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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Idyllios á beira d'agua - Romance original - -Author: Alberto Pimentel - -Release Date: August 4, 2020 [EBook #62853] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK IDYLLIOS Á BEIRA D'AGUA *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - - - - - -IDYLLIOS Á BEIRA D’AGUA - - - - - ALBERTO PIMENTEL - - Idyllios á beira d’agua - - ROMANCE ORIGINAL - - (_2.ª edição revista pelo auctor_) - - [Illustration] - - LISBOA - «A EDITORA» - Conde Barão, 50 - 1903 - - Typ. d’«A EDITORA», Conde Barão, 50 - - - - -Prologo da 1.ª edição - - -Subi em julho d’este anno á montanha umbrosa do Bom Jesus do Monte e -repousei o meu espirito, d’umas fadigas em que andava trabalhado, á -sombra d’aquellas arvores seculares que ou não envelhecem nunca ou -remoçam cada noite para verdejar novas galas ao romper da madrugada... - -Quando o romeiro crava o seu bordão n’algum relvoso céspede do ermo -sagrado, e sente subitamente embriagados os ouvidos n’aquella primavera -inextinguivel chilreada de maviosos trinados, experimenta a influencia -benefica d’um elixir mysterioso que se lhe está filtrando no coração, e -vae acalmando como por encantamento as tempestades que lá se revolviam -momentos antes. Este dulcissimo consôlo experimentei-o eu e experimentam -n’o todos os que, na solidão amena, vão desfadigar-se de canseiras -intimas. - -Na solidão amena disse eu, e quero demorar-me um momento n’este ponto. A -solidão profundamente triste e silenciosa quer-me parecer um como remedio -heroico para organisações robustas, e só para ellas. - -Para as almas que não podem disputar com estas extremos de coragem, e não -saem incolumes d’uma procella, a solidão medonha dos desertos seria o -mesmo que a morte lenta e desesperada d’um criminoso recluso em carcere -cellular. - -Subi, pois, a montanha e ia procurando com a vista as arvores que já -me tinham dado sombra em romagens anteriores, as fontes cujo suspirar -cadenciado eu já tinha escutado, e umas e outras encontrei, as arvores -bracejando as mesmas frondes, as fontes suspirosas como d’antes, e -concentrei-me então para vêr a minha alma retratada no espelho interior. - -Mezes antes, á hora em que eu, longe d’alli, sentia fugir-me a vida e a -mocidade, e lançava um como olhar de despedida ás arvores que sacudiam -as ultimas folhas, a essa hora, dizia, murmuravam as fontes do Bom Jesus -as saudosas queixas de que me lembrava ainda, tranquillas como sempre, e -diziam os troncos annosos da montanha ao outomno que se approximava: - -«Amarellece, devasta, anniquila, que não entrarás aqui...» - -Fui subindo, subindo e remoçando a cada passo que dava, a cada momento -que fugia. - -Demorei-me tres dias na estancia suavissima do Bom Jesus do Monte, que -tanto era preciso para lograr um remoçamento completo, e, na tarde do -segundo dia, afigurou-se-me vêr, a distancia, na alameda da Mãe d’Agua, -um homem que me inspirara a maxima sympathia quando pela primeira vez -lhe falei em Braga—o padre Eduardo Valladares. - -O leitor, que não exige que o romancista venha expôr a face do martyr á -luz do sol, para que todos o conheçam e o apontem, permitte-me decerto -este pseudonymo com que me corre obrigação de velar a verdadeira -personagem do mundo real. - -Ia o padre Valladares caminhando placidamente, absorto em seus -pensamentos, quando commetti a indiscreção de lhe bater no hombro. O -padre voltou-se de golpe e extendeu-me os braços alegremente, posto -que eu conhecesse que a minha approximação havia quebrado uma serie de -pensamentos dolorosos... - -Fomos juntos conversando pela alameda acima, até que veiu de geito o -dizer-me elle: - -—Por que não ha de escrever do Bom Jesus do Monte? Estas arvores sabem -tantos segredos, que, se as interrogar, tirará assumpto que farte para -muitos livros verdadeiros. Já li o que escreveu do Bussaco[1] e casos -tristes, como aquelle, não ha em toda esta montanha um unico torrão que -os ignore... - -Ia-se alterando a pouco e pouco o semblante do padre, e a sua figura, -respeitavel e distincta, parecia contrahir-se como se um espinho -agudissimo lhe estivesse atravessando o coração. - -Demorou em mim o seu olhar por um momento, e rompeu n’esta apostrophe: - -—Se não lamenta ter de perder algum tempo debruçado sobre o abysmo do -passado, confie á sua memoria os apontamentos que lhe vou dar. - -Até aqui o padre Valladares. Agora duas palavras mais: - -O leitor que gostar do romance trabalhosamente architectado, feche o -livro e não leia. Aqui não se referem casos tenebrosos, nem se borda a -teia, de si mesma singella, com debuxos artisticos. Opulencia, se ha -n’este romance, é toda da natureza. O proscenio, o estrado scenico onde -as personagens se nos devem mostrar, na maxima parte das vezes outro -não ha de ser senão o saudosissimo retiro da Mãe d’Agua assombreado de -carvalheiras seculares, cujo sussurro se casa saudosamente com o murmurar -da agua que desliza. - -Não se reclinam pois os actores em suaves frouxeis; ottomanas não as -ha ahi, como todos sabem. Contentem-se com dois canapés rusticos, dois -bancos de pedra, que guarnecem a mesa, de pedra tambem. - -Alli, na amenidade dulcissima d’um arvoredo frondente, á beira d’agua, a -coberto do sol, haveis de encontrar as personagens scismando embevecidas -nos idyllios ora tristes ora radiosos do coração e do amor. - -D’aqui o titulo do romance. - - Porto, 1870. - - - - -Prologo da 2.ª edição - - -Foi este o meu primeiro romance. É pois um fructo verde, uma tentativa, -um ensaio, e mais nada. - -Mas quero-lhe como a uma doce recordação do passado, que conservasse um -tenue aroma de _sachet_ antigo. - -Havia n’elle alguma esperança, alguma promessa de futuro? Esse futuro -que eu esperava, cheio de fé, e que já hoje é tambem passado, pode ter -produzido cousa melhor, mas eu com certeza a estimo menos do que este -romance quasi infantil. - -Com que saudade o reli eu agora, sem poder reprimir um affectuoso sorriso -de desdem! - -É que eu, como todos os novos, presumia-me velho quando era moço. - -Parecia-me que vinha de longe, cansado de viver, muito instruido na -sciencia do mundo. - -E, comtudo, iniciava apenas a minha jornada de escriptor, com a cabeça -doudejante de illusões e de sonhos. - -Depois... trabalhei e soffri. - -Mas a felicidade que me trasbordava do coração quando escrevi este -romancesinho, nunca mais voltou. - -É que a mocidade não volta. - - Lisboa—1903. - - - - -I - - -Sebastião Valladares tinha carta de bacharel em leis pela Universidade -de Coimbra e abrira banca no Porto ao tempo de contrahir casamento com -uma senhora bracharense. E certo é que os créditos juridicos de Sebastião -Valladares estrondearam em Coimbra durante os cinco annos do seu curso de -leis. - -Manda, porém, a verdade dizer que a nomeada do talentoso advogado não -encontrou entre os demandistas portuenses o écho que remurmurava ainda -nos salgueiraes do Mondego. A levada dos clientes, sempre tumultuosa, não -affluira á banca do moço bacharel. - -João Nicolau de Brito, proprietario em Braga, conheceu que á mediania -suada do genro pesava a educação do unico filho que tinha, e chamou á sua -companhia o neto, de dezeseis annos d’edade. - -—Parece que já não estamos tão sós! dizia João Nicolau de Brito a sua -mulher D. Maria d’Assumpção, revendo-se jubiloso no rapazinho de dezeseis -annos. - -—Pois que! respondia D. Maria d’Assumpção. É sempre consoladora a -companhia d’uma pessoa da nossa familia, ainda que seja uma creança. - -—Creança! atalhava o esposo. Já não é tão creança como isso. Olha que tem -dezeseis annos! - -—O que é preciso, porém, é tratar de alliviar ao rapaz as saudades dos -paes. Ou elle de si é triste ou se resente da ausencia. - -—Tens razão, accrescentava João Nicolau. - -—Isso tenho. Já me lembrou combinarmos com as Machados um passeio ao Bom -Jesus para o distrahirmos. - -—Lembras bem. - -—Se lembro! E ellas que hão de gostar. O Eduardo precisa realmente d’uma -distracção qualquer. Esta rua do Carvalhal é só e triste. O rapaz passa -as tardes á janella por não querer sahir. Tambem tem razão. Não conhece -ninguem! - -—É isso. Não conhece ninguem—concordou João Nicolau, muito reflexivo. - -E accrescentou passados momentos: - -—Olha cá! Dá-me da secretária a carta que o pequeno nos trouxe. Ha n’essa -carta do Sebastião um periodo que me inquieta. É aquelle em que nos diz -que o Eduardo lhe sahira com sua tendencia á poesia!... - -—Ora!—proferiu D. Maria d’Assumpção, abrindo a secretária e entregando a -carta ao marido. - -João Nicolau de Brito montou os oculos, endireitou-se na cadeira e -começou a lêr em voz alta: - -«... O Eduardo ahi vae; penso que lhes não será rebelde, porque é -humilde de si. Amolda-se ás vontades de quem o dirige e parece attentar -gravemente no que lhe dizem. Ensinei-lhe tudo o que sabia e podia. Creio -que com mais um anno d’estudos preparatorios estará habilitado para -entrar n’um curso superior. O destino de meu filho já me não pertence, -porém. Pesa me todavia que me sahisse poeta aos dezeseis annos e como -por magia! Conheci em Coimbra um rapaz de muitissimos talentos e de -seu natural poeta, que por se dar do coração á leitura d’amenidades e -aborrecer de morte os alfarrabios da sciencia, teve que luctar com a -vontade da familia, que o obrigava a estudar, e com a sua natureza, que -o fazia detestar os compendios. Como, porém, não pudesse renunciar á -espontanea inclinação, e como não tinha bens de fortuna, succumbiu a uma -gravissima affecção moral, que o levou á sepultura, com grande magua de -todos os que sabiam aquilatar-lhe a alma e a intelligencia. Desvaneçamos, -porém, estas suspeitas; não quero que me chamem visionario. Ahi vae, -pois, o pequeno...» - -João Nicolau de Brito abanou a cabeça com um gesto solemne e descahiu a -scismar. - -Atalhou-o, porém, a esposa, batendo lhe no hombro e dizendo ao mesmo -tempo: - -—Deixa-te de visões! Tratemos de distrahir o rapaz. Iremos domingo ao -Senhor do Monte. - -—Olha! disse de subito João Nicolau de Brito, como se houvesse despertado -d’um somno momentaneo. Ha, porém, um inconveniente n’esse passeio... - -—Qual? - -—A convivencia com as Machados. - -—Ora! - -—Ora que!? Tu parece que não sabes o que é ser novo! Eu não me refiro -á Rosa Machado. Falava da Maria Luiza, da irmã, que é outra doida por -versos, que ha de conversar de poesia com o rapaz, e que por fim ha de -vir a falar d’amor como quem se deixa ir ao som d’agua corrente... - -—Ora ahi está o que eu approvo, atalhou D. Maria d’Assumpção. Essas -práticas lyricas entre os dois ajustavam-se á occasião e vinham de geito. -Ainda que o lyrismo do espirito descambasse em lyrismo do coração, ainda -que a poesia se transformasse em amor, que inconvenientes poderiam vir -d’ahi? Eram verduras da mocidade, que distrahiam o rapaz e que por fim -de contas haviam de acabar no momento em que elle se aborrecesse. - -—Tambem me parece... Que lá padre, dê por onde der, quero eu que elle -seja. Sahiu dado a poesias? Melhor! Será um prégador de fama. - -—Ha de ser tudo o que tu quizeres... Mas supponhamos até que o Eduardo -começava a arrastar a aza á Maria Luiza. Travava-se o namorico, carta -d’aqui, versos d’alli, uma semana d’ataque, outra semana d’aborrecimento, -e por fim o rapaz curado da sua nostalgia em quinze dias. - -—Mas não falaste ahi em aborrecimento? ponderou gravemente João Nicolau -de Brito. - -—Falei, respondeu com convicção a sogra de Sebastião Valladares. Mas -refiro-me ao aborrecimento que de si mesmos trarão uns amores pueris. -Depois, para curar esse aborrecimento, principia-se novo galanteio a nova -estrella, e ahi começa a chrysalida a tornar-se borboleta e a perseguir -as flores. - -—Olha que as flores teem espinhos... atalhou João Nicolau de Brito -meneando a cabeça. - -—Cala-te! replicou D. Maria. Os espinhos das mulheres são... os -alfinetes. Em nome do sexo, agradeço-te a amabilidade. - -—Não tens que agradecer, disse João Nicolau rindo e batendo as palmas de -contente.—Sim, senhora! Vossa excellencia está hoje espirituosa! Receba -os meus parabens. Iremos ao Bom Jesus quando quizer e mande convidar as -familias do nosso conhecimento para nos fazerem companhia esta noite. -Solemnizemos a recepção do rapazinho. Se queres que te diga—accrescentou -mudando de tratamento—tive hontem pena d’elle. Eram dez horas e já tinha -somno. Tambem não sei o que fazes do piano! Já és avó, é verdade, mas a -velhice ainda não te immobilisou os dedos. Pois venham lá as Machados, e -haja ao menos musica uma noite... - -—Então queres? - -—Quero. Manda convidar. Que lá padre ha de elle ser. Ainda lhe hei de -ouvir um sermão... - -—Se não fôr seccante, disse D. Maria d’Assumpção sahindo da sala. - - - - -II - - -Thomaz Ignacio Machado tinha sido um homem dinheiroso. Abriu, em Lisboa, -os salões do seu palacete á flor da aristocracia olyssiponense, deu -bailes esplendorosos, pompeou em cavallos e trens, teve aventuras com -dansarinas de S. Carlos, jogou o _monte_ com a sobranceria d’um homem -que não joga para ganhar e... achou-se arruinado no dia em que pensou no -futuro que o estava esperando. - -O Creso, apeado do seu pedestal de ouro, emboscou-se nas moitas -verdejantes d’uma quinta proxima a Braga, e ahi veiu descansar das -saturnaes esplendidas de Lisboa com o intuito de bemfeitorisar as -propriedades obrigadas ao dote da mulher e de velar por tres innocentes -meninas, suas filhas, salvas da tormenta na arca sagrada do coração -materno. - -Chamava-se Emilia a mais velha, que morreu aos vinte e dois annos tisica, -se não victima d’uns amores desventurosos, que não fazem ao nosso -proposito. - -Rosa e Maria Luiza viviam ainda, como o leitor inferiu do capitulo -anterior. - -A custo de muitas economias pôde Thomaz Machado rehabilitar a casa -consideravelmente esbanjada e obter os rendimentos necessarios, não para -a vida faustosa de Lisboa, mas para uma decencia estimavel então, e -invejavel ainda hoje. - -Veiu, pois, Thomaz Machado residir em Braga, e, após dois annos de -apartamento na quinta do Prado, alugou casa na rua de Santo André. - -A mallograda Emilia morrera na quinta do Prado, ao cabo d’um anno de tão -melancholico exilio. - -Rosa, no tempo a que somos obrigados a remontar, tinha vinte e um annos; -Maria Luiza, dezenove. - -Rosa não era uma belleza. Tinha, porém, um trato tão suave e delicado, -um quê de meiguice e de ternura, que diffundia encanto. Maria Luiza, ao -contrário da irmã, era um demonio bonito. Conversava com os homens mais -do que com as senhoras, valsava com delirio, tinha a ironia prompta e o -epigramma certeiro, tocava piano e recitava versos, cantava _seguidillas_ -e desvelava um vaso d’alecrim do Norte que tinha ao canto da janella. -Era trigueira e possuia uns olhos negros que nadavam em luz. Parecia -que não andava; voava. Ouvia-se um ruflar de azas; olhava-se... era -ella. Não houve ainda mulher mais flexivel, nem mais elegante. Era quasi -uma columna de fumo, que ondulava no espaço e que desapparecia com um -sôpro. Lembra-me comparal-a áquella creatura aerea, vaporosa, que nós -conhecemos d’um livro d’Octavio Feuillet. Maria Luiza tinha seus laivos -da _condessinha_ do escriptor francez. Era porém mais intelligente e -menos desenvôlta. Ainda assim com que _salero_, puramente andaluz, não -batia ella as mãos, correndo do seu alecrim para o seu piano e entoando a -meia voz um fragmento de _seguidilla_: - - El amor que te tengo - parece sombra; - quanto mas apartado - mas cuerpo toma. - La ausencia es aire - que apaga el fuego chico - y enciende el grande. - -Depois, se a irmã se sentava ao piano e voejavam ao longo da sala notas -de suavissima tristeza, como um bando de rôlas viuvas que se andassem -carpindo, Maria Luiza, para se furtar á impressão dolorosa da musica, -batia o pésinho no chão e começava, saltando, a cantar. - -Havia só um nome, só uma palavra, que a fazia entristecer subitamente. -Era o nome de sua irmã Emilia. Tinham sido duas irmãs extremosas, que -viviam uma para a outra. - -Ás vezes, n’um momento de dolorosissima saudade, dizia a inquieta -donzellinha: - -—Quem sabe se virei a morrer da morte de minha irmã? Talvez. Eramos tão -amigas!... - -Estavam na quinta do Prado, como já se disse, quando Emilia morrera. Os -tisicos enganam até ao ultimo momento; ninguem esperava que ella passasse -n’aquelle dia. Rosa tocava, na sala proxima, umas _variações_ da _Norma_; -Maria Luiza falava com a doente a respeito das andorinhas e do sol, das -flores e das borboletas, das noites de luar e dos rouxinoes. De repente a -irmã interrompera-a, para segredar-lhe: - -—Ouves? É a musica do noivado. O meu noivo espera-me. Has de me dar -um ramo de lirios para levar no seio. Eu gosto tanto dos lirios! Os -rouxinoes são meus amigos. Esperava este momento com anciedade; _elle_ -já me espera ha dois annos e devia ter saudades de mim. Morreu tão novo! -Ouves, minha irmã? A musica continua. São as andorinhas, que chilriam... -Dá-me um beijo; as borboletas são irmãs das flores e tambem se beijam. - -Ouviu-se o frémito d’um beijo e o som agudo d’um grito. Era a voz -de Maria Luiza. Sua irmã tinha morrido a beijal-a, como se quizesse -transmittir-lhe a vida n’um beijo. - -Ao grito de Maria Luiza acudiu o pae, a mãe e a irmã. Já chegavam tarde, -porém. - -Desde aquelle dia, Maria Luiza entristecia-se quando lhe falavam d’essa -hora amargurada. Tornou-se amiga de todos os que eram amigos de sua irmã -e ia todos os domingos ao cemiterio d’aldeia poisar um ramo de flores -sobre o tumulo fechado havia pouco tempo. Quando vieram habitar em Braga, -Maria Luiza soffreu muito com a falta da visita ao cemiterio, ou com -a _ausencia de sua irmã_, como ella dizia. Aos domingos, todavia, era -quando mais cantava o - - El amor que te tengo - parece sombra... - -e dizia a Rosa que se via obrigada a cantar para reprimir as lagrimas no -seio. - -Thomaz Ignacio Machado morreu em Braga, dezoito mezes depois de ter -sahido da quinta do Prado. Chorou-o a esposa, choraram-n’o as filhas -estremecidas e choraram-n’o todos os que viam n’elle um homem remido das -faltas do passado por um longo soffrimento. - - - - -III - - -João Nicolau de Brito e sua mulher receberam, como tinham combinado. -Concorreram á _soirée_ as familias de mais intimo trato n’aquella casa. -Abriu-se o piano, n’essa noite, e desterrou-se o _loto_, que era já então -o maximo divertimento dos serões bracharenses e continua a ser para -eterna semsaboria das noites de Braga. - -A dansa, a alegria, a musica tomaram a vez ao jôgo. Eduardo era a -machina motora de tão notaveis reviramentos na casa de dois velhos -amolestados de rheumatismo e outros gravames da velhice. Abriu-se a -_soirée_ com uma quadrilha. Eduardo fez o milagre de tentar a avó e -conseguiu que a pobre senhora figurasse no—_en avant_—a par de tres -raparigas, incluindo as irmãs Machados. João Nicolau de Brito jubilou -com a delicadeza do neto e apresentou-o, finda a dansa, como poeta, ás -pessoas que estavam na sala. - -O amor proprio tem d’estes paradoxos. João Nicolau desestimou a qualidade -de poeta na pessoa do neto; agora, lisonjeado da muita delicadeza d’elle, -folga de que o rapaz se extreme dos outros com merecimentos distinctos. - -As senhoras festejaram a denuncia de um talento precoce, que não tinham -avaliado ainda, do filho do bacharel. - -Correu n’esse momento ao longo da sala um sussurro de vozes: era o -cochichar de meia duzia de raparigas tentadiças com poetas, sob o -commando de Maria Luiza, idealista por excellencia. - -—É dever teu, Eduardo—disse de golpe D. Maria d’Assumpção—comprovares a -opinião antecipada, que de ti formamos. Recita-nos alguma coisa. - -—De boa vontade, minha senhora—respondeu elle—se não receasse a -indelicadeza d’incommodar v. ex.ᵃˢ e não me conhecesse com o vezo de ser -horrivelmente desmemoriado. - -—Vá o que lembrar—accrescentou João Nicolau. - -—Mas coisa da tua lavra—tornou D. Maria d’Assumpção. - -—Folgamos d’ouvil-o—disse Maria Luiza. - -Eduardo percebeu que seria indelicadeza imperdoavel o desculpar-se mais. - -—Ahi vão, disse elle, seis quadras que não valem nada. Intitulam-se: - - Frémitos - - Quando tu vaes á janella, - Á noite, e pensas em mim, - Ha uma voz que diz—Ella! - —São os lirios do jardim... - - Se d’um livro sobre a folha - Te pende a cabeça e o véo, - Ha uma voz que diz:—Olha! - —É o mar chamando o céo... - - Quando esse teu olhar mede - Todo o horizonte do sul, - Ha uma voz que diz:—Vêde! - —Talvez seja a voz do azul... - - Se, ao fim da tarde, á janella, - Olhas, nem sabes o que, - Ha uma voz que diz: Bella! - —É a voz do que se não vê... - - Mysterios que eu não abranjo! - No jardim, ao pôr do sol, - Ha uma voz que diz:—Anjo! - —A voz d’algum rouxinol... - - Quando ha luar e te chamo - Entre as moitas d’alecrim, - Se ha uma voz que diz:—Amo! - Penso que a voz sae de mim... - -Estrondearam na sala freneticos applausos. - -O moço poeta, de dezeseis annos, agradecia a ovação espontanea e unanime -com mostras de modestia e ingenuidade estimaveis. - -Merecidos eram sem dúvida taes applausos. - -Nos versos do filho do bacharel Valladares havia poesia, se poesia se -pode chamar este alar-se da alma para um mundo phantastico onde se ama -já uma mulher que ainda se não viu. - -Os que entendem que a poesia é uma coisa que elles mesmos não entendem, o -nebular a phrase de modo a encobrir a carencia d’uma idéa aproveitavel, -esses, apostolos do germanismo transmontado, rir-se-hão da futilidade -d’um poetar singello cadenciado na lyra incorrecta dos dezeseis annos. - -Maria Luiza Machado, como enthusiasta por versos, pediu ao poeta a cópia -dos seus. Isto bastou a travar-se conversação. - -—Bem me parecia—disse ella—que o seu coração devia, para cantar mavioso -aos dezeseis annos, sentir um raio de sol que o inspirasse. - -—Peço desculpa para redarguir a v. ex.ᵃ Os meus versos são talvez uma -prophecia. A alma, ainda não adestrada para luctar com as procellas do -mundo real, cria para si uma região phantastica. - -—Seja como fôr, tornou ella. Desejo possuir os seus versos. Quando m’os -dá? - -—Amanhã. - -Pactuou-se, no fim da _soirée_, o primeiro passeio ao Bom Jesus, no -domingo proximo. - -Recordações d’essa noite ficaram muitas e immarcessiveis na alma de -Eduardo Valladares. Depois da ultima quadrilha, quando os convidados -retiraram e a sala ficou deserta, é que foi o escurecer-se subitamente -aquella alma, que mergulharia em profundas trevas, se a imagem esplendida -de Maria Luiza lhe não rareasse, a instantes, as sombras interiores. Um -olhar e uma phrase d’ella fôram as ultimas impressões d’essa noite. - -—Seja como fôr. Desejo possuir os seus versos, disse-lhe ella. - -E abriram-se-lhe os labios n’um sorriso de fada. - -—Mas, dizia de si para si o filho do bacharel Valladares, tenho apenas -dezeseis annos e deixo-me assim embalar nos braços de uma esperança -dulcissima que me pode fugir amanhã! - -Durante os dois dias que decorreram desde essa noite até o domingo -seguinte, annuviou-se o semblante de Eduardo a ponto de João Nicolau -fazer reparo na extranha tristeza do rapaz. Quedou-se o velho a scismar -no visivel desgôsto do neto e não lhe rasteou origem. Isto inquietara-o -sobremaneira. Revelou á esposa as suspeitas e dúvidas que o embaraçavam; -conchavaram-se os dois no proposito de dar finalmente com a chave -mysteriosa do enigma. - -Passadas algumas horas depois d’este secreto colloquio dos dois velhos, -D. Maria da Assumpção foi dar com o neto emboscado na ramaria d’uma -olaia que sombreava o angulo do quintal. Estava o moço d’olhos pregados -no horizonte recortado pelas arvores verdejantes dos quintaes da rua de -Santo André. - -D. Maria d’Assumpção seguiu por alguns momentos a direcção do olhar do -neto e o mesmo foi despeitorar-lhe os mais intimos segredos do coração. -Subiu as escadas precipitadamente e chamou o marido a uma das janellas -sobranceiras ao quintal. - -—Olha, disse-lhe ella apontando para o neto. O coração—o coração dos -dezeseis annos sobretudo—ha de ter sempre d’estas contradicções. O -excesso da felicidade acarreta d’estas maguas. O que elle deseja é o -momento de tornar a vêl-a... São chuveiros d’abril, que não inspiram -cuidado. - -—Olha que a mocidade d’agora começa muito cedo a tresnoitar-se! O amor -dos dezeseis annos! Lêsse-se este caso n’um livro a ver se alguem o -acreditava! No nosso tempo não se vivia tanto em tão poucos annos. - -—Ahi estás tu a denunciar a edade que tens! É sestro dos velhos andar a -reprehender os novos, e o que elles pensam e fazem. Não se vivia tanto em -tão poucos annos! disseste tu. Já te não lembras da historia d’uns amores -em que falas quando vem de geito citar façanhas da mocidade... - -—É uma historia que tem graça. Da janella do meu quarto, no collegio onde -me eduquei, andava eu a espreitar nas horas de recreio para a janella -d’um terceiro andar onde morava uma costureirinha d’olhos negros... - -—Uma costureirinha! O teu neto revela mais fidalgos e poeticos -instinctos. Ama romanescamente. Tu andavas mais terra a terra. Não tens -que vêr. Iremos domingo ao Bom Jesus. - -—Iremos se quizeres. Não sei que systema teem ás vezes as mulheres! - -—O meu systema é o do jardineiro experimentado. É preciso cuidar da flor, -dar-lhe sol, para que desabrochem depois todas as galas que a Providencia -lhe der. - -—Anda lá, anda lá, quero ver se a theologia lhe ha de dar tempo para -andar com a cabeça á roda! - - - - -IV - - -Batiam sete horas da manhã nas torres do Bom Jesus do Monte, quando João -Nicolau de Brito, sua mulher, Eduardo e as duas meninas Machados subiam -em alegre caravana o escadorio do santuario. Pelo que diz respeito aos -dois velhos, em cujo grupo faltava a viuva Machado, iam cansados da -subida; não assim os companheiros, que saltavam alegremente d’escada em -escada, como tres avesinhas que voltassem no mesmo dia á liberdade do ar, -depois d’uma reclusão asperrima, e fôssem chilreando de fronde em fronde -pela encosta acima. - -Affluiram, n’esse dia, ao Bom Jesus muitas familias de Braga, de sorte -que se augmentara consideravelmente a ruidosa caravana. - -Demoraram-se na hospedaria João Nicolau, sua mulher e os outros velhos, -seus conhecidos, trôpegos de rheumatismo; o resto da caravana errava pela -montanha ao sabor de cada um. - -Eduardo Valladares sentiu por momentos necessidade de conversar com a sua -alma em jubiloso dialogo. Subiu ao largo dos Evangelistas, e embrenhou-se -na matta sombria da Mãe d’Agua. - -Estava elle escrevendo a lapis na carteira, quando casualmente descobriu, -através da folhagem, um vulto indistincto. - -Encobriu-se com o muro posterior á mina e ficou d’atalaia, a coberto da -parede. Passados alguns momentos reconheceu ser Maria Luiza e sentiu -bater-lhe o coração vertiginosamente. - -Vinha ella, pensativa, subindo a alameda. Depois sentou-se n’um banco de -pedra e descahiu a scismar, encostada á mesa, que tambem era de pedra[2]. - -Eduardo Valladares espreitava-a silencioso. Ora sentia estuar-lhe o -sangue nas arterias escandescentes ora esfriar-se com esvahimentos de -moribundo anciado. Maria Luiza quedara-se a scismar com os olhos fitos no -vago e o rosto descansado na mão. É um mysterio que se não comprehende, -um enigma que se não decifra—o que seja este vago d’uns olhos -contemplativos, o ponto indistincto e nebuloso onde se fita o olhar, a -não ser que esse ponto seja a lente que reflicta o olhar de si mesmo -namorado. Pois em que mais se pode extasiar uma alma venturosa a não ser -na intima contemplação da primavera interior? Dizem pois, e dizem bem, -os que entendem do coração, que os olhos são o espelho da alma e o olhar -a muda expressão do sentimento que a domina. Tudo isto nos vae levando -insensivelmente a uma conclusão provavel. Pois se o olhar é o reflexo -da alma, se a alma está absorta em júbilo, e se a vista se concentra -n’um ponto unico, quem poderá duvidar de que esse ponto seja a lente -mysteriosa que está espelhando o fogo do nosso olhar, o fogo da nossa -alma? Ora se não é isto o vago d’uns olhos contemplativos, não sei eu bem -o que seja o vago. O que sei, porém, é que todas as almas placidamente -inebriadas teem d’estas horas de arroubo em que os olhos se embellezam no -azul d’um horizonte desconhecido aos outros. - -Estava, pois, Maria Luiza extasiada n’estes ineffaveis enlêvos, quando -sentira cahir-lhe aos pés um papel, que mão invizivel impellira. -Despertou de subito d’aquelle dulcissimo _far niente_, que é o sonhar -accordado da alma. Pegou no papel e desdobrou-o precipitadamente; -desdobrou-o e leu-o. - -Dizia assim: - - «Disse a rosa á borboleta: - —«Abre uma aza, inquieta, - Faze-me d’ella um docel...»— - Volveu ella:—«Flor dos valles, - Dá-me, em paga, do teu calix - A seiva, o licor, o mel...»— - Assim nós tambem. N’um dia - Sob a aza da poesia - Dormiste e sonhaste, ó flor. - Eu, namorado e poeta, - Hei de ser a borboleta, - Tu a rosa; o mel, o amor... - -Voltou-se surprehendida Maria Luiza como a procurar nas sombras do -arvoredo o apaixonado fauno que furtivamente viera requestar com -incendidos madrigaes a nayade formosa; o mesmo foi encarar no moço -enamorado, que procurava lêr nos olhos d’ella a impressão dos versos, e -que sentira esvahidas as fôrças quando tentou fugir d’aquella suavissima -prisão que alli o tinha como galvanisado. - -—Aqui? disse-lhe ella. Pensei que tinha acompanhado o resto da caravana. - -—Idealista, como v. ex.ᵃ—volveu elle convulsamente e como querendo -dominar uma impressão violenta—procuro ás vezes a solidão. Não temos que -extranhar o encontrarmo-nos aqui. - -—De mais extranheza será, porém, dizer-lhe eu que se occultam n’estas -sombras da Mãe d’Agua faunos poetas, que sabem escrever bonitos versos -ao sabor de madrigaes. Aqui tenho eu uns que me parecem maviosos; ou me -vieram da mão d’um fauno, que, por engano, me tomara á conta de nayade, -ou cahiram por acaso da aza d’uma andorinha, que era correio d’amantes. - -Eduardo Valladares empallidecia extremamente. - -—E comtudo esta lettra não me é extranha, continuou Maria Luiza. Notavel -coincidencia! Parece-se muito com a sua, com a dos versos que teve a -gentileza de me enviar ante-hontem. Ora veja... - -N’este momento ouviu-se ao fundo da alameda uma voz de mulher. -Quedaram-se os dois á escuta. Passados instantes, porém, descobriu-se -através das arvores o vulto já distincto da irmã de Maria Luiza. - -Chamava para o almôço, que esperava por elles na mesa da hospedaria. - - - - -V - - -Tres dias depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do Monte escrevia -Eduardo Valladares a sua mãe: - -«Escuso de lhe dizer que me resenti da falta do carinho materno, da -mudança de terra e de casa, da differença de costumes, de tudo isto -finalmente que a gente conhece desde os primeiros annos da vida. Devo -dizer-lhe, porém, minha mãe, que sahi da minha familia para encontrar -outra familia que tambem é minha, e onde, para ser a felicidade completa, -apenas me falta o livro sagrado do seu coração que eu sabia delettrear e -comprehender. - -«Da cidade—e não sei se para isto contribuirá o ter nascido aqui minha -mãe—da cidade, que é em verdade pittoresca, dir-lhe-hei que não desgosto -e que se me afigura melhor do que o Porto para se respirar ar saudavel e -morrer a gente com uma gordura fradesca. - -«A falta de movimento que se nota em Braga, procedente da exiguidade da -população, é uma garantia de commodidade, longe de ser um defeito. Pode -a gente dormir á vontade, até altas horas do dia, que não corre perigo -d’accordar sobresaltada pelo estrepito das ruas. Só os sinos... Ai! os -sinos de Braga, minha mãe, badalejam que é de qualquer pessoa ensurdecer -dentro de quarenta e oito horas. Isso sim, que é horroroso! - -«A esta praga dos sinos só acho comparavel em semsaboria a extensão das -noites de Braga. - -«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer de que não, estava no -Porto. Quiz a avó convidar algumas familias das suas relações, cuido que -para festejar a minha chegada, e passou-se o serão alegremente, mais -alegremente do que era de esperar. - -«Das senhoras que concorreram, apenas merecem especial menção as meninas -Machados, que são muito estimaveis e sympathicas. Em companhia d’estas -senhoras passamos o dia de domingo no Bom Jesus do Monte, a mais formosa -paizagem que tenho visto em vida minha. Aquillo sim, que é bonito e -suave! N’aquellas sombras deliciosas sente a gente abrir-se o coração -para sentimentos novos. Minha mãe, que decerto alli viveu alguns dos dias -da sua mocidade, deve comprehender que impressões dulcissimas recebi. -Quando desci da montanha, vinha saudoso, preciso confessal-o. Saudoso de -quê? Da montanha, que posso visitar quando me aprouver? Não sei Saudoso -talvez d’umas horas agradaveis que lá vivi. - -«E depois no Bom Jesus do Monte nem os homens andam embuçados em capotes, -como na cidade, nem as senhoras espreitam os transeuntes a coberto das -rotulas das janellas. Alli ha completa liberdade, principiando pelas aves -que se desenfadam de tronco em tronco sem que ninguem as persiga.» - -A carta do filho do bacharel Valladares merece-nos reparos. - -Pelo que diz respeito ao seu estado moral, cumpre fazer notar estas -phrases involuntariamente significativas: - -«... para ser a felicidade completa, apenas me falta o livro santo do -seu coração que eu sabia delettrear e comprehender.» - -«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer de que não estava no Porto.» - -«Das senhoras que concorreram, merecem especial menção as meninas -Machados, que são muito estimaveis e sympathicas.» - -Referindo-se ao Bom Jesus do Monte dissera Eduardo Valladares, como o -leitor viu, que «n’aquellas sombras deliciosas sente a gente abrir-se o -coração para sentimentos novos.» - -Quereria elle dizer que a sua alma se estava enflorando para exuberantes -primaveras e auroras ainda não conhecidas? - -O futuro nol-o dirá. - -No attinente á apreciação de Braga, corre-nos obrigação de lembrar ao -leitor que o filho do bacharel Valladares escrevia n’um tempo em que -Braga conservava ainda os biocos d’uma verdadeira provinciana. - -Vão hoje, em pleno anno de 1870, visitar a capital do Minho e dir-me-hão -se não enlevaram os olhos nas graças das damas bracharenses que passeiam -a sua elegancia por entre os alegretes do campo de Sant’Anna. - -Homens de capote só os ha lá... quando está frio, o que se me afigura uma -prova irrecusavel do bom senso da população masculina d’aquellas paragens. - -Diz um adagio «Deus dá o frio conforme a roupa». Quer-me parecer, porém, -que seria muito mais verdadeiro e sensato dizer se «Deus deu a roupa por -causa do frio.» - -Quanto aos sinos, ainda em 1870, como então, são egualmente detestaveis -os de Braga e os... do Porto. - -Chateaubriand escreveu algures que o christianismo conseguiu dar suspiros -ao bronze. - -Sem querer desvirtuar a poetica idéa do auctor do _Genio do -Christianismo_, sou a dizer que me não quer parecer «suspirar», um -martelar continuo de toadas populares nos sinos das cidades. A musica das -ruas invadiu a egreja. - -Suspirar é o do sino da aldeia, que nos viu nascer, quando vibra sonoro -ao pôr do sol, no meio da solidão. - -Acceito de melhor sombra estas palavras do mesmo Chateaubriand no _René_: - -«Tudo se encontra nas encantadas meditações que em nós desperta o sino -natal: religião, familia, patria, o berço e o tumulo, o passado e o -futuro.» - - - - -VI - - -Depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do Monte, Eduardo Valladares só a -furto vira Maria Luiza ao declinar da tarde, durante nove dias. - -Quando o sol inclinava para o occaso, sahia elle em direcção a Guadelupe. -Ao passar na rua de Santo André, sempre os seus olhos se encontravam com -os de Maria Luiza como por magnetismo. Seria um acaso? Quem diria a ella, -da primeira vez, que elle ia passar? Amal-o-hia? Se o amava, se sentia -que o ia amar, dizia-lhe uma voz interior que elle viria? Mas pareceu -fital-o tranquilla, sem revelar um indicio de commoção... Não o amaria, -zombaria de um sentimento celestialmente puro? Mas nem que o coração lhe -estivesse adivinhando a hora a que elle viria! Nem um só dia deixaram de -se ver... - -Era a furto, é verdade; que o timido moço não sabia que impressões -conservaria Maria Luiza do passeio ao Bom Jesus. Erguia o seu olhar para -ella, e desviava-o subitamente... - -Os versos, pensava elle, fôram pouco menos d’uma indiscreção. Quem -lhe dera motivo para alimentar uma esperança? Ella, Maria Luiza? Que -lhe dissera que deixasse entrever os primeiros clarões d’uma aurora? E -todavia arriscara-se elle a escrever: - - Eu, namorado e poeta, - Hei de ser a borboleta, - Tu a rosa; o mel, o amor... - -Estas dúvidas alanceavam-lhe o espirito. Que devia fazer? Conformar-se -com a incerteza, fugir á luz, áquella luz que o estava attrahindo, -a elle, a mariposa dos dezeseis annos? Mas fugir-lhe era morrer, -que se podia viver longe do ninho querido, do carinho materno, das -recordações da sua infancia, era porque a tinha visto, era porque a tinha -encontrado... - -E—pensamento cruciante!—quem lhe dizia que ella era livre, que se -não deixava embalar nas dulcissimas esperanças d’um amor feliz? Este -pensamento infernava-lhe a alma e, n’esses momentos dolorosamente -attribulados, lembrava-se de sua mãe, e parecia que o invocar o nome -materno valia tanto como sentir calmarem-se as tempestades interiores. - -N’aquella solidão de Guadelupe era que Eduardo Valladares gostava de se -deixar atormentar por estas dúvidas queridas. Aquella agitação tinha -alguma coisa de pungente e alguma coisa de deliciosa... E depois, -alongando o olhar, via extender-se ao sopé de Guadelupe a rua de Santo -André... E para o outro lado, ao nascente, avultava no horizonte a -montanha do Bom Jesus onde tinha sentido os primeiros enlêvos, onde um -anjo mysterioso, de azas brancas talvez, lhe segredara docemente uma -palavra de esperança... - -Era lá, onde a coma do arvoredo frondejava mais espessa, no alto da -serra, que Maria Luiza lêra os seus versos, e parecia que a amenidade -melancholica da floresta santa lhe entrava no coração... Seria aquella -montanha o seu Gethesemani? O futuro era mudo. Na serra campeava a cruz, -phanal salvador dos náufragos da existencia, e elle tinha ainda na -memoria as doces orações que sua mãe lhe ensinara a balbuciar. - -E as sombras da noite pareciam emergir d’entre o arvoredo, e serra, e -floresta, e cruz desappareciam envôltas na escuridão. - -Quando Eduardo Valladares descia de Guadelupe, era sempre noite cerrada; -um unico pensamento o occupava—ver Maria Luiza no dia seguinte. - - - - -VII - - -Dez dias volvidos disse D. Maria Assumpção, de manhã, ao neto: - -—Vamos hoje passar a noite a casa das Machados. É preciso fazeres-te -homem. As mulheres é que vivem encerradas dentro de quatro paredes. -Passas a manhã em casa a ler, e apenas saes de tarde um boccadinho! Onde -vaes tu? - -—Sento-me em Guadelupe e gosto d’aquelle sitio, respondeu Eduardo -procurando ler a impressão da resposta no olhar da avó. - -—É bonito... mas triste. Precisas de procurar relações e de afastar de -ti uns ares improprios da tua edade. Domingo, havemos de tornar ao Bom -Jesus. É preciso divertir e passear emquanto é tempo, rapaz, que o mez -de outubro está ahi á porta e depois, cursando o lyceu, não tens remedio -senão deitar-te aos livros. - -—Estou preparado para isso e cuido que hei de saber corresponder á -dedicação de meus avós. - -—Assim deve ser. Põe o teu chapéo e vae sahir, anda, mysanthropo. - -—Agora... estou tão bem em casa... - -—O que tu quizeres, teimoso! Já te disse que depois de abertas as aulas -hão de ser poucas as distracções. - -—E não iremos mais ao Bom Jesus? ousou perguntar Eduardo. - -—Iremos; menos vezes. Eu tambem gosto d’aquelle passeio, e sinto que me -faz bem. Mas não se cifram no Bom Jesus os sitios bonitos dos arrabaldes. -Has de gostar tambem das margens do Cávado. - -—Mais que do Bom Jesus? - -—Não sei. - -—Ah! mais que do Bom Jesus acho que não posso gostar. - -D. Maria d’Assumpção foi ter com o marido e disse-lhe: - -—Este rapaz é magico, não quer sahir! - -—Deixa-o lá, elle se aborrecerá d’estar em casa. - -—Não é tanto assim, homem de Deus! É preciso distrahil-o, aconselhal-o -com brandura, que é filho de nossa filha. Domingo havemos de tornar ao -Bom Jesus. - -—Mas que empenho tens tu em andar a passear o rapaz? - -—Quero amenizar-lhe esta passagem repentina da vida em que foi creado -para outra vida completamente nova. Depois, abrindo-se as aulas, é que eu -não quero que elle passeie. Já lhe disse que, em chegando outubro, era -preciso estudar como um homem. - -—E elle que respondeu? - -—Deu mostras de querer desempenhar cabalmente. Mas não comeces tu depois -a opprimil-o demasiadamente com as tuas asperezas. Olha que o espirito, -cansado do estudo, precisa d’um refrigerio. - -—Livremol-o de relações estreitas com estudantes, que são, por via de -regra, rapazes que vivem em liberdade pouco digna. - -—Eis ahi por que me parecia que um namorito... - -—Vocês, as mulheres, ligam-se tamanha importancia, que julgam que o -render-vos preito é a suprema salvação de qualquer. O rapazinho se -começar a desmandar-se torna pelo mesmo caminho por onde veiu. Tu sabes -que eu não sou muito para graças. Este anno ha de acabar os preparatorios -e para o anno ha de cursar o Seminario. Isto é se quizer; se não quizer, -que volte para a companhia do pae. - -—Mas tambem que proposito é esse de assentar com tamanha antecipação o -destino do rapaz? Estás dominado do espirito religioso de Braga e achas -que ser padre é caminhar proveitosamente pela estrada social em direcção -ao Céo! Não sei como te não ordenaste? - -—Temos em mim um exemplo da efficacia dos namoritos. Meu pae queria me -ordenar, porque era meu amigo. Vi-te, comecei a desorientar me e casei... - -—Olha que perdeste muito! Estavas agora arcebispo, pelo menos, se -obtivesses absolvição, para os teus burguezes devaneios com a costureira -do terceiro andar. - -E como D. Maria d’Assumpção caminhasse para a porta da saleta, chamou a o -marido com a brandura de quem deseja reconciliar-se: - -—Olha cá. Pelo que disse a meu respeito, sabes que não passa tudo de -graça. Lá quanto a ordenar-se o rapaz, é coisa assente e proposito firme. -Que queres tu que elle seja? Queres que o mande para Coimbra gastar-nos -rios de dinheiro para o vermos ao cabo de cinco annos a caçar môscas como -o pae? - - - - -VIII - - -Eduardo Valladares, quando soube que n’essa noite poderia vêr Maria -Luiza, sentiu no coração uma alegria subita que de momento a momento era -obscurecida por umas sombras ligeiras... Dir se-hia que n’aquella alma -de dezeseis annos se travara lucta entre os lampejos d’uma esperança -e as nuvens d’uns receios que são attributo da timidez procedente da -inexperiencia. - -N’aquella alma, digamol o pois, preparava-se uma aurora: luctava a luz -com as trevas. - -Ver Maria Luiza era levantar o espirito a páramos celestiaes ante -gostados em horas de dulcissima meditação; era voejar nas azas da -esperança até onde a felicidade pudesse subir uma creatura absorta em -sonhos do Céo. Mas vêl-a não seria despenhar-se em abysmos insondaveis, -se nos labios d’ella não desabrochasse um sorriso equivalente a uma -promessa? Todas as dúvidas, que até ahi o haviam salteado dia e noite, -como que se levantaram em tropel e deliciosamente lhe pungiram o coração -amoroso. - -O filho do bacharel entrou na sala da viuva Machado com a timidez de -quem arriscasse um passo n’um estrado sobreposto ao boqueirão d’um -despenhadeiro. O mesmo porém foi entrar e cegar-se deante d’aquella visão -aerea, tentadora, que parecia encher a casa d’alegria e esplendores. - -A aurora da felicidade, que a cercava, afigurou-se porém a Eduardo -Valladares o clarão sinistro d’um incendio que lhe vinha requeimar o -coração. - -A elle, que se sentia triste, porque amava, a elle, que luctava com -a incerteza, porque esperava, a elle pareceu pois que só a estrema -despreoccupação d’espirito podia dar a tranquilla alegria que Maria Luiza -revelava no gesto e no olhar. - -Ó deliciosas illusões dos dezeseis annos, que sois a verdadeira -felicidade, quem pudera rehaver-vos, uma só vez que fôsse, depois de -transposta a barreira que separa o mundo das chimeras do mundo das -realidades! - -A experiencia é fria como tudo o que é positivo, material e immutavel. -Ultrapassada a linha divisoria, sabe-se que o coração freme em -tempestuosa lucta quando aos labios apontam sorrisos de felicidade. Ó -experiencia, ó escalpello das coisas mundanas, queres rasgar, decompor, -retalhar, para saber! - -Aos dezeseis annos contentam-se os olhos com vêr a superficie d’este -mar chamado—coração humano. E não se sabe então que o oceano, cuja face -se azuleja como o céo nas regiões polares, e disputa negruras com a -tempestade na costa das Maldivas, não se sabe que o oceano, diziamos, -occulta sob uma superficie crystallina ou sombria um mundo sempre cheio -dos mesmos mysterios e da mesma escuridade... Ó abençoada ignorancia, que -tamanhas saudades deixas para toda a vida! - -Aos dezeseis annos ignora-se ainda que ha certas organizações robustas, -que não só chegam a dissimular os proprios sentimentos, mas até -logram manifestar commoções differentes das que lhe estão deliciando -ou corroendo o coração. Já dissemos que Maria Luiza era uma d’essas -organisações de rija têmpera, e o leitor sabe como ella modulava um -trecho de _seguidilla_ no momento em que mais lhe vergava o espirito sob -o consolador gravame das saudades de sua irmã. - -Amaria ella Eduardo Valladares? Amal-o, na verdadeira accepção d’esta -palavra, talvez não. Mas sentia-se impellida por uma onda alegre e -suave, que lhe embalava o pensamento e o levava a paragens tão formosas -como desconhecidas. Alli encontrava o vulto sympathico do filho do -bacharel, aureolado d’extranhos esplendores, e não sabia bem se tamanha -claridade partia d’elle ou se era apenas o reflexo cambiante d’uns astros -desconhecidos que illuminavam o céo de um mundo novo. Mas d’aquella -felicidade que a embriagava, guardava o segredo no coração; e era -apparentemente a mesma creatura alegre e descuidosa. Como quer porém que -elle, de desejoso, andasse evitando falar-lhe, Maria Luiza approximou-se -e disse-lhe: - -—Olhe que um rapaz-velho é tão irrisorio como um velho-rapaz. - -—Minha senhora! balbuciou Eduardo tomando o dito á conta d’uma pungente -zombaria. - -—Ainda não dansou hoje, e como supponho que se esquiva á dansa para se -furtar ao desprazer de me aturar durante uma valsa, venho sacrifical-o -nas aras da minha ousadia, e convidal-o para meu... par. - -Eduardo Valladares ia a responder, nem elle sabia o que, mas o preludio -d’uma valsa salvou-o d’uma conjunctura estremamente difficil. - -Depois, o piano passou d’uma cadencia maviosa para uma vertigem febril, e -o mesmo aconteceu aos corações que, de tão juntos, pareciam permutar-se -as pulsações... - -Meia hora volvida, Eduardo Valladares e Maria Luiza conversavam -debruçados á janella... - - - - -IX - - -Estamos, outra vez, no Bom Jesus do Monte. - -O leitor conspira, porém, contra o poder de ubiquidade que o romancista -possue e deseja saber que maviosos dialogos suspiraram Eduardo Valladares -e Maria Luiza, ao clarão saudoso das estrellas. O que disseram não o -repetiram os échos da noite. Suppomos, todavia, que elle conservara -a mesma timidez e que ella não se apartou da alegre tranquillidade -que momentos antes revelava. Mas se assim foi, n’aquelle dialogar, -apparentemente frivolo, insensivelmente se iam alliando duas almas, a -julgar pela leitura das seguintes linhas. - -Vamos encontrar Eduardo Valladares e Maria Luiza subindo ambos a alameda -sombria da Mãe d’Agua. - -—Parece-me hoje mais triste que da primeira vez que estivemos aqui! disse -Maria Luiza. - -—Creio que não tem v. ex.ᵃ razão para se admirar. É que hoje já vou -procurando recordações por entre estas sombras deliciosas. - -—Recordações? Ah! recordações da visão mysteriosa que inspirou o seu -madrigal. - -—Se fôra assim, a presença de v. ex.ᵃ dissiparia essas recordações, ousou -pronunciar Eduardo Valladares. - -—Eu! - -—V. ex.ᵃ mesma. Ha de perdoar-me, continuou elle com a voz extremamente -trémula, mas resolvi-me, ao cabo de muitas horas de hesitação, a usar -d’uma sinceridade que não pode e não deve melindrar v. ex.ᵃ. Que hei de -fazer eu senão pensar, meditar, eu que vivo aos dezeseis annos longe -da terra que me viu nascer, dos sitios que recordam as horas alegres -da minha infancia, dos meus amigos queridos, do conchego da familia, -das consolações de minha mãe, do braço protector de meu pae? Ah! se v. -ex.ᵃ comprehendesse como tudo isto é profundamente triste, e se depois -se lembrasse tambem de que venho acceitar um futuro que me offerece -a generosidade d’um parente, porque o trabalhar constante de meu pae -não basta para abrir á felicidade a porta da nossa casa, se v. ex.ᵃ -comprehendesse tudo isto, ouvir-me hia como se ouve um amigo que vem -entregar ao nosso coração o segredo das suas maguas. - -—Jesus! Como me entristece! - -—Ah! V. ex.ᵃ tem soffrido tambem, é verdade, porque conserva ainda na -alma os vestigios d’uma longa saudade. Hoje, que é domingo, o dia em que -v. ex.ᵃ costumava ir depôr um ramo de flores sobre o tumulo de sua irmã, -ouvir-me-ha, pois, como se eu lhe estivesse falando á beira d’esse tumulo -querido... - -—Despedaça-me o coração... Tenha piedade. - -—Supponha que o repellido da fortuna poz um dia os olhos n’uma esperança, -e que vêl-a tornada realidade seria o mesmo que subitamente enriquecer de -tudo o que lhe falta agora, de tudo o que deixa na alma d’elle um vácuo -tão profundo como sombrio. Supponha que o desventuroso peregrino pedia -gasalhado ao seu coração, e que via pendente dos labios de v. ex.ᵃ toda a -sua vida, toda a sua felicidade, todo o seu futuro... Mas... - -—Fale, fale... - -—Mas quem me diz, quem me prova que o coração de v. ex.ᵃ tem ainda a -liberdade de entregar-se? Quem me diz, quem me prova que v. ex.ᵃ não deu -já a outrem a felicidade que eu lhe estava pedindo? Mas quem me diz, -quem me prova que v. ex.ᵃ tem a abnegação de ligar o seu destino a um -destino incerto e sombrio como o que me espera talvez amanhã? Ah! não -fala, não responde... Que está lendo v. ex.ᵃ na veia d’agua, em que fixou -o seu olhar? Talvez esteja lendo o meu futuro, que é decerto o futuro de -todos os desgraçados... Nasce a agua entre estas sombras queridas que -pendem dos troncos seculares. O destino impelle-a para longe. Ella lá -vae, descendo de fonte em fonte, afastando-se cada vez mais do seu berço -querido, até que se some, ao sopé da montanha, nos abysmos da terra. Quer -v. ex.ᵃ que lhe desenhe melhor o quadro d’uma vida obscura e triste como -ha de ser a minha? Oh! diga, diga, que estava lendo o meu destino na -corrente d’esta floresta sagrada... - -—Quer saber o que estava pensando? respondeu Maria Luiza no tom firme -d’uma resolução inabalavel. Não pensava no seu destino, pensava no meu. -Olhe como a agua corre livre vencendo o dique d’aquella folha verde que -encontrou no caminho. Pois bem. A agua da montanha é tão livre como eu. - - - - -X - - -Fez-se a luz. - -Descerraram-se de par em par as portas d’esse olympo esplendido aonde só -podem subir duas almas identificadas n’uma unica aspiração. - -Eduardo Valladares sentiu n’um momento dissiparem-se todas as dúvidas, -todos os receios, todas as angustias. Maria Luiza deixara-se fascinar -pelos clarões rutilantes d’esse mundo que entrevira em sonhos e, irmã da -mariposa, lançava-se á chamma sem curar de saber se encontraria a morte. -São realmente dignas de estudo naturezas como a sua. - -Ha certas creaturas que entraram no mundo com o coração a trasbordar -d’alegria. - -As scenas variegadas da vida absorvem-nas e enlevam-nas, como as -cambiantes d’um caleidoscopo enlevam e absorvem uma creança. - -Tudo as namora, tudo as fascina. Seguem com estremecimentos de jubilo as -choreas caprichosas das borboletas e das aves; parecem querer luctar com -a perfidia da onda, quando estão á beira mar, e deixar-se-hiam morrer -se soubessem que a morte era... alegre. Mas—singular contradicção!