia, a distancia de leguas, não -lhe consentiu realisar esta ambição: sabendo da orphandade dos filhos -de seu irmão André, que tanto eram seus sobrinhos como do Barbante, -condoeu-se e, consultando a sua auctoritaria Engracia, resolveram -_adoptarem_ Tone, visto Deus não os ter favorecido com _um rapaz_, que -tanto haviam desejado!... Para a mulher de Bernardo, era uma consolação -forçada!... Por espaço de annos presenteára generosamente todos os santos -acreditados nas visinhanças, chegando a ir em romaria beber das diversas -aguas milagrosas, tão apregoadas e tão efficazes, que nascem debaixo dos -penedos, onde esses bemaventurados tinham apparecido!... Frequentára, -tambem, com assiduidade, os banhos de mar, indo durante muitos annos, a -Vianna, pelo tempo da Agonia, sempre dominada por um tamanho desespero de -maternidade, que de uma vez chegou a tomar _trinta banhos_ nos tres dias -da festa!... Porém, as esperanças de ter um filho íam desapparecendo, a -esterilidade de Engracia affirmava-se de cada vez mais com a idade! Viveu -muito tempo n’uma constante aspiração, impaciente e nervosa, chegando aos -quarenta e cinco annos—ao momento dos desenganos! —sem descendencia... -A sua intransigencia, o seu mau humor, contra os filhos dos outros, ía -caíndo n’uma melancolia latente, quasi n’um ediotismo, quando seu marido -lhe propoz o trazerem para casa o orphão de seu irmão André, que acabava -de morrer pobre... Engracia abraçou, inesperadamente, com alegria, -esta idéa e adoptou com benevolencia a creança desamparada! Pediu -instantemente a seu marido, que fosse, mesmo n’aquelle dia, buscar o -pequeno... Para a satisfazer, o Repolho não teve remedio senão pedir ao -padre Beiral, a bôa egua lanzuda. O ecclesiastico cedeu-lh’a facilmente, -perguntando com a sua curiosidade de homem idoso: - -—Então é o filho d’esse teu irmão que morava lá para os lados de -Monção?... - -—Sim, senhor, esse mesmo—respondeu o Repolho. Era muito pobre, não deixou -nada... - -—Pois fazes bem, fazes bem—applaudiu o sacerdote. É uma obra de -caridade... Deixal-os ao desamparo, é creal-os para ladrões. Vae homem, -vae, leva a egua da côrte... - -E, no dia seguinte de manhã, Bernardo partiu, chegando ao anoitecer -a casa do Thomé Barbante, dizendo-lhe peremptoriamente, qual a sua -resolução e mais a de Engracia. Foi muito gabado este procedimento. Todas -as pessoas diziam, inclusivamente o Carvalhosa, que o pequeno viria a -ser bem feliz; porque, estes tios que o adoptavam, eram ricos e não -tinham herdeiros necessarios. Porém, quem não entendia as cousas do mesmo -modo enthusiasta, era o proprio Tone. Quando lh’o fizeram comprehender, -principiou a berrar desalmadamente, dizendo que não, que não... que não -queria ir. E, no momento em que o punham ao collo do Bernardo, que já -estava montado, prompto para a partida, principiou a estrebuxar, a morder -nos punhos de seu tio que o segurava amoravelmente, a chamar alto por seu -pae enterrado e porfiando por se atirar abaixo do albardão. A final, como -lhe prometteram que voltaria de tarde, para brincar com sua irmã Quina, -que tambem ficava a chorar em altos gritos pelo Tone, deixou-se levar. -Porém, só quiz ir ao collo do tio Barbante que elle conhecia, e não ao -_d’aquelle home_, que nunca tinha visto. Foi por esse motivo que o padre -Carvalhosa teve de emprestar a _malhada_ para o Barbante ir montado, e lá -partiram ambos, pelos caminhos ensombrados da freguezia, o Thomé com o -pequeno adiante de si, escachado no albardão. - -D’este modo, assim illudido, é que o Tone foi e ficou. O Barbante, para -não ser presentido pelo sobrinho, retirou-se ao amanhecer, quando elle -ainda dormia innocentemente. Desde essa hora, as duas creanças irmãs, que -sempre tinham brincado juntas, na mais simpathica convivencia, ficaram -vivendo a distancia de leguas, separadas por altas montanhas, que no -inverno se costumam cobrir de grossas camadas de geada! - - * * * * * - -A nova paisagem, com a qual o pequeno Tone se tinha de familiarisar, -era de uma sombriedade austera, penetrada de melancolia. É verdade -que em baixo, no coração do povoado, havia campos onde os ribeiros -sussurravam, indo regar os prados, de um verde claro, e os milharaes -alegres. Porém em volta, era uma cinta escura de altas montanhas, com -plantações de pinheiros que tem uma côr energica, mas triste, e com -arrogantes penedias, que ameaçavam desmoronar-se. Lá no alto, onde os -penedos se accumulavam toscamente, uns postos sobre os outros, viam-se -frequentemente, occupados no seu rude trabalho, sob a inclemencia dos -soes e das chuvas, os quebradores de pedra! Estes homens de um aspecto -rude e carregado, com a pelle pergaminhada pelos rigores de todos os -tempos, perfuravam pacientemente com as suas brocas, os penedos, que -depois quebravam a tiro, cujo som ululante e cavernoso echoava pelas -quebradas da montanha! - -Na aldeia onde Tone nascera, o aspecto dos campos, a vegetação, era mais -familiar e intima. Os terrenos mais suavemente accidentados, deixavam -aos seus olhos vivos, mais largo espaço para ambicionar. Havia um rio -largo, que no inverno engrossava arrogantemente com as chuvas copiosas. -Dos silvados impenetraveis, povoados de sombras que lhe mettiam medo, -costumavam saír inesperadamente, quando elle se aproximava, os melros, -voando para longe, com assobios agudos e espantados. A sua memoria tenaz -de creança devia possuir por muito tempo, nitidamente, o vivo quadro da -sua linda igreja caiada e alegre, com uma torre alta, e os tres sinos -que tocavam ao domingo! Era a igreja onde elle ia á missa com sua mãe e -onde os primeiros deslumbramentos produzidos pelos opulentos dourados -dos altares e pelas attitudes senhoris das imagens das santas, se lhe -ergueram na imaginação! Era de um pittoresco mimoso o quadro d’essa -igreja, collocada na encosta, com a sua brancura que se destacava -do souto de velhos castanheiros e carvalhos que a cercavam! Áquella -imaginação infantil de Tone, deviam fazer falta estas cousas amadas pelos -seus olhos vivos e ingenuos! N’estes caminhos pedragosos de agora, não -se podia correr doidamente como n’aquelles outros, pelos quaes andara -atrás de sua irmã Quina, para a agarrar. Por isso, nos primeiros tempos, -fartava-se de chorar, tinha perrices freneticas e chamava em altos -gritos por seu pae, por sua tia Clara, por sua irmã e não queria comer. -Mas a mulher do Bernardo Repolho affeiçoou-se-lhe imprevistamente e -acarinhava-o, procurando consolal-o, promettendo-lhe dôces e santinhos, -que lhe havia de trazer das romarias. E n’um dia, para mostrar a -effectividade das suas promessas, fez-lhe uma dadiva surprehendente, a -qual foi recebida pelo Tone com tal alvoroço, que por si só parecia capaz -de lhe obscurecer todas as lembranças risonhas do seu passado mediocre! -Engracia comprou-lhe um pequeno cabrito, de pello lusidio e negro, um -pequenino cabrito que fazia _mé_, _mé_, com uma voz tremida e saudosa, na -qual talvez quizesse exprimir a saudade de seus companheiros, que deixára -na liberdade incondicional das montanhas! - -Todos os rapazes da visinhança, que já se davam muito com o Tone, lhe -invejaram, desejando-a, a posse d’este animal, e não occultavam que, nos -seus peitos infantis, se guardavam estragados sentimentos de cubiça! -Acercavam-se do possuidor, dizendo-lhe em tom melifluo e condescendente, -palavras agradaveis, de muita e sincera amisade, por meio das quaes -desejavam captar-lhe a benevolencia. Porém, como elle resistia, -afastando-se, altivo e orgulhoso, com o cabrito pelo baraço, que lhe -atara ao pescoço, um dos amigos propoz-lhe de um modo astuto: - -—Olha, se _mo_ deixas levar a comer ali adiante, dou-te esta carapuça -nova... - -O Tone olhou com modo avido para a carapuça offerecida, que era vermelha -e, depois de calcular mentalmente as vantagens, condescendeu: - -—Pois sim, dá cá a carapuça! - -Foram os dois e muitos outros, com o cabrito em grande distincção, -festejando-o com alaridos, como um triumphador romano. Quando chegaram -junto de uma poça, onde encontraram um pasto verde, que julgaram -appetitoso, pararam, porque entendiam que o cabrito deveria comer. -Para conseguirem isto, usaram de subterfugios infantis, escolhendo-lhe -meticulosamente a melhor herva, que profiavam metter-lhe na bôca... -Quando o animal, com os seus dentes finos, mastigava, levantava-se da -parte das creanças uma expressiva satisfação, olhando para o animal -n’um silencio attencioso e meditativo; todos deante d’elle, agachados, -contemplando-o com veneração!... - -Estes e outros factos similhantes, fizeram com que o Tone fosse -esquecendo gradualmente o seu estreito passado. Como tinha os mimos -de Engracia e as lisonjas cavilosas dos seus companhiros, principiou -a desenvolver-se-lhe uma vontade forte, desejos impertinentes, certa -irascibilidade e orgulho. D’entre os rapazes com quem brincava, só -distinguia o Zé do sachristão; porque este lhe consentia o tocar o sino -pequeno, _a bambom_, nas occasiões de enterro! E como o Zé na escola já -_escrevia debuxado_ e o Tone, apesar de ter oito annos ainda nem sabia as -_lettras_, disse-lhe o do sachristão: - -—Ó _coisa_, quando é que tu vaes com a gente p’ro studo? - -O Tone respondeu-lhe com um desdem despresador: - -—Eu não vou... _Isso_ de studo não presta... - -—Presta meu asno... Vae, e tu verás que presta. Começas logo na carreira -do _A_. - -—O que é a carreira do _A_?!—indagou o da Engracia, com modo suspeitoso... - -—É a carta. Ai! tu não sabes! Olha, pede á tua mãe que te merque a carta, -que é muito linda. Tem um gallo... é muito linda. Depois vae ao studo, -que andam lá muitos rapazes. Quando não está o senhor mestre, a gente -brinca ás escondidas, joga o talo na eira... Vae meu asno que é bonito. - -Influido d’este modo pediu, n’esse mesmo dia, á mãe, que o levasse á -escola. Engracia, para o não ouvir chorar, lavou-lhe logo a cara e -conduziu-o a casa do mestre que era o senhor Antoninho Beiral... O -senhor Antoninho Beiral, um rapaz forte, espadaúdo, alentado, era tambem -o melhor caçador de perdizes da redondeza! Andára em Braga a estudar -para padre, com o fim de succeder na _encommendação_ a seu tio; mas não -conseguira presbiterar-se, por ter _desfeitiado_ um velho conego na -pessoa de uma creada massiça e de rosto oval... Depois d’isto, cortada -a carreira, retirou-se definitivamente para a sua aldeia, deixando -crescer grandes barbas, andando pelos montes e por entre os milhos ás -perdizes e _ás moças_... De vez em quando, para se desaborrecer, dava -aula de instrucção primaria, pois era o professor official!... Os seus -discipulos temiam-n’o; porque elle era severo e zurzia-os, com uma -vargasta pelas orelhas ou com duzias de palmatoadas bem puchadas, quando -os suppunha delinquentes! Se emquanto o _senhor professor_ andava ás -perdizes, elles se divertiam na eira, a jogar o talo ou ás escondidas, -logo que persentiam ao longe o ladrar do podengo, arregimentavam-se -pressurosamente para irem ao encontro do senhor Antoninho pedir-lhe a -benção, do que elle os _dispensava_, passando de espingarda ao hombro, -com um modo carregado e negativo. - -No dia em que Engracia lhe levou o Tone, a mulher do Repolho teve de -esperar que o senhor mestre viesse; porque andava no monte... Logo que -chegou, viu Engracia, humilde, com o rapasito ao lado e perguntou-lhe com -indifferença: - -—Queria alguma cousa?... - -—Se me fazia a esmolinha de me deixar entrar este pequeno cá para o -studo—respondeu. - -—Que idade tem? - -—Oito annos. - -—Traz a carta? - -—É isto que comprei lá em baixo na tenda, senhor? - -E mostrou-lhe, com o braço estendido, um pequeno folheto de capa de papel -pintado. O senhor Antoninho, lançando-lhe um olhar infimo e despresador, -concluiu: - -—É isso mesmo, sim senhora. Deixe ficar. Olha rapaz, vae p’rá acolá. - -E apontou-lhe a estremidade de um banco, onde o Tone, amedrontado e -encolhido se foi sentar... Em seguida, o senhor mestre entregou a um -discipulo a espingarda, para lh’a ir pôr na varanda, emquanto elle se -foi sentar, de modo brusco e pesado, na cadeira professoral, onde se -conservou silencioso, durante alguns minutos com a testa apanhada na -mão esquerda!... Por fim, tirando de uma gaveta e collocando em cima da -mesa, n’uma evidencia terrificante, a palmatoria disciplinar, indicou aos -descipulos que n’esse dia, não passariam _sem molho_, como elle costumava -dizer. - - * * * * * - -Mas o Tone da Rosaria não gostou d’aquelle _studo_: o mestre era brusco, -tinha uma voz grossa, que repellia, uma cara rude, com muita barba. Na -mesma tarde em que entrou para a escola, viu, com um semblante cheio -de susto, que, o seu amigo, o Zé do sachristão, a unica veneração que -o Tone tinha n’este mundo, foi severamente castigado com dois murros, -levantando-se do chão a deitar sangue pelo nariz, só por lhe ter caido um -borrão na escripta! O Zé chorou soluçando reprimidamente, desculpando-se, -e ficou muito tempo no seu logar, a olhar para o _manual_, com os seus -olhos vermelhos do chôro, fingindo uma penetração que não tinha. Por um -movimento espontaneo e sympathico, o Tone foi ter com o seu amigo, para o -consolar! Porém, o mestre, disse-lhe com uma voz estrondosa, que se fosse -sentar... Elle obedeceu, encolhido de medo, como um cão escorraçado, e -principiou tambem a chorar, soluçando... - -Quando chegou a casa disse: - -—Ora eu não quero mais aquelle _studo_... - -—Porque?—indagou sua mãe. - -—O mestre bate nos rapazes. O Zé da igreja verteu sangue pelo nariz e -chorou muito... - -—Mas tu has de saber a lição e o senhor mestre ha de ser muito teu -amigo... - -—Não quero ir mais... Elle bate-me e faz-me deitar sangue pelo nariz... - -E não voltou mais. Quiz antes os seus devertimentos:—ir para o campo -com os filhos dos lavradores que andavam com o gado e não estavam para -aprender a ler, jogar o _talo_ com elles, abrir covas á mão para enterrar -pedras que fingissem de mortos, comprar _aos outros_ gaitas, com o pão -que levava de casa... O Tone andava quasi sempre acompanhado do seu -cabrito, que elle mandava com ama voz exigente e imperiosa... Os seus -amigos, para o desgostarem, desmereciam-lhe o animal. Porém, n’um dia, -em que esse cabrito appareceu puxando um carro novo, todos os invejosos -se submetteram. O Zé do sachristão que lh’o viu e lhe cubiçou, carro e -cabrito, disse-lhe: - -—Das-m’o, Tone? - -—Não—respondeu energicamente. - -—Pois tambem, quando quizeres tocar o sino pequeno, a repique nos dias de -festa e a _bambom_ nos enterros, não te hei de deixar... - -—É o mesmo—respondeu com isenção. - -O Zé propoz-lhe: - -—Se me désses o carro e o cabrito, deixava-te tocar o sino e dava-te uma -cousa muito linda que eu tenho... - -—O que é?—indagou com os olhos muito abertos. - -—É um ninho com cinco melrinhos... - -—Isso não presta—desdenhou o Tone, cheio de soberba. - -—Ai, não presta, tomaral-o tu! Os melrinhos já têem pennas, estão quasi a -voar... - -—E onde é o ninho?—indagou o dono do cabrito e do carro. - -—Arreguilal-o—respondeu arregaçando a palpebra inferior do olho esquerdo. -Querias saber; mas não chuchas. É n’um sitio... - -—Vamos lá ver? - -—E das-me o carro? - -—Dou; mas tu has de me deixar tocar o sino no dia da festa, e das-me o -ninho. - -—Pois sim, então dá p’ra cá o carro. Amanhã não ha studo e então vamos -tirar os melrinhos, que já são grandes! - -—Eu quero hoje o ninho...—exigiu o Tone. - -—Hoje vou p’ro studo, não posso!—desculpou-se o Zé, visivelmente infeliz. - -—Não vás hoje ao mestre. Isso de studo não presta!—aconselhou o Tone -desdenhoso. - -—Ai, elle é o _não vás hoje_. E o meu pae? Não, que o meu pae, depois, -bate-me. - -—Elle não sabe. Gazeia hoje Zé... - -E o do sachristão, para obter o carro, resolveu-se a gazear. Com elles -ambos foram outros rapazes que tambem andavam na escola e outros que não -andavam. Desejavam ver o ninho, que estava n’um carvalho, perto de uma -poça, segundo affirmava o Zé. - - * * * * * - -Encaminharam-se por entre uns silvados. Como era no tempo das amoras, -pararam muitas vezes para as colherem. Houve algumas bulhas, porque -todos desejavam apanhar as que estavam mais maduras. Antes de chegarem -ao sitio do ninho, passaram por umas cerejas que tiveram tentações -de comer... Porém, como eram do padre Beiral, reconsideraram, com a -lembrança de que o mestre, que era sobrinho do ecclesiastico, sabendo-o, -os zurziria com a chibata de marmeleiro, que tinha encostada á parede, na -aula. Quando chegaram ao pé do carvalho annunciado, disse o do sachristão: - -—Olha, Tone, o ninho é ali. - -—Deixas-me subir p’r’o tirar? - -—Não senhor, que tu és muito pequeno—respondeu com orgulho, alongando os -beiços. Podes cair e depois a tua mãe vem _com aquellas_... - -—Deixa-me ir Zé, que eu não caio—insistiu o Tone, com voz de pedinte. - -O do sachristão, para conciliar todos os desejos propoz: - -—É melhor tu ires para cima dos penedos. Eu subo e dou-te o ninho para a -mão. Queres? - -—Pois então vá lá—rematou o da Engracia, concordando. Mas não dás a -estes, não? - -—Não, dou a ti... - -Os companheiros, offendidos com esta exclusão, disseram orgulhosamente: - -—Olhem, o diabo do asno! Tem medo que lhe comam a porcaria do ninho!... - -O Zé do sachristão principiou a subir. Primeiro abraçou-se ao carvalho, -depois encolheu as pernas, em seguida fincou o lado interno dos -joelhos para se segurar, e por fim, o lado interno dos pés para se -impellir... Quando se ia chegando ao cimo do carvalho, elevando-se -assim, prudentemente, agarrou-se a um forte galho, segurando-se com -presistencia. E disse para os que, debaixo, o seguiam attentamente com os -olhos: - -—Cá estão, os cinco melrinhos. Já tem penna. - -—Dá-os para cá—disse o Tone de cima de penedo, relanceando um olhar -despresador para os outros rapazes, que se conservaram afastados, n’uma -reserva sensata e orgulhosa... - -—Chega-te mais para cá—observou-lhe o Zé. - -—Não posso mais—respondeu desconsolado, inclinando-se do penedo para o -carvalho. - -—Então levo-os eu para baixo. Se caem no chão morrem e depois tu não me -dás o carro. - -E principiou a descer, tendo previamente mettido no seio, os cinco -melros pequenos. Como precaução, para os não esmagar, descia afastando o -corpo do velho tronco do carvalho, agarrando-se tenazmente com as mãos e -fincando os pés na casca nodosa. Quando chegou a baixo, disse mostrando -os cinco passaros, que ia tirando um a um, de dentro da camisa: - -—Toma. Agora dá cá o carro. - -—Dá tu primeiro os melros—observou-lhe o Tone. - -—Isso arreguilal-o!... Então, mão por mão, como os rapazes. - -Todos os companheiros cercaram o possuidor dos melros, olhando-o com -olhos seccos e avidos!... - -Um pediu-lhe com um tom melodioso e humilde: - -—Dás-me este melrinho, Tone? - -—Não!—respondeu avaramente o da Engracia. - -—Tambem eu te não dou uma cousa... - -—O que é? - -—Quatro botões amarellos de duzia, muito lindos... - -E mostrou-lhe na palma da mão, para lhe causar inveja, quatro botões -com armas reaes, que tinham sido furtados de uma antiga farda meliciana -do avô. O filho da Engracia gostou muito dos botões amarellos de armas -reaes, que valiam cada um, doze fôrmas! Por isso trocaram. O Tone deu-lhe -um melro por todos, por isso ficou sómente com quatro, que metteu sensata -e reservadamente dentro da carapuça, para os não opprimir e para lho’s -não cubiçarem com os olhos. Os outros rapazes, com o fim de captarem a -confiança do Tone, davam-lhe generosos conselhos: - -—Sabes o que deves fazer? Dá aos melrinhos sopas de vinho—dizia um. - -Outro offerecia: - -—Ó aquelle, tu queres pão para elles, que eu dout’o? Olha que hão de ter -fome... - -E n’esta idéa caritativa, afastavam-lhes com os dedos sujos as -mandibulas, introduzindo-lhes na bôca pão esfarellado, que os melros -regeitavam. - -Um dos rapazes teve esta idéa: - -—Sabes o que os passarinhos querem? É beber. - -Passava ali um regato que em baixo ía fertilisar um campo de herva. Na -superficie da corrente, iam folhas verdes e guiços. As tenras plantas que -tinham nascido no logar onde corria a agua, curvavam-se obedientemente, -à sua passagem. Porém, nos momentos em que a força da corrente era menor, -erguiam-se com orgulho, retomando a sua posição habitual. Os rapazes, -quizeram dar de beber aos melros n’este regato. Para isso mettiam-lhe o -bico na agua, empregando um esforço meticuloso e cuidado. Porém elles, -assim, não bebiam bem, e o Zé do sachristão, que tinha onze annos, disse -com voz emphatica: - -—É que os melrinhos não sabem como se bebe, meus asnos? Ensinae primeiro -aos animaes como se bebe!... - -Este alvitre foi adoptado e, para conseguirem o fim desejado, -lembraram-se de imitar, o modo como presumiam que os melros velhos dariam -de beber aos seus filhos. Tomavam a bôca cheia de agua e introduziam o -bico de cada passarito entre os beiços. Porém, como d’este modo ainda -não bebiam, abriam-lhe de novo as mandibulas á força, e com uma palha -molhada na corrente, deixavam lhes cair gotas na garganta. Mas este -processo era demorado, a paciencia infantil esgotou-se e o Tone, para -andar mais rapidamente, metteu debaixo de agua a cabeça de um dos melros, -ao qual se encarregara de dar de beber e afogou-o, principiando depois a -choramingar. O Zé possuidor do carro, disse com desconfiança: - -—Sim, matta-os e vem cá para eu te dar o carro que has de vel-o por um -canudo!... - -Na realidade, o filho da Engracia achava-se descontente com a troca e -principiava a pedir outra vez o seu carro e o seu cabrito. O Zé respondeu -lhe: - -—Isso é que não! Quem dá e torna a tirar ao inferno vae pagar! - -E ao pronunciar estas palavras cabalisticas, fez no ar uma cruz de -maldição, com a mão em gume, afastando-se com o cabrito e com o carro. - -O sol ainda ía alto e os rapazes, para gazearem correctamente, deviam -chegar a casa ás horas a que poderia ter terminado a escola. Para se -entreterem mais algum tempo, lembraram-se de jogar o botão. A sorte -marcou o _rei_ e o _fossa_—o primeiro e ultimo a _atirar á buraca_; -porque foi _este_ o jogo preferido. Era n’uma encruzilhada de dois -caminhos, onde havia um cruzeiro. O Zé do sachristão e os outros -_maiores_, tiravam das saccas que traziam ao pescoço, por dentro da -camisa, as _fôrmas_... O Tone conservava-se triste, a certa distancia; -pois que, antes de principiarem _á buraca_, já lhe tinham ganho os botões -amarellos, _á parede_. Com o fim de obter mais fôrmas para poder jogar, -teve que vender ao Teixugo os melros _por duas duzias_. Porém, no momento -em que estavam verdadeiramente presos n’este entretenimento ambicioso, -ouviram uma voz tremenda que lhes bradou de cima do muro sobranceiro, com -uma ironia terrificante: - -—Sim senhores, lindos meninos! Então uma gazeadella, ein?! - -Era o senhor Antoninho, que ali apparecera casualmente, andando á caça! -Quando o mestre suppunha que _aquelles_ discipulos o estavam esperando na -eira como de costume, vae-os encontrar ali a jogar o botão!... Os rapazes -ao verem-n’o, olharam-se repassados de um terror estupidificante, -ficando n’uma coacção espasmodica! Os musculos faciaes permaneceram -n’uma regidez tetanica, e os olhos, muito abertos, fixaram-se, com uma -insensibilidade apparente, no _senhor professor_! Porém, quando este -se dispunha a descer o muro para os punir a murro, elles seguiram o -instincto salvador!... Fugiram, deixando o carro, o cabrito, os melros, -as fôrmas e... tudo! O sobrinho do padre Beiral ainda lhes gritou de -longe, iracundo: - -—Andae meus grandes marotos, que ámanhã vos ensinarei. Assim é que se vae -á escola?! Ella vos saberá ao alho, a gazeadella! A pelle das vossas mãos -é que o ha de pagar! - -Depois de mais os não ver, pegou nos melros, estorcegou-lhes o pescoço, -metteu-os no bolso, e disse para si, com mais reflexão: - -—Sempre servem para um arroz!... - -E foi indolentemente, pelo caminho adiante, assobiando, com a espingarda -ao hombro. - - -II - -Alguns annos depois, o Antonio da Engracia era tido como o rapaz -mais turbulento d’aquelles sitios:—attribuiam-lhe, a elle e aos seus -companheiros, todos os casos bulhentos que por ali se davam. De todos -os seus amigos da infancia, faltava um, o Zé do sachristão, que tinha -ido para o Brazil, e já escrevera muitas cartas. Na ultima fallava -palavrosamente, com muitas repetições emphaticas, de largos projectos -de fortuna! Affirmava estar muito contente, e promettia, se Deus o -ajudasse, vir d’ahi a annos, fazer o orgulho de seu pae. Um longo periodo -d’essa carta desvirgulada, era destinado especialmente a recommendar -muito o pequeno cão, que deixara na aldeia no dia da partida... Tinha-o -em grande estimação, lembrava-se todos os dias do _Rabicho_, desejava -encontral-o quando voltasse... Esse animal, magro, aleijado, rijo e -bom, representava, para aquelle rapaz, um affecto incondicional, uma -dedicação cheia de provas... Obtivera-as na paciencia com que lhe -soffrera as travessuras infantis. Se lhe batia, em vez de fugir ou de -ladrar, rojava-se-lhe aos pés, com o ventre para o ar, os olhos humidos -e resignados, ganindo humildemente, n’uma obediencia absoluta... Na -manhã de julho, na qual José partira, quando elle, com os olhos rasos -de lagrimas, se despedia das mulheres da visinhança, que lhe atacavam -os bolsos de fructa; quando, pela ultima vez para muitos annos, olhava -para aquellas paredes negras e musgosas da sua aldeia, para os penedos -que estavam no alto do monte, para os pinhaes sombrios... espalhando -sobre essas cousas inanimadas uma vista de saudade; quando se despedia -dos seus amigos que ficavam... o seu cão, aquelle mesmo que recommendava -em todas as cartas, acompanhara-o, indo na frente, a vinte passos, com -uma perna no ar, correndo alegremente, bebendo nos regatos do caminho, -voltando atrás para festejar seu dono, com movimentos expressivos de -cauda, e saltava-lhe ao peito! Fôra com o sachristão e seu filho até meia -legua fóra da freguezia; porém, o _velho_, julgando inconveniente esta -companhia, escorraçou-o para casa, fazendo-lhe gestos de uma fingida -colera theatral, atirando-lhe pedras, e dizia: «_Passa fóra, Rabicho_». -O cão, com a sua perspicacia quasi humana, conhecendo que era importuno, -incommodo, que não devia proseguir, subiu a um muro, e ali permaneceu de -pescoço firme, com o focinho para diante, as orelhas tesas, os olhos -fixos, n’uma attitude observadora, até que elles desappareceram!... -Este rapaz de quatorze annos deixava a sua aldeia e as suas queridas -affeições. Ia muito longe, procurar uma fortuna incerta!... Poderia, no -contacto do mundo indifferente, perder muitas das intimas recordações -da sua terra. Porém, o que elle nunca esqueceria, era o dia em que -partiu, as mulheres que lhe davam a fructa chorando, os rapazes que -ficavam sentados nas pedras do caminho e a firmeza esperta do seu cão -em cima d’aquelle muro! Em todos os quadros da sua vida infantil, que -muitas vezes reproduziria de memoria, para contentar a saudade natural, -appareceria decerto aquelle cão, em cima d’aquelle muro, n’uma posição -intelligente e nervosa, com sol a illuminal-o fortemente de um lado!... -N’esta ultima carta, ainda se lembrava nitidamente de toda a visinhança, -designando cada um com o seu nome por extenso e acrescentando-lhe _o -alcunho_. _Á senhora_ Engracia do Repolho, por exemplo, aconselhava a -que mandasse o seu Antonio para _aquella_, affirmando-lhe de um modo -cathegorico «que ali é que se ganhava dinheiro e _se fazia a gente -homem_». - -O sachristão, tendo soletrado meditadamente, por tres vezes, toda -essa extensa carta, saíu de casa para a levar ao padre Beiral, o mais -circumspecto dos ecclesiasticos visinhos!... Era um homem pacato, com -algumas impaciencias veniaes, com muitas impertinencias de achaques, -lembrando-se, sempre que lhe perguntavam pela saude, que vinha a morrer -da bexiga, pelo que batia com dois dedos no baixo ventre exclamando: - -—Ah! vem a ser d’aqui... D’aqui é que hei de ir para os anjinhos como o -João Thomaz!... - -O João Thomaz era um seu antigo condiscipulo, que morrera parochiando na -freguezia limitrophe!... - -Na sua comprida varanda telhada e soalheira, é que o Beiral reproduzia -as suas queixas, cumprindo, já se entende, regularmente com as suas -resas!... Interrompia-se sómente para deitar _um milhinho_ ás gallinhas, -que esgravatavam no quinteiro e que logo ao verem-n’o passear de lado -para lado, faziam cácárácá... Mas, todos os seus peccados, vinham de que -os porcos, impacientes e gulosos, afugentavam as aves com grunhidos, com -impulsos de focinho, o que, para elle, era mesmo uma damnação... Por isso -o ecclesiastico, com pequenos gestos de frenesi, quando isto succedia, -voltava á cesta do milho, tomava novamente a mão cheia, e espalhava-o -habilidosamente no quinteiro, com um largo gesto de orador que abrange -um auditorio. As gallinhas, já conhecedoras d’esta artimanha, logo -que sentiam o crepitar do grão sobre as pedras do quinteiro, corriam -precipitadamente de todos os lados, com as azas abertas, os pescoços -alongados, as mandibulas promptas, e principiavam a comer soffregamente, -antes que chegassem de novo os porcos. - -No momento em que entrou na varanda o sachristão, remoía, o padre Beiral, -as ultimas palavras da sua resa. O pae do _brazileiro_ disse-lhe do fundo -da escada de pedra, mostrando-lhe um papel azul, com um bom riso de -contentamento: - -—Cá a temos, senhor!... - -O ecclesiastico abriu-se tambem, n’um riso expontaneo e exclamou: - -—Não t’o disse eu?! O rapaz não se esquecia... Lá por não teres na ultima -barca, não é que se não lembrasse. - -—Vae muito bem, com a ajuda de Deus que tudo manda, vae muito bem! - -—Está bom, homem. Entra cá para cima. - -E n’uma voz mais baixa: - -—Que diabos de porcos aquelles! São o vivo demonio. Ó Maria—chamava. Anda -cá rapariga! - -Do lado do quintal respondeu uma voz sadia, n’um tom malcreado e agudo: - -—Que é, senhor? - -—Aquelles porcos que rompem o lençol... Deixa lá Manuel... Vem cá p’ra -cima que a rapariga arranjará isso. Com que então o teu Zé escreveu e dá -bôas noticias!... Muito bem, muito bem... - -—Aqui lh’a trago...—certificava com rosto satisfeito, apresentando uma -carta de papel azul, pautado, muito fino, que lhe rangia entre os dedos. -Trazia-a cuidadosamente dobrada, tendo rasgado unicamente a parte collada -pela obreia vermelha e quadrangular. Mostrava com orgulho o talho da -letra commercial do sobrescripto, os carimbos de tinta atijolada, os dois -sellos azues, representando a dôce efigie do imperador, com a sua fina -barba-toda. Depois, para que o ecclesiastico visse o que o seu Zé dizia, -abriu melindrosamente a carta, e entregou-lha affirmando em seguida: - -—Leia, senhor, leia que _está-the_ mesmo um _home_. Falla com uma -cabeça!... - -E, ao pronunciar estas simples palavras, tinha lagrimas orgulhosas, por -ter um filho que _não merecia a Deus Nosso Senhor_. - -O Beiral disse-lhe: - -—Confesso-t’o agora Manuel. Nunca pensei que fosse para lá fazer boas -cousas. É bem certo o dictado: «Quem bom é, em toda a parte se salva.» - -E, com a inflexão do homem que conhece muito o mundo, acrescentou com uma -reserva premeditada: - -—Olha que as más companhias por esse universo fóra são muitas. Digo-t’o -eu, Manuel, que são muitas. - -Depois, com os seus bons oculos de aço, que primeiro limpou ao forro da -batina, tomou a carta aberta, pol-a á distancia do comprimento do braço, -e, com signal approvativo de cabeça, disse com voz cantada: - -—Apre! Bonita letra! Meu sobrinho sempre disse que para cousas de -escripta era um dos que tinha mais geito. Do que elle não gostava, -era que o teu filho andasse por esses montes aos ninhos. Lá com isso -damnava-se. Todos os caçadores são assim... Que lhes matem a criação nos -ninhos, não gostam nada!... - -E ria de um modo secco e breve. - -—Saiu-me um rapaz que não mereço ao Altissimo. Leia essa carta, -senhor!—considerou o pae do _brazileiro_, com uma pronuncia sensibilisada -e lacrimosa. - -O clerigo continuou: - -—Está bom, o rapaz sabe da cortezia. «Meu presadissimo pae.» Meu sobrinho -puxou-te bem por elle. - -—Estou-lhe obrigadissimo. Isso ainda que ponha a cara onde elle põe os -pés... - -—Não lhe pagas não, pódes dizer—concluiu convencido. - -E continuou a lêr n’um tom pausado, cheio de cadencia, pronunciando com -inflexão approvativa de elogio... - -—«Desejo ir, muito brevemente a _essa_, para dar alegria a meu pae.» Não -tem duvida, é bom filho. Ha quantos annos foi? - -—Faz seis lá passante o S. João que vem. - -E o ecclesiastico, como recordando-se, confirmou: - -—É verdade. Agora me lembro. Quando me veiu dizer adeus, dei-lhe peras -das que tenho d’esse tempo. - -O sachristão acrescentou melancolicamente. - -—Parece que foi honte, senhor!... - -—E queres vêr o que elle diz aqui abaixo?! «Diga á tia Engracia do -Repolho que mande o Tone para _esta_.» - -—Logo lá hei de ir—affirmou com simplicidade o sachristão. - -O Beiral interrompeu com energia: - -—É malhar em ferro frio! Um grande brejeiro, é que elle é. Não sae ao -teu, que por andar com elle tambem cheguei a pensar que ficasse por ahi -um... - -E remoeu longamente a lingua na bôca, para concluir com os beiços -alongados e as proeminencias malares vermelhas: - -—... um _meliante_. - -O sachristão atalhou com serenidade orgulhosa: - -—Elle tinha um pae! Vossa Senhoria bem sabe, que não punha nada em lhe -atirar os braços a terra, em lhe pôr os ossos n’um feixe!... - -O Beiral respondeu: - -—Deste-lhe a criação. Elle não era dos mais quietos (e sorriu -bondosamente), valha a verdade que não era dos mais quietos; mas soubeste -ser pae. Nunca foi como esse brejeiro, esse grande tratante, que me -escangalhou uma videira o anno passado (enthusiasmava-se gradualmente), e -me roubou as uvas que eu tinha ali para uma necessidade, para uma doença! -Sabes? aquella videira lá do outro lado, ao pé da porta de baixo, e que -seccou depois!... - -O sachristão respondeu intrigado, coçando a cabeça: - -—Valha-nos a Santa Igreja!... Aquillo vae mal, senhor. O rapaz tem feito -muitas; mas ha de encontrar o seu _home_. - -—O que?—diz o clerigo afogueado. O seu homem hei de ser eu! Uma farda ás -costas! Uma farda, entendes tu?! Não descanço emquanto lh’o não fizer. -Tenho muito amigo, _nesse_ Vianna! Olha que lh’a arranjo. - -E ficou com um aspecto apopletico:—concentrava-se-lhe gradualmente o -sangue nas faces, os olhos tomavam uma vivacidade tigrina e a voz era -tremula e humida. Contra o _adoptivo_ de Engracia ainda disse muitas -cousas:—elle é que lhe tinha aleijado um carneiro, attribuia-lhe o -desmoronamento de uma parede que apparecera no chão em certa manhã de -inverno, e affirmava que não fôra a ventania mas sim o Antonio que lhe -destelhara um canastro, com o fim malefico de se lhe estragarem as -espigas com toda a chuva de uma tempestuosa e terrivel noite de inverno. -E concluiu assim: - -—Pódes dar graças a Deus que o teu saiu-te um rapaz chibante. Mas este de -cá!... Este grandissimo maroto que me aleijou o carneiro! Bem se vê que -falta um homem n’aquella casa! O Bernardo é um... um _cebola_. Já disse -á Engracia que mandasse aquelle (não sei como lhe chame, Deus me não -castigue!) para a terra!... Mas qual manda ou qual carapuça! É uma babosa -pelo garotaço, e quer deixar-lhe tudo. Emprega-o bem! - -O sachristão, que era homem de rosto moderado, cheio de conveniencias, -depois de ter escutado respeitosamente as invectivas do sacerdote, -cortou-lhe assim a conversa: - -—Pois sim senhor... Então vou lá ao senhor mestre mostrar-lhe a carta do -_meu_. _Tamem_ lhe manda muitas recommendações e eu quero que elle veja. - -—Talvez o não encontres—disse o Beiral mudando de tom.—Aquillo, a estas -horas, anda lá para o monte á caça. Mas chega lá sempre, a ver se o vês, -que os professores gostam muito d’essas novidades e d’essas attenções. - -E quando o pae do _brazileiro_ já ía no caminho, o padre tornou a -chamal-o de cima, debruçando-se na varanda, para lhe dizer: - -—Mostra tambem a carta á Engracia do Repolho, não te esqueças, para vêr -se manda esse _licante_ por uma barra fóra!... - -—Não tem duvida, senhor. Não me esqueço, logo lá vou. - -E o ecclesiastico recolhendo-se, concluiu para si, com um bondoso gesto -de impaciencia: - -—Mas que diabo ha de ir fazer ao Brazil, aquelle desgraçado, se nem -sequer aprendeu a escrever o seu nome!... - -Por isso o Beiral ficou triste, remoendo intimamente as suas idéas -singelas e sem caracter. Sentindo o cacarejar espantadiço de uma -gallinha, que fugia precipitadamente diante do focinho impetuoso de um -cevado, tomou da cesta a mão direita cheia de milho e espalhou-o na -largura do quinteiro, dizendo: _ó diabo!_ Depois, com o seu olhar fixo, -de pouca penetração, seguiu os movimentos dos porcos e das aves, pensando -nas cousas insignificantes da sua vida baralhada! - -O sachristão, no caminho para casa do senhor Antoninho, levava na mão -esquerda, a carta cuidadosamente dobrada. Todos a viam—era de fino papel -azul, que rangia entre os dedos, um papel bem conhecido. As pessoas -que o encontravam e que haviam recebido noticias dos filhos que tinham -no Brazil, contavam-lhas miudamente. Aquelles a quem faltava carta, -havia muitos annos, mostravam-se tristes, desconsolados, impertinentes -na conversa, quasi invejosos, querendo duvidar das felicidades que se -deprehendiam d’aquelle venturoso papel! - -O Manuel, como não encontrou na aula o senhor professor, desceu a um -caminho para ir a casa da Engracia, com a intensão reservada de lhe ler -a carta, acrescentando-lhe os commentarios favoraveis do padre Beiral. -Porém a mulher do Repolho não estava para o aturar e disse-lhe, com modo -desabrido, que não queria receber conselhos e que «quem lhe encommendára -o sermão que lh’o pagasse». Não admirava este azedume a quem soubesse que -lhe tinha morrido, n’esse dia, um touro que valia oito moedas! A perda -irritara-a, o modo furtuito como acontecera _essa desgraça_ indispozera-a -para ouvir o sachristão, que, offendido pelas respostas aggressivas de -Engracia, respondeu, tambem melindrado: - -—Ó santinha, eu tenho lá nada com as suas cousas, com os seus touros!... - -—Pois tambem eu não me importo com as suas riquezas! O seu filho, se tem -muito, que se levante de noite da cama, para o comer! - -E, com um estrepito insolente, bateu-lhe com a porta na cara. - -O pae do _brazileiro_, que era um homem moderado e bem fallante, -offendeu-se com isto, perdeu a cabeça e, ao retirar-se, ainda disse, -voltado para a porta que se fechára, com uma voz alta e insolente: - -—Ah! minha tronga! O que tu querias era um bom fueiro n’esse costado! -Fosses minha mulher, que te não havia de faltar! - -Engracia, que percebeu este alanzoado, ainda veio fóra para lhe -responder, e disse: - -—Olhe, dê lá _retolicas_ na sua casa! Alguem cá o chamou?! Ora o diabo do -camello! - -O Manuel, na volta para casa do Beiral, repetiu o que se passára com a -mulher do Repolho, acrescentando: - -—Se Vossa Senhoria lhe arranja uma farda para o meliante, ganha o céu! -Era uma bem pregada! Elle anda por ahi a fazel-as gordas; mas ha de -encontrar o _seu homem_! - -O sacerdote, novamente indignado, certificou-lhe: - -—Oh! se encontra! E hei de ser eu, já te disse! Isso, a farda, tem-n’a -elle tão certa como dois e dois serem quatro... - -E depois de um silencio reflectivo, o Beiral concluiu: - -—Que a Engracia não é má mulher; mas anda com a cabeça perdida com o -brejeiro! Lá essas arenegações d’ella, não faças tu caso. Olha que -perder, não faz bom cabello. A gente, quando lhe succede uma desgraça, -não sabe o que diz. - -A proposito, o Beiral narrou pelo miudo o _caso do touro_; porque o -sabia. Tinha-lh’o contado a Feliciana, que presenceara tudo, que vira -caír o demo do bicho da ribanceira abaixo, espapando-se no caminho. -Andava o animal, com outro gado, no campo a pastar. Parecia que trazia -o mafarrico no corpo; porque todo o santo dia o viram n’uma constante -brincadeira, a escornar os outros, a dar corridas em vez de comer -socegado! Parecia mesmo doido, a fugir pelos campos com a cabeça -estendida para diante, o rabo levantado em fórma de pau de bandeira, -e a extremidade felpuda ondeando, como um pennacho! Depois, quando -chegava a uma beira alta, estacava de repente a olhar para o longe -muito tempo e, raspando no chão com um pé, continuava a comer muito de -vagar, como se nada tivesse sido com elle! Passado algum tempo vinham-lhe -novos caprichos, nova maluquice e corria para os bois a escornal-os, a -provocal-os á lucta, á corrida, ao salto... O pastor bem lhe fallava, -bem lhe berrava, mas era o mesmo que nada! Por fim determinou não fazer -caso d’elle e deixal-o lá, chegando mesmo em certos momentos a tomar -interesse, a sorrir-se inconscientemente, quando o touro atravessava -vistosamente, dando pulos, por entre as arvores. O pastor era um rapasito -de doze annos, com a cara manchada de nodoas de terra, o olho vivaz, -vestido com uma camisa de tomentos muito suja, e umas calças remendadas. -Estava a olhar risonho e irreflectidamente para o animal, quando elle -passou de uma vez com mais furia, com as pernas muito abertas, o dorso -arqueado, a cauda horisontal, a cabeça baixa, dando saltos cheios de -capricho... Ia na direcção da estrada, para o lado onde havia um muro -alto! Corria n’uma vertigem, com um impeto louco e, o rapazito, esperava -vel-o parar rapidamente, antes de chegar á extremidade! Porém não -succedeu assim! D’esta feita venceu mais que a largura do campo, saltou o -muro e caiu em baixo, no fundo caminho pedregoso, dando um forte berro, -ao mesmo tempo estridente e lamentoso, que foi echoar nas cavidades dos -montes proximos. Ficou instantaneamente morto e a Engracia teve de o -vender aos marchantes da villa proxima que, no dia seguinte, poderam dar -carne a pataco o arratel! - -Ora, foi por causa d’esta perda de moedas, que Engracia estava azuada e -respondeu mal ao sachristão, que ía lá para lhe dar conselhos, sem lh’os -pedirem!... - -O Beiral terminou conceituosamente: - -—Isto de perder não faz bom cabello... Coitada! Tu bem sabes que não faz -bom cabello... Coitada! - - -III - -Quando o Antonio chegou aos vinte annos feitos, já tinha esquecido -completamente a aldeia risonha onde nascera e o rosto bom de sua irmã -Quina que, por seu lado, se o encontrasse, tambem não seria capaz de -reconhecer o seu amigo de infancia, n’este homem barbado, com modos -bruscos de feirante, com gestos insolentes e desordeiros de troquilha!... -E tanto se habituou a ter vida vagabunda, que nos ultimos tempos, não -dormia em casa de seus paes adoptivos, metade dos dias de cada semana!... -Andava pelas tabernas, de feira em feira, n’uma vida accidentada e -bulhenta, sempre em companhia de outros _feirantes_, e da Marianna -Ripa, sua amasia!... Esta Marianna Ripa era uma mocetona alta, bem -proporcionada, com certa vivacidade vaidosa e impudica!—uma creatura -demoniaca, cheia de tentações malditas, infelismente appetecidas pelos -fracos da carne, pelos numerosos peccadores de todos os tempos!... Nos -seios altos e avolumados, nos quadris largos, a que ella dava geitos -lubricos, quando andava, para fazer assim ondular as saias de côres -vivas e excitantes... residiam as tentações infinitas das lendarias -Magdalenas, antes do santo dia do venturoso arrependimento!... As -feições rasgadas e energicas accentuavam-lhe o caracter dominador, que -melhor se lhe reconhecia no olhar cheio de impudencia e lubricidade! -A sua vida passava-se pelas feiras, entre troquilhas, com os quaes se -entendia nos ajustes de gados, bebendo como elles por copos de meia -canada, interessando-se nas suas vendas e trocas! O predominio que -Marianna exercia sobre o Fogueira, depois que era sua amasia, todos -os companheiros d’elle, o Rio-Tinto, o Fanfarra... o sabiam. Era ella -que muitas vezes o impedia de ir a casa, dando-lhe conselhos malditos, -indusindo-o a que abusasse da affeição que Engracia e Bernardo lhe -tinham, para lhes _pilhar tudo em vida_!... - -—Porque—insinuava-lhe a moça—pode-te acontecer, como lá a um rapaz da -minha freguezia... Ateve-se ao que a madrinha lhe havia de deixar por -morte, não se segurou nas cousas a tempo e, vae a bebeda da velha, -roeu-lhe a corda e lá se foi tudo!... Em vez de lhe testar a elle os -campos, como tinha promettido, metteu-se com a coruja, um tratante de um -padreca, que lhe principiou a contar tantas lonas, que a coira vae deixar -tudo lá a uma confraria e o asno ficou a chuchar no dedo! - -Estas idéas allucinavam o cerebro do adoptivo da Engracia, que depois -de escutar Marianna, ficava mais estonteado do que tivesse bebido, de -uma assenada, uma canada do rascante!... No entanto a verdade é que esta -vida mundana de feirante, na companhia da Marianna e dos seus amigos, -quadrava-lhe, era sympathica áquella organisação impetuosa!... Os seus -modos estouvados, os seus arremeços selvagens e doidos pelos quaes era -notado entre troquilhas, é que já lhe tinham garantido o alcunho de -«_Fogueira_». Alem d’isso, como era franco, generoso—um mãos rotas—os que -o cercavam, a Ripa principalmente, entendia que se o seu amante viesse a -obter qualquer cousa da herança da mãe, era certo que alguma parte lhe -caberia!... Por isso o aconselhava d’aquelle modo, e todos o lisongeavam -com blandicias intencionaes. - -Foi por este tempo, e n’uma das occasiões em que o Antonio andava por -fóra, que succedeu _a desgraça_ de que morreu o Bernardo Repolho: - -Era um dia chuvoso; via-se a cumiada dos montes coberta por densas nevoas -designativas de chuva prolongada! Soprava um vento forte, que produzia -na amplitude dos campos uma ondulação uniforme nos arvoredos. Como se -estava verdadeiramente no coração do inverno, no mez de fevereiro, os -campos e os montes sem flores e sem folhas, tinham um aspecto duro -de severidade! As chuvas, em grossas bategas, acompanhadas de fortes -saraivadas, batiam rijamente nos telhados com uma crepitação ruidosa e -aspera, que se continuava, durante horas! N’um d’estes dias de invernia -teimosa e tristonha é que o Bernardo Repolho teve necessidade de ir -buscar uma carrada de barro, do qual muito precisava para arranjar o seu -forno!... Por isso, na primeira aberta illusoria, mandou o Chico tirar os -bois da côrte, cangou-os, pol-os ao carro e partiram... A barreira era na -encosta de um monte alto e muito ingreme. Bernardo e o Chico, quando íam -pelo caminho, já descortinavam ao longe, essa excavação de um alaranjado -irritante, que sobresaía no terreno circumjacente, melhor do que a mancha -clara de uma eira. Como o barranco estava logo por cima da estrada de -carro e, para chegar lá, bastava subir um estreito carreiro em declive, -Bernardo disse ao rapasito que ficasse á sôga dos bois, que eram novos e -muito espantadiços, emquanto elle ía cavar o barro e acarretal-o. Porém, -quando chegou acima e viu no fundo da barreira uma tamanha accumulação de -agua da chuva que, para a atravessar, tinha de se arregaçar, sentiu uma -impressão desfavoravel, e inconsideradamente disse: - -—Diabo! Que mar!... - -Na realidade a chuva, durante a noite, tinha sido mais copiosa do que -elle pensára! Escorrera em grandes enxurradas pelo monte abaixo e -infiltrara-se, abrindo fundas guellas no terreno, vindo accumular-se -no fundo, formando uma especie de larga poça. O Bernardo reconheceu -perfeitamente, que para tirar o barro, só o podia fazer do logar onde as -fendas estavam ameaçadoras e escancaradas, como guellas de lobo uivando! -Porém, com a ajuda de Deus, o Repolho aventurou-se e, puxando as calças -até ao joelho, metteu-se á agua com o fim de passar... O perigo a que -se foi submetter era evidente, a barreira suprajacente parecia estar -quasi a esboroar-se... porém o marido da Engracia foi para diante, sem -preoccupação nem receio, principiando a dar sacholadas bem puchadas, para -aproveitar aquella _aberta_! N’esse momento é que passava pelo lado de -cima um visinho que lhe disse: - -—Oh! diabo. Com este tempo ao barro, é por força sangria desatada! - -Bernardo, voltando-se para elle, respondeu com a sua cara de bom homem: - -—Ah! Es tu Joaquim? É que tenho lá o forno a caír, precisa a patroa de -coser o pão e, vae por isso, vim buscar esta carrada... - -O outro observou-lhe com penetração: - -—Mas tu ahi não estás bem, home! Esta terra pode-te caír em cima. - -Bernardo considerou despreoccupado: - -—Ora, logo havia de caír, n’um migalhito que eu aqui me demoro! Não cae. - -—Não cae!—insistiu Joaquim. Não era o filho de minha mãe, que se ía -metter ahi. Se se esbarronda, ficas ahi espapado, como um sapo. P’ros -filhos que tens!... Olha, tu lembras-te d’aquelles dois homes, que -ficaram enterrados na barreira lá em baixo?! Foi uma cousa assim, por -causa da chuva. - -Bernardo recordou o facto dizendo: - -—Ah! bem sei. Isso foi n’um domingo. Se te parece, trabalhar ao -domingo!... Foi um castigo. - -—Home, não é domingo, nem meio domingo. A barreira caíu-lhes em cima e -matou-os. Tu ahi não estás bem. Eu cá mandava a cosedura do pão p’rás -profundas do inferno e vinha outro dia buscar o barro! Vê lá no que te -mettes. O diabo arma-as. - -—Á sorte de Deus—rematou Bernardo com resignação. - -E continuou a cavar, com pressa, aproveitando o bocanho, que não durou -muito. Uma chuva pesada e forte, principiou a caír sobre os arvoredos, -produzindo o fremito de muitos enxames de zangões! A atmosphera, densa -e opaca, de uma côr uniforme entre o cinzento e o azul, a côr da agua -_pulverisada_, obscurecia os objectos distantes. O vento impetuoso -impellia a chuva, produzindo no ar ondulações extensas e regulares. Os -ramos delgados das cerdeiras, dobravam-se passivamente. O rapasito, que -ficara no caminho, guardando os bois, aconchegava-se, tiritando, ao -velho corucho de palha, que o cobria. Os seus pés vermelhos, lavados -pela chuva, estavam sobre a lama. As mãos escondia-as nos sovacos para -as aquecer. Com o fim de se abrigar do vento que passava zumbindo, -mettia-se por detrás dos bois, conservando a aguilhada encostada a si. -Os seus cabellos castanhos, de um comprimento desleixado e desigual, -empastavam-se-lhe na testa. O olhar era mortificado e de paciencia; -porque a tia Engracia, nos seus pessimos momentos de genio irrascivel, -batia-lhe; e o Antonio dava-lhe pontapés immerecidos. Por isto, e porque -era engeitado, é que o Bernardo Repolho, um homem compadecido, mais se -lhe affeiçoara... Porém esta amisade, nunca obstou a que sua mulher o -esmurrasse desalmadamente e a que, seu filho adoptivo, lhe désse pontapés -que o atiravam de focinhos!... - -Como a chuva engrossava de cada vez mais, o Repolho chamou o Chico, para -se recolher na cova onde elle se abrigára da chuva, recommendando-lhe, -ao mesmo tempo, que calçasse o carro para os bois não fugirem. Então -o rapaz, pegou n’uma grande pedra, supezando-a contra o peito e foi-a -atravessar diante das rodas do carro. Depois, unindo-se muito ao seu -corucho, para se agasalhar, subiu a ladeira, saltou o portello e, -inclinando instinctivamente o tronco, correu pelo monte acima, entrando -no barranco por um carreiro. Elle e seu amo ficaram ambos abrigados sob -aquella mesma abobada de terra que, na opinião do Joaquim Moita, quanda -fallára a Bernardo, podia esbarrondar-se e matal-os n’um prompto—n’um -abrir e fechar de olhos. Mas elles achavam-se ali bem, n’um silencio -meditativo, diante das montanhas, cuja corpulencia se confundia -no esfumado da chuva copiosa. Como o vento soprava do sul, não os -incommodava. Bernardo estava em pé, com a sachola encostada ao hombro -e o Chico agachado junto d’elle. Conservaram-se algum tempo calados, -olhando distraidamente para o ar, que tinha impulsos ondulatarios como -o das vagas, para os campos subjacentes de um verde esmorecido, para -as arvores proximas que se vergavam á força da ventania. O Repolho -entreteve-se alguns minutos a considerar como as gotas da chuva tornavam -aspera e irregular a superficie da agua barrenta, que se accumulára no -fundo da barreira!... O rapasito, sentado sobre os calcanhares, olhava -para os montes distantes, contando mentalmente o numero de cabeços, nunca -acertando com quantos eram!... Porém a chuva carregava de cada vez, com -mais impeto, e o velho disse com tristeza: - -—Santo nome de Maria, que tempo este! - -O Chico observou: - -—Parece que hoje não podemos carregar, tio Bernardo... - -—Estou-t’e a ver que sim, home! E isso é que é uma da breca! - -—Então vamos já para o lume—aconselhou o rapaz. Estou com um frio, que -nem sinto. - -Bernardo respondeu com voz reprehensiva, mas benevolamente: - -—És maluco! E tua ama? Se apparecemos lá sem o barro para compor o forno, -faz ahi uma pregação de seiscentas pipas! Isso, ainda que se esteja até á -noite, havemos de o levar! - -Calaram-se, conservando-se ambos n’uma taciturnidade ingenua e triste! -Um travesso pardal, dando pios seccos e asperos, saltava nos ramos de um -carvalho proximo, alegremente despreocupado. A chuva caía de cada vez em -maior abundancia! O som gemebundo do vento estendia-se amplamente pelas -quebradas, com o seu ulular maguado, de uma longa plangencia funeraria! - -As enxurradas cresciam, descendo com impeto pelos montes. Este sussurro -aspero e saliente lançava uma discordancia rebelde no assobiar espaçado -do vento na amplidão! O Bernardo Repolho e o Chico escutavam, com -semblantes dependentes d’este ruido das aguas que se aproximavam! O -barulho vinha crescendo para elles, precipitando-se de barranco em -barranco! Ambos calculavam mentalmente, prevenindo-o, sem o menor susto, -sem a menor idéa de perigo, que os enxurros d’aquelle monte, tendo de se -vir reunir nos pontos mais baixos, juntariam as suas aguas áquellas que -ali estavam no fundo da barreira, diante dos seus olhos indifferentes... -Na realidade, pouco depois as largas fendas abertas na terra ao lado -d’elles, principiaram a vomitar as aguas que vinham do alto monte!... -O seu volume crescia de uma maneira incongruente e precipitada!... A -principio tinha-se ouvido sómente um sussurrar brando, um _ou-ou_ de mar -distante... Em seguida esse barulho foi-se engrossando, foi enrouquecendo -de um modo cada vez mais antipathico e aproximava-se rapidamente, como -a voz stertorosa de um trovão, que viesse do lado das montanhas... Por -fim, quasi inesperadamente, sentiu-se um estampido rapido, juntou-se-lhe -um estrondo abafado e terrificador, que pareceu surgir das profundas -entranhas da terra! Durou apenas alguns segundos!... Porém, tanto -Bernardo como o seu pequeno creado, não tiveram tempo de comprehender o -que seria!... A enorme barreira, sob a qual se abrigavam da chuva e do -vento tempestuoso, caíu sobre elles, com a brutalidade inconsciente de um -grande penedo que se tivesse desprendido de um alto pincaro e sepultou-os -de um modo fulminante!... - -Assim morreram estas duas creaturas, indifferentemente, por esta fórma -singela e e pallida! - -O visinho, que predissera ao Bernardo Repolho a desgraça que lhe podia -acontecer, estava a certa distancia, abrigado da chuva sob um velho -carvalho ramudo, e presenciou a catastrophe! Foi elle que a descreveu -nas suas mais insignificantes particularidades, fallando e gesticulando -animadamente, como quem se tinha encontrado, mais ou menos envolvido -n’este acontecimento obscuro da morte de um homem e de um pobre -engeitado, verificado em circumstancias de um tão vigoroso effeito -theatral! E por que os seus conterraneos, que o escutavam com os olhos -abertos e muito pasmados, tiveram a simploria idéa de attribuirem o -successo a artimanhas infernaes, dizendo: «o demonio arma-as», o Joaquim -exclamou com certa intimativa volteriana e vivamente resentido para com o -morto Bernardo Repolho, que despresára os sensatos conselhos que elle lhe -dera: - -—Qual demonio nem meio demonio! Foi a cabeça d’elle que não regulou, é o -que foi! Eu bem lh’o disse: «Home, tu ahi não estás bem». Mas elle que -era muito teimoso, respondeu-me assim com a sua cara de lorpa e de _bom -serás_: «Ora, não ha de ter duvida, se Deus quizer...» Não tinha duvida, -não tinha duvida, mas foi morrendo, espapado! Ficou mesmo como um pato, -sem dar um pio! Assim é que elles se ensinam!... O _não tem duvida_ -foi o que se viu!—rematou com modo triumphante, quasi de uma vingança -satisfeita! - -Uma rapariga nova, uma engeitada de cara sardenta, com os cabellos mal -penteados, e que escutara attentamente a narrativa, tomou a deixa de -Joaquim da Moita e interferiu com esta observação: - -—Ai! não tem duvida não tem duvida! Por causa do não tem duvida, é que -pariu minha mãe! - -Toda esta gente, depois que a chuva passou, se dirigiu ao logar -onde o caso succedera. Pelo caminho íam, conversando, em magotes. -Algumas mulheres, relembravam com voz emphatica, como de quem dá um -esclarecimento, que tinham visto n’esse mesmo dia Bernardo, caminhar -para a morte, de pé, em cima do seu carro, com a aguilhada encostada ao -hombro, na despreoccupação serena de um predistinado! O rapasito que -tambem morrera debaixo da terra, o Chico, ía á soga, todo encolhido, -coberto com o seu corucho, berrando aos touros, que puchavam mal, -encostando-se com teimosia um ao outro... Certas pessoas referiam -insignificancias da vida do Repolho dando-lhe certo valor, fazendo-as -sobresaír, e recordavam as ultimas palavras que lhe tinham ouvido, ainda -mesmo n’aquelle dia, horas antes, quando passára em frente da porta da -Anna Benta!... Bernardo tinha dito, com aquelle seu bom modo triste «que -estava um inverno de se pedir misericordia a Deus Nosso Senhor!...» e a -Rosa Viuva, queria fazer acreditar a todas as pessoas presentes, que taes -palavras significavam que o homem de Engracia tivera uma voz de dentro do -coração, que lhe predissera a morte!... E como alguns homens incredulos -lhe retorquiram: «Isso póde lá ser!» ella recordou tambem outra phrase -saliente, que tinha ouvido ao mesmo Bernardo, no domingo precedente, ao -saír da missa: «Isto não está tempo cá para os velhos, mulher!... Com -esta invernia caímos ahi como tordos!...» E assim tinha succedido, não -chegou a durar oito dias!... Por isso, todos vieram a concordar, que o -pobre homem adivinhara o seu fim, o triste fim que havia de ter de baixo -de uma barreira!... - -Ao logar do sinistro, onde já estava muito povo reunido, chegaram as -auctoridades, para se desenterrarem os cadaveres. Vinha o cirurgião, o -José Pandega,—um rapaz de bigode e pêra como os soldados, que, farto de -andar a estudar latim em Braga durante nove annos, arranjou depois um -emprego no telegrapho, onde tambem se não deu bem, tomando por fim a -resolução de ir receitar cosimentos e mesinhas aos seus conterraneos, -pelos mesmos livros de veterenaria por onde, um velho frade, seu tio, -medicamentára, durante muitos annos, as populações doentes d’aquellas -freguezias!... Este ecclesiastico, a quem ninguem negou as faculdades -do maior philosopho das redondezas, tinha, entre muitos, um notavel -aphorismo, que eu aqui divulgo á sciencia absorta e que o sobrinho -acceitava pelo achar frizante e consolador: «Os burros são do mesmo modo -que a gente, para a medicina, por consequencia—rematava voltando-se para -os seus doentes—paparoca e beberoca, sedênhos para a frente, esfregações -de agua forte, algumas cataplasmas e deixa-te andar que, se morreres, é -só uma vez». Com o Pandega vinha o senhor Agostinho Manco, juiz eleito, -um homem magro que fôra da _bicha_. Logo em seguida appareceu o regedor, -conhecido pela alcunha do Antonio Cápatrás, um individuo vermelho, muito -estupido, que só sabia emborrachar-se, como diziam os visinhos. - -Depois d’estes personagens chegarem é que se principiou a desenterrar os -cadaveres! Com esse fim, quatro jornaleiros começaram a dar sacholadas -auxiliados pelo Joaquim da Moita que vira morrer o Bernardo, e que -limitou o trabalho, indicando-lhes o sitio provavel, onde poderiam -estar os defuntos. Todas as pessoas presentes, principalmente as -mulheres e creanças, tomadas de uma curiosidade invejosa, empurravam-se -reciprocamente, procurando com avidez os sitios que julgavam melhores, -para presenciarem tudo que se passasse. Para isso iam collocar-se nos -pontos mais eminentes, e algumas em logares perigosos!... O cirurgião -Pandega, reconhecendo com a sua prespicacia illustrada, que a filha da -Rosa Trinta não estava bem, disse-lhe de longe, com voz de auctoridade: - -—Ó diabo de rapariga, sae d’ahi que te póde acontecer o mesmo! Se se -esbarronda essa terra ficas espapada!... - -E acrescentou, com um modo ligeiro e superior, repuchando a sua comprida -pêra: - -—Isto de gente estupida não se póde aturar de modo algum!... - -A rapariga obedeceu sem retorquir e mudou-se para cima de um muro, d’onde -reconheceu que tambem podia ver tudo... Porém, pelo lado de baixo estava -o meliante do José Teixugo, espreitando-lhe as pernas com olhadellas -peccaminosas!... A Rosa Trinta, percebendo a immoralidade, advirtiu de -longe sua filha: - -—Ó Tonia, não vês esse maroto do Teixugo a olhar-te p’ras pernas! Tira-te -d’ahi, anda. - -A rapariga, verificando a verdade da asseveração de sua mãe, ficou -irritada e disse offendida, arremettendo com uma pedra ao rapaz: - -—Olhem o diabo do cara de foinha! Vae espreitar as da tua irmã! Não tens -vergonha malandro? Ahhh...