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-The Project Gutenberg EBook of Idyllios á beira d'agua, by Alberto Pimentel
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Idyllios á beira d'agua
- Romance original
-
-Author: Alberto Pimentel
-
-Release Date: August 4, 2020 [EBook #62853]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK IDYLLIOS Á BEIRA D'AGUA ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
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-
-IDYLLIOS Á BEIRA D’AGUA
-
-
-
-
- ALBERTO PIMENTEL
-
- Idyllios á beira d’agua
-
- ROMANCE ORIGINAL
-
- (_2.ª edição revista pelo auctor_)
-
- [Illustration]
-
- LISBOA
- «A EDITORA»
- Conde Barão, 50
- 1903
-
- Typ. d’«A EDITORA», Conde Barão, 50
-
-
-
-
-Prologo da 1.ª edição
-
-
-Subi em julho d’este anno á montanha umbrosa do Bom Jesus do Monte e
-repousei o meu espirito, d’umas fadigas em que andava trabalhado, á
-sombra d’aquellas arvores seculares que ou não envelhecem nunca ou
-remoçam cada noite para verdejar novas galas ao romper da madrugada...
-
-Quando o romeiro crava o seu bordão n’algum relvoso céspede do ermo
-sagrado, e sente subitamente embriagados os ouvidos n’aquella primavera
-inextinguivel chilreada de maviosos trinados, experimenta a influencia
-benefica d’um elixir mysterioso que se lhe está filtrando no coração, e
-vae acalmando como por encantamento as tempestades que lá se revolviam
-momentos antes. Este dulcissimo consôlo experimentei-o eu e experimentam
-n’o todos os que, na solidão amena, vão desfadigar-se de canseiras
-intimas.
-
-Na solidão amena disse eu, e quero demorar-me um momento n’este ponto. A
-solidão profundamente triste e silenciosa quer-me parecer um como remedio
-heroico para organisações robustas, e só para ellas.
-
-Para as almas que não podem disputar com estas extremos de coragem, e não
-saem incolumes d’uma procella, a solidão medonha dos desertos seria o
-mesmo que a morte lenta e desesperada d’um criminoso recluso em carcere
-cellular.
-
-Subi, pois, a montanha e ia procurando com a vista as arvores que já
-me tinham dado sombra em romagens anteriores, as fontes cujo suspirar
-cadenciado eu já tinha escutado, e umas e outras encontrei, as arvores
-bracejando as mesmas frondes, as fontes suspirosas como d’antes, e
-concentrei-me então para vêr a minha alma retratada no espelho interior.
-
-Mezes antes, á hora em que eu, longe d’alli, sentia fugir-me a vida e a
-mocidade, e lançava um como olhar de despedida ás arvores que sacudiam
-as ultimas folhas, a essa hora, dizia, murmuravam as fontes do Bom Jesus
-as saudosas queixas de que me lembrava ainda, tranquillas como sempre, e
-diziam os troncos annosos da montanha ao outomno que se approximava:
-
-«Amarellece, devasta, anniquila, que não entrarás aqui...»
-
-Fui subindo, subindo e remoçando a cada passo que dava, a cada momento
-que fugia.
-
-Demorei-me tres dias na estancia suavissima do Bom Jesus do Monte, que
-tanto era preciso para lograr um remoçamento completo, e, na tarde do
-segundo dia, afigurou-se-me vêr, a distancia, na alameda da Mãe d’Agua,
-um homem que me inspirara a maxima sympathia quando pela primeira vez
-lhe falei em Braga—o padre Eduardo Valladares.
-
-O leitor, que não exige que o romancista venha expôr a face do martyr á
-luz do sol, para que todos o conheçam e o apontem, permitte-me decerto
-este pseudonymo com que me corre obrigação de velar a verdadeira
-personagem do mundo real.
-
-Ia o padre Valladares caminhando placidamente, absorto em seus
-pensamentos, quando commetti a indiscreção de lhe bater no hombro. O
-padre voltou-se de golpe e extendeu-me os braços alegremente, posto
-que eu conhecesse que a minha approximação havia quebrado uma serie de
-pensamentos dolorosos...
-
-Fomos juntos conversando pela alameda acima, até que veiu de geito o
-dizer-me elle:
-
-—Por que não ha de escrever do Bom Jesus do Monte? Estas arvores sabem
-tantos segredos, que, se as interrogar, tirará assumpto que farte para
-muitos livros verdadeiros. Já li o que escreveu do Bussaco[1] e casos
-tristes, como aquelle, não ha em toda esta montanha um unico torrão que
-os ignore...
-
-Ia-se alterando a pouco e pouco o semblante do padre, e a sua figura,
-respeitavel e distincta, parecia contrahir-se como se um espinho
-agudissimo lhe estivesse atravessando o coração.
-
-Demorou em mim o seu olhar por um momento, e rompeu n’esta apostrophe:
-
-—Se não lamenta ter de perder algum tempo debruçado sobre o abysmo do
-passado, confie á sua memoria os apontamentos que lhe vou dar.
-
-Até aqui o padre Valladares. Agora duas palavras mais:
-
-O leitor que gostar do romance trabalhosamente architectado, feche o
-livro e não leia. Aqui não se referem casos tenebrosos, nem se borda a
-teia, de si mesma singella, com debuxos artisticos. Opulencia, se ha
-n’este romance, é toda da natureza. O proscenio, o estrado scenico onde
-as personagens se nos devem mostrar, na maxima parte das vezes outro
-não ha de ser senão o saudosissimo retiro da Mãe d’Agua assombreado de
-carvalheiras seculares, cujo sussurro se casa saudosamente com o murmurar
-da agua que desliza.
-
-Não se reclinam pois os actores em suaves frouxeis; ottomanas não as
-ha ahi, como todos sabem. Contentem-se com dois canapés rusticos, dois
-bancos de pedra, que guarnecem a mesa, de pedra tambem.
-
-Alli, na amenidade dulcissima d’um arvoredo frondente, á beira d’agua, a
-coberto do sol, haveis de encontrar as personagens scismando embevecidas
-nos idyllios ora tristes ora radiosos do coração e do amor.
-
-D’aqui o titulo do romance.
-
- Porto, 1870.
-
-
-
-
-Prologo da 2.ª edição
-
-
-Foi este o meu primeiro romance. É pois um fructo verde, uma tentativa,
-um ensaio, e mais nada.
-
-Mas quero-lhe como a uma doce recordação do passado, que conservasse um
-tenue aroma de _sachet_ antigo.
-
-Havia n’elle alguma esperança, alguma promessa de futuro? Esse futuro
-que eu esperava, cheio de fé, e que já hoje é tambem passado, pode ter
-produzido cousa melhor, mas eu com certeza a estimo menos do que este
-romance quasi infantil.
-
-Com que saudade o reli eu agora, sem poder reprimir um affectuoso sorriso
-de desdem!
-
-É que eu, como todos os novos, presumia-me velho quando era moço.
-
-Parecia-me que vinha de longe, cansado de viver, muito instruido na
-sciencia do mundo.
-
-E, comtudo, iniciava apenas a minha jornada de escriptor, com a cabeça
-doudejante de illusões e de sonhos.
-
-Depois... trabalhei e soffri.
-
-Mas a felicidade que me trasbordava do coração quando escrevi este
-romancesinho, nunca mais voltou.
-
-É que a mocidade não volta.
-
- Lisboa—1903.
-
-
-
-
-I
-
-
-Sebastião Valladares tinha carta de bacharel em leis pela Universidade
-de Coimbra e abrira banca no Porto ao tempo de contrahir casamento com
-uma senhora bracharense. E certo é que os créditos juridicos de Sebastião
-Valladares estrondearam em Coimbra durante os cinco annos do seu curso de
-leis.
-
-Manda, porém, a verdade dizer que a nomeada do talentoso advogado não
-encontrou entre os demandistas portuenses o écho que remurmurava ainda
-nos salgueiraes do Mondego. A levada dos clientes, sempre tumultuosa, não
-affluira á banca do moço bacharel.
-
-João Nicolau de Brito, proprietario em Braga, conheceu que á mediania
-suada do genro pesava a educação do unico filho que tinha, e chamou á sua
-companhia o neto, de dezeseis annos d’edade.
-
-—Parece que já não estamos tão sós! dizia João Nicolau de Brito a sua
-mulher D. Maria d’Assumpção, revendo-se jubiloso no rapazinho de dezeseis
-annos.
-
-—Pois que! respondia D. Maria d’Assumpção. É sempre consoladora a
-companhia d’uma pessoa da nossa familia, ainda que seja uma creança.
-
-—Creança! atalhava o esposo. Já não é tão creança como isso. Olha que tem
-dezeseis annos!
-
-—O que é preciso, porém, é tratar de alliviar ao rapaz as saudades dos
-paes. Ou elle de si é triste ou se resente da ausencia.
-
-—Tens razão, accrescentava João Nicolau.
-
-—Isso tenho. Já me lembrou combinarmos com as Machados um passeio ao Bom
-Jesus para o distrahirmos.
-
-—Lembras bem.
-
-—Se lembro! E ellas que hão de gostar. O Eduardo precisa realmente d’uma
-distracção qualquer. Esta rua do Carvalhal é só e triste. O rapaz passa
-as tardes á janella por não querer sahir. Tambem tem razão. Não conhece
-ninguem!
-
-—É isso. Não conhece ninguem—concordou João Nicolau, muito reflexivo.
-
-E accrescentou passados momentos:
-
-—Olha cá! Dá-me da secretária a carta que o pequeno nos trouxe. Ha n’essa
-carta do Sebastião um periodo que me inquieta. É aquelle em que nos diz
-que o Eduardo lhe sahira com sua tendencia á poesia!...
-
-—Ora!—proferiu D. Maria d’Assumpção, abrindo a secretária e entregando a
-carta ao marido.
-
-João Nicolau de Brito montou os oculos, endireitou-se na cadeira e
-começou a lêr em voz alta:
-
-«... O Eduardo ahi vae; penso que lhes não será rebelde, porque é
-humilde de si. Amolda-se ás vontades de quem o dirige e parece attentar
-gravemente no que lhe dizem. Ensinei-lhe tudo o que sabia e podia. Creio
-que com mais um anno d’estudos preparatorios estará habilitado para
-entrar n’um curso superior. O destino de meu filho já me não pertence,
-porém. Pesa me todavia que me sahisse poeta aos dezeseis annos e como
-por magia! Conheci em Coimbra um rapaz de muitissimos talentos e de
-seu natural poeta, que por se dar do coração á leitura d’amenidades e
-aborrecer de morte os alfarrabios da sciencia, teve que luctar com a
-vontade da familia, que o obrigava a estudar, e com a sua natureza, que
-o fazia detestar os compendios. Como, porém, não pudesse renunciar á
-espontanea inclinação, e como não tinha bens de fortuna, succumbiu a uma
-gravissima affecção moral, que o levou á sepultura, com grande magua de
-todos os que sabiam aquilatar-lhe a alma e a intelligencia. Desvaneçamos,
-porém, estas suspeitas; não quero que me chamem visionario. Ahi vae,
-pois, o pequeno...»
-
-João Nicolau de Brito abanou a cabeça com um gesto solemne e descahiu a
-scismar.
-
-Atalhou-o, porém, a esposa, batendo lhe no hombro e dizendo ao mesmo
-tempo:
-
-—Deixa-te de visões! Tratemos de distrahir o rapaz. Iremos domingo ao
-Senhor do Monte.
-
-—Olha! disse de subito João Nicolau de Brito, como se houvesse despertado
-d’um somno momentaneo. Ha, porém, um inconveniente n’esse passeio...
-
-—Qual?
-
-—A convivencia com as Machados.
-
-—Ora!
-
-—Ora que!? Tu parece que não sabes o que é ser novo! Eu não me refiro
-á Rosa Machado. Falava da Maria Luiza, da irmã, que é outra doida por
-versos, que ha de conversar de poesia com o rapaz, e que por fim ha de
-vir a falar d’amor como quem se deixa ir ao som d’agua corrente...
-
-—Ora ahi está o que eu approvo, atalhou D. Maria d’Assumpção. Essas
-práticas lyricas entre os dois ajustavam-se á occasião e vinham de geito.
-Ainda que o lyrismo do espirito descambasse em lyrismo do coração, ainda
-que a poesia se transformasse em amor, que inconvenientes poderiam vir
-d’ahi? Eram verduras da mocidade, que distrahiam o rapaz e que por fim
-de contas haviam de acabar no momento em que elle se aborrecesse.
-
-—Tambem me parece... Que lá padre, dê por onde der, quero eu que elle
-seja. Sahiu dado a poesias? Melhor! Será um prégador de fama.
-
-—Ha de ser tudo o que tu quizeres... Mas supponhamos até que o Eduardo
-começava a arrastar a aza á Maria Luiza. Travava-se o namorico, carta
-d’aqui, versos d’alli, uma semana d’ataque, outra semana d’aborrecimento,
-e por fim o rapaz curado da sua nostalgia em quinze dias.
-
-—Mas não falaste ahi em aborrecimento? ponderou gravemente João Nicolau
-de Brito.
-
-—Falei, respondeu com convicção a sogra de Sebastião Valladares. Mas
-refiro-me ao aborrecimento que de si mesmos trarão uns amores pueris.
-Depois, para curar esse aborrecimento, principia-se novo galanteio a nova
-estrella, e ahi começa a chrysalida a tornar-se borboleta e a perseguir
-as flores.
-
-—Olha que as flores teem espinhos... atalhou João Nicolau de Brito
-meneando a cabeça.
-
-—Cala-te! replicou D. Maria. Os espinhos das mulheres são... os
-alfinetes. Em nome do sexo, agradeço-te a amabilidade.
-
-—Não tens que agradecer, disse João Nicolau rindo e batendo as palmas de
-contente.—Sim, senhora! Vossa excellencia está hoje espirituosa! Receba
-os meus parabens. Iremos ao Bom Jesus quando quizer e mande convidar as
-familias do nosso conhecimento para nos fazerem companhia esta noite.
-Solemnizemos a recepção do rapazinho. Se queres que te diga—accrescentou
-mudando de tratamento—tive hontem pena d’elle. Eram dez horas e já tinha
-somno. Tambem não sei o que fazes do piano! Já és avó, é verdade, mas a
-velhice ainda não te immobilisou os dedos. Pois venham lá as Machados, e
-haja ao menos musica uma noite...
-
-—Então queres?
-
-—Quero. Manda convidar. Que lá padre ha de elle ser. Ainda lhe hei de
-ouvir um sermão...
-
-—Se não fôr seccante, disse D. Maria d’Assumpção sahindo da sala.
-
-
-
-
-II
-
-
-Thomaz Ignacio Machado tinha sido um homem dinheiroso. Abriu, em Lisboa,
-os salões do seu palacete á flor da aristocracia olyssiponense, deu
-bailes esplendorosos, pompeou em cavallos e trens, teve aventuras com
-dansarinas de S. Carlos, jogou o _monte_ com a sobranceria d’um homem
-que não joga para ganhar e... achou-se arruinado no dia em que pensou no
-futuro que o estava esperando.
-
-O Creso, apeado do seu pedestal de ouro, emboscou-se nas moitas
-verdejantes d’uma quinta proxima a Braga, e ahi veiu descansar das
-saturnaes esplendidas de Lisboa com o intuito de bemfeitorisar as
-propriedades obrigadas ao dote da mulher e de velar por tres innocentes
-meninas, suas filhas, salvas da tormenta na arca sagrada do coração
-materno.
-
-Chamava-se Emilia a mais velha, que morreu aos vinte e dois annos tisica,
-se não victima d’uns amores desventurosos, que não fazem ao nosso
-proposito.
-
-Rosa e Maria Luiza viviam ainda, como o leitor inferiu do capitulo
-anterior.
-
-A custo de muitas economias pôde Thomaz Machado rehabilitar a casa
-consideravelmente esbanjada e obter os rendimentos necessarios, não para
-a vida faustosa de Lisboa, mas para uma decencia estimavel então, e
-invejavel ainda hoje.
-
-Veiu, pois, Thomaz Machado residir em Braga, e, após dois annos de
-apartamento na quinta do Prado, alugou casa na rua de Santo André.
-
-A mallograda Emilia morrera na quinta do Prado, ao cabo d’um anno de tão
-melancholico exilio.
-
-Rosa, no tempo a que somos obrigados a remontar, tinha vinte e um annos;
-Maria Luiza, dezenove.
-
-Rosa não era uma belleza. Tinha, porém, um trato tão suave e delicado,
-um quê de meiguice e de ternura, que diffundia encanto. Maria Luiza, ao
-contrário da irmã, era um demonio bonito. Conversava com os homens mais
-do que com as senhoras, valsava com delirio, tinha a ironia prompta e o
-epigramma certeiro, tocava piano e recitava versos, cantava _seguidillas_
-e desvelava um vaso d’alecrim do Norte que tinha ao canto da janella.
-Era trigueira e possuia uns olhos negros que nadavam em luz. Parecia
-que não andava; voava. Ouvia-se um ruflar de azas; olhava-se... era
-ella. Não houve ainda mulher mais flexivel, nem mais elegante. Era quasi
-uma columna de fumo, que ondulava no espaço e que desapparecia com um
-sôpro. Lembra-me comparal-a áquella creatura aerea, vaporosa, que nós
-conhecemos d’um livro d’Octavio Feuillet. Maria Luiza tinha seus laivos
-da _condessinha_ do escriptor francez. Era porém mais intelligente e
-menos desenvôlta. Ainda assim com que _salero_, puramente andaluz, não
-batia ella as mãos, correndo do seu alecrim para o seu piano e entoando a
-meia voz um fragmento de _seguidilla_:
-
- El amor que te tengo
- parece sombra;
- quanto mas apartado
- mas cuerpo toma.
- La ausencia es aire
- que apaga el fuego chico
- y enciende el grande.
-
-Depois, se a irmã se sentava ao piano e voejavam ao longo da sala notas
-de suavissima tristeza, como um bando de rôlas viuvas que se andassem
-carpindo, Maria Luiza, para se furtar á impressão dolorosa da musica,
-batia o pésinho no chão e começava, saltando, a cantar.
-
-Havia só um nome, só uma palavra, que a fazia entristecer subitamente.
-Era o nome de sua irmã Emilia. Tinham sido duas irmãs extremosas, que
-viviam uma para a outra.
-
-Ás vezes, n’um momento de dolorosissima saudade, dizia a inquieta
-donzellinha:
-
-—Quem sabe se virei a morrer da morte de minha irmã? Talvez. Eramos tão
-amigas!...
-
-Estavam na quinta do Prado, como já se disse, quando Emilia morrera. Os
-tisicos enganam até ao ultimo momento; ninguem esperava que ella passasse
-n’aquelle dia. Rosa tocava, na sala proxima, umas _variações_ da _Norma_;
-Maria Luiza falava com a doente a respeito das andorinhas e do sol, das
-flores e das borboletas, das noites de luar e dos rouxinoes. De repente a
-irmã interrompera-a, para segredar-lhe:
-
-—Ouves? É a musica do noivado. O meu noivo espera-me. Has de me dar
-um ramo de lirios para levar no seio. Eu gosto tanto dos lirios! Os
-rouxinoes são meus amigos. Esperava este momento com anciedade; _elle_
-já me espera ha dois annos e devia ter saudades de mim. Morreu tão novo!
-Ouves, minha irmã? A musica continua. São as andorinhas, que chilriam...
-Dá-me um beijo; as borboletas são irmãs das flores e tambem se beijam.
-
-Ouviu-se o frémito d’um beijo e o som agudo d’um grito. Era a voz
-de Maria Luiza. Sua irmã tinha morrido a beijal-a, como se quizesse
-transmittir-lhe a vida n’um beijo.
-
-Ao grito de Maria Luiza acudiu o pae, a mãe e a irmã. Já chegavam tarde,
-porém.
-
-Desde aquelle dia, Maria Luiza entristecia-se quando lhe falavam d’essa
-hora amargurada. Tornou-se amiga de todos os que eram amigos de sua irmã
-e ia todos os domingos ao cemiterio d’aldeia poisar um ramo de flores
-sobre o tumulo fechado havia pouco tempo. Quando vieram habitar em Braga,
-Maria Luiza soffreu muito com a falta da visita ao cemiterio, ou com
-a _ausencia de sua irmã_, como ella dizia. Aos domingos, todavia, era
-quando mais cantava o
-
- El amor que te tengo
- parece sombra...
-
-e dizia a Rosa que se via obrigada a cantar para reprimir as lagrimas no
-seio.
-
-Thomaz Ignacio Machado morreu em Braga, dezoito mezes depois de ter
-sahido da quinta do Prado. Chorou-o a esposa, choraram-n’o as filhas
-estremecidas e choraram-n’o todos os que viam n’elle um homem remido das
-faltas do passado por um longo soffrimento.
-
-
-
-
-III
-
-
-João Nicolau de Brito e sua mulher receberam, como tinham combinado.
-Concorreram á _soirée_ as familias de mais intimo trato n’aquella casa.
-Abriu-se o piano, n’essa noite, e desterrou-se o _loto_, que era já então
-o maximo divertimento dos serões bracharenses e continua a ser para
-eterna semsaboria das noites de Braga.
-
-A dansa, a alegria, a musica tomaram a vez ao jôgo. Eduardo era a
-machina motora de tão notaveis reviramentos na casa de dois velhos
-amolestados de rheumatismo e outros gravames da velhice. Abriu-se a
-_soirée_ com uma quadrilha. Eduardo fez o milagre de tentar a avó e
-conseguiu que a pobre senhora figurasse no—_en avant_—a par de tres
-raparigas, incluindo as irmãs Machados. João Nicolau de Brito jubilou
-com a delicadeza do neto e apresentou-o, finda a dansa, como poeta, ás
-pessoas que estavam na sala.
-
-O amor proprio tem d’estes paradoxos. João Nicolau desestimou a qualidade
-de poeta na pessoa do neto; agora, lisonjeado da muita delicadeza d’elle,
-folga de que o rapaz se extreme dos outros com merecimentos distinctos.
-
-As senhoras festejaram a denuncia de um talento precoce, que não tinham
-avaliado ainda, do filho do bacharel.
-
-Correu n’esse momento ao longo da sala um sussurro de vozes: era o
-cochichar de meia duzia de raparigas tentadiças com poetas, sob o
-commando de Maria Luiza, idealista por excellencia.
-
-—É dever teu, Eduardo—disse de golpe D. Maria d’Assumpção—comprovares a
-opinião antecipada, que de ti formamos. Recita-nos alguma coisa.
-
-—De boa vontade, minha senhora—respondeu elle—se não receasse a
-indelicadeza d’incommodar v. ex.ᵃˢ e não me conhecesse com o vezo de ser
-horrivelmente desmemoriado.
-
-—Vá o que lembrar—accrescentou João Nicolau.
-
-—Mas coisa da tua lavra—tornou D. Maria d’Assumpção.
-
-—Folgamos d’ouvil-o—disse Maria Luiza.
-
-Eduardo percebeu que seria indelicadeza imperdoavel o desculpar-se mais.
-
-—Ahi vão, disse elle, seis quadras que não valem nada. Intitulam-se:
-
- Frémitos
-
- Quando tu vaes á janella,
- Á noite, e pensas em mim,
- Ha uma voz que diz—Ella!
- —São os lirios do jardim...
-
- Se d’um livro sobre a folha
- Te pende a cabeça e o véo,
- Ha uma voz que diz:—Olha!
- —É o mar chamando o céo...
-
- Quando esse teu olhar mede
- Todo o horizonte do sul,
- Ha uma voz que diz:—Vêde!
- —Talvez seja a voz do azul...
-
- Se, ao fim da tarde, á janella,
- Olhas, nem sabes o que,
- Ha uma voz que diz: Bella!
- —É a voz do que se não vê...
-
- Mysterios que eu não abranjo!
- No jardim, ao pôr do sol,
- Ha uma voz que diz:—Anjo!
- —A voz d’algum rouxinol...
-
- Quando ha luar e te chamo
- Entre as moitas d’alecrim,
- Se ha uma voz que diz:—Amo!
- Penso que a voz sae de mim...
-
-Estrondearam na sala freneticos applausos.
-
-O moço poeta, de dezeseis annos, agradecia a ovação espontanea e unanime
-com mostras de modestia e ingenuidade estimaveis.
-
-Merecidos eram sem dúvida taes applausos.
-
-Nos versos do filho do bacharel Valladares havia poesia, se poesia se
-pode chamar este alar-se da alma para um mundo phantastico onde se ama
-já uma mulher que ainda se não viu.
-
-Os que entendem que a poesia é uma coisa que elles mesmos não entendem, o
-nebular a phrase de modo a encobrir a carencia d’uma idéa aproveitavel,
-esses, apostolos do germanismo transmontado, rir-se-hão da futilidade
-d’um poetar singello cadenciado na lyra incorrecta dos dezeseis annos.
-
-Maria Luiza Machado, como enthusiasta por versos, pediu ao poeta a cópia
-dos seus. Isto bastou a travar-se conversação.
-
-—Bem me parecia—disse ella—que o seu coração devia, para cantar mavioso
-aos dezeseis annos, sentir um raio de sol que o inspirasse.
-
-—Peço desculpa para redarguir a v. ex.ᵃ Os meus versos são talvez uma
-prophecia. A alma, ainda não adestrada para luctar com as procellas do
-mundo real, cria para si uma região phantastica.
-
-—Seja como fôr, tornou ella. Desejo possuir os seus versos. Quando m’os
-dá?
-
-—Amanhã.
-
-Pactuou-se, no fim da _soirée_, o primeiro passeio ao Bom Jesus, no
-domingo proximo.
-
-Recordações d’essa noite ficaram muitas e immarcessiveis na alma de
-Eduardo Valladares. Depois da ultima quadrilha, quando os convidados
-retiraram e a sala ficou deserta, é que foi o escurecer-se subitamente
-aquella alma, que mergulharia em profundas trevas, se a imagem esplendida
-de Maria Luiza lhe não rareasse, a instantes, as sombras interiores. Um
-olhar e uma phrase d’ella fôram as ultimas impressões d’essa noite.
-
-—Seja como fôr. Desejo possuir os seus versos, disse-lhe ella.
-
-E abriram-se-lhe os labios n’um sorriso de fada.
-
-—Mas, dizia de si para si o filho do bacharel Valladares, tenho apenas
-dezeseis annos e deixo-me assim embalar nos braços de uma esperança
-dulcissima que me pode fugir amanhã!
-
-Durante os dois dias que decorreram desde essa noite até o domingo
-seguinte, annuviou-se o semblante de Eduardo a ponto de João Nicolau
-fazer reparo na extranha tristeza do rapaz. Quedou-se o velho a scismar
-no visivel desgôsto do neto e não lhe rasteou origem. Isto inquietara-o
-sobremaneira. Revelou á esposa as suspeitas e dúvidas que o embaraçavam;
-conchavaram-se os dois no proposito de dar finalmente com a chave
-mysteriosa do enigma.
-
-Passadas algumas horas depois d’este secreto colloquio dos dois velhos,
-D. Maria da Assumpção foi dar com o neto emboscado na ramaria d’uma
-olaia que sombreava o angulo do quintal. Estava o moço d’olhos pregados
-no horizonte recortado pelas arvores verdejantes dos quintaes da rua de
-Santo André.
-
-D. Maria d’Assumpção seguiu por alguns momentos a direcção do olhar do
-neto e o mesmo foi despeitorar-lhe os mais intimos segredos do coração.
-Subiu as escadas precipitadamente e chamou o marido a uma das janellas
-sobranceiras ao quintal.
-
-—Olha, disse-lhe ella apontando para o neto. O coração—o coração dos
-dezeseis annos sobretudo—ha de ter sempre d’estas contradicções. O
-excesso da felicidade acarreta d’estas maguas. O que elle deseja é o
-momento de tornar a vêl-a... São chuveiros d’abril, que não inspiram
-cuidado.
-
-—Olha que a mocidade d’agora começa muito cedo a tresnoitar-se! O amor
-dos dezeseis annos! Lêsse-se este caso n’um livro a ver se alguem o
-acreditava! No nosso tempo não se vivia tanto em tão poucos annos.
-
-—Ahi estás tu a denunciar a edade que tens! É sestro dos velhos andar a
-reprehender os novos, e o que elles pensam e fazem. Não se vivia tanto em
-tão poucos annos! disseste tu. Já te não lembras da historia d’uns amores
-em que falas quando vem de geito citar façanhas da mocidade...
-
-—É uma historia que tem graça. Da janella do meu quarto, no collegio onde
-me eduquei, andava eu a espreitar nas horas de recreio para a janella
-d’um terceiro andar onde morava uma costureirinha d’olhos negros...
-
-—Uma costureirinha! O teu neto revela mais fidalgos e poeticos
-instinctos. Ama romanescamente. Tu andavas mais terra a terra. Não tens
-que vêr. Iremos domingo ao Bom Jesus.
-
-—Iremos se quizeres. Não sei que systema teem ás vezes as mulheres!
-
-—O meu systema é o do jardineiro experimentado. É preciso cuidar da flor,
-dar-lhe sol, para que desabrochem depois todas as galas que a Providencia
-lhe der.
-
-—Anda lá, anda lá, quero ver se a theologia lhe ha de dar tempo para
-andar com a cabeça á roda!
-
-
-
-
-IV
-
-
-Batiam sete horas da manhã nas torres do Bom Jesus do Monte, quando João
-Nicolau de Brito, sua mulher, Eduardo e as duas meninas Machados subiam
-em alegre caravana o escadorio do santuario. Pelo que diz respeito aos
-dois velhos, em cujo grupo faltava a viuva Machado, iam cansados da
-subida; não assim os companheiros, que saltavam alegremente d’escada em
-escada, como tres avesinhas que voltassem no mesmo dia á liberdade do ar,
-depois d’uma reclusão asperrima, e fôssem chilreando de fronde em fronde
-pela encosta acima.
-
-Affluiram, n’esse dia, ao Bom Jesus muitas familias de Braga, de sorte
-que se augmentara consideravelmente a ruidosa caravana.
-
-Demoraram-se na hospedaria João Nicolau, sua mulher e os outros velhos,
-seus conhecidos, trôpegos de rheumatismo; o resto da caravana errava pela
-montanha ao sabor de cada um.
-
-Eduardo Valladares sentiu por momentos necessidade de conversar com a sua
-alma em jubiloso dialogo. Subiu ao largo dos Evangelistas, e embrenhou-se
-na matta sombria da Mãe d’Agua.
-
-Estava elle escrevendo a lapis na carteira, quando casualmente descobriu,
-através da folhagem, um vulto indistincto.
-
-Encobriu-se com o muro posterior á mina e ficou d’atalaia, a coberto da
-parede. Passados alguns momentos reconheceu ser Maria Luiza e sentiu
-bater-lhe o coração vertiginosamente.
-
-Vinha ella, pensativa, subindo a alameda. Depois sentou-se n’um banco de
-pedra e descahiu a scismar, encostada á mesa, que tambem era de pedra[2].
-
-Eduardo Valladares espreitava-a silencioso. Ora sentia estuar-lhe o
-sangue nas arterias escandescentes ora esfriar-se com esvahimentos de
-moribundo anciado. Maria Luiza quedara-se a scismar com os olhos fitos no
-vago e o rosto descansado na mão. É um mysterio que se não comprehende,
-um enigma que se não decifra—o que seja este vago d’uns olhos
-contemplativos, o ponto indistincto e nebuloso onde se fita o olhar, a
-não ser que esse ponto seja a lente que reflicta o olhar de si mesmo
-namorado. Pois em que mais se pode extasiar uma alma venturosa a não ser
-na intima contemplação da primavera interior? Dizem pois, e dizem bem,
-os que entendem do coração, que os olhos são o espelho da alma e o olhar
-a muda expressão do sentimento que a domina. Tudo isto nos vae levando
-insensivelmente a uma conclusão provavel. Pois se o olhar é o reflexo
-da alma, se a alma está absorta em júbilo, e se a vista se concentra
-n’um ponto unico, quem poderá duvidar de que esse ponto seja a lente
-mysteriosa que está espelhando o fogo do nosso olhar, o fogo da nossa
-alma? Ora se não é isto o vago d’uns olhos contemplativos, não sei eu bem
-o que seja o vago. O que sei, porém, é que todas as almas placidamente
-inebriadas teem d’estas horas de arroubo em que os olhos se embellezam no
-azul d’um horizonte desconhecido aos outros.
-
-Estava, pois, Maria Luiza extasiada n’estes ineffaveis enlêvos, quando
-sentira cahir-lhe aos pés um papel, que mão invizivel impellira.
-Despertou de subito d’aquelle dulcissimo _far niente_, que é o sonhar
-accordado da alma. Pegou no papel e desdobrou-o precipitadamente;
-desdobrou-o e leu-o.
-
-Dizia assim:
-
- «Disse a rosa á borboleta:
- —«Abre uma aza, inquieta,
- Faze-me d’ella um docel...»—
- Volveu ella:—«Flor dos valles,
- Dá-me, em paga, do teu calix
- A seiva, o licor, o mel...»—
- Assim nós tambem. N’um dia
- Sob a aza da poesia
- Dormiste e sonhaste, ó flor.
- Eu, namorado e poeta,
- Hei de ser a borboleta,
- Tu a rosa; o mel, o amor...
-
-Voltou-se surprehendida Maria Luiza como a procurar nas sombras do
-arvoredo o apaixonado fauno que furtivamente viera requestar com
-incendidos madrigaes a nayade formosa; o mesmo foi encarar no moço
-enamorado, que procurava lêr nos olhos d’ella a impressão dos versos, e
-que sentira esvahidas as fôrças quando tentou fugir d’aquella suavissima
-prisão que alli o tinha como galvanisado.
-
-—Aqui? disse-lhe ella. Pensei que tinha acompanhado o resto da caravana.
-
-—Idealista, como v. ex.ᵃ—volveu elle convulsamente e como querendo
-dominar uma impressão violenta—procuro ás vezes a solidão. Não temos que
-extranhar o encontrarmo-nos aqui.
-
-—De mais extranheza será, porém, dizer-lhe eu que se occultam n’estas
-sombras da Mãe d’Agua faunos poetas, que sabem escrever bonitos versos
-ao sabor de madrigaes. Aqui tenho eu uns que me parecem maviosos; ou me
-vieram da mão d’um fauno, que, por engano, me tomara á conta de nayade,
-ou cahiram por acaso da aza d’uma andorinha, que era correio d’amantes.
-
-Eduardo Valladares empallidecia extremamente.
-
-—E comtudo esta lettra não me é extranha, continuou Maria Luiza. Notavel
-coincidencia! Parece-se muito com a sua, com a dos versos que teve a
-gentileza de me enviar ante-hontem. Ora veja...
-
-N’este momento ouviu-se ao fundo da alameda uma voz de mulher.
-Quedaram-se os dois á escuta. Passados instantes, porém, descobriu-se
-através das arvores o vulto já distincto da irmã de Maria Luiza.
-
-Chamava para o almôço, que esperava por elles na mesa da hospedaria.
-
-
-
-
-V
-
-
-Tres dias depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do Monte escrevia
-Eduardo Valladares a sua mãe:
-
-«Escuso de lhe dizer que me resenti da falta do carinho materno, da
-mudança de terra e de casa, da differença de costumes, de tudo isto
-finalmente que a gente conhece desde os primeiros annos da vida. Devo
-dizer-lhe, porém, minha mãe, que sahi da minha familia para encontrar
-outra familia que tambem é minha, e onde, para ser a felicidade completa,
-apenas me falta o livro sagrado do seu coração que eu sabia delettrear e
-comprehender.
-
-«Da cidade—e não sei se para isto contribuirá o ter nascido aqui minha
-mãe—da cidade, que é em verdade pittoresca, dir-lhe-hei que não desgosto
-e que se me afigura melhor do que o Porto para se respirar ar saudavel e
-morrer a gente com uma gordura fradesca.
-
-«A falta de movimento que se nota em Braga, procedente da exiguidade da
-população, é uma garantia de commodidade, longe de ser um defeito. Pode
-a gente dormir á vontade, até altas horas do dia, que não corre perigo
-d’accordar sobresaltada pelo estrepito das ruas. Só os sinos... Ai! os
-sinos de Braga, minha mãe, badalejam que é de qualquer pessoa ensurdecer
-dentro de quarenta e oito horas. Isso sim, que é horroroso!
-
-«A esta praga dos sinos só acho comparavel em semsaboria a extensão das
-noites de Braga.
-
-«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer de que não, estava no
-Porto. Quiz a avó convidar algumas familias das suas relações, cuido que
-para festejar a minha chegada, e passou-se o serão alegremente, mais
-alegremente do que era de esperar.
-
-«Das senhoras que concorreram, apenas merecem especial menção as meninas
-Machados, que são muito estimaveis e sympathicas. Em companhia d’estas
-senhoras passamos o dia de domingo no Bom Jesus do Monte, a mais formosa
-paizagem que tenho visto em vida minha. Aquillo sim, que é bonito e
-suave! N’aquellas sombras deliciosas sente a gente abrir-se o coração
-para sentimentos novos. Minha mãe, que decerto alli viveu alguns dos dias
-da sua mocidade, deve comprehender que impressões dulcissimas recebi.
-Quando desci da montanha, vinha saudoso, preciso confessal-o. Saudoso de
-quê? Da montanha, que posso visitar quando me aprouver? Não sei Saudoso
-talvez d’umas horas agradaveis que lá vivi.
-
-«E depois no Bom Jesus do Monte nem os homens andam embuçados em capotes,
-como na cidade, nem as senhoras espreitam os transeuntes a coberto das
-rotulas das janellas. Alli ha completa liberdade, principiando pelas aves
-que se desenfadam de tronco em tronco sem que ninguem as persiga.»
-
-A carta do filho do bacharel Valladares merece-nos reparos.
-
-Pelo que diz respeito ao seu estado moral, cumpre fazer notar estas
-phrases involuntariamente significativas:
-
-«... para ser a felicidade completa, apenas me falta o livro santo do
-seu coração que eu sabia delettrear e comprehender.»
-
-«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer de que não estava no Porto.»
-
-«Das senhoras que concorreram, merecem especial menção as meninas
-Machados, que são muito estimaveis e sympathicas.»
-
-Referindo-se ao Bom Jesus do Monte dissera Eduardo Valladares, como o
-leitor viu, que «n’aquellas sombras deliciosas sente a gente abrir-se o
-coração para sentimentos novos.»
-
-Quereria elle dizer que a sua alma se estava enflorando para exuberantes
-primaveras e auroras ainda não conhecidas?
-
-O futuro nol-o dirá.
-
-No attinente á apreciação de Braga, corre-nos obrigação de lembrar ao
-leitor que o filho do bacharel Valladares escrevia n’um tempo em que
-Braga conservava ainda os biocos d’uma verdadeira provinciana.
-
-Vão hoje, em pleno anno de 1870, visitar a capital do Minho e dir-me-hão
-se não enlevaram os olhos nas graças das damas bracharenses que passeiam
-a sua elegancia por entre os alegretes do campo de Sant’Anna.
-
-Homens de capote só os ha lá... quando está frio, o que se me afigura uma
-prova irrecusavel do bom senso da população masculina d’aquellas paragens.
-
-Diz um adagio «Deus dá o frio conforme a roupa». Quer-me parecer, porém,
-que seria muito mais verdadeiro e sensato dizer se «Deus deu a roupa por
-causa do frio.»
-
-Quanto aos sinos, ainda em 1870, como então, são egualmente detestaveis
-os de Braga e os... do Porto.
-
-Chateaubriand escreveu algures que o christianismo conseguiu dar suspiros
-ao bronze.
-
-Sem querer desvirtuar a poetica idéa do auctor do _Genio do
-Christianismo_, sou a dizer que me não quer parecer «suspirar», um
-martelar continuo de toadas populares nos sinos das cidades. A musica das
-ruas invadiu a egreja.
-
-Suspirar é o do sino da aldeia, que nos viu nascer, quando vibra sonoro
-ao pôr do sol, no meio da solidão.
-
-Acceito de melhor sombra estas palavras do mesmo Chateaubriand no _René_:
-
-«Tudo se encontra nas encantadas meditações que em nós desperta o sino
-natal: religião, familia, patria, o berço e o tumulo, o passado e o
-futuro.»
-
-
-
-
-VI
-
-
-Depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do Monte, Eduardo Valladares só a
-furto vira Maria Luiza ao declinar da tarde, durante nove dias.
-
-Quando o sol inclinava para o occaso, sahia elle em direcção a Guadelupe.
-Ao passar na rua de Santo André, sempre os seus olhos se encontravam com
-os de Maria Luiza como por magnetismo. Seria um acaso? Quem diria a ella,
-da primeira vez, que elle ia passar? Amal-o-hia? Se o amava, se sentia
-que o ia amar, dizia-lhe uma voz interior que elle viria? Mas pareceu
-fital-o tranquilla, sem revelar um indicio de commoção... Não o amaria,
-zombaria de um sentimento celestialmente puro? Mas nem que o coração lhe
-estivesse adivinhando a hora a que elle viria! Nem um só dia deixaram de
-se ver...
-
-Era a furto, é verdade; que o timido moço não sabia que impressões
-conservaria Maria Luiza do passeio ao Bom Jesus. Erguia o seu olhar para
-ella, e desviava-o subitamente...
-
-Os versos, pensava elle, fôram pouco menos d’uma indiscreção. Quem
-lhe dera motivo para alimentar uma esperança? Ella, Maria Luiza? Que
-lhe dissera que deixasse entrever os primeiros clarões d’uma aurora? E
-todavia arriscara-se elle a escrever:
-
- Eu, namorado e poeta,
- Hei de ser a borboleta,
- Tu a rosa; o mel, o amor...
-
-Estas dúvidas alanceavam-lhe o espirito. Que devia fazer? Conformar-se
-com a incerteza, fugir á luz, áquella luz que o estava attrahindo,
-a elle, a mariposa dos dezeseis annos? Mas fugir-lhe era morrer,
-que se podia viver longe do ninho querido, do carinho materno, das
-recordações da sua infancia, era porque a tinha visto, era porque a tinha
-encontrado...
-
-E—pensamento cruciante!—quem lhe dizia que ella era livre, que se
-não deixava embalar nas dulcissimas esperanças d’um amor feliz? Este
-pensamento infernava-lhe a alma e, n’esses momentos dolorosamente
-attribulados, lembrava-se de sua mãe, e parecia que o invocar o nome
-materno valia tanto como sentir calmarem-se as tempestades interiores.
-
-N’aquella solidão de Guadelupe era que Eduardo Valladares gostava de se
-deixar atormentar por estas dúvidas queridas. Aquella agitação tinha
-alguma coisa de pungente e alguma coisa de deliciosa... E depois,
-alongando o olhar, via extender-se ao sopé de Guadelupe a rua de Santo
-André... E para o outro lado, ao nascente, avultava no horizonte a
-montanha do Bom Jesus onde tinha sentido os primeiros enlêvos, onde um
-anjo mysterioso, de azas brancas talvez, lhe segredara docemente uma
-palavra de esperança...
-
-Era lá, onde a coma do arvoredo frondejava mais espessa, no alto da
-serra, que Maria Luiza lêra os seus versos, e parecia que a amenidade
-melancholica da floresta santa lhe entrava no coração... Seria aquella
-montanha o seu Gethesemani? O futuro era mudo. Na serra campeava a cruz,
-phanal salvador dos náufragos da existencia, e elle tinha ainda na
-memoria as doces orações que sua mãe lhe ensinara a balbuciar.
-
-E as sombras da noite pareciam emergir d’entre o arvoredo, e serra, e
-floresta, e cruz desappareciam envôltas na escuridão.
-
-Quando Eduardo Valladares descia de Guadelupe, era sempre noite cerrada;
-um unico pensamento o occupava—ver Maria Luiza no dia seguinte.
-
-
-
-
-VII
-
-
-Dez dias volvidos disse D. Maria Assumpção, de manhã, ao neto:
-
-—Vamos hoje passar a noite a casa das Machados. É preciso fazeres-te
-homem. As mulheres é que vivem encerradas dentro de quatro paredes.
-Passas a manhã em casa a ler, e apenas saes de tarde um boccadinho! Onde
-vaes tu?
-
-—Sento-me em Guadelupe e gosto d’aquelle sitio, respondeu Eduardo
-procurando ler a impressão da resposta no olhar da avó.
-
-—É bonito... mas triste. Precisas de procurar relações e de afastar de
-ti uns ares improprios da tua edade. Domingo, havemos de tornar ao Bom
-Jesus. É preciso divertir e passear emquanto é tempo, rapaz, que o mez
-de outubro está ahi á porta e depois, cursando o lyceu, não tens remedio
-senão deitar-te aos livros.
-
-—Estou preparado para isso e cuido que hei de saber corresponder á
-dedicação de meus avós.
-
-—Assim deve ser. Põe o teu chapéo e vae sahir, anda, mysanthropo.
-
-—Agora... estou tão bem em casa...
-
-—O que tu quizeres, teimoso! Já te disse que depois de abertas as aulas
-hão de ser poucas as distracções.
-
-—E não iremos mais ao Bom Jesus? ousou perguntar Eduardo.
-
-—Iremos; menos vezes. Eu tambem gosto d’aquelle passeio, e sinto que me
-faz bem. Mas não se cifram no Bom Jesus os sitios bonitos dos arrabaldes.
-Has de gostar tambem das margens do Cávado.
-
-—Mais que do Bom Jesus?
-
-—Não sei.
-
-—Ah! mais que do Bom Jesus acho que não posso gostar.
-
-D. Maria d’Assumpção foi ter com o marido e disse-lhe:
-
-—Este rapaz é magico, não quer sahir!
-
-—Deixa-o lá, elle se aborrecerá d’estar em casa.
-
-—Não é tanto assim, homem de Deus! É preciso distrahil-o, aconselhal-o
-com brandura, que é filho de nossa filha. Domingo havemos de tornar ao
-Bom Jesus.
-
-—Mas que empenho tens tu em andar a passear o rapaz?
-
-—Quero amenizar-lhe esta passagem repentina da vida em que foi creado
-para outra vida completamente nova. Depois, abrindo-se as aulas, é que eu
-não quero que elle passeie. Já lhe disse que, em chegando outubro, era
-preciso estudar como um homem.
-
-—E elle que respondeu?
-
-—Deu mostras de querer desempenhar cabalmente. Mas não comeces tu depois
-a opprimil-o demasiadamente com as tuas asperezas. Olha que o espirito,
-cansado do estudo, precisa d’um refrigerio.
-
-—Livremol-o de relações estreitas com estudantes, que são, por via de
-regra, rapazes que vivem em liberdade pouco digna.
-
-—Eis ahi por que me parecia que um namorito...
-
-—Vocês, as mulheres, ligam-se tamanha importancia, que julgam que o
-render-vos preito é a suprema salvação de qualquer. O rapazinho se
-começar a desmandar-se torna pelo mesmo caminho por onde veiu. Tu sabes
-que eu não sou muito para graças. Este anno ha de acabar os preparatorios
-e para o anno ha de cursar o Seminario. Isto é se quizer; se não quizer,
-que volte para a companhia do pae.
-
-—Mas tambem que proposito é esse de assentar com tamanha antecipação o
-destino do rapaz? Estás dominado do espirito religioso de Braga e achas
-que ser padre é caminhar proveitosamente pela estrada social em direcção
-ao Céo! Não sei como te não ordenaste?
-
-—Temos em mim um exemplo da efficacia dos namoritos. Meu pae queria me
-ordenar, porque era meu amigo. Vi-te, comecei a desorientar me e casei...
-
-—Olha que perdeste muito! Estavas agora arcebispo, pelo menos, se
-obtivesses absolvição, para os teus burguezes devaneios com a costureira
-do terceiro andar.
-
-E como D. Maria d’Assumpção caminhasse para a porta da saleta, chamou a o
-marido com a brandura de quem deseja reconciliar-se:
-
-—Olha cá. Pelo que disse a meu respeito, sabes que não passa tudo de
-graça. Lá quanto a ordenar-se o rapaz, é coisa assente e proposito firme.
-Que queres tu que elle seja? Queres que o mande para Coimbra gastar-nos
-rios de dinheiro para o vermos ao cabo de cinco annos a caçar môscas como
-o pae?
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Eduardo Valladares, quando soube que n’essa noite poderia vêr Maria
-Luiza, sentiu no coração uma alegria subita que de momento a momento era
-obscurecida por umas sombras ligeiras... Dir se-hia que n’aquella alma
-de dezeseis annos se travara lucta entre os lampejos d’uma esperança
-e as nuvens d’uns receios que são attributo da timidez procedente da
-inexperiencia.
-
-N’aquella alma, digamol o pois, preparava-se uma aurora: luctava a luz
-com as trevas.
-
-Ver Maria Luiza era levantar o espirito a páramos celestiaes ante
-gostados em horas de dulcissima meditação; era voejar nas azas da
-esperança até onde a felicidade pudesse subir uma creatura absorta em
-sonhos do Céo. Mas vêl-a não seria despenhar-se em abysmos insondaveis,
-se nos labios d’ella não desabrochasse um sorriso equivalente a uma
-promessa? Todas as dúvidas, que até ahi o haviam salteado dia e noite,
-como que se levantaram em tropel e deliciosamente lhe pungiram o coração
-amoroso.
-
-O filho do bacharel entrou na sala da viuva Machado com a timidez de
-quem arriscasse um passo n’um estrado sobreposto ao boqueirão d’um
-despenhadeiro. O mesmo porém foi entrar e cegar-se deante d’aquella visão
-aerea, tentadora, que parecia encher a casa d’alegria e esplendores.
-
-A aurora da felicidade, que a cercava, afigurou-se porém a Eduardo
-Valladares o clarão sinistro d’um incendio que lhe vinha requeimar o
-coração.
-
-A elle, que se sentia triste, porque amava, a elle, que luctava com
-a incerteza, porque esperava, a elle pareceu pois que só a estrema
-despreoccupação d’espirito podia dar a tranquilla alegria que Maria Luiza
-revelava no gesto e no olhar.
-
-Ó deliciosas illusões dos dezeseis annos, que sois a verdadeira
-felicidade, quem pudera rehaver-vos, uma só vez que fôsse, depois de
-transposta a barreira que separa o mundo das chimeras do mundo das
-realidades!
-
-A experiencia é fria como tudo o que é positivo, material e immutavel.
-Ultrapassada a linha divisoria, sabe-se que o coração freme em
-tempestuosa lucta quando aos labios apontam sorrisos de felicidade. Ó
-experiencia, ó escalpello das coisas mundanas, queres rasgar, decompor,
-retalhar, para saber!
-
-Aos dezeseis annos contentam-se os olhos com vêr a superficie d’este
-mar chamado—coração humano. E não se sabe então que o oceano, cuja face
-se azuleja como o céo nas regiões polares, e disputa negruras com a
-tempestade na costa das Maldivas, não se sabe que o oceano, diziamos,
-occulta sob uma superficie crystallina ou sombria um mundo sempre cheio
-dos mesmos mysterios e da mesma escuridade... Ó abençoada ignorancia, que
-tamanhas saudades deixas para toda a vida!
-
-Aos dezeseis annos ignora-se ainda que ha certas organizações robustas,
-que não só chegam a dissimular os proprios sentimentos, mas até
-logram manifestar commoções differentes das que lhe estão deliciando
-ou corroendo o coração. Já dissemos que Maria Luiza era uma d’essas
-organisações de rija têmpera, e o leitor sabe como ella modulava um
-trecho de _seguidilla_ no momento em que mais lhe vergava o espirito sob
-o consolador gravame das saudades de sua irmã.
-
-Amaria ella Eduardo Valladares? Amal-o, na verdadeira accepção d’esta
-palavra, talvez não. Mas sentia-se impellida por uma onda alegre e
-suave, que lhe embalava o pensamento e o levava a paragens tão formosas
-como desconhecidas. Alli encontrava o vulto sympathico do filho do
-bacharel, aureolado d’extranhos esplendores, e não sabia bem se tamanha
-claridade partia d’elle ou se era apenas o reflexo cambiante d’uns astros
-desconhecidos que illuminavam o céo de um mundo novo. Mas d’aquella
-felicidade que a embriagava, guardava o segredo no coração; e era
-apparentemente a mesma creatura alegre e descuidosa. Como quer porém que
-elle, de desejoso, andasse evitando falar-lhe, Maria Luiza approximou-se
-e disse-lhe:
-
-—Olhe que um rapaz-velho é tão irrisorio como um velho-rapaz.
-
-—Minha senhora! balbuciou Eduardo tomando o dito á conta d’uma pungente
-zombaria.
-
-—Ainda não dansou hoje, e como supponho que se esquiva á dansa para se
-furtar ao desprazer de me aturar durante uma valsa, venho sacrifical-o
-nas aras da minha ousadia, e convidal-o para meu... par.
-
-Eduardo Valladares ia a responder, nem elle sabia o que, mas o preludio
-d’uma valsa salvou-o d’uma conjunctura estremamente difficil.
-
-Depois, o piano passou d’uma cadencia maviosa para uma vertigem febril, e
-o mesmo aconteceu aos corações que, de tão juntos, pareciam permutar-se
-as pulsações...
-
-Meia hora volvida, Eduardo Valladares e Maria Luiza conversavam
-debruçados á janella...
-
-
-
-
-IX
-
-
-Estamos, outra vez, no Bom Jesus do Monte.
-
-O leitor conspira, porém, contra o poder de ubiquidade que o romancista
-possue e deseja saber que maviosos dialogos suspiraram Eduardo Valladares
-e Maria Luiza, ao clarão saudoso das estrellas. O que disseram não o
-repetiram os échos da noite. Suppomos, todavia, que elle conservara
-a mesma timidez e que ella não se apartou da alegre tranquillidade
-que momentos antes revelava. Mas se assim foi, n’aquelle dialogar,
-apparentemente frivolo, insensivelmente se iam alliando duas almas, a
-julgar pela leitura das seguintes linhas.
-
-Vamos encontrar Eduardo Valladares e Maria Luiza subindo ambos a alameda
-sombria da Mãe d’Agua.
-
-—Parece-me hoje mais triste que da primeira vez que estivemos aqui! disse
-Maria Luiza.
-
-—Creio que não tem v. ex.ᵃ razão para se admirar. É que hoje já vou
-procurando recordações por entre estas sombras deliciosas.
-
-—Recordações? Ah! recordações da visão mysteriosa que inspirou o seu
-madrigal.
-
-—Se fôra assim, a presença de v. ex.ᵃ dissiparia essas recordações, ousou
-pronunciar Eduardo Valladares.
-
-—Eu!
-
-—V. ex.ᵃ mesma. Ha de perdoar-me, continuou elle com a voz extremamente
-trémula, mas resolvi-me, ao cabo de muitas horas de hesitação, a usar
-d’uma sinceridade que não pode e não deve melindrar v. ex.ᵃ. Que hei de
-fazer eu senão pensar, meditar, eu que vivo aos dezeseis annos longe
-da terra que me viu nascer, dos sitios que recordam as horas alegres
-da minha infancia, dos meus amigos queridos, do conchego da familia,
-das consolações de minha mãe, do braço protector de meu pae? Ah! se v.
-ex.ᵃ comprehendesse como tudo isto é profundamente triste, e se depois
-se lembrasse tambem de que venho acceitar um futuro que me offerece
-a generosidade d’um parente, porque o trabalhar constante de meu pae
-não basta para abrir á felicidade a porta da nossa casa, se v. ex.ᵃ
-comprehendesse tudo isto, ouvir-me hia como se ouve um amigo que vem
-entregar ao nosso coração o segredo das suas maguas.
-
-—Jesus! Como me entristece!
-
-—Ah! V. ex.ᵃ tem soffrido tambem, é verdade, porque conserva ainda na
-alma os vestigios d’uma longa saudade. Hoje, que é domingo, o dia em que
-v. ex.ᵃ costumava ir depôr um ramo de flores sobre o tumulo de sua irmã,
-ouvir-me-ha, pois, como se eu lhe estivesse falando á beira d’esse tumulo
-querido...
-
-—Despedaça-me o coração... Tenha piedade.
-
-—Supponha que o repellido da fortuna poz um dia os olhos n’uma esperança,
-e que vêl-a tornada realidade seria o mesmo que subitamente enriquecer de
-tudo o que lhe falta agora, de tudo o que deixa na alma d’elle um vácuo
-tão profundo como sombrio. Supponha que o desventuroso peregrino pedia
-gasalhado ao seu coração, e que via pendente dos labios de v. ex.ᵃ toda a
-sua vida, toda a sua felicidade, todo o seu futuro... Mas...
-
-—Fale, fale...
-
-—Mas quem me diz, quem me prova que o coração de v. ex.ᵃ tem ainda a
-liberdade de entregar-se? Quem me diz, quem me prova que v. ex.ᵃ não deu
-já a outrem a felicidade que eu lhe estava pedindo? Mas quem me diz,
-quem me prova que v. ex.ᵃ tem a abnegação de ligar o seu destino a um
-destino incerto e sombrio como o que me espera talvez amanhã? Ah! não
-fala, não responde... Que está lendo v. ex.ᵃ na veia d’agua, em que fixou
-o seu olhar? Talvez esteja lendo o meu futuro, que é decerto o futuro de
-todos os desgraçados... Nasce a agua entre estas sombras queridas que
-pendem dos troncos seculares. O destino impelle-a para longe. Ella lá
-vae, descendo de fonte em fonte, afastando-se cada vez mais do seu berço
-querido, até que se some, ao sopé da montanha, nos abysmos da terra. Quer
-v. ex.ᵃ que lhe desenhe melhor o quadro d’uma vida obscura e triste como
-ha de ser a minha? Oh! diga, diga, que estava lendo o meu destino na
-corrente d’esta floresta sagrada...
-
-—Quer saber o que estava pensando? respondeu Maria Luiza no tom firme
-d’uma resolução inabalavel. Não pensava no seu destino, pensava no meu.
-Olhe como a agua corre livre vencendo o dique d’aquella folha verde que
-encontrou no caminho. Pois bem. A agua da montanha é tão livre como eu.
-
-
-
-
-X
-
-
-Fez-se a luz.
-
-Descerraram-se de par em par as portas d’esse olympo esplendido aonde só
-podem subir duas almas identificadas n’uma unica aspiração.
-
-Eduardo Valladares sentiu n’um momento dissiparem-se todas as dúvidas,
-todos os receios, todas as angustias. Maria Luiza deixara-se fascinar
-pelos clarões rutilantes d’esse mundo que entrevira em sonhos e, irmã da
-mariposa, lançava-se á chamma sem curar de saber se encontraria a morte.
-São realmente dignas de estudo naturezas como a sua.
-
-Ha certas creaturas que entraram no mundo com o coração a trasbordar
-d’alegria.
-
-As scenas variegadas da vida absorvem-nas e enlevam-nas, como as
-cambiantes d’um caleidoscopo enlevam e absorvem uma creança.
-
-Tudo as namora, tudo as fascina. Seguem com estremecimentos de jubilo as
-choreas caprichosas das borboletas e das aves; parecem querer luctar com
-a perfidia da onda, quando estão á beira mar, e deixar-se-hiam morrer
-se soubessem que a morte era... alegre. Mas—singular contradicção!—um
-ligeiro incidente as commove; derrubae um ninho e vel-as-heis chorar.
-
-São porém nevoas que se dissipam com um sôpro. A alegria impelle-as, e
-ellas, as venturosas creaturas, deixam se deslizar suavemente por uma
-estrada de rosas...
-
-Um dia quer Deus que lhes embargue o passo o leito d’um moribundo,
-permittam-me o exemplo. Admirae-as então. Sabeis o que são estremos de
-dedicação inegualavel? Se não sabeis, vinde apprendel-os com ellas. De
-tudo se esquecem, tudo alienam, a propria vida, a felicidade, a alegria
-para se absorverem n’um unico pensamento e n’uma unica afflicção.
-
-É por isso que fomos encontrar Maria Luiza á beira do leito da pobre irmã
-como a mais solicita e dedicada enfermeira que jámais houve.
-
-É por isso que pudemos vêl-a, a ella, a inquieta toutinegra, ajoelhada
-sobre o tumulo querido, como o anjo da saudade, orvalhando-o de
-abundantissimas lagrimas.
-
-É por isso que a admiramos no momento de confiar o seu coração,
-immaculado e puro, ao homem que revelava, nos éstos d’uma paixão
-impetuosa, um coração egualmente puro e immaculado.
-
-É por isso que teremos de contemplal-a...
-
-Corre-nos obrigação de deixar a phrase incompleta. O romancista não pode
-accelerar a marcha dos acontecimentos com uma especie de velocidade
-electrica. Tem o dever de ser methodico e nós, que tentamos o primeiro
-passo no caminho do romance, devemos respeitar as tradições até hoje
-seguidas pelos fazedores de novellas veridicas e não veridicas.
-
-O que devemos dizer é que Eduardo Valladares e Maria Luiza se carteavam
-quasi diariamente.
-
-As dulcissimas phrases que se mutuavam adivinha-as o leitor.
-
-Os namorados—especialmente os namorados como Maria Luiza e Eduardo
-Valladares—fazem lembrar aquelles celebres habitantes de que fala Camões:
-
- Contam certos auctores
- Que, junto da clara fonte
- Do Nilo, os moradores
- Vivem do cheiro das flores
- Que nascem n’aquelle monte.
-
-De que vivem os namorados? Embriagam-se nos celestiaes aromas das
-flores que desabrocham nos rosaes escondidos no coração. O que elles
-sabem dizer é um como frémito de rosas baloiçadas por uma viração
-suavissima;—linguagem quasi mysteriosa apenas entendida por duas almas.
-Em que é que pensam? Em que é que sonham?
-
-Pensam e sonham nas amenidades do seu vergel encantado, nas flores do seu
-canteiro intimo, nas harmonias que uns desconhecidos rouxinoes gorgeiam
-por entre os invisiveis rosaes.
-
-«Tenho dó dos demonios; pois se elles não amam!» creio que escreveu
-algures Santa Thereza, _toda delirante de ternura_, como notou o mais
-vernaculo dos nossos escriptores contemporaneos.
-
-Oh! espiritos beatificos, que nascestes fadados para os arroubos
-asceticos, ó santos e santas da côrte celestial, até vós prelibastes as
-doçuras que resumbram do favo do amor!
-
-Quero lembrar-me tambem agora de que S. Francisco de Salles disse «que o
-amor tem o primeiro logar entre as paixões da alma»; e não sei ao certo
-quantos mais santos discretearam ácêrca do amor. Que admira, porém?
-Não se resumia a doutrina e philosophia do vosso divino Mestre n’este
-dulcissimo preceito: «Amae-vos uns aos outros»?
-
-
-
-
-XI
-
-
-—Nota que estamos a dezenove de setembro... disse João Nicolau de Brito,
-n’esse mesmo dia, a sua mulher.