—um -ligeiro incidente as commove; derrubae um ninho e vel-as-heis chorar. - -São porém nevoas que se dissipam com um sôpro. A alegria impelle-as, e -ellas, as venturosas creaturas, deixam se deslizar suavemente por uma -estrada de rosas... - -Um dia quer Deus que lhes embargue o passo o leito d’um moribundo, -permittam-me o exemplo. Admirae-as então. Sabeis o que são estremos de -dedicação inegualavel? Se não sabeis, vinde apprendel-os com ellas. De -tudo se esquecem, tudo alienam, a propria vida, a felicidade, a alegria -para se absorverem n’um unico pensamento e n’uma unica afflicção. - -É por isso que fomos encontrar Maria Luiza á beira do leito da pobre irmã -como a mais solicita e dedicada enfermeira que jámais houve. - -É por isso que pudemos vêl-a, a ella, a inquieta toutinegra, ajoelhada -sobre o tumulo querido, como o anjo da saudade, orvalhando-o de -abundantissimas lagrimas. - -É por isso que a admiramos no momento de confiar o seu coração, -immaculado e puro, ao homem que revelava, nos éstos d’uma paixão -impetuosa, um coração egualmente puro e immaculado. - -É por isso que teremos de contemplal-a... - -Corre-nos obrigação de deixar a phrase incompleta. O romancista não pode -accelerar a marcha dos acontecimentos com uma especie de velocidade -electrica. Tem o dever de ser methodico e nós, que tentamos o primeiro -passo no caminho do romance, devemos respeitar as tradições até hoje -seguidas pelos fazedores de novellas veridicas e não veridicas. - -O que devemos dizer é que Eduardo Valladares e Maria Luiza se carteavam -quasi diariamente. - -As dulcissimas phrases que se mutuavam adivinha-as o leitor. - -Os namorados—especialmente os namorados como Maria Luiza e Eduardo -Valladares—fazem lembrar aquelles celebres habitantes de que fala Camões: - - Contam certos auctores - Que, junto da clara fonte - Do Nilo, os moradores - Vivem do cheiro das flores - Que nascem n’aquelle monte. - -De que vivem os namorados? Embriagam-se nos celestiaes aromas das -flores que desabrocham nos rosaes escondidos no coração. O que elles -sabem dizer é um como frémito de rosas baloiçadas por uma viração -suavissima;—linguagem quasi mysteriosa apenas entendida por duas almas. -Em que é que pensam? Em que é que sonham? - -Pensam e sonham nas amenidades do seu vergel encantado, nas flores do seu -canteiro intimo, nas harmonias que uns desconhecidos rouxinoes gorgeiam -por entre os invisiveis rosaes. - -«Tenho dó dos demonios; pois se elles não amam!» creio que escreveu -algures Santa Thereza, _toda delirante de ternura_, como notou o mais -vernaculo dos nossos escriptores contemporaneos. - -Oh! espiritos beatificos, que nascestes fadados para os arroubos -asceticos, ó santos e santas da côrte celestial, até vós prelibastes as -doçuras que resumbram do favo do amor! - -Quero lembrar-me tambem agora de que S. Francisco de Salles disse «que o -amor tem o primeiro logar entre as paixões da alma»; e não sei ao certo -quantos mais santos discretearam ácêrca do amor. Que admira, porém? -Não se resumia a doutrina e philosophia do vosso divino Mestre n’este -dulcissimo preceito: «Amae-vos uns aos outros»? - - - - -XI - - -—Nota que estamos a dezenove de setembro... disse João Nicolau de Brito, -n’esse mesmo dia, a sua mulher. - -—Oh! homem! Felicidade como eu tive! Tu dispensas um repertorio! replicou -D. Maria d’Assumpção. - -—Nota que estamos a dezenove de setembro. Isto quer dizer que faltam -poucos dias para chegar outubro. - -—Ah! temos rabugice! Falas do Eduardo, pois não falas? - -—Falo do Eduardo, sim, senhora, falo do Eduardo. Ando cá desconfiado... - -—Desconfiado de que? - -—De que pegou o namorico com a Maria Luiza. - -—Deixal-o pegar. - -—Ora que tu não has de querer nunca desviar as tempestades imminentes... - -—Quaes tempestades imminentes? Deixa namorar o rapaz, que está no seu -tempo. Que queres tu que se faça? - -—O peor é em se abrindo as aulas. Estou com receio de que gaste mais -tempo a lêr nos olhos da Machado do que nos livros. - -—Deixa que lhe ha de chegar o tempo para tudo, se assim fôr. E depois -quem te disse que elles se namoram? Que provas tens? Sabemos apenas que -elle gosta d’ella; mais nada. O que é certo é que tudo isto tem sido uma -felicidade. Olha como o rapaz está acclimado, como parece outro, como -revê alegria!... - -—Por isso mesmo... Dize cá. Tu sabes se elles conversaram no Bom Jesus -nos dois domingos que lá passámos? - -—Eu sei lá isso! Tu não viste que não sahi de ao pé de ti? - -—Pois domingo sou eu que quero ir ao Bom Jesus. - -—Para que? Para os veres conversar? Olha que vale a pena, na verdade! - -—Eu cá tenho tambem o meu systema... - -Seja-nos licito saber o que estava fazendo Eduardo Valladares ao tempo em -que n’uma das salas contiguas ao seu quarto dialogavam d’esta maneira D. -Maria d’Assumpção e João Nicolau de Brito. - -O que estaria fazendo? Escrevia. Transmittia ao papel as harmonias que -lhe resoavam na lyra do coração: escrevia a Maria Luiza. E tão ligeira -esvoaçava a penna sobre o papel, que, se o visseis, dirieis que eram -pensamentos sem nexo, caprichos e devaneios d’um espirito radioso o que -estava escrevendo: - -«Vinde e subamos ao monte do Senhor», escreveu o propheta. - -«E fomos, e subimos. Entrei na floresta sagrada e para logo senti -inebriar-se a minha alma n’uma vaga e dulcissima esperança. Fui subindo -e, á medida que subia, perpassavam no meu espirito as melodias que -parece sahirem d’entre o arvoredo sombrio. Tudo é doce, tudo é inefavel -na montanha do Senhor. Ha no interior d’aquella esplendida cathedral de -verdura um como longinquo e continuo suspirar d’um orgão vibrado por mãos -invisiveis. - -«Para aquelle concerto perenne da floresta contribue tudo quanto se -esconde em tão deliciosas sombras: o arvoredo que murmura, as fontes que -suspiram, as aves que chilriam dialogos maviosos, e os corações que se -expandem na linguagem suavissima do amor... - -«Foi na montanha do Senhor que as nossas almas se identificaram para -sempre n’uma unica existencia. - -«Foi lá que tu recebeste no teu coração as queixas do romeiro e lh’as -devolveste em ridentissimas esperanças depois de purificadas no crisol -d’um amor celestial. - -«E a tua voz sobrelevava todos os murmurios e todas as melodias da -floresta e soou aos meus ouvidos como um hymno cadenciado na harpa d’um -cherubim. - -«E eu repeti as palavras que momentos antes se me tinham deparado na -legenda da _Esposa dos cantares_ e disse: - - A tua voz murmure a meus ouvidos[3] - -e deliciei-me nas cadencias inimitaveis que a tua bôcca jorrava ao -murmurar: «A agua da montanha é tão livre como eu». - -«É pois certo? A tua alma é tão livre como a onda prateada que desliza -por entre as verduras da serra e cae em chuva de perolas na amphora de -cada fonte? A tua alma é tão livre que possa juncar de flôres a estrada -dos meus dezeseis annos á semelhança da corrente da montanha que vae -orvalhando as boninas da encosta? - -«Estavamos no _monte do Senhor_, na _santa Jerusalem_ e os teus labios -falaram a linguagem do teu coração... Os échos da montanha guardam o -segredo da nossa felicidade. Que as nossas esperanças todas se desatem em -florecimentos perpetuos como os da primavera que cada dia enche de vida -nova e nova opulencia a floresta sagrada. - - * * * * * - - - - -XII - - -Estava n’esse dia, como sempre, cheia de amenidade a alameda da Mãe -d’Agua. - -—Que felicidade! dizia Eduardo Valladares apertando entre as suas as mãos -de Maria Luiza. Que felicidade! Abençoado o teu amor que me dá confôrto -e alento para ir procurar a realidade dos meus sonhos, dos nossos, -devia dizer, onde quer que ella esteja... E todavia eu d’antes era -triste, tão triste, que nem tu sabes! Meu pae, quando me surprehendia a -escrever, dizia para minha mãe:—Este rapaz ha de ser desgraçado! Por que? -perguntava ella com terna inquietação. Porque começa a sonhar muito cedo, -concluia meu pae. Oh! dize-me que era falsa esta prophecia. Por que não -havemos de ser felizes? Tu amas-me muito, pois não amas? - -—Que transformação completa na minha vida, Eduardo! As minhas amigas -tinham-me á conta d’um coração que nasceu para ser livre como a aguia, e -só para isso. Eu, porém, consultando-me a mim mesma, conhecia-me muito -outra do que me suppunham. E não me enganei; bem sabes tu que me não -enganei. Havemos de ser felizes. Sabes o que é ter no Céo um anjo que -vela por nós a toda a hora? Lembra-te de minha irmã, que era um anjo, -e fortalece-te com essa esperança. Se porém o Céo da nossa felicidade -tem de se annuvear com tempestades invenciveis, se temos de separar-nos -um dia para tomar cada um por differente caminho, se tudo isto tem -d’acontecer, então que a alma de minha irmã me chame para o pé de si, que -eu prefiro morrer a vêr-me sem ti no mundo... - -—Oh! Cala-te, cala-te, que me sinto morrer. Afasta da tua alma esses -presentimentos sombrios, que são meras visualidades. Não somos nós -felizes? Olhemos em redor de nós. Tudo placido e ameno como hontem e -como ámanhã. E, no meio d’esta tranquillidade do ermo, não hão de sonhar -as nossas almas em leito de rosas e esperanças? Para que havemos d’ir -procurar os espinhaes que nos não vedam o passo? Põe de parte esses -pavores imaginarios. Consulta antes a tua alma e pergunta-lhe se é tão -firme que sacrifique todo o futuro a um affecto, se é tão corajosa que -possa dizer ao desprotegido da fortuna: «Sei que és pobre, mas quero -soffrer metade das tuas amarguras.» - -—Pois duvidas ainda! Pela alma de minha irmã te juro que o meu amor será -eterno. Por que é falares de pobreza? Acaso eu, egualmente desprotegida -da fortuna, podia levantar o meu espirito a desmedidas ambições? Que -importa o valor da riqueza, quando se trata do valor da felicidade? -Promette que não mais falarás d’um assumpto que magôa dolorosamente a -minha alma. É tamanha a nossa esperança que ella só nos deve absorver... - -—Oh! perdôa-me... - -De repente uma voz conhecida, denunciando sobresalto, viera interromper o -caloroso dialogo. - -O leitor vae saber o que se passou. - -João Nicolau de Brito, D. Maria d’Assumpção, e a viuva Machado ficaram-se -a conversar, sentados nos poucos degraus que dão entrada para a -hospedaria denominada hoje da Boa-Vista, com pessoas das suas relações -que tinham procurado as sombras da floresta do Bom Jesus para se furtarem -ás calmas de setembro. - -O sogro do bacharel Valladares, quando julgou opportuno espionar o neto, -segredou á mulher: - -—Viste para que lado fôram as Machados com o rapaz? - -—Olha que está alli a mãe... - -—Pergunto-te se viste para que lado fôram as filhas. Não tenho nada que -ver com a mãe. - -—Fôram por ahi acima e acho que estarão na Mãe d’Agua. - -João Nicolau de Brito levantou a voz e apostrophou: - -—Ora fiquem em santa paz, que eu já estou aborrecido d’estar sentado -n’estes degraus. Vou por ahi acima espairecer um pouco. - -Sentada nos degraus do chafariz, que fica ao centro do largo dos -Evangelistas, estava, absorta na leitura de não sei que romance, a -menina Rosa Machado. Como quer que levantasse casualmente os olhos de -cima do livro e reconhecesse ao fundo da avenida João Nicolau, correu -pressurosa a dar rebate aos enamorados interlocutores da Mãe d’Agua. O -que é certo é que quando João Nicolau chegou ao largo, depois de ter -trilhado vagarosamente a longa avenida que parte do templo, já as duas -irmãs Machados estavam sentadas nos degraus d’uma das capellas, e como -que ambas embevecidas na leitura do mesmo livro. - - - - -XIII - - -—Sósinhas? exclamou João Nicolau ao vêl-as, dando assim largas á sua -extrema admiração. - -—Nunca estão sós duas irmãs, respondeu de golpe Maria Luiza. - -—A ler, não é verdade? - -—A matar o tempo. - -—Que é do meu neto, que assim as deixa sem lhes fazer companhia? - -—O seu neto continua a ser poeta. Desde que chegámos aqui, embrenhou-se -por essa alameda da Mãe d’Agua e lá está talvez devaneando a desafiar os -rouxinoes. - -—Olhem que para boa lhe havia de dar! - -—Tambem acho que sim!... replicou Maria Luiza. - -—Se não era melhor estarmos aqui todos a conversar! accrescentou Rosa. - -—É que estes poetas gostam d’andar a conversar comsigo mesmos. Toda a -minha vida ouvi dizer que se deve desconfiar de pessoas que falem sós. - -—Os poetas não falam sós, tornou Maria Luiza. Não posso deixar de -censurar o procedimento de seu neto, sr. João Nicolau; mas quero levantar -a luva que lançou a quantos versejam n’este mundo de Christo. Os poetas -pensam como o sr. João Nicolau, como eu, como toda a gente. Se procuram, -ás vezes, a solidão, é de certo para que os rumores do mundo lhes não -interrompam os maviosos pensamentos. - -—Ande lá, que não pode negar que é affeiçoada á poesia... - -—Admiro-a, e mais a admiraria se pudesse comprehendel-a. Ora de poetas -que teem seu tanto de mysanthropos, como o sr. Eduardo, é que eu não -gosto. Quero a poesia que transige com os deveres sociaes. O Camões, -segundo dizem, emquanto a fortuna lhe luziu, usava de boa cortezia com as -damas da côrte. - -—E de que valeu ao Camões ser poeta? interrogou João Nicolau apoiando-se -no braço de Maria Luiza e fazendo menção de voltar á hospedaria. - -—Valeu muito, respondeu ella, tomando pela avenida, de braço dado com -João Nicolau. Valeu-lhe estarmos agora nós falando d’elle. - -—Sempre é ligarmo-nos muita importancia, pois não acha? - -—Tem razão. Eu devia ser menos vaidosa e mais verdadeira. Valeu-lhe -a admiração de todo o mundo, porque todo o mundo admira o genio -deslumbrante d’um homem que soube exaltar n’uma epopêa as glorias da -patria que o deixou morrer de miseria. - -—Bravo, minha cara menina! Gostei d’ouvil-a! - -—O sr. João Nicolau está gracejando. Mas a verdade é que o genio de -Camões conseguiu muito, na minha opinião. Deu a conhecer ao mundo -civilisado o quadro das velhas glorias portuguezas, para que ficasse -de pé a chronica nobilissima d’um povo quando as convulsões sociaes -subvertessem a nossa individualidade historica. Uma epopêa é muitas vezes -um epitaphio levantado sobre o tumulo d’uma nação que foi. Tenho ouvido -dizer que os poemas de Homero e Virgilio representam hoje a Grecia e -Roma. Quem sabe se os _Lusiadas_ serão a unica recordação que sobreviva -ás ruinas de Portugal? - -—A modo que tem razão... Ora deixe-me ver se me lembro d’uns versos do -José Agostinho, que vinham agora a proposito. Olhe que o José Agostinho é -um poeta que me enche as medidas! Tem ouvido falar d’elle? - -—Ah! bem sei. Do José Agostinho não gosto. - -—Não gosta! Pois já leu? - -—O José Agostinho não tem sentimento nem inspiração. - -—Ora não diga isso! - -—São opiniões. O certo é que meu pae tinha algumas obras do José -Agostinho e eu algumas folheei. Mas vamos aos versos, que os desejo ouvir -recitados pelo sr. João Nicolau. - -—Deixe ver se me lembram. São do epicedio á morte do Bocage: - - Voando o tempo os seculos ajunta - E co’as immensas incansaveis azas - Cobre os vestigios da grandeza humana: - Na Historia, os deixa só, e á vista os furta. - De Esparta, a mãe d’heroes, mãe da virtude, - Hoje occupa o logar mesquinha aldeia; - De Epaminondas... - -Ora deixe vêr como é o resto... Ah! - - ...d’Aristides pisam - Incultos Scythas barbaros os lares... - -O resto é que me não lembra. - -—Ora ainda bem que o sr. João Nicolau não é tão inimigo da poesia como se -mostra! - -Chegavam finalmente ao extremo da avenida. João Nicolau, logo que pôde, -chamou de parte a mulher e disse-lhe: - -—A rapariga lá doutora é e sabe mais do que eu, mas por emquanto não -temos nada a recear... - -—Eu bem t’o dizia, homem de Deus, respondeu D. Maria d’Assumpção. - -—Sabes de quem devemos temer? - -—De quem é? - -—Das musas, mulher, das musas, que transtornam a cabeça ao rapaz! - - - - -XIV - - -João Nicolau de Brito assentou de si para si que não tinha ainda sido -traspassado pelas frechas cupidinias o coração do neto, e em confidencia -com a mulher lamentava que o cerebro d’um rapaz de dezeseis annos se -deixasse eivar de semelhante monomania poetica, como elle dizia. - -D. Maria d’Assumpção escutava o marido com a maxima paciencia e, podemos -dizel-o tambem, com a maxima reserva. - -—Lá que elle é um estudante distincto, isso é! exclamava João Nicolau, -frequentes vezes, depois de abertas as aulas do lyceu bracharense. Os -professores elogiam-n’o e dizem que o rapaz pode ser considerado, sem -favor, o melhor do curso. Mas a dizer-te a verdade, mulher, não me parece -que gaste muito tempo a estudar... - -—Ora por que dizes tu isso? Quem sabe é porque estuda. Não t’o elogiaram -os mestres? Que mais queres? É preciso ter paciencia de santo para viver -comtigo! - -—Não sabes por que razão digo isto? É por que o vejo ir todas as tardes -para Guadelupe. Provavelmente vae para lá falar só e fazer versos. Ora um -estudante não pode sahir todos os dias ou chova ou faça sol... - -—Oh! homem, quem te diz que elle não vae para lá estudar? - -—Qual estudar! Estudar o que? Em que livros? Só se fôr nas palmas das -mãos... Que lá do namôro com a Machado acho que não temos a recear... - -—Pois ainda te não desenganaste!... O rapaz é um genio excentrico, -e genios assim não são muito para amores... Quem sabe lá! Deixal-o -versejar, que talvez chegue a ser como esse Castilho, de Lisboa, que, -apesar de ser cego, é um poeta de fama, segundo dizem. - -—Qual poeta de fama! O meu poeta era o José Agostinho. Ainda não li nada -do Castilho, mas vou jurar que não chega aos calcanhares do frade. - -—Pois não deves julgar de nada pelo que te parecer. - -—Deixemo-nos de rhetoricas. Com versos não se ganha a vida. Padre é que -elle ha de ser. Disse e está dito. Lá como o tal estudantinho de Coimbra, -de que falava o Sebastião na carta, é que me não ha de fazer. Se gostar -da theologia, melhor para elle; se não gostar, que se aguente; e se -morrer, que o leve a breca; a gente não nasce para outra coisa. - -—Estás hoje com instinctos sanguinarios. Olha que eu tenho medo de -mata-mouros, homem! - -Chegou dezembro. Alvejavam, cobertos de neve, os cimos do Sameiro e da -Falpêrra. As férias do Natal chamavam os filhos ausentes ao lar paterno. -Eduardo Valladares veiu ao Porto consoar, e seis dias antes de terminarem -as férias, estava já em Braga. João Nicolau ficou sobremodo admirado; D. -Maria d’Assumpção comprehendeu tudo, mas conservou-se, como sempre, na -defensiva. - -—Ó mulher! dizia João Nicolau na sinceridade da sua admiração. Pois elle -chegou aqui, da primeira vez, com cara de ter perdido na renda, a tal -ponto lhe entrou o mal das saudades, que foi preciso que lhe receitassem -passeios ao Bom Jesus. Chega o Natal, vae ao Porto e rebenta-nos á porta -seis dias antes de acabarem as férias! Eu declaro-te que não entendo nada -de tudo isto! - -—Pois olha que tudo isto é claro como agua. É uma delicadeza do rapaz. -Não quiz dar-nos campo a suppormos que estava aborrecido de nós. Repartiu -as férias com os paes e comnosco. Quem fôsse menos desconfiado do que tu, -só tinha motivo para se lisonjear. - -—Nada. Não vou para ahi, mulher. Rapazes não teem delicadezas com ninguem -e muito menos com parentes. Aqui anda mysterio. - -—Mas tu bem vês que este rapaz não parece que o é. É preciso respeitar -as suas esquisitices, para que não diga que lhe vendemos muito caro o -beneficio que lhe estamos fazendo. - -—Pois sim, sim. Mas olha que o rapazinho é finorio e sabe muito bem o que -faz. - -—Por isso mesmo é que nos quiz captivar com esta delicadeza. E depois -pode ser que se lembrasse de que, vindo no ultimo dia de férias, talvez -tu dissesses que tinha voltado a cumprir os seus deveres por de todo em -todo não poder ficar no Porto... - -—Lá isso é que pode ser... - -—Isso é o que foi. O rapaz por emquanto porta-se dignamente e não -descubro coisa que nos faça arrepender de o termos chamado á nossa -companhia. É preciso não ser impertinente com gente nova, e sobretudo -impertinente sem motivo... - -—Isto tambem já é velhice, mulher! - - - - -XV - - -Sebastião Valladares fez egualmente reparo na partida precipitada do -filho e consultou o coração da mulher, que por ser de mulher e de mãe -devia adivinhar e lançar luz sobre o que aos olhos do bacharel se -afigurava mysterio. D. Adozinda serenou o ánimo do marido com estas -placidas palavras: - -—Desvarios nem o genio lh’os tolerava, nem os podia ter que lh’os não -soffria meu pae. Quando Deus quer, temos amores, e não vejo n’uns amores -dos dezeseis annos sombra de tempestade que possa inquietar-nos. - -—Talvez seja isso, respondeu o bacharel. Olha que receio todavia por este -rapaz, cujo temperamento, por demasiadamente ardente e delicado, se me -afigura perigoso. O nosso filho tem grande inclinação á poesia e, como -se não bastasse versejar, dá indicios de vir a sentir como verdadeiro -poeta. Ha certas almas que, em vez de se repartirem pelo mundo exterior, -tiram de si mesmas, á semelhança do pelicano, a seiva com que alimentam a -propria vida. Ora o Eduardo, que me parece ter nascido fadado para eguaes -destinos, precisava de ter a seu lado um conselheiro mais eloquente e -menos severo que teu pae. - -—Dizes bem. - -—Até já me lembrei d’escrever ao Rodrigues, que é meu amigo desde a -emigração, e que tem coração e intelligencia de sobra para mentor d’um -espirito febricitante. - -São precisas algumas palavras d’explicação. Sebastião Valladares, natural -de Vianna, havia completado o curso universitario quando, perseguido por -suas idéas politicas, teve d’emigrar em 1828. A esse tempo contava elle -vinte e cinco annos e tinha, sacrificado o coração, nas aras do amor, á -senhora que, annos depois, desposara. João Nicolau de Brito possuia uma -quinta, sombreada de copado arvoredo, á ourella do rio Lima; foi ahi que -o bacharel Valladares vira, em dezembro de 1827, a formosissima dama -bracharense, e foi d’ahi que se amaram. - -Compellido a emigrar, Sebastião Valladares vizinhou em Rennes de Almeida -Garrett e de Manuel Rodrigues da Silva e Abreu. Ahi, nas angustias do -destêrro, se estreitaram os laços que os deviam prender toda a vida. Em -1832 voltaram á patria os saudosos emigrados: Manuel Rodrigues da Silva -e Abreu era nomeado official do governo civil de Braga; Almeida Garrett -voltava á politica e á litteratura; e Sebastião Valladares casava e abria -banca d’advogado no Porto. - -João Nicolau era affeiçoado á causa absolutista e n’isto vae a razão -da sua entranhada sympathia por José Agostinho de Macedo. Aos ouvidos -do proprietario bracharense soavam continuamente aquelles dois -enthusiasticos versos da _Viagem extactica_: - - No meio do clarão veio no throno - Cercado d’esplendor Miguel Primeiro. - -João Nicolau apenas consentiu no casamento quando as instancias da -esposa, estremosa pela filha, e o caracter decisivo da lucta civil não -lhe permittiram resistir por mais tempo. Quando porém admittiu á sua -presença o bacharel, disse-lhe de sobr’ôlho carregado: - -—Pode levar minha filha, se a quizer sem dote. Não sou rico e os meus -padecimentos obrigam-me a despesas constantes; não posso desviar o que -tenho. Em eu morrendo, e minha mulher tambem, levem tudo, que tudo lhes -pertencerá então. - -Com o decorrer do tempo foi-se diminuindo a distancia respeitosa -que separava sogro e genro, a ponto de João Nicolau tomar sob sua -responsabilidade a educação do neto. - -Postas estas explicações, voltemos ao anno de 1851 em que se passa este -caso que vimos historiando. - -Sebastião Valladares conservava com os seus dois amigos e -correligionarios os estreitos laços d’amizade vinculados ao coração nas -horas melancholicas do exilio. Almeida Garrett escrevia-lhe frequentes -vezes. O bacharel, quando abria as cartas assignadas por _João Baptista_, -costumava dizer: - -—Os amigos que se adquirem na desgraça são os verdadeiros. - -Manuel Rodrigues da Silva e Abreu estava a esse tempo exercendo o cargo -de primeiro bibliothecario da Bibliotheca de Braga[4]. Dos tres amigos -era o bacharel Valladares o menos favorecido da fortuna, mas não era -o menos venturoso. Recusou sempre a protecção que os seus amigos lhe -offereciam, nomeadamente Almeida Garrett. Costumava dizer o bacharel: - -—Trabalho todo o dia para viver, mas adormeço á noite tranquillo, e vivo -escondido do mundo. O Garrett, tanto o Garrett politico como o Garrett -litterato, tem soffrido que farte. Não lhe invejo a sorte. - -Tres annos depois, em 1854, expirava o reformador da litteratura -portugueza; e só então, cerrado o tumulo, principiava a ser julgado como -devia, no tribunal da posteridade, o que tanto merecera da patria e -tamanhas injustiças colhêra na sua esplendida carreira. - - - - -XVI - - -O bacharel Valladares escreveu a Manuel Rodrigues da Silva e Abreu -solicitando a graça de allumiar com bom conselho a estrada em que o -inexperiente estudante arriscava os primeiros passos da sua mocidade. - -O bibliothecario de Braga, coração sem mancha e intelligencia -distinctissima, acolheu o moço com a amenidade de tracto que lhe era -peculiar. Eduardo Valladares, terminadas as aulas, subia ordinariamente -á bibliotheca onde o velho amigo de seu pae estava labutando em azafama -continua, e sobremodo se deliciava á sombra d’aquella arvore vetusta meio -tombada para o chão. - -O auctor d’este livro reiteradas vezes teve a felicidade de, na sala -da bibliotheca bracharense, ouvir a palavra sempre fluente e amena -de Rodrigues Abreu. Infundia respeito ver levantar-se aquelle busto -venerando, coberto de cans, d’entre montões de livros a que elle chamava -_a sua familia_. Uma vez bibliothecario, empenhou-se afanosamente -pela causa da bibliotheca. Não se cansou de pedir os indispensaveis -melhoramentos materiaes, dos quaes o primeiro era inquestionavelmente -maior espaço para a conveniente arrumação de preciosos livros que jaziam -a monte. A sua voz clamou no deserto e nem a palavra auctorisada de tão -respeitavel varão nem repetidos artigos da _Revista Universal Lisbonense_ -lograram obter despacho favoravel. - -Como se este constante e baldado empenho não fôsse canseira de sobra, -Rodrigues d’Abreu entregava-se a trabalhos de bibliotheconomia e chegou -a publicar sobre este assumpto um opusculo que denominou _Novidades -bibliotheconomicas_. - -Para daguerreotyparmos o homem, que já hoje é da historia, aproveitemos -os traços caracteristicos que nos offerece o sr. Soares Romeu Junior: -«... Era alto de estatura, rosto claro e comprido, nariz proeminente, -olhos escuros e a fronte espaçosa, coroada de alvissimas cans.» - -Do escriptor diremos apenas que trasladou o _Eliezer_, de Florian, a -versos portuguezes, dos quaes o leitor pode avaliar o sabido quilate pela -apreciação que de tão notavel obra fez no _Panorama_[5] o sr. Alexandre -Herculano. - -Consagradas estas poucas linhas á memoria de Rodrigues d’Abreu, -prosigamos em a nossa narrativa. - -Eduardo Valladares refez o seu espirito, nas horas feriadas de canseiras -amorosas, em proficua leitura que lhe ministrava Rodrigues d’Abreu. -Se levantava os olhos dos livros era para os fitar na imagem radiosa -que lhe flammejava auroras no coração; e como quer que os livros -substanciosamente doutrinarios tenham o seu tanto de agri-doces, Eduardo -repousava da leitura nas amenidades do amor. - -O bibliothecario bracharense, quando escrevia ao bacharel Valladares, -costumava dizer-lhe: «O teu filho é uma perola, mas receio pela -felicidade d’um espirito que, em tão verdes annos, tamanhos merecimentos -revela. Já que me arvoraste em medico espiritual, direi que o seu -temperamento requer brandura.» - -No fim do anno lectivo de 1851 a 1852, Rodrigues d’Abreu abraçou jubiloso -o estudante que sahia premiado das aulas preparatorias. - -Decorrido tempo, no fim de setembro de 1852, Eduardo Valladares subiu á -sala da bibliotheca evidentemente sombrio, a ponto de inspirar sobresalto -ao seu velho e dedicado amigo. - -—Recebi ordem terminante de meu avô para me ir matricular no Seminario, -e o meu coração não pode resistir ao supplicio que esta resolução lhe -impõe, disse com accento melancholico Eduardo Valladares. - -Na casa da rua do Carvalhal ouvia-se a esse tempo a voz atroadora de João -Nicolau clamando: - -—Amanhã vae o rapaz matricular-se no Seminario. Lá o Rubicon do lyceu, -vencido está. Agora vamos a vêr como se sae da theologia, que sempre é -coisa mais séria... - -—É pois chegada a occasião de reflectires maduramente, respondia D. Maria -d’Assumpção. D’esta decisão depende o futuro de teu neto, e não deves ser -precipitado. É conveniente pensar. - -—Já pensei e tornei a pensar. Está dito, está dito. Vae matricular-se no -Seminario. - -—Sondaste lhe porventura a vocação? Quem sabe se lhe repugnará o futuro -que tu despoticamente lhe preparas, homem? - -—Despoticamente! Essa agora é muito boa! Pois é despota quem faz um -beneficio? - -—Não digas beneficio. De quem ha de vir a ser tudo o que nós temos, pouco -ou muito, senão d’elle ou dos paes? - -—Quem sabe o que Deus fará, mulher? O que é que nós temos? Algumas -propriedades em Braga e uma quinta em Vianna! Olha a riqueza! E se vier -uma doença prolongada não havemos de gastar quanto fôr preciso? Lá do -Sebastião tenho pena, por que não é mau rapaz, á parte o ter desembarcado -em 32 com não sei quantos outros _mindelleiros_ que vinham estropeados a -ponto de mal poderem com a arma ás costas! Por isso é que mandei vir o -rapazinho, e já que o pae m’o confiou posso pôr e dispôr á minha vontade. - -—Reflexiona, homem de Deus, reflexiona. - -—Mas que destino queres tu que se dê ao rapaz? Pensas que temos dinheiro -para o mandar a Coimbra? Olha que um patrimonio fica em conta, mas -uma formatura compra-se a peso d’ouro. E demais a mais fica-nos aqui -debaixo da vista, e pouco será o que houvermos de gastar em livros. Está -decidido. Amanhã vae matricular-se no Seminario. - - - - -XVII - - -Estamos em novembro de 1852. - -Na alameda da Mãe d’Agua respira-se no ar balsamico a suavidade d’uma -primavera perpétua. - -Após dias de cerrada invernia, mostra se no formoso céo do norte este sol -esplendido de Portugal, que é a delicia de nacionaes e extrangeiros. - -Esperava-se por um dia alegre e sereno para remoçar o espirito, cansado -da monotonia da chuva. - -D. Maria d’Assumpção tinha falado n’um passeio ao Bom Jesus logo -que o tempo estiasse; as meninas Machados receberam, por escripto, -participação do alvitre e applaudiram-n’o sobremodo. - -Lampejaram n’um domingo clarões de formosissima aurora; deu-se rebate e -preparou-se alegremente o rancho. - -João Nicolau subiu a montanha abordoado á sua bengala de canna da India, -galhofando com ares de sincero e expansivo contentamento. Eduardo -Valladares parecia, ao contrário de todos, entre concentrado e triste. O -avô olhava para elle de soslaio e dizia de si para si:—«Lá vae o rapaz -com a maldita poesia!» - -D. Maria d’Assumpção, que de sobra conhecia as angustias do neto, pensava -compadecida:—«Pobre martyr!» - -Maria Luiza reprimia no coração dolorosas tempestades, e desabrochava nos -labios um sorriso que daria fel bastante para muitas lagrimas. - -Cêrca do meio dia, Eduardo Vallares e Maria Luiza puderam encontrar-se na -Mãe d’Agua. - -Foi dolorosamente triste o mudo dialogo d’uns olhos que, n’um momento de -silencio, resumiram as mais pungentes expansões. - -Olharam-se, e não puderam articular uma unica palavra. Decorreram alguns -momentos que valiam seculos d’angustia. O filho do bacharel Valladares -pôde alfim dominar a commoção que lhe estrangulava a voz na garganta. - -—Esperava por este momento anciosamente, disse elle. Escrevi-te, procurei -no écho da tua alma um allivio para os meus infortunios, mas escrever-te -não bastava. Era preciso ver-te, ouvir-te, escutar-te. Ha dois mezes -que eu abafo no coração a procella do desespêro. Oh! Dá-me um raio -d’esperança para eu não morrer, dize-me ao menos que me amas para que -eu tire das tuas palavras a coragem que me falta. Ha dois mezes que eu -esperava a hora de poder escutar a tua voz como a alma condemnada aos -tormentos do purgatorio deve esperar o momento de subir, expurgada das -suas culpas, á bem-aventurança do Céo. Oh! isto é horrivel, meu Deus! - -A pobre menina tremia agitada pela convulsão dos nervos, e sentia -fugir-lhe a voz e a vista. - -—Dilacera-me o remorso, continuou elle com violenta commoção—dilacera-me -o remorso de ter acorrentado a tua alma angelica ao poste da minha -desgraça. Sacrifiquei a tua alegria, a tua tranquillidade, o teu futuro, -a tua vida ao egoismo do meu coração. Amar-te não bastava? Quiz tambem -ser amado, e despenhei-te, anjo innocente, das paragens remançosas onde -te libravas descuidosa e tranquilla. Quiz tambem ser amado e impuz á tua -alma o sacrificio de exgottar o calix da amargura ao tempo que o teu -amor dulcificava os filtros celestiaes que me embriagavam. Perdôa-me, -oh! perdôa-me, por que o meu amor era immenso, indomavel, e eu preferia -morrer, a ver desfeita a minha esperança, a ver desabar o meu sonhado -paraiso... - -—Se te perdôo! murmurou maviosamente Maria Luiza. Perdôa-me tu, que é por -mim que tu soffres... - -—Ah! interrompera a elle de golpe. Pois é certo que me perdôas? Que -importa então que imponham á minha alma um futuro que ella não pode -acceitar! O escravo, o humilde, o servo de gleba ha de erguer-se soberbo -da riqueza da sua alma, e repellir a mão que ao mesmo tempo empresta -um futuro que nos repugna e exige como hypotheca a felicidade de duas -existencias consubstanciadas n’uma unica. Irei trabalhar para onde a -sorte me levar; procurarei em toda a parte o que me vendiam aqui a trôco -de lagrimas, mas terei no meu coração a dulcissima alegria da esperança, -da esperança que me queriam roubar para me garantirem a felicidade -material da vida, como se a vida sem a esperança não fôsse uma ironia -cruel e deshumana! Irei, é preciso fugir... - -—Fugir! fugir! Dize antes que me queres roubar a consolação de -compartilhar as tuas angustias. Fugir e deixar-me sósinha, entregue á -minha saudade, á minha desventura, ao meu desespêro! Dize antes... - -—Cala-te, por alma do anjo que morreu beijando-te, cala-te. Peço-t’o eu. - -—Fugir! E querias assim despedaçar as ternas cadeias que nos prendem um -ao outro, só para alimentares no coração a esperança de reatal-as um dia? - -—Perdôa-me, que eu fui cruel, porque me enlouqueceu a dôr. Não te ver, -não te ouvir! E poderia eu viver? Iria morrer longe de ti, anjo do meu -coração, sem ouvir na hora derradeira, á beira do meu leito, o murmurio -das tuas orações... - -—E depois, com que profundissimas dôres não irias despedaçar o coração -estremoso de tua mãe! com que maldito tormento não irias infernar a -velhice de teu pae e levar a desgraça á serenidade alegre da tua casa! - -—Comprehendo a nobreza da tua alma, anjo. Agradeço-te por mim, por minha -mãe, por meu pae, por Deus. Ficarei. Acceitarei resignado o sacrificio -que me impõem e appellarei para a Providencia, que vela por todos os -desgraçados. Juro-te que serei submisso. - -—Obrigada. Pertence-me metade das tuas afflições e como poderia eu luctar -com o destino se me faltasses tu a dar-me alento nas horas attribuladas -da nossa commum desventura? - -—E has de soffrer tu, santa do martyrio, que merecias a felicidade na -terra? E hei de eu ser teu algoz, eu, que te amo até á loucura? E hei -de eu ser teu algoz e sacrificar a tua alma immaculada, exigindo que -soffras, que chores, que morras na lenta agonia dos desgraçados, só por -que eu tambem agoniso, e choro e soffro? E não ha de Deus escutar-nos e -não ha de o céo condoer-se das nossas afflicções! Oh! sinto na minha alma -a labareda maldita do inferno!... - - - - -XVIII - - -Não tinham decerto escutado ainda mais doloroso idyllio as arvores -sombrias da _Mãe d’Agua_. - -Eduardo Valladares esperava com febril anciedade, como dissera, aquelle -momento que se lhe afigurava decisivo. Durante dois mezes, apenas pudera -entregar ao papel as pungentes confidencias da sua alma. - -Quando, nos ultimos dias de setembro, João Nicolau de Brito o chamou á -puridade para ordenar-lhe, severo e inexoravel, que immediamente fôsse -abrir matricula no Seminario, escutou o submissamente, abafando no -coração a tempestade revôlta que, n’aquelle momento, fibra a fibra lh’o -estava despedaçando. - -Sahiu da sala para correr á Bibliotheca, onde lhe ouvimos o brando -queixume que o coração amigo de Rodrigues d’Abreu recolhera compadecido. - -João Nicolau, matriculado Eduardo no primeiro anno do curso de theologia, -jubilava com o bom rumo que os seus planos tomavam hora a hora. - -Esperava talvez resistencia da parte do neto e cabalmente se enganou. -Todos os dias o observava com olhos perscrutadores; via-o triste e -sombrio, mas não extranhava. - -Não era elle de natural melancholico? - -Estas investigações quotidianas levaram-n’o a modificar as suas -conjecturas. «O rapaz, dizia de si para si, acceita com boa disposição -a vida ecclesiastica, esperançado talvez em alliar a poesia com o -sacerdocio. E d’ahi quem sabe? Pode ser um vulto distincto em eloquencia -sagrada.» - -E, uma vez possuido d’esta idéa, empenhava-se pelo destino do neto, no -intuito de o ver ainda prégador da Real Capella, no que n’esse tempo -consistia e ainda hoje consiste a maxima distincção com que podem ser -galardoados os oradores sagrados portuguezes. - -Já é incentivo! - -João Nicolau não curava de razoar sobre a mesquinhez ou exorbitancia do -galardão, nem cuidava de tirar a limpo que proventos e honras importava. -N’isto se assemelhava com os mil e um pretendentes que sollicitam mercês -honrosas actualmente; querem a venera seja qual fôr e custe o que custar. -Com João Nicolau acontecia exactamente o mesmo. Firme no seu designio, -declarou solemnemente á mulher e ao neto a suspensão temporaria de -visitas com o proposito de não distrahir o espirito do futuro prégador da -Real Capella. Queria-lhe parecer que esta medida de segurança attingia -dois fins egualmente appeteciveis: - -_Primo_: Concentrar a attenção do novel seminarista nas materias -theologicas. - -_Secundo_: Afastar cuidadosamente as distracções mundanas, que não só -prejudicariam a regularidade do estudo mas até insinuariam na alma do -neto philtros que não devem perturbar o espirito d’um sacerdote. - -D. Maria d’Assumpção andava sobremodo condoída das angustias do pobre -Eduardo. Vira nascer a chamma do amor e confiava na brevidade com que -usam levantar-se e morrer labaredas em corações que desabrocham. - -Era este o segredo da sua medicina. O amor passageiro dos dezeseis annos -esperava ella que fôsse antidoto efficaz ás asperezas d’uma vida nova, e -sobremodo aborrecida, em que o neto ia entrar. - -O que porém não pensou aquella boa alma foi que poderia tornar-se -incendio o que se lhe afigurava chamma e que o coração dos dezeseis -annos, como o coração de todas as edades, tanto procura o sol para -aquecer-se n’uma hora de desconfôrto como para inflammar-se n’um momento -de febril anciedade. - -Em Eduardo Valladares o amor não era devaneio; era a paixão intensa, a -paixão que perde ou que salva. - -Estão-me agora cahindo dos bicos da penna uns certos dizeres de D. -Francisco Manuel, que veem de geito: «Persuado-me que esta cousa a que -o mundo chama amor, não é só uma cousa, porém muitas com um proprio -nome. Poderá bem ser, que por isto os antigos fingissem haver tantos -amores no mundo, a que davam diversos nascimentos; e tambem pode ser -venha d’aqui, que ao amor chamamos amores: pois se elle fôra um só, -grande impropriedade fôra esta. Eu considero dois amores entre a gente. -O primeiro é aquelle commum affecto com que, sem mais causa que sua -propria violencia, nos movemos a amar, não sabendo o que, nem por que -amamos. O segundo é aquelle, com que proseguimos em amar o que tratamos, -e conhecemos.» - -Eduardo Valladares amava Maria Luiza antes de a vêr. Em horas de -dulcissimos arroubos creara a sua phantasia uma visão aerea, formada -de perfumes e de estrellas, meio anjo meio mulher, meio do céo meio da -terra... Este era o primeiro amor de que fala D. Francisco Manuel, o -amor do ignoto e do intangivel. Depois, um dia, por acaso, encontrara -a consubstanciação de todas essas particulas aereas, deixem-me assim -dizer, encontrára na terra a realidade dos seus sonhos queridos e -absorvera n’aquelle sentimento impetuoso toda a vida de que uma -organisação extremamente delicada pode dispor. - -Para aquella alma ardente e sonhadora o amor não podia ter a serenidade -das estrellas n’uma noite d’estio: devia de ser violento como as -convulsões do vulcão que levanta ao céo as lavas encandescentes. - -D. Maria d’Assumpção enganava-se pois, como todas as almas que nasceram, -dedicadas e boas, para o remanso dos affectos vulgares. - -Rodrigues d’Abreu, coração aquecido ao fogo da poesia posto que duramente -provado pelas amarguras do mundo real, Rodrigues d’Abreu é que se não -enganava assim, nem se deixava cegar pela tranquillidade apparente do -filho do bacharel. - -O bibliothecario de Braga, que tinha tanto de poeta como de christão, -andava sobremodo inquieto com os soffrimentos d’aquella alma cujos -soffrimentos devassava. Lembrou-se de escrever a Sebastião Valladares com -a rude franqueza de homens que choraram juntos as lagrimas do exilio. -Escrever-lhe seria, porém, mostrar ao pae a profundidade do abysmo -em que se debatia a alma do filho. Este alvitre rejeitou-o o honrado -bibliothecario por demasiadamente impiedoso e cruel. - -Rodrigues d’Abreu bem comprehendera que Eduardo Valladares amava, e sabia -que era coagido a seguir a carreira ecclesiastica. Não bastava todavia -comprehender e saber isto; era preciso mais. - -Era preciso ao medico espiritual ouvir a exposição circumstanciada do -doente. Receava porém provocar as labaredas do incendio latente, e este -receio acobardava-o. Mas como deixaria consumir-se lentamente aquella -alma cuja pureza aquilatara tantas vezes, elle, que era bom, dedicado e -nobre? O velho bibliothecario, n’essas horas de attribulada incerteza, -pedia ao Céo a luz da inspiração. - - - - -XIX - - -Rodrigues d’Abreu costumava abraçar-se, quando a sua alma carecia de -confôrto, ao esteio d’um coração amigo, que era urna de balsamos para -todas as afflicções. - -Frei Domingos do Amor-Divino, o conselheiro, o arrimo, o cyreneu do -bibliothecario bracharense, tinha purificado o seu coração nas asperezas -da disciplina conventual, nas tribulações da miseria e nas lagrimas -choradas na solidão, deante d’um crucifixo. - -Carmelita descalço, foi sempre modêlo e exemplo nos cargos que teve de -exercer em hospicios differentes por decisão do definitorio geral da sua -ordem. - -Na rigorosa observancia do regimen monastico e na prática constante da -virtude lentamente se mundificara a alma do religioso carmelita, já de -natural propensa ao bem. - -O convento foi-lhe sempre chrysol desde que solemnemente professou no -convento de Nossa Senhora dos Remedios, em Lisboa, até que, silencioso -e compungido, sahira com o resto da communidade do convento do Carmo de -Braga, dizendo para sempre adeus á casa que lhe devia ser tumulo. - -Nunca Frei Domingos do Amor-Divino se entrincheirou com as reixas do -mosteiro para, a coberto de perseguições, accender odios partidarios -e soprar injurias a qualquer das duas facções que por longo tempo se -degladiaram em accêsa lucta civil. - -Não lhe ouviram nunca razoamento, nem sequer monosyllabo, que denunciasse -o rumo das suas inclinações politicas. - -Quando chegava ás cellas do convento um echo das tempestades exteriores, -costumava dizer Frei Domingos do Amor-Divino: - -—Não curemos de profundar essas negruras. A porta que se fechou sobre -nós é uma como barreira que nos separa das desgraças que pesam sobre -Portugal. Que o espirito do Senhor desça sobre nós e seja comnosco, -irmãos. - -Retumbou finalmente aos ouvidos do carmelita um como trovão que parecia -abalar os alicerces do convento: era a voz de debandada que se repercutia -ao mesmo tempo no seio de todos as ordens religiosas de Portugal. Frei -Domingos do Amor-Divino cruzou com os seus confrades um olhar afogado em -lagrimas e desceu á claustra para se despedir da lage sob a qual esperava -dormir o somno eterno. N’esse momento, voltavam umas andorinhas que -tinham fabricado o ninho no friso da crasta. - -Foi dilacerante aquelle lance. As andorinhas, ficavam e a communidade... -sahia. - -Frei Domingos do Amor-Divino foi um dos religiosos portuguezes que -emmudeceram na sua dôr, e procuraram na solidão o refugio que não podiam -encontrar em qualquer outra parte. - -Dissolvida a grande familia monastica portugueza e serenadas as tormentas -politicas que mergulharam em rios de sangue as decantadas boninas das -varzeas de Portugal, Frei Domingos do Amor-Divino assentou residencia em -Braga. - -—Quero vêr a toda a hora o ninho das andorinhas, dizia elle referindo-se -ao convento do Carmo. Ali lhes escutei o alegre chilrear e alli esperava -morrer com ellas. O meu coração precisa d’este consôlo. - -Sua grande affeição á casa onde tinha vivido, esquecido do mundo, levou -o a escolher cubiculo d’onde ao menos pudesse espreitar as torres do -seu convento. Recolheu se Frei Domingos a uma pobre mansarda da rua do -Carvalhal e ahi viveu a vida angustiada da miseria e da solidão. Muitas -pessoas, que ajoelharam a seus pés com o coração requeimado, levantaram -se do confessionario com os olhos marejados de lagrimas. - -Isto diz-se para até certo ponto se explicar o respeito com que os -vizinhos o olhavam e cumprimentavam quando sahia e entrava. - -João Nicolau, se acertava vêl-o, dizia ordinariamente: - -—Ó mulher, estes pobresinhos dos frades, sem casa e sem pão, fazem -realmente despedaçar a alma a quem os vê. E olha como o nosso vizinho -vive resignado, que até se lhe rie o semblante! Deus perdôe a quem... - -E deixava quasi sempre a phrase incompleta para não evocar recordações -pungentes que tinha recalcadas no coração. - -Um dia uma viuva desvalida, mãe de quatro filhos, ajoelhou supplicante -aos pés de Frei Domingos. - -O virtuoso carmelita levantou-a compassivo e disse-lhe: - -—Se na minha mão estivesse remediar a vossa miseria, remediada estava. -Não desanimemos porém. «Pedi e dar-se-vos-ha, buscae e achareis, batei -e abrir-se-vos-ha» disse o Divino Mestre no sermão da Montanha. Sigamos -pois o conselho de quem nol-o podia dar. - -E foi-se de porta em porta, seguido da viuva e das creancinhas, esmolando -para a mãe e para os filhos. - -Rodrigues d’Abreu foi um dos não muitos corações que se enterneceram a -lagrimas deante d’aquelle edificante e extranho espectaculo. Desde então -nunca na alma do bibliothecario bracharense passava uma dôr intima, que -elle não fôsse desafogal-a no coração de Frei Domingos do Amor-Divino. - -A sorte desventurosa do filho do bacharel Valladares trazia trabalhado -de crueis angustias o espirito do bibliothecario bracharense. Foi pois -n’umas das horas de doloroso cogitar a tal respeito, que na alma de -Rodrigues d’Abreu passou um lampejo d’esperança, ao lembrar-se do muito -que podia fazer, em tão apertado caso, Frei Domingos do Amor-Divino. - -Não hesitou um momento. Tinha pedido ao Céo a luz da inspiração e á conta -d’inspiração celeste tomara elle o pensamento que o impellia para o -religioso carmelita. - -Foi procural-o, falou-lhe, desdobrou-lhe o quadro das afflicções que eram -d’outrem e que sentia como suas. Frei Domingos attendeu-o e escutou-o -humilde e compassivo, respondendo finalmente: - -—É grave e trabalhoso demover o proposito d’um ánimo resoluto. Operemos e -esperemos todavia. _Deus autem noster in cælo; omnia quæ cumque voluit, -fecit._[6] - -Depois que Rodrigues d’Abreu sahiu do cubiculo da rua do Carvalhal, Frei -Domingos do Amor-Divino ajoelhou-se deante do seu crucifixo invocando as -graças do Céo. Durante a oração illuminou-se-lhe o espirito, e quando -o carmelita se levantou, tinha já traçado o plano da obra espinhosa -que tomara sobre si, esperançado no auxilio divino, como revelam estas -palavras que murmurara ao oscular o crucifixo: - -—_In tribulatione mea invocavi Dominum, et ad Deum meum clamavi._[7] - -Depois desceu as escadas com extranhavel vigor, atravessou a rua e -aldravou á porta de João Nicolau de Brito. - - - - -XX - - -Eduardo Valladares e Maria Luiza, na impossibilidade de fallar-se, -viam-se apenas. Triste correspondencia era essa escripta com lagrimas -de dois corações que se deviam estar inflorando, n’aquella sazão, em -jubilosas primaveras. Não acontecia assim, porém. - -As cartas de Maria Luiza principiavam por palavras de resignação e -fechavam com outras d’esperança; as de Eduardo Valladares tinham longo -prefacio de desalentos e terminavam com assomos de mal contido desespêro. - -Demoremo-nos um momento a medir a profundeza de dois abysmos. - -Maria Luiza, alma que se desatara em perfumes e amores ao sôpro virginal -do primeiro affecto, conhecia de sobra os despenhadeiros que lhe estava -cavando um amor desventuroso, e resignadamente se deixaria despenhar -só para não arrastar na queda outra alma que vivia sob o influxo d’uma -estrella commum. - -Por isso, com o coração despedaçado, aconselhava a medicina da resignação -e deixava entrever diluculos d’esperança através de uma chuva de lagrimas -que não podia reprimir. - -Os vestigios das lagrimas choradas desvelariam a um espirito -desassombrado o segredo que o coração de Maria Luiza com tamanho empenho -recatava; bastariam para eloquentemente denunciar os soffrimentos crueis -que ella procurava dissimular trocando em flores o orvalho dos seus olhos. - -Eduardo Valladares, moralmente sobreexcitado, lia as cartas e, diga-se -a verdade, encontrava n’ellas um como refrigerio ministrado por mão do -anjo da guarda; por momentos se tranquillisava com as esperanças a que o -estava convidando o ánimo apparentemente tranquillo de Maria Luiza. - -Durava apenas momentos, como dissemos, a acção benefica da leitura. Após -aquelle instantaneo repouso, rugiam de novo as mesmas tempestades e era -então o revolver se no mesmo leito de Procusto, em desesperadora ancia. -O que elle claramente via n’esses angustiosos momentos era o infernal -dilemna que comprimia a sua vida entre dois estiletes rubros de fogo -maldito:—Succumbir ou rebellar se. - -Succumbir era amortalhar se na batina do sacerdote; dilacerar o coração, -dia a dia, hora a hora; despenhar em abysmo insondavel as mais formosas -visões do céo da sua mocidade; separar-se d’ella, da mulher adorada, para -nunca mais aspirar o perfume dos seus labios, e não só separar-se mas -tambem infelicital-a; e depois passar sereno e tranquillo, aconselhando -esperança, por entre os que se ajoelhassem para beijar-lhe a fimbria da -batina. Rebellar-se era ter de fugir, levando para toda a parte o remorso -de haver envenenado a tranquillidade do lar paterno; era ter de abandonar -o anjo que na linguagem dulcissima do Céo lhe pedia que ficasse; era -dar á sociedade o direito de insultar as suas dores mais santas; era -finalmente faltar á promessa, que fizera, de esperar resignado o momento -em que chovesse do Céo o refrigerio que só o Céo podia ministrar em tão -difficil conjunctura. - -Ficou pois; como havia promettido. - -Approximam-se as férias do Natal de 1852 e Eduardo Valladares denunciou -vontade de não vir ao Porto, pretextando trabalhos escholares, -especialmente o de redigir duas dissertações. - -É que se não via com a coragem precisa para abeirar-se de sua mãe sem -revelar os segredos que lhe corroíam o coração, sem lhe dizer que tudo -quanto parecia sujeição voluntaria era sacrificio de victima impotente, -e sem lhe attribular para sempre as horas que á boa senhora corriam -remançosas ao lado do marido. - -Em meado de dezembro, n’uma quinta-feira que amanhecia radiosa como -para descoalhar as neves que alvejavam nas agulhas das serranias, -especialmente no Gerez, Eduardo Valladares deixou-se ir, de rua em rua, -absorto nos pensamentos que lhe preoccupavam o espirito. - -Ao desemboccar no Campo de Sant’anna, sahiu-lhe ao encontro um -seminarista seu condiscipulo, um tal Mendonça, natural de Guimarães, -talento contubernal de homens devassos nos alcouces bracharenses, brigão -de emboscadas nocturnas, que seguia a carreira ecclesiastica para -acobertar com a batina as ulceras d’uma alma devastada pelo vicio. - -A approximação d’este sujeito façanhoso, que apregoava, chanceando-se, -as repugnantes aventuras de sua chronica, entediava sobremodo Eduardo -Valladares, o qual pensava, ao vêl-o, na maneira por que a sociedade -costuma encarar o padre que sacrifica a propria felicidade aos pés de -Deus, e o padre cujos dedos empeçonhados da lepra do crime devem macular -a alvura do amicto. - -Eduardo Valladares pensava n’isto e conhecia que a sociedade não -levantava entre um e outro barreira que pudesse distancial-os, para que -a lama, levantada na passagem do mau padre, não fôsse salpicar a face do -sacerdote exemplar. - -Esta distancia conservava-a Eduardo Valladares no seu espirito, que -é unicamente onde se pode distinguir vicio e virtude quando é uso -confundil-os e tomal-os um pelo outro só para se não castigar o vicio nem -premiar a virtude. - -N’aquella dolorosa introversão do seu espirito, via se Eduardo Valladares -já sacerdote, offerecendo todos os dias a Deus no calix do sacrificio a -vida que lentamente lhe arrancavam e, como se isto não fôsse provação de -sobra, via-se tambem exposto aos chascos da sociedade que insulta um raro -exemplo de virtude, quando elle apparece, por estar habituada a encontrar -a torpeza, a cada hora, nas praças como nos templos. - -Corroendo a arvore sacrosanta do evangelho, regada pelo suor dos -virtuosos cultores e mimosa dos cuidados d’elles, descobria o ominoso -áspide, o verme da reacção, que contramina a obra piedosa e envenena -com a baba immunda os fructos que puderam ser opimos, damnificando a -colheita. Quando apparece o modêlo das verdadeiras virtudes evangelicas, -quando surge, de longe a longe, um Frei Domingos do Amor-Divino, -a sociedade, na maxima parte, repelle-o e vitupera-o e apedreja-o -irreverentemente. - -No dia em que o religioso carmelita sahira a mendigar de porta em -porta para a viuva e para os quatro orphãos, não muitos, como já -dissemos, foram os corações que se abriram ao benefico influxo d’aquelle -espectaculo edificante. Muitos o repelliram com desamor e remoques d’esta -laia: - -—Que peça para um, que já não é pouco. A gente não tem obrigação de -sustentar as familias dos frades pobres e devassos... - -E Frei Domingos sahia, com a sua velhice e com a sua humildade, chamando -mentalmente o medico divino para o coração empedrenido. - -O seminarista de Guimarães abeirou se de Eduardo Valladares com rude -familiaridade: - -—Ó homem! estava longe de te encontrar aqui! Tão recatado vives, que não -ha pôr-te a vista senão á hora da aula! Ora dize-me uma coisa. Tu levas -isto a sério ou usas de santimónias de Tartufo? - -O filho do bacharel fitou com admiração o de Guimarães e ponderou entre -delicado e digno: - -—Não comprehendo, como desejava, a referencia da palavra _isto_. Tens a -bondade de m’a explicar? - -—Isto, replicou Mendonça desfechando uma gargalhada, isto, é a alienação -do direito de ser homem, que a sociedade nos quer impor, a nós, os que -seguimos a vida ecclesiastica; isto, é a investidura ridicula da batina; -isto, é a tonsura com que nos cerceiam os cabellos emparelhando-nos -aos scelerados que estigmatisavam nos logares publicos; isto, é este -assentamento de praça na milicia sagrada, que não pode deixar de ter as -liberdades de todas as milicias... - -—E isso, o que tu disseste, replicou Eduardo Valladares, é a linguagem -desbragada do soldado que veste as armas, não para militar pela causa que -jurou, mas unicamente para ter direito á pilhagem... - -—Santimónias de Tartufo, bem dizia eu! Olha que nem tu nem eu havemos -d’enriquecer com a pilhagem. E d’ahi, pode ser que tu chegues a fazer -casa... Quantas missas tencionas dizer por dia? - -Eduardo Valladares ia denunciar o asco que lhe estava causando -aquelle falar licencioso, quando um maltrapilho, que passava, bateu -familiarmente no hombro de Mendonça e apostrophou: - -—Ó homem! eu dormi quatro horas e tu não havias de dormir muitas mais! -Perdi tudo... A sorte negou-se, e deixou-me a tinir! - -Eduardo Valladares foi seguindo seu caminho, sobremodo entendia da -approximação d’aquelle repulsivo caracter. O de Guimarães e o maltrapilho -ficaram conversando e revendo provavelmente as paginas ascorosas da -historia d’uma noite passada em qualquer espelunca de jôgo. - -O filho do bacharel foi seguindo sempre pelo Campo de Sant’Anna adeante -e, transposta a egreja de S. Victor, sentou-se no caminho desfrequentado -a olhar para o arvoredo que ao de leve ondulava na encosta do Bom Jesus. -Ahi, n’esse cogitar em si mesmo, passou duas horas que tanto tiveram de -tribulação como de doçura. N’aquelle seu ermar havia um misto d’esperança -e desespêro, que praza a Deus que os que hoje se julgam felizes nunca -possam comprehender. - -O leitor, que se defrontou já com o perfil respeitavel de Frei Domingos -do Amor-Divino, ponha os olhos no reverso da medalha, n’este seminarista -de Guimarães, que já cem vezes ou mais deve ter levantado com mãos -impuras o calix que Frei Domingos offerecia a Deus todos os dias, e -depois volte a pagina e leia o capitulo seguinte para restituir á sua -alma as doçuras religiosas que os labios de nossa mãe coáram aos nossos -ouvidos quando nos ensinaram as primeiras orações. - - - - -XXI - - -João Nicolau vinha, com uma braçada de flores, de jardinar nos seus -canteiros, quando ouviu bater á porta. Foi elle mesmo abrir e entre -admirado e contente se mostrou ao dar de rosto com Frei Domingos do -Amor-Divino. Não teve mão em si que, ao conduzir para a sala o carmelita, -não fôsse gritando com alegre alvoroço: - -—Anda cá, Maria, anda cá. Está aqui o nosso vizinho Frei Domingos; não te -demores, anda de pressa... - -D. Maria d’Assumpção acudiu pressurosa ao clamoroso chamamento e, quando -encarou no marido que embraçava ainda as flores, pediu desculpa após -desculpa de tão descerimoniosa recepção. - -Frei Domingos respondeu com jovialidade: - -—Com flores me receberam; não pode haver mais galhardo acolhimento. -O snr. João Nicolau está-me fazendo recordar agora d’uma passagem de -Salomão. Ora lá vae e tenham paciencia; isto é veso incuravel de frade -velho: «Desci ao jardim das nogueiras para vêr os pomos dos valles e para -examinar se a vinha tinha lançado flor e se as romãs tinham brotado». Foi -o sr. João Nicolau vêr as flores do seu jardim e mimosas as encontrou, a -julgar pelas que trouxe. Não ha, pois, razão para desculpas e não falemos -mais n’isso. - -—Ó sr. Frei Domingos, replicou João Nicolau, nunca eu desço ao quintal -que não sinta um peso na alma ao deitar os olhos para as torres do Carmo. -Ai que tristes recordações!... - -—Não podes falar n’outra coisa! atalhou D. Maria d’Assumpção. - -—Não me molesta, antes me