—rematou voltando-se para elle com a bôca -escancarada. - -O Teixugo, rindo com um riso trocista, respondeu-lhe: - -—Olha que minha irmã talvez as não tenha tão borradas como as tuas! -Vergonha deves ter tu, minha gata pellada, por andares com as pernas tão -sujas. - -No entretanto o regedor, Antonio Cápatrás, e o Agostinho Manco, juiz -eleito, revestidos da sua auctoridade assistiam ao acto solemne, em -mangas de camisa!... O José Pandega recommendava aos que desenterravam os -defuntos, que andassem de vagar, para lhe não darem alguma sacholada. Um -d’elles disse ao cirurgião: - -—Sabe o que a gente precisava, seu Zé? Uma boa infusa de vinho, para este -suor se não recolher p’ra dentro. Você que sabe d’essa cousa de sedênhos -e medicinas, bem o entende, seu Zé. - -Por um acaso feliz chegaram n’esse momento duas canecas do bom rascante -que a Engracia, viuva recente do Repolho, mandava para os trabalhadores -que lhe desenterravam o marido. Todas as pessoas lhe applaudiram a -lembrança inesperada e a mulher que trouxera o vinho, affirmou com modo -persuasivo, que fôra a propria tia Engracia que o fôra tirar do tonel do -canto, que era _do bô_ que tinham. Os homens, quando acabaram de beber, -tiveram um _ahhh_... prolongado e satisfeito, confessando um d’elles: - -—É a melhor pinga que ha pelos arredores. O Bernardo queria-o vender lá -para a villa, e já lhe davam dez moedas. - -O regedor considerou: - -—Foi bem tolo em o não beber. Se o levasse nas tripas, fazia melhor do -que estar o poupal-o para quem cá fica... - -Depois de escorripicharem as duas canecas, os jornaleiros continuaram a -cavar com mais cautela, para não tocarem com as sacholas nos cadaveres, -como os prevenira o cirurgião. A primeira cousa que se descubriu foi o -chapéu do Bernardo, humedecido e barrento. Todos reconheceram que era -esse mesmo chapéu, esbeiçado e já roto, que elle costumava usar. O José -Pandega, affirmou com certa intimativa: - -—Na cabeça d’elle é que vós o não tornaes a ver! - -Todas as pessoas confirmaram esta opinião sensata. Era verdade! Na cabeça -do defunto, que estava debaixo d’aquelle barro, elles nunca mais veriam -aquelle chapéu esbeiçado e roto! - -Pouco depois, com mais algumas enchadadas, appareceram os defuntos. -A ultima camada de barro, foi tirada cuidadosamente com as mãos. Os -dois cadaveres estavam de bruços, ambos inteiriçados, rigidos. Ao de -Bernardo, que era mais pesado, metteram-lhe uma tábua por baixo do tronco -e levantaram-n’o ao ar, ficando o corpo aprumado, severo, com um aspecto -de phantasma! O cadaver do rapasito do gado, como no momento em que a -barreira se esboroou estava agachado sobre os calcanhares, encontraram-no -dobrado sobre si mesmo, com a cabeça debaixo do corpo e a cara -encostada ao peito, quebrado pela espinha. Ambos estavam inteiramente -desfigurados, por causa da camada de terra adherente, empastando-lhe -os cabellos, tapando-lhe os olhos e a bôca. Todas as pessoas presentes -vieram agrupar-se em volta das duas tábuas, sobre as quaes, os mortos, -permaneciam deitados de costas. O Chico, para o conservarem bem -estendido, tiveram de o atar pelo tronco e pelos pés ao seu esquife -provisorio com uma corda; porque, em virtude da rigidez cadaverica, -tendia a dobrar-se sobre o ventre. Ali, diante dos corpos exanimes, o -juiz, o regedor e o cirurgião, fallaram em dar parte d’este acontecimento -tragico, n’um officio, ao senhor administrador, affirmando-lhe que a -culpa d’elles morrerem, tinha sido d’elles mesmos, que se tinham ido -metter na bôca da morte. Depois concluiram, que o que era necessario -fazer-se-lhe já, era amortalhal-os, para se proceder aos _officios_ e -enterral-os, quanto antes, para não principiarem a cheirar!... Depois -d’isto, o Pandega, lembrou-se de tirar o barro dos rostos sujos, e para -isso foi buscar uma pouca de palha de uma moreia proxima, e fel-o. - -Porém, como depois d’esta grosseira limpeza reconheceu que os -cadaveres tinham nodoas arrouxadas nas faces e na testa, affirmou -peremptoriamente, com modo decisivo: - -—Devem-se enterrar quanto antes... Ámanhã principiam elles a feder, que -nem mil demonios! Não se ha de poder estar com o nariz ao pé!... - -As mulheres presentes fizeram uma momice de enjoadas e, cuspinhando -para o lado, disseram «cachicha». Os homens, que tinham desenterrado os -mortos, preparavam-se para pegar ás tábuas, onde os tinham estendido, com -o fim de os transportarem a casa, quando a Caetana, uma velha beata, lhes -observou n’uma voz de um ligeiro timbre choroso: - -—Esperae rapazes, esperae... Não os leveis assim, que ainda estão muito -borrados. Deixae, que eu lhes lavo a cara... - -E para o conseguir foi buscar _manadas de agua_, que verteu sobre os -rostos dos cadaveres. Depois limpando-os caridosamente com o seu velho -avental de riscas concluiu: - -—Agora podeis ir. _Bão_ mais bonitos. - -Por fim, os quatro jornaleiros, deitando um olhar saudoso ás canecas -vasias, levaram os corpos para casa da Engracia. Ahi é que foram -decentemente lavados e amortalhados para os depositarem na varanda, onde -veio muita gente da freguezia deitar-lhes agua benta sobre as mortalhas e -recommendal-os para a eternidade, com as suas resas distraídas!... - -Na varanda, o esquife de Bernardo ficou ao fundo, e o do Chico logo ao -pé da porta... O sol entrava francamente, incidindo sobre os rostos dos -defuntos, tornando-os da pallidez indecisa da cera, com o tom roxo -das ecchymoses enfraquecido. Ambos elles tinham uma expressão rigida -e concentrada, propria das mortes afflictivas, o que se lhes conhecia -nas rugas da testa, no apanhado dos beiços, nas palpebras fechadas com -energia! As mãos grossas e plebeias, cruzadas sobre o peito, amparando um -crucifixo, por effeito da humidade do terreno debaixo do qual estiveram -horas, haviam adquirido uma molesa aristocratica—uma coloração branca de -mãos estimadas. Bernardo, com a sua barba feita e com o cabello cortado -rente, tinha, para as mulheres da sua freguezia que lhe cercavam o -esquife, uma apparencia de mordomo de festa. Por isso recordavam a ultima -vez em que elle fizera a da Senhora do Carmo, e, tinham bem presente -diante dos olhos, a sua figura magra e insignificante, no primeiro logar -da bancada, com as mãos erguidas em face do padre Beiral, quando este o -incensou as tres vezes do rito, fazendo-lhe uma cortezia ao retirar-se, -o que todos julgavam de uma polidez e de uma distincção invejaveis. A -mortalha do marido da Engracia era mais rica do que a do Chico, a qual, -sendo elle engeitado, lhe tinham esmollado perante a confraria das almas! -Porém notavam que não differiam muito; porque ambas eram de forte panno -violeta muito engommado, com cercaduras relusentes de galões metallicos, -que scintillavam sob a viva luz do sol. As pessoas que contemplavam -estes cadaveres serenamente deitados, ainda recordaram muitas vezes, -relatando-o com minuciosidade, o triste modo por que tinham morrido, e -a beata Caetana, como julgamento, concluiu d’este modo a narrativa que -acabava de ouvir pela sexta vez ao Joaquim da Moita: - -—Foram elles bem asnos em se irem metter n’aquelle perigo! Este Bernardo -sempre foi um pascacio. Para deixar _a um_ que nem é filho d’elle!... - -E trouxeram a pello a vida desregrada do Antonio, que andava sempre de -feira em feira, sem parança em casa, vivendo no meio de jogadores e de -troquilhas borrachos! N’esse mesmo dia tinha apparecido na porta da -igreja a lista dos rapazes para soldados. O nome d’elle lá estava, entre -o de outros. Havia quem affirmasse, que já havia ordem na villa para o -prenderem, como _reflatario_. Certas mulheres que se queriam inculcar -como ao corrente do que se passava, affirmavam que fôra o senhor padre -Beiral, quem lhe arranjára _aquella farda_. E a este proposito recordaram -as queixas que o ecclesiastico devia ter do filho da Engracia, que lhe -roubara de uma vez todas as uvas douradas que elle tinha na sua latada, e -as melhores peras do natal, furtadas, mesmo nas barbas do sacerdote, da -pereira do pé da casa!... Por isso, e porque estavam indignados contra -o rapaz, como tornando-o em parte responsavel d’esta morte do Bernardo, -applaudiam a resolução, havia tempos manifestada, pelo Beiral de _pôr uma -farda ás costas ao meliante_!... - - -IV - -N’essa mesma tarde foram as confrarias buscar os defuntos. Era uma -consideração pelo nome de Bernardo que era _irmão remido_! Adiante de -todas vinha a do _Santissimo Sacramento_, de opas vermelhas e a cruz de -prata alçada, relusindo ao sol. Em seguida desfilava a de _Nossa Senhora -do Carmo_, de opas brancas com murças azues, da côr do céu desbotado de -agosto. Na bandeira que a destinguia estava pintada a Virgem, com a sua -ridente face menineira, tendo pendente de uma das mãos um rosario, e da -outra uns bentinhos! Por fim seguia-se a confraria das _Almas_, com a sua -bandeira dolorosa na frente! Era ali representado o quadro terrificante -do purgatorio:—um rei de corôa poderosa e de longas barbas patriarchaes, -apoiava a sua mão sobre o hombro de um bispo mitrado, coberto de uma -rica capa de ouro, o qual estava mais no fundo das chammas, soffrendo, -talvez sem bastante resignação, que o monarcha chegasse primeiro á -bemaventurança! Ao lado d’este augusto personagem, uma peccadora, com -as longas madeixas de Magdalena, dando a mão a um homem lubricamente -calvo e de bigode e pera, trepavam por entre linguas de fogo, de uma -iracundia terrivel, em ôca e vermelhão! Todos estes condemnados, e ainda -outros _sem distincção_, erguiam olhos supplicantes e estendiam as mãos -abertas a um anjo, que estava no alto, pesando serenamente as culpas e os -soffrimentos de cada um, para lhes outorgar a remissão promettida!... - -Da confraria da Senhora do Carmo, destacaram-se quatro irmãos para -tomarem conta do cadaver de Bernardo Repolho, e outros quatro da -confraria das Almas que, por caridade, se encarregaram de conduzir o do -engeitado... E, quando tinham tomado sobre os seus hombros valentes os -dois esquifes, partiram pelo caminho adiante, para a igreja, condusindo -os defuntos. Atraz, na casa da viuva, ficou o chôro alarmante de -Engracia, e das visinhas que a acompanhavam, misturando-se, na larga -amplidão ao triste dobre dos sinos que echoavam de quebrada em quebrada, -com a sua nota plangente e de uma harmonia rebelde! - -No instante em que o funebre acompanhamento subia pela encosta da igreja, -o Antonio Fogueira entrava na freguezia! Havia mais de oito dias que -andava por fóra, na sua vida vagabunda de torquilha... D’esta vez trazia -uma egua nova, muito fugideira, que lhe vendera o Rio Tinto. - -O toque funerario dos sinos e o acompanhamento que elle viu logo de -longe, surprehendeu-o, fazendo-o parar, e teve um baque no coração! O -primeiro esclarecimento ácerca do occorrido, foi-lhe dado por uma mulher -velha que vinha pelo caminho para o lado d’elle, vergada sob o peso de -um grande molho de herva e que, antes de ser interrogada, lhe disse -encostando-se com o feixe a um muro para descançar: - -—Aquelle agora, meu rico, do que precisa, é de muita fartura de missa, -por aquella alma!—observou-lhe depois de um «ah!» de estafada a velha -Vicencia. - -—Mas quem foi que morreu?—indagou o Fogueira. - -—Ah! sim, tu não sabes!—completou a velha depois de expellir o seu -cançaço asmatico! Andas sempre lá pelas feiras, não admira. Pois toca-te -pela vestia... Foi teu pae Bernardo, de uma grande desgraça! - -O adoptivo do Repolho impallideceu rapidamente, deixando cair as redeas -no pescoço da egua! Vicencia concluiu: - -—... Uma grande desgraça, sim senhor, é como te digo. Caiu-lhe honte -em cima da cabeça, a elle e ao vosso rapaz, o Chico, o monte da Cham, -quando lá foram ao barro! Se tu não andasses sempre por essas feiras, em -jogatina, talvez que o pobre home não fosse lá, com esse tempo! - -E depois, voltando-se salientemente para o Fogueira, exclamou de um modo -reprehensivo: - -—Ora tu não mudarás de rumo! Vê se te confessas, que andas n’uma vida de -home perdido. Tem vergonha n’essa cara! Faz uma confissão _jaral_, que -vem ahi os missionarios, grande maroto! - -O Fogueira, que era naturalmente irritavel, sentiu subir por elle acima -uma forte ira contra a velha Vicencia. Porém, refreando-se, respondeu-lhe -com uma indignação latente: - -—Você que lhe importa o que eu faço, seu diabo de coruja! Vou-lhe lá -pedir alguma cousa?! Se não fosse, não sei porque, se não fosse por causa -d’aquelle que acolá vae (alludia ao enterro que subia a encosta), eu lh’o -diria, seu grande diabo!... - -Uma colera viva apoderou-se rapidamente da velha, que deixando cair o -feixe da herva no chão, principiou a gesticular, sem encontrar no momento -as verdadeiras palavras indignadas, com que desejava aggredir o Fogueira! -Como é que um homem, tão culpado como este maroto, que só andava pelas -feiras em jogatina e com más mulheres, se atrevia a ter arrogancias -diante dos que o reprehendiam?! Por isso ella, com uma voz gritada e com -os punhos ameaçadores, o increpou, com uma pedra na mão: - -—Ah! grandissimo ladrão, o que tu precisavas era de uma cadeia. Talvez -me queiras bater, excomungado! Ora vem p’ra cá, que te prego com esta na -testa! Cuidas que eu tenho medo, stafermo?! Um ladrão, que não faz senão -gastar o que aquelle bruto (alludia tambem ao morto que ia no esquife) -andou por ahi a ganhar no trabalho. Foi elle bem tolo em mourejar p’ra -ti! Mas deixa, meu condemnado do inferno, que o senhor regedor e o -senhor padre Beiral te ensinarão! Já está prompta a farda que has de ter -ás costas!... Eu vou dizer já ao tio Antonio Capatrás, que te vá prender. - -Porém esta indignação palavrosa de Vicencia, perdeu-se no ar. O Fogueira -só lhe percebeu que ia ser preso; mas a este tempo já tinha picado a egua -pelo atalho acima, para entrar em casa, pela matta, com o fim de ninguem -o ver. E quando se viu só no caminho, a distancia da velha, cuja voz -ainda lhe chegava aos ouvidos n’uma gritaria de furia, o filho adoptivo -do Bernardo Repolho considerou com a reflexão propria dos momentos -responsaveis: - -—Mas para que diabo foi elle buscar o barro, com um dia como esteve -honte? Para que se foi aquelle maluco metter ao perigo?!—exclamava sem -comprehender, voltado mentalmente para si mesmo! - -E, considerando n’isto alguns segundos, parado, a olhar fixamente para um -muro musgoso, concluiu: - -—É uma de mil diabos! Que grande bucha! - -Dispunha-se a dirigir-se á cancella da matta, quando o susteve a voz -conhecida do João do Rego, que lhe appareceu de cima do muro do caminho: - -—Espera ahi, ó Tone! Ó rapaz, espera! - -E aproximando-se acrescentou: - -—Então teu pae lá ficou arrebentado debaixo do barro e o rapaz tamem! - -—O rapaz tamem...—repetiu o Fogueira absorvido, mas sem commoção. - -—Tamem. Pois tu não sabes nada? - -—Sei, disse-me ali em baixo a Vicencia, aquelle diabo que me metteu cá -umas cousas por dentro, que...! Valha-a mil demonios! - -O do Rego continuou esclarecendo: - -—Isso não faz monta. Ella é tola, tu bem sabes. Mas honte foi ahi na -freguezia o dia de juizo! Juntou-se povo, que povo!—o Capatrás, o Manco, -o çurgião... o poder do mundo! Desenterraram-n’os; porque elles ficaram -debaixo de um monte de barro, da altura d’este muro. Depois, quando os -trouxeram para casa em charola, em cima de duas tabuas, lá a tua velha -fez ahi uma berraria de deitar a casa abaixo. Fazes lá idéa! Era muita -gente a querer agarrar n’ella; mas principiou a estrabuchar e a morder, -por não a deixarem _ir abraçar o seu home_!... Ora tu bem sabes que a -gente não a devia deixar, e mesmo o senhor padre Beiral e o Pandega -disseram que não deixassem; porque lhe podia dar algum stupor! Hoje tem -custado a ter mão n’ella, quer-se ir deitar a afogar; mas a minha mãe, -que lá está, e outra gente não deixam. Quando a seguram, principia a -chorar aos gritos, como se tivesse o diabo e chama muito por ti! Já dizem -que a alma de teu pae lhe entrou por algum sitio... Se é verdade, temos -que rir; porque ha de custar a por-lha fóra! Isso de entrar uma alma no -corpo da gente é peior que maleitas. Safa! - -O Fogueira ficou mais triste, mais acabrunhado com estas revelações. -Principiou a apoderar-se d’elle um terror, um medo...—o medo de que a -alma de seu pae adoptivo tivesse realmente entrado no corpo de sua mãe -Engracia! E com um ar scismatico, de homem abatido, puchava pela longa -barba, arrepelando-a, e considerando-se infeliz! - -O João do Rego, no mesmo tom de confidencia, rematou: - -—É o diabo! Trazes tu por ahi cigarros? Como vens da villa has de trazer. -Agora foi a feira dos nove. Vens de lá? Trazes uma burra chibante! - -O Antonio, passando-lhe automaticamente o cigarro disse: «estive... -comprei...». Depois perguntou-lhe: - -—Mas diz que me querem prender?! - -—Qual prender! Deixa fallar! Está um papel na porta da igreja; mas é p’ra -gente ir a Vianna, por causa d’essa cousa da tropa! Meu pae arranjou -cartas de fidalgos da villa p’ra me livrarem, cá a mim, em Vianna; -porque _botou_ com elles no deputado! Eu vou e mais elle, domingo, por -ahi abaixo, á _speção_. Vem co’a gente, que faremos pandega!? O Capatrás -disse que tu tamem has de ir. Ainda honte fallou no adro, que se tua mãe -não vender um campo p’ra te livrar, tens de andar com a muchila ás costas. - -E concluiu n’um tom de voz convidativo: - -—Mas a tua velha que venda o campo. Ella pr’a que o quer senão p’ra ti?! -Diz-lhe que venda e vamos todos lá a _essa_ Vianna! - -Despediram-se. O Fogueira picou a egua, explicando ao do Rego, que queria -entrar pelo lado da matta, para se não encontrar com o enterro que ia no -caminho. Depois, quando chegou á cancella, a egua transpol-a, mas entrou -desconfiada, reparando em tudo, olhando de travez para os objectos!... O -Antonio forçou-a a caminhar dizendo-lhe: «Chó diabo, anda p’ra diante!» -E assentando-lhe duas lambadas nas ancas, esporeou-a com força!... - -Porém, logo adiante, o animal estacou com mais teimosia, encarando -excentricamente com um velho carvalho nodoso. O Fogueira, como a egua -era nova e como o momento não era proprio para lhe tirar as teimas, -desceu cordatamente, pensando em a levar á redea. Para isso principiou -a puchal-a, com brandura, de um modo carinhoso, condescendente, -fallando-lhe com moderação. Porém ella fincou-se nas mãos, levantou -a cabeça, encostou-se á retranca e principiou a recuar resfolgando -estrondosamente pelas ventas dilatadas, olhando esgazeada e com uma -tremura nervosa nos beiços! O Antonio, conhecendo que á força a não -faria transpor a matta povoada de carvalhos, que produziam sombras -amedrontadoras, pensou em redobrar de carinhos e attenções, desejou -familiarisal-a com a velha arvore nodosa que a espantára!... Para -isso amimava-a, fallando-lhe n’uma voz de cada vez mais convidativa, -puchando-a moderadamente pelas redeas, para a aproximar do objecto -suspeito... Porém ella, entendeu que devia recuar ainda mais e, n’um -momento, principiou a levantar as mãos, a agitar mais freneticamente -a cabeça, a espetar com mais desconfiança as orelhas, a curvetear... -e terminou por atirar duas valentes e corajosas parelhas de couces á -cancella, partindo-a. - -O filho da Engracia teve n’este momento uma enorme colera e veiu-lhe -rapidamente a idéa de tirar a sua comprida navalha e abrir a barriga da -egua, como em outra occasião fizera a um cavallo! Porém, a reflexão -aconselhou-o a não deixar apparecer as suas violencias naturaes... O -momento não era opportuno—reconhecia-o elle perfeitamente!... Ouvia d’ali -mesmo sua mãe, gritar com desespero, acompanhada pelo chôro cantado de -todas as visinhas, que lhe faziam companhia n’este momento doloroso. -Toda a sua idéa era metter, sem ser presentido, a egua na côrte do gado, -e depois, quando em casa tudo estivesse mais tranquillo e a choradeira -acabada, entraria pela porta dentro, inesperadamente e de supito!... «A -final de contas—considerava—isto tem de ser e tem!» Por isso, para não -augmentar mais a desordem que havia um quarto de hora se apoderara do seu -espirito, a desordem que o cercava por todos os lados, optou por amansar -a egua em vez de a matar, e para isso principiou a cofiar-lhe as crinas, -passando-lhe pela anca tremula a mão benevolente e prodiga de afagos, -com a brandura insuspeita da mão de um amigo! Conseguiu d’este modo -acalmal-a, mostrar-lhe de perto o velho carvalho, chegar-lhe ás ventas, -ainda tremulas, a casca gretada, que exhalava um forte cheiro de humidade -e de bolor. Conseguiu o que desejava; mas a egua atravessou o caminho da -matta, sempre desconfiada, olhando de soslaio, resfolgando e levantando -a cabeça ao menor ruido. O Antonio chegou a mettel-a na côrte do gado, -prendendo-a calculadamente a distancia dos toiros, que permaneceram a -olhar vagamente, com os seus olhos redondos, como bogalhos e relusentes -como vidro! - -Pelo barulho que tudo isto produziu, Engracia que já estava calada, -ficou advertida da presença de seu filho!... Por isso, tanto ella como -as visinhas que a acompanhavam, tornaram a desatar a sua dôr recente, -em altos gritos cheios de mortificação e que se estendiam pelos campos! -Quando, instantes depois, o Antonio entrou na cosinha, a viuva do -Bernardo agarrou-se-lhe ao pescoço, dizendo muitas vezes: «Meu rico home -do meu coração, que te não torno mais a ver! Perdi o meu rico home! Um -santo como elle era! Uma desgraça assim!» - -Esta paixão intensa e desgrenhada era communicante, e por isso o Antonio -saiu dos braços de sua mãe, para se deitar de barriga sobre a caixa da -brôa, com o rosto escondido entre as mãos, dando soluços affrontosos e -dilacerantes!... As mulheres, que acompanhavam Engracia principiaram a -dizer que elle era muito bom rapaz, muito amigo de Bernardo, tão amigo -como se fôra filho verdadeiro! Gabavam muito este choro afflictivo de -Antonio e, acercando-se d’elle, com as mãos escondidas nos aventaes, -consolavam-n’o, lembrando-lhe que a _desgraça_ acontecera por vontade -de Deus Nosso Senhor, e confirmavam que todas ellas, que ali estavam a -chorar pelo Bernardo, tambem haviam de morrer e talvez bem cedo!... E -depois d’estas palavras sensatas aconselhavam-n’o a fazer uma confissão -geral com os missionarios; porque era muito bom a gente andar sempre -preparada para ir á presença do Senhor Todo Poderoso! Antonio parece que -não gostou d’esta advertencia, em que presumia uma censura á sua vida -desregrada, e disse-lhes com certo desabrimento, com modo brusco e mal -creado, sempre deitado de barriga sobre a caixão da brôa: - -—Calem-se! Deixem-me cá. Ponham-se agora ahi com lôas e aquellas!... - -E desde este momento, o seu choro, foi-se abrandando gradualmente, -e um silencio, de vez em quando interrompido por um «ai Jesus!», -restabeleceu-se na cosinha. Engracia, com os olhos enxutos, mas -evidentemente abatida e mortificada, foi, como um cão reprehendido, -sentar-se ao canto da lareira, onde havia uma fogueira crepitante e -viva, procurando o ponto mais escuro e modesto, d’onde atiçava o lume, -continuando a dar ais lastimosos e suspiros. Passados alguns minutos, -quando as brazas estavam bem vivas, bem mordentes, disse ella mesma, com -uma voz serena e apasiguada, para Genoveva, a mãe do João do Rego: - -—Ó mulher, vê se lhe deitas aqui n’este lume uma posta de bacalhau. Esse -moço ha de vir com fome. - -E, como o Antonio ainda de bruços sobre a caixa do pão se remexeu, -expellindo o ultimo suspiro da sua angustia, ella exclamou n’uma voz mais -secca, mais sincera: - -—Meu rico home que o não torno mais a ver até ao dia de juizo! Tomára eu -que o dia de juizo fosse já hoje, só para tornar a vêr o meu rico home, -que foi morrer de uma desgraça!... Uma cousa assim!... - -Porém as outras pessoas ficaram caladas... Não tendo já mais lagrimas -para chorar, as mulheres visinhas principiaram a contar ao Antonio, como -tudo se tinha passado, como acontecera aquillo! Elle, impellido por uma -curiosidade inconsciente e com o fim de as escutar com mais attenção -voltou-se de ilharga e olhava... Depois, como a narrativa, vivamente -colorida pelos commentarios e pela gesticulação, o interessava, sentou-se -e escutou até ao fim, com as mãos apertadas entre os joelhos. A Genoveva, -mãe do João do Rego, era quem o certificava de todo o acontecido, e -apesar de ser muito difusa e de entremetter observações sem valor e -rodeios pueris, o Antonio ouvia-a: O Bernardo era um homem sem esperteza -nenhuma, um molanqueiro, um deixa-te ir... Muito bom homem, muito -honrado, muito temente a Deus, de muito boas contas... isso sim, senhor. -Verdade, verdade... não se contava outro na freguesia! Mas prestimo não -tinha muito, não tinha mesmo nenhum. Todo o mundo o levava para onde -queria, um grande cebolla é que era! Esta desgraça que lhe succedera -tinha sido prevista pelo Joaquim da Moita, que lhe disse ao vel-o -encostado á barreira, que tinha umas bôcas escancaradas, que mettiam -medo: «Home, tu ahi não estás seguro! Vê lá no que te mettes, Bernardo». -Elle não quiz fazer caso e respondeu: «Ora não ha de ter duvida...». O -pago foi o que se viu, ficar esborrachado. - -O Fogueira, ouvia tudo isto com uma seriedade inconsciente e bronca. -Que diabo de toleima, a de seu pae, de se ir metter debaixo da barreira -que caíu! Realmente sempre era um banasola, que não tinha prestimo para -nada!... E deixando-se n’esta corrente de pensamentos vagos, impulsionado -pela palavra quente da tia Genoveva, e, como já lhe haviam posto o -bacalhau sobre a caixa, principiou a comer de vagar, com uma apparente -inappetencia... Tinha o olhar vagaroso e a mastigação demorada, apesar de -ter fome. De vez em quando, Engracia, exclamava pelo «seu rico home», que -não tornaria mais a ver, até ao dia de juizo!... Genoveva, que durante -a narrativa se enchera de espirito hostil contra o fallecido Bernardo, -disse reprehensivamente, para a viuva: - -—Cala-te mulher! Tamem já é de mais! Já aborreces com tanto «meu rico -home!» (E fez um esgar de troça.) Que se não fosse lá metter! Que não -fosse pascacio! - -Depois concluiu voltada para o Antonio: - -—Olha, elle se morreu é porque quiz! era um bô home, um bô serás; mas -teimoso até ali! Deus o tenha no céu, que todo o mal foi d’elle; mas -verdade, verdade, para onde lhe désse o toutiço, era para lá, como um -casmurro. Agora que está na outra vida, Deus o tenha em bô logar. Um -Padre Nosso por sua alma é que devemos resar... Do que Bernardo precisa -é de muito rosario e de muitas missas, que quantas mais, melhor. «Padre -Nosso que estaes no céu, santificado seja o vosso nome, etc...» - -Todos a acompanhavam n’uma voz ciciada, e com as palpebras meio cerradas. -N’este momento ouviu-se o dobre funerario e lamentoso dos sinos. Era o -signal de que os officios tinham acabado e de que o corpo ía ser dado á -sepultura! Uma das amigas de Engracia observou: - -—Elle lá vae pr’a cova, coitado! Olhem que ninguem sabe onde as tem -armadas!... Ainda honte, ía em cima do carro, muito socegado, e já hoje -dorme na greja pr’a toda a vida! Ah! morte negra, morte negra que assim -os vaes levando a um e um! - -Engracia tornou a chorar alto e o Antonio atirou-se novamente de bruços -sobre a caixa do pão, conservando-se muito tempo sem se mexer... -N’aquella posição adormeceu de fatigado pela jornada! - - -V - -Porém, a viuva do Repolho, o que não queria por fórma nenhuma, era que o -seu Antonio fosse para a tropa. - -—Soldado nem de barro!—exclamava. Isso não o ha de elle ser, ainda que eu -tenha de vender a camisa do corpo! Todos esses invejosos, que lhe querem -mal, hão de cegar!... - -Mas a final—porque é que lhe tinham esta raiva de morte ao rapaz?! -Engracia bem o sabia: O Antonio não era um _cebola_, não era nenhum -_maricas_ que se deixasse levar pelo beiço. Tinha tido muitas occasiões -de amolgar as costas dos visinhos com o seu rijo pau de carvalho, e essa -era a rasão por que lhe tinham tanta birra. Em qualquer ralhação, que -a Engracia tivesse na aldeia, atiravam-lhe logo á cara, com a vida de -homem perdido e sem religião, que o seu filho levava pelas feiras... -N’essas occasiões, com uma intimativa raivosa de vingança, ameaçavam-lh’o -com a farda, com a _tal farda_ que o senhor padre Beiral lhe havia de -arranjar... - -«Pois não houvestes de arranjar uma farda!» respondia-lhes Engracia -indignada. Graças a Deus, ainda tinha algumas terras que vender e, -acabadas as terras, ainda tinha cordões de ouro e a propria casa em que -morava, que tambem valiam um bom par de moedas! Quem perdia com estas -cousas eram os santos da igreja—Nossa Senhora do Carmo e Santo Antonio -milagroso a quem promettera os dois campos da ribeira se o rapaz se -livrasse. Assim, arranjando-lhe o padre Beiral a farda, venderia esses -campos para pagar a um _sustituto_. E por causa d’isto, tambem pensava -em lhe doar todos os bens, e deixar-lhe, mesmo em vida, gastar tudo, só -para ter o regalo de ver a visinhança com uma cara de palmo e meio! Ao -menos desenganava de uma vez todos os que lhe queriam mal ao moço! Elles -desejavam que Engracia lhe não deixasse nada, por não ser seu filho; -mas ella, que se tinha na conta de teimosa como uma burra, de cada vez -estava mais resolvida a dar-lhe em vida quanto possuia! E realmente, n’um -dia em que a Vicencia lhe disse de cara, «que ella estava no inferno -vestida e calçada, que talvez não encontrasse um padre que lhe deitasse a -absolvição, por querer desherdar Nossa Senhora e os santos em beneficio -do grande meliante e pelo não o mandar para a terra de onde tinha vindo» -a viuva do Repolho, cheia de colera, partiu para a villa, onde lhe fez a -doação premeditada e onde, ao mesmo tempo, vendeu os campos da ribeira -ao brazileiro do Tenrozo, entregando todo o dinheiro ao Antonio, para -elle se ir livrar a Vianna e para continuar no negocio de burras, em que -se via envolvido. - -Porém, as pessoas que andavam ao corrente da vida do Fogueira, que -conheciam as suas relações com a Marianna Ripa,—uma chupadeira!—com o -Rio-Tinto e com o Fanfarra,—dois ladrões!—quando souberam da doação -incondicional que a Engracia lhe fizera, affirmavam com riso de despeito -e de consolação ao mesmo tempo: - -—Agora é que vae ser o bô e o bonito. Verão como elle espatifa tudo -emquanto o diabo esfrega um olho. Ai minha tola de Engracia! Cuidas que -déstes na dos outros, mas déstes na tua cabeça! Os campos que tanto -custaram áquelle burro do Bernardo, estão ahi estão engolidos n’um -prompto! - -Na realidade, nas feiras que o Fogueira frequentava, principiou elle a -apparecer mais chibante e cheio de arrogancia, sempre na companhia de -Marianna Ripa, que tambem andava n’um luxo e n’um estadão de _arreguilar_ -o olho! Ella tudo eram lenços de seda de furta-côres, tudo roupinhas do -melhor panno azul, chinelas com biqueiras de verniz pispontadas a retrós -verde... o diabo, um inferno! O Fogueira, sempre com o cinto recheado -de soberanos que mostrava todo basofia, pedia nas estalagens com voz -arrogante e desdenhosa, postas de carne assada e copos do rascante, -com que enchia os coldres á Marianna, ao Rio Tinto, primo d’ella, ao -Fanfarra e ainda a outros troquilhas. O Rio Tinto encontrou meio de -lhe impingir uma egua com seis moedas de ganho, quer dizer, por vinte -moedas, que na opinião de entendidos, não valia dez; porque, pelas -quatorze, já tinha sido uma encaravilhadella para o primeiro comprador! -Era um animal vistoso, de pello luzidiu e fino, as orelhas espertas, as -ventas resfolgantes, o olhar vivo e de uma inquietação nervosa...; mas -era uma egua com pancada! Tinha um travado meudo, muito igual e firme; a -cabeça, quando ía vertiginosamente na carreira, apresentava-a com altivez -soberana; porém, diziam que tinha grande doze de lua. Algumas pessoas -chegavam a affirmar que era uma egua redondissimamente maluca!... - -O Rio Tinto quasi desenganou o Fogueira dizendo-lhe: - -—Eu gostei do demonio da burra. Se a queres leva-a; mas o que ella -precisa é de bons quartos em cima! Olha que eu não sei se tu terás perna -para a montar! - -O Fogueira, mesmo por causa d’esta declaração, como era muito vaidoso, -comprou-lh’a. Tinha-se na conta de um dos melhores montadores das feiras -minhotas e não podia levar á paciencia, que houvesse animal, por mais -bravo, que elle não podesse amansar. Nunca encontrára, nem entre os -marchantes, nem entre os troquilhas, homem a quem temesse n’um desafio -de carreira. Portanto, apesar de lhe dizerem _que era brava_, o Fogueira -quil-a e, o Rio Tinto, recebeu logo em bons soberanos as vinte moedas... -Muitos feirantes que lh’a viram levar ficaram dizendo com um riso -velhaco, alludindo á maneira impensada como o Antonio gastava o dinheiro: - -—Aquillo é que é derreter arame! É como cebo ao lume. Parece um morgado. - -O Domingos Bicudo, o taberneiro á porta do qual foi feita esta -observação, defendeu o Fogueira n’estes termos: - -—E a vós que vos importa?! É do vosso dinheiro que elle gasta? Deixae o -rapaz com as suas aquellas. - -Depois d’isto, oito dias antes de esgotado o praso determinado no papel -que estava na porta da igreja, o Antonio foi á administração do concelho -buscar _a guia_ e partiu para Vianna, á _speção_. A Marianna Ripa foi -com elle. Era pelo tempo da feira da Senhora da Agonia. A rapariga ía -toda secia, toda preparada, n’um espavento de arromba! Ella, como ouvira -fallar _da braveza_ da egua, receiou ir a cavallo, e disse ao seu amante, -que não queria. Porém, o Fogueira, intimou-a terminantemente a montar, -observando-lhe que indo elle ao pé, não tinha que temer. Por isso ella -subiu para o albardão. Sentou-se commodamente, espalhando as saias para -ambos os lados. Por baixo, de entre as dobras do saiote vermelho do -panno mais fino e de entre os folhos brancos das saias, saíam os seus -pés calçados em chinellas de biqueiras de verniz pispontadas, e as suas -pernas grossas, bem feitas, calçadas com meias de linha fina, viam-se-lhe -impudicamente até acima do tornozello. Marianna tinha um riso vaidoso e -triumphante, quando olhava para as pessoas que a viam passar! - -O Fogueira ía a pé, de vestia ao hombro, com a larga facha vermelha -apertada sobre o estomago, e armado com o seu pau argolado, proprio -de homem de feiras!... Acompanhava a cavalgadura, a largas passadas -de arrieíro, examinando frequentemente a cilha, para que a moça lhe -não fosse dar um trambolhão... E, com a expansibilidade natural do -seu temperamento sanguineo e da sua cabeça estouvada, ía fallando á -egua, para a familiarisar com a sua voz, e dava-lhe fortes palmadas na -anca, que a faziam estremecer e levantar a cabeça de um modo inquieto, -continuando depois com passadas mais ligeiras e, ás vezes, com chouto, -do que Marianna se queixava, por se lhe remexerem as tripas todas lá por -dentro... - -Como estava um dia de grande calor, logo na primeira taberna, fizeram -uma paragem para provar do rascante. A Ripa, apesar de desembaraçada e -resolvida, tinha medo da egua, e por isso não se arriscou a descer, sem a -ajuda do Fogueira, que para a pôr no chão, a agarrou valentemente e com -vaidade, apanhando-a por baixo dos quadriz: - -—Ó diabo! És uma franga. Não pesas nada! Tudo saias. São tudo saias. - -E deu duas reviravoltas com ella suspensa, mostrando-lhe que era muito -leve. Marianna ria-se mostrando os seus dentes brancos, fortes e iguaes. -O Fogueira, depois de a pôr no chão, ficou mudo, rangendo os dentes, -a sorrir para ella, n’uma sensualidade bruta, motivada pelo calor das -saias, pela excitação animal que lhe produzira o proximo contacto da -carne da Marianna!... Por isso, n’uma incontinencia inconsiderada, -correu atrás d’ella pela taberna dentro, perseguindo-a até ao fim da -loja, onde a agarrou, a teve por momentos na sua posse, dando-lhe -palmadas nos hombros roliços, roçando-lhe a sua forte barba pelo pescoço, -pela cara, por onde podia... Depois, impellindo-a de si, com a soberania -orgulhosa de um possuidor, rematou n’uma respiração desafogada: - -—Diabo de moça! É o vivo demonio! Ó tia Zefa, deite lá um de meia canada. - -Beberam de vagar, sentados n’um banco de pedra, á porta da venda, -abrigados pela fresca sombra de um antigo carvalho. Em seguida, tendo -descançado sufficientemente, a Marianna tornou a montar ajudada pelo -Fogueira e continuaram o caminho. - - * * * * * - -A estrada nova, ainda não estava concluida. As diligencias não podiam -ir até Vianna. Dizia-se «que para a outra Senhora da Agonia talvez já -fossem». Logo adiante da venda, onde tinham parado para beber, andava -muita gente nos trabalhos. Uma longa fita de cascalho, bem espalhado, -apresentava uma superficie aspera e eriçada, sobre a qual rolava -pesadamente um enorme cylindro de pedra. Duas juntas de possantes bois -barrosãos, vagarosos, firmes e iguaes, puchavam o cylindro. Adiante -dos bois, á soga, com o corpo muito inclinado, ía um rapaz pequeno, de -carapuça, com a aguilhada ao hombro, fallando distraídamente ao seu gado. -Logo depois, um homem novo, cara de militar da reserva, tendo uma ponta -de cigarro meticulosamente escondida detrás da orelha, arrastando com -perguiça os tamancos, assobiava distraído, dizendo imperiosamente ao da -soga: - -—É diabo, rapaz, não durmas, falla-me a esse gado. - -Por isso o rapasito, aguilhou com mais força os bois, que estenderam -para diante as suas pesadas cabeças, contraindo fortemente os musculos, -puchando com mais força. - -Logo em seguida, um pouco ao lado do leito da estrada, viam-se os -britadores, quebrando o seixo a martelladas repetidas, para fazerem o -cascalho. N’este officio rude, que exige um exagerado esforço dos braços -e de todos os musculos do tronco, empregavam-se alguns homens aleijados -das pernas. Porém, alem d’estes, havia mulheres que tinham um aspecto -grosseiro e masculino, fortes seios entumecidos, e que trabalhando por -empreitada, podiam ir dar de mamar aos seus filhos, que choravam deitados -em canastras, á sombra benefica e fresca dos salgueiros, que marginavam a -estrada antiga. - -Tanto estas mulheres como os homens aleijados, trabalhavam sentados -no chão, cobertos com chapéus de palha baratos, que tinham comprado -aos presos na cadeia da villa. O sol peninsular de agosto abrasava-os, -obrigando-os a beber frequentemente tigelas de agua, que iam buscar -a um ribeiro proximo. As suas conversas grosseiras, eram tocadas de -palavras obscenas e sem pudor. Tinham um modo insolente de se exprimir, -porque se julgavam mais livres do que os outros, que trabalhavam a -jornal. O seu aspecto, pela continuação de se conservarem durante horas -sentados no chão, com movimentos esforçados dos musculos dos braços -e do tronco, era carecteristico e singular:—no peito havia uma forte -depressão correspondente ao abaúlamento da columna vertebral; as linhas -faciaes tinham uma contracção permanente de soffrimento, originada nos -esforços potentosos; as narinas eram dilatadas em virtude dos movimentos -respiratorios entrecortados e pelas largas expirações de compensação; -o tronco e os braços tinham um desenvolvimento desharmonico em relação -ás pernas; o semblante, pelo habito de olharem continuadamente para o -chão, era triste e carregado, como deve ser o dos _casseurs de pierre_ de -Courbet. - -Mais para diante, a estrada, era incompletamente aberta—andava-se n’um -desaterro. As raparigas que transportavam terra aos cestos para o rio, -íam e vinham formando um cordão movediço, como o das formigas no caminho -de celleiro. As suas canções, umas vezes mundanas e que haviam aprendido -com os cegos que passavam, outras vezes religiosas, ao Santissimo e ao -Coração de Maria, que tinham aprendido com os missionarios, íam morrer -n’uma toada monotona e ondeante nas quebradas da encosta fronteira. -Quasi todas estas raparigas novas tinham, mais ou menos, um aspecto -esfomeado e miseravel, a pelle grossa e avermelhada dos tempos diversos -e inclementes que supportavam, os seus pés e os calcanhares gretados, as -pernas estavam sujas de nodoas de terra, o olhar de algumas era tibio -e doente, a côr de outras citrina e amenerrhoica, as mucosas dos beiços -esfoliados e sem lhes transparecer a viva côr do sangue! Havia, porém, um -certo numero d’ellas mais lavadas, que trabalhavam com mais alegria—eram -as que passavam por namoros do senhor Alberto—o _apontador_, aquelle -que as vigiava que as podia despedir, que exercia sobre todas ellas -um absolutismo tyrannico! Era um rapaz forte, de uma boa corpulencia, -a pelle tostada, as mãos plebeias, um farto bigode presumpçoso, uma -cabelleira de terror, os dentes negros e os dedos queimados do fumo. -Tinha andado a estudar em Braga muitos annos, com o fim de ser padre. -Depois assentou praça no regimento de infanteria oito, para chegar a -alferes. D’ali fugiu com a sobrinha de um marchante, com quem desejava -casar, o que não concluiu, porque a perfida o abandonou para se amancebar -com um clerigo. Por fim, Alberto, vendo-se desilludido e infeliz, -ludibriado no seu amor, sem dinheiro, appareceu uma noite em casa de seu -tio cirurgião, pedindo, como o filho prodigo da lenda, o esquecimento -para os seus desregramentos desgraçados!... O tio cirurgião estava a -cear a posta do bacalhau empurrada pelo cangeirão do berde. Era um homem -sanguineo, e tomou-se de uma colera subita vendo o sobrinho, com quem -gastara em Braga mais de cem moedas, de chapéu desabado e casaco roto, -n’uma apparencia de malandro maltrapilho! Quil-o desancar com o estadulho -das suas valentias que tinha ao canto da cosinha, onde ceava, e só depois -da intervenção da Clementina, sua creada e amante de quarenta annos, -a qual tambem ralhou muito com Alberto, é que o tio se tranquillisou, -mandando-lhe dar uma posta de bacalhau. Mas, antes d’esta pacificação, -levantando-se da lareira bebado, chegou-se ao pé de Alberto e berrou-lhe -sobre o nariz, com voz temerosa e avinhada: - -—Seu burro e seu ladrão! Eu aqui a ganhal-o, a apanhar molhadellas de -lobo por esses montes, e você nas pandegas de Braga! Pr’o Brazil é que -ha de ir. Arre, _bá_ ganhal-o que eu tambem faço o mesmo. Mal aprendi a -ler, e para arranjar esses campitos que tenho e que te hei de deixar a ti -Clementina, puchei muito por este toutiço! Vá ganhal-o seu jumento, que -eu ando ha quarenta annos a puchar pela cachimonia, se quero! - -E bateu formidavelmente na testa, significando que só d’ali tinham saído -todas as idéas, com que medicamentava os conterraneos. Affirmava ter -muita gabança em não haver estudado, nem no Porto, nem em Coimbra, como -_os collegas_ que estavam na villa. - -Porém, passada esta colera do primeiro momento em que viu o sobrinho, -veio a pensar mais rasoavelmente, e determinou conserval-o antes por -ali. Como era influente eleitoral, arranjou-lhe facilmente aquelle logar -na estrada «que sempre deixava um crusado por dia, sem fazer nada!» -Ficou, portanto, Alberto, na situação de indicar ao director das obras, -um nigligente e aborrecido que passava os dias a jogar as damas n’um -botequim da villa, os homens e as raparigas que deviam ser admittidos -ou despedidos dos trabalhos na estrada! Isto dava-lhe um incontestavel -predominio, e por isso eram apontadas com uma intenção reservada _as -moças_, de que elle mais parecia gostar. Alem d’isto, Alberto, adquiria -diante dos seus sobordinados que estava incumbido vigiar, a attitude de -um personagem saliente. Os aborrecimentos da aldeia, tornavam-n’o triste -e fatal! A sua existencia estava vasia da convivencia dos amigos, que -adquirira nas batotas de Braga! Passeava a largas pernadas meditativas -e não fallava aos rapazes lavradores, que tinham andado com elle no -mestre de primeiras letras! Em vez de se suicidar, atirando-se ao fundo -de um poço, lançou-se na leitura perigosa de romances de sensação, que -os mais celebres fabulistas nacionaes e estrangeiros tinham escripto, -expressamente para lhe fecundar a imaginação irrequieta e sorumbatica! -Assim vivia n’um mundo incomprehensivel de emboscadas, loucuras, amores -de redempção, paixões nobres e lagrimijantes, homens que se recolhiam ao -desespero do sacerdocio, mulheres que fugiam aos maridos para seguirem -acorbatas, santos eremitas que tinham sido famosos salteadores!... Esta -illustração inoculou-lhe certas vaidades litterarias, que elle revelou no -_Bracarense_, timidamente, sobre a epigraphe de _Inspirações do Lima_!... -N’essas paginas, aquellas verdes e ramorosas paisagens minhotas, eram -apresentadas cheias de cavernas onde se escondiam donzellas vestidas -de branco, fugidas dos castellos de seus paes nobres, com amantes -desconhecidos e mysteriosos. Porém, como nem tudo n’esta vida póde -ser ideal, Alberto saía por vezes de entre os frescos salgueiros, -onde se recolhia hostilmente a ler os seus romances, e n’uma excitação -aphrodisiaca, ía espreguiçar-se entre as raparigas que trabalhavam, -apalpando impudicamente os braços carnudos e os seios volumosos -d’aquellas de quem gostava mais!... Os trabalhadores, que observavam de -longe estes desfastios do senhor Alberto, disseram uns para os outros, -descançando encostados ás enchadas, applaudindo-o, cheios de inveja. - -—Isso, é levado de seiscentos diabos p’ras moças! - - * * * * * - -Foi ao chegar ao pé dos homens que faziam esta observação, que a egua -do Fogueira, na qual ía montada a Marianna Ripa, parou subitamente, de -um modo inesperado, n’uma posição desconfiada—a cabeça alta, as orelhas -tezas e o olhar fixo! Depois estendeu o pescoço, inclinou para diante -os pavilhões auriculares para reunir proveitosamente todos os ruidos e, -dilatando-se-lhe demasiadamente as pupilas, conservou-se alguns segundos -olhando firmemente para uma bandeirola que fluctuava... Todas as pessoas -que presenciaram esta paragem repentina se tomaram mais ou menos de uma -certa irresolução!...—os jornaleiros conservaram attitudes indicisas e -indagadoras parando de trabalhar; as raparigas, que acarretavam cestos -de terra, ficaram a distancia um tanto receosas; o Fogueira recuou -dois passos e berrou «diabo de burra!»; Marianna, apesar de rapariga -corajosa, lembrou-se que lhe tinham dito que a egua era amalucada e deu -instinctivamente um grito!... O amante da Ripa, temendo que o animal lhe -tomasse alguma manha, dirigiu-se-lhe de mão aberta com o fim de _lhe -fallar_, mais familiarmente... Porém, n’este momento se não lhe furta -instinctivamente o corpo, ía apanhando, sobre o ventre, uma valente -parelha de couces! - -A esta parelha seguiram-se muitas outras em todas as direcções, dadas com -desembaraço vertiginoso. A Marianna, agarrava-se tenazmente ao albardão -para não caír. Os trabalhadores, com o fim louvavel de suster a egua, -levantaram as enchadas e as picaretas, pondo-se diante d’ella, fazendo -algazarra. Porém, este procedimento deu em resultado o multiplicarem-se -prodigiosamente os pinotes e os couces. A Marianna Ripa caíu do albardão, -de bruços sobre a terra, com as pernas á mostra, e a egua, de cada vez -mais doida, tomou-se de uma raiva aggressiva contra os que estavam -diante d’ella, e arremetteu com ousadia para elles, que lhe abriram -condescendentemente caminho! E, enfurecida, enthusiasta, com o dorso -arqueado, a barriga baixa, o pescoço estendido, as ancas salientes, as -pernas abertas, principiou a fugir pelos campos fóra, para os lados do -rio! O Fogueira permaneceu livido, pasmado, sem desembaraço, a olhar, -vendo-a saltar paredes, saltar vallados, sebes e barrancos! A sua amante -já se tinha levantado promptamente, toda vermelha, com medo que os homens -lhe tivessem visto as pernas! Não se tinha maguado, pois caíra sobre a -terra molle! Todas as pessoas que presencearam este facto, surprehendidas -pela rapidez com que elle se passara, estavam sómente interessadas no -galopar da egua, que viam correr, dando upas vistosas, com a cabeça alta -e o rabo espalhado ao vento!... - -Antes d’ella desapparecer, calculou um jornaleiro com modo reflectivo: - -—Aquillo foi o dianho da mosca!... - -Os que ouviram esta opinião admittiram-n’a em silencio, continuando a -olhar para a egua que fugia resolutamente, sem hesitações, sem duvidas, -dominada por uma idéa infernal!... - -Lá no fim dos campos, estava o rio, a grande profundidade, revolvendo-se -as suas aguas, com um fervor de corrente que se precipita por entre -penedos! Tinha chovido muito nos dias precedentes e, por isso, o rio -levava uma bravura excepcional!... - -A egua corria sempre, perdida, com os olhos esgazeados, as crinas -ao vento, o corpo arqueado e foi precipitar-se do alto muro, caíndo -estrondosamente na agua e fez _cachap_, levantando enorme poeira de -espuma na amplitude do ar! - -Um lavrador, que andava na outra margem trabalhando pacificamente no seu -campo, vendo isto, exclamou surprehendido: - -—Oh! com mil diabos, que lá se _spapou_! - -E logo que o Fogueira chegou esbaforido disse-lhe este individuo, -gritando: - -—Ó hominho. Essa burra que caíu ao rio era sua? Ella era maluca por força! - -O Antonio Fogueira respondeu-lhe de um modo abstracto, com uma navalha -aberta na mão: - -—É o demonio que a leve!... Se a pilhasse, abria-lhe a barriga de cima a -baixo, com esta! - -Depois, lançando um olhar indagador para os dois lados do rio, perguntou: - -—Mas vocemecê viu-a? Onde diabo caíu ella? - -—Olhe!...—apontou para os rochedos que estavam mais abaixo. - -O Fogueira aproximou-se vagarosamente do logar designado. Uns lavradores -e umas raparigas, que, ali perto, andavam no trabalho, perguntaram-lhe -igualmente: - -—Você é dono da burra que ahi caíu? - -E à affirmativa do troquilha esclareceram: - -—Pois o diabo, parecia que trazia o demo no corpo. Atirou-se sobre esses -penedos como um raio! Depois, o rio levou-a para baixo. - -Um dos trabalhadores acrescentou: - -—Aquillo era maluca, por força! - -O Fogueira repetiu, com rancor, mostrando novamente a navalha. - -—Tres mil demonios a arrastem pr’as profundas dos infernos! Se se não -tivesse _spapado_, punha-lhe as tripas ao sol. - -Outro dos jornaleiros ainda esclareceu, apontando com a foicinha: - -—Isso é ahi um pôço que nem seiscentas pipas! Você faz lá idéa!... - -Um terceiro acrescentou: - -—Nunca ninguem lhe viu o fundo. Muita gente antiga, diz que o não tem; -mas isso parece-me mentira. - -Um rapaz esclareceu: - -—Ha ahi cobras que é um inferno! O tio Domingos Briteira viu uma de mais -de vinte varas. Vinte varas! que digo eu! De mais de quarenta. Ora! Se -ella tinha o rabo de lá do rio e a cabeça de cá, quando elle a viu. -Talvez essa cobra se enrodilhasse ás pernas da burra! - -O Antonio Fogueira despediu-se de um modo triste: - -—Com bem passem! Deixal-a ir. Deus os ajude. - -E na volta, quando chegou ao pé da Marianna Ripa, que o esperava, disse: - -—Então que tal?! O Rio Tinto prega-me uma burra maluca! - -A rapariga defendeu o primo: - -—Ora! Talvez elle não soubesse!... - -—Não sabia o diabo que o leve! Elle m’as pagará! - - -VI - -Em Vianna, o Fogueira e o Rio Tinto, encontraram-se hospedados na -mesma estalagem. Por causa do negocio da _burra_, invectivaram-se -reciprocamente com injurias e, se não fosse o Fanfarra e a Marianna Ripa, -que se interposeram, elles chegariam de certo ás do cabo! Por fim, o -Rio Tinto, com uma viva colera no olhar, tirou da sua sacca de linho os -soberanos que tinha ganho ao Fogueira e, atirando-os com despreso sobre a -mesa, disse com altivez: - -—Ahi tens e não tornes a dizer que te roubei. _Bê_ lá como fallas p’rá -outra _bês_. Põe n’esse raio de cara dois _carbões_ accesos, para saberes -o que compras!... - -E ficaram, sem se fallar, olhando-se como dois homens que se odeiam! Á -noite tiveram occasião de se encontrar, um em frente do outro, a uma mesa -de _monte_, arranjada ao fundo da taberna, atraz de um tabique, por dois -braguezes de longas barbas suspeitas e chapéus desabados... Estes homens, -para attraírem os feirantes que por ali estavam, tinham-se abancado de um -modo natural e simples, principiando a jogar entre si o _trinta e um_. -Batiam insolentemente o dinheiro nas mesas, com o fim de se tornarem -vistos, fallando alto e grosseiramente. Um almocreve, contractador de -peixe para Traz-os-Montes, estava ali perto, e foi naturalmente attraído! -Como ceára e se sentia na amplitude beatifica de um homem bem avinhado, -foi-se aproximando, sorrateiramente, com certo desdem!... Carregando o -chapéu para os olhos, sentou-se junto dos jogadores, tomando _n’aquillo_ -um interesse puramente mental!... A este curioso, juntaram-se outros, -attraídos por iguaes motivos, chegando-se todos á formiga, n’um desleixo -simulado, sem apparencia de proposito difinido, com as mãos nos bolsos e -o cigarro ao canto da bôca... E, quando a roda era já bastante compacta, -um dos jogadores, sem dizer palavra e fundando-se de certo n’uma -convenção anterior, atravessou o baralho no meio da mesa e, tirando mais -dinheiro do bolso, contou nove corôas em prata! Depois, com outras cartas -que tinha n’um bolso interno da sua jaqueta de alamares, principiou a -baralhar demoradamente, lançando em volta um olhar firme e carregado! O -companheiro, sem lhe dizer palavra, abriu um cinto que trazia afivelado -sobre o estomago, mostrando-o cheio de libras, e tirou tres, que ajuntou -ao dinheiro já contado, e disse com um modo esbanjador, n’uma voz -imperiosa e rouca: - -—São quatro _sovranos_ de monte! - -Os indiferentes, ao verem isto, sentaram-se logo nos bancos de pau, -acotovelaram-se contra a mesa, olhando avidamente para as cartas e para -o dinheiro! Ao longo de todos elles passou o calefrio das sensações -poderosas e commoventes! O jogador, que se preparava para fazer as -pagas, collocou sobre o baralho, atravessado na mesa, as tres libras em -ouro, espalhou a prata diante de si, misturando-a com certo despreso e, -carregando mais para os olhos o seu chapéu de abas largas disse de um -modo vago: - -—Eram precisas ahi quatro croaças em _covre_... - -Então, um rapaz novo, sem barba, muito magro e amarello, com o tronco -osseo apertado no seu fraque velho muito coçado nos cotovelos e lusidio -nas costas, pegou nas quatro corôas, que o jogador lhe deu por cima do -hombro. Com passo ligeiro e leve, dirigiu-se ao taberneiro, que estava -medindo quartilhos, e pediu-lhe n’uma voz urgente, perturbada, com -inflexões nervosas: - -—Tio Domingos... Estas croaças em _covre_!... - -Collocou-lh’as sobre o mostrador humido de vinho. - -O tio Domingos, com o seu ar de borrachão pantagruelico, perguntou-lhe -usurariamente interessado: - -—Então elles hoje... ein Marquinhos?! - -Marcos, amanuense do governo civil, respondeu com muita pressa, contente, -encolhendo-se em si mesmo, passando n’um frenesi, o seu dinheiro de uma -mão para a outra, n’um estado de impaciencia quasi sensual: - -—Sim, senhor, _vão fazer_... São aquelles dois de Braga, o Barroso e o -outro que eu não sei como dianho se chama... - -—Timotheo... O Timotheo da Carcova... Quem diabo não conhece o Timotheo?! - -—Sim, senhor, um nome assim arrevezado, o Timotheo... Mas ande depressa, -tio Domingos!—pediu com insistencia, com a sua voz aflautada, de um -timbre choroso.—De-me esse troco que estão á espera! O Barroso não _se -volta_, emquanto lhe não levarem _covre_! - -O taberneiro disse: - -—Olha, vae-te Marquinhos, que eu levo já. Diz-lhe que eu levo já. - -E depois de ter contado meticulosamente o dinheiro, escolhendo o mais -falso, foi elle mesmo pôl-o sobre a mesa do jogo. As suas mãos plebeias -e sujas íam cheias de patacos esverdeados, de uma côr venenosa, levando -ao mesmo tempo, de baixo do braço direito, um pequeno mialheiro, que -collocou em cima da mesa, dizendo n’uma voz chorosa e comica que fez rir: - -—_Aqui pr’ás bemditas almas!..._ - -Esta pequena caixa de folha com uma fenda na tampa superior, era onde os -jogadores teriam de deitar os baratos! - -Só depois d’isto, quando em volta da mesa estavam muitos individuos com -um olhar desvairado e o dinheiro apertado freneticamente na mão, á espera -do momento de jogar, é que o Barroso tirou quatro cartas do baralho, -collocando-as nos respectivos vertices dos angulos de um quadrilatero -que traçara mentalmente... Em seguida, accendeu um cigarro, piscando os -olhos com as fumaças e disse: - -—Agora, meus homes, é metter-lh’o sem medo!... - -Chegára o tetrico momento dos primeiros palpites! A expressão de todos os -semblantes era mais viva e as respirações abrandaram-se momentaneamente. -Duas vélas de cebo, em duas bogias de folha, espirravam sobre a mesa, -alumiando, com fraca luz, aquelles rostos sugados! O fumo espesso e azul, -o cheiro nauseabundo do peixe que se estava frigindo, envolviam o grupo -dos jogadores, que se entendiam por uma linguagem breve. Os cigarros -accesos, collocavam n’aquellas pelles escuras e nas barbas pretas, -pontos incandescentes! E cá fóra, na loja humida da taberna, o _ou-ou_ -prolongado das vozes dos feirantes pedindo mais vinho e praguejando, -continuava-se n’um unisono monotono e ondeante, de momento a momento -cortado pela voz do banqueiro, o Timotheo da Corcova, que dizia com -arrogancia, «jógo.» - -Era quasi manhã, quando _isto_ acabou. O Fogueira _apontou_ durante toda -a noite, de um modo accintoso, contra o Rio Tinto, e esteve sempre com -uma sorte de burro! Fartou-se de ganhar dinheiro, os montes de corôas iam -crescendo diante d’elle e já lhe atulhavam os bolsos. Todos os outros -_pontos_, embirrados com isto, seguiam o partido do Rio Tinto, que estava -sem sorte nenhuma, e perdiam com elle! Em virtude d’isto, quando eram -cinco horas da manhã, estavam _á lisa_, achando-se o dinheiro no cinto -do Fogueira que os _tinha alimpado a todos_! - -Antes da meia noite, a taberna ficara vasia de gente, que tinha saído -para a romaria, com fim de ver o fogo! Na rua passavam continuadamente -descantes á viola. Os que perdiam ao jogo, o Rio Tinto, o Fanfarra e -todos se indignavam pronunciando insultos e obscenidades contra os das -esturdias... O Fogueira bem comprehendia que eram injurias contra elle, -por lhes ganhar o dinheiro, e ria-se ás gargalhadas, fazendo chacota -e guardando com escarneo os soberanos que os outros perdiam. Por fim, -quando amanheceu, o Barroso e o Timotheo da Carcova, _encontrando-se pela -primeira vez, no seu dinheiro_, depois de uma noite inteira de jogo, -durante a qual houve um momento em que a banca perdia mais de vinte -moedas, disseram com certo desafogo: - -—Contra esta sorte não ha que fazer! Estamos desforros... - -E levantaram a banca sendo já dia alto. - -O Fogueira ganhava um bom par de moedas! Impiedoso e triumpante, -principiou a contar ostentosamente o dinheiro diante de toda a gente. -Batia as libras sobre a mesa, fingindo por troça, que desconfiava que -ellas fossem falsas. Voltando-se para alguns dos que as tinham perdido -perguntou com modo achincalhador: - -—Os sobranos são bôs, ó rapazes? Vocês viriam para a feira com dinheiro -falso?! Não vinham; porque haviam de ter medo ao _demenistrador_. O -que alguns são é bem bonitos, de cavallinho. Hei de os guardar para -lembrança d’esta noite. - -Os que tinham perdido, conservavam-se n’uma indifferença fingida, mas -hostil... Deitados por cima dos bancos, como dormindo, olhavam por baixo -dos chapéus desabados. O Rio Tinto e o Fanfarra tinham uma expressão -amarga e vingativa, affastados do Fogueira, fumando cigarros e olhando -para elle com um rancor intrinseco! Nos seus rostos severos e contraídos -reconhecia-se-lhes mais ferocidade do que tristeza! - -No dia seguinte, o Antonio da Engracia, percorreu com a sua amante todo -o campo da Agonia, onde era a feira. Sempre que estavam perto d’elle -o Rio Tinto e o Fanfarra, que o olhavam de travez, com modo ameaçador -e reservado, puchava por dinheiro com escarneo! N’esse dia satisfez á -Marianna muito mais do que as suas exigencias de mulher vaidosa pediam! -Comprou-lhe uns brincos caros e um par de argolas de cabacinhas, na -barraca do Ferreira, um ourives do Porto. Nos mercadores mandou cortar um -saiote vermelho do melhor panno e umas roupinhas chibantes. Comprou-lhe -lenços de seda de furta-côres e chinellas de verniz! Quando pagava, -affectava sempre gestos esbanjadores, que feriam os que o viam!... Porém, -esta intenção mostrou-se com verdadeira dureza na feira do gado, onde -principiou a examinar detidamente _a melhor_ egua, para a comprar! Era -um animal vistoso, pelo qual um gordo ecclesiastico minhoto pedia vinte -e cinco moedas! O Fogueira chegou-se á egua, assentou-lhe duas palmadas -na anca azevichada e fel-a estremecer. Puchou lhe, em seguida, pelo -rabo, obrigando-a a estacar firmemente... Examinou-a nas mãos e nos pés -até aos cascos, para ver se estava _puchada_. Observou-a na dentadura, -levantando-lhe a cabeça e affastando-lhe os beiços polposos com o fim -de lhe calcular a idade... Passou-lhe os dedos diante dos olhos, para -lhe experimentar a vista... Finalmente, quiz-se mostrar um troquilha -experimentado, para que o não enganassem _outra vez_!... - -O ecclesiastico, dono da egua, seguia discretamente, com um sorriso -gabosola e um olhar entendedor, o exame do Fogueira, fungando -estrondosamente a sua pitada de _meio grosso_. O amante da Marianna -Ripa, com a faixa vermelha apertada no ventre e o chapéu de abas largas -inclinado para a nuca, perguntou-lhe em voz alta e com pronuncia -insolente; pois sabia que era ouvido pelo Rio Tinto que o cocava de perto: - -—Ó senhor padre! Ella é maluca? - -O sacerdote, João Pitança, á pergunta inesperada, e cuja intensão e -alcance não podia comprehender, respondeu com uma gargalhada sonoramente -timbrada: - -—Ah! ah! ah!... Maluca! Home essa! Ah! ah! ah!... Como diabo ha de ser -maluca a melhor egua da feira?! Ah! ah! ah!... Só essa pergunta me faria -chorar de riso! Se foi por chalaça que o dissestes, fizeste-me rir. Ah! -Ah! Ah!... - -Affastando-se da sobrinha—uma rica moça de bons seios e boas ancas!—que -se conservou a distancia com o guarda sol pendente das mãos crusadas -sobre o ventre, aproximou-se do animal, bateu-lhe confiadamente na -anca e chibatou-a com a sua varinha de marmelleiro para ella dar -reviravoltas... - -—Ora maluca!—continuou. Que demonio de lembrança a tua! Leva-a a contento -meu rapaz! Pagas-ma p’ra outra feira se quizeres! - -O Fogueira respondeu-lhe n’um tom de chacota, sempre com o fim de -offender o Rio Tinto, que o continuava a escutar n’uma desattenção -simulada: - -—Não, que ha por ahi muito quem queira enganar a gente vendendo burras -malucas... Ha muito ladrão com cara de gente! O senhor abbade não faz -idéa! - -—Abbade, não—emendou o ecclesiastico. Um simples padre, meu rapaz, um -simples padre. Mas quanto á egua pódel-a levar, que é trigo limpo. Não -tem um argueiro, pódes ver á vontade—concluiu o sacerdote, com o seu ar -de homem bem comido e bem bebido, assoando-se fortemente ao lenço de -panninho que desdobrára completamente ao ar! - -Mas o melhor era montal-a—observou. Montando-se acabavam todas as -duvidas. Se o Fogueira queria ver, _corria-a_ elle mesmo, padre João -Pitança, ali n’aquelle campo da Agonia, que era bom para isso. Não -pensasse o comprador que tinha n’isso a menor duvida. Ou então, se antes -queria, o Fogueira que arranjasse um picador da sua confiança, e veria -como a egua se vispava por ali fóra, que nem um corisco! O amante da -Marianna Ripa gostou d’aquelle desembaraço do ecclesiastico, e com ar -galhofeiro e atrevido de homem que tem o bolso bem cheio de soberanos, -disse-lhe: - -—Então monte lá v. s.ª primeiro. Tamem quero ver a sua perna. - -O padre João não hesitou um momento. Apertou melhor a cilha á egua e as -correias das suas esporas. Com a mão esquerda nas redeas, repuxou-as -de certo modo, para o animal enfeitar a cabeça. Alisou-lhe as crinas, -passou-lhe a mão direita na anca, metteu o pé esquerdo no estribo de pau -e com um balanço de homem acostumado, caíu no selim de um modo firme e -airoso, como um lanceiro! Em seguida, com o seu riso aberto, de camponez -vaidoso, disse para os troquilhas que o observavam com interesse: - -—Isto é fino meus homes!... - -E esporeou com habilidade a egua, para a obrigar a algumas reviravoltas, -que abriram um largo circulo no povo circumjacente. Depois deu a primeira -envestida na carreira, só para obrigar o animal a parar de repente; mas -voltou ao logar d’onde partira, dizendo para o Fogueira: - -—É cousa boa, meu rapaz! Cá não se engana ninguem! Não sou d’essa gente, -nem a quero na minha companhia—pronunciou com vaidade. - -As abas do seu comprido casaco sacerdotal, caíam dos lados. Com as pernas -firmes, calculadamente encostadas ao ventre da egua, conservava-a n’uma -vaidosa impaciencia de partir. Carregou o seu chapéu de abas largas para -lhe não voar com o vento e foi-se chegando a passo, para o sitio onde se -devia correr. A cabeça do animal, firme e altiva denotava certa magestade -e orgulho!... O padre João Pitança retesava-lhe com intelligencia as -redeas, para a egua se enfeitar, e esperava o momento opportuno de estar -bem desempedida a _carreira_... Depois, quando esse momento chegou, -partiu n’um travado meudo e veloz, diante de centenares de espectadores, -que o viram sumir-se por entre uma atmosphera de poeira dourada pelo sol -poente, o que lhe dava, tanto a elle como á egua, um volume indiciso e -esfumado! D’ali a poucos minutos voltou, a galope rasgado, e estacou -firme e de repente, no mesmo ponto d’onde tinha partido! O Fogueira -confessou accenando com a cabeça: - -—Sim, senhor! Uma boa perna, senhor padre! - -Outro feirante disse: - -—E rica mão de redea! - -O ecclesiastico surriu-se com satisfação. O troquilha montou tambem o -animal e correu-o. Por fim concordaram no preço de vinte e tres moedas, -que o Fogueira pagou logo. - - * * * * * - -Todas as circumstancias impelliam os maus figados do Rio Tinto para um -rancoroso procedimento de vingança! A pisporrencia do Fogueira ao gastar -dinheiro, a sorte de burro que tivera ao jogo, as suas provocações com -palavras e com gargalhadas de chacota, faziam-lhe remoer as entranhas lá -por dentro, dando-lhe certa gana de o abrir de meio a meio! Principiou a -conhecer que lhe entrava na organisação um appetite infernal de se vingar -do amante da Ripa! Conhecia, por uma reflexão interior, que a cabeça se -lhe estava enchendo de idéas perversas!... O Fanfarra, logo que elle -lhe disse que tinha vontade de ter uma _aquella_ com o Fogueira, tomou -abertamente o mesmo partido, e n’uma intimidade infame, urdiram um plano -para se vingarem das desfeitas que tinham recebido durante o dia! - -Poderiam sair-lhe ao encontro, dar-lhe uma grande coça, a ponto de o -deixarem estendido sem sentidos no meio da estrada, e roubar-lhe o -dinheiro que levasse, que ainda havia de ser um bom par de moedas. Podiam -porque eram dois homens destimidos, não tinham escrupulos e, talvez, já -não fosse a primeira que faziam!... Mas o peor era a Marianna Ripa, que -de certo acompanharia o seu amante!... Era preciso desembaraçarem-se -d’ella por qualquer fórma!... O Rio Tinto conhecia bem _sua prima_... Era -uma rapariga desembaraçada, que tinha tanta coragem e resolução, como -qualquer d’elles... Dizia-se que envenenara um padre, com quem estivera -amancebada dois annos! O primo troquilha tanto não acreditava n’este -boato, que tinha sido a melhor testemunha de defeza da rapariga, o que -muito concorreu para a livrar da cadeia onde esteve oito mezes, por causa -d’este negocio!... - -—Já tu _bês_ que a conheço muito bem, e que até ella tamem póde _entrar -na cousa_—concluiu com pronuncia intelligente... - -Por isto o Rio Tinto mesmo é que fallou á Marianna, que teve alguma -difficuldade, alguns escrupulos em atraiçoar o seu amante. Mas elle e o -Fanfarra logo lhe rebateram todas essas asneiras dizendo: - -—Não sejas tola... Que tens a ganhar com isso!?... Elle deixa-te por ahi -qualquer dia e ficas a chupar no dedo!... - -Depois de batalharem algum tempo com ella, convenceram-n’a... Que -diabo!... O Fanfarra e o Rio Tinto, a final de contas tinham rasão. -Isto _de amigos_, quando menos se pensa, arrumam para o canto uma pobre -rapariga, como se faz aos sócos velhos que não prestam. Ella bem tinha -visto o que acontecera com _outras_... Homens... trazem ás vezes muitos -trabalhos. Aquelles oito mezes de cadeia, por causa da morte do padre -João de Pinho, tinham-lhe aberto muito os olhos. Estivera para ir por uma -barra fóra e, em boa verdade, sem ter tido grande culpa... O resalgar que -deitára na malga de caldo com que o padre tristemente se envenenára, não -era para o matar a elle, que até era um raio de home de quem gostava; mas -para dar cabo da Tonia Salgada, um pedaço de coira, por quem o _ladrão_ -andava baboso, esquecendo-a ingratamente a ella, que tanta borracheira -lhe aturara, durante dois annos! Não tinha peso nenhum na consciencia por -esta morte!... O ecclesiastico é que tinha pegado, por sua livre vontade, -na malga destinada á Tonia... Marianna teria ido degredada, se não -fosse seu primo, que jurou diante do senhor _demenistrador_, primeiro, -e, depois, diante do senhor juiz, na casa d’este e no dia da audiencia -«que na occasião da tal morte, a Marianna, estivera em casa d’elle a -sedar linho até de noite e lá comera e dormira». Tambem o podia jurar -sem receio; porque ninguem a tinha visto em todo esse dia, que passára -escondida no palheiro do padre... á espera. - -A Antonia Salgada já vivia de portas a dentro com _o seu amigo_, já lhe -fazia a comida, chegando ao desaforo e á pouca vergonha de jantarem á -mesma mesa, como dois casados!