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-The Project Gutenberg EBook of Idyllios á beira d'agua, by Alberto Pimentel
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
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-
-Title: Idyllios á beira d'agua
- Romance original
-
-Author: Alberto Pimentel
-
-Release Date: August 4, 2020 [EBook #62853]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK IDYLLIOS Á BEIRA D'AGUA ***
-
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-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
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-IDYLLIOS Á BEIRA D’AGUA
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-
- ALBERTO PIMENTEL
-
- Idyllios á beira d’agua
-
- ROMANCE ORIGINAL
-
- (_2.ª edição revista pelo auctor_)
-
- [Illustration]
-
- LISBOA
- «A EDITORA»
- Conde Barão, 50
- 1903
-
- Typ. d’«A EDITORA», Conde Barão, 50
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-
-
-
-Prologo da 1.ª edição
-
-
-Subi em julho d’este anno á montanha umbrosa do Bom Jesus do Monte e
-repousei o meu espirito, d’umas fadigas em que andava trabalhado, á
-sombra d’aquellas arvores seculares que ou não envelhecem nunca ou
-remoçam cada noite para verdejar novas galas ao romper da madrugada...
-
-Quando o romeiro crava o seu bordão n’algum relvoso céspede do ermo
-sagrado, e sente subitamente embriagados os ouvidos n’aquella primavera
-inextinguivel chilreada de maviosos trinados, experimenta a influencia
-benefica d’um elixir mysterioso que se lhe está filtrando no coração, e
-vae acalmando como por encantamento as tempestades que lá se revolviam
-momentos antes. Este dulcissimo consôlo experimentei-o eu e experimentam
-n’o todos os que, na solidão amena, vão desfadigar-se de canseiras
-intimas.
-
-Na solidão amena disse eu, e quero demorar-me um momento n’este ponto. A
-solidão profundamente triste e silenciosa quer-me parecer um como remedio
-heroico para organisações robustas, e só para ellas.
-
-Para as almas que não podem disputar com estas extremos de coragem, e não
-saem incolumes d’uma procella, a solidão medonha dos desertos seria o
-mesmo que a morte lenta e desesperada d’um criminoso recluso em carcere
-cellular.
-
-Subi, pois, a montanha e ia procurando com a vista as arvores que já
-me tinham dado sombra em romagens anteriores, as fontes cujo suspirar
-cadenciado eu já tinha escutado, e umas e outras encontrei, as arvores
-bracejando as mesmas frondes, as fontes suspirosas como d’antes, e
-concentrei-me então para vêr a minha alma retratada no espelho interior.
-
-Mezes antes, á hora em que eu, longe d’alli, sentia fugir-me a vida e a
-mocidade, e lançava um como olhar de despedida ás arvores que sacudiam
-as ultimas folhas, a essa hora, dizia, murmuravam as fontes do Bom Jesus
-as saudosas queixas de que me lembrava ainda, tranquillas como sempre, e
-diziam os troncos annosos da montanha ao outomno que se approximava:
-
-«Amarellece, devasta, anniquila, que não entrarás aqui...»
-
-Fui subindo, subindo e remoçando a cada passo que dava, a cada momento
-que fugia.
-
-Demorei-me tres dias na estancia suavissima do Bom Jesus do Monte, que
-tanto era preciso para lograr um remoçamento completo, e, na tarde do
-segundo dia, afigurou-se-me vêr, a distancia, na alameda da Mãe d’Agua,
-um homem que me inspirara a maxima sympathia quando pela primeira vez
-lhe falei em Braga—o padre Eduardo Valladares.
-
-O leitor, que não exige que o romancista venha expôr a face do martyr á
-luz do sol, para que todos o conheçam e o apontem, permitte-me decerto
-este pseudonymo com que me corre obrigação de velar a verdadeira
-personagem do mundo real.
-
-Ia o padre Valladares caminhando placidamente, absorto em seus
-pensamentos, quando commetti a indiscreção de lhe bater no hombro. O
-padre voltou-se de golpe e extendeu-me os braços alegremente, posto
-que eu conhecesse que a minha approximação havia quebrado uma serie de
-pensamentos dolorosos...
-
-Fomos juntos conversando pela alameda acima, até que veiu de geito o
-dizer-me elle:
-
-—Por que não ha de escrever do Bom Jesus do Monte? Estas arvores sabem
-tantos segredos, que, se as interrogar, tirará assumpto que farte para
-muitos livros verdadeiros. Já li o que escreveu do Bussaco[1] e casos
-tristes, como aquelle, não ha em toda esta montanha um unico torrão que
-os ignore...
-
-Ia-se alterando a pouco e pouco o semblante do padre, e a sua figura,
-respeitavel e distincta, parecia contrahir-se como se um espinho
-agudissimo lhe estivesse atravessando o coração.
-
-Demorou em mim o seu olhar por um momento, e rompeu n’esta apostrophe:
-
-—Se não lamenta ter de perder algum tempo debruçado sobre o abysmo do
-passado, confie á sua memoria os apontamentos que lhe vou dar.
-
-Até aqui o padre Valladares. Agora duas palavras mais:
-
-O leitor que gostar do romance trabalhosamente architectado, feche o
-livro e não leia. Aqui não se referem casos tenebrosos, nem se borda a
-teia, de si mesma singella, com debuxos artisticos. Opulencia, se ha
-n’este romance, é toda da natureza. O proscenio, o estrado scenico onde
-as personagens se nos devem mostrar, na maxima parte das vezes outro
-não ha de ser senão o saudosissimo retiro da Mãe d’Agua assombreado de
-carvalheiras seculares, cujo sussurro se casa saudosamente com o murmurar
-da agua que desliza.
-
-Não se reclinam pois os actores em suaves frouxeis; ottomanas não as
-ha ahi, como todos sabem. Contentem-se com dois canapés rusticos, dois
-bancos de pedra, que guarnecem a mesa, de pedra tambem.
-
-Alli, na amenidade dulcissima d’um arvoredo frondente, á beira d’agua, a
-coberto do sol, haveis de encontrar as personagens scismando embevecidas
-nos idyllios ora tristes ora radiosos do coração e do amor.
-
-D’aqui o titulo do romance.
-
- Porto, 1870.
-
-
-
-
-Prologo da 2.ª edição
-
-
-Foi este o meu primeiro romance. É pois um fructo verde, uma tentativa,
-um ensaio, e mais nada.
-
-Mas quero-lhe como a uma doce recordação do passado, que conservasse um
-tenue aroma de _sachet_ antigo.
-
-Havia n’elle alguma esperança, alguma promessa de futuro? Esse futuro
-que eu esperava, cheio de fé, e que já hoje é tambem passado, pode ter
-produzido cousa melhor, mas eu com certeza a estimo menos do que este
-romance quasi infantil.
-
-Com que saudade o reli eu agora, sem poder reprimir um affectuoso sorriso
-de desdem!
-
-É que eu, como todos os novos, presumia-me velho quando era moço.
-
-Parecia-me que vinha de longe, cansado de viver, muito instruido na
-sciencia do mundo.
-
-E, comtudo, iniciava apenas a minha jornada de escriptor, com a cabeça
-doudejante de illusões e de sonhos.
-
-Depois... trabalhei e soffri.
-
-Mas a felicidade que me trasbordava do coração quando escrevi este
-romancesinho, nunca mais voltou.
-
-É que a mocidade não volta.
-
- Lisboa—1903.
-
-
-
-
-I
-
-
-Sebastião Valladares tinha carta de bacharel em leis pela Universidade
-de Coimbra e abrira banca no Porto ao tempo de contrahir casamento com
-uma senhora bracharense. E certo é que os créditos juridicos de Sebastião
-Valladares estrondearam em Coimbra durante os cinco annos do seu curso de
-leis.
-
-Manda, porém, a verdade dizer que a nomeada do talentoso advogado não
-encontrou entre os demandistas portuenses o écho que remurmurava ainda
-nos salgueiraes do Mondego. A levada dos clientes, sempre tumultuosa, não
-affluira á banca do moço bacharel.
-
-João Nicolau de Brito, proprietario em Braga, conheceu que á mediania
-suada do genro pesava a educação do unico filho que tinha, e chamou á sua
-companhia o neto, de dezeseis annos d’edade.
-
-—Parece que já não estamos tão sós! dizia João Nicolau de Brito a sua
-mulher D. Maria d’Assumpção, revendo-se jubiloso no rapazinho de dezeseis
-annos.
-
-—Pois que! respondia D. Maria d’Assumpção. É sempre consoladora a
-companhia d’uma pessoa da nossa familia, ainda que seja uma creança.
-
-—Creança! atalhava o esposo. Já não é tão creança como isso. Olha que tem
-dezeseis annos!
-
-—O que é preciso, porém, é tratar de alliviar ao rapaz as saudades dos
-paes. Ou elle de si é triste ou se resente da ausencia.
-
-—Tens razão, accrescentava João Nicolau.
-
-—Isso tenho. Já me lembrou combinarmos com as Machados um passeio ao Bom
-Jesus para o distrahirmos.
-
-—Lembras bem.
-
-—Se lembro! E ellas que hão de gostar. O Eduardo precisa realmente d’uma
-distracção qualquer. Esta rua do Carvalhal é só e triste. O rapaz passa
-as tardes á janella por não querer sahir. Tambem tem razão. Não conhece
-ninguem!
-
-—É isso. Não conhece ninguem—concordou João Nicolau, muito reflexivo.
-
-E accrescentou passados momentos:
-
-—Olha cá! Dá-me da secretária a carta que o pequeno nos trouxe. Ha n’essa
-carta do Sebastião um periodo que me inquieta. É aquelle em que nos diz
-que o Eduardo lhe sahira com sua tendencia á poesia!...
-
-—Ora!—proferiu D. Maria d’Assumpção, abrindo a secretária e entregando a
-carta ao marido.
-
-João Nicolau de Brito montou os oculos, endireitou-se na cadeira e
-começou a lêr em voz alta:
-
-«... O Eduardo ahi vae; penso que lhes não será rebelde, porque é
-humilde de si. Amolda-se ás vontades de quem o dirige e parece attentar
-gravemente no que lhe dizem. Ensinei-lhe tudo o que sabia e podia. Creio
-que com mais um anno d’estudos preparatorios estará habilitado para
-entrar n’um curso superior. O destino de meu filho já me não pertence,
-porém. Pesa me todavia que me sahisse poeta aos dezeseis annos e como
-por magia! Conheci em Coimbra um rapaz de muitissimos talentos e de
-seu natural poeta, que por se dar do coração á leitura d’amenidades e
-aborrecer de morte os alfarrabios da sciencia, teve que luctar com a
-vontade da familia, que o obrigava a estudar, e com a sua natureza, que
-o fazia detestar os compendios. Como, porém, não pudesse renunciar á
-espontanea inclinação, e como não tinha bens de fortuna, succumbiu a uma
-gravissima affecção moral, que o levou á sepultura, com grande magua de
-todos os que sabiam aquilatar-lhe a alma e a intelligencia. Desvaneçamos,
-porém, estas suspeitas; não quero que me chamem visionario. Ahi vae,
-pois, o pequeno...»
-
-João Nicolau de Brito abanou a cabeça com um gesto solemne e descahiu a
-scismar.
-
-Atalhou-o, porém, a esposa, batendo lhe no hombro e dizendo ao mesmo
-tempo:
-
-—Deixa-te de visões! Tratemos de distrahir o rapaz. Iremos domingo ao
-Senhor do Monte.
-
-—Olha! disse de subito João Nicolau de Brito, como se houvesse despertado
-d’um somno momentaneo. Ha, porém, um inconveniente n’esse passeio...
-
-—Qual?
-
-—A convivencia com as Machados.
-
-—Ora!
-
-—Ora que!? Tu parece que não sabes o que é ser novo! Eu não me refiro
-á Rosa Machado. Falava da Maria Luiza, da irmã, que é outra doida por
-versos, que ha de conversar de poesia com o rapaz, e que por fim ha de
-vir a falar d’amor como quem se deixa ir ao som d’agua corrente...
-
-—Ora ahi está o que eu approvo, atalhou D. Maria d’Assumpção. Essas
-práticas lyricas entre os dois ajustavam-se á occasião e vinham de geito.
-Ainda que o lyrismo do espirito descambasse em lyrismo do coração, ainda
-que a poesia se transformasse em amor, que inconvenientes poderiam vir
-d’ahi? Eram verduras da mocidade, que distrahiam o rapaz e que por fim
-de contas haviam de acabar no momento em que elle se aborrecesse.
-
-—Tambem me parece... Que lá padre, dê por onde der, quero eu que elle
-seja. Sahiu dado a poesias? Melhor! Será um prégador de fama.
-
-—Ha de ser tudo o que tu quizeres... Mas supponhamos até que o Eduardo
-começava a arrastar a aza á Maria Luiza. Travava-se o namorico, carta
-d’aqui, versos d’alli, uma semana d’ataque, outra semana d’aborrecimento,
-e por fim o rapaz curado da sua nostalgia em quinze dias.
-
-—Mas não falaste ahi em aborrecimento? ponderou gravemente João Nicolau
-de Brito.
-
-—Falei, respondeu com convicção a sogra de Sebastião Valladares. Mas
-refiro-me ao aborrecimento que de si mesmos trarão uns amores pueris.
-Depois, para curar esse aborrecimento, principia-se novo galanteio a nova
-estrella, e ahi começa a chrysalida a tornar-se borboleta e a perseguir
-as flores.
-
-—Olha que as flores teem espinhos... atalhou João Nicolau de Brito
-meneando a cabeça.
-
-—Cala-te! replicou D. Maria. Os espinhos das mulheres são... os
-alfinetes. Em nome do sexo, agradeço-te a amabilidade.
-
-—Não tens que agradecer, disse João Nicolau rindo e batendo as palmas de
-contente.—Sim, senhora! Vossa excellencia está hoje espirituosa! Receba
-os meus parabens. Iremos ao Bom Jesus quando quizer e mande convidar as
-familias do nosso conhecimento para nos fazerem companhia esta noite.
-Solemnizemos a recepção do rapazinho. Se queres que te diga—accrescentou
-mudando de tratamento—tive hontem pena d’elle. Eram dez horas e já tinha
-somno. Tambem não sei o que fazes do piano! Já és avó, é verdade, mas a
-velhice ainda não te immobilisou os dedos. Pois venham lá as Machados, e
-haja ao menos musica uma noite...
-
-—Então queres?
-
-—Quero. Manda convidar. Que lá padre ha de elle ser. Ainda lhe hei de
-ouvir um sermão...
-
-—Se não fôr seccante, disse D. Maria d’Assumpção sahindo da sala.
-
-
-
-
-II
-
-
-Thomaz Ignacio Machado tinha sido um homem dinheiroso. Abriu, em Lisboa,
-os salões do seu palacete á flor da aristocracia olyssiponense, deu
-bailes esplendorosos, pompeou em cavallos e trens, teve aventuras com
-dansarinas de S. Carlos, jogou o _monte_ com a sobranceria d’um homem
-que não joga para ganhar e... achou-se arruinado no dia em que pensou no
-futuro que o estava esperando.
-
-O Creso, apeado do seu pedestal de ouro, emboscou-se nas moitas
-verdejantes d’uma quinta proxima a Braga, e ahi veiu descansar das
-saturnaes esplendidas de Lisboa com o intuito de bemfeitorisar as
-propriedades obrigadas ao dote da mulher e de velar por tres innocentes
-meninas, suas filhas, salvas da tormenta na arca sagrada do coração
-materno.
-
-Chamava-se Emilia a mais velha, que morreu aos vinte e dois annos tisica,
-se não victima d’uns amores desventurosos, que não fazem ao nosso
-proposito.
-
-Rosa e Maria Luiza viviam ainda, como o leitor inferiu do capitulo
-anterior.
-
-A custo de muitas economias pôde Thomaz Machado rehabilitar a casa
-consideravelmente esbanjada e obter os rendimentos necessarios, não para
-a vida faustosa de Lisboa, mas para uma decencia estimavel então, e
-invejavel ainda hoje.
-
-Veiu, pois, Thomaz Machado residir em Braga, e, após dois annos de
-apartamento na quinta do Prado, alugou casa na rua de Santo André.
-
-A mallograda Emilia morrera na quinta do Prado, ao cabo d’um anno de tão
-melancholico exilio.
-
-Rosa, no tempo a que somos obrigados a remontar, tinha vinte e um annos;
-Maria Luiza, dezenove.
-
-Rosa não era uma belleza. Tinha, porém, um trato tão suave e delicado,
-um quê de meiguice e de ternura, que diffundia encanto. Maria Luiza, ao
-contrário da irmã, era um demonio bonito. Conversava com os homens mais
-do que com as senhoras, valsava com delirio, tinha a ironia prompta e o
-epigramma certeiro, tocava piano e recitava versos, cantava _seguidillas_
-e desvelava um vaso d’alecrim do Norte que tinha ao canto da janella.
-Era trigueira e possuia uns olhos negros que nadavam em luz. Parecia
-que não andava; voava. Ouvia-se um ruflar de azas; olhava-se... era
-ella. Não houve ainda mulher mais flexivel, nem mais elegante. Era quasi
-uma columna de fumo, que ondulava no espaço e que desapparecia com um
-sôpro. Lembra-me comparal-a áquella creatura aerea, vaporosa, que nós
-conhecemos d’um livro d’Octavio Feuillet. Maria Luiza tinha seus laivos
-da _condessinha_ do escriptor francez. Era porém mais intelligente e
-menos desenvôlta. Ainda assim com que _salero_, puramente andaluz, não
-batia ella as mãos, correndo do seu alecrim para o seu piano e entoando a
-meia voz um fragmento de _seguidilla_:
-
- El amor que te tengo
- parece sombra;
- quanto mas apartado
- mas cuerpo toma.
- La ausencia es aire
- que apaga el fuego chico
- y enciende el grande.
-
-Depois, se a irmã se sentava ao piano e voejavam ao longo da sala notas
-de suavissima tristeza, como um bando de rôlas viuvas que se andassem
-carpindo, Maria Luiza, para se furtar á impressão dolorosa da musica,
-batia o pésinho no chão e começava, saltando, a cantar.
-
-Havia só um nome, só uma palavra, que a fazia entristecer subitamente.
-Era o nome de sua irmã Emilia. Tinham sido duas irmãs extremosas, que
-viviam uma para a outra.
-
-Ás vezes, n’um momento de dolorosissima saudade, dizia a inquieta
-donzellinha:
-
-—Quem sabe se virei a morrer da morte de minha irmã? Talvez. Eramos tão
-amigas!...
-
-Estavam na quinta do Prado, como já se disse, quando Emilia morrera. Os
-tisicos enganam até ao ultimo momento; ninguem esperava que ella passasse
-n’aquelle dia. Rosa tocava, na sala proxima, umas _variações_ da _Norma_;
-Maria Luiza falava com a doente a respeito das andorinhas e do sol, das
-flores e das borboletas, das noites de luar e dos rouxinoes. De repente a
-irmã interrompera-a, para segredar-lhe:
-
-—Ouves? É a musica do noivado. O meu noivo espera-me. Has de me dar
-um ramo de lirios para levar no seio. Eu gosto tanto dos lirios! Os
-rouxinoes são meus amigos. Esperava este momento com anciedade; _elle_
-já me espera ha dois annos e devia ter saudades de mim. Morreu tão novo!
-Ouves, minha irmã? A musica continua. São as andorinhas, que chilriam...
-Dá-me um beijo; as borboletas são irmãs das flores e tambem se beijam.
-
-Ouviu-se o frémito d’um beijo e o som agudo d’um grito. Era a voz
-de Maria Luiza. Sua irmã tinha morrido a beijal-a, como se quizesse
-transmittir-lhe a vida n’um beijo.
-
-Ao grito de Maria Luiza acudiu o pae, a mãe e a irmã. Já chegavam tarde,
-porém.
-
-Desde aquelle dia, Maria Luiza entristecia-se quando lhe falavam d’essa
-hora amargurada. Tornou-se amiga de todos os que eram amigos de sua irmã
-e ia todos os domingos ao cemiterio d’aldeia poisar um ramo de flores
-sobre o tumulo fechado havia pouco tempo. Quando vieram habitar em Braga,
-Maria Luiza soffreu muito com a falta da visita ao cemiterio, ou com
-a _ausencia de sua irmã_, como ella dizia. Aos domingos, todavia, era
-quando mais cantava o
-
- El amor que te tengo
- parece sombra...
-
-e dizia a Rosa que se via obrigada a cantar para reprimir as lagrimas no
-seio.
-
-Thomaz Ignacio Machado morreu em Braga, dezoito mezes depois de ter
-sahido da quinta do Prado. Chorou-o a esposa, choraram-n’o as filhas
-estremecidas e choraram-n’o todos os que viam n’elle um homem remido das
-faltas do passado por um longo soffrimento.
-
-
-
-
-III
-
-
-João Nicolau de Brito e sua mulher receberam, como tinham combinado.
-Concorreram á _soirée_ as familias de mais intimo trato n’aquella casa.
-Abriu-se o piano, n’essa noite, e desterrou-se o _loto_, que era já então
-o maximo divertimento dos serões bracharenses e continua a ser para
-eterna semsaboria das noites de Braga.
-
-A dansa, a alegria, a musica tomaram a vez ao jôgo. Eduardo era a
-machina motora de tão notaveis reviramentos na casa de dois velhos
-amolestados de rheumatismo e outros gravames da velhice. Abriu-se a
-_soirée_ com uma quadrilha. Eduardo fez o milagre de tentar a avó e
-conseguiu que a pobre senhora figurasse no—_en avant_—a par de tres
-raparigas, incluindo as irmãs Machados. João Nicolau de Brito jubilou
-com a delicadeza do neto e apresentou-o, finda a dansa, como poeta, ás
-pessoas que estavam na sala.
-
-O amor proprio tem d’estes paradoxos. João Nicolau desestimou a qualidade
-de poeta na pessoa do neto; agora, lisonjeado da muita delicadeza d’elle,
-folga de que o rapaz se extreme dos outros com merecimentos distinctos.
-
-As senhoras festejaram a denuncia de um talento precoce, que não tinham
-avaliado ainda, do filho do bacharel.
-
-Correu n’esse momento ao longo da sala um sussurro de vozes: era o
-cochichar de meia duzia de raparigas tentadiças com poetas, sob o
-commando de Maria Luiza, idealista por excellencia.
-
-—É dever teu, Eduardo—disse de golpe D. Maria d’Assumpção—comprovares a
-opinião antecipada, que de ti formamos. Recita-nos alguma coisa.
-
-—De boa vontade, minha senhora—respondeu elle—se não receasse a
-indelicadeza d’incommodar v. ex.ᵃˢ e não me conhecesse com o vezo de ser
-horrivelmente desmemoriado.
-
-—Vá o que lembrar—accrescentou João Nicolau.
-
-—Mas coisa da tua lavra—tornou D. Maria d’Assumpção.
-
-—Folgamos d’ouvil-o—disse Maria Luiza.
-
-Eduardo percebeu que seria indelicadeza imperdoavel o desculpar-se mais.
-
-—Ahi vão, disse elle, seis quadras que não valem nada. Intitulam-se:
-
- Frémitos
-
- Quando tu vaes á janella,
- Á noite, e pensas em mim,
- Ha uma voz que diz—Ella!
- —São os lirios do jardim...
-
- Se d’um livro sobre a folha
- Te pende a cabeça e o véo,
- Ha uma voz que diz:—Olha!
- —É o mar chamando o céo...
-
- Quando esse teu olhar mede
- Todo o horizonte do sul,
- Ha uma voz que diz:—Vêde!
- —Talvez seja a voz do azul...
-
- Se, ao fim da tarde, á janella,
- Olhas, nem sabes o que,
- Ha uma voz que diz: Bella!
- —É a voz do que se não vê...
-
- Mysterios que eu não abranjo!
- No jardim, ao pôr do sol,
- Ha uma voz que diz:—Anjo!
- —A voz d’algum rouxinol...
-
- Quando ha luar e te chamo
- Entre as moitas d’alecrim,
- Se ha uma voz que diz:—Amo!
- Penso que a voz sae de mim...
-
-Estrondearam na sala freneticos applausos.
-
-O moço poeta, de dezeseis annos, agradecia a ovação espontanea e unanime
-com mostras de modestia e ingenuidade estimaveis.
-
-Merecidos eram sem dúvida taes applausos.
-
-Nos versos do filho do bacharel Valladares havia poesia, se poesia se
-pode chamar este alar-se da alma para um mundo phantastico onde se ama
-já uma mulher que ainda se não viu.
-
-Os que entendem que a poesia é uma coisa que elles mesmos não entendem, o
-nebular a phrase de modo a encobrir a carencia d’uma idéa aproveitavel,
-esses, apostolos do germanismo transmontado, rir-se-hão da futilidade
-d’um poetar singello cadenciado na lyra incorrecta dos dezeseis annos.
-
-Maria Luiza Machado, como enthusiasta por versos, pediu ao poeta a cópia
-dos seus. Isto bastou a travar-se conversação.
-
-—Bem me parecia—disse ella—que o seu coração devia, para cantar mavioso
-aos dezeseis annos, sentir um raio de sol que o inspirasse.
-
-—Peço desculpa para redarguir a v. ex.ᵃ Os meus versos são talvez uma
-prophecia. A alma, ainda não adestrada para luctar com as procellas do
-mundo real, cria para si uma região phantastica.
-
-—Seja como fôr, tornou ella. Desejo possuir os seus versos. Quando m’os
-dá?
-
-—Amanhã.
-
-Pactuou-se, no fim da _soirée_, o primeiro passeio ao Bom Jesus, no
-domingo proximo.
-
-Recordações d’essa noite ficaram muitas e immarcessiveis na alma de
-Eduardo Valladares. Depois da ultima quadrilha, quando os convidados
-retiraram e a sala ficou deserta, é que foi o escurecer-se subitamente
-aquella alma, que mergulharia em profundas trevas, se a imagem esplendida
-de Maria Luiza lhe não rareasse, a instantes, as sombras interiores. Um
-olhar e uma phrase d’ella fôram as ultimas impressões d’essa noite.
-
-—Seja como fôr. Desejo possuir os seus versos, disse-lhe ella.
-
-E abriram-se-lhe os labios n’um sorriso de fada.
-
-—Mas, dizia de si para si o filho do bacharel Valladares, tenho apenas
-dezeseis annos e deixo-me assim embalar nos braços de uma esperança
-dulcissima que me pode fugir amanhã!
-
-Durante os dois dias que decorreram desde essa noite até o domingo
-seguinte, annuviou-se o semblante de Eduardo a ponto de João Nicolau
-fazer reparo na extranha tristeza do rapaz. Quedou-se o velho a scismar
-no visivel desgôsto do neto e não lhe rasteou origem. Isto inquietara-o
-sobremaneira. Revelou á esposa as suspeitas e dúvidas que o embaraçavam;
-conchavaram-se os dois no proposito de dar finalmente com a chave
-mysteriosa do enigma.
-
-Passadas algumas horas depois d’este secreto colloquio dos dois velhos,
-D. Maria da Assumpção foi dar com o neto emboscado na ramaria d’uma
-olaia que sombreava o angulo do quintal. Estava o moço d’olhos pregados
-no horizonte recortado pelas arvores verdejantes dos quintaes da rua de
-Santo André.
-
-D. Maria d’Assumpção seguiu por alguns momentos a direcção do olhar do
-neto e o mesmo foi despeitorar-lhe os mais intimos segredos do coração.
-Subiu as escadas precipitadamente e chamou o marido a uma das janellas
-sobranceiras ao quintal.
-
-—Olha, disse-lhe ella apontando para o neto. O coração—o coração dos
-dezeseis annos sobretudo—ha de ter sempre d’estas contradicções. O
-excesso da felicidade acarreta d’estas maguas. O que elle deseja é o
-momento de tornar a vêl-a... São chuveiros d’abril, que não inspiram
-cuidado.
-
-—Olha que a mocidade d’agora começa muito cedo a tresnoitar-se! O amor
-dos dezeseis annos! Lêsse-se este caso n’um livro a ver se alguem o
-acreditava! No nosso tempo não se vivia tanto em tão poucos annos.
-
-—Ahi estás tu a denunciar a edade que tens! É sestro dos velhos andar a
-reprehender os novos, e o que elles pensam e fazem. Não se vivia tanto em
-tão poucos annos! disseste tu. Já te não lembras da historia d’uns amores
-em que falas quando vem de geito citar façanhas da mocidade...
-
-—É uma historia que tem graça. Da janella do meu quarto, no collegio onde
-me eduquei, andava eu a espreitar nas horas de recreio para a janella
-d’um terceiro andar onde morava uma costureirinha d’olhos negros...
-
-—Uma costureirinha! O teu neto revela mais fidalgos e poeticos
-instinctos. Ama romanescamente. Tu andavas mais terra a terra. Não tens
-que vêr. Iremos domingo ao Bom Jesus.
-
-—Iremos se quizeres. Não sei que systema teem ás vezes as mulheres!
-
-—O meu systema é o do jardineiro experimentado. É preciso cuidar da flor,
-dar-lhe sol, para que desabrochem depois todas as galas que a Providencia
-lhe der.
-
-—Anda lá, anda lá, quero ver se a theologia lhe ha de dar tempo para
-andar com a cabeça á roda!
-
-
-
-
-IV
-
-
-Batiam sete horas da manhã nas torres do Bom Jesus do Monte, quando João
-Nicolau de Brito, sua mulher, Eduardo e as duas meninas Machados subiam
-em alegre caravana o escadorio do santuario. Pelo que diz respeito aos
-dois velhos, em cujo grupo faltava a viuva Machado, iam cansados da
-subida; não assim os companheiros, que saltavam alegremente d’escada em
-escada, como tres avesinhas que voltassem no mesmo dia á liberdade do ar,
-depois d’uma reclusão asperrima, e fôssem chilreando de fronde em fronde
-pela encosta acima.