-
-—Oh! homem! Felicidade como eu tive! Tu dispensas um repertorio! replicou
-D. Maria d’Assumpção.
-
-—Nota que estamos a dezenove de setembro. Isto quer dizer que faltam
-poucos dias para chegar outubro.
-
-—Ah! temos rabugice! Falas do Eduardo, pois não falas?
-
-—Falo do Eduardo, sim, senhora, falo do Eduardo. Ando cá desconfiado...
-
-—Desconfiado de que?
-
-—De que pegou o namorico com a Maria Luiza.
-
-—Deixal-o pegar.
-
-—Ora que tu não has de querer nunca desviar as tempestades imminentes...
-
-—Quaes tempestades imminentes? Deixa namorar o rapaz, que está no seu
-tempo. Que queres tu que se faça?
-
-—O peor é em se abrindo as aulas. Estou com receio de que gaste mais
-tempo a lêr nos olhos da Machado do que nos livros.
-
-—Deixa que lhe ha de chegar o tempo para tudo, se assim fôr. E depois
-quem te disse que elles se namoram? Que provas tens? Sabemos apenas que
-elle gosta d’ella; mais nada. O que é certo é que tudo isto tem sido uma
-felicidade. Olha como o rapaz está acclimado, como parece outro, como
-revê alegria!...
-
-—Por isso mesmo... Dize cá. Tu sabes se elles conversaram no Bom Jesus
-nos dois domingos que lá passámos?
-
-—Eu sei lá isso! Tu não viste que não sahi de ao pé de ti?
-
-—Pois domingo sou eu que quero ir ao Bom Jesus.
-
-—Para que? Para os veres conversar? Olha que vale a pena, na verdade!
-
-—Eu cá tenho tambem o meu systema...
-
-Seja-nos licito saber o que estava fazendo Eduardo Valladares ao tempo em
-que n’uma das salas contiguas ao seu quarto dialogavam d’esta maneira D.
-Maria d’Assumpção e João Nicolau de Brito.
-
-O que estaria fazendo? Escrevia. Transmittia ao papel as harmonias que
-lhe resoavam na lyra do coração: escrevia a Maria Luiza. E tão ligeira
-esvoaçava a penna sobre o papel, que, se o visseis, dirieis que eram
-pensamentos sem nexo, caprichos e devaneios d’um espirito radioso o que
-estava escrevendo:
-
-«Vinde e subamos ao monte do Senhor», escreveu o propheta.
-
-«E fomos, e subimos. Entrei na floresta sagrada e para logo senti
-inebriar-se a minha alma n’uma vaga e dulcissima esperança. Fui subindo
-e, á medida que subia, perpassavam no meu espirito as melodias que
-parece sahirem d’entre o arvoredo sombrio. Tudo é doce, tudo é inefavel
-na montanha do Senhor. Ha no interior d’aquella esplendida cathedral de
-verdura um como longinquo e continuo suspirar d’um orgão vibrado por mãos
-invisiveis.
-
-«Para aquelle concerto perenne da floresta contribue tudo quanto se
-esconde em tão deliciosas sombras: o arvoredo que murmura, as fontes que
-suspiram, as aves que chilriam dialogos maviosos, e os corações que se
-expandem na linguagem suavissima do amor...
-
-«Foi na montanha do Senhor que as nossas almas se identificaram para
-sempre n’uma unica existencia.
-
-«Foi lá que tu recebeste no teu coração as queixas do romeiro e lh’as
-devolveste em ridentissimas esperanças depois de purificadas no crisol
-d’um amor celestial.
-
-«E a tua voz sobrelevava todos os murmurios e todas as melodias da
-floresta e soou aos meus ouvidos como um hymno cadenciado na harpa d’um
-cherubim.
-
-«E eu repeti as palavras que momentos antes se me tinham deparado na
-legenda da _Esposa dos cantares_ e disse:
-
- A tua voz murmure a meus ouvidos[3]
-
-e deliciei-me nas cadencias inimitaveis que a tua bôcca jorrava ao
-murmurar: «A agua da montanha é tão livre como eu».
-
-«É pois certo? A tua alma é tão livre como a onda prateada que desliza
-por entre as verduras da serra e cae em chuva de perolas na amphora de
-cada fonte? A tua alma é tão livre que possa juncar de flôres a estrada
-dos meus dezeseis annos á semelhança da corrente da montanha que vae
-orvalhando as boninas da encosta?
-
-«Estavamos no _monte do Senhor_, na _santa Jerusalem_ e os teus labios
-falaram a linguagem do teu coração... Os échos da montanha guardam o
-segredo da nossa felicidade. Que as nossas esperanças todas se desatem em
-florecimentos perpetuos como os da primavera que cada dia enche de vida
-nova e nova opulencia a floresta sagrada.
-
- * * * * *
-
-
-
-
-XII
-
-
-Estava n’esse dia, como sempre, cheia de amenidade a alameda da Mãe
-d’Agua.
-
-—Que felicidade! dizia Eduardo Valladares apertando entre as suas as mãos
-de Maria Luiza. Que felicidade! Abençoado o teu amor que me dá confôrto
-e alento para ir procurar a realidade dos meus sonhos, dos nossos,
-devia dizer, onde quer que ella esteja... E todavia eu d’antes era
-triste, tão triste, que nem tu sabes! Meu pae, quando me surprehendia a
-escrever, dizia para minha mãe:—Este rapaz ha de ser desgraçado! Por que?
-perguntava ella com terna inquietação. Porque começa a sonhar muito cedo,
-concluia meu pae. Oh! dize-me que era falsa esta prophecia. Por que não
-havemos de ser felizes? Tu amas-me muito, pois não amas?
-
-—Que transformação completa na minha vida, Eduardo! As minhas amigas
-tinham-me á conta d’um coração que nasceu para ser livre como a aguia, e
-só para isso. Eu, porém, consultando-me a mim mesma, conhecia-me muito
-outra do que me suppunham. E não me enganei; bem sabes tu que me não
-enganei. Havemos de ser felizes. Sabes o que é ter no Céo um anjo que
-vela por nós a toda a hora? Lembra-te de minha irmã, que era um anjo,
-e fortalece-te com essa esperança. Se porém o Céo da nossa felicidade
-tem de se annuvear com tempestades invenciveis, se temos de separar-nos
-um dia para tomar cada um por differente caminho, se tudo isto tem
-d’acontecer, então que a alma de minha irmã me chame para o pé de si, que
-eu prefiro morrer a vêr-me sem ti no mundo...
-
-—Oh! Cala-te, cala-te, que me sinto morrer. Afasta da tua alma esses
-presentimentos sombrios, que são meras visualidades. Não somos nós
-felizes? Olhemos em redor de nós. Tudo placido e ameno como hontem e
-como ámanhã. E, no meio d’esta tranquillidade do ermo, não hão de sonhar
-as nossas almas em leito de rosas e esperanças? Para que havemos d’ir
-procurar os espinhaes que nos não vedam o passo? Põe de parte esses
-pavores imaginarios. Consulta antes a tua alma e pergunta-lhe se é tão
-firme que sacrifique todo o futuro a um affecto, se é tão corajosa que
-possa dizer ao desprotegido da fortuna: «Sei que és pobre, mas quero
-soffrer metade das tuas amarguras.»
-
-—Pois duvidas ainda! Pela alma de minha irmã te juro que o meu amor será
-eterno. Por que é falares de pobreza? Acaso eu, egualmente desprotegida
-da fortuna, podia levantar o meu espirito a desmedidas ambições? Que
-importa o valor da riqueza, quando se trata do valor da felicidade?
-Promette que não mais falarás d’um assumpto que magôa dolorosamente a
-minha alma. É tamanha a nossa esperança que ella só nos deve absorver...
-
-—Oh! perdôa-me...
-
-De repente uma voz conhecida, denunciando sobresalto, viera interromper o
-caloroso dialogo.
-
-O leitor vae saber o que se passou.
-
-João Nicolau de Brito, D. Maria d’Assumpção, e a viuva Machado ficaram-se
-a conversar, sentados nos poucos degraus que dão entrada para a
-hospedaria denominada hoje da Boa-Vista, com pessoas das suas relações
-que tinham procurado as sombras da floresta do Bom Jesus para se furtarem
-ás calmas de setembro.
-
-O sogro do bacharel Valladares, quando julgou opportuno espionar o neto,
-segredou á mulher:
-
-—Viste para que lado fôram as Machados com o rapaz?
-
-—Olha que está alli a mãe...
-
-—Pergunto-te se viste para que lado fôram as filhas. Não tenho nada que
-ver com a mãe.
-
-—Fôram por ahi acima e acho que estarão na Mãe d’Agua.
-
-João Nicolau de Brito levantou a voz e apostrophou:
-
-—Ora fiquem em santa paz, que eu já estou aborrecido d’estar sentado
-n’estes degraus. Vou por ahi acima espairecer um pouco.
-
-Sentada nos degraus do chafariz, que fica ao centro do largo dos
-Evangelistas, estava, absorta na leitura de não sei que romance, a
-menina Rosa Machado. Como quer que levantasse casualmente os olhos de
-cima do livro e reconhecesse ao fundo da avenida João Nicolau, correu
-pressurosa a dar rebate aos enamorados interlocutores da Mãe d’Agua. O
-que é certo é que quando João Nicolau chegou ao largo, depois de ter
-trilhado vagarosamente a longa avenida que parte do templo, já as duas
-irmãs Machados estavam sentadas nos degraus d’uma das capellas, e como
-que ambas embevecidas na leitura do mesmo livro.
-
-
-
-
-XIII
-
-
-—Sósinhas? exclamou João Nicolau ao vêl-as, dando assim largas á sua
-extrema admiração.
-
-—Nunca estão sós duas irmãs, respondeu de golpe Maria Luiza.
-
-—A ler, não é verdade?
-
-—A matar o tempo.
-
-—Que é do meu neto, que assim as deixa sem lhes fazer companhia?
-
-—O seu neto continua a ser poeta. Desde que chegámos aqui, embrenhou-se
-por essa alameda da Mãe d’Agua e lá está talvez devaneando a desafiar os
-rouxinoes.
-
-—Olhem que para boa lhe havia de dar!
-
-—Tambem acho que sim!... replicou Maria Luiza.
-
-—Se não era melhor estarmos aqui todos a conversar! accrescentou Rosa.
-
-—É que estes poetas gostam d’andar a conversar comsigo mesmos. Toda a
-minha vida ouvi dizer que se deve desconfiar de pessoas que falem sós.
-
-—Os poetas não falam sós, tornou Maria Luiza. Não posso deixar de
-censurar o procedimento de seu neto, sr. João Nicolau; mas quero levantar
-a luva que lançou a quantos versejam n’este mundo de Christo. Os poetas
-pensam como o sr. João Nicolau, como eu, como toda a gente. Se procuram,
-ás vezes, a solidão, é de certo para que os rumores do mundo lhes não
-interrompam os maviosos pensamentos.
-
-—Ande lá, que não pode negar que é affeiçoada á poesia...
-
-—Admiro-a, e mais a admiraria se pudesse comprehendel-a. Ora de poetas
-que teem seu tanto de mysanthropos, como o sr. Eduardo, é que eu não
-gosto. Quero a poesia que transige com os deveres sociaes. O Camões,
-segundo dizem, emquanto a fortuna lhe luziu, usava de boa cortezia com as
-damas da côrte.
-
-—E de que valeu ao Camões ser poeta? interrogou João Nicolau apoiando-se
-no braço de Maria Luiza e fazendo menção de voltar á hospedaria.
-
-—Valeu muito, respondeu ella, tomando pela avenida, de braço dado com
-João Nicolau. Valeu-lhe estarmos agora nós falando d’elle.
-
-—Sempre é ligarmo-nos muita importancia, pois não acha?
-
-—Tem razão. Eu devia ser menos vaidosa e mais verdadeira. Valeu-lhe
-a admiração de todo o mundo, porque todo o mundo admira o genio
-deslumbrante d’um homem que soube exaltar n’uma epopêa as glorias da
-patria que o deixou morrer de miseria.
-
-—Bravo, minha cara menina! Gostei d’ouvil-a!
-
-—O sr. João Nicolau está gracejando. Mas a verdade é que o genio de
-Camões conseguiu muito, na minha opinião. Deu a conhecer ao mundo
-civilisado o quadro das velhas glorias portuguezas, para que ficasse
-de pé a chronica nobilissima d’um povo quando as convulsões sociaes
-subvertessem a nossa individualidade historica. Uma epopêa é muitas vezes
-um epitaphio levantado sobre o tumulo d’uma nação que foi. Tenho ouvido
-dizer que os poemas de Homero e Virgilio representam hoje a Grecia e
-Roma. Quem sabe se os _Lusiadas_ serão a unica recordação que sobreviva
-ás ruinas de Portugal?
-
-—A modo que tem razão... Ora deixe-me ver se me lembro d’uns versos do
-José Agostinho, que vinham agora a proposito. Olhe que o José Agostinho é
-um poeta que me enche as medidas! Tem ouvido falar d’elle?
-
-—Ah! bem sei. Do José Agostinho não gosto.
-
-—Não gosta! Pois já leu?
-
-—O José Agostinho não tem sentimento nem inspiração.
-
-—Ora não diga isso!
-
-—São opiniões. O certo é que meu pae tinha algumas obras do José
-Agostinho e eu algumas folheei. Mas vamos aos versos, que os desejo ouvir
-recitados pelo sr. João Nicolau.
-
-—Deixe ver se me lembram. São do epicedio á morte do Bocage:
-
- Voando o tempo os seculos ajunta
- E co’as immensas incansaveis azas
- Cobre os vestigios da grandeza humana:
- Na Historia, os deixa só, e á vista os furta.
- De Esparta, a mãe d’heroes, mãe da virtude,
- Hoje occupa o logar mesquinha aldeia;
- De Epaminondas...
-
-Ora deixe vêr como é o resto... Ah!
-
- ...d’Aristides pisam
- Incultos Scythas barbaros os lares...
-
-O resto é que me não lembra.
-
-—Ora ainda bem que o sr. João Nicolau não é tão inimigo da poesia como se
-mostra!
-
-Chegavam finalmente ao extremo da avenida. João Nicolau, logo que pôde,
-chamou de parte a mulher e disse-lhe:
-
-—A rapariga lá doutora é e sabe mais do que eu, mas por emquanto não
-temos nada a recear...
-
-—Eu bem t’o dizia, homem de Deus, respondeu D. Maria d’Assumpção.
-
-—Sabes de quem devemos temer?
-
-—De quem é?
-
-—Das musas, mulher, das musas, que transtornam a cabeça ao rapaz!
-
-
-
-
-XIV
-
-
-João Nicolau de Brito assentou de si para si que não tinha ainda sido
-traspassado pelas frechas cupidinias o coração do neto, e em confidencia
-com a mulher lamentava que o cerebro d’um rapaz de dezeseis annos se
-deixasse eivar de semelhante monomania poetica, como elle dizia.
-
-D. Maria d’Assumpção escutava o marido com a maxima paciencia e, podemos
-dizel-o tambem, com a maxima reserva.
-
-—Lá que elle é um estudante distincto, isso é! exclamava João Nicolau,
-frequentes vezes, depois de abertas as aulas do lyceu bracharense. Os
-professores elogiam-n’o e dizem que o rapaz pode ser considerado, sem
-favor, o melhor do curso. Mas a dizer-te a verdade, mulher, não me parece
-que gaste muito tempo a estudar...
-
-—Ora por que dizes tu isso? Quem sabe é porque estuda. Não t’o elogiaram
-os mestres? Que mais queres? É preciso ter paciencia de santo para viver
-comtigo!
-
-—Não sabes por que razão digo isto? É por que o vejo ir todas as tardes
-para Guadelupe. Provavelmente vae para lá falar só e fazer versos. Ora um
-estudante não pode sahir todos os dias ou chova ou faça sol...
-
-—Oh! homem, quem te diz que elle não vae para lá estudar?
-
-—Qual estudar! Estudar o que? Em que livros? Só se fôr nas palmas das
-mãos... Que lá do namôro com a Machado acho que não temos a recear...
-
-—Pois ainda te não desenganaste!... O rapaz é um genio excentrico,
-e genios assim não são muito para amores... Quem sabe lá! Deixal-o
-versejar, que talvez chegue a ser como esse Castilho, de Lisboa, que,
-apesar de ser cego, é um poeta de fama, segundo dizem.
-
-—Qual poeta de fama! O meu poeta era o José Agostinho. Ainda não li nada
-do Castilho, mas vou jurar que não chega aos calcanhares do frade.
-
-—Pois não deves julgar de nada pelo que te parecer.
-
-—Deixemo-nos de rhetoricas. Com versos não se ganha a vida. Padre é que
-elle ha de ser. Disse e está dito. Lá como o tal estudantinho de Coimbra,
-de que falava o Sebastião na carta, é que me não ha de fazer. Se gostar
-da theologia, melhor para elle; se não gostar, que se aguente; e se
-morrer, que o leve a breca; a gente não nasce para outra coisa.
-
-—Estás hoje com instinctos sanguinarios. Olha que eu tenho medo de
-mata-mouros, homem!
-
-Chegou dezembro. Alvejavam, cobertos de neve, os cimos do Sameiro e da
-Falpêrra. As férias do Natal chamavam os filhos ausentes ao lar paterno.
-Eduardo Valladares veiu ao Porto consoar, e seis dias antes de terminarem
-as férias, estava já em Braga. João Nicolau ficou sobremodo admirado; D.
-Maria d’Assumpção comprehendeu tudo, mas conservou-se, como sempre, na
-defensiva.
-
-—Ó mulher! dizia João Nicolau na sinceridade da sua admiração. Pois elle
-chegou aqui, da primeira vez, com cara de ter perdido na renda, a tal
-ponto lhe entrou o mal das saudades, que foi preciso que lhe receitassem
-passeios ao Bom Jesus. Chega o Natal, vae ao Porto e rebenta-nos á porta
-seis dias antes de acabarem as férias! Eu declaro-te que não entendo nada
-de tudo isto!
-
-—Pois olha que tudo isto é claro como agua. É uma delicadeza do rapaz.
-Não quiz dar-nos campo a suppormos que estava aborrecido de nós. Repartiu
-as férias com os paes e comnosco. Quem fôsse menos desconfiado do que tu,
-só tinha motivo para se lisonjear.
-
-—Nada. Não vou para ahi, mulher. Rapazes não teem delicadezas com ninguem
-e muito menos com parentes. Aqui anda mysterio.
-
-—Mas tu bem vês que este rapaz não parece que o é. É preciso respeitar
-as suas esquisitices, para que não diga que lhe vendemos muito caro o
-beneficio que lhe estamos fazendo.
-
-—Pois sim, sim. Mas olha que o rapazinho é finorio e sabe muito bem o que
-faz.
-
-—Por isso mesmo é que nos quiz captivar com esta delicadeza. E depois
-pode ser que se lembrasse de que, vindo no ultimo dia de férias, talvez
-tu dissesses que tinha voltado a cumprir os seus deveres por de todo em
-todo não poder ficar no Porto...
-
-—Lá isso é que pode ser...
-
-—Isso é o que foi. O rapaz por emquanto porta-se dignamente e não
-descubro coisa que nos faça arrepender de o termos chamado á nossa
-companhia. É preciso não ser impertinente com gente nova, e sobretudo
-impertinente sem motivo...
-
-—Isto tambem já é velhice, mulher!
-
-
-
-
-XV
-
-
-Sebastião Valladares fez egualmente reparo na partida precipitada do
-filho e consultou o coração da mulher, que por ser de mulher e de mãe
-devia adivinhar e lançar luz sobre o que aos olhos do bacharel se
-afigurava mysterio. D. Adozinda serenou o ánimo do marido com estas
-placidas palavras:
-
-—Desvarios nem o genio lh’os tolerava, nem os podia ter que lh’os não
-soffria meu pae. Quando Deus quer, temos amores, e não vejo n’uns amores
-dos dezeseis annos sombra de tempestade que possa inquietar-nos.
-
-—Talvez seja isso, respondeu o bacharel. Olha que receio todavia por este
-rapaz, cujo temperamento, por demasiadamente ardente e delicado, se me
-afigura perigoso. O nosso filho tem grande inclinação á poesia e, como
-se não bastasse versejar, dá indicios de vir a sentir como verdadeiro
-poeta. Ha certas almas que, em vez de se repartirem pelo mundo exterior,
-tiram de si mesmas, á semelhança do pelicano, a seiva com que alimentam a
-propria vida. Ora o Eduardo, que me parece ter nascido fadado para eguaes
-destinos, precisava de ter a seu lado um conselheiro mais eloquente e
-menos severo que teu pae.
-
-—Dizes bem.
-
-—Até já me lembrei d’escrever ao Rodrigues, que é meu amigo desde a
-emigração, e que tem coração e intelligencia de sobra para mentor d’um
-espirito febricitante.
-
-São precisas algumas palavras d’explicação. Sebastião Valladares, natural
-de Vianna, havia completado o curso universitario quando, perseguido por
-suas idéas politicas, teve d’emigrar em 1828. A esse tempo contava elle
-vinte e cinco annos e tinha, sacrificado o coração, nas aras do amor, á
-senhora que, annos depois, desposara. João Nicolau de Brito possuia uma
-quinta, sombreada de copado arvoredo, á ourella do rio Lima; foi ahi que
-o bacharel Valladares vira, em dezembro de 1827, a formosissima dama
-bracharense, e foi d’ahi que se amaram.
-
-Compellido a emigrar, Sebastião Valladares vizinhou em Rennes de Almeida
-Garrett e de Manuel Rodrigues da Silva e Abreu. Ahi, nas angustias do
-destêrro, se estreitaram os laços que os deviam prender toda a vida. Em
-1832 voltaram á patria os saudosos emigrados: Manuel Rodrigues da Silva
-e Abreu era nomeado official do governo civil de Braga; Almeida Garrett
-voltava á politica e á litteratura; e Sebastião Valladares casava e abria
-banca d’advogado no Porto.
-
-João Nicolau era affeiçoado á causa absolutista e n’isto vae a razão
-da sua entranhada sympathia por José Agostinho de Macedo. Aos ouvidos
-do proprietario bracharense soavam continuamente aquelles dois
-enthusiasticos versos da _Viagem extactica_:
-
- No meio do clarão veio no throno
- Cercado d’esplendor Miguel Primeiro.
-
-João Nicolau apenas consentiu no casamento quando as instancias da
-esposa, estremosa pela filha, e o caracter decisivo da lucta civil não
-lhe permittiram resistir por mais tempo. Quando porém admittiu á sua
-presença o bacharel, disse-lhe de sobr’ôlho carregado:
-
-—Pode levar minha filha, se a quizer sem dote. Não sou rico e os meus
-padecimentos obrigam-me a despesas constantes; não posso desviar o que
-tenho. Em eu morrendo, e minha mulher tambem, levem tudo, que tudo lhes
-pertencerá então.
-
-Com o decorrer do tempo foi-se diminuindo a distancia respeitosa
-que separava sogro e genro, a ponto de João Nicolau tomar sob sua
-responsabilidade a educação do neto.
-
-Postas estas explicações, voltemos ao anno de 1851 em que se passa este
-caso que vimos historiando.
-
-Sebastião Valladares conservava com os seus dois amigos e
-correligionarios os estreitos laços d’amizade vinculados ao coração nas
-horas melancholicas do exilio. Almeida Garrett escrevia-lhe frequentes
-vezes. O bacharel, quando abria as cartas assignadas por _João Baptista_,
-costumava dizer:
-
-—Os amigos que se adquirem na desgraça são os verdadeiros.
-
-Manuel Rodrigues da Silva e Abreu estava a esse tempo exercendo o cargo
-de primeiro bibliothecario da Bibliotheca de Braga[4]. Dos tres amigos
-era o bacharel Valladares o menos favorecido da fortuna, mas não era
-o menos venturoso. Recusou sempre a protecção que os seus amigos lhe
-offereciam, nomeadamente Almeida Garrett. Costumava dizer o bacharel:
-
-—Trabalho todo o dia para viver, mas adormeço á noite tranquillo, e vivo
-escondido do mundo. O Garrett, tanto o Garrett politico como o Garrett
-litterato, tem soffrido que farte. Não lhe invejo a sorte.
-
-Tres annos depois, em 1854, expirava o reformador da litteratura
-portugueza; e só então, cerrado o tumulo, principiava a ser julgado como
-devia, no tribunal da posteridade, o que tanto merecera da patria e
-tamanhas injustiças colhêra na sua esplendida carreira.
-
-
-
-
-XVI
-
-
-O bacharel Valladares escreveu a Manuel Rodrigues da Silva e Abreu
-solicitando a graça de allumiar com bom conselho a estrada em que o
-inexperiente estudante arriscava os primeiros passos da sua mocidade.
-
-O bibliothecario de Braga, coração sem mancha e intelligencia
-distinctissima, acolheu o moço com a amenidade de tracto que lhe era
-peculiar. Eduardo Valladares, terminadas as aulas, subia ordinariamente
-á bibliotheca onde o velho amigo de seu pae estava labutando em azafama
-continua, e sobremodo se deliciava á sombra d’aquella arvore vetusta meio
-tombada para o chão.
-
-O auctor d’este livro reiteradas vezes teve a felicidade de, na sala
-da bibliotheca bracharense, ouvir a palavra sempre fluente e amena
-de Rodrigues Abreu. Infundia respeito ver levantar-se aquelle busto
-venerando, coberto de cans, d’entre montões de livros a que elle chamava
-_a sua familia_. Uma vez bibliothecario, empenhou-se afanosamente
-pela causa da bibliotheca. Não se cansou de pedir os indispensaveis
-melhoramentos materiaes, dos quaes o primeiro era inquestionavelmente
-maior espaço para a conveniente arrumação de preciosos livros que jaziam
-a monte. A sua voz clamou no deserto e nem a palavra auctorisada de tão
-respeitavel varão nem repetidos artigos da _Revista Universal Lisbonense_
-lograram obter despacho favoravel.
-
-Como se este constante e baldado empenho não fôsse canseira de sobra,
-Rodrigues d’Abreu entregava-se a trabalhos de bibliotheconomia e chegou
-a publicar sobre este assumpto um opusculo que denominou _Novidades
-bibliotheconomicas_.
-
-Para daguerreotyparmos o homem, que já hoje é da historia, aproveitemos
-os traços caracteristicos que nos offerece o sr. Soares Romeu Junior:
-«... Era alto de estatura, rosto claro e comprido, nariz proeminente,
-olhos escuros e a fronte espaçosa, coroada de alvissimas cans.»
-
-Do escriptor diremos apenas que trasladou o _Eliezer_, de Florian, a
-versos portuguezes, dos quaes o leitor pode avaliar o sabido quilate pela
-apreciação que de tão notavel obra fez no _Panorama_[5] o sr. Alexandre
-Herculano.
-
-Consagradas estas poucas linhas á memoria de Rodrigues d’Abreu,
-prosigamos em a nossa narrativa.
-
-Eduardo Valladares refez o seu espirito, nas horas feriadas de canseiras
-amorosas, em proficua leitura que lhe ministrava Rodrigues d’Abreu.
-Se levantava os olhos dos livros era para os fitar na imagem radiosa
-que lhe flammejava auroras no coração; e como quer que os livros
-substanciosamente doutrinarios tenham o seu tanto de agri-doces, Eduardo
-repousava da leitura nas amenidades do amor.
-
-O bibliothecario bracharense, quando escrevia ao bacharel Valladares,
-costumava dizer-lhe: «O teu filho é uma perola, mas receio pela
-felicidade d’um espirito que, em tão verdes annos, tamanhos merecimentos
-revela. Já que me arvoraste em medico espiritual, direi que o seu
-temperamento requer brandura.»
-
-No fim do anno lectivo de 1851 a 1852, Rodrigues d’Abreu abraçou jubiloso
-o estudante que sahia premiado das aulas preparatorias.
-
-Decorrido tempo, no fim de setembro de 1852, Eduardo Valladares subiu á
-sala da bibliotheca evidentemente sombrio, a ponto de inspirar sobresalto
-ao seu velho e dedicado amigo.
-
-—Recebi ordem terminante de meu avô para me ir matricular no Seminario,
-e o meu coração não pode resistir ao supplicio que esta resolução lhe
-impõe, disse com accento melancholico Eduardo Valladares.
-
-Na casa da rua do Carvalhal ouvia-se a esse tempo a voz atroadora de João
-Nicolau clamando:
-
-—Amanhã vae o rapaz matricular-se no Seminario. Lá o Rubicon do lyceu,
-vencido está. Agora vamos a vêr como se sae da theologia, que sempre é
-coisa mais séria...
-
-—É pois chegada a occasião de reflectires maduramente, respondia D. Maria
-d’Assumpção. D’esta decisão depende o futuro de teu neto, e não deves ser
-precipitado. É conveniente pensar.
-
-—Já pensei e tornei a pensar. Está dito, está dito. Vae matricular-se no
-Seminario.
-
-—Sondaste lhe porventura a vocação? Quem sabe se lhe repugnará o futuro
-que tu despoticamente lhe preparas, homem?
-
-—Despoticamente! Essa agora é muito boa! Pois é despota quem faz um
-beneficio?
-
-—Não digas beneficio. De quem ha de vir a ser tudo o que nós temos, pouco
-ou muito, senão d’elle ou dos paes?
-
-—Quem sabe o que Deus fará, mulher? O que é que nós temos? Algumas
-propriedades em Braga e uma quinta em Vianna! Olha a riqueza! E se vier
-uma doença prolongada não havemos de gastar quanto fôr preciso? Lá do
-Sebastião tenho pena, por que não é mau rapaz, á parte o ter desembarcado
-em 32 com não sei quantos outros _mindelleiros_ que vinham estropeados a
-ponto de mal poderem com a arma ás costas! Por isso é que mandei vir o
-rapazinho, e já que o pae m’o confiou posso pôr e dispôr á minha vontade.
-
-—Reflexiona, homem de Deus, reflexiona.
-
-—Mas que destino queres tu que se dê ao rapaz? Pensas que temos dinheiro
-para o mandar a Coimbra? Olha que um patrimonio fica em conta, mas
-uma formatura compra-se a peso d’ouro. E demais a mais fica-nos aqui
-debaixo da vista, e pouco será o que houvermos de gastar em livros. Está
-decidido. Amanhã vae matricular-se no Seminario.
-
-
-
-
-XVII
-
-
-Estamos em novembro de 1852.
-
-Na alameda da Mãe d’Agua respira-se no ar balsamico a suavidade d’uma
-primavera perpétua.
-
-Após dias de cerrada invernia, mostra se no formoso céo do norte este sol
-esplendido de Portugal, que é a delicia de nacionaes e extrangeiros.
-
-Esperava-se por um dia alegre e sereno para remoçar o espirito, cansado
-da monotonia da chuva.
-
-D. Maria d’Assumpção tinha falado n’um passeio ao Bom Jesus logo
-que o tempo estiasse; as meninas Machados receberam, por escripto,
-participação do alvitre e applaudiram-n’o sobremodo.
-
-Lampejaram n’um domingo clarões de formosissima aurora; deu-se rebate e
-preparou-se alegremente o rancho.
-
-João Nicolau subiu a montanha abordoado á sua bengala de canna da India,
-galhofando com ares de sincero e expansivo contentamento. Eduardo
-Valladares parecia, ao contrário de todos, entre concentrado e triste. O
-avô olhava para elle de soslaio e dizia de si para si:—«Lá vae o rapaz
-com a maldita poesia!»
-
-D. Maria d’Assumpção, que de sobra conhecia as angustias do neto, pensava
-compadecida:—«Pobre martyr!»
-
-Maria Luiza reprimia no coração dolorosas tempestades, e desabrochava nos
-labios um sorriso que daria fel bastante para muitas lagrimas.
-
-Cêrca do meio dia, Eduardo Vallares e Maria Luiza puderam encontrar-se na
-Mãe d’Agua.
-
-Foi dolorosamente triste o mudo dialogo d’uns olhos que, n’um momento de
-silencio, resumiram as mais pungentes expansões.
-
-Olharam-se, e não puderam articular uma unica palavra. Decorreram alguns
-momentos que valiam seculos d’angustia. O filho do bacharel Valladares
-pôde alfim dominar a commoção que lhe estrangulava a voz na garganta.
-
-—Esperava por este momento anciosamente, disse elle. Escrevi-te, procurei
-no écho da tua alma um allivio para os meus infortunios, mas escrever-te
-não bastava. Era preciso ver-te, ouvir-te, escutar-te. Ha dois mezes
-que eu abafo no coração a procella do desespêro. Oh! Dá-me um raio
-d’esperança para eu não morrer, dize-me ao menos que me amas para que
-eu tire das tuas palavras a coragem que me falta. Ha dois mezes que eu
-esperava a hora de poder escutar a tua voz como a alma condemnada aos
-tormentos do purgatorio deve esperar o momento de subir, expurgada das
-suas culpas, á bem-aventurança do Céo. Oh! isto é horrivel, meu Deus!
-
-A pobre menina tremia agitada pela convulsão dos nervos, e sentia
-fugir-lhe a voz e a vista.
-
-—Dilacera-me o remorso, continuou elle com violenta commoção—dilacera-me
-o remorso de ter acorrentado a tua alma angelica ao poste da minha
-desgraça. Sacrifiquei a tua alegria, a tua tranquillidade, o teu futuro,
-a tua vida ao egoismo do meu coração. Amar-te não bastava? Quiz tambem
-ser amado, e despenhei-te, anjo innocente, das paragens remançosas onde
-te libravas descuidosa e tranquilla. Quiz tambem ser amado e impuz á tua
-alma o sacrificio de exgottar o calix da amargura ao tempo que o teu
-amor dulcificava os filtros celestiaes que me embriagavam. Perdôa-me,
-oh! perdôa-me, por que o meu amor era immenso, indomavel, e eu preferia
-morrer, a ver desfeita a minha esperança, a ver desabar o meu sonhado
-paraiso...
-
-—Se te perdôo! murmurou maviosamente Maria Luiza. Perdôa-me tu, que é por
-mim que tu soffres...
-
-—Ah! interrompera a elle de golpe. Pois é certo que me perdôas? Que
-importa então que imponham á minha alma um futuro que ella não pode
-acceitar! O escravo, o humilde, o servo de gleba ha de erguer-se soberbo
-da riqueza da sua alma, e repellir a mão que ao mesmo tempo empresta
-um futuro que nos repugna e exige como hypotheca a felicidade de duas
-existencias consubstanciadas n’uma unica. Irei trabalhar para onde a
-sorte me levar; procurarei em toda a parte o que me vendiam aqui a trôco
-de lagrimas, mas terei no meu coração a dulcissima alegria da esperança,
-da esperança que me queriam roubar para me garantirem a felicidade
-material da vida, como se a vida sem a esperança não fôsse uma ironia
-cruel e deshumana! Irei, é preciso fugir...
-
-—Fugir! fugir! Dize antes que me queres roubar a consolação de
-compartilhar as tuas angustias. Fugir e deixar-me sósinha, entregue á
-minha saudade, á minha desventura, ao meu desespêro! Dize antes...
-
-—Cala-te, por alma do anjo que morreu beijando-te, cala-te. Peço-t’o eu.
-
-—Fugir! E querias assim despedaçar as ternas cadeias que nos prendem um
-ao outro, só para alimentares no coração a esperança de reatal-as um dia?
-
-—Perdôa-me, que eu fui cruel, porque me enlouqueceu a dôr. Não te ver,
-não te ouvir! E poderia eu viver? Iria morrer longe de ti, anjo do meu
-coração, sem ouvir na hora derradeira, á beira do meu leito, o murmurio
-das tuas orações...
-
-—E depois, com que profundissimas dôres não irias despedaçar o coração
-estremoso de tua mãe! com que maldito tormento não irias infernar a
-velhice de teu pae e levar a desgraça á serenidade alegre da tua casa!
-
-—Comprehendo a nobreza da tua alma, anjo. Agradeço-te por mim, por minha
-mãe, por meu pae, por Deus. Ficarei. Acceitarei resignado o sacrificio
-que me impõem e appellarei para a Providencia, que vela por todos os
-desgraçados. Juro-te que serei submisso.
-
-—Obrigada. Pertence-me metade das tuas afflições e como poderia eu luctar
-com o destino se me faltasses tu a dar-me alento nas horas attribuladas
-da nossa commum desventura?
-
-—E has de soffrer tu, santa do martyrio, que merecias a felicidade na
-terra? E hei de eu ser teu algoz, eu, que te amo até á loucura? E hei
-de eu ser teu algoz e sacrificar a tua alma immaculada, exigindo que
-soffras, que chores, que morras na lenta agonia dos desgraçados, só por
-que eu tambem agoniso, e choro e soffro? E não ha de Deus escutar-nos e
-não ha de o céo condoer-se das nossas afflicções! Oh! sinto na minha alma
-a labareda maldita do inferno!...
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-Não tinham decerto escutado ainda mais doloroso idyllio as arvores
-sombrias da _Mãe d’Agua_.
-
-Eduardo Valladares esperava com febril anciedade, como dissera, aquelle
-momento que se lhe afigurava decisivo. Durante dois mezes, apenas pudera
-entregar ao papel as pungentes confidencias da sua alma.
-
-Quando, nos ultimos dias de setembro, João Nicolau de Brito o chamou á
-puridade para ordenar-lhe, severo e inexoravel, que immediamente fôsse
-abrir matricula no Seminario, escutou o submissamente, abafando no
-coração a tempestade revôlta que, n’aquelle momento, fibra a fibra lh’o
-estava despedaçando.
-
-Sahiu da sala para correr á Bibliotheca, onde lhe ouvimos o brando
-queixume que o coração amigo de Rodrigues d’Abreu recolhera compadecido.
-
-João Nicolau, matriculado Eduardo no primeiro anno do curso de theologia,
-jubilava com o bom rumo que os seus planos tomavam hora a hora.
-
-Esperava talvez resistencia da parte do neto e cabalmente se enganou.
-Todos os dias o observava com olhos perscrutadores; via-o triste e
-sombrio, mas não extranhava.
-
-Não era elle de natural melancholico?
-
-Estas investigações quotidianas levaram-n’o a modificar as suas
-conjecturas. «O rapaz, dizia de si para si, acceita com boa disposição
-a vida ecclesiastica, esperançado talvez em alliar a poesia com o
-sacerdocio. E d’ahi quem sabe? Pode ser um vulto distincto em eloquencia
-sagrada.»
-
-E, uma vez possuido d’esta idéa, empenhava-se pelo destino do neto, no
-intuito de o ver ainda prégador da Real Capella, no que n’esse tempo
-consistia e ainda hoje consiste a maxima distincção com que podem ser
-galardoados os oradores sagrados portuguezes.
-
-Já é incentivo!
-
-João Nicolau não curava de razoar sobre a mesquinhez ou exorbitancia do
-galardão, nem cuidava de tirar a limpo que proventos e honras importava.
-N’isto se assemelhava com os mil e um pretendentes que sollicitam mercês
-honrosas actualmente; querem a venera seja qual fôr e custe o que custar.
-Com João Nicolau acontecia exactamente o mesmo. Firme no seu designio,
-declarou solemnemente á mulher e ao neto a suspensão temporaria de
-visitas com o proposito de não distrahir o espirito do futuro prégador da
-Real Capella. Queria-lhe parecer que esta medida de segurança attingia
-dois fins egualmente appeteciveis:
-
-_Primo_: Concentrar a attenção do novel seminarista nas materias
-theologicas.
-
-_Secundo_: Afastar cuidadosamente as distracções mundanas, que não só
-prejudicariam a regularidade do estudo mas até insinuariam na alma do
-neto philtros que não devem perturbar o espirito d’um sacerdote.
-
-D. Maria d’Assumpção andava sobremodo condoída das angustias do pobre
-Eduardo. Vira nascer a chamma do amor e confiava na brevidade com que
-usam levantar-se e morrer labaredas em corações que desabrocham.
-
-Era este o segredo da sua medicina. O amor passageiro dos dezeseis annos
-esperava ella que fôsse antidoto efficaz ás asperezas d’uma vida nova, e
-sobremodo aborrecida, em que o neto ia entrar.
-
-O que porém não pensou aquella boa alma foi que poderia tornar-se
-incendio o que se lhe afigurava chamma e que o coração dos dezeseis
-annos, como o coração de todas as edades, tanto procura o sol para
-aquecer-se n’uma hora de desconfôrto como para inflammar-se n’um momento
-de febril anciedade.
-
-Em Eduardo Valladares o amor não era devaneio; era a paixão intensa, a
-paixão que perde ou que salva.
-
-Estão-me agora cahindo dos bicos da penna uns certos dizeres de D.
-Francisco Manuel, que veem de geito: «Persuado-me que esta cousa a que
-o mundo chama amor, não é só uma cousa, porém muitas com um proprio
-nome. Poderá bem ser, que por isto os antigos fingissem haver tantos
-amores no mundo, a que davam diversos nascimentos; e tambem pode ser
-venha d’aqui, que ao amor chamamos amores: pois se elle fôra um só,
-grande impropriedade fôra esta. Eu considero dois amores entre a gente.
-O primeiro é aquelle commum affecto com que, sem mais causa que sua
-propria violencia, nos movemos a amar, não sabendo o que, nem por que
-amamos. O segundo é aquelle, com que proseguimos em amar o que tratamos,
-e conhecemos.»
-
-Eduardo Valladares amava Maria Luiza antes de a vêr. Em horas de
-dulcissimos arroubos creara a sua phantasia uma visão aerea, formada
-de perfumes e de estrellas, meio anjo meio mulher, meio do céo meio da
-terra... Este era o primeiro amor de que fala D. Francisco Manuel, o
-amor do ignoto e do intangivel. Depois, um dia, por acaso, encontrara
-a consubstanciação de todas essas particulas aereas, deixem-me assim
-dizer, encontrára na terra a realidade dos seus sonhos queridos e
-absorvera n’aquelle sentimento impetuoso toda a vida de que uma
-organisação extremamente delicada pode dispor.
-
-Para aquella alma ardente e sonhadora o amor não podia ter a serenidade
-das estrellas n’uma noite d’estio: devia de ser violento como as
-convulsões do vulcão que levanta ao céo as lavas encandescentes.
-
-D. Maria d’Assumpção enganava-se pois, como todas as almas que nasceram,
-dedicadas e boas, para o remanso dos affectos vulgares.
-
-Rodrigues d’Abreu, coração aquecido ao fogo da poesia posto que duramente
-provado pelas amarguras do mundo real, Rodrigues d’Abreu é que se não
-enganava assim, nem se deixava cegar pela tranquillidade apparente do
-filho do bacharel.
-
-O bibliothecario de Braga, que tinha tanto de poeta como de christão,
-andava sobremodo inquieto com os soffrimentos d’aquella alma cujos
-soffrimentos devassava. Lembrou-se de escrever a Sebastião Valladares com
-a rude franqueza de homens que choraram juntos as lagrimas do exilio.
-Escrever-lhe seria, porém, mostrar ao pae a profundidade do abysmo
-em que se debatia a alma do filho. Este alvitre rejeitou-o o honrado
-bibliothecario por demasiadamente impiedoso e cruel.
-
-Rodrigues d’Abreu bem comprehendera que Eduardo Valladares amava, e sabia
-que era coagido a seguir a carreira ecclesiastica. Não bastava todavia
-comprehender e saber isto; era preciso mais.
-
-Era preciso ao medico espiritual ouvir a exposição circumstanciada do
-doente. Receava porém provocar as labaredas do incendio latente, e este
-receio acobardava-o. Mas como deixaria consumir-se lentamente aquella
-alma cuja pureza aquilatara tantas vezes, elle, que era bom, dedicado e
-nobre? O velho bibliothecario, n’essas horas de attribulada incerteza,
-pedia ao Céo a luz da inspiração.
-
-
-
-
-XIX
-
-
-Rodrigues d’Abreu costumava abraçar-se, quando a sua alma carecia de
-confôrto, ao esteio d’um coração amigo, que era urna de balsamos para
-todas as afflicções.
-
-Frei Domingos do Amor-Divino, o conselheiro, o arrimo, o cyreneu do
-bibliothecario bracharense, tinha purificado o seu coração nas asperezas
-da disciplina conventual, nas tribulações da miseria e nas lagrimas
-choradas na solidão, deante d’um crucifixo.
-
-Carmelita descalço, foi sempre modêlo e exemplo nos cargos que teve de
-exercer em hospicios differentes por decisão do definitorio geral da sua
-ordem.
-
-Na rigorosa observancia do regimen monastico e na prática constante da
-virtude lentamente se mundificara a alma do religioso carmelita, já de
-natural propensa ao bem.
-
-O convento foi-lhe sempre chrysol desde que solemnemente professou no
-convento de Nossa Senhora dos Remedios, em Lisboa, até que, silencioso
-e compungido, sahira com o resto da communidade do convento do Carmo de
-Braga, dizendo para sempre adeus á casa que lhe devia ser tumulo.
-
-Nunca Frei Domingos do Amor-Divino se entrincheirou com as reixas do
-mosteiro para, a coberto de perseguições, accender odios partidarios
-e soprar injurias a qualquer das duas facções que por longo tempo se
-degladiaram em accêsa lucta civil.
-
-Não lhe ouviram nunca razoamento, nem sequer monosyllabo, que denunciasse
-o rumo das suas inclinações politicas.
-
-Quando chegava ás cellas do convento um echo das tempestades exteriores,
-costumava dizer Frei Domingos do Amor-Divino:
-
-—Não curemos de profundar essas negruras. A porta que se fechou sobre
-nós é uma como barreira que nos separa das desgraças que pesam sobre
-Portugal. Que o espirito do Senhor desça sobre nós e seja comnosco,
-irmãos.
-
-Retumbou finalmente aos ouvidos do carmelita um como trovão que parecia
-abalar os alicerces do convento: era a voz de debandada que se repercutia
-ao mesmo tempo no seio de todos as ordens religiosas de Portugal. Frei
-Domingos do Amor-Divino cruzou com os seus confrades um olhar afogado em
-lagrimas e desceu á claustra para se despedir da lage sob a qual esperava
-dormir o somno eterno. N’esse momento, voltavam umas andorinhas que
-tinham fabricado o ninho no friso da crasta.
-
-Foi dilacerante aquelle lance. As andorinhas, ficavam e a communidade...
-sahia.
-
-Frei Domingos do Amor-Divino foi um dos religiosos portuguezes que
-emmudeceram na sua dôr, e procuraram na solidão o refugio que não podiam
-encontrar em qualquer outra parte.
-
-Dissolvida a grande familia monastica portugueza e serenadas as tormentas
-politicas que mergulharam em rios de sangue as decantadas boninas das
-varzeas de Portugal, Frei Domingos do Amor-Divino assentou residencia em
-Braga.
-
-—Quero vêr a toda a hora o ninho das andorinhas, dizia elle referindo-se
-ao convento do Carmo. Ali lhes escutei o alegre chilrear e alli esperava
-morrer com ellas. O meu coração precisa d’este consôlo.
-
-Sua grande affeição á casa onde tinha vivido, esquecido do mundo, levou
-o a escolher cubiculo d’onde ao menos pudesse espreitar as torres do
-seu convento. Recolheu se Frei Domingos a uma pobre mansarda da rua do
-Carvalhal e ahi viveu a vida angustiada da miseria e da solidão. Muitas
-pessoas, que ajoelharam a seus pés com o coração requeimado, levantaram
-se do confessionario com os olhos marejados de lagrimas.
-
-Isto diz-se para até certo ponto se explicar o respeito com que os
-vizinhos o olhavam e cumprimentavam quando sahia e entrava.
-
-João Nicolau, se acertava vêl-o, dizia ordinariamente:
-
-—Ó mulher, estes pobresinhos dos frades, sem casa e sem pão, fazem
-realmente despedaçar a alma a quem os vê. E olha como o nosso vizinho
-vive resignado, que até se lhe rie o semblante! Deus perdôe a quem...
-
-E deixava quasi sempre a phrase incompleta para não evocar recordações
-pungentes que tinha recalcadas no coração.
-
-Um dia uma viuva desvalida, mãe de quatro filhos, ajoelhou supplicante
-aos pés de Frei Domingos.
-
-O virtuoso carmelita levantou-a compassivo e disse-lhe:
-
-—Se na minha mão estivesse remediar a vossa miseria, remediada estava.
-Não desanimemos porém. «Pedi e dar-se-vos-ha, buscae e achareis, batei
-e abrir-se-vos-ha» disse o Divino Mestre no sermão da Montanha. Sigamos
-pois o conselho de quem nol-o podia dar.
-
-E foi-se de porta em porta, seguido da viuva e das creancinhas, esmolando
-para a mãe e para os filhos.
-
-Rodrigues d’Abreu foi um dos não muitos corações que se enterneceram a
-lagrimas deante d’aquelle edificante e extranho espectaculo. Desde então
-nunca na alma do bibliothecario bracharense passava uma dôr intima, que
-elle não fôsse desafogal-a no coração de Frei Domingos do Amor-Divino.
-
-A sorte desventurosa do filho do bacharel Valladares trazia trabalhado
-de crueis angustias o espirito do bibliothecario bracharense. Foi pois
-n’umas das horas de doloroso cogitar a tal respeito, que na alma de
-Rodrigues d’Abreu passou um lampejo d’esperança, ao lembrar-se do muito
-que podia fazer, em tão apertado caso, Frei Domingos do Amor-Divino.
-
-Não hesitou um momento. Tinha pedido ao Céo a luz da inspiração e á conta
-d’inspiração celeste tomara elle o pensamento que o impellia para o
-religioso carmelita.
-
-Foi procural-o, falou-lhe, desdobrou-lhe o quadro das afflicções que eram
-d’outrem e que sentia como suas. Frei Domingos attendeu-o e escutou-o
-humilde e compassivo, respondendo finalmente:
-
-—É grave e trabalhoso demover o proposito d’um ánimo resoluto. Operemos e
-esperemos todavia. _Deus autem noster in cælo; omnia quæ cumque voluit,
-fecit._[6]
-
-Depois que Rodrigues d’Abreu sahiu do cubiculo da rua do Carvalhal, Frei
-Domingos do Amor-Divino ajoelhou-se deante do seu crucifixo invocando as
-graças do Céo. Durante a oração illuminou-se-lhe o espirito, e quando
-o carmelita se levantou, tinha já traçado o plano da obra espinhosa
-que tomara sobre si, esperançado no auxilio divino, como revelam estas
-palavras que murmurara ao oscular o crucifixo:
-
-—_In tribulatione mea invocavi Dominum, et ad Deum meum clamavi._[7]
-
-Depois desceu as escadas com extranhavel vigor, atravessou a rua e
-aldravou á porta de João Nicolau de Brito.
-
-
-
-
-XX
-
-
-Eduardo Valladares e Maria Luiza, na impossibilidade de fallar-se,
-viam-se apenas. Triste correspondencia era essa escripta com lagrimas
-de dois corações que se deviam estar inflorando, n’aquella sazão, em
-jubilosas primaveras. Não acontecia assim, porém.
-
-As cartas de Maria Luiza principiavam por palavras de resignação e
-fechavam com outras d’esperança; as de Eduardo Valladares tinham longo
-prefacio de desalentos e terminavam com assomos de mal contido desespêro.
-
-Demoremo-nos um momento a medir a profundeza de dois abysmos.
-
-Maria Luiza, alma que se desatara em perfumes e amores ao sôpro virginal
-do primeiro affecto, conhecia de sobra os despenhadeiros que lhe estava
-cavando um amor desventuroso, e resignadamente se deixaria despenhar
-só para não arrastar na queda outra alma que vivia sob o influxo d’uma
-estrella commum.
-
-Por isso, com o coração despedaçado, aconselhava a medicina da resignação
-e deixava entrever diluculos d’esperança através de uma chuva de lagrimas
-que não podia reprimir.
-
-Os vestigios das lagrimas choradas desvelariam a um espirito
-desassombrado o segredo que o coração de Maria Luiza com tamanho empenho
-recatava; bastariam para eloquentemente denunciar os soffrimentos crueis
-que ella procurava dissimular trocando em flores o orvalho dos seus olhos.
-
-Eduardo Valladares, moralmente sobreexcitado, lia as cartas e, diga-se
-a verdade, encontrava n’ellas um como refrigerio ministrado por mão do
-anjo da guarda; por momentos se tranquillisava com as esperanças a que o
-estava convidando o ánimo apparentemente tranquillo de Maria Luiza.
-
-Durava apenas momentos, como dissemos, a acção benefica da leitura. Após
-aquelle instantaneo repouso, rugiam de novo as mesmas tempestades e era
-então o revolver se no mesmo leito de Procusto, em desesperadora ancia.
-O que elle claramente via n’esses angustiosos momentos era o infernal
-dilemna que comprimia a sua vida entre dois estiletes rubros de fogo
-maldito:—Succumbir ou rebellar se.
-
-Succumbir era amortalhar se na batina do sacerdote; dilacerar o coração,
-dia a dia, hora a hora; despenhar em abysmo insondavel as mais formosas
-visões do céo da sua mocidade; separar-se d’ella, da mulher adorada, para
-nunca mais aspirar o perfume dos seus labios, e não só separar-se mas
-tambem infelicital-a; e depois passar sereno e tranquillo, aconselhando
-esperança, por entre os que se ajoelhassem para beijar-lhe a fimbria da
-batina. Rebellar-se era ter de fugir, levando para toda a parte o remorso
-de haver envenenado a tranquillidade do lar paterno; era ter de abandonar
-o anjo que na linguagem dulcissima do Céo lhe pedia que ficasse; era
-dar á sociedade o direito de insultar as suas dores mais santas; era
-finalmente faltar á promessa, que fizera, de esperar resignado o momento
-em que chovesse do Céo o refrigerio que só o Céo podia ministrar em tão
-difficil conjunctura.
-
-Ficou pois; como havia promettido.
-
-Approximam-se as férias do Natal de 1852 e Eduardo Valladares denunciou
-vontade de não vir ao Porto, pretextando trabalhos escholares,
-especialmente o de redigir duas dissertações.
-
-É que se não via com a coragem precisa para abeirar-se de sua mãe sem
-revelar os segredos que lhe corroíam o coração, sem lhe dizer que tudo
-quanto parecia sujeição voluntaria era sacrificio de victima impotente,
-e sem lhe attribular para sempre as horas que á boa senhora corriam
-remançosas ao lado do marido.
-
-Em meado de dezembro, n’uma quinta-feira que amanhecia radiosa como
-para descoalhar as neves que alvejavam nas agulhas das serranias,
-especialmente no Gerez, Eduardo Valladares deixou-se ir, de rua em rua,
-absorto nos pensamentos que lhe preoccupavam o espirito.
-
-Ao desemboccar no Campo de Sant’anna, sahiu-lhe ao encontro um
-seminarista seu condiscipulo, um tal Mendonça, natural de Guimarães,
-talento contubernal de homens devassos nos alcouces bracharenses, brigão
-de emboscadas nocturnas, que seguia a carreira ecclesiastica para
-acobertar com a batina as ulceras d’uma alma devastada pelo vicio.
-
-A approximação d’este sujeito façanhoso, que apregoava, chanceando-se,
-as repugnantes aventuras de sua chronica, entediava sobremodo Eduardo
-Valladares, o qual pensava, ao vêl-o, na maneira por que a sociedade
-costuma encarar o padre que sacrifica a propria felicidade aos pés de
-Deus, e o padre cujos dedos empeçonhados da lepra do crime devem macular
-a alvura do amicto.
-
-Eduardo Valladares pensava n’isto e conhecia que a sociedade não
-levantava entre um e outro barreira que pudesse distancial-os, para que
-a lama, levantada na passagem do mau padre, não fôsse salpicar a face do
-sacerdote exemplar.
-
-Esta distancia conservava-a Eduardo Valladares no seu espirito, que
-é unicamente onde se pode distinguir vicio e virtude quando é uso
-confundil-os e tomal-os um pelo outro só para se não castigar o vicio nem
-premiar a virtude.
-
-N’aquella dolorosa introversão do seu espirito, via se Eduardo Valladares
-já sacerdote, offerecendo todos os dias a Deus no calix do sacrificio a
-vida que lentamente lhe arrancavam e, como se isto não fôsse provação de
-sobra, via-se tambem exposto aos chascos da sociedade que insulta um raro
-exemplo de virtude, quando elle apparece, por estar habituada a encontrar
-a torpeza, a cada hora, nas praças como nos templos.
-
-Corroendo a arvore sacrosanta do evangelho, regada pelo suor dos
-virtuosos cultores e mimosa dos cuidados d’elles, descobria o ominoso
-áspide, o verme da reacção, que contramina a obra piedosa e envenena
-com a baba immunda os fructos que puderam ser opimos, damnificando a
-colheita. Quando apparece o modêlo das verdadeiras virtudes evangelicas,
-quando surge, de longe a longe, um Frei Domingos do Amor-Divino,
-a sociedade, na maxima parte, repelle-o e vitupera-o e apedreja-o
-irreverentemente.
-
-No dia em que o religioso carmelita sahira a mendigar de porta em
-porta para a viuva e para os quatro orphãos, não muitos, como já
-dissemos, foram os corações que se abriram ao benefico influxo d’aquelle
-espectaculo edificante. Muitos o repelliram com desamor e remoques d’esta
-laia:
-
-—Que peça para um, que já não é pouco. A gente não tem obrigação de
-sustentar as familias dos frades pobres e devassos...
-
-E Frei Domingos sahia, com a sua velhice e com a sua humildade, chamando
-mentalmente o medico divino para o coração empedrenido.
-
-O seminarista de Guimarães abeirou se de Eduardo Valladares com rude
-familiaridade:
-
-—Ó homem! estava longe de te encontrar aqui! Tão recatado vives, que não
-ha pôr-te a vista senão á hora da aula! Ora dize-me uma coisa. Tu levas
-isto a sério ou usas de santimónias de Tartufo?
-
-O filho do bacharel fitou com admiração o de Guimarães e ponderou entre
-delicado e digno:
-
-—Não comprehendo, como desejava, a referencia da palavra _isto_. Tens a
-bondade de m’a explicar?
-
-—Isto, replicou Mendonça desfechando uma gargalhada, isto, é a alienação
-do direito de ser homem, que a sociedade nos quer impor, a nós, os que
-seguimos a vida ecclesiastica; isto, é a investidura ridicula da batina;
-isto, é a tonsura com que nos cerceiam os cabellos emparelhando-nos
-aos scelerados que estigmatisavam nos logares publicos; isto, é este
-assentamento de praça na milicia sagrada, que não pode deixar de ter as
-liberdades de todas as milicias...
-
-—E isso, o que tu disseste, replicou Eduardo Valladares, é a linguagem
-desbragada do soldado que veste as armas, não para militar pela causa que
-jurou, mas unicamente para ter direito á pilhagem...
-
-—Santimónias de Tartufo, bem dizia eu! Olha que nem tu nem eu havemos
-d’enriquecer com a pilhagem. E d’ahi, pode ser que tu chegues a fazer
-casa... Quantas missas tencionas dizer por dia?
-
-Eduardo Valladares ia denunciar o asco que lhe estava causando
-aquelle falar licencioso, quando um maltrapilho, que passava, bateu
-familiarmente no hombro de Mendonça e apostrophou:
-
-—Ó homem! eu dormi quatro horas e tu não havias de dormir muitas mais!
-Perdi tudo... A sorte negou-se, e deixou-me a tinir!
-
-Eduardo Valladares foi seguindo seu caminho, sobremodo entendia da
-approximação d’aquelle repulsivo caracter. O de Guimarães e o maltrapilho
-ficaram conversando e revendo provavelmente as paginas ascorosas da
-historia d’uma noite passada em qualquer espelunca de jôgo.
-
-O filho do bacharel foi seguindo sempre pelo Campo de Sant’Anna adeante
-e, transposta a egreja de S. Victor, sentou-se no caminho desfrequentado
-a olhar para o arvoredo que ao de leve ondulava na encosta do Bom Jesus.
-Ahi, n’esse cogitar em si mesmo, passou duas horas que tanto tiveram de
-tribulação como de doçura. N’aquelle seu ermar havia um misto d’esperança
-e desespêro, que praza a Deus que os que hoje se julgam felizes nunca
-possam comprehender.
-
-O leitor, que se defrontou já com o perfil respeitavel de Frei Domingos
-do Amor-Divino, ponha os olhos no reverso da medalha, n’este seminarista
-de Guimarães, que já cem vezes ou mais deve ter levantado com mãos
-impuras o calix que Frei Domingos offerecia a Deus todos os dias, e
-depois volte a pagina e leia o capitulo seguinte para restituir á sua
-alma as doçuras religiosas que os labios de nossa mãe coáram aos nossos
-ouvidos quando nos ensinaram as primeiras orações.
-
-
-
-
-XXI
-
-
-João Nicolau vinha, com uma braçada de flores, de jardinar nos seus
-canteiros, quando ouviu bater á porta. Foi elle mesmo abrir e entre
-admirado e contente se mostrou ao dar de rosto com Frei Domingos do
-Amor-Divino. Não teve mão em si que, ao conduzir para a sala o carmelita,
-não fôsse gritando com alegre alvoroço:
-
-—Anda cá, Maria, anda cá. Está aqui o nosso vizinho Frei Domingos; não te
-demores, anda de pressa...
-
-D. Maria d’Assumpção acudiu pressurosa ao clamoroso chamamento e, quando
-encarou no marido que embraçava ainda as flores, pediu desculpa após
-desculpa de tão descerimoniosa recepção.
-
-Frei Domingos respondeu com jovialidade:
-
-—Com flores me receberam; não pode haver mais galhardo acolhimento.
-O snr. João Nicolau está-me fazendo recordar agora d’uma passagem de
-Salomão. Ora lá vae e tenham paciencia; isto é veso incuravel de frade
-velho: «Desci ao jardim das nogueiras para vêr os pomos dos valles e para
-examinar se a vinha tinha lançado flor e se as romãs tinham brotado». Foi
-o sr. João Nicolau vêr as flores do seu jardim e mimosas as encontrou, a
-julgar pelas que trouxe. Não ha, pois, razão para desculpas e não falemos
-mais n’isso.
-
-—Ó sr. Frei Domingos, replicou João Nicolau, nunca eu desço ao quintal
-que não sinta um peso na alma ao deitar os olhos para as torres do Carmo.
-Ai que tristes recordações!...
-
-—Não podes falar n’outra coisa! atalhou D. Maria d’Assumpção.
-
-—Não me molesta, antes me consola o assumpto, respondeu Frei Domingos.
-É sempre doce para o coração d’um filho ouvir falar da casa paterna; e
-tanto eu quero ainda áquelle tecto, que me fiquei por aqui para o estar
-namorando a toda a hora...
-
-—Perseguirem os frades! regougou João Nicolau. Que mal lhes faziam? Não
-houve delicto de que os não accusassem!...