—distincção que a Ripa nunca recebera, -nem nos seus melhores dias, da parte d’aquelle excommungado, que devia, -por força, estar a arder no inferno! Marianna soube isto; porque os -espreitára. N’esse instante desesperado, veio-lhe uma impulsiva idéa -de vingança!—o coração deu-lhe um baque de justiça, um salto dentro do -peito, como quem diz «dá cabo d’aquelle diabo de lesma!...» Pelo muito -particular conhecimento que tinha da casa do ecclesiastico, sabia que, -embrulhado n’um papel azul, entre livros guardados n’uma caixa de pinho, -estava um pouco de veneno de ratos, que o sacerdote comprára na villa. -Entrou um dia lá na casa, quando todos estavam para o campo, e tirou -o papel azul... Depois estabeleceu o seu plano de desforra, que poz -em pratica d’esta maneira: Escondeu-se, uma manhã cedo, antes do dia -romper, no palheiro do padre João, que era paredes meias com a cosinha. -Levou um naco de brôa e uma racha de bacalhau; porque contava passar lá -o dia inteiro. Durante toda a manhã, divertiu-se, a observar a tronga -da Antonia, andando no preparo do jantar, para o que até matou a melhor -gallinha! Uma cousa assim!... era de morrer de riso! Se a quizessem -ver, como se rebolava por aquella cosinha! Parecia a dona da casa, -cantarolando o _bemdito_, as _modas do Coração de Maria_ ensinadas pelos -ultimos missionarios, e o _Afasta janota, arreda_... moda dos cegos -que tinham estado na ultima romaria do _Soccorro_. Ai que raiva se lhe -apoderou do coração! Não sabe como se conteve, que se lhe não atirou ali -mesmo ao gasganete, fazendo-lhe deitar uma lingua de palmo!... Por fim, -quando no relogio da igreja deram as onze, a bebeda tirou da caixa uma -toalha lavada, estendeu-a na mesa, sempre cantando com voz esganiçada. -Depois encheu duas malgas de caldo, poz a gallinha e o presunto n’uma -torteira de barro e saíu para chamar _senhor padre João_ o seu—rico -senhor padre João!—que andava na horta, a regar... - -Foi durante os minutos d’esta ausencia que Marianna saíu do seu -esconderijo e deitou todo a resalgar na malga que presumia ser a da sua -rival! Pouco depois chegou o sacerdote, de tamancos, correndo atraz -da moça pela cosinha dentro, com muito estrondo! Ella, a delambida, a -fingir que fugia cheia de medo!... Seguiu-se um momento soturno, em que -gosou, no meio de uma angustia ciumenta, a sua proxima, cruel e decisiva -vingança! Pois aquelle alma de damnado, ali mesmo nas suas barbas, não -se vae pôr a andar atraz da moça, não a agarra pela cintura, dando-lhe -beijos e abraços, não atira com ella ao chão, com relinchos de cavallo! -N’este momento, Marianna, achou mais repugnante o padre do que a tronga! -Emquanto durou esta expansibilidade animal do ecclesiastico, ella soffreu -os finos acicates do ciume, morderam-n’a até ás entranhas. Sentia-se -espoliada n’um beneficio que lhe pertencia! Em vez de ser a ella que o -malvado dava todas aquellas provas de amor, via-se reduzida a espreitar -por uma frincha da porta e a presenciar enertemente tudo aquillo, Santo -Nome de Maria! Teve tentações de entrar na cosinha, pegar n’um machado -que estava ao pé da lareira e dar com elle na cabeça de ambos! Um -ladrão e uma desvergonhada d’aquellas! A Ripa sentia-se com animo de -os abrir, a um e a outro, e de lhes trincar o coração!... Mas uma voz -interior de contentamento e de saciedade, apregoava-lhe o seu proximo -triumpho e aconselhava-a a conservar-se escondida, como estava!... -Aquella molengona, que lhe roubava a felicidade, dentro em pouco sentiria -horriveis dôres nas entranhas e havia de estorcer-se n’aquelle chão -terreo da cosinha, como um demonio escorraçado pela agua benta!... - -Depois, o padre e Antonia, foram para a mesa e o maldito troca de -proposito as malgas só para dar a melhor,—a de pó de pedra, a que era -d’elle e que nem ás visitas offerecia!—á lambisgoia, que a acceitou toda -derretida! N’este momento caíu-lhe a alma aos pés! Teve um movimento -expontaneo de amor, de generosidade ou de compaixão, e chegou a pôr a -mão na caravelha, para lhe ir arrancar da mão o veneno! Todo o seu corpo -estremeceu, desde as unhas dos pés até á raiz dos cabellos, quando o -padre João disse para a Antonia com ar interrogativo e saboreando o caldo -com estalidos gulosos de lingua. - -—Ó moça, tu deitaste assucar no caldo!... - -Ao que ella respondeu, toda chieira: - -—É porque ó senhor, parece-lhe dôce tudo que eu façe. - -Marianna perdeu parte da consciencia e da vontade, ficando aniquilada, -entorpecida, desorientada, entre a idéa feroz de uma vingança justa e -o remorso, ou receio, de um crime que seria descoberto e punido! Não -teve resolução, nem desembaraço para nada! O ecclesiastico bebeu a -malga quasi de uma assentada, depois de ter comido a gallinha, com duas -enfusas de vinho rascante. A Ripa deixou-se caír desfallecida no chão -terreo! O sacerdote, acabado o jantar, saíu para ir levar _o Senhor_ a -uma moribunda. A amasia, tambem foi acompanhar Nosso Pae!... Ficou ella, -só, dentro d’aquella casa, entregue ao proprio cerebro! Um silencio -tenebroso cercou-a n’este terrivel momento!... N’uma especie de spasmo e -de embrutecimento cheio de medo, foi-se metter debaixo da palha, tapando -os ouvidos para nada escutar! - -Que medonhas horas ali passou, sob a impressão accusadora de todos os -factos que n’esse dia a interessaram. Horas depois, d’ali mesmo, ella -ouviu o alarido da freguezia, correndo em gritos a casa do ecclesiastico, -quando, quatro homens de béca, o traziam pelos caminhos n’uma padiola, -com a batina e o roquete todo rasgado! Tinha tido os primeiros engulhos -do envenenamento, quando ministrava á moribunda a Extrema Uncção, cercado -do respeito submisso dos fieis ajoelhados em volta! Depois, principiou a -sentir-se mais afflicto, sentou-se sobre uma caixa com os santos oleos -na mão, e, como as afflicções cresciam assustadoramente, suspendeu -com intelligencia a applicação do sacramento! Nem escalda-pés, nem -mesinhas receitadas pelo cirurgião Manco, poderam produzir o beneficio -desejado e, mesmo assim vestido sacerdotalmente, os homens que tinham -acompanhado o _Santissimo_ o trouxeram n’uma padiola para casa e o -poseram, sobre a cama, já sem falla! Os soluços, as ancias, os vomitos, -os gritos de dor que elle ainda teve, até ao momento de morrer, eram uma -eterna condemnação, para a negra alma peccadora de Marianna Ripa, que -os ouvia, escondida debaixo da palha! Se tivesse comsigo uma navalha, -durante aquelles instantes infernaes, tinha-a enterrado bem funda no -proprio coração, para se punir! Tamanho era o seu arrependimento e a -sua contricção, n’este momento unico, que desejou morrer ali mesmo de -uma morte repentina, bem medonha e horrenda! Mas depois, alta noite, -desapavorou-se mais, escutando as conversas vulgares do sachristão com -os outros homens, que ficaram a vigiar o morto e conversavam, riam e -escarravam alto, já muito bebados! Então saltou para os campos pelo -postigo do palheiro e fugiu, indo refugiar-se em casa do Rio Tinto, a -quem contou tudo, para se accusar. O primo serenou-a dizendo-lhe: - -—Mas elles não te viram, não, rapariga? - -—Não viram. Ninguem sabe que fui eu—respondeu soffocada. - -—Então bem, não tenhas medo. - -Mas a justiça sempre a prendeu, por simples desconfianças, fundadas em -que foi encontrado no chão da cosinha do padre, um tamanco que lhe -pertencia. Porém, como fôra creada na casa, facil foi explicar este -achado... O Rio Tinto, com o seu sangue frio é que a livrou da justiça, -jurando a pé junto, como um cavallo, que Marianna Ripa estivera todo o -dia em casa d’elle a sedar linho! Nunca poderia esquecer este grande -serviço que o primo lhe fizera! Sentia-se-lhe presa pela gratidão, -e quando elle lhe pediu para não ir com o Fogueira prometteu-lh’o, -promptificando-se ao mesmo tempo a saber ao certo o caminho que o -troquilha seguiria de Vianna para casa. Mas ainda assim, deve dizer-se: -impoz como condição, pediu muito ao Fanfarra e ao Rio Tinto, que o -não matassem, que não fizessem mal ao rapaz. Disculpava-o: era um -estouvado, um espanta lobos por acaso, mas tinha um bom coração—rapaz -de franquezas, nada era d’elle, tudo dava! O Rio Tinto serenou-a: não o -queria matar—sómente desejavam alivial-o da chelpa que lhe havia de fazer -peso no cinto. Para que queria elle, um rapaz solteiro e sem filhos, -tanto dinheiro, como o que lhe dera a mãe, da venda dos campos, e como -o que lhes ganhára ao _monte_?! De mais a mais era um burro tão feliz, -que até arranjára o _sustituto p’rá tropa_, por quinze moedas, quando, -todo mundo, gente mais pobre, tinha dado vinte. É bem certo dizer-se que -a agua corre sempre para o mar e que, quando se é feliz, é-se feliz a -valer! Aquillo estava mesmo a pedir uma alma de Deus que lhe tirasse a -_chelpa_!... - -A rapariga concordou. Receberia tanto como elles, pelos esclarecimentos -que obtivesse. Porém, insistiu, ainda uma vez, com afinco e honestidade, -em que não o matariam, em que o haviam de deixar ir em paz, depois de -lhe tirarem _o que levasse no cinto_!... O Fanfarra, porém com um rosto -ingenuo e sério, observou: - -—Isso lá, tamem... que não tire elle pela gente!... Quando lhe pedirem -_o milho_ que o ponha e que não bufe... Se assim quizer que vá com -seiscentos diabos, que ninguem lhe quer a pelle para tambor. - -O Rio Tinto observou sensatamente: - -—Ah! elle vendo que são dois resolvidos, não se ha de ir pôr com -_aquellas_... Olhem que isto de estar assim de noite, no meio de -um caminho só, onde nem todos os santos lhe podem valer se quizer -pimponices... faz respeito. - -E convieram em que, se elle se quizesse fazer fino, lhe iriam aos -untos, sem mais _aquellanças_. O melhor era elle deixar-se de asneiras; -porque lhe tinham uma sêde... lá do fundo. O Rio Tinto confessou ao -Fanfarra, quando não estava presente a Marianna Ripa, que com o Fogueira -ainda desejava ajustar _umas contas velhas_ e que talvez fosse esta a -occasião... E com um sorriso medonho, de copo em punho, observou: - -—Isso lá, se não dá os sobranos depressa, leva uma tapona real. - -—Melamos-lhe aquelle coiro!—acrescentou o outro com intimativa. - -Chegaram a combinar mais detalhadamente no modo como procederiam. Não -ignoravam que o Fogueira era têso, mas tambem não lhe tinham medo. Eram -dois. Bem armados, com as choupas dos seus páus argolados e com navalhas -de ponta e mola, que sempre usaram trazer no bolso interior da jaqueta -de briche, julgavam-se temiveis. No entanto, para não serem conhecidos, -cobririam as caras barbadas com lenços esboracados no sitio dos olhos e -da bôca e fallariam na voz tôrva dos salteadores das lendas! O caminho, -depois dos esclarecimentos da Ripa, era mesmo a calhar, e o Rio Tinto -conhecia-o perfeitamente. Por isso elle mesmo é que determinou o sitio -em que poderiam esperar o Fogueira. Era uma encruzilhada, onde havia uns -carvalhos que, nas noites sem luar, tinham o volume incomensuravel das -sombras phantasticas e pavorosas! O amante da Marianna passaria ali pela -meia noite, pouco menos... A escuridade, o sitio e a hora, concorriam -para o effeito d’esta scena de romance theatral. Só faltava a capa, o -_sombréro_ e o bacamarte para ser um quadro de Goya!... - -Os salteadores ensaiavam-se com antecedencia: sairiam de repente de entre -os velhos troncos nodosos e, mandando fazer alto, diriam imponentemente -com voz soturna: «Seu amigo, ponha ahi o que leva!» Se o desse por bem -e logo, deixavam-n’o com os demonios; se quizesse fanfar tirar-lhe-íam -o dinheiro á força e moer-lhe-íam o canastro. Disse-o claramente o Rio -Tinto com o seu rancor de mau homem: - -—Se bufa paga-mas todas juntas. Á gana que lhe tenho, ponho-o molle como -uma bosteira de gado! O bocado maior, não se ha de ver! - - -VII - -O Antonio Fogueira saíu, ao escurecer, de Vianna, com idéa de chegar, -na manhã seguinte, á sua freguezia, fazendo, assim, todo o caminho de -noite. Não havia luar e as estrellas, quasi tão vivas como nas limpidas -noites de inverno, diffundiam na amplidão luz sufficiente para, a -pequena distancia, se poder apreciar o vulto das pessoas, a grandeza das -arvores e dos penedos proximos. Quando elle saíu de Vianna, com muita -gente conhecida, dispediu-se da Marianna Ripa até á proxima feira dos -nove. Pelo caminho, os seus companheiros, foram dirivando para outros -destinos e, quando era pela volta da meia noite, o Fogueira caminhava só, -destacando-se, no silencio ambiente, como uma côr viva se destaca n’um -fundo escuro, o saliente resfolgar da sua egua, que trotava n’um passo -moderado e cadente, batendo com as ferraduras nas pedras avulsas do -caminho. A estrada que seguia era estreita, orlada de arvores copadas, -o que augmentava a escuridão... O Fogueira, apesar de não ser medroso, -sentia, em volta de si, um certo vasio que lhe dava uma sensação de -desamparo... de abandono!... Inconscientemente principiou a pensar n’um -mau encontro, a lembrar-se que lhe podiam vir ao caminho alguns ladrões, -se por acaso soubessem que o seu cinto ía tão bem recheado de soberanos! -Quando se surprehendeu dominado por estas idéas extravagantes, sorriu -incredulamente... Bem sabia não haver por ali ladrões, e que sómente, -uma ou outra vez, se roubava uma poçada de agua, para valer a algum -campo de milho, que se mirrava de secura. Mas dado mesmo o caso que lhe -apparecesse um ou dois ladrões!? Não era elle um dos melhores jogadores -de pau das feiras minhotas?! O seu lodam não tinha uma choupa de romper -um peito?! A sua egua não era bastante impetuosa, para abrir caminho -por entre um regimento de soldados, e bastante fugideira, para não ser -pilhada pelo melhor cavallo a toda-a-brida?!... Porém, como lhe veio esta -idéa esquisita de se lembrar de ladrões?! Como diabo lhe deu a caturrice -para ali?! Não sabia, mas a verdade é que lhe desagradou o encontrar-se a -pensar em _taes amigos_, quando era certo, que tinha o cinto atulhado de -dinheiro... No momento em que elle se sorria destas asneiras, chegava a -um pequeno largo, onde havia uns carvalhos antigos, cuja ramagem copada -lhe deu facilmente uma impressão amedrontadora, como a de uma igreja, ou -de um cemiterio que, n’uma estrada rural, se encontra desprevenidamente! -O silencio aqui era simplesmente interrompido pelo som metallico de uma -pequena fonte, que pingava junto de um muro. O Fogueira sentiu-se n’este -momento mais isolado, e, talvez, em virtude da impressão desagradavel que -este sentimento de desamparo lhe causou, attendeu com mais intelligencia -a tudo que o cercava. Um tremor incaracteristico, mas energico, -irradiou-lhe em todo o corpo; porque dois homens, dando largas passadas -de tragedia, de paus argolados levantados ao ar, se lhe opposeram com -arrogancia, dizendo com voz soturna: - -—Faça lá alto, ó seu amigo! - -A egua susteve-se logo, desconfiada, com um olhar inquieto, a cabeça -levantada, as orelhas espertas! O Fogueira estremeceu involuntariamente, -um formigueiro rabiou-lhe ao longo da espinha, ficando n’uma especie -de spasmo, depois de ouvir aquella voz rouca, avinhada, uma voz de -timbre seu conhecido, mas que, n’este momento, não podia dizer de quem -era... Toda esta scena rapida e inesperada, deu-lhe uma idéa pavorosa -de cousa sinistra, da intervenção do demonio nos successos da sua -vida, de acontecimento só explicavel em historias de bruxas!... Porém, -recuperando a serenidade, reconheceu que eram realmente dois homens -mascarados, que se lhe oppunham no caminho e que deveria por força ser, -para o roubarem... Seguindo o proprio instincto, tirou o seu pau ferrado -de entre a perna e o albardão, levantou-o para elles com arrogancia e -dizendo «qual alto, nem meio alto!» esporeou energicamente a egua, -para romper com velocidade por entre os dois mascarados. O animal, que -era fino e sensivel, deu um corcovo, indo esbarrar-se contra uma corda -que estava intensionalmente atravessada no caminho e, o Fogueira, ficou -desmontado; mas com tanta felicidade que, quando os aggressores íam a -caír sobre elle, encontraram-n’o de pé, fazendo-lhes face, com o páu em -guarda, emquanto que, a distancia, se ouviam as ferraduras da sua egua -batendo nas lages da calçada. - -Este momento de silencio foi tenebroso! Havia dois homens contra um, na -escuridade indicisa de um caminho orlado de arvores, que se definiam no -ar com os seus enfolhamentos volumosos e espessos! O Fogueira esperava um -ataque simultaneo da parte dos salteadores, e já calculava defender-se, -de costas contra o muro, sustentando-se assim até poder _bimbar_ o -primeiro, para depois se encontrar com o segundo que accommetteria com -força. Mas um dos mascarados, baixando o páu com desdem, disse n’uma voz -trocista de compaixão, para lhe mostrar que o tinha comprehendido: - -—Home, não te faças fino, que te enganas. Deita ahi a marmelada que levas -no cinto e vae-te c’os demonios, se não póde-te saír a cousa torta! - -Esta intimação ironica e despresadora offendeu, mais do que tudo, o -Fogueira, insufflando-lhe uma energia raivosa contra os dois aggressores. -Não o conheceriam elles?! Não saberiam que era o melhor jogador do pau -das feiras minhotas?!—disse comsigo este sanguineo estouvado! Pois -estavam em momento de o experimentarem!—pensou n’um silencio rancoroso -e indomavel. E logo depois, n’um impeto leonino e sem tatica, cresceu -aggressivamente para ambos, tomado de um frenesi tão diabolico, que os -fez recuar alguns passos n’este primeiro ataque. O Rio Tinto disse-lhe -com uma voz já menos disfarçada, aparando-lhe as pauladas: - -—Ah! queres á valentona?!... Vamos então lá a ver!... - -Houve um instante de hesitação, um momento instinctivo de pausa, em -que de parte a parte se pensou rapidamente em accommetter com a maior -energia. O Fogueira era bastante conhecido, como jogador temivel. O Rio -Tinto e o Fanfarra sabiam-n’o melhor do que ninguem; porque muitas vezes -se tinham encontrado emparceirados em desordens e, talvez n’este momento, -se lembrassem que, um d’elles, devia á presteza e generosidade d’este -valente rapaz, não ter ficado morto _no S. Sebastião de Villa Nova_!... -Porém, apesar d’isto, no momento actual, elles eram dois contra um! A -enorme sêde de vingança, e a natural maldade e valentia incontestada dos -dois salteadores, davam-lhes reconhecidas vantagens. O Fogueira, ainda -que fóra de si, já tinha conhecido _pela guarda_ dos adversarios que -elles _sabiam do negocio_:—reconheceu que eram _jogadores_. Mas o seu -natural impetuoso e imprevidente levou-o a saír da defeza, com o fim de -os atacar, e com a idéa de fazer a um d’elles, a sua _finta_ predilecta á -bôcado estomago; empregando, ainda assim, _muito olho_ para não perder a -protecção do muro, que lhe guardava as costas. Na soturnidade da noite, -profunda e cava, por entre os espessos troncos de carvalhos folhosos, -no meio do silencio imponente das montanhas visinhas que se levantavam -na amplidão, ouviam-se os estalidos seccos e breves dos paus, batendo -uns nos outros, por entre as respirações de cançaço cortadas de palavras -injuriosas e cheias do rancor dos combatentes! No escuro, a que elles já -tinham habituado os olhos, os seus corpos furtavam-se habilmente _aos -golpes_, saltando de lado para lado, sempre n’uma incerteza de posição! O -Fogueira, como era só, precisava empregar maior esforço e tal raiva que, -no fim de cinco minutos, fez saltar o pau do Rio Tinto, para lhe atirar -a pontuada ao estomago! Este porém, como lhe conhecia bem o jogo, deu um -largo salto de recuo e, em vez de ir buscar outra vez a sua arma, metteu -rapidamente a mão ao bolso interior da vestia, tirando a sua comprida -navalha que abriu de prompto e disse na voz natural: - -—Agora ha de ser com esta. Ataca com força rapaz!—gritou ao companheiro. - -Principiou um d’esses momentos terrivelmente sinistros, em que entre -dois homens se estabelece esta negra idéa—de se matarem um ao outro! O -Fogueira conheceu immediatamente o perigo, quando viu faiscar a lamina -da navalha, que mesmo á luz tibia das estrellas brilhára aos seus olhos, -como um relampago! N’esta lucta obscura, que se passava no silencio -de uma noite de primavera e na tranquillidade de um caminho rural, -havia muita ferocidade condensada! O Antonio Fogueira tinha, até ali, -sustentado os ataques dos adversarios; mas, agora, para se furtar á -navalha de um assassino, só o poderia conseguir inutilisando o Fanfarra, -que o ensarilhava de cada vez mais, fazendo-lhe um jogo de mil demonios! -Por isso, com a ligeireza de um cabrito montez, saltava para a direita, -para a esquerda, para a frente, para traz... evitando os dois inimigos -que o procuravam com pertinacia... com furia! O Rio Tinto praguejava, -ameaçava-o com voz rouca... quasi natural... O Fogueira tel-o-ía -conhecido em outras circumstancias; mas, em momento tão apertado, -nem reflexão tinha para isso... As forças eram desiguaes... o filho -da Engracia enfraquecia-se visivelmente, e a elle, que era corajoso, -veio-lhe a idéa de um soccorro providencial... Sentia-se já extenuado e -aggredido de cada vez com mais tenecidade, com mais rancor, com maior -impeto! Aquelle que o procurava por todos os modos, para o anavalhar, -pronunciou com voz clara, já sem pretensões de disfarce: - -—Agora Fanfarra, deixa-me c’o elle!... - -E logo em seguida, o Fogueira, sentiu-se abraçado pelo seu inimigo, a -quem desmascarou no instante em que a comprida navalha lhe entrava no -coração, rasgando-lh’o com tal força, que só teve tempo de dizer n’um -suspiro final: - -—Ah! ladrão de Rio Tinto, que me matastes! - -Foi este o ultimo grito de angustia e as ultimas palavras que -proferiu!... O seu corpo deixou-se caír no chão, desfallecido, com os -braços pendentes e o sangue a golfar-lhe pela ferida e pela bôca! Ainda -teve alguns movimentos convulsivos, acompanhados de um rouco respirar -stertoroso, com borbulhões de espuma sanguinea pelo nariz! A sua energia -ainda manifestou um instante de louca rehabilitação, pertendendo, -aquelle corpo moribundo, levantar-se sobre os joelhos! Mas a final caíu -brutamente, ficando exanime, insensivel, de bruços sobre a terra!... - - * * * * * - -O Rio Tinto e o Fanfarra conservaram-se, durante um longo minuto, -a olhar para o cadaver, silenciosos, estupidos, n’uma impotencia -inexplicavel, quasi sem poderem fugir! Sentiam-se agora mais covardes, -mais irresolutos, depois de consummado o crime! Não tendo uma precisa -comprehensão das circumstancias, esperavam, um tanto passivamente, -qualquer castigo que viria do alto, de uma implacavel região de justiça, -para os punir!... Alguem que, por casualidade, os tivesse visto, poderia -aproximar-se sem que elles se escondessem; pois que, durante este minuto -sinistro, conservavam-se sisudos, calados, a olhar um para o outro, -com os braços pendentes!... Mas, logo depois, o Rio Tinto, que era -mais preverso e malvado, recuperando com certa promptidão a sua podre -consciencia, disse, em voz insultante, para o cadaver: - -—Ora ahi tens!... É assim que se ensinam os pimpões!... - -E permanecendo algum tempo com o ouvido á escuta, para que alguem se -não aproximasse inesperadamente, observou em seguida ao Fanfarra que, -dominado por um terror supersticioso, escutava o som metallico da agua da -fonte: - -—Não tenhas medo... Não é ninguem... É ali a pingar... - -Porém, como o Fanfarra, ainda se conservava n’esta insensibilidade -estupida e incomprehensivel, o Rio Tinto dispertou-o dizendo-lhe, com um -acêno imperativo de cabeça: - -—Então?! - -O outro troquilha encolheu os hombros, com certo desleixo, indicando que -fizesse elle o que quizesse, que estava prompto para tudo... O assassino -do Fogueira, dando movimentos desengonçados ao tronco e á cabeça, -proferiu com certa ironia feroz e temivel, condemnando aquelle estado de -arrependimento: - -—Ora põe-te com _aquellas_. Talvez ainda lhe tenhas medo. Olha que já se -não mexe...—concluiu impellindo o cadaver com um pontapé. - -E, logo, curvando-se sobre o corpo ainda quente, desafivelou-lhe o cinto -que suspendeu no ar, tilintando escarnecedoramente com o dinheiro, e -rematou n’uma voz de contentamento miseravel: - -—Ouvel-os? Cá cantam?! Fazem um certo arranjo. - -O sangue ensopava a terra, jorrando em borbotões ruidosos pela bôca do -cadaver e pela ferida! O Rio Tinto, tendo guardado o roubo, observou com -modo mais familiar, pondo a mão no hombro do companheiro, que permanecia -na mesma apparente insensibilidade: - -—Agora... pernas para que vos queremos. Toca a andar, que póde vir por -ahi algum patrão!... - - * * * * * - -Retrocederam pelo mesmo caminho, primeiro n’um passo rapido, depois a -fugir, o Fanfarra atraz do Rio Tinto. Tomaram á esquerda, por um atalho -pouco frequentado, que os devia levar, atravez de uns montes, a outra -estrada... - -O Fanfarra, quando já estava mais seguro de si, parou subitamente, para -considerar: - -—Olha lá... Ficaria elle bem morto?! - -O Rio Tinto certificou-lh’o do seguinte modo: - -—Deus te dê mais vida do que elle tem! - -Mas o Fanfarra, visivelmente preoccupado com esta idéa, como estavam -muito perto disse: - -—Home... ainda é escuro... Voltemos a espreitar se elle se mexe! - -E voltaram n’um passo rapido, melhor seguros de si, com a alma mais -desanuviada e perversa. Ficaram a pequena distancia, de traz do muro, -escutando... O silencio prolongava-se preguiçosamente na profundidade -do valle. Sómente o pingar monotono da fonte proxima perturbava este -alvorecer indiciso, que os passaros já principiavam a alegrar. Os -assassinos, para se certificarem positivamente da morte do Fogueira, -e como a escuridade ainda os protegia, saíram do logar onde se tinham -prudentemente escondido e aproximaram-se do cadaver, com certa ousadia e -confiança. O corpo continuava a jazer exanime, de bruços sobre a terra! -Não tinha o menor signal de vida—nem sequer perturbava o silencio da -noite, com a respiração tenue do moribundo! - -O Rio Tinto, empurrando outra vez o cadaver despresivelmente com o pé, -pronunciou com um sorriso cynico: - -—Estás bem morto! Pagastel-as todas. Já não comes mais brôa. - -O Fanfarra, que era menos animoso, observou-lhe com certo modo urgente: - -—Home, deixa-o lá, coitado! Fujamos nós, que já se vae vendo!... Pode vir -por ahi algum demonio... - -O Rio Tinto concluiu com uma intonação trocista: - -—Aposto que tens pena d’elle!... Ou é medo?!... Não tenhas medo; nem -elle, nem os que podem vir te prendem. Se algum pimpão ahi apparecesse -agora, fazia-se-lhe o mesmo e eram dois que ficavam estendidos. - -Depois afastaram-se do cadaver e do caminho que tinham trazido de Vianna, -por atalhos seus conhecidos. D’ali a poucos minutos, transpunham o cabeço -sobranceiro á estrada. O Rio Tinto concluiu com serenidade: - -—Agora é que é bom dar á perna, que _ella_ vae-se mostrando... - - * * * * * - -Referiam-se á manhã que rompia, com uma claridade roxa. Era o alvorocer -de um formoso dia de sol. As cumiadas dos montes circumvisinhos -ainda se esfumavam indicisamente no azul; porém, o tremulusir das -estrellas que fôra, durante a noite, vivo e inconstante, como o dos -brilhantes nos bailes da opulencia mundana, principiava a extinguir-se. -O ar sadio e oxigenado dos campos, dava ao corpo dos madrugadores a -sensação macia de uma ligeira humidade refrigerante. Dos pinheiraes e -das mattas de carvalhos, já saíam os gaios ralhadores, com o seu vôo -largo, annunciando, por cima das penedias, o dia que chegava. Os braços -enfolhados das arvores nascidas nas eminencias, recortavam-se no céu, -tenuemente anillado, manchando-lhe a pureza. A modo que o dia se ía -illuminando melhor, as arvores e as massas de penedos destacavam-se, com -mais precisão. Da côr roxa primitiva, o céu, foi insensivelmente passando -para a côr de rosa, depois para o azul plumbeo, por fim colorindo-se todo -por igual, quando as estrellas já se não percebiam, adquiriu o verdadeiro -tom de azul ferrete, uma côr humida e energica, propria das manhãs de -primavera no clima do Minho. O nevoeiro tenue, como um gaze lançado sobre -os montes e os campos, foi se pouco a pouco condensando no fundo do -valle. A vida laboriosa dos trabalhadores ía manifestar-se nos caminhos -e nas encostas. Seria um dia alegre como todos os dias,—os milhos -continuariam a crescer, e as poucas cearas de centeio pintar-se-iam com -o amarello da ganga... Porém, n’este pequeno largo plantado de velhos -carvalhos annosos e onde uma pobre veia de agua pingava continuadamente, -estava disposta uma surpreza desagradavel, para o primeiro madrugador da -aldeia. Era o cadaver de um rapaz de vinte e tantos annos, assassinado -com uma facada, que lhe entrára no coração! O seu corpo estava de bruços, -no supremo abandono da morte! O sangue saído da ferida, molhava a terra -e manchava-lhe a cara. E, a vivificante luz da manhã, o orvalho que -refrigéra, as côres da paizagem que enebriam pela complexidade de tons... -essa força omnipotente que vem da natureza, pairava sobre o morto, com um -scepticismo ironico e dominador!... - - - - -A MORTE NEGRA - -A ALEXANDRE DA CONCEIÇÃO - - - - -A MORTE NEGRA - - -O terceiro marido de Isabel morreu de uma prolongada _queixa de peito_. -A viuva, que era uma rapariga de vinte e seis annos—saudavel, tentadora, -appetitosa—de uma forte carnação campesina, com a intensa vitalidade -das naturezas creadas em liberdade, poderia definhar-se em virtude de -tão successivas desillusões! Porque ella, que passára os ultimos tempos -em despezas de casamentos e de enterros, estremecendo com afinco e -tenacidade, cada marido recente, tinha de o prantear logo depois, com -um tal apparato de palavras inconsolaveis, que sensibilisava todas as -pessoas que a ouviam, obrigando-as a tomar parte na sua enorme dôr! - -Quando acabou de expirar este ultimo, o José Chibante, Isabel principiou -a choral-o, com um desespero tão desgrenhado, que até a propria -natureza austera e muda—as altas arvores, os altos montes e os negros -penedos—pareciam compungidos! - -Estava-se na primavera, mas durante muitos dias caíra um aguaceiro -copioso e subtil, que dava, ao socego das cousas naturaes, um caracter -funerario e lugubre! As densas paizagens, envolvidas d’um nevoeiro -espesso, não se viam cortadas, ao longe, pelas alegres claridades das -habitações. A linha irregular do horisonte não se riscava no azul das -tardes serenas e desejadas. O grosso volume das penedias occultava-se nas -densas nuvens, que se rasgavam, transpondo montes, transpondo valles, -correndo sempre, com uma impassibilidade gigantesca, como de valentes -cavallos de posta. - -Ora Isabel, viuva pela terceira vez, sentira durante a noite o som -ululante do trovão, e presenciara os ultimos momentos angustiosos de -seu marido agonisante, encostado ao catre da cama!... Ella, que era uma -rapariga forte e com as seducções da belleza e da juventude, sentia-se -aniquilada! Exprimia-o com gritos angustiosos, com gestos vehementes, com -palavras de desespero, de amor, de saudade!... As suas boas lagrimas, -abundantes, sinceras e quentes, tinham attraído, logo de manhã, a -caridade de algumas visinhas, que lhe trouxeram as melhores consolações, -excellentes palavras, attenções urgentes... n’aquelle momento doloroso. -Eram amigas e companheiras nos trabalhos ordinarios da lavoura, e que -tinham igualmente assistido, ao caminhar implacavel da _consumpção_, -em que haviam morrido os outros dois maridos de Isabel!... Por isso -conheciam muito bem o que se passava, e, quando ouviram os primeiros -gritos alarmantes, fecharam as portas, e pelo caminho para casa da viuva, -consideravam cheias de tristeza: - -—Então sempre se foi o Chibante?... - -—Parece que sim, mulher! Ha pouco mais de um anno que se casaram! Quem o -havia de dizer... um rapagão como um castello!... - -Uma disse com um modo indagador: - -—Eu não sei o que isto é... mas tanto elle como os outros, passante o -primeiro mez de viverem com ella, logo arranjaram taes caras de bruxaria -que mettiam medo!... - -Lindoria, com aspecto compadecido, teve esta opinião: - -—Olhae que eu _tamem_ tenho pena da rapariga! Digam o que disserem, ha de -lhe custar... Tão nova, e já com tres mortes... - -—Ora!...—duvidou uma terceira, encolhendo os hombros. A culpa de quem -é?!.. É minha?! - -Lindoria, que andava sempre por casa de Isabel, interferiu para não -deixar concluir: - -—Deixae-vos de asneiras... Eu bem sei o que lhe vae lá pelo coração. Ella -é uma apegada aos homens!... - -—Pois sim—disse uma das companheiras; mas isso é o que não devia ser!... - -E caminhando juntas, uma rematou esta conversa dizendo com naturalidade: - -—Isto assim não tem geito. Isabel não deve casar mais vez nenhuma. - -Entraram na casa da viuva do Chibante, que estava sentada na lareira, -com a cabeça energicamente apertada entre as mãos, chorando com desespero. - -As suas amigas, para a socegarem, disseram-lhe com os olhos enxutos -«que não se affligisse mais, que aquillo foi vontade do Senhor que tudo -manda». E acrescentavam com fé e confiança na Infinita Misericordia: - -—Olha que elle ha de estar em bom logar!... - -—Deus vos ouça, Deus vos ouça... Ao menos que Nossa Senhora o tenha no -reino dos céus!...—repetia muitas vezes Isabel. - -As outras certificavam-lhe: - -—Ha de ter, ha de, rapariga. Ao que elle penou n’este mundo... - -—Não que eu lhe desse má vida! Como vós sabeis trazia-o sempre nas -palminhas!... - -Lindoria concluiu, sorvendo uma pitada: - -—Aquem tu o vens dizer, mulher! Era um Santo Antoninho onde te porei. - - * * * * * - -Depois de conversarem algum tempo familiarmente, foram á cama ver o -defunto! Estava escondido por um lençol; mas ellas descobriram-n’o -com certa naturalidade, talvez mesmo com irreverencia... Viram-n’o -bem, miraram-n’o por todos os lados: o José Chibante, já composto, de -costas sobre a cama, tinha os punhos atados sobre o peito, e um lenço -_amarrando-lhe_ as maxillas, para se conservarem n’uma posição decente. -Essa alvura do panno que lhe enquadrava o rosto augmentava-lhe a lividez; -as palpebras, cuidadosamente cerradas e presas por um pingo de cêra, -accentuavam o ar sereno e grave do cadaver, que todas viam n’uma posição -reflectida, com as pernas estendidas e os pés levantados no fundo da cama. - -—Eu não sei como pódes fazer isto... Eu cá se me morresse o _home_ é que -o não vestia—disse uma para a Isabel. - -Ella respondeu com voz commum, interrompendo momentaneamente o chôro: - -—Pois então?! Ninguem faz estas cousas melhor que a gente. Nós é que -sabemos, como elles gostavam de se arranjar... - -Porque a camisa de altos collarinhos lavados e as calças de panno azul, -tinham sido vestidas ao marido, por sua propria mulher, que lhe quiz -fazer este ultimo asseio, o asseio da eternidade! O defunto estava quasi -prompto, para a sua festa de enterro. Uma das amigas de Isabel exclamou -sinceramente: - -—Mas vae bonito e asseiado! Olha que te parece mesme vivo!... - -Ella esclareceu, com a sua voz usual, limpando as ultimas lagrimas: - -—Leva para a cova a roupa da bôda. Já aos outros dois homes, que Deus -Nosso Senhor teve na Sua Divina Vontade tirar-me, fiz o mesmo. Tenho -muita _aquella_ em que elles vão sempre para o outro mundo como uns -cravos! - -E concluiu, dizendo que o seu José seria vestido de _terceiro_, porque -era _irmão d’esta ordem_, e ficava-lhe muito bem o habito, com a sua côr -parda e o cordão novo em volta da cintura, caíndo-lhe as borlas sobre -os pés... Lembrava-se muito bem, de quando elle caminhava na ultima -procissão de Passos, alinhado cuidadosamente com os outros companheiros, -levando uma tocha na mão, muito sério, já com a sua cara magra e doente, -amparada nos altos collarinhos da camisa, que agora lhe vestira para o -enterro. E, indo á caixa grande buscar o _habito de terceiro_, estendeu-o -para o verem bem, e disse que o defunto estimava muito aquelle rico -traste, que quando era vivo, muitas vezes dissera, ter desejos de o levar -para a cova. Por isso Isabel rematou com intimativa: - -—Ha de ir á vontade d’elle. Quero-lh’a fazer até á ultima, porque elle -tambem sempre foi muito bô para mim. - -—Fazes tu muito bem—incitavam fortemente as companheiras. A gente, quando -o seu home é bô, deve-lhe sempre andar ao geito. - - * * * * * - -Uma das amigas da mulher do Chibante foi procurar o Coruja para vir -arranjar o habito ao defunto, por que a viuva, attendendo a que sempre -era uma cousa benzida, n’esse particular mantinha os seus escrupulos... -O coveiro chegou resmungando, e disse palavras desgostosas e insolentes, -quando viu o morto quasi prompto. Depois, assobiando canto-chão, e -bebendo de uma infuza de vinho, acabou de o arranjar ageitando-o dentro -do esquife cuidadosamente, com esmero, compondo-lhe o lençol _rebicado_, -e endireitando-lhe a cabeça n’uma posição natural. Logo que isto foi -concluido, Isabel e as suas amigas, principiaram a gritar mais alto, com -um chôro ganido e espantado, andando em volta do esquife!... O vesgo e -cambado Coruja, com os seus arremessos grutescos e irregulares, depois de -se ter rido ás gargalhadas, disse de um modo brusco e malcreado, fazendo -carantonhas, com a lingua de fóra: - -—Por um olho azeite, por outro vinagre, minha corja de mandrongas!... -Quem vos não conhecer que vos compre! - -E, referindo-se especialmente a Isabel, acrescentou: - -—Já trazes outro de olho?... - -As mulheres, offendidas, responderam indignadamente: - -—Cala-te, bebedo!... - -—Olhem o grandissimo borracho!—acrescentou com accento desprezivel a -beata Lindoria. - -Depois, como o chôro de Isabel se continuava de um modo intenso, e, as -suas amigas, pelo que tinham visto das outras vezes, sabiam que lhe fazia -mal, produzindo-lhe ataques em que parecia possuida do demonio, uma -d’ellas principiou a amesquinhar-lhe o acontecimento, a apresentar-lh’o -como um successo natural e simples... - -—Olha que não ficamos cá. Cuidas que alguma de nós fica n’este -valle-de-lagrimas?!... Estás muito enganada. Tu has de morrer, eu hei de -morrer... todas nós havemos de morrer... Um dia toca o sino para esta... -outro dia para aquella... é o mundo! - -E Lindoria, com um aspecto vulgar e pouco sensibilisador, para mudar de -conversa, opinou chegando-se para o esquife, a sorrir: - -—Mas o que elle te vae é muito lindo! Pódes ter essa gavança, mulher! -Faz gosto olhar para elle. Ninguem ahi põe um defunto na igreja, tão bem -arranjado, como tu. - -Isabel respondeu: - -—Lá isso, hei de fazer sempre assim, emquanto Deus me der vida e saude... - -Passado certo tempo, quando todas as idéas tristes pareciam distantes, á -Lindoria, que tinha confiança na casa, veio-lhe a lembrança sensatissima, -de que Isabel precisaria de comer... Por isso lembrou-lhe: - -—Tu has de estar por força fraca e esse chorar faz-te mal... póde-te caír -no coração. - -A viuva recusou-se teimosamente, dizendo que não lhe entraria nem uma -bucha de pão na boca... parecia-lhe que tinha comido o seu ultimo -bocado... e, fallando em morrer, o seu desespero era enorme e as palavras -afflictivas!... - -Porém, Lindoria, muito prudente, dizia reprehensiva e com auctoridade: - -—Estás tola, rapariga! Não querer comer!!... São lá cousas que se digam! -Olha que até offendes ao Senhor, que te creou!... A gente deve fazer bem -ao seu corpo, para poder louvar a Deus, e engrandecer a Sua Infinita -Misericordia... - -E acrescentou, depois de se assoar com estrondo: - -—... Ouvi estas verdades da bôca d’aquelle santo missionario que ali -esteve em Refuinho, e que teve artes de levar para o reino da gloria -a Rosaria do Thomaz do Monte... Sabeis que _ella_ já vos faz tantos -milagres que, aos domingos, é uma romaria n’aquella igreja?!.. - -Com esta auctoridade e saber, sem mesmo consultar a viuva, Lindoria -combinou com as outras mulheres, para arranjarem _alguma cousa_ que -Isabel podesse comer—alguma cousa que chegasse para ellas tambem, porque -se sentiam com bastante fraqueira. Como era no tempo da matança dos -porcos, uma, que morava mais visinha da viuva, foi-lhe arranjar uns -rojões e trouxe-os, acompanhados de uma boa infuza de vinho... N’uma voz -convidativa e discreta, pronunciou estas bôas palavras, logo ao entrar da -porta: - -—Vamos a elles, emquanto estão quentes e não vem por ahi alguem á agua -benta... - -—Tens rasão, tens—confirmou a prudente Lindoria, com aspecto guloso. - -Isabel, nos primeiros momentos, absteve-se, dizendo com a mão apertada na -garganta: - -—Esta (a morte do Chibante) não me passa d’aqui. Agora é que fico para -toda a vida... O que eu tenho passado em sete annos!... - -Era o tempo que lhe tinham durado os tres maridos. - -Uma das mulheres, prudentes e sensatas, que a cercavam, disse-lhe: - -—É isso verdade rapariga. Rasão tens tu. Mas se é vontade de Deus, que -lhe has de fazer?!...—interrogou de cara alta. Sem comer é que não somos -nada n’este mundo, e, como te disse aquella (referia-se a Lindoria), até -offendes a Deus com essas palavras desagradecidas!... - -A _beata_, confirmou mais uma vez, esta sua opinião, repetindo: - -—Ah! isso offendes e muito! Eu que t’o digo é porque o sei. -Mas—rematou—vamos aos rojões, antes que arrefeçam. Frios não prestam. - -E para incitarem a viuva do Chibante, para lhe quebrarem os ultimos -melindres, principiaram ellas a comer com a mão, e a beber todas pela -mesma infuza. - - * * * * * - -O morto estava deitado no esquife, vestido com o seu habito de -_terceiro_. A côr escura do seu rosto e o pardo da mortalha sobresaía... -destacava-se da brancura do lençol de panno engommado, que tinha nas -ourelas recortes vistosos. As pernas do defunto estavam alinhadas, e as -mãos, sobre o peito, agarravam um ramo de oliveira; e no rosto, pallido -e soffredor, a dolorosa expressão dos que têem sentido dolorosamente -fugir-lhe o ultimo alento de vida!... Á cabeceira do esquife, sobre -uma velha caixa de pinho coberta por uma toalha, estava um crucifixo, -com duas vélas dos lados; aos pés, a caldeira da agua benta, esperava -os amigos do finado, que tinham de vir espargil-o com o tosco hyssope, -depois de lhe terem resado pela alma, que n’aquelle momento já devia -pairar nas regiões incomprehensiveis!... N’aquelle cadaver livido, todo -podridão e um proximo repasto de vermes insaciaveis, havia a suprema -serenidade da morte—impassivel, austera e absorvente!... - -Isabel, depois dos reiterados convites das suas amigas, principiou a -comer com moderação e, ao parecer, com pouco appetite. - -—Isto é para vos fazer a vontade; porque não me passa d’aqui—dizia, -indicando a parte superior do esophago. - -Lindoria, com um bom humor descrente, incitava-a: - -—Entra-lhe mulher, anda-lhe... Tu não te has de deixar ir assim para a -cova... _como elle_. Se Deus, na sua infinita misericordia t’o roubou, -não é rasão para que vás pelo mesmo caminho. Por isso, come-lhe e -bebe-lhe que é o melhor que tens a fazer. - -E, olhando sagazmente para os lados do caminho, acrescentou com voz -familiar e sem imposturas desnecessarias: - -—Por ora não vem ninguem... Pódes engulir o teu bocado sem medo. - -Mas, pouco depois, quando mastigavam, silenciosas, resignadas e com -vontade, sentiram passos de alguem que se aproximava!... Todas deglutiram -rapidamente o que tinham na bôca!... Uma d’ellas, com mais sangue frio, -metteu no forno, com precipitação, o prato dos rojões, mas deixou, -imprevidentemente, a porta aberta. Lindoria, por seu lado, escondeu com -sagacidade, a infuza do vinho debaixo de um banco, sentando-se logo por -cima d’ella, para a ter melhor escondida com as saias espalhadas. Por -fim, como se tivesse havido qualquer convenio anterior, compozeram os -semblantes n’uma expressão de tristeza, tomaram attitudes chorosas, e, -fingindo a continuação de uma conversa, fallavam com lagrimas no caso -presente, lamentando as amigas de Isabel, esta perda do _seu homme_, -procurando dar-lhe as melhores consolações que em taes momentos se podem -desejar!... - -Os passos que se tinham sentido, eram os do velho Agrella, que vinha -resar pelo morto. O alfaiate entrou com face respeitosa e compungida! -Resou cordatamente, com sinceridade, e, em seguida, entrou no circulo das -creaturas que ensinavam Isabel a resignar-se, trazendo-lhe, elle tambem, -as suas palavras de coragem... - -A mulher do José Chibante ouvia tudo n’um recolhimento sensato, -com intermittencias de sentimentalidade:—umas vezes chorava alto -lamentando-se do só que ficava, achando-se enormemente infeliz e -desgraçada; outras, entrava socegadamente em detalhes, em referencias, -em particularidades do modo como vivera com José, rememorando as -circumstancias em que lhe fizera, a ella, as vontades mais exigentes e -caprichosas... Era doloroso e sympathico ouvil-a exprimir-se d’este modo, -ácerca do terceiro marido que lhe morria!... - - * * * * * - -No entretanto, um gato preto da visinhança, entrava pela porta dentro -sem ser persentido e principiou a observar minuciosamente toda a casa, -revolvendo com lentidão os seus olhos redondos e luminosos. Parecia -attraído por algum motivo; porque, n’aquella serenidade do seu olhar -sagacissimo, conhecia-se-lhe um proposito, um fim... Primeiro attendeu -minuciosamente para o esquife, andando duas vezes em volta para se -certificar. Depois, aproximou-se das mulheres que choravam, aproveitou -do chão uns restos de comida e sentou-se para lamber socegadamente um -osso despresado. Por fim, sempre devagar e cauteloso, dirigiu-se, com a -imperceptibilidade de uma sombra, para junto do forno... Levantou com -mansidão a cabeça e averiguou olfativamente. Sem duvida que foi depois -de ter chegado a uma conclusão do seu demorado raciocinio, que o gato -se firmou nas patas trazeiras, arqueou o corpo, estendeu-o, retesou-se, -e, fazendo um salto, entrou pela porta aberta do forno... onde tinha -sido escondido o prato da comida. Pouco depois voltou, saltou para o -chão, trazendo um rojão que pousou socegadamente junto do esquife e ali -principiou a comel-o, com o sofrego appetite de um golutão... - -O Agrella começou por observar este facto com serenidade. O gato preto, -logo que acabava de comer um rojão, levantava-se lambendo os beiços, e, -sorrateiramente, ía buscar mais, que vinha mastigar junto da caldeira -da agua benta. O alfaiate, por este signal, percebeu immediatamente -tudo quanto se teria passado, antes da sua chegada desagradavel e -inconveniente!... A infuza que depois lobrigou debaixo do banco, apesar -de Lindoria procurar escondel-a á sua sagacidade, espalhando as saias, -completou-lhe o quadro. Porém, o seu rosto foi impenetravel, e, como se -nada tivesse visto, continuou a seguir a linha das lamentações, fallando -das qualidades excellentes do homem de Isabel, recordando casos que com -elle lhe tinham succedido, avivando memorias de tempos passados... E de -tal modo e com tal compuncção o fazia, que a propria Lindoria—a raposa -sagaz da aldeia—sentiu-se dominada pelo tom plangente do Agrella... - -A velha beata, compungida e lacrimosa, era quem mais salientemente -reclamava as boas palavras, os elegios e as lagrimas para a memoria -do defunto, que ali estava, serenamente deitado n’aquelle esquife. -Ao mesmo tempo que lamentava os incalculaveis estragos da morte, ía -reparando... percebendo... apopletica de raiva, que o malvado do gato -preto entrava no forno repetidas vezes, trazendo sempre rojões, que vinha -comer, impunemente, mesmo junto do esquife. N’um momento, já impaciente -e nervosa, não lhe soffrendo o animo consentir que o animal vivesse -momentos tão felizes n’uma impunidade odiosa, lançando olhares furtivos -ao _ladrão_, pronunciou com voz lamentosa uma d’essas phrases equivocas -da linguagem popular, por meio da qual desejava denunciar ás companheiras -imprevidentes, aquelle roubo inqualificavel: - -—_Ah! morte negra, morte negra! que assim os vaes levando um e um!_ - -Queria decerto que o Agrella entendesse que se referia aos homens -fallecidos; porém o velho, alfaiate, ouvindo isto, levantou-se sereno e -talvez indignado!... Baixou-se sobre o banco, pegou na infuza de vinho -escondida, e estendendo-a a Lindoria, disse-lhe n’uma voz compungida e de -um comico ardente: - -—Pega lá mulher... _Aquelles defuntos_ do que precisam é d’esta agua -benta. Benze-os com esta agua benta, ó Lindoria!... - -E dirigindo-se para a porta, disse do limiar com um desdem rancoroso: - -—Corja de bebedas! Boa tranca, por essas costas! - -E saíu socegado para o caminho. Lindoria veio até á soleira, com o -fim de o amansar, de o adquirir para o convivio das suas amigas. Por -isso chamou-o com uma voz convidativa, attraente e cheia de confiança, -piscando-lhe um olho: - -—Ó Agrella!... Agrella!... Anda cá pedaço de tratante... Andá cá -maroto... comer alguma cousa... - -E, como o velho alfaiate se voltou para lhe responder, ella, julgando-o -dominado, repetiu, mostrando-lhe a infuza: - -—Olha que é do da tenda. Boa pinga, verás... - -Porém elle, ao riso conciliador e ás boas palavras de Lindoria, respondeu -simplesmente com _um gesto_ dizendo: - -—Olha... - -E distanciou-se com passo natural. - - - - -O ENTERRO DE UM CÃO - -A MACEDO PAPANÇA - - - - -O ENTERRO DE UM CÃO - - -I - -O velho Coruja, o coveiro, _o bom amigo dos mortos_, tinha pelo seu -pequeno cão, uma affeição pura e desinteressada. - -O _Coisa_ acompanhava-o em toda a parte, com uma fidelidade insistente: -nos enterros apparecia cansado, reflexivo e de cabeça baixa; no -palheiro, onde ambos dormiam, deitava-se junto d’elle, corpo a corpo, -como um companheiro familiar; nas diversas cosinhas das casas ricas da -visinhança, onde o coveiro apparecia ao meio dia, sempre se mostrou -submisso, quieto, esperando pacientemente que lhe dessem a sua brôa e as -rapaduras do pote do caldo de farinha. - -O Coruja olhava para elle com ternura, dava-lhe do seu comer, -interrogava-o com naturalidade, affagava-o dizendo-lhe palavras boas, -repassadas de carinho e de benevolencia...; porque partia da hypothese -sensata, de ser comprehendido. O Coisa, pequeno, magro, de pello faminto, -com as barbas de guloso sempre sujas, escutava-o attenciosamente, sem -pestanejar e deitando-lhe a cabeça nos quartos, ficava como adormecido -muito tempo. - -O Coveiro comprehendia estas finas delicadezas do seu companheiro... -Por isso fallava-lhe com polidez, com cuidado, escolhendo as palavras, -estudando um timbre de voz meigo e delicado. Que dois corações unisonos e -isochronos! As unicas desavenças que se tinham dado entre elles, eram por -causa das creanças pobres... O cão perseguia-as insistentemente, se as -encontrava agglomeradas, a pedir esmola, junto dos portaes ricos! N’este -ponto era formalmente desobediente á palavra austera de seu amo!... O -Coruja que, quando tinha vontade d’isso, sabia ser iracundo, figurava -então uma voz aspera, severa e reprehensiva, ameaçando-o arrogantemente: - -—Pedaço de bregeiro! Tenho-te dito muitas vezes que me deixes os rapazes. -Fizeram-te algum mal? Diz lá: fizeram? Não entendes isto, maroto?!... - -E se depois o cão se lhe ía enroscar aos pés, humilde e submisso, -concluia com energia: - -—... Pois devias entender. Elles são como nós ambos e como os outros -desgraçados—andam na sua vida... Se são pobres, quem lhes ha de dar o -pão, se não forem os ricos?! Vel-os acolá?—indicava incautamente os -rapasitos. Andam ás esmolas, como tu e como eu!... - -O Coisa olhava fixamente para o seu amigo, escutando-o sem pestanejar, e -como vira que as ultimas palavras haviam sido acompanhadas de um gesto em -que eram apontados os pequenos pedintes, que, amedrontados, tinham fugido -para longe, interpetrando-as mal, arremettia de novo contra as creanças, -perseguindo-as com mais raiva pelos caminhos. - -O Coveiro mostrava-se estupido e confundido... Não comprehendia!... -ficava scismando, para ver se encontrava o motivo que o animal teria, -para odiar com tão afincado accinte, as creanças pobres, que via -encostadas aos portaes ricos!... Não o podia perceber, elle que ignorava -inteiramente a biographia do Coisa... - - * * * * * - -Encontrára-o n’uma tarde de chuva, perto de um ribeiro, onde, no dia -seguinte, appareceu afogado um velho pedinte, de longa barba esqualida. -O pobre animal tiritava de frio, recolhido humildemente dentro do tronco -carcomido de uma cerdeira desfolhada. O Coruja, vendo-o assim, teve um ar -compacido e lastimou-o com um sorriso triste. Lembrou-se que levava n’um -bolso restos de pão do jantar, e, com um ar de bondade, atirou-lhe um -pedaço, dizendo: - -—Talvez tenhas fome... Pega lá, come. - -O cão, saindo do esconderijo, abocou com rapidez e mastigou sofregamente, -auxiliando a deglutição com movimentos rapidos e impulsivos de cabeça. O -coveiro observando este facto, disse sorrindo: - -—Home... tinhas larica. Toma lá mais um naco!... - -E, tirando mais brôa do bolso das calças, deu-lh’a. O animal, enguliu -com rapidez o pão e aproximou-se do coveiro com obediencia—arqueava a -espinha dorsal arrastando a barriga na terra, tinha movimentos lateraes e -cadenciados de cauda, levantava a cabeça para lhe cheirar a mão benefica -e ouviram-se-lhe latidos de agradecimento. O Coruja, olhou reflexivo para -elle e, cofiando-lhe a cabeça, observou com sorriso: - -—Diabo! sempre és muito feio, ladrão! - -Depois atirou para o hombro a enxada de abrir as covas e foi pelo caminho -adiante... Ia para um atterro. - -O cão ficou quieto, humilde, a olhar para o seu bemfeitor. O coveiro, -olhando para traz, viu-o n’esta posição quasi supplicante e gritou-lhe de -longe: - -—Tó Coisa. - -O animal veio para elle depressa, contente, feliz, dando pulos de -alegria, movendo festivamente a cauda, lambendo os pés do Coruja, que o -affagava. E para mostrar logo, áquelle seu amigo fortuito, um bom fundo -de cão agradecido, arrastava o ventre pela terra, gania amoravelmente, -roçava-se-lhe pelas pernas, e por fim, conservou-se alguns momentos n’um -aspecto captivante, deitado no chão, olhando para o coveiro, com a cabeça -firme, a mostrar os dentes e a piscar os olhos... - -Foi assim que se tomaram por companheiros inseparaveis!... O coveiro não -indagou quem era o Coisa, mas eu que o sei, posso dizer que era o cão do -pedinte, que no dia seguinte appareceu morto na levada do ribeiro! Tinha -sido amestrado para ladrar ás creanças, para escorraçar os pequenos, -magros e sujos, que podesse encontrar pedindo esmola junto dos portaes -ricos. Os perseguidos fugiam assustados e chorosos, gritando muito, -apertando na mão os saquinhos vasios... e ficavam de longe, a ver quando -o pobre da barba esqualida saíria de ali com o maldito cão, para elles -voltarem a implorar a esmola, com as suas vozes finas e plangentes. - -Porém, o velho pedinte era experimentado e sceptico. Se alguem, -casualmente, observava a perseguição injusta que o animal fazia aos -rapazitos, elle, que fingia de aleijado, chamava-o com modos de homem -irritado, ralhava-lhe muito, chegava mesmo a bater-lhe. Com este -procedimento conseguia, muitas vezes, captar a benevolencia de quem o -observava e obtinha alguma esmola que agradecia, dizendo: - -—... Pelas bemditas almas... Por mais que me mate, não posso ensinar este -ladrão. Um dia como-lhe os figados. Apesar do amor que lhe tenho, sou -home p’ra isso! - -E, com o fim de se mostrar digno de admiração, erguia para o companheiro -o pau da justiça, tremente de cóleras! O bemfeitor, compadecido, -entrevinha caridosamente a favor do animal, aconselhando: - -—Deixa lá. São brutos, não sabem o que fazem. Se elles não têem alma!... - -—É tamem do que me tenho lembrado, meu rico pae da caridade! Se elle -tivesse uma alma, eu era capaz de lh’a metter n’um inferno, só pelo que -elle é de mau para as creancinhas... coitadas! - -Mas o animal não era responsavel. Tendo sido educado, por seu amo, no -proposito de perseguir os concorrentes ás esmolas, obedecia-lhe. Mesmo -quando o velho pedinte lhe ralhava, apontando as creanças que fugiam -espavoridas e elle continuava a preseguil-as, é porque sabia ser este -um signal para as escorraçar com mais impeto! Tinham-lhe ensinado que, -todas as admoestações lhe impunham dever de ladrar com maior energia e -vivacidade, por isso assim procedia!... - -O pobre da barba, depois de obtida a esmola, premio da reprehensão -infligida ao maleficente, dizia vagamente, de modo a ser ouvido pelo -bemfeitor que se distanciava: - -—Diabo do cão é tolo! Não sei que mal lhe fizeram os rapazinhos!... - -E voltando-se para elle, outra vez, com o pau no ar, concluia: - -—És mesmo ruim, como as cobras! - -Mas, logo que ficavam sós, cofiava amoravelmente a barriga do rafeiro, -chamando-lhe seu rico cachorrinho, ganindo como elle para o reconciliar -comsigo, e dando-lhe fartamente brôa da sacola, com o fim de o excitar ao -crime. Incomprehensivel preversidade!... - - * * * * * - -Eis aqui estão os motivos, em virtude dos quaes, o coveiro, nunca poderia -fazer comprehender ao Coisa, que a sua benevolencia era sincera e não -mentirosa, como a do velho pedinte, que primeiro o educára. O modo -compassivo como o Coruja entendia deverem ser olhadas as creanças pobres, -que aos sabbados encontrava junto dos portaes ricos, o cão não o podia -comprehender facilmente e até o interpretava ao inverso, princialmente -quando lhe apontavam os rapazitos que se conservavam agrupados e cheios -de susto a olharem de longe. - -Mas, apesar d’esta divergencia, viveram muitos annos em concordante -familiaridade, dormindo promiscuamente nos mesmos palheiros e comendo da -mesma ração. Como o Coruja era um bebedo declarado, entendeu que devia -habituar o Coisa a gostar de vinho, exactamente como elle, e dava-lh’o. -O cão principiou pelo provar, com evidente repugnancia. Nos dias de -fome, que o seu antigo amo lhe fizera passar, quando as esmolas não -corriam para o sacco, tomára habitos de sobriedade. Vinho! Tal guloseima -nunca provára! O pedinte de barba esqualida era extremamente egoista... -emborrachava-se só. Mas, passado algum tempo, depois de ter sido preciso -abrirem-lhe a bôca á força para lhe emburcar o liquido nas guelas, o -Coisa gostou, e por fim já escorripichava a tijella, por onde o coveiro -bebia a meia canada habitual... Tão fino bebado se mostrou depois, que -andava sempre lambendo, com cuidado e esmero, até as deixar enxutas, não -só a tigella do amo, mas todas as cuncas da sopa de bestas que encontrava -ás portas das estalagens e tendas minhotas. Então dizia-lhe o seu amigo, -rindo abertamente, com effusão, piscando os olhos, já muito _torto_: - -—Anda grandissimo borrachão, que me pareces um padre! - -Esta phrase usual, sincera e inoffensiva, que tantas vezes dissera -impune, preferiu-a incautamente, uma vez, diante de um ecclesiastico -que, julgando-se offendido, o reprehendeu severamente, levantando a -bengala com uma intenção aggressiva! O coveiro que, pelo habito de viver -entre batinas, não as respeitava, e, considerando mesmo que os padres -eram homens como os outros e igualmente peccadores, lembrando-se até de -que elle já tinha enterrado um bom par d’elles, respondeu com desdem e -indignado: - -—Olhe, talvez o seu coração não seja tão bô como o d’elle!... - -O padre ficou auctoritario e colerico, e o coveiro retirou-se cheio de -justiça, por ter pugnado pelo seu camarada. - - * * * * * - -Ás vezes, nos dias de muita chuva, o Coruja não podia saír do palheiro -onde dormia, por causa das malditas dôres que lhe vinham á perna -doente. O Coisa, n’essas occasiões, parecendo-lhe que devia prover as -necessidades communs, saía a procurar comida. N’esses dias não respeitava -nenhuma casa, fosse ella de quem fosse! Previdente e sagaz, obedecendo -á sua primeira educação na vida mendicante, ía por ahi fóra... Porta -que encontrasse aberta e d’onde saísse bom cheiro, entrava com ousadia -e abocava desceremoniosamente qualquer posta de bacalhau ou qualquer -salpicão que encontrasse. Mas, em vez de comer o producto da ladroagem, -como faria qualquer cão vulgar e sem sentimentos, vinha depositar a -comida intacta nas mãos do seu companheiro, para elle a repartir. O -coveiro, no proposito de se dar seriedade, reprehendia-o com brandura, -sorrindo com os seus olhos vesgos: - -—Ah! grande ladrão! Home, isso não se faz!... Ir roubar o que não é da -gente!... Muito mal feito, seu patife!... Come tu, anda, que eu não tenho -grande fome. - -No entanto, para não ser descortez e mal agradecido, acceitava o alimento -que repartia com rectidão e igualdade, dando muitas vezes ao Coisa, -qualquer bocado, que julgava mais appetitoso. - - -II - -Um dia, porém, o Coisa appareceu morto na beira de um caminho, no velho -sulco cavado pelas rodas dos carros, que ali tinham passado durante -muitos annos! Era em janeiro, o coração do inverno, no alto Minho. Fazia -um frio de lobo, mas a noite era de uma limpidez phantastica. Um luar -claro dava aos objectos um destaque energico. O ruido das montanhas -espalhava-se sussurrante nas profundezas dos valles cobertos de uma -herva miseravel, mirrada pelo frio intenso e prolongado, pelas geadas -successivas que os soes, quasi primaveraes, não conseguiam descoalhar. -Os montes altos, cobertos de neve, levantavam as suas enormes carcundas -de gigantes, ha seculos ali adormecidos!... O dia amanhecera com um sol -rutilante, que produzia vivos reflexos nos brincos de gelo, pendentes dos -braços nús das arvores, dos beiraes dos telhados, e das vertentes das -fontes. Os pequenos passaros, saltando nos galhos das oliveiras, pareciam -mais volumosos, porque tinham as pennas irriçadas. Os tordos, com os pios -ingenuos e os melros com os assobios agudos e petulantes, denunciavam-se -aos caçadores, que os perseguiam, aproximando-se encobertos com os -troncos das arvores, com os muros e com os penedos, para fazerem -certeiramente a pontaria. - -A paisagem animára-se com o levantar do sol. Principiava a vida dos -campos—os bois íam soltos para as reles pastagens, ou, cangados, -puchavam aos toscos carros de duas rodas; as eguas lanzudas e famelicas, -avistando-se de encosta para encosta, relinchavam; os rapazes, as -mulheres e os homens trabalhavam nas hortas, na apanha de lenha para o -lume e nas podas, cantando sempre, para não sentirem o frio. Passavam nos -caminhos alguns pedintes de capas remendadas e de sacolas a tiracolo, -cheias de brôa. Tinham o bom ar, alegre e folgasão, dos felizes -despreoccupados, para quem, o dia de amanhã, será bom como o dia de -hoje. Iam conversando animadamente em accidentes da sua vida vagabunda e -caminhavam n’um passo largo, assobiando, cantarolando, batendo nos cães -vadios com os páus a que se costumavam encostar quando pediam esmola. -Foram elles os primeiros que encontraram o Coisa morto na estrada, -tristemente abandonado n’um sulco de carro, como um cão desprezivel que -não tivesse inspirado um affecto na vida! Junto d’este morto anonymo, -os pedintes alegres, fizeram uma paragem, dizendo um d’elles, com ar -trocista e de chacota: - -—Olhem este asno onde se foi deitar!... - -Acrescentando outro: - -—É que tinha calor e não quiz dormir na palha! - -Um terceiro, ainda observou, com um compadecimento fingido: - -—Coitado!... Já não come mais brôa! - -E por ultimo, um mocetão robusto, desertor do tres de Vianna, para -dispertar a hilaridade na companhia, levantou pelo rabo o magro corpo do -Coisa, e pronunciou, conservando-o suspenso: - -—Eh! diabo! Está teso como minha avó torta!... - -Riram-se unisonamente com as bôcas escancaradas, d’este dito excentrico, -continuando depois o caminhar divertido. - - * * * * * - -Porém, o cão não estava ali esquecido, como se poderia suppor:—o -Coruja tinha-o procurado durante a noite. Andou n’isso muitas horas, -apprehensivo e triste, repassado de maus prenuncios. Chamou-o alto nas -encruzilhadas, assobiou por elle de cima dos muros dos caminhos, teve -momentos silenciosos de uma tristeza indefinida!... E, como via o Coisa -não lhe apparecer, disse com a testa avincada e com uma expressão de quem -suspeitava um crime: - -—Que diabo! por ahi algum maroto... - -Suspendeu bruscamente a phrase, concluindo-a depois, mostrando um punho -cerrado: - -—Pois se sei quem foi que o matou, abro-lhe a cabeça com o olho da -enxada! Ainda que trezentos diabos me levem, p’ras profundas dos -infernos! - -Dirigiu-se para o seu palheiro, tiritando de frio, dando suspiros e com -lagrimas nos olhos. N’essa triste noite estava só. Não sentia o seu -companheiro de tantos annos, introduzir-se com o fochinho entre a palha, -para adormecer mais quente. Apesar dos latidos vagabundos dos outros -cães da visinhança, o Coisa não se levantava esperto para ir responder -ao postigo! Em vez d’este, agora era o Coruja, que, ouvindo ladrar, -levantava a sua cabeça para ver se aquella era a voz do seu amigo... -Debalde esperou. A noite prolongava-se por seculos, e o coveiro, dando -voltas entre o colmo, sentia um calor abafante, suspirava com afflicções -e não podia dormir! - -Logo muito cedo, ainda a manhã apontava, saíu do palheiro para continuar -as suas averiguações. Junto da igreja encontrou umas creanças da -freguezia visinha, que vinham para a escola, e uma das quaes lhe disse -expontaneamente: - -—Ó tio Cruja, já viu o seu Coisa? - -O coveiro respondeu suffocado: - -—Não! Onde está?! - -—Olhe, tio Cruja, a gente viu-o morto ali no caminho. - -—Morto!