consola o assumpto, respondeu Frei Domingos. -É sempre doce para o coração d’um filho ouvir falar da casa paterna; e -tanto eu quero ainda áquelle tecto, que me fiquei por aqui para o estar -namorando a toda a hora... - -—Perseguirem os frades! regougou João Nicolau. Que mal lhes faziam? Não -houve delicto de que os não accusassem!... - -—Não sejamos tão severos, não sejamos. Nos conventos, como em todas as -sociedades, havia trigo e joio. - -—Isso assim é, acudiu João Nicolau. Lá diz o que escreveu _Os frades -julgados no tribunal da razão_[8], curioso livrinho que tenho alli, lá -diz elle: «A primeira familia do mundo teve um Caim». - -—Bem disse o auctor e com verdade falou. No convento havia homens e -por tal razão idéas e sentimentos diversos. Mas entre tantas cabeças -e tantos corações alguma cabeça haveria que pensasse reflectidamente, -algum coração haveria propenso ao bem e ao justo. A obra d’esse varão -aproveitaria ao mundo. Muito melhor o diz o livro sagrado: «Pequena é a -abelha entre os animaes volateis, e com tudo isso logra o seu fructo a -primazia da doçura»[9]. - -D. Maria d’Assumpção escutava enlevada e ao mesmo tempo compadecida das -angustias do frade. - -—Tudo quanto havia de bom, fora e dentro dos conventos, tudo a guerra -nos levou, ponderou João Nicolau. Perderam-se vidas, correram rios de -sangue, consumiu-se, matou-se, espoliou-se... As consequencias fôram -tristes como os factos. - -—Sou extranho a tudo o que respeita a politica; no convento desconheci-a -sempre; fora do convento egualmente a desconheço. - -—Ler a historia da guerra civil, disse João Nicolau, é doloroso; feliz -quem se puder forrar a semelhante leitura. - -—D’essa historia, respondeu Frei Domingos, sei apenas que o sr. D. Pedro -era um principe portuguez, que já morreu e que o sr. D. Miguel, seu -irmão, é outro principe que vive em terra extranha. - -—Pobre e saudoso, elle, o sr. rei, o rei legitimo, como provou José -Agostinho, como provou Frei Matheus da Assumpção, e como provaram tantos -outros! - -—Pobre e saudoso se me afigura que deve viver. Mas, exclamou Frei -Domingos com ar prazenteiro, fechemos as chronicas nacionaes que estão -ainda a rever sangue. É tempo de expor o motivo que me levou a entrar na -casa desconhecida... - -—Muito prazer nos deu a sua visita, sr. Frei Domingos, apostrophou D. -Maria d’Assumpção. - -—Não sabe quanto me apraz relacionarmo-nos! accrescentou João Nicolau. -Espero que continuará a dar-nos o gosto de o vermos e ouvirmos. E depois -tenho cá um meu neto que anda no Seminario e que precisa de pedir sombra -a boa arvore. O sr. Frei Domingos sei eu que não se recusa a uma obra -piedosa. - -—Nada sou e nada valho. Se não é molesta a minha presença, virei. Não -ha melhor asylo do que o aposento do varão honesto e honrado. Ah! mas -reatando a conversa... Costumam alguns corações piedosos encarregar-me, -n’esta grandissima festa do Nascimento, de distribuir esmolas por -pessoas realmente carecidas. Sempre é bom prevenir, e mais sabem tres do -que um. Não tem o snr. João Nicolau pessoa de suas relações que se veja -em estado d’acceitar a moeda abençoada da caridade? - -—Oh! sr. Frei Domingos! A sua lembrança penhora-nos! exclamou D. Maria -d’Assumpção. Temos, sim, senhor. A Joaquina, que fez em tempo os recados -da nossa casa, está pobre e entrévada ha dois annos e, se lhe não valesse -o auxilio da caridade, já teria morrido de doença e miseria. - -—É verdade, a Joaquina! bem empregada esmola! confirmou João Nicolau. - -—Pois esperemos o Natal, e da colheita repartiremos pela entrevada -Joaquina, perorou Frei Domingos, levantando-se para sahir. - -Á despedida, João Nicolau e D. Maria d’Assumpção reiteraram instancias -que demovessem o frade a prometter nova visita e, quando elle transpunha -o limiar, ficaram ambos dizendo: - -—Frei Domingos é uma santa alma! - -As mesmo tempo ia monologando o carmelita: - -—_Dominus Deus auxiliator meus_[10]. Deus me guiará pelo caminho -appetecido. - - - - -XXII - - -—Temos passado as férias,—disse D. Maria d’Assumpção a João Nicolau, sem -darmos um unico passeio! Eu acho que já estou trôpega. Nada! É preciso -aproveitar estes dois dias. Em se abrindo as aulas, começa a gente a -cabecear com somno como se a casa fôsse de ermitões. E agora, que são -férias, parece que tambem era prohibido falar em passeios para não -distrahir o nosso estudante!... - -—Ó mulher! tu não tens lembrado... Eu estou por tudo. - -—Pois não vês que este rapaz, de genio triste, não pode supportar -semelhante viver de velhos? - -—Olha que é preciso educal-o para a vida que ha de levar. A vida do bom -sacerdote deve ser a vida do descanso e da meditação... Põe os olhos em -Frei Domingos... - -—Pois quando elle fôr padre, falaremos. Guiemol-o por bom caminho, mas -não o opprimamos. A oppressão dá causa, por via de regra, á reacção. - -—Reagir, elle! Não se reage contra as proprias inclinações. Em tempo -pareceu-me que era avesso á carreira ecclesiastica. Hoje estou -completamente convencido de que sonha com as glorias do pulpito e com o -renome conquistado pelas suas homilias futuras. É que o chama para alli o -coração, e esta coincidencia de encontrar o animo do Eduardo affeiçoado á -minha vontade, só a Deus a posso agradecer. Por isso, para satisfazer aos -deveres que me aconselha a consciencia, é que já lhe comprei outro dia os -sermões do Padre Antonio Vieira... - -—Por mais audaciosas que sejam as aspirações do rapaz, por maior que seja -a sua tendencia para a vida ecclesiastica, sempre te direi que a leitura -de sermonarios deve ser muito indigesta para um espirito de dezesete -annos. - -—Sim! hei de talvez dar a ler essa praga de romances, que se introduziu -em Portugal ha poucos annos, a um rapaz que eu educo para ser um padre -digno dos respeitos da sociedade! Que mau padre não o quero eu. Prefiro -vel-o morrer. Frei Domingos é o typo que eu escolho como padrão do bom -clerigo. - -—Ora essa! Pois tu imaginas que ha muitos Frei Domingos?! Uma alma assim -manda-a Deus á terra para allivio dos infelizes. - -—Não digo que seja egual, que eu sou o primeiro a reconhecer em Frei -Domingos virtudes excepcionaes. Ninguem tem por elle mais respeito e mais -dedicação do que eu. Quero porém que o exemplo do nosso vizinho aproveite -á sociedade; bem sabes que deve ser de bençãos a sombra d’aquella arvore -veneranda. - -—Disseste «sociedade» e querias referir-te ao Eduardo. Percebi a tua -intenção. Pois se tu dissesses a Frei Domingos: «Tenho aqui encarcerado a -sete chaves este rapaz de dezesete annos, só para que não se acalente ao -sol do mundo» verias como elle te havia de responder: «Deixe-o entregue -ás alegrias castas da sua idade, e não opprima o coração delicado.» - -—Ó mulher! pois eu opponho-me? Valha-me Deus! Passeiemos. Já agora -encarreiramos para o Bom Jesus. Pois vamos lá; e se queres ir para outro -sitio, dize. - -—Vamos ao Bom Jesus que é mais commodo e menos dispendioso. Vamos lá -depois d’amanhã passar o dia. Visto que está em costume, mando dizer ás -Machados. - -—Pois manda. Depois não me chames ermitão... - -D. Maria d’Assumpção vingára o seu proposito. O que ella queria era -alliviar por um momento as sombras espessas que ennoiteciam dia a dia, -cada vez mais, a alma do neto. Tanto lhe bastava, e para isso era preciso -não dissipar as illusões do marido, o que seria o mesmo que fazer -subitamente estalar uma tempestade. João Nicolau, inimigo figadal do -romantismo, andava acumulando de velharias mysticas a estante de Eduardo. - -A pobre senhora conhecia a inconveniencia, mas nem se oppunha, nem sequer -mostrava desagrado. Esperava em Deus. Era para o Céo que ella appellava -na impossibilidade de suster a marcha de acontecimentos a que era -contraria. - -A antipathia de João Nicolau pelo romantismo, aquelle odio explosivo -votado ao romance tal qual o architectára Garrett no _Arco de Sant’Anna_ -e principalmente na historia da Joanninha das _Viagens_, póde explicar se -ainda pela cega dedicação a José Agostinho de Macedo e á seita litteraria -seguida pelo auctor da _Viagem extatica_. - -Tudo o que não fosse a declamação emphatica vasada nos velhos moldes -aristotelicos, era somenos para João Nicolau. Bem se lembrava elle -de que o seu auctor favorito escrevera: «Depois da praga gazetal o -_romancismo_ é a peste litteraria, que mais tem grassado por toda a -Europa. Assim que W. Scott, e o Byron em Inglaterra, e em França seus -macaquinhos, Lamartine, d’Arlincourt, Victor Hugo e outros de igual jaez -publicaram seus monstruosos delirios, logo houve em Portugal quem os -imitasse.» Estas palavras, e as mais que se seguem, e não nos permittimos -transcrever, acepilhadas de quejandas blasphemias, eram doutrina corrente -e moente para o velho absolutista. - -D’aqui, e da esperança de vêr o neto prégador da real capella, provinham -as frequentes compras de sermonarios e chronicas milagreiras para a -estante, dia a dia enriquecida, do filho do bacharel. - -No quarto de Eduardo Valladares havia, porem, um livro não recheado de -erudição fradesca nem modelado pelos velhos paradigmas litterarios. -Esse era o livro querido, o livro sempre lido, sempre veneno e sempre -balsamo: era o _Eurico_, do sr. Alexandre Herculano. João Nicolau, -indifferente senão adverso aos applausos que esta obra notavel -despertara, suppunha o neto, por via de regra, absorvido em leituras -devotas, á hora em que elle aliás estava vendo a sua alma no espelho em -que se projectava o perfil do presbytero de Carteia. - -Não era Eurico um desgraçado como elle ou elle um desgraçado como Eurico? - -Ambos amavam, ambos soffriam, ambos choravam, e ambos podiam perguntar a -si mesmos: «Que fôra a vida se n’ella não houvera lagrimas?»[11] - -A viuva Machado, convidada de vespera para tomar parte no passeio ao _Bom -Jesus_, respondeu que gostosamente iria se, d’um dia para o outro, se -não aggravassem uns leves incómmodos que todavia a não deixavam sahir. -D. Maria d’Assumpção ficou muito contrariada, mas não era conveniente -transferir o passeio, e foi. - -Eduardo Valadares chegou á floresta do Bom Jesus com o coração -despedaçado. Era a primeira vez que alli entrava sem Maria Luiza, e a -folhagem verde da encosta, quando elle passava, parecia murmurar este -nome; d’aqui o olhar para si mesmo e fugir apavorado da solidão dolorosa -da sua alma. Mas o que era isto, esta saudade ao mesmo tempo suavisada -pelas doces recordações que lhe eram socias, o que era esta triste -solidão a par da solidão perpetua a que a sua alma se via condemnada; -das infinitas dores curtidas nas longas horas das noites de vigilia, das -lagrimas choradas, das esperanças para sempre perdidas, das lacerantes -recordações que elle em vão tentaria abafar, e que de si mesmas -resurgiriam, umas após outras, no espirito do presbytero? - -Insensivelmente foi procurando o trilho da Mãe d’agua; ia-o guiando o -coração, sem que elle désse por isso. - -Era aquella a mesma alameda, aquella a mesma cupula de verdura, o -mesmo cedro em cujo cortix entalhara as iniciaes M. L., o mesmo ar -cheio de murmurios, a mesma corrente suspirosa, a mesma sombra e a -mesma suavidade. Mas faltava ella, a doce companheira, a visão formosa -d’aquella tão doce estancia, e a solidão era triste, pesada, esmagadora. - -Um livro, o livro de todos os dias, de todas as horas, fôra mais uma vez -aberto no momento em que mais era preciso. - -Eduardo Valladares folheava o _Eurico_, e os seus olhos deletreavam estas -palavras: - -«Outras noites, em que mais tranquillo podia a sós comigo engolfar-me -nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha interpôr-se entre mim e a -lampada mortiça que me allumiava, e o hymno do presbytero de Carteia, que -devia talvez escrever-se nos livros sagrados das cathedraes de Hespanha, -ficava incompleto, ou terminava por uma blasphemia secreta; porque te -via tambem sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz com o teu amor, e eu -tinha então sêde... sêde de sangue... Era uma lenta agonia! E sempre tu -ante mim: nas solidões das brenhas, na immensidade das aguas, no silencio -do presbyterio, nos raios esplendidos do sol, no reflexo pallido da -lua, e até na hostia do sacrificio... sempre tu!... e sempre para mim -impossivel!» - -—Impossivel! repetia Eduardo Valladares. Impossivel! - -E no seu hombro pousára a mão d’alguem que elle não vira. - -Quem era? - - - - -XXIII - - -Era ella, Maria Luiza. - -Eduardo Valladares, por um momento, julgára sonhar. Todavia o seu -anjo adorado, entre o qual e elle se ia cavar o abysmo insondavel do -impossivel, estava alli, soluçante, convulso, com os olhos merejados de -lagrimas. - -A viuva Machado, restabelecida da ligeira indisposição da vespera, -accedera ás instancias das filhas e resolvera ir, posto já não pudesse -acompanhar D. Maria d’Assumpção. - -O moço seminarista, na violenta sobreexcitação que o agitava, deixara -assomar aos labios a tempestade que lhe refervia na alma. - -—Impossivel! murmurava elle. E sabes tu o que é o impossivel? Sabes o -que é a distancia infinita que separa o reprobro da estrella polar que -elle vê através das reixas do carcere? Sabes o que é morrer abafado na -propria dôr, na dôr que não tem linitivo, que não tem cura, que não tem -um só momento de repouso, um só instante d’esquecimento? Pois bem, entre -nós que nos amamos e que vivemos a mesma vida, vai abrir-se a voragem do -impossivel, como se dissesse que vai sentar-se o espectro da morte, para -o vêrmos a toda a hora em glacial immobilidade, sem querer condoer-se -das nossas afflicções. Morrer! Que influxo benefico não coaria a morte -aos nossos corações calcinados por metal candente! Que felicidade não -sorri na morte ao desgraçado! Será fraqueza pedil-a? Pois se o coração -trasborda de lagrimas como o oceano na tormenta, pois se a alma foge de -si mesma amedrontada, como do espectaculo sombrio d’um tumulo aberto, -porque não hade perdoar o Deus de misericordia a quem fica prostrado -na via dolorosa exclamando: Senhor! os meus olhos cegaram de chorar; -illuminae em troca a minha alma com o resplendor das vossas eternas -auroras?! Não sabes tu que o Salvador da humanidade, alanceado o coração -de supremas angustias, elevava o seu espirito attribulado ao Deus das -alturas, cujo filho era, exclamado exhausto: «Meu Deus, meu Deus, porque -me desamparastes?» E não havemos nós, corações terrenos, pedir ao Céo, na -cerração da vida, que nos aproxime do tumulo, da porta que se abre sobre -nós dando passagem aos fulgores inextinguiveis da eternidade? - -Maria Luiza, pendida sobre o hombro de Eduardo Valladares, orvalhava-lhe -as faces de lagrimas abrasadoras. - -Sentira-as elle, e procurara dominar os impetos da sua alma, -envenenando-a com o trago das lagrimas reprimidas. - -—Choras! E sou eu, e é o meu amor que te enche os olhos de pranto! Tremo -da justiça dos Céos, Maria! Quem me deu a mim o insolito direito de te -lembrar que tambem és desgraçada? Como ouso eu arrancar as flores da tua -esperança, para calcal-as aos pés, sem me lembrar de que estou calcando -com ellas o teu amantissimo coração. Oh! sim, tu esperas, não é verdade? -Não é certo que tens no thesouro da tua alma a esperança que me offereces -e queres repartir comigo? Enganares-me tu... Não, não, perdoa-me o que ha -de injustiça n’estas palavras. Se a esperança ou se Deus, que tudo vem a -ser o mesmo, te houvesse desamparado, não ousarias insinuar-me nova fé -com receio de que eu descobrisse a verdade, a verdade negra e terrivel, -sob os teus hymnos de mentirosa crença... Tu esperas, não é verdade? -Deus, que formou de essencia divina as almas dos anjos como tu, não podia -roubar-lhes a esperança, condemnando-as ao desespêro dos réprobos... Não -chores... - -—Não choro. Promette tu dominar a exaltação do teu espirito, que eu -prometto não provocal-a de novo com as minhas lagrimas. Chorar eu! Passou -acaso no nosso coração o sôpro devastador da descrença? Só os que não -esperam, os que não crêem, é que choram, por que esses devem ser muito -desgraçados, pois não devem? - -E rolavam-lhe pelas faces copiosas lagrimas, como se Maria Luiza nem -sequer soubesse que estava chorando e desvendando os dolorosos segredos -da sua alma. - -—Ah! pois tu choras! Estás involuntariamente denunciando com as tuas -lagrimas que tambem és desgraçada, porque não esperas, porque não crês... - -—Meu Deus! Eu enlouqueço! Dizes-me que choro e não sinto as lagrimas!... - -—É que a tua alma verga n’este momento ao peso d’um presentimento que a -domina, e que ella está revelando sem que tu mesma tenhas consciencia da -propria existencia. Ah! como nós somos ambos infelizes, meu amor. Bem m’o -dizia o coração, bem m’o disse ainda ha pouco, antes d’abrir este livro, -n’um momento que não sei se foi de sonho se de meditação. Meditação, não; -não foi. Eu estava quasi adormecido... Meditação, não. Queres que te -conte o meu sonho, como o estou recordando n’este instante? - -—Oh! conta, conta... - -—Um camponez, que tinha vivido expatriado em longes terras, privado dos -carinhos da esposa, saudoso dos filhos que deixara no berço, do torrão -que o vira nascer, da cabana onde amara e vivera, das serras da sua -patria, de tudo o que é doce e consolador, voltava em demanda do tugurio -querido, e a todas as horas recordado, após os lacerantes soffrimentos -d’um longo exilio. Quando vinha transpondo a serra do tôpo da qual se -avistava a sua cabana, coberta de colmos como a tinha deixado, desciam -do céo as sombras da noite e, quanto mais veloz elle caminhava, mais o -arvoredo se perdia n’um fundo negro. Era a noite que descia. Fumegavam ao -longe as casas d’aldeia disseminadas na encosta; a sua tambem. Áquella -hora devia estar repartindo a triste mãe com as desmimosas creanças o -pão da ceia amassado nas lagrimas de todos os dias. Elle, o caminheiro, -vinha descendo a encosta, offegante e quasi exhausto. A sua choupana -ficava na vertente fronteira. Entre a aldeia e a serra corria um rio, -largo e caudaloso, que mugia no valle engrossado pelas chuvas torrencias -do inverno. Era preciso chegar á ribeira antes do barqueiro ter amarrado -a barca do outro lado. «Depressa!» dizia o caminheiro a si mesmo. E não -corria, voava. A meia encosta, chamou. Ninguem respondeu. Brilhou-lhe nos -olhos um clarão de desespero. A barca da passagem estava decerto amarrada -a um salgueiro da outra margem, e já o barqueiro devia ir em caminho do -seu palheiro que ficava ao centro da povoação. Afflicto, desesperado, -chamou, gritou. - -O sussurro da corrente impetuosa abafava a sua voz, tanto mais debil, -quanto maior era a commoção. Depois... - -—Depois? - -—Via fumegar ainda no tôpo da serra fronteira o tecto do seu lar, e -uma voz interior lhe estava dizendo que no coração de sua pobre mulher -passava, n’aquelle instante, o presentimento de que nunca mais o tornaria -a vêr. Como ella havia de reprimir a sua dôr, para que as pobres -creanças a não vissem chorar e lhe perguntassem: «Virá hoje, virá?» Que -alegria, que felicidade se elle os pudesse ouvir, e vêr, e abraçar para -dizer-lhes: «Aqui está o vosso pai; eil-o aqui está». E a escuridão da -noite era cada vez mais profunda e o estrepito das aguas tinha um não -sei que de lugubre que punha medo. O fumo branco das casas d’aldeia foi -rareando a pouco e pouco. Dissipou se lentamente a coluna ondulante que -sahia do seu tecto. Acabava a ceia. Iam adormecer as crianças, sem terem -sido abençoadas pela mão paterna. E, recolhidos os pequenos, deitava-se -a mãe para desvellar as horas da noite em mil tumultuosos pensamentos. E -elle separado de tudo isto, dos seus filhos, da sua mulher, do seu lar, -por uma barreira que não podia transpôr e que se não abria para lhe dar -passagem, como as aguas do mar Vermelho, por mais dolorosos que fossem -os seus gritos, por mais impias que fossem as suas blasphemias! Aqui -tens o impossivel, Maria; o impossivel é tudo isto, este desespero, este -abrasar da alma em lavas incandescentes. Um genio mau desenhou decerto -este quadro d’incomparavel afflicção para que eu experimentasse o duplo -martyrio de vêr e sentir, deixando ao meu espirito, meio adormecido, -o trabalho de, quando despertasse, procurar a relação que para logo -denuncía que este desespero é o seu proprio desespero, que este inferno é -o seu mesmo inferno. - -Maria Luiza soltou um grito d’angustia; Eduardo Valladares ficou -extremamente prostrado d’aquella dolorosa excitação. - -—Meu Deus! murmurára ella vendo-o com a cabeça febril mal amparada nos -braços tremulos. - -—Meu Deus! repetia elle em brando echo. Não fujas de mim, doce amor, -e pede ao teu Deus, que é tambem o meu, que me perdoe estes desvarios -d’uma alma atormentada. Enlouqueceu-me a dor. Perdôa-me tu; que Elle, o -Senhor de misericordia, me perdoará tambem. Não fugas de mim como se -foge do precito. Desde que minha mãe infiltrou na minha alma o balsamo -sacratissimo das doces orações da infancia, conheço e amo Deus. Depois, -desde que sigo o rumo da minha desventurosa estrella, sempre o invoco em -horas de desconfôrto e afflicção. Vale-me, Tu, Senhor! que abençôas os -que choram. - - - - -XXIV - - -Frei Domingos do Amor-Divino anciosamente esperava os óbolos da caridade -para repartil-os pelos pobres, no numero dos quaes devia incluir-se a -cega designada por D. Maria d’Assumpção. - -Chegou o Natal, e o virtuoso carmelita recebeu, de procedencia -anonyma, duas cartas contendo dinheiro destinado a enxugar por alguns -dias as lagrimas de dois indigentes. Frei Domingos rasgou o primeiro -involucro com intima satisfação, que no doce fulgor dos olhos se estava -manifestando. O papel que continha a moeda consagrada á beneficencia, -trazia esta restricção:—_Para uma viuva_. Aberto o segundo involtorio, -que encerrava um _soberano_ inglez, leu Frei Domingos o seguinte:—_Um -cego, que deve á Providencia o não ser tambem necessitado, pede que seja -entregue a outro cego, mais infeliz do que elle_. - -Estas palavras commoveram a lagrimas o carmelita, que relanceou ao seu -Christo de marfim um olhar afogado em pranto, murmurando ao mesmo tempo: - -—Abençoado seja o nome do Senhor, que por tal modo e com tamanhos dons -abastece a colheita dos pobres! É ao Céo que eu peço me ensine o -trilho por onde possa ir direito á mais necessitada cegueira, e á mais -desamparada viuvez. - -Ajoelhou, com as mãos postas, e por largo tempo ficou a orar. - -Depois sahiu, indagou, examinou e, ao cabo de dois dias de trabalhosas -investigações, depositou nas mãos d’um cego e d’uma viuva, que mais -carecidos lhe pareceram, o dinheiro da caridade. - -Quando recolheu ao cubiculo da rua do Carvalhal, era noite cerrada. -Acudiu a recebel-o, com a sua habitual expressão de estima e -reconhecimento, uma velhinha que lhe cosinhava a frugal collação e que, -se não fôra o amparo de Frei Domingos, teria morrido de fome pouco depois -de cahir varado por um pelouro nas linhas do Porto o filho que lhe era -esteio. - -O carmelita encarou n’ella, viu-a radiosa como sempre, e apostrophou com -semblante prazenteiro: - -—Alegre a vejo sr.ᵃ Gertrudes, e a Deus agradeço o encontral-a em -disposição d’ánimo que favorece o meu designio. - -A velhinha quedou se a olhal-o com surpreza; Frei Domingos continuou: - -—Que me responderia a boa Gertrudes, se eu houvesse de dizer-lhe: -«Precisamos de dar metade do nosso pão, durante alguns dias, a quem mais -carece d’elle do que nós?» - -Gertrudes achegou-se do carmelita e disse com tanta alegria quanta -commoção: - -—Olhe que não sabia o que o snr. Frei Domingos queria dizer! Eu feliz -vivo, e a minha felicidade chamou-a do Céo para a menos merecedora das -creaturas o sr. Frei Domingos. Do pão que recebo e que me aproveita mais -do que a riqueza aos ricos, sempre cresce e, se não crescesse, todo o -daria para alliviar miserias que, Deus louvado! não conheço. - -—Nós somos ricos, sr.ᵃ Gertrudes, nós somos ricos, porque desconhecemos -a pobresa. «Mais vale um pequeno boccado de pão sêcco com alegria -que uma casa cheia de victimas com pelejas»[12] são palavras santas, -que não falham. Esta é a verdadeira riqueza. Tudo o mais é cuidado e -inquietação. Façamos pois economia durante alguns dias e, passados elles, -verá como havemos de sentir-nos mais contentes. É que realmente estamos -esperdiçando, e não é assim que se agrada a Deus. Repartamos, pois, com -os pobres, e aproveitemos em vez de esperdiçar. - -No dia seguinte, foi Frei Domingos abrir a gaveta depositaria das -mealhas que lhe pareciam sobejas ás suas necessidades. Montava o peculio -a novecentos e sessenta réis, um thesouro de dois cruzados novos -embrulhados em papel branco. Tirou-os da gaveta para o bolso, pôz o -chapéo, desceu as escadas e entrou no portal de João Nicolau. - -O sogro do bacharel Valladares e D. Maria d’Assumpção receberam Frei -Domingos com sincero contentamento, lamentando apenas que tivessem -decorrido alguns dias sem que lhe aprouvesse visital-os. - -—É que eu queria dar boa conta de mim e dos meus negocios, respondeu -o carmelita. Depois receava que a presença d’um intruso fosse de mais -n’estas festas que commemoram os grandes acontecimentos do christianismo -e servem ainda, e sempre servirão, para estreitar os laços de cada -familia reunida no seu lar. N’este quadro de intimas alegrias era de -certo importuno um frade velho como a Sé da nossa Braga, perorou, -sorrindo Frei Domingos. - -—Estou capaz de dizer... pronunciou a medo D. Maria d’Assumpção. - -—Pois dize, dize, e com isso responderás aos infundados receios do nosso -vizinho, atalhou do lado João Nicolau. - -—Visto que me auctorisas, sempre ousarei fazer uma confissão. Pode -acreditar o sr. Frei Domingos que tivemos ambos a lembrança de lhe pedir -que viesse honrar a nossa modesta consoada. Receamos incommodal-o, e não -nos atrevemos... - -—Beijo lhes as mãos pela immerecida attenção; confesso-me penhorado como -se tivera recebido e acceitado o convite. - -Mas por que não ha de vir mais a miude, replicou João Nicolau, por que -não ha de, visto que estamos tão perto, vir tomar o chá comnosco? Nem o -nosso Eduardo viu ainda o sr. Frei Domingos! - -—Infiro d’ahi que tem sido feliz o neto de v. s.ᵃ. Olhe que realmente -parlandas de frade não são para se ouvir a pé quedo, e muito menos por -gente nova. - -E, galhofando sempre, entregou a D. Maria d’Assumpção os novecentos -e sessenta réis, que para elle e para a velha Gertrudes eram pecunia -sufficiente para o passadio de alguns dias. - -João Nicolau não o deixou sahir sem que primeiro aprazasse nova visita. -Frei Domingos prometteu voltar em dia determinado, e desempenhou a sua -palavra. Á terceira visita encontrou se com Eduardo e lera-lhe nos olhos, -sempre banhados em melancholia, as muitas amarguras que faziam noite -escura n’aquelle coração de dezesete annos. - -O filho do bacharel, por sua parte, esqueceu-se de si mesmo enlevado na -suavidade que recendiam as palavras de Frei Domingos. O desaffrontar-se -por um momento da cerração que lhe opprimia o peito, foi para Eduardo -Valladares consolo que deixou após si gratissimas impressões. Livrára-o -a Providencia de lembrar se de que aquelle homem, cuja serenidade d’alma -se reflectia no olhar, tinha vestido o habito de frade e poderia ter -amortalhado n’elle um coração ferido pelas desgraças da terra. Não -lhe lembrou isto, e por tanto não rompeu clamoroso contra a voz da -oppressão que diz «Morre, despedaçando-te» ao coração opulento de seiva -e esperança. No que pensou foi na serena alegria d’aquella alma, que em -vez de se sentir retransida pela nortada do tumulo, já proximo, refloria -em amenidades bafejando lenitivos ás pallidas flores d’uma primavera -desconfortada. Aquelle homem entremostrou-lhe Deus—o Deus a quem -invocavam as doces orações da sua infancia, o Deus que adorava no templo -e em toda a parte onde podia vêr o Céo, o Deus que elle chamava quando -mais se condensavam as trevas no horizonte da sua mocidade. - -Viu-o, examinou-o com olhar perscrutador e disse de si para si: - -—Se eu fôsse assim, não era decerto tão desgraçado. - -Amiudáram-se as visitas de Frei Domingos. Rodrigues d’Abreu perguntou-lhe -d’uma vez se tinha esperança de restituir a um coração de dezesete annos -as alegrias proprias da sua edade. - -Frei Domingos sorriu placidamente e disse: - -—Tenho. A si devo e a Deus o sentir ainda no coração o influxo benefico -d’uma esperança: a de procurar a felicidade para quem a não tem. - - - - -XXV - - -Eduardo Valladares tinha em 1852 dezesete annos. - -Estou a lembrar-me d’isto, e a perceber que uns sujeitos maiores de -trinta annos, e umas senhoras que devem á acção do fluido transmutativo o -envelhecer com os cabellos pretos, lançam um olhar de desdem para a futil -historia do filho do bacharel Valladares. - -Para estes corações apodrentados, se é que para taes creaturas o coração -é mais alguma cousa do que o centro das funcções sanguineas, o amor -dos dezesete annos deve ser uma creancice piegas apenas admissivel na -conversação de meninas da mesma edade, que andam delineando os poemas do -coração suspensas entre as saudades das bonecas e os receios de não serem -convidadas para a valsa que redemoinha na sala. - -Não sei agora ao certo que idade tinha Romeu quando levantou olhos para -Julieta; do Paulo, de Saint-Pierre, lembro-me que tinha a mesma altura -de Virginia; o Simão Botelho, do _Amor de perdição_, do nosso Alexandre -Dumas, vamos encontral-o aos dezeseis annos; o Pedrinho, dos _Contos ao -luar_, de Cesar Machado, é uma creança. - -Achei que estes modelos eram bons. Procurei no coração humano, para -estudal-a, a fibra menos corroida, e deparou-se-me uma unica—a que -resumava a seiva dos dezeseis annos. - -Um sujeito de vinte, que andava suspirando no violão serenatas á mulher -adorada, e se dizia capaz de comprehender o que no amor póde haver -d’ethereo, dias depois de resvalar ao tumulo o anjo querido que elle -desposara, garbosamente refreava os galões d’um cavallo comprado com as -economias provaveis do primeiro anno de viuvez. O coração dos vinte annos -fazia isto, dispendia na farta ração d’um cavallo de raça o que faltara -talvez á gentil esposa tão longo tempo requestada. - -A viscera amorosa dos cincoenta annos affigurou-se-me gangrenada ao -estremo de inspirar terror. A historia do cynismo, que arremessa á -face da innocencia a moeda doirada da corrupção, é revoltante para se -offerecer a todos os paladares. - -Determinei os extremos—os vinte e os cincoenta annos. A estrada -interposta a estes dois marcos, recortada de charcos immundos, deve -deixar enlodados os pés do que a percorrer com o vagar indispensavel a -quem tiver de fazer relatorio da trabalhosa peregrinação. - -Não invejo a gloria de certos romancistas victoriados pelas multidões. -Só elles sabem o que ha de doloroso em vencer a repugnancia natural que -leva o espirito, iriado da luz das suas auroras, a fugir do esterquilinio -que vapora exhalações mephiticas. E que improficuo trabalho! A humanidade -vê no espelho do romance o que ella mesma tem de hedionda, e não cora -nem se rehabilita; passa adeante, deixando ao desfortunoso trabalhador a -consolação de labutar noite e dia para não morrer de fome. - -Não serei eu que vá mergulhar nas trevas que ennoitecem os hypogeus -sociaes para dizer á humanidade: «Aqui estão as tuas nodoas, lodo; aqui -está a tua negrura, sombra!» - -No mais profundo antro sempre entra um raio de sol a cujo esplendor -scintillam as concreções vitreas da abobada. Em vez de medir a extensão -do antro, quero sentar-me á entrada, onde chegue a luz, e onde possa vêr -o cristal das stalactites rutilar em formosas cambiantes. - -Poderão dizer: A humanidade não é só isso, a humanidade não é apenas o -cristal que se doira. Certo é. Mas a humanidade tambem não é só o que vós -pintaes, ó pintores de quadros negros; a humanidade não é só o cynismo, a -dobrez, e o lodo. - -E eu entrei no antro escuro da humanidade, e tive medo das sombras que -se condensavam ao fundo. Parei. O sol que tremeluzia nos cristaes da -rocha, era limpido e formoso. Deslumbrou-me. Não arrisquei mais um passo; -quedei-me a contemplal-o. - -Coração dos dezeseis annos, não és tu puro como os relevos crystallinos -que resaltam do tecto anfractuoso d’uma gruta? - -Os que já se internaram na escuridade, os que perderam a memoria com o -coração e com a consciencia, esses, cadaveres condemnados ao supplicio da -vida, já não comprehendem o que seja o estremecer das rosas no roseiral -ao bafejo da viração matutina. - -Uma coisa que sobremodo me admira é que os rapazes de hoje suffoquem -a voz do coração, que está modulando o poema dos vinte annos, para -raciocinarem friamente, sentados em ruinas como Volney, até chegarem ao -scepticismo, á duvida, ao nada; até murmurarem com Voltaire na satira a -Luiz XIV: - - _J’ai vu ces maux et je n’ai pas vingt ans._ - -Quem é que aos vinte annos não vae depôr a sua mocidade, como novello -de espuma, na mão rosada d’uma mulher, que a pode desfazer, comprimindo -os dedos, ou que tem o capricho de a fazer brilhar com as esplendidas -fulgurações de um cristal, se lhe deu um raio d’amor? - -Creio que todos. Os que não fizerem isto são anomalias. Deus me livre de -homens que não teem de homens nem o coração. - -O amor é o sol e eu sou como todos os fructos verdes: preciso de sol para -amadurecer. - -É por isso que leio e releio, sem me cansar, o _Raphael_ e a _Graziella_, -de Lamartine; a _Chave do enygma_, de Castilho; o _Livro d’Elisa_, de -João de Lemos; o _Paulo e Virginia_, de Saint-Pierre; os _Idyllios da -rua Plumet_, dos _Miseraveis_; a _Menina dos rouxinoes_, das _Viagens_, -de Garrett; o _Thomas dos passarinhos_, de Rodrigo Paganino, e muitos -outros poemas de amor que consolam a alma, e que se nos dão o seu tanto -de tristeza, é uma tristeza tão suave, que chega a ser deliciosa. Estes -livros, que são balsamo e crença, quero lel-os e compraria a trôco da -vida a gloria de os escrever. - -Namora-me esta litteratura que delicía a alma. Ha livros que deixam -remorsos de se haverem lido. Esses não os quero eu. Para que hei de -sentir ferida a consciencia nos poucos momentos que destinava para -descanço do espirito? Livros dos que retalham o coração lê-os a gente -por ahi nos passeios e nas praças publicas a toda a hora do dia; são -uns certos homens que encadernaram a negrura da alma em pergaminhos de -illicita riqueza, e certas mulheres que escondem a deshonra em brochuras -de velludo. - -Sabe-lhes a gente da vida e anda cheia d’aquellas historias vivas, que -se abrem á luz do sol, para que elle bata em cheio no escandalo, e o -mostre á claridade do dia. Quando o espirito precisa de um momento de -tranquillidade para se desanojar d’estas e quejandas leituras sociaes, -devem pôr se de parte os livros igualmente desagradaveis. - -Os contos, ainda que se perfumem na doce poesia da infancia, _contes de -fées_ ou _contes bleus_, como dizem os francezes, embriagam-me o espirito -como o suspirar longinquo de um piano n’uma noite de luar. A historia -licenciosa, _conte gras_, repugna-me, aborrece-me. A litteratura deve -ter um não sei que de ethereo irmão da inspiração. Tudo o que não fôr -assim, é verdadeiramente terreno e vulgar. - -O homem que entra em casa com um livro de pessima doutrina, tem o cuidado -de escondel-o como a um frasco de acido prussico, se occultasse o -proposito de se suicidar. Esconde o livro como esconderia o veneno: para -dissimular a sua vergonha e o segredo humilhante da propria fraqueza. - -A sua mãe, alma toda amor e toda luz, que lhe ensinara a deletrear -nos livros santos, a ella, coração de ouro, haveria de dizer, se uma -imprevista circumstancia descobrisse a licenciosa brochura: «Perdôa-me; -bem sei que não foi para isto que me ensinaste a ler.» - -Vae longa a dissertação. Cumpre pôr ponto final. _Dissertation, ennui_; -sirva para alguma coisa o dito de Bastiat. - - - - -XXVI - - -Retrogrademos. - -Maria Luiza desceu a montanha do Bom Jesus do Monte apoiada no braço da -outra menina sua irmã. - -Quando vinham encosta abaixo havia na floresta, através da qual se viam -scintillar as chammas do occidente, a doçura inexplicavel com que o dia -desliza ao abysmo da eternidade... - -A viuva Machado revelava certa inquietação—talvez prophecia de coração -materno—pelos symptomas de repentino soffrimento claramente desenhados na -face pallida da filha. - -João Nicolau animava-a com palavras banaes, attribuindo a excitação -nervosa um incommodo que, a seu vêr, não podia ter outras consequencias -além d’um ligeiro abatimento. - -Maria Luiza procurava sorrir para dar alento aos dois mais desconfortados -corações—o de sua mãe e o de Eduardo—mas o sorriso desabrochava triste e -de pressa morria á flôr dos labios. - -D. Maria d’Assumpção vinha suspeitosa e concentrada. Adivinhava-lhe o -coração tudo quanto se passara na alameda da Mãe d’Agua. Estava-lhe -dizendo uma voz interior por que abysmos tinham resvalado, n’um momento -de commum desespêro, aquellas duas amorosissimas almas. - -Eduardo Valladares vinha ao lado das duas irmãs Machados. Que dolorosa -ancia lhe comprimia o peito adivinha-a o leitor, se é que alguma vez se -sentiu avergado ao peso da sua cruz. - -No sopé da montanha, antes de transporem o portico de cantaria, curvou-se -Maria Luiza para colhêr uma flôr silvestre, que se debruçava sobre -ervagens verdes. A alguns passos de distancia ficava a capella do Horto, -que representa Jesus em Gethsemani, quando desce o anjo a offerecer o -calix da amargura. Maria Luiza relanceou os olhos á inscripção latina e -murmurou: - -—Deve ser triste a legenda d’esta capella... - -—«Agonisante, orava profundamente,» traduziu Eduardo Valladares, deixando -ver lagrimas que de subito lhe embaciaram o olhar. - -—Decora-a, peço-t’o eu, e guarda esta flôr com a perpetua recordação do -meu pedido. - -—Que dizes?... - -—Que não esqueças aquella legenda, Eduardo. - -Aproximavam-se João Nicolau, D. Maria d’Assumpção e a viuva Machado. - -Ficou interrompido o dialogo apenas escutado pela melancolica Rosinha, -que sentiu o perpassar d’uma nuvem que a cegara. Eram lagrimas... Maria -Luiza empallideceu até á lividez do cadaver e, quando lhe perguntaram -se se sentia recobrada de forças, respondeu affirmativamente, e deixou -esvoaçar nos labios o mesmo sorriso breve e melancholico. - -Pelo caminho, veio João Nicolau galhofando a proposito de quanto lhe -lembrava com o piedoso intuito de serenar a inquietação da viuva Machado -e de distrahir Maria Luiza. Não ousamos asseverar se era escutado; o -certo é que vinha fallando. - -—Dia de Reis! disse elle depois d’um momento de silencio. Este dia é -d’alegres recordações para mim. Era eu solteiro. Vai isto ha um bom par -d’annos, e estou agora a vêr tudo como se se passasse hoje! Tinhamos sido -convidados, alguns rapazes de Braga, para jantar em Guimarães n’este dia. -Alegremente cavalgamos e seguimos jornada com o enthusiasmo expansivo dos -vinte annos. Foi opiparo o banquete e divertidissima a odysséa. Ao fim -da tarde, batemos os cavallos para Braga. Era já noite quando chegamos -aos _Quatro irmãos_, um logar historico que fica ao sopé da Falpêrra. É -verdade! Nunca ouviram falar da lenda dos _Quatro irmãos_? - -—Sabes lá se a gente está de paciencia para te ouvir? respondeu D. Maria -d’Assumpção, que de sobra conhecia quanto o marido vinha sendo incómmodo -n’aquelle momento. - -—Estejam que não estejam. Eu é que sempre a vou contar, replicou João -Nicolau insistindo no proposito de distrahir os companheiros. Diz-se -que um parocho da freguezia proxima ao logar dos _Quatro irmãos_ vivia -em companhia d’uma sobrinha, rapariga de formosura capaz de trazer -alvoroçados todos os pintalegretes montezinhos d’esse tempo. O caso é -que o abbade precisou de sair da residencia por alguns dias, e levou -uma noite inteira a fazer eleição de casa onde, com mais socego do seu -espirito, poderia deixar em deposito a donairosa sobrinha. Lembrou se -d’uma viuva do logar, mulher idosa e d’exemplares costumes. Se esta -lembrança foi tentação do demonio ou não, dir-m’o-hão depois que souberem -que a pobre mulher tinha quatro filhos, quatro rapagões da boa raça -minhota. Não sem difficuldade acceitou a viuva o encargo, depois de muito -instada. Entrou a rapariga na casa da mulher escolhida para depositaria -do thesouro querido do abbade e logo os mocetões começaram a requestal-a -porfiadamente. Sempre ouvi dizer que «amigos, amigos, negocios á -parte». Cahiu de chofre o pomo da discordia entre os quatro filhos da -viuva. Desvairou-os o ciume. Reptaram-se. Como valentões que eram, não -se recusaram o cartel. Pouco depois, zuniam os varapaus fratricidas a -certa distancia do tecto commum. Trez dos contendores cahiram exanimes; -e o outro ficou gravemente ferido. O abbade regressava n’aquelle dia e -passara ali. Estava moribundo, no logar da lucta, o que sobrevivera, mas -teve ainda voz para contar ao velho sacerdote a lamentosa façanha. Depois -debateu-se nas vascas d’afflictiva morte, e expirou. O povo, quando o -successo se espalhou, negou aos quatro irmãos sepultura em sagrado. -Enterrou-os ao sopé da Falpêrra, no mesmo logar, e levantou sobre as -vallas quatro pedras ainda hoje pregoeiras da tradição. Ora aqui teem a -historia. Não acha bonita? perorou João Nicolau voltado á viuva Machado. - -—É interessante... Não sabia a lenda... - -—Mas eu trazia isto a proposito do jantar de Guimarães... O Falcão -Osorio, que deve estar velho como eu, cavalgava na vanguarda. Ao chegar -aos _Quatro irmãos_ susteve o cavallo e veio, sobresaltado, segredar-nos -que tinha visto umas sombras, as quaes sombras lhe pareceram bandidos. -Não pensamos se a apprehensão era sensata. Acautelamo-nos subitamente -para a defensiva e mettemos a passo dando-nos ares de valorosos -cavalleiros. A Falpêrra d’aquelles tempos era covil de salteadores; o -coração, a julgar por mim, batia-nos desordenadamente. Ainda a julgar por -mim, posso dizer que era... de medo. Mas ó soprema irrisão que o destino -nos preparára, nivelando-nos com o cavalleiro de Mancha ao esgrimir -contra os moinhos! Os bandidos... eram arvores! - -D. Maria d’Assumpção, ouvindo agora a centessima edição d’este conto, -sorriu ainda pela centessima vez. A viuva Machado simulou ter achado -graça; Eduardo e as duas meninas, se é que tinham ouvido, não sorriram. - -João Nicolau fez reparo n’isto e apostrophou, dirigindo-se aos tres: - -—Olhem que parecem uns velhos carrancudos! A menina Maria Luiza, porque -os nervos se lhe desafinaram, imagina-se em artigos de morte. A menina -Rosa vai silenciosa por não ver alegre a irmã, e o meu Eduardo, ao -lembrar-se de que terminam hoje as férias, perdeu a voz!... - -—Como são muitos os divertimentos que elle tem em tempo de férias!... -objectou D. Maria d’Assumpção. - -João Nicolau não esperava o remoque e replicou meio irritado: - -—Tem os que quer ter. - -—Não vale a pena agastares-te. O defeito, já t’o tenho dito, é de todos -os velhos, e por isso é de crer que tambem seja meu. A gente, quando é -velha, desassisadamente teima em moldar a vontade das pessoas novas, -que nos cercam, pela nossa, e não nos lembramos de que já não ha para -nós novidade nem surpresa. Lembro-me agora só d’uma excepção: a da mãe -d’estas meninas, que apesar de estar hontem indisposta, não se recusou a -dar-nos hoje o prazer de nos acompanhar. Isto é que é ser condescendente. - -—É verdade, acrescentou por delicadesa João Nicolau. - -—Que será da velhice dos rapazes de hoje, tornou D. Maria d’Assumpção -relanceando um olhar de benevolencia a Eduardo e a Maria Luiza, se se não -divertirem? Nem sequer terão para contar aos contemporaneos o caso... de -haverem tomado arvores por bandidos. - -João Nicolau sorriu, porque D. Maria d’Assumpção lhe bateu amigavelmente -no hombro. - - * * * * * - -Ao despedirem-se as duas familias, Maria Luiza segredou a Eduardo, -estendendo-lhe a mão convulsa e ardente: - -—Eu sinto-me tão triste, que só o teu amor me póde dar coragem. Lembra-te -de mim, e sê forte. - - - - -XXVII - - -Foi profunda a prostração que sopitou Maria Luiza durante a noite. Ao -entreluzir da manhã, sobreveio certa agitação febril. - -Chamado o facultativo, absteve-se de diagnosticar. Escrupulosamente -inquiriu porém se a doente tinha revelado soffrimento anterior ou se -havia experimentado uma sensação violenta que provocasse excitação do -systema nervoso. - -A viuva Machado respondeu negativamente e pediu ao facultativo, com os -olhos banhados em lagrimas, que lhe não occultasse a verdade. Serenou-a -o medico dizendo que os temperamentos excessivamente nervosos tinham -caprichos especiaes que muitas vezes ludibriavam a medicina e que -podia bem ser que a febre desapparecesse depois d’um breve periodo de -intensidade. - -A outra hypothese occultou-a elle para não ferir o coração materno todo -receios e afflicção: vinha a ser que podia a febre prolongar-se, e tomar -o caracter typhoide. - -Trez dias depois, realisava-se a fatal hypothese. Sobreveiu o delirio e -Maria Luiza balbuciava palavras sem nexo: - -—Impossivel... Disseste que chorava... Na capella do Horto... Não sentia -as lagrimas... - -Outras vezes curvava-se a melancholica Rosinha sobre o leito e recolhia -este murmurio: - -—O sol por entre as arvores... Sempre impossivel... Uma tristeza immensa. -Emilia... Deus... - -A doze de janeiro escrevia Rosinha a Eduardo Valladares estas palavras: - -«Hontem á noite delirou e tornou a fallar da capella do Horto e do sol -que scintillava através das arvores. Felizmente ainda não pronunciou o -seu nome. Não desespere, que eu ainda não desesperei tambem, e peça a -Deus por ella e por nós.» - -Foram decorrendo os dias e nos ultimos do mez raiou um vislumbre -d’esperança. - -Tendo passado a noite tranquilla, perguntou Maria Luiza, de madrugada, á -irmã, a que horas tinham vindo na vespera do Bom Jesus. - -Rosinha respondeu, reprimindo impetos d’alegria: - -—Viemos á noitinha, não te lembras? - -—Não me lembrava, disse a doente. O que sei é que foi hontem. Foi tão -comprida esta noite! - -Quando veiu o medico, jubilou com a boa nova da doente ter dado accordo -de si e perguntado a que horas vieram do Bom Jesus, suppondo que tinham -lá estado no dia antecedente. - -—Ella tem razão, disse o doutor. Desde que veio de lá não tem vivido... -Todavia é uma grande esperança. - -No dia seguinte, a viuva Machado e Rosinha choraram d’alegria ao ouvir -este prognostico do facultativo: - -—Creio que posso dizer que está salva, apesar de ter ainda doença para -longo tempo. Cumpre haver o maximo cuidado no tratamento. Não lhe -dissipem sobretudo o engano a respeito do dia em que esteve no Bom Jesus. - -Momentos depois recebia Eduardo Valladares as seguintes linhas: - -«Diz o medico que está salva. Agradeçamos a Deus, meu amigo». - -Estendeu-se pelo mez de fevereiro a longa convalescença de Maria Luiza. -Eduardo Valladares recebia todos os dias palavras da mão de Rosinha -convidando-o a confiar da misericordia de Deus a solução d’uma crise que -Elle visivelmente favorecia com as melhoras de sua irmã. - -O filho do bacharel Valladares lia as cartas e redigia sobre as paginas -d’um livro intimo as longas meditações das noites de insomnia: - -«Vão engrinaldar-se de flôres as arvores do valle e tapetar-se de -verduras os declives dos outeiros. Só a minha primavera não chega, -Senhor. Só não voltam com as andorinhas as minhas esperanças de um dia. -Embora. Deixaste que o anjo ficasse ainda na terra, e deixa tambem que -se abrandem as angustias que não merece. Eu creio em ti, Senhor, mas -choro nas trevas da minha noite, como tu choraste na cruz. Eras Deus e -foste homem. Bem sabes o que é soffrer e chorar. Não me exaspero nem te -maldigo. Tu eras filho do Eterno e soffreste; tu eras Deus e choraste -lagrimas de sangue. Como ha de o homem, cuja vida custa dores, eximir-se -ao pêso da sua cruz, se tu vergaste sob o madeiro? como não ha de chorar, -se os tens olhos orvalharam o sudario da piedosa mulher? - -«Perdoa-me, se choro, Senhor Deus de misericordia. - - * * * * * - -«Agonisante, orava profundamente», _Factus in agonia prolixius orabat_, -dizia a inscripção da capella do Horto. E pediste-me tu, anjo e martyr, -que entregasse á memoria o verbo das Escripturas! - -«Querias dizer-me que me abraçasse á cruz nas horas de tribulação da -minha alma, ou significavas que o teu espirito olhava para Deus na lenta -agonia do teu supplicio? - -«Era um incentivo ou um exemplo o que me apontavas? - -«Se era incentivo, sabe que a minha alma só adormece quando sobe -ás alturas, embalada na religião de meus pais. Se era exemplo, -repetir-te-hei que comprehendo a extensão do teu soffrimento, que te -vejo sempre ajoelhada deante do teu crucifixo e que abraçaria a tua fé, -balsamo para todas as chagas, se desde o berço não houvesse apprendido a -balbuciar o nome de Deus. - -«Choro, e por me vêres lacrimoso não acredites na minha descrença. - -«Devo dizer-te que me não abandona a fé. - -«Só a Deus peço que enxugue as lagrimas dos teus olhos, que restitua -ao teu coração as alegrias que eram d’elle. Este é o fito da minha -esperança, o alvo da minha fé immensa. - -«Entrou commigo o remorso de te haver amado. Fui injusto quando fiz -estalar sobre a tua cabeça a tempestade das minhas desventuras. Choro a -minha culpa, a minha injustiça, e peço a Deus que não complete a obra da -tua abnegação. - - * * * * * - -«Levantas-te do leito quando as flores se levantam no pendor da serra. -Põe os olhos no Céo, que ainda lá encontrarás a estrella confidente das -serenas alegrias da tua infancia. Desvia-os da terra para me não vêres -chorar. Não choro de desespero; choro porque tu choraste. As orações -d’alguem, de minha mãe talvez, trouxeram do Céo balsamo para a minha -alma. Se Frei Domingos soubesse das minhas amarguras, acreditaria que -tinha orado por mim. - - * * * * * - -«E amo-te muito, mas porque te amo, Maria, não quero que os teus olhos -chorem as minhas lagrimas. Que te esqueças de mim ou que succumbas, -este é o meu pedir. E não ha impiedade na minha súpplica. Morrer não é -soffrer, é renascer. Eu é que preciso de viver para chorar. Renasce tu -para as auroras da tua patria ou foge dos espinhaes do meu caminho que -rasgariam de certo as tuas azas. Como havias de restituil-as depois ao -Senhor que t’as deu?» - - * * * * * - -Uma noite, estava Eduardo Valladares escrevendo no seu livro intimo, -quando sentiu alvoroço na sala proxima. Acudiu a saber o que era. - -Frei Domingos, que se não tinha ainda retirado, approximou-se e disse-lhe: - -—Animo, filho. Espero que pedirá ao Céo a coragem que precisa para lêr... - -E apresentou-lhe um telegramma, que João Nicolau recebera do Porto. O -telegramma dizia: - -«Morreu repentinamente Sebastião Valladares. A viuva pede providencias -com a menor demora possivel». - -Eduardo rompeu em afflictivo chôro. Frei Domingos encostou ao seu peito -a cabeça do orphão e afastou-o da sala onde D. Maria d’Assumpção e João -Nicolau choravam. - -Ao romper da manhã vinham em caminho do Porto avô e neto, em caleça -alugada expressamente. - -É breve a historia do passamento do bacharel. Sahiu do escriptorio, onde -estava trabalhando, estremamente anciado. D. Adozinda acudiu sobresaltada -ao chamamento de um escrevente. Sebastião Valladares inclinou a cabeça -sobre o hombro da esposa, e morreu. Disseram os medicos que tinha -succumbido a uma lesão do coração. O que os medicos disseram pouco faz ao -nosso proposito. - -Dias depois do funeral, annunciou-se leilão da modesta mobilia e, -concluido isto, voltou João Nicolau a Braga, levando em sua companhia o -neto e a filha, cobertos do mesmo luto. - - - - -XXVIII - - -O bacharel Valladares, momentos antes de morrer, estava escrevendo ao -filho um carta que deixou incompleta. - -Os mais significativos periodos d’essa carta diziam assim: - -«Faze por ser humilde, e sujeita-te respeitoso aos conselhos das pessoas -que t’os podem dar, nomeadamente á vontade de teu avô, em quem eu vejo, -além d’um dedicado amigo, o pae de tua mãe. Não ponhas os olhos n’umas -alturas em que o commum da humanidade fita a vista, se queres ser -feliz. Se eu te posso servir d’espelho em alguma coisa, é no que toca a -desambição e a serenidade d’espirito e de consciencia. Vivo tranquillo -para os affectos da minha casa; se tu estivesses n’esta hora ao pé de -mim e de tua mãe, julgar-me-hia em plena posse da verdadeira felicidade. - -«Quando saio a nossa porta, sinto-me triste. É que entro no mundo, não no -mundo em que vivo, mas no mundo em que vivem todos. Os olhares dos que -vão passando, não me offendem por desdenhosos, mas incommodam-me porque -não são doces e sinceros como os de tua mãe. Realmente não me sinto bem -no meio da turbamulta.» - -«A idéa da morte, se me entristece, é porque me faz lembrar que tenho de -separar-me de tua mãe para sempre...» - -N’este relanço levantara se anciado o bacharel para não mais se sentar -á sua banca. Morreu como viveu: serenamente. Um momento d’agonia não se -lhe afigurou decerto o resvalar para o tumulo, e não teve por isso tempo -de sentir estalar os élos que o prendiam á felicidade. Encostou ao seio -amigo a cabeça para descansar. Queria talvez adormecer... Cerrou os olhos -e não accordou. - -Rezaram-se os responsos de sepultura na egreja dos extinctos carmelitas -do Porto. Antes de chegar o feretro, appareceu na sacristia um sacerdote -que entrou, curvado de velhice, relanceando um olhar saudoso para um e -outro lado. - -Era Frei Domingos do Amor-Divino. - -Durante os officios, foi notorio que o mais edoso dos padres não podia -reprimir as lagrimas. Os raros amigos de Sebastião Valladares affirmavam -não o ter visto uma unica vez em casa do bacharel. Correu porém voz de -ser carmelita, e logo se explicou a razão de suas copiosas lagrimas, -lançando-as á conta de saudades do hábito, evocadas pela entrada n’um -templo da sua ordem. - -Frei Domingos, depois de terminados os responsos, solicitou licença do -sacristão para vêr o cadaver. Largo tempo o esteve contemplando com os -olhos afogados, em lagrimas. - -—Dizem que era um homem honrado, apostrophou o sacristão. - -—Oiço dizer que sim, respondeu Frei Domingos. E, vendo-o, acredito que o -foi. - -—Pois... não eram amigos? - -—Nunca lhe falei, nem sequer o vi. - -—Deixou-lhe talvez alguma coisa? replicou o sacristão affeito a vêr -copiosamente chorar nos enterros as pessoas contempladas com verbas -testamentárias. - -—Deixou-me... sincera pena de o não haver conhecido, respondeu Frei -Domingos agradecendo e retirando-se. - -Ás seis horas da manhã, entrava Frei Domingos na diligencia de Braga. -Ninguem no Porto soube como se chamava e d’onde era. Os amigos do -bacharel noticiaram a João Nicolau e a Eduardo Valladares que, na egreja, -um dos sacerdotes, frade carmelita segundo se disse, estivera chorando -a ponto da commoção lhe embargar a voz. Outrosim perguntaram se este -frade era relação da casa, parente ou amigo. Eduardo Valladares deteve-se -um momento a consultar a memoria e respondeu negativamente. João -Nicolau, como porém tivesse ouvido falar em frade carmelita, sentiu se -impressionado, e sem pensar que fosse elle, lembrou-se n’aquelle momento -de Frei Domingos do Amor-Divino. - -Quando o velho egresso voltou ao seu cubiculo da rua do Carvalhal, a -trémula Gertrudes sahiu a recebel-o mais jubilosa que nunca. - -—Ó sr. Frei Domingos, exclamou ella, como me disse que tinha de fazer -jornada, sempre estava inquieta. V. s.ᵃ já não está muito para andar -pelos caminhos! - -—Ó boa mulher! com o auxilio de Deus vae-se bem para toda a parte. Mal -sabe a sr.