-
-—Não sejamos tão severos, não sejamos. Nos conventos, como em todas as
-sociedades, havia trigo e joio.
-
-—Isso assim é, acudiu João Nicolau. Lá diz o que escreveu _Os frades
-julgados no tribunal da razão_[8], curioso livrinho que tenho alli, lá
-diz elle: «A primeira familia do mundo teve um Caim».
-
-—Bem disse o auctor e com verdade falou. No convento havia homens e
-por tal razão idéas e sentimentos diversos. Mas entre tantas cabeças
-e tantos corações alguma cabeça haveria que pensasse reflectidamente,
-algum coração haveria propenso ao bem e ao justo. A obra d’esse varão
-aproveitaria ao mundo. Muito melhor o diz o livro sagrado: «Pequena é a
-abelha entre os animaes volateis, e com tudo isso logra o seu fructo a
-primazia da doçura»[9].
-
-D. Maria d’Assumpção escutava enlevada e ao mesmo tempo compadecida das
-angustias do frade.
-
-—Tudo quanto havia de bom, fora e dentro dos conventos, tudo a guerra
-nos levou, ponderou João Nicolau. Perderam-se vidas, correram rios de
-sangue, consumiu-se, matou-se, espoliou-se... As consequencias fôram
-tristes como os factos.
-
-—Sou extranho a tudo o que respeita a politica; no convento desconheci-a
-sempre; fora do convento egualmente a desconheço.
-
-—Ler a historia da guerra civil, disse João Nicolau, é doloroso; feliz
-quem se puder forrar a semelhante leitura.
-
-—D’essa historia, respondeu Frei Domingos, sei apenas que o sr. D. Pedro
-era um principe portuguez, que já morreu e que o sr. D. Miguel, seu
-irmão, é outro principe que vive em terra extranha.
-
-—Pobre e saudoso, elle, o sr. rei, o rei legitimo, como provou José
-Agostinho, como provou Frei Matheus da Assumpção, e como provaram tantos
-outros!
-
-—Pobre e saudoso se me afigura que deve viver. Mas, exclamou Frei
-Domingos com ar prazenteiro, fechemos as chronicas nacionaes que estão
-ainda a rever sangue. É tempo de expor o motivo que me levou a entrar na
-casa desconhecida...
-
-—Muito prazer nos deu a sua visita, sr. Frei Domingos, apostrophou D.
-Maria d’Assumpção.
-
-—Não sabe quanto me apraz relacionarmo-nos! accrescentou João Nicolau.
-Espero que continuará a dar-nos o gosto de o vermos e ouvirmos. E depois
-tenho cá um meu neto que anda no Seminario e que precisa de pedir sombra
-a boa arvore. O sr. Frei Domingos sei eu que não se recusa a uma obra
-piedosa.
-
-—Nada sou e nada valho. Se não é molesta a minha presença, virei. Não
-ha melhor asylo do que o aposento do varão honesto e honrado. Ah! mas
-reatando a conversa... Costumam alguns corações piedosos encarregar-me,
-n’esta grandissima festa do Nascimento, de distribuir esmolas por
-pessoas realmente carecidas. Sempre é bom prevenir, e mais sabem tres do
-que um. Não tem o snr. João Nicolau pessoa de suas relações que se veja
-em estado d’acceitar a moeda abençoada da caridade?
-
-—Oh! sr. Frei Domingos! A sua lembrança penhora-nos! exclamou D. Maria
-d’Assumpção. Temos, sim, senhor. A Joaquina, que fez em tempo os recados
-da nossa casa, está pobre e entrévada ha dois annos e, se lhe não valesse
-o auxilio da caridade, já teria morrido de doença e miseria.
-
-—É verdade, a Joaquina! bem empregada esmola! confirmou João Nicolau.
-
-—Pois esperemos o Natal, e da colheita repartiremos pela entrevada
-Joaquina, perorou Frei Domingos, levantando-se para sahir.
-
-Á despedida, João Nicolau e D. Maria d’Assumpção reiteraram instancias
-que demovessem o frade a prometter nova visita e, quando elle transpunha
-o limiar, ficaram ambos dizendo:
-
-—Frei Domingos é uma santa alma!
-
-As mesmo tempo ia monologando o carmelita:
-
-—_Dominus Deus auxiliator meus_[10]. Deus me guiará pelo caminho
-appetecido.
-
-
-
-
-XXII
-
-
-—Temos passado as férias,—disse D. Maria d’Assumpção a João Nicolau, sem
-darmos um unico passeio! Eu acho que já estou trôpega. Nada! É preciso
-aproveitar estes dois dias. Em se abrindo as aulas, começa a gente a
-cabecear com somno como se a casa fôsse de ermitões. E agora, que são
-férias, parece que tambem era prohibido falar em passeios para não
-distrahir o nosso estudante!...
-
-—Ó mulher! tu não tens lembrado... Eu estou por tudo.
-
-—Pois não vês que este rapaz, de genio triste, não pode supportar
-semelhante viver de velhos?
-
-—Olha que é preciso educal-o para a vida que ha de levar. A vida do bom
-sacerdote deve ser a vida do descanso e da meditação... Põe os olhos em
-Frei Domingos...
-
-—Pois quando elle fôr padre, falaremos. Guiemol-o por bom caminho, mas
-não o opprimamos. A oppressão dá causa, por via de regra, á reacção.
-
-—Reagir, elle! Não se reage contra as proprias inclinações. Em tempo
-pareceu-me que era avesso á carreira ecclesiastica. Hoje estou
-completamente convencido de que sonha com as glorias do pulpito e com o
-renome conquistado pelas suas homilias futuras. É que o chama para alli o
-coração, e esta coincidencia de encontrar o animo do Eduardo affeiçoado á
-minha vontade, só a Deus a posso agradecer. Por isso, para satisfazer aos
-deveres que me aconselha a consciencia, é que já lhe comprei outro dia os
-sermões do Padre Antonio Vieira...
-
-—Por mais audaciosas que sejam as aspirações do rapaz, por maior que seja
-a sua tendencia para a vida ecclesiastica, sempre te direi que a leitura
-de sermonarios deve ser muito indigesta para um espirito de dezesete
-annos.
-
-—Sim! hei de talvez dar a ler essa praga de romances, que se introduziu
-em Portugal ha poucos annos, a um rapaz que eu educo para ser um padre
-digno dos respeitos da sociedade! Que mau padre não o quero eu. Prefiro
-vel-o morrer. Frei Domingos é o typo que eu escolho como padrão do bom
-clerigo.
-
-—Ora essa! Pois tu imaginas que ha muitos Frei Domingos?! Uma alma assim
-manda-a Deus á terra para allivio dos infelizes.
-
-—Não digo que seja egual, que eu sou o primeiro a reconhecer em Frei
-Domingos virtudes excepcionaes. Ninguem tem por elle mais respeito e mais
-dedicação do que eu. Quero porém que o exemplo do nosso vizinho aproveite
-á sociedade; bem sabes que deve ser de bençãos a sombra d’aquella arvore
-veneranda.
-
-—Disseste «sociedade» e querias referir-te ao Eduardo. Percebi a tua
-intenção. Pois se tu dissesses a Frei Domingos: «Tenho aqui encarcerado a
-sete chaves este rapaz de dezesete annos, só para que não se acalente ao
-sol do mundo» verias como elle te havia de responder: «Deixe-o entregue
-ás alegrias castas da sua idade, e não opprima o coração delicado.»
-
-—Ó mulher! pois eu opponho-me? Valha-me Deus! Passeiemos. Já agora
-encarreiramos para o Bom Jesus. Pois vamos lá; e se queres ir para outro
-sitio, dize.
-
-—Vamos ao Bom Jesus que é mais commodo e menos dispendioso. Vamos lá
-depois d’amanhã passar o dia. Visto que está em costume, mando dizer ás
-Machados.
-
-—Pois manda. Depois não me chames ermitão...
-
-D. Maria d’Assumpção vingára o seu proposito. O que ella queria era
-alliviar por um momento as sombras espessas que ennoiteciam dia a dia,
-cada vez mais, a alma do neto. Tanto lhe bastava, e para isso era preciso
-não dissipar as illusões do marido, o que seria o mesmo que fazer
-subitamente estalar uma tempestade. João Nicolau, inimigo figadal do
-romantismo, andava acumulando de velharias mysticas a estante de Eduardo.
-
-A pobre senhora conhecia a inconveniencia, mas nem se oppunha, nem sequer
-mostrava desagrado. Esperava em Deus. Era para o Céo que ella appellava
-na impossibilidade de suster a marcha de acontecimentos a que era
-contraria.
-
-A antipathia de João Nicolau pelo romantismo, aquelle odio explosivo
-votado ao romance tal qual o architectára Garrett no _Arco de Sant’Anna_
-e principalmente na historia da Joanninha das _Viagens_, póde explicar se
-ainda pela cega dedicação a José Agostinho de Macedo e á seita litteraria
-seguida pelo auctor da _Viagem extatica_.
-
-Tudo o que não fosse a declamação emphatica vasada nos velhos moldes
-aristotelicos, era somenos para João Nicolau. Bem se lembrava elle
-de que o seu auctor favorito escrevera: «Depois da praga gazetal o
-_romancismo_ é a peste litteraria, que mais tem grassado por toda a
-Europa. Assim que W. Scott, e o Byron em Inglaterra, e em França seus
-macaquinhos, Lamartine, d’Arlincourt, Victor Hugo e outros de igual jaez
-publicaram seus monstruosos delirios, logo houve em Portugal quem os
-imitasse.» Estas palavras, e as mais que se seguem, e não nos permittimos
-transcrever, acepilhadas de quejandas blasphemias, eram doutrina corrente
-e moente para o velho absolutista.
-
-D’aqui, e da esperança de vêr o neto prégador da real capella, provinham
-as frequentes compras de sermonarios e chronicas milagreiras para a
-estante, dia a dia enriquecida, do filho do bacharel.
-
-No quarto de Eduardo Valladares havia, porem, um livro não recheado de
-erudição fradesca nem modelado pelos velhos paradigmas litterarios.
-Esse era o livro querido, o livro sempre lido, sempre veneno e sempre
-balsamo: era o _Eurico_, do sr. Alexandre Herculano. João Nicolau,
-indifferente senão adverso aos applausos que esta obra notavel
-despertara, suppunha o neto, por via de regra, absorvido em leituras
-devotas, á hora em que elle aliás estava vendo a sua alma no espelho em
-que se projectava o perfil do presbytero de Carteia.
-
-Não era Eurico um desgraçado como elle ou elle um desgraçado como Eurico?
-
-Ambos amavam, ambos soffriam, ambos choravam, e ambos podiam perguntar a
-si mesmos: «Que fôra a vida se n’ella não houvera lagrimas?»[11]
-
-A viuva Machado, convidada de vespera para tomar parte no passeio ao _Bom
-Jesus_, respondeu que gostosamente iria se, d’um dia para o outro, se
-não aggravassem uns leves incómmodos que todavia a não deixavam sahir.
-D. Maria d’Assumpção ficou muito contrariada, mas não era conveniente
-transferir o passeio, e foi.
-
-Eduardo Valadares chegou á floresta do Bom Jesus com o coração
-despedaçado. Era a primeira vez que alli entrava sem Maria Luiza, e a
-folhagem verde da encosta, quando elle passava, parecia murmurar este
-nome; d’aqui o olhar para si mesmo e fugir apavorado da solidão dolorosa
-da sua alma. Mas o que era isto, esta saudade ao mesmo tempo suavisada
-pelas doces recordações que lhe eram socias, o que era esta triste
-solidão a par da solidão perpetua a que a sua alma se via condemnada;
-das infinitas dores curtidas nas longas horas das noites de vigilia, das
-lagrimas choradas, das esperanças para sempre perdidas, das lacerantes
-recordações que elle em vão tentaria abafar, e que de si mesmas
-resurgiriam, umas após outras, no espirito do presbytero?
-
-Insensivelmente foi procurando o trilho da Mãe d’agua; ia-o guiando o
-coração, sem que elle désse por isso.
-
-Era aquella a mesma alameda, aquella a mesma cupula de verdura, o
-mesmo cedro em cujo cortix entalhara as iniciaes M. L., o mesmo ar
-cheio de murmurios, a mesma corrente suspirosa, a mesma sombra e a
-mesma suavidade. Mas faltava ella, a doce companheira, a visão formosa
-d’aquella tão doce estancia, e a solidão era triste, pesada, esmagadora.
-
-Um livro, o livro de todos os dias, de todas as horas, fôra mais uma vez
-aberto no momento em que mais era preciso.
-
-Eduardo Valladares folheava o _Eurico_, e os seus olhos deletreavam estas
-palavras:
-
-«Outras noites, em que mais tranquillo podia a sós comigo engolfar-me
-nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha interpôr-se entre mim e a
-lampada mortiça que me allumiava, e o hymno do presbytero de Carteia, que
-devia talvez escrever-se nos livros sagrados das cathedraes de Hespanha,
-ficava incompleto, ou terminava por uma blasphemia secreta; porque te
-via tambem sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz com o teu amor, e eu
-tinha então sêde... sêde de sangue... Era uma lenta agonia! E sempre tu
-ante mim: nas solidões das brenhas, na immensidade das aguas, no silencio
-do presbyterio, nos raios esplendidos do sol, no reflexo pallido da
-lua, e até na hostia do sacrificio... sempre tu!... e sempre para mim
-impossivel!»
-
-—Impossivel! repetia Eduardo Valladares. Impossivel!
-
-E no seu hombro pousára a mão d’alguem que elle não vira.
-
-Quem era?
-
-
-
-
-XXIII
-
-
-Era ella, Maria Luiza.
-
-Eduardo Valladares, por um momento, julgára sonhar. Todavia o seu
-anjo adorado, entre o qual e elle se ia cavar o abysmo insondavel do
-impossivel, estava alli, soluçante, convulso, com os olhos merejados de
-lagrimas.
-
-A viuva Machado, restabelecida da ligeira indisposição da vespera,
-accedera ás instancias das filhas e resolvera ir, posto já não pudesse
-acompanhar D. Maria d’Assumpção.
-
-O moço seminarista, na violenta sobreexcitação que o agitava, deixara
-assomar aos labios a tempestade que lhe refervia na alma.
-
-—Impossivel! murmurava elle. E sabes tu o que é o impossivel? Sabes o
-que é a distancia infinita que separa o reprobro da estrella polar que
-elle vê através das reixas do carcere? Sabes o que é morrer abafado na
-propria dôr, na dôr que não tem linitivo, que não tem cura, que não tem
-um só momento de repouso, um só instante d’esquecimento? Pois bem, entre
-nós que nos amamos e que vivemos a mesma vida, vai abrir-se a voragem do
-impossivel, como se dissesse que vai sentar-se o espectro da morte, para
-o vêrmos a toda a hora em glacial immobilidade, sem querer condoer-se
-das nossas afflicções. Morrer! Que influxo benefico não coaria a morte
-aos nossos corações calcinados por metal candente! Que felicidade não
-sorri na morte ao desgraçado! Será fraqueza pedil-a? Pois se o coração
-trasborda de lagrimas como o oceano na tormenta, pois se a alma foge de
-si mesma amedrontada, como do espectaculo sombrio d’um tumulo aberto,
-porque não hade perdoar o Deus de misericordia a quem fica prostrado
-na via dolorosa exclamando: Senhor! os meus olhos cegaram de chorar;
-illuminae em troca a minha alma com o resplendor das vossas eternas
-auroras?! Não sabes tu que o Salvador da humanidade, alanceado o coração
-de supremas angustias, elevava o seu espirito attribulado ao Deus das
-alturas, cujo filho era, exclamado exhausto: «Meu Deus, meu Deus, porque
-me desamparastes?» E não havemos nós, corações terrenos, pedir ao Céo, na
-cerração da vida, que nos aproxime do tumulo, da porta que se abre sobre
-nós dando passagem aos fulgores inextinguiveis da eternidade?
-
-Maria Luiza, pendida sobre o hombro de Eduardo Valladares, orvalhava-lhe
-as faces de lagrimas abrasadoras.
-
-Sentira-as elle, e procurara dominar os impetos da sua alma,
-envenenando-a com o trago das lagrimas reprimidas.
-
-—Choras! E sou eu, e é o meu amor que te enche os olhos de pranto! Tremo
-da justiça dos Céos, Maria! Quem me deu a mim o insolito direito de te
-lembrar que tambem és desgraçada? Como ouso eu arrancar as flores da tua
-esperança, para calcal-as aos pés, sem me lembrar de que estou calcando
-com ellas o teu amantissimo coração. Oh! sim, tu esperas, não é verdade?
-Não é certo que tens no thesouro da tua alma a esperança que me offereces
-e queres repartir comigo? Enganares-me tu... Não, não, perdoa-me o que ha
-de injustiça n’estas palavras. Se a esperança ou se Deus, que tudo vem a
-ser o mesmo, te houvesse desamparado, não ousarias insinuar-me nova fé
-com receio de que eu descobrisse a verdade, a verdade negra e terrivel,
-sob os teus hymnos de mentirosa crença... Tu esperas, não é verdade?
-Deus, que formou de essencia divina as almas dos anjos como tu, não podia
-roubar-lhes a esperança, condemnando-as ao desespêro dos réprobos... Não
-chores...
-
-—Não choro. Promette tu dominar a exaltação do teu espirito, que eu
-prometto não provocal-a de novo com as minhas lagrimas. Chorar eu! Passou
-acaso no nosso coração o sôpro devastador da descrença? Só os que não
-esperam, os que não crêem, é que choram, por que esses devem ser muito
-desgraçados, pois não devem?
-
-E rolavam-lhe pelas faces copiosas lagrimas, como se Maria Luiza nem
-sequer soubesse que estava chorando e desvendando os dolorosos segredos
-da sua alma.
-
-—Ah! pois tu choras! Estás involuntariamente denunciando com as tuas
-lagrimas que tambem és desgraçada, porque não esperas, porque não crês...
-
-—Meu Deus! Eu enlouqueço! Dizes-me que choro e não sinto as lagrimas!...
-
-—É que a tua alma verga n’este momento ao peso d’um presentimento que a
-domina, e que ella está revelando sem que tu mesma tenhas consciencia da
-propria existencia. Ah! como nós somos ambos infelizes, meu amor. Bem m’o
-dizia o coração, bem m’o disse ainda ha pouco, antes d’abrir este livro,
-n’um momento que não sei se foi de sonho se de meditação. Meditação, não;
-não foi. Eu estava quasi adormecido... Meditação, não. Queres que te
-conte o meu sonho, como o estou recordando n’este instante?
-
-—Oh! conta, conta...
-
-—Um camponez, que tinha vivido expatriado em longes terras, privado dos
-carinhos da esposa, saudoso dos filhos que deixara no berço, do torrão
-que o vira nascer, da cabana onde amara e vivera, das serras da sua
-patria, de tudo o que é doce e consolador, voltava em demanda do tugurio
-querido, e a todas as horas recordado, após os lacerantes soffrimentos
-d’um longo exilio. Quando vinha transpondo a serra do tôpo da qual se
-avistava a sua cabana, coberta de colmos como a tinha deixado, desciam
-do céo as sombras da noite e, quanto mais veloz elle caminhava, mais o
-arvoredo se perdia n’um fundo negro. Era a noite que descia. Fumegavam ao
-longe as casas d’aldeia disseminadas na encosta; a sua tambem. Áquella
-hora devia estar repartindo a triste mãe com as desmimosas creanças o
-pão da ceia amassado nas lagrimas de todos os dias. Elle, o caminheiro,
-vinha descendo a encosta, offegante e quasi exhausto. A sua choupana
-ficava na vertente fronteira. Entre a aldeia e a serra corria um rio,
-largo e caudaloso, que mugia no valle engrossado pelas chuvas torrencias
-do inverno. Era preciso chegar á ribeira antes do barqueiro ter amarrado
-a barca do outro lado. «Depressa!» dizia o caminheiro a si mesmo. E não
-corria, voava. A meia encosta, chamou. Ninguem respondeu. Brilhou-lhe nos
-olhos um clarão de desespero. A barca da passagem estava decerto amarrada
-a um salgueiro da outra margem, e já o barqueiro devia ir em caminho do
-seu palheiro que ficava ao centro da povoação. Afflicto, desesperado,
-chamou, gritou.
-
-O sussurro da corrente impetuosa abafava a sua voz, tanto mais debil,
-quanto maior era a commoção. Depois...
-
-—Depois?
-
-—Via fumegar ainda no tôpo da serra fronteira o tecto do seu lar, e
-uma voz interior lhe estava dizendo que no coração de sua pobre mulher
-passava, n’aquelle instante, o presentimento de que nunca mais o tornaria
-a vêr. Como ella havia de reprimir a sua dôr, para que as pobres
-creanças a não vissem chorar e lhe perguntassem: «Virá hoje, virá?» Que
-alegria, que felicidade se elle os pudesse ouvir, e vêr, e abraçar para
-dizer-lhes: «Aqui está o vosso pai; eil-o aqui está». E a escuridão da
-noite era cada vez mais profunda e o estrepito das aguas tinha um não
-sei que de lugubre que punha medo. O fumo branco das casas d’aldeia foi
-rareando a pouco e pouco. Dissipou se lentamente a coluna ondulante que
-sahia do seu tecto. Acabava a ceia. Iam adormecer as crianças, sem terem
-sido abençoadas pela mão paterna. E, recolhidos os pequenos, deitava-se
-a mãe para desvellar as horas da noite em mil tumultuosos pensamentos. E
-elle separado de tudo isto, dos seus filhos, da sua mulher, do seu lar,
-por uma barreira que não podia transpôr e que se não abria para lhe dar
-passagem, como as aguas do mar Vermelho, por mais dolorosos que fossem
-os seus gritos, por mais impias que fossem as suas blasphemias! Aqui
-tens o impossivel, Maria; o impossivel é tudo isto, este desespero, este
-abrasar da alma em lavas incandescentes. Um genio mau desenhou decerto
-este quadro d’incomparavel afflicção para que eu experimentasse o duplo
-martyrio de vêr e sentir, deixando ao meu espirito, meio adormecido,
-o trabalho de, quando despertasse, procurar a relação que para logo
-denuncía que este desespero é o seu proprio desespero, que este inferno é
-o seu mesmo inferno.
-
-Maria Luiza soltou um grito d’angustia; Eduardo Valladares ficou
-extremamente prostrado d’aquella dolorosa excitação.
-
-—Meu Deus! murmurára ella vendo-o com a cabeça febril mal amparada nos
-braços tremulos.
-
-—Meu Deus! repetia elle em brando echo. Não fujas de mim, doce amor,
-e pede ao teu Deus, que é tambem o meu, que me perdoe estes desvarios
-d’uma alma atormentada. Enlouqueceu-me a dor. Perdôa-me tu; que Elle, o
-Senhor de misericordia, me perdoará tambem. Não fugas de mim como se
-foge do precito. Desde que minha mãe infiltrou na minha alma o balsamo
-sacratissimo das doces orações da infancia, conheço e amo Deus. Depois,
-desde que sigo o rumo da minha desventurosa estrella, sempre o invoco em
-horas de desconfôrto e afflicção. Vale-me, Tu, Senhor! que abençôas os
-que choram.
-
-
-
-
-XXIV
-
-
-Frei Domingos do Amor-Divino anciosamente esperava os óbolos da caridade
-para repartil-os pelos pobres, no numero dos quaes devia incluir-se a
-cega designada por D. Maria d’Assumpção.
-
-Chegou o Natal, e o virtuoso carmelita recebeu, de procedencia
-anonyma, duas cartas contendo dinheiro destinado a enxugar por alguns
-dias as lagrimas de dois indigentes. Frei Domingos rasgou o primeiro
-involucro com intima satisfação, que no doce fulgor dos olhos se estava
-manifestando. O papel que continha a moeda consagrada á beneficencia,
-trazia esta restricção:—_Para uma viuva_. Aberto o segundo involtorio,
-que encerrava um _soberano_ inglez, leu Frei Domingos o seguinte:—_Um
-cego, que deve á Providencia o não ser tambem necessitado, pede que seja
-entregue a outro cego, mais infeliz do que elle_.
-
-Estas palavras commoveram a lagrimas o carmelita, que relanceou ao seu
-Christo de marfim um olhar afogado em pranto, murmurando ao mesmo tempo:
-
-—Abençoado seja o nome do Senhor, que por tal modo e com tamanhos dons
-abastece a colheita dos pobres! É ao Céo que eu peço me ensine o
-trilho por onde possa ir direito á mais necessitada cegueira, e á mais
-desamparada viuvez.
-
-Ajoelhou, com as mãos postas, e por largo tempo ficou a orar.
-
-Depois sahiu, indagou, examinou e, ao cabo de dois dias de trabalhosas
-investigações, depositou nas mãos d’um cego e d’uma viuva, que mais
-carecidos lhe pareceram, o dinheiro da caridade.
-
-Quando recolheu ao cubiculo da rua do Carvalhal, era noite cerrada.
-Acudiu a recebel-o, com a sua habitual expressão de estima e
-reconhecimento, uma velhinha que lhe cosinhava a frugal collação e que,
-se não fôra o amparo de Frei Domingos, teria morrido de fome pouco depois
-de cahir varado por um pelouro nas linhas do Porto o filho que lhe era
-esteio.
-
-O carmelita encarou n’ella, viu-a radiosa como sempre, e apostrophou com
-semblante prazenteiro:
-
-—Alegre a vejo sr.ᵃ Gertrudes, e a Deus agradeço o encontral-a em
-disposição d’ánimo que favorece o meu designio.
-
-A velhinha quedou se a olhal-o com surpreza; Frei Domingos continuou:
-
-—Que me responderia a boa Gertrudes, se eu houvesse de dizer-lhe:
-«Precisamos de dar metade do nosso pão, durante alguns dias, a quem mais
-carece d’elle do que nós?»
-
-Gertrudes achegou-se do carmelita e disse com tanta alegria quanta
-commoção:
-
-—Olhe que não sabia o que o snr. Frei Domingos queria dizer! Eu feliz
-vivo, e a minha felicidade chamou-a do Céo para a menos merecedora das
-creaturas o sr. Frei Domingos. Do pão que recebo e que me aproveita mais
-do que a riqueza aos ricos, sempre cresce e, se não crescesse, todo o
-daria para alliviar miserias que, Deus louvado! não conheço.
-
-—Nós somos ricos, sr.ᵃ Gertrudes, nós somos ricos, porque desconhecemos
-a pobresa. «Mais vale um pequeno boccado de pão sêcco com alegria
-que uma casa cheia de victimas com pelejas»[12] são palavras santas,
-que não falham. Esta é a verdadeira riqueza. Tudo o mais é cuidado e
-inquietação. Façamos pois economia durante alguns dias e, passados elles,
-verá como havemos de sentir-nos mais contentes. É que realmente estamos
-esperdiçando, e não é assim que se agrada a Deus. Repartamos, pois, com
-os pobres, e aproveitemos em vez de esperdiçar.
-
-No dia seguinte, foi Frei Domingos abrir a gaveta depositaria das
-mealhas que lhe pareciam sobejas ás suas necessidades. Montava o peculio
-a novecentos e sessenta réis, um thesouro de dois cruzados novos
-embrulhados em papel branco. Tirou-os da gaveta para o bolso, pôz o
-chapéo, desceu as escadas e entrou no portal de João Nicolau.
-
-O sogro do bacharel Valladares e D. Maria d’Assumpção receberam Frei
-Domingos com sincero contentamento, lamentando apenas que tivessem
-decorrido alguns dias sem que lhe aprouvesse visital-os.
-
-—É que eu queria dar boa conta de mim e dos meus negocios, respondeu
-o carmelita. Depois receava que a presença d’um intruso fosse de mais
-n’estas festas que commemoram os grandes acontecimentos do christianismo
-e servem ainda, e sempre servirão, para estreitar os laços de cada
-familia reunida no seu lar. N’este quadro de intimas alegrias era de
-certo importuno um frade velho como a Sé da nossa Braga, perorou,
-sorrindo Frei Domingos.
-
-—Estou capaz de dizer... pronunciou a medo D. Maria d’Assumpção.
-
-—Pois dize, dize, e com isso responderás aos infundados receios do nosso
-vizinho, atalhou do lado João Nicolau.
-
-—Visto que me auctorisas, sempre ousarei fazer uma confissão. Pode
-acreditar o sr. Frei Domingos que tivemos ambos a lembrança de lhe pedir
-que viesse honrar a nossa modesta consoada. Receamos incommodal-o, e não
-nos atrevemos...
-
-—Beijo lhes as mãos pela immerecida attenção; confesso-me penhorado como
-se tivera recebido e acceitado o convite.
-
-Mas por que não ha de vir mais a miude, replicou João Nicolau, por que
-não ha de, visto que estamos tão perto, vir tomar o chá comnosco? Nem o
-nosso Eduardo viu ainda o sr. Frei Domingos!
-
-—Infiro d’ahi que tem sido feliz o neto de v. s.ᵃ. Olhe que realmente
-parlandas de frade não são para se ouvir a pé quedo, e muito menos por
-gente nova.
-
-E, galhofando sempre, entregou a D. Maria d’Assumpção os novecentos
-e sessenta réis, que para elle e para a velha Gertrudes eram pecunia
-sufficiente para o passadio de alguns dias.
-
-João Nicolau não o deixou sahir sem que primeiro aprazasse nova visita.
-Frei Domingos prometteu voltar em dia determinado, e desempenhou a sua
-palavra. Á terceira visita encontrou se com Eduardo e lera-lhe nos olhos,
-sempre banhados em melancholia, as muitas amarguras que faziam noite
-escura n’aquelle coração de dezesete annos.
-
-O filho do bacharel, por sua parte, esqueceu-se de si mesmo enlevado na
-suavidade que recendiam as palavras de Frei Domingos. O desaffrontar-se
-por um momento da cerração que lhe opprimia o peito, foi para Eduardo
-Valladares consolo que deixou após si gratissimas impressões. Livrára-o
-a Providencia de lembrar se de que aquelle homem, cuja serenidade d’alma
-se reflectia no olhar, tinha vestido o habito de frade e poderia ter
-amortalhado n’elle um coração ferido pelas desgraças da terra. Não
-lhe lembrou isto, e por tanto não rompeu clamoroso contra a voz da
-oppressão que diz «Morre, despedaçando-te» ao coração opulento de seiva
-e esperança. No que pensou foi na serena alegria d’aquella alma, que em
-vez de se sentir retransida pela nortada do tumulo, já proximo, refloria
-em amenidades bafejando lenitivos ás pallidas flores d’uma primavera
-desconfortada. Aquelle homem entremostrou-lhe Deus—o Deus a quem
-invocavam as doces orações da sua infancia, o Deus que adorava no templo
-e em toda a parte onde podia vêr o Céo, o Deus que elle chamava quando
-mais se condensavam as trevas no horizonte da sua mocidade.
-
-Viu-o, examinou-o com olhar perscrutador e disse de si para si:
-
-—Se eu fôsse assim, não era decerto tão desgraçado.
-
-Amiudáram-se as visitas de Frei Domingos. Rodrigues d’Abreu perguntou-lhe
-d’uma vez se tinha esperança de restituir a um coração de dezesete annos
-as alegrias proprias da sua edade.
-
-Frei Domingos sorriu placidamente e disse:
-
-—Tenho. A si devo e a Deus o sentir ainda no coração o influxo benefico
-d’uma esperança: a de procurar a felicidade para quem a não tem.
-
-
-
-
-XXV
-
-
-Eduardo Valladares tinha em 1852 dezesete annos.
-
-Estou a lembrar-me d’isto, e a perceber que uns sujeitos maiores de
-trinta annos, e umas senhoras que devem á acção do fluido transmutativo o
-envelhecer com os cabellos pretos, lançam um olhar de desdem para a futil
-historia do filho do bacharel Valladares.
-
-Para estes corações apodrentados, se é que para taes creaturas o coração
-é mais alguma cousa do que o centro das funcções sanguineas, o amor
-dos dezesete annos deve ser uma creancice piegas apenas admissivel na
-conversação de meninas da mesma edade, que andam delineando os poemas do
-coração suspensas entre as saudades das bonecas e os receios de não serem
-convidadas para a valsa que redemoinha na sala.
-
-Não sei agora ao certo que idade tinha Romeu quando levantou olhos para
-Julieta; do Paulo, de Saint-Pierre, lembro-me que tinha a mesma altura
-de Virginia; o Simão Botelho, do _Amor de perdição_, do nosso Alexandre
-Dumas, vamos encontral-o aos dezeseis annos; o Pedrinho, dos _Contos ao
-luar_, de Cesar Machado, é uma creança.
-
-Achei que estes modelos eram bons. Procurei no coração humano, para
-estudal-a, a fibra menos corroida, e deparou-se-me uma unica—a que
-resumava a seiva dos dezeseis annos.
-
-Um sujeito de vinte, que andava suspirando no violão serenatas á mulher
-adorada, e se dizia capaz de comprehender o que no amor póde haver
-d’ethereo, dias depois de resvalar ao tumulo o anjo querido que elle
-desposara, garbosamente refreava os galões d’um cavallo comprado com as
-economias provaveis do primeiro anno de viuvez. O coração dos vinte annos
-fazia isto, dispendia na farta ração d’um cavallo de raça o que faltara
-talvez á gentil esposa tão longo tempo requestada.
-
-A viscera amorosa dos cincoenta annos affigurou-se-me gangrenada ao
-estremo de inspirar terror. A historia do cynismo, que arremessa á
-face da innocencia a moeda doirada da corrupção, é revoltante para se
-offerecer a todos os paladares.
-
-Determinei os extremos—os vinte e os cincoenta annos. A estrada
-interposta a estes dois marcos, recortada de charcos immundos, deve
-deixar enlodados os pés do que a percorrer com o vagar indispensavel a
-quem tiver de fazer relatorio da trabalhosa peregrinação.
-
-Não invejo a gloria de certos romancistas victoriados pelas multidões.
-Só elles sabem o que ha de doloroso em vencer a repugnancia natural que
-leva o espirito, iriado da luz das suas auroras, a fugir do esterquilinio
-que vapora exhalações mephiticas. E que improficuo trabalho! A humanidade
-vê no espelho do romance o que ella mesma tem de hedionda, e não cora
-nem se rehabilita; passa adeante, deixando ao desfortunoso trabalhador a
-consolação de labutar noite e dia para não morrer de fome.
-
-Não serei eu que vá mergulhar nas trevas que ennoitecem os hypogeus
-sociaes para dizer á humanidade: «Aqui estão as tuas nodoas, lodo; aqui
-está a tua negrura, sombra!»
-
-No mais profundo antro sempre entra um raio de sol a cujo esplendor
-scintillam as concreções vitreas da abobada. Em vez de medir a extensão
-do antro, quero sentar-me á entrada, onde chegue a luz, e onde possa vêr
-o cristal das stalactites rutilar em formosas cambiantes.
-
-Poderão dizer: A humanidade não é só isso, a humanidade não é apenas o
-cristal que se doira. Certo é. Mas a humanidade tambem não é só o que vós
-pintaes, ó pintores de quadros negros; a humanidade não é só o cynismo, a
-dobrez, e o lodo.
-
-E eu entrei no antro escuro da humanidade, e tive medo das sombras que
-se condensavam ao fundo. Parei. O sol que tremeluzia nos cristaes da
-rocha, era limpido e formoso. Deslumbrou-me. Não arrisquei mais um passo;
-quedei-me a contemplal-o.
-
-Coração dos dezeseis annos, não és tu puro como os relevos crystallinos
-que resaltam do tecto anfractuoso d’uma gruta?
-
-Os que já se internaram na escuridade, os que perderam a memoria com o
-coração e com a consciencia, esses, cadaveres condemnados ao supplicio da
-vida, já não comprehendem o que seja o estremecer das rosas no roseiral
-ao bafejo da viração matutina.
-
-Uma coisa que sobremodo me admira é que os rapazes de hoje suffoquem
-a voz do coração, que está modulando o poema dos vinte annos, para
-raciocinarem friamente, sentados em ruinas como Volney, até chegarem ao
-scepticismo, á duvida, ao nada; até murmurarem com Voltaire na satira a
-Luiz XIV:
-
- _J’ai vu ces maux et je n’ai pas vingt ans._
-
-Quem é que aos vinte annos não vae depôr a sua mocidade, como novello
-de espuma, na mão rosada d’uma mulher, que a pode desfazer, comprimindo
-os dedos, ou que tem o capricho de a fazer brilhar com as esplendidas
-fulgurações de um cristal, se lhe deu um raio d’amor?
-
-Creio que todos. Os que não fizerem isto são anomalias. Deus me livre de
-homens que não teem de homens nem o coração.
-
-O amor é o sol e eu sou como todos os fructos verdes: preciso de sol para
-amadurecer.
-
-É por isso que leio e releio, sem me cansar, o _Raphael_ e a _Graziella_,
-de Lamartine; a _Chave do enygma_, de Castilho; o _Livro d’Elisa_, de
-João de Lemos; o _Paulo e Virginia_, de Saint-Pierre; os _Idyllios da
-rua Plumet_, dos _Miseraveis_; a _Menina dos rouxinoes_, das _Viagens_,
-de Garrett; o _Thomas dos passarinhos_, de Rodrigo Paganino, e muitos
-outros poemas de amor que consolam a alma, e que se nos dão o seu tanto
-de tristeza, é uma tristeza tão suave, que chega a ser deliciosa. Estes
-livros, que são balsamo e crença, quero lel-os e compraria a trôco da
-vida a gloria de os escrever.
-
-Namora-me esta litteratura que delicía a alma. Ha livros que deixam
-remorsos de se haverem lido. Esses não os quero eu. Para que hei de
-sentir ferida a consciencia nos poucos momentos que destinava para
-descanço do espirito? Livros dos que retalham o coração lê-os a gente
-por ahi nos passeios e nas praças publicas a toda a hora do dia; são
-uns certos homens que encadernaram a negrura da alma em pergaminhos de
-illicita riqueza, e certas mulheres que escondem a deshonra em brochuras
-de velludo.
-
-Sabe-lhes a gente da vida e anda cheia d’aquellas historias vivas, que
-se abrem á luz do sol, para que elle bata em cheio no escandalo, e o
-mostre á claridade do dia. Quando o espirito precisa de um momento de
-tranquillidade para se desanojar d’estas e quejandas leituras sociaes,
-devem pôr se de parte os livros igualmente desagradaveis.
-
-Os contos, ainda que se perfumem na doce poesia da infancia, _contes de
-fées_ ou _contes bleus_, como dizem os francezes, embriagam-me o espirito
-como o suspirar longinquo de um piano n’uma noite de luar. A historia
-licenciosa, _conte gras_, repugna-me, aborrece-me. A litteratura deve
-ter um não sei que de ethereo irmão da inspiração. Tudo o que não fôr
-assim, é verdadeiramente terreno e vulgar.
-
-O homem que entra em casa com um livro de pessima doutrina, tem o cuidado
-de escondel-o como a um frasco de acido prussico, se occultasse o
-proposito de se suicidar. Esconde o livro como esconderia o veneno: para
-dissimular a sua vergonha e o segredo humilhante da propria fraqueza.
-
-A sua mãe, alma toda amor e toda luz, que lhe ensinara a deletrear
-nos livros santos, a ella, coração de ouro, haveria de dizer, se uma
-imprevista circumstancia descobrisse a licenciosa brochura: «Perdôa-me;
-bem sei que não foi para isto que me ensinaste a ler.»
-
-Vae longa a dissertação. Cumpre pôr ponto final. _Dissertation, ennui_;
-sirva para alguma coisa o dito de Bastiat.
-
-
-
-
-XXVI
-
-
-Retrogrademos.
-
-Maria Luiza desceu a montanha do Bom Jesus do Monte apoiada no braço da
-outra menina sua irmã.
-
-Quando vinham encosta abaixo havia na floresta, através da qual se viam
-scintillar as chammas do occidente, a doçura inexplicavel com que o dia
-desliza ao abysmo da eternidade...
-
-A viuva Machado revelava certa inquietação—talvez prophecia de coração
-materno—pelos symptomas de repentino soffrimento claramente desenhados na
-face pallida da filha.
-
-João Nicolau animava-a com palavras banaes, attribuindo a excitação
-nervosa um incommodo que, a seu vêr, não podia ter outras consequencias
-além d’um ligeiro abatimento.
-
-Maria Luiza procurava sorrir para dar alento aos dois mais desconfortados
-corações—o de sua mãe e o de Eduardo—mas o sorriso desabrochava triste e
-de pressa morria á flôr dos labios.
-
-D. Maria d’Assumpção vinha suspeitosa e concentrada. Adivinhava-lhe o
-coração tudo quanto se passara na alameda da Mãe d’Agua. Estava-lhe
-dizendo uma voz interior por que abysmos tinham resvalado, n’um momento
-de commum desespêro, aquellas duas amorosissimas almas.
-
-Eduardo Valladares vinha ao lado das duas irmãs Machados. Que dolorosa
-ancia lhe comprimia o peito adivinha-a o leitor, se é que alguma vez se
-sentiu avergado ao peso da sua cruz.
-
-No sopé da montanha, antes de transporem o portico de cantaria, curvou-se
-Maria Luiza para colhêr uma flôr silvestre, que se debruçava sobre
-ervagens verdes. A alguns passos de distancia ficava a capella do Horto,
-que representa Jesus em Gethsemani, quando desce o anjo a offerecer o
-calix da amargura. Maria Luiza relanceou os olhos á inscripção latina e
-murmurou:
-
-—Deve ser triste a legenda d’esta capella...
-
-—«Agonisante, orava profundamente,» traduziu Eduardo Valladares, deixando
-ver lagrimas que de subito lhe embaciaram o olhar.
-
-—Decora-a, peço-t’o eu, e guarda esta flôr com a perpetua recordação do
-meu pedido.
-
-—Que dizes?...
-
-—Que não esqueças aquella legenda, Eduardo.
-
-Aproximavam-se João Nicolau, D. Maria d’Assumpção e a viuva Machado.
-
-Ficou interrompido o dialogo apenas escutado pela melancolica Rosinha,
-que sentiu o perpassar d’uma nuvem que a cegara. Eram lagrimas... Maria
-Luiza empallideceu até á lividez do cadaver e, quando lhe perguntaram
-se se sentia recobrada de forças, respondeu affirmativamente, e deixou
-esvoaçar nos labios o mesmo sorriso breve e melancholico.
-
-Pelo caminho, veio João Nicolau galhofando a proposito de quanto lhe
-lembrava com o piedoso intuito de serenar a inquietação da viuva Machado
-e de distrahir Maria Luiza. Não ousamos asseverar se era escutado; o
-certo é que vinha fallando.
-
-—Dia de Reis! disse elle depois d’um momento de silencio. Este dia é
-d’alegres recordações para mim. Era eu solteiro. Vai isto ha um bom par
-d’annos, e estou agora a vêr tudo como se se passasse hoje! Tinhamos sido
-convidados, alguns rapazes de Braga, para jantar em Guimarães n’este dia.
-Alegremente cavalgamos e seguimos jornada com o enthusiasmo expansivo dos
-vinte annos. Foi opiparo o banquete e divertidissima a odysséa. Ao fim
-da tarde, batemos os cavallos para Braga. Era já noite quando chegamos
-aos _Quatro irmãos_, um logar historico que fica ao sopé da Falpêrra. É
-verdade! Nunca ouviram falar da lenda dos _Quatro irmãos_?
-
-—Sabes lá se a gente está de paciencia para te ouvir? respondeu D. Maria
-d’Assumpção, que de sobra conhecia quanto o marido vinha sendo incómmodo
-n’aquelle momento.
-
-—Estejam que não estejam. Eu é que sempre a vou contar, replicou João
-Nicolau insistindo no proposito de distrahir os companheiros. Diz-se
-que um parocho da freguezia proxima ao logar dos _Quatro irmãos_ vivia
-em companhia d’uma sobrinha, rapariga de formosura capaz de trazer
-alvoroçados todos os pintalegretes montezinhos d’esse tempo. O caso é
-que o abbade precisou de sair da residencia por alguns dias, e levou
-uma noite inteira a fazer eleição de casa onde, com mais socego do seu
-espirito, poderia deixar em deposito a donairosa sobrinha. Lembrou se
-d’uma viuva do logar, mulher idosa e d’exemplares costumes. Se esta
-lembrança foi tentação do demonio ou não, dir-m’o-hão depois que souberem
-que a pobre mulher tinha quatro filhos, quatro rapagões da boa raça
-minhota. Não sem difficuldade acceitou a viuva o encargo, depois de muito
-instada. Entrou a rapariga na casa da mulher escolhida para depositaria
-do thesouro querido do abbade e logo os mocetões começaram a requestal-a
-porfiadamente. Sempre ouvi dizer que «amigos, amigos, negocios á
-parte». Cahiu de chofre o pomo da discordia entre os quatro filhos da
-viuva. Desvairou-os o ciume. Reptaram-se. Como valentões que eram, não
-se recusaram o cartel. Pouco depois, zuniam os varapaus fratricidas a
-certa distancia do tecto commum. Trez dos contendores cahiram exanimes;
-e o outro ficou gravemente ferido. O abbade regressava n’aquelle dia e
-passara ali. Estava moribundo, no logar da lucta, o que sobrevivera, mas
-teve ainda voz para contar ao velho sacerdote a lamentosa façanha. Depois
-debateu-se nas vascas d’afflictiva morte, e expirou. O povo, quando o
-successo se espalhou, negou aos quatro irmãos sepultura em sagrado.
-Enterrou-os ao sopé da Falpêrra, no mesmo logar, e levantou sobre as
-vallas quatro pedras ainda hoje pregoeiras da tradição. Ora aqui teem a
-historia. Não acha bonita? perorou João Nicolau voltado á viuva Machado.
-
-—É interessante... Não sabia a lenda...
-
-—Mas eu trazia isto a proposito do jantar de Guimarães... O Falcão
-Osorio, que deve estar velho como eu, cavalgava na vanguarda. Ao chegar
-aos _Quatro irmãos_ susteve o cavallo e veio, sobresaltado, segredar-nos
-que tinha visto umas sombras, as quaes sombras lhe pareceram bandidos.
-Não pensamos se a apprehensão era sensata. Acautelamo-nos subitamente
-para a defensiva e mettemos a passo dando-nos ares de valorosos
-cavalleiros. A Falpêrra d’aquelles tempos era covil de salteadores; o
-coração, a julgar por mim, batia-nos desordenadamente. Ainda a julgar por
-mim, posso dizer que era... de medo. Mas ó soprema irrisão que o destino
-nos preparára, nivelando-nos com o cavalleiro de Mancha ao esgrimir
-contra os moinhos! Os bandidos... eram arvores!
-
-D. Maria d’Assumpção, ouvindo agora a centessima edição d’este conto,
-sorriu ainda pela centessima vez. A viuva Machado simulou ter achado
-graça; Eduardo e as duas meninas, se é que tinham ouvido, não sorriram.
-
-João Nicolau fez reparo n’isto e apostrophou, dirigindo-se aos tres:
-
-—Olhem que parecem uns velhos carrancudos! A menina Maria Luiza, porque
-os nervos se lhe desafinaram, imagina-se em artigos de morte. A menina
-Rosa vai silenciosa por não ver alegre a irmã, e o meu Eduardo, ao
-lembrar-se de que terminam hoje as férias, perdeu a voz!...
-
-—Como são muitos os divertimentos que elle tem em tempo de férias!...
-objectou D. Maria d’Assumpção.
-
-João Nicolau não esperava o remoque e replicou meio irritado:
-
-—Tem os que quer ter.
-
-—Não vale a pena agastares-te. O defeito, já t’o tenho dito, é de todos
-os velhos, e por isso é de crer que tambem seja meu. A gente, quando é
-velha, desassisadamente teima em moldar a vontade das pessoas novas,
-que nos cercam, pela nossa, e não nos lembramos de que já não ha para
-nós novidade nem surpresa. Lembro-me agora só d’uma excepção: a da mãe
-d’estas meninas, que apesar de estar hontem indisposta, não se recusou a
-dar-nos hoje o prazer de nos acompanhar. Isto é que é ser condescendente.
-
-—É verdade, acrescentou por delicadesa João Nicolau.
-
-—Que será da velhice dos rapazes de hoje, tornou D. Maria d’Assumpção
-relanceando um olhar de benevolencia a Eduardo e a Maria Luiza, se se não
-divertirem? Nem sequer terão para contar aos contemporaneos o caso... de
-haverem tomado arvores por bandidos.
-
-João Nicolau sorriu, porque D. Maria d’Assumpção lhe bateu amigavelmente
-no hombro.
-
- * * * * *
-
-Ao despedirem-se as duas familias, Maria Luiza segredou a Eduardo,
-estendendo-lhe a mão convulsa e ardente:
-
-—Eu sinto-me tão triste, que só o teu amor me póde dar coragem. Lembra-te
-de mim, e sê forte.
-
-
-
-
-XXVII
-
-
-Foi profunda a prostração que sopitou Maria Luiza durante a noite. Ao
-entreluzir da manhã, sobreveio certa agitação febril.
-
-Chamado o facultativo, absteve-se de diagnosticar. Escrupulosamente
-inquiriu porém se a doente tinha revelado soffrimento anterior ou se
-havia experimentado uma sensação violenta que provocasse excitação do
-systema nervoso.
-
-A viuva Machado respondeu negativamente e pediu ao facultativo, com os
-olhos banhados em lagrimas, que lhe não occultasse a verdade. Serenou-a
-o medico dizendo que os temperamentos excessivamente nervosos tinham
-caprichos especiaes que muitas vezes ludibriavam a medicina e que
-podia bem ser que a febre desapparecesse depois d’um breve periodo de
-intensidade.
-
-A outra hypothese occultou-a elle para não ferir o coração materno todo
-receios e afflicção: vinha a ser que podia a febre prolongar-se, e tomar
-o caracter typhoide.
-
-Trez dias depois, realisava-se a fatal hypothese. Sobreveiu o delirio e
-Maria Luiza balbuciava palavras sem nexo:
-
-—Impossivel... Disseste que chorava... Na capella do Horto... Não sentia
-as lagrimas...
-
-Outras vezes curvava-se a melancholica Rosinha sobre o leito e recolhia
-este murmurio:
-
-—O sol por entre as arvores... Sempre impossivel... Uma tristeza immensa.
-Emilia... Deus...
-
-A doze de janeiro escrevia Rosinha a Eduardo Valladares estas palavras:
-
-«Hontem á noite delirou e tornou a fallar da capella do Horto e do sol
-que scintillava através das arvores. Felizmente ainda não pronunciou o
-seu nome. Não desespere, que eu ainda não desesperei tambem, e peça a
-Deus por ella e por nós.»
-
-Foram decorrendo os dias e nos ultimos do mez raiou um vislumbre
-d’esperança.
-
-Tendo passado a noite tranquilla, perguntou Maria Luiza, de madrugada, á
-irmã, a que horas tinham vindo na vespera do Bom Jesus.
-
-Rosinha respondeu, reprimindo impetos d’alegria:
-
-—Viemos á noitinha, não te lembras?
-
-—Não me lembrava, disse a doente. O que sei é que foi hontem. Foi tão
-comprida esta noite!
-
-Quando veiu o medico, jubilou com a boa nova da doente ter dado accordo
-de si e perguntado a que horas vieram do Bom Jesus, suppondo que tinham
-lá estado no dia antecedente.
-
-—Ella tem razão, disse o doutor. Desde que veio de lá não tem vivido...
-Todavia é uma grande esperança.
-
-No dia seguinte, a viuva Machado e Rosinha choraram d’alegria ao ouvir
-este prognostico do facultativo:
-
-—Creio que posso dizer que está salva, apesar de ter ainda doença para
-longo tempo. Cumpre haver o maximo cuidado no tratamento. Não lhe
-dissipem sobretudo o engano a respeito do dia em que esteve no Bom Jesus.
-
-Momentos depois recebia Eduardo Valladares as seguintes linhas:
-
-«Diz o medico que está salva. Agradeçamos a Deus, meu amigo».
-
-Estendeu-se pelo mez de fevereiro a longa convalescença de Maria Luiza.
-Eduardo Valladares recebia todos os dias palavras da mão de Rosinha
-convidando-o a confiar da misericordia de Deus a solução d’uma crise que
-Elle visivelmente favorecia com as melhoras de sua irmã.
-
-O filho do bacharel Valladares lia as cartas e redigia sobre as paginas
-d’um livro intimo as longas meditações das noites de insomnia:
-
-«Vão engrinaldar-se de flôres as arvores do valle e tapetar-se de
-verduras os declives dos outeiros. Só a minha primavera não chega,
-Senhor. Só não voltam com as andorinhas as minhas esperanças de um dia.
-Embora. Deixaste que o anjo ficasse ainda na terra, e deixa tambem que
-se abrandem as angustias que não merece. Eu creio em ti, Senhor, mas
-choro nas trevas da minha noite, como tu choraste na cruz. Eras Deus e
-foste homem. Bem sabes o que é soffrer e chorar. Não me exaspero nem te
-maldigo. Tu eras filho do Eterno e soffreste; tu eras Deus e choraste
-lagrimas de sangue. Como ha de o homem, cuja vida custa dores, eximir-se
-ao pêso da sua cruz, se tu vergaste sob o madeiro? como não ha de chorar,
-se os tens olhos orvalharam o sudario da piedosa mulher?
-
-«Perdoa-me, se choro, Senhor Deus de misericordia.
-
- * * * * *
-
-«Agonisante, orava profundamente», _Factus in agonia prolixius orabat_,
-dizia a inscripção da capella do Horto. E pediste-me tu, anjo e martyr,
-que entregasse á memoria o verbo das Escripturas!
-
-«Querias dizer-me que me abraçasse á cruz nas horas de tribulação da
-minha alma, ou significavas que o teu espirito olhava para Deus na lenta
-agonia do teu supplicio?
-
-«Era um incentivo ou um exemplo o que me apontavas?
-
-«Se era incentivo, sabe que a minha alma só adormece quando sobe
-ás alturas, embalada na religião de meus pais. Se era exemplo,
-repetir-te-hei que comprehendo a extensão do teu soffrimento, que te
-vejo sempre ajoelhada deante do teu crucifixo e que abraçaria a tua fé,
-balsamo para todas as chagas, se desde o berço não houvesse apprendido a
-balbuciar o nome de Deus.
-
-«Choro, e por me vêres lacrimoso não acredites na minha descrença.
-
-«Devo dizer-te que me não abandona a fé.
-
-«Só a Deus peço que enxugue as lagrimas dos teus olhos, que restitua
-ao teu coração as alegrias que eram d’elle. Este é o fito da minha
-esperança, o alvo da minha fé immensa.
-
-«Entrou commigo o remorso de te haver amado. Fui injusto quando fiz
-estalar sobre a tua cabeça a tempestade das minhas desventuras. Choro a
-minha culpa, a minha injustiça, e peço a Deus que não complete a obra da
-tua abnegação.
-
- * * * * *
-
-«Levantas-te do leito quando as flores se levantam no pendor da serra.
-Põe os olhos no Céo, que ainda lá encontrarás a estrella confidente das
-serenas alegrias da tua infancia. Desvia-os da terra para me não vêres
-chorar. Não choro de desespero; choro porque tu choraste. As orações
-d’alguem, de minha mãe talvez, trouxeram do Céo balsamo para a minha
-alma. Se Frei Domingos soubesse das minhas amarguras, acreditaria que
-tinha orado por mim.
-
- * * * * *
-
-«E amo-te muito, mas porque te amo, Maria, não quero que os teus olhos
-chorem as minhas lagrimas. Que te esqueças de mim ou que succumbas,
-este é o meu pedir. E não ha impiedade na minha súpplica. Morrer não é
-soffrer, é renascer. Eu é que preciso de viver para chorar. Renasce tu
-para as auroras da tua patria ou foge dos espinhaes do meu caminho que
-rasgariam de certo as tuas azas. Como havias de restituil-as depois ao
-Senhor que t’as deu?»
-
- * * * * *
-
-Uma noite, estava Eduardo Valladares escrevendo no seu livro intimo,
-quando sentiu alvoroço na sala proxima. Acudiu a saber o que era.
-
-Frei Domingos, que se não tinha ainda retirado, approximou-se e disse-lhe:
-
-—Animo, filho. Espero que pedirá ao Céo a coragem que precisa para lêr...
-
-E apresentou-lhe um telegramma, que João Nicolau recebera do Porto. O
-telegramma dizia:
-
-«Morreu repentinamente Sebastião Valladares. A viuva pede providencias
-com a menor demora possivel».
-
-Eduardo rompeu em afflictivo chôro. Frei Domingos encostou ao seu peito
-a cabeça do orphão e afastou-o da sala onde D. Maria d’Assumpção e João
-Nicolau choravam.
-
-Ao romper da manhã vinham em caminho do Porto avô e neto, em caleça
-alugada expressamente.
-
-É breve a historia do passamento do bacharel. Sahiu do escriptorio, onde
-estava trabalhando, estremamente anciado. D. Adozinda acudiu sobresaltada
-ao chamamento de um escrevente. Sebastião Valladares inclinou a cabeça
-sobre o hombro da esposa, e morreu. Disseram os medicos que tinha
-succumbido a uma lesão do coração. O que os medicos disseram pouco faz ao
-nosso proposito.
-
-Dias depois do funeral, annunciou-se leilão da modesta mobilia e,
-concluido isto, voltou João Nicolau a Braga, levando em sua companhia o
-neto e a filha, cobertos do mesmo luto.
-
-
-
-
-XXVIII
-
-
-O bacharel Valladares, momentos antes de morrer, estava escrevendo ao
-filho um carta que deixou incompleta.
-
-Os mais significativos periodos d’essa carta diziam assim:
-
-«Faze por ser humilde, e sujeita-te respeitoso aos conselhos das pessoas
-que t’os podem dar, nomeadamente á vontade de teu avô, em quem eu vejo,
-além d’um dedicado amigo, o pae de tua mãe. Não ponhas os olhos n’umas
-alturas em que o commum da humanidade fita a vista, se queres ser
-feliz. Se eu te posso servir d’espelho em alguma coisa, é no que toca a
-desambição e a serenidade d’espirito e de consciencia. Vivo tranquillo
-para os affectos da minha casa; se tu estivesses n’esta hora ao pé de
-mim e de tua mãe, julgar-me-hia em plena posse da verdadeira felicidade.
-
-«Quando saio a nossa porta, sinto-me triste. É que entro no mundo, não no
-mundo em que vivo, mas no mundo em que vivem todos. Os olhares dos que
-vão passando, não me offendem por desdenhosos, mas incommodam-me porque
-não são doces e sinceros como os de tua mãe. Realmente não me sinto bem
-no meio da turbamulta.»
-
-«A idéa da morte, se me entristece, é porque me faz lembrar que tenho de
-separar-me de tua mãe para sempre...»
-
-N’este relanço levantara se anciado o bacharel para não mais se sentar
-á sua banca. Morreu como viveu: serenamente. Um momento d’agonia não se
-lhe afigurou decerto o resvalar para o tumulo, e não teve por isso tempo
-de sentir estalar os élos que o prendiam á felicidade. Encostou ao seio
-amigo a cabeça para descansar. Queria talvez adormecer... Cerrou os olhos
-e não accordou.
-
-Rezaram-se os responsos de sepultura na egreja dos extinctos carmelitas
-do Porto. Antes de chegar o feretro, appareceu na sacristia um sacerdote
-que entrou, curvado de velhice, relanceando um olhar saudoso para um e
-outro lado.
-
-Era Frei Domingos do Amor-Divino.
-
-Durante os officios, foi notorio que o mais edoso dos padres não podia
-reprimir as lagrimas. Os raros amigos de Sebastião Valladares affirmavam
-não o ter visto uma unica vez em casa do bacharel. Correu porém voz de
-ser carmelita, e logo se explicou a razão de suas copiosas lagrimas,
-lançando-as á conta de saudades do hábito, evocadas pela entrada n’um
-templo da sua ordem.
-
-Frei Domingos, depois de terminados os responsos, solicitou licença do
-sacristão para vêr o cadaver. Largo tempo o esteve contemplando com os
-olhos afogados, em lagrimas.
-
-—Dizem que era um homem honrado, apostrophou o sacristão.
-
-—Oiço dizer que sim, respondeu Frei Domingos. E, vendo-o, acredito que o
-foi.
-
-—Pois... não eram amigos?
-
-—Nunca lhe falei, nem sequer o vi.
-
-—Deixou-lhe talvez alguma coisa? replicou o sacristão affeito a vêr
-copiosamente chorar nos enterros as pessoas contempladas com verbas
-testamentárias.
-
-—Deixou-me... sincera pena de o não haver conhecido, respondeu Frei
-Domingos agradecendo e retirando-se.
-
-Ás seis horas da manhã, entrava Frei Domingos na diligencia de Braga.
-Ninguem no Porto soube como se chamava e d’onde era. Os amigos do
-bacharel noticiaram a João Nicolau e a Eduardo Valladares que, na egreja,
-um dos sacerdotes, frade carmelita segundo se disse, estivera chorando
-a ponto da commoção lhe embargar a voz. Outrosim perguntaram se este
-frade era relação da casa, parente ou amigo. Eduardo Valladares deteve-se
-um momento a consultar a memoria e respondeu negativamente. João
-Nicolau, como porém tivesse ouvido falar em frade carmelita, sentiu se
-impressionado, e sem pensar que fosse elle, lembrou-se n’aquelle momento
-de Frei Domingos do Amor-Divino.
-
-Quando o velho egresso voltou ao seu cubiculo da rua do Carvalhal, a
-trémula Gertrudes sahiu a recebel-o mais jubilosa que nunca.
-
-—Ó sr. Frei Domingos, exclamou ella, como me disse que tinha de fazer
-jornada, sempre estava inquieta. V. s.ᵃ já não está muito para andar
-pelos caminhos!
-
-—Ó boa mulher! com o auxilio de Deus vae-se bem para toda a parte. Mal
-sabe a sr.ᵃ Gertrudes d’onde eu venho. Pois oiça lá: fui ao Porto.
-
-—Ao Porto! acudiu admirada a velhinha.
-
-—Ao Porto, sim. E olhe que me não succedeu mal nenhum. Jornadeei em
-diligencia pela primeira vez na minha vida. E sempre lhe direi que isto
-de diligencias não foi a peor cousa que o progresso nos trouxe.
-
-—Oura-se muito, pois não oura?
-
-—Não se oura nada, mulher. A gente acostuma-se aos solavancos, e depois
-vae menos mal. Comparado isto com as jornadas a cavallo, d’outros tempos!
-
-—Acho que ha lá por fora muitas coisas novas. Eu é que não tenho visto
-nada, nem quero vêr. «Boa romaria faz quem em sua casa vive em paz.»
-
-—Assim é, mulher, mas ha casos que podem mais do que as leis. Tambem me
-chegou a minha vez d’andar em diligencia.