—pronunciou o velho com aspecto rijo, inteiro e com voz commovida. - -—Sim, senhor, lá em baixo, ao pé da cancella—certificaram os rapasitos, -fallando todos juntos, com a intimativa ingenua das suas vozes finas, -apontando para longe, no fundo do valle!... - - * * * * * - -O coveiro foi ver. No andar tinha os movimentos rapidos e incongruentes -de um côxo desvairado!... No rosto transparecia-lhe a expressão amarga -e deprimente de uma intensa dôr, sentida com verdade! Os olhares eram -impetuosos, lampejantes e vingativos; porque continuava a predominar no -seu cerebro a idéa de que algum malvado lhe tinha morto o Coisa!... - -Chegou ao pé da cancella. O pequeno goso estava deitado, immovel, -composto como se estivesse a dormir. Depois que o pedinte faceto o -suspendera pelo rabo, tornára a caír casualmente no sulco de carro, onde -o seu pequeno corpo se ageitára, no ultimo momento da vida. Com o pello -faminto, irriçado pela geada que caíra durante a noite, reconhecia-se ser -aquelle mesmo o rafeiro que, nas manhãs de frio costumava correr, doido -e despreoccupado, adiante do Coruja, quando elle ía para os enterros. A -rigidez cadaverica, apoderando-se do seu corpo magro, com a fatalidade de -um acontecimento necessario, dava-lhe uma expressão de insensibilidade -absoluta, expressão de indifferença pelas preoccupações da vida -terrestre!... - -O coveiro ajoelhou na attitude piedosa de um crente. Tocou, quasi -instinctivamente, com a mão, aquelle corpo inerte, para ter a indubitavel -certeza da morte do seu unico amigo! Fel-o com a profunda veneração de -uma alma rude; mas, n’este contacto do corpo de um cão morto, sentiu -um longo calefrio de terror!...—elle que tantas vezes experimentára -despreoccupado, o frio marmoreo dos cadaveres, que os costumava lavar e -vestir, para depois os metter na cova e cobrir de terra! - -O Coruja levantando-se hirto, subjugado, com as feições transtornadas e -com as lagrimas nos olhos, e disse resignadamente: - -—Isto... havia de ser o diabo do frio... - -Um pouco depois, como se respondesse a uma pergunta, que fizera a si -mesmo mentalmente, acrescentou: - -—...Fome!? tamem seria fome... Honte não comemos nada!... - -Passados momentos ainda considerou: - -—Este raio da neve!... Pois elle, com um frio de mil demonios!... A gente -sempre anda agasalhada; mas os animaes—coitados!—nem uma vestia, nem uns -sócos!... - -A final, tendo estado muito tempo sentado n’uma pedra a contemplar o -corpo inanimado do Coisa, levantou-se com um impulso generoso e disse: - -—Pois tu não és menos que os outros. Tamem has de ter o teu enterro com -officio. - -Dominado por esta idéa generosa, foi d’ali á igreja, buscar a sua enxada -de coveiro, que costumava ter guardada por detraz do altar-mór! Era para -abrir a cova ao Coisa. Na sachristia, revestia-se, para dizer missa, o -padre José Pitança. Ao sentir pela igreja acima as pancadas sonóras e -de uma intensidade desigual, de uns sócos, sobre o pavimento da igreja, -observou ligeiramente para o sachristão: - -—É o Cruja. Já vem por ahi com alguma carraspana. Eh!... Eh!... Eh!... - -Quando o coveiro saía, atravessando a sachristia de enxada ao hombro, -o ecclesiastico, com as mãos sobre o rins, atando as fitas do amicto, -suspendeu o murmurar de resa e perguntou em voz alta: - -—Quem diabo morreu, ó Cruja? - -—O meu cão—respondeu com brevidade. - -—E para que levas tu a enxada? - -—Para lhe fazer um enterro. - -O sacerdote teve uma gargalhada bulhenta de caçador. O coveiro offendido, -respondeu-lhe com orgulho: - -—Olhe que nem eu, nem você somos melhores que elle. Merece-o mais que -muitos fidalgos. - -E saiu bruscamente, coxeando. - - * * * * * - -O Coruja, com o fim de realisar a idéa generosa de fazer um enterro -excepcional ao seu cão, procurou primeiro um caixão que lhe podesse -conter o corpo. Para isso encontrou uma tábua comprida, sobre a qual o -estendeu, alinhando-o cuidadosamente, para ficar bem composto, n’uma -posição sensata e natural. Subiu a uma oliveira, da qual cortou uns ramos -para cobrir o cadaver, para o enfeitar, dizendo n’uma voz socegada e de -respeito: «esta é a tua mortalha». Depois, no proposito de organisar um -acompanhamento e dar a isto uma apparencia de cortejo funebre, conseguiu -que, a troco de uma promessa de pequena recompensa, quatro rapazitos -que andavam n’um monte á garavalha, _pegassem ao caixão_. O caixão era -a tábua com o cadaver em cima coberto pelos ramos de oliveira, posta em -seguida sobre dois fueiros, tirados, pelo Coruja, de um carro que estava -no caminho!... A cada extremidade de fueiro pegou um dos convidados. -Depois, quando tudo estava em boa ordem, o coveiro, com a sua voz rouca e -falhada, no tom faceto de uma alegria mentirosa, disse: - -—Toca a andar rapasiada. Levemos este nosso irmão para o _descanço -eterno_! - -As creanças obedeceram com sinceridade infantil, caladas e respeitosas. -O sahimento foi por um estreito caminho, com direcção a um alto pincaro, -onde o Coruja determinou abrir a sepultura do seu velho amigo. Atraz do -feretro ía elle, com a enxada ao hombro, a cabeça descoberta, um aspecto -de contentamento triste, entoando o _canto-chão_, n’uma voz roufenha, -pausada e distraída, imitando o phrasear dos sacerdotes nos officios: - - Béu, béu, béu, - Vae p’r’ó céu. - -Ao que os rapazes, que conduziam o corpo, respondiam, fingindo vozes -profundas e graves, espaçando as syllabas: - - Engola, engola, - Vae p’r’a cova. - -Depois, todos juntos, communicando uns aos outros certa alegria -sorumbatica e nervosa, cantavam em côro, n’um tom mais cadenciado, largo -e solemne: - - Quem ’stiver no inferno - Saia cá p’ra fóra! - -As creanças achavam isto divertido, apesar de procurarem adquirir -semblantes sérios e respeitosos, fingindo attitudes de homens, -endireitando o tronco, e esforçando-se por acertar o passo. Porém, como -não sabiam coordenar bem os movimentos, em certo instante, pucharam em -differentes sentidos e quasi deixaram caír desastradamente o cadaver -do Coisa!... O coveiro sentiu rasgar-se-lhe o coração e deu um grito -instinctivo e dilacerante! Os rapazes pararam rapidamente, ficando -quietos e silenciosos diante d’aquella manifestação inexperada de uma -dôr humanamente sentida! Continuaram depois o seu caminho, n’um silencio -meditado e mais triste!... - -Quando subiam a encosta do monte, o rosto do Coruja cobriu-se de certa -melancolia, caminhando devagar, com o corpo inclinado para diante, -absorvido na idéa da sua perda! Chegando ao cimo, parou junto de uma -agglomeração de penedos. Esteve alguns segundos meditativo encostado á -enxada... Mas depois, dando á cabeça um movimento impulsivo e retomando o -seu tom comico anterior, disse com o chapéu levantado ao ar: - -—Alto ahi!... oh! rapaziada! - -Os pequenos pararam, pousando no chão o feretro. - -O coveiro principiou a abrir ali mesmo a sepultura. O som baço e profundo -da enxada, batendo cadentemente na terra, dilatava-se, reproduzindo-se -nos angulos da montanha. - -No exercicio da sua triste profissão, o Coruja tinha, n’este momento -unico, um aspecto maguado... Todo curvo sobre a cova que ía abrindo, -com uma expressão facial de rigida tristeza, impunha-se austero, digno, -respeitavel!... - -As creanças, graves, silenciosas, olhando absorvidas para elle, obedeciam -a um sentimento que não saberiam explicar!... Tomavam parte no sentimento -do coveiro e, d’este modo, com a sensibilidade ingenua e infantil, -acabavam a tonalidade dolorosa d’este quadro triste! - -Em frente das montanhas imponentes e do amplo horisonte, a respiração era -facil, regular, socegada. Todos sentiam a tranquillidade, o socego, a -paz silenciosa dos logares ermos! O Coruja, para acabar o seu trabalho, -desceu ao fundo da sepultura e principiou a cavar com esmero dos lados. -Desejava que o corpo ficasse cuidadosamente ageitado, como n’um berço!... -Por fim, disse aos seus companheiros n’uma voz natural: - -—Chegae-me para cá esse caixão. - -E tirando cuidadosamente os ramos de cima do corpo, sopezou a tábua, para -a collocar no fundo com o cuidado e com o amor com que collocaria o corpo -de uma creança morta! Um dos assistentes confessou com naturalidade: - -—Parece... como os anjinhos. - -O Coruja devolveu a esta expressão singela e amoravel: - -—Tens rasão. Olha que tinha uma alma como elles. - -E passou a mão na cabeça d’esta creança, que lhe penetrára o pensamento, -com a amisade com que o poderia fazer a um seu filho... Acrescentou -depois, com voz comprimida pela dôr, mas esforçando-se por ser alegre: - -—Vamos lá a cantar os officios, para ajudar a entrar esta alma no céu da -bemaventurança!... - -Recomeçaram de um modo mais calmo, penetrados de comica circumspecção, o -funebre _canto-chão_. - -Dizia o Coruja de um lado: - - Béu, béu, béu, - Vae p’r’ó céu. - -Respondiam as creanças do outro: - - Engola, engola, - Vae p’r’a cova. - -Depois entoavam todos em côro: - - Quem ’stiver no inferno - Saia cá p’ra fóra! - -Repetindo isto muitas vezes, andavam em volta da sepultura. As creanças -seguiam o coveiro, como acolytos. O Coruja, com um ramo de oliveira na -mão, significava espargir o morto, com agua benta hypothetica! - -Por fim cobriu-se de terra o defunto. Espetaram-se sobre a cova os -ramos de oliveira, e todo o mundo se retirou. Os rapazes íam adiante -do coveiro, contentes e felizes, atirando pedras que rolavam pelo -monte abaixo. Um d’elles, vendo-lhe lagrimas nos olhos, perguntou a um -companheiro: - -—Porque é que o tio Cruja chora? - -Ao que o interrogado respondeu intelligentemente: - -—Ora... era amigo do Coisa. - - * * * * * - -Nos tempos subsequentes ainda viram, algumas vezes, o Coruja subir aos -penedos sobranceiros á sepultura! Demorava-se ali horas, olhando para o -largo horisonte, cantarolando sempre, como era seu costume nos momentos -tristes! N’um dia em que o barbeiro Zé Maximo, com o seu ar importante -de banalidade, lhe perguntou indiscretamente, sorrindo-se com modos de -troça, «Ó Cruja, tu, diz que fizestes um grande enterro ao teu Coisa!», -elle respondeu com azedume: - -—É verdade, meu grandissimo jumento! Merecia-o melhor que tu. - - - - -O EMBARCADIÇO - - - - -O EMBARCADIÇO - - -Miguel Timão era um homem corpulento, de feições energicas e leaes. Em -linhas pontilhadas, de um azul indelevel, tinha no braço direito um navio -com o seu velame e no esquerdo um signo-samão. Partira da sua aldeia -descalço, por uma crua manhã de geada, com toda a roupa n’uma pequena -trouxa, enfiada n’um pau!... Seu pae, a este tempo, era um cego que vivia -da caridade... Na aldeia não havia ganhos... Foi por isto que elle, na -companhia de outros emigrantes, foi pelo mundo fóra, procurar fortuna... -Ah! como a sua alma boa e generosa estremecia alegremente com a idéa -consoladora de ganhar dinheiro para sua irmã Catharina, e para seu velho -pae cego!... - -Andou por lá muitos annos sem dar noticias... Na terra chegaram a -esquecel-o, suppunham-n’o morto... O padre Beiral, que lia as gazetas, -vira, entre as victimas de um naufragio, o nome de um Miguel... Não podia -ser outro. Catharina chorou um dia inteiro e deitou lenço preto... Porém, -este convencimento foi precipitado; porque, o rapaz, não morrêra, apesar -de ter passado muitos annos n’uma vida trabalhosa, cheia de incertezas e -de perigos, no meio dos quaes nunca poude esquecer a sua pequena aldeia, -risonha e distante. - -Durante largo espaço de tempo, correu uma boa parte do mundo e foi todas -as cousas que um homem rude pôde ser:—acompanhou um inglez no Egypto e -na India; foi soldado nas republicas hespanholas da America, entrando -em muitas conspirações; foi carroceiro no Brazil; e, durante os ultimos -vinte e cinco annos, andou embarcado, percorrendo grande numero de portos -do mundo, ouvindo todas as linguas e conhecendo homens de todas as -côres... - -Á sua organisação temeraria convinham as incertezas de amplo mar, -mysterioso e amigo... Uma vida accidentada, com alegrias e desesperos, -mas sempre com dinheiro no bolso, quando saltava em terra, eralhe -sympathica! Tambem agora, depois de velho, n’estas noites chuvosas -da sua aldeia, Miguel tinha sempre que contar aos seus conterraneos, -que o escutavam absortos e pasmados. No entanto, de tanta aventura -extraordinaria, aquella que mais os impressionava era a de o maritimo -ter comida _carne de gente_! Apesar da circumstancia attenuante da fome -a bordo e da morte irremediavel para todos, as velhas beatas da aldeia -acreditavam firmemente que, o filho do cego, não poderia ter na outra -vida um destino bemaventurado... - -O que mais os horrorisava era, de certo, a serenidade com que o irmão -de Catharina descrevia este enorme momento de desespero, tirando longas -fumaças do seu cachimbo requeimado!... Fôra no alto mar, na soberba -amplidão infinita, com o céu misericordioso e azul sobre a cabeça... O -navio, depois de uma tormentosa viagem e quasi sem mantimentos, teve -uma calmaria no mar das Indias, boiando, monotonamente, como um cetaceo -morto, durante semanas... Por baixo o mar immenso, sem ondulações -providenciaes, liso como a superficie de uma poça, guardando, no seu -amplo ventre poderosos animaes, que poderiam sustentar durante tempos a -população da Terra... De noite, alguns d’esses peixes vinham á superficie -da agua, attraídos pelo brilho das estrellas, pelo pharol de bordo e pela -frescura relativa do ar. Gasta a ultima ração de arroz e de bolacha, -todos os marinheiros tiveram a heroica firmeza de não comer em tres -dias, esperando um soccorro fortuito! Em vão clamaram pela Infinita -Misericordia! Em vão tiveram dedicação e coragem!... A Fome Implacavel, -como um demonio sinistro, já os fazia estorcerem-se no convez com dôres -cruciantes nas entranhas! Sentenciaram-se dois, á sorte, para alimentarem -os restantes! Que valentes e bravos companheiros, esses rapazes de trinta -annos! Nunca a coragem tomou uma fórma mais sublime e sympathica! Nunca -a resignação na morte foi mais austera e imponente! Foram elles mesmos -que, risonhos e conformados, abriram as proprias veias, para morrerem! -Só quatro dias depois d’este acontecimento horripilante é que, os -sobreviventes, avistaram um vapor que vinha da China e os rebocou para -Madagascar!... - -Outro navio, dos muitos em que embarcára, naufragou no golpho do Mexico! -Era de um contrabandista andaluz, que fazia o seu commercio no mar das -Antilhas. O dono da embarcação ía a bordo, e vendo diante dos olhos as -guelas medonhas do mar, promettia a quem lhe salvasse a embarcação, -casal-o com sua unica filha, uma rica herdeira sevilhana!... Porém, o -mar estava picado que nem um inferno, e tudo se perdeu _morrendo todos_ -n’aquella escuridão tormentosa!... E um rapaz de aldeia, que escutava a -narrativa, tranzido de susto, observou com voz timida: - -—Mas o tio Miguel não morreu... - -—Morri, sim, senhor, seu palerma! Quem te disse que não morri!?... - -E ficou a olhar para todos que ouviam, com uma viveza estupefaciente! - -Por fim, depois de uma vida cheia de aventuras perigosas, teve uma -prolongada doença, que o deteve por dois mezes n’um hospital americano. -Foi em S. Francisco, na cidade maravilhosa e quasi phantastica, celebre -pelas suas ricas minas de metaes preciosos, d’onde, provavelmente, -foi colhido o ouro com que se fabricou essa gargantilha com que vossa -excellencia adorna o seu formoso pescoço, minha bella senhora! Aos seus -quatro districtos aurificos—o da California—a lendaria California!—o -de Idaho, o da Nevada, e o de Varhoe—concorrem todas as extravagantes -ambições do mundo moderno, principalmente os ricos judeus e os miseraveis -chinezes que ali vão trabalhar! S. Francisco, que domina estas regiões -do sonho, é uma das mais modernas, de entre todas as grandes cidades -americanas, pois que principiou a povoar-se em 1848, quando appareceu -aquelle bocado de ouro, no moinho do capitão Sulter. Tem hoje mais -de duzentos mil habitantes e os seus famosos ladrões, e os incendios -criminosos que ali houve ainda ha pouco espantaram o mundo inteiro! S. -Francisco é uma população cosmopolita, que falla inglez e vive n’uma -cidade com nome hespanhol, tão maravilhosa e incomprehensivel para um -pacato europeu, que, quando foi da guerra da _Independencia_, o celebre -doutor Belows, presidente do conselho de saude, convocando um _meeting_ a -favor dos feridos, fez um discurso e vendeu os apertos de mão a dollar, -sendo tantos os dollars que lhe caíram para dentro do chapéu que, o -philantropo medico, teve o braço esquecido por oito dias! É uma cidade -que não tem nem os pobres immundos e obscenos das ruas de Lisboa, nem os -garotos vivos e espertos que se encontram em New-York e Londres!... O -seu luxo é de tal ordem que, a vida ali, é dez vezes mais cara do que em -Paris! - -Miguel Timão, minhoto e sagaz, conservava d’esta cidade nova, levantada -pelo enorme poder do ouro, uma impressão energica! Depois de ter -percorrido a maioria das cidades maritimas do mundo, em nenhuma vira -tanta sumptuosidade e opulencia! Aqui, as vaidades materialistas da -civilisação moderna, impõem-se com uma soberba que deslumbra! Talvez, -pelo estonteamento que produzira n’este homem obscuro um mundo tão -febricitante, elle teve um dia como a reclamação subita de um sentimento -perdido, e na sua mente appareceu o quadro pacifico da sua pequenina -aldeia, tão sympathica e inundada de luz. - -Foi n’esse tempo que, uma das febres endemicas n’aquellas regiões -irregularmente humidas, o accommetteu de subito, com um longo calefrio, -que o prostou n’um estado comatoso!... Recolheram-n’o ao hospital e, até -terminar a convalescença, passaram-se aproximadamente dois mezes!... -Durante este periodo de inactividade forçada, a sua memoria principiou -a resuscitar-lhe o passado!... Era a primeira vez que estava doente! -Alquebrado e enfraquecido que poderia fazer!? Com os elementos dispersos, -que o seu pensamento lhe ía trazendo, pouco a pouco formava os quadros -da sua vida infantil. As figuras dos homens que então conhecera, as -raparigas com quem brincára, appareciam-lhe com um sorriso feliz e -benefico, acompanhando-o n’estas distancias... Via-os como os deixára, -porém, considerava que deviam estar mais velhos... que muitos teriam -morrido... Não fôra elle tambem novo e forte, e não estava agora -coberto de cabellos brancos e com rugas serpeando-lhe no rosto?! O -tempo não corre debalde, e muitas das pessoas em quem pensava, estariam -enterradas n’aquella pequena igreja caiada, que se lhe representava na -imaginação!... Tudo isto lhe condensou no espirito o firme desejo de -voltar á sua terra... Tinha algum dinheiro e, logo que se encontrou -restabelecido, pensou em tomar o primeiro navio que viesse para as -costas de Portugal ou de Hespanha. Assim o fez, embarcando com a saudade -insoffrida de um rapaz de vinte annos!... - -Era um domingo de primavera o dia em que entrou na sua aldeia... O céu -azul, a pureza do ar, a alegria dos campos em flor... lançavam-lhe -na alma enthusiasta vibrações de uma harmonia complexa e guerreira. -Do intimo da terra saíam musicas genesiacas no aspecto da paisagem -enebriante. As flores roxas e brancas das macieiras e das cerdeiras -abriam-se em leques multiplicados sobre os campos verdes d’onde sobresaia -o branco virginal dos malmequeres, a côr serena das violas, o vermelho -sanguineo das papoulas bravas... Os trigaes viçosos palpitavam com o seu -crescimento gradual, entre as largas manchas escuras das recentes searas -de milho. - -As raparigas cantavam nos campos, atraz dos seus bois de cornos -retorcidos que pastavam, fiando as estrigas da tarefa. A temperatura -de um tepido parasidiaco e sensual enlanguescia, produzindo sensações -dominadoras, fazendo comprehender os movimentos fecundantes da -seiva universal!... Era um estonteamento de vinho forte o que subia -á cabeça rija do velho maritimo, que caminhava lento e absorvido, -reconhecendo todos aquelles logares queridos da sua infancia! Os olhos -humedeciam-se-lhe de lagrimas, e o contentamento e a felicidade que -lhe percorria ao longo dos nervos, entorpeciam-n’o... Os homens e as -raparigas que passavam, interrogavam este desconhecido com olhares -insistentes... - -Quem será este homem, que caminha dando sacudidellas aos hombros e que -tem o andar de um borracho!?...—pensavam. - -Então elle parava para lhes perguntar numa entonação estrangeirada: - -—Conheceis a Cathrina, filha do cego da rocha? - -Conheciam perfeitamente; mas não era nenhuma rapariga. Muito pelo -contrario, a mulher que tinha esse nome mostrava-se já muito velha, -corcovada e doente... A sua vida era esmolar pelas aldeias e dormia -por caridade n’um palheiro do padre Beiral. Mas espantavam-se que -o desconhecido principiasse a chorar com estes esclarecimentos e -perguntavam-lhe compadecidos: - -—Quem é você, hominho? Para que quer saber da Cathrina, e chora? - -Mas o homem da barba branca, que andava como um desengonçado, não lhes -respondia e continuava a caminhar para a _residencia_ que se via d’ali, -na encosta, ao pé da igreja. Levava ao hombro, enfiado n’um pau, uma -mala de couro e umas botas de canos... Este modo de andar aos solavancos -impressionava os que o viam... Não podiam saber quem fosse e ficavam -a olhar uns para os outros!... Mas quem o reconheceu, mesmo antes -d’elle fallar, foi Catharina, que se lhe agarrou ao pescoço, chorando e -repetindo muitas vezes: - -—Meu rico irmão, como estás velho! - -E Miguel, o valente marinheiro temerario, deixou caír ao chão a mala e as -botas, dizendo por entre soluços: - -—E tu como estás acabada, mulher! Como te venho encontrar! - -Mas depois, como Miguel trazia algum dinheiro, que juntára cuidadosamente -para esta eventualidade de voltar á sua aldeia, resolveu-se a comprar -a mesma casa onde nascera, a qual seu pae tinha vendido por causa da -longa cegueira em que viveu. O padre Beiral ajudou-o. A casa era velha e -pequena; mas o campo adjunto era largo e magnifico terreno... - -O espirito do maritimo principiou a sentir um renascimento, a remoçar-se, -a ter os alegres impetos da mocidade. Era aquella a mesma paisagem -que sempre vira até aos vinte annos. Havia o mesmo musgo nas mesmas -paredes; a mesma hera segurando as pedras dos muros esbarrigados; os -mesmos penedos no alto do monte sobranceiro á igreja, manchavam o azul -intenso das tardes primaveraes; as sebes de silvas, cobertas de folhas -perpetuas e de amoras, embeiravam os campos e caminhos; e, finalmente, -na frontaria da igreja ainda estava quebrado o mesmo vidro, como no dia -em que elle partira! O que encontrava de differente no longo espaço -de trinta annos? Muito pouco: o cypreste do adro tinha crescido e até -envelhecêra; a carvalheira do pé da fonte, que tres homens com as mãos -agarradas não podiam abraçar, estava carcomida, porque fôra queimada por -um raio; as tres casas novas, caiadas, que se distinguiam de longe com as -suas claridades vivas, e cujas vidraças scintillavam com o sol poente, -tinham sido levantadas por uns brazileiros ricos, um dos quaes tambem -presenteára a Nossa Senhora da igreja, com uma lampada de prata, que -causára inveja ás outras _Nossas Senhoras_ da visinhança. Mas, de todos -os factos que permaneciam, e que Miguel tanto estimava, aquelle que o -chocou de um modo energico, aquelle que o penetrou em todo o seu ser com -uma força omnipotente, foi o toque do sino grande da igreja, que ainda -era falhado como d’antes!... - -Quando agora o ouviu pela primeira vez, depois de tantos annos, eram -trindades e estava comendo uma posta de bacalhau á lareira do Beiral. -Deixou caír o garfo de ferro, ficou a olhar com um modo estupido, e as -lagrimas corriam-lhe pelo rosto enrugado! Oh! era aquelle o mesmo som, -que o accordava nos domingos despreoccupados da sua vida passada!... - -Por todos estes motivos, o embarcadiço resolveu morrer na sua aldeia!... -Estava velho, ainda que robusto; as fadigas e os trabalhos por esse mundo -fóra tinham-no gasto muito. O mar... o mar para elle já não podia ser -senão uma sepultura!... Uma grande sepultura decerto; mas, sepultura -por sepultura, tinha ali uma na igreja que era mais perto, ainda que -mais humilde. Ficava ao pé dos ossos de sua mãe que não conhecera, e de -seu pae que não tornára a ver!... Resolvido isto de um modo terminante, -principiou a interessar-se pela historia local, pela monotonia da -conversa dos visinhos, a quem elle espantava com os successos da sua -vida curiosa. Vieram-lhe tambem os desejos de grandes emprehendimentos -agricolas—quiz cultivar o seu campo. Plantava hortaliças que mandava -vender á villa, semeava batatas, colhia quasi um carro de milho, uma meia -pipa de vinho e tinha muita fructa. Os seus melões e melancias davam-lhe -orgulho—mandava-os vender ás romarias, onde já tinham nomeada e eram -preferidos aos dos outros cultivadores! Tambem não admira, pois que lhes -dedicava muito tempo e amor—regava a tempo, mondava-os com sagacidade, -regulava-lhes o sol de um modo conveniente... O padre Beiral disse-lhe um -dia, que não se fallava nas gazetas de que houvesse, em qualquer parte -do mundo, outros melões como os d’elle. O Timão, orgulhoso e confundido, -respondeu: - -—Isso, senhor, é da semente e da Senhora da _Bôa-Viage_ a quem os -encommendo sempre!... - - * * * * * - -Mas havia na aldeia uma malta de rapazes, que tinham por brazão não -deixar segura qualquer fructa boa, no quintal de quem a tivesse. Estes -meliantes, n’esse anno em que o sacerdote gabou os melões, projectaram ir -_proval-os_ de noite. O Timão já andava com a pedra no sapato e, para os -prevenir, disse um domingo no adro, ao saír da missa, fallando bem alto -para ser ouvido, «que se alguem lhe fosse ao meloal _o racharia de meio a -meio_!» - -O Tone da Engracia incitou-se com esta ameaça e propoz um assalto á -fazenda do embarcadiço... Poderiam ir n’uma noite escura, com cautelas -premeditadas, para não serem presentidos... Desceriam do muro de vagar, -por uma corda presa a certo carvalho, para não fazerem baque no chão... - -O meloal era muito perto da casa, n’um recanto soalheiro, onde podiam á -vontade ser meticulosamente vigiados... O Miguel Timão tratava-os com -tantos cuidados, que até para lhes tirar a sombra baixára uma videira -antiga, dirigindo-a para uma latada, junto ao muro... De manhã cedo, -ainda o sol vinha em casa de Deus, já elle, em mangas de camisa, andava -contando as boas melancias rajadas, que deixára na vespera, e os optimos -melões apimentados assentes sobre folhas, para não apodrecerem com a -humidade da terra. - -Alegrava o espirito, consolava, vêl-o assim de barba branca, este velho -robusto e musculoso, trabalhar com amor, assiduamente, no seu campo, -incluindo n’esta preoccupação toda a sua alma e todo o seu tempo... Oh! -os rapazes que pensavam em roubar-lhe os melões, decerto se arriscavam -muito! O velho Timão levado por mal seria um demonio, em convulsões de -desespero!... - -Mas o da Engracia, o Teixugo, o Cambado e o Telhas, não se preoccupavam -com medos e sómente commentavam com antecipação, a grande risota que -se produziria em toda a gente, quando soubessem que aquelle papa-gente -tivera, ao seu tão gabado meloal, um inesperado assalto! A não ser o -Telhas, os outros, não pensavam em qualquer risco. Sendo alta a noite -e bem escura, o embarcadiço estaria a dormir profundamente! Se, ainda -tivesse um cão, podia haver receio; mas, o imprevidente velho, dizia -muitas vezes _que um bom cão era elle_! - -Quando chegou a noite do sabbado combinado, o Telhas, que era cagarola, -ainda disse... assim com um modo engulhado: - -—Home, e se elle nos pilha?! - -Esta phrase denunciava quanta impressão, diante da mente espavorida -d’este rapaz, produzira o quadro terrificante do Timão, n’um canibalismo -infimo, mastigando os seus companheiros de infortunio, na desesperada -fome que soffrera no mar das Indias! O Tone irritou-se com esta covardia -despresivel, chamou fracalhão ao Telhas, que lhe respondeu com um modo -prophetico e despresador: - -—Olhem o valente! Tamem quero ver, quando te vier um balasio pelos -queixos, se não ficas de cara á banda!... - -Mas o da Engracia engulia balas—não tinha medo nenhum d’ellas! N’essa -mesma noite, estavam resolvidos, foram. Mas, como não queriam ser -engarampados com alguma arriosca, ao chegarem ao sitio, caminharam -instinctivamente com certa prudencia... O embarcadiço era um velho rijo, -que não tinha medo da morte, porque a vira muitas vezes diante de si. Não -se importava de matar um ladrão, arriscando-se a ir por uma barra fóra; -pois andar por lá sempre fôra sua vida. Com uma navalha de tres estalos -e um bacamarte de bôca de sino, costumava fazer ameaças abstractamente, -dizendo: - -—Aquelle que m’as fizer estiro-o. Ainda seis centos mil raios me partam! - -A beata Vicencia, quando lhe ouvia esta jura, recuava berrando: - -—Abrenuncio! Santo Nome de Maria, que nos póde vir um grande castigo por -causa d’este excommungado! - -O Timão retorquia-lhe com olhar de piedade: - -—Calla-te minha papa-hostias. Bons castigos soffri eu por esse mundo. - -Porém, o plano de roubar o meloal estava estabelecido, os rapazes não -trepidaram. O da Engracia é quem saltaria dentro, para encher o sacco. -O Teixugo e o Cambado ficariam no caminho, de vigias; o Telhas em cima -do muro. Á meia noite o Tone desceu do muro, cautelosamente ajudado pela -corda presa ao carvalho, para não ser presentido... Quando assentou os -pés na terra defendida pela navalha hespanhola e pelo bacamarte de bôca -de sino, estremeceu involuntariamente!... Sentia, dentro em si mesmo, -uma opposição, á qual resistiu com toda a força da sua energica vontade. -Talvez desejasse retroceder; mas atraz de si, em cima do muro, estava o -Telhas, a quem chamára fracalhão, e que logo que o viu um momento parado -e apurando o ouvido, lhe disse com uma ironia perceptivel: - -—Home, não tenhas medo. O velhote dorme como um porco. - -O rapaz encorajou-se subitamente, levantou a cabeça com orgulho e -começou a andar com certa resolução temeraria. Na profundidade da noite -tranquilla, serena e sem luar, ouvia-se o cochichar subtil dos vigias, -o som gemebundo e extenso de dois sapos, o ruido estival, permanente -e continuado dos ralos!... Um grande morcego manchou a limpidez do -ar com o seu vôo largo, produzindo um silvo. A pequena casa do Timão -ainda se percebia ao fundo, por entre as arvores de fructa, como uma -massa confusa. A escuridade e o silencio augmentam sempre o medo, e no -cerebro do Tone da Engracia, as idéas principiavam a atropellar-se, a -confundir-se, a tomar fórmas...—diante dos seus olhos, configuravam-se -homens aggressivos. Por isso elle tornou a parar no meio do campo! -Então sentiu-se n’um isolamento mais completo, como o do alto mar!... -Por cima o céu limpido, as estrellas com movimentos crepitantes de -luz, a amplidão cheia de uma sombra grandiosa...—um certo palpitar da -natureza que o subjugava! A pequena distancia, em cima do muro, o Telhas, -como uma reprehensão sempre viva. Qualquer manifestação de receio, de -pavor, que sarcasticas censuras não encontraria?! No entretanto, n’este -instante nervosamente inexplicavel, a figura do velho marujo endurecido -nos trabalhos e nas difficuldades, appareceu-lhe na imaginação, com -uma realidade que feria! N’este momento o Telhas tossiu ao longe! -O Antonio estremeceu e teve um calefrio ao longo da espinha! Estas -duas circumstancias, bem diversas, deram-lhe o impulso definitivo, e -o Tone começou a caminhar ousado, direito, altivo e até insolente! -Passando por entre as hervas e calcando as folhas seccas fazia um -ruido imprevidente... Que lhe importava a elle que apparecesse o velho -maritimo! Aquella tosse casual de um dos seus companheiros teve nos seus -ouvidos uma ressonancia ironica, aguilhoara-lhe a vaidade, restituira-lhe -a sua coragem e temeridade habituaes. - -Entrou no meloal. Principiou a agachar-se muitas vezes, para escolher o -que havia de melhor. Estava apparentemente sereno, não temia ninguem. -Levantava os melões para os suppezar, para os levar ao nariz pelo lado -do pé com o fim de lhes apreciar o adiantamento da maturação. Affastava -as folhas largas, carnosas, recortadas das melancias...—queria escolher -as mais sazonadas. O que lhe ía servindo cortava rente pelo pé, e logo -ía depositar, a dois passos, no carreiro junto do sacco. N’um d’estes -instantes, o silencio da amplidão foi cortado por um chiar de gonzos -prudentissimo... O Tone levantou a cabeça á escuta... Não percebeu mais -nada: talvez fosse a passagem de algum noitibó por entre a ramagem das -arvores. A escuridade não o deixou ver a cabeça do Timão, que appareceu -ao postigo, escutando... O da Engracia continuou. Mas, quando tinha -cortado mais um melão e que o ía levar... sentiu certa difficuldade em -mover um pé! - -Empregou impensadamente um esforço mais energico para vencer esta -opposição; porém, sem logo perceber porquê, caiu redondamente no chão, -de bruços, produzindo na quéda o baque de um corpo sem vida!—tinha os -pés presos n’um laço intelligente, armado pelo marinheiro, para agarrar -um ladrão presumptivo. O temerario rapaz deu um grito e esforçou-se logo -por se levantar, colleando como uma cobra ferida na cabeça!... Porém, -soccorrel-o, era impossivel. Os companheiros, atterrados pelo som do -bacamarte de bôca de sino que o embarcadiço disparou para o ar, fugiram, -tendo ainda tempo de ouvir esta phrase temerosa: - -—Seus grandissimos ladrões, que os mato! - -Taes palavras e aquelle tiro disparado com um fim theatral, produziu o -effeito previsto. Os companheiros do Tone, julgando-o talvez morto, -abandonaram-no. O Miguel Timão, que saíra da casa com grande rompante -para espantar os que estivessem, chegou-se ao que jazia no chão, e -disse-lhe com ar de troça: - -—Então sempre caíste melrinho?! Deixa que eu t’o digo já. Ha-de-te ficar -de escramenta. - -O da Engracia, completamente submettido, pediu: - -—Ó tio Miguel, não me faça mal, que eu não torno... - -O marinheiro não lhe fez mal. Tambem lh’o estava pedindo sua irmã, que -era muito obrigada ás esmolinhas, que a tia Engracia lhe fizera em -tempos precisados. Porém, apesar dos esforços de raiva e das supplicas, -o velho maritimo não prescindiu de enlear bem enleado o seu preso e -de o ir collocar no caminho, com o fim de ser solto pelos primeiros -misericordiosos que passassem para os campos! E ao deixal-o fóra do muro, -disse-lhe: - -—_Prá_ outra vez, se cá voltas, ha de ser peor. Entendes? - -Depois retirou-se, não cedendo mesmo á intervenção a favor do adoptivo da -Engracia, feita por sua irmã Catharina, que lhe pediu para o desamarrar, -e a quem respondeu: - -—Sabes que mais?! _Bae bugiar._ É uma ensinadella. - - - - -O REI ABSOLUTO - - - - -O REI ABSOLUTO - - -Emilio era uma creança robusta, que tinha as pernas grossas, os braços -grossos, o pescoço firme, o olho penetrante, travesso, audacioso. As suas -pestanas finas, grandes, ramudas, sombreavam-lhe as pupillas negras; as -sobrancelhas espessas, fortes, unidas, aproximavam-se irriçadas, nos -momentos de colera infantil, como o dorso de uma hyena. - -Quando já tinha quatro annos e que sentia o poder intimo dos seus -musculos; quando principiava a distinguir-se dos outros, a considerar-se -pessoa, e que reconhecia, como uma energica qualidade que se impõe, a sua -vontade potente e a sua força capaz de executar, o pequeno Emilio quebrou -uma jarra de flores, atirando-lhe acintosamente com uma pera, que não -queria comer, por desejar outra. A mãe, que era severissima, castigou-o. -Elle que era um rapaz de brio, principiou uma berraria de mil diabos, -gritando com perrice, com frenesi, deitado de barriga, batendo no chão -com os pés, com os punhos, com a cara, e mordendo no bibe para o rasgar! -Convencionaram calculadamente, a mãe e as creadas, não fazer caso d’elle, -deixal-o chorar quanto quizesse, deixal-o espernear, gritar, morder-se, -contundir-se. Queriam fatigal-o, vencel-o pelo proprio esforço que fazia, -para assim lhe darem uma lição moral, para o ensinarem a conhecer que -as maldades castigam por si mesmas, aquelles que as praticam. Mas, qual -lição, ou qual diabo!—esta conspiração passiva enraiveceu-o ainda mais, -e mordia ainda mais nas mãos, batia de cada vez mais na cara, de cada -vez dava na cabeça com o punho mais cerrado e com mais força! Quando a -mãe, com a sua paciencia reflectida, lhe disse, do vão da janella onde -costurava, com voz moderada e firme: «deixa que tu has-de-te calar», -elle, berrando com mais força, respondeu-lhe: «não hei, não hei, não e -não», continuando intencionalmente o seu choro. - -Dava uns gritos agudos, estridentes, discordantes, como as vibrações de -uma rebeca desafinada; mas depois, com o tempo, como a mãe previra, veio -o cançasso, o desleixo, o esquecimento de que estava chorando, e decaíu -gradualmente n’uma voz mais branda, mais enfraquecida, monotona como o -som da ultima badalada de um sino, que se esgota de quebrada em quebrada. -Houve até um momento em que chegou a calar-se; porque no chão, adiante -da sua cara, uma _farmiga-operaria_ andava lidando na remoção de uma -pedra que encontrára no caminho. O pequeno animal, estonteado, perdido -das suas companheiras, que formavam um longo fio negro, junto da parede, -adiantava-se para elle, afastava-se para traz, para a esquerda, para a -direita, procurando com uma intelligencia tenaz, um auxilio, alguem que o -ajudasse. Por fim vieram mais duas, e então principiou uma lucta obscura, -mas profiada e imponente, em que tres formigas removiam, com um nobre -esforço cheio de paciencia, uma pedra mais pesada do que todas ellas -juntas. - -Emilio principiou a interessar-se nos movimentos apparentemente -caprichosos dos pequenos insectos. Os seus olhos vivos e animados seguiam -com cuidado, com esmero, aquelle trabalho das formigas-obreiras, que -tombavam a pedra, levando-a na direcção desejada. Calado, de bruços, -com o pequeno queixo sobre o punho, observava attenciosamente todos os -movimentos, tendo as linhas faciaes n’uma contencção rigida, nervosa, -reveladora de um esforço intimo. A mãe, apreciando incompletamente este -silencio de seu filho, disse-lhe com ligeiro ar de triumpho: - -—Mas sempre te calaste... - -Ao que elle respondeu promptamente: - -—Mas vou gritar mais. - -E retomou o seu choro com nova energia, com mais vigor. Porém, como viu -que a mãe se rira escarnecendo-o, reconheceu-se vencido, mediocre, e -cheio de vergonha pela sua imprevidencia, pela falta de tenacidade, fugiu -d’ali chorando alto com asperos gritos de raiva. - -Foi pelo corredor adiante para a varanda, que dava sobre os campos. Era -uma larga paisagem com o horisonte recortado pelas alturas das arvores -desiguaes. Os altos castanheiros com as suas folhas lenhosas, rijas -e de um verde claro, distinguiam-se dos pequenos carvalhos fortes, -atarracados, folhudos e das cerdeiras vistosas, de ramagem espalhada, e -de um verde mais suave. - -O pequeno Emilio observou, com a serenidade dos seus grandes olhos -negros, todo este conjuncto. A sua physionomia era meia contemplativa, -meia raciocinadora. Media, com despeito, a enorme superioridade -d’aquellas arvores, pela ostentosa corpulencia com que se destacavam ao -longe. Mas depois, por um movimento natural, com uma reacção instinctiva, -fez este juizo simples e claro, dando ás suas palavras um tom imperativo, -com os beiços alongados: - -—Tambem eu sou capaz de subir a cima d’ellas, como o Manuel! - -E com o seu pequeno rosto de uma auctoridade expressiva, ficou a olhar -para os campos, fixando soberbamente as arvores, ás quaes se reconheceu -superior. - -Sentia-se forte como o Manuel, o creado da lavoura. Nos seus musculos -havia uma energia latente, a sua vontade era uma voz de commando, intima, -secreta, mas absoluta. Elle podia-se mover, andar, ir buscar uma cadeira, -arrastal-a até á varanda para subir, para ver as arvores que estavam nas -orlas dos campos, quietas, n’uma immobilidade permanente!... - -Ao longe viu duas vaccas que pastavam, com a cabeça baixa e o pescoço -estendido para a herva. De vez em quando moviam com lentidão, os seus -corpos volumosos, dando passadas de vagar, mas pousando com segurança os -seus pés. Outras vezes levantavam a cabeça, espalhando mansamente o seu -olhar sereno pelas encostas, e, se viam outras vaccas, mugiam com uma voz -ululante, vaga, de uma expressão triste. Um pequeno rapaz de dez annos, -forte, sujo e travesso, vigiava as vaccas. Em certos momentos, quando -ellas se aproximavam das vinhas, era elle que as enxutava, picando-as -cruelmente com a aguilhada, berrando-lhes alto, com energia, obrigando-as -a tomarem a direcção que desejava. - -O pequeno Emilio apreciou, da sua varanda, estes factos com um olhar -meditativo, profundo, e conheceu-se intimamente capaz de mandar -n’aquellas vaccas, de andar n’aquella liberdade dos campos, correndo, -saltando, subindo ás arvores, dando quédas, dando gritos, picando as -vaccas... - -N’este momento todo o seu ser estava possuido de uma forte necessidade -de posse, de commando. Desejava ser livre como aquelle rapaz que via ao -longe, no meio do campo, com um imperio indiscutivel e tyrannico sobre -a vontade d’aquelles animaes possantes, que obedeciam resignadamente -á sua aguilhada. Emilio sentia-se tomado de uma grande ambição, de um -sentimento de energia que o tornava audacioso... Desejava possuir todo -aquelle mundo que via—as vaccas, os campos, as arvores, as casas, as -poças de agua, os pombos que passavam no ar com o seu vôo rapido, -as proprias nuvens que estavam suspensas, como ephemeros frocos de -espuma. Mas queria possuir _tudo_, mandar em _tudo_ de um modo absoluto, -incondicional! - -—Se morresse toda _essa_ gente... era tudo meu!—raciocinou atrevidamente. - -_Essa gente_ eram os outros, os que possuiam aquellas cousas todas, que -no momento elle ambicionava!... - -E com as palpebras immoveis, as pupillas fixas n’um ponto indeterminado, -as sobrancelhas severamente contraídas, os beiços alongados como os de um -macaco colerico, o queixo apoiado na mão esquerda, contemplou a grandeza -_do mundo que via da varanda_! - -Por fim, absorvido _na sua idéa de poderio, de auctoridade_, desceu da -cadeira e, calado, altivo, arrogante, foi por um corredor escuro que se -abria na sala. - - * * * * * - -Entrando, observou com intrepidez, com supremacia indiscutivel, os -retratos e as gravuras que estavam pendentes das paredes. Sustentou -um olhar de soberba, com a estatueta de porcelana, que representava -Christovão Colombo com o mundo na mão esquerda. Reparou com desdem altivo -n’outra de um velho general _do primeiro imperio_, que faiscava coleras -marciaes dos olhos coruscantes, tendo o seu chapéu napoleonico de travez, -na direcção dos fartos bigodes, e apoiava a mão esquerda nos punhos da -sua espada invencivel. O pequeno Emilio, vendo casualmente no espelho da -parede, que o seu pequeno rosto tinha bastante séveridade, encarou de -novo o general, ainda com mais intelligencia e sobrecenho, conservando-se -firme, auctoritario e dominador! - -Passados momentos, o semblante coloriu-se-lhe com uma expressão mais -suave, quando contemplou a cadeira de braços, onde _seu papá_, depois -de jantar, costumava ler o jornal e adormecia recostado. Tinha-o visto -n’esta posição muitas vezes:—o seu grave aspecto paternal apresentava uma -curvatura desleixada, tendo a cabeça caída para o seio, resonando com -gravidade e com estrondo. Este quadro simples e familiar impressionara-o -sempre, deixando-lhe o desejo de ler o jornal, recostado na cadeira com -abandono, como seu pae. O momento era opportuno, estava sósinho na sala, -ninguem o poderia impedir... Fechou a porta do corredor com todas as -cautelas de um malvado, de um pequeno facinora consciente, para d’esta -maneira poder realisar com facilidade esta ambição temeraria, de fingir -que sabia ler o jornal recostado na cadeira paterna! - -N’aquelle momento ouviu tossir a _mamã_ que estava no quarto proximo e -por isso suspendeu, por instantes, a realisação do seu audacioso plano. -E, como passado pouco tempo, tudo recaíu n’um socego favoravel, Emilio -dirigiu-se á cadeira. Subiu para ella, agarrando-se com esforço, lançando -primeiro a perna esquerda, depois a perna direita, ficando primeiro de -bruços e chegando a indireitar-se depois de se ter apoiado nos joelhos -e segurado fortemente com as mãos. Quando chegou a cima e se recostou, -a sua respiração era larga e profunda, signal de que estava cançado do -grande esforço que fizera! - -Pomposamente recostado na cadeira, Emilio tinha um ar orgulhoso e -via se que estava bem penetrado da sua importancia fortuita! Fingiu -admiravelmente que lia o jornal, movendo levemente os beiços como fazia -seu pae, revirando os olhos com intelligencia e dando á cabeça movimentos -lateraes apropriados. A final, para completar o quadro, deixou cair com -desleixo o papel, entrando resolutamente no periodo do somno digestivo, -fingindo com propriedade, um resonar altivo e cheio de insolencia! - -Esteve assim algum tempo... Porém, não lhe consentindo as impaciencias -naturaes o demorar-se muito, levantou-se em pé na cadeira e desceu para -o chão, por um processo inverso ao que empregára para subir. A um lado, -sobre uma pequena mesa, estava a bengala e o chapéu do papá. Dirigiu-se -intrepidamente a estes objectos respeitados, para os possuir. Poz o -chapéu na cabeça, pegou na bengala pelo castão de velho marfim defumado -e desejou passear ao longo da sala com porte altivo, com importancia -natural. Mas o chapéu enterrou-se-lhe até aos hombros e, quando pretendeu -dar passadas de um homem encostado á sua bengala, tropeçou e caíu de -bruços. - -Então levantou-se zangado, nervoso, vermelho de colera e retomou um -aspecto imponente e auctoritario. Principiou a andar no comprimento -da sala com o corpo direito, a cabeça alta e o braço esforçadamente -levantado para agarrar no castão da bengala, o que, de certa maneira, -lhe dava a parecença de um menino dependurado. - -Depois, para se rehabilitar diante de si proprio por ter caído de bruços, -quiz exercer a sua auctoridade incontestada, o poderio absoluto de que se -achava possuido, sobre todos os objectos que ali estavam—lembrou-se de -tombar as cadeiras, quebrar os vidros, _atirar abaixo aquelles homes_. -E os seus grandes olhos energicos fixaram-se com arreganho, com altivez -sobranceira nas estatuetas que permaneciam em frente da janella sobre a -pequena mesa. O velho militar do primeiro imperio napoleonico, com todo -o seu conjuncto marcial—a espada triumphante, os bigodes magestosos, as -rugas severas, acobardou-o, obrigando-o a baixar ligeiramente os olhos e -a reflectir durante momentos. Porém, Christovão Colombo, com o seu rosto -suave de uma bravura serena e consciente, não o intimidou, e por isso, -Emilio, o fixou com mais confiança, com menos susto. E como o descobridor -da America tinha na mão esquerda um globo, na qual apontava resolutamente -com um ligeiro sorriso de inspirado, um ponto com o dedo, o pequeno, -_para se metter com elle_, fez-lhe este pedido exigente: - -—Dás-me essa cousa? - -Christovão Colombo não teve logo uma resposta favoravel. Emilio repetiu -imperiosamente: - -—Dás ou não dás? Olha que tu... - -E fez-lhe um arremeço significativo com a bengala. - -Porém, o silencio do possuidor da bola continuou-se, e o pequeno -julgando-o um signal desprezador do seu poder, pareceu-lhe provocante. -Por isso o olhou com mais intimativa, e, para o castigar, como lhe faziam -a elle proprio ás vezes, repetiu a concisa e habitual phrase de seu pae: - -—Então vae lá para dentro. - -Imaginou que ía ser obedecido. Para não haver delongas, nem evasivas, -conservou-se n’uma attitude ameaçadora, com a bengala paternal no ar, -agarrada pelo castão. Com voz mais alta e decisiva repetiu ao possuidor -da bola: - -—Não vaes? Arrumo-te. - -Christovão Colombo não obedeceu. Oppunha a resistencia passiva de um ser -inanimado. O pequeno Emilio vingou-se d’aquella immobilidade insoffrivel, -atirando-lhe á cabeça com a bengala irreverente. A estatueta caíu no chão -quebrando-se com estrondo em mil pedaços!... A cabeça, os braços, a bola, -separaram-se! O pequeno facinora ficou a olhar para aquelle destroço, com -um sentimento de vingança satisfeita! - -Porém, sua mãe, que estava no quarto proximo, ouvindo este barulho, -correu á sala para averiguar o que teria sido. Vendo a estatueta quebrada -e seu filho encostado á bengala n’um aspecto arrogante, exclamou -instinctivamente: - -—Ah! grande maroto que ahi vem o papá. - -Emilio respondeu sereno, impertubavel, com segurança: - -—Ora!... eu _tamem_ sou papá. - - -FIM - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Comedia do Campo volume III, by -Francisco Teixeira de Queiroz and Bento Moreno - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMEDIA DO CAMPO VOLUME III *** - -***** This file should be named 63034-0.txt or 63034-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/0/3/63034/ - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll -have to check the laws of the country where you are located before using -this ebook. - - - -Title: Comedia do Campo volume III - (Scenas do Minho) - -Author: Francisco Teixeira de Queiroz - Bento Moreno - -Release Date: August 24, 2020 [EBook #63034] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMEDIA DO CAMPO VOLUME III *** - - - - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - -</pre> - - -<h1>COMEDIA DO CAMPO</h1> - -<hr /> - -<p class="titlepage">TEIXEIRA DE QUEIROZ</p> - -<p class="center smaller">(BENTO MORENO)</p> - -<p class="titlepage larger">COMEDIA DO CAMPO</p> - -<p class="center">(SCENAS DO MINHO)</p> - -<div class="tp"> - -<div class="tp-r"> - -<p class="hanging">La plupart des drames sont dans les -idées que nous nous formons des -choses. Les événements qui nous -paraissent dramatiques ne sont -que les sujets que notre âme convertit -en tragédie ou en comédie, -au gré de notre caractère.</p> - -<p class="tp-r-n"><span class="allsmcap">H. DE BALZAC.</span>—<i>Modeste Mignon.</i></p> - -</div> - -</div> - -<p class="titlepage">VOLUME III</p> - -<p class="center smaller">Antonio Fogueira.—Morte negra.—Enterro de um cão.—O -embarcadiço.—O rei absoluto.</p> - -<div class="figcenter titlepage" style="width: 150px;"> -<img src="images/dc.jpg" width="150" height="150" alt="" /> -</div> - -<p class="titlepage">LISBOA<br /> -DAVID CORAZZI—EDITOR<br /> -<span class="smaller">EMPREZA HORAS ROMANTICAS<br /> -Premiada com medalha de ouro na exposição do Rio de Janeiro<br /> -40—Rua da Atalaya—52<br /> -1882</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_1"></a>[1]</span></p> - -<h2 class="nobreak">ANTONIO FOGUEIRA</h2> - -</div> - -<hr /> - -<h3>I</h3> - -<p>N’uma excellente manhã de um maio risonho e feliz, -duas creanças, que já eram orphãs de mãe, perderam -igualmente seu pae! Além da orphandade, teriam -tambem a negra fome e a sombria miseria indigente, -se não fôra o bom cura, o padre Clemente Carvalhosa, -que as foi buscar a casa, levando uma de cada lado, -pela mão, para a <i>residencia</i>! O Thomé Barbante, um -tio d’essas creanças, tambem compadecido, ou, talvez, -humilhado pelo caridoso procedimento do ecclesiastico, -foi-lhe pedir que lhe désse uma para sua casa. O Carvalhosa -cedeu-lhe a Quina, ficando com o Tone, que -elle, n’um momento egoista, pensou vagamente em ir -mettendo pela igreja, para de futuro ter quem lhe ajudasse -á missa. Porém o Bernardo Repolho, lavrador -remediado, que morava n’outra aldeia, a distancia de leguas, -não lhe consentiu realisar esta ambição: sabendo<span class="pagenum"><a id="Page_2"></a>[2]</span> -da orphandade dos filhos de seu irmão André, que -tanto eram seus sobrinhos como do Barbante, condoeu-se -e, consultando a sua auctoritaria Engracia, resolveram -<i>adoptarem</i> Tone, visto Deus não os ter favorecido -com <i>um rapaz</i>, que tanto haviam desejado!... -Para a mulher de Bernardo, era uma consolação forçada!... -Por espaço de annos presenteára generosamente -todos os santos acreditados nas visinhanças, chegando -a ir em romaria beber das diversas aguas milagrosas, -tão apregoadas e tão efficazes, que nascem debaixo -dos penedos, onde esses bemaventurados tinham -apparecido!... Frequentára, tambem, com assiduidade, -os banhos de mar, indo durante muitos annos, a Vianna, -pelo tempo da Agonia, sempre dominada por um -tamanho desespero de maternidade, que de uma vez -chegou a tomar <i>trinta banhos</i> nos tres dias da festa!... -Porém, as esperanças de ter um filho íam desapparecendo, -a esterilidade de Engracia affirmava-se de cada -vez mais com a idade! Viveu muito tempo n’uma constante -aspiração, impaciente e nervosa, chegando aos -quarenta e cinco annos—ao momento dos desenganos! -—sem descendencia... A sua intransigencia, o seu -mau humor, contra os filhos dos outros, ía caíndo n’uma -melancolia latente, quasi n’um ediotismo, quando seu -marido lhe propoz o trazerem para casa o orphão de -seu irmão André, que acabava de morrer pobre... -Engracia abraçou, inesperadamente, com alegria, esta -idéa e adoptou com benevolencia a creança desamparada! -Pediu instantemente a seu marido, que fosse, -mesmo n’aquelle dia, buscar o pequeno... Para a satisfazer,<span class="pagenum"><a id="Page_3"></a>[3]</span> -o Repolho não teve remedio senão pedir ao padre -Beiral, a bôa egua lanzuda. O ecclesiastico cedeu-lh’a -facilmente, perguntando com a sua curiosidade de -homem idoso:</p> - -<p>—Então é o filho d’esse teu irmão que morava lá -para os lados de Monção?...</p> - -<p>—Sim, senhor, esse mesmo—respondeu o Repolho. -Era muito pobre, não deixou nada...</p> - -<p>—Pois fazes bem, fazes bem—applaudiu o sacerdote. -É uma obra de caridade... Deixal-os ao desamparo, -é creal-os para ladrões. Vae homem, vae, leva a -egua da côrte...</p> - -<p>E, no dia seguinte de manhã, Bernardo partiu, chegando -ao anoitecer a casa do Thomé Barbante, dizendo-lhe -peremptoriamente, qual a sua resolução e mais -a de Engracia. Foi muito gabado este procedimento. -Todas as pessoas diziam, inclusivamente o Carvalhosa, -que o pequeno viria a ser bem feliz; porque, estes tios -que o adoptavam, eram ricos e não tinham herdeiros -necessarios. Porém, quem não entendia as cousas do -mesmo modo enthusiasta, era o proprio Tone. Quando -lh’o fizeram comprehender, principiou a berrar desalmadamente, -dizendo que não, que não... que não queria -ir. E, no momento em que o punham ao collo do -Bernardo, que já estava montado, prompto para a partida, -principiou a estrebuxar, a morder nos punhos de -seu tio que o segurava amoravelmente, a chamar alto -por seu pae enterrado e porfiando por se atirar abaixo -do albardão. A final, como lhe prometteram que voltaria -de tarde, para brincar com sua irmã Quina, que<span class="pagenum"><a id="Page_4"></a>[4]</span> -tambem ficava a chorar em altos gritos pelo Tone, deixou-se -levar. Porém, só quiz ir ao collo do tio Barbante -que elle conhecia, e não ao <i>d’aquelle home</i>, que nunca -tinha visto. Foi por esse motivo que o padre Carvalhosa -teve de emprestar a <i>malhada</i> para o Barbante ir montado, -e lá partiram ambos, pelos caminhos ensombrados -da freguezia, o Thomé com o pequeno adiante de -si, escachado no albardão.</p> - -<p>D’este modo, assim illudido, é que o Tone foi e ficou. -O Barbante, para não ser presentido pelo sobrinho, -retirou-se ao amanhecer, quando elle ainda dormia -innocentemente. Desde essa hora, as duas creanças -irmãs, que sempre tinham brincado juntas, na mais -simpathica convivencia, ficaram vivendo a distancia de -leguas, separadas por altas montanhas, que no inverno -se costumam cobrir de grossas camadas de geada!</p> - -<p class="tb">A nova paisagem, com a qual o pequeno Tone se tinha -de familiarisar, era de uma sombriedade austera, -penetrada de melancolia. É verdade que em baixo, no -coração do povoado, havia campos onde os ribeiros -sussurravam, indo regar os prados, de um verde claro, -e os milharaes alegres. Porém em volta, era uma cinta -escura de altas montanhas, com plantações de pinheiros -que tem uma côr energica, mas triste, e com arrogantes -penedias, que ameaçavam desmoronar-se. Lá -no alto, onde os penedos se accumulavam toscamente, -uns postos sobre os outros, viam-se frequentemente, -occupados no seu rude trabalho, sob a inclemencia dos -soes e das chuvas, os quebradores de pedra! Estes homens<span class="pagenum"><a id="Page_5"></a>[5]</span> -de um aspecto rude e carregado, com a pelle pergaminhada -pelos rigores de todos os tempos, perfuravam -pacientemente com as suas brocas, os penedos, que -depois quebravam a tiro, cujo som ululante e cavernoso -echoava pelas quebradas da montanha!</p> - -<p>Na aldeia onde Tone nascera, o aspecto dos campos, -a vegetação, era mais familiar e intima. Os terrenos -mais suavemente accidentados, deixavam aos seus olhos -vivos, mais largo espaço para ambicionar. Havia um -rio largo, que no inverno engrossava arrogantemente -com as chuvas copiosas. Dos silvados impenetraveis, -povoados de sombras que lhe mettiam medo, costumavam -saír inesperadamente, quando elle se aproximava, -os melros, voando para longe, com assobios agudos -e espantados. A sua memoria tenaz de creança devia -possuir por muito tempo, nitidamente, o vivo quadro -da sua linda igreja caiada e alegre, com uma torre -alta, e os tres sinos que tocavam ao domingo! Era -a igreja onde elle ia á missa com sua mãe e onde os -primeiros deslumbramentos produzidos pelos opulentos -dourados dos altares e pelas attitudes senhoris das -imagens das santas, se lhe ergueram na imaginação! -Era de um pittoresco mimoso o quadro d’essa igreja, -collocada na encosta, com a sua brancura que se destacava -do souto de velhos castanheiros e carvalhos que a -cercavam! Áquella imaginação infantil de Tone, deviam -fazer falta estas cousas amadas pelos seus olhos vivos -e ingenuos! N’estes caminhos pedragosos de agora, -não se podia correr doidamente como n’aquelles outros, -pelos quaes andara atrás de sua irmã Quina, para a<span class="pagenum"><a id="Page_6"></a>[6]</span> -agarrar. Por isso, nos primeiros tempos, fartava-se de -chorar, tinha perrices freneticas e chamava em altos -gritos por seu pae, por sua tia Clara, por sua irmã -e não queria comer. Mas a mulher do Bernardo Repolho -affeiçoou-se-lhe imprevistamente e acarinhava-o, procurando -consolal-o, promettendo-lhe dôces e santinhos, -que lhe havia de trazer das romarias. E n’um dia, para -mostrar a effectividade das suas promessas, fez-lhe -uma dadiva surprehendente, a qual foi recebida pelo -Tone com tal alvoroço, que por si só parecia capaz de -lhe obscurecer todas as lembranças risonhas do seu -passado mediocre! Engracia comprou-lhe um pequeno -cabrito, de pello lusidio e negro, um pequenino cabrito -que fazia <i>mé</i>, <i>mé</i>, com uma voz tremida e saudosa, na -qual talvez quizesse exprimir a saudade de seus companheiros, -que deixára na liberdade incondicional das -montanhas!</p> - -<p>Todos os rapazes da visinhança, que já se davam -muito com o Tone, lhe invejaram, desejando-a, a posse -d’este animal, e não occultavam que, nos seus peitos infantis, -se guardavam estragados sentimentos de cubiça! -Acercavam-se do possuidor, dizendo-lhe em tom -melifluo e condescendente, palavras agradaveis, de muita -e sincera amisade, por meio das quaes desejavam -captar-lhe a benevolencia. Porém, como elle resistia, -afastando-se, altivo e orgulhoso, com o cabrito pelo baraço, -que lhe atara ao pescoço, um dos amigos propoz-lhe -de um modo astuto:</p> - -<p>—Olha, se <i>mo</i> deixas levar a comer ali adiante, -dou-te esta carapuça nova...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_7"></a>[7]</span></p> - -<p>O Tone olhou com modo avido para a carapuça offerecida, -que era vermelha e, depois de calcular mentalmente -as vantagens, condescendeu:</p> - -<p>—Pois sim, dá cá a carapuça!</p> - -<p>Foram os dois e muitos outros, com o cabrito em -grande distincção, festejando-o com alaridos, como um -triumphador romano. Quando chegaram junto de uma -poça, onde encontraram um pasto verde, que julgaram -appetitoso, pararam, porque entendiam que o cabrito -deveria comer. Para conseguirem isto, usaram de -subterfugios infantis, escolhendo-lhe meticulosamente a -melhor herva, que profiavam metter-lhe na bôca... Quando -o animal, com os seus dentes finos, mastigava, levantava-se -da parte das creanças uma expressiva satisfação, -olhando para o animal n’um silencio attencioso e meditativo; -todos deante d’elle, agachados, contemplando-o -com veneração!...