ᵃ Gertrudes d’onde eu venho. Pois oiça lá: fui ao Porto. - -—Ao Porto! acudiu admirada a velhinha. - -—Ao Porto, sim. E olhe que me não succedeu mal nenhum. Jornadeei em -diligencia pela primeira vez na minha vida. E sempre lhe direi que isto -de diligencias não foi a peor cousa que o progresso nos trouxe. - -—Oura-se muito, pois não oura? - -—Não se oura nada, mulher. A gente acostuma-se aos solavancos, e depois -vae menos mal. Comparado isto com as jornadas a cavallo, d’outros tempos! - -—Acho que ha lá por fora muitas coisas novas. Eu é que não tenho visto -nada, nem quero vêr. «Boa romaria faz quem em sua casa vive em paz.» - -—Assim é, mulher, mas ha casos que podem mais do que as leis. Tambem me -chegou a minha vez d’andar em diligencia. - -O medico assistente de Maria Luiza dera-lhe licença de sahir pela -primeira vez, justamente no dia em que se enterrava no Porto o bacharel -Valladares. - -Era um formoso dia dos ultimos de fevereiro. - -—Ora vá, disse-lhe o facultativo. Não tardam a desabrochar as flores; -v. ex.ᵃ deve apparecer tambem. Tome porém cuidado com o passeio. Não vá -longe. - -—É que realmente não sei para que lado hei de ir. - -—Convem que se não exponha. Vá para o lado de Infias, mas não se demore -muito. - -Quando o facultativo sahiu, Maria Luiza sentou-se a escrever a Eduardo -Valladares as seguintes linhas: - -«Tenho licença para sahir hoje pela primeira vez. Emfim! Vou com minha -mãe e com Rosinha. Ao meio dia apparece, como quem anda passeando, perto -da quinta de Infias. Não faltes.» - -Maria Luiza chamou a irmã para fazer chegar o bilhete ao seu destino. -Rosinha ficou inquieta. Tinha occultado a morte do bacharel e a sahida de -Eduardo para o Porto. Revelar a verdade era alancear o coração de Maria -Luiza; continuar a occultal-a seria o mesmo que não explicar a falta de -Eduardo no passeio a Infias. - -—Está decerto agora nas aulas e talvez o não possa receber... - -—Não me disseste outro dia que elle tinha recebido bilhetes teus no -Seminario? - -—Sim... disse. Mas se estiver nas aulas... Eu vou mandal-o... oxalá que -ainda vá a tempo. - -Quando sahiram, Rosinha levava o coração opprimido. - -—Vaes triste? notou Maria Luiza. - -—Não vou; ir calada não é ir triste. - -—Tens razão. - -Chegaram a Infias. - -O coração de Maria Luiza pulsava vertiginosamente—d’esperança; o de -Rosinha batia tambem agitado—d’afflicção. - -A estrada estava deserta. Decorreram minutos. Ninguem. Maria Luiza -relanceou á irmã um olhar de eloquente interrogação. Rosinha simulou não -dar tento, e fitou os olhos n’um ponto que ella nem sequer via... - -Decorreram mais alguns minutos de completo silencio. - -—Não vaes boa? perguntou a viuva Machado a Maria Luiza, inquieta pela vêr -extremamente pallida. - -—Vou boa, minha mãe. Não é nada... - -—Talvez seja longo o passeio. Voltemos, se querem. - -—Não, vamos até alli mais adeante, e voltemos depois, respondeu Maria -Luiza. - -Era a ultima esperança. - -Fôram um pouco mais adeante. Não appareceu ninguem. Maria Luiza voltou-se -e disse abruptamente: - -—Vamos embora; agora é que me não sinto boa. - -E depois, segredando á irmã: - -—Não veiu! - -Então Rosinha achou que devia dizer meia verdade. Contou que Eduardo -Valladares tinha ido ao Porto por motivo imprevisto. - -Maria Luiza sorriu doloridamente e disse: - -—É possivel que fosse ao Porto, mas é impossivel que não estivesse hoje -aqui se já me não tivesse esquecido. - -E, tão agitada como incredula, repelliu todos os protestos que lhe fazia -a irmã de haver dito a verdade quanto á ida ao Porto. - -—Fez-te mal sahir! disse a viuva Machado com o coração opprimido por um -torturante presentimento. - -—Não é nada, minha mãe; socegue. Vêl-a inquieta, é que me incommoda. - -Maria Luiza, a mariposa alegre d’outros tempos, alma creada para as -flores e para o sol, era, bem o sabeis, uma d’essas creaturas que -se deixam ir embaladas no ambiente da felicidade e que um dia, ao -encontrarem a chamma que as namora, ou a atravessam impunemente ou -crestam n’ella as azas iriadas. São estas frageis creaturas as que mais -podem luctar com as tempestades da vida, mas se uma vez succumbem, -deixam-se morrer lentamente, abraçadas, permittam-me que diga assim, ao -pensamento que lhes envenena o coração. - -Maria Luiza julgou-se esquecida pelo homem a quem amava. Esta ingratidão -suffocava-a. «Por que não iria elle, perguntava a si mesma na sua -afflicção, porque não iria vêr-me, depois de me não ter visto ha tanto -tempo? E os meus pensamentos todos eram seus! Se sonhava... via-o no meu -sonho. Dizia-me o coração que não morria, porque o amava... E elle não -foi!»... - -Á noite, queixou-se de extrema inquietação. Chamou-se á pressa o -facultativo. - -Antes d’elle chegar, Maria Luiza levantou-se de golpe, disse que uma -nuvem vermelha lhe tirava a vista, e bolçou sangue. - - - - -XXIX - - -Moralmente, Rosinha soffrera tanto ou mais que Maria Luiza. - -O seu amor, a sua dedicação pela irmã estremecida levou-a a occultar a -morte do bacharel Valladares. - -—Sabendo-o, soffrerá metade das dores que dilaceram o coração luctuoso de -Eduardo. Peorará decerto, pensara Rosinha nos extremos do seu carinho. - -Depois, acercou-se de sua mãe e disse: - -—Não lhe parece que será melhor não dizermos que morreu o genro do João -Nicolau? - -—Sim... talvez. - -—É sempre desagradavel a noticia d’um fallecimento. Agora, porém, -tão impressionavel a tornou a doença, que parece-me que seria melhor -occultarmos... - -—Pois sim, não digamos nada. - -Quando Maria Luiza lhe entregou o bilhete, Rosinha ficou sobresaltada. -Exprimiu o receio de Eduardo Valladares o não receber a tempo, para ir -dispondo o ánimo da irmã. Não previu as tristes consequencias que vieram -surprehendel-a. Suppoz que o adeantado da hora seria razão sufficiente -para explicar a ausencia de Eduardo, e que Maria Luiza diria de si para -comsigo «não pôde vir» em vez de «não quiz vir.» - -Para acalmar a irmã, resolveu-se, como vimos, a dizer ao menos meia -verdade. - -Não foi acreditada. - -É inexplicavel o que em algumas horas soffreu a boa alma, toda dúvida e -receio, toda amor e afflicção... - -Em casa, no regresso d’aquelle triste passeio, Rosinha, muito atribulada, -disse á irmã: - -—Socega, por Deus. Amanhã te explicarei toda a verdade. - -Maria Luiza olhou-a com fixidez, e sorriu um breve sorriso que tinha -tanto de tristeza como de incredulidade. E continuou a luctar com a mesma -ancia, cada vez maior. - -O facultativo ficou surprehendido do estado em que veiu encontrar Maria -Luiza e não pôde deixar de o attribuir a hemorrhagia da membrana mucosa -pulmonar. A hemoptyse estava manifesta. O sangue era acompanhado de tosse -violenta e no meio da ancia, que a suffocava, queixava-se Maria Luiza de -intenso calor sobre o peito. - -Quando a doente socegou algum tanto, o facultativo disse em particular á -viuva Machado: - -—Sua filha, comquanto fôsse clara certa predisposição que infundia -receio, enganou-me, e eu vou dizer em que. Fiei muito d’uma convalescença -remançosa, que ella devia ter e que, rigorosamente observada, seria -barreira á obra da destruição. N’isto foi que me enganei. Sei que estou -dilacerando o coração da mãe, mas devo usar d’esta franqueza para com a -enfermeira. Tiremol-a d’aqui, quanto antes, o mais breve possivel. Para -que não vae v. ex.ᵃ para a quinta do Prado? Está á porta a primavera; -appellemos para ella. - -—Para a quinta do Prado... Mas para lá... - -—Diz v. ex.ᵃ?... - -—Ha o inconveniente de a approximarmos do tumulo da irmã, por quem morria -d’amores... - -—Ah! Fez v. ex.ᵃ bem em me informar d’essa circumstancia, que eu -desconhecia. Não sabia onde repousava a filha de v. ex.ᵃ; sabia -apenas que tinha succumbido a uma tisica pulmonar. É pois conveniente -escolhermos outro local. - -—Lembro-me do Bom Jesus, que é o seu passeio favorito. Podiamos requerer -aposento na _Casa da mesa_. Que lhe parece, sr. doutor? - -—Sabe v. ex.ᵃ que de todos os sitios affluem numerosos doentes ao Bom -Jesus. É difficil encontrar mais salutar atmosphera. Mas ainda assim, -pelo que toca a condições hygienicas, não pode comparar-se com a quinta -do Prado. Torna-se, porém, indispensavel atalhar o mal obstinadamente, e -haver rigorosa observancia de prescripções. Convem livral-a sobretudo do -nevoeiro da serra, de certa viração perfida que sopra de manhã e de tarde -no Bom Jesus. - -—Oh! mas diga-me se tem esperanças de a salvar, sr. doutor, lembre-se -n’este momento de que sou mãe. - -—Socegue, minha senhora. Empenharemos todos os esforços e -restituil-a-hemos á vida. - -Sahiu o medico, dissipando com as exhalações d’um charuto as esperanças -de salvar Maria Luiza. - -Ha só uma coisa comparavel á consciencia dos medicos: é a consciencia -dos ministros. Esta relação de semelhança deve lisonjear os homens da -sciencia... - -Na manhã do dia seguinte, Rosinha curvou-se sobre o travesseiro de Maria -Luiza e murmurou: - -—Se me podes ouvir, ou se estás para isso, queria dizer-te uma coisa... - -—Dize. - -—Perdôa-me, por Deus, perdôa-me. Hontem não te disse toda a verdade. -Pobre de mim, que não previ o mal que ia fazer! - -—Eu sabia que me enganavas. Comprehendi, porque sei quanto és minha -amiga, Rosinha... - -—Tu sabias? - -—Sabia. Sabia que querias justificar a ingratidão, o esquecimento d’elle, -só para não me magoares. - -—Enganas-te. O amor desvaira-te. Elle não pôde ir, porque... - -—Por que?... - -—Socega. Vejo-me, porém, obrigada a fazer-te esta revelação. Pesa-me de -não a ter feito hontem. Quando a mamã estiver presente, mostra que não -sabes... - -—Dize, dize. - -—O Eduardo está realmente no Porto. - -—Quiz fugir-me? - -—Não. Foi chamado á pressa. Sebastião Valladares... morreu. - -—Morreu! E por que m’o não disseste? Receavas que me fizesse mal, bem -sei, minha boa irmã. Morreu! Como elle terá soffrido! E eu accusava-o, -Rosinha, accusava-o porque me dilacerava o coração a lembrança de me não -ter ido vêr, a mim, que me levantava do leito depois de tantos dias de -soffrimento... Como eu fui injusta... - -—Socega. Que não te vá fazer mal... - -—Não faz, não. Pobresinho d’elle, que parece ter nascido sob o influxo -d’uma estrella funesta. Não lhe bastava o que soffria por minha causa! -Ainda mais isto! Soffre-se tanto quando se fica sem pae! Lembras-te do -que nós sentimos e chorámos, quando nos faltou o nosso, Rosinha? - -—Cala-te, minha amiguinha, cala-te. Pode ouvir a mamã. Não fales -mais. Hontem de tarde, se t’o dissesse para remediar o mal que -involuntariamente fiz, talvez não acreditasses. - -—Talvez não. - -—Hoje, porém, tenho provas. - -—Tens provas? - -—Promette que te não alvoroças, se não... - -—Ah! escreveu-te! Deixa-me ver, deixa-me ver. - -—Eu leio... - -—Não sejas cruel, Rosinha. Deixa-me ler, que já tenho saudades de ver a -sua lettra... - -Rosinha entregou a carta que tinha recebido, do Porto momentos antes. -Maria Luiza leu: - -«Minha boa amiga: - -Escrevo-lhe do Porto. Sabe já decerto que meu pae morreu. Occulte-o a -ella, por quem é, occulte-lh’o. Como sentiria as dores que eu só devo -sentir, se ella o soubesse! Podia talvez peorar. - -«Quando olho em mim, e conheço que levei a minha desgraça áquella alma, -que não a merecia, sinto remorsos de a ter amado. Que Deus me perdôe, e -a salve a ella. Não posso ser mais extenso. Basta dizer-lhe que meu pae -baixa hoje á sepultura. Voltarei dentro de pouco dias.» - -—Rosinha, minha irmã, reza commigo a Nossa Senhora. Rezemos por elle, que -é muito infeliz; por mim, não, que eu sinto-me boa. - -E brilharam-lhe lagrimas nos olhos. Sobreveiu um frouxo de tosse, e após -a tosse uma lufada de sangue... - -Passadas horas, respondia Rosinha a occultas da irmã: - -«Occultamos-lhe a morte de seu pae. Procuramos, porém, afastar um mal, -e approximamos outro. Mando-lhe o bilhete que ella me dava hontem para -eu lh’o fazer entregar, na supposição de estar, em Braga. Continuei -ainda a occultar a cruel verdade sem pensar nas consequencias funestas -da minha dedicação. Á conta de esquecimento tomou ella a sua ausencia. -Era manifesto que soffria muito quando recolhemos, mas foi-me então -impossivel remediar o mal, revelando toda a verdade. Ás nove horas da -noite, sentia-se muito incommodada e momentos depois abafava-lhe a voz -uma onda de sangue. Pobre irmã! Venha depressa, que eu sinto que me falta -o ánimo. Hoje confessei-lhe tudo. Quiz lêr a sua carta, e lamentou-o -muito com os olhos cheios de lagrimas. Vamos amanhã para o Bom Jesus. -O facultativo aconselhou ares mais puros sem perda de tempo. Venha -depressa, sim? A precipitação com que lhe estou escrevendo explicará o -laconismo destas linhas.» - -Quando Rosinha voltou ao quarto, disse-lhe Maria Luiza: - -—Tu respondes hoje? - -—Eu! Não tenciono. - -—Quero então pedir-te um favor. - -—Dize o que é. - -—Se me deixavas escrever... - -—Escrever! Mas se te vae fazer mal... - -—Não faz, eu sei que não faz. - -—Com uma condição: quatro palavras, apenas. - -—Pois bem. Quatro palavras apenas, respondeu Maria Luiza. - -E escreveu com bastante difficuldade para sustentar a penna na mão -convulsa: - -«Sei o que terás soffrido, meu pobre Eduardo!... Que o meu amor te dê -coragem. Não receies por mim, não? Eu estou boa. Queria que viesses, -porque vamos ámanhã para o Bom Jesus, e não sei como hei de estar lá sem -ti. Já não te vi ha tanto tempo...» - -Rosinha interrompeu-a para dizer-lhe: - -—Já escreveste muito. Se te faz mal... Se vem a mamã. - -E ouviram-se passos no corredor. - -—Ella ahi vem, não ouves? - - - - -XXX - - -João Nicolau e Frei Domingos estavam conversando um dia e naturalmente -veiu a declinar o dialogo sobre o futuro de Eduardo, que parecia mais -triste do que nunca. - -—É pois resolução assente o sacerdocio? perguntou o carmelita. - -—Assente, respondeu João Nicolau. Foi sempre desejo meu encarreiral-o por -este caminho. Ao principio receei que o meu proposito o contrariasse. Ha -tempos a esta parte, cuido perceber que lhe não desagrada o futuro que -lhe dou gostosamente. - -—Hade o sr. João Nicolau lançar á conta da amizade com que me trata -as impertinencias d’um velho. Deixe-me todavia ser franco—disse Frei -Domingos do Amor Divino com os olhos marejados de lagrimas. Entrei n’esta -casa supplicando a Deus que me preparasse um dia este momento, em que eu -pudesse dizer ao homem honrado: «Aqui estão os meus cabellos brancos; -ouve-me, se elles te inspiram compaixão.» - -João Nicolau sentia-se perplexo e commovido. - -Frei Domingos continuou: - -—Um dia, um homem velho como eu, coração sem mancha, como prouvera ao -Senhor que fôra o meu, bateu á minha porta e disse: «Desgraças communs -prenderam o meu coração ao coração d’outro homem, cujo filho se abeira -hoje de mim, a instancias do pae, para pedir conselho á minha velhice, -não á minha discreção. Descobri sombras na fronte que se devia illuminar -com o clarão da mocidade. Vi curvada com melancholico pendor a roseira -que se devia erguer attrahida pelas flechas do sol. Sondei. Desci -cautelosamente ao coração de dezeseis annos e encontrei-o traspassado -por um espinho. A pobre alma confrangia-se deante d’um futuro que se -approximava dia a dia, e que ella queria remover, ou porque estivesse -embalada nas castas doçuras da sua edade, ou porque a apavorasse a -austeridade do sacerdocio.» Disse-me isto o ancião com voz trémula de -commoção e velhice. Depois, voltando-se de novo para mim, accrescentou: -«A missão do levita é supplicar e esclarecer. Vá: supplique e esclareça. -Fale ao coração piedoso do homem que chamou a si o neto desprotegido -da fortuna para lhe aplanar o caminho da vida. Vá e diga-lhe curvado -de respeito: «Venho desafogar comtigo, porque sei que o teu coração é -brando; ouve-me e Deus te agradecerá». Era eloquente e justa esta voz. -Obedeci e vim. Aqui estou, sr. João Nicolau, para lhe pedir que me oiça. -Direi o que a razão me fôr suggerindo; depois terminarei com o dito da -Escriptura: «Se eu errei, corrige-me tu; se eu falei com iniquidade, não -accrescentarei mais.[13]» - -—Oh! sr. Frei Domingos... exclamou João Nicolau sem poder concluir a -phrase. - -—O melhor futuro não é o que nos parece melhor; é o que Deus nos prepara. -O coração affectuoso pode enganar-se ao talhar felicidades que nunca -cheguem. Não digo que venha a ser assim; quero dizer que o coração do sr. -João Nicolau, estremoso e bom, pode enganar-se em sua mesma bondade. Um -dia as lagrimas de seu neto podiam amargurar-lhe os remanços da velhice. -O sr. João Nicolau choraria a sua e a alheia desgraça ao ver despida -de flores a arvore do seu amor. Não me pesa a mim a batina, porque a -procurei e a vesti eu mesmo. Prouvera ao Senhor, porém, que conhecesse -menos hombros avergados sob ella, que era então certo conhecer menos -infelizes. O sacerdote que não tem o ánimo despreoccupado, serve mal a -Deus e á sua alma. Não me quero engrandecer, nem aos que voluntariamente -abraçam o sacerdocio. Quero dizer que não poderia curar promptamente -as dores alheias, se todos os dias tivesse de pensar a chaga incuravel -do meu desespêro. Toda a vida tem espinhos; o sacerdocio tambem. O -marinheiro que voluntariamente embarca, corajoso lucta com as tempestades -do mar e todo se delicia na contemplação do azul purissimo das aguas, -quando céo e mar estão serenos. O que navega coagido nem desteme a -tormenta nem se consola com a suavidade da paizagem. Para tal marinheiro, -o mar é sempre um abysmo, ou durma ou se encapelle. Que cada um procure -o rumo da sua derrota. Depois, quando já tiver embarcado, digamos assim -ao nauta querido do nosso coração: «Filho, deixa-me guiar o teu batel, em -quanto o teu braço fraqueja». - -Frei Domingos parou um momento, fatigado pela commoção. João Nicolau -approximou-se e disse com olhos humidos de pranto: - -—Sr. Frei Domingos, as suas palavras convencem me. Pensei que meu neto -não ia sacrificado ao destino que lhe eu dava. Suppuz a principio que a -idéa da solidão do presbytero lhe pusera medo. Chegada, porém, a hora de -lhe indicar um caminho, vi-o calar se sereno e... - -—Agradeçamos a Deus que lhe não endureceu o coração; é humilde. O filho -d’aquelle homem, cuja face gelada era serena como a superficie d’um lago, -devia compartilhar das virtudes enthesouradas no coração do pae. Eu vi o -cadaver de seu genro... - -—O sr. Frei Domingos! Ah! pois era o carmelita?... - -—Fui ao Porto, que me dizia a consciencia que devia ir. Entrei aqui, e -fui recebido, sob este tecto, como não merecia. D’esta grande divida -que tenho em aberto, e que decerto não posso saldar, procurei pagar a -centesima parte dos juros, amontoados. Á volta do feretro d’um parente -intimo d’esta casa, reuniam-se sacerdotes; era lá o meu logar; fui -tomal-o. Não faltavam á viuva e ao orphão consolações d’amigos; as -minhas seriam menos prestantes. Foi por isso que não appareci á familia -annojada. Na egreja senti uma extranha commoção: chorei. Talvez fôsse -fraqueza o chorar; talvez. São percalços da velhice. Estava-me lembrando -das desgraças que poderiam fulminar o orphão, se a minha voz fôsse -impotente para convencer o sr. João Nicolau. E olhe que não vae n’isto -offensa ao seu coração. Não receava por elle; receava por mim. Da palavra -do conselheiro depende a efficacia do conselho. O bom terreno, por mal -semeado, pode deixar de fructificar. Enganei-me, sr. João Nicolau, -enganei-me. Não é verdade? Não é verdade que veiu Deus em nosso auxilio, -porque o seu entendimento adivinhou o que eu deixei de dizer? Diga-me que -sim, que é esta a maior alegria de ha trinta annos. O sr. João Nicolau -é bom... Bem vejo que está chorando. «Fazei justiça ao necessitado e ao -orphão»[14] diz o _Psalterio_. O sr. João Nicolau é religioso, e ha de -fazel-a. Dê-me um abraço, meu amigo, que eu leio nas suas lagrimas a -resposta que a commoção lhe não permitte dar-me...» - -Foi edificante aquelle lance em que dos olhos dos dois velhos brotaram -copiosas lagrimas. Por longo tempo nem um nem outro pôde falar. O -silencio dava certa grandeza ao quadro. - -Decorreram minutos, após os quaes Frei Domingos conseguiu dizer: - -—Bemdito seja o nome do Senhor! Vou d’aqui rejuvenescido. Vou dizer a -Rodrigues d’Abreu... - -—Tinha adivinhado logo que era elle. Em Braga, não podia ser outro. Bom -coração aquelle! - -—Bom coração é, realmente. A elle devemos esta alegria, que veiu -illuminar a nossa velhice. Vou dizer-lhe: Permittiu Deus que eu visse a -realisação de tamanha esperança. Receei uma vez, e chorei. O Senhor das -alturas perdoou-me, cobriu-me com a Sua grandeza, depois de ter inspirado -o coração a que me dirigi. - -Passados dias, João Nicolau chamou o neto á sua presença e disse-lhe: - -—Estamos sós, e espero que me falarás com a lizura com que falarias a teu -pae. - -—Responderei com a voz do coração. - -—Cabe-me o dever de dirigir a tua educação, e não quero violentar-te a -acceitares um futuro que te repugne. Se até hoje fiz mal, determinando-te -uma carreira, dir-m’o-has agora. Responde-me com franqueza. Da resolução -que tomares depende tudo e, depois de consummada a obra, é impossivel a -emenda. A tua recusa não me desgosta, nem me contraria. Se assim fôsse, -não te chamaria para me expores a tua vontade. - -Eduardo Valladares levantou para o avô os olhos tristes, e respondeu com -firmeza: - -—Agradeço do fundo do coração, meu avô, o sentimento que o levou a -querer ouvir-me sobre este ponto. Respondo, abrindo-lhe a minha alma. O -sacerdocio, a que me destinava, apavorava-me quando eu sentia enflorar-se -o peito com as primaveras que são apanagio dos primeiros annos da vida. -Entre mim e a minha esperança, via levantar se a barreira do sacerdocio. -Chorei, exasperei-me, e levei o écho das minhas amarguras aos ouvidos de -quem entrava no mundo com direito a sahir d’elle sem rasgar o coração -na minha corôa d’espinhos. Quiz rebellar-me, no meu desespêro, contra a -vontade de meu avô. Suspendeu-me sempre á beira do precipicio um braço -amigo, apontando-me para o Céo. Esperei do Céo o balsamo, o confôrto. Sem -deixar de crer em Deus, via porém crescer hora a hora o meu desespêro. -Era horrivel viver assim, meu avô! Fui vivendo uma vida d’esperanças e -de lagrimas, de fé e de descrença... Só sabe comprehender isto, quem -viveu assim. Era delicado de mais para tamanhas procellas o coração que -eu amei. Despedaçou-o aquella agonia lenta. Despedacei-o eu, meu avô. -A martyr succumbiu ás minhas dores. Amava-me de mais para me esquecer. -Chorei de desespêro; choro agora de remorso. Encherei com as minhas -lagrimas o calix do sacrificio. Na expiação de todos os dias supplicarei -o perdão de Deus. Quero e devo expiar assim, meu avô, se a pessoa a quem -me refiro adormecer no tumulo para accordar no Céo. - - - - -XXXI - - -«As arvores tanto as tenho para mim como para os passaros» escreveu -Lamartine no formoso livro _Pedreiro de Saint-Point_. - -Ó alma sublime de poeta, tu não levavas o teu egoismo ao extremo de -quereres as arvores unicamente para te envolverem em mysteriosa sombra -nas tardes meditativas do estio. Tu sabias que esse mundo de folhas -verdes, sussurrante e oloroso, se pode servir de cupula ao homem em horas -de profunda meditação, é tambem das aves que se deixam absorver nos -seus extasis d’amor, e querem esconder-se nas sombras da floresta, para -cantar, sem que ninguem as veja. - -Deixemol-as entoar os seus modilhos emquanto nós pensamos. - -Ellas estão no seu mundo, nós estamos no nosso. - -O universo é para todos. - -Faz-me tristeza ver que os homens as perseguem, a ellas, que tornam -alegre a solidão dos campos e que traduzem em musicas suavissimas os mais -delicados pensamentos do amor e da saudade. Nós, quantas vezes nos não -embriagamos nos mais delicados pensamentos, nos mais mimosos affectos, -sem que possamos encontrar na palavra o prisma que reproduza as formosas -cambiantes do nosso espirito! Ellas, as aves, teem uma inflexão para -cada idéa, uma harmonia para cada sentimento. Merecem mais respeito as -pobresinhas, se não fôr por outra coisa, ao menos por isto—que já é muito. - -A creança d’hoje ha de ser homem amanhã e, se lhe ensinarem a disparar -a sua clavina, irá desfechal-a contra o seio offegante d’uma andorinha, -que commetteu o unico delicto de querer procurar alimento para a sua -pequenina familia. Não digamos pois á creança que se embriaga nas -innocentes alegrias da sua edade: «Amanhã, visto que estás homemzinho, -faze-te caçador. Pega n’esta espingarda e vae pelo caminho fora. Rompe -através do matto, salta córregos, galga montanhas, que todos esses -sacrificios serão pagos pelo prazer sanguinario de matar. Se vires um -bando d’aves, ainda que seja uma caravana de passarinhos alegres, que -vão cruzando o espaço, como uma tribu nómada que atravessa o deserto, -faze pontaria e atira. Se ferires a mãe, fecha o coração á magua de -teres levado a orphandade e a viuvez a uma familia inteira, cerra os -ouvidos aos saudosos lamentos de quem fica viuvo e orphão n’esse deserto -dos céos! Se ferires o filho, esquece-te de que roubaste a alegria d’um -coração de mãe, de que a ave é tanto mãe, ou mais ainda, do que a mulher, -esquece-te, oh esquece-te... d’isto tudo e... desfecha a tua espingarda». - -Apraz-me entrar n’um cerrado onde as aves vivem em plena liberdade sem -recearem da clavina do caçador, nem das redes da creança. Ahi cantam, -amam e noivam sem emmudecer de sobresalto uma unica vez. Se o bosque fica -perto d’uma corrente murmurosa, diremos que estamos no jardim do amor, ao -ouvir os rouxinoes. Se fica n’um retiro formosamente triste, diremos que -estamos na estancia da saudade, ao escutar as rôlas. - -As aves da floresta do Bom Jesus do Monte seriam verdadeiramente ditosas, -se não as perseguissem as creanças—os unicos inimigos que ellas lá podem -ter. Quem quer ouvil-as, sobe á montanha sagrada; as creanças ouvem-n’as, -namoram-se de suas toadas alegres e querem prender as proprias aves, para -que já lhes não fuja aquella doce musica. - -Maria Luiza e Eduardo Valladares estiveram na alameda da Mãe d’Agua, no -dia trinta de março, dia em que a floresta toda se levantava em jubilos e -canticos para saudar a primavera. - -Maria Luiza, meio inclinada para o tumulo, parecia sorrir á amenidade -d’aquelle dia. - -Tinha nas faces a pallidez da morte, mas descerravam-se-lhe os labios -n’um sorriso sereno como o da esperança. Esperaria ainda ella a -felicidade terrena? Cremos que sim. Dizia tranquillamente a Eduardo -Valladares, que no Céo havia um écho para cada desgraçado, e que lhe -segredava o coração que não estava longe a felicidade. Queria vêl-o -queria falar-lhe, queria ouvil-o a miude, e o pobre moço, desenganado -pela voz da medicina, amparava-a nos braços, na afflictiva ancia que -precedia quasi sempre uma nova hemoptyse. Muitas vezes dissera Maria -Luiza, quando ainda era alegre: - -—Quem sabe se virei a morrer da morte de minha irmã? Talvez... Eramos tão -amigas!... - -Depois que começara a soffrer, especialmente depois que foi para o Bom -Jesus, dizia a Rosinha: - -—Eu hei de melhorar. Aqui amei e aqui soffri. Mas a gente gosta tanto -dos sitios onde soffre, amando, que é como se tivesse vivido n’elles sem -nunca ter chorado... Não posso morrer aqui, bem vês. Tudo são recordações -a chamar-me á vida. Não posso morrer, não. - -—Pois não morres, não, respondia Rosinha, abafando a sua dôr. - -N’esse dia, trinta de março, estavam Maria Luiza e Eduardo Valladares na -alameda da Mãe d’Agua. Acompanhara-a elle, dando-lhe o braço. Rosinha -sentou-se a distancia. - -Á sombra das copadas arvores andavam armando aos passarinhos umas -creanças, filhas de duas familias inglezas, que do Porto, onde ainda hoje -residem, tinham ido passar alguns dias no Bom Jesus do Monte. - -Andavam estas creanças folgando em commum divertimento. Quando uma -avesinha incauta descia a pousar na varinha traiçoeira, e ficava presa -no visco, sahiam os pequenos de trás dos troncos afastados, chalrando -alegremente n’uma linguagem que a plumosa victima devia entender, visto -ter dito Carlos V que o inglez é para se falar aos passaros. - -Depois de prêsa a ave, armavam de novo, tornavam a esconder-se, e -trocavam-se ordinariamente no esconderijo estas phrases com intervallos -sempre deseguaes: - -—_Be silent..._ - -—_It is coming..._ - -—_It has perched..._ - -—_It is caught!_ - -O mysterioso dialogo das impiedosas creanças orça por isto em portuguez: - -—Sciu... - -—Chegou... - -—Pousou... - -—Está preso! - -Maria Luiza tinha dito a Eduardo Valladares, quando entraram na alameda: - -—Trouxe-te hoje papel e lapis. Tenho saudades... dos teus versos, meu -amor! Desapprendeste a cantar nas tuas afflicções, mas hoje quero que -escrevas ao pé de mim para me certificar de que a tua alma está serena -como a minha... - -Eduardo Valladares, coração afogado em lagrimas, acceitara o lapis e o -papel para não a contrariar. - -Como porém o alvorôto das creanças distrahisse por momentos Maria Luiza e -Rosinha, não sem que revelassem assomos de compaixão, Eduardo Valladares -foi escrevendo ao correr do lapis. - -—Escreveste? perguntou com alegria Maria Luiza. - -—Escrevi; cumpri... o teu desejo, respondeu elle. - -Diziam os versos: - - Ide embora, meninos, que é peccado, - Armar aos passarinhos. - Indiscretos brinquedos, - Que levam lucto á paz de tantos ninhos - Se toda a gente andasse a perseguil-os, - Não tornaria ninguem mais a ouvil-os - Nos densos arvoredos. - Deixae-os modular doces modilhos, - A musica do ar. - Ao pé do berço, em quanto ereis creanças, - Cantavam vossas mães plantando esp’ranças - No cuidado jardim dos seus amores... - Deixae-os vós cantar, - Emquanto arrulham embalando os filhos - Que dormem sobre flores... - - Posta que fôr a perfida varinha, - Anceaes por vêr a saltitar no chão - Descuidosa andorinha, - Que se não lembra da infantil traição. - - Ninguem se move... Comprimis no seio - O ardente respirar, - Para que não ponhaes em sobresalto - O bom do passarinho - Que tentaes algemar. - Se vos ouvisse respirar mais alto, - Mudaria o caminho - Por fugir aos pequenos salteadores, - Que o estão esp’rando como vis traidores! - - Eil-o que se approxima embevecido - Na tarefa que tem todos os dias. - Vem cheio d’incerteza e d’alegrias... - Se pudesse voltar tão bem provido - Como hontem voltou! Mas se lhe falha - A fortuna que teve, - E não acha migalha - Que, venturoso, leve!... - Entretanto descobre - A farta refeição—uma riqueza - Para quem é tão pobre... - Venturosa surpresa! - Olha em roda... Ninguem... Escuta... ousou. - E mal que toca a ração indefesa, - Prisioneiro ficou... - - Surde de toda a parte a vozeria, - O febril alvorôço, - Conjunto de mil vozes d’alegria... - O passarinho é vosso, - Podeis emfim leval-o. - Mas se já vos lembrou tel-o captivo, - É bem melhor... matal-o. - -—Ah! impressionaram-me estes versos. Tens razão... Fazer mal ás avesinhas -que são do ar! Lembras-te da primeira vez que viemos ao Bom Jesus? E dos -teus versos?... Atiraste-m’os ao regaço aqui, foi mesmo aqui... - -Rosinha, que por um momento receou que Eduardo Valladares não pudesse -reprimir, ao escrever, as dores profundas que lhe torturavam a alma, -trocou com elle um olhar d’approvação, que a doente não surprehendeu. - -N’este momento andavam as creanças, a distancia, mostrando-se com -estrepitoso jubilo uma avesinha que tinha ficado prisioneira. - -Maria Luiza chamou uma, e vieram todas de tropel, orgulhosas da victoria. -Pediu-lhes que soltassem aquelle passarinho, que lhes não tinha feito -mal nenhum. O pequenito, que entendera perfeitamente, olhou para Maria -Luiza com desdem, mas uma inglezita de cabello loiro, talvez sua irmã, -voltou-se para o companheiro, pequeno como ella, e disse: - -—_She is so ill! Do what she wished._ - -Felizmente Maria Luiza não sabia inglez; a pequenita tinha dito: «Ella -está tão mal! Faze-lhe a vontade...» - -A avesinha, restituida á liberdade, desferiu vôo, e as creanças seguiram -n’a com a vista até que desappareceu através das arvores. - - * * * * * - -Quantas vezes, ao despregarmos os olhos do azul purissimo em que se -esbatem os contornos d’uma paizagem deliciosa, não sentimos passar no -espirito uma tristeza subita, acompanhada do receio de não tornarmos -áquelle sitio? - -Maria Luiza não se despedia das arvores da floresta, porque devia a Deus -o esquecer-se da realidade da vida, á beira do tumulo, embalada n’uma -esperança que o seu espirito em outra occasião não teria acceitado. Esta -doce tranquillidade, quando a vida lhe fugia veloz a cada momento que -passava, tomemol-a á conta de prodigioso effeito d’uma extranha causa. -Eu, de mim, elevo o meu pensamento a Frei Domingos do Amor Divino... - -Maria Luiza não se lembrou, pois, n’aquelle dia, de que poderia ser o -ultimo em que tremessem sobre os seus cabellos as sombras ondulantes do -arvoredo da serra. Mas nós—os que furtivamente a acompanhamos, os que sob -o toldo sonoro da alameda a vimos amar e soffrer, os que nos costumamos -a querer áquellas arvores como ella mesma queria—nós digamos adeus aos -mil encantos que se escondem no crepusculo perpétuo da floresta, que não -sabemos se o destino nos deixará acompanhar outra vez a pallida visão, -avergada pela morte. - -Adeus, sombras e murmurios, aves e ninhos, fontes e arvores. Adeus, -flores silvestres e borboletas que vos amaes. Adeus, folhas verdes que -sois namoradas dos seixos côr de rosa; adeus. Quem sabe? Talvez para -sempre—adeus. - - - - -XXXII - - -São de Eduardo Valladares estas palavras: - -«No dia 5 de abril, fui chamado á pressa ao Bom Jesus por um creado da -viuva Machado que, ao romper do dia, batera á porta da casa de meu avô. - -«Vesti me com precipitação e sahi immediatamente. Tão violentas eram as -pulsações do meu coração, com tamanha velocidade caminhava eu, que tinha -de parar a cada momento, suffocado, para poder respirar. Esta demora mais -augmentava a minha sobreexcitação. - -«Eu tinha passado a noite, até ás onze horas, no Bom Jesus. Para evitar -assumptos inopportunos, adoptei o costume de lêr. Maria Luiza, que só -a custo podia falar, e que tinha sido obrigada pelo medico a estar -silenciosa, applaudiu a minha idéa, e gostava muito de me ouvir. Quando -se me deparava alguma passagem que não convinha lêr, por ter maior ou -menor relação de semelhança com a nossa dolorosa situação, passava-a em -claro continuando a leitura. Maria Luiza, que conservava um admiravel -vigor de faculdades intellectuaes, notava a incoherencia, e obrigava-me a -voltar atrás para justificar a censura. - -«Assim passavamos as noites, e assim passámos a de quatro d’abril. Quando -desci a montanha, havia um formosissimo luar que tremia em scintillações -na concha das fontes. O silencio, o grande silencio das noites da serra, -era apenas quebrado pelo murmurio cadenciado e monotono das aguas. - -«Em baixo, no valle, lampejavam os reverberos da cidade. Tudo o mais era -silencio e luar. - -«A minha alma vinha entregue ás tribulações de todas as horas, mas não me -atravessava no coração o presentimento de tão proxima desgraça. - -«Maria Luiza tinha estado a ouvir-me lêr, alegre, tranquilla, sem -denunciar maior soffrimento. Ás onze horas sahi, para voltar na noite -seguinte. O dia gastava-o eu nas aulas, e a estudar. Só os dias feriados -os passava todos no Bom Jesus. - -«A verdade é que, depois de eu sahir, se queixara d’insomnia, e de -frio de pés. Logo lhe purpurearam as faces duas rosetas escarlates que -denunciavam accesso de febre. Sobreveiu a agitação, a impaciencia. -Perguntava anciada se já era dia, se eu não chegava, porque queria ir -commigo á Mãe d’Agua para respirar livremente. Mandou que lhe abrissem as -janellas para reconhecer a claridade da manhã. Abriram-lh’as. Como visse -o luar e as estrellas, contorceu-se febricitante. Foi então que expediram -o creado que me chamou. Durou bastante tempo o frenesi, após o qual veiu -uma violenta hemoptyse. - -«Ficou extenuada a pobresinha, sem poder respirar. Era a prostração que -precede a morte... - -«Quando eu cheguei, quando me ouviu a voz, descerrou os olhos, deu aos -labios o geito d’um sorriso, e murmurou com extrema difficuldade: Não -posso... Queria ir comtigo... Não te esqueças de mim... Morro decerto...» - -Eduardo Valladares deteve se suffocado pelas lagrimas. Esperei que -pudesse continuar: - -«Queria vir á Mãe d’Agua, não talvez para respirar melhor, mas para se -despedir, porque só então conheceu que morria. Foi no dia trinta de março -de 1853 que pela ultima vez estivemos aqui, na Mãe d’Agua. O medico, -receoso da extrema frescura da alameda, não consentia que viesse. - -«Aqui tem como ella morreu... Que ella morreu, não... que deixou a -terra... O seu derradeiro pensamento foi para mim e para o sitio querido -dos nossos amores... - -«Está sepultada no mesmo cemiterio onde jaz a irmã, ao pé da mesma sebe -engrinaldada de flores silvestres. O seu corpo está lá, na valla coberta -de boninas, mas sinto aqui, na Mãe d’Agua, alguma coisa que me denuncía o -perfume da sua alma. Dir-se-hia que respiro aqui a essencia da flôr que -se engastou nas constellações do Céo. - -«Deixe-me abreviar esta narrativa, porque vou sentindo que me faltam as -fôrças. Resta-me resumir o que se passou desde 5 de abril de 1853 até -hoje, 15 de julho de 1870. - -«Da minha familia resta apenas minha mãe, que vive da minha dôr, e é o -unico esteio a que me abraço, quando mais desconfortado me sinto. - -«Frei Domingos do Amor Divino morreu em 1860. - -«Ao entrarmos na egreja do Carmo, onde se rezaram os reponsos por alma -do virtuoso _Fradinho_, hoje santificado pela opinião publica, disse-me -Rodrigues d’Abreu:—Vamos, meu amigo. Devemos ambos muito á memoria d’esta -boa alma. E olhe que não sabe ainda tudo quanto lhe deve... - -«Estas palavras despertaram a minha curiosidade. Quando sahimos, o sabio -bibliothecario circumstanciadamente me contou como Frei Domingos se -empenhara pela minha felicidade. Fiquei surprehendido. Rebentáram-me -lagrimas em jôrro. Depois que nos despedimos, voltei á egreja do Carmo. -Já estava fechada. Entrei em casa e orei por longo tempo. Levantei-me -tranquillo e fui buscar a velha Gertrudes, que sobrevivera a seu velho -amo. Estava inconsolavel. Dei-lhe abrigo em minha casa durante os oito -mezes que ainda teve de vida. Do que a Gertrudes contou e do que Frei -Domingos revelara, coordenei os apontamentos que sei da sua vida. - -«Rodrigues d’Abreu, o coração nobilissimo, expirou, como sabe, ha sete -mezes, a 6 de dezembro de 1869. - -«Resta-me falar da familia de Maria Luiza. - -«A viuva Machado, avisada do risco que corria a vida da unica filha -que lhe restava, se não procurasse melhor clima, sahiu para a ilha da -Madeira. Rosinha casou no Funchal, cuido que por inclinação, onde vive em -companhia da mãe e do marido. - -«E eu?... - -«Contei-lhe a minha vida, revelei-lhe as paginas mysteriosas do meu livro -intimo, deixei-lhe vêr as minhas lagrimas... Que lhe posso dizer mais? -Não pensei no suicidio, não me atirei ao abysmo da morte para extinguir -as minhas dores, e adormecer. - -«Procurei o balsamo onde o podia encontrar. - -«Cada dia apparecem livros que abrem por blasphemias, e terminam pela -negação de tudo o que ha de defeso á razão limitada do homem. Eu, se um -dia escrevesse a minha historia, havia de terminar por esta palavra—DEUS.» - -FIM - -_Nota._—A estampa que illustra a capa d’esta edição reproduz fielmente o -antigo aspecto da alameda da Mãe d’Agua, no Bom Jesus do Monte. - - - - -NOTAS - - -[1] CONTOS AO CORRER DA PENNA—_No Bussaco_. - -[2] Tudo isto está hoje mudado no Bom Jesus do Monte. Diogo Forjaz -descreveu assim, e com exactidão, o antigo aspecto do sitio da Mãe -d’Agua: «Deixando o terreiro dos Evangelistas, subindo alguns metros pela -matta na direcção de sueste, encontra-se um comprido passeio tapisado -de verdura, o qual conduz por debaixo de copado arvoredo a um tôsco -reservatorio d’agua, que lhe fica ao fim com assentos e mesa de pedra.» -(_Nota da 2.ª edição._) - -[3] Sonet vox tua in auribus meis. Cant. II. - -[4] Temos conhecimento do opusculo denominado _Manuel Rodrigues da Silva -e Abreu_. Apontamentos biographicos por Soares Romeu Junior; opusculo -publicado, em Lisboa, n’este anno de 1870. - -O sr. Soares Romeu não pôde precisar a data do decreto que nomeou -bibliothecario o illustre biographado; averiguámos porém que elle fôra -despachado por carta régia de 26 d’agosto de 1842.—(_Nota Da 1.ª edição._) - -[5] Vide IV volume, pag. 72. - -[6] O nosso Deus, porém, está no Céo; tudo quanto quis, fez. Ps. CXIII. - -[7] Na minha tribulação invoquei o Senhor, e chamei ao meu Deus. Ps. XVII. - -[8] Diminuta era a livraria de João Nicolau, reduzida ás obras completas -de José Agostinho de Macedo e a uns tantos opusculos, inspirados na causa -absolutista e na conservação das ordens religiosas, que vieram a lume em -Portugal e no extrangeiro. O opusculo citado sahiu da Imprensa Regia, em -1814. - -[9] Eccles. Cap. XI. - -[10] O senhor Deus é o meu auxiliar.—Isaias, 4. - -[11] Eurico o Presbytero, pelo sr. Alexandre Herculano. - -[12] Prov. XVII. - -[13] Job. XXXIV. - -[14] Ps. LXXXI. - - - - -BIBLIOTHECA HORAS ROMANTICAS - - -Collecção de obras litterarias e scientificas notaveis, dos melhores -auctores antigos e modernos, nacionaes e extrangeiros. - -100 RÉIS—CADA VOLUME—100 RÉIS - -Volumes publicados - - N.ºˢ I, II, III—QUO VADIS (3.ª edição) de H. Sienkiewicz. - N.º IV—VIDA DE LAZARILLO DE TORMES, de Mendoza. - N.º V—EULALIA PONTOIS, de F. Soulié. - N.º VI—A AMOREIRA FATAL, de E. Berthet. - N.º VII—SENHOR EU, de S. Farina. - N.º VII-A, VII-B—O FOGO, de G. d’Annunzio. - N.º VIII—CARICIAS D’UMA NOIVA, de B. Bjornson. - N.º IX—PALAVRA DE SOLDADO, de G. Elwall. - N.º X—A PELLE DE LEÃO, de C. Bernard. - N.º XI, XII, XIII—A MORTE DOS DEUSES de D. Merejkowsky. - N.º XIV—A CORDA DO CARRASCO, de A. Petosi. - -Volumes a publicar - - TERRAS MALDITAS, de V. B. Ibañez. - MANON LESCAUT, do padre Prévost. - PECCADOS VELHOS, de G. Csicky. - CURA DE UM LOUCO, de S. Lageloff. - - - - - -End of Project Gutenberg's Idyllios á beira d'agua, by Alberto Pimentel - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK IDYLLIOS Á BEIRA D'AGUA *** - -***** This file should be named 62853-0.txt or 62853-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/8/5/62853/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. 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Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Idyllios á beira d'agua - Romance original - -Author: Alberto Pimentel - -Release Date: August 4, 2020 [EBook #62853] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK IDYLLIOS Á BEIRA D'AGUA *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - -</pre> - - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p> - -<h1>IDYLLIOS Á BEIRA D’AGUA</h1> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span></p> - -<p class="titlepage">ALBERTO PIMENTEL</p> - -<p class="titlepage larger">Idyllios á beira d’agua</p> - -<p class="titlepage">ROMANCE ORIGINAL</p> - -<p class="titlepage">(<i>2.ª edição revista pelo auctor</i>)</p> - -<div class="figcenter titlepage" style="width: 100px;"> -<img src="images/deco.jpg" width="100" height="55" alt="" /> -</div> - -<p class="titlepage">LISBOA<br /> -«A EDITORA»<br /> -<span class="smaller">Conde Barão, 50</span><br /> -1903</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span></p> - -<p class="titlepage smaller">Typ. d’«A EDITORA», Conde Barão, 50</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span></p> - -<h2>Prologo da 1.ª edição</h2> - -<p>Subi em julho d’este anno á montanha umbrosa -do Bom Jesus do Monte e repousei o meu -espirito, d’umas fadigas em que andava trabalhado, -á sombra d’aquellas arvores seculares -que ou não envelhecem nunca ou remoçam -cada noite para verdejar novas galas ao romper -da madrugada...</p> - -<p>Quando o romeiro crava o seu bordão n’algum -relvoso céspede do ermo sagrado, e sente -subitamente embriagados os ouvidos n’aquella -primavera inextinguivel chilreada de maviosos -trinados, experimenta a influencia benefica -d’um elixir mysterioso que se lhe está filtrando -no coração, e vae acalmando como por encantamento -as tempestades que lá se revolviam -momentos antes. Este dulcissimo consôlo experimentei-o -eu e experimentam n’o todos os -que, na solidão amena, vão desfadigar-se de -canseiras intimas.</p> - -<p>Na solidão amena disse eu, e quero demorar-me -um momento n’este ponto. A solidão profundamente -triste e silenciosa quer-me parecer -um como remedio heroico para organisações -robustas, e só para ellas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span></p> - -<p>Para as almas que não podem disputar com -estas extremos de coragem, e não saem incolumes -d’uma procella, a solidão medonha dos -desertos seria o mesmo que a morte lenta e -desesperada d’um criminoso recluso em carcere -cellular.</p> - -<p>Subi, pois, a montanha e ia procurando com -a vista as arvores que já me tinham dado sombra -em romagens anteriores, as fontes cujo suspirar -cadenciado eu já tinha escutado, e umas -e outras encontrei, as arvores bracejando as -mesmas frondes, as fontes suspirosas como -d’antes, e concentrei-me então para vêr a minha -alma retratada no espelho interior.</p> - -<p>Mezes antes, á hora em que eu, longe d’alli, -sentia fugir-me a vida e a mocidade, e lançava -um como olhar de despedida ás arvores que -sacudiam as ultimas folhas, a essa hora, dizia, -murmuravam as fontes do Bom Jesus as saudosas -queixas de que me lembrava ainda, tranquillas -como sempre, e diziam os troncos annosos -da montanha ao outomno que se approximava:</p> - -<p>«Amarellece, devasta, anniquila, que não entrarás -aqui...»</p> - -<p>Fui subindo, subindo e remoçando a cada -passo que dava, a cada momento que fugia.</p> - -<p>Demorei-me tres dias na estancia suavissima -do Bom Jesus do Monte, que tanto era preciso -para lograr um remoçamento completo, e, na -tarde do segundo dia, afigurou-se-me vêr, a -distancia, na alameda da Mãe d’Agua, um homem<span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span> -que me inspirara a maxima sympathia -quando pela primeira vez lhe falei em Braga—o -padre Eduardo Valladares.</p> - -<p>O leitor, que não exige que o romancista venha -expôr a face do martyr á luz do sol, para -que todos o conheçam e o apontem, permitte-me -decerto este pseudonymo com que me corre -obrigação de velar a verdadeira personagem do -mundo real.</p> - -<p>Ia o padre Valladares caminhando placidamente, -absorto em seus pensamentos, quando -commetti a indiscreção de lhe bater no hombro. -O padre voltou-se de golpe e extendeu-me -os braços alegremente, posto que eu conhecesse -que a minha approximação havia quebrado -uma serie de pensamentos dolorosos...</p> - -<p>Fomos juntos conversando pela alameda acima, -até que veiu de geito o dizer-me elle:</p> - -<p>—Por que não ha de escrever do Bom Jesus -do Monte? Estas arvores sabem tantos segredos, -que, se as interrogar, tirará assumpto que farte -para muitos livros verdadeiros. Já li o que -escreveu do Bussaco<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1"></a><a href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a> e casos tristes, como -aquelle, não ha em toda esta montanha um -unico torrão que os ignore...</p> - -<p>Ia-se alterando a pouco e pouco o semblante -do padre, e a sua figura, respeitavel e distincta, -parecia contrahir-se como se um espinho agudissimo -lhe estivesse atravessando o coração.</p> -<p><span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span></p> -<p>Demorou em mim o seu olhar por um momento, -e rompeu n’esta apostrophe:</p> - -<p>—Se não lamenta ter de perder algum tempo -debruçado sobre o abysmo do passado, confie -á sua memoria os apontamentos que lhe -vou dar.</p> - -<p>Até aqui o padre Valladares. Agora duas palavras -mais:</p> - -<p>O leitor que gostar do romance trabalhosamente -architectado, feche o livro e não leia. -Aqui não se referem casos tenebrosos, nem se -borda a teia, de si mesma singella, com debuxos -artisticos. Opulencia, se ha n’este romance, é -toda da natureza. O proscenio, o estrado scenico -onde as personagens se nos devem mostrar, -na maxima parte das vezes outro não ha de ser -senão o saudosissimo retiro da Mãe d’Agua assombreado -de carvalheiras seculares, cujo sussurro -se casa saudosamente com o murmurar -da agua que desliza.</p> - -<p>Não se reclinam pois os actores em suaves -frouxeis; ottomanas não as ha ahi, como todos -sabem. Contentem-se com dois canapés rusticos, -dois bancos de pedra, que guarnecem a -mesa, de pedra tambem.</p> - -<p>Alli, na amenidade dulcissima d’um arvoredo -frondente, á beira d’agua, a coberto do sol, haveis -de encontrar as personagens scismando -embevecidas nos idyllios ora tristes ora radiosos -do coração e do amor.</p> - -<p>D’aqui o titulo do romance.</p> - -<p class="smaller">Porto, 1870.</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span></p> - -<h2>Prologo da 2.ª edição</h2> - -<p>Foi este o meu primeiro romance. É pois um -fructo verde, uma tentativa, um ensaio, e mais -nada.</p> - -<p>Mas quero-lhe como a uma doce recordação -do passado, que conservasse um tenue aroma -de <i>sachet</i> antigo.</p> - -<p>Havia n’elle alguma esperança, alguma promessa -de futuro? Esse futuro que eu esperava, -cheio de fé, e que já hoje é tambem passado, -pode ter produzido cousa melhor, mas eu com -certeza a estimo menos do que este romance -quasi infantil.</p> - -<p>Com que saudade o reli eu agora, sem poder -reprimir um affectuoso sorriso de desdem!</p> - -<p>É que eu, como todos os novos, presumia-me -velho quando era moço.</p> - -<p>Parecia-me que vinha de longe, cansado de -viver, muito instruido na sciencia do mundo.</p> - -<p>E, comtudo, iniciava apenas a minha jornada -de escriptor, com a cabeça doudejante de illusões -e de sonhos.</p> - -<p>Depois... trabalhei e soffri.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span></p> - -<p>Mas a felicidade que me trasbordava do coração -quando escrevi este romancesinho, nunca -mais voltou.</p> - -<p>É que a mocidade não volta.</p> - -<p class="smaller">Lisboa—1903.</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span></p> - -<h2>I</h2> - -<p>Sebastião Valladares tinha carta de bacharel -em leis pela Universidade de Coimbra e abrira -banca no Porto ao tempo de contrahir casamento -com uma senhora bracharense. E certo é -que os créditos juridicos de Sebastião Valladares -estrondearam em Coimbra durante os cinco -annos do seu curso de leis.</p> - -<p>Manda, porém, a verdade dizer que a nomeada -do talentoso advogado não encontrou -entre os demandistas portuenses o écho que -remurmurava ainda nos salgueiraes do Mondego. -A levada dos clientes, sempre tumultuosa, -não affluira á banca do moço bacharel.</p> - -<p>João Nicolau de Brito, proprietario em Braga, -conheceu que á mediania suada do genro pesava -a educação do unico filho que tinha, e -chamou á sua companhia o neto, de dezeseis -annos d’edade.</p> - -<p>—Parece que já não estamos tão sós! dizia -João Nicolau de Brito a sua mulher D. Maria -d’Assumpção, revendo-se jubiloso no rapazinho -de dezeseis annos.</p> - -<p>—Pois que! respondia D. Maria d’Assumpção. -É sempre consoladora a companhia d’uma -pessoa da nossa familia, ainda que seja uma -creança.</p> - -<p>—Creança! atalhava o esposo. Já não é tão -creança como isso. Olha que tem dezeseis annos!</p> - -<p>—O que é preciso, porém, é tratar de alliviar<span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span> -ao rapaz as saudades dos paes. Ou elle de si é -triste ou se resente da ausencia.</p> - -<p>—Tens razão, accrescentava João Nicolau.</p> - -<p>—Isso tenho. Já me lembrou combinarmos -com as Machados um passeio ao Bom Jesus para -o distrahirmos.</p> - -<p>—Lembras bem.</p> - -<p>—Se lembro! E ellas que hão de gostar. O -Eduardo precisa realmente d’uma distracção -qualquer. Esta rua do Carvalhal é só e triste. O -rapaz passa as tardes á janella por não querer -sahir. Tambem tem razão. Não conhece ninguem!</p> - -<p>—É isso. Não conhece ninguem—concordou -João Nicolau, muito reflexivo.</p> - -<p>E accrescentou passados momentos:</p> - -<p>—Olha cá! Dá-me da secretária a carta que -o pequeno nos trouxe. Ha n’essa carta do Sebastião -um periodo que me inquieta. É aquelle -em que nos diz que o Eduardo lhe sahira com -sua tendencia á poesia!...</p> - -<p>—Ora!—proferiu D. Maria d’Assumpção, -abrindo a secretária e entregando a carta ao -marido.</p> - -<p>João Nicolau de Brito montou os oculos, endireitou-se -na cadeira e começou a lêr em voz -alta:</p> - -<p>«... O Eduardo ahi vae; penso que lhes não -será rebelde, porque é humilde de si. Amolda-se -ás vontades de quem o dirige e parece attentar -gravemente no que lhe dizem. Ensinei-lhe -tudo o que sabia e podia. Creio que com mais -um anno d’estudos preparatorios estará habilitado -para entrar n’um curso superior. O destino -de meu filho já me não pertence, porém. -Pesa me todavia que me sahisse poeta aos -dezeseis annos e como por magia! Conheci -em Coimbra um rapaz de muitissimos talentos -e de seu natural poeta, que por se dar -do coração á leitura d’amenidades e aborrecer<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span> -de morte os alfarrabios da sciencia, teve que -luctar com a vontade da familia, que o obrigava -a estudar, e com a sua natureza, que o fazia detestar -os compendios. Como, porém, não pudesse -renunciar á espontanea inclinação, e -como não tinha bens de fortuna, succumbiu a -uma gravissima affecção moral, que o levou á -sepultura, com grande magua de todos os que -sabiam aquilatar-lhe a alma e a intelligencia. -Desvaneçamos, porém, estas suspeitas; não -quero que me chamem visionario. Ahi vae, pois, -o pequeno...»</p> - -<p>João Nicolau de Brito abanou a cabeça com -um gesto solemne e descahiu a scismar.</p> - -<p>Atalhou-o, porém, a esposa, batendo lhe no -hombro e dizendo ao mesmo tempo:</p> - -<p>—Deixa-te de visões! Tratemos de distrahir -o rapaz. Iremos domingo ao Senhor do Monte.</p> - -<p>—Olha! disse de subito João Nicolau de Brito, -como se houvesse despertado d’um somno -momentaneo. Ha, porém, um inconveniente -n’esse passeio...</p> - -<p>—Qual?</p> - -<p>—A convivencia com as Machados.</p> - -<p>—Ora!</p> - -<p>—Ora que!? Tu parece que não sabes o que -é ser novo! Eu não me refiro á Rosa Machado. -Falava da Maria Luiza, da irmã, que é outra -doida por versos, que ha de conversar de poesia -com o rapaz, e que por fim ha de vir a falar -d’amor como quem se deixa ir ao som d’agua -corrente...</p> - -<p>—Ora ahi está o que eu approvo, atalhou D. -Maria d’Assumpção. Essas práticas lyricas entre -os dois ajustavam-se á occasião e vinham -de geito. Ainda que o lyrismo do espirito descambasse -em lyrismo do coração, ainda que a -poesia se transformasse em amor, que inconvenientes -poderiam vir d’ahi? Eram verduras da -mocidade, que distrahiam o rapaz e que por<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span> -fim de contas haviam de acabar no momento -em que elle se aborrecesse.</p> - -<p>—Tambem me parece... Que lá padre, dê -por onde der, quero eu que elle seja. Sahiu dado -a poesias? Melhor! Será um prégador de fama.</p> - -<p>—Ha de ser tudo o que tu quizeres... Mas -supponhamos até que o Eduardo começava a -arrastar a aza á Maria Luiza. Travava-se o namorico, -carta d’aqui, versos d’alli, uma semana -d’ataque, outra semana d’aborrecimento, e por -fim o rapaz curado da sua nostalgia em quinze -dias.</p> - -<p>—Mas não falaste ahi em aborrecimento? -ponderou gravemente João Nicolau de Brito.