-
-O medico assistente de Maria Luiza dera-lhe licença de sahir pela
-primeira vez, justamente no dia em que se enterrava no Porto o bacharel
-Valladares.
-
-Era um formoso dia dos ultimos de fevereiro.
-
-—Ora vá, disse-lhe o facultativo. Não tardam a desabrochar as flores;
-v. ex.ᵃ deve apparecer tambem. Tome porém cuidado com o passeio. Não vá
-longe.
-
-—É que realmente não sei para que lado hei de ir.
-
-—Convem que se não exponha. Vá para o lado de Infias, mas não se demore
-muito.
-
-Quando o facultativo sahiu, Maria Luiza sentou-se a escrever a Eduardo
-Valladares as seguintes linhas:
-
-«Tenho licença para sahir hoje pela primeira vez. Emfim! Vou com minha
-mãe e com Rosinha. Ao meio dia apparece, como quem anda passeando, perto
-da quinta de Infias. Não faltes.»
-
-Maria Luiza chamou a irmã para fazer chegar o bilhete ao seu destino.
-Rosinha ficou inquieta. Tinha occultado a morte do bacharel e a sahida de
-Eduardo para o Porto. Revelar a verdade era alancear o coração de Maria
-Luiza; continuar a occultal-a seria o mesmo que não explicar a falta de
-Eduardo no passeio a Infias.
-
-—Está decerto agora nas aulas e talvez o não possa receber...
-
-—Não me disseste outro dia que elle tinha recebido bilhetes teus no
-Seminario?
-
-—Sim... disse. Mas se estiver nas aulas... Eu vou mandal-o... oxalá que
-ainda vá a tempo.
-
-Quando sahiram, Rosinha levava o coração opprimido.
-
-—Vaes triste? notou Maria Luiza.
-
-—Não vou; ir calada não é ir triste.
-
-—Tens razão.
-
-Chegaram a Infias.
-
-O coração de Maria Luiza pulsava vertiginosamente—d’esperança; o de
-Rosinha batia tambem agitado—d’afflicção.
-
-A estrada estava deserta. Decorreram minutos. Ninguem. Maria Luiza
-relanceou á irmã um olhar de eloquente interrogação. Rosinha simulou não
-dar tento, e fitou os olhos n’um ponto que ella nem sequer via...
-
-Decorreram mais alguns minutos de completo silencio.
-
-—Não vaes boa? perguntou a viuva Machado a Maria Luiza, inquieta pela vêr
-extremamente pallida.
-
-—Vou boa, minha mãe. Não é nada...
-
-—Talvez seja longo o passeio. Voltemos, se querem.
-
-—Não, vamos até alli mais adeante, e voltemos depois, respondeu Maria
-Luiza.
-
-Era a ultima esperança.
-
-Fôram um pouco mais adeante. Não appareceu ninguem. Maria Luiza voltou-se
-e disse abruptamente:
-
-—Vamos embora; agora é que me não sinto boa.
-
-E depois, segredando á irmã:
-
-—Não veiu!
-
-Então Rosinha achou que devia dizer meia verdade. Contou que Eduardo
-Valladares tinha ido ao Porto por motivo imprevisto.
-
-Maria Luiza sorriu doloridamente e disse:
-
-—É possivel que fosse ao Porto, mas é impossivel que não estivesse hoje
-aqui se já me não tivesse esquecido.
-
-E, tão agitada como incredula, repelliu todos os protestos que lhe fazia
-a irmã de haver dito a verdade quanto á ida ao Porto.
-
-—Fez-te mal sahir! disse a viuva Machado com o coração opprimido por um
-torturante presentimento.
-
-—Não é nada, minha mãe; socegue. Vêl-a inquieta, é que me incommoda.
-
-Maria Luiza, a mariposa alegre d’outros tempos, alma creada para as
-flores e para o sol, era, bem o sabeis, uma d’essas creaturas que
-se deixam ir embaladas no ambiente da felicidade e que um dia, ao
-encontrarem a chamma que as namora, ou a atravessam impunemente ou
-crestam n’ella as azas iriadas. São estas frageis creaturas as que mais
-podem luctar com as tempestades da vida, mas se uma vez succumbem,
-deixam-se morrer lentamente, abraçadas, permittam-me que diga assim, ao
-pensamento que lhes envenena o coração.
-
-Maria Luiza julgou-se esquecida pelo homem a quem amava. Esta ingratidão
-suffocava-a. «Por que não iria elle, perguntava a si mesma na sua
-afflicção, porque não iria vêr-me, depois de me não ter visto ha tanto
-tempo? E os meus pensamentos todos eram seus! Se sonhava... via-o no meu
-sonho. Dizia-me o coração que não morria, porque o amava... E elle não
-foi!»...
-
-Á noite, queixou-se de extrema inquietação. Chamou-se á pressa o
-facultativo.
-
-Antes d’elle chegar, Maria Luiza levantou-se de golpe, disse que uma
-nuvem vermelha lhe tirava a vista, e bolçou sangue.
-
-
-
-
-XXIX
-
-
-Moralmente, Rosinha soffrera tanto ou mais que Maria Luiza.
-
-O seu amor, a sua dedicação pela irmã estremecida levou-a a occultar a
-morte do bacharel Valladares.
-
-—Sabendo-o, soffrerá metade das dores que dilaceram o coração luctuoso de
-Eduardo. Peorará decerto, pensara Rosinha nos extremos do seu carinho.
-
-Depois, acercou-se de sua mãe e disse:
-
-—Não lhe parece que será melhor não dizermos que morreu o genro do João
-Nicolau?
-
-—Sim... talvez.
-
-—É sempre desagradavel a noticia d’um fallecimento. Agora, porém,
-tão impressionavel a tornou a doença, que parece-me que seria melhor
-occultarmos...
-
-—Pois sim, não digamos nada.
-
-Quando Maria Luiza lhe entregou o bilhete, Rosinha ficou sobresaltada.
-Exprimiu o receio de Eduardo Valladares o não receber a tempo, para ir
-dispondo o ánimo da irmã. Não previu as tristes consequencias que vieram
-surprehendel-a. Suppoz que o adeantado da hora seria razão sufficiente
-para explicar a ausencia de Eduardo, e que Maria Luiza diria de si para
-comsigo «não pôde vir» em vez de «não quiz vir.»
-
-Para acalmar a irmã, resolveu-se, como vimos, a dizer ao menos meia
-verdade.
-
-Não foi acreditada.
-
-É inexplicavel o que em algumas horas soffreu a boa alma, toda dúvida e
-receio, toda amor e afflicção...
-
-Em casa, no regresso d’aquelle triste passeio, Rosinha, muito atribulada,
-disse á irmã:
-
-—Socega, por Deus. Amanhã te explicarei toda a verdade.
-
-Maria Luiza olhou-a com fixidez, e sorriu um breve sorriso que tinha
-tanto de tristeza como de incredulidade. E continuou a luctar com a mesma
-ancia, cada vez maior.
-
-O facultativo ficou surprehendido do estado em que veiu encontrar Maria
-Luiza e não pôde deixar de o attribuir a hemorrhagia da membrana mucosa
-pulmonar. A hemoptyse estava manifesta. O sangue era acompanhado de tosse
-violenta e no meio da ancia, que a suffocava, queixava-se Maria Luiza de
-intenso calor sobre o peito.
-
-Quando a doente socegou algum tanto, o facultativo disse em particular á
-viuva Machado:
-
-—Sua filha, comquanto fôsse clara certa predisposição que infundia
-receio, enganou-me, e eu vou dizer em que. Fiei muito d’uma convalescença
-remançosa, que ella devia ter e que, rigorosamente observada, seria
-barreira á obra da destruição. N’isto foi que me enganei. Sei que estou
-dilacerando o coração da mãe, mas devo usar d’esta franqueza para com a
-enfermeira. Tiremol-a d’aqui, quanto antes, o mais breve possivel. Para
-que não vae v. ex.ᵃ para a quinta do Prado? Está á porta a primavera;
-appellemos para ella.
-
-—Para a quinta do Prado... Mas para lá...
-
-—Diz v. ex.ᵃ?...
-
-—Ha o inconveniente de a approximarmos do tumulo da irmã, por quem morria
-d’amores...
-
-—Ah! Fez v. ex.ᵃ bem em me informar d’essa circumstancia, que eu
-desconhecia. Não sabia onde repousava a filha de v. ex.ᵃ; sabia
-apenas que tinha succumbido a uma tisica pulmonar. É pois conveniente
-escolhermos outro local.
-
-—Lembro-me do Bom Jesus, que é o seu passeio favorito. Podiamos requerer
-aposento na _Casa da mesa_. Que lhe parece, sr. doutor?
-
-—Sabe v. ex.ᵃ que de todos os sitios affluem numerosos doentes ao Bom
-Jesus. É difficil encontrar mais salutar atmosphera. Mas ainda assim,
-pelo que toca a condições hygienicas, não pode comparar-se com a quinta
-do Prado. Torna-se, porém, indispensavel atalhar o mal obstinadamente, e
-haver rigorosa observancia de prescripções. Convem livral-a sobretudo do
-nevoeiro da serra, de certa viração perfida que sopra de manhã e de tarde
-no Bom Jesus.
-
-—Oh! mas diga-me se tem esperanças de a salvar, sr. doutor, lembre-se
-n’este momento de que sou mãe.
-
-—Socegue, minha senhora. Empenharemos todos os esforços e
-restituil-a-hemos á vida.
-
-Sahiu o medico, dissipando com as exhalações d’um charuto as esperanças
-de salvar Maria Luiza.
-
-Ha só uma coisa comparavel á consciencia dos medicos: é a consciencia
-dos ministros. Esta relação de semelhança deve lisonjear os homens da
-sciencia...
-
-Na manhã do dia seguinte, Rosinha curvou-se sobre o travesseiro de Maria
-Luiza e murmurou:
-
-—Se me podes ouvir, ou se estás para isso, queria dizer-te uma coisa...
-
-—Dize.
-
-—Perdôa-me, por Deus, perdôa-me. Hontem não te disse toda a verdade.
-Pobre de mim, que não previ o mal que ia fazer!
-
-—Eu sabia que me enganavas. Comprehendi, porque sei quanto és minha
-amiga, Rosinha...
-
-—Tu sabias?
-
-—Sabia. Sabia que querias justificar a ingratidão, o esquecimento d’elle,
-só para não me magoares.
-
-—Enganas-te. O amor desvaira-te. Elle não pôde ir, porque...
-
-—Por que?...
-
-—Socega. Vejo-me, porém, obrigada a fazer-te esta revelação. Pesa-me de
-não a ter feito hontem. Quando a mamã estiver presente, mostra que não
-sabes...
-
-—Dize, dize.
-
-—O Eduardo está realmente no Porto.
-
-—Quiz fugir-me?
-
-—Não. Foi chamado á pressa. Sebastião Valladares... morreu.
-
-—Morreu! E por que m’o não disseste? Receavas que me fizesse mal, bem
-sei, minha boa irmã. Morreu! Como elle terá soffrido! E eu accusava-o,
-Rosinha, accusava-o porque me dilacerava o coração a lembrança de me não
-ter ido vêr, a mim, que me levantava do leito depois de tantos dias de
-soffrimento... Como eu fui injusta...
-
-—Socega. Que não te vá fazer mal...
-
-—Não faz, não. Pobresinho d’elle, que parece ter nascido sob o influxo
-d’uma estrella funesta. Não lhe bastava o que soffria por minha causa!
-Ainda mais isto! Soffre-se tanto quando se fica sem pae! Lembras-te do
-que nós sentimos e chorámos, quando nos faltou o nosso, Rosinha?
-
-—Cala-te, minha amiguinha, cala-te. Pode ouvir a mamã. Não fales
-mais. Hontem de tarde, se t’o dissesse para remediar o mal que
-involuntariamente fiz, talvez não acreditasses.
-
-—Talvez não.
-
-—Hoje, porém, tenho provas.
-
-—Tens provas?
-
-—Promette que te não alvoroças, se não...
-
-—Ah! escreveu-te! Deixa-me ver, deixa-me ver.
-
-—Eu leio...
-
-—Não sejas cruel, Rosinha. Deixa-me ler, que já tenho saudades de ver a
-sua lettra...
-
-Rosinha entregou a carta que tinha recebido, do Porto momentos antes.
-Maria Luiza leu:
-
-«Minha boa amiga:
-
-Escrevo-lhe do Porto. Sabe já decerto que meu pae morreu. Occulte-o a
-ella, por quem é, occulte-lh’o. Como sentiria as dores que eu só devo
-sentir, se ella o soubesse! Podia talvez peorar.
-
-«Quando olho em mim, e conheço que levei a minha desgraça áquella alma,
-que não a merecia, sinto remorsos de a ter amado. Que Deus me perdôe, e
-a salve a ella. Não posso ser mais extenso. Basta dizer-lhe que meu pae
-baixa hoje á sepultura. Voltarei dentro de pouco dias.»
-
-—Rosinha, minha irmã, reza commigo a Nossa Senhora. Rezemos por elle, que
-é muito infeliz; por mim, não, que eu sinto-me boa.
-
-E brilharam-lhe lagrimas nos olhos. Sobreveiu um frouxo de tosse, e após
-a tosse uma lufada de sangue...
-
-Passadas horas, respondia Rosinha a occultas da irmã:
-
-«Occultamos-lhe a morte de seu pae. Procuramos, porém, afastar um mal,
-e approximamos outro. Mando-lhe o bilhete que ella me dava hontem para
-eu lh’o fazer entregar, na supposição de estar, em Braga. Continuei
-ainda a occultar a cruel verdade sem pensar nas consequencias funestas
-da minha dedicação. Á conta de esquecimento tomou ella a sua ausencia.
-Era manifesto que soffria muito quando recolhemos, mas foi-me então
-impossivel remediar o mal, revelando toda a verdade. Ás nove horas da
-noite, sentia-se muito incommodada e momentos depois abafava-lhe a voz
-uma onda de sangue. Pobre irmã! Venha depressa, que eu sinto que me falta
-o ánimo. Hoje confessei-lhe tudo. Quiz lêr a sua carta, e lamentou-o
-muito com os olhos cheios de lagrimas. Vamos amanhã para o Bom Jesus.
-O facultativo aconselhou ares mais puros sem perda de tempo. Venha
-depressa, sim? A precipitação com que lhe estou escrevendo explicará o
-laconismo destas linhas.»
-
-Quando Rosinha voltou ao quarto, disse-lhe Maria Luiza:
-
-—Tu respondes hoje?
-
-—Eu! Não tenciono.
-
-—Quero então pedir-te um favor.
-
-—Dize o que é.
-
-—Se me deixavas escrever...
-
-—Escrever! Mas se te vae fazer mal...
-
-—Não faz, eu sei que não faz.
-
-—Com uma condição: quatro palavras, apenas.
-
-—Pois bem. Quatro palavras apenas, respondeu Maria Luiza.
-
-E escreveu com bastante difficuldade para sustentar a penna na mão
-convulsa:
-
-«Sei o que terás soffrido, meu pobre Eduardo!... Que o meu amor te dê
-coragem. Não receies por mim, não? Eu estou boa. Queria que viesses,
-porque vamos ámanhã para o Bom Jesus, e não sei como hei de estar lá sem
-ti. Já não te vi ha tanto tempo...»
-
-Rosinha interrompeu-a para dizer-lhe:
-
-—Já escreveste muito. Se te faz mal... Se vem a mamã.
-
-E ouviram-se passos no corredor.
-
-—Ella ahi vem, não ouves?
-
-
-
-
-XXX
-
-
-João Nicolau e Frei Domingos estavam conversando um dia e naturalmente
-veiu a declinar o dialogo sobre o futuro de Eduardo, que parecia mais
-triste do que nunca.
-
-—É pois resolução assente o sacerdocio? perguntou o carmelita.
-
-—Assente, respondeu João Nicolau. Foi sempre desejo meu encarreiral-o por
-este caminho. Ao principio receei que o meu proposito o contrariasse. Ha
-tempos a esta parte, cuido perceber que lhe não desagrada o futuro que
-lhe dou gostosamente.
-
-—Hade o sr. João Nicolau lançar á conta da amizade com que me trata
-as impertinencias d’um velho. Deixe-me todavia ser franco—disse Frei
-Domingos do Amor Divino com os olhos marejados de lagrimas. Entrei n’esta
-casa supplicando a Deus que me preparasse um dia este momento, em que eu
-pudesse dizer ao homem honrado: «Aqui estão os meus cabellos brancos;
-ouve-me, se elles te inspiram compaixão.»
-
-João Nicolau sentia-se perplexo e commovido.
-
-Frei Domingos continuou:
-
-—Um dia, um homem velho como eu, coração sem mancha, como prouvera ao
-Senhor que fôra o meu, bateu á minha porta e disse: «Desgraças communs
-prenderam o meu coração ao coração d’outro homem, cujo filho se abeira
-hoje de mim, a instancias do pae, para pedir conselho á minha velhice,
-não á minha discreção. Descobri sombras na fronte que se devia illuminar
-com o clarão da mocidade. Vi curvada com melancholico pendor a roseira
-que se devia erguer attrahida pelas flechas do sol. Sondei. Desci
-cautelosamente ao coração de dezeseis annos e encontrei-o traspassado
-por um espinho. A pobre alma confrangia-se deante d’um futuro que se
-approximava dia a dia, e que ella queria remover, ou porque estivesse
-embalada nas castas doçuras da sua edade, ou porque a apavorasse a
-austeridade do sacerdocio.» Disse-me isto o ancião com voz trémula de
-commoção e velhice. Depois, voltando-se de novo para mim, accrescentou:
-«A missão do levita é supplicar e esclarecer. Vá: supplique e esclareça.
-Fale ao coração piedoso do homem que chamou a si o neto desprotegido
-da fortuna para lhe aplanar o caminho da vida. Vá e diga-lhe curvado
-de respeito: «Venho desafogar comtigo, porque sei que o teu coração é
-brando; ouve-me e Deus te agradecerá». Era eloquente e justa esta voz.
-Obedeci e vim. Aqui estou, sr. João Nicolau, para lhe pedir que me oiça.
-Direi o que a razão me fôr suggerindo; depois terminarei com o dito da
-Escriptura: «Se eu errei, corrige-me tu; se eu falei com iniquidade, não
-accrescentarei mais.[13]»
-
-—Oh! sr. Frei Domingos... exclamou João Nicolau sem poder concluir a
-phrase.
-
-—O melhor futuro não é o que nos parece melhor; é o que Deus nos prepara.
-O coração affectuoso pode enganar-se ao talhar felicidades que nunca
-cheguem. Não digo que venha a ser assim; quero dizer que o coração do sr.
-João Nicolau, estremoso e bom, pode enganar-se em sua mesma bondade. Um
-dia as lagrimas de seu neto podiam amargurar-lhe os remanços da velhice.
-O sr. João Nicolau choraria a sua e a alheia desgraça ao ver despida
-de flores a arvore do seu amor. Não me pesa a mim a batina, porque a
-procurei e a vesti eu mesmo. Prouvera ao Senhor, porém, que conhecesse
-menos hombros avergados sob ella, que era então certo conhecer menos
-infelizes. O sacerdote que não tem o ánimo despreoccupado, serve mal a
-Deus e á sua alma. Não me quero engrandecer, nem aos que voluntariamente
-abraçam o sacerdocio. Quero dizer que não poderia curar promptamente
-as dores alheias, se todos os dias tivesse de pensar a chaga incuravel
-do meu desespêro. Toda a vida tem espinhos; o sacerdocio tambem. O
-marinheiro que voluntariamente embarca, corajoso lucta com as tempestades
-do mar e todo se delicia na contemplação do azul purissimo das aguas,
-quando céo e mar estão serenos. O que navega coagido nem desteme a
-tormenta nem se consola com a suavidade da paizagem. Para tal marinheiro,
-o mar é sempre um abysmo, ou durma ou se encapelle. Que cada um procure
-o rumo da sua derrota. Depois, quando já tiver embarcado, digamos assim
-ao nauta querido do nosso coração: «Filho, deixa-me guiar o teu batel, em
-quanto o teu braço fraqueja».
-
-Frei Domingos parou um momento, fatigado pela commoção. João Nicolau
-approximou-se e disse com olhos humidos de pranto:
-
-—Sr. Frei Domingos, as suas palavras convencem me. Pensei que meu neto
-não ia sacrificado ao destino que lhe eu dava. Suppuz a principio que a
-idéa da solidão do presbytero lhe pusera medo. Chegada, porém, a hora de
-lhe indicar um caminho, vi-o calar se sereno e...
-
-—Agradeçamos a Deus que lhe não endureceu o coração; é humilde. O filho
-d’aquelle homem, cuja face gelada era serena como a superficie d’um lago,
-devia compartilhar das virtudes enthesouradas no coração do pae. Eu vi o
-cadaver de seu genro...
-
-—O sr. Frei Domingos! Ah! pois era o carmelita?...
-
-—Fui ao Porto, que me dizia a consciencia que devia ir. Entrei aqui, e
-fui recebido, sob este tecto, como não merecia. D’esta grande divida
-que tenho em aberto, e que decerto não posso saldar, procurei pagar a
-centesima parte dos juros, amontoados. Á volta do feretro d’um parente
-intimo d’esta casa, reuniam-se sacerdotes; era lá o meu logar; fui
-tomal-o. Não faltavam á viuva e ao orphão consolações d’amigos; as
-minhas seriam menos prestantes. Foi por isso que não appareci á familia
-annojada. Na egreja senti uma extranha commoção: chorei. Talvez fôsse
-fraqueza o chorar; talvez. São percalços da velhice. Estava-me lembrando
-das desgraças que poderiam fulminar o orphão, se a minha voz fôsse
-impotente para convencer o sr. João Nicolau. E olhe que não vae n’isto
-offensa ao seu coração. Não receava por elle; receava por mim. Da palavra
-do conselheiro depende a efficacia do conselho. O bom terreno, por mal
-semeado, pode deixar de fructificar. Enganei-me, sr. João Nicolau,
-enganei-me. Não é verdade? Não é verdade que veiu Deus em nosso auxilio,
-porque o seu entendimento adivinhou o que eu deixei de dizer? Diga-me que
-sim, que é esta a maior alegria de ha trinta annos. O sr. João Nicolau
-é bom... Bem vejo que está chorando. «Fazei justiça ao necessitado e ao
-orphão»[14] diz o _Psalterio_. O sr. João Nicolau é religioso, e ha de
-fazel-a. Dê-me um abraço, meu amigo, que eu leio nas suas lagrimas a
-resposta que a commoção lhe não permitte dar-me...»
-
-Foi edificante aquelle lance em que dos olhos dos dois velhos brotaram
-copiosas lagrimas. Por longo tempo nem um nem outro pôde falar. O
-silencio dava certa grandeza ao quadro.
-
-Decorreram minutos, após os quaes Frei Domingos conseguiu dizer:
-
-—Bemdito seja o nome do Senhor! Vou d’aqui rejuvenescido. Vou dizer a
-Rodrigues d’Abreu...
-
-—Tinha adivinhado logo que era elle. Em Braga, não podia ser outro. Bom
-coração aquelle!
-
-—Bom coração é, realmente. A elle devemos esta alegria, que veiu
-illuminar a nossa velhice. Vou dizer-lhe: Permittiu Deus que eu visse a
-realisação de tamanha esperança. Receei uma vez, e chorei. O Senhor das
-alturas perdoou-me, cobriu-me com a Sua grandeza, depois de ter inspirado
-o coração a que me dirigi.
-
-Passados dias, João Nicolau chamou o neto á sua presença e disse-lhe:
-
-—Estamos sós, e espero que me falarás com a lizura com que falarias a teu
-pae.
-
-—Responderei com a voz do coração.
-
-—Cabe-me o dever de dirigir a tua educação, e não quero violentar-te a
-acceitares um futuro que te repugne. Se até hoje fiz mal, determinando-te
-uma carreira, dir-m’o-has agora. Responde-me com franqueza. Da resolução
-que tomares depende tudo e, depois de consummada a obra, é impossivel a
-emenda. A tua recusa não me desgosta, nem me contraria. Se assim fôsse,
-não te chamaria para me expores a tua vontade.
-
-Eduardo Valladares levantou para o avô os olhos tristes, e respondeu com
-firmeza:
-
-—Agradeço do fundo do coração, meu avô, o sentimento que o levou a
-querer ouvir-me sobre este ponto. Respondo, abrindo-lhe a minha alma. O
-sacerdocio, a que me destinava, apavorava-me quando eu sentia enflorar-se
-o peito com as primaveras que são apanagio dos primeiros annos da vida.
-Entre mim e a minha esperança, via levantar se a barreira do sacerdocio.
-Chorei, exasperei-me, e levei o écho das minhas amarguras aos ouvidos de
-quem entrava no mundo com direito a sahir d’elle sem rasgar o coração
-na minha corôa d’espinhos. Quiz rebellar-me, no meu desespêro, contra a
-vontade de meu avô. Suspendeu-me sempre á beira do precipicio um braço
-amigo, apontando-me para o Céo. Esperei do Céo o balsamo, o confôrto. Sem
-deixar de crer em Deus, via porém crescer hora a hora o meu desespêro.
-Era horrivel viver assim, meu avô! Fui vivendo uma vida d’esperanças e
-de lagrimas, de fé e de descrença... Só sabe comprehender isto, quem
-viveu assim. Era delicado de mais para tamanhas procellas o coração que
-eu amei. Despedaçou-o aquella agonia lenta. Despedacei-o eu, meu avô.
-A martyr succumbiu ás minhas dores. Amava-me de mais para me esquecer.
-Chorei de desespêro; choro agora de remorso. Encherei com as minhas
-lagrimas o calix do sacrificio. Na expiação de todos os dias supplicarei
-o perdão de Deus. Quero e devo expiar assim, meu avô, se a pessoa a quem
-me refiro adormecer no tumulo para accordar no Céo.
-
-
-
-
-XXXI
-
-
-«As arvores tanto as tenho para mim como para os passaros» escreveu
-Lamartine no formoso livro _Pedreiro de Saint-Point_.
-
-Ó alma sublime de poeta, tu não levavas o teu egoismo ao extremo de
-quereres as arvores unicamente para te envolverem em mysteriosa sombra
-nas tardes meditativas do estio. Tu sabias que esse mundo de folhas
-verdes, sussurrante e oloroso, se pode servir de cupula ao homem em horas
-de profunda meditação, é tambem das aves que se deixam absorver nos
-seus extasis d’amor, e querem esconder-se nas sombras da floresta, para
-cantar, sem que ninguem as veja.
-
-Deixemol-as entoar os seus modilhos emquanto nós pensamos.
-
-Ellas estão no seu mundo, nós estamos no nosso.
-
-O universo é para todos.
-
-Faz-me tristeza ver que os homens as perseguem, a ellas, que tornam
-alegre a solidão dos campos e que traduzem em musicas suavissimas os mais
-delicados pensamentos do amor e da saudade. Nós, quantas vezes nos não
-embriagamos nos mais delicados pensamentos, nos mais mimosos affectos,
-sem que possamos encontrar na palavra o prisma que reproduza as formosas
-cambiantes do nosso espirito! Ellas, as aves, teem uma inflexão para
-cada idéa, uma harmonia para cada sentimento. Merecem mais respeito as
-pobresinhas, se não fôr por outra coisa, ao menos por isto—que já é muito.
-
-A creança d’hoje ha de ser homem amanhã e, se lhe ensinarem a disparar
-a sua clavina, irá desfechal-a contra o seio offegante d’uma andorinha,
-que commetteu o unico delicto de querer procurar alimento para a sua
-pequenina familia. Não digamos pois á creança que se embriaga nas
-innocentes alegrias da sua edade: «Amanhã, visto que estás homemzinho,
-faze-te caçador. Pega n’esta espingarda e vae pelo caminho fora. Rompe
-através do matto, salta córregos, galga montanhas, que todos esses
-sacrificios serão pagos pelo prazer sanguinario de matar. Se vires um
-bando d’aves, ainda que seja uma caravana de passarinhos alegres, que
-vão cruzando o espaço, como uma tribu nómada que atravessa o deserto,
-faze pontaria e atira. Se ferires a mãe, fecha o coração á magua de
-teres levado a orphandade e a viuvez a uma familia inteira, cerra os
-ouvidos aos saudosos lamentos de quem fica viuvo e orphão n’esse deserto
-dos céos! Se ferires o filho, esquece-te de que roubaste a alegria d’um
-coração de mãe, de que a ave é tanto mãe, ou mais ainda, do que a mulher,
-esquece-te, oh esquece-te... d’isto tudo e... desfecha a tua espingarda».
-
-Apraz-me entrar n’um cerrado onde as aves vivem em plena liberdade sem
-recearem da clavina do caçador, nem das redes da creança. Ahi cantam,
-amam e noivam sem emmudecer de sobresalto uma unica vez. Se o bosque fica
-perto d’uma corrente murmurosa, diremos que estamos no jardim do amor, ao
-ouvir os rouxinoes. Se fica n’um retiro formosamente triste, diremos que
-estamos na estancia da saudade, ao escutar as rôlas.
-
-As aves da floresta do Bom Jesus do Monte seriam verdadeiramente ditosas,
-se não as perseguissem as creanças—os unicos inimigos que ellas lá podem
-ter. Quem quer ouvil-as, sobe á montanha sagrada; as creanças ouvem-n’as,
-namoram-se de suas toadas alegres e querem prender as proprias aves, para
-que já lhes não fuja aquella doce musica.
-
-Maria Luiza e Eduardo Valladares estiveram na alameda da Mãe d’Agua, no
-dia trinta de março, dia em que a floresta toda se levantava em jubilos e
-canticos para saudar a primavera.
-
-Maria Luiza, meio inclinada para o tumulo, parecia sorrir á amenidade
-d’aquelle dia.
-
-Tinha nas faces a pallidez da morte, mas descerravam-se-lhe os labios
-n’um sorriso sereno como o da esperança. Esperaria ainda ella a
-felicidade terrena? Cremos que sim. Dizia tranquillamente a Eduardo
-Valladares, que no Céo havia um écho para cada desgraçado, e que lhe
-segredava o coração que não estava longe a felicidade. Queria vêl-o
-queria falar-lhe, queria ouvil-o a miude, e o pobre moço, desenganado
-pela voz da medicina, amparava-a nos braços, na afflictiva ancia que
-precedia quasi sempre uma nova hemoptyse. Muitas vezes dissera Maria
-Luiza, quando ainda era alegre:
-
-—Quem sabe se virei a morrer da morte de minha irmã? Talvez... Eramos tão
-amigas!...
-
-Depois que começara a soffrer, especialmente depois que foi para o Bom
-Jesus, dizia a Rosinha:
-
-—Eu hei de melhorar. Aqui amei e aqui soffri. Mas a gente gosta tanto
-dos sitios onde soffre, amando, que é como se tivesse vivido n’elles sem
-nunca ter chorado... Não posso morrer aqui, bem vês. Tudo são recordações
-a chamar-me á vida. Não posso morrer, não.
-
-—Pois não morres, não, respondia Rosinha, abafando a sua dôr.
-
-N’esse dia, trinta de março, estavam Maria Luiza e Eduardo Valladares na
-alameda da Mãe d’Agua. Acompanhara-a elle, dando-lhe o braço. Rosinha
-sentou-se a distancia.
-
-Á sombra das copadas arvores andavam armando aos passarinhos umas
-creanças, filhas de duas familias inglezas, que do Porto, onde ainda hoje
-residem, tinham ido passar alguns dias no Bom Jesus do Monte.
-
-Andavam estas creanças folgando em commum divertimento. Quando uma
-avesinha incauta descia a pousar na varinha traiçoeira, e ficava presa
-no visco, sahiam os pequenos de trás dos troncos afastados, chalrando
-alegremente n’uma linguagem que a plumosa victima devia entender, visto
-ter dito Carlos V que o inglez é para se falar aos passaros.
-
-Depois de prêsa a ave, armavam de novo, tornavam a esconder-se, e
-trocavam-se ordinariamente no esconderijo estas phrases com intervallos
-sempre deseguaes:
-
-—_Be silent..._
-
-—_It is coming..._
-
-—_It has perched..._
-
-—_It is caught!_
-
-O mysterioso dialogo das impiedosas creanças orça por isto em portuguez:
-
-—Sciu...
-
-—Chegou...
-
-—Pousou...
-
-—Está preso!
-
-Maria Luiza tinha dito a Eduardo Valladares, quando entraram na alameda:
-
-—Trouxe-te hoje papel e lapis. Tenho saudades... dos teus versos, meu
-amor! Desapprendeste a cantar nas tuas afflicções, mas hoje quero que
-escrevas ao pé de mim para me certificar de que a tua alma está serena
-como a minha...
-
-Eduardo Valladares, coração afogado em lagrimas, acceitara o lapis e o
-papel para não a contrariar.
-
-Como porém o alvorôto das creanças distrahisse por momentos Maria Luiza e
-Rosinha, não sem que revelassem assomos de compaixão, Eduardo Valladares
-foi escrevendo ao correr do lapis.
-
-—Escreveste? perguntou com alegria Maria Luiza.
-
-—Escrevi; cumpri... o teu desejo, respondeu elle.
-
-Diziam os versos:
-
- Ide embora, meninos, que é peccado,
- Armar aos passarinhos.
- Indiscretos brinquedos,
- Que levam lucto á paz de tantos ninhos
- Se toda a gente andasse a perseguil-os,
- Não tornaria ninguem mais a ouvil-os
- Nos densos arvoredos.
- Deixae-os modular doces modilhos,
- A musica do ar.
- Ao pé do berço, em quanto ereis creanças,
- Cantavam vossas mães plantando esp’ranças
- No cuidado jardim dos seus amores...
- Deixae-os vós cantar,
- Emquanto arrulham embalando os filhos
- Que dormem sobre flores...
-
- Posta que fôr a perfida varinha,
- Anceaes por vêr a saltitar no chão
- Descuidosa andorinha,
- Que se não lembra da infantil traição.
-
- Ninguem se move... Comprimis no seio
- O ardente respirar,
- Para que não ponhaes em sobresalto
- O bom do passarinho
- Que tentaes algemar.
- Se vos ouvisse respirar mais alto,
- Mudaria o caminho
- Por fugir aos pequenos salteadores,
- Que o estão esp’rando como vis traidores!
-
- Eil-o que se approxima embevecido
- Na tarefa que tem todos os dias.
- Vem cheio d’incerteza e d’alegrias...
- Se pudesse voltar tão bem provido
- Como hontem voltou! Mas se lhe falha
- A fortuna que teve,
- E não acha migalha
- Que, venturoso, leve!...
- Entretanto descobre
- A farta refeição—uma riqueza
- Para quem é tão pobre...
- Venturosa surpresa!
- Olha em roda... Ninguem... Escuta... ousou.
- E mal que toca a ração indefesa,
- Prisioneiro ficou...
-
- Surde de toda a parte a vozeria,
- O febril alvorôço,
- Conjunto de mil vozes d’alegria...
- O passarinho é vosso,
- Podeis emfim leval-o.
- Mas se já vos lembrou tel-o captivo,
- É bem melhor... matal-o.
-
-—Ah! impressionaram-me estes versos. Tens razão... Fazer mal ás avesinhas
-que são do ar! Lembras-te da primeira vez que viemos ao Bom Jesus? E dos
-teus versos?... Atiraste-m’os ao regaço aqui, foi mesmo aqui...
-
-Rosinha, que por um momento receou que Eduardo Valladares não pudesse
-reprimir, ao escrever, as dores profundas que lhe torturavam a alma,
-trocou com elle um olhar d’approvação, que a doente não surprehendeu.
-
-N’este momento andavam as creanças, a distancia, mostrando-se com
-estrepitoso jubilo uma avesinha que tinha ficado prisioneira.
-
-Maria Luiza chamou uma, e vieram todas de tropel, orgulhosas da victoria.
-Pediu-lhes que soltassem aquelle passarinho, que lhes não tinha feito
-mal nenhum. O pequenito, que entendera perfeitamente, olhou para Maria
-Luiza com desdem, mas uma inglezita de cabello loiro, talvez sua irmã,
-voltou-se para o companheiro, pequeno como ella, e disse:
-
-—_She is so ill! Do what she wished._
-
-Felizmente Maria Luiza não sabia inglez; a pequenita tinha dito: «Ella
-está tão mal! Faze-lhe a vontade...»
-
-A avesinha, restituida á liberdade, desferiu vôo, e as creanças seguiram
-n’a com a vista até que desappareceu através das arvores.
-
- * * * * *
-
-Quantas vezes, ao despregarmos os olhos do azul purissimo em que se
-esbatem os contornos d’uma paizagem deliciosa, não sentimos passar no
-espirito uma tristeza subita, acompanhada do receio de não tornarmos
-áquelle sitio?
-
-Maria Luiza não se despedia das arvores da floresta, porque devia a Deus
-o esquecer-se da realidade da vida, á beira do tumulo, embalada n’uma
-esperança que o seu espirito em outra occasião não teria acceitado. Esta
-doce tranquillidade, quando a vida lhe fugia veloz a cada momento que
-passava, tomemol-a á conta de prodigioso effeito d’uma extranha causa.
-Eu, de mim, elevo o meu pensamento a Frei Domingos do Amor Divino...
-
-Maria Luiza não se lembrou, pois, n’aquelle dia, de que poderia ser o
-ultimo em que tremessem sobre os seus cabellos as sombras ondulantes do
-arvoredo da serra. Mas nós—os que furtivamente a acompanhamos, os que sob
-o toldo sonoro da alameda a vimos amar e soffrer, os que nos costumamos
-a querer áquellas arvores como ella mesma queria—nós digamos adeus aos
-mil encantos que se escondem no crepusculo perpétuo da floresta, que não
-sabemos se o destino nos deixará acompanhar outra vez a pallida visão,
-avergada pela morte.
-
-Adeus, sombras e murmurios, aves e ninhos, fontes e arvores. Adeus,
-flores silvestres e borboletas que vos amaes. Adeus, folhas verdes que
-sois namoradas dos seixos côr de rosa; adeus. Quem sabe? Talvez para
-sempre—adeus.
-
-
-
-
-XXXII
-
-
-São de Eduardo Valladares estas palavras:
-
-«No dia 5 de abril, fui chamado á pressa ao Bom Jesus por um creado da
-viuva Machado que, ao romper do dia, batera á porta da casa de meu avô.
-
-«Vesti me com precipitação e sahi immediatamente. Tão violentas eram as
-pulsações do meu coração, com tamanha velocidade caminhava eu, que tinha
-de parar a cada momento, suffocado, para poder respirar. Esta demora mais
-augmentava a minha sobreexcitação.
-
-«Eu tinha passado a noite, até ás onze horas, no Bom Jesus. Para evitar
-assumptos inopportunos, adoptei o costume de lêr. Maria Luiza, que só
-a custo podia falar, e que tinha sido obrigada pelo medico a estar
-silenciosa, applaudiu a minha idéa, e gostava muito de me ouvir. Quando
-se me deparava alguma passagem que não convinha lêr, por ter maior ou
-menor relação de semelhança com a nossa dolorosa situação, passava-a em
-claro continuando a leitura. Maria Luiza, que conservava um admiravel
-vigor de faculdades intellectuaes, notava a incoherencia, e obrigava-me a
-voltar atrás para justificar a censura.
-
-«Assim passavamos as noites, e assim passámos a de quatro d’abril. Quando
-desci a montanha, havia um formosissimo luar que tremia em scintillações
-na concha das fontes. O silencio, o grande silencio das noites da serra,
-era apenas quebrado pelo murmurio cadenciado e monotono das aguas.
-
-«Em baixo, no valle, lampejavam os reverberos da cidade. Tudo o mais era
-silencio e luar.
-
-«A minha alma vinha entregue ás tribulações de todas as horas, mas não me
-atravessava no coração o presentimento de tão proxima desgraça.
-
-«Maria Luiza tinha estado a ouvir-me lêr, alegre, tranquilla, sem
-denunciar maior soffrimento. Ás onze horas sahi, para voltar na noite
-seguinte. O dia gastava-o eu nas aulas, e a estudar. Só os dias feriados
-os passava todos no Bom Jesus.
-
-«A verdade é que, depois de eu sahir, se queixara d’insomnia, e de
-frio de pés. Logo lhe purpurearam as faces duas rosetas escarlates que
-denunciavam accesso de febre. Sobreveiu a agitação, a impaciencia.
-Perguntava anciada se já era dia, se eu não chegava, porque queria ir
-commigo á Mãe d’Agua para respirar livremente. Mandou que lhe abrissem as
-janellas para reconhecer a claridade da manhã. Abriram-lh’as. Como visse
-o luar e as estrellas, contorceu-se febricitante. Foi então que expediram
-o creado que me chamou. Durou bastante tempo o frenesi, após o qual veiu
-uma violenta hemoptyse.
-
-«Ficou extenuada a pobresinha, sem poder respirar. Era a prostração que
-precede a morte...
-
-«Quando eu cheguei, quando me ouviu a voz, descerrou os olhos, deu aos
-labios o geito d’um sorriso, e murmurou com extrema difficuldade: Não
-posso... Queria ir comtigo... Não te esqueças de mim... Morro decerto...»
-
-Eduardo Valladares deteve se suffocado pelas lagrimas. Esperei que
-pudesse continuar:
-
-«Queria vir á Mãe d’Agua, não talvez para respirar melhor, mas para se
-despedir, porque só então conheceu que morria. Foi no dia trinta de março
-de 1853 que pela ultima vez estivemos aqui, na Mãe d’Agua. O medico,
-receoso da extrema frescura da alameda, não consentia que viesse.
-
-«Aqui tem como ella morreu... Que ella morreu, não... que deixou a
-terra... O seu derradeiro pensamento foi para mim e para o sitio querido
-dos nossos amores...
-
-«Está sepultada no mesmo cemiterio onde jaz a irmã, ao pé da mesma sebe
-engrinaldada de flores silvestres. O seu corpo está lá, na valla coberta
-de boninas, mas sinto aqui, na Mãe d’Agua, alguma coisa que me denuncía o
-perfume da sua alma. Dir-se-hia que respiro aqui a essencia da flôr que
-se engastou nas constellações do Céo.
-
-«Deixe-me abreviar esta narrativa, porque vou sentindo que me faltam as
-fôrças. Resta-me resumir o que se passou desde 5 de abril de 1853 até
-hoje, 15 de julho de 1870.
-
-«Da minha familia resta apenas minha mãe, que vive da minha dôr, e é o
-unico esteio a que me abraço, quando mais desconfortado me sinto.
-
-«Frei Domingos do Amor Divino morreu em 1860.
-
-«Ao entrarmos na egreja do Carmo, onde se rezaram os reponsos por alma
-do virtuoso _Fradinho_, hoje santificado pela opinião publica, disse-me
-Rodrigues d’Abreu:—Vamos, meu amigo. Devemos ambos muito á memoria d’esta
-boa alma. E olhe que não sabe ainda tudo quanto lhe deve...
-
-«Estas palavras despertaram a minha curiosidade. Quando sahimos, o sabio
-bibliothecario circumstanciadamente me contou como Frei Domingos se
-empenhara pela minha felicidade. Fiquei surprehendido. Rebentáram-me
-lagrimas em jôrro. Depois que nos despedimos, voltei á egreja do Carmo.
-Já estava fechada. Entrei em casa e orei por longo tempo. Levantei-me
-tranquillo e fui buscar a velha Gertrudes, que sobrevivera a seu velho
-amo. Estava inconsolavel. Dei-lhe abrigo em minha casa durante os oito
-mezes que ainda teve de vida. Do que a Gertrudes contou e do que Frei
-Domingos revelara, coordenei os apontamentos que sei da sua vida.
-
-«Rodrigues d’Abreu, o coração nobilissimo, expirou, como sabe, ha sete
-mezes, a 6 de dezembro de 1869.
-
-«Resta-me falar da familia de Maria Luiza.
-
-«A viuva Machado, avisada do risco que corria a vida da unica filha
-que lhe restava, se não procurasse melhor clima, sahiu para a ilha da
-Madeira. Rosinha casou no Funchal, cuido que por inclinação, onde vive em
-companhia da mãe e do marido.
-
-«E eu?...
-
-«Contei-lhe a minha vida, revelei-lhe as paginas mysteriosas do meu livro
-intimo, deixei-lhe vêr as minhas lagrimas... Que lhe posso dizer mais?
-Não pensei no suicidio, não me atirei ao abysmo da morte para extinguir
-as minhas dores, e adormecer.
-
-«Procurei o balsamo onde o podia encontrar.
-
-«Cada dia apparecem livros que abrem por blasphemias, e terminam pela
-negação de tudo o que ha de defeso á razão limitada do homem. Eu, se um
-dia escrevesse a minha historia, havia de terminar por esta palavra—DEUS.»
-
-FIM
-
-_Nota._—A estampa que illustra a capa d’esta edição reproduz fielmente o
-antigo aspecto da alameda da Mãe d’Agua, no Bom Jesus do Monte.
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] CONTOS AO CORRER DA PENNA—_No Bussaco_.
-
-[2] Tudo isto está hoje mudado no Bom Jesus do Monte. Diogo Forjaz
-descreveu assim, e com exactidão, o antigo aspecto do sitio da Mãe
-d’Agua: «Deixando o terreiro dos Evangelistas, subindo alguns metros pela
-matta na direcção de sueste, encontra-se um comprido passeio tapisado
-de verdura, o qual conduz por debaixo de copado arvoredo a um tôsco
-reservatorio d’agua, que lhe fica ao fim com assentos e mesa de pedra.»
-(_Nota da 2.ª edição._)
-
-[3] Sonet vox tua in auribus meis. Cant. II.
-
-[4] Temos conhecimento do opusculo denominado _Manuel Rodrigues da Silva
-e Abreu_. Apontamentos biographicos por Soares Romeu Junior; opusculo
-publicado, em Lisboa, n’este anno de 1870.
-
-O sr. Soares Romeu não pôde precisar a data do decreto que nomeou
-bibliothecario o illustre biographado; averiguámos porém que elle fôra
-despachado por carta régia de 26 d’agosto de 1842.—(_Nota Da 1.ª edição._)
-
-[5] Vide IV volume, pag. 72.
-
-[6] O nosso Deus, porém, está no Céo; tudo quanto quis, fez. Ps. CXIII.
-
-[7] Na minha tribulação invoquei o Senhor, e chamei ao meu Deus. Ps. XVII.
-
-[8] Diminuta era a livraria de João Nicolau, reduzida ás obras completas
-de José Agostinho de Macedo e a uns tantos opusculos, inspirados na causa
-absolutista e na conservação das ordens religiosas, que vieram a lume em
-Portugal e no extrangeiro. O opusculo citado sahiu da Imprensa Regia, em
-1814.
-
-[9] Eccles. Cap. XI.
-
-[10] O senhor Deus é o meu auxiliar.—Isaias, 4.
-
-[11] Eurico o Presbytero, pelo sr. Alexandre Herculano.
-
-[12] Prov. XVII.
-
-[13] Job. XXXIV.
-
-[14] Ps. LXXXI.
-
-
-
-
-BIBLIOTHECA HORAS ROMANTICAS
-
-
-Collecção de obras litterarias e scientificas notaveis, dos melhores
-auctores antigos e modernos, nacionaes e extrangeiros.
-
-100 RÉIS—CADA VOLUME—100 RÉIS
-
-Volumes publicados
-
- N.ºˢ I, II, III—QUO VADIS (3.ª edição) de H. Sienkiewicz.
- N.º IV—VIDA DE LAZARILLO DE TORMES, de Mendoza.
- N.º V—EULALIA PONTOIS, de F. Soulié.
- N.º VI—A AMOREIRA FATAL, de E. Berthet.
- N.º VII—SENHOR EU, de S. Farina.
- N.º VII-A, VII-B—O FOGO, de G. d’Annunzio.
- N.º VIII—CARICIAS D’UMA NOIVA, de B. Bjornson.
- N.º IX—PALAVRA DE SOLDADO, de G. Elwall.
- N.º X—A PELLE DE LEÃO, de C. Bernard.
- N.º XI, XII, XIII—A MORTE DOS DEUSES de D. Merejkowsky.
- N.º XIV—A CORDA DO CARRASCO, de A. Petosi.
-
-Volumes a publicar
-
- TERRAS MALDITAS, de V. B. Ibañez.
- MANON LESCAUT, do padre Prévost.
- PECCADOS VELHOS, de G. Csicky.
- CURA DE UM LOUCO, de S. Lageloff.
-
-
-
-
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- The Project Gutenberg eBook of Idyllios á beira d’agua, by Alberto Pimentel.
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-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Idyllios á beira d'agua, by Alberto Pimentel
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
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-
-Title: Idyllios á beira d'agua
- Romance original
-
-Author: Alberto Pimentel
-
-Release Date: August 4, 2020 [EBook #62853]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK IDYLLIOS Á BEIRA D'AGUA ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p>
-
-<h1>IDYLLIOS Á BEIRA D’AGUA</h1>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span></p>
-
-<p class="titlepage">ALBERTO PIMENTEL</p>
-
-<p class="titlepage larger">Idyllios á beira d’agua</p>
-
-<p class="titlepage">ROMANCE ORIGINAL</p>
-
-<p class="titlepage">(<i>2.ª edição revista pelo auctor</i>)</p>
-
-<div class="figcenter titlepage" style="width: 100px;">
-<img src="images/deco.jpg" width="100" height="55" alt="" />
-</div>
-
-<p class="titlepage">LISBOA<br />
-«A EDITORA»<br />
-<span class="smaller">Conde Barão, 50</span><br />
-1903</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span></p>
-
-<p class="titlepage smaller">Typ. d’«A EDITORA», Conde Barão, 50</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span></p>
-
-<h2>Prologo da 1.ª edição</h2>
-
-<p>Subi em julho d’este anno á montanha umbrosa
-do Bom Jesus do Monte e repousei o meu
-espirito, d’umas fadigas em que andava trabalhado,
-á sombra d’aquellas arvores seculares
-que ou não envelhecem nunca ou remoçam
-cada noite para verdejar novas galas ao romper
-da madrugada...</p>
-
-<p>Quando o romeiro crava o seu bordão n’algum
-relvoso céspede do ermo sagrado, e sente
-subitamente embriagados os ouvidos n’aquella
-primavera inextinguivel chilreada de maviosos
-trinados, experimenta a influencia benefica
-d’um elixir mysterioso que se lhe está filtrando
-no coração, e vae acalmando como por encantamento
-as tempestades que lá se revolviam
-momentos antes. Este dulcissimo consôlo experimentei-o
-eu e experimentam n’o todos os
-que, na solidão amena, vão desfadigar-se de
-canseiras intimas.</p>
-
-<p>Na solidão amena disse eu, e quero demorar-me
-um momento n’este ponto. A solidão profundamente
-triste e silenciosa quer-me parecer
-um como remedio heroico para organisações
-robustas, e só para ellas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span></p>
-
-<p>Para as almas que não podem disputar com
-estas extremos de coragem, e não saem incolumes
-d’uma procella, a solidão medonha dos
-desertos seria o mesmo que a morte lenta e
-desesperada d’um criminoso recluso em carcere
-cellular.</p>
-
-<p>Subi, pois, a montanha e ia procurando com
-a vista as arvores que já me tinham dado sombra
-em romagens anteriores, as fontes cujo suspirar
-cadenciado eu já tinha escutado, e umas
-e outras encontrei, as arvores bracejando as
-mesmas frondes, as fontes suspirosas como
-d’antes, e concentrei-me então para vêr a minha
-alma retratada no espelho interior.</p>
-
-<p>Mezes antes, á hora em que eu, longe d’alli,
-sentia fugir-me a vida e a mocidade, e lançava
-um como olhar de despedida ás arvores que
-sacudiam as ultimas folhas, a essa hora, dizia,
-murmuravam as fontes do Bom Jesus as saudosas
-queixas de que me lembrava ainda, tranquillas
-como sempre, e diziam os troncos annosos
-da montanha ao outomno que se approximava:</p>
-
-<p>«Amarellece, devasta, anniquila, que não entrarás
-aqui...»</p>
-
-<p>Fui subindo, subindo e remoçando a cada
-passo que dava, a cada momento que fugia.</p>
-
-<p>Demorei-me tres dias na estancia suavissima
-do Bom Jesus do Monte, que tanto era preciso
-para lograr um remoçamento completo, e, na
-tarde do segundo dia, afigurou-se-me vêr, a
-distancia, na alameda da Mãe d’Agua, um homem<span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span>
-que me inspirara a maxima sympathia
-quando pela primeira vez lhe falei em Braga—o
-padre Eduardo Valladares.</p>
-
-<p>O leitor, que não exige que o romancista venha
-expôr a face do martyr á luz do sol, para
-que todos o conheçam e o apontem, permitte-me
-decerto este pseudonymo com que me corre
-obrigação de velar a verdadeira personagem do
-mundo real.</p>
-
-<p>Ia o padre Valladares caminhando placidamente,
-absorto em seus pensamentos, quando
-commetti a indiscreção de lhe bater no hombro.
-O padre voltou-se de golpe e extendeu-me
-os braços alegremente, posto que eu conhecesse
-que a minha approximação havia quebrado
-uma serie de pensamentos dolorosos...</p>
-
-<p>Fomos juntos conversando pela alameda acima,
-até que veiu de geito o dizer-me elle:</p>
-
-<p>—Por que não ha de escrever do Bom Jesus
-do Monte? Estas arvores sabem tantos segredos,
-que, se as interrogar, tirará assumpto que farte
-para muitos livros verdadeiros. Já li o que
-escreveu do Bussaco<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1"></a><a href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a> e casos tristes, como
-aquelle, não ha em toda esta montanha um
-unico torrão que os ignore...</p>
-
-<p>Ia-se alterando a pouco e pouco o semblante
-do padre, e a sua figura, respeitavel e distincta,
-parecia contrahir-se como se um espinho agudissimo
-lhe estivesse atravessando o coração.</p>
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span></p>
-<p>Demorou em mim o seu olhar por um momento,
-e rompeu n’esta apostrophe:</p>
-
-<p>—Se não lamenta ter de perder algum tempo
-debruçado sobre o abysmo do passado, confie
-á sua memoria os apontamentos que lhe
-vou dar.</p>
-
-<p>Até aqui o padre Valladares. Agora duas palavras
-mais:</p>
-
-<p>O leitor que gostar do romance trabalhosamente
-architectado, feche o livro e não leia.
-Aqui não se referem casos tenebrosos, nem se
-borda a teia, de si mesma singella, com debuxos
-artisticos. Opulencia, se ha n’este romance, é
-toda da natureza. O proscenio, o estrado scenico
-onde as personagens se nos devem mostrar,
-na maxima parte das vezes outro não ha de ser
-senão o saudosissimo retiro da Mãe d’Agua assombreado
-de carvalheiras seculares, cujo sussurro
-se casa saudosamente com o murmurar
-da agua que desliza.</p>
-
-<p>Não se reclinam pois os actores em suaves
-frouxeis; ottomanas não as ha ahi, como todos
-sabem. Contentem-se com dois canapés rusticos,
-dois bancos de pedra, que guarnecem a
-mesa, de pedra tambem.</p>
-
-<p>Alli, na amenidade dulcissima d’um arvoredo
-frondente, á beira d’agua, a coberto do sol, haveis
-de encontrar as personagens scismando
-embevecidas nos idyllios ora tristes ora radiosos
-do coração e do amor.</p>
-
-<p>D’aqui o titulo do romance.</p>
-
-<p class="smaller">Porto, 1870.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span></p>
-
-<h2>Prologo da 2.ª edição</h2>
-
-<p>Foi este o meu primeiro romance. É pois um
-fructo verde, uma tentativa, um ensaio, e mais
-nada.</p>
-
-<p>Mas quero-lhe como a uma doce recordação
-do passado, que conservasse um tenue aroma
-de <i>sachet</i> antigo.</p>
-
-<p>Havia n’elle alguma esperança, alguma promessa
-de futuro? Esse futuro que eu esperava,
-cheio de fé, e que já hoje é tambem passado,
-pode ter produzido cousa melhor, mas eu com
-certeza a estimo menos do que este romance
-quasi infantil.</p>
-
-<p>Com que saudade o reli eu agora, sem poder
-reprimir um affectuoso sorriso de desdem!</p>
-
-<p>É que eu, como todos os novos, presumia-me
-velho quando era moço.</p>
-
-<p>Parecia-me que vinha de longe, cansado de
-viver, muito instruido na sciencia do mundo.</p>
-
-<p>E, comtudo, iniciava apenas a minha jornada
-de escriptor, com a cabeça doudejante de illusões
-e de sonhos.</p>
-
-<p>Depois... trabalhei e soffri.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span></p>
-
-<p>Mas a felicidade que me trasbordava do coração
-quando escrevi este romancesinho, nunca
-mais voltou.</p>
-
-<p>É que a mocidade não volta.</p>
-
-<p class="smaller">Lisboa—1903.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span></p>
-
-<h2>I</h2>
-
-<p>Sebastião Valladares tinha carta de bacharel
-em leis pela Universidade de Coimbra e abrira
-banca no Porto ao tempo de contrahir casamento
-com uma senhora bracharense. E certo é
-que os créditos juridicos de Sebastião Valladares
-estrondearam em Coimbra durante os cinco
-annos do seu curso de leis.</p>
-
-<p>Manda, porém, a verdade dizer que a nomeada
-do talentoso advogado não encontrou
-entre os demandistas portuenses o écho que
-remurmurava ainda nos salgueiraes do Mondego.
-A levada dos clientes, sempre tumultuosa,
-não affluira á banca do moço bacharel.</p>
-
-<p>João Nicolau de Brito, proprietario em Braga,
-conheceu que á mediania suada do genro pesava
-a educação do unico filho que tinha, e
-chamou á sua companhia o neto, de dezeseis
-annos d’edade.</p>
-
-<p>—Parece que já não estamos tão sós! dizia
-João Nicolau de Brito a sua mulher D. Maria
-d’Assumpção, revendo-se jubiloso no rapazinho
-de dezeseis annos.</p>
-
-<p>—Pois que! respondia D. Maria d’Assumpção.
-É sempre consoladora a companhia d’uma
-pessoa da nossa familia, ainda que seja uma
-creança.</p>
-
-<p>—Creança! atalhava o esposo. Já não é tão
-creança como isso. Olha que tem dezeseis annos!</p>
-
-<p>—O que é preciso, porém, é tratar de alliviar<span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span>
-ao rapaz as saudades dos paes. Ou elle de si é
-triste ou se resente da ausencia.</p>
-
-<p>—Tens razão, accrescentava João Nicolau.</p>
-
-<p>—Isso tenho. Já me lembrou combinarmos
-com as Machados um passeio ao Bom Jesus para
-o distrahirmos.</p>
-
-<p>—Lembras bem.</p>
-
-<p>—Se lembro! E ellas que hão de gostar. O
-Eduardo precisa realmente d’uma distracção
-qualquer. Esta rua do Carvalhal é só e triste. O
-rapaz passa as tardes á janella por não querer
-sahir. Tambem tem razão. Não conhece ninguem!</p>
-
-<p>—É isso. Não conhece ninguem—concordou
-João Nicolau, muito reflexivo.</p>
-
-<p>E accrescentou passados momentos:</p>
-
-<p>—Olha cá! Dá-me da secretária a carta que
-o pequeno nos trouxe. Ha n’essa carta do Sebastião
-um periodo que me inquieta. É aquelle
-em que nos diz que o Eduardo lhe sahira com
-sua tendencia á poesia!...</p>
-
-<p>—Ora!—proferiu D. Maria d’Assumpção,
-abrindo a secretária e entregando a carta ao
-marido.</p>
-
-<p>João Nicolau de Brito montou os oculos, endireitou-se
-na cadeira e começou a lêr em voz
-alta:</p>
-
-<p>«... O Eduardo ahi vae; penso que lhes não
-será rebelde, porque é humilde de si. Amolda-se
-ás vontades de quem o dirige e parece attentar
-gravemente no que lhe dizem. Ensinei-lhe
-tudo o que sabia e podia. Creio que com mais
-um anno d’estudos preparatorios estará habilitado
-para entrar n’um curso superior. O destino
-de meu filho já me não pertence, porém.
-Pesa me todavia que me sahisse poeta aos
-dezeseis annos e como por magia! Conheci
-em Coimbra um rapaz de muitissimos talentos
-e de seu natural poeta, que por se dar
-do coração á leitura d’amenidades e aborrecer<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span>
-de morte os alfarrabios da sciencia, teve que
-luctar com a vontade da familia, que o obrigava
-a estudar, e com a sua natureza, que o fazia detestar
-os compendios. Como, porém, não pudesse
-renunciar á espontanea inclinação, e
-como não tinha bens de fortuna, succumbiu a
-uma gravissima affecção moral, que o levou á
-sepultura, com grande magua de todos os que
-sabiam aquilatar-lhe a alma e a intelligencia.
-Desvaneçamos, porém, estas suspeitas; não
-quero que me chamem visionario. Ahi vae, pois,
-o pequeno...»</p>
-
-<p>João Nicolau de Brito abanou a cabeça com
-um gesto solemne e descahiu a scismar.</p>
-
-<p>Atalhou-o, porém, a esposa, batendo lhe no
-hombro e dizendo ao mesmo tempo:</p>
-
-<p>—Deixa-te de visões! Tratemos de distrahir
-o rapaz. Iremos domingo ao Senhor do Monte.</p>
-
-<p>—Olha! disse de subito João Nicolau de Brito,
-como se houvesse despertado d’um somno
-momentaneo. Ha, porém, um inconveniente
-n’esse passeio...</p>
-
-<p>—Qual?</p>
-
-<p>—A convivencia com as Machados.</p>
-
-<p>—Ora!</p>
-
-<p>—Ora que!? Tu parece que não sabes o que
-é ser novo! Eu não me refiro á Rosa Machado.
-Falava da Maria Luiza, da irmã, que é outra
-doida por versos, que ha de conversar de poesia
-com o rapaz, e que por fim ha de vir a falar
-d’amor como quem se deixa ir ao som d’agua
-corrente...</p>
-
-<p>—Ora ahi está o que eu approvo, atalhou D.
-Maria d’Assumpção. Essas práticas lyricas entre
-os dois ajustavam-se á occasião e vinham
-de geito. Ainda que o lyrismo do espirito descambasse
-em lyrismo do coração, ainda que a
-poesia se transformasse em amor, que inconvenientes
-poderiam vir d’ahi? Eram verduras da
-mocidade, que distrahiam o rapaz e que por<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span>
-fim de contas haviam de acabar no momento
-em que elle se aborrecesse.</p>
-
-<p>—Tambem me parece... Que lá padre, dê
-por onde der, quero eu que elle seja. Sahiu dado
-a poesias? Melhor! Será um prégador de fama.</p>
-
-<p>—Ha de ser tudo o que tu quizeres... Mas
-supponhamos até que o Eduardo começava a
-arrastar a aza á Maria Luiza. Travava-se o namorico,
-carta d’aqui, versos d’alli, uma semana
-d’ataque, outra semana d’aborrecimento, e por
-fim o rapaz curado da sua nostalgia em quinze
-dias.</p>
-
-<p>—Mas não falaste ahi em aborrecimento?