</p> - -<p>Estes e outros factos similhantes, fizeram com que -o Tone fosse esquecendo gradualmente o seu estreito -passado. Como tinha os mimos de Engracia e as lisonjas -cavilosas dos seus companhiros, principiou a desenvolver-se-lhe -uma vontade forte, desejos impertinentes, -certa irascibilidade e orgulho. D’entre os rapazes -com quem brincava, só distinguia o Zé do sachristão; -porque este lhe consentia o tocar o sino pequeno, -<i>a bambom</i>, nas occasiões de enterro! E como o Zé na escola -já <i>escrevia debuxado</i> e o Tone, apesar de ter oito annos -ainda nem sabia as <i>lettras</i>, disse-lhe o do sachristão:</p> - -<p>—Ó <i>coisa</i>, quando é que tu vaes com a gente p’ro -studo?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_8"></a>[8]</span></p> - -<p>O Tone respondeu-lhe com um desdem despresador:</p> - -<p>—Eu não vou... <i>Isso</i> de studo não presta...</p> - -<p>—Presta meu asno... Vae, e tu verás que presta. -Começas logo na carreira do <i>A</i>.</p> - -<p>—O que é a carreira do <i>A</i>?!—indagou o da Engracia, -com modo suspeitoso...</p> - -<p>—É a carta. Ai! tu não sabes! Olha, pede á tua mãe -que te merque a carta, que é muito linda. Tem um -gallo... é muito linda. Depois vae ao studo, que andam -lá muitos rapazes. Quando não está o senhor mestre, -a gente brinca ás escondidas, joga o talo na eira... -Vae meu asno que é bonito.</p> - -<p>Influido d’este modo pediu, n’esse mesmo dia, á mãe, -que o levasse á escola. Engracia, para o não ouvir -chorar, lavou-lhe logo a cara e conduziu-o a casa do -mestre que era o senhor Antoninho Beiral... O senhor -Antoninho Beiral, um rapaz forte, espadaúdo, alentado, -era tambem o melhor caçador de perdizes da -redondeza! Andára em Braga a estudar para padre, -com o fim de succeder na <i>encommendação</i> a seu tio; mas -não conseguira presbiterar-se, por ter <i>desfeitiado</i> um -velho conego na pessoa de uma creada massiça e de -rosto oval... Depois d’isto, cortada a carreira, retirou-se -definitivamente para a sua aldeia, deixando crescer -grandes barbas, andando pelos montes e por entre -os milhos ás perdizes e <i>ás moças</i>... De vez em quando, -para se desaborrecer, dava aula de instrucção primaria, -pois era o professor official!... Os seus discipulos -temiam-n’o; porque elle era severo e zurzia-os, com -uma vargasta pelas orelhas ou com duzias de palmatoadas<span class="pagenum"><a id="Page_9"></a>[9]</span> -bem puchadas, quando os suppunha delinquentes! -Se emquanto o <i>senhor professor</i> andava ás perdizes, elles -se divertiam na eira, a jogar o talo ou ás escondidas, -logo que persentiam ao longe o ladrar do podengo, arregimentavam-se -pressurosamente para irem ao encontro -do senhor Antoninho pedir-lhe a benção, do -que elle os <i>dispensava</i>, passando de espingarda ao hombro, -com um modo carregado e negativo.</p> - -<p>No dia em que Engracia lhe levou o Tone, a mulher -do Repolho teve de esperar que o senhor mestre viesse; -porque andava no monte... Logo que chegou, viu Engracia, -humilde, com o rapasito ao lado e perguntou-lhe -com indifferença:</p> - -<p>—Queria alguma cousa?...</p> - -<p>—Se me fazia a esmolinha de me deixar entrar este -pequeno cá para o studo—respondeu.</p> - -<p>—Que idade tem?</p> - -<p>—Oito annos.</p> - -<p>—Traz a carta?</p> - -<p>—É isto que comprei lá em baixo na tenda, senhor?</p> - -<p>E mostrou-lhe, com o braço estendido, um pequeno -folheto de capa de papel pintado. O senhor Antoninho, -lançando-lhe um olhar infimo e despresador, concluiu:</p> - -<p>—É isso mesmo, sim senhora. Deixe ficar. Olha rapaz, -vae p’rá acolá.</p> - -<p>E apontou-lhe a estremidade de um banco, onde o -Tone, amedrontado e encolhido se foi sentar... Em seguida, -o senhor mestre entregou a um discipulo a espingarda, -para lh’a ir pôr na varanda, emquanto elle -se foi sentar, de modo brusco e pesado, na cadeira<span class="pagenum"><a id="Page_10"></a>[10]</span> -professoral, onde se conservou silencioso, durante alguns -minutos com a testa apanhada na mão esquerda!... -Por fim, tirando de uma gaveta e collocando em cima -da mesa, n’uma evidencia terrificante, a palmatoria disciplinar, -indicou aos descipulos que n’esse dia, não passariam -<i>sem molho</i>, como elle costumava dizer.</p> - -<p class="tb">Mas o Tone da Rosaria não gostou d’aquelle <i>studo</i>: -o mestre era brusco, tinha uma voz grossa, que repellia, -uma cara rude, com muita barba. Na mesma -tarde em que entrou para a escola, viu, com um semblante -cheio de susto, que, o seu amigo, o Zé do sachristão, -a unica veneração que o Tone tinha n’este -mundo, foi severamente castigado com dois murros, -levantando-se do chão a deitar sangue pelo nariz, só -por lhe ter caido um borrão na escripta! O Zé chorou -soluçando reprimidamente, desculpando-se, e ficou muito -tempo no seu logar, a olhar para o <i>manual</i>, com os -seus olhos vermelhos do chôro, fingindo uma penetração -que não tinha. Por um movimento espontaneo e -sympathico, o Tone foi ter com o seu amigo, para o -consolar! Porém, o mestre, disse-lhe com uma voz estrondosa, -que se fosse sentar... Elle obedeceu, encolhido -de medo, como um cão escorraçado, e principiou -tambem a chorar, soluçando...</p> - -<p>Quando chegou a casa disse:</p> - -<p>—Ora eu não quero mais aquelle <i>studo</i>...</p> - -<p>—Porque?—indagou sua mãe.</p> - -<p>—O mestre bate nos rapazes. O Zé da igreja verteu -sangue pelo nariz e chorou muito...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_11"></a>[11]</span></p> - -<p>—Mas tu has de saber a lição e o senhor mestre -ha de ser muito teu amigo...</p> - -<p>—Não quero ir mais... Elle bate-me e faz-me deitar -sangue pelo nariz...</p> - -<p>E não voltou mais. Quiz antes os seus devertimentos:—ir -para o campo com os filhos dos lavradores -que andavam com o gado e não estavam para aprender -a ler, jogar o <i>talo</i> com elles, abrir covas á mão -para enterrar pedras que fingissem de mortos, comprar -<i>aos outros</i> gaitas, com o pão que levava de casa... -O Tone andava quasi sempre acompanhado do -seu cabrito, que elle mandava com ama voz exigente e -imperiosa... Os seus amigos, para o desgostarem, -desmereciam-lhe o animal. Porém, n’um dia, em que esse -cabrito appareceu puxando um carro novo, todos os -invejosos se submetteram. O Zé do sachristão que lh’o -viu e lhe cubiçou, carro e cabrito, disse-lhe:</p> - -<p>—Das-m’o, Tone?</p> - -<p>—Não—respondeu energicamente.</p> - -<p>—Pois tambem, quando quizeres tocar o sino pequeno, -a repique nos dias de festa e a <i>bambom</i> nos enterros, -não te hei de deixar...</p> - -<p>—É o mesmo—respondeu com isenção.</p> - -<p>O Zé propoz-lhe:</p> - -<p>—Se me désses o carro e o cabrito, deixava-te tocar -o sino e dava-te uma cousa muito linda que eu tenho...</p> - -<p>—O que é?—indagou com os olhos muito abertos.</p> - -<p>—É um ninho com cinco melrinhos...</p> - -<p>—Isso não presta—desdenhou o Tone, cheio de soberba.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_12"></a>[12]</span></p> - -<p>—Ai, não presta, tomaral-o tu! Os melrinhos já -têem pennas, estão quasi a voar...</p> - -<p>—E onde é o ninho?—indagou o dono do cabrito e -do carro.</p> - -<p>—Arreguilal-o—respondeu arregaçando a palpebra -inferior do olho esquerdo. Querias saber; mas não chuchas. -É n’um sitio...</p> - -<p>—Vamos lá ver?</p> - -<p>—E das-me o carro?</p> - -<p>—Dou; mas tu has de me deixar tocar o sino no -dia da festa, e das-me o ninho.</p> - -<p>—Pois sim, então dá p’ra cá o carro. Amanhã não -ha studo e então vamos tirar os melrinhos, que já -são grandes!</p> - -<p>—Eu quero hoje o ninho...—exigiu o Tone.</p> - -<p>—Hoje vou p’ro studo, não posso!—desculpou-se -o Zé, visivelmente infeliz.</p> - -<p>—Não vás hoje ao mestre. Isso de studo não presta!—aconselhou -o Tone desdenhoso.</p> - -<p>—Ai, elle é o <i>não vás hoje</i>. E o meu pae? Não, que -o meu pae, depois, bate-me.</p> - -<p>—Elle não sabe. Gazeia hoje Zé...</p> - -<p>E o do sachristão, para obter o carro, resolveu-se a -gazear. Com elles ambos foram outros rapazes que -tambem andavam na escola e outros que não andavam. -Desejavam ver o ninho, que estava n’um carvalho, perto -de uma poça, segundo affirmava o Zé.</p> - -<p class="tb">Encaminharam-se por entre uns silvados. Como era -no tempo das amoras, pararam muitas vezes para as<span class="pagenum"><a id="Page_13"></a>[13]</span> -colherem. Houve algumas bulhas, porque todos desejavam -apanhar as que estavam mais maduras. Antes de -chegarem ao sitio do ninho, passaram por umas cerejas -que tiveram tentações de comer... Porém, como eram -do padre Beiral, reconsideraram, com a lembrança de -que o mestre, que era sobrinho do ecclesiastico, sabendo-o, -os zurziria com a chibata de marmeleiro, que -tinha encostada á parede, na aula. Quando chegaram -ao pé do carvalho annunciado, disse o do sachristão:</p> - -<p>—Olha, Tone, o ninho é ali.</p> - -<p>—Deixas-me subir p’r’o tirar?</p> - -<p>—Não senhor, que tu és muito pequeno—respondeu -com orgulho, alongando os beiços. Podes cair e depois -a tua mãe vem <i>com aquellas</i>...</p> - -<p>—Deixa-me ir Zé, que eu não caio—insistiu o Tone, -com voz de pedinte.</p> - -<p>O do sachristão, para conciliar todos os desejos propoz:</p> - -<p>—É melhor tu ires para cima dos penedos. Eu subo -e dou-te o ninho para a mão. Queres?</p> - -<p>—Pois então vá lá—rematou o da Engracia, concordando. -Mas não dás a estes, não?</p> - -<p>—Não, dou a ti...</p> - -<p>Os companheiros, offendidos com esta exclusão, disseram -orgulhosamente:</p> - -<p>—Olhem, o diabo do asno! Tem medo que lhe comam -a porcaria do ninho!...</p> - -<p>O Zé do sachristão principiou a subir. Primeiro abraçou-se -ao carvalho, depois encolheu as pernas, em seguida -fincou o lado interno dos joelhos para se segurar,<span class="pagenum"><a id="Page_14"></a>[14]</span> -e por fim, o lado interno dos pés para se impellir... -Quando se ia chegando ao cimo do carvalho, -elevando-se assim, prudentemente, agarrou-se a um -forte galho, segurando-se com presistencia. E disse -para os que, debaixo, o seguiam attentamente com os -olhos:</p> - -<p>—Cá estão, os cinco melrinhos. Já tem penna.</p> - -<p>—Dá-os para cá—disse o Tone de cima de penedo, -relanceando um olhar despresador para os outros rapazes, -que se conservaram afastados, n’uma reserva sensata -e orgulhosa...</p> - -<p>—Chega-te mais para cá—observou-lhe o Zé.</p> - -<p>—Não posso mais—respondeu desconsolado, inclinando-se -do penedo para o carvalho.</p> - -<p>—Então levo-os eu para baixo. Se caem no chão -morrem e depois tu não me dás o carro.</p> - -<p>E principiou a descer, tendo previamente mettido no -seio, os cinco melros pequenos. Como precaução, para os -não esmagar, descia afastando o corpo do velho tronco -do carvalho, agarrando-se tenazmente com as mãos -e fincando os pés na casca nodosa. Quando chegou a -baixo, disse mostrando os cinco passaros, que ia tirando -um a um, de dentro da camisa:</p> - -<p>—Toma. Agora dá cá o carro.</p> - -<p>—Dá tu primeiro os melros—observou-lhe o Tone.</p> - -<p>—Isso arreguilal-o!... Então, mão por mão, como -os rapazes.</p> - -<p>Todos os companheiros cercaram o possuidor dos -melros, olhando-o com olhos seccos e avidos!...</p> - -<p>Um pediu-lhe com um tom melodioso e humilde:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_15"></a>[15]</span></p> - -<p>—Dás-me este melrinho, Tone?</p> - -<p>—Não!—respondeu avaramente o da Engracia.</p> - -<p>—Tambem eu te não dou uma cousa...</p> - -<p>—O que é?</p> - -<p>—Quatro botões amarellos de duzia, muito lindos...</p> - -<p>E mostrou-lhe na palma da mão, para lhe causar inveja, -quatro botões com armas reaes, que tinham sido -furtados de uma antiga farda meliciana do avô. O filho -da Engracia gostou muito dos botões amarellos de armas -reaes, que valiam cada um, doze fôrmas! Por isso -trocaram. O Tone deu-lhe um melro por todos, por -isso ficou sómente com quatro, que metteu sensata e -reservadamente dentro da carapuça, para os não opprimir -e para lho’s não cubiçarem com os olhos. Os outros -rapazes, com o fim de captarem a confiança do -Tone, davam-lhe generosos conselhos:</p> - -<p>—Sabes o que deves fazer? Dá aos melrinhos sopas -de vinho—dizia um.</p> - -<p>Outro offerecia:</p> - -<p>—Ó aquelle, tu queres pão para elles, que eu dout’o? -Olha que hão de ter fome...</p> - -<p>E n’esta idéa caritativa, afastavam-lhes com os dedos -sujos as mandibulas, introduzindo-lhes na bôca pão esfarellado, -que os melros regeitavam.</p> - -<p>Um dos rapazes teve esta idéa:</p> - -<p>—Sabes o que os passarinhos querem? É beber.</p> - -<p>Passava ali um regato que em baixo ía fertilisar um -campo de herva. Na superficie da corrente, iam folhas -verdes e guiços. As tenras plantas que tinham nascido -no logar onde corria a agua, curvavam-se obedientemente,<span class="pagenum"><a id="Page_16"></a>[16]</span> -à sua passagem. Porém, nos momentos em que -a força da corrente era menor, erguiam-se com orgulho, -retomando a sua posição habitual. Os rapazes, -quizeram dar de beber aos melros n’este regato. Para -isso mettiam-lhe o bico na agua, empregando um esforço -meticuloso e cuidado. Porém elles, assim, não bebiam -bem, e o Zé do sachristão, que tinha onze annos, -disse com voz emphatica:</p> - -<p>—É que os melrinhos não sabem como se bebe, -meus asnos? Ensinae primeiro aos animaes como se -bebe!...</p> - -<p>Este alvitre foi adoptado e, para conseguirem o fim -desejado, lembraram-se de imitar, o modo como presumiam -que os melros velhos dariam de beber aos -seus filhos. Tomavam a bôca cheia de agua e introduziam -o bico de cada passarito entre os beiços. Porém, -como d’este modo ainda não bebiam, abriam-lhe -de novo as mandibulas á força, e com uma palha molhada -na corrente, deixavam lhes cair gotas na garganta. -Mas este processo era demorado, a paciencia infantil -esgotou-se e o Tone, para andar mais rapidamente, -metteu debaixo de agua a cabeça de um dos melros, ao -qual se encarregara de dar de beber e afogou-o, principiando -depois a choramingar. O Zé possuidor do carro, -disse com desconfiança:</p> - -<p>—Sim, matta-os e vem cá para eu te dar o carro -que has de vel-o por um canudo!...</p> - -<p>Na realidade, o filho da Engracia achava-se descontente -com a troca e principiava a pedir outra vez o seu -carro e o seu cabrito. O Zé respondeu lhe:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_17"></a>[17]</span></p> - -<p>—Isso é que não! Quem dá e torna a tirar ao inferno -vae pagar!</p> - -<p>E ao pronunciar estas palavras cabalisticas, fez no -ar uma cruz de maldição, com a mão em gume, afastando-se -com o cabrito e com o carro.</p> - -<p>O sol ainda ía alto e os rapazes, para gazearem correctamente, -deviam chegar a casa ás horas a que poderia -ter terminado a escola. Para se entreterem mais -algum tempo, lembraram-se de jogar o botão. A sorte -marcou o <i>rei</i> e o <i>fossa</i>—o primeiro e ultimo a <i>atirar -á buraca</i>; porque foi <i>este</i> o jogo preferido. Era n’uma -encruzilhada de dois caminhos, onde havia um cruzeiro. -O Zé do sachristão e os outros <i>maiores</i>, tiravam -das saccas que traziam ao pescoço, por dentro da camisa, -as <i>fôrmas</i>... O Tone conservava-se triste, a -certa distancia; pois que, antes de principiarem <i>á buraca</i>, -já lhe tinham ganho os botões amarellos, <i>á parede</i>. -Com o fim de obter mais fôrmas para poder jogar, teve -que vender ao Teixugo os melros <i>por duas duzias</i>. -Porém, no momento em que estavam verdadeiramente -presos n’este entretenimento ambicioso, ouviram uma -voz tremenda que lhes bradou de cima do muro sobranceiro, -com uma ironia terrificante:</p> - -<p>—Sim senhores, lindos meninos! Então uma gazeadella, -ein?!</p> - -<p>Era o senhor Antoninho, que ali apparecera casualmente, -andando á caça! Quando o mestre suppunha -que <i>aquelles</i> discipulos o estavam esperando na eira como -de costume, vae-os encontrar ali a jogar o botão!... -Os rapazes ao verem-n’o, olharam-se repassados de um<span class="pagenum"><a id="Page_18"></a>[18]</span> -terror estupidificante, ficando n’uma coacção espasmodica! -Os musculos faciaes permaneceram n’uma regidez -tetanica, e os olhos, muito abertos, fixaram-se, com uma -insensibilidade apparente, no <i>senhor professor</i>! Porém, -quando este se dispunha a descer o muro para os punir -a murro, elles seguiram o instincto salvador!... Fugiram, -deixando o carro, o cabrito, os melros, as fôrmas -e... tudo! O sobrinho do padre Beiral ainda lhes -gritou de longe, iracundo:</p> - -<p>—Andae meus grandes marotos, que ámanhã vos -ensinarei. Assim é que se vae á escola?! Ella vos saberá -ao alho, a gazeadella! A pelle das vossas mãos é -que o ha de pagar!</p> - -<p>Depois de mais os não ver, pegou nos melros, estorcegou-lhes -o pescoço, metteu-os no bolso, e disse para -si, com mais reflexão:</p> - -<p>—Sempre servem para um arroz!...</p> - -<p>E foi indolentemente, pelo caminho adiante, assobiando, -com a espingarda ao hombro.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_19"></a>[19]</span></p> - -<h3>II</h3> - -<p>Alguns annos depois, o Antonio da Engracia era tido -como o rapaz mais turbulento d’aquelles sitios:—attribuiam-lhe, -a elle e aos seus companheiros, todos -os casos bulhentos que por ali se davam. De todos os -seus amigos da infancia, faltava um, o Zé do sachristão, -que tinha ido para o Brazil, e já escrevera muitas -cartas. Na ultima fallava palavrosamente, com muitas -repetições emphaticas, de largos projectos de fortuna! -Affirmava estar muito contente, e promettia, se Deus -o ajudasse, vir d’ahi a annos, fazer o orgulho de seu -pae. Um longo periodo d’essa carta desvirgulada, era -destinado especialmente a recommendar muito o pequeno -cão, que deixara na aldeia no dia da partida... -Tinha-o em grande estimação, lembrava-se todos os -dias do <i>Rabicho</i>, desejava encontral-o quando voltasse...<span class="pagenum"><a id="Page_20"></a>[20]</span> -Esse animal, magro, aleijado, rijo e bom, representava, -para aquelle rapaz, um affecto incondicional, uma dedicação -cheia de provas... Obtivera-as na paciencia com -que lhe soffrera as travessuras infantis. Se lhe batia, -em vez de fugir ou de ladrar, rojava-se-lhe aos pés, -com o ventre para o ar, os olhos humidos e resignados, -ganindo humildemente, n’uma obediencia absoluta... -Na manhã de julho, na qual José partira, quando -elle, com os olhos rasos de lagrimas, se despedia -das mulheres da visinhança, que lhe atacavam os bolsos -de fructa; quando, pela ultima vez para muitos -annos, olhava para aquellas paredes negras e musgosas -da sua aldeia, para os penedos que estavam no alto -do monte, para os pinhaes sombrios... espalhando -sobre essas cousas inanimadas uma vista de saudade; -quando se despedia dos seus amigos que ficavam... -o seu cão, aquelle mesmo que recommendava em todas -as cartas, acompanhara-o, indo na frente, a vinte -passos, com uma perna no ar, correndo alegremente, -bebendo nos regatos do caminho, voltando atrás para -festejar seu dono, com movimentos expressivos de cauda, -e saltava-lhe ao peito! Fôra com o sachristão e seu -filho até meia legua fóra da freguezia; porém, o <i>velho</i>, -julgando inconveniente esta companhia, escorraçou-o para -casa, fazendo-lhe gestos de uma fingida colera theatral, -atirando-lhe pedras, e dizia: «<i>Passa fóra, Rabicho</i>». -O cão, com a sua perspicacia quasi humana, conhecendo -que era importuno, incommodo, que não devia -proseguir, subiu a um muro, e ali permaneceu de -pescoço firme, com o focinho para diante, as orelhas<span class="pagenum"><a id="Page_21"></a>[21]</span> -tesas, os olhos fixos, n’uma attitude observadora, até -que elles desappareceram!... Este rapaz de quatorze -annos deixava a sua aldeia e as suas queridas affeições. -Ia muito longe, procurar uma fortuna incerta!... -Poderia, no contacto do mundo indifferente, -perder muitas das intimas recordações da sua terra. -Porém, o que elle nunca esqueceria, era o dia em que -partiu, as mulheres que lhe davam a fructa chorando, -os rapazes que ficavam sentados nas pedras do caminho -e a firmeza esperta do seu cão em cima d’aquelle -muro! Em todos os quadros da sua vida infantil, que -muitas vezes reproduziria de memoria, para contentar -a saudade natural, appareceria decerto aquelle cão, em -cima d’aquelle muro, n’uma posição intelligente e nervosa, -com sol a illuminal-o fortemente de um lado!... -N’esta ultima carta, ainda se lembrava nitidamente de -toda a visinhança, designando cada um com o seu nome -por extenso e acrescentando-lhe <i>o alcunho</i>. <i>Á senhora</i> -Engracia do Repolho, por exemplo, aconselhava -a que mandasse o seu Antonio para <i>aquella</i>, affirmando-lhe -de um modo cathegorico «que ali é que se ganhava -dinheiro e <i>se fazia a gente homem</i>».</p> - -<p>O sachristão, tendo soletrado meditadamente, por -tres vezes, toda essa extensa carta, saíu de casa para -a levar ao padre Beiral, o mais circumspecto dos ecclesiasticos -visinhos!... Era um homem pacato, com -algumas impaciencias veniaes, com muitas impertinencias -de achaques, lembrando-se, sempre que lhe perguntavam -pela saude, que vinha a morrer da bexiga, pelo -que batia com dois dedos no baixo ventre exclamando:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_22"></a>[22]</span></p> - -<p>—Ah! vem a ser d’aqui... D’aqui é que hei de ir -para os anjinhos como o João Thomaz!...</p> - -<p>O João Thomaz era um seu antigo condiscipulo, que -morrera parochiando na freguezia limitrophe!...</p> - -<p>Na sua comprida varanda telhada e soalheira, é que -o Beiral reproduzia as suas queixas, cumprindo, já se -entende, regularmente com as suas resas!... Interrompia-se -sómente para deitar <i>um milhinho</i> ás gallinhas, que -esgravatavam no quinteiro e que logo ao verem-n’o passear -de lado para lado, faziam cácárácá... Mas, todos -os seus peccados, vinham de que os porcos, impacientes -e gulosos, afugentavam as aves com grunhidos, com -impulsos de focinho, o que, para elle, era mesmo uma -damnação... Por isso o ecclesiastico, com pequenos -gestos de frenesi, quando isto succedia, voltava á cesta -do milho, tomava novamente a mão cheia, e espalhava-o -habilidosamente no quinteiro, com um largo gesto -de orador que abrange um auditorio. As gallinhas, -já conhecedoras d’esta artimanha, logo que sentiam o -crepitar do grão sobre as pedras do quinteiro, corriam -precipitadamente de todos os lados, com as azas abertas, -os pescoços alongados, as mandibulas promptas, -e principiavam a comer soffregamente, antes que chegassem -de novo os porcos.</p> - -<p>No momento em que entrou na varanda o sachristão, -remoía, o padre Beiral, as ultimas palavras da sua -resa. O pae do <i>brazileiro</i> disse-lhe do fundo da escada -de pedra, mostrando-lhe um papel azul, com um bom -riso de contentamento:</p> - -<p>—Cá a temos, senhor!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_23"></a>[23]</span></p> - -<p>O ecclesiastico abriu-se tambem, n’um riso expontaneo -e exclamou:</p> - -<p>—Não t’o disse eu?! O rapaz não se esquecia... -Lá por não teres na ultima barca, não é que se não -lembrasse.</p> - -<p>—Vae muito bem, com a ajuda de Deus que tudo -manda, vae muito bem!</p> - -<p>—Está bom, homem. Entra cá para cima.</p> - -<p>E n’uma voz mais baixa:</p> - -<p>—Que diabos de porcos aquelles! São o vivo demonio. -Ó Maria—chamava. Anda cá rapariga!</p> - -<p>Do lado do quintal respondeu uma voz sadia, n’um -tom malcreado e agudo:</p> - -<p>—Que é, senhor?</p> - -<p>—Aquelles porcos que rompem o lençol... Deixa -lá Manuel... Vem cá p’ra cima que a rapariga arranjará -isso. Com que então o teu Zé escreveu e dá bôas -noticias!... Muito bem, muito bem...</p> - -<p>—Aqui lh’a trago...—certificava com rosto satisfeito, -apresentando uma carta de papel azul, pautado, -muito fino, que lhe rangia entre os dedos. Trazia-a -cuidadosamente dobrada, tendo rasgado unicamente a -parte collada pela obreia vermelha e quadrangular. -Mostrava com orgulho o talho da letra commercial do -sobrescripto, os carimbos de tinta atijolada, os dois -sellos azues, representando a dôce efigie do imperador, -com a sua fina barba-toda. Depois, para que o -ecclesiastico visse o que o seu Zé dizia, abriu melindrosamente -a carta, e entregou-lha affirmando em seguida:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_24"></a>[24]</span></p> - -<p>—Leia, senhor, leia que <i>está-the</i> mesmo um <i>home</i>. -Falla com uma cabeça!...</p> - -<p>E, ao pronunciar estas simples palavras, tinha lagrimas -orgulhosas, por ter um filho que <i>não merecia a -Deus Nosso Senhor</i>.</p> - -<p>O Beiral disse-lhe:</p> - -<p>—Confesso-t’o agora Manuel. Nunca pensei que fosse -para lá fazer boas cousas. É bem certo o dictado: -«Quem bom é, em toda a parte se salva.»</p> - -<p>E, com a inflexão do homem que conhece muito o -mundo, acrescentou com uma reserva premeditada:</p> - -<p>—Olha que as más companhias por esse universo fóra -são muitas. Digo-t’o eu, Manuel, que são muitas.</p> - -<p>Depois, com os seus bons oculos de aço, que primeiro -limpou ao forro da batina, tomou a carta aberta, -pol-a á distancia do comprimento do braço, e, com signal -approvativo de cabeça, disse com voz cantada:</p> - -<p>—Apre! Bonita letra! Meu sobrinho sempre disse -que para cousas de escripta era um dos que tinha mais -geito. Do que elle não gostava, era que o teu filho andasse -por esses montes aos ninhos. Lá com isso damnava-se. -Todos os caçadores são assim... Que lhes matem -a criação nos ninhos, não gostam nada!...</p> - -<p>E ria de um modo secco e breve.</p> - -<p>—Saiu-me um rapaz que não mereço ao Altissimo. -Leia essa carta, senhor!—considerou o pae do <i>brazileiro</i>, -com uma pronuncia sensibilisada e lacrimosa.</p> - -<p>O clerigo continuou:</p> - -<p>—Está bom, o rapaz sabe da cortezia. «Meu presadissimo -pae.» Meu sobrinho puxou-te bem por elle.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span></p> - -<p>—Estou-lhe obrigadissimo. Isso ainda que ponha a -cara onde elle põe os pés...</p> - -<p>—Não lhe pagas não, pódes dizer—concluiu convencido.</p> - -<p>E continuou a lêr n’um tom pausado, cheio de cadencia, -pronunciando com inflexão approvativa de elogio...</p> - -<p>—«Desejo ir, muito brevemente a <i>essa</i>, para dar -alegria a meu pae.» Não tem duvida, é bom filho. Ha -quantos annos foi?</p> - -<p>—Faz seis lá passante o S. João que vem.</p> - -<p>E o ecclesiastico, como recordando-se, confirmou:</p> - -<p>—É verdade. Agora me lembro. Quando me veiu -dizer adeus, dei-lhe peras das que tenho d’esse tempo.</p> - -<p>O sachristão acrescentou melancolicamente.</p> - -<p>—Parece que foi honte, senhor!...</p> - -<p>—E queres vêr o que elle diz aqui abaixo?! «Diga -á tia Engracia do Repolho que mande o Tone para -<i>esta</i>.»</p> - -<p>—Logo lá hei de ir—affirmou com simplicidade o -sachristão.</p> - -<p>O Beiral interrompeu com energia:</p> - -<p>—É malhar em ferro frio! Um grande brejeiro, é -que elle é. Não sae ao teu, que por andar com elle tambem -cheguei a pensar que ficasse por ahi um...</p> - -<p>E remoeu longamente a lingua na bôca, para concluir -com os beiços alongados e as proeminencias malares -vermelhas:</p> - -<p>—... um <i>meliante</i>.</p> - -<p>O sachristão atalhou com serenidade orgulhosa:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span></p> - -<p>—Elle tinha um pae! Vossa Senhoria bem sabe, que -não punha nada em lhe atirar os braços a terra, em -lhe pôr os ossos n’um feixe!...</p> - -<p>O Beiral respondeu:</p> - -<p>—Deste-lhe a criação. Elle não era dos mais quietos -(e sorriu bondosamente), valha a verdade que não -era dos mais quietos; mas soubeste ser pae. Nunca foi -como esse brejeiro, esse grande tratante, que me escangalhou -uma videira o anno passado (enthusiasmava-se -gradualmente), e me roubou as uvas que eu tinha -ali para uma necessidade, para uma doença! Sabes? -aquella videira lá do outro lado, ao pé da porta de -baixo, e que seccou depois!...</p> - -<p>O sachristão respondeu intrigado, coçando a cabeça:</p> - -<p>—Valha-nos a Santa Igreja!... Aquillo vae mal, senhor. -O rapaz tem feito muitas; mas ha de encontrar -o seu <i>home</i>.</p> - -<p>—O que?—diz o clerigo afogueado. O seu homem -hei de ser eu! Uma farda ás costas! Uma farda, entendes -tu?! Não descanço emquanto lh’o não fizer. Tenho -muito amigo, <i>nesse</i> Vianna! Olha que lh’a arranjo.</p> - -<p>E ficou com um aspecto apopletico:—concentrava-se-lhe -gradualmente o sangue nas faces, os olhos tomavam -uma vivacidade tigrina e a voz era tremula e humida. -Contra o <i>adoptivo</i> de Engracia ainda disse muitas -cousas:—elle é que lhe tinha aleijado um carneiro, -attribuia-lhe o desmoronamento de uma parede que apparecera -no chão em certa manhã de inverno, e affirmava -que não fôra a ventania mas sim o Antonio que lhe -destelhara um canastro, com o fim malefico de se lhe<span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span> -estragarem as espigas com toda a chuva de uma tempestuosa -e terrivel noite de inverno. E concluiu assim:</p> - -<p>—Pódes dar graças a Deus que o teu saiu-te um -rapaz chibante. Mas este de cá!... Este grandissimo -maroto que me aleijou o carneiro! Bem se vê que falta -um homem n’aquella casa! O Bernardo é um... -um <i>cebola</i>. Já disse á Engracia que mandasse aquelle -(não sei como lhe chame, Deus me não castigue!) para -a terra!... Mas qual manda ou qual carapuça! É uma -babosa pelo garotaço, e quer deixar-lhe tudo. Emprega-o -bem!</p> - -<p>O sachristão, que era homem de rosto moderado, -cheio de conveniencias, depois de ter escutado respeitosamente -as invectivas do sacerdote, cortou-lhe assim -a conversa:</p> - -<p>—Pois sim senhor... Então vou lá ao senhor mestre -mostrar-lhe a carta do <i>meu</i>. <i>Tamem</i> lhe manda -muitas recommendações e eu quero que elle veja.</p> - -<p>—Talvez o não encontres—disse o Beiral mudando -de tom.—Aquillo, a estas horas, anda lá para o monte -á caça. Mas chega lá sempre, a ver se o vês, que os -professores gostam muito d’essas novidades e d’essas -attenções.</p> - -<p>E quando o pae do <i>brazileiro</i> já ía no caminho, o -padre tornou a chamal-o de cima, debruçando-se na -varanda, para lhe dizer:</p> - -<p>—Mostra tambem a carta á Engracia do Repolho, -não te esqueças, para vêr se manda esse <i>licante</i> por -uma barra fóra!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span></p> - -<p>—Não tem duvida, senhor. Não me esqueço, logo -lá vou.</p> - -<p>E o ecclesiastico recolhendo-se, concluiu para si, com -um bondoso gesto de impaciencia:</p> - -<p>—Mas que diabo ha de ir fazer ao Brazil, aquelle -desgraçado, se nem sequer aprendeu a escrever o seu -nome!...</p> - -<p>Por isso o Beiral ficou triste, remoendo intimamente -as suas idéas singelas e sem caracter. Sentindo o cacarejar -espantadiço de uma gallinha, que fugia precipitadamente -diante do focinho impetuoso de um cevado, -tomou da cesta a mão direita cheia de milho e espalhou-o -na largura do quinteiro, dizendo: <i>ó diabo!</i> Depois, -com o seu olhar fixo, de pouca penetração, seguiu -os movimentos dos porcos e das aves, pensando -nas cousas insignificantes da sua vida baralhada!</p> - -<p>O sachristão, no caminho para casa do senhor Antoninho, -levava na mão esquerda, a carta cuidadosamente -dobrada. Todos a viam—era de fino papel azul, que -rangia entre os dedos, um papel bem conhecido. As -pessoas que o encontravam e que haviam recebido noticias -dos filhos que tinham no Brazil, contavam-lhas -miudamente. Aquelles a quem faltava carta, havia muitos -annos, mostravam-se tristes, desconsolados, impertinentes -na conversa, quasi invejosos, querendo duvidar -das felicidades que se deprehendiam d’aquelle venturoso -papel!</p> - -<p>O Manuel, como não encontrou na aula o senhor -professor, desceu a um caminho para ir a casa da Engracia, -com a intensão reservada de lhe ler a carta,<span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span> -acrescentando-lhe os commentarios favoraveis do padre -Beiral. Porém a mulher do Repolho não estava para o -aturar e disse-lhe, com modo desabrido, que não queria -receber conselhos e que «quem lhe encommendára o -sermão que lh’o pagasse». Não admirava este azedume -a quem soubesse que lhe tinha morrido, n’esse dia, um -touro que valia oito moedas! A perda irritara-a, o modo -furtuito como acontecera <i>essa desgraça</i> indispozera-a -para ouvir o sachristão, que, offendido pelas respostas -aggressivas de Engracia, respondeu, tambem melindrado:</p> - -<p>—Ó santinha, eu tenho lá nada com as suas cousas, -com os seus touros!...</p> - -<p>—Pois tambem eu não me importo com as suas riquezas! -O seu filho, se tem muito, que se levante de -noite da cama, para o comer!</p> - -<p>E, com um estrepito insolente, bateu-lhe com a porta -na cara.</p> - -<p>O pae do <i>brazileiro</i>, que era um homem moderado -e bem fallante, offendeu-se com isto, perdeu a cabeça -e, ao retirar-se, ainda disse, voltado para a porta que -se fechára, com uma voz alta e insolente:</p> - -<p>—Ah! minha tronga! O que tu querias era um bom -fueiro n’esse costado! Fosses minha mulher, que te -não havia de faltar!</p> - -<p>Engracia, que percebeu este alanzoado, ainda veio -fóra para lhe responder, e disse:</p> - -<p>—Olhe, dê lá <i>retolicas</i> na sua casa! Alguem cá o -chamou?! Ora o diabo do camello!</p> - -<p>O Manuel, na volta para casa do Beiral, repetiu o<span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span> -que se passára com a mulher do Repolho, acrescentando:</p> - -<p>—Se Vossa Senhoria lhe arranja uma farda para o -meliante, ganha o céu! Era uma bem pregada! Elle -anda por ahi a fazel-as gordas; mas ha de encontrar o -<i>seu homem</i>!</p> - -<p>O sacerdote, novamente indignado, certificou-lhe:</p> - -<p>—Oh! se encontra! E hei de ser eu, já te disse! Isso, -a farda, tem-n’a elle tão certa como dois e dois serem -quatro...</p> - -<p>E depois de um silencio reflectivo, o Beiral concluiu:</p> - -<p>—Que a Engracia não é má mulher; mas anda com -a cabeça perdida com o brejeiro! Lá essas arenegações -d’ella, não faças tu caso. Olha que perder, não -faz bom cabello. A gente, quando lhe succede uma desgraça, -não sabe o que diz.</p> - -<p>A proposito, o Beiral narrou pelo miudo o <i>caso do -touro</i>; porque o sabia. Tinha-lh’o contado a Feliciana, -que presenceara tudo, que vira caír o demo do bicho -da ribanceira abaixo, espapando-se no caminho. Andava -o animal, com outro gado, no campo a pastar. Parecia -que trazia o mafarrico no corpo; porque todo o -santo dia o viram n’uma constante brincadeira, a escornar -os outros, a dar corridas em vez de comer socegado! -Parecia mesmo doido, a fugir pelos campos -com a cabeça estendida para diante, o rabo levantado -em fórma de pau de bandeira, e a extremidade felpuda -ondeando, como um pennacho! Depois, quando chegava -a uma beira alta, estacava de repente a olhar para<span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span> -o longe muito tempo e, raspando no chão com um -pé, continuava a comer muito de vagar, como se nada -tivesse sido com elle! Passado algum tempo vinham-lhe -novos caprichos, nova maluquice e corria para os -bois a escornal-os, a provocal-os á lucta, á corrida, ao -salto... O pastor bem lhe fallava, bem lhe berrava, -mas era o mesmo que nada! Por fim determinou não -fazer caso d’elle e deixal-o lá, chegando mesmo em -certos momentos a tomar interesse, a sorrir-se inconscientemente, -quando o touro atravessava vistosamente, -dando pulos, por entre as arvores. O pastor era um -rapasito de doze annos, com a cara manchada de nodoas -de terra, o olho vivaz, vestido com uma camisa -de tomentos muito suja, e umas calças remendadas. -Estava a olhar risonho e irreflectidamente para o animal, -quando elle passou de uma vez com mais furia, com -as pernas muito abertas, o dorso arqueado, a cauda -horisontal, a cabeça baixa, dando saltos cheios de capricho... -Ia na direcção da estrada, para o lado onde -havia um muro alto! Corria n’uma vertigem, com um -impeto louco e, o rapazito, esperava vel-o parar rapidamente, -antes de chegar á extremidade! Porém não -succedeu assim! D’esta feita venceu mais que a largura -do campo, saltou o muro e caiu em baixo, no fundo -caminho pedregoso, dando um forte berro, ao mesmo -tempo estridente e lamentoso, que foi echoar nas -cavidades dos montes proximos. Ficou instantaneamente -morto e a Engracia teve de o vender aos marchantes -da villa proxima que, no dia seguinte, poderam dar -carne a pataco o arratel!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span></p> - -<p>Ora, foi por causa d’esta perda de moedas, que Engracia -estava azuada e respondeu mal ao sachristão, -que ía lá para lhe dar conselhos, sem lh’os pedirem!...</p> - -<p>O Beiral terminou conceituosamente:</p> - -<p>—Isto de perder não faz bom cabello... Coitada! -Tu bem sabes que não faz bom cabello... Coitada!</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span></p> - -<h3>III</h3> - -<p>Quando o Antonio chegou aos vinte annos feitos, já -tinha esquecido completamente a aldeia risonha onde -nascera e o rosto bom de sua irmã Quina que, por -seu lado, se o encontrasse, tambem não seria capaz de -reconhecer o seu amigo de infancia, n’este homem barbado, -com modos bruscos de feirante, com gestos insolentes -e desordeiros de troquilha!... E tanto se habituou -a ter vida vagabunda, que nos ultimos tempos, -não dormia em casa de seus paes adoptivos, metade -dos dias de cada semana!... Andava pelas tabernas, -de feira em feira, n’uma vida accidentada e bulhenta, -sempre em companhia de outros <i>feirantes</i>, e da Marianna -Ripa, sua amasia!... Esta Marianna Ripa era -uma mocetona alta, bem proporcionada, com certa vivacidade -vaidosa e impudica!—uma creatura demoniaca,<span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span> -cheia de tentações malditas, infelismente appetecidas -pelos fracos da carne, pelos numerosos peccadores -de todos os tempos!... Nos seios altos e avolumados, -nos quadris largos, a que ella dava geitos lubricos, -quando andava, para fazer assim ondular as saias de -côres vivas e excitantes... residiam as tentações infinitas -das lendarias Magdalenas, antes do santo dia do venturoso -arrependimento!... As feições rasgadas e energicas -accentuavam-lhe o caracter dominador, que melhor se -lhe reconhecia no olhar cheio de impudencia e lubricidade! -A sua vida passava-se pelas feiras, entre troquilhas, -com os quaes se entendia nos ajustes de gados, -bebendo como elles por copos de meia canada, interessando-se -nas suas vendas e trocas! O predominio que -Marianna exercia sobre o Fogueira, depois que era sua -amasia, todos os companheiros d’elle, o Rio-Tinto, o -Fanfarra... o sabiam. Era ella que muitas vezes o impedia -de ir a casa, dando-lhe conselhos malditos, indusindo-o -a que abusasse da affeição que Engracia e -Bernardo lhe tinham, para lhes <i>pilhar tudo em vida</i>!...</p> - -<p>—Porque—insinuava-lhe a moça—pode-te acontecer, -como lá a um rapaz da minha freguezia... Ateve-se -ao que a madrinha lhe havia de deixar por morte, -não se segurou nas cousas a tempo e, vae a bebeda -da velha, roeu-lhe a corda e lá se foi tudo!... Em -vez de lhe testar a elle os campos, como tinha promettido, -metteu-se com a coruja, um tratante de um padreca, -que lhe principiou a contar tantas lonas, que a coira -vae deixar tudo lá a uma confraria e o asno ficou a -chuchar no dedo!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span></p> - -<p>Estas idéas allucinavam o cerebro do adoptivo da -Engracia, que depois de escutar Marianna, ficava mais -estonteado do que tivesse bebido, de uma assenada, -uma canada do rascante!... No entanto a verdade é -que esta vida mundana de feirante, na companhia da -Marianna e dos seus amigos, quadrava-lhe, era sympathica -áquella organisação impetuosa!... Os seus modos -estouvados, os seus arremeços selvagens e doidos -pelos quaes era notado entre troquilhas, é que já lhe -tinham garantido o alcunho de «<i>Fogueira</i>». Alem d’isso, -como era franco, generoso—um mãos rotas—os que o -cercavam, a Ripa principalmente, entendia que se o -seu amante viesse a obter qualquer cousa da herança -da mãe, era certo que alguma parte lhe caberia!... -Por isso o aconselhava d’aquelle modo, e todos o lisongeavam -com blandicias intencionaes.</p> - -<p>Foi por este tempo, e n’uma das occasiões em que -o Antonio andava por fóra, que succedeu <i>a desgraça</i> -de que morreu o Bernardo Repolho:</p> - -<p>Era um dia chuvoso; via-se a cumiada dos montes -coberta por densas nevoas designativas de chuva prolongada! -Soprava um vento forte, que produzia na amplitude -dos campos uma ondulação uniforme nos arvoredos. -Como se estava verdadeiramente no coração do -inverno, no mez de fevereiro, os campos e os montes -sem flores e sem folhas, tinham um aspecto duro de -severidade! As chuvas, em grossas bategas, acompanhadas -de fortes saraivadas, batiam rijamente nos telhados -com uma crepitação ruidosa e aspera, que se continuava, -durante horas! N’um d’estes dias de invernia<span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span> -teimosa e tristonha é que o Bernardo Repolho teve -necessidade de ir buscar uma carrada de barro, do -qual muito precisava para arranjar o seu forno!... -Por isso, na primeira aberta illusoria, mandou o Chico -tirar os bois da côrte, cangou-os, pol-os ao carro e -partiram... A barreira era na encosta de um monte alto -e muito ingreme. Bernardo e o Chico, quando íam pelo -caminho, já descortinavam ao longe, essa excavação de -um alaranjado irritante, que sobresaía no terreno circumjacente, -melhor do que a mancha clara de uma eira. -Como o barranco estava logo por cima da estrada de -carro e, para chegar lá, bastava subir um estreito carreiro -em declive, Bernardo disse ao rapasito que ficasse -á sôga dos bois, que eram novos e muito espantadiços, -emquanto elle ía cavar o barro e acarretal-o. Porém, -quando chegou acima e viu no fundo da barreira -uma tamanha accumulação de agua da chuva que, para -a atravessar, tinha de se arregaçar, sentiu uma impressão -desfavoravel, e inconsideradamente disse:</p> - -<p>—Diabo! Que mar!...</p> - -<p>Na realidade a chuva, durante a noite, tinha sido mais -copiosa do que elle pensára! Escorrera em grandes -enxurradas pelo monte abaixo e infiltrara-se, abrindo -fundas guellas no terreno, vindo accumular-se no fundo, -formando uma especie de larga poça. O Bernardo -reconheceu perfeitamente, que para tirar o barro, só -o podia fazer do logar onde as fendas estavam ameaçadoras -e escancaradas, como guellas de lobo uivando! -Porém, com a ajuda de Deus, o Repolho aventurou-se -e, puxando as calças até ao joelho, metteu-se<span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span> -á agua com o fim de passar... O perigo a que se foi submetter -era evidente, a barreira suprajacente parecia -estar quasi a esboroar-se... porém o marido da Engracia -foi para diante, sem preoccupação nem receio, -principiando a dar sacholadas bem puchadas, para aproveitar -aquella <i>aberta</i>! N’esse momento é que passava -pelo lado de cima um visinho que lhe disse:</p> - -<p>—Oh! diabo. Com este tempo ao barro, é por força -sangria desatada!</p> - -<p>Bernardo, voltando-se para elle, respondeu com a sua -cara de bom homem:</p> - -<p>—Ah! Es tu Joaquim? É que tenho lá o forno a caír, -precisa a patroa de coser o pão e, vae por isso, vim -buscar esta carrada...</p> - -<p>O outro observou-lhe com penetração:</p> - -<p>—Mas tu ahi não estás bem, home! Esta terra pode-te -caír em cima.</p> - -<p>Bernardo considerou despreoccupado:</p> - -<p>—Ora, logo havia de caír, n’um migalhito que eu -aqui me demoro! Não cae.</p> - -<p>—Não cae!—insistiu Joaquim. Não era o filho de -minha mãe, que se ía metter ahi. Se se esbarronda, -ficas ahi espapado, como um sapo. P’ros filhos que -tens!... Olha, tu lembras-te d’aquelles dois homes, -que ficaram enterrados na barreira lá em baixo?! Foi -uma cousa assim, por causa da chuva.</p> - -<p>Bernardo recordou o facto dizendo:</p> - -<p>—Ah! bem sei. Isso foi n’um domingo. Se te parece, -trabalhar ao domingo!... Foi um castigo.</p> - -<p>—Home, não é domingo, nem meio domingo. A barreira<span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span> -caíu-lhes em cima e matou-os. Tu ahi não estás -bem. Eu cá mandava a cosedura do pão p’rás profundas -do inferno e vinha outro dia buscar o barro! Vê -lá no que te mettes. O diabo arma-as.</p> - -<p>—Á sorte de Deus—rematou Bernardo com resignação.</p> - -<p>E continuou a cavar, com pressa, aproveitando o bocanho, -que não durou muito. Uma chuva pesada e forte, -principiou a caír sobre os arvoredos, produzindo -o fremito de muitos enxames de zangões! A atmosphera, -densa e opaca, de uma côr uniforme entre o -cinzento e o azul, a côr da agua <i>pulverisada</i>, obscurecia -os objectos distantes. O vento impetuoso impellia -a chuva, produzindo no ar ondulações extensas e regulares. -Os ramos delgados das cerdeiras, dobravam-se -passivamente. O rapasito, que ficara no caminho, -guardando os bois, aconchegava-se, tiritando, ao velho -corucho de palha, que o cobria. Os seus pés vermelhos, -lavados pela chuva, estavam sobre a lama. As mãos escondia-as -nos sovacos para as aquecer. Com o fim de -se abrigar do vento que passava zumbindo, mettia-se -por detrás dos bois, conservando a aguilhada encostada -a si. Os seus cabellos castanhos, de um comprimento -desleixado e desigual, empastavam-se-lhe na testa. -O olhar era mortificado e de paciencia; porque a tia -Engracia, nos seus pessimos momentos de genio irrascivel, -batia-lhe; e o Antonio dava-lhe pontapés immerecidos. -Por isto, e porque era engeitado, é que o -Bernardo Repolho, um homem compadecido, mais se -lhe affeiçoara... Porém esta amisade, nunca obstou a que<span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span> -sua mulher o esmurrasse desalmadamente e a que, -seu filho adoptivo, lhe désse pontapés que o atiravam -de focinhos!...</p> - -<p>Como a chuva engrossava de cada vez mais, o Repolho -chamou o Chico, para se recolher na cova onde -elle se abrigára da chuva, recommendando-lhe, ao mesmo -tempo, que calçasse o carro para os bois não fugirem. -Então o rapaz, pegou n’uma grande pedra, supezando-a -contra o peito e foi-a atravessar diante das -rodas do carro. Depois, unindo-se muito ao seu corucho, -para se agasalhar, subiu a ladeira, saltou o portello -e, inclinando instinctivamente o tronco, correu pelo -monte acima, entrando no barranco por um carreiro. -Elle e seu amo ficaram ambos abrigados sob aquella -mesma abobada de terra que, na opinião do Joaquim -Moita, quanda fallára a Bernardo, podia esbarrondar-se -e matal-os n’um prompto—n’um abrir e fechar de -olhos. Mas elles achavam-se ali bem, n’um silencio -meditativo, diante das montanhas, cuja corpulencia se -confundia no esfumado da chuva copiosa. Como o vento -soprava do sul, não os incommodava. Bernardo estava -em pé, com a sachola encostada ao hombro e -o Chico agachado junto d’elle. Conservaram-se algum -tempo calados, olhando distraidamente para o ar, que -tinha impulsos ondulatarios como o das vagas, para -os campos subjacentes de um verde esmorecido, para -as arvores proximas que se vergavam á força da -ventania. O Repolho entreteve-se alguns minutos a considerar -como as gotas da chuva tornavam aspera e -irregular a superficie da agua barrenta, que se accumulára<span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span> -no fundo da barreira!... O rapasito, sentado -sobre os calcanhares, olhava para os montes distantes, -contando mentalmente o numero de cabeços, nunca -acertando com quantos eram!... Porém a chuva carregava -de cada vez, com mais impeto, e o velho disse -com tristeza:</p> - -<p>—Santo nome de Maria, que tempo este!</p> - -<p>O Chico observou:</p> - -<p>—Parece que hoje não podemos carregar, tio Bernardo...</p> - -<p>—Estou-t’e a ver que sim, home! E isso é que é -uma da breca!</p> - -<p>—Então vamos já para o lume—aconselhou o rapaz. -Estou com um frio, que nem sinto.</p> - -<p>Bernardo respondeu com voz reprehensiva, mas benevolamente:</p> - -<p>—És maluco! E tua ama? Se apparecemos lá sem -o barro para compor o forno, faz ahi uma pregação de -seiscentas pipas! Isso, ainda que se esteja até á noite, -havemos de o levar!</p> - -<p>Calaram-se, conservando-se ambos n’uma taciturnidade -ingenua e triste! Um travesso pardal, dando pios seccos -e asperos, saltava nos ramos de um carvalho proximo, -alegremente despreocupado. A chuva caía de cada vez -em maior abundancia! O som gemebundo do vento estendia-se -amplamente pelas quebradas, com o seu ulular -maguado, de uma longa plangencia funeraria!</p> - -<p>As enxurradas cresciam, descendo com impeto pelos -montes. Este sussurro aspero e saliente lançava -uma discordancia rebelde no assobiar espaçado do vento<span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span> -na amplidão! O Bernardo Repolho e o Chico escutavam, -com semblantes dependentes d’este ruido das -aguas que se aproximavam! O barulho vinha crescendo -para elles, precipitando-se de barranco em barranco! -Ambos calculavam mentalmente, prevenindo-o, sem -o menor susto, sem a menor idéa de perigo, que os -enxurros d’aquelle monte, tendo de se vir reunir nos -pontos mais baixos, juntariam as suas aguas áquellas -que ali estavam no fundo da barreira, diante dos seus -olhos indifferentes... Na realidade, pouco depois as -largas fendas abertas na terra ao lado d’elles, principiaram -a vomitar as aguas que vinham do alto monte!... -O seu volume crescia de uma maneira incongruente e -precipitada!... A principio tinha-se ouvido sómente um -sussurrar brando, um <i>ou-ou</i> de mar distante... Em seguida -esse barulho foi-se engrossando, foi enrouquecendo -de um modo cada vez mais antipathico e aproximava-se -rapidamente, como a voz stertorosa de um -trovão, que viesse do lado das montanhas... Por fim, -quasi inesperadamente, sentiu-se um estampido rapido, -juntou-se-lhe um estrondo abafado e terrificador, -que pareceu surgir das profundas entranhas da terra! -Durou apenas alguns segundos!... Porém, tanto -Bernardo como o seu pequeno creado, não tiveram -tempo de comprehender o que seria!... A enorme -barreira, sob a qual se abrigavam da chuva e do vento -tempestuoso, caíu sobre elles, com a brutalidade -inconsciente de um grande penedo que se tivesse desprendido -de um alto pincaro e sepultou-os de um modo -fulminante!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span></p> - -<p>Assim morreram estas duas creaturas, indifferentemente, -por esta fórma singela e e pallida!</p> - -<p>O visinho, que predissera ao Bernardo Repolho a -desgraça que lhe podia acontecer, estava a certa distancia, -abrigado da chuva sob um velho carvalho ramudo, -e presenciou a catastrophe! Foi elle que a descreveu -nas suas mais insignificantes particularidades, -fallando e gesticulando animadamente, como quem se -tinha encontrado, mais ou menos envolvido n’este acontecimento -obscuro da morte de um homem e de um -pobre engeitado, verificado em circumstancias de um -tão vigoroso effeito theatral! E por que os seus conterraneos, -que o escutavam com os olhos abertos e muito -pasmados, tiveram a simploria idéa de attribuirem o -successo a artimanhas infernaes, dizendo: «o demonio -arma-as», o Joaquim exclamou com certa intimativa volteriana -e vivamente resentido para com o morto Bernardo -Repolho, que despresára os sensatos conselhos -que elle lhe dera:</p> - -<p>—Qual demonio nem meio demonio! Foi a cabeça -d’elle que não regulou, é o que foi! Eu bem lh’o disse: -«Home, tu ahi não estás bem». Mas elle que era -muito teimoso, respondeu-me assim com a sua cara -de lorpa e de <i>bom serás</i>: «Ora, não ha de ter duvida, -se Deus quizer...» Não tinha duvida, não tinha duvida, -mas foi morrendo, espapado! Ficou mesmo como -um pato, sem dar um pio! Assim é que elles se ensinam!... -O <i>não tem duvida</i> foi o que se viu!—rematou -com modo triumphante, quasi de uma vingança satisfeita!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span></p> - -<p>Uma rapariga nova, uma engeitada de cara sardenta, -com os cabellos mal penteados, e que escutara attentamente -a narrativa, tomou a deixa de Joaquim da -Moita e interferiu com esta observação:</p> - -<p>—Ai! não tem duvida não tem duvida! Por causa -do não tem duvida, é que pariu minha mãe!</p> - -<p>Toda esta gente, depois que a chuva passou, se dirigiu -ao logar onde o caso succedera. Pelo caminho íam, -conversando, em magotes. Algumas mulheres, relembravam -com voz emphatica, como de quem dá um esclarecimento, -que tinham visto n’esse mesmo dia Bernardo, -caminhar para a morte, de pé, em cima do seu -carro, com a aguilhada encostada ao hombro, na despreoccupação -serena de um predistinado! O rapasito que -tambem morrera debaixo da terra, o Chico, ía á soga, -todo encolhido, coberto com o seu corucho, berrando -aos touros, que puchavam mal, encostando-se com teimosia -um ao outro... Certas pessoas referiam insignificancias -da vida do Repolho dando-lhe certo valor, fazendo-as -sobresaír, e recordavam as ultimas palavras que -lhe tinham ouvido, ainda mesmo n’aquelle dia, horas antes, -quando passára em frente da porta da Anna Benta!... -Bernardo tinha dito, com aquelle seu bom modo -triste «que estava um inverno de se pedir misericordia -a Deus Nosso Senhor!...» e a Rosa Viuva, queria -fazer acreditar a todas as pessoas presentes, que taes -palavras significavam que o homem de Engracia tivera -uma voz de dentro do coração, que lhe predissera a -morte!... E como alguns homens incredulos lhe retorquiram: -«Isso póde lá ser!» ella recordou tambem outra<span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span> -phrase saliente, que tinha ouvido ao mesmo Bernardo, -no domingo precedente, ao saír da missa: «Isto -não está tempo cá para os velhos, mulher!... Com -esta invernia caímos ahi como tordos!...» E assim -tinha succedido, não chegou a durar oito dias!... Por -isso, todos vieram a concordar, que o pobre homem -adivinhara o seu fim, o triste fim que havia de ter de -baixo de uma barreira!...</p> - -<p>Ao logar do sinistro, onde já estava muito povo reunido, -chegaram as auctoridades, para se desenterrarem -os cadaveres. Vinha o cirurgião, o José Pandega,—um -rapaz de bigode e pêra como os soldados, que, -farto de andar a estudar latim em Braga durante nove -annos, arranjou depois um emprego no telegrapho, -onde tambem se não deu bem, tomando por fim a resolução -de ir receitar cosimentos e mesinhas aos seus -conterraneos, pelos mesmos livros de veterenaria por -onde, um velho frade, seu tio, medicamentára, durante -muitos annos, as populações doentes d’aquellas freguezias!... -Este ecclesiastico, a quem ninguem negou -as faculdades do maior philosopho das redondezas, tinha, -entre muitos, um notavel aphorismo, que eu aqui -divulgo á sciencia absorta e que o sobrinho acceitava -pelo achar frizante e consolador: «Os burros são do mesmo -modo que a gente, para a medicina, por consequencia—rematava -voltando-se para os seus doentes—paparoca -e beberoca, sedênhos para a frente, esfregações -de agua forte, algumas cataplasmas e deixa-te andar -que, se morreres, é só uma vez». Com o Pandega vinha -o senhor Agostinho Manco, juiz eleito, um homem<span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span> -magro que fôra da <i>bicha</i>. Logo em seguida appareceu -o regedor, conhecido pela alcunha do Antonio Cápatrás, -um individuo vermelho, muito estupido, que só sabia -emborrachar-se, como diziam os visinhos.</p> - -<p>Depois d’estes personagens chegarem é que se principiou -a desenterrar os cadaveres! Com esse fim, quatro -jornaleiros começaram a dar sacholadas auxiliados -pelo Joaquim da Moita que vira morrer o Bernardo, -e que limitou o trabalho, indicando-lhes o sitio provavel, -onde poderiam estar os defuntos. Todas as pessoas -presentes, principalmente as mulheres e creanças, tomadas -de uma curiosidade invejosa, empurravam-se -reciprocamente, procurando com avidez os sitios que julgavam -melhores, para presenciarem tudo que se passasse. -Para isso iam collocar-se nos pontos mais eminentes, -e algumas em logares perigosos!... O cirurgião -Pandega, reconhecendo com a sua prespicacia illustrada, -que a filha da Rosa Trinta não estava bem, disse-lhe -de longe, com voz de auctoridade:</p> - -<p>—Ó diabo de rapariga, sae d’ahi que te póde acontecer -o mesmo! Se se esbarronda essa terra ficas espapada!...</p> - -<p>E acrescentou, com um modo ligeiro e superior, repuchando -a sua comprida pêra:</p> - -<p>—Isto de gente estupida não se póde aturar de modo -algum!...</p> - -<p>A rapariga obedeceu sem retorquir e mudou-se para -cima de um muro, d’onde reconheceu que tambem -podia ver tudo... Porém, pelo lado de baixo estava o -meliante do José Teixugo, espreitando-lhe as pernas<span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span> -com olhadellas peccaminosas!... A Rosa Trinta, percebendo -a immoralidade, advirtiu de longe sua filha:</p> - -<p>—Ó Tonia, não vês esse maroto do Teixugo a olhar-te -p’ras pernas! Tira-te d’ahi, anda.</p> - -<p>A rapariga, verificando a verdade da asseveração de -sua mãe, ficou irritada e disse offendida, arremettendo -com uma pedra ao rapaz:</p> - -<p>—Olhem o diabo do cara de foinha! Vae espreitar -as da tua irmã! Não tens vergonha malandro? Ahhh...—rematou -voltando-se para elle com a bôca escancarada.</p> - -<p>O Teixugo, rindo com um riso trocista, respondeu-lhe:</p> - -<p>—Olha que minha irmã talvez as não tenha tão borradas -como as tuas! Vergonha deves ter tu, minha gata -pellada, por andares com as pernas tão sujas.</p> - -<p>No entretanto o regedor, Antonio Cápatrás, e o Agostinho -Manco, juiz eleito, revestidos da sua auctoridade -assistiam ao acto solemne, em mangas de camisa!... -O José Pandega recommendava aos que desenterravam -os defuntos, que andassem de vagar, para lhe não darem -alguma sacholada. Um d’elles disse ao cirurgião:</p> - -<p>—Sabe o que a gente precisava, seu Zé? Uma boa -infusa de vinho, para este suor se não recolher p’ra -dentro. Você que sabe d’essa cousa de sedênhos e medicinas, -bem o entende, seu Zé.</p> - -<p>Por um acaso feliz chegaram n’esse momento duas -canecas do bom rascante que a Engracia, viuva recente -do Repolho, mandava para os trabalhadores que lhe -desenterravam o marido. Todas as pessoas lhe applaudiram<span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span> -a lembrança inesperada e a mulher que trouxera -o vinho, affirmou com modo persuasivo, que fôra -a propria tia Engracia que o fôra tirar do tonel do -canto, que era <i>do bô</i> que tinham. Os homens, quando -acabaram de beber, tiveram um <i>ahhh</i>... prolongado e -satisfeito, confessando um d’elles:</p> - -<p>—É a melhor pinga que ha pelos arredores. O Bernardo -queria-o vender lá para a villa, e já lhe davam -dez moedas.</p> - -<p>O regedor considerou:</p> - -<p>—Foi bem tolo em o não beber. Se o levasse nas -tripas, fazia melhor do que estar o poupal-o para quem -cá fica...</p> - -<p>Depois de escorripicharem as duas canecas, os jornaleiros -continuaram a cavar com mais cautela, para -não tocarem com as sacholas nos cadaveres, como os -prevenira o cirurgião. A primeira cousa que se descubriu -foi o chapéu do Bernardo, humedecido e barrento. Todos -reconheceram que era esse mesmo chapéu, esbeiçado -e já roto, que elle costumava usar. O José Pandega, -affirmou com certa intimativa:</p> - -<p>—Na cabeça d’elle é que vós o não tornaes a ver!</p> - -<p>Todas as pessoas confirmaram esta opinião sensata. -Era verdade! Na cabeça do defunto, que estava debaixo -d’aquelle barro, elles nunca mais veriam aquelle chapéu -esbeiçado e roto!</p> - -<p>Pouco depois, com mais algumas enchadadas, appareceram -os defuntos. A ultima camada de barro, foi -tirada cuidadosamente com as mãos. Os dois cadaveres -estavam de bruços, ambos inteiriçados, rigidos. Ao de<span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span> -Bernardo, que era mais pesado, metteram-lhe uma tábua -por baixo do tronco e levantaram-n’o ao ar, ficando -o corpo aprumado, severo, com um aspecto de phantasma! -O cadaver do rapasito do gado, como no momento -em que a barreira se esboroou estava agachado -sobre os calcanhares, encontraram-no dobrado sobre si -mesmo, com a cabeça debaixo do corpo e a cara encostada -ao peito, quebrado pela espinha. Ambos estavam -inteiramente desfigurados, por causa da camada de -terra adherente, empastando-lhe os cabellos, tapando-lhe -os olhos e a bôca. Todas as pessoas presentes vieram -agrupar-se em volta das duas tábuas, sobre as -quaes, os mortos, permaneciam deitados de costas. -O Chico, para o conservarem bem estendido, tiveram -de o atar pelo tronco e pelos pés ao seu esquife provisorio -com uma corda; porque, em virtude da rigidez -cadaverica, tendia a dobrar-se sobre o ventre. -Ali, diante dos corpos exanimes, o juiz, o regedor e o -cirurgião, fallaram em dar parte d’este acontecimento -tragico, n’um officio, ao senhor administrador, affirmando-lhe -que a culpa d’elles morrerem, tinha sido d’elles -mesmos, que se tinham ido metter na bôca da morte. -Depois concluiram, que o que era necessario fazer-se-lhe -já, era amortalhal-os, para se proceder aos <i>officios</i> -e enterral-os, quanto antes, para não principiarem a -cheirar!... Depois d’isto, o Pandega, lembrou-se de tirar -o barro dos rostos sujos, e para isso foi buscar -uma pouca de palha de uma moreia proxima, e fel-o.</p> - -<p>Porém, como depois d’esta grosseira limpeza reconheceu -que os cadaveres tinham nodoas arrouxadas nas<span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span> -faces e na testa, affirmou peremptoriamente, com modo -decisivo:</p> - -<p>—Devem-se enterrar quanto antes... Ámanhã principiam -elles a feder, que nem mil demonios! Não se -ha de poder estar com o nariz ao pé!...</p> - -<p>As mulheres presentes fizeram uma momice de enjoadas -e, cuspinhando para o lado, disseram «cachicha». -Os homens, que tinham desenterrado os mortos, preparavam-se -para pegar ás tábuas, onde os tinham estendido, -com o fim de os transportarem a casa, quando -a Caetana, uma velha beata, lhes observou n’uma voz -de um ligeiro timbre choroso:</p> - -<p>—Esperae rapazes, esperae... Não os leveis assim, -que ainda estão muito borrados. Deixae, que eu lhes -lavo a cara...</p> - -<p>E para o conseguir foi buscar <i>manadas de agua</i>, que -verteu sobre os rostos dos cadaveres. Depois limpando-os -caridosamente com o seu velho avental de riscas -concluiu:</p> - -<p>—Agora podeis ir. <i>Bão</i> mais bonitos.</p> - -<p>Por fim, os quatro jornaleiros, deitando um olhar -saudoso ás canecas vasias, levaram os corpos para casa -da Engracia. Ahi é que foram decentemente lavados -e amortalhados para os depositarem na varanda, -onde veio muita gente da freguezia deitar-lhes agua -benta sobre as mortalhas e recommendal-os para a -eternidade, com as suas resas distraídas!...