-
-Affluiram, n’esse dia, ao Bom Jesus muitas familias de Braga, de sorte
-que se augmentara consideravelmente a ruidosa caravana.
-
-Demoraram-se na hospedaria João Nicolau, sua mulher e os outros velhos,
-seus conhecidos, trôpegos de rheumatismo; o resto da caravana errava pela
-montanha ao sabor de cada um.
-
-Eduardo Valladares sentiu por momentos necessidade de conversar com a sua
-alma em jubiloso dialogo. Subiu ao largo dos Evangelistas, e embrenhou-se
-na matta sombria da Mãe d’Agua.
-
-Estava elle escrevendo a lapis na carteira, quando casualmente descobriu,
-através da folhagem, um vulto indistincto.
-
-Encobriu-se com o muro posterior á mina e ficou d’atalaia, a coberto da
-parede. Passados alguns momentos reconheceu ser Maria Luiza e sentiu
-bater-lhe o coração vertiginosamente.
-
-Vinha ella, pensativa, subindo a alameda. Depois sentou-se n’um banco de
-pedra e descahiu a scismar, encostada á mesa, que tambem era de pedra[2].
-
-Eduardo Valladares espreitava-a silencioso. Ora sentia estuar-lhe o
-sangue nas arterias escandescentes ora esfriar-se com esvahimentos de
-moribundo anciado. Maria Luiza quedara-se a scismar com os olhos fitos no
-vago e o rosto descansado na mão. É um mysterio que se não comprehende,
-um enigma que se não decifra—o que seja este vago d’uns olhos
-contemplativos, o ponto indistincto e nebuloso onde se fita o olhar, a
-não ser que esse ponto seja a lente que reflicta o olhar de si mesmo
-namorado. Pois em que mais se pode extasiar uma alma venturosa a não ser
-na intima contemplação da primavera interior? Dizem pois, e dizem bem,
-os que entendem do coração, que os olhos são o espelho da alma e o olhar
-a muda expressão do sentimento que a domina. Tudo isto nos vae levando
-insensivelmente a uma conclusão provavel. Pois se o olhar é o reflexo
-da alma, se a alma está absorta em júbilo, e se a vista se concentra
-n’um ponto unico, quem poderá duvidar de que esse ponto seja a lente
-mysteriosa que está espelhando o fogo do nosso olhar, o fogo da nossa
-alma? Ora se não é isto o vago d’uns olhos contemplativos, não sei eu bem
-o que seja o vago. O que sei, porém, é que todas as almas placidamente
-inebriadas teem d’estas horas de arroubo em que os olhos se embellezam no
-azul d’um horizonte desconhecido aos outros.
-
-Estava, pois, Maria Luiza extasiada n’estes ineffaveis enlêvos, quando
-sentira cahir-lhe aos pés um papel, que mão invizivel impellira.
-Despertou de subito d’aquelle dulcissimo _far niente_, que é o sonhar
-accordado da alma. Pegou no papel e desdobrou-o precipitadamente;
-desdobrou-o e leu-o.
-
-Dizia assim:
-
- «Disse a rosa á borboleta:
- —«Abre uma aza, inquieta,
- Faze-me d’ella um docel...»—
- Volveu ella:—«Flor dos valles,
- Dá-me, em paga, do teu calix
- A seiva, o licor, o mel...»—
- Assim nós tambem. N’um dia
- Sob a aza da poesia
- Dormiste e sonhaste, ó flor.
- Eu, namorado e poeta,
- Hei de ser a borboleta,
- Tu a rosa; o mel, o amor...
-
-Voltou-se surprehendida Maria Luiza como a procurar nas sombras do
-arvoredo o apaixonado fauno que furtivamente viera requestar com
-incendidos madrigaes a nayade formosa; o mesmo foi encarar no moço
-enamorado, que procurava lêr nos olhos d’ella a impressão dos versos, e
-que sentira esvahidas as fôrças quando tentou fugir d’aquella suavissima
-prisão que alli o tinha como galvanisado.
-
-—Aqui? disse-lhe ella. Pensei que tinha acompanhado o resto da caravana.
-
-—Idealista, como v. ex.ᵃ—volveu elle convulsamente e como querendo
-dominar uma impressão violenta—procuro ás vezes a solidão. Não temos que
-extranhar o encontrarmo-nos aqui.
-
-—De mais extranheza será, porém, dizer-lhe eu que se occultam n’estas
-sombras da Mãe d’Agua faunos poetas, que sabem escrever bonitos versos
-ao sabor de madrigaes. Aqui tenho eu uns que me parecem maviosos; ou me
-vieram da mão d’um fauno, que, por engano, me tomara á conta de nayade,
-ou cahiram por acaso da aza d’uma andorinha, que era correio d’amantes.
-
-Eduardo Valladares empallidecia extremamente.
-
-—E comtudo esta lettra não me é extranha, continuou Maria Luiza. Notavel
-coincidencia! Parece-se muito com a sua, com a dos versos que teve a
-gentileza de me enviar ante-hontem. Ora veja...
-
-N’este momento ouviu-se ao fundo da alameda uma voz de mulher.
-Quedaram-se os dois á escuta. Passados instantes, porém, descobriu-se
-através das arvores o vulto já distincto da irmã de Maria Luiza.
-
-Chamava para o almôço, que esperava por elles na mesa da hospedaria.
-
-
-
-
-V
-
-
-Tres dias depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do Monte escrevia
-Eduardo Valladares a sua mãe:
-
-«Escuso de lhe dizer que me resenti da falta do carinho materno, da
-mudança de terra e de casa, da differença de costumes, de tudo isto
-finalmente que a gente conhece desde os primeiros annos da vida. Devo
-dizer-lhe, porém, minha mãe, que sahi da minha familia para encontrar
-outra familia que tambem é minha, e onde, para ser a felicidade completa,
-apenas me falta o livro sagrado do seu coração que eu sabia delettrear e
-comprehender.
-
-«Da cidade—e não sei se para isto contribuirá o ter nascido aqui minha
-mãe—da cidade, que é em verdade pittoresca, dir-lhe-hei que não desgosto
-e que se me afigura melhor do que o Porto para se respirar ar saudavel e
-morrer a gente com uma gordura fradesca.
-
-«A falta de movimento que se nota em Braga, procedente da exiguidade da
-população, é uma garantia de commodidade, longe de ser um defeito. Pode
-a gente dormir á vontade, até altas horas do dia, que não corre perigo
-d’accordar sobresaltada pelo estrepito das ruas. Só os sinos... Ai! os
-sinos de Braga, minha mãe, badalejam que é de qualquer pessoa ensurdecer
-dentro de quarenta e oito horas. Isso sim, que é horroroso!
-
-«A esta praga dos sinos só acho comparavel em semsaboria a extensão das
-noites de Braga.
-
-«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer de que não, estava no
-Porto. Quiz a avó convidar algumas familias das suas relações, cuido que
-para festejar a minha chegada, e passou-se o serão alegremente, mais
-alegremente do que era de esperar.
-
-«Das senhoras que concorreram, apenas merecem especial menção as meninas
-Machados, que são muito estimaveis e sympathicas. Em companhia d’estas
-senhoras passamos o dia de domingo no Bom Jesus do Monte, a mais formosa
-paizagem que tenho visto em vida minha. Aquillo sim, que é bonito e
-suave! N’aquellas sombras deliciosas sente a gente abrir-se o coração
-para sentimentos novos. Minha mãe, que decerto alli viveu alguns dos dias
-da sua mocidade, deve comprehender que impressões dulcissimas recebi.
-Quando desci da montanha, vinha saudoso, preciso confessal-o. Saudoso de
-quê? Da montanha, que posso visitar quando me aprouver? Não sei Saudoso
-talvez d’umas horas agradaveis que lá vivi.
-
-«E depois no Bom Jesus do Monte nem os homens andam embuçados em capotes,
-como na cidade, nem as senhoras espreitam os transeuntes a coberto das
-rotulas das janellas. Alli ha completa liberdade, principiando pelas aves
-que se desenfadam de tronco em tronco sem que ninguem as persiga.»
-
-A carta do filho do bacharel Valladares merece-nos reparos.
-
-Pelo que diz respeito ao seu estado moral, cumpre fazer notar estas
-phrases involuntariamente significativas:
-
-«... para ser a felicidade completa, apenas me falta o livro santo do
-seu coração que eu sabia delettrear e comprehender.»
-
-«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer de que não estava no Porto.»
-
-«Das senhoras que concorreram, merecem especial menção as meninas
-Machados, que são muito estimaveis e sympathicas.»
-
-Referindo-se ao Bom Jesus do Monte dissera Eduardo Valladares, como o
-leitor viu, que «n’aquellas sombras deliciosas sente a gente abrir-se o
-coração para sentimentos novos.»
-
-Quereria elle dizer que a sua alma se estava enflorando para exuberantes
-primaveras e auroras ainda não conhecidas?
-
-O futuro nol-o dirá.
-
-No attinente á apreciação de Braga, corre-nos obrigação de lembrar ao
-leitor que o filho do bacharel Valladares escrevia n’um tempo em que
-Braga conservava ainda os biocos d’uma verdadeira provinciana.
-
-Vão hoje, em pleno anno de 1870, visitar a capital do Minho e dir-me-hão
-se não enlevaram os olhos nas graças das damas bracharenses que passeiam
-a sua elegancia por entre os alegretes do campo de Sant’Anna.
-
-Homens de capote só os ha lá... quando está frio, o que se me afigura uma
-prova irrecusavel do bom senso da população masculina d’aquellas paragens.
-
-Diz um adagio «Deus dá o frio conforme a roupa». Quer-me parecer, porém,
-que seria muito mais verdadeiro e sensato dizer se «Deus deu a roupa por
-causa do frio.»
-
-Quanto aos sinos, ainda em 1870, como então, são egualmente detestaveis
-os de Braga e os... do Porto.
-
-Chateaubriand escreveu algures que o christianismo conseguiu dar suspiros
-ao bronze.
-
-Sem querer desvirtuar a poetica idéa do auctor do _Genio do
-Christianismo_, sou a dizer que me não quer parecer «suspirar», um
-martelar continuo de toadas populares nos sinos das cidades. A musica das
-ruas invadiu a egreja.
-
-Suspirar é o do sino da aldeia, que nos viu nascer, quando vibra sonoro
-ao pôr do sol, no meio da solidão.
-
-Acceito de melhor sombra estas palavras do mesmo Chateaubriand no _René_:
-
-«Tudo se encontra nas encantadas meditações que em nós desperta o sino
-natal: religião, familia, patria, o berço e o tumulo, o passado e o
-futuro.»
-
-
-
-
-VI
-
-
-Depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do Monte, Eduardo Valladares só a
-furto vira Maria Luiza ao declinar da tarde, durante nove dias.
-
-Quando o sol inclinava para o occaso, sahia elle em direcção a Guadelupe.
-Ao passar na rua de Santo André, sempre os seus olhos se encontravam com
-os de Maria Luiza como por magnetismo. Seria um acaso? Quem diria a ella,
-da primeira vez, que elle ia passar? Amal-o-hia? Se o amava, se sentia
-que o ia amar, dizia-lhe uma voz interior que elle viria? Mas pareceu
-fital-o tranquilla, sem revelar um indicio de commoção... Não o amaria,
-zombaria de um sentimento celestialmente puro? Mas nem que o coração lhe
-estivesse adivinhando a hora a que elle viria! Nem um só dia deixaram de
-se ver...
-
-Era a furto, é verdade; que o timido moço não sabia que impressões
-conservaria Maria Luiza do passeio ao Bom Jesus. Erguia o seu olhar para
-ella, e desviava-o subitamente...
-
-Os versos, pensava elle, fôram pouco menos d’uma indiscreção. Quem
-lhe dera motivo para alimentar uma esperança? Ella, Maria Luiza? Que
-lhe dissera que deixasse entrever os primeiros clarões d’uma aurora? E
-todavia arriscara-se elle a escrever:
-
- Eu, namorado e poeta,
- Hei de ser a borboleta,
- Tu a rosa; o mel, o amor...
-
-Estas dúvidas alanceavam-lhe o espirito. Que devia fazer? Conformar-se
-com a incerteza, fugir á luz, áquella luz que o estava attrahindo,
-a elle, a mariposa dos dezeseis annos? Mas fugir-lhe era morrer,
-que se podia viver longe do ninho querido, do carinho materno, das
-recordações da sua infancia, era porque a tinha visto, era porque a tinha
-encontrado...
-
-E—pensamento cruciante!—quem lhe dizia que ella era livre, que se
-não deixava embalar nas dulcissimas esperanças d’um amor feliz? Este
-pensamento infernava-lhe a alma e, n’esses momentos dolorosamente
-attribulados, lembrava-se de sua mãe, e parecia que o invocar o nome
-materno valia tanto como sentir calmarem-se as tempestades interiores.
-
-N’aquella solidão de Guadelupe era que Eduardo Valladares gostava de se
-deixar atormentar por estas dúvidas queridas. Aquella agitação tinha
-alguma coisa de pungente e alguma coisa de deliciosa... E depois,
-alongando o olhar, via extender-se ao sopé de Guadelupe a rua de Santo
-André... E para o outro lado, ao nascente, avultava no horizonte a
-montanha do Bom Jesus onde tinha sentido os primeiros enlêvos, onde um
-anjo mysterioso, de azas brancas talvez, lhe segredara docemente uma
-palavra de esperança...
-
-Era lá, onde a coma do arvoredo frondejava mais espessa, no alto da
-serra, que Maria Luiza lêra os seus versos, e parecia que a amenidade
-melancholica da floresta santa lhe entrava no coração... Seria aquella
-montanha o seu Gethesemani? O futuro era mudo. Na serra campeava a cruz,
-phanal salvador dos náufragos da existencia, e elle tinha ainda na
-memoria as doces orações que sua mãe lhe ensinara a balbuciar.
-
-E as sombras da noite pareciam emergir d’entre o arvoredo, e serra, e
-floresta, e cruz desappareciam envôltas na escuridão.
-
-Quando Eduardo Valladares descia de Guadelupe, era sempre noite cerrada;
-um unico pensamento o occupava—ver Maria Luiza no dia seguinte.
-
-
-
-
-VII
-
-
-Dez dias volvidos disse D. Maria Assumpção, de manhã, ao neto:
-
-—Vamos hoje passar a noite a casa das Machados. É preciso fazeres-te
-homem. As mulheres é que vivem encerradas dentro de quatro paredes.
-Passas a manhã em casa a ler, e apenas saes de tarde um boccadinho! Onde
-vaes tu?
-
-—Sento-me em Guadelupe e gosto d’aquelle sitio, respondeu Eduardo
-procurando ler a impressão da resposta no olhar da avó.
-
-—É bonito... mas triste. Precisas de procurar relações e de afastar de
-ti uns ares improprios da tua edade. Domingo, havemos de tornar ao Bom
-Jesus. É preciso divertir e passear emquanto é tempo, rapaz, que o mez
-de outubro está ahi á porta e depois, cursando o lyceu, não tens remedio
-senão deitar-te aos livros.
-
-—Estou preparado para isso e cuido que hei de saber corresponder á
-dedicação de meus avós.
-
-—Assim deve ser. Põe o teu chapéo e vae sahir, anda, mysanthropo.
-
-—Agora... estou tão bem em casa...
-
-—O que tu quizeres, teimoso! Já te disse que depois de abertas as aulas
-hão de ser poucas as distracções.
-
-—E não iremos mais ao Bom Jesus? ousou perguntar Eduardo.
-
-—Iremos; menos vezes. Eu tambem gosto d’aquelle passeio, e sinto que me
-faz bem. Mas não se cifram no Bom Jesus os sitios bonitos dos arrabaldes.
-Has de gostar tambem das margens do Cávado.
-
-—Mais que do Bom Jesus?
-
-—Não sei.
-
-—Ah! mais que do Bom Jesus acho que não posso gostar.
-
-D. Maria d’Assumpção foi ter com o marido e disse-lhe:
-
-—Este rapaz é magico, não quer sahir!
-
-—Deixa-o lá, elle se aborrecerá d’estar em casa.
-
-—Não é tanto assim, homem de Deus! É preciso distrahil-o, aconselhal-o
-com brandura, que é filho de nossa filha. Domingo havemos de tornar ao
-Bom Jesus.
-
-—Mas que empenho tens tu em andar a passear o rapaz?
-
-—Quero amenizar-lhe esta passagem repentina da vida em que foi creado
-para outra vida completamente nova. Depois, abrindo-se as aulas, é que eu
-não quero que elle passeie. Já lhe disse que, em chegando outubro, era
-preciso estudar como um homem.
-
-—E elle que respondeu?
-
-—Deu mostras de querer desempenhar cabalmente. Mas não comeces tu depois
-a opprimil-o demasiadamente com as tuas asperezas. Olha que o espirito,
-cansado do estudo, precisa d’um refrigerio.
-
-—Livremol-o de relações estreitas com estudantes, que são, por via de
-regra, rapazes que vivem em liberdade pouco digna.
-
-—Eis ahi por que me parecia que um namorito...
-
-—Vocês, as mulheres, ligam-se tamanha importancia, que julgam que o
-render-vos preito é a suprema salvação de qualquer. O rapazinho se
-começar a desmandar-se torna pelo mesmo caminho por onde veiu. Tu sabes
-que eu não sou muito para graças. Este anno ha de acabar os preparatorios
-e para o anno ha de cursar o Seminario. Isto é se quizer; se não quizer,
-que volte para a companhia do pae.
-
-—Mas tambem que proposito é esse de assentar com tamanha antecipação o
-destino do rapaz? Estás dominado do espirito religioso de Braga e achas
-que ser padre é caminhar proveitosamente pela estrada social em direcção
-ao Céo! Não sei como te não ordenaste?
-
-—Temos em mim um exemplo da efficacia dos namoritos. Meu pae queria me
-ordenar, porque era meu amigo. Vi-te, comecei a desorientar me e casei...
-
-—Olha que perdeste muito! Estavas agora arcebispo, pelo menos, se
-obtivesses absolvição, para os teus burguezes devaneios com a costureira
-do terceiro andar.
-
-E como D. Maria d’Assumpção caminhasse para a porta da saleta, chamou a o
-marido com a brandura de quem deseja reconciliar-se:
-
-—Olha cá. Pelo que disse a meu respeito, sabes que não passa tudo de
-graça. Lá quanto a ordenar-se o rapaz, é coisa assente e proposito firme.
-Que queres tu que elle seja? Queres que o mande para Coimbra gastar-nos
-rios de dinheiro para o vermos ao cabo de cinco annos a caçar môscas como
-o pae?
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Eduardo Valladares, quando soube que n’essa noite poderia vêr Maria
-Luiza, sentiu no coração uma alegria subita que de momento a momento era
-obscurecida por umas sombras ligeiras... Dir se-hia que n’aquella alma
-de dezeseis annos se travara lucta entre os lampejos d’uma esperança
-e as nuvens d’uns receios que são attributo da timidez procedente da
-inexperiencia.
-
-N’aquella alma, digamol o pois, preparava-se uma aurora: luctava a luz
-com as trevas.
-
-Ver Maria Luiza era levantar o espirito a páramos celestiaes ante
-gostados em horas de dulcissima meditação; era voejar nas azas da
-esperança até onde a felicidade pudesse subir uma creatura absorta em
-sonhos do Céo. Mas vêl-a não seria despenhar-se em abysmos insondaveis,
-se nos labios d’ella não desabrochasse um sorriso equivalente a uma
-promessa? Todas as dúvidas, que até ahi o haviam salteado dia e noite,
-como que se levantaram em tropel e deliciosamente lhe pungiram o coração
-amoroso.
-
-O filho do bacharel entrou na sala da viuva Machado com a timidez de
-quem arriscasse um passo n’um estrado sobreposto ao boqueirão d’um
-despenhadeiro. O mesmo porém foi entrar e cegar-se deante d’aquella visão
-aerea, tentadora, que parecia encher a casa d’alegria e esplendores.
-
-A aurora da felicidade, que a cercava, afigurou-se porém a Eduardo
-Valladares o clarão sinistro d’um incendio que lhe vinha requeimar o
-coração.
-
-A elle, que se sentia triste, porque amava, a elle, que luctava com
-a incerteza, porque esperava, a elle pareceu pois que só a estrema
-despreoccupação d’espirito podia dar a tranquilla alegria que Maria Luiza
-revelava no gesto e no olhar.
-
-Ó deliciosas illusões dos dezeseis annos, que sois a verdadeira
-felicidade, quem pudera rehaver-vos, uma só vez que fôsse, depois de
-transposta a barreira que separa o mundo das chimeras do mundo das
-realidades!
-
-A experiencia é fria como tudo o que é positivo, material e immutavel.
-Ultrapassada a linha divisoria, sabe-se que o coração freme em
-tempestuosa lucta quando aos labios apontam sorrisos de felicidade. Ó
-experiencia, ó escalpello das coisas mundanas, queres rasgar, decompor,
-retalhar, para saber!
-
-Aos dezeseis annos contentam-se os olhos com vêr a superficie d’este
-mar chamado—coração humano. E não se sabe então que o oceano, cuja face
-se azuleja como o céo nas regiões polares, e disputa negruras com a
-tempestade na costa das Maldivas, não se sabe que o oceano, diziamos,
-occulta sob uma superficie crystallina ou sombria um mundo sempre cheio
-dos mesmos mysterios e da mesma escuridade... Ó abençoada ignorancia, que
-tamanhas saudades deixas para toda a vida!
-
-Aos dezeseis annos ignora-se ainda que ha certas organizações robustas,
-que não só chegam a dissimular os proprios sentimentos, mas até
-logram manifestar commoções differentes das que lhe estão deliciando
-ou corroendo o coração. Já dissemos que Maria Luiza era uma d’essas
-organisações de rija têmpera, e o leitor sabe como ella modulava um
-trecho de _seguidilla_ no momento em que mais lhe vergava o espirito sob
-o consolador gravame das saudades de sua irmã.
-
-Amaria ella Eduardo Valladares? Amal-o, na verdadeira accepção d’esta
-palavra, talvez não. Mas sentia-se impellida por uma onda alegre e
-suave, que lhe embalava o pensamento e o levava a paragens tão formosas
-como desconhecidas. Alli encontrava o vulto sympathico do filho do
-bacharel, aureolado d’extranhos esplendores, e não sabia bem se tamanha
-claridade partia d’elle ou se era apenas o reflexo cambiante d’uns astros
-desconhecidos que illuminavam o céo de um mundo novo. Mas d’aquella
-felicidade que a embriagava, guardava o segredo no coração; e era
-apparentemente a mesma creatura alegre e descuidosa. Como quer porém que
-elle, de desejoso, andasse evitando falar-lhe, Maria Luiza approximou-se
-e disse-lhe:
-
-—Olhe que um rapaz-velho é tão irrisorio como um velho-rapaz.
-
-—Minha senhora! balbuciou Eduardo tomando o dito á conta d’uma pungente
-zombaria.
-
-—Ainda não dansou hoje, e como supponho que se esquiva á dansa para se
-furtar ao desprazer de me aturar durante uma valsa, venho sacrifical-o
-nas aras da minha ousadia, e convidal-o para meu... par.
-
-Eduardo Valladares ia a responder, nem elle sabia o que, mas o preludio
-d’uma valsa salvou-o d’uma conjunctura estremamente difficil.
-
-Depois, o piano passou d’uma cadencia maviosa para uma vertigem febril, e
-o mesmo aconteceu aos corações que, de tão juntos, pareciam permutar-se
-as pulsações...
-
-Meia hora volvida, Eduardo Valladares e Maria Luiza conversavam
-debruçados á janella...
-
-
-
-
-IX
-
-
-Estamos, outra vez, no Bom Jesus do Monte.
-
-O leitor conspira, porém, contra o poder de ubiquidade que o romancista
-possue e deseja saber que maviosos dialogos suspiraram Eduardo Valladares
-e Maria Luiza, ao clarão saudoso das estrellas. O que disseram não o
-repetiram os échos da noite. Suppomos, todavia, que elle conservara
-a mesma timidez e que ella não se apartou da alegre tranquillidade
-que momentos antes revelava. Mas se assim foi, n’aquelle dialogar,
-apparentemente frivolo, insensivelmente se iam alliando duas almas, a
-julgar pela leitura das seguintes linhas.
-
-Vamos encontrar Eduardo Valladares e Maria Luiza subindo ambos a alameda
-sombria da Mãe d’Agua.
-
-—Parece-me hoje mais triste que da primeira vez que estivemos aqui! disse
-Maria Luiza.
-
-—Creio que não tem v. ex.ᵃ razão para se admirar. É que hoje já vou
-procurando recordações por entre estas sombras deliciosas.
-
-—Recordações? Ah! recordações da visão mysteriosa que inspirou o seu
-madrigal.
-
-—Se fôra assim, a presença de v. ex.ᵃ dissiparia essas recordações, ousou
-pronunciar Eduardo Valladares.
-
-—Eu!
-
-—V. ex.ᵃ mesma. Ha de perdoar-me, continuou elle com a voz extremamente
-trémula, mas resolvi-me, ao cabo de muitas horas de hesitação, a usar
-d’uma sinceridade que não pode e não deve melindrar v. ex.ᵃ. Que hei de
-fazer eu senão pensar, meditar, eu que vivo aos dezeseis annos longe
-da terra que me viu nascer, dos sitios que recordam as horas alegres
-da minha infancia, dos meus amigos queridos, do conchego da familia,
-das consolações de minha mãe, do braço protector de meu pae? Ah! se v.
-ex.ᵃ comprehendesse como tudo isto é profundamente triste, e se depois
-se lembrasse tambem de que venho acceitar um futuro que me offerece
-a generosidade d’um parente, porque o trabalhar constante de meu pae
-não basta para abrir á felicidade a porta da nossa casa, se v. ex.ᵃ
-comprehendesse tudo isto, ouvir-me hia como se ouve um amigo que vem
-entregar ao nosso coração o segredo das suas maguas.
-
-—Jesus! Como me entristece!
-
-—Ah! V. ex.ᵃ tem soffrido tambem, é verdade, porque conserva ainda na
-alma os vestigios d’uma longa saudade. Hoje, que é domingo, o dia em que
-v. ex.ᵃ costumava ir depôr um ramo de flores sobre o tumulo de sua irmã,
-ouvir-me-ha, pois, como se eu lhe estivesse falando á beira d’esse tumulo
-querido...
-
-—Despedaça-me o coração... Tenha piedade.
-
-—Supponha que o repellido da fortuna poz um dia os olhos n’uma esperança,
-e que vêl-a tornada realidade seria o mesmo que subitamente enriquecer de
-tudo o que lhe falta agora, de tudo o que deixa na alma d’elle um vácuo
-tão profundo como sombrio. Supponha que o desventuroso peregrino pedia
-gasalhado ao seu coração, e que via pendente dos labios de v. ex.ᵃ toda a
-sua vida, toda a sua felicidade, todo o seu futuro... Mas...
-
-—Fale, fale...
-
-—Mas quem me diz, quem me prova que o coração de v. ex.ᵃ tem ainda a
-liberdade de entregar-se? Quem me diz, quem me prova que v. ex.ᵃ não deu
-já a outrem a felicidade que eu lhe estava pedindo? Mas quem me diz,
-quem me prova que v. ex.ᵃ tem a abnegação de ligar o seu destino a um
-destino incerto e sombrio como o que me espera talvez amanhã? Ah! não
-fala, não responde... Que está lendo v. ex.ᵃ na veia d’agua, em que fixou
-o seu olhar? Talvez esteja lendo o meu futuro, que é decerto o futuro de
-todos os desgraçados... Nasce a agua entre estas sombras queridas que
-pendem dos troncos seculares. O destino impelle-a para longe. Ella lá
-vae, descendo de fonte em fonte, afastando-se cada vez mais do seu berço
-querido, até que se some, ao sopé da montanha, nos abysmos da terra. Quer
-v. ex.ᵃ que lhe desenhe melhor o quadro d’uma vida obscura e triste como
-ha de ser a minha? Oh! diga, diga, que estava lendo o meu destino na
-corrente d’esta floresta sagrada...
-
-—Quer saber o que estava pensando? respondeu Maria Luiza no tom firme
-d’uma resolução inabalavel. Não pensava no seu destino, pensava no meu.
-Olhe como a agua corre livre vencendo o dique d’aquella folha verde que
-encontrou no caminho. Pois bem. A agua da montanha é tão livre como eu.
-
-
-
-
-X
-
-
-Fez-se a luz.
-
-Descerraram-se de par em par as portas d’esse olympo esplendido aonde só
-podem subir duas almas identificadas n’uma unica aspiração.
-
-Eduardo Valladares sentiu n’um momento dissiparem-se todas as dúvidas,
-todos os receios, todas as angustias. Maria Luiza deixara-se fascinar
-pelos clarões rutilantes d’esse mundo que entrevira em sonhos e, irmã da
-mariposa, lançava-se á chamma sem curar de saber se encontraria a morte.
-São realmente dignas de estudo naturezas como a sua.
-
-Ha certas creaturas que entraram no mundo com o coração a trasbordar
-d’alegria.
-
-As scenas variegadas da vida absorvem-nas e enlevam-nas, como as
-cambiantes d’um caleidoscopo enlevam e absorvem uma creança.
-
-Tudo as namora, tudo as fascina. Seguem com estremecimentos de jubilo as
-choreas caprichosas das borboletas e das aves; parecem querer luctar com
-a perfidia da onda, quando estão á beira mar, e deixar-se-hiam morrer
-se soubessem que a morte era... alegre. Mas—singular contradicção!—um
-ligeiro incidente as commove; derrubae um ninho e vel-as-heis chorar.