-ponderou gravemente João Nicolau de Brito.</p>
-
-<p>—Falei, respondeu com convicção a sogra de
-Sebastião Valladares. Mas refiro-me ao aborrecimento
-que de si mesmos trarão uns amores
-pueris. Depois, para curar esse aborrecimento,
-principia-se novo galanteio a nova estrella,
-e ahi começa a chrysalida a tornar-se
-borboleta e a perseguir as flores.</p>
-
-<p>—Olha que as flores teem espinhos... atalhou
-João Nicolau de Brito meneando a cabeça.</p>
-
-<p>—Cala-te! replicou D. Maria. Os espinhos das
-mulheres são... os alfinetes. Em nome do sexo,
-agradeço-te a amabilidade.</p>
-
-<p>—Não tens que agradecer, disse João Nicolau
-rindo e batendo as palmas de contente.—Sim,
-senhora! Vossa excellencia está hoje espirituosa!
-Receba os meus parabens. Iremos ao
-Bom Jesus quando quizer e mande convidar as
-familias do nosso conhecimento para nos fazerem
-companhia esta noite. Solemnizemos a recepção
-do rapazinho. Se queres que te diga—accrescentou
-mudando de tratamento—tive
-hontem pena d’elle. Eram dez horas e já tinha
-somno. Tambem não sei o que fazes do piano!
-Já és avó, é verdade, mas a velhice ainda não
-te immobilisou os dedos. Pois venham lá as Machados,
-e haja ao menos musica uma noite...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span></p>
-
-<p>—Então queres?</p>
-
-<p>—Quero. Manda convidar. Que lá padre ha de
-elle ser. Ainda lhe hei de ouvir um sermão...</p>
-
-<p>—Se não fôr seccante, disse D. Maria d’Assumpção
-sahindo da sala.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>II</h2>
-
-<p>Thomaz Ignacio Machado tinha sido um homem
-dinheiroso. Abriu, em Lisboa, os salões
-do seu palacete á flor da aristocracia olyssiponense,
-deu bailes esplendorosos, pompeou em
-cavallos e trens, teve aventuras com dansarinas
-de S. Carlos, jogou o <i>monte</i> com a sobranceria
-d’um homem que não joga para ganhar
-e... achou-se arruinado no dia em que pensou
-no futuro que o estava esperando.</p>
-
-<p>O Creso, apeado do seu pedestal de ouro, emboscou-se
-nas moitas verdejantes d’uma quinta
-proxima a Braga, e ahi veiu descansar das saturnaes
-esplendidas de Lisboa com o intuito de
-bemfeitorisar as propriedades obrigadas ao dote
-da mulher e de velar por tres innocentes meninas,
-suas filhas, salvas da tormenta na arca sagrada
-do coração materno.</p>
-
-<p>Chamava-se Emilia a mais velha, que morreu
-aos vinte e dois annos tisica, se não victima
-d’uns amores desventurosos, que não fazem
-ao nosso proposito.</p>
-
-<p>Rosa e Maria Luiza viviam ainda, como o
-leitor inferiu do capitulo anterior.</p>
-
-<p>A custo de muitas economias pôde Thomaz
-Machado rehabilitar a casa consideravelmente
-esbanjada e obter os rendimentos necessarios,
-não para a vida faustosa de Lisboa, mas para
-uma decencia estimavel então, e invejavel ainda
-hoje.</p>
-
-<p>Veiu, pois, Thomaz Machado residir em Braga,<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span>
-e, após dois annos de apartamento na quinta
-do Prado, alugou casa na rua de Santo André.</p>
-
-<p>A mallograda Emilia morrera na quinta do Prado,
-ao cabo d’um anno de tão melancholico exilio.</p>
-
-<p>Rosa, no tempo a que somos obrigados a remontar,
-tinha vinte e um annos; Maria Luiza,
-dezenove.</p>
-
-<p>Rosa não era uma belleza. Tinha, porém, um
-trato tão suave e delicado, um quê de meiguice
-e de ternura, que diffundia encanto. Maria
-Luiza, ao contrário da irmã, era um demonio
-bonito. Conversava com os homens mais do que
-com as senhoras, valsava com delirio, tinha a
-ironia prompta e o epigramma certeiro, tocava
-piano e recitava versos, cantava <i>seguidillas</i> e
-desvelava um vaso d’alecrim do Norte que tinha
-ao canto da janella. Era trigueira e possuia
-uns olhos negros que nadavam em luz.
-Parecia que não andava; voava. Ouvia-se um
-ruflar de azas; olhava-se... era ella. Não houve
-ainda mulher mais flexivel, nem mais elegante.
-Era quasi uma columna de fumo, que ondulava
-no espaço e que desapparecia com um sôpro.
-Lembra-me comparal-a áquella creatura aerea,
-vaporosa, que nós conhecemos d’um livro
-d’Octavio Feuillet. Maria Luiza tinha seus laivos
-da <i>condessinha</i> do escriptor francez. Era
-porém mais intelligente e menos desenvôlta.
-Ainda assim com que <i>salero</i>, puramente andaluz,
-não batia ella as mãos, correndo do seu
-alecrim para o seu piano e entoando a meia
-voz um fragmento de <i>seguidilla</i>:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">El amor que te tengo</div>
-<div class="verse indent3">parece sombra;</div>
-<div class="verse">quanto mas apartado</div>
-<div class="verse indent3">mas cuerpo toma.</div>
-<div class="verse">La ausencia es aire</div>
-<div class="verse">que apaga el fuego chico</div>
-<div class="verse">y enciende el grande.</div>
-</div>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span></p>
-
-<p>Depois, se a irmã se sentava ao piano e voejavam
-ao longo da sala notas de suavissima
-tristeza, como um bando de rôlas viuvas que
-se andassem carpindo, Maria Luiza, para se furtar
-á impressão dolorosa da musica, batia o
-pésinho no chão e começava, saltando, a cantar.</p>
-
-<p>Havia só um nome, só uma palavra, que a
-fazia entristecer subitamente. Era o nome de
-sua irmã Emilia. Tinham sido duas irmãs extremosas,
-que viviam uma para a outra.</p>
-
-<p>Ás vezes, n’um momento de dolorosissima
-saudade, dizia a inquieta donzellinha:</p>
-
-<p>—Quem sabe se virei a morrer da morte de
-minha irmã? Talvez. Eramos tão amigas!...</p>
-
-<p>Estavam na quinta do Prado, como já se
-disse, quando Emilia morrera. Os tisicos enganam
-até ao ultimo momento; ninguem esperava
-que ella passasse n’aquelle dia. Rosa tocava,
-na sala proxima, umas <i>variações</i> da <i>Norma</i>;
-Maria Luiza falava com a doente a respeito
-das andorinhas e do sol, das flores e das borboletas,
-das noites de luar e dos rouxinoes. De repente
-a irmã interrompera-a, para segredar-lhe:</p>
-
-<p>—Ouves? É a musica do noivado. O meu
-noivo espera-me. Has de me dar um ramo de
-lirios para levar no seio. Eu gosto tanto dos
-lirios! Os rouxinoes são meus amigos. Esperava
-este momento com anciedade; <i>elle</i> já me espera
-ha dois annos e devia ter saudades de mim.
-Morreu tão novo! Ouves, minha irmã? A musica
-continua. São as andorinhas, que chilriam...
-Dá-me um beijo; as borboletas são irmãs
-das flores e tambem se beijam.</p>
-
-<p>Ouviu-se o frémito d’um beijo e o som agudo
-d’um grito. Era a voz de Maria Luiza. Sua
-irmã tinha morrido a beijal-a, como se quizesse
-transmittir-lhe a vida n’um beijo.</p>
-
-<p>Ao grito de Maria Luiza acudiu o pae, a mãe
-e a irmã. Já chegavam tarde, porém.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span></p>
-
-<p>Desde aquelle dia, Maria Luiza entristecia-se
-quando lhe falavam d’essa hora amargurada.
-Tornou-se amiga de todos os que eram
-amigos de sua irmã e ia todos os domingos ao
-cemiterio d’aldeia poisar um ramo de flores
-sobre o tumulo fechado havia pouco tempo.
-Quando vieram habitar em Braga, Maria Luiza
-soffreu muito com a falta da visita ao cemiterio,
-ou com a <i>ausencia de sua irmã</i>, como ella dizia.
-Aos domingos, todavia, era quando mais
-cantava o</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">El amor que te tengo</div>
-<div class="verse indent3">parece sombra...</div>
-</div>
-</div>
-
-<p class="noindent">e dizia a Rosa que se via obrigada a cantar
-para reprimir as lagrimas no seio.</p>
-
-<p>Thomaz Ignacio Machado morreu em Braga,
-dezoito mezes depois de ter sahido da quinta
-do Prado. Chorou-o a esposa, choraram-n’o as
-filhas estremecidas e choraram-n’o todos os
-que viam n’elle um homem remido das faltas
-do passado por um longo soffrimento.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>III</h2>
-
-<p>João Nicolau de Brito e sua mulher receberam,
-como tinham combinado. Concorreram
-á <i>soirée</i> as familias de mais intimo trato n’aquella
-casa. Abriu-se o piano, n’essa noite,
-e desterrou-se o <i>loto</i>, que era já então o maximo
-divertimento dos serões bracharenses e
-continua a ser para eterna semsaboria das noites
-de Braga.</p>
-
-<p>A dansa, a alegria, a musica tomaram a vez<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span>
-ao jôgo. Eduardo era a machina motora de tão
-notaveis reviramentos na casa de dois velhos
-amolestados de rheumatismo e outros gravames
-da velhice. Abriu-se a <i>soirée</i> com uma quadrilha.
-Eduardo fez o milagre de tentar a avó e
-conseguiu que a pobre senhora figurasse no—<i>en
-avant</i>—a par de tres raparigas, incluindo as
-irmãs Machados. João Nicolau de Brito jubilou
-com a delicadeza do neto e apresentou-o, finda
-a dansa, como poeta, ás pessoas que estavam
-na sala.</p>
-
-<p>O amor proprio tem d’estes paradoxos. João
-Nicolau desestimou a qualidade de poeta na
-pessoa do neto; agora, lisonjeado da muita delicadeza
-d’elle, folga de que o rapaz se extreme
-dos outros com merecimentos distinctos.</p>
-
-<p>As senhoras festejaram a denuncia de um talento
-precoce, que não tinham avaliado ainda,
-do filho do bacharel.</p>
-
-<p>Correu n’esse momento ao longo da sala um
-sussurro de vozes: era o cochichar de meia duzia
-de raparigas tentadiças com poetas, sob o commando
-de Maria Luiza, idealista por excellencia.</p>
-
-<p>—É dever teu, Eduardo—disse de golpe D.
-Maria d’Assumpção—comprovares a opinião
-antecipada, que de ti formamos. Recita-nos alguma
-coisa.</p>
-
-<p>—De boa vontade, minha senhora—respondeu
-elle—se não receasse a indelicadeza d’incommodar
-v. ex.ᵃˢ e não me conhecesse com o
-vezo de ser horrivelmente desmemoriado.</p>
-
-<p>—Vá o que lembrar—accrescentou João Nicolau.</p>
-
-<p>—Mas coisa da tua lavra—tornou D. Maria
-d’Assumpção.</p>
-
-<p>—Folgamos d’ouvil-o—disse Maria Luiza.</p>
-
-<p>Eduardo percebeu que seria indelicadeza imperdoavel
-o desculpar-se mais.</p>
-
-<p>—Ahi vão, disse elle, seis quadras que não
-valem nada. Intitulam-se:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span></p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<p class="center">Frémitos</p>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Quando tu vaes á janella,</div>
-<div class="verse">Á noite, e pensas em mim,</div>
-<div class="verse">Ha uma voz que diz—Ella!</div>
-<div class="verse">—São os lirios do jardim...</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Se d’um livro sobre a folha</div>
-<div class="verse">Te pende a cabeça e o véo,</div>
-<div class="verse">Ha uma voz que diz:—Olha!</div>
-<div class="verse">—É o mar chamando o céo...</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Quando esse teu olhar mede</div>
-<div class="verse">Todo o horizonte do sul,</div>
-<div class="verse">Ha uma voz que diz:—Vêde!</div>
-<div class="verse">—Talvez seja a voz do azul...</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Se, ao fim da tarde, á janella,</div>
-<div class="verse">Olhas, nem sabes o que,</div>
-<div class="verse">Ha uma voz que diz: Bella!</div>
-<div class="verse">—É a voz do que se não vê...</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Mysterios que eu não abranjo!</div>
-<div class="verse">No jardim, ao pôr do sol,</div>
-<div class="verse">Ha uma voz que diz:—Anjo!</div>
-<div class="verse">—A voz d’algum rouxinol...</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Quando ha luar e te chamo</div>
-<div class="verse">Entre as moitas d’alecrim,</div>
-<div class="verse">Se ha uma voz que diz:—Amo!</div>
-<div class="verse">Penso que a voz sae de mim...</div>
-</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Estrondearam na sala freneticos applausos.</p>
-
-<p>O moço poeta, de dezeseis annos, agradecia
-a ovação espontanea e unanime com mostras
-de modestia e ingenuidade estimaveis.</p>
-
-<p>Merecidos eram sem dúvida taes applausos.</p>
-
-<p>Nos versos do filho do bacharel Valladares
-havia poesia, se poesia se pode chamar este
-alar-se da alma para um mundo phantastico<span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span>
-onde se ama já uma mulher que ainda se não
-viu.</p>
-
-<p>Os que entendem que a poesia é uma coisa
-que elles mesmos não entendem, o nebular a
-phrase de modo a encobrir a carencia d’uma
-idéa aproveitavel, esses, apostolos do germanismo
-transmontado, rir-se-hão da futilidade
-d’um poetar singello cadenciado na lyra incorrecta
-dos dezeseis annos.</p>
-
-<p>Maria Luiza Machado, como enthusiasta por
-versos, pediu ao poeta a cópia dos seus. Isto
-bastou a travar-se conversação.</p>
-
-<p>—Bem me parecia—disse ella—que o seu
-coração devia, para cantar mavioso aos dezeseis
-annos, sentir um raio de sol que o inspirasse.</p>
-
-<p>—Peço desculpa para redarguir a v. ex.ᵃ Os
-meus versos são talvez uma prophecia. A alma,
-ainda não adestrada para luctar com as procellas
-do mundo real, cria para si uma região
-phantastica.</p>
-
-<p>—Seja como fôr, tornou ella. Desejo possuir
-os seus versos. Quando m’os dá?</p>
-
-<p>—Amanhã.</p>
-
-<p>Pactuou-se, no fim da <i>soirée</i>, o primeiro passeio
-ao Bom Jesus, no domingo proximo.</p>
-
-<p>Recordações d’essa noite ficaram muitas e
-immarcessiveis na alma de Eduardo Valladares.
-Depois da ultima quadrilha, quando os convidados
-retiraram e a sala ficou deserta, é que
-foi o escurecer-se subitamente aquella alma,
-que mergulharia em profundas trevas, se a imagem
-esplendida de Maria Luiza lhe não rareasse,
-a instantes, as sombras interiores. Um olhar
-e uma phrase d’ella fôram as ultimas impressões
-d’essa noite.</p>
-
-<p>—Seja como fôr. Desejo possuir os seus versos,
-disse-lhe ella.</p>
-
-<p>E abriram-se-lhe os labios n’um sorriso de
-fada.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span></p>
-
-<p>—Mas, dizia de si para si o filho do bacharel
-Valladares, tenho apenas dezeseis annos e deixo-me
-assim embalar nos braços de uma esperança
-dulcissima que me pode fugir amanhã!</p>
-
-<p>Durante os dois dias que decorreram desde
-essa noite até o domingo seguinte, annuviou-se
-o semblante de Eduardo a ponto de João Nicolau
-fazer reparo na extranha tristeza do rapaz.
-Quedou-se o velho a scismar no visivel desgôsto
-do neto e não lhe rasteou origem. Isto
-inquietara-o sobremaneira. Revelou á esposa as
-suspeitas e dúvidas que o embaraçavam; conchavaram-se
-os dois no proposito de dar finalmente
-com a chave mysteriosa do enigma.</p>
-
-<p>Passadas algumas horas depois d’este secreto
-colloquio dos dois velhos, D. Maria da Assumpção
-foi dar com o neto emboscado na ramaria
-d’uma olaia que sombreava o angulo do quintal.
-Estava o moço d’olhos pregados no horizonte
-recortado pelas arvores verdejantes dos quintaes
-da rua de Santo André.</p>
-
-<p>D. Maria d’Assumpção seguiu por alguns momentos
-a direcção do olhar do neto e o mesmo
-foi despeitorar-lhe os mais intimos segredos do
-coração. Subiu as escadas precipitadamente e
-chamou o marido a uma das janellas sobranceiras
-ao quintal.</p>
-
-<p>—Olha, disse-lhe ella apontando para o neto.
-O coração—o coração dos dezeseis annos sobretudo—ha
-de ter sempre d’estas contradicções.
-O excesso da felicidade acarreta d’estas
-maguas. O que elle deseja é o momento de tornar
-a vêl-a... São chuveiros d’abril, que não
-inspiram cuidado.</p>
-
-<p>—Olha que a mocidade d’agora começa muito
-cedo a tresnoitar-se! O amor dos dezeseis annos!
-Lêsse-se este caso n’um livro a ver se alguem
-o acreditava! No nosso tempo não se vivia
-tanto em tão poucos annos.</p>
-
-<p>—Ahi estás tu a denunciar a edade que tens!<span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span>
-É sestro dos velhos andar a reprehender os
-novos, e o que elles pensam e fazem. Não se
-vivia tanto em tão poucos annos! disseste tu.
-Já te não lembras da historia d’uns amores em
-que falas quando vem de geito citar façanhas
-da mocidade...</p>
-
-<p>—É uma historia que tem graça. Da janella
-do meu quarto, no collegio onde me eduquei,
-andava eu a espreitar nas horas de recreio
-para a janella d’um terceiro andar onde morava
-uma costureirinha d’olhos negros...</p>
-
-<p>—Uma costureirinha! O teu neto revela mais
-fidalgos e poeticos instinctos. Ama romanescamente.
-Tu andavas mais terra a terra. Não tens
-que vêr. Iremos domingo ao Bom Jesus.</p>
-
-<p>—Iremos se quizeres. Não sei que systema
-teem ás vezes as mulheres!</p>
-
-<p>—O meu systema é o do jardineiro experimentado.
-É preciso cuidar da flor, dar-lhe sol,
-para que desabrochem depois todas as galas
-que a Providencia lhe der.</p>
-
-<p>—Anda lá, anda lá, quero ver se a theologia
-lhe ha de dar tempo para andar com a cabeça
-á roda!</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>IV</h2>
-
-<p>Batiam sete horas da manhã nas torres do
-Bom Jesus do Monte, quando João Nicolau de
-Brito, sua mulher, Eduardo e as duas meninas
-Machados subiam em alegre caravana o escadorio
-do santuario. Pelo que diz respeito aos
-dois velhos, em cujo grupo faltava a viuva Machado,
-iam cansados da subida; não assim os
-companheiros, que saltavam alegremente d’escada
-em escada, como tres avesinhas que voltassem
-no mesmo dia á liberdade do ar, depois<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span>
-d’uma reclusão asperrima, e fôssem chilreando
-de fronde em fronde pela encosta acima.</p>
-
-<p>Affluiram, n’esse dia, ao Bom Jesus muitas familias
-de Braga, de sorte que se augmentara
-consideravelmente a ruidosa caravana.</p>
-
-<p>Demoraram-se na hospedaria João Nicolau,
-sua mulher e os outros velhos, seus conhecidos,
-trôpegos de rheumatismo; o resto da caravana
-errava pela montanha ao sabor de cada um.</p>
-
-<p>Eduardo Valladares sentiu por momentos
-necessidade de conversar com a sua alma em
-jubiloso dialogo. Subiu ao largo dos Evangelistas,
-e embrenhou-se na matta sombria da Mãe
-d’Agua.</p>
-
-<p>Estava elle escrevendo a lapis na carteira,
-quando casualmente descobriu, através da folhagem,
-um vulto indistincto.</p>
-
-<p>Encobriu-se com o muro posterior á mina e
-ficou d’atalaia, a coberto da parede. Passados
-alguns momentos reconheceu ser Maria Luiza
-e sentiu bater-lhe o coração vertiginosamente.</p>
-
-<p>Vinha ella, pensativa, subindo a alameda.
-Depois sentou-se n’um banco de pedra e descahiu
-a scismar, encostada á mesa, que tambem
-era de pedra<a name="FNanchor_2" id="FNanchor_2"></a><a href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a>.</p>
-
-<p>Eduardo Valladares espreitava-a silencioso.
-Ora sentia estuar-lhe o sangue nas arterias escandescentes
-ora esfriar-se com esvahimentos
-de moribundo anciado. Maria Luiza quedara-se
-a scismar com os olhos fitos no vago e o rosto
-<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span>descansado na mão. É um mysterio que se não
-comprehende, um enigma que se não decifra—o
-que seja este vago d’uns olhos contemplativos,
-o ponto indistincto e nebuloso onde se fita
-o olhar, a não ser que esse ponto seja a lente
-que reflicta o olhar de si mesmo namorado.
-Pois em que mais se pode extasiar uma alma
-venturosa a não ser na intima contemplação
-da primavera interior? Dizem pois, e dizem
-bem, os que entendem do coração, que os olhos
-são o espelho da alma e o olhar a muda expressão
-do sentimento que a domina. Tudo isto
-nos vae levando insensivelmente a uma conclusão
-provavel. Pois se o olhar é o reflexo da
-alma, se a alma está absorta em júbilo, e se a
-vista se concentra n’um ponto unico, quem poderá
-duvidar de que esse ponto seja a lente
-mysteriosa que está espelhando o fogo do nosso
-olhar, o fogo da nossa alma? Ora se não é isto
-o vago d’uns olhos contemplativos, não sei eu
-bem o que seja o vago. O que sei, porém, é que
-todas as almas placidamente inebriadas teem
-d’estas horas de arroubo em que os olhos se
-embellezam no azul d’um horizonte desconhecido
-aos outros.</p>
-
-<p>Estava, pois, Maria Luiza extasiada n’estes
-ineffaveis enlêvos, quando sentira cahir-lhe aos
-pés um papel, que mão invizivel impellira. Despertou
-de subito d’aquelle dulcissimo <i>far niente</i>,
-que é o sonhar accordado da alma. Pegou no
-papel e desdobrou-o precipitadamente; desdobrou-o
-e leu-o.</p>
-
-<p>Dizia assim:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">«Disse a rosa á borboleta:</div>
-<div class="verse">—«Abre uma aza, inquieta,</div>
-<div class="verse">Faze-me d’ella um docel...»—</div>
-<div class="verse">Volveu ella:—«Flor dos valles,</div>
-<div class="verse">Dá-me, em paga, do teu calix</div>
-<div class="verse">A seiva, o licor, o mel...»—</div><span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span>
-<div class="verse">Assim nós tambem. N’um dia</div>
-<div class="verse">Sob a aza da poesia</div>
-<div class="verse">Dormiste e sonhaste, ó flor.</div>
-<div class="verse">Eu, namorado e poeta,</div>
-<div class="verse">Hei de ser a borboleta,</div>
-<div class="verse">Tu a rosa; o mel, o amor...</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Voltou-se surprehendida Maria Luiza como
-a procurar nas sombras do arvoredo o apaixonado
-fauno que furtivamente viera requestar
-com incendidos madrigaes a nayade formosa;
-o mesmo foi encarar no moço enamorado, que
-procurava lêr nos olhos d’ella a impressão dos
-versos, e que sentira esvahidas as fôrças quando
-tentou fugir d’aquella suavissima prisão que
-alli o tinha como galvanisado.</p>
-
-<p>—Aqui? disse-lhe ella. Pensei que tinha
-acompanhado o resto da caravana.</p>
-
-<p>—Idealista, como v. ex.ᵃ—volveu elle convulsamente
-e como querendo dominar uma impressão
-violenta—procuro ás vezes a solidão.
-Não temos que extranhar o encontrarmo-nos
-aqui.</p>
-
-<p>—De mais extranheza será, porém, dizer-lhe
-eu que se occultam n’estas sombras da Mãe
-d’Agua faunos poetas, que sabem escrever bonitos
-versos ao sabor de madrigaes. Aqui tenho
-eu uns que me parecem maviosos; ou me
-vieram da mão d’um fauno, que, por engano,
-me tomara á conta de nayade, ou cahiram por
-acaso da aza d’uma andorinha, que era correio
-d’amantes.</p>
-
-<p>Eduardo Valladares empallidecia extremamente.</p>
-
-<p>—E comtudo esta lettra não me é extranha,
-continuou Maria Luiza. Notavel coincidencia!
-Parece-se muito com a sua, com a dos versos
-que teve a gentileza de me enviar ante-hontem.
-Ora veja...</p>
-
-<p>N’este momento ouviu-se ao fundo da alameda<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span>
-uma voz de mulher. Quedaram-se os dois
-á escuta. Passados instantes, porém, descobriu-se
-através das arvores o vulto já distincto
-da irmã de Maria Luiza.</p>
-
-<p>Chamava para o almôço, que esperava por
-elles na mesa da hospedaria.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>V</h2>
-
-<p>Tres dias depois do primeiro passeio ao Bom
-Jesus do Monte escrevia Eduardo Valladares a
-sua mãe:</p>
-
-<p>«Escuso de lhe dizer que me resenti da falta
-do carinho materno, da mudança de terra e de
-casa, da differença de costumes, de tudo isto
-finalmente que a gente conhece desde os primeiros
-annos da vida. Devo dizer-lhe, porém,
-minha mãe, que sahi da minha familia para encontrar
-outra familia que tambem é minha, e
-onde, para ser a felicidade completa, apenas me
-falta o livro sagrado do seu coração que eu sabia
-delettrear e comprehender.</p>
-
-<p>«Da cidade—e não sei se para isto contribuirá
-o ter nascido aqui minha mãe—da cidade,
-que é em verdade pittoresca, dir-lhe-hei que
-não desgosto e que se me afigura melhor do que
-o Porto para se respirar ar saudavel e morrer
-a gente com uma gordura fradesca.</p>
-
-<p>«A falta de movimento que se nota em Braga,
-procedente da exiguidade da população, é
-uma garantia de commodidade, longe de ser um
-defeito. Pode a gente dormir á vontade, até altas
-horas do dia, que não corre perigo d’accordar
-sobresaltada pelo estrepito das ruas. Só os
-sinos... Ai! os sinos de Braga, minha mãe, badalejam<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span>
-que é de qualquer pessoa ensurdecer
-dentro de quarenta e oito horas. Isso sim, que
-é horroroso!</p>
-
-<p>«A esta praga dos sinos só acho comparavel
-em semsaboria a extensão das noites de Braga.</p>
-
-<p>«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer
-de que não, estava no Porto. Quiz a avó convidar
-algumas familias das suas relações, cuido
-que para festejar a minha chegada, e passou-se
-o serão alegremente, mais alegremente do que
-era de esperar.</p>
-
-<p>«Das senhoras que concorreram, apenas merecem
-especial menção as meninas Machados,
-que são muito estimaveis e sympathicas. Em
-companhia d’estas senhoras passamos o dia
-de domingo no Bom Jesus do Monte, a mais formosa
-paizagem que tenho visto em vida minha.
-Aquillo sim, que é bonito e suave! N’aquellas
-sombras deliciosas sente a gente abrir-se
-o coração para sentimentos novos. Minha mãe,
-que decerto alli viveu alguns dos dias da sua
-mocidade, deve comprehender que impressões
-dulcissimas recebi. Quando desci da montanha,
-vinha saudoso, preciso confessal-o. Saudoso de
-quê? Da montanha, que posso visitar quando
-me aprouver? Não sei Saudoso talvez d’umas
-horas agradaveis que lá vivi.</p>
-
-<p>«E depois no Bom Jesus do Monte nem os homens
-andam embuçados em capotes, como na
-cidade, nem as senhoras espreitam os transeuntes
-a coberto das rotulas das janellas. Alli ha
-completa liberdade, principiando pelas aves
-que se desenfadam de tronco em tronco sem
-que ninguem as persiga.»</p>
-
-<p>A carta do filho do bacharel Valladares merece-nos
-reparos.</p>
-
-<p>Pelo que diz respeito ao seu estado moral,
-cumpre fazer notar estas phrases involuntariamente
-significativas:</p>
-
-<p>«... para ser a felicidade completa, apenas<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span>
-me falta o livro santo do seu coração que eu
-sabia delettrear e comprehender.»</p>
-
-<p>«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer
-de que não estava no Porto.»</p>
-
-<p>«Das senhoras que concorreram, merecem especial
-menção as meninas Machados, que são
-muito estimaveis e sympathicas.»</p>
-
-<p>Referindo-se ao Bom Jesus do Monte dissera
-Eduardo Valladares, como o leitor viu, que
-«n’aquellas sombras deliciosas sente a gente
-abrir-se o coração para sentimentos novos.»</p>
-
-<p>Quereria elle dizer que a sua alma se estava
-enflorando para exuberantes primaveras e auroras
-ainda não conhecidas?</p>
-
-<p>O futuro nol-o dirá.</p>
-
-<p>No attinente á apreciação de Braga, corre-nos
-obrigação de lembrar ao leitor que o filho do
-bacharel Valladares escrevia n’um tempo em
-que Braga conservava ainda os biocos d’uma
-verdadeira provinciana.</p>
-
-<p>Vão hoje, em pleno anno de 1870, visitar a
-capital do Minho e dir-me-hão se não enlevaram
-os olhos nas graças das damas bracharenses
-que passeiam a sua elegancia por entre os alegretes
-do campo de Sant’Anna.</p>
-
-<p>Homens de capote só os ha lá... quando está
-frio, o que se me afigura uma prova irrecusavel
-do bom senso da população masculina d’aquellas
-paragens.</p>
-
-<p>Diz um adagio «Deus dá o frio conforme a
-roupa». Quer-me parecer, porém, que seria muito
-mais verdadeiro e sensato dizer se «Deus deu
-a roupa por causa do frio.»</p>
-
-<p>Quanto aos sinos, ainda em 1870, como então,
-são egualmente detestaveis os de Braga e os...
-do Porto.</p>
-
-<p>Chateaubriand escreveu algures que o christianismo
-conseguiu dar suspiros ao bronze.</p>
-
-<p>Sem querer desvirtuar a poetica idéa do auctor
-do <i>Genio do Christianismo</i>, sou a dizer que<span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span>
-me não quer parecer «suspirar», um martelar
-continuo de toadas populares nos sinos das cidades.
-A musica das ruas invadiu a egreja.</p>
-
-<p>Suspirar é o do sino da aldeia, que nos viu nascer,
-quando vibra sonoro ao pôr do sol, no meio
-da solidão.</p>
-
-<p>Acceito de melhor sombra estas palavras do
-mesmo Chateaubriand no <i>René</i>:</p>
-
-<p>«Tudo se encontra nas encantadas meditações
-que em nós desperta o sino natal: religião,
-familia, patria, o berço e o tumulo, o passado e
-o futuro.»</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>VI</h2>
-
-<p>Depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do
-Monte, Eduardo Valladares só a furto vira Maria
-Luiza ao declinar da tarde, durante nove dias.</p>
-
-<p>Quando o sol inclinava para o occaso, sahia
-elle em direcção a Guadelupe. Ao passar na rua
-de Santo André, sempre os seus olhos se encontravam
-com os de Maria Luiza como por magnetismo.
-Seria um acaso? Quem diria a ella, da
-primeira vez, que elle ia passar? Amal-o-hia?
-Se o amava, se sentia que o ia amar, dizia-lhe
-uma voz interior que elle viria? Mas pareceu
-fital-o tranquilla, sem revelar um indicio de
-commoção... Não o amaria, zombaria de
-um sentimento celestialmente puro? Mas nem
-que o coração lhe estivesse adivinhando a hora
-a que elle viria! Nem um só dia deixaram de
-se ver...</p>
-
-<p>Era a furto, é verdade; que o timido moço
-não sabia que impressões conservaria Maria
-Luiza do passeio ao Bom Jesus. Erguia o seu
-olhar para ella, e desviava-o subitamente...</p>
-
-<p>Os versos, pensava elle, fôram pouco menos<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span>
-d’uma indiscreção. Quem lhe dera motivo para
-alimentar uma esperança? Ella, Maria Luiza?
-Que lhe dissera que deixasse entrever os primeiros
-clarões d’uma aurora? E todavia arriscara-se
-elle a escrever:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Eu, namorado e poeta,</div>
-<div class="verse">Hei de ser a borboleta,</div>
-<div class="verse">Tu a rosa; o mel, o amor...</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Estas dúvidas alanceavam-lhe o espirito. Que
-devia fazer? Conformar-se com a incerteza, fugir
-á luz, áquella luz que o estava attrahindo,
-a elle, a mariposa dos dezeseis annos? Mas fugir-lhe
-era morrer, que se podia viver longe do
-ninho querido, do carinho materno, das recordações
-da sua infancia, era porque a tinha visto,
-era porque a tinha encontrado...</p>
-
-<p>E—pensamento cruciante!—quem lhe dizia
-que ella era livre, que se não deixava embalar
-nas dulcissimas esperanças d’um amor
-feliz? Este pensamento infernava-lhe a alma e,
-n’esses momentos dolorosamente attribulados,
-lembrava-se de sua mãe, e parecia que o invocar
-o nome materno valia tanto como sentir
-calmarem-se as tempestades interiores.</p>
-
-<p>N’aquella solidão de Guadelupe era que
-Eduardo Valladares gostava de se deixar atormentar
-por estas dúvidas queridas. Aquella
-agitação tinha alguma coisa de pungente e alguma
-coisa de deliciosa... E depois, alongando
-o olhar, via extender-se ao sopé de Guadelupe
-a rua de Santo André... E para o outro lado,
-ao nascente, avultava no horizonte a montanha
-do Bom Jesus onde tinha sentido os primeiros enlêvos,
-onde um anjo mysterioso, de azas brancas
-talvez, lhe segredara docemente uma palavra
-de esperança...</p>
-
-<p>Era lá, onde a coma do arvoredo frondejava
-mais espessa, no alto da serra, que Maria Luiza<span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span>
-lêra os seus versos, e parecia que a amenidade
-melancholica da floresta santa lhe entrava no
-coração... Seria aquella montanha o seu Gethesemani?
-O futuro era mudo. Na serra campeava
-a cruz, phanal salvador dos náufragos
-da existencia, e elle tinha ainda na memoria as
-doces orações que sua mãe lhe ensinara a balbuciar.</p>
-
-<p>E as sombras da noite pareciam emergir
-d’entre o arvoredo, e serra, e floresta, e cruz
-desappareciam envôltas na escuridão.</p>
-
-<p>Quando Eduardo Valladares descia de Guadelupe,
-era sempre noite cerrada; um unico
-pensamento o occupava—ver Maria Luiza no
-dia seguinte.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>VII</h2>
-
-<p>Dez dias volvidos disse D. Maria Assumpção,
-de manhã, ao neto:</p>
-
-<p>—Vamos hoje passar a noite a casa das Machados.
-É preciso fazeres-te homem. As mulheres
-é que vivem encerradas dentro de quatro
-paredes. Passas a manhã em casa a ler, e apenas
-saes de tarde um boccadinho! Onde vaes tu?</p>
-
-<p>—Sento-me em Guadelupe e gosto d’aquelle
-sitio, respondeu Eduardo procurando ler a impressão
-da resposta no olhar da avó.</p>
-
-<p>—É bonito... mas triste. Precisas de procurar
-relações e de afastar de ti uns ares improprios
-da tua edade. Domingo, havemos de tornar
-ao Bom Jesus. É preciso divertir e passear
-emquanto é tempo, rapaz, que o mez de outubro
-está ahi á porta e depois, cursando o lyceu,
-não tens remedio senão deitar-te aos livros.</p>
-
-<p>—Estou preparado para isso e cuido que<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span>
-hei de saber corresponder á dedicação de meus
-avós.</p>
-
-<p>—Assim deve ser. Põe o teu chapéo e vae sahir,
-anda, mysanthropo.</p>
-
-<p>—Agora... estou tão bem em casa...</p>
-
-<p>—O que tu quizeres, teimoso! Já te disse que
-depois de abertas as aulas hão de ser poucas
-as distracções.</p>
-
-<p>—E não iremos mais ao Bom Jesus? ousou
-perguntar Eduardo.</p>
-
-<p>—Iremos; menos vezes. Eu tambem gosto
-d’aquelle passeio, e sinto que me faz bem. Mas
-não se cifram no Bom Jesus os sitios bonitos
-dos arrabaldes. Has de gostar tambem das margens
-do Cávado.</p>
-
-<p>—Mais que do Bom Jesus?</p>
-
-<p>—Não sei.</p>
-
-<p>—Ah! mais que do Bom Jesus acho que não
-posso gostar.</p>
-
-<p>D. Maria d’Assumpção foi ter com o marido
-e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Este rapaz é magico, não quer sahir!</p>
-
-<p>—Deixa-o lá, elle se aborrecerá d’estar em
-casa.</p>
-
-<p>—Não é tanto assim, homem de Deus! É
-preciso distrahil-o, aconselhal-o com brandura,
-que é filho de nossa filha. Domingo havemos de
-tornar ao Bom Jesus.</p>
-
-<p>—Mas que empenho tens tu em andar a passear
-o rapaz?</p>
-
-<p>—Quero amenizar-lhe esta passagem repentina
-da vida em que foi creado para outra vida
-completamente nova. Depois, abrindo-se as
-aulas, é que eu não quero que elle passeie. Já
-lhe disse que, em chegando outubro, era preciso
-estudar como um homem.</p>
-
-<p>—E elle que respondeu?</p>
-
-<p>—Deu mostras de querer desempenhar cabalmente.
-Mas não comeces tu depois a opprimil-o
-demasiadamente com as tuas asperezas.<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span>
-Olha que o espirito, cansado do estudo, precisa
-d’um refrigerio.</p>
-
-<p>—Livremol-o de relações estreitas com estudantes,
-que são, por via de regra, rapazes que
-vivem em liberdade pouco digna.</p>
-
-<p>—Eis ahi por que me parecia que um namorito...</p>
-
-<p>—Vocês, as mulheres, ligam-se tamanha importancia,
-que julgam que o render-vos preito
-é a suprema salvação de qualquer. O rapazinho
-se começar a desmandar-se torna pelo mesmo
-caminho por onde veiu. Tu sabes que eu não
-sou muito para graças. Este anno ha de acabar
-os preparatorios e para o anno ha de cursar
-o Seminario. Isto é se quizer; se não quizer,
-que volte para a companhia do pae.</p>
-
-<p>—Mas tambem que proposito é esse de assentar
-com tamanha antecipação o destino do
-rapaz? Estás dominado do espirito religioso de
-Braga e achas que ser padre é caminhar proveitosamente
-pela estrada social em direcção
-ao Céo! Não sei como te não ordenaste?</p>
-
-<p>—Temos em mim um exemplo da efficacia
-dos namoritos. Meu pae queria me ordenar, porque
-era meu amigo. Vi-te, comecei a desorientar
-me e casei...</p>
-
-<p>—Olha que perdeste muito! Estavas agora
-arcebispo, pelo menos, se obtivesses absolvição,
-para os teus burguezes devaneios com a costureira
-do terceiro andar.</p>
-
-<p>E como D. Maria d’Assumpção caminhasse
-para a porta da saleta, chamou a o marido com
-a brandura de quem deseja reconciliar-se:</p>
-
-<p>—Olha cá. Pelo que disse a meu respeito,
-sabes que não passa tudo de graça. Lá quanto
-a ordenar-se o rapaz, é coisa assente e proposito
-firme. Que queres tu que elle seja? Queres
-que o mande para Coimbra gastar-nos rios de
-dinheiro para o vermos ao cabo de cinco annos
-a caçar môscas como o pae?</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span></p>
-
-<h2>VIII</h2>
-
-<p>Eduardo Valladares, quando soube que n’essa
-noite poderia vêr Maria Luiza, sentiu no coração
-uma alegria subita que de momento a momento
-era obscurecida por umas sombras ligeiras...
-Dir se-hia que n’aquella alma de dezeseis
-annos se travara lucta entre os lampejos
-d’uma esperança e as nuvens d’uns receios que
-são attributo da timidez procedente da inexperiencia.</p>
-
-<p>N’aquella alma, digamol o pois, preparava-se
-uma aurora: luctava a luz com as trevas.</p>
-
-<p>Ver Maria Luiza era levantar o espirito a páramos
-celestiaes ante gostados em horas de dulcissima
-meditação; era voejar nas azas da esperança
-até onde a felicidade pudesse subir uma
-creatura absorta em sonhos do Céo. Mas vêl-a
-não seria despenhar-se em abysmos insondaveis,
-se nos labios d’ella não desabrochasse um sorriso
-equivalente a uma promessa? Todas as
-dúvidas, que até ahi o haviam salteado dia e
-noite, como que se levantaram em tropel e deliciosamente
-lhe pungiram o coração amoroso.</p>
-
-<p>O filho do bacharel entrou na sala da viuva
-Machado com a timidez de quem arriscasse um
-passo n’um estrado sobreposto ao boqueirão
-d’um despenhadeiro. O mesmo porém foi entrar
-e cegar-se deante d’aquella visão aerea,
-tentadora, que parecia encher a casa d’alegria e
-esplendores.</p>
-
-<p>A aurora da felicidade, que a cercava, afigurou-se
-porém a Eduardo Valladares o clarão
-sinistro d’um incendio que lhe vinha requeimar
-o coração.</p>
-
-<p>A elle, que se sentia triste, porque amava, a<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span>
-elle, que luctava com a incerteza, porque esperava,
-a elle pareceu pois que só a estrema despreoccupação
-d’espirito podia dar a tranquilla
-alegria que Maria Luiza revelava no gesto e no
-olhar.</p>
-
-<p>Ó deliciosas illusões dos dezeseis annos, que
-sois a verdadeira felicidade, quem pudera rehaver-vos,
-uma só vez que fôsse, depois de transposta
-a barreira que separa o mundo das chimeras
-do mundo das realidades!</p>
-
-<p>A experiencia é fria como tudo o que é positivo,
-material e immutavel. Ultrapassada a linha
-divisoria, sabe-se que o coração freme em
-tempestuosa lucta quando aos labios apontam
-sorrisos de felicidade. Ó experiencia, ó escalpello
-das coisas mundanas, queres rasgar, decompor,
-retalhar, para saber!</p>
-
-<p>Aos dezeseis annos contentam-se os olhos
-com vêr a superficie d’este mar chamado—coração
-humano. E não se sabe então que o oceano,
-cuja face se azuleja como o céo nas regiões polares,
-e disputa negruras com a tempestade na
-costa das Maldivas, não se sabe que o oceano,
-diziamos, occulta sob uma superficie crystallina
-ou sombria um mundo sempre cheio dos mesmos
-mysterios e da mesma escuridade... Ó
-abençoada ignorancia, que tamanhas saudades
-deixas para toda a vida!</p>
-
-<p>Aos dezeseis annos ignora-se ainda que ha
-certas organizações robustas, que não só chegam
-a dissimular os proprios sentimentos, mas
-até logram manifestar commoções differentes
-das que lhe estão deliciando ou corroendo o coração.
-Já dissemos que Maria Luiza era uma
-d’essas organisações de rija têmpera, e o leitor
-sabe como ella modulava um trecho de <i>seguidilla</i>
-no momento em que mais lhe vergava o
-espirito sob o consolador gravame das saudades
-de sua irmã.</p>
-
-<p>Amaria ella Eduardo Valladares? Amal-o, na<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span>
-verdadeira accepção d’esta palavra, talvez não.
-Mas sentia-se impellida por uma onda alegre e
-suave, que lhe embalava o pensamento e o levava
-a paragens tão formosas como desconhecidas.
-Alli encontrava o vulto sympathico do filho
-do bacharel, aureolado d’extranhos esplendores,
-e não sabia bem se tamanha claridade
-partia d’elle ou se era apenas o reflexo cambiante
-d’uns astros desconhecidos que illuminavam
-o céo de um mundo novo. Mas d’aquella
-felicidade que a embriagava, guardava o segredo
-no coração; e era apparentemente a mesma
-creatura alegre e descuidosa. Como quer
-porém que elle, de desejoso, andasse evitando
-falar-lhe, Maria Luiza approximou-se e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Olhe que um rapaz-velho é tão irrisorio
-como um velho-rapaz.</p>
-
-<p>—Minha senhora! balbuciou Eduardo tomando
-o dito á conta d’uma pungente zombaria.</p>
-
-<p>—Ainda não dansou hoje, e como supponho
-que se esquiva á dansa para se furtar ao desprazer
-de me aturar durante uma valsa, venho
-sacrifical-o nas aras da minha ousadia, e convidal-o
-para meu... par.</p>
-
-<p>Eduardo Valladares ia a responder, nem elle
-sabia o que, mas o preludio d’uma valsa salvou-o
-d’uma conjunctura estremamente difficil.</p>
-
-<p>Depois, o piano passou d’uma cadencia maviosa
-para uma vertigem febril, e o mesmo
-aconteceu aos corações que, de tão juntos, pareciam
-permutar-se as pulsações...</p>
-
-<p>Meia hora volvida, Eduardo Valladares e Maria
-Luiza conversavam debruçados á janella...</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span></p>
-
-<h2>IX</h2>
-
-<p>Estamos, outra vez, no Bom Jesus do Monte.</p>
-
-<p>O leitor conspira, porém, contra o poder de
-ubiquidade que o romancista possue e deseja
-saber que maviosos dialogos suspiraram
-Eduardo Valladares e Maria Luiza, ao clarão
-saudoso das estrellas. O que disseram não o
-repetiram os échos da noite. Suppomos, todavia,
-que elle conservara a mesma timidez e
-que ella não se apartou da alegre tranquillidade
-que momentos antes revelava. Mas se assim foi,
-n’aquelle dialogar, apparentemente frivolo, insensivelmente
-se iam alliando duas almas, a
-julgar pela leitura das seguintes linhas.</p>
-
-<p>Vamos encontrar Eduardo Valladares e Maria
-Luiza subindo ambos a alameda sombria
-da Mãe d’Agua.</p>
-
-<p>—Parece-me hoje mais triste que da primeira
-vez que estivemos aqui! disse Maria
-Luiza.</p>
-
-<p>—Creio que não tem v. ex.ᵃ razão para se
-admirar. É que hoje já vou procurando recordações
-por entre estas sombras deliciosas.</p>
-
-<p>—Recordações? Ah! recordações da visão
-mysteriosa que inspirou o seu madrigal.</p>
-
-<p>—Se fôra assim, a presença de v. ex.ᵃ dissiparia
-essas recordações, ousou pronunciar
-Eduardo Valladares.</p>
-
-<p>—Eu!</p>
-
-<p>—V. ex.ᵃ mesma. Ha de perdoar-me, continuou
-elle com a voz extremamente trémula,
-mas resolvi-me, ao cabo de muitas horas de
-hesitação, a usar d’uma sinceridade que não
-pode e não deve melindrar v. ex.ᵃ. Que hei de
-fazer eu senão pensar, meditar, eu que vivo<span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span>
-aos dezeseis annos longe da terra que me viu
-nascer, dos sitios que recordam as horas alegres
-da minha infancia, dos meus amigos queridos,
-do conchego da familia, das consolações
-de minha mãe, do braço protector de meu pae?
-Ah! se v. ex.ᵃ comprehendesse como tudo isto
-é profundamente triste, e se depois se lembrasse
-tambem de que venho acceitar um futuro
-que me offerece a generosidade d’um parente,
-porque o trabalhar constante de meu pae
-não basta para abrir á felicidade a porta da
-nossa casa, se v. ex.ᵃ comprehendesse tudo isto,
-ouvir-me hia como se ouve um amigo que vem
-entregar ao nosso coração o segredo das suas
-maguas.</p>
-
-<p>—Jesus! Como me entristece!</p>
-
-<p>—Ah! V. ex.ᵃ tem soffrido tambem, é verdade,
-porque conserva ainda na alma os vestigios
-d’uma longa saudade. Hoje, que é domingo,
-o dia em que v. ex.ᵃ costumava ir depôr um ramo
-de flores sobre o tumulo de sua irmã, ouvir-me-ha,
-pois, como se eu lhe estivesse falando á
-beira d’esse tumulo querido...</p>
-
-<p>—Despedaça-me o coração... Tenha piedade.</p>
-
-<p>—Supponha que o repellido da fortuna poz
-um dia os olhos n’uma esperança, e que vêl-a
-tornada realidade seria o mesmo que subitamente
-enriquecer de tudo o que lhe falta agora,
-de tudo o que deixa na alma d’elle um vácuo
-tão profundo como sombrio. Supponha que o
-desventuroso peregrino pedia gasalhado ao seu
-coração, e que via pendente dos labios de v. ex.ᵃ
-toda a sua vida, toda a sua felicidade, todo o
-seu futuro... Mas...</p>
-
-<p>—Fale, fale...</p>
-
-<p>—Mas quem me diz, quem me prova que o
-coração de v. ex.ᵃ tem ainda a liberdade de entregar-se?
-Quem me diz, quem me prova que
-v. ex.ᵃ não deu já a outrem a felicidade que<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span>
-eu lhe estava pedindo? Mas quem me diz,
-quem me prova que v. ex.ᵃ tem a abnegação
-de ligar o seu destino a um destino incerto
-e sombrio como o que me espera talvez amanhã?
-Ah! não fala, não responde... Que está
-lendo v. ex.ᵃ na veia d’agua, em que fixou o
-seu olhar? Talvez esteja lendo o meu futuro,
-que é decerto o futuro de todos os desgraçados...
-Nasce a agua entre estas sombras
-queridas que pendem dos troncos seculares. O
-destino impelle-a para longe. Ella lá vae, descendo
-de fonte em fonte, afastando-se cada vez
-mais do seu berço querido, até que se some, ao
-sopé da montanha, nos abysmos da terra.
-Quer v. ex.ᵃ que lhe desenhe melhor o quadro
-d’uma vida obscura e triste como ha de ser a
-minha? Oh! diga, diga, que estava lendo o meu
-destino na corrente d’esta floresta sagrada...</p>
-
-<p>—Quer saber o que estava pensando? respondeu
-Maria Luiza no tom firme d’uma resolução
-inabalavel. Não pensava no seu destino,
-pensava no meu. Olhe como a agua corre livre
-vencendo o dique d’aquella folha verde que encontrou
-no caminho. Pois bem. A agua da montanha
-é tão livre como eu.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>X</h2>
-
-<p>Fez-se a luz.</p>
-
-<p>Descerraram-se de par em par as portas
-d’esse olympo esplendido aonde só podem subir
-duas almas identificadas n’uma unica aspiração.</p>
-
-<p>Eduardo Valladares sentiu n’um momento
-dissiparem-se todas as dúvidas, todos os receios,
-todas as angustias. Maria Luiza deixara-se
-fascinar pelos clarões rutilantes d’esse<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span>
-mundo que entrevira em sonhos e, irmã da
-mariposa, lançava-se á chamma sem curar de
-saber se encontraria a morte. São realmente
-dignas de estudo naturezas como a sua.</p>
-
-<p>Ha certas creaturas que entraram no mundo
-com o coração a trasbordar d’alegria.</p>
-
-<p>As scenas variegadas da vida absorvem-nas
-e enlevam-nas, como as cambiantes d’um caleidoscopo
-enlevam e absorvem uma creança.</p>
-
-<p>Tudo as namora, tudo as fascina. Seguem
-com estremecimentos de jubilo as choreas caprichosas
-das borboletas e das aves; parecem
-querer luctar com a perfidia da onda, quando
-estão á beira mar, e deixar-se-hiam morrer se
-soubessem que a morte era... alegre. Mas—singular
-contradicção!—um ligeiro incidente
-as commove; derrubae um ninho e vel-as-heis
-chorar.</p>
-
-<p>São porém nevoas que se dissipam com um
-sôpro. A alegria impelle-as, e ellas, as venturosas
-creaturas, deixam se deslizar suavemente
-por uma estrada de rosas...</p>
-
-<p>Um dia quer Deus que lhes embargue o passo
-o leito d’um moribundo, permittam-me o exemplo.
-Admirae-as então. Sabeis o que são estremos
-de dedicação inegualavel? Se não sabeis,
-vinde apprendel-os com ellas. De tudo se esquecem,
-tudo alienam, a propria vida, a felicidade,
-a alegria para se absorverem n’um unico pensamento
-e n’uma unica afflicção.</p>
-
-<p>É por isso que fomos encontrar Maria Luiza
-á beira do leito da pobre irmã como a mais solicita
-e dedicada enfermeira que jámais houve.</p>
-
-<p>É por isso que pudemos vêl-a, a ella, a inquieta
-toutinegra, ajoelhada sobre o tumulo
-querido, como o anjo da saudade, orvalhando-o
-de abundantissimas lagrimas.</p>
-
-<p>É por isso que a admiramos no momento de
-confiar o seu coração, immaculado e puro, ao
-homem que revelava, nos éstos d’uma paixão<span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span>
-impetuosa, um coração egualmente puro e immaculado.</p>
-
-<p>É por isso que teremos de contemplal-a...</p>
-
-<p>Corre-nos obrigação de deixar a phrase incompleta.
-O romancista não pode accelerar a
-marcha dos acontecimentos com uma especie
-de velocidade electrica. Tem o dever de ser methodico
-e nós, que tentamos o primeiro passo
-no caminho do romance, devemos respeitar as
-tradições até hoje seguidas pelos fazedores de
-novellas veridicas e não veridicas.</p>
-
-<p>O que devemos dizer é que Eduardo Valladares
-e Maria Luiza se carteavam quasi diariamente.</p>
-
-<p>As dulcissimas phrases que se mutuavam
-adivinha-as o leitor.</p>
-
-<p>Os namorados—especialmente os namorados
-como Maria Luiza e Eduardo Valladares—fazem
-lembrar aquelles celebres habitantes de
-que fala Camões:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Contam certos auctores</div>
-<div class="verse">Que, junto da clara fonte</div>
-<div class="verse">Do Nilo, os moradores</div>
-<div class="verse">Vivem do cheiro das flores</div>
-<div class="verse">Que nascem n’aquelle monte.</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>De que vivem os namorados? Embriagam-se
-nos celestiaes aromas das flores que desabrocham
-nos rosaes escondidos no coração. O que
-elles sabem dizer é um como frémito de rosas
-baloiçadas por uma viração suavissima;—linguagem
-quasi mysteriosa apenas entendida
-por duas almas. Em que é que pensam? Em
-que é que sonham?</p>
-
-<p>Pensam e sonham nas amenidades do seu
-vergel encantado, nas flores do seu canteiro intimo,
-nas harmonias que uns desconhecidos rouxinoes
-gorgeiam por entre os invisiveis rosaes.</p>
-
-<p>«Tenho dó dos demonios; pois se elles não<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span>
-amam!» creio que escreveu algures Santa Thereza,
-<i>toda delirante de ternura</i>, como notou o
-mais vernaculo dos nossos escriptores contemporaneos.</p>
-
-<p>Oh! espiritos beatificos, que nascestes fadados
-para os arroubos asceticos, ó santos e santas
-da côrte celestial, até vós prelibastes as
-doçuras que resumbram do favo do amor!</p>
-
-<p>Quero lembrar-me tambem agora de que
-S. Francisco de Salles disse «que o amor tem o
-primeiro logar entre as paixões da alma»; e
-não sei ao certo quantos mais santos discretearam
-ácêrca do amor. Que admira, porém?
-Não se resumia a doutrina e philosophia do
-vosso divino Mestre n’este dulcissimo preceito:
-«Amae-vos uns aos outros»?</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XI</h2>
-
-<p>—Nota que estamos a dezenove de setembro...
-disse João Nicolau de Brito, n’esse
-mesmo dia, a sua mulher.</p>
-
-<p>—Oh! homem! Felicidade como eu tive! Tu
-dispensas um repertorio! replicou D. Maria
-d’Assumpção.</p>
-
-<p>—Nota que estamos a dezenove de setembro.
-Isto quer dizer que faltam poucos dias
-para chegar outubro.</p>
-
-<p>—Ah! temos rabugice! Falas do Eduardo,
-pois não falas?</p>
-
-<p>—Falo do Eduardo, sim, senhora, falo do
-Eduardo. Ando cá desconfiado...</p>
-
-<p>—Desconfiado de que?</p>
-
-<p>—De que pegou o namorico com a Maria
-Luiza.</p>
-
-<p>—Deixal-o pegar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span></p>
-
-<p>—Ora que tu não has de querer nunca desviar
-as tempestades imminentes...</p>
-
-<p>—Quaes tempestades imminentes? Deixa
-namorar o rapaz, que está no seu tempo. Que
-queres tu que se faça?</p>
-
-<p>—O peor é em se abrindo as aulas. Estou
-com receio de que gaste mais tempo a lêr nos olhos
-da Machado do que nos livros.</p>
-
-<p>—Deixa que lhe ha de chegar o tempo para
-tudo, se assim fôr. E depois quem te disse que
-elles se namoram? Que provas tens? Sabemos
-apenas que elle gosta d’ella; mais nada. O que
-é certo é que tudo isto tem sido uma felicidade.
-Olha como o rapaz está acclimado, como
-parece outro, como revê alegria!...</p>
-
-<p>—Por isso mesmo... Dize cá. Tu sabes se elles
-conversaram no Bom Jesus nos dois domingos
-que lá passámos?</p>
-
-<p>—Eu sei lá isso! Tu não viste que não sahi
-de ao pé de ti?</p>
-
-<p>—Pois domingo sou eu que quero ir ao Bom
-Jesus.</p>
-
-<p>—Para que? Para os veres conversar? Olha
-que vale a pena, na verdade!</p>
-
-<p>—Eu cá tenho tambem o meu systema...</p>
-
-<p>Seja-nos licito saber o que estava fazendo
-Eduardo Valladares ao tempo em que n’uma
-das salas contiguas ao seu quarto dialogavam
-d’esta maneira D. Maria d’Assumpção e João
-Nicolau de Brito.</p>
-
-<p>O que estaria fazendo? Escrevia. Transmittia
-ao papel as harmonias que lhe resoavam
-na lyra do coração: escrevia a Maria Luiza. E
-tão ligeira esvoaçava a penna sobre o papel,
-que, se o visseis, dirieis que eram pensamentos
-sem nexo, caprichos e devaneios d’um espirito
-radioso o que estava escrevendo:</p>
-
-<p>«Vinde e subamos ao monte do Senhor», escreveu
-o propheta.</p>
-
-<p>«E fomos, e subimos. Entrei na floresta sagrada<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span>
-e para logo senti inebriar-se a minha
-alma n’uma vaga e dulcissima esperança. Fui
-subindo e, á medida que subia, perpassavam
-no meu espirito as melodias que parece sahirem
-d’entre o arvoredo sombrio. Tudo é doce,
-tudo é inefavel na montanha do Senhor. Ha no
-interior d’aquella esplendida cathedral de verdura
-um como longinquo e continuo suspirar
-d’um orgão vibrado por mãos invisiveis.</p>
-
-<p>«Para aquelle concerto perenne da floresta
-contribue tudo quanto se esconde em tão deliciosas
-sombras: o arvoredo que murmura, as
-fontes que suspiram, as aves que chilriam dialogos
-maviosos, e os corações que se expandem
-na linguagem suavissima do amor...</p>
-
-<p>«Foi na montanha do Senhor que as nossas
-almas se identificaram para sempre n’uma
-unica existencia.</p>
-
-<p>«Foi lá que tu recebeste no teu coração as
-queixas do romeiro e lh’as devolveste em ridentissimas
-esperanças depois de purificadas
-no crisol d’um amor celestial.</p>
-
-<p>«E a tua voz sobrelevava todos os murmurios
-e todas as melodias da floresta e soou aos
-meus ouvidos como um hymno cadenciado na
-harpa d’um cherubim.</p>
-
-<p>«E eu repeti as palavras que momentos antes
-se me tinham deparado na legenda da <i>Esposa
-dos cantares</i> e disse:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">A tua voz murmure a meus ouvidos<a name="FNanchor_3" id="FNanchor_3"></a><a href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a></div>
-</div>
-</div>
-
-<p class="noindent">e deliciei-me nas cadencias inimitaveis que a
-tua bôcca jorrava ao murmurar: «A agua da
-montanha é tão livre como eu».</p>
-
-<p>«É pois certo? A tua alma é tão livre como a
-onda prateada que desliza por entre as verduras
-<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span>da serra e cae em chuva de perolas na amphora
-de cada fonte? A tua alma é tão livre
-que possa juncar de flôres a estrada dos meus
-dezeseis annos á semelhança da corrente da
-montanha que vae orvalhando as boninas da
-encosta?</p>
-
-<p>«Estavamos no <i>monte do Senhor</i>, na <i>santa Jerusalem</i>
-e os teus labios falaram a linguagem do
-teu coração... Os échos da montanha guardam
-o segredo da nossa felicidade. Que as nossas esperanças
-todas se desatem em florecimentos
-perpetuos como os da primavera que cada dia
-enche de vida nova e nova opulencia a floresta
-sagrada.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XII</h2>
-
-<p>Estava n’esse dia, como sempre, cheia de
-amenidade a alameda da Mãe d’Agua.</p>
-
-<p>—Que felicidade! dizia Eduardo Valladares
-apertando entre as suas as mãos de Maria Luiza.
-Que felicidade! Abençoado o teu amor que me
-dá confôrto e alento para ir procurar a realidade
-dos meus sonhos, dos nossos, devia dizer,
-onde quer que ella esteja... E todavia eu d’antes
-era triste, tão triste, que nem tu sabes!
-Meu pae, quando me surprehendia a escrever,
-dizia para minha mãe:—Este rapaz ha de ser
-desgraçado! Por que? perguntava ella com
-terna inquietação. Porque começa a sonhar
-muito cedo, concluia meu pae. Oh! dize-me que
-era falsa esta prophecia. Por que não havemos
-de ser felizes? Tu amas-me muito, pois não
-amas?</p>
-
-<p>—Que transformação completa na minha vida,<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span>
-Eduardo! As minhas amigas tinham-me á
-conta d’um coração que nasceu para ser livre
-como a aguia, e só para isso. Eu, porém, consultando-me
-a mim mesma, conhecia-me muito
-outra do que me suppunham. E não me enganei;
-bem sabes tu que me não enganei. Havemos
-de ser felizes. Sabes o que é ter no Céo um
-anjo que vela por nós a toda a hora? Lembra-te
-de minha irmã, que era um anjo, e fortalece-te
-com essa esperança. Se porém o Céo da nossa
-felicidade tem de se annuvear com tempestades
-invenciveis, se temos de separar-nos um
-dia para tomar cada um por differente caminho,
-se tudo isto tem d’acontecer, então que a
-alma de minha irmã me chame para o pé de si,
-que eu prefiro morrer a vêr-me sem ti no
-mundo...</p>
-
-<p>—Oh! Cala-te, cala-te, que me sinto morrer.