</p> - -<p>Na varanda, o esquife de Bernardo ficou ao fundo, e -o do Chico logo ao pé da porta... O sol entrava francamente, -incidindo sobre os rostos dos defuntos, tornando-os<span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span> -da pallidez indecisa da cera, com o tom roxo das -ecchymoses enfraquecido. Ambos elles tinham uma expressão -rigida e concentrada, propria das mortes afflictivas, -o que se lhes conhecia nas rugas da testa, no -apanhado dos beiços, nas palpebras fechadas com energia! -As mãos grossas e plebeias, cruzadas sobre o peito, -amparando um crucifixo, por effeito da humidade do -terreno debaixo do qual estiveram horas, haviam adquirido -uma molesa aristocratica—uma coloração branca -de mãos estimadas. Bernardo, com a sua barba feita -e com o cabello cortado rente, tinha, para as mulheres -da sua freguezia que lhe cercavam o esquife, uma -apparencia de mordomo de festa. Por isso recordavam a -ultima vez em que elle fizera a da Senhora do Carmo, -e, tinham bem presente diante dos olhos, a sua figura -magra e insignificante, no primeiro logar da bancada, -com as mãos erguidas em face do padre Beiral, quando -este o incensou as tres vezes do rito, fazendo-lhe -uma cortezia ao retirar-se, o que todos julgavam de -uma polidez e de uma distincção invejaveis. A mortalha -do marido da Engracia era mais rica do que a do Chico, -a qual, sendo elle engeitado, lhe tinham esmollado perante -a confraria das almas! Porém notavam que não -differiam muito; porque ambas eram de forte panno -violeta muito engommado, com cercaduras relusentes -de galões metallicos, que scintillavam sob a viva luz do -sol. As pessoas que contemplavam estes cadaveres serenamente -deitados, ainda recordaram muitas vezes, -relatando-o com minuciosidade, o triste modo por que -tinham morrido, e a beata Caetana, como julgamento,<span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span> -concluiu d’este modo a narrativa que acabava de ouvir -pela sexta vez ao Joaquim da Moita:</p> - -<p>—Foram elles bem asnos em se irem metter n’aquelle -perigo! Este Bernardo sempre foi um pascacio. -Para deixar <i>a um</i> que nem é filho d’elle!...</p> - -<p>E trouxeram a pello a vida desregrada do Antonio, -que andava sempre de feira em feira, sem parança em -casa, vivendo no meio de jogadores e de troquilhas -borrachos! N’esse mesmo dia tinha apparecido na porta -da igreja a lista dos rapazes para soldados. O nome -d’elle lá estava, entre o de outros. Havia quem affirmasse, -que já havia ordem na villa para o prenderem, -como <i>reflatario</i>. Certas mulheres que se queriam inculcar -como ao corrente do que se passava, affirmavam -que fôra o senhor padre Beiral, quem lhe arranjára -<i>aquella farda</i>. E a este proposito recordaram as -queixas que o ecclesiastico devia ter do filho da Engracia, -que lhe roubara de uma vez todas as uvas douradas -que elle tinha na sua latada, e as melhores peras -do natal, furtadas, mesmo nas barbas do sacerdote, da -pereira do pé da casa!... Por isso, e porque estavam -indignados contra o rapaz, como tornando-o em parte -responsavel d’esta morte do Bernardo, applaudiam a -resolução, havia tempos manifestada, pelo Beiral de -<i>pôr uma farda ás costas ao meliante</i>!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span></p> - -<h3>IV</h3> - -<p>N’essa mesma tarde foram as confrarias buscar os -defuntos. Era uma consideração pelo nome de Bernardo -que era <i>irmão remido</i>! Adiante de todas vinha -a do <i>Santissimo Sacramento</i>, de opas vermelhas -e a cruz de prata alçada, relusindo ao sol. Em seguida -desfilava a de <i>Nossa Senhora do Carmo</i>, de opas -brancas com murças azues, da côr do céu desbotado de -agosto. Na bandeira que a destinguia estava pintada a -Virgem, com a sua ridente face menineira, tendo pendente -de uma das mãos um rosario, e da outra uns -bentinhos! Por fim seguia-se a confraria das <i>Almas</i>, com -a sua bandeira dolorosa na frente! Era ali representado -o quadro terrificante do purgatorio:—um rei de -corôa poderosa e de longas barbas patriarchaes, apoiava<span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span> -a sua mão sobre o hombro de um bispo mitrado, -coberto de uma rica capa de ouro, o qual estava mais -no fundo das chammas, soffrendo, talvez sem bastante -resignação, que o monarcha chegasse primeiro á bemaventurança! -Ao lado d’este augusto personagem, uma -peccadora, com as longas madeixas de Magdalena, dando -a mão a um homem lubricamente calvo e de bigode -e pera, trepavam por entre linguas de fogo, de -uma iracundia terrivel, em ôca e vermelhão! Todos estes -condemnados, e ainda outros <i>sem distincção</i>, erguiam -olhos supplicantes e estendiam as mãos abertas a um -anjo, que estava no alto, pesando serenamente as culpas -e os soffrimentos de cada um, para lhes outorgar -a remissão promettida!...</p> - -<p>Da confraria da Senhora do Carmo, destacaram-se -quatro irmãos para tomarem conta do cadaver de Bernardo -Repolho, e outros quatro da confraria das Almas -que, por caridade, se encarregaram de conduzir o do -engeitado... E, quando tinham tomado sobre os seus -hombros valentes os dois esquifes, partiram pelo caminho -adiante, para a igreja, condusindo os defuntos. -Atraz, na casa da viuva, ficou o chôro alarmante de -Engracia, e das visinhas que a acompanhavam, misturando-se, -na larga amplidão ao triste dobre dos sinos -que echoavam de quebrada em quebrada, com a sua -nota plangente e de uma harmonia rebelde!</p> - -<p>No instante em que o funebre acompanhamento subia -pela encosta da igreja, o Antonio Fogueira entrava -na freguezia! Havia mais de oito dias que andava -por fóra, na sua vida vagabunda de torquilha... D’esta<span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span> -vez trazia uma egua nova, muito fugideira, que lhe -vendera o Rio Tinto.</p> - -<p>O toque funerario dos sinos e o acompanhamento -que elle viu logo de longe, surprehendeu-o, fazendo-o -parar, e teve um baque no coração! O primeiro esclarecimento -ácerca do occorrido, foi-lhe dado por uma mulher -velha que vinha pelo caminho para o lado d’elle, -vergada sob o peso de um grande molho de herva e -que, antes de ser interrogada, lhe disse encostando-se -com o feixe a um muro para descançar:</p> - -<p>—Aquelle agora, meu rico, do que precisa, é de -muita fartura de missa, por aquella alma!—observou-lhe -depois de um «ah!» de estafada a velha Vicencia.</p> - -<p>—Mas quem foi que morreu?—indagou o Fogueira.</p> - -<p>—Ah! sim, tu não sabes!—completou a velha depois -de expellir o seu cançaço asmatico! Andas sempre -lá pelas feiras, não admira. Pois toca-te pela vestia... -Foi teu pae Bernardo, de uma grande desgraça!</p> - -<p>O adoptivo do Repolho impallideceu rapidamente, -deixando cair as redeas no pescoço da egua! Vicencia -concluiu:</p> - -<p>—... Uma grande desgraça, sim senhor, é como -te digo. Caiu-lhe honte em cima da cabeça, a elle -e ao vosso rapaz, o Chico, o monte da Cham, quando -lá foram ao barro! Se tu não andasses sempre por essas -feiras, em jogatina, talvez que o pobre home não fosse -lá, com esse tempo!</p> - -<p>E depois, voltando-se salientemente para o Fogueira, -exclamou de um modo reprehensivo:</p> - -<p>—Ora tu não mudarás de rumo! Vê se te confessas,<span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span> -que andas n’uma vida de home perdido. Tem vergonha -n’essa cara! Faz uma confissão <i>jaral</i>, que vem -ahi os missionarios, grande maroto!</p> - -<p>O Fogueira, que era naturalmente irritavel, sentiu -subir por elle acima uma forte ira contra a velha Vicencia. -Porém, refreando-se, respondeu-lhe com uma -indignação latente:</p> - -<p>—Você que lhe importa o que eu faço, seu diabo -de coruja! Vou-lhe lá pedir alguma cousa?! Se não fosse, -não sei porque, se não fosse por causa d’aquelle -que acolá vae (alludia ao enterro que subia a encosta), -eu lh’o diria, seu grande diabo!...</p> - -<p>Uma colera viva apoderou-se rapidamente da velha, -que deixando cair o feixe da herva no chão, principiou -a gesticular, sem encontrar no momento as verdadeiras -palavras indignadas, com que desejava aggredir -o Fogueira! Como é que um homem, tão culpado -como este maroto, que só andava pelas feiras em jogatina -e com más mulheres, se atrevia a ter arrogancias -diante dos que o reprehendiam?! Por isso ella, -com uma voz gritada e com os punhos ameaçadores, o -increpou, com uma pedra na mão:</p> - -<p>—Ah! grandissimo ladrão, o que tu precisavas era -de uma cadeia. Talvez me queiras bater, excomungado! -Ora vem p’ra cá, que te prego com esta na testa! Cuidas -que eu tenho medo, stafermo?! Um ladrão, que -não faz senão gastar o que aquelle bruto (alludia tambem -ao morto que ia no esquife) andou por ahi a ganhar -no trabalho. Foi elle bem tolo em mourejar p’ra ti! Mas -deixa, meu condemnado do inferno, que o senhor regedor<span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span> -e o senhor padre Beiral te ensinarão! Já está -prompta a farda que has de ter ás costas!... Eu vou -dizer já ao tio Antonio Capatrás, que te vá prender.</p> - -<p>Porém esta indignação palavrosa de Vicencia, perdeu-se -no ar. O Fogueira só lhe percebeu que ia ser preso; -mas a este tempo já tinha picado a egua pelo atalho -acima, para entrar em casa, pela matta, com o fim de -ninguem o ver. E quando se viu só no caminho, a distancia -da velha, cuja voz ainda lhe chegava aos ouvidos -n’uma gritaria de furia, o filho adoptivo do Bernardo -Repolho considerou com a reflexão propria dos -momentos responsaveis:</p> - -<p>—Mas para que diabo foi elle buscar o barro, com -um dia como esteve honte? Para que se foi aquelle -maluco metter ao perigo?!—exclamava sem comprehender, -voltado mentalmente para si mesmo!</p> - -<p>E, considerando n’isto alguns segundos, parado, a -olhar fixamente para um muro musgoso, concluiu:</p> - -<p>—É uma de mil diabos! Que grande bucha!</p> - -<p>Dispunha-se a dirigir-se á cancella da matta, quando -o susteve a voz conhecida do João do Rego, que lhe -appareceu de cima do muro do caminho:</p> - -<p>—Espera ahi, ó Tone! Ó rapaz, espera!</p> - -<p>E aproximando-se acrescentou:</p> - -<p>—Então teu pae lá ficou arrebentado debaixo do -barro e o rapaz tamem!</p> - -<p>—O rapaz tamem...—repetiu o Fogueira absorvido, -mas sem commoção.</p> - -<p>—Tamem. Pois tu não sabes nada?</p> - -<p>—Sei, disse-me ali em baixo a Vicencia, aquelle<span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span> -diabo que me metteu cá umas cousas por dentro, que...! -Valha-a mil demonios!</p> - -<p>O do Rego continuou esclarecendo:</p> - -<p>—Isso não faz monta. Ella é tola, tu bem sabes. -Mas honte foi ahi na freguezia o dia de juizo! Juntou-se -povo, que povo!—o Capatrás, o Manco, o çurgião... -o poder do mundo! Desenterraram-n’os; porque -elles ficaram debaixo de um monte de barro, da -altura d’este muro. Depois, quando os trouxeram para -casa em charola, em cima de duas tabuas, lá a -tua velha fez ahi uma berraria de deitar a casa abaixo. -Fazes lá idéa! Era muita gente a querer agarrar -n’ella; mas principiou a estrabuchar e a morder, por -não a deixarem <i>ir abraçar o seu home</i>!... Ora tu bem -sabes que a gente não a devia deixar, e mesmo o senhor -padre Beiral e o Pandega disseram que não deixassem; -porque lhe podia dar algum stupor! Hoje tem custado -a ter mão n’ella, quer-se ir deitar a afogar; mas a -minha mãe, que lá está, e outra gente não deixam. -Quando a seguram, principia a chorar aos gritos, como -se tivesse o diabo e chama muito por ti! Já dizem -que a alma de teu pae lhe entrou por algum sitio... -Se é verdade, temos que rir; porque ha de -custar a por-lha fóra! Isso de entrar uma alma no corpo -da gente é peior que maleitas. Safa!</p> - -<p>O Fogueira ficou mais triste, mais acabrunhado com -estas revelações. Principiou a apoderar-se d’elle um -terror, um medo...—o medo de que a alma de seu pae -adoptivo tivesse realmente entrado no corpo de sua -mãe Engracia! E com um ar scismatico, de homem<span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span> -abatido, puchava pela longa barba, arrepelando-a, e considerando-se -infeliz!</p> - -<p>O João do Rego, no mesmo tom de confidencia, rematou:</p> - -<p>—É o diabo! Trazes tu por ahi cigarros? Como -vens da villa has de trazer. Agora foi a feira dos nove. -Vens de lá? Trazes uma burra chibante!</p> - -<p>O Antonio, passando-lhe automaticamente o cigarro -disse: «estive... comprei...». Depois perguntou-lhe:</p> - -<p>—Mas diz que me querem prender?!</p> - -<p>—Qual prender! Deixa fallar! Está um papel na -porta da igreja; mas é p’ra gente ir a Vianna, por -causa d’essa cousa da tropa! Meu pae arranjou cartas -de fidalgos da villa p’ra me livrarem, cá a mim, em -Vianna; porque <i>botou</i> com elles no deputado! Eu vou -e mais elle, domingo, por ahi abaixo, á <i>speção</i>. Vem -co’a gente, que faremos pandega!? O Capatrás disse -que tu tamem has de ir. Ainda honte fallou no adro, -que se tua mãe não vender um campo p’ra te livrar, -tens de andar com a muchila ás costas.</p> - -<p>E concluiu n’um tom de voz convidativo:</p> - -<p>—Mas a tua velha que venda o campo. Ella pr’a que -o quer senão p’ra ti?! Diz-lhe que venda e vamos todos -lá a <i>essa</i> Vianna!</p> - -<p>Despediram-se. O Fogueira picou a egua, explicando -ao do Rego, que queria entrar pelo lado da matta, -para se não encontrar com o enterro que ia no caminho. -Depois, quando chegou á cancella, a egua transpol-a, -mas entrou desconfiada, reparando em tudo, olhando -de travez para os objectos!... O Antonio forçou-a a<span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span> -caminhar dizendo-lhe: «Chó diabo, anda p’ra diante!» -E assentando-lhe duas lambadas nas ancas, esporeou-a -com força!...</p> - -<p>Porém, logo adiante, o animal estacou com mais teimosia, -encarando excentricamente com um velho carvalho -nodoso. O Fogueira, como a egua era nova e -como o momento não era proprio para lhe tirar as -teimas, desceu cordatamente, pensando em a levar á -redea. Para isso principiou a puchal-a, com brandura, -de um modo carinhoso, condescendente, fallando-lhe -com moderação. Porém ella fincou-se nas mãos, levantou -a cabeça, encostou-se á retranca e principiou a recuar -resfolgando estrondosamente pelas ventas dilatadas, -olhando esgazeada e com uma tremura nervosa -nos beiços! O Antonio, conhecendo que á força a não -faria transpor a matta povoada de carvalhos, que produziam -sombras amedrontadoras, pensou em redobrar -de carinhos e attenções, desejou familiarisal-a com a -velha arvore nodosa que a espantára!... Para isso -amimava-a, fallando-lhe n’uma voz de cada vez mais -convidativa, puchando-a moderadamente pelas redeas, -para a aproximar do objecto suspeito... Porém ella, -entendeu que devia recuar ainda mais e, n’um momento, -principiou a levantar as mãos, a agitar mais freneticamente -a cabeça, a espetar com mais desconfiança as -orelhas, a curvetear... e terminou por atirar duas valentes -e corajosas parelhas de couces á cancella, partindo-a.</p> - -<p>O filho da Engracia teve n’este momento uma enorme -colera e veiu-lhe rapidamente a idéa de tirar a sua -comprida navalha e abrir a barriga da egua, como em outra<span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span> -occasião fizera a um cavallo! Porém, a reflexão aconselhou-o -a não deixar apparecer as suas violencias naturaes... -O momento não era opportuno—reconhecia-o -elle perfeitamente!... Ouvia d’ali mesmo sua mãe, gritar -com desespero, acompanhada pelo chôro cantado de -todas as visinhas, que lhe faziam companhia n’este momento -doloroso. Toda a sua idéa era metter, sem ser -presentido, a egua na côrte do gado, e depois, quando -em casa tudo estivesse mais tranquillo e a choradeira -acabada, entraria pela porta dentro, inesperadamente -e de supito!... «A final de contas—considerava—isto -tem de ser e tem!» Por isso, para não augmentar -mais a desordem que havia um quarto de hora se apoderara -do seu espirito, a desordem que o cercava por -todos os lados, optou por amansar a egua em vez de -a matar, e para isso principiou a cofiar-lhe as crinas, -passando-lhe pela anca tremula a mão benevolente e -prodiga de afagos, com a brandura insuspeita da mão -de um amigo! Conseguiu d’este modo acalmal-a, mostrar-lhe -de perto o velho carvalho, chegar-lhe ás ventas, -ainda tremulas, a casca gretada, que exhalava um -forte cheiro de humidade e de bolor. Conseguiu o que -desejava; mas a egua atravessou o caminho da matta, -sempre desconfiada, olhando de soslaio, resfolgando e -levantando a cabeça ao menor ruido. O Antonio chegou -a mettel-a na côrte do gado, prendendo-a calculadamente -a distancia dos toiros, que permaneceram a -olhar vagamente, com os seus olhos redondos, como -bogalhos e relusentes como vidro!</p> - -<p>Pelo barulho que tudo isto produziu, Engracia que<span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span> -já estava calada, ficou advertida da presença de seu filho!... -Por isso, tanto ella como as visinhas que a -acompanhavam, tornaram a desatar a sua dôr recente, -em altos gritos cheios de mortificação e que se estendiam -pelos campos! Quando, instantes depois, o Antonio -entrou na cosinha, a viuva do Bernardo agarrou-se-lhe -ao pescoço, dizendo muitas vezes: «Meu rico home do -meu coração, que te não torno mais a ver! Perdi o meu -rico home! Um santo como elle era! Uma desgraça assim!»</p> - -<p>Esta paixão intensa e desgrenhada era communicante, -e por isso o Antonio saiu dos braços de sua mãe, -para se deitar de barriga sobre a caixa da brôa, com -o rosto escondido entre as mãos, dando soluços affrontosos -e dilacerantes!... As mulheres, que acompanhavam -Engracia principiaram a dizer que elle era muito -bom rapaz, muito amigo de Bernardo, tão amigo como -se fôra filho verdadeiro! Gabavam muito este choro -afflictivo de Antonio e, acercando-se d’elle, com as mãos -escondidas nos aventaes, consolavam-n’o, lembrando-lhe -que a <i>desgraça</i> acontecera por vontade de Deus Nosso -Senhor, e confirmavam que todas ellas, que ali estavam -a chorar pelo Bernardo, tambem haviam de morrer e talvez -bem cedo!... E depois d’estas palavras sensatas aconselhavam-n’o -a fazer uma confissão geral com os missionarios; -porque era muito bom a gente andar sempre -preparada para ir á presença do Senhor Todo Poderoso! -Antonio parece que não gostou d’esta advertencia, -em que presumia uma censura á sua vida desregrada, -e disse-lhes com certo desabrimento, com modo<span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span> -brusco e mal creado, sempre deitado de barriga -sobre a caixão da brôa:</p> - -<p>—Calem-se! Deixem-me cá. Ponham-se agora ahi -com lôas e aquellas!...</p> - -<p>E desde este momento, o seu choro, foi-se abrandando -gradualmente, e um silencio, de vez em quando interrompido -por um «ai Jesus!», restabeleceu-se na cosinha. -Engracia, com os olhos enxutos, mas evidentemente -abatida e mortificada, foi, como um cão reprehendido, -sentar-se ao canto da lareira, onde havia uma fogueira -crepitante e viva, procurando o ponto mais escuro e -modesto, d’onde atiçava o lume, continuando a dar ais -lastimosos e suspiros. Passados alguns minutos, quando -as brazas estavam bem vivas, bem mordentes, disse -ella mesma, com uma voz serena e apasiguada, para -Genoveva, a mãe do João do Rego:</p> - -<p>—Ó mulher, vê se lhe deitas aqui n’este lume -uma posta de bacalhau. Esse moço ha de vir com -fome.</p> - -<p>E, como o Antonio ainda de bruços sobre a caixa do -pão se remexeu, expellindo o ultimo suspiro da sua angustia, -ella exclamou n’uma voz mais secca, mais sincera:</p> - -<p>—Meu rico home que o não torno mais a ver até -ao dia de juizo! Tomára eu que o dia de juizo fosse já -hoje, só para tornar a vêr o meu rico home, que foi -morrer de uma desgraça!... Uma cousa assim!...</p> - -<p>Porém as outras pessoas ficaram caladas... Não -tendo já mais lagrimas para chorar, as mulheres visinhas -principiaram a contar ao Antonio, como tudo se<span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span> -tinha passado, como acontecera aquillo! Elle, impellido -por uma curiosidade inconsciente e com o fim de as escutar -com mais attenção voltou-se de ilharga e olhava... -Depois, como a narrativa, vivamente colorida pelos commentarios -e pela gesticulação, o interessava, sentou-se -e escutou até ao fim, com as mãos apertadas entre os -joelhos. A Genoveva, mãe do João do Rego, era quem o -certificava de todo o acontecido, e apesar de ser muito -difusa e de entremetter observações sem valor e rodeios -pueris, o Antonio ouvia-a: O Bernardo era um homem -sem esperteza nenhuma, um molanqueiro, um -deixa-te ir... Muito bom homem, muito honrado, muito -temente a Deus, de muito boas contas... isso sim, senhor. -Verdade, verdade... não se contava outro na freguesia! -Mas prestimo não tinha muito, não tinha mesmo -nenhum. Todo o mundo o levava para onde queria, -um grande cebolla é que era! Esta desgraça que -lhe succedera tinha sido prevista pelo Joaquim da Moita, -que lhe disse ao vel-o encostado á barreira, que -tinha umas bôcas escancaradas, que mettiam medo: -«Home, tu ahi não estás seguro! Vê lá no que te mettes, -Bernardo». Elle não quiz fazer caso e respondeu: -«Ora não ha de ter duvida...». O pago foi o que se viu, -ficar esborrachado.</p> - -<p>O Fogueira, ouvia tudo isto com uma seriedade inconsciente -e bronca. Que diabo de toleima, a de seu pae, -de se ir metter debaixo da barreira que caíu! Realmente -sempre era um banasola, que não tinha prestimo para -nada!... E deixando-se n’esta corrente de pensamentos -vagos, impulsionado pela palavra quente da tia Genoveva,<span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span> -e, como já lhe haviam posto o bacalhau sobre a -caixa, principiou a comer de vagar, com uma apparente -inappetencia... Tinha o olhar vagaroso e a mastigação -demorada, apesar de ter fome. De vez em quando, Engracia, -exclamava pelo «seu rico home», que não tornaria -mais a ver, até ao dia de juizo!... Genoveva, que -durante a narrativa se enchera de espirito hostil contra -o fallecido Bernardo, disse reprehensivamente, para -a viuva:</p> - -<p>—Cala-te mulher! Tamem já é de mais! Já aborreces -com tanto «meu rico home!» (E fez um esgar de -troça.) Que se não fosse lá metter! Que não fosse pascacio!</p> - -<p>Depois concluiu voltada para o Antonio:</p> - -<p>—Olha, elle se morreu é porque quiz! era um bô -home, um bô serás; mas teimoso até ali! Deus o tenha -no céu, que todo o mal foi d’elle; mas verdade, -verdade, para onde lhe désse o toutiço, era para lá, como -um casmurro. Agora que está na outra vida, Deus -o tenha em bô logar. Um Padre Nosso por sua alma é -que devemos resar... Do que Bernardo precisa é de -muito rosario e de muitas missas, que quantas mais, -melhor. «Padre Nosso que estaes no céu, santificado -seja o vosso nome, etc...»</p> - -<p>Todos a acompanhavam n’uma voz ciciada, e com as -palpebras meio cerradas. N’este momento ouviu-se o -dobre funerario e lamentoso dos sinos. Era o signal -de que os officios tinham acabado e de que o corpo ía -ser dado á sepultura! Uma das amigas de Engracia -observou:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span></p> - -<p>—Elle lá vae pr’a cova, coitado! Olhem que ninguem -sabe onde as tem armadas!... Ainda honte, ía -em cima do carro, muito socegado, e já hoje dorme na -greja pr’a toda a vida! Ah! morte negra, morte negra -que assim os vaes levando a um e um!</p> - -<p>Engracia tornou a chorar alto e o Antonio atirou-se -novamente de bruços sobre a caixa do pão, conservando-se -muito tempo sem se mexer... N’aquella posição -adormeceu de fatigado pela jornada!</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span></p> - -<h3>V</h3> - -<p>Porém, a viuva do Repolho, o que não queria por fórma -nenhuma, era que o seu Antonio fosse para a tropa.</p> - -<p>—Soldado nem de barro!—exclamava. Isso não o -ha de elle ser, ainda que eu tenha de vender a camisa -do corpo! Todos esses invejosos, que lhe querem mal, -hão de cegar!...</p> - -<p>Mas a final—porque é que lhe tinham esta raiva de -morte ao rapaz?! Engracia bem o sabia: O Antonio -não era um <i>cebola</i>, não era nenhum <i>maricas</i> que se -deixasse levar pelo beiço. Tinha tido muitas occasiões -de amolgar as costas dos visinhos com o seu rijo pau -de carvalho, e essa era a rasão por que lhe tinham tanta -birra. Em qualquer ralhação, que a Engracia tivesse -na aldeia, atiravam-lhe logo á cara, com a vida de homem -perdido e sem religião, que o seu filho levava<span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span> -pelas feiras... N’essas occasiões, com uma intimativa -raivosa de vingança, ameaçavam-lh’o com a farda, com -a <i>tal farda</i> que o senhor padre Beiral lhe havia de -arranjar...</p> - -<p>«Pois não houvestes de arranjar uma farda!» respondia-lhes -Engracia indignada. Graças a Deus, ainda tinha -algumas terras que vender e, acabadas as terras, ainda -tinha cordões de ouro e a propria casa em que morava, -que tambem valiam um bom par de moedas! Quem -perdia com estas cousas eram os santos da igreja—Nossa -Senhora do Carmo e Santo Antonio milagroso -a quem promettera os dois campos da ribeira se o rapaz -se livrasse. Assim, arranjando-lhe o padre Beiral a -farda, venderia esses campos para pagar a um <i>sustituto</i>. -E por causa d’isto, tambem pensava em lhe doar -todos os bens, e deixar-lhe, mesmo em vida, gastar tudo, -só para ter o regalo de ver a visinhança com uma -cara de palmo e meio! Ao menos desenganava de uma -vez todos os que lhe queriam mal ao moço! Elles desejavam -que Engracia lhe não deixasse nada, por não ser -seu filho; mas ella, que se tinha na conta de teimosa como -uma burra, de cada vez estava mais resolvida a dar-lhe -em vida quanto possuia! E realmente, n’um dia em que a -Vicencia lhe disse de cara, «que ella estava no inferno -vestida e calçada, que talvez não encontrasse um padre -que lhe deitasse a absolvição, por querer desherdar -Nossa Senhora e os santos em beneficio do grande -meliante e pelo não o mandar para a terra de onde tinha -vindo» a viuva do Repolho, cheia de colera, partiu -para a villa, onde lhe fez a doação premeditada e onde,<span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span> -ao mesmo tempo, vendeu os campos da ribeira ao -brazileiro do Tenrozo, entregando todo o dinheiro ao -Antonio, para elle se ir livrar a Vianna e para continuar -no negocio de burras, em que se via envolvido.</p> - -<p>Porém, as pessoas que andavam ao corrente da vida -do Fogueira, que conheciam as suas relações com a -Marianna Ripa,—uma chupadeira!—com o Rio-Tinto e -com o Fanfarra,—dois ladrões!—quando souberam da -doação incondicional que a Engracia lhe fizera, affirmavam -com riso de despeito e de consolação ao mesmo -tempo:</p> - -<p>—Agora é que vae ser o bô e o bonito. Verão como -elle espatifa tudo emquanto o diabo esfrega um olho. -Ai minha tola de Engracia! Cuidas que déstes na dos -outros, mas déstes na tua cabeça! Os campos que tanto -custaram áquelle burro do Bernardo, estão ahi estão -engolidos n’um prompto!</p> - -<p>Na realidade, nas feiras que o Fogueira frequentava, -principiou elle a apparecer mais chibante e cheio de -arrogancia, sempre na companhia de Marianna Ripa, -que tambem andava n’um luxo e n’um estadão de <i>arreguilar</i> -o olho! Ella tudo eram lenços de seda de furta-côres, -tudo roupinhas do melhor panno azul, chinelas -com biqueiras de verniz pispontadas a retrós verde... -o diabo, um inferno! O Fogueira, sempre com o cinto -recheado de soberanos que mostrava todo basofia, pedia -nas estalagens com voz arrogante e desdenhosa, -postas de carne assada e copos do rascante, com que -enchia os coldres á Marianna, ao Rio Tinto, primo -d’ella, ao Fanfarra e ainda a outros troquilhas. O Rio<span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span> -Tinto encontrou meio de lhe impingir uma egua com -seis moedas de ganho, quer dizer, por vinte moedas, -que na opinião de entendidos, não valia dez; porque, -pelas quatorze, já tinha sido uma encaravilhadella para -o primeiro comprador! Era um animal vistoso, de pello -luzidiu e fino, as orelhas espertas, as ventas resfolgantes, -o olhar vivo e de uma inquietação nervosa...; -mas era uma egua com pancada! Tinha um travado -meudo, muito igual e firme; a cabeça, quando ía vertiginosamente -na carreira, apresentava-a com altivez -soberana; porém, diziam que tinha grande doze de lua. -Algumas pessoas chegavam a affirmar que era uma -egua redondissimamente maluca!...</p> - -<p>O Rio Tinto quasi desenganou o Fogueira dizendo-lhe:</p> - -<p>—Eu gostei do demonio da burra. Se a queres leva-a; -mas o que ella precisa é de bons quartos em cima! -Olha que eu não sei se tu terás perna para a -montar!</p> - -<p>O Fogueira, mesmo por causa d’esta declaração, como -era muito vaidoso, comprou-lh’a. Tinha-se na conta -de um dos melhores montadores das feiras minhotas -e não podia levar á paciencia, que houvesse animal, -por mais bravo, que elle não podesse amansar. Nunca -encontrára, nem entre os marchantes, nem entre os troquilhas, -homem a quem temesse n’um desafio de carreira. -Portanto, apesar de lhe dizerem <i>que era brava</i>, o -Fogueira quil-a e, o Rio Tinto, recebeu logo em bons -soberanos as vinte moedas... Muitos feirantes que lh’a -viram levar ficaram dizendo com um riso velhaco, alludindo<span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span> -á maneira impensada como o Antonio gastava -o dinheiro:</p> - -<p>—Aquillo é que é derreter arame! É como cebo ao -lume. Parece um morgado.</p> - -<p>O Domingos Bicudo, o taberneiro á porta do qual -foi feita esta observação, defendeu o Fogueira n’estes termos:</p> - -<p>—E a vós que vos importa?! É do vosso dinheiro -que elle gasta? Deixae o rapaz com as suas aquellas.</p> - -<p>Depois d’isto, oito dias antes de esgotado o praso -determinado no papel que estava na porta da igreja, -o Antonio foi á administração do concelho buscar <i>a guia</i> -e partiu para Vianna, á <i>speção</i>. A Marianna Ripa foi -com elle. Era pelo tempo da feira da Senhora da Agonia. -A rapariga ía toda secia, toda preparada, n’um -espavento de arromba! Ella, como ouvira fallar <i>da braveza</i> -da egua, receiou ir a cavallo, e disse ao seu -amante, que não queria. Porém, o Fogueira, intimou-a -terminantemente a montar, observando-lhe que indo -elle ao pé, não tinha que temer. Por isso ella subiu -para o albardão. Sentou-se commodamente, espalhando -as saias para ambos os lados. Por baixo, de entre -as dobras do saiote vermelho do panno mais fino -e de entre os folhos brancos das saias, saíam os seus -pés calçados em chinellas de biqueiras de verniz pispontadas, -e as suas pernas grossas, bem feitas, calçadas com -meias de linha fina, viam-se-lhe impudicamente até -acima do tornozello. Marianna tinha um riso vaidoso e -triumphante, quando olhava para as pessoas que a -viam passar!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span></p> - -<p>O Fogueira ía a pé, de vestia ao hombro, com a -larga facha vermelha apertada sobre o estomago, e armado -com o seu pau argolado, proprio de homem de -feiras!... Acompanhava a cavalgadura, a largas passadas -de arrieíro, examinando frequentemente a cilha, -para que a moça lhe não fosse dar um trambolhão... -E, com a expansibilidade natural do seu temperamento -sanguineo e da sua cabeça estouvada, ía fallando á egua, -para a familiarisar com a sua voz, e dava-lhe fortes palmadas -na anca, que a faziam estremecer e levantar a -cabeça de um modo inquieto, continuando depois com -passadas mais ligeiras e, ás vezes, com chouto, do que -Marianna se queixava, por se lhe remexerem as tripas -todas lá por dentro...</p> - -<p>Como estava um dia de grande calor, logo na primeira -taberna, fizeram uma paragem para provar do -rascante. A Ripa, apesar de desembaraçada e resolvida, -tinha medo da egua, e por isso não se arriscou a -descer, sem a ajuda do Fogueira, que para a pôr no -chão, a agarrou valentemente e com vaidade, apanhando-a -por baixo dos quadriz:</p> - -<p>—Ó diabo! És uma franga. Não pesas nada! Tudo -saias. São tudo saias.</p> - -<p>E deu duas reviravoltas com ella suspensa, mostrando-lhe -que era muito leve. Marianna ria-se mostrando -os seus dentes brancos, fortes e iguaes. O Fogueira, -depois de a pôr no chão, ficou mudo, rangendo os dentes, -a sorrir para ella, n’uma sensualidade bruta, motivada -pelo calor das saias, pela excitação animal que -lhe produzira o proximo contacto da carne da Marianna!...<span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span> -Por isso, n’uma incontinencia inconsiderada, correu -atrás d’ella pela taberna dentro, perseguindo-a até ao -fim da loja, onde a agarrou, a teve por momentos na -sua posse, dando-lhe palmadas nos hombros roliços, -roçando-lhe a sua forte barba pelo pescoço, pela cara, -por onde podia... Depois, impellindo-a de si, com a -soberania orgulhosa de um possuidor, rematou n’uma -respiração desafogada:</p> - -<p>—Diabo de moça! É o vivo demonio! Ó tia Zefa, -deite lá um de meia canada.</p> - -<p>Beberam de vagar, sentados n’um banco de pedra, -á porta da venda, abrigados pela fresca sombra de -um antigo carvalho. Em seguida, tendo descançado -sufficientemente, a Marianna tornou a montar ajudada -pelo Fogueira e continuaram o caminho.</p> - -<p class="tb">A estrada nova, ainda não estava concluida. As diligencias -não podiam ir até Vianna. Dizia-se «que para -a outra Senhora da Agonia talvez já fossem». Logo -adiante da venda, onde tinham parado para beber, andava -muita gente nos trabalhos. Uma longa fita de cascalho, -bem espalhado, apresentava uma superficie aspera -e eriçada, sobre a qual rolava pesadamente um -enorme cylindro de pedra. Duas juntas de possantes -bois barrosãos, vagarosos, firmes e iguaes, puchavam -o cylindro. Adiante dos bois, á soga, com o corpo muito -inclinado, ía um rapaz pequeno, de carapuça, com -a aguilhada ao hombro, fallando distraídamente ao seu -gado. Logo depois, um homem novo, cara de militar da<span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span> -reserva, tendo uma ponta de cigarro meticulosamente -escondida detrás da orelha, arrastando com perguiça -os tamancos, assobiava distraído, dizendo imperiosamente -ao da soga:</p> - -<p>—É diabo, rapaz, não durmas, falla-me a esse gado.</p> - -<p>Por isso o rapasito, aguilhou com mais força os bois, -que estenderam para diante as suas pesadas cabeças, -contraindo fortemente os musculos, puchando com mais -força.</p> - -<p>Logo em seguida, um pouco ao lado do leito da estrada, -viam-se os britadores, quebrando o seixo a martelladas -repetidas, para fazerem o cascalho. N’este officio -rude, que exige um exagerado esforço dos braços -e de todos os musculos do tronco, empregavam-se alguns -homens aleijados das pernas. Porém, alem d’estes, -havia mulheres que tinham um aspecto grosseiro -e masculino, fortes seios entumecidos, e que trabalhando -por empreitada, podiam ir dar de mamar aos -seus filhos, que choravam deitados em canastras, á -sombra benefica e fresca dos salgueiros, que marginavam -a estrada antiga.</p> - -<p>Tanto estas mulheres como os homens aleijados, trabalhavam -sentados no chão, cobertos com chapéus de -palha baratos, que tinham comprado aos presos na cadeia -da villa. O sol peninsular de agosto abrasava-os, -obrigando-os a beber frequentemente tigelas de agua, -que iam buscar a um ribeiro proximo. As suas conversas -grosseiras, eram tocadas de palavras obscenas -e sem pudor. Tinham um modo insolente de se exprimir, -porque se julgavam mais livres do que os outros,<span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span> -que trabalhavam a jornal. O seu aspecto, pela -continuação de se conservarem durante horas sentados -no chão, com movimentos esforçados dos musculos -dos braços e do tronco, era carecteristico e singular:—no -peito havia uma forte depressão correspondente ao -abaúlamento da columna vertebral; as linhas faciaes -tinham uma contracção permanente de soffrimento, originada -nos esforços potentosos; as narinas eram dilatadas -em virtude dos movimentos respiratorios entrecortados -e pelas largas expirações de compensação; o -tronco e os braços tinham um desenvolvimento desharmonico -em relação ás pernas; o semblante, pelo habito -de olharem continuadamente para o chão, era triste e -carregado, como deve ser o dos <i>casseurs de pierre</i> de -Courbet.</p> - -<p>Mais para diante, a estrada, era incompletamente -aberta—andava-se n’um desaterro. As raparigas que -transportavam terra aos cestos para o rio, íam e vinham -formando um cordão movediço, como o das formigas -no caminho de celleiro. As suas canções, umas vezes -mundanas e que haviam aprendido com os cegos -que passavam, outras vezes religiosas, ao Santissimo -e ao Coração de Maria, que tinham aprendido com os -missionarios, íam morrer n’uma toada monotona e ondeante -nas quebradas da encosta fronteira. Quasi todas -estas raparigas novas tinham, mais ou menos, um aspecto -esfomeado e miseravel, a pelle grossa e avermelhada -dos tempos diversos e inclementes que supportavam, -os seus pés e os calcanhares gretados, as pernas -estavam sujas de nodoas de terra, o olhar de algumas<span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span> -era tibio e doente, a côr de outras citrina e -amenerrhoica, as mucosas dos beiços esfoliados e sem -lhes transparecer a viva côr do sangue! Havia, porém, -um certo numero d’ellas mais lavadas, que trabalhavam -com mais alegria—eram as que passavam por -namoros do senhor Alberto—o <i>apontador</i>, aquelle que -as vigiava que as podia despedir, que exercia sobre todas -ellas um absolutismo tyrannico! Era um rapaz forte, -de uma boa corpulencia, a pelle tostada, as mãos plebeias, -um farto bigode presumpçoso, uma cabelleira de -terror, os dentes negros e os dedos queimados do fumo. -Tinha andado a estudar em Braga muitos annos, com -o fim de ser padre. Depois assentou praça no regimento -de infanteria oito, para chegar a alferes. D’ali fugiu -com a sobrinha de um marchante, com quem -desejava casar, o que não concluiu, porque a perfida -o abandonou para se amancebar com um clerigo. -Por fim, Alberto, vendo-se desilludido e infeliz, ludibriado -no seu amor, sem dinheiro, appareceu uma -noite em casa de seu tio cirurgião, pedindo, como o -filho prodigo da lenda, o esquecimento para os seus -desregramentos desgraçados!... O tio cirurgião estava a -cear a posta do bacalhau empurrada pelo cangeirão do -berde. Era um homem sanguineo, e tomou-se de uma -colera subita vendo o sobrinho, com quem gastara em -Braga mais de cem moedas, de chapéu desabado e casaco -roto, n’uma apparencia de malandro maltrapilho! -Quil-o desancar com o estadulho das suas valentias que -tinha ao canto da cosinha, onde ceava, e só depois da -intervenção da Clementina, sua creada e amante de<span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span> -quarenta annos, a qual tambem ralhou muito com Alberto, -é que o tio se tranquillisou, mandando-lhe dar -uma posta de bacalhau. Mas, antes d’esta pacificação, -levantando-se da lareira bebado, chegou-se ao pé de -Alberto e berrou-lhe sobre o nariz, com voz temerosa -e avinhada:</p> - -<p>—Seu burro e seu ladrão! Eu aqui a ganhal-o, a -apanhar molhadellas de lobo por esses montes, e você -nas pandegas de Braga! Pr’o Brazil é que ha de ir. -Arre, <i>bá</i> ganhal-o que eu tambem faço o mesmo. Mal -aprendi a ler, e para arranjar esses campitos que -tenho e que te hei de deixar a ti Clementina, puchei -muito por este toutiço! Vá ganhal-o seu jumento, que -eu ando ha quarenta annos a puchar pela cachimonia, -se quero!</p> - -<p>E bateu formidavelmente na testa, significando que -só d’ali tinham saído todas as idéas, com que medicamentava -os conterraneos. Affirmava ter muita gabança -em não haver estudado, nem no Porto, nem em Coimbra, -como <i>os collegas</i> que estavam na villa.</p> - -<p>Porém, passada esta colera do primeiro momento -em que viu o sobrinho, veio a pensar mais rasoavelmente, -e determinou conserval-o antes por ali. Como -era influente eleitoral, arranjou-lhe facilmente aquelle -logar na estrada «que sempre deixava um crusado por -dia, sem fazer nada!» Ficou, portanto, Alberto, na situação -de indicar ao director das obras, um nigligente -e aborrecido que passava os dias a jogar as damas -n’um botequim da villa, os homens e as raparigas que -deviam ser admittidos ou despedidos dos trabalhos na estrada!<span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span> -Isto dava-lhe um incontestavel predominio, e por -isso eram apontadas com uma intenção reservada <i>as -moças</i>, de que elle mais parecia gostar. Alem d’isto, -Alberto, adquiria diante dos seus sobordinados que -estava incumbido vigiar, a attitude de um personagem -saliente. Os aborrecimentos da aldeia, tornavam-n’o -triste e fatal! A sua existencia estava vasia da convivencia -dos amigos, que adquirira nas batotas de Braga! -Passeava a largas pernadas meditativas e não fallava -aos rapazes lavradores, que tinham andado com -elle no mestre de primeiras letras! Em vez de se suicidar, -atirando-se ao fundo de um poço, lançou-se na -leitura perigosa de romances de sensação, que os mais -celebres fabulistas nacionaes e estrangeiros tinham escripto, -expressamente para lhe fecundar a imaginação -irrequieta e sorumbatica! Assim vivia n’um mundo incomprehensivel -de emboscadas, loucuras, amores de -redempção, paixões nobres e lagrimijantes, homens -que se recolhiam ao desespero do sacerdocio, mulheres -que fugiam aos maridos para seguirem acorbatas, -santos eremitas que tinham sido famosos salteadores!... -Esta illustração inoculou-lhe certas vaidades -litterarias, que elle revelou no <i>Bracarense</i>, timidamente, -sobre a epigraphe de <i>Inspirações do Lima</i>!... N’essas -paginas, aquellas verdes e ramorosas paisagens minhotas, -eram apresentadas cheias de cavernas onde se escondiam -donzellas vestidas de branco, fugidas dos castellos -de seus paes nobres, com amantes desconhecidos -e mysteriosos. Porém, como nem tudo n’esta vida -póde ser ideal, Alberto saía por vezes de entre os frescos<span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span> -salgueiros, onde se recolhia hostilmente a ler os -seus romances, e n’uma excitação aphrodisiaca, ía espreguiçar-se -entre as raparigas que trabalhavam, apalpando -impudicamente os braços carnudos e os seios -volumosos d’aquellas de quem gostava mais!... Os trabalhadores, -que observavam de longe estes desfastios -do senhor Alberto, disseram uns para os outros, descançando -encostados ás enchadas, applaudindo-o, cheios -de inveja.</p> - -<p>—Isso, é levado de seiscentos diabos p’ras moças!</p> - -<p class="tb">Foi ao chegar ao pé dos homens que faziam esta -observação, que a egua do Fogueira, na qual ía montada -a Marianna Ripa, parou subitamente, de um modo -inesperado, n’uma posição desconfiada—a cabeça -alta, as orelhas tezas e o olhar fixo! Depois estendeu -o pescoço, inclinou para diante os pavilhões auriculares -para reunir proveitosamente todos os ruidos e, dilatando-se-lhe -demasiadamente as pupilas, conservou-se -alguns segundos olhando firmemente para uma bandeirola -que fluctuava... Todas as pessoas que presenciaram -esta paragem repentina se tomaram mais -ou menos de uma certa irresolução!...—os jornaleiros -conservaram attitudes indicisas e indagadoras parando -de trabalhar; as raparigas, que acarretavam cestos -de terra, ficaram a distancia um tanto receosas; -o Fogueira recuou dois passos e berrou «diabo de -burra!»; Marianna, apesar de rapariga corajosa, lembrou-se -que lhe tinham dito que a egua era amalucada<span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span> -e deu instinctivamente um grito!... O amante da Ripa, -temendo que o animal lhe tomasse alguma manha, dirigiu-se-lhe -de mão aberta com o fim de <i>lhe fallar</i>, -mais familiarmente... Porém, n’este momento se não -lhe furta instinctivamente o corpo, ía apanhando, sobre -o ventre, uma valente parelha de couces!</p> - -<p>A esta parelha seguiram-se muitas outras em todas -as direcções, dadas com desembaraço vertiginoso. A -Marianna, agarrava-se tenazmente ao albardão para não -caír. Os trabalhadores, com o fim louvavel de suster a -egua, levantaram as enchadas e as picaretas, pondo-se -diante d’ella, fazendo algazarra. Porém, este procedimento -deu em resultado o multiplicarem-se prodigiosamente -os pinotes e os couces. A Marianna Ripa caíu -do albardão, de bruços sobre a terra, com as pernas á -mostra, e a egua, de cada vez mais doida, tomou-se de -uma raiva aggressiva contra os que estavam diante -d’ella, e arremetteu com ousadia para elles, que lhe -abriram condescendentemente caminho! E, enfurecida, -enthusiasta, com o dorso arqueado, a barriga baixa, -o pescoço estendido, as ancas salientes, as pernas abertas, -principiou a fugir pelos campos fóra, para os lados -do rio! O Fogueira permaneceu livido, pasmado, -sem desembaraço, a olhar, vendo-a saltar paredes, saltar -vallados, sebes e barrancos! A sua amante já se -tinha levantado promptamente, toda vermelha, com medo -que os homens lhe tivessem visto as pernas! Não -se tinha maguado, pois caíra sobre a terra molle! Todas -as pessoas que presencearam este facto, surprehendidas -pela rapidez com que elle se passara, estavam<span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span> -sómente interessadas no galopar da egua, que viam correr, -dando upas vistosas, com a cabeça alta e o rabo -espalhado ao vento!...</p> - -<p>Antes d’ella desapparecer, calculou um jornaleiro -com modo reflectivo:</p> - -<p>—Aquillo foi o dianho da mosca!...</p> - -<p>Os que ouviram esta opinião admittiram-n’a em silencio, -continuando a olhar para a egua que fugia -resolutamente, sem hesitações, sem duvidas, dominada -por uma idéa infernal!...</p> - -<p>Lá no fim dos campos, estava o rio, a grande profundidade, -revolvendo-se as suas aguas, com um fervor -de corrente que se precipita por entre penedos! Tinha -chovido muito nos dias precedentes e, por isso, o -rio levava uma bravura excepcional!...</p> - -<p>A egua corria sempre, perdida, com os olhos esgazeados, -as crinas ao vento, o corpo arqueado e foi -precipitar-se do alto muro, caíndo estrondosamente na -agua e fez <i>cachap</i>, levantando enorme poeira de espuma -na amplitude do ar!</p> - -<p>Um lavrador, que andava na outra margem trabalhando -pacificamente no seu campo, vendo isto, exclamou -surprehendido:</p> - -<p>—Oh! com mil diabos, que lá se <i>spapou</i>!</p> - -<p>E logo que o Fogueira chegou esbaforido disse-lhe -este individuo, gritando:</p> - -<p>—Ó hominho. Essa burra que caíu ao rio era sua? -Ella era maluca por força!</p> - -<p>O Antonio Fogueira respondeu-lhe de um modo abstracto, -com uma navalha aberta na mão:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span></p> - -<p>—É o demonio que a leve!... Se a pilhasse, abria-lhe -a barriga de cima a baixo, com esta!</p> - -<p>Depois, lançando um olhar indagador para os dois -lados do rio, perguntou:</p> - -<p>—Mas vocemecê viu-a? Onde diabo caíu ella?</p> - -<p>—Olhe!...—apontou para os rochedos que estavam -mais abaixo.</p> - -<p>O Fogueira aproximou-se vagarosamente do logar designado. -Uns lavradores e umas raparigas, que, ali perto, -andavam no trabalho, perguntaram-lhe igualmente:</p> - -<p>—Você é dono da burra que ahi caíu?</p> - -<p>E à affirmativa do troquilha esclareceram:</p> - -<p>—Pois o diabo, parecia que trazia o demo no corpo. -Atirou-se sobre esses penedos como um raio! Depois, -o rio levou-a para baixo.</p> - -<p>Um dos trabalhadores acrescentou:</p> - -<p>—Aquillo era maluca, por força!</p> - -<p>O Fogueira repetiu, com rancor, mostrando novamente -a navalha.</p> - -<p>—Tres mil demonios a arrastem pr’as profundas -dos infernos! Se se não tivesse <i>spapado</i>, punha-lhe as -tripas ao sol.</p> - -<p>Outro dos jornaleiros ainda esclareceu, apontando com -a foicinha:</p> - -<p>—Isso é ahi um pôço que nem seiscentas pipas! Você -faz lá idéa!...</p> - -<p>Um terceiro acrescentou:</p> - -<p>—Nunca ninguem lhe viu o fundo. Muita gente antiga, -diz que o não tem; mas isso parece-me mentira.</p> - -<p>Um rapaz esclareceu:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span></p> - -<p>—Ha ahi cobras que é um inferno! O tio Domingos -Briteira viu uma de mais de vinte varas. Vinte varas! -que digo eu! De mais de quarenta. Ora! Se ella tinha -o rabo de lá do rio e a cabeça de cá, quando elle a -viu. Talvez essa cobra se enrodilhasse ás pernas da -burra!</p> - -<p>O Antonio Fogueira despediu-se de um modo triste:</p> - -<p>—Com bem passem! Deixal-a ir. Deus os ajude.</p> - -<p>E na volta, quando chegou ao pé da Marianna Ripa, -que o esperava, disse:</p> - -<p>—Então que tal?! O Rio Tinto prega-me uma burra -maluca!</p> - -<p>A rapariga defendeu o primo:</p> - -<p>—Ora! Talvez elle não soubesse!...</p> - -<p>—Não sabia o diabo que o leve! Elle m’as pagará!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span></p> - -<h3>VI</h3> - -<p>Em Vianna, o Fogueira e o Rio Tinto, encontraram-se -hospedados na mesma estalagem. Por causa do negocio -da <i>burra</i>, invectivaram-se reciprocamente com injurias -e, se não fosse o Fanfarra e a Marianna Ripa, que se -interposeram, elles chegariam de certo ás do cabo! Por -fim, o Rio Tinto, com uma viva colera no olhar, tirou -da sua sacca de linho os soberanos que tinha ganho -ao Fogueira e, atirando-os com despreso sobre a mesa, -disse com altivez:</p> - -<p>—Ahi tens e não tornes a dizer que te roubei. <i>Bê</i> -lá como fallas p’rá outra <i>bês</i>. Põe n’esse raio de cara -dois <i>carbões</i> accesos, para saberes o que compras!...</p> - -<p>E ficaram, sem se fallar, olhando-se como dois homens -que se odeiam! Á noite tiveram occasião de se -encontrar, um em frente do outro, a uma mesa de -<i>monte</i>, arranjada ao fundo da taberna, atraz de um<span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span> -tabique, por dois braguezes de longas barbas suspeitas -e chapéus desabados... Estes homens, para attraírem -os feirantes que por ali estavam, tinham-se -abancado de um modo natural e simples, principiando -a jogar entre si o <i>trinta e um</i>. Batiam insolentemente -o dinheiro nas mesas, com o fim de se tornarem vistos, -fallando alto e grosseiramente. Um almocreve, contractador -de peixe para Traz-os-Montes, estava ali perto, -e foi naturalmente attraído! Como ceára e se sentia na -amplitude beatifica de um homem bem avinhado, foi-se -aproximando, sorrateiramente, com certo desdem!... -Carregando o chapéu para os olhos, sentou-se junto -dos jogadores, tomando <i>n’aquillo</i> um interesse puramente -mental!... A este curioso, juntaram-se outros, -attraídos por iguaes motivos, chegando-se todos á formiga, -n’um desleixo simulado, sem apparencia de proposito -difinido, com as mãos nos bolsos e o cigarro ao -canto da bôca... E, quando a roda era já bastante -compacta, um dos jogadores, sem dizer palavra e fundando-se -de certo n’uma convenção anterior, atravessou -o baralho no meio da mesa e, tirando mais dinheiro -do bolso, contou nove corôas em prata! Depois, -com outras cartas que tinha n’um bolso interno -da sua jaqueta de alamares, principiou a baralhar demoradamente, -lançando em volta um olhar firme e carregado! -O companheiro, sem lhe dizer palavra, abriu -um cinto que trazia afivelado sobre o estomago, mostrando-o -cheio de libras, e tirou tres, que ajuntou ao -dinheiro já contado, e disse com um modo esbanjador, -n’uma voz imperiosa e rouca:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span></p> - -<p>—São quatro <i>sovranos</i> de monte!</p> - -<p>Os indiferentes, ao verem isto, sentaram-se logo -nos bancos de pau, acotovelaram-se contra a mesa, olhando -avidamente para as cartas e para o dinheiro! Ao -longo de todos elles passou o calefrio das sensações -poderosas e commoventes! O jogador, que se preparava -para fazer as pagas, collocou sobre o baralho, atravessado -na mesa, as tres libras em ouro, espalhou a -prata diante de si, misturando-a com certo despreso -e, carregando mais para os olhos o seu chapéu de abas -largas disse de um modo vago:</p> - -<p>—Eram precisas ahi quatro croaças em <i>covre</i>...</p> - -<p>Então, um rapaz novo, sem barba, muito magro e -amarello, com o tronco osseo apertado no seu fraque -velho muito coçado nos cotovelos e lusidio nas costas, -pegou nas quatro corôas, que o jogador lhe deu por -cima do hombro. Com passo ligeiro e leve, dirigiu-se -ao taberneiro, que estava medindo quartilhos, e pediu-lhe -n’uma voz urgente, perturbada, com inflexões -nervosas:</p> - -<p>—Tio Domingos... Estas croaças em <i>covre</i>!...</p> - -<p>Collocou-lh’as sobre o mostrador humido de vinho.</p> - -<p>O tio Domingos, com o seu ar de borrachão pantagruelico, -perguntou-lhe usurariamente interessado:</p> - -<p>—Então elles hoje... ein Marquinhos?!</p> - -<p>Marcos, amanuense do governo civil, respondeu com -muita pressa, contente, encolhendo-se em si mesmo, -passando n’um frenesi, o seu dinheiro de uma mão -para a outra, n’um estado de impaciencia quasi sensual:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span></p> - -<p>—Sim, senhor, <i>vão fazer</i>... São aquelles dois de -Braga, o Barroso e o outro que eu não sei como dianho -se chama...</p> - -<p>—Timotheo... O Timotheo da Carcova... Quem -diabo não conhece o Timotheo?!</p> - -<p>—Sim, senhor, um nome assim arrevezado, o Timotheo... -Mas ande depressa, tio Domingos!—pediu com -insistencia, com a sua voz aflautada, de um timbre -choroso.—De-me esse troco que estão á espera! O -Barroso não <i>se volta</i>, emquanto lhe não levarem <i>covre</i>!</p> - -<p>O taberneiro disse:</p> - -<p>—Olha, vae-te Marquinhos, que eu levo já. Diz-lhe -que eu levo já.</p> - -<p>E depois de ter contado meticulosamente o dinheiro, -escolhendo o mais falso, foi elle mesmo pôl-o sobre a -mesa do jogo. As suas mãos plebeias e sujas íam cheias -de patacos esverdeados, de uma côr venenosa, levando -ao mesmo tempo, de baixo do braço direito, um pequeno -mialheiro, que collocou em cima da mesa, dizendo -n’uma voz chorosa e comica que fez rir:</p> - -<p>—<i>Aqui pr’ás bemditas almas!...</i></p> - -<p>Esta pequena caixa de folha com uma fenda na tampa -superior, era onde os jogadores teriam de deitar os -baratos!</p> - -<p>Só depois d’isto, quando em volta da mesa estavam -muitos individuos com um olhar desvairado e -o dinheiro apertado freneticamente na mão, á espera -do momento de jogar, é que o Barroso tirou quatro -cartas do baralho, collocando-as nos respectivos vertices -dos angulos de um quadrilatero que traçara mentalmente...<span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span> -Em seguida, accendeu um cigarro, piscando -os olhos com as fumaças e disse:</p> - -<p>—Agora, meus homes, é metter-lh’o sem medo!...</p> - -<p>Chegára o tetrico momento dos primeiros palpites! -A expressão de todos os semblantes era mais viva e -as respirações abrandaram-se momentaneamente. Duas -vélas de cebo, em duas bogias de folha, espirravam -sobre a mesa, alumiando, com fraca luz, aquelles rostos -sugados! O fumo espesso e azul, o cheiro nauseabundo -do peixe que se estava frigindo, envolviam o -grupo dos jogadores, que se entendiam por uma linguagem -breve. Os cigarros accesos, collocavam n’aquellas -pelles escuras e nas barbas pretas, pontos incandescentes! -E cá fóra, na loja humida da taberna, o -<i>ou-ou</i> prolongado das vozes dos feirantes pedindo mais -vinho e praguejando, continuava-se n’um unisono monotono -e ondeante, de momento a momento cortado -pela voz do banqueiro, o Timotheo da Corcova, que -dizia com arrogancia, «jógo.»</p> - -<p>Era quasi manhã, quando <i>isto</i> acabou. O Fogueira -<i>apontou</i> durante toda a noite, de um modo accintoso, -contra o Rio Tinto, e esteve sempre com uma sorte de -burro! Fartou-se de ganhar dinheiro, os montes de -corôas iam crescendo diante d’elle e já lhe atulhavam -os bolsos. Todos os outros <i>pontos</i>, embirrados com isto, -seguiam o partido do Rio Tinto, que estava sem -sorte nenhuma, e perdiam com elle! Em virtude d’isto, -quando eram cinco horas da manhã, estavam <i>á lisa</i>,<span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span> -achando-se o dinheiro no cinto do Fogueira que os -<i>tinha alimpado a todos</i>!</p> - -<p>Antes da meia noite, a taberna ficara vasia de gente, -que tinha saído para a romaria, com fim de ver o -fogo! Na rua passavam continuadamente descantes á -viola. Os que perdiam ao jogo, o Rio Tinto, o Fanfarra -e todos se indignavam pronunciando insultos e obscenidades -contra os das esturdias... O Fogueira bem -comprehendia que eram injurias contra elle, por lhes -ganhar o dinheiro, e ria-se ás gargalhadas, fazendo -chacota e guardando com escarneo os soberanos que -os outros perdiam. Por fim, quando amanheceu, o Barroso -e o Timotheo da Carcova, <i>encontrando-se pela primeira -vez, no seu dinheiro</i>, depois de uma noite inteira -de jogo, durante a qual houve um momento em que a -banca perdia mais de vinte moedas, disseram com certo -desafogo:</p> - -<p>—Contra esta sorte não ha que fazer! Estamos desforros...</p> - -<p>E levantaram a banca sendo já dia alto.</p> - -<p>O Fogueira ganhava um bom par de moedas! Impiedoso -e triumpante, principiou a contar ostentosamente -o dinheiro diante de toda a gente. Batia as libras -sobre a mesa, fingindo por troça, que desconfiava -que ellas fossem falsas. Voltando-se para alguns dos -que as tinham perdido perguntou com modo achincalhador:</p> - -<p>—Os sobranos são bôs, ó rapazes? Vocês viriam -para a feira com dinheiro falso?! Não vinham; porque -haviam de ter medo ao <i>demenistrador</i>. O que alguns<span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span> -são é bem bonitos, de cavallinho. Hei de os guardar -para lembrança d’esta noite.</p> - -<p>Os que tinham perdido, conservavam-se n’uma indifferença -fingida, mas hostil... Deitados por cima dos -bancos, como dormindo, olhavam por baixo dos chapéus -desabados. O Rio Tinto e o Fanfarra tinham -uma expressão amarga e vingativa, affastados do Fogueira, -fumando cigarros e olhando para elle com um -rancor intrinseco! Nos seus rostos severos e contraídos -reconhecia-se-lhes mais ferocidade do que tristeza!</p> - -<p>No dia seguinte, o Antonio da Engracia, percorreu -com a sua amante todo o campo da Agonia, onde era a -feira. Sempre que estavam perto d’elle o Rio Tinto e -o Fanfarra, que o olhavam de travez, com modo ameaçador -e reservado, puchava por dinheiro com escarneo! -N’esse dia satisfez á Marianna muito mais do que -as suas exigencias de mulher vaidosa pediam! Comprou-lhe -uns brincos caros e um par de argolas de cabacinhas, -na barraca do Ferreira, um ourives do Porto. -Nos mercadores mandou cortar um saiote vermelho -do melhor panno e umas roupinhas chibantes. Comprou-lhe -lenços de seda de furta-côres e chinellas de -verniz! Quando pagava, affectava sempre gestos esbanjadores, -que feriam os que o viam!... Porém, esta -intenção mostrou-se com verdadeira dureza na feira -do gado, onde principiou a examinar detidamente <i>a -melhor</i> egua, para a comprar! Era um animal vistoso, -pelo qual um gordo ecclesiastico minhoto pedia vinte -e cinco moedas! O Fogueira chegou-se á egua, assentou-lhe -duas palmadas na anca azevichada e fel-a<span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span> -estremecer. Puchou lhe, em seguida, pelo rabo, obrigando-a -a estacar firmemente... Examinou-a nas mãos -e nos pés até aos cascos, para ver se estava <i>puchada</i>. -Observou-a na dentadura, levantando-lhe a cabeça e -affastando-lhe os beiços polposos com o fim de lhe calcular -a idade... Passou-lhe os dedos diante dos olhos, -para lhe experimentar a vista... Finalmente, quiz-se -mostrar um troquilha experimentado, para que o não -enganassem <i>outra vez</i>!...</p> - -<p>O ecclesiastico, dono da egua, seguia discretamente, -com um sorriso gabosola e um olhar entendedor, o -exame do Fogueira, fungando estrondosamente a sua -pitada de <i>meio grosso</i>. O amante da Marianna Ripa, -com a faixa vermelha apertada no ventre e o chapéu -de abas largas inclinado para a nuca, perguntou-lhe -em voz alta e com pronuncia insolente; pois sabia -que era ouvido pelo Rio Tinto que o cocava de perto:</p> - -<p>—Ó senhor padre! Ella é maluca?</p> - -<p>O sacerdote, João Pitança, á pergunta inesperada, e -cuja intensão e alcance não podia comprehender, respondeu -com uma gargalhada sonoramente timbrada:</p> - -<p>—Ah! ah! ah!... Maluca! Home essa! Ah! ah! -ah!... Como diabo ha de ser maluca a melhor egua -da feira?! Ah! ah! ah!... Só essa pergunta me faria -chorar de riso! Se foi por chalaça que o dissestes, fizeste-me -rir. Ah! Ah! Ah!...</p> - -<p>Affastando-se da sobrinha—uma rica moça de bons -seios e boas ancas!—que se conservou a distancia com -o guarda sol pendente das mãos crusadas sobre o ventre, -aproximou-se do animal, bateu-lhe confiadamente<span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span> -na anca e chibatou-a com a sua varinha de marmelleiro -para ella dar reviravoltas...</p> - -<p>—Ora maluca!—continuou. Que demonio de lembrança -a tua! Leva-a a contento meu rapaz! Pagas-ma -p’ra outra feira se quizeres!</p> - -<p>O Fogueira respondeu-lhe n’um tom de chacota, -sempre com o fim de offender o Rio Tinto, que o continuava -a escutar n’uma desattenção simulada:</p> - -<p>—Não, que ha por ahi muito quem queira enganar -a gente vendendo burras malucas... Ha muito ladrão -com cara de gente! O senhor abbade não faz idéa!</p> - -<p>—Abbade, não—emendou o ecclesiastico. Um simples -padre, meu rapaz, um simples padre. Mas quanto -á egua pódel-a levar, que é trigo limpo. Não tem -um argueiro, pódes ver á vontade—concluiu o sacerdote, -com o seu ar de homem bem comido e bem -bebido, assoando-se fortemente ao lenço de panninho -que desdobrára completamente ao ar!</p> - -<p>Mas o melhor era montal-a—observou. Montando-se -acabavam todas as duvidas. Se o Fogueira queria -ver, <i>corria-a</i> elle mesmo, padre João Pitança, ali -n’aquelle campo da Agonia, que era bom para isso. -Não pensasse o comprador que tinha n’isso a menor -duvida. Ou então, se antes queria, o Fogueira que arranjasse -um picador da sua confiança, e veria como a -egua se vispava por ali fóra, que nem um corisco! O -amante da Marianna Ripa gostou d’aquelle desembaraço -do ecclesiastico, e com ar galhofeiro e atrevido de homem -que tem o bolso bem cheio de soberanos, disse-lhe:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span></p> - -<p>—Então monte lá v. s.ª primeiro. Tamem quero -ver a sua perna.</p> - -<p>O padre João não hesitou um momento. Apertou melhor -a cilha á egua e as correias das suas esporas. -Com a mão esquerda nas redeas, repuxou-as de certo -modo, para o animal enfeitar a cabeça. Alisou-lhe as -crinas, passou-lhe a mão direita na anca, metteu o pé -esquerdo no estribo de pau e com um balanço de homem -acostumado, caíu no selim de um modo firme e -airoso, como um lanceiro! Em seguida, com o seu riso -aberto, de camponez vaidoso, disse para os troquilhas -que o observavam com interesse:</p> - -<p>—Isto é fino meus homes!...</p> - -<p>E esporeou com habilidade a egua, para a obrigar a -algumas reviravoltas, que abriram um largo circulo no -povo circumjacente. Depois deu a primeira envestida -na carreira, só para obrigar o animal a parar de repente; -mas voltou ao logar d’onde partira, dizendo para -o Fogueira:</p> - -<p>—É cousa boa, meu rapaz! Cá não se engana ninguem! -Não sou d’essa gente, nem a quero na minha -companhia—pronunciou com vaidade.</p> - -<p>As abas do seu comprido casaco sacerdotal, caíam -dos lados. Com as pernas firmes, calculadamente encostadas -ao ventre da egua, conservava-a n’uma vaidosa -impaciencia de partir. Carregou o seu chapéu de abas -largas para lhe não voar com o vento e foi-se chegando -a passo, para o sitio onde se devia correr. A -cabeça do animal, firme e altiva denotava certa magestade -e orgulho!... O padre João Pitança retesava-lhe<span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span> -com intelligencia as redeas, para a egua se enfeitar, e -esperava o momento opportuno de estar bem desempedida -a <i>carreira</i>... Depois, quando esse momento -chegou, partiu n’um travado meudo e veloz, diante de -centenares de espectadores, que o viram sumir-se por -entre uma atmosphera de poeira dourada pelo sol -poente, o que lhe dava, tanto a elle como á egua, um -volume indiciso e esfumado! D’ali a poucos minutos voltou, -a galope rasgado, e estacou firme e de repente, -no mesmo ponto d’onde tinha partido! O Fogueira confessou -accenando com a cabeça:</p> - -<p>—Sim, senhor! Uma boa perna, senhor padre!</p> - -<p>Outro feirante disse:</p> - -<p>—E rica mão de redea!</p> - -<p>O ecclesiastico surriu-se com satisfação. O troquilha -montou tambem o animal e correu-o. Por fim concordaram -no preço de vinte e tres moedas, que o Fogueira -pagou logo.