</p> - -<p>—Falei, respondeu com convicção a sogra de -Sebastião Valladares. Mas refiro-me ao aborrecimento -que de si mesmos trarão uns amores -pueris. Depois, para curar esse aborrecimento, -principia-se novo galanteio a nova estrella, -e ahi começa a chrysalida a tornar-se -borboleta e a perseguir as flores.</p> - -<p>—Olha que as flores teem espinhos... atalhou -João Nicolau de Brito meneando a cabeça.</p> - -<p>—Cala-te! replicou D. Maria. Os espinhos das -mulheres são... os alfinetes. Em nome do sexo, -agradeço-te a amabilidade.</p> - -<p>—Não tens que agradecer, disse João Nicolau -rindo e batendo as palmas de contente.—Sim, -senhora! Vossa excellencia está hoje espirituosa! -Receba os meus parabens. Iremos ao -Bom Jesus quando quizer e mande convidar as -familias do nosso conhecimento para nos fazerem -companhia esta noite. Solemnizemos a recepção -do rapazinho. Se queres que te diga—accrescentou -mudando de tratamento—tive -hontem pena d’elle. Eram dez horas e já tinha -somno. Tambem não sei o que fazes do piano! -Já és avó, é verdade, mas a velhice ainda não -te immobilisou os dedos. Pois venham lá as Machados, -e haja ao menos musica uma noite...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span></p> - -<p>—Então queres?</p> - -<p>—Quero. Manda convidar. Que lá padre ha de -elle ser. Ainda lhe hei de ouvir um sermão...</p> - -<p>—Se não fôr seccante, disse D. Maria d’Assumpção -sahindo da sala.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>II</h2> - -<p>Thomaz Ignacio Machado tinha sido um homem -dinheiroso. Abriu, em Lisboa, os salões -do seu palacete á flor da aristocracia olyssiponense, -deu bailes esplendorosos, pompeou em -cavallos e trens, teve aventuras com dansarinas -de S. Carlos, jogou o <i>monte</i> com a sobranceria -d’um homem que não joga para ganhar -e... achou-se arruinado no dia em que pensou -no futuro que o estava esperando.</p> - -<p>O Creso, apeado do seu pedestal de ouro, emboscou-se -nas moitas verdejantes d’uma quinta -proxima a Braga, e ahi veiu descansar das saturnaes -esplendidas de Lisboa com o intuito de -bemfeitorisar as propriedades obrigadas ao dote -da mulher e de velar por tres innocentes meninas, -suas filhas, salvas da tormenta na arca sagrada -do coração materno.</p> - -<p>Chamava-se Emilia a mais velha, que morreu -aos vinte e dois annos tisica, se não victima -d’uns amores desventurosos, que não fazem -ao nosso proposito.</p> - -<p>Rosa e Maria Luiza viviam ainda, como o -leitor inferiu do capitulo anterior.</p> - -<p>A custo de muitas economias pôde Thomaz -Machado rehabilitar a casa consideravelmente -esbanjada e obter os rendimentos necessarios, -não para a vida faustosa de Lisboa, mas para -uma decencia estimavel então, e invejavel ainda -hoje.</p> - -<p>Veiu, pois, Thomaz Machado residir em Braga,<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span> -e, após dois annos de apartamento na quinta -do Prado, alugou casa na rua de Santo André.</p> - -<p>A mallograda Emilia morrera na quinta do Prado, -ao cabo d’um anno de tão melancholico exilio.</p> - -<p>Rosa, no tempo a que somos obrigados a remontar, -tinha vinte e um annos; Maria Luiza, -dezenove.</p> - -<p>Rosa não era uma belleza. Tinha, porém, um -trato tão suave e delicado, um quê de meiguice -e de ternura, que diffundia encanto. Maria -Luiza, ao contrário da irmã, era um demonio -bonito. Conversava com os homens mais do que -com as senhoras, valsava com delirio, tinha a -ironia prompta e o epigramma certeiro, tocava -piano e recitava versos, cantava <i>seguidillas</i> e -desvelava um vaso d’alecrim do Norte que tinha -ao canto da janella. Era trigueira e possuia -uns olhos negros que nadavam em luz. -Parecia que não andava; voava. Ouvia-se um -ruflar de azas; olhava-se... era ella. Não houve -ainda mulher mais flexivel, nem mais elegante. -Era quasi uma columna de fumo, que ondulava -no espaço e que desapparecia com um sôpro. -Lembra-me comparal-a áquella creatura aerea, -vaporosa, que nós conhecemos d’um livro -d’Octavio Feuillet. Maria Luiza tinha seus laivos -da <i>condessinha</i> do escriptor francez. Era -porém mais intelligente e menos desenvôlta. -Ainda assim com que <i>salero</i>, puramente andaluz, -não batia ella as mãos, correndo do seu -alecrim para o seu piano e entoando a meia -voz um fragmento de <i>seguidilla</i>:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">El amor que te tengo</div> -<div class="verse indent3">parece sombra;</div> -<div class="verse">quanto mas apartado</div> -<div class="verse indent3">mas cuerpo toma.</div> -<div class="verse">La ausencia es aire</div> -<div class="verse">que apaga el fuego chico</div> -<div class="verse">y enciende el grande.</div> -</div> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span></p> - -<p>Depois, se a irmã se sentava ao piano e voejavam -ao longo da sala notas de suavissima -tristeza, como um bando de rôlas viuvas que -se andassem carpindo, Maria Luiza, para se furtar -á impressão dolorosa da musica, batia o -pésinho no chão e começava, saltando, a cantar.</p> - -<p>Havia só um nome, só uma palavra, que a -fazia entristecer subitamente. Era o nome de -sua irmã Emilia. Tinham sido duas irmãs extremosas, -que viviam uma para a outra.</p> - -<p>Ás vezes, n’um momento de dolorosissima -saudade, dizia a inquieta donzellinha:</p> - -<p>—Quem sabe se virei a morrer da morte de -minha irmã? Talvez. Eramos tão amigas!...</p> - -<p>Estavam na quinta do Prado, como já se -disse, quando Emilia morrera. Os tisicos enganam -até ao ultimo momento; ninguem esperava -que ella passasse n’aquelle dia. Rosa tocava, -na sala proxima, umas <i>variações</i> da <i>Norma</i>; -Maria Luiza falava com a doente a respeito -das andorinhas e do sol, das flores e das borboletas, -das noites de luar e dos rouxinoes. De repente -a irmã interrompera-a, para segredar-lhe:</p> - -<p>—Ouves? É a musica do noivado. O meu -noivo espera-me. Has de me dar um ramo de -lirios para levar no seio. Eu gosto tanto dos -lirios! Os rouxinoes são meus amigos. Esperava -este momento com anciedade; <i>elle</i> já me espera -ha dois annos e devia ter saudades de mim. -Morreu tão novo! Ouves, minha irmã? A musica -continua. São as andorinhas, que chilriam... -Dá-me um beijo; as borboletas são irmãs -das flores e tambem se beijam.</p> - -<p>Ouviu-se o frémito d’um beijo e o som agudo -d’um grito. Era a voz de Maria Luiza. Sua -irmã tinha morrido a beijal-a, como se quizesse -transmittir-lhe a vida n’um beijo.</p> - -<p>Ao grito de Maria Luiza acudiu o pae, a mãe -e a irmã. Já chegavam tarde, porém.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span></p> - -<p>Desde aquelle dia, Maria Luiza entristecia-se -quando lhe falavam d’essa hora amargurada. -Tornou-se amiga de todos os que eram -amigos de sua irmã e ia todos os domingos ao -cemiterio d’aldeia poisar um ramo de flores -sobre o tumulo fechado havia pouco tempo. -Quando vieram habitar em Braga, Maria Luiza -soffreu muito com a falta da visita ao cemiterio, -ou com a <i>ausencia de sua irmã</i>, como ella dizia. -Aos domingos, todavia, era quando mais -cantava o</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">El amor que te tengo</div> -<div class="verse indent3">parece sombra...</div> -</div> -</div> - -<p class="noindent">e dizia a Rosa que se via obrigada a cantar -para reprimir as lagrimas no seio.</p> - -<p>Thomaz Ignacio Machado morreu em Braga, -dezoito mezes depois de ter sahido da quinta -do Prado. Chorou-o a esposa, choraram-n’o as -filhas estremecidas e choraram-n’o todos os -que viam n’elle um homem remido das faltas -do passado por um longo soffrimento.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>III</h2> - -<p>João Nicolau de Brito e sua mulher receberam, -como tinham combinado. Concorreram -á <i>soirée</i> as familias de mais intimo trato n’aquella -casa. Abriu-se o piano, n’essa noite, -e desterrou-se o <i>loto</i>, que era já então o maximo -divertimento dos serões bracharenses e -continua a ser para eterna semsaboria das noites -de Braga.</p> - -<p>A dansa, a alegria, a musica tomaram a vez<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span> -ao jôgo. Eduardo era a machina motora de tão -notaveis reviramentos na casa de dois velhos -amolestados de rheumatismo e outros gravames -da velhice. Abriu-se a <i>soirée</i> com uma quadrilha. -Eduardo fez o milagre de tentar a avó e -conseguiu que a pobre senhora figurasse no—<i>en -avant</i>—a par de tres raparigas, incluindo as -irmãs Machados. João Nicolau de Brito jubilou -com a delicadeza do neto e apresentou-o, finda -a dansa, como poeta, ás pessoas que estavam -na sala.</p> - -<p>O amor proprio tem d’estes paradoxos. João -Nicolau desestimou a qualidade de poeta na -pessoa do neto; agora, lisonjeado da muita delicadeza -d’elle, folga de que o rapaz se extreme -dos outros com merecimentos distinctos.</p> - -<p>As senhoras festejaram a denuncia de um talento -precoce, que não tinham avaliado ainda, -do filho do bacharel.</p> - -<p>Correu n’esse momento ao longo da sala um -sussurro de vozes: era o cochichar de meia duzia -de raparigas tentadiças com poetas, sob o commando -de Maria Luiza, idealista por excellencia.</p> - -<p>—É dever teu, Eduardo—disse de golpe D. -Maria d’Assumpção—comprovares a opinião -antecipada, que de ti formamos. Recita-nos alguma -coisa.</p> - -<p>—De boa vontade, minha senhora—respondeu -elle—se não receasse a indelicadeza d’incommodar -v. ex.ᵃˢ e não me conhecesse com o -vezo de ser horrivelmente desmemoriado.</p> - -<p>—Vá o que lembrar—accrescentou João Nicolau.</p> - -<p>—Mas coisa da tua lavra—tornou D. Maria -d’Assumpção.</p> - -<p>—Folgamos d’ouvil-o—disse Maria Luiza.</p> - -<p>Eduardo percebeu que seria indelicadeza imperdoavel -o desculpar-se mais.</p> - -<p>—Ahi vão, disse elle, seis quadras que não -valem nada. Intitulam-se:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span></p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<p class="center">Frémitos</p> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Quando tu vaes á janella,</div> -<div class="verse">Á noite, e pensas em mim,</div> -<div class="verse">Ha uma voz que diz—Ella!</div> -<div class="verse">—São os lirios do jardim...</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Se d’um livro sobre a folha</div> -<div class="verse">Te pende a cabeça e o véo,</div> -<div class="verse">Ha uma voz que diz:—Olha!</div> -<div class="verse">—É o mar chamando o céo...</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Quando esse teu olhar mede</div> -<div class="verse">Todo o horizonte do sul,</div> -<div class="verse">Ha uma voz que diz:—Vêde!</div> -<div class="verse">—Talvez seja a voz do azul...</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Se, ao fim da tarde, á janella,</div> -<div class="verse">Olhas, nem sabes o que,</div> -<div class="verse">Ha uma voz que diz: Bella!</div> -<div class="verse">—É a voz do que se não vê...</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Mysterios que eu não abranjo!</div> -<div class="verse">No jardim, ao pôr do sol,</div> -<div class="verse">Ha uma voz que diz:—Anjo!</div> -<div class="verse">—A voz d’algum rouxinol...</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Quando ha luar e te chamo</div> -<div class="verse">Entre as moitas d’alecrim,</div> -<div class="verse">Se ha uma voz que diz:—Amo!</div> -<div class="verse">Penso que a voz sae de mim...</div> -</div> -</div> -</div> - -<p>Estrondearam na sala freneticos applausos.</p> - -<p>O moço poeta, de dezeseis annos, agradecia -a ovação espontanea e unanime com mostras -de modestia e ingenuidade estimaveis.</p> - -<p>Merecidos eram sem dúvida taes applausos.</p> - -<p>Nos versos do filho do bacharel Valladares -havia poesia, se poesia se pode chamar este -alar-se da alma para um mundo phantastico<span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span> -onde se ama já uma mulher que ainda se não -viu.</p> - -<p>Os que entendem que a poesia é uma coisa -que elles mesmos não entendem, o nebular a -phrase de modo a encobrir a carencia d’uma -idéa aproveitavel, esses, apostolos do germanismo -transmontado, rir-se-hão da futilidade -d’um poetar singello cadenciado na lyra incorrecta -dos dezeseis annos.</p> - -<p>Maria Luiza Machado, como enthusiasta por -versos, pediu ao poeta a cópia dos seus. Isto -bastou a travar-se conversação.</p> - -<p>—Bem me parecia—disse ella—que o seu -coração devia, para cantar mavioso aos dezeseis -annos, sentir um raio de sol que o inspirasse.</p> - -<p>—Peço desculpa para redarguir a v. ex.ᵃ Os -meus versos são talvez uma prophecia. A alma, -ainda não adestrada para luctar com as procellas -do mundo real, cria para si uma região -phantastica.</p> - -<p>—Seja como fôr, tornou ella. Desejo possuir -os seus versos. Quando m’os dá?</p> - -<p>—Amanhã.</p> - -<p>Pactuou-se, no fim da <i>soirée</i>, o primeiro passeio -ao Bom Jesus, no domingo proximo.</p> - -<p>Recordações d’essa noite ficaram muitas e -immarcessiveis na alma de Eduardo Valladares. -Depois da ultima quadrilha, quando os convidados -retiraram e a sala ficou deserta, é que -foi o escurecer-se subitamente aquella alma, -que mergulharia em profundas trevas, se a imagem -esplendida de Maria Luiza lhe não rareasse, -a instantes, as sombras interiores. Um olhar -e uma phrase d’ella fôram as ultimas impressões -d’essa noite.</p> - -<p>—Seja como fôr. Desejo possuir os seus versos, -disse-lhe ella.</p> - -<p>E abriram-se-lhe os labios n’um sorriso de -fada.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span></p> - -<p>—Mas, dizia de si para si o filho do bacharel -Valladares, tenho apenas dezeseis annos e deixo-me -assim embalar nos braços de uma esperança -dulcissima que me pode fugir amanhã!</p> - -<p>Durante os dois dias que decorreram desde -essa noite até o domingo seguinte, annuviou-se -o semblante de Eduardo a ponto de João Nicolau -fazer reparo na extranha tristeza do rapaz. -Quedou-se o velho a scismar no visivel desgôsto -do neto e não lhe rasteou origem. Isto -inquietara-o sobremaneira. Revelou á esposa as -suspeitas e dúvidas que o embaraçavam; conchavaram-se -os dois no proposito de dar finalmente -com a chave mysteriosa do enigma.</p> - -<p>Passadas algumas horas depois d’este secreto -colloquio dos dois velhos, D. Maria da Assumpção -foi dar com o neto emboscado na ramaria -d’uma olaia que sombreava o angulo do quintal. -Estava o moço d’olhos pregados no horizonte -recortado pelas arvores verdejantes dos quintaes -da rua de Santo André.</p> - -<p>D. Maria d’Assumpção seguiu por alguns momentos -a direcção do olhar do neto e o mesmo -foi despeitorar-lhe os mais intimos segredos do -coração. Subiu as escadas precipitadamente e -chamou o marido a uma das janellas sobranceiras -ao quintal.</p> - -<p>—Olha, disse-lhe ella apontando para o neto. -O coração—o coração dos dezeseis annos sobretudo—ha -de ter sempre d’estas contradicções. -O excesso da felicidade acarreta d’estas -maguas. O que elle deseja é o momento de tornar -a vêl-a... São chuveiros d’abril, que não -inspiram cuidado.</p> - -<p>—Olha que a mocidade d’agora começa muito -cedo a tresnoitar-se! O amor dos dezeseis annos! -Lêsse-se este caso n’um livro a ver se alguem -o acreditava! No nosso tempo não se vivia -tanto em tão poucos annos.</p> - -<p>—Ahi estás tu a denunciar a edade que tens!<span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span> -É sestro dos velhos andar a reprehender os -novos, e o que elles pensam e fazem. Não se -vivia tanto em tão poucos annos! disseste tu. -Já te não lembras da historia d’uns amores em -que falas quando vem de geito citar façanhas -da mocidade...</p> - -<p>—É uma historia que tem graça. Da janella -do meu quarto, no collegio onde me eduquei, -andava eu a espreitar nas horas de recreio -para a janella d’um terceiro andar onde morava -uma costureirinha d’olhos negros...</p> - -<p>—Uma costureirinha! O teu neto revela mais -fidalgos e poeticos instinctos. Ama romanescamente. -Tu andavas mais terra a terra. Não tens -que vêr. Iremos domingo ao Bom Jesus.</p> - -<p>—Iremos se quizeres. Não sei que systema -teem ás vezes as mulheres!</p> - -<p>—O meu systema é o do jardineiro experimentado. -É preciso cuidar da flor, dar-lhe sol, -para que desabrochem depois todas as galas -que a Providencia lhe der.</p> - -<p>—Anda lá, anda lá, quero ver se a theologia -lhe ha de dar tempo para andar com a cabeça -á roda!</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>IV</h2> - -<p>Batiam sete horas da manhã nas torres do -Bom Jesus do Monte, quando João Nicolau de -Brito, sua mulher, Eduardo e as duas meninas -Machados subiam em alegre caravana o escadorio -do santuario. Pelo que diz respeito aos -dois velhos, em cujo grupo faltava a viuva Machado, -iam cansados da subida; não assim os -companheiros, que saltavam alegremente d’escada -em escada, como tres avesinhas que voltassem -no mesmo dia á liberdade do ar, depois<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span> -d’uma reclusão asperrima, e fôssem chilreando -de fronde em fronde pela encosta acima.</p> - -<p>Affluiram, n’esse dia, ao Bom Jesus muitas familias -de Braga, de sorte que se augmentara -consideravelmente a ruidosa caravana.</p> - -<p>Demoraram-se na hospedaria João Nicolau, -sua mulher e os outros velhos, seus conhecidos, -trôpegos de rheumatismo; o resto da caravana -errava pela montanha ao sabor de cada um.</p> - -<p>Eduardo Valladares sentiu por momentos -necessidade de conversar com a sua alma em -jubiloso dialogo. Subiu ao largo dos Evangelistas, -e embrenhou-se na matta sombria da Mãe -d’Agua.</p> - -<p>Estava elle escrevendo a lapis na carteira, -quando casualmente descobriu, através da folhagem, -um vulto indistincto.</p> - -<p>Encobriu-se com o muro posterior á mina e -ficou d’atalaia, a coberto da parede. Passados -alguns momentos reconheceu ser Maria Luiza -e sentiu bater-lhe o coração vertiginosamente.</p> - -<p>Vinha ella, pensativa, subindo a alameda. -Depois sentou-se n’um banco de pedra e descahiu -a scismar, encostada á mesa, que tambem -era de pedra<a name="FNanchor_2" id="FNanchor_2"></a><a href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a>.</p> - -<p>Eduardo Valladares espreitava-a silencioso. -Ora sentia estuar-lhe o sangue nas arterias escandescentes -ora esfriar-se com esvahimentos -de moribundo anciado. Maria Luiza quedara-se -a scismar com os olhos fitos no vago e o rosto -<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span>descansado na mão. É um mysterio que se não -comprehende, um enigma que se não decifra—o -que seja este vago d’uns olhos contemplativos, -o ponto indistincto e nebuloso onde se fita -o olhar, a não ser que esse ponto seja a lente -que reflicta o olhar de si mesmo namorado. -Pois em que mais se pode extasiar uma alma -venturosa a não ser na intima contemplação -da primavera interior? Dizem pois, e dizem -bem, os que entendem do coração, que os olhos -são o espelho da alma e o olhar a muda expressão -do sentimento que a domina. Tudo isto -nos vae levando insensivelmente a uma conclusão -provavel. Pois se o olhar é o reflexo da -alma, se a alma está absorta em júbilo, e se a -vista se concentra n’um ponto unico, quem poderá -duvidar de que esse ponto seja a lente -mysteriosa que está espelhando o fogo do nosso -olhar, o fogo da nossa alma? Ora se não é isto -o vago d’uns olhos contemplativos, não sei eu -bem o que seja o vago. O que sei, porém, é que -todas as almas placidamente inebriadas teem -d’estas horas de arroubo em que os olhos se -embellezam no azul d’um horizonte desconhecido -aos outros.</p> - -<p>Estava, pois, Maria Luiza extasiada n’estes -ineffaveis enlêvos, quando sentira cahir-lhe aos -pés um papel, que mão invizivel impellira. Despertou -de subito d’aquelle dulcissimo <i>far niente</i>, -que é o sonhar accordado da alma. Pegou no -papel e desdobrou-o precipitadamente; desdobrou-o -e leu-o.</p> - -<p>Dizia assim:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">«Disse a rosa á borboleta:</div> -<div class="verse">—«Abre uma aza, inquieta,</div> -<div class="verse">Faze-me d’ella um docel...»—</div> -<div class="verse">Volveu ella:—«Flor dos valles,</div> -<div class="verse">Dá-me, em paga, do teu calix</div> -<div class="verse">A seiva, o licor, o mel...»—</div><span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span> -<div class="verse">Assim nós tambem. N’um dia</div> -<div class="verse">Sob a aza da poesia</div> -<div class="verse">Dormiste e sonhaste, ó flor.</div> -<div class="verse">Eu, namorado e poeta,</div> -<div class="verse">Hei de ser a borboleta,</div> -<div class="verse">Tu a rosa; o mel, o amor...</div> -</div> -</div> - -<p>Voltou-se surprehendida Maria Luiza como -a procurar nas sombras do arvoredo o apaixonado -fauno que furtivamente viera requestar -com incendidos madrigaes a nayade formosa; -o mesmo foi encarar no moço enamorado, que -procurava lêr nos olhos d’ella a impressão dos -versos, e que sentira esvahidas as fôrças quando -tentou fugir d’aquella suavissima prisão que -alli o tinha como galvanisado.</p> - -<p>—Aqui? disse-lhe ella. Pensei que tinha -acompanhado o resto da caravana.</p> - -<p>—Idealista, como v. ex.ᵃ—volveu elle convulsamente -e como querendo dominar uma impressão -violenta—procuro ás vezes a solidão. -Não temos que extranhar o encontrarmo-nos -aqui.</p> - -<p>—De mais extranheza será, porém, dizer-lhe -eu que se occultam n’estas sombras da Mãe -d’Agua faunos poetas, que sabem escrever bonitos -versos ao sabor de madrigaes. Aqui tenho -eu uns que me parecem maviosos; ou me -vieram da mão d’um fauno, que, por engano, -me tomara á conta de nayade, ou cahiram por -acaso da aza d’uma andorinha, que era correio -d’amantes.</p> - -<p>Eduardo Valladares empallidecia extremamente.</p> - -<p>—E comtudo esta lettra não me é extranha, -continuou Maria Luiza. Notavel coincidencia! -Parece-se muito com a sua, com a dos versos -que teve a gentileza de me enviar ante-hontem. -Ora veja...</p> - -<p>N’este momento ouviu-se ao fundo da alameda<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span> -uma voz de mulher. Quedaram-se os dois -á escuta. Passados instantes, porém, descobriu-se -através das arvores o vulto já distincto -da irmã de Maria Luiza.</p> - -<p>Chamava para o almôço, que esperava por -elles na mesa da hospedaria.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>V</h2> - -<p>Tres dias depois do primeiro passeio ao Bom -Jesus do Monte escrevia Eduardo Valladares a -sua mãe:</p> - -<p>«Escuso de lhe dizer que me resenti da falta -do carinho materno, da mudança de terra e de -casa, da differença de costumes, de tudo isto -finalmente que a gente conhece desde os primeiros -annos da vida. Devo dizer-lhe, porém, -minha mãe, que sahi da minha familia para encontrar -outra familia que tambem é minha, e -onde, para ser a felicidade completa, apenas me -falta o livro sagrado do seu coração que eu sabia -delettrear e comprehender.</p> - -<p>«Da cidade—e não sei se para isto contribuirá -o ter nascido aqui minha mãe—da cidade, -que é em verdade pittoresca, dir-lhe-hei que -não desgosto e que se me afigura melhor do que -o Porto para se respirar ar saudavel e morrer -a gente com uma gordura fradesca.</p> - -<p>«A falta de movimento que se nota em Braga, -procedente da exiguidade da população, é -uma garantia de commodidade, longe de ser um -defeito. Pode a gente dormir á vontade, até altas -horas do dia, que não corre perigo d’accordar -sobresaltada pelo estrepito das ruas. Só os -sinos... Ai! os sinos de Braga, minha mãe, badalejam<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span> -que é de qualquer pessoa ensurdecer -dentro de quarenta e oito horas. Isso sim, que -é horroroso!</p> - -<p>«A esta praga dos sinos só acho comparavel -em semsaboria a extensão das noites de Braga.</p> - -<p>«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer -de que não, estava no Porto. Quiz a avó convidar -algumas familias das suas relações, cuido -que para festejar a minha chegada, e passou-se -o serão alegremente, mais alegremente do que -era de esperar.</p> - -<p>«Das senhoras que concorreram, apenas merecem -especial menção as meninas Machados, -que são muito estimaveis e sympathicas. Em -companhia d’estas senhoras passamos o dia -de domingo no Bom Jesus do Monte, a mais formosa -paizagem que tenho visto em vida minha. -Aquillo sim, que é bonito e suave! N’aquellas -sombras deliciosas sente a gente abrir-se -o coração para sentimentos novos. Minha mãe, -que decerto alli viveu alguns dos dias da sua -mocidade, deve comprehender que impressões -dulcissimas recebi. Quando desci da montanha, -vinha saudoso, preciso confessal-o. Saudoso de -quê? Da montanha, que posso visitar quando -me aprouver? Não sei Saudoso talvez d’umas -horas agradaveis que lá vivi.</p> - -<p>«E depois no Bom Jesus do Monte nem os homens -andam embuçados em capotes, como na -cidade, nem as senhoras espreitam os transeuntes -a coberto das rotulas das janellas. Alli ha -completa liberdade, principiando pelas aves -que se desenfadam de tronco em tronco sem -que ninguem as persiga.»</p> - -<p>A carta do filho do bacharel Valladares merece-nos -reparos.</p> - -<p>Pelo que diz respeito ao seu estado moral, -cumpre fazer notar estas phrases involuntariamente -significativas:</p> - -<p>«... para ser a felicidade completa, apenas<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span> -me falta o livro santo do seu coração que eu -sabia delettrear e comprehender.»</p> - -<p>«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer -de que não estava no Porto.»</p> - -<p>«Das senhoras que concorreram, merecem especial -menção as meninas Machados, que são -muito estimaveis e sympathicas.»</p> - -<p>Referindo-se ao Bom Jesus do Monte dissera -Eduardo Valladares, como o leitor viu, que -«n’aquellas sombras deliciosas sente a gente -abrir-se o coração para sentimentos novos.»</p> - -<p>Quereria elle dizer que a sua alma se estava -enflorando para exuberantes primaveras e auroras -ainda não conhecidas?</p> - -<p>O futuro nol-o dirá.</p> - -<p>No attinente á apreciação de Braga, corre-nos -obrigação de lembrar ao leitor que o filho do -bacharel Valladares escrevia n’um tempo em -que Braga conservava ainda os biocos d’uma -verdadeira provinciana.</p> - -<p>Vão hoje, em pleno anno de 1870, visitar a -capital do Minho e dir-me-hão se não enlevaram -os olhos nas graças das damas bracharenses -que passeiam a sua elegancia por entre os alegretes -do campo de Sant’Anna.</p> - -<p>Homens de capote só os ha lá... quando está -frio, o que se me afigura uma prova irrecusavel -do bom senso da população masculina d’aquellas -paragens.</p> - -<p>Diz um adagio «Deus dá o frio conforme a -roupa». Quer-me parecer, porém, que seria muito -mais verdadeiro e sensato dizer se «Deus deu -a roupa por causa do frio.»</p> - -<p>Quanto aos sinos, ainda em 1870, como então, -são egualmente detestaveis os de Braga e os... -do Porto.</p> - -<p>Chateaubriand escreveu algures que o christianismo -conseguiu dar suspiros ao bronze.</p> - -<p>Sem querer desvirtuar a poetica idéa do auctor -do <i>Genio do Christianismo</i>, sou a dizer que<span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span> -me não quer parecer «suspirar», um martelar -continuo de toadas populares nos sinos das cidades. -A musica das ruas invadiu a egreja.</p> - -<p>Suspirar é o do sino da aldeia, que nos viu nascer, -quando vibra sonoro ao pôr do sol, no meio -da solidão.</p> - -<p>Acceito de melhor sombra estas palavras do -mesmo Chateaubriand no <i>René</i>:</p> - -<p>«Tudo se encontra nas encantadas meditações -que em nós desperta o sino natal: religião, -familia, patria, o berço e o tumulo, o passado e -o futuro.»</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>VI</h2> - -<p>Depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do -Monte, Eduardo Valladares só a furto vira Maria -Luiza ao declinar da tarde, durante nove dias.</p> - -<p>Quando o sol inclinava para o occaso, sahia -elle em direcção a Guadelupe. Ao passar na rua -de Santo André, sempre os seus olhos se encontravam -com os de Maria Luiza como por magnetismo. -Seria um acaso? Quem diria a ella, da -primeira vez, que elle ia passar? Amal-o-hia? -Se o amava, se sentia que o ia amar, dizia-lhe -uma voz interior que elle viria? Mas pareceu -fital-o tranquilla, sem revelar um indicio de -commoção... Não o amaria, zombaria de -um sentimento celestialmente puro? Mas nem -que o coração lhe estivesse adivinhando a hora -a que elle viria! Nem um só dia deixaram de -se ver...</p> - -<p>Era a furto, é verdade; que o timido moço -não sabia que impressões conservaria Maria -Luiza do passeio ao Bom Jesus. Erguia o seu -olhar para ella, e desviava-o subitamente...</p> - -<p>Os versos, pensava elle, fôram pouco menos<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span> -d’uma indiscreção. Quem lhe dera motivo para -alimentar uma esperança? Ella, Maria Luiza? -Que lhe dissera que deixasse entrever os primeiros -clarões d’uma aurora? E todavia arriscara-se -elle a escrever:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Eu, namorado e poeta,</div> -<div class="verse">Hei de ser a borboleta,</div> -<div class="verse">Tu a rosa; o mel, o amor...</div> -</div> -</div> - -<p>Estas dúvidas alanceavam-lhe o espirito. Que -devia fazer? Conformar-se com a incerteza, fugir -á luz, áquella luz que o estava attrahindo, -a elle, a mariposa dos dezeseis annos? Mas fugir-lhe -era morrer, que se podia viver longe do -ninho querido, do carinho materno, das recordações -da sua infancia, era porque a tinha visto, -era porque a tinha encontrado...</p> - -<p>E—pensamento cruciante!—quem lhe dizia -que ella era livre, que se não deixava embalar -nas dulcissimas esperanças d’um amor -feliz? Este pensamento infernava-lhe a alma e, -n’esses momentos dolorosamente attribulados, -lembrava-se de sua mãe, e parecia que o invocar -o nome materno valia tanto como sentir -calmarem-se as tempestades interiores.</p> - -<p>N’aquella solidão de Guadelupe era que -Eduardo Valladares gostava de se deixar atormentar -por estas dúvidas queridas. Aquella -agitação tinha alguma coisa de pungente e alguma -coisa de deliciosa... E depois, alongando -o olhar, via extender-se ao sopé de Guadelupe -a rua de Santo André... E para o outro lado, -ao nascente, avultava no horizonte a montanha -do Bom Jesus onde tinha sentido os primeiros enlêvos, -onde um anjo mysterioso, de azas brancas -talvez, lhe segredara docemente uma palavra -de esperança...</p> - -<p>Era lá, onde a coma do arvoredo frondejava -mais espessa, no alto da serra, que Maria Luiza<span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span> -lêra os seus versos, e parecia que a amenidade -melancholica da floresta santa lhe entrava no -coração... Seria aquella montanha o seu Gethesemani? -O futuro era mudo. Na serra campeava -a cruz, phanal salvador dos náufragos -da existencia, e elle tinha ainda na memoria as -doces orações que sua mãe lhe ensinara a balbuciar.</p> - -<p>E as sombras da noite pareciam emergir -d’entre o arvoredo, e serra, e floresta, e cruz -desappareciam envôltas na escuridão.</p> - -<p>Quando Eduardo Valladares descia de Guadelupe, -era sempre noite cerrada; um unico -pensamento o occupava—ver Maria Luiza no -dia seguinte.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>VII</h2> - -<p>Dez dias volvidos disse D. Maria Assumpção, -de manhã, ao neto:</p> - -<p>—Vamos hoje passar a noite a casa das Machados. -É preciso fazeres-te homem. As mulheres -é que vivem encerradas dentro de quatro -paredes. Passas a manhã em casa a ler, e apenas -saes de tarde um boccadinho! Onde vaes tu?</p> - -<p>—Sento-me em Guadelupe e gosto d’aquelle -sitio, respondeu Eduardo procurando ler a impressão -da resposta no olhar da avó.</p> - -<p>—É bonito... mas triste. Precisas de procurar -relações e de afastar de ti uns ares improprios -da tua edade. Domingo, havemos de tornar -ao Bom Jesus. É preciso divertir e passear -emquanto é tempo, rapaz, que o mez de outubro -está ahi á porta e depois, cursando o lyceu, -não tens remedio senão deitar-te aos livros.</p> - -<p>—Estou preparado para isso e cuido que<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span> -hei de saber corresponder á dedicação de meus -avós.</p> - -<p>—Assim deve ser. Põe o teu chapéo e vae sahir, -anda, mysanthropo.</p> - -<p>—Agora... estou tão bem em casa...</p> - -<p>—O que tu quizeres, teimoso! Já te disse que -depois de abertas as aulas hão de ser poucas -as distracções.</p> - -<p>—E não iremos mais ao Bom Jesus? ousou -perguntar Eduardo.</p> - -<p>—Iremos; menos vezes. Eu tambem gosto -d’aquelle passeio, e sinto que me faz bem. Mas -não se cifram no Bom Jesus os sitios bonitos -dos arrabaldes. Has de gostar tambem das margens -do Cávado.</p> - -<p>—Mais que do Bom Jesus?</p> - -<p>—Não sei.</p> - -<p>—Ah! mais que do Bom Jesus acho que não -posso gostar.</p> - -<p>D. Maria d’Assumpção foi ter com o marido -e disse-lhe:</p> - -<p>—Este rapaz é magico, não quer sahir!</p> - -<p>—Deixa-o lá, elle se aborrecerá d’estar em -casa.</p> - -<p>—Não é tanto assim, homem de Deus! É -preciso distrahil-o, aconselhal-o com brandura, -que é filho de nossa filha. Domingo havemos de -tornar ao Bom Jesus.</p> - -<p>—Mas que empenho tens tu em andar a passear -o rapaz?</p> - -<p>—Quero amenizar-lhe esta passagem repentina -da vida em que foi creado para outra vida -completamente nova. Depois, abrindo-se as -aulas, é que eu não quero que elle passeie. Já -lhe disse que, em chegando outubro, era preciso -estudar como um homem.</p> - -<p>—E elle que respondeu?</p> - -<p>—Deu mostras de querer desempenhar cabalmente. -Mas não comeces tu depois a opprimil-o -demasiadamente com as tuas asperezas.<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span> -Olha que o espirito, cansado do estudo, precisa -d’um refrigerio.</p> - -<p>—Livremol-o de relações estreitas com estudantes, -que são, por via de regra, rapazes que -vivem em liberdade pouco digna.</p> - -<p>—Eis ahi por que me parecia que um namorito...</p> - -<p>—Vocês, as mulheres, ligam-se tamanha importancia, -que julgam que o render-vos preito -é a suprema salvação de qualquer. O rapazinho -se começar a desmandar-se torna pelo mesmo -caminho por onde veiu. Tu sabes que eu não -sou muito para graças. Este anno ha de acabar -os preparatorios e para o anno ha de cursar -o Seminario. Isto é se quizer; se não quizer, -que volte para a companhia do pae.</p> - -<p>—Mas tambem que proposito é esse de assentar -com tamanha antecipação o destino do -rapaz? Estás dominado do espirito religioso de -Braga e achas que ser padre é caminhar proveitosamente -pela estrada social em direcção -ao Céo! Não sei como te não ordenaste?</p> - -<p>—Temos em mim um exemplo da efficacia -dos namoritos. Meu pae queria me ordenar, porque -era meu amigo. Vi-te, comecei a desorientar -me e casei...</p> - -<p>—Olha que perdeste muito! Estavas agora -arcebispo, pelo menos, se obtivesses absolvição, -para os teus burguezes devaneios com a costureira -do terceiro andar.</p> - -<p>E como D. Maria d’Assumpção caminhasse -para a porta da saleta, chamou a o marido com -a brandura de quem deseja reconciliar-se:</p> - -<p>—Olha cá. Pelo que disse a meu respeito, -sabes que não passa tudo de graça. Lá quanto -a ordenar-se o rapaz, é coisa assente e proposito -firme. Que queres tu que elle seja? Queres -que o mande para Coimbra gastar-nos rios de -dinheiro para o vermos ao cabo de cinco annos -a caçar môscas como o pae?</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span></p> - -<h2>VIII</h2> - -<p>Eduardo Valladares, quando soube que n’essa -noite poderia vêr Maria Luiza, sentiu no coração -uma alegria subita que de momento a momento -era obscurecida por umas sombras ligeiras... -Dir se-hia que n’aquella alma de dezeseis -annos se travara lucta entre os lampejos -d’uma esperança e as nuvens d’uns receios que -são attributo da timidez procedente da inexperiencia.</p> - -<p>N’aquella alma, digamol o pois, preparava-se -uma aurora: luctava a luz com as trevas.</p> - -<p>Ver Maria Luiza era levantar o espirito a páramos -celestiaes ante gostados em horas de dulcissima -meditação; era voejar nas azas da esperança -até onde a felicidade pudesse subir uma -creatura absorta em sonhos do Céo. Mas vêl-a -não seria despenhar-se em abysmos insondaveis, -se nos labios d’ella não desabrochasse um sorriso -equivalente a uma promessa? Todas as -dúvidas, que até ahi o haviam salteado dia e -noite, como que se levantaram em tropel e deliciosamente -lhe pungiram o coração amoroso.</p> - -<p>O filho do bacharel entrou na sala da viuva -Machado com a timidez de quem arriscasse um -passo n’um estrado sobreposto ao boqueirão -d’um despenhadeiro. O mesmo porém foi entrar -e cegar-se deante d’aquella visão aerea, -tentadora, que parecia encher a casa d’alegria e -esplendores.</p> - -<p>A aurora da felicidade, que a cercava, afigurou-se -porém a Eduardo Valladares o clarão -sinistro d’um incendio que lhe vinha requeimar -o coração.</p> - -<p>A elle, que se sentia triste, porque amava, a<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span> -elle, que luctava com a incerteza, porque esperava, -a elle pareceu pois que só a estrema despreoccupação -d’espirito podia dar a tranquilla -alegria que Maria Luiza revelava no gesto e no -olhar.</p> - -<p>Ó deliciosas illusões dos dezeseis annos, que -sois a verdadeira felicidade, quem pudera rehaver-vos, -uma só vez que fôsse, depois de transposta -a barreira que separa o mundo das chimeras -do mundo das realidades!</p> - -<p>A experiencia é fria como tudo o que é positivo, -material e immutavel. Ultrapassada a linha -divisoria, sabe-se que o coração freme em -tempestuosa lucta quando aos labios apontam -sorrisos de felicidade. Ó experiencia, ó escalpello -das coisas mundanas, queres rasgar, decompor, -retalhar, para saber!</p> - -<p>Aos dezeseis annos contentam-se os olhos -com vêr a superficie d’este mar chamado—coração -humano. E não se sabe então que o oceano, -cuja face se azuleja como o céo nas regiões polares, -e disputa negruras com a tempestade na -costa das Maldivas, não se sabe que o oceano, -diziamos, occulta sob uma superficie crystallina -ou sombria um mundo sempre cheio dos mesmos -mysterios e da mesma escuridade... Ó -abençoada ignorancia, que tamanhas saudades -deixas para toda a vida!</p> - -<p>Aos dezeseis annos ignora-se ainda que ha -certas organizações robustas, que não só chegam -a dissimular os proprios sentimentos, mas -até logram manifestar commoções differentes -das que lhe estão deliciando ou corroendo o coração. -Já dissemos que Maria Luiza era uma -d’essas organisações de rija têmpera, e o leitor -sabe como ella modulava um trecho de <i>seguidilla</i> -no momento em que mais lhe vergava o -espirito sob o consolador gravame das saudades -de sua irmã.</p> - -<p>Amaria ella Eduardo Valladares? Amal-o, na<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span> -verdadeira accepção d’esta palavra, talvez não. -Mas sentia-se impellida por uma onda alegre e -suave, que lhe embalava o pensamento e o levava -a paragens tão formosas como desconhecidas. -Alli encontrava o vulto sympathico do filho -do bacharel, aureolado d’extranhos esplendores, -e não sabia bem se tamanha claridade -partia d’elle ou se era apenas o reflexo cambiante -d’uns astros desconhecidos que illuminavam -o céo de um mundo novo. Mas d’aquella -felicidade que a embriagava, guardava o segredo -no coração; e era apparentemente a mesma -creatura alegre e descuidosa. Como quer -porém que elle, de desejoso, andasse evitando -falar-lhe, Maria Luiza approximou-se e disse-lhe:</p> - -<p>—Olhe que um rapaz-velho é tão irrisorio -como um velho-rapaz.</p> - -<p>—Minha senhora! balbuciou Eduardo tomando -o dito á conta d’uma pungente zombaria.</p> - -<p>—Ainda não dansou hoje, e como supponho -que se esquiva á dansa para se furtar ao desprazer -de me aturar durante uma valsa, venho -sacrifical-o nas aras da minha ousadia, e convidal-o -para meu... par.</p> - -<p>Eduardo Valladares ia a responder, nem elle -sabia o que, mas o preludio d’uma valsa salvou-o -d’uma conjunctura estremamente difficil.</p> - -<p>Depois, o piano passou d’uma cadencia maviosa -para uma vertigem febril, e o mesmo -aconteceu aos corações que, de tão juntos, pareciam -permutar-se as pulsações...</p> - -<p>Meia hora volvida, Eduardo Valladares e Maria -Luiza conversavam debruçados á janella...</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span></p> - -<h2>IX</h2> - -<p>Estamos, outra vez, no Bom Jesus do Monte.</p> - -<p>O leitor conspira, porém, contra o poder de -ubiquidade que o romancista possue e deseja -saber que maviosos dialogos suspiraram -Eduardo Valladares e Maria Luiza, ao clarão -saudoso das estrellas. O que disseram não o -repetiram os échos da noite. Suppomos, todavia, -que elle conservara a mesma timidez e -que ella não se apartou da alegre tranquillidade -que momentos antes revelava. Mas se assim foi, -n’aquelle dialogar, apparentemente frivolo, insensivelmente -se iam alliando duas almas, a -julgar pela leitura das seguintes linhas.</p> - -<p>Vamos encontrar Eduardo Valladares e Maria -Luiza subindo ambos a alameda sombria -da Mãe d’Agua.</p> - -<p>—Parece-me hoje mais triste que da primeira -vez que estivemos aqui! disse Maria -Luiza.</p> - -<p>—Creio que não tem v. ex.ᵃ razão para se -admirar. É que hoje já vou procurando recordações -por entre estas sombras deliciosas.</p> - -<p>—Recordações? Ah! recordações da visão -mysteriosa que inspirou o seu madrigal.</p> - -<p>—Se fôra assim, a presença de v. ex.ᵃ dissiparia -essas recordações, ousou pronunciar -Eduardo Valladares.</p> - -<p>—Eu!</p> - -<p>—V. ex.ᵃ mesma. Ha de perdoar-me, continuou -elle com a voz extremamente trémula, -mas resolvi-me, ao cabo de muitas horas de -hesitação, a usar d’uma sinceridade que não -pode e não deve melindrar v. ex.ᵃ. Que hei de -fazer eu senão pensar, meditar, eu que vivo<span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span> -aos dezeseis annos longe da terra que me viu -nascer, dos sitios que recordam as horas alegres -da minha infancia, dos meus amigos queridos, -do conchego da familia, das consolações -de minha mãe, do braço protector de meu pae? -Ah! se v. ex.ᵃ comprehendesse como tudo isto -é profundamente triste, e se depois se lembrasse -tambem de que venho acceitar um futuro -que me offerece a generosidade d’um parente, -porque o trabalhar constante de meu pae -não basta para abrir á felicidade a porta da -nossa casa, se v. ex.ᵃ comprehendesse tudo isto, -ouvir-me hia como se ouve um amigo que vem -entregar ao nosso coração o segredo das suas -maguas.</p> - -<p>—Jesus! Como me entristece!</p> - -<p>—Ah! V. ex.ᵃ tem soffrido tambem, é verdade, -porque conserva ainda na alma os vestigios -d’uma longa saudade. Hoje, que é domingo, -o dia em que v. ex.ᵃ costumava ir depôr um ramo -de flores sobre o tumulo de sua irmã, ouvir-me-ha, -pois, como se eu lhe estivesse falando á -beira d’esse tumulo querido...</p> - -<p>—Despedaça-me o coração... Tenha piedade.</p> - -<p>—Supponha que o repellido da fortuna poz -um dia os olhos n’uma esperança, e que vêl-a -tornada realidade seria o mesmo que subitamente -enriquecer de tudo o que lhe falta agora, -de tudo o que deixa na alma d’elle um vácuo -tão profundo como sombrio. Supponha que o -desventuroso peregrino pedia gasalhado ao seu -coração, e que via pendente dos labios de v. ex.ᵃ -toda a sua vida, toda a sua felicidade, todo o -seu futuro... Mas...</p> - -<p>—Fale, fale...</p> - -<p>—Mas quem me diz, quem me prova que o -coração de v. ex.ᵃ tem ainda a liberdade de entregar-se? -Quem me diz, quem me prova que -v. ex.ᵃ não deu já a outrem a felicidade que<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span> -eu lhe estava pedindo? Mas quem me diz, -quem me prova que v. ex.ᵃ tem a abnegação -de ligar o seu destino a um destino incerto -e sombrio como o que me espera talvez amanhã? -Ah! não fala, não responde... Que está -lendo v. ex.ᵃ na veia d’agua, em que fixou o -seu olhar? Talvez esteja lendo o meu futuro, -que é decerto o futuro de todos os desgraçados... -Nasce a agua entre estas sombras -queridas que pendem dos troncos seculares. O -destino impelle-a para longe. Ella lá vae, descendo -de fonte em fonte, afastando-se cada vez -mais do seu berço querido, até que se some, ao -sopé da montanha, nos abysmos da terra. -Quer v. ex.ᵃ que lhe desenhe melhor o quadro -d’uma vida obscura e triste como ha de ser a -minha? Oh! diga, diga, que estava lendo o meu -destino na corrente d’esta floresta sagrada...</p> - -<p>—Quer saber o que estava pensando? respondeu -Maria Luiza no tom firme d’uma resolução -inabalavel. Não pensava no seu destino, -pensava no meu. Olhe como a agua corre livre -vencendo o dique d’aquella folha verde que encontrou -no caminho. Pois bem. A agua da montanha -é tão livre como eu.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>X</h2> - -<p>Fez-se a luz.</p> - -<p>Descerraram-se de par em par as portas -d’esse olympo esplendido aonde só podem subir -duas almas identificadas n’uma unica aspiração.</p> - -<p>Eduardo Valladares sentiu n’um momento -dissiparem-se todas as dúvidas, todos os receios, -todas as angustias. Maria Luiza deixara-se -fascinar pelos clarões rutilantes d’esse<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span> -mundo que entrevira em sonhos e, irmã da -mariposa, lançava-se á chamma sem curar de -saber se encontraria a morte. São realmente -dignas de estudo naturezas como a sua.</p> - -<p>Ha certas creaturas que entraram no mundo -com o coração a trasbordar d’alegria.</p> - -<p>As scenas variegadas da vida absorvem-nas -e enlevam-nas, como as cambiantes d’um caleidoscopo -enlevam e absorvem uma creança.</p> - -<p>Tudo as namora, tudo as fascina. Seguem -com estremecimentos de jubilo as choreas caprichosas -das borboletas e das aves; parecem -querer luctar com a perfidia da onda, quando -estão á beira mar, e deixar-se-hiam morrer se -soubessem que a morte era... alegre. Mas—singular -contradicção!—um ligeiro incidente -as commove; derrubae um ninho e vel-as-heis -chorar.</p> - -<p>São porém nevoas que se dissipam com um -sôpro. A alegria impelle-as, e ellas, as venturosas -creaturas, deixam se deslizar suavemente -por uma estrada de rosas...</p> - -<p>Um dia quer Deus que lhes embargue o passo -o leito d’um moribundo, permittam-me o exemplo. -Admirae-as então. Sabeis o que são estremos -de dedicação inegualavel? Se não sabeis, -vinde apprendel-os com ellas. De tudo se esquecem, -tudo alienam, a propria vida, a felicidade, -a alegria para se absorverem n’um unico pensamento -e n’uma unica afflicção.</p> - -<p>É por isso que fomos encontrar Maria Luiza -á beira do leito da pobre irmã como a mais solicita -e dedicada enfermeira que jámais houve.</p> - -<p>É por isso que pudemos vêl-a, a ella, a inquieta -toutinegra, ajoelhada sobre o tumulo -querido, como o anjo da saudade, orvalhando-o -de abundantissimas lagrimas.</p> - -<p>É por isso que a admiramos no momento de -confiar o seu coração, immaculado e puro, ao -homem que revelava, nos éstos d’uma paixão<span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span> -impetuosa, um coração egualmente puro e immaculado.</p> - -<p>É por isso que teremos de contemplal-a...</p> - -<p>Corre-nos obrigação de deixar a phrase incompleta. -O romancista não pode accelerar a -marcha dos acontecimentos com uma especie -de velocidade electrica. Tem o dever de ser methodico -e nós, que tentamos o primeiro passo -no caminho do romance, devemos respeitar as -tradições até hoje seguidas pelos fazedores de -novellas veridicas e não veridicas.</p> - -<p>O que devemos dizer é que Eduardo Valladares -e Maria Luiza se carteavam quasi diariamente.</p> - -<p>As dulcissimas phrases que se mutuavam -adivinha-as o leitor.</p> - -<p>Os namorados—especialmente os namorados -como Maria Luiza e Eduardo Valladares—fazem -lembrar aquelles celebres habitantes de -que fala Camões:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Contam certos auctores</div> -<div class="verse">Que, junto da clara fonte</div> -<div class="verse">Do Nilo, os moradores</div> -<div class="verse">Vivem do cheiro das flores</div> -<div class="verse">Que nascem n’aquelle monte.</div> -</div> -</div> - -<p>De que vivem os namorados? Embriagam-se -nos celestiaes aromas das flores que desabrocham -nos rosaes escondidos no coração. O que -elles sabem dizer é um como frémito de rosas -baloiçadas por uma viração suavissima;—linguagem -quasi mysteriosa apenas entendida -por duas almas. Em que é que pensam? Em -que é que sonham?</p> - -<p>Pensam e sonham nas amenidades do seu -vergel encantado, nas flores do seu canteiro intimo, -nas harmonias que uns desconhecidos rouxinoes -gorgeiam por entre os invisiveis rosaes.</p> - -<p>«Tenho dó dos demonios; pois se elles não<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span> -amam!» creio que escreveu algures Santa Thereza, -<i>toda delirante de ternura</i>, como notou o -mais vernaculo dos nossos escriptores contemporaneos.</p> - -<p>Oh! espiritos beatificos, que nascestes fadados -para os arroubos asceticos, ó santos e santas -da côrte celestial, até vós prelibastes as -doçuras que resumbram do favo do amor!</p> - -<p>Quero lembrar-me tambem agora de que -S. Francisco de Salles disse «que o amor tem o -primeiro logar entre as paixões da alma»; e -não sei ao certo quantos mais santos discretearam -ácêrca do amor. Que admira, porém? -Não se resumia a doutrina e philosophia do -vosso divino Mestre n’este dulcissimo preceito: -«Amae-vos uns aos outros»?</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XI</h2> - -<p>—Nota que estamos a dezenove de setembro... -disse João Nicolau de Brito, n’esse -mesmo dia, a sua mulher.</p> - -<p>—Oh! homem! Felicidade como eu tive! Tu -dispensas um repertorio! replicou D. Maria -d’Assumpção.</p> - -<p>—Nota que estamos a dezenove de setembro. -Isto quer dizer que faltam poucos dias -para chegar outubro.</p> - -<p>—Ah! temos rabugice! Falas do Eduardo, -pois não falas?</p> - -<p>—Falo do Eduardo, sim, senhora, falo do -Eduardo. Ando cá desconfiado...</p> - -<p>—Desconfiado de que?</p> - -<p>—De que pegou o namorico com a Maria -Luiza.</p> - -<p>—Deixal-o pegar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span></p> - -<p>—Ora que tu não has de querer nunca desviar -as tempestades imminentes...</p> - -<p>—Quaes tempestades imminentes? Deixa -namorar o rapaz, que está no seu tempo. Que -queres tu que se faça?</p> - -<p>—O peor é em se abrindo as aulas. Estou -com receio de que gaste mais tempo a lêr nos olhos -da Machado do que nos livros.</p> - -<p>—Deixa que lhe ha de chegar o tempo para -tudo, se assim fôr. E depois quem te disse que -elles se namoram? Que provas tens? Sabemos -apenas que elle gosta d’ella; mais nada. O que -é certo é que tudo isto tem sido uma felicidade. -Olha como o rapaz está acclimado, como -parece outro, como revê alegria!...</p> - -<p>—Por isso mesmo... Dize cá. Tu sabes se elles -conversaram no Bom Jesus nos dois domingos -que lá passámos?</p> - -<p>—Eu sei lá isso! Tu não viste que não sahi -de ao pé de ti?</p> - -<p>—Pois domingo sou eu que quero ir ao Bom -Jesus.</p> - -<p>—Para que? Para os veres conversar? Olha -que vale a pena, na verdade!</p> - -<p>—Eu cá tenho tambem o meu systema...</p> - -<p>Seja-nos licito saber o que estava fazendo -Eduardo Valladares ao tempo em que n’uma -das salas contiguas ao seu quarto dialogavam -d’esta maneira D. Maria d’Assumpção e João -Nicolau de Brito.</p> - -<p>O que estaria fazendo? Escrevia. Transmittia -ao papel as harmonias que lhe resoavam -na lyra do coração: escrevia a Maria Luiza. E -tão ligeira esvoaçava a penna sobre o papel, -que, se o visseis, dirieis que eram pensamentos -sem nexo, caprichos e devaneios d’um espirito -radioso o que estava escrevendo:</p> - -<p>«Vinde e subamos ao monte do Senhor», escreveu -o propheta.</p> - -<p>«E fomos, e subimos. Entrei na floresta sagrada<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span> -e para logo senti inebriar-se a minha -alma n’uma vaga e dulcissima esperança. Fui -subindo e, á medida que subia, perpassavam -no meu espirito as melodias que parece sahirem -d’entre o arvoredo sombrio. Tudo é doce, -tudo é inefavel na montanha do Senhor. Ha no -interior d’aquella esplendida cathedral de verdura -um como longinquo e continuo suspirar -d’um orgão vibrado por mãos invisiveis.</p> - -<p>«Para aquelle concerto perenne da floresta -contribue tudo quanto se esconde em tão deliciosas -sombras: o arvoredo que murmura, as -fontes que suspiram, as aves que chilriam dialogos -maviosos, e os corações que se expandem -na linguagem suavissima do amor...</p> - -<p>«Foi na montanha do Senhor que as nossas -almas se identificaram para sempre n’uma -unica existencia.</p> - -<p>«Foi lá que tu recebeste no teu coração as -queixas do romeiro e lh’as devolveste em ridentissimas -esperanças depois de purificadas -no crisol d’um amor celestial.</p> - -<p>«E a tua voz sobrelevava todos os murmurios -e todas as melodias da floresta e soou aos -meus ouvidos como um hymno cadenciado na -harpa d’um cherubim.</p> - -<p>«E eu repeti as palavras que momentos antes -se me tinham deparado na legenda da <i>Esposa -dos cantares</i> e disse:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">A tua voz murmure a meus ouvidos<a name="FNanchor_3" id="FNanchor_3"></a><a href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a></div> -</div> -</div> - -<p class="noindent">e deliciei-me nas cadencias inimitaveis que a -tua bôcca jorrava ao murmurar: «A agua da -montanha é tão livre como eu».</p> - -<p>«É pois certo? A tua alma é tão livre como a -onda prateada que desliza por entre as verduras -<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span>da serra e cae em chuva de perolas na amphora -de cada fonte? A tua alma é tão livre -que possa juncar de flôres a estrada dos meus -dezeseis annos á semelhança da corrente da -montanha que vae orvalhando as boninas da -encosta?</p> - -<p>«Estavamos no <i>monte do Senhor</i>, na <i>santa Jerusalem</i> -e os teus labios falaram a linguagem do -teu coração... Os échos da montanha guardam -o segredo da nossa felicidade. Que as nossas esperanças -todas se desatem em florecimentos -perpetuos como os da primavera que cada dia -enche de vida nova e nova opulencia a floresta -sagrada.</p> - -<hr class="tb" /> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XII</h2> - -<p>Estava n’esse dia, como sempre, cheia de -amenidade a alameda da Mãe d’Agua.</p> - -<p>—Que felicidade! dizia Eduardo Valladares -apertando entre as suas as mãos de Maria Luiza. -Que felicidade! Abençoado o teu amor que me -dá confôrto e alento para ir procurar a realidade -dos meus sonhos, dos nossos, devia dizer, -onde quer que ella esteja... E todavia eu d’antes -era triste, tão triste, que nem tu sabes! -Meu pae, quando me surprehendia a escrever, -dizia para minha mãe:—Este rapaz ha de ser -desgraçado! Por que? perguntava ella com -terna inquietação. Porque começa a sonhar -muito cedo, concluia meu pae. Oh! dize-me que -era falsa esta prophecia. Por que não havemos -de ser felizes? Tu amas-me muito, pois não -amas?