-Afasta da tua alma esses presentimentos sombrios,
-que são meras visualidades. Não somos
-nós felizes? Olhemos em redor de nós. Tudo
-placido e ameno como hontem e como ámanhã.
-E, no meio d’esta tranquillidade do ermo, não
-hão de sonhar as nossas almas em leito de
-rosas e esperanças? Para que havemos d’ir
-procurar os espinhaes que nos não vedam o
-passo? Põe de parte esses pavores imaginarios.
-Consulta antes a tua alma e pergunta-lhe
-se é tão firme que sacrifique todo o futuro a
-um affecto, se é tão corajosa que possa dizer
-ao desprotegido da fortuna: «Sei que és pobre,
-mas quero soffrer metade das tuas amarguras.»</p>
-
-<p>—Pois duvidas ainda! Pela alma de minha
-irmã te juro que o meu amor será eterno. Por
-que é falares de pobreza? Acaso eu, egualmente
-desprotegida da fortuna, podia levantar o
-meu espirito a desmedidas ambições? Que importa
-o valor da riqueza, quando se trata do
-valor da felicidade? Promette que não mais falarás<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span>
-d’um assumpto que magôa dolorosamente
-a minha alma. É tamanha a nossa esperança
-que ella só nos deve absorver...</p>
-
-<p>—Oh! perdôa-me...</p>
-
-<p>De repente uma voz conhecida, denunciando
-sobresalto, viera interromper o caloroso dialogo.</p>
-
-<p>O leitor vae saber o que se passou.</p>
-
-<p>João Nicolau de Brito, D. Maria d’Assumpção,
-e a viuva Machado ficaram-se a conversar,
-sentados nos poucos degraus que dão entrada
-para a hospedaria denominada hoje da Boa-Vista,
-com pessoas das suas relações que tinham
-procurado as sombras da floresta do Bom
-Jesus para se furtarem ás calmas de setembro.</p>
-
-<p>O sogro do bacharel Valladares, quando julgou
-opportuno espionar o neto, segredou á mulher:</p>
-
-<p>—Viste para que lado fôram as Machados
-com o rapaz?</p>
-
-<p>—Olha que está alli a mãe...</p>
-
-<p>—Pergunto-te se viste para que lado fôram
-as filhas. Não tenho nada que ver com a mãe.</p>
-
-<p>—Fôram por ahi acima e acho que estarão
-na Mãe d’Agua.</p>
-
-<p>João Nicolau de Brito levantou a voz e apostrophou:</p>
-
-<p>—Ora fiquem em santa paz, que eu já estou
-aborrecido d’estar sentado n’estes degraus. Vou
-por ahi acima espairecer um pouco.</p>
-
-<p>Sentada nos degraus do chafariz, que fica ao
-centro do largo dos Evangelistas, estava, absorta
-na leitura de não sei que romance, a menina
-Rosa Machado. Como quer que levantasse casualmente
-os olhos de cima do livro e reconhecesse
-ao fundo da avenida João Nicolau,
-correu pressurosa a dar rebate aos enamorados
-interlocutores da Mãe d’Agua. O que é certo
-é que quando João Nicolau chegou ao largo, depois
-de ter trilhado vagarosamente a longa<span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span>
-avenida que parte do templo, já as duas irmãs
-Machados estavam sentadas nos degraus d’uma
-das capellas, e como que ambas embevecidas
-na leitura do mesmo livro.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XIII</h2>
-
-<p>—Sósinhas? exclamou João Nicolau ao vêl-as,
-dando assim largas á sua extrema admiração.</p>
-
-<p>—Nunca estão sós duas irmãs, respondeu de
-golpe Maria Luiza.</p>
-
-<p>—A ler, não é verdade?</p>
-
-<p>—A matar o tempo.</p>
-
-<p>—Que é do meu neto, que assim as deixa
-sem lhes fazer companhia?</p>
-
-<p>—O seu neto continua a ser poeta. Desde
-que chegámos aqui, embrenhou-se por essa alameda
-da Mãe d’Agua e lá está talvez devaneando
-a desafiar os rouxinoes.</p>
-
-<p>—Olhem que para boa lhe havia de dar!</p>
-
-<p>—Tambem acho que sim!... replicou Maria
-Luiza.</p>
-
-<p>—Se não era melhor estarmos aqui todos a
-conversar! accrescentou Rosa.</p>
-
-<p>—É que estes poetas gostam d’andar a conversar
-comsigo mesmos. Toda a minha vida
-ouvi dizer que se deve desconfiar de pessoas
-que falem sós.</p>
-
-<p>—Os poetas não falam sós, tornou Maria
-Luiza. Não posso deixar de censurar o procedimento
-de seu neto, sr. João Nicolau; mas quero
-levantar a luva que lançou a quantos versejam
-n’este mundo de Christo. Os poetas pensam
-como o sr. João Nicolau, como eu, como toda a
-gente. Se procuram, ás vezes, a solidão, é de
-certo para que os rumores do mundo lhes não
-interrompam os maviosos pensamentos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span></p>
-
-<p>—Ande lá, que não pode negar que é affeiçoada
-á poesia...</p>
-
-<p>—Admiro-a, e mais a admiraria se pudesse
-comprehendel-a. Ora de poetas que teem seu
-tanto de mysanthropos, como o sr. Eduardo, é
-que eu não gosto. Quero a poesia que transige
-com os deveres sociaes. O Camões, segundo dizem,
-emquanto a fortuna lhe luziu, usava de
-boa cortezia com as damas da côrte.</p>
-
-<p>—E de que valeu ao Camões ser poeta? interrogou
-João Nicolau apoiando-se no braço de
-Maria Luiza e fazendo menção de voltar á hospedaria.</p>
-
-<p>—Valeu muito, respondeu ella, tomando pela
-avenida, de braço dado com João Nicolau. Valeu-lhe
-estarmos agora nós falando d’elle.</p>
-
-<p>—Sempre é ligarmo-nos muita importancia,
-pois não acha?</p>
-
-<p>—Tem razão. Eu devia ser menos vaidosa e
-mais verdadeira. Valeu-lhe a admiração de todo
-o mundo, porque todo o mundo admira o genio
-deslumbrante d’um homem que soube exaltar
-n’uma epopêa as glorias da patria que o deixou
-morrer de miseria.</p>
-
-<p>—Bravo, minha cara menina! Gostei d’ouvil-a!</p>
-
-<p>—O sr. João Nicolau está gracejando. Mas a
-verdade é que o genio de Camões conseguiu
-muito, na minha opinião. Deu a conhecer ao
-mundo civilisado o quadro das velhas glorias
-portuguezas, para que ficasse de pé a chronica
-nobilissima d’um povo quando as convulsões
-sociaes subvertessem a nossa individualidade
-historica. Uma epopêa é muitas vezes um epitaphio
-levantado sobre o tumulo d’uma nação
-que foi. Tenho ouvido dizer que os poemas de
-Homero e Virgilio representam hoje a Grecia e
-Roma. Quem sabe se os <i>Lusiadas</i> serão a unica
-recordação que sobreviva ás ruinas de Portugal?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span></p>
-
-<p>—A modo que tem razão... Ora deixe-me
-ver se me lembro d’uns versos do José Agostinho,
-que vinham agora a proposito. Olhe que o
-José Agostinho é um poeta que me enche as
-medidas! Tem ouvido falar d’elle?</p>
-
-<p>—Ah! bem sei. Do José Agostinho não
-gosto.</p>
-
-<p>—Não gosta! Pois já leu?</p>
-
-<p>—O José Agostinho não tem sentimento nem
-inspiração.</p>
-
-<p>—Ora não diga isso!</p>
-
-<p>—São opiniões. O certo é que meu pae tinha
-algumas obras do José Agostinho e eu algumas
-folheei. Mas vamos aos versos, que os desejo
-ouvir recitados pelo sr. João Nicolau.</p>
-
-<p>—Deixe ver se me lembram. São do epicedio
-á morte do Bocage:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Voando o tempo os seculos ajunta</div>
-<div class="verse">E co’as immensas incansaveis azas</div>
-<div class="verse">Cobre os vestigios da grandeza humana:</div>
-<div class="verse">Na Historia, os deixa só, e á vista os furta.</div>
-<div class="verse">De Esparta, a mãe d’heroes, mãe da virtude,</div>
-<div class="verse">Hoje occupa o logar mesquinha aldeia;</div>
-<div class="verse">De Epaminondas...</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Ora deixe vêr como é o resto... Ah!</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse indent3">...d’Aristides pisam</div>
-<div class="verse">Incultos Scythas barbaros os lares...</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>O resto é que me não lembra.</p>
-
-<p>—Ora ainda bem que o sr. João Nicolau não
-é tão inimigo da poesia como se mostra!</p>
-
-<p>Chegavam finalmente ao extremo da avenida.
-João Nicolau, logo que pôde, chamou de parte
-a mulher e disse-lhe:</p>
-
-<p>—A rapariga lá doutora é e sabe mais do que
-eu, mas por emquanto não temos nada a recear...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span></p>
-
-<p>—Eu bem t’o dizia, homem de Deus, respondeu
-D. Maria d’Assumpção.</p>
-
-<p>—Sabes de quem devemos temer?</p>
-
-<p>—De quem é?</p>
-
-<p>—Das musas, mulher, das musas, que transtornam
-a cabeça ao rapaz!</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XIV</h2>
-
-<p>João Nicolau de Brito assentou de si para si
-que não tinha ainda sido traspassado pelas
-frechas cupidinias o coração do neto, e em confidencia
-com a mulher lamentava que o cerebro
-d’um rapaz de dezeseis annos se deixasse eivar
-de semelhante monomania poetica, como
-elle dizia.</p>
-
-<p>D. Maria d’Assumpção escutava o marido
-com a maxima paciencia e, podemos dizel-o
-tambem, com a maxima reserva.</p>
-
-<p>—Lá que elle é um estudante distincto, isso
-é! exclamava João Nicolau, frequentes vezes,
-depois de abertas as aulas do lyceu bracharense.
-Os professores elogiam-n’o e dizem que o
-rapaz pode ser considerado, sem favor, o melhor
-do curso. Mas a dizer-te a verdade, mulher,
-não me parece que gaste muito tempo a estudar...</p>
-
-<p>—Ora por que dizes tu isso? Quem sabe é
-porque estuda. Não t’o elogiaram os mestres?
-Que mais queres? É preciso ter paciencia de
-santo para viver comtigo!</p>
-
-<p>—Não sabes por que razão digo isto? É por
-que o vejo ir todas as tardes para Guadelupe.
-Provavelmente vae para lá falar só e fazer
-versos. Ora um estudante não pode sahir todos
-os dias ou chova ou faça sol...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span></p>
-
-<p>—Oh! homem, quem te diz que elle não vae
-para lá estudar?</p>
-
-<p>—Qual estudar! Estudar o que? Em que livros?
-Só se fôr nas palmas das mãos... Que
-lá do namôro com a Machado acho que não temos
-a recear...</p>
-
-<p>—Pois ainda te não desenganaste!... O rapaz
-é um genio excentrico, e genios assim não
-são muito para amores... Quem sabe lá! Deixal-o
-versejar, que talvez chegue a ser como
-esse Castilho, de Lisboa, que, apesar de ser
-cego, é um poeta de fama, segundo dizem.</p>
-
-<p>—Qual poeta de fama! O meu poeta era o
-José Agostinho. Ainda não li nada do Castilho,
-mas vou jurar que não chega aos calcanhares
-do frade.</p>
-
-<p>—Pois não deves julgar de nada pelo que
-te parecer.</p>
-
-<p>—Deixemo-nos de rhetoricas. Com versos
-não se ganha a vida. Padre é que elle ha de
-ser. Disse e está dito. Lá como o tal estudantinho
-de Coimbra, de que falava o Sebastião na
-carta, é que me não ha de fazer. Se gostar da
-theologia, melhor para elle; se não gostar, que
-se aguente; e se morrer, que o leve a breca; a
-gente não nasce para outra coisa.</p>
-
-<p>—Estás hoje com instinctos sanguinarios.
-Olha que eu tenho medo de mata-mouros, homem!</p>
-
-<p>Chegou dezembro. Alvejavam, cobertos de
-neve, os cimos do Sameiro e da Falpêrra. As
-férias do Natal chamavam os filhos ausentes
-ao lar paterno. Eduardo Valladares veiu ao
-Porto consoar, e seis dias antes de terminarem
-as férias, estava já em Braga. João Nicolau ficou
-sobremodo admirado; D. Maria d’Assumpção
-comprehendeu tudo, mas conservou-se,
-como sempre, na defensiva.</p>
-
-<p>—Ó mulher! dizia João Nicolau na sinceridade
-da sua admiração. Pois elle chegou aqui,<span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span>
-da primeira vez, com cara de ter perdido na
-renda, a tal ponto lhe entrou o mal das saudades,
-que foi preciso que lhe receitassem passeios
-ao Bom Jesus. Chega o Natal, vae ao Porto
-e rebenta-nos á porta seis dias antes de acabarem
-as férias! Eu declaro-te que não entendo
-nada de tudo isto!</p>
-
-<p>—Pois olha que tudo isto é claro como agua.
-É uma delicadeza do rapaz. Não quiz dar-nos
-campo a suppormos que estava aborrecido de
-nós. Repartiu as férias com os paes e comnosco.
-Quem fôsse menos desconfiado do que tu,
-só tinha motivo para se lisonjear.</p>
-
-<p>—Nada. Não vou para ahi, mulher. Rapazes
-não teem delicadezas com ninguem e muito
-menos com parentes. Aqui anda mysterio.</p>
-
-<p>—Mas tu bem vês que este rapaz não parece
-que o é. É preciso respeitar as suas esquisitices,
-para que não diga que lhe vendemos
-muito caro o beneficio que lhe estamos fazendo.</p>
-
-<p>—Pois sim, sim. Mas olha que o rapazinho é
-finorio e sabe muito bem o que faz.</p>
-
-<p>—Por isso mesmo é que nos quiz captivar
-com esta delicadeza. E depois pode ser que se
-lembrasse de que, vindo no ultimo dia de férias,
-talvez tu dissesses que tinha voltado a
-cumprir os seus deveres por de todo em todo
-não poder ficar no Porto...</p>
-
-<p>—Lá isso é que pode ser...</p>
-
-<p>—Isso é o que foi. O rapaz por emquanto porta-se
-dignamente e não descubro coisa que nos
-faça arrepender de o termos chamado á nossa
-companhia. É preciso não ser impertinente
-com gente nova, e sobretudo impertinente sem
-motivo...</p>
-
-<p>—Isto tambem já é velhice, mulher!</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p>
-
-<h2>XV</h2>
-
-<p>Sebastião Valladares fez egualmente reparo
-na partida precipitada do filho e consultou o
-coração da mulher, que por ser de mulher e de
-mãe devia adivinhar e lançar luz sobre o que
-aos olhos do bacharel se afigurava mysterio.
-D. Adozinda serenou o ánimo do marido com
-estas placidas palavras:</p>
-
-<p>—Desvarios nem o genio lh’os tolerava, nem
-os podia ter que lh’os não soffria meu pae.
-Quando Deus quer, temos amores, e não vejo
-n’uns amores dos dezeseis annos sombra de
-tempestade que possa inquietar-nos.</p>
-
-<p>—Talvez seja isso, respondeu o bacharel.
-Olha que receio todavia por este rapaz, cujo
-temperamento, por demasiadamente ardente e
-delicado, se me afigura perigoso. O nosso filho
-tem grande inclinação á poesia e, como se não
-bastasse versejar, dá indicios de vir a sentir
-como verdadeiro poeta. Ha certas almas que,
-em vez de se repartirem pelo mundo exterior,
-tiram de si mesmas, á semelhança do pelicano,
-a seiva com que alimentam a propria vida. Ora
-o Eduardo, que me parece ter nascido fadado
-para eguaes destinos, precisava de ter a seu lado
-um conselheiro mais eloquente e menos severo
-que teu pae.</p>
-
-<p>—Dizes bem.</p>
-
-<p>—Até já me lembrei d’escrever ao Rodrigues,
-que é meu amigo desde a emigração, e que tem
-coração e intelligencia de sobra para mentor
-d’um espirito febricitante.</p>
-
-<p>São precisas algumas palavras d’explicação.
-Sebastião Valladares, natural de Vianna, havia
-completado o curso universitario quando, perseguido<span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span>
-por suas idéas politicas, teve d’emigrar
-em 1828. A esse tempo contava elle vinte
-e cinco annos e tinha, sacrificado o coração, nas
-aras do amor, á senhora que, annos depois,
-desposara. João Nicolau de Brito possuia uma
-quinta, sombreada de copado arvoredo, á ourella
-do rio Lima; foi ahi que o bacharel Valladares
-vira, em dezembro de 1827, a formosissima
-dama bracharense, e foi d’ahi que se amaram.</p>
-
-<p>Compellido a emigrar, Sebastião Valladares
-vizinhou em Rennes de Almeida Garrett e de
-Manuel Rodrigues da Silva e Abreu. Ahi, nas
-angustias do destêrro, se estreitaram os laços
-que os deviam prender toda a vida. Em 1832
-voltaram á patria os saudosos emigrados: Manuel
-Rodrigues da Silva e Abreu era nomeado
-official do governo civil de Braga; Almeida Garrett
-voltava á politica e á litteratura; e Sebastião
-Valladares casava e abria banca d’advogado
-no Porto.</p>
-
-<p>João Nicolau era affeiçoado á causa absolutista
-e n’isto vae a razão da sua entranhada
-sympathia por José Agostinho de Macedo. Aos
-ouvidos do proprietario bracharense soavam
-continuamente aquelles dois enthusiasticos versos
-da <i>Viagem extactica</i>:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">No meio do clarão veio no throno</div>
-<div class="verse">Cercado d’esplendor Miguel Primeiro.</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>João Nicolau apenas consentiu no casamento
-quando as instancias da esposa, estremosa pela
-filha, e o caracter decisivo da lucta civil não lhe
-permittiram resistir por mais tempo. Quando
-porém admittiu á sua presença o bacharel, disse-lhe
-de sobr’ôlho carregado:</p>
-
-<p>—Pode levar minha filha, se a quizer sem
-dote. Não sou rico e os meus padecimentos
-obrigam-me a despesas constantes; não posso
-desviar o que tenho. Em eu morrendo, e minha<span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span>
-mulher tambem, levem tudo, que tudo lhes pertencerá
-então.</p>
-
-<p>Com o decorrer do tempo foi-se diminuindo a
-distancia respeitosa que separava sogro e genro,
-a ponto de João Nicolau tomar sob sua responsabilidade
-a educação do neto.</p>
-
-<p>Postas estas explicações, voltemos ao anno
-de 1851 em que se passa este caso que vimos
-historiando.</p>
-
-<p>Sebastião Valladares conservava com os seus
-dois amigos e correligionarios os estreitos laços
-d’amizade vinculados ao coração nas horas melancholicas
-do exilio. Almeida Garrett escrevia-lhe
-frequentes vezes. O bacharel, quando abria
-as cartas assignadas por <i>João Baptista</i>, costumava
-dizer:</p>
-
-<p>—Os amigos que se adquirem na desgraça
-são os verdadeiros.</p>
-
-<p>Manuel Rodrigues da Silva e Abreu estava a
-esse tempo exercendo o cargo de primeiro bibliothecario
-da Bibliotheca de Braga<a name="FNanchor_4" id="FNanchor_4"></a><a href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a>. Dos
-tres amigos era o bacharel Valladares o menos
-favorecido da fortuna, mas não era o menos
-venturoso. Recusou sempre a protecção que os
-seus amigos lhe offereciam, nomeadamente Almeida
-Garrett. Costumava dizer o bacharel:</p>
-
-<p>—Trabalho todo o dia para viver, mas adormeço
-á noite tranquillo, e vivo escondido do
-mundo. O Garrett, tanto o Garrett politico como
-o Garrett litterato, tem soffrido que farte. Não
-lhe invejo a sorte.</p>
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span></p>
-<p>Tres annos depois, em 1854, expirava o reformador
-da litteratura portugueza; e só então,
-cerrado o tumulo, principiava a ser julgado
-como devia, no tribunal da posteridade, o que
-tanto merecera da patria e tamanhas injustiças
-colhêra na sua esplendida carreira.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XVI</h2>
-
-<p>O bacharel Valladares escreveu a Manuel
-Rodrigues da Silva e Abreu solicitando a graça
-de allumiar com bom conselho a estrada em
-que o inexperiente estudante arriscava os primeiros
-passos da sua mocidade.</p>
-
-<p>O bibliothecario de Braga, coração sem mancha
-e intelligencia distinctissima, acolheu o
-moço com a amenidade de tracto que lhe era peculiar.
-Eduardo Valladares, terminadas as aulas,
-subia ordinariamente á bibliotheca onde o
-velho amigo de seu pae estava labutando em
-azafama continua, e sobremodo se deliciava
-á sombra d’aquella arvore vetusta meio tombada
-para o chão.</p>
-
-<p>O auctor d’este livro reiteradas vezes teve a
-felicidade de, na sala da bibliotheca bracharense,
-ouvir a palavra sempre fluente e amena
-de Rodrigues Abreu. Infundia respeito ver levantar-se
-aquelle busto venerando, coberto de
-cans, d’entre montões de livros a que elle chamava
-<i>a sua familia</i>. Uma vez bibliothecario, empenhou-se
-afanosamente pela causa da bibliotheca.
-Não se cansou de pedir os indispensaveis
-melhoramentos materiaes, dos quaes o primeiro
-era inquestionavelmente maior espaço
-para a conveniente arrumação de preciosos livros
-que jaziam a monte. A sua voz clamou no
-deserto e nem a palavra auctorisada de tão<span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span>
-respeitavel varão nem repetidos artigos da <i>Revista
-Universal Lisbonense</i> lograram obter despacho
-favoravel.</p>
-
-<p>Como se este constante e baldado empenho
-não fôsse canseira de sobra, Rodrigues d’Abreu
-entregava-se a trabalhos de bibliotheconomia
-e chegou a publicar sobre este assumpto um
-opusculo que denominou <i>Novidades bibliotheconomicas</i>.</p>
-
-<p>Para daguerreotyparmos o homem, que já
-hoje é da historia, aproveitemos os traços caracteristicos
-que nos offerece o sr. Soares Romeu
-Junior: «... Era alto de estatura, rosto
-claro e comprido, nariz proeminente, olhos escuros
-e a fronte espaçosa, coroada de alvissimas
-cans.»</p>
-
-<p>Do escriptor diremos apenas que trasladou o
-<i>Eliezer</i>, de Florian, a versos portuguezes, dos
-quaes o leitor pode avaliar o sabido quilate pela
-apreciação que de tão notavel obra fez no <i>Panorama</i><a name="FNanchor_5" id="FNanchor_5"></a><a href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a>
-o sr. Alexandre Herculano.</p>
-
-<p>Consagradas estas poucas linhas á memoria
-de Rodrigues d’Abreu, prosigamos em a nossa
-narrativa.</p>
-
-<p>Eduardo Valladares refez o seu espirito,
-nas horas feriadas de canseiras amorosas, em
-proficua leitura que lhe ministrava Rodrigues
-d’Abreu. Se levantava os olhos dos livros era
-para os fitar na imagem radiosa que lhe flammejava
-auroras no coração; e como quer que
-os livros substanciosamente doutrinarios tenham
-o seu tanto de agri-doces, Eduardo repousava
-da leitura nas amenidades do amor.</p>
-
-<p>O bibliothecario bracharense, quando escrevia
-ao bacharel Valladares, costumava dizer-lhe:
-«O teu filho é uma perola, mas receio pela
-felicidade d’um espirito que, em tão verdes
-<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span>annos, tamanhos merecimentos revela. Já que
-me arvoraste em medico espiritual, direi que o
-seu temperamento requer brandura.»</p>
-
-<p>No fim do anno lectivo de 1851 a 1852, Rodrigues
-d’Abreu abraçou jubiloso o estudante que
-sahia premiado das aulas preparatorias.</p>
-
-<p>Decorrido tempo, no fim de setembro de
-1852, Eduardo Valladares subiu á sala da bibliotheca
-evidentemente sombrio, a ponto de
-inspirar sobresalto ao seu velho e dedicado
-amigo.</p>
-
-<p>—Recebi ordem terminante de meu avô
-para me ir matricular no Seminario, e o meu
-coração não pode resistir ao supplicio que esta
-resolução lhe impõe, disse com accento melancholico
-Eduardo Valladares.</p>
-
-<p>Na casa da rua do Carvalhal ouvia-se a esse
-tempo a voz atroadora de João Nicolau clamando:</p>
-
-<p>—Amanhã vae o rapaz matricular-se no Seminario.
-Lá o Rubicon do lyceu, vencido está.
-Agora vamos a vêr como se sae da theologia,
-que sempre é coisa mais séria...</p>
-
-<p>—É pois chegada a occasião de reflectires
-maduramente, respondia D. Maria d’Assumpção.
-D’esta decisão depende o futuro de teu
-neto, e não deves ser precipitado. É conveniente
-pensar.</p>
-
-<p>—Já pensei e tornei a pensar. Está dito,
-está dito. Vae matricular-se no Seminario.</p>
-
-<p>—Sondaste lhe porventura a vocação? Quem
-sabe se lhe repugnará o futuro que tu despoticamente
-lhe preparas, homem?</p>
-
-<p>—Despoticamente! Essa agora é muito boa!
-Pois é despota quem faz um beneficio?</p>
-
-<p>—Não digas beneficio. De quem ha de vir a
-ser tudo o que nós temos, pouco ou muito, senão
-d’elle ou dos paes?</p>
-
-<p>—Quem sabe o que Deus fará, mulher? O
-que é que nós temos? Algumas propriedades<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span>
-em Braga e uma quinta em Vianna! Olha a riqueza!
-E se vier uma doença prolongada não
-havemos de gastar quanto fôr preciso? Lá do
-Sebastião tenho pena, por que não é mau rapaz,
-á parte o ter desembarcado em 32 com
-não sei quantos outros <i>mindelleiros</i> que vinham
-estropeados a ponto de mal poderem com a
-arma ás costas! Por isso é que mandei vir o
-rapazinho, e já que o pae m’o confiou posso
-pôr e dispôr á minha vontade.</p>
-
-<p>—Reflexiona, homem de Deus, reflexiona.</p>
-
-<p>—Mas que destino queres tu que se dê ao
-rapaz? Pensas que temos dinheiro para o mandar
-a Coimbra? Olha que um patrimonio fica
-em conta, mas uma formatura compra-se a
-peso d’ouro. E demais a mais fica-nos aqui debaixo
-da vista, e pouco será o que houvermos
-de gastar em livros. Está decidido. Amanhã
-vae matricular-se no Seminario.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XVII</h2>
-
-<p>Estamos em novembro de 1852.</p>
-
-<p>Na alameda da Mãe d’Agua respira-se no ar
-balsamico a suavidade d’uma primavera perpétua.</p>
-
-<p>Após dias de cerrada invernia, mostra se no
-formoso céo do norte este sol esplendido de
-Portugal, que é a delicia de nacionaes e extrangeiros.</p>
-
-<p>Esperava-se por um dia alegre e sereno
-para remoçar o espirito, cansado da monotonia
-da chuva.</p>
-
-<p>D. Maria d’Assumpção tinha falado n’um
-passeio ao Bom Jesus logo que o tempo estiasse;
-as meninas Machados receberam, por escripto,<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span>
-participação do alvitre e applaudiram-n’o
-sobremodo.</p>
-
-<p>Lampejaram n’um domingo clarões de formosissima
-aurora; deu-se rebate e preparou-se alegremente
-o rancho.</p>
-
-<p>João Nicolau subiu a montanha abordoado á
-sua bengala de canna da India, galhofando com
-ares de sincero e expansivo contentamento.
-Eduardo Valladares parecia, ao contrário de
-todos, entre concentrado e triste. O avô olhava
-para elle de soslaio e dizia de si para si:—«Lá
-vae o rapaz com a maldita poesia!»</p>
-
-<p>D. Maria d’Assumpção, que de sobra conhecia
-as angustias do neto, pensava compadecida:—«Pobre
-martyr!»</p>
-
-<p>Maria Luiza reprimia no coração dolorosas
-tempestades, e desabrochava nos labios um
-sorriso que daria fel bastante para muitas lagrimas.</p>
-
-<p>Cêrca do meio dia, Eduardo Vallares e Maria
-Luiza puderam encontrar-se na Mãe d’Agua.</p>
-
-<p>Foi dolorosamente triste o mudo dialogo
-d’uns olhos que, n’um momento de silencio, resumiram
-as mais pungentes expansões.</p>
-
-<p>Olharam-se, e não puderam articular uma
-unica palavra. Decorreram alguns momentos
-que valiam seculos d’angustia. O filho do bacharel
-Valladares pôde alfim dominar a commoção
-que lhe estrangulava a voz na garganta.</p>
-
-<p>—Esperava por este momento anciosamente,
-disse elle. Escrevi-te, procurei no écho da
-tua alma um allivio para os meus infortunios,
-mas escrever-te não bastava. Era preciso ver-te,
-ouvir-te, escutar-te. Ha dois mezes que eu
-abafo no coração a procella do desespêro. Oh!
-Dá-me um raio d’esperança para eu não morrer,
-dize-me ao menos que me amas para que
-eu tire das tuas palavras a coragem que me
-falta. Ha dois mezes que eu esperava a hora
-de poder escutar a tua voz como a alma condemnada<span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span>
-aos tormentos do purgatorio deve
-esperar o momento de subir, expurgada das
-suas culpas, á bem-aventurança do Céo. Oh!
-isto é horrivel, meu Deus!</p>
-
-<p>A pobre menina tremia agitada pela convulsão
-dos nervos, e sentia fugir-lhe a voz e a
-vista.</p>
-
-<p>—Dilacera-me o remorso, continuou elle com
-violenta commoção—dilacera-me o remorso
-de ter acorrentado a tua alma angelica ao
-poste da minha desgraça. Sacrifiquei a tua alegria,
-a tua tranquillidade, o teu futuro, a tua
-vida ao egoismo do meu coração. Amar-te não
-bastava? Quiz tambem ser amado, e despenhei-te,
-anjo innocente, das paragens remançosas
-onde te libravas descuidosa e tranquilla. Quiz
-tambem ser amado e impuz á tua alma o sacrificio
-de exgottar o calix da amargura ao
-tempo que o teu amor dulcificava os filtros
-celestiaes que me embriagavam. Perdôa-me,
-oh! perdôa-me, por que o meu amor era immenso,
-indomavel, e eu preferia morrer, a ver
-desfeita a minha esperança, a ver desabar o
-meu sonhado paraiso...</p>
-
-<p>—Se te perdôo! murmurou maviosamente
-Maria Luiza. Perdôa-me tu, que é por mim que
-tu soffres...</p>
-
-<p>—Ah! interrompera a elle de golpe. Pois é
-certo que me perdôas? Que importa então que
-imponham á minha alma um futuro que ella
-não pode acceitar! O escravo, o humilde, o
-servo de gleba ha de erguer-se soberbo da riqueza
-da sua alma, e repellir a mão que ao
-mesmo tempo empresta um futuro que nos repugna
-e exige como hypotheca a felicidade de
-duas existencias consubstanciadas n’uma unica.
-Irei trabalhar para onde a sorte me levar;
-procurarei em toda a parte o que me vendiam
-aqui a trôco de lagrimas, mas terei no meu
-coração a dulcissima alegria da esperança, da<span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span>
-esperança que me queriam roubar para me garantirem
-a felicidade material da vida, como
-se a vida sem a esperança não fôsse uma ironia
-cruel e deshumana! Irei, é preciso fugir...</p>
-
-<p>—Fugir! fugir! Dize antes que me queres
-roubar a consolação de compartilhar as tuas
-angustias. Fugir e deixar-me sósinha, entregue
-á minha saudade, á minha desventura, ao meu
-desespêro! Dize antes...</p>
-
-<p>—Cala-te, por alma do anjo que morreu beijando-te,
-cala-te. Peço-t’o eu.</p>
-
-<p>—Fugir! E querias assim despedaçar as ternas
-cadeias que nos prendem um ao outro, só
-para alimentares no coração a esperança de
-reatal-as um dia?</p>
-
-<p>—Perdôa-me, que eu fui cruel, porque me
-enlouqueceu a dôr. Não te ver, não te ouvir!
-E poderia eu viver? Iria morrer longe de ti,
-anjo do meu coração, sem ouvir na hora derradeira,
-á beira do meu leito, o murmurio das
-tuas orações...</p>
-
-<p>—E depois, com que profundissimas dôres
-não irias despedaçar o coração estremoso de
-tua mãe! com que maldito tormento não irias
-infernar a velhice de teu pae e levar a desgraça
-á serenidade alegre da tua casa!</p>
-
-<p>—Comprehendo a nobreza da tua alma,
-anjo. Agradeço-te por mim, por minha mãe,
-por meu pae, por Deus. Ficarei. Acceitarei resignado
-o sacrificio que me impõem e appellarei
-para a Providencia, que vela por todos os
-desgraçados. Juro-te que serei submisso.</p>
-
-<p>—Obrigada. Pertence-me metade das tuas
-afflições e como poderia eu luctar com o destino
-se me faltasses tu a dar-me alento nas horas
-attribuladas da nossa commum desventura?</p>
-
-<p>—E has de soffrer tu, santa do martyrio,
-que merecias a felicidade na terra? E hei de
-eu ser teu algoz, eu, que te amo até á loucura?
-E hei de eu ser teu algoz e sacrificar a tua<span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span>
-alma immaculada, exigindo que soffras, que
-chores, que morras na lenta agonia dos desgraçados,
-só por que eu tambem agoniso, e
-choro e soffro? E não ha de Deus escutar-nos
-e não ha de o céo condoer-se das nossas afflicções!
-Oh! sinto na minha alma a labareda maldita
-do inferno!...</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XVIII</h2>
-
-<p>Não tinham decerto escutado ainda mais doloroso
-idyllio as arvores sombrias da <i>Mãe d’Agua</i>.</p>
-
-<p>Eduardo Valladares esperava com febril anciedade,
-como dissera, aquelle momento que se
-lhe afigurava decisivo. Durante dois mezes, apenas
-pudera entregar ao papel as pungentes
-confidencias da sua alma.</p>
-
-<p>Quando, nos ultimos dias de setembro, João
-Nicolau de Brito o chamou á puridade para
-ordenar-lhe, severo e inexoravel, que immediamente
-fôsse abrir matricula no Seminario, escutou
-o submissamente, abafando no coração
-a tempestade revôlta que, n’aquelle momento,
-fibra a fibra lh’o estava despedaçando.</p>
-
-<p>Sahiu da sala para correr á Bibliotheca, onde
-lhe ouvimos o brando queixume que o coração
-amigo de Rodrigues d’Abreu recolhera compadecido.</p>
-
-<p>João Nicolau, matriculado Eduardo no primeiro
-anno do curso de theologia, jubilava com
-o bom rumo que os seus planos tomavam hora
-a hora.</p>
-
-<p>Esperava talvez resistencia da parte do neto
-e cabalmente se enganou. Todos os dias o observava
-com olhos perscrutadores; via-o triste e
-sombrio, mas não extranhava.</p>
-
-<p>Não era elle de natural melancholico?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span></p>
-
-<p>Estas investigações quotidianas levaram-n’o
-a modificar as suas conjecturas. «O rapaz, dizia
-de si para si, acceita com boa disposição a vida
-ecclesiastica, esperançado talvez em alliar
-a poesia com o sacerdocio. E d’ahi quem sabe?
-Pode ser um vulto distincto em eloquencia sagrada.»</p>
-
-<p>E, uma vez possuido d’esta idéa, empenhava-se
-pelo destino do neto, no intuito de o ver
-ainda prégador da Real Capella, no que n’esse
-tempo consistia e ainda hoje consiste a maxima
-distincção com que podem ser galardoados os
-oradores sagrados portuguezes.</p>
-
-<p>Já é incentivo!</p>
-
-<p>João Nicolau não curava de razoar sobre a
-mesquinhez ou exorbitancia do galardão, nem
-cuidava de tirar a limpo que proventos e honras
-importava. N’isto se assemelhava com os
-mil e um pretendentes que sollicitam mercês
-honrosas actualmente; querem a venera seja
-qual fôr e custe o que custar. Com João Nicolau
-acontecia exactamente o mesmo. Firme no
-seu designio, declarou solemnemente á mulher
-e ao neto a suspensão temporaria de visitas
-com o proposito de não distrahir o espirito do
-futuro prégador da Real Capella. Queria-lhe parecer
-que esta medida de segurança attingia
-dois fins egualmente appeteciveis:</p>
-
-<p><i>Primo</i>: Concentrar a attenção do novel seminarista
-nas materias theologicas.</p>
-
-<p><i>Secundo</i>: Afastar cuidadosamente as distracções
-mundanas, que não só prejudicariam a regularidade
-do estudo mas até insinuariam na
-alma do neto philtros que não devem perturbar
-o espirito d’um sacerdote.</p>
-
-<p>D. Maria d’Assumpção andava sobremodo
-condoída das angustias do pobre Eduardo. Vira
-nascer a chamma do amor e confiava na brevidade
-com que usam levantar-se e morrer labaredas
-em corações que desabrocham.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p>
-
-<p>Era este o segredo da sua medicina. O amor
-passageiro dos dezeseis annos esperava ella
-que fôsse antidoto efficaz ás asperezas d’uma
-vida nova, e sobremodo aborrecida, em que o
-neto ia entrar.</p>
-
-<p>O que porém não pensou aquella boa alma
-foi que poderia tornar-se incendio o que se lhe
-afigurava chamma e que o coração dos dezeseis
-annos, como o coração de todas as edades,
-tanto procura o sol para aquecer-se n’uma hora
-de desconfôrto como para inflammar-se n’um
-momento de febril anciedade.</p>
-
-<p>Em Eduardo Valladares o amor não era devaneio;
-era a paixão intensa, a paixão que perde
-ou que salva.</p>
-
-<p>Estão-me agora cahindo dos bicos da penna
-uns certos dizeres de D. Francisco Manuel, que
-veem de geito: «Persuado-me que esta cousa a
-que o mundo chama amor, não é só uma cousa,
-porém muitas com um proprio nome. Poderá
-bem ser, que por isto os antigos fingissem haver
-tantos amores no mundo, a que davam diversos
-nascimentos; e tambem pode ser venha
-d’aqui, que ao amor chamamos amores: pois
-se elle fôra um só, grande impropriedade fôra
-esta. Eu considero dois amores entre a gente.
-O primeiro é aquelle commum affecto com que,
-sem mais causa que sua propria violencia, nos
-movemos a amar, não sabendo o que, nem por
-que amamos. O segundo é aquelle, com que proseguimos
-em amar o que tratamos, e conhecemos.»</p>
-
-<p>Eduardo Valladares amava Maria Luiza antes
-de a vêr. Em horas de dulcissimos arroubos
-creara a sua phantasia uma visão aerea, formada
-de perfumes e de estrellas, meio anjo meio
-mulher, meio do céo meio da terra... Este era
-o primeiro amor de que fala D. Francisco Manuel,
-o amor do ignoto e do intangivel. Depois,
-um dia, por acaso, encontrara a consubstanciação<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span>
-de todas essas particulas aereas, deixem-me
-assim dizer, encontrára na terra a realidade
-dos seus sonhos queridos e absorvera
-n’aquelle sentimento impetuoso toda a vida de
-que uma organisação extremamente delicada
-pode dispor.</p>
-
-<p>Para aquella alma ardente e sonhadora o
-amor não podia ter a serenidade das estrellas
-n’uma noite d’estio: devia de ser violento como
-as convulsões do vulcão que levanta ao céo as
-lavas encandescentes.</p>
-
-<p>D. Maria d’Assumpção enganava-se pois, como
-todas as almas que nasceram, dedicadas e boas,
-para o remanso dos affectos vulgares.</p>
-
-<p>Rodrigues d’Abreu, coração aquecido ao fogo
-da poesia posto que duramente provado pelas
-amarguras do mundo real, Rodrigues d’Abreu
-é que se não enganava assim, nem se deixava
-cegar pela tranquillidade apparente do filho do
-bacharel.</p>
-
-<p>O bibliothecario de Braga, que tinha tanto de
-poeta como de christão, andava sobremodo inquieto
-com os soffrimentos d’aquella alma cujos
-soffrimentos devassava. Lembrou-se de escrever
-a Sebastião Valladares com a rude franqueza
-de homens que choraram juntos as lagrimas
-do exilio. Escrever-lhe seria, porém, mostrar
-ao pae a profundidade do abysmo em que
-se debatia a alma do filho. Este alvitre rejeitou-o
-o honrado bibliothecario por demasiadamente
-impiedoso e cruel.</p>
-
-<p>Rodrigues d’Abreu bem comprehendera que
-Eduardo Valladares amava, e sabia que era
-coagido a seguir a carreira ecclesiastica. Não
-bastava todavia comprehender e saber isto;
-era preciso mais.</p>
-
-<p>Era preciso ao medico espiritual ouvir a exposição
-circumstanciada do doente. Receava
-porém provocar as labaredas do incendio latente,
-e este receio acobardava-o. Mas como deixaria<span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span>
-consumir-se lentamente aquella alma cuja
-pureza aquilatara tantas vezes, elle, que era
-bom, dedicado e nobre? O velho bibliothecario,
-n’essas horas de attribulada incerteza, pedia
-ao Céo a luz da inspiração.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XIX</h2>
-
-<p>Rodrigues d’Abreu costumava abraçar-se,
-quando a sua alma carecia de confôrto, ao esteio
-d’um coração amigo, que era urna de balsamos
-para todas as afflicções.</p>
-
-<p>Frei Domingos do Amor-Divino, o conselheiro,
-o arrimo, o cyreneu do bibliothecario bracharense,
-tinha purificado o seu coração nas asperezas
-da disciplina conventual, nas tribulações
-da miseria e nas lagrimas choradas na solidão,
-deante d’um crucifixo.</p>
-
-<p>Carmelita descalço, foi sempre modêlo e exemplo
-nos cargos que teve de exercer em hospicios
-differentes por decisão do definitorio geral
-da sua ordem.</p>
-
-<p>Na rigorosa observancia do regimen monastico
-e na prática constante da virtude lentamente
-se mundificara a alma do religioso carmelita,
-já de natural propensa ao bem.</p>
-
-<p>O convento foi-lhe sempre chrysol desde que
-solemnemente professou no convento de Nossa
-Senhora dos Remedios, em Lisboa, até que, silencioso
-e compungido, sahira com o resto da
-communidade do convento do Carmo de Braga,
-dizendo para sempre adeus á casa que lhe devia
-ser tumulo.</p>
-
-<p>Nunca Frei Domingos do Amor-Divino se entrincheirou
-com as reixas do mosteiro para, a
-coberto de perseguições, accender odios partidarios<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span>
-e soprar injurias a qualquer das duas
-facções que por longo tempo se degladiaram
-em accêsa lucta civil.</p>
-
-<p>Não lhe ouviram nunca razoamento, nem sequer
-monosyllabo, que denunciasse o rumo das
-suas inclinações politicas.</p>
-
-<p>Quando chegava ás cellas do convento um
-echo das tempestades exteriores, costumava
-dizer Frei Domingos do Amor-Divino:</p>
-
-<p>—Não curemos de profundar essas negruras.
-A porta que se fechou sobre nós é uma como
-barreira que nos separa das desgraças que pesam
-sobre Portugal. Que o espirito do Senhor
-desça sobre nós e seja comnosco, irmãos.</p>
-
-<p>Retumbou finalmente aos ouvidos do carmelita
-um como trovão que parecia abalar os alicerces
-do convento: era a voz de debandada
-que se repercutia ao mesmo tempo no seio de
-todos as ordens religiosas de Portugal. Frei Domingos
-do Amor-Divino cruzou com os seus
-confrades um olhar afogado em lagrimas e desceu
-á claustra para se despedir da lage sob a
-qual esperava dormir o somno eterno. N’esse
-momento, voltavam umas andorinhas que tinham
-fabricado o ninho no friso da crasta.</p>
-
-<p>Foi dilacerante aquelle lance. As andorinhas,
-ficavam e a communidade... sahia.</p>
-
-<p>Frei Domingos do Amor-Divino foi um dos
-religiosos portuguezes que emmudeceram na
-sua dôr, e procuraram na solidão o refugio que
-não podiam encontrar em qualquer outra parte.</p>
-
-<p>Dissolvida a grande familia monastica portugueza
-e serenadas as tormentas politicas que
-mergulharam em rios de sangue as decantadas
-boninas das varzeas de Portugal, Frei Domingos
-do Amor-Divino assentou residencia em
-Braga.</p>
-
-<p>—Quero vêr a toda a hora o ninho das andorinhas,
-dizia elle referindo-se ao convento do
-Carmo. Ali lhes escutei o alegre chilrear e alli<span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span>
-esperava morrer com ellas. O meu coração precisa
-d’este consôlo.</p>
-
-<p>Sua grande affeição á casa onde tinha vivido,
-esquecido do mundo, levou o a escolher cubiculo
-d’onde ao menos pudesse espreitar as torres
-do seu convento. Recolheu se Frei Domingos
-a uma pobre mansarda da rua do Carvalhal
-e ahi viveu a vida angustiada da miseria e
-da solidão. Muitas pessoas, que ajoelharam a
-seus pés com o coração requeimado, levantaram
-se do confessionario com os olhos marejados
-de lagrimas.</p>
-
-<p>Isto diz-se para até certo ponto se explicar o
-respeito com que os vizinhos o olhavam e cumprimentavam
-quando sahia e entrava.</p>
-
-<p>João Nicolau, se acertava vêl-o, dizia ordinariamente:</p>
-
-<p>—Ó mulher, estes pobresinhos dos frades,
-sem casa e sem pão, fazem realmente despedaçar
-a alma a quem os vê. E olha como o nosso
-vizinho vive resignado, que até se lhe rie o semblante!
-Deus perdôe a quem...</p>
-
-<p>E deixava quasi sempre a phrase incompleta
-para não evocar recordações pungentes que tinha
-recalcadas no coração.</p>
-
-<p>Um dia uma viuva desvalida, mãe de quatro
-filhos, ajoelhou supplicante aos pés de Frei Domingos.</p>
-
-<p>O virtuoso carmelita levantou-a compassivo
-e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Se na minha mão estivesse remediar a
-vossa miseria, remediada estava. Não desanimemos
-porém. «Pedi e dar-se-vos-ha, buscae e
-achareis, batei e abrir-se-vos-ha» disse o Divino
-Mestre no sermão da Montanha. Sigamos pois
-o conselho de quem nol-o podia dar.</p>
-
-<p>E foi-se de porta em porta, seguido da viuva
-e das creancinhas, esmolando para a mãe e para
-os filhos.</p>
-
-<p>Rodrigues d’Abreu foi um dos não muitos corações<span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span>
-que se enterneceram a lagrimas deante
-d’aquelle edificante e extranho espectaculo.
-Desde então nunca na alma do bibliothecario
-bracharense passava uma dôr intima, que elle
-não fôsse desafogal-a no coração de Frei Domingos
-do Amor-Divino.</p>
-
-<p>A sorte desventurosa do filho do bacharel
-Valladares trazia trabalhado de crueis angustias
-o espirito do bibliothecario bracharense.
-Foi pois n’umas das horas de doloroso cogitar
-a tal respeito, que na alma de Rodrigues d’Abreu
-passou um lampejo d’esperança, ao lembrar-se
-do muito que podia fazer, em tão apertado caso,
-Frei Domingos do Amor-Divino.</p>
-
-<p>Não hesitou um momento. Tinha pedido ao
-Céo a luz da inspiração e á conta d’inspiração
-celeste tomara elle o pensamento que o impellia
-para o religioso carmelita.</p>
-
-<p>Foi procural-o, falou-lhe, desdobrou-lhe o
-quadro das afflicções que eram d’outrem e que
-sentia como suas. Frei Domingos attendeu-o e
-escutou-o humilde e compassivo, respondendo
-finalmente:</p>
-
-<p>—É grave e trabalhoso demover o proposito
-d’um ánimo resoluto. Operemos e esperemos
-todavia. <i>Deus autem noster in cælo; omnia quæ
-cumque voluit, fecit.</i><a name="FNanchor_6" id="FNanchor_6"></a><a href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a></p>
-
-<p>Depois que Rodrigues d’Abreu sahiu do cubiculo
-da rua do Carvalhal, Frei Domingos do
-Amor-Divino ajoelhou-se deante do seu crucifixo
-invocando as graças do Céo. Durante a
-oração illuminou-se-lhe o espirito, e quando o
-carmelita se levantou, tinha já traçado o plano
-da obra espinhosa que tomara sobre si, esperançado
-no auxilio divino, como revelam estas
-palavras que murmurara ao oscular o crucifixo:</p>
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span></p>
-<p>—<i>In tribulatione mea invocavi Dominum, et ad
-Deum meum clamavi.</i><a name="FNanchor_7" id="FNanchor_7"></a><a href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a></p>
-
-<p>Depois desceu as escadas com extranhavel
-vigor, atravessou a rua e aldravou á porta de
-João Nicolau de Brito.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XX</h2>
-
-<p>Eduardo Valladares e Maria Luiza, na impossibilidade
-de fallar-se, viam-se apenas. Triste
-correspondencia era essa escripta com lagrimas
-de dois corações que se deviam estar inflorando,
-n’aquella sazão, em jubilosas primaveras.
-Não acontecia assim, porém.</p>
-
-<p>As cartas de Maria Luiza principiavam por
-palavras de resignação e fechavam com outras
-d’esperança; as de Eduardo Valladares tinham
-longo prefacio de desalentos e terminavam com
-assomos de mal contido desespêro.</p>
-
-<p>Demoremo-nos um momento a medir a profundeza
-de dois abysmos.</p>
-
-<p>Maria Luiza, alma que se desatara em perfumes
-e amores ao sôpro virginal do primeiro affecto,
-conhecia de sobra os despenhadeiros que
-lhe estava cavando um amor desventuroso, e
-resignadamente se deixaria despenhar só
-para não arrastar na queda outra alma que
-vivia sob o influxo d’uma estrella commum.</p>
-
-<p>Por isso, com o coração despedaçado, aconselhava
-a medicina da resignação e deixava
-entrever diluculos d’esperança através de uma
-chuva de lagrimas que não podia reprimir.</p>
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p>
-<p>Os vestigios das lagrimas choradas desvelariam
-a um espirito desassombrado o segredo
-que o coração de Maria Luiza com tamanho
-empenho recatava; bastariam para eloquentemente
-denunciar os soffrimentos crueis que ella
-procurava dissimular trocando em flores o orvalho
-dos seus olhos.</p>
-
-<p>Eduardo Valladares, moralmente sobreexcitado,
-lia as cartas e, diga-se a verdade, encontrava
-n’ellas um como refrigerio ministrado por
-mão do anjo da guarda; por momentos se tranquillisava
-com as esperanças a que o estava
-convidando o ánimo apparentemente tranquillo
-de Maria Luiza.</p>
-
-<p>Durava apenas momentos, como dissemos, a
-acção benefica da leitura. Após aquelle instantaneo
-repouso, rugiam de novo as mesmas tempestades
-e era então o revolver se no mesmo
-leito de Procusto, em desesperadora ancia. O
-que elle claramente via n’esses angustiosos
-momentos era o infernal dilemna que comprimia
-a sua vida entre dois estiletes rubros de
-fogo maldito:—Succumbir ou rebellar se.</p>
-
-<p>Succumbir era amortalhar se na batina do
-sacerdote; dilacerar o coração, dia a dia, hora
-a hora; despenhar em abysmo insondavel as
-mais formosas visões do céo da sua mocidade;
-separar-se d’ella, da mulher adorada, para nunca
-mais aspirar o perfume dos seus labios, e
-não só separar-se mas tambem infelicital-a; e
-depois passar sereno e tranquillo, aconselhando
-esperança, por entre os que se ajoelhassem
-para beijar-lhe a fimbria da batina. Rebellar-se
-era ter de fugir, levando para toda a parte o
-remorso de haver envenenado a tranquillidade
-do lar paterno; era ter de abandonar o anjo
-que na linguagem dulcissima do Céo lhe pedia
-que ficasse; era dar á sociedade o direito de
-insultar as suas dores mais santas; era finalmente
-faltar á promessa, que fizera, de esperar<span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span>
-resignado o momento em que chovesse do Céo
-o refrigerio que só o Céo podia ministrar em
-tão difficil conjunctura.</p>
-
-<p>Ficou pois; como havia promettido.</p>
-
-<p>Approximam-se as férias do Natal de 1852 e
-Eduardo Valladares denunciou vontade de não
-vir ao Porto, pretextando trabalhos escholares,
-especialmente o de redigir duas dissertações.</p>
-
-<p>É que se não via com a coragem precisa
-para abeirar-se de sua mãe sem revelar os segredos
-que lhe corroíam o coração, sem lhe dizer
-que tudo quanto parecia sujeição voluntaria
-era sacrificio de victima impotente, e sem
-lhe attribular para sempre as horas que á boa
-senhora corriam remançosas ao lado do marido.</p>
-
-<p>Em meado de dezembro, n’uma quinta-feira
-que amanhecia radiosa como para descoalhar
-as neves que alvejavam nas agulhas das serranias,
-especialmente no Gerez, Eduardo Valladares
-deixou-se ir, de rua em rua, absorto nos
-pensamentos que lhe preoccupavam o espirito.</p>
-
-<p>Ao desemboccar no Campo de Sant’anna, sahiu-lhe
-ao encontro um seminarista seu condiscipulo,
-um tal Mendonça, natural de Guimarães,
-talento contubernal de homens devassos nos
-alcouces bracharenses, brigão de emboscadas
-nocturnas, que seguia a carreira ecclesiastica
-para acobertar com a batina as ulceras
-d’uma alma devastada pelo vicio.</p>
-
-<p>A approximação d’este sujeito façanhoso, que
-apregoava, chanceando-se, as repugnantes aventuras
-de sua chronica, entediava sobremodo
-Eduardo Valladares, o qual pensava, ao vêl-o,
-na maneira por que a sociedade costuma encarar
-o padre que sacrifica a propria felicidade
-aos pés de Deus, e o padre cujos dedos empeçonhados
-da lepra do crime devem macular a
-alvura do amicto.</p>
-
-<p>Eduardo Valladares pensava n’isto e conhecia
-que a sociedade não levantava entre um e outro<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span>
-barreira que pudesse distancial-os, para que a
-lama, levantada na passagem do mau padre,
-não fôsse salpicar a face do sacerdote exemplar.</p>
-
-<p>Esta distancia conservava-a Eduardo Valladares
-no seu espirito, que é unicamente onde se
-pode distinguir vicio e virtude quando é uso
-confundil-os e tomal-os um pelo outro só para
-se não castigar o vicio nem premiar a virtude.</p>
-
-<p>N’aquella dolorosa introversão do seu espirito,
-via se Eduardo Valladares já sacerdote, offerecendo
-todos os dias a Deus no calix do sacrificio
-a vida que lentamente lhe arrancavam
-e, como se isto não fôsse provação de sobra,
-via-se tambem exposto aos chascos da sociedade
-que insulta um raro exemplo de virtude,
-quando elle apparece, por estar habituada a
-encontrar a torpeza, a cada hora, nas praças
-como nos templos.</p>
-
-<p>Corroendo a arvore sacrosanta do evangelho,
-regada pelo suor dos virtuosos cultores e mimosa
-dos cuidados d’elles, descobria o ominoso
-áspide, o verme da reacção, que contramina a
-obra piedosa e envenena com a baba immunda
-os fructos que puderam ser opimos, damnificando
-a colheita. Quando apparece o modêlo das
-verdadeiras virtudes evangelicas, quando surge,
-de longe a longe, um Frei Domingos do
-Amor-Divino, a sociedade, na maxima parte,
-repelle-o e vitupera-o e apedreja-o irreverentemente.</p>
-
-<p>No dia em que o religioso carmelita sahira a
-mendigar de porta em porta para a viuva e
-para os quatro orphãos, não muitos, como já
-dissemos, foram os corações que se abriram ao
-benefico influxo d’aquelle espectaculo edificante.
-Muitos o repelliram com desamor e remoques
-d’esta laia:</p>
-
-<p>—Que peça para um, que já não é pouco. A<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span>
-gente não tem obrigação de sustentar as familias
-dos frades pobres e devassos...</p>
-
-<p>E Frei Domingos sahia, com a sua velhice e
-com a sua humildade, chamando mentalmente
-o medico divino para o coração empedrenido.</p>
-
-<p>O seminarista de Guimarães abeirou se de
-Eduardo Valladares com rude familiaridade:</p>
-
-<p>—Ó homem! estava longe de te encontrar
-aqui! Tão recatado vives, que não ha pôr-te a
-vista senão á hora da aula! Ora dize-me uma
-coisa. Tu levas isto a sério ou usas de santimónias
-de Tartufo?</p>
-
-<p>O filho do bacharel fitou com admiração o de
-Guimarães e ponderou entre delicado e digno:</p>
-
-<p>—Não comprehendo, como desejava, a referencia
-da palavra <i>isto</i>. Tens a bondade de m’a
-explicar?</p>
-
-<p>—Isto, replicou Mendonça desfechando uma
-gargalhada, isto, é a alienação do direito de ser
-homem, que a sociedade nos quer impor, a nós,
-os que seguimos a vida ecclesiastica; isto, é a
-investidura ridicula da batina; isto, é a tonsura
-com que nos cerceiam os cabellos emparelhando-nos
-aos scelerados que estigmatisavam nos
-logares publicos; isto, é este assentamento de
-praça na milicia sagrada, que não pode deixar
-de ter as liberdades de todas as milicias...</p>
-
-<p>—E isso, o que tu disseste, replicou Eduardo
-Valladares, é a linguagem desbragada do soldado
-que veste as armas, não para militar pela
-causa que jurou, mas unicamente para ter direito
-á pilhagem...</p>
-
-<p>—Santimónias de Tartufo, bem dizia eu!
-Olha que nem tu nem eu havemos d’enriquecer
-com a pilhagem. E d’ahi, pode ser que tu chegues
-a fazer casa... Quantas missas tencionas
-dizer por dia?</p>
-
-<p>Eduardo Valladares ia denunciar o asco que
-lhe estava causando aquelle falar licencioso,
-quando um maltrapilho, que passava, bateu<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span>
-familiarmente no hombro de Mendonça e apostrophou:</p>
-
-<p>—Ó homem! eu dormi quatro horas e tu não
-havias de dormir muitas mais! Perdi tudo...
-A sorte negou-se, e deixou-me a tinir!</p>
-
-<p>Eduardo Valladares foi seguindo seu caminho,
-sobremodo entendia da approximação
-d’aquelle repulsivo caracter. O de Guimarães e
-o maltrapilho ficaram conversando e revendo
-provavelmente as paginas ascorosas da historia
-d’uma noite passada em qualquer espelunca
-de jôgo.</p>
-
-<p>O filho do bacharel foi seguindo sempre pelo
-Campo de Sant’Anna adeante e, transposta a
-egreja de S. Victor, sentou-se no caminho desfrequentado
-a olhar para o arvoredo que ao de
-leve ondulava na encosta do Bom Jesus. Ahi,
-n’esse cogitar em si mesmo, passou duas horas
-que tanto tiveram de tribulação como de doçura.
-N’aquelle seu ermar havia um misto d’esperança
-e desespêro, que praza a Deus que os que
-hoje se julgam felizes nunca possam comprehender.</p>
-
-<p>O leitor, que se defrontou já com o perfil
-respeitavel de Frei Domingos do Amor-Divino,
-ponha os olhos no reverso da medalha, n’este
-seminarista de Guimarães, que já cem vezes ou
-mais deve ter levantado com mãos impuras o
-calix que Frei Domingos offerecia a Deus todos
-os dias, e depois volte a pagina e leia o capitulo
-seguinte para restituir á sua alma as doçuras
-religiosas que os labios de nossa mãe
-coáram aos nossos ouvidos quando nos ensinaram
-as primeiras orações.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span></p>
-
-<h2>XXI</h2>
-
-<p>João Nicolau vinha, com uma braçada de flores,
-de jardinar nos seus canteiros, quando ouviu
-bater á porta. Foi elle mesmo abrir e entre
-admirado e contente se mostrou ao dar de
-rosto com Frei Domingos do Amor-Divino. Não
-teve mão em si que, ao conduzir para a sala o
-carmelita, não fôsse gritando com alegre alvoroço:</p>
-
-<p>—Anda cá, Maria, anda cá. Está aqui o
-nosso vizinho Frei Domingos; não te demores,
-anda de pressa...</p>
-
-<p>D. Maria d’Assumpção acudiu pressurosa ao
-clamoroso chamamento e, quando encarou no
-marido que embraçava ainda as flores, pediu
-desculpa após desculpa de tão descerimoniosa
-recepção.</p>
-
-<p>Frei Domingos respondeu com jovialidade:</p>
-
-<p>—Com flores me receberam; não pode haver
-mais galhardo acolhimento. O snr. João
-Nicolau está-me fazendo recordar agora d’uma
-passagem de Salomão. Ora lá vae e tenham
-paciencia; isto é veso incuravel de frade velho:
-«Desci ao jardim das nogueiras para vêr os
-pomos dos valles e para examinar se a vinha
-tinha lançado flor e se as romãs tinham brotado».
-Foi o sr. João Nicolau vêr as flores do
-seu jardim e mimosas as encontrou, a julgar
-pelas que trouxe. Não ha, pois, razão para desculpas
-e não falemos mais n’isso.</p>
-
-<p>—Ó sr. Frei Domingos, replicou João Nicolau,
-nunca eu desço ao quintal que não sinta
-um peso na alma ao deitar os olhos para as
-torres do Carmo. Ai que tristes recordações!...</p>
-
-<p>—Não podes falar n’outra coisa! atalhou
-D. Maria d’Assumpção.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span></p>
-
-<p>—Não me molesta, antes me consola o assumpto,
-respondeu Frei Domingos. É sempre
-doce para o coração d’um filho ouvir falar da
-casa paterna; e tanto eu quero ainda áquelle
-tecto, que me fiquei por aqui para o estar namorando
-a toda a hora...</p>
-
-<p>—Perseguirem os frades! regougou João Nicolau.