-
-São porém nevoas que se dissipam com um sôpro. A alegria impelle-as, e
-ellas, as venturosas creaturas, deixam se deslizar suavemente por uma
-estrada de rosas...
-
-Um dia quer Deus que lhes embargue o passo o leito d’um moribundo,
-permittam-me o exemplo. Admirae-as então. Sabeis o que são estremos de
-dedicação inegualavel? Se não sabeis, vinde apprendel-os com ellas. De
-tudo se esquecem, tudo alienam, a propria vida, a felicidade, a alegria
-para se absorverem n’um unico pensamento e n’uma unica afflicção.
-
-É por isso que fomos encontrar Maria Luiza á beira do leito da pobre irmã
-como a mais solicita e dedicada enfermeira que jámais houve.
-
-É por isso que pudemos vêl-a, a ella, a inquieta toutinegra, ajoelhada
-sobre o tumulo querido, como o anjo da saudade, orvalhando-o de
-abundantissimas lagrimas.
-
-É por isso que a admiramos no momento de confiar o seu coração,
-immaculado e puro, ao homem que revelava, nos éstos d’uma paixão
-impetuosa, um coração egualmente puro e immaculado.
-
-É por isso que teremos de contemplal-a...
-
-Corre-nos obrigação de deixar a phrase incompleta. O romancista não pode
-accelerar a marcha dos acontecimentos com uma especie de velocidade
-electrica. Tem o dever de ser methodico e nós, que tentamos o primeiro
-passo no caminho do romance, devemos respeitar as tradições até hoje
-seguidas pelos fazedores de novellas veridicas e não veridicas.
-
-O que devemos dizer é que Eduardo Valladares e Maria Luiza se carteavam
-quasi diariamente.
-
-As dulcissimas phrases que se mutuavam adivinha-as o leitor.
-
-Os namorados—especialmente os namorados como Maria Luiza e Eduardo
-Valladares—fazem lembrar aquelles celebres habitantes de que fala Camões:
-
- Contam certos auctores
- Que, junto da clara fonte
- Do Nilo, os moradores
- Vivem do cheiro das flores
- Que nascem n’aquelle monte.
-
-De que vivem os namorados? Embriagam-se nos celestiaes aromas das
-flores que desabrocham nos rosaes escondidos no coração. O que elles
-sabem dizer é um como frémito de rosas baloiçadas por uma viração
-suavissima;—linguagem quasi mysteriosa apenas entendida por duas almas.
-Em que é que pensam? Em que é que sonham?
-
-Pensam e sonham nas amenidades do seu vergel encantado, nas flores do seu
-canteiro intimo, nas harmonias que uns desconhecidos rouxinoes gorgeiam
-por entre os invisiveis rosaes.
-
-«Tenho dó dos demonios; pois se elles não amam!» creio que escreveu
-algures Santa Thereza, _toda delirante de ternura_, como notou o mais
-vernaculo dos nossos escriptores contemporaneos.
-
-Oh! espiritos beatificos, que nascestes fadados para os arroubos
-asceticos, ó santos e santas da côrte celestial, até vós prelibastes as
-doçuras que resumbram do favo do amor!
-
-Quero lembrar-me tambem agora de que S. Francisco de Salles disse «que o
-amor tem o primeiro logar entre as paixões da alma»; e não sei ao certo
-quantos mais santos discretearam ácêrca do amor. Que admira, porém?
-Não se resumia a doutrina e philosophia do vosso divino Mestre n’este
-dulcissimo preceito: «Amae-vos uns aos outros»?
-
-
-
-
-XI
-
-
-—Nota que estamos a dezenove de setembro... disse João Nicolau de Brito,
-n’esse mesmo dia, a sua mulher.
-
-—Oh! homem! Felicidade como eu tive! Tu dispensas um repertorio! replicou
-D. Maria d’Assumpção.
-
-—Nota que estamos a dezenove de setembro. Isto quer dizer que faltam
-poucos dias para chegar outubro.
-
-—Ah! temos rabugice! Falas do Eduardo, pois não falas?
-
-—Falo do Eduardo, sim, senhora, falo do Eduardo. Ando cá desconfiado...
-
-—Desconfiado de que?
-
-—De que pegou o namorico com a Maria Luiza.
-
-—Deixal-o pegar.
-
-—Ora que tu não has de querer nunca desviar as tempestades imminentes...
-
-—Quaes tempestades imminentes? Deixa namorar o rapaz, que está no seu
-tempo. Que queres tu que se faça?
-
-—O peor é em se abrindo as aulas. Estou com receio de que gaste mais
-tempo a lêr nos olhos da Machado do que nos livros.
-
-—Deixa que lhe ha de chegar o tempo para tudo, se assim fôr. E depois
-quem te disse que elles se namoram? Que provas tens? Sabemos apenas que
-elle gosta d’ella; mais nada. O que é certo é que tudo isto tem sido uma
-felicidade. Olha como o rapaz está acclimado, como parece outro, como
-revê alegria!...
-
-—Por isso mesmo... Dize cá. Tu sabes se elles conversaram no Bom Jesus
-nos dois domingos que lá passámos?
-
-—Eu sei lá isso! Tu não viste que não sahi de ao pé de ti?
-
-—Pois domingo sou eu que quero ir ao Bom Jesus.
-
-—Para que? Para os veres conversar? Olha que vale a pena, na verdade!
-
-—Eu cá tenho tambem o meu systema...
-
-Seja-nos licito saber o que estava fazendo Eduardo Valladares ao tempo em
-que n’uma das salas contiguas ao seu quarto dialogavam d’esta maneira D.
-Maria d’Assumpção e João Nicolau de Brito.
-
-O que estaria fazendo? Escrevia. Transmittia ao papel as harmonias que
-lhe resoavam na lyra do coração: escrevia a Maria Luiza. E tão ligeira
-esvoaçava a penna sobre o papel, que, se o visseis, dirieis que eram
-pensamentos sem nexo, caprichos e devaneios d’um espirito radioso o que
-estava escrevendo:
-
-«Vinde e subamos ao monte do Senhor», escreveu o propheta.
-
-«E fomos, e subimos. Entrei na floresta sagrada e para logo senti
-inebriar-se a minha alma n’uma vaga e dulcissima esperança. Fui subindo
-e, á medida que subia, perpassavam no meu espirito as melodias que
-parece sahirem d’entre o arvoredo sombrio. Tudo é doce, tudo é inefavel
-na montanha do Senhor. Ha no interior d’aquella esplendida cathedral de
-verdura um como longinquo e continuo suspirar d’um orgão vibrado por mãos
-invisiveis.
-
-«Para aquelle concerto perenne da floresta contribue tudo quanto se
-esconde em tão deliciosas sombras: o arvoredo que murmura, as fontes que
-suspiram, as aves que chilriam dialogos maviosos, e os corações que se
-expandem na linguagem suavissima do amor...
-
-«Foi na montanha do Senhor que as nossas almas se identificaram para
-sempre n’uma unica existencia.
-
-«Foi lá que tu recebeste no teu coração as queixas do romeiro e lh’as
-devolveste em ridentissimas esperanças depois de purificadas no crisol
-d’um amor celestial.
-
-«E a tua voz sobrelevava todos os murmurios e todas as melodias da
-floresta e soou aos meus ouvidos como um hymno cadenciado na harpa d’um
-cherubim.
-
-«E eu repeti as palavras que momentos antes se me tinham deparado na
-legenda da _Esposa dos cantares_ e disse:
-
- A tua voz murmure a meus ouvidos[3]
-
-e deliciei-me nas cadencias inimitaveis que a tua bôcca jorrava ao
-murmurar: «A agua da montanha é tão livre como eu».
-
-«É pois certo? A tua alma é tão livre como a onda prateada que desliza
-por entre as verduras da serra e cae em chuva de perolas na amphora de
-cada fonte? A tua alma é tão livre que possa juncar de flôres a estrada
-dos meus dezeseis annos á semelhança da corrente da montanha que vae
-orvalhando as boninas da encosta?
-
-«Estavamos no _monte do Senhor_, na _santa Jerusalem_ e os teus labios
-falaram a linguagem do teu coração... Os échos da montanha guardam o
-segredo da nossa felicidade. Que as nossas esperanças todas se desatem em
-florecimentos perpetuos como os da primavera que cada dia enche de vida
-nova e nova opulencia a floresta sagrada.
-
- * * * * *
-
-
-
-
-XII
-
-
-Estava n’esse dia, como sempre, cheia de amenidade a alameda da Mãe
-d’Agua.
-
-—Que felicidade! dizia Eduardo Valladares apertando entre as suas as mãos
-de Maria Luiza. Que felicidade! Abençoado o teu amor que me dá confôrto
-e alento para ir procurar a realidade dos meus sonhos, dos nossos,
-devia dizer, onde quer que ella esteja... E todavia eu d’antes era
-triste, tão triste, que nem tu sabes! Meu pae, quando me surprehendia a
-escrever, dizia para minha mãe:—Este rapaz ha de ser desgraçado! Por que?
-perguntava ella com terna inquietação. Porque começa a sonhar muito cedo,
-concluia meu pae. Oh! dize-me que era falsa esta prophecia. Por que não
-havemos de ser felizes? Tu amas-me muito, pois não amas?
-
-—Que transformação completa na minha vida, Eduardo! As minhas amigas
-tinham-me á conta d’um coração que nasceu para ser livre como a aguia, e
-só para isso. Eu, porém, consultando-me a mim mesma, conhecia-me muito
-outra do que me suppunham. E não me enganei; bem sabes tu que me não
-enganei. Havemos de ser felizes. Sabes o que é ter no Céo um anjo que
-vela por nós a toda a hora? Lembra-te de minha irmã, que era um anjo,
-e fortalece-te com essa esperança. Se porém o Céo da nossa felicidade
-tem de se annuvear com tempestades invenciveis, se temos de separar-nos
-um dia para tomar cada um por differente caminho, se tudo isto tem
-d’acontecer, então que a alma de minha irmã me chame para o pé de si, que
-eu prefiro morrer a vêr-me sem ti no mundo...
-
-—Oh! Cala-te, cala-te, que me sinto morrer. Afasta da tua alma esses
-presentimentos sombrios, que são meras visualidades. Não somos nós
-felizes? Olhemos em redor de nós. Tudo placido e ameno como hontem e
-como ámanhã. E, no meio d’esta tranquillidade do ermo, não hão de sonhar
-as nossas almas em leito de rosas e esperanças? Para que havemos d’ir
-procurar os espinhaes que nos não vedam o passo? Põe de parte esses
-pavores imaginarios. Consulta antes a tua alma e pergunta-lhe se é tão
-firme que sacrifique todo o futuro a um affecto, se é tão corajosa que
-possa dizer ao desprotegido da fortuna: «Sei que és pobre, mas quero
-soffrer metade das tuas amarguras.»
-
-—Pois duvidas ainda! Pela alma de minha irmã te juro que o meu amor será
-eterno. Por que é falares de pobreza? Acaso eu, egualmente desprotegida
-da fortuna, podia levantar o meu espirito a desmedidas ambições? Que
-importa o valor da riqueza, quando se trata do valor da felicidade?
-Promette que não mais falarás d’um assumpto que magôa dolorosamente a
-minha alma. É tamanha a nossa esperança que ella só nos deve absorver...
-
-—Oh! perdôa-me...
-
-De repente uma voz conhecida, denunciando sobresalto, viera interromper o
-caloroso dialogo.
-
-O leitor vae saber o que se passou.
-
-João Nicolau de Brito, D. Maria d’Assumpção, e a viuva Machado ficaram-se
-a conversar, sentados nos poucos degraus que dão entrada para a
-hospedaria denominada hoje da Boa-Vista, com pessoas das suas relações
-que tinham procurado as sombras da floresta do Bom Jesus para se furtarem
-ás calmas de setembro.
-
-O sogro do bacharel Valladares, quando julgou opportuno espionar o neto,
-segredou á mulher:
-
-—Viste para que lado fôram as Machados com o rapaz?
-
-—Olha que está alli a mãe...
-
-—Pergunto-te se viste para que lado fôram as filhas. Não tenho nada que
-ver com a mãe.
-
-—Fôram por ahi acima e acho que estarão na Mãe d’Agua.
-
-João Nicolau de Brito levantou a voz e apostrophou:
-
-—Ora fiquem em santa paz, que eu já estou aborrecido d’estar sentado
-n’estes degraus. Vou por ahi acima espairecer um pouco.
-
-Sentada nos degraus do chafariz, que fica ao centro do largo dos
-Evangelistas, estava, absorta na leitura de não sei que romance, a
-menina Rosa Machado. Como quer que levantasse casualmente os olhos de
-cima do livro e reconhecesse ao fundo da avenida João Nicolau, correu
-pressurosa a dar rebate aos enamorados interlocutores da Mãe d’Agua. O
-que é certo é que quando João Nicolau chegou ao largo, depois de ter
-trilhado vagarosamente a longa avenida que parte do templo, já as duas
-irmãs Machados estavam sentadas nos degraus d’uma das capellas, e como
-que ambas embevecidas na leitura do mesmo livro.
-
-
-
-
-XIII
-
-
-—Sósinhas? exclamou João Nicolau ao vêl-as, dando assim largas á sua
-extrema admiração.
-
-—Nunca estão sós duas irmãs, respondeu de golpe Maria Luiza.
-
-—A ler, não é verdade?
-
-—A matar o tempo.
-
-—Que é do meu neto, que assim as deixa sem lhes fazer companhia?
-
-—O seu neto continua a ser poeta. Desde que chegámos aqui, embrenhou-se
-por essa alameda da Mãe d’Agua e lá está talvez devaneando a desafiar os
-rouxinoes.
-
-—Olhem que para boa lhe havia de dar!
-
-—Tambem acho que sim!... replicou Maria Luiza.
-
-—Se não era melhor estarmos aqui todos a conversar! accrescentou Rosa.
-
-—É que estes poetas gostam d’andar a conversar comsigo mesmos. Toda a
-minha vida ouvi dizer que se deve desconfiar de pessoas que falem sós.
-
-—Os poetas não falam sós, tornou Maria Luiza. Não posso deixar de
-censurar o procedimento de seu neto, sr. João Nicolau; mas quero levantar
-a luva que lançou a quantos versejam n’este mundo de Christo. Os poetas
-pensam como o sr. João Nicolau, como eu, como toda a gente. Se procuram,
-ás vezes, a solidão, é de certo para que os rumores do mundo lhes não
-interrompam os maviosos pensamentos.
-
-—Ande lá, que não pode negar que é affeiçoada á poesia...
-
-—Admiro-a, e mais a admiraria se pudesse comprehendel-a. Ora de poetas
-que teem seu tanto de mysanthropos, como o sr. Eduardo, é que eu não
-gosto. Quero a poesia que transige com os deveres sociaes. O Camões,
-segundo dizem, emquanto a fortuna lhe luziu, usava de boa cortezia com as
-damas da côrte.
-
-—E de que valeu ao Camões ser poeta? interrogou João Nicolau apoiando-se
-no braço de Maria Luiza e fazendo menção de voltar á hospedaria.
-
-—Valeu muito, respondeu ella, tomando pela avenida, de braço dado com
-João Nicolau. Valeu-lhe estarmos agora nós falando d’elle.
-
-—Sempre é ligarmo-nos muita importancia, pois não acha?
-
-—Tem razão. Eu devia ser menos vaidosa e mais verdadeira. Valeu-lhe
-a admiração de todo o mundo, porque todo o mundo admira o genio
-deslumbrante d’um homem que soube exaltar n’uma epopêa as glorias da
-patria que o deixou morrer de miseria.
-
-—Bravo, minha cara menina! Gostei d’ouvil-a!
-
-—O sr. João Nicolau está gracejando. Mas a verdade é que o genio de
-Camões conseguiu muito, na minha opinião. Deu a conhecer ao mundo
-civilisado o quadro das velhas glorias portuguezas, para que ficasse
-de pé a chronica nobilissima d’um povo quando as convulsões sociaes
-subvertessem a nossa individualidade historica. Uma epopêa é muitas vezes
-um epitaphio levantado sobre o tumulo d’uma nação que foi. Tenho ouvido
-dizer que os poemas de Homero e Virgilio representam hoje a Grecia e
-Roma. Quem sabe se os _Lusiadas_ serão a unica recordação que sobreviva
-ás ruinas de Portugal?
-
-—A modo que tem razão... Ora deixe-me ver se me lembro d’uns versos do
-José Agostinho, que vinham agora a proposito. Olhe que o José Agostinho é
-um poeta que me enche as medidas! Tem ouvido falar d’elle?
-
-—Ah! bem sei. Do José Agostinho não gosto.
-
-—Não gosta! Pois já leu?
-
-—O José Agostinho não tem sentimento nem inspiração.
-
-—Ora não diga isso!
-
-—São opiniões. O certo é que meu pae tinha algumas obras do José
-Agostinho e eu algumas folheei. Mas vamos aos versos, que os desejo ouvir
-recitados pelo sr. João Nicolau.
-
-—Deixe ver se me lembram. São do epicedio á morte do Bocage:
-
- Voando o tempo os seculos ajunta
- E co’as immensas incansaveis azas
- Cobre os vestigios da grandeza humana:
- Na Historia, os deixa só, e á vista os furta.
- De Esparta, a mãe d’heroes, mãe da virtude,
- Hoje occupa o logar mesquinha aldeia;
- De Epaminondas...
-
-Ora deixe vêr como é o resto... Ah!
-
- ...d’Aristides pisam
- Incultos Scythas barbaros os lares...
-
-O resto é que me não lembra.
-
-—Ora ainda bem que o sr. João Nicolau não é tão inimigo da poesia como se
-mostra!
-
-Chegavam finalmente ao extremo da avenida. João Nicolau, logo que pôde,
-chamou de parte a mulher e disse-lhe:
-
-—A rapariga lá doutora é e sabe mais do que eu, mas por emquanto não
-temos nada a recear...
-
-—Eu bem t’o dizia, homem de Deus, respondeu D. Maria d’Assumpção.
-
-—Sabes de quem devemos temer?
-
-—De quem é?
-
-—Das musas, mulher, das musas, que transtornam a cabeça ao rapaz!
-
-
-
-
-XIV
-
-
-João Nicolau de Brito assentou de si para si que não tinha ainda sido
-traspassado pelas frechas cupidinias o coração do neto, e em confidencia
-com a mulher lamentava que o cerebro d’um rapaz de dezeseis annos se
-deixasse eivar de semelhante monomania poetica, como elle dizia.
-
-D. Maria d’Assumpção escutava o marido com a maxima paciencia e, podemos
-dizel-o tambem, com a maxima reserva.
-
-—Lá que elle é um estudante distincto, isso é! exclamava João Nicolau,
-frequentes vezes, depois de abertas as aulas do lyceu bracharense. Os
-professores elogiam-n’o e dizem que o rapaz pode ser considerado, sem
-favor, o melhor do curso. Mas a dizer-te a verdade, mulher, não me parece
-que gaste muito tempo a estudar...
-
-—Ora por que dizes tu isso? Quem sabe é porque estuda. Não t’o elogiaram
-os mestres? Que mais queres? É preciso ter paciencia de santo para viver
-comtigo!
-
-—Não sabes por que razão digo isto? É por que o vejo ir todas as tardes
-para Guadelupe. Provavelmente vae para lá falar só e fazer versos. Ora um
-estudante não pode sahir todos os dias ou chova ou faça sol...
-
-—Oh! homem, quem te diz que elle não vae para lá estudar?
-
-—Qual estudar! Estudar o que? Em que livros? Só se fôr nas palmas das
-mãos... Que lá do namôro com a Machado acho que não temos a recear...
-
-—Pois ainda te não desenganaste!... O rapaz é um genio excentrico,
-e genios assim não são muito para amores... Quem sabe lá! Deixal-o
-versejar, que talvez chegue a ser como esse Castilho, de Lisboa, que,
-apesar de ser cego, é um poeta de fama, segundo dizem.
-
-—Qual poeta de fama! O meu poeta era o José Agostinho. Ainda não li nada
-do Castilho, mas vou jurar que não chega aos calcanhares do frade.
-
-—Pois não deves julgar de nada pelo que te parecer.
-
-—Deixemo-nos de rhetoricas. Com versos não se ganha a vida. Padre é que
-elle ha de ser. Disse e está dito. Lá como o tal estudantinho de Coimbra,
-de que falava o Sebastião na carta, é que me não ha de fazer. Se gostar
-da theologia, melhor para elle; se não gostar, que se aguente; e se
-morrer, que o leve a breca; a gente não nasce para outra coisa.
-
-—Estás hoje com instinctos sanguinarios. Olha que eu tenho medo de
-mata-mouros, homem!
-
-Chegou dezembro. Alvejavam, cobertos de neve, os cimos do Sameiro e da
-Falpêrra. As férias do Natal chamavam os filhos ausentes ao lar paterno.
-Eduardo Valladares veiu ao Porto consoar, e seis dias antes de terminarem
-as férias, estava já em Braga. João Nicolau ficou sobremodo admirado; D.
-Maria d’Assumpção comprehendeu tudo, mas conservou-se, como sempre, na
-defensiva.
-
-—Ó mulher! dizia João Nicolau na sinceridade da sua admiração. Pois elle
-chegou aqui, da primeira vez, com cara de ter perdido na renda, a tal
-ponto lhe entrou o mal das saudades, que foi preciso que lhe receitassem
-passeios ao Bom Jesus. Chega o Natal, vae ao Porto e rebenta-nos á porta
-seis dias antes de acabarem as férias! Eu declaro-te que não entendo nada
-de tudo isto!
-
-—Pois olha que tudo isto é claro como agua. É uma delicadeza do rapaz.
-Não quiz dar-nos campo a suppormos que estava aborrecido de nós. Repartiu
-as férias com os paes e comnosco. Quem fôsse menos desconfiado do que tu,
-só tinha motivo para se lisonjear.
-
-—Nada. Não vou para ahi, mulher. Rapazes não teem delicadezas com ninguem
-e muito menos com parentes. Aqui anda mysterio.
-
-—Mas tu bem vês que este rapaz não parece que o é. É preciso respeitar
-as suas esquisitices, para que não diga que lhe vendemos muito caro o
-beneficio que lhe estamos fazendo.
-
-—Pois sim, sim. Mas olha que o rapazinho é finorio e sabe muito bem o que
-faz.
-
-—Por isso mesmo é que nos quiz captivar com esta delicadeza. E depois
-pode ser que se lembrasse de que, vindo no ultimo dia de férias, talvez
-tu dissesses que tinha voltado a cumprir os seus deveres por de todo em
-todo não poder ficar no Porto...
-
-—Lá isso é que pode ser...
-
-—Isso é o que foi. O rapaz por emquanto porta-se dignamente e não
-descubro coisa que nos faça arrepender de o termos chamado á nossa
-companhia. É preciso não ser impertinente com gente nova, e sobretudo
-impertinente sem motivo...
-
-—Isto tambem já é velhice, mulher!
-
-
-
-
-XV
-
-
-Sebastião Valladares fez egualmente reparo na partida precipitada do
-filho e consultou o coração da mulher, que por ser de mulher e de mãe
-devia adivinhar e lançar luz sobre o que aos olhos do bacharel se
-afigurava mysterio. D. Adozinda serenou o ánimo do marido com estas
-placidas palavras:
-
-—Desvarios nem o genio lh’os tolerava, nem os podia ter que lh’os não
-soffria meu pae. Quando Deus quer, temos amores, e não vejo n’uns amores
-dos dezeseis annos sombra de tempestade que possa inquietar-nos.
-
-—Talvez seja isso, respondeu o bacharel. Olha que receio todavia por este
-rapaz, cujo temperamento, por demasiadamente ardente e delicado, se me
-afigura perigoso. O nosso filho tem grande inclinação á poesia e, como
-se não bastasse versejar, dá indicios de vir a sentir como verdadeiro
-poeta. Ha certas almas que, em vez de se repartirem pelo mundo exterior,
-tiram de si mesmas, á semelhança do pelicano, a seiva com que alimentam a
-propria vida. Ora o Eduardo, que me parece ter nascido fadado para eguaes
-destinos, precisava de ter a seu lado um conselheiro mais eloquente e
-menos severo que teu pae.
-
-—Dizes bem.
-
-—Até já me lembrei d’escrever ao Rodrigues, que é meu amigo desde a
-emigração, e que tem coração e intelligencia de sobra para mentor d’um
-espirito febricitante.
-
-São precisas algumas palavras d’explicação. Sebastião Valladares, natural
-de Vianna, havia completado o curso universitario quando, perseguido por
-suas idéas politicas, teve d’emigrar em 1828. A esse tempo contava elle
-vinte e cinco annos e tinha, sacrificado o coração, nas aras do amor, á
-senhora que, annos depois, desposara. João Nicolau de Brito possuia uma
-quinta, sombreada de copado arvoredo, á ourella do rio Lima; foi ahi que
-o bacharel Valladares vira, em dezembro de 1827, a formosissima dama
-bracharense, e foi d’ahi que se amaram.
-
-Compellido a emigrar, Sebastião Valladares vizinhou em Rennes de Almeida
-Garrett e de Manuel Rodrigues da Silva e Abreu. Ahi, nas angustias do
-destêrro, se estreitaram os laços que os deviam prender toda a vida. Em
-1832 voltaram á patria os saudosos emigrados: Manuel Rodrigues da Silva
-e Abreu era nomeado official do governo civil de Braga; Almeida Garrett
-voltava á politica e á litteratura; e Sebastião Valladares casava e abria
-banca d’advogado no Porto.
-
-João Nicolau era affeiçoado á causa absolutista e n’isto vae a razão
-da sua entranhada sympathia por José Agostinho de Macedo. Aos ouvidos
-do proprietario bracharense soavam continuamente aquelles dois
-enthusiasticos versos da _Viagem extactica_:
-
- No meio do clarão veio no throno
- Cercado d’esplendor Miguel Primeiro.
-
-João Nicolau apenas consentiu no casamento quando as instancias da
-esposa, estremosa pela filha, e o caracter decisivo da lucta civil não
-lhe permittiram resistir por mais tempo. Quando porém admittiu á sua
-presença o bacharel, disse-lhe de sobr’ôlho carregado:
-
-—Pode levar minha filha, se a quizer sem dote. Não sou rico e os meus
-padecimentos obrigam-me a despesas constantes; não posso desviar o que
-tenho. Em eu morrendo, e minha mulher tambem, levem tudo, que tudo lhes
-pertencerá então.
-
-Com o decorrer do tempo foi-se diminuindo a distancia respeitosa
-que separava sogro e genro, a ponto de João Nicolau tomar sob sua
-responsabilidade a educação do neto.
-
-Postas estas explicações, voltemos ao anno de 1851 em que se passa este
-caso que vimos historiando.
-
-Sebastião Valladares conservava com os seus dois amigos e
-correligionarios os estreitos laços d’amizade vinculados ao coração nas
-horas melancholicas do exilio. Almeida Garrett escrevia-lhe frequentes
-vezes. O bacharel, quando abria as cartas assignadas por _João Baptista_,
-costumava dizer:
-
-—Os amigos que se adquirem na desgraça são os verdadeiros.
-
-Manuel Rodrigues da Silva e Abreu estava a esse tempo exercendo o cargo
-de primeiro bibliothecario da Bibliotheca de Braga[4]. Dos tres amigos
-era o bacharel Valladares o menos favorecido da fortuna, mas não era
-o menos venturoso. Recusou sempre a protecção que os seus amigos lhe
-offereciam, nomeadamente Almeida Garrett. Costumava dizer o bacharel:
-
-—Trabalho todo o dia para viver, mas adormeço á noite tranquillo, e vivo
-escondido do mundo. O Garrett, tanto o Garrett politico como o Garrett
-litterato, tem soffrido que farte. Não lhe invejo a sorte.
-
-Tres annos depois, em 1854, expirava o reformador da litteratura
-portugueza; e só então, cerrado o tumulo, principiava a ser julgado como
-devia, no tribunal da posteridade, o que tanto merecera da patria e
-tamanhas injustiças colhêra na sua esplendida carreira.
-
-
-
-
-XVI
-
-
-O bacharel Valladares escreveu a Manuel Rodrigues da Silva e Abreu
-solicitando a graça de allumiar com bom conselho a estrada em que o
-inexperiente estudante arriscava os primeiros passos da sua mocidade.
-
-O bibliothecario de Braga, coração sem mancha e intelligencia
-distinctissima, acolheu o moço com a amenidade de tracto que lhe era
-peculiar. Eduardo Valladares, terminadas as aulas, subia ordinariamente
-á bibliotheca onde o velho amigo de seu pae estava labutando em azafama
-continua, e sobremodo se deliciava á sombra d’aquella arvore vetusta meio
-tombada para o chão.
-
-O auctor d’este livro reiteradas vezes teve a felicidade de, na sala
-da bibliotheca bracharense, ouvir a palavra sempre fluente e amena
-de Rodrigues Abreu. Infundia respeito ver levantar-se aquelle busto
-venerando, coberto de cans, d’entre montões de livros a que elle chamava
-_a sua familia_. Uma vez bibliothecario, empenhou-se afanosamente
-pela causa da bibliotheca. Não se cansou de pedir os indispensaveis
-melhoramentos materiaes, dos quaes o primeiro era inquestionavelmente
-maior espaço para a conveniente arrumação de preciosos livros que jaziam
-a monte. A sua voz clamou no deserto e nem a palavra auctorisada de tão
-respeitavel varão nem repetidos artigos da _Revista Universal Lisbonense_
-lograram obter despacho favoravel.
-
-Como se este constante e baldado empenho não fôsse canseira de sobra,
-Rodrigues d’Abreu entregava-se a trabalhos de bibliotheconomia e chegou
-a publicar sobre este assumpto um opusculo que denominou _Novidades
-bibliotheconomicas_.