</p> - -<p class="tb">Todas as circumstancias impelliam os maus figados -do Rio Tinto para um rancoroso procedimento de vingança! -A pisporrencia do Fogueira ao gastar dinheiro, -a sorte de burro que tivera ao jogo, as suas provocações -com palavras e com gargalhadas de chacota, faziam-lhe -remoer as entranhas lá por dentro, dando-lhe -certa gana de o abrir de meio a meio! Principiou a conhecer -que lhe entrava na organisação um appetite infernal -de se vingar do amante da Ripa! Conhecia, por -uma reflexão interior, que a cabeça se lhe estava enchendo<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span> -de idéas perversas!... O Fanfarra, logo que -elle lhe disse que tinha vontade de ter uma <i>aquella</i> -com o Fogueira, tomou abertamente o mesmo partido, e -n’uma intimidade infame, urdiram um plano para se -vingarem das desfeitas que tinham recebido durante o -dia!</p> - -<p>Poderiam sair-lhe ao encontro, dar-lhe uma grande -coça, a ponto de o deixarem estendido sem sentidos -no meio da estrada, e roubar-lhe o dinheiro que levasse, -que ainda havia de ser um bom par de moedas. -Podiam porque eram dois homens destimidos, não tinham -escrupulos e, talvez, já não fosse a primeira que -faziam!... Mas o peor era a Marianna Ripa, que de -certo acompanharia o seu amante!... Era preciso desembaraçarem-se -d’ella por qualquer fórma!... O Rio -Tinto conhecia bem <i>sua prima</i>... Era uma rapariga desembaraçada, -que tinha tanta coragem e resolução, como -qualquer d’elles... Dizia-se que envenenara um -padre, com quem estivera amancebada dois annos! O -primo troquilha tanto não acreditava n’este boato, que -tinha sido a melhor testemunha de defeza da rapariga, -o que muito concorreu para a livrar da cadeia -onde esteve oito mezes, por causa d’este negocio!...</p> - -<p>—Já tu <i>bês</i> que a conheço muito bem, e que até -ella tamem póde <i>entrar na cousa</i>—concluiu com pronuncia -intelligente...</p> - -<p>Por isto o Rio Tinto mesmo é que fallou á Marianna, -que teve alguma difficuldade, alguns escrupulos em -atraiçoar o seu amante. Mas elle e o Fanfarra logo lhe -rebateram todas essas asneiras dizendo:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span></p> - -<p>—Não sejas tola... Que tens a ganhar com isso!?... -Elle deixa-te por ahi qualquer dia e ficas a chupar no -dedo!...</p> - -<p>Depois de batalharem algum tempo com ella, convenceram-n’a... -Que diabo!... O Fanfarra e o Rio -Tinto, a final de contas tinham rasão. Isto <i>de amigos</i>, -quando menos se pensa, arrumam para o canto uma -pobre rapariga, como se faz aos sócos velhos que não -prestam. Ella bem tinha visto o que acontecera com -<i>outras</i>... Homens... trazem ás vezes muitos trabalhos. -Aquelles oito mezes de cadeia, por causa da -morte do padre João de Pinho, tinham-lhe aberto muito -os olhos. Estivera para ir por uma barra fóra e, -em boa verdade, sem ter tido grande culpa... O resalgar -que deitára na malga de caldo com que o padre -tristemente se envenenára, não era para o matar a -elle, que até era um raio de home de quem gostava; -mas para dar cabo da Tonia Salgada, um pedaço de -coira, por quem o <i>ladrão</i> andava baboso, esquecendo-a -ingratamente a ella, que tanta borracheira lhe -aturara, durante dois annos! Não tinha peso nenhum -na consciencia por esta morte!... O ecclesiastico é -que tinha pegado, por sua livre vontade, na malga destinada -á Tonia... Marianna teria ido degredada, se não -fosse seu primo, que jurou diante do senhor <i>demenistrador</i>, -primeiro, e, depois, diante do senhor juiz, na -casa d’este e no dia da audiencia «que na occasião da -tal morte, a Marianna, estivera em casa d’elle a sedar -linho até de noite e lá comera e dormira». Tambem o -podia jurar sem receio; porque ninguem a tinha visto<span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span> -em todo esse dia, que passára escondida no palheiro -do padre... á espera.</p> - -<p>A Antonia Salgada já vivia de portas a dentro com -<i>o seu amigo</i>, já lhe fazia a comida, chegando ao desaforo -e á pouca vergonha de jantarem á mesma mesa, -como dois casados!—distincção que a Ripa nunca recebera, -nem nos seus melhores dias, da parte d’aquelle -excommungado, que devia, por força, estar a arder no -inferno! Marianna soube isto; porque os espreitára. -N’esse instante desesperado, veio-lhe uma impulsiva -idéa de vingança!—o coração deu-lhe um baque de justiça, -um salto dentro do peito, como quem diz «dá cabo -d’aquelle diabo de lesma!...» Pelo muito particular -conhecimento que tinha da casa do ecclesiastico, sabia -que, embrulhado n’um papel azul, entre livros guardados -n’uma caixa de pinho, estava um pouco de veneno -de ratos, que o sacerdote comprára na villa. Entrou -um dia lá na casa, quando todos estavam para o campo, e -tirou o papel azul... Depois estabeleceu o seu plano -de desforra, que poz em pratica d’esta maneira: Escondeu-se, -uma manhã cedo, antes do dia romper, no -palheiro do padre João, que era paredes meias com a -cosinha. Levou um naco de brôa e uma racha de bacalhau; -porque contava passar lá o dia inteiro. Durante -toda a manhã, divertiu-se, a observar a tronga da -Antonia, andando no preparo do jantar, para o que até -matou a melhor gallinha! Uma cousa assim!... era -de morrer de riso! Se a quizessem ver, como se rebolava -por aquella cosinha! Parecia a dona da casa, -cantarolando o <i>bemdito</i>, as <i>modas do Coração de Maria</i><span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span> -ensinadas pelos ultimos missionarios, e o <i>Afasta janota, -arreda</i>... moda dos cegos que tinham estado na -ultima romaria do <i>Soccorro</i>. Ai que raiva se lhe apoderou -do coração! Não sabe como se conteve, que se -lhe não atirou ali mesmo ao gasganete, fazendo-lhe -deitar uma lingua de palmo!... Por fim, quando no -relogio da igreja deram as onze, a bebeda tirou da -caixa uma toalha lavada, estendeu-a na mesa, sempre -cantando com voz esganiçada. Depois encheu duas -malgas de caldo, poz a gallinha e o presunto n’uma -torteira de barro e saíu para chamar <i>senhor padre João</i> -o seu—rico senhor padre João!—que andava na horta, -a regar...</p> - -<p>Foi durante os minutos d’esta ausencia que Marianna -saíu do seu esconderijo e deitou todo a resalgar -na malga que presumia ser a da sua rival! Pouco depois -chegou o sacerdote, de tamancos, correndo atraz -da moça pela cosinha dentro, com muito estrondo! Ella, -a delambida, a fingir que fugia cheia de medo!... Seguiu-se -um momento soturno, em que gosou, no meio -de uma angustia ciumenta, a sua proxima, cruel e decisiva -vingança! Pois aquelle alma de damnado, ali -mesmo nas suas barbas, não se vae pôr a andar atraz -da moça, não a agarra pela cintura, dando-lhe beijos e -abraços, não atira com ella ao chão, com relinchos -de cavallo! N’este momento, Marianna, achou mais repugnante -o padre do que a tronga! Emquanto durou -esta expansibilidade animal do ecclesiastico, ella soffreu -os finos acicates do ciume, morderam-n’a até ás entranhas. -Sentia-se espoliada n’um beneficio que lhe pertencia!<span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span> -Em vez de ser a ella que o malvado dava todas -aquellas provas de amor, via-se reduzida a espreitar -por uma frincha da porta e a presenciar enertemente -tudo aquillo, Santo Nome de Maria! Teve tentações -de entrar na cosinha, pegar n’um machado que estava -ao pé da lareira e dar com elle na cabeça de ambos! -Um ladrão e uma desvergonhada d’aquellas! A Ripa -sentia-se com animo de os abrir, a um e a outro, e de -lhes trincar o coração!... Mas uma voz interior de -contentamento e de saciedade, apregoava-lhe o seu -proximo triumpho e aconselhava-a a conservar-se escondida, -como estava!... Aquella molengona, que lhe roubava -a felicidade, dentro em pouco sentiria horriveis -dôres nas entranhas e havia de estorcer-se n’aquelle -chão terreo da cosinha, como um demonio escorraçado -pela agua benta!...</p> - -<p>Depois, o padre e Antonia, foram para a mesa e o -maldito troca de proposito as malgas só para dar a -melhor,—a de pó de pedra, a que era d’elle e que -nem ás visitas offerecia!—á lambisgoia, que a acceitou -toda derretida! N’este momento caíu-lhe a alma aos pés! -Teve um movimento expontaneo de amor, de generosidade -ou de compaixão, e chegou a pôr a mão na -caravelha, para lhe ir arrancar da mão o veneno! Todo -o seu corpo estremeceu, desde as unhas dos pés até á -raiz dos cabellos, quando o padre João disse para a -Antonia com ar interrogativo e saboreando o caldo com -estalidos gulosos de lingua.</p> - -<p>—Ó moça, tu deitaste assucar no caldo!...</p> - -<p>Ao que ella respondeu, toda chieira:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span></p> - -<p>—É porque ó senhor, parece-lhe dôce tudo que eu -façe.</p> - -<p>Marianna perdeu parte da consciencia e da vontade, -ficando aniquilada, entorpecida, desorientada, entre a -idéa feroz de uma vingança justa e o remorso, ou receio, -de um crime que seria descoberto e punido! Não -teve resolução, nem desembaraço para nada! O ecclesiastico -bebeu a malga quasi de uma assentada, depois -de ter comido a gallinha, com duas enfusas de -vinho rascante. A Ripa deixou-se caír desfallecida no -chão terreo! O sacerdote, acabado o jantar, saíu para -ir levar <i>o Senhor</i> a uma moribunda. A amasia, tambem -foi acompanhar Nosso Pae!... Ficou ella, só, dentro -d’aquella casa, entregue ao proprio cerebro! Um silencio -tenebroso cercou-a n’este terrivel momento!... N’uma -especie de spasmo e de embrutecimento cheio de -medo, foi-se metter debaixo da palha, tapando os ouvidos -para nada escutar!</p> - -<p>Que medonhas horas ali passou, sob a impressão -accusadora de todos os factos que n’esse dia a interessaram. -Horas depois, d’ali mesmo, ella ouviu o alarido -da freguezia, correndo em gritos a casa do ecclesiastico, -quando, quatro homens de béca, o traziam pelos -caminhos n’uma padiola, com a batina e o roquete todo -rasgado! Tinha tido os primeiros engulhos do envenenamento, -quando ministrava á moribunda a Extrema -Uncção, cercado do respeito submisso dos fieis -ajoelhados em volta! Depois, principiou a sentir-se -mais afflicto, sentou-se sobre uma caixa com os santos -oleos na mão, e, como as afflicções cresciam<span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span> -assustadoramente, suspendeu com intelligencia a applicação -do sacramento! Nem escalda-pés, nem mesinhas -receitadas pelo cirurgião Manco, poderam produzir o -beneficio desejado e, mesmo assim vestido sacerdotalmente, -os homens que tinham acompanhado o <i>Santissimo</i> -o trouxeram n’uma padiola para casa e o poseram, -sobre a cama, já sem falla! Os soluços, as ancias, -os vomitos, os gritos de dor que elle ainda teve, -até ao momento de morrer, eram uma eterna condemnação, -para a negra alma peccadora de Marianna Ripa, -que os ouvia, escondida debaixo da palha! Se tivesse -comsigo uma navalha, durante aquelles instantes infernaes, -tinha-a enterrado bem funda no proprio coração, -para se punir! Tamanho era o seu arrependimento -e a sua contricção, n’este momento unico, que -desejou morrer ali mesmo de uma morte repentina, -bem medonha e horrenda! Mas depois, alta noite, desapavorou-se -mais, escutando as conversas vulgares do -sachristão com os outros homens, que ficaram a vigiar o -morto e conversavam, riam e escarravam alto, já muito -bebados! Então saltou para os campos pelo postigo -do palheiro e fugiu, indo refugiar-se em casa do Rio -Tinto, a quem contou tudo, para se accusar. O primo -serenou-a dizendo-lhe:</p> - -<p>—Mas elles não te viram, não, rapariga?</p> - -<p>—Não viram. Ninguem sabe que fui eu—respondeu -soffocada.</p> - -<p>—Então bem, não tenhas medo.</p> - -<p>Mas a justiça sempre a prendeu, por simples desconfianças, -fundadas em que foi encontrado no chão<span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span> -da cosinha do padre, um tamanco que lhe pertencia. -Porém, como fôra creada na casa, facil foi explicar este -achado... O Rio Tinto, com o seu sangue frio é que -a livrou da justiça, jurando a pé junto, como um cavallo, -que Marianna Ripa estivera todo o dia em casa -d’elle a sedar linho! Nunca poderia esquecer este grande -serviço que o primo lhe fizera! Sentia-se-lhe presa -pela gratidão, e quando elle lhe pediu para não ir com -o Fogueira prometteu-lh’o, promptificando-se ao mesmo -tempo a saber ao certo o caminho que o troquilha -seguiria de Vianna para casa. Mas ainda assim, -deve dizer-se: impoz como condição, pediu muito ao -Fanfarra e ao Rio Tinto, que o não matassem, que -não fizessem mal ao rapaz. Disculpava-o: era um estouvado, -um espanta lobos por acaso, mas tinha um bom -coração—rapaz de franquezas, nada era d’elle, tudo -dava! O Rio Tinto serenou-a: não o queria matar—sómente -desejavam alivial-o da chelpa que lhe havia de -fazer peso no cinto. Para que queria elle, um rapaz -solteiro e sem filhos, tanto dinheiro, como o que lhe -dera a mãe, da venda dos campos, e como o que lhes -ganhára ao <i>monte</i>?! De mais a mais era um burro tão -feliz, que até arranjára o <i>sustituto p’rá tropa</i>, por quinze -moedas, quando, todo mundo, gente mais pobre, tinha -dado vinte. É bem certo dizer-se que a agua corre -sempre para o mar e que, quando se é feliz, é-se -feliz a valer! Aquillo estava mesmo a pedir uma alma -de Deus que lhe tirasse a <i>chelpa</i>!...</p> - -<p>A rapariga concordou. Receberia tanto como elles, -pelos esclarecimentos que obtivesse. Porém, insistiu,<span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span> -ainda uma vez, com afinco e honestidade, em que não -o matariam, em que o haviam de deixar ir em paz, -depois de lhe tirarem <i>o que levasse no cinto</i>!... O -Fanfarra, porém com um rosto ingenuo e sério, observou:</p> - -<p>—Isso lá, tamem... que não tire elle pela gente!... -Quando lhe pedirem <i>o milho</i> que o ponha e que não -bufe... Se assim quizer que vá com seiscentos diabos, -que ninguem lhe quer a pelle para tambor.</p> - -<p>O Rio Tinto observou sensatamente:</p> - -<p>—Ah! elle vendo que são dois resolvidos, não se -ha de ir pôr com <i>aquellas</i>... Olhem que isto de estar -assim de noite, no meio de um caminho só, onde nem -todos os santos lhe podem valer se quizer pimponices... -faz respeito.</p> - -<p>E convieram em que, se elle se quizesse fazer fino, -lhe iriam aos untos, sem mais <i>aquellanças</i>. O melhor -era elle deixar-se de asneiras; porque lhe tinham uma -sêde... lá do fundo. O Rio Tinto confessou ao Fanfarra, -quando não estava presente a Marianna Ripa, -que com o Fogueira ainda desejava ajustar <i>umas contas -velhas</i> e que talvez fosse esta a occasião... E com -um sorriso medonho, de copo em punho, observou:</p> - -<p>—Isso lá, se não dá os sobranos depressa, leva -uma tapona real.</p> - -<p>—Melamos-lhe aquelle coiro!—acrescentou o outro -com intimativa.</p> - -<p>Chegaram a combinar mais detalhadamente no modo -como procederiam. Não ignoravam que o Fogueira -era têso, mas tambem não lhe tinham medo. Eram<span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span> -dois. Bem armados, com as choupas dos seus páus -argolados e com navalhas de ponta e mola, que sempre -usaram trazer no bolso interior da jaqueta de briche, -julgavam-se temiveis. No entanto, para não serem -conhecidos, cobririam as caras barbadas com lenços -esboracados no sitio dos olhos e da bôca e fallariam -na voz tôrva dos salteadores das lendas! O caminho, -depois dos esclarecimentos da Ripa, era mesmo -a calhar, e o Rio Tinto conhecia-o perfeitamente. Por -isso elle mesmo é que determinou o sitio em que poderiam -esperar o Fogueira. Era uma encruzilhada, onde -havia uns carvalhos que, nas noites sem luar, tinham -o volume incomensuravel das sombras phantasticas -e pavorosas! O amante da Marianna passaria ali -pela meia noite, pouco menos... A escuridade, o sitio -e a hora, concorriam para o effeito d’esta scena de romance -theatral. Só faltava a capa, o <i>sombréro</i> e o bacamarte -para ser um quadro de Goya!...</p> - -<p>Os salteadores ensaiavam-se com antecedencia: sairiam -de repente de entre os velhos troncos nodosos e, -mandando fazer alto, diriam imponentemente com voz -soturna: «Seu amigo, ponha ahi o que leva!» Se o -desse por bem e logo, deixavam-n’o com os demonios; -se quizesse fanfar tirar-lhe-íam o dinheiro á força e -moer-lhe-íam o canastro. Disse-o claramente o Rio Tinto -com o seu rancor de mau homem:</p> - -<p>—Se bufa paga-mas todas juntas. Á gana que lhe -tenho, ponho-o molle como uma bosteira de gado! O -bocado maior, não se ha de ver!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span></p> - -<h3>VII</h3> - -<p>O Antonio Fogueira saíu, ao escurecer, de Vianna, -com idéa de chegar, na manhã seguinte, á sua freguezia, -fazendo, assim, todo o caminho de noite. Não havia -luar e as estrellas, quasi tão vivas como nas limpidas -noites de inverno, diffundiam na amplidão luz sufficiente -para, a pequena distancia, se poder apreciar o -vulto das pessoas, a grandeza das arvores e dos penedos -proximos. Quando elle saíu de Vianna, com muita gente -conhecida, dispediu-se da Marianna Ripa até á proxima -feira dos nove. Pelo caminho, os seus companheiros, -foram dirivando para outros destinos e, quando -era pela volta da meia noite, o Fogueira caminhava só, -destacando-se, no silencio ambiente, como uma côr viva -se destaca n’um fundo escuro, o saliente resfolgar -da sua egua, que trotava n’um passo moderado e cadente,<span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span> -batendo com as ferraduras nas pedras avulsas -do caminho. A estrada que seguia era estreita, orlada -de arvores copadas, o que augmentava a escuridão... -O Fogueira, apesar de não ser medroso, sentia, em -volta de si, um certo vasio que lhe dava uma sensação -de desamparo... de abandono!... Inconscientemente -principiou a pensar n’um mau encontro, a lembrar-se -que lhe podiam vir ao caminho alguns ladrões, se -por acaso soubessem que o seu cinto ía tão bem recheado -de soberanos! Quando se surprehendeu dominado -por estas idéas extravagantes, sorriu incredulamente... -Bem sabia não haver por ali ladrões, e que -sómente, uma ou outra vez, se roubava uma poçada de -agua, para valer a algum campo de milho, que se mirrava -de secura. Mas dado mesmo o caso que lhe apparecesse -um ou dois ladrões!? Não era elle um dos melhores -jogadores de pau das feiras minhotas?! O seu lodam -não tinha uma choupa de romper um peito?! A sua -egua não era bastante impetuosa, para abrir caminho -por entre um regimento de soldados, e bastante fugideira, -para não ser pilhada pelo melhor cavallo a toda-a-brida?!... -Porém, como lhe veio esta idéa esquisita -de se lembrar de ladrões?! Como diabo lhe deu a caturrice -para ali?! Não sabia, mas a verdade é que lhe -desagradou o encontrar-se a pensar em <i>taes amigos</i>, -quando era certo, que tinha o cinto atulhado de dinheiro... -No momento em que elle se sorria destas asneiras, -chegava a um pequeno largo, onde havia uns -carvalhos antigos, cuja ramagem copada lhe deu facilmente -uma impressão amedrontadora, como a de uma<span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span> -igreja, ou de um cemiterio que, n’uma estrada rural, -se encontra desprevenidamente! O silencio aqui era -simplesmente interrompido pelo som metallico de uma -pequena fonte, que pingava junto de um muro. O Fogueira -sentiu-se n’este momento mais isolado, e, talvez, -em virtude da impressão desagradavel que este -sentimento de desamparo lhe causou, attendeu com -mais intelligencia a tudo que o cercava. Um tremor -incaracteristico, mas energico, irradiou-lhe em todo -o corpo; porque dois homens, dando largas passadas -de tragedia, de paus argolados levantados ao ar, se lhe -opposeram com arrogancia, dizendo com voz soturna:</p> - -<p>—Faça lá alto, ó seu amigo!</p> - -<p>A egua susteve-se logo, desconfiada, com um olhar -inquieto, a cabeça levantada, as orelhas espertas! O -Fogueira estremeceu involuntariamente, um formigueiro -rabiou-lhe ao longo da espinha, ficando n’uma especie -de spasmo, depois de ouvir aquella voz rouca, -avinhada, uma voz de timbre seu conhecido, mas que, -n’este momento, não podia dizer de quem era... Toda esta -scena rapida e inesperada, deu-lhe uma idéa pavorosa -de cousa sinistra, da intervenção do demonio nos -successos da sua vida, de acontecimento só explicavel -em historias de bruxas!... Porém, recuperando a serenidade, -reconheceu que eram realmente dois homens -mascarados, que se lhe oppunham no caminho e que -deveria por força ser, para o roubarem... Seguindo o -proprio instincto, tirou o seu pau ferrado de entre a -perna e o albardão, levantou-o para elles com arrogancia -e dizendo «qual alto, nem meio alto!» esporeou<span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span> -energicamente a egua, para romper com velocidade por -entre os dois mascarados. O animal, que era fino e -sensivel, deu um corcovo, indo esbarrar-se contra uma -corda que estava intensionalmente atravessada no caminho -e, o Fogueira, ficou desmontado; mas com tanta -felicidade que, quando os aggressores íam a caír sobre -elle, encontraram-n’o de pé, fazendo-lhes face, -com o páu em guarda, emquanto que, a distancia, se -ouviam as ferraduras da sua egua batendo nas lages -da calçada.</p> - -<p>Este momento de silencio foi tenebroso! Havia dois -homens contra um, na escuridade indicisa de um caminho -orlado de arvores, que se definiam no ar com -os seus enfolhamentos volumosos e espessos! O Fogueira -esperava um ataque simultaneo da parte dos -salteadores, e já calculava defender-se, de costas contra -o muro, sustentando-se assim até poder <i>bimbar</i> o -primeiro, para depois se encontrar com o segundo que -accommetteria com força. Mas um dos mascarados, baixando -o páu com desdem, disse n’uma voz trocista de -compaixão, para lhe mostrar que o tinha comprehendido:</p> - -<p>—Home, não te faças fino, que te enganas. Deita -ahi a marmelada que levas no cinto e vae-te c’os demonios, -se não póde-te saír a cousa torta!</p> - -<p>Esta intimação ironica e despresadora offendeu, mais -do que tudo, o Fogueira, insufflando-lhe uma energia -raivosa contra os dois aggressores. Não o conheceriam -elles?! Não saberiam que era o melhor jogador do pau -das feiras minhotas?!—disse comsigo este sanguineo<span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span> -estouvado! Pois estavam em momento de o experimentarem!—pensou -n’um silencio rancoroso e indomavel. -E logo depois, n’um impeto leonino e sem tatica, -cresceu aggressivamente para ambos, tomado de -um frenesi tão diabolico, que os fez recuar alguns passos -n’este primeiro ataque. O Rio Tinto disse-lhe com -uma voz já menos disfarçada, aparando-lhe as pauladas:</p> - -<p>—Ah! queres á valentona?!... Vamos então lá a -ver!...</p> - -<p>Houve um instante de hesitação, um momento instinctivo -de pausa, em que de parte a parte se pensou -rapidamente em accommetter com a maior energia. O -Fogueira era bastante conhecido, como jogador temivel. -O Rio Tinto e o Fanfarra sabiam-n’o melhor do -que ninguem; porque muitas vezes se tinham encontrado -emparceirados em desordens e, talvez n’este momento, -se lembrassem que, um d’elles, devia á presteza -e generosidade d’este valente rapaz, não ter ficado morto -<i>no S. Sebastião de Villa Nova</i>!... Porém, apesar -d’isto, no momento actual, elles eram dois contra um! -A enorme sêde de vingança, e a natural maldade e -valentia incontestada dos dois salteadores, davam-lhes -reconhecidas vantagens. O Fogueira, ainda que fóra -de si, já tinha conhecido <i>pela guarda</i> dos adversarios -que elles <i>sabiam do negocio</i>:—reconheceu que eram <i>jogadores</i>. -Mas o seu natural impetuoso e imprevidente -levou-o a saír da defeza, com o fim de os atacar, e -com a idéa de fazer a um d’elles, a sua <i>finta</i> predilecta -á bôcado estomago; empregando, ainda assim, <i>muito olho</i><span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span> -para não perder a protecção do muro, que lhe guardava -as costas. Na soturnidade da noite, profunda e -cava, por entre os espessos troncos de carvalhos folhosos, -no meio do silencio imponente das montanhas -visinhas que se levantavam na amplidão, ouviam-se os -estalidos seccos e breves dos paus, batendo uns nos -outros, por entre as respirações de cançaço cortadas de -palavras injuriosas e cheias do rancor dos combatentes! -No escuro, a que elles já tinham habituado os -olhos, os seus corpos furtavam-se habilmente <i>aos golpes</i>, -saltando de lado para lado, sempre n’uma incerteza -de posição! O Fogueira, como era só, precisava empregar -maior esforço e tal raiva que, no fim de cinco minutos, -fez saltar o pau do Rio Tinto, para lhe atirar a -pontuada ao estomago! Este porém, como lhe conhecia -bem o jogo, deu um largo salto de recuo e, em vez de -ir buscar outra vez a sua arma, metteu rapidamente -a mão ao bolso interior da vestia, tirando a sua comprida -navalha que abriu de prompto e disse na voz -natural:</p> - -<p>—Agora ha de ser com esta. Ataca com força rapaz!—gritou -ao companheiro.</p> - -<p>Principiou um d’esses momentos terrivelmente sinistros, -em que entre dois homens se estabelece esta -negra idéa—de se matarem um ao outro! O Fogueira -conheceu immediatamente o perigo, quando viu faiscar -a lamina da navalha, que mesmo á luz tibia das -estrellas brilhára aos seus olhos, como um relampago! -N’esta lucta obscura, que se passava no silencio de uma -noite de primavera e na tranquillidade de um caminho<span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span> -rural, havia muita ferocidade condensada! O Antonio -Fogueira tinha, até ali, sustentado os ataques dos adversarios; -mas, agora, para se furtar á navalha de um -assassino, só o poderia conseguir inutilisando o Fanfarra, -que o ensarilhava de cada vez mais, fazendo-lhe -um jogo de mil demonios! Por isso, com a ligeireza -de um cabrito montez, saltava para a direita, para -a esquerda, para a frente, para traz... evitando os -dois inimigos que o procuravam com pertinacia... com -furia! O Rio Tinto praguejava, ameaçava-o com voz rouca... -quasi natural... O Fogueira tel-o-ía conhecido em -outras circumstancias; mas, em momento tão apertado, -nem reflexão tinha para isso... As forças eram desiguaes... -o filho da Engracia enfraquecia-se visivelmente, -e a elle, que era corajoso, veio-lhe a idéa de um -soccorro providencial... Sentia-se já extenuado e aggredido -de cada vez com mais tenecidade, com mais -rancor, com maior impeto! Aquelle que o procurava -por todos os modos, para o anavalhar, pronunciou com -voz clara, já sem pretensões de disfarce:</p> - -<p>—Agora Fanfarra, deixa-me c’o elle!...</p> - -<p>E logo em seguida, o Fogueira, sentiu-se abraçado -pelo seu inimigo, a quem desmascarou no instante em -que a comprida navalha lhe entrava no coração, rasgando-lh’o -com tal força, que só teve tempo de dizer -n’um suspiro final:</p> - -<p>—Ah! ladrão de Rio Tinto, que me matastes!</p> - -<p>Foi este o ultimo grito de angustia e as ultimas palavras -que proferiu!... O seu corpo deixou-se caír no -chão, desfallecido, com os braços pendentes e o sangue<span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span> -a golfar-lhe pela ferida e pela bôca! Ainda teve alguns -movimentos convulsivos, acompanhados de um rouco -respirar stertoroso, com borbulhões de espuma sanguinea -pelo nariz! A sua energia ainda manifestou um instante -de louca rehabilitação, pertendendo, aquelle corpo -moribundo, levantar-se sobre os joelhos! Mas a final -caíu brutamente, ficando exanime, insensivel, de bruços -sobre a terra!...</p> - -<p class="tb">O Rio Tinto e o Fanfarra conservaram-se, durante -um longo minuto, a olhar para o cadaver, silenciosos, -estupidos, n’uma impotencia inexplicavel, quasi sem poderem -fugir! Sentiam-se agora mais covardes, mais -irresolutos, depois de consummado o crime! Não tendo -uma precisa comprehensão das circumstancias, esperavam, -um tanto passivamente, qualquer castigo que viria -do alto, de uma implacavel região de justiça, para -os punir!... Alguem que, por casualidade, os tivesse -visto, poderia aproximar-se sem que elles se escondessem; -pois que, durante este minuto sinistro, conservavam-se -sisudos, calados, a olhar um para o outro, -com os braços pendentes!... Mas, logo depois, o Rio -Tinto, que era mais preverso e malvado, recuperando -com certa promptidão a sua podre consciencia, disse, -em voz insultante, para o cadaver:</p> - -<p>—Ora ahi tens!... É assim que se ensinam os pimpões!...</p> - -<p>E permanecendo algum tempo com o ouvido á escuta, -para que alguem se não aproximasse inesperadamente,<span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span> -observou em seguida ao Fanfarra que, dominado -por um terror supersticioso, escutava o som metallico -da agua da fonte:</p> - -<p>—Não tenhas medo... Não é ninguem... É ali a -pingar...</p> - -<p>Porém, como o Fanfarra, ainda se conservava n’esta -insensibilidade estupida e incomprehensivel, o Rio Tinto -dispertou-o dizendo-lhe, com um acêno imperativo de -cabeça:</p> - -<p>—Então?!</p> - -<p>O outro troquilha encolheu os hombros, com certo -desleixo, indicando que fizesse elle o que quizesse, que -estava prompto para tudo... O assassino do Fogueira, -dando movimentos desengonçados ao tronco e á cabeça, -proferiu com certa ironia feroz e temivel, condemnando -aquelle estado de arrependimento:</p> - -<p>—Ora põe-te com <i>aquellas</i>. Talvez ainda lhe tenhas -medo. Olha que já se não mexe...—concluiu impellindo -o cadaver com um pontapé.</p> - -<p>E, logo, curvando-se sobre o corpo ainda quente, -desafivelou-lhe o cinto que suspendeu no ar, tilintando -escarnecedoramente com o dinheiro, e rematou n’uma -voz de contentamento miseravel:</p> - -<p>—Ouvel-os? Cá cantam?! Fazem um certo arranjo.</p> - -<p>O sangue ensopava a terra, jorrando em borbotões -ruidosos pela bôca do cadaver e pela ferida! O Rio -Tinto, tendo guardado o roubo, observou com modo -mais familiar, pondo a mão no hombro do companheiro, -que permanecia na mesma apparente insensibilidade:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span></p> - -<p>—Agora... pernas para que vos queremos. Toca a -andar, que póde vir por ahi algum patrão!...</p> - -<p class="tb">Retrocederam pelo mesmo caminho, primeiro n’um -passo rapido, depois a fugir, o Fanfarra atraz do Rio -Tinto. Tomaram á esquerda, por um atalho pouco frequentado, -que os devia levar, atravez de uns montes, -a outra estrada...</p> - -<p>O Fanfarra, quando já estava mais seguro de si, parou -subitamente, para considerar:</p> - -<p>—Olha lá... Ficaria elle bem morto?!</p> - -<p>O Rio Tinto certificou-lh’o do seguinte modo:</p> - -<p>—Deus te dê mais vida do que elle tem!</p> - -<p>Mas o Fanfarra, visivelmente preoccupado com esta -idéa, como estavam muito perto disse:</p> - -<p>—Home... ainda é escuro... Voltemos a espreitar -se elle se mexe!</p> - -<p>E voltaram n’um passo rapido, melhor seguros de si, -com a alma mais desanuviada e perversa. Ficaram a -pequena distancia, de traz do muro, escutando... O -silencio prolongava-se preguiçosamente na profundidade -do valle. Sómente o pingar monotono da fonte proxima -perturbava este alvorecer indiciso, que os passaros -já principiavam a alegrar. Os assassinos, para se -certificarem positivamente da morte do Fogueira, e como -a escuridade ainda os protegia, saíram do logar onde -se tinham prudentemente escondido e aproximaram-se -do cadaver, com certa ousadia e confiança. O corpo continuava -a jazer exanime, de bruços sobre a terra! Não<span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span> -tinha o menor signal de vida—nem sequer perturbava -o silencio da noite, com a respiração tenue do moribundo!</p> - -<p>O Rio Tinto, empurrando outra vez o cadaver despresivelmente -com o pé, pronunciou com um sorriso -cynico:</p> - -<p>—Estás bem morto! Pagastel-as todas. Já não comes -mais brôa.</p> - -<p>O Fanfarra, que era menos animoso, observou-lhe -com certo modo urgente:</p> - -<p>—Home, deixa-o lá, coitado! Fujamos nós, que já se -vae vendo!... Pode vir por ahi algum demonio...</p> - -<p>O Rio Tinto concluiu com uma intonação trocista:</p> - -<p>—Aposto que tens pena d’elle!... Ou é medo?!... -Não tenhas medo; nem elle, nem os que podem vir te -prendem. Se algum pimpão ahi apparecesse agora, fazia-se-lhe -o mesmo e eram dois que ficavam estendidos.</p> - -<p>Depois afastaram-se do cadaver e do caminho que -tinham trazido de Vianna, por atalhos seus conhecidos. -D’ali a poucos minutos, transpunham o cabeço sobranceiro -á estrada. O Rio Tinto concluiu com serenidade:</p> - -<p>—Agora é que é bom dar á perna, que <i>ella</i> vae-se -mostrando...</p> - -<p class="tb">Referiam-se á manhã que rompia, com uma claridade -roxa. Era o alvorocer de um formoso dia de sol. -As cumiadas dos montes circumvisinhos ainda se esfumavam -indicisamente no azul; porém, o tremulusir<span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span> -das estrellas que fôra, durante a noite, vivo e inconstante, -como o dos brilhantes nos bailes da opulencia -mundana, principiava a extinguir-se. O ar sadio e oxigenado -dos campos, dava ao corpo dos madrugadores -a sensação macia de uma ligeira humidade refrigerante. -Dos pinheiraes e das mattas de carvalhos, já -saíam os gaios ralhadores, com o seu vôo largo, annunciando, -por cima das penedias, o dia que chegava. Os -braços enfolhados das arvores nascidas nas eminencias, -recortavam-se no céu, tenuemente anillado, manchando-lhe -a pureza. A modo que o dia se ía illuminando -melhor, as arvores e as massas de penedos destacavam-se, -com mais precisão. Da côr roxa primitiva, -o céu, foi insensivelmente passando para a côr de rosa, -depois para o azul plumbeo, por fim colorindo-se todo -por igual, quando as estrellas já se não percebiam, adquiriu -o verdadeiro tom de azul ferrete, uma côr humida -e energica, propria das manhãs de primavera no -clima do Minho. O nevoeiro tenue, como um gaze lançado -sobre os montes e os campos, foi se pouco a -pouco condensando no fundo do valle. A vida laboriosa -dos trabalhadores ía manifestar-se nos caminhos e nas -encostas. Seria um dia alegre como todos os dias,—os -milhos continuariam a crescer, e as poucas cearas -de centeio pintar-se-iam com o amarello da ganga... -Porém, n’este pequeno largo plantado de velhos carvalhos -annosos e onde uma pobre veia de agua pingava -continuadamente, estava disposta uma surpreza desagradavel, -para o primeiro madrugador da aldeia. Era -o cadaver de um rapaz de vinte e tantos annos, assassinado<span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span> -com uma facada, que lhe entrára no coração! O -seu corpo estava de bruços, no supremo abandono da -morte! O sangue saído da ferida, molhava a terra e -manchava-lhe a cara. E, a vivificante luz da manhã, o -orvalho que refrigéra, as côres da paizagem que enebriam -pela complexidade de tons... essa força omnipotente -que vem da natureza, pairava sobre o morto, -com um scepticismo ironico e dominador!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span></p> - -<h2 class="nobreak">A MORTE NEGRA<br /> -<span class="smaller">A ALEXANDRE DA CONCEIÇÃO</span></h2> - -</div> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span></p> - -<h3 class="nobreak">A MORTE NEGRA</h3> - -</div> - -<p>O terceiro marido de Isabel morreu de uma prolongada -<i>queixa de peito</i>. A viuva, que era uma rapariga de -vinte e seis annos—saudavel, tentadora, appetitosa—de -uma forte carnação campesina, com a intensa vitalidade -das naturezas creadas em liberdade, poderia definhar-se -em virtude de tão successivas desillusões! -Porque ella, que passára os ultimos tempos em despezas -de casamentos e de enterros, estremecendo com -afinco e tenacidade, cada marido recente, tinha de o -prantear logo depois, com um tal apparato de palavras -inconsolaveis, que sensibilisava todas as pessoas que -a ouviam, obrigando-as a tomar parte na sua enorme -dôr!</p> - -<p>Quando acabou de expirar este ultimo, o José Chibante, -Isabel principiou a choral-o, com um desespero -tão desgrenhado, que até a propria natureza austera e<span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span> -muda—as altas arvores, os altos montes e os negros -penedos—pareciam compungidos!</p> - -<p>Estava-se na primavera, mas durante muitos dias -caíra um aguaceiro copioso e subtil, que dava, ao socego -das cousas naturaes, um caracter funerario e lugubre! -As densas paizagens, envolvidas d’um nevoeiro -espesso, não se viam cortadas, ao longe, pelas alegres -claridades das habitações. A linha irregular do -horisonte não se riscava no azul das tardes serenas e -desejadas. O grosso volume das penedias occultava-se -nas densas nuvens, que se rasgavam, transpondo montes, -transpondo valles, correndo sempre, com uma impassibilidade -gigantesca, como de valentes cavallos de -posta.</p> - -<p>Ora Isabel, viuva pela terceira vez, sentira durante -a noite o som ululante do trovão, e presenciara os ultimos -momentos angustiosos de seu marido agonisante, -encostado ao catre da cama!... Ella, que era uma -rapariga forte e com as seducções da belleza e da juventude, -sentia-se aniquilada! Exprimia-o com gritos -angustiosos, com gestos vehementes, com palavras de -desespero, de amor, de saudade!... As suas boas lagrimas, -abundantes, sinceras e quentes, tinham attraído, -logo de manhã, a caridade de algumas visinhas, que lhe -trouxeram as melhores consolações, excellentes palavras, -attenções urgentes... n’aquelle momento doloroso. Eram -amigas e companheiras nos trabalhos ordinarios da lavoura, -e que tinham igualmente assistido, ao caminhar -implacavel da <i>consumpção</i>, em que haviam morrido -os outros dois maridos de Isabel!... Por isso conheciam<span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span> -muito bem o que se passava, e, quando ouviram -os primeiros gritos alarmantes, fecharam as portas, e -pelo caminho para casa da viuva, consideravam cheias -de tristeza:</p> - -<p>—Então sempre se foi o Chibante?...</p> - -<p>—Parece que sim, mulher! Ha pouco mais de um -anno que se casaram! Quem o havia de dizer... um -rapagão como um castello!...</p> - -<p>Uma disse com um modo indagador:</p> - -<p>—Eu não sei o que isto é... mas tanto elle como -os outros, passante o primeiro mez de viverem com -ella, logo arranjaram taes caras de bruxaria que mettiam -medo!...</p> - -<p>Lindoria, com aspecto compadecido, teve esta opinião:</p> - -<p>—Olhae que eu <i>tamem</i> tenho pena da rapariga! Digam -o que disserem, ha de lhe custar... Tão nova, -e já com tres mortes...</p> - -<p>—Ora!...—duvidou uma terceira, encolhendo os -hombros. A culpa de quem é?!.. É minha?!</p> - -<p>Lindoria, que andava sempre por casa de Isabel, interferiu -para não deixar concluir:</p> - -<p>—Deixae-vos de asneiras... Eu bem sei o que lhe -vae lá pelo coração. Ella é uma apegada aos homens!...</p> - -<p>—Pois sim—disse uma das companheiras; mas isso -é o que não devia ser!...</p> - -<p>E caminhando juntas, uma rematou esta conversa -dizendo com naturalidade:</p> - -<p>—Isto assim não tem geito. Isabel não deve casar -mais vez nenhuma.</p> - -<p>Entraram na casa da viuva do Chibante, que estava<span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span> -sentada na lareira, com a cabeça energicamente apertada -entre as mãos, chorando com desespero.</p> - -<p>As suas amigas, para a socegarem, disseram-lhe com -os olhos enxutos «que não se affligisse mais, que aquillo -foi vontade do Senhor que tudo manda». E acrescentavam -com fé e confiança na Infinita Misericordia:</p> - -<p>—Olha que elle ha de estar em bom logar!...</p> - -<p>—Deus vos ouça, Deus vos ouça... Ao menos que -Nossa Senhora o tenha no reino dos céus!...—repetia -muitas vezes Isabel.</p> - -<p>As outras certificavam-lhe:</p> - -<p>—Ha de ter, ha de, rapariga. Ao que elle penou -n’este mundo...</p> - -<p>—Não que eu lhe desse má vida! Como vós sabeis -trazia-o sempre nas palminhas!...</p> - -<p>Lindoria concluiu, sorvendo uma pitada:</p> - -<p>—Aquem tu o vens dizer, mulher! Era um Santo -Antoninho onde te porei.</p> - -<p class="tb">Depois de conversarem algum tempo familiarmente, -foram á cama ver o defunto! Estava escondido por um -lençol; mas ellas descobriram-n’o com certa naturalidade, -talvez mesmo com irreverencia... Viram-n’o bem, -miraram-n’o por todos os lados: o José Chibante, já -composto, de costas sobre a cama, tinha os punhos -atados sobre o peito, e um lenço <i>amarrando-lhe</i> as maxillas, -para se conservarem n’uma posição decente. Essa -alvura do panno que lhe enquadrava o rosto augmentava-lhe -a lividez; as palpebras, cuidadosamente<span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span> -cerradas e presas por um pingo de cêra, accentuavam -o ar sereno e grave do cadaver, que todas viam n’uma -posição reflectida, com as pernas estendidas e os pés -levantados no fundo da cama.</p> - -<p>—Eu não sei como pódes fazer isto... Eu cá se me -morresse o <i>home</i> é que o não vestia—disse uma para -a Isabel.</p> - -<p>Ella respondeu com voz commum, interrompendo -momentaneamente o chôro:</p> - -<p>—Pois então?! Ninguem faz estas cousas melhor que -a gente. Nós é que sabemos, como elles gostavam de -se arranjar...</p> - -<p>Porque a camisa de altos collarinhos lavados e as -calças de panno azul, tinham sido vestidas ao marido, -por sua propria mulher, que lhe quiz fazer este ultimo -asseio, o asseio da eternidade! O defunto estava quasi -prompto, para a sua festa de enterro. Uma das amigas -de Isabel exclamou sinceramente:</p> - -<p>—Mas vae bonito e asseiado! Olha que te parece -mesme vivo!...</p> - -<p>Ella esclareceu, com a sua voz usual, limpando as -ultimas lagrimas:</p> - -<p>—Leva para a cova a roupa da bôda. Já aos outros -dois homes, que Deus Nosso Senhor teve na Sua Divina -Vontade tirar-me, fiz o mesmo. Tenho muita <i>aquella</i> -em que elles vão sempre para o outro mundo como uns -cravos!</p> - -<p>E concluiu, dizendo que o seu José seria vestido de <i>terceiro</i>, -porque era <i>irmão d’esta ordem</i>, e ficava-lhe muito -bem o habito, com a sua côr parda e o cordão novo<span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span> -em volta da cintura, caíndo-lhe as borlas sobre os pés... -Lembrava-se muito bem, de quando elle caminhava na -ultima procissão de Passos, alinhado cuidadosamente -com os outros companheiros, levando uma tocha na -mão, muito sério, já com a sua cara magra e doente, -amparada nos altos collarinhos da camisa, que agora lhe -vestira para o enterro. E, indo á caixa grande buscar -o <i>habito de terceiro</i>, estendeu-o para o verem bem, -e disse que o defunto estimava muito aquelle rico traste, -que quando era vivo, muitas vezes dissera, ter desejos -de o levar para a cova. Por isso Isabel rematou -com intimativa:</p> - -<p>—Ha de ir á vontade d’elle. Quero-lh’a fazer até á -ultima, porque elle tambem sempre foi muito bô para -mim.</p> - -<p>—Fazes tu muito bem—incitavam fortemente as -companheiras. A gente, quando o seu home é bô, deve-lhe -sempre andar ao geito.</p> - -<p class="tb">Uma das amigas da mulher do Chibante foi procurar -o Coruja para vir arranjar o habito ao defunto, por -que a viuva, attendendo a que sempre era uma cousa -benzida, n’esse particular mantinha os seus escrupulos... -O coveiro chegou resmungando, e disse palavras -desgostosas e insolentes, quando viu o morto quasi -prompto. Depois, assobiando canto-chão, e bebendo -de uma infuza de vinho, acabou de o arranjar -ageitando-o dentro do esquife cuidadosamente, com esmero, -compondo-lhe o lençol <i>rebicado</i>, e endireitando-lhe<span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span> -a cabeça n’uma posição natural. Logo que isto foi -concluido, Isabel e as suas amigas, principiaram a gritar -mais alto, com um chôro ganido e espantado, andando -em volta do esquife!... O vesgo e cambado Coruja, -com os seus arremessos grutescos e irregulares, -depois de se ter rido ás gargalhadas, disse de um modo -brusco e malcreado, fazendo carantonhas, com a lingua -de fóra:</p> - -<p>—Por um olho azeite, por outro vinagre, minha -corja de mandrongas!... Quem vos não conhecer que -vos compre!</p> - -<p>E, referindo-se especialmente a Isabel, acrescentou:</p> - -<p>—Já trazes outro de olho?...</p> - -<p>As mulheres, offendidas, responderam indignadamente:</p> - -<p>—Cala-te, bebedo!...</p> - -<p>—Olhem o grandissimo borracho!—acrescentou com -accento desprezivel a beata Lindoria.</p> - -<p>Depois, como o chôro de Isabel se continuava de um -modo intenso, e, as suas amigas, pelo que tinham visto -das outras vezes, sabiam que lhe fazia mal, produzindo-lhe -ataques em que parecia possuida do demonio, -uma d’ellas principiou a amesquinhar-lhe o acontecimento, -a apresentar-lh’o como um successo natural -e simples...</p> - -<p>—Olha que não ficamos cá. Cuidas que alguma de -nós fica n’este valle-de-lagrimas?!... Estás muito enganada. -Tu has de morrer, eu hei de morrer... todas -nós havemos de morrer... Um dia toca o sino para -esta... outro dia para aquella... é o mundo!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span></p> - -<p>E Lindoria, com um aspecto vulgar e pouco sensibilisador, -para mudar de conversa, opinou chegando-se -para o esquife, a sorrir:</p> - -<p>—Mas o que elle te vae é muito lindo! Pódes ter -essa gavança, mulher! Faz gosto olhar para elle. Ninguem -ahi põe um defunto na igreja, tão bem arranjado, -como tu.</p> - -<p>Isabel respondeu:</p> - -<p>—Lá isso, hei de fazer sempre assim, emquanto -Deus me der vida e saude...</p> - -<p>Passado certo tempo, quando todas as idéas tristes -pareciam distantes, á Lindoria, que tinha confiança na -casa, veio-lhe a lembrança sensatissima, de que Isabel -precisaria de comer... Por isso lembrou-lhe:</p> - -<p>—Tu has de estar por força fraca e esse chorar -faz-te mal... póde-te caír no coração.</p> - -<p>A viuva recusou-se teimosamente, dizendo que não -lhe entraria nem uma bucha de pão na boca... parecia-lhe -que tinha comido o seu ultimo bocado... e, -fallando em morrer, o seu desespero era enorme e as -palavras afflictivas!...</p> - -<p>Porém, Lindoria, muito prudente, dizia reprehensiva -e com auctoridade:</p> - -<p>—Estás tola, rapariga! Não querer comer!!... São -lá cousas que se digam! Olha que até offendes ao Senhor, -que te creou!... A gente deve fazer bem ao seu -corpo, para poder louvar a Deus, e engrandecer a Sua -Infinita Misericordia...</p> - -<p>E acrescentou, depois de se assoar com estrondo:</p> - -<p>—... Ouvi estas verdades da bôca d’aquelle santo<span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span> -missionario que ali esteve em Refuinho, e que teve artes -de levar para o reino da gloria a Rosaria do Thomaz do -Monte... Sabeis que <i>ella</i> já vos faz tantos milagres -que, aos domingos, é uma romaria n’aquella igreja?!..</p> - -<p>Com esta auctoridade e saber, sem mesmo consultar -a viuva, Lindoria combinou com as outras mulheres, -para arranjarem <i>alguma cousa</i> que Isabel podesse -comer—alguma cousa que chegasse para ellas tambem, -porque se sentiam com bastante fraqueira. Como era -no tempo da matança dos porcos, uma, que morava mais -visinha da viuva, foi-lhe arranjar uns rojões e trouxe-os, -acompanhados de uma boa infuza de vinho... N’uma -voz convidativa e discreta, pronunciou estas bôas palavras, -logo ao entrar da porta:</p> - -<p>—Vamos a elles, emquanto estão quentes e não vem -por ahi alguem á agua benta...</p> - -<p>—Tens rasão, tens—confirmou a prudente Lindoria, -com aspecto guloso.</p> - -<p>Isabel, nos primeiros momentos, absteve-se, dizendo -com a mão apertada na garganta:</p> - -<p>—Esta (a morte do Chibante) não me passa d’aqui. -Agora é que fico para toda a vida... O que eu tenho -passado em sete annos!...</p> - -<p>Era o tempo que lhe tinham durado os tres maridos.</p> - -<p>Uma das mulheres, prudentes e sensatas, que a cercavam, -disse-lhe:</p> - -<p>—É isso verdade rapariga. Rasão tens tu. Mas se é -vontade de Deus, que lhe has de fazer?!...—interrogou -de cara alta. Sem comer é que não somos nada -n’este mundo, e, como te disse aquella (referia-se a Lindoria),<span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span> -até offendes a Deus com essas palavras desagradecidas!...</p> - -<p>A <i>beata</i>, confirmou mais uma vez, esta sua opinião, -repetindo:</p> - -<p>—Ah! isso offendes e muito! Eu que t’o digo é porque -o sei. Mas—rematou—vamos aos rojões, antes -que arrefeçam. Frios não prestam.</p> - -<p>E para incitarem a viuva do Chibante, para lhe quebrarem -os ultimos melindres, principiaram ellas a comer -com a mão, e a beber todas pela mesma infuza.</p> - -<p class="tb">O morto estava deitado no esquife, vestido com o -seu habito de <i>terceiro</i>. A côr escura do seu rosto e o -pardo da mortalha sobresaía... destacava-se da brancura -do lençol de panno engommado, que tinha nas ourelas -recortes vistosos. As pernas do defunto estavam alinhadas, -e as mãos, sobre o peito, agarravam um ramo -de oliveira; e no rosto, pallido e soffredor, a dolorosa -expressão dos que têem sentido dolorosamente fugir-lhe -o ultimo alento de vida!... Á cabeceira do esquife, -sobre uma velha caixa de pinho coberta por uma -toalha, estava um crucifixo, com duas vélas dos lados; -aos pés, a caldeira da agua benta, esperava os amigos -do finado, que tinham de vir espargil-o com o tosco -hyssope, depois de lhe terem resado pela alma, que n’aquelle -momento já devia pairar nas regiões incomprehensiveis!... -N’aquelle cadaver livido, todo podridão e -um proximo repasto de vermes insaciaveis, havia a suprema -serenidade da morte—impassivel, austera e absorvente!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span></p> - -<p>Isabel, depois dos reiterados convites das suas amigas, -principiou a comer com moderação e, ao parecer, -com pouco appetite.</p> - -<p>—Isto é para vos fazer a vontade; porque não me -passa d’aqui—dizia, indicando a parte superior do esophago.</p> - -<p>Lindoria, com um bom humor descrente, incitava-a:</p> - -<p>—Entra-lhe mulher, anda-lhe... Tu não te has de -deixar ir assim para a cova... <i>como elle</i>. Se Deus, na -sua infinita misericordia t’o roubou, não é rasão para -que vás pelo mesmo caminho. Por isso, come-lhe e bebe-lhe -que é o melhor que tens a fazer.</p> - -<p>E, olhando sagazmente para os lados do caminho, -acrescentou com voz familiar e sem imposturas desnecessarias:</p> - -<p>—Por ora não vem ninguem... Pódes engulir o teu -bocado sem medo.</p> - -<p>Mas, pouco depois, quando mastigavam, silenciosas, -resignadas e com vontade, sentiram passos de alguem -que se aproximava!... Todas deglutiram rapidamente -o que tinham na bôca!... Uma d’ellas, com mais sangue -frio, metteu no forno, com precipitação, o prato dos rojões, -mas deixou, imprevidentemente, a porta aberta. -Lindoria, por seu lado, escondeu com sagacidade, a infuza -do vinho debaixo de um banco, sentando-se logo -por cima d’ella, para a ter melhor escondida com as saias -espalhadas. Por fim, como se tivesse havido qualquer -convenio anterior, compozeram os semblantes n’uma -expressão de tristeza, tomaram attitudes chorosas, e, -fingindo a continuação de uma conversa, fallavam com<span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span> -lagrimas no caso presente, lamentando as amigas de -Isabel, esta perda do <i>seu homme</i>, procurando dar-lhe -as melhores consolações que em taes momentos se podem -desejar!...</p> - -<p>Os passos que se tinham sentido, eram os do velho -Agrella, que vinha resar pelo morto. O alfaiate entrou -com face respeitosa e compungida! Resou cordatamente, -com sinceridade, e, em seguida, entrou no circulo -das creaturas que ensinavam Isabel a resignar-se, trazendo-lhe, -elle tambem, as suas palavras de coragem...</p> - -<p>A mulher do José Chibante ouvia tudo n’um recolhimento -sensato, com intermittencias de sentimentalidade:—umas -vezes chorava alto lamentando-se do só -que ficava, achando-se enormemente infeliz e desgraçada; -outras, entrava socegadamente em detalhes, em -referencias, em particularidades do modo como vivera -com José, rememorando as circumstancias em que lhe -fizera, a ella, as vontades mais exigentes e caprichosas... -Era doloroso e sympathico ouvil-a exprimir-se -d’este modo, ácerca do terceiro marido que lhe morria!...</p> - -<p class="tb">No entretanto, um gato preto da visinhança, entrava -pela porta dentro sem ser persentido e principiou a -observar minuciosamente toda a casa, revolvendo com -lentidão os seus olhos redondos e luminosos. Parecia -attraído por algum motivo; porque, n’aquella serenidade -do seu olhar sagacissimo, conhecia-se-lhe um proposito, -um fim... Primeiro attendeu minuciosamente para o<span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span> -esquife, andando duas vezes em volta para se certificar. -Depois, aproximou-se das mulheres que choravam, aproveitou -do chão uns restos de comida e sentou-se para -lamber socegadamente um osso despresado. Por fim, sempre -devagar e cauteloso, dirigiu-se, com a imperceptibilidade -de uma sombra, para junto do forno... Levantou -com mansidão a cabeça e averiguou olfativamente. Sem -duvida que foi depois de ter chegado a uma conclusão do -seu demorado raciocinio, que o gato se firmou nas patas -trazeiras, arqueou o corpo, estendeu-o, retesou-se, -e, fazendo um salto, entrou pela porta aberta do forno... -onde tinha sido escondido o prato da comida. Pouco -depois voltou, saltou para o chão, trazendo um rojão -que pousou socegadamente junto do esquife e ali principiou -a comel-o, com o sofrego appetite de um golutão...</p> - -<p>O Agrella começou por observar este facto com serenidade. -O gato preto, logo que acabava de comer um rojão, -levantava-se lambendo os beiços, e, sorrateiramente, -ía buscar mais, que vinha mastigar junto da caldeira da -agua benta. O alfaiate, por este signal, percebeu immediatamente -tudo quanto se teria passado, antes da sua chegada -desagradavel e inconveniente!... A infuza que depois -lobrigou debaixo do banco, apesar de Lindoria procurar -escondel-a á sua sagacidade, espalhando as saias, -completou-lhe o quadro. Porém, o seu rosto foi impenetravel, -e, como se nada tivesse visto, continuou a seguir -a linha das lamentações, fallando das qualidades -excellentes do homem de Isabel, recordando casos que -com elle lhe tinham succedido, avivando memorias de -tempos passados... E de tal modo e com tal compuncção<span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span> -o fazia, que a propria Lindoria—a raposa sagaz -da aldeia—sentiu-se dominada pelo tom plangente do -Agrella...</p> - -<p>A velha beata, compungida e lacrimosa, era quem -mais salientemente reclamava as boas palavras, os elegios -e as lagrimas para a memoria do defunto, que ali -estava, serenamente deitado n’aquelle esquife. Ao mesmo -tempo que lamentava os incalculaveis estragos da -morte, ía reparando... percebendo... apopletica de raiva, -que o malvado do gato preto entrava no forno repetidas -vezes, trazendo sempre rojões, que vinha comer, -impunemente, mesmo junto do esquife. N’um momento, -já impaciente e nervosa, não lhe soffrendo o animo consentir -que o animal vivesse momentos tão felizes n’uma -impunidade odiosa, lançando olhares furtivos ao <i>ladrão</i>, -pronunciou com voz lamentosa uma d’essas phrases -equivocas da linguagem popular, por meio da qual -desejava denunciar ás companheiras imprevidentes, -aquelle roubo inqualificavel:</p> - -<p>—<i>Ah! morte negra, morte negra! que assim os vaes -levando um e um!</i></p> - -<p>Queria decerto que o Agrella entendesse que se referia -aos homens fallecidos; porém o velho, alfaiate, ouvindo -isto, levantou-se sereno e talvez indignado!... -Baixou-se sobre o banco, pegou na infuza de vinho -escondida, e estendendo-a a Lindoria, disse-lhe n’uma -voz compungida e de um comico ardente:</p> - -<p>—Pega lá mulher... <i>Aquelles defuntos</i> do que precisam -é d’esta agua benta. Benze-os com esta agua benta, -ó Lindoria!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span></p> - -<p>E dirigindo-se para a porta, disse do limiar com um -desdem rancoroso:</p> - -<p>—Corja de bebedas! Boa tranca, por essas costas!</p> - -<p>E saíu socegado para o caminho. Lindoria veio até á -soleira, com o fim de o amansar, de o adquirir para o -convivio das suas amigas. Por isso chamou-o com uma -voz convidativa, attraente e cheia de confiança, piscando-lhe -um olho:</p> - -<p>—Ó Agrella!... Agrella!... Anda cá pedaço de -tratante... Andá cá maroto... comer alguma cousa...</p> - -<p>E, como o velho alfaiate se voltou para lhe responder, -ella, julgando-o dominado, repetiu, mostrando-lhe a infuza:</p> - -<p>—Olha que é do da tenda. Boa pinga, verás...</p> - -<p>Porém elle, ao riso conciliador e ás boas palavras -de Lindoria, respondeu simplesmente com <i>um gesto</i> dizendo:</p> - -<p>—Olha...</p> - -<p>E distanciou-se com passo natural.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span></p> - -<h2 class="nobreak">O ENTERRO DE UM CÃO<br /> -<span class="smaller">A MACEDO PAPANÇA</span></h2> - -</div> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span></p> - -<h3 class="nobreak">O ENTERRO DE UM CÃO</h3> - -</div> - -<h4>I</h4> - -<p>O velho Coruja, o coveiro, <i>o bom amigo dos mortos</i>, -tinha pelo seu pequeno cão, uma affeição pura e desinteressada.</p> - -<p>O <i>Coisa</i> acompanhava-o em toda a parte, com uma -fidelidade insistente: nos enterros apparecia cansado, -reflexivo e de cabeça baixa; no palheiro, onde ambos -dormiam, deitava-se junto d’elle, corpo a corpo, como -um companheiro familiar; nas diversas cosinhas das -casas ricas da visinhança, onde o coveiro apparecia -ao meio dia, sempre se mostrou submisso, quieto, esperando -pacientemente que lhe dessem a sua brôa e as -rapaduras do pote do caldo de farinha.</p> - -<p>O Coruja olhava para elle com ternura, dava-lhe do -seu comer, interrogava-o com naturalidade, affagava-o<span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span> -dizendo-lhe palavras boas, repassadas de carinho e de -benevolencia...; porque partia da hypothese sensata, de -ser comprehendido. O Coisa, pequeno, magro, de pello -faminto, com as barbas de guloso sempre sujas, escutava-o -attenciosamente, sem pestanejar e deitando-lhe a -cabeça nos quartos, ficava como adormecido muito tempo.</p> - -<p>O Coveiro comprehendia estas finas delicadezas do -seu companheiro... Por isso fallava-lhe com polidez, -com cuidado, escolhendo as palavras, estudando um timbre -de voz meigo e delicado. Que dois corações unisonos -e isochronos! As unicas desavenças que se tinham -dado entre elles, eram por causa das creanças pobres... -O cão perseguia-as insistentemente, se as encontrava -agglomeradas, a pedir esmola, junto dos portaes ricos! -N’este ponto era formalmente desobediente á palavra -austera de seu amo!... O Coruja que, quando tinha vontade -d’isso, sabia ser iracundo, figurava então uma voz -aspera, severa e reprehensiva, ameaçando-o arrogantemente:</p> - -<p>—Pedaço de bregeiro! Tenho-te dito muitas vezes -que me deixes os rapazes. Fizeram-te algum mal? Diz -lá: fizeram? Não entendes isto, maroto?!...</p> - -<p>E se depois o cão se lhe ía enroscar aos pés, humilde -e submisso, concluia com energia:</p> - -<p>—... Pois devias entender. Elles são como nós ambos -e como os outros desgraçados—andam na sua vida... -Se são pobres, quem lhes ha de dar o pão, se não -forem os ricos?! Vel-os acolá?—indicava incautamente -os rapasitos. Andam ás esmolas, como tu e como eu!...</p> - -<p>O Coisa olhava fixamente para o seu amigo, escutando-o<span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span> -sem pestanejar, e como vira que as ultimas palavras -haviam sido acompanhadas de um gesto em que -eram apontados os pequenos pedintes, que, amedrontados, -tinham fugido para longe, interpetrando-as mal, -arremettia de novo contra as creanças, perseguindo-as -com mais raiva pelos caminhos.</p> - -<p>O Coveiro mostrava-se estupido e confundido... Não -comprehendia!... ficava scismando, para ver se encontrava -o motivo que o animal teria, para odiar com tão -afincado accinte, as creanças pobres, que via encostadas -aos portaes ricos!... Não o podia perceber, elle que -ignorava inteiramente a biographia do Coisa...</p> - -<p class="tb">Encontrára-o n’uma tarde de chuva, perto de um -ribeiro, onde, no dia seguinte, appareceu afogado um -velho pedinte, de longa barba esqualida. O pobre animal -tiritava de frio, recolhido humildemente dentro do -tronco carcomido de uma cerdeira desfolhada. O Coruja, -vendo-o assim, teve um ar compacido e lastimou-o -com um sorriso triste. Lembrou-se que levava n’um -bolso restos de pão do jantar, e, com um ar de bondade, -atirou-lhe um pedaço, dizendo:</p> - -<p>—Talvez tenhas fome... Pega lá, come.</p> - -<p>O cão, saindo do esconderijo, abocou com rapidez e -mastigou sofregamente, auxiliando a deglutição com movimentos -rapidos e impulsivos de cabeça. O coveiro observando -este facto, disse sorrindo:</p> - -<p>—Home... tinhas larica. Toma lá mais um naco!...</p> - -<p>E, tirando mais brôa do bolso das calças, deu-lh’a. O -animal, enguliu com rapidez o pão e aproximou-se do<span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span> -coveiro com obediencia—arqueava a espinha dorsal arrastando -a barriga na terra, tinha movimentos lateraes -e cadenciados de cauda, levantava a cabeça para lhe -cheirar a mão benefica e ouviram-se-lhe latidos de -agradecimento. O Coruja, olhou reflexivo para elle e, -cofiando-lhe a cabeça, observou com sorriso:</p> - -<p>—Diabo! sempre és muito feio, ladrão!</p> - -<p>Depois atirou para o hombro a enxada de abrir as -covas e foi pelo caminho adiante... Ia para um atterro.</p> - -<p>O cão ficou quieto, humilde, a olhar para o seu bemfeitor. -O coveiro, olhando para traz, viu-o n’esta posição -quasi supplicante e gritou-lhe de longe:</p> - -<p>—Tó Coisa.</p> - -<p>O animal veio para elle depressa, contente, feliz, -dando pulos de alegria, movendo festivamente a cauda, -lambendo os pés do Coruja, que o affagava. E para mostrar -logo, áquelle seu amigo fortuito, um bom fundo de -cão agradecido, arrastava o ventre pela terra, gania amoravelmente, -roçava-se-lhe pelas pernas, e por fim, conservou-se -alguns momentos n’um aspecto captivante, -deitado no chão, olhando para o coveiro, com a cabeça -firme, a mostrar os dentes e a piscar os olhos...</p> - -<p>Foi assim que se tomaram por companheiros inseparaveis!... -O coveiro não indagou quem era o Coisa, mas -eu que o sei, posso dizer que era o cão do pedinte, que -no dia seguinte appareceu morto na levada do ribeiro! -Tinha sido amestrado para ladrar ás creanças, para escorraçar -os pequenos, magros e sujos, que podesse encontrar -pedindo esmola junto dos portaes ricos. Os perseguidos -fugiam assustados e chorosos, gritando muito,<span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span> -apertando na mão os saquinhos vasios... e ficavam de -longe, a ver quando o pobre da barba esqualida saíria -de ali com o maldito cão, para elles voltarem a implorar -a esmola, com as suas vozes finas e plangentes.</p> - -<p>Porém, o velho pedinte era experimentado e sceptico. -Se alguem, casualmente, observava a perseguição -injusta que o animal fazia aos rapazitos, elle, que fingia -de aleijado, chamava-o com modos de homem irritado, -ralhava-lhe muito, chegava mesmo a bater-lhe. Com este -procedimento conseguia, muitas vezes, captar a benevolencia -de quem o observava e obtinha alguma esmola -que agradecia, dizendo:</p> - -<p>—... Pelas bemditas almas... Por mais que me mate, -não posso ensinar este ladrão. Um dia como-lhe os -figados. Apesar do amor que lhe tenho, sou home p’ra -isso!</p> - -<p>E, com o fim de se mostrar digno de admiração, erguia -para o companheiro o pau da justiça, tremente de -cóleras! O bemfeitor, compadecido, entrevinha caridosamente -a favor do animal, aconselhando:</p> - -<p>—Deixa lá. São brutos, não sabem o que fazem. -Se elles não têem alma!...</p> - -<p>—É tamem do que me tenho lembrado, meu rico -pae da caridade! Se elle tivesse uma alma, eu era capaz -de lh’a metter n’um inferno, só pelo que elle é de mau -para as creancinhas... coitadas!