-Que mal lhes faziam? Não houve delicto
-de que os não accusassem!...</p>
-
-<p>—Não sejamos tão severos, não sejamos.
-Nos conventos, como em todas as sociedades,
-havia trigo e joio.</p>
-
-<p>—Isso assim é, acudiu João Nicolau. Lá diz
-o que escreveu <i>Os frades julgados no tribunal da
-razão</i><a name="FNanchor_8" id="FNanchor_8"></a><a href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a>, curioso livrinho que tenho alli, lá diz
-elle: «A primeira familia do mundo teve um
-Caim».</p>
-
-<p>—Bem disse o auctor e com verdade falou.
-No convento havia homens e por tal razão
-idéas e sentimentos diversos. Mas entre tantas
-cabeças e tantos corações alguma cabeça
-haveria que pensasse reflectidamente, algum
-coração haveria propenso ao bem e ao justo.
-A obra d’esse varão aproveitaria ao mundo.
-Muito melhor o diz o livro sagrado: «Pequena
-é a abelha entre os animaes volateis, e com
-tudo isso logra o seu fructo a primazia da
-doçura»<a name="FNanchor_9" id="FNanchor_9"></a><a href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a>.</p>
-
-<p>D. Maria d’Assumpção escutava enlevada e
-ao mesmo tempo compadecida das angustias
-do frade.</p>
-
-<p>—Tudo quanto havia de bom, fora e dentro
-<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span>dos conventos, tudo a guerra nos levou, ponderou
-João Nicolau. Perderam-se vidas, correram
-rios de sangue, consumiu-se, matou-se, espoliou-se...
-As consequencias fôram tristes
-como os factos.</p>
-
-<p>—Sou extranho a tudo o que respeita a politica;
-no convento desconheci-a sempre; fora
-do convento egualmente a desconheço.</p>
-
-<p>—Ler a historia da guerra civil, disse João
-Nicolau, é doloroso; feliz quem se puder forrar
-a semelhante leitura.</p>
-
-<p>—D’essa historia, respondeu Frei Domingos,
-sei apenas que o sr. D. Pedro era um principe
-portuguez, que já morreu e que o sr. D. Miguel,
-seu irmão, é outro principe que vive em
-terra extranha.</p>
-
-<p>—Pobre e saudoso, elle, o sr. rei, o rei legitimo,
-como provou José Agostinho, como provou
-Frei Matheus da Assumpção, e como provaram
-tantos outros!</p>
-
-<p>—Pobre e saudoso se me afigura que deve
-viver. Mas, exclamou Frei Domingos com ar
-prazenteiro, fechemos as chronicas nacionaes
-que estão ainda a rever sangue. É tempo de
-expor o motivo que me levou a entrar na
-casa desconhecida...</p>
-
-<p>—Muito prazer nos deu a sua visita, sr. Frei
-Domingos, apostrophou D. Maria d’Assumpção.</p>
-
-<p>—Não sabe quanto me apraz relacionarmo-nos!
-accrescentou João Nicolau. Espero que
-continuará a dar-nos o gosto de o vermos e ouvirmos.
-E depois tenho cá um meu neto que
-anda no Seminario e que precisa de pedir sombra
-a boa arvore. O sr. Frei Domingos sei eu
-que não se recusa a uma obra piedosa.</p>
-
-<p>—Nada sou e nada valho. Se não é molesta
-a minha presença, virei. Não ha melhor asylo
-do que o aposento do varão honesto e honrado.
-Ah! mas reatando a conversa... Costumam
-alguns corações piedosos encarregar-me, n’esta<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span>
-grandissima festa do Nascimento, de distribuir
-esmolas por pessoas realmente carecidas.
-Sempre é bom prevenir, e mais sabem tres do
-que um. Não tem o snr. João Nicolau pessoa
-de suas relações que se veja em estado d’acceitar
-a moeda abençoada da caridade?</p>
-
-<p>—Oh! sr. Frei Domingos! A sua lembrança
-penhora-nos! exclamou D. Maria d’Assumpção.
-Temos, sim, senhor. A Joaquina, que fez em
-tempo os recados da nossa casa, está pobre e
-entrévada ha dois annos e, se lhe não valesse
-o auxilio da caridade, já teria morrido de
-doença e miseria.</p>
-
-<p>—É verdade, a Joaquina! bem empregada
-esmola! confirmou João Nicolau.</p>
-
-<p>—Pois esperemos o Natal, e da colheita repartiremos
-pela entrevada Joaquina, perorou
-Frei Domingos, levantando-se para sahir.</p>
-
-<p>Á despedida, João Nicolau e D. Maria d’Assumpção
-reiteraram instancias que demovessem
-o frade a prometter nova visita e, quando
-elle transpunha o limiar, ficaram ambos dizendo:</p>
-
-<p>—Frei Domingos é uma santa alma!</p>
-
-<p>As mesmo tempo ia monologando o carmelita:</p>
-
-<p>—<i>Dominus Deus auxiliator meus</i><a name="FNanchor_10" id="FNanchor_10"></a><a href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a>. Deus me
-guiará pelo caminho appetecido.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XXII</h2>
-
-<p>—Temos passado as férias,—disse D. Maria
-d’Assumpção a João Nicolau, sem darmos um
-unico passeio! Eu acho que já estou trôpega.
-<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span>Nada! É preciso aproveitar estes dois dias. Em
-se abrindo as aulas, começa a gente a cabecear
-com somno como se a casa fôsse de ermitões.
-E agora, que são férias, parece que tambem era
-prohibido falar em passeios para não distrahir
-o nosso estudante!...</p>
-
-<p>—Ó mulher! tu não tens lembrado... Eu estou
-por tudo.</p>
-
-<p>—Pois não vês que este rapaz, de genio triste,
-não pode supportar semelhante viver de velhos?</p>
-
-<p>—Olha que é preciso educal-o para a vida que
-ha de levar. A vida do bom sacerdote deve ser
-a vida do descanso e da meditação... Põe os
-olhos em Frei Domingos...</p>
-
-<p>—Pois quando elle fôr padre, falaremos.
-Guiemol-o por bom caminho, mas não o opprimamos.
-A oppressão dá causa, por via de regra,
-á reacção.</p>
-
-<p>—Reagir, elle! Não se reage contra as proprias
-inclinações. Em tempo pareceu-me que
-era avesso á carreira ecclesiastica. Hoje estou
-completamente convencido de que sonha com
-as glorias do pulpito e com o renome conquistado
-pelas suas homilias futuras. É que o chama
-para alli o coração, e esta coincidencia de
-encontrar o animo do Eduardo affeiçoado á minha
-vontade, só a Deus a posso agradecer. Por
-isso, para satisfazer aos deveres que me aconselha
-a consciencia, é que já lhe comprei outro
-dia os sermões do Padre Antonio Vieira...</p>
-
-<p>—Por mais audaciosas que sejam as aspirações
-do rapaz, por maior que seja a sua tendencia
-para a vida ecclesiastica, sempre te direi
-que a leitura de sermonarios deve ser muito
-indigesta para um espirito de dezesete annos.</p>
-
-<p>—Sim! hei de talvez dar a ler essa praga de
-romances, que se introduziu em Portugal ha
-poucos annos, a um rapaz que eu educo para<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span>
-ser um padre digno dos respeitos da sociedade!
-Que mau padre não o quero eu. Prefiro vel-o
-morrer. Frei Domingos é o typo que eu escolho
-como padrão do bom clerigo.</p>
-
-<p>—Ora essa! Pois tu imaginas que ha muitos
-Frei Domingos?! Uma alma assim manda-a
-Deus á terra para allivio dos infelizes.</p>
-
-<p>—Não digo que seja egual, que eu sou o primeiro
-a reconhecer em Frei Domingos virtudes
-excepcionaes. Ninguem tem por elle mais respeito
-e mais dedicação do que eu. Quero porém
-que o exemplo do nosso vizinho aproveite á sociedade;
-bem sabes que deve ser de bençãos a
-sombra d’aquella arvore veneranda.</p>
-
-<p>—Disseste «sociedade» e querias referir-te ao
-Eduardo. Percebi a tua intenção. Pois se tu dissesses
-a Frei Domingos: «Tenho aqui encarcerado
-a sete chaves este rapaz de dezesete annos,
-só para que não se acalente ao sol do
-mundo» verias como elle te havia de responder:
-«Deixe-o entregue ás alegrias castas da sua idade,
-e não opprima o coração delicado.»</p>
-
-<p>—Ó mulher! pois eu opponho-me? Valha-me
-Deus! Passeiemos. Já agora encarreiramos para
-o Bom Jesus. Pois vamos lá; e se queres ir para
-outro sitio, dize.</p>
-
-<p>—Vamos ao Bom Jesus que é mais commodo
-e menos dispendioso. Vamos lá depois d’amanhã
-passar o dia. Visto que está em costume,
-mando dizer ás Machados.</p>
-
-<p>—Pois manda. Depois não me chames ermitão...</p>
-
-<p>D. Maria d’Assumpção vingára o seu proposito.
-O que ella queria era alliviar por um momento
-as sombras espessas que ennoiteciam
-dia a dia, cada vez mais, a alma do neto. Tanto
-lhe bastava, e para isso era preciso não dissipar
-as illusões do marido, o que seria o mesmo
-que fazer subitamente estalar uma tempestade.
-João Nicolau, inimigo figadal do romantismo,<span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span>
-andava acumulando de velharias mysticas
-a estante de Eduardo.</p>
-
-<p>A pobre senhora conhecia a inconveniencia,
-mas nem se oppunha, nem sequer mostrava
-desagrado. Esperava em Deus. Era para o Céo
-que ella appellava na impossibilidade de suster
-a marcha de acontecimentos a que era contraria.</p>
-
-<p>A antipathia de João Nicolau pelo romantismo,
-aquelle odio explosivo votado ao romance
-tal qual o architectára Garrett no <i>Arco de Sant’Anna</i>
-e principalmente na historia da Joanninha
-das <i>Viagens</i>, póde explicar se ainda pela
-cega dedicação a José Agostinho de Macedo e
-á seita litteraria seguida pelo auctor da <i>Viagem
-extatica</i>.</p>
-
-<p>Tudo o que não fosse a declamação emphatica
-vasada nos velhos moldes aristotelicos, era
-somenos para João Nicolau. Bem se lembrava
-elle de que o seu auctor favorito escrevera:
-«Depois da praga gazetal o <i>romancismo</i> é a
-peste litteraria, que mais tem grassado por
-toda a Europa. Assim que W. Scott, e o Byron
-em Inglaterra, e em França seus macaquinhos,
-Lamartine, d’Arlincourt, Victor Hugo e outros
-de igual jaez publicaram seus monstruosos delirios,
-logo houve em Portugal quem os imitasse.»
-Estas palavras, e as mais que se seguem, e não
-nos permittimos transcrever, acepilhadas de
-quejandas blasphemias, eram doutrina corrente
-e moente para o velho absolutista.</p>
-
-<p>D’aqui, e da esperança de vêr o neto prégador
-da real capella, provinham as frequentes
-compras de sermonarios e chronicas milagreiras
-para a estante, dia a dia enriquecida, do filho
-do bacharel.</p>
-
-<p>No quarto de Eduardo Valladares havia, porem,
-um livro não recheado de erudição fradesca
-nem modelado pelos velhos paradigmas
-litterarios. Esse era o livro querido, o livro sempre<span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span>
-lido, sempre veneno e sempre balsamo: era
-o <i>Eurico</i>, do sr. Alexandre Herculano. João Nicolau,
-indifferente senão adverso aos applausos
-que esta obra notavel despertara, suppunha o
-neto, por via de regra, absorvido em leituras
-devotas, á hora em que elle aliás estava vendo
-a sua alma no espelho em que se projectava o
-perfil do presbytero de Carteia.</p>
-
-<p>Não era Eurico um desgraçado como elle ou
-elle um desgraçado como Eurico?</p>
-
-<p>Ambos amavam, ambos soffriam, ambos choravam,
-e ambos podiam perguntar a si mesmos:
-«Que fôra a vida se n’ella não houvera lagrimas?»<a name="FNanchor_11" id="FNanchor_11"></a><a href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a></p>
-
-<p>A viuva Machado, convidada de vespera para
-tomar parte no passeio ao <i>Bom Jesus</i>, respondeu
-que gostosamente iria se, d’um dia para o
-outro, se não aggravassem uns leves incómmodos
-que todavia a não deixavam sahir. D. Maria
-d’Assumpção ficou muito contrariada, mas
-não era conveniente transferir o passeio, e
-foi.</p>
-
-<p>Eduardo Valadares chegou á floresta do Bom
-Jesus com o coração despedaçado. Era a primeira
-vez que alli entrava sem Maria Luiza, e a folhagem
-verde da encosta, quando elle passava, parecia
-murmurar este nome; d’aqui o olhar para
-si mesmo e fugir apavorado da solidão dolorosa
-da sua alma. Mas o que era isto, esta saudade
-ao mesmo tempo suavisada pelas doces recordações
-que lhe eram socias, o que era esta triste
-solidão a par da solidão perpetua a que a sua
-alma se via condemnada; das infinitas dores
-curtidas nas longas horas das noites de vigilia,
-das lagrimas choradas, das esperanças para
-sempre perdidas, das lacerantes recordações que
-elle em vão tentaria abafar, e que de si mesmas
-<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span>resurgiriam, umas após outras, no espirito do
-presbytero?</p>
-
-<p>Insensivelmente foi procurando o trilho da
-Mãe d’agua; ia-o guiando o coração, sem que
-elle désse por isso.</p>
-
-<p>Era aquella a mesma alameda, aquella a mesma
-cupula de verdura, o mesmo cedro em cujo
-cortix entalhara as iniciaes M. L., o mesmo ar
-cheio de murmurios, a mesma corrente suspirosa,
-a mesma sombra e a mesma suavidade.
-Mas faltava ella, a doce companheira, a visão
-formosa d’aquella tão doce estancia, e a
-solidão era triste, pesada, esmagadora.</p>
-
-<p>Um livro, o livro de todos os dias, de todas as
-horas, fôra mais uma vez aberto no momento
-em que mais era preciso.</p>
-
-<p>Eduardo Valladares folheava o <i>Eurico</i>, e os
-seus olhos deletreavam estas palavras:</p>
-
-<p>«Outras noites, em que mais tranquillo podia
-a sós comigo engolfar-me nos pensamentos de
-Deus, a tua imagem vinha interpôr-se entre
-mim e a lampada mortiça que me allumiava, e
-o hymno do presbytero de Carteia, que devia
-talvez escrever-se nos livros sagrados das cathedraes
-de Hespanha, ficava incompleto, ou
-terminava por uma blasphemia secreta; porque
-te via tambem sorrir, mas a outrem, mas a homem
-feliz com o teu amor, e eu tinha então
-sêde... sêde de sangue... Era uma lenta agonia!
-E sempre tu ante mim: nas solidões das
-brenhas, na immensidade das aguas, no silencio
-do presbyterio, nos raios esplendidos do sol,
-no reflexo pallido da lua, e até na hostia do sacrificio...
-sempre tu!... e sempre para mim
-impossivel!»</p>
-
-<p>—Impossivel! repetia Eduardo Valladares.
-Impossivel!</p>
-
-<p>E no seu hombro pousára a mão d’alguem
-que elle não vira.</p>
-
-<p>Quem era?</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span></p>
-
-<h2>XXIII</h2>
-
-<p>Era ella, Maria Luiza.</p>
-
-<p>Eduardo Valladares, por um momento, julgára
-sonhar. Todavia o seu anjo adorado, entre
-o qual e elle se ia cavar o abysmo insondavel
-do impossivel, estava alli, soluçante, convulso,
-com os olhos merejados de lagrimas.</p>
-
-<p>A viuva Machado, restabelecida da ligeira indisposição
-da vespera, accedera ás instancias
-das filhas e resolvera ir, posto já não pudesse
-acompanhar D. Maria d’Assumpção.</p>
-
-<p>O moço seminarista, na violenta sobreexcitação
-que o agitava, deixara assomar aos labios
-a tempestade que lhe refervia na alma.</p>
-
-<p>—Impossivel! murmurava elle. E sabes tu o
-que é o impossivel? Sabes o que é a distancia
-infinita que separa o reprobro da estrella polar
-que elle vê através das reixas do carcere?
-Sabes o que é morrer abafado na propria dôr,
-na dôr que não tem linitivo, que não tem cura,
-que não tem um só momento de repouso, um
-só instante d’esquecimento? Pois bem, entre
-nós que nos amamos e que vivemos a mesma
-vida, vai abrir-se a voragem do impossivel,
-como se dissesse que vai sentar-se o espectro
-da morte, para o vêrmos a toda a hora em glacial
-immobilidade, sem querer condoer-se das
-nossas afflicções. Morrer! Que influxo benefico
-não coaria a morte aos nossos corações calcinados
-por metal candente! Que felicidade não
-sorri na morte ao desgraçado! Será fraqueza
-pedil-a? Pois se o coração trasborda de lagrimas
-como o oceano na tormenta, pois se a alma
-foge de si mesma amedrontada, como do espectaculo
-sombrio d’um tumulo aberto, porque<span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span>
-não hade perdoar o Deus de misericordia a
-quem fica prostrado na via dolorosa exclamando:
-Senhor! os meus olhos cegaram de
-chorar; illuminae em troca a minha alma com
-o resplendor das vossas eternas auroras?! Não
-sabes tu que o Salvador da humanidade, alanceado
-o coração de supremas angustias, elevava
-o seu espirito attribulado ao Deus das alturas,
-cujo filho era, exclamado exhausto: «Meu Deus,
-meu Deus, porque me desamparastes?» E não
-havemos nós, corações terrenos, pedir ao Céo, na
-cerração da vida, que nos aproxime do tumulo,
-da porta que se abre sobre nós dando passagem
-aos fulgores inextinguiveis da eternidade?</p>
-
-<p>Maria Luiza, pendida sobre o hombro de
-Eduardo Valladares, orvalhava-lhe as faces de
-lagrimas abrasadoras.</p>
-
-<p>Sentira-as elle, e procurara dominar os impetos
-da sua alma, envenenando-a com o trago
-das lagrimas reprimidas.</p>
-
-<p>—Choras! E sou eu, e é o meu amor que te
-enche os olhos de pranto! Tremo da justiça dos
-Céos, Maria! Quem me deu a mim o insolito direito
-de te lembrar que tambem és desgraçada?
-Como ouso eu arrancar as flores da tua esperança,
-para calcal-as aos pés, sem me lembrar
-de que estou calcando com ellas o teu amantissimo
-coração. Oh! sim, tu esperas, não é verdade?
-Não é certo que tens no thesouro da tua
-alma a esperança que me offereces e queres
-repartir comigo? Enganares-me tu... Não, não,
-perdoa-me o que ha de injustiça n’estas palavras.
-Se a esperança ou se Deus, que tudo vem
-a ser o mesmo, te houvesse desamparado, não
-ousarias insinuar-me nova fé com receio de que
-eu descobrisse a verdade, a verdade negra e terrivel,
-sob os teus hymnos de mentirosa crença...
-Tu esperas, não é verdade? Deus, que formou
-de essencia divina as almas dos anjos como tu,
-não podia roubar-lhes a esperança, condemnando-as<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span>
-ao desespêro dos réprobos... Não
-chores...</p>
-
-<p>—Não choro. Promette tu dominar a exaltação
-do teu espirito, que eu prometto não provocal-a
-de novo com as minhas lagrimas. Chorar
-eu! Passou acaso no nosso coração o sôpro
-devastador da descrença? Só os que não esperam,
-os que não crêem, é que choram, por que
-esses devem ser muito desgraçados, pois não
-devem?</p>
-
-<p>E rolavam-lhe pelas faces copiosas lagrimas,
-como se Maria Luiza nem sequer soubesse que
-estava chorando e desvendando os dolorosos
-segredos da sua alma.</p>
-
-<p>—Ah! pois tu choras! Estás involuntariamente
-denunciando com as tuas lagrimas que
-tambem és desgraçada, porque não esperas,
-porque não crês...</p>
-
-<p>—Meu Deus! Eu enlouqueço! Dizes-me que
-choro e não sinto as lagrimas!...</p>
-
-<p>—É que a tua alma verga n’este momento
-ao peso d’um presentimento que a domina, e
-que ella está revelando sem que tu mesma tenhas
-consciencia da propria existencia. Ah!
-como nós somos ambos infelizes, meu amor.
-Bem m’o dizia o coração, bem m’o disse ainda
-ha pouco, antes d’abrir este livro, n’um momento
-que não sei se foi de sonho se de meditação.
-Meditação, não; não foi. Eu estava quasi
-adormecido... Meditação, não. Queres que te
-conte o meu sonho, como o estou recordando
-n’este instante?</p>
-
-<p>—Oh! conta, conta...</p>
-
-<p>—Um camponez, que tinha vivido expatriado
-em longes terras, privado dos carinhos da esposa,
-saudoso dos filhos que deixara no berço,
-do torrão que o vira nascer, da cabana onde
-amara e vivera, das serras da sua patria, de
-tudo o que é doce e consolador, voltava em demanda
-do tugurio querido, e a todas as horas<span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span>
-recordado, após os lacerantes soffrimentos d’um
-longo exilio. Quando vinha transpondo a serra
-do tôpo da qual se avistava a sua cabana, coberta
-de colmos como a tinha deixado, desciam
-do céo as sombras da noite e, quanto mais veloz
-elle caminhava, mais o arvoredo se perdia
-n’um fundo negro. Era a noite que descia. Fumegavam
-ao longe as casas d’aldeia disseminadas
-na encosta; a sua tambem. Áquella hora
-devia estar repartindo a triste mãe com as desmimosas
-creanças o pão da ceia amassado nas
-lagrimas de todos os dias. Elle, o caminheiro,
-vinha descendo a encosta, offegante e quasi exhausto.
-A sua choupana ficava na vertente
-fronteira. Entre a aldeia e a serra corria um
-rio, largo e caudaloso, que mugia no valle engrossado
-pelas chuvas torrencias do inverno.
-Era preciso chegar á ribeira antes do barqueiro
-ter amarrado a barca do outro lado. «Depressa!»
-dizia o caminheiro a si mesmo. E não corria,
-voava. A meia encosta, chamou. Ninguem respondeu.
-Brilhou-lhe nos olhos um clarão de desespero.
-A barca da passagem estava decerto
-amarrada a um salgueiro da outra margem, e
-já o barqueiro devia ir em caminho do seu palheiro
-que ficava ao centro da povoação. Afflicto,
-desesperado, chamou, gritou.</p>
-
-<p>O sussurro da corrente impetuosa abafava a
-sua voz, tanto mais debil, quanto maior era a
-commoção. Depois...</p>
-
-<p>—Depois?</p>
-
-<p>—Via fumegar ainda no tôpo da serra fronteira
-o tecto do seu lar, e uma voz interior lhe
-estava dizendo que no coração de sua pobre
-mulher passava, n’aquelle instante, o presentimento
-de que nunca mais o tornaria a vêr. Como
-ella havia de reprimir a sua dôr, para que as
-pobres creanças a não vissem chorar e lhe perguntassem:
-«Virá hoje, virá?» Que alegria, que
-felicidade se elle os pudesse ouvir, e vêr, e abraçar<span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span>
-para dizer-lhes: «Aqui está o vosso pai;
-eil-o aqui está». E a escuridão da noite era cada
-vez mais profunda e o estrepito das aguas tinha
-um não sei que de lugubre que punha medo.
-O fumo branco das casas d’aldeia foi rareando
-a pouco e pouco. Dissipou se lentamente a coluna
-ondulante que sahia do seu tecto. Acabava
-a ceia. Iam adormecer as crianças, sem terem
-sido abençoadas pela mão paterna. E, recolhidos
-os pequenos, deitava-se a mãe para desvellar
-as horas da noite em mil tumultuosos
-pensamentos. E elle separado de tudo isto, dos
-seus filhos, da sua mulher, do seu lar, por uma
-barreira que não podia transpôr e que se não
-abria para lhe dar passagem, como as aguas
-do mar Vermelho, por mais dolorosos que fossem
-os seus gritos, por mais impias que fossem
-as suas blasphemias! Aqui tens o impossivel,
-Maria; o impossivel é tudo isto, este desespero,
-este abrasar da alma em lavas incandescentes.
-Um genio mau desenhou decerto este quadro
-d’incomparavel afflicção para que eu experimentasse
-o duplo martyrio de vêr e sentir, deixando
-ao meu espirito, meio adormecido, o trabalho
-de, quando despertasse, procurar a relação
-que para logo denuncía que este desespero
-é o seu proprio desespero, que este inferno
-é o seu mesmo inferno.</p>
-
-<p>Maria Luiza soltou um grito d’angustia;
-Eduardo Valladares ficou extremamente prostrado
-d’aquella dolorosa excitação.</p>
-
-<p>—Meu Deus! murmurára ella vendo-o com a
-cabeça febril mal amparada nos braços tremulos.</p>
-
-<p>—Meu Deus! repetia elle em brando echo.
-Não fujas de mim, doce amor, e pede ao teu
-Deus, que é tambem o meu, que me perdoe estes
-desvarios d’uma alma atormentada. Enlouqueceu-me
-a dor. Perdôa-me tu; que Elle, o Senhor
-de misericordia, me perdoará tambem.<span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span>
-Não fugas de mim como se foge do precito.
-Desde que minha mãe infiltrou na minha alma
-o balsamo sacratissimo das doces orações da
-infancia, conheço e amo Deus. Depois, desde
-que sigo o rumo da minha desventurosa estrella,
-sempre o invoco em horas de desconfôrto e afflicção.
-Vale-me, Tu, Senhor! que abençôas os
-que choram.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XXIV</h2>
-
-<p>Frei Domingos do Amor-Divino anciosamente
-esperava os óbolos da caridade para repartil-os
-pelos pobres, no numero dos quaes devia
-incluir-se a cega designada por D. Maria d’Assumpção.</p>
-
-<p>Chegou o Natal, e o virtuoso carmelita recebeu,
-de procedencia anonyma, duas cartas contendo
-dinheiro destinado a enxugar por alguns
-dias as lagrimas de dois indigentes. Frei Domingos
-rasgou o primeiro involucro com intima
-satisfação, que no doce fulgor dos olhos
-se estava manifestando. O papel que continha
-a moeda consagrada á beneficencia, trazia esta
-restricção:—<i>Para uma viuva</i>. Aberto o segundo
-involtorio, que encerrava um <i>soberano</i>
-inglez, leu Frei Domingos o seguinte:—<i>Um
-cego, que deve á Providencia o não ser tambem necessitado,
-pede que seja entregue a outro cego, mais
-infeliz do que elle</i>.</p>
-
-<p>Estas palavras commoveram a lagrimas o
-carmelita, que relanceou ao seu Christo de
-marfim um olhar afogado em pranto, murmurando
-ao mesmo tempo:</p>
-
-<p>—Abençoado seja o nome do Senhor, que
-por tal modo e com tamanhos dons abastece
-a colheita dos pobres! É ao Céo que eu peço<span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span>
-me ensine o trilho por onde possa ir direito á
-mais necessitada cegueira, e á mais desamparada
-viuvez.</p>
-
-<p>Ajoelhou, com as mãos postas, e por largo
-tempo ficou a orar.</p>
-
-<p>Depois sahiu, indagou, examinou e, ao cabo
-de dois dias de trabalhosas investigações, depositou
-nas mãos d’um cego e d’uma viuva,
-que mais carecidos lhe pareceram, o dinheiro
-da caridade.</p>
-
-<p>Quando recolheu ao cubiculo da rua do Carvalhal,
-era noite cerrada. Acudiu a recebel-o,
-com a sua habitual expressão de estima e reconhecimento,
-uma velhinha que lhe cosinhava
-a frugal collação e que, se não fôra o amparo
-de Frei Domingos, teria morrido de fome pouco
-depois de cahir varado por um pelouro nas linhas
-do Porto o filho que lhe era esteio.</p>
-
-<p>O carmelita encarou n’ella, viu-a radiosa
-como sempre, e apostrophou com semblante
-prazenteiro:</p>
-
-<p>—Alegre a vejo sr.ᵃ Gertrudes, e a Deus agradeço
-o encontral-a em disposição d’ánimo que
-favorece o meu designio.</p>
-
-<p>A velhinha quedou se a olhal-o com surpreza;
-Frei Domingos continuou:</p>
-
-<p>—Que me responderia a boa Gertrudes, se
-eu houvesse de dizer-lhe: «Precisamos de dar
-metade do nosso pão, durante alguns dias, a
-quem mais carece d’elle do que nós?»</p>
-
-<p>Gertrudes achegou-se do carmelita e disse
-com tanta alegria quanta commoção:</p>
-
-<p>—Olhe que não sabia o que o snr. Frei Domingos
-queria dizer! Eu feliz vivo, e a minha
-felicidade chamou-a do Céo para a menos merecedora
-das creaturas o sr. Frei Domingos. Do
-pão que recebo e que me aproveita mais do
-que a riqueza aos ricos, sempre cresce e, se
-não crescesse, todo o daria para alliviar miserias
-que, Deus louvado! não conheço.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p>
-
-<p>—Nós somos ricos, sr.ᵃ Gertrudes, nós somos
-ricos, porque desconhecemos a pobresa.
-«Mais vale um pequeno boccado de pão sêcco
-com alegria que uma casa cheia de victimas
-com pelejas»<a name="FNanchor_12" id="FNanchor_12"></a><a href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> são palavras santas, que não
-falham. Esta é a verdadeira riqueza. Tudo o
-mais é cuidado e inquietação. Façamos pois
-economia durante alguns dias e, passados elles,
-verá como havemos de sentir-nos mais
-contentes. É que realmente estamos esperdiçando,
-e não é assim que se agrada a
-Deus. Repartamos, pois, com os pobres, e aproveitemos
-em vez de esperdiçar.</p>
-
-<p>No dia seguinte, foi Frei Domingos abrir a
-gaveta depositaria das mealhas que lhe pareciam
-sobejas ás suas necessidades. Montava o
-peculio a novecentos e sessenta réis, um thesouro
-de dois cruzados novos embrulhados em
-papel branco. Tirou-os da gaveta para o bolso,
-pôz o chapéo, desceu as escadas e entrou no
-portal de João Nicolau.</p>
-
-<p>O sogro do bacharel Valladares e D. Maria
-d’Assumpção receberam Frei Domingos com
-sincero contentamento, lamentando apenas
-que tivessem decorrido alguns dias sem que
-lhe aprouvesse visital-os.</p>
-
-<p>—É que eu queria dar boa conta de mim e
-dos meus negocios, respondeu o carmelita. Depois
-receava que a presença d’um intruso
-fosse de mais n’estas festas que commemoram
-os grandes acontecimentos do christianismo e
-servem ainda, e sempre servirão, para estreitar
-os laços de cada familia reunida no seu lar.
-N’este quadro de intimas alegrias era de certo
-importuno um frade velho como a Sé da nossa
-Braga, perorou, sorrindo Frei Domingos.</p>
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span></p>
-<p>—Estou capaz de dizer... pronunciou a
-medo D. Maria d’Assumpção.</p>
-
-<p>—Pois dize, dize, e com isso responderás aos
-infundados receios do nosso vizinho, atalhou
-do lado João Nicolau.</p>
-
-<p>—Visto que me auctorisas, sempre ousarei
-fazer uma confissão. Pode acreditar o sr. Frei
-Domingos que tivemos ambos a lembrança de
-lhe pedir que viesse honrar a nossa modesta
-consoada. Receamos incommodal-o, e não nos
-atrevemos...</p>
-
-<p>—Beijo lhes as mãos pela immerecida attenção;
-confesso-me penhorado como se tivera recebido
-e acceitado o convite.</p>
-
-<p>Mas por que não ha de vir mais a miude,
-replicou João Nicolau, por que não ha de, visto
-que estamos tão perto, vir tomar o chá comnosco?
-Nem o nosso Eduardo viu ainda o sr.
-Frei Domingos!</p>
-
-<p>—Infiro d’ahi que tem sido feliz o neto de
-v. s.ᵃ. Olhe que realmente parlandas de frade
-não são para se ouvir a pé quedo, e muito menos
-por gente nova.</p>
-
-<p>E, galhofando sempre, entregou a D. Maria
-d’Assumpção os novecentos e sessenta réis,
-que para elle e para a velha Gertrudes eram
-pecunia sufficiente para o passadio de alguns
-dias.</p>
-
-<p>João Nicolau não o deixou sahir sem que primeiro
-aprazasse nova visita. Frei Domingos
-prometteu voltar em dia determinado, e desempenhou
-a sua palavra. Á terceira visita encontrou
-se com Eduardo e lera-lhe nos olhos,
-sempre banhados em melancholia, as muitas
-amarguras que faziam noite escura n’aquelle
-coração de dezesete annos.</p>
-
-<p>O filho do bacharel, por sua parte, esqueceu-se
-de si mesmo enlevado na suavidade que
-recendiam as palavras de Frei Domingos. O desaffrontar-se
-por um momento da cerração que<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span>
-lhe opprimia o peito, foi para Eduardo Valladares
-consolo que deixou após si gratissimas
-impressões. Livrára-o a Providencia de lembrar
-se de que aquelle homem, cuja serenidade
-d’alma se reflectia no olhar, tinha vestido o
-habito de frade e poderia ter amortalhado
-n’elle um coração ferido pelas desgraças da
-terra. Não lhe lembrou isto, e por tanto não
-rompeu clamoroso contra a voz da oppressão
-que diz «Morre, despedaçando-te» ao coração
-opulento de seiva e esperança. No que pensou
-foi na serena alegria d’aquella alma, que em
-vez de se sentir retransida pela nortada do tumulo,
-já proximo, refloria em amenidades bafejando
-lenitivos ás pallidas flores d’uma primavera
-desconfortada. Aquelle homem entremostrou-lhe
-Deus—o Deus a quem invocavam
-as doces orações da sua infancia, o Deus que
-adorava no templo e em toda a parte onde podia
-vêr o Céo, o Deus que elle chamava quando
-mais se condensavam as trevas no horizonte
-da sua mocidade.</p>
-
-<p>Viu-o, examinou-o com olhar perscrutador e
-disse de si para si:</p>
-
-<p>—Se eu fôsse assim, não era decerto tão
-desgraçado.</p>
-
-<p>Amiudáram-se as visitas de Frei Domingos.
-Rodrigues d’Abreu perguntou-lhe d’uma vez se
-tinha esperança de restituir a um coração de
-dezesete annos as alegrias proprias da sua
-edade.</p>
-
-<p>Frei Domingos sorriu placidamente e disse:</p>
-
-<p>—Tenho. A si devo e a Deus o sentir ainda
-no coração o influxo benefico d’uma esperança:
-a de procurar a felicidade para quem a não
-tem.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span></p>
-
-<h2>XXV</h2>
-
-<p>Eduardo Valladares tinha em 1852 dezesete
-annos.</p>
-
-<p>Estou a lembrar-me d’isto, e a perceber que
-uns sujeitos maiores de trinta annos, e umas
-senhoras que devem á acção do fluido transmutativo
-o envelhecer com os cabellos pretos, lançam
-um olhar de desdem para a futil historia
-do filho do bacharel Valladares.</p>
-
-<p>Para estes corações apodrentados, se é que
-para taes creaturas o coração é mais alguma
-cousa do que o centro das funcções sanguineas,
-o amor dos dezesete annos deve ser uma creancice
-piegas apenas admissivel na conversação
-de meninas da mesma edade, que andam delineando
-os poemas do coração suspensas entre
-as saudades das bonecas e os receios de não
-serem convidadas para a valsa que redemoinha
-na sala.</p>
-
-<p>Não sei agora ao certo que idade tinha Romeu
-quando levantou olhos para Julieta; do Paulo,
-de Saint-Pierre, lembro-me que tinha a mesma
-altura de Virginia; o Simão Botelho, do <i>Amor
-de perdição</i>, do nosso Alexandre Dumas, vamos
-encontral-o aos dezeseis annos; o Pedrinho,
-dos <i>Contos ao luar</i>, de Cesar Machado, é uma
-creança.</p>
-
-<p>Achei que estes modelos eram bons. Procurei
-no coração humano, para estudal-a, a fibra menos
-corroida, e deparou-se-me uma unica—a que
-resumava a seiva dos dezeseis annos.</p>
-
-<p>Um sujeito de vinte, que andava suspirando
-no violão serenatas á mulher adorada, e se dizia
-capaz de comprehender o que no amor póde
-haver d’ethereo, dias depois de resvalar ao<span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span>
-tumulo o anjo querido que elle desposara, garbosamente
-refreava os galões d’um cavallo comprado
-com as economias provaveis do primeiro
-anno de viuvez. O coração dos vinte annos fazia
-isto, dispendia na farta ração d’um cavallo de
-raça o que faltara talvez á gentil esposa tão
-longo tempo requestada.</p>
-
-<p>A viscera amorosa dos cincoenta annos affigurou-se-me
-gangrenada ao estremo de inspirar
-terror. A historia do cynismo, que arremessa á
-face da innocencia a moeda doirada da corrupção,
-é revoltante para se offerecer a todos os
-paladares.</p>
-
-<p>Determinei os extremos—os vinte e os cincoenta
-annos. A estrada interposta a estes dois
-marcos, recortada de charcos immundos, deve
-deixar enlodados os pés do que a percorrer com
-o vagar indispensavel a quem tiver de fazer
-relatorio da trabalhosa peregrinação.</p>
-
-<p>Não invejo a gloria de certos romancistas
-victoriados pelas multidões. Só elles sabem o
-que ha de doloroso em vencer a repugnancia
-natural que leva o espirito, iriado da luz das
-suas auroras, a fugir do esterquilinio que vapora
-exhalações mephiticas. E que improficuo trabalho!
-A humanidade vê no espelho do romance
-o que ella mesma tem de hedionda, e não cora
-nem se rehabilita; passa adeante, deixando ao
-desfortunoso trabalhador a consolação de labutar
-noite e dia para não morrer de fome.</p>
-
-<p>Não serei eu que vá mergulhar nas trevas que
-ennoitecem os hypogeus sociaes para dizer á
-humanidade: «Aqui estão as tuas nodoas, lodo;
-aqui está a tua negrura, sombra!»</p>
-
-<p>No mais profundo antro sempre entra um raio
-de sol a cujo esplendor scintillam as concreções
-vitreas da abobada. Em vez de medir a extensão
-do antro, quero sentar-me á entrada, onde
-chegue a luz, e onde possa vêr o cristal das
-stalactites rutilar em formosas cambiantes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span></p>
-
-<p>Poderão dizer: A humanidade não é só isso,
-a humanidade não é apenas o cristal que se
-doira. Certo é. Mas a humanidade tambem não
-é só o que vós pintaes, ó pintores de quadros
-negros; a humanidade não é só o cynismo, a
-dobrez, e o lodo.</p>
-
-<p>E eu entrei no antro escuro da humanidade,
-e tive medo das sombras que se condensavam
-ao fundo. Parei. O sol que tremeluzia nos cristaes
-da rocha, era limpido e formoso. Deslumbrou-me.
-Não arrisquei mais um passo; quedei-me
-a contemplal-o.</p>
-
-<p>Coração dos dezeseis annos, não és tu puro
-como os relevos crystallinos que resaltam do
-tecto anfractuoso d’uma gruta?</p>
-
-<p>Os que já se internaram na escuridade, os que
-perderam a memoria com o coração e com a
-consciencia, esses, cadaveres condemnados ao
-supplicio da vida, já não comprehendem o que
-seja o estremecer das rosas no roseiral ao bafejo
-da viração matutina.</p>
-
-<p>Uma coisa que sobremodo me admira é que
-os rapazes de hoje suffoquem a voz do coração,
-que está modulando o poema dos vinte annos,
-para raciocinarem friamente, sentados em ruinas
-como Volney, até chegarem ao scepticismo,
-á duvida, ao nada; até murmurarem com Voltaire
-na satira a Luiz XIV:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse"><i>J’ai vu ces maux et je n’ai pas vingt ans.</i></div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Quem é que aos vinte annos não vae depôr a
-sua mocidade, como novello de espuma, na mão
-rosada d’uma mulher, que a pode desfazer, comprimindo
-os dedos, ou que tem o capricho de a
-fazer brilhar com as esplendidas fulgurações de
-um cristal, se lhe deu um raio d’amor?</p>
-
-<p>Creio que todos. Os que não fizerem isto são
-anomalias. Deus me livre de homens que não
-teem de homens nem o coração.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span></p>
-
-<p>O amor é o sol e eu sou como todos os fructos
-verdes: preciso de sol para amadurecer.</p>
-
-<p>É por isso que leio e releio, sem me cansar,
-o <i>Raphael</i> e a <i>Graziella</i>, de Lamartine; a <i>Chave
-do enygma</i>, de Castilho; o <i>Livro d’Elisa</i>, de João
-de Lemos; o <i>Paulo e Virginia</i>, de Saint-Pierre;
-os <i>Idyllios da rua Plumet</i>, dos <i>Miseraveis</i>; a <i>Menina
-dos rouxinoes</i>, das <i>Viagens</i>, de Garrett; o
-<i>Thomas dos passarinhos</i>, de Rodrigo Paganino, e
-muitos outros poemas de amor que consolam
-a alma, e que se nos dão o seu tanto de tristeza,
-é uma tristeza tão suave, que chega a ser
-deliciosa. Estes livros, que são balsamo e crença,
-quero lel-os e compraria a trôco da vida a
-gloria de os escrever.</p>
-
-<p>Namora-me esta litteratura que delicía a
-alma. Ha livros que deixam remorsos de se
-haverem lido. Esses não os quero eu. Para que
-hei de sentir ferida a consciencia nos poucos
-momentos que destinava para descanço do espirito?
-Livros dos que retalham o coração lê-os
-a gente por ahi nos passeios e nas praças publicas
-a toda a hora do dia; são uns certos homens
-que encadernaram a negrura da alma em pergaminhos
-de illicita riqueza, e certas mulheres
-que escondem a deshonra em brochuras de velludo.</p>
-
-<p>Sabe-lhes a gente da vida e anda cheia d’aquellas
-historias vivas, que se abrem á luz do
-sol, para que elle bata em cheio no escandalo,
-e o mostre á claridade do dia. Quando o espirito
-precisa de um momento de tranquillidade
-para se desanojar d’estas e quejandas leituras
-sociaes, devem pôr se de parte os livros igualmente
-desagradaveis.</p>
-
-<p>Os contos, ainda que se perfumem na doce
-poesia da infancia, <i>contes de fées</i> ou <i>contes bleus</i>,
-como dizem os francezes, embriagam-me o espirito
-como o suspirar longinquo de um piano
-n’uma noite de luar. A historia licenciosa, <i>conte<span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span>
-gras</i>, repugna-me, aborrece-me. A litteratura
-deve ter um não sei que de ethereo irmão da
-inspiração. Tudo o que não fôr assim, é verdadeiramente
-terreno e vulgar.</p>
-
-<p>O homem que entra em casa com um livro
-de pessima doutrina, tem o cuidado de escondel-o
-como a um frasco de acido prussico, se
-occultasse o proposito de se suicidar. Esconde
-o livro como esconderia o veneno: para dissimular
-a sua vergonha e o segredo humilhante
-da propria fraqueza.</p>
-
-<p>A sua mãe, alma toda amor e toda luz, que
-lhe ensinara a deletrear nos livros santos, a
-ella, coração de ouro, haveria de dizer, se uma
-imprevista circumstancia descobrisse a licenciosa
-brochura: «Perdôa-me; bem sei que não
-foi para isto que me ensinaste a ler.»</p>
-
-<p>Vae longa a dissertação. Cumpre pôr ponto
-final. <i>Dissertation, ennui</i>; sirva para alguma coisa
-o dito de Bastiat.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XXVI</h2>
-
-<p>Retrogrademos.</p>
-
-<p>Maria Luiza desceu a montanha do Bom Jesus
-do Monte apoiada no braço da outra menina
-sua irmã.</p>
-
-<p>Quando vinham encosta abaixo havia na
-floresta, através da qual se viam scintillar as
-chammas do occidente, a doçura inexplicavel
-com que o dia desliza ao abysmo da eternidade...</p>
-
-<p>A viuva Machado revelava certa inquietação—talvez
-prophecia de coração materno—pelos
-symptomas de repentino soffrimento claramente
-desenhados na face pallida da filha.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span></p>
-
-<p>João Nicolau animava-a com palavras banaes,
-attribuindo a excitação nervosa um incommodo
-que, a seu vêr, não podia ter outras
-consequencias além d’um ligeiro abatimento.</p>
-
-<p>Maria Luiza procurava sorrir para dar alento
-aos dois mais desconfortados corações—o
-de sua mãe e o de Eduardo—mas o sorriso
-desabrochava triste e de pressa morria á flôr
-dos labios.</p>
-
-<p>D. Maria d’Assumpção vinha suspeitosa e
-concentrada. Adivinhava-lhe o coração tudo
-quanto se passara na alameda da Mãe d’Agua.
-Estava-lhe dizendo uma voz interior por que
-abysmos tinham resvalado, n’um momento de
-commum desespêro, aquellas duas amorosissimas
-almas.</p>
-
-<p>Eduardo Valladares vinha ao lado das duas
-irmãs Machados. Que dolorosa ancia lhe comprimia
-o peito adivinha-a o leitor, se é que
-alguma vez se sentiu avergado ao peso da sua
-cruz.</p>
-
-<p>No sopé da montanha, antes de transporem
-o portico de cantaria, curvou-se Maria Luiza
-para colhêr uma flôr silvestre, que se debruçava
-sobre ervagens verdes. A alguns passos de
-distancia ficava a capella do Horto, que representa
-Jesus em Gethsemani, quando desce o anjo
-a offerecer o calix da amargura. Maria Luiza
-relanceou os olhos á inscripção latina e murmurou:</p>
-
-<p>—Deve ser triste a legenda d’esta capella...</p>
-
-<p>—«Agonisante, orava profundamente,» traduziu
-Eduardo Valladares, deixando ver lagrimas
-que de subito lhe embaciaram o olhar.</p>
-
-<p>—Decora-a, peço-t’o eu, e guarda esta flôr
-com a perpetua recordação do meu pedido.</p>
-
-<p>—Que dizes?...</p>
-
-<p>—Que não esqueças aquella legenda, Eduardo.</p>
-
-<p>Aproximavam-se João Nicolau, D. Maria d’Assumpção
-e a viuva Machado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span></p>
-
-<p>Ficou interrompido o dialogo apenas escutado
-pela melancolica Rosinha, que sentiu o perpassar
-d’uma nuvem que a cegara. Eram lagrimas...
-Maria Luiza empallideceu até á lividez
-do cadaver e, quando lhe perguntaram se se
-sentia recobrada de forças, respondeu affirmativamente,
-e deixou esvoaçar nos labios o mesmo
-sorriso breve e melancholico.</p>
-
-<p>Pelo caminho, veio João Nicolau galhofando
-a proposito de quanto lhe lembrava com o piedoso
-intuito de serenar a inquietação da viuva
-Machado e de distrahir Maria Luiza. Não ousamos
-asseverar se era escutado; o certo é que
-vinha fallando.</p>
-
-<p>—Dia de Reis! disse elle depois d’um momento
-de silencio. Este dia é d’alegres recordações
-para mim. Era eu solteiro. Vai isto ha um
-bom par d’annos, e estou agora a vêr tudo
-como se se passasse hoje! Tinhamos sido convidados,
-alguns rapazes de Braga, para jantar
-em Guimarães n’este dia. Alegremente cavalgamos
-e seguimos jornada com o enthusiasmo
-expansivo dos vinte annos. Foi opiparo o banquete
-e divertidissima a odysséa. Ao fim da tarde,
-batemos os cavallos para Braga. Era já
-noite quando chegamos aos <i>Quatro irmãos</i>, um
-logar historico que fica ao sopé da Falpêrra.
-É verdade! Nunca ouviram falar da lenda dos
-<i>Quatro irmãos</i>?</p>
-
-<p>—Sabes lá se a gente está de paciencia para
-te ouvir? respondeu D. Maria d’Assumpção, que
-de sobra conhecia quanto o marido vinha sendo
-incómmodo n’aquelle momento.</p>
-
-<p>—Estejam que não estejam. Eu é que sempre
-a vou contar, replicou João Nicolau insistindo
-no proposito de distrahir os companheiros.
-Diz-se que um parocho da freguezia proxima
-ao logar dos <i>Quatro irmãos</i> vivia em companhia
-d’uma sobrinha, rapariga de formosura capaz
-de trazer alvoroçados todos os pintalegretes<span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span>
-montezinhos d’esse tempo. O caso é que o abbade
-precisou de sair da residencia por alguns
-dias, e levou uma noite inteira a fazer eleição
-de casa onde, com mais socego do seu espirito,
-poderia deixar em deposito a donairosa sobrinha.
-Lembrou se d’uma viuva do logar, mulher
-idosa e d’exemplares costumes. Se esta lembrança
-foi tentação do demonio ou não, dir-m’o-hão
-depois que souberem que a pobre mulher
-tinha quatro filhos, quatro rapagões da boa
-raça minhota. Não sem difficuldade acceitou a
-viuva o encargo, depois de muito instada. Entrou
-a rapariga na casa da mulher escolhida
-para depositaria do thesouro querido do abbade
-e logo os mocetões começaram a requestal-a
-porfiadamente. Sempre ouvi dizer que «amigos,
-amigos, negocios á parte». Cahiu de chofre
-o pomo da discordia entre os quatro filhos da
-viuva. Desvairou-os o ciume. Reptaram-se.
-Como valentões que eram, não se recusaram o
-cartel. Pouco depois, zuniam os varapaus fratricidas
-a certa distancia do tecto commum.
-Trez dos contendores cahiram exanimes; e o
-outro ficou gravemente ferido. O abbade regressava
-n’aquelle dia e passara ali. Estava
-moribundo, no logar da lucta, o que sobrevivera,
-mas teve ainda voz para contar ao velho
-sacerdote a lamentosa façanha. Depois debateu-se
-nas vascas d’afflictiva morte, e expirou.
-O povo, quando o successo se espalhou, negou
-aos quatro irmãos sepultura em sagrado. Enterrou-os
-ao sopé da Falpêrra, no mesmo logar,
-e levantou sobre as vallas quatro pedras ainda
-hoje pregoeiras da tradição. Ora aqui teem a
-historia. Não acha bonita? perorou João Nicolau
-voltado á viuva Machado.</p>
-
-<p>—É interessante... Não sabia a lenda...</p>
-
-<p>—Mas eu trazia isto a proposito do jantar
-de Guimarães... O Falcão Osorio, que deve
-estar velho como eu, cavalgava na vanguarda.<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span>
-Ao chegar aos <i>Quatro irmãos</i> susteve o cavallo
-e veio, sobresaltado, segredar-nos que tinha
-visto umas sombras, as quaes sombras lhe pareceram
-bandidos. Não pensamos se a apprehensão
-era sensata. Acautelamo-nos subitamente
-para a defensiva e mettemos a passo dando-nos
-ares de valorosos cavalleiros. A Falpêrra
-d’aquelles tempos era covil de salteadores; o
-coração, a julgar por mim, batia-nos desordenadamente.
-Ainda a julgar por mim, posso dizer
-que era... de medo. Mas ó soprema irrisão
-que o destino nos preparára, nivelando-nos
-com o cavalleiro de Mancha ao esgrimir contra
-os moinhos! Os bandidos... eram arvores!</p>
-
-<p>D. Maria d’Assumpção, ouvindo agora a centessima
-edição d’este conto, sorriu ainda pela
-centessima vez. A viuva Machado simulou ter
-achado graça; Eduardo e as duas meninas, se
-é que tinham ouvido, não sorriram.</p>
-
-<p>João Nicolau fez reparo n’isto e apostrophou,
-dirigindo-se aos tres:</p>
-
-<p>—Olhem que parecem uns velhos carrancudos!
-A menina Maria Luiza, porque os nervos
-se lhe desafinaram, imagina-se em artigos de
-morte. A menina Rosa vai silenciosa por não
-ver alegre a irmã, e o meu Eduardo, ao lembrar-se
-de que terminam hoje as férias, perdeu
-a voz!...</p>
-
-<p>—Como são muitos os divertimentos que elle
-tem em tempo de férias!... objectou D. Maria
-d’Assumpção.</p>
-
-<p>João Nicolau não esperava o remoque e replicou
-meio irritado:</p>
-
-<p>—Tem os que quer ter.</p>
-
-<p>—Não vale a pena agastares-te. O defeito,
-já t’o tenho dito, é de todos os velhos, e por
-isso é de crer que tambem seja meu. A gente,
-quando é velha, desassisadamente teima em
-moldar a vontade das pessoas novas, que nos
-cercam, pela nossa, e não nos lembramos de<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span>
-que já não ha para nós novidade nem surpresa.
-Lembro-me agora só d’uma excepção: a da mãe
-d’estas meninas, que apesar de estar hontem
-indisposta, não se recusou a dar-nos hoje o
-prazer de nos acompanhar. Isto é que é ser
-condescendente.</p>
-
-<p>—É verdade, acrescentou por delicadesa João
-Nicolau.</p>
-
-<p>—Que será da velhice dos rapazes de hoje,
-tornou D. Maria d’Assumpção relanceando um
-olhar de benevolencia a Eduardo e a Maria
-Luiza, se se não divertirem? Nem sequer terão
-para contar aos contemporaneos o caso... de
-haverem tomado arvores por bandidos.</p>
-
-<p>João Nicolau sorriu, porque D. Maria d’Assumpção
-lhe bateu amigavelmente no hombro.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Ao despedirem-se as duas familias, Maria
-Luiza segredou a Eduardo, estendendo-lhe a
-mão convulsa e ardente:</p>
-
-<p>—Eu sinto-me tão triste, que só o teu amor
-me póde dar coragem. Lembra-te de mim, e sê
-forte.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XXVII</h2>
-
-<p>Foi profunda a prostração que sopitou Maria
-Luiza durante a noite. Ao entreluzir da manhã,
-sobreveio certa agitação febril.</p>
-
-<p>Chamado o facultativo, absteve-se de diagnosticar.
-Escrupulosamente inquiriu porém se
-a doente tinha revelado soffrimento anterior ou
-se havia experimentado uma sensação violenta
-que provocasse excitação do systema nervoso.</p>
-
-<p>A viuva Machado respondeu negativamente
-e pediu ao facultativo, com os olhos banhados
-em lagrimas, que lhe não occultasse a verdade.<span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span>
-Serenou-a o medico dizendo que os temperamentos
-excessivamente nervosos tinham caprichos
-especiaes que muitas vezes ludibriavam
-a medicina e que podia bem ser que a febre
-desapparecesse depois d’um breve periodo
-de intensidade.</p>
-
-<p>A outra hypothese occultou-a elle para não
-ferir o coração materno todo receios e afflicção:
-vinha a ser que podia a febre prolongar-se,
-e tomar o caracter typhoide.</p>
-
-<p>Trez dias depois, realisava-se a fatal hypothese.
-Sobreveiu o delirio e Maria Luiza balbuciava
-palavras sem nexo:</p>
-
-<p>—Impossivel... Disseste que chorava... Na
-capella do Horto... Não sentia as lagrimas...</p>
-
-<p>Outras vezes curvava-se a melancholica Rosinha
-sobre o leito e recolhia este murmurio:</p>
-
-<p>—O sol por entre as arvores... Sempre impossivel...
-Uma tristeza immensa. Emilia...
-Deus...</p>
-
-<p>A doze de janeiro escrevia Rosinha a Eduardo
-Valladares estas palavras:</p>
-
-<p>«Hontem á noite delirou e tornou a fallar da
-capella do Horto e do sol que scintillava através
-das arvores. Felizmente ainda não pronunciou
-o seu nome. Não desespere, que eu ainda
-não desesperei tambem, e peça a Deus por ella
-e por nós.»</p>
-
-<p>Foram decorrendo os dias e nos ultimos do
-mez raiou um vislumbre d’esperança.</p>
-
-<p>Tendo passado a noite tranquilla, perguntou
-Maria Luiza, de madrugada, á irmã, a que horas
-tinham vindo na vespera do Bom Jesus.</p>
-
-<p>Rosinha respondeu, reprimindo impetos d’alegria:</p>
-
-<p>—Viemos á noitinha, não te lembras?</p>
-
-<p>—Não me lembrava, disse a doente. O que
-sei é que foi hontem. Foi tão comprida esta
-noite!</p>
-
-<p>Quando veiu o medico, jubilou com a boa<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span>
-nova da doente ter dado accordo de si e perguntado
-a que horas vieram do Bom Jesus,
-suppondo que tinham lá estado no dia antecedente.</p>
-
-<p>—Ella tem razão, disse o doutor. Desde que
-veio de lá não tem vivido... Todavia é uma
-grande esperança.</p>
-
-<p>No dia seguinte, a viuva Machado e Rosinha
-choraram d’alegria ao ouvir este prognostico
-do facultativo:</p>
-
-<p>—Creio que posso dizer que está salva,
-apesar de ter ainda doença para longo tempo.
-Cumpre haver o maximo cuidado no tratamento.
-Não lhe dissipem sobretudo o engano a respeito
-do dia em que esteve no Bom Jesus.</p>
-
-<p>Momentos depois recebia Eduardo Valladares
-as seguintes linhas:</p>
-
-<p>«Diz o medico que está salva. Agradeçamos
-a Deus, meu amigo».</p>
-
-<p>Estendeu-se pelo mez de fevereiro a longa
-convalescença de Maria Luiza. Eduardo Valladares
-recebia todos os dias palavras da mão de
-Rosinha convidando-o a confiar da misericordia
-de Deus a solução d’uma crise que Elle visivelmente
-favorecia com as melhoras de sua irmã.</p>
-
-<p>O filho do bacharel Valladares lia as cartas e
-redigia sobre as paginas d’um livro intimo as
-longas meditações das noites de insomnia:</p>
-
-<p>«Vão engrinaldar-se de flôres as arvores do
-valle e tapetar-se de verduras os declives dos
-outeiros. Só a minha primavera não chega, Senhor.
-Só não voltam com as andorinhas as minhas
-esperanças de um dia. Embora. Deixaste
-que o anjo ficasse ainda na terra, e deixa tambem
-que se abrandem as angustias que não
-merece. Eu creio em ti, Senhor, mas choro nas
-trevas da minha noite, como tu choraste na
-cruz. Eras Deus e foste homem. Bem sabes o
-que é soffrer e chorar. Não me exaspero nem
-te maldigo. Tu eras filho do Eterno e soffreste;<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span>
-tu eras Deus e choraste lagrimas de sangue.
-Como ha de o homem, cuja vida custa dores,
-eximir-se ao pêso da sua cruz, se tu vergaste
-sob o madeiro? como não ha de chorar, se os
-tens olhos orvalharam o sudario da piedosa
-mulher?</p>
-
-<p>«Perdoa-me, se choro, Senhor Deus de misericordia.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>«Agonisante, orava profundamente», <i>Factus in
-agonia prolixius orabat</i>, dizia a inscripção da capella
-do Horto. E pediste-me tu, anjo e martyr,
-que entregasse á memoria o verbo das Escripturas!</p>
-
-<p>«Querias dizer-me que me abraçasse á cruz
-nas horas de tribulação da minha alma, ou significavas
-que o teu espirito olhava para Deus
-na lenta agonia do teu supplicio?</p>
-
-<p>«Era um incentivo ou um exemplo o que me
-apontavas?</p>
-
-<p>«Se era incentivo, sabe que a minha alma só
-adormece quando sobe ás alturas, embalada na
-religião de meus pais. Se era exemplo, repetir-te-hei
-que comprehendo a extensão do teu
-soffrimento, que te vejo sempre ajoelhada deante
-do teu crucifixo e que abraçaria a tua fé, balsamo
-para todas as chagas, se desde o berço
-não houvesse apprendido a balbuciar o nome de
-Deus.</p>
-
-<p>«Choro, e por me vêres lacrimoso não acredites
-na minha descrença.</p>
-
-<p>«Devo dizer-te que me não abandona a fé.</p>
-
-<p>«Só a Deus peço que enxugue as lagrimas
-dos teus olhos, que restitua ao teu coração as
-alegrias que eram d’elle. Este é o fito da minha
-esperança, o alvo da minha fé immensa.</p>
-
-<p>«Entrou commigo o remorso de te haver
-amado. Fui injusto quando fiz estalar sobre a
-tua cabeça a tempestade das minhas desventuras.
-Choro a minha culpa, a minha injustiça,<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span>
-e peço a Deus que não complete a obra da tua
-abnegação.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>«Levantas-te do leito quando as flores se levantam
-no pendor da serra. Põe os olhos no
-Céo, que ainda lá encontrarás a estrella confidente
-das serenas alegrias da tua infancia. Desvia-os
-da terra para me não vêres chorar. Não
-choro de desespero; choro porque tu choraste.
-As orações d’alguem, de minha mãe talvez,
-trouxeram do Céo balsamo para a minha alma.
-Se Frei Domingos soubesse das minhas amarguras,
-acreditaria que tinha orado por mim.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>«E amo-te muito, mas porque te amo, Maria,
-não quero que os teus olhos chorem as minhas
-lagrimas. Que te esqueças de mim ou que succumbas,
-este é o meu pedir. E não ha impiedade
-na minha súpplica. Morrer não é soffrer, é
-renascer. Eu é que preciso de viver para chorar.
-Renasce tu para as auroras da tua patria
-ou foge dos espinhaes do meu caminho que
-rasgariam de certo as tuas azas. Como havias
-de restituil-as depois ao Senhor que t’as deu?»</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Uma noite, estava Eduardo Valladares escrevendo
-no seu livro intimo, quando sentiu alvoroço
-na sala proxima. Acudiu a saber o que
-era.</p>
-
-<p>Frei Domingos, que se não tinha ainda retirado,
-approximou-se e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Animo, filho. Espero que pedirá ao Céo a
-coragem que precisa para lêr...</p>
-
-<p>E apresentou-lhe um telegramma, que João
-Nicolau recebera do Porto. O telegramma dizia:</p>
-
-<p>«Morreu repentinamente Sebastião Valladares.
-A viuva pede providencias com a menor
-demora possivel».</p>
-
-<p>Eduardo rompeu em afflictivo chôro. Frei
-Domingos encostou ao seu peito a cabeça do<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span>
-orphão e afastou-o da sala onde D. Maria d’Assumpção
-e João Nicolau choravam.</p>
-
-<p>Ao romper da manhã vinham em caminho
-do Porto avô e neto, em caleça alugada expressamente.</p>
-
-<p>É breve a historia do passamento do bacharel.
-Sahiu do escriptorio, onde estava trabalhando,
-estremamente anciado. D. Adozinda
-acudiu sobresaltada ao chamamento de um escrevente.