-
-Para daguerreotyparmos o homem, que já hoje é da historia, aproveitemos
-os traços caracteristicos que nos offerece o sr. Soares Romeu Junior:
-«... Era alto de estatura, rosto claro e comprido, nariz proeminente,
-olhos escuros e a fronte espaçosa, coroada de alvissimas cans.»
-
-Do escriptor diremos apenas que trasladou o _Eliezer_, de Florian, a
-versos portuguezes, dos quaes o leitor pode avaliar o sabido quilate pela
-apreciação que de tão notavel obra fez no _Panorama_[5] o sr. Alexandre
-Herculano.
-
-Consagradas estas poucas linhas á memoria de Rodrigues d’Abreu,
-prosigamos em a nossa narrativa.
-
-Eduardo Valladares refez o seu espirito, nas horas feriadas de canseiras
-amorosas, em proficua leitura que lhe ministrava Rodrigues d’Abreu.
-Se levantava os olhos dos livros era para os fitar na imagem radiosa
-que lhe flammejava auroras no coração; e como quer que os livros
-substanciosamente doutrinarios tenham o seu tanto de agri-doces, Eduardo
-repousava da leitura nas amenidades do amor.
-
-O bibliothecario bracharense, quando escrevia ao bacharel Valladares,
-costumava dizer-lhe: «O teu filho é uma perola, mas receio pela
-felicidade d’um espirito que, em tão verdes annos, tamanhos merecimentos
-revela. Já que me arvoraste em medico espiritual, direi que o seu
-temperamento requer brandura.»
-
-No fim do anno lectivo de 1851 a 1852, Rodrigues d’Abreu abraçou jubiloso
-o estudante que sahia premiado das aulas preparatorias.
-
-Decorrido tempo, no fim de setembro de 1852, Eduardo Valladares subiu á
-sala da bibliotheca evidentemente sombrio, a ponto de inspirar sobresalto
-ao seu velho e dedicado amigo.
-
-—Recebi ordem terminante de meu avô para me ir matricular no Seminario,
-e o meu coração não pode resistir ao supplicio que esta resolução lhe
-impõe, disse com accento melancholico Eduardo Valladares.
-
-Na casa da rua do Carvalhal ouvia-se a esse tempo a voz atroadora de João
-Nicolau clamando:
-
-—Amanhã vae o rapaz matricular-se no Seminario. Lá o Rubicon do lyceu,
-vencido está. Agora vamos a vêr como se sae da theologia, que sempre é
-coisa mais séria...
-
-—É pois chegada a occasião de reflectires maduramente, respondia D. Maria
-d’Assumpção. D’esta decisão depende o futuro de teu neto, e não deves ser
-precipitado. É conveniente pensar.
-
-—Já pensei e tornei a pensar. Está dito, está dito. Vae matricular-se no
-Seminario.
-
-—Sondaste lhe porventura a vocação? Quem sabe se lhe repugnará o futuro
-que tu despoticamente lhe preparas, homem?
-
-—Despoticamente! Essa agora é muito boa! Pois é despota quem faz um
-beneficio?
-
-—Não digas beneficio. De quem ha de vir a ser tudo o que nós temos, pouco
-ou muito, senão d’elle ou dos paes?
-
-—Quem sabe o que Deus fará, mulher? O que é que nós temos? Algumas
-propriedades em Braga e uma quinta em Vianna! Olha a riqueza! E se vier
-uma doença prolongada não havemos de gastar quanto fôr preciso? Lá do
-Sebastião tenho pena, por que não é mau rapaz, á parte o ter desembarcado
-em 32 com não sei quantos outros _mindelleiros_ que vinham estropeados a
-ponto de mal poderem com a arma ás costas! Por isso é que mandei vir o
-rapazinho, e já que o pae m’o confiou posso pôr e dispôr á minha vontade.
-
-—Reflexiona, homem de Deus, reflexiona.
-
-—Mas que destino queres tu que se dê ao rapaz? Pensas que temos dinheiro
-para o mandar a Coimbra? Olha que um patrimonio fica em conta, mas
-uma formatura compra-se a peso d’ouro. E demais a mais fica-nos aqui
-debaixo da vista, e pouco será o que houvermos de gastar em livros. Está
-decidido. Amanhã vae matricular-se no Seminario.
-
-
-
-
-XVII
-
-
-Estamos em novembro de 1852.
-
-Na alameda da Mãe d’Agua respira-se no ar balsamico a suavidade d’uma
-primavera perpétua.
-
-Após dias de cerrada invernia, mostra se no formoso céo do norte este sol
-esplendido de Portugal, que é a delicia de nacionaes e extrangeiros.
-
-Esperava-se por um dia alegre e sereno para remoçar o espirito, cansado
-da monotonia da chuva.
-
-D. Maria d’Assumpção tinha falado n’um passeio ao Bom Jesus logo
-que o tempo estiasse; as meninas Machados receberam, por escripto,
-participação do alvitre e applaudiram-n’o sobremodo.
-
-Lampejaram n’um domingo clarões de formosissima aurora; deu-se rebate e
-preparou-se alegremente o rancho.
-
-João Nicolau subiu a montanha abordoado á sua bengala de canna da India,
-galhofando com ares de sincero e expansivo contentamento. Eduardo
-Valladares parecia, ao contrário de todos, entre concentrado e triste. O
-avô olhava para elle de soslaio e dizia de si para si:—«Lá vae o rapaz
-com a maldita poesia!»
-
-D. Maria d’Assumpção, que de sobra conhecia as angustias do neto, pensava
-compadecida:—«Pobre martyr!»
-
-Maria Luiza reprimia no coração dolorosas tempestades, e desabrochava nos
-labios um sorriso que daria fel bastante para muitas lagrimas.
-
-Cêrca do meio dia, Eduardo Vallares e Maria Luiza puderam encontrar-se na
-Mãe d’Agua.
-
-Foi dolorosamente triste o mudo dialogo d’uns olhos que, n’um momento de
-silencio, resumiram as mais pungentes expansões.
-
-Olharam-se, e não puderam articular uma unica palavra. Decorreram alguns
-momentos que valiam seculos d’angustia. O filho do bacharel Valladares
-pôde alfim dominar a commoção que lhe estrangulava a voz na garganta.
-
-—Esperava por este momento anciosamente, disse elle. Escrevi-te, procurei
-no écho da tua alma um allivio para os meus infortunios, mas escrever-te
-não bastava. Era preciso ver-te, ouvir-te, escutar-te. Ha dois mezes
-que eu abafo no coração a procella do desespêro. Oh! Dá-me um raio
-d’esperança para eu não morrer, dize-me ao menos que me amas para que
-eu tire das tuas palavras a coragem que me falta. Ha dois mezes que eu
-esperava a hora de poder escutar a tua voz como a alma condemnada aos
-tormentos do purgatorio deve esperar o momento de subir, expurgada das
-suas culpas, á bem-aventurança do Céo. Oh! isto é horrivel, meu Deus!
-
-A pobre menina tremia agitada pela convulsão dos nervos, e sentia
-fugir-lhe a voz e a vista.
-
-—Dilacera-me o remorso, continuou elle com violenta commoção—dilacera-me
-o remorso de ter acorrentado a tua alma angelica ao poste da minha
-desgraça. Sacrifiquei a tua alegria, a tua tranquillidade, o teu futuro,
-a tua vida ao egoismo do meu coração. Amar-te não bastava? Quiz tambem
-ser amado, e despenhei-te, anjo innocente, das paragens remançosas onde
-te libravas descuidosa e tranquilla. Quiz tambem ser amado e impuz á tua
-alma o sacrificio de exgottar o calix da amargura ao tempo que o teu
-amor dulcificava os filtros celestiaes que me embriagavam. Perdôa-me,
-oh! perdôa-me, por que o meu amor era immenso, indomavel, e eu preferia
-morrer, a ver desfeita a minha esperança, a ver desabar o meu sonhado
-paraiso...
-
-—Se te perdôo! murmurou maviosamente Maria Luiza. Perdôa-me tu, que é por
-mim que tu soffres...
-
-—Ah! interrompera a elle de golpe. Pois é certo que me perdôas? Que
-importa então que imponham á minha alma um futuro que ella não pode
-acceitar! O escravo, o humilde, o servo de gleba ha de erguer-se soberbo
-da riqueza da sua alma, e repellir a mão que ao mesmo tempo empresta
-um futuro que nos repugna e exige como hypotheca a felicidade de duas
-existencias consubstanciadas n’uma unica. Irei trabalhar para onde a
-sorte me levar; procurarei em toda a parte o que me vendiam aqui a trôco
-de lagrimas, mas terei no meu coração a dulcissima alegria da esperança,
-da esperança que me queriam roubar para me garantirem a felicidade
-material da vida, como se a vida sem a esperança não fôsse uma ironia
-cruel e deshumana! Irei, é preciso fugir...
-
-—Fugir! fugir! Dize antes que me queres roubar a consolação de
-compartilhar as tuas angustias. Fugir e deixar-me sósinha, entregue á
-minha saudade, á minha desventura, ao meu desespêro! Dize antes...
-
-—Cala-te, por alma do anjo que morreu beijando-te, cala-te. Peço-t’o eu.
-
-—Fugir! E querias assim despedaçar as ternas cadeias que nos prendem um
-ao outro, só para alimentares no coração a esperança de reatal-as um dia?
-
-—Perdôa-me, que eu fui cruel, porque me enlouqueceu a dôr. Não te ver,
-não te ouvir! E poderia eu viver? Iria morrer longe de ti, anjo do meu
-coração, sem ouvir na hora derradeira, á beira do meu leito, o murmurio
-das tuas orações...
-
-—E depois, com que profundissimas dôres não irias despedaçar o coração
-estremoso de tua mãe! com que maldito tormento não irias infernar a
-velhice de teu pae e levar a desgraça á serenidade alegre da tua casa!
-
-—Comprehendo a nobreza da tua alma, anjo. Agradeço-te por mim, por minha
-mãe, por meu pae, por Deus. Ficarei. Acceitarei resignado o sacrificio
-que me impõem e appellarei para a Providencia, que vela por todos os
-desgraçados. Juro-te que serei submisso.
-
-—Obrigada. Pertence-me metade das tuas afflições e como poderia eu luctar
-com o destino se me faltasses tu a dar-me alento nas horas attribuladas
-da nossa commum desventura?
-
-—E has de soffrer tu, santa do martyrio, que merecias a felicidade na
-terra? E hei de eu ser teu algoz, eu, que te amo até á loucura? E hei
-de eu ser teu algoz e sacrificar a tua alma immaculada, exigindo que
-soffras, que chores, que morras na lenta agonia dos desgraçados, só por
-que eu tambem agoniso, e choro e soffro? E não ha de Deus escutar-nos e
-não ha de o céo condoer-se das nossas afflicções! Oh! sinto na minha alma
-a labareda maldita do inferno!...
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-Não tinham decerto escutado ainda mais doloroso idyllio as arvores
-sombrias da _Mãe d’Agua_.
-
-Eduardo Valladares esperava com febril anciedade, como dissera, aquelle
-momento que se lhe afigurava decisivo. Durante dois mezes, apenas pudera
-entregar ao papel as pungentes confidencias da sua alma.
-
-Quando, nos ultimos dias de setembro, João Nicolau de Brito o chamou á
-puridade para ordenar-lhe, severo e inexoravel, que immediamente fôsse
-abrir matricula no Seminario, escutou o submissamente, abafando no
-coração a tempestade revôlta que, n’aquelle momento, fibra a fibra lh’o
-estava despedaçando.
-
-Sahiu da sala para correr á Bibliotheca, onde lhe ouvimos o brando
-queixume que o coração amigo de Rodrigues d’Abreu recolhera compadecido.
-
-João Nicolau, matriculado Eduardo no primeiro anno do curso de theologia,
-jubilava com o bom rumo que os seus planos tomavam hora a hora.
-
-Esperava talvez resistencia da parte do neto e cabalmente se enganou.
-Todos os dias o observava com olhos perscrutadores; via-o triste e
-sombrio, mas não extranhava.
-
-Não era elle de natural melancholico?
-
-Estas investigações quotidianas levaram-n’o a modificar as suas
-conjecturas. «O rapaz, dizia de si para si, acceita com boa disposição
-a vida ecclesiastica, esperançado talvez em alliar a poesia com o
-sacerdocio. E d’ahi quem sabe? Pode ser um vulto distincto em eloquencia
-sagrada.»
-
-E, uma vez possuido d’esta idéa, empenhava-se pelo destino do neto, no
-intuito de o ver ainda prégador da Real Capella, no que n’esse tempo
-consistia e ainda hoje consiste a maxima distincção com que podem ser
-galardoados os oradores sagrados portuguezes.
-
-Já é incentivo!
-
-João Nicolau não curava de razoar sobre a mesquinhez ou exorbitancia do
-galardão, nem cuidava de tirar a limpo que proventos e honras importava.
-N’isto se assemelhava com os mil e um pretendentes que sollicitam mercês
-honrosas actualmente; querem a venera seja qual fôr e custe o que custar.
-Com João Nicolau acontecia exactamente o mesmo. Firme no seu designio,
-declarou solemnemente á mulher e ao neto a suspensão temporaria de
-visitas com o proposito de não distrahir o espirito do futuro prégador da
-Real Capella. Queria-lhe parecer que esta medida de segurança attingia
-dois fins egualmente appeteciveis:
-
-_Primo_: Concentrar a attenção do novel seminarista nas materias
-theologicas.
-
-_Secundo_: Afastar cuidadosamente as distracções mundanas, que não só
-prejudicariam a regularidade do estudo mas até insinuariam na alma do
-neto philtros que não devem perturbar o espirito d’um sacerdote.
-
-D. Maria d’Assumpção andava sobremodo condoída das angustias do pobre
-Eduardo. Vira nascer a chamma do amor e confiava na brevidade com que
-usam levantar-se e morrer labaredas em corações que desabrocham.
-
-Era este o segredo da sua medicina. O amor passageiro dos dezeseis annos
-esperava ella que fôsse antidoto efficaz ás asperezas d’uma vida nova, e
-sobremodo aborrecida, em que o neto ia entrar.
-
-O que porém não pensou aquella boa alma foi que poderia tornar-se
-incendio o que se lhe afigurava chamma e que o coração dos dezeseis
-annos, como o coração de todas as edades, tanto procura o sol para
-aquecer-se n’uma hora de desconfôrto como para inflammar-se n’um momento
-de febril anciedade.
-
-Em Eduardo Valladares o amor não era devaneio; era a paixão intensa, a
-paixão que perde ou que salva.
-
-Estão-me agora cahindo dos bicos da penna uns certos dizeres de D.
-Francisco Manuel, que veem de geito: «Persuado-me que esta cousa a que
-o mundo chama amor, não é só uma cousa, porém muitas com um proprio
-nome. Poderá bem ser, que por isto os antigos fingissem haver tantos
-amores no mundo, a que davam diversos nascimentos; e tambem pode ser
-venha d’aqui, que ao amor chamamos amores: pois se elle fôra um só,
-grande impropriedade fôra esta. Eu considero dois amores entre a gente.
-O primeiro é aquelle commum affecto com que, sem mais causa que sua
-propria violencia, nos movemos a amar, não sabendo o que, nem por que
-amamos. O segundo é aquelle, com que proseguimos em amar o que tratamos,
-e conhecemos.»
-
-Eduardo Valladares amava Maria Luiza antes de a vêr. Em horas de
-dulcissimos arroubos creara a sua phantasia uma visão aerea, formada
-de perfumes e de estrellas, meio anjo meio mulher, meio do céo meio da
-terra... Este era o primeiro amor de que fala D. Francisco Manuel, o
-amor do ignoto e do intangivel. Depois, um dia, por acaso, encontrara
-a consubstanciação de todas essas particulas aereas, deixem-me assim
-dizer, encontrára na terra a realidade dos seus sonhos queridos e
-absorvera n’aquelle sentimento impetuoso toda a vida de que uma
-organisação extremamente delicada pode dispor.
-
-Para aquella alma ardente e sonhadora o amor não podia ter a serenidade
-das estrellas n’uma noite d’estio: devia de ser violento como as
-convulsões do vulcão que levanta ao céo as lavas encandescentes.
-
-D. Maria d’Assumpção enganava-se pois, como todas as almas que nasceram,
-dedicadas e boas, para o remanso dos affectos vulgares.
-
-Rodrigues d’Abreu, coração aquecido ao fogo da poesia posto que duramente
-provado pelas amarguras do mundo real, Rodrigues d’Abreu é que se não
-enganava assim, nem se deixava cegar pela tranquillidade apparente do
-filho do bacharel.
-
-O bibliothecario de Braga, que tinha tanto de poeta como de christão,
-andava sobremodo inquieto com os soffrimentos d’aquella alma cujos
-soffrimentos devassava. Lembrou-se de escrever a Sebastião Valladares com
-a rude franqueza de homens que choraram juntos as lagrimas do exilio.
-Escrever-lhe seria, porém, mostrar ao pae a profundidade do abysmo
-em que se debatia a alma do filho. Este alvitre rejeitou-o o honrado
-bibliothecario por demasiadamente impiedoso e cruel.
-
-Rodrigues d’Abreu bem comprehendera que Eduardo Valladares amava, e sabia
-que era coagido a seguir a carreira ecclesiastica. Não bastava todavia
-comprehender e saber isto; era preciso mais.
-
-Era preciso ao medico espiritual ouvir a exposição circumstanciada do
-doente. Receava porém provocar as labaredas do incendio latente, e este
-receio acobardava-o. Mas como deixaria consumir-se lentamente aquella
-alma cuja pureza aquilatara tantas vezes, elle, que era bom, dedicado e
-nobre? O velho bibliothecario, n’essas horas de attribulada incerteza,
-pedia ao Céo a luz da inspiração.
-
-
-
-
-XIX
-
-
-Rodrigues d’Abreu costumava abraçar-se, quando a sua alma carecia de
-confôrto, ao esteio d’um coração amigo, que era urna de balsamos para
-todas as afflicções.
-
-Frei Domingos do Amor-Divino, o conselheiro, o arrimo, o cyreneu do
-bibliothecario bracharense, tinha purificado o seu coração nas asperezas
-da disciplina conventual, nas tribulações da miseria e nas lagrimas
-choradas na solidão, deante d’um crucifixo.
-
-Carmelita descalço, foi sempre modêlo e exemplo nos cargos que teve de
-exercer em hospicios differentes por decisão do definitorio geral da sua
-ordem.
-
-Na rigorosa observancia do regimen monastico e na prática constante da
-virtude lentamente se mundificara a alma do religioso carmelita, já de
-natural propensa ao bem.
-
-O convento foi-lhe sempre chrysol desde que solemnemente professou no
-convento de Nossa Senhora dos Remedios, em Lisboa, até que, silencioso
-e compungido, sahira com o resto da communidade do convento do Carmo de
-Braga, dizendo para sempre adeus á casa que lhe devia ser tumulo.
-
-Nunca Frei Domingos do Amor-Divino se entrincheirou com as reixas do
-mosteiro para, a coberto de perseguições, accender odios partidarios
-e soprar injurias a qualquer das duas facções que por longo tempo se
-degladiaram em accêsa lucta civil.
-
-Não lhe ouviram nunca razoamento, nem sequer monosyllabo, que denunciasse
-o rumo das suas inclinações politicas.
-
-Quando chegava ás cellas do convento um echo das tempestades exteriores,
-costumava dizer Frei Domingos do Amor-Divino:
-
-—Não curemos de profundar essas negruras. A porta que se fechou sobre
-nós é uma como barreira que nos separa das desgraças que pesam sobre
-Portugal. Que o espirito do Senhor desça sobre nós e seja comnosco,
-irmãos.
-
-Retumbou finalmente aos ouvidos do carmelita um como trovão que parecia
-abalar os alicerces do convento: era a voz de debandada que se repercutia
-ao mesmo tempo no seio de todos as ordens religiosas de Portugal. Frei
-Domingos do Amor-Divino cruzou com os seus confrades um olhar afogado em
-lagrimas e desceu á claustra para se despedir da lage sob a qual esperava
-dormir o somno eterno. N’esse momento, voltavam umas andorinhas que
-tinham fabricado o ninho no friso da crasta.
-
-Foi dilacerante aquelle lance. As andorinhas, ficavam e a communidade...
-sahia.
-
-Frei Domingos do Amor-Divino foi um dos religiosos portuguezes que
-emmudeceram na sua dôr, e procuraram na solidão o refugio que não podiam
-encontrar em qualquer outra parte.
-
-Dissolvida a grande familia monastica portugueza e serenadas as tormentas
-politicas que mergulharam em rios de sangue as decantadas boninas das
-varzeas de Portugal, Frei Domingos do Amor-Divino assentou residencia em
-Braga.
-
-—Quero vêr a toda a hora o ninho das andorinhas, dizia elle referindo-se
-ao convento do Carmo. Ali lhes escutei o alegre chilrear e alli esperava
-morrer com ellas. O meu coração precisa d’este consôlo.
-
-Sua grande affeição á casa onde tinha vivido, esquecido do mundo, levou
-o a escolher cubiculo d’onde ao menos pudesse espreitar as torres do
-seu convento. Recolheu se Frei Domingos a uma pobre mansarda da rua do
-Carvalhal e ahi viveu a vida angustiada da miseria e da solidão. Muitas
-pessoas, que ajoelharam a seus pés com o coração requeimado, levantaram
-se do confessionario com os olhos marejados de lagrimas.
-
-Isto diz-se para até certo ponto se explicar o respeito com que os
-vizinhos o olhavam e cumprimentavam quando sahia e entrava.
-
-João Nicolau, se acertava vêl-o, dizia ordinariamente:
-
-—Ó mulher, estes pobresinhos dos frades, sem casa e sem pão, fazem
-realmente despedaçar a alma a quem os vê. E olha como o nosso vizinho
-vive resignado, que até se lhe rie o semblante! Deus perdôe a quem...
-
-E deixava quasi sempre a phrase incompleta para não evocar recordações
-pungentes que tinha recalcadas no coração.
-
-Um dia uma viuva desvalida, mãe de quatro filhos, ajoelhou supplicante
-aos pés de Frei Domingos.
-
-O virtuoso carmelita levantou-a compassivo e disse-lhe:
-
-—Se na minha mão estivesse remediar a vossa miseria, remediada estava.
-Não desanimemos porém. «Pedi e dar-se-vos-ha, buscae e achareis, batei
-e abrir-se-vos-ha» disse o Divino Mestre no sermão da Montanha. Sigamos
-pois o conselho de quem nol-o podia dar.
-
-E foi-se de porta em porta, seguido da viuva e das creancinhas, esmolando
-para a mãe e para os filhos.
-
-Rodrigues d’Abreu foi um dos não muitos corações que se enterneceram a
-lagrimas deante d’aquelle edificante e extranho espectaculo. Desde então
-nunca na alma do bibliothecario bracharense passava uma dôr intima, que
-elle não fôsse desafogal-a no coração de Frei Domingos do Amor-Divino.
-
-A sorte desventurosa do filho do bacharel Valladares trazia trabalhado
-de crueis angustias o espirito do bibliothecario bracharense. Foi pois
-n’umas das horas de doloroso cogitar a tal respeito, que na alma de
-Rodrigues d’Abreu passou um lampejo d’esperança, ao lembrar-se do muito
-que podia fazer, em tão apertado caso, Frei Domingos do Amor-Divino.
-
-Não hesitou um momento. Tinha pedido ao Céo a luz da inspiração e á conta
-d’inspiração celeste tomara elle o pensamento que o impellia para o
-religioso carmelita.
-
-Foi procural-o, falou-lhe, desdobrou-lhe o quadro das afflicções que eram
-d’outrem e que sentia como suas. Frei Domingos attendeu-o e escutou-o
-humilde e compassivo, respondendo finalmente:
-
-—É grave e trabalhoso demover o proposito d’um ánimo resoluto. Operemos e
-esperemos todavia. _Deus autem noster in cælo; omnia quæ cumque voluit,
-fecit._[6]
-
-Depois que Rodrigues d’Abreu sahiu do cubiculo da rua do Carvalhal, Frei
-Domingos do Amor-Divino ajoelhou-se deante do seu crucifixo invocando as
-graças do Céo. Durante a oração illuminou-se-lhe o espirito, e quando
-o carmelita se levantou, tinha já traçado o plano da obra espinhosa
-que tomara sobre si, esperançado no auxilio divino, como revelam estas
-palavras que murmurara ao oscular o crucifixo:
-
-—_In tribulatione mea invocavi Dominum, et ad Deum meum clamavi._[7]
-
-Depois desceu as escadas com extranhavel vigor, atravessou a rua e
-aldravou á porta de João Nicolau de Brito.
-
-
-
-
-XX
-
-
-Eduardo Valladares e Maria Luiza, na impossibilidade de fallar-se,
-viam-se apenas. Triste correspondencia era essa escripta com lagrimas
-de dois corações que se deviam estar inflorando, n’aquella sazão, em
-jubilosas primaveras. Não acontecia assim, porém.
-
-As cartas de Maria Luiza principiavam por palavras de resignação e
-fechavam com outras d’esperança; as de Eduardo Valladares tinham longo
-prefacio de desalentos e terminavam com assomos de mal contido desespêro.
-
-Demoremo-nos um momento a medir a profundeza de dois abysmos.
-
-Maria Luiza, alma que se desatara em perfumes e amores ao sôpro virginal
-do primeiro affecto, conhecia de sobra os despenhadeiros que lhe estava
-cavando um amor desventuroso, e resignadamente se deixaria despenhar
-só para não arrastar na queda outra alma que vivia sob o influxo d’uma
-estrella commum.
-
-Por isso, com o coração despedaçado, aconselhava a medicina da resignação
-e deixava entrever diluculos d’esperança através de uma chuva de lagrimas
-que não podia reprimir.
-
-Os vestigios das lagrimas choradas desvelariam a um espirito
-desassombrado o segredo que o coração de Maria Luiza com tamanho empenho
-recatava; bastariam para eloquentemente denunciar os soffrimentos crueis
-que ella procurava dissimular trocando em flores o orvalho dos seus olhos.
-
-Eduardo Valladares, moralmente sobreexcitado, lia as cartas e, diga-se
-a verdade, encontrava n’ellas um como refrigerio ministrado por mão do
-anjo da guarda; por momentos se tranquillisava com as esperanças a que o
-estava convidando o ánimo apparentemente tranquillo de Maria Luiza.
-
-Durava apenas momentos, como dissemos, a acção benefica da leitura. Após
-aquelle instantaneo repouso, rugiam de novo as mesmas tempestades e era
-então o revolver se no mesmo leito de Procusto, em desesperadora ancia.
-O que elle claramente via n’esses angustiosos momentos era o infernal
-dilemna que comprimia a sua vida entre dois estiletes rubros de fogo
-maldito:—Succumbir ou rebellar se.
-
-Succumbir era amortalhar se na batina do sacerdote; dilacerar o coração,
-dia a dia, hora a hora; despenhar em abysmo insondavel as mais formosas
-visões do céo da sua mocidade; separar-se d’ella, da mulher adorada, para
-nunca mais aspirar o perfume dos seus labios, e não só separar-se mas
-tambem infelicital-a; e depois passar sereno e tranquillo, aconselhando
-esperança, por entre os que se ajoelhassem para beijar-lhe a fimbria da
-batina. Rebellar-se era ter de fugir, levando para toda a parte o remorso
-de haver envenenado a tranquillidade do lar paterno; era ter de abandonar
-o anjo que na linguagem dulcissima do Céo lhe pedia que ficasse; era
-dar á sociedade o direito de insultar as suas dores mais santas; era
-finalmente faltar á promessa, que fizera, de esperar resignado o momento
-em que chovesse do Céo o refrigerio que só o Céo podia ministrar em tão
-difficil conjunctura.
-
-Ficou pois; como havia promettido.
-
-Approximam-se as férias do Natal de 1852 e Eduardo Valladares denunciou
-vontade de não vir ao Porto, pretextando trabalhos escholares,
-especialmente o de redigir duas dissertações.
-
-É que se não via com a coragem precisa para abeirar-se de sua mãe sem
-revelar os segredos que lhe corroíam o coração, sem lhe dizer que tudo
-quanto parecia sujeição voluntaria era sacrificio de victima impotente,
-e sem lhe attribular para sempre as horas que á boa senhora corriam
-remançosas ao lado do marido.
-
-Em meado de dezembro, n’uma quinta-feira que amanhecia radiosa como
-para descoalhar as neves que alvejavam nas agulhas das serranias,
-especialmente no Gerez, Eduardo Valladares deixou-se ir, de rua em rua,
-absorto nos pensamentos que lhe preoccupavam o espirito.
-
-Ao desemboccar no Campo de Sant’anna, sahiu-lhe ao encontro um
-seminarista seu condiscipulo, um tal Mendonça, natural de Guimarães,
-talento contubernal de homens devassos nos alcouces bracharenses, brigão
-de emboscadas nocturnas, que seguia a carreira ecclesiastica para
-acobertar com a batina as ulceras d’uma alma devastada pelo vicio.
-
-A approximação d’este sujeito façanhoso, que apregoava, chanceando-se,
-as repugnantes aventuras de sua chronica, entediava sobremodo Eduardo
-Valladares, o qual pensava, ao vêl-o, na maneira por que a sociedade
-costuma encarar o padre que sacrifica a propria felicidade aos pés de
-Deus, e o padre cujos dedos empeçonhados da lepra do crime devem macular
-a alvura do amicto.
-
-Eduardo Valladares pensava n’isto e conhecia que a sociedade não
-levantava entre um e outro barreira que pudesse distancial-os, para que
-a lama, levantada na passagem do mau padre, não fôsse salpicar a face do
-sacerdote exemplar.