</p> - -<p>Mas o animal não era responsavel. Tendo sido educado, -por seu amo, no proposito de perseguir os concorrentes -ás esmolas, obedecia-lhe. Mesmo quando o velho -pedinte lhe ralhava, apontando as creanças que fugiam<span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span> -espavoridas e elle continuava a preseguil-as, é porque -sabia ser este um signal para as escorraçar com mais -impeto! Tinham-lhe ensinado que, todas as admoestações -lhe impunham dever de ladrar com maior energia -e vivacidade, por isso assim procedia!...</p> - -<p>O pobre da barba, depois de obtida a esmola, premio -da reprehensão infligida ao maleficente, dizia vagamente, -de modo a ser ouvido pelo bemfeitor que se distanciava:</p> - -<p>—Diabo do cão é tolo! Não sei que mal lhe fizeram -os rapazinhos!...</p> - -<p>E voltando-se para elle, outra vez, com o pau no ar, -concluia:</p> - -<p>—És mesmo ruim, como as cobras!</p> - -<p>Mas, logo que ficavam sós, cofiava amoravelmente a -barriga do rafeiro, chamando-lhe seu rico cachorrinho, -ganindo como elle para o reconciliar comsigo, e dando-lhe -fartamente brôa da sacola, com o fim de o excitar -ao crime. Incomprehensivel preversidade!...</p> - -<p class="tb">Eis aqui estão os motivos, em virtude dos quaes, o -coveiro, nunca poderia fazer comprehender ao Coisa, -que a sua benevolencia era sincera e não mentirosa, -como a do velho pedinte, que primeiro o educára. O -modo compassivo como o Coruja entendia deverem ser -olhadas as creanças pobres, que aos sabbados encontrava -junto dos portaes ricos, o cão não o podia comprehender -facilmente e até o interpretava ao inverso, -princialmente quando lhe apontavam os rapazitos que<span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span> -se conservavam agrupados e cheios de susto a olharem -de longe.</p> - -<p>Mas, apesar d’esta divergencia, viveram muitos annos -em concordante familiaridade, dormindo promiscuamente -nos mesmos palheiros e comendo da mesma ração. -Como o Coruja era um bebedo declarado, entendeu -que devia habituar o Coisa a gostar de vinho, exactamente -como elle, e dava-lh’o. O cão principiou pelo -provar, com evidente repugnancia. Nos dias de fome, que -o seu antigo amo lhe fizera passar, quando as esmolas -não corriam para o sacco, tomára habitos de sobriedade. -Vinho! Tal guloseima nunca provára! O pedinte -de barba esqualida era extremamente egoista... emborrachava-se -só. Mas, passado algum tempo, depois -de ter sido preciso abrirem-lhe a bôca á força para lhe -emburcar o liquido nas guelas, o Coisa gostou, e por -fim já escorripichava a tijella, por onde o coveiro bebia -a meia canada habitual... Tão fino bebado se mostrou -depois, que andava sempre lambendo, com cuidado e esmero, -até as deixar enxutas, não só a tigella do amo, -mas todas as cuncas da sopa de bestas que encontrava -ás portas das estalagens e tendas minhotas. Então dizia-lhe -o seu amigo, rindo abertamente, com effusão, -piscando os olhos, já muito <i>torto</i>:</p> - -<p>—Anda grandissimo borrachão, que me pareces um -padre!</p> - -<p>Esta phrase usual, sincera e inoffensiva, que tantas -vezes dissera impune, preferiu-a incautamente, uma vez, -diante de um ecclesiastico que, julgando-se offendido, -o reprehendeu severamente, levantando a bengala com<span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span> -uma intenção aggressiva! O coveiro que, pelo habito de -viver entre batinas, não as respeitava, e, considerando -mesmo que os padres eram homens como os outros e -igualmente peccadores, lembrando-se até de que elle já -tinha enterrado um bom par d’elles, respondeu com -desdem e indignado:</p> - -<p>—Olhe, talvez o seu coração não seja tão bô como -o d’elle!...</p> - -<p>O padre ficou auctoritario e colerico, e o coveiro retirou-se -cheio de justiça, por ter pugnado pelo seu camarada.</p> - -<p class="tb">Ás vezes, nos dias de muita chuva, o Coruja não podia -saír do palheiro onde dormia, por causa das malditas -dôres que lhe vinham á perna doente. O Coisa, -n’essas occasiões, parecendo-lhe que devia prover as -necessidades communs, saía a procurar comida. N’esses -dias não respeitava nenhuma casa, fosse ella de quem -fosse! Previdente e sagaz, obedecendo á sua primeira -educação na vida mendicante, ía por ahi fóra... Porta -que encontrasse aberta e d’onde saísse bom cheiro, entrava -com ousadia e abocava desceremoniosamente qualquer -posta de bacalhau ou qualquer salpicão que encontrasse. -Mas, em vez de comer o producto da ladroagem, -como faria qualquer cão vulgar e sem sentimentos, vinha -depositar a comida intacta nas mãos do seu companheiro, -para elle a repartir. O coveiro, no proposito de -se dar seriedade, reprehendia-o com brandura, sorrindo -com os seus olhos vesgos:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span></p> - -<p>—Ah! grande ladrão! Home, isso não se faz!... -Ir roubar o que não é da gente!... Muito mal feito, seu -patife!... Come tu, anda, que eu não tenho grande -fome.</p> - -<p>No entanto, para não ser descortez e mal agradecido, -acceitava o alimento que repartia com rectidão e igualdade, -dando muitas vezes ao Coisa, qualquer bocado, -que julgava mais appetitoso.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span></p> - -<h4>II</h4> - -<p>Um dia, porém, o Coisa appareceu morto na beira -de um caminho, no velho sulco cavado pelas rodas dos -carros, que ali tinham passado durante muitos annos! -Era em janeiro, o coração do inverno, no alto Minho. -Fazia um frio de lobo, mas a noite era de uma limpidez -phantastica. Um luar claro dava aos objectos um -destaque energico. O ruido das montanhas espalhava-se -sussurrante nas profundezas dos valles cobertos de -uma herva miseravel, mirrada pelo frio intenso e prolongado, -pelas geadas successivas que os soes, quasi -primaveraes, não conseguiam descoalhar. Os montes altos, -cobertos de neve, levantavam as suas enormes carcundas -de gigantes, ha seculos ali adormecidos!... O -dia amanhecera com um sol rutilante, que produzia vivos -reflexos nos brincos de gelo, pendentes dos braços -nús das arvores, dos beiraes dos telhados, e das vertentes<span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span> -das fontes. Os pequenos passaros, saltando nos galhos -das oliveiras, pareciam mais volumosos, porque -tinham as pennas irriçadas. Os tordos, com os pios ingenuos -e os melros com os assobios agudos e petulantes, -denunciavam-se aos caçadores, que os perseguiam, aproximando-se -encobertos com os troncos das arvores, com -os muros e com os penedos, para fazerem certeiramente -a pontaria.</p> - -<p>A paisagem animára-se com o levantar do sol. Principiava -a vida dos campos—os bois íam soltos para as -reles pastagens, ou, cangados, puchavam aos toscos carros -de duas rodas; as eguas lanzudas e famelicas, avistando-se -de encosta para encosta, relinchavam; os rapazes, -as mulheres e os homens trabalhavam nas hortas, -na apanha de lenha para o lume e nas podas, cantando -sempre, para não sentirem o frio. Passavam nos -caminhos alguns pedintes de capas remendadas e de -sacolas a tiracolo, cheias de brôa. Tinham o bom ar, alegre -e folgasão, dos felizes despreoccupados, para quem, o -dia de amanhã, será bom como o dia de hoje. Iam conversando -animadamente em accidentes da sua vida vagabunda -e caminhavam n’um passo largo, assobiando, cantarolando, -batendo nos cães vadios com os páus a que -se costumavam encostar quando pediam esmola. Foram -elles os primeiros que encontraram o Coisa morto na -estrada, tristemente abandonado n’um sulco de carro, -como um cão desprezivel que não tivesse inspirado um -affecto na vida! Junto d’este morto anonymo, os pedintes -alegres, fizeram uma paragem, dizendo um d’elles, -com ar trocista e de chacota:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span></p> - -<p>—Olhem este asno onde se foi deitar!...</p> - -<p>Acrescentando outro:</p> - -<p>—É que tinha calor e não quiz dormir na palha!</p> - -<p>Um terceiro, ainda observou, com um compadecimento -fingido:</p> - -<p>—Coitado!... Já não come mais brôa!</p> - -<p>E por ultimo, um mocetão robusto, desertor do tres -de Vianna, para dispertar a hilaridade na companhia, -levantou pelo rabo o magro corpo do Coisa, e pronunciou, -conservando-o suspenso:</p> - -<p>—Eh! diabo! Está teso como minha avó torta!...</p> - -<p>Riram-se unisonamente com as bôcas escancaradas, -d’este dito excentrico, continuando depois o caminhar -divertido.</p> - -<p class="tb">Porém, o cão não estava ali esquecido, como se poderia -suppor:—o Coruja tinha-o procurado durante -a noite. Andou n’isso muitas horas, apprehensivo e -triste, repassado de maus prenuncios. Chamou-o alto -nas encruzilhadas, assobiou por elle de cima dos muros -dos caminhos, teve momentos silenciosos de uma tristeza -indefinida!... E, como via o Coisa não lhe apparecer, -disse com a testa avincada e com uma expressão -de quem suspeitava um crime:</p> - -<p>—Que diabo! por ahi algum maroto...</p> - -<p>Suspendeu bruscamente a phrase, concluindo-a depois, -mostrando um punho cerrado:</p> - -<p>—Pois se sei quem foi que o matou, abro-lhe a cabeça -com o olho da enxada! Ainda que trezentos diabos -me levem, p’ras profundas dos infernos!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span></p> - -<p>Dirigiu-se para o seu palheiro, tiritando de frio, dando -suspiros e com lagrimas nos olhos. N’essa triste noite -estava só. Não sentia o seu companheiro de tantos annos, -introduzir-se com o fochinho entre a palha, para -adormecer mais quente. Apesar dos latidos vagabundos -dos outros cães da visinhança, o Coisa não se levantava -esperto para ir responder ao postigo! Em vez d’este, -agora era o Coruja, que, ouvindo ladrar, levantava a sua -cabeça para ver se aquella era a voz do seu amigo... -Debalde esperou. A noite prolongava-se por seculos, e -o coveiro, dando voltas entre o colmo, sentia um calor -abafante, suspirava com afflicções e não podia dormir!</p> - -<p>Logo muito cedo, ainda a manhã apontava, saíu do -palheiro para continuar as suas averiguações. Junto da -igreja encontrou umas creanças da freguezia visinha, -que vinham para a escola, e uma das quaes lhe disse -expontaneamente:</p> - -<p>—Ó tio Cruja, já viu o seu Coisa?</p> - -<p>O coveiro respondeu suffocado:</p> - -<p>—Não! Onde está?!</p> - -<p>—Olhe, tio Cruja, a gente viu-o morto ali no caminho.</p> - -<p>—Morto!—pronunciou o velho com aspecto rijo, -inteiro e com voz commovida.</p> - -<p>—Sim, senhor, lá em baixo, ao pé da cancella—certificaram -os rapasitos, fallando todos juntos, com a -intimativa ingenua das suas vozes finas, apontando para -longe, no fundo do valle!...</p> - -<p class="tb">O coveiro foi ver. No andar tinha os movimentos rapidos<span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span> -e incongruentes de um côxo desvairado!... No -rosto transparecia-lhe a expressão amarga e deprimente -de uma intensa dôr, sentida com verdade! Os olhares -eram impetuosos, lampejantes e vingativos; porque -continuava a predominar no seu cerebro a idéa de que -algum malvado lhe tinha morto o Coisa!...</p> - -<p>Chegou ao pé da cancella. O pequeno goso estava -deitado, immovel, composto como se estivesse a dormir. -Depois que o pedinte faceto o suspendera pelo rabo, -tornára a caír casualmente no sulco de carro, onde o -seu pequeno corpo se ageitára, no ultimo momento da -vida. Com o pello faminto, irriçado pela geada que caíra -durante a noite, reconhecia-se ser aquelle mesmo o -rafeiro que, nas manhãs de frio costumava correr, doido -e despreoccupado, adiante do Coruja, quando elle -ía para os enterros. A rigidez cadaverica, apoderando-se -do seu corpo magro, com a fatalidade de um acontecimento -necessario, dava-lhe uma expressão de insensibilidade -absoluta, expressão de indifferença pelas preoccupações -da vida terrestre!...</p> - -<p>O coveiro ajoelhou na attitude piedosa de um crente. -Tocou, quasi instinctivamente, com a mão, aquelle -corpo inerte, para ter a indubitavel certeza da morte -do seu unico amigo! Fel-o com a profunda veneração -de uma alma rude; mas, n’este contacto do corpo de um -cão morto, sentiu um longo calefrio de terror!...—elle -que tantas vezes experimentára despreoccupado, o frio -marmoreo dos cadaveres, que os costumava lavar e vestir, -para depois os metter na cova e cobrir de terra!</p> - -<p>O Coruja levantando-se hirto, subjugado, com as feições<span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span> -transtornadas e com as lagrimas nos olhos, e disse -resignadamente:</p> - -<p>—Isto... havia de ser o diabo do frio...</p> - -<p>Um pouco depois, como se respondesse a uma pergunta, -que fizera a si mesmo mentalmente, acrescentou:</p> - -<p>—...Fome!? tamem seria fome... Honte não comemos -nada!...</p> - -<p>Passados momentos ainda considerou:</p> - -<p>—Este raio da neve!... Pois elle, com um frio de -mil demonios!... A gente sempre anda agasalhada; -mas os animaes—coitados!—nem uma vestia, nem uns -sócos!...</p> - -<p>A final, tendo estado muito tempo sentado n’uma pedra -a contemplar o corpo inanimado do Coisa, levantou-se -com um impulso generoso e disse:</p> - -<p>—Pois tu não és menos que os outros. Tamem has -de ter o teu enterro com officio.</p> - -<p>Dominado por esta idéa generosa, foi d’ali á igreja, -buscar a sua enxada de coveiro, que costumava ter -guardada por detraz do altar-mór! Era para abrir a cova -ao Coisa. Na sachristia, revestia-se, para dizer missa, -o padre José Pitança. Ao sentir pela igreja acima -as pancadas sonóras e de uma intensidade desigual, de -uns sócos, sobre o pavimento da igreja, observou ligeiramente -para o sachristão:</p> - -<p>—É o Cruja. Já vem por ahi com alguma carraspana. -Eh!... Eh!... Eh!...</p> - -<p>Quando o coveiro saía, atravessando a sachristia de -enxada ao hombro, o ecclesiastico, com as mãos sobre<span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span> -o rins, atando as fitas do amicto, suspendeu o murmurar -de resa e perguntou em voz alta:</p> - -<p>—Quem diabo morreu, ó Cruja?</p> - -<p>—O meu cão—respondeu com brevidade.</p> - -<p>—E para que levas tu a enxada?</p> - -<p>—Para lhe fazer um enterro.</p> - -<p>O sacerdote teve uma gargalhada bulhenta de caçador. -O coveiro offendido, respondeu-lhe com orgulho:</p> - -<p>—Olhe que nem eu, nem você somos melhores que -elle. Merece-o mais que muitos fidalgos.</p> - -<p>E saiu bruscamente, coxeando.</p> - -<p class="tb">O Coruja, com o fim de realisar a idéa generosa de -fazer um enterro excepcional ao seu cão, procurou primeiro -um caixão que lhe podesse conter o corpo. Para -isso encontrou uma tábua comprida, sobre a qual o estendeu, -alinhando-o cuidadosamente, para ficar bem -composto, n’uma posição sensata e natural. Subiu a -uma oliveira, da qual cortou uns ramos para cobrir o -cadaver, para o enfeitar, dizendo n’uma voz socegada -e de respeito: «esta é a tua mortalha». Depois, no proposito -de organisar um acompanhamento e dar a isto -uma apparencia de cortejo funebre, conseguiu que, a -troco de uma promessa de pequena recompensa, quatro -rapazitos que andavam n’um monte á garavalha, -<i>pegassem ao caixão</i>. O caixão era a tábua com o cadaver -em cima coberto pelos ramos de oliveira, posta em -seguida sobre dois fueiros, tirados, pelo Coruja, de um -carro que estava no caminho!... A cada extremidade<span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span> -de fueiro pegou um dos convidados. Depois, quando -tudo estava em boa ordem, o coveiro, com a sua voz rouca -e falhada, no tom faceto de uma alegria mentirosa, -disse:</p> - -<p>—Toca a andar rapasiada. Levemos este nosso irmão -para o <i>descanço eterno</i>!</p> - -<p>As creanças obedeceram com sinceridade infantil, caladas -e respeitosas. O sahimento foi por um estreito -caminho, com direcção a um alto pincaro, onde o Coruja -determinou abrir a sepultura do seu velho amigo. -Atraz do feretro ía elle, com a enxada ao hombro, -a cabeça descoberta, um aspecto de contentamento triste, -entoando o <i>canto-chão</i>, n’uma voz roufenha, pausada -e distraída, imitando o phrasear dos sacerdotes nos -officios:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Béu, béu, béu,</div> - <div class="verse indent0">Vae p’r’ó céu.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Ao que os rapazes, que conduziam o corpo, respondiam, -fingindo vozes profundas e graves, espaçando as -syllabas:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Engola, engola,</div> - <div class="verse indent0">Vae p’r’a cova.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Depois, todos juntos, communicando uns aos outros -certa alegria sorumbatica e nervosa, cantavam em côro, -n’um tom mais cadenciado, largo e solemne:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Quem ’stiver no inferno</div> - <div class="verse indent0">Saia cá p’ra fóra!</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>As creanças achavam isto divertido, apesar de procurarem<span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span> -adquirir semblantes sérios e respeitosos, fingindo -attitudes de homens, endireitando o tronco, e esforçando-se -por acertar o passo. Porém, como não sabiam -coordenar bem os movimentos, em certo instante, -pucharam em differentes sentidos e quasi deixaram -caír desastradamente o cadaver do Coisa!... O coveiro -sentiu rasgar-se-lhe o coração e deu um grito instinctivo -e dilacerante! Os rapazes pararam rapidamente, ficando -quietos e silenciosos diante d’aquella manifestação -inexperada de uma dôr humanamente sentida! Continuaram -depois o seu caminho, n’um silencio meditado -e mais triste!...</p> - -<p>Quando subiam a encosta do monte, o rosto do Coruja -cobriu-se de certa melancolia, caminhando devagar, com -o corpo inclinado para diante, absorvido na idéa da sua -perda! Chegando ao cimo, parou junto de uma agglomeração -de penedos. Esteve alguns segundos meditativo encostado -á enxada... Mas depois, dando á cabeça um -movimento impulsivo e retomando o seu tom comico -anterior, disse com o chapéu levantado ao ar:</p> - -<p>—Alto ahi!... oh! rapaziada!</p> - -<p>Os pequenos pararam, pousando no chão o feretro.</p> - -<p>O coveiro principiou a abrir ali mesmo a sepultura. -O som baço e profundo da enxada, batendo cadentemente -na terra, dilatava-se, reproduzindo-se nos angulos -da montanha.</p> - -<p>No exercicio da sua triste profissão, o Coruja tinha, n’este -momento unico, um aspecto maguado... Todo curvo sobre -a cova que ía abrindo, com uma expressão facial de rigida -tristeza, impunha-se austero, digno, respeitavel!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span></p> - -<p>As creanças, graves, silenciosas, olhando absorvidas -para elle, obedeciam a um sentimento que não saberiam -explicar!... Tomavam parte no sentimento do coveiro -e, d’este modo, com a sensibilidade ingenua e infantil, -acabavam a tonalidade dolorosa d’este quadro -triste!</p> - -<p>Em frente das montanhas imponentes e do amplo horisonte, -a respiração era facil, regular, socegada. Todos -sentiam a tranquillidade, o socego, a paz silenciosa dos -logares ermos! O Coruja, para acabar o seu trabalho, -desceu ao fundo da sepultura e principiou a cavar com -esmero dos lados. Desejava que o corpo ficasse cuidadosamente -ageitado, como n’um berço!... Por fim, disse -aos seus companheiros n’uma voz natural:</p> - -<p>—Chegae-me para cá esse caixão.</p> - -<p>E tirando cuidadosamente os ramos de cima do corpo, -sopezou a tábua, para a collocar no fundo com o -cuidado e com o amor com que collocaria o corpo de -uma creança morta! Um dos assistentes confessou com -naturalidade:</p> - -<p>—Parece... como os anjinhos.</p> - -<p>O Coruja devolveu a esta expressão singela e amoravel:</p> - -<p>—Tens rasão. Olha que tinha uma alma como elles.</p> - -<p>E passou a mão na cabeça d’esta creança, que lhe -penetrára o pensamento, com a amisade com que o poderia -fazer a um seu filho... Acrescentou depois, com -voz comprimida pela dôr, mas esforçando-se por ser -alegre:</p> - -<p>—Vamos lá a cantar os officios, para ajudar a entrar -esta alma no céu da bemaventurança!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span></p> - -<p>Recomeçaram de um modo mais calmo, penetrados -de comica circumspecção, o funebre <i>canto-chão</i>.</p> - -<p>Dizia o Coruja de um lado:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Béu, béu, béu,</div> - <div class="verse indent0">Vae p’r’ó céu.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Respondiam as creanças do outro:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Engola, engola,</div> - <div class="verse indent0">Vae p’r’a cova.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Depois entoavam todos em côro:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Quem ’stiver no inferno</div> - <div class="verse indent0">Saia cá p’ra fóra!</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Repetindo isto muitas vezes, andavam em volta da -sepultura. As creanças seguiam o coveiro, como acolytos. -O Coruja, com um ramo de oliveira na mão, significava -espargir o morto, com agua benta hypothetica!</p> - -<p>Por fim cobriu-se de terra o defunto. Espetaram-se -sobre a cova os ramos de oliveira, e todo o mundo se -retirou. Os rapazes íam adiante do coveiro, contentes -e felizes, atirando pedras que rolavam pelo monte abaixo. -Um d’elles, vendo-lhe lagrimas nos olhos, perguntou -a um companheiro:</p> - -<p>—Porque é que o tio Cruja chora?</p> - -<p>Ao que o interrogado respondeu intelligentemente:</p> - -<p>—Ora... era amigo do Coisa.</p> - -<p class="tb">Nos tempos subsequentes ainda viram, algumas vezes, -o Coruja subir aos penedos sobranceiros á sepultura!<span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span> -Demorava-se ali horas, olhando para o largo horisonte, -cantarolando sempre, como era seu costume -nos momentos tristes! N’um dia em que o barbeiro -Zé Maximo, com o seu ar importante de banalidade, -lhe perguntou indiscretamente, sorrindo-se com modos -de troça, «Ó Cruja, tu, diz que fizestes um grande enterro -ao teu Coisa!», elle respondeu com azedume:</p> - -<p>—É verdade, meu grandissimo jumento! Merecia-o -melhor que tu.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span></p> - -<h2 class="nobreak">O EMBARCADIÇO</h2> - -</div> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span></p> - -<h3 class="nobreak">O EMBARCADIÇO</h3> - -</div> - -<p>Miguel Timão era um homem corpulento, de feições -energicas e leaes. Em linhas pontilhadas, de um azul -indelevel, tinha no braço direito um navio com o seu -velame e no esquerdo um signo-samão. Partira da sua -aldeia descalço, por uma crua manhã de geada, com toda -a roupa n’uma pequena trouxa, enfiada n’um pau!... -Seu pae, a este tempo, era um cego que vivia da caridade... -Na aldeia não havia ganhos... Foi por isto -que elle, na companhia de outros emigrantes, foi pelo -mundo fóra, procurar fortuna... Ah! como a sua alma -boa e generosa estremecia alegremente com a idéa consoladora -de ganhar dinheiro para sua irmã Catharina, -e para seu velho pae cego!...</p> - -<p>Andou por lá muitos annos sem dar noticias... Na -terra chegaram a esquecel-o, suppunham-n’o morto...<span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span> -O padre Beiral, que lia as gazetas, vira, entre as victimas -de um naufragio, o nome de um Miguel... Não -podia ser outro. Catharina chorou um dia inteiro e deitou -lenço preto... Porém, este convencimento foi precipitado; -porque, o rapaz, não morrêra, apesar de ter -passado muitos annos n’uma vida trabalhosa, cheia -de incertezas e de perigos, no meio dos quaes nunca -poude esquecer a sua pequena aldeia, risonha e distante.</p> - -<p>Durante largo espaço de tempo, correu uma boa -parte do mundo e foi todas as cousas que um homem -rude pôde ser:—acompanhou um inglez no Egypto -e na India; foi soldado nas republicas hespanholas -da America, entrando em muitas conspirações; foi carroceiro -no Brazil; e, durante os ultimos vinte e cinco annos, -andou embarcado, percorrendo grande numero de -portos do mundo, ouvindo todas as linguas e conhecendo -homens de todas as côres...</p> - -<p>Á sua organisação temeraria convinham as incertezas -de amplo mar, mysterioso e amigo... Uma vida -accidentada, com alegrias e desesperos, mas sempre -com dinheiro no bolso, quando saltava em terra, eralhe -sympathica! Tambem agora, depois de velho, n’estas -noites chuvosas da sua aldeia, Miguel tinha sempre que -contar aos seus conterraneos, que o escutavam absortos -e pasmados. No entanto, de tanta aventura extraordinaria, -aquella que mais os impressionava era a de o -maritimo ter comida <i>carne de gente</i>! Apesar da circumstancia -attenuante da fome a bordo e da morte irremediavel -para todos, as velhas beatas da aldeia acreditavam<span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span> -firmemente que, o filho do cego, não poderia ter -na outra vida um destino bemaventurado...</p> - -<p>O que mais os horrorisava era, de certo, a serenidade -com que o irmão de Catharina descrevia este enorme -momento de desespero, tirando longas fumaças do seu -cachimbo requeimado!... Fôra no alto mar, na soberba -amplidão infinita, com o céu misericordioso e azul -sobre a cabeça... O navio, depois de uma tormentosa -viagem e quasi sem mantimentos, teve uma calmaria no -mar das Indias, boiando, monotonamente, como um cetaceo -morto, durante semanas... Por baixo o mar immenso, -sem ondulações providenciaes, liso como a superficie -de uma poça, guardando, no seu amplo ventre -poderosos animaes, que poderiam sustentar durante -tempos a população da Terra... De noite, alguns -d’esses peixes vinham á superficie da agua, attraídos -pelo brilho das estrellas, pelo pharol de bordo e pela -frescura relativa do ar. Gasta a ultima ração de arroz -e de bolacha, todos os marinheiros tiveram a heroica -firmeza de não comer em tres dias, esperando um soccorro -fortuito! Em vão clamaram pela Infinita Misericordia! -Em vão tiveram dedicação e coragem!... A -Fome Implacavel, como um demonio sinistro, já os fazia -estorcerem-se no convez com dôres cruciantes nas -entranhas! Sentenciaram-se dois, á sorte, para alimentarem -os restantes! Que valentes e bravos companheiros, -esses rapazes de trinta annos! Nunca a coragem -tomou uma fórma mais sublime e sympathica! Nunca -a resignação na morte foi mais austera e imponente! -Foram elles mesmos que, risonhos e conformados, abriram<span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span> -as proprias veias, para morrerem! Só quatro dias -depois d’este acontecimento horripilante é que, os sobreviventes, -avistaram um vapor que vinha da China e -os rebocou para Madagascar!...</p> - -<p>Outro navio, dos muitos em que embarcára, naufragou -no golpho do Mexico! Era de um contrabandista andaluz, -que fazia o seu commercio no mar das Antilhas. -O dono da embarcação ía a bordo, e vendo diante dos -olhos as guelas medonhas do mar, promettia a quem -lhe salvasse a embarcação, casal-o com sua unica filha, -uma rica herdeira sevilhana!... Porém, o mar estava -picado que nem um inferno, e tudo se perdeu <i>morrendo -todos</i> n’aquella escuridão tormentosa!... E um rapaz -de aldeia, que escutava a narrativa, tranzido de susto, -observou com voz timida:</p> - -<p>—Mas o tio Miguel não morreu...</p> - -<p>—Morri, sim, senhor, seu palerma! Quem te disse -que não morri!?...</p> - -<p>E ficou a olhar para todos que ouviam, com uma viveza -estupefaciente!</p> - -<p>Por fim, depois de uma vida cheia de aventuras perigosas, -teve uma prolongada doença, que o deteve por -dois mezes n’um hospital americano. Foi em S. Francisco, -na cidade maravilhosa e quasi phantastica, celebre -pelas suas ricas minas de metaes preciosos, d’onde, -provavelmente, foi colhido o ouro com que se fabricou -essa gargantilha com que vossa excellencia adorna o -seu formoso pescoço, minha bella senhora! Aos seus -quatro districtos aurificos—o da California—a lendaria -California!—o de Idaho, o da Nevada, e o de Varhoe—concorrem<span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span> -todas as extravagantes ambições do mundo -moderno, principalmente os ricos judeus e os miseraveis -chinezes que ali vão trabalhar! S. Francisco, -que domina estas regiões do sonho, é uma das mais modernas, -de entre todas as grandes cidades americanas, pois -que principiou a povoar-se em 1848, quando appareceu -aquelle bocado de ouro, no moinho do capitão Sulter. Tem -hoje mais de duzentos mil habitantes e os seus famosos -ladrões, e os incendios criminosos que ali houve ainda ha -pouco espantaram o mundo inteiro! S. Francisco é uma -população cosmopolita, que falla inglez e vive n’uma -cidade com nome hespanhol, tão maravilhosa e incomprehensivel -para um pacato europeu, que, quando foi -da guerra da <i>Independencia</i>, o celebre doutor Belows, -presidente do conselho de saude, convocando um <i>meeting</i> -a favor dos feridos, fez um discurso e vendeu os -apertos de mão a dollar, sendo tantos os dollars que -lhe caíram para dentro do chapéu que, o philantropo -medico, teve o braço esquecido por oito dias! É uma -cidade que não tem nem os pobres immundos e obscenos -das ruas de Lisboa, nem os garotos vivos e espertos -que se encontram em New-York e Londres!... O -seu luxo é de tal ordem que, a vida ali, é dez vezes mais -cara do que em Paris!</p> - -<p>Miguel Timão, minhoto e sagaz, conservava d’esta -cidade nova, levantada pelo enorme poder do ouro, uma -impressão energica! Depois de ter percorrido a maioria -das cidades maritimas do mundo, em nenhuma vira -tanta sumptuosidade e opulencia! Aqui, as vaidades -materialistas da civilisação moderna, impõem-se com uma<span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span> -soberba que deslumbra! Talvez, pelo estonteamento que -produzira n’este homem obscuro um mundo tão febricitante, -elle teve um dia como a reclamação subita de -um sentimento perdido, e na sua mente appareceu o -quadro pacifico da sua pequenina aldeia, tão sympathica -e inundada de luz.</p> - -<p>Foi n’esse tempo que, uma das febres endemicas n’aquellas -regiões irregularmente humidas, o accommetteu -de subito, com um longo calefrio, que o prostou -n’um estado comatoso!... Recolheram-n’o ao hospital -e, até terminar a convalescença, passaram-se aproximadamente -dois mezes!... Durante este periodo de inactividade -forçada, a sua memoria principiou a resuscitar-lhe -o passado!... Era a primeira vez que estava -doente! Alquebrado e enfraquecido que poderia fazer!? -Com os elementos dispersos, que o seu pensamento lhe -ía trazendo, pouco a pouco formava os quadros da sua -vida infantil. As figuras dos homens que então conhecera, -as raparigas com quem brincára, appareciam-lhe -com um sorriso feliz e benefico, acompanhando-o n’estas -distancias... Via-os como os deixára, porém, considerava -que deviam estar mais velhos... que muitos -teriam morrido... Não fôra elle tambem novo e forte, -e não estava agora coberto de cabellos brancos e com -rugas serpeando-lhe no rosto?! O tempo não corre debalde, -e muitas das pessoas em quem pensava, estariam -enterradas n’aquella pequena igreja caiada, que -se lhe representava na imaginação!... Tudo isto lhe -condensou no espirito o firme desejo de voltar á sua -terra... Tinha algum dinheiro e, logo que se encontrou<span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span> -restabelecido, pensou em tomar o primeiro navio que -viesse para as costas de Portugal ou de Hespanha. Assim -o fez, embarcando com a saudade insoffrida de um -rapaz de vinte annos!...</p> - -<p>Era um domingo de primavera o dia em que entrou na -sua aldeia... O céu azul, a pureza do ar, a alegria dos -campos em flor... lançavam-lhe na alma enthusiasta vibrações -de uma harmonia complexa e guerreira. Do intimo -da terra saíam musicas genesiacas no aspecto da -paisagem enebriante. As flores roxas e brancas das macieiras -e das cerdeiras abriam-se em leques multiplicados -sobre os campos verdes d’onde sobresaia o branco -virginal dos malmequeres, a côr serena das violas, o -vermelho sanguineo das papoulas bravas... Os trigaes -viçosos palpitavam com o seu crescimento gradual, entre -as largas manchas escuras das recentes searas de milho.</p> - -<p>As raparigas cantavam nos campos, atraz dos seus -bois de cornos retorcidos que pastavam, fiando as estrigas -da tarefa. A temperatura de um tepido parasidiaco -e sensual enlanguescia, produzindo sensações dominadoras, -fazendo comprehender os movimentos fecundantes -da seiva universal!... Era um estonteamento -de vinho forte o que subia á cabeça rija do velho -maritimo, que caminhava lento e absorvido, reconhecendo -todos aquelles logares queridos da sua infancia! -Os olhos humedeciam-se-lhe de lagrimas, e o contentamento -e a felicidade que lhe percorria ao longo dos nervos, -entorpeciam-n’o... Os homens e as raparigas que -passavam, interrogavam este desconhecido com olhares -insistentes...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span></p> - -<p>Quem será este homem, que caminha dando sacudidellas -aos hombros e que tem o andar de um borracho!?...—pensavam.</p> - -<p>Então elle parava para lhes perguntar numa entonação -estrangeirada:</p> - -<p>—Conheceis a Cathrina, filha do cego da rocha?</p> - -<p>Conheciam perfeitamente; mas não era nenhuma rapariga. -Muito pelo contrario, a mulher que tinha esse -nome mostrava-se já muito velha, corcovada e doente... -A sua vida era esmolar pelas aldeias e dormia por caridade -n’um palheiro do padre Beiral. Mas espantavam-se -que o desconhecido principiasse a chorar com estes esclarecimentos -e perguntavam-lhe compadecidos:</p> - -<p>—Quem é você, hominho? Para que quer saber da -Cathrina, e chora?</p> - -<p>Mas o homem da barba branca, que andava como -um desengonçado, não lhes respondia e continuava a caminhar -para a <i>residencia</i> que se via d’ali, na encosta, ao -pé da igreja. Levava ao hombro, enfiado n’um pau, uma -mala de couro e umas botas de canos... Este modo -de andar aos solavancos impressionava os que o viam... -Não podiam saber quem fosse e ficavam a olhar uns -para os outros!... Mas quem o reconheceu, mesmo antes -d’elle fallar, foi Catharina, que se lhe agarrou ao pescoço, -chorando e repetindo muitas vezes:</p> - -<p>—Meu rico irmão, como estás velho!</p> - -<p>E Miguel, o valente marinheiro temerario, deixou caír -ao chão a mala e as botas, dizendo por entre soluços:</p> - -<p>—E tu como estás acabada, mulher! Como te venho -encontrar!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span></p> - -<p>Mas depois, como Miguel trazia algum dinheiro, que -juntára cuidadosamente para esta eventualidade de voltar -á sua aldeia, resolveu-se a comprar a mesma casa -onde nascera, a qual seu pae tinha vendido por causa -da longa cegueira em que viveu. O padre Beiral ajudou-o. -A casa era velha e pequena; mas o campo adjunto -era largo e magnifico terreno...</p> - -<p>O espirito do maritimo principiou a sentir um renascimento, -a remoçar-se, a ter os alegres impetos da mocidade. -Era aquella a mesma paisagem que sempre vira -até aos vinte annos. Havia o mesmo musgo nas mesmas -paredes; a mesma hera segurando as pedras dos -muros esbarrigados; os mesmos penedos no alto do -monte sobranceiro á igreja, manchavam o azul intenso -das tardes primaveraes; as sebes de silvas, cobertas de -folhas perpetuas e de amoras, embeiravam os campos e -caminhos; e, finalmente, na frontaria da igreja ainda -estava quebrado o mesmo vidro, como no dia em que -elle partira! O que encontrava de differente no longo espaço -de trinta annos? Muito pouco: o cypreste do adro -tinha crescido e até envelhecêra; a carvalheira do pé da -fonte, que tres homens com as mãos agarradas não podiam -abraçar, estava carcomida, porque fôra queimada -por um raio; as tres casas novas, caiadas, que se distinguiam -de longe com as suas claridades vivas, e cujas -vidraças scintillavam com o sol poente, tinham sido -levantadas por uns brazileiros ricos, um dos quaes tambem -presenteára a Nossa Senhora da igreja, com uma -lampada de prata, que causára inveja ás outras <i>Nossas -Senhoras</i> da visinhança. Mas, de todos os factos que<span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span> -permaneciam, e que Miguel tanto estimava, aquelle que -o chocou de um modo energico, aquelle que o penetrou -em todo o seu ser com uma força omnipotente, foi o -toque do sino grande da igreja, que ainda era falhado -como d’antes!...</p> - -<p>Quando agora o ouviu pela primeira vez, depois de -tantos annos, eram trindades e estava comendo uma -posta de bacalhau á lareira do Beiral. Deixou caír o -garfo de ferro, ficou a olhar com um modo estupido, e -as lagrimas corriam-lhe pelo rosto enrugado! Oh! era -aquelle o mesmo som, que o accordava nos domingos -despreoccupados da sua vida passada!...</p> - -<p>Por todos estes motivos, o embarcadiço resolveu morrer -na sua aldeia!... Estava velho, ainda que robusto; -as fadigas e os trabalhos por esse mundo fóra tinham-no -gasto muito. O mar... o mar para elle já não podia -ser senão uma sepultura!... Uma grande sepultura decerto; -mas, sepultura por sepultura, tinha ali uma na igreja -que era mais perto, ainda que mais humilde. Ficava -ao pé dos ossos de sua mãe que não conhecera, e de -seu pae que não tornára a ver!... Resolvido isto de -um modo terminante, principiou a interessar-se pela historia -local, pela monotonia da conversa dos visinhos, a -quem elle espantava com os successos da sua vida curiosa. -Vieram-lhe tambem os desejos de grandes emprehendimentos -agricolas—quiz cultivar o seu campo. -Plantava hortaliças que mandava vender á villa, semeava -batatas, colhia quasi um carro de milho, uma meia -pipa de vinho e tinha muita fructa. Os seus melões e -melancias davam-lhe orgulho—mandava-os vender ás<span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span> -romarias, onde já tinham nomeada e eram preferidos aos -dos outros cultivadores! Tambem não admira, pois que -lhes dedicava muito tempo e amor—regava a tempo, -mondava-os com sagacidade, regulava-lhes o sol de um -modo conveniente... O padre Beiral disse-lhe um dia, -que não se fallava nas gazetas de que houvesse, em -qualquer parte do mundo, outros melões como os d’elle. -O Timão, orgulhoso e confundido, respondeu:</p> - -<p>—Isso, senhor, é da semente e da Senhora da <i>Bôa-Viage</i> -a quem os encommendo sempre!...</p> - -<p class="tb">Mas havia na aldeia uma malta de rapazes, que tinham -por brazão não deixar segura qualquer fructa boa, -no quintal de quem a tivesse. Estes meliantes, n’esse -anno em que o sacerdote gabou os melões, projectaram -ir <i>proval-os</i> de noite. O Timão já andava com a pedra -no sapato e, para os prevenir, disse um domingo no adro, -ao saír da missa, fallando bem alto para ser ouvido, -«que se alguem lhe fosse ao meloal <i>o racharia de meio -a meio</i>!»</p> - -<p>O Tone da Engracia incitou-se com esta ameaça e -propoz um assalto á fazenda do embarcadiço... Poderiam -ir n’uma noite escura, com cautelas premeditadas, -para não serem presentidos... Desceriam do muro de -vagar, por uma corda presa a certo carvalho, para não -fazerem baque no chão...</p> - -<p>O meloal era muito perto da casa, n’um recanto soalheiro, -onde podiam á vontade ser meticulosamente -vigiados... O Miguel Timão tratava-os com tantos<span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span> -cuidados, que até para lhes tirar a sombra baixára uma -videira antiga, dirigindo-a para uma latada, junto ao -muro... De manhã cedo, ainda o sol vinha em casa de -Deus, já elle, em mangas de camisa, andava contando -as boas melancias rajadas, que deixára na vespera, e -os optimos melões apimentados assentes sobre folhas, -para não apodrecerem com a humidade da terra.</p> - -<p>Alegrava o espirito, consolava, vêl-o assim de barba -branca, este velho robusto e musculoso, trabalhar com -amor, assiduamente, no seu campo, incluindo n’esta -preoccupação toda a sua alma e todo o seu tempo... -Oh! os rapazes que pensavam em roubar-lhe os melões, -decerto se arriscavam muito! O velho Timão levado por -mal seria um demonio, em convulsões de desespero!...</p> - -<p>Mas o da Engracia, o Teixugo, o Cambado e o Telhas, -não se preoccupavam com medos e sómente commentavam -com antecipação, a grande risota que se produziria -em toda a gente, quando soubessem que aquelle -papa-gente tivera, ao seu tão gabado meloal, um inesperado -assalto! A não ser o Telhas, os outros, não pensavam -em qualquer risco. Sendo alta a noite e bem escura, -o embarcadiço estaria a dormir profundamente! -Se, ainda tivesse um cão, podia haver receio; mas, o -imprevidente velho, dizia muitas vezes <i>que um bom cão -era elle</i>!</p> - -<p>Quando chegou a noite do sabbado combinado, o -Telhas, que era cagarola, ainda disse... assim com um -modo engulhado:</p> - -<p>—Home, e se elle nos pilha?!</p> - -<p>Esta phrase denunciava quanta impressão, diante da<span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span> -mente espavorida d’este rapaz, produzira o quadro terrificante -do Timão, n’um canibalismo infimo, mastigando -os seus companheiros de infortunio, na desesperada -fome que soffrera no mar das Indias! O Tone irritou-se -com esta covardia despresivel, chamou fracalhão ao -Telhas, que lhe respondeu com um modo prophetico -e despresador:</p> - -<p>—Olhem o valente! Tamem quero ver, quando te -vier um balasio pelos queixos, se não ficas de cara á -banda!...</p> - -<p>Mas o da Engracia engulia balas—não tinha medo -nenhum d’ellas! N’essa mesma noite, estavam resolvidos, -foram. Mas, como não queriam ser engarampados -com alguma arriosca, ao chegarem ao sitio, caminharam -instinctivamente com certa prudencia... O embarcadiço -era um velho rijo, que não tinha medo da -morte, porque a vira muitas vezes diante de si. Não -se importava de matar um ladrão, arriscando-se a ir -por uma barra fóra; pois andar por lá sempre fôra sua -vida. Com uma navalha de tres estalos e um bacamarte -de bôca de sino, costumava fazer ameaças abstractamente, -dizendo:</p> - -<p>—Aquelle que m’as fizer estiro-o. Ainda seis centos -mil raios me partam!</p> - -<p>A beata Vicencia, quando lhe ouvia esta jura, recuava -berrando:</p> - -<p>—Abrenuncio! Santo Nome de Maria, que nos póde -vir um grande castigo por causa d’este excommungado!</p> - -<p>O Timão retorquia-lhe com olhar de piedade:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span></p> - -<p>—Calla-te minha papa-hostias. Bons castigos soffri -eu por esse mundo.</p> - -<p>Porém, o plano de roubar o meloal estava estabelecido, -os rapazes não trepidaram. O da Engracia é -quem saltaria dentro, para encher o sacco. O Teixugo -e o Cambado ficariam no caminho, de vigias; o Telhas -em cima do muro. Á meia noite o Tone desceu do muro, -cautelosamente ajudado pela corda presa ao carvalho, -para não ser presentido... Quando assentou os -pés na terra defendida pela navalha hespanhola e pelo -bacamarte de bôca de sino, estremeceu involuntariamente!... -Sentia, dentro em si mesmo, uma opposição, -á qual resistiu com toda a força da sua energica -vontade. Talvez desejasse retroceder; mas atraz de si, -em cima do muro, estava o Telhas, a quem chamára -fracalhão, e que logo que o viu um momento parado e -apurando o ouvido, lhe disse com uma ironia perceptivel:</p> - -<p>—Home, não tenhas medo. O velhote dorme como -um porco.</p> - -<p>O rapaz encorajou-se subitamente, levantou a cabeça -com orgulho e começou a andar com certa resolução -temeraria. Na profundidade da noite tranquilla, serena -e sem luar, ouvia-se o cochichar subtil dos vigias, o -som gemebundo e extenso de dois sapos, o ruido estival, -permanente e continuado dos ralos!... Um grande -morcego manchou a limpidez do ar com o seu vôo largo, -produzindo um silvo. A pequena casa do Timão ainda -se percebia ao fundo, por entre as arvores de fructa, -como uma massa confusa. A escuridade e o silencio augmentam<span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span> -sempre o medo, e no cerebro do Tone da Engracia, -as idéas principiavam a atropellar-se, a confundir-se, -a tomar fórmas...—diante dos seus olhos, configuravam-se -homens aggressivos. Por isso elle tornou a -parar no meio do campo! Então sentiu-se n’um isolamento -mais completo, como o do alto mar!... Por cima -o céu limpido, as estrellas com movimentos crepitantes -de luz, a amplidão cheia de uma sombra grandiosa...—um -certo palpitar da natureza que o subjugava! A -pequena distancia, em cima do muro, o Telhas, como -uma reprehensão sempre viva. Qualquer manifestação -de receio, de pavor, que sarcasticas censuras não encontraria?! -No entretanto, n’este instante nervosamente -inexplicavel, a figura do velho marujo endurecido nos -trabalhos e nas difficuldades, appareceu-lhe na imaginação, -com uma realidade que feria! N’este momento o -Telhas tossiu ao longe! O Antonio estremeceu e teve -um calefrio ao longo da espinha! Estas duas circumstancias, -bem diversas, deram-lhe o impulso definitivo, e -o Tone começou a caminhar ousado, direito, altivo e -até insolente! Passando por entre as hervas e calcando -as folhas seccas fazia um ruido imprevidente... Que -lhe importava a elle que apparecesse o velho maritimo! -Aquella tosse casual de um dos seus companheiros teve -nos seus ouvidos uma ressonancia ironica, aguilhoara-lhe -a vaidade, restituira-lhe a sua coragem e temeridade -habituaes.</p> - -<p>Entrou no meloal. Principiou a agachar-se muitas vezes, -para escolher o que havia de melhor. Estava apparentemente -sereno, não temia ninguem. Levantava os<span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span> -melões para os suppezar, para os levar ao nariz pelo -lado do pé com o fim de lhes apreciar o adiantamento -da maturação. Affastava as folhas largas, carnosas, recortadas -das melancias...—queria escolher as mais -sazonadas. O que lhe ía servindo cortava rente pelo pé, -e logo ía depositar, a dois passos, no carreiro junto do -sacco. N’um d’estes instantes, o silencio da amplidão -foi cortado por um chiar de gonzos prudentissimo... -O Tone levantou a cabeça á escuta... Não percebeu -mais nada: talvez fosse a passagem de algum noitibó -por entre a ramagem das arvores. A escuridade não o -deixou ver a cabeça do Timão, que appareceu ao postigo, -escutando... O da Engracia continuou. Mas, quando -tinha cortado mais um melão e que o ía levar... sentiu -certa difficuldade em mover um pé!</p> - -<p>Empregou impensadamente um esforço mais energico -para vencer esta opposição; porém, sem logo perceber -porquê, caiu redondamente no chão, de bruços, produzindo -na quéda o baque de um corpo sem vida!—tinha -os pés presos n’um laço intelligente, armado pelo -marinheiro, para agarrar um ladrão presumptivo. O temerario -rapaz deu um grito e esforçou-se logo por se -levantar, colleando como uma cobra ferida na cabeça!... -Porém, soccorrel-o, era impossivel. Os companheiros, -atterrados pelo som do bacamarte de bôca -de sino que o embarcadiço disparou para o ar, fugiram, -tendo ainda tempo de ouvir esta phrase temerosa:</p> - -<p>—Seus grandissimos ladrões, que os mato!</p> - -<p>Taes palavras e aquelle tiro disparado com um fim -theatral, produziu o effeito previsto. Os companheiros do<span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span> -Tone, julgando-o talvez morto, abandonaram-no. O Miguel -Timão, que saíra da casa com grande rompante -para espantar os que estivessem, chegou-se ao que -jazia no chão, e disse-lhe com ar de troça:</p> - -<p>—Então sempre caíste melrinho?! Deixa que eu t’o -digo já. Ha-de-te ficar de escramenta.</p> - -<p>O da Engracia, completamente submettido, pediu:</p> - -<p>—Ó tio Miguel, não me faça mal, que eu não torno...</p> - -<p>O marinheiro não lhe fez mal. Tambem lh’o estava -pedindo sua irmã, que era muito obrigada ás esmolinhas, -que a tia Engracia lhe fizera em tempos precisados. -Porém, apesar dos esforços de raiva e das supplicas, -o velho maritimo não prescindiu de enlear bem enleado -o seu preso e de o ir collocar no caminho, com -o fim de ser solto pelos primeiros misericordiosos que -passassem para os campos! E ao deixal-o fóra do muro, -disse-lhe:</p> - -<p>—<i>Prá</i> outra vez, se cá voltas, ha de ser peor. Entendes?</p> - -<p>Depois retirou-se, não cedendo mesmo á intervenção -a favor do adoptivo da Engracia, feita por sua irmã Catharina, -que lhe pediu para o desamarrar, e a quem -respondeu:</p> - -<p>—Sabes que mais?! <i>Bae bugiar.</i> É uma ensinadella.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span></p> - -<h2 class="nobreak">O REI ABSOLUTO</h2> - -</div> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span></p> - -<h3 class="nobreak">O REI ABSOLUTO</h3> - -</div> - -<p>Emilio era uma creança robusta, que tinha as pernas -grossas, os braços grossos, o pescoço firme, o olho -penetrante, travesso, audacioso. As suas pestanas finas, -grandes, ramudas, sombreavam-lhe as pupillas negras; -as sobrancelhas espessas, fortes, unidas, aproximavam-se -irriçadas, nos momentos de colera infantil, como o -dorso de uma hyena.</p> - -<p>Quando já tinha quatro annos e que sentia o poder -intimo dos seus musculos; quando principiava a distinguir-se -dos outros, a considerar-se pessoa, e que reconhecia, -como uma energica qualidade que se impõe, a -sua vontade potente e a sua força capaz de executar, -o pequeno Emilio quebrou uma jarra de flores, atirando-lhe -acintosamente com uma pera, que não queria -comer, por desejar outra. A mãe, que era severissima,<span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span> -castigou-o. Elle que era um rapaz de brio, principiou -uma berraria de mil diabos, gritando com perrice, com -frenesi, deitado de barriga, batendo no chão com os -pés, com os punhos, com a cara, e mordendo no bibe -para o rasgar! Convencionaram calculadamente, a mãe -e as creadas, não fazer caso d’elle, deixal-o chorar quanto -quizesse, deixal-o espernear, gritar, morder-se, contundir-se. -Queriam fatigal-o, vencel-o pelo proprio esforço -que fazia, para assim lhe darem uma lição moral, -para o ensinarem a conhecer que as maldades castigam -por si mesmas, aquelles que as praticam. Mas, -qual lição, ou qual diabo!—esta conspiração passiva enraiveceu-o -ainda mais, e mordia ainda mais nas mãos, -batia de cada vez mais na cara, de cada vez dava na -cabeça com o punho mais cerrado e com mais força! -Quando a mãe, com a sua paciencia reflectida, lhe disse, -do vão da janella onde costurava, com voz moderada -e firme: «deixa que tu has-de-te calar», elle, -berrando com mais força, respondeu-lhe: «não hei, não -hei, não e não», continuando intencionalmente o seu -choro.</p> - -<p>Dava uns gritos agudos, estridentes, discordantes, -como as vibrações de uma rebeca desafinada; mas depois, -com o tempo, como a mãe previra, veio o cançasso, -o desleixo, o esquecimento de que estava chorando, -e decaíu gradualmente n’uma voz mais branda, -mais enfraquecida, monotona como o som da ultima badalada -de um sino, que se esgota de quebrada em quebrada. -Houve até um momento em que chegou a calar-se; -porque no chão, adiante da sua cara, uma <i>farmiga-operaria</i><span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span> -andava lidando na remoção de uma pedra que -encontrára no caminho. O pequeno animal, estonteado, -perdido das suas companheiras, que formavam um longo -fio negro, junto da parede, adiantava-se para elle, -afastava-se para traz, para a esquerda, para a direita, -procurando com uma intelligencia tenaz, um auxilio, -alguem que o ajudasse. Por fim vieram mais duas, e -então principiou uma lucta obscura, mas profiada e imponente, -em que tres formigas removiam, com um nobre -esforço cheio de paciencia, uma pedra mais pesada -do que todas ellas juntas.</p> - -<p>Emilio principiou a interessar-se nos movimentos apparentemente -caprichosos dos pequenos insectos. Os -seus olhos vivos e animados seguiam com cuidado, com -esmero, aquelle trabalho das formigas-obreiras, que tombavam -a pedra, levando-a na direcção desejada. Calado, -de bruços, com o pequeno queixo sobre o punho, -observava attenciosamente todos os movimentos, tendo -as linhas faciaes n’uma contencção rigida, nervosa, reveladora -de um esforço intimo. A mãe, apreciando incompletamente -este silencio de seu filho, disse-lhe com -ligeiro ar de triumpho:</p> - -<p>—Mas sempre te calaste...</p> - -<p>Ao que elle respondeu promptamente:</p> - -<p>—Mas vou gritar mais.</p> - -<p>E retomou o seu choro com nova energia, com mais -vigor. Porém, como viu que a mãe se rira escarnecendo-o, -reconheceu-se vencido, mediocre, e cheio de vergonha -pela sua imprevidencia, pela falta de tenacidade, -fugiu d’ali chorando alto com asperos gritos de raiva.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span></p> - -<p>Foi pelo corredor adiante para a varanda, que dava -sobre os campos. Era uma larga paisagem com o horisonte -recortado pelas alturas das arvores desiguaes. -Os altos castanheiros com as suas folhas lenhosas, rijas -e de um verde claro, distinguiam-se dos pequenos carvalhos -fortes, atarracados, folhudos e das cerdeiras vistosas, -de ramagem espalhada, e de um verde mais -suave.</p> - -<p>O pequeno Emilio observou, com a serenidade dos -seus grandes olhos negros, todo este conjuncto. A sua -physionomia era meia contemplativa, meia raciocinadora. -Media, com despeito, a enorme superioridade d’aquellas -arvores, pela ostentosa corpulencia com que se -destacavam ao longe. Mas depois, por um movimento -natural, com uma reacção instinctiva, fez este juizo -simples e claro, dando ás suas palavras um tom imperativo, -com os beiços alongados:</p> - -<p>—Tambem eu sou capaz de subir a cima d’ellas, como -o Manuel!</p> - -<p>E com o seu pequeno rosto de uma auctoridade expressiva, -ficou a olhar para os campos, fixando soberbamente -as arvores, ás quaes se reconheceu superior.</p> - -<p>Sentia-se forte como o Manuel, o creado da lavoura. -Nos seus musculos havia uma energia latente, a sua -vontade era uma voz de commando, intima, secreta, -mas absoluta. Elle podia-se mover, andar, ir buscar -uma cadeira, arrastal-a até á varanda para subir, para -ver as arvores que estavam nas orlas dos campos, quietas, -n’uma immobilidade permanente!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span></p> - -<p>Ao longe viu duas vaccas que pastavam, com a cabeça -baixa e o pescoço estendido para a herva. De vez -em quando moviam com lentidão, os seus corpos volumosos, -dando passadas de vagar, mas pousando com -segurança os seus pés. Outras vezes levantavam a -cabeça, espalhando mansamente o seu olhar sereno -pelas encostas, e, se viam outras vaccas, mugiam -com uma voz ululante, vaga, de uma expressão triste. -Um pequeno rapaz de dez annos, forte, sujo e travesso, -vigiava as vaccas. Em certos momentos, quando ellas -se aproximavam das vinhas, era elle que as enxutava, -picando-as cruelmente com a aguilhada, berrando-lhes -alto, com energia, obrigando-as a tomarem a direcção -que desejava.</p> - -<p>O pequeno Emilio apreciou, da sua varanda, estes -factos com um olhar meditativo, profundo, e conheceu-se -intimamente capaz de mandar n’aquellas vaccas, de -andar n’aquella liberdade dos campos, correndo, saltando, -subindo ás arvores, dando quédas, dando gritos, picando -as vaccas...</p> - -<p>N’este momento todo o seu ser estava possuido de -uma forte necessidade de posse, de commando. Desejava -ser livre como aquelle rapaz que via ao longe, no meio -do campo, com um imperio indiscutivel e tyrannico sobre -a vontade d’aquelles animaes possantes, que obedeciam -resignadamente á sua aguilhada. Emilio sentia-se -tomado de uma grande ambição, de um sentimento -de energia que o tornava audacioso... Desejava possuir -todo aquelle mundo que via—as vaccas, os campos, -as arvores, as casas, as poças de agua, os pombos<span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span> -que passavam no ar com o seu vôo rapido, as proprias -nuvens que estavam suspensas, como ephemeros frocos -de espuma. Mas queria possuir <i>tudo</i>, mandar em -<i>tudo</i> de um modo absoluto, incondicional!</p> - -<p>—Se morresse toda <i>essa</i> gente... era tudo meu!—raciocinou -atrevidamente.</p> - -<p><i>Essa gente</i> eram os outros, os que possuiam aquellas -cousas todas, que no momento elle ambicionava!...</p> - -<p>E com as palpebras immoveis, as pupillas fixas n’um -ponto indeterminado, as sobrancelhas severamente contraídas, -os beiços alongados como os de um macaco -colerico, o queixo apoiado na mão esquerda, contemplou -a grandeza <i>do mundo que via da varanda</i>!</p> - -<p>Por fim, absorvido <i>na sua idéa de poderio, de auctoridade</i>, -desceu da cadeira e, calado, altivo, arrogante, -foi por um corredor escuro que se abria na sala.</p> - -<p class="tb">Entrando, observou com intrepidez, com supremacia -indiscutivel, os retratos e as gravuras que estavam pendentes -das paredes. Sustentou um olhar de soberba, -com a estatueta de porcelana, que representava Christovão -Colombo com o mundo na mão esquerda. Reparou -com desdem altivo n’outra de um velho general <i>do primeiro -imperio</i>, que faiscava coleras marciaes dos olhos -coruscantes, tendo o seu chapéu napoleonico de travez, -na direcção dos fartos bigodes, e apoiava a mão esquerda -nos punhos da sua espada invencivel. O pequeno -Emilio, vendo casualmente no espelho da parede, -que o seu pequeno rosto tinha bastante séveridade, encarou<span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span> -de novo o general, ainda com mais intelligencia -e sobrecenho, conservando-se firme, auctoritario e dominador!</p> - -<p>Passados momentos, o semblante coloriu-se-lhe com -uma expressão mais suave, quando contemplou a cadeira -de braços, onde <i>seu papá</i>, depois de jantar, costumava -ler o jornal e adormecia recostado. Tinha-o -visto n’esta posição muitas vezes:—o seu grave aspecto -paternal apresentava uma curvatura desleixada, -tendo a cabeça caída para o seio, resonando com gravidade -e com estrondo. Este quadro simples e familiar -impressionara-o sempre, deixando-lhe o desejo -de ler o jornal, recostado na cadeira com abandono, -como seu pae. O momento era opportuno, estava sósinho -na sala, ninguem o poderia impedir... Fechou a -porta do corredor com todas as cautelas de um malvado, -de um pequeno facinora consciente, para d’esta -maneira poder realisar com facilidade esta ambição temeraria, -de fingir que sabia ler o jornal recostado na -cadeira paterna!</p> - -<p>N’aquelle momento ouviu tossir a <i>mamã</i> que estava -no quarto proximo e por isso suspendeu, por instantes, -a realisação do seu audacioso plano. E, como passado -pouco tempo, tudo recaíu n’um socego favoravel, -Emilio dirigiu-se á cadeira. Subiu para ella, agarrando-se -com esforço, lançando primeiro a perna esquerda, -depois a perna direita, ficando primeiro de bruços e -chegando a indireitar-se depois de se ter apoiado nos -joelhos e segurado fortemente com as mãos. Quando -chegou a cima e se recostou, a sua respiração era larga<span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span> -e profunda, signal de que estava cançado do grande -esforço que fizera!</p> - -<p>Pomposamente recostado na cadeira, Emilio tinha um -ar orgulhoso e via se que estava bem penetrado da sua -importancia fortuita! Fingiu admiravelmente que lia o -jornal, movendo levemente os beiços como fazia seu pae, -revirando os olhos com intelligencia e dando á cabeça -movimentos lateraes apropriados. A final, para completar -o quadro, deixou cair com desleixo o papel, entrando -resolutamente no periodo do somno digestivo, fingindo -com propriedade, um resonar altivo e cheio de -insolencia!</p> - -<p>Esteve assim algum tempo... Porém, não lhe consentindo -as impaciencias naturaes o demorar-se muito, levantou-se -em pé na cadeira e desceu para o chão, -por um processo inverso ao que empregára para subir. -A um lado, sobre uma pequena mesa, estava a bengala -e o chapéu do papá. Dirigiu-se intrepidamente a estes -objectos respeitados, para os possuir. Poz o chapéu na -cabeça, pegou na bengala pelo castão de velho marfim -defumado e desejou passear ao longo da sala com porte -altivo, com importancia natural. Mas o chapéu enterrou-se-lhe -até aos hombros e, quando pretendeu dar -passadas de um homem encostado á sua bengala, tropeçou -e caíu de bruços.</p> - -<p>Então levantou-se zangado, nervoso, vermelho de colera -e retomou um aspecto imponente e auctoritario. -Principiou a andar no comprimento da sala com o corpo -direito, a cabeça alta e o braço esforçadamente levantado -para agarrar no castão da bengala, o que, de<span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span> -certa maneira, lhe dava a parecença de um menino dependurado.</p> - -<p>Depois, para se rehabilitar diante de si proprio por -ter caído de bruços, quiz exercer a sua auctoridade incontestada, -o poderio absoluto de que se achava possuido, -sobre todos os objectos que ali estavam—lembrou-se -de tombar as cadeiras, quebrar os vidros, <i>atirar abaixo -aquelles homes</i>. E os seus grandes olhos energicos -fixaram-se com arreganho, com altivez sobranceira nas -estatuetas que permaneciam em frente da janella sobre -a pequena mesa. O velho militar do primeiro imperio -napoleonico, com todo o seu conjuncto marcial—a espada -triumphante, os bigodes magestosos, as rugas -severas, acobardou-o, obrigando-o a baixar ligeiramente -os olhos e a reflectir durante momentos. Porém, Christovão -Colombo, com o seu rosto suave de uma bravura -serena e consciente, não o intimidou, e por isso, Emilio, -o fixou com mais confiança, com menos susto. E como -o descobridor da America tinha na mão esquerda -um globo, na qual apontava resolutamente com um ligeiro -sorriso de inspirado, um ponto com o dedo, o -pequeno, <i>para se metter com elle</i>, fez-lhe este pedido -exigente:</p> - -<p>—Dás-me essa cousa?</p> - -<p>Christovão Colombo não teve logo uma resposta favoravel. -Emilio repetiu imperiosamente:</p> - -<p>—Dás ou não dás? Olha que tu...</p> - -<p>E fez-lhe um arremeço significativo com a bengala.</p> - -<p>Porém, o silencio do possuidor da bola continuou-se, -e o pequeno julgando-o um signal desprezador do seu<span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span> -poder, pareceu-lhe provocante. Por isso o olhou com -mais intimativa, e, para o castigar, como lhe faziam -a elle proprio ás vezes, repetiu a concisa e habitual -phrase de seu pae:</p> - -<p>—Então vae lá para dentro.</p> - -<p>Imaginou que ía ser obedecido. Para não haver delongas, -nem evasivas, conservou-se n’uma attitude ameaçadora, -com a bengala paternal no ar, agarrada pelo -castão. Com voz mais alta e decisiva repetiu ao possuidor -da bola:</p> - -<p>—Não vaes? Arrumo-te.</p> - -<p>Christovão Colombo não obedeceu. Oppunha a resistencia -passiva de um ser inanimado. O pequeno Emilio -vingou-se d’aquella immobilidade insoffrivel, atirando-lhe -á cabeça com a bengala irreverente. A estatueta caíu no -chão quebrando-se com estrondo em mil pedaços!... -A cabeça, os braços, a bola, separaram-se! O pequeno -facinora ficou a olhar para aquelle destroço, com um -sentimento de vingança satisfeita!</p> - -<p>Porém, sua mãe, que estava no quarto proximo, ouvindo -este barulho, correu á sala para averiguar o que -teria sido. Vendo a estatueta quebrada e seu filho encostado -á bengala n’um aspecto arrogante, exclamou -instinctivamente:</p> - -<p>—Ah! grande maroto que ahi vem o papá.</p> - -<p>Emilio respondeu sereno, impertubavel, com segurança:</p> - -<p>—Ora!... eu <i>tamem</i> sou papá.</p> - -<p class="titlepage">FIM</p> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Comedia do Campo volume III, by -Francisco Teixeira de Queiroz and Bento Moreno - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMEDIA DO CAMPO VOLUME III *** - -***** This file should be named 63034-h.htm or 63034-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/0/3/63034/ - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. 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