</p> - -<p>—Que transformação completa na minha vida,<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span> -Eduardo! As minhas amigas tinham-me á -conta d’um coração que nasceu para ser livre -como a aguia, e só para isso. Eu, porém, consultando-me -a mim mesma, conhecia-me muito -outra do que me suppunham. E não me enganei; -bem sabes tu que me não enganei. Havemos -de ser felizes. Sabes o que é ter no Céo um -anjo que vela por nós a toda a hora? Lembra-te -de minha irmã, que era um anjo, e fortalece-te -com essa esperança. Se porém o Céo da nossa -felicidade tem de se annuvear com tempestades -invenciveis, se temos de separar-nos um -dia para tomar cada um por differente caminho, -se tudo isto tem d’acontecer, então que a -alma de minha irmã me chame para o pé de si, -que eu prefiro morrer a vêr-me sem ti no -mundo...</p> - -<p>—Oh! Cala-te, cala-te, que me sinto morrer. -Afasta da tua alma esses presentimentos sombrios, -que são meras visualidades. Não somos -nós felizes? Olhemos em redor de nós. Tudo -placido e ameno como hontem e como ámanhã. -E, no meio d’esta tranquillidade do ermo, não -hão de sonhar as nossas almas em leito de -rosas e esperanças? Para que havemos d’ir -procurar os espinhaes que nos não vedam o -passo? Põe de parte esses pavores imaginarios. -Consulta antes a tua alma e pergunta-lhe -se é tão firme que sacrifique todo o futuro a -um affecto, se é tão corajosa que possa dizer -ao desprotegido da fortuna: «Sei que és pobre, -mas quero soffrer metade das tuas amarguras.»</p> - -<p>—Pois duvidas ainda! Pela alma de minha -irmã te juro que o meu amor será eterno. Por -que é falares de pobreza? Acaso eu, egualmente -desprotegida da fortuna, podia levantar o -meu espirito a desmedidas ambições? Que importa -o valor da riqueza, quando se trata do -valor da felicidade? Promette que não mais falarás<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span> -d’um assumpto que magôa dolorosamente -a minha alma. É tamanha a nossa esperança -que ella só nos deve absorver...</p> - -<p>—Oh! perdôa-me...</p> - -<p>De repente uma voz conhecida, denunciando -sobresalto, viera interromper o caloroso dialogo.</p> - -<p>O leitor vae saber o que se passou.</p> - -<p>João Nicolau de Brito, D. Maria d’Assumpção, -e a viuva Machado ficaram-se a conversar, -sentados nos poucos degraus que dão entrada -para a hospedaria denominada hoje da Boa-Vista, -com pessoas das suas relações que tinham -procurado as sombras da floresta do Bom -Jesus para se furtarem ás calmas de setembro.</p> - -<p>O sogro do bacharel Valladares, quando julgou -opportuno espionar o neto, segredou á mulher:</p> - -<p>—Viste para que lado fôram as Machados -com o rapaz?</p> - -<p>—Olha que está alli a mãe...</p> - -<p>—Pergunto-te se viste para que lado fôram -as filhas. Não tenho nada que ver com a mãe.</p> - -<p>—Fôram por ahi acima e acho que estarão -na Mãe d’Agua.</p> - -<p>João Nicolau de Brito levantou a voz e apostrophou:</p> - -<p>—Ora fiquem em santa paz, que eu já estou -aborrecido d’estar sentado n’estes degraus. Vou -por ahi acima espairecer um pouco.</p> - -<p>Sentada nos degraus do chafariz, que fica ao -centro do largo dos Evangelistas, estava, absorta -na leitura de não sei que romance, a menina -Rosa Machado. Como quer que levantasse casualmente -os olhos de cima do livro e reconhecesse -ao fundo da avenida João Nicolau, -correu pressurosa a dar rebate aos enamorados -interlocutores da Mãe d’Agua. O que é certo -é que quando João Nicolau chegou ao largo, depois -de ter trilhado vagarosamente a longa<span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span> -avenida que parte do templo, já as duas irmãs -Machados estavam sentadas nos degraus d’uma -das capellas, e como que ambas embevecidas -na leitura do mesmo livro.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XIII</h2> - -<p>—Sósinhas? exclamou João Nicolau ao vêl-as, -dando assim largas á sua extrema admiração.</p> - -<p>—Nunca estão sós duas irmãs, respondeu de -golpe Maria Luiza.</p> - -<p>—A ler, não é verdade?</p> - -<p>—A matar o tempo.</p> - -<p>—Que é do meu neto, que assim as deixa -sem lhes fazer companhia?</p> - -<p>—O seu neto continua a ser poeta. Desde -que chegámos aqui, embrenhou-se por essa alameda -da Mãe d’Agua e lá está talvez devaneando -a desafiar os rouxinoes.</p> - -<p>—Olhem que para boa lhe havia de dar!</p> - -<p>—Tambem acho que sim!... replicou Maria -Luiza.</p> - -<p>—Se não era melhor estarmos aqui todos a -conversar! accrescentou Rosa.</p> - -<p>—É que estes poetas gostam d’andar a conversar -comsigo mesmos. Toda a minha vida -ouvi dizer que se deve desconfiar de pessoas -que falem sós.</p> - -<p>—Os poetas não falam sós, tornou Maria -Luiza. Não posso deixar de censurar o procedimento -de seu neto, sr. João Nicolau; mas quero -levantar a luva que lançou a quantos versejam -n’este mundo de Christo. Os poetas pensam -como o sr. João Nicolau, como eu, como toda a -gente. Se procuram, ás vezes, a solidão, é de -certo para que os rumores do mundo lhes não -interrompam os maviosos pensamentos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span></p> - -<p>—Ande lá, que não pode negar que é affeiçoada -á poesia...</p> - -<p>—Admiro-a, e mais a admiraria se pudesse -comprehendel-a. Ora de poetas que teem seu -tanto de mysanthropos, como o sr. Eduardo, é -que eu não gosto. Quero a poesia que transige -com os deveres sociaes. O Camões, segundo dizem, -emquanto a fortuna lhe luziu, usava de -boa cortezia com as damas da côrte.</p> - -<p>—E de que valeu ao Camões ser poeta? interrogou -João Nicolau apoiando-se no braço de -Maria Luiza e fazendo menção de voltar á hospedaria.</p> - -<p>—Valeu muito, respondeu ella, tomando pela -avenida, de braço dado com João Nicolau. Valeu-lhe -estarmos agora nós falando d’elle.</p> - -<p>—Sempre é ligarmo-nos muita importancia, -pois não acha?</p> - -<p>—Tem razão. Eu devia ser menos vaidosa e -mais verdadeira. Valeu-lhe a admiração de todo -o mundo, porque todo o mundo admira o genio -deslumbrante d’um homem que soube exaltar -n’uma epopêa as glorias da patria que o deixou -morrer de miseria.</p> - -<p>—Bravo, minha cara menina! Gostei d’ouvil-a!</p> - -<p>—O sr. João Nicolau está gracejando. Mas a -verdade é que o genio de Camões conseguiu -muito, na minha opinião. Deu a conhecer ao -mundo civilisado o quadro das velhas glorias -portuguezas, para que ficasse de pé a chronica -nobilissima d’um povo quando as convulsões -sociaes subvertessem a nossa individualidade -historica. Uma epopêa é muitas vezes um epitaphio -levantado sobre o tumulo d’uma nação -que foi. Tenho ouvido dizer que os poemas de -Homero e Virgilio representam hoje a Grecia e -Roma. Quem sabe se os <i>Lusiadas</i> serão a unica -recordação que sobreviva ás ruinas de Portugal?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span></p> - -<p>—A modo que tem razão... Ora deixe-me -ver se me lembro d’uns versos do José Agostinho, -que vinham agora a proposito. Olhe que o -José Agostinho é um poeta que me enche as -medidas! Tem ouvido falar d’elle?</p> - -<p>—Ah! bem sei. Do José Agostinho não -gosto.</p> - -<p>—Não gosta! Pois já leu?</p> - -<p>—O José Agostinho não tem sentimento nem -inspiração.</p> - -<p>—Ora não diga isso!</p> - -<p>—São opiniões. O certo é que meu pae tinha -algumas obras do José Agostinho e eu algumas -folheei. Mas vamos aos versos, que os desejo -ouvir recitados pelo sr. João Nicolau.</p> - -<p>—Deixe ver se me lembram. São do epicedio -á morte do Bocage:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Voando o tempo os seculos ajunta</div> -<div class="verse">E co’as immensas incansaveis azas</div> -<div class="verse">Cobre os vestigios da grandeza humana:</div> -<div class="verse">Na Historia, os deixa só, e á vista os furta.</div> -<div class="verse">De Esparta, a mãe d’heroes, mãe da virtude,</div> -<div class="verse">Hoje occupa o logar mesquinha aldeia;</div> -<div class="verse">De Epaminondas...</div> -</div> -</div> - -<p>Ora deixe vêr como é o resto... Ah!</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse indent3">...d’Aristides pisam</div> -<div class="verse">Incultos Scythas barbaros os lares...</div> -</div> -</div> - -<p>O resto é que me não lembra.</p> - -<p>—Ora ainda bem que o sr. João Nicolau não -é tão inimigo da poesia como se mostra!</p> - -<p>Chegavam finalmente ao extremo da avenida. -João Nicolau, logo que pôde, chamou de parte -a mulher e disse-lhe:</p> - -<p>—A rapariga lá doutora é e sabe mais do que -eu, mas por emquanto não temos nada a recear...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span></p> - -<p>—Eu bem t’o dizia, homem de Deus, respondeu -D. Maria d’Assumpção.</p> - -<p>—Sabes de quem devemos temer?</p> - -<p>—De quem é?</p> - -<p>—Das musas, mulher, das musas, que transtornam -a cabeça ao rapaz!</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XIV</h2> - -<p>João Nicolau de Brito assentou de si para si -que não tinha ainda sido traspassado pelas -frechas cupidinias o coração do neto, e em confidencia -com a mulher lamentava que o cerebro -d’um rapaz de dezeseis annos se deixasse eivar -de semelhante monomania poetica, como -elle dizia.</p> - -<p>D. Maria d’Assumpção escutava o marido -com a maxima paciencia e, podemos dizel-o -tambem, com a maxima reserva.</p> - -<p>—Lá que elle é um estudante distincto, isso -é! exclamava João Nicolau, frequentes vezes, -depois de abertas as aulas do lyceu bracharense. -Os professores elogiam-n’o e dizem que o -rapaz pode ser considerado, sem favor, o melhor -do curso. Mas a dizer-te a verdade, mulher, -não me parece que gaste muito tempo a estudar...</p> - -<p>—Ora por que dizes tu isso? Quem sabe é -porque estuda. Não t’o elogiaram os mestres? -Que mais queres? É preciso ter paciencia de -santo para viver comtigo!</p> - -<p>—Não sabes por que razão digo isto? É por -que o vejo ir todas as tardes para Guadelupe. -Provavelmente vae para lá falar só e fazer -versos. Ora um estudante não pode sahir todos -os dias ou chova ou faça sol...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span></p> - -<p>—Oh! homem, quem te diz que elle não vae -para lá estudar?</p> - -<p>—Qual estudar! Estudar o que? Em que livros? -Só se fôr nas palmas das mãos... Que -lá do namôro com a Machado acho que não temos -a recear...</p> - -<p>—Pois ainda te não desenganaste!... O rapaz -é um genio excentrico, e genios assim não -são muito para amores... Quem sabe lá! Deixal-o -versejar, que talvez chegue a ser como -esse Castilho, de Lisboa, que, apesar de ser -cego, é um poeta de fama, segundo dizem.</p> - -<p>—Qual poeta de fama! O meu poeta era o -José Agostinho. Ainda não li nada do Castilho, -mas vou jurar que não chega aos calcanhares -do frade.</p> - -<p>—Pois não deves julgar de nada pelo que -te parecer.</p> - -<p>—Deixemo-nos de rhetoricas. Com versos -não se ganha a vida. Padre é que elle ha de -ser. Disse e está dito. Lá como o tal estudantinho -de Coimbra, de que falava o Sebastião na -carta, é que me não ha de fazer. Se gostar da -theologia, melhor para elle; se não gostar, que -se aguente; e se morrer, que o leve a breca; a -gente não nasce para outra coisa.</p> - -<p>—Estás hoje com instinctos sanguinarios. -Olha que eu tenho medo de mata-mouros, homem!</p> - -<p>Chegou dezembro. Alvejavam, cobertos de -neve, os cimos do Sameiro e da Falpêrra. As -férias do Natal chamavam os filhos ausentes -ao lar paterno. Eduardo Valladares veiu ao -Porto consoar, e seis dias antes de terminarem -as férias, estava já em Braga. João Nicolau ficou -sobremodo admirado; D. Maria d’Assumpção -comprehendeu tudo, mas conservou-se, -como sempre, na defensiva.</p> - -<p>—Ó mulher! dizia João Nicolau na sinceridade -da sua admiração. Pois elle chegou aqui,<span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span> -da primeira vez, com cara de ter perdido na -renda, a tal ponto lhe entrou o mal das saudades, -que foi preciso que lhe receitassem passeios -ao Bom Jesus. Chega o Natal, vae ao Porto -e rebenta-nos á porta seis dias antes de acabarem -as férias! Eu declaro-te que não entendo -nada de tudo isto!</p> - -<p>—Pois olha que tudo isto é claro como agua. -É uma delicadeza do rapaz. Não quiz dar-nos -campo a suppormos que estava aborrecido de -nós. Repartiu as férias com os paes e comnosco. -Quem fôsse menos desconfiado do que tu, -só tinha motivo para se lisonjear.</p> - -<p>—Nada. Não vou para ahi, mulher. Rapazes -não teem delicadezas com ninguem e muito -menos com parentes. Aqui anda mysterio.</p> - -<p>—Mas tu bem vês que este rapaz não parece -que o é. É preciso respeitar as suas esquisitices, -para que não diga que lhe vendemos -muito caro o beneficio que lhe estamos fazendo.</p> - -<p>—Pois sim, sim. Mas olha que o rapazinho é -finorio e sabe muito bem o que faz.</p> - -<p>—Por isso mesmo é que nos quiz captivar -com esta delicadeza. E depois pode ser que se -lembrasse de que, vindo no ultimo dia de férias, -talvez tu dissesses que tinha voltado a -cumprir os seus deveres por de todo em todo -não poder ficar no Porto...</p> - -<p>—Lá isso é que pode ser...</p> - -<p>—Isso é o que foi. O rapaz por emquanto porta-se -dignamente e não descubro coisa que nos -faça arrepender de o termos chamado á nossa -companhia. É preciso não ser impertinente -com gente nova, e sobretudo impertinente sem -motivo...</p> - -<p>—Isto tambem já é velhice, mulher!</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p> - -<h2>XV</h2> - -<p>Sebastião Valladares fez egualmente reparo -na partida precipitada do filho e consultou o -coração da mulher, que por ser de mulher e de -mãe devia adivinhar e lançar luz sobre o que -aos olhos do bacharel se afigurava mysterio. -D. Adozinda serenou o ánimo do marido com -estas placidas palavras:</p> - -<p>—Desvarios nem o genio lh’os tolerava, nem -os podia ter que lh’os não soffria meu pae. -Quando Deus quer, temos amores, e não vejo -n’uns amores dos dezeseis annos sombra de -tempestade que possa inquietar-nos.</p> - -<p>—Talvez seja isso, respondeu o bacharel. -Olha que receio todavia por este rapaz, cujo -temperamento, por demasiadamente ardente e -delicado, se me afigura perigoso. O nosso filho -tem grande inclinação á poesia e, como se não -bastasse versejar, dá indicios de vir a sentir -como verdadeiro poeta. Ha certas almas que, -em vez de se repartirem pelo mundo exterior, -tiram de si mesmas, á semelhança do pelicano, -a seiva com que alimentam a propria vida. Ora -o Eduardo, que me parece ter nascido fadado -para eguaes destinos, precisava de ter a seu lado -um conselheiro mais eloquente e menos severo -que teu pae.</p> - -<p>—Dizes bem.</p> - -<p>—Até já me lembrei d’escrever ao Rodrigues, -que é meu amigo desde a emigração, e que tem -coração e intelligencia de sobra para mentor -d’um espirito febricitante.</p> - -<p>São precisas algumas palavras d’explicação. -Sebastião Valladares, natural de Vianna, havia -completado o curso universitario quando, perseguido<span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span> -por suas idéas politicas, teve d’emigrar -em 1828. A esse tempo contava elle vinte -e cinco annos e tinha, sacrificado o coração, nas -aras do amor, á senhora que, annos depois, -desposara. João Nicolau de Brito possuia uma -quinta, sombreada de copado arvoredo, á ourella -do rio Lima; foi ahi que o bacharel Valladares -vira, em dezembro de 1827, a formosissima -dama bracharense, e foi d’ahi que se amaram.</p> - -<p>Compellido a emigrar, Sebastião Valladares -vizinhou em Rennes de Almeida Garrett e de -Manuel Rodrigues da Silva e Abreu. Ahi, nas -angustias do destêrro, se estreitaram os laços -que os deviam prender toda a vida. Em 1832 -voltaram á patria os saudosos emigrados: Manuel -Rodrigues da Silva e Abreu era nomeado -official do governo civil de Braga; Almeida Garrett -voltava á politica e á litteratura; e Sebastião -Valladares casava e abria banca d’advogado -no Porto.</p> - -<p>João Nicolau era affeiçoado á causa absolutista -e n’isto vae a razão da sua entranhada -sympathia por José Agostinho de Macedo. Aos -ouvidos do proprietario bracharense soavam -continuamente aquelles dois enthusiasticos versos -da <i>Viagem extactica</i>:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">No meio do clarão veio no throno</div> -<div class="verse">Cercado d’esplendor Miguel Primeiro.</div> -</div> -</div> - -<p>João Nicolau apenas consentiu no casamento -quando as instancias da esposa, estremosa pela -filha, e o caracter decisivo da lucta civil não lhe -permittiram resistir por mais tempo. Quando -porém admittiu á sua presença o bacharel, disse-lhe -de sobr’ôlho carregado:</p> - -<p>—Pode levar minha filha, se a quizer sem -dote. Não sou rico e os meus padecimentos -obrigam-me a despesas constantes; não posso -desviar o que tenho. Em eu morrendo, e minha<span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span> -mulher tambem, levem tudo, que tudo lhes pertencerá -então.</p> - -<p>Com o decorrer do tempo foi-se diminuindo a -distancia respeitosa que separava sogro e genro, -a ponto de João Nicolau tomar sob sua responsabilidade -a educação do neto.</p> - -<p>Postas estas explicações, voltemos ao anno -de 1851 em que se passa este caso que vimos -historiando.</p> - -<p>Sebastião Valladares conservava com os seus -dois amigos e correligionarios os estreitos laços -d’amizade vinculados ao coração nas horas melancholicas -do exilio. Almeida Garrett escrevia-lhe -frequentes vezes. O bacharel, quando abria -as cartas assignadas por <i>João Baptista</i>, costumava -dizer:</p> - -<p>—Os amigos que se adquirem na desgraça -são os verdadeiros.</p> - -<p>Manuel Rodrigues da Silva e Abreu estava a -esse tempo exercendo o cargo de primeiro bibliothecario -da Bibliotheca de Braga<a name="FNanchor_4" id="FNanchor_4"></a><a href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a>. Dos -tres amigos era o bacharel Valladares o menos -favorecido da fortuna, mas não era o menos -venturoso. Recusou sempre a protecção que os -seus amigos lhe offereciam, nomeadamente Almeida -Garrett. Costumava dizer o bacharel:</p> - -<p>—Trabalho todo o dia para viver, mas adormeço -á noite tranquillo, e vivo escondido do -mundo. O Garrett, tanto o Garrett politico como -o Garrett litterato, tem soffrido que farte. Não -lhe invejo a sorte.</p> -<p><span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span></p> -<p>Tres annos depois, em 1854, expirava o reformador -da litteratura portugueza; e só então, -cerrado o tumulo, principiava a ser julgado -como devia, no tribunal da posteridade, o que -tanto merecera da patria e tamanhas injustiças -colhêra na sua esplendida carreira.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XVI</h2> - -<p>O bacharel Valladares escreveu a Manuel -Rodrigues da Silva e Abreu solicitando a graça -de allumiar com bom conselho a estrada em -que o inexperiente estudante arriscava os primeiros -passos da sua mocidade.</p> - -<p>O bibliothecario de Braga, coração sem mancha -e intelligencia distinctissima, acolheu o -moço com a amenidade de tracto que lhe era peculiar. -Eduardo Valladares, terminadas as aulas, -subia ordinariamente á bibliotheca onde o -velho amigo de seu pae estava labutando em -azafama continua, e sobremodo se deliciava -á sombra d’aquella arvore vetusta meio tombada -para o chão.</p> - -<p>O auctor d’este livro reiteradas vezes teve a -felicidade de, na sala da bibliotheca bracharense, -ouvir a palavra sempre fluente e amena -de Rodrigues Abreu. Infundia respeito ver levantar-se -aquelle busto venerando, coberto de -cans, d’entre montões de livros a que elle chamava -<i>a sua familia</i>. Uma vez bibliothecario, empenhou-se -afanosamente pela causa da bibliotheca. -Não se cansou de pedir os indispensaveis -melhoramentos materiaes, dos quaes o primeiro -era inquestionavelmente maior espaço -para a conveniente arrumação de preciosos livros -que jaziam a monte. A sua voz clamou no -deserto e nem a palavra auctorisada de tão<span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span> -respeitavel varão nem repetidos artigos da <i>Revista -Universal Lisbonense</i> lograram obter despacho -favoravel.</p> - -<p>Como se este constante e baldado empenho -não fôsse canseira de sobra, Rodrigues d’Abreu -entregava-se a trabalhos de bibliotheconomia -e chegou a publicar sobre este assumpto um -opusculo que denominou <i>Novidades bibliotheconomicas</i>.</p> - -<p>Para daguerreotyparmos o homem, que já -hoje é da historia, aproveitemos os traços caracteristicos -que nos offerece o sr. Soares Romeu -Junior: «... Era alto de estatura, rosto -claro e comprido, nariz proeminente, olhos escuros -e a fronte espaçosa, coroada de alvissimas -cans.»</p> - -<p>Do escriptor diremos apenas que trasladou o -<i>Eliezer</i>, de Florian, a versos portuguezes, dos -quaes o leitor pode avaliar o sabido quilate pela -apreciação que de tão notavel obra fez no <i>Panorama</i><a name="FNanchor_5" id="FNanchor_5"></a><a href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a> -o sr. Alexandre Herculano.</p> - -<p>Consagradas estas poucas linhas á memoria -de Rodrigues d’Abreu, prosigamos em a nossa -narrativa.</p> - -<p>Eduardo Valladares refez o seu espirito, -nas horas feriadas de canseiras amorosas, em -proficua leitura que lhe ministrava Rodrigues -d’Abreu. Se levantava os olhos dos livros era -para os fitar na imagem radiosa que lhe flammejava -auroras no coração; e como quer que -os livros substanciosamente doutrinarios tenham -o seu tanto de agri-doces, Eduardo repousava -da leitura nas amenidades do amor.</p> - -<p>O bibliothecario bracharense, quando escrevia -ao bacharel Valladares, costumava dizer-lhe: -«O teu filho é uma perola, mas receio pela -felicidade d’um espirito que, em tão verdes -<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span>annos, tamanhos merecimentos revela. Já que -me arvoraste em medico espiritual, direi que o -seu temperamento requer brandura.»</p> - -<p>No fim do anno lectivo de 1851 a 1852, Rodrigues -d’Abreu abraçou jubiloso o estudante que -sahia premiado das aulas preparatorias.</p> - -<p>Decorrido tempo, no fim de setembro de -1852, Eduardo Valladares subiu á sala da bibliotheca -evidentemente sombrio, a ponto de -inspirar sobresalto ao seu velho e dedicado -amigo.</p> - -<p>—Recebi ordem terminante de meu avô -para me ir matricular no Seminario, e o meu -coração não pode resistir ao supplicio que esta -resolução lhe impõe, disse com accento melancholico -Eduardo Valladares.</p> - -<p>Na casa da rua do Carvalhal ouvia-se a esse -tempo a voz atroadora de João Nicolau clamando:</p> - -<p>—Amanhã vae o rapaz matricular-se no Seminario. -Lá o Rubicon do lyceu, vencido está. -Agora vamos a vêr como se sae da theologia, -que sempre é coisa mais séria...</p> - -<p>—É pois chegada a occasião de reflectires -maduramente, respondia D. Maria d’Assumpção. -D’esta decisão depende o futuro de teu -neto, e não deves ser precipitado. É conveniente -pensar.</p> - -<p>—Já pensei e tornei a pensar. Está dito, -está dito. Vae matricular-se no Seminario.</p> - -<p>—Sondaste lhe porventura a vocação? Quem -sabe se lhe repugnará o futuro que tu despoticamente -lhe preparas, homem?</p> - -<p>—Despoticamente! Essa agora é muito boa! -Pois é despota quem faz um beneficio?</p> - -<p>—Não digas beneficio. De quem ha de vir a -ser tudo o que nós temos, pouco ou muito, senão -d’elle ou dos paes?</p> - -<p>—Quem sabe o que Deus fará, mulher? O -que é que nós temos? Algumas propriedades<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span> -em Braga e uma quinta em Vianna! Olha a riqueza! -E se vier uma doença prolongada não -havemos de gastar quanto fôr preciso? Lá do -Sebastião tenho pena, por que não é mau rapaz, -á parte o ter desembarcado em 32 com -não sei quantos outros <i>mindelleiros</i> que vinham -estropeados a ponto de mal poderem com a -arma ás costas! Por isso é que mandei vir o -rapazinho, e já que o pae m’o confiou posso -pôr e dispôr á minha vontade.</p> - -<p>—Reflexiona, homem de Deus, reflexiona.</p> - -<p>—Mas que destino queres tu que se dê ao -rapaz? Pensas que temos dinheiro para o mandar -a Coimbra? Olha que um patrimonio fica -em conta, mas uma formatura compra-se a -peso d’ouro. E demais a mais fica-nos aqui debaixo -da vista, e pouco será o que houvermos -de gastar em livros. Está decidido. Amanhã -vae matricular-se no Seminario.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XVII</h2> - -<p>Estamos em novembro de 1852.</p> - -<p>Na alameda da Mãe d’Agua respira-se no ar -balsamico a suavidade d’uma primavera perpétua.</p> - -<p>Após dias de cerrada invernia, mostra se no -formoso céo do norte este sol esplendido de -Portugal, que é a delicia de nacionaes e extrangeiros.</p> - -<p>Esperava-se por um dia alegre e sereno -para remoçar o espirito, cansado da monotonia -da chuva.</p> - -<p>D. Maria d’Assumpção tinha falado n’um -passeio ao Bom Jesus logo que o tempo estiasse; -as meninas Machados receberam, por escripto,<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span> -participação do alvitre e applaudiram-n’o -sobremodo.</p> - -<p>Lampejaram n’um domingo clarões de formosissima -aurora; deu-se rebate e preparou-se alegremente -o rancho.</p> - -<p>João Nicolau subiu a montanha abordoado á -sua bengala de canna da India, galhofando com -ares de sincero e expansivo contentamento. -Eduardo Valladares parecia, ao contrário de -todos, entre concentrado e triste. O avô olhava -para elle de soslaio e dizia de si para si:—«Lá -vae o rapaz com a maldita poesia!»</p> - -<p>D. Maria d’Assumpção, que de sobra conhecia -as angustias do neto, pensava compadecida:—«Pobre -martyr!»</p> - -<p>Maria Luiza reprimia no coração dolorosas -tempestades, e desabrochava nos labios um -sorriso que daria fel bastante para muitas lagrimas.</p> - -<p>Cêrca do meio dia, Eduardo Vallares e Maria -Luiza puderam encontrar-se na Mãe d’Agua.</p> - -<p>Foi dolorosamente triste o mudo dialogo -d’uns olhos que, n’um momento de silencio, resumiram -as mais pungentes expansões.</p> - -<p>Olharam-se, e não puderam articular uma -unica palavra. Decorreram alguns momentos -que valiam seculos d’angustia. O filho do bacharel -Valladares pôde alfim dominar a commoção -que lhe estrangulava a voz na garganta.</p> - -<p>—Esperava por este momento anciosamente, -disse elle. Escrevi-te, procurei no écho da -tua alma um allivio para os meus infortunios, -mas escrever-te não bastava. Era preciso ver-te, -ouvir-te, escutar-te. Ha dois mezes que eu -abafo no coração a procella do desespêro. Oh! -Dá-me um raio d’esperança para eu não morrer, -dize-me ao menos que me amas para que -eu tire das tuas palavras a coragem que me -falta. Ha dois mezes que eu esperava a hora -de poder escutar a tua voz como a alma condemnada<span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span> -aos tormentos do purgatorio deve -esperar o momento de subir, expurgada das -suas culpas, á bem-aventurança do Céo. Oh! -isto é horrivel, meu Deus!</p> - -<p>A pobre menina tremia agitada pela convulsão -dos nervos, e sentia fugir-lhe a voz e a -vista.</p> - -<p>—Dilacera-me o remorso, continuou elle com -violenta commoção—dilacera-me o remorso -de ter acorrentado a tua alma angelica ao -poste da minha desgraça. Sacrifiquei a tua alegria, -a tua tranquillidade, o teu futuro, a tua -vida ao egoismo do meu coração. Amar-te não -bastava? Quiz tambem ser amado, e despenhei-te, -anjo innocente, das paragens remançosas -onde te libravas descuidosa e tranquilla. Quiz -tambem ser amado e impuz á tua alma o sacrificio -de exgottar o calix da amargura ao -tempo que o teu amor dulcificava os filtros -celestiaes que me embriagavam. Perdôa-me, -oh! perdôa-me, por que o meu amor era immenso, -indomavel, e eu preferia morrer, a ver -desfeita a minha esperança, a ver desabar o -meu sonhado paraiso...</p> - -<p>—Se te perdôo! murmurou maviosamente -Maria Luiza. Perdôa-me tu, que é por mim que -tu soffres...</p> - -<p>—Ah! interrompera a elle de golpe. Pois é -certo que me perdôas? Que importa então que -imponham á minha alma um futuro que ella -não pode acceitar! O escravo, o humilde, o -servo de gleba ha de erguer-se soberbo da riqueza -da sua alma, e repellir a mão que ao -mesmo tempo empresta um futuro que nos repugna -e exige como hypotheca a felicidade de -duas existencias consubstanciadas n’uma unica. -Irei trabalhar para onde a sorte me levar; -procurarei em toda a parte o que me vendiam -aqui a trôco de lagrimas, mas terei no meu -coração a dulcissima alegria da esperança, da<span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span> -esperança que me queriam roubar para me garantirem -a felicidade material da vida, como -se a vida sem a esperança não fôsse uma ironia -cruel e deshumana! Irei, é preciso fugir...</p> - -<p>—Fugir! fugir! Dize antes que me queres -roubar a consolação de compartilhar as tuas -angustias. Fugir e deixar-me sósinha, entregue -á minha saudade, á minha desventura, ao meu -desespêro! Dize antes...</p> - -<p>—Cala-te, por alma do anjo que morreu beijando-te, -cala-te. Peço-t’o eu.</p> - -<p>—Fugir! E querias assim despedaçar as ternas -cadeias que nos prendem um ao outro, só -para alimentares no coração a esperança de -reatal-as um dia?</p> - -<p>—Perdôa-me, que eu fui cruel, porque me -enlouqueceu a dôr. Não te ver, não te ouvir! -E poderia eu viver? Iria morrer longe de ti, -anjo do meu coração, sem ouvir na hora derradeira, -á beira do meu leito, o murmurio das -tuas orações...</p> - -<p>—E depois, com que profundissimas dôres -não irias despedaçar o coração estremoso de -tua mãe! com que maldito tormento não irias -infernar a velhice de teu pae e levar a desgraça -á serenidade alegre da tua casa!</p> - -<p>—Comprehendo a nobreza da tua alma, -anjo. Agradeço-te por mim, por minha mãe, -por meu pae, por Deus. Ficarei. Acceitarei resignado -o sacrificio que me impõem e appellarei -para a Providencia, que vela por todos os -desgraçados. Juro-te que serei submisso.</p> - -<p>—Obrigada. Pertence-me metade das tuas -afflições e como poderia eu luctar com o destino -se me faltasses tu a dar-me alento nas horas -attribuladas da nossa commum desventura?</p> - -<p>—E has de soffrer tu, santa do martyrio, -que merecias a felicidade na terra? E hei de -eu ser teu algoz, eu, que te amo até á loucura? -E hei de eu ser teu algoz e sacrificar a tua<span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span> -alma immaculada, exigindo que soffras, que -chores, que morras na lenta agonia dos desgraçados, -só por que eu tambem agoniso, e -choro e soffro? E não ha de Deus escutar-nos -e não ha de o céo condoer-se das nossas afflicções! -Oh! sinto na minha alma a labareda maldita -do inferno!...</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XVIII</h2> - -<p>Não tinham decerto escutado ainda mais doloroso -idyllio as arvores sombrias da <i>Mãe d’Agua</i>.</p> - -<p>Eduardo Valladares esperava com febril anciedade, -como dissera, aquelle momento que se -lhe afigurava decisivo. Durante dois mezes, apenas -pudera entregar ao papel as pungentes -confidencias da sua alma.</p> - -<p>Quando, nos ultimos dias de setembro, João -Nicolau de Brito o chamou á puridade para -ordenar-lhe, severo e inexoravel, que immediamente -fôsse abrir matricula no Seminario, escutou -o submissamente, abafando no coração -a tempestade revôlta que, n’aquelle momento, -fibra a fibra lh’o estava despedaçando.</p> - -<p>Sahiu da sala para correr á Bibliotheca, onde -lhe ouvimos o brando queixume que o coração -amigo de Rodrigues d’Abreu recolhera compadecido.</p> - -<p>João Nicolau, matriculado Eduardo no primeiro -anno do curso de theologia, jubilava com -o bom rumo que os seus planos tomavam hora -a hora.</p> - -<p>Esperava talvez resistencia da parte do neto -e cabalmente se enganou. Todos os dias o observava -com olhos perscrutadores; via-o triste e -sombrio, mas não extranhava.</p> - -<p>Não era elle de natural melancholico?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span></p> - -<p>Estas investigações quotidianas levaram-n’o -a modificar as suas conjecturas. «O rapaz, dizia -de si para si, acceita com boa disposição a vida -ecclesiastica, esperançado talvez em alliar -a poesia com o sacerdocio. E d’ahi quem sabe? -Pode ser um vulto distincto em eloquencia sagrada.»</p> - -<p>E, uma vez possuido d’esta idéa, empenhava-se -pelo destino do neto, no intuito de o ver -ainda prégador da Real Capella, no que n’esse -tempo consistia e ainda hoje consiste a maxima -distincção com que podem ser galardoados os -oradores sagrados portuguezes.</p> - -<p>Já é incentivo!</p> - -<p>João Nicolau não curava de razoar sobre a -mesquinhez ou exorbitancia do galardão, nem -cuidava de tirar a limpo que proventos e honras -importava. N’isto se assemelhava com os -mil e um pretendentes que sollicitam mercês -honrosas actualmente; querem a venera seja -qual fôr e custe o que custar. Com João Nicolau -acontecia exactamente o mesmo. Firme no -seu designio, declarou solemnemente á mulher -e ao neto a suspensão temporaria de visitas -com o proposito de não distrahir o espirito do -futuro prégador da Real Capella. Queria-lhe parecer -que esta medida de segurança attingia -dois fins egualmente appeteciveis:</p> - -<p><i>Primo</i>: Concentrar a attenção do novel seminarista -nas materias theologicas.</p> - -<p><i>Secundo</i>: Afastar cuidadosamente as distracções -mundanas, que não só prejudicariam a regularidade -do estudo mas até insinuariam na -alma do neto philtros que não devem perturbar -o espirito d’um sacerdote.</p> - -<p>D. Maria d’Assumpção andava sobremodo -condoída das angustias do pobre Eduardo. Vira -nascer a chamma do amor e confiava na brevidade -com que usam levantar-se e morrer labaredas -em corações que desabrocham.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p> - -<p>Era este o segredo da sua medicina. O amor -passageiro dos dezeseis annos esperava ella -que fôsse antidoto efficaz ás asperezas d’uma -vida nova, e sobremodo aborrecida, em que o -neto ia entrar.</p> - -<p>O que porém não pensou aquella boa alma -foi que poderia tornar-se incendio o que se lhe -afigurava chamma e que o coração dos dezeseis -annos, como o coração de todas as edades, -tanto procura o sol para aquecer-se n’uma hora -de desconfôrto como para inflammar-se n’um -momento de febril anciedade.</p> - -<p>Em Eduardo Valladares o amor não era devaneio; -era a paixão intensa, a paixão que perde -ou que salva.</p> - -<p>Estão-me agora cahindo dos bicos da penna -uns certos dizeres de D. Francisco Manuel, que -veem de geito: «Persuado-me que esta cousa a -que o mundo chama amor, não é só uma cousa, -porém muitas com um proprio nome. Poderá -bem ser, que por isto os antigos fingissem haver -tantos amores no mundo, a que davam diversos -nascimentos; e tambem pode ser venha -d’aqui, que ao amor chamamos amores: pois -se elle fôra um só, grande impropriedade fôra -esta. Eu considero dois amores entre a gente. -O primeiro é aquelle commum affecto com que, -sem mais causa que sua propria violencia, nos -movemos a amar, não sabendo o que, nem por -que amamos. O segundo é aquelle, com que proseguimos -em amar o que tratamos, e conhecemos.»</p> - -<p>Eduardo Valladares amava Maria Luiza antes -de a vêr. Em horas de dulcissimos arroubos -creara a sua phantasia uma visão aerea, formada -de perfumes e de estrellas, meio anjo meio -mulher, meio do céo meio da terra... Este era -o primeiro amor de que fala D. Francisco Manuel, -o amor do ignoto e do intangivel. Depois, -um dia, por acaso, encontrara a consubstanciação<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span> -de todas essas particulas aereas, deixem-me -assim dizer, encontrára na terra a realidade -dos seus sonhos queridos e absorvera -n’aquelle sentimento impetuoso toda a vida de -que uma organisação extremamente delicada -pode dispor.</p> - -<p>Para aquella alma ardente e sonhadora o -amor não podia ter a serenidade das estrellas -n’uma noite d’estio: devia de ser violento como -as convulsões do vulcão que levanta ao céo as -lavas encandescentes.</p> - -<p>D. Maria d’Assumpção enganava-se pois, como -todas as almas que nasceram, dedicadas e boas, -para o remanso dos affectos vulgares.</p> - -<p>Rodrigues d’Abreu, coração aquecido ao fogo -da poesia posto que duramente provado pelas -amarguras do mundo real, Rodrigues d’Abreu -é que se não enganava assim, nem se deixava -cegar pela tranquillidade apparente do filho do -bacharel.</p> - -<p>O bibliothecario de Braga, que tinha tanto de -poeta como de christão, andava sobremodo inquieto -com os soffrimentos d’aquella alma cujos -soffrimentos devassava. Lembrou-se de escrever -a Sebastião Valladares com a rude franqueza -de homens que choraram juntos as lagrimas -do exilio. Escrever-lhe seria, porém, mostrar -ao pae a profundidade do abysmo em que -se debatia a alma do filho. Este alvitre rejeitou-o -o honrado bibliothecario por demasiadamente -impiedoso e cruel.</p> - -<p>Rodrigues d’Abreu bem comprehendera que -Eduardo Valladares amava, e sabia que era -coagido a seguir a carreira ecclesiastica. Não -bastava todavia comprehender e saber isto; -era preciso mais.</p> - -<p>Era preciso ao medico espiritual ouvir a exposição -circumstanciada do doente. Receava -porém provocar as labaredas do incendio latente, -e este receio acobardava-o. Mas como deixaria<span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span> -consumir-se lentamente aquella alma cuja -pureza aquilatara tantas vezes, elle, que era -bom, dedicado e nobre? O velho bibliothecario, -n’essas horas de attribulada incerteza, pedia -ao Céo a luz da inspiração.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XIX</h2> - -<p>Rodrigues d’Abreu costumava abraçar-se, -quando a sua alma carecia de confôrto, ao esteio -d’um coração amigo, que era urna de balsamos -para todas as afflicções.</p> - -<p>Frei Domingos do Amor-Divino, o conselheiro, -o arrimo, o cyreneu do bibliothecario bracharense, -tinha purificado o seu coração nas asperezas -da disciplina conventual, nas tribulações -da miseria e nas lagrimas choradas na solidão, -deante d’um crucifixo.</p> - -<p>Carmelita descalço, foi sempre modêlo e exemplo -nos cargos que teve de exercer em hospicios -differentes por decisão do definitorio geral -da sua ordem.</p> - -<p>Na rigorosa observancia do regimen monastico -e na prática constante da virtude lentamente -se mundificara a alma do religioso carmelita, -já de natural propensa ao bem.</p> - -<p>O convento foi-lhe sempre chrysol desde que -solemnemente professou no convento de Nossa -Senhora dos Remedios, em Lisboa, até que, silencioso -e compungido, sahira com o resto da -communidade do convento do Carmo de Braga, -dizendo para sempre adeus á casa que lhe devia -ser tumulo.</p> - -<p>Nunca Frei Domingos do Amor-Divino se entrincheirou -com as reixas do mosteiro para, a -coberto de perseguições, accender odios partidarios<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span> -e soprar injurias a qualquer das duas -facções que por longo tempo se degladiaram -em accêsa lucta civil.</p> - -<p>Não lhe ouviram nunca razoamento, nem sequer -monosyllabo, que denunciasse o rumo das -suas inclinações politicas.</p> - -<p>Quando chegava ás cellas do convento um -echo das tempestades exteriores, costumava -dizer Frei Domingos do Amor-Divino:</p> - -<p>—Não curemos de profundar essas negruras. -A porta que se fechou sobre nós é uma como -barreira que nos separa das desgraças que pesam -sobre Portugal. Que o espirito do Senhor -desça sobre nós e seja comnosco, irmãos.</p> - -<p>Retumbou finalmente aos ouvidos do carmelita -um como trovão que parecia abalar os alicerces -do convento: era a voz de debandada -que se repercutia ao mesmo tempo no seio de -todos as ordens religiosas de Portugal. Frei Domingos -do Amor-Divino cruzou com os seus -confrades um olhar afogado em lagrimas e desceu -á claustra para se despedir da lage sob a -qual esperava dormir o somno eterno. N’esse -momento, voltavam umas andorinhas que tinham -fabricado o ninho no friso da crasta.</p> - -<p>Foi dilacerante aquelle lance. As andorinhas, -ficavam e a communidade... sahia.</p> - -<p>Frei Domingos do Amor-Divino foi um dos -religiosos portuguezes que emmudeceram na -sua dôr, e procuraram na solidão o refugio que -não podiam encontrar em qualquer outra parte.</p> - -<p>Dissolvida a grande familia monastica portugueza -e serenadas as tormentas politicas que -mergulharam em rios de sangue as decantadas -boninas das varzeas de Portugal, Frei Domingos -do Amor-Divino assentou residencia em -Braga.</p> - -<p>—Quero vêr a toda a hora o ninho das andorinhas, -dizia elle referindo-se ao convento do -Carmo. Ali lhes escutei o alegre chilrear e alli<span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span> -esperava morrer com ellas. O meu coração precisa -d’este consôlo.</p> - -<p>Sua grande affeição á casa onde tinha vivido, -esquecido do mundo, levou o a escolher cubiculo -d’onde ao menos pudesse espreitar as torres -do seu convento. Recolheu se Frei Domingos -a uma pobre mansarda da rua do Carvalhal -e ahi viveu a vida angustiada da miseria e -da solidão. Muitas pessoas, que ajoelharam a -seus pés com o coração requeimado, levantaram -se do confessionario com os olhos marejados -de lagrimas.</p> - -<p>Isto diz-se para até certo ponto se explicar o -respeito com que os vizinhos o olhavam e cumprimentavam -quando sahia e entrava.</p> - -<p>João Nicolau, se acertava vêl-o, dizia ordinariamente:</p> - -<p>—Ó mulher, estes pobresinhos dos frades, -sem casa e sem pão, fazem realmente despedaçar -a alma a quem os vê. E olha como o nosso -vizinho vive resignado, que até se lhe rie o semblante! -Deus perdôe a quem...</p> - -<p>E deixava quasi sempre a phrase incompleta -para não evocar recordações pungentes que tinha -recalcadas no coração.</p> - -<p>Um dia uma viuva desvalida, mãe de quatro -filhos, ajoelhou supplicante aos pés de Frei Domingos.</p> - -<p>O virtuoso carmelita levantou-a compassivo -e disse-lhe:</p> - -<p>—Se na minha mão estivesse remediar a -vossa miseria, remediada estava. Não desanimemos -porém. «Pedi e dar-se-vos-ha, buscae e -achareis, batei e abrir-se-vos-ha» disse o Divino -Mestre no sermão da Montanha. Sigamos pois -o conselho de quem nol-o podia dar.</p> - -<p>E foi-se de porta em porta, seguido da viuva -e das creancinhas, esmolando para a mãe e para -os filhos.</p> - -<p>Rodrigues d’Abreu foi um dos não muitos corações<span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span> -que se enterneceram a lagrimas deante -d’aquelle edificante e extranho espectaculo. -Desde então nunca na alma do bibliothecario -bracharense passava uma dôr intima, que elle -não fôsse desafogal-a no coração de Frei Domingos -do Amor-Divino.</p> - -<p>A sorte desventurosa do filho do bacharel -Valladares trazia trabalhado de crueis angustias -o espirito do bibliothecario bracharense. -Foi pois n’umas das horas de doloroso cogitar -a tal respeito, que na alma de Rodrigues d’Abreu -passou um lampejo d’esperança, ao lembrar-se -do muito que podia fazer, em tão apertado caso, -Frei Domingos do Amor-Divino.</p> - -<p>Não hesitou um momento. Tinha pedido ao -Céo a luz da inspiração e á conta d’inspiração -celeste tomara elle o pensamento que o impellia -para o religioso carmelita.</p> - -<p>Foi procural-o, falou-lhe, desdobrou-lhe o -quadro das afflicções que eram d’outrem e que -sentia como suas. Frei Domingos attendeu-o e -escutou-o humilde e compassivo, respondendo -finalmente:</p> - -<p>—É grave e trabalhoso demover o proposito -d’um ánimo resoluto. Operemos e esperemos -todavia. <i>Deus autem noster in cælo; omnia quæ -cumque voluit, fecit.</i><a name="FNanchor_6" id="FNanchor_6"></a><a href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a></p> - -<p>Depois que Rodrigues d’Abreu sahiu do cubiculo -da rua do Carvalhal, Frei Domingos do -Amor-Divino ajoelhou-se deante do seu crucifixo -invocando as graças do Céo. Durante a -oração illuminou-se-lhe o espirito, e quando o -carmelita se levantou, tinha já traçado o plano -da obra espinhosa que tomara sobre si, esperançado -no auxilio divino, como revelam estas -palavras que murmurara ao oscular o crucifixo:</p> -<p><span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span></p> -<p>—<i>In tribulatione mea invocavi Dominum, et ad -Deum meum clamavi.</i><a name="FNanchor_7" id="FNanchor_7"></a><a href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a></p> - -<p>Depois desceu as escadas com extranhavel -vigor, atravessou a rua e aldravou á porta de -João Nicolau de Brito.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XX</h2> - -<p>Eduardo Valladares e Maria Luiza, na impossibilidade -de fallar-se, viam-se apenas. Triste -correspondencia era essa escripta com lagrimas -de dois corações que se deviam estar inflorando, -n’aquella sazão, em jubilosas primaveras. -Não acontecia assim, porém.</p> - -<p>As cartas de Maria Luiza principiavam por -palavras de resignação e fechavam com outras -d’esperança; as de Eduardo Valladares tinham -longo prefacio de desalentos e terminavam com -assomos de mal contido desespêro.</p> - -<p>Demoremo-nos um momento a medir a profundeza -de dois abysmos.</p> - -<p>Maria Luiza, alma que se desatara em perfumes -e amores ao sôpro virginal do primeiro affecto, -conhecia de sobra os despenhadeiros que -lhe estava cavando um amor desventuroso, e -resignadamente se deixaria despenhar só -para não arrastar na queda outra alma que -vivia sob o influxo d’uma estrella commum.</p> - -<p>Por isso, com o coração despedaçado, aconselhava -a medicina da resignação e deixava -entrever diluculos d’esperança através de uma -chuva de lagrimas que não podia reprimir.</p> -<p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p> -<p>Os vestigios das lagrimas choradas desvelariam -a um espirito desassombrado o segredo -que o coração de Maria Luiza com tamanho -empenho recatava; bastariam para eloquentemente -denunciar os soffrimentos crueis que ella -procurava dissimular trocando em flores o orvalho -dos seus olhos.</p> - -<p>Eduardo Valladares, moralmente sobreexcitado, -lia as cartas e, diga-se a verdade, encontrava -n’ellas um como refrigerio ministrado por -mão do anjo da guarda; por momentos se tranquillisava -com as esperanças a que o estava -convidando o ánimo apparentemente tranquillo -de Maria Luiza.</p> - -<p>Durava apenas momentos, como dissemos, a -acção benefica da leitura. Após aquelle instantaneo -repouso, rugiam de novo as mesmas tempestades -e era então o revolver se no mesmo -leito de Procusto, em desesperadora ancia. O -que elle claramente via n’esses angustiosos -momentos era o infernal dilemna que comprimia -a sua vida entre dois estiletes rubros de -fogo maldito:—Succumbir ou rebellar se.</p> - -<p>Succumbir era amortalhar se na batina do -sacerdote; dilacerar o coração, dia a dia, hora -a hora; despenhar em abysmo insondavel as -mais formosas visões do céo da sua mocidade; -separar-se d’ella, da mulher adorada, para nunca -mais aspirar o perfume dos seus labios, e -não só separar-se mas tambem infelicital-a; e -depois passar sereno e tranquillo, aconselhando -esperança, por entre os que se ajoelhassem -para beijar-lhe a fimbria da batina. Rebellar-se -era ter de fugir, levando para toda a parte o -remorso de haver envenenado a tranquillidade -do lar paterno; era ter de abandonar o anjo -que na linguagem dulcissima do Céo lhe pedia -que ficasse; era dar á sociedade o direito de -insultar as suas dores mais santas; era finalmente -faltar á promessa, que fizera, de esperar<span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span> -resignado o momento em que chovesse do Céo -o refrigerio que só o Céo podia ministrar em -tão difficil conjunctura.</p> - -<p>Ficou pois; como havia promettido.</p> - -<p>Approximam-se as férias do Natal de 1852 e -Eduardo Valladares denunciou vontade de não -vir ao Porto, pretextando trabalhos escholares, -especialmente o de redigir duas dissertações.</p> - -<p>É que se não via com a coragem precisa -para abeirar-se de sua mãe sem revelar os segredos -que lhe corroíam o coração, sem lhe dizer -que tudo quanto parecia sujeição voluntaria -era sacrificio de victima impotente, e sem -lhe attribular para sempre as horas que á boa -senhora corriam remançosas ao lado do marido.</p> - -<p>Em meado de dezembro, n’uma quinta-feira -que amanhecia radiosa como para descoalhar -as neves que alvejavam nas agulhas das serranias, -especialmente no Gerez, Eduardo Valladares -deixou-se ir, de rua em rua, absorto nos -pensamentos que lhe preoccupavam o espirito.</p> - -<p>Ao desemboccar no Campo de Sant’anna, sahiu-lhe -ao encontro um seminarista seu condiscipulo, -um tal Mendonça, natural de Guimarães, -talento contubernal de homens devassos nos -alcouces bracharenses, brigão de emboscadas -nocturnas, que seguia a carreira ecclesiastica -para acobertar com a batina as ulceras -d’uma alma devastada pelo vicio.</p> - -<p>A approximação d’este sujeito façanhoso, que -apregoava, chanceando-se, as repugnantes aventuras -de sua chronica, entediava sobremodo -Eduardo Valladares, o qual pensava, ao vêl-o, -na maneira por que a sociedade costuma encarar -o padre que sacrifica a propria felicidade -aos pés de Deus, e o padre cujos dedos empeçonhados -da lepra do crime devem macular a -alvura do amicto.</p> - -<p>Eduardo Valladares pensava n’isto e conhecia -que a sociedade não levantava entre um e outro<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span> -barreira que pudesse distancial-os, para que a -lama, levantada na passagem do mau padre, -não fôsse salpicar a face do sacerdote exemplar.</p> - -<p>Esta distancia conservava-a Eduardo Valladares -no seu espirito, que é unicamente onde se -pode distinguir vicio e virtude quando é uso -confundil-os e tomal-os um pelo outro só para -se não castigar o vicio nem premiar a virtude.</p> - -<p>N’aquella dolorosa introversão do seu espirito, -via se Eduardo Valladares já sacerdote, offerecendo -todos os dias a Deus no calix do sacrificio -a vida que lentamente lhe arrancavam -e, como se isto não fôsse provação de sobra, -via-se tambem exposto aos chascos da sociedade -que insulta um raro exemplo de virtude, -quando elle apparece, por estar habituada a -encontrar a torpeza, a cada hora, nas praças -como nos templos.</p> - -<p>Corroendo a arvore sacrosanta do evangelho, -regada pelo suor dos virtuosos cultores e mimosa -dos cuidados d’elles, descobria o ominoso -áspide, o verme da reacção, que contramina a -obra piedosa e envenena com a baba immunda -os fructos que puderam ser opimos, damnificando -a colheita. Quando apparece o modêlo das -verdadeiras virtudes evangelicas, quando surge, -de longe a longe, um Frei Domingos do -Amor-Divino, a sociedade, na maxima parte, -repelle-o e vitupera-o e apedreja-o irreverentemente.</p> - -<p>No dia em que o religioso carmelita sahira a -mendigar de porta em porta para a viuva e -para os quatro orphãos, não muitos, como já -dissemos, foram os corações que se abriram ao -benefico influxo d’aquelle espectaculo edificante. -Muitos o repelliram com desamor e remoques -d’esta laia:</p> - -<p>—Que peça para um, que já não é pouco. A<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span> -gente não tem obrigação de sustentar as familias -dos frades pobres e devassos...</p> - -<p>E Frei Domingos sahia, com a sua velhice e -com a sua humildade, chamando mentalmente -o medico divino para o coração empedrenido.</p> - -<p>O seminarista de Guimarães abeirou se de -Eduardo Valladares com rude familiaridade:</p> - -<p>—Ó homem! estava longe de te encontrar -aqui! Tão recatado vives, que não ha pôr-te a -vista senão á hora da aula! Ora dize-me uma -coisa. Tu levas isto a sério ou usas de santimónias -de Tartufo?</p> - -<p>O filho do bacharel fitou com admiração o de -Guimarães e ponderou entre delicado e digno:</p> - -<p>—Não comprehendo, como desejava, a referencia -da palavra <i>isto</i>. Tens a bondade de m’a -explicar?</p> - -<p>—Isto, replicou Mendonça desfechando uma -gargalhada, isto, é a alienação do direito de ser -homem, que a sociedade nos quer impor, a nós, -os que seguimos a vida ecclesiastica; isto, é a -investidura ridicula da batina; isto, é a tonsura -com que nos cerceiam os cabellos emparelhando-nos -aos scelerados que estigmatisavam nos -logares publicos; isto, é este assentamento de -praça na milicia sagrada, que não pode deixar -de ter as liberdades de todas as milicias...</p> - -<p>—E isso, o que tu disseste, replicou Eduardo -Valladares, é a linguagem desbragada do soldado -que veste as armas, não para militar pela -causa que jurou, mas unicamente para ter direito -á pilhagem...</p> - -<p>—Santimónias de Tartufo, bem dizia eu! -Olha que nem tu nem eu havemos d’enriquecer -com a pilhagem. E d’ahi, pode ser que tu chegues -a fazer casa... Quantas missas tencionas -dizer por dia?</p> - -<p>Eduardo Valladares ia denunciar o asco que -lhe estava causando aquelle falar licencioso, -quando um maltrapilho, que passava, bateu<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span> -familiarmente no hombro de Mendonça e apostrophou:</p> - -<p>—Ó homem! eu dormi quatro horas e tu não -havias de dormir muitas mais! Perdi tudo... -A sorte negou-se, e deixou-me a tinir!</p> - -<p>Eduardo Valladares foi seguindo seu caminho, -sobremodo entendia da approximação -d’aquelle repulsivo caracter. O de Guimarães e -o maltrapilho ficaram conversando e revendo -provavelmente as paginas ascorosas da historia -d’uma noite passada em qualquer espelunca -de jôgo.</p> - -<p>O filho do bacharel foi seguindo sempre pelo -Campo de Sant’Anna adeante e, transposta a -egreja de S. Victor, sentou-se no caminho desfrequentado -a olhar para o arvoredo que ao de -leve ondulava na encosta do Bom Jesus. Ahi, -n’esse cogitar em si mesmo, passou duas horas -que tanto tiveram de tribulação como de doçura. -N’aquelle seu ermar havia um misto d’esperança -e desespêro, que praza a Deus que os que -hoje se julgam felizes nunca possam comprehender.</p> - -<p>O leitor, que se defrontou já com o perfil -respeitavel de Frei Domingos do Amor-Divino, -ponha os olhos no reverso da medalha, n’este -seminarista de Guimarães, que já cem vezes ou -mais deve ter levantado com mãos impuras o -calix que Frei Domingos offerecia a Deus todos -os dias, e depois volte a pagina e leia o capitulo -seguinte para restituir á sua alma as doçuras -religiosas que os labios de nossa mãe -coáram aos nossos ouvidos quando nos ensinaram -as primeiras orações.</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span></p> - -<h2>XXI</h2> - -<p>João Nicolau vinha, com uma braçada de flores, -de jardinar nos seus canteiros, quando ouviu -bater á porta. Foi elle mesmo abrir e entre -admirado e contente se mostrou ao dar de -rosto com Frei Domingos do Amor-Divino. Não -teve mão em si que, ao conduzir para a sala o -carmelita, não fôsse gritando com alegre alvoroço:</p> - -<p>—Anda cá, Maria, anda cá. Está aqui o -nosso vizinho Frei Domingos; não te demores, -anda de pressa...</p> - -<p>D. Maria d’Assumpção acudiu pressurosa ao -clamoroso chamamento e, quando encarou no -marido que embraçava ainda as flores, pediu -desculpa após desculpa de tão descerimoniosa -recepção.</p> - -<p>Frei Domingos respondeu com jovialidade:</p> - -<p>—Com flores me receberam; não pode haver -mais galhardo acolhimento. O snr. João -Nicolau está-me fazendo recordar agora d’uma -passagem de Salomão. Ora lá vae e tenham -paciencia; isto é veso incuravel de frade velho: -«Desci ao jardim das nogueiras para vêr os -pomos dos valles e para examinar se a vinha -tinha lançado flor e se as romãs tinham brotado». -Foi o sr. João Nicolau vêr as flores do -seu jardim e mimosas as encontrou, a julgar -pelas que trouxe. Não ha, pois, razão para desculpas -e não falemos mais n’isso.</p> - -<p>—Ó sr. Frei Domingos, replicou João Nicolau, -nunca eu desço ao quintal que não sinta -um peso na alma ao deitar os olhos para as -torres do Carmo. Ai que tristes recordações!...