-
-Esta distancia conservava-a Eduardo Valladares no seu espirito, que
-é unicamente onde se pode distinguir vicio e virtude quando é uso
-confundil-os e tomal-os um pelo outro só para se não castigar o vicio nem
-premiar a virtude.
-
-N’aquella dolorosa introversão do seu espirito, via se Eduardo Valladares
-já sacerdote, offerecendo todos os dias a Deus no calix do sacrificio a
-vida que lentamente lhe arrancavam e, como se isto não fôsse provação de
-sobra, via-se tambem exposto aos chascos da sociedade que insulta um raro
-exemplo de virtude, quando elle apparece, por estar habituada a encontrar
-a torpeza, a cada hora, nas praças como nos templos.
-
-Corroendo a arvore sacrosanta do evangelho, regada pelo suor dos
-virtuosos cultores e mimosa dos cuidados d’elles, descobria o ominoso
-áspide, o verme da reacção, que contramina a obra piedosa e envenena
-com a baba immunda os fructos que puderam ser opimos, damnificando a
-colheita. Quando apparece o modêlo das verdadeiras virtudes evangelicas,
-quando surge, de longe a longe, um Frei Domingos do Amor-Divino,
-a sociedade, na maxima parte, repelle-o e vitupera-o e apedreja-o
-irreverentemente.
-
-No dia em que o religioso carmelita sahira a mendigar de porta em
-porta para a viuva e para os quatro orphãos, não muitos, como já
-dissemos, foram os corações que se abriram ao benefico influxo d’aquelle
-espectaculo edificante. Muitos o repelliram com desamor e remoques d’esta
-laia:
-
-—Que peça para um, que já não é pouco. A gente não tem obrigação de
-sustentar as familias dos frades pobres e devassos...
-
-E Frei Domingos sahia, com a sua velhice e com a sua humildade, chamando
-mentalmente o medico divino para o coração empedrenido.
-
-O seminarista de Guimarães abeirou se de Eduardo Valladares com rude
-familiaridade:
-
-—Ó homem! estava longe de te encontrar aqui! Tão recatado vives, que não
-ha pôr-te a vista senão á hora da aula! Ora dize-me uma coisa. Tu levas
-isto a sério ou usas de santimónias de Tartufo?
-
-O filho do bacharel fitou com admiração o de Guimarães e ponderou entre
-delicado e digno:
-
-—Não comprehendo, como desejava, a referencia da palavra _isto_. Tens a
-bondade de m’a explicar?
-
-—Isto, replicou Mendonça desfechando uma gargalhada, isto, é a alienação
-do direito de ser homem, que a sociedade nos quer impor, a nós, os que
-seguimos a vida ecclesiastica; isto, é a investidura ridicula da batina;
-isto, é a tonsura com que nos cerceiam os cabellos emparelhando-nos
-aos scelerados que estigmatisavam nos logares publicos; isto, é este
-assentamento de praça na milicia sagrada, que não pode deixar de ter as
-liberdades de todas as milicias...
-
-—E isso, o que tu disseste, replicou Eduardo Valladares, é a linguagem
-desbragada do soldado que veste as armas, não para militar pela causa que
-jurou, mas unicamente para ter direito á pilhagem...
-
-—Santimónias de Tartufo, bem dizia eu! Olha que nem tu nem eu havemos
-d’enriquecer com a pilhagem. E d’ahi, pode ser que tu chegues a fazer
-casa... Quantas missas tencionas dizer por dia?
-
-Eduardo Valladares ia denunciar o asco que lhe estava causando
-aquelle falar licencioso, quando um maltrapilho, que passava, bateu
-familiarmente no hombro de Mendonça e apostrophou:
-
-—Ó homem! eu dormi quatro horas e tu não havias de dormir muitas mais!
-Perdi tudo... A sorte negou-se, e deixou-me a tinir!
-
-Eduardo Valladares foi seguindo seu caminho, sobremodo entendia da
-approximação d’aquelle repulsivo caracter. O de Guimarães e o maltrapilho
-ficaram conversando e revendo provavelmente as paginas ascorosas da
-historia d’uma noite passada em qualquer espelunca de jôgo.
-
-O filho do bacharel foi seguindo sempre pelo Campo de Sant’Anna adeante
-e, transposta a egreja de S. Victor, sentou-se no caminho desfrequentado
-a olhar para o arvoredo que ao de leve ondulava na encosta do Bom Jesus.
-Ahi, n’esse cogitar em si mesmo, passou duas horas que tanto tiveram de
-tribulação como de doçura. N’aquelle seu ermar havia um misto d’esperança
-e desespêro, que praza a Deus que os que hoje se julgam felizes nunca
-possam comprehender.
-
-O leitor, que se defrontou já com o perfil respeitavel de Frei Domingos
-do Amor-Divino, ponha os olhos no reverso da medalha, n’este seminarista
-de Guimarães, que já cem vezes ou mais deve ter levantado com mãos
-impuras o calix que Frei Domingos offerecia a Deus todos os dias, e
-depois volte a pagina e leia o capitulo seguinte para restituir á sua
-alma as doçuras religiosas que os labios de nossa mãe coáram aos nossos
-ouvidos quando nos ensinaram as primeiras orações.
-
-
-
-
-XXI
-
-
-João Nicolau vinha, com uma braçada de flores, de jardinar nos seus
-canteiros, quando ouviu bater á porta. Foi elle mesmo abrir e entre
-admirado e contente se mostrou ao dar de rosto com Frei Domingos do
-Amor-Divino. Não teve mão em si que, ao conduzir para a sala o carmelita,
-não fôsse gritando com alegre alvoroço:
-
-—Anda cá, Maria, anda cá. Está aqui o nosso vizinho Frei Domingos; não te
-demores, anda de pressa...
-
-D. Maria d’Assumpção acudiu pressurosa ao clamoroso chamamento e, quando
-encarou no marido que embraçava ainda as flores, pediu desculpa após
-desculpa de tão descerimoniosa recepção.
-
-Frei Domingos respondeu com jovialidade:
-
-—Com flores me receberam; não pode haver mais galhardo acolhimento.
-O snr. João Nicolau está-me fazendo recordar agora d’uma passagem de
-Salomão. Ora lá vae e tenham paciencia; isto é veso incuravel de frade
-velho: «Desci ao jardim das nogueiras para vêr os pomos dos valles e para
-examinar se a vinha tinha lançado flor e se as romãs tinham brotado». Foi
-o sr. João Nicolau vêr as flores do seu jardim e mimosas as encontrou, a
-julgar pelas que trouxe. Não ha, pois, razão para desculpas e não falemos
-mais n’isso.
-
-—Ó sr. Frei Domingos, replicou João Nicolau, nunca eu desço ao quintal
-que não sinta um peso na alma ao deitar os olhos para as torres do Carmo.
-Ai que tristes recordações!...
-
-—Não podes falar n’outra coisa! atalhou D. Maria d’Assumpção.
-
-—Não me molesta, antes me consola o assumpto, respondeu Frei Domingos.
-É sempre doce para o coração d’um filho ouvir falar da casa paterna; e
-tanto eu quero ainda áquelle tecto, que me fiquei por aqui para o estar
-namorando a toda a hora...
-
-—Perseguirem os frades! regougou João Nicolau. Que mal lhes faziam? Não
-houve delicto de que os não accusassem!...
-
-—Não sejamos tão severos, não sejamos. Nos conventos, como em todas as
-sociedades, havia trigo e joio.
-
-—Isso assim é, acudiu João Nicolau. Lá diz o que escreveu _Os frades
-julgados no tribunal da razão_[8], curioso livrinho que tenho alli, lá
-diz elle: «A primeira familia do mundo teve um Caim».
-
-—Bem disse o auctor e com verdade falou. No convento havia homens e
-por tal razão idéas e sentimentos diversos. Mas entre tantas cabeças
-e tantos corações alguma cabeça haveria que pensasse reflectidamente,
-algum coração haveria propenso ao bem e ao justo. A obra d’esse varão
-aproveitaria ao mundo. Muito melhor o diz o livro sagrado: «Pequena é a
-abelha entre os animaes volateis, e com tudo isso logra o seu fructo a
-primazia da doçura»[9].
-
-D. Maria d’Assumpção escutava enlevada e ao mesmo tempo compadecida das
-angustias do frade.
-
-—Tudo quanto havia de bom, fora e dentro dos conventos, tudo a guerra
-nos levou, ponderou João Nicolau. Perderam-se vidas, correram rios de
-sangue, consumiu-se, matou-se, espoliou-se... As consequencias fôram
-tristes como os factos.
-
-—Sou extranho a tudo o que respeita a politica; no convento desconheci-a
-sempre; fora do convento egualmente a desconheço.
-
-—Ler a historia da guerra civil, disse João Nicolau, é doloroso; feliz
-quem se puder forrar a semelhante leitura.
-
-—D’essa historia, respondeu Frei Domingos, sei apenas que o sr. D. Pedro
-era um principe portuguez, que já morreu e que o sr. D. Miguel, seu
-irmão, é outro principe que vive em terra extranha.
-
-—Pobre e saudoso, elle, o sr. rei, o rei legitimo, como provou José
-Agostinho, como provou Frei Matheus da Assumpção, e como provaram tantos
-outros!
-
-—Pobre e saudoso se me afigura que deve viver. Mas, exclamou Frei
-Domingos com ar prazenteiro, fechemos as chronicas nacionaes que estão
-ainda a rever sangue. É tempo de expor o motivo que me levou a entrar na
-casa desconhecida...
-
-—Muito prazer nos deu a sua visita, sr. Frei Domingos, apostrophou D.
-Maria d’Assumpção.
-
-—Não sabe quanto me apraz relacionarmo-nos! accrescentou João Nicolau.
-Espero que continuará a dar-nos o gosto de o vermos e ouvirmos. E depois
-tenho cá um meu neto que anda no Seminario e que precisa de pedir sombra
-a boa arvore. O sr. Frei Domingos sei eu que não se recusa a uma obra
-piedosa.
-
-—Nada sou e nada valho. Se não é molesta a minha presença, virei. Não
-ha melhor asylo do que o aposento do varão honesto e honrado. Ah! mas
-reatando a conversa... Costumam alguns corações piedosos encarregar-me,
-n’esta grandissima festa do Nascimento, de distribuir esmolas por
-pessoas realmente carecidas. Sempre é bom prevenir, e mais sabem tres do
-que um. Não tem o snr. João Nicolau pessoa de suas relações que se veja
-em estado d’acceitar a moeda abençoada da caridade?
-
-—Oh! sr. Frei Domingos! A sua lembrança penhora-nos! exclamou D. Maria
-d’Assumpção. Temos, sim, senhor. A Joaquina, que fez em tempo os recados
-da nossa casa, está pobre e entrévada ha dois annos e, se lhe não valesse
-o auxilio da caridade, já teria morrido de doença e miseria.
-
-—É verdade, a Joaquina! bem empregada esmola! confirmou João Nicolau.
-
-—Pois esperemos o Natal, e da colheita repartiremos pela entrevada
-Joaquina, perorou Frei Domingos, levantando-se para sahir.
-
-Á despedida, João Nicolau e D. Maria d’Assumpção reiteraram instancias
-que demovessem o frade a prometter nova visita e, quando elle transpunha
-o limiar, ficaram ambos dizendo:
-
-—Frei Domingos é uma santa alma!
-
-As mesmo tempo ia monologando o carmelita:
-
-—_Dominus Deus auxiliator meus_[10]. Deus me guiará pelo caminho
-appetecido.
-
-
-
-
-XXII
-
-
-—Temos passado as férias,—disse D. Maria d’Assumpção a João Nicolau, sem
-darmos um unico passeio! Eu acho que já estou trôpega. Nada! É preciso
-aproveitar estes dois dias. Em se abrindo as aulas, começa a gente a
-cabecear com somno como se a casa fôsse de ermitões. E agora, que são
-férias, parece que tambem era prohibido falar em passeios para não
-distrahir o nosso estudante!...
-
-—Ó mulher! tu não tens lembrado... Eu estou por tudo.
-
-—Pois não vês que este rapaz, de genio triste, não pode supportar
-semelhante viver de velhos?
-
-—Olha que é preciso educal-o para a vida que ha de levar. A vida do bom
-sacerdote deve ser a vida do descanso e da meditação... Põe os olhos em
-Frei Domingos...
-
-—Pois quando elle fôr padre, falaremos. Guiemol-o por bom caminho, mas
-não o opprimamos. A oppressão dá causa, por via de regra, á reacção.
-
-—Reagir, elle! Não se reage contra as proprias inclinações. Em tempo
-pareceu-me que era avesso á carreira ecclesiastica. Hoje estou
-completamente convencido de que sonha com as glorias do pulpito e com o
-renome conquistado pelas suas homilias futuras. É que o chama para alli o
-coração, e esta coincidencia de encontrar o animo do Eduardo affeiçoado á
-minha vontade, só a Deus a posso agradecer. Por isso, para satisfazer aos
-deveres que me aconselha a consciencia, é que já lhe comprei outro dia os
-sermões do Padre Antonio Vieira...
-
-—Por mais audaciosas que sejam as aspirações do rapaz, por maior que seja
-a sua tendencia para a vida ecclesiastica, sempre te direi que a leitura
-de sermonarios deve ser muito indigesta para um espirito de dezesete
-annos.
-
-—Sim! hei de talvez dar a ler essa praga de romances, que se introduziu
-em Portugal ha poucos annos, a um rapaz que eu educo para ser um padre
-digno dos respeitos da sociedade! Que mau padre não o quero eu. Prefiro
-vel-o morrer. Frei Domingos é o typo que eu escolho como padrão do bom
-clerigo.
-
-—Ora essa! Pois tu imaginas que ha muitos Frei Domingos?! Uma alma assim
-manda-a Deus á terra para allivio dos infelizes.
-
-—Não digo que seja egual, que eu sou o primeiro a reconhecer em Frei
-Domingos virtudes excepcionaes. Ninguem tem por elle mais respeito e mais
-dedicação do que eu. Quero porém que o exemplo do nosso vizinho aproveite
-á sociedade; bem sabes que deve ser de bençãos a sombra d’aquella arvore
-veneranda.
-
-—Disseste «sociedade» e querias referir-te ao Eduardo. Percebi a tua
-intenção. Pois se tu dissesses a Frei Domingos: «Tenho aqui encarcerado a
-sete chaves este rapaz de dezesete annos, só para que não se acalente ao
-sol do mundo» verias como elle te havia de responder: «Deixe-o entregue
-ás alegrias castas da sua idade, e não opprima o coração delicado.»
-
-—Ó mulher! pois eu opponho-me? Valha-me Deus! Passeiemos. Já agora
-encarreiramos para o Bom Jesus. Pois vamos lá; e se queres ir para outro
-sitio, dize.
-
-—Vamos ao Bom Jesus que é mais commodo e menos dispendioso. Vamos lá
-depois d’amanhã passar o dia. Visto que está em costume, mando dizer ás
-Machados.
-
-—Pois manda. Depois não me chames ermitão...
-
-D. Maria d’Assumpção vingára o seu proposito. O que ella queria era
-alliviar por um momento as sombras espessas que ennoiteciam dia a dia,
-cada vez mais, a alma do neto. Tanto lhe bastava, e para isso era preciso
-não dissipar as illusões do marido, o que seria o mesmo que fazer
-subitamente estalar uma tempestade. João Nicolau, inimigo figadal do
-romantismo, andava acumulando de velharias mysticas a estante de Eduardo.
-
-A pobre senhora conhecia a inconveniencia, mas nem se oppunha, nem sequer
-mostrava desagrado. Esperava em Deus. Era para o Céo que ella appellava
-na impossibilidade de suster a marcha de acontecimentos a que era
-contraria.
-
-A antipathia de João Nicolau pelo romantismo, aquelle odio explosivo
-votado ao romance tal qual o architectára Garrett no _Arco de Sant’Anna_
-e principalmente na historia da Joanninha das _Viagens_, póde explicar se
-ainda pela cega dedicação a José Agostinho de Macedo e á seita litteraria
-seguida pelo auctor da _Viagem extatica_.
-
-Tudo o que não fosse a declamação emphatica vasada nos velhos moldes
-aristotelicos, era somenos para João Nicolau. Bem se lembrava elle
-de que o seu auctor favorito escrevera: «Depois da praga gazetal o
-_romancismo_ é a peste litteraria, que mais tem grassado por toda a
-Europa. Assim que W. Scott, e o Byron em Inglaterra, e em França seus
-macaquinhos, Lamartine, d’Arlincourt, Victor Hugo e outros de igual jaez
-publicaram seus monstruosos delirios, logo houve em Portugal quem os
-imitasse.» Estas palavras, e as mais que se seguem, e não nos permittimos
-transcrever, acepilhadas de quejandas blasphemias, eram doutrina corrente
-e moente para o velho absolutista.
-
-D’aqui, e da esperança de vêr o neto prégador da real capella, provinham
-as frequentes compras de sermonarios e chronicas milagreiras para a
-estante, dia a dia enriquecida, do filho do bacharel.
-
-No quarto de Eduardo Valladares havia, porem, um livro não recheado de
-erudição fradesca nem modelado pelos velhos paradigmas litterarios.
-Esse era o livro querido, o livro sempre lido, sempre veneno e sempre
-balsamo: era o _Eurico_, do sr. Alexandre Herculano. João Nicolau,
-indifferente senão adverso aos applausos que esta obra notavel
-despertara, suppunha o neto, por via de regra, absorvido em leituras
-devotas, á hora em que elle aliás estava vendo a sua alma no espelho em
-que se projectava o perfil do presbytero de Carteia.
-
-Não era Eurico um desgraçado como elle ou elle um desgraçado como Eurico?
-
-Ambos amavam, ambos soffriam, ambos choravam, e ambos podiam perguntar a
-si mesmos: «Que fôra a vida se n’ella não houvera lagrimas?»[11]
-
-A viuva Machado, convidada de vespera para tomar parte no passeio ao _Bom
-Jesus_, respondeu que gostosamente iria se, d’um dia para o outro, se
-não aggravassem uns leves incómmodos que todavia a não deixavam sahir.
-D. Maria d’Assumpção ficou muito contrariada, mas não era conveniente
-transferir o passeio, e foi.
-
-Eduardo Valadares chegou á floresta do Bom Jesus com o coração
-despedaçado. Era a primeira vez que alli entrava sem Maria Luiza, e a
-folhagem verde da encosta, quando elle passava, parecia murmurar este
-nome; d’aqui o olhar para si mesmo e fugir apavorado da solidão dolorosa
-da sua alma. Mas o que era isto, esta saudade ao mesmo tempo suavisada
-pelas doces recordações que lhe eram socias, o que era esta triste
-solidão a par da solidão perpetua a que a sua alma se via condemnada;
-das infinitas dores curtidas nas longas horas das noites de vigilia, das
-lagrimas choradas, das esperanças para sempre perdidas, das lacerantes
-recordações que elle em vão tentaria abafar, e que de si mesmas
-resurgiriam, umas após outras, no espirito do presbytero?
-
-Insensivelmente foi procurando o trilho da Mãe d’agua; ia-o guiando o
-coração, sem que elle désse por isso.
-
-Era aquella a mesma alameda, aquella a mesma cupula de verdura, o
-mesmo cedro em cujo cortix entalhara as iniciaes M. L., o mesmo ar
-cheio de murmurios, a mesma corrente suspirosa, a mesma sombra e a
-mesma suavidade. Mas faltava ella, a doce companheira, a visão formosa
-d’aquella tão doce estancia, e a solidão era triste, pesada, esmagadora.
-
-Um livro, o livro de todos os dias, de todas as horas, fôra mais uma vez
-aberto no momento em que mais era preciso.
-
-Eduardo Valladares folheava o _Eurico_, e os seus olhos deletreavam estas
-palavras:
-
-«Outras noites, em que mais tranquillo podia a sós comigo engolfar-me
-nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha interpôr-se entre mim e a
-lampada mortiça que me allumiava, e o hymno do presbytero de Carteia, que
-devia talvez escrever-se nos livros sagrados das cathedraes de Hespanha,
-ficava incompleto, ou terminava por uma blasphemia secreta; porque te
-via tambem sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz com o teu amor, e eu
-tinha então sêde... sêde de sangue... Era uma lenta agonia! E sempre tu
-ante mim: nas solidões das brenhas, na immensidade das aguas, no silencio
-do presbyterio, nos raios esplendidos do sol, no reflexo pallido da
-lua, e até na hostia do sacrificio... sempre tu!... e sempre para mim
-impossivel!»
-
-—Impossivel! repetia Eduardo Valladares. Impossivel!
-
-E no seu hombro pousára a mão d’alguem que elle não vira.
-
-Quem era?
-
-
-
-
-XXIII
-
-
-Era ella, Maria Luiza.
-
-Eduardo Valladares, por um momento, julgára sonhar. Todavia o seu
-anjo adorado, entre o qual e elle se ia cavar o abysmo insondavel do
-impossivel, estava alli, soluçante, convulso, com os olhos merejados de
-lagrimas.
-
-A viuva Machado, restabelecida da ligeira indisposição da vespera,
-accedera ás instancias das filhas e resolvera ir, posto já não pudesse
-acompanhar D. Maria d’Assumpção.
-
-O moço seminarista, na violenta sobreexcitação que o agitava, deixara
-assomar aos labios a tempestade que lhe refervia na alma.
-
-—Impossivel! murmurava elle. E sabes tu o que é o impossivel? Sabes o
-que é a distancia infinita que separa o reprobro da estrella polar que
-elle vê através das reixas do carcere? Sabes o que é morrer abafado na
-propria dôr, na dôr que não tem linitivo, que não tem cura, que não tem
-um só momento de repouso, um só instante d’esquecimento? Pois bem, entre
-nós que nos amamos e que vivemos a mesma vida, vai abrir-se a voragem do
-impossivel, como se dissesse que vai sentar-se o espectro da morte, para
-o vêrmos a toda a hora em glacial immobilidade, sem querer condoer-se
-das nossas afflicções. Morrer! Que influxo benefico não coaria a morte
-aos nossos corações calcinados por metal candente! Que felicidade não
-sorri na morte ao desgraçado! Será fraqueza pedil-a? Pois se o coração
-trasborda de lagrimas como o oceano na tormenta, pois se a alma foge de
-si mesma amedrontada, como do espectaculo sombrio d’um tumulo aberto,
-porque não hade perdoar o Deus de misericordia a quem fica prostrado
-na via dolorosa exclamando: Senhor! os meus olhos cegaram de chorar;
-illuminae em troca a minha alma com o resplendor das vossas eternas
-auroras?! Não sabes tu que o Salvador da humanidade, alanceado o coração
-de supremas angustias, elevava o seu espirito attribulado ao Deus das
-alturas, cujo filho era, exclamado exhausto: «Meu Deus, meu Deus, porque
-me desamparastes?» E não havemos nós, corações terrenos, pedir ao Céo, na
-cerração da vida, que nos aproxime do tumulo, da porta que se abre sobre
-nós dando passagem aos fulgores inextinguiveis da eternidade?
-
-Maria Luiza, pendida sobre o hombro de Eduardo Valladares, orvalhava-lhe
-as faces de lagrimas abrasadoras.
-
-Sentira-as elle, e procurara dominar os impetos da sua alma,
-envenenando-a com o trago das lagrimas reprimidas.
-
-—Choras! E sou eu, e é o meu amor que te enche os olhos de pranto! Tremo
-da justiça dos Céos, Maria! Quem me deu a mim o insolito direito de te
-lembrar que tambem és desgraçada? Como ouso eu arrancar as flores da tua
-esperança, para calcal-as aos pés, sem me lembrar de que estou calcando
-com ellas o teu amantissimo coração. Oh! sim, tu esperas, não é verdade?
-Não é certo que tens no thesouro da tua alma a esperança que me offereces
-e queres repartir comigo? Enganares-me tu... Não, não, perdoa-me o que ha
-de injustiça n’estas palavras. Se a esperança ou se Deus, que tudo vem a
-ser o mesmo, te houvesse desamparado, não ousarias insinuar-me nova fé
-com receio de que eu descobrisse a verdade, a verdade negra e terrivel,
-sob os teus hymnos de mentirosa crença... Tu esperas, não é verdade?
-Deus, que formou de essencia divina as almas dos anjos como tu, não podia
-roubar-lhes a esperança, condemnando-as ao desespêro dos réprobos... Não
-chores...
-
-—Não choro. Promette tu dominar a exaltação do teu espirito, que eu
-prometto não provocal-a de novo com as minhas lagrimas. Chorar eu! Passou
-acaso no nosso coração o sôpro devastador da descrença? Só os que não
-esperam, os que não crêem, é que choram, por que esses devem ser muito
-desgraçados, pois não devem?
-
-E rolavam-lhe pelas faces copiosas lagrimas, como se Maria Luiza nem
-sequer soubesse que estava chorando e desvendando os dolorosos segredos
-da sua alma.
-
-—Ah! pois tu choras! Estás involuntariamente denunciando com as tuas
-lagrimas que tambem és desgraçada, porque não esperas, porque não crês...
-
-—Meu Deus! Eu enlouqueço! Dizes-me que choro e não sinto as lagrimas!...
-
-—É que a tua alma verga n’este momento ao peso d’um presentimento que a
-domina, e que ella está revelando sem que tu mesma tenhas consciencia da
-propria existencia. Ah! como nós somos ambos infelizes, meu amor. Bem m’o
-dizia o coração, bem m’o disse ainda ha pouco, antes d’abrir este livro,
-n’um momento que não sei se foi de sonho se de meditação. Meditação, não;
-não foi. Eu estava quasi adormecido... Meditação, não. Queres que te
-conte o meu sonho, como o estou recordando n’este instante?
-
-—Oh! conta, conta...
-
-—Um camponez, que tinha vivido expatriado em longes terras, privado dos
-carinhos da esposa, saudoso dos filhos que deixara no berço, do torrão
-que o vira nascer, da cabana onde amara e vivera, das serras da sua
-patria, de tudo o que é doce e consolador, voltava em demanda do tugurio
-querido, e a todas as horas recordado, após os lacerantes soffrimentos
-d’um longo exilio. Quando vinha transpondo a serra do tôpo da qual se
-avistava a sua cabana, coberta de colmos como a tinha deixado, desciam
-do céo as sombras da noite e, quanto mais veloz elle caminhava, mais o
-arvoredo se perdia n’um fundo negro. Era a noite que descia. Fumegavam ao
-longe as casas d’aldeia disseminadas na encosta; a sua tambem. Áquella
-hora devia estar repartindo a triste mãe com as desmimosas creanças o
-pão da ceia amassado nas lagrimas de todos os dias. Elle, o caminheiro,
-vinha descendo a encosta, offegante e quasi exhausto. A sua choupana
-ficava na vertente fronteira. Entre a aldeia e a serra corria um rio,
-largo e caudaloso, que mugia no valle engrossado pelas chuvas torrencias
-do inverno. Era preciso chegar á ribeira antes do barqueiro ter amarrado
-a barca do outro lado. «Depressa!» dizia o caminheiro a si mesmo. E não
-corria, voava. A meia encosta, chamou. Ninguem respondeu. Brilhou-lhe nos
-olhos um clarão de desespero. A barca da passagem estava decerto amarrada
-a um salgueiro da outra margem, e já o barqueiro devia ir em caminho do
-seu palheiro que ficava ao centro da povoação. Afflicto, desesperado,
-chamou, gritou.
-
-O sussurro da corrente impetuosa abafava a sua voz, tanto mais debil,
-quanto maior era a commoção. Depois...
-
-—Depois?
-
-—Via fumegar ainda no tôpo da serra fronteira o tecto do seu lar, e
-uma voz interior lhe estava dizendo que no coração de sua pobre mulher
-passava, n’aquelle instante, o presentimento de que nunca mais o tornaria
-a vêr. Como ella havia de reprimir a sua dôr, para que as pobres
-creanças a não vissem chorar e lhe perguntassem: «Virá hoje, virá?» Que
-alegria, que felicidade se elle os pudesse ouvir, e vêr, e abraçar para
-dizer-lhes: «Aqui está o vosso pai; eil-o aqui está». E a escuridão da
-noite era cada vez mais profunda e o estrepito das aguas tinha um não
-sei que de lugubre que punha medo. O fumo branco das casas d’aldeia foi
-rareando a pouco e pouco. Dissipou se lentamente a coluna ondulante que
-sahia do seu tecto. Acabava a ceia. Iam adormecer as crianças, sem terem
-sido abençoadas pela mão paterna. E, recolhidos os pequenos, deitava-se
-a mãe para desvellar as horas da noite em mil tumultuosos pensamentos. E
-elle separado de tudo isto, dos seus filhos, da sua mulher, do seu lar,
-por uma barreira que não podia transpôr e que se não abria para lhe dar
-passagem, como as aguas do mar Vermelho, por mais dolorosos que fossem
-os seus gritos, por mais impias que fossem as suas blasphemias! Aqui
-tens o impossivel, Maria; o impossivel é tudo isto, este desespero, este
-abrasar da alma em lavas incandescentes. Um genio mau desenhou decerto
-este quadro d’incomparavel afflicção para que eu experimentasse o duplo
-martyrio de vêr e sentir, deixando ao meu espirito, meio adormecido,
-o trabalho de, quando despertasse, procurar a relação que para logo
-denuncía que este desespero é o seu proprio desespero, que este inferno é
-o seu mesmo inferno.
-
-Maria Luiza soltou um grito d’angustia; Eduardo Valladares ficou
-extremamente prostrado d’aquella dolorosa excitação.
-
-—Meu Deus! murmurára ella vendo-o com a cabeça febril mal amparada nos
-braços tremulos.