-Sebastião Valladares inclinou a cabeça
-sobre o hombro da esposa, e morreu. Disseram
-os medicos que tinha succumbido a uma
-lesão do coração. O que os medicos disseram
-pouco faz ao nosso proposito.</p>
-
-<p>Dias depois do funeral, annunciou-se leilão
-da modesta mobilia e, concluido isto, voltou
-João Nicolau a Braga, levando em sua companhia
-o neto e a filha, cobertos do mesmo luto.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XXVIII</h2>
-
-<p>O bacharel Valladares, momentos antes de
-morrer, estava escrevendo ao filho um carta
-que deixou incompleta.</p>
-
-<p>Os mais significativos periodos d’essa carta
-diziam assim:</p>
-
-<p>«Faze por ser humilde, e sujeita-te respeitoso
-aos conselhos das pessoas que t’os podem
-dar, nomeadamente á vontade de teu avô, em
-quem eu vejo, além d’um dedicado amigo, o
-pae de tua mãe. Não ponhas os olhos n’umas
-alturas em que o commum da humanidade fita
-a vista, se queres ser feliz. Se eu te posso servir
-d’espelho em alguma coisa, é no que toca
-a desambição e a serenidade d’espirito e de
-consciencia. Vivo tranquillo para os affectos<span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span>
-da minha casa; se tu estivesses n’esta hora ao
-pé de mim e de tua mãe, julgar-me-hia em
-plena posse da verdadeira felicidade.</p>
-
-<p>«Quando saio a nossa porta, sinto-me triste.
-É que entro no mundo, não no mundo em que
-vivo, mas no mundo em que vivem todos. Os
-olhares dos que vão passando, não me offendem
-por desdenhosos, mas incommodam-me porque
-não são doces e sinceros como os de tua mãe.
-Realmente não me sinto bem no meio da turbamulta.»</p>
-
-<p>«A idéa da morte, se me entristece, é porque
-me faz lembrar que tenho de separar-me
-de tua mãe para sempre...»</p>
-
-<p>N’este relanço levantara se anciado o bacharel
-para não mais se sentar á sua banca. Morreu
-como viveu: serenamente. Um momento
-d’agonia não se lhe afigurou decerto o resvalar
-para o tumulo, e não teve por isso tempo
-de sentir estalar os élos que o prendiam á felicidade.
-Encostou ao seio amigo a cabeça para
-descansar. Queria talvez adormecer... Cerrou
-os olhos e não accordou.</p>
-
-<p>Rezaram-se os responsos de sepultura na
-egreja dos extinctos carmelitas do Porto. Antes
-de chegar o feretro, appareceu na sacristia
-um sacerdote que entrou, curvado de velhice,
-relanceando um olhar saudoso para um e outro
-lado.</p>
-
-<p>Era Frei Domingos do Amor-Divino.</p>
-
-<p>Durante os officios, foi notorio que o mais
-edoso dos padres não podia reprimir as lagrimas.
-Os raros amigos de Sebastião Valladares
-affirmavam não o ter visto uma unica vez em
-casa do bacharel. Correu porém voz de ser carmelita,
-e logo se explicou a razão de suas copiosas
-lagrimas, lançando-as á conta de saudades
-do hábito, evocadas pela entrada n’um
-templo da sua ordem.</p>
-
-<p>Frei Domingos, depois de terminados os responsos,<span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span>
-solicitou licença do sacristão para
-vêr o cadaver. Largo tempo o esteve contemplando
-com os olhos afogados, em lagrimas.</p>
-
-<p>—Dizem que era um homem honrado, apostrophou
-o sacristão.</p>
-
-<p>—Oiço dizer que sim, respondeu Frei Domingos.
-E, vendo-o, acredito que o foi.</p>
-
-<p>—Pois... não eram amigos?</p>
-
-<p>—Nunca lhe falei, nem sequer o vi.</p>
-
-<p>—Deixou-lhe talvez alguma coisa? replicou
-o sacristão affeito a vêr copiosamente chorar
-nos enterros as pessoas contempladas com verbas
-testamentárias.</p>
-
-<p>—Deixou-me... sincera pena de o não haver
-conhecido, respondeu Frei Domingos agradecendo
-e retirando-se.</p>
-
-<p>Ás seis horas da manhã, entrava Frei Domingos
-na diligencia de Braga. Ninguem no
-Porto soube como se chamava e d’onde era. Os
-amigos do bacharel noticiaram a João Nicolau
-e a Eduardo Valladares que, na egreja, um dos
-sacerdotes, frade carmelita segundo se disse,
-estivera chorando a ponto da commoção lhe
-embargar a voz. Outrosim perguntaram se este
-frade era relação da casa, parente ou amigo.
-Eduardo Valladares deteve-se um momento a
-consultar a memoria e respondeu negativamente.
-João Nicolau, como porém tivesse ouvido
-falar em frade carmelita, sentiu se impressionado,
-e sem pensar que fosse elle, lembrou-se
-n’aquelle momento de Frei Domingos
-do Amor-Divino.</p>
-
-<p>Quando o velho egresso voltou ao seu cubiculo
-da rua do Carvalhal, a trémula Gertrudes
-sahiu a recebel-o mais jubilosa que nunca.</p>
-
-<p>—Ó sr. Frei Domingos, exclamou ella, como
-me disse que tinha de fazer jornada, sempre
-estava inquieta. V. s.ᵃ já não está muito para
-andar pelos caminhos!</p>
-
-<p>—Ó boa mulher! com o auxilio de Deus vae-se<span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span>
-bem para toda a parte. Mal sabe a sr.ᵃ Gertrudes
-d’onde eu venho. Pois oiça lá: fui ao
-Porto.</p>
-
-<p>—Ao Porto! acudiu admirada a velhinha.</p>
-
-<p>—Ao Porto, sim. E olhe que me não succedeu
-mal nenhum. Jornadeei em diligencia pela
-primeira vez na minha vida. E sempre lhe direi
-que isto de diligencias não foi a peor
-cousa que o progresso nos trouxe.</p>
-
-<p>—Oura-se muito, pois não oura?</p>
-
-<p>—Não se oura nada, mulher. A gente acostuma-se
-aos solavancos, e depois vae menos
-mal. Comparado isto com as jornadas a
-cavallo, d’outros tempos!</p>
-
-<p>—Acho que ha lá por fora muitas coisas novas.
-Eu é que não tenho visto nada, nem quero
-vêr. «Boa romaria faz quem em sua casa vive
-em paz.»</p>
-
-<p>—Assim é, mulher, mas ha casos que podem
-mais do que as leis. Tambem me chegou a minha
-vez d’andar em diligencia.</p>
-
-<p>O medico assistente de Maria Luiza dera-lhe
-licença de sahir pela primeira vez, justamente
-no dia em que se enterrava no Porto o bacharel
-Valladares.</p>
-
-<p>Era um formoso dia dos ultimos de fevereiro.</p>
-
-<p>—Ora vá, disse-lhe o facultativo. Não tardam
-a desabrochar as flores; v. ex.ᵃ deve apparecer
-tambem. Tome porém cuidado com o
-passeio. Não vá longe.</p>
-
-<p>—É que realmente não sei para que lado
-hei de ir.</p>
-
-<p>—Convem que se não exponha. Vá para o
-lado de Infias, mas não se demore muito.</p>
-
-<p>Quando o facultativo sahiu, Maria Luiza sentou-se
-a escrever a Eduardo Valladares as seguintes
-linhas:</p>
-
-<p>«Tenho licença para sahir hoje pela primeira
-vez. Emfim! Vou com minha mãe e com<span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span>
-Rosinha. Ao meio dia apparece, como quem
-anda passeando, perto da quinta de Infias. Não
-faltes.»</p>
-
-<p>Maria Luiza chamou a irmã para fazer chegar
-o bilhete ao seu destino. Rosinha ficou inquieta.
-Tinha occultado a morte do bacharel e
-a sahida de Eduardo para o Porto. Revelar a
-verdade era alancear o coração de Maria Luiza;
-continuar a occultal-a seria o mesmo que
-não explicar a falta de Eduardo no passeio a Infias.</p>
-
-<p>—Está decerto agora nas aulas e talvez o
-não possa receber...</p>
-
-<p>—Não me disseste outro dia que elle tinha
-recebido bilhetes teus no Seminario?</p>
-
-<p>—Sim... disse. Mas se estiver nas aulas...
-Eu vou mandal-o... oxalá que ainda vá a
-tempo.</p>
-
-<p>Quando sahiram, Rosinha levava o coração
-opprimido.</p>
-
-<p>—Vaes triste? notou Maria Luiza.</p>
-
-<p>—Não vou; ir calada não é ir triste.</p>
-
-<p>—Tens razão.</p>
-
-<p>Chegaram a Infias.</p>
-
-<p>O coração de Maria Luiza pulsava vertiginosamente—d’esperança;
-o de Rosinha batia
-tambem agitado—d’afflicção.</p>
-
-<p>A estrada estava deserta. Decorreram minutos.
-Ninguem. Maria Luiza relanceou á irmã
-um olhar de eloquente interrogação. Rosinha
-simulou não dar tento, e fitou os olhos n’um
-ponto que ella nem sequer via...</p>
-
-<p>Decorreram mais alguns minutos de completo
-silencio.</p>
-
-<p>—Não vaes boa? perguntou a viuva Machado
-a Maria Luiza, inquieta pela vêr extremamente
-pallida.</p>
-
-<p>—Vou boa, minha mãe. Não é nada...</p>
-
-<p>—Talvez seja longo o passeio. Voltemos, se
-querem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span></p>
-
-<p>—Não, vamos até alli mais adeante, e voltemos
-depois, respondeu Maria Luiza.</p>
-
-<p>Era a ultima esperança.</p>
-
-<p>Fôram um pouco mais adeante. Não appareceu
-ninguem. Maria Luiza voltou-se e disse
-abruptamente:</p>
-
-<p>—Vamos embora; agora é que me não sinto
-boa.</p>
-
-<p>E depois, segredando á irmã:</p>
-
-<p>—Não veiu!</p>
-
-<p>Então Rosinha achou que devia dizer meia
-verdade. Contou que Eduardo Valladares tinha
-ido ao Porto por motivo imprevisto.</p>
-
-<p>Maria Luiza sorriu doloridamente e disse:</p>
-
-<p>—É possivel que fosse ao Porto, mas é impossivel
-que não estivesse hoje aqui se já me
-não tivesse esquecido.</p>
-
-<p>E, tão agitada como incredula, repelliu todos
-os protestos que lhe fazia a irmã de haver
-dito a verdade quanto á ida ao Porto.</p>
-
-<p>—Fez-te mal sahir! disse a viuva Machado
-com o coração opprimido por um torturante
-presentimento.</p>
-
-<p>—Não é nada, minha mãe; socegue. Vêl-a
-inquieta, é que me incommoda.</p>
-
-<p>Maria Luiza, a mariposa alegre d’outros tempos,
-alma creada para as flores e para o sol,
-era, bem o sabeis, uma d’essas creaturas que
-se deixam ir embaladas no ambiente da felicidade
-e que um dia, ao encontrarem a chamma
-que as namora, ou a atravessam impunemente
-ou crestam n’ella as azas iriadas. São estas
-frageis creaturas as que mais podem luctar
-com as tempestades da vida, mas se uma
-vez succumbem, deixam-se morrer lentamente,
-abraçadas, permittam-me que diga assim, ao
-pensamento que lhes envenena o coração.</p>
-
-<p>Maria Luiza julgou-se esquecida pelo homem
-a quem amava. Esta ingratidão suffocava-a.
-«Por que não iria elle, perguntava a si mesma<span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span>
-na sua afflicção, porque não iria vêr-me, depois
-de me não ter visto ha tanto tempo? E os
-meus pensamentos todos eram seus! Se sonhava...
-via-o no meu sonho. Dizia-me o coração
-que não morria, porque o amava... E elle não
-foi!»...</p>
-
-<p>Á noite, queixou-se de extrema inquietação.
-Chamou-se á pressa o facultativo.</p>
-
-<p>Antes d’elle chegar, Maria Luiza levantou-se
-de golpe, disse que uma nuvem vermelha lhe
-tirava a vista, e bolçou sangue.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XXIX</h2>
-
-<p>Moralmente, Rosinha soffrera tanto ou mais
-que Maria Luiza.</p>
-
-<p>O seu amor, a sua dedicação pela irmã estremecida
-levou-a a occultar a morte do bacharel
-Valladares.</p>
-
-<p>—Sabendo-o, soffrerá metade das dores que
-dilaceram o coração luctuoso de Eduardo. Peorará
-decerto, pensara Rosinha nos extremos
-do seu carinho.</p>
-
-<p>Depois, acercou-se de sua mãe e disse:</p>
-
-<p>—Não lhe parece que será melhor não dizermos
-que morreu o genro do João Nicolau?</p>
-
-<p>—Sim... talvez.</p>
-
-<p>—É sempre desagradavel a noticia d’um
-fallecimento. Agora, porém, tão impressionavel
-a tornou a doença, que parece-me que seria
-melhor occultarmos...</p>
-
-<p>—Pois sim, não digamos nada.</p>
-
-<p>Quando Maria Luiza lhe entregou o bilhete,
-Rosinha ficou sobresaltada. Exprimiu o receio
-de Eduardo Valladares o não receber a tempo,
-para ir dispondo o ánimo da irmã. Não previu<span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span>
-as tristes consequencias que vieram surprehendel-a.
-Suppoz que o adeantado da hora seria
-razão sufficiente para explicar a ausencia de
-Eduardo, e que Maria Luiza diria de si para
-comsigo «não pôde vir» em vez de «não quiz
-vir.»</p>
-
-<p>Para acalmar a irmã, resolveu-se, como vimos,
-a dizer ao menos meia verdade.</p>
-
-<p>Não foi acreditada.</p>
-
-<p>É inexplicavel o que em algumas horas soffreu
-a boa alma, toda dúvida e receio, toda
-amor e afflicção...</p>
-
-<p>Em casa, no regresso d’aquelle triste passeio,
-Rosinha, muito atribulada, disse á irmã:</p>
-
-<p>—Socega, por Deus. Amanhã te explicarei
-toda a verdade.</p>
-
-<p>Maria Luiza olhou-a com fixidez, e sorriu um
-breve sorriso que tinha tanto de tristeza como
-de incredulidade. E continuou a luctar com a
-mesma ancia, cada vez maior.</p>
-
-<p>O facultativo ficou surprehendido do estado
-em que veiu encontrar Maria Luiza e não pôde
-deixar de o attribuir a hemorrhagia da membrana
-mucosa pulmonar. A hemoptyse estava
-manifesta. O sangue era acompanhado de tosse
-violenta e no meio da ancia, que a suffocava,
-queixava-se Maria Luiza de intenso calor sobre
-o peito.</p>
-
-<p>Quando a doente socegou algum tanto, o facultativo
-disse em particular á viuva Machado:</p>
-
-<p>—Sua filha, comquanto fôsse clara certa predisposição
-que infundia receio, enganou-me, e
-eu vou dizer em que. Fiei muito d’uma convalescença
-remançosa, que ella devia ter e que,
-rigorosamente observada, seria barreira á obra
-da destruição. N’isto foi que me enganei. Sei
-que estou dilacerando o coração da mãe, mas
-devo usar d’esta franqueza para com a enfermeira.
-Tiremol-a d’aqui, quanto antes, o mais
-breve possivel. Para que não vae v. ex.ᵃ para a<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span>
-quinta do Prado? Está á porta a primavera; appellemos
-para ella.</p>
-
-<p>—Para a quinta do Prado... Mas para lá...</p>
-
-<p>—Diz v. ex.ᵃ?...</p>
-
-<p>—Ha o inconveniente de a approximarmos
-do tumulo da irmã, por quem morria d’amores...</p>
-
-<p>—Ah! Fez v. ex.ᵃ bem em me informar d’essa
-circumstancia, que eu desconhecia. Não sabia
-onde repousava a filha de v. ex.ᵃ; sabia apenas
-que tinha succumbido a uma tisica pulmonar.
-É pois conveniente escolhermos outro local.</p>
-
-<p>—Lembro-me do Bom Jesus, que é o seu passeio
-favorito. Podiamos requerer aposento na
-<i>Casa da mesa</i>. Que lhe parece, sr. doutor?</p>
-
-<p>—Sabe v. ex.ᵃ que de todos os sitios affluem
-numerosos doentes ao Bom Jesus. É difficil encontrar
-mais salutar atmosphera. Mas ainda
-assim, pelo que toca a condições hygienicas,
-não pode comparar-se com a quinta do Prado.
-Torna-se, porém, indispensavel atalhar o mal
-obstinadamente, e haver rigorosa observancia
-de prescripções. Convem livral-a sobretudo do
-nevoeiro da serra, de certa viração perfida que
-sopra de manhã e de tarde no Bom Jesus.</p>
-
-<p>—Oh! mas diga-me se tem esperanças de a
-salvar, sr. doutor, lembre-se n’este momento
-de que sou mãe.</p>
-
-<p>—Socegue, minha senhora. Empenharemos
-todos os esforços e restituil-a-hemos á vida.</p>
-
-<p>Sahiu o medico, dissipando com as exhalações
-d’um charuto as esperanças de salvar Maria
-Luiza.</p>
-
-<p>Ha só uma coisa comparavel á consciencia
-dos medicos: é a consciencia dos ministros.
-Esta relação de semelhança deve lisonjear os
-homens da sciencia...</p>
-
-<p>Na manhã do dia seguinte, Rosinha curvou-se
-sobre o travesseiro de Maria Luiza e murmurou:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span></p>
-
-<p>—Se me podes ouvir, ou se estás para isso,
-queria dizer-te uma coisa...</p>
-
-<p>—Dize.</p>
-
-<p>—Perdôa-me, por Deus, perdôa-me. Hontem
-não te disse toda a verdade. Pobre de mim, que
-não previ o mal que ia fazer!</p>
-
-<p>—Eu sabia que me enganavas. Comprehendi,
-porque sei quanto és minha amiga, Rosinha...</p>
-
-<p>—Tu sabias?</p>
-
-<p>—Sabia. Sabia que querias justificar a ingratidão,
-o esquecimento d’elle, só para não me
-magoares.</p>
-
-<p>—Enganas-te. O amor desvaira-te. Elle não
-pôde ir, porque...</p>
-
-<p>—Por que?...</p>
-
-<p>—Socega. Vejo-me, porém, obrigada a fazer-te
-esta revelação. Pesa-me de não a ter feito
-hontem. Quando a mamã estiver presente, mostra
-que não sabes...</p>
-
-<p>—Dize, dize.</p>
-
-<p>—O Eduardo está realmente no Porto.</p>
-
-<p>—Quiz fugir-me?</p>
-
-<p>—Não. Foi chamado á pressa. Sebastião Valladares...
-morreu.</p>
-
-<p>—Morreu! E por que m’o não disseste? Receavas
-que me fizesse mal, bem sei, minha boa
-irmã. Morreu! Como elle terá soffrido! E eu accusava-o,
-Rosinha, accusava-o porque me dilacerava
-o coração a lembrança de me não ter
-ido vêr, a mim, que me levantava do leito depois
-de tantos dias de soffrimento... Como eu
-fui injusta...</p>
-
-<p>—Socega. Que não te vá fazer mal...</p>
-
-<p>—Não faz, não. Pobresinho d’elle, que parece
-ter nascido sob o influxo d’uma estrella funesta.
-Não lhe bastava o que soffria por minha causa!
-Ainda mais isto! Soffre-se tanto quando se fica
-sem pae! Lembras-te do que nós sentimos e
-chorámos, quando nos faltou o nosso, Rosinha?</p>
-
-<p>—Cala-te, minha amiguinha, cala-te. Pode<span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span>
-ouvir a mamã. Não fales mais. Hontem de
-tarde, se t’o dissesse para remediar o mal que
-involuntariamente fiz, talvez não acreditasses.</p>
-
-<p>—Talvez não.</p>
-
-<p>—Hoje, porém, tenho provas.</p>
-
-<p>—Tens provas?</p>
-
-<p>—Promette que te não alvoroças, se não...</p>
-
-<p>—Ah! escreveu-te! Deixa-me ver, deixa-me
-ver.</p>
-
-<p>—Eu leio...</p>
-
-<p>—Não sejas cruel, Rosinha. Deixa-me ler,
-que já tenho saudades de ver a sua lettra...</p>
-
-<p>Rosinha entregou a carta que tinha recebido,
-do Porto momentos antes. Maria Luiza leu:</p>
-
-<p>«Minha boa amiga:</p>
-
-<p>Escrevo-lhe do Porto. Sabe já decerto que
-meu pae morreu. Occulte-o a ella, por quem é,
-occulte-lh’o. Como sentiria as dores que eu só
-devo sentir, se ella o soubesse! Podia talvez
-peorar.</p>
-
-<p>«Quando olho em mim, e conheço que levei a
-minha desgraça áquella alma, que não a merecia,
-sinto remorsos de a ter amado. Que Deus
-me perdôe, e a salve a ella. Não posso ser mais
-extenso. Basta dizer-lhe que meu pae baixa
-hoje á sepultura. Voltarei dentro de pouco
-dias.»</p>
-
-<p>—Rosinha, minha irmã, reza commigo a Nossa
-Senhora. Rezemos por elle, que é muito infeliz;
-por mim, não, que eu sinto-me boa.</p>
-
-<p>E brilharam-lhe lagrimas nos olhos. Sobreveiu
-um frouxo de tosse, e após a tosse uma
-lufada de sangue...</p>
-
-<p>Passadas horas, respondia Rosinha a occultas
-da irmã:</p>
-
-<p>«Occultamos-lhe a morte de seu pae. Procuramos,
-porém, afastar um mal, e approximamos
-outro. Mando-lhe o bilhete que ella me
-dava hontem para eu lh’o fazer entregar, na<span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span>
-supposição de estar, em Braga. Continuei ainda
-a occultar a cruel verdade sem pensar nas consequencias
-funestas da minha dedicação. Á
-conta de esquecimento tomou ella a sua ausencia.
-Era manifesto que soffria muito quando
-recolhemos, mas foi-me então impossivel remediar
-o mal, revelando toda a verdade. Ás nove
-horas da noite, sentia-se muito incommodada
-e momentos depois abafava-lhe a voz uma onda
-de sangue. Pobre irmã! Venha depressa, que
-eu sinto que me falta o ánimo. Hoje confessei-lhe
-tudo. Quiz lêr a sua carta, e lamentou-o
-muito com os olhos cheios de lagrimas. Vamos
-amanhã para o Bom Jesus. O facultativo aconselhou
-ares mais puros sem perda de tempo.
-Venha depressa, sim? A precipitação com que
-lhe estou escrevendo explicará o laconismo
-destas linhas.»</p>
-
-<p>Quando Rosinha voltou ao quarto, disse-lhe
-Maria Luiza:</p>
-
-<p>—Tu respondes hoje?</p>
-
-<p>—Eu! Não tenciono.</p>
-
-<p>—Quero então pedir-te um favor.</p>
-
-<p>—Dize o que é.</p>
-
-<p>—Se me deixavas escrever...</p>
-
-<p>—Escrever! Mas se te vae fazer mal...</p>
-
-<p>—Não faz, eu sei que não faz.</p>
-
-<p>—Com uma condição: quatro palavras, apenas.</p>
-
-<p>—Pois bem. Quatro palavras apenas, respondeu
-Maria Luiza.</p>
-
-<p>E escreveu com bastante difficuldade para
-sustentar a penna na mão convulsa:</p>
-
-<p>«Sei o que terás soffrido, meu pobre Eduardo!...
-Que o meu amor te dê coragem. Não receies
-por mim, não? Eu estou boa. Queria que
-viesses, porque vamos ámanhã para o Bom Jesus,
-e não sei como hei de estar lá sem ti. Já
-não te vi ha tanto tempo...»</p>
-
-<p>Rosinha interrompeu-a para dizer-lhe:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span></p>
-
-<p>—Já escreveste muito. Se te faz mal... Se
-vem a mamã.</p>
-
-<p>E ouviram-se passos no corredor.</p>
-
-<p>—Ella ahi vem, não ouves?</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XXX</h2>
-
-<p>João Nicolau e Frei Domingos estavam conversando
-um dia e naturalmente veiu a declinar
-o dialogo sobre o futuro de Eduardo, que
-parecia mais triste do que nunca.</p>
-
-<p>—É pois resolução assente o sacerdocio?
-perguntou o carmelita.</p>
-
-<p>—Assente, respondeu João Nicolau. Foi sempre
-desejo meu encarreiral-o por este caminho.
-Ao principio receei que o meu proposito o contrariasse.
-Ha tempos a esta parte, cuido perceber
-que lhe não desagrada o futuro que lhe
-dou gostosamente.</p>
-
-<p>—Hade o sr. João Nicolau lançar á conta da
-amizade com que me trata as impertinencias
-d’um velho. Deixe-me todavia ser franco—disse
-Frei Domingos do Amor Divino com os olhos
-marejados de lagrimas. Entrei n’esta casa supplicando
-a Deus que me preparasse um dia este
-momento, em que eu pudesse dizer ao homem
-honrado: «Aqui estão os meus cabellos brancos;
-ouve-me, se elles te inspiram compaixão.»</p>
-
-<p>João Nicolau sentia-se perplexo e commovido.</p>
-
-<p>Frei Domingos continuou:</p>
-
-<p>—Um dia, um homem velho como eu, coração
-sem mancha, como prouvera ao Senhor
-que fôra o meu, bateu á minha porta e disse:
-«Desgraças communs prenderam o meu coração
-ao coração d’outro homem, cujo filho se<span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span>
-abeira hoje de mim, a instancias do pae, para
-pedir conselho á minha velhice, não á minha
-discreção. Descobri sombras na fronte que se
-devia illuminar com o clarão da mocidade. Vi
-curvada com melancholico pendor a roseira que
-se devia erguer attrahida pelas flechas do sol.
-Sondei. Desci cautelosamente ao coração de
-dezeseis annos e encontrei-o traspassado por
-um espinho. A pobre alma confrangia-se deante
-d’um futuro que se approximava dia a dia, e que
-ella queria remover, ou porque estivesse embalada
-nas castas doçuras da sua edade, ou porque
-a apavorasse a austeridade do sacerdocio.»
-Disse-me isto o ancião com voz trémula
-de commoção e velhice. Depois, voltando-se de
-novo para mim, accrescentou: «A missão do levita
-é supplicar e esclarecer. Vá: supplique e esclareça.
-Fale ao coração piedoso do homem que
-chamou a si o neto desprotegido da fortuna
-para lhe aplanar o caminho da vida. Vá e diga-lhe
-curvado de respeito: «Venho desafogar comtigo,
-porque sei que o teu coração é brando;
-ouve-me e Deus te agradecerá». Era eloquente
-e justa esta voz. Obedeci e vim. Aqui estou,
-sr. João Nicolau, para lhe pedir que me oiça. Direi
-o que a razão me fôr suggerindo; depois terminarei
-com o dito da Escriptura: «Se eu errei,
-corrige-me tu; se eu falei com iniquidade, não
-accrescentarei mais.<a name="FNanchor_13" id="FNanchor_13"></a><a href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a>»</p>
-
-<p>—Oh! sr. Frei Domingos... exclamou João
-Nicolau sem poder concluir a phrase.</p>
-
-<p>—O melhor futuro não é o que nos parece
-melhor; é o que Deus nos prepara. O coração
-affectuoso pode enganar-se ao talhar felicidades
-que nunca cheguem. Não digo que venha
-a ser assim; quero dizer que o coração do
-sr. João Nicolau, estremoso e bom, pode enganar-se
-<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span>em sua mesma bondade. Um dia as lagrimas
-de seu neto podiam amargurar-lhe os
-remanços da velhice. O sr. João Nicolau choraria
-a sua e a alheia desgraça ao ver despida de
-flores a arvore do seu amor. Não me pesa a mim
-a batina, porque a procurei e a vesti eu mesmo.
-Prouvera ao Senhor, porém, que conhecesse
-menos hombros avergados sob ella, que era
-então certo conhecer menos infelizes. O sacerdote
-que não tem o ánimo despreoccupado, serve
-mal a Deus e á sua alma. Não me quero engrandecer,
-nem aos que voluntariamente abraçam
-o sacerdocio. Quero dizer que não poderia curar
-promptamente as dores alheias, se todos
-os dias tivesse de pensar a chaga incuravel do
-meu desespêro. Toda a vida tem espinhos; o
-sacerdocio tambem. O marinheiro que voluntariamente
-embarca, corajoso lucta com as tempestades
-do mar e todo se delicia na contemplação
-do azul purissimo das aguas, quando
-céo e mar estão serenos. O que navega coagido
-nem desteme a tormenta nem se consola com
-a suavidade da paizagem. Para tal marinheiro,
-o mar é sempre um abysmo, ou durma ou se
-encapelle. Que cada um procure o rumo da sua
-derrota. Depois, quando já tiver embarcado,
-digamos assim ao nauta querido do nosso coração:
-«Filho, deixa-me guiar o teu batel, em
-quanto o teu braço fraqueja».</p>
-
-<p>Frei Domingos parou um momento, fatigado
-pela commoção. João Nicolau approximou-se e
-disse com olhos humidos de pranto:</p>
-
-<p>—Sr. Frei Domingos, as suas palavras convencem
-me. Pensei que meu neto não ia sacrificado
-ao destino que lhe eu dava. Suppuz a
-principio que a idéa da solidão do presbytero
-lhe pusera medo. Chegada, porém, a hora de
-lhe indicar um caminho, vi-o calar se sereno
-e...</p>
-
-<p>—Agradeçamos a Deus que lhe não endureceu<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span>
-o coração; é humilde. O filho d’aquelle homem,
-cuja face gelada era serena como a superficie
-d’um lago, devia compartilhar das virtudes
-enthesouradas no coração do pae. Eu vi
-o cadaver de seu genro...</p>
-
-<p>—O sr. Frei Domingos! Ah! pois era o carmelita?...</p>
-
-<p>—Fui ao Porto, que me dizia a consciencia
-que devia ir. Entrei aqui, e fui recebido, sob
-este tecto, como não merecia. D’esta grande
-divida que tenho em aberto, e que decerto não
-posso saldar, procurei pagar a centesima parte
-dos juros, amontoados. Á volta do feretro d’um
-parente intimo d’esta casa, reuniam-se sacerdotes;
-era lá o meu logar; fui tomal-o. Não faltavam
-á viuva e ao orphão consolações d’amigos;
-as minhas seriam menos prestantes. Foi
-por isso que não appareci á familia annojada.
-Na egreja senti uma extranha commoção: chorei.
-Talvez fôsse fraqueza o chorar; talvez. São
-percalços da velhice. Estava-me lembrando das
-desgraças que poderiam fulminar o orphão, se
-a minha voz fôsse impotente para convencer o
-sr. João Nicolau. E olhe que não vae n’isto offensa
-ao seu coração. Não receava por elle;
-receava por mim. Da palavra do conselheiro
-depende a efficacia do conselho. O bom terreno,
-por mal semeado, pode deixar de fructificar.
-Enganei-me, sr. João Nicolau, enganei-me.
-Não é verdade? Não é verdade que veiu Deus
-em nosso auxilio, porque o seu entendimento
-adivinhou o que eu deixei de dizer? Diga-me
-que sim, que é esta a maior alegria de ha trinta
-annos. O sr. João Nicolau é bom... Bem vejo
-que está chorando. «Fazei justiça ao necessitado
-e ao orphão»<a name="FNanchor_14" id="FNanchor_14"></a><a href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a> diz o <i>Psalterio</i>. O sr. João
-Nicolau é religioso, e ha de fazel-a. Dê-me um
-<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span>abraço, meu amigo, que eu leio nas suas lagrimas
-a resposta que a commoção lhe não permitte
-dar-me...»</p>
-
-<p>Foi edificante aquelle lance em que dos olhos
-dos dois velhos brotaram copiosas lagrimas.
-Por longo tempo nem um nem outro pôde falar.
-O silencio dava certa grandeza ao quadro.</p>
-
-<p>Decorreram minutos, após os quaes Frei Domingos
-conseguiu dizer:</p>
-
-<p>—Bemdito seja o nome do Senhor! Vou d’aqui
-rejuvenescido. Vou dizer a Rodrigues d’Abreu...</p>
-
-<p>—Tinha adivinhado logo que era elle. Em
-Braga, não podia ser outro. Bom coração aquelle!</p>
-
-<p>—Bom coração é, realmente. A elle devemos
-esta alegria, que veiu illuminar a nossa velhice.
-Vou dizer-lhe: Permittiu Deus que eu visse a
-realisação de tamanha esperança. Receei uma
-vez, e chorei. O Senhor das alturas perdoou-me,
-cobriu-me com a Sua grandeza, depois de
-ter inspirado o coração a que me dirigi.</p>
-
-<p>Passados dias, João Nicolau chamou o neto
-á sua presença e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Estamos sós, e espero que me falarás com
-a lizura com que falarias a teu pae.</p>
-
-<p>—Responderei com a voz do coração.</p>
-
-<p>—Cabe-me o dever de dirigir a tua educação,
-e não quero violentar-te a acceitares um
-futuro que te repugne. Se até hoje fiz mal, determinando-te
-uma carreira, dir-m’o-has agora.
-Responde-me com franqueza. Da resolução que
-tomares depende tudo e, depois de consummada
-a obra, é impossivel a emenda. A tua recusa
-não me desgosta, nem me contraria. Se assim
-fôsse, não te chamaria para me expores a tua
-vontade.</p>
-
-<p>Eduardo Valladares levantou para o avô os
-olhos tristes, e respondeu com firmeza:</p>
-
-<p>—Agradeço do fundo do coração, meu avô,
-o sentimento que o levou a querer ouvir-me<span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span>
-sobre este ponto. Respondo, abrindo-lhe a minha
-alma. O sacerdocio, a que me destinava,
-apavorava-me quando eu sentia enflorar-se o
-peito com as primaveras que são apanagio dos
-primeiros annos da vida. Entre mim e a minha
-esperança, via levantar se a barreira do sacerdocio.
-Chorei, exasperei-me, e levei o écho das
-minhas amarguras aos ouvidos de quem entrava
-no mundo com direito a sahir d’elle sem
-rasgar o coração na minha corôa d’espinhos.
-Quiz rebellar-me, no meu desespêro, contra a
-vontade de meu avô. Suspendeu-me sempre á
-beira do precipicio um braço amigo, apontando-me
-para o Céo. Esperei do Céo o balsamo, o
-confôrto. Sem deixar de crer em Deus, via porém
-crescer hora a hora o meu desespêro. Era
-horrivel viver assim, meu avô! Fui vivendo
-uma vida d’esperanças e de lagrimas, de fé e
-de descrença... Só sabe comprehender isto,
-quem viveu assim. Era delicado de mais para
-tamanhas procellas o coração que eu amei.
-Despedaçou-o aquella agonia lenta. Despedacei-o
-eu, meu avô. A martyr succumbiu ás minhas
-dores. Amava-me de mais para me esquecer.
-Chorei de desespêro; choro agora de remorso.
-Encherei com as minhas lagrimas o
-calix do sacrificio. Na expiação de todos os
-dias supplicarei o perdão de Deus. Quero e
-devo expiar assim, meu avô, se a pessoa a
-quem me refiro adormecer no tumulo para
-accordar no Céo.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>XXXI</h2>
-
-<p>«As arvores tanto as tenho para mim como
-para os passaros» escreveu Lamartine no formoso
-livro <i>Pedreiro de Saint-Point</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span></p>
-
-<p>Ó alma sublime de poeta, tu não levavas o teu
-egoismo ao extremo de quereres as arvores
-unicamente para te envolverem em mysteriosa
-sombra nas tardes meditativas do estio.
-Tu sabias que esse mundo de folhas verdes,
-sussurrante e oloroso, se pode servir de cupula
-ao homem em horas de profunda meditação, é
-tambem das aves que se deixam absorver nos
-seus extasis d’amor, e querem esconder-se nas
-sombras da floresta, para cantar, sem que ninguem
-as veja.</p>
-
-<p>Deixemol-as entoar os seus modilhos emquanto
-nós pensamos.</p>
-
-<p>Ellas estão no seu mundo, nós estamos no
-nosso.</p>
-
-<p>O universo é para todos.</p>
-
-<p>Faz-me tristeza ver que os homens as perseguem,
-a ellas, que tornam alegre a solidão dos
-campos e que traduzem em musicas suavissimas
-os mais delicados pensamentos do amor e
-da saudade. Nós, quantas vezes nos não embriagamos
-nos mais delicados pensamentos,
-nos mais mimosos affectos, sem que possamos
-encontrar na palavra o prisma que reproduza
-as formosas cambiantes do nosso espirito! Ellas,
-as aves, teem uma inflexão para cada idéa,
-uma harmonia para cada sentimento. Merecem
-mais respeito as pobresinhas, se não fôr por
-outra coisa, ao menos por isto—que já é
-muito.</p>
-
-<p>A creança d’hoje ha de ser homem amanhã e,
-se lhe ensinarem a disparar a sua clavina, irá
-desfechal-a contra o seio offegante d’uma andorinha,
-que commetteu o unico delicto de querer
-procurar alimento para a sua pequenina
-familia. Não digamos pois á creança que se
-embriaga nas innocentes alegrias da sua edade:
-«Amanhã, visto que estás homemzinho, faze-te
-caçador. Pega n’esta espingarda e vae pelo caminho
-fora. Rompe através do matto, salta<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span>
-córregos, galga montanhas, que todos esses sacrificios
-serão pagos pelo prazer sanguinario
-de matar. Se vires um bando d’aves, ainda que
-seja uma caravana de passarinhos alegres, que
-vão cruzando o espaço, como uma tribu nómada
-que atravessa o deserto, faze pontaria e atira.
-Se ferires a mãe, fecha o coração á magua de
-teres levado a orphandade e a viuvez a uma
-familia inteira, cerra os ouvidos aos saudosos
-lamentos de quem fica viuvo e orphão n’esse
-deserto dos céos! Se ferires o filho, esquece-te
-de que roubaste a alegria d’um coração de mãe,
-de que a ave é tanto mãe, ou mais ainda, do
-que a mulher, esquece-te, oh esquece-te... d’isto
-tudo e... desfecha a tua espingarda».</p>
-
-<p>Apraz-me entrar n’um cerrado onde as aves
-vivem em plena liberdade sem recearem da clavina
-do caçador, nem das redes da creança. Ahi
-cantam, amam e noivam sem emmudecer de
-sobresalto uma unica vez. Se o bosque fica perto
-d’uma corrente murmurosa, diremos que estamos
-no jardim do amor, ao ouvir os rouxinoes.
-Se fica n’um retiro formosamente triste, diremos
-que estamos na estancia da saudade, ao
-escutar as rôlas.</p>
-
-<p>As aves da floresta do Bom Jesus do Monte seriam
-verdadeiramente ditosas, se não as perseguissem
-as creanças—os unicos inimigos que
-ellas lá podem ter. Quem quer ouvil-as, sobe á
-montanha sagrada; as creanças ouvem-n’as,
-namoram-se de suas toadas alegres e querem
-prender as proprias aves, para que já lhes não
-fuja aquella doce musica.</p>
-
-<p>Maria Luiza e Eduardo Valladares estiveram
-na alameda da Mãe d’Agua, no dia trinta de
-março, dia em que a floresta toda se levantava
-em jubilos e canticos para saudar a primavera.</p>
-
-<p>Maria Luiza, meio inclinada para o tumulo,
-parecia sorrir á amenidade d’aquelle dia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span></p>
-
-<p>Tinha nas faces a pallidez da morte, mas descerravam-se-lhe
-os labios n’um sorriso sereno
-como o da esperança. Esperaria ainda ella a
-felicidade terrena? Cremos que sim. Dizia tranquillamente
-a Eduardo Valladares, que no Céo
-havia um écho para cada desgraçado, e que lhe
-segredava o coração que não estava longe a
-felicidade. Queria vêl-o queria falar-lhe, queria
-ouvil-o a miude, e o pobre moço, desenganado
-pela voz da medicina, amparava-a nos
-braços, na afflictiva ancia que precedia quasi
-sempre uma nova hemoptyse. Muitas vezes
-dissera Maria Luiza, quando ainda era alegre:</p>
-
-<p>—Quem sabe se virei a morrer da morte
-de minha irmã? Talvez... Eramos tão amigas!...</p>
-
-<p>Depois que começara a soffrer, especialmente
-depois que foi para o Bom Jesus, dizia a Rosinha:</p>
-
-<p>—Eu hei de melhorar. Aqui amei e aqui soffri.
-Mas a gente gosta tanto dos sitios onde
-soffre, amando, que é como se tivesse vivido
-n’elles sem nunca ter chorado... Não posso
-morrer aqui, bem vês. Tudo são recordações a
-chamar-me á vida. Não posso morrer, não.</p>
-
-<p>—Pois não morres, não, respondia Rosinha,
-abafando a sua dôr.</p>
-
-<p>N’esse dia, trinta de março, estavam Maria
-Luiza e Eduardo Valladares na alameda da Mãe
-d’Agua. Acompanhara-a elle, dando-lhe o braço.
-Rosinha sentou-se a distancia.</p>
-
-<p>Á sombra das copadas arvores andavam armando
-aos passarinhos umas creanças, filhas
-de duas familias inglezas, que do Porto, onde
-ainda hoje residem, tinham ido passar alguns
-dias no Bom Jesus do Monte.</p>
-
-<p>Andavam estas creanças folgando em commum
-divertimento. Quando uma avesinha incauta
-descia a pousar na varinha traiçoeira, e<span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span>
-ficava presa no visco, sahiam os pequenos de
-trás dos troncos afastados, chalrando alegremente
-n’uma linguagem que a plumosa victima
-devia entender, visto ter dito Carlos V que o
-inglez é para se falar aos passaros.</p>
-
-<p>Depois de prêsa a ave, armavam de novo,
-tornavam a esconder-se, e trocavam-se ordinariamente
-no esconderijo estas phrases com intervallos
-sempre deseguaes:</p>
-
-<p>—<i>Be silent...</i></p>
-
-<p>—<i>It is coming...</i></p>
-
-<p>—<i>It has perched...</i></p>
-
-<p>—<i>It is caught!</i></p>
-
-<p>O mysterioso dialogo das impiedosas creanças
-orça por isto em portuguez:</p>
-
-<p>—Sciu...</p>
-
-<p>—Chegou...</p>
-
-<p>—Pousou...</p>
-
-<p>—Está preso!</p>
-
-<p>Maria Luiza tinha dito a Eduardo Valladares,
-quando entraram na alameda:</p>
-
-<p>—Trouxe-te hoje papel e lapis. Tenho saudades...
-dos teus versos, meu amor! Desapprendeste
-a cantar nas tuas afflicções, mas
-hoje quero que escrevas ao pé de mim para
-me certificar de que a tua alma está serena
-como a minha...</p>
-
-<p>Eduardo Valladares, coração afogado em lagrimas,
-acceitara o lapis e o papel para não a
-contrariar.</p>
-
-<p>Como porém o alvorôto das creanças distrahisse
-por momentos Maria Luiza e Rosinha,
-não sem que revelassem assomos de compaixão,
-Eduardo Valladares foi escrevendo ao correr do
-lapis.</p>
-
-<p>—Escreveste? perguntou com alegria Maria
-Luiza.</p>
-
-<p>—Escrevi; cumpri... o teu desejo, respondeu
-elle.</p>
-
-<p>Diziam os versos:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span></p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Ide embora, meninos, que é peccado,</div>
-<div class="verse indent3">Armar aos passarinhos.</div>
-<div class="verse indent3">Indiscretos brinquedos,</div>
-<div class="verse">Que levam lucto á paz de tantos ninhos</div>
-<div class="verse">Se toda a gente andasse a perseguil-os,</div>
-<div class="verse">Não tornaria ninguem mais a ouvil-os</div>
-<div class="verse indent3">Nos densos arvoredos.</div>
-<div class="verse">Deixae-os modular doces modilhos,</div>
-<div class="verse indent3">A musica do ar.</div>
-<div class="verse">Ao pé do berço, em quanto ereis creanças,</div>
-<div class="verse">Cantavam vossas mães plantando esp’ranças</div>
-<div class="verse">No cuidado jardim dos seus amores...</div>
-<div class="verse indent3">Deixae-os vós cantar,</div>
-<div class="verse">Emquanto arrulham embalando os filhos</div>
-<div class="verse indent3">Que dormem sobre flores...</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Posta que fôr a perfida varinha,</div>
-<div class="verse">Anceaes por vêr a saltitar no chão</div>
-<div class="verse indent3">Descuidosa andorinha,</div>
-<div class="verse">Que se não lembra da infantil traição.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Ninguem se move... Comprimis no seio</div>
-<div class="verse indent3">O ardente respirar,</div>
-<div class="verse">Para que não ponhaes em sobresalto</div>
-<div class="verse indent3">O bom do passarinho</div>
-<div class="verse indent3">Que tentaes algemar.</div>
-<div class="verse">Se vos ouvisse respirar mais alto,</div>
-<div class="verse indent3">Mudaria o caminho</div>
-<div class="verse">Por fugir aos pequenos salteadores,</div>
-<div class="verse">Que o estão esp’rando como vis traidores!</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Eil-o que se approxima embevecido</div>
-<div class="verse">Na tarefa que tem todos os dias.</div>
-<div class="verse">Vem cheio d’incerteza e d’alegrias...</div>
-<div class="verse">Se pudesse voltar tão bem provido</div>
-<div class="verse">Como hontem voltou! Mas se lhe falha</div>
-<div class="verse indent3">A fortuna que teve,</div>
-<div class="verse indent3">E não acha migalha</div>
-<div class="verse indent3">Que, venturoso, leve!...</div><span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span>
-<div class="verse indent3">Entretanto descobre</div>
-<div class="verse">A farta refeição—uma riqueza</div>
-<div class="verse indent3">Para quem é tão pobre...</div>
-<div class="verse indent3">Venturosa surpresa!</div>
-<div class="verse">Olha em roda... Ninguem... Escuta... ousou.</div>
-<div class="verse">E mal que toca a ração indefesa,</div>
-<div class="verse indent3">Prisioneiro ficou...</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Surde de toda a parte a vozeria,</div>
-<div class="verse indent3">O febril alvorôço,</div>
-<div class="verse">Conjunto de mil vozes d’alegria...</div>
-<div class="verse indent3">O passarinho é vosso,</div>
-<div class="verse indent3">Podeis emfim leval-o.</div>
-<div class="verse">Mas se já vos lembrou tel-o captivo,</div>
-<div class="verse indent3">É bem melhor... matal-o.</div>
-</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>—Ah! impressionaram-me estes versos. Tens
-razão... Fazer mal ás avesinhas que são do
-ar! Lembras-te da primeira vez que viemos ao
-Bom Jesus? E dos teus versos?... Atiraste-m’os
-ao regaço aqui, foi mesmo aqui...</p>
-
-<p>Rosinha, que por um momento receou que
-Eduardo Valladares não pudesse reprimir, ao
-escrever, as dores profundas que lhe torturavam
-a alma, trocou com elle um olhar d’approvação,
-que a doente não surprehendeu.</p>
-
-<p>N’este momento andavam as creanças, a
-distancia, mostrando-se com estrepitoso jubilo
-uma avesinha que tinha ficado prisioneira.</p>
-
-<p>Maria Luiza chamou uma, e vieram todas de
-tropel, orgulhosas da victoria. Pediu-lhes que
-soltassem aquelle passarinho, que lhes não tinha
-feito mal nenhum. O pequenito, que entendera
-perfeitamente, olhou para Maria Luiza
-com desdem, mas uma inglezita de cabello loiro,
-talvez sua irmã, voltou-se para o companheiro,
-pequeno como ella, e disse:</p>
-
-<p>—<i>She is so ill! Do what she wished.</i></p>
-
-<p>Felizmente Maria Luiza não sabia inglez; a<span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span>
-pequenita tinha dito: «Ella está tão mal! Faze-lhe
-a vontade...»</p>
-
-<p>A avesinha, restituida á liberdade, desferiu
-vôo, e as creanças seguiram n’a com a vista
-até que desappareceu através das arvores.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Quantas vezes, ao despregarmos os olhos do
-azul purissimo em que se esbatem os contornos
-d’uma paizagem deliciosa, não sentimos
-passar no espirito uma tristeza subita, acompanhada
-do receio de não tornarmos áquelle
-sitio?</p>
-
-<p>Maria Luiza não se despedia das arvores da
-floresta, porque devia a Deus o esquecer-se da
-realidade da vida, á beira do tumulo, embalada
-n’uma esperança que o seu espirito em outra
-occasião não teria acceitado. Esta doce tranquillidade,
-quando a vida lhe fugia veloz a cada momento
-que passava, tomemol-a á conta de prodigioso
-effeito d’uma extranha causa. Eu, de
-mim, elevo o meu pensamento a Frei Domingos
-do Amor Divino...</p>
-
-<p>Maria Luiza não se lembrou, pois, n’aquelle
-dia, de que poderia ser o ultimo em que tremessem
-sobre os seus cabellos as sombras ondulantes
-do arvoredo da serra. Mas nós—os
-que furtivamente a acompanhamos, os que sob
-o toldo sonoro da alameda a vimos amar e soffrer,
-os que nos costumamos a querer áquellas
-arvores como ella mesma queria—nós digamos
-adeus aos mil encantos que se escondem no
-crepusculo perpétuo da floresta, que não sabemos
-se o destino nos deixará acompanhar outra
-vez a pallida visão, avergada pela morte.</p>
-
-<p>Adeus, sombras e murmurios, aves e ninhos,
-fontes e arvores. Adeus, flores silvestres e borboletas
-que vos amaes. Adeus, folhas verdes
-que sois namoradas dos seixos côr de rosa;
-adeus. Quem sabe? Talvez para sempre—adeus.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span></p>
-
-<h2>XXXII</h2>
-
-<p>São de Eduardo Valladares estas palavras:</p>
-
-<p>«No dia 5 de abril, fui chamado á pressa ao
-Bom Jesus por um creado da viuva Machado
-que, ao romper do dia, batera á porta da casa
-de meu avô.</p>
-
-<p>«Vesti me com precipitação e sahi immediatamente.
-Tão violentas eram as pulsações do
-meu coração, com tamanha velocidade caminhava
-eu, que tinha de parar a cada momento,
-suffocado, para poder respirar. Esta demora
-mais augmentava a minha sobreexcitação.</p>
-
-<p>«Eu tinha passado a noite, até ás onze horas,
-no Bom Jesus. Para evitar assumptos inopportunos,
-adoptei o costume de lêr. Maria Luiza,
-que só a custo podia falar, e que tinha
-sido obrigada pelo medico a estar silenciosa,
-applaudiu a minha idéa, e gostava muito de
-me ouvir. Quando se me deparava alguma passagem
-que não convinha lêr, por ter maior ou
-menor relação de semelhança com a nossa
-dolorosa situação, passava-a em claro continuando
-a leitura. Maria Luiza, que conservava
-um admiravel vigor de faculdades intellectuaes,
-notava a incoherencia, e obrigava-me a voltar
-atrás para justificar a censura.</p>
-
-<p>«Assim passavamos as noites, e assim passámos
-a de quatro d’abril. Quando desci a
-montanha, havia um formosissimo luar que
-tremia em scintillações na concha das fontes.
-O silencio, o grande silencio das noites da serra,
-era apenas quebrado pelo murmurio cadenciado
-e monotono das aguas.</p>
-
-<p>«Em baixo, no valle, lampejavam os reverberos<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span>
-da cidade. Tudo o mais era silencio e
-luar.</p>
-
-<p>«A minha alma vinha entregue ás tribulações
-de todas as horas, mas não me atravessava
-no coração o presentimento de tão proxima
-desgraça.</p>
-
-<p>«Maria Luiza tinha estado a ouvir-me lêr,
-alegre, tranquilla, sem denunciar maior soffrimento.
-Ás onze horas sahi, para voltar na
-noite seguinte. O dia gastava-o eu nas aulas, e
-a estudar. Só os dias feriados os passava todos
-no Bom Jesus.</p>
-
-<p>«A verdade é que, depois de eu sahir, se
-queixara d’insomnia, e de frio de pés. Logo lhe
-purpurearam as faces duas rosetas escarlates
-que denunciavam accesso de febre. Sobreveiu
-a agitação, a impaciencia. Perguntava anciada
-se já era dia, se eu não chegava, porque queria
-ir commigo á Mãe d’Agua para respirar livremente.
-Mandou que lhe abrissem as janellas
-para reconhecer a claridade da manhã.
-Abriram-lh’as. Como visse o luar e as estrellas,
-contorceu-se febricitante. Foi então que expediram
-o creado que me chamou. Durou bastante
-tempo o frenesi, após o qual veiu uma
-violenta hemoptyse.</p>
-
-<p>«Ficou extenuada a pobresinha, sem poder
-respirar. Era a prostração que precede a
-morte...</p>
-
-<p>«Quando eu cheguei, quando me ouviu a voz,
-descerrou os olhos, deu aos labios o geito d’um
-sorriso, e murmurou com extrema difficuldade:
-Não posso... Queria ir comtigo... Não te
-esqueças de mim... Morro decerto...»</p>
-
-<p>Eduardo Valladares deteve se suffocado pelas
-lagrimas. Esperei que pudesse continuar:</p>
-
-<p>«Queria vir á Mãe d’Agua, não talvez para respirar
-melhor, mas para se despedir, porque só
-então conheceu que morria. Foi no dia trinta
-de março de 1853 que pela ultima vez estivemos<span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span>
-aqui, na Mãe d’Agua. O medico, receoso da
-extrema frescura da alameda, não consentia
-que viesse.</p>
-
-<p>«Aqui tem como ella morreu... Que ella morreu,
-não... que deixou a terra... O seu derradeiro
-pensamento foi para mim e para o sitio
-querido dos nossos amores...</p>
-
-<p>«Está sepultada no mesmo cemiterio onde jaz
-a irmã, ao pé da mesma sebe engrinaldada de
-flores silvestres. O seu corpo está lá, na valla
-coberta de boninas, mas sinto aqui, na Mãe
-d’Agua, alguma coisa que me denuncía o perfume
-da sua alma. Dir-se-hia que respiro aqui
-a essencia da flôr que se engastou nas constellações
-do Céo.</p>
-
-<p>«Deixe-me abreviar esta narrativa, porque
-vou sentindo que me faltam as fôrças. Resta-me
-resumir o que se passou desde 5 de abril de
-1853 até hoje, 15 de julho de 1870.</p>
-
-<p>«Da minha familia resta apenas minha mãe,
-que vive da minha dôr, e é o unico esteio a que
-me abraço, quando mais desconfortado me
-sinto.</p>
-
-<p>«Frei Domingos do Amor Divino morreu em
-1860.</p>
-
-<p>«Ao entrarmos na egreja do Carmo, onde se
-rezaram os reponsos por alma do virtuoso <i>Fradinho</i>,
-hoje santificado pela opinião publica, disse-me
-Rodrigues d’Abreu:—Vamos, meu amigo.
-Devemos ambos muito á memoria d’esta boa
-alma. E olhe que não sabe ainda tudo quanto
-lhe deve...</p>
-
-<p>«Estas palavras despertaram a minha curiosidade.
-Quando sahimos, o sabio bibliothecario
-circumstanciadamente me contou como Frei
-Domingos se empenhara pela minha felicidade.
-Fiquei surprehendido. Rebentáram-me lagrimas
-em jôrro. Depois que nos despedimos, voltei á
-egreja do Carmo. Já estava fechada. Entrei em
-casa e orei por longo tempo. Levantei-me tranquillo<span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span>
-e fui buscar a velha Gertrudes, que sobrevivera
-a seu velho amo. Estava inconsolavel.
-Dei-lhe abrigo em minha casa durante os
-oito mezes que ainda teve de vida. Do que a
-Gertrudes contou e do que Frei Domingos revelara,
-coordenei os apontamentos que sei da
-sua vida.</p>
-
-<p>«Rodrigues d’Abreu, o coração nobilissimo,
-expirou, como sabe, ha sete mezes, a 6 de dezembro
-de 1869.</p>
-
-<p>«Resta-me falar da familia de Maria Luiza.</p>
-
-<p>«A viuva Machado, avisada do risco que corria
-a vida da unica filha que lhe restava, se não
-procurasse melhor clima, sahiu para a ilha da
-Madeira. Rosinha casou no Funchal, cuido que
-por inclinação, onde vive em companhia da mãe
-e do marido.</p>
-
-<p>«E eu?...</p>
-
-<p>«Contei-lhe a minha vida, revelei-lhe as paginas
-mysteriosas do meu livro intimo, deixei-lhe
-vêr as minhas lagrimas... Que lhe posso dizer
-mais? Não pensei no suicidio, não me atirei ao
-abysmo da morte para extinguir as minhas dores,
-e adormecer.</p>
-
-<p>«Procurei o balsamo onde o podia encontrar.</p>
-
-<p>«Cada dia apparecem livros que abrem por
-blasphemias, e terminam pela negação de tudo
-o que ha de defeso á razão limitada do homem.
-Eu, se um dia escrevesse a minha historia, havia
-de terminar por esta palavra—<span class="smcap">Deus</span>.»</p>
-
-<p class="titlepage">FIM</p>
-
-<p class="smaller"><i>Nota.</i>—A estampa que illustra a capa d’esta edição reproduz
-fielmente o antigo aspecto da alameda da Mãe d’Agua,
-no Bom Jesus do Monte.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="footnotes">
-
-<h2>NOTAS</h2>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1"></a><a href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a> <span class="smcap">Contos ao correr da penna</span>—<i>No Bussaco</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_2" id="Footnote_2"></a><a href="#FNanchor_2"><span class="label">[2]</span></a> Tudo isto está hoje mudado no Bom Jesus do
-Monte. Diogo Forjaz descreveu assim, e com exactidão,
-o antigo aspecto do sitio da Mãe d’Agua: «Deixando o
-terreiro dos Evangelistas, subindo alguns metros pela
-matta na direcção de sueste, encontra-se um comprido
-passeio tapisado de verdura, o qual conduz por debaixo
-de copado arvoredo a um tôsco reservatorio d’agua, que
-lhe fica ao fim com assentos e mesa de pedra.» (<i>Nota
-da 2.ª edição.</i>)</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_3" id="Footnote_3"></a><a href="#FNanchor_3"><span class="label">[3]</span></a> Sonet vox tua in auribus meis. Cant. <span class="smcapuc">II</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_4" id="Footnote_4"></a><a href="#FNanchor_4"><span class="label">[4]</span></a> Temos conhecimento do opusculo denominado <i>Manuel
-Rodrigues da Silva e Abreu</i>. Apontamentos biographicos
-por Soares Romeu Junior; opusculo publicado,
-em Lisboa, n’este anno de 1870.</p>
-
-<p>O sr. Soares Romeu não pôde precisar a data do decreto
-que nomeou bibliothecario o illustre biographado;
-averiguámos porém que elle fôra despachado por carta régia
-de 26 d’agosto de 1842.—(<i>Nota Da 1.ª edição.</i>)</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_5" id="Footnote_5"></a><a href="#FNanchor_5"><span class="label">[5]</span></a> Vide <span class="smcapuc">IV</span> volume, pag. 72.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_6" id="Footnote_6"></a><a href="#FNanchor_6"><span class="label">[6]</span></a> O nosso Deus, porém, está no Céo; tudo quanto
-quis, fez. Ps. <span class="smcapuc">CXIII</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_7" id="Footnote_7"></a><a href="#FNanchor_7"><span class="label">[7]</span></a> Na minha tribulação invoquei o Senhor, e chamei
-ao meu Deus. Ps. <span class="smcapuc">XVII</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_8" id="Footnote_8"></a><a href="#FNanchor_8"><span class="label">[8]</span></a> Diminuta era a livraria de João Nicolau, reduzida
-ás obras completas de José Agostinho de Macedo e a
-uns tantos opusculos, inspirados na causa absolutista e
-na conservação das ordens religiosas, que vieram a lume
-em Portugal e no extrangeiro. O opusculo citado sahiu
-da Imprensa Regia, em 1814.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_9" id="Footnote_9"></a><a href="#FNanchor_9"><span class="label">[9]</span></a> Eccles. Cap. <span class="smcapuc">XI</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_10" id="Footnote_10"></a><a href="#FNanchor_10"><span class="label">[10]</span></a> O senhor Deus é o meu auxiliar.—Isaias, 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_11" id="Footnote_11"></a><a href="#FNanchor_11"><span class="label">[11]</span></a> Eurico o Presbytero, pelo sr. Alexandre Herculano.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_12" id="Footnote_12"></a><a href="#FNanchor_12"><span class="label">[12]</span></a> Prov. <span class="smcapuc">XVII</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_13" id="Footnote_13"></a><a href="#FNanchor_13"><span class="label">[13]</span></a> Job. <span class="smcapuc">XXXIV</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_14" id="Footnote_14"></a><a href="#FNanchor_14"><span class="label">[14]</span></a> Ps. <span class="smcapuc">LXXXI</span>.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>BIBLIOTHECA HORAS ROMANTICAS</h2>
-
-<p>Collecção de obras litterarias e scientificas notaveis,
-dos melhores auctores antigos e modernos, nacionaes
-e extrangeiros.</p>
-
-<p class="center">100 RÉIS—CADA VOLUME—100 RÉIS</p>
-
-<p class="center">Volumes publicados</p>
-
-<ul>
-<li>N.ºˢ I, II, III—QUO VADIS (3.ª edição) de H. Sienkiewicz.</li>
-<li>N.º IV—VIDA DE LAZARILLO DE TORMES, de Mendoza.</li>
-<li>N.º V—EULALIA PONTOIS, de F. Soulié.</li>
-<li>N.º VI—A AMOREIRA FATAL, de E. Berthet.</li>
-<li>N.º VII—SENHOR EU, de S. Farina.</li>
-<li>N.º VII-<span class="smcapuc">A</span>, VII-<span class="smcapuc">B</span>—O FOGO, de G. d’Annunzio.</li>
-<li>N.º VIII—CARICIAS D’UMA NOIVA, de B. Bjornson.</li>
-<li>N.º IX—PALAVRA DE SOLDADO, de G. Elwall.</li>
-<li>N.º X—A PELLE DE LEÃO, de C. Bernard.</li>
-<li>N.º XI, XII, XIII—A MORTE DOS DEUSES de D. Merejkowsky.</li>
-<li>N.º XIV—A CORDA DO CARRASCO, de A. Petosi.</li>
-</ul>
-
-<p class="center">Volumes a publicar</p>
-
-<ul>
-<li>TERRAS MALDITAS, de V. B. Ibañez.</li>
-<li>MANON LESCAUT, do padre Prévost.</li>
-<li>PECCADOS VELHOS, de G. Csicky.</li>
-<li>CURA DE UM LOUCO, de S. Lageloff.</li>
-</ul>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of Project Gutenberg's Idyllios á beira d'agua, by Alberto Pimentel
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK IDYLLIOS Á BEIRA D'AGUA ***
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