</p> - -<p>—Não podes falar n’outra coisa! atalhou -D. Maria d’Assumpção.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span></p> - -<p>—Não me molesta, antes me consola o assumpto, -respondeu Frei Domingos. É sempre -doce para o coração d’um filho ouvir falar da -casa paterna; e tanto eu quero ainda áquelle -tecto, que me fiquei por aqui para o estar namorando -a toda a hora...</p> - -<p>—Perseguirem os frades! regougou João Nicolau. -Que mal lhes faziam? Não houve delicto -de que os não accusassem!...</p> - -<p>—Não sejamos tão severos, não sejamos. -Nos conventos, como em todas as sociedades, -havia trigo e joio.</p> - -<p>—Isso assim é, acudiu João Nicolau. Lá diz -o que escreveu <i>Os frades julgados no tribunal da -razão</i><a name="FNanchor_8" id="FNanchor_8"></a><a href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a>, curioso livrinho que tenho alli, lá diz -elle: «A primeira familia do mundo teve um -Caim».</p> - -<p>—Bem disse o auctor e com verdade falou. -No convento havia homens e por tal razão -idéas e sentimentos diversos. Mas entre tantas -cabeças e tantos corações alguma cabeça -haveria que pensasse reflectidamente, algum -coração haveria propenso ao bem e ao justo. -A obra d’esse varão aproveitaria ao mundo. -Muito melhor o diz o livro sagrado: «Pequena -é a abelha entre os animaes volateis, e com -tudo isso logra o seu fructo a primazia da -doçura»<a name="FNanchor_9" id="FNanchor_9"></a><a href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a>.</p> - -<p>D. Maria d’Assumpção escutava enlevada e -ao mesmo tempo compadecida das angustias -do frade.</p> - -<p>—Tudo quanto havia de bom, fora e dentro -<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span>dos conventos, tudo a guerra nos levou, ponderou -João Nicolau. Perderam-se vidas, correram -rios de sangue, consumiu-se, matou-se, espoliou-se... -As consequencias fôram tristes -como os factos.</p> - -<p>—Sou extranho a tudo o que respeita a politica; -no convento desconheci-a sempre; fora -do convento egualmente a desconheço.</p> - -<p>—Ler a historia da guerra civil, disse João -Nicolau, é doloroso; feliz quem se puder forrar -a semelhante leitura.</p> - -<p>—D’essa historia, respondeu Frei Domingos, -sei apenas que o sr. D. Pedro era um principe -portuguez, que já morreu e que o sr. D. Miguel, -seu irmão, é outro principe que vive em -terra extranha.</p> - -<p>—Pobre e saudoso, elle, o sr. rei, o rei legitimo, -como provou José Agostinho, como provou -Frei Matheus da Assumpção, e como provaram -tantos outros!</p> - -<p>—Pobre e saudoso se me afigura que deve -viver. Mas, exclamou Frei Domingos com ar -prazenteiro, fechemos as chronicas nacionaes -que estão ainda a rever sangue. É tempo de -expor o motivo que me levou a entrar na -casa desconhecida...</p> - -<p>—Muito prazer nos deu a sua visita, sr. Frei -Domingos, apostrophou D. Maria d’Assumpção.</p> - -<p>—Não sabe quanto me apraz relacionarmo-nos! -accrescentou João Nicolau. Espero que -continuará a dar-nos o gosto de o vermos e ouvirmos. -E depois tenho cá um meu neto que -anda no Seminario e que precisa de pedir sombra -a boa arvore. O sr. Frei Domingos sei eu -que não se recusa a uma obra piedosa.</p> - -<p>—Nada sou e nada valho. Se não é molesta -a minha presença, virei. Não ha melhor asylo -do que o aposento do varão honesto e honrado. -Ah! mas reatando a conversa... Costumam -alguns corações piedosos encarregar-me, n’esta<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span> -grandissima festa do Nascimento, de distribuir -esmolas por pessoas realmente carecidas. -Sempre é bom prevenir, e mais sabem tres do -que um. Não tem o snr. João Nicolau pessoa -de suas relações que se veja em estado d’acceitar -a moeda abençoada da caridade?</p> - -<p>—Oh! sr. Frei Domingos! A sua lembrança -penhora-nos! exclamou D. Maria d’Assumpção. -Temos, sim, senhor. A Joaquina, que fez em -tempo os recados da nossa casa, está pobre e -entrévada ha dois annos e, se lhe não valesse -o auxilio da caridade, já teria morrido de -doença e miseria.</p> - -<p>—É verdade, a Joaquina! bem empregada -esmola! confirmou João Nicolau.</p> - -<p>—Pois esperemos o Natal, e da colheita repartiremos -pela entrevada Joaquina, perorou -Frei Domingos, levantando-se para sahir.</p> - -<p>Á despedida, João Nicolau e D. Maria d’Assumpção -reiteraram instancias que demovessem -o frade a prometter nova visita e, quando -elle transpunha o limiar, ficaram ambos dizendo:</p> - -<p>—Frei Domingos é uma santa alma!</p> - -<p>As mesmo tempo ia monologando o carmelita:</p> - -<p>—<i>Dominus Deus auxiliator meus</i><a name="FNanchor_10" id="FNanchor_10"></a><a href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a>. Deus me -guiará pelo caminho appetecido.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XXII</h2> - -<p>—Temos passado as férias,—disse D. Maria -d’Assumpção a João Nicolau, sem darmos um -unico passeio! Eu acho que já estou trôpega. -<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span>Nada! É preciso aproveitar estes dois dias. Em -se abrindo as aulas, começa a gente a cabecear -com somno como se a casa fôsse de ermitões. -E agora, que são férias, parece que tambem era -prohibido falar em passeios para não distrahir -o nosso estudante!...</p> - -<p>—Ó mulher! tu não tens lembrado... Eu estou -por tudo.</p> - -<p>—Pois não vês que este rapaz, de genio triste, -não pode supportar semelhante viver de velhos?</p> - -<p>—Olha que é preciso educal-o para a vida que -ha de levar. A vida do bom sacerdote deve ser -a vida do descanso e da meditação... Põe os -olhos em Frei Domingos...</p> - -<p>—Pois quando elle fôr padre, falaremos. -Guiemol-o por bom caminho, mas não o opprimamos. -A oppressão dá causa, por via de regra, -á reacção.</p> - -<p>—Reagir, elle! Não se reage contra as proprias -inclinações. Em tempo pareceu-me que -era avesso á carreira ecclesiastica. Hoje estou -completamente convencido de que sonha com -as glorias do pulpito e com o renome conquistado -pelas suas homilias futuras. É que o chama -para alli o coração, e esta coincidencia de -encontrar o animo do Eduardo affeiçoado á minha -vontade, só a Deus a posso agradecer. Por -isso, para satisfazer aos deveres que me aconselha -a consciencia, é que já lhe comprei outro -dia os sermões do Padre Antonio Vieira...</p> - -<p>—Por mais audaciosas que sejam as aspirações -do rapaz, por maior que seja a sua tendencia -para a vida ecclesiastica, sempre te direi -que a leitura de sermonarios deve ser muito -indigesta para um espirito de dezesete annos.</p> - -<p>—Sim! hei de talvez dar a ler essa praga de -romances, que se introduziu em Portugal ha -poucos annos, a um rapaz que eu educo para<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span> -ser um padre digno dos respeitos da sociedade! -Que mau padre não o quero eu. Prefiro vel-o -morrer. Frei Domingos é o typo que eu escolho -como padrão do bom clerigo.</p> - -<p>—Ora essa! Pois tu imaginas que ha muitos -Frei Domingos?! Uma alma assim manda-a -Deus á terra para allivio dos infelizes.</p> - -<p>—Não digo que seja egual, que eu sou o primeiro -a reconhecer em Frei Domingos virtudes -excepcionaes. Ninguem tem por elle mais respeito -e mais dedicação do que eu. Quero porém -que o exemplo do nosso vizinho aproveite á sociedade; -bem sabes que deve ser de bençãos a -sombra d’aquella arvore veneranda.</p> - -<p>—Disseste «sociedade» e querias referir-te ao -Eduardo. Percebi a tua intenção. Pois se tu dissesses -a Frei Domingos: «Tenho aqui encarcerado -a sete chaves este rapaz de dezesete annos, -só para que não se acalente ao sol do -mundo» verias como elle te havia de responder: -«Deixe-o entregue ás alegrias castas da sua idade, -e não opprima o coração delicado.»</p> - -<p>—Ó mulher! pois eu opponho-me? Valha-me -Deus! Passeiemos. Já agora encarreiramos para -o Bom Jesus. Pois vamos lá; e se queres ir para -outro sitio, dize.</p> - -<p>—Vamos ao Bom Jesus que é mais commodo -e menos dispendioso. Vamos lá depois d’amanhã -passar o dia. Visto que está em costume, -mando dizer ás Machados.</p> - -<p>—Pois manda. Depois não me chames ermitão...</p> - -<p>D. Maria d’Assumpção vingára o seu proposito. -O que ella queria era alliviar por um momento -as sombras espessas que ennoiteciam -dia a dia, cada vez mais, a alma do neto. Tanto -lhe bastava, e para isso era preciso não dissipar -as illusões do marido, o que seria o mesmo -que fazer subitamente estalar uma tempestade. -João Nicolau, inimigo figadal do romantismo,<span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span> -andava acumulando de velharias mysticas -a estante de Eduardo.</p> - -<p>A pobre senhora conhecia a inconveniencia, -mas nem se oppunha, nem sequer mostrava -desagrado. Esperava em Deus. Era para o Céo -que ella appellava na impossibilidade de suster -a marcha de acontecimentos a que era contraria.</p> - -<p>A antipathia de João Nicolau pelo romantismo, -aquelle odio explosivo votado ao romance -tal qual o architectára Garrett no <i>Arco de Sant’Anna</i> -e principalmente na historia da Joanninha -das <i>Viagens</i>, póde explicar se ainda pela -cega dedicação a José Agostinho de Macedo e -á seita litteraria seguida pelo auctor da <i>Viagem -extatica</i>.</p> - -<p>Tudo o que não fosse a declamação emphatica -vasada nos velhos moldes aristotelicos, era -somenos para João Nicolau. Bem se lembrava -elle de que o seu auctor favorito escrevera: -«Depois da praga gazetal o <i>romancismo</i> é a -peste litteraria, que mais tem grassado por -toda a Europa. Assim que W. Scott, e o Byron -em Inglaterra, e em França seus macaquinhos, -Lamartine, d’Arlincourt, Victor Hugo e outros -de igual jaez publicaram seus monstruosos delirios, -logo houve em Portugal quem os imitasse.» -Estas palavras, e as mais que se seguem, e não -nos permittimos transcrever, acepilhadas de -quejandas blasphemias, eram doutrina corrente -e moente para o velho absolutista.</p> - -<p>D’aqui, e da esperança de vêr o neto prégador -da real capella, provinham as frequentes -compras de sermonarios e chronicas milagreiras -para a estante, dia a dia enriquecida, do filho -do bacharel.</p> - -<p>No quarto de Eduardo Valladares havia, porem, -um livro não recheado de erudição fradesca -nem modelado pelos velhos paradigmas -litterarios. Esse era o livro querido, o livro sempre<span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span> -lido, sempre veneno e sempre balsamo: era -o <i>Eurico</i>, do sr. Alexandre Herculano. João Nicolau, -indifferente senão adverso aos applausos -que esta obra notavel despertara, suppunha o -neto, por via de regra, absorvido em leituras -devotas, á hora em que elle aliás estava vendo -a sua alma no espelho em que se projectava o -perfil do presbytero de Carteia.</p> - -<p>Não era Eurico um desgraçado como elle ou -elle um desgraçado como Eurico?</p> - -<p>Ambos amavam, ambos soffriam, ambos choravam, -e ambos podiam perguntar a si mesmos: -«Que fôra a vida se n’ella não houvera lagrimas?»<a name="FNanchor_11" id="FNanchor_11"></a><a href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a></p> - -<p>A viuva Machado, convidada de vespera para -tomar parte no passeio ao <i>Bom Jesus</i>, respondeu -que gostosamente iria se, d’um dia para o -outro, se não aggravassem uns leves incómmodos -que todavia a não deixavam sahir. D. Maria -d’Assumpção ficou muito contrariada, mas -não era conveniente transferir o passeio, e -foi.</p> - -<p>Eduardo Valadares chegou á floresta do Bom -Jesus com o coração despedaçado. Era a primeira -vez que alli entrava sem Maria Luiza, e a folhagem -verde da encosta, quando elle passava, parecia -murmurar este nome; d’aqui o olhar para -si mesmo e fugir apavorado da solidão dolorosa -da sua alma. Mas o que era isto, esta saudade -ao mesmo tempo suavisada pelas doces recordações -que lhe eram socias, o que era esta triste -solidão a par da solidão perpetua a que a sua -alma se via condemnada; das infinitas dores -curtidas nas longas horas das noites de vigilia, -das lagrimas choradas, das esperanças para -sempre perdidas, das lacerantes recordações que -elle em vão tentaria abafar, e que de si mesmas -<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span>resurgiriam, umas após outras, no espirito do -presbytero?</p> - -<p>Insensivelmente foi procurando o trilho da -Mãe d’agua; ia-o guiando o coração, sem que -elle désse por isso.</p> - -<p>Era aquella a mesma alameda, aquella a mesma -cupula de verdura, o mesmo cedro em cujo -cortix entalhara as iniciaes M. L., o mesmo ar -cheio de murmurios, a mesma corrente suspirosa, -a mesma sombra e a mesma suavidade. -Mas faltava ella, a doce companheira, a visão -formosa d’aquella tão doce estancia, e a -solidão era triste, pesada, esmagadora.</p> - -<p>Um livro, o livro de todos os dias, de todas as -horas, fôra mais uma vez aberto no momento -em que mais era preciso.</p> - -<p>Eduardo Valladares folheava o <i>Eurico</i>, e os -seus olhos deletreavam estas palavras:</p> - -<p>«Outras noites, em que mais tranquillo podia -a sós comigo engolfar-me nos pensamentos de -Deus, a tua imagem vinha interpôr-se entre -mim e a lampada mortiça que me allumiava, e -o hymno do presbytero de Carteia, que devia -talvez escrever-se nos livros sagrados das cathedraes -de Hespanha, ficava incompleto, ou -terminava por uma blasphemia secreta; porque -te via tambem sorrir, mas a outrem, mas a homem -feliz com o teu amor, e eu tinha então -sêde... sêde de sangue... Era uma lenta agonia! -E sempre tu ante mim: nas solidões das -brenhas, na immensidade das aguas, no silencio -do presbyterio, nos raios esplendidos do sol, -no reflexo pallido da lua, e até na hostia do sacrificio... -sempre tu!... e sempre para mim -impossivel!»</p> - -<p>—Impossivel! repetia Eduardo Valladares. -Impossivel!</p> - -<p>E no seu hombro pousára a mão d’alguem -que elle não vira.</p> - -<p>Quem era?</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span></p> - -<h2>XXIII</h2> - -<p>Era ella, Maria Luiza.</p> - -<p>Eduardo Valladares, por um momento, julgára -sonhar. Todavia o seu anjo adorado, entre -o qual e elle se ia cavar o abysmo insondavel -do impossivel, estava alli, soluçante, convulso, -com os olhos merejados de lagrimas.</p> - -<p>A viuva Machado, restabelecida da ligeira indisposição -da vespera, accedera ás instancias -das filhas e resolvera ir, posto já não pudesse -acompanhar D. Maria d’Assumpção.</p> - -<p>O moço seminarista, na violenta sobreexcitação -que o agitava, deixara assomar aos labios -a tempestade que lhe refervia na alma.</p> - -<p>—Impossivel! murmurava elle. E sabes tu o -que é o impossivel? Sabes o que é a distancia -infinita que separa o reprobro da estrella polar -que elle vê através das reixas do carcere? -Sabes o que é morrer abafado na propria dôr, -na dôr que não tem linitivo, que não tem cura, -que não tem um só momento de repouso, um -só instante d’esquecimento? Pois bem, entre -nós que nos amamos e que vivemos a mesma -vida, vai abrir-se a voragem do impossivel, -como se dissesse que vai sentar-se o espectro -da morte, para o vêrmos a toda a hora em glacial -immobilidade, sem querer condoer-se das -nossas afflicções. Morrer! Que influxo benefico -não coaria a morte aos nossos corações calcinados -por metal candente! Que felicidade não -sorri na morte ao desgraçado! Será fraqueza -pedil-a? Pois se o coração trasborda de lagrimas -como o oceano na tormenta, pois se a alma -foge de si mesma amedrontada, como do espectaculo -sombrio d’um tumulo aberto, porque<span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span> -não hade perdoar o Deus de misericordia a -quem fica prostrado na via dolorosa exclamando: -Senhor! os meus olhos cegaram de -chorar; illuminae em troca a minha alma com -o resplendor das vossas eternas auroras?! Não -sabes tu que o Salvador da humanidade, alanceado -o coração de supremas angustias, elevava -o seu espirito attribulado ao Deus das alturas, -cujo filho era, exclamado exhausto: «Meu Deus, -meu Deus, porque me desamparastes?» E não -havemos nós, corações terrenos, pedir ao Céo, na -cerração da vida, que nos aproxime do tumulo, -da porta que se abre sobre nós dando passagem -aos fulgores inextinguiveis da eternidade?</p> - -<p>Maria Luiza, pendida sobre o hombro de -Eduardo Valladares, orvalhava-lhe as faces de -lagrimas abrasadoras.</p> - -<p>Sentira-as elle, e procurara dominar os impetos -da sua alma, envenenando-a com o trago -das lagrimas reprimidas.</p> - -<p>—Choras! E sou eu, e é o meu amor que te -enche os olhos de pranto! Tremo da justiça dos -Céos, Maria! Quem me deu a mim o insolito direito -de te lembrar que tambem és desgraçada? -Como ouso eu arrancar as flores da tua esperança, -para calcal-as aos pés, sem me lembrar -de que estou calcando com ellas o teu amantissimo -coração. Oh! sim, tu esperas, não é verdade? -Não é certo que tens no thesouro da tua -alma a esperança que me offereces e queres -repartir comigo? Enganares-me tu... Não, não, -perdoa-me o que ha de injustiça n’estas palavras. -Se a esperança ou se Deus, que tudo vem -a ser o mesmo, te houvesse desamparado, não -ousarias insinuar-me nova fé com receio de que -eu descobrisse a verdade, a verdade negra e terrivel, -sob os teus hymnos de mentirosa crença... -Tu esperas, não é verdade? Deus, que formou -de essencia divina as almas dos anjos como tu, -não podia roubar-lhes a esperança, condemnando-as<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span> -ao desespêro dos réprobos... Não -chores...</p> - -<p>—Não choro. Promette tu dominar a exaltação -do teu espirito, que eu prometto não provocal-a -de novo com as minhas lagrimas. Chorar -eu! Passou acaso no nosso coração o sôpro -devastador da descrença? Só os que não esperam, -os que não crêem, é que choram, por que -esses devem ser muito desgraçados, pois não -devem?</p> - -<p>E rolavam-lhe pelas faces copiosas lagrimas, -como se Maria Luiza nem sequer soubesse que -estava chorando e desvendando os dolorosos -segredos da sua alma.</p> - -<p>—Ah! pois tu choras! Estás involuntariamente -denunciando com as tuas lagrimas que -tambem és desgraçada, porque não esperas, -porque não crês...</p> - -<p>—Meu Deus! Eu enlouqueço! Dizes-me que -choro e não sinto as lagrimas!...</p> - -<p>—É que a tua alma verga n’este momento -ao peso d’um presentimento que a domina, e -que ella está revelando sem que tu mesma tenhas -consciencia da propria existencia. Ah! -como nós somos ambos infelizes, meu amor. -Bem m’o dizia o coração, bem m’o disse ainda -ha pouco, antes d’abrir este livro, n’um momento -que não sei se foi de sonho se de meditação. -Meditação, não; não foi. Eu estava quasi -adormecido... Meditação, não. Queres que te -conte o meu sonho, como o estou recordando -n’este instante?</p> - -<p>—Oh! conta, conta...</p> - -<p>—Um camponez, que tinha vivido expatriado -em longes terras, privado dos carinhos da esposa, -saudoso dos filhos que deixara no berço, -do torrão que o vira nascer, da cabana onde -amara e vivera, das serras da sua patria, de -tudo o que é doce e consolador, voltava em demanda -do tugurio querido, e a todas as horas<span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span> -recordado, após os lacerantes soffrimentos d’um -longo exilio. Quando vinha transpondo a serra -do tôpo da qual se avistava a sua cabana, coberta -de colmos como a tinha deixado, desciam -do céo as sombras da noite e, quanto mais veloz -elle caminhava, mais o arvoredo se perdia -n’um fundo negro. Era a noite que descia. Fumegavam -ao longe as casas d’aldeia disseminadas -na encosta; a sua tambem. Áquella hora -devia estar repartindo a triste mãe com as desmimosas -creanças o pão da ceia amassado nas -lagrimas de todos os dias. Elle, o caminheiro, -vinha descendo a encosta, offegante e quasi exhausto. -A sua choupana ficava na vertente -fronteira. Entre a aldeia e a serra corria um -rio, largo e caudaloso, que mugia no valle engrossado -pelas chuvas torrencias do inverno. -Era preciso chegar á ribeira antes do barqueiro -ter amarrado a barca do outro lado. «Depressa!» -dizia o caminheiro a si mesmo. E não corria, -voava. A meia encosta, chamou. Ninguem respondeu. -Brilhou-lhe nos olhos um clarão de desespero. -A barca da passagem estava decerto -amarrada a um salgueiro da outra margem, e -já o barqueiro devia ir em caminho do seu palheiro -que ficava ao centro da povoação. Afflicto, -desesperado, chamou, gritou.</p> - -<p>O sussurro da corrente impetuosa abafava a -sua voz, tanto mais debil, quanto maior era a -commoção. Depois...</p> - -<p>—Depois?</p> - -<p>—Via fumegar ainda no tôpo da serra fronteira -o tecto do seu lar, e uma voz interior lhe -estava dizendo que no coração de sua pobre -mulher passava, n’aquelle instante, o presentimento -de que nunca mais o tornaria a vêr. Como -ella havia de reprimir a sua dôr, para que as -pobres creanças a não vissem chorar e lhe perguntassem: -«Virá hoje, virá?» Que alegria, que -felicidade se elle os pudesse ouvir, e vêr, e abraçar<span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span> -para dizer-lhes: «Aqui está o vosso pai; -eil-o aqui está». E a escuridão da noite era cada -vez mais profunda e o estrepito das aguas tinha -um não sei que de lugubre que punha medo. -O fumo branco das casas d’aldeia foi rareando -a pouco e pouco. Dissipou se lentamente a coluna -ondulante que sahia do seu tecto. Acabava -a ceia. Iam adormecer as crianças, sem terem -sido abençoadas pela mão paterna. E, recolhidos -os pequenos, deitava-se a mãe para desvellar -as horas da noite em mil tumultuosos -pensamentos. E elle separado de tudo isto, dos -seus filhos, da sua mulher, do seu lar, por uma -barreira que não podia transpôr e que se não -abria para lhe dar passagem, como as aguas -do mar Vermelho, por mais dolorosos que fossem -os seus gritos, por mais impias que fossem -as suas blasphemias! Aqui tens o impossivel, -Maria; o impossivel é tudo isto, este desespero, -este abrasar da alma em lavas incandescentes. -Um genio mau desenhou decerto este quadro -d’incomparavel afflicção para que eu experimentasse -o duplo martyrio de vêr e sentir, deixando -ao meu espirito, meio adormecido, o trabalho -de, quando despertasse, procurar a relação -que para logo denuncía que este desespero -é o seu proprio desespero, que este inferno -é o seu mesmo inferno.</p> - -<p>Maria Luiza soltou um grito d’angustia; -Eduardo Valladares ficou extremamente prostrado -d’aquella dolorosa excitação.</p> - -<p>—Meu Deus! murmurára ella vendo-o com a -cabeça febril mal amparada nos braços tremulos.</p> - -<p>—Meu Deus! repetia elle em brando echo. -Não fujas de mim, doce amor, e pede ao teu -Deus, que é tambem o meu, que me perdoe estes -desvarios d’uma alma atormentada. Enlouqueceu-me -a dor. Perdôa-me tu; que Elle, o Senhor -de misericordia, me perdoará tambem.<span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span> -Não fugas de mim como se foge do precito. -Desde que minha mãe infiltrou na minha alma -o balsamo sacratissimo das doces orações da -infancia, conheço e amo Deus. Depois, desde -que sigo o rumo da minha desventurosa estrella, -sempre o invoco em horas de desconfôrto e afflicção. -Vale-me, Tu, Senhor! que abençôas os -que choram.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XXIV</h2> - -<p>Frei Domingos do Amor-Divino anciosamente -esperava os óbolos da caridade para repartil-os -pelos pobres, no numero dos quaes devia -incluir-se a cega designada por D. Maria d’Assumpção.</p> - -<p>Chegou o Natal, e o virtuoso carmelita recebeu, -de procedencia anonyma, duas cartas contendo -dinheiro destinado a enxugar por alguns -dias as lagrimas de dois indigentes. Frei Domingos -rasgou o primeiro involucro com intima -satisfação, que no doce fulgor dos olhos -se estava manifestando. O papel que continha -a moeda consagrada á beneficencia, trazia esta -restricção:—<i>Para uma viuva</i>. Aberto o segundo -involtorio, que encerrava um <i>soberano</i> -inglez, leu Frei Domingos o seguinte:—<i>Um -cego, que deve á Providencia o não ser tambem necessitado, -pede que seja entregue a outro cego, mais -infeliz do que elle</i>.</p> - -<p>Estas palavras commoveram a lagrimas o -carmelita, que relanceou ao seu Christo de -marfim um olhar afogado em pranto, murmurando -ao mesmo tempo:</p> - -<p>—Abençoado seja o nome do Senhor, que -por tal modo e com tamanhos dons abastece -a colheita dos pobres! É ao Céo que eu peço<span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span> -me ensine o trilho por onde possa ir direito á -mais necessitada cegueira, e á mais desamparada -viuvez.</p> - -<p>Ajoelhou, com as mãos postas, e por largo -tempo ficou a orar.</p> - -<p>Depois sahiu, indagou, examinou e, ao cabo -de dois dias de trabalhosas investigações, depositou -nas mãos d’um cego e d’uma viuva, -que mais carecidos lhe pareceram, o dinheiro -da caridade.</p> - -<p>Quando recolheu ao cubiculo da rua do Carvalhal, -era noite cerrada. Acudiu a recebel-o, -com a sua habitual expressão de estima e reconhecimento, -uma velhinha que lhe cosinhava -a frugal collação e que, se não fôra o amparo -de Frei Domingos, teria morrido de fome pouco -depois de cahir varado por um pelouro nas linhas -do Porto o filho que lhe era esteio.</p> - -<p>O carmelita encarou n’ella, viu-a radiosa -como sempre, e apostrophou com semblante -prazenteiro:</p> - -<p>—Alegre a vejo sr.ᵃ Gertrudes, e a Deus agradeço -o encontral-a em disposição d’ánimo que -favorece o meu designio.</p> - -<p>A velhinha quedou se a olhal-o com surpreza; -Frei Domingos continuou:</p> - -<p>—Que me responderia a boa Gertrudes, se -eu houvesse de dizer-lhe: «Precisamos de dar -metade do nosso pão, durante alguns dias, a -quem mais carece d’elle do que nós?»</p> - -<p>Gertrudes achegou-se do carmelita e disse -com tanta alegria quanta commoção:</p> - -<p>—Olhe que não sabia o que o snr. Frei Domingos -queria dizer! Eu feliz vivo, e a minha -felicidade chamou-a do Céo para a menos merecedora -das creaturas o sr. Frei Domingos. Do -pão que recebo e que me aproveita mais do -que a riqueza aos ricos, sempre cresce e, se -não crescesse, todo o daria para alliviar miserias -que, Deus louvado! não conheço.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p> - -<p>—Nós somos ricos, sr.ᵃ Gertrudes, nós somos -ricos, porque desconhecemos a pobresa. -«Mais vale um pequeno boccado de pão sêcco -com alegria que uma casa cheia de victimas -com pelejas»<a name="FNanchor_12" id="FNanchor_12"></a><a href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> são palavras santas, que não -falham. Esta é a verdadeira riqueza. Tudo o -mais é cuidado e inquietação. Façamos pois -economia durante alguns dias e, passados elles, -verá como havemos de sentir-nos mais -contentes. É que realmente estamos esperdiçando, -e não é assim que se agrada a -Deus. Repartamos, pois, com os pobres, e aproveitemos -em vez de esperdiçar.</p> - -<p>No dia seguinte, foi Frei Domingos abrir a -gaveta depositaria das mealhas que lhe pareciam -sobejas ás suas necessidades. Montava o -peculio a novecentos e sessenta réis, um thesouro -de dois cruzados novos embrulhados em -papel branco. Tirou-os da gaveta para o bolso, -pôz o chapéo, desceu as escadas e entrou no -portal de João Nicolau.</p> - -<p>O sogro do bacharel Valladares e D. Maria -d’Assumpção receberam Frei Domingos com -sincero contentamento, lamentando apenas -que tivessem decorrido alguns dias sem que -lhe aprouvesse visital-os.</p> - -<p>—É que eu queria dar boa conta de mim e -dos meus negocios, respondeu o carmelita. Depois -receava que a presença d’um intruso -fosse de mais n’estas festas que commemoram -os grandes acontecimentos do christianismo e -servem ainda, e sempre servirão, para estreitar -os laços de cada familia reunida no seu lar. -N’este quadro de intimas alegrias era de certo -importuno um frade velho como a Sé da nossa -Braga, perorou, sorrindo Frei Domingos.</p> -<p><span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span></p> -<p>—Estou capaz de dizer... pronunciou a -medo D. Maria d’Assumpção.</p> - -<p>—Pois dize, dize, e com isso responderás aos -infundados receios do nosso vizinho, atalhou -do lado João Nicolau.</p> - -<p>—Visto que me auctorisas, sempre ousarei -fazer uma confissão. Pode acreditar o sr. Frei -Domingos que tivemos ambos a lembrança de -lhe pedir que viesse honrar a nossa modesta -consoada. Receamos incommodal-o, e não nos -atrevemos...</p> - -<p>—Beijo lhes as mãos pela immerecida attenção; -confesso-me penhorado como se tivera recebido -e acceitado o convite.</p> - -<p>Mas por que não ha de vir mais a miude, -replicou João Nicolau, por que não ha de, visto -que estamos tão perto, vir tomar o chá comnosco? -Nem o nosso Eduardo viu ainda o sr. -Frei Domingos!</p> - -<p>—Infiro d’ahi que tem sido feliz o neto de -v. s.ᵃ. Olhe que realmente parlandas de frade -não são para se ouvir a pé quedo, e muito menos -por gente nova.</p> - -<p>E, galhofando sempre, entregou a D. Maria -d’Assumpção os novecentos e sessenta réis, -que para elle e para a velha Gertrudes eram -pecunia sufficiente para o passadio de alguns -dias.</p> - -<p>João Nicolau não o deixou sahir sem que primeiro -aprazasse nova visita. Frei Domingos -prometteu voltar em dia determinado, e desempenhou -a sua palavra. Á terceira visita encontrou -se com Eduardo e lera-lhe nos olhos, -sempre banhados em melancholia, as muitas -amarguras que faziam noite escura n’aquelle -coração de dezesete annos.</p> - -<p>O filho do bacharel, por sua parte, esqueceu-se -de si mesmo enlevado na suavidade que -recendiam as palavras de Frei Domingos. O desaffrontar-se -por um momento da cerração que<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span> -lhe opprimia o peito, foi para Eduardo Valladares -consolo que deixou após si gratissimas -impressões. Livrára-o a Providencia de lembrar -se de que aquelle homem, cuja serenidade -d’alma se reflectia no olhar, tinha vestido o -habito de frade e poderia ter amortalhado -n’elle um coração ferido pelas desgraças da -terra. Não lhe lembrou isto, e por tanto não -rompeu clamoroso contra a voz da oppressão -que diz «Morre, despedaçando-te» ao coração -opulento de seiva e esperança. No que pensou -foi na serena alegria d’aquella alma, que em -vez de se sentir retransida pela nortada do tumulo, -já proximo, refloria em amenidades bafejando -lenitivos ás pallidas flores d’uma primavera -desconfortada. Aquelle homem entremostrou-lhe -Deus—o Deus a quem invocavam -as doces orações da sua infancia, o Deus que -adorava no templo e em toda a parte onde podia -vêr o Céo, o Deus que elle chamava quando -mais se condensavam as trevas no horizonte -da sua mocidade.</p> - -<p>Viu-o, examinou-o com olhar perscrutador e -disse de si para si:</p> - -<p>—Se eu fôsse assim, não era decerto tão -desgraçado.</p> - -<p>Amiudáram-se as visitas de Frei Domingos. -Rodrigues d’Abreu perguntou-lhe d’uma vez se -tinha esperança de restituir a um coração de -dezesete annos as alegrias proprias da sua -edade.</p> - -<p>Frei Domingos sorriu placidamente e disse:</p> - -<p>—Tenho. A si devo e a Deus o sentir ainda -no coração o influxo benefico d’uma esperança: -a de procurar a felicidade para quem a não -tem.</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span></p> - -<h2>XXV</h2> - -<p>Eduardo Valladares tinha em 1852 dezesete -annos.</p> - -<p>Estou a lembrar-me d’isto, e a perceber que -uns sujeitos maiores de trinta annos, e umas -senhoras que devem á acção do fluido transmutativo -o envelhecer com os cabellos pretos, lançam -um olhar de desdem para a futil historia -do filho do bacharel Valladares.</p> - -<p>Para estes corações apodrentados, se é que -para taes creaturas o coração é mais alguma -cousa do que o centro das funcções sanguineas, -o amor dos dezesete annos deve ser uma creancice -piegas apenas admissivel na conversação -de meninas da mesma edade, que andam delineando -os poemas do coração suspensas entre -as saudades das bonecas e os receios de não -serem convidadas para a valsa que redemoinha -na sala.</p> - -<p>Não sei agora ao certo que idade tinha Romeu -quando levantou olhos para Julieta; do Paulo, -de Saint-Pierre, lembro-me que tinha a mesma -altura de Virginia; o Simão Botelho, do <i>Amor -de perdição</i>, do nosso Alexandre Dumas, vamos -encontral-o aos dezeseis annos; o Pedrinho, -dos <i>Contos ao luar</i>, de Cesar Machado, é uma -creança.</p> - -<p>Achei que estes modelos eram bons. Procurei -no coração humano, para estudal-a, a fibra menos -corroida, e deparou-se-me uma unica—a que -resumava a seiva dos dezeseis annos.</p> - -<p>Um sujeito de vinte, que andava suspirando -no violão serenatas á mulher adorada, e se dizia -capaz de comprehender o que no amor póde -haver d’ethereo, dias depois de resvalar ao<span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span> -tumulo o anjo querido que elle desposara, garbosamente -refreava os galões d’um cavallo comprado -com as economias provaveis do primeiro -anno de viuvez. O coração dos vinte annos fazia -isto, dispendia na farta ração d’um cavallo de -raça o que faltara talvez á gentil esposa tão -longo tempo requestada.</p> - -<p>A viscera amorosa dos cincoenta annos affigurou-se-me -gangrenada ao estremo de inspirar -terror. A historia do cynismo, que arremessa á -face da innocencia a moeda doirada da corrupção, -é revoltante para se offerecer a todos os -paladares.</p> - -<p>Determinei os extremos—os vinte e os cincoenta -annos. A estrada interposta a estes dois -marcos, recortada de charcos immundos, deve -deixar enlodados os pés do que a percorrer com -o vagar indispensavel a quem tiver de fazer -relatorio da trabalhosa peregrinação.</p> - -<p>Não invejo a gloria de certos romancistas -victoriados pelas multidões. Só elles sabem o -que ha de doloroso em vencer a repugnancia -natural que leva o espirito, iriado da luz das -suas auroras, a fugir do esterquilinio que vapora -exhalações mephiticas. E que improficuo trabalho! -A humanidade vê no espelho do romance -o que ella mesma tem de hedionda, e não cora -nem se rehabilita; passa adeante, deixando ao -desfortunoso trabalhador a consolação de labutar -noite e dia para não morrer de fome.</p> - -<p>Não serei eu que vá mergulhar nas trevas que -ennoitecem os hypogeus sociaes para dizer á -humanidade: «Aqui estão as tuas nodoas, lodo; -aqui está a tua negrura, sombra!»</p> - -<p>No mais profundo antro sempre entra um raio -de sol a cujo esplendor scintillam as concreções -vitreas da abobada. Em vez de medir a extensão -do antro, quero sentar-me á entrada, onde -chegue a luz, e onde possa vêr o cristal das -stalactites rutilar em formosas cambiantes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span></p> - -<p>Poderão dizer: A humanidade não é só isso, -a humanidade não é apenas o cristal que se -doira. Certo é. Mas a humanidade tambem não -é só o que vós pintaes, ó pintores de quadros -negros; a humanidade não é só o cynismo, a -dobrez, e o lodo.</p> - -<p>E eu entrei no antro escuro da humanidade, -e tive medo das sombras que se condensavam -ao fundo. Parei. O sol que tremeluzia nos cristaes -da rocha, era limpido e formoso. Deslumbrou-me. -Não arrisquei mais um passo; quedei-me -a contemplal-o.</p> - -<p>Coração dos dezeseis annos, não és tu puro -como os relevos crystallinos que resaltam do -tecto anfractuoso d’uma gruta?</p> - -<p>Os que já se internaram na escuridade, os que -perderam a memoria com o coração e com a -consciencia, esses, cadaveres condemnados ao -supplicio da vida, já não comprehendem o que -seja o estremecer das rosas no roseiral ao bafejo -da viração matutina.</p> - -<p>Uma coisa que sobremodo me admira é que -os rapazes de hoje suffoquem a voz do coração, -que está modulando o poema dos vinte annos, -para raciocinarem friamente, sentados em ruinas -como Volney, até chegarem ao scepticismo, -á duvida, ao nada; até murmurarem com Voltaire -na satira a Luiz XIV:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse"><i>J’ai vu ces maux et je n’ai pas vingt ans.</i></div> -</div> -</div> - -<p>Quem é que aos vinte annos não vae depôr a -sua mocidade, como novello de espuma, na mão -rosada d’uma mulher, que a pode desfazer, comprimindo -os dedos, ou que tem o capricho de a -fazer brilhar com as esplendidas fulgurações de -um cristal, se lhe deu um raio d’amor?</p> - -<p>Creio que todos. Os que não fizerem isto são -anomalias. Deus me livre de homens que não -teem de homens nem o coração.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span></p> - -<p>O amor é o sol e eu sou como todos os fructos -verdes: preciso de sol para amadurecer.</p> - -<p>É por isso que leio e releio, sem me cansar, -o <i>Raphael</i> e a <i>Graziella</i>, de Lamartine; a <i>Chave -do enygma</i>, de Castilho; o <i>Livro d’Elisa</i>, de João -de Lemos; o <i>Paulo e Virginia</i>, de Saint-Pierre; -os <i>Idyllios da rua Plumet</i>, dos <i>Miseraveis</i>; a <i>Menina -dos rouxinoes</i>, das <i>Viagens</i>, de Garrett; o -<i>Thomas dos passarinhos</i>, de Rodrigo Paganino, e -muitos outros poemas de amor que consolam -a alma, e que se nos dão o seu tanto de tristeza, -é uma tristeza tão suave, que chega a ser -deliciosa. Estes livros, que são balsamo e crença, -quero lel-os e compraria a trôco da vida a -gloria de os escrever.</p> - -<p>Namora-me esta litteratura que delicía a -alma. Ha livros que deixam remorsos de se -haverem lido. Esses não os quero eu. Para que -hei de sentir ferida a consciencia nos poucos -momentos que destinava para descanço do espirito? -Livros dos que retalham o coração lê-os -a gente por ahi nos passeios e nas praças publicas -a toda a hora do dia; são uns certos homens -que encadernaram a negrura da alma em pergaminhos -de illicita riqueza, e certas mulheres -que escondem a deshonra em brochuras de velludo.</p> - -<p>Sabe-lhes a gente da vida e anda cheia d’aquellas -historias vivas, que se abrem á luz do -sol, para que elle bata em cheio no escandalo, -e o mostre á claridade do dia. Quando o espirito -precisa de um momento de tranquillidade -para se desanojar d’estas e quejandas leituras -sociaes, devem pôr se de parte os livros igualmente -desagradaveis.</p> - -<p>Os contos, ainda que se perfumem na doce -poesia da infancia, <i>contes de fées</i> ou <i>contes bleus</i>, -como dizem os francezes, embriagam-me o espirito -como o suspirar longinquo de um piano -n’uma noite de luar. A historia licenciosa, <i>conte<span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span> -gras</i>, repugna-me, aborrece-me. A litteratura -deve ter um não sei que de ethereo irmão da -inspiração. Tudo o que não fôr assim, é verdadeiramente -terreno e vulgar.</p> - -<p>O homem que entra em casa com um livro -de pessima doutrina, tem o cuidado de escondel-o -como a um frasco de acido prussico, se -occultasse o proposito de se suicidar. Esconde -o livro como esconderia o veneno: para dissimular -a sua vergonha e o segredo humilhante -da propria fraqueza.</p> - -<p>A sua mãe, alma toda amor e toda luz, que -lhe ensinara a deletrear nos livros santos, a -ella, coração de ouro, haveria de dizer, se uma -imprevista circumstancia descobrisse a licenciosa -brochura: «Perdôa-me; bem sei que não -foi para isto que me ensinaste a ler.»</p> - -<p>Vae longa a dissertação. Cumpre pôr ponto -final. <i>Dissertation, ennui</i>; sirva para alguma coisa -o dito de Bastiat.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XXVI</h2> - -<p>Retrogrademos.</p> - -<p>Maria Luiza desceu a montanha do Bom Jesus -do Monte apoiada no braço da outra menina -sua irmã.</p> - -<p>Quando vinham encosta abaixo havia na -floresta, através da qual se viam scintillar as -chammas do occidente, a doçura inexplicavel -com que o dia desliza ao abysmo da eternidade...</p> - -<p>A viuva Machado revelava certa inquietação—talvez -prophecia de coração materno—pelos -symptomas de repentino soffrimento claramente -desenhados na face pallida da filha.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span></p> - -<p>João Nicolau animava-a com palavras banaes, -attribuindo a excitação nervosa um incommodo -que, a seu vêr, não podia ter outras -consequencias além d’um ligeiro abatimento.</p> - -<p>Maria Luiza procurava sorrir para dar alento -aos dois mais desconfortados corações—o -de sua mãe e o de Eduardo—mas o sorriso -desabrochava triste e de pressa morria á flôr -dos labios.</p> - -<p>D. Maria d’Assumpção vinha suspeitosa e -concentrada. Adivinhava-lhe o coração tudo -quanto se passara na alameda da Mãe d’Agua. -Estava-lhe dizendo uma voz interior por que -abysmos tinham resvalado, n’um momento de -commum desespêro, aquellas duas amorosissimas -almas.</p> - -<p>Eduardo Valladares vinha ao lado das duas -irmãs Machados. Que dolorosa ancia lhe comprimia -o peito adivinha-a o leitor, se é que -alguma vez se sentiu avergado ao peso da sua -cruz.</p> - -<p>No sopé da montanha, antes de transporem -o portico de cantaria, curvou-se Maria Luiza -para colhêr uma flôr silvestre, que se debruçava -sobre ervagens verdes. A alguns passos de -distancia ficava a capella do Horto, que representa -Jesus em Gethsemani, quando desce o anjo -a offerecer o calix da amargura. Maria Luiza -relanceou os olhos á inscripção latina e murmurou:</p> - -<p>—Deve ser triste a legenda d’esta capella...</p> - -<p>—«Agonisante, orava profundamente,» traduziu -Eduardo Valladares, deixando ver lagrimas -que de subito lhe embaciaram o olhar.</p> - -<p>—Decora-a, peço-t’o eu, e guarda esta flôr -com a perpetua recordação do meu pedido.</p> - -<p>—Que dizes?...</p> - -<p>—Que não esqueças aquella legenda, Eduardo.</p> - -<p>Aproximavam-se João Nicolau, D. Maria d’Assumpção -e a viuva Machado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span></p> - -<p>Ficou interrompido o dialogo apenas escutado -pela melancolica Rosinha, que sentiu o perpassar -d’uma nuvem que a cegara. Eram lagrimas... -Maria Luiza empallideceu até á lividez -do cadaver e, quando lhe perguntaram se se -sentia recobrada de forças, respondeu affirmativamente, -e deixou esvoaçar nos labios o mesmo -sorriso breve e melancholico.</p> - -<p>Pelo caminho, veio João Nicolau galhofando -a proposito de quanto lhe lembrava com o piedoso -intuito de serenar a inquietação da viuva -Machado e de distrahir Maria Luiza. Não ousamos -asseverar se era escutado; o certo é que -vinha fallando.</p> - -<p>—Dia de Reis! disse elle depois d’um momento -de silencio. Este dia é d’alegres recordações -para mim. Era eu solteiro. Vai isto ha um -bom par d’annos, e estou agora a vêr tudo -como se se passasse hoje! Tinhamos sido convidados, -alguns rapazes de Braga, para jantar -em Guimarães n’este dia. Alegremente cavalgamos -e seguimos jornada com o enthusiasmo -expansivo dos vinte annos. Foi opiparo o banquete -e divertidissima a odysséa. Ao fim da tarde, -batemos os cavallos para Braga. Era já -noite quando chegamos aos <i>Quatro irmãos</i>, um -logar historico que fica ao sopé da Falpêrra. -É verdade! Nunca ouviram falar da lenda dos -<i>Quatro irmãos</i>?</p> - -<p>—Sabes lá se a gente está de paciencia para -te ouvir? respondeu D. Maria d’Assumpção, que -de sobra conhecia quanto o marido vinha sendo -incómmodo n’aquelle momento.</p> - -<p>—Estejam que não estejam. Eu é que sempre -a vou contar, replicou João Nicolau insistindo -no proposito de distrahir os companheiros. -Diz-se que um parocho da freguezia proxima -ao logar dos <i>Quatro irmãos</i> vivia em companhia -d’uma sobrinha, rapariga de formosura capaz -de trazer alvoroçados todos os pintalegretes<span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span> -montezinhos d’esse tempo. O caso é que o abbade -precisou de sair da residencia por alguns -dias, e levou uma noite inteira a fazer eleição -de casa onde, com mais socego do seu espirito, -poderia deixar em deposito a donairosa sobrinha. -Lembrou se d’uma viuva do logar, mulher -idosa e d’exemplares costumes. Se esta lembrança -foi tentação do demonio ou não, dir-m’o-hão -depois que souberem que a pobre mulher -tinha quatro filhos, quatro rapagões da boa -raça minhota. Não sem difficuldade acceitou a -viuva o encargo, depois de muito instada. Entrou -a rapariga na casa da mulher escolhida -para depositaria do thesouro querido do abbade -e logo os mocetões começaram a requestal-a -porfiadamente. Sempre ouvi dizer que «amigos, -amigos, negocios á parte». Cahiu de chofre -o pomo da discordia entre os quatro filhos da -viuva. Desvairou-os o ciume. Reptaram-se. -Como valentões que eram, não se recusaram o -cartel. Pouco depois, zuniam os varapaus fratricidas -a certa distancia do tecto commum. -Trez dos contendores cahiram exanimes; e o -outro ficou gravemente ferido. O abbade regressava -n’aquelle dia e passara ali. Estava -moribundo, no logar da lucta, o que sobrevivera, -mas teve ainda voz para contar ao velho -sacerdote a lamentosa façanha. Depois debateu-se -nas vascas d’afflictiva morte, e expirou. -O povo, quando o successo se espalhou, negou -aos quatro irmãos sepultura em sagrado. Enterrou-os -ao sopé da Falpêrra, no mesmo logar, -e levantou sobre as vallas quatro pedras ainda -hoje pregoeiras da tradição. Ora aqui teem a -historia. Não acha bonita? perorou João Nicolau -voltado á viuva Machado.</p> - -<p>—É interessante... Não sabia a lenda...</p> - -<p>—Mas eu trazia isto a proposito do jantar -de Guimarães... O Falcão Osorio, que deve -estar velho como eu, cavalgava na vanguarda.<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span> -Ao chegar aos <i>Quatro irmãos</i> susteve o cavallo -e veio, sobresaltado, segredar-nos que tinha -visto umas sombras, as quaes sombras lhe pareceram -bandidos. Não pensamos se a apprehensão -era sensata. Acautelamo-nos subitamente -para a defensiva e mettemos a passo dando-nos -ares de valorosos cavalleiros. A Falpêrra -d’aquelles tempos era covil de salteadores; o -coração, a julgar por mim, batia-nos desordenadamente. -Ainda a julgar por mim, posso dizer -que era... de medo. Mas ó soprema irrisão -que o destino nos preparára, nivelando-nos -com o cavalleiro de Mancha ao esgrimir contra -os moinhos! Os bandidos... eram arvores!</p> - -<p>D. Maria d’Assumpção, ouvindo agora a centessima -edição d’este conto, sorriu ainda pela -centessima vez. A viuva Machado simulou ter -achado graça; Eduardo e as duas meninas, se -é que tinham ouvido, não sorriram.</p> - -<p>João Nicolau fez reparo n’isto e apostrophou, -dirigindo-se aos tres:</p> - -<p>—Olhem que parecem uns velhos carrancudos! -A menina Maria Luiza, porque os nervos -se lhe desafinaram, imagina-se em artigos de -morte. A menina Rosa vai silenciosa por não -ver alegre a irmã, e o meu Eduardo, ao lembrar-se -de que terminam hoje as férias, perdeu -a voz!...</p> - -<p>—Como são muitos os divertimentos que elle -tem em tempo de férias!... objectou D. Maria -d’Assumpção.</p> - -<p>João Nicolau não esperava o remoque e replicou -meio irritado:</p> - -<p>—Tem os que quer ter.</p> - -<p>—Não vale a pena agastares-te. O defeito, -já t’o tenho dito, é de todos os velhos, e por -isso é de crer que tambem seja meu. A gente, -quando é velha, desassisadamente teima em -moldar a vontade das pessoas novas, que nos -cercam, pela nossa, e não nos lembramos de<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span> -que já não ha para nós novidade nem surpresa. -Lembro-me agora só d’uma excepção: a da mãe -d’estas meninas, que apesar de estar hontem -indisposta, não se recusou a dar-nos hoje o -prazer de nos acompanhar. Isto é que é ser -condescendente.</p> - -<p>—É verdade, acrescentou por delicadesa João -Nicolau.</p> - -<p>—Que será da velhice dos rapazes de hoje, -tornou D. Maria d’Assumpção relanceando um -olhar de benevolencia a Eduardo e a Maria -Luiza, se se não divertirem? Nem sequer terão -para contar aos contemporaneos o caso... de -haverem tomado arvores por bandidos.</p> - -<p>João Nicolau sorriu, porque D. Maria d’Assumpção -lhe bateu amigavelmente no hombro.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Ao despedirem-se as duas familias, Maria -Luiza segredou a Eduardo, estendendo-lhe a -mão convulsa e ardente:</p> - -<p>—Eu sinto-me tão triste, que só o teu amor -me póde dar coragem. Lembra-te de mim, e sê -forte.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XXVII</h2> - -<p>Foi profunda a prostração que sopitou Maria -Luiza durante a noite. Ao entreluzir da manhã, -sobreveio certa agitação febril.</p> - -<p>Chamado o facultativo, absteve-se de diagnosticar. -Escrupulosamente inquiriu porém se -a doente tinha revelado soffrimento anterior ou -se havia experimentado uma sensação violenta -que provocasse excitação do systema nervoso.</p> - -<p>A viuva Machado respondeu negativamente -e pediu ao facultativo, com os olhos banhados -em lagrimas, que lhe não occultasse a verdade.<span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span> -Serenou-a o medico dizendo que os temperamentos -excessivamente nervosos tinham caprichos -especiaes que muitas vezes ludibriavam -a medicina e que podia bem ser que a febre -desapparecesse depois d’um breve periodo -de intensidade.</p> - -<p>A outra hypothese occultou-a elle para não -ferir o coração materno todo receios e afflicção: -vinha a ser que podia a febre prolongar-se, -e tomar o caracter typhoide.</p> - -<p>Trez dias depois, realisava-se a fatal hypothese. -Sobreveiu o delirio e Maria Luiza balbuciava -palavras sem nexo:</p> - -<p>—Impossivel... Disseste que chorava... Na -capella do Horto... Não sentia as lagrimas...</p> - -<p>Outras vezes curvava-se a melancholica Rosinha -sobre o leito e recolhia este murmurio:</p> - -<p>—O sol por entre as arvores... Sempre impossivel... -Uma tristeza immensa. Emilia... -Deus...</p> - -<p>A doze de janeiro escrevia Rosinha a Eduardo -Valladares estas palavras:</p> - -<p>«Hontem á noite delirou e tornou a fallar da -capella do Horto e do sol que scintillava através -das arvores. Felizmente ainda não pronunciou -o seu nome. Não desespere, que eu ainda -não desesperei tambem, e peça a Deus por ella -e por nós.»</p> - -<p>Foram decorrendo os dias e nos ultimos do -mez raiou um vislumbre d’esperança.</p> - -<p>Tendo passado a noite tranquilla, perguntou -Maria Luiza, de madrugada, á irmã, a que horas -tinham vindo na vespera do Bom Jesus.</p> - -<p>Rosinha respondeu, reprimindo impetos d’alegria:</p> - -<p>—Viemos á noitinha, não te lembras?</p> - -<p>—Não me lembrava, disse a doente. O que -sei é que foi hontem. Foi tão comprida esta -noite!</p> - -<p>Quando veiu o medico, jubilou com a boa<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span> -nova da doente ter dado accordo de si e perguntado -a que horas vieram do Bom Jesus, -suppondo que tinham lá estado no dia antecedente.</p> - -<p>—Ella tem razão, disse o doutor. Desde que -veio de lá não tem vivido... Todavia é uma -grande esperança.</p> - -<p>No dia seguinte, a viuva Machado e Rosinha -choraram d’alegria ao ouvir este prognostico -do facultativo:</p> - -<p>—Creio que posso dizer que está salva, -apesar de ter ainda doença para longo tempo. -Cumpre haver o maximo cuidado no tratamento. -Não lhe dissipem sobretudo o engano a respeito -do dia em que esteve no Bom Jesus.</p> - -<p>Momentos depois recebia Eduardo Valladares -as seguintes linhas:</p> - -<p>«Diz o medico que está salva. Agradeçamos -a Deus, meu amigo».</p> - -<p>Estendeu-se pelo mez de fevereiro a longa -convalescença de Maria Luiza. Eduardo Valladares -recebia todos os dias palavras da mão de -Rosinha convidando-o a confiar da misericordia -de Deus a solução d’uma crise que Elle visivelmente -favorecia com as melhoras de sua irmã.</p> - -<p>O filho do bacharel Valladares lia as cartas e -redigia sobre as paginas d’um livro intimo as -longas meditações das noites de insomnia:</p> - -<p>«Vão engrinaldar-se de flôres as arvores do -valle e tapetar-se de verduras os declives dos -outeiros. Só a minha primavera não chega, Senhor. -Só não voltam com as andorinhas as minhas -esperanças de um dia. Embora. Deixaste -que o anjo ficasse ainda na terra, e deixa tambem -que se abrandem as angustias que não -merece. Eu creio em ti, Senhor, mas choro nas -trevas da minha noite, como tu choraste na -cruz. Eras Deus e foste homem. Bem sabes o -que é soffrer e chorar. Não me exaspero nem -te maldigo. Tu eras filho do Eterno e soffreste;<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span> -tu eras Deus e choraste lagrimas de sangue. -Como ha de o homem, cuja vida custa dores, -eximir-se ao pêso da sua cruz, se tu vergaste -sob o madeiro? como não ha de chorar, se os -tens olhos orvalharam o sudario da piedosa -mulher?</p> - -<p>«Perdoa-me, se choro, Senhor Deus de misericordia.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>«Agonisante, orava profundamente», <i>Factus in -agonia prolixius orabat</i>, dizia a inscripção da capella -do Horto. E pediste-me tu, anjo e martyr, -que entregasse á memoria o verbo das Escripturas!</p> - -<p>«Querias dizer-me que me abraçasse á cruz -nas horas de tribulação da minha alma, ou significavas -que o teu espirito olhava para Deus -na lenta agonia do teu supplicio?</p> - -<p>«Era um incentivo ou um exemplo o que me -apontavas?</p> - -<p>«Se era incentivo, sabe que a minha alma só -adormece quando sobe ás alturas, embalada na -religião de meus pais. Se era exemplo, repetir-te-hei -que comprehendo a extensão do teu -soffrimento, que te vejo sempre ajoelhada deante -do teu crucifixo e que abraçaria a tua fé, balsamo -para todas as chagas, se desde o berço -não houvesse apprendido a balbuciar o nome de -Deus.</p> - -<p>«Choro, e por me vêres lacrimoso não acredites -na minha descrença.</p> - -<p>«Devo dizer-te que me não abandona a fé.</p> - -<p>«Só a Deus peço que enxugue as lagrimas -dos teus olhos, que restitua ao teu coração as -alegrias que eram d’elle. Este é o fito da minha -esperança, o alvo da minha fé immensa.</p> - -<p>«Entrou commigo o remorso de te haver -amado. Fui injusto quando fiz estalar sobre a -tua cabeça a tempestade das minhas desventuras. -Choro a minha culpa, a minha injustiça,<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span> -e peço a Deus que não complete a obra da tua -abnegação.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>«Levantas-te do leito quando as flores se levantam -no pendor da serra. Põe os olhos no -Céo, que ainda lá encontrarás a estrella confidente -das serenas alegrias da tua infancia. Desvia-os -da terra para me não vêres chorar. Não -choro de desespero; choro porque tu choraste. -As orações d’alguem, de minha mãe talvez, -trouxeram do Céo balsamo para a minha alma. -Se Frei Domingos soubesse das minhas amarguras, -acreditaria que tinha orado por mim.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>«E amo-te muito, mas porque te amo, Maria, -não quero que os teus olhos chorem as minhas -lagrimas. Que te esqueças de mim ou que succumbas, -este é o meu pedir. E não ha impiedade -na minha súpplica. Morrer não é soffrer, é -renascer. Eu é que preciso de viver para chorar. -Renasce tu para as auroras da tua patria -ou foge dos espinhaes do meu caminho que -rasgariam de certo as tuas azas. Como havias -de restituil-as depois ao Senhor que t’as deu?»</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Uma noite, estava Eduardo Valladares escrevendo -no seu livro intimo, quando sentiu alvoroço -na sala proxima. Acudiu a saber o que -era.</p> - -<p>Frei Domingos, que se não tinha ainda retirado, -approximou-se e disse-lhe:</p> - -<p>—Animo, filho. Espero que pedirá ao Céo a -coragem que precisa para lêr...