-
-—Meu Deus! repetia elle em brando echo. Não fujas de mim, doce amor,
-e pede ao teu Deus, que é tambem o meu, que me perdoe estes desvarios
-d’uma alma atormentada. Enlouqueceu-me a dor. Perdôa-me tu; que Elle, o
-Senhor de misericordia, me perdoará tambem. Não fugas de mim como se
-foge do precito. Desde que minha mãe infiltrou na minha alma o balsamo
-sacratissimo das doces orações da infancia, conheço e amo Deus. Depois,
-desde que sigo o rumo da minha desventurosa estrella, sempre o invoco em
-horas de desconfôrto e afflicção. Vale-me, Tu, Senhor! que abençôas os
-que choram.
-
-
-
-
-XXIV
-
-
-Frei Domingos do Amor-Divino anciosamente esperava os óbolos da caridade
-para repartil-os pelos pobres, no numero dos quaes devia incluir-se a
-cega designada por D. Maria d’Assumpção.
-
-Chegou o Natal, e o virtuoso carmelita recebeu, de procedencia
-anonyma, duas cartas contendo dinheiro destinado a enxugar por alguns
-dias as lagrimas de dois indigentes. Frei Domingos rasgou o primeiro
-involucro com intima satisfação, que no doce fulgor dos olhos se estava
-manifestando. O papel que continha a moeda consagrada á beneficencia,
-trazia esta restricção:—_Para uma viuva_. Aberto o segundo involtorio,
-que encerrava um _soberano_ inglez, leu Frei Domingos o seguinte:—_Um
-cego, que deve á Providencia o não ser tambem necessitado, pede que seja
-entregue a outro cego, mais infeliz do que elle_.
-
-Estas palavras commoveram a lagrimas o carmelita, que relanceou ao seu
-Christo de marfim um olhar afogado em pranto, murmurando ao mesmo tempo:
-
-—Abençoado seja o nome do Senhor, que por tal modo e com tamanhos dons
-abastece a colheita dos pobres! É ao Céo que eu peço me ensine o
-trilho por onde possa ir direito á mais necessitada cegueira, e á mais
-desamparada viuvez.
-
-Ajoelhou, com as mãos postas, e por largo tempo ficou a orar.
-
-Depois sahiu, indagou, examinou e, ao cabo de dois dias de trabalhosas
-investigações, depositou nas mãos d’um cego e d’uma viuva, que mais
-carecidos lhe pareceram, o dinheiro da caridade.
-
-Quando recolheu ao cubiculo da rua do Carvalhal, era noite cerrada.
-Acudiu a recebel-o, com a sua habitual expressão de estima e
-reconhecimento, uma velhinha que lhe cosinhava a frugal collação e que,
-se não fôra o amparo de Frei Domingos, teria morrido de fome pouco depois
-de cahir varado por um pelouro nas linhas do Porto o filho que lhe era
-esteio.
-
-O carmelita encarou n’ella, viu-a radiosa como sempre, e apostrophou com
-semblante prazenteiro:
-
-—Alegre a vejo sr.ᵃ Gertrudes, e a Deus agradeço o encontral-a em
-disposição d’ánimo que favorece o meu designio.
-
-A velhinha quedou se a olhal-o com surpreza; Frei Domingos continuou:
-
-—Que me responderia a boa Gertrudes, se eu houvesse de dizer-lhe:
-«Precisamos de dar metade do nosso pão, durante alguns dias, a quem mais
-carece d’elle do que nós?»
-
-Gertrudes achegou-se do carmelita e disse com tanta alegria quanta
-commoção:
-
-—Olhe que não sabia o que o snr. Frei Domingos queria dizer! Eu feliz
-vivo, e a minha felicidade chamou-a do Céo para a menos merecedora das
-creaturas o sr. Frei Domingos. Do pão que recebo e que me aproveita mais
-do que a riqueza aos ricos, sempre cresce e, se não crescesse, todo o
-daria para alliviar miserias que, Deus louvado! não conheço.
-
-—Nós somos ricos, sr.ᵃ Gertrudes, nós somos ricos, porque desconhecemos
-a pobresa. «Mais vale um pequeno boccado de pão sêcco com alegria
-que uma casa cheia de victimas com pelejas»[12] são palavras santas,
-que não falham. Esta é a verdadeira riqueza. Tudo o mais é cuidado e
-inquietação. Façamos pois economia durante alguns dias e, passados elles,
-verá como havemos de sentir-nos mais contentes. É que realmente estamos
-esperdiçando, e não é assim que se agrada a Deus. Repartamos, pois, com
-os pobres, e aproveitemos em vez de esperdiçar.
-
-No dia seguinte, foi Frei Domingos abrir a gaveta depositaria das
-mealhas que lhe pareciam sobejas ás suas necessidades. Montava o peculio
-a novecentos e sessenta réis, um thesouro de dois cruzados novos
-embrulhados em papel branco. Tirou-os da gaveta para o bolso, pôz o
-chapéo, desceu as escadas e entrou no portal de João Nicolau.
-
-O sogro do bacharel Valladares e D. Maria d’Assumpção receberam Frei
-Domingos com sincero contentamento, lamentando apenas que tivessem
-decorrido alguns dias sem que lhe aprouvesse visital-os.
-
-—É que eu queria dar boa conta de mim e dos meus negocios, respondeu
-o carmelita. Depois receava que a presença d’um intruso fosse de mais
-n’estas festas que commemoram os grandes acontecimentos do christianismo
-e servem ainda, e sempre servirão, para estreitar os laços de cada
-familia reunida no seu lar. N’este quadro de intimas alegrias era de
-certo importuno um frade velho como a Sé da nossa Braga, perorou,
-sorrindo Frei Domingos.
-
-—Estou capaz de dizer... pronunciou a medo D. Maria d’Assumpção.
-
-—Pois dize, dize, e com isso responderás aos infundados receios do nosso
-vizinho, atalhou do lado João Nicolau.
-
-—Visto que me auctorisas, sempre ousarei fazer uma confissão. Pode
-acreditar o sr. Frei Domingos que tivemos ambos a lembrança de lhe pedir
-que viesse honrar a nossa modesta consoada. Receamos incommodal-o, e não
-nos atrevemos...
-
-—Beijo lhes as mãos pela immerecida attenção; confesso-me penhorado como
-se tivera recebido e acceitado o convite.
-
-Mas por que não ha de vir mais a miude, replicou João Nicolau, por que
-não ha de, visto que estamos tão perto, vir tomar o chá comnosco? Nem o
-nosso Eduardo viu ainda o sr. Frei Domingos!
-
-—Infiro d’ahi que tem sido feliz o neto de v. s.ᵃ. Olhe que realmente
-parlandas de frade não são para se ouvir a pé quedo, e muito menos por
-gente nova.
-
-E, galhofando sempre, entregou a D. Maria d’Assumpção os novecentos
-e sessenta réis, que para elle e para a velha Gertrudes eram pecunia
-sufficiente para o passadio de alguns dias.
-
-João Nicolau não o deixou sahir sem que primeiro aprazasse nova visita.
-Frei Domingos prometteu voltar em dia determinado, e desempenhou a sua
-palavra. Á terceira visita encontrou se com Eduardo e lera-lhe nos olhos,
-sempre banhados em melancholia, as muitas amarguras que faziam noite
-escura n’aquelle coração de dezesete annos.
-
-O filho do bacharel, por sua parte, esqueceu-se de si mesmo enlevado na
-suavidade que recendiam as palavras de Frei Domingos. O desaffrontar-se
-por um momento da cerração que lhe opprimia o peito, foi para Eduardo
-Valladares consolo que deixou após si gratissimas impressões. Livrára-o
-a Providencia de lembrar se de que aquelle homem, cuja serenidade d’alma
-se reflectia no olhar, tinha vestido o habito de frade e poderia ter
-amortalhado n’elle um coração ferido pelas desgraças da terra. Não
-lhe lembrou isto, e por tanto não rompeu clamoroso contra a voz da
-oppressão que diz «Morre, despedaçando-te» ao coração opulento de seiva
-e esperança. No que pensou foi na serena alegria d’aquella alma, que em
-vez de se sentir retransida pela nortada do tumulo, já proximo, refloria
-em amenidades bafejando lenitivos ás pallidas flores d’uma primavera
-desconfortada. Aquelle homem entremostrou-lhe Deus—o Deus a quem
-invocavam as doces orações da sua infancia, o Deus que adorava no templo
-e em toda a parte onde podia vêr o Céo, o Deus que elle chamava quando
-mais se condensavam as trevas no horizonte da sua mocidade.
-
-Viu-o, examinou-o com olhar perscrutador e disse de si para si:
-
-—Se eu fôsse assim, não era decerto tão desgraçado.
-
-Amiudáram-se as visitas de Frei Domingos. Rodrigues d’Abreu perguntou-lhe
-d’uma vez se tinha esperança de restituir a um coração de dezesete annos
-as alegrias proprias da sua edade.
-
-Frei Domingos sorriu placidamente e disse:
-
-—Tenho. A si devo e a Deus o sentir ainda no coração o influxo benefico
-d’uma esperança: a de procurar a felicidade para quem a não tem.
-
-
-
-
-XXV
-
-
-Eduardo Valladares tinha em 1852 dezesete annos.
-
-Estou a lembrar-me d’isto, e a perceber que uns sujeitos maiores de
-trinta annos, e umas senhoras que devem á acção do fluido transmutativo o
-envelhecer com os cabellos pretos, lançam um olhar de desdem para a futil
-historia do filho do bacharel Valladares.
-
-Para estes corações apodrentados, se é que para taes creaturas o coração
-é mais alguma cousa do que o centro das funcções sanguineas, o amor
-dos dezesete annos deve ser uma creancice piegas apenas admissivel na
-conversação de meninas da mesma edade, que andam delineando os poemas do
-coração suspensas entre as saudades das bonecas e os receios de não serem
-convidadas para a valsa que redemoinha na sala.
-
-Não sei agora ao certo que idade tinha Romeu quando levantou olhos para
-Julieta; do Paulo, de Saint-Pierre, lembro-me que tinha a mesma altura
-de Virginia; o Simão Botelho, do _Amor de perdição_, do nosso Alexandre
-Dumas, vamos encontral-o aos dezeseis annos; o Pedrinho, dos _Contos ao
-luar_, de Cesar Machado, é uma creança.
-
-Achei que estes modelos eram bons. Procurei no coração humano, para
-estudal-a, a fibra menos corroida, e deparou-se-me uma unica—a que
-resumava a seiva dos dezeseis annos.
-
-Um sujeito de vinte, que andava suspirando no violão serenatas á mulher
-adorada, e se dizia capaz de comprehender o que no amor póde haver
-d’ethereo, dias depois de resvalar ao tumulo o anjo querido que elle
-desposara, garbosamente refreava os galões d’um cavallo comprado com as
-economias provaveis do primeiro anno de viuvez. O coração dos vinte annos
-fazia isto, dispendia na farta ração d’um cavallo de raça o que faltara
-talvez á gentil esposa tão longo tempo requestada.
-
-A viscera amorosa dos cincoenta annos affigurou-se-me gangrenada ao
-estremo de inspirar terror. A historia do cynismo, que arremessa á
-face da innocencia a moeda doirada da corrupção, é revoltante para se
-offerecer a todos os paladares.
-
-Determinei os extremos—os vinte e os cincoenta annos. A estrada
-interposta a estes dois marcos, recortada de charcos immundos, deve
-deixar enlodados os pés do que a percorrer com o vagar indispensavel a
-quem tiver de fazer relatorio da trabalhosa peregrinação.
-
-Não invejo a gloria de certos romancistas victoriados pelas multidões.
-Só elles sabem o que ha de doloroso em vencer a repugnancia natural que
-leva o espirito, iriado da luz das suas auroras, a fugir do esterquilinio
-que vapora exhalações mephiticas. E que improficuo trabalho! A humanidade
-vê no espelho do romance o que ella mesma tem de hedionda, e não cora
-nem se rehabilita; passa adeante, deixando ao desfortunoso trabalhador a
-consolação de labutar noite e dia para não morrer de fome.
-
-Não serei eu que vá mergulhar nas trevas que ennoitecem os hypogeus
-sociaes para dizer á humanidade: «Aqui estão as tuas nodoas, lodo; aqui
-está a tua negrura, sombra!»
-
-No mais profundo antro sempre entra um raio de sol a cujo esplendor
-scintillam as concreções vitreas da abobada. Em vez de medir a extensão
-do antro, quero sentar-me á entrada, onde chegue a luz, e onde possa vêr
-o cristal das stalactites rutilar em formosas cambiantes.
-
-Poderão dizer: A humanidade não é só isso, a humanidade não é apenas o
-cristal que se doira. Certo é. Mas a humanidade tambem não é só o que vós
-pintaes, ó pintores de quadros negros; a humanidade não é só o cynismo, a
-dobrez, e o lodo.
-
-E eu entrei no antro escuro da humanidade, e tive medo das sombras que
-se condensavam ao fundo. Parei. O sol que tremeluzia nos cristaes da
-rocha, era limpido e formoso. Deslumbrou-me. Não arrisquei mais um passo;
-quedei-me a contemplal-o.
-
-Coração dos dezeseis annos, não és tu puro como os relevos crystallinos
-que resaltam do tecto anfractuoso d’uma gruta?
-
-Os que já se internaram na escuridade, os que perderam a memoria com o
-coração e com a consciencia, esses, cadaveres condemnados ao supplicio da
-vida, já não comprehendem o que seja o estremecer das rosas no roseiral
-ao bafejo da viração matutina.
-
-Uma coisa que sobremodo me admira é que os rapazes de hoje suffoquem
-a voz do coração, que está modulando o poema dos vinte annos, para
-raciocinarem friamente, sentados em ruinas como Volney, até chegarem ao
-scepticismo, á duvida, ao nada; até murmurarem com Voltaire na satira a
-Luiz XIV:
-
- _J’ai vu ces maux et je n’ai pas vingt ans._
-
-Quem é que aos vinte annos não vae depôr a sua mocidade, como novello
-de espuma, na mão rosada d’uma mulher, que a pode desfazer, comprimindo
-os dedos, ou que tem o capricho de a fazer brilhar com as esplendidas
-fulgurações de um cristal, se lhe deu um raio d’amor?
-
-Creio que todos. Os que não fizerem isto são anomalias. Deus me livre de
-homens que não teem de homens nem o coração.
-
-O amor é o sol e eu sou como todos os fructos verdes: preciso de sol para
-amadurecer.
-
-É por isso que leio e releio, sem me cansar, o _Raphael_ e a _Graziella_,
-de Lamartine; a _Chave do enygma_, de Castilho; o _Livro d’Elisa_, de
-João de Lemos; o _Paulo e Virginia_, de Saint-Pierre; os _Idyllios da
-rua Plumet_, dos _Miseraveis_; a _Menina dos rouxinoes_, das _Viagens_,
-de Garrett; o _Thomas dos passarinhos_, de Rodrigo Paganino, e muitos
-outros poemas de amor que consolam a alma, e que se nos dão o seu tanto
-de tristeza, é uma tristeza tão suave, que chega a ser deliciosa. Estes
-livros, que são balsamo e crença, quero lel-os e compraria a trôco da
-vida a gloria de os escrever.
-
-Namora-me esta litteratura que delicía a alma. Ha livros que deixam
-remorsos de se haverem lido. Esses não os quero eu. Para que hei de
-sentir ferida a consciencia nos poucos momentos que destinava para
-descanço do espirito? Livros dos que retalham o coração lê-os a gente
-por ahi nos passeios e nas praças publicas a toda a hora do dia; são
-uns certos homens que encadernaram a negrura da alma em pergaminhos de
-illicita riqueza, e certas mulheres que escondem a deshonra em brochuras
-de velludo.
-
-Sabe-lhes a gente da vida e anda cheia d’aquellas historias vivas, que
-se abrem á luz do sol, para que elle bata em cheio no escandalo, e o
-mostre á claridade do dia. Quando o espirito precisa de um momento de
-tranquillidade para se desanojar d’estas e quejandas leituras sociaes,
-devem pôr se de parte os livros igualmente desagradaveis.
-
-Os contos, ainda que se perfumem na doce poesia da infancia, _contes de
-fées_ ou _contes bleus_, como dizem os francezes, embriagam-me o espirito
-como o suspirar longinquo de um piano n’uma noite de luar. A historia
-licenciosa, _conte gras_, repugna-me, aborrece-me. A litteratura deve
-ter um não sei que de ethereo irmão da inspiração. Tudo o que não fôr
-assim, é verdadeiramente terreno e vulgar.
-
-O homem que entra em casa com um livro de pessima doutrina, tem o cuidado
-de escondel-o como a um frasco de acido prussico, se occultasse o
-proposito de se suicidar. Esconde o livro como esconderia o veneno: para
-dissimular a sua vergonha e o segredo humilhante da propria fraqueza.
-
-A sua mãe, alma toda amor e toda luz, que lhe ensinara a deletrear
-nos livros santos, a ella, coração de ouro, haveria de dizer, se uma
-imprevista circumstancia descobrisse a licenciosa brochura: «Perdôa-me;
-bem sei que não foi para isto que me ensinaste a ler.»
-
-Vae longa a dissertação. Cumpre pôr ponto final. _Dissertation, ennui_;
-sirva para alguma coisa o dito de Bastiat.
-
-
-
-
-XXVI
-
-
-Retrogrademos.
-
-Maria Luiza desceu a montanha do Bom Jesus do Monte apoiada no braço da
-outra menina sua irmã.
-
-Quando vinham encosta abaixo havia na floresta, através da qual se viam
-scintillar as chammas do occidente, a doçura inexplicavel com que o dia
-desliza ao abysmo da eternidade...
-
-A viuva Machado revelava certa inquietação—talvez prophecia de coração
-materno—pelos symptomas de repentino soffrimento claramente desenhados na
-face pallida da filha.
-
-João Nicolau animava-a com palavras banaes, attribuindo a excitação
-nervosa um incommodo que, a seu vêr, não podia ter outras consequencias
-além d’um ligeiro abatimento.
-
-Maria Luiza procurava sorrir para dar alento aos dois mais desconfortados
-corações—o de sua mãe e o de Eduardo—mas o sorriso desabrochava triste e
-de pressa morria á flôr dos labios.
-
-D. Maria d’Assumpção vinha suspeitosa e concentrada. Adivinhava-lhe o
-coração tudo quanto se passara na alameda da Mãe d’Agua. Estava-lhe
-dizendo uma voz interior por que abysmos tinham resvalado, n’um momento
-de commum desespêro, aquellas duas amorosissimas almas.
-
-Eduardo Valladares vinha ao lado das duas irmãs Machados. Que dolorosa
-ancia lhe comprimia o peito adivinha-a o leitor, se é que alguma vez se
-sentiu avergado ao peso da sua cruz.
-
-No sopé da montanha, antes de transporem o portico de cantaria, curvou-se
-Maria Luiza para colhêr uma flôr silvestre, que se debruçava sobre
-ervagens verdes. A alguns passos de distancia ficava a capella do Horto,
-que representa Jesus em Gethsemani, quando desce o anjo a offerecer o
-calix da amargura. Maria Luiza relanceou os olhos á inscripção latina e
-murmurou:
-
-—Deve ser triste a legenda d’esta capella...
-
-—«Agonisante, orava profundamente,» traduziu Eduardo Valladares, deixando
-ver lagrimas que de subito lhe embaciaram o olhar.
-
-—Decora-a, peço-t’o eu, e guarda esta flôr com a perpetua recordação do
-meu pedido.
-
-—Que dizes?...
-
-—Que não esqueças aquella legenda, Eduardo.
-
-Aproximavam-se João Nicolau, D. Maria d’Assumpção e a viuva Machado.
-
-Ficou interrompido o dialogo apenas escutado pela melancolica Rosinha,
-que sentiu o perpassar d’uma nuvem que a cegara. Eram lagrimas... Maria
-Luiza empallideceu até á lividez do cadaver e, quando lhe perguntaram
-se se sentia recobrada de forças, respondeu affirmativamente, e deixou
-esvoaçar nos labios o mesmo sorriso breve e melancholico.
-
-Pelo caminho, veio João Nicolau galhofando a proposito de quanto lhe
-lembrava com o piedoso intuito de serenar a inquietação da viuva Machado
-e de distrahir Maria Luiza. Não ousamos asseverar se era escutado; o
-certo é que vinha fallando.
-
-—Dia de Reis! disse elle depois d’um momento de silencio. Este dia é
-d’alegres recordações para mim. Era eu solteiro. Vai isto ha um bom par
-d’annos, e estou agora a vêr tudo como se se passasse hoje! Tinhamos sido
-convidados, alguns rapazes de Braga, para jantar em Guimarães n’este dia.
-Alegremente cavalgamos e seguimos jornada com o enthusiasmo expansivo dos
-vinte annos. Foi opiparo o banquete e divertidissima a odysséa. Ao fim
-da tarde, batemos os cavallos para Braga. Era já noite quando chegamos
-aos _Quatro irmãos_, um logar historico que fica ao sopé da Falpêrra. É
-verdade! Nunca ouviram falar da lenda dos _Quatro irmãos_?
-
-—Sabes lá se a gente está de paciencia para te ouvir? respondeu D. Maria
-d’Assumpção, que de sobra conhecia quanto o marido vinha sendo incómmodo
-n’aquelle momento.
-
-—Estejam que não estejam. Eu é que sempre a vou contar, replicou João
-Nicolau insistindo no proposito de distrahir os companheiros. Diz-se
-que um parocho da freguezia proxima ao logar dos _Quatro irmãos_ vivia
-em companhia d’uma sobrinha, rapariga de formosura capaz de trazer
-alvoroçados todos os pintalegretes montezinhos d’esse tempo. O caso é
-que o abbade precisou de sair da residencia por alguns dias, e levou
-uma noite inteira a fazer eleição de casa onde, com mais socego do seu
-espirito, poderia deixar em deposito a donairosa sobrinha. Lembrou se
-d’uma viuva do logar, mulher idosa e d’exemplares costumes. Se esta
-lembrança foi tentação do demonio ou não, dir-m’o-hão depois que souberem
-que a pobre mulher tinha quatro filhos, quatro rapagões da boa raça
-minhota. Não sem difficuldade acceitou a viuva o encargo, depois de muito
-instada. Entrou a rapariga na casa da mulher escolhida para depositaria
-do thesouro querido do abbade e logo os mocetões começaram a requestal-a
-porfiadamente. Sempre ouvi dizer que «amigos, amigos, negocios á
-parte». Cahiu de chofre o pomo da discordia entre os quatro filhos da
-viuva. Desvairou-os o ciume. Reptaram-se. Como valentões que eram, não
-se recusaram o cartel. Pouco depois, zuniam os varapaus fratricidas a
-certa distancia do tecto commum. Trez dos contendores cahiram exanimes;
-e o outro ficou gravemente ferido. O abbade regressava n’aquelle dia e
-passara ali. Estava moribundo, no logar da lucta, o que sobrevivera, mas
-teve ainda voz para contar ao velho sacerdote a lamentosa façanha. Depois
-debateu-se nas vascas d’afflictiva morte, e expirou. O povo, quando o
-successo se espalhou, negou aos quatro irmãos sepultura em sagrado.
-Enterrou-os ao sopé da Falpêrra, no mesmo logar, e levantou sobre as
-vallas quatro pedras ainda hoje pregoeiras da tradição. Ora aqui teem a
-historia. Não acha bonita? perorou João Nicolau voltado á viuva Machado.
-
-—É interessante... Não sabia a lenda...
-
-—Mas eu trazia isto a proposito do jantar de Guimarães... O Falcão
-Osorio, que deve estar velho como eu, cavalgava na vanguarda. Ao chegar
-aos _Quatro irmãos_ susteve o cavallo e veio, sobresaltado, segredar-nos
-que tinha visto umas sombras, as quaes sombras lhe pareceram bandidos.
-Não pensamos se a apprehensão era sensata. Acautelamo-nos subitamente
-para a defensiva e mettemos a passo dando-nos ares de valorosos
-cavalleiros. A Falpêrra d’aquelles tempos era covil de salteadores; o
-coração, a julgar por mim, batia-nos desordenadamente. Ainda a julgar por
-mim, posso dizer que era... de medo. Mas ó soprema irrisão que o destino
-nos preparára, nivelando-nos com o cavalleiro de Mancha ao esgrimir
-contra os moinhos! Os bandidos... eram arvores!
-
-D. Maria d’Assumpção, ouvindo agora a centessima edição d’este conto,
-sorriu ainda pela centessima vez. A viuva Machado simulou ter achado
-graça; Eduardo e as duas meninas, se é que tinham ouvido, não sorriram.
-
-João Nicolau fez reparo n’isto e apostrophou, dirigindo-se aos tres:
-
-—Olhem que parecem uns velhos carrancudos! A menina Maria Luiza, porque
-os nervos se lhe desafinaram, imagina-se em artigos de morte. A menina
-Rosa vai silenciosa por não ver alegre a irmã, e o meu Eduardo, ao
-lembrar-se de que terminam hoje as férias, perdeu a voz!...
-
-—Como são muitos os divertimentos que elle tem em tempo de férias!...
-objectou D. Maria d’Assumpção.
-
-João Nicolau não esperava o remoque e replicou meio irritado:
-
-—Tem os que quer ter.
-
-—Não vale a pena agastares-te. O defeito, já t’o tenho dito, é de todos
-os velhos, e por isso é de crer que tambem seja meu. A gente, quando é
-velha, desassisadamente teima em moldar a vontade das pessoas novas,
-que nos cercam, pela nossa, e não nos lembramos de que já não ha para
-nós novidade nem surpresa. Lembro-me agora só d’uma excepção: a da mãe
-d’estas meninas, que apesar de estar hontem indisposta, não se recusou a
-dar-nos hoje o prazer de nos acompanhar. Isto é que é ser condescendente.
-
-—É verdade, acrescentou por delicadesa João Nicolau.
-
-—Que será da velhice dos rapazes de hoje, tornou D. Maria d’Assumpção
-relanceando um olhar de benevolencia a Eduardo e a Maria Luiza, se se não
-divertirem? Nem sequer terão para contar aos contemporaneos o caso... de
-haverem tomado arvores por bandidos.
-
-João Nicolau sorriu, porque D. Maria d’Assumpção lhe bateu amigavelmente
-no hombro.
-
- * * * * *
-
-Ao despedirem-se as duas familias, Maria Luiza segredou a Eduardo,
-estendendo-lhe a mão convulsa e ardente:
-
-—Eu sinto-me tão triste, que só o teu amor me póde dar coragem. Lembra-te
-de mim, e sê forte.
-
-
-
-
-XXVII
-
-
-Foi profunda a prostração que sopitou Maria Luiza durante a noite. Ao
-entreluzir da manhã, sobreveio certa agitação febril.
-
-Chamado o facultativo, absteve-se de diagnosticar. Escrupulosamente
-inquiriu porém se a doente tinha revelado soffrimento anterior ou se
-havia experimentado uma sensação violenta que provocasse excitação do
-systema nervoso.
-
-A viuva Machado respondeu negativamente e pediu ao facultativo, com os
-olhos banhados em lagrimas, que lhe não occultasse a verdade. Serenou-a
-o medico dizendo que os temperamentos excessivamente nervosos tinham
-caprichos especiaes que muitas vezes ludibriavam a medicina e que
-podia bem ser que a febre desapparecesse depois d’um breve periodo de
-intensidade.
-
-A outra hypothese occultou-a elle para não ferir o coração materno todo
-receios e afflicção: vinha a ser que podia a febre prolongar-se, e tomar
-o caracter typhoide.
-
-Trez dias depois, realisava-se a fatal hypothese. Sobreveiu o delirio e
-Maria Luiza balbuciava palavras sem nexo:
-
-—Impossivel... Disseste que chorava... Na capella do Horto... Não sentia
-as lagrimas...
-
-Outras vezes curvava-se a melancholica Rosinha sobre o leito e recolhia
-este murmurio:
-
-—O sol por entre as arvores... Sempre impossivel... Uma tristeza immensa.
-Emilia... Deus...
-
-A doze de janeiro escrevia Rosinha a Eduardo Valladares estas palavras:
-
-«Hontem á noite delirou e tornou a fallar da capella do Horto e do sol
-que scintillava através das arvores. Felizmente ainda não pronunciou o
-seu nome. Não desespere, que eu ainda não desesperei tambem, e peça a
-Deus por ella e por nós.»
-
-Foram decorrendo os dias e nos ultimos do mez raiou um vislumbre
-d’esperança.
-
-Tendo passado a noite tranquilla, perguntou Maria Luiza, de madrugada, á
-irmã, a que horas tinham vindo na vespera do Bom Jesus.
-
-Rosinha respondeu, reprimindo impetos d’alegria:
-
-—Viemos á noitinha, não te lembras?
-
-—Não me lembrava, disse a doente. O que sei é que foi hontem. Foi tão
-comprida esta noite!
-
-Quando veiu o medico, jubilou com a boa nova da doente ter dado accordo
-de si e perguntado a que horas vieram do Bom Jesus, suppondo que tinham
-lá estado no dia antecedente.
-
-—Ella tem razão, disse o doutor. Desde que veio de lá não tem vivido...
-Todavia é uma grande esperança.
-
-No dia seguinte, a viuva Machado e Rosinha choraram d’alegria ao ouvir
-este prognostico do facultativo:
-
-—Creio que posso dizer que está salva, apesar de ter ainda doença para
-longo tempo. Cumpre haver o maximo cuidado no tratamento. Não lhe
-dissipem sobretudo o engano a respeito do dia em que esteve no Bom Jesus.
-
-Momentos depois recebia Eduardo Valladares as seguintes linhas:
-
-«Diz o medico que está salva. Agradeçamos a Deus, meu amigo».
-
-Estendeu-se pelo mez de fevereiro a longa convalescença de Maria Luiza.
-Eduardo Valladares recebia todos os dias palavras da mão de Rosinha
-convidando-o a confiar da misericordia de Deus a solução d’uma crise que
-Elle visivelmente favorecia com as melhoras de sua irmã.