</p> - -<p>E apresentou-lhe um telegramma, que João -Nicolau recebera do Porto. O telegramma dizia:</p> - -<p>«Morreu repentinamente Sebastião Valladares. -A viuva pede providencias com a menor -demora possivel».</p> - -<p>Eduardo rompeu em afflictivo chôro. Frei -Domingos encostou ao seu peito a cabeça do<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span> -orphão e afastou-o da sala onde D. Maria d’Assumpção -e João Nicolau choravam.</p> - -<p>Ao romper da manhã vinham em caminho -do Porto avô e neto, em caleça alugada expressamente.</p> - -<p>É breve a historia do passamento do bacharel. -Sahiu do escriptorio, onde estava trabalhando, -estremamente anciado. D. Adozinda -acudiu sobresaltada ao chamamento de um escrevente. -Sebastião Valladares inclinou a cabeça -sobre o hombro da esposa, e morreu. Disseram -os medicos que tinha succumbido a uma -lesão do coração. O que os medicos disseram -pouco faz ao nosso proposito.</p> - -<p>Dias depois do funeral, annunciou-se leilão -da modesta mobilia e, concluido isto, voltou -João Nicolau a Braga, levando em sua companhia -o neto e a filha, cobertos do mesmo luto.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XXVIII</h2> - -<p>O bacharel Valladares, momentos antes de -morrer, estava escrevendo ao filho um carta -que deixou incompleta.</p> - -<p>Os mais significativos periodos d’essa carta -diziam assim:</p> - -<p>«Faze por ser humilde, e sujeita-te respeitoso -aos conselhos das pessoas que t’os podem -dar, nomeadamente á vontade de teu avô, em -quem eu vejo, além d’um dedicado amigo, o -pae de tua mãe. Não ponhas os olhos n’umas -alturas em que o commum da humanidade fita -a vista, se queres ser feliz. Se eu te posso servir -d’espelho em alguma coisa, é no que toca -a desambição e a serenidade d’espirito e de -consciencia. Vivo tranquillo para os affectos<span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span> -da minha casa; se tu estivesses n’esta hora ao -pé de mim e de tua mãe, julgar-me-hia em -plena posse da verdadeira felicidade.</p> - -<p>«Quando saio a nossa porta, sinto-me triste. -É que entro no mundo, não no mundo em que -vivo, mas no mundo em que vivem todos. Os -olhares dos que vão passando, não me offendem -por desdenhosos, mas incommodam-me porque -não são doces e sinceros como os de tua mãe. -Realmente não me sinto bem no meio da turbamulta.»</p> - -<p>«A idéa da morte, se me entristece, é porque -me faz lembrar que tenho de separar-me -de tua mãe para sempre...»</p> - -<p>N’este relanço levantara se anciado o bacharel -para não mais se sentar á sua banca. Morreu -como viveu: serenamente. Um momento -d’agonia não se lhe afigurou decerto o resvalar -para o tumulo, e não teve por isso tempo -de sentir estalar os élos que o prendiam á felicidade. -Encostou ao seio amigo a cabeça para -descansar. Queria talvez adormecer... Cerrou -os olhos e não accordou.</p> - -<p>Rezaram-se os responsos de sepultura na -egreja dos extinctos carmelitas do Porto. Antes -de chegar o feretro, appareceu na sacristia -um sacerdote que entrou, curvado de velhice, -relanceando um olhar saudoso para um e outro -lado.</p> - -<p>Era Frei Domingos do Amor-Divino.</p> - -<p>Durante os officios, foi notorio que o mais -edoso dos padres não podia reprimir as lagrimas. -Os raros amigos de Sebastião Valladares -affirmavam não o ter visto uma unica vez em -casa do bacharel. Correu porém voz de ser carmelita, -e logo se explicou a razão de suas copiosas -lagrimas, lançando-as á conta de saudades -do hábito, evocadas pela entrada n’um -templo da sua ordem.</p> - -<p>Frei Domingos, depois de terminados os responsos,<span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span> -solicitou licença do sacristão para -vêr o cadaver. Largo tempo o esteve contemplando -com os olhos afogados, em lagrimas.</p> - -<p>—Dizem que era um homem honrado, apostrophou -o sacristão.</p> - -<p>—Oiço dizer que sim, respondeu Frei Domingos. -E, vendo-o, acredito que o foi.</p> - -<p>—Pois... não eram amigos?</p> - -<p>—Nunca lhe falei, nem sequer o vi.</p> - -<p>—Deixou-lhe talvez alguma coisa? replicou -o sacristão affeito a vêr copiosamente chorar -nos enterros as pessoas contempladas com verbas -testamentárias.</p> - -<p>—Deixou-me... sincera pena de o não haver -conhecido, respondeu Frei Domingos agradecendo -e retirando-se.</p> - -<p>Ás seis horas da manhã, entrava Frei Domingos -na diligencia de Braga. Ninguem no -Porto soube como se chamava e d’onde era. Os -amigos do bacharel noticiaram a João Nicolau -e a Eduardo Valladares que, na egreja, um dos -sacerdotes, frade carmelita segundo se disse, -estivera chorando a ponto da commoção lhe -embargar a voz. Outrosim perguntaram se este -frade era relação da casa, parente ou amigo. -Eduardo Valladares deteve-se um momento a -consultar a memoria e respondeu negativamente. -João Nicolau, como porém tivesse ouvido -falar em frade carmelita, sentiu se impressionado, -e sem pensar que fosse elle, lembrou-se -n’aquelle momento de Frei Domingos -do Amor-Divino.</p> - -<p>Quando o velho egresso voltou ao seu cubiculo -da rua do Carvalhal, a trémula Gertrudes -sahiu a recebel-o mais jubilosa que nunca.</p> - -<p>—Ó sr. Frei Domingos, exclamou ella, como -me disse que tinha de fazer jornada, sempre -estava inquieta. V. s.ᵃ já não está muito para -andar pelos caminhos!</p> - -<p>—Ó boa mulher! com o auxilio de Deus vae-se<span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span> -bem para toda a parte. Mal sabe a sr.ᵃ Gertrudes -d’onde eu venho. Pois oiça lá: fui ao -Porto.</p> - -<p>—Ao Porto! acudiu admirada a velhinha.</p> - -<p>—Ao Porto, sim. E olhe que me não succedeu -mal nenhum. Jornadeei em diligencia pela -primeira vez na minha vida. E sempre lhe direi -que isto de diligencias não foi a peor -cousa que o progresso nos trouxe.</p> - -<p>—Oura-se muito, pois não oura?</p> - -<p>—Não se oura nada, mulher. A gente acostuma-se -aos solavancos, e depois vae menos -mal. Comparado isto com as jornadas a -cavallo, d’outros tempos!</p> - -<p>—Acho que ha lá por fora muitas coisas novas. -Eu é que não tenho visto nada, nem quero -vêr. «Boa romaria faz quem em sua casa vive -em paz.»</p> - -<p>—Assim é, mulher, mas ha casos que podem -mais do que as leis. Tambem me chegou a minha -vez d’andar em diligencia.</p> - -<p>O medico assistente de Maria Luiza dera-lhe -licença de sahir pela primeira vez, justamente -no dia em que se enterrava no Porto o bacharel -Valladares.</p> - -<p>Era um formoso dia dos ultimos de fevereiro.</p> - -<p>—Ora vá, disse-lhe o facultativo. Não tardam -a desabrochar as flores; v. ex.ᵃ deve apparecer -tambem. Tome porém cuidado com o -passeio. Não vá longe.</p> - -<p>—É que realmente não sei para que lado -hei de ir.</p> - -<p>—Convem que se não exponha. Vá para o -lado de Infias, mas não se demore muito.</p> - -<p>Quando o facultativo sahiu, Maria Luiza sentou-se -a escrever a Eduardo Valladares as seguintes -linhas:</p> - -<p>«Tenho licença para sahir hoje pela primeira -vez. Emfim! Vou com minha mãe e com<span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span> -Rosinha. Ao meio dia apparece, como quem -anda passeando, perto da quinta de Infias. Não -faltes.»</p> - -<p>Maria Luiza chamou a irmã para fazer chegar -o bilhete ao seu destino. Rosinha ficou inquieta. -Tinha occultado a morte do bacharel e -a sahida de Eduardo para o Porto. Revelar a -verdade era alancear o coração de Maria Luiza; -continuar a occultal-a seria o mesmo que -não explicar a falta de Eduardo no passeio a Infias.</p> - -<p>—Está decerto agora nas aulas e talvez o -não possa receber...</p> - -<p>—Não me disseste outro dia que elle tinha -recebido bilhetes teus no Seminario?</p> - -<p>—Sim... disse. Mas se estiver nas aulas... -Eu vou mandal-o... oxalá que ainda vá a -tempo.</p> - -<p>Quando sahiram, Rosinha levava o coração -opprimido.</p> - -<p>—Vaes triste? notou Maria Luiza.</p> - -<p>—Não vou; ir calada não é ir triste.</p> - -<p>—Tens razão.</p> - -<p>Chegaram a Infias.</p> - -<p>O coração de Maria Luiza pulsava vertiginosamente—d’esperança; -o de Rosinha batia -tambem agitado—d’afflicção.</p> - -<p>A estrada estava deserta. Decorreram minutos. -Ninguem. Maria Luiza relanceou á irmã -um olhar de eloquente interrogação. Rosinha -simulou não dar tento, e fitou os olhos n’um -ponto que ella nem sequer via...</p> - -<p>Decorreram mais alguns minutos de completo -silencio.</p> - -<p>—Não vaes boa? perguntou a viuva Machado -a Maria Luiza, inquieta pela vêr extremamente -pallida.</p> - -<p>—Vou boa, minha mãe. Não é nada...</p> - -<p>—Talvez seja longo o passeio. Voltemos, se -querem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span></p> - -<p>—Não, vamos até alli mais adeante, e voltemos -depois, respondeu Maria Luiza.</p> - -<p>Era a ultima esperança.</p> - -<p>Fôram um pouco mais adeante. Não appareceu -ninguem. Maria Luiza voltou-se e disse -abruptamente:</p> - -<p>—Vamos embora; agora é que me não sinto -boa.</p> - -<p>E depois, segredando á irmã:</p> - -<p>—Não veiu!</p> - -<p>Então Rosinha achou que devia dizer meia -verdade. Contou que Eduardo Valladares tinha -ido ao Porto por motivo imprevisto.</p> - -<p>Maria Luiza sorriu doloridamente e disse:</p> - -<p>—É possivel que fosse ao Porto, mas é impossivel -que não estivesse hoje aqui se já me -não tivesse esquecido.</p> - -<p>E, tão agitada como incredula, repelliu todos -os protestos que lhe fazia a irmã de haver -dito a verdade quanto á ida ao Porto.</p> - -<p>—Fez-te mal sahir! disse a viuva Machado -com o coração opprimido por um torturante -presentimento.</p> - -<p>—Não é nada, minha mãe; socegue. Vêl-a -inquieta, é que me incommoda.</p> - -<p>Maria Luiza, a mariposa alegre d’outros tempos, -alma creada para as flores e para o sol, -era, bem o sabeis, uma d’essas creaturas que -se deixam ir embaladas no ambiente da felicidade -e que um dia, ao encontrarem a chamma -que as namora, ou a atravessam impunemente -ou crestam n’ella as azas iriadas. São estas -frageis creaturas as que mais podem luctar -com as tempestades da vida, mas se uma -vez succumbem, deixam-se morrer lentamente, -abraçadas, permittam-me que diga assim, ao -pensamento que lhes envenena o coração.</p> - -<p>Maria Luiza julgou-se esquecida pelo homem -a quem amava. Esta ingratidão suffocava-a. -«Por que não iria elle, perguntava a si mesma<span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span> -na sua afflicção, porque não iria vêr-me, depois -de me não ter visto ha tanto tempo? E os -meus pensamentos todos eram seus! Se sonhava... -via-o no meu sonho. Dizia-me o coração -que não morria, porque o amava... E elle não -foi!»...</p> - -<p>Á noite, queixou-se de extrema inquietação. -Chamou-se á pressa o facultativo.</p> - -<p>Antes d’elle chegar, Maria Luiza levantou-se -de golpe, disse que uma nuvem vermelha lhe -tirava a vista, e bolçou sangue.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XXIX</h2> - -<p>Moralmente, Rosinha soffrera tanto ou mais -que Maria Luiza.</p> - -<p>O seu amor, a sua dedicação pela irmã estremecida -levou-a a occultar a morte do bacharel -Valladares.</p> - -<p>—Sabendo-o, soffrerá metade das dores que -dilaceram o coração luctuoso de Eduardo. Peorará -decerto, pensara Rosinha nos extremos -do seu carinho.</p> - -<p>Depois, acercou-se de sua mãe e disse:</p> - -<p>—Não lhe parece que será melhor não dizermos -que morreu o genro do João Nicolau?</p> - -<p>—Sim... talvez.</p> - -<p>—É sempre desagradavel a noticia d’um -fallecimento. Agora, porém, tão impressionavel -a tornou a doença, que parece-me que seria -melhor occultarmos...</p> - -<p>—Pois sim, não digamos nada.</p> - -<p>Quando Maria Luiza lhe entregou o bilhete, -Rosinha ficou sobresaltada. Exprimiu o receio -de Eduardo Valladares o não receber a tempo, -para ir dispondo o ánimo da irmã. Não previu<span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span> -as tristes consequencias que vieram surprehendel-a. -Suppoz que o adeantado da hora seria -razão sufficiente para explicar a ausencia de -Eduardo, e que Maria Luiza diria de si para -comsigo «não pôde vir» em vez de «não quiz -vir.»</p> - -<p>Para acalmar a irmã, resolveu-se, como vimos, -a dizer ao menos meia verdade.</p> - -<p>Não foi acreditada.</p> - -<p>É inexplicavel o que em algumas horas soffreu -a boa alma, toda dúvida e receio, toda -amor e afflicção...</p> - -<p>Em casa, no regresso d’aquelle triste passeio, -Rosinha, muito atribulada, disse á irmã:</p> - -<p>—Socega, por Deus. Amanhã te explicarei -toda a verdade.</p> - -<p>Maria Luiza olhou-a com fixidez, e sorriu um -breve sorriso que tinha tanto de tristeza como -de incredulidade. E continuou a luctar com a -mesma ancia, cada vez maior.</p> - -<p>O facultativo ficou surprehendido do estado -em que veiu encontrar Maria Luiza e não pôde -deixar de o attribuir a hemorrhagia da membrana -mucosa pulmonar. A hemoptyse estava -manifesta. O sangue era acompanhado de tosse -violenta e no meio da ancia, que a suffocava, -queixava-se Maria Luiza de intenso calor sobre -o peito.</p> - -<p>Quando a doente socegou algum tanto, o facultativo -disse em particular á viuva Machado:</p> - -<p>—Sua filha, comquanto fôsse clara certa predisposição -que infundia receio, enganou-me, e -eu vou dizer em que. Fiei muito d’uma convalescença -remançosa, que ella devia ter e que, -rigorosamente observada, seria barreira á obra -da destruição. N’isto foi que me enganei. Sei -que estou dilacerando o coração da mãe, mas -devo usar d’esta franqueza para com a enfermeira. -Tiremol-a d’aqui, quanto antes, o mais -breve possivel. Para que não vae v. ex.ᵃ para a<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span> -quinta do Prado? Está á porta a primavera; appellemos -para ella.</p> - -<p>—Para a quinta do Prado... Mas para lá...</p> - -<p>—Diz v. ex.ᵃ?...</p> - -<p>—Ha o inconveniente de a approximarmos -do tumulo da irmã, por quem morria d’amores...</p> - -<p>—Ah! Fez v. ex.ᵃ bem em me informar d’essa -circumstancia, que eu desconhecia. Não sabia -onde repousava a filha de v. ex.ᵃ; sabia apenas -que tinha succumbido a uma tisica pulmonar. -É pois conveniente escolhermos outro local.</p> - -<p>—Lembro-me do Bom Jesus, que é o seu passeio -favorito. Podiamos requerer aposento na -<i>Casa da mesa</i>. Que lhe parece, sr. doutor?</p> - -<p>—Sabe v. ex.ᵃ que de todos os sitios affluem -numerosos doentes ao Bom Jesus. É difficil encontrar -mais salutar atmosphera. Mas ainda -assim, pelo que toca a condições hygienicas, -não pode comparar-se com a quinta do Prado. -Torna-se, porém, indispensavel atalhar o mal -obstinadamente, e haver rigorosa observancia -de prescripções. Convem livral-a sobretudo do -nevoeiro da serra, de certa viração perfida que -sopra de manhã e de tarde no Bom Jesus.</p> - -<p>—Oh! mas diga-me se tem esperanças de a -salvar, sr. doutor, lembre-se n’este momento -de que sou mãe.</p> - -<p>—Socegue, minha senhora. Empenharemos -todos os esforços e restituil-a-hemos á vida.</p> - -<p>Sahiu o medico, dissipando com as exhalações -d’um charuto as esperanças de salvar Maria -Luiza.</p> - -<p>Ha só uma coisa comparavel á consciencia -dos medicos: é a consciencia dos ministros. -Esta relação de semelhança deve lisonjear os -homens da sciencia...</p> - -<p>Na manhã do dia seguinte, Rosinha curvou-se -sobre o travesseiro de Maria Luiza e murmurou:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span></p> - -<p>—Se me podes ouvir, ou se estás para isso, -queria dizer-te uma coisa...</p> - -<p>—Dize.</p> - -<p>—Perdôa-me, por Deus, perdôa-me. Hontem -não te disse toda a verdade. Pobre de mim, que -não previ o mal que ia fazer!</p> - -<p>—Eu sabia que me enganavas. Comprehendi, -porque sei quanto és minha amiga, Rosinha...</p> - -<p>—Tu sabias?</p> - -<p>—Sabia. Sabia que querias justificar a ingratidão, -o esquecimento d’elle, só para não me -magoares.</p> - -<p>—Enganas-te. O amor desvaira-te. Elle não -pôde ir, porque...</p> - -<p>—Por que?...</p> - -<p>—Socega. Vejo-me, porém, obrigada a fazer-te -esta revelação. Pesa-me de não a ter feito -hontem. Quando a mamã estiver presente, mostra -que não sabes...</p> - -<p>—Dize, dize.</p> - -<p>—O Eduardo está realmente no Porto.</p> - -<p>—Quiz fugir-me?</p> - -<p>—Não. Foi chamado á pressa. Sebastião Valladares... -morreu.</p> - -<p>—Morreu! E por que m’o não disseste? Receavas -que me fizesse mal, bem sei, minha boa -irmã. Morreu! Como elle terá soffrido! E eu accusava-o, -Rosinha, accusava-o porque me dilacerava -o coração a lembrança de me não ter -ido vêr, a mim, que me levantava do leito depois -de tantos dias de soffrimento... Como eu -fui injusta...</p> - -<p>—Socega. Que não te vá fazer mal...</p> - -<p>—Não faz, não. Pobresinho d’elle, que parece -ter nascido sob o influxo d’uma estrella funesta. -Não lhe bastava o que soffria por minha causa! -Ainda mais isto! Soffre-se tanto quando se fica -sem pae! Lembras-te do que nós sentimos e -chorámos, quando nos faltou o nosso, Rosinha?</p> - -<p>—Cala-te, minha amiguinha, cala-te. Pode<span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span> -ouvir a mamã. Não fales mais. Hontem de -tarde, se t’o dissesse para remediar o mal que -involuntariamente fiz, talvez não acreditasses.</p> - -<p>—Talvez não.</p> - -<p>—Hoje, porém, tenho provas.</p> - -<p>—Tens provas?</p> - -<p>—Promette que te não alvoroças, se não...</p> - -<p>—Ah! escreveu-te! Deixa-me ver, deixa-me -ver.</p> - -<p>—Eu leio...</p> - -<p>—Não sejas cruel, Rosinha. Deixa-me ler, -que já tenho saudades de ver a sua lettra...</p> - -<p>Rosinha entregou a carta que tinha recebido, -do Porto momentos antes. Maria Luiza leu:</p> - -<p>«Minha boa amiga:</p> - -<p>Escrevo-lhe do Porto. Sabe já decerto que -meu pae morreu. Occulte-o a ella, por quem é, -occulte-lh’o. Como sentiria as dores que eu só -devo sentir, se ella o soubesse! Podia talvez -peorar.</p> - -<p>«Quando olho em mim, e conheço que levei a -minha desgraça áquella alma, que não a merecia, -sinto remorsos de a ter amado. Que Deus -me perdôe, e a salve a ella. Não posso ser mais -extenso. Basta dizer-lhe que meu pae baixa -hoje á sepultura. Voltarei dentro de pouco -dias.»</p> - -<p>—Rosinha, minha irmã, reza commigo a Nossa -Senhora. Rezemos por elle, que é muito infeliz; -por mim, não, que eu sinto-me boa.</p> - -<p>E brilharam-lhe lagrimas nos olhos. Sobreveiu -um frouxo de tosse, e após a tosse uma -lufada de sangue...</p> - -<p>Passadas horas, respondia Rosinha a occultas -da irmã:</p> - -<p>«Occultamos-lhe a morte de seu pae. Procuramos, -porém, afastar um mal, e approximamos -outro. Mando-lhe o bilhete que ella me -dava hontem para eu lh’o fazer entregar, na<span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span> -supposição de estar, em Braga. Continuei ainda -a occultar a cruel verdade sem pensar nas consequencias -funestas da minha dedicação. Á -conta de esquecimento tomou ella a sua ausencia. -Era manifesto que soffria muito quando -recolhemos, mas foi-me então impossivel remediar -o mal, revelando toda a verdade. Ás nove -horas da noite, sentia-se muito incommodada -e momentos depois abafava-lhe a voz uma onda -de sangue. Pobre irmã! Venha depressa, que -eu sinto que me falta o ánimo. Hoje confessei-lhe -tudo. Quiz lêr a sua carta, e lamentou-o -muito com os olhos cheios de lagrimas. Vamos -amanhã para o Bom Jesus. O facultativo aconselhou -ares mais puros sem perda de tempo. -Venha depressa, sim? A precipitação com que -lhe estou escrevendo explicará o laconismo -destas linhas.»</p> - -<p>Quando Rosinha voltou ao quarto, disse-lhe -Maria Luiza:</p> - -<p>—Tu respondes hoje?</p> - -<p>—Eu! Não tenciono.</p> - -<p>—Quero então pedir-te um favor.</p> - -<p>—Dize o que é.</p> - -<p>—Se me deixavas escrever...</p> - -<p>—Escrever! Mas se te vae fazer mal...</p> - -<p>—Não faz, eu sei que não faz.</p> - -<p>—Com uma condição: quatro palavras, apenas.</p> - -<p>—Pois bem. Quatro palavras apenas, respondeu -Maria Luiza.</p> - -<p>E escreveu com bastante difficuldade para -sustentar a penna na mão convulsa:</p> - -<p>«Sei o que terás soffrido, meu pobre Eduardo!... -Que o meu amor te dê coragem. Não receies -por mim, não? Eu estou boa. Queria que -viesses, porque vamos ámanhã para o Bom Jesus, -e não sei como hei de estar lá sem ti. Já -não te vi ha tanto tempo...»</p> - -<p>Rosinha interrompeu-a para dizer-lhe:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span></p> - -<p>—Já escreveste muito. Se te faz mal... Se -vem a mamã.</p> - -<p>E ouviram-se passos no corredor.</p> - -<p>—Ella ahi vem, não ouves?</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XXX</h2> - -<p>João Nicolau e Frei Domingos estavam conversando -um dia e naturalmente veiu a declinar -o dialogo sobre o futuro de Eduardo, que -parecia mais triste do que nunca.</p> - -<p>—É pois resolução assente o sacerdocio? -perguntou o carmelita.</p> - -<p>—Assente, respondeu João Nicolau. Foi sempre -desejo meu encarreiral-o por este caminho. -Ao principio receei que o meu proposito o contrariasse. -Ha tempos a esta parte, cuido perceber -que lhe não desagrada o futuro que lhe -dou gostosamente.</p> - -<p>—Hade o sr. João Nicolau lançar á conta da -amizade com que me trata as impertinencias -d’um velho. Deixe-me todavia ser franco—disse -Frei Domingos do Amor Divino com os olhos -marejados de lagrimas. Entrei n’esta casa supplicando -a Deus que me preparasse um dia este -momento, em que eu pudesse dizer ao homem -honrado: «Aqui estão os meus cabellos brancos; -ouve-me, se elles te inspiram compaixão.»</p> - -<p>João Nicolau sentia-se perplexo e commovido.</p> - -<p>Frei Domingos continuou:</p> - -<p>—Um dia, um homem velho como eu, coração -sem mancha, como prouvera ao Senhor -que fôra o meu, bateu á minha porta e disse: -«Desgraças communs prenderam o meu coração -ao coração d’outro homem, cujo filho se<span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span> -abeira hoje de mim, a instancias do pae, para -pedir conselho á minha velhice, não á minha -discreção. Descobri sombras na fronte que se -devia illuminar com o clarão da mocidade. Vi -curvada com melancholico pendor a roseira que -se devia erguer attrahida pelas flechas do sol. -Sondei. Desci cautelosamente ao coração de -dezeseis annos e encontrei-o traspassado por -um espinho. A pobre alma confrangia-se deante -d’um futuro que se approximava dia a dia, e que -ella queria remover, ou porque estivesse embalada -nas castas doçuras da sua edade, ou porque -a apavorasse a austeridade do sacerdocio.» -Disse-me isto o ancião com voz trémula -de commoção e velhice. Depois, voltando-se de -novo para mim, accrescentou: «A missão do levita -é supplicar e esclarecer. Vá: supplique e esclareça. -Fale ao coração piedoso do homem que -chamou a si o neto desprotegido da fortuna -para lhe aplanar o caminho da vida. Vá e diga-lhe -curvado de respeito: «Venho desafogar comtigo, -porque sei que o teu coração é brando; -ouve-me e Deus te agradecerá». Era eloquente -e justa esta voz. Obedeci e vim. Aqui estou, -sr. João Nicolau, para lhe pedir que me oiça. Direi -o que a razão me fôr suggerindo; depois terminarei -com o dito da Escriptura: «Se eu errei, -corrige-me tu; se eu falei com iniquidade, não -accrescentarei mais.<a name="FNanchor_13" id="FNanchor_13"></a><a href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a>»</p> - -<p>—Oh! sr. Frei Domingos... exclamou João -Nicolau sem poder concluir a phrase.</p> - -<p>—O melhor futuro não é o que nos parece -melhor; é o que Deus nos prepara. O coração -affectuoso pode enganar-se ao talhar felicidades -que nunca cheguem. Não digo que venha -a ser assim; quero dizer que o coração do -sr. João Nicolau, estremoso e bom, pode enganar-se -<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span>em sua mesma bondade. Um dia as lagrimas -de seu neto podiam amargurar-lhe os -remanços da velhice. O sr. João Nicolau choraria -a sua e a alheia desgraça ao ver despida de -flores a arvore do seu amor. Não me pesa a mim -a batina, porque a procurei e a vesti eu mesmo. -Prouvera ao Senhor, porém, que conhecesse -menos hombros avergados sob ella, que era -então certo conhecer menos infelizes. O sacerdote -que não tem o ánimo despreoccupado, serve -mal a Deus e á sua alma. Não me quero engrandecer, -nem aos que voluntariamente abraçam -o sacerdocio. Quero dizer que não poderia curar -promptamente as dores alheias, se todos -os dias tivesse de pensar a chaga incuravel do -meu desespêro. Toda a vida tem espinhos; o -sacerdocio tambem. O marinheiro que voluntariamente -embarca, corajoso lucta com as tempestades -do mar e todo se delicia na contemplação -do azul purissimo das aguas, quando -céo e mar estão serenos. O que navega coagido -nem desteme a tormenta nem se consola com -a suavidade da paizagem. Para tal marinheiro, -o mar é sempre um abysmo, ou durma ou se -encapelle. Que cada um procure o rumo da sua -derrota. Depois, quando já tiver embarcado, -digamos assim ao nauta querido do nosso coração: -«Filho, deixa-me guiar o teu batel, em -quanto o teu braço fraqueja».</p> - -<p>Frei Domingos parou um momento, fatigado -pela commoção. João Nicolau approximou-se e -disse com olhos humidos de pranto:</p> - -<p>—Sr. Frei Domingos, as suas palavras convencem -me. Pensei que meu neto não ia sacrificado -ao destino que lhe eu dava. Suppuz a -principio que a idéa da solidão do presbytero -lhe pusera medo. Chegada, porém, a hora de -lhe indicar um caminho, vi-o calar se sereno -e...</p> - -<p>—Agradeçamos a Deus que lhe não endureceu<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span> -o coração; é humilde. O filho d’aquelle homem, -cuja face gelada era serena como a superficie -d’um lago, devia compartilhar das virtudes -enthesouradas no coração do pae. Eu vi -o cadaver de seu genro...</p> - -<p>—O sr. Frei Domingos! Ah! pois era o carmelita?...</p> - -<p>—Fui ao Porto, que me dizia a consciencia -que devia ir. Entrei aqui, e fui recebido, sob -este tecto, como não merecia. D’esta grande -divida que tenho em aberto, e que decerto não -posso saldar, procurei pagar a centesima parte -dos juros, amontoados. Á volta do feretro d’um -parente intimo d’esta casa, reuniam-se sacerdotes; -era lá o meu logar; fui tomal-o. Não faltavam -á viuva e ao orphão consolações d’amigos; -as minhas seriam menos prestantes. Foi -por isso que não appareci á familia annojada. -Na egreja senti uma extranha commoção: chorei. -Talvez fôsse fraqueza o chorar; talvez. São -percalços da velhice. Estava-me lembrando das -desgraças que poderiam fulminar o orphão, se -a minha voz fôsse impotente para convencer o -sr. João Nicolau. E olhe que não vae n’isto offensa -ao seu coração. Não receava por elle; -receava por mim. Da palavra do conselheiro -depende a efficacia do conselho. O bom terreno, -por mal semeado, pode deixar de fructificar. -Enganei-me, sr. João Nicolau, enganei-me. -Não é verdade? Não é verdade que veiu Deus -em nosso auxilio, porque o seu entendimento -adivinhou o que eu deixei de dizer? Diga-me -que sim, que é esta a maior alegria de ha trinta -annos. O sr. João Nicolau é bom... Bem vejo -que está chorando. «Fazei justiça ao necessitado -e ao orphão»<a name="FNanchor_14" id="FNanchor_14"></a><a href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a> diz o <i>Psalterio</i>. O sr. João -Nicolau é religioso, e ha de fazel-a. Dê-me um -<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span>abraço, meu amigo, que eu leio nas suas lagrimas -a resposta que a commoção lhe não permitte -dar-me...»</p> - -<p>Foi edificante aquelle lance em que dos olhos -dos dois velhos brotaram copiosas lagrimas. -Por longo tempo nem um nem outro pôde falar. -O silencio dava certa grandeza ao quadro.</p> - -<p>Decorreram minutos, após os quaes Frei Domingos -conseguiu dizer:</p> - -<p>—Bemdito seja o nome do Senhor! Vou d’aqui -rejuvenescido. Vou dizer a Rodrigues d’Abreu...</p> - -<p>—Tinha adivinhado logo que era elle. Em -Braga, não podia ser outro. Bom coração aquelle!</p> - -<p>—Bom coração é, realmente. A elle devemos -esta alegria, que veiu illuminar a nossa velhice. -Vou dizer-lhe: Permittiu Deus que eu visse a -realisação de tamanha esperança. Receei uma -vez, e chorei. O Senhor das alturas perdoou-me, -cobriu-me com a Sua grandeza, depois de -ter inspirado o coração a que me dirigi.</p> - -<p>Passados dias, João Nicolau chamou o neto -á sua presença e disse-lhe:</p> - -<p>—Estamos sós, e espero que me falarás com -a lizura com que falarias a teu pae.</p> - -<p>—Responderei com a voz do coração.</p> - -<p>—Cabe-me o dever de dirigir a tua educação, -e não quero violentar-te a acceitares um -futuro que te repugne. Se até hoje fiz mal, determinando-te -uma carreira, dir-m’o-has agora. -Responde-me com franqueza. Da resolução que -tomares depende tudo e, depois de consummada -a obra, é impossivel a emenda. A tua recusa -não me desgosta, nem me contraria. Se assim -fôsse, não te chamaria para me expores a tua -vontade.</p> - -<p>Eduardo Valladares levantou para o avô os -olhos tristes, e respondeu com firmeza:</p> - -<p>—Agradeço do fundo do coração, meu avô, -o sentimento que o levou a querer ouvir-me<span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span> -sobre este ponto. Respondo, abrindo-lhe a minha -alma. O sacerdocio, a que me destinava, -apavorava-me quando eu sentia enflorar-se o -peito com as primaveras que são apanagio dos -primeiros annos da vida. Entre mim e a minha -esperança, via levantar se a barreira do sacerdocio. -Chorei, exasperei-me, e levei o écho das -minhas amarguras aos ouvidos de quem entrava -no mundo com direito a sahir d’elle sem -rasgar o coração na minha corôa d’espinhos. -Quiz rebellar-me, no meu desespêro, contra a -vontade de meu avô. Suspendeu-me sempre á -beira do precipicio um braço amigo, apontando-me -para o Céo. Esperei do Céo o balsamo, o -confôrto. Sem deixar de crer em Deus, via porém -crescer hora a hora o meu desespêro. Era -horrivel viver assim, meu avô! Fui vivendo -uma vida d’esperanças e de lagrimas, de fé e -de descrença... Só sabe comprehender isto, -quem viveu assim. Era delicado de mais para -tamanhas procellas o coração que eu amei. -Despedaçou-o aquella agonia lenta. Despedacei-o -eu, meu avô. A martyr succumbiu ás minhas -dores. Amava-me de mais para me esquecer. -Chorei de desespêro; choro agora de remorso. -Encherei com as minhas lagrimas o -calix do sacrificio. Na expiação de todos os -dias supplicarei o perdão de Deus. Quero e -devo expiar assim, meu avô, se a pessoa a -quem me refiro adormecer no tumulo para -accordar no Céo.</p> - -<hr class="chap" /> - -<h2>XXXI</h2> - -<p>«As arvores tanto as tenho para mim como -para os passaros» escreveu Lamartine no formoso -livro <i>Pedreiro de Saint-Point</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span></p> - -<p>Ó alma sublime de poeta, tu não levavas o teu -egoismo ao extremo de quereres as arvores -unicamente para te envolverem em mysteriosa -sombra nas tardes meditativas do estio. -Tu sabias que esse mundo de folhas verdes, -sussurrante e oloroso, se pode servir de cupula -ao homem em horas de profunda meditação, é -tambem das aves que se deixam absorver nos -seus extasis d’amor, e querem esconder-se nas -sombras da floresta, para cantar, sem que ninguem -as veja.</p> - -<p>Deixemol-as entoar os seus modilhos emquanto -nós pensamos.</p> - -<p>Ellas estão no seu mundo, nós estamos no -nosso.</p> - -<p>O universo é para todos.</p> - -<p>Faz-me tristeza ver que os homens as perseguem, -a ellas, que tornam alegre a solidão dos -campos e que traduzem em musicas suavissimas -os mais delicados pensamentos do amor e -da saudade. Nós, quantas vezes nos não embriagamos -nos mais delicados pensamentos, -nos mais mimosos affectos, sem que possamos -encontrar na palavra o prisma que reproduza -as formosas cambiantes do nosso espirito! Ellas, -as aves, teem uma inflexão para cada idéa, -uma harmonia para cada sentimento. Merecem -mais respeito as pobresinhas, se não fôr por -outra coisa, ao menos por isto—que já é -muito.</p> - -<p>A creança d’hoje ha de ser homem amanhã e, -se lhe ensinarem a disparar a sua clavina, irá -desfechal-a contra o seio offegante d’uma andorinha, -que commetteu o unico delicto de querer -procurar alimento para a sua pequenina -familia. Não digamos pois á creança que se -embriaga nas innocentes alegrias da sua edade: -«Amanhã, visto que estás homemzinho, faze-te -caçador. Pega n’esta espingarda e vae pelo caminho -fora. Rompe através do matto, salta<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span> -córregos, galga montanhas, que todos esses sacrificios -serão pagos pelo prazer sanguinario -de matar. Se vires um bando d’aves, ainda que -seja uma caravana de passarinhos alegres, que -vão cruzando o espaço, como uma tribu nómada -que atravessa o deserto, faze pontaria e atira. -Se ferires a mãe, fecha o coração á magua de -teres levado a orphandade e a viuvez a uma -familia inteira, cerra os ouvidos aos saudosos -lamentos de quem fica viuvo e orphão n’esse -deserto dos céos! Se ferires o filho, esquece-te -de que roubaste a alegria d’um coração de mãe, -de que a ave é tanto mãe, ou mais ainda, do -que a mulher, esquece-te, oh esquece-te... d’isto -tudo e... desfecha a tua espingarda».</p> - -<p>Apraz-me entrar n’um cerrado onde as aves -vivem em plena liberdade sem recearem da clavina -do caçador, nem das redes da creança. Ahi -cantam, amam e noivam sem emmudecer de -sobresalto uma unica vez. Se o bosque fica perto -d’uma corrente murmurosa, diremos que estamos -no jardim do amor, ao ouvir os rouxinoes. -Se fica n’um retiro formosamente triste, diremos -que estamos na estancia da saudade, ao -escutar as rôlas.</p> - -<p>As aves da floresta do Bom Jesus do Monte seriam -verdadeiramente ditosas, se não as perseguissem -as creanças—os unicos inimigos que -ellas lá podem ter. Quem quer ouvil-as, sobe á -montanha sagrada; as creanças ouvem-n’as, -namoram-se de suas toadas alegres e querem -prender as proprias aves, para que já lhes não -fuja aquella doce musica.</p> - -<p>Maria Luiza e Eduardo Valladares estiveram -na alameda da Mãe d’Agua, no dia trinta de -março, dia em que a floresta toda se levantava -em jubilos e canticos para saudar a primavera.</p> - -<p>Maria Luiza, meio inclinada para o tumulo, -parecia sorrir á amenidade d’aquelle dia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span></p> - -<p>Tinha nas faces a pallidez da morte, mas descerravam-se-lhe -os labios n’um sorriso sereno -como o da esperança. Esperaria ainda ella a -felicidade terrena? Cremos que sim. Dizia tranquillamente -a Eduardo Valladares, que no Céo -havia um écho para cada desgraçado, e que lhe -segredava o coração que não estava longe a -felicidade. Queria vêl-o queria falar-lhe, queria -ouvil-o a miude, e o pobre moço, desenganado -pela voz da medicina, amparava-a nos -braços, na afflictiva ancia que precedia quasi -sempre uma nova hemoptyse. Muitas vezes -dissera Maria Luiza, quando ainda era alegre:</p> - -<p>—Quem sabe se virei a morrer da morte -de minha irmã? Talvez... Eramos tão amigas!...</p> - -<p>Depois que começara a soffrer, especialmente -depois que foi para o Bom Jesus, dizia a Rosinha:</p> - -<p>—Eu hei de melhorar. Aqui amei e aqui soffri. -Mas a gente gosta tanto dos sitios onde -soffre, amando, que é como se tivesse vivido -n’elles sem nunca ter chorado... Não posso -morrer aqui, bem vês. Tudo são recordações a -chamar-me á vida. Não posso morrer, não.</p> - -<p>—Pois não morres, não, respondia Rosinha, -abafando a sua dôr.</p> - -<p>N’esse dia, trinta de março, estavam Maria -Luiza e Eduardo Valladares na alameda da Mãe -d’Agua. Acompanhara-a elle, dando-lhe o braço. -Rosinha sentou-se a distancia.</p> - -<p>Á sombra das copadas arvores andavam armando -aos passarinhos umas creanças, filhas -de duas familias inglezas, que do Porto, onde -ainda hoje residem, tinham ido passar alguns -dias no Bom Jesus do Monte.</p> - -<p>Andavam estas creanças folgando em commum -divertimento. Quando uma avesinha incauta -descia a pousar na varinha traiçoeira, e<span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span> -ficava presa no visco, sahiam os pequenos de -trás dos troncos afastados, chalrando alegremente -n’uma linguagem que a plumosa victima -devia entender, visto ter dito Carlos V que o -inglez é para se falar aos passaros.</p> - -<p>Depois de prêsa a ave, armavam de novo, -tornavam a esconder-se, e trocavam-se ordinariamente -no esconderijo estas phrases com intervallos -sempre deseguaes:</p> - -<p>—<i>Be silent...</i></p> - -<p>—<i>It is coming...</i></p> - -<p>—<i>It has perched...</i></p> - -<p>—<i>It is caught!</i></p> - -<p>O mysterioso dialogo das impiedosas creanças -orça por isto em portuguez:</p> - -<p>—Sciu...</p> - -<p>—Chegou...</p> - -<p>—Pousou...</p> - -<p>—Está preso!</p> - -<p>Maria Luiza tinha dito a Eduardo Valladares, -quando entraram na alameda:</p> - -<p>—Trouxe-te hoje papel e lapis. Tenho saudades... -dos teus versos, meu amor! Desapprendeste -a cantar nas tuas afflicções, mas -hoje quero que escrevas ao pé de mim para -me certificar de que a tua alma está serena -como a minha...</p> - -<p>Eduardo Valladares, coração afogado em lagrimas, -acceitara o lapis e o papel para não a -contrariar.</p> - -<p>Como porém o alvorôto das creanças distrahisse -por momentos Maria Luiza e Rosinha, -não sem que revelassem assomos de compaixão, -Eduardo Valladares foi escrevendo ao correr do -lapis.</p> - -<p>—Escreveste? perguntou com alegria Maria -Luiza.</p> - -<p>—Escrevi; cumpri... o teu desejo, respondeu -elle.</p> - -<p>Diziam os versos:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span></p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Ide embora, meninos, que é peccado,</div> -<div class="verse indent3">Armar aos passarinhos.</div> -<div class="verse indent3">Indiscretos brinquedos,</div> -<div class="verse">Que levam lucto á paz de tantos ninhos</div> -<div class="verse">Se toda a gente andasse a perseguil-os,</div> -<div class="verse">Não tornaria ninguem mais a ouvil-os</div> -<div class="verse indent3">Nos densos arvoredos.</div> -<div class="verse">Deixae-os modular doces modilhos,</div> -<div class="verse indent3">A musica do ar.</div> -<div class="verse">Ao pé do berço, em quanto ereis creanças,</div> -<div class="verse">Cantavam vossas mães plantando esp’ranças</div> -<div class="verse">No cuidado jardim dos seus amores...</div> -<div class="verse indent3">Deixae-os vós cantar,</div> -<div class="verse">Emquanto arrulham embalando os filhos</div> -<div class="verse indent3">Que dormem sobre flores...</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Posta que fôr a perfida varinha,</div> -<div class="verse">Anceaes por vêr a saltitar no chão</div> -<div class="verse indent3">Descuidosa andorinha,</div> -<div class="verse">Que se não lembra da infantil traição.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Ninguem se move... Comprimis no seio</div> -<div class="verse indent3">O ardente respirar,</div> -<div class="verse">Para que não ponhaes em sobresalto</div> -<div class="verse indent3">O bom do passarinho</div> -<div class="verse indent3">Que tentaes algemar.</div> -<div class="verse">Se vos ouvisse respirar mais alto,</div> -<div class="verse indent3">Mudaria o caminho</div> -<div class="verse">Por fugir aos pequenos salteadores,</div> -<div class="verse">Que o estão esp’rando como vis traidores!</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Eil-o que se approxima embevecido</div> -<div class="verse">Na tarefa que tem todos os dias.</div> -<div class="verse">Vem cheio d’incerteza e d’alegrias...</div> -<div class="verse">Se pudesse voltar tão bem provido</div> -<div class="verse">Como hontem voltou! Mas se lhe falha</div> -<div class="verse indent3">A fortuna que teve,</div> -<div class="verse indent3">E não acha migalha</div> -<div class="verse indent3">Que, venturoso, leve!...</div><span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span> -<div class="verse indent3">Entretanto descobre</div> -<div class="verse">A farta refeição—uma riqueza</div> -<div class="verse indent3">Para quem é tão pobre...</div> -<div class="verse indent3">Venturosa surpresa!</div> -<div class="verse">Olha em roda... Ninguem... Escuta... ousou.</div> -<div class="verse">E mal que toca a ração indefesa,</div> -<div class="verse indent3">Prisioneiro ficou...</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Surde de toda a parte a vozeria,</div> -<div class="verse indent3">O febril alvorôço,</div> -<div class="verse">Conjunto de mil vozes d’alegria...</div> -<div class="verse indent3">O passarinho é vosso,</div> -<div class="verse indent3">Podeis emfim leval-o.</div> -<div class="verse">Mas se já vos lembrou tel-o captivo,</div> -<div class="verse indent3">É bem melhor... matal-o.</div> -</div> -</div> -</div> - -<p>—Ah! impressionaram-me estes versos. Tens -razão... Fazer mal ás avesinhas que são do -ar! Lembras-te da primeira vez que viemos ao -Bom Jesus? E dos teus versos?... Atiraste-m’os -ao regaço aqui, foi mesmo aqui...</p> - -<p>Rosinha, que por um momento receou que -Eduardo Valladares não pudesse reprimir, ao -escrever, as dores profundas que lhe torturavam -a alma, trocou com elle um olhar d’approvação, -que a doente não surprehendeu.</p> - -<p>N’este momento andavam as creanças, a -distancia, mostrando-se com estrepitoso jubilo -uma avesinha que tinha ficado prisioneira.</p> - -<p>Maria Luiza chamou uma, e vieram todas de -tropel, orgulhosas da victoria. Pediu-lhes que -soltassem aquelle passarinho, que lhes não tinha -feito mal nenhum. O pequenito, que entendera -perfeitamente, olhou para Maria Luiza -com desdem, mas uma inglezita de cabello loiro, -talvez sua irmã, voltou-se para o companheiro, -pequeno como ella, e disse:</p> - -<p>—<i>She is so ill! Do what she wished.</i></p> - -<p>Felizmente Maria Luiza não sabia inglez; a<span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span> -pequenita tinha dito: «Ella está tão mal! Faze-lhe -a vontade...»</p> - -<p>A avesinha, restituida á liberdade, desferiu -vôo, e as creanças seguiram n’a com a vista -até que desappareceu através das arvores.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Quantas vezes, ao despregarmos os olhos do -azul purissimo em que se esbatem os contornos -d’uma paizagem deliciosa, não sentimos -passar no espirito uma tristeza subita, acompanhada -do receio de não tornarmos áquelle -sitio?</p> - -<p>Maria Luiza não se despedia das arvores da -floresta, porque devia a Deus o esquecer-se da -realidade da vida, á beira do tumulo, embalada -n’uma esperança que o seu espirito em outra -occasião não teria acceitado. Esta doce tranquillidade, -quando a vida lhe fugia veloz a cada momento -que passava, tomemol-a á conta de prodigioso -effeito d’uma extranha causa. Eu, de -mim, elevo o meu pensamento a Frei Domingos -do Amor Divino...</p> - -<p>Maria Luiza não se lembrou, pois, n’aquelle -dia, de que poderia ser o ultimo em que tremessem -sobre os seus cabellos as sombras ondulantes -do arvoredo da serra. Mas nós—os -que furtivamente a acompanhamos, os que sob -o toldo sonoro da alameda a vimos amar e soffrer, -os que nos costumamos a querer áquellas -arvores como ella mesma queria—nós digamos -adeus aos mil encantos que se escondem no -crepusculo perpétuo da floresta, que não sabemos -se o destino nos deixará acompanhar outra -vez a pallida visão, avergada pela morte.</p> - -<p>Adeus, sombras e murmurios, aves e ninhos, -fontes e arvores. Adeus, flores silvestres e borboletas -que vos amaes. Adeus, folhas verdes -que sois namoradas dos seixos côr de rosa; -adeus. Quem sabe? Talvez para sempre—adeus.</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span></p> - -<h2>XXXII</h2> - -<p>São de Eduardo Valladares estas palavras:</p> - -<p>«No dia 5 de abril, fui chamado á pressa ao -Bom Jesus por um creado da viuva Machado -que, ao romper do dia, batera á porta da casa -de meu avô.</p> - -<p>«Vesti me com precipitação e sahi immediatamente. -Tão violentas eram as pulsações do -meu coração, com tamanha velocidade caminhava -eu, que tinha de parar a cada momento, -suffocado, para poder respirar. Esta demora -mais augmentava a minha sobreexcitação.</p> - -<p>«Eu tinha passado a noite, até ás onze horas, -no Bom Jesus. Para evitar assumptos inopportunos, -adoptei o costume de lêr. Maria Luiza, -que só a custo podia falar, e que tinha -sido obrigada pelo medico a estar silenciosa, -applaudiu a minha idéa, e gostava muito de -me ouvir. Quando se me deparava alguma passagem -que não convinha lêr, por ter maior ou -menor relação de semelhança com a nossa -dolorosa situação, passava-a em claro continuando -a leitura. Maria Luiza, que conservava -um admiravel vigor de faculdades intellectuaes, -notava a incoherencia, e obrigava-me a voltar -atrás para justificar a censura.</p> - -<p>«Assim passavamos as noites, e assim passámos -a de quatro d’abril. Quando desci a -montanha, havia um formosissimo luar que -tremia em scintillações na concha das fontes. -O silencio, o grande silencio das noites da serra, -era apenas quebrado pelo murmurio cadenciado -e monotono das aguas.</p> - -<p>«Em baixo, no valle, lampejavam os reverberos<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span> -da cidade. Tudo o mais era silencio e -luar.</p> - -<p>«A minha alma vinha entregue ás tribulações -de todas as horas, mas não me atravessava -no coração o presentimento de tão proxima -desgraça.</p> - -<p>«Maria Luiza tinha estado a ouvir-me lêr, -alegre, tranquilla, sem denunciar maior soffrimento. -Ás onze horas sahi, para voltar na -noite seguinte. O dia gastava-o eu nas aulas, e -a estudar. Só os dias feriados os passava todos -no Bom Jesus.</p> - -<p>«A verdade é que, depois de eu sahir, se -queixara d’insomnia, e de frio de pés. Logo lhe -purpurearam as faces duas rosetas escarlates -que denunciavam accesso de febre. Sobreveiu -a agitação, a impaciencia. Perguntava anciada -se já era dia, se eu não chegava, porque queria -ir commigo á Mãe d’Agua para respirar livremente. -Mandou que lhe abrissem as janellas -para reconhecer a claridade da manhã. -Abriram-lh’as. Como visse o luar e as estrellas, -contorceu-se febricitante. Foi então que expediram -o creado que me chamou. Durou bastante -tempo o frenesi, após o qual veiu uma -violenta hemoptyse.</p> - -<p>«Ficou extenuada a pobresinha, sem poder -respirar. Era a prostração que precede a -morte...</p> - -<p>«Quando eu cheguei, quando me ouviu a voz, -descerrou os olhos, deu aos labios o geito d’um -sorriso, e murmurou com extrema difficuldade: -Não posso... Queria ir comtigo... Não te -esqueças de mim... Morro decerto...»</p> - -<p>Eduardo Valladares deteve se suffocado pelas -lagrimas. Esperei que pudesse continuar:</p> - -<p>«Queria vir á Mãe d’Agua, não talvez para respirar -melhor, mas para se despedir, porque só -então conheceu que morria. Foi no dia trinta -de março de 1853 que pela ultima vez estivemos<span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span> -aqui, na Mãe d’Agua. O medico, receoso da -extrema frescura da alameda, não consentia -que viesse.</p> - -<p>«Aqui tem como ella morreu... Que ella morreu, -não... que deixou a terra... O seu derradeiro -pensamento foi para mim e para o sitio -querido dos nossos amores...</p> - -<p>«Está sepultada no mesmo cemiterio onde jaz -a irmã, ao pé da mesma sebe engrinaldada de -flores silvestres. O seu corpo está lá, na valla -coberta de boninas, mas sinto aqui, na Mãe -d’Agua, alguma coisa que me denuncía o perfume -da sua alma. Dir-se-hia que respiro aqui -a essencia da flôr que se engastou nas constellações -do Céo.</p> - -<p>«Deixe-me abreviar esta narrativa, porque -vou sentindo que me faltam as fôrças. Resta-me -resumir o que se passou desde 5 de abril de -1853 até hoje, 15 de julho de 1870.</p> - -<p>«Da minha familia resta apenas minha mãe, -que vive da minha dôr, e é o unico esteio a que -me abraço, quando mais desconfortado me -sinto.</p> - -<p>«Frei Domingos do Amor Divino morreu em -1860.</p> - -<p>«Ao entrarmos na egreja do Carmo, onde se -rezaram os reponsos por alma do virtuoso <i>Fradinho</i>, -hoje santificado pela opinião publica, disse-me -Rodrigues d’Abreu:—Vamos, meu amigo. -Devemos ambos muito á memoria d’esta boa -alma. E olhe que não sabe ainda tudo quanto -lhe deve...</p> - -<p>«Estas palavras despertaram a minha curiosidade. -Quando sahimos, o sabio bibliothecario -circumstanciadamente me contou como Frei -Domingos se empenhara pela minha felicidade. -Fiquei surprehendido. Rebentáram-me lagrimas -em jôrro. Depois que nos despedimos, voltei á -egreja do Carmo. Já estava fechada. Entrei em -casa e orei por longo tempo. Levantei-me tranquillo<span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span> -e fui buscar a velha Gertrudes, que sobrevivera -a seu velho amo. Estava inconsolavel. -Dei-lhe abrigo em minha casa durante os -oito mezes que ainda teve de vida. Do que a -Gertrudes contou e do que Frei Domingos revelara, -coordenei os apontamentos que sei da -sua vida.</p> - -<p>«Rodrigues d’Abreu, o coração nobilissimo, -expirou, como sabe, ha sete mezes, a 6 de dezembro -de 1869.</p> - -<p>«Resta-me falar da familia de Maria Luiza.</p> - -<p>«A viuva Machado, avisada do risco que corria -a vida da unica filha que lhe restava, se não -procurasse melhor clima, sahiu para a ilha da -Madeira. Rosinha casou no Funchal, cuido que -por inclinação, onde vive em companhia da mãe -e do marido.</p> - -<p>«E eu?...</p> - -<p>«Contei-lhe a minha vida, revelei-lhe as paginas -mysteriosas do meu livro intimo, deixei-lhe -vêr as minhas lagrimas... Que lhe posso dizer -mais? Não pensei no suicidio, não me atirei ao -abysmo da morte para extinguir as minhas dores, -e adormecer.</p> - -<p>«Procurei o balsamo onde o podia encontrar.</p> - -<p>«Cada dia apparecem livros que abrem por -blasphemias, e terminam pela negação de tudo -o que ha de defeso á razão limitada do homem. -Eu, se um dia escrevesse a minha historia, havia -de terminar por esta palavra—<span class="smcap">Deus</span>.»</p> - -<p class="titlepage">FIM</p> - -<p class="smaller"><i>Nota.</i>—A estampa que illustra a capa d’esta edição reproduz -fielmente o antigo aspecto da alameda da Mãe d’Agua, -no Bom Jesus do Monte.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="footnotes"> - -<h2>NOTAS</h2> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1"></a><a href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a> <span class="smcap">Contos ao correr da penna</span>—<i>No Bussaco</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_2" id="Footnote_2"></a><a href="#FNanchor_2"><span class="label">[2]</span></a> Tudo isto está hoje mudado no Bom Jesus do -Monte. Diogo Forjaz descreveu assim, e com exactidão, -o antigo aspecto do sitio da Mãe d’Agua: «Deixando o -terreiro dos Evangelistas, subindo alguns metros pela -matta na direcção de sueste, encontra-se um comprido -passeio tapisado de verdura, o qual conduz por debaixo -de copado arvoredo a um tôsco reservatorio d’agua, que -lhe fica ao fim com assentos e mesa de pedra.» (<i>Nota -da 2.ª edição.</i>)</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_3" id="Footnote_3"></a><a href="#FNanchor_3"><span class="label">[3]</span></a> Sonet vox tua in auribus meis. Cant. <span class="smcapuc">II</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_4" id="Footnote_4"></a><a href="#FNanchor_4"><span class="label">[4]</span></a> Temos conhecimento do opusculo denominado <i>Manuel -Rodrigues da Silva e Abreu</i>. Apontamentos biographicos -por Soares Romeu Junior; opusculo publicado, -em Lisboa, n’este anno de 1870.</p> - -<p>O sr. Soares Romeu não pôde precisar a data do decreto -que nomeou bibliothecario o illustre biographado; -averiguámos porém que elle fôra despachado por carta régia -de 26 d’agosto de 1842.—(<i>Nota Da 1.ª edição.</i>)</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_5" id="Footnote_5"></a><a href="#FNanchor_5"><span class="label">[5]</span></a> Vide <span class="smcapuc">IV</span> volume, pag. 72.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_6" id="Footnote_6"></a><a href="#FNanchor_6"><span class="label">[6]</span></a> O nosso Deus, porém, está no Céo; tudo quanto -quis, fez. Ps. <span class="smcapuc">CXIII</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_7" id="Footnote_7"></a><a href="#FNanchor_7"><span class="label">[7]</span></a> Na minha tribulação invoquei o Senhor, e chamei -ao meu Deus. Ps. <span class="smcapuc">XVII</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_8" id="Footnote_8"></a><a href="#FNanchor_8"><span class="label">[8]</span></a> Diminuta era a livraria de João Nicolau, reduzida -ás obras completas de José Agostinho de Macedo e a -uns tantos opusculos, inspirados na causa absolutista e -na conservação das ordens religiosas, que vieram a lume -em Portugal e no extrangeiro. O opusculo citado sahiu -da Imprensa Regia, em 1814.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_9" id="Footnote_9"></a><a href="#FNanchor_9"><span class="label">[9]</span></a> Eccles. Cap. <span class="smcapuc">XI</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_10" id="Footnote_10"></a><a href="#FNanchor_10"><span class="label">[10]</span></a> O senhor Deus é o meu auxiliar.—Isaias, 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_11" id="Footnote_11"></a><a href="#FNanchor_11"><span class="label">[11]</span></a> Eurico o Presbytero, pelo sr. Alexandre Herculano.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_12" id="Footnote_12"></a><a href="#FNanchor_12"><span class="label">[12]</span></a> Prov. <span class="smcapuc">XVII</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_13" id="Footnote_13"></a><a href="#FNanchor_13"><span class="label">[13]</span></a> Job. <span class="smcapuc">XXXIV</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_14" id="Footnote_14"></a><a href="#FNanchor_14"><span class="label">[14]</span></a> Ps. <span class="smcapuc">LXXXI</span>.</p> - -</div> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<h2>BIBLIOTHECA HORAS ROMANTICAS</h2> - -<p>Collecção de obras litterarias e scientificas notaveis, -dos melhores auctores antigos e modernos, nacionaes -e extrangeiros.</p> - -<p class="center">100 RÉIS—CADA VOLUME—100 RÉIS</p> - -<p class="center">Volumes publicados</p> - -<ul> -<li>N.ºˢ I, II, III—QUO VADIS (3.ª edição) de H. Sienkiewicz.</li> -<li>N.º IV—VIDA DE LAZARILLO DE TORMES, de Mendoza.</li> -<li>N.º V—EULALIA PONTOIS, de F. Soulié.</li> -<li>N.º VI—A AMOREIRA FATAL, de E. Berthet.</li> -<li>N.º VII—SENHOR EU, de S. Farina.</li> -<li>N.º VII-<span class="smcapuc">A</span>, VII-<span class="smcapuc">B</span>—O FOGO, de G. d’Annunzio.</li> -<li>N.º VIII—CARICIAS D’UMA NOIVA, de B. Bjornson.</li> -<li>N.º IX—PALAVRA DE SOLDADO, de G. Elwall.</li> -<li>N.º X—A PELLE DE LEÃO, de C. Bernard.</li> -<li>N.º XI, XII, XIII—A MORTE DOS DEUSES de D. Merejkowsky.</li> -<li>N.º XIV—A CORDA DO CARRASCO, de A. Petosi.</li> -</ul> - -<p class="center">Volumes a publicar</p> - -<ul> -<li>TERRAS MALDITAS, de V. B. Ibañez.</li> -<li>MANON LESCAUT, do padre Prévost.</li> -<li>PECCADOS VELHOS, de G. Csicky.</li> -<li>CURA DE UM LOUCO, de S. Lageloff.</li> -</ul> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of Project Gutenberg's Idyllios á beira d'agua, by Alberto Pimentel - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK IDYLLIOS Á BEIRA D'AGUA *** - -***** This file should be named 62853-h.htm or 62853-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/8/5/62853/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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