-
-O filho do bacharel Valladares lia as cartas e redigia sobre as paginas
-d’um livro intimo as longas meditações das noites de insomnia:
-
-«Vão engrinaldar-se de flôres as arvores do valle e tapetar-se de
-verduras os declives dos outeiros. Só a minha primavera não chega,
-Senhor. Só não voltam com as andorinhas as minhas esperanças de um dia.
-Embora. Deixaste que o anjo ficasse ainda na terra, e deixa tambem que
-se abrandem as angustias que não merece. Eu creio em ti, Senhor, mas
-choro nas trevas da minha noite, como tu choraste na cruz. Eras Deus e
-foste homem. Bem sabes o que é soffrer e chorar. Não me exaspero nem te
-maldigo. Tu eras filho do Eterno e soffreste; tu eras Deus e choraste
-lagrimas de sangue. Como ha de o homem, cuja vida custa dores, eximir-se
-ao pêso da sua cruz, se tu vergaste sob o madeiro? como não ha de chorar,
-se os tens olhos orvalharam o sudario da piedosa mulher?
-
-«Perdoa-me, se choro, Senhor Deus de misericordia.
-
- * * * * *
-
-«Agonisante, orava profundamente», _Factus in agonia prolixius orabat_,
-dizia a inscripção da capella do Horto. E pediste-me tu, anjo e martyr,
-que entregasse á memoria o verbo das Escripturas!
-
-«Querias dizer-me que me abraçasse á cruz nas horas de tribulação da
-minha alma, ou significavas que o teu espirito olhava para Deus na lenta
-agonia do teu supplicio?
-
-«Era um incentivo ou um exemplo o que me apontavas?
-
-«Se era incentivo, sabe que a minha alma só adormece quando sobe
-ás alturas, embalada na religião de meus pais. Se era exemplo,
-repetir-te-hei que comprehendo a extensão do teu soffrimento, que te
-vejo sempre ajoelhada deante do teu crucifixo e que abraçaria a tua fé,
-balsamo para todas as chagas, se desde o berço não houvesse apprendido a
-balbuciar o nome de Deus.
-
-«Choro, e por me vêres lacrimoso não acredites na minha descrença.
-
-«Devo dizer-te que me não abandona a fé.
-
-«Só a Deus peço que enxugue as lagrimas dos teus olhos, que restitua
-ao teu coração as alegrias que eram d’elle. Este é o fito da minha
-esperança, o alvo da minha fé immensa.
-
-«Entrou commigo o remorso de te haver amado. Fui injusto quando fiz
-estalar sobre a tua cabeça a tempestade das minhas desventuras. Choro a
-minha culpa, a minha injustiça, e peço a Deus que não complete a obra da
-tua abnegação.
-
- * * * * *
-
-«Levantas-te do leito quando as flores se levantam no pendor da serra.
-Põe os olhos no Céo, que ainda lá encontrarás a estrella confidente das
-serenas alegrias da tua infancia. Desvia-os da terra para me não vêres
-chorar. Não choro de desespero; choro porque tu choraste. As orações
-d’alguem, de minha mãe talvez, trouxeram do Céo balsamo para a minha
-alma. Se Frei Domingos soubesse das minhas amarguras, acreditaria que
-tinha orado por mim.
-
- * * * * *
-
-«E amo-te muito, mas porque te amo, Maria, não quero que os teus olhos
-chorem as minhas lagrimas. Que te esqueças de mim ou que succumbas,
-este é o meu pedir. E não ha impiedade na minha súpplica. Morrer não é
-soffrer, é renascer. Eu é que preciso de viver para chorar. Renasce tu
-para as auroras da tua patria ou foge dos espinhaes do meu caminho que
-rasgariam de certo as tuas azas. Como havias de restituil-as depois ao
-Senhor que t’as deu?»
-
- * * * * *
-
-Uma noite, estava Eduardo Valladares escrevendo no seu livro intimo,
-quando sentiu alvoroço na sala proxima. Acudiu a saber o que era.
-
-Frei Domingos, que se não tinha ainda retirado, approximou-se e disse-lhe:
-
-—Animo, filho. Espero que pedirá ao Céo a coragem que precisa para lêr...
-
-E apresentou-lhe um telegramma, que João Nicolau recebera do Porto. O
-telegramma dizia:
-
-«Morreu repentinamente Sebastião Valladares. A viuva pede providencias
-com a menor demora possivel».
-
-Eduardo rompeu em afflictivo chôro. Frei Domingos encostou ao seu peito
-a cabeça do orphão e afastou-o da sala onde D. Maria d’Assumpção e João
-Nicolau choravam.
-
-Ao romper da manhã vinham em caminho do Porto avô e neto, em caleça
-alugada expressamente.
-
-É breve a historia do passamento do bacharel. Sahiu do escriptorio, onde
-estava trabalhando, estremamente anciado. D. Adozinda acudiu sobresaltada
-ao chamamento de um escrevente. Sebastião Valladares inclinou a cabeça
-sobre o hombro da esposa, e morreu. Disseram os medicos que tinha
-succumbido a uma lesão do coração. O que os medicos disseram pouco faz ao
-nosso proposito.
-
-Dias depois do funeral, annunciou-se leilão da modesta mobilia e,
-concluido isto, voltou João Nicolau a Braga, levando em sua companhia o
-neto e a filha, cobertos do mesmo luto.
-
-
-
-
-XXVIII
-
-
-O bacharel Valladares, momentos antes de morrer, estava escrevendo ao
-filho um carta que deixou incompleta.
-
-Os mais significativos periodos d’essa carta diziam assim:
-
-«Faze por ser humilde, e sujeita-te respeitoso aos conselhos das pessoas
-que t’os podem dar, nomeadamente á vontade de teu avô, em quem eu vejo,
-além d’um dedicado amigo, o pae de tua mãe. Não ponhas os olhos n’umas
-alturas em que o commum da humanidade fita a vista, se queres ser
-feliz. Se eu te posso servir d’espelho em alguma coisa, é no que toca a
-desambição e a serenidade d’espirito e de consciencia. Vivo tranquillo
-para os affectos da minha casa; se tu estivesses n’esta hora ao pé de
-mim e de tua mãe, julgar-me-hia em plena posse da verdadeira felicidade.
-
-«Quando saio a nossa porta, sinto-me triste. É que entro no mundo, não no
-mundo em que vivo, mas no mundo em que vivem todos. Os olhares dos que
-vão passando, não me offendem por desdenhosos, mas incommodam-me porque
-não são doces e sinceros como os de tua mãe. Realmente não me sinto bem
-no meio da turbamulta.»
-
-«A idéa da morte, se me entristece, é porque me faz lembrar que tenho de
-separar-me de tua mãe para sempre...»
-
-N’este relanço levantara se anciado o bacharel para não mais se sentar
-á sua banca. Morreu como viveu: serenamente. Um momento d’agonia não se
-lhe afigurou decerto o resvalar para o tumulo, e não teve por isso tempo
-de sentir estalar os élos que o prendiam á felicidade. Encostou ao seio
-amigo a cabeça para descansar. Queria talvez adormecer... Cerrou os olhos
-e não accordou.
-
-Rezaram-se os responsos de sepultura na egreja dos extinctos carmelitas
-do Porto. Antes de chegar o feretro, appareceu na sacristia um sacerdote
-que entrou, curvado de velhice, relanceando um olhar saudoso para um e
-outro lado.
-
-Era Frei Domingos do Amor-Divino.
-
-Durante os officios, foi notorio que o mais edoso dos padres não podia
-reprimir as lagrimas. Os raros amigos de Sebastião Valladares affirmavam
-não o ter visto uma unica vez em casa do bacharel. Correu porém voz de
-ser carmelita, e logo se explicou a razão de suas copiosas lagrimas,
-lançando-as á conta de saudades do hábito, evocadas pela entrada n’um
-templo da sua ordem.
-
-Frei Domingos, depois de terminados os responsos, solicitou licença do
-sacristão para vêr o cadaver. Largo tempo o esteve contemplando com os
-olhos afogados, em lagrimas.
-
-—Dizem que era um homem honrado, apostrophou o sacristão.
-
-—Oiço dizer que sim, respondeu Frei Domingos. E, vendo-o, acredito que o
-foi.
-
-—Pois... não eram amigos?
-
-—Nunca lhe falei, nem sequer o vi.
-
-—Deixou-lhe talvez alguma coisa? replicou o sacristão affeito a vêr
-copiosamente chorar nos enterros as pessoas contempladas com verbas
-testamentárias.
-
-—Deixou-me... sincera pena de o não haver conhecido, respondeu Frei
-Domingos agradecendo e retirando-se.
-
-Ás seis horas da manhã, entrava Frei Domingos na diligencia de Braga.
-Ninguem no Porto soube como se chamava e d’onde era. Os amigos do
-bacharel noticiaram a João Nicolau e a Eduardo Valladares que, na egreja,
-um dos sacerdotes, frade carmelita segundo se disse, estivera chorando
-a ponto da commoção lhe embargar a voz. Outrosim perguntaram se este
-frade era relação da casa, parente ou amigo. Eduardo Valladares deteve-se
-um momento a consultar a memoria e respondeu negativamente. João
-Nicolau, como porém tivesse ouvido falar em frade carmelita, sentiu se
-impressionado, e sem pensar que fosse elle, lembrou-se n’aquelle momento
-de Frei Domingos do Amor-Divino.
-
-Quando o velho egresso voltou ao seu cubiculo da rua do Carvalhal, a
-trémula Gertrudes sahiu a recebel-o mais jubilosa que nunca.
-
-—Ó sr. Frei Domingos, exclamou ella, como me disse que tinha de fazer
-jornada, sempre estava inquieta. V. s.ᵃ já não está muito para andar
-pelos caminhos!
-
-—Ó boa mulher! com o auxilio de Deus vae-se bem para toda a parte. Mal
-sabe a sr.ᵃ Gertrudes d’onde eu venho. Pois oiça lá: fui ao Porto.
-
-—Ao Porto! acudiu admirada a velhinha.
-
-—Ao Porto, sim. E olhe que me não succedeu mal nenhum. Jornadeei em
-diligencia pela primeira vez na minha vida. E sempre lhe direi que isto
-de diligencias não foi a peor cousa que o progresso nos trouxe.
-
-—Oura-se muito, pois não oura?
-
-—Não se oura nada, mulher. A gente acostuma-se aos solavancos, e depois
-vae menos mal. Comparado isto com as jornadas a cavallo, d’outros tempos!
-
-—Acho que ha lá por fora muitas coisas novas. Eu é que não tenho visto
-nada, nem quero vêr. «Boa romaria faz quem em sua casa vive em paz.»
-
-—Assim é, mulher, mas ha casos que podem mais do que as leis. Tambem me
-chegou a minha vez d’andar em diligencia.
-
-O medico assistente de Maria Luiza dera-lhe licença de sahir pela
-primeira vez, justamente no dia em que se enterrava no Porto o bacharel
-Valladares.
-
-Era um formoso dia dos ultimos de fevereiro.
-
-—Ora vá, disse-lhe o facultativo. Não tardam a desabrochar as flores;
-v. ex.ᵃ deve apparecer tambem. Tome porém cuidado com o passeio. Não vá
-longe.
-
-—É que realmente não sei para que lado hei de ir.
-
-—Convem que se não exponha. Vá para o lado de Infias, mas não se demore
-muito.
-
-Quando o facultativo sahiu, Maria Luiza sentou-se a escrever a Eduardo
-Valladares as seguintes linhas:
-
-«Tenho licença para sahir hoje pela primeira vez. Emfim! Vou com minha
-mãe e com Rosinha. Ao meio dia apparece, como quem anda passeando, perto
-da quinta de Infias. Não faltes.»
-
-Maria Luiza chamou a irmã para fazer chegar o bilhete ao seu destino.
-Rosinha ficou inquieta. Tinha occultado a morte do bacharel e a sahida de
-Eduardo para o Porto. Revelar a verdade era alancear o coração de Maria
-Luiza; continuar a occultal-a seria o mesmo que não explicar a falta de
-Eduardo no passeio a Infias.
-
-—Está decerto agora nas aulas e talvez o não possa receber...
-
-—Não me disseste outro dia que elle tinha recebido bilhetes teus no
-Seminario?
-
-—Sim... disse. Mas se estiver nas aulas... Eu vou mandal-o... oxalá que
-ainda vá a tempo.
-
-Quando sahiram, Rosinha levava o coração opprimido.
-
-—Vaes triste? notou Maria Luiza.
-
-—Não vou; ir calada não é ir triste.
-
-—Tens razão.
-
-Chegaram a Infias.
-
-O coração de Maria Luiza pulsava vertiginosamente—d’esperança; o de
-Rosinha batia tambem agitado—d’afflicção.
-
-A estrada estava deserta. Decorreram minutos. Ninguem. Maria Luiza
-relanceou á irmã um olhar de eloquente interrogação. Rosinha simulou não
-dar tento, e fitou os olhos n’um ponto que ella nem sequer via...
-
-Decorreram mais alguns minutos de completo silencio.
-
-—Não vaes boa? perguntou a viuva Machado a Maria Luiza, inquieta pela vêr
-extremamente pallida.
-
-—Vou boa, minha mãe. Não é nada...
-
-—Talvez seja longo o passeio. Voltemos, se querem.
-
-—Não, vamos até alli mais adeante, e voltemos depois, respondeu Maria
-Luiza.
-
-Era a ultima esperança.
-
-Fôram um pouco mais adeante. Não appareceu ninguem. Maria Luiza voltou-se
-e disse abruptamente:
-
-—Vamos embora; agora é que me não sinto boa.
-
-E depois, segredando á irmã:
-
-—Não veiu!
-
-Então Rosinha achou que devia dizer meia verdade. Contou que Eduardo
-Valladares tinha ido ao Porto por motivo imprevisto.
-
-Maria Luiza sorriu doloridamente e disse:
-
-—É possivel que fosse ao Porto, mas é impossivel que não estivesse hoje
-aqui se já me não tivesse esquecido.
-
-E, tão agitada como incredula, repelliu todos os protestos que lhe fazia
-a irmã de haver dito a verdade quanto á ida ao Porto.
-
-—Fez-te mal sahir! disse a viuva Machado com o coração opprimido por um
-torturante presentimento.
-
-—Não é nada, minha mãe; socegue. Vêl-a inquieta, é que me incommoda.
-
-Maria Luiza, a mariposa alegre d’outros tempos, alma creada para as
-flores e para o sol, era, bem o sabeis, uma d’essas creaturas que
-se deixam ir embaladas no ambiente da felicidade e que um dia, ao
-encontrarem a chamma que as namora, ou a atravessam impunemente ou
-crestam n’ella as azas iriadas. São estas frageis creaturas as que mais
-podem luctar com as tempestades da vida, mas se uma vez succumbem,
-deixam-se morrer lentamente, abraçadas, permittam-me que diga assim, ao
-pensamento que lhes envenena o coração.
-
-Maria Luiza julgou-se esquecida pelo homem a quem amava. Esta ingratidão
-suffocava-a. «Por que não iria elle, perguntava a si mesma na sua
-afflicção, porque não iria vêr-me, depois de me não ter visto ha tanto
-tempo? E os meus pensamentos todos eram seus! Se sonhava... via-o no meu
-sonho. Dizia-me o coração que não morria, porque o amava... E elle não
-foi!»...
-
-Á noite, queixou-se de extrema inquietação. Chamou-se á pressa o
-facultativo.
-
-Antes d’elle chegar, Maria Luiza levantou-se de golpe, disse que uma
-nuvem vermelha lhe tirava a vista, e bolçou sangue.
-
-
-
-
-XXIX
-
-
-Moralmente, Rosinha soffrera tanto ou mais que Maria Luiza.
-
-O seu amor, a sua dedicação pela irmã estremecida levou-a a occultar a
-morte do bacharel Valladares.
-
-—Sabendo-o, soffrerá metade das dores que dilaceram o coração luctuoso de
-Eduardo. Peorará decerto, pensara Rosinha nos extremos do seu carinho.
-
-Depois, acercou-se de sua mãe e disse:
-
-—Não lhe parece que será melhor não dizermos que morreu o genro do João
-Nicolau?
-
-—Sim... talvez.
-
-—É sempre desagradavel a noticia d’um fallecimento. Agora, porém,
-tão impressionavel a tornou a doença, que parece-me que seria melhor
-occultarmos...
-
-—Pois sim, não digamos nada.
-
-Quando Maria Luiza lhe entregou o bilhete, Rosinha ficou sobresaltada.
-Exprimiu o receio de Eduardo Valladares o não receber a tempo, para ir
-dispondo o ánimo da irmã. Não previu as tristes consequencias que vieram
-surprehendel-a. Suppoz que o adeantado da hora seria razão sufficiente
-para explicar a ausencia de Eduardo, e que Maria Luiza diria de si para
-comsigo «não pôde vir» em vez de «não quiz vir.»
-
-Para acalmar a irmã, resolveu-se, como vimos, a dizer ao menos meia
-verdade.
-
-Não foi acreditada.
-
-É inexplicavel o que em algumas horas soffreu a boa alma, toda dúvida e
-receio, toda amor e afflicção...
-
-Em casa, no regresso d’aquelle triste passeio, Rosinha, muito atribulada,
-disse á irmã:
-
-—Socega, por Deus. Amanhã te explicarei toda a verdade.
-
-Maria Luiza olhou-a com fixidez, e sorriu um breve sorriso que tinha
-tanto de tristeza como de incredulidade. E continuou a luctar com a mesma
-ancia, cada vez maior.
-
-O facultativo ficou surprehendido do estado em que veiu encontrar Maria
-Luiza e não pôde deixar de o attribuir a hemorrhagia da membrana mucosa
-pulmonar. A hemoptyse estava manifesta. O sangue era acompanhado de tosse
-violenta e no meio da ancia, que a suffocava, queixava-se Maria Luiza de
-intenso calor sobre o peito.
-
-Quando a doente socegou algum tanto, o facultativo disse em particular á
-viuva Machado:
-
-—Sua filha, comquanto fôsse clara certa predisposição que infundia
-receio, enganou-me, e eu vou dizer em que. Fiei muito d’uma convalescença
-remançosa, que ella devia ter e que, rigorosamente observada, seria
-barreira á obra da destruição. N’isto foi que me enganei. Sei que estou
-dilacerando o coração da mãe, mas devo usar d’esta franqueza para com a
-enfermeira. Tiremol-a d’aqui, quanto antes, o mais breve possivel. Para
-que não vae v. ex.ᵃ para a quinta do Prado? Está á porta a primavera;
-appellemos para ella.
-
-—Para a quinta do Prado... Mas para lá...
-
-—Diz v. ex.ᵃ?...
-
-—Ha o inconveniente de a approximarmos do tumulo da irmã, por quem morria
-d’amores...
-
-—Ah! Fez v. ex.ᵃ bem em me informar d’essa circumstancia, que eu
-desconhecia. Não sabia onde repousava a filha de v. ex.ᵃ; sabia
-apenas que tinha succumbido a uma tisica pulmonar. É pois conveniente
-escolhermos outro local.
-
-—Lembro-me do Bom Jesus, que é o seu passeio favorito. Podiamos requerer
-aposento na _Casa da mesa_. Que lhe parece, sr. doutor?
-
-—Sabe v. ex.ᵃ que de todos os sitios affluem numerosos doentes ao Bom
-Jesus. É difficil encontrar mais salutar atmosphera. Mas ainda assim,
-pelo que toca a condições hygienicas, não pode comparar-se com a quinta
-do Prado. Torna-se, porém, indispensavel atalhar o mal obstinadamente, e
-haver rigorosa observancia de prescripções. Convem livral-a sobretudo do
-nevoeiro da serra, de certa viração perfida que sopra de manhã e de tarde
-no Bom Jesus.
-
-—Oh! mas diga-me se tem esperanças de a salvar, sr. doutor, lembre-se
-n’este momento de que sou mãe.
-
-—Socegue, minha senhora. Empenharemos todos os esforços e
-restituil-a-hemos á vida.
-
-Sahiu o medico, dissipando com as exhalações d’um charuto as esperanças
-de salvar Maria Luiza.
-
-Ha só uma coisa comparavel á consciencia dos medicos: é a consciencia
-dos ministros. Esta relação de semelhança deve lisonjear os homens da
-sciencia...
-
-Na manhã do dia seguinte, Rosinha curvou-se sobre o travesseiro de Maria
-Luiza e murmurou:
-
-—Se me podes ouvir, ou se estás para isso, queria dizer-te uma coisa...
-
-—Dize.
-
-—Perdôa-me, por Deus, perdôa-me. Hontem não te disse toda a verdade.
-Pobre de mim, que não previ o mal que ia fazer!
-
-—Eu sabia que me enganavas. Comprehendi, porque sei quanto és minha
-amiga, Rosinha...
-
-—Tu sabias?
-
-—Sabia. Sabia que querias justificar a ingratidão, o esquecimento d’elle,
-só para não me magoares.
-
-—Enganas-te. O amor desvaira-te. Elle não pôde ir, porque...
-
-—Por que?...
-
-—Socega. Vejo-me, porém, obrigada a fazer-te esta revelação. Pesa-me de
-não a ter feito hontem. Quando a mamã estiver presente, mostra que não
-sabes...
-
-—Dize, dize.
-
-—O Eduardo está realmente no Porto.
-
-—Quiz fugir-me?
-
-—Não. Foi chamado á pressa. Sebastião Valladares... morreu.
-
-—Morreu! E por que m’o não disseste? Receavas que me fizesse mal, bem
-sei, minha boa irmã. Morreu! Como elle terá soffrido! E eu accusava-o,
-Rosinha, accusava-o porque me dilacerava o coração a lembrança de me não
-ter ido vêr, a mim, que me levantava do leito depois de tantos dias de
-soffrimento... Como eu fui injusta...
-
-—Socega. Que não te vá fazer mal...
-
-—Não faz, não. Pobresinho d’elle, que parece ter nascido sob o influxo
-d’uma estrella funesta. Não lhe bastava o que soffria por minha causa!
-Ainda mais isto! Soffre-se tanto quando se fica sem pae! Lembras-te do
-que nós sentimos e chorámos, quando nos faltou o nosso, Rosinha?
-
-—Cala-te, minha amiguinha, cala-te. Pode ouvir a mamã. Não fales
-mais. Hontem de tarde, se t’o dissesse para remediar o mal que
-involuntariamente fiz, talvez não acreditasses.
-
-—Talvez não.
-
-—Hoje, porém, tenho provas.
-
-—Tens provas?
-
-—Promette que te não alvoroças, se não...
-
-—Ah! escreveu-te! Deixa-me ver, deixa-me ver.
-
-—Eu leio...
-
-—Não sejas cruel, Rosinha. Deixa-me ler, que já tenho saudades de ver a
-sua lettra...
-
-Rosinha entregou a carta que tinha recebido, do Porto momentos antes.
-Maria Luiza leu:
-
-«Minha boa amiga:
-
-Escrevo-lhe do Porto. Sabe já decerto que meu pae morreu. Occulte-o a
-ella, por quem é, occulte-lh’o. Como sentiria as dores que eu só devo
-sentir, se ella o soubesse! Podia talvez peorar.
-
-«Quando olho em mim, e conheço que levei a minha desgraça áquella alma,
-que não a merecia, sinto remorsos de a ter amado. Que Deus me perdôe, e
-a salve a ella. Não posso ser mais extenso. Basta dizer-lhe que meu pae
-baixa hoje á sepultura. Voltarei dentro de pouco dias.»
-
-—Rosinha, minha irmã, reza commigo a Nossa Senhora. Rezemos por elle, que
-é muito infeliz; por mim, não, que eu sinto-me boa.
-
-E brilharam-lhe lagrimas nos olhos. Sobreveiu um frouxo de tosse, e após
-a tosse uma lufada de sangue...
-
-Passadas horas, respondia Rosinha a occultas da irmã:
-
-«Occultamos-lhe a morte de seu pae. Procuramos, porém, afastar um mal,
-e approximamos outro. Mando-lhe o bilhete que ella me dava hontem para
-eu lh’o fazer entregar, na supposição de estar, em Braga. Continuei
-ainda a occultar a cruel verdade sem pensar nas consequencias funestas
-da minha dedicação. Á conta de esquecimento tomou ella a sua ausencia.
-Era manifesto que soffria muito quando recolhemos, mas foi-me então
-impossivel remediar o mal, revelando toda a verdade. Ás nove horas da
-noite, sentia-se muito incommodada e momentos depois abafava-lhe a voz
-uma onda de sangue. Pobre irmã! Venha depressa, que eu sinto que me falta
-o ánimo. Hoje confessei-lhe tudo. Quiz lêr a sua carta, e lamentou-o
-muito com os olhos cheios de lagrimas. Vamos amanhã para o Bom Jesus.
-O facultativo aconselhou ares mais puros sem perda de tempo. Venha
-depressa, sim? A precipitação com que lhe estou escrevendo explicará o
-laconismo destas linhas.»
-
-Quando Rosinha voltou ao quarto, disse-lhe Maria Luiza:
-
-—Tu respondes hoje?
-
-—Eu! Não tenciono.
-
-—Quero então pedir-te um favor.
-
-—Dize o que é.
-
-—Se me deixavas escrever...
-
-—Escrever! Mas se te vae fazer mal...
-
-—Não faz, eu sei que não faz.
-
-—Com uma condição: quatro palavras, apenas.
-
-—Pois bem. Quatro palavras apenas, respondeu Maria Luiza.
-
-E escreveu com bastante difficuldade para sustentar a penna na mão
-convulsa:
-
-«Sei o que terás soffrido, meu pobre Eduardo!... Que o meu amor te dê
-coragem. Não receies por mim, não? Eu estou boa. Queria que viesses,
-porque vamos ámanhã para o Bom Jesus, e não sei como hei de estar lá sem
-ti. Já não te vi ha tanto tempo...»
-
-Rosinha interrompeu-a para dizer-lhe:
-
-—Já escreveste muito. Se te faz mal... Se vem a mamã.
-
-E ouviram-se passos no corredor.
-
-—Ella ahi vem, não ouves?
-
-
-
-
-XXX
-
-
-João Nicolau e Frei Domingos estavam conversando um dia e naturalmente
-veiu a declinar o dialogo sobre o futuro de Eduardo, que parecia mais
-triste do que nunca.
-
-—É pois resolução assente o sacerdocio? perguntou o carmelita.
-
-—Assente, respondeu João Nicolau. Foi sempre desejo meu encarreiral-o por
-este caminho. Ao principio receei que o meu proposito o contrariasse. Ha
-tempos a esta parte, cuido perceber que lhe não desagrada o futuro que
-lhe dou gostosamente.
-
-—Hade o sr. João Nicolau lançar á conta da amizade com que me trata
-as impertinencias d’um velho. Deixe-me todavia ser franco—disse Frei
-Domingos do Amor Divino com os olhos marejados de lagrimas. Entrei n’esta
-casa supplicando a Deus que me preparasse um dia este momento, em que eu
-pudesse dizer ao homem honrado: «Aqui estão os meus cabellos brancos;
-ouve-me, se elles te inspiram compaixão.»
-
-João Nicolau sentia-se perplexo e commovido.
-
-Frei Domingos continuou:
-
-—Um dia, um homem velho como eu, coração sem mancha, como prouvera ao
-Senhor que fôra o meu, bateu á minha porta e disse: «Desgraças communs
-prenderam o meu coração ao coração d’outro homem, cujo filho se abeira
-hoje de mim, a instancias do pae, para pedir conselho á minha velhice,
-não á minha discreção. Descobri sombras na fronte que se devia illuminar
-com o clarão da mocidade. Vi curvada com melancholico pendor a roseira
-que se devia erguer attrahida pelas flechas do sol. Sondei. Desci
-cautelosamente ao coração de dezeseis annos e encontrei-o traspassado
-por um espinho. A pobre alma confrangia-se deante d’um futuro que se
-approximava dia a dia, e que ella queria remover, ou porque estivesse
-embalada nas castas doçuras da sua edade, ou porque a apavorasse a
-austeridade do sacerdocio.» Disse-me isto o ancião com voz trémula de
-commoção e velhice. Depois, voltando-se de novo para mim, accrescentou:
-«A missão do levita é supplicar e esclarecer. Vá: supplique e esclareça.
-Fale ao coração piedoso do homem que chamou a si o neto desprotegido
-da fortuna para lhe aplanar o caminho da vida. Vá e diga-lhe curvado
-de respeito: «Venho desafogar comtigo, porque sei que o teu coração é
-brando; ouve-me e Deus te agradecerá». Era eloquente e justa esta voz.
-Obedeci e vim. Aqui estou, sr. João Nicolau, para lhe pedir que me oiça.
-Direi o que a razão me fôr suggerindo; depois terminarei com o dito da
-Escriptura: «Se eu errei, corrige-me tu; se eu falei com iniquidade, não
-accrescentarei mais.[13]»
-
-—Oh! sr. Frei Domingos... exclamou João Nicolau sem poder concluir a
-phrase.
-
-—O melhor futuro não é o que nos parece melhor; é o que Deus nos prepara.
-O coração affectuoso pode enganar-se ao talhar felicidades que nunca
-cheguem. Não digo que venha a ser assim; quero dizer que o coração do sr.
-João Nicolau, estremoso e bom, pode enganar-se em sua mesma bondade. Um
-dia as lagrimas de seu neto podiam amargurar-lhe os remanços da velhice.
-O sr. João Nicolau choraria a sua e a alheia desgraça ao ver despida
-de flores a arvore do seu amor. Não me pesa a mim a batina, porque a
-procurei e a vesti eu mesmo. Prouvera ao Senhor, porém, que conhecesse
-menos hombros avergados sob ella, que era então certo conhecer menos
-infelizes. O sacerdote que não tem o ánimo despreoccupado, serve mal a
-Deus e á sua alma. Não me quero engrandecer, nem aos que voluntariamente
-abraçam o sacerdocio. Quero dizer que não poderia curar promptamente
-as dores alheias, se todos os dias tivesse de pensar a chaga incuravel
-do meu desespêro. Toda a vida tem espinhos; o sacerdocio tambem. O
-marinheiro que voluntariamente embarca, corajoso lucta com as tempestades
-do mar e todo se delicia na contemplação do azul purissimo das aguas,
-quando céo e mar estão serenos. O que navega coagido nem desteme a
-tormenta nem se consola com a suavidade da paizagem. Para tal marinheiro,
-o mar é sempre um abysmo, ou durma ou se encapelle. Que cada um procure
-o rumo da sua derrota. Depois, quando já tiver embarcado, digamos assim
-ao nauta querido do nosso coração: «Filho, deixa-me guiar o teu batel, em
-quanto o teu braço fraqueja».
-
-Frei Domingos parou um momento, fatigado pela commoção. João Nicolau
-approximou-se e disse com olhos humidos de pranto:
-
-—Sr. Frei Domingos, as suas palavras convencem me. Pensei que meu neto
-não ia sacrificado ao destino que lhe eu dava. Suppuz a principio que a
-idéa da solidão do presbytero lhe pusera medo. Chegada, porém, a hora de
-lhe indicar um caminho, vi-o calar se sereno e...
-
-—Agradeçamos a Deus que lhe não endureceu o coração; é humilde. O filho
-d’aquelle homem, cuja face gelada era serena como a superficie d’um lago,
-devia compartilhar das virtudes enthesouradas no coração do pae. Eu vi o
-cadaver de seu genro...
-
-—O sr. Frei Domingos! Ah! pois era o carmelita?...
-
-—Fui ao Porto, que me dizia a consciencia que devia ir. Entrei aqui, e
-fui recebido, sob este tecto, como não merecia. D’esta grande divida
-que tenho em aberto, e que decerto não posso saldar, procurei pagar a
-centesima parte dos juros, amontoados. Á volta do feretro d’um parente
-intimo d’esta casa, reuniam-se sacerdotes; era lá o meu logar; fui
-tomal-o. Não faltavam á viuva e ao orphão consolações d’amigos; as
-minhas seriam menos prestantes. Foi por isso que não appareci á familia
-annojada. Na egreja senti uma extranha commoção: chorei. Talvez fôsse
-fraqueza o chorar; talvez. São percalços da velhice. Estava-me lembrando
-das desgraças que poderiam fulminar o orphão, se a minha voz fôsse
-impotente para convencer o sr. João Nicolau. E olhe que não vae n’isto
-offensa ao seu coração. Não receava por elle; receava por mim. Da palavra
-do conselheiro depende a efficacia do conselho. O bom terreno, por mal
-semeado, pode deixar de fructificar. Enganei-me, sr. João Nicolau,
-enganei-me. Não é verdade? Não é verdade que veiu Deus em nosso auxilio,
-porque o seu entendimento adivinhou o que eu deixei de dizer? Diga-me que
-sim, que é esta a maior alegria de ha trinta annos. O sr. João Nicolau
-é bom... Bem vejo que está chorando. «Fazei justiça ao necessitado e ao
-orphão»[14] diz o _Psalterio_. O sr. João Nicolau é religioso, e ha de
-fazel-a. Dê-me um abraço, meu amigo, que eu leio nas suas lagrimas a
-resposta que a commoção lhe não permitte dar-me...»
-
-Foi edificante aquelle lance em que dos olhos dos dois velhos brotaram
-copiosas lagrimas. Por longo tempo nem um nem outro pôde falar. O
-silencio dava certa grandeza ao quadro.
-
-Decorreram minutos, após os quaes Frei Domingos conseguiu dizer:
-
-—Bemdito seja o nome do Senhor! Vou d’aqui rejuvenescido. Vou dizer a
-Rodrigues d’Abreu...
-
-—Tinha adivinhado logo que era elle. Em Braga, não podia ser outro. Bom
-coração aquelle!
-
-—Bom coração é, realmente. A elle devemos esta alegria, que veiu
-illuminar a nossa velhice. Vou dizer-lhe: Permittiu Deus que eu visse a
-realisação de tamanha esperança. Receei uma vez, e chorei. O Senhor das
-alturas perdoou-me, cobriu-me com a Sua grandeza, depois de ter inspirado
-o coração a que me dirigi.
-
-Passados dias, João Nicolau chamou o neto á sua presença e disse-lhe:
-
-—Estamos sós, e espero que me falarás com a lizura com que falarias a teu
-pae.
-
-—Responderei com a voz do coração.
-
-—Cabe-me o dever de dirigir a tua educação, e não quero violentar-te a
-acceitares um futuro que te repugne. Se até hoje fiz mal, determinando-te
-uma carreira, dir-m’o-has agora. Responde-me com franqueza. Da resolução
-que tomares depende tudo e, depois de consummada a obra, é impossivel a
-emenda. A tua recusa não me desgosta, nem me contraria. Se assim fôsse,
-não te chamaria para me expores a tua vontade.
-
-Eduardo Valladares levantou para o avô os olhos tristes, e respondeu com
-firmeza:
-
-—Agradeço do fundo do coração, meu avô, o sentimento que o levou a
-querer ouvir-me sobre este ponto. Respondo, abrindo-lhe a minha alma. O
-sacerdocio, a que me destinava, apavorava-me quando eu sentia enflorar-se
-o peito com as primaveras que são apanagio dos primeiros annos da vida.
-Entre mim e a minha esperança, via levantar se a barreira do sacerdocio.
-Chorei, exasperei-me, e levei o écho das minhas amarguras aos ouvidos de
-quem entrava no mundo com direito a sahir d’elle sem rasgar o coração
-na minha corôa d’espinhos. Quiz rebellar-me, no meu desespêro, contra a
-vontade de meu avô. Suspendeu-me sempre á beira do precipicio um braço
-amigo, apontando-me para o Céo. Esperei do Céo o balsamo, o confôrto. Sem
-deixar de crer em Deus, via porém crescer hora a hora o meu desespêro.
-Era horrivel viver assim, meu avô! Fui vivendo uma vida d’esperanças e
-de lagrimas, de fé e de descrença... Só sabe comprehender isto, quem
-viveu assim. Era delicado de mais para tamanhas procellas o coração que
-eu amei. Despedaçou-o aquella agonia lenta. Despedacei-o eu, meu avô.
-A martyr succumbiu ás minhas dores. Amava-me de mais para me esquecer.
-Chorei de desespêro; choro agora de remorso. Encherei com as minhas
-lagrimas o calix do sacrificio. Na expiação de todos os dias supplicarei
-o perdão de Deus. Quero e devo expiar assim, meu avô, se a pessoa a quem
-me refiro adormecer no tumulo para accordar no Céo.
-
-
-
-
-XXXI
-
-
-«As arvores tanto as tenho para mim como para os passaros» escreveu
-Lamartine no formoso livro _Pedreiro de Saint-Point_.
-
-Ó alma sublime de poeta, tu não levavas o teu egoismo ao extremo de
-quereres as arvores unicamente para te envolverem em mysteriosa sombra
-nas tardes meditativas do estio. Tu sabias que esse mundo de folhas
-verdes, sussurrante e oloroso, se pode servir de cupula ao homem em horas
-de profunda meditação, é tambem das aves que se deixam absorver nos
-seus extasis d’amor, e querem esconder-se nas sombras da floresta, para
-cantar, sem que ninguem as veja.
-
-Deixemol-as entoar os seus modilhos emquanto nós pensamos.
-
-Ellas estão no seu mundo, nós estamos no nosso.
-
-O universo é para todos.
-
-Faz-me tristeza ver que os homens as perseguem, a ellas, que tornam
-alegre a solidão dos campos e que traduzem em musicas suavissimas os mais
-delicados pensamentos do amor e da saudade. Nós, quantas vezes nos não
-embriagamos nos mais delicados pensamentos, nos mais mimosos affectos,
-sem que possamos encontrar na palavra o prisma que reproduza as formosas
-cambiantes do nosso espirito! Ellas, as aves, teem uma inflexão para
-cada idéa, uma harmonia para cada sentimento. Merecem mais respeito as
-pobresinhas, se não fôr por outra coisa, ao menos por isto—que já é muito.
-
-A creança d’hoje ha de ser homem amanhã e, se lhe ensinarem a disparar
-a sua clavina, irá desfechal-a contra o seio offegante d’uma andorinha,
-que commetteu o unico delicto de querer procurar alimento para a sua
-pequenina familia. Não digamos pois á creança que se embriaga nas
-innocentes alegrias da sua edade: «Amanhã, visto que estás homemzinho,
-faze-te caçador. Pega n’esta espingarda e vae pelo caminho fora. Rompe
-através do matto, salta córregos, galga montanhas, que todos esses
-sacrificios serão pagos pelo prazer sanguinario de matar. Se vires um
-bando d’aves, ainda que seja uma caravana de passarinhos alegres, que
-vão cruzando o espaço, como uma tribu nómada que atravessa o deserto,
-faze pontaria e atira. Se ferires a mãe, fecha o coração á magua de
-teres levado a orphandade e a viuvez a uma familia inteira, cerra os
-ouvidos aos saudosos lamentos de quem fica viuvo e orphão n’esse deserto
-dos céos! Se ferires o filho, esquece-te de que roubaste a alegria d’um
-coração de mãe, de que a ave é tanto mãe, ou mais ainda, do que a mulher,
-esquece-te, oh esquece-te... d’isto tudo e... desfecha a tua espingarda».
-
-Apraz-me entrar n’um cerrado onde as aves vivem em plena liberdade sem
-recearem da clavina do caçador, nem das redes da creança. Ahi cantam,
-amam e noivam sem emmudecer de sobresalto uma unica vez. Se o bosque fica
-perto d’uma corrente murmurosa, diremos que estamos no jardim do amor, ao
-ouvir os rouxinoes. Se fica n’um retiro formosamente triste, diremos que
-estamos na estancia da saudade, ao escutar as rôlas.
-
-As aves da floresta do Bom Jesus do Monte seriam verdadeiramente ditosas,
-se não as perseguissem as creanças—os unicos inimigos que ellas lá podem
-ter. Quem quer ouvil-as, sobe á montanha sagrada; as creanças ouvem-n’as,
-namoram-se de suas toadas alegres e querem prender as proprias aves, para
-que já lhes não fuja aquella doce musica.
-
-Maria Luiza e Eduardo Valladares estiveram na alameda da Mãe d’Agua, no
-dia trinta de março, dia em que a floresta toda se levantava em jubilos e
-canticos para saudar a primavera.
-
-Maria Luiza, meio inclinada para o tumulo, parecia sorrir á amenidade
-d’aquelle dia.
-
-Tinha nas faces a pallidez da morte, mas descerravam-se-lhe os labios
-n’um sorriso sereno como o da esperança. Esperaria ainda ella a
-felicidade terrena? Cremos que sim. Dizia tranquillamente a Eduardo
-Valladares, que no Céo havia um écho para cada desgraçado, e que lhe
-segredava o coração que não estava longe a felicidade. Queria vêl-o
-queria falar-lhe, queria ouvil-o a miude, e o pobre moço, desenganado
-pela voz da medicina, amparava-a nos braços, na afflictiva ancia que
-precedia quasi sempre uma nova hemoptyse. Muitas vezes dissera Maria
-Luiza, quando ainda era alegre:
-
-—Quem sabe se virei a morrer da morte de minha irmã? Talvez... Eramos tão
-amigas!...
-
-Depois que começara a soffrer, especialmente depois que foi para o Bom
-Jesus, dizia a Rosinha:
-
-—Eu hei de melhorar. Aqui amei e aqui soffri. Mas a gente gosta tanto
-dos sitios onde soffre, amando, que é como se tivesse vivido n’elles sem
-nunca ter chorado... Não posso morrer aqui, bem vês. Tudo são recordações
-a chamar-me á vida. Não posso morrer, não.
-
-—Pois não morres, não, respondia Rosinha, abafando a sua dôr.
-
-N’esse dia, trinta de março, estavam Maria Luiza e Eduardo Valladares na
-alameda da Mãe d’Agua. Acompanhara-a elle, dando-lhe o braço. Rosinha
-sentou-se a distancia.
-
-Á sombra das copadas arvores andavam armando aos passarinhos umas
-creanças, filhas de duas familias inglezas, que do Porto, onde ainda hoje
-residem, tinham ido passar alguns dias no Bom Jesus do Monte.
-
-Andavam estas creanças folgando em commum divertimento. Quando uma
-avesinha incauta descia a pousar na varinha traiçoeira, e ficava presa
-no visco, sahiam os pequenos de trás dos troncos afastados, chalrando
-alegremente n’uma linguagem que a plumosa victima devia entender, visto
-ter dito Carlos V que o inglez é para se falar aos passaros.
-
-Depois de prêsa a ave, armavam de novo, tornavam a esconder-se, e
-trocavam-se ordinariamente no esconderijo estas phrases com intervallos
-sempre deseguaes:
-
-—_Be silent..._
-
-—_It is coming..._
-
-—_It has perched..._
-
-—_It is caught!_
-
-O mysterioso dialogo das impiedosas creanças orça por isto em portuguez:
-
-—Sciu...
-
-—Chegou...
-
-—Pousou...
-
-—Está preso!
-
-Maria Luiza tinha dito a Eduardo Valladares, quando entraram na alameda:
-
-—Trouxe-te hoje papel e lapis. Tenho saudades... dos teus versos, meu
-amor! Desapprendeste a cantar nas tuas afflicções, mas hoje quero que
-escrevas ao pé de mim para me certificar de que a tua alma está serena
-como a minha...
-
-Eduardo Valladares, coração afogado em lagrimas, acceitara o lapis e o
-papel para não a contrariar.
-
-Como porém o alvorôto das creanças distrahisse por momentos Maria Luiza e
-Rosinha, não sem que revelassem assomos de compaixão, Eduardo Valladares
-foi escrevendo ao correr do lapis.
-
-—Escreveste? perguntou com alegria Maria Luiza.
-
-—Escrevi; cumpri... o teu desejo, respondeu elle.
-
-Diziam os versos:
-
- Ide embora, meninos, que é peccado,
- Armar aos passarinhos.
- Indiscretos brinquedos,
- Que levam lucto á paz de tantos ninhos
- Se toda a gente andasse a perseguil-os,
- Não tornaria ninguem mais a ouvil-os
- Nos densos arvoredos.
- Deixae-os modular doces modilhos,
- A musica do ar.
- Ao pé do berço, em quanto ereis creanças,
- Cantavam vossas mães plantando esp’ranças
- No cuidado jardim dos seus amores...
- Deixae-os vós cantar,
- Emquanto arrulham embalando os filhos
- Que dormem sobre flores...
-
- Posta que fôr a perfida varinha,
- Anceaes por vêr a saltitar no chão
- Descuidosa andorinha,
- Que se não lembra da infantil traição.
-
- Ninguem se move... Comprimis no seio
- O ardente respirar,
- Para que não ponhaes em sobresalto
- O bom do passarinho
- Que tentaes algemar.
- Se vos ouvisse respirar mais alto,
- Mudaria o caminho
- Por fugir aos pequenos salteadores,
- Que o estão esp’rando como vis traidores!
-
- Eil-o que se approxima embevecido
- Na tarefa que tem todos os dias.
- Vem cheio d’incerteza e d’alegrias...
- Se pudesse voltar tão bem provido
- Como hontem voltou! Mas se lhe falha
- A fortuna que teve,
- E não acha migalha
- Que, venturoso, leve!...
- Entretanto descobre
- A farta refeição—uma riqueza
- Para quem é tão pobre...
- Venturosa surpresa!
- Olha em roda... Ninguem... Escuta... ousou.
- E mal que toca a ração indefesa,
- Prisioneiro ficou...
-
- Surde de toda a parte a vozeria,
- O febril alvorôço,
- Conjunto de mil vozes d’alegria...
- O passarinho é vosso,
- Podeis emfim leval-o.
- Mas se já vos lembrou tel-o captivo,
- É bem melhor... matal-o.
-
-—Ah! impressionaram-me estes versos. Tens razão... Fazer mal ás avesinhas
-que são do ar! Lembras-te da primeira vez que viemos ao Bom Jesus? E dos
-teus versos?... Atiraste-m’os ao regaço aqui, foi mesmo aqui...
-
-Rosinha, que por um momento receou que Eduardo Valladares não pudesse
-reprimir, ao escrever, as dores profundas que lhe torturavam a alma,
-trocou com elle um olhar d’approvação, que a doente não surprehendeu.
-
-N’este momento andavam as creanças, a distancia, mostrando-se com
-estrepitoso jubilo uma avesinha que tinha ficado prisioneira.
-
-Maria Luiza chamou uma, e vieram todas de tropel, orgulhosas da victoria.
-Pediu-lhes que soltassem aquelle passarinho, que lhes não tinha feito
-mal nenhum. O pequenito, que entendera perfeitamente, olhou para Maria
-Luiza com desdem, mas uma inglezita de cabello loiro, talvez sua irmã,
-voltou-se para o companheiro, pequeno como ella, e disse:
-
-—_She is so ill! Do what she wished._
-
-Felizmente Maria Luiza não sabia inglez; a pequenita tinha dito: «Ella
-está tão mal! Faze-lhe a vontade...»
-
-A avesinha, restituida á liberdade, desferiu vôo, e as creanças seguiram
-n’a com a vista até que desappareceu através das arvores.
-
- * * * * *
-
-Quantas vezes, ao despregarmos os olhos do azul purissimo em que se
-esbatem os contornos d’uma paizagem deliciosa, não sentimos passar no
-espirito uma tristeza subita, acompanhada do receio de não tornarmos
-áquelle sitio?
-
-Maria Luiza não se despedia das arvores da floresta, porque devia a Deus
-o esquecer-se da realidade da vida, á beira do tumulo, embalada n’uma
-esperança que o seu espirito em outra occasião não teria acceitado. Esta
-doce tranquillidade, quando a vida lhe fugia veloz a cada momento que
-passava, tomemol-a á conta de prodigioso effeito d’uma extranha causa.
-Eu, de mim, elevo o meu pensamento a Frei Domingos do Amor Divino...
-
-Maria Luiza não se lembrou, pois, n’aquelle dia, de que poderia ser o
-ultimo em que tremessem sobre os seus cabellos as sombras ondulantes do
-arvoredo da serra. Mas nós—os que furtivamente a acompanhamos, os que sob
-o toldo sonoro da alameda a vimos amar e soffrer, os que nos costumamos
-a querer áquellas arvores como ella mesma queria—nós digamos adeus aos
-mil encantos que se escondem no crepusculo perpétuo da floresta, que não
-sabemos se o destino nos deixará acompanhar outra vez a pallida visão,
-avergada pela morte.
-
-Adeus, sombras e murmurios, aves e ninhos, fontes e arvores. Adeus,
-flores silvestres e borboletas que vos amaes. Adeus, folhas verdes que
-sois namoradas dos seixos côr de rosa; adeus. Quem sabe? Talvez para
-sempre—adeus.
-
-
-
-
-XXXII
-
-
-São de Eduardo Valladares estas palavras:
-
-«No dia 5 de abril, fui chamado á pressa ao Bom Jesus por um creado da
-viuva Machado que, ao romper do dia, batera á porta da casa de meu avô.
-
-«Vesti me com precipitação e sahi immediatamente. Tão violentas eram as
-pulsações do meu coração, com tamanha velocidade caminhava eu, que tinha
-de parar a cada momento, suffocado, para poder respirar. Esta demora mais
-augmentava a minha sobreexcitação.
-
-«Eu tinha passado a noite, até ás onze horas, no Bom Jesus. Para evitar
-assumptos inopportunos, adoptei o costume de lêr. Maria Luiza, que só
-a custo podia falar, e que tinha sido obrigada pelo medico a estar
-silenciosa, applaudiu a minha idéa, e gostava muito de me ouvir. Quando
-se me deparava alguma passagem que não convinha lêr, por ter maior ou
-menor relação de semelhança com a nossa dolorosa situação, passava-a em
-claro continuando a leitura. Maria Luiza, que conservava um admiravel
-vigor de faculdades intellectuaes, notava a incoherencia, e obrigava-me a
-voltar atrás para justificar a censura.
-
-«Assim passavamos as noites, e assim passámos a de quatro d’abril. Quando
-desci a montanha, havia um formosissimo luar que tremia em scintillações
-na concha das fontes. O silencio, o grande silencio das noites da serra,
-era apenas quebrado pelo murmurio cadenciado e monotono das aguas.
-
-«Em baixo, no valle, lampejavam os reverberos da cidade. Tudo o mais era
-silencio e luar.
-
-«A minha alma vinha entregue ás tribulações de todas as horas, mas não me
-atravessava no coração o presentimento de tão proxima desgraça.
-
-«Maria Luiza tinha estado a ouvir-me lêr, alegre, tranquilla, sem
-denunciar maior soffrimento. Ás onze horas sahi, para voltar na noite
-seguinte. O dia gastava-o eu nas aulas, e a estudar. Só os dias feriados
-os passava todos no Bom Jesus.
-
-«A verdade é que, depois de eu sahir, se queixara d’insomnia, e de
-frio de pés. Logo lhe purpurearam as faces duas rosetas escarlates que
-denunciavam accesso de febre. Sobreveiu a agitação, a impaciencia.
-Perguntava anciada se já era dia, se eu não chegava, porque queria ir
-commigo á Mãe d’Agua para respirar livremente. Mandou que lhe abrissem as
-janellas para reconhecer a claridade da manhã. Abriram-lh’as. Como visse
-o luar e as estrellas, contorceu-se febricitante. Foi então que expediram
-o creado que me chamou. Durou bastante tempo o frenesi, após o qual veiu
-uma violenta hemoptyse.
-
-«Ficou extenuada a pobresinha, sem poder respirar. Era a prostração que
-precede a morte...
-
-«Quando eu cheguei, quando me ouviu a voz, descerrou os olhos, deu aos
-labios o geito d’um sorriso, e murmurou com extrema difficuldade: Não
-posso... Queria ir comtigo... Não te esqueças de mim... Morro decerto...»
-
-Eduardo Valladares deteve se suffocado pelas lagrimas. Esperei que
-pudesse continuar:
-
-«Queria vir á Mãe d’Agua, não talvez para respirar melhor, mas para se
-despedir, porque só então conheceu que morria. Foi no dia trinta de março
-de 1853 que pela ultima vez estivemos aqui, na Mãe d’Agua. O medico,
-receoso da extrema frescura da alameda, não consentia que viesse.
-
-«Aqui tem como ella morreu... Que ella morreu, não... que deixou a
-terra... O seu derradeiro pensamento foi para mim e para o sitio querido
-dos nossos amores...
-
-«Está sepultada no mesmo cemiterio onde jaz a irmã, ao pé da mesma sebe
-engrinaldada de flores silvestres. O seu corpo está lá, na valla coberta
-de boninas, mas sinto aqui, na Mãe d’Agua, alguma coisa que me denuncía o
-perfume da sua alma. Dir-se-hia que respiro aqui a essencia da flôr que
-se engastou nas constellações do Céo.
-
-«Deixe-me abreviar esta narrativa, porque vou sentindo que me faltam as
-fôrças. Resta-me resumir o que se passou desde 5 de abril de 1853 até
-hoje, 15 de julho de 1870.
-
-«Da minha familia resta apenas minha mãe, que vive da minha dôr, e é o
-unico esteio a que me abraço, quando mais desconfortado me sinto.
-
-«Frei Domingos do Amor Divino morreu em 1860.
-
-«Ao entrarmos na egreja do Carmo, onde se rezaram os reponsos por alma
-do virtuoso _Fradinho_, hoje santificado pela opinião publica, disse-me
-Rodrigues d’Abreu:—Vamos, meu amigo. Devemos ambos muito á memoria d’esta
-boa alma. E olhe que não sabe ainda tudo quanto lhe deve...
-
-«Estas palavras despertaram a minha curiosidade. Quando sahimos, o sabio
-bibliothecario circumstanciadamente me contou como Frei Domingos se
-empenhara pela minha felicidade. Fiquei surprehendido. Rebentáram-me
-lagrimas em jôrro. Depois que nos despedimos, voltei á egreja do Carmo.
-Já estava fechada. Entrei em casa e orei por longo tempo. Levantei-me
-tranquillo e fui buscar a velha Gertrudes, que sobrevivera a seu velho
-amo. Estava inconsolavel. Dei-lhe abrigo em minha casa durante os oito
-mezes que ainda teve de vida. Do que a Gertrudes contou e do que Frei
-Domingos revelara, coordenei os apontamentos que sei da sua vida.
-
-«Rodrigues d’Abreu, o coração nobilissimo, expirou, como sabe, ha sete
-mezes, a 6 de dezembro de 1869.
-
-«Resta-me falar da familia de Maria Luiza.
-
-«A viuva Machado, avisada do risco que corria a vida da unica filha
-que lhe restava, se não procurasse melhor clima, sahiu para a ilha da
-Madeira. Rosinha casou no Funchal, cuido que por inclinação, onde vive em
-companhia da mãe e do marido.
-
-«E eu?...
-
-«Contei-lhe a minha vida, revelei-lhe as paginas mysteriosas do meu livro
-intimo, deixei-lhe vêr as minhas lagrimas... Que lhe posso dizer mais?
-Não pensei no suicidio, não me atirei ao abysmo da morte para extinguir
-as minhas dores, e adormecer.
-
-«Procurei o balsamo onde o podia encontrar.
-
-«Cada dia apparecem livros que abrem por blasphemias, e terminam pela
-negação de tudo o que ha de defeso á razão limitada do homem. Eu, se um
-dia escrevesse a minha historia, havia de terminar por esta palavra—DEUS.»
-
-FIM
-
-_Nota._—A estampa que illustra a capa d’esta edição reproduz fielmente o
-antigo aspecto da alameda da Mãe d’Agua, no Bom Jesus do Monte.
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] CONTOS AO CORRER DA PENNA—_No Bussaco_.
-
-[2] Tudo isto está hoje mudado no Bom Jesus do Monte. Diogo Forjaz
-descreveu assim, e com exactidão, o antigo aspecto do sitio da Mãe
-d’Agua: «Deixando o terreiro dos Evangelistas, subindo alguns metros pela
-matta na direcção de sueste, encontra-se um comprido passeio tapisado
-de verdura, o qual conduz por debaixo de copado arvoredo a um tôsco
-reservatorio d’agua, que lhe fica ao fim com assentos e mesa de pedra.»
-(_Nota da 2.ª edição._)
-
-[3] Sonet vox tua in auribus meis. Cant. II.
-
-[4] Temos conhecimento do opusculo denominado _Manuel Rodrigues da Silva
-e Abreu_. Apontamentos biographicos por Soares Romeu Junior; opusculo
-publicado, em Lisboa, n’este anno de 1870.
-
-O sr. Soares Romeu não pôde precisar a data do decreto que nomeou
-bibliothecario o illustre biographado; averiguámos porém que elle fôra
-despachado por carta régia de 26 d’agosto de 1842.—(_Nota Da 1.ª edição._)
-
-[5] Vide IV volume, pag. 72.
-
-[6] O nosso Deus, porém, está no Céo; tudo quanto quis, fez. Ps. CXIII.
-
-[7] Na minha tribulação invoquei o Senhor, e chamei ao meu Deus. Ps. XVII.
-
-[8] Diminuta era a livraria de João Nicolau, reduzida ás obras completas
-de José Agostinho de Macedo e a uns tantos opusculos, inspirados na causa
-absolutista e na conservação das ordens religiosas, que vieram a lume em
-Portugal e no extrangeiro. O opusculo citado sahiu da Imprensa Regia, em
-1814.
-
-[9] Eccles. Cap. XI.
-
-[10] O senhor Deus é o meu auxiliar.—Isaias, 4.
-
-[11] Eurico o Presbytero, pelo sr. Alexandre Herculano.
-
-[12] Prov. XVII.
-
-[13] Job. XXXIV.
-
-[14] Ps. LXXXI.
-
-
-
-
-BIBLIOTHECA HORAS ROMANTICAS
-
-
-Collecção de obras litterarias e scientificas notaveis, dos melhores
-auctores antigos e modernos, nacionaes e extrangeiros.
-
-100 RÉIS—CADA VOLUME—100 RÉIS
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-Volumes publicados
-
- N.ºˢ I, II, III—QUO VADIS (3.ª edição) de H. Sienkiewicz.
- N.º IV—VIDA DE LAZARILLO DE TORMES, de Mendoza.
- N.º V—EULALIA PONTOIS, de F. Soulié.
- N.º VI—A AMOREIRA FATAL, de E. Berthet.
- N.º VII—SENHOR EU, de S. Farina.
- N.º VII-A, VII-B—O FOGO, de G. d’Annunzio.
- N.º VIII—CARICIAS D’UMA NOIVA, de B. Bjornson.
- N.º IX—PALAVRA DE SOLDADO, de G. Elwall.
- N.º X—A PELLE DE LEÃO, de C. Bernard.
- N.º XI, XII, XIII—A MORTE DOS DEUSES de D. Merejkowsky.
- N.º XIV—A CORDA DO CARRASCO, de A. Petosi.
-
-Volumes a publicar
-
- TERRAS MALDITAS, de V. B. Ibañez.
- MANON LESCAUT, do padre Prévost.
- PECCADOS VELHOS, de G. Csicky.
- CURA DE UM LOUCO, de S. Lageloff.
-
-
-
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-1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
-
-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
-damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
-violates the law of the state applicable to this agreement, the
-agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
-limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
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-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
-providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in
-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
-production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm
-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
-including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
-the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
-or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
-additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
-Defect you cause.
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-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our Web site which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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